Você está na página 1de 146

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA:

DELINEAMENTO DE 50 ANOS DE HISTÓRIA INSTITUCIONAL

Marismary Horsth De Seta

Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Medicina

Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sob a

orientação do Prof. Dr. Cid Manso de

Mello Vianna.

Instituto de Medicina Social

Setembro de 1997
DE SETA, Marismary Horsth
D451i Instituto Fernandes Figueira: delineamento de 50
anos de história / Marismary
Horsth De Seta.- Rio de Janeiro,
1997.
p.136; ilust.; tab.; 30cm.

Tese(Mestrado)Saúde Coletiva/IMS/UERJ

1.Instituição de Saúde - história. 2.


Desenvolvimento Institucional.3.Saúde Materno Infantil-
história.I.Título.

DDC 20.ed.- 362.7


Aos trabalhadores do Instituto Fernandes Figueira, de todas as
épocas, que construíram e constróem, no cotidiano, a
instituição.

Para Maurício, Lucas, Flávio e Ilma


AGRADECIMENTOS

Aos entrevistados, que possibilitaram a reconstituição da

história do Instituto Fernandes Figueira: Afrânio Raul Garcia,

Aparecida Gomes Pinto Garcia, Florigni Glória da Silva Castro,

Giulia Falce, Ilma Horsth Noronha, Lígia Gomes de Moraes, Maria

da Conceição Gonçalves Costa, Margarida Alves dos Santos, Matla

Krygier Freier, Newton Potsch Magalhães.

À Anna Beatriz de Sá Almeida, a BELA da COC, pela

solidariedade e apoio concretos.

A Paulo Gadelha, pelas sugestões que me foram valiosas.

A Mário Dal Poz, que me ensinou o caminho do IMS.

A Cid Manso, pelo apoio e orientação.

Aos professores do Instituto de Medicina Social, que me

encorajaram a prosseguir, dentre os quais George Kornis, Ruben

Mattos e Jane Dutra Sayd.

À Tânia Tavares, Leila e José Carlos que muito me ajudaram,

a despeito de seus múltiplos afazeres.

Aos colegas do Departamento de Planejamento e

Administração da Escola Nacional de Saúde Pública, pela

convivência amistosa e compreensão nos momentos difíceis.

Às Bibliotecárias do Instituto de Medicina Social, da

Escola Nacional de Saúde Pública, da Casa de Oswaldo Cruz, do

Instituto Fernandes Figueira e suas equipes, pelo auxílio

sempre em tempo hábil.

Aos amigos de sempre, que são muitos, graças a Deus.

Particularmente aos que, de uma ou outra forma, tornaram


possível a concretização dessa dissertação: Cynthia, Creuza,

Ismar, Márcia, Margarida, Parada, Pedro, Rachel, Sheyla, Tânia

França e Virgínia.

À Equipe de Direção do IFF, pela convivência prazeirosa

e instigante do último ano. A João Barbosa, por tudo.

Em especial à Dra. Cecy Dunshee de Abranches, bisneta de

Antonio Fernandes Figueira, que me franqueou o acesso ao acervo

da família.

Por fim, mas não por último, aos servidores do Instituto

Fernandes Figueira, antigos e novos, que me acolheram no meu

retorno.
RESUMO

Esta dissertação visa o delineamento de 50 anos de

história do Instituto Fernandes. Para isto foram utilizadas

fontes orais e impressas.

Criado por Antonio Fernandes Figueira, em 1924, como

Hospital Arthur Bernardes, transformou-se em Abrigo-Hospital

Arthur Bernardes, Instituto de Higiene e Medicina da Criança,

Instituto Nacional de Puericultura e, por fim, Instituto

Fernandes Figueira, sua denominação atual.

Ao longo de 46 anos o Hospital esteve vinculado ao órgão

materno-infantil do governo federal, que teve também

denominações, atribuições e competências diferenciadas nos

diversos contextos históricos que vão dos anos 20 aos anos 70.
ABSTRACT

This paper aims at shaping the 50 years of history of the

Fernandes Figueira Institute. Written and oral sources were

used for this.

Founded by Antonio Fernandes Figueira in 1924 as Arthur

Bernardes Hospital changing to Shelter Hospital Arthur

Bernardes, then Child Hygiene and Medicine Institute, and at

last named Fernandes Figueira Institute.

For 46 years the Hospital has been linked to the

maternal-infantil department of the brazilian federal

government which also had different denominations,

attributions and power thoughout the changing historical

context from the 20s to the 70s.


ÍNDICE DAS FIGURAS E DOS QUADROS

Fig. 1 ..................................................10

Fig. 2 ..................................................12

Fig. 3 ..................................................29

Fig. 4 ..................................................31

Fig. 5 ..................................................38

Fig. 6 e 7 ..............................................40

Fig. 8 e 9 ................................................41

Fig. 10 ................................................108

Fig. 11 ............................. ..................116

Quadro 1 ................................................35

Quadro 2 .................................. .............50

Quadro 3 ...............................................100
SIGLAS MAIS UTILIZADAS

DAMIA - Divisão de Amparo à Maternidade, à Infância e à

Adolescência

DNC ou DNCr - Departamento Nacional da Criança

DNS - Departamento Nacional de Saúde

DNSP - Departamento Nacional de Saúde Pública

DPMI- Diretoria de Proteção à Maternidade e à Infância

EEAN - Escola de Enfermeiras D. Anna Nery

FIOCRUZ - Fundação Instituto Oswaldo Cruz ou Fundação Oswaldo

Cruz

IHMC - Instituto de Higiene e Medicina da Criança

INP - Instituto Nacional de Puericultura

MES - Ministério da Educação e Saúde

MESP - Ministério da Educação e Saúde Pública

MS - Ministério da Saúde

SGCPF - Serviço de Ginecologia e Cirurgia Pélvica Feminina


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..............................................01

1. ANTONIO FERNANDES FIGUEIRA - O PERSONAGEM QUE ORIENTOU A

CRIAÇÃO DO HOSPITAL.......................................09

2. A CRIAÇÃO COMO HOSPITAL ARTHUR BERNARDES ..............21

2.1.1 - Os antecedentes..................................21

2.1.2 - Os anos 20 ......................................24

2.2 - O Hospital nos anos iniciais (24-30)................ 28

3. DE HOSPITAL ARTHUR BERNARDES A INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA

.........................................................42

3.1 - O contexto político e institucional................43

3.2 - A criação do Ministério da Educação e Saúde........51

3.3 - A criação do Departamento Nacional da Criança......56

3.4 - De Hospital Arthur Bernardes a Instituto(30-49)....62

3.4.1 - O funcionamento do Hospital .....................76

4 - DO DECLÍNIO À ENCAMPAÇÃO À FIOCRUZ(1949-1974)........90

4.1 - O debate e as subconjunturas.......................90

4.2 - O contexto institucional da saúde..................95

4.3 - O Instituto Fernandes Figueira no período(49-74)

........................................................101

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................117

BIBLIOGRAFIA ...........................................127

OUTRAS FONTES ..........................................135

ÍNDICE LEGISLATIVO .....................................136


1

INTRODUÇÃO

A história oficial do Instituto Fernandes Figueira não foi

escrita. Os registros existentes, contraditórios e

insuficientes, encontravam-se e encontram-se ainda, em grande

parte, dispersos. Parte considerável de suas memórias

“perdeu-se” ao longo do tempo, na trajetória da instituição que

sobreviveu a diversos fechamentos e projetos que lhe mudaram

a face.

Como a de outros hospitais públicos do Rio de Janeiro, é

uma história de resistência, realizada mormente de forma

anônima, no cotidiano. Eficaz, no entanto, já que seu estado

atual não é o mesmo de outros, outrora grandiosos hospitais

públicos, que se encontram fortemente sucateados.

As transformações ocorridas no Instituto foram profundas

e não podem ser encaradas como simples adaptação ao meio,

mediante “diretrizes eficazes emanadas do topo da

organização”, decorrentes de processo racional.

Se as transformações se deram em consequência de pressões

externas e internas e de esforços individuais e institucionais,

na disputa entre projetos antagônicos, resultaram, também, do

trabalho realizado anonimamente, em apoio ou oposição, em um

clima institucional difícil de retratar e de reconstituir.

Reconstituição, mesmo seletiva e parcial, que visamos com esta

dissertação.

O período que abordamos remonta desde a criação do


2

Instituto Fernandes Figueira, em 1924, como Hospital Arthur

Bernardes, ao período imediatamente posterior à sua integração

à recém-criada Fundação Instituto Oswaldo Cruz, em 1970 1 .

Compreende 50 anos de história institucional.

Ao longo desses 50 anos o Hospital apresentou-se com

diversas denominações: Hospital Arthur Bernardes,

Abrigo-Hospital Arthur Bernardes, Instituto Nacional de

Puericultura e, finalmente, Instituto Fernandes Figueira. Para

nós, na maior parte do texto, simplesmente, o Hospital.

O interesse pela história do Instituto Fernandes Figueira

representa uma tentativa de desvendar e entender as lógicas

subjacentes ao seu funcionamento atual e desenvolvimento ao

longo do tempo. Neste sentido, a contribuição de Alain Eraly

(1988) acerca da historicidade das organizações foi

fundamental:

Em seu funcionamento atual, a organização é,


principalmente, o resultado das produções
anteriores, uma acumulação de conhecimentos, de
representações, de procedimentos, de técnicas, de
riquezas, um conjunto sedimentado de formas mais
ou menos estáveis dos quais só uma pequena parte
é passível de adaptação a curto prazo. (tradução
livre de ERALY, 1988, p. 25)2

Para a reconstituição da história do Hospital fizemos

inicialmente uma busca dos registros porventura existentes.

Não foram encontrados registros sistematizados. As únicas

1
Criada com o Decreto n.º 66.624, de 22 de maio de 1970.
2 “Dans son fonctionnement actuel, l'organisation est très largement le
résultat des productions antérieures, une accumulation de conaissances,
des représentations, de procédures, de techniques, de richesses, un
ensemble sédimenté de formes plus ou moins stables dont seule une minorité
sont susceptibles d'une adaptation à court terme”. (ERALY, 1988, p. 25)
3

referências eram uma breve descrição da criação do Instituto

como Hospital Abrigo Arthur Bernardes, em 1924, por Fernandes

Figueira, um higienista, médico de crianças.

Quando iniciamos o trabalho não encontramos a

documentação administrativa ou os registros referentes ao

atendimento de pacientes e ao funcionamento de alguns serviços

da fase anterior à encampação à FIOCRUZ3.

Quanto à documentação relativa aos atendimentos, cabe

esclarecer que até meados da década de 80, não existia

prontuário único no Hospital. Cada serviço tinha seu próprio

arquivo. O porte e a abrangência temporal de seus acervos eram

extremamente variados. Arquivos extensos eram os do Serviço de

Obstetrícia, cujo acervo abrangia 40 anos de funcionamento, e

da Agência de Serviço Social, com cerca de 26.000 casos

atendidos.

Nesse contexto de carência de fontes documentais

impressas para reconstituir, mesmo parcialmente, a história,

foram identificadas pessoas que participaram intensamente da

vida institucional, muitas ainda em atividade no Instituto.

Dessa primeira seleção, algumas pessoas-chave,

informantes privilegiados, não deram depoimentos. Em alguns

casos essa atitude foi justificada com o argumento de que a

saída da instituição foi sentida como demasiadamente dolorosa.

3 A Casa de Oswaldo Cruz (COC/FIOCRUZ), ao concluirmos este trabalho,


encontra-se na fase final de catalogação de material, principalmente
referente ao atendimento de pacientes, para disponibilizar a consulta. Por
outro lado, encontramos uma possível pista para documentos que hoje se
encontram perdidos. Segundo o Decreto n.º 26.690, de maio de 1949(art. 23),
a documentação que não permanecesse na Secretaria de Administração do
Hospital deveria ser arquivada na Seção de Comunicações do Serviço de
4

Os depoimentos foram tomados, sempre que houve

consentimento, com o auxílio de um gravador. Os depoentes,

exceto dois, pediram para não serem identificados. Isso foi

respeitado e transformou-se em um critério que adotamos para

todos.

Como decorrência, os depoimentos não figuram como anexo

ao final da dissertação porque, ocultando o nome, mas

disponibilizando os depoimentos na íntegra, estaríamos

rompendo com o compromisso de anonimato assumido com a maioria.

Por outro lado, optamos por apresentar os depoimentos sob

a forma de trechos, agrupados segundo dois critérios: a época

a que se referem e os temas especificamente abordados. Desta

forma, sobressaem-se “corroborações e concordâncias” e

“discordâncias”, fruto das percepções diferenciadas dos

entrevistados. É a “recuperação do vivido, conforme percebido

por quem viveu” (ALBERTI, 1989).

Essa forma de apresentação dos depoimentos encontrou

respaldo na literatura pesquisada sobre o trabalho com fontes

orais/história oral, na medida em que:

Análise, em seu sentido essencial, significa


decompor um texto, fragmentá-lo em seus elementos
fundamentais, isto é, separar claramente os
diversos componentes, recortá-los, a fim de
utilizar somente o que é compatível com a síntese
que se busca. Assim, diante dessas considerações,
o escrúpulo em relação aos recortes das histórias
orais e à sua utilização parcial, se afigura
nitidamente como um falso problema 4 ”. (QUEIROZ,
1988)

Administração do Departamento Nacional da Criança.


4 Grifos nossos.
5

Retomando a questão do anonimato, Maria Cecília Minayo

(1996), acerca da representatividade qualitativa do indivíduo,

nos alerta que “os depoimentos têm que ser colocados num

contexto de classe, mas também de pertinência a uma geração,

a um sexo, a filiações diferenciadas, etc.” (MINAYO, 1996, p.

113). Neste sentido, os depoimentos encontram-se

“identificados” pelo gênero e pela formação ou cargo.

Os depoimentos, metodologicamente, consistiram em dez

entrevistas não estruturadas e temáticas. Nelas os

entrevistados foram solicitados a contar o que sabiam sobre a

história do Instituto. Em outro momento, a solicitação foi que

contassem a sua história no Hospital.

Procedemos a uma busca de “vestígios”, principalmente por

meio das entrevistas. Chegamos a alguns documentos preservados

pelos entrevistados ou por alguém de quem eles tinham notícia.

Outras publicações e documentos foram encontrados nas

Bibliotecas do Instituto Fernandes Figueira, da Escola

Nacional de Saúde Pública, do Instituto de Medicina Social, na

Casa de Oswaldo Cruz e na Biblioteca Nacional.

A revisão bibliográfica foi feita simultaneamente. As

fontes primárias revelaram-se escassas. Recorremos à produção

intelectual de alguns médicos, do Hospital ou do Departamento

Nacional da Criança, disponibilizada em livros e periódicos.

A legislação relacionada ao Hospital, direta ou indiretamente,

foi levantada e integra o índice legislativo presente no

trabalho.

Na fase inicial do trabalho, encontramos uma dissertação


6

de mestrado em história que nos foi preciosa, porque

instigante: o trabalho de Cristina M. Oliveira Fonseca(1990)

sobre as políticas sociais voltadas para a infância durante o

primeiro governo Vargas.

A autora ressaltou as categorias ideológicas da proposta

política do governo e a sua operacionalização por alguns

serviços de saúde infantil. Dentre eles, o Departamento

Nacional da Criança. Quanto ao Hospital Arthur Bernardes,

denominação original do Instituto Fernandes Figueira, apenas

uma breve referência:

Segundo Nancy Stepan, vários médicos que


trabalhavam no Hospital Arthur Bernardes que
pertencia ao Instituto de Puericultura,
realizaram em colaboração com o Laboratório5, uma
série de exames ‘eufrênicos’ 6 nas crianças que
para lá eram enviadas pelos centros de detenção
infantil, como também em consultas pré-natais.
(FONSECA, 1990, p. 110)

Quanto à “neutralidade do observador” na construção do

objeto, ela inexiste neste trabalho. Sobre isto fazem-se

necessário dois esclarecimentos.

O primeiro é que pertenci ao quadro da instituição de 1980

a 1987. Nesse período participei ativamente das transformações

ocorridas, seja pelo trabalho técnico como enfermeira,

organizando serviços assistenciais e administrativos, seja

5 O Laboratório de Biologia Infantil, criado em 1936, era subordinado ao


Ministério da Justiça e anexo ao Instituto Sete de Setembro, que era um
dos estabelecimentos destinados a “recolher em depósito, por ordem do Juiz
de Menores, até que tenham conveniente destino, os menores abandonados”
(Arq. Capanema CPDOC/FGV apud FONSECA, 1990, p. 106). O Laboratório, desde
a sua instalação, foi dirigido pelo Dr. Leonídio Ribeiro.
6 Com os exames eufrênicos o psiquismo da criança era acompanhado. A

eufrenia teria por finalidade garantir uma boa formação do psiquismo


7

pela militância na política institucional. Ao retornar ao

Instituto como “assessora da direção”, cedida pela Escola

Nacional de Saúde Pública, já estava elaborando esta

dissertação.

Com a utilização do pronome “nós”, então, não almejo um

ocultamento. É uma opção que espelha a vontade de criar uma

certa intimidade com o leitor e reflete, por outro lado, uma

convicção de que o trabalho institucional é um trabalho

coletivo, como esta dissertação, de certa forma, também o é.

O segundo esclarecimento é que essa “neutralidade” é

impossível, visto compreender um trabalho de pesquisa que

utiliza metodologias qualitativas:

[...] nenhuma pesquisa é neutra, seja ela


qualitativa ou quantitativa. Pelo contrário,
qualquer estudo da realidade, por mais objetivo
que possa parecer, por mais ‘ingênuo’ ou ‘simples’
nas pretensões, tem a norteá-lo um arcabouço
teórico que informa a escolha do objeto, todos os
passos e resultados teóricos e práticos [...]
mesmo que essa filiação, para seus autores, seja
algo inconsciente.(MINAYO, 1996, p. 37)

Por fim, reconhecemos que toda história é seleção e

tentativa de estabelecer relações em função de hipóteses

preexistentes, explícitas ou não.

Neste sentido, esta dissertação representa uma história

parcial e preliminar de caráter descritivo. Representa também

o resultado de um esforço que, esperamos, desperte algum

interesse no sentido de que a memória institucional seja

infantil. Relacionava-se estreitamente com a eugenia (MARQUES, 1994, p.


131).
8

resgatada e tratada de forma mais aprofundada, ou mesmo

diversa, em outro momento.

A dissertação apresenta-se dividida em quatro capítulos.

No capítulo 1 abordamos Antonio Fernandes Figueira, o

fundador do Hospital.

No capítulo 2 abordamos a sua criação como Hospital Arthur

Bernardes, vinculado à Inspetoria de Higiene Infantil, do

Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) (1924-1930).

No capítulo 3 enfocamos a transformação do Hospital Arthur

Bernardes em Instituto Nacional de Puericultura e,

posteriormente, Instituto Fernandes Figueira (1930-1949).

No capítulo 4 abordamos o Instituto Fernandes Figueira até

os anos imediatamente posteriores à incorporação à Fundação

Instituto Oswaldo Cruz (1949-1974).

Ao final não apresentamos conclusões e sim, algumas

considerações. Nestas, apontamos “zonas de sombra” na história

institucional e levantamos questões que, a nosso ver, merecem

um posterior aprofundamento.
9

1. - ANTONIO FERNANDES FIGUEIRA: O PERSONAGEM QUE


ORIENTOU A CRIAÇÃO DO HOSPITAL

Uma grande importância é atribuída aos “fundadores” na

constituição de uma organização; disto, a literatura

administrativa é um caso exemplar. No entanto, reconhecemos que

a história não se constitui pelo desejo de um, mas sim pelas

ações e pelas relações entre os homens.

Para justificar a abordagem sucinta de Fernandes

Figueira, criador do Hospital, tentando não incorrer em culto

à personalidade ou redução da história aos aspectos de vontade

e determinação de um indivíduo, recorremos a Cristina Maria

Oliveira Fonseca(1990), quando afirma que:

No Brasil, nos anos anteriores a 1930, os serviços


destinados à área materno-infantil foram na sua
grande maioria marcados por uma prática
assistencialista, de caráter filantrópico, e
contaram basicamente com a iniciativa de médicos
como Moncorvo Filho1, Fernandes Figueira, Olinto
de Oliveira e Martagão Gesteira.(FONSECA, 1990,
p.55)

Fernandes Figueira, Olinto de Oliveira e Martagão

Gesteira tiveram uma inserção privilegiada na história do

Hospital: o primeiro, na sua constituição; os dois últimos, nas

transformações pelas quais a instituição passou.

1 Moncorvo Filho fundou e dirigiu o Instituto de Proteção e Assistência à


Infância do Rio de Janeiro. Esse Instituto será abordado sucintamente no
cap. 2; além de FONSECA(op. cit.), ver também PEREIRA(1992).
10

Sobre Olinto de Oliveira2 e Martagão Gesteira3, tivemos

acesso a poucos dados biográficos. Todavia, principalmente ao

longo do capítulo 3, suas atuações revelam-se à frente do órgão

responsável pela proteção materno-infantil, ao qual o Hospital

esteve vinculado durante mais de 40 anos.

Fig. 1 - Antonio Fernandes Figueira


(1863-1928)
Fonte: Acervo da família

2 Olinto de Oliveira nasceu por volta de 1868. Formou-se na Faculdade de


Medicina do Rio de Janeiro em 1888. Catedrático de pediatria na Faculdade
de Medicina do Rio Grande do Sul, transferiu-se para o Distrito Federal
em 1918 (GONÇALVES VIANNA, 1945). Clinicou no Instituto de Proteção e
Assistência à Infância no Rio de Janeiro. Dirigiu o órgão central
materno-infantil no período 30-45.
3 Raymundo Martagão Gesteira foi catedrático de pediatria da Faculdade de

Medicina da Bahia. Em 1937, transferiu-se da Bahia para o Rio de Janeiro.


Idealizou o Instituto Nacional de Puericultura que pretendeu implantar no
Rio, com base na Kaiserin Augusta Victoria Hauss, de Berlim. Porém, na
época, não teve força política suficiente para levar a cabo sua iniciativa,
tal como a havia concebido. A partir de 1946 dirigiu o órgão central
materno-infantil.
11

Antônio Fernandes Figueira 4 (Fig. 1), poeta, médico e

historiador, nasceu em 13 de julho (ou junho) de 1863, no Rio

de Janeiro.

Publicou algumas obras literárias, principalmente, sob o

pseudônimo de Alcides Flávio: Adejos,1880; Velaturas, contos,

1920 (Fig.2); Últimos Poemas, 1921. Colaborou na revista A

Semana, fundada por Valentim Magalhães. Nesta revista também

colaboravam: Alberto de Oliveira, Raymundo Corrêa, Coelho

Neto, Aluísio de Azevedo e Olavo Bilac.

Fernandes Figueira ingressou no Instituto Histórico e

Geográfico Brasileiro com tese defendida sobre o Padre Vieira.

Escreveu também a biografia de Torres Homem e um livro para

crianças “História do Guedes”.

As atividades de literato e historiador, exerceu-as antes

e durante a sua vida profissional como médico.

Seu prestígio deveu-se à atividade como médico, tanto que

foi dito:

De sua passagem pela literatura só lhe ficou a


vantagem (inestimável, rara e preciosíssima
vantagem) de conhecer a fundo a sua língua e de
poder exprimir com clareza, precisão e elegância
o que sabe e o que quer dizer. (Olavo Bilac apud
Brício Filho, Jornal do Brasil, 15/03/28)

4 As informações biográficas sobre Fernandes Figueira foram colhidas do


acervo da família, gentilmente cedido pela Dra. Cecy Dunshee de Abranches,
por meio de depoimentos, e de fontes impressas, dentre as quais, a Separata
de BRASIL- MÉDICO, vol. 77, de maio/ junho de 1963.
12

Fig. 2 - Capa de livro de Fernandes


Figueira, publicado sob o pseudônimo de
Alcides Flavio
Fonte: Acervo da família

Antonio Fernandes Figueira cursou a Faculdade de Medicina

do Rio de Janeiro, doutorando-se em 1887, com a tese “Condições

patogênicas e modalidades clínicas da histeria”. Após

freqüentar as aulas de Moncorvo de Figueiredo 5 , Fernandes

Figueira resolveu dedicar-se à medicina de crianças.

5 O projeto de instalação da primeira cátedra de Pediatria data de 1882,


sob a responsabilidade de Carlos Arthur Moncorvo de Figueiredo, o Moncorvo
Pai, por demanda do conselheiro Rodolpho Dantas. Porém, a implantação
somente se efetivou em 1895 (RIVORÊDO, 1995, p. 88).
13

Por apresentar condições precárias de saúde 6 fixou

residência, até 1900, em Simão Pereira, distrito de Juiz de

Fora. Lá, elaborou alguns trabalhos científicos que foram

posteriormente publicados. Dentre os quais um, “Diagnóstico

das Cardiopatias Infantis”, lhe rendeu o Prêmio Visconde de

Alvarenga da Academia Nacional de Medicina, em 1895.

Acho que nosso hospital [o atual Instituto


Fernandes Figueira] é abençoado... que o espírito
do Fernandes Figueira, sempre pairou por aqui. Ele
era um homem excepcional, um gênio, porque, ter
conseguido o que ele conseguiu, trabalhando em
Simão Pereira, perto de Juiz de Fora, uma cidade
pequena... Escreveu uma semiologia em francês 7 ,
excelente, a gente lê... (depoimento de médica que
ingressou no Hospital em 1941 como estagiária no
Laboratório)

Em 1900, voltou a residir na Capital Federal, clinicando

no Hospital Nacional de Alienados e dirigindo a enfermaria de

crianças do Hospital São Sebastião durante a administração de

Oswaldo Cruz. Na enfermaria do Hospital São Sebastião,

Fernandes Figueira “inaugurou a prática, até então

desconhecida no Brasil, de se hospitalizarem os doentinhos de

varíola acompanhados de suas respectivas mães” (Jornal do

Comércio, 14 de junho de 1928).

Defensor da intervenção do Estado para a proteção

materno-infantil e relator do Congresso de Assistência Pública

e Privada, em 1908, declarava:

6 Não obtivemos maiores informações sobre as “condições precárias de


saúde”. Fernandes Figueira faleceu subitamente aos 65 anos.
7 Éléments de Séméiologie Infantile, Edição Octave Droin, Paris, 1903,

posteriormente traduzida para o italiano. Esse livro foi dedicado à Olinto


de Oliveira: “A mon cher ami, le distingué pédiatre Docteur Olinto de
Porto-Alegre (Brésil).
14

Trate o Governo de regulamentar o serviço das


mulheres nas fábricas, como já o propôs em decreto
não observado o Governo Provisório, e garanta nos
estatutos de maternidade um mês de repouso às
gestantes antes que o parto se processe... Em toda
a Europa o movimento hodierno de assistência à
infância visa a proteção da mulher... (Jornal do
Comércio, 14 de junho de 1928)

Em 1909, Fernandes Figueira assumiu a direção da

Policlínica das Crianças da Santa Casa de Misericórdia 8 ,

construída após a demolição do Hospital São Zacharias, que se

situava no Morro do Castelo.

Na Policlínica, Fernandes Figueira capacitou inúmeros

médicos para o exercício da pediatria, dentre os quais

destacamos: Ursulina Lopes, primeira diretora do Hospital

Arthur Bernardes, Adamastor Barbosa e Mario Olinto (filho de

Olinto de Oliveira).

Da verdadeira escola de pediatria que naquela


época era a Policlínica das Crianças saíram as
teses de concurso para professor da especialidade
em Belo Horizonte, Bahia, Porto Alegre, e quase
todas as teses inaugurais então defendidas perante
a Faculdade de Medicina do Rio... Dentre os
trabalhos de Figueira, na Policlínica das
Crianças, ... devemos destacar a identificação de
duas novas entidades nosológicas — a síndrome
céfalo-plégica, ... e de uma nova doença familiar,

8 A Policlínica das Crianças da Santa Casa da Misericórdia denominou-se,


posteriormente, Hospital José Carlos Rodrigues. Situava-se na Rua Miguel
de Frias, entre o Mangue e a rua de São Cristóvão.. "Foi o Dr. José Carlos
Rodrigues [diretor do Jornal do Comércio] quem teve a idéia de levantar
... uma instituição modelar para socorro e assistência médica da infância
desvalida. ... Embarcou para a Europa, em busca de um maravilhoso projeto,
no qual se incluía a importação de um renomado pediatra para dirigir a parte
científica de seu sonho. De lá trouxe, com efeito, a planta do edifício.
Mas a opinião de Hutinel, o consagrado mestre da pediatria francesa, com
quem se aconselhara, foi de que no próprio Rio de Janeiro, na pessoa de
um jovem médico, cujo livro ele prefaciara, estava o pediatra a quem devia
confiar a direção do hospital. O pediatra era o Dr. Fernandes Figueira"
(Adamastor Barbosa apud s/n, Matéria: HOSPITAL DAS CRIANÇAS FEZ 50 ANOS
— FOI O PRIMEIRO A DEDICAR-SE À PEDIATRIA - FONTE: ACERVO DA FAMÍLIA).
15

ósteo-mio-distrófica ... (Separata de BRASIL-


MÉDICO, vol. 77, de maio/ junho de 1963)

Ele descreveu uma síndrome, a Síndrome


Céfalo-plégica de Fernandes Figueira, uma doença
neurológica, uma forma de paralisia infantil que
ataca principalmente a região cervical da criança,
aceita no mundo todo, e que eu aprendi na
neurologia, com o meu professor ... (depoimento de
médica que ingressou no Hospital em 1941 como
estagiária no Laboratório)

A sua postura inovadora é destacada em duplo aspecto no

depoimento abaixo:

Escreveu um livro sobre clínica pediátrica,


inovando... Formou um grupo de pesquisadores,
dentre os quais, Amadeu Fialho, responsável pela
parte de autópsias em fetos e em recém-nascido.
Para a época, no Brasil, era uma coisa muito
avançada... E avançada em todos os setores, foi ele
o criador da Sociedade Brasileira de Pediatria.
(depoimento de médica que ingressou no Hospital em
1941 como estagiária no Laboratório)

O primeiro aspecto diz respeito à publicação, em 1929, do

livro “Elementos de Patologia e Higiene Infantil”, pela

Livraria Briguiet. Foi a primeira obra de conjunto feita no

Brasil. A publicação ocorreu postumamente, pois Fernandes

Figueira faleceu em 1928.

O segundo refere-se à origem da Sociedade Brasileira de

Pediatria. Em 1910, Fernandes Figueira instalou em sua própria

residência, na Rua Sorocaba nº 122, uma filial da Sociedade

Internacional de Pediatria, sediada em Paris. Essa filial,

posteriormente transferida para a Policlínica das Crianças, em

1919, transformou-se na Sociedade Brasileira de Pediatria.

Fernandes Figueira foi seu Presidente Perpétuo.


16

Segundo depoimento de um dos seus descendentes, Fernandes

Figueira era amigo de Arthur Bernardes e pediatra de seus

filhos. Dirigiu a Inspetoria de Higiene Infantil, na década de

20, quando Carlos Chagas chefiava o Departamento Nacional de

Saúde Pública.

Na Inspetoria, desenvolveu um esforço de normalização do

aleitamento mercenário 9 e atividades de levantamento dos

recursos assistenciais existentes para a atenção à

maternidade10 e à criança. Atribui-se à sua influência junto

ao então Presidente Arthur Bernardes a criação do hospital

focalizado em nosso estudo.

No que tange à criança, Fernandes Figueira, com sua

formação francesa, tentou a incorporação, na prática, dos

conceitos de Medicina Social11 desenvolvidos na Europa desde

o século XVIII. De modo mais geral, e não só na esfera da

maternidade e da criança, essa incorporação se deu mais

fortemente, a partir de 37, sob o Estado Novo.

Fernandes Figueira vivia ligado no mundo,


principalmente na França. Naquela época a França
e a Alemanha pontificavam nas ciências médicas...
(depoimento de médica que ingressou no Hospital em
1941 como estagiária no Laboratório)

9 Referimo-nos ao aleitamento natural levado a cabo pelas amas de leite.


10 Fernandes Figueira “assinalava, em 1927, a insuficiência que
representam, numa cidade de 1.600.000 de habitantes, 200 leitos para os
32.000 partos anuais que aqui se registram” (GESTEIRA, 1945, p. 561).
11 FOUCAULT (1989) reconstitui três etapas na formação da Medicina Social:

a Medicina de Estado, na Alemanha (início do séc. XVIII); a Medicina Urbana,


na França (final do séc. XVIII); e a Medicina dos Pobres e da Força de
Trabalho na Inglaterra, (no séc. XIX, tendo seu marco inicial na Lei dos
Pobres, e, principalmente na sua reforma, em 1870).
17

A despeito da França e da Alemanha serem hegemônicas,

entre nós, do ponto de vista das “ciências médicas”, se faz

sentir um aumento da influência americana nas instituições de

pesquisa e nos serviços sanitários desde os primeiros anos

deste século12.

Carlos Chagas, ao assumir a Direção do Departamento

Nacional de Saúde Pública, em 1920, era recém-egresso do Curso

de Especialização em Saúde Pública da Universidade Johns

Hopkins - Philadelphia (SILVA JUNIOR, 1996, p. 57) e iniciou

a implantação de um modelo baseado nas experiências que havia

conhecido. Desse modelo fazia parte o chamado Sistema

Nightingale de enfermagem.

Anteriormente à iniciativa de Carlos Chagas, a influência

americana se fazia presente, desde 1913 13 , na formação dos

técnicos do Instituto Oswaldo Cruz, cuja prática da medicina

experimental consistia em alternativa à formação médica da

época (LUZ, 1982, p. 205). E de Manguinhos, até 1930, saíam

sanitaristas para a direção dos serviços estatais de saúde

pública no Distrito Federal. Dentre os quais, o próprio Oswaldo

Cruz e Carlos Chagas.

A influência americana também se fazia presente na

formação de sanitaristas em São Paulo, por meio do “Laboratório

12Ver LABRA(1985).
13No plano formal e em nível nacional, em janeiro de 1929, foi assinado
um contrato envolvendo o governo brasileiro e a Fundação Rockfeller para
combate à febre amarela. Essa colaboração, entretanto, vinha ocorrendo,
no mínimo, desde 1923. Não somente a Fundação Rockfeller veiculava o modelo
americano. Também os organismos internacionais (OMS e OPAS) eram
disseminadores do modelo campanhista, de inspiração militar, para o combate
às epidemias e endemias urbanas e, mais tarde, rurais (LUZ, 1982).
18

de Higiene”, anexo à cátedra de mesmo nome na Faculdade de

Medicina e Cirurgia14.

Fernandes Figueira possuía uma certa “independência

científica”, consoante transparece de suas próprias palavras:

“Não sou o colono intelectual de nenhum país e o meu espírito

não vive à soldada” 15 . É possível que tenha ocorrido uma

inconformidade com o modelo que se vinha gestando no campo da

saúde pública e que culminou com a disputa personificada por

Olinto de Oliveira e Barros Barreto16, ou seja, a disputa entre

a puericultura e o sanitarismo.

Com a responsabilidade de seu nome jamais endossou


a prática de qualquer metodozinho só pelo fato de
vir referido nas revistas como novidade... Queria
o fato depois que houvesse resistido a todas as
provas de elucidação. Só assim colhia o
ensinamento, fosse de onde fosse, reservando-se,
porém, o direito de que não abria mão de aplicá-lo
segundo as nossas necessidades e de acordo com o
nosso meio e possibilidades, isto é, sob o aspecto
inteiramente nacional. (Fragmento de jornal:
ACERVO DA FAMÍLIA)

Dono de uma grande cultura médica e membro da Academia

Nacional de Medicina 17 , que chegou a presidir, Fernandes

14 O Laboratório foi montado, na década de 20, com a ajuda da Fundação


Rockfeller. Seus objetivos eram: ministrar o curso correspondente e
preparar os profissionais que se destinavam especificamente à saúde
pública. Para implementar tais objetivos foram enviados à São Paulo dois
técnicos americanos...” (SINGER, op. cit., p.136)
15 Fernandes Figueira apud Gastão de Figueiredo, em artigo publicado uma

semana após a morte do primeiro. Fonte: Jornal do Comércio, 18 de março


de 1928.
16 Barros Barreto dirigiu o Departamento Nacional de Saúde Pública, ao qual

o órgão de proteção materno-infantil era vinculado até 1937. Essa disputa


será tratada no capítulo 3, a partir de depoimentos de médicos.
17 Em 1829 foi fundada a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, que exerceu

grande influência sobre as decisões governamentais no campo da saúde


pública e do ensino da medicina. Em 1835, passou a denominar-se Imperial
Academia de Medicina e em 21 de novembro de 1889, adotou o nome Academia
Nacional de Medicina (SINGER, 1988, p. 103-104). Além de Fernandes
Figueira, Martagão Gesteira e Olinto de Oliveira foram membros da Academia.
19

Figueira destacava-se entre seus pares pelo interesse na

pesquisa, atividade que pretendeu fosse largamente

implementada no Hospital Arthur Bernardes.

Fernandes Figueira ombreava com os maiores


pediatras do mundo. Ele, um uruguaio e um
argentino, cujos nomes não me lembro agora,
formaram a tríade que, na prática, fundou a
pediatria na América do Sul, cada um no seu
respectivo país.(depoimento de médica
pesquisadora que ingressou no Hospital em 1941)

O uruguaio é Luis Morquio, e o argentino, Araoz Alfaro.

Os três, aliados a Olinto de Oliveira, dirigiam a revista

“Arquivos Latino-Americanos de Pediatria”.

Sobre a constituição do Instituto Oswaldo Cruz, Madel Luz

(1982) afirma que, sendo a ciência uma das bases da ordem

capitalista, fazia-se necessário um novo modelo de ciência, de

instituição científica e de pesquisador.

Para a nova ordem sanitária tornou-se inútil o


intelectual de salão, o orador brilhante, o doutor
versado em latim que entremeava seu discurso de
expressões francesas, embora esse médico bacharel
efetivamente predominasse junto às oligarquias e
aos partidos políticos desde o segundo império. Na
verdade, este doutor formado nas faculdades
brasileiras e francesas manterá uma posição
importante durante a República Velha e entrará em
conflito com o novo modelo de médico, o médico
cientista da clínica e da saúde pública. Este
servirá muito mais a uma ordem centralista,
unitária, e progressivamente industrialista, do
que aos interesses das oligarquias regionais
agro-exportadoras. (LUZ, 1982, p. 196)

Não há evidências, a despeito da citada amizade entre

Fernandes Figueira e Arthur Bernardes e da sua inserção, por

exemplo, na Academia Nacional de Medicina, de que o primeiro


20

correspondesse a essa imagem caricatural, até por seu

temperamento extremamente reservado. Por outro lado, Fernandes

Figueira, a exemplo dos contra-hegemônicos membros da chamada

“Escola Tropicalista Bahiana”18, não conseguiu fazer carreira

acadêmica, sendo chamado de “mestre sem cátedra”.

18 Ver: CONI, A.C.(1952); LUZ(1982, p. 129-164) e STEPAN, N.(1976, p. 60).


21

2. - A CRIAÇÃO COMO HOSPITAL ARTHUR BERNARDES

2.1.1 - OS ANTECEDENTES

Do final do século passado até 1920, endemias e epidemias

assolavam o Rio de Janeiro e outras cidades, principalmente

portuárias, acarretando prejuízos à atividade econômica do

país. Destacavam-se a febre amarela, a varíola, a tuberculose

e a malária. (SINGER, 1988)

Se para a atividade econômica houve prejuízos, no campo

da tecnologia médico-sanitária e no terreno da medicina

tropical o período apresentou-se extremamente favorável. Um

grande desenvolvimento se deu, preponderantemente, às custas

dos Institutos de Pesquisa 1 , muito mais do que nas escolas

médicas, ocupadas que estavam na preparação de pessoal para as

necessidades crescentes de um mercado de trabalho em expansão.

O Presidente Rodrigues Alves, empossado em 1902, nomeou

Pereira Passos para prefeito da Capital Federal. Este promoveu

uma ampla reforma urbana, não sem um grande descontentamento

da população pobre e da classe média baixa, que foram deslocadas

de seus locais originais de moradia e/ou viram aumentar o valor

das locações.

1Dentre os quais: o Instituto Bacteriológico, fundado em 1892, em São Paulo


e dirigido por Adolfo Lutz; o Instituto Butantã e o Instituto Soroterápico
de Manguinhos, fundados em 1899 (SINGER, 1988, p. 111-112).
22

Oswaldo Cruz, que dirigia o Instituto Soroterápico de

Manguinhos 2 , assumiu a chefia dos serviços sanitários,

promovendo logo após sua posse, em março de 1903, medidas de

combate à febre amarela urbana às quais se opôs a comunidade

médica, em virtude de não se encontrar ainda disseminado o

conhecimento dos mecanismos de transmissão da doença.

Em março de 1904, Oswaldo Cruz procedeu a uma reforma dos

serviços sanitários que dotou a Diretoria Geral de Saúde

Pública “de uma grande soma de atribuições, reforçando a

participação da União na área de saúde” (SINGER, ibidem, p.

110). No mesmo ano, em outubro, foi promulgada a lei da

vacinação e revacinação obrigatórias contra a varíola, que

acentuou a resistência popular e de positivistas militares e

civis, tornando-se conhecida como a “Revolta da Vacina”.

A assistência à criança pobre no Distrito Federal, nessa

mesma época, estava a cargo de duas instituições de caráter

filantrópico: o Hospital São Zacharias e o Instituto de

Proteção e Assistência à Infância no Rio de Janeiro. A primeira

era mantida pela Santa Casa de Misericórdia e situava-se no

Morro do Castelo. A segunda, criada por Moncorvo Filho,

localizava-se à Rua Visconde do Rio Branco, n.º 22, próximo à

do Lavradio. O Instituto de Proteção e Assistência à Infância,

2 EsseInstituto, criado em 1899, pela Municipalidade, teve sua direção


técnica entregue a Oswaldo Cruz, recém-chegado do Instituto Pasteur. Em
1º de julho de 1900, o Instituto foi transferido para a União. Em 1907,
após reforma, foi denominado Instituto de Patologia Experimental de
Manguinhos e, em 1909, passa a ser chamado Instituto Oswaldo Cruz. (SINGER,
p. 104-107)
23

além da “Creche Sra. Alfredo Pinto”, promovia distribuição de

leite e proporcionava assistência ginecológica e pediátrica3.

No início deste século, o Estado brasileiro era regido

pelo liberalismo econômico, principalmente em relação ao

mercado de trabalho. Havia uma intensa mobilização sindical,

motivada pelas duras condições de trabalho e salário,

culminando nas greves de 1917 a 19194.

A partir de 1917, foram retomados projetos já existentes

sobre legislação social, mais especificamente, trabalhista. É

assinalada a constituição de três correntes na Câmara, que

poderiam ilustrar o debate: os autodenominados

“trabalhistas”5, a “bancada gaúcha”6 e a “bancada paulista”7

(GOMES, 1979, p. 64).

Destacamos a bancada gaúcha, que reagiu firmemente à

regulamentação estatal do mercado de trabalho, mas que apoiou,

ou que cedeu, “num esforço necessário de colaboração” (ibidem),

em relação aos acidentes de trabalho e à proteção às mulheres

e crianças.

3 Matéria: “Veio tarde a assistência oficial à maternidade e à infância:


a cooperação particular numa grande campanha” (Fonte: ACERVO DA FAMÍLIA).
Ver também PEREIRA(1992, p. 68-78).
4 Ver: FAUSTO, B.(1976); RODRIGUES, J. A .(1968) e VIANNA(1976).
5 “Representada basicamente pela atuação dos Deputados Maurício de Lacerda,

Nicanor Nascimento e Deodato Maia. Os dois primeiros eram Deputados pelo


Distrito Federal, ... atuando ... desde 1912 e tendo bases eleitorais junto
a parcelas do Operariado da cidade do Rio (GOMES, 1979, p. 64). Além da
apresentação de projetos, esses deputados fizeram a defesa das greves
operárias do período.
6 A bancada gaúcha destacava-se pela homogeneidade e disciplina, sob a

liderança de Borges de Medeiros. Esse, sucessivamente reeleito Presidente


do Estado, governou o Rio Grande do Sul durante os anos 12 a 28.
7 Os paulistas mantinham uma posição pragmática, aceitando a intervenção

do Estado, na medida em que a legislação poderia servir como instrumento


útil para o enfrentamento da agitação operária, alardeada como danosa aos
interesses da produção do país.
24

O fato de ser exatamente a proteção às mulheres,


aos menores e aos inválidos (os acidentados) os
aspectos da legislação aceitos pelos gaúchos não
deixa de ser sugestivo... nos dois primeiros casos
trata-se de elementos que não são cidadãos (as
mulheres e os menores não votam) e no último caso
trata-se daqueles que, praticamente, se retiram do
mercado de trabalho. Assim, a intervenção do
Estado ... pode ser concebida, não como uma
conquista de direitos por parte do operariado, mas
sim como uma realização quase que filantrópica,
não constituindo uma intervenção indébita do
Estado e não se chocando com a concepção liberal
do mercado. (GOMES, 1979, p. 77)

2.1.2 - OS ANOS 20

No ano de 1922 deu-se a decretação do estado de sítio,

motivada em grande parte pelo movimento tenentista, e o Partido

Comunista, recém-criado, foi lançado na ilegalidade. Arthur

Bernardes, eleito em março do mesmo ano para a Presidência da

República, com o apoio do eixo São Paulo-Minas, governou com

dureza política, reprimindo violentamente oficiais rebeldes,

sindicatos e associações operárias.

Nesse contexto desfavorável quanto aos direitos

políticos, foram lançadas as bases do que Jaime Oliveira e Sônia

Maria Fleury Teixeira (1985) chamam de “um modelo pródigo e

civil de previdência social”, as Caixas de Aposentadorias e

Pensões. Cresceu, também, em importância a chamada “questão

social” 8 , ainda que restrita a “uma preocupação de cunho

8 A “questão social” abrange o reconhecimento de um conjunto de novos


problemas vinculados às condições de trabalho urbano, decorrentes das
transformações sociais, políticas e econômicas trazidas pela Revolução
Industrial, e dos direitos sociais daí advindos. A emergência da “questão
social” deu-se, na Europa, no século XIX.
25

sanitário ou moral, tendo a família como seu objetivo e a casa

como seu campo de atuação” (GOMES, 1979, p. 102).

A questão social cresceu em importância, porém, seu

reconhecimento foi ambíguo. Negada como problema

econômico-social e reputada como um problema de higiene e de

moral, a questão social nos anos 20 foi tratada, quase sempre,

“junto com os problemas de instrução e de saúde pública”.

(GOMES, 1979, p. 103)

A instância organizacional que tinha a seu encargo tratar

dos problemas de instrução e de saúde pública, até 1930, era

o Ministério da Justiça e Negócios Interiores. O subsetor da

Saúde Pública localizava-se na sua esfera e, a partir da Reforma

Carlos Chagas durante o governo de Epitácio Pessoa, tinha a

conformação institucional do Departamento Nacional de Saúde

Pública (DNSP)9.

Além das doenças pestilenciais, dentre as quais se

incluíam o cólera, a varíola, a febre amarela, a peste bubônica

e o tifo, desde o início do século foram crescendo em

importância as chamadas doenças de massa, ligadas às condições

de vida e trabalho: a malária, as verminoses, a doença de

Chagas, a tuberculose, as doenças gastrointestinais e de

transmissão sexual, em especial a sífilis, e a desnutrição.

9 O Decreto n.º 3.987, de 1920, cria o DNSP (LUZ, 1982, p. 95).


26

A Reforma Carlos Chagas10, primeiro esboço de uma política

sanitária por parte do Estado Nacional11, caracterizou-se pela

expansão e centralização das ações de saúde pública e pelo seu

elevado grau de autoritarismo.

As ações de saúde pública, restritas no tempo de Oswaldo

Cruz ao combate de três endemias, multiplicaram-se em várias

áreas de intervenção12, ao mesmo tempo em que houve um aumento

da abrangência tanto de grupos populacionais quanto do

território nacional.

O caráter autoritário das ações manifestou-se nas

disposições contidas no regulamento do Departamento Nacional

de Saúde Pública13 (DNSP) quanto ao controle das doenças, como

por exemplo, a lepra, e na determinação de permanência do

recém-nascido na maternidade até completar 15 dias de vida.

(SINGER, op. cit., p. 127)

Para a expansão e centralização das ações, além de uma

reforma na estrutura organizacional dos órgãos de saúde

pública, em que destacamos a transformação do Serviço de

10 Ver também: LUZ (1982); BRAGA e GÓES DE PAULA (1986) e VIEIRA (1982).
11 Falamos aqui em esboço porque os problemas a atacar situavam-se “muito
além das possibilidades dadas pela natureza política e pela capacidade
financeira deste Estado”. Além disso, as novas atribuições do nível central
- DNSP - não entraram em plena vigência (BRAGA e GÓES DE PAULA, 1986, p.
45-46).
12 As novas áreas de intervenção são: saneamento urbano e rural; propaganda

sanitária; serviços de higiene infantil, industrial e profissional;


supervisão dos hospitais públicos federais e fiscalização dos demais
hospitais, combate às endemias e epidemias rurais, dentre elas o
impaludismo, as helmintoses, a esquistossomose, a doença de Chagas,
leishmaniose, etc.(SINGER, op. cit., p. 126)
13 O regulamento do DNSP encontra-se no Decreto n.º 16.300, de 31 de dezembro

de 1923.
27

Higiene Infantil em Inspetoria de Higiene Infantil14, para a

direção da qual foi designado o pediatra Antônio Fernandes

Figueira, fazia-se necessária a formação de pessoal para dar

conta das atividades a serem desenvolvidas.

Neste sentido, a criação da Escola de Enfermeiras 15 -

atual Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Rio

de Janeiro - estava prevista no mesmo decreto16 em que figurava

o Regimento do Hospital Geral de Assistência do Departamento

Nacional de Saúde Pública17.

Os serviços de saúde pública eram o campo de atuação quase

exclusivo das enfermeiras récem-formadas 18 . Elas atuavam,

principalmente,

nos programas de combate e controle de endemias,


cuidando do isolamento dos enfermos e
acompanhamento dos contatos; no atendimento de um
pequeno segmento da sociedade, sujeito aos riscos
de doenças transmissíveis; chefiando serviços de
saúde pública ou ensinando, preparando o pessoal
auxiliar que executava os serviços. (FÁBIO,
s/data, p. 2)

14 A Inspetoria de Higiene Infantil tinha seu âmbito de ação restrito ao


Distrito Federal (FONSECA, 1990, p. 57). A assistência infantil,
anteriormente, era de responsabilidade da prefeitura do Distrito Federal,
bem como a limpeza urbana. A assistência infantil permaneceu em segundo
plano, devido à priorização do combate às endemias e, posteriormente, do
socorro de emergência. Com a formação do DNSP e a criação da Inspetoria
de Higiene Infantil em 1923, ambas as esferas, municipalidade e nível
federal, passaram a ter atribuições voltadas para a proteção
materno-infantil. Os serviços, em sua maior parte, eram privados. (PEREIRA,
p. 78-79)
15 Em 1922 foi criado o Serviço de Enfermeiras do DNSP. Em 1923 foi fundada

a Escola de Enfermeiras do DNSP. Em 1926 ela foi denominada Escola de


Enfermeiras D. Anna Nery. Para a criação da Escola, colaborou o governo
americano, por meio da Fundação Rockfeller, que enviou oito enfermeiras
norte-americanas. (MOREIRA, 1997)
16 Decreto n.º 15.799, de 10 de novembro de 1922.
17 Trata-se do Hospital São Francisco de Assis, abordado por SILVA JUNIOR

(1996).
28

Essas enfermeiras, cuja importância para os serviços de

saúde pública da época foi muito ressaltada19, a partir de 1928,

passaram a atuar também no Hospital Arthur Bernardes, muito

embora a especialização em enfermagem pediátrica tenha

ocorrido tardiamente entre nós.

2.2 - O HOSPITAL NOS ANOS INICIAIS (1924/1930)

Em 7 de janeiro de 1924, o Presidente Arthur Bernardes

sancionou a Lei n.º 4.79320, aprovada pelo Congresso Nacional,

que fixava as despesas da República dos Estados Unidos do Brasil

para esse exercício. Dentre outras coisas, a Lei autorizava21

a negociação com a Prefeitura do Distrito Federal, visando a

cessão do antigo Hotel Sete de Setembro, então desativado, para

a instalação de um hospital de crianças.

O Hotel Sete de Setembro, construído para hospedar

ilustres visitantes que vieram para a comemoração do Centenário

da Independência, situava-se na Avenida do Contorno, assim

denominada pois contornava o Morro da Viúva. Sua edificação

compunha-se também de restaurante, balneário e cabines de banho

sob o leito da avenida, na extensão de 40 metros, o que permitia

18 Da primeira turma formada em 1925, oito das treze enfermeiras, bem como
as demais a partir daquela data, foram contratadas pelos serviços de saúde
pública, substituindo as visitadoras de higiene (FÁBIO, s/data, p. 2).
19 Inicialmente, pelo próprio Carlos Chagas (Moreira, 1997). Mais tarde,

por Gastão de Figueiredo durante a Conferência Nacional de Proteção à


Infância, em 1933, no combate à mortalidade infantil (OLIVEIRA, 1996, p.
28).
20 Coleção das Leis da República dos Estados Unidos do Brasil de 1924.
21 Ibidem, artigo 3º, item XIX.
29

o banho de mar nas imediações, além de dois prédios situados

ao fundo do prédio principal.

O prédio do Hotel ainda hoje existe, tombado pelo IPHAN,

na atual Avenida Rui Barbosa. Nos fundos do Hotel, em um prédio

de dois andares que havia servido de moradia para os

funcionários, ainda em 192422, foi inaugurado o Hospital Arthur

Bernardes. Os fortes ventos que varriam a região determinaram

a escolha do prédio que se situava atrás do Hotel (Fig. 3).

Fig. 3 - O Hotel Sete de Setembro. Em segundo plano, o


Hospital Arthur Bernardes.
Fonte: “Revista da Semana”, 1/05/26

O hospital ocupou o prédio do meio, que havia sido


moradia dos funcionários do hotel. O último
prédio, próximo da encosta, era depósito de
material... Quando foi criada a Escola de
Enfermagem por Carlos Chagas, o prédio da frente
passou a ser o dormitório das alunas-enfermeiras.
A sede da Escola foi instalada na Praça Onze, junto
ao Hospital, mais tarde denominado São Francisco
de Assis. (depoimento de médico puericultor)

22As informações contidas no texto deste capítulo foram extraídas das


seguintes fontes: Arquivo Geral da Cidade e Dr. Newton Potsch Magalhães
(depoimento integrante do acervo do Departamento de Arquivo e Documentação
da COC/FIOCRUZ).
30

A formação das enfermeiras na Escola de Enfermeiras do

Departamento Nacional de Saúde Pública tinha como modelo ideal

o internato, que favorecia o controle e a disciplina.

Em 1925, com o desenvolvimento da profissão e seu


reconhecimento no campo da saúde pública, surgiu
a necessidade de construção de uma nova residência
para as enfermeiras. No entanto não haveria
liberação de recursos naquele ano para essa
construção por parte do governo, tendo sido
oferecido um hotel que foi descartado inicialmente
por ser muito distante do hospital e
posteriormente aceito tendo em vista a aquisição
de um ônibus que transportaria as estudantes.
(MOREIRA, 1997)

Esse hotel era o antigo Hotel Sete de Setembro. A prática

do transporte em ônibus próprio perdurou até a desativação do

internato, em 1972. A partir de 1973 o prédio passou a abrigar

a Casa do Estudante Universitário. Sobre as condições ofertadas

às alunas enfermeiras, diz uma das nossas entrevistadas:

Eu tinha um pouco de inveja daquelas alunas de


enfermagem, pelas condições que lhes eram
oferecidas. Eu era estudante de medicina e tinha
que lutar para sobreviver no Rio, sem ter aqui
nenhum parente. (depoimento de médica)

Desde a sua criação, como órgão de assistência e estudos,

o Hospital Arthur Bernardes foi vinculado à Inspetoria de

Higiene Infantil, inclusive fisicamente era a ela contíguo,

conforme ilustrado adiante (Fig. 4).

É, portanto, no campo da Saúde Pública que,

historicamente, se localizava o Hospital.


31

Então, primeiro, uma instituição de defesa do


binômio mãe-filho. Segundo: uma instituição fora
da área da administração direta das faculdades de
medicina mas como referência para a Saúde Pública.
Evidentemente, com liberdade para fazer pesquisas
sem ficar preso à faculdade de medicina, que tinha
que, burocraticamente, ensinar apenas aquilo que
era do conhecimento genericamente aceito. Essas
foram as finalidades da criação do Hospital Arthur
Bernardes. (depoimento de médico puericultor)

Fig. 4 - Inspetoria de Higiene Infantil. Em segundo


plano, a entrada do Hospital Arthur Bernardes.
Fonte: Revista da Semana, 1/5/26

No ano de 1925, encontramos a primeira referência à

destinação de recursos para o Hospital Arthur Bernardes e

alguma informação sobre o seu quadro de pessoal na Lei n.º

4.91123, de 12 de janeiro. Esta rezava que, para a Inspetoria

23Coleçãodas Leis da República dos Estados Unidos do Brasil de 1925. Fixa


a despesa geral da República dos Estados Unidos do Brasil para esse
exercício. Foi publicada no D. O. de 13/01/25.
32

de Higiene Infantil, o quadro e as respectivas remunerações

seriam assim:

“...
12 . Inspetoria de Higiene Infantil

1 Inspetor Ordenado: 10:800$000


Gratificação: 5:400$000
6 Médicos Gratificação: 9:600$000

Para o Hospital de Crianças Arthur Bernardes:

1 Diretor Gratificação: 3:600$000


3 Médicos Gratificação: 2:400$000
5 Internos Gratificação: 1:200$000
1 Farmacêutico Gratificação: 3:000$000
1 Diretor de Gratificação: 4:800$000
Laboratório
1 Ajudante de Gratificação: 2:400$000
Laboratório
6 Enfermeiras Gratificação: 1:800$000
1 Administrador Gratificação: 4:800$000
1 Datilógrafo Gratificação: 1:800$000
1 Roupeira Gratificação: 1:800$000
1 Lavadeira Gratificação: 2:400$000
1 Cozinheira Gratificação: 2:400$000
2 Vigias Gratificação: 2:400$000
2 Operários Gratificação: 2:400$000
1 Guardiã Gratificação: 2:000$000
12 Serventes Gratificação: 1:560$000
...”(Fonte: D.O. de 13/01/25, p. 1.077)

Essas tabelas evidenciam tanto disparidades salariais

entre o nível central - Inspetoria - e o nível local, quanto

internamente ao quadro salarial do Hospital. A análise das

tabelas, entretanto, ficou prejudicada por não termos

conhecimento das cargas horárias contratuais e do regime de

trabalho de cada cargo.


33

Apesar dessas dificuldades podemos afirmar,

primeiramente, que os médicos não permaneciam durante a noite

no Hospital, ou, se o faziam, não eram remunerados para tal.

Em segundo lugar, as enfermeiras que percebiam remuneração

inferior às de lavadeiras, vigias, cozinheira e operários, não

eram formadas. Conforme visto anteriormente, a formatura da

primeira turma da Escola de Enfermeiras ocorreu no segundo

semestre de 1925. Todavia, é curiosa a disparidade salarial

entre os que cuidavam diretamente dos pacientes, médicos e

enfermeiras, e os que desempenhavam funções correspondentes ao

atualmente designado como nível elementar.

Em 1927, por decreto 24 presidencial foram criados os

seguintes “lugares” 25 , com as gratificações conforme tabela

seguinte:

1 Radiologista 5:400$000
1 Ginecologista 12:000$000
1 Auxiliar-Parteira 5:400$000
1 Enfermeira 2:820$000
1 Enfermeira-Chefe 7:680$000
1 Escriturário 2:400$000
1 Auxiliar de Escrita 2:840$000
1 Dentista 3:600$000
2 Chauffeurs 4:392$000 (cada)
6 Auxiliares do Serviço 5:400$000 (cada)
Social
1 Copeiro 2:820$000
1 Ajudante de Cozinha 2:820$000
21 Serventes 2:460$000 (cada)
Fonte: Decreto n.º 5.150, de 10 de janeiro de 1927

24 Decreto n.º 5.150, de 10 de janeiro de 1927, o qual “autoriza a conservar


nos lugares que ocupam as visitadoras de higiene e saúde pública, que venham
prestando seus serviços há alguns anos e dá outras providências”.
25 Por “lugar”, entenda-se cargo ou posto de trabalho.
34

O Decreto nº 5.150, de 10 de janeiro de 1927, veiculou

também a equiparação da gratificação do diretor do Abrigo

Hospital Arthur Bernardes à do diretor do Hospital Pedro II

(art. 4º) e a concessão de diária no valor de 15$000 ao médico

que pernoitasse no hospital (art. 6º).

O quadro de pessoal e a tabela salarial para o ano de 1927

estão demonstrados no Quadro 1. A análise dos dados contidos

nesse quadro ficou prejudicada pelos mesmos motivos que

afetaram a análise das tabelas anteriores. Todavia, começou a

ocorrer diferenciação salarial em alguns cargos, por exemplo,

nos relacionados à enfermagem. Nestes evidenciou-se uma

hierarquização: enfermeira-chefe, auxiliar-parteira e

enfermeiras.

O cargo de enfermeira-chefe passou a ter a segunda maior

remuneração do quadro salarial do Hospital, desconsiderando-se

o de ginecologista, visto que este, na realidade, tinha o título

de Superintendente do Serviço de Pré-Natal da Inspetoria de

Higiene Infantil. Tanto o escriturário quanto o administrador

eram funcionários do Departamento Nacional de Saúde Pública26.

Chamou-nos a atenção o valor da remuneração percebida

pelos “chauffers”, pouco inferior à do administrador e bastante

superior à do escriturário vinculados ao nível central

(Inspetoria). As discrepâncias salariais apontadas

anteriormente entre os que prestavam assistência direta aos

pacientes mantiveram-se.

26 Essa prática de ter os responsáveis pela administração do hospital


vinculados diretamente ao nível central perdurou até a gestão de Antonio
Sérgio da Silva Arouca como Presidente da FIOCRUZ (1985).
35

QUADRO 1
PESSOAL DO HOSPITAL ARTHUR BERNARDES E TABELA
SALARIAL - 1927
1 Diretora 9:720$000
1 Ginecologista 15:000$000
1 Radiologista 5:400$000
1 Auxiliar-Parteira 5:400$000
1 Diretor de laboratório 4:800$000
1 Ajudante de laboratório 3:720$000
3 Médicos 3:700$000 (cada)
1 Farmacêutica 5:400$000
1 Enfermeira-Chefe 7:680$000
7 Enfermeiras 2:820$000 (cada)
1 Dentista 3:600$000
6 Auxiliares de S. Social 5:400$000
1 Administrador 4:800$000
1 Escriturário 2:400$000
1 Datilógrafa 2:820$000
1 Auxiliar de Escrita 2:820$000
1 Guardiã 4:460$000
1 Encarregado da 3:720$000
Lavanderia
1 Roupeira 3:720$000
2 Vigias 3:720$000 (cada)
2 Operários 3:720$000 (cada)
1 Cozinheiro 3:720$000
1 Copeiro 2:820$000
1 Ajudante de Cozinha 2:820$000
2 Chauffeurs 4:392$000 (cada)
33 Serventes 2:460$000 (cada)
Gratificação por pernoite 5:475$000
15$ (dia)

Fonte: Coleção das Leis da República dos Estados Unidos


do Brasil (quadro adaptado pela autora)
36

Não podemos afirmar que, nos anos iniciais, o quadro de

pessoal tenha se mantido nos termos estritos dessas medidas

legislativas, na medida em que a prática de contratação de

“extra-numerários”, ou qualquer outra denominação que tenham

recebido, ocorreu com frequência na nossa administração

pública.

Por outro lado, em 1928, o Serviço de Enfermeiras do DNSP

designou para trabalhar no Hospital Arthur Bernardes: uma

enfermeira-chefe, duas enfermeiras diplomadas e uma aluna da

Escola de Enfermeiras. A designação destas enfermeiras foi para

trabalhar em três enfermarias de pediatria (OLIVEIRA, 1996, p.

29-30)

Embora para a época, fosse importante quantitativamente

esta designação, a partir dos anos iniciais, o quadro de pessoal

se modificou em consonância com a evolução da força de trabalho

do setor, ou seja, predominantemente com a incorporação de

médicos e de pessoal de nível auxiliar27.

Antônio Fernandes Figueira indicou para a direção do

Hospital Arthur Bernardes a médica Ursulina Lopes, que com ele

trabalhara na Policlínica das Crianças. É provável que, em

1925, Fernandes Figueira tenha assumido a direção do Hospital,

entretanto, não encontramos registros de sua gestão28.

27 Curiosamente, o quantitativo de enfermeiras, em 1980, perfazia um total


de apenas 10 profissionais que ocupavam postos de chefia e supervisão, a
despeito das mudanças tecnológicas ocorridas no campo da saúde e, mais
especificamente, no campo da atenção hospitalar.
28 Solidônio Leite, biógrafo de Fernandes Figueira, afirma que Fernandes

Figueira dirigiu o Hospital Arthur Bernardes (Jornal do Comércio,


14/06/28), porém não faz menção ao período.
37

Em 1927, oficialmente, o Hospital Arthur Bernardes passou

a se chamar Abrigo-Hospital Arthur Bernardes29. No entanto, na

Revista da Semana, no número de 1º de maio de 1926 (Fig.5), a

instituição já figurava com essa denominação. A mudança de

denominação foi justificada da seguinte forma: “assim ficava

explícita a obrigatoriedade da genitora se internar na

instituição junto com seu filho” (depoimento de médico

puericultor).

A obrigatoriedade do acompanhamento da criança pela mãe

durante a internação é relativizada em outros depoimentos,

assumindo um caráter de consentimento:

No início, aqui [no Hospital] as mães aprendiam os


cuidados ‘de enfermagem’ e os difundiam no seu
meio. Depois esse procedimento foi inteiramente
proscrito, a mãe era separada do filho... Não me
lembro quando as mães deixaram de permanecer junto
com seus filhos aqui no Hospital... (depoimento de
médica)

Essa internação conjunta, de mãe e filho, visava:

primeiramente, diminuir o stress da separação,


tornando o tratamento mais rápido e eficiente. Em
segundo lugar, propiciava as condições para que a
mãe pudesse receber ensinamentos que compreendiam
aulas de puericultura e aulas gerais, inclusive
lições de música. (depoimento de médico)

29No Guia de Legislação Sanitária Federal consta: "De acordo com a letra
“m” do artigo 318, do Decreto 5.150, de 10/01/27, foi a denominação mudada
para Abrigo Hospital Arthur Bernardes". No entanto, o texto do decreto
citado não coincide.
38

A primeira justificativa, de diminuição do stress da

separação, parece-nos coadunar-se com períodos mais recentes.

Reflete a prática disseminada nos serviços voltados para a

atenção à mulher e à criança, na década de 1980, no Brasil, com

a proliferação dos “alojamentos conjuntos” nas maternidades e

a permissão da permanência da mãe nas enfermarias de Pediatria.

Tais práticas alicerçaram-se na política de incentivo ao

aleitamento materno e na constatação da redução em 50% nos

tempos médios de permanência das internações pediátricas,

quando havia o acompanhamento pela mãe.

A segunda explicação coaduna-se com a corrente

higienista, na qual Antônio Fernandes Figueira se inseria.

Segundo esta corrente, a “educação” das mães consistia em fator

fundamental para a melhoria do nível de saúde das crianças.

Fig. 5 - Grupo formado no ato da inauguração. Dentre outros: Affonso Penna Júnior,
Ministro da Justiça; Dr. Leitão de Abreu, diretor interino do DNSP; Dr. Fernandes
Figueira; Dr. Rocha Vaz, diretor da Faculdade de Medicina.
Fonte: “Revista da Semana”, 01/05/26
39

Não encontramos registro da existência de um serviço de

Obstetrícia nos primeiros anos, nem da realização de partos.

Internamente o Hospital se organizava em dez enfermarias, com

capacidade para abrigar cerca de 100 crianças, das quais nunca

se registrou o funcionamento simultâneo. Simultaneamente, no

máximo, funcionaram oito. Cada uma das enfermarias tinha sua

chefia e a Pediatria não se constituía em uma clínica, com

normas e rotinas unificadas30.

Existiam as enfermarias de pediatria, mas


sentia-se a falta de um chefe... O Dr. Pernetta
morava no Hospital e atendia os residentes e
doentes a qualquer hora. Um dos pediatras mais
cultos do Brasil, não se fixou na pesquisa, porém
deixou inúmeros livros... (depoimento de médica,
referindo-se à década de 40)

Anexa ao Abrigo Hospital Arthur Bernardes, funcionava a

“Escola de Futuras Mães”, promovendo cursos com duração de três

meses, a parte teórica sob a responsabilidade de Adamastor

Barbosa e a prática realizada nas enfermarias e na cozinha, onde

as moças aprendiam a preparar a alimentação das crianças.

No pavimento térreo do Hospital os quartos (enfermarias)

destinavam-se ao recebimento de crianças cujas mães não podiam

permanecer ao seu lado. No segundo andar, as crianças eram

acompanhadas por suas mães. Todos os quartos dispunham de boa

ventilação e água corrente, além de decoração com motivos

infantis (O Globo, matéria: “QUEM QUER APRENDER A SER MÃE? Uma

visita do Globo à escola anexa ao Abrigo-Hospital Arthur

30Essa organização das enfermarias pediátricas perdurou até o final da


década de 80.
40

Bernardes: procurando retirar desse estabelecimento o nome do

presidente calamitoso” Fonte: ACERVO FAMILIAR).

O último registro da Dra. Ursulina Lopes como Diretora do

Hospital Arthur Bernardes foi encontrado em 1928, no expediente

da Revista Archivos de Pediatria (Figuras 6 e 7).

Após 1928, ano da morte de Fernandes Figueira, o Hospital

Abrigo Arthur Bernardes atravessou um período de dificuldades,

chegando quase à total desativação. “Ficou funcionando apenas

um pequeno ambulatório de pediatria” (depoimento de médico que

ingressou no Hospital em 1937)

Fig. 6 e 7 - Capa e Expediente da Revista Archivos de Pediatria. ( fig. 7 com trecho ampliado para possibilitar
a leitura do texto). Fonte: Acervo da família
41

Fig. 8 - Grupo de acadêmicos e internos.


Fonte: Revista da Semana , 1/5/26

Fig. 9 - Grupo de funcionários do Hospital.


Fonte: Revista da Semana, 1/5/26
42

3. - DE HOSPITAL ARTHUR BERNARDES A INSTITUTO FERNANDES


FIGUEIRA (1930/1949)

No plano político, o período abrangeu várias

subconjunturas: a primeira, de 30 a 371; a segunda de 37 a 45,

o chamado Estado Novo; e a redemocratização pós-Vargas, que se

inicia após 45. Nesta última, apenas o governo Dutra

(1946/1950) está compreendido em nossa periodização.

No plano institucional, de 30 a 49, ocorreram

significativas mudanças no âmbito da saúde: transformações

sucessivas no órgão central materno-infantil e transformação

do Ministério da Educação e Saúde Pública em Ministério da

Educação e Saúde, sob a gestão de Gustavo Capanema. Trataremos

em destaque as regulamentações de 1937 e de 1941 em função das

repercussões geradas para o Hospital.

O Hospital passou, de 1930 a 1949, por um processo de

turbulência caracterizado por crises e tentativas de

recuperação. Sofreu uma reforma de 35 a 38. A partir daí, na

visão de nossos entrevistados, progressivamente, ocorreu uma

dinamização, tendo atingido na década de 40 o apogeu

técnico-científico. Em 1949 o Hospital foi fechado para obras.

1 O período compreendido entre 1930 e 1934 caracterizou-se pelo Governo


Provisório e pelo conflito de esferas federal e estadual, redundando na
Revolução Constitucionalista de 1932. Em 1934 ocorreu a eleição indireta
de Getúlio Vargas à Presidência da República e iniciou-se o “Governo
Constitucional”, que perdurou até 1937.
43

3.1 - O CONTEXTO POLÍTICO E INSTITUCIONAL

É sabido que, a partir dos anos 30, ocorreu uma alteração

significativa na economia e na política brasileiras 2 . A

conjuntura nos anos 30 a 37 é distinguida como representando

uma crise de hegemonia que propiciou um elevado grau de

autonomia do Estado, passando este a não responder a um grupo

específico da burguesia.

... a burguesia cafeeira é, definitivamente,


deslocada de sua posição de controle sobre o
aparelho de estado. Entretanto, a revolução não
traz imediatamente consigo a superação à crise. O
período 30-37 pode, com rigor, ser pensado como um
momento de crise política aberta, de crise de
hegemonia no sentido mais preciso, na medida em que
nenhuma classe ou fração de classe logra tornar-se
hegemônica, sucedendo a burguesia cafeeira.

... De fato, o que se dá - e o que define a natureza


política do período - é a disputa, ainda entre as
"oligarquias", pelo controle do Estado, não
conquistado por nenhuma delas, dada sua impotência
em redefinir as alianças na nova conjuntura. Ao3
nível do jogo de interesses, a ação do Estado se
faz de modo contraditório, como que respondendo
concomitantemente aos interesses de distintos
grupos. (Liana Maria Aureliano da Silva,1976 apud
BRAGA e GÓES DE PAULA, 1986, p. 51)

2 Segundo CARDOSO DE MELLO (1982). O elemento essencial de análise para o


período compreendido entre os anos 30 a 55 é o caráter "restrito", tanto
da acumulação capitalista, quanto do Estado. A crise política dos anos 20
culmina com a Revolução de 30. Nos anos 30 é rompida a antiga estrutura
de poder (BRAGA E GÓES DE PAULA, op. cit., p. 50-53). A crise econômica
herdada do governo Washington Luís só dará sinais de recuperação em 1933.
Em 34 Vargas é eleito indiretamente e é promulgada nova Constituição
Federal.
3 Grafia original.
44

A Revolução de 30 foi promovida por uma coalizão instável

entre setores dissidentes das oligarquias dos estados

exportadores, setores das oligarquias agrárias dos estados não

exportadores e de uma facção radical das camadas médias

urbanas, principalmente militar, os tenentes. Dada a

instabilidade dessa coalizão, fazia-se necessária uma

ampliação das bases de apoio, buscada junto a setores

populares, classes trabalhadoras e empresariado urbano

(TEIXEIRA e OLIVEIRA, 1986, p. 136).

É nesse sentido que deve ser entendido o conjunto


das políticas sociais elaboradas no período:
legislações trabalhistas, montagem do sistema
previdenciário baseado nos Institutos,
sindicalismo atrelado ao Estado, etc., foram a
forma de controlar política e economicamente a
classe trabalhadora, respondendo por vezes a seus
movimentos [conforme afirmam TEIXEIRA e OLIVEIRA,
por vezes antecipando-se a eles], mantendo a
lucratividade do setor industrial e sua capacidade
de acumulação, mantendo níveis mínimos de
reprodução da força de trabalho, mantendo sob
controle a participação política dos
trabalhadores. (BRAGA e GÓES DE PAULA, 1986, p. 52)

O modelo de Previdência Social que se instaurou no período

1930 a 1945 adotou como estratégia uma orientação

contencionista, fruto da crise econômica que persistiu até

1934. No entanto, passada a crise, permaneceu a estratégia. O

objetivo de prestação de assistência médica, fundamental para

algumas Caixas de Aposentadorias e Pensões, foi deslocado para

um plano secundário4.

4 OLIVEIRA e TEIXEIRA (1985, p. 24) destacam que no artigo 9º da lei Eloy


Chaves, a prestação de serviços de “socorros médicos” e a oferta de
medicamentos subsidiados, antecedem no texto da lei a concessão dos
benefícios pecuniários.
45

A Previdência, do ponto de vista da prestação de

assistência médica, que é o que nos interessa mais de perto,

optou pela compra de serviços, principalmente de internação

(TEIXEIRA e OLIVEIRA, 1985).

Durante o governo Dutra, embora mantida a compra de

serviços pela Previdência, ainda organizada sob a forma de

Institutos e Caixas de Aposentadorias e Pensões, iniciou-se uma

fase de expansão dos serviços próprios de assistência

hospitalar e ambulatorial5.

Outra estratégia de ampliação das bases de sustentação,

ou de legitimação6, consistiu no discurso do governo Vargas de

constituição do “homem novo”, em que a proteção à maternidade

e à criança assumiu destaque. Lembremo-nos que desde os anos

precedentes ao surgimento da legislação social, a “bancada

gaúcha” (abordada brevemente no cap. 2) defendia ou aceitava

a proteção a esse grupo.

O órgão responsável pela implementação da política

materno-infantil, progressivamente, acumulou forças,

diferenciando-se e autonomizando-se em relação ao DNS. Esse

órgão central, dirigido por um gaúcho, Olinto de Oliveira, teve

no Hospital, a nosso ver, o seu braço fundamental.

A autonomização progressiva de que falamos se expressa

nessa cronologia. Quando, em 1930, foi criado o Ministério da

Educação e Saúde Pública 7 , este incorporou o Departamento

Nacional de Saúde Pública (DNSP), que abrigava a Inspetoria de

5 OLIVEIRA e TEIXEIRA (1985, p. 183-184).


6 Segundo FONSECA (1990).
46

Higiene Infantil. A partir da estrutura da Inspetoria de

Higiene Infantil deu-se a criação da Diretoria de Proteção à

Maternidade, à Infância, em 34 8 ; esta foi transformada em

Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância em 1937 9 ,

subordinada ao Departamento Nacional de Saúde (DNS). Em 1940,

a Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância foi extinta e

criado o Departamento Nacional da Criança 10 , subordinado

diretamente ao Ministro da Educação e Saúde.

A política nacional de saúde11, cuja emergência é situada

por diversos autores12 a partir dos anos 30, mesmo tendo caráter

“restrito”, devido à limitada amplitude da cobertura

populacional e às limitações nos aspectos técnicos e

financeiros da estrutura organizacional (BRAGA e GÓES DE PAULA,

1986, p. 52), também no que tange à maternidade e à infância,

7 O Ministério da Educação e Saúde Pública (MESP)foi criado com o Decreto


n.º 19.402, de 14 de novembro de 1930.
8 Pelo do Decreto n.º 24. 278, de 22 de maio de 1934, a Inspetoria foi extinta

e criada a Diretoria de Proteção à Maternidade e à Infância. Para a sua


criação, contribuíram os debates ocorridos durante a Conferência Nacional
de Proteção à Infância, em setembro de 1933, no Rio de Janeiro. Os debates
focalizaram a atuação federal, estadual e municipal e os grupos privados
na construção de uma programa de proteção materno-infantil. Não houve
consenso quanto às atribuições da futura Diretoria. “A Conferência Nacional
contou com a participação de delegados de todos os estados e de
representantes das instituições particulares” (artigo “VAMOS LER”, autoria
e fonte ignoradas, apud GESTEIRA, 1945, p. 656).
9 Pela Lei n.º 378, de 13 de janeiro de 1937, a ser abordada em separado,

a seguir.
10 A Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância foi extinta pelo

Decreto-Lei n.º 2.024, de 17 de fevereiro de 1940, que também criou o


Departamento Nacional da Criança (DNC). Este Decreto-Lei será abordado em
separado, a seguir.
11 Dos anos 30 a meados da década de 60, a política de saúde e sua

implementação organizaram-se em dois subsetores: o da Saúde Pública e o


da Medicina Previdenciária. O primeiro predominou até meados da década de
60. O segundo ampliou-se significativamente a partir de fins da década de
50 e, em termos de política estatal de saúde, assumiu predominância a partir
da segunda metade dos anos 60 (BRAGA e GÓES DE PAULA). MERHY e QUEIROZ (1993)
afirmam que, apesar da predominância do subsetor da Saúde Pública, “desde
o final dos anos 40, já era evidente uma inversão dos gastos públicos,
favorecendo a assistência médica em relação à saúde pública”.
12 Dentre os quais: BRAGA e GÓES DE PAULA (1986, p. 52-55) e AURELIANO e

DRAIBE (1989).
47

expressou-se simultaneamente em “diferentes setores além do da

saúde: como na educação, na justiça e no trabalho” (FONSECA,

1990 p. 6).

Do lado do Ministério da Educação e Saúde Pública, desde

o fim do Governo Provisório, em 1934, as ações de saúde pública

desenvolviam-se sob a ótica das “campanhas” 13 , coordenadas

centralmente.

Os programas de saúde pública, incluindo-se aí a proteção

materno-infantil, mesmo dominantes em relação à política de

saúde, são vistos como limitados em relação às necessidades da

população e o modelo sanitarista “campanhista” adotado, por

demais oneroso devido a seus altos requisitos técnicos (BRAGA

e GÓES DE PAULA, 1986, p. 53).

Sob os impulsos centralizador e das campanhas


sanitárias, organizou-se essa área de intervenção do
Estado, teoricamente, expressando um modo
universalista público de estender o atendimento de
massas - as chamadas medidas de Saúde Coletiva
(AURELIANO e DRAIBE, 1989).

A partir dos anos 30, todo o subsetor de saúde pública

apresentou, no nível institucional, um forte movimento de

centralização e departamentalização com diversificação de

ações.

13 Interrompidas no período 30-34, as campanhas foram retomadas após 35.


48

Exemplos dessa centralização e departamentalização são a

criação do Serviço Nacional de Febre Amarela (1937), do Serviço

de Malária do Nordeste (1939) e do Serviço Especial de Saúde

Pública durante a II Guerra Mundial. Também no período 30-49,

o Ministério assumiu a preparação dos técnicos de saúde pública

e de puericultura.

As ações especificamente voltadas para a área

materno-infantil tinham por base, desde a República Velha, um

modelo fundado no liberalismo cristão, do qual o Instituto de

Moncorvo Filho tinha sido a expressão mais viva.

Paulatinamente, à medida que esse modelo vai sendo criticado,

por ineficaz, é veiculada a necessidade de uma maior

intervenção do Estado. Foi ocorrendo uma “sintonia” entre as

propostas do Estado e dos puericultores. O tom predominante no

discurso é o da “cooperação social”. Mas tal cooperação deveria

seguir as regras ditadas centralmente pela burocracia médica

governamental que detinha o conhecimento científico (PEREIRA,

1992, p. 80) e o controle das subvenções a serem concedidas às

organizações particulares.

No Distrito Federal houve uma ampliação da oferta de

serviços de atenção materno-infantil, principalmente na área

obstétrica. Em 1932, existiam 300 leitos de maternidade para

37.000 partos anuais (GESTEIRA, 1945, p. 422). Na primeira

metade da década de 40, o número total de leitos obstétricos,

públicos e privados, no Distrito Federal é de 1018,

distribuídos conforme demonstrado no QUADRO 2.


49

A atenção materno-infantil apresentou movimento de

centralização crescente até o final do governo Getúlio. A

partir de 1946, o quadro transformou-se um pouco com o tom

normatizador em relação às demais esferas governamentais sendo

bastante abrandado.

No bojo do movimento de centralização e

departamentalização do subsetor de saúde pública, para efeito

de nosso estudo, assumem relevância as reformas de 1937 e de

1941, no âmbito do Ministério da Educação e Saúde, que

abordaremos a seguir.
50

QUADRO 2

MATERNIDADES EXISTENTES NO DISTRITO FEDERAL 1942

MATERNIDADES NÚMERO DE
LEITOS
Hospital Maternidade Cascadura 36
Hospital Carlos Chagas 34
Hospital Getúlio Vargas 20
Hospital São Francisco de Assis 31
Hospital Miguel Couto 22
Hospital São Sebastião 55
Hospital Ilha do Governador 4
Hospital Pedro II 27
Policlínica de Copacabana 3
Santa Casa 82
Hospital São João Batista 16
Maternidade de Emergência do 80
Pronto Socorro
Hospital Arthur Bernardes 29
Maternidade das Laranjeiras 120
Maternidade Santo Antônio 14
Hospital Pró-Matre 105
Hospital Hanemaniano 23
Policlínica de Botafogo 36
Policlínica Geral 23
Maternidade Pedro Ernesto 24
Maternidade Arnaldo de Morais 16
Maternidade de Jacarepaguá 21
Maternidade de Olaria 21
Maternidade de Madureira 25
Maternidade de São Cristovão 24
Maternidade de Zágari 24
Casa de Saúde São José 14
Maternidade São Luiz 14
Maternidade do Hospital 104
Gaffrée-Guinle
TOTAL DE LEITOS 1087

Fonte: Martagão Gesteira, 1945 (p. 422)


51

3.2 - A CRIAÇÃO DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE

Após a eleição indireta de Vargas em 1934 e a promulgação

da nova Constituição Federal, Gustavo Capanema assumiu o cargo

de Ministro da Educação e Saúde Pública em 26/07/34 14 . Em

outubro de 35, o Ministro enviou ao Congresso o Plano de

Reorganização do Ministério da Educação e Saúde Pública. Este

só veio a ser aprovado em 1937, quando o Ministério passou a

denominar-se Ministério da Educação e Saúde.

O Plano de Reorganização do Ministério da Educação e Saúde

Pública, consubstanciou-se na Lei n.º 378, de 13 de janeiro de

1937. Com esta lei, além da fixação das competências dos órgãos

do Ministério da Educação e Saúde, foram instituídos o Conselho

Nacional de Saúde 15 (art. 67), as Conferências Nacionais de

Educação e de Saúde (art. 90) e os Fundos Nacionais de Educação

e de Saúde (art. 91).

Para o Conselho Nacional de Saúde seria necessária a

regulamentação, por lei especial a ser elaborada, de sua

composição, funcionamento e competências.

As Conferências Nacionais de Saúde, a serem convocadas

pelo Presidente da República, no máximo a cada dois anos, teriam

a participação das autoridades administrativas do Ministério,

14 Após a queda de Vargas, em 45, Gustavo Capanema deixou o Ministério da


Educação e Saúde, sendo substituído por Raul Leitão da Cunha, nomeado pelo
novo Presidente, José Linhares.
15 O Conselho Nacional de Educação já tinha sua regulamentação pela Lei n.º

174, de 6 de janeiro de 1936.


52

dos governos dos estados, do Distrito Federal e do território

do Acre.

Os recursos do Fundo Nacional de Educação estavam

previstos na Constituição (art. 157, parágrafo 1º), enquanto

os do Fundo Nacional de Saúde compreendiam os “ora destinados

aos serviços de saúde pública e assistência médico-social, e

de outros que, para o mesmo fim, venham a ser criados”.

A Lei n.º 378 determinou uma nova estrutura organizacional

para o Ministério da Educação e da Saúde, em que foram

destacados órgãos de direção e de execução.

Dentre os primeiros figuravam: o Gabinete do Ministro, os

órgãos de administração geral, os órgãos de administração

especial e os órgãos complementares. Os órgãos de administração

especial eram os Departamentos Nacionais de Educação e de

Saúde.

Ao Departamento Nacional de Saúde “incumbirá a

administração das atividades relativas à saúde pública e à

assistência médico-social, que sejam de competência do

Ministério” (Lei n.º 378, de 13 de janeiro de 1937, art. 13).

A nova departamentalização explicitou as quatro grandes

áreas de atuação do Departamento Nacional de Saúde, as quais

consolidaram-se como Divisões: Saúde Pública, Assistência

Hospitalar, Assistência a Psicopatas e Amparo à Maternidade e

à Infância (ibidem, art. 14).

Com a nova lei, o país foi dividido em oito regiões

(ibidem, art. 4), para efeito da administração dos serviços do

Ministério da Educação e Saúde. Em cada uma das regiões, exceto


53

o Distrito Federal, foi estabelecida uma Delegacia Federal

(ibidem, art. 28 e 29), como órgão de execução16, em nível de

serviço intermediário.

Dentre as competências das Delegacias Federais de Saúde

figuravam: “fazer a inspeção dos serviços federais de saúde”

e “superintender as atividades que se tornarem necessárias à

efetivação da colaboração da União nos serviços locais de saúde

pública e de assistência médico-social” (art. 31). Com isso,

o Departamento Nacional de Saúde (DNS) assumiu a coordenação

dos órgãos estaduais de saúde, procedendo à sua uniformização,

num esforço centralizador.

Com a extinção da Diretoria de Proteção à Maternidade e

à Infância (art. 126), foi criada a Divisão de Amparo à

Maternidade e à Infância, por onde

correrá a direção dos serviços relativos à


maternidade e à saúde da criança, de caráter
nacional, bem como dos que, de caráter local, sejam
executados pela União... Competir-lhe-á ainda
promover a cooperação da União nos serviços
locais, por meio do auxílio e da subvenção
federais, fiscalizando o emprego dos recursos
concedidos. (art. 18)

16 Como órgãos de execução figuram, além dos serviços intermediários


(Delegacias Federais), os serviços relativos à saúde e os serviços
auxiliares (art. 27).
54

À Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância competia

orientar, dirigir e executar as atividades relativas à higiene

da criança, por intermédio do Serviço de Puericultura do

Distrito Federal (art. 56, parágrafo 3º), mesmo quando

ministradas nos Centros de Saúde. As únicas atividades que se

constituíam em exceção, permanecendo na esfera do Serviço de

Saúde Pública do Distrito Federal foram as “concernentes à

profilaxia da lepra e da tuberculose” (ibidem, parágrafo 1º).

O Serviço de Puericultura17 foi criado, para “atender às

necessidades relativas ao amparo e à maternidade e à criança,

no Distrito Federal” (art. 60). É importante notar que os

Centros de Saúde integravam o Serviço de Saúde Pública do

Distrito Federal, subordinado à Divisão de Saúde Pública.

A Lei n.º 378 também previa que “nenhuma despesa se fará,

em qualquer serviço do Ministério da Educação e Saúde, em

virtude de orçamento interno, à parte”, ao mesmo tempo em que

a renda de qualquer serviço se incorporará


obrigatoriamente ao orçamento da receita,
incluindo-se no da despesa as dotações necessárias
ao custeio de todas as suas atividades. (Lei n.º
378, de 13 de janeiro de 1937, art. 96)

A mesma lei criou o Instituto Nacional de Puericultura

(ibidem, art. 54), como serviço de investigação, destinado a

“realizar estudos, inquéritos e pesquisas sobre os problemas

relativos à maternidade e à saúde da criança”. O Executivo foi,


55

também, autorizado a efetuar despesas com a obras e

instalações, dentre outras, desse Instituto (ibidem, art.

116).

A estrutura básica do Ministério da Educação e Saúde, no

que diz respeito ao campo da saúde pública, foi, em grande

parte, mantida quando da criação do Ministério da Saúde, em

1953. Trataremos disto no capítulo 4.

17O Serviço de Puericultura foi instalado no Hospital Arthur Bernardes.


Para a sua direção foi designado o Dr. Mário Olinto de Oliveira (PEREIRA,
1992, p. 120).
56

3.3 - A CRIAÇÃO DO DEPARTAMENTO NACIONAL DA CRIANÇA

A Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância, extinta

em 1940, deu lugar ao Departamento Nacional da Criança,

subordinado diretamente ao Ministro da Educação e Saúde, por

meio do Decreto-Lei n.º 2.024, de 17 de fevereiro de 1940.

Aí estabeleceu-se uma espécie de grande


divergência que perdurou por toda a década de 40,
entre a saúde pública e a criança, ou seja, entre
o Departamento Nacional de Saúde e o Departamento
Nacional da Criança. O Departamento Nacional de
Saúde tinha como instituição de referência o
Instituto Oswaldo Cruz18 e o Departamento Nacional
da Criança, o Hospital. Foi uma luta porque os
sanitaristas achavam que o comando da saúde
pública tinha que ser um só. Essa luta pela
afirmação da maternidade e infância e a saúde
pública durou 10 anos... (depoimento de médico
puericultor)

A luta era personificada em seus expoentes, Olinto


de Oliveira e Barros Barreto19. Mas o objetivo não
era dividir em dois, mas sim criar uma mentalidade
nacional a respeito do grande e grave problema
materno-infantil. (depoimento de médico
puericultor)

Com o Decreto-Lei n.º 2.024 foram fixadas as bases da

organização da proteção à maternidade, à infância e à

18 O Instituto Oswaldo Cruz, a essa época, encontrava-se na esfera do


Departamento Nacional de Educação, figurando na Lei n.º 378 como
instituição de educação extra-escolar.
19 A disputa entre Barros Barreto e Olinto de Oliveira foi abordada como

um conflito entre o Departamento Nacional de Saúde e o Departamento Nacional


da Criança (FONSECA, 1990, p. 84 - 88). É possível que essa disputa tenha
se iniciado ainda na época da Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância,
visto terem sido estabelecidas na Lei n.º 378 (art. 56 e 60) as atribuições
e competências do Serviço de Puericultura do Distrito Federal.
57

adolescência, embora a estrutura organizacional do

Departamento só tenha sido explicitada em 194120.

Na organização da proteção materno-infantil as

instituições particulares e filantrópicas seriam estimuladas

pelo Estado.

Os poderes públicos ... estimularão, em todo o


país, a organização de instituições particulares
que se consagrem, de qualquer modo, à proteção à
maternidade, à infância e à adolescência, e com
elas cooperarão da maneira necessária a que tenham
as suas atividades desenvolvimento progressivo e
útil. (Decreto-Lei n.º 2.024, de 17 de fevereiro
de 1940, art. 3º)

Esse estímulo às organizações particulares constitui-se

em uma das competências do Departamento Nacional da Criança

(DNC), que devia “promover a cooperação da União com as

instituições de caráter privado, mediante a concessão da

subvenção federal...” (ibidem, art. 6º, alínea e).

Na medida em que determina que o DNC ”será o supremo órgão

de coordenação de todas as atividades nacionais relativas à

proteção à maternidade, à infância e à adolescência” (ibidem,

art. 5º), estabelece que o Conselho Nacional do Serviço Social

(C.N.S.S.) “cooperará com o DNC no estudo das questões

relativas à proteção à maternidade, à infância e à

adolescência” (grifo nosso).

O Decreto-Lei n.º 2.024 também determina que:

20 Conforme veremos adiante, essa estruturação só se instituirá com o


Decreto-Lei n.º 3.775, de 30 de outubro de 1941, o qual será tratado
juntamente com a história do Hospital no período.
58

será organizado, como dependência do Ministério da


Educação e Saúde e para cooperar com o Departamento
Nacional da Criança, sob sua direção, um instituto
científico destinado a promover pesquisas
relativamente à higiene e medicina da criança.
(ibidem, art. 14º)

Esse instituto articular-se-ia com outros a serem criados

pelos estados, na medida das suas disponibilidades financeiras

(art. 15º).

O Decreto-Lei n.º 2.024 estabeleceu a cooperação dos

órgãos administrativos de proteção à maternidade, à infância

e à adolescência com a Justiça de Menores, “de modo regular e

permanente, afim21 de que se assegure à criança, colocada por

qualquer motivo sob a vigilância da autoridade judiciária, a

mais plena proteção” (art. 16º).

Para a execução das ações de proteção à maternidade, à

infância e à adolescência, além de recursos orçamentários,

definidos apenas como “os recursos necessários”, da União, dos

Estados e dos Municípios, é instituído um fundo nacional de

proteção à criança formado por:

donativos especiais e por contribuições regulares


anuais de quantos (pessoas naturais ou jurídicas
de direito privado) queiram cooperar na obra de
proteção à maternidade, à infância e à
adolescência, e bem como outros legados que forem
constituídos com esta finalidade e por quaisquer
outros recursos de proveniência particular.
(ibidem, art. 19º)

21 Grafia original.
59

Exceto quando a “doação” não tivesse destinação

específica, os recursos do fundo, administrados pelo DNC,

cobririam despesas de “reforma, melhoramento, ou ampliação dos

estabelecimentos particulares de proteção..., bem como as de

construção de novos estabelecimentos particulares com a mesma

finalidade”(ibidem, art. 18º e 19º).

Segundo a fala de seu dirigente em julho de 1945, ao

ressaltar a preocupação do Presidente Getúlio Vargas com os

problemas da infância e da maternidade, o Departamento Nacional

da Criança (DNC) tinha como atribuições:

coordenar as atividades nacionais relativas à


proteção à maternidade, à infância e à
adolescência, não só quanto à saúde, mas
igualmente em relação ao bem-estar, à alegria de
viver, à preservação moral, à satisfação dos seus
direitos essenciais, dotando-o ao mesmo tempo da
autoridade e dos recursos indispensáveis para
atuar eficazmente em todo o território
nacional.... (Olinto de Oliveira apud FONSECA,
1990, p.80)

A autoridade conferida pelo Decreto-Lei n.º 2.024 ao

Departamento Nacional da Criança é inegável. A criação do DNC,

seu caráter autônomo em relação às demais atividades de saúde

pública e o discurso enfático de seus dirigentes no sentido de

que a proteção à infância, à maternidade e à adolescência

requeriam um enfoque social mais amplo, não apenas restrito à

função curativa (higiênica), revelam uma postura que se


60

traduziu nas atividades desenvolvidas, até 1945, por esse

órgão:

...realização de inquéritos sobre mortalidade


infantil, sobre menores abandonados e
delinqüência infantil; censo dos estabelecimentos
de assistência à maternidade, à infância e à
adolescência; instruções sobre a execução de
serviços; estudos de projetos de postos de
puericultura e hospitais infantis; realização de
cursos práticos de puericultura e de dietética
infantil em várias cidades do interior e cursos de
Aperfeiçoamento e Especialização de médicos sobre
assuntos relativos à proteção à maternidade, à
infância e à adolescência. (Gastão de Figueiredo
apud FONSECA, 1990, p. 84)

Sobre algumas realizações do DNC, encontramos um relato

por parte dos nossos entrevistados:

Conseguimos com os Diários Associados, de Assis


Chateaubriand, uma campanha nacional de
construção de postos de puericultura no país todo.
Criamos mais de 1.000 postos, com a filosofia de
não entregá-los ao governo local e sim a uma
associação local de proteção à maternidade e à
infância 22 . E essa, então administrava-os e
dirigia-os. Enquanto isto, os sanitaristas todos
em luta... (depoimento de médico puericultor)

A participação de Assis Chateaubriand, acionado por D.

Darcy Vargas, ocorreu na Campanha de Redenção da Criança,

lançada no Natal de 1943. Seu objetivo era levantar recursos

para a construção de Postos de Puericultura23, projeto do DNC.

22 Como exemplo temos a Associação de Amparo à Maternidade e à Infância,


entidade filantrópica e sem fins lucrativos localizada na cidade de Campo
Grande, Mato Grosso do Sul, fundada em 21 de janeiro de 1938. Esta
instituição funciona até hoje, na rua Marechal Cândido Rondon n.º 2644.
23 Com a Campanha foram construídos 151 postos e 78 maternidades, “enquanto

que, só com os recursos do Departamento Nacional da Criança, existiam, em


1946, 56 maternidades, 53 postos e 12 Casas da Criança” (PEREIRA, 1992,
p. 279).
61

A aproximação com a Legião Brasileira de Assistência (LBA),

dirigida por D. Darcy Vargas, teria sido uma estratégia do DNC

para suprir a escassez de recursos (PEREIRA, 1992, p. 278-279).

Por outro lado, no depoimento acima, destaca-se a

“filosofia de não entregá-los” à administração direta e sim a

uma organização fora do Estado.


62

3.4 - DE HOSPITAL ARTHUR BERNARDES A INSTITUTO (30-49)

Após a morte de Fernandes Figueira e a queda de Washington

Luís, o Hospital Arthur Bernardes passa por uma grave crise,

atribuída nos depoimentos a seguir à sua “incipiente

estruturação” ou à vinculação à política de governos

anteriores.

Essas hipóteses, fruto das visões de nossos

entrevistados, devem ser consideradas. Todavia, ressaltamos a

situação do país que, além da já abordada “crise de hegemonia

dos anos 30 a 37”, passava por uma crise econômica que se

prolongou até 33/34, com redução do gasto público na área

social.

Cabe-nos, neste sentido, destacar que não só o Hospital

foi afetado pela conjuntura adversa. Também há o declínio de

outras instituições, como o Instituto Oswaldo Cruz24.

Sobre a crise do Hospital, suas causas e a posterior

reabertura, nossos entrevistados revelam:

24 “O Instituto [Oswaldo Cruz] torna-se assim, progressivamente [a partir


de 1930], orquídea em pantanal, isolado na beleza de sua produção, desligado
aos poucos, da influência sobre a política sanitária global do país, que
passa a privilegiar, com o Estado Novo [37 a 45], o assistencialismo
previdenciário, e a exercer um controle bem mais cerrado sobre os
sanitaristas e suas propostas ... Muito da autonomia financeira do
Instituto de Manguinhos desaparece sob a centralização federal. A própria
produção “industrial” de vacinas do Oswaldo Cruz, que desde cedo
possibilitou o investimento em pesquisa, é desestimulada, freada,
transferida para outros órgãos ... Um eclipse político se estenderá durante
décadas sobre o Instituto de Oswaldo Cruz...” (LUZ, 1982, p. 213)
63

A partir da Revolução de 30, o Hospital enfrentou


uma crise e foi fechado, ficando restrito a um
pequeno ambulatório de pediatria. Foi reaberto e
reinaugurado por volta de 39. (depoimento de
médico que ingressou no Hospital em 1939, como
interno)

De 30 a 39, a crise foi muito forte porque o


Hospital estava ligado diretamente à política de
Washington Luís, que havia nomeado o Mário Olinto,
diretor. A nomeação de Mário Olinto para a direção
do Hospital deveu-se a seu prestígio. Ele era o
pediatra do filho de Washington Luís. E Washington
Luís perdeu a revolução... (depoimento de médico
puericultor)

Após a morte de Fernandes Figueira, o Hospital


fechou mas foi por falta de estrutura mesmo e de
poucos recursos. (depoimento de médico que
ingressou no Hospital em 1937)

Veio o grupo gaúcho para cá e o Hospital foi


praticamente fechado. Só em 39, pela influência do
Olinto de Oliveira, que tinha sido pediatra de
Getúlio no Rio Grande do Sul, é que foram
conseguidos recursos do Ministério da Educação e
Saúde, para que o Hospital fosse reaberto nas bases
em que ele funcionava anteriormente, com o nome de
Instituto de Higiene e Medicina da Criança. Teve
esse nome por pouco tempo e pouca gente sabe...
(depoimento de médico que ingressou no Hospital em
1939, como interno)

Entre os principais pontos do projeto da Comissão

Executiva da Conferência Nacional de Proteção à Infância 25 ,

coordenada por Olinto de Oliveira26, estava a constituição de

um Instituto de Higiene e Medicina da Criança, que seria

25 Conforme vimos anteriormente, realizada em setembro de 1933, no Rio de


Janeiro.
26 À época, Olinto de Oliveira dirigia a Inspetoria de Higiene Infantil.

Em 37, continuou à frente da Diretoria de Proteção à Maternidade e à


Infância, recém-criada.
64

vinculado à futura Diretoria de Proteção à Maternidade e à

Infância, constituída em 1934 (PEREIRA, 1992, p. 101).

Esse Instituto seria instalado no Hospital Arthur

Bernardes e teria enfermarias, ambulatórios, maternidade,

laboratórios, etc. Ocupar-se-ia do desenvolvimento de estudos

e pesquisas, além de promover a habilitação de pessoal técnico

(PEREIRA, 1992, p. 120).

Se o Hospital foi mesmo reaberto em 1939 com o nome de

Instituto de Higiene e Medicina da Criança, conforme um dos

depoimentos acima, disso não encontramos registro. Como o

Hospital Arthur Bernardes era historicamente vinculado ao

órgão que deu origem à Diretoria, é cabível que tenha tido, no

mínimo, essa pretensão. Por outro lado, havia o desejo de

retirar do Hospital o nome do ex-presidente27.

De 1935 a 1938 o Hospital sofreu reformas, provavelmente

com o intuito de transformá-lo no Instituto de Higiene e

Medicina da Criança. Contudo, quando as reformas foram

concluídas, pensou-se na sua transferência para a

Municipalidade. A transferência só não ocorreu devido à Olinto

de Oliveira, que se reportou diretamente a Vargas (PEREIRA, op.

cit., p. 120).

Conforme vimos anteriormente, o Hospital Arthur Bernardes

abrigava o Serviço de Puericultura do Distrito Federal,

dirigido por Mário Olinto de Oliveira.

27Cf. Matéria de O Globo (QUEM QUER APRENDER A SER MÃE? UMA VISITA...
Procurando retirar desse estabelecimento o nome do Presidente calamitoso),
citada no capítulo anterior.
65

Para a direção do Instituto de Higiene e Medicina da

Criança, localizado ou a localizar-se no Hospital Arthur

Bernardes, Olinto de Oliveira convidou Martagão Gesteira.

Este, no entanto, apresentou-lhe, em 1936, a alternativa de

criação de um Instituto de Puericultura, a ser construído

(PEREIRA, 1992, p. 121).

O próprio Martagão afirmou que veio para o Rio de Janeiro,

em 1937, “acedendo aos apelos do Governo Federal” (GESTEIRA,

1945, p. 635). No mesmo ano, foi criado no Distrito Federal um

Instituto de Puericultura ligado à área universitária 28 ,

denominado Instituto Nacional de Puericultura, cuja direção

lhe foi confiada.

Ainda em 1937, a cadeira de Pediatria da Universidade do

Brasil foi desmembrada nas de Puericultura e Pediatria da 1ª

Infância e Clínica Pediátrica Médica29. A primeira foi ocupada

por Martagão.

Começou uma divergência política entre os Olinto


e os Gesteira. Posteriormente, o Martagão foi
adquirindo mais prestígio, até que no governo
Dutra, mais ou menos em 1946, na administração do
Clemente Mariani, ele veio a ser diretor do DNC
(depoimento de médico puericultor).

28 Com a Lei n.º 378, de 13 de janeiro de 1937, foram criados a Universidade


do Brasil e o Instituto Nacional de Puericultura, a ela vinculado. A
Universidade do Brasil conformou-se pela reunião da Universidade do Rio
de Janeiro e a Universidade Technica Federal (artigo 34).
29 A Lei n.º 586, de 9 de novembro de 1937, fixa que “para o provimento da

cadeira de Puericultura e Pediatria da 1ª Infância, ..., fica o Poder


Executivo autorizado a transferir um dos professores catedráticos, que
tenham concurso de cadeira afim, pertencentes ao corpo docente de qualquer
das Faculdades de Medicina Federais.”(art.2)
66

O Hospital que havia desejado ser Instituto de Higiene e

Medicina da Criança estava ameaçado de passar para a

municipalidade. O Serviço de Puericultura do Distrito Federal

(integrante da Divisão de Amparo à Maternidade, à Infância e

à Adolescência) que ele abrigava, progressivamente, vinha

sendo esvaziado de suas funções.

O conflito que só aflorou na década de 40, quando da

autonomização do DNC, entre Olinto de Oliveira e Barros Barreto

(FONSECA, 1990, p. 84), provavelmente estava se dando desde o

final dos anos 30, em conseqüência das funções do Serviço de

Puericultura do distrito Federal. Martagão Gesteira tinha um

aliado potencial, Barros Barreto.

Porque o Hospital Arhtur Bernardes queria ter o


nome de Instituto Nacional de Puericultura? Porque
ele era a referência para o Ministério da Educação
e Saúde. Se era referência para o Ministério, era
federal. Era nacional como ainda hoje é, o único
hospital federal para a área materno-infantil. E
naquele tempo, então, ele tinha todas as razões
para se sentir diminuído, quando alguém, que
tivesse a prerrogativa que tinha o Martagão
Gesteira de criar o Instituto de Puericultura
ligado à Faculdade de Medicina. Este é o resumo do
embate. (depoimento de médico que ingressou no
Hospital como interno, em 1939)

O conflito pelo monopólio da assistência materno-infantil

pública federal no Rio de Janeiro, explicitado no depoimento

acima, estava instalado. Era um conflito entre as competências

do Hospital e do Instituto de Puericultura. E um conflito com

algumas das competências do DNC, só que com outra lógica, a da

padronização, conforme se pode depreender da citação abaixo,


67

onde Martagão Gesteira define as finalidades do Instituto por

ele idealizado.

1ª) Realizar estudos e investigações sobre todos


os problemas que interessam à higiene e à saúde da
criança, de modo não só a colaborar na solução dos
pontos obscuros da fisiologia, da higiene e da
patologia infantil, como, sobretudo, no intuito de
esclarecer os poderes públicos sobre as soluções
mais práticas e mais adequadas ao nosso meio para
os vários problemas relacionados com a vida do
menino.
2ª) A de difundir e propagar as noções básicas de
higiene infantil, esforçando-se pelo preparo das
futuras mães e pela formação de técnicos em
puericultura, mirando o combate à mortalidade
infantil. (GESTEIRA, 1945, p. 636-637)

Uma terceira finalidade do Instituto Nacional de

Puericultura, dita acessória, seria a de “padronizar as obras

de assistência à infância a serem levadas a efeito entre nós,

pela iniciativa oficial ou privada” (ibidem, p. 638).

As obras do Instituto Nacional de Puericultura de Martagão

Gesteira foram iniciadas, na Praia Vermelha, ao lado da

Faculdade de Medicina30.

30O Instituto Nacional de Puericultura, de Martagão Gesteira, desenvolvia


atividades no Laboratório de Biologia Infantil no Consultório de Higiene
Infantil da Gamboa, já em outubro de 1937. Após o lançamento da pedra
fundamental na Praia Vermelha, teve uma sede provisória localizada na rua
Voluntários da Pátria. Com a incorporação à Universidade é que passou a
se chamar apenas Instituto de Puericultura (Decreto-Lei n.º 98, de 23 de
dezembro de 1937, apud PEREIRA, 1992, p. 121-122). O atual Instituto de
Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira da UFRJ mantém em seu acervo
prontuários da década de 30.
68

Pouco depois, inicia-se a discussão sobre a construção do

Campus Universitário do Fundão31. Gustavo Capanema queria que

o Instituto de Puericultura fosse para o Campus. Martagão

insistia em mantê-lo na Praia Vermelha para facilitar o acesso

aos cursos.

Mas o Prof. Martagão era persistente... o


Instituto de Puericultura foi para o Fundão. E ele
ficou lá, trabalhando. Acho que era o único prédio
do Campus... (depoimento de médico que ingressou
no Hospital em 1937)

O decreto que estruturou o Departamento Nacional da

Criança32 veiculou a extinção do Instituto de Puericultura da

Universidade do Brasil, recriando o Instituto Nacional de

Puericultura.

Este decreto, ... restabeleceu o nome anterior de


Instituto Nacional de Puericultura, dando-o,
porém, ao antigo Hospital Artur Bernardes.
Oxalá possa vir algum dia este estabelecimento a
desempenhar, com eficiência, as grandes
atribuições que assim lhe devem caber, agora, na
alta e patriótica cruzada de redenção da criança
brasileira. (GESTEIRA, 1945, p. 640)

31 A Lei nº 447, de 20 de outubro de 1948, autorizava a abertura de créditos


para fazer frente ao pagamento de indenizações pelos terrenos da Ilha do
Fundão e do aterramento para a construção da Cidade Universitária.
Encontramos, também, legislação anterior sobre o assunto: Decreto nº
18.077, de 15 de março de 1945, Decreto-Lei nº 7.563 de 21 de maio de 1945,
Decreto-Lei nº 7.217, de 30 de dezembro de 1944.
32 Trata-se do Decreto-Lei n.º 3.775, de 30 de outubro de 1941, que dispõe

sobre a organização do Departamento Nacional da Criança e dá outras


providências. O DNC ficou composto dos seguintes órgãos: Divisão de
proteção Social da Infância, Divisão de Cooperação Federal, Instituto
Nacional de Puericultura e Serviço de Administração.
69

O texto do Decreto-Lei n.º 3.775, de 30 de outubro de 1941,

em relação à constituição do Instituto Nacional de Puericultura

diz o seguinte:

Ficam incorporados ao Instituto Nacional de


Puericultura o Hospital Arthur Bernardes e o
Instituto de Puericultura da Universidade do
Brasil (Decreto-Lei n.º 3.775, op. cit., art. 1,
parágrafo 1º).

O cargo de Diretor do Hospital Arthur Bernardes 33 foi

transformado no de Diretor do Instituto Nacional de

Puericultura e a função gratificada de 9:600$0 anuais

anteriormente percebida pelo professor catedrático de

Puericultura e Clínica da Primeira Infância, na direção do

Instituto de Puericultura, foi extinta (Decreto-Lei n.º 3.775,

de 30 de outubro de 1941).

Na prática, da incorporação do Instituto de Puericultura

resultou a vinda de alguns médicos para o Hospital, que passou

a Instituto Nacional de Puericultura.

Na gestão de Mário Olinto, temos o primeiro registro,

embora não necessariamente a primeira ocorrência, de aporte de

verbas não-governamentais ao Hospital.

33Ocupado pelo Dr. Mário Olinto, que tinha sido assistente de Antônio
Fernandes Figueira na Policlínica de Crianças, era médico dos netos de
Getúlio Vargas e filho de Olinto de Oliveira. Segundo um dos depoentes,
confirme vimos, Mário Olinto assumiu a direção do Hospital nomeado por
Washington Luís. Outro afirma que a nomeação foi feita por Getúlio.
70

Vi a mudança de nome. Era Hospital Abrigo Arthur


Bernardes e depois, Instituto Nacional de
Puericultura... Quando estudante do 2º ano de
medicina, vim procurar o Dr. Mário Olinto, diretor
do Hospital... Como o Hospital só aceitava
estudantes após o 4º ano, ele permitiu-me
frequentar o laboratório... Lembro-me que uma vez
fui colher sangue na casa de Jandira, mulher de
Lutero Vargas, na Senador Vergueiro, quando o
menino esteve doente... Havia um financiamento
estatal, mas uma boa verba procedia de doações. Por
exemplo, a indústria HIME, de metalurgia, equipou
o Banco de Sangue. (depoimento de médica que
ingressou no Hospital em 1941)

Como o Hospital gozava de prestígio científico e possuía

um corpo clínico de excelência, não era incomum, a despeito de

sua clientela-alvo serem as classes sociais mais baixas, que

fosse procurado pelas elites, particularmente quando o caso

apresentava alguma gravidade.

A clientela atendida era muito pobre. O pátio do


hospital parecia o Pátio dos Milagres, todos muito
mal-vestidos, muitos descalços, muito pobres
mesmo... Senhoras da sociedade vinham, com
freqüência, para trabalhar como voluntárias.
(depoimento de médica que ingressou no Hospital em
1941)

Quando criança fui muito àquele hospital... Era


cliente do Dr. Rinaldo Delamare, no consultório,
mas quando o caso era sério, minha mãe me levava
ao Fernandes Figueira. (depoimento espontâneo de
cliente, referindo-se à década de 50)

A “vocação” do Hospital para a preparação de recursos

humanos para a atenção materno-infantil, que desde o início se

manifestou, foi sendo reforçada nos anos seguintes, em parte,

pela proximidade entre esse e o DNC:


71

Desde o início havia o internato e, em 1940,


começaram os chamados cursos de extensão
universitária. Estes eram dados por professores da
Universidade que tinham atribuição legal para tal.
Os cursos de Obstetrícia pelo Prof. Clóvis Corrêia
da Costa, os de Pediatria pelo Dr. Cezar Pernetta
e Dr. Lages Neto, curso de Higiene Infantil, Curso
de Nutrição, etc. Depois é que foi criado o Curso
de Administração e Puericultura34. Era um curso
paralelo ao de saúde pública, com duração de 12
meses e tese ao final.. O meu título é de
Puericultor, médico puericultor. (depoimento de
médico)

Existiam os Cursos do DNC para médicos. Vim


trabalhar nos que preparavam Auxiliares de
Obstetrícia e de Puericultura, em seis meses, para
atendimento ambulatorial. (depoimento de
enfermeira)

Os cursos eram, em sua grande maioria, do DNC. Entretanto,

eram ministrados com expressiva participação de técnicos do

Instituto Nacional de Puericultura, denominação do Hospital à

época.

Havia uma proximidade, física35 e funcional, com o órgão

responsável pela proteção à maternidade e à criança, até o

início da gestão de Martagão Gesteira à frente do DNC. Quanto

34 O Decreto-Lei n.º 4.730, de 23 de setembro de 1942, dispôs sobre a


organização no DNC de um “curso de puericultura e administração de serviços
de amparo à maternidade, à infância e à adolescência”. A duração do primeiro
curso era de 4 meses. Este decreto-lei previa: pagamento de passagens de
ida e volta e de bolsas para candidatos de fora do Distrito Federal;
possibilitava o remanejamento de servidores e a contratação de
extra-numerários. Com o Decreto-Lei n.º 5.912, de 25 de outubro de 1943,
a área de cursos do DNC foi reorganizada, mantendo-se o Curso de
Puericultura e Administração e agregando-se duas outras finalidades: o
aperfeiçoamento e a especialização de médicos para os serviços concernentes
ao DNC e a formação de pessoal habilitado a executar serviços técnicos
auxiliares.
35 A Inspetoria de Higiene Infantil, como vimos, localizava-se contígua ao

Hospital Arthur Bernardes. Essa localização foi mantida pelo órgão


materno-infantil. Mais tarde, ao lado da residência das alunas-enfermeiras
(antigo Hotel Sete de Setembro) foi construído um prédio para abrigar o
Departamento Nacional da Criança. Esse novo prédio, na década de 70, será
denominado Pavilhão Mário Olinto (vide cap. 4).
72

à proximidade física, temporariamente, esta acabou36 no início

da nova gestão do órgão central materno-infantil.

No período em que Martagão Gesteira foi Diretor do


Departamento Nacional da Criança [a partir de
1946], a sede passou a ser na cidade, na rua Senador
Dantas. Inicialmente, era aqui, no prédio da
frente, cujo elevador ainda é o mesmo...
(depoimento de médica que ingressou no Hospital em
1939)

A sede se instalou na Rua Senador Dantas n.º 14, ocupando

o 10º, 11º e 12º pisos (Expediente dos ANAIS DO INSTITUTO

FERNANDES FIGUEIRA, ANO I, N.º 1, s/ data).

Quando Martagão assumiu a direção do DNC, já éramos


o Instituto Nacional de Puericultura. Mas como ele
queria esse Instituto lá com ele, resolveu mudar
o nome. Resta dizer da briga que houve e até hoje
perduram alguns resquícios. Eu não sei quem ganhou
a briga, acho que ela foi superada pelo tempo...
(depoimento de médico puericultor)

O Hospital, que era o Instituto Nacional de Puericultura,

durante alguns meses esteve incorporado à Universidade do

Brasil, pelo menos formalmente (Decreto-Lei n.º 8.687, de 16

de janeiro de 1946). O Decreto-Lei n.º 9.069, de 26 de março

de 1946, revogou o Decreto 8.687 (op. cit.) e dispôs que:

O Instituto Nacional de Puericultura, do


Departamento Nacional da Criança de que trata o
art. 1º do Decreto-Lei n.º 3.775 de 30 de outubro
de 1941, passa a denominar-se Instituto Fernandes
Figueira. (Decreto-Lei n.º 9.069, de 26 de março
de 1946, art. 1º)

36Após a saída de Martagão Gesteira do cargo de Diretor do DNC, a sede do


Departamento Nacional da Criança retornou ao Pavilhão Mário Olinto.
73

O Hospital passou a denominar-se Instituto Fernandes

Figueira e o antigo Instituto de Puericultura foi reincorporado

à Universidade do Brasil (Decreto-Lei n.º 9.069, de 26 de março

de 1946, art. 4º).

A partir de 1946, vão surgindo novas regulamentações em

relação ao DNC, tais como a Lei n.º 282, de 24 de maio de 1948;

o Decreto-Lei n.º 24.752, de 5 de abril de 194837 e o Decreto

n.º 26.690 de maio de 1949.

Com a Lei n.º 282, de 24 de maio de 1948, o DNCr 38 foi

reorganizado, reduzindo-se a sua influência, relativamente ao

Decreto-Lei que o criou. Essa limitação das atribuições

manifesta-se no art. 1º, pelas disposições que lhe retiram o

caráter anterior de “supremo órgão de coordenação de todas as

atividades nacionais” na área de proteção à maternidade e à

infância.

Quanto aos auxílios, contribuições e subvenções federais

cabia ao DNCr, já não mais a concessão, e sim

o estudo de critérios a serem adotados na concessão


de auxílios, contribuições ou subvenções
federais, para o êxito dessas atividades, e no
controle da aplicação de quaisquer recursos para
esse fim concedidos pela União ou decorrentes de
leis federais. (Lei 282 de 24 de maio de 1948, art.
1º)

37 Pelo Decreto, foram suprimidos dez cargos de médico puericultor “vagos


em virtude da promoção de: Anita Andrade Gomes Pereira, Hermes Afonso
Bartholomeu, Ivaldo matos Guerra, Júlio Cavalcante Lopes, Luís Alfredo
Correia da Costa, Menandro Tomaz Whately, Milton Cordovil, Newton Potsch
Magalhães, Odilon de Andrade Filho e Sarita Rabin Goldenberg”(art. 1º).
Destes, alguns pertenciam ao Instituto Fernandes Figueira.
38 Primeira legislação por nós encontrada em que a sigla do Departamento

Nacional da Criança aparece com a letra “r” ao final.


74

Quanto à “fiscalização, no país, das atividades

particulares que tenham por objeto a proteção da maternidade,

da infância ou da adolescência” (Lei n.º 282, op. cit.), a

interferência, no nível dos estados, por parte do DNCr, foi

restringida.

Mediante acordo entre a União e qualquer dos


estados poderá o DNCr orientar e fiscalizar os
órgãos locais de proteção à maternidade, à
infância e à adolescência, ou executar diretamente
no Estado os serviços que visem a esse fim. (Lei
n.º 282, de 24 de maio de 1948, art. 1º, parágrafo
1º)

O DNCr, pela Lei n.º 282, de 24 de maio de 1948,

encontrava-se constituído pelos seguintes órgãos: Divisão de

Organização e Cooperação; Divisão de Proteção Social;

Instituto Fernandes Figueira; Cursos do DNCr; Serviço de

Educação e Divulgação; Serviço de Estatística; Delegacias

Federais da Criança.

O Administrador do Instituto Fernandes Figueira

continuava a ser um cargo do nível central, no caso, do DNCr,

sendo que sua remuneração estava estipulada em Cr$6.000 anuais.

Foi criada uma função gratificada para a Enfermeira-Chefe do

Instituto Fernandes Figueira em valor correspondente àquela do

Administrador.

O Decreto n.º 26.690, de maio de 1949, manteve, em linhas

gerais, o disposto na Lei n.º 282, de 24 de maio de 1948, porém,

detalhou a estrutura organizacional dos órgãos que compõem o

DNCr.
75

A estrutura do Instituto Fernandes Figueira, por esse

Decreto, se compunha de: a) Seção de Puericultura: Creche,

Pupilheira, Escola Maternal, Refúgio de Gestantes, Abrigo

Maternal, Cantina, Consultório de Higiene Infantil, Gota de

Leite, Lactário e Cozinha Dietética; b) Seção de Pediatria:

Ambulatórios e Enfermarias de Clínica Médica e Cirúrgica; c)

Seção de Maternidade: Enfermarias de Obstetrícia e

Consultórios de Higiene Pré-Natal; d) Gabinetes de

Otorrinolaringologia, Oftalmologia, Dermato-Sifilografia,

Odontologia, Eletrodiagnóstico e Fisioterapia e Radiologia; e)

Laboratório; f) Banco de Sangue; g) Farmácia; h) Agência de

Serviço Social; i) Secretaria.

Muitas das atividades que cabiam especialmente ao

Departamento Nacional da Criança eram desenvolvidas no

Hospital ou por seus técnicos, embora tenha sido buscada uma

diferenciação entre as duas organizações.

Resumindo o relacionamento entre o Departamento Nacional

da Criança e o Hospital, temos os seguintes depoimentos:

Em uma certa época, o DNCr teve uma influência


muito grande e caráter nacional. Em vários estados
foram criados departamentos estaduais da criança.
Havia a preocupação de não atender muito ao
Instituto... (depoimento de médico puericultor)

Nesse período havia até um certo distanciamento do


DNCr, apesar do Instituto continuar a ser o seu
órgão de referência... Era responsabilidade do
Instituto dar os pareceres. Se havia uma
maternidade a ser instalada, quem dava o parecer
[assessoria], geralmente, era alguém do
Instituto... (depoimento de médico puericultor)
76

3.4.1 - O FUNCIONAMENTO DO HOSPITAL

Na década de 40 o Hospital viveu seu apogeu

técnico-científico, manifesto nas sessões do Centro de

Estudos, mais tarde denominado Olinto de Oliveira 39 , e nas

pesquisas clínicas e experimentais realizadas no cotidiano.

Sobre as sessões do Centro de Estudos temos o seguinte

depoimento:

O Centro de Estudos, era excelente... Reuníamo-nos


às quartas-feiras e não vinha gente só do Hospital,
não. Era conhecido no Rio todo, no mundo pediátrico
do Rio e vinha também gente de outras cidades...
Era sagrado, vinha o Mário Olinto com aquela turma
toda e almoçavam numa mesa grande... E nós, os
bagrinhos, nas mesas laterais... Mas eles
almoçavam na mesma sala que a gente. Então
conversavam e, logo depois, era a reunião... Era
uma coisa muito importante, mantinha o espírito de
pesquisa criado aqui por Fernandes Figueira.
(depoimento de médica que ingressou em 1941)

O ritual das sessões clínicas às quartas-feiras se manteve

por muito tempo40. Em maio de 1946 foi estabelecido formalmente

que ao Diretor do Hospital cabia convocar e presidir as sessões

39 Não pudemos precisar a época em que o Centro de Estudos passou a se


denominar “Olinto de Oliveira”. Sabemos que, em 1949, ele já tinha esta
denominação, que perdura até os dias atuais(Decreto n.º 26.690, de maio
de 1949). Olinto de Oliveira foi “aposentado” pelo Ministro Raul Leitão
da Cunha no curto governo de José Linhares (30 de outubro de 1945 a 31 de
janeiro de 1946), mais precisamente em dezembro de 1945.
40 Perdurou até a década de 90, quando o Centro de Estudos teve um

esvaziamento de suas funções, das quais boa parte foi absorvida pelo atual
Departamento de Ensino, formado com a reforma de estrutura. Esta, em linhas
gerais, perdura até hoje. A nosso ver, perdeu-se um importante ritual que
mantinha viva uma certa cultura institucional, na qual eram socializados
os novos servidores. Isto contribuía para a manutenção de um “orgulho
institucional”, manifestação de um sentimento de afiliação, de pertencer
à instituição.
77

do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (Decreto n.º 26.690,

op. cit.).

Sobre o Laboratório do Hospital no período:

O Laboratório era excelente. O chefe era o Dr.


Arlindo de Assis, cujo retrato você vê aqui na
parede... Um homem que trabalhou com o BCG oral e
salvou muitas vidas... Nessa época a tuberculose
era muito freqüente em material de autópsia,
principalmente a forma de meningite e de
peritonite. Depois do advento do BCG oral,
raramente se encontrava comprometimento do
sistema nervoso central. Arlindo de Assis também
trabalhava na Fundação Ataulfo de Paiva, mas dava
aqui o toque da pesquisa. (depoimento de médica)

O Laboratório do Hospital era excelente, dirigido


à rotina e à pesquisa. Trabalhei diretamente com
o Dr. Mário Mesquita, de quem guardo uma recordação
muito terna. Pretendia ficar só uns seis meses no
Laboratório e depois fazer clínica para,
posteriormente, voltar para o interior, trabalhar
na minha terra. No fim desse ano (1941), Dr.
Mesquita me disse: ‘acho que você tem jeito para
pesquisa, para laboratório e que não deve voltar
para o interior’. Retruquei: ‘a vida é muito
difícil, tenho dificuldades financeiras grandes,
tanto que agora nas férias voltarei para casa para
não ter que pagar pensão’. Ele me disse: ‘então
você vai, mas, aparecendo alguma coisa, eu
avisarei’. Voltei como laboratorista... Dr.
Mesquita todo dia chegava com uma idéia nova. O que
eu admirava nele era isso. Punha algo em
funcionamento e já partia para outro
empreendimento, sem descuidar do primeiro.
(depoimento de médica)

O direcionamento do Laboratório à rotina, entendida aqui

como a execução de exames solicitados, e à pesquisa era anterior

ao Decreto n.º 26.690 (op. cit., art. 19). Este formalizou uma

prática que existia, no mínimo, desde 1941.


78

Quanto às pesquisas realizadas no Hospital, uma, pelo

menos, teve repercussão em vários países. Trata-se da

simplificação da técnica de administração do BCG oral.

No Rio de Janeiro, a vacina BCG foi sempre


preparada com a amostra Moreau... Durante
1927/1959 um total de 821.922 recém-nascidos foi
imunizado... Em 1929, [Arlindo de] Assis começou
a aperfeiçoar o método oral, utilizando culturas
mais jovens de BCG-Moreau (14-16 dias), isto é,
bacilos mais viáveis. Começou também a empregar
três doses de 20 mg (o dobro das doses primitivas).
Essas duas alterações, então feitas pela primeira
vez no mundo, tornaram a vacina BCG muito melhor.
A vacina passou a determinar 85% de conversão
tuberculínica no 2º ou no 3º mês após a
administração. O seu poder protetor foi claramente
demonstrado. A morbidade específica (por
tuberculose) das crianças estudadas
(indubitavelmente expostas ao contágio) foi
reduzida à metade... A mortalidade específica das
mesmas crianças reduziu-se a um sexto... Em 1947,
Assis simplificou o método. Substituiu as três
doses por uma única de 100 mg. Em conseqüência, a
vacinação BCG expandiu-se. Hoje em dia, 97% dos
nascidos vivos são vacinados. A dose única de BCG
também é preferida atualmente na Argentina, no
Uruguai, em Cuba, na Espanha e em menor escala na
Tcheco-eslováquia. (OLIVEIRA, ANAIS DO IFF, ANO I,
N.º 1, S/ DATA)

Além da pesquisa sobre o BCG oral, outras foram destacadas

por nossos entrevistados:

Na década de 40 nós vivemos no Instituto o apogeu


na área de pesquisa. Aqui foi descoberta a
existência do raquitismo que, acreditava-se, não
ocorria nos países tropicais dada a ocorrência do
sol e de uma desnutrição protéica grave, mais
tarde chamada Kwarshiorkor, e que nós
denominávamos Distrofia Pluricarencial
Hidropgênica. (depoimento de médico puericultor)

No Instituto foi isolada a Salmonella Rio de


Janeiro, por Arlindo de Assis. Também foi feito um
trabalho sobre tétano umbilical... (depoimento de
médico puericultor)
79

Magalhães de Carvalho era um pediatra com formação


alemã que nos orientou durante três anos. Era muito
amigo do Dr. Mesquita... Logo que entrei para o
Hospital, então Instituto de Puericultura,
comecei a fazer um trabalho com o Dr. Mesquita
sobre protrombinemia do recém-nascido, recebendo
ou não vitamina K... Esse trabalho foi escrito sob
a pressão do Dr. Magalhães e publicado no Jornal
Brasileiro de Pediatria. Dr. Mesquita assinava em
primeiro lugar e eu em segundo. Estava no 4º ano
de medicina. (depoimento de médica que ingressou
no Hospital em 1941)

Magalhães de Carvalho fazia pesquisa


experimental, então, estava sempre no
Laboratório... Passei um Carnaval inteiro dando
arroz descascado para os pombos, a fim de provocar
beribéri, parte de um trabalho que ele estava
fazendo... (depoimento de médica que ingressou no
hospital em 1941, como acadêmica de medicina, para
estágio no Laboratório)

Na década de 1940, foram abertos serviços que, a despeito

de terem sofrido as consequências de conjunturas muito

adversas, são considerados de “excelência e referência” até

hoje. Ou que foram os primeiros no gênero, no país. Dentre estes

últimos estava o Banco de Sangue, organizado pelo Dr. Mário

Mesquita, e o Centro de Prematuros, organizado por Luís Torres

Barbosa.

O Brasil participou da II Guerra Mundial... O


Instituto foi chamado a participar desse esforço
brasileiro de guerra, sendo aqui criado um Banco
de Sangue, o primeiro da América Latina. Até então,
as transfusões eram braço-a-braço. E mandamos
sangue lá para a Itália..” (depoimento de médico
puericultor)

Foi Dr. Mesquita quem criou o primeiro Banco de


Sangue no Brasil, na época da Guerra. (depoimento
de médica que ingressou na instituição em 1941)

O Centro de Prematuros... as crianças eram


aquecidas com garrafas de água quente pois não
havia incubadoras... Depois, Dr. Luís Barbosa foi
para os Estados Unidos... Dr. Magalhães o
80

substituiu na Chefia... (depoimento de médico


puericultor)

Outro serviço, o Banco de Leite Humano, foi fundado em

outubro de 194341, por iniciativa dos professores Mário Olinto

e Adamastor Barbosa, com a colaboração de alguns médicos do

Instituto e de personalidades da época, dentre as quais D. Darcy

Vargas. “Ele veio suprir uma lacuna na estrutura do então

Instituto Nacional de Puericultura” (BARATA, 1958).

O Banco de Leite Humano tinha como finalidade a

dispensação de leite humano para o atendimento de casos

especiais, dentre os quais prematuros, crianças portadoras de

perturbações digestivas e de alergia ao leite de vaca. O leite

ordenhado destinava-se ao hospital (berçário, ambulatório e

enfermarias) e a clientes externos, na proporção aproximada de

40 e 60%, respectivamente.

Com os Bancos de Leite Humano, a prática do aleitamento

mercenário se reduziu com a extração das “sobras” de leite. As

nutrizes transformaram-se em “doadoras” (GESTEIRA, 1945, p.

110)42.

Das “doadoras”, a quase totalidade era de mulheres negras

ou mulatas, apenas 5% eram brancas. Em sua maioria, as nutrizes

moravam em favelas (65%) ou em habitações coletivas (17%). Das

que moravam em casas (15%), o domicílio situava-se nos

41Em uma das entrevistas foi-nos informado que o primeiro nome do Banco
de Leite do Instituto havia se chamado “Gota de Leite”. Mais tarde,
encontramos em PEREIRA (1992, p. 234) a mesma afirmativa.
81

subúrbios e nos municípios limítrofes do Estado do Rio.

Aproximadamente 50% eram alfabetizadas.

... A mãe preta é sempre reverenciada, entre outros


motivos, por ter sido a ama de leite eficiente, com
que contou a família brasileira no império e ainda
na república. Nos anúncios de venda de escravas era
apregoado esse atributo - “muito leite e bom”
[citando Gilberto Freire, Casa Grande & Senzala],
que possuíam. Assim, as doadoras do Banco de Leite,
de algum modo, continuariam uma tradição, em
outros termos. (BARATA, 1958)

Temos elementos para apontar uma relação muito próxima do

Hospital com a Escola de Enfermeiras D. Anna Nery43.

Ingressei como aluna na Escola de Enfermagem Anna


Nery (EEAN) em 1940. A relação entre esta e o antigo
IFF era muito estreita e provavelmente incluía
aspectos administrativos. Suas professoras
chefiavam setores e tinham muita ascendência sobre
os médicos. Como exemplo, lembro-me de D. Aurora
Costa, professora de Enfermagem Obstétrica que, no
meu tempo de aluna, chefiava a Maternidade...
(depoimento de enfermeira)

Todas as professoras [da EEAN] chefiavam alguma


unidade, pelo menos até o final de 1943, quando
concluí o curso. Também a Dietética era chefiada
por uma professora de Nutrição e era um primor de
organização e limpeza. (depoimento de enfermeira)

42 Entretanto, esse caráter de "doação" deve ser relativizado devido à


prática de remuneração que perdurou, pelo menos, até a segunda metade da
década de 80.
43 A Escola de Enfermeiras passou a assim denominar-se em 1926, por sugestão

de Clementino Fraga. O prédio do antigo Hotel Sete de Setembro foi reformado


com o auxílio da Fundação Rockfeller e inaugurado no mesmo ano como
residência das alunas-enfermeiras.
82

Pela Lei n.º 378, de 13 de janeiro de 1937, os serviços

de amparo à maternidade e à infância, realizados pelo

Ministério da Educação e Saúde, bem como a fiscalização e a

orientação dos mesmos, ficariam incumbidos preferencialmente

a mulheres habilitadas (artigo 101). A profissão médica no

Brasil ainda não se encontrava com o elevado índice de

feminilização atual.

A preferência pelo gênero feminino parece ter origem na

própria construção da identidade da profissão de enfermagem.

A Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras Alfredo

Pinto foi fundada em 1890, quando da saída das irmãs de caridade

e serventes do Hospício Pedro II. Tinha como objetivo formar

profissionais para os hospícios e hospitais civis e militares.

E é da crítica a essa primeira experiência que, segundo Martha

Cristina Nunes Moreira (1997), surge a Escola de Enfermeiras

do Departamento Nacional de Saúde Pública, baseando seus sinais

de distinção em torno a três eixos básicos: as questões de

gênero, raça e origem social.

Ademais, a visão do papel feminino na sociedade, ainda com

incipiente inserção no mercado de trabalho formal, e a figura

materna associada ao ato de cuidar, concorriam para a alocação

baseada no gênero para os serviços de assistência à criança.

A proibição de contratação de força de trabalho masculina para

atuar no Serviço de Enfermagem do Hospital perdurou até meados

da década de 80.
83

A oferta de leitos hospitalares obstétricos, até mesmo no

Distrito Federal, era restrita conforme vimos no quadro 2. A

atenção ao parto era encarada como possível de ser prestada no

domicílio. “Somente quando a parturição em domicílio,

representar para a gestante e para o nascituro, algum perigo,

é que se devia recorrer ao internamento” (CORRÊIA DA COSTA,

1950, p. 384).

Clóvis Corrêia da Costa (op. cit.) preconizava que assim

se procedesse por vários razões, de ordem econômica e moral,

revelando sua preocupação com a “família”, da qual também

compartilhava o Ministro Capanema (PEREIRA, 1992):

Não é possível, e ademais não é mesmo razoável...


porque tal fato iria sobrecarregar as
Maternidades, exigindo-lhes número de leitos
muito acima da média, que se encontra
presentemente no país; circunstância que iria
sobremodo agravar os respectivos orçamentos e
dificuldades ... não é sem inconveniência que a mãe
de família se ausenta do lar, embora por pequeno
número de dias... Os filhos, na falta de “ninhos”
para recebê-los, são distribuídos... O marido mais
facilmente pode se transviar... Desmorona-se o
lar, a organização doméstica e tudo que de
edificante e nobre ali existia. (CORRÊIA DA COSTA,
op. cit., p. 383)

O autor preconiza a assistência domiciliar obstétrica

como “uma das modalidades da Assistência Social à infância e

à mulher na puerperalidade” (ibidem). Estabelece como

critérios: condições relativas à habitação (ambiente adequado

em termos de higiene, iluminação e acesso em automóvel); à renda

(devem ser de baixa renda para “evitar que a assistência seja

indevidamente explorada por quem pode remunerar o trabalho


84

médico”) e condições obstétricas (bacia normal e apresentação

favorável).

O Departamento Nacional da Criança mantinha um pequeno

serviço de Assistência Domiciliar Obstétrica, com o objetivo

principal de servir de modelo a organizações semelhantes a

serem implantadas nos estados (ibidem, p. 385).

Nessa época, parteiras faziam parto domiciliar44


e eram formadas no Hospital. Ficavam subordinadas
ao plantonista médico e à Enfermeira-Chefe da
Maternidade. (depoimento de enfermeira que
ingressou como aluna na EEAN em 1940).

A despeito do serviço, segundo Clóvis Corrêia da Costa,

pertencer ao Departamento Nacional da Criança, as parteiras

plantonistas subordinavam-se ao médico de plantão da

Maternidade do Hospital e nas fichas constava o seguinte

cabeçalho:

“ASSISTÊNCIA DOMICILIAR OBSTÉTRICA


INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA” (CORRÊIA DA COSTA, OP. CIT.,
p. 394-397)

44 O parto domiciliar, realizado por parteiras, mais tarde chamadas


“obstetrizes”, segundo depoimentos, não mais ocorreu na década seguinte.
Atualmente há um ainda incipiente movimento contra-hegemônico, de resgate
do atendimento na sala de pré-parto e de parto por enfermeiras obstétricas
com curso de especialização.
85

Sobre a constituição do serviço de Obstetrícia no Hospital

não encontramos registro nas décadas de 20 e 30. De qualquer

forma, na década de 40 já existia a Maternidade45.

Sobre a Maternidade que precocemente se constituiu como

uma “clínica”, com normas e rotinas unificadas, temos os

seguintes depoimentos:

A Maternidade existiu desde o início e o Dr. Clóvis


já trabalhava no DNSP como médico46. Era consultor
da área materno-infantil, quando o Instituto foi
fundado como Hospital Arthur Bernardes. A
Maternidade leva o seu nome por Decreto
Presidencial, que acho, não foi revogado. O
primeiro chefe foi o Dr. Clóvis, e até a sua
morte... (depoimento de médico puericultor)

Havia uma outra coisa importante, que pouca gente


destaca... A clínica obstétrica praticamente
desapareceu nesse país, ou a criança nasce sozinha
ou é cesareana... Aqui se fazia uma clínica
obstétrica diferente; se ensinava clínica
obstétrica, se pesquisava clínica obstétrica.
Havia uma orientação que manteve durante muitos
anos uma incidência de 10% de cesareanas. Agora é
diferente, porque é alto risco, a incidência é
maior mesmo... (depoimento de médico puericultor)

Dr. Clóvis era muito exigente... Saiu da Chefia da


Maternidade quando completou 70 anos. Um dia ele
me disse: ‘Gosto tanto do Fernandes Figueira que
gostaria de sair daqui quando eu morrer’. Se ele
me disse isto, achei que era portadora de um
recado. Mais tarde, eu o transmiti a seu filho que
preferiu, no entanto, que seu velório fosse na
Academia Nacional de Medicina. O mérito científico
dele foi muito grande... (depoimento de médica que

45 Fazemos essa afirmativa por termos conhecido o arquivo da Maternidade


Clóvis Corrêia da Costa quando ingressamos no Instituto Fernandes Figueira,
em 1980. Constava de um acervo relativo aos casos atendidos desde 1940.
Esse acervo “perdeu-se” quando da unificação dos prontuários na segunda
metade da década de 80. Proximamente estará sendo disponibilizado pela Casa
de Oswaldo Cruz. Estima-se, inicialmente, que tenha havido uma perda de
30%.
46 Provavelmente o Dr. Clóvis foi o ginecologista cujo cargo foi
estabelecido com o Decreto n.º 5.150, de 10 de janeiro de 1927, abordado
no capítulo 2.
86

ingressou no Hospital em 1941 para estagiar no


Laboratório e, mais tarde, foi “residente” na
Maternidade)

Essa forte vinculação ao Hospital foi muito encontrada nos

depoimentos dos antigos servidores, mesmo dos que ainda se

encontram em atividade.

Na década de 40 foi constituída no Hospital, então

Instituto Nacional de Puericultura, uma Agência de Serviço

Social. “A Agência recebia recursos financeiros da LBA47, por

volta de 1946, e mais tarde, do PLANO SALTE” (depoimento de

assistente social).

A parte técnica da Agência foi entregue a Rose Albernaz,

Assistente Social do Children’s International Bureau e

consultora em Serviço Social que se encontrava requisitada pelo

DNCr.

À Agência de Serviço Social compete: prestar


assistência às famílias das crianças matriculadas
no Instituto Fernandes Figueira e às gestantes,
bem como desenvolver todas as atividades próprias
de Serviço Social em benefício dos pacientes
internados e em tratamento no IFF. (Decreto n.º
26.690, op. cit., art. 22º)

A Agência de Serviço Social, além de verba própria,

possuía também uma viatura exclusiva, “... um jipe, eu cheguei

a conhecer essa viatura (depoimento de funcionária admitida em

1972)”.

47 As bases do Serviço Social foram instituídas pelo governo Federal


mediante o Decreto-Lei n.º 5. 697, de 2 de julho de 1943; a organização
da LBA se deu com a Portaria n.º 6. 013, de 1 de outubro de 1942.
87

Em 1946, a Agência era dirigida por uma Comissão composta

por: Dr. Hermes Bartholomeu, pelo DNCr; Dr. Luís Torres

Barbosa, pelo Instituto Fernandes Figueira e Sra. Josefina

Albano, pela LBA.

Localizava-se no térreo, na área hoje ocupada pelo


Ambulatório Geral de Pediatria, até meados da
década de 80. A sua planta física e localização
davam a idéia da importância anteriormente
atribuída ao Serviço Social. (depoimento de
assistente social)

O Serviço Social, ou melhor a Agência, trabalhava com a

metodologia de casos. Em seus arquivos 48 constavam os casos

encerrados e tratados (26.100), casos em andamento e os de

“contato rápido”.

A Agência de Serviço Social procedia à colocação familiar

de crianças em caráter transitório e mantinha contatos com o

Juizado de Menores, para onde encaminhava os processos de

adoção.

A Agência mantinha em lares substitutos crianças


com alta hospitalar e aquelas cujas mães
permaneciam internadas. Assim, evitava-se que
crianças com alta permanecessem no Hospital,
ocupando leitos e expostas à infecção hospitalar.
(depoimento de assistente social)

Sempre que se fazia necessário, havia esse


recurso. Os casais, ou a pessoa interessada,
vinham à Agência para entrevista e, se aceitos,
fazia-se a ficha de espera... O Dr. Alírio
Cavalieri foi Juiz de Menores durante grande parte
do tempo em que lá trabalhei... Ele reconhecia o
nosso trabalho. (depoimento de assistente social)

48Os documentos da Agência (até 1977) e do Serviço Social foram depositados


no quinto pavimento do prédio da internação para ceder espaço ao Arquivo
88

A Agência de Serviço Social era ainda responsável pela

Recreação das crianças internadas.

A Recreação ocupava duas salas no 2º pavimento, com


material e mobiliário adequados. (depoimento de
assistente social)

As crianças que estavam em condições iam ao


parquinho, em frente, pegar sol... Iam com uma das
recreadoras e com uma auxiliar de enfermagem...
(depoimento de assistente social)

A equipe alocada na agência de Serviço Social constava de:

uma Chefe, uma Supervisora, oito Assistentes Sociais, seis

estagiárias, duas recreadoras, uma arquivista-recepcionista,

uma datilógrafa, um servente, um motorista.

Constituiu-se no Hospital um serviço de Cirurgia

Pediátrica, sobre o qual não conseguimos maiores informações:

Pelo menos no tempo em que aqui cheguei, a cirurgia


pediátrica dava mais ênfase à ortopedia.
Chefiava-a o Dr. Fernando de Moraes. Mais tarde foi
contratado o Dr. Cláudio Souza Leite, que fazia
cirurgia infantil... (depoimento de médico que
ingressou como interno em 1939)

A pediatria continuava organizada em enfermarias

independentes, como na década anterior49.

Todos os setores do Hospital, na época restrito a


um terço da área hoje existente no Prédio Central,
eram menores. Tive o privilégio de estagiar em uma
das enfermarias de Pediatria. O Chefe de Clínica
era o Prof. Cezar Pernetta, inventor do célebre

Médico, na segunda metade da década de 80. À essa época o quinto pavimento


estava exposto às intempéries. Esse acervo foi definitivamente perdido.
49 Somente na segunda metade da década de 80 ocorrem tentativas de unificação

das enfermarias de Pediatria. A primeira, a partir da equipe de enfermagem.


89

“soro Pernetta” 50 ... Nas enfermarias de


pediatria já existia a separação em boxes, que
eram, todavia, menores que os atuais. (depoimento
de enfermeira, aluna da EEAN até 1943)

O corpo Clínico da Pediatria e Cirurgia Pediátrica, pelo

que se pode depreender da consulta ao livro de Registro de

Pacientes Pediátricos51, no período em questão, compreeendia:

Luís Torres Barbosa, Waldyr de Abreu, Cezar B. Pernetta,

Adamastor Barbosa, Fernando de Moraes, Mário Olinto, Jeremias

Martins, Rocha Braga, Álvaro Costa, Wiberto Guedes Pereira,

Afrânio Garcia, Magalhães de Carvalho e Newton Potsch

Magalhães.

50 “O soro Pernetta é uma coisa muito mais importante do que se pode crer
hoje em dia. Foi o primeiro soro absolutamente isotônico com o tecido
intercelular. Essa isotonia foi demonstrada pelo Raimundo Muniz Aragão,
que foi um dos melhores técnicos que eu conheci, foi chefe do nosso
laboratório e Ministro da Saúde mais tarde... Cezar Pernetta, médico
pediatra, permaneceu trabalhando no Hospital de 39 até fazer o concurso
de professor para a UFF, mais ou menos em 56.” (depoimento de médico
puericultor)
51 Esse livro foi encontrado recentemente e será restaurado. Os registros

referem-se aos anos 40-59 (COC/FIOCRUZ).


90

4- DO DECLÍNIO À ENCAMPAÇÃO À FIOCRUZ (1949/1974)

4.1 - O DEBATE E AS SUBCONJUNTURAS

Houve um intenso debate que aflorou no pós-guerra e se

estendeu até meados dos anos 60, sobre as políticas de saúde

e as formas de sua implementação. As questões centrais

compreendiam a saúde pública, seu alcance, dimensões e

estrutura administrativa (BRAGA e GÓES DE PAULA, op. cit., p.

58).

O debate tinha suas raízes fundadas na questão dos

desenvolvimentos desiguais e dos subdesenvolvimentos das

nações que emergiu e tomou corpo após a II Guerra Mundial. O

ponto de partida era o referencial fornecido pela teoria do

capital humano, o círculo vicioso da pobreza e a causação

circular1.

A partir da década de 50, no que dizia respeito aos

problemas sanitários dos países subdesenvolvidos, tinha-se:

“uma história de efeitos positivos da saúde pública no que

concernia à diminuição da taxa de mortalidade nos países

pobres”; uma teoria do círculo vicioso e da causação circular;

1 Ver: BRAGA e GÓES DE PAULA (op. cit., p. 27-28) e NAPOLEONI (1990, p.


167-168).
91

a teoria do capital humano e o desenvolvimento de técnicas de

planejamento2 (BRAGA e GÓES DE PAULA, op. cit., p. 30-31).

Quanto às formas de implementação das ações de saúde

pública, de um lado, existia a discussão sobre a

centralização/descentralização administrativa da estrutura

sanitária.

De fato, o caráter vertical e centralizador foi mantido

durante todo o período. O único ponto de inflexão foi a III

Conferência Nacional de Saúde 3 , em que a descentralização,

vista como municipalização das ações, fez parte do discurso

oficial. De outro lado, a discussão se dava em relação ao

próprio modelo de execução das ações, ou no dizer de José Carlos

de Souza Braga e Sérgio Góes de Paula, “sobre a aplicação de

algumas medidas clássicas de saúde pública” (ibidem, p. 60).

Ambas as discussões refletiam, a4 nível da saúde


pública, o debate nacional. De um lado, aqueles que
supunham que o progresso, a riqueza e o bem-estar
seriam alcançados se fossem seguidos os caminhos
percorridos pelos países industrializados... De
outro lado, estavam os que pretendiam um caminho
“nacionalista” para o Brasil. Embora essa corrente
seja mais diversificada ... seus defensores tinham
em comum a busca de uma prática que estivesse ...
mais articulada à realidade brasileira. (BRAGA e
GÓES DE PAULA, op. cit., p. 60)

2 A CEPAL contribuiu para que o planejamento fosse alçado a principal


instrumento de promoção do desenvolvimento, assim como a OMS/OPAS. A
Publicação Científica 111, de 1965, continha as linhas gerais do Método
de Programação CENDES/OPAS.
3 Mário Magalhães, presidente da Sociedade Brasileira de Higiene (1962) e

secretário-geral do evento introduziu a integração e o planejamento das


ações de saúde numa perspectiva desenvolvimentista. Ele teria capitaneado
um esforço para reinterpretar a organização dos serviços de saúde inserida
no conjunto dos problemas brasileiros (MERHY e QUEIROZ, 1993).
4 Grafia original.
92

Cabe destacar que o período em questão abrangeu várias

subconjunturas: a primeira, que se estendeu até 1955,

compreendeu parte do governo Dutra (1946 - 1951) até o Plano

de Metas JK 5 . Nela destacamos, do ponto de vista das

transformações macro-institucionais da saúde, o

desmembramento do Ministério da Educação e Saúde, em 1953.

A segunda, correspondente ao período em que predominou o

ideário desenvolvimentista 6 consubstanciado inicialmente no

Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek (1956 - 1961).

Do ponto de vista institucional destacamos a criação do

Departamento de Endemias Rurais (DNERu), em 1956, na esfera do

Ministério da Saúde e a ampliação da rede hospitalar da

Previdência.

A terceira subconjuntura iniciou-se com o governo

militar, caracterizando-se pelo cerceamento das liberdades

democráticas e pela instalação de uma racionalidade técnica e

administrativa que imprimiu ao país suas reformas.

5 Após Dutra, Getúlio Vargas foi eleito, não tendo, todavia, completado seu
mandato. Enfrentando oposição e à beira de nova deposição, suicidou-se em
24 de agosto de 1954. Café Filho, seu vice, assumiu a Presidência até 1955.
6 Falamos aqui em ideário desenvolvimentista, porém, ocorreram
transformações profundas na economia que configuraram um novo padrão de
acumulação capitalista, em contraposição ao caráter “restrito” da
industrialização do período 33-55 (CARDOSO DE MELLO, 1986). Esse novo
padrão de acumulação caracterizou-se por um processo de industrialização
pesada no qual houve um investimento maciço do Estado em infra-estrutura
e na indústria de base sob sua responsabilidade. Nesse período verificou-se
um salto tecnológico na estrutura do sistema produtivo e uma grande
ampliação da capacidade produtiva frente à demanda preexistente(ibidem,
p. 117-118). A industrialização pesada compreendeu dois momentos: o de
expansão, entre 56 e 61, e o de depressão, entre 62 e 67”(ibidem, p. 122).
93

Tal racionalidade se expressou nos Planos e Programas

lançados no período 67 a 74. Dentre esses instrumentos

destacam-se: o Plano Decenal de Desenvolvimento Econômico7, o

Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED) 8 e o I Plano

Nacional de Desenvolvimento (I PND)9.

Esses Planos e Programas não atacaram diretamente os

problemas da atenção à saúde, dentre as políticas sociais, pois

enfatizaram, pelo menos no nível do discurso, a Educação e a

Política Habitacional. Porém, repercutiram sobre a saúde,

tanto pelas implicações para a Administração Pública10, quanto

pela restrição de recursos a que o Ministério da Saúde esteve

submetido na época.

7 Elaborado no governo do Mal. Castelo Branco, cujo Ministro do Planejamento


era Roberto Campos, seria executado a partir do Governo Costa e Silva.
Estabeleceu diretrizes para a política de desenvolvimento para o período
67-76. As prioridades setoriais restringem-se às atividade industriais.
Como prioridades sociais há a ênfase na Educação e na Política Habitacional.
Como prioridades institucionais: ênfase no fortalecimento da empresa
privada nacional e na dinamização da Administração Pública (Dic. Hist.
Biogr. Bras. - FGV/CPDOC).
8 Este programa (1968-1970), elaborado no governo do Gal. Costa e Silva

(1967 a 1969), sendo Ministro do Planejamento Hélio Beltrão, foi


implementado por Delfim Neto, Ministro da Fazenda. A nova estratégia de
desenvolvimento econômico definida pelo PED articulou-se estreitamente ao
ciclo expansivo da economia brasileira, verificado no período 68-73
(ibidem).
9 Este plano (1972-1974) foi elaborado no governo do Gal. Médici (69-74),

sendo Ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Veloso. Tinha como
objetivo colocar o Brasil entre as nações desenvolvidas no espaço de uma
geração e, como metas: duplicar a renda per capita até 1980 e aumentar o
crescimento do PIB até 1974 com base numa taxa anual de 8 a 10%, resultando
no aumento da taxa de emprego e diminuição da inflação (ibidem).
10 Cabe destacar a esse respeito o Decreto-Lei n.º 200, de 25 de fevereiro

de 1967, que dispõe sobre a reforma administrativa federal. Redefinida a


competência do MS: formulação da Política Nacional de Saúde (PNS);
atividades médicas e paramédicas; ação preventiva geral; vigilância
sanitária de fronteiras e portos marítimos, fluviais e aéreos; controle
de drogas, medicamentos e alimentos e pesquisas médico-sanitárias. A
formulação da PNS como competência do MS permaneceu apenas no nível formal.
94

Do ponto de vista institucional, na terceira

subconjuntura destacamos: a unificação dos Institutos e

criação do INPS em 1966, a extinção do Departamento Nacional

da Criança e a criação da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, sendo

a ela incorporado o Instituto Fernandes Figueira.


95

4.2 - O CONTEXTO INSTITUCIONAL DA SAÚDE

O Ministério da Saúde foi criado em 1953 11 , pelo

desmembramento do Ministério da Educação e Saúde. Por um lado,

esse evento institucional apontou a importância da Saúde

Pública na política estatal de saúde. Por outro, a forma como

se deu a criação do Ministério demonstrou a posição secundária

da saúde, em relação às demais políticas sociais (BRAGA e GÓES

DE PAULA, op. cit., p. 57).

Em relação à Educação, na partilha do espólio do antigo

Ministério, coube ao recém-criado Ministério da Saúde a menor

parte dos recursos12. Foi mantida a estrutura básica do extinto

DNS, sendo, no entanto, ampliado o rol das enfermidades sob sua

responsabilidade: ancilostomose, bócio, esquistossomose e

filariose.

A estrutura do Ministério contemplava: Campanhas

Nacionais (tuberculose, febre amarela, malária, peste, lepra);

Assistência Materno-Infantil (Departamento Nacional e

Delegacias Federais da Criança); Assistência Hospitalar;

Assistência a Psicopatas; Saúde dos Portos; Fiscalização do

Exercício Profissional; Fiscalização antivenérea nas

fronteiras; Delegacias Federais de Saúde.

11Lei n.º 1.920, de 25 de julho de 1953.


12Cf. BUSS, SHIRAYWA e MARANHÃO (1975) e BRAGA e GÓES DE PAULA (op. cit.,
p. 57).
96

Em 1956 ocorre o último movimento centralizador, com a

criação do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu),

desde então responsável pelas campanhas sanitárias.

Observam-se as características básicas desta


reforma: a ‘racionalização’ administrativa e a
atribuição de maior status burocrático às
campanhas sanitárias... Os intentos de estender o
atendimento médico-sanitário de massa - as
chamadas medidas de saúde coletiva - se inscreviam
nas transformações econômicas da época, que
incluíam a aceleração dos movimentos migratórios
internos, a interiorização da expansão econômica
- por exemplo, a Operação Nordeste e construção de
Brasília - o aprofundamento da urbanização...
(BRAGA e GÓES DE PAULA, op. cit., p. 58)

No período compreendido entre a criação do Ministério e

o ano de 1967, não ocorreu a implementação de qualquer medida

reformista de monta para o setor saúde (BUSS et al., 1975, p.

5).

Especificamente em relação ao Departamento Nacional da

Criança, pudemos constatar o mesmo fato. Pelo Decreto n.º

26.690, de maio de 1949 13 , manteve-se, em linhas gerais, o

disposto na Lei n.º 282, de 24 de maio de 1948. Portanto, a

influência do órgão materno-infantil já se encontrava

formalmente reduzida. Faltava, apenas, sufocá-lo pelo escassez

de recursos.

13Esse decreto detalha a estrutura organizacional do Departamento Nacional


da Criança e dispõe sobre o Regimento do IFF.
97

Do lado da Previdência, houve uma progressiva expansão da

oferta de serviços próprios14, embora permanecesse a compra de

serviços ao setor privado.

A criação do Instituto Nacional de Previdência Social

(INPS) somente ocorreu em 1966, através do Decreto n.º 72, de

21 de novembro de 1966, no Governo do Marechal Castelo Branco,

precedido por inúmeras intervenções do Ministério do Trabalho

nos sindicatos. Esse decreto reduz a participação de

representação dos trabalhadores, tornando-a minoritária.

Posteriormente, em 1970, esta representação será extinta.

Ao mesmo tempo, há um novo impulso na tendência à expansão

da cobertura, que se manifestou em 1967, com a integração ao

INPS dos seguros relacionados a acidentes de trabalho, embora

o atendimento ocorresse no setor privado (contratado); em 1971,

com a criação do PRÓRURAL-FUNRURAL que estendeu seis

benefícios aos trabalhadores rurais, quando o plano urbano já

contava com 18 benefícios; em 1972, com a incorporação das

empregadas domésticas; em 1973, com a incorporação dos

trabalhadores autônomos, religiosos, estudantes, etc.

Encontravam-se excluídos os desempregados e os trabalhadores

do mercado informal de trabalho.

A dominância do setor de saúde pública na política de saúde

é vista por alguns autores 15 como tendo perdurado até 1966.

Desde antes já vinha sendo enfatizada a Medicina

14Apenas quanto à expansão da rede hospitalar da Previdência: até 1948


existiam, no máximo, quatro ou cinco hospitais próprios dos IAP. Em 1950
eles somavam nove; em 1966 eram 28 e, em 1978 chegam a 32 (OLIVEIRA e
TEIXEIRA, op. cit., p. 184).
98

Previdenciária, em consonância com o desenvolvimento das

forças produtivas e de um suposto caráter auto-financiável da

Previdência16. Uma inversão dos gastos públicos desde a década

de 40, favorecendo a assistência médica, em detrimento da saúde

pública, é apontada por MERHY e QUEIROZ (1993).

No período 61 a 74, a participação percentual do

Ministério da Saúde no orçamento da União decresce

significativamente: de 4,57 a 0,90%. No período houve apenas

uma ligeira recuperação em 66, quando atingiu 4,21% (BUSS et

al., 1975). Em parte, esse decréscimo foi explicado pela

transferência de atividades do MS, principalmente as

relacionadas a saneamento, para outras agências

governamentais. Isto implicou, no mínimo, em perda da

importância relativa do órgão (idem).

Em relação aos gastos do Ministério da Saúde, conforme

demonstrado no QUADRO 3, a área que apresentou maior

estabilidade no período 1956/69 foi o DNERu. Com a atenção

materno-infantil houve recuperação progressiva até 1961,

quando os dispêndios representaram 16,15% das despesas do

Ministério consolidadas por programas. Entre 1961 e 1964

ocorreu redução significativa, chegando a alcançar o patamar

mínimo do período, 5,28%.

Com a Lei n.º 5.019, de 7 de junho de 1966, foi instituída

a Fundação Ensino Especializado de Saúde Pública (FEENSP). A

mesma lei extinguiu a Diretoria dos Cursos do Departamento

15Por exemplo: BRAGA e GÓES DE PAULA (op. cit.) e AURELIANO e DRAIBE (op.
cit.).
99

Nacional de Saúde e os Cursos do Departamento Nacional da

Criança (art. 20).

A Fundação Ensino Especializado de Saúde Pública foi

transformada em Fundação de Recursos Humanos para a Saúde em

1969 (Decreto-Lei n.º 904, de 1º de outubro de 1969).

A Fundação de Recursos Humanos para a Saúde foi

transformada, pelo Decreto n.º 66.624, de 22 de maio de 1970,

em Fundação Instituto Oswaldo Cruz. Esta, em 13 de novembro de

1974, passou a denominar-se Fundação Oswaldo Cruz (Fundação

Oswaldo Cruz, Relatório de Atividades, 1985, p. 5).

16O caráter autofinanciável da Previdência veio a se desmoronar pela crise


que aflorou a partir de 1974.
100

QUADRO 3
DESPESAS CONSOLIDADAS EM ALGUNS PROGRAMAS DO MINISTÉRIO DA
SAÚDE E PERCENTUAL RELATIVO DE GASTOS COM O
PROGRAMA MATERNO-INFANTIL - 56-69
(Cr$ 1.000 de 1976)

MI TU ER DM CA LEPRA TOTAL % MI
1956 27572 76124 166663 74625 43457 38961 427402 6.45
1957 54317 106534 288902 96301 53792 45920 645766 8.41
1958 56406 115636 346210 11688 46208 61533 637681 8.85
1959 73466 95708 316949 117445 60660 61840 726068 10.20
1960 96105 11362 334512 107189 58810 61158 669136 14.36
1961 79459 10963 213539 84978 52433 50625 491997 16.15
1962 68711 116276 364138 59675 63880 42984 715664 9.60
1963 45704 100534 405465 64422 53578 36792 706495 6.47
1964 39797 84723 483204 64506 47426 34329 753985 5.28
1965 68873 143382 662171 81931 50304 16233 1023344 6.73
1966 46882 89321 395819 117721 61907 44018 755668 6.20
1967 57646 102728 533425 108364 49338 43309 894810 6.44
1968 46294 97730 559679 28314 49333 40814 822164 5.63
1969 45988 66162 273175 89519 27024 24354 526222 8.74

Legenda:
MI - DNCr e Delegacias Federais da Criança
TU - Serviço Nacional de Tuberculose
ER - Endemias Rurais: Doença de Chagas, Esquistossomose, Filariose, Febre amarela e
Leishmaniose
DM - Serviço Nacional de Doenças Mentais
CA - Serviço Nacional do Câncer
LEPRA - Serviço Nacional de Lepra
Fonte: Ministério da Fazenda - Balanços Gerais da União(apud
BRAGA e GÓES DE PAULA, op.cit, p. 63).
Quadro adaptado pela autora.
101

4.3 - O INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA NO PERÍODO 49-74

O Hospital foi fechado em 1949 para obras. Na sede, a

atividade tornou-se apenas residual, com a permanência do Banco

de Leite e do Ambulatório de Pediatria funcionando no prédio

da frente, construído na década anterior para abrigar o DNCr.

Era tudo muito funcional [antes do fechamento]...


Existia uma biblioteca só do DNCr e nós do
hospital, tínhamos uma biblioteca mais pobrezinha
aqui, onde hoje funciona o ambulatório de
Pediatria... Após, era o Centro de Estudos... No
Laboratório fazíamos até dosagens de vitaminas; a
bacteriologia era excelente... (depoimento de
médica que ingressou no Hospital em 1941)

Quando o hospital foi fechado, Dr. Clóvis e a


Maternidade foram para o Gaffrée. Eu tive a sorte
de ser chamada por Martagão Gesteira para
trabalhar com Edith Potter. Éramos um grupo de
quatro pessoas... Fomos trabalhar no Hospital
Gaffrée. Ficamos lá três meses, depois o Professor
quis que eu fosse para a Universidade. Quando o
Hospital reabriu, eu voltei... (depoimento de
médica que ingressou no Hospital em 1941)

O prédio central, com dois andares, foi demolido


e foi construído este que aí está. Para não fechar
completamente, a internação infantil foi para o
Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro e a
Maternidade para o Gaffrée. O prédio grande só
ficou pronto em 53. Mas não houve solução de
continuidade. (depoimento de médico puericultor)

Pelo último depoimento citado, as atividades não foram

prejudicadas. Uma rápida análise do Livro de Registro de

Pacientes Pediátricos aponta nessa direção. No entanto, não


102

temos informação sobre o que ocorreu nos outros serviços

hospitalares durante o fechamento, à exceção do Banco de Leite,

que teve decréscimo na produção média diária de 5 litros.

No 2º qüinqüênio [1949-1953] houve grande


diminuição, reduzindo-se praticamente à metade
(2,31), queda devida às obras de reconstrução do
novo hospital, com a transferência dos seus
serviços para outros locais... (BARATA, ANAIS DO
IFF, ANO I N.º I, s/ data)

Sobre as obras e a reinauguração do Instituto, em 1953,

temos o seguinte depoimento:

Quando voltei do Ceará, após ter sido Delegado


Federal por três anos, nomeado pelo Martagão
Gesteira, estava-se construindo esse prédio do
meio que hoje se chama Pavilhão Fernandes
Figueira. Fui nomeado Presidente da Comissão de
Obras e Diretor do Fernandes Figueira, em mais ou
menos 51. Foi o meu primeiro mandato como diretor
no período 51 a 54. O novo prédio foi inaugurado
em 23 de setembro de 1953. (depoimento de médico
puericultor)

Uma segunda reorganização dos Cursos do DNCr ocorreu com

base na Lei n.º 2.189, de 3 de março de 1954, publicada no

Diário Oficial de 4 de março. Entretanto, não veiculou

alterações significativas em relação à regulamentação

anterior.

Em 1953, transferi-me do Pará para o Rio de


Janeiro. Pertencia ao quadro do Ministério da
Saúde, mais precisamente, da Delegacia Federal de
Saúde da III Região e, como trabalhava na Escola
de Enfermagem Magalhães Barata, mais tarde Escola
de Enfermagem do Pará, vim para os Cursos do DNCr.
Trabalhei mais ou menos durante 3 anos no Curso que
preparava pessoal auxiliar. (depoimento de
enfermeira)
103

Face à carência de profissionais para atuar na


assistência às crianças doentes, o próprio DNCr
indicou as Auxiliares de Puericultura, formadas
para trabalhar na área ambulatorial, para atuar na
internação da pediatria (depoimento de enfermeira
que ingressou em 1953)

A Agência de Serviço Social, que anteriormente recebia

recursos da LBA e do Plano SALTE, passou a recebê-los por meio

do DNCr.

Em 1953, a Agência passou a receber recursos


através do DNCr, após a elaboração de um plano de
aplicação. (depoimento de assistente social)

O Serviço Social tinha uma localização espacial

privilegiada: um salão de espera com bancos; boxes para

atendimentos individuais, pois trabalhava-se com a metodologia

de casos; um espaço para arquivamento, separado do salão por

um balcão alto; uma sala para a chefia; uma pequena copa e

banheiro.

Mário Olinto foi reconduzido à direção do Hospital, por

volta de 1954, quando Miguel Couto Filho foi Ministro da Saúde.

Nessa época, o Braga Neto [que havia sido


integrante do Corpo Clínico da Pediatria] era o
Diretor-geral do DNCr. Ele ficou uns seis meses no
cargo. Saiu para assumir o trabalho no Banco do
Brasil, que era um bom emprego... (depoimento de
médico)

A situação salarial no Instituto era grave. O depoimento

acima insinua isso. O arrocho salarial, aliado à importância

atribuída ao Hospital dos Servidores do Estado, e o fechamento


104

para obras explicam, pelo menos em parte, a evasão de

profissionais ocorrida no período 49-74:

Quando o Professor Martagão Gesteira foi diretor


do DNCr, penso que seu erro foi fechar o Hospital.
Isso prejudicou o trabalho... A equipe se
dissolveu e nunca mais se juntou... Amostras de
bacteriologia, de bactérias, por exemplo,
Salmonella Rio de Janeiro, descritas por Arlindo
de Assis, perderam-se. Se o hospital se mantivesse
semi-funcionante, como foi nessa última década...
Mas ele fechou... (depoimento de médica que
ingressou no Hospital em 1941)

Magalhães de Carvalho tinha espírito de


pesquisador... Pena que foi para o Hospital dos
Servidores do Estado por razões econômicas... Aqui
se ganhava muito pouco... (depoimento de médica
que ingressou no Hospital em 1941)

Quando retornou da viagem aos Estados Unidos, Dr.


Luís Barbosa foi trabalhar no Hospital dos
Servidores [década de 50]. (depoimento de médico
puericultor)

Mesmo com a evasão de profissionais, de modo geral, o corpo

clínico do Instituto Fernandes Figueira gozava de muita

respeitabilidade. Alguns eram professores universitários.

Outros tinham uma grande clientela. Boa parte de seus médicos

inseriam-se nas “Sociedades Médicas”.

A relação do Instituto com os médicos de prestígio,


sempre foi histórica. Em 1953, era presidente da
Sociedade de Pediatria o Álvaro Aguiar, e se pagava
o aluguel à Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio
de Janeiro. As instalações do Fernandes Figueira
foram oferecidas para abrigar as atividades. As
reuniões passaram a ocorrer aqui, no Centro de
Estudos, de modo que se pode economizar para a
compra da sede. A primeira sede própria da Sociedade
105

foi no centro da cidade. (depoimento de médico


puericultor)

Contudo, para o Instituto Fernandes Figueira iniciou-se

um período de declínio evidenciado, também, pela precária

manutenção predial:

Mais ou menos em 1956, fui trabalhar na Maternidade,


chefiada pelo Dr. Clóvis Corrêia da Costa. Era chefe
de Clínica o Dr. João Mário, sobrinho do Dr. Clóvis.
O Dr. Luís Alfredo, seu filho, também estava por
lá... Nessa época, não se fazia mais parto
domiciliar e as condições de limpeza e higiene não
eram satisfatórias. Tive muito trabalho, inclusive
para conseguir espaço e respeito. Somente com muita
atividade de limpeza, foi restaurada a cor verde das
enfermarias de gestantes que apresentavam
coloração marrom. (depoimento de enfermeira)

Fiquei dois e meio a três anos na chefia da


Maternidade. A Maternidade era o feudo do Dr. Clóvis
Corrêia da Costa e o Berçário, um outro, do Dr. Lages
Neto. Quando gozei minha licença-prêmio fui
substituída por outra colega, que permaneceu no
posto após o meu retorno. (depoimento de enfermeira
que ingressou no Hospital em 1953)

A ginecologia, que sempre existiu como uma seção da

Maternidade, diferencia-se desta a partir de 1964,

constituindo-se no Serviço de Ginecologia e Cirurgia Pélvica

Feminina (SGCPF).

Em 1964, no governo Castelo Branco, o Prof. Alípio


e o genro do Roberto Campos, o Dr. Arnaldo de Moraes
Filho, conseguiram recursos extraordinários junto
ao Ministério do Planejamento para se implantar no
Instituto Fernandes Figueira um setor mais amplo de
ginecologia e cirurgia pélvica. Este serviço, com
esse nome e características, permaneceu aqui até
que o prof. Alípio foi nomeado diretor da Faculdade
de Medicina. (depoimento de médico)
106

O Serviço de Ginecologia e Cirurgia Pélvica Feminina do

Departamento Nacional da Criança foi instalado no Instituto

Fernandes Figueira, gozando de grande autonomia. Isto pode ser

evidenciado por meio de seu organograma (Fig.8) e nas fontes

pesquisadas.

Oriundo de uma Escola de Ginecologia,[...],


tínhamos que concretizar o que o nosso saudoso
mestre Arnaldo de Moraes teria sugerido, se
tivéssemos a felicidade de tê-lo entre nós. Foi o
que fizemos, quando, com seu próprio filho, tivemos
a possibilidade de propor ao Ministro da Saúde a
criação do ‘Serviço de Ginecologia e Cirurgia
Pélvica Feminina’[...] Nisso, concordaram os
Ministros da Saúde e do Planejamento, inaugurando
em dezembro de 1965 o Serviço de Ginecologia e
Cirurgia Pélvica Feminina do Departamento Nacional
da Criança, do Ministério da Saúde. (ANAIS DO IFF,
ANO II, N.º 1, 1967, p. 75-76)

O Corpo Clínico do S.G.C.P.F. ... Segue a orientação


geral dada pelo IFF, mas possui atividades próprias
de sua especialidade. Assim é que além de integrar
o Centro de Estudos Olinto de Oliveira, possui o seu
Ateneu, denominado Ateneu Arnaldo de Moraes.
(ibidem, p. 81)

Quando o Roberto Campos era Ministro do


Planejamento, o Serviço de Ginecologia e Cirurgia
Pélvica foi aberto para o seu genro Arnaldo de
Moraes Filho. Mas o chefe ficou sendo o Dr. Alípio,
que fazia cirurgias muito importantes. Quando
entrei para o Instituto, em 1972, o chefe era o Dr.
João Mário, sobrinho do Prof. Clóvis Corrêia da
Costa, primo do Chefe da Obstetrícia, Dr. Luís
Alfredo. Até essa época, a ginecologia mantinha um
bom padrão de assistência. O Dr. Arnaldo de Moraes
saiu em 1975, na época da opção para CLT. o quadro
de médicos ficou bastante reduzido... (depoimento
de servidora da área de administração)

O ambulatório de ginecologia era um primor: as


pacientes de 1ª vez eram em número de 18 a 20. O
material era colhido e examinado a fresco durante
a consulta (gram e flora); era colhida sorologia
107

para Lues em todas as pacientes de 1ª vez. Se fazia


ginecologia infanto-puberal, patologia cervical,
mama e esterilidade. Funcionavam 4 boxes, pela
manhã e também à tarde. (depoimento de servidora
administrativa)

O Departamento Nacional da Criança retornou à sua sede

original no período em tela. Sobre sua extinção os

entrevistados revelam:

O DNCr foi extinto no governo Costa e Silva, nós


soubemos pelo jornal. O próprio Delamare, que era
médico dos netos de Costa e Silva, também soube pelo
jornal. Para substituir o DNCr, criaram uma
Coordenação ou Coordenadoria de Proteção à
Maternidade e à Infância, cuja titular era Dalva
Sayeg, isto em 66-67. (depoimento de médico
puericultor)

O Dr. Delamare havia sido dispensado pelo Diário


Oficial... Uma vez fomos à Brasília, para um
Congresso, e ele foi jantar com o Presidente Costa
e Silva... Era Ministro da Saúde um homem que tinha
o monopólio do atendimento psiquiátrico no Rio de
Janeiro, o dono da Dr. Eiras17... Ele chegou a propor
a venda do prédio do Instituto a um preço simbólico.
E pretendia acabar com todos os serviços próprios
do Ministério e entregá-los à iniciativa privada.
(depoimento de médico puericultor)

17Referência a Leonel Tavares Miranda de Albuquerque, Ministro da Saúde


de 17/03/67 a 29/10/69 e à sua proposta privatizante que restauraria o
caráter “liberal” da profissão médica.
108

Fig. 10 - Organograma do SGCPF.


Fonte: ANAIS DO IFF, ANO II, N.º 2
109

Com a extinção do DNCr alguns de seus servidores foram

incorporados ao Instituto, bem como o Centro de Orientação

Juvenil (COJ). “O COJ era um órgão do DNCr, incorporado ao

Instituto na época da extinção do DNCr.” (depoimento de médico

puericultor).

Na realidade, no plano formal, o COJ passou à Coordenação

de Proteção Materno-Infantil. Só em 1973, por meio do Decreto

n.º 72.531, de 26 de julho, é que o Centro foi transferido para

a Fundação Instituto Oswaldo Cruz.

É transferido para a Fundação Oswaldo Cruz,


integrando-se em seu Instituto Fernandes
Figueira, o Centro de Orientação Juvenil, órgão da
Coordenação Materno-Infantil, da Secretaria de
Assistência Médica, do Ministério da Saúde.
(Decreto n.º 72.531, op. cit., art. 1º)

O COJ 18 havia iniciado suas atividades em 1946, com o

objetivo de proporcionar “orientação profissional”. Para o

planejamento das técnicas e métodos, o Centro contou com a

orientação dos professores Emílio Mira y Lopez e Helena

Antipoff. Mais tarde, o Centro passou a priorizar o atendimento

de “casos” com problemas de comportamento e de ajustamento

familiar e social.

Após essa fase inicial, “mais dedicada ao diagnóstico e

orientação direta” e que perdurou até 1954, o COJ passou a

proporcionar tratamento psicoterápico para clientes e

orientação às suas famílias. Em 1960 foi introduzido tratamento


110

de base analítica e, em 1965, visando ampliar o atendimento,

iniciou experiências de terapia em grupo (ADOLESCÊNCIA -

Orientação e Psicoterapia: a experiência do COJ, 1973, p.

11-12).

Com a extinção do DNCr, aprofundou-se a crise. Segundo um

depoimento, na época em que o Dr. Amaury de Medeiros era diretor

do IFF19, chegaram a “faltar recursos para comprar alimentação

para as crianças. Lembro-me que o Dr. Amaury, então, organizou

uma avant-prémière...” (depoimento de médica que ingressou no

Hospital em 1947)

Após a extinção do DNCr, houve um período de


estagnação porque a ênfase na assistência médica
estava colocada na Previdência. (depoimento de
médico puericultor)

Mesmo nos períodos de estagnação havia a


manutenção dos rituais institucionais dos tempos
áureos. Eu fazia isto porque era produto da Casa...
Era a minha razão de ser, vivi aqui dentro durante
sete anos, eu e o Cezar Pernetta... (depoimento de
médico puericultor)

Responsáveis pelo primeiro contato do paciente ou

familiar com o Hospital, as assistentes sociais faziam, pelo

menos na década de 70, uma classificação socioeconômica para

fins de captação de recursos. Sobre a cobrança pelo atendimento

e sobre o esvaziamento do serviço, nossos entrevistados

revelam:

18 As informações que se seguem sobre o COJ foram retiradas de ADOLESCÊNCIA


- ORIENTAÇÃO E PSCOTERAPIA: EXPERIÊNCIA DO COJ (1973).
19 O Dr. Amaury de Medeiros dirigiu o IFF durante quatro anos. Era diretor

em 1973, conforme se depreende da leitura de ADOLESCÊNCIA (op. cit.).


111

Não sei desde quando era feita uma cobrança pelo


atendimento prestado no IFF. Mas ocorreu, pelo
menos, de 1972 até 1976/77. Em 1977, saíram do IFF
todas as Assistentes Sociais. Elas eram
estatutárias e não quiseram optar pelo regime CLT.
(depoimento de servidora administrativa, que
ingressou no IFF em 1972)

Entrei em julho de 1972, para trabalhar junto com


a Juraci Mendes, numa sala quase em frente à antiga
Agência de Serviço Social, onde hoje é a Secretaria
do Centro de Estudos... Nesse setor se fazia a
cobrança que era mensal... Até 1973, todas as mães
iam lá, pagavam com uma nota de 10, acho que eram
cruzeiros... Esse setor era ligado à
contabilidade... Depois, esse setor foi
fechado... (depoimento de servidora
administrativa que ingressou em 1972)

Depois, o administrador, Sr. Luís, queria passar


a cobrança para o Serviço Social... D. Heloísa, que
era a chefe, não queria... Então, quando o Serviço
Social finalmente aceitou, foi criada uma
classificação A, B, C... Todos eram entrevistados,
levavam a Carteira de Trabalho, as Assistentes
Sociais colocavam a letra correspondente à
classificação em vermelho e a mãe ia na
Contabilidade para pagar... Os critérios de
classificação? Só me lembro que levava em conta a
renda familiar: Classe A eram os que ganhavam acima
de dois salários mínimos; B eram os que ganhavam
em torno de 1 salário mínimo; C eram os que estavam
desempregados, ou mesmo os que estavam empregados
e, com algum problema, não podiam pagar... Mas a
entrevista era bem extensa... (depoimento de
assistente social)

A partir de 1970, pelo Decreto n.º 66.624, de 22 de maio

de 1970, a Fundação Instituto Oswaldo Cruz era uma instituição

de direito privado. Sobre a criação da Fundação Instituto

Oswaldo Cruz:

Quem se esforçou para criar a Fundação Oswaldo Cruz


foi o ministro daquela época, que tinha feito curso
na Escola Superior de Guerra. Ele gostaria de, após
deixar o cargo, retornar como Presidente da
Fundação Oswaldo Cruz. Seu nome, Rocha Lagoa, o do
112

Massacre de Manguinhos. (depoimento de médico


puericultor)

Todos os Institutos de pesquisa médica do


Ministério da Saúde foram agrupados para criar a
Fundação Oswaldo Cruz. (depoimento de médico
puericultor)

Após a criação da Fundação Instituto Oswaldo Cruz e com

a incorporação do Instituto Fernandes Figueira, ocorreram

tentativas de mudança do Hospital para o Campus de Manguinhos.

Houve resistência do Corpo Clínico e a seguinte estratégia foi

adotada pela Direção:

Por duas vezes, quase saímos... Na primeira, em uma


reunião, ainda integravam a Fundação Oswaldo Cruz
todos aqueles órgãos: o Instituto de Endemias
Rurais, o Instituto Evandro Chagas do Pará, o
Instituto de Leprologia, etc. O Ministro Almeida
Machado, com quem o Conselho Técnico
Administrativo 20 se reunia uma vez por mês,
disse-me: O sr. tem 90 dias para desativar o
Instituto Fernandes Figueira. E ele tinha uma
certa razão... lendo o relatório... pior do que o
Instituto Fernandes Figueira, só o IOC... Era uma
tragédia... Quem lesse acharia mesmo que ele
deveria ser desativado... Aí eu disse: Ministro,
o senhor me dá 3 meses para desativar o Fernandes
Figueira, e eu peço 6 meses para demonstrar que ele
não deve ser desativado. Depois, mais tarde, já com
o Vinícius na Presidência da FIOCRUZ [após 75],
quase fomos lá para o Pavilhão 28... (depoimento
de médico)

Eu não me opus à transferência, oficialmente, até


porque havia uma certa lógica. A idéia de agrupar
todas as unidades no Campus era cabível. Mas
pragmaticamente seria um desastre. O Instituto
perderia seu nome e sua identidade. Quando uma
instituição perde a sua própria identidade ela
desaparece. Então, o que eu fiz? Apoiava, e ao
mesmo tempo, segurava o barco. Uma vez o chefe de
gabinete do Ministro disse que era hora de
transferir o Fernandes Figueira para Manguinhos.

20Paulo de Almeida Machado foi Ministro da Saúde a partir de 15/03/74 (BUSS


et alli, op. cit.) e até 79.
113

Eu respondi que ia fazer isso, mas que levaria um


tempo. O Ministro caiu21 e o Fernandes Figueira
permaneceu aqui. (depoimento de médico)

Desconheço os argumentos reais para as tentativas


de transferência. Podia ser mesmo por especulação
imobiliária; isto era o que mais se falava...
Quaisquer que fossem os motivos alegados para a
resistência dos médicos, uma coisa era certa.
Nenhum deles, com todas as suas atividades
localizadas na Zona Sul, iria mesmo querer ir para
Manguinhos. (depoimento de funcionária de nível
médio)

Instalou-se uma outra disputa, só que mais velada, porque

interna à instituição da qual o Instituto Fernandes Figueira

fazia parte:

A resistência do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) ao


Instituto Fernandes Figueira decorre, em grande
parte, da disputa por recursos. Também o IOC não
gosta muito da Escola de Saúde Pública, embora ela
lhe tenha sido muito útil pela carta-patente de
fundação... Porque ela era a Fundação Ensino
Especializado de Saúde Pública e a lei não permitia
a criação de outras fundações... Só foi possível
criar a FIOCRUZ utilizando a Fundação Ensino
Especializado de Saúde Pública. (depoimento de
médico)

Com a Escola Nacional de Saúde Pública é


diferente... Ela nasceu no próprio Campus... Já o
Instituto Fernandes Figueira na FIOCRUZ foi um
arranjo da ditadura militar. (fala de uma
pesquisadora do IOC que ingressou na instituição
na segunda metade da década de 80)

Sobre a época da ditadura militar e o Massacre de

Manguinhos, nossos entrevistados revelam:

O massacre de Manguinhos não teve repercussão no


Fernandes Figueira. Foi uma coisa localizada, dez
pesquisadores... Acho que foi uma barretada do

21 De 1953 a 1974, foram 20 os ministros que ocuparam a Pasta da Saúde.


114

Rocha Lagoa às autoridades da época. Ele quis fazer


uma média com a área mais rígida do poder militar
da época. Aqui teve inquérito e fui indiciado...
(depoimento de médico que dirigiu o Hospital)

Aqui teve caça às bruxas... O Chefe do Laboratório


teve que ficar escondido na casa de um dos seus
funcionários... Depois ele foi afastado. Só com a
lei da anistia ele recuperou seus direitos, mas já
estava aposentado... (depoimento de servidora da
área administrativa)

Quem presidiu a comissão? Quem presidiu eu não sei,


mas ela foi integrada pelo Luís Alfredo, chefe da
Maternidade, filho do Dr. Clóvis... (depoimento de
servidora da área administrativa)

Na época do regime militar houve um inquérito


interno. Queriam o livro do Centro de Estudos e a
Ata das Eleições. O Pedro, do laboratório, era de
esquerda e vieram buscá-lo... Dr. Isnard era chefe
do Laboratório... Mais tarde, com a Lei da Anistia,
parece que conseguiu se aposentar sem perdas...
Dr. José Henrique chegou a ser preso...
(depoimento de médica que ingressou em 1947)

Quem participou do Inquérito, que eu sei, foi o Dr.


Luís Alfredo, filho do Dr. Clóvis Corrêia da Costa.
(depoimento de médica que ingressou em 1947)

A incorporação à Fundação Instituto Oswaldo Cruz não

melhorou o quadro com a rapidez desejada, pois, a própria

Fundação encontrava-se em crise. Crise e resistência que

perduraram um longo tempo, conforme podemos depreender do

discurso do seu presidente, Vinícius Fonseca:

“Quando, em agosto de 1975, assumimos a


Presidência da Fundação - por conseguinte, a
responsabilidade pelo Instituto Oswaldo Cruz -
encontrava-se a Casa em lamentável decadência...
A volta aos grandes temas da saúde pública, a
articulação da pesquisa científica básica ao
desenvolvimento tecnológico engajado e à
conseqüente produção de bens e serviços
específicos, conformam diretriz da reorientação
programática que está sendo implantada na Fundação
115

Oswaldo Cruz, com integral apoio do Ministro da


Saúde, Dr. Paulo de Almeida Machado, e, já agora,
com a colaboração crescente de pesquisadores e
tecnologistas da Casa22 (prefácio do Presidente da
Fundação Oswaldo Cruz à edição brasileira do livro
de Nancy Stepan, 1976).

Por outro lado, conforme vimos anteriormente, com a

extinção do Departamento Nacional da Criança foi criada uma

Coordenação Nacional de Proteção Materno-Infantil, vinculada

à Secretaria de Assistência Médica do Ministério da Saúde. Em

1973 constituiu-se o Programa Materno-Infantil, da Secretaria

de Assistência Médico-Social do Ministério do Trabalho e

Previdência Social (MTPS).

Apesar da Coordenação estabelecida no Ministério da

Saúde, cada vez mais as ações na área da mulher e da criança

e/ou o seu financiamento passaram a depender da Previdência.

Quanto ao Instituto Fernandes Figueira instalou-se um

período de estagnação. Seu antigo prestígio continuava

atraindo alunos para o Curso de Especialização em Pediatria e

residentes. Alguns serviços continuavam sendo “de

referência”23. As sessões do Centro de Estudos eram mantidas.

Mas o período da opção pelo regime CLT ainda representaria uma

dificuldade adicional a ser enfrentada nos próximos anos.

O período da opção foi duro, foi traumatizante...


Do meu ponto de vista pessoal, eu pensei: Onde o
meu arquivo cair... Se cair no mar, eu caio
junto... Porque, é um filho que eu tenho. Estão
documentados 50 anos de patologia pediátrica, caso

22Grifos nossos.
23 Dentre esses, o Serviço de Mucoviscidose, dirigido pela Dra. Ludma
Trotta, de referência nacional. Atualmente ele não mais existe, embora as
crianças portadoras sejam atendidas pela Pediatria.
116

por caso. Eu acho que é o único do Brasil...


(depoimento de médica)

Fig. 11 - Fachada do IFF.


Fonte: SOBREIRA e MONTEIRO, 1974
117

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desta dissertação resultou o primeiro delineamento da

trajetória, durante 50 anos, do Instituto Fernandes Figueira1.

Acerca dos atores sociais que buscaram orientar a

constituição e as transformações do Hospital nos anos iniciais,

faremos algumas considerações.

A respeito de Antonio Fernandes Figueira, percebemos, ao

longo do desenvolvimento do trabalho, uma unanimidade.

Admiravam-no todos os depoentes que a ele fizeram menção.

Martagão Gesteira cita-o várias vezes, sempre de forma

elogiosa, no livro que nós utilizamos amplamente. Olinto de

Oliveira era seu amigo pessoal, conforme se pode depreender da

dedicatória do livro “Éléments de Séméiologie Infantile”.

Em relação a Martagão Gesteira, todos os entrevistados que

a ele se referiram foram unânimes quanto ao seu mérito

científico e acadêmico. No entanto, seu projeto, origem da

disputa com Olinto de Oliveira, foi percebido como um

esvaziamento do Hospital. A fala de um dos depoentes relativiza

isso:

Tudo foi feito, certamente, com a melhor das


intenções... Naquela época, com o intuito de
melhorar o prestígio de uma ou outra Faculdade de
Medicina, buscava-se mesmo captar catedráticos...
Talvez o Getúlio Vargas é que tenha causado a
trapalhada toda... O Martagão Gesteira era um
homem capaz de reconhecer seus erros e até mesmo

1
Apresentamos, na sequencia dessas considerações finais um quadro resumo (cronologia).
118

pedir desculpas, imagine só... Nós só não podíamos


tolerar que o nosso Hospital não fosse o Instituto
Nacional de Puericultura. Ele já existia quando o
Martagão veio para cá e tinha sido criado por
Antonio Fernandes Figueira. (depoimento de médico
que, na época, polemizou com Martagão)

Resta dizer que Fernandes Figueira, após perceber uma

“mudança de rumos”, deixou a Inspetoria de Higiene Infantil e

afastou-se da vida pública (FONTE: ACERVO FAMILIAR), vindo a

falecer em 1928. Sobre essa mudança de rumos, há uma zona de

sombra que não conseguimos aclarar (cap. 1).

Uma segunda área obscura na história da instituição diz

respeito ao acompanhamento da criança pela mãe nas unidades de

internação, elemento introduzido por Antônio Fernandes que

diferenciou o Hospital Arthur Bernardes dos demais (cap. 2).

Só sabemos que “em 1947, ele não existia mais” (depoimento de

médica).

O Hospital Arthur Bernardes foi constituído sob a

influência francesa de Antonio Fernandes Figueira, um

higienista, médico de crianças. A ótica sob a qual o Hospital

se originou abrigava a higiene infantil e a Clínica Pediátrica.

Para esta afirmação, baseamo-nos nas atividades

desenvolvidas, tanto no que concerne à educação higiênica das

mães2, quanto aos esforços despendidos no estudo e prática da

higiene alimentar das crianças e no desenvolvimento de

formulações dietéticas.

A ênfase colocada na higiene alimentar das crianças ou

dietética infantil justificava-se pela alta incidência de

2 Ver cap. 2, sobre a existência da Escola de Mães.


119

doenças gastrointestinais na 1ª infância, que levavam esse

grupo de causas a assumir grande importância na mortalidade

deste grupo etário.

Anteriormente abordamos sucintamente as influências

internacionais na formação dos técnicos de saúde pública e nos

serviços sanitários (cap. 1). Especificamente em relação à

pediatria, desde os anos 20 deu-se um aumento da influência da

escola alemã, principalmente a partir da Faculdade de Medicina

da futura Universidade do Brasil. Segundo a escola alemã, as

crianças necessitavam sobretudo de alimentação e educação

(RIVORÊDO, 1995, p. 93-94).

A grande maioria dos formadores de pediatras no


Brasil, são discípulos diretos ou indiretos de
CZERNY. Quem estudou pediatria nas décadas dos 20
e trinta e uma parte dos 40, teve forte influência
dele. (RIVORÊDO, op. cit., p. 93)

Antes de Martagão Gesteira assumir a cadeira de

Puericultura e Pediatria da 1ª Infância, a cátedra de Pediatria

era ocupada por Martinho da Rocha, que tinha formação na

Alemanha (ibidem).

Martagão Gesteira, também sob essa influência, em 1937,

justamente no início do Estado Novo, tenta implantar um

Instituto idealizado com base na Kaiserin Augusta Victoria

Hauss.
120

Nas instituições pediátricas brasileiras, após a II

Guerra, acentuou-se a influência americana que conviveu com a

hegemonia alemã durante bastante tempo. Portanto, vemos que não

existe “etapismo” ou uma linearidade no discurso e na prática

da Pediatria e da Puericultura. Mesmo a Puericultura, conforme

vimos (cap. 3), não consistia em um bloco homogêneo.

De todo modo, nos chamou a atenção como a Puericultura,

ou a sua fração hegemônica 3 , entrou em sintonia com outro

discurso: o da formação da nacionalidade, mesmo quando se

ocupava de “pré-cidadãos” (as crianças) e “meio-cidadãs” (as

mulheres), durante o Estado Novo. Se é certo que a questão

materno-infantil assumiu uma dimensão continental,

principalmente no pós -guerra (MARQUES, 1978), a sintonia de

que falamos se faz sentir, entre nós, em muitos aspectos e com

intensidades variadas.

Assim, a Puericultura foi definida como:

a parte das ciências médicas que se ocupa em


cultivar a vida e a saúde das crianças,
esforçando-se por que cheguem ao mundo sadias e
fortes e se desenvolvam normalmente, amparando-as
e defendendo-as contra os múltiplos perigos que as
ameaçam em conseqüência da ação maléfica de
fatores ambientais ou sociais. (GESTEIRA, 1945, p.
16)

3Constituiu-se um grupo burocrático de médicos puericultores no interior


do Ministério da Educação e Saúde Pública nos anos 30 e houve um intenso
debate sobre como a proteção materno-infantil deveria ser organizada.
Existiam vários grupos de interesse relacionados à questão
materno-infantil: primeiro escalão do governo, organizações privadas,
médicos puericultores, juizes e movimento feminista. Destaca-se o caráter
não-monolítico do grupo de puericultores (PEREIRA, 1992, p. 89-149). Sem
a riqueza de análise do autor, mas à luz dos depoimentos colhidos, também
delineamos algumas dessas fissuras.
121

A puericultura poderia se expressar em dois ramos:

individual e social, bem como em dois departamentos: prévia

(pré-concepcional e pré-natal) e pós-natal4. A puericultura

(pós-natal) individual se confunde com o que habitualmente

denominava-se “higiene infantil” (ibidem, p. 25).

A puericultura pré-concepcional, cuja importância é

ressaltada, teria como objetivo a profilaxia de males físicos

e morais de origem hereditária (ibidem, p. 414), destacando-se

a eugenia de Galton e a eugenética de Pinard.

Estão, portanto, realçados pelo autor os conteúdos

eugênicos, que, a nosso ver, propiciaram aquela sintonia.

Outra definição consiste na Puericultura, vista como a

“ciência e a arte que tratam da procriação e criação da espécie

humana” (Clóvis Corrêia da Costa, 1950, p. 4)5. A Puericultura

é encarada como sendo um dos sustentáculos da soberania

nacional, pela necessidade de povoamento do território

nacional 6 e com uma forte ênfase eugênica. Com um discurso

enfático é apregoado que:

4 Como puericultura prévia social, o autor relaciona: medidas legislativas


de amparo à maternidade, campanhas educativas e obras assistenciais. Dentre
as obras assistenciais são destacadas: assistência higiênica e médica;
moral; jurídica e material. Como puericultura pós-natal social o autor
relaciona: medidas legislativas de proteção ao recém-nascido e ao lactente;
profilaxia das doenças transmissíveis; educação sanitária, higiene escolar
e as obras de assistência à infância. Pudemos constatar como a questão da
assistência moral, embora não tenha sido suficientemente abordada pelo
autor, assume importância em seu discurso.
5 Clóvis Corrêia da Costa deu nome à Maternidade do Instituto Fernandes

Figueira. A primeira edição desse livro parece datar de 1946. Na


apresentação, o autor coloca a sua destinação: “Destina-se, especialmente,
aos médicos que vêm fazer o curso de administração, no Instituto Fernandes
Figueira, e aos curiosos dos assuntos estudados.”
6 “Se continuarmos a ser país despovoado, continuaremos a ser militarmente

fracos, e estaremos perdidos como nação independente, seremos conquistados


por povos provenientes de terras superpopulosas, que sobre nós lançarão
o excesso de sua população” (CORRÊIA DA COSTA, 1950, p. 28).
122

Os órgãos da reprodução não pertencem propriamente


ao seu portador, pertencem mais à espécie, cuja
existência e propagação são destinados a
assegurar... O indivíduo, desde o estado de
sombra, e depois como embrião, feto, lactente,
infante, adolescente, até a sua incorporação à
sociedade, como unidade produtora, deve
permanecer sob a guarda tutelar, carinhosa e
inteligente de assistência hábil... Por aqui se
vê, como a zootecnia se encontra, entre nós, mais
adiantada e difundida que a puericultura...”
(Corrêia da Costa, 1950, p. 4-5)

Precisamos fomentar, proteger e cuidar das


gerações que hão de vir, para ocupar, habitar,
explorar e civilizar a imensidade do nosso
território (p.8)[...] A primeira pedra sobre a
qual se assenta a defesa nacional é a puericultura,
que prepara gerações de homens fortes, aptos a
disputar seu lugar ao sol. (ibidem, p. 10)

Ressaltamos no discurso de Clóvis Corrêia da Costa

conteúdos de valorização do trabalho, de cidadania regulada7

e os princípios eugênicos para a formação do futuro cidadão

trabalhador. Para nós isto evidencia, em relação aos demais

médicos puericultores abordados neste trabalho, uma sintonia

mais fina, ainda, com o discurso oficial.

A Puericultura tornou-se hegemônica, em relação à Clínica

Pediátrica na década de 30, transformando-se no discurso

institucional oficial do Departamento Nacional da Criança e,

conseqüentemente, do Hospital. Mas,

Nem todos os médicos do Hospital eram


puericultores. A maioria praticava a clínica. É
claro que, durante um grande período, os
puericultores é que assumiam os cargos... Eles
tinham feito curso para isso. (depoimento de
médica)

7 Cf. SANTOS (1979).


123

A forma como se deram as relações entre puericultores e

demais médicos do Hospital, representa a nossa terceira zona

de sombra.

As relações do Instituto Fernandes Figueira com as demais

unidades da FIOCRUZ e a resistência destas ao IFF, constituem

o nosso quarto módulo de zona sombria na história (cap. 4).

Sobre isto podemos dizer apenas que, pouco a pouco, à

medida que a redemocratização do país caminhou, a partir da

década de 80, foram sendo instalados mecanismos de gestão mais

colegiada. As diferentes unidades tiveram que aprender um outro

tipo de convívio e no discurso institucional, a riqueza da

FIOCRUZ aparece como sendo a sua diversidade.

Do lado do Hospital, também, ocorreram e estão ocorrendo

outras modificações, tornando seu perfil menos díspar em

relação a outras unidades da FIOCRUZ. Seja pela instituição da

pós-graduação - mestrado e doutorado - seja por projetos de

pesquisa que se viabilizam mediante algum nível de integração.

Uma última observação se faz necessária. Em meio à disputa

com Olinto de Oliveira, Martagão Gesteira fez uma sugestão ao

Ministro Capanema para agilizar o funcionamento do seu

Instituto Nacional de Puericultura, o idealizado.

A sugestão era viabilizar uma cooperação com o Laboratório

de Biologia Infantil, dirigido por Leonídio Ribeiro. Conforme

vimos no cap. 3, o Instituto passou a sediar parte de suas

atividades no Laboratório de Biologia Infantil.

Então, retornamos a FONSECA (1990):


124

Segundo Nancy Stepan, vários médicos do Hospital


Arthur Bernardes que pertencia ao Instituto de
Puericultura, realizaram em colaboração com o
Laboratório, uma série de exames “eufrênicos” nas
crianças que para lá eram enviadas pelos centros
de detenção infantil, como também em consultas
pré-natais (FONSECA, 1990, p. 110)

Levando-se em conta que ao Hospital foram incorporados

alguns médicos procedentes do Instituto de Martagão quando da

constituição do Instituto Nacional de Puericultura (cap. 3),

há uma última zona de sombra: teriam sido esses exames

eufrênicos realizados no Instituto de Martagão Gesteira, no

início de seu funcionamento ou no Hospital?

De todo modo, podemos retificar: o Hospital Arthur

Bernardes foi o próprio Instituto Nacional de Puericultura

durante quase cinco anos.

Ao longo do período abordado, a instituição focalizada

neste estudo apresentou-se extremamente rica de

transformações, em processo de luta pela hegemonia na atenção

à mulher e à criança, assumida como “referência e excelência”,

em contextos diversos.

Esses contextos vão da fase final da República Velha, em

que a questão social foi reduzida a uma questão de higiene; ao

Estado Novo, em que o discurso da formação do “homem novo”

destacou a proteção à maternidade e à infância como uma

prioridade social; ao Estado Populista, que privilegiou a

medicina previdenciária e deixou ao Ministério da Saúde o

campanhismo; ao regime militar, em que foi reafirmada e

reforçada a hegemonia da Medicina Previdenciária sobre o campo


125

da saúde pública, culminando com a criação do Ministério da

Previdência e Assistência Social, em 1974.

Nos dois últimos contextos a instituição declinou,

acompanhando a decadência do Ministério da Saúde. Manteve,

entretanto, uma forte identidade construída, ao longo dos anos,

em torno da pesquisa e da formação de pessoal para a área

materno-infantil.
126

CRONOLOGIA

ANO / EVENTO ÓRGÃO CONJUNTURA SITUAÇÃO DO


ÉPOCA MACRO-INSTITUC CENTRAL HOSPITAL
IONAL

1920/23 Reforma Carlos DNSP - Governo


Chagas Inspetoria Arthur
de Higiene Bernardes -
Infantil República
Velha

1924 Criação do
Hospital
Arthur
Bernardes

1930 Criação do MESP crise e


desativação

1934 Criação da crise


DPMI

1937 Criação do MES Criação da


DAMIA

1939 Reabertura
do Hospital
(IHMC?)

1940 Criação do Instituto


DNC Nacional de
Puericultura

1946 Instituto
Fernandes
Figueira

1949 Fechado para


obras

1953 Criação do MS Reabertura

1966/69 Extinção do
DNCr e dos
seus Cursos

1970 Criação da Incorporação


Fundação à Fundação.
Instituto
Oswaldo Cruz

Elaboração própria
127

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBERTI, V. - História oral: A experiência do CPDOC. Rio de

Janeiro. CPDOC/ FGV, 1989. p. 1-20.

AURELIANO, L.& DRAIBE, S.M. - Welfare state: O caso brasileiro.

In: MPAS/CEPAL - A política social em tempo de crise.

Vol. 1: 120-178,1989 (Série Econômica e Desenvolvimento).

BARATA, J. - O Banco de Leite Humano em 15 anos. In: Anais do

Instituto Fernandes Figueira. Rio de Janeiro. I (1) :

41-52, 1959.

BELTRÃO, V.R. - A medicalização da raça: Médicos, educadores e

discurso eugênico. Campinas, UNICAMP, 1994.

BODSTEIN, R.C.A. (Org.) - História e Saúde Pública. Rio de

Janeiro. PEC/ENSP, 1987.

BOLTANSKI, L. - Prime éducation et morale de classe. Paris. École

Pratique des Hautes Études. Cahiers du Centre de Sociologie

Européene. 1969.
128

BRAGA, J.C.R.& PAULA. S.G. - Saúde e Previdência: Estudos de

política social. 2. ed. São Paulo, Hucitec. 1986.

BRASIL - MÉDICO. Vol. 77, maio/junho, 1963.

BUSS, P.M.; SHIRAIWA, T, & MARANHÃO, E. - Ministério da Saúde e

Saúde Coletiva: A história de 20 anos. Rio de Janeiro.

IMS/UERJ. 1975. (Mimeo)

CARDOSO DE MELLO, J..M. - O Capitalismo tardio. 8. ed. São

Paulo. Brasiliense, 1991.

CLIFFORD, D. - Methods in oral history an social work. Oral

history : 65-70, autumn 1995.

CONI, A.C. - A escola tropicalista bahiana. Salvador. Livraria

Progresso, 1952.

CORRÊIA DA COSTA, C. - Puericultura: Eugenésia, pré-natal,

mortinatalidade, Maternidade. 3. ed. Rio de Janeiro, Deptº

de Imprensa Nacional, 1950. (Coleção D.N.Cr., 82).

DNS. Relatórios Servoços Federais de Saúde, 1937.


129

DONNANGELO, M.C.F. - Medicina e sociedade: O médico e seu mercado

de trabalho. São Paulo, Pioneira. 1975.

ECHEVERRIA-HOWE, L. - Reflexions from the participants: The

process and product of life history work. Oral history :

40-46, autumn 1995.

ERALY, A. - La structuration de l’entreprise. Bruxelles,

Université Libre de Bruxelles, 1988.

FABIO, N. - A educação em Enfermagem. Origens, organização e

perspectivas. Salvador. (Mimeo)

FAUSTO, B. - Trabalho urbano e conflito social. Rio de Janeiro,

DIFEL, 1976.

FERREIRA, M.M. et al - Entre-vistas: Abordagens e usos da história

oral. Rio de Janeiro, FGV/CPDOC, 1994.

FIGUEIRA, A.F. - Élements de Séméiologie Infantile. Paris,

Octave Droin Éditeur, 1903.

FIOCRUZ. - Relatório Anual de Atividades. Administração Sérgio

Arouca. 1985.
130

FLEURY, M.T.L. - Cultura organizacional e estratégias de

mudança: Recolocando estas questões no cenário brasileiro

atual. São Paulo, Revista de Administração . 26(2) : 3-11,

1991.

FONSECA, C.M. - Modelando a cera virgem: A saúde da criança na

política social de Vargas. Niterói, 1990. Dissertação de

Mestrado em História, Instituto de Ciências Humanas e

Filosofia/ UFF.

FOUCAULT, M. In: MACHADO, R.( Org.) - Microfísica do poder.

Rio de Janeiro, Graal, 1995.

FVG/CPDOC - Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro

1930-1983. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1984.

GOMES, A.M.C. - Burguesia e trabalho: Política e legislação

social no Brasil 1917-1937. Rio de Janeiro, Campus, 1979.

GONÇALVES VIANNA - Olinto de Oliveira. Porto Alegre,Livraria do

Globo, 1945.

LABRA, M.E. - O movimento sanitarista nos anos 20: da conexão

sanitária internacional à especialização em Saúde Pública


131

no Brasil. Rio de Janeiro, 1985. Dissertação de Mestrado,

EBAP/FGV.

LUZ, M.T. - Instituição e estratégia de hegemonia: As

instituições médicas no Brasil (1960-1964). São Paulo,

1978. Tese de Doutoramento , Faculdade de Filosofia, Letras

e Ciências Humanas da USP.

LUZ, M.T. - Medicina e ordem política brasileira: Políticas e

instituições de saúde (1850-1930). Rio de Janeiro, Graal,

1982.

MAGALHÃES, A. - Dicionário enciclopédico brasileiro. 10. ed,

Porto Alegre, Globo, 1943.

MARQUES, M.B. - A atenção materno-infantil como prioridade

política. In: GUIMARÃES, R. (Org.) - Saúde e medicina no

Brasil: Contribuição para um debate. Rio de Janeiro, Graal,

1978.
132

MÉDICI, A.C. - A força do trabalho em saúde no Brasil dos anos

70: Percalços e tendências. Revista de Administração

Pública. Rio de Janeiro, julho/setembro, 1976.

MERHY, E.E. & QUEIROZ, M.S. - Saúde Pública, rede básica e o

sistema de saúde brasileiro. Cadernos de Saúde Pública,

9(2) : 177-184, 1993.

MINAYO, M.C.S. - O desafio do conhecimento: Pesquisa

qualitativa em saúde. 4. ed. São Paulo - Rio de Janeiro,

1996.

MINISTÉRIO DA SAÚDE - Anais da III Conferência Nacional de Saúde.

Rio de Janeiro, 1963.

M.S./ FIOCRUZ/IFF - Adolescência - orientação e psicoterapia: A

experiência do COJ. Rio de Janeiro, 1973.

MIRANDA NETTO, A.G. et al. - Dicionário de Ciências Sociais. 2.

ed. Rio de Janeiro. FGV, 1987.

MOREIRA, M.C.N. - A Fundação Rockfeller e a construção da

identidade profissional de enfermagem no Brasil na Primeira

República. 1997.(Mimeo)
133

NAPOLEONI, C. - O pensamento econômico do Século XX. 2. ed. Rio

de Janeiro, Paz e Terra, 1990.

OLINTO, M. - Modernos conceitos sobre vacinação BCG. In: Anais

do Instituto Fernandes Figueira. Rio de Janeiro, I (1) :

22-40, 1960.

OLIVEIRA, I.C.S. - (Re)Construindo a Assistência de Enfermagem

à Criança Hospitalizada na Cidade do Rio de Janeiro

(1920-1969). Rio de Janeiro, 1996. Tese de Doutorado em

Enfermagem, Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ.

OLIVEIRA, J.A.A. & TEIXEIRA, S.M.F. - (Im)Previdência social: 60

anos de história da Previdência no Brasil. 2. ed.

Petrópolis, Vozes, 1986.

PEREIRA, A.R.V.V. - Políticas sociais e corporativismo no Brasil:

O Departamento Nacional da Criança no Estado Novo. Niterói,

1992. Dissertação de Mestrado, Instituto de Ciências

Humanas e Filosofia da UFF.


134

QUEIRÓZ, M.I.P. - Relatos orais: Do “indizível” ao “dizível”. In:

Experiências com histórias de vida: Itália - Brasil. São

Paulo, Vértic, p. 14-43, 1988.

RIVORÊDO, C.R.S.F. - Cuidar e tratar de criança: Breve histórico

de uma prática. Taubaté, Cabral, 1985.

RODRIGUES, J.A. - Sindicato e desenvolvimento no Brasil. São

Paulo. DIFEL, 1968.

SANTOS, W.G. - Cidadania e Justiça. Rio de Janeiro, Campus, 1979.

SILVA JUNIOR, O.C. - Do asylo da mendicidade ao Hospital São

Francisco de Assis. Rio de Janeiro, 1996. Dissertação de

Mestrado em Saúde Coletiva, Instituto de Medicina Social

da UERJ.

SINGER, P. et al. - Prevenir e curar: O controle social através

dos serviços de saúde. 3. ed. Rio de Janeiro, Forense

Universitária, 1988.

STEPAN, N. - Gênese e evolução da ciência brasileira: Oswaldo Cruz

e a política de investigação médica e científica. Rio de

Janeiro. Artenova - Fundação Oswaldo Cruz, 1986. Traduzido


135

de : Beginnings of Brazilian Science: Oswaldo Cruz medical

research and policy. New York. Science History Publ., 1976.

THOMPSON, P. - A voz do passado: História oral. Rio de Janeiro,

Paz e Terra, 1976.

VIANNA, L.D. - Liberalismo e sindicalismo no Brasil. Rio de

Janeiro, Paz e Terra, 1976.

VIEIRA, P.E.G. - Assistência médica no Rio de Janeiro( 1920-1937)

. Reformas institucionais e transformações da prática

médica. Rio de Janeiro, 1982. Dissertação de Mestrado em

Saúde Coletiva , Instituto de Medicina Social da UERJ.

OUTRAS FONTES

ACERVO da família de Antonio Fernandes Figueira

Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro

COLEÇAO DAS LEIS. Vários anos.

Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 14 de junho de 1928. (Citação)

Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 15 de março de 1928.(Citação)

Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 28 de junho de 1928. (Citação)


136

ÍNDICE LEGISLATIVO

DECRETO nº 15.799, de 10 de novembro de 1922.


LEI nº 4.682, de 24 de janeiro de 1923.
DECRETO nº 16.300, de 31 de dezembro de 1923.
LEI nº 4.793, de 7 de janeiro de 1924.
LEI nº 4.911, de 12 de janeiro de 1925.
DECRETO nº 5.150, de 10 de janeiro de 1927.
LEI nº 378, de 13 de janeiro de 1937.
LEI nº 586, de 9 de novembro de 1937.
DECRETO-LEI nº 2.024, de 17 de fevereiro de 1940.
DECRETO-LEI nº 3.171, de 02 de abril de 1941.
DECRETO-LEI nº 3.775, de 30 de outubro de 1941.
DECRETO-LEI nº 4.730, de 23 de setembro de 1942.
DECRETO-LEI nº 5.697, de 22 de julho de 1943.
DECRETO-LEI nº 5.698, de 22 de julho de 1943.
DECRETO-LEI nº 5.912, de 25 de outubro de 1943.
DECRETO-LEI nº 9.069, de 26 de março de 1946.
LEI nº 282, de 24 de maio de 1948.
DECRETO-LEI nº 24.752, de 5 de abril de 1948.
DECRETO nº 26.690, de maio de 1949.
LEI nº 1.920, de 25 de julho de 1953.
DECRETO nº 34.596, de 16 de novembro de 1953.
LEI nº 2.189, de 3 de março de 1954.
LEI nº 5.019, de 7 de junho de 1966.
DECRETO-LEI nº 200, de 25 de fevereiro de 1967.
DECRETO nº 55.377, de 30 de março de 1967.
DECRETO-LEI nº 904, de 1º de outubro de 1969.
DECRETO nº 66.624, de 22 de maio de 1970.
DECRETO nº 72.531, de 26 de julho de 1973.