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A

primavera dos sorrisos macabros
















MILLER BRITTO

A PRIMAVERA

DOS

SORRISOS

MACABROS


Série Detetive Borzagli
Volume 2


1ª edição

Nova lima
Miller Aloisio de Britto
2018

Copyright © 2018 por Miller Britto

Capa Luiz Borja


borja.designer@gmail.com
Revisão Verônica Michetti
Diagramação Miller Britto















Este livro é dedicado a todos aqueles que como eu, em algum momento de
suas vidas, decidiram que era hora de romper as amarras com as quais a
sociedade nos prende tão fortemente, sem nos dar espaço para respirar ou
mesmo para sonhar. Se em algum momento de sua vida você teve a coragem
para chutar o balde e correr atrás de seus sonhos, não importa até onde
você foi, ou quantas vitorias e derrotas contabilizou, o importante é que
você decidiu viver, e este livro é dedicado a você.






Prefácio

Grandes autores policiais povoam a literatura mundial. Fred poderia alinhar-se a
Sherlock, Poirot, Maigret, se não fosse por sua humanidade. É um herói e não
um super herói. É mortal, sente e sofre como qualquer mortal, portanto está mais
próximo de nós leitores.
Nesta obra, Britto faz o detetive Fred - ou ex-detetive como o personagem gosta
de corrigir - lutar contra dois inimigos, um externo, criminoso, psicopata; e um
interno, uma patologia que o angustia e o faz lutar contra dores, convulsões,
sangramentos e, o mais difícil, a possibilidade de perdas familiares e da própria
vida.
Miller Britto é um autor criativo, que constrói a narrativa com variantes curiosas,
e com grande engenhosidade, sempre margeando técnicas e temas da
Criminologia, ciência cada vez mais valorosa para o desvendar de crimes
complexos.

Boa sorte, meus amigos Miller e Fred. Sucesso.

Paulo Montenegro
Médico, advogado e professor de Criminologia e Medicina Legal.






A primavera dos sorrisos macabros

Prólogo

Nova York, 1988

Jacob estava inquieto, movia-se de um lado para o outro no camarim,
ignorando as batidas insistentes na porta.
-Jacob! Que merda cara! Você já está meia hora atrasado! – soava a voz
contrariada do outro lado da porta. – Você está querendo me foder, seu filho de
uma puta? Tive que dar meu sangue para te conseguir essa oportunidade.
A casa de shows estava cheia, Jacob podia sentir, um grande artista sempre
sentia. Aquela era sua última chance. O advogado tinha sido muito claro, não
havia mais nada que ele pudesse fazer para manter sua residência, a não ser,
pagar a hipoteca, o que era apenas um de seus muitos problemas financeiros, que
se empilhavam precariamente como um castelo de cartas prestes a ser soprado
pelo vento.
Com a garrafa de vodka quase vazia nas mãos, ele dava voltas pelo quarto.
-Jacob! Seu filho de uma puta! Abre logo a porra dessa porta!
Ele parou diante do espelho e constatou, chocado, a sinceridade do objeto
que não lhe poupou de nenhum detalhe da sua imagem deprimente. As
profundas olheiras escurecidas e a pele quebradiça, somadas ao cabelo em
desalinho e às roupas amarrotadas, desenhavam diante dele o que parecia um
zumbi daqueles filmes que estavam em alta no cinema.
“Eu não posso descer lá! Como posso fazer as pessoas rirem se minha
própria vida se tornou uma grande tragédia?”.
Ao lado do espelho ele viu a foto de Michele, a esposa que o abandonara,
por ela, mais um longo gole que terminou de secar a garrafa.
-Vadia filha de uma puta! – Num rompante de fúria, ele arremessou a
garrafa no aparelho de TV. A tela explodiu em um estardalhaço de faíscas. Mais
uma conta para pagar, mais uma conta que, seguramente, não podia pagar.
-Quando eu tinha um Jaguar e você podia comprar as roupas que
quisesse, para rebolar a bunda por aí, vestida de Gucci da cabeça aos pés, você
não ia embora, não é, sua vadia? Mas na primeira dificuldade você foi dar essa
boceta para outro!
-Jacob! Jacob! Escuta, cara – novamente a voz de Peter, seu empresário, do
outro lado da porta – você precisa fazer esse show! Tem muita coisa envolvida.
É a sua vida! A merda da sua vida. Sem essa grana, já era cara, já era! Você tem
que descer lá!
Ele não respondeu, apenas tomou a fotografia da ex-mulher em mãos e a
fitou com profunda amargura.
-Jacob! Filho de uma puta! Desce lá e faz logo essa merda de show!
O tom da voz de Peter subia à medida que sua paciência parecia se esgotar.
Sua sombra, que sorrateiramente se esgueirava pela fresta da porta, delatava a
movimentação de um lado para o outro no corredor. Ele batalhara para conseguir
aquele show. Uma nova chance para uma estrela que estava em queda livre,
envolvida em diversas polêmicas, não era algo fácil de conseguir. A estrada para
o esquecimento, pavimentada pelo ostracismo, era curta, um atalho, que
geralmente naquele meio, era cruzado num piscar de olhos. Ainda assim, ali
estava ele, lotando uma das maiores casas de show da Broadway para um filho
da puta não merecedor.
-Não posso, – disse num resmungo – não posso.
-Não pode é o caralho!
Jacob enfiou a mão no bolso e pegou algo que tinha ali, escondido para um
momento como aquele. A última coisa no mundo capaz de lhe estimular. Quando
vodka e água mal se discerniam, e a maconha já não lhe relaxava,
proporcionando viagens cada vez mais curtas, ele finalmente encontrou o último
elo de sua peregrinação rumo à autodestruição. A última folha a vermelhecer e
cair da árvore ao atingir o outono da vida.
Ele desenrolou o papelote e deixou o pó branco escorregar para a mesa de
vidro. Formou uma carreira usando as mãos trêmulas de ansiedade, posicionou-
se e inspirou profundamente. Aquilo poderia salvá-lo. Ainda podia descer lá e
fazer um show, um mega espetáculo! Ganhar dinheiro. Recuperar a carreira.
Trazer de volta a esposa, somente para que pudesse ele mesmo humilhá-la e
colocá-la na rua com um chute no rabo.
O estalo de euforia foi imediato. Era de novo o grande Jacob Willians,
saltitando pelo camarim com um bigode de esperança em pó. Era foda
novamente, o melhor. Desceria para aquele palco e recuperaria sua vida.
Ele voltou ao espelho e se realinhou da melhor maneira possível,
espanando a cocaína que parecia neve grudada em seu bigode. Quando abriu a
porta, encontrou Peter caminhando de um lado para o outro, ora coçando a
cabeça, ora estalando os dedos, numa pilha de nervos. O relógio de ouro
consultado a cada dois segundos.
-Você vai acabar abrindo um buraco no chão, Peter.
-Jacob, seu desgraçado, você está quase uma hora atrasado e ainda fede à
bebida – o homem parecia prestes a voar sobre Jacob. A fúria transbordando
pelos poros.
-Fique tranquilo, farei essa merda de show, mas depois vou procurar por
um novo agente.
Jacob suspeitava que Peter vinha sendo desleal, desviando uma parte
indevida lucros. Ele nunca fora bom com contratos e números, por isso confiava
tudo ao amigo. Jamais se preocupara com aquilo até que suas finanças
começaram a naufragar inalcançáveis em mar revolto. Emulado pela cocaína, ele
finalmente externou seus pensamentos.
-Um novo agente? Você vai me demitir? Você? Quem você pensa que é seu
merda, drogado do caralho? Você não é nada sem mim, nada!
-Depois desse show você está fora, ladrão filho de uma puta – anunciou
Jacob.
-Ladrão? Eu jamais peguei nada além do que era meu! Está ficando louco?
Você está falido por causa de seus próprios vícios. Não tenho nada a ver com
isso! Pelo contrário, eu sempre tentei avisá-lo.
-É como eu disse, depois de hoje, você está fora – Jacob mal podia ouvir as
palavras de Peter, apenas olhava para o reluzente colar de ouro que brilhava
hipnótico no peito do empresário. Em sua mente um tum tum tum ritmado
ecoava retumbante, fazendo-o balançar a cabeça como quem tenta se livrar de
uma mosca incômoda.
Peter respirou fundo, mastigando a raiva enquanto observava Jacob passar
por ele e entrar no elevador. Por fim, colocou as mãos na cintura e começou a rir.
Antes que a porta se fechasse disse:
-Tudo bem. Estive com você no auge e ganhei muito dinheiro, o suficiente
para uma aposentadoria gorda, mas o melhor de tudo foi comer aquela puta da
sua esposa nos camarins enquanto você estava nos palcos. Aquilo sim era bom.
Antes que Jacob pudesse reagir, a porta se fechou e o elevador iniciou a
descida.
-Desgraçado!
Ele socou as paredes do elevador, furioso como nunca. Quando o efeito da
cocaína passasse, provavelmente sentiria os dedos doloridos. A porta abriu
novamente e um rapaz desconhecido o encarou. Mesmo assustado com a
imagem deprimente do comediante, ele tomou Jacob pelo braço e o guiou até a
entrada do palco.
-Senhor Willians, graças a Deus, a plateia está impaciente.
O rapaz fez um sinal para o apresentador, que já não sabia mais como
enrolar o público, então Jacob ouviu palavras que já não ouvia há tempos, desde
que as drogas e a depressão o afastaram dos palcos, o único lugar em que algum
dia fora verdadeiramente feliz.
-Senhoras e senhores, sem mais delongas, eu trago a vocês, nesta noite
histórica, o homem mais engraçado do país. Jacob Willians!
A plateia aplaudiu com entusiasmo, mesmo contrariada com o atraso.
Jacob caminhou em direção ao palco com passos hesitantes. A luz dos
holofotes o cegou por um breve instante. Quando a plateia, um borrão de rostos
indistintos se fez visível, uma onda avassaladora de pânico o dominou.
“Não sou capaz, não sou capaz.” Por mais que se esforçasse a coragem
desvanecia rapidamente, como gelo em asfalto quente. Tinha mais alguns
segundos antes dos aplausos cessarem, suas últimas golfadas de ar antes de
começar a sufocar, submerso em um vasto oceano de pânico.
“Que merda! Eu... não... sou... capaz.”
Quando, por fim, a plateia se calou, o silêncio gritou alto nos ouvidos de
Jacob, ensurdecedor, e cada palavra de seu texto decorado, cada piada,
desaparecera de sua mente sem deixar rastros, como se nunca tivessem estado
ali.
As mãos do humorista suavam no microfone que ele não se lembrava de
ter recebido. Seu silêncio alongava-se incômodo. Um minuto, quase dois.
“Aquilo era parte do show?” Perguntavam-se alguns. “Ele está travado.”
Arriscavam outros. “O grande Jacob Willians perdera o jeito pra coisa?”
Um pigarro ou outro cortava o ar. O som de sussurros, cochichos e de
pernas sendo cruzadas eram suas deixas, mas ele simplesmente não conseguia
encontrar a voz dentro da garganta ressecada, até que, ao abaixar a cabeça em
derrota, viu uma mulher negra rindo na primeira fila, rindo dele e de sua imagem
lastimável, então, finalmente Jacob abriu a boca, apontou para a mulher e disse:
-Sua puta! De quem está rindo? É para você mesmo que estou apontando,
sua crioula de merda que nem deveria estar na primeira fila! Sua porca imunda!
Você quer uma piada? É por isso que está aqui?
A plateia ouvia aquilo em silêncio, estarrecida. A cada segundo uma nova
pessoa se dava conta de que aquilo não fazia parte do show.
-Vou te contar uma piada. Quanto tempo seria necessário para limpar a
cadeira onde você sentou essa bunda preta e nojenta?
Logo as vaias começaram, e, unidas, tornaram-se uma sinfonia.
-Tempo nenhum. Essa cadeira nunca mais ficará limpa, teremos que atear
fogo! De preferência com você amarrada a ela!
Aquele foi o estopim para as vaias tornaram-se gritos furiosos. Havia
muitos negros entre os presentes, mas mesmo os brancos haviam se juntado ao
repúdio. Logo, coisas começaram a voar em direção ao palco. Uma lata de
refrigerante acertou em cheio o rosto de Jacob.
-Seus filhos de uma puta! Vão todos se fo...
Ao invés do palavrão, o que subiu esgueirando-se por sua garganta foi um
jorro denso e azedo de vômito quente e purulento, sujando suas roupas e sapatos
para formar uma poça nojenta sobre o palco. Pedaços de um sanduíche de atum
boiavam a deriva na mistura de suco gástrico e vodka.
Jacob caminhou para trás, as pernas trêmulas ameaçavam ceder sob seu
peso. O mundo girava ao seu redor, os gritos e vaias eram como estacas, prelúdio
de uma dor de cabeça fortíssima.
Ele deixou o palco driblando todas as expressões acusadoras em seu
caminho. Uma trilha de pegadas de vômito pontuou seu avanço trôpego até o
refúgio do elevador. Já no camarim, desolado, ele quebrou tudo que ainda estava
inteiro, apenas para combinar com os cacos de sua vida. O espelho fora sua
última vítima, o soco em seu próprio reflexo era o prólogo de sua próxima ação.
Já não suportava mais a si mesmo.
Caminhou até a janela e a abriu. O vento morno da noite de primavera fez
cabriolar seus cabelos. Ele subiu no parapeito. Quinto andar. Suficiente para a
morte? Suficiente para a liberdade? Para fugir das contas e processos? Para
esquecer a esposa que desgraçara sua vida e as drogas das quais se tornara
escavo?
“Espero que sim”.
E, sem pensar mais, se jogou para a movimentada Broadway.



















Capítulo 1

-Eu lhe concedi a mulher que ama e devolvi o seu filho, em troca, vim
buscar sua alma.
-Vai pro inferno! – bradou Fred.
-Eu sou o diabo, o inferno é a minha casa. Olhe ao seu redor, fogo,
enxofre, torturas, onde você pensa que está?
O homem de terno bem cortado, jovial e bonito, riu com verdadeira
alegria.
-Você não pode fugir de mim, Fred, eu vi o que você fez. Você podia ter
salvado aquela mulher. Ela não era uma pessoa que tinha simplesmente matado
por prazer, ou por ser má, acredite, de maldade eu entendo, tenho alguns
exemplares aqui em baixo que... enfim, a questão é que você podia tê-la salvo,
podia ter saltado sobre ela e a impedido de explodir a própria cabeça, mas você
foi um menino mau, muito mau, ficou apenas olhando enquanto... bum! E os
miolos voaram.
-Cale essa maldita boca! Ela era uma assassina, uma psicopata! E eu não a
matei!
-Sabe, Fred, não salvar e matar são praticamente a mesma coisa. Deixe-me
citar meu autor favorito – o diabo cruzou as pernas em seu trono de caveiras
antes de prosseguir – “os lugares mais sombrios do meu reino são reservados
àqueles que se mantiverem neutros em tempos de crise moral”. Ah Dante, já não
se fazem mais poetas como você.
-Você não terá nada de mim – disse Fred, caminhando para trás, mas sem
sair realmente do lugar.
-Você não pode fugir. Não de mim, sabe que não.
O diabo se levantou do trono de ossos, desceu as escadas lentamente e
caminhou em direção a Fred, que se descobriu completamente paralisado, por
mais que se esforçasse suas pernas não se moviam.
-Fred, Fred, esta sua alma, tão valiosa, tão corrompida – ele colocou as
mãos sobre os ombros do ex-detetive – eu vou adorar brincar com ela, torturá-la
– sussurrou junto ao ouvido de Fred – por toda a eternidade.
-Desgraçado!
-O relógio está correndo, Fred, o relógio... tic tac, tic tac, tic tac...

Fred acordou assustado. O sol da manhã invadia seu quarto sem pedir
licença, cegando-lhe momentaneamente ao driblar as cortinas e banhar a cama
com uma luz morna e agradável. Ao seu lado, com a nudez apenas semicoberta
pelos lençóis, estava Elisabete, sua ex-parceira no departamento de polícia.
Ele se virou na cama e ficou por um longo tempo contemplando a silhueta
de Elis. A brisa matinal fazia os pelos da nuca da moça se eriçarem de maneira
sensual, e o calor que emanava de seu corpo afastava de vez o sonho frio e
estranho que se repetia com certa frequência, povoando as noites de Fred.
Ele ficou em silêncio, não ousava se mexer temendo acordá-la,
contentando-se em apenas observar a mulher que amava. Os traços suaves, a
tranquilidade de seu sono, o meio sorriso que parecia querer mostrar-se em seus
lábios. Tudo que ele desejava era prolongar indefinidamente aqueles instantes,
mas quando o celular de Elis emitiu um grito estridente, acordando-a e lhe
dizendo que precisava trabalhar, Fred suspirou longa e pesarosamente, pois sabia
que estava prestes a perdê-la para traficantes, homicidas, ladrões, cenas de
crimes, ou o que ambos achavam ainda pior, uma pilha de papelada inútil
clamando por assinaturas.
“Os bandidos não vão se prender sozinhos.” Brincava ela sempre que Fred
tentava mantê-la na cama por mais alguns minutos.
-Bom dia, meu amor – disse Elis revirando-se na cama depois de tatear a
penteadeira em busca do celular.
-Bom dia.
Ela beijou Fred na testa e ficou de pé, espreguiçando longamente. Vestiu a
camisola que encontrou jogada no chão e desapareceu na porta que dava para o
corredor do antigo apartamento que o ex-detetive voltara a habitar depois de se
separar da esposa.
Elis havia se mudado para o apartamento de Fred, mas levara pouca coisa,
não apenas porque o lugar era pequeno, mas porque ele insistira que uma grande
mudança era completamente sem sentido. Ele tinha poucos meses de vida, talvez
menos. O tumor inoperável no cérebro estava pronto para cobrar seu preço.
Implacável. Fred dizia que não fazia sentido algum encher um caminhão de
mudanças, assim como não fazia sentido fazer planos para um futuro distante,
para um amanhã pleiteado de alegrias que jamais viriam.
Era difícil não sentir-se deprimido quando o laudo em papel timbrado,
guardado em uma gaveta ao lado de sua cama, gritava tão alto que ele estava
prestes a morrer. Ele não precisava tomá-lo nas mãos, não precisava ler pela
milésima vez o diagnóstico para sentir-se zonzo e prestes a vomitar, entregue à
depressão, bastava saber que ele estava ali, que não era uma mentira ou uma
invenção, um sonho, ou pesadelo. Ele existia, tinha forma, peso, e repousava de
forma casual, quase despretensiosa em sua gaveta, ao lado de um pacote de
camisinhas, uma revista de palavras cruzadas e um exemplar intocado de “Uma
prova do céu”, de Eben Alexander III, com o qual algum filho de uma puta sem
noção tinha lhe presenteado. Para Fred era o mesmo que dizer: “não se esqueça
nem por um segundo de que está morrendo! Sofra desgraçado. Sofra!”
Fred, como um gladiador da Roma antiga, tinha duas armas para afugentar
os tigres famintos que eram a depressão e o medo de uma morte com suas
funções mentais debilitadas. Em uma das mãos, Elis, sua lança, afiada, pronta a
lhe dar amor e prazer em noites cada vez mais longas, como se o mundo
estivesse prestes a acabar e o sexo fosse a única coisa capaz de impedir o
apocalipse, na outra, seu escudo, o ápice de sua alegria e contentamento, o
pequeno Gabriel, que de maior angustia após os anos desaparecido, vítima de um
sequestro, tornara-se novamente seu ás, o raio de sol que rompia a escuridão de
sua vida, fazendo as sombras recuarem para os recônditos mais distantes de sua
psique.
Fred ficou de pé e começou a se arrumar, tinha combinado um passeio com
o filho. Não passava um só dia do que restava de sua vida sem vê-lo. Ia buscá-lo
na escola, ajudava com o dever de casa e jogavam bola juntos. Devorava cada
um daqueles instantes como se precisasse deles para respirar.
-Ontem foi maravilhoso – disse Elis ao retornar para o quarto.
-Nada mal para um moribundo com os dias contados.
O sorriso dela desapareceu de imediato.
-Você sabe que não gosto quando você diz essas coisas.
-Sim, me desculpe.
A moça se vestiu rapidamente enquanto Fred a observava, sem desgrudar
os olhos.
-Elis, depois que eu partir, quero que você siga em frente e seja muito feliz.
Espero que encontre alguém melhor do que eu, uma pessoa que realmente te
mereça.
-Fred, para com esse papo.
-Até hoje não sei o que você viu em mim, mas sou grato por você
transformar meus últimos dias em algo tão bom, então, apenas me prometa que
será feliz.
-Fred, eu...
-Apenas prometa.
-Eu sou feliz agora. Não quero saber sobre o amanhã, estou focada apenas
em você.
Ele sorriu e a abraçou.

***

-Papai! – Gritou Gabriel da janela de casa ao ver o carro de Fred surgir na
curva. O menino de cinco anos e grande para a idade correu desabalado para a
rua.
Fred estacionou, foi de encontro ao filho e o ergueu no ar, girando-o pela
cintura.
-E então, garotão, pronto para brincar com o papai? Vamos jogar bola?
Dessa vez não vou deixar você ganhar.
-Mentiroso, eu ganhei honestamente.
-E depois, um mega sorvete para o vencedor?
-Duas bolas?
-Que tal quatro?
-Espero que esse sorvete não esteja planejado para antes do almoço – disse
Sandra, aproximando-se por trás de Fred.
-Oi Sandra, como vai? – ele se virou para fitá-la.
Ao invés de uma resposta, ela tragou o ar profundamente e olhou ao redor,
como quem busca por algo, no entanto, sem encontrar.
Se o mundo de Fred havia se tornado uma montanha russa enlouquecida
de emoções, o de Sandra também se candidatava a um espetáculo vívido e
intenso, com dramas, tragédias e alegrias intercalando-se a cada ato de forma
abrupta e tempestuosa. Sandra sabia que seu casamento, um espécime
agonizante que se arrastava há anos, finalmente estava morto e enterrado, mas
não o seu amor por Fred, que durante toda sua vida fora seu mundo, seu chão e
teto, seu norte.
Durante dois longos anos ela nutriu esperanças de que assim que Gabriel
voltasse a pisar naquela casa, Fred também voltaria a ser o que era, e sua vida
retornaria aos trilhos, tudo seria como antes, pelo menos até que Fred deixasse
este mundo, mas ele tinha seus próprios planos, já não a amava e a certeza disso
estava estampada em seus olhos. A felicidade que o ex encontrara nos braços de
outra mulher era tão evidente para Sandra quanto o sol que os iluminava naquela
manhã, e assim como ele, projetava sombras em sua vida que eram impossíveis
de afastar. Elis frequentara sua casa, comera à sua mesa e a chamara de amiga.
Será que Fred não conseguia enxergar a crueldade daquilo? Ela jamais os
perdoaria.
Fred se aproximou de Sandra e, completamente sem jeito, como todos os
dias, cumprimentou-a com um aperto de mão.
-Filho, me espera lá dentro. Vá pegando os cadernos, quero dar uma
olhada em todos eles antes de brincar.
-Sim, papai! – e entrou saltitando na bela casa.
-Sandra, eu ando preocupado com você.
-Me poupe dessas palavras, Fred – ela o interrompeu de forma abrupta. –
Acha que estou em frangalhos apenas porque me trocou por uma mulher mais
jovem e atraente, ou será porque essa vadia comeu à nossa mesa e brincou com
nosso filho, aqui, na minha casa, como se fosse da família? Não, tampouco tem
me passado pela cabeça que vocês dois vinham dormindo juntos há anos. Por
que eu pensaria nisso? Praticamente não há motivos não é? – soou tão irônica
quanto pôde. Desde a separação, aqueles encontros vinham sendo carregados de
tensão.
-Sandra, isso não é verdade. Você sabe que não. Elis e eu nunca tivemos
nada no passado, eu juro!
-Você pode não ter ido pra cama com ela, mas você a desejava, a cada
dia, a cada hora que passavam juntos na delegacia, e depois, vinha pra casa e se
deitava do meu lado, me abraçava e beijava...
-Sandra, por favor, não diga isso, não é verdade.
-Você não é capaz de convencer nem a si mesmo, Fred. Vá brincar com o
seu filho. Pelo que eu sei você não tem muito tempo para perder com a ex –
Sandra pareceu se arrepender assim que pronunciou tais palavras, mas já era
tarde e ela simplesmente se virou e escondeu o rosto.
Fred balançou a cabeça em negação e caminhou para a casa com os
ombros caídos e lágrimas nos cantos dos olhos. Os apontamentos de Sandra
minaram sua energia. Ele podia não tê-la traído, mas a atração por Elis, tal qual
ela dissera, verdadeiramente germinara há muito tempo e admitir isso para si
mesmo o machucava.
Sempre que chegava à porta do quarto do filho, Fred precisava se segurar
para conter a emoção. Depois de mais de dois anos pisando ali com a esperança
de que a ausência de Gabriel fosse apenas um pesadelo de uma noite mal
dormida, encontrando sempre um quarto vazio e sem vida, sem o som das
risadas infantis e os clack clack’s de seus brinquedos, cruzar novamente aquele
batente e redescobrir a presença do filho, vivo e com tão pulsante alegria, trazia-
lhe uma onda de felicidade que o fazia tremer e perder a voz.
O casal de brasileiros que adotara Gabriel no exterior tinha se arrependido
do processo ao descobrir os métodos usados pelo grupo internacional de
sequestradores e procurou por uma ONG a fim de buscar ajuda e
esclarecimentos. Foi quando os contatos do milionário Romero Garcia
localizaram a criança e a trouxeram de volta.
Fred sentiu o celular vibrando no bolso.
-Alô.
-Minha academia, em meia hora.
Era Romero.
-Como é? Não tínhamos nada combinado, estou com meu filho agora.
-Minha academia em meia hora.
-Romero, eu sou muito grato pelo que você fez por minha família. Trazer
meu filho de volta foi como um milagre, mas agora...
-Te entreguei um milagre e estou pronto para entregar outro.
-Como assim?
-Minha academia, meia hora – desligou.
Fred ficou olhando para o telefone pensando no que o empresário maluco,
egocêntrico e, na maior parte do tempo insuportável estava tramando desta vez.












Capítulo 2

Hospital Psiquiátrico St. Clarence
Povoado de Woods Hole, Falmouth, Massachusetts
1988

A luz do farol Nobska, situado a leste do St. Clarence, em um dos longos
dedos da praia a rasgar o mar, iluminava o quarto, desafiando a penumbra da
noite e lançando sombras espectrais sobre a cama de Jacob Willians.
Cada uma daquelas madrugadas lúgubres e solitárias, nas quais ele raras
vezes conseguia pregar os olhos, mesmo sob efeito dos remédios, era palco de
seus delírios e lembranças, um amontoado de flashes e sensações que lhe
bombardeavam a mente com cenas de uma vida que parecia pertencer a outra
pessoa.
Houvera um palco, sim, muitos deles, as pessoas estavam lá, sempre,
lotando casas de show, teatros, oratórios de faculdades ou salões de grandes
empresas, não importava onde, a plateia estava sempre lotada. Quando tais
lembranças se sobressaíam aos delírios, ele era até mesmo capaz de sorrir,
embora palavra alguma jamais escapasse por entre seus lábios. Certa vez houve
uma lágrima, solitária, que escorrera pelo rosto desenhando uma trilha singela,
fruto da lembrança de aplausos entusiásticos, pronunciados por uma plateia que
se colocara de pé, saudando-lhe. O auge...
Ele fora feliz em algum momento, sem dúvidas. Não podia estar
inventando tudo aquilo. No entanto, também havia as tempestades da estrada em
ruínas que o conduziram a seu ato final, sua tragédia maior.
A luz esmaecida do corredor iluminou o quarto quando a porta foi aberta
pelo enfermeiro Greg, que acendeu o abajur ao lado da cama, somando uma
cálida luz amarelada à batalha contra as sombras, mas sem derrotá-las
totalmente. A escuridão, seja ela o manto da noite, ou a maldade inerente aos
seres humanos, jamais pode ser derrotada por completo.
-Senhor Willians, está na hora do último remédio de hoje, para ajudá-lo a
dormir melhor.
Greg não esperou resposta, afinal, desde que Jacob fora internado ali, para
sua própria segurança após a tentativa de suicídio, jamais dissera uma palavra
sequer. Ele parecia uma casca vazia, um corpo sem alma, que apenas se deixava
conduzir. A impressão de todos era de que a queda tinha poupado-lhe a vida, mas
levado em troca todos os vestígios do homem que ele fora. Estavam errados.
-Sabe, senhor Willians, eu era um grande fã do seu trabalho. Eu me
divertia muito assistindo seus shows pela TV, as piadas infames, o timing para
ganhar a plateia, o senhor era um gênio. Eu adoraria vê-lo voltar ao que era e
ouvir uma de suas piadas.
Jacob se manteve olhando para o teto, imóvel, mas sua mente trabalhava
incessante, ansiosa. Seria hoje, tudo estava preparado para seu último show. Ele
estava pronto para surpreender a todos.
-O senhor teve muita sorte, se não fosse aquela marquise reduzindo a
queda, acho que você não estaria aqui hoje. Quem diria, eu, um simples
Montclair dos subúrbios de Massachusetts, cuidando da estrela Jacob Willians.
Enquanto separava as pílulas na bandeja, o enfermeiro não notou que
Willians tinha se sentado na cama, e assustou-se ao se virar e encontrá-lo o
encarando, com olhos que tinham algo mais do que o vazio habitual, eram frios e
penetrantes.
-Senhor Willians, você se moveu sozinho, isso é ótimo – conseguiu dizer
quando se recuperou do susto. – Assim que sair, reportarei ao médico de plantão.
Você consegue dizer alguma coisa?
Não houve resposta, mas os olhos de Jacob acompanhavam cada
movimento do enfermeiro, cujo nome Gregory estava estampado na altura do
peito.
-Bem, acho que seria esperar demais – ele levou os comprimidos à boca de
Jacob, que entreabriu os lábios como de costume. – Muito bem, senhor Willians,
isso, engula. Agora tome sua água. Ótimo, pode voltar a se deitar.
Willians se manteve estático. Uma expressão começava a se desenhar no
rosto que por meses fora apenas uma tela em branco. As sombras, que se
arrastavam pelo quarto e percorriam seu rosto, esconderam até o último instante
a máscara de maldade que se formava. Uma carranca endurecida e esculpida em
ódio.
-Senhor Willians, você...
Greg estava tão compenetrado na expressão de Jacob, no movimento que
seus lábios faziam, prestes a pronunciar alguma palavra, que não notou a mão
enrugada do homem deslizar para debaixo do travesseiro, onde fechou os dedos
em torno de algo duro e frio.
Jacob Willians pronunciou um emaranhado de palavras inaudíveis, um
sussurro lamurioso, mais baixo que o vento da noite e o distante bater nas ondas
contra o cais.
-Como foi que disse?
Greg se aproximou. O ouvido a centímetros dos lábios de Jacob.
-Você quer ouvir uma piada? – sussurrou Willians com uma voz gutural.
Antes que pudesse responder, a faca penetrou sob o queixo de Greg e se
pronunciou rasgando sua língua e arranhando o céu da boca, fazendo o sangue
morno jorrar imediatamente, roubando-lhe a voz e tragando-lhe a vida. Ele
tentou inutilmente estancar o esguicho, mas o sangue era uma torrente
incessante. Desabou, enlouquecido, tentando inutilmente se arrastar até a porta,
deixando um rastro escarlate e pegajoso pelo chão. Jacob ficou de pé e olhou
para baixo com seus olhos vítreos, mas ao invés do enfermeiro agonizante e do
chão alvo que se banhava em vermelho, o que ele viu foi sua última plateia. A
casa de shows lotada o vaiava e atirava coisas sobre ele.
Willians caminhou calmamente até a escadaria ao lado do palco, desceu os
degraus sem pressa, enquanto os holofotes o acompanhavam, as luzes de ribalta,
ele nascera para aquilo.
-Escroto! Racista! Filho de uma puta! – Gritava a multidão.
Jacob caminhou até a negra da primeira fila. A mulher olhava para ele,
enojada.
-Então você não me acha engraçado.
A mulher ficou pálida e trêmula, segurava o pescoço enquanto o sangue
escorria por entre seus dedos.
-Acho que devemos colocar um sorriso nesse rosto. Ninguém pode sair do
meu espetáculo sem um sorriso.
Ele a segurou pelo pescoço com um aperto firme, enfiou a faca em sua
boca e cortou o lado direito da bochecha até onde a lâmina foi capaz de penetrar,
repetiu calmamente o processo do lado esquerdo. Quando terminou, a mulher
tinha um sorriso macabro, de orelha a orelha.
-Você devia ter rido.
Ele deu um tapinha amigável no rosto de Greg e se levantou. Uma gota de
sangue se desprendeu morosamente da lâmina e despencou para o chão antes
imaculado.
A faca pesava em sua mão, ávida por uma nova rodada de brutalidade e
Jacob saiu do quarto em busca de alimentá-la. Em busca de vingança.























Capítulo 3

Fred entrou na academia de Romero como na maioria das vezes, irritado e
ansioso para poder dar logo o fora dali. O milionário estava debruçado sobre as
cordas do ringue, parecia distraído e não estava vestido para o boxe.
-O que você tinha de tão importante para me dizer? – disse Fred sem um
cumprimento.
Romero ergueu a cabeça, tinha um sorriso frouxo nos lábios. Ele desceu do
ringue e caminhou na direção de Fred, sua face crispando-se lentamente.
-Romero...
O empresário o agarrou pela camisa e o fez tombar sobre uma mesa,
derrubando algumas caixas que continham material de marketing da academia.
Folders e chaveiros foram espalhados pelo chão.
A única testemunha daquela cena era o segurança de Romero, já que a
academia ainda não tinha sido inaugurada. Sentado em um canto, o grandalhão
Alberto mal dava atenção ao embate, já acostumado com os desentendimentos
entre os dois e com a clara advertência de seu patrão: “se interferir, está na rua”.
-Você por acaso é estúpido? – gritou Romero, possesso. Fred jamais o
tinha visto perder o controle. O homem era inabalável, sempre seguro de si, mas
naquele momento, Fred acabava de descobrir uma nova faceta do empresário.
-Do que você está falando? – ele tentava inutilmente se desvencilhar do
aperto fortíssimo de Romero, que era treinado em diversas artes marciais.
-Eu soquei essa sua cabeça enorme por várias semanas pensando que ela
era oca, mas na verdade não é, tem uma merda de um tumor aí dentro,
chacoalhando com cada soco. Seu filho de uma puta, eu podia ter matado você,
por acaso enlouqueceu?
-Quem foi que te contou? – Fred deu um soco na cara de Romero e
conseguiu rechaçá-lo.
Ao invés de protestar, o milionário sorriu, como se a pancada o tivesse
feito recobrar o juízo perdido. Ele espanou uma poeira invisível do blazer de
bom corte e da calça que era a última moda, arrumou os cabelos e só depois
levou as mãos ao queixo, avaliando o estrago.
-Continua batendo como uma mocinha – disse após cuspir de lado.
-Foi só para isso que me chamou aqui? – perguntou Fred indignado.
-Quanto tempo ainda lhe resta?
-Não é da sua conta.
-Como não é da minha conta? Eu trouxe seu filho de volta e gostaria de
saber quanto tempo você ainda tem ao lado dele, e daquela gostosa da detetive
Elis.
-Filho de uma... – Fred se lançou sobre Romero e os dois rolaram pelo
chão numa troca de socos descontrolada, enquanto o segurança assobiava uma
canção alegre e folheava o jornal do dia.
-Você não acha que ela é mulher demais para um velhote com o pé na
cova?
Fred se colocou por cima e começou a socar Romero, que defendia o rosto
com os punhos erguidos. Num giro de corpo bem treinado, o empresário
conseguiu inverter as posições e se colocou no ataque, desferindo socos no
estômago de Fred, poupando-lhe das pancadas no crânio.
-Senhor, com licença, seu telefone – disse o segurança ao lado dos dois,
entregando o aparelho para Romero.
-Desculpe Fred, isso é importante – ele interrompeu a pancadaria.
Romero ficou de pé como se desistisse de algo corriqueiro e foi atender.
Fred recusou a mão estendida pelo segurança e se manteve no chão, olhando
para o teto. Pensava no quanto sua relação com Romero era surreal. O cara se
mostrava mais doido a cada dia, mas agora que reconhecia sua própria loucura,
precisava admitir que formavam uma boa dupla. Além do mais, ele nunca se
esqueceria de que fora Romero quem trouxe Gabriel de volta.
Depois de desligar o telefone, Romero voltou até Fred.
-Como está o seu inglês?
-Do que você está falando?
-Eu financio um tratamento experimental num centro de pesquisas
avançado nos Estados Unidos, numa cidadezinha de Massachusetts chamada
Woods Hole. Vou mandar você pra lá, para se tratar, e, talvez, você possa ser
curado.
Fred se levantou e encarou Romero com um olhar confuso e estreito.
-Essa ligação foi só uma confirmação. Está tudo pronto, temos um quarto à
sua espera – ele tirou uma passagem aérea do bolso – está marcada para amanhã
de manhã.
-Que merda é essa? Você só pode estar maluco, – disse Fred ainda
atordoado – não há cura para mim.
-Levando em consideração os tratamentos tradicionais, sim, você tem
razão. Este é um procedimento experimental, que ainda está em fase de testes,
mas para você que está caindo e não tem onde se agarrar, eu diria que é muita
coisa.
Fred respirou fundo, colocou as mãos na cintura, olhou para um lado e
para o outro, antes de dizer:
-Obrigado, mas eu passo.
-Como é?
-Não posso me agarrar a um simples talvez. Não vou viajar para longe e
desperdiçar dias preciosos ao lado das pessoas que amo. Como você sabe cada
minuto conta.
-Por acaso você é estúpido? – gritou Romero. – Como pode pensar em
recusar? Estou falando de uma possível cura total, ou, quem sabe, de mais alguns
meses ou anos com seu filho! Não seja idiota, detetive.
-Não sou mais detetive – Fred deu as costas a Romero. – Obrigado, estou
verdadeiramente agradecido, mas não posso aceitar. Não posso dar esperanças
para as pessoas que amo, apenas para vê-las sofrer ainda mais no final –
caminhou em direção à porta, omitindo seu próprio medo de uma vã esperança.
-Seu filho de uma puta! Você está se ouvindo? Essa porra de tumor já deve
ter comido todo esse seu cérebro de bosta! – Romero ultrapassou Fred e se
colocou entre ele e a porta, as passagens amassadas em sua mão.
-Leve isto com você e conte sobre o tratamento para sua família, eles têm o
direito de saber e de opinar. Pense no seu filho crescendo sem um pai.
Fred olhou para as passagens, mas não as pegou.
-Se você não fizer essa porra de tratamento, eu juro que depois que você
morrer eu vou comer a Elis, depois vou comer sua ex e bancar o papai do seu
filho, o que você acha?
-Eu sei o que está tentando fazer, seu escroto de merda, mas não vai
funcionar.
-Se não for eu, será outro, é inevitável. Você logo será esquecido e
substituído. Imagine suas duas mulheres trepando com outro, e seu filho
chamando um puto qualquer de papai.
Fred chegou a cerrar os punhos, o sangue subindo à cabeça. De todas as
merdas que Romero vomitara desde que o conheceu, aquelas eram as piores, mas
ele se conteve, sabia que o empresário estava tentando fazer sua cabeça.
Romero empurrou as passagens no peito de Fred, que as segurou e ficou
por vários segundos olhando para os papéis.
-Agora desaparece da minha frente, não tenho mais tempo a perder com
um derrotado como você. Só volte a pisar aqui quando estiver curado.
-Vai se foder – murmurou enquanto saía para a rua, mas parou de repente –
acabei de me lembrar de uma coisa.
Romero voltou-se para ele.
-Esta noite eu sonhei com você.
-E...
-E você era o demônio.
Fred se virou, passou pela porta e desapareceu entre os pedestres.

***

Fred passou a tarde com o filho, mas até mesmo a criança percebeu que ele
estava distante e lhe perguntou o que havia acontecido.
-Não é nada, amigão, vamos continuar brincando – respondeu evasivo, e
seguiu ajudando Gabriel a montar sua fortaleza de Lego.
Antes de ir embora, quando a noite já se debruçava sobre a cidade,
entregando de casa em casa uma brisa refrescante, Fred pediu à Sandra um
minuto de prosa, algo que não acontecia desde que ele tinha lhe contato sobre
Elis.
Ela o recebeu na cozinha, onde estava trabalhando no jantar, mas em
momento algum ela se sentou ao lado de Fred ou interrompeu seus afazeres, até
que ele perguntou:
-Foi você quem contou ao Romero sobre a minha condição?
O estalar da faca sobre a madeira, no corte dos vegetais, foi interrompido
abruptamente.
-Eu achei que depois do que ele fez por nossa famí... depois de ter trago o
Gabriel de volta, – corrigiu-se – ele merecia saber.
-Essa decisão não era sua.
-Então o que você quer é me criticar? – ela voltou a picar as verduras,
dessa vez os tac tacs muito mais rápidos e audíveis.
-Não, me desculpe, na verdade não é nada demais. Só fiquei surpreso por
ele saber. Você não conhece o Romero como eu conheço, ele é um cara estranho.
Excêntrico e meio maluco.
-Ele ficou preocupado, acho que gosta muito de você.
Fred sorriu. Daquilo ele também já suspeitava. Mesmo que Romero tivesse
uma maneira bizarra de demonstrar.
-Sandra, eu tenho algo para lhe perguntar – ele levou a mão ao bolso da
camisa onde a passagem estava dobrada e amassada.
-Fale logo e depois vá embora, Fred – era quase uma súplica.
-O Romero me ofereceu uma chance, uma oportunidade de cura através de
um procedimento experimental, nos Estado Unidos.
Mais uma vez os baques da faca silenciaram-se.
-Não sei o que fazer. Não quero criar falsas esperanças para mim e nem
para mais ninguém. Além do mais, não sei quantos dias eu precisaria ficar por lá.
Não posso perder tempo longe do Gabriel.
Pela primeira vez, Sandra se virou para Fred e o encarou, havia lágrimas
nos seus olhos, que desenfreadas escorriam pelo rosto e salgavam suas palavras.
-Se há uma chance, você precisa tentar, agora, por favor, vá embora.
Ela se virou novamente e apoiou o corpo pesadamente na bancada. Pelo
movimento de ombros, Fred soube que aquelas lágrimas eram apenas o prelúdio
de um choro convulsivo e cheio de soluços. Ele se aproximou cauteloso, ergueu
uma das mãos na direção da mulher, mas ela o deteve.
-Vá embora, Fred, apenas vá.
Ele obedeceu.

***
Quando chegou em seu apartamento, Elis o recebeu com uma mesa posta
para dois e um charmoso jantar à luz de velas. O cheiro da comida que vinha da
cozinha o fez salivar.
-Deus, eu definitivamente não mereço tudo isso – disse, ao vê-la
deslumbrante dentro de um belo vestido vermelho.
De seu velho aparelho de som, Fred ouvia Ed Sheeran cantar para ao casal.
Elis se aproximou e o beijou. O cheiro inebriante de seu perfume o fez delirar.
-Esses dias tem sido ótimos, – disse Fred – mas eu definitivamente não
esperava algo assim.
-Eu estava pensando na conversa que tivemos hoje pela manhã e fiquei me
sentindo mal o dia inteiro por simplesmente me colocar no seu lugar. Não sei de
onde você consegue tirar forças. A sensação que tenho é de que não importa o
que eu faça, nada jamais será suficiente e...
-Elis, você não precisa fazer absolutamente nada, só precisa estar aqui, do
meu lado.
Ela segurou o rosto de Fred entre os dedos e o beijou com ternura, depois o
abraçou e dançaram lentamente ao sabor da música, que falava sobre um casal
que envelheceria juntos e cujo amor seria eterno.
-Tenho algo para lhe dizer – começou ele assim que a música terminou. Ed
Sheeran deu lugar a John Legend e a mais uma balada lenta e romântica.
Ela o convidou a sentar. A mesa, arrumada como nos restaurantes mais
chiques, destoava do resto da sala do apartamento de solteiro.
-Estive com o Romero hoje, a Sandra falou com ele sobre o tumor.
Elis se manteve em silêncio, apenas tomou um longo gole de seu vinho,
Fred fez o mesmo, no entanto, ele esvaziou a taça de uma só vez, depois colocou
a passagem sobre a mesa.
-Ele é financiador de um tratamento experimental que pode me ajudar e
quer que eu viaje para os Estados...
-Você vai!
-Elis, eu...
-Eu disse que você vai!












Capítulo 4

Povoado de Woods Hole, Falmouth, Massachusetts
Dias atuais

O doutor Ethan Hoffman estava terminando de se vestir para o trabalho. A
manhã primaveril de Woods Hole trazia consigo a deliciosa brisa marítima do
gigante azul que cercava o povoado por todos os lados.
Ele ajustou a gravata vermelha com esmero enquanto olhava pela janela.
Alguns carros e uns poucos caminhantes davam vida às ruas do lugarejo pacato e
acolhedor que sua família, descendentes de alemães, escolhera décadas atrás
como lar. Ele vestiu o terno bem alinhado de riscas de giz, arrumou os cabelos
diante do espelho, pegou sua maleta e deixou o quarto.
No andar de baixo, ele encontrou a mãe, Magda Hoffman, uma senhora de
oitenta e cinco anos, sentada em sua cadeira de rodas junto à janela, o olhar sem
foco, perdido no horizonte. Os cabelos brancos, já ralos, balançavam com o
vento, mas ela não se importava em afastá-los do rosto. Parecia desligada de
tudo ao seu redor. Desplugada do mundo.
-Bom dia, mãe – disse Ethan, mas como na maioria das vezes, não houve
resposta, ele, tampouco, esperava por uma.
-Hoje é um dia importante, mamãe. Veja isso – retirou do bolso uma
pequena caixa forrada em veludo, e ao abri-la, a luz matinal foi refletida pelo
diamante que ornava a luxuosa aliança – vou pedir a Ellen em casamento.
A velha se manteve estática, como se nada tivesse ouvido. Ethan se
aproximou dela, as mãos em seus ombros.
-Eu gostaria que você ficasse feliz por mim, mamãe, pelo menos uma vez.
Ele aproximou o ouvido dos lábios marcados pela idade, estes não se
mexeram.
-Como disse? Que não posso me casar?
A velha se manteve em silêncio, então, ele mais uma vez se aproximou,
como se houvesse algo para ouvir.
-Ela não é uma vadia, mamãe! Não diga isso! Eu a amo! E você não vai
atrapalhar a minha felicidade!
A velha seguia fitando o horizonte, completamente indiferente.
-Puta é você! Sua velha desgraçada! Vá para o inferno! Por que você não
simplesmente morre e me deixa em paz!
Ele já estava aos gritos, mas recobrou a calma quando o toque da
campainha soou pela casa.
-Eu estou indo, mamãe. Não, tudo bem, eu vou passar no Jimmy’s e comer
alguma coisa. Não se preocupe.
Ethan abriu a porta e encontrou a animada Deyse Bread, a enfermeira que
cuidava da senhora Hoffman.
-Bom dia, Ethan! – exclamou com prazer a moça rechonchuda, de seios
enormes e coxas grossas, que vestia um uniforme branco e tinha um xale
enrolado no pescoço. As bochechas muito vermelhas delatavam o esforço de
caminhar até a casa dos Hoffman. Com apenas trinta anos, ela estava pelo menos
uns vinte quilos acima de seu peso ideal.
-Bom dia, senhorita Bread.
-Ah, vamos Ethan, quantas vezes preciso dizer que é apenas Deyse para
você – ela deu uma piscada acompanhada de um largo sorriso.
-Muito bem, Deyse, eu deixei um pedaço de torta para você na bancada da
cozinha, está uma delícia.
-Puxa! Obrigada, Ethan, quanta gentileza.
-Não foi nada, apenas tome conta da mamãe com o carinho de sempre –
emitiu seu sorriso mais cativante.
-Pode deixar.
“E tente não explodir comendo tudo que encontrar na geladeira.” Pensou
com maldade.
Eles se despediram e Ethan foi em direção ao carro, ciente de que Deyse o
acompanhava com os olhos, devorando-o. A mulher flertava com ele em cada
ocasião possível.
Ethan era um homem alto e bonito. Os olhos eram de um azul claro único
e os cabelos loiros e fartos brilhavam como o sol. O rosto másculo e marcante
poderia estar estampado em um outdoor de moda.
-Gorda maldita. Como se eu pudesse ao menos enxergar alguém como
você – murmurou ao dar partida em seu Audi.
Após rodar por cinco minutos, ele avistou Ellen, parada diante da casa
que alugava. Distraída, ela só notou o carro do outro lado da rua quando Ethan
buzinou para ela.
A moça atravessou a rua e entrou no veículo. Um roçar rápido de lábios
selou os cumprimentos.
Ellen mudara-se para Woods Hole vinda de Boston há nove meses,
quando o Hospital Psiquiátrico St. Clarence fora reaberto e ela recebera uma
proposta de emprego.
Ellen ainda não tinha se acostumado com a beleza do povoado. Os
muitos chalés de estilo arquitetônico europeu, o cais com os inúmeros barcos e
lanchas dançando sobre a água de um azul exuberante. As ruas arborizadas e as
pessoas de gentileza acima da média. Tudo aquilo era novo para quem vinha de
uma cidade grande e barulhenta.
No inverno, Woods Hole era um encanto, com cada telhado coberto de
neve tornando a cidade ainda mais charmosa, enquanto em primaveras como
aquela, a natureza tornava-se um espetáculo imprescindível, com seu verde
exuberante decorando as ruas e dando vida à cidade.
-Você parece distraída hoje – comentou Ethan.
-É apenas impressão sua – disse ela colocando uma mecha dos longos
cabelos negros atrás da orelha.
-Eu ainda não tomei café, se importa de passarmos no Jimmy’s?
-Tudo bem, eu também não comi ainda.
-Se você preferir podemos ir ao Landfall. Sei que você gosta dos waffles
de lá.
-O Jimmy’s está ótimo – respondeu ela de forma lacônica.
Ellen vinha de uma família tradicional de advogados, com um grande
escritório no centro de Boston. Quando se decidiu pela medicina, as críticas se
tornaram tão constantes que ela decidiu sair de casa. Tinha na época dezenove
anos. Desde então tem sido uma mulher livre e independente. Mudava de
namorado ao primeiro sinal de que este poderia lhe desagradar. Não aceitava
homens que se ofereciam para pagar a conta como um gesto que ia além da
gentileza, apenas para exibir seus American Express Black. Estava farta de gente
assim. Com sua beleza rústica, de lábios fartos e corpo longilíneo, bastava sentar
em qualquer bar em Boston e rapidamente uma bebida lhe era oferecida, então
vinham os “American Express Boys”. Para uma transa descompromissada, tudo
bem, gostava de se sentir desejada, mas a maioria daqueles caras, quando abriam
a boca, sabiam apenas despejar merda em seus ouvidos, e há muito tempo ela
concluíra que o sexo, sozinho, não era suficiente para afastar a solidão. Era
inteligente demais para ficar saindo com caras que não entendiam nem mesmo as
piadas do Jimmy Fallon, quanto mais para ter uma conversa decente.
Quando se mudou para Woods Hole e conheceu Ethan, ficou
imediatamente impressionada com sua beleza. Desde o primeiro momento em
que se cruzaram no hospital, ela o imaginou em sua cama, mas em um povoado
com menos de mil habitantes, era preciso pensar antes de agir, se ficassem juntos
era bem provável que todo o lugar ficasse sabendo e isso reduziria drasticamente
suas opções, então era preciso saber se o bonitão tinha algo a mais para oferecer.
Para sua surpresa, Ethan era muito mais do que o esperado. Ela podia
lançar-lhe qualquer assunto, que ele facilmente o destrinchava mostrando um
conhecimento muito acima da média. Também era divertido e atencioso. Ele
escutava cada palavra que ela dizia. Aconselhava-a, e muitas vezes, seu tom
paternal a fazia lembrar-se da família que deixara para trás e com a qual tinha
pouquíssimo contato. Na cama Ethan era acima da média, gostava de bancar o
dominador e a excitava com facilidade. Com isso, os meses foram passando e já
fazia sete que estavam juntos. O relacionamento mais longo que ela já tivera,
mas de uma coisa, a cada dia, ela tinha mais certeza: não o amava.
Ethan estacionou em frente ao Jimmy’s. A lanchonete estava vazia e o
rapaz atrás do balcão, Peter, vestido com um avental sobre a camisa polo e a
calça jeans, os atendeu prontamente.
-Bom dia, senhor Hoffman, senhorita Patterson, o que vão querer hoje?
-Bom dia, Peter, para mim ovos, bacon e café. E você, meu bem? –
perguntou Ethan.
-Quero um suco de laranja e uma fatia daquele bolo – apontou para o
confeito atrás do vidro do balcão.
-Ok. Já vou servi-los.
-Obrigado – disse o médico enquanto guiava Ellen para uma das mesas.
Cavalheiro como sempre, puxou a cadeira para a moça.
-E então, tudo bem com você hoje, querida?
-Sim, está tudo ótimo – respondeu ela sem muito entusiasmo.
-Você me parece... diferente, distraída.
Pela primeira vez naquela manhã, ela ergueu os olhos e permitiu que eles
encontrassem os globos azuis de Ethan. Os mesmos olhos apaixonados de
sempre. Não queria magoá-lo, faltavam-lhe forças para isso.
-Ethan, nós precisamos conversar. Eu tenho algo para lhe dizer.
Ela buscava palavras e motivos para endossar aquele término. Tentava
listar os defeitos de Ethan e não os encontrava. Todos os momentos ao lado dele
eram felizes e divertidos. Qual o problema então? Por que não podia
simplesmente ficar com ele? Embora continuasse a se perguntar, ela sabia o
motivo, estava completamente ciente dele e isto a incomodava.
Mediante a hesitação de Ellen, Ethan se pronunciou.
-Também tenho algo para lhe dizer – aquelas palavras a trouxeram de volta
de suas divagações.
-Como?
-Senhorita Ellen Patterson, eu gostaria que você soubesse o quanto eu te
amo e o quanto você é importante para mim.
Ela sorriu. Ser capaz de fazer aquele homem maravilhoso feliz a satisfazia.
-Por isso, eu lhe trouxe isto.
Ele colocou sobre a mesa a pequena caixa negra que pesava como chumbo
em seu bolso e a empurra até Ellen, que olhou para o pequeno objeto
permitindo-se não imaginar seu significado. Quando já não era mais possível
ignorar o que aquilo representa, o pânico começou a lhe dominar, e com mãos
trêmulas ela abriu a caixa.
O diamante incrustado no anel brilhava sereno, soberbo, invejável.
-Meu Deus do céu! – exclamou ela sem perceber. A exata reação que
Ethan esperava.
-Este anel tem passado de geração para geração em minha família, e eu
gostaria muito que ele fosse seu. Assim que a conheci, eu soube que você seria o
grande amor da minha vida.
Ethan segurou as mãos delicadas de Ellen entre as suas.
-Quando comecei a confabular este momento, pensei em reservar uma
mesa num restaurante chique em Falmouth, imaginei um garçom trazendo a
aliança dentro do champanhe mais caro da adega, e um violinista fazendo um
solo para nós, mas conheço você bem o suficiente para saber que nada disso lhe
impressionaria, e que são as coisas mais simples que a fazem feliz. Alguns de
nossos sorrisos mais sinceros e beijos mais doces foram dados à beira do cais,
sob a sombra do farol, num piquenique no parque, ou na mesa de uma
lanchonete, com minha camisa suja de molho de cachorro quente, e você, mais
desajeitada do que nunca, tentando limpar.
Ela sorriu verdadeiramente emocionada.
-Isso é uma das coisas que mais amo em você, sua simplicidade. Doutora
Patterson, mais do que nunca tenho certeza de que você é tudo o que preciso em
minha vida. Por isso, eu gostaria de saber se você aceita ser a minha noiva.
Ela levou as mãos à boca. Não sabia o que dizer. Mediante seu silêncio
prolongado, Ethan se pronunciou.
-Sei que tudo isso é muito repentino. Não penso em entrar em uma igreja
agora, no caminho para o trabalho – sorriu com nervosismo – mas é o que eu
gostaria de planejar para nós, num futuro próximo.
-Ethan, eu não sei o que dizer.
-Você poderia dizer que sim – ele praticamente suplicava.
-Me desculpe, Ethan, mas eu preciso de um tempo para pensar sobre isso
– ela deslizou a caixa de volta pela mesa, enquanto ele acompanhava o objeto
com um olhar mortificado – não estou dizendo não para você, Ethan –
acrescentou – só preciso pensar um pouco. Esta não é uma decisão que eu possa
simplesmente tomar assim, no café da manhã.
-Entendo, eu... eu... fui imprudente.
-Você foi ótimo, como sempre. Às vezes acho que eu não mereço alguém
tão maravilhoso quanto você. Só preciso de um tempo para pensar, tudo bem?
-Tudo bem – ele tentou sorrir enquanto guardava a aliança novamente no
bolso.
Em alguns instantes, Peter surgiu de trás do balcão equilibrando as
bandejas.
-Ovos com bacon e café para o doutor e bolo mais suco de laranja para
esta bela moça.
O rapaz serviu os dois sem perceber o clima denso que pairava entre eles.









Capítulo 5

Quando Fred acordou, Elis o observava. Ela parecia já ter despertado há
um bom tempo, estava, inclusive, vestida com as roupas do trabalho.
-Acordou cedo, meu amor.
-Acho que eu nem dormi – respondeu ela, com um meio sorriso cansado,
mas sem tirar os olhos de Fred um só segundo.
-Tem alguma coisa no meu rosto, além da cara amassada?
-No seu, eu não sei, mas no meu, com certeza tem: esperança.
-Elis, você não devia se animar tanto assim. Esse tratamento pode não
funcionar, e...
-Eu sei Fred, eu sei, mas você tem que parar de dizer isso. Nunca ouviu
falar na lei da atração?
-Claro que já, é essa coisa que você exerce sobre mim.
-Fred, você não é bom nessas piadinhas. Agora levante dessa cama e vá se
arrumar.
-Preciso fazer a mala.
-Eu já fiz.
-Então preciso procurar meu passaporte e meus documentos.
-Estão em cima da mala.
-Ok... tem alguma coisa em que você não pensou?
-Eu liguei para o Romero, ele vai esperar por você no aeroporto e lhe dar
todo o resto de que você vai precisar.
-Preciso passar numa casa de câmbio.
-Qual parte de todo o resto você não entendeu, Fred?
-Puxa, não dá mesmo para competir com você não é?
-Você só tem que se despedir do Gabriel e da Sandra – ela consultou o
celular – e tem apenas meia hora pra isso.
***

Sandra recebeu Fred com a porta entreaberta, bloqueando-lhe a passagem.
O sol mal tinha nascido, era apenas um brilho opaco no horizonte entre os
telhados das casas e Sandra tinha claramente acabado de pular da cama.
-Bom dia, desculpa vir sem avisar e tão cedo, eu passei para ver o Gabriel.
Decidi fazer o tal tratamento, estou a caminho do aeroporto.
Durante vários segundos, ela não esboçou reação alguma, então, por fim,
sorriu e lhe desejou boa sorte.
Fred entrou e sentiu o cheiro maravilhoso do café de Sandra, que o
bombardeou com boas lembranças. Memórias dos bons tempos vividos ali. Com
pesar, ele se desvencilhou do passado e do saudosismo e se dirigiu ao quarto do
filho. Pé por pé ele caminhou até a cama, ficou com pena de acordar o menino
tão cedo, mas precisava, pois podia estar tirando do garoto alguns de seus
últimos e preciosos dias em contato com o pai. Acariciou os cabelos de Gabriel
com carinho e o despertou com um beijo estalado no rosto.
-Papai?
-Sim, filho, sou eu.
-Você aqui tão cedo, veio brincar?
-Não, Gabriel, hoje não. Eu vim te avisar que vou precisar fazer uma
viagem e vou ficar alguns dias fora.
-Para onde você vai?
-Para os Estados Unidos.
-Você vai ver o Mikey Mouse?
Fred não pôde conter o sorriso.
-Não, filho. Eu preciso ir até lá para conversar com um médico, o papai
está um pouquinho doente e este médico pode ajudar.
-Você me trás um presente?
-Claro que sim. Vou pensar em alguma coisa bem legal. Agora, volte a
dormir. E filho..., eu amo você, mais do que tudo!
-Eu sei seu bobo.
Com lágrimas nos olhos, ele deixou o quarto após ajeitar os cobertores
sobre a criança. De volta à sala, Sandra esperava por ele.
-Eu realmente espero que você se recupere, Fred. Do fundo do meu
coração.
-Obrigado.
Ele se aproximou para abraçá-la. Tal intimidade jamais se repetira desde
que ele anunciou o relacionamento com Elis. Sandra hesitou mantendo os braços
abaixados frente ao corpo, as mãos se apertando e revirando como se estivesse
nervosa.
-Tudo bem – disse ele recuando e se virando para partir.
-Fred...
Quando se voltou para ela, Sandra já estava sobre ele, beijando sua boca.
Ele não a impediu. Seus braços ficaram erguidos, sem saber como agir. Até que
ele a abraçou e ela começou a chorar.
-Por que você tinha que me deixar? Por quê? Eu amava tanto você, tanto!
Eu tinha tanta certeza de que seria para sempre.
-Mas você já não me ama Sandra, e sabe disso. Os últimos dois anos, a
ausência do Gabriel, tudo aquilo foi demais para nós. É hora de um recomeço e
tenho certeza de que você pode ter um.
-Você acha? – Ela chorava de forma compulsiva e as palavras eram
permeadas por soluços.
-Claro que sim. Você é uma mulher incrível.
Eles se abraçaram novamente.
-Boa sorte, Fred. Eu quero muito que você viva e que seja feliz.
***

O aeroporto estava cheio. Fred passou por casais felizes que pareciam
partir em lua de mel, por famílias com crianças agitadas que corriam pelo
saguão, além de muitos engravatados, apressados para seus compromissos. Um
famoso jogador de futebol atraía curiosos e precisava parar a cada dois metros
para autógrafos e fotos.
Romero aguardava por Fred em um café. Acenou entusiasmado quando o
viu, seu sorriso mais largo estampado no rosto de alabastro.
-Aí está ele, meu melhor amigo! – exclamou entusiasmado.
-Não exagera Romero.
-Vai dizer que não somos amigos?
-Temos um acordo, você trouxe meu filho de volta, em troca eu soco sua
cabeça naquele ringue, apenas isso.
Romero riu alto, fazendo todas as pessoas nas outras mesas olharem para
eles.
-O que faz eu me perguntar sobre o que você vai querer em troca dessa
vez.
-Hum, me deixa pensar... quem sabe poderíamos abrir uma empresa juntos,
Romero e Fred Detetives Associados. O que acha? Eu sempre quis fazer algo do
tipo desde que era pequeno. Eu vivia lendo Agatha Christie. Já li toda a obra
dela.
Foi a vez de Fred rir.
-São tantos absurdos em apenas uma frase que nem sei por onde começar.
-Bom, temos alguns minutos, vou pedir um café para nós. Sente-se.
-Em primeiro lugar, – Fred se acomodou na cadeira – eu jamais trabalharia
com você, na verdade, eu continuarei o repudiando completamente, mesmo que
salve minha vida.
Romero riu ainda mais alto desta vez.
-A segunda coisa é que você não pode simplesmente abrir uma empresa de
investigações, existe uma formação necessária para isso. E em terceiro e mais
importante, duvido que você tenha lido toda a obra da Agatha Christie.
-Sabe, Fred, você realmente não existe – Romero cruzou as pernas,
sobrava-lhe estilo, como sempre – para o teu conhecimento, eu realmente li toda
a obra da Agatha Christie, inclusive suas biografias e alguns manuscritos raros,
que nunca chegaram a ser publicados no Brasil.
-Você não me parece do tipo que tenha tempo para literatura.
-Hoje tenho bem menos, com certeza, foi inclusive difícil encaixar as
surras que eu te dou na minha agenda, mas para uma criança gorda e sem
amigos, vítima constante de bullying, como eu fui, ficar em casa lendo era a
melhor opção. Poirot e Miss Marple foram meus únicos amigos por longos anos.
-Você já tinha falado sobre isso antes. Como aquela criança se transformou
no grande empresário que você é hoje?
Desde que se conheceram, era a primeira vez que Fred percebia
insegurança nos olhos de Romero. Sua postura soberba fora desconstruída, ele
pareceu encolher dentro do terno Armani de algumas centenas de dólares.
-Esta é uma longa história, maior do que o tempo que temos agora Fred,
mas o que posso dizer é que meu pai simplesmente foi embora, deixando para
trás o filho gordo e inútil e uma mulher doente que precisava de cuidados
constantes, ainda não sabíamos na época, mas ela tinha... um tumor no cérebro –
ele ergueu os olhos pela primeira vez em seu relato – dá para imaginar? As
únicas coisas que meu pai deixou para aquela mulher doente foram um filho
obeso e uma hipoteca vencida, com o banco respirando em nosso cangote.
Quando eu me trancava no quarto, imaginava que se eu me tornasse um detetive,
como Poirot, poderia encontrar aquele desgraçado e ensiná-lo uma lição.
Romero ficou em silêncio, olhava para o café ainda intocado, recém-
servido pelo atendente.
-Na verdade, acho que eu só queria perguntá-lo por que ele foi embora.
Sempre achei que a culpa era minha. Por eu ser um filho péssimo, que tirava
notas sofríveis, que não era capitão do time de futebol, que não tinha uma
namorada...
-Não foi culpa sua – disse Fred preenchendo a lacuna do silêncio.
-Sim, hoje eu sei que ele era um filho de uma puta, um covarde, mas a
questão é que eu precisava ganhar dinheiro. Todos os dias eu saía de casa
dizendo para minha mãe que estava indo para a escola, mas na verdade eu saía
para vender balas e pipoca. Você sabe quanto amendoim um rapaz consegue
vender na porta de um bordel?
Fred sorriu.
-Acho que esse foi meu primeiro negócio – ele sorriu de forma saudosista
e consultou o relógio – você precisa ir, Fred, está na hora. Leve isso – entregou
ao ex-detetive um envelope branco – aí dentro você vai encontrar um cartão com
saldo o suficiente para cobrir todas as suas despesas, alguns dólares e um roteiro
de viagem. Quando descer em Boston, alugue um carro com GPS. Até Falmouth
são apenas uma hora e meia de viagem, e depois mais quinze minutos até Woods
Hole. No Advanced Brain Research Center procure pelo doutor Barry
Fisherman, ele estará esperando por você.
Fred pegou o envelope com uma mão e com a outra apertou a mão de
Romero com firmeza.
-Obrigado, mais uma vez. Eu não sei se algum dia poderei recompensá-lo.
-Viva, Fred, recupere-se, assim poderemos saltar de BASE jumping juntos
quando você voltar, o que acha?
-Continuo achando que você é louco – sorriu.
-Sim, talvez um pouco.
Fred se virou e partiu. Ele não perguntou. Romero tampouco disse, mas ele
tinha certeza de que a mãe do empresário não tinha sobrevivido ao tumor.



















Capítulo 6

Ethan repetia diante do espelho seu metódico e ensaiado nó de gravata. Ele
se vestiu e desceu para tomar café. Na mente, as lembranças amargas do dia
anterior. Ainda não conseguia acreditar que Ellen lhe dissera não. Ela não tinha
chegado a pronunciar aquela maldita palavra com N, mas ele sabia o que
significava qualquer resposta diferente do sim.
Quem ela pensava que era para lhe dizer não? A culpa seria sua? Ele não
teria se esforçado o suficiente? E quando sua mãe soubesse? Ela tinha lhe
avisado sobre Ellen, tinha dito que ele merecia uma mulher melhor.
A senhora Hoffman repousava em seu suposto lugar favorito, junto à janela
da sala, onde Ethan pedia a Deyse para deixá-la passar algumas noites, aquelas
em que Magda não conseguia dormir.
Ethan se aproximou e ajoelhou-se diante da mãe. Como sempre, ela
pareceu não notá-lo. Já fazia anos desde que a doença e a idade avançada a
conduziram para se tornar aquela concha vazia, sem emoções ou palavras, mas
isso não impedia Ethan de ouvi-la criticá-lo por suas atitudes e decisões. Não o
impedia de fomentar pela mãe um ódio que germinara em seus tempos de
juventude, quando seu pai abandonou a casa após acusar Magda de traí-lo.
-Mamãe, bom dia. Eu tenho algo para lhe dizer – ele parecia
envergonhado.
A mulher seguiu indiferente, fitando o mundo que existia além dos vidros
limpíssimos da janela.
-Eu pedi a Ellen em casamento e ela ainda não me respondeu. Não ria
mamãe, por favor. Não faça isso.
A expressão de Magda Hoffman se mantinha a mesma, completamente
sem expressão. Seus lábios, ressecados e cheios de ranhuras, nem ameaçavam se
mexer.
-Por que você está rindo, mamãe? Não me venha com essa de que você
avisou! Eu não quero ouvir isso! Não quero!
Ele levou as mãos à cabeça e caminhou para a sala.
-Olhe para mim! – disse ao voltar para junto da cadeira de rodas. – Eu
mandei olhar para mim! – e forçou o rosto da octogenária em sua direção. Seus
olhos se encontraram, mas aquele velho olhar seguia imerso no mais completo
vazio.
-Não vou admitir que você diga que estou errado. Ellen será minha, para
sempre! Eu lhe prometo isso, e se você tentar se intrometer, sua velha
desgraçada, eu juro que...
A campanhinha soou fazendo com que ele voltasse a se recompor.
-Maldita gorda, – olhou para o relógio – pelo menos essa vaca é pontual.
Ele repetiu seu teatro de gentilezas junto a Deyse Bread e seguiu para a
casa de Ellen. Estacionou e a acompanhou com os olhos, enquanto ela repetia o
caminhar diário de sua porta até o carro. Eles se cumprimentaram com um bom
dia, seguido de um beijo insosso.
As lembranças do dia anterior ainda reverberavam incômodas entre o
casal. Após a resposta evasiva de Ellen, eles passaram todo o dia sem saber
como se comportarem. Os corredores do St. Clarence pareciam se estreitar
quando eles se encontravam. E o novo dia que nascia, parecia prometer o mesmo
clima estranho. Havia entre eles pouca espontaneidade e as conversas pareciam
automatizadas, afogadas nos clichês rotineiros sobre como tinham passado a
noite, ou ainda pior, sobre amenidades, como o clima.
O Audi de Ethan fez estalar as madeiras da ponte, único acesso do
povoado à escarpa rochosa na qual se encimava o St. Clarence e o Advanced
Brain Research Center. Dali era possível ver os muitos Jet Skis cortando as
ondas e lanchas conduzindo turistas em meio às paisagens oceânicas
paradisíacas. Woods Hole, com suas construções erigidas por mãos humanas, por
mais charmosa que fosse, parecia uma intrusa em meio à supremacia azul do
mar, e alheia às nuvens distantes que pairavam sobre ele, ameaçadoras mesmo
encabeçando um horizonte distante.
-Temos muito trabalho para hoje – disse Ellen, somando sua voz ao
ribombar das ondas, e vencendo a inércia das palavras praticamente não
pronunciadas durante todo o caminho até ali.
-Sim. Três pacientes novos não é algo que acontece todos os dias – ele
tentou sorrir.
Mais uma dose de silêncio.
-Ethan... sobre ontem.
-Está tudo bem – o sorriso dele desapareceu.
Ela tampouco sabia como dar continuidade àquela conversa. Não estava
preparada para dizer sim. Nunca estaria. Fraquejou em não dizer aquilo no ato.
Em não ter assumido que saíra de casa naquela manhã pronta para colocar um
fim ao relacionamento e, a cada minuto que passava, a tarefa tornava-se mais
difícil.
Na bifurcação da estrada, Ethan tomou a esquerda, ignorando o caminho
para o centro de pesquisas e seguindo para o St. Clarence. Um minuto depois,
ele já estacionava em sua vaga privativa.
Desceram do carro em frente ao gigante hospital psiquiátrico, e foram
cumprimentados pelos passantes. Uma enfermeira conduzia dois pacientes para
um banho de sol matinal, um rapaz muito pálido, de olhar distante, e uma moça
que segurava uma bola de futebol americano com o carinho de quem embala um
bebê.
Um enfermeiro alto e de feições despreocupadas, Paul, cumprimentou os
médicos depois de apagar o cigarro sob a sola do sapato. Ele estava imerso em
seu próprio banho de sol, comum entre os funcionários, já que as instalações do
hospital eram muito frias durante a manhã.
-Bom dia, Paul – disse Ethan.
-Bom dia, doutor Hoffman.
-Como vai, Paul?
-Vou bem, senhorita Patterson – respondeu voltando seu olhar para Ellen.
O casal subiu a colina cumprimentando as demais pessoas que
encontravam pelo caminho. No hall de entrada, após passar pelas grandes portas
de vidro que se abriam automaticamente, foram obrigados a desviar da placa de
piso molhado, colocada ali pelo chefe da equipe de limpeza, que estava
concentrado em remover uma mancha do chão com um esfregão.
-Bom dia, Lawrence – disseram Ethan e Ellen ao mesmo tempo.
O homem de braços tatuados, cujos cabelos eram mais grisalhos do que
negros, de face queimada pelo sol que o iluminava a cinquenta e quatro
primaveras, olhou para os médicos como se medisse se precisava ou não
cumprimentá-los.
-Cuidado para não escorregar – disse secamente, e voltou ao cabo do
esfregão, dando as costas para os dois, completamente indiferente.
-Esse homem me dá calafrios – disse Ellen após se distanciarem.
-Ele só é meio fechado, mas é um excelente funcionário. Ele consegue
manter o pessoal da limpeza na linha, o que não é tarefa fácil.
Ellen sentiu um calafrio repentino, imaginou que mais alguém tivesse
passado pela porta, possibilitando que uma corrente de ar se precipitasse pelo
corredor. Ela se virou e a porta estava fechada. Deparou-se então com o olhar de
Lawrence, vidrado, direcionado para ela. Olhos estreitos emoldurando uma
carranca enrijecida. Ele não desviou o olhar enquanto o casal não desapareceu
no corredor.
Antes de seguirem para suas salas, os médicos passaram pela ala cujos
residentes apresentavam quadros clínicos de grau leve. De porta em porta eles
cumprimentavam os pacientes em seus quartos, sempre com um sorriso no rosto,
ambos cientes de que um tratamento mais humanizado possível tinha efeito
direto nos processos de recuperação. No posto de enfermagem daquele andar,
eles cumprimentaram John Smith e Olga Hernandez.
John, o simpático enfermeiro, que aparentava ter passado apenas um pouco
da casa dos trinta, estendeu a mão para os médicos, enquanto Olga, que já era
uma sessentona, apenas acenou, sem interromper sua atividade. Ela preparava os
remédios que precisavam ser ministrados naquele horário.
-E então, pessoal? Tiveram uma noite tranquila? – Perguntou Ellen.
-Foi bem tranquilo – respondeu Olga – exceto pelo senhor Mitchel. Ele
conseguiu pegar uma vassoura do pessoal da limpeza e saiu gritando pelo
corredor que jamais permitiria que nórdicos imundos invadissem sua Wessex.
Os médicos sorriram, já estavam acostumados aos rompantes de Mitchel
Brown e seus delírios sobre a idade média.
-Mas o nosso querido John, como sempre, conseguiu conter o senhor
Mitchel com seu carinho e talento de sempre. Ele nem precisou de sedativos. Foi
impressionante – concluiu Olga, elogiando o colega de trabalho.
-Você é mesmo impressionante, John – disse Ellen com um largo sorriso
nos lábios.
-Qual é pessoal, também não é pra tanto – respondeu ele com as bochechas
enrubescidas.
-Não precisa ficar vermelho, John. Os elogios são merecidos. – afirmou
Ethan – Muito bem, pessoal, como vocês já sabem com o fechamento de um dos
centros psiquiátricos de Boston, vamos receber três de seus pacientes, quero que
eles sejam muito bem acolhidos. Vocês sabem se as fichas deles já chegaram?
-Sim, doutor. Vou pegá-las para você, – prontificou-se John – espero que
eles cheguem antes da tempestade.
-Tempestade? – questionou Ellen.
-Recebemos um alerta da guarda costeira. Parece que a coisa tem tudo para
ficar bem feia, mas como o tempo por aqui é meio imprevisível, ainda podemos
cruzar os dedos e torcer para que a tempestade passe ao lado.
John voltou com as pastas e entregou a Ethan.
-Obrigado – ele correu os olhos pelas informações e fotos dos pacientes,
depois pronunciou em voz alta um resumo de seus quadros clínicos – Christine
Davis, depressão grave com tentativas consecutivas de suicídio.
-Me parece um desafio – disse Ellen.
-Com certeza – concordou Olga.
-Eugene Johnson, esquizofrenia de grau elevado com transtornos
psicóticos e alucinações.
-Outro desafio. Parece que teremos muito trabalho pela frente – disse Olga,
enquanto John apenas olha para Ellen, parecendo mal ouvir as palavras de Ethan.
-E, por fim, temos Curtis Allen. Esquizofrenia com perda de contato com a
realidade e anomalias na percepção e na comunicação.
-Ok, nós com certeza temos muito trabalho para os próximos dias – diz
Ellen.
-Com licença, está na hora de eu ministrar estes remédios, tenham um bom
dia – Olga passou por eles e seguiu pelo corredor.
-Ethan, eu vou dar mais uma olhada nos meus pacientes – disse Ellen.
-Ok, – ele acariciou com delicadeza o ombro de Ellen - estou subindo, nos
vemos mais tarde.
Assim que Ethan desapareceu no corredor ela se virou para John, que
balançava a cabeça.
-Pelo visto, vocês não terminaram. O que estamos fazendo é errado Ellen.
Não posso mais, me desculpe.
-Não diga isso, você ainda não sabe o que houve.
-Você precisa dar um jeito nisso. O Ethan é uma boa pessoa e já me sinto
tão culpado que mal posso olhar para ele.
-Eu sei, acha que eu também não me sinto mal? Mas o que houve foi que...
-Com licença, me esqueci de uma coisinha – disse Olga, aparecendo
repentinamente no pequeno posto de enfermagem. Ellen engasgou-se com as
próprias palavras, sentia o rosto em chamas. Tudo o que não precisava era que
algum boato chegasse aos ouvidos de Ethan, antes que ela pudesse dar um
desfecho melhor à história dos dois.
Assim que Olga se distanciou eles voltaram a respirar aliviados. A
enfermeira parecia não ter notado o clima entre eles.
-Acha que ela ouviu alguma coisa? – perguntou Ellen.
-Creio que não.
-Eu preciso ir, vou dar um jeito nisso. Hoje. – Ela se virou para partir –
Prometo.
-Ellen.
-Sim?
Ele ficou vários segundos apenas olhando para ela. Um olhar profundo e
penetrante.
-Não é nada, tenha um bom dia de trabalho.
Ellen não pôde conter o sorriso. Logo ela, que sempre fora durona, que
dispensava os homens com a mesma facilidade com a qual trocava de roupas,
que apenas os utilizava para seu prazer, fisgada daquela forma por um simples
olhar, uma promessa não dita. Um desejo, subliminar e excitante.
























Capítulo 7

Fred caminhava na escuridão pelo que parecia uma eternidade. Ele sabia
que o corredor não poderia ter mais do que alguns poucos metros, mas seus
passos arrastados não o levavam a lugar algum. Ele suava e sentia o coração
palpitar. Estava zonzo. Podia cair a qualquer momento, mas sua urgência em
prosseguir não lhe permitia fraquejar, pois sabia que ela estaria lá, esperando por
ele, pois ele era a testemunha final de sua loucura. O último aplauso antes de cair
o pano.
-Ela está esperando, Fred. - soou a voz vinda de todos os lugares e de lugar
nenhum, uma voz conhecida. - Ela esperou por você, assim como eu estou
esperando agora.
-Desgraçado! – Fred gritou em resposta.
-Estou contanto os minutos, Fred, tic tac, tic tac. - uma risada sinistra
preencheu o ar deixando-o ainda mais atordoado.
Ele ouviu um estalar de dedos e instantaneamente se fez a luz. A tímida
claridade da lua penetrava por uma janela estreita e iluminava as prateleiras
lotadas de livros, mas o que atraiu a atenção de Fred estava estampado na parede
à sua direita, um apropriado réquiem escrito com letras de sangue.
Diante dele estava Fernanda, a assassina de escritores, a mulher que de
forma inacreditável havia lhe ludibriado, perpetrando mortes terríveis.
Seguramente o maior desafio de sua carreira. Fred ainda se sentia atordoado ao
se lembrar daquele labirinto de caminhos entrecortados por sangue e mentiras,
criados pela mente atormentada daquela mulher.
Ela tinha os braços frouxos ao lado do corpo. A arma balançava em suas
mãos. Ela chorava.
-Eu... preciso... por um fim nisso...
Fred sentiu uma mão em seu ombro, virou-se e encontrou Romero, ou
seria o diabo novamente?
-Ela quer por um fim nisso, Fred – disse ele parafraseando a moça com
expressão de tristeza.
Lentamente Fernanda começou a erguer a arma.
-Eu não tive escolha, era a única forma de calar as vozes – Fernanda tremia
e chorava convulsivamente.
-Ela não teve escolha, Fred, tudo o que ela queria era calar as vozes, escute
a moça. Por que você não está ouvindo a moça?
A arma agora na altura no peito, e continuava a subir.
-Depois que eu for ele também irá, e todos ficarão em paz.
O diabo bateu palmas. “Santo-Deus-hipócrita-lá-de-cima! Essa mulher e
todo mundo aí dentro dela merecem um Oscar.”
Fred tentou falar, mas sua voz estava presa na garganta.
-Fred, sendo sincero, até porque, apesar de eu ter inventado a mentira, eu
sou um verdadeiro apreciador da sinceridade e acho que você devia tê-la
impedido. Ela não é má, está apenas doente e precisando de um médico. Não
aqueles açougueiros do SUS que mandam mais gente para mim aqui embaixo do
que curados para casa, mas médicos de verdade, entende?
-Cale a boca – disse Fred, lágrimas escorriam por seu rosto.
-Veja, veja, vai ser agora, ela vai explodir a própria cabeça! Esta é minha
parte favorita. Não me olhe com essa cara, Fred, não é um spoiler, já que você
sabe exatamente o que vai acontecer.
O diabo se colocou ao lado de Fred, tinha um pacote de pipoca nas mãos.
-Você aceita? É sabor arrependimento amargo, uma delícia.
Fred queria impedi-la. Todo o ódio que sentira pela assassina tinha
desaparecido. Ela, de alguma forma, também fora vítima de sua própria loucura.
Algo que até então, ele era incapaz de enxergar, mediante a frustração por não
conseguir resolver o caso, e por ter sido feito de bobo mais de uma vez,
acusando de forma brutal pessoas inocentes. Havia também a ausência do filho,
uma ferida até então aberta e sangrando, além da certeza irrevogável de que
estava prestes a morrer. Tudo isso regado pelos litros de vodka e cerveja que se
reviravam em seu estômago naquela noite fatídica, fomentando-lhe um desfecho
apocalíptico.
-Veja só, você quer impedi-la, que interessante, mas preciso lembrá-lo de
uma coisa: você a deixou morrer, não pode voltar atrás – o diabo abriu os braços
– isso aqui é apenas um sonho.
Fred se projetou em direção a Fernanda, ao mesmo tempo em que a
risada do demônio ecoou, trazendo com ela uma nova dose de densa escuridão.
Então houve o disparo, o som rascante retumbando nos ouvidos de Fred e o
fazendo acordar assustado, a mão da aeromoça tocando seu ombro.
-Me desculpe senhor, mas nós ja pousamos.
-Obrigado – respondeu percebendo que era o único passageiro ainda
dentro do avião.

***

A língua e o país não eram estranhos para Fred. Ele passara um ano como
estudante de intercâmbio nos Estados Unidos em sua adolescência e, depois de
casado, visitara o país algumas vezes com Sandra, tantas quanto seu salário de
policial permitiu. Ainda não conhecia Boston, mas seguindo à risca as instruções
de Romero, pouco tempo após o pouso, ele já se encontrava dirigindo em
direção à Falmouth.
A viagem revigorou seu ânimo. Era bom estar em um lugar diferente, e a
cidade, que mesclava um charme campestre com as belezas do litoral, o ajudava
a relaxar com suas belas paisagens, o fazendo esquecer o pesadelo macabro.
Quando deu por si, já estava sentado em uma cafeteria saboreando um capuccino
e lendo o jornal local, enquanto esticava as pernas. Também era uma maneira de
adiar o encontro com seu destino. O GPS indicava que faltavam apenas sete
quilômetros para chegar a Woods Hole, cerca de doze minutos o separavam de
uma resposta sobre seu futuro. Vida e morte equilibrando-se sobre uma tênue
linha de esperança.
Ele saboreou o que restava do café, pagou e agradeceu a moça do balcão
com um sorriso e seguiu de volta para o carro.

***

Woods Hole era um povoado simplesmente encantador. Fred ficou
boquiaberto ao rodar pelas ruas arborizadas, fruto de uma primavera radiante. Os
bonitos chalés propagavam uma forte sensação de aconchego. Os restaurantes à
beira mar e as dezenas de barcos e lanchas bailando sobre o oceano mais azul
que ele já vira, eram um colírio para os olhos cansados da viagem. No entanto, o
negrume que se condensava no distante horizonte, como se fosse noite nas
profundezas do mar, prelúdio de uma tempestade ameaçadora, o fez lembrar-se
do motivo de estar ali. No final de sua estrada também havia escuridão, uma
massa muito mais densa do que aquela, que se agigantava e avolumava no
firmamento devorando o entardecer.
Ele decidiu adiar um pouco mais seu encontro com o destino e
estacionou a fim de explorar o povoado. Pensou em passar algum tempo
contemplando o tardio por do sol americano, sorvendo a brisa marítima e
observando o vai e vem infinito das ondas. Talvez conseguisse relaxar.
Fred tinha pesquisado sobre o povoado durante o voo e ficara interessado
pelo instituto oceanográfico que havia em Woods Hole, no caminho pra lá,
entrou em uma loja que lhe chamou a atenção. Observando seu interior, ele
imaginou que tinha caído numa clássica armadilha para turistas. Por todos os
lados havia bonés e camisetas com o logo da cidade e do time de futebol
americano local, além de chaveiros, bandeirolas e muitos outros penduricalhos
na forma do imponente Nobska Lighthouse, o grande farol, símbolo da cidade.
Algo chamou a atenção do ex-detetive. Entre os motivos alegres e
festivos das camisetas algo destoava: a estampa de um sorriso, cujo rosto fora
rasgado de um lado ao outro.
-Olá, bom dia – disse o homem que organizava uma pilha de caixas num
dos cantos da loja.
-Bom dia – mais uma oportunidade para Fred colocar à prova seu inglês
e limpar o restante da poeira que se depositava sobre a falta de prática no idioma.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa o atendente o perguntou:
-Posso arriscar um palpite? – ele aparentava mais de quarenta e usava um
boné do Boston Celtics, a pele muito branca – Argentina! Ou seria México?
-Brasil, na verdade, mas a meu ver você errou por pouco.
-Seja bem vindo a Woods Hole, meu nome é Harry Bear, muito prazer.
-Muito prazer, senhor Bear, você pode me chamar de Fred.
Apertaram as mãos de forma calorosa com empatia mútua.
-Não é sempre que recebemos brasileiros. Como é a vida por lá?
-Não é muito diferente do que vocês imaginam: carnaval, futebol,
mulheres e corrupção – disse em tom jocoso.
Harry deu uma grande gargalhada e Fred prosseguiu.
-O Brasil é um belo país. Temos os grandes centros urbanos abarrotados
de pessoas, pra quem gosta de ter a vida agitada, e, ao mesmo tempo, temos
centenas de cidades de interior cercadas de verde e de pessoas agradáveis e
simples, além de um litoral vasto e belíssimo. Eu gosto de pensar que dentro do
Brasil há um país para cada tipo de pessoa. A única coisa que me irrita por lá é o
calor. Um pouco de neve de vez em quando não faria mal a ninguém.
O homem riu alto mais uma vez.
-Eu também adoro o frio. Você precisa ver este lugar no inverno. Já está
convidado.
“Provavelmente não viverei para ver mais um inverno.”
-Obrigado. Quem sabe... Diga-me uma coisa, estou curioso sobre estas
camisetas. O que significa o rosto cortado? Pareceu-me algo meio sombrio para
uma loja tão alegre.
-Ah, sim. Bem, como você pode imaginar, o turismo é uma de nossas
principais atividades e muita gente vinha pra cá em busca de um conto ou outro
sobre os crimes do Sorriso Macabro.
-Crimes do Sorriso Macabro?
-Aconteceu há quase trinta anos. Se prometer comprar uma camiseta eu
te conto a história – sorriu novamente indicando que era uma brincadeira.
-Esta sim é uma boa técnica de venda. Se a história for boa, eu compro
duas.
-Combinado.

***

Hospital Psiquiátrico St. Clarence,
1988

Jacob Willians caminhava em direção ao seu escritório. As paredes do
corredor eram estampadas com as fotos dos seus tempos de glória. Em uma
delas, Harrison Ford tampava a boca de Jacob com as mãos, em outra, Sigourney
Weaver mordiscava sua orelha, mas a que ele mais gostava, era a que Arnold
Schwarzenegger o carregava no colo como uma criança, como se não tivesse
peso. O Exterminador, aquilo lhe dava ideias.
Com as luzes apagadas e a noite sem luar, a escuridão, atenta, observava os
movimentos de Jacob pela casa, na penumbra, acompanhando-o, envolvendo
seus passos.
Um silêncio permeado de serenidade persistia em zumbir em seus
ouvidos. Ele odiava a quietude, gostava dos aplausos, das gargalhadas que ele
mesmo era capaz de provocar com apenas meia dúzia de palavras, às vezes só
com um olhar. Sim, ele era bom a esse nível.
Quando a luz do escritório surgiu no final do corredor, trouxe com ela um
rangido constante, um som repetitivo, acompanhado de gemidos longos, que
pareciam escapar por entre dentes trincados e gargantas enrouquecidas. Jacob
caminhou até ali de forma etérea, não sentia seus pés tocarem o chão. Tampouco
sabia dizer se tinha desviado da cortina, que tremulava com o vento, ou se
passara através dela, como um fantasma.
O fato era que estava ali, de frente para a porta, e observava Michele, sua
esposa, nua, a cavalgar enlouquecida sobre Peter, na cadeira de Jacob, sua
cadeira de trabalho. Era estranho sentir mais ciúmes da poltrona do que da
esposa. A mulher piscou para ele, enquanto o assento parecia prestes a ceder sob
as estocadas poderosas do casal que gemia de prazer.
Somente naquele momento, Jacob percebeu que tinha algo nas mãos, uma
faca. Ela já estava suja de sangue. Como era possível? Ele sorriu ao se lembrar.
Sim, sim, havia aquela negra de merda da primeira fila. Ela vai sorrir para
sempre. Logo você também irá, Peter. Você também irá. Eu lhe darei um belo
sorriso.
-Estou quase lá, estou quase lá. Fode essa boceta Peter! Fode! – Gritava
Michele, seu olhar buscando o do marido.
-Vou te mostrar quem vai foder com quem – murmurou Jacob, enquanto
caminhava até o casal, o cabo da faca seguro firmemente entre seus dedos.
Ele girou a cadeira. Agora era Peter quem estava de frente para ele,
encarava Jacob enquanto enterrava os dedos nas costas nuas de Michele, que
seguia com o sobe e desce frenético e com os gritos, que de tão prazerosos,
pareciam de sofrimento.
-Fique olhando, Jacob, talvez aprenda o jeito correto de foder essa puta.
O comediante se manteve estático.
-O que pretende fazer com essa faca? Você sabe que não tem coragem.
Não passa de um fracassado, drogado e falido! – o grito de Peter atingiu seu
ápice ao mesmo tempo em que Michele atingiu o seu, com os urros animalescos
do prazer do orgasmo.
-Viu só? É assim que se faz – gabou-se Peter, com um sorriso nos lábios,
enquanto a mulher desmontava da cadeira, ainda arfante.
-Fracassado – ela se juntou ao coro antes de deixar a sala, caminhando nua
até desaparecer na escuridão.
-Sabemos que você não tem coragem – o empresário apontou para a faca.
-Senhor Willians, o que você está fazendo? Por que está fora de seu
quarto, como conseguiu se locomover?
-Por que não pega essa faca e corta o próprio pau, já que ele não serve para
nada mesmo – Peter gargalhava.
-Oh, meu Deus! Isso é uma faca. Jacob, onde você a conseguiu?
-Vamos, seu merda, eu te desafio! Faça o que tem que fazer!
Na primeira vez que a lâmina penetrou no peito de Peter, atingiu uma
grande profundidade. Um golpe de sorte, que se desviara de todos os ossos.
Quando arrancada, desenhou-se um jorro de sangue pelo ar, manifestando um
funesto arco-íris escarlate.
-Fracassado – dizia o ex-empresário do ex-humorista, com o sangue
escorrendo no canto da boca, sua voz sobreposta à outra. Uma que vinha do
outro lado do véu da irrealidade.
-Senhor Willians, pare, por favor. Era um murmúrio suplicante, distante e
lamurioso.
-Fracassado Willians, este deveria ser o seu nome artístico – continuava
Peter, enquanto a faca entrava e saía novamente, cumprindo seu trabalho,
varando pele, músculos e artérias, raspando em ossos enquanto dilacerava de
forma profunda, causando danos irreversíveis.
-Não faça isso, por favor. Implorava a enfermeira de plantão, que fora
surpreendida pelo paciente enlouquecido. Seu uniforme azul claro agora
completamente banhando pelo sangue espesso, que fugia do corpo pelas muitas
lacerações.
-Eu fodi com sua esposa enquanto observávamos você foder com a sua
vida – Peter gargalhava entre tosse e sangue, até que encarou Jacob pela última
vez e fechou os olhos para nunca mais abrir. Olhos que não eram seus, mas sim
da enfermeira Sarah Balogh, que falecera entre uma e outra das inúmeras
facadas. Seus gritos inaudíveis em meio à alucinação e aos delírios
esquizofrênicos e psicóticos que intempestivamente transformaram Jacob em um
assassino.
No entanto, ainda faltava algo.
-Você tem sorte Peter, pois você é quem vai rir por último.
Enfiou a faca na bochecha da enfermeira e terminou o trabalho.
-Ninguém pode deixar o meu show sem um sorriso nos lábios.
E seguiu seu caminho, deixando Sarah Balogh sentada ali, com mais furos
do que um gruyere suíço, porém, com um sorriso de orelha a orelha.
-Michele! Onde você está querida? Eu vou encontrá-la. O seu amado Jacob
está indo te pegar.





Capítulo 8

Olga não se importava em gritar. Sabia que naquele lugar ninguém poderia
ouvir. Várias alas do St. Clarence foram mantidas desativadas após a
reinauguração do hospital, que ficara quase três décadas fechado após os crimes
macabros ocorridos por lá.
Ela afundava as unhas no couro cabeludo de Paul, que segurava sua cintura
enquanto a penetrava. Olga, com o uniforme de enfermeira aberto, sentada sobre
a mesa do que algum dia fora uma sala de recreação, e ele com as calças
arriadas, as costas tatuadas arranhadas pela sessentona.
-Você é muito gostoso, sabia garoto? – ela falava no ouvido de Paul.
-Só goze rápido e me entregue o que prometeu.
-Talvez você precise se esforçar um pouco mais – rebateu ela.
Paul virou a mulher de costas e a colou contra a parede mais próxima.
-É disso que estou falando gostosão, manda ver – aprovou ela.
Paul, secretamente, apenas desejava não ter que encarar a face envelhecida
e os seios flácidos. Aquilo o enojava. Para ele, a velhice era como uma doença.
Ele recomeçou os movimentos frenéticos. Os corpos fundidos, delimitados
como um na penumbra da parca iluminação. Os gritos da enfermeira ecoavam
pelos corredores vazios e empoeirados, até que Olga sentiu as pernas
estremecerem e uivou em um orgasmo furioso, explosivo. Paul não esperou um
instante sequer antes de cobrar o que lhe foi prometido, tampouco se importou
em também atingir o clímax, sua mente já estava completamente voltada para o
que ganharia com aquela barganha.
Balançando a cabeça como se decepcionada, Olga foi até sua bolsa e
pegou o frasco de comprimidos.
-Eu trouxe, mas não vou ficar aqui parada vendo você se matar.
-Que bom! Desapareça logo!
Paul nem seu deu ao trabalho de levantar as calças, apenas se livrou delas,
abriu o frasco de Maxidone e engoliu quatro comprimidos, que era o dobro da
dose recomendada. Foi até a escrivaninha no canto da sala e recolheu seu tesouro
escondido em uma das gavetas: isqueiro, seringa, colher e pedras de crack.
Sentou-se numa das poltronas, o pênis já murcho, o corpo completamente
relaxado, embora estivesse ansioso pela picada. Derreteu a pedra na colher,
sugou com a seringa e injetou no braço.
-Puta que pariu!
“Jamais ficarei viciado.” Lembrou-se de que costumava repetir aquele
mantra. Quanto tempo tinha se passado desde a última vez em que tentara se
enganar? Quando foi que tudo começou? Perguntas sem respostas. Pelo menos
era capaz de admitir que não houvera nenhum culpado além de si mesmo.
Ninguém o apresentou às drogas. Nunca houve traficantes na porta de sua
escola, nem amigos a lhe influenciar. Sua vida não era tão ruim e não
apresentava justificativas para uma fuga em direção àquele mundo. Ele
simplesmente era curioso. Teve curiosidade sobre ir para cama com outro
homem, não gostou e espancou o pobre coitado quase até a morte. Queria saber
mais sobre o corpo humano e seu intrincado funcionamento, ansiava vê-lo por
dentro, após a frustração com a medicina, gerada pela falta de grana e empenho
– prejudicado pelas drogas – tornou-se enfermeiro. Se algo despertava seu
interesse, ele apenas lançava-se de cabeça e saciava a vontade.
Sua falta de pudores era sua característica mais marcante, odiava as
amarras morais que a sociedade tentava lhe impor. Foder com a diretora da
escola, uma senhora de sessenta e dois anos, enquanto ele tinha quinze, em troca
de não ser expulso da escola, absolutamente normal. Chantagear a irmã com seu
segredinho sobre as drogas fazendo-a chupar seu pau, tudo bem, desde que não
passasse daí, único limite que algum dia aplicara a si mesmo.
Certa vez, aos dezessete, seu pai lhe dera um tapa no rosto na mesa de
jantar por ele dizer que todos os republicanos deviam ir à merda.
“Respeita a minha mesa, seu moleque.” Gritara o pai.
Paul simplesmente se levantou e desapareceu no corredor, voltou logo
em seguida com seu taco de basebol e o quebrou na cabeça do pai, o enviando
para o hospital, sem intervenção alguma da mãe e da irmã, que não sabiam muito
bem qual dos dois deveriam temer em maior escala.
“Nunca mais toque no meu rosto.” Foi tudo o que disse para o homem
desfalecido, antes de cuspir em sua face e sair para a varanda, acender um
cigarro, e observar tranquilamente o movimento caótico dos carros na rodovia.
Paul simplesmente relaxou na cadeira e curtiu a viagem. Aquilo era
muito bom. Somente assim era capaz de aguentar aqueles malucos de merda,
com suas gritarias sem sentido e fraldas para trocar, e ainda pior, os seus colegas
insuportáveis de trabalho, que ao contrário dele viviam amarrados a seus
salários, relacionamentos e tudo mais que tornava a vida uma grande merda.

***

Quando John encontrou Paul no refeitório, a chuva já tinha começado a
cair de forma tímida. O entardecer em Woods Hole era geralmente agradável
naquela época do ano, o céu, de tons avermelhados, desvanecia-se gradualmente
em um esplendoroso laranja, que se deitava majestosamente sobre o mar,
enquanto gaivotas e outras aves, em revoada, completavam o quadro primaveril
como um mosaico de vida abundante. Mas não naquele dia. A tarde fora
devorada prematuramente pela noite. O céu enegrecido era como um teto, algo
sólido e pesado, prestes a desabar.
-Estive procurando por você, Paul – disse John.
-Me desculpe por sumir sem avisar, acho que estou doente. Meu corpo
está péssimo, a cabeça doendo como nunca. Provavelmente é uma gripe – ele
tomou um grande copo d’água de uma só vez.
Havia mais algumas pessoas no refeitório, todas sentadas devidamente
afastadas de Paul.
-Seus olhos estão vermelhos – constatou John, balançando a cabeça,
preocupado com o amigo. – Só preciso de uma mão para acomodar os novos
pacientes, e a gente passa na gerência e pede para liberarem você.
-Tenho certeza de que se o queridinho do hospital pedir, eles com certeza
me liberam.
-Queridinho?
-Quer que eu soletre?
-Vá se danar.

***

Após a paciente recém-chegada, Christine Davis, passar pela junta médica,
ficou decidido que John a conduziria ao quarto e lhe apresentaria suas
acomodações.
Devido às tentativas diversas de automutilação e até mesmo de suicídio,
proveniente de um quadro gravíssimo de depressão, o quarto de Christine tinha
apenas um mínimo de objetos, todos eles incapazes de se tornarem armas, e o
acompanhamento de médicos e enfermeiros seria constante, mas o doutor Ethan
dissera a John que estava confiante de que poderia ajudar a jovem de vinte e seis
anos.
John abriu a porta do quarto para Christine.
-Este lugar enorme é somente para mim? – ela mostrou algum vislumbre,
tendo em vista que o quarto na casa dos pais era um cubículo que mal cabia sua
cama, nos subúrbios de Boston.
-Sim.
-Meu Deus, ninguém me disse que haveria uma janela com uma vista tão
bela – ela sorriu ao se aproximar do vidro, que por segurança não se abria, e
fitou o mar que desaparecia no horizonte, como se desaguasse na borda do
mundo.
-Meu nome é John Smith e vou estar à sua disposição, Christine.
-Obrigada, John. Eu posso te perguntar uma coisa?
-Sim, claro.
-Você me acha bonita?
Independente do fato de John ter admirado desde o primeiro instante a
beleza daqueles fartos cabelos ruivos cacheados, e dos olhos de um azul
profundo, bem como o rosto redondo e bem formado, John sabia que em quadros
graves de depressão, como o dela, um mínimo de descontentamento poderia ser
suficiente para lançar a moça em um abismo sem fundo.
-Sim, Christine, você é muito bonita. Todas as pessoas são bonitas, cada
uma de uma forma diferente.
Ela sentou na cama e abraçou as pernas.
-Eu não me acho bonita.
-Você deveria se dar mais crédito.
-Talvez isso fosse possível se eu não tivesse que tomar tantos remédios.
-Você sabe que eles são para o seu bem.
-É o que dizem, mas estes remédios não podem impedir as lâminas.
Por um instante, o olhar dela se perdeu no vazio. Os dedos acariciavam os
pulsos onde marcas profundas repousavam silenciosas e inchadas, como se ainda
guardassem dentro de si alguma dor ou prazer.
Um instante depois, ela emitiu um enorme sorriso. Sua bipolaridade
evidenciando-se.
-Você tem namorada? – os olhos brilhando de curiosidade.
John não soube o que dizer.
-Você é muito bonito, deve ter uma namorada.
Ele estava começando a ficar preocupado com aquela conversa.
-Não tenho, existe alguém, mas... – ele não sabia por que tinha deixado
aquelas últimas palavras escaparem. Talvez apenas para satisfazer a si mesmo.
Para se lembrar de que em breve, Ellen seria apenas sua.
-É complicado?
-Sim, mas não estou aqui para falar sobre isso, e sim para cuidar de você.
O posto de enfermagem fica...
-Por que você não quer falar sobre ela? É um amor proibido, como nos
filmes?
“Mas que garota.” Ele não sabia se ria ou se ficava espantado com a
sagacidade de Christine.
-Christine...
-Pode me chamar de Chris.
-Tudo bem, Chris, algum dia eu te contarei mais sobre isso, na verdade,
teremos muito tempo para longas conversas, no momento eu quero apenas que
você se ambiente. Volto em alguns minutos para darmos um passeio pelo
hospital, o que acha disso? Quem sabe você não faz alguns amigos?
-Não sou boa em fazer amigos, mas tanto faz, sou a prisioneira e você o
carcereiro, pode me levar aonde quiser – ela virou a cabeça e passou a fitar a
janela, como se tivesse simplesmente se desligado de John. Os olhos azuis
perdendo-se entre as nuvens escuras. A espontaneidade de segundos atrás
desapareceu tão repentinamente quanto surgiu.
-Existe algo nesse hospital – disse ela, fazendo com que John parasse a
meio caminho da porta.
-Como assim?
-Uma escuridão.
-Escuridão?
-Sim, ela está vindo.
-Você se refere à tempestade? – deduziu ele.
-Tempestade? – ela se virou para o enfermeiro com um enorme sorriso,
que contrastava gravemente com suas palavras. – Não, não, não, algo bem pior.
Você vai ver.

***

John caminhava em direção ao final do corredor, em busca de Paul, para
interceder por ele junto a gerência e pedir um afastamento para o amigo, que
parecia realmente mal. Ele suspeitava que aqueles sintomas indicassem algo
além de uma gripe comum, e estava verdadeiramente preocupado.
Os dois haviam se conhecido anos atrás, no curso de enfermagem. Até
então, John era apenas um rapaz tímido e introvertido, que falava pouco sobre a
família problemática, de pais separados que não davam a mínima para ele, o que
ajudou a minar sua confiança, o tempo todo preocupado em não repetir os erros
dos dois, mas Paul surgiu para mudar sua vida. Impulsivo e confiante, ele
arrastou John para o seu mundo, e aqueles anos que passaram juntos
transformaram o rapaz. As noitadas, garotas, boates e bebidas, fizeram John
conhecer um universo que até então ele apenas imaginava existir, mas apesar da
grande amizade criada naqueles tempos, assim que o curso terminou, o contato
entre eles também cessou. A vida os ofertara oportunidades e destinos diferentes,
até que meses atrás o telefone de John tocou. Era o velho amigo pedindo
emprego. Após a indicação, rapidamente Paul estava empregado no St. Clarence
e a dupla voltou a se encontrar.
Quando se aproximava do quarto, John ouviu a voz do amigo.
-E então, seu filho de uma puta. Quem você pensa que é para ficar me
ignorando?
John ficou estático, buscava entender o que estava acontecendo.
-Vou lhe contar um segredinho, seu velho de merda. Eu odeio essa porra de
trabalho e estou pouco me lixando para você. Vejam só que belo colar você tem,
parece de ouro. Por via das dúvidas, eu vou ficar com ele.
John olhou para dentro do quarto sem acreditar no que ouvia. Precisava
confirmar que era seu amigo ali, falando daquela forma com um paciente.
Roubando o homem do qual deveria cuidar. Moveu-se a tempo de ver Paul
enfiando no bolso uma fina corrente dourada.
-Eu tenho uma dúvida – prosseguiu Paul – aqui tem um bocado de gente
que fica apenas parado, olhando para o nada com cara de imbecil, assim como
você, mas no fundo eu acho que essa porra toda é apenas fingimento. Por
exemplo, se eu lhe der umas porradas no estômago, onde ninguém vai notar as
marcas, você vai reagir não vai? Diz pra mim seu velhote de merda. Sim, eu
tenho certeza de que você é do tipo escroto que gosta de ficar bancando o
retardado. Tenho certeza de que você vai reagir.
O idoso se manteve em silêncio, fitando o vazio.
-Bem, só há uma maneira de saber.
John irrompeu no quarto a tempo de segurar o braço de Paul.
-Que porra é essa? O que você está fazendo?
-Me solta!
-Você estava... eu não posso, não posso acreditar. Não consigo – ele
balançava a cabeça, as mãos erguidas na altura do peito, os olhos marejados – eu
trouxe você para trabalhar aqui porra! Eu confiei em você.
-Quer saber, John, vai se foder! – ele tentou sair do quarto, mas John o
segurou.
-Seus olhos, isso não é a merda de uma gripe. Você está drogado! Deixa-
me ver o seu braço – tentou erguer a manga da camisa de Paul.
-Não to drogado porra nenhuma.
À força, John conseguiu verificar que Paul tinha várias marcas de picadas.
Isso explicava a camiseta de manga longa que ele sempre usava por baixo do
uniforme. Explicava seus sumiços e as desculpas porcas que usava para
justificar.
John arrastou Paul para o corredor. A chuva, que desandou a cair, batia
intempestiva contra as janelas, esmurrando-as como se desejasse entrar. A tarde
tornara-se noite e ganhava claridade a cada relâmpago que cruzava o céu. O
ribombar dos trovões ressoava como gritos de um deus enfurecido, fazendo o
hospital tremer em suas estruturas.
John pegou Paul pela gola da camisa e o prensou contra a parede.
-Quantas pessoas você machucou desde que veio pra cá?
Paul apenas riu.
-Eu te fiz um pergunta!
Ele se aproximou do ouvido de John e sussurrou:
-Muitas. Principalmente mulheres.
John não pôde mais se conter e socou Paul com toda sua força. Sua ira era
como a tempestade, enegrecendo sua visão, seu grito ressoou com os trovões e
as lágrimas caíam como chuva.
Mesmo sendo acertado em cheio, Paul se manteve de pé.
-Você não devia ter tocado no meu rosto – anunciou ele, friamente, antes
de partir para cima de John.
Os dois se engalfinharam numa violenta troca de chutes, socos e joelhadas,
mas Paul tinha a vantagem trazida de todas as brigas de rua que já tinha travado
desde os tempos de colégio, lidando com traficantes e ladrões. Ele derrubou John
e lhe acertou facilmente vários socos no rosto, até que foi erguido no ar por
braços fortes e arremessado como se não tivesse peso, por Lawrence, que surgira
no corredor.
-Seu velho! Não se meta – Paul gritou, redirecionando seu ódio, mas
acabou desistindo da ofensiva quando viu os residentes daquela ala saírem dos
quartos, assustados na mesma medida com a tempestade e com a briga.
Paul caminhou de costas até o fim do corredor, onde acenou com um
sorriso cínico no rosto e desapareceu.
-Obrigado, Lawrence – disse John, erguendo a mão para ser levantado do
chão, mas o homem fingiu não notar e o enfermeiro precisou ficar de pé com as
próprias forças.
-Você sujou o meu chão – Lawrence apontou para as gostas de sangue que
pingaram do nariz do enfermeiro.
Ignorando John completamente, ele pegou o esfregão, afundou no balde e
começou a limpeza, resmungando algo ininteligível.















Capítulo 9

Fred verificou o relógio mais por uma questão de costume. Segundos
depois já tinha esquecido que horas eram. Não queria admitir, mas estava
nervoso. A proximidade com o centro de pesquisas significava o fim de sua
jornada e a inadiável descoberta sobre seu futuro, ou a falta dele.
O movimento constante do limpador de para-brisa parecia querer
hipnotizá-lo, bem como a chuva que desabava sobre o carro, despencando do
teto enegrecido do mundo, uma placa cor de chumbo que ele vira avançar pouco
a pouco, devorando a vastidão azul e mergulhando Woods Hole na mais
profunda escuridão.
Ao passar pela ponte que unia a íngreme falésia ao restante do povoado,
Fred viu um relâmpago desprender-se majestosamente das nuvens escuras, no
longínquo horizonte, e cruzar o céu numa investida vertical com incontáveis
ramificações prateadas, findando sua longa jornada de uma fração de segundo,
no tapete do mar, que refletia a escuridão do céu. Um espetáculo singular, cuja
beleza lhe deixara impressionado e amedrontado.
Vencendo a ponte e o restante da colina, Fred desviou para a direita
ignorando o caminho para o Hospital Psiquiátrico e estacionou junto ao
Advanced Brain Research Center, que mais parecia uma estação da NASA,
fazendo-o se lembrar dos filmes onde meteoros ameaçavam se chocar contra a
Terra.
Ele pegou o guarda-chuva com o qual Harry Bear lhe presenteara em sua
loja, a mala que estava no banco de trás, e se dirigiu para a portaria. A chuva
fustigava sua visão.
Assim que passou pela porta de vidro, foi recebido pelo segurança que
usava terno e gravata.
-Com o tempo assim não sei se digo boa tarde ou boa noite – falou o
homem caucasiano de feições receptivas e ombros largos, de trás do balcão da
recepção, um tablado em meia lua sob o grande logo da instituição.
Fred sorriu com o comentário.
-Não posso culpá-lo por isso.
-O senhor é...
-Frederico Borzagli.
-Ah sim, o doutor Fisherman está esperando pelo senhor, vou ligar para
ele.
-Obrigado – Fred leu o nome no crachá – Jonathan.
Em dois minutos Fisherman estava ali. Fred achou que demoraria mais
devido ao tamanho do complexo.
-Olá, detetive Frederico. – O homem estendeu a mão para Fred. Era branco
como leite, a testa proeminente tinha ganhado alguns centímetros a mais, graças
a calvície avançada. Vestia uma camisa branca engomada e uma gravata
vermelha. – Seja bem vindo, eu sou Barry Fisherman, diretor desta instituição. É
um prazer recebê-lo – o sorriso que emitiu fez-lhe rejuvenescer, escondendo
alguns dos anos já percorridos na estrada rumo aos sessenta.
-Obrigado, doutor Fisherman.
-Pode me chamar de Barry, assim como já fui avisado de que você prefere
apenas Fred.
-Romero?
-Exato, nosso benfeitor mútuo. Ele falou muito sobre você. Pediu que
fosse tratado com total atenção.
-Ele só se esqueceu de dizer que não sou mais detetive. Um tumor no
cérebro, você sabe como é.
-Espero que possamos reverter isso para que você volte a pegar os
bandidos.
-Não sei se você já ouviu dizer, mas o Brasil está cheio deles.
O doutor riu com um balanço excessivo de ombros e convidou Fred a
acompanhá-lo.
Fred ficou um pouco decepcionado com o caminho em direção ao
escritório, ele esperava algo mais futurista, mas os corredores que percorreram
em nada se diferenciavam de um prédio unicamente administrativo. Imaginou
que os laboratórios e salas de pesquisa, com tubos de ensaio, microscópios e
máquinas estranhas ficassem em outra ala. Estranhou também o fato de não
cruzarem com mais ninguém por todo o caminho. As portas entreabertas
deixavam ver escritórios vazios. O lugar parecia abandonado.
A sala de Barry Fisherman era tão luxuosa quanto Fred esperava. Ele
calculou que apenas as duas poltronas ocupadas por eles valiam mais do que
todos os móveis de seu apartamento de solteiro. Sobre uma bancada, ele viu
diversos porta-retratos com fotografias do que deveria ser a família de Barry.
Duas crianças entre dez e doze anos e um adolescente cheio de espinhas, além de
uma loura muito alta e bonita.
-Sente-se, Fred, você aceita uma bebida?
-Não, obrigado.
-Em primeiro lugar, antes de falarmos sobre o tratamento, eu preciso ser
sincero sobre algo que provavelmente você não irá gostar.
O ex-detetive se remexeu na cadeira, incomodado.
-Devo dizer que essa não era a primeira coisa que eu esperava ouvir,
doutor.
-Eu imagino que você tem passado o maior tempo possível perto das
pessoas que ama – Barry parecia escolher bem as palavras, como se as colhesse
em uma plantação de prudência – e eu e o Romero... como posso dizer, tiramos
de você alguns destes preciosos dias.
-Não estou entendendo.
-Quando o Romero ligou, avisei para ele que eu já tinha dado folga para
toda a minha equipe, e que eles já tinham passagens compradas e compromissos
agendados. Sabíamos antecipadamente sobre a tempestade e eu permiti que o
meu pessoal tivesse um descanso. Nós costumamos trabalhar por meses a fio
sem um dia sequer de folga. Eu tentei explicar isso para o Romero, mas...
-Mas ele é um cara difícil – Fred demonstrava que entendia a situação, mas
sua expressão se manteve carrancuda.
-Um cara muito difícil, mas que deve gostar muito de você. Nós
discutimos duramente até chegar ao ponto de ele ameaçar retirar seu apoio, o que
seria catastrófico, pois ele é o maior dos nossos financiadores.
-Então você mentiu para ele.
-Eu não menti exatamente, eu disse que faria o possível. E o possível foi
cancelar a pescaria com meus filhos que não vejo há meses para ficar aqui e
recebê-lo, mas a maior parte da minha equipe já tinha partido e os que ainda
estavam aqui... bem, eu não queria vê-los decepcionar suas próprias famílias
assim como decepcionei a minha.
-Eu entendo.
Barry empurrou um aparelho de telefone sobre a mesa na direção de Fred.
-Vou entender se você quiser telefonar agora mesmo para o Romero e lhe
contar a verdade.
Fred tragou o ar profundamente, inspirando decepção e expirando a raiva
por ser privado daqueles dias junto ao filho e a Elis.
-Isso não é necessário. Eu entendo sua posição. Você tinha uma decisão
difícil em mãos, mas não posso dizer que fiquei feliz mesmo me colocando em
seu lugar. Meus dias estão contatos e você roubou alguns deles. Este fato
permanece.
-E eu sinto muito por isso – Barry o encarava nos olhos, seus globos
castanhos, por detrás das grossas lentes dos óculos, exprimiam total sinceridade.
Fred aceitou aquelas palavras com um movimento de cabeça e perguntou
em quantos dias Barry teria sua equipe de volta.
-Seriam duas semanas para todos, mas já combinei com aqueles que são
indispensáveis, um retorno em cinco dias. Com eles aqui podemos começar de
fato o seu tratamento. Até lá, poderemos fazer alguns exames preliminares.
-Tudo bem então.
-Obrigado por sua compreensão, Fred.
O ex-detetive ergueu as mãos como quem simplesmente não tem opção, ao
passo em que um ditado passou por sua cabeça: “Já que está no inferno, abrace o
capeta”. Mas o afugentou rapidamente ao se lembrar de seus sonhos recentes. Já
havia obtido sua cota do demônio para toda uma vida.
-Nós poderíamos conversar por horas sobre os pormenores dos tratamentos
que estamos desenvolvendo aqui, mas creio que talvez você prefira descansar de
sua longa viagem. Nos dias que temos pela frente haverá muito tempo para que
eu possa explicar tudo a você.
-Acho que um descanso realmente seria bom.
-Você vai ficar feliz em descobrir que o que tenho reservado para você não
perde em nada para nenhum hotel cinco estrelas.
-Eu não tenho gostos refinados, doutor, qualquer coisa vai servir.
-Estou em dívida com você, Fred, então você receberá o que há de melhor.
Barry se levantou.
-Me acompanhe.
Os dois foram até o elevador no final daquele corredor e subiram até o
quarto e último andar. Quando a porta abriu, Fred se viu diante de uma grande
sala de convivência, com TV e sofás confortáveis. Ele quase pôde visualizar os
cientistas jogando pôquer em uma mesa com forro verde, onde repousava um
baralho, ou jogando bilhar na mesa que ficava no canto da sala. Dali seguiram
para uma saída à direita, onde o corredor era pontuado por diversas portas. Barry
ignorou todas elas e prosseguiu.
-Se você conhece bem o Romero Garcia, deve imaginar o que espera por
você no final deste corredor.
-Como assim?
-Por questões pessoais, o Romero se interessa muito por nossa pesquisa, e,
quando pode, ele vem passar alguns dias conosco.
Fred sabia que por “questões pessoais”, Barry queria dizer que Romero
perdera a mãe para um tumor exatamente igual ao qual eles vinham estudando a
cura.
-Acho que ele gosta bastante de Woods Hole também, pois têm vários
imóveis e negócios na região. A questão é que ele é um cara acostumado ao que
há de melhor, então creio que você possa imaginar o que lhe espera atrás daquela
porta – apontou para o fim do corredor.
Quando Barry abriu a porta, Fred ficou de queixo caído. O lugar era maior
do que todo o seu apartamento. A TV emoldurada na parede devia ter no mínimo
setenta polegadas e ficava de frente para um sofá tão grande que parecia uma
cama. No lado esquerdo, onde paredes de vidro permitiam uma vista panorâmica
para o mar, uma banheira de hidromassagem estava à disposição, e, além dela,
uma porta de correr abria-se para uma varanda deslumbrante.
-Ali ficam o quarto e o banheiro – Barry apontou para a direita – e do
outro lado há uma pequena cozinha que eu abasteci com um bocado de comida –
vendo a expressão de assombro no rosto de Fred, ele prosseguiu. – Como você
pode ver, o Romero realmente sabe viver.
Fred ainda estava impressionado demais para dizer qualquer outra coisa.
Ele achou que Fisherman tinha razão, aquele lugar parecia mesmo um hotel
cinco estrelas, embora Fred jamais tivesse pisado em um.
-Vou deixá-lo descansar. A senha do wi-fi está anotada sobre a mesa. Com
essa tempestade é bem provável que fiquemos sem telefonia, mas a internet é via
satélite e costuma aguentar bem. Se precisar de alguma coisa, basta discar para
mim ou para o Jonathan, os números estão anotados no telefone.
-Sim, obrigado.
Barry parou junto à porta e se voltou para Fred.
-Detetive, eu realmente sinto muito.
-Está tudo bem.
O doutor acenou e deixou o quarto. Assim que a porta se fechou, Fred
lembrou-se de algo e correu para chamá-lo novamente.
-Barry! Eu tenho algo para perguntar. Notei que vocês são vizinhos de um
hospital psiquiátrico.
-Sim.
-Você conhece alguém por lá? Eu tenho algumas dúvidas referentes ao
último caso em que trabalhei e gostaria de poder conversar com algum médico
ou especialista no assunto.
-Vez ou outra eu tomo um café com o diretor geral do St. Clarence, seu
nome é Ted Barnes, um homem bastante agradável, se você quiser eu posso
tentar agilizar as coisas.
-Obrigado – ele sorriu e voltou para o quarto, ainda não conseguia
acreditar em tanto luxo. Construir algo como aquilo dentro de uma clínica de
pesquisas era mesmo a cara do Romero.






Capítulo 10

John ergueu a mão e bateu na porta da sala do diretor geral. Seu rosto
estava bastante dolorido e ele achava que tinha perdido uma lasca de um dos
dentes.
-Entre – era a voz de Ted Barnes.
-Com licença, senhor – disse John ao passar pela porta – desculpe
incomodá-lo, mas preciso relatar um problema. Algo muito sério.
-Sente-se John e me diga o que houve. A propósito, o seu rosto está
péssimo, qual dos pacientes fez isso?
-Esse é o problema, senhor Barnes, não foi um paciente.
O homem juntou as mãos sob o queixo e se inclinou para frente, sua
atenção totalmente focada no enfermeiro.
-Explique-se, por favor.
-O enfermeiro Paul Adams. Eu o surpreendi roubando e maltratando um
dos pacientes, graças a Deus eu consegui impedi-lo de agredir Curtis Allen, um
homem que nem pode se defender, mas Paul acabou fugindo.
-Já entraram em contato com a polícia? Onde está Paul?
-Ele fugiu, desapareceu. E a polícia, com esse temporal, pode ser que
demore. – John se mexia como se a cadeira estivesse cheia de pregos. – Senhor
Barnes, eu sinto muito, fui eu quem indicou o Paul, nós estudamos juntos,
éramos amigos e eu confiava plenamente nele. Como posso não ter enxergado o
monstro que ele realmente é? Antes de fugir, ele disse que já tinha... – John
começou a chorar, os soluços cortando suas palavras – que já tinha... machucado
outros pacientes. Ele estava drogado. Como eu posso ter trazido um crápula
desses pra cá? Vou entender se o senhor quiser me demitir.
-Acalme-se, John. – Ted Barnes deu a volta na mesa, ele tinha um rosto
redondo e bondoso, seu olhar revelava toda a inteligência de um homem que
chegara tão jovem ao cargo que ocupava. Aos quarenta e seis anos os cabelos
ainda eram fartos, negros e penteados com esmero. Ele apertou o ombro de John
com firmeza. – A culpa não é sua. Não somos responsáveis pelo mal que o outro
causa. Você é uma boa pessoa, todos aqui o adoram, se eu o perdesse teria que
fechar o hospital – ele riu tentando diminuir a carga de tensão carregada pelo
enfermeiro.
-Senhor Barnes, por favor, me perdoe.
-Não há o que perdoar, mas temos muito que fazer. Precisamos saber
exatamente com quais pacientes Paul trabalhou nos meses em que esteve
conosco. Nós cuidamos de pessoas cuja saúde mental é abalada por definição,
precisamos descobrir quais prejuízos mais Paul pode ter causado a elas. Já que
sua chefia está de férias, quero que você trabalhe nisso para mim. Você pode
cuidar disso, John?
-Sim, senhor.
-Ok, o resto é com a polícia. Vou terminar alguns relatórios nos quais
estava trabalhando e vou juntar a equipe para uma reunião. Até lá, comente
apenas o mínimo possível.
-Sim, senhor diretor.
-E John, antes de tudo, passe na enfermaria, cuide desse rosto e veja se está
tudo bem.

***

Ted tentou acalmar John, mas a gravidade daquele problema era
gigantesca, como se já não bastasse o histórico macabro daquele prédio, agora
tinham à solta um enfermeiro drogado que maltratava pacientes. Tudo o que ele
queria naquele momento era um cigarro, um tragada profunda para acalmar os
ânimos, mas fizera uma promessa para si mesmo, para a esposa e para os filhos.
Se não pudesse vencer uma batalha interna como esta, como poderia conduzir
um hospital daquele tamanho? Quantas vidas ali dependiam de sua boa gestão?
O telefone tocou, tirando o diretor de seus devaneios. Ted atendeu e
ouviu a recepcionista dizer que um homem enviado por Barry Fisherman
aguardava para falar com ele.
-Este não é um bom momento. Você sabe do que se trata Cinthya? –
Perguntou para a moça do outro lado da linha.
-Vou descobrir senhor, só um instante – durante alguns segundos, Ted
ouviu apenas o leve zumbindo da estática.
-Senhor Barnes, ele disse que é um ex-detetive da polícia brasileira e
queria tirar dúvidas sobre um tipo específico de transtorno psíquico,
relacionando a um caso em que trabalhou.
-Tudo bem, pode trazê-lo, mas avise que tenho não mais do que alguns
minutos.
Ted Barnes levantou da cadeira e se pôs a caminhar. Ele avaliava a
gravidade da informação trazida por John. Se aquilo viesse a público, seria um
golpe muito duro para o hospital, com certeza iria parar em todos os jornais. Se
Paul fosse preso, que atrocidades mais ele poderia revelar? A instituição cairia
em grande descrédito, disso não tinha dúvidas. Talvez fosse melhor que o
homem escapasse da polícia e seguisse com sua vida desgraçada.
“Deus do céu, como posso sequer pensar algo assim?” Repreendeu-se de
imediato.
Em alguns minutos a recepcionista bateu e abriu a porta. Ted viu um
homem alto e bonito passar por ela. O semblante cansado do recém-chegado
fazia parecer que ele estava acostumado a carregar o mundo nas costas. As
pernas de sua calça e as mangas da camisa estavam molhadas, delatando que ele
cruzara a tempestade para estar ali.
-Boa noite, sou Ted Barnes, diretor geral do St. Clarence – estendeu a mão.
-Frederico Borzagli, é um prazer conhecê-lo.
-E então, Frederico...
-Fred, por favor.
-Fred, em que posso ajudá-lo? Devo dizer que só aceitei recebê-lo porque
foi um pedido do meu colega, doutor Fisherman. Estamos com alguns problemas
e esta não é uma boa hora. Por tanto, precisamos ser breves.
-Bem, se o senhor estiver muito ocupado talvez eu possa falar com um de
seus médicos.
-Já que você já está aqui, vamos em frente.
-Obrigado.
-Sente-se, por favor.
Barnes voltou à sua cadeira e sentou-se, espelhado por Fred.
-Senhor Barnes, sua secretária antecipou que eu era detetive na polícia
brasileira. No meu último caso, antes de me afastar, precisei lidar com uma
mulher que sofria de personalidades múltiplas. Ela assassinou algumas pessoas e
eu gostaria de saber até onde a psicopatia poderia estar enraizada nessas
personalidades. É possível que a maldade, aquilo que a levava a cometer seus
crimes pudessem ser... como eu posso dizer, separado em sua mente,
pertencendo exclusivamente a uma das personalidades, enquanto a outra se
mantivesse sã?
-Muito bem, vamos com calma, – começou Barnes – esta não é um
pergunta simples. Em primeiro lugar, o transtorno dissociativo de identidade
ainda divide as opiniões médicas e pode facilmente ser confundido com outras
condições. Além do mais, os registros de casos desse tipo, apesar de ficarem
famosos em filmes e livros, na verdade são mínimos. Podemos até dizer que é
uma condição rara, ocasionada na maioria das vezes por um grande trauma.
-Isso procede, trata-se de uma mulher que foi estuprada pelo padrasto
quando criança – Fred estreitou o olhar, aparentava desconforto – ela o matou na
mesma noite do estupro.
Ted Barnes não pareceu impressionado.
-Bem, Fred, eu não poderia dar um diagnóstico sem examiná-la. Em casos
devidamente confirmados, o que geralmente ocasiona a troca de personalidade
são situações de grande estresse, momento em que o cérebro ativa uma segunda
ou terceira personalidade que ele considera apta a lidar com determinada
situação. Então, sem entender exatamente o que houve é complicado para que eu
possa lhe responder.
-Sim, eu entendo, mas veja bem doutor, minha pergunta é bem específica.
Eu gostaria de saber se em um caso comprovado de personalidade múltipla, é
possível que apenas uma dessas personalidades torne-se, por exemplo, um
assassino?
-Você precisa entender que este questionamento exige uma resposta que
será meramente especulativa.
Fred se inclinou para frente, mal disfarçava sua impaciência aflitiva.
-Sim eu entendo, por favor, me diga o que pensa a respeito. É muito
importante para mim. – Fred só conseguia pensar que talvez Fernanda fosse
mesmo apenas uma mulher doente, e que seus pesadelos eram uma forma de seu
subconsciente lhe dizer que ele agira errado ao não tentar impedir que ela tirasse
a própria vida.
Ted Barnes passou a mão pelos cabelos. Ele podia sentir a ansiedade do
homem a sua frente.
-Eu creio que seja possível, sim, que a necessidade e a compulsão por
cometer estes crimes, residissem em apenas uma das personalidades. Embora eu
jamais assinasse um relatório policial com tal afirmação. Essas coisas não podem
ser confirmadas, estamos falando de algo exclusivamente teórico.
Fred respirou fundo e relaxou na cadeira.
-Entendo. Obrigado, doutor.
-Você está bem? – perguntou Barnes mediante o profundo abatimento de
Fred.
-Tão bem quanto alguém com os dias contados poderia estar.
-Dias contados?
-Estou aqui para me tratar no centro de pesquisas ao lado.
-Tumor cerebral? Entendo. Essa deve ser a explicação para o seu
afastamento da polícia. Fisherman e sua equipe são muito competentes, se existe
alguém no mundo capaz de lhe curar, são eles. Eu lhe desejo toda a sorte com o
tratamento, de coração, mas agora eu realmente preciso voltar ao trabalho.
-Sim, sim, é claro. Obrigado pelo seu tempo – Fred levantou-se
rapidamente.
-Não foi nada.
Apertaram as mãos mais uma vez.

***

Quando saía da sala do diretor, John cruzou com Ellen nos corredores.
-John, oh meu Deus, o que houve com você?
Preocupada, ela ergueu as mãos delicadas e segurou o rosto do enfermeiro,
tocando gentilmente as grandes marcas roxas e o lábio cortado.
Ele olhou ao redor, muitas pessoas passavam por ali e ele não queria
chamar atenção.
-Vamos para outro lugar e eu explico para você.
Eles seguiram para a ala leste, no caminho, Ellen recolheu tudo o que
precisaria para fazer os curativos que John necessitava. O enfermeiro usou uma
chave de seu grande molho para abrir a porta, que dava acesso a um dos
quadrantes ainda não reativados pela nova administração do hospital. Passaram
pela porta sem perceber que uma pessoa os observava com redobrado interesse.
Seguiram pelo corredor que era limpo pouquíssimas vezes, suas pegadas
destacavam-se na poeira. Entraram na pequena sala que um dia fora um
consultório.
-Sente-se e me deixe dar uma olhada nesses cortes – ordenou Ellen.
John escorou na mesa e ficou olhando para o vazio. Sua desolação era
ainda mais comovente emoldurada entre aos hematomas.
Ellen pegou uma solução para limpar as feridas, aplicou no algodão e, com
pouca gentileza, iniciou o trabalho, fazendo o enfermeiro gemer.
-Está tentando arrancar o que sobrou da minha pele?
-Desculpa, é que você ainda não me contou o que houve. Estou meio
nervosa.
-A culpa é minha – seu olhar voltou a vaguear sem rumo.
-John, meu amor, seja mais direto.
-Encontrei o Paul maltratando o novo paciente, Curtis Allen, um homem
que não pode nem mesmo se defender. Nós brigamos, mas como você pode ver a
violência não é o meu forte.
-Eu sei, e isso é uma das coisas que amo em você.
Os olhos dele se encheram de lágrimas mais vez.
-Fui eu quem trouxe ele pra cá, Ellen, eu! Ele foi aceito graças à minha
recomendação.
-Você não pode se culpar por isso.
-Como não? Como?
Ela o abraçou e permitiu que John chorasse em seu ombro.
-Quantas pessoas ele pode ter machucado durante todos esses meses? Eu
nunca vou me perdoar.
Ela segurou o rosto do amante entre seus dedos e o beijou de forma
carinhosa, pois simplesmente não sabia o que dizer para consolá-lo. Sempre fora
uma pessoa dura, péssima com as palavras. Entretanto, não podia suportar vê-lo
sofrer daquela forma.
Concentrados um no outro, com a mente vagueando pela excitante
possibilidade de fazerem sexo ali, dentro das instalações esquecidas do hospital,
médica e enfermeiro não ouviram os passos no corredor, não notaram quando
aquele olhar enfurecido recaiu sobre eles. Não viram o fechar dos punhos,
rígidos, endurecidos pelo ódio.
-Não posso acreditar – Ethan olhava fixo para o casal, seus dedos
segurando a porta com tanta força que perderam a cor.
Ellen ficou pálida. Sentiu o corpo perder o peso e as pernas bambearem.
“Não era para ser assim.” Era tudo em que conseguia pensar.
-Seu filho de uma puta! – Ethan avançou sobre John. Ellen tentou detê-lo,
mas um forte tapa com as costas da mão fez a médica rodopiar pela sala até ser
amparada pela parede, levando John do papel de culpado, que nem planejava se
defender, para o de revoltado pela agressão contra a mulher que amava, mas
antes que ele pudesse fazer algo, Ethan voou sobre ele e ambos rolaram sobre a
mesa, derrubando a cadeira que estava postada ali. O estardalhaço repicando ao
longe pelos corredores mortos.
-Parem! Por favor! Parem! – Ellen gritava desesperada, mas sem feito
algum.
A luta prosseguia com as mãos de Ethan firmemente enterradas no pescoço
de John, que conseguiu se libertar com um soco que mandou o médico de volta
para o corredor.
-Já chega! Parem! – Ellen seguia gritando.
A troca de socos e chutes seguiu pelo chão empoeirado. Com uma joelhada
recebida na altura do abdômen, John atravessou a porta da área desativada e
rolou pelo corredor movimentado, assustando os passantes, que foram pegos de
surpresa pela briga.
Ethan irrompeu pela porta e se lançou novamente sobre John, mirando um
soco no enfermeiro ainda cambaleante, mas Ellen o deteve agarrando-o pela
cintura enquanto gritava por socorro.
As pessoas ao redor, funcionários do hospital, finalmente saíram do torpor
e tentaram separar a briga, mas Ethan, obstinado como estava, não se permitiu
deter, rechaçando Ellen e o senhor da limpeza que tentavam segurá-lo. Sua força
redobrada pela adrenalina e pela revolta.
-Não toque em mim sua piranha! – e avançou novamente para John, que
era segurado por outro enfermeiro.
O primeiro soco, mediante a fúria impetuosa do golpe, quase derrubou
John e o homem que o segurava, o sangue dos lábios já rasgados do enfermeiro
respingou longe, manchando a parede branca. O segundo soco foi detido a
centímetros do rosto de John, segurado por uma mão que parecia de pedra.
Ethan olhou da mão para o seu dono e encontrou um homem que jamais
tinha visto. Quando o desconhecido falou com um inglês mediano, o médico
quase riu. Um lapso de loucura em meio à ira.
-Acho que já chega. Você venceu, olhe para ele – disse o recém- chegado.
-Não se meta! Eu vou matar esse filho de uma puta e aquela piranha
traidora! Vou matar os dois!
Ethan tentou se livrar do desconhecido, mas o homem era ainda mais forte
do que aparentava.
-Tirem ele daqui – disse Fred para os enfermeiros que seguravam John.
-Desgraçado, quem mandou você se intrometer – Ethan voltou sua fúria
para Fred, mas o soco destreinado do médico encontrou apenas ar, o segundo e o
terceiro também. Depois dos longos anos de treinamento policial e de trocar
golpes com Romero, Fred podia ver claramente os movimentos do médico e
evitá-los com facilidade.
-Por que não se acalma? Vamos conversar – propôs Fred no tom mais
conciliatório que conseguiu forjar.
-Cale a boca! – em seu último rompante de ira, ele se lançou sobre o ex-
detetive, que usou a força de Ethan contra ele mesmo, guinando seu braço e lhe
aplicando um balão que o fez girar no ar, batendo as costas violentamente no
chão.
Fred se ajoelhou sobre ele, detendo seus movimentos, mantendo-o preso
até que sua cólera começou a esfriar. Os brados enlouquecidos tornaram-se uma
lamúria quase inaudível, permeada por lágrimas cristalinas, que rolavam pela
face crispada de dor.
-Eu a amava. Eu a amava de verdade...
Fred viu a moça se aproximar e manteve a pressão sob o corpo do médico,
com medo de outra onda de fervor.
-Por quê? Por que ela tinha que fazer isso comigo? Eu não merecia isso.
-Ethan... – Ellen estava a dois passos dele – eu sinto muito.
-Saia de cima mim – disse o médico com certa placidez resignada.
Ele ficou de pé, espanou as roupas e arrumou os cabelos, como se com
isso pudesse recuperar um pouco de sua dignidade. Estava sob atento olhar de
Fred, que claramente preocupava-se com a aproximação da moça, que um
minuto atrás fora jurada de morte.
-Ethan, eu sinto muito, não era para ser assim – ela tinha lágrimas nos
olhos, mas a sinceridade de sua expressão estava muito longe de penetrar na dura
e fria aura que emanava de Ethan.
O médico dirigiu à moça um olhar gélido como a morte, deu as costas
para o aglomerado de pessoas que acompanhava estarrecidos à cena e caminhou
para longe dali.
-Isso não vai ficar assim – prometeu Ethan. Em sua mente, as palavras
inexistentes da mãe ressoavam sob uma gargalhada: “Ela é uma vadia, eu avisei
e agora você sabe.”






















Capítulo 11

-Que porra vocês acham que estavam fazendo? – esbravejou Ted diante de
John e Ellen no consultório mais próximo que encontrou para interrogá-los. A
sala, que já era pequena, parecia ainda menor mediante sua fúria incontrolável.
-Diretor, eu... – Ellen tentou falar, mas Barnes não pareceu nem mesmo
ouvir as palavras da médica.
-Eu confiava que vocês eram pessoas responsáveis, mas agora a única
coisa que será comentada no hospital, no meu hospital, é que vocês estavam
trepando às escondidas nas dependências do St. Clarence.
-Nós não estávamos... – dessa vez foi John quem tentou falar, mas também
falhou.
-E essa merda ainda vai muito além da falta de profissionalismo. Vocês já
pararam para pensar em como vocês devastaram a vida do pobre Ethan? Aquele
cara só tinha olhos para você, doutora! E John, ele te considerava um amigo.
Todos confiavam em vocês dois, e olha só a merda em que vocês foram se meter.
Vocês conseguem entender a situação na qual me colocaram?
Barnes não conseguia se controlar. Sentia o coração bater enlouquecido.
Meia hora atrás ele achava que precisava de apenas um cigarro, agora ele
comeria um maço inteiro.
-Nós sentimos muito – disse Ellen – não era para as coisas acontecerem
dessa forma.
O diretor ainda parecia não ouvi-los.
-Vocês sabem que preciso tomar certas medidas não sabem? Eu sei o
quanto este hospital precisa de vocês dois, o quanto são importantes para esta
instituição, e o que estou pensando agora mesmo, é se existe alguma maneira de
conseguir manter vocês no quadro de funcionários, e ainda pior, manter vocês
três debaixo do mesmo teto. Será possível algo assim? – ele sorriu entristecido. –
Eu devo estar ficando louco só por cogitar isso – cada vez mais parecia que ele
falava sozinho.
-Senhor Barnes, eu vou entender se você me demitir. O que ocorreu foi
muito grave e a culpa é toda minha não da doutora Ellen.
-Pare com isso, John, você não precisa agir assim – contrapôs Ellen.
-Eu preciso pensar a respeito. E neste momento, eu mal consigo olhar para
vocês dois – o diretor caminhou em direção à porta, e passou por ela como um
vendaval.
-O que foi que nós fizemos? – perguntou John de maneira retórica.
Ellen balançou a cabeça, tinha os olhos marejados.
-Eu não quero falar sobre isso. Preciso ficar sozinha.
-Ellen, espera – ele tentou segurar a mão da doutora, mas ela a afastou
rapidamente, como se fosse levar um choque. John retraiu-se completamente,
abalado mediante a reação da moça.
-Não importa o que aconteça, eu amo você – disse ele com um olhar
deprimido.
-John, não, por favor. Agora não. Eu preciso ir. Nós dois temos muito que
pensar. A gravidade disso tudo está me deixando nauseada. Isso não é hora para
juras de amor. Só me deixe sozinha.
Foi a vez de a doutora Patterson sair, deixando John a sós com seus
próprios pensamentos.

***

-Com licença, doutor Barnes.
Disse Fred após receber o aval para entrar na sala do diretor.
-Eu queria saber se você precisa de ajuda com mais alguma coisa. Pode ser
bom garantir que esses dois não se encontrem mais por aí. Talvez mandar um
deles pra casa.
-Provavelmente você tem razão. A propósito, obrigado pela ajuda, Fred.
Eu soube que se você não tivesse interferido, a coisa teria sido muito pior.
Ted Barnes caminhava de um lado para o outro em sua sala.
-Eles sempre foram profissionais responsáveis, como puderam deixar as
coisas chegar a esse ponto? – o diretor parecia dizer aquilo mais para si mesmo
do que para Fred.
-Bem, eu já vou indo.
-Você vai atravessar todo o caminho debaixo dessa tempestade? A trilha
deve ter se transformado num lamaçal. Por que não espera o tempo melhorar?
Como que para ilustrar as palavras de Ted, um relâmpago cruzou o céu
iluminando o firmamento. A janela da sala do diretor, que antes era apenas um
portal para um mundo enegrecido, brilhou como se o flash de uma câmera
gigante tivesse sido disparado contra ela. Um segundo depois veio o estrondo. O
trovão era como o grito enrouquecido de um deus despertado de seu sono a
contragosto. Outros relâmpagos, invejosos do primeiro, irromperam por entre as
nuvens e desenharam uma teia prateada, que resultou em uma nova trovoada
ainda mais ameaçadora que a primeira.
-Estatisticamente falando, acho que as chances de um paciente terminal
morrer atingido por um raio são bem pequenas, mas você tem razão, vou me
sentar na recepção e esperar – Fred tentou sorrir, mas sentiu as pernas bambas e
ficou ligeiramente zonzo.
“Maldição, eu me esqueci de tomar o remédio”. Apalpou os bolsos em
busca do frasco de comprimidos.
-Você está bem? – Perguntou o diretor.
-Ficaram dentro do carro – murmurou para si mesmo antes de responder a
Ted. – Estou bem. Na verdade venho tomando um medicamento para reduzir os
efeitos provocados pelo tumor, enjoo, perda de equilíbrio, essas coisas. Eu estava
me sentindo tão bem que resolvi dar um tempo nas pílulas, mas acho que toda a
adrenalina de agora a pouco acabou cobrando seu preço.
-Talvez eu possa ajudá-lo com isso, se tivermos o fármaco aqui.
-Não, tudo bem, eu tenho um frasco cheio no porta-luvas do carro, quando
a chuva estiar eu poderei voltar e tomar o medicamento. Com licença – disse
dirigindo-se para a porta – e boa sorte por aqui.
-Obrigado, eu com certeza vou precisar.
***

Os pacientes já tinham sido conduzidos para seus quartos, muitos
precisaram de sedativos para dormir, pois a sinfonia da tempestade os deixara
agitados, seus gritos misturavam-se ao ribombar dos trovões. Alguns tinham se
escondido debaixo da cama, outro gritava que a Terra estava sendo invadida por
alienígenas, como no filme Guerra dos Mundos. O terror, medo e ansiedade de
uns contaminando os outros, até que a equipe de enfermagem conseguiu lidar
com todos eles, devolvendo alguma paz ao hospital.
Ellen caminhava ainda desnorteada. Sobre sua cabeça, uma lâmpada que
precisava ser trocada oscilou, permitindo que por um segundo o corredor
mergulhasse na escuridão, mas a médica nem mesmo notou. Ela não podia
acreditar que as coisas tinham chegado àquele ponto.
Ela seguia de porta em porta para verificar os pacientes, talvez fosse sua
última vez executando aquela rotina, mas sua mente estava distante, olhava para
dentro dos quartos sem nada enxergar. Pensava que com certeza seria afastada,
provavelmente despedida, assim que o diretor se certificasse de que não havia
outra forma de lidar com aquilo. O rosto de Ethan não lhe saía da mente. A
forma como ele tinha olhado para ela, primeiro com dor e decepção, depois com
ódio, tanto ódio que a fizera sentir-se oprimida, sem ar.
“Vou matar os dois!” Aquela frase não lhe saía da mente.
Em frente a uma das portas, ela ouviu um murmúrio. O quarto pertencia à
senhora Neville, uma idosa que tinha constantes crises de sonambulismo e que
alegava ter visões do marido morto, que a espancara constantemente durante
longos anos. Seu passado jamais deixou de assombrá-la.
Ellen entrou no quarto seguindo o rastro dos murmúrios, apenas quando
chegou muito perto da paciente, pôde ouvi-la com clareza:
-Vadia. Vadia. Você é uma vadia.
A mulher falava em meio ao sono agitado, os olhos se mexendo
vigorosamente sob as pálpebras. Ellen imaginou que ela estava sonhando com o
marido, talvez repetindo as falas do desgraçado. A doutora respirou fundo,
afetada, se não conhecesse bem a senhora Neville, poderia muito bem acreditar
que aqueles xingamentos eram para ela, tampouco os consideraria injustos.
Ellen ajeitou carinhosamente o cobertor da paciente e se virou para
deixar o quarto, então, a mão nodosa, cheia de veios e sulcos, agarrou seu braço
com uma força inesperada, pregando-lhe um imenso susto. A mulher se sentou
na cama, dirigiu seus olhos leitosos para Ellen e repetiu seu mantra.
-Você é uma vadia! Você devia morrer! Olhe só para essa casa, sua porca
imunda. Vá encontrar uma vassoura para dar um jeito nessa bagunça, ou eu meto
a mão na sua cara e te mato de vez. Sim, sim, que boa ideia. Talvez eu mate
mesmo você! – então, apenas se deitou e prosseguiu com o sono.
Ellen deu alguns passos cambaleantes para trás, o sapato deslizando pelo
chão, e saiu do quarto. Sentia-se enjoada, poderia vomitar ali mesmo. Ela olhou
ao redor e não viu ninguém. Ao longe, no corredor vazio, apenas sombras se
moviam na parede frente ao posto de enfermagem, distantes, do outro lado da
ala.
Ela precisava ficar sozinha, precisava pensar. Havia algo que poderia
dizer ou prometer ao diretor que fosse capaz de salvar o seu emprego? E mesmo
que fosse mantida no quadro, seria capaz de continuar convivendo com as
consequências? Ela já podia imaginar os comentários maldosos, os cochichos
nos corredores e os olhares a lhe julgar. Talvez o melhor fosse mesmo dar uma
guinada na vida e recomeçar em outro lugar. Abandonar tudo, inclusive John.
Inclusive John?
“Onde você estava com a cabeça, Ellen? Seu emprego sempre foi
sagrado para você.” Perguntava-se constantemente como forma de punição.
Lutando para conter o choro, ela caminhou até o último quarto do
corredor, o único que sabia estar vazio. Mantendo as luzes apagadas, ela se
sentou na cama muito bem arrumada e amparou a cabeça com as mãos,
permitindo que as lágrimas finalmente desaguassem, borrando o que restava de
sua maquiagem.
Ellen voltou seu olhar para a janela, a noite escura transformara o vidro
num espelho. A mulher que encontrou a encarando de volta, era alguém que ela
julgava não conhecer. Todo o orgulho que tinha de si mesma, pela mulher forte
que era, pela coragem de abandonar a casa de seus pais controladores, por não
permitir que homem algum lhe ditasse o que fazer, e, acima de tudo, por sua
ética inabalável, tudo o que conquistara parecia escorrer de sua vida, assim como
a água que descia ligeira pelos vidros.
Um relâmpago cruzou o firmamento fazendo o quarto se iluminar, e
lançando sombras espectrais ao longo das paredes. Por um instante, o reflexo de
Ellen desapareceu, perdido entre as nuvens escuras. Após o ribombar furioso de
uma trovoada, que fez os vidros gemerem em ressonância, a claridade
desapareceu tão rapidamente quanto surgiu e Ellen voltou a se ver, mas assustou-
se ao perceber que não era a única refletida no vidro. À suas costas havia uma
sombra, quase camuflada na penumbra do quarto, mas que se destacava ao
avançar em sua direção. Assustada, ela se virou a tempo de fitar aqueles olhos
vítreos, mas não a tempo de pronunciar qualquer palavra, já que o metal
penetrou fundo sob seu queixo. A lâmina enterrou-se com facilidade, rasgando e
dilacerando, fendendo a língua para cravar-se no céu da boca.
Em algum lugar, acima da dor excruciante e do convite à inconsciência,
nos segundos que antecediam sua inevitável morte, Ellen pôde rever memórias
que ela achava que tinham se perdido para sempre. O pai a empurrando em uma
bicicleta pelo parque, quando ela era apenas uma criança, memória obliterada
pelos longos anos do convívio conflituoso em casa. Um antigo namorado dos
tempos de escola, que costumava jurar que a amaria para sempre, mas que a
traíra com sua melhor amiga. Uma professora de biologia do colégio, que tinha
contribuído para que ela construísse seu amor pela medicina, mas havia algo
errado, algo em comum em todas aquelas memórias e que não deveria estar lá.
Todas aquelas pessoas apontavam-lhe acusadoramente o indicador e diziam em
uníssono:
-Vadia! Você merece morrer!
Ela se foi sem perceber que todas aquelas vozes eram apenas uma e vinha
da pessoa que ceifara sua vida.

***

Fred estava sentado na recepção, dividia seu olhar entre a tempestade lá
fora e a recepcionista atrás do balcão, que sorria para ele, flertando
descaradamente. Ela era bonita, mas Fred não podia deixar de compará-la com
Elis, e, por conseguinte, todo o brilho da moça se extinguiu diante de seus olhos.
Com aquele pensamento, veio-lhe também a saudade de casa e das pessoas que
amava. Tragou o ar em profusão e deixou o corpo relaxar na cadeira. O relógio
apontava dez para as onze e todo o cansaço da viagem pareceu abater sobre ele
de uma só vez.
“Se eu fechar os olhos por alguns instantes, talvez consiga dorm...” O
sono já fazia seu trabalho, tragando-o para o vazio e borrando os seus
pensamentos, quando um grito agudo o fez desvencilhar-se da inconsciência.
Fred piscou algumas vezes e ficou de pé, levando alguns segundos para
compreender os gritos exasperados da enfermeira.
-Ela está morta! Oh, meu Deus! Ela está morta!
A mulher, pálida como um fantasma, tremia da cabeça aos pés, enquanto se
dirigia ao segurança de plantão no hospital, Marvin. Rapidamente as pessoas
começaram a rodear a enfermeira Olga, que foi conduzida ao sofá mais próximo.
-O que está havendo? – perguntou Ted Barnes ao irromper pelo corredor. –
Olga, você está bem? Saiam do caminho.
A enfermeira estava em choque, mal se lembrava de ter chegado à
recepção. Todos olhavam para ela, assustados, chocados com o vermelho vivo
que manchava seu uniforme branco.
-Tinha tanto sangue.
Olga repetia sem parar, com um olhar vazio.
-Tanto sangue...
-Olga, olhe para mim – exigiu o diretor ao se ajoelhar diante dela.
-Esse sangue não parece ser seu. Diga-me o que houve Olga. Diga o que
você viu.
Finalmente ela pareceu notar a presença de Ted Barnes.
-Ela está morta, Ted.
-Quem está morta?
As pessoas ao redor ficaram ainda mais agitadas.
-A doutora Patterson – ela mostrou as palmas das mãos banhadas em
vermelho – este sangue – começou a chorar convulsivamente, as mãos tremendo
como se tivesse Parkinson – este sangue é da Ellen. Alguém matou a Ellen.
-Meu Deus – Barnes levou a mão à boca.
Fred misturou-se à aglomeração crescente.
-Me leve até ela, agora! – bradou Barnes.
-Não, eu não quero voltar lá. Não.
-Olga, você precisa – insistiu o diretor.
-Não, eu não... consigo. Não posso.
-Olga, olhe para mim – pediu Ted da forma mais branda possível – você
vai ficar bem, está tudo bem, apenas nos diga onde ela está.
Ora balbuciando ora gaguejando, a enfermeira, com seu coração
sexagenário batendo ainda acelerado, contou tudo que foi capaz antes de voltar
às lágrimas.
Fred se manteve em meio à multidão que seguia pelo corredor a fim de
desvelar aquele mistério. Mal podia acreditar no que estava acontecendo. Estava
tão estarrecido quanto aquela turba de enfermeiros, funcionários da limpeza,
médicos, auxiliares de escritório e membros da TI.
À porta do quarto, Ted Barnes pediu que ficassem todos ali, e que apenas o
segurança o acompanhasse. Ele acionou o interruptor e a claridade revelou uma
extensa poça de sangue, que se estendia morosamente pelo chão antes
imaculado. Vinha do outro lado da cama.
O diretor caminhou sobre o sangue, deixando pegadas borradas. Ele quase
escorregou, fazendo aumentar o seu pânico. Precisava dar a volta na cama, mas
temia pelo que iria encontrar ali.
-Deus, não. Por favor, não.
Assim como Ted, o segurança também parou, esperando que Barnes
recuperasse a coragem. Após lembrar-se de que precisava respirar, com as pernas
pesando como chumbo, Barnes prosseguiu, até ser capaz de visualizar o que
tanto temia. O terror atingiu-lhe como um soco, o fazendo tombar para trás,
esparramado na poça escarlate.
Com assombro total e absoluto, ele contemplou o rosto de Ellen e o sorriso
macabro perpetrado no rosto da médica assassinada. O corte estendia-se de
orelha a orelha, revelando dentes e gengivas manchadas do sangue que ainda
gotejava.
-Santo Deus do céu! – exclamou o segurança, que também tinha se
aproximado. Marvin nunca fora alguém corajoso de verdade, apesar de sua
profissão, e aquilo era demais para ele. Ele conhecia as histórias, sabia sobre o
passado daquele lugar e ficara muito relutante em aceitar o emprego, agora sabia
que seu instinto não estava errado em lhe alertar. Trêmulo, ele deixou o quarto e
foi vomitar no corredor. As pessoas ao redor lhe perguntando sobre o que ele
tinha visto.
Ted nada conseguia dizer. Seu coração, de tão disparado, parecia prestes a
explodir. Ele levou a mão ao peito, deixando ali uma marca que emoldurava com
perfeição cada um de seus dedos, pintados com sangue.

***

A recepção ficou cheia, era o único lugar capaz de comportar toda aquela
gente. Ted caminhava de um lado para o outro, passava as mãos nos cabelos de
forma quase compulsiva. Em seu peito, como o brasão de um time de futebol,
seguia estampado o sangue da médica morta.
-Estão todos aqui? – ele perguntou.
-Todos, senhor – respondeu a nutricionista chamada Diana – exceto os
enfermeiros que você pediu para ficar de olho nos pacientes, o Lawrence, que
não encontrei em lugar algum, e o enfermeiro Paul.
-Tudo bem, o Paul já não faz mais parte da equipe deste hospital, espero
que aquele crápula esteja longe daqui. E o nosso chefe dos serviços gerais já
passou de seu horário de trabalho.
O diretor esperou alguns segundos, aguardando que os últimos murmúrios
se calassem de vez, mas quando as últimas conversas paralelas cessaram, ele
ainda podia ouvir, mesmo sobre os urros da tempestade, um choro lamurioso,
que se embrenhava entre os funcionários para chegar até os seus ouvidos. Ele
guiou seu olhar em direção ao lamento e visualizou Ethan, sentado em dos sofás.
As mãos cobrindo o rosto enquanto soluçava sem pudor algum.
-Muito bem, já tínhamos entrado em contato com a polícia, eles devem
chegar a qualquer momento. O mais importante aqui é mantermos a calma e
tentarmos entender o que aconteceu.
-Nós não precisamos entender nada! O que aconteceu aqui é óbvio! – John
passou por Ted com um encontrão e se colocou no meio da roda, seus olhos
vermelhos também apontavam seu luto. – Quantos de vocês ouviram o doutor
Ethan jurar Ellen de morte?
Não houve resposta, as pessoas se entreolhavam amedrontadas e incertas.
-Quantos de vocês ouviram? – dessa vez o enfermeiro gritou tão alto que
assustou algumas pessoas e despertou a coragem de outras.
-Eu ouvi. Foi muito claro – disse um enfermeiro que estava próximo a ele,
seu nome era Alfred. Era alto e careca, um dos homens que ajudou a separar a
briga.
-Eu também – endossou uma enfermeira que imediatamente começou a
chorar.
Outros se juntaram ao coro.
-Não há mistério algum aqui! Esse filho de uma puta, assassino, matou a
Ellen porque descobriu sobre nós! – ele apontou para Ethan que ficou de pé
imediatamente.
Um burburinho geral irrompeu entre as pessoas, muitos descobrindo
apenas naquele momento do que se tratava a confusão que acontecera mais cedo.
-Seu desgraçado! Traidor, desgraçado! Eu não matei a Ellen, eu a amava!
-Todos aqui ouviram você jurá-la de morte! – John não conseguia parar de
gritar, criando um clima ainda mais tenso.
-John, acalme-se – pediu Ted.
-Me acalmar? Diante do homem que matou a mulher que eu amava?
-Se eu fosse matar alguém, seria você, filho de uma puta! – Ethan se
lançou em direção a John, mas ambos foram impedidos pelos homens que já
esperavam o confronto.
Fred, mais uma vez, ajudou a deter o médico.
-Acalme-se, doutor. Isso não vai levar a nada. Tampouco irá trazê-la de
volta – dizia Fred em tom conciliatório, mas passava o braço firmemente pelo
pescoço de Ethan, evitando seu avanço.
-A polícia é quem vai descobrir o que houve, eles chegarão a qualquer
minuto – anunciou Barnes, tentando recuperar o controle.
-Desculpe chefe, mas eu acho que não, a polícia não vai chegar aqui tão
cedo – disse a pessoa que passou pela porta de entrada do hospital, todos se
viraram para fitá-lo.
Paul estava ensopado e sorria de forma insana.
-Você! – esbravejou John mais uma vez.
-Vocês não vão acreditar. Eu estava indo embora, fugindo para desaparecer
para sempre deste lugar de merda, quando um deslizamento de terra levou
embora nossa bela ponte. Adivinhem, estamos ilhados!
-Você tem mesmo muita coragem de voltar aqui – falou John.
-Eu não tinha mais aonde ir e meio que fiquei com medo de cair um raio
em minha cabeça – ele sorriu novamente e abriu os braços que pingavam água.
-Filho de uma... – John interrompeu-se no instante em que as luzes se
apagaram. Todas elas.
-E essa agora? – perguntou Fred.
-Está tudo bem, logo o gerador será ligado – anunciou o diretor.
Os segundos, silenciosos, transformaram-se em minutos, e para cada
instante que aquelas pessoas amedrontadas passavam imersas na escuridão, mais
o medo deitava-lhes como um manto, cobrindo cada centímetro do ar,
infiltrando-se nas roupas e penetrando na pele.
O vento, que irrompia pela porta aberta por Paul, varreu a sala e dançou
ululante por entre a multidão, como se tivesse motivos para comemorar o terror
que ali se instalara.
Por fim, a energia não retornou, e a escuridão, que era algo muito além da
simples ausência de luz, estendeu seus domínios, predominante, sufocante, como
um novo e importante elemento para aquele teatro de horrores.
















Capítulo 12

-Muito bem, mantenham a calma. Preciso que todos fiquem calmos, – a


voz de Barnes ressoou na escuridão, acima dos resmungos e murmúrios de seus
funcionários – sei que estão todos nervosos e preocupados, estamos mesmo em
uma situação crítica, mas não podemos nos deixar levar pela apreensão e pelo
medo, temos que assumir responsabilidades e nos organizar da melhor forma
possível.
A recepção ficou em silêncio, exceto pela risada de Paul, depois pelas
palmas que ele bateu. Primeiro com entusiasmo, depois bem devagar, até cessar
por completo.
-O que são alguns cascudos nuns otários inválidos, comparado ao cadáver
de uma puta que trepava com dois idiotas ao mesmo tempo? Acho até que
pareço bem bonzinho agora. Vocês não acham?
A maioria das pessoas não pôde ver, mas conseguiram ouvir o barulho do
soco que Paul recebeu. John ainda sacudia a mão dolorida pela pancada, quando
propôs:
-Acho que devíamos trancá-lo em algum dos quartos. Ele está drogado e é
instável demais. Não podemos nos dar ao luxo de ter mais uma preocupação.
O diretor concordou e pediu que dois enfermeiros tomassem conta da
situação. Ao contrário do que esperavam Paul não protestou, apenas seguiu
resmungando algo sobre John bater como uma mulherzinha e sobre precisar de
roupas secas, fora isso, apenas mais uma gargalhada insana.
-Muito bem – Ted prosseguiu – temos duas prioridades, cuidar de nossos
pacientes e restabelecer a energia. Preciso que sejam trazidas pra cá todas as
lanternas que possuímos, depois quero que as equipes de enfermagem formem
duplas para cuidar dos internos. Não quero ninguém perambulando por aí
sozinho. Sabemos o que alguns pacientes são capazes de fazer quando estão
assustados, se precisar, coloquem todos para dormir, mas não corram riscos
desnecessários. Isso é pra já.
Os enfermeiros saíram à procura das lanternas, os celulares usados como
farol na escuridão dos corredores.
-Quanto ao gerador, talvez eu possa ajudar – Fred se colocou à disposição.
-Obrigado, Fred. Nós precisamos ir até a casa do Lawrence, é a única casa
que fica aqui, no terreno do hospital. O gerador tem manutenções periódicas e
apenas o pessoal da empresa responsável sabe mexer neles, mas o Lawrence
passou por um treinamento e está apto.
-Ok, basta dizer onde fica a casa, vou procurar por ele.
-Mas também não quero você vá sozinho, detetive – disse Ted.
-Detetive? – perguntou alguém entre os que restavam na recepção, um fio
de esperança desdobrava-se na voz da faxineira que estava sentada ao lado de
Olga, ainda tentando acalmar a enfermeira.
-Não mais. Eu fui detetive na polícia brasileira, mas estou afastado por
problemas de saúde.
-Ethan, você pode acompanhar o senhor Borzagli até a casa do
Lawrence? – secretamente, o que o diretor desejava era manter Ethan e John o
mais longe possível um do outro. Estava bendizendo até mesmo o aparecimento
de Paul, que serviu para que um esquecesse momentaneamente do outro.
O médico descruzou os braços e olhou de Ted para John, seus olhos eram
como faróis na escuridão. Dor e ódio mesclados ali, transformando sua face
numa carranca irreconhecível.
-Com todo respeito, senhor Barnes, – começou John, apontando para Ethan
– mas este homem é o principal suspeito de ter assassinado a Ellen, acho que ele
também devia ficar detido.
-Como é? – Ethan deu dois passos ameaçadores em direção ao enfermeiro,
algumas pessoas se colocaram imediatamente entre eles.
Lá fora, a chuva era como um espelho dos sentimentos daqueles dois
homens, caindo com fúria tempestuosa, com ventos uivantes que irrompiam
contra a fachada de vidro do hospital, desafiando o gigante branco com a
implacável força da natureza.
-É exatamente o que você ouviu – continuou John. – Você a ameaçou e
agora ela está morta. Todos nós ouvimos. Eu proponho que o doutor Hoffman
também fique trancafiado até a polícia chegar.
-Seu filho de uma puta!
Mais uma vez as pessoas precisaram interferir.
-Você matou a mulher que eu amava! – John também precisou ser
agarrado. – Você a matou e vai pagar por isso!
-Já chega! Já chega! – interferiu Barnes. – Não temos prova alguma de que
Ethan a matou. Já chega disso! – pela primeira vez Ted parecia realmente perder
a paciência. – Tendo em vista o que ele presenciou, acho bastante normal que
tivesse feito tais ameaças – o diretor encarou John com um rosto de pedra – eu,
no lugar dele, no calor do momento, teria gritado exatamente a mesma coisa, não
posso culpá-lo por isso, mas não existe prova alguma de que Ethan tenha
cometido este crime bárbaro.
-Mas senhor...
-Cale-se, John, já chega, já temos problemas demais, não vou mais tolerar
essa sua atitude. E vocês dois, ainda estão aqui?
Fred sorriu. A postura de Ted lembrando-lhe seu antigo chefe na polícia.
A recepcionista, que parecia tão abalada quanto todos ali, ou tanto quanto a
penumbra lhe permitia parecer, entregou para Fred e Ethan um par de lanternas e
de capas de chuva. Eles se vestiram, testaram os aparelhos e rumaram para a
tempestade.

***

Assim que pisaram do lado de fora, o vento os açoitou sem piedade, bem
como os grossos pingos de chuva, que de tão pesados faziam o corpo formigar.
Entre as nuvens, clarões de relâmpagos abortados faziam o céu parecer a forja de
um deus mitológico. “Zeus deve estar bem zangado.” Pensou Fred.
-É por ali. – Ethan gritou o mais alto que pôde e quase não foi suficiente.
Ele apontava o feixe de sua lanterna para indicar o caminho que seguiriam.
Fred fitou mais uma vez o céu antes de baixar a cabeça para proteger o
rosto da chuva e seguiu Ethan para o lado norte da ilha.
Eles caminharam encolhidos, as capas de chuva coladas ao corpo. O vento
uivava contra eles, e, se sua força de vontade fosse ligeiramente menor, talvez se
deixassem empurrar pela ventania ululante que produzia um eterno “zooooosh”
em seus ouvidos.
Quanto mais adiante seguiam, mais eram engolidos pela escuridão, tendo
em vista que até mesmo os postes do estacionamento estavam apagados. A
estradinha de pedras, que deveria levá-los ao casebre de Lawrence, parecia guiá-
los para dentro de lugar nenhum, um breu profundo que insistia em se adensar
ainda mais quando o caminho rumava para entre as árvores. As luzes das
lanternas pareciam prestes a serem derrotadas pelo negrume.
Depois de alguns tropeços, seguindo sempre em frente, com Fred
enxergando pouco além das costas de Ethan, que ele se preocupava sempre em
manter no foco de sua lanterna, finalmente avistaram a casa de Lawrence. O
casebre surgiu timidamente mediante os feixes de luz, apenas porta e parede,
como se o lugar inteiro se resumisse a meio metro de madeira envernizada, mas
um relâmpago solitário, que desbravou a noite, trouxe a luz necessária para
revelar o restante do imóvel, uma construção baixa, de cujo telhado descia uma
verdadeira cachoeira. Na varanda, uma cadeira de balanço fazia jus a seu nome,
dançando com o fervor da tempestade.
A claridade se foi tão repentinamente quanto surgiu, mas com os passos a
dar gravados na mente, Ethan e Fred seguiram para os degraus da varanda,
saindo pela primeira vez da chuva, o corpo massageado pelo temporal ainda
formigava.
Fred apontou o feixe de sua lanterna para a cadeira de balanço e imaginou
o barulho que ela deveria estar fazendo se não tivesse sido emudecida pela
tempestade. A dança descontrolada fazia parecer que um fantasma estava
sentado ali, divertindo-se.
Ethan forçou a maçaneta, a porta estava aberta. Antes de entrar, ele gritou
por Fred, que se virou para segui-lo, mas quando o fez algo se destacou no
extremo de sua visão periférica. A forte sensação de uma presença. As pernas
bambearam e o ex-detetive achou que iria cair. Voltou seu olhar para a cadeira de
balanço, que, desta vez, estava imóvel. Fred respirou fundo enquanto escorava
na parede.
“Tudo bem, tudo bem. É apenas a falta do remédio. Fique calmo.”
Ele juntou coragem para olhar novamente para a cadeira. Ela tinha voltado
a se mover. Um vai e vem infinito, emulado pelo vento.
-Você vem, detetive? – perguntou Ethan.
-Eu não sou mais um... estou indo.
Eles entraram e fecharam a porta atrás de si, calando parte dos gritos da
tempestade e transformando seus berros em murmúrios atormentados, que
faziam a casa gemer em suas antigas juntas amadeiradas, enervando ainda mais
os ânimos dos dois.
Ethan testou o interruptor ao lado da porta, mas a casa permaneceu imersa
no breu, indiferente a sua tentativa de trazer-lhe luz.
A sala escura, que se revelava centímetro a centímetro sob os feixes das
lanternas, era de sobriedade absoluta. Não havia porta-retratos, quadros, flores,
nenhum adereço capaz de levar alguma graça ao local. A maioria dos móveis era
de madeira antiga, grosseira e cheia de sulcos, móveis que já não se fabricavam
mais, assim como a TV, que inacreditavelmente era emoldurada por uma caixa
de madeira. O modelo devia ser dos anos oitenta ou menos, calculou Fred. Sobre
a mesa de centro, havia um cinzeiro com alguns cigarros terminados e um maço
de uma marca barata. A austeridade do local refletia meticulosamente a
personalidade de seu dono.
-Lawrence! – gritou Ethan. – Você está aí? Precisamos de ajuda!
Não houve resposta. Ethan voltou-se para Fred que deu de ombros.
-Lawrence! – chamou mais algumas vezes.
As sobras do silêncio, os últimos vestígios não espanados pelos berros da
tempestade, respondeu-lhes que o dono da casa não estava por ali.
-Talvez esteja dormindo – disse Fred.
-É o que eu gostaria de estar fazendo também. Oh Deus, como eu gostaria
que tudo isso fosse apenas um pesadelo.
A lembrança de Ellen o fez se curvar ligeiramente, algo quase
imperceptível, a não ser para outra pessoa que também tinha com a dor uma
relação estreitamente íntima.
-Se serve de consolo, eu não acredito que você tenha cometido o crime. Se
existe algo que eu aprendi em minha profissão, principalmente com meu último
caso, é que o óbvio nem sempre está correto – por um segundo, Fred ficou
imerso em suas próprias lembranças funestas, nas acusações e suposições
incorretas que fez, e alguns nomes lhe saltaram à mente: os inocentes Pedro e
Luis, julgados violentamente por ele, e a grande culpada... Fernanda, Fernanda,
Fernanda, aquele nome ecoaria para sempre nos labirintos de sua mente,
emaranhado nos laços mais intrincados de sua trama mental.
-Além do mais, você não tem cara de assassino – tentou sorrir. – E, acima
de tudo, eu posso ver a sua dor de forma tão cristalina que é impossível pensar
que você a matou.
-Obrigado – o médico parecia verdadeiramente agradecido. – Eu vou até o
quarto do Lawrence ver se ele está dormindo.
Fred ficou por ali, sozinho, com apenas a escuridão a lhe fazer companhia.
Decidiu explorar o lugar. Passando pela sala ele descobriu o corredor que levava
à cozinha. As cadeiras estavam alinhadas com retidão em torno da mesa. Sobre a
bancada da pia havia um filtro de barro e uma caneca de metal, tão rústica
quanto todo o resto, dos armários de madeira envernizada ao fogão à lenha. Fred
jamais tinha visto um lugar assim.
Um novo relâmpago iluminou o firmamento. Através das janelas, a
claridade fez a cozinha ganhar sombras espectrais, que dançaram ao redor de
Fred o fazendo sentir-se zonzo novamente a ponto de precisar apoiar-se numa
cadeira.
-Detetive! – era a voz de Ethan.
Fred voltou para a sala e direcionou sua lanterna para o rosto do médico,
que escondeu os olhos afetados pela luz, mas não sem apagar a expressão
assustada que surgira ali.
-Me desculpe – disse Fred abaixando a lanterna.
-O Lawrence não está aqui, mas eu encontrei uma coisa. Algo bem
esquisito. Venha comigo.
Fred seguiu Ethan pelo corredor no lado oposto da sala. Ao passar pela
porta do quarto de Lawrence, viu a cama vazia e arrumada. Eles seguiram em
frente, cruzaram uma porta entreaberta e entraram em um cômodo que parecia
um escritório.
-Mas que lugar... – começou Fred, mas ficou tão boquiaberto com o que
viu que se esqueceu do que ia dizer.
Para qualquer canto que dirigisse a lanterna, encontrava mais e mais
recortes de jornais e impressões, que deveriam ter saído da impressora conectada
a um computador numa mesa de canto, o único sopro de modernidade dentro da
casa. Cada centímetro de cada parede e boa parte do teto estava decorado com
uma imensidão de material sobre crimes macabros e assassinos seriais.
Fred se aproximou de uma das paredes e deslizou a luz da lanterna por ali,
lentamente, tentando compreender o quão bizarro era aquele lugar.
Nomes conhecidos lhe saltaram aos olhos: Edward Gein, que removia a
pele de suas vítimas e decorava a casa com partes dos mortos, Charles Manson e
sua famosa seita formadora de assassinos, Albert Fish, sequestrador, estuprador e
canibal, Mary Ann Cotton, a inglesa que matou mais de vinte pessoas, incluindo
os filhos, além de Moses Sithole, Edmund Kemper e muitos outros. A lista era
enorme, bem como a quantidade de detalhes sobre as investigações, relatos,
reportagens e entrevistas. Aquele era um acervo macabro que fez os ossos de
Fred gelarem sob a pele. Sobre a mesa ainda havia uma grande variedade de
livros sobre o tema. Boa parte do mal verdadeiro e absoluto que se entranhava
profundamente no âmago da humanidade estava desmembrado naquelas paredes
com absoluta riqueza de detalhes, mas Fred não estava preparado para o que
veria alguns passos para a esquerda. O foco de sua lanterna, direcionado
casualmente para aquele canto, o fez ficar novamente cara a cara com Fernanda,
a mulher que transformara sua vida num inferno, e que mesmo depois de morta,
ainda fazia questão de povoar seus sonhos, transformando-os em pesadelos. Era
uma publicação americana, cujo título dizia: brasileiros finalmente terão paz,
assassina de escritores colocou um fim em sua própria vida.
Era uma reportagem longa, que Fred não se importou em ler, tampouco
achou que conseguiria, já que as letras insistiam em não ficar quietas em seus
devidos lugares. Ele fechou os olhos com força e respirou profundamente, sentia
o coração retumbar no peito, os ouvidos retinindo com a batida descompassada.
“Acalme-se Fred.” Ele segurou o ar, contou até dez e o expirou de forma
lenta. Quando abriu novamente os olhos e fitou a reportagem, as letras também
tinham se acalmado, voltando comportadas aos seus lugares.
-Meu Deus, veja isso.
Ele voltou sua atenção para Ethan, agradecido pelo chamado que o retirou
do estado hipnótico. Fred juntou a luz de sua lanterna à do médico e observou
que grande parte da parede oposta era dedicada ao caso ocorrido no St. Clarence
nos anos oitenta.
“O Assassino do Sorriso Macabro.” Era como a maioria das reportagens se
referia a Jacob Willians. “Uma celebridade que fora devorada pela loucura.”
Fred correu os olhos pela parede. “A fama é capaz de enlouquecer?”
-Há muito mais sobre este caso do que sobre qualquer outro, veja – Ethan
seguiu irradiando a luz de sua lanterna ao longo da parede – é quase... quase... –
ele tentava encontrar a palavra.
-Uma obsessão – completou Fred.
-Exato. É obsessivo e doentio.
-Eu concordo plenamente – falou Fred, enquanto direcionava sua lanterna
para o outro lado, descobrindo que toda aquela parede retratava apenas detalhes
sórdidos dos crimes do St. Clarence.
Ethan voltou-se para ele.
-Você acha que isso tudo, de alguma forma, possa indicar alguma coisa
sobre o Lawrence?
-Eu não sei, talvez, me fale sobre ele.
-Bem, na verdade ele é um cara estranho, sempre calado e muito fechado,
com todas aquelas tatuagens. A Ellen... meu Deus, a Ellen, – disse como quem se
lembra de algo – hoje mesmo, quando chegamos ao hospital, ela comentou que o
Lawrence lhe causava arrepios, e reclamou várias vezes da forma como ele
olhava para ela, mas eu insisti que era apenas o jeito dele e que ele agia assim
com todo mundo.
-Não podemos ignorar o fato de que esta sala é praticamente um altar de
exultação a esses assassinos, e que no centro deles está justamente Jacob
Willians. E ainda precisamos levar em conta o que foi feito no rosto da doutora
Ellen. De qualquer forma, além desta sala bizarra, temos outro fator muito
preocupante.
-O que é? – quis saber Ethan, ansioso.
-Se a ponte está instransponível e este homem não está aqui, na própria
casa, onde mais ele pode estar?
Ethan não respondeu, ele encarou Fred nos olhos por um longo tempo,
depois se virou novamente para a parede, o feixe de luz direcionado mais uma
vez para o título da maior reportagem emoldurada ali:
“O Assassino do Sorriso Macabro”.

















Capítulo 13

John seguia de porta em porta, verificando os pacientes. Alguns metros à
frente, no corredor, ele via seu colega, Jamie Todd, checando os quartos do lado
oposto.
Ele parou junto à porta de Christine Davis e observou que a moça estava
sentada na cama, as mãos abraçando as pernas num gesto protetor, que ele já
observava como característico da jovem.
-Christine – John chamou-lhe pelo nome. O foco de sua lanterna mantido
longe do rosto da mulher, para não cegá-la.
Não houve resposta.
-Chris.
John se aproximou da cama, o feixe de luz cortando fatias generosas de
escuridão. Ele direcionou o foco pelos cantos do quarto, checando se estava tudo
em ordem. Levou novamente a luz em direção à moça. Àquela distância, pôde
perceber as marcas em seus braços. Sobrepostas às antigas lacerações havia
profundas marcas de unhas, em algumas, o sangue chegara a minar timidamente,
o vermelho tornando-se opaco mediante a luz amarelada da lanterna.
-Chris, você está bem?
Mais uma vez ela pareceu não ouvir. John apontou a lanterna para o rosto
da moça, revelando uma face pálida de olhos vidrados no escuro vazio do
quarto.
O enfermeiro se aproximou da moça e tocou-lhe o braço. Pela reação
assustada de Christine, John percebeu que apenas naquele momento ela notara
sua presença.
-Chris, você está bem?
Ela se virou para ele com expressão de quem não tinha entendido.
-Chris.
-Eu estou bem – ela emitiu um sorriso desajeitado, depois olhou para as
próprias mãos de unhas vermelhas de sangue, mesmo sendo muito curtas.
-Você se machucou.
-É, parece que sim, mas já fiz pior, ou, melhor.
-O que você acha de eu lhe ajudar a dormir um pouco?
-Depende, vai ser contando uma história, um conto de fadas, ou vai me dar
algum remédio?
-Se eu tivesse certeza de que uma história daria conta do recado, eu com
certeza iria por esse caminho.
-Você poderia me contar a história do seu relacionamento complicado.
“Ellen. Ela está morta. Fim da história.” Pensou John.
-Acho que você merece uma história com um final mais feliz.
-Finais felizes não são para pessoas de verdade – concluiu ela de forma
depressiva.
-Você não devia pensar assim. Sempre há uma nova chance para sermos
felizes.
-E você devia parar de assistir Once Upon a Time, John Smith. Finais
felizes são utopias, no mundo real existem dores que jamais vão embora. Elas
são apenas esquecidas, quando uma dor maior se sobrepõe a elas, mas o efeito é
ligeiro demais e logo é preciso machucar-se novamente, a não ser quando você
tem a coragem necessária para ir até o fim – mais uma vez seu olhar se perdeu
na escuridão – assim, talvez, a dor vá embora de vez.
-Chris, eu...
-O que houve com a luz? – ela perguntou de repente, numa de suas bruscas
mudanças de humor e assunto.
-A energia caiu e o gerador não está funcionando, mas já estamos
trabalhando nisso. De toda forma, vou te dar uma pílula para dormir. Pela
manhã, quando você acordar, eu tenho certeza de que um sol maravilhoso estará
banhando o seu quarto e você poderá voltar a admirar a vista de que tanto
gostou. Quem sabe façamos um passeio lá fora para admirar a paisagem mais de
perto.
-Você me acha bonita? – mais uma vez ela mudou vertiginosamente o foco
da conversa. John já estava começando a se acostumar com aqueles rompantes.
-Você já me perguntou isso, e eu já respondi que sim.
-Mas me acha bonita o suficiente para se aproveitar da escuridão e trepar
comigo?
As palavras para uma resposta tornaram-se fugidias na boca de John. Ele
apenas pôde balbuciar alguma coisa ininteligível, antes de reencontrar o
raciocínio.
-Chris, vamos fingir que você não disse isso, ok?
-Se eu entendi bem, você está aqui para cuidar de mim, correto?
-Sim.
-E se eu disser que – ela colocou a mão na perna de John, na altura do
joelho, dedilhava para cima enquanto falava – além das lâminas, o sexo é a única
outra coisa capaz de fazer eu me sentir bem. Você treparia comigo?
John levou um segundo a mais para afastar a mão da moça, que tinha
encontrado o que procurava.
-Vamos fazer o seguinte. Eu vou fingir que não ouvi o que você disse, lhe
darei um remédio para dormir e amanhã fingiremos que essa conversa nunca
aconteceu, quem sabe assim ainda poderemos criar uma bela amizade. O que
acha disso?
Ela se deitou na cama.
-Acho que você é um frouxo. Traga logo esse maldito comprimido, depois
desapareça daqui com esse pau nojento.
John respirou profundamente. Ossos do ofício. Ele até poderia ter rido
daquela situação se o momento não fosse tão caótico.
Ele foi até o carrinho de remédios no corredor e pegou um frasco de
comprimidos e um copo de água. Entregou as pílulas a Christine e esperou que
ela as engolisse.
-Pessoas morreram aqui – disse ela olhando para o teto.
-O que foi que disse?
-Este lugar tem uma energia ruim.
-Chris, você só precisa tomar as pílulas, relaxar e dormir. Tudo vai ficar
bem – ela finalmente aceitou o fármaco, engoliu com um pouco de água e virou-
se para o canto.
-Mais pessoas vão morrer John. Eu sei que vão. Eu posso sentir.
Após alguns segundos de um silêncio profundo e inquietante, John
finalmente conseguiu falar, desejando boa noite à garota. Ele voltou para o
corredor, sendo mais uma vez abraçado pelo breu pungente que se arrastava por
ali.
Jamie, o enfermeiro que deveria ser sua dupla, tinha desaparecido, talvez
estivesse dentro de um dos quartos, embora não houvesse sinal algum de luz
escapando de nenhuma das portas. O mais provável é que tinha seguido para o
corredor seguinte.
Era estranho para John caminhar por ali em meio a um silêncio tão denso,
quase opressivo, estalando nos ouvidos. Somado à escuridão, o lugar tornava-se
ainda mais irreal e o fazia se lembrar de quando adorava jogar games de terror. O
bom e velho Doom.
Ele seguiu para o próximo quarto, seus passos ressoando ao longe,
destoando no silêncio sepulcral. O paciente ali dormia um sono profundo e
tranquilo, então John seguiu adiante. O próximo era o quarto do residente que
ele encontrara sob os maus-tratos de Paul.
Quando pisou no quarto de Curtis Allen, o homem estava deitado, imóvel
como sempre. John mirou o idoso, permitindo que o foco da lanterna passeasse
ao longo da cama. O enfermeiro se aproximou e percebeu que Allen estava
acordado, os olhos sem vida miravam o teto, tão inexpressivos quanto quando
Paul o ofendia e ameaçava.
John ficou por alguns segundos fitando aqueles olhos mortos,
desvirtuados, imaginando se a atividade cerebral do paciente lhe permitia ter
sonhos, pesadelos ou mesmo algum pensamento coerente. Ele esperava que sim.
A boca do homem se moveu ligeiramente, encrespada, e John se aproximou,
como se Curtis Allen tivesse algo a dizer, mas um barulho no corredor o
assustou e chamou sua atenção.
Ele dirigiu o foco da lanterna para a porta e caminhou para fora do quarto.
Apontou o feixe para os dois lados e nada.
-Tem alguém ai? – perguntou.
Ele seguiu pelo corredor, mas após alguns passos escutou um novo
barulho, às suas costas, provocando a sensação de que não estava sozinho.
Virou-se lentamente, o corpo enrijecido pela tensão, começava a suar quando
apontou a lanterna para frente e deparou-se com uma silhueta a apenas alguns
passos dele. O susto foi inevitável, mas conseguiu estrangular o grito de espanto,
natimorto em sua garganta, quando viu que se tratava de Olga.
-Meu Deus do céu, Olga. Você quer me matar de susto? – ele respirou
profundamente tentando se acalmar.
-Essa coisa parou de funcionar. Era eu quem estava amedrontada, perdida
no escuro. – ela lutava contra a lanterna que apresentava problemas, para piorar
as pilhas tinham se espalhado pelo chão. – Que merda! Quando essa coisa
começou a piscar e apagou eu quase enlouqueci, afinal, tem um assassino por aí
e ele pode ser qualquer um.
-E por que você não ficou na recepção?
-Eu estava procurando por você. Tenho algo para confessar.
-Do que está falando Olga?
-É sobre o Paul.
-O que você tem para falar sobre aquele desgraçado?
-Eu forneci remédios para ele se drogar, algumas vezes, em troca de... de
dinheiro, eu estava precisando muito e... John, eu sinto muito, isso estava me
sufocando. Eu precisava contar para alguém e você é a única pessoa em quem
confio. Sinto-me tão arrependida que mal posso encarar você.
-Isso é muito grave, Olga, além do mais, cedo ou tarde o Paul pode
acabar...
O enfermeiro apontou a lanterna para o rosto da colega que protegeu os
olhos como um vampiro.
-Então é isso, acho que estou entendendo. Você está com medo de ser
dedurada, agora que ele não tem mais nada a perder. Não se trata de consciência
pesada e sim autodefesa.
-John, não, por favor, não é por aí.
-Não é por aí? Eu devia reportar isso imediatamente para o diretor.
-John, por favor, não...
Ele colocou uma das mãos na cintura, girou em torno de si mesmo e alisou
os cabelos.
-Meu Deus, isso é grave demais.
-Eu sei, John. Eu sei, mas, por favor, não posso perder este emprego. Algo
como isso na minha ficha vai me impedir de trabalhar para sempre. Além do
mais, você pode não acreditar, mas estou verdadeiramente arrependida. Eu não
sabia que o Paul maltratava os pacientes, eu não tinha como saber.
O enfermeiro respirou pesadamente.
-Eu não posso julgar você depois de eu mesmo ter trazido aquele traste pra
cá. Você não foi a única enganada por aquele desgraçado. Eu o considerava um
amigo, um irmão, mas ele vai pagar por tudo que fez.
Ela assentiu, depois, finalmente conseguiu devolver a luz à sua lanterna.
-Vou voltar para a recepção. E, John, eu vou entender se você me
denunciar. Depois de encontrar a Ellen daquele jeito, não sei mesmo se posso
continuar trabalhando aqui.
O rosto cortado de um lado ao outro veio à mente de ambos, uma funesta
imagem que jamais esqueceriam.

***
-E então, encontraram o Lawrence? – perguntou Ted Barnes, assim que
Fred e Ethan pisaram na recepção pingando água de suas capas de chuva.
Os dois se entreolharam, as pessoas que estavam mais próximas voltaram
sua atenção para os recém-chegados, ansiosas por notícias sobre o retorno da
energia.
-Não, ele não estava em casa – disse Fred antes de propor ao diretor que
conversassem num lugar mais reservado. Ele os guiou para um pequeno depósito
de material de escritório que ficava atrás da recepção.
-Como ele pode não estar em casa? – perguntou Ted assim que fechou a
porta atrás de si.
-Nós encontramos algo por lá – anunciou Fred.
-Uma coisa bem estranha – concluiu Ethan. – Senhor Barnes, tenho pra
mim que o Lawrence possa ser o assassino. Droga! Só pode ser isso, aquele
desgraçado matou a Ellen – o médico passou a mão pelos cabelos depois
balançou a cabeça.
-Não estou entendendo, o que foi que vocês encontraram?
Foi Fred quem respondeu.
-O tal Lawrence tem uma coleção bizarra de recortes de jornal e longas
matérias sobre assassinos seriais. Não estou falando de uma pasta, ou de um
arquivo, estou falando de uma sala inteira, com paredes completamente cobertas
de coisas sobre esses crimes, cada centímetro, do chão ao teto. A coisa é
realmente sinistra.
-E uma das paredes, senhor, – Ethan tomou a palavra – toda ela, é sobre os
crimes que ocorrem aqui no final dos anos oitenta. É quase como uma
homenagem ao Assassino do Sorriso Macabro. Quando me lembro do rosto da
Ellen daquele jeito – o médico precisou segurar a emoção – não consigo deixar
de pensar que foi aquele desgraçado quem a matou!
A mão do médico varreu com violência uma das prateleiras, jogando ao
chão várias caixas de grampos, fitas adesivas, canetas e carimbos.
-Acalme-se, Ethan. – Ted envolveu o médico que chorava copiosamente
em um meio abraço paternal. – O que você acha disso Fred?
-É como eu disse ao doutor Hoffman, esta não é uma prova cabal que
incrimine o seu funcionário, mas também não é algo que possa ser ignorado. A
única maneira de conseguirmos algumas respostas é encontrando esse homem.
Se o senhor permitir, eu gostaria de montar uma equipe para procurá-lo, também
gostaria de dar uma olhada no gerador, pode haver algo que eu possa fazer. Essa
escuridão não está ajudando em nada, o seu pessoal já está muito amedrontado e
isso não é bom.
O diretor anuiu.
-Tem mais uma coisa – prosseguiu Fred – o hospital não possui câmeras?
O diretor levou as mãos à boca. Em meio a toda aquela agitação, tal
detalhe capital havia lhe escapado por completo. Eles poderiam ter o rosto do
assassino emoldurado na tela de um computador.
-Não dentro dos quartos, mas nos corredores sim, poderemos ver quem
entrou no quarto depois de Ellen, mas...
-Mas?
-Não sem energia elétrica.
-Que merda. Levem-me imediatamente ao gerador – desta vez Fred não
pediu com gentileza.











Capítulo 14
O diretor Barnes se reuniu com Fred em um dos consultórios médicos.
Para o propósito que tinham em mente, era necessária uma sala maior do que o
apertado quartinho com material de escritório.
Fred podia sentir o nervosismo emanando de Ted Barnes como uma coisa
viva. Ele entendia completamente a preocupação do homem que andava de um
lado para o outro, esperando a chegada dos demais. Um evento como aquele
tinha fechado o hospital na década de oitenta, agora, tal crime assombrava tudo
que Barnes estava tentando construir.
-O que você acha de tudo o que está acontecendo? Quero saber sua opinião
como policial.
-Tudo isso é uma loucura – disse Fred, erguendo as mãos como quem se
rende.
-Levando em conta que estamos em um hospital psiquiátrico, acho que
você tem razão – após pronunciar aquele gracejo, Ted emitiu o sorriso mais triste
que Fred já vira em toda sua vida.
-Até o momento, você está lidando bem com a situação, – ele tocou o
ombro do diretor e o apertou de forma encorajadora – mas precisamos fazer
ainda melhor. É preciso controlar as andanças de todos e mantê-los reunidos na
recepção, assim, se houver...
-Um assassino entre eles.
-Exato. Essa pessoa terá mais dificuldade caso esteja pensando em matar
novamente.
-Você acha que pode haver mais mortes?
-Embora haja toda essa confusão passional envolvendo a doutora e seus
colegas, os cortes no rosto sugerem que o assassino está se inspirando nos crimes
dos anos oitenta, então, sim. Recomendo que nos preparemos para o pior. Eu não
duvidaria se houvesse outras vítimas, assim como da última vez.
-Deus do céu – o plural colocado por Fred deixou o diretor ainda mais
alarmado. Desde o princípio, ele pensava que a morte de Ellen fora um fato
isolado, mas o raciocínio do ex-detetive fazia todo sentido.
-Como eu dizia, é preciso manter as pessoas reunidas e permitir que
dispersem apenas em caso de emergência.
-Sim.
-Também seria bom que os quartos de todos os pacientes ficassem
trancados, se estivermos errados sobre o Lawrence, nada impede que um deles
tenha assassinado a doutora Patterson. Afinal, ela foi morta numa ala lotada de
pacientes com... – Fred procurava a palavra correta.
-Distúrbios mentais – completou Barnes.
O diretor tinha um olhar cansado. Sua expressão de pesar, já reforçada
pelas sombras que deitavam em seu rosto, tornou-se ainda mais fechada ao
considerar as palavras de Fred. Ele podia ter razão, assim como no passado, o
crime podia ter sido cometido por um interno.
-No mais, é imperativo conseguirmos acesso às imagens das câmeras, o
que nos leva ao gerador. Eu também gostaria de saber se existe alguma arma de
fogo nas dependências do hospital.
Barnes ergueu o rosto, sua face emergindo fantasmagoricamente do feixe
da lanterna. As sombras dançando em seus olhos.
-Não, é claro que não.
O ex-detetive assentiu, decepcionado.
-Tudo bem.
A porta da sala foi aberta por Ethan, outras seis pessoas o seguiam, três
enfermeiros, dois homens dos serviços gerais e o rapaz da T.I., que estava de
plantão.
-Onde está o Marvin? – perguntou o diretor.
Quem respondeu foi Robert, o rapaz da informática.
-Se você se refere ao segurança forte e grandalhão, que deveria ser o
primeiro a se colocar frente ao perigo, bem, eu o encontrei vomitando de novo
no banheiro. Tudo o que pude entender ele dizendo, foi que não queria ter nada a
ver com isso. Depois ele trancou a porta e disse que só sairia de lá pela manhã,
quando a polícia chegasse.
Barnes apenas balançou a cabeça, como se não quisesse desperdiçar
energia comentando mais aquele acontecimento lamentável. Já Fred imaginou
que aquele provavelmente não seria o último ataque de pânico que veriam
naquela noite, que prometia ser muito longa, mas guardou o pensamento para si.
Anthony, um senhor de quarenta e cinco anos, com o uniforme da limpeza
que parecia ligeiramente maior do que seu número trouxe consigo uma pesada
caixa de ferramentas, já Ethan carregava as plantas do hospital. Ted abriu espaço
sobre a mesa para elas.
-Este lugar é enorme – disse Fred, após um breve correr de olhos pelas
plantas.
-Mas muitas áreas ainda não foram reativadas – rebateu o enfermeiro Jerry,
homem alto, de corpo largo e mãos enormes.
-Isso pode não importar muito se o tal Lawrence, que é de quem
suspeitamos em primeiro lugar, tiver acesso a essas áreas – Fred olhou para o
diretor Barnes, que captou sua indagação.
-Sim, com alguma frequência esses lugares precisam ser limpos. Ele tem
todas as chaves – o diretor soou mais fatalista do que pretendia.
Fred bufou insatisfeito. Ele tinha as mãos espalmadas sobre as plantas
quando uma gota de algo vermelho pingou sobre elas. Ele encarou a mancha sem
entender o que estava havendo, apenas quando tocou o próprio nariz percebeu
que o sangue gotejara dali.
-Você está bem? – perguntou-lhe Ethan, mas Fred não estava ouvindo. Um
zumbido agudo ressoava em seus ouvidos, a visão ficou turva e ele precisou
fechar os olhos e respirar, se concentrando em nada além da necessidade de se
acalmar.
Após reabrir os olhos, Fred encontrou diante de si um lenço ofertado por
Ted. Ele agradeceu, limpou o sangue e disse que estava bem. Os ouvidos já não
zumbiam e a visão recuperou o foco.
-Muito bem, nós iremos nos dividir e vasculhar, ninguém deve ficar
sozinho, formaremos duplas – prosseguiu sem deixar espaço para mais perguntas
preocupadas. – É imperativo que coloquemos o gerador para funcionar
novamente, eu possuo algum conhecimento de elétrica, alguém mais? Para uma
segunda opinião.
-Talvez eu possa ajudar – disse Robert. Ele tinha ares de conquistador
barato, com seu cavanhaque bem afeitado, cabelo penteado com gel e a bela
camisa de botões azul clara. Parecia ter saído do elenco de um romance
contemporâneo, enquanto os demais eram figurantes baratos de um filme de
terror, muito melhor enquadrados na atmosfera tensa do hospital psiquiátrico às
escuras, e às voltas com um crime hediondo.
-Muito bem, temos um perímetro muito grande, que é simplesmente
impossível de cobrir e patrulhar, então, – ele levou o punho à boca, pensativo –
faremos o seguinte: creio que o tal Lawrence, como uma decisão racional, se
esconderia em uma das áreas desativadas, nós vamos...
-Com licença, detetive, mas – interrompeu Jerry – por que acham que o
Lawrence é o assassino? Quero dizer, além do fato de ele ser o cara mais
estranho que já conheci.
-Nós fomos até a casa dele e encontramos muito material sobre assassinos
em série – foi Ethan quem respondeu. – Era uma coisa doentia, e no centro de
tudo estavam os crimes que ocorreram aqui em 1988.
-Entendo – o homem adotou uma expressão ainda mais sombria.
-No entanto, isso de maneira alguma prova que ele é um assassino –
contrapôs Fred – por tanto, espero poder interrog... – lembrou-se que já não era
detetive – espero poder conversar com ele. Caso o encontremos, não precisa
haver violência se ele não a começar.
Os homens se entreolharam com incerteza. Fred era capaz de apostar que
eles nocauteariam primeiro e conversariam depois.
-Concluindo o meu raciocínio, creio que Lawrence, ou quem quer que
seja o assassino, escolheria como esconderijo uma das áreas não ativadas,
portanto, ao invés de fazermos buscas impossíveis por todo o hospital, iremos
apenas vigiar as portas que levam a essas áreas. Sei que é um tiro no escuro, –
Fred logo percebeu que a expressão escolhida não caiu bem – mas é o que
temos.
Os demais aprovaram e se organizaram em duplas. Em poucos instantes, já
haviam distribuído entre si as localidades a serem patrulhadas. Fred e Robert
deram uma olhada no que havia dentro da caixa de ferramentas trazida por
Anthony e logo estavam prontos para seguir em busca do gerador.

***

Com os elevadores desligados, Fred e Robert precisaram se aventurar nas
escadas. Eles abriram a porta corta-fogo e permitiram que os feixes de suas
lanternas desbravassem a escuridão, que ali parecia ainda mais intensa. Olhar
para o declive espiralado que seguia rumo às entranhas do hospital causava uma
sensação claustrofóbica, como se estivessem prestes a mergulhar numa piscina
de águas negras e sufocantes.
Robert estava tão perto de Fred, que a qualquer momento poderia pisar nos
calcanhares do ex-detetive.
-E se o Lawrence estiver lá embaixo?
-Conversaremos com ele.
-E se ele estiver armado?
O rapaz não conseguia disfarçar seu nervosismo.
-É pouco provável que ele esteja por lá, mas se estiver, seremos dois contra
um.
-Você não acha que deveríamos estar carregando umas barras de ferro ou
algo assim?
-Escute Robert, – Fred interrompeu a longa descida – nós vamos ficar
bem, mas preciso que você se acalme. Assim que acendermos as luzes, esse
pesadelo vai acabar.
-Tudo bem.
A resposta não convenceu Fred, ele ainda acreditava que o rapaz pudesse
ser o próximo a se trancar no banheiro para chorar.
Continuaram a descida. As ferramentas de metal, vez ou outra estalavam
dentro da caixa carregada por Fred, barulhos solitários e estridentes, facadas
direcionadas ao cerne do silêncio, que respondia de volta com ondas profundas
de quietude.
Nos feixes de luz, que desvelavam os degraus um de cada vez, ínfimas
partículas de poeira bailavam de forma hipnótica. Após alguns passos em falso, a
dupla findou a descida e passou por uma nova porta corta-fogo. Fred a abriu
devagar e foi saudado por uma nova porção de negrume. O ar ali era denso e
viciado, graças à morte por inanição do sistema de ar.
-Para que lado fica o gerador? – perguntou Fred.
-Por ali – Robert apontou a lanterna, mas a luz não penetrou o suficiente na
escuridão para revelar o maquinário, o que indicava a grande amplitude do local.
Fred seguiu para a direção indicada, passos firmes, embora o mesmo
estivesse longe de se aplicar a seu parceiro, que parecia pisar descalço em pregos
enferrujados. O silêncio que os espreitava, como um ser sobrenatural, era
cortado apenas pelo som das respirações descompassadas e pelo retumbar dos
corações em seus próprios ouvidos.
Eles desviaram de uma mesa cheia de caixas de papelão e de algumas
máquinas velhas que Fred não fazia a menor ideia de para quê serviam, até que,
finalmente, o gerador se fez visível. Ele apertou o passo, ansioso para saber se
seria possível consertá-lo. O cheiro de diesel ficava mais forte mediante a
proximidade e embrulhava o estômago de Fred. No entanto, toda esperança
esvaiu-se quando constataram a situação do maquinário.
-Deus do céu, essa coisa não vai funcionar nunca mais – constatou Robert.
– Acho que é perda total.
As luzes das lanternas correram pelos cabos cortados e pelo chassi
completamente dilacerado do gerador, de onde despontavam inúmeros fios de
eletricidade, como cobras imortalizadas em sua fuga pelas feridas abertas do que
pereciam golpes de machado.
-Ele funcionava a diesel, mas mesmo que pudéssemos fazer alguma coisa
quanto ao cabeamento, nada poderíamos fazer quanto a isso – Robert apontou a
lanterna para o líquido escuro derramado no chão e escorrendo para o canto da
parede.
-Quem fez isso queria se certificar de que seria impossível religá-lo, –
disse Fred – mas que merda – ele sentiu o corpo perder completamente o peso.
As pernas se tornaram de borracha e uma vontade contundente de vomitar fez
suas entranhas se revirarem. Ele ergueu a cabeça e tragou profundamente o ar,
mas o cheiro de combustível só fez piorar o estômago embrulhado. Toda aquela
tensão estava cobrando seu preço rápido demais, o que era um grande problema,
já que ele sabia que aquela longa noite estava longe de terminar.
-Vamos embora daqui, Fred, não há nada que possamos... ei, você está
bem? Seu nariz está sangrando de novo.
-Eu estou bem. Apenas tire essa luz da minha cara – limpou o sangue
escurecido com o lenço que Barnes o ofertara.
-Desculpe.
Quando se preparavam para sair ouviram um alto barulho estridente de
metal em algum lugar no âmago da escuridão, à esquerda, um lugar onde as
luzes das lanternas falharam completamente em alcançar. O susto e o terror
chegaram até eles de forma rápida, implacável. Robert sentia que o coração
poderia explodir a qualquer instante. Ele precisou de toda sua força de vontade
para não sair correndo. Fred apontava sua lanterna e forçava a visão, tentando
enxergar alguma coisa. Qualquer coisa.
-Oh não. Vamos embora daqui, Fred, por favor!
-Fique calmo – sussurrou para Robert antes de prosseguir em voz alta. –
Tem alguém aí? É você, Lawrence? Precisamos de ajuda com o gerador – Fred
tentava obter alguma resposta, qualquer coisa que delatasse a presença de quem
os espreitava em meio àquele mar de escuridão.
Ele colocou a caixa de ferramentas no chão sem desviar a luz da origem do
barulho, pegou um martelo para si e entregou uma pesada chave inglesa para
Robert.
-Droga! Droga! O que é que eu estou fazendo aqui? – Robert seguia
resmungando, enquanto fechava os dedos em torno do metal frio.
-Olá! Nós precisamos de ajuda – prosseguia Fred com passos lentos em
direção ao local do barulho. O foco de sua lanterna cortando a escuridão de um
lado para o outro, tentando evitar que fosse surpreendido.
-Vamos embora – implorou Robert pela última vez.
-Cale a boca! – o ex-detetive já perdia a paciência.
“Talvez ele esteja certo, Fred, talvez vocês devessem sair daí.” Soou a voz
em sua cabeça.
-Cale essa maldita boca! – exclamou o detetive novamente, assustando seu
parceiro improvisado.
“Só pra eu saber, você está falando comigo ou com esse idiota?” Era a voz
de Romero, ecoando em sua mente, a voz do demônio.
-Você é uma maldita alucinação – sussurrou Fred por entre os dentes.
“Será?”
Fred fechou os olhos com força, o mais apertado que conseguiu. Respirou
profundamente evocando toda sua calma e concentração, então, a voz de
Romero desapareceu dentro de uma escuridão ainda mais profunda do que a que
os cercava, a escuridão de sua própria mente, aquela que se alimentava de todos
os seus medos.
Após a caminhada pelo breu total, a parede que findava sua jornada
finalmente se fez visível sob o feixe da lanterna, e com ela, o mistério do barulho
repentino. Fred apontou a lanterna naquela direção e revelou uma enorme
ratazana, que buscando fugir das luzes, derrubou mais uma das latas de tinta
vazias que estava sobre um estreito cavalete, provocando um novo e estridente
baque metalizado, que varreu outra porção de silêncio para longe dos ouvidos da
dupla.
Fred pôde voltar a respirar novamente, o mesmo valeu para Robert, cujo
rosto recuperou um pouco da cor, as pernas pararam de tremer. Ele se dobrou, as
mãos nos joelhos, a pele formigando de tensão, o estômago revirando e
ameaçando devolver o lanche da tarde.
-Me desculpe, mas eu não fui feito para essas cois...
Quando voltava a se erguer, por um mero acaso, o feixe de sua lanterna
deu vida a algo que repousava de forma macabra a apenas alguns metros atrás de
Fred. Robert sentiu as palavras ficarem emboladas em sua garganta, embargadas
em meio a um intenso amargor. Seu rosto petrificado e os olhos esbugalhados
fizeram Fred se virar no mesmo instante, os focos das lanternas se encontrando e
revelando o inimaginável.










Capítulo 15

-Não vejo a hora de essa merda toda acabar – disse Anthony, o pé de cabra
seguro firmemente em uma das mãos, enquanto a outra fazia o feixe da lanterna
varrer de maneira nervosa os dois lados do corredor vazio e lúgubre.
-Cuidado com essa coisa. O diretor avisou que não nos queria armados.
Nessa escuridão podemos acabar machucando alguém inocente – rebateu Jerry, o
enorme enfermeiro.
-Você fala isso porque esse seu punho já é uma arma, mas eu preciso de
algo para me defender, temos um assassino à solta. Além do mais, os pacientes
estão trancados nos quartos e o resto do pessoal está todo na recepção.
-Talvez você tenha razão.
Os dois patrulhavam a área desativada que ficava logo após a ala dos
pacientes do primeiro andar. Suas lanternas eram como dois faróis em meio ao
breu, porém, entrementes, desejavam que nada fosse guiado até eles.
-E aquele cara, o tal Fred? – falou Anthony. – Por que ninguém suspeita
dele? Você não acha coincidência demais assassinarem a doutora no dia em que
esse desconhecido aparece por aqui? E o cara ainda fica bancando o nosso líder
só porque foi policial num pais qualquer de terceiro mundo.
-Esquece isso, ele só está tentando ajudar. Não posso dizer que eu também
não cheguei a suspeitar. Eu fui verificar onde ele estava durante o ataque à
doutora Patterson, e descobri que ele estava sentadinho na recepção, lidando
com os flertes descarados da Cinthya.
-Essa garota não tem jeito mesmo, acho que a metade do hospital já... Você
viu aquilo?
-Do que está falando? – perguntou Jerry.
-Acho que vi uma luz piscando no outro corredor.
-E eu acho que você está imaginando coisas – o enfermeiro também
apontou sua lanterna para a curva do corredor.
-É, pode ser. Talvez seja só minha imaginação.
-Você está é ficando velho e senil.
-Vai para o inferno.
Assim que abaixaram as lanternas, uma nova luz piscou no corredor
adjacente.
-Que merda, dessa vez eu também vi.
-O que faremos Jerry? – ele segurava o pé de cabra com tanta força que os
dedos que envolviam o metal gelado chegavam a doer.
-Não deve ser nada, eu vou checar.
-Eu vou com você.
-Cagando de medo desse jeito? Melhor não. Não quero que você se assuste
com a própria sombra e me acerte na cara com essa coisa.
A luz piscou novamente no corredor.
-Que merda, que merda. Toma cuidado cara.
Anthony viu o enfermeiro se distanciar com passos cautelosos, o foco de
sua lanterna emoldurado nas costas de ombros largos, como se perdê-lo de vista
por um só instante pudesse representar o seu próprio fim.
-Tome cuidado – disse mais uma vez antes de ver Jerry desaparecer na
curva de noventa graus.
-Meu Deus. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso...
O som de um baque surdo ressoou ao longe e se arrastou pelos corredores
até os ouvidos de Anthony, que começou a suar. A boca ficou seca e o coração
iniciou um rufar enlouquecido.
-Jerry?
Ele deu dois passos para frente, o foco trêmulo da lanterna revelava o seu
estado de espírito.
-Jerry? - chamou mais alto desta vez, novamente não houve resposta.
-Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a...
como é mesmo o resto? Que merda, que merda, não vou morrer só porque
esqueci a merda das palavras. Não, de jeito nenhum.
Ele seguiu com passos vacilantes.
-Jerry? Se isso for uma brincadeira eu mato você. Seu filho de uma...
O silêncio era soprado corredor afora, entranhado à escuridão como uma
só criatura. Um frio espectral subia pelas pernas do faxineiro e penetrava-lhe na
espinha, causando calafrios.
-Jerry? – o último chamado foi nada mais que um sussurro.
Ele se aproximou da curva, colocou a mão na parede e respirou
profundamente, de maneira desesperada, mas o ar parecia carregado de espinhos
que espetavam seu pulmão, tamanha tensão que sentia.
-Pai nosso que estais no céu, Pai nosso que estais no céu, Pai nosso que
estais no céu, não me deixe morrer agora, por favor...
Ele fez a curva e, antes que a luz da lanterna pudesse lhe trazer algum
entendimento, algo lhe acertou em cheio na têmpora e uma escuridão ainda
maior do que a que o cercava se fez viva em seus olhos. O negrume da
inconsciência se apoderou do faxineiro ao passo em que o chão veio
furiosamente ao seu encontro.
Ele tombou não muito longe do corpo de Jerry. O baque metálico do pé de
cabra ecoou pelos corredores, tão inútil em fazer-se ouvir quanto na defesa do
faxineiro.
A sombra, silenciosa como era, seguiu o seu caminho.

***

“Puta merda, esse cara tem muito estilo. Olha bem para esse trabalho,
Fred. Olha bem de perto.”
A voz fantasmagórica retornara com toda força aos ouvidos de Fred. Junto
com ela, uma pressão no interior do crânio, como se o cérebro do ex-detetive
estivesse perdendo espaço para o tumor. Péssimo inquilino aquele, que se alojara
em sua cabeça sem pagar aluguel, trazendo consigo toda uma família de
malfeitores: havia o zumbido constante, que parecia afinado a diapasão, os
enjoos e ânsias de vômito, além da visão turva, que convidara o pior dos
inquilinos, uma terrível perda de equilíbrio, que fez Fred, o inocente proprietário
daquele precário imóvel que era seu corpo, cambalear como um alcoólatra,
estendendo a mão para se apoiar na escuridão, como se esta tivesse massa para
suportar o teu peso.
Fred tombou sobre o cavalete derrubando o que restava das latas de tinta e
fazendo as ratazanas que ainda restavam por ali debandarem de vez.
-Você está bem? – perguntou Robert, que se assustou com a nova explosão
metálica, bem como com o desaparecimento repentino do foco da lanterna de
Fred. Sua lucidez ameaçou abandoná-lo mediante a constatação de que ele
poderia estar sozinho ali com aquela coisa.
Ele caminhou em direção a Fred pisando na poça do próprio vômito que,
incontido, jorrou violentamente, impulsionado pela visão daquele sortilégio.
-O que houve? – ele limpou a sujeira que tinha ficado grudada em seu
cavanhaque com as costas da mão. O cheiro era nauseante.
-Nada, eu estou bem.
“Eu acho que você não está bem.”
“Você não está bem, Fred.”
“Você não está bem.”
“Você não está nada bem, Fred.”
“Você vai morrer, Fred.”
“Você vai morrer hoje, Fred.”
“Você vai...”
-Já disse que estou bem porra!
Robert deu dois passos para trás, tão assustado com Fred quanto com o que
vira segundos atrás.
“Tem uma coisa maligna na sua cabeça. Uma bomba relógio prestes a
explodir. Tic, tac, tic, tac.” Fred percebeu que já não era a voz de Romero
estalando dentro de sua cabeça, era a voz de seu filho, do pequeno Gabriel, e
lágrimas lhe vieram aos olhos. Qualquer coisa era melhor do que aquilo.
Ele piscava e balançava a cabeça, seus olhos encontrando apenas a
contundente escuridão. O feixe da lanterna de Robert tornara-se negro como
todo o resto. A voz do rapaz chegava-lhe aos ouvidos de maneira cifrada,
ininteligível.
“É aqui que vou morrer?” – perguntou-se em pensamento. “Serão estes
os sintomas derradeiros?”
Fred sabia que precisava reencontrar sua lucidez. “Tic, tac.” Não estava
ficando louco, era o maldito tumor, não podia se esquecer disso. “Tic, tac.” Se
pelo menos tivesse tomado o maldito remédio. “Tic, tac.” Ele sabia que podia ter
alucinações, mas também sabia que podia controlá-las mantendo-se calmo,
porém, como manter-se calmo diante de tal situação? “Tic, tac.” A pergunta
retumbava, ecoando pelos corredores de sua mente, pelos corredores que ainda
não tinham sido devorados ou corrompidos pelo tumor.
Só havia uma resposta, voltar seus pensamentos com toda força para as
coisas boas e reais que ainda povoavam sua vida. Elis, e as noites quentes e
luxuriosas ao lado da mulher amada, e seu filho, o pequeno Gabriel, que
esperava por ele. Sua âncora à realidade. Seu talismã que mais uma o vez o
salvara. O zumbido cessou em seus ouvidos, bem como as vozes e a perda de
equilíbrio. Ele se ergueu reenergizado e voltou-se para Robert.
-Me desculpe, por favor, eu estou bem agora – garantiu, embora tivesse
imaginado uma histérica gargalhada demoníaca ecoando nos confins de sua
mente.
-Cara, você definitivamente não está bem. Seu nariz voltou a sangrar – ele
apontou a lanterna para o rosto de Fred, que protegeu instintivamente os olhos.
-Eu tenho um tumor no cérebro. Por isso abandonei a polícia. Todo esse
mal é reflexo da minha condição, por isso estou aqui, para me tratar no centro de
pesquisas ao lado.
-Sinto muito. Eu não fazia ideia. E cara, você realmente estava me
assustando.
-Já passou, venha, precisamos olhar mais de perto.
-Como é? Olhar mais de perto? Você quer que eu vomite novamente?
-Precisamos ver se o assassino deixou alguma pista.
-Nem fodendo que eu vou chegar perto daquela coisa morta. Eu não
gostava de chegar perto do Lawrence nem quando ele estava vivo, quanto mais
agora.
-Tudo bem, faça como quiser.
Fred caminhou em direção à cadeira onde repousava o corpo do
encarregado dos serviços gerais. Quando o feixe da lanterna varreu o chão ao seu
redor, um rato enorme correu para dentro da escuridão, outro, menor e mais
arisco, com olhos vermelhos que brilharam ao serem ofendidos pela lanterna,
saltou do colo do morto, e, a exemplo do primeiro, desapareceu no breu total.
Fred deixou o feixe de luz passear lentamente de baixo para cima no corpo
imóvel de Lawrence. Havia muitas lacerações no peito da vítima. Facadas que
penetraram profundamente, e que fizeram o sangue jorrar em profusão. Fred já
sabia o que o aguardava logo acima, mas mesmo assim a visão não deixou de ser
aterradora. Desta vez o assassino não fizera um corte limpo. O sorriso macabro
emoldurado ali não era apenas uma linha horizontal que estendia o tamanho da
boca daquele homem. Os cortes desenhavam uma espécie de zigue-zague
amaldiçoado que não se restringia ao canto mais extremo da boca, ele seguia
aprofundando-se na musculatura do rosto até encontrar as orelhas, dividindo
completamente o maxilar que se dependurava por uma estreita faixa de pele. O
sangue pingava de todos os lugares, moroso e escuro. Dentes brancos eram agora
vermelhos. Uma obturação de metal, que algum dia fora cinza, agora mais
parecia um valioso e purpúreo rubi.
-A quantidade excessiva de lacerações sugere que ele está ficando fora de
controle, – disse Fred para si mesmo – entretanto, o empenho maior para fazer os
cortes no rosto, indica algum tipo de fanatismo devoto ao assassino original, ou
talvez algum envolvimento pessoal muito intenso.
-Que foi que disse?
-Nada – ele se voltou para Robert – vamos embora daqui.
-Achei que você nunca mais fosse dizer isso.
Fred seguiu Robert em direção à saída, mas não pôde deixar de relancear
mais uma vez o corpo de Lawrence, sentado na cadeira como um boneco, algo
que parecia jamais ter possuído qualquer vivacidade, e, por um breve instante,
quem Fred achou ter visto ali, sentada e com a cabeça estourada, era Fernanda, a
assassina de escritores.
“Você não é capaz de salvar ninguém, Fred. Nin-guém.” – Enfatizou a voz
da moça em sua cabeça.



Capítulo 16

Quando Fred e Robert retornaram à recepção, a chuva seguia com sua
toada tempestuosa, atacando com violência a fachada envidraçada do hospital.
Se houvesse alguma luz no estacionamento, seria possível ver as poucas árvores
no entorno do St. Clarence, curvadas numa forçada reverência, dobradas pelos
ululantes ventos que atingiam mais de noventa quilômetros por hora. Os
relâmpagos tampouco tinham deixado de cruzar os céus e quando desenhavam
seus veios prateados por entre as nuvens, dividiam os olhares entre medo e
fascínio.
Os ânimos das pessoas eram um reflexo do clima, algumas caminhavam de
um lado para o outro, tensas, enquanto outras se encolhiam nas cadeiras,
encarceradas dentro de si mesmas, ansiosas por alguma boa notícia.
Quando a dupla surgiu no corredor, a maioria das pessoas ficou de pé e os
cercou. Barnes tomou a frente do grupo.
-E então?
-O gerador já era chefe, – anunciou Robert – algum filho da puta o destruiu
todinho – a expressão do rapaz era de total desolação, ele parecia prestes a
chorar. Após aquelas palavras, sem esperar resposta, foi sentar-se num canto
isolado. Emudecido, ele se pôs a fitar tempestade com olhos opacos de quem
tinha passado por um verdadeiro inferno. O sorriso do morto gravado em sua
mente a ferro e fogo.
Uma onda de murmúrios irrompeu pela sala onde destoavam alguns:
“estamos perdidos”, “o que será de nós”, e um ou outro: “eu não quero morrer”.
Ted ergueu as mãos e pediu calma aos seus funcionários.
-Como pode nos pedir para ter calma? – gritou uma das enfermeiras.
-Estamos ferrados – pontuou outro.
-Eu disse para ficarem calmos. Este não é o fim do mundo, só precisamos
ficar aqui, na recepção, todos juntos até o amanhecer. Receberemos ajuda de fora
assim que for possível. Sei que estão tensos e com medo, mas essa tempestade
não vai durar para sempre – ele tirou as mãos da cintura e apontou para fora. –
Esta noite não irá durar para sempre. Só precisamos ficar unidos!
As pessoas voltaram a se sentar, mas se mantinham afastadas umas das
outras, o cheiro de desconfiança pairava no ar, não conseguiam deixar de pensar
que ali mesmo, sentado calmamente entre eles, poderia haver um assassino.
-Senhor Barnes, tem mais uma coisa – disse Fred após isolar o diretor do
restante do grupo.
A expressão de Ted pareceu se encrespar ainda mais, mas Fred não teve
certeza em meio ao território sombrio que se tornara a recepção. Os focos das
lanternas espalhadas por ali criavam um lúgubre teatro de sombras, um mar de
desolação propenso ao nascimento de todo e qualquer malefício capaz de
torturar a alma humana.
-Nós encontramos o Lawrence.
Os olhos de Ted se arregalaram.
-E o que houve? Onde ele está?
Fred olhou ao redor antes de responder.
-Ele está morto. E o seu rosto estava exatamente igual ao da doutora
Patterson.
O diretor deu um passo para trás e levou a mão à boca, estarrecido.
-Eu não tinha certeza se você ia querer dividir esta informação com todos,
então achei melhor dizer apenas para você.
-Sim, sim, você fez muito bem, eles já estão no limite.
-Todos nós estamos – Fred soou sincero como nunca, pensando em seus
próprios demônios, aqueles que percorriam a passos ligeiros o intricado labirinto
que era sua mente adoecida.
-E agora, Fred, o que faremos? Depois do que vocês encontraram na casa
do Lawrence, ele era nosso principal suspeito. Se não foi ele... – o diretor olhou
para as pessoas sentadas ao seu redor, ele também parecia prestes a se render às
forças sombrias – pode ser qualquer um.
-Não se desespere ainda, Ted. Existe algo que eu gostaria de investigar.
-E eu posso ajudá-lo com isso?
-Talvez sim, vocês possuem os arquivos do hospital referentes ao ano do
primeiro crime?
-Você quer dizer de 1988?
-Sim.
O diretor cofiou a barba num gesto inconsciente.
-Creio que sim. Acho que os arquivos nunca foram removidos daqui.
Devem estar trancados em uma das salas nas áreas desativadas. Eu só não
consigo entender como isso pode ser relevante.
-Não podemos simplesmente ignorar que as duas mortes ocorreram
exatamente como no passado. Antes de vir pra cá eu ouvi sobre estes crimes. O
senhor Bear, da loja de lembranças no centro de Woods Hole narrou-me boa
parte da história.
-O bom e velho Harry Bear, como sempre assustando as pessoas com essa
história.
-Acontece que notei alguns detalhes. A doutora Patterson foi encontrada
morta em um quarto, esfaqueada no peito e deixada no chão. Já o Lawrence foi
colocado cuidadosamente em uma cadeira depois de morto, posso concluir isso
pela disposição das marcas de sangue em sua camisa, tenho quase certeza de que
ele foi esfaqueado quando estava em posição horizontal. Segundo a história de
Harry Bear, e segundo os recortes que eu vi na parede do Lawrence, no passado
tudo ocorreu exatamente da mesma maneira, e isso é algo que não podemos
ignorar. Eu sinto que preciso dar uma olhada nesses arquivos. Além do mais,
isso é tudo o que nos resta.
-Tudo bem. Pedirei alguém para guiá-lo, um dos rapazes da limpeza.
-Ótimo.
-Deus, como eu preciso de um cigarro – desabafou Ted.
-Você não me parece do tipo que fuma.
-Eu parei há dez anos.
-Bem, eu não o culparia por voltar, não hoje – a voz de Fred ressoou em
apoio.
O diretor sorriu entristecido depois se colocou a caminhar entre as pessoas,
mas acabou se tocando de que seria difícil convencer alguém a entrar na
escuridão das áreas desativadas ao lado de um desconhecido. Pensou em Ethan e
John, apesar dos problemas criados por eles, ainda eram homens de sua
confiança, mas um estava em patrulha e o outro verificando os pacientes. Barnes
voltou até Fred e disse que ele mesmo o guiaria, mas não sem conseguir
esconder um ligeiro olhar amedrontado. Embora não conhecesse tão bem o
lugar, sentia que era mais fácil lançar-se naquela empreitada, do que designar
alguém cujos nervos estivessem piores que os dele. Não sentia que tinha esse
direito.
-Nós podemos dar uma olhada nas plantas – propôs Fred.
-Talvez eu possa ajudá-los, desculpem, mas não pude deixar de ouvir a
conversa – ofereceu-se Olga, surgindo na penumbra, ela estava sentada atrás do
balcão da recepção – já desbravei um bocado daqueles corredores com o
Lawrence no meu tempo livre. Exatamente aonde vocês precisam ir?
-Olga, você passou por muita coisa hoje. Quero que fique aqui e descanse.
-Com todo respeito, diretor, mas se ficar aqui sentada eu vou enlouquecer.
Olhem para essas pessoas, elas estão derrotadas, amedrontadas. Essa coisa
parece ser contagiosa. Não quero ficar igual a elas, quero ser útil.
-Você mal se recuperou do choque de encontrar a doutora Patterson
daquele jeito, além do mais, pode ser perigoso – contrapôs Ted.
-Eu já estou bem, não digo que superei, mas estou melhor. E onde eu
poderia estar mais protegida do que ao lado de vocês dois?
Diretor e ex-detetive se entreolharam.
-Isso vai nos poupar tempo, e não creio que seja lá quem for se arrisque
contra nós três – disse Fred.
Após uma rápida troca de olhares entre eles, o consentimento foi dado sem
a necessidade de palavras.

***

A dupla que patrulhava a porta em questão saudou os três e lhes abriu
passagem. Então Fred, Barnes e Olga adentraram em uma das áreas esquecidas
do hospital. Era como passar pelas portas de uma máquina do tempo. Tudo o que
os feixes das lanternas desvelavam causava a sensação de que o tempo ali
afundara-se em letargia, embargado por forças maiores.
Barnes e Olga seguiam com passos desconfiados, hesitantes, enquanto
Fred mantinha-se atento, pisando firme, feliz por haver silêncio dentro de sua
cabeça. Um silêncio sepulcral, que permitia que seus próprios pensamentos
retumbassem tão audíveis, quanto o soar de um gongo metálico.
Olga os guiava por esquerdas e direitas. Os corredores intermináveis
revelavam o tamanho da instalação, bem como a grandiosidade de outros
tempos, mas também trazia a tona uma poderosa sensação de decadência e
esquecimento, perpetrados por cada móvel e maquinário pré-histórico. Por cada
cama vazia e escritório abandonado.
Fred não conseguia deixar de pensar que a história-mor, aquela de puro
terror, perpetrada por Jacob Willians, estava longe de ser a única vida encenada
naquele palco. Cada leito, cada corredor, cada ladrilho, fora testemunha de
inúmeras outras histórias. Quem costumava se sentar naquela cadeira? E aquele
cinzeiro, quem fora o último a deixar uma guimba ali? Houve alguém com
alucinações tão poderosas quanto as dele? “Sim, com certeza”. Aquele
pensamento lhe trouxe uma forma deturpada de alívio e conforto. “De algum
jeito, eu estou no lugar certo”.
Seus pensamentos foram interrompidos pelas palavras de Olga, que estava
de frente para uma porta onde se lia a palavra: ARQUIVO.
-É aqui, mas não se animem muito.
-Por que não? – perguntou Fred.
-Você vai ver.
Ela abriu a porta e um ar viciado e bolorento escapou da sala. A imagem
revelada pelos três feixes de luz era de uma bagunça além da imaginação. Havia
incontáveis pastas no chão, com seus conteúdos revirados e espalhados. Os
arquivos, abarrotados de documentos e fichas, cobriam quase todas as paredes,
do chão ao teto.
-Eu não imaginava que houvesse tantos arquivos – disse Fred, cobrindo o
nariz para defender-se do cheiro de mofo e da poeira.
-O hospital funcionou por mais de quarenta anos antes de fechar as portas
– contrapôs Ted, adiantando-se para dentro da sala com um de seus lenços a
cobrir o nariz.
-Não temos muito tempo, precisamos ser objetivos – pediu Fred – Olga,
você que já esteve aqui, pode nos dizer que tipo de organização era feita?
-Sobrenomes. Acredito que a letra A deveria estar naquele canto. Podemos
tentar seguir esse raciocínio, se não encontrarmos os arquivos de Jacob Willians
dessa forma, devemos começar a olhar pelo chão – ela se voltou para os dois
antes de dizer com ar fatalista – uma pasta de cada vez.
-Muito bem, mãos à obra – propôs o diretor.
Assim que começaram a trabalhar, descobriram que Olga estava certa
quanto à organização, mas muitas pastas tinham sido colocadas fora de lugar e a
letra W, que deveria receber Jacob Willians, tinha um Mailler, um Kirkman, um
Harper e vários outros nomes incorretos, havia até mesmo dois Willians, mas
nenhum deles era Jacob.
-Parece que não nos resta outra opção – assim como os outros, Fred voltou
o foco de sua lanterna para o chão. A quantidade de pastas ali o fez se lembrar de
antigos programas de TV, onde as assistentes de palco precisavam mergulhar em
uma piscina de cartas para sortear o vencedor em meio a algumas centenas de
envelopes brancos. Bons tempos aqueles, antes das mensagens de texto nos
celulares.
Cinco minutos tornaram-se dez e dez, rapidamente, se converteram em
meia hora. Primeiros as mangas das camisas cobriram-se de poeira, depois de
arregaçadas foi a vez dos braços tornarem-se fouveiros e esbranquiçados,
quando, por fim, Olga finalmente ergueu uma das pastas no ar desenhando um
arco de poeira que fez Ted embarcar em uma onda de espirros que até então
eram contidos com muito custo.
-Desculpe – ela abaixou rapidamente o material e o ofertou ao diretor, que
fez um sinal de que a pasta deveria ser passada para Fred.
Ele tomou o arquivo em mãos e começou a folhear. A foto do paciente
destacava-se na primeira página. Um rosto comum, talvez até engraçado. A cara
certa para um humorista. Fred correu os olhos pelas páginas, mas ele procurava
algo que estivesse além dos rotineiros resultados de exames e descrições de
acompanhamentos médicos. Nas últimas páginas ele procurou qualquer menção
aos crimes, mas ficou verdadeiramente decepcionado ao perceber que não havia
qualquer referencia aos fatos.
-Que merda, eu acho que não há nada aqui.
-Mas você... – começou Ted.
-Eu sei o que eu disse, acho que preciso olhar novamente.
Fred correu os olhos pelos dados pessoais de Jacob Willians. Havia o nome
da esposa, Michele Willians, bem como um telefone de contato que deveria estar
desativado há anos. O nome do filho, Marcel, e dos pais Bernard e Elisabeth
Willians. A profissão era descrita como: profissional do show business.
Fred bufou insatisfeito mais uma vez.
-Eu posso dar uma olhada? – pediu Olga.
Ele lhe estendeu a pasta. A enfermeira a folheou de trás para frente, a
passagem rápida das folhas fez uma nova camada de poeira se levantar. Ted
ficou de pé e foi se refugiar do lado de fora da sala, evitando uma nova onda de
espirros.
-Oh meu Deus – a enfermeira balbuciou a exclamação com lábios
trêmulos, fazendo Fred erguer sua lanterna em direção ao rosto da senhora, que
agora parecia ainda mais febril e abalado do que quando ela retornou à recepção,
trazendo a notícia da morte da doutora Patterson.
-O que houve? – perguntou Fred.
-Eu preciso de uma, eu preciso de... Meu Deus! Eu preciso de uma
segunda opinião. Ted! – ela gritou acordando todos os fantasmas que dormiam
por ali. – Ted! Venha aqui!
-O que foi mulher? Você quer me matar de susto?
-Olhe para essa foto! Agora! – ela deu a ordem para seu superior com tanta
prepotência que ele não cogitou desobedecer.
Ted colocou os olhos na foto e pouco a pouco sua expressão foi se
alterando. Ele balançava a cabeça lentamente em negação. Seu assombro e o
suor que escorreu por sua testa deixaram Fred ainda mais alarmado.
-Não, não pode ser.
Fred se lançou sobre os dois. Uma risada macabra e ao mesmo tempo
divertida ecoando em sua mente.
-O que foi que vocês dois viram aí? Digam logo!
-Este homem – Ted ergueu os olhos para Fred e iluminou o próprio rosto
de baixo para cima, sua face flutuava de forma espectral dentro do halo de luz –
ele está aqui.
-Como assim?
-Não há duvidas. É obvio que ele está bastante envelhecido, os cabelos
brancos e tudo mais, mas este rosto...
-Puta merda! Digam logo! – Foi a vez de Fred esbravejar.
-Este é Curtis Allen, um dos pacientes que chegou hoje ao hospital.
-Vocês têm certeza? Certeza absoluta? – indagou Fred com os olhos
esbugalhados. Seu instinto estava certo em trazê-los até ali.
-Sim, até os sintomas descritos na ficha são os mesmos, a inanição, a
esquizofrenia e a perda de contato com a realidade, está tudo aqui. É como se
fossem os mesmos dados que recebemos junto com o protocolo de Curtis Allen
– respondeu Olga.
-Jesus. Aquele assassino está mesmo aqui – os olhos de Ted ameaçaram
perder o foco.
-E está matando novamente – concluiu a enfermeira.
Fred pegou a pasta e saiu pela porta correndo como um louco pelos
corredores escuros.

***

-Onde fica o quarto dele?
-Vou levá-lo até lá – Ted esforçava-se para acompanhar o ex-detetive.
Eles atravessaram boa parte do hospital antes de chegar à ala dos
pacientes, Olga ficara para trás, na companhia dos homens que vigiavam aquela
área.
-Espere Fred, tem alguma coisa errada – gritou o diretor, curvado com as
mãos nos joelhos para recuperar o fôlego – era para ter duas pessoas vigiando
esta porta. Eles não estão aqui – apontou a lanterna para o acesso à outra área
desativada.
-Droga – Fred seguiu pelo corredor, o coração disparado, vaga-lumes
dançavam diante de seus olhos mediante o esforço. Ele dobrou a esquina e
tropeçou, o tombo foi inevitável. Quando sua lanterna varreu o chão procurando
aquilo que o derrubara, encontrou um homem tombado ali, desfalecido.
Logo a lanterna de Ted juntou-se à sua, e além do faxineiro Anthony, eles
encontraram desacordado o enfermeiro Jerry.
-Eles estão mortos? – o diretor não teve coragem de se abaixar para
verificar.
-Não, estão apenas desmaiados – respondeu Fred, após verificar-lhes o
pulso.
-Graças a Deus! Graças a Deus!
Fred se levantou e seguiu pelo corredor.
-Qual é o quarto?
Ted mal ouviu a pergunta. Ele ainda estava em total torpor.
-Ted, qual o maldito quarto?
-O próximo à sua esquerda.
Fred seguiu em frente e empurrou lentamente a porta que estava apenas
encostada. Ele ficou parado ali, olhando para dentro do quarto, sem conseguir
dizer palavra alguma.
-Fred?
O detetive pareceu não ouvir, seguia estático.
-Que porra, Fred, fala comigo – mas ele se manteve em silêncio, os olhos
vidrados.
O diretor engoliu seco e caminhou lentamente em direção ao quarto, para
postar-se ao lado de Fred e finalmente descobrir o que havia de errado. Curtis
Allen, ou melhor, Jacob Willians, havia desaparecido.





















Capítulo 17

-Você tem certeza de que quer esconder isso do seu pessoal? – perguntou
Fred. Ele e Barnes retornavam para a recepção.
-Acho que vai ser melhor assim – as palavras do diretor não tinham
firmeza alguma. Fred suspeitava que Barnes estivesse prestes a se quebrar em
um milhão de pedaços.
-Pense bem, Ted, nesse momento eles estão suspeitando dos próprios
colegas, o clima de desconfiança é geral. Se souberem que não existe um
assassino entre eles, isso pode tranquilizá-los.
-Tranquilizar? Como eles podem ficar tranquilos sabendo que Jacob
Willians está aqui, e que não temos a menor ideia de onde ele se encontra? – o
diretor se voltou para Fred com o tom de voz elevado. Ele jogou o foco de sua
lanterna no rosto do ex-detetive, que protegeu os olhos por reflexo.
-Tudo bem, é você quem manda, eu só queria ajudar.
-Você já ajudou demais, Fred. Desculpe-me, é apenas essa tensão maldita e
insuportável. Por favor, me desculpe, eu não devia falar assim com você.
-Está tudo bem, eu não queria estar no seu lugar. – “Eu não queria estar
nem mesmo no meu lugar. O idiota que vai morrer e nem precisa ser esfaqueado
para isso”.
Quando chegaram à recepção, um burburinho incomum se desenrolava por
lá. As pessoas estavam de pé, agrupadas e falando alto, no centro das discussões,
estava Olga.
-Ah não, Olga, o que foi que você fez? – disse Ted para ninguém
especificamente, antes de irromper na recepção e ser cercado pela turba
amedrontada, todos falando ao mesmo tempo, esganiçados.
-Senhor Barnes, é verdade? Curtis Allen é Jacob Willians, o Assassino do
Sorriso Macabro? – quando tal voz se destacou com clareza entre as demais,
vinda de um dos enfermeiros, todos se calaram aguardando pela resposta, como
se Ted estivesse prestes a anunciar o último número da mega-sena restante em
seus cartões, num sorteio cujo prêmio era a morte.
Ele respirou pesadamente, o mal já estava feito.
-Sim.
Uma onda de suspiros e murmúrios se fez ouvir.
-E ele está em seu quarto? Trancado?
-Não, ele desapareceu.
A gritaria recomeçou, mas desta vez, Ted não tentou controlá-la. Ele
simplesmente passou entre as pessoas, driblando-as. Todo o cansaço daquele dia
debruçando-se sobre seus ombros com peso de ferro. Ele ignorou todos os “o
que faremos”, e todos os: “o que será de nós” e caminhou em direção à porta. A
tempestade tinha reduzido seu poder, os ventos poderosos ainda assobiavam
canções, porém não mais a plenos pulmões. De Rage Against The Machine, eles
passaram a Red Hot Chili Peppers, e embora ainda estivessem longe de ser
apenas Ben Harper, aquele era um ganho significativo, permitindo que os
temores retumbantes do diretor do St. Clarence se sobressaíssem aos uivos da
natureza.
Ele permitiu que a chuva fina e gelada caísse sobre sua cabeça. De braços
abertos contemplava o infinito negrume da noite. O olhar perdido. A mente
vagueando incerta. Definitivamente precisava de um tempo. Pensou nos filhos e
uma saudade terrível se abateu sobre ele. Só queria estar nos braços da esposa.
Distraído como estava, nem notou a chegada de Fred.
-Eu trouxe uma coisa para você – estendeu o maço de cigarros e um
isqueiro – consegui com um dos seus faxineiros.
-Obrigado – ele sorriu, derrotado e entristecido.
-Venha, não vai conseguir acender na chuva.
Eles caminharam para a lateral do hospital onde uma marquise os escondia
da chuva. Ted acendeu o cigarro e tragou com ênfase apaixonada. Ele segurou o
máximo que pôde antes de expirar a fumaça com um gemido de prazer.
-Por que não procura um quarto para vocês dois?
Ele olhou para Fred como se não tivesse entendido a piada.
-Esquece, foi só uma...
-Eu entendi, apenas não... não sei de mais nada, Fred. Toda essa merda. Eu
não tenho mais forças. Como você era capaz de lidar com coisas assim no seu
trabalho?
-Não era fácil. Estar na polícia é conviver com o que há de pior no ser
humano. É afundar-se na lama até a cabeça e sentir-se sufocar, mas eu tinha um
porto seguro, meu filho e a mulher que amo. Sugiro que você faça o mesmo e se
agarre a isso quando as coisas saírem do controle.
-Acho que já saíram.
-É, acho que talvez você tenha razão.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, o barulho da chuva cortado
pelos gemidos de Ted, que fazia as pazes com seu mau hábito.
-Ted, eu estava pensando em uma coisa. Você poderia falar sobre os
trâmites que trouxeram Curtis Allen ao seu hospital?
-Os dados sobre a transferência estão nos computadores aos quais não
podemos acessar sem energia. Tudo o que sei é a respeito de sua condição
médica, mas sobre a transferência em si, absolutamente nada, exceto o fato de
que ele veio do Boston Mental Health Center que está fechando as portas.
-Entendo.
-No que você está pensando?
-Estou pensando que Jacob Willians não pode ter vindo parar aqui por
engano, principalmente com um nome diferente, um nome falso. E,
principalmente, com tudo o que aconteceu após a sua chegada.
-Bom, não existem tantos hospitais psiquiátricos no estado, então, é normal
que recebamos pacientes estando tão perto de Boston. Sobre o nome falso, eu
não sei o que pensar.
Fred ficou pensativo.
-Geralmente como são conduzidas essas transferências? O seu pessoal tem
algum envolvimento nisso?
-Não, nós apenas recebemos as fichas e damos o aval mediante o número
de leitos. Eu mesmo aprovei as três que recebemos hoje, entre elas, a de Curtis
Allen.
-Entendo.
Fred tinha um profundo ar pensativo. Algo se desenrolava febrilmente em
sua cabeça. Estava incomodado. Não podia simplesmente ficar de braços
cruzados enquanto um assassino estava à solta, mas também não podia ficar
patrulhando um local daquele tamanho sem sequer estar armado, mas havia algo
que ele podia fazer.
-Eu preciso ir até o Research Center.
-Para quê?
-Eles devem ter internet por lá. O doutor Fisherman falou algo sobre
conexão por satélite.
-Vai pedir ajuda? Com a ponte caída e esse tempo horrível, ninguém
chegará antes de amanhecer.
-Não estou indo pedir ajuda. Existe algo que eu quero investigar.
-Você acha que pode ser relevante?
Fred já se distanciava.
-Espero que sim – sem se preocupar em pegar uma capa de chuva e se
lançou na escuridão.

***

Fred desbravou a noite tempestuosa em direção ao centro de pesquisas.
Após muitos tropeços, ele finalmente visualizou a fachada da grande instalação.
Ao invés de se dirigir para o prédio, ele foi até o carro alugado e abriu a porta.
Sentou-se no banco do motorista e abriu o porta-luvas em busca do frasco de
comprimidos. Não podia mais se dar ao luxo de ter Romero Garcia, ou qualquer
outra voz, falando em sua cabeça. Se Romero já era ruim pessoalmente,
insuportavelmente convencido e irritante, servindo de porta-voz do demônio de
suas alucinações era ainda pior.
-Acho que é um pouco tarde para isso, Fred – ele se assustou com a
presença ao seu lado. Romero estava de terno, elegante como sempre, sentado
confortavelmente ao seu lado, o braço apoiado no vidro.
-Você não existe. Está apenas na minha cabeça.
Uma gargalhada profunda ecoou dentro do carro.
-É verdade, eu não estou aqui, mas você ainda pode me ver, então, é
melhor lidar com isso.
Fred balançou a cabeça tentando ignorar.
-Sabe, Fred, eu realmente gosto de você. Por que não joga esses
comprimidos pela janela e me deixa participar disso?
-Faz o que ele está falando papai – era a voz de Gabriel, tão doce quanto
Fred se lembrava, ele olhou pelo retrovisor e viu o filho sentado no banco de
trás, sorrindo e acenando para ele.
-Não, não. Que merda. É apenas a porra do tumor! – gritou para si mesmo.
-Fred, seria muito mais simples se você apenas fizesse isso, jogue esses
comprimidos fora. – a voz de Elis o surpreendeu no outro banco.
-É sua família quem está dizendo, não eu. – Romero ergueu as mãos como
quem se exime de culpa.
Um toc toc no vidro fez Fred olhar para fora. Ele tinha encontrado o frasco
de comprimidos e colocado três deles em suas mãos trêmulas, que ameaçavam
derrubar as pílulas.
Quando olhou para fora, encontrou Fernanda. Ela tinha a cabeça estourada
e os cabelos ruivos empapados de sangue e chuva.
-Fred! Não tome o remédio! – gritava ela, o rosto colado ao vidro,
enquanto o esmurrava. – Se você desistir, eu o perdoo por me deixar morrer.
Outra batida começou sobre o painel dianteiro. Era Sandra quem estava ali,
debruçada sobre o capô.
-Se você jogar esses comprimidos fora, Fred, eu te perdoo por me trocar
por aquela vadia – gritava sua ex-mulher dando pancadas no chassi.
-Fred! Fred! Fred! Fred! – gritavam todos ao mesmo tempo, de todos os
lados. Ele tentou levar as pílulas à boca, mas elas deslizaram para fora de sua
mão e se perderam na escuridão do piso do carro.
-Droga!
-Fred!
-Fred!
Os gritos seguiam aguilhoando sua mente. Penetrantes, eles nublavam seus
pensamentos, enevoavam sua consciência.
-Fred!
-Fred!
Seu nariz recomeçou a sangrar, não apenas uma gota solitária, mas uma
torrente incessante. Em segundos já havia muito sangue, que encharcava mãos,
camisa e calças. Havia sangue por todo lado.
Desesperado como nunca esteve em toda sua vida, Fred estava certo de
que sua hora havia chegado e arrependeu-se de estar longe das pessoas que
amava.

***

Paul estava deitado na cama do quarto no qual fora trancado. Ele assobiava
alegremente uma canção dos Beatles, Yellow Submarine, quando ouviu o clique
da fechadura.
A porta se abriu lentamente e a luz de uma lanterna jorrou para dentro do
quarto, varrendo o chão e deslizando para a cama antes de encontrar o seu rosto.
-Tira essa porra da minha cara! Quem está aí?
Ele se sentou na cama.
-Filho de uma puta! Quem é você?
A luz continuava a cegar-lhe, eclipsando o rosto do recém-chegado,
enquanto este se aproximava com passos medidos.
-Seu desgraçado, quem você acha que é para brincar comigo?
Ele ficou de pé, pronto para avançar, sua fúria aumentando.
-Este é meu último aviso, abaixa essa porra de luz!
Como o foco permaneceu em seus olhos, ele se lançou contra o
desconhecido, preparando seu potente soco, o mesmo que quase matara o seu
pai, o mesmo que derrubara John Smith e tantos outros antes dele, mas seu
punho mal pôde terminar o movimento em arco, pois a lâmina penetrou fundo na
lateral de seu corpo, provavelmente perfurando um rim. A mão da lanterna
pousou sobre seu ombro enquanto a segunda facada, tão impessoal e certeira
quanto a primeira, roubou de vez o seu ar.
O desconhecido o guiou até a cama e o fez se sentar, as mãos tentando
inutilmente estancar o sangue. No rosto uma expressão pétrea. A surpresa
parecia maior do que a dor, como se todo aquele sangue não estivesse fluindo de
seu corpo. Talvez fosse um efeito das drogas. Geralmente era ele quem fazia as
pessoas sangrar, isso também lhe causava estranheza.
-Desgraçado – esforçou-se para dizer, sua visão começava a borrar,
enquanto via as costas da pessoa desaparecer no corredor, caminhando
tranquilamente para fora.

***

Fred sentiu os pés molhados no líquido quente. Em instantes, o sangue já
alcançava seus joelhos, subia por sua cintura e inundava todo o carro, tingindo o
estofado e os vidros. Uma maré viva que subia constantemente.
Ele lutou para abrir a porta, mas esta se manteve obstinadamente trancada,
bem como as janelas.
-Venha aqui para baixo, Fred! – soava a voz do Romero demônio
alucinante. – Prometo que você será feliz aqui, que nunca mais precisará tomar
decisões difíceis. Aqui embaixo você ficará em paz. Ficaremos juntos para
sempre! A Fernanda está aqui. Ela está esperando por você. Ela diz que você
pode costurar o buraco na cabeça dela e então estará perdoado! Você não a
salvou. Você não é capaz de salvar ninguém! Você é inútil.
O sangue alcançava seu pescoço. Subia pelo rosto e entrava em sua boca.
Chegou aos seus olhos e ouvidos, elevando seu pânico ao ápice. Estava
sufocando. A mente entrando em ebulição, os pensamentos desfragmentando-se
em estilhaços cortantes. A mais pura agonia. Na boca, o gosto ferruginoso. O
sangue descendo quente e pegajoso por sua garganta.
Em algum lugar remoto de sua mente, ele conservava a ciência de que
aquela era apenas mais uma alucinação, mas não tinha mais forças para lutar,
aquela coisa na sua cabeça tinha vencido, de uma vez por todas.
“É hora de morrer Fred. Tic tac, tic tac..., tic...”
A porta do carro foi aberta e Fred sentiu mãos fortes o moverem para fora.
Sentiu a chuva fria molhar seu rosto. Seu nome era gritado em seus ouvidos.
-Fred! Ah meu Deus! Fred!
Jonathan, o segurança do centro de pesquisas, ficou desesperado ao ver
que Fred convulsionava com os olhos revirados nas órbitas, o corpo se
debatendo em violentos espasmos. Ele o aninhou e segurou sua cabeça,
impedindo que ela se chocasse violentamente contra o chão. Ele sabia, no
entanto, que não havia muito mais o que fazer, a não ser esperar. Assim eram as
convulsões.
Em alguns instantes, que pareceram uma eternidade para o porteiro, Fred
finalmente cessou o ataque, e após inspirar profundamente, ergueu-se de uma só
vez, debatendo-se.
-De volta dos mortos, ou, se preferir uma coisa mais ao estilo Tolkien: “Lá
e de volta outra vez.” – foi saudado pela voz de Romero e por sua já costumeira
gargalhada.
-Você está bem? – Jonathan o ajudou a ficar de pé.
-Estou.
-Eu vou chamar o doutor Fisherman.
-Não! – gritou Fred, agarrando o braço do porteiro. – Eu não tenho tempo
pra isso. Tem muita coisa acontecendo – ele se arrastou para dentro do carro.
Não havia por ali vestígio algum de sangue. Fred juntou todos os comprimidos
que conseguiu pegar. Seis deles desceram por sua garganta, quando o prescrito
era apenas um. “Que se foda” – pensou.
-Mas, senhor, você não estava nada bem. Acabou de convulsionar.
-Eu estou bem agora. Pela manhã irei ver o Fisherman. – “Se eu ainda
estiver vivo”
-Tudo bem, então me deixe ajudá-lo.
Fred se desvencilhou de Jonathan e tentou ficar de pé com as próprias
forças, o mundo girou algumas vezes antes de aquietar-se, sua visão formou
borrões de cores caleidoscópicas, mas, por fim, também se rendeu à tediosa
monocromia da noite.
-Eu estou bem.
Ele caminhou em direção ao centro de pesquisas. As pernas ganhando
força a cada passo. Quando passou pela porta, os últimos resquícios daquele
pesadelo já o tinham abandonado por completo.
-Jonathan!
O homem deu um passo em sua direção.
-Obrigado.
Dito isso, sem esperar resposta, ele subiu o mais rápido que pôde para o
seu quarto. O luxuoso aconchego do lugar fazia as últimas horas de sua vida
parecer um sonho, uma piada de mau gosto. A cama gigante exercia sobre ele
uma força de atração poderosa e todo o cansaço daquele dia, fez-se ainda mais
pesado mediante tão real possibilidade de descanso. Ele podia simplesmente
deitar e dormir, impedindo que os problemas do St. Clarence lhe afetassem,
afinal, tudo aquilo não lhe dizia respeito, tampouco era sua obrigação. Bastava
encolher-se naquela cama e esperar nascer um novo dia, que traria com ele,
pessoas capazes de lidar com os problemas de Ted Barnes. Era tentador, mas ele
sabia que não conseguiria simplesmente ignorar.
Já de posse do notebook, deixando de lado as exigências de seu corpo,
ele logou na internet por satélite usando a senha deixada por Fisherman e abriu o
Skype. Tudo dependia do fato da pessoa a quem ele pediria ajuda estivesse
acordada, o que era bem provável já que ele sabia que o rapaz passava noites
intermináveis naqueles jogos online.
Ele foi atendido um minuto depois de iniciar a chamada por vídeo.
-Fred! Que surpresa. Desculpe a demora, eu estava jogando Counter
Strike, cara, tinha tanta bala passando que...
A face do jovem, que mais parecia um adolescente, escondido atrás dos
óculos e das espinhas, surgiu na tela preenchendo a janela do Skype. Flávio
trabalhava no departamento forense, na repartição de informática e tinha
prestado um valioso auxilio no último caso de Fred. Se no mundo físico ele era
um virgem invisível e não levado a sério, no mundo digital era um respeitado
hacker.
-Eu preciso de sua ajuda – Fred o interrompeu.
-Tudo bem, mas Fred, o que houve com você? Olhando daqui você não me
parece nada bem.
-Deixe as perguntas para depois. Primeiro preciso dizer que provavelmente
você precisará fazer algo ilegal, e em âmbito internacional.
-Opa, com isso a coisa fica mais divertida. Você parece ter um bom desafio
para mim.
-Pode apostar que sim.
-E então, do que se trata?
-Eu estou nos Estados Unidos, num hospital em um lugarejo chamado
Woods Hole, o nome da instituição é St. Clarence. Três pacientes foram trazidos
do Boston Mental Health Center para o St. Clarence e preciso saber quem foi o
responsável por essas transferências.
-Fred, no que é que você se meteu cara?
-Flávio, por favor, não faça perguntas. Quando retornar ao Brasil, eu
explicarei tudo em detalhes.
-Tudo bem. Você sabe os nomes dos pacientes?
-Na verdade só preciso saber sobre um deles, Curtis Allen.
Fred viu o rapaz baixar ligeiramente a cabeça, o som das teclas estalando
freneticamente chegava até ele pelas tímidas caixas de som do notebook.
-Me dê apenas alguns instantes.
O rapaz mal piscava.
-Você disse que tinha um desafio para mim, Fred, e isso aqui está muito
fácil.
-Se está fácil, por que ainda não conseguiu?
-Eu já consegui, não tem nada aqui.
Fred assentiu pensativo.
-Tente o nome Jacob Willians.
-Jacob, sim, sim, eles tinham um Jacob Willians, esse cara sim foi
transferido para o tal St. Clarence.
-Eu preciso saber o nome do responsável por essa transferência.
Provavelmente essa é a pessoa quem alterou o nome do paciente de Jacob
Willians para Curtis Allen.
-Só um instante. Não tem nada aqui. Os dados deste campo estão em
branco. A ficha está completa, mas este dado parece ter sido apagado.
-Merda! Então quem fez isso tomou o cuidado de não deixar rastros.
-Por que isso é importante, Fred?
-Eu já disse nada de perguntas.
-Ok, chefe, é você quem manda. O que eu faço agora? Era só isso? Se for
ainda consigo logar a tempo de jogar a próxima partida.
-Cale a boca e me deixa pensar.
O rapaz fez uma continência e esperou.
-Preciso que você pesquise tudo sobre Jacob Willians. Ele era um
humorista dos anos oitenta muito bem sucedido por aqui, mas surtou, tentou
suicídio, e depois de ir parar em um hospital psiquiátrico em 1988, acabou
assassinando algumas pessoas por lá. Eu preciso saber o que houve com ele
depois disso.
-É pra já – por alguns instantes, tudo o que Fred ouviu foi o clack clack das
teclas.
-Puta merda cara, tem coisa pra caramba aqui! E olha que eu ainda nem
busquei na deepweb. Hospital Psiquiátrico St. Clarence, cara, foi aí que tudo
aconteceu, nos anos oitenta, no exato lugar em que você está.
-Concentre-se na busca Flávio. Tente focar na família de Jacob Willians.
Ele tinha esposa e filho.
-Tinha pais?
-Sim, mas morreram ou devem ser velhos demais para sair por aí
esfaqueando pessoas – disse Fred.
-Como é que é?
-Esquece, apenas faça a busca.
-Achei algo sobre a esposa, Michele Willians, algo bem relevante. Ela foi
encontrada morta ao lado de um tal Peter Young. Tem vários jornais aqui falando
sobre isso. Parece que ele era agente do tal Willians e estava vivendo com a
mulher do humorista depois que ele foi internado.
-Eles foram esfaqueados?
-Sim.
-Algo relativo ao rosto?
-Sim. Puta que pariu, que coisa mais doente, os dois tiveram a boca
rasgada cara, de fora a fora, mas se você já sabe de tudo isso...
-Cala a boca e continue pesquisando. O que houve com o filho? Se não me
engano... – precisou de alguns segundos para se lembrar do nome na pasta do
arquivo - Marcel Willians.
-Parece que ele viveu com a mãe por alguns anos, depois simplesmente
desapareceu. Nunca foi encontrado.
Fred deixou o corpo reclinar na cadeira. Só podia ser aquilo. Balançou a
cabeça resmungando para si mesmo que estava correto em sua suposição. Só
podia estar.
-Acho que agora vem a parte realmente desafiadora. Precisamos encontrar
e descobrir quem é Marcel Willians hoje.
-Você acha que ele tem outro nome agora?
-Provavelmente.
-Isso realmente não será fácil, Fred, e se você não tiver mais nada para
mim, nenhuma pista, isso pode levar muitas horas, talvez dias, além da infração
de uma lista enorme de leis.
Fred ficou pensativo. Sabia que Flávio tinha razão, além do mais, não
queria colocar o rapaz em apuros, então pôs a mente ainda entorpecida para
funcionar.
-Bem, sabemos com certeza que alguém apagou aqueles dados em Boston,
além de alterar o nome do paciente. Ou seja, essa pessoa queria que Jacob
Willians viesse parar aqui, e precisava fazer isso sem ser detectado.
Marcel Willians, aquele nome ficava se repetindo na mente de Fred.
“Tem alguma coisa aqui, bem debaixo do meu nariz e não consigo ver o
que é”. A mente de Fred trabalhava incessantemente.
-O próprio Jacob poderia ter tramado isso? Não, isso é pouco provável –
resmungava consigo mesmo, até que um fiapo de ideia destacou-se das demais,
ainda opaca, mas que podia ser lapidada até tornar-se algo coerente.
-Flávio, eu preciso que você invada o sistema do St. Clarence e consiga a
ficha de todos os funcionários daqui, depois cruze com a lista de Boston e veja
se existe algo que una qualquer uma dessas pessoas. Não, espere, faça ainda
melhor, verifique se qualquer uma das pessoas nos dois hospitais tem algo em
seu passado que possa ser ligado à família Willians, principalmente a Marcel
Willians.
-Estou vendo aonde você quer chegar, e se eu entendi mais ou menos o que
está havendo por aí, creio que você produziu um raciocínio bem interessante,
mas o que está me pedindo vai levar um tempo absurdo, dias, no mínimo. Mas
creio que eu possa ter uma ideia que vai funcionar um pouco mais rápido.
-Diga logo!
-Estou acessando a lista de funcionários dos dois hospitais, e também
consegui uma foto do tal Marcel Willians quando criança. Com um programa de
reconhecimento fácil, posso envelhecer a foto do garoto e lhe dizer se ele é um
dos funcionários do hospital. Creio que seja isso o que você tem em mente.
-Puta merda, Flávio! É exatamente o que preciso.
-Só não fique muito animado, essa coisa não funciona cem por cento bem,
até poderia se fosse uma foto mais recente, porém, vamos arriscar. Já estou
rodando o programa. Passe o seu email para eu enviar o resultado.
Em cerca de quinze minutos, Flávio já tinha uma resposta.
-Parece que você estava certo, Fred. Esse cara definitivamente está por aí.
Ele é funcionário do St. Clarence, e não do hospital de Boston. Estou te
enviando a foto.
Fred, que já estava com o email aberto esperando ansiosamente, viu uma
nova mensagem pipocar em sua caixa de entrada. Ele abriu o arquivo o mais
rápido que pôde e o rosto juvenil de Marcel Willians surgiu na tela, ao lado, uma
projeção do rosto que o garoto teria hoje, e, à direita, uma terceira foto
assustadoramente parecida com a segunda, e extraída do registro de funcionários
do hospital psiquiátrico. Os três encaravam Fred com o mesmo olhar brilhante e
inocente, que apenas os psicopatas mais dissimulados eram capazes de emitir.















Capítulo 18

Mesmo no escuro, sem conseguir enxergar um palmo frente aos olhos,
Paul olhava para a própria mão empapada de sangue. No ápice da dor, com a
perda constante do líquido vital e ainda sob o efeito das drogas, aquela vinha
sendo a viagem mais louca de sua vida.
Paul sorria no escuro, achando graça do sangue que vertia do local das
facadas, até ouvir um som um tanto característico. Quem poderia estar andando
de bicicleta no corredor àquela hora da noite? Pensou de forma febril. O barulho
lembrava os aros de uma antiga bicicleta Phillips que seu pai lhe dera quando
criança. Não, não, seu pai nunca lhe deu porra nenhuma, exceto algumas
bofetadas. Ele a tinha roubado de um playboyzinho idiota do colégio, mas
tornara-se sua de qualquer forma e o barulho de seus aros era exatamente como o
som que ele ouvia naquele momento.
Diante de seus olhos desfocados, irrompendo a escuridão, surgiu algo
diferente da bicicleta que ele esperava ver. Embora tivesse duas rodas grandes,
como as da Phillips da infância de Paul, a cadeira que comportava Jacob
Willians era muito diferente de sua antiga bicicleta.
A luz da lanterna o cegou novamente, mas desta vez durou apenas um
segundo e seu portador a colocou no chão, em um dos cantos junto à parede,
antes de empurrar a cadeira de rodas até perto da cama.
Jacob Willians permaneceu imóvel como sempre. Tão quieto quanto no
momento em que Paul o ameaçara.
Paul quis gritar, mas quando abriu a boca, tudo o que saiu dela foi um
filete de sangue que escorreu pelo queixo e despencou preguiçosamente para seu
colo, desaparecendo dentro de uma mancha muito maior, quase uma poça,
amparada pelo pano da camisa.
Ele era um refém de sua condição. Fraco demais para gritar ou se defender.
Tudo o que pôde fazer foi observar enquanto Marcel Willians se preparava para
retalhá-lo.
-Papai, este é o meu último presente para o senhor. Espero que goste.
Paul podia ouvir, mas pouco discernia. As palavras eram audíveis apenas
em um nível subliminar. Algo que por mais que ele se esforçasse, não formava
sentido algum.
A lanterna criava entre eles um vão de luminosidade. Um espaço aberto em
meio ao breu, uma ponte. O enfermeiro lembrou que aqueles que voltavam de
uma experiência de quase morte sempre relatavam ter visto uma luz. “Seria
aquela a minha luz? Não... não, idiota. Essa luz vem da porra de uma lanterna
que funciona com quatro Duracell, que esse puto pode muito bem enfiar no
rabo, uma por uma.” Ele tentou rir do próprio pensamento, mas tossiu uma borra
de sangue e sentiu a consciência desprender-se, desligando-se como se colocada
em stand by. Estava chegando ao fim. Logo aquele barato ia passar. Tudo ia
passar. Acabar de vez.
Paul já não sentia mais nada quando Marcel levantou seu rosto e
posicionou a faca na direção de seus lábios, mas então, como se uma ideia
tivesse lhe ocorrido, ele recuou e voltou-se para o pai.
-Espero que goste papai. Esta é minha última homenagem.
Marcel Willians pegou a mão de Jacob com carinho, abriu seus dedos e
colocou ali o cabo da faca. Ele olhou para o rosto do pai em busca de algum
sinal de aprovação, em busca de um sorriso, mas o velho seguia catatônico.
Imóvel. Seus olhos mirando o vazio, enquanto uma baba escapava-lhe no canto
da boca.
-Tudo bem, papai. Faremos isso juntos, como costumava ser antes da
mamãe estragar tudo, mas eu dei um jeito naquela vadia. Também dei um jeito
no filho da puta do seu empresário, que estava comendo ela e vivendo com a
grana que você deixou para mim. Eles destruíram nossa vida. Destruíram tudo,
mas este momento ninguém poderá tirar de nós.
Com a mão direita, Marcel Willians guiou os dedos inertes do pai até a
boca de Paul, com a esquerda, ele segurou a cabeça do homem morto e forçou a
faca para dentro de sua boca. Centímetro a centímetro ele fez o metal deslizar
pelos lábios do enfermeiro. A mão rugosa e envelhecida de Jacob Willians
brandindo a faca como fizera tantos anos atrás, em um quarto não muito longe
daquele.
-Vamos dar um belo sorriso a este desgraçado papai. Um belo sorriso.
A luz da lanterna que reluzia na faca logo foi amainada pelo sangue que
escorreu pela lâmina, este percorreu lenta e caprichosamente o metal, até
alcançar a manga da camisa de Jacob e descer por seu braço. Mesmo aquela cena
grotesca não lhe causou qualquer reação. Sua distância da realidade era mantida
com pulso firme pelo cérebro danificado.
Após terminar, Marcel dedicou alguns instantes para contemplar sua obra.
O rasgo desenhado de fora a fora no rosto que um dia fora tão belo.
-Veja papai. Contemple o que fizemos. Observe como é lindo. O senhor
sempre foi um artista e isso não se perdeu. Agora vamos terminar o que o senhor
começou. Eu vou guiá-lo até lá. Vou carregá-lo em meus braços se necessário.
Eles o detiveram da última vez, mas hoje eu não permitirei que isso aconteça. Eu
darei o que você buscava papai. Juro que darei!

***

Fred corria como um louco em meio à escuridão. Tropeçando em tudo que
cruzava o seu caminho. A chuva o encharcava, mas aquilo lhe trazia algum
alívio. As gotas geladas afastavam a sensação do sangue quente que cobrira seu
corpo naquela maldita alucinação convulsiva.
“No telhado Fred, foi onde encontraram Jacob Willians em 1988. Eles o
impediram de pular para a morte.” As palavras de Flávio reverberavam em sua
mente. Precisava se apressar.
Um par de luzes vermelhas surgiu na escuridão em algum lugar à sua
frente, pairando na altura de seu rosto, bem ao lado de uma árvore. Fred apontou
sua lanterna para lá e descobriu que o brilho escarlate vinha dos olhos de
Romero, que estava encostado de maneira tranquila junto a um carvalho, cuja
copa mergulhava para cima, rumo à imensidão da noite.
-Merda! Eu já tomei a porra do remédio. Por que continuo vendo você?
-Você não pode mais se livrar de mim, Fred. Existe um ponto sem volta,
uma linha crítica e você já a ultrapassou. É tarde demais.
Ele ignorou o fantasma de sua mente e prosseguiu na corrida, mas em cada
árvore que ultrapassava, Romero estava ali, com a mesma postura, emendando
palavra por palavra para costurar suas frases, causando a sensação de que Fred
corria em círculos, até que ele finalmente cedeu e parou diante da figura
alucinatória.
-Desgraçado! O que você quer?
-Eu posso ser Romero, Fernanda, Sandra, até mesmo o pequeno Gabriel.
Posso ser o demônio, mas acima de tudo, eu sou você. Eu sou a porra da sua
consciência, essa coisinha mirrada e inútil, a merda de um câncer muito mais
perigoso do que o tumor na sua cabeça.
Fred balançou a cabeça e correu novamente, mas o Romero de olhos
vermelhos e brilhantes surgiu novamente diante dele, pairando de forma
espectral na escuridão.
-Essa coisa vai acabar com você. Vai levá-lo direto até mim. Você deixou a
Fernanda morrer, uma mulher doente que precisava de ajuda, que procurava a
salvação, depois trocou a mulher que dedicou toda a vida a você por uma mais
nova e mais gostosa, como a Sandra diz: uma puta que costumava comer à mesa
da sua casa. E o seu filho? Você nem sabia onde ele estava. Você o perdeu e não
foi capaz de trazê-lo de volta. Você é um merda, Fred, e só ficará bem quando
admitir isso. Você precisa admitir e me aceitar, antes que seja tarde.
-Vá para o inferno! – seu esbravejar foi respondido por uma risada
espectral.
Fred seguiu em sua corrida até avistar a fachada do hospital. Estava
arfante, o peito queimando pelo esforço. Na lateral do corpo, uma velha dor, tão
antiga que ele já tinha se esquecido dela. Um incômodo entre as costelas que se
pronunciava quando ele praticava exercícios físicos em demasia. Ah, os tempos
do basquete depois da escola, como as coisas eram tão mais simples naquela
época.
A lembrança feliz não combinava com aquele momento sombrio e ele a
afastou, concentrando-se no que precisava fazer. Fred atravessou o
estacionamento driblando os carros e entrou no hospital. Todos se viraram para
fitá-lo, era impossível não chamar atenção ensopado como estava, e ainda com
aquela expressão de quem acabara de passar pelos portões do inferno. Ele puxou
Ted pelo braço e lhe falou a sós.
-Ted, eu preciso chegar ao telhado.
-Por quê? O que está havendo?
-O último ato. É pra lá que eles estão indo.
-Eles?
-Sim, o filho de Jacob Willians está no hospital. Ele trabalha para você e é
o verdadeiro assassino. É o homem que arquitetou tudo isso.
-Como é? Isso não é possível.
-É sim. Eu tenho absoluta certeza.
-De quem você está falando, pelo amor de Deus?
Quando o nome foi sussurrado nos ouvidos de Barnes, ele ficou tão pálido
que Fred achou que a qualquer momento ele poderia emitir um brilho opaco na
escuridão. O homem estava estarrecido, completamente sem palavras.
-Eu entrei em contato com um amigo no Brasil, um hacker capaz de
descobrir essas coisas e não há duvidas.
-Não. Isso não é possível.
-Não temos tempo para que você lide com sua decepção agora, Ted. Eu
preciso impedir o que está para acontecer. Preciso que me leve até o telhado.
-Tic, tac, tic, tac. Talvez você não chegue a tempo, Fred.
-Merda! – Fred murmurou. Romero estava parado ao lado de Ted Barnes,
olhando com grande interesse para o Rolex de ouro em seu pulso, nos lábios um
sorriso maroto.
-Tic, tac, tic, tac.
-Vamos, Ted. Agora!
O diretor pegou uma lanterna e guiou o ex-detetive para dentro da
escuridão. Eles cruzaram boa parte do hospital antes de chegar a um elevador
que não funcionava mediante a falta de energia. Ao lado, a porta da escada
estava entreaberta.
-Você fica aqui – anunciou Fred.
-Como é? Não posso deixá-lo subir sozinho.
-Você só iria atrapalhar Ted. Eu sei o que estou fazendo.
-Não, eu acho que você não sabe. Olha só para você, Fred, é óbvio que não
está bem.
-Eu estou bem – respondeu mais alto do que desejava, então jogou o foco
da lanterna ao redor, como se para se certificar de que ninguém os tivesse
ouvido.
-Ted, eu já estive em situações como essa antes. Não posso fazê-los se
acalmarem se houver mais alguém comigo. É imperativo que eles não se sintam
ameaçados. Preciso conseguir me aproximar e fazer com que eles confiem em
mim.
-Mas, Fred, eu conheço aquele homem, ele vai me dar ouvidos.
-É justamente por você o conhecer que não posso levá-lo comigo. Não
sabemos que tipo de sentimentos podem despertar quando ele o ver, já eu, sou
neutro nesta história. Ele vai me ouvir.
-Droga. Não estou gostando disso.
-Me dê cinco minutos, se eu não voltar antes disso, então você sobe. Tome,
use isso se precisar golpear– Fred pegou o extintor de incêndio que estava ao
lado da porta e entregou a Ted.
-E você, subirá desarmado?
-Eles precisam ver minhas mãos nuas. Não posso intimidá-los.
Fred se despediu e iniciou a subida, mas para seu alarde, um novo desafio
o empurrava através dos portões da loucura. O barulho que seus sapatos faziam
em sua corrida pelos degraus, ao invés do costumeiro toc toc surdo, foi
substituído por um tic tac, e quando olhou ao seu redor, viu-se dentro de um
imenso relógio cuco, com engrenagens girando por todos os lados, intrincadas,
de vários tamanhos e espessuras, todas rangendo ruidosamente e causando-lhe
vertigens.
-Corra, Forrest, corra! Ah, não, essa era para o outro cara, aquele do
filme. Corra, Fred, corra! - a gargalhada chegava rascante aos seus ouvidos, no
final de cada lance de escadas estava Romero, sorrindo e pronunciando seu já
costumeiro tic tac, enquanto vigiava o Rolex dourado, como um treinador de
educação física do além.
Quatro andares eram uma dura prova para as pernas do ex-detetive, já
cansadas da corrida pela trilha entre o hospital e o centro de pesquisas. Logo os
músculos e tecidos das coxas e panturrilhas estavam em chamas, ardendo pelo
esforço. Fred já tinha perdido a conta dos lances de escada que subira, quando a
porta de metal surgiu à sua frente, emoldurada em uma parede de engrenagens
vivas, pontuando o fim do martírio de suas pernas. Ele quase riu ao pensar que
deveria abrir a porta e gritar: cuco, cuco!
A mão estendida para a maçaneta tremia ligeiramente.
-Tic, tac, tic, tac. Quem será que vai morrer primeiro? Sim, sim, alguém
vai morrer e se juntar à mim, com certeza. Tic, tac, tic, tac. O tempo está
acabando Fred, essa coisa na sua cabeça vai fazer um grande bum, daqui a
pouco. Eu posso sentir ela pulsando.
Enquanto tentava expulsar a voz de sua cabeça, num último esforço de
concentração, uma gota de sangue caiu em sua mão. Ele ergueu os dedos frente
aos olhos. Sentiu náuseas ao contemplar o próprio sangue, que dessa vez era
pegajosamente verdadeiro. O estômago revirou, como se seus órgãos internos
tivessem aprendido a dar cambalhotas circenses.
-Merda.
A pressão dentro de seu crânio voltara com toda a força. Os olhos
começaram a lacrimejar com uma ardência incômoda atrás dos globos. As
pernas ameaçaram falhar, mas com muito custo o mantiveram na vertical. Ele
estendeu a mão para a maçaneta e a viu se tornar duas, três, quatro... qual era a
certa?
Sua mente era um campo árido. Qualquer pensamento que nascia ali era
logo amputado pelo ambiente inóspito. Apenas um fio de raciocínio, um estreito
de consciência, mantinha-se vivo o suficiente para traduzir alguma noção
primitiva de certo de errado. Bem e mal.
Era assim que ele se sentia quando seus dedos encontraram o metal
gélido da maçaneta e abriram a porta. Um vento furioso o acertou em cheiro e o
convidou a sair, como se lhe agarrasse pelos braços com mãos etéreas.
Fred fez o feixe da lanterna percorrer o telhado até encontrar as formas
humanas que procurava. Um homem carregava o outro em seus braços e
caminhava a passos lentos em direção à beirada do telhado. Fred tentava
proteger o rosto da chuva, que carregada pelo vento, açoitava-lhe o rosto com
chicotadas incessantes.
-Marcel! – gritou ele. – Marcel Willians!
O homem parou e voltou-se para Fred, que dirigiu a lanterna para o seu
rosto, onde uma expressão indecifrável estava estampada.
-Ou devo dizer John Smith?
-Vá embora! Você não vai me deter – bradou de volta o enfermeiro,
fazendo-se ouvir acima da tempestade.
Como se atingido por um raio, a pressão na mente de Fred tornou-se
insuportável. O latejar em seu crânio aumentava ritmadamente, com se uma
desconjuntada bateria de escola de samba estivesse ensaiando dentro de sua
cabeça.
“Eu posso ajudá-lo, Fred, basta você me abraçar.”
-Não vou deixar que você me impeça! – gritou o enfermeiro. – Meu pai
merece isso. Ele merece conseguir chegar até o fim desta vez!
-Não, você não pode matá-lo, John! – Fred gritava a plenos pulmões, mas
já não era capaz de ouvir a própria voz. – Ele está doente. É apenas uma doença.
Ele não fez aquilo tudo por que quis, de forma consciente, ele apenas estava
doente. Você precisa colocá-lo no chão e se entregar.
“Fred, Fred, você não vai conseguir, a menos que me aceite. A menos
que nos tornemos um, como deveria ser. O tempo está acabando. Tic tac, tic
tac.”
-Fernanda! Ponha a arma no chão! – ele assustou-se ao perceber que
chamava pelo nome da assassina de escritores, tampouco podia se controlar. –
Fernanda! Não faça isso! Por favor! – ele a viu erguer a arma em direção à
própria cabeça, numa réplica amaldiçoada daquele fatídico dia na livraria.
O fio de luz cambiante da lanterna de Fred, segura em sua mão trêmula,
para o espanto do ex-detetive, revelava em sua claridade oscilante, ora o
Assassino do Sorriso Macabro, ora Fernanda, a Assassina de Escritores.
Realidade e ilusão de mãos dadas, ambas encharcadas pela chuva torrencial e
abraçadas pelas entranhas da escuridão.
-Não!
Sua cabeça doía tanto que apenas pensar em pensar já lhe causava dor.
Fred caiu sobre os joelhos, derrotado. Já não podia mais prosseguir.
Aquela coisa dentro de sua cabeça tinha dado o aviso final. Foi quando sentiu as
mãos de Romero em seus ombros.
-Eu entendo a sua dor e prometo que posso levá-la embora, basta você me
aceitar.
-Não... não, eu não posso...
-Você pode Fred, você precisa. Me aceite! Eu sou parte de você!
-Não!
-Seu tempo está se esgotando.
Fred chorava copiosamente. A dor era insuportável. Aquilo era a morte,
só podia ser, deslizando sua foice pela frágil estrutura de seu cérebro. Uma saída
daquela tortura era tudo o que desejava, foi quanto sentiu a mão de Romero
erguer o seu rosto.
-Basta você me aceitar e a dor irá embora.
-Eu... eu...
-Diga que me aceita!
-Eu...
A dor era inominável, abundante, era simplesmente tudo o que existia.
-Eu... aceito – disse por fim, vencido.
E então a dor foi embora, desapareceu por completo, e o mundo, de
maneira vivaz como em uma epifania, retornou aos seus olhos. Cada gota de
chuva e cada assopro dos ventos era sentido ao deslizar pela pele. Diante dele,
John caminhava para a beirada do prédio. O pai seguro firmemente em suas
mãos.
-Você não vai me impedir! – ele gritou para Fred. – Meu pai foi
interrompido da última vez, tudo o que ele queria além de sua vingança, era
acabar com a própria dor. Ele queria saltar daqui e dar um fim a tudo. Você tem
ideia de quanto sofrimento uma pessoa é capaz de suportar? Por acaso você tem
alguma ideia? Eu recriei tudo para ele! Tudo! E você não vai me impedir!
Fred seguiu caminhando com a cabeça baixa. Quando levantou o rosto
em direção a John Smith, sua face era mármore endurecido. Não havia
compaixão alguma em suas feições, tampouco justiça ou qualquer outro ideal de
nobreza.
-Você não vai me deter!
-Acho que você não entendeu, não estou aqui para detê-lo – disse com
calma gélida e um olhar assustador, completamente insano.
Smith se virou para ele. Estavam agora perigosamente perto do
precipício que eram os quatro andares de altura.
-Estou aqui para me certificar de que você e seu pai morram de vez.
-Como é?
O enfermeiro estava verdadeiramente confuso.
-Vocês dois são apenas escória! Lixo que precisa ser varrido! Psicopatas
como vocês não merecem segundas chances. Psicopatas como ela! – ele apontou
para algum lugar ao lado do enfermeiro, que não podia ver Fernanda parada ali,
com a cabeça estourada e uma pistola pendendo frouxa nas mãos.
Por um instante, John Smith pareceu hesitar. Ele não saiba o que pensar
das palavras de Fred. Era a segunda vez que ele falava da tal Fernanda.
-Tic tac, tic tac – disse Fred com um olhar insano – é hora de cumprir o
que prometeu ao seu pai! – com um pontapé certeiro, Fred derrubou os dois
homens de cima do telhado para serem tragados pela escuridão. Um voo
silencioso rumo ao breu da morte.
-Muito bem, Fred, muito bem – ao seu lado estavam Elis, Romero,
Gabriel, Sandra e Fernanda. Todos sorriam. Fred se virou para eles e desabou no
chão.
“Este é o verdadeiro você. Agora descanse.”
A última coisa que viu antes dos olhos se revirarem nas órbitas, foi a
porta do telhado se abrir e Ted Barnes passar por ela, para correr desesperado em
sua direção. Depois houve apenas escuridão e uma paz que ele jamais havia
experimentado igual.











Epílogo

Fred abriu os olhos e viu algumas formas pairando ao seu redor. Elas
insistiam em se manterem desfocadas, fugidias. Sombras incompreensíveis. O
teto foi o primeiro a respeitar sua vontade, permitindo-lhe algum entendimento,
mesmo que apenas para lhe apresentar sua tediosa e alva imobilidade de
ladrilhos entrecortados por rejunte cinza.
-Oh meu Deus, ele abriu os olhos – Fred ouviu a voz feminina, mas não
conseguia reconhecê-la, tampouco reconheceu o rosto da mulher que se
debruçava sobre ele, ou dos dois homens que também estavam ao seu redor. Sua
mente era um vazio total e absoluto.
-Fred, meu amor.
Aqueles olhos, aqueles lábios tão familiares e ao mesmo tempo
desconhecidos. O medo de sucumbir à falta de memórias chicoteava-lhe a razão.
Amedrontava-o.
“Um nome, eu preciso de um nome, por favor!” Desesperadamente, ele
tentava enfileirar as letras em sua mente, procurando algum sentido, uma ordem
que, por fim, foi capaz de transformar em um nome. Uma enxurrada de
memórias se fez viva diante de seus olhos, inundando seu corpo das sensações
que se atrelavam a elas: desejo, amor, amizade, carinho, companheirismo. E com
lábios trêmulos pronunciou: Elis.
Os outros dois também sorriam para ele, mas daquela vez as lembranças
vieram com mais facilidade, doutor Fisherman e Romero Garcia observavam-no
com felicidade serena.
Fred tossiu ao tentar falar, o corpo pesava uma tonelada.
-Que foi que aconteceu?
Fred notou que nenhum dos três sabia por onde começar. Entreolhavam-
se indecisos.
-Você é como o Bruce Willis, um filho da puta duro de matar, foi isso o
que aconteceu – disse Romero. – Acho que devemos deixar a Elis lhe contar
tudo. Depois, se precisar de algum detalhe técnico, o doutor Fisherman poderá
lhe esclarecer mais tarde. Venha doutor, vamos dar alguma privacidade ao casal
– eles fecharam a porta do quarto ao sair.
Elis se debruçou sobre Fred e lhe beijou a testa carinhosamente.
-Estou tão feliz em ver você, Elis, eu achei que nunca mais teria essa
oportunidade. Mas, por favor, me conte o que houve ontem no St. Clarence. Eu
não consigo me lembrar com clareza.
-Fred, não aconteceu nada ontem.
-Como assim? – ele tentou se levantar da cama, mas sentiu-se zonzo e
rendeu-se à posição horizontal.
-Você estava em coma induzido há três semanas. Eu acredito que tudo o
que você precisa saber é que... meu amor – as lágrimas correram soltas pelos
olhos de Elis, desceram por sua face e gotejaram no rosto de Fred – você... você
está curado.
Fred ficou apenas olhando para ela, estático. As palavras que ouviu
precisaram de alguns segundos para acionar as conexões corretas em seu cérebro
e assim fazer sentido. Aquele pesadelo tinha finalmente acabado?
-Como, como... isso é possível?
-Em primeiro lugar, você precisa agradecer ao Romero. Aquele maluco,
quando soube o que estava acontecendo, despachou um helicóptero atrás de cada
um dos médicos e cientistas que o Doutor Fisherman solicitou, nem consigo
imaginar o quanto ele gastou fazendo isso. Sobre os detalhes técnicos, não me
peça para explicar. Tudo o que sei, é que primeiro eles tentaram um tratamento à
base de células tronco, ao qual você não reagiu bem. Depois tiveram sorte com
uma espécie de vírus aplicado diretamente no tumor. Essa coisa o inutilizou,
devorou, e salvou sua vida.
Antes que pudesse perceber, Fred também estava chorando. Tinham
prolongado sua vida. Voltaria a ver o filho, poderia criá-lo, ensiná-lo a jogar
bola, comprar um telescópio para observarem as estrelas juntos. O ensinaria tudo
sobre as garotas e seria presente em sua vida escolar. E, de quebra, poderia
construir um futuro ao lado da mulher que amava. Talvez pudesse até mesmo
voltar para sua profissão, voltar para...
-Meu Deus. – seu pensamento voltando para o hospital psiquiátrico. –
Três semanas. Eu não consigo me lembrar. Por favor, me diga o que houve com
as pessoas no St. Clarence, o assassino...
-Ah Fred, eu sinto muito. – Elis sentou-se na beirada da cama e afagou o
ombro de Fred, depois envolveu carinhosamente seu rosto entre os dedos
delicados. – Você não pôde salvá-los, Fred. Você não chegou a tempo. O
enfermeiro se jogou do telhado junto com o pai. Pelas coisas que eu li e ouvi, ele
queria que o pai tivesse a chance de terminar o que começou em 1988. Essa foi
uma das coisas mais doentias que já ouvi. Quando penso que você estava no
meio de tudo isso, e ainda doente, nas condições em que se encontrava... meu
Deus – ela levou as mãos à boca e voltou a chorar.
-Eu gostaria de poder me lembrar.
Fred forçou a mente o máximo que pôde. Ele viu o rosto de Ted Barnes,
viu escadas girando ao seu redor e uma porta que se abria para escuridão. Havia
duas pessoas, talvez mais, e havia, sobretudo, uma dor profunda e agonizante, a
partir daí, nada mais.
-Eu não cheguei a tempo?
-Não, eu sinto muito, Fred. Ted Barnes encontrou você caído, desmaiado
e convulsionando. Ele disse que John Smith e Jacob Willians já tinham se
jogado.
Fred ficou em silêncio, pensativo. Não importava o quanto forçasse sua
mente ele só conseguia lembrar-se até certo ponto. Era capaz de rememorar o
vento chicoteando seu rosto e a chuva encharcando sua pele, podia reviver até
mesmo a dor que sentira, como se algo pressionasse seu cérebro, algo que já não
estava lá, deixando um grande vazio, mas lembrar-se do que lhe ocorreu quando
passou por aquela porta era simplesmente impossível, estava trancado atrás de
uma porta nos confins de sua psique a sete chaves, num canto muito, muito
escuro, onde a luz de sua mente era incapaz de iluminar. Talvez algum dia.
-Estes últimos dias foram tão difíceis – Elis não conseguia parar de
chorar. – Quando o doutor Fisherman percebeu que talvez não pudesse salvá-lo,
ele entrou em contato com o Romero que me trouxe aqui.
-E a Sandra e o Gabriel?
-Ela não queria o que filho o visse debilitado como estava, por isso
decidiu ficar no Brasil.
-Entendo.
-Tudo isso foi tão tenso, tão terrível. Ver você tão fragilizado,
imobilizado em uma cama com todos aqueles tubos e... Eu pensei que ia perdê-lo
para sempre – era simplesmente impossível para a detetive conter a emoção.
-Está tudo bem agora, Elis. Está tudo bem.
Ela deitou a cabeça suavemente sobre o peito de Fred e ali permaneceu.

***

Quando a primeira fatia de pizza foi servida, Fred abriu um largo sorriso.
-Peperone, isso é tudo o que eu preciso – disse ele.
-Já eu, preciso de bem mais – disse Romero. – Como você pode trocar
frutos do mar frescos, pescados a alguns metros daqui, por pizza? Não estamos
na Itália, Fred.
Elis riu do comentário e afagou a cabeça de Fred, com cuidado para não
tocar os muitos pontos.
O Landfall estava lotado naquela noite. O restaurante era o melhor de
Woods Hole e Romero insistiu naquele jantar de comemoração. Além dos três,
Fisherman e Jonathan também estavam à mesa.
-Bom, eu não pensei duas vezes antes de pedir o prato mais caro, –
pontuou o porteiro – não é todo dia que um figurão milionário se oferece para
pagar a conta.
-Você fez muito bem – disse Fisherman rindo alto.
-Quem disse que eu vou pagar? – perguntou Romero fazendo cara de
desentendido antes de também cair na gargalhada.
-É bom você pagar, porque eu ainda não estou em condições de fugir
correndo daqui – disse Fred, juntando uma risada de pura alegria a dos demais.
Após várias garfadas e conversas amenas, Romero ficou de pé e ergueu
sua taça, acompanhado pelos demais.
-Eu quero fazer um brinde à sua saúde, Fred. Que você tenha uma vida
longa e feliz, e, sobretudo, que se mantenha em forma para continuar levando
minhas surras no ringue.
Uma dezena de respostas desaforadas passou pela mente de Fred, mas ele
preferiu apenas dizer com simplicidade:
-Romero, mais uma vez, muito obrigado.
Assim que eles voltaram a se sentar, ouviram as sirenes de carros de
polícia passando em alta velocidade pela rua.
-O que será que está havendo? – perguntou Fisherman.
-Eu sei lá – Jonathan levantou e foi se juntar a um grupo que tinha se
formado no canto do restaurante. Um clima de tensão alastrava-se entre os
frequentadores. O estabelecimento estava cheio e toda aquela comoção não era
comum ao lugar.
Fred e os demais acompanharam Jonathan com os olhos. Minutos depois,
quando o segurança voltou, carregava uma funesta notícia, que estragou de vez a
última noite que Fred passaria em Woods Hole.
-Estão dizendo que o doutor Ethan Hoffman surtou, atirou na cabeça da
própria mãe e da mulher que tomava conta dela, depois tirou a própria vida.



























O detetive Borzagli retornará.

Para o bem ou para o mal...


Nota do autor

É importante salientar que “A Primavera dos Sorrisos Macabros” não possui
absolutamente nenhum traço do sobrenatural, apesar de muitas vezes levar o
leitor a pensar o contrário. Todas as situações que tanto Fred quanto Jacob
Willians são levados a vivenciar, são explicadas por suas condições clínicas.

O povoado de Woods Hole não é fictício, ele realmente existe no exato lugar
descrito no livro, a ficção fica por conta da ilha onde se encontram o ST.
Clarence e o centro de pesquisas, ambos criados para o livro, bem como a ilha
que os abriga.

É preciso dizer ainda que alguns pormenores geográficos foram ignorados para
dar mais agilidade à trama.

Espero que você tenha se divertido e que se sinta a vontade para deixar mais uma vez o seu relatório
policial nas redes sociais.

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Agradecimentos

Como sempre, em primeiro lugar, preciso agradecer aos queridos amigos do
Melhores Betas do Mundo: Ismael, Rose, Barbara, Camila, Jader, Lucas, Manu,
Patrícia, Sérgio e Thiago, que seguem me motivando e obrigando este autor a
fazer sempre o seu melhor.

Aos queridos amigos da Leitura do BH Shopping: Wesley, Jennifer, Mariana,
Ronara e Marli que toparam ler este livro antes de sua publicação e emprestaram
suas mais sinceras opiniões. Além de: Jessé, Luara, Luan, Douglas e Patrícia que
são tão empenhados em propagar a história do detetive Borzagli.

A querida Verônica, por sua ajuda tão generosa com a revisão, pelos comentários
entusiastas e principalmente por ter me alertado sobre detalhes tão importantes
que quase passaram em branco.

Aos inestimáveis amigos: Daniel, Luan, Rafael, Vinicius, Shalon, Gabriel,
Diego, Giulia, Gabi, Vitória, Eduardo, Nayara, Célio e toda a galera da Leitura
do Pátio Savassi que tem se empenhado tanto nas vendas da série do detetive
Borzagli.

E, por fim, ao amigo Igor, que por muitas vezes foi uma inesgotável fonte de
informações.













A capa é um trabalho de:
Borja Designer, Criação e Pós Produção
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Este livro foi impresso em papel Lux Cream LD 70g
em tamanho 14 x 21 cm.

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