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© 2018 by Chico Otavio e Cristina Tardáguila

PREPARAÇÃO
Kathia Ferreira

REVISÃO
Victor Almeida
Laís Curvão

REVISÃO TÉCNICA
Carlos Fico
Mário Magalhães

CAPA
Túlio Cerquize

PROJETO GRÁFICO
Ilustrarte Design e Produção Editorial

REVISÃO DE E-BOOK
Manuela Brandão

GERAÇÃO DE E-BOOK
Intrínseca

E-ISBN
978-85-510-0388-6

Edição digital: 2018

1ª edição

Todos os direitos desta edição reservados à


EDITORA INTRÍNSECA LTDA.
Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar
22451-041 − Gávea
Rio de Janeiro − RJ
Tel./Fax: (21) 3206-7400
www.intrinseca.com.br



Para Clara e Bernardo, que me alegram como ninguém.
Para minha mãe, Ana, por ser uma verdadeira fortaleza e estar sempre por
perto.
Para David, a quem quero do meu lado todas as manhãs.
CRIS

Para Hilda, Constança e Beatriz — as mulheres da minha vida.


CHICO
SUMÁRIO
Introdução
FIGUEIREDO
TANCREDO
SARNEY
COLLOR
FHC
LULA
DILMA
TEMER

Epílogo

Notas
Siglas citadas
Referências bibliográficas
Créditos das imagens
Agradecimentos
INTRODUÇÃO
Sim. Você foi enganado. Aproveitando-se de sua boa-fé, os políticos do Brasil
têm usado a mentira como um instrumento de conquista e manutenção de poder.
E a farsa com finalidade política não segue ideologias nem é recurso restrito a
determinados partidos — tem sido utilizada por conservadores, moderados,
progressistas e ditadores. Não foi casual a escolha do ano eleitoral de 2018 para
colocar no mercado editorial brasileiro esta obra. Composto por algumas das
muitas histórias que envolvem mentiras, exageros e contradições que marcaram
a vida política do país no último século, este livro é uma tentativa de tornar os
eleitores mais atentos e preparados para as decisões que deverão tomar diante
das urnas. Afinal de contas, as mentiras nunca saíram — nem sairão — de cena.
Ao longo de oito capítulos, esmiuçamos momentos em que candidatos à
Presidência da República, presidentes eleitos — tanto de forma democrática
quanto de forma indireta — e vice-presidentes recorreram a informações
enganosas para obter vantagens. Em seus projetos de poder, sustentaram
opiniões, defenderam políticas, desenvolveram planos de interesse pessoal,
travestiram de combate à corrupção determinadas decisões, manipularam índices
e dados econômicos e até ocultaram informações sobre suas condições de saúde
para derrotar adversários e angariar apoio. Foram momentos em que a verdade
passou longe e o diálogo franco — base de uma política transparente e de
qualidade — não foi exercido. É verdade que às vezes a mentira sopra a favor de
seus autores. Às vezes, contra. E é fato que a farsa, premeditada ou não, tem sido
vetor decisivo nos rumos do país.
Não há como datar a mentira inicial na política brasileira, mas 1921 parece um
bom ano para começar a narrar histórias sobre o tema. Era um momento de
instabilidade entre as elites que controlavam o país, governado por Epitácio
Pessoa. A disputa pelo poder central já rachava o Brasil em função das eleições
no ano seguinte. De um lado, estavam os mineiros e os paulistas, que apoiavam a
indicação de Artur Bernardes, então presidente de Minas Gerais, para a
Presidência da República. De outro, alinhavam-se os gaúchos, os cariocas, os
baianos e os pernambucanos, que queriam ver Nilo Peçanha no comando do
Brasil. O ex-presidente marechal Hermes da Fonseca presidia o Clube Militar e
tinha grande protagonismo na vida pública nacional.
Assim, causou alvoroço a edição dominical de 9 de outubro de 1921 do
Correio da Manhã, que estampou na página 2 uma carta de conteúdo agressivo,
atribuída a Artur Bernardes, que atacava abertamente o Clube Militar e seu
dirigente. “Estou informado do ridículo e acintoso banquete dado pelo Hermes,
esse sargentão sem compostura, aos seus apaniguados, e de tudo que nessa orgia
se passou.” O uso dos termos “sargentão” e “orgia” deixou a sociedade
1

boquiaberta. Escrita à mão, com timbre do governo de Minas, a carta era dirigida
ao senador mineiro Raul Soares, muito amigo de Artur Bernardes, e não se
resumia a um ataque frontal às Forças Armadas, sob o comando do presidente
Epitácio Pessoa. Cobrava providências imediatas: “Espero que [o senhor,
senador Soares] use com toda energia, de acordo com as minhas instruções, pois
esse canalha [Hermes da Fonseca] precisa de uma reprimenda para entrar na
disciplina.” Era política pura. Briga eleitoral na veia.
Quatro dias depois, em 13 de outubro, o Correio publicou uma segunda carta
atribuída a Artur Bernardes. Dessa vez, o alvo era o presidenciável Nilo
Peçanha. Para o autor do texto, Peçanha não passava de um “moleque capaz de
tudo”. E a sociedade ficou chocada novamente. As agressões incendiaram de tal
2

forma o debate político que Epitácio Pessoa decidiu que fecharia o Clube
Militar. O episódio, somado a outros atritos, enfureceu os oficiais e levou a ações
como a que ficou historicamente conhecida como 18 do Forte: em Copacabana,
no Rio de Janeiro, um grupo se rebelou contra a República Velha, pedindo o fim
do domínio das oligarquias e a instalação de um novo sistema político no Brasil.
A eleição de 1922 seria vencida por Artur Bernardes. Empossado em
novembro, ele era, aos olhos de seus adversários, a encarnação dos vícios da
Primeira República. E, embora jurasse jamais ter escrito os textos publicados no
3

Correio, carregava contra si o ódio dos oficiais. Artur Bernardes governou o


Brasil com mãos de ferro. Reprimiu a Revolução Paulista de 1924 e a Coluna
Prestes. Decretou várias vezes estado de sítio, cerceando a liberdade de imprensa
e boicotando o poder dos governos estaduais, sobretudo os que lhe eram críticos.
Seu grau de virulência, porém, jamais alcançou o tom hostil das polêmicas
cartas. E havia uma razão irrefutável para isso: elas não foram escritas por ele.
No dia 24 de março de 1922, um dos falsários, Jacinto Cardoso de Oliveira
Guimarães, sentara-se diante de três advogados e um tabelião e confessara ter
sido um dos autores daqueles textos explosivos. Era grafólogo. Disse que
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contara com a colaboração de três pessoas que ficariam para sempre nos
bastidores da história. Oldemar Lacerda fora o responsável por obter o papel
com o timbre do governo de Minas Gerais numa visita que fizera às oficinas da
Imprensa Oficial do estado. Eduardo Fonseca Hermes, sobrinho do ex-presidente
Hermes da Fonseca, roubara uma carta original escrita por Artur Bernardes para
que Jacinto pudesse copiar a grafia. Pedro Burlamaqui levara o papel para o Rio
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de Janeiro, cidade onde a fraude seria consumada. Ao usar as cartas como


munição eleitoral, o grupo se tornara um dos primeiros produtores de fake news
da nossa República. Oldemar Lacerda morreria quase esquecido em 22 de abril
de 1945, no Asilo da Velhice Desamparada, em São Luís do Maranhão. A moda
de produzir documentos falsos contra adversários já havia fincado raízes no
Brasil.
Em setembro de 1937, outra farsa surgiria em forma de documento, dessa vez
a favor do poder vigente. Naquele ano, as forças políticas se mobilizavam para a
eleição de 1938. Havia grande expectativa com relação ao fim do ciclo
revolucionário de 1930 e à volta da normalidade institucional. Assim, esperava-
se que Getúlio Vargas passasse a faixa presidencial ao candidato eleito. Só que
Vargas não tinha a menor intenção de deixar o cargo e uma de suas primeiras
providências tão logo assumiu o governo foi fazer com que chegasse à imprensa
um texto supostamente escrito por um agente comunista. O Plano Cohen, como
o documento ficou conhecido, sugeria que o Brasil vivia sob a ameaça de
infiltração comunista e que isso resultaria em um conflito nos moldes do Levante
de 1935, ou “Intentona Comunista”, como o governo nomeou o episódio. O
texto, divulgado também pelas rádios, continha um “hipotético esquema de
subversão comunista” atribuído à Internacional Comunista. Em 30 de setembro
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de 1937, quando o ministro da Justiça, José Carlos Macedo Soares, participou do


Programa nacional, noticiário transmitido para todo o país, e afirmou ter “a
prova de um ataque planejado, em grande escala, dos comunistas contra as
instituições”, foi dado o pretexto para Getúlio permanecer no poder. 7

O Plano Cohen não passava, na verdade, da tradução de um artigo em francês


feita pelo então capitão Olímpio Mourão Filho para a Ação Integralista
Brasileira (AIB), movimento de cunho fascista criado em 1932 cujo serviço
secreto era chefiado por ele. Segundo Mourão Filho (personagem que voltaria à
história brasileira anos depois, durante o golpe militar de 1964), o objetivo era
simular um plano comunista de tomada de poder. O documento, no entanto,
casava com os propósitos políticos do presidente brasileiro. Embalado pelo
temor das elites ao chamado “perigo vermelho”, no dia 10 de novembro de 1937
Vargas mandou a Polícia Militar fechar o Congresso Nacional e discursou na
rádio Nacional, que três anos depois seria estatizada e transformada em porta-
voz oficial de seu governo:
— Quando as competições políticas ameaçam degenerar em guerra civil, é
sinal de que o regime constitucional perdeu seu valor prático.
Em seguida, anunciou o golpe do Estado Novo, regime ditatorial nos moldes
nazifascistas que implicava fechamento de partidos, restrição às liberdades
individuais e meios de comunicação sob tutela do Estado. Ao terminar o
discurso que eliminaria a democracia do Brasil até outubro de 1945, Vargas
manteve seu plano pessoal para aquela noite: reuniu a família e saiu para jantar.
Passou horas numa recepção oferecida pelo embaixador da Argentina, Ramón
Cárcano, agindo como se nada tivesse acontecido. 8

Essa segunda farsa envolvendo documentos foi desmascarada em 1945 pelo


general Góes Monteiro, ex-ministro da Guerra do ditador. De acordo com ele, o
Plano Cohen fora entregue ao Estado-Maior do Exército por Olímpio Mourão
Filho e nunca consistira ameaça real. Diante da revelação, o então capitão
reconheceu a autoria do documento, contudo disse que se tratava de uma
“simulação de insurreição comunista para ser usada estritamente no âmbito
interno da AIB”, sem a intenção de fraude. De todo modo, a patuscada fora mais
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do que perfeita para os planos de Vargas.


Quase três décadas depois, na madrugada de 31 de março de 1964, o mesmo
Mourão Filho, já general, colocaria tropas na estrada para combater mais uma
vez o fantasma do comunismo. Na condição de comandante da 4 Divisão de
10 a

Infantaria, sediada em Juiz de Fora (MG), deslocou seus soldados para o Rio de
Janeiro e deu início ao golpe que derrubaria o presidente da República, João
Goulart, o Jango. Visto nos quartéis como um disfarçado líder comunista, Jango
não inspirava confiança nos militares nem em setores da sociedade. Mas, de
vermelho, bastavam as vestes de Mourão Filho, pois antes de sair de casa para
liderar a tropa, o general fez o seguinte registro em seu diário: “Eu estava de
pijama e roupão de seda vermelho. Posso dizer com orgulho de originalidade:
creio ter sido o único homem no mundo (pelo menos no Brasil) que desencadeou
uma revolução de pijama.” 11

Dessa forma, pode-se dizer que o medo do comunismo produziu pelo menos
dois golpes políticos no Brasil, ambos marcados por manobras de informação. O
primeiro foi o falso Plano Cohen, que empurrou para dezembro de 1945 as
eleições de 1938, abrindo espaço para a instauração da ditadura do Estado Novo.
O segundo, em 1964, que levou o país a 21 anos de regime militar, o maior
período de exceção da história do Brasil. Esses dois episódios se prestaram a
trapaça idêntica: cancelar eleições e instalar ou radicalizar uma ditadura. No
discurso de posse como primeiro presidente do regime militar, em 15 de abril de
1964, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco se comprometeu a
realizar eleições gerais no ano seguinte. Mas só em 1989 os brasileiros voltariam
a eleger seu presidente.

* * *

Em 1970, a ditadura militar estava no auge de uma luta interna contra a esquerda
armada e outros ditos inimigos do país quando o deputado Humberto Lucena,
líder da oposição na Câmara, pediu ao general-presidente Emílio Garrastazu
Médici que apurasse “as sucessivas denúncias de violências cometidas contra as
pessoas dos presos”. À medida que os casos de tortura cresciam nas masmorras,
irrompia também uma campanha internacional contra os abusos praticados pelo
regime. Cobrados, os militares diziam-se vítimas de difamação. No dia 9 de
maio de 1970, o Palácio do Planalto respondeu ao pedido do deputado por
intermédio de uma nota oficial. Foi taxativo: “Não há tortura em nossas prisões.
Também não há presos políticos. (...) Essa intriga, na sua desfaçatez, busca gerar
discórdia entre nações democráticas, amigas e aliadas, estancar o fluxo de
investimentos no país, em uma palavra, enfraquecer o Brasil e, com isso,
enfraquecer a comunidade de nações livres. Provém, inequivocamente, de
grupos esquerdistas, inclusive infiltrados em órgãos estrangeiros e em agências
internacionais que, muito bem dirigidos por chefia perfeitamente identificada,
agem em uníssono, nos vários quadrantes do globo.” 12

Dois dias depois da publicação da nota, uma equipe da Operação Bandeirante


(Oban), um dos mais ativos centros de tortura do país — na rua Tutoia, bairro do
Paraíso, São Paulo —, prendeu o geólogo Marcos Penna Sattamini de Arruda, de
29 anos. Marcos passou as doze horas seguintes pendurado em um pau de arara.
Enquanto lhe aplicavam choques elétricos, um dos torturadores observou:
— Veja só, ele está soltando faíscas.13

Marcos tinha deixado o emprego de professor para trabalhar como operário de


uma fábrica em São Paulo, ganhando salário mínimo, e fora acusado de mudar
de profissão para integrar os quadros da organização guerrilheira Resistência
Democrática (Rede). Em uma das sessões de tortura teve uma convulsão e
perdeu temporariamente a fala, assim como os movimentos de uma perna e da
pálpebra direita. Os oficiais passaram a chamá-lo de “Frankenstein”. Em 2014,
14

décadas depois, em depoimento ao grupo Justiça de Transição, criado pelo


Ministério Público Federal para investigar os crimes do regime militar, Marcos
disse que militava, na verdade, na Ação Popular (AP) — organização de
esquerda originalmente ligada à Igreja Católica —, e que a família só localizou
seu paradeiro 24 dias depois de seu desaparecimento. Seus familiares ainda
precisaram aguardar três meses para revê-lo.
Na época, a mãe do geólogo, Lina Penna Sattamini, escreveu uma carta em
tom de desabafo ao ministro da Justiça, Alfredo Buzaid: “Por vias não oficiais,
soubemos que Marcos havia sido barbaramente torturado, em grupo ou só, e,
quando não resistiu mais, entrando em convulsões, amarraram-no e o fizeram
presenciar a tortura dos outros.” E continuava: “Senhor ministro, meu filho está
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inválido. A perna esquerda paralisada, sem ação. A pálpebra direita fechada e a


esquerda entreaberta. Sofre movimentos convulsivos do tórax, engole com certa
dificuldade e pronuncia todos os erres dobrados, como um francês.” Mas 16

Médici negava a existência de tortura no país.


Também em 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) — instituída por
lei de 18 de novembro de 2011 para apurar os crimes contra os direitos humanos
ocorridos no âmbito político brasileiro entre 1946 e 1988 — concluiria, em seu
relatório final, que houve 421 mortes e/ou desaparecimentos de vítimas durante a
ditadura militar (1964-1985). Dessas pessoas, 210 continuavam desaparecidas
quando o documento final foi publicado. No texto também foram relatados
centenas de casos de tortura no período investigado. O de Marcos chama atenção
pela história das faíscas saindo de seu corpo, porém é apenas mais um.
17

* * *

Ao redor do mundo, a mentira como instrumento é igualmente dominante. Em


2003, o americano John J. Mearsheimer, professor de Ciência Política na
Universidade de Chicago, dedicou-se a estudar os tipos de mentira e seus
impactos sobre a política internacional. Queria saber por que a mentira existia,
que benefícios ou malefícios trazia, em que circunstâncias costumava aparecer e,
sobretudo, se ela, de alguma forma, valia a pena. Por oito anos, coletou
exemplos de informações falsas contadas por presidentes, primeiros-ministros,
reis e diplomatas nos quatro cantos do planeta, narrando cada caso num pequeno
livro publicado em 2011 pela Oxford University Press. Com pouco mais de cem
páginas, Why Leaders Lie: The Truth About Lying in International Politics (Por
que os líderes mentem: toda a verdade sobre as mentiras na política
internacional, editora Zahar, 2012) fez tanto sucesso que levou Mearsheimer a
dar palestras em diversos países e escrever sucessivos artigos sobre o assunto.
Para o autor, os líderes políticos — independentemente de estarem à esquerda, à
direita ou ao centro, de serem homens ou mulheres, chefes de Estado ou de
Governo — “costumam mentir bem mais para seu próprio povo” do que para
outros líderes mundiais. 18

Assim como fizemos nesta obra, Mearsheimer reuniu as mentiras em grupos.


E encontrou três. O primeiro é a mentira clássica, que ocorre quando um líder
político diz algo falso ciente da farsa e espera que os demais — em geral seus
liderados — acreditem na informação como se fosse a mais pura verdade. A 19

ideia por trás dessa artimanha é uma só: ganhar vantagem, sair na frente. Nesse
grupo estão as informações totalmente inventadas, os números e fatos fictícios,
bem como as mentiras em formato de negação. No dia 6 de agosto de 1934, por
exemplo, o austríaco Adolf Hitler falou sobre a Primeira Guerra Mundial (1914-
1918) em entrevista ao jornal Daily Mail e disse o seguinte: “No que depender
da Alemanha, não haverá outra guerra. Este país tem a mais profunda certeza do
mal causado pelas guerras. Na nossa opinião, os problemas que a Alemanha tem
hoje em dia não podem ser resolvidos com mais uma.” Em setembro de 1939,
20

entretanto, Hitler ordenaria a invasão da Polônia e levaria o planeta à Segunda


Guerra Mundial.
O segundo tipo de mentira identificado por Mearsheimer é a distorção. Ela
acontece, de acordo com o especialista, quando o líder opta por enfatizar os fatos
a seu favor, ignorando ou minimizando os que são contra seus interesses. Como
se sabe, uma praxe na política que, em miúdos, significa jogar luz sobre os dados
positivos na tentativa de tirar do foco o que é desfavorável ou desagradável.
Consideremos, por exemplo, a Cuba de Fidel Castro e o esforço de seu governo
para destacar a melhoria no setor de saúde e o incentivo aos esportes nacionais,
em detrimento de qualquer menção à falta liberdade de expressão na ilha.
A terceira e última categoria seria a ocultação: ocorre quando o líder político
omite um fato ou permanece no mais profundo silêncio diante de uma evidência
que não lhe interessa destacar. Pense, por exemplo, nas vezes em que diante de
microfones e repórteres os poderosos recorreram à expressão “sem comentários”
para não comentar um assunto. É o silêncio da ocultação. O “nada a declarar”
marcou para sempre, por exemplo, a história do ministro da Justiça do governo
Geisel, Armando Falcão, que costumava dar essa resposta a qualquer pergunta
21

que lhe fizessem. Pense agora em todas as vezes que você achou que o político
estava doente, mas ele negou publicamente essa condição, embora não parecesse
nada saudável. É a ocultação correndo solta.
Nas três categorias definidas pelo especialista americano, o objetivo é impedir
que as pessoas conheçam a verdade e compreendam o pano de fundo de
determinada situação. Curiosamente, segundo o professor, a distorção e a
ocultação costumam ser mais bem aceitas, mais toleradas e até perdoadas pela
população em geral. Já a mentira clássica é vista com maus olhos por todos os
setores. Implica graves riscos para o político e pode jogar por terra todo um
projeto eleitoral. Por isso Mearsheimer se dedicou mais a seu estudo. Dentro
desse grupo encontrou algumas subcategorias: as mentiras que amedrontam (que
semeiam pânico para permitir que os poderosos avancem com projetos pessoais);
as estratégicas (usadas para distrair o eleitor); as nacionalistas (de tom
excessivamente patriótico e às vezes fanático); as antidemocráticas (que
desrespeitam leis e direitos humanos); as de ataque (que ferem outras nações e
raças); e, por fim, as desprezíveis, fabricadas com interesse unicamente pessoal.
Em geral, diz o professor, nenhuma dessas mentiras costuma trazer benefício
público e são mal recebidas pela população quando amplamente expostas. Todos
os casos citados no parágrafo anterior são conhecidos dos brasileiros. Em 2009,
por exemplo, depois de diversas denúncias, a então presidente Dilma Rousseff
reconheceu que não tinha concluído os cursos de mestrado e doutorado em
Ciências Econômicas na Universidade de Campinas (Unicamp). Seu currículo
oficial, contudo, mostrava essa informação. Um caso de mentira clássica
22

desprezível, dentro do espectro de opções de Mearsheimer.

* * *

Nas próximas páginas você encontra o resultado de um trabalho de apuração e


levantamento de dados históricos, realizado de setembro de 2017 a abril de 2018.
Com a ajuda de historiadores, economistas e cientistas políticos, selecionamos
diversos momentos e situações em que os presidentes e os políticos mais
recentes do Brasil abertamente enganaram os cidadãos — seja mentindo,
exagerando, ocultando, distorcendo ou se contradizendo. Haveria, com toda a
certeza, dezenas de outros casos a serem examinados nos últimos cem anos de
nossa história. Os que apresentamos aqui são os que mais nos chamaram a
atenção e os que são, segundo os especialistas consultados, inegavelmente
comprovados como distorções que impactaram o futuro do Brasil. Reunimos
casos antigos e eventos recentes. Fizemos paralelos com situações
internacionais. Tentamos — em todos os capítulos — ouvir os citados. Sempre.
Sabemos que a mentira é algo intrínseco à política, que faz parte dela há
tempos e que continuará a existir. Mesmo assim, ou justamente por isso,
acreditamos que é necessário ajudar os eleitores, alertá-los para o fato de que
devem duvidar daquilo que escutam, leem e veem, ainda mais em tempos de
hiperconectividade. A política move paixões. Este livro, também. Boa leitura.
1. FIGUEIREDO

“É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo.


Arrebento.”
OUTUBRO DE 1978
Atentado terrorista no Riocentro. 30 de abril de 1981.
A notícia chegou à fila das catracas antes do início do show:
— Um carro explodiu no estacionamento — gritou uma jovem.
Era 30 de abril de 1981, uma quinta-feira, por volta das 21h15. Dois
universitários, um deles munido de máquina fotográfica, ouviram o alerta e
saíram correndo à procura do local da explosão. Em minutos, deram de cara com
uma cena inesquecível: parado no meio da via, fora dos limites da vaga de
estacionamento pintada no chão, um Puma GTE cinza metálico, quase
totalmente destruído, com o teto estufado, exalava fumaça e cheiro de
combustível queimado. No banco do carona jazia um homem. A cabeça e o
tronco estavam cobertos de fuligem. O abdômen havia sido destroçado. Ao redor
do carro, milhares de estilhaços indicavam o tamanho do impacto. Pedaços de
metal retorcido e vidros quebrados tinham voado para longe do estacionamento
do Riocentro, o principal centro de convenções do Rio de Janeiro na época, na
Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade.
Como o número de curiosos era pequeno e ainda não havia cordões de
isolamento nem policiais fardados no local, o jovem fotógrafo respirou fundo e
levou a câmera ao rosto, num ato contínuo. Faria um clique histórico. Mas antes
que pudesse apertar o botão foi abordado por um desconhecido. O homem negro,
que aparentava cerca de 40 anos, vestia-se com elegância. Usava um blazer de
couro marrom-claro e uma camisa de gola alta. No ombro, carregava uma
metralhadora apontada para baixo. Não estava só. No mesmo instante em que o
jovem se assustou com a figura a seu lado, viu se aproximar um segundo homem
portando um estojo metálico do tamanho de uma caixa de sapato, semelhante aos
usados no passado para esterilizar seringas. Ele berrou:
— O que vocês estão fazendo aqui?
Um terceiro indivíduo, de cabelos grisalhos, mais velho que os outros dois,
interveio:
— Não vi o flash da câmera. Eles não fizeram fotos — afirmou e, voltando-se
para os estudantes, ordenou: — Agora, sumam daqui! Isso é assunto de
segurança nacional. Avisem aos seus colegas para não aparecerem por aqui.
O Brasil daquela noite era um país sob regime militar. João Baptista
Figueiredo, o quinto dos generais-presidentes, assumira o poder em março de
1979 e dava prosseguimento ao processo de distensão política, iniciado por seu
antecessor, general Ernesto Geisel, rumo à democracia. Os exilados voltavam do
exterior. Os sindicatos e as entidades estudantis retornavam às ruas.
Reivindicava-se eleição direta para presidente da República e o governo
praticamente desativara a máquina de torturar, matar e fazer desaparecer pessoas
que havia funcionado em seus porões por quase duas décadas. Contudo,
militares radicais e apoiadores do regime autoritário que passaram anos
defendendo a ditadura se sentiam traídos: para que sujar as mãos de sangue,
cometer tantas crueldades em nome da pátria e, no final, entregar o país aos
inimigos?
Naquele 30 de abril, véspera do Dia do Trabalhador, cerca de 20 mil pessoas,
em sua maioria universitários, ocupavam o Riocentro, atraídas pelos shows de
estrelas da música popular brasileira como Gal Costa, Simone, Elba Ramalho,
Fagner, mas, principalmente, pelas palavras de ordem que seriam entoadas a
cada intervalo. Era um tributo aos trabalhadores de todo o país promovido pelo
Centro Brasil Democrático, entidade ligada ao PCB, e o objetivo era arrecadar
fundos para a luta pela reconstrução da democracia. O evento tinha o comando
artístico do cantor e compositor Chico Buarque. Luiz Gonzaga, o Gonzagão,
também conhecido como Rei do Baião, seria o grande homenageado, e o público
aguardava ansioso o momento em que ele subiria ao palco. Ninguém imaginava
que o Riocentro acabaria virando cenário de um frustrado atentado a bomba que
passaria para a história do Brasil.
Por volta das 21h30, depois de terem sido escorraçados do local da explosão,
os dois estudantes mal conseguiam respirar. Pressentiram a gravidade e a
dimensão do episódio e decidiram insistir. Nervosos e movidos também pela
curiosidade juvenil, entraram nos bastidores do show com credenciais de
estagiários de um jornal de bairro. Atrás do palco, viram que placas divisórias
delimitavam um amplo salão com poltronas, reservado aos artistas que
aguardavam a vez de se apresentar. O espetáculo já havia começado. Numa
mesinha de canto, um telefone tocou. Chico Buarque atendeu e reagiu em tom de
perplexidade ao que parecia ser uma ligação inesperada:
— O quê? Capitão do Exército?
Naquele momento o cantor tomava conhecimento da morte de um militar,
vítima de uma explosão, a poucos metros de distância. Logo em seguida, os
artistas presentes na sala ficaram sabendo que, na verdade, houvera duas
explosões, sendo a segunda na casa de força do Riocentro. Diziam, entre
assustados e indignados, que se tratava de uma evidente tentativa por parte dos
militares de cortar as luzes do evento e atrapalhar a celebração. A tensão se
espalhou nas coxias. O burburinho era tanto que até os que estavam em cena
perceberam que algo estranho ocorria. E intuíram que devia ser grave.
Alceu Valença era um dos que estavam no palco na hora do telefonema. Ele
relembra que quando começou a cantar um de seus clássicos, “Coração bobo”, as
pessoas à sua frente olhavam para trás como se buscassem confirmações visuais
de algum acontecimento urgente e de impacto. Mesmo intrigado, decidiu seguir
com a música: “Bobo, bola, balão, São João. A gente se ilude dizendo: ‘Já não
há mais coração!’”
Apesar das bombas e do zum-zum-zum generalizado, cumpriu-se a
programação. A homenagem a Gonzagão foi realizada e o público só recebeu a
notícia sobre o episódio das bombas no final do show:
— Quero dizer a vocês uma coisa que é muito importante — avisou ao
microfone o cantor e compositor Gonzaguinha, filho do homenageado, em tom
nervoso. — No meio do espetáculo, explodiram, eu disse explodiram, duas
bombas.
O público ficou atônito com a confirmação de que, de fato, algo estranho
acontecera. A essa altura, com a notícia sendo divulgada também pela TV,
muitos pais já chegavam à Barra da Tijuca em busca dos filhos. O caos se
instalou no Riocentro. O homem morto no Puma GTE seria identificado depois
como sendo o sargento Guilherme Pereira do Rosário, de 35 anos. Ele não estava
sozinho durante a explosão. Outro militar o acompanhara no carro naquela noite.
Atrasada para os shows, a universitária Andréa Neves, de 22 anos, neta de
Tancredo Neves, então senador por Minas Gerais, e irmã de Aécio Neves, futuro
senador e governador do estado, chegou ao Riocentro com o namorado, Sérgio
Vale. Foi uma das primeiras pessoas a ver um sujeito ferido, caminhando em
zigue-zague no estacionamento. A cena era chocante. Tentando driblar as poças
de sangue e os restos mortais do colega misturados a pedaços de metal e vidro
espalhados pelo chão, ele tinha as vísceras expostas e buscava socorro. Como
não havia ambulância no local, a neta de Tancredo, que se destacava como
ativista estudantil, não hesitou. Segurou com toda a força as entranhas que
pendiam do lado direito da barriga do militar, colocou-o no próprio carro com a
ajuda do namorado e seguiu às pressas para o Hospital Municipal Lourenço
Jorge, o mais próximo do Riocentro.
No caminho, o ferido disse que era pai de uma menina de seis meses e que
não podia morrer. Pediu ao casal que telefonasse para o número 208-7742 e
avisasse Aloísio Reis sobre o ocorrido. Após deixá-lo no hospital, Andréa e
Sérgio ligaram e descobriram que aquele era o telefone do Destacamento de
Operações de Informações (DOI) do I Exército (hoje, Comando Militar do
Leste), unidade criada pelos militares em 1970 para dinamizar e liderar a
repressão contra a esquerda armada no Rio de Janeiro. O DOI-I ficava nos
fundos da sede do I Batalhão de Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita,
Tijuca, Zona Norte da cidade, e tinha uma fama pavorosa. Assim, apenas horas
depois Andréa descobriria, espantada, a identidade do homem que socorrera: era
o capitão de Exército Wilson Luiz Chaves Machado, 33 anos, o único
sobrevivente de uma das ações mais vexaminosas da história das Forças
Armadas brasileiras.
Tanto o sargento Guilherme Pereira do Rosário quanto o capitão Wilson
Machado serviam como agentes do DOI. Oficialmente, naquela noite,
executavam uma missão de vigilância no “show comunista”. Ou, pelo menos, foi
isso que seus superiores tentaram sustentar nas horas que sucederam a explosão.
O passar dos anos provaria o contrário.
Na manhã seguinte, Andréa ligou para o avô Tancredo Neves, respeitado
opositor do regime, e o alertou que socorrera o capitão. Os dois conversavam
1

com frequência e Andréa achou que ele precisava saber do episódio. Avesso a
manter conversas mais reservadas ao telefone, ouviu a neta, fez silêncio e, em
seguida, determinou que ela fosse até o apartamento dele, em Copacabana:
— Vem para cá. Tenho um compromisso fora. Você me espera aqui.
Reconhecido por aliados e adversários por sua extraordinária habilidade
política, Tancredo recebeu a neta tão logo se desvencilhou de duas agendas
públicas. Farejou o tamanho do problema. O gesto de solidariedade de Andréa a
colocara, sem querer, na cena de um crime, pretexto perfeito para quem quisesse
atingir Tancredo comprometendo a família Neves. Ele só viu uma saída naquele
momento: fazer barulho.
— Chama a imprensa e conta tudo — aconselhou.
E assim foi feito. Andréa relatou que, a caminho do Riocentro, vira estranhas
“pichações novinhas”, como “Liberdades Democráticas” e “Abaixo a Ditadura”.
2

Notou que levavam a assinatura de organizações de esquerda extintas, já


dizimadas pela repressão. Num primeiro momento, não entendeu. Mas, aos
poucos, aquilo começou a fazer sentido. Parecia uma “armação”, uma farsa.
Wilson Machado, o capitão ferido, era novato no DOI-I. Fora transferido para
a unidade no ano anterior, após sofrer um acidente de moto que limitara o
movimento de uma de suas mãos e acabara com seu sonho de seguir carreira
como comandante do Pelotão de Motociclistas, que fazia a escolta dos
presidentes em visitas ao Rio. O capitão Wilson chefiava o sargento Rosário e
ambos integravam a Subseção de Operações Especiais. Já Rosário era um
veterano no DOI-I. Oriundo da Brigada Paraquedista, entrara para o
destacamento em 1972, após sobressair em sua unidade de origem como
escrivão de Inquéritos Policial-Militares (IPMs) contra opositores do regime
militar. Ganhou essa chance por ser considerado exímio datilógrafo, qualidade
rara na tropa. Desde os tempos de Brigada, era também recrutado para integrar
as Equipes de Buscas e Apreensões (EBAs). Embriões do DOI, elas eram
responsáveis por invadir os “aparelhos subversivos”, esconderijos de armas e de
material de propaganda da militância de esquerda.
De acordo com um Boletim Interno, em setembro de 1970 o sargento Rosário
foi recrutado para a equipe da Brigada que estouraria um aparelho no interior
fluminense. Na estrada, o Fusca em que estava se chocou com um caminhão,
3

ferindo Rosário e o motorista. Segundo relataria o chefe daquela ação tática


tempos depois, “mesmo ensanguentado, Guilherme se preocupou com o
cumprimento da missão”. Ele se destacava, e a confiança nele era tão grande por
parte da alta hierarquia militar que nem mesmo a existência de uma condenação
a seis meses de cadeia — expedida pela 19 Vara Cível da cidade do Rio de
a

Janeiro por uma dívida não paga — foi capaz de dificultar sua ascensão no DOI.
Um dos principais atributos do sargento Rosário era a habilidade com
explosivos. A título de curiosidade, vale contar que, um ano antes do show no
Riocentro, ele chegara a se queimar na cozinha de casa enquanto fazia
experiências com botijões de gás. Era ousado. Determinado. Em 1975, receberia
a Medalha do Pacificador, honraria usada pelo Exército na época para
homenagear os agentes do regime que atuavam no setor de repressão.
De 1970 a 1974, ainda no governo do general Emílio Garrastazu Médici, o
DOI da Barão de Mesquita foi um dos principais centros de tortura do regime
militar no país. Tecnicamente responsável por ações de busca e apreensão e por
interrogatórios de suspeitos, o DOI estava vinculado ao Centro de Operações de
Defesa Interna (Codi), cuja missão era planejar e coordenar as medidas de
repressão, inclusive o controle e a execução dessas ações e a promoção da
articulação de todos os escalões envolvidos. As duas unidades são
frequentemente associadas sob a sigla DOI-Codi, embora correspondam a duas
entidades distintas. Os presos que conseguiam sobreviver aos “interrogatórios”
do destacamento relatavam, em declarações recorrentes, que os agentes
utilizavam aparelhos como pau de arara e telefone de campanha (com dois fios
longos ligados ao corpo da vítima, para aplicar choques) a fim de arrancar
informações no menor espaço de tempo possível. A lógica dos torturadores era
fazê-los entregar “ponto e aparelho”. “Ponto”, na luta armada, era o local de
encontro no qual dois militantes confirmavam que não haviam sido presos e que
tudo estava bem. Podia ser até na rua, em um cruzamento, com uma troca
silenciosa de olhares.
O prédio do DOI-I tinha dois andares. No primeiro, ficavam as celas
individuais. Quando os presos, já exauridos, não representavam mais ameaça,
eram transferidos para o segundo piso, chamado “Maracanã”, onde havia uma
cela coletiva. De acordo com dados da Comissão Nacional da Verdade, instalada
oficialmente em maio de 2012 pelo governo federal, ao menos 49 pessoas foram
mortas no DOI-I, entre as quais o jornalista Mário Alves (1970) e o ex-deputado
Rubens Paiva (1971). Centenas foram torturadas. Em 2001, em depoimento
prestado ao Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais, a então secretária
de Minas e Energia do Rio Grande do Sul, Dilma Rousseff, contou que na
juventude, quando militava na luta armada, ficara presa no DOI-I por dois anos e
dez meses, entre 1970 e 1972. Conforme relatou, no setor de isolamento da
Barão de Mesquita ninguém via ninguém. Só ouvia a dor:
— Havia um buraquinho, na porta, por onde se acendia um cigarro. 4

Em outubro de 1975, já sob o governo Geisel, no entanto, a situação começou


a mudar. Com base em uma fotografia fraudulenta e um laudo falso assinado
pelo legista Harry Shibata, as autoridades militares anunciaram como suicídio a
morte do jornalista Vladimir Herzog, diretor de Jornalismo da TV Cultura de
São Paulo, nas dependências do DOI-II, na rua Tutoia, bairro do Paraíso, na
capital paulista. Herzog nunca participara de grupos guerrilheiros. Era militante
do PCB, historicamente contrário à luta armada. Os agentes da repressão, porém,
convenceram-se de que naquele momento era preciso perseguir os doutrinadores
da guerrilha, eliminada na primeira metade dos anos 1970, pois eles poderiam
promover uma renovação da luta armada. Essa foi a justificativa dada, anos
depois, pelo coronel Paulo Malhães, um dos mais ativos torturadores do período,
com passagem pelo DOI da Barão de Mesquita e pelo Centro de Informações do
Exército (CIE). Para esse grupo, Herzog seria um desses doutrinadores.
A morte do jornalista teve ampla repercussão e irritou o Palácio do Planalto,
que já implementava a distensão política. Os setores radicais foram alertados de
que outro episódio semelhante seria considerado uma afronta à ordem expressa
de deter o extermínio. Convencido de que a luta armada de esquerda estava
praticamente aniquilada, o governo promovia uma discreta operação de
desmonte das unidades de DOIs espalhadas pelo país, mas o assassinato de
militantes continuava, ainda que em menor escala.
As missões, a partir de então, passaram a priorizar a coleta e a análise de
dados, deixando agentes “altamente operacionais”, como o sargento Rosário, de
braços cruzados. Para conduzir a desmobilização no Rio de Janeiro, o
comandante do I Exército, general Reynaldo Mello Almeida, homem de
confiança do presidente Geisel, escolheu a dedo a cúpula do DOI-I. Um dos
capitães recrutados, que pediu anonimato aos autores deste livro, disse que
assumiu a chefia de Operações da unidade com a missão clara de “fazer o DOI
parar de matar”. A estratégia era conduzir um processo gradativo de afastamento
dos militares do combate aos “movimentos subversivos” e reduzir o grau de
violência mantido contra os presos políticos. Em depoimento prestado ao projeto
História Oral do Exército (1964-31 de março), o coronel Sérgio Mauro
Pasquale, ex-chefe da 2 Seção (justamente a seção de Informações, que cuidava
a

das atividades de inteligência) do I Exército, à qual o DOI-I era subordinado,


explicou que o objetivo era tornar o DOI mais técnico:
— Companheiros haviam prestado um grande serviço e já estavam
psicologicamente abalados em função da atividade que desenvolviam. Fizemos
uma renovação por intermédio de uma seleção apurada.
No entanto, a renovação encontrou forte resistência entre os “quadros
operativos”, que viviam à paisana. Militares acostumados a não andar fardados,
a dispensar a continência e a ordem unida ao toque da alvorada, a deixar o
cabelo e a barba crescerem, a portar carteira de agente secreto e, acima de tudo, a
ter poder de vida e morte sobre os inimigos não aceitaram a volta disciplinada à
caserna. Não queriam perder o status. Sentiam-se traídos. Temiam que, com a
devolução do poder aos civis, a partir da distensão, isso começaria a ser uma
possiblidade real e eles poderiam se tornar alvos preferenciais de uma desforra.
Por isso insurgiram-se.
O gatilho para a crise seria a demissão do comandante do II Exército (SP),
general Ednardo D’Ávila Mello. O presidente Geisel buscava esvaziar a
máquina de tortura que operava na sede do DOI-II. Derivada da Operação
Bandeirante (Oban),* a unidade servira de palco para as sessões de tortura
determinadas ou comandadas pessoalmente pelo então capitão Carlos Alberto
Brilhante Ustra. O general Ednardo não conseguiu mudar o perfil do
destacamento, a fim de torná-lo tão somente um órgão de inteligência, com
turmas operacionais desagregadas do pessoal de análise.
Por isso, menos de três meses após a morte por tortura de Herzog, em janeiro
de 1976 o DOI-II produziu outro falso suicida. Também acusado de militar no
PCB, o operário Manoel Fiel Filho apareceu morto na cela, após supostamente
ter usado as próprias meias para se estrangular. O general Ednardo foi
sumariamente demitido e substituído por Dilermando Monteiro, na mais dura
resposta do governo Geisel aos bolsões radicais dos quartéis. O ódio a Geisel por
essa turma era tamanho que, quase quatro décadas depois, militares como Paulo
Malhães ainda cerravam os dentes ao falar dele:
— Geisel era um comunista disfarçado!
E ninguém o convenceria do contrário.
Com o espaço cada vez mais minguado na cadeia de comando, a linha dura
mergulhou na clandestinidade. Antes das bombas no Riocentro, num prazo de
dezesseis meses, entre 1980 e 1981, houve registro de quarenta atentados contra
alvos que faziam oposição aos militares. No mais grave, uma carta-bomba
endereçada ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Miguel
Seabra Fagundes, acabou matando a secretária da entidade, Lyda Monteiro da
Silva, em 27 de agosto de 1980. No mesmo dia, outra bomba, enviada ao
vereador Antônio Carlos de Carvalho, do PMDB, mutilaria José Ribamar de
Freitas, tio e assessor do político. Ele perdeu o braço esquerdo e ficou cego de
um olho.
No Rio de Janeiro, os oficiais do DOI-I comprometidos com o processo de
abertura iniciado por Geisel incomodavam-se com a presença frequente de um
determinado coronel, que já não pertencia aos quadros do destacamento e era
visto como um radical contrário à abertura política. Tratava-se de Freddie
Perdigão Pereira, oficial que havia servido no DOI e fora transferido para a
agência carioca do Serviço Nacional de Informações (SNI). Mesmo na reserva,
continuava respeitado pelos sargentos veteranos, que lhe devotavam lealdade e
admiração incondicionais. Na repressão, os militares usavam codinomes. O
capitão Wilson, ferido na explosão do Riocentro, era o Doutor Marcos. O
sargento Rosário, morto naquela noite, era o Agente Wagner. Ex-presos políticos
relatam que Perdigão possuía dois codinomes: na “Casa da Morte”, cárcere
clandestino em Petrópolis (RJ) onde presos políticos eram torturados e mortos
pelo Exército, ele era o Doutor Roberto; no DOI da Barão de Mesquita, o
Doutor Nagib.
Muito foi dito na imprensa sobre a fúria de Perdigão, oficial com passagem
por três centros de tortura (DOI-I, DOI-II e Casa da Morte), mas o depoimento
dado à OAB em setembro de 1979 por Inês Etienne Romeu, ex-dirigente da
organização da esquerda armada VPR e, ao que se saiba, única prisioneira a sair
com vida da casa de Petrópolis, resume a biografia do coronel:
— Doutor Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me pelo chão,
segurando-me pelos cabelos. Depois, tentou me estrangular e só me largou
quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e deram pancadas na cabeça.
Colocaram-me completamente nua, de madrugada, no cimento molhado, quando
a temperatura estava baixíssima [em Petrópolis]. 5

O depoimento foi mantido sob sigilo até fevereiro de 1981, quando Inês fez a
denúncia pública da existência da Casa da Morte. Foi ela também que
identificou o Doutor Roberto como sendo Freddie Perdigão Pereira. No entanto,
em 1981, ano das bombas no Riocentro, Perdigão estava fora das missões
operacionais. Trabalhava como celetista no SNI. Do período do DOI lhe
restavam apenas a perna manca — consequência de uma bala que atingiu a veia
femoral e quase o matou, em tiroteio travado em 1970 com um guerrilheiro — e
a frustração por não ter se vingado do autor desse disparo. Ele montara alguns
negócios para se manter ativo: uma agência de carros, uma importadora e um
supermercado. Também prestava serviços esporádicos à cúpula dos bicheiros.
Ainda assim, o que mais o empolgava era conspirar contra o processo de
abertura, e essa era a principal razão para a sua assídua presença nas
proximidades do DOI. Ele precisava dos antigos subordinados, sobretudo dos
sargentos, para executar ações clandestinas.
O coronel Perdigão tinha o costume de se reunir com os ex-comandados no
bar Garota da Tijuca, na Praça Varnhagen, a poucos metros do DOI-I. Muito
provavelmente foi lá que os convenceu a transformar o show do Riocentro em
alvo de ação terrorista. Correm na imprensa versões diversas sobre os objetivos
dos militares naquela noite. Algumas apontam que a intenção era causar pânico
com a explosão sequencial de bombas, inclusive dentro do Pavilhão de
Exposições; outras indicam a tentativa de simplesmente interromper o show e
prejudicar a bilheteria, já que o dinheiro arrecadado impulsionaria a campanha
pelo restabelecimento da democracia.
O show de 30 de abril de 1981 era a terceira edição de um evento que se
iniciara em 1979. A princípio, segundo um oficial de alto escalão que preferiu
não se identificar, os militares haviam programado o ataque para 1980, na
segunda edição do espetáculo. Chegaram até a apresentar um croqui ao
comando, com o passo a passo da ação. Alegavam que a intenção era apenas
“sacanear” os organizadores da festa, porém o plano foi rechaçado por oficiais
do DOI-I, já adeptos da abertura política. Em 1981, no entanto, não encontraram
a mesma resistência. Liberados para atuar, usaram um sítio em Jacarepaguá,
também na Zona Oeste do Rio, para ensaiar a ação uma semana antes da
homenagem a Gonzagão.
Demitido um mês antes do show, o ex-diretor administrativo e financeiro do
Riocentro, o coronel paraquedista Dickson Grael, conhecia por dentro o aparelho
repressivo. Destacara-se na segunda metade dos anos 1960 como um oficial da
linha dura, mas, duas décadas depois, entendia que os militares já deveriam estar
de volta aos quartéis. Era um legalista, razão pela qual se empenhou em
esclarecer o caso. Pai dos futuros velejadores olímpicos Lars e Torben Grael,
Dickson convenceu-se de que o atentado fora premeditado. Em investigação
paralela à do Exército, descobriu que, dos trinta portões do Pavilhão Central, 28
estavam trancados naquela noite.
Em suas investigações, Grael concluiu que foram constituídas quatro turmas
do DOI-I para a execução do atentado, cada uma com três homens e quatro
carros. O sargento Rosário ficara encarregado de espoletar a carga. Para fazer as
6

bombas, o coronel Perdigão recrutou o marceneiro Hilário José Corrales, um dos


poucos civis a integrar o grupo responsável pelos ataques à esquerda no Rio de
Janeiro a partir dos anos 1960. Outro detalhe atípico reforçava os indícios de
7

que os militares estavam por trás daquelas bombas e não militantes de esquerda,
como muitos suspeitavam: sob a alegação de que se tratava de evento privado, o
comando da Polícia Militar suspendera o policiamento no Riocentro.
Nas fileiras do Exército, “sapador” é o nome dado ao especialista em
explosivos. Entre suas tarefas mais comuns estão a instalação e a desinstalação
de minas, bem como as demolições em campo de batalha. Todas são tarefas de
alto risco. Por esse motivo, diz-se nos quartéis que o sapador só erra uma vez. E
o sargento Rosário errou. A bomba que carregava no Puma deveria ser acionada
por um dispositivo de tempo que dispararia uma centelha elétrica contra o
explosivo. De acordo com o relatório da perícia, tratava-se de uma bomba de
dimensões não definidas, com mecanismo de relojoaria conectado a uma lata de
óleo Havoline de 2,5 litros, cheia de trinitrotolueno (TNT), envolvida em jornal
e plástico. Ela estava guardada dentro de uma bolsa de couro marrom
avermelhado, contudo não se sabe ao certo o que levou à sua detonação. A linha
de investigação mais comum sugere que o relógio com correia de metal que o
sargento Rosário levava ao pulso fechou a corrente elétrica, fazendo com que a
centelha fosse prematuramente disparada quando a bomba ainda estava em seu
colo.
Em 1981, o presidente Figueiredo acumulava um longo currículo na
comunidade de informações militares. Havia dirigido a Agência Rio do SNI
entre 1964 e 1966 e chefiado o órgão de 1974 a 1978. Chegara a ter 2 mil
agentes a seu serviço, grampeando amigos e inimigos. Sabia de tudo o que se
8

passava no setor de informações e se apresentara como “João do Povo” à


campanha para suceder Ernesto Geisel — as eleições presidenciais ainda eram
feitas em um Colégio Eleitoral, sem a participação do povo. A ideia de dar a
Figueiredo essa alcunha foi concebida pelo assessor Saïd Farhat — que viria a se
tornar ministro da Comunicação Social da Presidência da República —, para
suavizar a imagem de militar rude da Cavalaria.
Na manhã seguinte à explosão, 1 de maio de 1981, o presidente Figueiredo
o

recebeu a notícia sobre as bombas por meio de Heitor Aquino Ferreira,


secretário particular da Presidência. Inicialmente achou graça do telefonema
matutino:
— Até que enfim os comunistas fizeram uma bobagem — teria dito
Figueiredo.
Instantes depois, veio a decepção:
— Presidente, há indícios de que foi gente do nosso lado — alertou-o Aquino. 9

A bomba explodira no coração do governo. E dava ao general Figueiredo uma


chance real de executar o que havia prometido publicamente poucos anos antes.
Numa entrevista concedida em 15 de outubro de 1978, logo depois de ser eleito
para substituir Geisel, fora perguntado sobre o processo de abertura política e
afirmara o seguinte:
— É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo. Arrebento. 10

Três anos depois, contudo, era um homem acuado. Logo descobriu de onde as
bombas haviam partido. Conhecia o sistema como poucos. Tinha comandado
conspiradores e agira duramente por meio de gestos e palavras. Apesar de tudo
isso, não teve a mesma determinação de seu antecessor no momento de punir
seus pares. Se em 1976 Geisel demitiu o general Ednardo D’Ávila Mello por
conta da morte de Herzog e Fiel Filho no DOI-II, “João do Povo”, em 1981,
revelou-se fiel aos companheiros que chefiara na comunidade de informações e
os protegeu. É bem verdade que as situações não eram exatamente iguais, mas o
fato é que Figueiredo contradisse a promessa feita em sua entrevista inaugural
como presidente do Brasil.
O primeiro movimento de Figueiredo com relação ao episódio do Riocentro
foi despachar o ministro do Exército, Walter Pires, de Brasília para o Rio de
Janeiro, levando uma mensagem reservada cujo teor até hoje é desconhecido. 11

Naquele instante, começava a trama que culminaria numa das mais deslavadas
mentiras a receber o carimbo oficial de um presidente brasileiro. Enquanto
artistas, organizadores e público ainda se recuperavam do susto no Riocentro
(“Se é verdade o que está acontecendo, é uma covardia sem nome”, lamentava
Chico Buarque, em entrevista a emissoras de TV), os militares punham-se a
limpar a cena e a aniquilar qualquer prova que pudesse comprometê-los.
O tenente Divany Carvalho Barros, o Doutor Áureo do DOI-I, foi ao local do
acidente e surrupiou do Puma a agenda de telefones do sargento Rosário, uma
granada e um revólver. Outros agentes do destacamento da Tijuca rebocaram o
veículo pessoal do sargento, estacionado em um posto de gasolina em
Jacarepaguá. Enquanto isso, no Hospital Miguel Couto, para onde fora levado
depois de passar pelo Hospital Lourenço Jorge, o capitão Wilson era cercado de
agentes e proibido de abrir a boca. A principal providência era “melar” a
investigação, afastando-a de qualquer conexão com o DOI da Barão de Mesquita
e do Exército, os verdadeiros autores do atentado. Para isso, precisavam colocar
alguém de extrema confiança na condução do IPM que seria aberto sobre o caso.
Apostaram no coronel Luiz Antônio do Prado Ribeiro, mas rapidamente se
frustraram. Desde o início, o primeiro encarregado do IPM mostrou-se disposto
a perseguir a verdade. Não aceitou concluir a investigação atestando “autoria
desconhecida”, como desejavam os companheiros da caserna envolvidos nos
órgãos de inteligência. Prado Ribeiro continuou a desagradar quando pediu
relatórios periciais e convocou agentes do DOI para depor. Em seguida,
disfarçado de médico, fez uma visita surpresa ao capitão Wilson no hospital. Foi
a gota d’água. Dali em diante, começou a ser perseguido por um coronel da 2 a

Seção do I Exército até ser convencido a requerer o próprio afastamento do IPM


por “motivo de saúde”. Pouco depois, pediu passagem para a reserva e nunca
mais mencionaria o caso.
Ao contrário de Prado Ribeiro, o porta-voz do I Exército, coronel Job Lorena
de Sant’anna, atendeu às expectativas de seus superiores desde os primeiros
momentos. Trabalhou “direitinho”, como se ouvia nos corredores dos quartéis.
Sempre divulgou notas oficiais nas quais os dois ocupantes do Puma apareciam
como vítimas. No “plano B” dos militares, não havia ninguém mais adequado
para assumir o IPM do Riocentro. Ele topou, animado. Sonhava ser general, e
aquele seria o caminho mais curto para atingir seu objetivo. Com apenas dois
meses de trabalho, a missão do novo encarregado estava concluída. Desprezando
todas as evidências, atropelando a lógica e ignorando a indignação da imprensa e
da sociedade, Job Sant’anna concluiu sem pudor algum o relatório sobre o caso:
“À vista das conclusões das diligências realizadas ao longo deste Inquérito
Policial-Militar, detalhadamente relatadas no item 3, não há como inculpar os
militares ocupantes do carro sinistrado.” 12

Em seu texto, depois de afirmar que o capitão Wilson e o sargento Rosário


cumpriam um serviço de mera coleta de dados no Riocentro, o coronel Job
Sant’anna insinuou que, por trás do espetáculo, havia “significativa
movimentação de elementos radicais de esquerda” e que, possivelmente, os
agentes do DOI haviam sido reconhecidos. Para calibrar o discurso, valeu-se das
pichações atribuídas à VPR próximas ao Riocentro, as mesmas que haviam
intrigado Andréa Neves. Montado o cenário, Job Sant’anna não se sentiu
constrangido ao afirmar que era “cabível e justificável situar-se a suspeição de
autoria do atentado no âmbito de grupos identificados como VPR, MR-8,
Comando Delta, os dois primeiros radicais de esquerda e o terceiro agrupando
radicais de direita”.
Para o encarregado, tais radicais, aproveitando-se de um momento de
distração das vítimas — quando um deles urinava fora do carro —, conseguiram
colocar “ardilosamente o engenho explosivo” entre a porta direita e o banco do
carona. Na prática, Job Sant’anna tirava a bomba do colo do sargento morto e a
colocava nas mãos de personagens imaginários, todos supostamente de esquerda.
Na coletiva de imprensa em que apresentou esses resultados, Job Sant’anna
proibiu os jornalistas de falar, fumar, perguntar, gravar e filmar. Ao ouvir as
exigências, um correspondente inglês da agência Reuters virou-se para o lado e
perguntou:
— Então, o que viemos fazer aqui?
Uma colega brasileira que trabalhava em um jornal paulista, perplexa com a
farsa, desobedeceu às ordens e questionou Job Sant’anna no meio da
apresentação. No final, teve seu nome anotado e nunca mais recebeu credenciais
para cobrir eventos com a presença do presidente Figueiredo. O trabalho de
todos os envolvidos nessa apuração foi grande, já o de Job Sant’anna foi
recompensado: o segundo encarregado do IPM do Riocentro foi promovido a
general de Brigada no governo Figueiredo. Como comandante-geral das Forças
Armadas e de todo o país, o presidente certamente acompanhou de perto a
conclusão da apuração fictícia comandada por Job Sant’anna. No cargo, nunca a
criticou nem a colocou em dúvida. Falou publicamente contra os “facínoras” (no
caso, os comunistas, nome genérico dado a todos os opositores do regime) e
pediu que eles deixassem de matar inocentes. Mas nenhuma crítica foi feita à
conclusão do IPM.
Ao varrer os estilhaços da bomba para debaixo do tapete, o governo
Figueiredo virou refém da própria mentira. Ganhou Job Sant’anna, que se tornou
general, porém perdeu o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil
da Presidência e principal articulador do governo com o mundo político.
Chamado de “Feiticeiro” pelo jornalista Elio Gaspari, por conta de sua
habilidade para atuar nos bastidores do poder, Golbery demitiu-se três meses
após a explosão, inconformado com o desfecho da história. Isolado, o presidente
Figueiredo não teve forças para conduzir o processo sucessório nem para frear a
multidão que, em 1984, vestiu camisas amarelas e cobrou nas ruas o
restabelecimento das eleições diretas. Frustrado, deixou a Presidência da
República sem passar a faixa a seu sucessor, o civil José Sarney, em 15 de março
de 1985. Em entrevista famosa, concedida ao jornalista Alexandre Garcia para a
TV Manchete, em 24 de janeiro daquele ano, o general disse que queria ser
esquecido. A mentira do Riocentro pesava em seu currículo.
Foi necessário que se passassem dezoito anos para o país ver o Exército,
provocado pela Justiça Militar, reabrir o caso em 1999. Uma série de reportagens
publicadas pelo jornal O Globo naquele ano, com depoimentos de personagens
que participaram do episódio em 1981, contribuiu para a abertura desse novo
IPM, agora conduzido pelo general Sergio Ernesto Alves Conforto. A conclusão
do general Conforto derrubou a versão fraudulenta mantida pelo governo
Figueiredo, apontando como culpados os agentes do DOI-I. Além do sargento
Rosário e do capitão Wilson, foram responsabilizados pelas bombas o coronel
Perdigão (acusado de liderar aquele grupo), o marceneiro Hilário Corrales (autor
da bomba) e o general reformado Newton de Araújo de Oliveira e Cruz, chefe da
Agência Central (Brasília) do SNI em 1981. Cruz, conhecido como “Nini”, foi
imputado por falso testemunho. Em depoimento, não contou que, duas horas
antes da explosão que assustaria o país, seus subordinados o informaram sobre a
ação que ocorreria no Riocentro. Nada fez para impedi-la.
A mudança histórica de posição do Exército a respeito do episódio não foi
suficiente, no entanto, para dobrar a Justiça. A denúncia apresentada pelo
Ministério Público Militar, com base no IPM do general Conforto, foi arquivada
pelo Superior Tribunal Militar (STM) ainda em 1999. O órgão entendeu que o
crime no Riocentro estava coberto pela Lei da Anistia, promulgada em 1979, e,
portanto, permanecia solucionado. A decisão foi polêmica, já que a anistia
perdoara crimes praticados entre 1961 e 1979, ou seja, somente até dois anos
antes da explosão. Mas ela não foi revista.
Em 2014, na esteira das investigações da Comissão Nacional da Verdade
sobre os crimes ocorridos durante o regime militar, a força-tarefa intitulada
Justiça de Transição, do Ministério Público Federal, reabriu pela terceira vez o
caso e apresentou uma nova denúncia. Dessa vez, incriminou seis pessoas, entre
militares e civis, depois que o inquérito ampliou o grupo de conspiradores. O
coronel reformado Wilson Luiz Chaves Machado, o ex-delegado Cláudio
Antônio Guerra e os generais reformados Nilton de Albuquerque Cerqueira e
Newton Cruz foram denunciados por homicídio doloso tentado (duplamente
qualificado por motivo torpe e uso de explosivo), por associação criminosa e por
transporte de explosivo. O general “Nini” foi denunciado ainda pelo crime de
favorecimento pessoal. O general reformado Edson Sá Rocha, Doutor Silvio no
DOI, foi denunciado por associação criminosa armada, e o major reformado
Divany Carvalho Barros, o Doutor Áureo, por fraude processual.
As penas de Wilson Machado, Cláudio Guerra e Nilton Cerqueira poderiam
alcançar 66 anos e seis meses de reclusão, e a de Newton Cruz, 67 anos. A 6
a

Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro chegou a acolher a denúncia e a


determinar a abertura do processo, num gesto inédito até então. Contudo, o
Tribunal Regional Federal da 2 Região, órgão de segunda instância, acolheu um
a

pedido da defesa de Wilson Machado e trancou a ação, entendendo que o caso


estava prescrito. O Ministério Público Federal recorreu e, até abril de 2018,
aguardava decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Ainda na série de reportagens publicada em 1999 pelo jornal O Globo, um dos
depoimentos mais importantes foi dado pelo médico legista Elias de Freitas, que
assinou a necrópsia realizada no corpo do sargento Rosário. Ao contrário do que
fez na época, quando se omitiu diante das evidências, ele declarou:
— O sargento estava brincando com coisa errada. Se a bomba estivesse no
lugar indicado pelo coronel [Job Sant’anna, responsável pelo primeiro IPM], as
lesões seriam diferentes. O IPM foi uma embromação. 13

A série jornalística levou o Prêmio Esso de Reportagem daquele ano, a mais


alta condecoração do jornalismo na época, e me devolveu a sensação de dever
cumprido. Eu, Chico Otavio, era um dos jovens estudantes de Jornalismo que
haviam sido escorraçados da cena do atentado no Riocentro em 1981. Passei
anos intrigado com aquela história, certo de que deveria me esforçar para contá-
la em detalhes. Quando o legista chamou o primeiro IPM de “embromação”, tive
a certeza de que o caso do Riocentro, daquele Puma estraçalhado que vi a
poucos metros de distância, era uma das maiores mentiras oficiais já registradas
neste Brasil. Um caso que precisaria, inegavelmente, constar deste livro.

* Centro de informações e investigações criado pelo II Exército, a Oban reunia forças militares e policiais
cuja função era “identificar, localizar e capturar os elementos integrantes de grupos subversivos que atuam
na área do II Exército, particularmente em São Paulo, com a finalidade de destruir ou pelo menos
neutralizar as organizações a que pertençam”. A entidade foi, desde o início, financiada por alguns
empresários paulistas.
2. TANCREDO

“Estou melhor do que há cinco anos.”


SETEMBRO DE 1984
Tancredo no Hospital de Base de Brasília. 25 de março de 1985.
O jornalista Antônio Britto viveu os noventa segundos mais longos de sua vida
profissional na noite de 21 de abril de 1985, quando desabotoou o paletó do
terno cinza e ajustou a gravata na sala de imprensa do Instituto do Coração, em
São Paulo, para anunciar o que todos os jornalistas já pressentiam. Com
expressão abatida, cruzou a sala carregando duas folhas de papel, mas não
precisou olhá-las nem uma vez para dizer em frente às câmeras de TV o
seguinte:
— Lamento informar que o Excelentíssimo senhor presidente da República,
Tancredo de Almeida Neves, faleceu esta noite no Instituto do Coração, às
22h23.
O relógio marcava 22h30. Naquele momento, o então assessor de Imprensa do
presidente eleito colocava um ponto final na agonia que havia paralisado o país
por 39 dias de hospitalização — 21 dos quais marcados por diagnósticos
médicos distorcidos, falsos boletins, laudos clínicos ignorados, frases de
otimismo injustificado e uma foto fraudulenta que entraria para a história
contemporânea do país como um símbolo de manipulação da notícia.
A agonia se transformou em tristeza e fez emergir um ponto de interrogação
no cenário político nacional. Tancredo representava para a nação a esperança da
volta à democracia. Tinha sido escolhido presidente da República, em disputa
travada com Paulo Maluf (PDS) no Colégio Eleitoral, e encarnava a oposição ao
regime instaurado no país em 1964. Seria o primeiro presidente civil a entrar no
Palácio do Planalto após 21 anos de ditadura militar. Sua eleição acontecera em
15 de janeiro de 1985, e a posse ocorreria em 15 de março. A notícia de sua
morte, sem sequer tomar posse, foi um revés.
Descobrir-se doente provoca nos políticos em geral um duplo sofrimento: a
dor decorrente das limitações impostas pela doença e o padecimento moral, pelo
afastamento compulsório da vida pública. A necessidade de irradiar saúde,
mesmo que apenas para os fotógrafos, não obedece a ideologias. Não respeita
protocolos médicos e atropela a verdade em nome de projetos de poder. De
referências democráticas, como Tancredo Neves, a ditadores, como os generais
Artur da Costa e Silva e o espanhol Francisco Franco, governantes mentem
quando estão doentes pelo medo de serem postos de lado. Acreditam que a
transparência faz a fila andar, jogando-os no mar do esquecimento. Gostariam de
se considerar inquebrantáveis e insubstituíveis. Por isso camuflam suas mazelas
clínicas sem hesitar e persistem até o limite das forças, contando com a
colaboração de familiares, assessores e médicos.
No início de 1985, o jovem Aécio Neves, neto do presidente eleito, era a
própria imagem da também jovem democracia que contagiava o país. Parecia
disposto a servir de braço direito ao avô, acompanhando-o ao Palácio do
Planalto e aonde quer que fosse. Pretendia seguir seus passos na política e virar
seu herdeiro. Não esperava que uma doença do avô interrompesse parte desses
planos. No dia 12 de março de 1985, a família Neves se reuniu na Granja do
Riacho Fundo, residência provisória do presidente eleito, para fazer um lanche.
Estavam em concentração. Dali a três dias, o ex-senador por Minas Gerais e ex-
governador do estado Tancredo Neves receberia a faixa de presidente da
República. Naquela noite, no entanto, o mineiro de 74 anos, nascido em São
João Del Rey, sentiu-se mal diante do neto. Teve febre, dores de garganta e no
abdômen. Parecia debilitado — e não era a primeira vez.
Seis meses antes, em setembro de 1984, quando Tancredo ainda estava em
campanha para disputar as eleições indiretas em janeiro do ano seguinte, o SNI
percebeu que havia algo errado em seu comportamento e produziu um relatório. 1

No documento, os agentes especializados em monitorar personalidades políticas


alertavam para uma visível fragilidade do ex-governador: Tancredo tinha
passado a se amparar nas pessoas mais próximas ao caminhar e também a
solicitar ajuda para subir escadas. Parecia cansado. E estava. No final de 1984,
ele já havia procurado o ambulatório da Câmara dos Deputados e recebido um
primeiro diagnóstico de infecção. Tratava-se com desleixo, tomando remédios
paliativos para dor. No dia 31 de dezembro, sentira uma dor abdominal aguda e,
num momento de desespero, chegou a dizer à mulher, Risoleta Neves, que
poderia estar com câncer na barriga, doença que já havia acometido outros
familiares. Angustiada, ela pediu ao marido que procurasse tratamento. Tancredo
se negou:
— Não posso nem colocar os pés num consultório. Preciso antes tomar posse
e viabilizar a institucionalização política do país. 2

Naquele momento, o mineiro de baixa estatura, ralos cabelos grisalhos e rosto


arredondado tinha certeza de que os militares não criariam obstáculos para lhe
passar a faixa presidencial. As costuras políticas haviam sido feitas. Mas não
estava certo de que isso aconteceria se, em seu lugar, assumisse seu vice de
chapa, o ex-senador pelo Maranhão e ex-governador do estado José Sarney
(Frente Liberal), tido como um dos grandes desafetos do então presidente do
país, o general João Baptista Figueiredo. Assim, sentindo-se essencial à
retomada da democracia no país, Tancredo deixara a saúde em segundo plano e
começara a montar aquele que poderia vir a ser seu ministério.
Com a aquiescência do médico Francisco Diomedes Garcia de Lima, amigo
dos tempos de São João Del Rey, passara a tomar antibióticos toda vez que
sentia uma pontada na barriga. A cada nova receita de Keflex, refazia a promessa
de realizar uma bateria de exames, mas nunca a cumpria. Já tinha tido um infarto
e padecia de insuficiência cardíaca. Por isso tomava um vasodilatador
coronariano e respirava com dificuldade. Recorria, de fato, à ajuda de outros
3

para subir escadas e realizar caminhadas. O deputado federal Ulysses Guimarães


(PMDB), uma das pessoas mais próximas a ele na vida pública, também notara o
problema.
— Tancredo está muito cansado. Seu discurso mostra isso — comentou certa
noite, durante um jantar. 4

No entanto, aos que lhe perguntavam sobre sua saúde, Tancredo respondia
sempre com a mesma frase enxuta:
— Estou bem.
Para eliminar qualquer dúvida, em 23 de setembro de 1984 o político mineiro
concordou em dar uma entrevista ao então repórter do jornal Folha de S.Paulo
Boris Casoy. Na conversa, contou que estivera com seu médico de toda a vida, o
doutor Renault Mattos Ribeiro, e que ele havia sido muito claro em sua
avaliação:
— [Ele] disse que estou melhor do que há cinco anos.
Não era verdade. Na noite de 12 de março de 1985, talvez pelo medo, talvez
pela intensidade da dor, o presidente eleito respirou fundo e concordou com os
familiares: era hora de chamar o doutor Mattos Ribeiro na Granja do Riacho
Fundo. Assim, às 23 horas, permitiu que Aécio telefonasse ao médico,
5

solicitando sua ida ao sítio. Mas o jovem assessor teve de recuar antes mesmo de
concluir a descrição do quadro clínico pelo telefone, sob as ordens expressas do
avô:
— Não. O senhor não precisa vir. O presidente diz que podemos deixar para
amanhã cedo. 6

No dia seguinte, quando Mattos Ribeiro entrou na granja, encontrou um


Tancredo ansioso. Auscultou seu coração e tomou a pressão. Os resultados
estavam normais. Pediu que ele se deitasse para uma avaliação clínica mais
detalhada e, ao apalpar sua barriga, percebeu que o futuro governante acusava
dor. De imediato, apresentou três diagnósticos possíveis: peritonite, diverticulite
ou apendicite. Só uma dessas três infecções seria capaz de justificar tamanha dor
na região abdominal.
Contudo, faltavam cerca de 72 horas para Tancredo assumir o cargo de
presidente e dar início a uma nova etapa da história do Brasil. Menos de três dias
para que garantisse a concretização dos sonhos expressos no movimento das
Diretas Já, que levara brasileiros às ruas de todo o país pedindo o fim da ditadura
e a volta das eleições diretas.* Por isso, Tancredo achava que não poderia se
submeter a procedimento algum. Ainda assim, entendeu que a situação era grave
e firmou um compromisso a contragosto: logo depois da cerimônia de posse, se
necessário, iria direto para o centro cirúrgico. Ele não esperava, no entanto, que
7

a dor aumentasse e se somasse a tremores constantes e ao arroxeamento das


pontas dos dedos. Também não imaginava que Mattos Ribeiro se tornasse
8

inflexível quanto à gravidade do problema. Tancredo já corria risco de vida.


Instalou-se, então, um consenso entre o médico, o paciente e a família Neves.
As reais condições de saúde do presidente eleito não seriam reveladas à
imprensa. Assim, Mattos Ribeiro contou aos jornalistas que Tancredo estava
doente, mas que tudo não passava de “uma faringite”, um incômodo na garganta,
algo que não representava qualquer risco à transição política. Mentia, pois em
sigilo já havia tomado todas as providências para que Tancredo realizasse os pré-
operatórios. A ação envolvendo essa bateria de testes foi espetacular. Na tarde de
13 de março de 1985, todas as consultas marcadas no Centro Radiológico de
Brasília foram subitamente canceladas, sem muitas explicações. O espaço ficou
9

às moscas para que Tancredo pudesse ser atendido por volta das 19 horas. Até a
equipe médica foi pega de surpresa, descobrindo que o paciente era o presidente
eleito apenas quando ele atravessou as portas da clínica.
Acostumados com a cobertura da imprensa e certos de que os jornalistas de
política alimentariam suspeitas de que Tancredo não estava bem, disseminando
insegurança em todos os setores da sociedade, os membros da família Neves
combinaram uma estratégia. Aécio e seu tio Tancredo Augusto, filho do
presidente, convocaram uma coletiva na Fundação Getulio Vargas — bem longe
do local em que os exames eram realizados — para entreter os principais
repórteres do país. Falaram sobre amenidades em torno da posse e do futuro
governo. Enquanto isso, os profissionais do Centro de Radiologia confirmavam
uma infecção considerável no intestino de Tancredo, uma massa em forma de
ampola que demandava intervenção cirúrgica imediata.
Publicamente, Mattos Ribeiro transparecia ânimo e confiança na pronta
recuperação de seu paciente. Repetia que Tancredo padecia de uma faringite que
mostrava sinais de regressão. Dizia frases como: “A nova República começa
bem de saúde”, garantindo que ninguém precisaria se preocupar. Na noite de 14
10

de março, no entanto, depois de assistir a uma missa, o presidente eleito sentiu-


se mal na Granja e chegou a ficar roxo. Foi transferido às pressas para o Hospital
de Base de Brasília, a maior unidade de saúde pública da região, apresentando
falta de ar e agravamento de todos os sintomas detectados.
Foi a vez de o cirurgião-chefe Francisco Pinheiro Rocha, que ganharia
protagonismo nos dias seguintes, constatar que os exames de sangue do
presidente eleito confirmavam a necessidade de cirurgia. O discurso da faringite
vinha abaixo. A intervenção começou à 1h10min e terminou às 2h45 da
madrugada de 15 de março, dia em que Tancredo deveria estar subindo a rampa
do Palácio do Planalto. Nas primeiras horas daquela manhã, quando o
11

patologista Helcio Luiz Miziara chegou ao Hospital de Base para trabalhar, foi
convocado para analisar uma lâmina especial com amostras do material retirado
do abdômen de Tancredo. Até ali, toda a equipe médica e a família do paciente
repetiam de forma insistente — e com certo alívio — a conclusão que os
médicos haviam trazido do centro cirúrgico: Tancredo tivera um divertículo de
Meckel (protuberância de poucos centímetros no intestino delgado) e ele fora
extraído de seu abdômen.
Analisando a massa arredondada, com cerca de 6,5 centímetros e já com
esgarçamento de tecido, Miziara chegou a outra conclusão: Tancredo tinha, na
verdade, um tumor. Talvez maligno, talvez benigno. Ainda era cedo para saber.
12

Mas nenhum divertículo de Meckel. Por conta disso, sugeriu que a informação
dada ao país fosse corrigida. No terraço da Unidade de Tratamento Intensivo do
Hospital de Base, os médicos de Tancredo se reuniram com Risoleta Neves.
Pinheiro Rocha, o cirurgião-chefe, tomou a palavra e lhe disse claramente que a
massa retirada da barriga de seu marido era um tumor. Mas a futura primeira-
dama, nascida no interior de Minas Gerais e mãe de três filhos, ágil nas
articulações da política, resistiu. Pediu aos médicos que não mencionassem “que
o presidente tinha câncer”. Dava, assim, sua contribuição para o pacto de
13

silêncio que confundiu a nação.


Médicos acostumados a tratar com figuras públicas explicam que há dois tipos
de pacientes: os que querem saber tudo sobre a doença e partem imediatamente
para opções de tratamento, sem esconder o quadro nem mesmo da imprensa, e os
que preferem não tomar conhecimento dos detalhes. Estes costumam evitar que a
verdade venha à tona. Quando o paciente não está consciente, caso de Tancredo
naquele pós-operatório, os médicos ouvem o desejo dos familiares e tendem a
respeitá-lo. A equipe que atendia o presidente eleito seguiu essa tradição sem
refletir muito sobre isso, cedendo espaço a uma versão truncada dos fatos.
No livro O paciente: o caso Tancredo Neves, o pesquisador espanhol Luis Mir
revela detalhes das sete cirurgias às quais Tancredo seria submetido até a morte e
afirma — de maneira contundente — que a equipe médica foi conivente com a
ocultação de seu real estado de saúde. “A divulgação de que o mal que acometia
o presidente era um divertículo de Meckel foi uma farsa médica e política, que
acabaria numa tola dissimulação posta em marcha logo depois de acabada a
primeira cirurgia”, escreveria Mir. E Aécio Neves, futuro governador de Minas
14

Gerais e futuro senador da República, também contribuiria para a farsa. No dia


seguinte à primeira cirurgia do avô, reuniu mais uma vez a imprensa e decretou,
animado:
— O presidente passa bem. A cirurgia foi um êxito. E o Brasil pode suspirar
aliviado. O presidente Tancredo Neves deve tomar posse amanhã na Presidência
do Brasil. 15

Quatro frases, quatro mentiras. Ao contrário do que dizia, não havia razão
alguma para “suspirar aliviado” ou estar confiante com relação à posse. O
quadro clínico piorava a cada hora. Em sua obra, Luis Mir conta ainda que, ao
derrubar o diagnóstico inicial de divertículo de Meckel, o patologista Miziara
levara aos colegas outra preocupação. As incisões para extrair um divertículo em
geral são muito diferentes das usadas para extrair um tumor. Havia, portanto, a
possibilidade de Tancredo ter sido vítima de erro médico e estar correndo risco
de vida diante de uma possível hemorragia. Mas o cirurgião Pinheiro Rocha
reagiu com dureza, defendendo a técnica empregada. Em suas palavras, “o que
tinha de ser feito fora feito”, independentemente do diagnóstico relativo ao
achado intraoperatório. Miziara enervou-se.
O dia 16 de março de 1985 marcou o início da leitura de uma série de boletins
médicos sobre a saúde de Tancredo. O país parava diante da TV mais de duas
vezes por dia para assistir às breves atualizações clínicas feitas pelo jornalista
Antônio Britto. Nas notas publicadas naquele sábado, os médicos ressaltaram
que o presidente apresentava “sensíveis melhoras” e que passava bem.
Aventaram até a possibilidade de ele começar a despachar na cama do hospital
— o vice, José Sarney, assumira a Presidência de forma interina no dia anterior,
gerando certa instabilidade em Brasília. Com informações variadas e
excessivamente minuciosas, como o total de batimentos cardíacos e a
temperatura do paciente, os boletins revelavam que Tancredo já andava pelo
quarto, fazia a barba e mostrava ótima disposição.
— Ele está bem. Mas bem mesmo — afirmou Pinheiro Rocha. 16

A verdade, no entanto, era que, no pós-operatório, Tancredo apresentara


hemorragia gástrica — justamente a prevista por Miziara. Além disso, tinha
secreção nos pulmões e um quadro razoavelmente relevante de insuficiência
pulmonar. Sem falar na tosse e nos episódios de vômito. No dia 18, os informes
despachados para a nação descreviam um presidente que exibia “progressiva
melhora” e omitiam os problemas de pulmão e intestino que já preocupavam os
médicos. O grupo concordou, então, que era hora de pedir ajuda.
17

Em 19 de março, uma junta médica integrada por outros nove especialistas


aterrissou na capital federal, deixando no ar a suspeita de que algo não ia nada
bem no Hospital de Base de Brasília. Boatos de toda ordem começaram a se
espalhar: Tancredo tinha pneumonia, levara um tiro, comera uma feijoada
contaminada, entre muitas outras teorias. Ainda assim, todos os boletins oficiais
18
continuavam negando a existência de complicações. Pela boca de Antônio Britto
só saíam boas notícias. Na mesma tarde em que a junta chegou a Brasília, ficou
pronto o exame de laboratório feito com o material extraído do intestino de
Tancredo, confirmando que o patologista Miziara estava certo. Tancredo tinha
um tumor — um leiomioma. Com o laudo em mãos, Miziara foi à suíte 4.041 do
hospital e participou de uma nova reunião. Foi recebido por Tancredo Augusto,
de quem ouviu as seguintes palavras:
— Precisamos evitar a exploração pública desse diagnóstico. Se falarmos em
tumor, a nação ficará alarmada e será impossível evitar rumores de que o
presidente está com câncer. 19

Miziara, como já era previsto pela equipe, defendeu a divulgação da notícia.


Os cirurgiões Pinheiro Rocha e Mattos Ribeiro foram contra. Venceu a maioria.
O patologista subiu o tom. Preparou um laudo fechado, com a conclusão de
20

tumor benigno, e o entregou tanto aos médicos quanto à família Neves. Foi
taxativo: que eles fizessem com a informação o que melhor lhes conviesse.
Assim, no dia 20 de março, em vez de mencionar que um tumor havia sido
retirado, o boletim das 9 horas informava aos brasileiros que Tancredo tinha
passado bem a noite, que eram “satisfatórios os resultados obtidos com as
medidas até agora adotadas” e que era “bom o seu estado geral”, com os sinais
vitais “dentro da normalidade”. Houve uma nova cirurgia.
21

Mas algo estranho estava no ar. A edição do jornal O Globo daquele dia trazia,
na página 2, duas reportagens divergentes. Lidas com a distância do tempo, elas
22

revelam o desencontro de informações veiculadas nas redações naquela época.


No alto da página, um título em negrito afirmava: “Tancredo: ‘Estou bem
melhor.’ Laudo médico confirma.” Tratava-se de um texto sobre o bem-estar do
presidente eleito. Ao lado, contudo, o otimismo que contagiara o leitor se diluía
diante de outra manchete: “Crise leva à convocação de junta.” Era uma
reportagem sobre a chegada dos novos integrantes da equipe clínica do político
mineiro — o que não era, de jeito nenhum, um bom sinal.
Henrique Walter Pinotti, notável cirurgião gástrico e professor de Cirurgia na
USP, tornou-se o centro das atenções. Era o nome de maior prestígio na junta e
começou a dar entrevistas sobre Tancredo.
— Eu creio que dentro de sete, oito dias, ele poderá deixar o hospital. O
senhor presidente Tancredo Neves tem condições físicas, no meu entender, e
psicológicas para assumir este mandato e, se quiser, mais outro — afirmou à TV
Globo, algumas horas antes de o presidente eleito ser submetido a uma segunda
23

cirurgia, também urgente, em decorrência de uma obstrução intestinal.


Durante essa jornada de notícias truncadas, o publisher Octavio Frias de
Oliveira, da Folha de S.Paulo, conseguiu uma informação de bastidor e
estampou a seguinte manchete no jornal de 21 de março: “Tancredo teve tumor
benigno: operado de novo, estado é grave.” Ele estava certo, mas a reação em
24

Brasília foi virulenta. Pinotti, que no dia anterior havia professado as boas
condições físicas do presidente eleito, respondeu com toda força:
— É absolutamente falsa essa informação. Podem marcar a posse para dentro
de duas ou três semanas. 25

Falsa, no entanto, era a posição pública do médico. Àquela altura, Tancredo já


padecia também de trombose mesentérica (interrupção do fluxo sanguíneo
intestinal) e de uma crise circulatória que fazia seu pulso chegar a 180 pulsações
por segundo, quando o normal é entre 70 e 120. Religiosos, os Neves acionaram
todos os tipos de fé. Arcebispos, rabinos e outras linhas de reza. Entre os dias
26

22 e 24 de março, Tancredo realmente apresentou sinais de recuperação.


Recebeu visitas, fez exercícios leves de fisioterapia e respiração. Como se
tratava de uma boa notícia, tudo foi devidamente refletido nos boletins médicos,
e Risoleta Neves declarou a jornalistas:
— Estamos felicíssimos. Ele está muito bem, ele está ótimo. 27

Os médicos se contagiaram com o clima positivo. Insistiam em declarar que


Tancredo poderia ter alta em poucos dias e finalmente tomar posse. Foi então
que, em 25 de março, por pressão da imprensa, o fotógrafo Gervásio Baptista,
um dos que faziam plantão na porta do Hospital de Base naqueles dias, foi
autorizado por Tancredo a entrar no local e clicá-lo em franca recuperação —
outra mentira. A imagem, que seria reproduzida em todos os veículos do país,
28

tinha por objetivo tranquilizar a opinião pública, mas acabaria demonstrando que
a Nova República se parecia com a Velha: as versões oficiais e a realidade não
caminhavam lado a lado. Tancredo vestia um robe de chambre de seda escura,
calça de pijama grená e meias combinando, traje que jamais havia usado durante
a internação. O cenário tinha sido preparado. Em vez da UTI, a foto mostrava a
sala dos médicos, com plantas e pinturas, local em que o presidente eleito nunca
havia pisado. Tampouco se revelou que ele fizera o trajeto até o local numa
cadeira de rodas, já que não tinha condições de se sustentar em pé. Sentado em
um sofá, portava um cachecol para esconder um conduto de soro que pendia da
clavícula esquerda. O sofá, por sua vez, ocultava uma enfermeira que, agachada
no mais pleno silêncio, segurava o frasco de soro ligado ao paciente o tempo
todo. Na imagem, Tancredo está ladeado por Risoleta e membros de sua junta
29

médica. Sorri. Um sorriso amarelo. Naquele dia, os boletins informaram que seu
estado de saúde era bom. Na realidade, seu intestino enfrentava uma hemorragia
de grandes proporções. Virava uma poça de sangue.
Menos de 24 horas depois da foto, Tancredo foi transferido às pressas de
Brasília para o Instituto do Coração, em São Paulo, onde enfrentou sua terceira
cirurgia. Uma multidão se reuniu na porta do hospital no dia 26 de março.
Começava uma romaria.
— O presidente está salvo. O presidente está salvo — bradaria Pinotti naquela
noite, depois da terceira operação. 30

Pinotti não imaginava, no entanto, que um dos médicos de sua equipe diria
exatamente o contrário ao Jornal do Brasil: Tancredo tinha apenas entre 40% e
60% de chances de sobreviver. Com o agravamento do caso, o SNI entrou em
31

ação. Após a anuência da família Neves, o general Ivan de Souza Mendes,


ministro-chefe do órgão, passou a centralizar todas as notícias a serem
divulgadas. Os médicos não voltariam a dar entrevistas e deveriam reportar as
informações sobre o real estado de Tancredo somente à família e ao SNI. E o
órgão optou por quebrar a regra vigente e divulgar parte da verdade. Assim, o
boletim de 27 de março foi o primeiro a mencionar uma infecção hospitalar que
estava sendo tratada com antibióticos de amplo espectro enquanto não se
descobria o tipo de bactéria.
No dia 28, informou-se que o foco da infecção havia sido controlado e que
naquele momento se restringia à área da ferida cirúrgica. Não foi citado,
32

contudo, que a infecção era causada por pseudomonas, bactérias de difícil


combate e de efeito necrosante. Omitiu-se também que o presidente eleito
apresentava um quadro de desidratação. No dia 29, a contradição entre os
boletins atingiu o auge. A edição das 10h30 indicou que o processo infeccioso
estava sob controle: “As condições clínicas gerais do paciente são boas, com
sinais de contínua melhora (...). A infecção da ferida cirúrgica está controlada. O
paciente tem temperatura normal.” Oito horas depois, o tom era outro: o
presidente estava febril por conta da infecção. “Observou-se esta tarde discreto
aumento das frequências cardíaca e respiratória, provável consequência do
processo infeccioso já mencionado em boletins anteriores.” 33

A partir de abril, a degradação da saúde do presidente inviabilizaria a


sustentação da mentira. A equipe médica e a família entregaram os pontos. No
dia 5, O Globo noticiou: “Estado de Tancredo é gravíssimo.” O título da
manchete vinha acompanhado de três fotos, mostrando a fisionomia tensa de
Aécio, do jornalista Antônio Britto, de Jorge Tancredo e Inês Maria (irmãos do
presidente) e da neta Ângela. De acordo com a publicação, as chances de
sobrevivência eram reduzidas: “Tancredo sofreu um choque séptico, provocado
pela absorção pelo sangue das toxinas produzidas pelas bactérias. Sua pressão
arterial, a temperatura e o pulso caíram bruscamente.”
No mesmo dia, o jornalista Jânio de Freitas publicou na Folha de S.Paulo um
texto intitulado “Más notícias, piores informantes”, em que afirmava que o real
estado de saúde do presidente eleito, anunciado apenas no dia anterior, já era de
conhecimento do Planalto e de alguns de seus membros havia pelo menos quatro
dias. Jânio estava indignado. “A nova República não se portou bem, neste
episódio, em suas relações com o público.” E explicou: “Em nome de pregar a
tranquilidade, os intranquilos e descontrolados governantes e políticos aceitaram
com excessiva facilidade o papel de portadores de falsas esperanças. Ora,
informar com honestidade não conduz ao pânico, a não ser na mentalidade de
quem acha que a informação é um mal em si mesma. Ou que o povo não sabe
conviver com ela e dela fazer bom uso.” Para o jornalista, a Nova República
entrava, à sua revelia, “em fase de obscuridade quase total”. Na mesma edição, a
Folha publicou uma cronologia com o título “Boletins não revelaram o
verdadeiro estado de saúde”, confrontando os comunicados emitidos até então
sobre as condições físicas de Tancredo, dia após dia. O povo ficou boquiaberto.
Ao longo da apuração para este livro, perguntamos a pessoas comuns — nas
mais diferentes situações — qual havia sido a causa da morte de Tancredo. As
que se arriscavam a responder diziam “diverticulite” e se espantavam quando
lhes era mostrada uma cópia da certidão de óbito, que sequer citava essa palavra.
No documento lavrado pelo 20 Cartório de Registro Civil de São Paulo consta
o

que Tancredo teve “falência de múltiplos órgãos, septicemia, leiomioma de


intestino abcedado”. Todas as pessoas se lembravam, no entanto, do sofrimento
que rondou o caso, da comoção nacional e da ansiedade por notícias. Nos 39 dias
em que ficou internado, além das sete cirurgias pelas quais passou, Tancredo
apresentou diversos focos de infecção, enfrentou uma série de complicações
respiratórias, sofreu colapso renal e foi submetido a dezenas de diálises. Perdeu
doze quilos e recebeu litros e litros de sangue. Inevitavelmente, o choque
provocado por esse dramático desfecho ficaria para sempre registrado na
memória das gerações que viveram o período.
Dois anos e meio depois, ainda viria à tona outra dúvida robusta com relação
ao caso de Tancredo: o dia e o horário de sua morte. Na edição de 25 de
novembro de 1987, a revista Veja publicou a seguinte história: “Na semana
passada, soube-se que a mais contundente farsa armada em torno do estado do
presidente ainda continuava oculta. Um médico que acompanhou o estado
clínico de Tancredo até o fatal desfecho revelou à Veja que o presidente não
morrera às 22 horas e 23 minutos do dia 21 de abril, como consta nos anais da
Nova República, mas um dia antes, ou seja, na noite de 20 de abril, quando seu
cérebro parara definitivamente de funcionar.”
A declaração foi corroborada pela revelação de que, em 20 de abril, numa
medida desesperada, a equipe clínica de Tancredo convidou o médico americano
Warren Myron Zapol para visitar o político mineiro. Zapol trabalhava no
Massachusetts General Hospital e havia desenvolvido um tratamento inovador
para doenças pulmonares. Ele veio dos Estados Unidos ver o paciente e, ao
analisar seus exames, disse que nunca tinha visto um “choque do pulmão tão
avançado”. E emendou três perguntas:
— Ele urina?
Não.
— Ele defeca?
Não.
— Ele respira sem aparelhos?
Não.
— O homem está morto. Não há mais nada a fazer. 34

Então por que sua morte não foi anunciada no dia 20 de abril? Há quem
acredite que a ideia de decretar o falecimento do presidente nunca empossado
somente no dia 21 consistiu uma tentativa de aproximá-lo da figura histórica do
também mineiro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Tancredo seria a
nova imagem do alferes e boticário que entrou para a história como mártir da
Independência ao ser enforcado em 21 de abril de 1792.
É curioso constatar que, ao mascarar a agonia de Tancredo no intuito de
garantir a transição democrática, as pessoas que o cercavam acabaram caindo em
uma grande contradição: repetiram a estratégia utilizada pela ditadura militar em
1969. Em vez de adotar a prometida transparência em relação ao futuro do país,
optaram pelo caminho obscuro da omissão. Preferiram silenciar a revelar —
exatamente como acontecera dezesseis anos antes com o presidente Artur da
Costa e Silva.

* * *

Em agosto de 1969, quando o então presidente da República, marechal Artur da


Costa e Silva, adoeceu, o Brasil vivia sob as regras do Ato Institucional n 5, que
o

inaugurou o período mais duro da ditadura militar. Foi nesse ambiente de


silêncio e censura que o marechal ficou doente e seu governo passou a omitir
informações sobre seu estado de saúde. Naquele agosto, Costa e Silva tinha 69
anos e dava sinais de que não se sentia muito bem. Em reuniões com assessores
próximos, reclamava, por exemplo, de uma forte gripe que não o deixava em
paz. Na série As ilusões armadas, o jornalista Elio Gaspari transcreve um
35

diálogo travado no dia 25 daquele mês entre o ministro das Relações Exteriores,
Magalhães Pinto, e seu chefe de Gabinete, Italo Zappa. Magalhães disse:
— O presidente se queixa de uma gripe, mas eu acho que não é gripe. É algo
pior.36

E era. O ministro e o chefe de gabinete tinham razão de duvidar de Costa e


Silva. Ele não estava mesmo nada bem. Anos depois, o jornalista Carlos Chagas,
ex-secretário de Imprensa do Palácio do Planalto, registraria para a história a
aflição sentida pelo marechal numa reunião feita naquela mesma época com o
governador de Goiás, Otávio Lage:
— O presidente ouvia o governador, mas já sem falar. 37

E o próprio Costa e Silva reconheceria o problema:


— Durante algum tempo, não consegui dizer coisa com coisa. 38

Perto de fazer 70 anos, o marechal inspirava cuidados, mas tinha a seu lado
apenas um militar que integrava o serviço de saúde da Presidência, o capitão
Helcio Simões, que tomava sua pressão diversas vezes ao dia e o submetia a
eletrocardiogramas. Naqueles dias, o capitão afirmou repetidamente que todos os
resultados estavam normais e que o marechal padecia de um processo de estafa.
Precisava apenas de repouso. Por conta disso, em 28 de agosto, fez chegar à
imprensa um comunicado curto: Costa e Silva estava gripado.
Na madrugada seguinte, no entanto, o quadro clínico se agravou, preocupando
Riograndino, irmão do presidente e seu secretário particular. A cúpula do poder
decidiu que Costa e Silva seria levado imediatamente de Brasília para o Rio de
Janeiro, de modo a receber tratamento mais adequado. Mas, naquele momento, o
marechal já não era capaz de pronunciar palavras, apenas monossílabos. E, para
disfarçar o aspecto doentio, sua equipe decidiu envolvê-lo em um cachecol.
Aquele pequeno pedaço de tecido, flagrado em fotos históricas, conseguiu
enganar a tropa e os oficiais por algum tempo.
Quando Costa e Silva chegou ao Palácio Laranjeiras, residência usada pelos
presidentes em visita ao Rio de Janeiro, a primeira-dama, Iolanda, já sabia que o
marido não estava gripado e foi alertada pelo ministro da Saúde, Leonel
Miranda, a não comentar com o presidente a dimensão do problema. Costa e
Silva chegou andando ao palácio e recebeu homenagens oficiais, mas a junta
médica que o examinou foi incisiva: ele já não tinha capacidade de governar.
Sofria de isquemia cerebral no auge do controle de informações pela ditadura
militar. Seu filho, por exemplo, só ficou sabendo que o pai estava doente mais de
37 horas após o primeiro aviso neurológico. 39

Apenas quando finalmente foi levado a um hospital, o presidente recebeu o


diagnóstico oficial de isquemia e a indicação para ser internado. Segundo o
neurologista Abraham Ackerman, um dos mais renomados da época, seu
tratamento poderia levar de um a dois meses. Contudo, os militares não
concordaram com o afastamento e mantiveram o marechal no Laranjeiras.
“Havia uma razão maior para não se tirar o presidente do Palácio”, escreveria,
anos depois, o general Jayme Portella, então chefe do Gabinete Militar. “Além
de ser seu posto, a nação saberia que ele estava vivo.” Assim sendo, em
40

setembro de 1969, Costa e Silva foi fotografado em seu quarto, no Palácio


Laranjeiras, na companhia do médico da Presidência. Na cena, ambos parecem
conversar enquanto o marechal, com a mão no queixo, insinua um gesto de
quem está elaborando um longo raciocínio. Naquele momento, no entanto, o
presidente já estava mudo e com o lado direito do corpo paralisado. Costa e
Silva morreria três meses depois, em 17 de dezembro, e seu corpo seria
enterrado, envolto em sigilo, no Rio de Janeiro.

* * *

Seis anos depois, do outro lado do Atlântico, mais um militar viveria história
semelhante, corroborando o alerta de que é preciso duvidar de notícias relativas
à saúde dos chefes de nação. Em julho de 1974, quando já demonstrava que não
era a fortaleza que comandara a Espanha com mão de ferro por 36 anos e meio,
o general Francisco Franco se deixou fotografar de roupão, pijama e chinelos,
andando num corredor de hospital. A imagem, em preto e branco, lembra a que o
Brasil viu em 1985 protagonizada por Tancredo Neves. Não à toa. Os dois casos
se parecem também em seus registros fotográficos. Tancredo e Franco estão de
robe escuro, bem atados ao redor da cintura. Enquanto um dos robes veste um
democrata, o outro serve a um ditador. Mas ambos se igualam no leve sorriso,
sob o olhar atento dos médicos. O ditador espanhol está de pé, no corredor,
andando ao lado de dois especialistas de jaleco. Tancredo está sentado, na
companhia de quatro especialistas. As duas imagens tinham por objetivo
esconder da população verdade idêntica: o real estado de saúde de seus líderes
políticos.
Naquele julho, o general Franco foi internado às pressas no Hospital
Provincial de Madrid. Sofria de tromboflebite. Suas veias estavam inflamadas
41

em decorrência de um coágulo sanguíneo e ele precisava de cuidados intensivos.


Na época, o “Generalíssimo” tinha 81 anos e tomava remédios para a doença de
Parkinson. Quem convivia com ele já notava sinais de abatimento e certa
dificuldade para se levantar e andar. Ainda assim, todos preferiam atribuir seu
mutismo e a falta de expressão no rosto aos fármacos receitados para controlar
tremores.
Desde 1936, quando integrou o golpe que derrubou a República, dando início
à sanguinolenta Guerra Civil Espanhola, Franco nunca se deixara flagrar em
estado de fragilidade. Instaurara o terror, autorizara fuzilamentos e perseguições.
A Espanha era a décima primeira economia do mundo, mas tinha feridas abertas
e uma sociedade que sofria com a ditadura. Nos rincões mais discretos, persistia
a luta contra o regime implantado por Franco e pipocavam os grupos
independentistas. Nesse caldeirão surgira, por exemplo, o grupo terrorista basco
ETA, violentamente combatido pelos militares.
A internação de Franco em 1974 evidenciou pela primeira vez que o galego de
Ferrol era um octogenário que, como qualquer outro, adoecia. Assim, os
espanhóis — sempre em voz baixa ou de forma cifrada — passaram a comentar
a possibilidade de sua morte. O que seria da Espanha? A família de Franco não
gostou da exposição. Considerou-a excessivamente negativa e decidiu que o
“Generalíssimo” não voltaria a ser internado. Cristóbal Martínez-Bordiú, casado
com Carmen, a única filha do ditador, era cardiologista e cirurgião cardíaco. Dali
em diante, tomou para si a tarefa de cuidar do sogro, monitorando todo tipo de
informação a respeito de sua condição física.
No início desse período, logo depois de Franco se livrar da tromboflebite,
Bordiú contava apenas com o apoio de duas enfermeiras, as melhores e mais
discretas profissionais do principal hospital de Madri na época, o La Paz, que se
revezavam em plantões constantes no Palácio d’el Pardo — construção
renascentista que se transformara na residência da família após a guerra. E aos
que perguntavam sobre a saúde do sogro, Bordiú respondia rispidamente:
— Ele está bem. Como um touro! 42

Na madrugada de 15 de outubro de 1975, por volta das 3 horas da manhã,


Franco chamou uma das enfermeiras ao quarto. Sentira-se mal. Não conseguia
dormir e suava frio. O peito e o braço esquerdo doíam. O tremor provocado pela
doença de Parkinson se intensificara.
— Deve ser uma indigestão — disse o militar, em visível sofrimento. — Me
dê um copo de água. Estou com a boca seca. 43

A enfermeira o atendeu, enquanto sugeria que um médico fosse chamado às


pressas. Franco não aceitou. Quando o sol nasceu, ela já tinha ido até o Hospital
La Paz a fim de, com toda discrição possível, pegar os aparelhos necessários
para fazer um eletrocardiograma no ditador e já estava de volta ao El Pardo.
Exames feitos, retornou ao hospital e os mostrou ao cardiologista Vital Aza, que
atendia Franco.
— Puta que pariu! — berrou o médico quando viu os resultados entregues
pela enfermeira. — Isso daqui é um infarto agudo e grande. Como assim ele está
agora no escritório trabalhando? Vamos correndo para lá. Vamos ver se
chegamos a tempo. 44

No caminho, além de Bordiú, Vital Aza mobilizou Vicente Pozuelo Escudero,


que havia sido médico de Franco durante anos, e toda a cúpula de cardiologistas
do La Paz. Mas, em El Pardo, nenhum deles teve coragem de dizer claramente
ao general que ele sofrera um infarto grave. Pediram apenas que se deitasse e
suspendesse as atividades políticas por uns dias.
— Não posso — respondeu Franco. — Amanhã temos Conselho de Ministros
e não posso faltar. Temos assuntos delicados para tratar e preciso comparecer. 45

A equipe médica se entreolhou. Tentou mais uma vez explicar a gravidade do


caso, porém Franco foi, como sempre, irredutível. No dia seguinte, 16 de
outubro, com pelo menos 35% do ventrículo esquerdo necrosado, o
“Generalíssimo” recebeu seus ministros e despachou normalmente por cerca de
uma hora. O grupo político mais próximo do governante saiu do palácio sem
saber que Franco enfrentava um quadro cardíaco grave e muito menos que em
seu quarto já havia nitroglicerina, morfina, desfibrilador, cilindro de oxigênio,
sonda, laringoscópio e um tubo endotraqueal (que se introduz na traqueia pela
boca ou pelo nariz para levar oxigênio aos pulmões em caso de emergência). O
sigilo havia sido total.
Três dias se passaram sem que nenhuma notícia circulasse. Nem mesmo os
familiares dos médicos sabiam o que estava acontecendo. Mas, na noite de 19 de
outubro, Franco voltou a se sentir mal. Relatou uma dor fortíssima no peito e,
suando frio, começou a vomitar sem parar. O cardiologista José Luis Palma
estava de plantão no palácio e diagnosticou: Franco tinha angina. Seu miocárdio
não recebia a devida quantidade de oxigênio e de nutrientes, o que provocava
dor torácica aguda. Palma também identificou ruídos nos pulmões e constatou
que o volume de urina havia reduzido sensivelmente, indicando que suas funções
renais já falhavam.
Na tarde do dia seguinte, a junta médica se reuniu em um dos salões do
palácio para avaliar estratégias terapêuticas. Alguns membros do grupo tomaram
coragem para mostrar sua insatisfação. Anos depois, Palma registraria em livro o
desconforto que ele e alguns dos colegas sentiram pelo fato de a sociedade
espanhola não estar ciente do que ocorria: “Não nos parecia ético nem sequer
razoável. Por mais que o paciente não quisesse [que a informação sobre sua
saúde circulasse], ele não era um doente comum. Tratava-se do chefe de Estado,
e sua situação era grave. Ele poderia falecer a qualquer momento.” Aos olhos de
Palma, “não parecia lógico que o povo não tivesse notícias. Considerávamos
aquilo de certa forma até temerário”. Os cardiologistas presentes foram sinceros
46

com o resto da equipe: não estavam dispostos a mancomunar com interesses


obscuros, ocultando por mais tempo aquele cenário, que deveria ser de
conhecimento geral.
Diante disso, Pozuelo, o médico de Franco, fingiu ceder e redigiu um
documento em que detalhava o quadro clínico do ditador e fazia um prognóstico:
eram poucas as chances de sobrevivência. De acordo com o texto, considerando
sua idade e seu estado geral, o general não deveria mais exercer a função de
chefe de Estado. Uma ousadia e tanto para a Espanha. O documento, contudo,
jamais foi publicado e nunca mais foi visto pela equipe médica.
Nas duas noites seguintes, Franco voltou a sentir dores fortíssimas no peito.
Os cardiologistas voltaram a pressionar Pozuelo e Bordiú para que fosse
publicado um boletim médico. Após consultar a mulher e a sogra, Bordiú voltou
à sala de reuniões com autorização para revelar à Espanha — depois de cinco
dias — que Franco estava mal. Finalmente, a seguinte nota foi redigida para a
imprensa: “Sua Excelência, chefe de Estado, sofreu na madrugada do dia 15 de
outubro de 1975 uma crise de insuficiência coronária aguda. Um
eletrocardiograma evidenciou uma zona eletricamente inativa, e houve
confirmação enzimática.”
A pedido da família e do governo, no primeiro boletim fez-se de tudo para
driblar a palavra-chave: infarto. Mas Palma, o cardiologista, não aprovava. “Para
mim, aquilo de insuficiência coronária com zona eletricamente inativa parecia
um eufemismo absurdo e até infantil”, lembraria em seu livro. No entanto, não
47

conseguiu alterar o texto. Em 28 de outubro, Franco teve uma hemorragia


digestiva e seu intestino parou de funcionar. Só então o presidente do Governo,
Carlos Arias, soube o que acontecia em El Pardo e prometeu levar a informação
aos ministros. A crise de saúde se arrastava já por treze dias e ainda não havia
chegado a seu pior momento. Franco ainda seria operado três vezes, na tentativa
de se conter a hemorragia digestiva. Esforços que seriam em vão.
No dia 13 de novembro, quase um mês após o início da crise, a equipe médica
fez publicar um boletim que consistia num “refinado exercício de equilíbrio
linguístico”, conforme acusaria Palma: “O paciente apresentou um novo
episódio de hemorragia digestiva, mas ela foi controlada depois de duas horas de
tratamento.” Mentira. Naquele momento, Franco recebia sucessivas transfusões
de sangue. Até o dia de sua morte, consumiria 38 litros, o suficiente para renovar
seu plasma umas dez vezes. “A progressão da sintomatologia respiratória levou à
instalação da respiração assistida”, continuava a nota. Na verdade, as
radiografias do tórax mostravam sinais inequívocos de pneumonia bilateral
massiva. Se Franco não tivesse sido entubado rapidamente, teria morrido
naquele mesmo dia de asfixia. “Começou uma nova sessão de hemodiálise.”
Claro. Os rins do general não funcionavam havia dias. E, assim por diante,
desfiava-se uma sucessão de informações falsas.
Os jornalistas passaram a buscar especialistas que pudessem traduzir os
boletins médicos a fim de entender o real quadro clínico do “Generalíssimo”. A
partir daí, contudo, a desinformação ganhou campo. Circularam na Espanha
notícias de que Franco estava congelado para sobreviver, que morrera havia dias
e que só não se falava abertamente do assunto porque não se sabia ainda quem o
substituiria em definitivo. Prova de que, quando a informação oficial não é
transparente e verdadeira, dá margem ao desespero e a certo grau de loucura. O
ápice da falsidade — que faz com que qualquer indivíduo passe a duvidar de
atualizações médicas sobre a saúde de políticos relevantes — viria plasmado no
último boletim sobre Franco. Redigido em 20 de novembro e distribuído às
7h30, relatava que “às cinco horas e vinte e cinco minutos, [o general] havia tido
uma parada cardíaca irreversível”. Pelo menos quatro pessoas da equipe médica
teriam presenciado a morte do militar, e — não — ela não ocorrera perto das 6
horas da manhã. O coração de Franco deixara de bater por volta das 2h40 da
madrugada, cerca de três horas antes. Por que os médicos consentiram com esse
“ajuste”? Qual seria o problema de cravar o horário exato em que o general
deixara este mundo? Não se sabe.

* * *

As trajetórias de Tancredo e Franco não só se parecem, como também servem de


prova para alguns pontos. Nos dois casos, o medo de revelar fragilidade e de
estampar em boletins médicos palavras como “tumor” e “infarto” impediu tanto
os líderes políticos quanto seus assessores, parentes e médicos de contar com a
força da verdade. Ambos os governantes, assim como ocorreu com Costa e
Silva, temiam que, doentes e vulneráveis, colocassem o futuro do país ou o
próprio futuro político em risco. Mas se equivocaram. O vice de Tancredo, José
Sarney, empossado no dia 15 de março de 1985, fez, sem ele, a transição
democrática. Na Espanha, o rei Juan Carlos retomou a Coroa e conduziu o país
rumo à monarquia parlamentarista vigente até hoje. A ditadura militar de Costa e
Silva, no entanto, se estendeu por mais dezesseis anos.

* Mesmo com a pressão do povo nas ruas, a Emenda Constitucional n 5, que instituiria novamente eleições
o

diretas para presidente no Brasil, foi derrubada na Câmara dos Deputados em abril de 1984. Por isso a
eleição da qual Tancredo Neves participou ainda era indireta. Os brasileiros só voltariam a escolher nas
urnas seu presidente em 1989.
3. SARNEY

“Enganam-se aqueles que esperam a liberação de preços. Enquanto


estiver no governo, manterei os preços permanentemente vigiados.”
ABRIL DE 1986
José Sarney reúne o ministério e os líderes da Aliança Democrática no Congresso para anunciar
formalmente as medidas econômicas do Plano Cruzado. 28 de fevereiro de 1986.
Enquanto usava toda a sua força para puxar a porta de vidro do supermercado
Real, em Curitiba, no Paraná, o empresário Omar Marczynski berrava de
indignação:
— Estou fechando em nome de José Sarney, o nosso presidente e o presidente
da Nova República!
Marczynski não era agente da polícia nem levava consigo uma ordem judicial.
Era apenas um cidadão comum que decidira fechar o supermercado por conta
dos preços abusivos que havia detectado em alguns de seus produtos. Mas o
gesto enérgico, exibido pela TV em rede nacional poucas horas depois, contava,
de fato, com o aval do presidente da República. O homem de meia-idade que
usava uma camisa branca de listras azuis aberta até o peito tornara-se um “fiscal
do Sarney” — função que o presidente delegara a todos os brasileiros — e estava
disposto a exercer essa tarefa com a maior retidão possível. Naquele 1 de março
o

de 1986, havia flagrado uma remarcação ilegal de preços e não quis esperar as
autoridades.
— Fraldas para seis xixis, [o consumidor] paga 1 mil cruzeiros a mais! —
denunciava. 1

O público, dentro e fora do supermercado, aplaudia.


Em 1985, a inflação, medida pelo IPCA, chegara a inacreditáveis 242,23% ao
ano — a mais alta da série histórica do IBGE em cinco anos. O povo perdia
poder de compra dia após dia. E cerca de quinhentas greves haviam estourado só
naquele ano, prática que há algum tempo se tornara corriqueira. O governo de
2

José Sarney patinhava no quesito popularidade. Vice-presidente de Tancredo


Neves em eleições indiretas ocorridas em 15 de janeiro daquele ano, o político
maranhense assumira definitivamente o Palácio do Planalto com a morte do
presidente eleito, em meados de abril. Recebera um ministério pronto, com todos
os cargos de primeiro e segundo escalões devidamente distribuídos, e acabara
ficando sem base política nenhuma. Vale lembrar que a escolha de Sarney na
chapa de Tancredo decorrera de alianças políticas e não de uma afinidade real
entre os dois. Por isso o novo presidente se sentia de mãos atadas. Não podia
ousar nem inovar.
— Eu tinha tudo para não terminar o mandato. Aliás, eu não tinha condições
nem de começar — reconheceria anos mais tarde. — Eu era um vice-presidente
fraco, que não participara das escolhas de governo nem fora consultado. 3

Como estratégia de sobrevivência, Sarney resolveu aproveitar-se da própria


fragilidade e se esforçou para manter o diálogo com o maior número possível de
interlocutores. Temia terminar deposto, como João Goulart, em 1964. Assim,
todas as terças-feiras, das 9 às 19 horas, recebia parlamentares em seu gabinete
para ouvir queixas e demandas. Ninguém precisava agendar ou confirmar o
encontro — bastava se apresentar na antessala e aguardar em fila. Sarney falava
com todos, respeitando a ordem de chegada. 4

Em 29 de julho de 1985, quando completou cem dias na Presidência, declarou


à nação que a economia deveria crescer 6% naquele ano e que sua prioridade
seriam os pobres. Sua popularidade atingia 57%, mas o fato de se sentir obrigado
a seguir as instruções deixadas por Tancredo lhe impunha uma série de
limitações. Tido como “czar inquestionável da condução da política
5

econômica”, Francisco Dornelles, ministro da Fazenda e sobrinho de Tancredo,


6

não aceitava a desindexação de preços. Acreditava que a economia brasileira


precisava de um sistema de reajuste que abrangesse salários e aluguéis e fosse
atrelado aos índices oficiais de inflação. À medida que os índices subissem, os
preços obrigatoriamente teriam de subir. Essa era a lógica do ministro.
Entre 1984 e 1985, o PIB do Brasil crescera de US$ 209 bilhões para US$ 222
bilhões, a taxa de desemprego caíra de 9% para 3% e o salário mínimo pulara de
US$ 92 para US$ 165. A inflação, no entanto, continuava indomável, corroendo
o bolso do cidadão. E isso preocupava o presidente. Foi nesse cenário que, após
uma discussão, Dornelles decidiu renunciar à Fazenda, e Sarney não pensou
duas vezes em aceitar de volta o cargo. No fim de agosto de 1985, escalou o
7

empresário paulista Dilson Funaro para substituir o sobrinho de Tancredo. No


Planejamento, estava o economista João Sayad. Nenhum dos dois tinha dúvidas
de que seria preciso mudar os rumos da economia e tomar uma medida mais
drástica contra a inflação. Precisavam se unir e saber por onde começar.
Entre dezembro de 1984 e junho de 1985, o Estado de Israel fizera duas
tentativas de desindexar a economia, e a segunda parecia ter funcionado. Com
alto grau de sigilo, Sarney autorizou que Sayad enviasse alguém de sua equipe
ao Oriente Médio para entender os meandros das reformas e descobrir uma
forma de adaptá-las ao Brasil. O economista Pérsio Arida foi o escolhido para
cruzar o Atlântico e passar doze dias entre os israelenses. A Argentina de Raúl
8

Alfonsín vivia situação semelhante. Havia implantado o Plano Austral, trocado a


moeda e apostado que a mudança conteria a inflação. Por isso a equipe
econômica de Sarney também foi a Buenos Aires. E voltou de lá certa de que um
bom discurso presidencial seria peça-chave para a receptividade positiva de um
plano, tanto por parte da população quanto do mercado.
Assim, na manhã do dia 28 de fevereiro de 1986, Sarney finalmente mostrou
que governava. À frente de um novo ministério, assinou o Decreto-Lei n 2.283, o

estipulando uma série de ações para tentar conter a inflação e estabilizar a


economia. Foi à TV, às rádios e aos jornais para falar sobre o pacote de medidas,
o Plano Cruzado, cujo cerne era o congelamento de preços em todo o território
nacional pelo período de um ano:
— Brasileiros e brasileiras, as principais decisões são as seguintes: criação de
uma nova moeda, o cruzado; a extinção do cruzeiro, com paridade de um
cruzado por mil cruzeiros; conversão automática em cruzados de notas, moedas
e depósitos à vista no sistema bancário; extinção da correção monetária
generalizada; escala móvel de salários; e congelamento total de preços, tarifas e
serviços.
Era uma mudança radical. Um mês antes desse anúncio, o ônibus espacial
americano Challenger tinha explodido no ar 73 segundos depois da decolagem,
matando seus sete astronautas. Pérsio Arida contaria, anos mais tarde, que, ao
assistir aos vídeos daquela implosão, associou-a ao novo plano econômico e
temeu pela economia do país.
— Eu olhei para a Challenger e pensei: “Isso é o Cruzado!” 9

Sarney também estava nervoso com as mudanças. Sofria de depressão e nos


dias anteriores ao anúncio do plano passou a apresentar as manchas que
costumam aparecer em sua pele quando fica ansioso. Na última reunião sobre o
projeto, a tensão era tanta que ele fez questão de pontuar que estava ciente do
risco que corria:
— Sei que estou colocando a cabeça na guilhotina, mas vou arriscar porque o
povo brasileiro merece que se faça isso. 10

Sarney mostrou mestria no discurso em que revelou a criação do cruzado e o


congelamento de preços. Fez à nação um convite para participar daquilo que
seria “uma guerra de vida ou morte contra a inflação”. E, para vencê-la,
empoderou os consumidores, transformou-os em seus fiscais:
— Posso me dirigir a você, brasileiro ou brasileira, para investi-lo num fiscal
do presidente para a execução fiel deste programa em todos os cantos do país.
Ninguém poderá, a partir de hoje, praticar a indústria da remarcação [de preços].
O estabelecimento que o fizer poderá ser fechado e ensejar a prisão dos
responsáveis. 11

Em Curitiba, o empresário Omar Marczynski entendeu o recado e acabou


virando símbolo do Plano Cruzado. Ao fechar o supermercado Real aos berros,
provava que o cidadão estava disposto a levar adiante “a mais profunda mudança
na história econômica do país”, conforme dizia Sarney. Por instrução do
presidente, qualquer um poderia não só lacrar um estabelecimento como
denunciá-lo aos órgãos competentes, fosse à polícia ou à Superintendência
Nacional de Abastecimento (Sunab). O importante era fazer o plano valer.
Responsável por fiscalizar os preços no varejo, a Sunab era modesta e
burocrática. Não tinha braços suficientes para cumprir a missão conferida pelo
presidente da República. Eriksen Madsen, superintendente do órgão, pego de
surpresa pelo Cruzado, declarou ao Jornal do Brasil desconhecer os meandros
do plano:
— A Sunab não participou da elaboração do projeto. Fomos jogados nele no
momento da implantação da operação. Fui saber que estávamos na boca da
reforma monetária no dia anterior a ela. 12

Em São Paulo, por exemplo, a Sunab dispunha de 65 funcionários e quatro


carros para fiscalizar centenas de milhares de estabelecimentos comerciais. Sem 13

a ajuda do cidadão médio, jamais conseguiria garantir o congelamento decretado


pelo governo. Ninguém contava, no entanto, que a adesão popular seria tão
intensa. Num único dia de março de 1986, por exemplo, o órgão chegou a
receber 2 mil denúncias. A média de autuações mensais nesse período era de 6
mil, número ainda muito inferior à gigantesca demanda apontada pelos “fiscais
do Sarney” aqui e ali.
No primeiro mês do Cruzado, grupos de voluntários andavam de mercado em
mercado, identificados por bótons e camisetas, para impor sua autoridade diante
dos comerciantes. Carregavam consigo a lista que o governo publicava nos
jornais com os preços de cada produto e iam conferindo um a um nas prateleiras.
Animado com o enraizamento social da proposta, nos primeiros dias de março
de 1986 Sarney reuniu os 27 governadores na capital federal e os convenceu a
assinar um acordo em que se comprometiam a punir quem não respeitasse o
congelamento.
O país estava eufórico — o governo, a população e até mesmo a imprensa.
Poucas semanas depois do lançamento do plano econômico, a Rede Globo
decidiu encampar o projeto. O então todo-poderoso José Bonifácio de Oliveira
Sobrinho, o Boni, que comandava todas as áreas de programação da emissora,
debruçou-se sobre uma mesa e criou não só uma campanha televisiva, como
também um forte slogan: “Tem que dar certo!” Na época, Boni não hesitou em
14

convocar nomes de grande apelo popular para defender o Cruzado. A


apresentadora Xuxa Meneghel, por exemplo, tinha acabado de estrear seu
programa infantil, o Xou da Xuxa. Usava marias-chiquinhas e chamava as
crianças de “baixinhos”. Na TV, abraçada a um urso de pelúcia, pedia que eles
lembrassem as mães da importância de pedir a nota fiscal nos mercados. A atriz
15

Lucélia Santos fazia um sucesso estrondoso como protagonista da novela Sinhá


Moça, exibida às 18 horas na emissora. No comercial de que participou, dizia
com firmeza:
— O pão nosso de cada dia, o café, o leite… Tudo tem que andar dentro da
tabela. Não pague nem um centavo a mais e comece bem o seu dia. Tem que dar
certo!16
Até a economista portuguesa naturalizada brasileira Maria da Conceição
Tavares, crítica ferrenha de planos econômicos anteriores, deixou-se contaminar
pela proposta de combate à inflação. Em entrevista à TV, emocionou-se ao dizer
que estava “muito contente” com a equipe econômica de Sarney, pois ela
ajudava “o governo a reencontrar seu rumo”. Para Maria da Conceição, o Plano
Cruzado era um “programa sério” que dava ao brasileiro a oportunidade de ter
esperanças novamente. 17

Esse entusiasmo, contudo, não era unânime entre as várias escolas


econômicas. Planos de combate à inflação sempre provocaram desconfiança na
academia, e daquela vez não seria diferente. Para o professor Fernando de
Holanda Barbosa, da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV e do
Departamento de Engenharia de Produção da UFF, a escalada inflacionária no
governo Sarney não era autônoma, como acreditava a equipe do presidente. Era
apenas a manifestação visível de um problema mais grave e oculto. Numa
entrevista concedida em 2018, Holanda Barbosa usou uma metáfora para ilustrar
a situação: era “como uma febre alta que atinge um enfermo”. E resumiu:
— Era preciso identificar o tumor que causava a febre, e isso não foi feito.
O tumor chamava-se déficit público. Segundo lembra o professor, o governo
sistematicamente emitia papel para cobrir o déficit, gerando inflação e
prejudicando sobretudo a camada mais pobre da população, segmento que mais
usava moeda para pagar contas. Na prática, ao segurar as tarifas públicas, Sarney
fazia o déficit público crescer. As estatais ficaram com a corda no pescoço.
Passaram a suportar o aumento real dos salários do setor público, em virtude dos
abonos concedidos na conversão para o cruzado, mas sem poder repassar a
diferença aos produtos e aos clientes. Na época, a redução do déficit poderia ser
efetuada de três maneiras: por meio de aumento dos impostos, por diminuição
dos gastos ou por uma combinação dos dois. O governo, contudo, preferiu emitir
moeda.
Logo que o cruzado chegou às ruas, o ministro da Fazenda, Dilson Funaro,
começou a dizer que o plano previa descongelamento em um ano. Mas sempre
ressaltava que, se o processo significasse elevação dos preços e volta da inflação,
o congelamento poderia ser mantido por mais tempo, revelando certa indefinição
sobre o desfecho do projeto. André Lara Resende, um dos destacados
18

economistas de sua equipe, também costumava falar sobre o assunto. Reiterava


que o descongelamento só ocorreria quando a população soubesse “com exatidão
quanto custa uma geleia ou um quilo de manteiga”. Sarney, por sua vez,
19

conseguia ser ainda mais contundente. Em 1 de abril de 1986, Dia da Mentira —


o

data que não poderia combinar mais com a proposta deste livro —, o Jornal do
Brasil estampou a seguinte manchete: “Sarney vigia preço até o fim do
mandato.” Em entrevista exclusiva ao jornal, o presidente afirmava o seguinte:
— Enganam-se aqueles que esperam a liberação de preços. Enquanto estiver
no governo, manterei os preços permanentemente vigiados. 20

Sarney defendia que as pessoas precisavam “aprender a conviver com a nova


realidade”, pois o plano de estabilização econômica não tinha retorno. Por isso,
21

duas semanas depois, no dia 14, foi à TV para comemorar o primeiro mês do
Cruzado. O país, de fato, registrara uma deflação de 1,48%, e, no item
alimentação, a queda havia sido de 5%. Numa fala que durou dezesseis minutos,
quase sorridente, soltou a frase que todo brasileiro queria ouvir:
— A inflação acabou.
E seguiu seu discurso, defendendo que se “afrouxássemos” a fiscalização dos
preços a inflação voltaria. Na visão de Sarney, o Plano Cruzado era o novo
“patrimônio do povo brasileiro”, algo a ser defendido com unhas e dentes:
— O povo compreendeu que, pela primeira vez na história, ele não é massa de
manobra. Não é convocado para ser manipulado. É o beneficiário e o
destinatário da ação do governo. Pensou-se nos pequenos e não se tem medo dos
grandes, dos manipuladores de papéis. Criou-se um estado de espírito diferente.
Esse espírito não pode arrefecer. Não deve passar. Não pode diminuir. Vamos
permanecer mobilizados. É um apelo. 22

Dias depois, o presidente constataria que sua popularidade atingia níveis


inimagináveis: 92% dos brasileiros confiavam nele, segundo levantamento feito
pelo instituto Ibope. O IPCA de 1986 acabou fechando o ano em 79,66%.
Parecia que sopravam bons ventos.
No mês seguinte, no entanto, um ruído começou a ser ouvido aqui e ali.
Economistas avaliavam que o congelamento dos preços provocava excesso de
demanda e pressão inflacionária. Sabiam que a medida, anunciada de forma
inesperada, beneficiava o comerciante que, por acaso, acabara de aumentar seus
preços, prejudicando quem não os alterara imediatamente antes da assinatura do
decreto-lei. Assim, os produtores e comerciantes começaram, aos poucos, a
reagir. Os que não quiseram reajustar os preços na calada da noite, correndo o
risco de serem presos, preferiram retirar os produtos das prateleiras. Alguns
produtores simplesmente deixaram de produzir e vários estabelecimentos
chegaram a fechar. Para certos produtos, como arroz, feijão, farinha de mandioca
e frango, o preço no varejo tabelado ficou muito próximo ou igual ao preço
mínimo e de atacado. Resultado: a margem de comercialização resultou
23

praticamente nula. Enquanto isso, o consumo de leite aumentava, na casa de


30%, assim como a compra de remédios e carros, em 35%. 24

A carne desapareceu dos açougues e supermercados. O sumiço provocou um


escarcéu nacional, e os pecuaristas foram acusados de boicote. Convencido de
que os criadores mantinham seus bois nos pastos em condições de abate porque
não concordavam em vendê-los pelo preço congelado da arroba, Sarney jogou
pesado e suspendeu a exportação do produto. A ideia era forçar os fornecedores
a irrigar o mercado interno, mas o tiro saiu pela culatra. Eles cruzaram os braços
de vez. Pararam de trabalhar. No pasto, o boi gordo passou a ser perseguido e
confiscado pela Polícia Federal e pelos fiscais da Sunab. A guerra no campo foi,
25

contudo, inútil — a carne continuou longe do prato do brasileiro.


Num dos primeiros memorandos que o economista Pérsio Arida escrevera
após sua viagem a Israel, ainda no fim de 1985, havia um alerta significativo. Se
o Brasil fosse apostar num plano de congelamento de preços, deveria saber que
correria riscos de desabastecimento. E, para ele, o sucesso do plano dependia
desse cuidado: “Há que nomear alguém em tempo integral, que trabalhe em
conjunto com o IBGE e que seja capaz de tomar decisões necessárias para evitar
um choque agrícola. Alguém disposto a furar a bolha para não perder o jogo.” 26

Ao que tudo indicava, isso não havia sido levado em consideração.


No livro Aventura e agonia: nos bastidores do cruzado, o jornalista Carlos
Alberto Sardenberg, assessor de Imprensa do ministro João Sayad em 1986,
propõe uma análise. Diz que o programa da reforma do Cruzado nasceu com a
preocupação de eliminar as críticas da esquerda, relativas aos baixos salários, e
as da direita, ligadas ao déficit público e ao crescimento da dívida. Ressalta,
porém, que, com o tempo, “as preocupações à esquerda tornaram-se
dominantes”. O programa buscou “cercar-se de acessórios que garantissem apoio
popular ou ao menos evitassem grandes resistências de movimentos políticos e
sindicais”. Quanto ao déficit, o tratamento não foi tão rigoroso como
preconizado. Mas não por falta de aviso. Em seus memorandos dos primeiros
27

meses de 1986, Arida também alertara sobre esse risco. “O argumento


conservador contra a reforma será que, por conta do déficit público, mais cedo
ou mais tarde o governo terá que emitir para cobrir o déficit, inflacionando a
economia. É importante assegurar que a meta do déficit real em 1986 seja
rigorosamente zero.” E não foi isso que se viu. As tarifas públicas de estatais
28

que estavam sob a batuta do presidente mantiveram-se firmes em seus valores


irreais.
Em 17 de maio, os jornais registraram a primeira manifestação contra o Plano
Cruzado, quando um grupo de 2.500 pessoas se reuniu em frente ao Palácio do
Planalto para reclamar. E a própria equipe econômica de Sarney não podia
29

negar que já enxergava buracos no projeto econômico. Em 1 de junho, cerca de


o

três meses após lançar o Cruzado, Sarney convocou uma reunião em Carajás, no
Pará. A ideia era avaliar sigilosamente o avanço do plano, mas o encontro
30

acabou ganhando as manchetes de jornal. Naquele momento, a equipe


econômica já se preocupava com o inevitável descongelamento de preços e
queria traçar uma estratégia para realizá-lo. Havia, porém, um dilema. Se fosse
estabelecido um calendário para isso, os comerciantes ampliariam a retirada dos
produtos das prateleiras à espera de valores mais altos; o consumidor, por sua
vez, faria estoque — dois péssimos cenários para a economia. Se o
descongelamento ocorresse de supetão, não haveria como impedir o clamor
social contra a alta imediata dos preços. O ministro Funaro, que também havia se
deslocado para Carajás, resolveu então reunir os “pais do Cruzado” e fez uma
recomendação expressa:
— Vamos parar com essa história de descongelar. Politicamente, é necessário
sustentar o congelamento. 31

A verdade era que o projeto econômico não gerava um impacto positivo


sustentável e o presidente só descobriria que o Cruzado já era considerado falido
pela própria equipe de maneira totalmente fortuita. Durante a reunião em
Carajás, numa pausa para descanso, entreouviu uma conversa de banheiro entre
o ministro do Planejamento, João Sayad, e o presidente do IBGE, Edmar Bacha,
que falava com precisão:
— O plano foi para o espaço! — lembrando a Challenger. 32

Em 24 de setembro de 1986, o Jornal do Brasil, que até então apoiara o


projeto, num editorial intitulado “Tarifas irreais” passou a defender o
descongelamento: “É evidente que o realismo tarifário deve preceder qualquer
sistema de administração pública, pois, na falta dele, os setores importantes,
como o de energia elétrica, telecomunicações e transportes, ou recorrerão a
subsídios, ou a transferências que terminam transformando a execução
orçamentária num mar de artificialismo.” 33

Sarney, no entanto, fez ouvido de mercador. Como Sardenberg bem explica


em seu livro, o congelamento de preços é “uma eterna tentação para políticos e
mesmo para economistas” porque derruba a inflação de imediato e conta com
34

calorosa adesão popular. Por isso parece altamente eficaz. E, naquele momento,
era mais do que conveniente para o governo manter o congelamento, já que em
15 de novembro haveria eleições. O Brasil escolheria governadores e senadores,
bem como deputados federais e estaduais, os congressistas que formariam a tão
esperada Assembleia Nacional Constituinte que atualizaria a Carta Magna.
Manter o Cruzado em alta seria sinônimo de sucesso, popularidade e
legitimidade de seu governo. 35

Durante a elaboração e o anúncio do Cruzado, a posição do PMDB, fundado


em 1980 e oriundo do MDB, ficara ambígua. No sistema bipartidarista instituído
no país durante o regime militar, que fechou o Congresso Nacional, o MDB
representava a oposição ao partido que apoiava os militares, a Arena. Sarney já
se filiara à sigla em 1984. De viés contestatório, o PMDB, no entanto, agiu com
cautela no caso do Cruzado. Enquanto as ruas não se apropriaram da proposta do
presidente e de sua equipe econômica, o partido do deputado federal Ulysses
Guimarães tratara de manter distância do Planalto, por medo de que o projeto
representasse um erro político. Quando questionado pela imprensa sobre a
participação de membros da sigla na preparação do plano, Ulysses respondia que
os governantes haviam agido por conta própria, nunca em nome do partido. O 36

PMDB achava que tinha recebido pouco espaço no poder — uma traição à
memória de Tancredo Neves.
Em seguida, quando os jornais passaram a noticiar a adesão popular e a
popularidade ascendente de Sarney, o PMDB apropriou-se do Cruzado. Usou-o
ao longo da campanha eleitoral de 1986 e saiu dela mais forte do que nunca. Seu
principal adversário, o PDS do deputado Paulo Maluf, não conseguiu pegar
carona. Numa disputa polarizada, a opção mais segura entre a classe política
parecia uma aliança com os peemedebistas. Resultado: o PMDB acabou
elegendo 22 governadores, 261 deputados federais (54% das vagas) e 45
senadores (62,5%). Transformou-se num rolo compressor. Saiu das urnas com
um tamanho inédito em sua história. Atingira o mesmo número de governadores
eleitos indiretamente pela antiga Arena em 1970, em pleno regime militar.
O eleitor só não sabia que, nos últimos dias da campanha, o governo Sarney já
debatia duas propostas econômicas para enterrar o Plano Cruzado e que já havia
claramente optado pelo descongelamento de preços. A decisão, contudo, só seria
anunciada depois dos resultados eleitorais. Sim. Os brasileiros foram enganados
naquela campanha.
— [O descongelamento] tem que sair no dia 15 de novembro — propôs João
Manuel Cardoso de Mello, economista e assessor de Funaro na época, citando a
data do pleito eleitoral. — Vai se misturar no noticiário [político]. Os 40% de
votos do [Miguel] Arraes [candidato naquele ano ao governo de Pernambuco]
com os 100% de aumento da gasolina. Passa tudo no mesmo embrulho. 37

Isso só não ocorreu porque detalhes do Plano Cruzado II não ficaram prontos
a tempo. A nova reforma, criada nos gabinetes da Fazenda, consistiria
basicamente no aumento de mais de 100% no IPI, cobrado sobre o preço final de
automóveis, bebidas alcoólicas e cigarros. Também previa uma grande alta nos
38

preços da gasolina e do álcool. Era uma medida oposta à sugestão apresentada


pelo economista Francisco Lopes, do Ministério do Planejamento, que queria
movimentos mais suaves por temer reajustes cavalares nos supermercados.
Assim, depois de contados os votos, o discurso oficial indicava que apenas
cinco produtos seriam afetados pelo descongelamento de preços. Na vida real,
todos sofreriam reajustes. E o governo sabia do risco. Em 18 de novembro, a
inflação saltou de 2% ao mês para cerca de 15%. E o time de Sarney se
39

recusava a admitir que tinha perdido a luta contra a inflação.


Num dos artigos do decreto-lei que instituiu o Cruzado II, sancionado em 21
de novembro, o governo tentou dar um jeito. Decidiu que se excluiriam do
cálculo da inflação os impostos indiretos, como o IPI, além de todas as despesas
com fumo e bebidas. O IPCA, índice computado pelo IBGE, passaria a medir
apenas “alimentação, transporte e moradia”. Mas simulações internas feitas com
o novo indicador mostraram uma inflação ainda mais alta do que a calculada à
moda antiga. Resultado: a mudança acabou sendo derrubada. Outra batalha
perdida por Sarney e sua equipe.
Naquele mesmo dia, a manchete do Jornal do Brasil avisava em letras
garrafais: “Combustível hoje custa mais 60%”. E trazia uma tabela informando a
alta nos táxis (24%), no telefone (30%), no açúcar (25%), na tarifa postal (80%),
na eletricidade (40%) e no cigarro (100%). Relatava, por fim, que o anúncio
oficial do descongelamento dos preços seria feito pelo presidente José Sarney
em poucas horas — justamente aquele que havia negado essa hipótese de forma
peremptória meses antes. 40

Era Sarney aparentemente deixando de lado uma das últimas recomendações


de Tancredo Neves. Em 1985, deitado em sua cama de hospital, o presidente
eleito tinha pedido que lhe dessem um papel e uma caneta para redigir uma
pequena carta a seu vice. No texto, de apenas três parágrafos, enfatizou que, “na
política, o exemplo é mais importante que o discurso”. E explicou ao colega
maranhense por quê: “o discurso é efêmero pela sua própria natureza” e “o
exemplo, ao contrário, contribui para a construção ética da consciência do nosso
povo”. Tancredo pediu que seu substituto no Palácio do Planalto alinhasse falas
41

e ações. Que não quebrasse a confiança do povo. No final de 1986, quase dois
anos após a morte de Tancredo, Sarney optaria por fazer o oposto.
Anos depois, Percival Maricato, presidente da Associação de Bares e
Restaurantes de São Paulo, um dos setores fortemente afetados pelo vaivém da
moeda, resumiria o significado da demora no anúncio sobre o descongelamento
de preços:
— Foi uma estratégia para esperar as eleições que se deram em novembro
daquele ano, e eles conseguiram realmente eleger 22 governadores do PMDB. 42

A população entendeu o movimento sub-reptício do governo, e a reação foi


duríssima. Brasília foi sitiada por manifestantes no dia 27 de novembro. Policiais
usaram gás lacrimogênio para dispersá-los, e os jornais noticiaram que nem
mesmo todos os destacamentos da polícia local tinham sido suficientes para
conter a onda de protestos. A rodoviária central e as agências da Caixa
Econômica Federal, do Banco do Brasil, do Banco Regional de Brasília e do
banco Safra foram depredadas. Houve saques a lojas. Dois ônibus de transporte
de tropas do Exército e pelo menos dezessete viaturas policiais foram
incendiadas. Sarney, Ulysses e Funaro receberam vaias em vários pontos da
cidade. Tanques militares apareceram para tentar controlar a ira da população.
Inicialmente, o objetivo dos organizadores das manifestações era fazer um
buzinaço pacífico na capital federal, mas a escalada da violência acabou
batizando o episódio de “badernaço”. A popularidade de Sarney desabou.
— Como político, procurei durante minha vida inteira ser intérprete das
aspirações sociais, mas agora, como homem de governo, estou tentando
compatibilizar as aspirações com a realidade — diria Sarney em abril de 1987,
na tentativa de se explicar.43

Em entrevista concedida à GloboNews em janeiro de 2011, o político


maranhense reconheceria o equívoco:
— A pior lembrança que tenho do governo foi um erro muito grande que
cometi: o Cruzado II. Era uma coisa errada. Os economistas me levaram a fazer.
Eu não sabia as consequências.
Omar Marczynski, o empresário que virou símbolo do Cruzado ao fechar um
supermercado em Curitiba, morreu em Manaus, aos 64 anos, no dia 4 de
novembro de 2007, vítima de câncer de pulmão. Desde que aparecera na TV
44

como “fiscal de Sarney”, virara referência no assunto. Em 1996, entrevistado


pela Folha de S.Paulo, mostrou arrependimento. Disse que tinha vivido muitos
planos econômicos depois do Cruzado e que preferia falar sobre o presente. Para
ele, no entanto, algo ficara claro: a situação do pequeno empresário havia
piorado após o Plano Cruzado. 45

* * *

Aquela não havia sido a primeira nem seria a última bravata política relacionada
à inflação no Brasil. Em junho de 1961, o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi
eleito senador por Goiás na legenda do PSD. Tinha passado a faixa presidencial
a Jânio Quadros seis meses antes e estava pronto para se recolocar na vida
política nacional. No discurso de posse que realizou no Senado, JK fez um
balanço de sua passagem pela Presidência da República (1956-1961) e,
apresentando-se como um “réu confesso da revolução contra a miséria”, afirmou
que tinha deixado um Brasil moderno e equilibrado para seu sucessor, uma
nação que emergira do sistema agrário para a era da indústria de transformação.
Um país novo.
— Não deixará de chegar o momento em que, dissipadas as vozes dissonantes,
cessadas as ásperas polêmicas, silenciados pelo esquecimento os ressentimentos
oriundos do entrechoque de paixões, se tornará mais lúcida a consciência de que
agiram bem aqueles que não se detiveram na decisão em dar ao Brasil uma
infraestrutura que permitiria a construção de um grande país, o seu
reajustamento e reequilíbrio econômico e, o que é primordial neste momento do
mundo, a aceleração do nosso desenvolvimento. 46

De fato, durante todo o mandato de JK, o país viveu os anos dourados do


desenvolvimento econômico e da relativa estabilidade, alavancados pelo lema
“cinquenta anos em cinco”. Para construir “um grande país” em tão pouco
tempo, Juscelino elaborou seu Plano de Metas, que acelerou a economia a partir
da expansão da indústria, principalmente com os setores de aço, energia,
alumínio, cimento, maquinaria pesada e construção naval. Mas havia um preço a
ser pago por isso e ele se revelaria logo depois.
No fim dos anos 1950, a oferta excessiva de café no mercado internacional
afetava as exportações nacionais. Faltavam, portanto, recursos para realizar as
importações necessárias à implementação do plano de JK. Mas ninguém parava
47

o presidente, e ele decidiu então que recorreria ao capital estrangeiro, que faria
empréstimos públicos e privados para facilitar o ingresso de equipamentos para
as empresas brasileiras e que elas deveriam se associar ao capital estrangeiro.
Nesse período, o Brasil recebeu US$ 565 milhões em investimentos diretos,
fazendo a dívida externa subir de menos de US$ 2 bilhões, em 1955, para mais
de US$ 3 bilhões em 1960. Como a maior parte dessa dívida era de curto prazo,
48

devendo ser paga em até três anos, sabia-se que o sucessor de JK receberia uma
conta pesada.
Quando seu governo se aproximava do fim, o presidente chegou a ser alertado
por sua equipe econômica para o fato de que a bolha inflacionária estava prestes
a estourar. Deu de ombros. Seguiu em frente e o país pagou o preço. Entre fazer
o ajuste macroeconômico e apostar no desenvolvimento, JK preferiu abrir os
cofres para seu projeto, dando início a uma acelerada degradação da economia.
Saiu do Planalto com a imagem de grande empreendedor e modernizador,
legando ao sucessor uma economia que crescia à média de 8,2% ao ano. No
entanto, por trás dessa onda de euforia, o Brasil passava a conviver com taxas de
inflação anuais da ordem de 23% e com um progressivo descontrole das contas
externas, sofrendo ainda com um aumento da concentração de renda e com o
arrocho salarial. Não era definitivamente o “reequilíbrio econômico” citado por
49

ele em seu discurso de posse como senador. Mais um exemplo de enganação


política relacionada à inflação.
4. COLLOR

“O senhor garante aos poupadores que não tocaria jamais na


poupança?”

“Sem dúvida.”
DEZEMBRO DE 1989
Debate entre Collor e Lula, com mediação de Boris Casoy. 14 de dezembro de 1989.
Os jornais sempre trataram suas edições dominicais como as mais importantes
da semana. Não à toa o Jornal do Brasil dedicou, em 5 de abril de 1987, uma
página inteira a um jovem político que começava a ganhar destaque em nível
nacional: o jornalista e empresário Fernando Collor de Mello, governador de
Alagoas. Já no título, “Furacão Collor”, os repórteres Augusto Nunes e Ricardo
A. Setti davam a direção do perfil que a reportagem traçaria: campeão de caratê,
o carioca de 37 anos estava disposto a varrer do mapa, com todas as suas forças,
a corrupção no funcionalismo local. Ao longo do texto, seus autores esmiuçavam
como o político já começara “a mudar a vida em Alagoas”. 1

Apenas três semanas depois de assumir o governo estadual, em 15 de março


daquele ano, Collor tomara medidas que saltavam aos olhos do universo político:
mandara desarquivar oitocentos inquéritos de homicídio não solucionados, dizia-
se decidido a cobrar dos usineiros os impostos atrasados e alardeava ter um
plano de reforma agrária perfeito, algo que poderia “servir de modelo para todo
o país”. Os usineiros deviam cerca de 3 bilhões de cruzados ao governo
alagoano. Alegavam, no entanto, que estavam quebrados.
— Mas eles têm terras! — exclamava Collor em resposta, propondo que os
terrenos fossem repassados ao governo como forma de pagamento.
A ideia do governador era assentar “100 mil camponeses” nessas terras. Além
da prometida “caça aos marajás” — bordão usado por Collor para dizer que
acabaria com as mordomias dos funcionários públicos que ganhavam salários
altos sem trabalhar efetivamente —, estava prevista em Alagoas a
implementação de duras medidas de saneamento burocrático que atingiriam 15
mil servidores e, de acordo com ele, fariam baixar os gastos do governo
alagoano em, pelo menos, 100 milhões de cruzados.
Na reportagem do Jornal do Brasil, uma das primeiras em torno da ascensão
política de Collor fora da imprensa nordestina, o governador aparecia em uma
foto vertical, sentado num sofá branco e usando roupas claras. A testa, franzida,
dava a entender que ele estava muito bravo. Foi descrito como um jovem
corajoso, de 1m85 de altura e dono de uma voz de barítono. Em 1979, em
eleições indiretas, fora nomeado prefeito de Maceió por um governador da
Arena e, em 1983, tornara-se deputado federal pelo PDS. Uma das sombras que
rondavam sua trajetória na época da entrevista era um voto declarado a Paulo
Maluf, que disputara a Presidência da República com Tancredo Neves no
Colégio Eleitoral em janeiro de 1985 — um malufismo que, mais tarde, ele
próprio criticaria.
Era evidente o entusiasmo dos repórteres: “Os primeiros dias de governo
sugerem que Fernando Collor de Mello chegou ao poder decidido a encerrar uma
era e a inaugurar uma nova linhagem política.” Até mesmo a linhagem familiar
de Collor transpirava poder: era neto de Lindolfo Collor, criador do Ministério
do Trabalho ainda no governo de Getúlio Vargas, e filho de Arnon de Mello, ex-
governador de Alagoas e um dos líderes da UDN local, importante partido de
orientação conservadora. Assim, a política corria nas veias do autoproclamado
caçador de marajás. Para encerrar o texto, os autores destacaram que o novo
governador de Alagoas tinha um sonho: trocar o nome da sede de seu governo de
Palácio dos Martírios para Palácio da Esperança — palavra que sintetizava o que
ele queria representar para o país.
Poucos dias antes da publicação do perfil no Jornal do Brasil, o jornalista
Jânio de Freitas divulgara na Folha de S.Paulo um falso anúncio classificado
que evidenciava a necessidade de reformulação da vida política nacional. Nele,
antecipava de forma cifrada o nome dos dezoito vencedores da licitação para a
construção da ferrovia Maranhão-Brasília, conhecida como ferrovia Norte-Sul.
Foi a maneira que Jânio encontrou para provar que tais nomes já eram
conhecidos antes mesmo que o Ministério dos Transportes abrisse os envelopes
com as propostas dos concorrentes. A corrupção corria solta nos setores
públicos, a inflação não havia sido domada e a popularidade do presidente José
Sarney (1985-1990) descia ladeira abaixo.
Mais: em junho de 1987, o presidente contribuiria para piorar o cenário.
Lançaria o seu terceiro plano econômico, o Bresser, que congelaria não só preços
de produtos e aluguéis, como também de salários. Era mais uma tentativa sem
êxito de evitar a hiperinflação, que se avizinhava. O país padecia também com a
situação internacional. Naquele ano, a Black Monday — ou crash da Bolsa de
Nova York — assustaria o mundo: em 19 de outubro, o índice Dow Jones perdeu
mais de quinhentos pontos numa única jornada e arrastou os mercados mundiais
consigo. O Brasil ficou de pernas para o ar. Nesse contexto, as ideias e ações de
2

Collor começaram a reverberar.


Em 23 de março de 1988, ele estampava a capa da Veja, a revista de maior
circulação na época, sob o título “O caçador de marajás”. Collor acabara de
cumprir um ano como governador de Alagoas e já era considerado “um
fenômeno tão curioso quanto inesperado”. Figurava “entre os governadores mais
festejados do país” e começava a falar abertamente sobre uma eventual
candidatura à Presidência da República. Conforme a publicação, naquele ano o
então ex-ministro da Previdência Social Raphael de Almeida Magalhães, um dos
principais aliados do deputado federal Ulysses Guimarães (PMDB), havia
sondado Collor sobre a possibilidade de ele concorrer a vice-presidente em uma
chapa com o peemedebista nas eleições do ano seguinte. A resposta, regada a
sorriso farto e irônico, surpreendeu os mais desavisados:
— Ministro [Magalhães], o senhor deve estar enganado. Sou candidato a
presidente, não a vice.
Os institutos de pesquisa de intenção de voto já tinham alçado Collor a
possível presidenciável. No início de 1988, a Veja divulgou um levantamento
feito pelo Vox Populi com 2.157 entrevistados mostrando que ele tinha chance.
Era o segundo político mais admirado no Sul e o quarto no Sudeste, ou seja,
estava no seleto grupo de medalhões da política, composto por Leonel Brizola
(PDT), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Orestes Quércia (PMDB). Questionado
pela Veja sobre seu interesse na Presidência, dizia inspirar-se, curiosamente, no
marechal Deodoro da Fonseca, o proclamador da República:
— Deodoro foi o primeiro presidente da República e era alagoano. Eu
também serei presidente, como ele. 3

Ele acreditava no que dizia. Assim, em março de 1988, já se viam para vender
nos calçadões da avenida Atlântica, em Copacabana, camisetas brancas com a
frase “Collor presidente” em azul, verde e amarelo. Na família do governador,
no entanto, a ideia de disputar o Palácio do Planalto não era unanimidade. O
jornalista Cláudio Humberto Rosa e Silva, que atuou como assessor de Imprensa
de Collor e seria um de seus aliados mais próximos nas décadas de 1980 e 1990,
recordou, em 2018, quanto Leopoldo Collor, irmão de Fernando, se opunha à
candidatura:
— Leopoldo reclamava muito e tentou demovê-lo da ideia de se candidatar
algumas vezes. Chegou a ligar para mim, numa tarde, por volta das 15 horas,
com uma voz de quem parecia estar falando para uma plateia, para um grupo de
amigos reunido em torno de uma mesa de restaurante, talvez… E me disse algo
assim: “Estou tentando falar com esse maluco do meu irmão, mas ele não me
atende. Então é você que vai ouvir. Sei que foi você que botou essa idiotice [de
concorrer à Presidência] na cabeça do meu irmão, levando nossa família ao
ridículo. Ele não tem chance. Será ridicularizado.”
Cláudio Humberto não gostou do telefonema e da cobrança. Não gostou
sobretudo do tom, por isso se queixou com o governador:
— Fui contar o que havia acontecido e pedir que Collor tomasse uma
providência. A resposta dele foi clara: “Da próxima vez, nem atenda [o
telefone].”
Cláudio Humberto dizia que Collor não fora convencido a se candidatar ao
Planalto, pois já carregava o anseio dentro de si. Aonde chegava, atraía atenções
e mobilizava pessoas. Ele próprio percebeu que havia “um cavalo encilhado”
bem ali, à sua frente.
— Apenas decidiu montar.
E o galope de Collor, recorda-se o jornalista, começou após uma reunião com
o então senador por São Paulo e um dos líderes do PSDB Mário Covas, dono de
um enorme capital político em nível nacional traduzido em votos. Era 1988, e
ambos decidiram se encontrar no apartamento funcional do parlamentar, em
Brasília. A ideia do governador de Alagoas era formar uma chapa com Covas,
mas, para decepção de Collor, ele informou que não se sentia preparado para
presidir o país e que isso só aconteceria depois que ele governasse São Paulo (no
fim, acabou concorrendo à Presidência e ficou em quarto lugar). Na saída, ainda
no elevador, Collor ouviu pela primeira vez a defesa de sua candidatura.
Estavam com ele Cláudio Humberto e o deputado e também amigo Cleto Falcão.
Ambos concordaram que a ideia era viável.
Um ano depois, no dia 15 de setembro de 1989, Collor estreava no horário
eleitoral como candidato do PRN à Presidência da República. Usando o vocativo
“minha gente”, que para sempre marcaria seu discurso político, propunha de
peito aberto um “Brasil novo”, em total sintonia com a intensa cobertura
jornalística da qual havia sido alvo nos meses anteriores. O PRN tinha apenas
sete meses de vida. Era a nova cara do também novato e inexpressivo Partido da
Juventude, criado em novembro de 1985. No manifesto do PRN afirmava-se que
“a reconstrução moral é pré-requisito para todas as demais tarefas que enfrenta a
sociedade brasileira no campo político, econômico e social”, e, em seu
4

programa, o partido definia-se como liberal democrático, apostando na retomada


do crescimento econômico a partir da redução da interferência estatal na
economia.
Em seu primeiro horário eleitoral de TV, Collor apareceu em Santa Cruz
Cabrália, na Bahia. Lembrou a primeira missa celebrada pelos colonizadores
portugueses em território nacional e falou sobre a necessidade de “redescobrir o
Brasil”. O país havia passado 21 anos sob ditadura militar, tinha um presidente
impopular, José Sarney, e, na opinião do governador, precisava ser refundado.
Nos programas de TV que se seguiram, ainda naquela primeira semana de
campanha, Collor passou pela Baía de Todos os Santos e pela nascente do rio
São Francisco. Considerava vital visitar pontos históricos e levar a seus eleitores
a ideia de que representava o novo na política.
— A minha candidatura nasceu sem o apoio do sistema que aí está — dizia
ele, de costas para uma das cachoeiras do Velho Chico. — Sem apoio de
governador, senador, deputado, banqueiros, empresários... Ninguém do sistema
militar. Ela nasceu nas ruas. Nasceu limpa, cristalina, pura, como as águas do rio
São Francisco.
Por semanas, o candidato do PRN usou no horário eleitoral frases como “Eu
vou fazer o Brasil onde vale a pena ser honesto” e “Lugar de corrupto é na
cadeia”. E usou boa parte de seus setenta programas gravados para uso
acadêmico pelo Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e
Opinião Pública da Uerj para apresentar suas propostas de governo. Toda vez
que citava uma delas, mostrava o selo “Compromisso Collor”, um carimbo
amarelo, bem chamativo, no centro da telinha. Quem assiste às gravações hoje
em dia, com a distância do tempo histórico, enxerga um alinhamento às causas
da esquerda — talvez uma tentativa de fazer frente ao candidato que, segundo
acreditavam Collor, seus assessores e boa parte dos comentaristas políticos da
década, passaria com certeza ao segundo turno da disputa: Leonel Brizola, do
PDT.
Na TV, Collor propôs a participação dos trabalhadores na gestão do FGTS e
do PIS/Pasep, bem como na distribuição do lucro de todas as empresas do país.
Em meio a uma inflação mensal de mais de 30%, assegurava que “a política
salarial não perderia, em momento algum, para a inflação”. Esforçava-se para ser
vanguardista. Queria trabalhar aliado à ONU “pela criação do imposto
internacional sobre a poluição, para financiar projetos de proteção e recuperação
do meio ambiente”, além de estabelecer o “Programa Nacional de
Conscientização Ecológica, incluindo uma cadeira de Ecologia no ensino
público e privado”. Para a saúde, tinha diversos “Compromissos Collor”: investir
6% do PIB por ano no setor; diminuir em mais de 40% a mortalidade infantil; e
aumentar em seis anos a expectativa de vida da população. Na época, de acordo
com o Banco Mundial, o brasileiro vivia em média até 64,9 anos, bem atrás, por
exemplo, dos americanos (75 anos) e dos mexicanos (70 anos). 5

O campo e as questões agrárias também ganharam espaço na plataforma de


Collor. Ele prometia entregar o Ministério da Agricultura a um “não político”, a
“um homem do campo, [alguém] que sabe o que significa uma semente plantada
na terra, que saiba o que significa colheita, safra”. (Vale notar que, após a
eleição, o nome escolhido por Collor foi o do pecuarista Antônio Cabrera, de
apenas 29 anos e dono de 23 fazendas.) O candidato do PRN ainda queria fazer a
reforma agrária e melhorar a habitação popular no país. Sua proposta incluía
assentar 500 mil famílias e construir mais de 3 milhões de casas populares. Isso
se somava à proposta de liberar o vale-transporte a todos os cidadãos — e não
apenas a quem tivesse carteira assinada — e reconstruir 32 mil quilômetros de
rodovias. Tudo isso aparecia na TV.
O dinheiro para materializar seus compromissos viria, segundo o próprio
Collor, de três grandes reformas que o Brasil precisaria enfrentar: a fiscal, a
administrativa e a patrimonial. Explicava-as didaticamente aos eleitores:
— A [reforma] fiscal vai nos render US$ 45 bilhões. Mas o que é? É o duro
combate a sonegadores de impostos. Vamos ter um sistema mais justo para os
assalariados. Vamos levantar informações sobre quem sonega. Vamos rever
incentivos fiscais e subsídios. A reforma administrativa vai gerar US$ 6 bilhões.
Consiste em resgatar a eficiência e a dignidade do serviço público. Valorizar
funcionários públicos que trabalham e acabar efetivamente com os marajás.
Vamos racionalizar o serviço público. Cortar pela metade o número de
ministérios. Com a reforma patrimonial, vamos conseguir US$ 13 bilhões.
Preservando estatais estratégicas, vamos privatizar empresas nas áreas em que o
Estado não precisa ser controlador. Faremos um cadastramento de terras e
imóveis de propriedade do governo federal para ver o que tem utilidade pública.
Vamos vender imóveis funcionais e acabar com as mansões e os carros chapa-
preta para ministros e demais autoridades. Vamos acabar com a mordomia.
Collor também contava com o dinheiro que viria da renegociação da dívida
externa brasileira. Em suas palavras, o pagamento deveria ser feito “de forma
compatível com nossas necessidades de crescimento econômico”, o que poderia
gerar US$ 12 bilhões extras aos cofres públicos. Tudo parecia mera questão de
aritmética, tudo parecia óbvio e, de certa forma, simples. Por conta disso, em
poucas semanas, seu discurso e suas promessas se disseminaram pela sociedade.
Celebridades aderiram à causa e foram à TV em sua defesa, entre elas o
apresentador João Kléber, as atrizes Marília Pêra, Tereza Rachel, Pepita
Rodrigues, Ísis de Oliveira, Mila Moreira, os atores Milton Morais, Jorge Dória,
o jornalista e cineasta Ipojuca Pontes, o cultuado Frei Damião e o cantor Cazuza.
Eles apareciam nas propagandas de Collor ou autorizavam que o candidato
usasse suas imagens no horário eleitoral. A atriz Cláudia Raia ganhou
protagonismo: virou repórter da propaganda de Collor e costumava ir à casa dos
eleitores para entrevistá-los sobre temas como inflação, desemprego, miséria etc.
A cantora Simone foi outro destaque. Subiu em palanques, fez comícios, cantou.
Acreditava, assim como os demais, no “Brasil novo, minha gente”.
No dia 15 de novembro de 1989, os brasileiros foram às urnas, após 21 anos
de regime militar, para escolher por eleições diretas o presidente do Brasil. Era a
primeira vez no país após 28 anos. Com 20,6 milhões de votos, Collor passou
para o segundo turno. Mas não para confrontar Brizola e sim o ex-metalúrgico e
ex-sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula, que disputava pelo partido que
fundara, o PT, e obtivera 11,6 milhões de votos (500 mil a mais que o pedetista).
Em 2018, a jornalista e publicitária Maria Tereza Lopes Teixeira, que integrou
a equipe de Comunicação da campanha do PRN, relembrou o susto:
— Collor não esperava ir para o segundo turno contra o Lula. Esperava o
Brizola. Seria fácil bater no Brizola, que falava muito, fazia muita promessa.
Estávamos todos preparados para enfrentá-lo. Mas, quando o Lula ganhou, foi
como se tivessem tirado o nosso chão. O Collor tinha admiração pelo Lula. E foi
uma surpresa ainda maior quando o Lula começou a bater com muita força nele.
Belisa Ribeiro, jornalista responsável pela gravação dos programas eleitorais
de Collor no porão do Colégio Dom Bosco, em Brasília, corrobora o relato de
Maria Tereza. A presença de Lula no segundo turno aturdiu a campanha.
— Dona Leda, mãe de Collor, chegou a propor que a campanha exibisse uma
fotomontagem dele com uma metralhadora nas mãos — revela Belisa. — A ideia
não prosperou.
Com essa mudança de rumo, os bastidores do horário eleitoral de Collor
passaram por uma reviravolta. Nos dezessete programas exibidos durante a
campanha de segundo turno, os “Compromissos Collor” perderam espaço para
os ataques ao PT e a seu candidato. E com novo slogan: “Quem conhece o PT
não vota no PT”. Sempre que podia, mostrava imagens e entrevistas realizadas
na cidade de São Paulo, governada pela petista Luiza Erundina (1989-1993), e
em Fortaleza, Maria Luíza Fontenele (1986-1989), que encerrara seu mandato
em 1 de janeiro daquele ano, com o intuito de criticá-las. Mas o caldo entornaria
o

de vez na última semana da disputa.


Na noite de 12 de dezembro de 1989, a apenas cinco dias da votação, Collor
foi convidado a participar do Programa Ferreira Netto, na época um dos mais
populares da TV Record. Quando chegou ao estúdio, em São Paulo, estava
visivelmente tenso. Naquela tarde, a Justiça Eleitoral proibira o programa de dar
espaço a apenas um dos candidatos na disputa presidencial, e o jornalista
Ferreira Netto decidira enviar um convite de última hora a Lula. Com a recusa
de Lula, o programa não foi cancelado, mas Collor teria de falar ao vivo por
duas horas e vinte minutos, sozinho. No livro Notícias do Planalto, o jornalista
Mario Sergio Conti conta detalhes dessa noite. Diz que Ferreira Netto combinou
com Collor que lhe faria sinais durante a entrevista. “Se o candidato se mostrasse
exaltado, ele abaixaria a mão, fora do enquadramento das câmeras, para sinalizar
que deveria diminuir a intensidade da voz. Se estivesse monocórdico ou pouco
convincente, o apresentador o avisaria levantando a mão.” Com esse acerto para
6

beneficiar o candidato, a entrevista começou às 23 horas em ponto.


Segundo o instituto Ibope, o programa foi visto por 830 mil pessoas só na
Grande São Paulo. Collor parecia decidido a fulminar Lula, reforçando o medo
que as propostas do ex-líder sindical inspiravam na sociedade e no mercado.
Num determinado momento, o apresentador enveredou por questões econômicas
— espinhosas para o país — e fez uma pergunta que marcaria para sempre a
trajetória política de Collor. Sentado atrás de uma mesa bege, Ferreira Netto
abordou o drama das dívidas interna e externa e, em seguida, disparou, à
queima-roupa:
— O senhor garante aos poupadores que não tocaria jamais na poupança?
A câmera enquadrou o rosto de Collor o mais perto que pôde e capturou sua
resposta:
— Sem dúvida.
Ferreira Netto respirou aliviado e Collor viu espaço para continuar:
— Dar calote na dívida interna significa, em bom português, que todos
aqueles que têm poupança aplicada no open market ou na caderneta de poupança
vão perder suas aplicações e suas poupanças. É isso que significa quando o
candidato do PT diz que vai dar calote na dívida interna. É preciso que se leia
bem o significado desta expressão: “calote da dívida interna”. Significa que
poupadores da caderneta de poupança e overnight não vão ter mais esse
dinheiro. A tese do calote da dívida interna deixa todos apavorados. Como ele
pode sequer defender essa tese? É algo indefensável. Porque ataca e afeta o
pequeno poupador.
No dia seguinte, ao resumir os principais trechos da entrevista, O Globo
destacaria a frase de Collor: “[A eventual vitória de Lula] será o caos. Ele vai
acabar com a poupança.” 7

No segundo turno daquela eleição, Lula e Collor se enfrentaram duas vezes


em debates de TV. Uma nos estúdios da Manchete, no Rio de Janeiro, no dia 3
de dezembro, e outra no dia 14, nos estúdios da Bandeirantes, em São Paulo.
Esse segundo debate foi noticiado em duas reportagens veiculadas pela TV
Globo no dia seguinte: uma no Jornal Hoje e outra no Jornal Nacional. A versão
divulgada neste último, que era o telejornal de maior audiência do país, causou
polêmica.
No site Memória Globo, a emissora detalha o caso: “A Globo foi acusada de
selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula, favorecendo,
assim, o candidato do PRN. Foi acusada também de privilegiar as intervenções
de Collor, já que ele recebeu um minuto e meio a mais do que Lula.” Em 8

seguida, lembra que o PT moveu uma ação no TSE pedindo que novos trechos
do debate fossem apresentados no Jornal Nacional antes das eleições. Seria um
direito de resposta, mas o recurso foi negado. Houve então protestos em frente à
sede da TV Globo, no Rio de Janeiro, reunindo até mesmo atores da emissora,
entre outros artistas e intelectuais. A partir desse episódio, a TV Globo decidiu
não mais editar debates políticos, limitando-se a apresentá-los na íntegra e ao
vivo.
Naquele debate, uma pergunta colocou novamente em evidência a posição de
Collor sobre um eventual bloqueio da poupança. No primeiro bloco, o candidato
ouviu as seguintes perguntas, feitas pelo comentarista de economia Joelmir
Beting, da TV Globo: 9

— A única coisa em que o brasileiro confia hoje é no banco, ou o dinheiro nas


mãos dos bancos — disse Beting. — Caderneta, overnight, fundos de curto
prazo, títulos do governo, PTN, correção monetária... Se eleito, o senhor
pretende mudar as regras do jogo, mexendo em prazos de aplicação, taxas de
juros e índices de correção monetária? Qual sua proposta de governo para a
dívida pública e o dinheiro do povo em banco?
Collor ofereceu a mesma resposta:
— Eu quero deixar bem clara a minha posição. Eu sou contra os calotes. Eu
sou contra o beiço que o meu adversário quer dar na dívida externa e na dívida
interna, aí incluída também a caderneta de poupança.
A proposta de enxugamento radical da liquidez, que resultaria em confisco
provisório dos ativos, surgira inicialmente nos meios acadêmicos e fora levada a
alguns candidatos. No caso de Collor, havia pelo menos três meses ele já
cogitava fazer algum tipo de intervenção na poupança dos brasileiros, mas a
existência dessa pretensão de mexer na poupança — prévia à vitória nas urnas
— só se revelaria depois. No livro Zélia, uma paixão, relato em tom de romance
sobre a trajetória de Zélia Cardoso de Mello, então assessora de campanha de
Collor (e posteriormente ministra), o escritor Fernando Sabino conta que, desde
setembro de 1989, Collor já falava em mexer no dinheiro privado. Portanto, ele
estava mentindo em suas declarações como candidato ao Planalto tanto na
entrevista a Ferreira Netto quanto no debate na TV.
Zélia, que quase não viajava em campanha, elaborava em São Paulo, junto
com os economistas Luiz Eduardo Assis e José Francisco Gonçalves, dois de
seus assessores mais próximos, o programa de governo de Collor. Sabia cada
linha do plano. Havia estudado, visto e revisto seu conteúdo com afinco.
Segundo Sabino, durante um almoço no restaurante Rodeio, na capital paulista,
tanto Zélia quanto seus assessores ouviram o seguinte diálogo: 10

— Minha intuição me diz que, se não bloquearmos o over, não vai dar certo
— disse Collor.
Mas Luiz Eduardo Assis, que pouco depois se tornaria diretor de Política
Monetária do Banco Central, retrucou, tentando conter o candidato:
— Isso vai ser muito traumático!
Collor, porém, repetia, sacudindo a cabeça:
— Sem pegar o over não dá certo.
Em 2011, em entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, da GloboNews,
Collor falaria sobre os bastidores de sua campanha eleitoral. Disse que queria
11

dar um ippon (golpe que encerra uma luta de judô) na inflação e que fez diversas
reuniões com economistas e pessoas do mercado financeiro para colher opiniões
sobre o melhor caminho a seguir. Em sua visão, um desses encontros foi
definitivo:
— Dele participaram o ex-ministro Mário Henrique Simonsen, o economista
André Lara Resende e um homem que, naquela época, era do mercado: Daniel
Dantas. E perguntei: “Como é que o senhor [em referência a Simonsen] acha que
o nosso governo pode debelar a inflação rapidamente?” E ele ficava
conjecturando, pensando em voz alta, intercalado com comentários ora do
André, ora do Daniel. E todos chegavam a uma mesma conclusão. Quando
terminavam de engendrar o seu raciocínio, diziam: “É... mas isso com a liquidez
que o mercado hoje dispõe é impossível. Não dá.”
Na conversa com Geneton, o já ex-presidente contou ainda que, num
determinado momento, André Lara Resende sugeriu congelar a liquidez,
estancá-la.
— Ministro, isso pode ser politicamente difícil de fazer, mas tecnicamente não
é a saída? — teria perguntado Lara Resende a Simonsen.
— Tecnicamente sem dúvida é a saída, mas não vamos nem adentrar nesse
assunto porque politicamente é inviável — respondera Simonsen.
Segundo Collor, aquelas palavras o marcaram:
— O ministro dizendo que tecnicamente era a saída, mas politicamente era
inviável porque dificilmente o governo conseguiria implantar aquilo sem
comoção nacional e até com desdobramentos imprevisíveis. Então começou a
formar dentro de mim a ideia de que, junto com o congelamento de preços,
teríamos que dar uma enxugada nessa liquidez.
Em 1989 o cenário econômico do Brasil era dramático. A inflação batia
37,56% ao mês, segundo o IPCA. Era preciso enxugar a moeda circulante e a
campanha sabia disso. Nos bastidores, dizia-se que o ministro da Fazenda de
Collor sairia do PSDB — talvez o escolhido fosse o paulista José Serra. Mas, em
pouco tempo, Mário Covas e Artur da Távola, dois medalhões do PSDB,
barraram a ideia. Na ausência de opções, o nome de Zélia Cardoso de Mello, a
mulher por trás do programa de governo, tornou-se a principal carta no baralho
para assumir os destinos da economia brasileira.
No dia 17 de dezembro de 1989, no segundo turno das eleições, Collor foi
eleito presidente do Brasil com 53,03% dos votos válidos. Lula teve 46,97%, e
Zélia passou a integrar o gabinete de transição como futura ministra da
Economia, Fazenda e Planejamento. Em 15 de março de 1990, Collor recebeu a
faixa presidencial das mãos de José Sarney e fez um juramento constitucional no
Senado diante de representantes de mais de 120 países e de todos os
parlamentares reunidos em Brasília. A cerimônia foi transmitida ao vivo para
todo o Brasil. Em seu discurso, o novo presidente foi enfático.
12

— O propósito imediato de meu governo, senhores, a meta número um de


meu primeiro ano de gestão, não é conter a inflação: é liquidá-la — declarou,
dizendo ainda frases contundentes como: — Minha presidência jogará tudo na
vitória contra esse câncer social, esse obstáculo intolerável à retomada decisiva
do nosso desenvolvimento econômico e humano. — E ainda: — Tenho certeza
de que, com o apoio resoluto do povo e do Congresso, ainda este ano haveremos
de ferir de morte, de destruir na fonte, a inflação no Brasil. 13

Na verdade, “ainda este ano” era um eufemismo — a luta começaria já no dia


seguinte, quando o Plano Collor foi anunciado. Em coletiva de imprensa
realizada à tarde em Brasília, a já ministra Zélia apresentou três medidas que
valeriam a partir daquele instante: os cruzados novos virariam cruzeiros; o
14

governo bloquearia por dezoito meses todos os depósitos feitos à vista, a prazo,
em cadernetas de poupança e no overnight que excedessem 50 mil cruzados
novos; e haveria um imposto (IOF) de 15% sobre todos os ativos não
financeiros, como ouro e ações. Em minutos, o Plano Collor virou o Brasil de
ponta-cabeça.
Ao abrir a coletiva, a ministra parecia nervosa. Dizia e desdizia frases,
buscando as melhores palavras, e entremeava as linhas de seu discurso com um
pigarro que não a deixava em paz. Em sua fala, tentou ser lógica e simples.
Primeiro, informou que sua equipe e ela haviam feito “um diagnóstico sobre os
problemas da economia” durante a campanha e no período de transição
presidencial, detectando o “desequilíbrio financeiro do Estado brasileiro”. Para
Zélia e seu time, os programas de estabilização postos em prática nos anos
anteriores haviam falhado por não terem atacado “conjuntamente as diversas
causas desse desequilíbrio”.
E o governo Collor estava ali, arregaçando as mangas, pronto para corrigir o
erro:
— A partir de hoje fica criado o cruzeiro, que substitui o cruzado novo, mas
não há alteração de zeros. E como é que as pessoas convertem os cruzados novos
que tinham até ontem em cruzeiros? — acrescentou a ministra, numa pergunta
retórica. — Essas pessoas convertem da seguinte maneira: os cruzados novos
que estão no banco quer sob a forma de depósito à vista, depósito a prazo,
poupança e overnight, serão convertidos em cruzeiros ao par até o limite. No
caso de poupança e depósito à vista, de 50 mil; no caso de overnight e de
depósito a prazo, de 25 mil ou 20%, o que for maior. 15

Na sala, o silêncio persistia. Os jornalistas permaneciam debruçados sobre


seus cadernos, enquanto os fotógrafos registravam os movimentos contidos da
ministra. Todos tinham certeza de que aquele era um anúncio histórico, mas
precisavam entender melhor as palavras para poder explicá-las aos leitores e
espectadores. E Zélia avançou, buscando elucidar:
— Isso significa o seguinte: quem tinha ontem, no depósito à vista ou no
overnight, 50 mil cruzados novos, pode ir ao banco na segunda-feira e sacar, se
quiser, 50 mil cruzeiros. O que excede isso, a parte excedente a esses 50 mil,
ficará depositada no banco, junto ao Banco Central, sob a titularidade da pessoa
física ou pessoa jurídica.
O Brasil acompanhava o anúncio pela TV e em muitas casas o pânico sentou
no sofá. Na TV Manchete, por exemplo, os comentaristas permaneciam calados,
dando vez à explicação da ministra. 16

— Durante esses dezoito meses, esses depósitos [bloqueados] em cruzados


novos recebem correção monetária mais juro de 6%.
Depois, poderiam ser sacados na nova moeda. Zélia sabia que o Plano Collor
cairia como uma bomba no país, por isso se antecipou:
— Evidentemente isso significa um aperto da liquidez, um enxugamento da
liquidez bastante grande.
Nesse ponto, preferiu passar a palavra aos outros membros da mesa. O então
presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, assumiu o microfone e tentou ser
mais objetivo na defesa da medida:
— Nada está sendo confiscado. Todos os ativos que um cidadão tem ele terá
daqui a dezoito meses. Em nenhum momento está proposto que o governo vai
apropriar algum pedaço das poupanças ou ativos financeiros. Vamos entender
bem: não há nenhuma mudança na titularidade do ativo.
Mas o Brasil não enxergou dessa maneira. Para sempre se referiria
popularmente a esse momento como o dia em que Collor tomou a poupança do
povo.
Nas semanas que antecederam o anúncio, Collor havia conversado com uma
série de economistas e se convencera completamente de que a espiral
inflacionária em que o país estava imerso só seria debelada com a redução do
excesso de dinheiro circulante na economia. Até por isso, em seu discurso de
posse, falara que “jogaria tudo na vitória” contra a inflação. Mas a estreia de
Zélia no superministério da Economia, diante de uma população estarrecida com
o Plano Collor, foi caótica.
Para tentar suavizar o susto que o Brasil levaria à tarde durante a transmissão
ao vivo de sua entrevista coletiva, Zélia, acompanhada de Ibrahim Eris e do
secretário especial de Política Econômica, Antônio Kandir, reunira de manhã
apenas doze jornalistas numa sala em Brasília. Queria explicar primeiro a esse
grupo as mudanças que seriam implementadas. Muitos anos depois, o jornalista
de economia Luís Nassif descreveria esse encontro, na Folha de S.Paulo, como
um festival de confusões: “Alguns dos jornalistas saíram com a impressão de
que, dali por diante, o governo confiscaria qualquer ganho futuro que superasse
os 50 mil cruzados novos mensais.” 17
Cláudio Humberto, que passara de assessor de Imprensa de Collor a porta-voz
da Presidência, confirmaria, em 2018, que a divulgação do Plano Collor foi feita
de forma improvisadíssima:
— Além do presidente, da ministra e das pessoas que participaram da
elaboração dele, ninguém sabia de nada. Todos fomos pegos de surpresa,
especialmente o pessoal da área de Comunicação do governo que se iniciava.
Para “apagar o incêndio”, Cláudio Humberto conta que fez o possível, mas
não era uma situação simples: Zélia e sua turma não paravam de dar entrevistas.
Apareciam até em programas de auditório. Sobravam dúvidas sobre o que
aconteceria com os salários e as aposentadorias, sobre a conversão das dívidas e
as contas que estavam a ponto de vencer. Para a equipe econômica de Collor, tais
assuntos pareciam menores, irrelevantes, diante dos desafios do novo governo, a
começar pelo combate à inflação. Só que essas questões “menores” e
“irrelevantes” cresciam nas ruas. Apavoravam.
Quatro dias depois do anúncio do plano, tomado pelo desespero, Valdecir
Ferreira Lima, 41 anos, ex-vereador de Rio Negro, cidade a 202 quilômetros de
Campo Grande (MS), invadiu de carro uma agência bancária, quebrando duas
portas de vidro e assustando quem estava no local. A gerência se recusara a
18

liberar os recursos que ele mantinha aplicados em fundo a curto prazo. Sem
entender as novas regras econômicas, Lima saíra gritando do banco, afirmando
que não era caloteiro. Dizia que estava sem um tostão para pagar as contas, entre
elas a prestação do carro. O ex-vereador foi preso em flagrante. Na delegacia,
mais calmo, alegou que fizera aquilo para chamar a atenção do país para o seu
drama. No início do ano tinha vendido um sítio para pagar os estudos dos filhos
e aplicado todo o dinheiro no banco. Agora, seus credores não aceitavam
explicações. Não ligavam para essa história de Plano Collor, de controle da
inflação.
— Ele é uma pessoa humilde e honrada. Foi um momento de desespero —
ponderou o delegado Jorcy Barbosa, antes de receber uma pequena fiança e
liberar o ex-vereador. — Já pensou você ter a sensação de que perdeu tudo? —
concluiu, verbalizando o que muitos pensaram ao tomar conhecimento do caso.
A comoção foi tanta com aquele drama que o gerente do banco resolveu não
apresentar queixa contra Lima. Os amigos mais próximos do ex-vereador se
juntaram para ajudá-lo financeiramente. No entanto, outras histórias não
acabariam tão bem. Multiplicaram-se pelo país os gestos desesperados, sendo
que alguns levaram a tragédias. Em 23 de abril de 1989, por exemplo, o major
reformado do Exército Dorvalino Siqueira Duarte, de 70 anos, escreveu uma
carta de despedida dizendo que o governo o havia levado à falência, deixando
sua família na miséria, e que não lhe restava alternativa “senão morrer”. Naquele
dia, pouco mais de um mês após o anúncio do Plano Collor, Duarte matou a tiros
a mulher, Eli, de 67 anos, a cunhada Edi Cemale, de 55 anos, e se suicidou no
apartamento da família, em Porto Alegre. A empregada da casa, Eni Rocha dos
19

Santos, encontrou os corpos ensanguentados e disse à imprensa que o patrão


andava desesperado desde o bloqueio determinado por Zélia Cardoso de Mello.
Duarte vinha apresentando episódios de vômitos e diarreia e parecia fora de si.
É bem verdade que Collor foi responsável pela abertura econômica do Brasil,
por reduzir impostos e causar uma verdadeira invasão de produtos importados no
país, forçando a produção nacional a se tornar mais competitiva. Também é
verdade que promoveu uma reforma administrativa, enxugando o número de
ministérios e pondo fim a diversos cargos inúteis. Além disso, deu a largada num
programa de privatizações de grande porte e livrou o país de várias leis que
impediam a livre concorrência na economia. Ainda ratificou leis fundamentais,
como o Estatuto da Criança e do Adolescente (julho de 1990), o Código de
20

Defesa do Consumidor (em setembro de 1990) e a Lei Rouanet (dezembro de


21

1991), de fomento à cultura. Mas é do bloqueio da poupança que ninguém se


22

esquece.
Os artistas que o haviam apoiado em campanha passaram a criticá-lo com
veemência. O Plano Collor foi lançado enquanto a TV Globo exibia os capítulos
das últimas semanas da novela Tieta, com uma média de audiência superior a
setenta pontos. Um sucesso absoluto. A atriz Betty Faria, que interpretava a
personagem-título, foi uma das muitas a reclamar do bloqueio. O dinheiro que
havia aplicado na poupança e no over fora confiscado, e ela não teria mais
condições de continuar a reforma que fazia em seu apartamento.
— Fui pega de saia justa — disse, juntando-se aos milhares de brasileiros que
se sentiram enganados por Collor de Mello. 23

O ator José Mayer, o Osnar da novela, disse que, apesar do prazo de dezoito
meses fixado pelo governo para o fim do embargo, não tinha esperança nenhuma
de receber seu dinheiro de volta:
— No máximo [terei] um diploma de contribuinte para o futuro do Brasil —
afirmou, desolado. 24

Cláudia Raia, a estrela dos programas eleitorais “colloridos”, tomou um


desgosto tão grande pela política que parou de emitir qualquer opinião pública
sobre o assunto.
— Foi uma experiência traumática — reconheceria anos depois. 25
5. FHC

“Não vamos desvalorizar moeda nenhuma.”


JUNHO DE 1998
O presidente Fernando Henrique Cardoso discursa durante comemoração dos quatro anos do Plano Real. 02
de julho de 1998.
Em 18 de agosto de 1998, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso
(PSDB) já iniciava sua campanha pela reeleição, uma delegação de investidores
americanos e europeus desembarcou no Rio de Janeiro para participar de uma
reunião na sede do BNDES. O mundo estava atônito. Tentava entender a
desvalorização do rublo e a moratória de noventa dias que a Rússia havia
declarado no dia anterior. No enclave de arranha-céus estatais construídos na
avenida Chile, no Centro do Rio, o grupo de estrangeiros encontraria técnicos do
Departamento Econômico da instituição e faria perguntas de toda sorte para
conhecer melhor a situação econômica do país. A moeda já era o real, a inflação
parecia controlada e, aos olhos dos investidores, o Brasil tinha alcançado um
novo patamar de confiança.
O encontro corria conforme o previsto, com apresentação de relatórios,
projeção de slides e oferta de cafezinhos, até que um dos integrantes da
delegação pediu a palavra. Resoluto, declarou:
— Desde ontem [17 de agosto de 1998], o mundo é outro. Com a decisão da
Rússia, tudo muda daqui para a frente.
Um dos economistas do BNDES, que pediu anonimato, considerou a
intervenção arrogante e descabida. Irritou-se. Se o mundo mudara e não havia
mais motivos para estar ali, por que a delegação mantivera a reunião?, pensou.
Respirou fundo duas ou três vezes e deu prosseguimento à defesa dos interesses
nacionais. Até aquele instante, os brasileiros não haviam dimensionado
corretamente o impacto que a moratória russa e a desvalorização do rublo teriam
no Brasil. Só depois descobririam que os visitantes estavam certos: as decisões
anunciadas do outro lado do planeta arruinariam a percepção internacional sobre
investimentos em países emergentes como o Brasil. Ao fim e ao cabo, também
levariam FHC a abandonar seu discurso de defesa da paridade cambial.
Naquele agosto, a ressaca russa se somava à do futebol. Cerca de um mês
antes do encontro no banco de fomento, o Brasil perdera a Copa do Mundo para
os franceses por 3 a 0. Ronaldo, a estrela do time verde e amarelo, jogara mal —
por problemas de saúde nunca elucidados — e a pátria de chuteiras lambia a
ferida aberta pela derrota. A decepção afetara também FHC. Durante os jogos, o
presidente tinha respirado bola. Em diversas ocasiões reunira amigos e
familiares diante da TV, no Palácio da Alvorada, em Brasília, como mais um
torcedor qualquer. Aos mais íntimos, falava com certa angústia sobre “a
necessidade imperiosa”, popularmente disseminada, de os brasileiros ganharem
o campeonato. Via nisso uma espécie de “autoafirmação” da qual o país
dependia a cada quatro anos. “Não sei se vamos ganhar [a Copa]. Espero que
sim. Mas há sempre certa angústia”, registraria nos Diários da Presidência, livro
que reúne as anotações de seus tempos de presidente e que seria publicado anos
depois.1

Em meio aos jogos, FHC e outros onze políticos lançaram sua candidatura à
Presidência. Juntos, na TV, tornavam a propaganda eleitoral gratuita um quebra-
2

cabeça difuso em que as peças pareciam não se encaixar muito bem. Não tinham
as mesmas cores nem os mesmos formatos. De um lado, FHC esbanjava doze
minutos de exposição, graças à robusta coligação que o PSDB fizera com o PFL,
o PPB, o PTB e o PSD, e usava esse latifúndio para ressaltar os pontos altos de
seu primeiro mandato, destacando o combate à inflação.
Nas propagandas eleitorais, o presidente conseguia reunir celebridades
dispostas a repetir o jargão criado pelo publicitário responsável por sua
campanha, Nizan Guanaes, e pedir votos em seu nome. Assim, era comum ver o
judoca Aurélio Miguel sorrindo para a câmera e dizendo que “quem deu um
ippon na inflação vai dar um ippon no desemprego”. Ou a jogadora de basquete
Hortência repetindo que “quem encestou a inflação vai encestar o desemprego”.
E ainda o piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet falando que “quem ultrapassou a
inflação vai ultrapassar o desemprego”.
Na outra ponta do desequilibrado horário eleitoral, espremidos em segundos e
desprovidos de celebridades e de tecnologia sofisticada, apareciam Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PPS) e uma série de candidatos nanicos. Com o
tempo de TV proporcional ao tamanho do partido, Enéas (Prona) contava com
míseros 38 segundos para simplesmente berrar seu nome. Alfredo Sirkis (PV)
usava sua fugaz aparição para exibir uma plataforma ambientalista. Thereza Ruiz
(PTN), a única mulher na disputa, tinha ainda menos tempo de fala. Mal dizia
seu nome.
Entre 4 e 10 de setembro de 1998, as pesquisas mostravam que FHC estava
bem à frente dos concorrentes. O instituto de pesquisa Datafolha dava ao
presidente 48% das intenções de voto, ou seja, quase 50%, contra 25% de Lula e
7% de Ciro. Foi nesse cenário que, no dia 3, FHC reuniu a imprensa na
3

Academia de Tênis, um requintado clube de Brasília, e anunciou seu programa


para mais quatro anos no governo. Distribuiu um encadernado volumoso de capa
verde que trazia um globo estrelado no centro, remetendo à bandeira nacional.
Porém, no lugar da faixa onde se costuma ler “Ordem e Progresso”, lia-se o
slogan do PSDB, “Avança Brasil”, seguido do subtítulo “Mais quatro anos de
desenvolvimento para todos”. 4

FHC aproveitava o sucesso do Plano Real, implantado por ele no governo


Itamar Franco (1992-1995), do qual fora ministro da Fazenda. Surfava no
controle da inflação apostando na estabilidade do real. Havia lançado políticas
capazes, por exemplo, de manter o quilo do frango a R$ 1, o que elevaria seu
consumo em 40% em apenas três anos, de 1994 e 1997. Também conseguira
5

popularizar itens até então considerados nobres, inaugurando o tempo do iogurte


na mesa do brasileiro e da dentadura, já com preço mais acessível.
Esse mesmo sucesso atiçaria uma rixa entre FHC e Itamar em torno da
paternidade do real que persistiria por anos. Político de tradição estatizante e
nacionalista, Itamar tivera de relevar alguns princípios para aceitar medidas
como a alta dos juros e a depreciação do real, fundamentais para o êxito inicial
do plano, lançado em fevereiro de 1994, mas letais para a indústria nacional. Um
assessor econômico do governo Itamar, 25 anos depois, pediu anonimato para
comentar que Itamar ou se fez de sonso, aparentando desconhecer os efeitos
perversos das medidas para a produção interna, ou simplesmente não foi
informado de todos os detalhes do Plano Real. Não se sabe qual das duas opções
é a correta...
Fato é que, pouco antes, em dezembro de 1992, o impeachment de Fernando
Collor de Mello havia levado Itamar, então vice-presidente, ao poder.
Engenheiro de formação, político considerado honesto e com boa base eleitoral,
ele tentou ser um vice silencioso e discreto. Mas as denúncias de corrupção
contra o presidente o obrigaram a marcar posição no auge da crise. Itamar trazia
em seu currículo duas passagens pela Prefeitura de Juiz de Fora, em Minas
Gerais (1967-1971 e 1972-1974); e duas pelo Senado, nas legislaturas iniciadas
em 1975 e 1983. No ano em que assumiu o Palácio do Planalto, já tinha trocado
de legenda algumas vezes, seguindo uma prática corriqueira entre os políticos
brasileiros. Migrara do MDB para o PL, partido que ajudara a fundar, e do PL
para o PRN de Collor. Ou seja, três partidos em duas décadas. Com os
escândalos ligados ao impeachment, sentiu-se confortável para se filiar ao
PMDB e, com seu apoio, administrar o país.
O governo Itamar, que durou apenas 733 dias, foi marcado pelo plebiscito em
que os brasileiros decidiram manter o Brasil como uma república
presidencialista e pela implantação do Plano Real, que deu ao país a desejada
estabilidade econômica. Foi marcado ainda pelo tetracampeonato da seleção
brasileira de futebol e pela morte de Ayrton Senna, tricampeão mundial de
Fórmula 1 durante uma corrida na Itália. Esse período, no entanto, não passou
livre de mentiras, exageros e contradições. Em abril de 1994, por exemplo,
quando o Brasil já falava nas eleições presidenciais daquele ano, Itamar saiu em
defesa do ex-ministro Fernando Henrique Cardoso. E os jornais da época 6

flagraram uma contradição importante entre o discurso e a prática política de


Itamar.
A contradição aparecia no fato de, em 1981, Itamar ter apresentado, ainda
como senador, um projeto de lei (o de n 55 daquele ano) que vedava a
o 7

participação de presidentes da República em campanhas eleitorais. O artigo 1 o

desse texto determinava que o “presidente estava proibido de participar de


qualquer manifestação político-partidária” num pleito. A proibição se estendia ao
vice-presidente, aos governadores, prefeitos e respectivos vices. Quem
descumprisse essa lei, idealizava Itamar, responderia por crime de
responsabilidade. Em 8 de abril daquele ano, quando apresentou esse projeto ao
Senado, disse que julgava condenável a influência do poder político nas
consultas eleitorais:
— O processo visa assegurar o equilíbrio das contendas eleitorais, de forma
que a vontade popular não venha a ser viciada pela tendenciosa influência das
máquinas administrativas estatais.
Se em 1994 esse projeto estivesse em vigor, Itamar teria sido punido por crime
de responsabilidade. Seu apoio ao PSDB foi aberto e importante para as vitórias
de FHC nas urnas, apesar das mágoas e da rixa — Itamar passaria à história não
por ter instituído o Plano Real em seu governo, cujas glórias ficariam todas com
FHC, mas por ter apoiado a volta do Fusca ao mercado nacional como opção de
carro popular.
Quatro anos depois, na reta final da campanha pela reeleição, FHC não tinha
tempo a perder com birras passadas. Durante o encontro com jornalistas na
Academia de Tênis, parecia animado. Contava com a companhia de seu
candidato a vice, Marco Maciel, de seu ministro da Educação, Paulo Renato, e
do coordenador do programa de governo, Carlos Américo Pacheco. Mostrou-se
satisfeito com o fato de a proposta encadernada ter nascido de contribuições
advindas da internet. Acreditava que o documento reunia “um conjunto de obras
e ações para melhorar a vida de mais brasileiros”.
Naquela tarde, FHC deu uma longa entrevista e, contrariando a recomendação
de seus conselheiros mais próximos, discorreu sobre o caos econômico que
abalava o planeta. Em setembro de 1998, o Brasil e o mundo tinham assistido à
crise do México, da Tailândia, da Coreia do Sul e dos demais Tigres Asiáticos; e
acompanhado a devastação desses lugares por conta da forte especulação com
títulos do governo e/ou com moedas que, de alguma forma, tinham estado
vinculadas ao dólar. As bolsas haviam despencado e a instabilidade econômica
colocava em risco o controle da inflação no Brasil. Anos depois, já fora da
Presidência, FHC recordaria esse momento: “Todo mundo dizia para eu não falar
disso [da crise]. Mas falei com tranquilidade dos obstáculos, do que íamos fazer,
da nossa experiência... Disse que não queria misturar esse processo difícil para o
Brasil com a questão eleitoreira, de campanha, porque seria um alarmismo não
aceitável.”8
Mas acabou misturando. No dia seguinte ao discurso do presidente, as bolsas
tiveram mais um dia de queda significativa por todo o mundo. A de São Paulo
despencou 10%, teve circuit break (ou seja, parou) e, depois de reaberta, chegou
a registrar 13% de perdas. Só naquela data, o Banco Central precisou gastar US$
9

2,6 bilhões das reservas internacionais para manter a paridade entre o dólar e o
real. Um montante assustador. Desde julho de 1994, a moeda brasileira oscilava
pouco frente à americana. Num determinado momento, valera até mais que ela.
E o brasileiro de classe média já se acostumara a um real forte. Viajava para o
exterior, comprava bens de consumo importados e fazia dívidas em dólar.
Nas primeiras semanas do mês que entraria para a história como “Setembro
Negro”, por causa da queda das bolsas em todo o mundo, FHC sabia
perfeitamente que, em breve, precisaria tomar uma medida drástica, já que o
controle do câmbio se anunciava insustentável. Cálculos elementares indicavam
que as contas externas do Brasil não fechariam em 1999 e que todo o esforço
feito pelo país (e pela equipe econômica) para aumentar as reservas
internacionais poderia ruir com a tentativa de segurar o real. Os principais
10

conselheiros econômicos de Fernando Henrique se dividiram: de um lado, estava


a corrente liderada pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, e pela equipe do BC
de Gustavo Franco, segundo a qual a política de câmbio deveria ser mantida
“custe o que custar”; de outro, estavam o ministro da Saúde, José Serra, e o
11

presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros, fazendo pressão para


que a paridade cambial fosse revista com urgência. Mas FHC seguia inflexível
no discurso pautado pelo “não vamos desvalorizar moeda nenhuma”. Chegava 12

até mesmo a atacar os rivais quando eles abordavam o tema. Dizia que
“cacarejavam” muito sobre assuntos que não controlavam.
— Quem fica cacarejando aí o que não sabe, que é preciso desvalorizar [o
real], é porque não tem apreço pelo trabalhador — repetia. 13

Era FHC colocando-se em posição de superioridade, como se fosse dono da


verdade, num cenário sabidamente complexo e arriscado. Era FHC interditando
o debate público sobre o assunto, alegando que o tema era antipatriótico, uma
bandeira carregada apenas por insanos e viúvos da velha e corrosiva inflação.
Uma lógica que se refletia nas 172 páginas do programa de governo que ele
apresentava aos eleitores.
No capítulo sobre as propostas para “consolidar a estabilidade econômica”,
FHC destacava que esta era “um bem social de primeira necessidade” e “uma
conquista a ser permanentemente defendida e consolidada diante da instabilidade
econômica internacional”. Também afirmava que não havia margem para
“vacilações” e que o brasileiro já tinha passado “por muitos sacrifícios para
saber que qualquer retrocesso no controle da inflação poderia pôr a perder, mais
do que o valor da moeda, a estabilidade da renda do próprio povo e as chances
de desenvolvimento sustentado do país”. No texto, ainda listava medidas que
levaria a cabo “com firmeza”, caso fosse reeleito. E uma delas merecia especial
atenção: “[Vamos] aumentar as exportações, perseguindo a meta de duplicá-las
até 2002, não pela via enganadoramente fácil da desvalorização cambial, mas
pela rota segura da redução do ‘custo Brasil’ e dos ganhos consistentes de
produtividade.” Em plena campanha, FHC reiterava com clareza: desvalorizar o
real frente ao dólar não era uma opção.
Naquele setembro de 1998, contudo, a agência Moody’s, que mede o nível de
risco dos países para os investidores, rebaixou a nota dos títulos soberanos (da
dívida do governo) do Brasil de B2 para CAA1. Tratava-se da categoria de mais
alto risco — e, consequentemente, da pulverização dos títulos nacionais. Era o
fim do “grau de investimento”, uma situação embaraçosa para o presidente, seu
governo e — é claro — sua campanha. “Vamos ter que sair dessa armadilha”,
anotou FHC em seus diários, como se de repente ele se desse conta de que
14

havia apenas duas opções: ou o Brasil perdia mais reservas internacionais para
manter o câmbio ao par com o dólar, ou teria de elevar os juros para agradar aos
investidores. Em ambos os casos, a percepção do mercado seria a de que a
economia brasileira patinhava — e feio.
José Serra, que não parecia disposto a abrir mão do orçamento do Ministério
da Saúde para colaborar com as contas nacionais, encaminhou a FHC o texto que
havia sido apresentado em abril daquele ano pelo economista americano James
Tobin, Prêmio Nobel, num encontro do Banco Mundial em Washington. Tobin 15

era favorável ao câmbio flutuante e radicalmente contra a política de câmbio


fixo. Sabia defender seu ponto de vista, e FHC devorou suas ideias em questão
de horas. Achou que o texto indicado por Serra era “muito interessante”, mas
que “ainda não era hora de tomar uma decisão tão drástica”. 16

Para FHC, liberar a flutuação do dólar em meio à crise mundial poderia trazer
dois resultados: ou “daria em Indonésia” ou “daria em Malásia”, repetia. Em
agosto do ano anterior, a Indonésia adotara o regime de câmbio flutuante e vira
sua moeda atingir a cotação mais baixa de sua história. O país tinha pedido um
empréstimo de US$ 23 bilhões ao FMI e mergulhado num pandemônio
econômico tão grande que até o ditador Suharto, no poder desde 1967, teve de
renunciar. Já o governo da Malásia optara pelo caminho oposto: a fixação do
câmbio e o controle de capitais para combater os efeitos da crise de 1997. Entrou
em recessão e viu o seu PIB despencar vertiginosamente. A encruzilhada estava
posta para FHC — em pleno ano eleitoral. 17

A questão ficou mais dramática quando a imprensa enxergou a crise, entendeu


sua profundidade e entrou no jogo. Gastaram-se rios de tinta e horas de gravação
com comentários sobre os sucessivos recordes negativos na economia brasileira.
Em 10 de setembro, por exemplo, a Bolsa de São Paulo caiu 15,8% — a maior
desvalorização vista desde o anúncio do Plano Collor, em 1990 — e a perda de
reservas girou em torno de US$ 400 milhões naquele dia. Em 20 de setembro,
18

já corriam notícias sobre banqueiros fazendo romaria ao Planalto, temendo a


moratória e pedindo providências. Mas FHC continuava irredutível:
— O que não se pode é deixar o câmbio flutuando, porque seria uma
catástrofe para o país, com risco, inclusive, de inflação. 19

A posição do presidente brasileiro se apoiava em conversas travadas com


presidentes como Ernesto Zedillo, do México, e ele não hesitava em lançar mão
desses argumentos para justificar sua recusa a ceder:
— Zedillo me aconselhou a não mexer no câmbio em hipótese alguma, pois lá
isso fez bancos quebrarem, o desemprego aumentou e a recessão derrubou o PIB
no país em 8% num ano. 20

Na Brasília de 1997, a manutenção da paridade entre o dólar e o real tinha


sido parte da negociação travada entre o Planalto e os partidos da base do
governo no Congresso Nacional para que a emenda constitucional permitindo a
reeleição de presidentes da República, governadores e prefeitos fosse aprovada.
A situação então era a seguinte: se fosse reeleito, FHC não liberaria o câmbio;
caso o fizesse, estaria quebrando um acordo político de grande envergadura
firmado com os congressistas. Naturalmente, esse tipo de conversa transcorria de
forma velada. Secreta. Assim, em 3 de outubro, na véspera do primeiro turno das
eleições presidenciais, FHC parecia confiante e anotaria novamente em seus
diários pessoais: “Vamos ganhar as eleições e vou ganhar um tremendo abacaxi
para descascar, que é manter o Brasil no rumo da estabilidade econômica e, mais
adiante, na retomada do crescimento.” 21

Não deu outra. Em 4 de outubro, FHC foi reeleito com 53,1% dos votos
válidos. Lula teve 31,7%; Ciro Gomes, 11%; e Enéas, 2,1%. Em seu discurso de
agradecimento, o presidente se disse aberto ao diálogo com a oposição e reiterou
a disposição de preservar a cotação do real. Contudo, enquanto ele discursava no
Brasil, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, andava pelos Estados Unidos
conversando de forma incessante com o FMI e o G7, que reúne os países com as
maiores e mais industrializadas economias do mundo (Alemanha, Canadá,
Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido). Malan ouviu que o Brasil
precisava mudar o regime cambial e deixar o real flutuar de vez. FHC recebia
relatos de seu ministro sobre o assunto, mas não mostrava adesão:
— Agora não dá para fazer. Vamos aguentar firme. 22

No início de novembro de 1998, o governo federal anunciou o chamado


Programa de Estabilização Fiscal, uma espécie de bala de prata econômica.
Buscava economizar R$ 28 bilhões ao longo de 1999 e obter um superávit
primário de 2,8% nas contas públicas até 2001. Para tanto, a alíquota da CPMF
seria aumentada de 0,20% para 0,38%; e a da Cofins, de 2% para 3%. Cortaria
R$ 8,7 bilhões no Orçamento e passaria a cobrar contribuição previdenciária de
aposentados e pensionistas. O governo também fechou um acordo com o FMI
em que se comprometia a: implantar um forte ajuste fiscal; promover uma dura
política monetária (com taxas de juros chegando a 40% ao mês); receber um
pacote de ajuda externa no valor de US$ 42 bilhões; e… manter a política de
câmbio nacional.
Diante desses anúncios, nem a imprensa nem os especialistas acreditaram que
a paridade entre o real e o dólar se manteria por muito tempo. O horizonte, nada
promissor, estava claro. Alguns políticos se somaram ao grupo dos desconfiados,
jogando consideráveis pás de cal na ideia de segurar o câmbio para garantir a
estabilidade. No dia 1 de janeiro de 1999, por exemplo, o então governador de
o

Minas Gerais, Itamar Franco, soltou sua bomba: daria um calote nos credores do
estado. Alegando que era necessário fazer uma auditoria da dívida estadual e
23

que a taxa de juros aplicada ali superava a de outras unidades da federação,


decretou a moratória de Minas. O alto escalão do PSDB não gostou da medida.
Entendeu-a como traição. A decisão de Itamar repercutiria no mundo todo, por
revelar que calote era algo realmente possível entre brasileiros.
O caldeirão ferveu. Em 13 de janeiro, quase duas semanas depois de sua
segunda posse presidencial e após ter passado meses e meses negando que a
paridade dólar-real chegaria ao fim, FHC encerrou o período de câmbio
controlado. Àquela altura, a perda de reservas internacionais já era da ordem de
US$ 1 bilhão/dia, e o estrago havia sido imenso. O Plano Real corria sério risco.
Para liderar a transição, FHC aceitou a demissão de Gustavo Franco, contrário à
iniciativa, e colocou Francisco Lopes à frente do BC. Com Chico Lopes, o Brasil
passou a ter um sistema complicado para a cotação do dólar: a banda diagonal.
Até aquele momento, a moeda americana se mantivera sempre entre duas linhas
horizontais — uma que fixava o piso e outra que fixava o teto da cotação. Com o
anúncio, o dólar passou a subir diariamente entre duas linhas transversais. Em
apenas um dia, o piso foi de R$ 1,12 para R$ 1,22, e o teto foi de R$ 1,20 para
R$ 1,32, implicando uma desvalorização de quase 9% no valor da moeda
brasileira. 24

Além de complexa, a medida não foi capaz de deter a crise. Na mesma


jornada em que o governo anunciou a banda diagonal, o dólar atingiu o teto e foi
necessário vender moeda. No dia seguinte, a cena se repetiu. Em 48 horas, o
Brasil perdeu US$ 2,8 bilhões e assistiu às suas reservas internacionais
minguarem. No mesmo janeiro, o BC de Chico Lopes enfrentou o que de pior
poderia acontecer: um caso de overshooting, ou seja, uma reação exagerada e
irracional dos mercados, fazendo os preços pularem para valores extremos.
Como consequência, houve um pico estratosférico na cotação do dólar e a
disseminação de pânico no resto do mundo. No final do mês, a moeda americana
era cotada a R$ 1,985, e Chico Lopes recebia críticas. Acabou demitido.
Antes de sair, porém, ainda se enrolou numa manobra desastrada. Alertadas
desde o ano anterior sobre rumores ouvidos nos corredores do Ministério da
Fazenda, praticamente todas as instituições financeiras do país haviam se
preparado para a alta do dólar. Os contratos firmados em moeda americana na
BM&F tinham saído de uma posição “vendida” para uma posição “comprada”.
Posição “comprada” significava adquirir dólares, apostando na desvalorização
do real para lucrar com a diferença entre as duas moedas. As únicas instituições
que permaneceram na posição “vendida” na BM&F, acreditando que o real não
seria desvalorizado, foram os bancos Marka, do doleiro Salvatore Cacciola, e
FonteCidam.
Os principais recursos do Marka não estavam em seu patrimônio líquido;
sozinho, o banco tinha um valor vinte vezes maior comprometido em contratos
de venda no mercado futuro de dólar. Para evitar que ele quebrasse, Chico Lopes
autorizou a diretoria do BC a fazer operações de venda de contratos futuros de
dólares ao Marka, fixando o preço em R$ 1,275 por dólar. Ao FonteCindam a
mesma medida foi aplicada, mas o preço foi outro: R$ 1,322 por dólar, total bem
superior aos R$ 1,25 por dólar usado como cotação na BM&F naquele dia.
Quando a ajuda veio a público, Chico Lopes alegou que a autorização fora
dada para evitar a corrosão das últimas reservas cambiais do país. Também
defendeu que a regra era geral, permitindo que pessoas com dívidas em dólar as
convertessem em reais de acordo com determinada paridade. A explicação não
adiantou. Ao provocar perdas da ordem de R$ 1,5 bilhão aos cofres do Brasil, a
operação ganhou contornos de escândalo. Na sequência, Lopes recebeu a Polícia
Federal em sua casa para o cumprimento de um mandado de busca e apreensão.
Foi acusado de gestão temerária e condenado à prisão.
Uma das linhas de investigação explorou o fato de Luiz Augusto Bragança,
consultor do Marka, ser amigo de infância de Chico Lopes. Julgado à revelia em
abril de 2005, Cacciola foi condenado a treze anos de prisão. A juíza Ana Paula
Vieira de Carvalho, da 6 Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro, entendeu que
a

o banqueiro cometera os crimes de peculato e gestão fraudulenta de instituição


financeira. Outras sete pessoas também foram condenadas, mas, após uma
25

infinidade de manobras jurídicas da defesa, o caso acabou prescrito. Chico


Lopes passou menos de um mês no cargo e, depois de sua saída, o BC deixou de
intervir no câmbio, permitindo a livre flutuação da moeda americana de uma vez
por todas.
Bem longe dos bancos, o impacto do fim da paridade entre o dólar e o real e
das políticas em geral adotadas por Chico Lopes teve efeito imediato: atingiu em
cheio o bolso dos brasileiros dos mais diferentes níveis econômicos. Lojas
especializadas na venda de produtos importados, como a World Dream e a
Barley’s, pediram concordata, imprensadas por dívidas de mais de US$ 4
milhões com seus fornecedores. Mercados que, aproveitando a paridade
26

cambial, tinham se especializado em vender objetos por R$ 1,99 precisaram se


unir em associações para tentar sobreviver, chegando a cogitar a troca de nome.
Passariam a ser lojas de R$ 2,99. Mas o grande público não topou e muitos
estabelecimentos desse tipo fecharam suas portas. 27

Em 15 de janeiro de 1999, a Standard & Poor’s, agência de classificação de


risco, rebaixou a nota de nada menos que dezoito companhias nacionais. O 28

motivo era um só: todas tinham dívidas em moeda estrangeira, e seus


orçamentos seriam brutalmente afetados pela flutuação do câmbio. Não havia
dúvidas em relação a isso. Antes que a liberação do dólar completasse uma
semana, a dívida externa do setor privado brasileiro já tinha saltado de R$ 275,8
bilhões para R$ 334,2 bilhões. 29

Para o cidadão da classe média, o problema passou a ser as dívidas contraídas


em dólar com cartão de crédito, os leasings de carro e a compra de passagens de
avião, comumente atreladas à moeda americana. Montadoras, agências de
30

viagem e companhias aéreas sofreram um baque. Para o cidadão das classes de


menor poder aquisitivo, o primeiro alerta foi sentido no preço do café, que subiu
40%, e no das frutas. A maçã e a uva, por exemplo, em menos de um mês
31

tiveram seus preços aumentados em 20%. 32

O horror se espalhou. Consumidores com dívidas em dólar lotaram os


escritórios de defesa do consumidor, os Procons, buscando uma renegociação.
No estado fluminense, só em janeiro houve uma média de cem atendimentos por
dia em cada escritório, e era preciso madrugar na fila para conseguir horário.
33 34

Em São Paulo, o Procon desistiu das consultas individuais e adotou um novo


modus operandi: passou a promover reuniões com até quarenta pessoas, a fim de
resolver casos semelhantes de uma única tacada. O fato de o valor de tudo ter
aumentado, menos o do salário, era fonte de angústia generalizada. Em meio à
confusão, o FMI parecia contente. Emitia comunicados defendendo as medidas
de FHC e enviando energias positivas. “A crise pode ser superada. O Brasil sairá
mais forte”, repetia o vice-diretor gerente da instituição, Stanley Fischer. 35

Nesse contexto, o economista Armínio Fraga, até então um dos funcionários


do magnata americano George Soros, assumiu a chefia do BC. Com dupla
nacionalidade, brasileira e americana, Fraga havia construído uma sólida carreira
no exterior. Estagiara no FED, o Banco Central americano, e pouco a pouco
alcançara o posto de managing director do Soros Fund Management LLC,
investindo em negócios sediados em Curaçao, nas Ilhas Cayman e em países
emergentes. Armínio controlaria a relação entre o real e o dólar até janeiro de
36

2003, revelando-se um dos nomes mais fortes do PSDB.


Em 19 de dezembro de 2002, quando faltavam apenas alguns dias para FHC
deixar o Palácio do Planalto após oito anos de governo, a Folha de S.Paulo
publicou uma entrevista com ele. Nela, o presidente falou sobre o momento em
que decidira quebrar a paridade entre o dólar e o real, por isso o jornal
37

estampou como manchete: “A desvalorização do real foi uma decisão solitária”.


Na entrevista FHC revela que, desde o começo de 1998, portanto, ainda em seu
primeiro mandato, já pensava em desvalorizar a moeda brasileira, contradizendo
tudo o que havia afirmado até então.
— Quando ganhei a eleição em 1994, veio a crise do México e eu pensei:
“Meu Deus, está começando o círculo recessivo, mala suerte” — contou, em
referência a seu primeiro mandato. — E vieram quantas crises? Teve em 1995,
teve em 1997, teve em 1999, teve em 2001 e teve em 2002. No conjunto, isso
criou o momento atual, que chamam de aversão ao risco: a liquidez secou e a
desconfiança aumentou.
Quando lhe perguntaram sobre uma eventual demora em tomar a decisão de
quebrar a paridade, FHC reagiu atacando:
— É muito fácil ser engenheiro de obra feita... Em todas as tentativas de
mudar isso aí, que era conversado e tal, se dizia que não era o momento etc.
Depois foi questionado sobre uma possível imprudência financeira, ao tentar
sustentar o nível de reservas e o real forte em 1997. O presidente reagiu de novo:
— Acho que em 1998 chegamos a essa situação [de imprudência]. Isso é
indiscutível.
Relatou ainda que, quando se decidiu pela mudança, perdeu os assessores que
pretendia nomear para conduzir os novos rumos da política econômica (os
economistas André Lara Resende e José Roberto Mendonça de Barros). Disse
que perdeu também o apoio do ministro da Fazenda, Pedro Malan, e do
presidente do BC, Gustavo Franco. Havia sido, como afirmou, uma decisão
solitária. Não conseguiu explicar, porém, a real motivação da medida. Para
muitos, uma manobra de cunho eleitoreiro.
6. LULA

“Se ganharmos a eleição, tenho certeza de que parte da corrupção irá


desaparecer já no primeiro semestre.”
JULHO DE 2002
Lula durante ato pela democracia e pelo direito dele de ser candidato, com artistas e intelectuais, em São
Paulo. 18 de janeiro de 2018.
Na tarde de 11 de maio de 2001, o diretório do PT em São Paulo estava
abarrotado de gente. Ao lado de outras lideranças, o presidente da legenda, o
então deputado federal José Dirceu, e o pré-candidato à Presidência da
República, Luiz Inácio Lula da Silva, tinham convocado a imprensa para exibir a
nova propaganda política do partido, concebida para alavancar a campanha
eleitoral do ano seguinte. O publicitário Duda Mendonça recebera R$ 280 mil
para produzir comerciais de TV e de rádio, além de cartazes e outros materiais
gráficos, que evidenciassem o que os militantes petistas chamavam de “ratos” da
política brasileira.
Impactante, a série promocional, batizada de “Xô Corrupção”, causou
alvoroço entre os repórteres presentes. Para a TV, Duda havia criado dois filmes,
um de trinta segundos e outro de um minuto. Nos primeiros cinco segundos do
vídeo mais longo, o telespectador via uma parede branca com um pequeno
buraco próximo ao chão. Dele, saía uma fila de ratos com pelos cinzentos, olhos
negros e patas rosadas. Vinte segundos depois, os animais apareciam devorando
um tecido verde e amarelo já com buracos maiores que os próprios corpos. Na
metade do filme, percebia-se a palavra “Progresso” parcialmente comida. Então
a câmera mudava de posição e, pegando a cena de cima, apresentava mais de
doze ratos pisoteando e mastigando a flâmula brasileira. No quadragésimo
segundo, a imagem retornava ao pequeno buraco na parede e mostrava que, de
dentro dele, um roedor se esforçava para puxar para a toca o que sobrara da
bandeira. Pouco a pouco, com suas patinhas rosadas, conseguia sumir com o
pano. A imagem de uma ratoeira pipocava então na tela e uma voz em off
alertava:
— Ou a gente acaba com eles, ou eles acabam com o Brasil. Xô, corrupção!
Uma campanha do PT e do povo brasileiro. 1

Na entrevista coletiva dada pelo partido, Duda Mendonça reconheceu que se


tratava de uma campanha forte e “chocante” e justificou:
— O momento [político e nacional] também é sério, forte e chocante. 2

O PT estava muito irritado com o governo do presidente Fernando Henrique


Cardoso (PSDB) — vitorioso nas urnas em 1994 e 1998 —, ao qual fazia
enérgica oposição. Os petistas não digeriam o então provável arquivamento da
chamada CPI da Corrupção, que se propunha a investigar crimes supostamente
cometidos pelos social-democratas e seus aliados em diversos níveis
governamentais. O mau humor do PT parecia alinhado ao das ruas. Dias antes da
coletiva, uma multidão tomara o vão do Museu de Arte Moderna de São Paulo
(Masp) para pedir que fossem investigadas nada menos do que dezesseis
suspeitas de corrupção ligadas ao governo FHC. 3

Na lista havia indícios de: tráfico de influência por parte do então secretário-
geral da Presidência, Eduardo Jorge Caldas Pereira; irregularidades envolvendo
o diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira, no episódio da
privatização da Tele Norte Leste; fraudes na concessão de incentivos fiscais a
investidores por parte da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia; e
omissão do Banco Central frente à denúncia de existência de uma empresa
sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman (no Caribe) que, segundo os petistas,
seria de propriedade de FHC, do ministro da Saúde, José Serra, do ex-
governador de São Paulo Mário Covas e do ex-ministro das Telecomunicações
Sérgio Motta, todos do PSDB. Para petistas e manifestantes, tais indícios
precisavam ser investigados. Como os petistas supunham, a CPI da Corrupção
acabou sendo enterrada no Congresso, numa vitória da base aliada de FHC.
Na sede do PT, José Dirceu estava indignado. Com microfone em punho, disse
que os diretórios regionais do partido se preparavam para realizar manifestações
em prol da ética em todo o país e que estava prevista a realização de uma marcha
popular até Brasília para pedir o fim da corrupção.
— Lamentavelmente os tucanos escreveram uma das páginas mais nefastas da
história — desferia o presidente do partido, referindo-se aos filiados ao PSDB.
— Nunca houve nada parecido. 4

Nos dias que se seguiram, a propaganda criada por Duda Mendonça foi ao ar
em todo o Brasil, e o choque que os repórteres sentiram ao ver o filme em
primeira mão se repetiu país afora. Na peça, o PT se posicionava como o
instrumento capaz de extirpar os ratos da política nacional. Anunciava-se como a
ratoeira:
— Xô, corrupção!
Oficializado pelo TSE como partido político em 10 de fevereiro de 1980, o
Partido dos Trabalhadores passou anos defendendo que a legenda possuía um
grau de moral superior ao de qualquer outra no país. Seu expoente, o ex-
5

metalúrgico, ex-líder sindical e ex-deputado federal por São Paulo (1987-1991)


Luiz Inácio Lula da Silva garantia que seus filiados eram menos suscetíveis a se
envolverem em escândalos e casos de corrupção. Desde 1979, quando ainda se
debatia a criação do PT, seus fundadores já pareciam dispostos a se posicionar
como os guardiões da ética na política nacional. Naquele ano, esse
posicionamento ficou evidente tanto durante o IX Congresso dos Trabalhadores
Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo quanto
no tom da Carta de Princípios, firmada pela Comissão Nacional Provisória de
6

fundação do PT. No partido, a moralidade deveria ser seu pilar de sustentação.


Com a oficialização do PT, em seus primeiros documentos foram
estabelecidos mecanismos de controle para evitar eventuais desvios de conduta
por parte de seus filiados. Criou-se, por exemplo, uma comissão com autoridade
para apurar infrações cometidas no exercício de cargos eletivos e aplicar
punições internas. Imbuído desse discurso, Lula concorreu ao governo de São
Paulo em 1982. Não foi uma campanha fácil. Rotineiramente era acusado de
despreparo para exercer cargo executivo — afinal, não havia ocupado nenhum
até aquele momento. Mas não se fazia de rogado e, em suas respostas,
aproveitava para lembrar seu ideário:
— Se estar preparado para um cargo é aplicar mal o dinheiro público, é
distribuir medalhas, oferecer banquetes e comprar dúzias de rosas, realmente não
estou preparado. 7

Sempre que podia, estendia o dedo na direção dos que considerava corruptos.
Paulo Maluf (PPB), governador de São Paulo, era um de seus alvos mais
frequentes. Por conta disso, àquela altura, Lula já respondia a processos na
Justiça movidos por Maluf com base na Lei de Imprensa. Outro político que o
acusava de falar demais e se sentia atingido por suas críticas era Lauro Michels
(PMDB), prefeito de Diadema, no ABC Paulista. Os ataques de Lula tinham
também outra motivação: o PT queria eleger seu primeiro prefeito. E ali, naquele
município, o discurso funcionou: em 1983, o ferramenteiro petista Gilson
Menezes, de 33 anos, ganhou o pleito e assumiu a prefeitura com 23.310 votos. 8

Fizera uma campanha humilde, típica do PT. Vendera camisetas, bótons e


adesivos para subir em palanques e se dizia pronto para provar que a moral e a
ética da sigla se somavam a uma capacidade de gestão jamais vista na cidade.
Em agosto de 1986, no entanto, uma comparação feita pela imprensa entre o
governo de Gilson Menezes e o de seu antecessor, Lauro Michels, indicava
retrocessos importantes e suspeitas de corrupção. O custo da folha de pagamento
no munícipio subira de 32% para 52% em consequência do aumento no quadro
de servidores, que passara de 1.600 para 2.500. O custeio havia caído de 40%
9

para 37%, e as verbas destinadas a obras tinham baixado de 28% para 10%. Até
mesmo o secretário-geral do PT, Francisco Weffort, tecia críticas à gestão de
Menezes:
— Precisamos saber distinguir bem as diferenças entre a retórica e a ação. 10

Em 1988, abalado com as críticas, o primeiro prefeito eleito pelo PT concluiu


o mandato e deixou a legenda. Em entrevista à revista Veja 28 anos depois,
explicaria:
— Saí porque percebi que algumas pessoas estavam levando o partido para o
caminho da corrupção e da falta de democracia. E as pessoas que votavam no PT
nesses lugares [no ABC Paulista] ficaram frustradas. O pecado [do partido] foi a
desonestidade, o caminho da corrupção. 11
Menezes estava farto. Depois de passar pelo PDT e pelo PSB e ser novamente
eleito para cargos tanto legislativos quanto executivos, já não hesitava em dizer
que se sentia “envergonhado” de um dia ter sido petista. Nessa mesma
entrevista, afirmaria que o partido que ajudara a erguer havia “ficado igual aos
outros”, bem distante da prometida liderança moral e ética.
Desde a campanha presidencial de 1989, além de se colocar como ícone dos
trabalhadores, Lula se dizia capaz de liquidar com a corrupção nos órgãos
públicos. Em 29 de outubro, convidado a participar do popular Show de
Calouros no SBT, apareceu no centro do palco de terno escuro, sem gravata, e
com uma estrela do PT na lapela. Foi sabatinado por diversos jornalistas e
celebridades que, na época, serviam de jurados. O ator Luiz Henrique, que se
12

apresentava vestido de Condessa Giovanna, um dos personagens criados por ele,


perguntou na lata:
— O senhor acha que o PT é um partido bem organizado aqui no Brasil?
E Lula respondeu, também na lata:
— É. É o mais organizado do Brasil inteiro.
O apresentador Wagner Montes, futuro deputado estadual pelo PDT do Rio de
Janeiro, avançou nos questionamentos. Queria entender o que, afinal, o
candidato petista pretendia “mudar de concreto” no Brasil, caso fosse eleito.
Lula detalhou:
— Nós vamos provar que, tranquilamente, você pode colocar corrupto na
cadeia... No Brasil, Wagner, predomina a teoria de que é preciso levar vantagem
em tudo, e nós precisamos mudar isso. E vamos mudar isso, dando exemplo. E,
dando exemplo, significa acabar com a impunidade.
O discurso, que aliava bandeiras da esquerda à luta contra a corrupção, não
foi, contudo, suficiente para Lula conquistar a faixa presidencial naquelas
eleições, iniciadas em 15 de novembro de 1989. Ele chegou a ir para o segundo
turno, realizado em 17 de dezembro, mas a vitória foi de Fernando Collor de
Mello, candidato do PRN. Entretanto, ao longo de 1992, o processo que
culminaria no impeachment de Collor, acusado de corrupção, daria ao PT
enorme fôlego para reforçar publicamente sua posição de paladino da
moralidade. Como deputado federal, Lula e diversos outros petistas passaram a
tomar as tribunas da Câmara e do Senado para fazer exigências. Queriam
apuração frontal e célere das denúncias contra o primeiro presidente eleito
democraticamente desde o golpe militar de 1964, além de sua saída do governo
federal. Eram duros. Fortes. Determinados.
Só que os filiados ao PT também se envolviam em escândalos de corrupção.
Depois do ferramenteiro de Diadema, em outubro de 1992 foi a vez de a
deputada federal Benedita da Silva (RJ) ocupar o centro das atenções. O Globo
revelou, em reportagem de página inteira publicada em 24 de outubro de 1992,
que a candidata petista à Prefeitura do Rio de Janeiro contratara três filhos como
assessores parlamentares em seu gabinete no período em que fora vereadora
(1983-1986). Além da suspeita de nepotismo, pairava sobre ela a acusação de
fraude nessas contratações. Um de seus filhos, Pedro Paulo, teria usado um
diploma falso de conclusão do ensino médio para conseguir emprego na
Assembleia Legislativa. A história caiu como uma bomba no discurso ético do
13

PT, e Benedita precisou falar diversas vezes sobre o caso, sempre negando
irregularidades.
No ano seguinte, o interior de São Paulo voltou a dar problemas à sigla. O
secretário municipal de Finanças de Campinas, o petista Paulo de Tarso
Venceslau, acusou a direção nacional do partido de ser conivente com um
esquema criminoso montado para financiar atividades da legenda. Segundo a
denúncia, levada à diretoria do PT, o advogado Roberto Teixeira (compadre de
Lula) e seu irmão, Dirceu Teixeira, tinham o costume de percorrer as prefeituras
controladas pelo partido em São Paulo prometendo aumentar a arrecadação de
tributos municipais e fechando contratos sem licitação para prestar esse serviço.
Em troca, a Consultoria para Empresas e Municípios (CPEM), de propriedade
dos dois, fazia doações que mantinham de pé as campanhas do PT. Era o 14

partido usando dinheiro público — pertencente aos municípios que ele próprio
controlava — para sustentar propagandas eleitorais e materiais de campanha.
Mais uma fenda no obstinado discurso da moral e da ética.
Assim, no 8 Encontro Nacional do PT, em junho de 1993, produziu-se a
o

chamada “Carta de Brasília”, que reforçava de modo radical o posicionamento


da legenda quanto à corrupção em trechos como: “Para o PT, o combate à
corrupção é uma questão de princípios, sendo, portanto, uma tarefa prioritária e
permanente. O PT, em conjunto com as entidades que integram o Movimento
pela Ética na Política, buscará todos os meios disponíveis para que cada um dos
envolvidos em corrupção seja exemplar e efetivamente punido.” Foi um 15

momento simbólico na história da sigla.


Dois anos depois, no entanto, os escândalos em torno de casos de corrupção
continuavam a estourar. O sociólogo Perseu Abramo, fundador e então membro
do Diretório Nacional, fez uma dura autocrítica em um artigo intitulado “Um
novo PT”. Para ele, o partido, “paladino da luta contra a corrupção,
16

infelizmente não conseguiu evitar inteiramente que essa praga manchasse suas
próprias fronteiras”. Disse que, paulatinamente, o PT deixara “grassar no interior
de alguns de seus organismos uma certa permissividade, um certo afrouxamento
moral”, e que a sigla se utilizara de “recursos que o senso comum e os próprios
princípios partidários julgavam incorretos, não sendo capaz de explicar seus
procedimentos nem de justificá-los”. E prosseguiu: “O cidadão comum já não
mais distingue entre o político em geral e o político petista”, alertando que
aquele cenário poderia “ser a morte do petismo”.
Apesar desse discurso reforçando a importância de investigar corrupção nas
ações da legenda, em 1998 o Diretório Nacional do PT expulsou do partido o
economista Paulo de Tarso Venceslau, autor da denúncia do caso CPEM. Foram
sessenta votos a favor de sua saída e duas abstenções. Já o advogado Roberto
Teixeira, sobre quem também pairavam dúvidas, foi inocentado. A votação de
seu caso terminou com 38 votos a favor da absolvição das acusações de tráfico
de influência contra 22 que defendiam uma pena de advertência (três diretores se
abstiveram de votar). O fato mostra que, numa denúncia pioneira de corrupção
17

petista, feita por um quadro petista, o punido foi o denunciante.


Nas eleições de 2002, Lula se apresentava como candidato à Presidência da
República pela quarta vez. Sua candidatura ganhava fôlego a cada palanque em
que subia. O país, que conseguira a estabilidade econômica com a criação do
real, parecia disposto agora a mergulhar no ajuste social, equalizando uma conta
histórica de desigualdades. No dia 20 de agosto daquele ano, Lula estreou no
horário eleitoral gratuito da TV. No início da gravação, a câmera dirigida por
Duda Mendonça e, agora, também pelo publicitário João Santana, sobrevoava
uma sala que simulava um comitê de campanha. No local, havia diversas mesas
18

redondas, dezenas de computadores, pastas, pessoas falando ao celular e, ao


fundo, um mapa do Brasil na parede.
Nos primeiros cinco segundos, apareciam na tela o físico Luiz Pinguelli Rosa,
a secretária de Minas, Energia e Comunicações do Rio Grande do Sul Dilma
Rousseff, o deputado federal José Genoino, a prefeita de São Paulo Marta
Suplicy, a socióloga Julita Lemgruber, o deputado federal Eduardo Jorge, o
senador Eduardo Suplicy, o ex-governador do Distrito Federal Cristovam
Buarque e o deputado federal Paulo Paim. Antes da marca dos onze segundos,
era possível ver, além de José Dirceu, os deputados federais Aloizio Mercadante
e Ângela Guadagnin, o senador José Alencar, o economista Guido Mantega... Ao
som de uma voz em off que dizia “Atenção, Brasil. Começa agora o programa
Lula presidente”, Lula aparecia para agradecer ao time que trabalhara com ele na
criação de seu programa de governo. Em seguida, a câmera mostrava o ex-
deputado federal Luiz Gushiken, o ex-prefeito de Ribeirão Preto (SP) Antonio
Palocci, o deputado federal João Paulo Cunha, o governador do Acre Jorge
Viana e muitos outros que em pouco tempo teriam grande destaque na vida
nacional.
Quinze anos depois, quatro desses renomados petistas já haviam sido
condenados e presos por corrupção: José Dirceu (que se tornara o todo-poderoso
ministro da Casa Civil de Lula), José Genoino (que continuara a ser um dos
símbolos do PT), Antonio Palocci (ministro da Fazenda com amplos poderes) e
João Paulo Cunha (eleito presidente da Câmara dos Deputados). Ao fim de 2017,
seis eram acusados de algum crime: Dilma Rousseff, Aloizio Mercadante, Guido
Mantega, Ângela Guadagnin, Jorge Viana e Gushiken. Por fim, três haviam
19

abandonado o partido: Marta Suplicy, Eduardo Jorge e Cristovam Buarque.


Mas, em 2002, nada disso era previsível. Lula fazia uma campanha rumo à
Presidência focada na redução das desigualdades sociais e no fim da corrupção.
No meio do percurso, foi a Vitória (ES) para participar da 43 Reunião Geral da
a

Frente Nacional de Prefeitos. No evento, realizado num auditório repleto de


bandeiras vermelhas com a sigla do PT dentro de uma estrela, o candidato
criticou a Lei de Responsabilidade Fiscal, que impõe o controle de gastos nas
três esferas de poder e que fora sancionada em 2000, na segunda gestão de FHC;
prometeu criar o Ministério das Cidades para cuidar dos problemas urbanos; e
voltou a defender a idoneidade do PT. Num determinado momento, exaltado,
declarou:
— Se ganharmos a eleição, tenho certeza de que parte da corrupção irá
desaparecer já no primeiro semestre. 20

A plateia reagiu com uma salva de palmas. Era disso que o Brasil precisava.
Esse era o caminho. E Lula foi eleito naquele ano, vencendo no segundo turno o
candidato do PSDB, José Serra. A cerimônia de posse, em janeiro de 2003,
chamou a atenção do mundo por seu caráter popular. O homem do povo, torneiro
mecânico de profissão, havia conseguido chegar ao Planalto — e a população
comemorava com vigor. Cerca de 70 mil pessoas compareceram à Esplanada dos
Ministérios, em Brasília. Em diversos momentos, o público protagonizou o
evento, burlando os cordões de segurança. Um simpatizante de Lula chegou a
subir no carro em que ele estava para tentar abraçá-lo. Quando foi retirado pelos
policiais, agarrou o político pelo pescoço e lhe disse algo que nunca foi
registrado pela imprensa. A massa humana cercou o carro presidencial várias
vezes e invadiu áreas reservadas, como o gramado à frente do Congresso. A
ideia era transformar aquele ato numa conquista nacional. Uma mulher também
conseguiu furar o bloqueio quando o presidente estava na rampa do Congresso e
o convenceu a se deixar fotografar a seu lado.
Em seus três primeiros anos de mandato, Lula levou adiante uma série de
políticas sociais que mudariam a cara do país. Em 2003, lançou o programa
Fome Zero para enfrentar a fome e a miséria, assim como o Luz para Todos, que
buscava abastecer com energia elétrica as famílias de áreas rurais. Em 2004, o
Programa Universidade para Todos (Prouni); e o Bolsa Família, de grande
envergadura, voltado para a distribuição de renda. Resultado: entre 2002 e 2005,
o número de brasileiros em condição de extrema pobreza caiu de 26,2 milhões
para 20,8 milhões. 21

Mas, em maio de 2005, a imprensa veiculou um impactante e inesperado


vídeo em que um funcionário dos Correios aparecia recebendo propina de um
empresário em nome do PTB, cujo presidente era o deputado federal Roberto
Jefferson. Seria o início do capítulo que ficaria historicamente conhecido como
escândalo do mensalão. Nervoso com a divulgação das comprometedoras
imagens em que Maurício Marinho, chefe do Departamento de Contratação e
Administração de Material dos Correios, citava seu nome, Jefferson decidiu
revelar os bastidores daquelas imagens. Acreditava ser alvo de uma campanha de
desmoralização promovida pela cúpula do PT.
Num apartamento em Brasília, Jefferson chamou a Folha de S.Paulo e
concedeu uma longa entrevista, estopim de uma das maiores crises políticas
decorrentes de corrupção a que o Brasil já assistira. Falou da existência de um
22

esquema de compra de apoio no Congresso Nacional por parte do governo Lula,


cujo objetivo era fazer avançar as pautas de seu interesse. De acordo com
Jefferson, deputados e senadores recebiam uma quantia mensal para votar a
favor dos projetos do governo: eram R$ 30 mil para cada um, distribuídos pelo
tesoureiro do PT, o sindicalista Delúbio Soares. O dinheiro liberado pelo PT
irrigava ao menos dois partidos: PP e PL. Jefferson insistia que, ao contrário do
que provavelmente se imaginava, sua legenda rejeitara a oferta daquela
“mesada”. E mais: ele próprio já teria denunciado a existência dessa prática tanto
a vários ministros quanto ao próprio presidente da República. Contou ainda que
procurara o ministro da Casa Civil, José Dirceu, para falar do esquema de
compra de votos e compartilhar sua indignação. Dirceu teria se mostrado
horrorizado diante da notícia:
— O Zé deu um soco na mesa e disse: “O Delúbio está errado. Eu falei para
não fazer [isso].”
Contudo, segundo Jefferson, o tempo passou sem que nada mudasse. Então, o
deputado do PTB teria ido a Lula:
— Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira. Ele continua
dando “mensalão” aos deputados.
De acordo com Jefferson, o presidente perguntou que mensalão era aquele e,
em seguida, chorou. O relato tomou duas páginas do jornal e arrebatou o
noticiário nacional. Explodiu no Palácio do Planalto e, dez dias depois, levou à
renúncia do ministro José Dirceu, considerado o principal arquiteto do governo
Lula. Ao se despedir do Planalto, Dirceu afirmou que tinha “as mãos limpas” e
que voltaria à Câmara, como deputado federal, e à militância do PT para
defender a ética de sua sigla:
— Eu vou defender esse patrimônio. 23

Sua renúncia, por si só, não foi capaz de estancar o noticiário negativo. Em
Brasília, um grupo de deputados petistas passou a pedir publicamente o
afastamento de toda a direção do PT para investigação. Haviam surgido
documentos que ligavam o sociólogo Silvio Pereira, então secretário-geral da
legenda, e José Genoino, presidente nacional do partido, ao publicitário Marcos
Valério, apontado como o operador do mensalão do PT.* O publicitário era
quem efetivamente fazia o dinheiro da compra de votos aparecer e ser
distribuído.
Quando Jefferson acusou publicamente Silvio Pereira de negociar a ocupação
de cargos importantes em estatais com pessoas de confiança do partido para
possibilitar a distribuição do mensalão, ele renunciou. Jefferson revelou até
24

mesmo onde essas decisões eram tomadas: na sala de um banco de Brasília. Dias
depois, ainda seria noticiado que Silvio Pereira tinha uma Land Rover cujo preço
era incompatível com seu salário, indicando a existência de uma rede de troca de
favores à margem da legalidade. O carro teria sido um presente de uma empresa
25

chamada GDK, que mantinha negócios com a Petrobras.


As críticas se intensificaram e tomou corpo a ideia de que outros membros da
direção petista deveriam se afastar para que a apuração das denúncias
transcorresse sem manchar o partido como um todo. Então chegou a vez de
Delúbio Soares renunciar, depois de ter atuado na legenda desde sua fundação e
ter sido peça-chave na equipe que ajudara a financiar a campanha de Lula à
Presidência. Delúbio era tido, até então, como um “homem de bastidor”, quieto
26

e discreto. Mas também foi associado ao publicitário Marcos Valério — era


considerado seu amigo e elo entre o operador do mensalão e a sigla.
No dia 9 de julho de 2005, a crise chegou ao mais alto posto do PT: a
presidência do partido. José Adalberto Vieira da Silva, assessor parlamentar do
deputado José Guimarães, irmão de José Genoino, foi preso pela Polícia Federal
no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Tentava embarcar num voo para
27

Fortaleza (CE), com escala em Brasília, levando R$ 200 mil numa mala e US$
100 mil num saco plástico dentro da cueca. O noticiário, que, desde a revelação
da existência do mensalão, passara a ser negativo para o PT, adotaria um tom
ainda mais firme. No dia seguinte, numa reunião da Direção Nacional realizada a
portas fechadas em São Paulo, Genoino renunciou. Parecia desolado:
— No PT, nós não praticamos irregularidades. No PT, nós não praticamos
nenhum ato ilícito. O PT não compra nem paga deputados. 28

Como Dirceu — líder estudantil que optara pela luta armada contra a ditadura
nos anos 1960, fora preso, exilado, retornara ao Brasil e se tornara ícone do PT
—, Genoino também era um líder histórico da esquerda. Tinha combatido na
Guerrilha do Araguaia nos anos 1970, movimento armado na região amazônica
que visava iniciar no campo uma conscientização rumo à derrubada do regime
militar. Eram do grupo mais próximo a Lula e estavam sob fortes críticas.
Nos dias 15 e 16 de julho, também pressionados por todos os lados, o
publicitário Marcos Valério e o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, deram duas
entrevistas bombásticas à TV Globo. O primeiro contou que montara um
29

esquema de financiamento para o PT e que suas empresas tinham contraído


empréstimos bancários para serem integralmente repassados ao partido. O
segundo admitiu a existência de caixa dois — dinheiro não declarado — no
financiamento das campanhas do PT e de partidos aliados, chocando o país.
Nesse momento, o presidente Lula resolveu falar publicamente pela primeira vez
sobre o mensalão.
Em entrevista concedida a uma produtora de televisão na França e exibida
pelo Fantástico, programa dominical da TV Globo, considerou que era hora de
fazer um mea-culpa. No vídeo de onze minutos, disse que o PT estava “sendo
vítima do seu crescimento”, que inicialmente havia reunido “os melhores
quadros da política no Brasil” e que, depois de conquistar prefeituras e governos,
eleger diversos parlamentares e chegar à Presidência, sua direção ficara “muito
fragilizada”. Essa seria, segundo Lula, a razão dos erros veiculados na mídia. E,
30

sentado num jardim verdejante, usando terno, gravata e um broche na lapela com
a bandeira do Brasil, ele fez questão de retomar o discurso do PT-paladino-da-
moral-e-da-ética:
— O PT tem na ética uma de suas marcas mais extraordinárias, e não é por
causa de um erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está
envolvido em corrupção.
Um mês depois, mudaria o tom. No mesmo dia em que a revista Época
publicava uma entrevista com o deputado federal Valdemar Costa Neto,
contando que seu partido, o PL, recebera R$ 10 milhões em troca do apoio à
candidatura de Lula em 2002, o presidente faria um pronunciamento à nação,
afirmando que tinha consciência da gravidade da crise política, que estava
indignado com as revelações recentes e que se sentia traído. Em seguida, pedia
desculpas aos brasileiros e negava que soubesse do esquema de distribuição de
dinheiro. Avisou que ninguém seria poupado nas investigações.
Em 2007, Lula tomou posse de seu segundo mandato presidencial. O episódio
do mensalão foi fartamente usado contra ele por candidatos concorrentes durante
a campanha do ano anterior, mas não foi suficiente para deixá-lo fora do
Planalto. O líder petista teve 60% dos votos e derrotou Geraldo Alckmin (PSDB)
nas urnas. Em 2010, o PT elegeria Dilma Rousseff presidente da República.
Primeira mulher a ocupar o mais alto cargo do país, a sucessora de Lula obteve
55% dos votos, frente aos 44% de seu principal oponente, José Serra, do PSDB.
Sinal de que o petismo não havia sido frontalmente afetado pela crise política
provocada pela revelação da existência do mensalão no Congresso Nacional.
Em 2012, a Ação Penal n 470, referente ao escândalo, foi julgada no STF e
o

quarenta pessoas, incluindo nove petistas, foram condenadas na mais alta Corte
do país. Três delas haviam sido da direção nacional do partido, quatro tinham
sido deputados federais, e duas, ministros de Lula. O ex-presidente ficou de fora.
Antônio de Almeida, doutor em História pela USP, estudou ética na política e,
em especial, no PT. Em 2009, no XXV Simpósio Nacional de História, realizado
em Fortaleza, apresentou o artigo “Da ética na política à política sem ética: o PT
e as vicissitudes da esquerda no poder”. No resumo do trabalho, Almeida
31

escreveu que “ao se envolverem com as práticas de corrupção, os petistas


frustraram as expectativas de todas as pessoas que acreditaram na proposta de
uma nova forma de se fazer política no país”. E ainda: “Abandonaram uma das
suas principais bandeiras, que lhes rendeu votos, credibilidade e capital político:
o compromisso partidário com a ética na política.” Depois desse estudo, o PT
seria afetado por um escândalo ainda maior: a Operação Lava-Jato, que levaria
Lula a ser condenado em primeira e em segunda instâncias pelos crimes de
corrupção e de lavagem de dinheiro.
A Lava-Jato começaria em março de 2014, com uma investigação da Polícia
Federal e do Ministério Público para mapear a atuação de organizações
criminosas lideradas por doleiros em Curitiba (PR). Logo de cara, mostrou que
seria uma das maiores ações já implementadas contra a corrupção em todo o
país. Chegou a ser comparada à Mani Pulite (Mãos Limpas), operação levada a
cabo na Itália nos anos 1990 e que acabou revelando a surpreendente
disseminação da corrupção em território nacional.
No Brasil, em quatro anos de trabalho, a Lava-Jato apontaria irregularidades
na Petrobras, estatal de economia mista considerada a maior empresa da
América Latina, e contribuiria decisivamente para o impeachment da presidente
Dilma Rousseff, em 2016. Deixaria claro que não se restringiria apenas à região
Sul, tendo desdobramentos significativos tanto no Rio de Janeiro quanto no
Distrito Federal. Em 2018, tramitavam no STF diversos inquéritos para
investigar políticos com prerrogativa de função — o popular “foro privilegiado”.
E o Brasil sequer vislumbrava o desfecho da operação. Estimava-se que o
volume de recursos desviados dos cofres públicos tivesse atingido a casa dos
bilhões de reais e que muitos políticos suspeitos de participar de esquemas de
corrupção ainda seriam chamados a prestar esclarecimentos.
Lula tornou-se o foco da Operação Lava-Jato e, em 12 de julho de 2017, foi
condenado a nove anos e seis meses de prisão. No entendimento do juiz federal
Sérgio Moro, à frente da operação em Curitiba e que o julgou em primeira
instância, o ex-presidente havia praticado corrupção passiva ao receber
“vantagem indevida do Grupo OAS” em contrato com a Petrobras. Moro
condenou o líder petista por crime de lavagem de dinheiro, “envolvendo a
ocultação e dissimulação da titularidade do apartamento 164-A, tríplex, e do
beneficiário das reformas realizadas”. Lula manteve o discurso de que o
32

mencionado tríplex no balneário de Guarujá (SP) nunca havia sido dele e que o
Ministério Público Federal não tinha apresentado dados concretos capazes de
sustentar a sentença ditada por Moro.
— Eu só quero que apresentem uma prova contra mim — repetia em
entrevistas, discursos e, fartamente, em suas redes sociais.
Em 24 de janeiro de 2018, o caso chegou à segunda instância, no Tribunal
Regional Federal da 4 Região, em Porto Alegre (RS), fazendo com que a cidade
a

— e o país — parassem por mais de oito horas para assistir ao julgamento pela
TV. Na sessão, os advogados de Lula alegaram que, nos autos, não havia provas
33

de que o ex-presidente tivesse adquirido o imóvel do Guarujá. O tríplex seria da


empreiteira OAS e teria sido dado em garantia de uma operação financeira feita
pela empreiteira em 2010 com a Caixa Econômica Federal. Além disso,
questionavam a competência de Moro para julgar o caso. Enxergavam nele a
figura de um acusador que teria dado valor exacerbado à delação premiada feita
por Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS, em torno do caso.
Mas a 8 Turma do Tribunal não apenas confirmou a sentença anterior como
a

ainda aumentou a pena do ex-presidente. Para os desembargadores Leandro


Paulsen, João Pedro Gebran Neto e Victor Luiz dos Santos Laus, Lula era, sim,
culpado, e deveria ter a pena estendida para doze anos e um mês em regime
fechado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Gebran Neto, relator
do caso e o primeiro a falar na sessão daquela quarta-feira, afirmou:
— Há prova acima de dúvida razoável de que a unidade do tríplex estava, sim,
destinada ao ex-presidente como vantagem, apesar de não formalmente
transferida porque sobreveio a Operação Lava-Jato e, com ela, a prisão de
empreiteiros envolvidos. 34

— É inequívoco o vínculo de causalidade entre a conduta do ex-presidente


Lula e os crimes praticados — declarou o desembargador Paulsen, revisor do
caso. — Luiz Inácio agiu pessoalmente para tanto, bancando quedas de braço
com o Conselho da Petrobras, forte na condição de presidente da República...
Lula até ameaçou “substituir os próprios conselheiros caso não fosse confirmada
a indicação” feita por ele em favor da OAS.
Para Paulsen, o fato de se tratar de alguém processado por maus feitos
praticados no exercício da Presidência era “um elemento relevantíssimo a ser
considerado”. O desembargador Laus, último a se pronunciar, arrematou a
confirmação da sentença proferida pelo juiz Sergio Moro. Ressaltou que, devido
à posição e ao histórico de Lula, era de esperar que tivesse tomado providências,
porém ficou em silêncio, auferindo proveito da situação:
— São fatos que deslustram a biografia, mas são fatos concretos e devem
receber o escrutínio de um processo judicial... fossem elas [as provas] frágeis,
não teriam resistido ao embate, mas resistiram.
Lula continuou sem aceitar. Na mesma noite, subiu num palanque montado na
Praça de República, em São Paulo, e disse que respeitava o resultado unânime,
todavia não aceitava “a mentira pela qual eles [os desembargadores] tomaram a
decisão”. Diante de uma multidão que o aplaudia de pé, acrescentou:
35

— Eles sabem que eu não cometi um crime. Eu me disporia a ficar com os


três juízes um dia inteiro para que eles me mostrem qual é o crime que o Lula
cometeu.
Na quinta-feira, 5 de abril de 2018, o juiz Sérgio Moro determinou a prisão do
ex-presidente. Pediu que ele se apresentasse até as 17 horas do dia seguinte,
voluntariamente, à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba onde havia
uma sala especial para recebê-lo. Acrescentou que Lula não seria algemado. O
ex-presidente decidiu, no entanto, dirigir-se para o Sindicato dos Metalúrgicos de
São Bernardo do Campo (SP), onde iniciara a carreira como sindicalista, nos
anos 1960, e lá passou duas noites na companhia de dirigentes petistas e de uma
multidão que se aglomerou embaixo do prédio e pelas ruas do entorno. Na tarde
do sábado, 7 de abril, fez um discurso de mais de trinta minutos num palanque
montado em frente ao sindicato. Disse frases como:
— Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia misturada com as ideias
de vocês... Minhas ideias já estão no ar e ninguém poderá encerrar. Agora vocês
são milhões de Lulas. 36

Em seguida, entregou-se à polícia.


Em abril de 2018, outras cinco ações ainda tramitavam na Justiça tendo Lula
como réu — três delas ligadas à Lava-Jato. Na primeira, o ex-presidente era
acusado de receber propina da OAS e da Odebrecht por meio da reforma de um
sítio em Atibaia (SP), imóvel do qual supostamente seria o verdadeiro dono. Na
segunda ação, aparecia envolvido num possível pagamento de propina por parte
novamente da Odebrecht — dessa vez, a empreiteira havia prestado ajuda
indevida para a compra (não realizada) de um terreno que se destinaria a abrigar
o Memorial da Democracia, ligado ao Instituto Lula. Na terceira ação, respondia
por obstrução de justiça. Havia sido denunciado por conspirar com o ex-senador
Delcídio do Amaral, também do PT, para comprar o silêncio de ex-diretores da
Petrobras sob investigação.
Fora da Lava-Jato, Lula ainda aparecia como réu num processo em que era
acusado de favorecer a Odebrecht, viabilizando empréstimos do BNDES para
que a empresa pudesse tocar obras no exterior. Além disso, respondia pela
acusação de tráfico de influência em duas situações: na edição de uma medida
provisória e na negociação de aviões de combate. Em março de 2018, o
programa “Xô Corrupção”, exibido pelo PT antes que Lula chegasse pela
primeira vez à Presidência, estava quase completando dezessete anos. A
promessa de acabar, em seis meses, com a corrupção de governo tinha um ano
menos: dezesseis.

* Também houve um caso de mensalão no PSDB, iniciado em 1998, durante a campanha de reeleição do
então governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo.
7. DILMA

“Eu não tenho banqueiro me apoiando e me sustentando.”


SETEMBRO DE 2014
Cerimônia de posse do segundo mandato da presidenta da República Dilma Rousseff, ao lado de Joaquim
Levy, ministro da Fazenda. 01 de janeiro de 2015.
Era 13 de setembro de 2014 e a impaciência da presidente Dilma Rousseff
embarcou com ela no avião que ia de Brasília para Belo Horizonte. Sucessora do
ex-presidente Lula, seu mentor no Partido dos Trabalhadores, ela estava no
poder desde janeiro de 2011. Agora cumpria a agenda de campanha em busca da
reeleição indo conversar com representantes de comunidades negras de Nova
Lima, na Região Metropolitana da capital mineira. Ao se acomodar na poltrona e
afivelar o cinto, ouviu de um assessor, que pediu anonimato, que, ao aterrissar,
precisaria ter na ponta da língua a resposta para uma pergunta específica. Os
jornalistas que a esperavam certamente a questionariam sobre o “choro da
Marina”.
Desde o fim de agosto de 2014, a também candidata à Presidência Marina
Silva (PSB) vinha crescendo nas pesquisas de intenção de voto e assustando o
staff petista. Naquela manhã, o jornal Folha de S.Paulo havia publicado uma
entrevista com ela destacando sua reação desolada aos ataques desferidos contra
a sua candidatura pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — que trabalhava
pela segunda vez como cabo eleitoral de Dilma. Aos repórteres, Marina tinha
dito, com os olhos marejados, que tais ataques lhe doíam profundamente:
— Eu não posso controlar o que Lula pode fazer contra mim. Mas posso
controlar que não quero fazer nada contra ele. 1

Em seguida, a ex-ministra de Luiz Inácio emendava, entre lágrimas:


— Quero fazer coisas em favor do que lá atrás aprendi, inclusive com ele
[Lula]. Que a gente não deveria se render à mentira, ao preconceito, e que a
esperança iria vencer o medo. Continuo acreditando nessas mesmas coisas.
No início, o principal alvo da campanha de Dilma à reeleição havia sido
basicamente o senador Aécio Neves, candidato do PSDB. Mas, sob instrução de
especialistas em disputas eleitorais, Marina também começara a apanhar de
Dilma, uma vez que as pesquisas de opinião já mostravam que ela igualmente
começava a ameaçar a candidata do PT. O programa de governo do PSB havia
sido massacrado pelos petistas na TV. Mesmo assim, a presidente fez pouco caso
do assunto. Não entendia a razão do choro e questionou ao chegar a Minas:
— Por que a Folha deu isso? A Marina é uma atriz!
Os assessores insistiram:
— Marina aparece como a mocinha. A senhora, como a gerente durona.
A pergunta viria e Dilma precisava de uma resposta. Não deu outra. Tão logo
a coletiva de imprensa que sucedeu a agenda em Nova Lima começou, os
jornalistas quiseram saber a opinião da candidata a presidente sobre o choro da
rival. Dilma foi seca e direta:
— Um presidente da República sofre pressão 24 horas por dia. Se a pessoa
não quer ser pressionada, não quer ser criticada, não quer que falem dela, não dá
para ser presidente da República. 2

A animosidade entre Dilma e Marina era antiga. Durante cinco anos e quase
cinco meses, haviam convivido na Esplanada dos Ministérios de Lula. Dilma à
frente das Minas e Energia e, depois, da Casa Civil; Marina no comando do
Meio Ambiente. Nesse período, apesar de ambas serem do PT, discordavam em
praticamente tudo. Desenvolvimentista, Dilma defendia, por exemplo, as obras
do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a construção das usinas
hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia. Pouco se importava com as
ressalvas feitas pelo Ibama no processo de liberação das usinas. Pelo que se via,
não lhe tirava o sono o prejuízo que essas obras poderiam impor à
navegabilidade dos bagres no rio Madeira.
— Bagres? — questionava, incrédula e irônica.
Já Marina estava no extremo oposto. Defendia a preservação da Amazônia e
comprava a briga dos ambientalistas contra projetos como o Plano Amazônia
Sustentável, anunciado pelo ministro-chefe da Secretaria de Assuntos
Estratégicos Mangabeira Unger. O trincar de dentes e a aversão explícita entre as
duas só eram controlados pelos bons modos, mas Dilma chegava a seu limite.
Desde os últimos dias de agosto, as pesquisas do instituto Datafolha sobre
intenções de voto nas eleições previstas para 5 de outubro daquele ano
apontavam que Marina ganhara treze pontos percentuais em apenas quinze dias.
Os levantamentos feitos internamente pelo PT confirmavam a ascensão.
Marina havia entrado na campanha como candidata a vice na chapa do ex-
governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB). Os dois se apresentavam ao
eleitorado como uma espécie de terceira via à já tradicional polarização entre o
PSDB (naquele momento, Aécio Neves) e o PT (naquele momento, Dilma).
Porém, a súbita morte de Eduardo Campos a dois meses da eleição, em um
acidente aéreo em Santos (SP), provocou uma comoção nacional. Marina aceitou
substituí-lo como cabeça de chapa e assumiu como slogan uma das últimas
frases ditas por Campos:
— Não vamos desistir do Brasil.
Em pouco tempo tornou-se uma presidenciável fortalecida e as pesquisas
captavam isso. O primeiro golpe desferido por Dilma contra Marina se deu logo
após Marina divulgar seu programa de governo, no qual defendia a autonomia
do Banco Central:
— [Vou] assegurar a independência do BC o mais rapidamente possível, de
forma institucional, para que ele possa praticar a política monetária necessária ao
controle da inflação. 3
Principal conselheiro econômico da candidata do PSB, o economista Eduardo
Giannetti da Fonseca sustentava que, se o BC fosse realmente independente, o
Executivo — qualquer que fosse o partido que chegasse ao poder — não poderia
interferir em suas decisões. Isso blindaria a entidade contra pressões políticas e,
por consequência, sua credibilidade aumentaria. Segundo Marina e Giannetti, tal
autonomia ainda acalmaria os mercados e poderia contribuir para fazer baixar a
inflação, que voltara a chamar a atenção.
Publicitário experiente, João Santana, que orientava a campanha de Dilma,
identificou ali o ponto frágil da adversária. Sabia que grande parte da sociedade
acreditava que quem tinha de definir a política econômica do Brasil — de
impacto direto no dia a dia da população — era o governo eleito
democraticamente, e não técnicos lapidados pelo setor financeiro. A maioria das
pessoas achava, sem qualquer hesitação, que a autoridade monetária deveria
prosseguir nas mãos do Executivo e que dar independência ao BC seria o mesmo
que deixar a raposa tomando conta do galinheiro. Com essa munição, João
Santana atacou Marina Silva.
Assim, no dia 9 de setembro, colocou no horário eleitoral gratuito de Dilma na
TV um anúncio de trinta segundos em que acusava a adversária de ser ligada a
banqueiros e defender os interesses deles. Era uma referência ao fato de a
4

coordenadora do programa de governo de Marina ser Neca Setúbal, filha de


Olavo Setúbal, um dos maiores acionistas do Banco Itaú. Àquela altura, a
candidata já havia recebido de Neca vultosas doações de campanha, que
chegariam a cerca de R$ 2 milhões até o final do pleito. Era, portanto, um prato
5

cheio para o PT.


Quando foi ao ar, a propaganda eleitoral enfureceu Marina. Tratava-se de uma
vinheta que começava mostrando homens de terno e gravata discutindo em torno
de uma mesa repleta de documentos, com uma voz em off preenchendo a cena:
— Marina tem dito que, se eleita, vai fazer a autonomia do Banco Central.
Parece algo distante da vida da gente, né? Parece, mas não é…
Nesse momento ouvia-se uma música instrumental de caráter fúnebre e a
mesa dos executivos se transformava em uma mesa de refeição com uma família
feliz. Pai, mãe e filhos, sorridentes, trocavam travessas cheias de alimentos.
Subitamente, no entanto, os pratos ficaram vazios, e o locutor em off retornava:
— Isso significaria entregar aos banqueiros um grande poder de decisão sobre
a sua vida e a de sua família. Os juros que você paga, seu emprego, preços e até
salário.
Nesse momento, os sorrisos saíam de cena e o pânico se instalava na família.
Os banqueiros — contentes e animados — voltavam à mesa, acompanhados de
mais uma narração:
— Ou seja, os bancos assumem um poder que é do presidente e do Congresso,
eleitos pelo povo. Você quer dar a eles esse poder?
Em seguida, a tela ficava preta e, em letras brancas, aparecia o nome da
coligação partidária de Dilma. No mesmo dia, em um evento de campanha
realizado em Minas Gerais, Marina subiu ao palco e iniciou seu contra-ataque:
— [Na campanha de 2010, Dilma] disse que ia ganhar [a eleição] para baixar
os juros — gritou. — Nunca os banqueiros ganharam tanto como no seu
governo. E agora, eles, que fizeram o “Bolsa Empresário”, o “Bolsa Banqueiro”,
a “Bolsa Juros Altos”, estão querendo nos acusar de forma injusta em seus
programas eleitorais. 6

Marina tinha certa razão. Naqueles dias, o jornal Correio Braziliense publicara
um levantamento revelando que Dilma terminaria seu primeiro mandato à frente
de Lula e Fernando Henrique Cardoso, seus dois antecessores no Planalto, em
pelo menos um quesito: os bancos nunca haviam lucrado tanto. De acordo com
os dados apresentados, apenas nos três anos de Dilma no Palácio do Planalto o
sistema nacional de bancos lucrara R$ 115,7 bilhões. Nos oito anos de FHC, R$
63,63 bilhões; e, nos oito anos de Lula, R$ 254,76 bilhões, sempre em valores
corrigidos. A média anual na gestão da governante petista fora, portanto, de R$
38,5 bilhões — cifra bem acima dos R$ 31,8 bilhões de Lula e dos R$ 7,9
bilhões de FHC. 7

Vinte e quatro horas depois do revide de Marina, Dilma estava num encontro
de blogueiros, em São Paulo, quando voltou à carga na impensável — e hoje,
curiosa — contenda para saber qual das duas estava mais distante dos
banqueiros:
— Não adianta querer falar que eu fiz “Bolsa Banqueiro”. Eu não tenho
banqueiro me apoiando e me sustentando. 8

Dilma aludia ao evento que comemorara os 90 anos do Banco Itaú, dias antes,
na Sala São Paulo, um dos mais imponentes salões de música clássica do país.
Entre os 1.200 presentes, havia representantes da instituição, membros de outros
bancos do país e do mundo, bem como ex-presidentes da Petrobras e famosos
em geral. O coquetel contara com apresentação da incensada Orquestra
Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência do maestro Louis Langrée e
com a pianista francesa Hélène Grimaud. Mas o assunto que ganhou as páginas
dos noticiários foi tão somente o discurso feito pelo presidente do Itaú, Roberto
Setúbal, irmão de Neca, diante daquela glamourosa plateia formada pela elite
financeira do país. Setúbal fez elogios rasgados à candidata do PSB, dizendo que
via “com naturalidade” sua eleição e que aquele era um momento de “mudança
de ciclo”. Segundo ele, depois da estabilidade econômica conquistada por FHC e
do avanço social do período Lula, viria a consolidação do plano de Marina:
— Nós queremos uma gestão melhor, com serviços de melhor qualidade. 9

Aos olhos de Dilma e da campanha petista, era outro prato cheio para usar
contra Marina. Parecia muito fácil dizer que a candidata do PSB estava alinhada
aos interesses da nata econômica do país e que, uma vez no Planalto,
beneficiaria o sistema financeiro como um todo, deixando o povo de lado. O
problema é que as prestações de conta da campanha desdiziam Dilma. E a Veja
resolveu mostrar isso. Em 11 de setembro, a revista mergulhou nos dados do
10

TSE e concluiu que, ao contrário do que a presidente dizia, ela contava, sim,
com banqueiros que a apoiavam. E eram muitos. Sua candidatura era, na
verdade, a que mais se beneficiara com verbas do setor bancário em todo o
período eleitoral.
Até aquele momento, o total de doações para a campanha de Dilma era quase
igual à soma dos valores repassados a Marina Silva e a Aécio Neves juntos. Em
pouco mais de um mês de corrida eleitoral, Dilma e o PT tinham recebido dos
bancos mais de R$ 15,8 milhões, mais que o dobro dos R$ 6 milhões destinados
ao PSB e a Marina Silva no período por empresas do mesmo setor (as doações
de pessoas jurídicas a campanhas políticas ainda não eram proibidas).
Contudo, nem o choro de Marina nem seus contra-ataques foram suficientes
para fazer frente às pesadas estratégias de João Santana. E a candidata do PSB
começou a despencar nas pesquisas. No dia seguinte à estreia da polêmica
inserção de TV, na qual uma família ficava sem comida por conta da autonomia
do BC, Marina tinha 33% das intenções de voto, segundo o Datafolha, e só
perdia para Dilma, que contava com 36%. Como a margem de erro era de dois
pontos percentuais para mais ou para menos, elas estavam tecnicamente
empatadas. Em 19 de setembro, dez dias depois, Marina tinha 30%. Em 26 de
setembro, 27%; em 30 de setembro, 25%; em 2 de outubro, 24%; e, em 4 de
outubro, 22%, sendo ultrapassada por Aécio Neves. Era o início de uma queda
11

sem volta que a deixaria fora do segundo turno.


Em 26 de outubro de 2014, Aécio Neves foi derrotado, mesmo contando com
o apoio de Marina no segundo turno, e Dilma foi reeleita presidente do Brasil
com 51,64% dos votos. Recebera da maioria dos eleitores o sinal de que eles
desejavam uma continuidade ao governo petista iniciado por Lula doze anos
antes. “À primeira vista, não havia como errar”, escreveria, anos depois, o
jornalista Ricardo Westin no livro A queda de Dilma. “Bastaria continuar
tocando o barco pelas mesmas águas dos quatro anos anteriores. Era tão somente
isso o que esperava o eleitorado que a reelegeu.” Na cerimônia de posse na
12

Câmara dos Deputados, em 1 de janeiro de 2015, Dilma chegou a reafirmar essa


o

intenção, dizendo que, desde 2003, primeiro ano do mandato de Lula, os


governos petistas cumpriam o compromisso de oferecer aos excluídos os direitos
básicos de qualquer cidadão, assim como a possibilidade de acreditar no futuro.
— A população quis que ficássemos porque viu o resultado do nosso trabalho,
compreendeu as limitações que o tempo nos impôs e concluiu que podemos
fazer muito mais. O recado que o povo brasileiro nos mandou não foi só de
reconhecimento e de confiança, foi também um recado de quem quer mais e
melhor. Fui reconduzida à Presidência para continuar as grandes mudanças do
país e não trairei este chamado. 13

Em alguns dias, no entanto, seu governo tomaria um rumo bem diferente.


“Para espanto e desespero do país, a Dilma reeleita fez exatamente o inverso
daquilo que a Dilma candidata havia prometido”, escreveria Westin. “Foi como
se o país sofresse uma repentina e violenta guinada de 180 graus.” Do dia em
que foi confirmada como candidata às eleições de 2014 até sua posse, Dilma
defendera de peito aberto que o Brasil passava incólume frente à nova crise
econômica internacional que ameaçava não só a estabilidade das economias mais
desenvolvidas do mundo, como também o sistema político de várias nações.
— O nosso país não se rendeu — repetia. — Não se abateu nem se ajoelhou,
como fazia diante de todas as crises do passado. 14

No entanto, apenas três dias após a reeleição, o BC elevou a taxa de juros em


0,25 ponto percentual, chegando a 11,25% ao ano; e o IPCA, usado como
principal indicador da inflação, atingiu duas casas decimais, algo que não
acontecia desde 2002. O alerta vermelho acendeu nos mercados e no bolso do
povo — historicamente apavorado com a inflação — e a bola de neve da crise
econômica aumentou. Entre maio de 2014 e maio de 2016, o número de
brasileiros desempregados passaria de 6,8 milhões (7% da população) para 11,4
milhões (11,2%). O salário médio encolheria de R$ 2.067 para R$ 2.004. E a
15

retração no preço das principais matérias-primas de exportação, como o minério


de ferro, o petróleo e a soja, faria com que a Receita Federal despencasse. Em
2015, o governo arrecadaria R$ 1,27 trilhão — R$ 100 bilhões a menos que em
2013. Esse era o legado do primeiro governo Dilma, que ela havia deixado para
si mesma. Com isso, viu-se impossibilitada de cumprir algumas das promessas
mais importantes de sua campanha de reeleição.
Em 12 de junho de 2014, bem antes que esse cenário se estabelecesse, Dilma
reunira a imprensa para comunicar, esfuziante, a segunda fase do Pronatec. Era
uma das meninas dos olhos de seu governo, algo de que se orgulhava
publicamente e que deveria receber sua cuidadosa atenção no segundo mandato.
Até ali o programa, cujo objetivo era expandir, interiorizar e democratizar a
oferta de cursos de educação profissional e tecnológica no país, ampliando as
oportunidades de trabalho para os jovens, já havia atendido 6 milhões de
pessoas, e a presidente queria mais. Sentia inegável prazer ao participar das
cerimônias de formatura, sobretudo ao entregar certificados de qualificação
profissional para alunos de baixa renda.
— Falamos em 12 milhões [de novas vagas] com a certeza de que esse
número é viável — discursou ao lançar a segunda fase do projeto. 16

Estava confiante. Eufórica. Porém, pouco mais de um ano depois, em


setembro de 2015, já reeleita, precisou reduzir a promessa pela metade.
Envergonhada, calou-se e mandou o Ministério da Educação explicar o corte. O
texto oficial foi enxuto: a medida havia sido tomada em decorrência da
“realidade econômica do país”. No mesmo período, a presidente precisou
17

reduzir o Fundo de Financiamento Estudantil e congelou o programa Ciência


sem Fronteiras, que enviava estudantes ao exterior para complementação de
estudos. Ambos os projetos tinham alimentado a ideia de “Brasil, pátria
educadora”, anunciada com pompa em seu discurso de posse.
As contas do país se revelavam em frangalhos. Dilma arrecadara pouco e
gastara muito na gestão anterior. Então, a mesma pessoa que, oficialmente, havia
passado a campanha eleitoral se afastando dos banqueiros e do setor financeiro
teve de lhes estender publicamente as mãos e pedir ajuda. Em 28 de outubro de
2014, apenas 48 horas depois da reeleição, já circulava na imprensa a
informação de que Dilma convidaria Luiz Carlos Trabuco, presidente do banco
Bradesco, para assumir o Ministério da Fazenda. As notinhas divulgadas pela
mídia sobre o assunto vinham com críticas.
— Politicamente, vai ser difícil sustentar o nome do presidente do Bradesco
depois de termos passado a campanha inteira batendo pesado na Neca Setúbal
pela proximidade com a Marina Silva — comentou na época um dos ministros
de Dilma, que prefere não revelar o nome.
Mas Dilma seguiu seu plano e, no dia 19 de novembro, em reunião realizada
no Palácio da Alvorada na presença do presidente do Conselho de
Administração do Bradesco, Lázaro Brandão, efetivamente convidou Trabuco
para integrar seu ministério. O executivo, que tinha sob seus cuidados o segundo
maior banco privado do país, disse que se sentia “honrado” com a oferta
recebida, porém os compromissos à frente da empresa o impediam de aceitar o
comando da economia brasileira. Dilma bufou. A recusa representava um
enorme desgaste para o governo. Seu convite havia sido “agressivo” e, mesmo
assim, não convencera o executivo. A ala mais à esquerda do PT, alicerçada nos
18

sindicatos, no movimento estudantil, nos sem-terra e nos sem-teto, enfureceu-se


com Dilma. Enxergava no gesto o sinal de que a presidente reeleita estava
disposta a entregar a política econômica a alguém mais preocupado com o
mercado do que com o bem-estar social.
Dilma ficou numa sinuca de bico. Queria substituir Guido Mantega, ministro
da Fazenda desde 2006, por alguém do universo dos bancos que fosse capaz de
sinalizar aos mercados que o governo estava comprometido com a estabilidade.
Enquanto pensava num novo nome, Dilma foi atrás do economista Nelson
Barbosa, que havia sido secretário executivo da Fazenda. Resolveu sondá-lo para
o Planejamento. Politicamente, haveria um equilíbrio, pensava a presidente. Os
dois principais ministérios da área econômica ficariam em mãos de pessoas com
perfis diferentes, e cada um agradaria a um lado. O encontro com Nelson
Barbosa aconteceu no escritório da Presidência da República em São Paulo, logo
depois do velório de Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça. E ele topou.
A presidente prosseguiu, então, atrás de um novo ministro da Fazenda. Foi
nesse cenário que surgiu o nome do engenheiro naval carioca Joaquim Levy.
Naquela época, Levy era diretor-superintendente do Bradesco Asset
Management e acumulava no currículo duas passagens pelo poder público: no
comando do Tesouro, ao longo do primeiro mandato de Lula, e à frente da
Secretaria de Fazenda do Rio de Janeiro, na gestão de Sérgio Cabral (PMDB).
Seu nome ainda contava com a chancela de Trabuco, sugerindo que a escolha
agradaria de fato aos mercados. Levy foi tratado pela imprensa como uma das
opções mais conservadoras colocadas à mesa, indício de que a economia seguiria
por uma linha ortodoxa. Lula defendia para o cargo o nome do ex-presidente do
BC Henrique Meirelles, mas Dilma não concordava. Levy consolidou-se como
sendo a solução. É fato que a escolha era surpreendente, tendo em vista a disputa
travada com Marina Silva durante a campanha, porém dava “alento aos que
esperavam uma guinada de volta na direção do bom senso” econômico,
conforme escreveu o ex-presidente do Banco Central de FHC, Gustavo Franco. 19

Levy recebeu o convite para assumir a Fazenda em 21 de novembro de 2014.


Era conhecido como “Mãos de Tesoura” e parecia preparado para “cortar na
carne” e ajustar os números do Brasil. Naquele ano, as contas públicas fechariam
com um rombo de R$ 32,5 bilhões, o primeiro déficit de sua história, e
passariam um péssimo recado ao mercado internacional. Ao longo dos onze
20

meses de seu mandato, Levy apertou e espremeu tudo o que pôde, elegendo
como meta a busca do superávit. Acabou com as desonerações vigentes nas
folhas de pagamento das empresas e, assim, quem pagava 1% de contribuição
previdenciária passaria a desembolsar 2,5%, e quem pagava 2% passaria a
contribuir com 4,5%. Determinou o fim de repasses do governo aos bancos
públicos, entre eles o BNDES, criou um tributo, a Cide, para ser aplicado sobre
combustíveis, e aumentou o imposto sobre operações financeiras de 0,5% para
3%. Tinha sede de resultados. No entanto, o caldo entornou quando defendeu
mudanças que dificultariam o acesso do povo a benefícios trabalhistas e
previdenciários. Em sua campanha, Dilma havia sido taxativa:
— Não mexo em direitos trabalhistas nem que a vaca tussa. 21

Com Levy, mexeu. Por meio de uma série de medidas provisórias, tornou
mais rigorosas as regras para receber o seguro-desemprego, a pensão por morte e
o auxílio-doença, convulsionando a esquerda e o próprio PT de uma vez por
todas. A ciência política americana cunhou o termo que, segundo os estudiosos
brasileiros, melhor define o que ocorreu no governo Dilma.
— É um exemplo claro de policy switch — explica o cientista político Felipe
Borba, professor da UNIRIO. — Dilma mudou de posicionamento. Prometeu
uma coisa na campanha e, quando virou governo, fez radicalmente o contrário de
tudo aquilo que tinha prometido.
Aos olhos do leigo, o movimento pendular pode parecer um acinte, uma
espécie de propaganda enganosa ou estelionato eleitoral. Mas, para o professor, é
algo muito mais comum do que se imagina, sendo possível encontrar dezenas de
casos semelhantes na história latino-americana. Neste mesmo livro, há outros.
Contudo, chama a atenção que, em 2018, ainda não haja no Brasil nenhuma lei
que obrigue os políticos a cumprir suas promessas de campanha. Nenhuma. Em
todo ano par, o TSE exige que os candidatos registrem seus programas de
governo e os disponibilizem para a população. Assim, no site da instituição, é
possível ler promessas políticas feitas em campanha por centenas de candidatos.
O não cumprimento do conteúdo apresentado, no entanto, ainda não pode servir
de base para qualquer tipo de sanção ou punição.
Ao menos três projetos de lei já tramitaram pelo Congresso para tentar alterar
o Código Eleitoral e tipificar o crime de estelionato eleitoral. O mais antigo, o
PL n 3.453/04, criado pelo deputado Wladimir Costa, propunha detenção de
o

dois meses a um ano ou pagamento de multa de até R$ 50 mil para o candidato


que, em campanha, prometesse realizar investimentos em estados e municípios
sabendo — ou devendo saber — que o cumprimento da promessa seria
inviável. A pena se agravaria se o crime fosse cometido através dos meios de
22

comunicação, como imprensa, rádio ou televisão. O texto final parou na Câmara.


Os deputados julgaram-no inconstitucional. Em 2012, foi a vez do PL n o

4.523/12, de autoria do deputado Nilson Leitão, seguir o mesmo caminho. O


documento também propunha criminalizar o não cumprimento de propostas de
governo que, durante o período eleitoral, fossem divulgadas em rádio, TV e
internet. A ideia era alterar o Código Penal, incluindo o estelionato eleitoral na
23

seção que trata de estelionato. A punição para os dois crimes seria a mesma:
reclusão de cinco anos e multa. A Câmara novamente julgou o projeto
inconstitucional.
Em 2015, o deputado Indio da Costa apresentou na Casa um projeto de lei
complementar, o PLP n 118/15, que até janeiro de 2018 não tinha sido avaliado
o
no plenário. A proposta fixava que, durante a campanha, os candidatos a eleições
proporcionais e majoritárias deveriam registrar suas plataformas de governo na
Justiça Eleitoral. Se ao final do mandato não tivessem cumprido ao menos 50%
das promessas, ficariam inelegíveis no pleito seguinte. Seria a medida suficiente
24

para evitar novos casos de policy switch? Quando Indio deu entrada nesse PLP, o
ajuste fiscal na economia preparado por Dilma e Levy já tumultuava a esquerda
e dividia o PT. A Fundação Perseu Abramo, centro de estudos políticos criado
pela legenda, ficara visivelmente incomodada e acabou publicando o extenso
documento “Por um Brasil justo e democrático”, a fim de tornar público seu
desconforto. Os assessores mais próximos de Dilma se lembram desse momento:
— Foi uma bomba.
O texto se dividia em duas partes: “Mudar para sair da crise: alternativas para
o Brasil voltar a crescer”; e “O Brasil que queremos: subsídios para um projeto
de desenvolvimento nacional”. Juntos, consistiam num “trabalho coletivo” que,
segundo o economista Marcio Pochmann, então presidente da fundação, fora
assinado por entidades diversas e buscava mostrar “um país melhor do que se
encontra hoje”. Diante de uma plateia repleta de políticos e jornalistas, além de
uma audiência que o acompanhava ao vivo pela internet, explicou:
— É uma contribuição que se opõe ao terrorismo do curto-prazismo. 25

Em suas palavras, o raciocínio de curto prazo “insere a lógica dos mercados


financeiros e bursátil na atuação de governos” e “diz respeito aos mercados
especulativos, mas não faz parte do dia a dia das famílias”. Um mês antes, o
pesquisador Guilherme Mello, também da Fundação Perseu Abramo, publicara
um estudo ainda mais direto. Condenava com veemência a política econômica de
Dilma e chamava a atenção do país para o impulso que os bancos haviam
recebido nos últimos meses. Com o título “Produção industrial recua e lucro dos
bancos cresce no Brasil”, o texto era contundente: na contramão da recessão, os
bancos haviam registrado um ótimo segundo trimestre. O Itaú apresentara um
crescimento de 22,1% em seu lucro, atingindo R$ 5,9 bilhões, e o Bradesco
anunciara uma alta de 18,4%. Brotava ali o movimento de “rejeição por quase
26

todos os lados” que, em maio de 2016, culminaria no impeachment de Dilma


Rousseff.
8. TEMER

“Tenho dito e repetido, ao longo do tempo, que qualquer possibilidade


de impeachment será impensável.”
AGOSTO DE 2015
A presidenta Dilma Rousseff e o vice, Michel Temer, ao lado da esposa, Marcela Temer, durante cerimônia
de posse no Palácio do Planalto. 01 de janeiro de 2015.
O encontro causou uma agitação tão grande que seria impossível mantê-lo em
segredo. Em cadeira de rodas, ao lado de um amigo e de dois coronéis da
Aeronáutica, o jornalista Carlos Lacerda, considerado a voz mais barulhenta da
oposição ao presidente Getúlio Vargas, chegou ao Hotel Serrador, no Centro do
Rio de Janeiro, com o pé esquerdo engessado. Seis dias antes, em 5 de agosto de
1

1954, fora baleado na porta de casa, numa rua tranquila de Copacabana, e


testemunhara a morte de um de seus seguranças, o major Rubens Florentino Vaz,
a quem um dos tiros disparados acertara de modo fatal. O atentado na rua
Tonelero incendiaria o país. Os jornais Diário Carioca e Tribuna da Imprensa
publicaram manchetes sucessivas, pressionando as autoridades policiais a
solucionar o caso. Em pouco tempo, surgiu a suspeita de que o autor dos
disparos seria um membro da segurança de Vargas que teria tomado um dos táxis
que faziam ponto perto do Palácio do Catete, a sede do poder nacional, para
praticar o crime. O país, boquiaberto, acompanhava o noticiário.
Com mais de uma hora de atraso, Lacerda subiu ao décimo quinto andar do
Serrador, onde estava hospedado o potiguar Olavo Galvão de Medeiros, então
diretor do Banco do Nordeste. Para ocultar seu destino de curiosos, o jornalista
orientou o ascensorista de plantão a apertar vários botões e fazer com que o
elevador parasse em diversos andares. Ao chegar ao andar e ao apartamento
desejados, Medeiros o recebeu e Lacerda estendeu a mão para o homem que o
aguardava. Era o vice-presidente da República, o também potiguar João Café
Filho. De calça e camisa brancas, gravata e suspensórios pretos, ele tinha
aceitado o convite de Lacerda e ido até o local para iniciar uma conversa secreta
com o inimigo n 1 do governo federal.
o

Em 11 de agosto, a manchete da Tribuna da Imprensa, jornal de propriedade


de Lacerda, desferira um ataque direto ao presidente: “Renuncie à Presidência
para salvar a República.” No texto, outra exigência explícita: “A nação exige a
2

renúncia de Vargas e sua sucessão por seu substituto constitucional.” Na


conversa no hotel, o vice ouviu de Lacerda uma proposta objetiva: se Café Filho
apoiasse a saída de Vargas do Palácio do Catete, Café Filho poderia assumir a
Presidência da República sem obstáculos. Seria o presidente!
Advogado provisionado de 55 anos, o vice-presidente nunca fora um devotado
aliado de Vargas. Político com carreira construída no Rio Grande do Norte,
apoiara a Revolução de 1930, mas rompera com o varguismo na ocasião do
golpe do Estado Novo, em 1937. Exilara-se na Argentina. Em 1950, a sucessão
de Gaspar Dutra os reaproximou. O PTB do presidente gaúcho buscava uma
aliança eleitoral com o PSP do governador paulista Adhemar de Barros. A
indicação de Café Filho para vice, aceita pelos varguistas, ratificou o acordo com
os ademaristas. Em troca do apoio da poderosa máquina eleitoral de Adhemar no
estado mais populoso do país, Vargas endossaria a candidatura do governador às
eleições presidenciais de 1955. E foi assim que Getúlio Vargas venceu o pleito
em 3 de outubro de 1950.
Café Filho carregava certa amargura pessoal e política com relação à figura do
presidente. Na autobiografia Do sindicato ao Catete: memórias políticas e
confissões humanas, publicada anos depois, diria que, no Rio Grande do Norte,
Vargas costumava prestigiar os adversários de Café Filho, mostrando que não
havia no Palácio do Catete “nenhuma sincronização” de forças. Por isso, sempre
que se manifestava em público, o vice fazia questão de “fixar a linha de
orientação” que os separava. 3

Lacerda, por sua vez, nunca aceitara a volta de Getúlio ao poder. Para o
jornalista, o retorno do caudilho ao Palácio do Catete significava a retomada de
um problema que o país havia superado cinco anos antes. “Era a crise entre o
país ditatorial e o país, digamos, com uma certa ansiedade de vida democrática”,
escreveria em suas memórias. Lacerda sustentava que Vargas era “absolutamente
incompatível com um regime democrático” e acreditava que, na impossibilidade
de restabelecer o Estado Novo em seu segundo governo, ele optaria por um
modelo próximo ao populismo de Juan Domingo Perón na Argentina, de “fundo
ditatorial também”. 4

Naquela manhã de 11 de agosto de 1954, a segunda passagem de Vargas pela


Presidência enfrentava forte oposição da UDN de Lacerda, de grupos
empresariais e de setores militares. O governo estava imerso na crise da rua
Tonelero e pressionado pelos jornais. E foi nesse contexto que o jornalista
Murilo Melo Filho, que havia conseguido agendar a conversa entre Café Filho e
Lacerda no hotel, viu, do corredor do décimo quinto andar, onde ficara
aguardando o fim da reunião, o momento em que o dono da Tribuna deixou o
apartamento, fazendo “um gesto com o polegar direito para cima”. De acordo
com Melo Filho, “dava a entender que tinha saído tudo bem na conversa”, ou
5

seja, vice e opositor tinham se acertado.


Aos olhos dos varguistas, no entanto, o encontro constituiu uma traição de
Café Filho, espécie de sinal verde do vice para os demais conspiradores. E não
houve como manter em sigilo a reunião. Considerado um dos maiores hotéis da
América Latina, vizinho ao prédio do Senado Federal, o Serrador não era um
ponto apropriado para conspirações — menos ainda quando um dos
interlocutores chegava ao local de cadeira de rodas e cercado de oficiais armados
com metralhadoras. Assim, não foi surpresa para Vargas quando, dez dias
depois, Café Filho entrou em seu gabinete com uma proposta de renúncia
conjunta na ponta da língua. Sairiam ambos do poder, e o país iria às urnas em
6

trinta dias para a escolha do novo presidente.


Registros históricos mostram que, antes do encontro com Vargas, Café Filho
já havia apresentado o mesmo plano ao ex-ministro Gustavo Capanema (líder da
maioria da Câmara), ao marechal Zenóbio da Costa (ministro da Guerra) e ao
almirante Renato Guillobel (ministro da Marinha). Alegara que ele e Vargas
deveriam colocar o que considerava os sagrados interesses nacionais acima de
quaisquer sentimentos pessoais ou partidários e deixar o poder pelo bem da
nação. Em suas memórias, Café Filho afirma que não era a única autoridade no
7

governo a defender a saída de Vargas. Dois dias antes da ida ao Serrador, ele
participara de outra reunião — dessa vez no gabinete do ministro da Fazenda,
Osvaldo Aranha —, para conversar com poderosos que desejavam o mesmo
desfecho: “A ideia da renúncia de Vargas ganhava velocidade em certos círculos
da opinião pública. A minha ascensão à Presidência despontava intermitente,
como um relampejar no temporal.” Tancredo Neves, então ministro da Justiça,
chegou a advertir o presidente sobre o envolvimento de Café Filho na trama em
favor de sua renúncia. Destacou também que o vice contava “com a cobertura de
prestigiosos elementos militares” para levar adiante seu desejo de poder.
8

Imbuído desse espírito, Café Filho levou a proposta de renúncia dupla ao


Catete, mas Vargas não respondeu de pronto à sugestão. Demorou cerca de 24
horas para convocá-lo para uma nova reunião, dessa vez noturna, e dizer que
permaneceria no cargo de qualquer maneira. Frustrado, em 23 de agosto o vice
subiu à tribuna do Senado, no Palácio Monroe, e tornou pública não apenas a sua
proposta, como também a negativa de Vargas: “Já não é lícito a nenhum
brasileiro deixar de reconhecer que a nação vive, no momento, um dos períodos
mais difíceis de sua história. O atentado que teve como palco uma das ruas
centrais do maior bairro residencial da República, e no qual perdeu a vida um
herói da Força Aérea Brasileira e foram feridos um jornalista da oposição e um
guarda em pleno serviço, logo deixou de ser um episódio meramente policial
para se transformar na origem de uma crise política e militar. Paralelamente às
revelações do inquérito, já agora envolvendo outros aspectos além do crime, o
volver dos acontecimentos se tem verificado de modo a tornar cada vez mais
larga e profunda a crise.” 9

O discurso foi um soco no estômago da família Vargas sentido até hoje.


Embora Café Filho tivesse atravessado o governo com discrição, cumprindo uma
bocejante agenda social e garantindo que jamais seria “vítima da mosca azul”, o
Palácio do Catete convencera-se: o vice trairia Vargas. Aos olhos da família do
presidente, ao aderir à conspiração, Café Filho tentaria acalmar os ministros
militares, oferecendo-lhes a garantia de que não seriam removidos de seus
cargos caso Vargas fosse deposto. Assim, quando desceu da tribuna naquele dia,
após sustentar que a crise agravada pelo atentado era “uma situação
verdadeiramente lamentável e impressionante”, Café Filho já estava carimbado,
justa ou injustamente, como conspirador por todo o varguismo. E veria o clima
10

no Catete atingir o ápice da tensão pouco depois — ao cruzar com Alzira Vargas
no palácio, ouviria da filha do presidente uma pergunta irônica:
— Como é, já veio assumir? 11

Em suas memórias, Alzira explicaria: “Muito antes de qualquer crise político-


militar, ele próprio [Café Filho] costumava me perguntar: ‘Como é, quando é
que chega a minha vez?’. Ao que lhe respondia sempre: ‘Tenha paciência, o seu
dia chegará. Mas ele vai e volta. Você não terá muito tempo para se espalhar.’
Era natural que naquele dia [do discurso no Senado], quem fizesse a pergunta
fosse eu.”12

Nas primeiras horas do dia 24 de agosto, depois de receber um ultimato de


parte dos militares para renunciar, Vargas se matou. Um tiro no peito. Sozinho,
13

em seu quarto. E Café Filho, que dormira sob o efeito de remédios devido ao
estresse dos últimos dias, foi acordado às pressas para ser oficialmente
informado da morte do presidente pelo general Caiado de Castro:
— Sentindo-se traído, o presidente suicidou-se — disse-lhe o militar. 14

Ao assumir o comando do país, o vice-presidente deu ainda mais motivos para


ser criticado pelos varguistas. Compôs o primeiro e o segundo escalões de seu
governo com preponderância de políticos e militares identificados com a UDN,
justamente o partido que arruinara o presidente gaúcho. Só não permitiu que a
turma de Lacerda promovesse a desejada devassa no governo. Nas horas
seguintes ao suicídio, Café Filho ordenou que fossem feitas todas as homenagens
fúnebres possíveis ao presidente, mas era tarde. A família Vargas recusaria os
gestos oficiais e desencorajaria o novo ocupante da cadeira presidencial a
comparecer ao velório. Mesmo assim, Café Filho fez chegar ao Catete uma
coroa de flores com dizeres simples: “Homenagem de Café Filho a seu
companheiro de 1950.”
A família Vargas nunca entrou em polêmica com o novo presidente. Alzira
preferiu guardar seus comentários para o livro memorialístico Getúlio Vargas,
meu pai. No curto capítulo dedicado ao assunto, diz que a versão contada pelo
novo presidente deturpava “fatos reais que conhece apenas de ouvido, criando
situações que nunca existiram ou imaginando um meio de escapar da verdade”.
Café Filho passaria a vida rechaçando as suspeitas de conspiração. Sobre o
encontro no Serrador, registraria: “Não daria um passo para chegar ao poder.
Nem me interessava a Presidência em condições tão difíceis. Muito menos
através de tais expedientes.” Mas fato é que, apesar de ter proposto renúncia
15
conjunta, ocupou o cargo de presidente tão logo isso se tornou possível.

* * *

O escritor e jornalista Lira Neto, um dos mais respeitados biógrafos de Getúlio


Vargas, deu em 2014 uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura,
sobre o ex-presidente. Disse que Vargas tinha dificuldade de conviver com a
imprensa livre e o Parlamento aberto: “Era um personagem autoritário. Vindo de
um caldo de cultura autoritário. Se assumia como ditador sem nenhum
problema.” Sua relação com Café Filho não havia sido fácil. Para o escritor,
Vargas era um homem contraditório: ao mesmo tempo que modernizou o país e
estabeleceu as bases da legislação trabalhista, flertou com o nazismo, perseguiu
adversários e conspirou intensamente. No episódio de Café Filho, estava
encurralado.
No artigo “Moralidade e política numa sociedade de massa”, o filósofo José
Arthur Giannotti defende a ideia de que as expectativas relacionadas à moral em
meio à sociedade nada têm a ver com as praticadas na política. Uma coisa,
16

segundo ele, são os códigos morais e as regras sob os quais as pessoas comuns
aceitam conviver. Outra é o fazer político, que estaria dentro de uma ética de
exceção, na qual o árbitro dos limites seria fixado por cada político em sua
individualidade. “Não é à toa que, do ponto de vista do público em geral, o
político seja considerado uma pessoa amoral”, escreve Giannotti. “Mesmo no
seu partido, sempre transparece a luta pelo interesse de cada um.”
Uma das traições políticas mais antigas da nossa história foi consumada em
março de 1789 por Joaquim Silvério dos Reis, que se voltou contra os
companheiros da Inconfidência Mineira. Contratador de entradas, fazendeiro e
17

proprietário de minas em Borda do Campo (MG), Silvério dos Reis aderiu ao


movimento dos revoltosos porque estava falido. A produção de ouro declinava,
mas a cobrança de impostos pela Coroa portuguesa aumentava. Os portugueses
estavam prestes a aplicar o mecanismo da derrama, que encaminharia a Portugal
um quinto dos minérios extraídos do Brasil. Silvério dos Reis entrou no grupo
dos inconfidentes, composto pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier e pelos
poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, entre outros,
dizendo-se farto daquela situação. Mostrava-se pronto para um levante contra os
impostos. E foi aceito nas reuniões secretas realizadas pelos conspiradores. Em
11 de abril daquele ano, no entanto, mudou de lado. Enganou a todos. Escreveu
uma carta ao governador de Minas Gerais, o visconde de Barbacena, e alertou as
autoridades coloniais para a revolta que pretendia proclamar a República e
libertar o Brasil do domínio de Portugal. Todos os principais líderes foram
presos, e Tiradentes, enforcado.
Em A aventura da reportagem, os jornalistas Gilberto Dimenstein e Ricardo
Kotscho narram como é difícil não ser enganado por um político. Alegam que é
preciso cancha para perceber o embuste e responder à altura. Como exemplo,
relatam um dia em que o político mineiro Tancredo Neves estava no aeroporto
de Brasília, preparando-se para decolar, quando encontrou o também político
mineiro Magalhães Pinto, seu grande rival. Os dois se cumprimentaram e
trocaram algumas palavras. Mantiveram um tom cordial, de amenidades e, em
seguida, se afastaram. Tancredo voltou-se para o jornalista que o acompanhava e
confidenciou:
— O Magalhães disse que iria para o Rio para eu pensar que ele vai para Belo
Horizonte. Mas acho que ele vai para o Rio mesmo. 18

No fogo cruzado das mentiras políticas e das mentiras entre políticos, há lugar
para episódios folclóricos, como o de Tancredo e Magalhães, mas também para
episódios históricos. Em 11 de abril de 1964, ainda na ressaca do golpe militar
que derrubara João Goulart, o Congresso Nacional se reuniu para eleger
indiretamente o novo presidente da República. Um dos nomes com chance de ser
eleito era o do marechal Humberto Castelo Branco, líder do movimento. Na
época, o ex-presidente Juscelino Kubitschek era senador por Goiás e fora
convencido a votar no militar, legitimando a ruptura institucional. Acreditava
que a eleição direta para presidente, como previsto, ocorreria em 1965. E queria
— é claro — ser candidato. Quando o presidente do Senado, Moura Andrade,
solicitou o voto público de JK, o Brasil viu o ex-presidente cumprir o
combinado:
— Castelo Branco! — gritou. 19

Uma enorme ovação tomou conta do plenário, com palmas e gritos das
galerias. O jornalista Ricardo A. Setti, então com 18 anos, estava lá e se lembra
de detalhes:
— Não me esqueço, não vou me esquecer nunca, da figura para mim então
mitológica de JK, na parte posterior do plenário, do lado direito do corredor
central, de pé e sorridente, recebendo a saudação.
Castelo Branco elegeu-se com facilidade, somando 361 votos, e JK foi traído.
Em 8 de junho de 1964, menos de dois meses após a eleição indireta que
inauguraria um período de 21 anos de regime militar, o marechal cassou seu
mandato e suspendeu por dez anos seus direitos políticos. JK foi obrigado a
seguir para o exílio no exterior e nunca mais voltou a ser candidato.
* * *

Em 2014, determinada a se manter no Palácio do Planalto por mais quatro anos,


a então presidente Dilma Rousseff (PT) costurou com o PMDB a reedição da
dobradinha que, em 2010, havia lhe garantido o poder. PT e PMDB combinaram
que o advogado e diversas vezes deputado Michel Temer voltaria a acompanhá-
la como vice numa chapa eleitoral. No entanto, a afinidade entre Dilma e Temer
era “tão grande” quanto a de Vargas e Café Filho.
Numa das primeiras vezes em que os dois subiram juntos a um palanque, em
junho de 2010, Temer mostrou total disposição para estar ao lado de Dilma. Era
a convenção nacional de seu partido, e a sigla havia decidido que não lançaria
candidato próprio à disputa presidencial. Temer sairia como vice do PT. Num
discurso breve, lembrou a Constituição:
— Quando fizemos a Constituinte, dissemos: “Homens e mulheres são iguais
perante a lei.” Tivemos, na época, uma antevisão que teríamos uma mulher que
seria presidente da República e essa mulher é Dilma Rousseff! 20

Após três anos, em 2 de março de 2013, os dois se elogiavam mutuamente em


público e já falavam em uma chapa conjunta para as eleições do ano seguinte.
— Vamos manter essa aliança indestrutível — dizia Temer. — PT e PMDB,
com Vossa Excelência conduzindo os destinos do país. 21

Assim, em 2014, a dupla saiu vitoriosa mais uma vez e, em 1 de janeiro de


o

2015, Brasília parou para assistir à segunda posse de Dilma Rousseff e de seu
vice. Fazia sol na capital federal, e Dilma percorreu oito quilômetros em carro
aberto — o Rolls-Royce presidencial — na companhia da filha. Uma multidão
de cerca de 40 mil pessoas tomou os gramados ao redor do Congresso, e a TV
fez transmissão ao vivo. Às 15 horas, a mesa da Câmara se formou para a
assinatura do termo de posse e escutou o compromisso constitucional da
presidente reeleita. Além de Temer, estavam ao lado de Dilma o presidente do
Senado, Renan Calheiros, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, e o
presidente do STF, Ricardo Lewandowski. Na plateia, chefes de Estado se
acotovelavam, como o venezuelano Nicolás Maduro, o boliviano Evo Morales, a
chilena Michelle Bachelet e o uruguaio José Mujica. O vice-presidente dos
Estados Unidos, Joe Biden, também participou da solenidade. Era o mais
poderoso nome da política internacional no plenário.
Assim que a cerimônia terminou, Dilma convidou Joe Biden para uma reunião
no Palácio do Itamaraty. Nela falaram sobre o episódio de espionagem que fora
mundialmente revelado meses antes. A presidente reeleita reclamou de ter sido
alvo de monitoramento da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos,
e Biden sinalizou que o encontro representava “um recomeço” das relações entre
os dois países. A conversa durou aproximadamente uma hora. Ao fim, posaram
22

para fotos e se despediram. Nos corredores do poder, no entanto, uma pergunta


circulava: por que o vice-presidente do Brasil não havia participado da reunião
com o vice-presidente dos Estados Unidos? Só se soube meses depois: Dilma
não o convidara.
Em março de 2015, o Brasil entrou em convulsão. As ruas foram tomadas por
dezenas de manifestações contra o segundo governo de Dilma. A Operação
Lava-Jato, iniciada um ano antes, revelara casos de corrupção no coração da
Petrobras e parte do povo enxergava em Dilma — ex-presidente do Conselho da
estatal — uma das responsáveis pela crise na empresa. Queriam sua saída.
Somava-se a isso a crise econômica, com o aumento do desemprego e a volta da
inflação. A palavra impeachment reapareceu nos cartazes e nos gritos de
protesto. A distância entre a presidente e seu vice começou a aumentar. Para
Dilma, os que se insurgiam contra ela eram golpistas, descontentes com o
desfecho da eleição presidencial. Temer discordava. Em julho daquele ano,
começou a deixar isso claro e discursou num evento na Câmara dos Deputados:
— Devemos pensar no Brasil. A oposição existe para ajudar a governar,
mesmo quando critica. Temos que fazer uma grande unidade nacional. Mais do
que nunca é necessário o pensamento conjugado dos vários setores da
nacionalidade, portanto, dos vários partidos políticos, para que caminhemos
juntos em benefício do Brasil. 23

Na época, Temer acumulava o cargo de coordenador político do governo


Dilma. Uma de suas funções era, de fato, tentar costurar alianças e conseguir que
a pauta da Presidência avançasse entre os parlamentares. Um mês depois,
contudo, após se reunir com líderes da base e ministros, saiu-se com a seguinte
frase:
— É preciso que alguém possa, tenha capacidade de reunificar a todos, de unir
a todos.24

Mas quem seria esse “alguém”? Temer não respondia.


Foi quando o vice começou a aparecer em programas de rádio e TV na
condição de presidente do PMDB. Em cadeia nacional, repetia frases como “o
Brasil é um só e sempre vai ser maior e mais importante do que qualquer
governo.” Portava-se como um candidato em campanha, embora Dilma ainda
tivesse três anos e meio de governo pela frente.
No dia 24 de agosto, o PMDB colocou no ar um programa sombrio no qual
uma apresentadora vestida de preto afirmava que o Brasil vivia uma dura crise
econômica e “uma crise política que retarda uma mudança desse cenário”. A
25

gravação, de dez minutos, propunha “virar esse jogo” e “reunificar os sonhos”.


Temer entrava em cena dizendo: “Cabe a nós, representantes de todos os setores
da sociedade, o dever de construir agora um amanhã cada vez melhor.” Pregava
que a crise fosse enfrentada “com união”, mas, horas antes de o programa ir ao
ar, tivera uma conversa privada com Dilma e anunciara que deixaria a
coordenação política de seu governo. Mesmo assim, toda vez que era
26

perguntado sobre o assunto, mantinha juras de fidelidade a Dilma:


— Tenho dito e repetido, ao longo do tempo, que qualquer possibilidade de
impeachment será impensável. 27

As pesquisas de popularidade não ajudavam a presidente. Naquele mês, um


levantamento realizado pelo instituto Datafolha concluiu que apenas 8% dos
entrevistados aprovavam seu governo. Temer, como todo mundo, sabia disso.
— Se ela [Dilma] continuar com 7%, 8% de popularidade, de fato fica difícil.
Não dá para passar três anos e meio assim — afirmou num evento que reunia
empresários e estudiosos da política em São Paulo. 28

Temer tinha 75 anos. Estava há meio século na política e era conhecido por
sua paciência e comedimento. Mas, para o governo Dilma e seus apoiadores, não
parecia tão comedido assim. Logo passou a ter de responder a perguntas sobre
um possível oportunismo. Indagavam-lhe se queria passar à história como
“oportunista ou estadista”. E ele reagia com irritação.
— Eu jamais seria oportunista, quero deixar muito claro isso — devolveu
durante o mesmo evento em São Paulo. — Em momento algum eu agi de
maneira oportunista. Muitas vezes dizem: “Ah, o Temer quer assumir a
Presidência.” Mas eu não movo uma palha para isso.
Jurava de pés juntos.
Em 18 de novembro de 2015, o PMDB compareceu em peso ao congresso na
Fundação Ulysses Guimarães. Temer inclusive. Ao chegar ao local, foi recebido
com cartazes de “Temer, veste a faixa já”. Embora os jornais contem que ele
ficou constrangido, não discursou para negar essa possibilidade. No mesmo dia,
29

a legenda do vice-presidente lançou o documento “Uma ponte para o futuro”, no


qual apresentava propostas de governo que contrariavam a política petista em
diversos aspectos. O texto tinha sido produzido em meio às discussões mais
ferrenhas sobre a abertura do processo de impeachment contra a presidente
Dilma Rousseff. 30

No palco, na mesa dos dirigentes do partido, apenas uma cadeira separava


Temer do então presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Era pública a aversão de Dilma a Cunha e vice-versa. Tudo começara em 2011,
quando a recém-eleita presidente mexera na direção da empresa de energia
elétrica Furnas e tirara do poder um dos aliados do deputado. Havia suspeita de
corrupção com envolvimento de Cunha. Agora, a crise de 2015 dava ao
deputado uma chance para revidar. Por aqueles dias, avançavam em sua direção
as investigações da Operação Lava-Jato, comandadas pelo procurador-geral
Rodrigo Janot. O deputado fluminense, conhecido por pautar temas fortes e
contrários ao governo, convencera-se de que precisaria partir para o tudo ou
nada se quisesse escapar da guilhotina judicial. Tentou o apoio do PT. Não
conseguiu. Partiu para cima de Dilma.
Na mesa de Cunha havia uma pilha de pedidos de impeachment contra a
presidente. Em 3 de dezembro, com um deles em mãos, ligou para Temer e o
consultou sobre a abertura do processo. As leis brasileiras dão ao presidente da
Câmara essa prerrogativa. O vice-presidente da República nada fez para impedir.
Cunha então anunciou que a Câmara analisaria o caso. Naquela noite, enquanto
31

o noticiário político pegava fogo — já tentando adivinhar o placar da possível


votação em plenário sobre o afastamento da presidente —, Temer recebeu em
casa políticos do DEM, do PSDB e a cúpula do PMDB. Conversaram por horas.
Ao relembrar o encontro, o senador Tasso Jereissati (PSDB) disse:
— Ele [Temer] ouviu com muita reserva [a ideia de assumir a Presidência],
mas deixando claro que, para tocar o projeto de unidade nacional, esse cara soy
yo.32

Se fosse para alguém assumir o projeto, seria ele.


Naquele dia, Temer tivera uma conversa com Dilma de apenas trinta minutos.
Recomendara que ela tivesse uma postura “institucional” e não travasse uma
briga pública com Cunha, pois isso poderia agravar o quadro político. No
entanto, quem declarou briga foi o próprio Temer, desmentindo duas
informações que haviam sido atribuídas a ele por membros do governo Dilma.
Primeiro, negou ter dito que não via nenhum lastro para o processo de
impeachment, como afirmara o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner.
Depois, negou que daria assessoria jurídica a Dilma em sua defesa:
— Essa não é a função do vice-presidente da República. 33

Dilma encrespou. Em Recife, ao ser questionada sobre a falta de uma defesa


enfática do vice-presidente sobre a possibilidade de abertura do impeachment,
declarou:
— Eu espero integral confiança do Michel Temer, e tenho certeza de que ele a
dará. Ao longo desse tempo, eu desenvolvi a minha relação com ele e conheço o
Temer como pessoa, como político e como grande constitucionalista. 34

Em seu recado, Dilma cutucava seu vice para que seguisse alinhado. Mas era
tarde.
— Temer não precisa se mover agora. Tem que deixar as ondas baterem nas
pedras para ver a espuma que fará, como as ruas vão se manifestar, como as
forças do Congresso vão se aglutinar — dizia Geddel Vieira Lima, um dos
peemedebistas mais próximos do vice, enquanto Wellington Moreira Franco,
outro aliado, passava a chamar o programa “Ponte para o futuro” de “Plano
Temer”. 35

A história se complicou de vez em 7 de dezembro de 2015, quando a imprensa


noticiou a existência de uma carta escrita por Temer e protocolada no gabinete
de Dilma com conteúdo explosivo. Tratava-se de um “desabafo” que, segundo o
36

vice-presidente, “já deveria ter feito há muito tempo”. Temer falava abertamente
que sempre tivera “ciência da absoluta desconfiança” de Dilma e de seu entorno
em relação a ele e ao PMDB. Sentia-se um “vice decorativo” e, para sustentar
essa argumentação, recorreu a alguns fatos, como a ausência de convite para a
reunião com Joe Biden no dia da posse, o que não perdoara.
Temer ainda reclamou de “jamais” ter sido chamado “para discutir
formulações econômicas” num período de plena crise. Sentia-se desprivilegiado,
sem acesso ao grupo responsável pelas grandes decisões. Contudo, a agenda da
vice-presidência indicava o contrário. Ao longo de 2015, Temer tivera quinze
encontros com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, três a mais que Dilma. 37

Oportunidade não lhe faltara. Quatro desses encontros contaram com a presença
do ministro Nelson Barbosa, do Planejamento. Duas ocasiões incluíram ainda o
ex-ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Esses três nomes compunham a
trinca orçamentária do país cuja função era discutir e definir formulações
econômicas. O vice-presidente, porém, estava ressentido: “Perdi todo
protagonismo político que tivera no passado.” E estava certo de que Dilma não
recuperaria jamais a confiança nele: “Lamento, mas esta é a minha convicção.”
Por isso decidira colocar tudo no papel, pôr todos os pingos nos is. Mas,
quando a carta veio a público, Temer se disse surpreendido. Afirmou que se
tratava de “uma carta confidencial e pessoal” e acusou o Palácio do Planalto de
divulgar o conteúdo à sua revelia, o que constituía “fato gravíssimo”. Na época,
houve outra interpretação: a de que Temer teria vazado o documento para um
jornalista. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, a primeira reação de
Dilma ao ler a carta-bomba foi exclamar:
— Que coisa estranha!
Naquele momento, a presidente pareceu incapaz de juntar alguns pontos.
Pensou até mesmo que deveria responder com outra carta em tom “quase
carinhoso”. Não se lembrou dos episódios de distanciamento de Temer. Nem dos
marcantes, nem dos menos expressivos. Esqueceu-se das duas vezes que o vice-
presidente desligara o telefone enquanto ela falava com ele, em ambas por julgá-
la exaltada. A primeira vez foi em 2011, quando Dilma cobrou que Temer
conseguisse o apoio do PMDB para a aprovação do Código Florestal.
— Acho que a senhora ligou para a pessoa errada. Eu estou acostumado a
lidar com presidentes da República e todos sempre me trataram com muita
educação — disse Temer.
A segunda vez foi em 2014, quando Dilma, que já digladiava em público com
Eduardo Cunha, precisava que Temer o contivesse.
— Era a senhora ao telefone? Desculpe, não percebi. Tinha uma pessoa aí
gritando tanto que não dava para saber quem estava falando. 38

Os auxiliares de Dilma, por sua vez, entenderam rapidamente que a carta


significava um rompimento. Um ministro petista chegou a utilizar palavras
fortes ao se referir ao gesto de Michel Temer:
— Isso não é coisa de gente grande. Eu tenho vergonha de um homem de 75
anos fazer um gesto desses. Ele não tem voto dentro do partido e fica tentando se
equilibrar para manter o poder.
Nos corredores do Palácio, decepção e raiva se misturavam. Houve até quem
voltasse ao vice-presidente dos Estados Unidos para contra-atacar:
— Veja se Joe Biden faria uma coisa dessas. 39

Quatro meses depois, um áudio com a voz de Temer ganhou as mídias e jogou
mais lenha na fogueira. Era um “ensaio” de discurso que ele havia feito e
enviado aos colegas do PMDB. Na gravação, agia como se a presidente tivesse
sido derrotada na votação pelo impeachment. Dizia-se pronto para encampar
“um governo de salvação nacional” e se definia como figura capaz de pacificar e
reunificar o país:
— Agora, quando a Câmara dos Deputados decide — por uma votação
significativa — declarar a autorização para a instauração de processo de
impedimento contra a senhora presidente, muitos me procuraram para que desse,
pelo menos, uma palavra preliminar à nação brasileira, o que faço com modéstia,
cautela e muita moderação, mas também em face da minha condição de vice e
naturalmente substituto constitucional da senhora presidente. 40

O processo de impeachment de Dilma só seria efetivamente instaurado seis


dias depois, mas levaria à sua saída efetiva do governo em 12 maio de 2016.
41

Temer ocupou de forma interina o Palácio do Planalto até 31 de agosto. Trocou


ministros e mexeu nos rumos da política e da economia nacional. Disse que
queria entrar para a história como um presidente reformista e, de fato, conseguiu
aprovar uma emenda constitucional instituindo um teto para os gastos públicos
baseado na inflação do ano anterior, aprovou também leis que ampliaram os
limites da terceirização da mão de obra e fez uma reforma trabalhista de peso —
todas, contudo, medidas controversas e polêmicas.
Em junho de 2018, já havia desistido de tentar a reeleição. Era considerado o
presidente mais rejeitado da história do país. Segundo levantamento feito pelo
Datafolha, sua administração havia sido avaliada como “ruim” ou “péssima”
42
por 82% dos eleitores. Em seu pior momento, Dilma havia batido 71% de
desaprovação. Os ex-presidentes José Sarney e Collor de Melo empataram em
68%. Mas a desaprovação popular não era o maior dos problemas do presidente.
Em outubro de 2017, ele havia conseguido barrar duas investigações sobre
corrupção contra ele próprio no Congresso. Na primeira, aparecera como
suspeito de participar de uma formação criminosa, apelidada de “quadrilhão do
PMDB”. Para a Procuradoria-Geral da República, o grupo havia sido capaz de
levantar R$ 587 milhões em vantagens indevidas junto a empresas públicas. A
investigação chegou ao STF, mas foi suspensa pelos parlamentares em votação
plenária. No segundo caso em que conseguiu se proteger, envolvendo uma mala
de dinheiro entregue ao deputado federal Rocha Loures, Temer fora denunciado
por corrupção passiva. Para a Procuradoria, o parlamentar, próximo ao
presidente, servia de elo entre o partido e a J&F, holding do empresário também
investigado Joesley Batista, que entregara a mala a Rocha Loures.
De qualquer forma, até março de 2018 a blindagem parlamentar não livrara o
43

presidente de outras investigações. O ministro do STF Edson Fachin havia


autorizado que Temer fosse incluído em um inquérito que investigava repasses
ilícitos da Odebrecht para o PMDB (que voltou a se chamar MDB). Além disso,
o presidente era suspeito de ter editado uma medida provisória para beneficiar
empresas do porto de Santos (SP), sua área de influência política, em troca de
propina. Num movimento inédito no Brasil, o sigilo bancário do presidente da
República foi quebrado. O país aguardava o desfecho da história.
EPÍLOGO
Sim. Você foi enganado. E se chegou até aqui é bem capaz que esteja aborrecido
com a política, desencantado com os políticos, talvez até mesmo sem disposição
para votar. Pode estar desgostoso com a República brasileira, os rumos da
democracia ou, quem sabe, angustiado com versões variadas de um mesmo
raciocínio: “Certo. Eu fui enganado. Mas como impedir que isso aconteça de
novo?”. Apenas rever o passado de inverdades ditas por poderosos ao longo dos
últimos cem anos provavelmente não vai resolver esse problema. A política,
como bem se sabe, jamais abandonará a mentira, os exageros e as contradições
como ferramentas de poder. Mas, ao relembrar episódios em que o povo foi
enganado, este livro pretende oferecer aos cidadãos recursos para que passem a
duvidar de promessas de campanha, planos econômicos mirabolantes, boletins
médicos divergentes e assim por diante. Para que sejam, acima de tudo, mais
conscientes, de forma a tentar evitar que episódios indigestos se repitam.
Nosso objetivo, portanto, é aumentar a consciência política do eleitor, e não
afastá-lo do voto, da política ou da democracia. Um país tem mais chances de
crescer e superar as próprias dificuldades quando a conversa se dá de forma
robusta, verdadeira e transparente. Sobretudo na política. É buscando esse
espaço, de livre duvidar e livre debater, que este livro chega às livrarias.
Importante ressaltar que não se pretendeu aqui fazer um julgamento moral dos
políticos citados, tampouco de seus partidos ou apoiadores. É fato que, ao
recuperar alguns acontecimentos históricos em que esses homens e mulheres
agiram em desacordo com a verdade, esta obra deixa de exaltar virtudes que eles
apresentaram sobre si mesmos enquanto comandavam o Brasil. Naturalmente,
nem só de mentiras, exageros e contradições viveu o governo federal nos últimos
cem anos — aliás, pensar dessa forma já seria, no mínimo, um exagero.
De Artur Bernardes a Michel Temer, o país evoluiu. O analfabetismo
despencou, a fome foi reduzida de forma drástica, a indústria nacional cresceu, a
esperança de vida se ampliou e a economia ganhou destaque internacional. Cada
um dos presidentes citados nestas páginas contribuiu, à sua maneira, para que
isso acontecesse, mesmo com as inverdades que sustentaram e com as
contradições em que foram flagrados. Só não fugiram a uma prática enraizada na
tradição brasileira: não resistiram à tentação de, servindo a interesses pessoais e
a projetos de poder, faltar com a verdade em nome de propósitos alegadamente
maiores, como o bem-estar da sociedade e a defesa dos fracos e oprimidos.
Durante o trabalho de apuração para a redação deste livro, a gestão de três
governantes — Michel Temer, Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva —
ainda se misturava ao noticiário político cotidiano de forma incessante, provando
que o tempo histórico sempre é fundamental para qualquer tipo de avaliação
mais definitiva. Não fica excluída, portanto, a possibilidade de uma revisão do
conteúdo deste livro no futuro — inclusive para acolher o posicionamento dos
políticos que foram mencionados e que, nesta primeira edição, não quiseram se
manifestar.
Quando Você foi enganado recebeu seu ponto final, o Brasil estava a apenas
quatro meses do início da campanha eleitoral de 2018. Cerca de 140 milhões de
brasileiros seriam convocados às urnas para escolher um novo presidente, 27
novos governadores e boa parte do Congresso Nacional. Vivia-se um fervoroso
debate sobre o surgimento e o impacto das notícias falsas. Ganhava campo a
discussão sobre a importância de checar o grau de veracidade daquilo que se lê,
se ouve ou se vê na internet. A imprensa lutava para criar ferramentas concretas,
sistemáticas e eficientes a fim de enfrentar as fake news. Plataformas digitais
como Facebook, Twitter, WhatsApp e Google, grandes difusores de informação,
viam suas respectivas reputações serem fortemente abaladas pelas inverdades
postadas a cada minuto — e ainda havia quem falasse em sua regulação.
Os cidadãos, por sua vez, revelavam baixíssimo índice de confiança na classe
política. Em outubro de 2017, a Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas
publicou uma pesquisa mostrando que, em apenas um ano, houve uma queda
acentuada na crença dos brasileiros em praticamente todas as instituições mais
importantes da República. Frente aos dados que o estudo coletara em 2016, o
1

governo federal tinha deixado de ter 29% da confiança dos brasileiros para
contar com apenas 6%. Os partidos políticos e o Congresso mantinham-se com
7% de credibilidade.
O Brasil do século XXI deve enfrentar esse cenário, exigindo dos que estão no
poder uma postura diferente, pautada pela transparência dos dados, pelo
cumprimento das promessas de campanha e, em especial, pelo respeito ao
eleitor. Afinal de contas, o voto é, na verdade, um voto de confiança. E o
jornalismo tem como uma de suas funções elevar o custo da mentira.
NOTAS
Introdução

1. Correio da Manhã, 9 out. 1921. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/089842_03/7966>.


Acesso em: 4 jun. 2018.
2. Correio da Manhã, 13 out. 1921. Disponível em: <http://memoria.bn.br/docreader/089842_03/8013>.
Acesso em: 4 jun. 2018.
3. Biblioteca da Presidência da República, “Biografia”, s/d. Disponível em:
<http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/arthur-bernardes/biografia>.
Acesso em: 4 jun. 2018.
4. O Paiz, “As famosas cartas falsas”, 28 jun. 1922. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/178691_05/10033>. Acesso em: 4 jun. 2018.
5. CPDoc/FGV, Alzira Alves de Abreu, “Cartas falsas”, s/d. Disponível em:
<http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CARTAS%20%20FALSAS.pdf>.
Acesso em: 4 jun. 2018.
6. Elio Gaspari, A ditadura envergonhada, p. 70.
7. O Cruzeiro, “Plano Cohen”, 24 out. 1973, p. 93. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/003581/188405>. Acesso em: 4 jun. 2018.
8. Alzira Vargas, Getúlio Vargas, meu pai, pp. 257-8.
9. CPDoc/FGV, “Anos de incerteza (1930-1937), Plano Cohen”, s/d. Disponível em:
<http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-37/GolpeEstadoNovo/PlanoCohen>.
Acesso em: 4 jun. 2018.
10. Elio Gaspari, op. cit., p. 70.
11. Ibid., p. 71.
12. Elio Gaspari, A ditadura escancarada, p. 291.
13. Ibid., p. 292.
14. Idem.
15. Lina Penna Sattamini, Esquecer? Nunca mais…, p. 41.
16. Ibid., p. 40.
17. Relatório final da Comissão Nacional da Verdade, parte III, cap. 9, p. 381.
18. John J. Mearsheimer, Por que os líderes mentem, p. 31.
19. Ibid., p. 37.
20. William Macmahon Ball, Possible Peace, p. 47.
21. O Globo, “Morre Armando Falcão, ministro da Justiça no governo Geisel”, 11 fev. 2010. Disponível
em: <https://oglobo.globo.com/politica/morre-armando-falcao-ministro-da-justica-no-governo-geisel-
3054309>. Acesso em: 4 jun. 2018.
22. O Estado de S. Paulo, Rodrigo Viga Gaier, “Dilma Rousseff admite erro em currículo”, 7 jul. 2009.
Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-rousseff-admite-erro-em-
curriculo,399151>. Acesso em: 4 jun. 2018.

1. FIGUEIREDO

1. Plínio Fraga, Tancredo Neves, o príncipe civil, p. 322.


2. Ibid., p. 323.
3. Retirado das “Folhas de Alterações” do sargento Guilherme Pereira do Rosário.
4. Jornal Estado de Minas, Sandra Keifer, “A tortura de Estela contada por Dilma Rousseff”, 19 jun. 2012.
Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2012/06/19/interna_politica,300932/a-
tortura-de-estela-contada-por-dilma-rousseff.shtml>. Acesso em: 4 jun. 2018.
5. Ordem dos Advogados do Brasil, Comissão de Direitos Humanos, Processo no F-CDH-017/80, Inês
Etienne Romeu, 18 set. 1971. Disponível em:
<http://www.epsjv.fiocruz.br/upload/doc/DEPOIMENTO_INES.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2018.
6. Dickson M. Grael, Aventura, corrupção e terrorismo, pp. 135-6.
7. José A. Argolo, Kátia Ribeiro e Luiz Alberto Fortunato, A direita explosiva no Brasil, p. 264.
8. Elio Gaspari, A ditadura acabada, p. 77.
9. Ibid., p. 196.
10. O Globo. Disponível em: <http://acervo.oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/?
navegacaoPorData=197019781016>. Acesso em: 25 jun. 2018.
11. Elio Gaspari, op. cit., p. 198.
12. Jornal do Brasil, 17 jul. 1981, p. 9.
13. O Globo, Chico Otavio, “Legista desmente IPM do Riocentro”, 11 abr. 1999, p. 3. Muitos dos dados
sobre a ditadura apresentados neste Capítulo 1 foram apurados para essa reportagem especial publicada
em O Globo.

2. TANCREDO

1. Plínio Fraga, Tancredo Neves, o príncipe civil.


2. Veja, “A patologia da mentira”, 24 abr. 1985.
3. Plínio Fraga, op. cit.
4. Plínio Fraga, op. cit.
5. Ibid., p. 503.
6. Veja, “A patologia da mentira”, 24 abr. 1985, p. 22.
7. Plínio Fraga, op. cit., p. 507.
8. Veja, “A patologia da mentira”, 24 abr. 1985, p. 22.
9. Plínio Fraga, op. cit., p. 506.
10. Ibid., p. 508.
11. Memorial Tancredo Neves. Disponível em:
<http://www.memorialtancredoneves.com.br/1985texto.htm>. Acesso em: 4 jun. 2018.
12. Plínio Fraga, op. cit., p. 516.
13. Memorial Tancredo Neves. Disponível em:
<http://www.memorialtancredoneves.com.br/1985texto.htm>. Acesso em: 4 jun. 2018.
14. Luis Mir, O paciente.
15. Plínio Fraga, op. cit., p. 516.
16. O Globo, “Médico diz que Tancredo pode ter alta em 10 dias”, 17 mar. 1985, p. 11.
17. Folha de S.Paulo, “Boletins não revelam verdadeiro estado de saúde”, 5 abr. 1985, p. 4.
18. Veja, 3 abr. 1985, p. 27.
19. Veja, “A patologia da mentira”, 24 abr. 1985, p. 25.
20. Folha de S.Paulo, “Família autorizou maquiar laudo, diz médico”, 20 abr. 2005.
21. Folha de S.Paulo, 5 abr. 1985, p. 4.
22. O Globo, 23 mar. 1985, p. 2.
23. Revista Espaço Aberto, Henrique Walter Pinotti, “O tratamento do presidente Tancredo Neves”, s/d.
Disponível em: <http://www.usp.br/espacoaberto/?p=1826>. Acesso em: 4 jun. 2018.
24. Plínio Fraga, op. cit., 528.
25. Ibid., p. 529.
26. Ibid., pp. 536-8.
27. O Globo, “Família exulta recuperação”, 23 mar. 1985, p. 2.
28. O Globo, Blog do Noblat, “Retrato de uma lenda viva — Gervásio Baptista”, 26 mar. 2008. Disponível
em: <http://noblat.oglobo.globo.com/historias-exemplares/noticia/2008/03/retrato-de-uma-lenda-viva-
gervasio-baptista-94937.html>. Acesso em: 13 jun. 2018.
29. Veja, “Verdades e mentiras dos retratos”, 3 abr. 1985, pp. 24-5.
30. Jornal do Brasil, “Operação foi delicada e estado é grave”, 27 mar. 1985, p. 8.
31. Idem.
32. Folha de S.Paulo, 5 abr. 1985, p. 4.
33. O Globo, 30 mar. 1985, p. 3.
34. Plínio Fraga, op. cit.
35. A série As ilusões armadas, de Elio Gaspari, é composta pelos livros A ditadura envergonhada e A
ditadura escancarada.
36. Elio Gaspari, A ditadura escancarada, p. 79.
37. Carlos Chagas, 113 dias de angústia, p. 37.
38. Hernani D’Aguiar, Ato 5, p. 306.
39. Carlos Chagas, op. cit., p. 44.
40. Jayme Portella de Mello, A revolução e o governo Costa e Silva, p. 813.
41. José Luis Palma, El paciente de El Pardo.
42. Idem.
43. Ibid., edição Kindle, posição 520.
44. Ibid., edição Kindle, posição 620.
45. Ibid., edição Kindle, posição 705.
46. José Luis Palma, El paciente de El Pardo.
47. Idem.

3. SARNEY

1. Jornal Nacional, Omar Marczynski, 1o mar. 1986. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?


v=O3gJcKiduJg>. Acesso em: 4 jun. 2018.
2. Regina Echeverria, Sarney.
3. Idem.
4. Idem.
5. Idem.
6. Playboy, Ricardo Setti, “A história secreta do Plano Cruzado”, 1o jun. 1986. Disponível em:
<http://www.ricardosetti.com/a-historia-secreta-do-plano-cruzado/>. Acesso em: 25 jun. 2018.
7. Carlos Alberto Sardenberg, Aventura e agonia, p. 127.
8. Regina Echeverria, op. cit.
9. Louise Sottomaior, “Economia Brasileira 06 Plano Cruzado e Reformas 1986 1987”, s/d. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=aWxJ9tCq760>. Acesso em: 4 jun. 2018.
10. O presidente da democracia José Sarney, “Plano Cruzado”. Disponível em:
<http://www.josesarney.org/o-politico/presidente/plano-cruzado/>. Acesso em: 4 jun. 2018.
11. Jornal Nacional, 28 fev. 1986. YouTube. Disponível em: <Youtu.be/KL-CyEy65V0>. Acesso em: 23
jul. 2018.
12. Jornal do Brasil, “Entrevista/Eriksen Madsen”, 16 mar. 1986. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/111796>. Acesso em: 4 jun. 2018.
13. O Globo, “Plano Cruzado”, s/d. Disponível em:
<http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/plano-cruzado/fiscais-do-
sarney.htm>. Acesso em: 4 jun. 2018.
14. Regina Echeverria, op. cit.
15. Xuxa, “1986 Plano Cruzado (Tem que dar certo)”. Disponível em: <https://youtu.be/igqTDPNYRr8>.
Acesso em: 4 jun. 2018.
16. Lucélia Santos, “Comercial ‘Tem que dar certo’”. Disponível em: <https://youtu.be/JubHQ1R5Jsw>.
Acesso em: 4 jun. 2018.
17. Maria da Conceição Tavares, “Plano Cruzado 1986”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?
v=7p9Xt9z5PSs>. Acesso em: 4 jun. 2018.
18. Jornal do Brasil, “Colégios terão aumento máximo de 73%”, 21 mar. 1986. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/112049>. Acesso em: 4 jun. 2018.
19. Jornal do Brasil, “Lara Resende prevê uma inflação de 5% ao ano”, 12 mar. 1986. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/111598>. Acesso em: 4 jun. 2018.
20. Jornal do Brasil, “Sarney vigia preço até fim do mandato”, 1o abr. 1986, p. 1. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/112656>. Acesso em: 4 jun. 2018.
21. Ibid., p. 14. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/112669>. Acesso em: 25 jun.
2018.
22. Senado Federal, Jornal da Tarde, “A inflação acabou, anuncia Sarney”, 15 abr. 1986. Disponível em:
<http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/231716>. Acesso em: 4 jun. 2018.
23. Carlos Alberto Sardenberg, op. cit., p. 302.
24. Ibid., p. 326.
25. Ibid., p. pp. 328-9.
26. Ibid., p. 165.
27. Ibid., p.167.
28. Ibid., p. 166.
29. Regina Echeverria, op. cit, edição Kindle, posição 7.438.
30. Regina Echeverria, op. cit, edição Kindle, posição 7.450.
31. Carlos Alberto Sardenberg, op. cit., p. 303.
32. O Globo, Maria Lima e Diana Fernandes, “Sarney diz que soube do fracasso do Cruzado ouvindo
conversa num banheiro, revela biografia”, 26 mar. 2011. Disponível em:
<https://oglobo.globo.com/politica/sarney-diz-que-soube-do-fracasso-do-cruzado-ouvindo-conversa-
num-banheiro-revela-biografia-2805023#ixzz5AIeRk3wb>. Acesso em: 4 jun. 2018.
33. Jornal do Brasil, “Tarifas irreais”, 24 set. 1986. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/122690>. Acesso em: 4 jun. 2018.
34. Carlos Alberto Sardenberg, op. cit., p. 262.
35. Louise Sottomaior, “Economia Brasileira 06 Plano Cruzado e Reformas 1986 1987”, s/d. Disponível
em: <https://www.youtube.com/watch?v=aWxJ9tCq760>. Acesso em: 4 jun. 2018.
36. Carlos Alberto Sardenberg, op. cit., p. 289.
37. Ibid., p. 336.
38. Ibid., p. 337.
39. Ibid., p. 339.
40. Jornal do Brasil, “Combustível hoje custa mais 60%”, 21 nov. 1986. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/126635>. Acesso em: 4 jun. 2018.
41. Regina Echeverria, op. cit.
42. TV Câmara, Roberto Stefanelli, “Após o Plano Cruzado: Cruzado II, Bresser, Verão”, 2007. Disponível
em: <https://tvuol.uol.com.br/video/16047009/>. Acesso em: 4 jun. 2018.
43. O Globo, “Sarney confessa decepção com Plano Cruzado II”, 5 abr. 1987. Disponível em:
<https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/445711/PS%20jan_abr%2087%20-
%200110.pdf?sequence=1>. Acesso em: 4 jun. 2018.
44. UOL, “Brasil: morre em Manaus empresário conhecido como o Fiscal do Sarney”, 5 nov. 2007.
Disponível em: <http://entretenimento.band.uol.com.br/masterchef/2015/noticias/54146/brasil-morre-
em-manaus-empresario-conhecido-como-o-fiscal-do-sarney.html>. Acesso em: 4 jun. 2018.
45. Folha de S.Paulo, Arthur Pereira Filho, “Fiscal de Sarney diz que agora está pior”, 25 fev. 1996.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/25/dinheiro/23.html>. Acesso em: 4 jun.
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46. Diário Carioca, “Sou réu confesso da revolução contra a miséria”, 13 jul. 1961.
47. Carlos Fico, “História do Brasil contemporâneo”, Contexto, p. 35.
48. Ipeadata. Disponível em: <ipeadata.gov.br/exibeseriesaspx?serid=38367>. Acesso em: 23 jul. 2018.
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4. COLLOR

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3. Veja, 23 abr. 1988.
4. CPDoc/FGV, André Couto, “Partido da Reconstrução Nacional (PRN)”, s/d. Disponível em:
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5. Banco Mundial. Disponível em: <https://www.google.com.br/publicdata/explore?
ds=d5bncppjof8f9_&ctype=l&strail=false&bcs=d&nselm=h&met_y=sp_dyn_le00_in&scale_y=lin&ind_y=false&rdim=
Acesso em: 4 jun. 2018.
6. Mario Sergio Conti, Notícias do Planalto, pp. 231-3.
7. O Globo, “A vitória de Lula vai representar a cena do caos”, 13 dez. 1989, p. 5.
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9. “Debate Collor x Lula 1989”, s/d. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=MZ8B76JE-
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10. Fernando Sabino, Zélia, uma paixão, pp. 111-2.
11. GloboNews, “Dossiê GloboNews com o ex-presidente Collor de Melo PT 5”, s/d. Disponível em:
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12. “Fernando Collor — Posse Presidencial — 1990”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?
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13. Biblioteca da Presidência da República, Fernando Collor, “O Projeto de Reconstrução Nacional”, 15
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presidentes/fernando-collor/discursos/discurso-de-posse/posse-collor.pdf/view>. Acesso em: 4 jun.
2018.
14. O cruzado novo, que correspondia a mil cruzados (a moeda brasileira anterior), foi instituído pelo Plano
Verão, lançado no governo Sarney em janeiro de 1989.
15. Todas as falas dessa entrevista histórica foram extraídas de Manchete, “Ministra Zélia Cardoso
apresenta o Plano Collor (1990)”, s/d. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?
v=EKAkdkP0sXE>. Acesso em: 4 jun. 2018.
16. Idem.
17. Folha de S.Paulo, Luís Nassif, “Bloqueio de cruzados era inevitável, diz Collor”, 16 mar. 2005.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1603200532.htm>. Acesso em: 4 jun.
2018.
18. Jornal do Brasil, “Ex-vereador joga carro contra agência de banco para tirar saldo retido”, 21 mar.
1990.
19. O Globo, “Sem dinheiro, major mata a família e se suicida”, 24 abr. 1990.
20. Presidência da República Casa Civil, Lei no 8.069, 13 jul. 1990. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 4 jun. 2018.
21. Presidência da República Casa Civil, Lei no 8.078, 11 set. 1990. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8078.htm>. Acesso em: 4 jun. 2018.
22. Presidência da República Casa Civil, Lei no 8.313, 23 dez. 1991. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/leis/L8313cons.htm>. Acesso em: 4 jun. 2018.
23. O Globo, “Plano pegou Tieta de saia justa”, 2 abr. 1990.
24. O Globo, “Osnar: inconformado”, 6 abr. 1990.
25. Terra, “Claudia Raia fala de seu apoio a Collor para Gabi”, 24 jun. 2004. Disponível em:
<http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI3528508-EI13419,00-
Claudia+Raia+fala+de+seu+apoio+a+Collor+para+Gabi.html>. Acesso em: 4 jun. 2018.

5. FHC

1. Fernando Henrique Cardoso, Diários da Presidência, vol. 2, p. 644.


2. Tribunal Superior Eleitoral. Disponível em: <http://www.tse.jus.br/eleitor-e-eleicoes/eleicoes/eleicoes-
anteriores/eleicoes-1998/candidaturas-votacao-e-resultados/candidatos-a-presidencia-da-republica>.
Acesso em: 4 jun. 2018.
3. Fernando Henrique Cardoso, op. cit., p. 687.
4. Biblioteca Virtual de Ciências Humanas, Fernando Henrique Cardoso, “Avança Brasil: Proposta de
Governo”, 2008. Disponível em: <https://static.scielo.org/scielobooks/62rp6/pdf/cardoso-
9788599662687.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2018.
5. G1, “Frango e iogurte são símbolos do Plano Real”, 1o jul. 2014. Disponível em:
<http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/07/frango-e-iogurte-sao-simbolos-do-plano-real-veja-dez-
curiosidades.html>. Acesso em: 24 jul. 2018.
6. Folha de S.Paulo, Evandro Eboli, “Ao dar apoio, Itamar se contradiz”, 1o abr. 1994. Disponível em:
<https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/4/01/brasil/5.html>. Acesso em: 25 jun. 2018.
7. Senado Federal. Atividade Legislativa. Projeto de Lei no 55/81, de Itamar Franco (PPS-MG). Disponível
em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/26026>. Acesso em: 25 jun. 2018.
8. Fernando Henrique Cardoso, op. cit., p. 686.
9. Ibid., p. 687.
10. BNDES, André Averburg e Fabio Giambiagi, “A crise brasileira de 1998/1999 — Origens e
consequências”, mai. 2000. Disponível em:
<https://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/td/Td-
77.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2018.
11. O Globo, 3 out. 1998, p. 26.
12. O Globo, 25 jun. 1998, p. 5.
13. Idem.
14. Fernando Henrique Cardoso, op. cit.
15. Financial Globalization: Can National Currencies Survive?, James Tobin, abr. 1998. Disponível em:
<http://siteresources.worldbank.org/DEC/Resources/84797-1251813753820/6415739-
1251813951236/ABCDE98-TOBIN1.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2018.
16. Fernando Henrique Cardoso, op. cit., p. 688.
17. Ibid., p. 693.
18. Exame. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/mercados/os-dias-de-maior-panico-na-historia-da-
bolsa-brasileira/>. Acesso em: 24 jul. 2018.
19. Fernando Henrique Cardoso, op. cit., p. 695.
20. O Globo, 18 set. 1998, p. 1.
21. Fernando Henrique Cardoso, op. cit., p. 718.
22. Ibid., p. 688.
23. IstoÉ, “Itamar levanta o topete”, 13 jan. 1999. Disponível em:
<https://istoe.com.br/28366_ITAMAR+LEVANTA+O+TOPETE/>. Acesso em: 24 jul. 2018.
24. Folha de S.Paulo, 14 jan. 1999.
25. Jornal do Brasil, Samantha Lima e Daniele Carvalho, “Justiça condena Chico Lopes”, 5 abr. 2005, p.
A19. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/60282>. Acesso em: 24 jul. 2018.
26. O Globo, 5 fev. 1999, p. 26.
27. Extra, 5 fev. 1999, p. 10.
28. O Globo, 16 jan. 1999, p. 26.
29. Idem.
30. O Globo, 14 jan. 1999, p. 30.
31. O Globo, 31 jan. 1999, p. 40.
32. Extra, 1o fev. 1999, p. 9.
33. O Globo, 31 jan. 1999, p. 40.
34. Extra, 18 jan. 1999, p. 10.
35. Extra, 1o fev. 1999, p. 9.
36. Folha de S.Paulo, “A desvalorização do real foi uma decisão solitária”, 19 dez. 2002. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1912200229.htm>. Acesso em: 4 jun. 2018.
37. Armínio Fraga, CPDoc/FGV. Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-
biografico/fraga-arminio>. Acesso em: 24 jul. 2014.

6. LULA

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3. Folha de S.Paulo, Sílvia Freire, “Saiba quais irregularidades a CPI da Corrupção propõe investigar”, 8
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em: 4 jun. 2018.
4. Folha de S.Paulo, Giuliano Guandalini, “PT lança campanha Xô Corrupção, criada por Duda
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5. PT, “Nossa História”, s/d. Disponível em: <http://www.pt.org.br/nossa-historia/>. Acesso em: 4 jun.
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10. Idem.
11. Veja, Brasil, Política, Eduardo Gonçalves, “Hoje tenho vergonha do PT, diz 1o prefeito eleito pelo
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25. Caso Land Rover: Jornal Nacional, 19, 20 e 21 jul. 2005.
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30. TV Globo, Fantástico, “Doa a quem doer, a corrupção tem que ser punida, diz Lula”, 17 jul. 2005.
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31. ANPUH — XXV Simpósio Nacional de História, Antônio de Almeida, “Da ética na política à política
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32. Justiça Federal, Seção Judiciária do Paraná, 13a Vara Federal de Curitiba, Ação Penal no 5046512-94,
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em: 4 jun. 2018.
34. Idem.
35. G1/SP, “‘A decisão eu respeito, o que não aceito é a mentira’, diz Lula em discurso em SP”, 24 jan.
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36. El País, “Lula: ‘Eu não sou um ser humano, eu sou uma ideia. E não adianta tentar acabar com as
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7. DILMA

1. Folha de S.Paulo, Marina Dias, “Marina chora ao falar de Lula e se diz injustiçada”, 13 set. 2014.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1515516-marina-chora-ao-falar-de-lula-
e-se-diz-injusticada.shtml>. Acesso em: 4 jun. 2018.
2. O Globo, Tatiana Farah, “Dilma comenta choro de Marina: quem não quer ser criticado não pode ser
presidente”, 13 set. 2014. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/dilma-comenta-choro-de-
marina-quem-nao-quer-ser-criticado-nao-pode-ser-presidente-13928717>. Acesso em: 4 jun. 2018.
3. Marina Silva Oficial. Disponível em: <http://marinasilva.org.br/programa/#pagina-38>. Acesso em: 4
jun. 2018.
4. “Comercial de Dilma — Independência de Banco Central pode fazer com que você passe fome”, 11 set.
2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=gxsGkWJrVbg>. Acesso: 4 jun. 2018.
5. O Estado de S. Paulo, “Neca dá R$ 2 mi a Marina e aliados e é a 3a maior doadora entre pessoas físicas”,
12 set. 2014. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,neca-da-r-2-mi-a-
marina-e-aliados-e-e-3-maior-doadora-entre-pessoas-fisicas,1558773>. Acesso em: 24 jul. 2018.
6. Folha de S.Paulo, “Eu não tenho banqueiro me apoiando e me sustentando, diz Dilma, sobre Marina”, 9
set. 2014. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1513402-eu-nao-tenho-
banqueiro-me-apoiando-e-me-sustentando-diz-dilma-sobre-marina.shtml>. Acesso em: 24 jul. 2018.
7. Correio Braziliense, Paulo Silva Pinto, “Ganho médio anual do sistema financeiro no governo atual bate
antecessores”, 11 set. 2014. Disponível em:
<http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2014/09/11/interna_politica,446509/ganho-
medio-anual-do-sistema-financeiro-no-governo-atual-bate-antecessores.shtml>. Acesso: 4 jun. 2018.
8. Idem.
9. Folha de S.Paulo, Mônica Bergamo, “Roberto Setubal diz que vê eleição de Marina com naturalidade”, 3
set. 2014. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1510563-roberto-setubal-diz-
que-ve-eleicao-de-marina-com-naturalidade.shtml>. Acesso em: 4 jun. 2018.
10. Veja, Felipe Frazão, “Dilma ataca bancos, mas é a favorita do setor nas eleições”, 11 set. 2014.
Disponível em: <https://veja.abril.com.br/politica/dilma-ataca-bancos-mas-e-a-favorita-do-setor-nas-
eleicoes/>. Acesso em: 4 jun. 2018.
11. UOL Eleições 2014, “Intenção de voto no 1o turno para presidente”, 4 out. 2014. Disponível em:
<https://eleicoes.uol.com.br/2014/pesquisas-eleitorais/brasil/1-turno/>. Acesso em: 4 jun. 2018.
12. Ricardo Westin, A queda de Dilma.
13. Câmara dos Deputados, “Íntegra do discurso de posse da presidente Dilma Rousseff no Congresso”, 1o
jan. 2015. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/POLITICA/480013-
INTEGRA-DO-DISCURSO-DE-POSSE-DA-PRESIDENTE-DILMA-ROUSSEFF-NO-
CONGRESSO.html>. Acesso em: 4 jun. 2018.
14. G1, Brasília, Priscilla Mendes, Felipe Néri e Natália Godoy, “Em convenção nacional, PT oficializa
Dilma para disputar a reeleição”, 21 jun. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/distrito-
federal/eleicoes/2014/noticia/2014/06/em-convencao-nacional-pt-oficializa-dilma-para-disputar-
reeleicao.htm>. Acesso em: 24 jul. 2018.
15. Ricardo Westin, op. cit.
16. Portal EBC/Agência Brasil, Yara Aquino, “Pronatec 2.0 terá oferta de 12 milhões de vagas a partir de
2015”, 18 jun. 2014. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2014-
06/pronatec-20-tera-oferta-de-12-milhoes-de-vagas-partir-de-2015>. Acesso em: 4 jun. 2018.
17. O Globo, Will Soares, “Dilma reduz quase pela metade vagas prometidas para Pronatec até 2018”, 4 set.
2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/09/dilma-reduz-quase-pela-metade-
vagas-prometidas-para-o-pronatec-ate-2018.html>. Acesso em: 4 jun. 2018.
18. Exame, “Trabuco recusa convite de Dilma para Fazenda”, 20 nov. 2014. Disponível em:
<https://exame.abril.com.br/brasil/trabuco-recusa-convite-de-dilma-para-a-fazenda/>. Acesso em: 4
jun. 2018.
19. El País, Carla Jiménez, “Dilma busca trégua no mercado com o novo ministro da Fazenda”, 21 nov.
2014. Disponível em:
<https://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/21/economia/1416605312_700902.html>. Acesso em: 4 jun.
2018.
20. G1, Alexandro Martello, “Contas do setor público tem primeiro déficit da história em 2014”, 30 jan.
2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/01/contas-do-setor-publico-tem-
primeiro-deficit-da-historia-em-2014.html>. Acesso em: 4 jun. 2018.
21. “Dilma: Não mexo em direitos trabalhistas nem que a vaca tussa”. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=hQ9aQo3wjWU>. Acesso em: 4 jun. 2018.
22. Câmara dos Deputados, Wladimir Costa, PL no 3.453/04, 4 mai. 2004. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=251286>. Acesso em: 4
jun. 2018.
23. Câmara dos Deputados, Nilson Leitão, PL no 4.523/12, 10 out. 2012. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=556779>. Acesso em: 4
jun. 2018.
24. Câmara dos Deputados, Indio da Costa, PLP no 118/15, 24 jun. 2015. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1518526>. Acesso em: 4
jun. 2018.
25. Fundação Perseu Abramo, tevê FPA, “Por um Brasil justo e democrático”, s/d. Disponível em:
<https://fpabramo.org.br/tv-fpa/por-um-brasil-justo-e-democratico/>. Acesso em: 4 jun. 2018.
26. Fundação Perseu Abramo, “Conjuntura 299”, 4 ago. 2015. Disponível em:
<http://novo.fpabramo.org.br/content/fpa-informa-conjuntura-299>. Acesso em: 4 jun. 2018.

8. TEMER

1. Memorial da Democracia, “Atentado a Lacerda mata major-aviador”. Disponível em:


<http://memorialdademocracia.com.br/card/atentado-a-lacerda-mata-o-major-vaz>. Acesso em: 5 jun.
2018.
2. Tribuna da Imprensa, 11 ago. 1954. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/154083_01/16795>. Acesso em: 5 jun. 2018.
3. João Café Filho, Do sindicato ao Catete. Disponível em:
<http://www.memoriaviva.com.br/cafefilho/memocf06.htm>. Acesso em: 5 jun. 2018.
4. Carlos Lacerda, Depoimento.
5. CPDoc/FGV, Murilo Melo Filho, Depoimento, Rio de Janeiro, 1998. Disponível em:
<http://www.fgv.br/cpdoc/historal/arq/Entrevista590.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2018.
6. João Café Filho, Do sindicato ao Catete. Disponível em:
<http://www.memoriaviva.com.br/cafefilho/memocf06.htm>. Acesso em: 5 jun. 2018.
7. Idem.
8. CPDoc/FGV, Vilma Keller, “Café Filho”. Disponível em:
<http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CAF%C3%89%20FILHO.pdf>.
Acesso em: 28 jun. 2018.
9. Real Gabinete Português de Leitura, Periódicos Raros. Disponível em:
<http://docvirt.com/docreader.net/ARQ_CF_PI/67>. Acesso em: 5 jun. 2018.
10. Idem.
11. Idem.
12. Alzira Vargas, Getúlio Vargas, meu pai, p. 437.
13. CPDoc/FGV, Getúlio Vargas. Disponível em:
<https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/getulio_vargas>. Acesso em: 24 jul. 2018.
14. João Café Filho, Do sindicato ao Catete. Disponível em:
<http://www.memoriaviva.com.br/cafefilho/memocf06.htm>. Acesso em: 24 jul. 2018.
15. Idem.
16. José Arthur Giannotti, “Moralidade e política numa sociedade de massa”, Novos Estudos Cebrap, no 97,
nov. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
33002013000300002>. Acesso em: 5 jun. 2018.
17. Ver Kenneth Maxwell, A devassa da devassa.
18. Gilberto Dimenstein e Ricardo Kotscho, A aventura da reportagem, p. 34.
19. Blog Ricardo Setti 7, “50 anos do golpe de 1964: eu vi JK votar no marechal Castelo, para depois ser
cassado”. Disponível em: <http://www.ricardosetti.com/gaveta-de-presidentes-jk-e-castello-de-uma-
vez-so-capitulo-1-2/>. Acesso em: 5 jun. 2018.
20. G1, Nathalia Passarinho, “PMDB oficializa Michel Temer como vice na chapa de Dilma”, 12 jun. 2010.
Disponível em: <http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/06/pmdb-oficializa-michel-
temer-como-vice-na-chapa-de-dilma.html>. Acesso em: 28 jun. 2018.
21. G1, Política, “Momentos da chapa Dilma-Temer: de 2010 até 2017”, 12 jun. 2010. Disponível em:
<http://g1.globo.com/politica/videos/v/momentos-da-chapa-dilma-temer-de-2010-ate-2017/5915561/>.
Acesso em: 28 jun. 2018.
22. Veja, “Depois de se reunir com Dilma, Biden fala em recomeço”, 1o jan. 2015. Disponível em:
<https://veja.abril.com.br/politica/depois-de-se-reunir-com-dilma-biden-fala-em-recomeco/>. Acesso
em: 5 jun. 2018.
23. O Globo, “Não vale a pena manter debate sobre golpismo”, 9 jul. 2015, p. 6.
24. Folha de S.Paulo, Marina Dias, “Temer diz que país precisa de alguém capaz de reunificar a todos na
crise”, 5 ago. 2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/08/1664881-temer-faz-
apelo-publico-por-unidade-e-diz-que-crise-pode-se-agravar.shtml>. Acesso em: 5 jun. 2018.
25. Propaganda partidária do PMDB, 24 set. 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?
v=lguK8s9Y9f0>. Acesso em: 5 jun. 2018.
26. O Globo, “Temer dirá hoje a Dilma que vai deixar a articulação política”, 28 ago. 2015, p. 4.
27. Agência Brasil, “Temer diz que continua na articulação política, mas de outra maneira”, 25 ago. 2015.
Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2015-08/temer-diz-continua-na-
articulacao-politica-mas-de-outra-maneira>. Acesso em: 5 jun. 2018.
28. O Globo, “Planalto acha desastrosa fala de Temer sobre popularidade de Dilma”, 5 set. 2015.
29. O Globo, “Manifestantes pró-impeachment constrangem congresso do PMDB”, 18 nov. 2015.
30. O Globo, “Partido mantém um pé em cada canoa”, 18 nov. 2015, p. 8.
31. O Globo, “Em ação, o Plano Temer”, 6 dez. 2015, p. 3.
32. O Globo, “Temer recebeu PSDB e DEM, que falam em governo de união nacional”, 4 dez. 2015, p. 5.
33. O Globo, “Vice e governador desmentem Planalto”, 4 dez. 2015, p. 5.
34. O Globo, “Em ação o Plano Temer”, 6 dez. 2017, p. 3.
35. O Globo, Simone Iglesias, Júnia Gama, Eduardo Bresciani, “Aliados preparam ofensiva para levar
PMDB ao comando do país”, 6 dez. 2015. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/aliados-
preparam-ofensiva-para-levar-pmdb-ao-comando-do-pais-18230393>. Acesso em: 5 jun. 2018.
36. G1, Andréia Sadi, “Leia a íntegra da carta enviada pelo vice Michel Temer a Dilma”, 7 dez. 2015
Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/12/leia-integra-da-carta-enviada-pelo-vice-
michel-temer-dilma.html>. Acesso em: 5 jun. 2018.
37. Folha de S.Paulo, Lupa, Raphael Kapa e Cristina Tardáguila, “Agenda da vice-presidência desdiz carta
de Temer”, 8 dez. 2015. Disponível em: <http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2015/12/08/agenda-da-
vice-presidencia-desdiz-carta-de-temer/>. Acesso em: 5 jun. 2018.
38. O Estado de S. Paulo, Vera Rosa, “Para Dilma, reação demorada foi erro”, 17 abr. 2016. Disponível em:
<http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,para-dilma-reacao-demorada-foi-erro,10000026487>.
Acesso em: 5 jun. 2018.
39. Blog do Camarotti, “Carta de Temer irrita Planalto e é vista como sinal de rompimento”, 8 dez. 2015.
Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/blog/blog-do-camarotti/post/carta-de-temer-irrita-
planalto-e-e-vista-como-sinal-de-rompimento.html>. Acesso em: 5 jun. 2018.
40. G1, Andréia Sadi e Filipe Matoso, “Em áudio, Temer fala como se Câmara já tivesse aprovado
impeachment”, 11 abr. 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/processo-de-impeachment-
de-dilma/noticia/2016/04/e-preciso-um-governo-de-salvacao-nacional-afirma-vice-michel-temer.html>.
Acesso em: 5 jun. 2018.
41. Câmara dos Deputados, “Câmara autoriza instauração de processo de impeachment de Dilma com 367
votos a favor e 137 contra”, 17 abr. 2016. Disponível em:
<http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/POLITICA/507325-CAMARA-AUTORIZA-
INSTAURACAO-DE-PROCESSO-DE-IMPEACHMENT-DE-DILMA-COM-367-VOTOS-A-
FAVOR-E-137-CONTRA.html>. Acesso em: 5 jun. 2018.
42. Poder 360, “‘Temer é o presidente mais rejeitado da história’, diz Datafolha”, 10 jun. 2018. Disponível
em: <https://www.poder360.com.br/governo/temer-e-o-presidente-mais-rejeitado-da-historia-diz-
datafolha/>. Acesso em: 28 jun. 2018.
43. Gazeta do Povo, Giulia Fontes, “Não é só o Decreto dos Portos! Veja 5 investigações contra o
presidente Temer”, 6 mar. 2018. Disponível em:
<https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/nao-e-so-o-decreto-dos-portos-veja-5-
investigacoes-contra-o-presidente-temer-1pig78v6skelw190nq0yig3o1/>. Acesso em: 28 jun. 2018.

Epílogo

1. FGV Direito SP. Relatório ICJBrasil, 1o semestre de 2007. Disponível em:


<http://direitosp.fgv.br/sites/direitosp.fgv.br/files/arquivos/relatorio_icj_1sem2017.pdf>. Acesso em:
28 jun. 2018
SIGLAS CITADAS
AIB — Ação Integralista Brasileira
AP — Ação Popular
Arena — Aliança Renovadora Nacional
BC — Banco Central
BM&F — Bolsa de Mercadorias & Futuros
BNDES — Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
Cide — Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico
CIE — Centro de Informações do Exército
CNV — Comissão Nacional da Verdade
Codi — Centro de Operações de Defesa Interna
Cofins — Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social
CPEM — Consultoria para Empresas e Municípios
CPDoc/FGV — Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil/FGV
CPI — Comissão Parlamentar de Inquérito
CPMF — Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira
DEM — Democratas
DOI — Destacamento de Operações de Informações
EBAs — Equipes de Buscas e Apreensões
ETA — Euskadi Ta Askatasuna
FED — Federal Reserve
FGTS — Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
FGV — Fundação Getulio Vargas
FL — Frente Liberal
FMI — Fundo Monetário Internacional
G7 — Grupo dos Sete
Ibama — Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IOF — Imposto sobre Operações Financeiras
IPCA — Índice de Preços ao Consumidor Ampliado
IPI — Imposto sobre Produtos Industrializados
IPM — Inquérito Policial-Militar
Masp — Museu de Arte Moderna de São Paulo
MDB — Movimento Democrático Brasileiro
MPF — Ministério Público Federal
MR-8 — Movimento Revolucionário Oito de Outubro
OAB — Ordem dos Advogados do Brasil
Oban — Operação Bandeirante
ONU — Organização das Nações Unidas
PAC — Programa de Aceleração do Crescimento
Pasep — Formação do Patrimônio do Servidor Público
PCB — Partido Comunista Brasileiro
PDS — Partido Democrático Social
PDT — Partido Democrático Trabalhista
PFL — Partido da Frente Liberal
PIB — Produto Interno Bruto
PIS — Programa de Integração Social
PL — Partido Liberal
PMDB — Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PP — Partido Progressista
PPB — Partido Progressista Brasileiro
PPS — Partido Popular Socialista
PRN — Partido da Renovação Nacional
Procon — Programa de Proteção e Defesa do Consumidor
Prona — Partido de Reedificação da Ordem Nacional
Pronatec — Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego
Prouni — Universidade para Todos
PSB — Partido Socialista Brasileiro
PSD — Partido Social Democrático
PSDB — Partido da Social Democracia Brasileira
PSP — Partido Social Progressista
PT — Partido dos Trabalhadores
PTB — Partido Trabalhista Brasileiro
PTN — Partido Trabalhista Nacional
PV — Partido Verde
Rede — Resistência Democrática
SNI — Serviço Nacional de Informações
STF — Supremo Tribunal Federal
STM — Superior Tribunal Militar
Sunab — Superintendência Nacional de Abastecimento
TRF — Tribunal Regional Federal
TSE — Tribunal Superior Eleitoral
UDN — União Democrática Nacional
Uerj — Universidade do Estado do Rio de Janeiro
UFF — Universidade Federal Fluminense
Unicamp — Universidade de Campinas
Uni-Rio — Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
USP — Universidade de São Paulo
VPR — Vanguarda Popular Revolucionária
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARGOLO, José A.; RIBEIRO, Kátia; e FORTUNATO, Luiz Alberto. A direita explosiva no Brasil: a
história do grupo secreto que aterrorizou o país com suas ações, atentados e conspirações. Rio de
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1936.
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CAMARGO, Aspásia; HIPPOLITO, Lucia; D’ARAÚJO, Maria Celina Soares; e FLAKSMAN, Dora
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CONTI, Mario Sergio. Notícias do Planalto: a imprensa e o poder nos anos Collor. São Paulo: Companhia
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DIMENSTEIN, Gilberto; e KOTSCHO, Ricardo. A aventura da reportagem. São Paulo: Summus, 1990.
ECHEVERRIA, Regina. Sarney: a biografia. São Paulo: Leya, 2011.
FRAGA, Plínio. Tancredo Neves, o príncipe civil. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.
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_____. A ditadura envergonhada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
_____. A ditadura escancarada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
GRAEL, Dickson M. Aventura, corrupção e terrorismo: à sombra da impunidade. Petrópolis: Vozes, 1985.
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa: A Inconfidência Mineira — Brasil e Portugal (1750-1808).
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MEARSHEIMER, John J. Por que os líderes mentem: toda a verdade sobre as mentiras na política
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MELLO, Jayme Portella de. A revolução e o governo Costa e Silva. Rio de Janeiro: Guavira, 1979.
MIR, Luis. O paciente: o caso Tancredo Neves. São Paulo: Editora de Cultura, 2010.
NETO, Lira. Getúlio. 3 vols. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, 2013 e 2014.
PALMA, José Luis. El paciente de El Pardo: la imprevisible y larga agonía del General Franco. Madri:
Agualarga, 2004.
SABINO, Fernando. Zélia, uma paixão. Rio de Janeiro: Record, 1991.
SARDENBERG, Carlos Alberto. Aventura e agonia: nos bastidores do Cruzado. São Paulo: Companhia
das Letras, 1987.
SATTAMINI, Lina Penna. Esquecer? Nunca mais… (a saga de meu filho Marcos P.S. de Arruda). Rio de
Janeiro: OR Produtor Editorial Independente, 2000.
VARGAS, Alzira. Getúlio Vargas, meu pai: memórias de Alzira Vargas do Amaral Peixoto. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2017.
WESTIN, Ricardo. A queda de Dilma. São Paulo: Universo dos Livros, 2017.
CRÉDITOS DAS IMAGENS
1 - Figueiredo: Anibal Philot/Agência O Globo
2 - Tancredo: EBC/Gervásio Batista
3 - Sarney: Moreira Mariz/Folhapress
4 - Collor: Vidal Cavalcante/Folhapress
5 - FHC: Lula Marques/Folhapress
6 - Lula: Alice Vergueiro/Folhapress
7 - Dilma: Roberto Stuckert Filho/PR
8 - Temer: José Cruz/Agência Brasil
AGRADECIMENTOS
A participação de diversas pessoas pacientes e atenciosas foi indispensável para
que este livro se tornasse realidade. Agradecemos, com especial carinho, ao
historiador Carlos Fico e ao jornalista Mário Magalhães, que, ainda na linha de
produção, leram todo o material com extremo cuidado, pontuando a necessidade
de ajustes aqui e ali. Ao jornalista Elio Gaspari, pelas indicações e gargalhadas
ao longo do processo de apuração. A Paulo Luiz, pelo suporte nas pesquisas
documentais que se fizeram necessárias. Aos historiadores Ângela de Castro
Gomes, Marcus Dezemone e Jorge Ferreira, que esclareceram dúvidas e nos
livraram de falhas. Ao economista Rene Garcia, que nos atendeu dezenas (ou
centenas?) de vezes nos últimos meses. Ao cientista político Felipe Borba, por
todas as colaborações feitas e por ter estimulado a publicação desta obra desde o
primeiro momento.
Somos gratos também à equipe da Intrínseca: Jorge Oakim, Renata Rodriguez,
Lucas Telles, Elisa Rosa, Marluce Faria e Kathia Ferreira, que nos encorajaram a
enfrentar um assunto tão espinhoso num momento tão polarizado da política
nacional. Sem o apoio de vocês, na editora, não haveria livro algum.
Por fim, um muito obrigada às nossas famílias. Vocês foram nosso porto
seguro. Nosso lugar de descanso.

* * *

A Chico Otavio, deixo aqui meu muito obrigada por ter topado entrar comigo em
mais uma apuração jornalística de fôlego. É (e sempre será) uma honra trabalhar
a seu lado. Juntos fazemos um time bacana.
SOBRE OS AUTORES

© Leo Aversa

CRISTINA TARDÁGUILA nasceu em Belo Horizonte e cresceu no Rio de


Janeiro. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,
fez pós-graduação na Universidad Rey Juan Carlos, em Madri, e MBA na
Fundação Getúlio Vargas. Como repórter e editora, passou pelos jornais O Globo
e Folha de S.Paulo e pela revista piauí. É fundadora da Lupa, primeira agência
de fact-checking do Brasil.

CHICO OTAVIO nasceu no Rio de Janeiro. É jornalista profissional desde 1985


e trabalhou na redação de Última Hora e na sucursal de O Estado de S. Paulo
antes de ingressar no Globo em 1997. Sempre foi repórter. Entre outras
premiações, conquistou seis vezes o Prêmio Esso, em categorias distintas. É
professor de jornalismo da PUC-Rio e ajudou a fundar a Associação Brasileira
de Jornalismo Investigativo.
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Table of Contents
Capa
Folha de rosto
Créditos
Mídias sociais
Dedicatória
Sumário
Introdução
1. Figueiredo
2. Tancredo
3. Sarney
4. Collor
5. FHC
6. Lula
7. Dilma
8. Temer
Epílogo
Notas
Siglas citadas
Referências bibliográficas
Créditos das imagens
Agradecimentos
Sobre os autores
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