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Capítulo Onze

As perguntas que me fazem, disse-nos um dia G., referem-se


freqüentemente a textos ou parábolas dos Evangelhos. Na minha opinião,
ainda não chegou o momento de falarmos dos Evangelhos. Isso exigiria mais
saber. Mas, de vez em quando, tomaremos certos textos dos Evangelhos como
ponto de partida de nossas conversações. Chegarão, desse modo, a lê-los
como convém e, sobretudo, a compreender que, nos textos que conhecemos,
faltam habitualmente os pontos mais essenciais.
"Para começar, tomemos o trecho bem conhecido sobre o grão de trigo
que deve morrer para nascer. "O grão de trigo, caindo na terra, se não morrer,
fica só; mas, se morrer, produz muito fruto"1.
"Este texto tem múltiplas significações e a ele voltaremos muitas vezes.
Mas, antes de tudo, é indispensável reconhecer que o princípio que encerra
aplica-se plenamente ao homem.
"Há um livro de aforismos que nunca foi publicado e provavelmente
jamais será. Já falei nele quando nos interrogamos sobre o sentido do saber e
o aforismo que lhes citei é extraído dele.
"A propósito daquele de que falamos agora, dizia esse livro:
"O homem pode nascer, mas, para que nasça, deve antes morrer e, para
que morra, deve antes despertar-se.
"Em outra parte, diz o mesmo livro:
"Quando o homem se desperta, pode morrer; quando morre, pode nascer.
"
"Devemos compreender o que isso significa.
"Despertar-se", "morrer", "nascer". São três estágios sucessivos. Se
estudarem os Evangelhos com atenção, verão que neles se trata
freqüentemente da possibilidade de "nascer", mas os textos não falam menos
da necessidade de "morrer" e falam também, com muita freqüência, da
necessidade de "despertar-se": "Vigiai, pois não sabeis nem o dia nem a
hora…" Mas essas três possibilidades: despertar-se (ou não dormir), morrer e
nascer não são postas em relação uma com a outra. Aí está, no entanto, [250]
toda a questão. Se um homem morre sem ter despertado, não pode nascer. Se
um homem nasce sem estar morto, pode tornar-se uma "coisa imortal". Assim,
o fato de não estar "morto" impede o homem de "nascer" e o fato de não se ter
despertado impede-o de morrer e, se nascesse antes de estar "morto", isso o
impediria de "ser".
"Já falamos suficientemente da significação do "nascimento". Nascer é
apenas outra palavra para designar o começo de um novo crescimento da
essência, o começo da formação da individualidade, o começo do
aparecimento de um "Eu" indivisível.
"Mas, para ser capaz de chegar a isso ou, ao menos, de entrar nesse
1 João, XII, 24 (trad. de João Ferreira de Almeida).
caminho, o homem deve morrer; quer isso dizer que deve libertar-se de uma
grande quantidade de pequenos apegos e identificações que o mantêm na
situação em que se encontra atualmente. Em sua vida, ele está apegado a
tudo, apegado a sua imaginação, apegado a sua estupidez, apegado até a
seus sofrimentos – e talvez mais ainda a seus sofrimentos que a outra coisa
qualquer. Ele deve liberar-se desse apego. O apego às coisas, a identificação
com as coisas, mantêm vivos no homem milhares de "eus" inúteis. Esses "eus"
devem morrer para que o grande Eu possa nascer. Mas como podem eles ser
levados a morrer? Eles não querem. Aqui é que a possibilidade de despertar
vem em nosso auxílio. Despertar significa ver sua própria nulidade, isto é, ver
sua própria mecanicidade, completa e absoluta, e sua própria impotência, não
menos completa, não menos absoluta. Mas não é bastante compreender isso
filosoficamente, com palavras. É preciso compreendê-lo com fatos simples,
claros, concretos, com fatos que se refiram a nós. Quando um homem começa
a conhecer-se um pouco, vê em si mesmo muitas coisas que só podem
horrorizá-lo. Enquanto um homem não causar horror a si mesmo, nada saberá
sobre si mesmo.
"Um homem viu em si alguma coisa que o horroriza. Decide
desembaraçar-se dela, purgar-se dela, dar cabo dela. Entretanto, sejam quais
forem os esforços que faça, sente que não pode, tudo permanece como antes.
Aí é que verá sua impotência, sua miséria e sua nulidade; ou ainda, quando
começa a conhecer-se a si mesmo, um homem vê que não possui nada, isto é,
que tudo que considerou seu – suas idéias, seus pensamentos, suas
convicções, seus hábitos, até suas faltas e vícios, nada disso é dele; tudo foi
colhido não importa onde, tudo foi copiado tal qual. O homem que sente isso
pode sentir sua nulidade. E, sentindo sua nulidade, um homem se verá tal qual
é na realidade, não por um segundo, não por um momento, mas
constantemente, e não o esquecerá nunca.
"Essa consciência contínua de sua nulidade e de sua miséria dar-lhe-á
finalmente a coragem de "morrer", quer dizer, de morrer não simplesmente em
seu mental ou em teoria, mas de morrer de fato e de renunciar [251]
positivamente e para sempre a todos esses aspectos de si mesmo que não
apresentam nenhuma utilidade do ponto de vista de seu crescimento interior ou
a ele se opõem. Esses aspectos são, antes de tudo, seu "falso Eu" e, depois,
todas as suas idéias fantásticas sobre sua "individualidade", sua “vontade”, sua
"consciência", sua "capacidade de fazer", seus poderes, sua iniciativa, suas
qualidades de decisão e assim sucessivamente.

"Mas, para tornar-se um dia capaz de ver uma coisa o tempo todo,
preciso primeiro tê-la visto uma vez, ainda que por um segundo. Todos s
poderes novos, todas as capacidades de realização vêm de uma única e
mesma maneira. No começo, trata-se apenas de raros lampejos que não
duram mais que um instante; em seguida, eles podem reproduzir-se com mais
freqüência e durar cada vez mais tempo até que, finalmente, após um trabalho
muito longo, tornam-se permanentes. A mesma lei aplica-se ao despertar. É
impossível despertar completamente, de um só golpe. É preciso primeiro
começar por despertar-se durante curtíssimos instantes. Mas é necessário
morrer de uma só vez e para sempre, após ter feito certo esforço, após ter
vencido certo obstáculo, após ter tomado certa decisão de que não se possa
voltar atrás. Isso seria difícil, e até impossível, se não tivesse havido,
previamente, um lento e gradual despertar.
"Mas há milhares de coisas que impedem o homem de despertar-se e o
mantêm em poder de seus sonhos. Para agir conscientemente com a intenção
de despertar-se, é necessário conhecer a natureza das forças que retêm o
homem no sono.
"Antes de tudo, é preciso compreender que o sono no qual o homem
existe não é um sono normal, mas hipnótico. O homem está hipnotizado e este
estado hipnótico é continuamente mantido e reforçado nele. Tudo se passa
como se houvesse certas "forças" às quais seria útil e proveitoso manter o
homem num estado hipnótico, a fim de impedi-lo de ver a verdade e dar-se
conta de sua situação.

"Certo conto oriental fala de um riquíssimo mago que tinha numerosos


rebanhos de carneiros. Esse mago era muito avaro. Não queria tomar ao seu
serviço pastores e não queria igualmente pôr cerca em volta dos campos onde
seus carneiros pastavam. Os carneiros extraviavam-se na floresta, caíam nas
ravinas, perdiam-se e, acima de tudo, fugiam à aproximação do mago, porque
sabiam que este pretendia tirar a carne e a pele deles. E os carneiros não
gostavam disso.
"Afinal, o mago encontrou o remédio. Hipnotizou os carneiros e sugeriu-
lhes, antes do mais, que eram imortais e que o fato de serem esfolados não
lhes podia causar nenhum mal, que, ao contrário, esse tratamento [252] era
excelente para eles e até agradável; em seguida, o mago sugeriu-lhes que era
um bom pastor, que gostava muito de seu rebanho, que estava pronto para
todos os sacrifícios por ele; enfim, sugeriu-lhes que, se alguma coisa fosse
suceder a eles, isso não aconteceria, em caso algum, agora, hoje e que, por
conseguinte, não tinham que se atormentar. Depois do que, o mago meteu na
cabeça dos carneiros que não eram, em absoluto, carneiros; a alguns sugeriu
que eram leões, a outros, que eram águias, a outros ainda, que eram homens
ou magos.
"Feito isso, os carneiros não lhe causaram mais aborrecimentos nem
inquietações. Não fugiam nunca mais, aguardando, ao contrário, com
serenidade, o instante em que o mago os tosquiava ou degolava.