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OobjetiVO deste livro é introduzir o
le1tor ao conhecimento do Brasil - sua
formação histórica, seu povo, sua socie-
dade, sua cultura, sua economia. suas
instituições. O caminho escolhido para
Introdução ao BraJi!
isso foi apresentar. na forma de exten·
sas resenhas, feitas por renomados es· UM B.\ 'QUE.TJ~ o TRÓPICO

pecialistas, um conjunto de dezenove


obras dássicas - desde os fermões, do
padre Vieira, até A rerolufio burguesa
M lrlsil, de Florestan Fernandes. pas-
sando, entre outras, por Os sertões. de
Eudid da Cunha. úsa-jrande I sen-
- de GHb rto Freire, Raízes do 8ras1~
· luarque de Htlanda. forma-
~ deCaio
, . , «<nlmia do

II!H(III) lld '>111.11

n I 111

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OobjetiVO deste livro é introduzir o
le1tor ao conhecimento do Brasil - sua
formação histórica, seu povo, sua socie-
dade, sua cultura, sua economia. suas
instituições. O caminho escolhido para
Introdução ao BraJi!
isso foi apresentar. na forma de exten·
sas resenhas, feitas por renomados es· UM B.\ 'QUE.TJ~ o TRÓPICO

pecialistas, um conjunto de dezenove


obras dássicas - desde os fermões, do
padre Vieira, até A rerolufio burguesa
M lrlsil, de Florestan Fernandes. pas-
sando, entre outras, por Os sertões. de
Eudid da Cunha. úsa-jrande I sen-
- de GHb rto Freire, Raízes do 8ras1~
· luarque de Htlanda. forma-
~ deCaio
, . , «<nlmia do

II!H(III) lld '>111.11

n I 111

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2 15 315
(,JL l'J I I IRE
r.a " J:rande & Jtllwla
Cf·l.'i<J fURTAIXJ
Frmna(ãr; e{f)1rfmtica do Brasil
Nota do Editor
LlldeRu .Jl Ba t•J hanci~co de Oliveira

335
235 RAYMUNOO fAORO
Os d()llOS de poder
Laura de Mello c Souza

357
A TO 10 CA :DIDO
257
Formação da llltratura brasileira O Brasil- instituições, economia, cultura, história -é o tema que reúne
(. I' A(J(J) (JP.

F01711ajáo dr; Bra ;/ (rm!m.J,r;rtÍT/tfJ BenjaJnJn Abdala Junior dezenove estudiosos para apresentar o trabalho de meaba que, ao pen r a
nacionalidade, foram decisivos para compreen~-la. de seus primórd alé
381 hoje.
jost HoN6~ RODRIGUES Com rimas, coincidências e discordâncias, as obras h'atadaJ que dos
273 C()nállafáD e ref()l'7fl(J no Brasil Sennões aos Sertõe1, de ClUa-gronde & seltZJlÚl a Formaçílo econômi
do Bra.sí/, aqui se visitam, referem-se uma à outra, nsalimenram-se criand
Alberto da ÜKta e Sdva
elos que iluminam DOIIOS SOO Ala. U-las é um modo de partJc.ípar da
c discus ão .oote esse país meatiço localizado no trópioo
393
Sem colocar ponto final no aMUDID, pois se trata de uma ·mrod
Fwn.HA fL a A oes
este livro pretende estimular o contato direto com texU»
A rewluçiio burgutJa no Brasrl
2~3 cançado e se objetivo, a Editora Seoac Sio Paulo já eed euniiJI'Íiio
GabneiCohn papel, dilatando os horizontes de conhecimenco da DOMa real

413
Sobre os autores

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2 15 315
(,JL l'J I I IRE
r.a " J:rande & Jtllwla
Cf·l.'i<J fURTAIXJ
Frmna(ãr; e{f)1rfmtica do Brasil
Nota do Editor
LlldeRu .Jl Ba t•J hanci~co de Oliveira

335
235 RAYMUNOO fAORO
Os d()llOS de poder
Laura de Mello c Souza

357
A TO 10 CA :DIDO
257
Formação da llltratura brasileira O Brasil- instituições, economia, cultura, história -é o tema que reúne
(. I' A(J(J) (JP.

F01711ajáo dr; Bra ;/ (rm!m.J,r;rtÍT/tfJ BenjaJnJn Abdala Junior dezenove estudiosos para apresentar o trabalho de meaba que, ao pen r a
nacionalidade, foram decisivos para compreen~-la. de seus primórd alé
381 hoje.
jost HoN6~ RODRIGUES Com rimas, coincidências e discordâncias, as obras h'atadaJ que dos
273 C()nállafáD e ref()l'7fl(J no Brasil Sennões aos Sertõe1, de ClUa-gronde & seltZJlÚl a Formaçílo econômi
do Bra.sí/, aqui se visitam, referem-se uma à outra, nsalimenram-se criand
Alberto da ÜKta e Sdva
elos que iluminam DOIIOS SOO Ala. U-las é um modo de partJc.ípar da
c discus ão .oote esse país meatiço localizado no trópioo
393
Sem colocar ponto final no aMUDID, pois se trata de uma ·mrod
Fwn.HA fL a A oes
este livro pretende estimular o contato direto com texU»
A rewluçiio burgutJa no Brasrl
2~3 cançado e se objetivo, a Editora Seoac Sio Paulo já eed euniiJI'Íiio
GabneiCohn papel, dilatando os horizontes de conhecimenco da DOMa real

413
Sobre os autores

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e E e os que teram
ua formação da laera·

I!

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e E e os que teram
ua formação da laera·

I!

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l"'liWIJlt,', ll 1-(liJRENÇO OI\ TI\S MOTA

l~r 11 1 llt"r.tlur .t, ,utt:s, polttic,t. estudos sobre nossa lormaçao - tudo pa sa bcrto Freire supera as contorções e vacilações de Euclides da Cunha e po -
sibilita ao bra~1h!1ro d i. ar de se lamentar por ser como é e reconcth r-se
p•u 111 ntnt n •ttr.tlulho Jc rdlcxiio, contestaçao c revisão. Retrato do /Jra-
il d1 l';mlo Pr.tdtl, que partictpar.t ativamente da Semana, é parte desse consigo mesmo. Com seu livro, o Brasil se liberta da pesada herança a que
lotoyíl M.1 o pc sinusmn desse livro, ressaltado desde o início pelos críti- se refere Walnice Nogueira Galvão, a do "racismo aceito e aprovado pr ci-
co., prim:lp.ilrucnll: por ~uJ insist~ncia na tese da tristeza brasileira c na samcnte por aqueles que ele discrimina".
lllt cn~ttl.ldc c n.r fm ma com que a luxúria c a cobiça teriam marcado nossa Brasílio Sal! um Jr., logo no início de sua resenha de Raizes do Brasrl, d
1 nnaç.1o no pcrítJdo coloni.d. faz com que ele ainda permaneça em boa Sérgio Buarque de Holanda- o segundo livro da trilogia lembrada por Francts-
111 dida t11bnt.u1o do pas~aJo. Mesmo que Paulo Prado não tenha atribuído
co de Oliveira-, adverte que esse não é um livro de história, mas que "u a a
\JIIll ncg.1t1\0 .r mi cigcnação, como era comum nos estudiosos que o ante- matéria legada pela história para identificar as amarras que bloqueiam no pre-
~:cdcra!ll. I· mt· mo que stw dura crítica às nossas elites, no "Post scriptum",
sente o nascimento de um futuro melhor". E tratando de um dos capítulos mais
,timl.t m mt nhot w1 várias passagens perturbadora atualidade. Marco Auré- famosos e discutidos de Rafzes, o do "homem cordial", mostra que para Sérgio
Buarque o indivíduo formado em um ambiente dominado pelo patriarcali mo,
lto Nogucii.J com.h11 em sua resenha:
como é o caso do brasileiro, "dificilmente conseguirá distinguir entre o domínio
MJt~ qu~ um tlt.tgnó\ttCn, tr~t~va- ~de um veredito pesado, amargo, categórico, que privado e o domínio público". Para ele, diz Sal! um,
tolhtJ ao c~mlnr qualquer chance de c r llcxf\CI, de. c perguntar. por exemplo, se essa
" trnn r rJ e pcctal" nao: n.t c alr tJÚo mJt~ i arde, adqumdooutros traços. atenua- aqui quase sempre predominou, tanto na admimstraçlo pdbhca como em outras
do ua' uulêncl.t
áreas, o modelo de relações gerado na vida domésuca- a esfera dos laço a~ uvos e de
parentesco. Vale sublinhar que essa concepção de patrimonialismo dtz respctto a uma
forma de domlnio polftico em que agrupamentos enra1zado em grupos panrculan~tas
publ!caçao dl! (aw-grmule & ~cn::ala, em 1933, põe abaixo dois da sociedade- a famnia e seus desdobramentos- produzem um viés na esfera púhlt
mtto teimosos - o., ddcrminisrnos geográfico e racial, segundo os quais, ca. submelem o Estado. e o interesse geral, ao seu parllculansmo.
unphflcat.lann:ntc. a maim ia dl: nossos males tinha suas raízes no fato de
s •nno um p.tís tropical c rm:~ttço. No caso da geografia, uma condenação Esse é apenas um exemplo de amarra que dificulta a transformação da
in.lp~la~cl. Da nu tura de raças, isto é, da innuência "negativa" principal- sociedade. Quanto à cordialidade do brasileiro, que ainda se presta a muitas
mente d,t população Jtcgra, ó o ''branqueamento" poderia, quem sabe, a interpretações apressadas, ela é, lembra Sallum,
longuís~imo pnuo, quando se completasse, redimir o Brasil. Gilberto Freire
m~1stra cntao "~·r .wtktcntífica "afirmação da superioridade ou da inferiori- tentattva de recon truçlo fora do ambiente famrliar, no plano societário, do mesmo
dade de uma raça ob1c a outra. construindo sua reflexão sobre a anteriori- Upo de sociabtlidadc da famflta patrian:al, de um Upo de soctabllidldc dependente de
laços comumtários. Seriam exemplos disso algumas formas de IIDJuaacm. de xpre -
daJe c plicati\'a d.t cu ltura. Afirma que a formação social brasileira se deve
slo religiosa, c: até o horror às hierarquias e a busca de inumldldc no tratamento
,10 africano c que tndo brasileiro é racial ou culturalmente negro", diz Elide
di pcn ado à autoridade.
Ru •,u B.tstos E m.11,. Freire "atribui uma função social diferente da conven-
wnalm~nll' .rtrihuída ao negro na formação brasileira, a partir da qualifica-
Ç.tt t.lck conw coluni;:ador. isto é, dando ênfase ao papel civilizador por ele
' l' ·nta il1". Ou seja, não apenas somos racial ou culturalmente negros
t:omo es ·,1 lont.liçüo nada tem de inferior. Casa-grande representa "uma
\' rdadcii .1 revolução nos estudos sociais no país" não só por isso como pelo
' lutk> que faz da influência da família patriarcal na formação brasileira e
pür .\;i rio nutro aspectos apontados por Elide Rugai Bastos. Nem os que
lç.J ltam I ,HJtrov rtiJa tese da democracia racial, deduzida dessa e de ou-
tr" obra 'l .tutor, negam o caráter revolucionário de Casa-grQI'Ide. Gil·
16

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l~r 11 1 llt"r.tlur .t, ,utt:s, polttic,t. estudos sobre nossa lormaçao - tudo pa sa bcrto Freire supera as contorções e vacilações de Euclides da Cunha e po -
sibilita ao bra~1h!1ro d i. ar de se lamentar por ser como é e reconcth r-se
p•u 111 ntnt n •ttr.tlulho Jc rdlcxiio, contestaçao c revisão. Retrato do /Jra-
il d1 l';mlo Pr.tdtl, que partictpar.t ativamente da Semana, é parte desse consigo mesmo. Com seu livro, o Brasil se liberta da pesada herança a que
lotoyíl M.1 o pc sinusmn desse livro, ressaltado desde o início pelos críti- se refere Walnice Nogueira Galvão, a do "racismo aceito e aprovado pr ci-
co., prim:lp.ilrucnll: por ~uJ insist~ncia na tese da tristeza brasileira c na samcnte por aqueles que ele discrimina".
lllt cn~ttl.ldc c n.r fm ma com que a luxúria c a cobiça teriam marcado nossa Brasílio Sal! um Jr., logo no início de sua resenha de Raizes do Brasrl, d
1 nnaç.1o no pcrítJdo coloni.d. faz com que ele ainda permaneça em boa Sérgio Buarque de Holanda- o segundo livro da trilogia lembrada por Francts-
111 dida t11bnt.u1o do pas~aJo. Mesmo que Paulo Prado não tenha atribuído
co de Oliveira-, adverte que esse não é um livro de história, mas que "u a a
\JIIll ncg.1t1\0 .r mi cigcnação, como era comum nos estudiosos que o ante- matéria legada pela história para identificar as amarras que bloqueiam no pre-
~:cdcra!ll. I· mt· mo que stw dura crítica às nossas elites, no "Post scriptum",
sente o nascimento de um futuro melhor". E tratando de um dos capítulos mais
,timl.t m mt nhot w1 várias passagens perturbadora atualidade. Marco Auré- famosos e discutidos de Rafzes, o do "homem cordial", mostra que para Sérgio
Buarque o indivíduo formado em um ambiente dominado pelo patriarcali mo,
lto Nogucii.J com.h11 em sua resenha:
como é o caso do brasileiro, "dificilmente conseguirá distinguir entre o domínio
MJt~ qu~ um tlt.tgnó\ttCn, tr~t~va- ~de um veredito pesado, amargo, categórico, que privado e o domínio público". Para ele, diz Sal! um,
tolhtJ ao c~mlnr qualquer chance de c r llcxf\CI, de. c perguntar. por exemplo, se essa
" trnn r rJ e pcctal" nao: n.t c alr tJÚo mJt~ i arde, adqumdooutros traços. atenua- aqui quase sempre predominou, tanto na admimstraçlo pdbhca como em outras
do ua' uulêncl.t
áreas, o modelo de relações gerado na vida domésuca- a esfera dos laço a~ uvos e de
parentesco. Vale sublinhar que essa concepção de patrimonialismo dtz respctto a uma
forma de domlnio polftico em que agrupamentos enra1zado em grupos panrculan~tas
publ!caçao dl! (aw-grmule & ~cn::ala, em 1933, põe abaixo dois da sociedade- a famnia e seus desdobramentos- produzem um viés na esfera púhlt
mtto teimosos - o., ddcrminisrnos geográfico e racial, segundo os quais, ca. submelem o Estado. e o interesse geral, ao seu parllculansmo.
unphflcat.lann:ntc. a maim ia dl: nossos males tinha suas raízes no fato de
s •nno um p.tís tropical c rm:~ttço. No caso da geografia, uma condenação Esse é apenas um exemplo de amarra que dificulta a transformação da
in.lp~la~cl. Da nu tura de raças, isto é, da innuência "negativa" principal- sociedade. Quanto à cordialidade do brasileiro, que ainda se presta a muitas
mente d,t população Jtcgra, ó o ''branqueamento" poderia, quem sabe, a interpretações apressadas, ela é, lembra Sallum,
longuís~imo pnuo, quando se completasse, redimir o Brasil. Gilberto Freire
m~1stra cntao "~·r .wtktcntífica "afirmação da superioridade ou da inferiori- tentattva de recon truçlo fora do ambiente famrliar, no plano societário, do mesmo
dade de uma raça ob1c a outra. construindo sua reflexão sobre a anteriori- Upo de sociabtlidadc da famflta patrian:al, de um Upo de soctabllidldc dependente de
laços comumtários. Seriam exemplos disso algumas formas de IIDJuaacm. de xpre -
daJe c plicati\'a d.t cu ltura. Afirma que a formação social brasileira se deve
slo religiosa, c: até o horror às hierarquias e a busca de inumldldc no tratamento
,10 africano c que tndo brasileiro é racial ou culturalmente negro", diz Elide
di pcn ado à autoridade.
Ru •,u B.tstos E m.11,. Freire "atribui uma função social diferente da conven-
wnalm~nll' .rtrihuída ao negro na formação brasileira, a partir da qualifica-
Ç.tt t.lck conw coluni;:ador. isto é, dando ênfase ao papel civilizador por ele
' l' ·nta il1". Ou seja, não apenas somos racial ou culturalmente negros
t:omo es ·,1 lont.liçüo nada tem de inferior. Casa-grande representa "uma
\' rdadcii .1 revolução nos estudos sociais no país" não só por isso como pelo
' lutk> que faz da influência da família patriarcal na formação brasileira e
pür .\;i rio nutro aspectos apontados por Elide Rugai Bastos. Nem os que
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L TRODl (AO I OURF. ÇO DANTAS MOT

r , 01101 wnam 1110 4u,·, nmfcrc wltHliJ, de cumpm o papel de ~1mples forne-
' dor.l de rnodulll' 1 ro p 11 ~ 1' para o mcrc.ulos europeus, va1 a seu \er tran~cender a
In t~nlla pohuc.l do 1 ~!ad• • , h'nlullsla português para idenllflcar-sc com a própna
0 drsafw ~ ntral c forma políll'a no Brasil é de enhar tn•lltu
capal c d n ulralttar, ou pelo mcno~ rcduztr por meto de um 1 l ma d
t·ontrape m. a mOuêncta adversa do e pínto de clã Cnar um amh te h. t1
11
J, da ,1 •nl.ldc wlom.d c l'lllulnlinUidaJc da soucdade nac•onal, o que exphcana a poltuca pm all\ta. pcrsonall\la c patnmomallsta do clã é ondtç 1 pr
'"' ,1d 110 11 , 1 m nw d poiS de promu' 1Ja a independência em 1822, permane- llbcrd Je, democracia c progresso Para ter ê:(I!O, a reforma polfuc • m
c 11011 1 \llllll IJillhl tO!nmal, que nm lllil'fl!lllla c nos Wll\lrange nas lentaliVas de enfraquecer u complexo de clã. não pode '1olentar a cultura e num nto
rompm1 nlu 11 ua ·<tU f.ll.llm lll' lblinada~ ao fra.:asso pela própna Óliea que o mas a, raJão pela qual de\ c ser gradativa c moderada Não hâ de ~on 1 r
hhcral: preu~a recorrer a uma certa coação

)u.mto 1 oc1 d.tdc org.mizad.t, diz Amaral Lapa, "o autor privilegia o Em 1958 c 1959 são publicados outros três livros que trazem no o
r.llld.: Jnnmuo, on !c'.: c ·ntr.to ela d.t família patriarcal. Esse tipo de família. importantes elementos para a compreensão do Brasil. O primeiro, de 1958. é
, 0111 o · 1ah1 111 ntc pt,dcr,..: m.tis a Igreja em patamar menos proeminente, Os donos do poder, no qual Raymundo Faoro aprofunda a análi e do
pot · t.1 puJc . UJe ttJr·\e .tqu~ l.t, constituem as duas vigas em que se funda- patrimoniahsmo português e brasileiro c inova com a aplicação a no a r 11-
m nt.t ,, 1 1 d.tth.:. dade htstôrica.: política do conceito de cstamento de Max Wcber. dtferente do
I m C< lllll< liww, , n\1/c/a ,. l'oto, ao estudar um dos fenômenos mais de class.: - "os estamentos governam, as classes negociam". E plica Laura
1111pnrt.1nt d.t pt,lill .llt .t iletr.t,Vítor Nunes Leal contraria a idéia então do- de Mello c Souza. expondo o pensamento do autor, que "o e lamento é uptco
flllll.IIH • (ltm d 1 d..:~. tLI.1 de -tO) d.: qu.: o coroneli mo decorreria da pujança
das sociedades em que a economia não é totalmente dominada pelo merc do,
' , 1.tl d l.ttt fu mho, que e sohn:pona ao próprio poder político. como a feudal e, no caso português, a patrimonial. Contudo. encontra- e t m-
T!Pii\.u I .1mount.:r em ua resenha-.
bém, de forma residual, nas sociedades capitalistas. Representa um freio n-
servador, voltado para si mesmo e preocupado em assegurar a ba e do pod r"
Daí a conclusão:

De D Joll.o I a Getdho Vargas, numa &agem de sets cuJos uma e trutu


soc1al r ~1stm a todas as transfonnações fundamentais aos des.:lio ma1 pr
travcs"a do oceano largo Durante todo esse tempo, o patnmon ah mo
mdllle\ . os olhos voltados para a especulaçilo, o lucro, a a entura pnnc p
t rí ltca do Estado patnmomal fot a predonunlncia do quadro adnum t 1
loco upcnor d pod r: o estamento evolu1u de an toclitico para b
dando- !>C às mudanças sem alterar as estruturas. O patnmon1 1
pó!' sando de pe soai para e tatal, amoldando- u transformaç
mudanças sa compauhJluladc entre capital mo mode1110equadro trlll(liCIIOil:al c un•o~
das chaves para a compre nslo do fen&neno bislórico pcc r

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L TRODl (AO I OURF. ÇO DANTAS MOT

r , 01101 wnam 1110 4u,·, nmfcrc wltHliJ, de cumpm o papel de ~1mples forne-
' dor.l de rnodulll' 1 ro p 11 ~ 1' para o mcrc.ulos europeus, va1 a seu \er tran~cender a
In t~nlla pohuc.l do 1 ~!ad• • , h'nlullsla português para idenllflcar-sc com a própna
0 drsafw ~ ntral c forma políll'a no Brasil é de enhar tn•lltu
capal c d n ulralttar, ou pelo mcno~ rcduztr por meto de um 1 l ma d
t·ontrape m. a mOuêncta adversa do e pínto de clã Cnar um amh te h. t1
11
J, da ,1 •nl.ldc wlom.d c l'lllulnlinUidaJc da soucdade nac•onal, o que exphcana a poltuca pm all\ta. pcrsonall\la c patnmomallsta do clã é ondtç 1 pr
'"' ,1d 110 11 , 1 m nw d poiS de promu' 1Ja a independência em 1822, permane- llbcrd Je, democracia c progresso Para ter ê:(I!O, a reforma polfuc • m
c 11011 1 \llllll IJillhl tO!nmal, que nm lllil'fl!lllla c nos Wll\lrange nas lentaliVas de enfraquecer u complexo de clã. não pode '1olentar a cultura e num nto
rompm1 nlu 11 ua ·<tU f.ll.llm lll' lblinada~ ao fra.:asso pela própna Óliea que o mas a, raJão pela qual de\ c ser gradativa c moderada Não hâ de ~on 1 r
hhcral: preu~a recorrer a uma certa coação

)u.mto 1 oc1 d.tdc org.mizad.t, diz Amaral Lapa, "o autor privilegia o Em 1958 c 1959 são publicados outros três livros que trazem no o
r.llld.: Jnnmuo, on !c'.: c ·ntr.to ela d.t família patriarcal. Esse tipo de família. importantes elementos para a compreensão do Brasil. O primeiro, de 1958. é
, 0111 o · 1ah1 111 ntc pt,dcr,..: m.tis a Igreja em patamar menos proeminente, Os donos do poder, no qual Raymundo Faoro aprofunda a análi e do
pot · t.1 puJc . UJe ttJr·\e .tqu~ l.t, constituem as duas vigas em que se funda- patrimoniahsmo português e brasileiro c inova com a aplicação a no a r 11-
m nt.t ,, 1 1 d.tth.:. dade htstôrica.: política do conceito de cstamento de Max Wcber. dtferente do
I m C< lllll< liww, , n\1/c/a ,. l'oto, ao estudar um dos fenômenos mais de class.: - "os estamentos governam, as classes negociam". E plica Laura
1111pnrt.1nt d.t pt,lill .llt .t iletr.t,Vítor Nunes Leal contraria a idéia então do- de Mello c Souza. expondo o pensamento do autor, que "o e lamento é uptco
flllll.IIH • (ltm d 1 d..:~. tLI.1 de -tO) d.: qu.: o coroneli mo decorreria da pujança
das sociedades em que a economia não é totalmente dominada pelo merc do,
' , 1.tl d l.ttt fu mho, que e sohn:pona ao próprio poder político. como a feudal e, no caso português, a patrimonial. Contudo. encontra- e t m-
T!Pii\.u I .1mount.:r em ua resenha-.
bém, de forma residual, nas sociedades capitalistas. Representa um freio n-
servador, voltado para si mesmo e preocupado em assegurar a ba e do pod r"
Daí a conclusão:

De D Joll.o I a Getdho Vargas, numa &agem de sets cuJos uma e trutu


soc1al r ~1stm a todas as transfonnações fundamentais aos des.:lio ma1 pr
travcs"a do oceano largo Durante todo esse tempo, o patnmon ah mo
mdllle\ . os olhos voltados para a especulaçilo, o lucro, a a entura pnnc p
t rí ltca do Estado patnmomal fot a predonunlncia do quadro adnum t 1
loco upcnor d pod r: o estamento evolu1u de an toclitico para b
dando- !>C às mudanças sem alterar as estruturas. O patnmon1 1
pó!' sando de pe soai para e tatal, amoldando- u transformaç
mudanças sa compauhJluladc entre capital mo mode1110equadro trlll(liCIIOil:al c un•o~
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I OI RE ÇO D NTA S MOTA

. Vll como " conomia


Papel d • i h o po itivo foi o das "m iori s qu
indtgcnas. o negro ali\o"o mesti osdetod as ores'.
ção efetuada no s iodo po o d vemos o ter o Brasil. d d do dei ado de
er 'uma caricatura de Portugal' no. trópico , e pos uir um sub trato novo".
Já no seio da elites

a concilinçlio mvcnlivn c fecunda cria rara em no a hi lóna.\. I A oonc•haçikl pela


11.1 h1ti1IUI,tl,• ·" mércia scmpr~ empumnt para o futuro o grandes prohlem nacional~ S o~ enfren
o tn cno h fll, fotiii<~Çcio ela lacratura brasilt'ira - Momelltos deci- tamos. temerosos c prudenles. quando nllo hâ mais jCito de ev11 ·lo C001 llTande
'" t''• d,·, nl• nitll'.mdithl,ltllllou- c logo um clás ico. elemento indi pensável
atra~o. portanto, c. em geral, com soluções e remt!dto quej4perderam a lic ll8 o
se huscn a concórdia pelo rc peito à d1verstdnde das id~ias e pela a ellaç o de que
.1 , t>lllpr,· n ;1•, 1lo k nonwno que ·studa. Ele "não con titui apena um livro governe um partido e de que os outros del discordem. O que se procura é d1lutr ou,
,,hr ·o~ lll<ltm·ntn luntl.lmcnl.lis da f,mna ãode no a literatura, noarcadismo se possfvcl, anular o disscnso.
·no m111.11111smo". \r.·gundo lk•njamin Abdala Junior. "É obretudo uma fixa-
~ml, ,111 •1\l\ d.1 lih.! I.ttura . do. tr.tço~ marcantes de como nos imaginávamos no Em A revolução burguesa 110 Brasil - livro comple o, mai que todos
monwnl•, de no"·' Jfmnaçao como nação politicamente independente." A os demais aqui apresentados, preso ao rigor da linguagem acadêmica , Flore tan
inl\'11\·1" h1 .wtnr, ~~· ·undo de mes mo diz. é "c tudar a formação da literatura Fernandes sustenta, como explica Gabriel Cohn, que
bt.tsik 11.1 Ullllll sint '\c r.k ll' tHl ~ n c tas uni ver alistas c particularistas", procu-
numa sociedade capitalista dependente como a brasileira verifi n·se "uma forte
t.mdotnnsll ,11 "o jn{!o de sas forç.1 .uni-. crsal c nacional, técnica e emocional,
dissociação pmgmdlica entre desenvolvimento capitalista e democracia, ou uma forte
JUl' ,1 pla ~m.u;~mcnmn p 'J mancntc mi stur.t d.1 tradição européia e das desco-
associação racional entre desenvolvimento cnpitali ta au1ocrac1a". Em uma. o
lx·n.t. d11 Br.tsll". E\plic.t Be njamin Abdala Junior que regime compalfvel com a natureza peculiar da revoluçllo burgue a no Bra 11 tru o
timbre de uma classe dommante que, nllo obstanl e tar in cnla hi toncamenle num
J.lf·'·' ••mpt~•n ,\lHk sal<>ttnaç~o~nccc âno,!>Cgundooautor,dlstinguirmanifts- rroces o de transfonnaçllo da sociedade, não supona a polarizaçlo (e portanto tam
r,,1 c' /ao ,,11 d•llfr'tntwtpr<•priJmcnlc dua I .. ) AntomoCandidonloconsidera bém o conflito de classes) e, sob presslo, recua para a acomodaçlo econômica e stX.tal
e para o despotismo polftlco.
lan 111trr1. 111.1 mrtlll}t llriÇril'l lu, r.u w1, produ\Oes anteriore . Faltana a elas esse
l".\1lrr 1 t•nmn tlllfrltt'l,l'.ll rl<'rllandoJC\tSI netadeumavidahtcliria;pdbl/cos,
p rmu1nlln u,, ,,.. ·la\ ao, c rrud,~,w. r 1t.1 dar lOnllnutdade ao repenóno litelirio. E conclui mais udiant Gabriel Cohn:
,\ """"/1 ''''li'< 1 /Hrl<lll•l.l fl11oll<'ll1 us produçt c do século XVI at~ meados do
\' lll ~lu 'llllu.llH.t~ llt'll.t w cnnt1gura na sc:~unda metade do ~cuJo XVIII. ga· O que Florestan nos d1z é que, deixada a burauesla numa SOCiedade como a bm ·tletra
IX , qu ando o ~islema se consolida. propictando Mlha c à sua própria orte, ua revoluçlo, aquela que lava a confonnar a sociedade l'l
Ull Imagem e semelhança. nlo tem como ser de~ a mu sempre estarli sob o
um t.lllltd.td • hl<'ra•1.1 r,· •ul;u
encanto da oluçlio autocrática. Portanto, n1o revoluçlo bWJueaa e mu1to meno
revoluçlo democr4tux>-burguesa, mu revolu;lo lllltOCdlic:o-bw'&uesa. Enio avanço
Complct.un o quadro dois li\'ros- Conciliaçtio e refonna no Brasil, de autônomo e progressivo das clasaea btJrauaw.. mu ace1tt*Çio num a rçwto fechado.
Jo ~ l hllll'tlll Rtldrigu~~. c A n• t·oluçcio burgtusa no Bra i/, de Florestan qu.e ex1ge outras forças históricas para 10 lbJk,
r 111.111 l l 11) • U.l h:~.:nha. lbcrto da Costa c Silva observa:
Bste conjunto de obma mostra coartlltll vjiiMi·.e
J ~ H nôno R•>Jnp1., rc unuu nos escnto que compõem Conc:lliaçcfo t rtforma história. Levanta as graadeapeqifli!• .f!- l• ·
r /)ra' 't' qtk tT\lu:>.c dc ·ua~ c~a1ações no passado e procurou re elar-nos-edaf
n n"aJ ·,t l11ro -n~··gredod ·orno fi z mosccontinuamosafazcranossa
,h 1 c p.tr.to:nt ·nJ~r· no - screve ele -é ac:onclliaçio. Mas biconciliaçlo
o& obstfoulos que ••ltt
que lhes demo& - SQl.a o.-;••-'~•l• ~killo
Qlll4\'j_.l,táj·~·-~

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I OI RE ÇO D NTA S MOTA

. Vll como " conomia


Papel d • i h o po itivo foi o das "m iori s qu
indtgcnas. o negro ali\o"o mesti osdetod as ores'.
ção efetuada no s iodo po o d vemos o ter o Brasil. d d do dei ado de
er 'uma caricatura de Portugal' no. trópico , e pos uir um sub trato novo".
Já no seio da elites

a concilinçlio mvcnlivn c fecunda cria rara em no a hi lóna.\. I A oonc•haçikl pela


11.1 h1ti1IUI,tl,• ·" mércia scmpr~ empumnt para o futuro o grandes prohlem nacional~ S o~ enfren
o tn cno h fll, fotiii<~Çcio ela lacratura brasilt'ira - Momelltos deci- tamos. temerosos c prudenles. quando nllo hâ mais jCito de ev11 ·lo C001 llTande
'" t''• d,·, nl• nitll'.mdithl,ltllllou- c logo um clás ico. elemento indi pensável
atra~o. portanto, c. em geral, com soluções e remt!dto quej4perderam a lic ll8 o
se huscn a concórdia pelo rc peito à d1verstdnde das id~ias e pela a ellaç o de que
.1 , t>lllpr,· n ;1•, 1lo k nonwno que ·studa. Ele "não con titui apena um livro governe um partido e de que os outros del discordem. O que se procura é d1lutr ou,
,,hr ·o~ lll<ltm·ntn luntl.lmcnl.lis da f,mna ãode no a literatura, noarcadismo se possfvcl, anular o disscnso.
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~ml, ,111 •1\l\ d.1 lih.! I.ttura . do. tr.tço~ marcantes de como nos imaginávamos no Em A revolução burguesa 110 Brasil - livro comple o, mai que todos
monwnl•, de no"·' Jfmnaçao como nação politicamente independente." A os demais aqui apresentados, preso ao rigor da linguagem acadêmica , Flore tan
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bt.tsik 11.1 Ullllll sint '\c r.k ll' tHl ~ n c tas uni ver alistas c particularistas", procu-
numa sociedade capitalista dependente como a brasileira verifi n·se "uma forte
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r,,1 c' /ao ,,11 d•llfr'tntwtpr<•priJmcnlc dua I .. ) AntomoCandidonloconsidera bém o conflito de classes) e, sob presslo, recua para a acomodaçlo econômica e stX.tal
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p rmu1nlln u,, ,,.. ·la\ ao, c rrud,~,w. r 1t.1 dar lOnllnutdade ao repenóno litelirio. E conclui mais udiant Gabriel Cohn:
,\ """"/1 ''''li'< 1 /Hrl<lll•l.l fl11oll<'ll1 us produçt c do século XVI at~ meados do
\' lll ~lu 'llllu.llH.t~ llt'll.t w cnnt1gura na sc:~unda metade do ~cuJo XVIII. ga· O que Florestan nos d1z é que, deixada a burauesla numa SOCiedade como a bm ·tletra
IX , qu ando o ~islema se consolida. propictando Mlha c à sua própria orte, ua revoluçlo, aquela que lava a confonnar a sociedade l'l
Ull Imagem e semelhança. nlo tem como ser de~ a mu sempre estarli sob o
um t.lllltd.td • hl<'ra•1.1 r,· •ul;u
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revoluçlo democr4tux>-burguesa, mu revolu;lo lllltOCdlic:o-bw'&uesa. Enio avanço
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Jo ~ l hllll'tlll Rtldrigu~~. c A n• t·oluçcio burgtusa no Bra i/, de Florestan qu.e ex1ge outras forças históricas para 10 lbJk,
r 111.111 l l 11) • U.l h:~.:nha. lbcrto da Costa c Silva observa:
Bste conjunto de obma mostra coartlltll vjiiMi·.e
J ~ H nôno R•>Jnp1., rc unuu nos escnto que compõem Conc:lliaçcfo t rtforma história. Levanta as graadeapeqifli!• .f!- l• ·
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n n"aJ ·,t l11ro -n~··gredod ·orno fi z mosccontinuamosafazcranossa
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l~TRODU ~· \0

('onjunt(· que não se pretende completo. que tem, como foi dito acima, os pADRE ANTóNIO VIEIRA
ddeitos inevitáveis de qualquer seleção. Insistir em evi tá-los só redundaria em
dcbatcs infind{ivl.!is 1.! tornaria inviável o projeto. A solução encontrada foi dei-
xar para um segundo volume o preenchimento das lacunas do primeiro. Nunca
é dt:rnai5 in ·istir que este livro é apenas aquilo que diz seu título- uma introdu- Sermões
ção. para ~rvir de estímulo ao contato com os textos originais. Ele não pode
t.:r c não tem nenhuma outra ambição além dessa. Leitores que porventura
p ·nsarcrn o contrário cometerão um grave erro. Nada pode substituir, para a
plena compr..:cnsão desses livros. o contato íntimo com o desenvolvimento e a
trama da Jrgumentação de seus autores, sua complexidade e riqueza de su-
gestão, que ~ão insuscetíveis de resumo. Isso é ainda mais verdadeiro no caso
de li\ 10~ como Serm6es, Casa-grande & senzala c Os sertões - para citar João Adolfo Hansen
apenas três e)(emplos -,que são obras-primas literárias. Atente-se para o que
dzl Amaral Lapa a certa altura de seu trabalho sobre Fomzação do Brasil
('(J/1/cmporfmt'o .. Sente-se aí o caráter seminal deste livro, cujas colocações
muitas vezes breves. ponteadas como resultado conclusivo, só possível depois
de longa pcsqui a e reflexão e de extraordinária capacidade de leitura, provo-
caram te es comprobatórias , extensas e intensas, de repercussão, cuja nas-
culle ját 11111/lll.\ re:::e1 um ou dois parágrafos redigidos por Caio Prado

Júnior"( grifo meu). Um ou dois parágrafos que não constam de resenhas e, se


constas em. perderiam seu poder de sugestão fora do contexto. Resenhas são
um onviLe e uma útil introdução à leitura, não são a leitura.

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l~TRODU ~· \0

('onjunt(· que não se pretende completo. que tem, como foi dito acima, os pADRE ANTóNIO VIEIRA
ddeitos inevitáveis de qualquer seleção. Insistir em evi tá-los só redundaria em
dcbatcs infind{ivl.!is 1.! tornaria inviável o projeto. A solução encontrada foi dei-
xar para um segundo volume o preenchimento das lacunas do primeiro. Nunca
é dt:rnai5 in ·istir que este livro é apenas aquilo que diz seu título- uma introdu- Sermões
ção. para ~rvir de estímulo ao contato com os textos originais. Ele não pode
t.:r c não tem nenhuma outra ambição além dessa. Leitores que porventura
p ·nsarcrn o contrário cometerão um grave erro. Nada pode substituir, para a
plena compr..:cnsão desses livros. o contato íntimo com o desenvolvimento e a
trama da Jrgumentação de seus autores, sua complexidade e riqueza de su-
gestão, que ~ão insuscetíveis de resumo. Isso é ainda mais verdadeiro no caso
de li\ 10~ como Serm6es, Casa-grande & senzala c Os sertões - para citar João Adolfo Hansen
apenas três e)(emplos -,que são obras-primas literárias. Atente-se para o que
dzl Amaral Lapa a certa altura de seu trabalho sobre Fomzação do Brasil
('(J/1/cmporfmt'o .. Sente-se aí o caráter seminal deste livro, cujas colocações
muitas vezes breves. ponteadas como resultado conclusivo, só possível depois
de longa pcsqui a e reflexão e de extraordinária capacidade de leitura, provo-
caram te es comprobatórias , extensas e intensas, de repercussão, cuja nas-
culle ját 11111/lll.\ re:::e1 um ou dois parágrafos redigidos por Caio Prado

Júnior"( grifo meu). Um ou dois parágrafos que não constam de resenhas e, se


constas em. perderiam seu poder de sugestão fora do contexto. Resenhas são
um onviLe e uma útil introdução à leitura, não são a leitura.

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Entre 1624, quando escreveu a Carta !mUil em que relata a im.aÇo
holandesa da Bahia. e 1697, quando morreu em Salvador. deixando ina h do
o manuscrito de um texto profético. Clavis prophetarum. o jesuíta Antômo
Vieira produziu a obra espantosa que faz dele um dos autores maiores do
século XVII. A finalidade de toda ela é promover a integração harmoniosa do
indivíduos. estamentos e ordens do império português, desde os prfncipe da
casa real e cortesãos aristocratas até os mais humildes escra\OS e índios bra-
vos do mato, visando a sua redenção coletiva como um "corpo místíco" unifi-
cado. Ao sacramentar Portugal como nação eleita para estabelecer o Império
de Deus na Terra, o retorno do Messias, Vieira sacraliza a dinastia dos
Bragança, estabelecendo ponderações agudas e misteriosas entre o ritual ca-
tólico e a monarquia absoluta definida como instrumento da divindade. Em seu
projeto salvífico, o papel do Novo Mundo é essencial.
Para tratar de representações dele em sua obra, primeiramente é preciso
lembrar que, em seu tempo, "Brasil" nomeava o Estado do Brasil, um terrítóno
correspondente à Bahia e às capitanias sob a jurisdição do governador-geral
sediado em Salvador. O Estado do Brasil formava então o domínio colonial
português na América, juntamente com o Estado do Maranhão e Grão-Pará.
Este último, criado por um decreto real em 13 de junho de 1621, correspondia
aproximadamente ao território dos atuais estados do Ceará, Piauí. Maranhão.
Pará e partes de Tocantins e Amazonas. Ambos os estados. Brasil e Maranhão
e Grão-Pará. transcendem os limites político-administrativos regionais e me-
tropolitanos, pois são regiões por assim dizer "espirituais", concebidas por Victra
como o espaço-tempo de uma práxis sociaP fundamentada na metafísica cris·
Em segundo Iugar, como é necessário falar da sua biografia, pois a concep-
%iO jesuítica de ação não dissocia "vida" e "obra", é preciso dizer que, no
caso, o "eu" de Vieira não é uma categoria psk:ológica, ma uma posição
l:bit~rárqui,ca ("jesuíta", "chefe de missão", "réu da Inquisição", "diplomata",
~)llSielhc:iro do rei", "orador da Capela Real", etc.) preenchida por repre en-
que são partes do todo social objetivo. Por isso. em &ercciro lugar, é
especificar a natureza e J t\u1çio da a obra ap seu tempo. Ele
seus sermões do "cho~" wmparava aos "palácios"

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Entre 1624, quando escreveu a Carta !mUil em que relata a im.aÇo
holandesa da Bahia. e 1697, quando morreu em Salvador. deixando ina h do
o manuscrito de um texto profético. Clavis prophetarum. o jesuíta Antômo
Vieira produziu a obra espantosa que faz dele um dos autores maiores do
século XVII. A finalidade de toda ela é promover a integração harmoniosa do
indivíduos. estamentos e ordens do império português, desde os prfncipe da
casa real e cortesãos aristocratas até os mais humildes escra\OS e índios bra-
vos do mato, visando a sua redenção coletiva como um "corpo místíco" unifi-
cado. Ao sacramentar Portugal como nação eleita para estabelecer o Império
de Deus na Terra, o retorno do Messias, Vieira sacraliza a dinastia dos
Bragança, estabelecendo ponderações agudas e misteriosas entre o ritual ca-
tólico e a monarquia absoluta definida como instrumento da divindade. Em seu
projeto salvífico, o papel do Novo Mundo é essencial.
Para tratar de representações dele em sua obra, primeiramente é preciso
lembrar que, em seu tempo, "Brasil" nomeava o Estado do Brasil, um terrítóno
correspondente à Bahia e às capitanias sob a jurisdição do governador-geral
sediado em Salvador. O Estado do Brasil formava então o domínio colonial
português na América, juntamente com o Estado do Maranhão e Grão-Pará.
Este último, criado por um decreto real em 13 de junho de 1621, correspondia
aproximadamente ao território dos atuais estados do Ceará, Piauí. Maranhão.
Pará e partes de Tocantins e Amazonas. Ambos os estados. Brasil e Maranhão
e Grão-Pará. transcendem os limites político-administrativos regionais e me-
tropolitanos, pois são regiões por assim dizer "espirituais", concebidas por Victra
como o espaço-tempo de uma práxis sociaP fundamentada na metafísica cris·
Em segundo Iugar, como é necessário falar da sua biografia, pois a concep-
%iO jesuítica de ação não dissocia "vida" e "obra", é preciso dizer que, no
caso, o "eu" de Vieira não é uma categoria psk:ológica, ma uma posição
l:bit~rárqui,ca ("jesuíta", "chefe de missão", "réu da Inquisição", "diplomata",
~)llSielhc:iro do rei", "orador da Capela Real", etc.) preenchida por repre en-
que são partes do todo social objetivo. Por isso. em &ercciro lugar, é
especificar a natureza e J t\u1çio da a obra ap seu tempo. Ele
seus sermões do "cho~" wmparava aos "palácios"

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J0..\0 ADOLFO HANSE."i
de suas obras proféticas. I Ioje. estas são praticamente ilegíveis e valorizamos
o~ sermões, ainda que por rnões quase sempre apenas estéticas, de modo ção, divisiio. confinnaçüo, peroração c epflogo - cuja teoria não é po. sí-
ba~tantc diverso do seu, po1s os entendia C>lmo instrumentos salvíficos imedia- vel fazer aqui. Os de Vieira repartem-se pelos três grandes gêneros omtórios
tamente praticos. No prólogo da edição dos Sermões. de 1677, escreveu que, da retórica aristotélica: deliberativos, propõem a decisão sobre algo futuro;
~em a voz que os tinha animado no púlpito, ainda ressuscitados eram cadáve- judiciais, julgam personagens ou eventos passados; epidítiws. celebram (ou
res. IJoje, só os conhecemos "ressuscitados" como textos escritos. Na leitura, atacam) personagens e ações no presente. Em todos os gêneros. Vil:ira sem-
não mais ex1stc a acuo ou a dramatização deles pela voz e pelo corpo do pre transmite um conteúdo doutrinário dogmático, letrado, culto c erudito, para
padrc. Mas é essa primitiva natureza oral que especifica historicamente a prá- ouvintes muitas vezes iletrados e incultos, como colonos, índios, negros.
mamelucos e mulatos do Brasil e do Maranhão c Grão-Pará. Ele torna o con-
tica de Vieira como "solução" católica para a questão do contato do fiel com
Deus teúdo dogmático não só compreensível, adaptando-o ao auditório, mas princi-
palmente eficaz, traduzindo os dogmas em uma argumentação capaz de ensinar.
I m 1517. em uma das teses de Wittenbcrg, Martinho Lutero afirmou que
agradar e comover os ouvintes. Seu sermão é simultaneamente didático. teoló-
ba.~la ao fiel ter uma Bíblia c lê-la individualmente, em silêncio, para pôr-se em
gico c político. Segue a lição de Marciano Capela, estabelecendo relações
contato com Deus. A tese lutcrana da sola scriprura, "apenas a Escritura", entre o tema, o assunto dogmático ou canônico interno ao discurso. e o consilium.
pressupoc <l possl: da Ríhlirt e a alfabetização dos fiéis. Ela toma evidentemente a intenção exterior dele. Como lembrou Margarida Vieira Mendes, na oratória
desm·cess.iria a mediação do clero c dos ritos visíveis da Igreja. Na sessão de 8 sagrada do século X VIl o tema era totalmente imposto pelo calendário litúrgico
dt ahnf de I 5 J(, do ( "onc ílio de Trcnto. n:unido para combater a Reforma protes- e pela obrigação de tratar textos bíblicos prévios, com conteúdos religiosos
tante, teólogos Jesuítas c dominicanos declararam a tese da sola scriptura heré- específicos. 2 Quase invariavelmente, Vieira conduz os temas para as questões
tica, ddin1ndo c delimitando a traditio, a ''tradição" (ritos, cerimônias, magistério, políticas e econômicas que mais lhe interessam, conforme o ccmsiliwn. Evi-
nini\t(llo t' poverno) c o~ textos canúnicos da Igreja. Logo depois, em 17 de dentemente, tem de tratar dos assuntos circunstanciais subordinando-o~ aos
r• nho, determinaram il ohri~ra t oricdadc de pregar a verdade revelada a toda cria- discursos dogmáticos impostos como tema. O que faz por meio de conceitos
turt~, 'vi .mdo "tudo que é necessário para a salvação". Nos países católicos, a predicáveis e concordâncias.
p<K c pa1 tit•llar da !Jíhltr1 c a sua leitura individual foram proibidas. A Igreja O conceito predicável é um texto- palavra ou sentença -extraído do
rcconfmnou a nt:cessidadc do~ ritos vbívcis c da cspctacularização dos sacra- Velho ou do Novo testamemo comentado pelo orador. No século XVH, era
l!ltlllo . unpondo" audlç<m coletiva d:t pregação. Contra Lutero, o interior dos costume usar caderninhos para colecionar conceitos predicáveis específicos
tciiiJllm tornou •,c tllil c\pa~o tiL' luxo c pompa, envolvendo os sentidos dos fiéis das várias datas litúrgicas e adaptá-los com sentido profético às circuu tância~
~.:om ,1 p10fus.m d~: 1111 ~t·ns, mthicas, perfumes, pregações. O púlpito passou da pregação. A adaptação, chamada de concordância, consistia em dcmons
a ocupar urna po~içao elevada, significando a autoridade do pregador sobre a trar semelhanças proféticas entre o sentido da vida de homens c acontccnneu-
tos da Bfblia c o sentido da vida de homens e eventos do presente. A semelhança
audiéntla Rl.'novou ~c o calendário Jittí1 gico c novas festa5 e novos santos pus-
era interpretada como presença providencial de Deu orientando uns e outros
aram a· er u~khradlls. J·m Portuga l c no Brasil, a Companhia de Jesus, recém-
no passado e no presente. Por exemplo, no "Sermão pelo hc m . uc~ ~o da
lundíllfa cn1 J'i 10, le\IXlllsahi li;ou··Sc pelo l'nsino da cloqtlência sacra em seus
armas de Portugal contra as de Holanda", pregado em maio ou junho d l 640,
rolé)'ill~ adotando to mo d11utrina c exemplo as ohras retóricas de Aristóteles.
~ f)tlacrva-:se a semelhança entre Moiaés. guiando os hebreus em fuga do Egrto.
1
)ulnttli.lflo, < 'ícL 1o, Sên<'La e mais autmes latinos c medievais. Na dcwJtio mo- próprio Vieira, pregando aos católicos da Bahia. Ou entr Vieira pedmdo a
d, 111o c,u • dt·\oç.to n1~)duna" da Companhia, a pregação foi definida como que auxilie os portugu~ oo Jti O.v.i. nnplorando a Jeová que •enha
llll r\ 11~.1<, t fct1va na vida pdtica dos ti~is. $OCorro dos hebreus. A 6 .saH!ocida por uma proporção
Como o termo latino \t'llllfl indica, o sem1ãoé uma fala; noca o jesuítico,
um.~ t.d.t lh.tm.lll;ad.t pdo p1"l'gador para a audição e a visão de um público
qu do v~ ~l·r per .uadido da v ·rdadc c v;~Jidadc universal da doutrina
I> modo .ti, o ~~.:1m~o . acro jc!>uítico tem &eis part s -exórdio,

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J0..\0 ADOLFO HANSE."i
de suas obras proféticas. I Ioje. estas são praticamente ilegíveis e valorizamos
o~ sermões, ainda que por rnões quase sempre apenas estéticas, de modo ção, divisiio. confinnaçüo, peroração c epflogo - cuja teoria não é po. sí-
ba~tantc diverso do seu, po1s os entendia C>lmo instrumentos salvíficos imedia- vel fazer aqui. Os de Vieira repartem-se pelos três grandes gêneros omtórios
tamente praticos. No prólogo da edição dos Sermões. de 1677, escreveu que, da retórica aristotélica: deliberativos, propõem a decisão sobre algo futuro;
~em a voz que os tinha animado no púlpito, ainda ressuscitados eram cadáve- judiciais, julgam personagens ou eventos passados; epidítiws. celebram (ou
res. IJoje, só os conhecemos "ressuscitados" como textos escritos. Na leitura, atacam) personagens e ações no presente. Em todos os gêneros. Vil:ira sem-
não mais ex1stc a acuo ou a dramatização deles pela voz e pelo corpo do pre transmite um conteúdo doutrinário dogmático, letrado, culto c erudito, para
padrc. Mas é essa primitiva natureza oral que especifica historicamente a prá- ouvintes muitas vezes iletrados e incultos, como colonos, índios, negros.
mamelucos e mulatos do Brasil e do Maranhão c Grão-Pará. Ele torna o con-
tica de Vieira como "solução" católica para a questão do contato do fiel com
Deus teúdo dogmático não só compreensível, adaptando-o ao auditório, mas princi-
palmente eficaz, traduzindo os dogmas em uma argumentação capaz de ensinar.
I m 1517. em uma das teses de Wittenbcrg, Martinho Lutero afirmou que
agradar e comover os ouvintes. Seu sermão é simultaneamente didático. teoló-
ba.~la ao fiel ter uma Bíblia c lê-la individualmente, em silêncio, para pôr-se em
gico c político. Segue a lição de Marciano Capela, estabelecendo relações
contato com Deus. A tese lutcrana da sola scriprura, "apenas a Escritura", entre o tema, o assunto dogmático ou canônico interno ao discurso. e o consilium.
pressupoc <l possl: da Ríhlirt e a alfabetização dos fiéis. Ela toma evidentemente a intenção exterior dele. Como lembrou Margarida Vieira Mendes, na oratória
desm·cess.iria a mediação do clero c dos ritos visíveis da Igreja. Na sessão de 8 sagrada do século X VIl o tema era totalmente imposto pelo calendário litúrgico
dt ahnf de I 5 J(, do ( "onc ílio de Trcnto. n:unido para combater a Reforma protes- e pela obrigação de tratar textos bíblicos prévios, com conteúdos religiosos
tante, teólogos Jesuítas c dominicanos declararam a tese da sola scriptura heré- específicos. 2 Quase invariavelmente, Vieira conduz os temas para as questões
tica, ddin1ndo c delimitando a traditio, a ''tradição" (ritos, cerimônias, magistério, políticas e econômicas que mais lhe interessam, conforme o ccmsiliwn. Evi-
nini\t(llo t' poverno) c o~ textos canúnicos da Igreja. Logo depois, em 17 de dentemente, tem de tratar dos assuntos circunstanciais subordinando-o~ aos
r• nho, determinaram il ohri~ra t oricdadc de pregar a verdade revelada a toda cria- discursos dogmáticos impostos como tema. O que faz por meio de conceitos
turt~, 'vi .mdo "tudo que é necessário para a salvação". Nos países católicos, a predicáveis e concordâncias.
p<K c pa1 tit•llar da !Jíhltr1 c a sua leitura individual foram proibidas. A Igreja O conceito predicável é um texto- palavra ou sentença -extraído do
rcconfmnou a nt:cessidadc do~ ritos vbívcis c da cspctacularização dos sacra- Velho ou do Novo testamemo comentado pelo orador. No século XVH, era
l!ltlllo . unpondo" audlç<m coletiva d:t pregação. Contra Lutero, o interior dos costume usar caderninhos para colecionar conceitos predicáveis específicos
tciiiJllm tornou •,c tllil c\pa~o tiL' luxo c pompa, envolvendo os sentidos dos fiéis das várias datas litúrgicas e adaptá-los com sentido profético às circuu tância~
~.:om ,1 p10fus.m d~: 1111 ~t·ns, mthicas, perfumes, pregações. O púlpito passou da pregação. A adaptação, chamada de concordância, consistia em dcmons
a ocupar urna po~içao elevada, significando a autoridade do pregador sobre a trar semelhanças proféticas entre o sentido da vida de homens c acontccnneu-
tos da Bfblia c o sentido da vida de homens e eventos do presente. A semelhança
audiéntla Rl.'novou ~c o calendário Jittí1 gico c novas festa5 e novos santos pus-
era interpretada como presença providencial de Deu orientando uns e outros
aram a· er u~khradlls. J·m Portuga l c no Brasil, a Companhia de Jesus, recém-
no passado e no presente. Por exemplo, no "Sermão pelo hc m . uc~ ~o da
lundíllfa cn1 J'i 10, le\IXlllsahi li;ou··Sc pelo l'nsino da cloqtlência sacra em seus
armas de Portugal contra as de Holanda", pregado em maio ou junho d l 640,
rolé)'ill~ adotando to mo d11utrina c exemplo as ohras retóricas de Aristóteles.
~ f)tlacrva-:se a semelhança entre Moiaés. guiando os hebreus em fuga do Egrto.
1
)ulnttli.lflo, < 'ícL 1o, Sên<'La e mais autmes latinos c medievais. Na dcwJtio mo- próprio Vieira, pregando aos católicos da Bahia. Ou entr Vieira pedmdo a
d, 111o c,u • dt·\oç.to n1~)duna" da Companhia, a pregação foi definida como que auxilie os portugu~ oo Jti O.v.i. nnplorando a Jeová que •enha
llll r\ 11~.1<, t fct1va na vida pdtica dos ti~is. $OCorro dos hebreus. A 6 .saH!ocida por uma proporção
Como o termo latino \t'llllfl indica, o sem1ãoé uma fala; noca o jesuítico,
um.~ t.d.t lh.tm.lll;ad.t pdo p1"l'gador para a audição e a visão de um público
qu do v~ ~l·r per .uadido da v ·rdadc c v;~Jidadc universal da doutrina
I> modo .ti, o ~~.:1m~o . acro jc!>uítico tem &eis part s -exórdio,

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po 111 \ a lo1s \ CD.tviJ. Vieira:· hcbreus: portugueses. Ou negativa-Fa6
((inlia ). ;-.J.t ,au :egípciOs (ti listcus): holandeses. No "Senn!o pelo bomsu-
cc u. ", ú•ngindo c a lku~ com muita veemência, ooradorexigequeaiJXille.
0 t.H<'•Iico contra os calvinistas. Com palavras de Davi, interpela Deus
" !·1utt•c <JIIIIIt' ubdormi.\, Domine?"l ("Acorda, por qu donncs, Senhor?''),
dnmando que, se não awrdar a tempo de int rvir em favor dos católicos,
11 •ara ,, prcípt ia Pro\ idência, que rege a história, e o mundo dirá "Deus está

hollllult;\·• ou \eja. "Deus está calvini ta". A interpelação~ certam nte &U•
d ll iO'J , ma\ també m ortodoxa. O próprio Vieira adverte que seu modelo é o
• Salmo ~r. úc Davi.
O tc rn.t d,, pregação sacra empre "Pele a Palavra de Deus
no h:xto L.UIÚnJco~; por isso, o sermão aparece para o pregador
puhl11.:o W lllll Ulll ÚÍ\Uif O csscncJaJ. 0 jeSUÍtaS dO século XVH de:finlhUill
~~ ~m.t o cmnn tlll'alnm• 1acrum, ''teatro sacro", concebendoaparen6tióa.
ri pr • •Jr, como úr.un.ltitaçuo das verdade sagradas. Aqui, o eadlode
cnconlt .t ~ ua ra7ao d~.: c r: hnjc ele é conhectdo como ..conceptlsta..
c " mas, em ~cu tempo, quando ainda não havia sido inventad&O COlllCedfO:I
' h.mow", era um c til o a •udo, engenhoso, florido. esqui ito, CCJIIlC~It'ti~'O~
.1 ,,111 o A pro xun.t wrll:t:Ho~ distantes e os funde em image011 lplll'êilfem&!IUI
1.mt.1 tic.1 e inrongtuenh.: • mas sempre fundamentadasnamaisod04i;Jlt~IIJ
lo •t.t 11.1 rn.t is strll.t ltígll.t. O poder espiritual e o poder temporal
flat,1dr n~k <.:orno um<tllllldade de teologia e de polftica tecn'bcada}IICW"iilidl
bn Ul111 c,lft.Jde 1(, 1J para n re i D. Afonso VI, afirma que: "[,-J·.Qilpr!~DI
c m,uoiL'S in \lrumcnto\ da con~crv ação e aumento desta IDilmt~-rttlié'~
1111111\fl()•, d.i PIL'gaçao c rrnpagação da Fé, para que Deu a tn
tnu no mundo",
f 11.1 'D ·lesa do li\ro int itulado 'Quinto Impéno"',de l8D~UifCID,tJDI!
que n JM pa t' os pregadores evangé licm, "varões llpoltdtic••.alo-'lf~IJJUIISI
tn> tml'Jtato\" d.1 co111 crs.to do mundo, JUntamente COI!n1lltn'11•11111•t4JJBJ

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po 111 \ a lo1s \ CD.tviJ. Vieira:· hcbreus: portugueses. Ou negativa-Fa6
((inlia ). ;-.J.t ,au :egípciOs (ti listcus): holandeses. No "Senn!o pelo bomsu-
cc u. ", ú•ngindo c a lku~ com muita veemência, ooradorexigequeaiJXille.
0 t.H<'•Iico contra os calvinistas. Com palavras de Davi, interpela Deus
" !·1utt•c <JIIIIIt' ubdormi.\, Domine?"l ("Acorda, por qu donncs, Senhor?''),
dnmando que, se não awrdar a tempo de int rvir em favor dos católicos,
11 •ara ,, prcípt ia Pro\ idência, que rege a história, e o mundo dirá "Deus está

hollllult;\·• ou \eja. "Deus está calvini ta". A interpelação~ certam nte &U•
d ll iO'J , ma\ també m ortodoxa. O próprio Vieira adverte que seu modelo é o
• Salmo ~r. úc Davi.
O tc rn.t d,, pregação sacra empre "Pele a Palavra de Deus
no h:xto L.UIÚnJco~; por isso, o sermão aparece para o pregador
puhl11.:o W lllll Ulll ÚÍ\Uif O csscncJaJ. 0 jeSUÍtaS dO século XVH de:finlhUill
~~ ~m.t o cmnn tlll'alnm• 1acrum, ''teatro sacro", concebendoaparen6tióa.
ri pr • •Jr, como úr.un.ltitaçuo das verdade sagradas. Aqui, o eadlode
cnconlt .t ~ ua ra7ao d~.: c r: hnjc ele é conhectdo como ..conceptlsta..
c " mas, em ~cu tempo, quando ainda não havia sido inventad&O COlllCedfO:I
' h.mow", era um c til o a •udo, engenhoso, florido. esqui ito, CCJIIlC~It'ti~'O~
.1 ,,111 o A pro xun.t wrll:t:Ho~ distantes e os funde em image011 lplll'êilfem&!IUI
1.mt.1 tic.1 e inrongtuenh.: • mas sempre fundamentadasnamaisod04i;Jlt~IIJ
lo •t.t 11.1 rn.t is strll.t ltígll.t. O poder espiritual e o poder temporal
flat,1dr n~k <.:orno um<tllllldade de teologia e de polftica tecn'bcada}IICW"iilidl
bn Ul111 c,lft.Jde 1(, 1J para n re i D. Afonso VI, afirma que: "[,-J·.Qilpr!~DI
c m,uoiL'S in \lrumcnto\ da con~crv ação e aumento desta IDilmt~-rttlié'~
1111111\fl()•, d.i PIL'gaçao c rrnpagação da Fé, para que Deu a tn
tnu no mundo",
f 11.1 'D ·lesa do li\ro int itulado 'Quinto Impéno"',de l8D~UifCID,tJDI!
que n JM pa t' os pregadores evangé licm, "varões llpoltdtic••.alo-'lf~IJJUIISI
tn> tml'Jtato\" d.1 co111 crs.to do mundo, JUntamente COI!n1lltn'11•11111•t4JJBJ

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O Lf'O H E

Vieira afirma à · ud'ên ia africana que n ngenho d a ú. ar o scra


certamente sofre ma1 q J•su Cri to, ma que d e r pa l'nte e \er na
servidão um "nulag "ou signo da Providência diVIna. P·l
p ·~ em_-; de dezembro de 1633
dência liHou alma do inferno para onde cenamenl iria e permanece se
· e d s Homen Pretos de um engenho
livre e gentio na sua terra de origem:
!:Lu ·a de "liberdade''. É a mesma que
bre .:7ra' idão dos índios pregado em Oh! s a gente preta, urada das brenhas da sua Etiópia. e pa~ a.b o Br ai. onhecera
e Lt' a entre 16"2 1662. É ana ronismo confundir essa bem quanto de; e a Deus c a sua Santíssima Mãe por c te ue pod par~ r d tcrro.
~ " r id 1 democrático. datado da segunda metade do século catl\·ciro e de graça, e não~ senão malagre, e grande mtlagre? Dtl et-mc o. os pats
fi: ''hberd d .. como autodeterminação fundada na igualdade que nasceram nas trevas da gcntilidade, c nela va~ m acabam a ; d m lume da f
nem conhectmcnto de Deus, aonde vão depois da monc' Todo . mo crede e
1 1reit humano . . ·o ca o. nenhum fundamento divino é necessá-
confessais, vão ao inferno, e lá e~tão ardendo e arderão por toda ct muladc. "
no p.1ro J de 1 raç:io dos direito democráticos que fazem todos os homens
ltHe • , ai . Bem di•ersa é a concepção de Vieira: para ele, desde que o
Muitos anos depois, em 1691 , quando foi consultado pela Juntadas Mi -
índt u o n~.:gro foram escravizados e receberam o batismo, entraram para o
-.sões acerca das medidas a serem tomadas quanto a Palmares, a nação dos
m1o r.IJ hurrumtdade cristã. pas ando por isso mesmo a ter deveres para
quilombolas chefiados por Zumbi que atacava as fazendas c os engenhos de
com o EstJJo Alcir Pécora define a tuncepção neo-esco1ástica de "liberda-
'Pernambuco, Vieira apresentou cinco razões para a destruição do quilombo c
d .. com e atidão: "( . .) J liberdade cristã é [ ... ].acima de tudo, pelo conheci-
oextenníniodos seus habitantes. Depois de ponderar, na primeira. que talvez;
mento tio bem. impossibilidade de pecar: o pecado. e não o cativeiro temporal,
ja possível enviar padres naturais de Angola como embaixadores ao
aractenza es enci ..tlrnente a escravidão". 9
palmarinos, afirma, na segunda, que provavelmente serão tidos por t! ptõcs do
Como diz Vieira no "Sermão da Epifania", pregado em 1662 na Capela
governo ponuguês, concluindo, na terceira, que por isso serão monos "por
Jktl de L1 boa. não é sua intenção que não haja escravos, mas demonstrar peçonha". Assim, na quana razão, afmna que, embora possam cessar o~ a •
que o l!fcatos dos cativeiros ilícitos de índios são pecados. No caso dos escra-
saltos contra os colonos, os negros de Palmares nunca deixarão de asilares-
'' negros. també m s.to pecados ou crimes contra naturam os excessos dos cravos fugitivos. Na quinta razão, a mais forte de todas, declara que "( ... I
senhores 4ue ferem a lei natural : sendo rebelados e cativos, estão e perseveram em pecado contínuo e atual, de
que não podem ser absoltos, nem receber a graça de Deus. sem se restituírem
Se o senhor mandasse ao c\cravo, ou quase5~C da escrava, cousa que ofenda gravemen·
ao serviço e obediência de seus senhores, o que de nenhum modo hão de
te a alma, c a conscacncaa; assam como ele o nào pode querer, nem mandar, assim o fazer".' 2
c cravo é obngado a não obedecer. Dtzei constantemente, que não haveis de ofender
Provavelmente, hoje essas afirmações decepcionam c escandalizam o
a Deu~ . c s~ por as~o vos ameaçarem c castigarem, ~ofre a ammosa e cristll.mente, ainda
que \C)a por toda a vada, que es es casugos são manfnos.' 0 -~1·~;tt,r Como foi dito, Vieira não é um iluminista. Jesuíta contra-reformado. não
-.ec>nc•ebe doutrina dissociada das coisas práticas, considerando que estas tam-
A danação das almas de escravos que morreram pagãos e que fazetll são atravessadas pela sacralidade da presença de Deus, por isso. a es-
companhm no inferno às almas dos senhores que não se preocuparam eJll o batismo dos escravos e a salvação das alma cativas n o !>e
b:ttuá-los e o pior efeito da escravidão. Assim, no "Sermão XIV do RosáriO" do seu projeto de conquista da hegemonia polui o-econômica no
Sul. A hegemonia catóüca da JfhUtica e da economia de Ponugal so

ScrnMt X VIl do Ro,áno", em Samões, v XII, cit, p. 33 1.


' < f AI r '<cou "\'tctra, o índio e o corpo mú;tico", em Adauto Novaes (org.), Tt mpo t
l~Jn I' I Scctc t~ria \lunicipal de ( ultura 1 Companhia das Letras, 1992), p. 432.
nnl '11 d•> ~o,ário", em Strmtlts. v. XII, ctl., p. 341. ca 1920), p 372.

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O Lf'O H E

Vieira afirma à · ud'ên ia africana que n ngenho d a ú. ar o scra


certamente sofre ma1 q J•su Cri to, ma que d e r pa l'nte e \er na
servidão um "nulag "ou signo da Providência diVIna. P·l
p ·~ em_-; de dezembro de 1633
dência liHou alma do inferno para onde cenamenl iria e permanece se
· e d s Homen Pretos de um engenho
livre e gentio na sua terra de origem:
!:Lu ·a de "liberdade''. É a mesma que
bre .:7ra' idão dos índios pregado em Oh! s a gente preta, urada das brenhas da sua Etiópia. e pa~ a.b o Br ai. onhecera
e Lt' a entre 16"2 1662. É ana ronismo confundir essa bem quanto de; e a Deus c a sua Santíssima Mãe por c te ue pod par~ r d tcrro.
~ " r id 1 democrático. datado da segunda metade do século catl\·ciro e de graça, e não~ senão malagre, e grande mtlagre? Dtl et-mc o. os pats
fi: ''hberd d .. como autodeterminação fundada na igualdade que nasceram nas trevas da gcntilidade, c nela va~ m acabam a ; d m lume da f
nem conhectmcnto de Deus, aonde vão depois da monc' Todo . mo crede e
1 1reit humano . . ·o ca o. nenhum fundamento divino é necessá-
confessais, vão ao inferno, e lá e~tão ardendo e arderão por toda ct muladc. "
no p.1ro J de 1 raç:io dos direito democráticos que fazem todos os homens
ltHe • , ai . Bem di•ersa é a concepção de Vieira: para ele, desde que o
Muitos anos depois, em 1691 , quando foi consultado pela Juntadas Mi -
índt u o n~.:gro foram escravizados e receberam o batismo, entraram para o
-.sões acerca das medidas a serem tomadas quanto a Palmares, a nação dos
m1o r.IJ hurrumtdade cristã. pas ando por isso mesmo a ter deveres para
quilombolas chefiados por Zumbi que atacava as fazendas c os engenhos de
com o EstJJo Alcir Pécora define a tuncepção neo-esco1ástica de "liberda-
'Pernambuco, Vieira apresentou cinco razões para a destruição do quilombo c
d .. com e atidão: "( . .) J liberdade cristã é [ ... ].acima de tudo, pelo conheci-
oextenníniodos seus habitantes. Depois de ponderar, na primeira. que talvez;
mento tio bem. impossibilidade de pecar: o pecado. e não o cativeiro temporal,
ja possível enviar padres naturais de Angola como embaixadores ao
aractenza es enci ..tlrnente a escravidão". 9
palmarinos, afirma, na segunda, que provavelmente serão tidos por t! ptõcs do
Como diz Vieira no "Sermão da Epifania", pregado em 1662 na Capela
governo ponuguês, concluindo, na terceira, que por isso serão monos "por
Jktl de L1 boa. não é sua intenção que não haja escravos, mas demonstrar peçonha". Assim, na quana razão, afmna que, embora possam cessar o~ a •
que o l!fcatos dos cativeiros ilícitos de índios são pecados. No caso dos escra-
saltos contra os colonos, os negros de Palmares nunca deixarão de asilares-
'' negros. també m s.to pecados ou crimes contra naturam os excessos dos cravos fugitivos. Na quinta razão, a mais forte de todas, declara que "( ... I
senhores 4ue ferem a lei natural : sendo rebelados e cativos, estão e perseveram em pecado contínuo e atual, de
que não podem ser absoltos, nem receber a graça de Deus. sem se restituírem
Se o senhor mandasse ao c\cravo, ou quase5~C da escrava, cousa que ofenda gravemen·
ao serviço e obediência de seus senhores, o que de nenhum modo hão de
te a alma, c a conscacncaa; assam como ele o nào pode querer, nem mandar, assim o fazer".' 2
c cravo é obngado a não obedecer. Dtzei constantemente, que não haveis de ofender
Provavelmente, hoje essas afirmações decepcionam c escandalizam o
a Deu~ . c s~ por as~o vos ameaçarem c castigarem, ~ofre a ammosa e cristll.mente, ainda
que \C)a por toda a vada, que es es casugos são manfnos.' 0 -~1·~;tt,r Como foi dito, Vieira não é um iluminista. Jesuíta contra-reformado. não
-.ec>nc•ebe doutrina dissociada das coisas práticas, considerando que estas tam-
A danação das almas de escravos que morreram pagãos e que fazetll são atravessadas pela sacralidade da presença de Deus, por isso. a es-
companhm no inferno às almas dos senhores que não se preocuparam eJll o batismo dos escravos e a salvação das alma cativas n o !>e
b:ttuá-los e o pior efeito da escravidão. Assim, no "Sermão XIV do RosáriO" do seu projeto de conquista da hegemonia polui o-econômica no
Sul. A hegemonia catóüca da JfhUtica e da economia de Ponugal so

ScrnMt X VIl do Ro,áno", em Samões, v XII, cit, p. 33 1.


' < f AI r '<cou "\'tctra, o índio e o corpo mú;tico", em Adauto Novaes (org.), Tt mpo t
l~Jn I' I Scctc t~ria \lunicipal de ( ultura 1 Companhia das Letras, 1992), p. 432.
nnl '11 d•> ~o,ário", em Strmtlts. v. XII, ctl., p. 341. ca 1920), p 372.

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fN\f<) J I'

JOAO ADOLFO HANSEN

• \ .tl.l ~1 .,.111 1J '1 !'t·l~' uwnop,,lio ponugu ·s do tráfico negreiro e da mão-de-


l .. ,

, 11 ,1 .llth~~111, 1 t ~~,. qu.mdl' .1tinna o dl·ver de obédiência dos escravos ao famosíssimo e poderosíssimo. como pregador da Capela Real. conselheiro e
,.,111 , •11 , til' UlX' • mtl-rnt' it'S t'n~enhos de · ·úcar. Vieira pressupõe que a confessor do rei D. João IV e da rainha D. Luísa de Gusmão. fazendo jus ao
. ,·r.1, td.1, · u p1 ., t~t.l r-:t.1 l r wid2nda para ua rátria. Dizia, por exemplo, anexim inventado por D. Francisco Manuel de Melo, "mandar lançar tapete de
qu. ,, lkt~iltmh.l'' .:.'rP'' 11.1 Anwrka 'a alma na Africa. Ou que sem Angola madrugada em São Roque para ouvir o padre Vieira".
ll.ll h,l\ IJ l't.l~tl A função do pregador da Capela Real era interpretar religiosamente even-
p '. :.1 pim·ir f.l~ • qu • c''inddc com as guerras holandesas. também tos, como vitórias em guerras, pestes, fomes, aparições de cometa, e ocasiões
,· J,·, · 1•mht .1r l' t •nu da mis <il hL tórica do portugueses no mundo, que festivas e fúnebres da família real e da nobreza. Provavelmente, seu primeiro
\ 1 ·ira 1 • .,,. ·m :ua )l:>ra prof'tica, e o da rc ponsabilidade divina na guerra sermão dessa fase foi o "Sermão dos bons anos", pregado em 1° de janeiro de
• •1t .•1 Ht l.wd.l. comi.'' se I\ no" cnnão de Santo Antônio", de 13 de junho 1642. Como em sermões e cartas anteriores, aqui o Novo Mundo é referido
como parte essencial do projeto divino para Portugal. Na peroração, quando
comenta o versículo do Pai Nosso, adveniat Regnum Tuum, "venha o Teu
Reino", profetiza que o rei vivo e presente, D. João IV. dá continuidade ao rei
e ausente, D. Sebastião, cumprindo a promessa feita por Deus a D.
Henriques na batalha de Ourique. No momento em que prega. diz. já
o Reino que Portugal já foi, mas ainda está para chegar o Reino que
há de ser, o Quinto Império. 14 (Os impérios anteriores foram o assírio,
o grego e o romano.) Para o advento do Quinto Império. o Brasil e o
1!118Jranlllão são essenciais, pois a catequese dos povos selvagens realizada pela
J.r~u ·<:o l n:. e nu~ ·r:h L que e tácadadia mendigandocomosuorde
IJWiiSãC> Je:sun:tca está prevista por Deus como aumento e redenção universal da
F.·, r. uc ~ · :><·rd ·u ,, B1':1 tl. c1 porque se perde o mundo. e os castigos
ll'l"illtarldaele. Logo, era necessário começar por libertar o Bra il dos hereges
=
rx1r dt.ml • ' ] Jbets ror que nos dá Deus as vitórias de mãos lavadas?
toJ ~ que ne·tes dtas ttvemo ; porque matando sempre tantos calvinistas. Como a Companhia Ocidental holandesa pedisse três milhões de
h •l.mJ, •.. Ja no ~a pm' entn: todos. apenas. se contam quatro ou cinco cruzados pela restituição de Pernambuco aos portugueses. Vieira pretendia
• :. 1 rqu e 1o'[ .]porqucsclavaramasmãos;porquehálimpezade levantar o dinheiro junto aos comerciantes judeus de Flandres e França. Viajou
uc ~ n1."1 tm!!em a,. mjos no angue do povo, por isso as vemos ensan- em 1646 a Paris; nada conseguindo, foi para a Holanda, em abri I de 1646. onde
~ 'orw,amcnt~ no ~angue dos inrm1gos: por isso tudo luz; por isso tudo visitou Haia, em traje civil de escarlata e espadim. Em março de 1647. de volta
r 1 ,,, tudo' por diant . c como por falta di to se perdeu o Brasil. assim
h d • rc:uperar [... ]
em Lisboa, redigiu um documento pelo qual D. João IV se comprometia a
os três milhões, em prestações anuais de seiscentos mil. recebendo em
Pernambuco e outros territórios ocupados pelos holandeses no Nordeste
Brasil, e na África, em Angola e São Tomé. Data desse tempo sua
~flelisiSinl8 e perigosíssima proposta de abrandamento dos "estilos" usado
RESTALRAÇÀO, 1641-1651 Inquisição contra os cristãos-no os e judeus em troca dos emprésllmos de
capitais. Em agosto de 1647, foi de novo à França, avi tando-se com o
,;unJa "fa e" da obras de Vieira pode ser datada de 1641 a 1651 Mazarino. Seu plano era contratar .Q casamento de D. Tecxiósio. filho
t:p Hc fundamentalmente do temas da Restauração. No que se de D. Joio Iv, com ~k de Montpensier, filha d duque de
BrJ ti, .cu mamr objeti\ o é a restauração de Pernambuco, Clo,minat;u: Se desse certo D. Joio- lV a~ 'tinha para o Brasti, enquanto
· holande~es do Sradtlrolder Maurício de Nassau. Nesse tempo, da noiva seria .regane de P~ menoridade do Príncipe. O

em S.r ~' ,. 11. ,·ic, pp. 97-98

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fN\f<) J I'

JOAO ADOLFO HANSEN

• \ .tl.l ~1 .,.111 1J '1 !'t·l~' uwnop,,lio ponugu ·s do tráfico negreiro e da mão-de-


l .. ,

, 11 ,1 .llth~~111, 1 t ~~,. qu.mdl' .1tinna o dl·ver de obédiência dos escravos ao famosíssimo e poderosíssimo. como pregador da Capela Real. conselheiro e
,.,111 , •11 , til' UlX' • mtl-rnt' it'S t'n~enhos de · ·úcar. Vieira pressupõe que a confessor do rei D. João IV e da rainha D. Luísa de Gusmão. fazendo jus ao
. ,·r.1, td.1, · u p1 ., t~t.l r-:t.1 l r wid2nda para ua rátria. Dizia, por exemplo, anexim inventado por D. Francisco Manuel de Melo, "mandar lançar tapete de
qu. ,, lkt~iltmh.l'' .:.'rP'' 11.1 Anwrka 'a alma na Africa. Ou que sem Angola madrugada em São Roque para ouvir o padre Vieira".
ll.ll h,l\ IJ l't.l~tl A função do pregador da Capela Real era interpretar religiosamente even-
p '. :.1 pim·ir f.l~ • qu • c''inddc com as guerras holandesas. também tos, como vitórias em guerras, pestes, fomes, aparições de cometa, e ocasiões
,· J,·, · 1•mht .1r l' t •nu da mis <il hL tórica do portugueses no mundo, que festivas e fúnebres da família real e da nobreza. Provavelmente, seu primeiro
\ 1 ·ira 1 • .,,. ·m :ua )l:>ra prof'tica, e o da rc ponsabilidade divina na guerra sermão dessa fase foi o "Sermão dos bons anos", pregado em 1° de janeiro de
• •1t .•1 Ht l.wd.l. comi.'' se I\ no" cnnão de Santo Antônio", de 13 de junho 1642. Como em sermões e cartas anteriores, aqui o Novo Mundo é referido
como parte essencial do projeto divino para Portugal. Na peroração, quando
comenta o versículo do Pai Nosso, adveniat Regnum Tuum, "venha o Teu
Reino", profetiza que o rei vivo e presente, D. João IV. dá continuidade ao rei
e ausente, D. Sebastião, cumprindo a promessa feita por Deus a D.
Henriques na batalha de Ourique. No momento em que prega. diz. já
o Reino que Portugal já foi, mas ainda está para chegar o Reino que
há de ser, o Quinto Império. 14 (Os impérios anteriores foram o assírio,
o grego e o romano.) Para o advento do Quinto Império. o Brasil e o
1!118Jranlllão são essenciais, pois a catequese dos povos selvagens realizada pela
J.r~u ·<:o l n:. e nu~ ·r:h L que e tácadadia mendigandocomosuorde
IJWiiSãC> Je:sun:tca está prevista por Deus como aumento e redenção universal da
F.·, r. uc ~ · :><·rd ·u ,, B1':1 tl. c1 porque se perde o mundo. e os castigos
ll'l"illtarldaele. Logo, era necessário começar por libertar o Bra il dos hereges
=
rx1r dt.ml • ' ] Jbets ror que nos dá Deus as vitórias de mãos lavadas?
toJ ~ que ne·tes dtas ttvemo ; porque matando sempre tantos calvinistas. Como a Companhia Ocidental holandesa pedisse três milhões de
h •l.mJ, •.. Ja no ~a pm' entn: todos. apenas. se contam quatro ou cinco cruzados pela restituição de Pernambuco aos portugueses. Vieira pretendia
• :. 1 rqu e 1o'[ .]porqucsclavaramasmãos;porquehálimpezade levantar o dinheiro junto aos comerciantes judeus de Flandres e França. Viajou
uc ~ n1."1 tm!!em a,. mjos no angue do povo, por isso as vemos ensan- em 1646 a Paris; nada conseguindo, foi para a Holanda, em abri I de 1646. onde
~ 'orw,amcnt~ no ~angue dos inrm1gos: por isso tudo luz; por isso tudo visitou Haia, em traje civil de escarlata e espadim. Em março de 1647. de volta
r 1 ,,, tudo' por diant . c como por falta di to se perdeu o Brasil. assim
h d • rc:uperar [... ]
em Lisboa, redigiu um documento pelo qual D. João IV se comprometia a
os três milhões, em prestações anuais de seiscentos mil. recebendo em
Pernambuco e outros territórios ocupados pelos holandeses no Nordeste
Brasil, e na África, em Angola e São Tomé. Data desse tempo sua
~flelisiSinl8 e perigosíssima proposta de abrandamento dos "estilos" usado
RESTALRAÇÀO, 1641-1651 Inquisição contra os cristãos-no os e judeus em troca dos emprésllmos de
capitais. Em agosto de 1647, foi de novo à França, avi tando-se com o
,;unJa "fa e" da obras de Vieira pode ser datada de 1641 a 1651 Mazarino. Seu plano era contratar .Q casamento de D. Tecxiósio. filho
t:p Hc fundamentalmente do temas da Restauração. No que se de D. Joio Iv, com ~k de Montpensier, filha d duque de
BrJ ti, .cu mamr objeti\ o é a restauração de Pernambuco, Clo,minat;u: Se desse certo D. Joio- lV a~ 'tinha para o Brasti, enquanto
· holande~es do Sradtlrolder Maurício de Nassau. Nesse tempo, da noiva seria .regane de P~ menoridade do Príncipe. O

em S.r ~' ,. 11. ,·ic, pp. 97-98

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EN\IOES

JOÃO ADOLFO HA ' E

plano gorou e Vieira nO\ a mente foi à Holanda. com papéis que agora o autori-
ZJ\am a fazer o embaixador ponuguê em Haia. Francisco de Sousa Coutinho, simultaneamente con pi r contra a Espanha. tentando uble r o Remo e
trocar Pernambuco pela paz no Brasil e na Africa. Nesse tempo, mante e ápoles então domin do por Madri. O plano foi descobeno c emba.i~•ldor
·ontato com o judeu da inagoga de Amsterdam. como Manassés-ben-Is- espanhol. duque do lnfantado. ameaçou Vieir-.t de mort • intimando o geral da
rael. que em 1640 e creY ra um texto profético. Esperança de Israel. que em Companhia de Jesus a fazer com que abandonas e Roma às pressas, p ra
1659 Vieira imitou em eu Esperanças de Portugal. escrito quando estava na salvar a pele. Em junho de 1650. voltou para Ponugal. • meado hefe da
AmJ.Z0nia. ~ C m o ami.,o jud u, discute o destino das tribos perdidas de Is- missão do Maranhão e Grão-Pará, dei ou a barra de Li boa m :!5 de n em-
t!l. ~restituição de Judá e o advento de Cristo. temas que aparecem em suas bro de 1651. Em 16 de janeiro de 1652, depoi de parar em C bo \erde. he-
gou a São Luís do iaranhão. 1
can e obra proféticas posteriores em que trata do papel providencial a ser
de empenhado pelo.·oYo ~tundo e pelos índios brasileiros antes do retomo do
).1essia_. . - H !anda. porém. as negociações da compra de Pernambuco fa-
MISSÀO ,'OMARA. HÀOEGRÃo-P RA.l65--1662
lh ram no' am nte. Em outubro de 164 . \ inte propostas de Vieira referentes
ao ne.,. .. ios com a Holanda foram apreciadas e rejeitadas em várias instân-
cia· da C rte. o Tribunal do Desembargo do Paço. a Mesa de Consciência e
Ord ns. Crmra de Li boa. o Conselho da Guerra. o Conselho da Fazenda,

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EN\IOES

JOÃO ADOLFO HA ' E

plano gorou e Vieira nO\ a mente foi à Holanda. com papéis que agora o autori-
ZJ\am a fazer o embaixador ponuguê em Haia. Francisco de Sousa Coutinho, simultaneamente con pi r contra a Espanha. tentando uble r o Remo e
trocar Pernambuco pela paz no Brasil e na Africa. Nesse tempo, mante e ápoles então domin do por Madri. O plano foi descobeno c emba.i~•ldor
·ontato com o judeu da inagoga de Amsterdam. como Manassés-ben-Is- espanhol. duque do lnfantado. ameaçou Vieir-.t de mort • intimando o geral da
rael. que em 1640 e creY ra um texto profético. Esperança de Israel. que em Companhia de Jesus a fazer com que abandonas e Roma às pressas, p ra
1659 Vieira imitou em eu Esperanças de Portugal. escrito quando estava na salvar a pele. Em junho de 1650. voltou para Ponugal. • meado hefe da
AmJ.Z0nia. ~ C m o ami.,o jud u, discute o destino das tribos perdidas de Is- missão do Maranhão e Grão-Pará, dei ou a barra de Li boa m :!5 de n em-
t!l. ~restituição de Judá e o advento de Cristo. temas que aparecem em suas bro de 1651. Em 16 de janeiro de 1652, depoi de parar em C bo \erde. he-
gou a São Luís do iaranhão. 1
can e obra proféticas posteriores em que trata do papel providencial a ser
de empenhado pelo.·oYo ~tundo e pelos índios brasileiros antes do retomo do
).1essia_. . - H !anda. porém. as negociações da compra de Pernambuco fa-
MISSÀO ,'OMARA. HÀOEGRÃo-P RA.l65--1662
lh ram no' am nte. Em outubro de 164 . \ inte propostas de Vieira referentes
ao ne.,. .. ios com a Holanda foram apreciadas e rejeitadas em várias instân-
cia· da C rte. o Tribunal do Desembargo do Paço. a Mesa de Consciência e
Ord ns. Crmra de Li boa. o Conselho da Guerra. o Conselho da Fazenda,

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, 1 HI!ÔI ~

JOAO AOOLRJ HANSEN

liv 1 0 ~ h 1 hli~os de [);nm:l c baJ.JS. as Tml'rls do sapateiro de Trancoso, Gonçalo


Ane:, B.mdo.~ rra, o texltl Ut· pmCtllflllda. do jesuíta peruano José de Aco ta, que ao serem capturado tá fossem escravos de seus inimigos; ou n. que fo •
c 11 tre ou11 LJS. fornece m matéria a Vieira para interpretar profeticamente o sen- sem aprisionados em "guerra justa". Nos ca os em que essa condições nlio
tido tran cemk nte da rcvelaç:io da palavra divina para os índios brasileiros se aplicassem. os índios seriam libertados e postos nas aldeias sob a jurisdição
rco.~l11ada pelm jesuítas de~de o século XVI. Segundo sua interpretação, a mis- temporal e espiritual da Companhia de Jesus:
·•n c ,, ratrqucsc ~;1o um mistério da Providi!ncia divina, que faz a Igreja
avan~.u e'-pir llualmc nl~.: ,, redenção humana quando inclui o Novo Mundo no De sorte que nesta fonna todos os (ndios deste estado M:n crão aos portuguese · ou
como própria, c intetramente cativos, que silo os de corda, os de guerra JU,ta, e os qu
grê111io cn'-lac• (~ JU s tamente porqu~.: é ~clvagcm ou "boçal" que o fndio deve
livre, c volunlanamente quiserem servir, como dt semos dos primetros; ou como
cr amurn~.tllJl! n t L' conduzido a superar s~.:u estado de barbárie; quando os meios caltvos, que são todos os das antigas, c novas aldeias, que petn l>em, e con er
colono• o esc1.1viza rn, também são culpados pela descr~.:nça. E a não-conver- vação do estado me consta que, sendo hvres. se sujcuaram a nn~ ~crvir, e aJudar a
s.to 1mp!Jca a perda das almas para Satanás. Nesse sentido, a Coroa portugue- metade do tempo de sua vida. Só resta saber qual será o preço dc:Mes. que chamamos
meios cativos, ou meios livres[ ... ] É matéria de que se nrá qualquer outra naçiln do
'·'..: ant d Kada pm ~eu papel apo~tólico de patrocinadora da missão jesuítica,
mundo, e só nesta terra não se admira."'
que rea liza no tempo o projeto sobrenatural. dando testemunho da Graça.
A\ COJ\Js nao cram tão espirituais em São Luí do Maranhão quando
Os coloniais não cederam à argumentação c Vieira contemporizou, indo
Vt.:ira aí che)!ou Uma ordem r~gi.t que libertava os índios escravizados causa- para o Pará. Lá chegou em 5 de outubro de 1653 c, logo depois, em 13 de
v,, cnt .to talt umultn l ntrc os colono · que ele e os padres recém-desembarca- dezembro de 1653, navegou o rio dos Tocantins. Encontramos um relato minu-
diJs qiiJ\L' l'orn m •·xpulsns. O · coloniai s argumentavam, com total razão, que e vfvido dessa viagem na carta que então dirigiu ao provincial da Compa·
•t,un pobre~ d~ nJaÍ\ p.1ra compmr escravos africanos c que a economia do nhia. Voltando ao Maranhão. como a oposição aos jesuítas aumentava, Vieira
Mat,llth.tu (h' p\:nd ia diretamente U<l brJço indígena, Também alegavam queoa em 22 de março de 1654 o "Sermão da quinta dominga da Quaresma",
1ndio cl.tlll b,irhaJo' c que loua scrvitlão era legitima. Fundamentavam-se em conhecido como "Sermão das mentiras". Com desassombro, promete
11111.1 JLk ,,, tl.t l'flhtrm ari stot~ lica, então corrente. que afirma ser próprio do auditório que vai dizer injúrias e afrontá-lo, falando de uma "grande de on-
mknor. uhnnl 111ar : l ' ao superior. No" sermões dessa fase, como o "Sermio no Maranhão não há verdade. Aqui, toma-se sarcástico quando, aeusando
d.t pnmcir 1 domin l.!a da QuarL·srna", pr~:gado em São Luís em 16 dejaneirode a sociedade maranhense de mentir e de assacar calúnias. faz com que o "M'
I()'i'· conhecido como "'\crmão das tl·ntaçÕl!s", Vieira parece querer intimidar de "Maranhão" contamine com a mentira alegada vários verbos inktados por
os colonos com o nll'do da pcrdiçao da alma. fazendo uma perfeita demonstra· "M" e relacionados com o vfcio:
~·ao silog•~tJca dot•rrn em que vivem.
E se as letras dest abcccdâno e repartissem pelos estados de Por1u •ai, que l•·tra
tncana no nosso Maranhlo? Nlo hi dúvrda queM. M. Maranhão. M. murmu1 ar 1.
'h'Uil o hnm~m. que dele ~<'li 1\'0. nu ltbc1dadc .tlhcta. l' pt1Liendo-a rcMlluir. nllo
motejar, M. maldizer. M. malsinar, M. mexericar e sobrerudu M menur m nhr unn
tc,llllll, t' n ttu <JUl' se rondcn.t todos, ou qu a ,. todos os homens do Maranhlo
u~ ralavra • menttr com as obras, mentir com os pen amentos, L!UC de tndo . ~ por
lkwm ''1"~'"· <' ltbnd.tdc\ alhc1a,, l' 1mdc ndo r,•stJtulr. não·" re~tllucm. logo,
lodo. os modos aqui se mente, Novelas, e novelo Ao as duu moedas wrr ntc de t
t<>dn . ou qu,t c toJo se wlllknam I !"
terra, ma tem uma diferença. que as novelas armam se sobre nada. os novelo
armam- c sobre muito, para tudo acr moeda fal a.,,
\inda ne s • s :tm:lo, Vie1ra propi'1\ organizar o cativeiro indígena, d~
min.llldo que sú podcnarn ~e r esct aYizaJ os os índios que estivessem "em cor- Em 1653, Vieira tinha reclamado que nenhuma propo do morudorc
d.t", ou ~eja, os pri~mnc t ro~ que fo~scm resgatados de seus captores para se Maranhão poderia ser resolvida sem que fosse ouvido antes. d dar.mdo
intp<.dit qu• fl'"L'lll comido. l~tmbcm poderiam ser escravizados ind(g

1111 IV tt. p I 6

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JOAO AOOLRJ HANSEN

liv 1 0 ~ h 1 hli~os de [);nm:l c baJ.JS. as Tml'rls do sapateiro de Trancoso, Gonçalo


Ane:, B.mdo.~ rra, o texltl Ut· pmCtllflllda. do jesuíta peruano José de Aco ta, que ao serem capturado tá fossem escravos de seus inimigos; ou n. que fo •
c 11 tre ou11 LJS. fornece m matéria a Vieira para interpretar profeticamente o sen- sem aprisionados em "guerra justa". Nos ca os em que essa condições nlio
tido tran cemk nte da rcvelaç:io da palavra divina para os índios brasileiros se aplicassem. os índios seriam libertados e postos nas aldeias sob a jurisdição
rco.~l11ada pelm jesuítas de~de o século XVI. Segundo sua interpretação, a mis- temporal e espiritual da Companhia de Jesus:
·•n c ,, ratrqucsc ~;1o um mistério da Providi!ncia divina, que faz a Igreja
avan~.u e'-pir llualmc nl~.: ,, redenção humana quando inclui o Novo Mundo no De sorte que nesta fonna todos os (ndios deste estado M:n crão aos portuguese · ou
como própria, c intetramente cativos, que silo os de corda, os de guerra JU,ta, e os qu
grê111io cn'-lac• (~ JU s tamente porqu~.: é ~clvagcm ou "boçal" que o fndio deve
livre, c volunlanamente quiserem servir, como dt semos dos primetros; ou como
cr amurn~.tllJl! n t L' conduzido a superar s~.:u estado de barbárie; quando os meios caltvos, que são todos os das antigas, c novas aldeias, que petn l>em, e con er
colono• o esc1.1viza rn, também são culpados pela descr~.:nça. E a não-conver- vação do estado me consta que, sendo hvres. se sujcuaram a nn~ ~crvir, e aJudar a
s.to 1mp!Jca a perda das almas para Satanás. Nesse sentido, a Coroa portugue- metade do tempo de sua vida. Só resta saber qual será o preço dc:Mes. que chamamos
meios cativos, ou meios livres[ ... ] É matéria de que se nrá qualquer outra naçiln do
'·'..: ant d Kada pm ~eu papel apo~tólico de patrocinadora da missão jesuítica,
mundo, e só nesta terra não se admira."'
que rea liza no tempo o projeto sobrenatural. dando testemunho da Graça.
A\ COJ\Js nao cram tão espirituais em São Luí do Maranhão quando
Os coloniais não cederam à argumentação c Vieira contemporizou, indo
Vt.:ira aí che)!ou Uma ordem r~gi.t que libertava os índios escravizados causa- para o Pará. Lá chegou em 5 de outubro de 1653 c, logo depois, em 13 de
v,, cnt .to talt umultn l ntrc os colono · que ele e os padres recém-desembarca- dezembro de 1653, navegou o rio dos Tocantins. Encontramos um relato minu-
diJs qiiJ\L' l'orn m •·xpulsns. O · coloniai s argumentavam, com total razão, que e vfvido dessa viagem na carta que então dirigiu ao provincial da Compa·
•t,un pobre~ d~ nJaÍ\ p.1ra compmr escravos africanos c que a economia do nhia. Voltando ao Maranhão. como a oposição aos jesuítas aumentava, Vieira
Mat,llth.tu (h' p\:nd ia diretamente U<l brJço indígena, Também alegavam queoa em 22 de março de 1654 o "Sermão da quinta dominga da Quaresma",
1ndio cl.tlll b,irhaJo' c que loua scrvitlão era legitima. Fundamentavam-se em conhecido como "Sermão das mentiras". Com desassombro, promete
11111.1 JLk ,,, tl.t l'flhtrm ari stot~ lica, então corrente. que afirma ser próprio do auditório que vai dizer injúrias e afrontá-lo, falando de uma "grande de on-
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d.t pnmcir 1 domin l.!a da QuarL·srna", pr~:gado em São Luís em 16 dejaneirode a sociedade maranhense de mentir e de assacar calúnias. faz com que o "M'
I()'i'· conhecido como "'\crmão das tl·ntaçÕl!s", Vieira parece querer intimidar de "Maranhão" contamine com a mentira alegada vários verbos inktados por
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~·ao silog•~tJca dot•rrn em que vivem.
E se as letras dest abcccdâno e repartissem pelos estados de Por1u •ai, que l•·tra
tncana no nosso Maranhlo? Nlo hi dúvrda queM. M. Maranhão. M. murmu1 ar 1.
'h'Uil o hnm~m. que dele ~<'li 1\'0. nu ltbc1dadc .tlhcta. l' pt1Liendo-a rcMlluir. nllo
motejar, M. maldizer. M. malsinar, M. mexericar e sobrerudu M menur m nhr unn
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u~ ralavra • menttr com as obras, mentir com os pen amentos, L!UC de tndo . ~ por
lkwm ''1"~'"· <' ltbnd.tdc\ alhc1a,, l' 1mdc ndo r,•stJtulr. não·" re~tllucm. logo,
lodo. os modos aqui se mente, Novelas, e novelo Ao as duu moedas wrr ntc de t
t<>dn . ou qu,t c toJo se wlllknam I !"
terra, ma tem uma diferença. que as novelas armam se sobre nada. os novelo
armam- c sobre muito, para tudo acr moeda fal a.,,
\inda ne s • s :tm:lo, Vie1ra propi'1\ organizar o cativeiro indígena, d~
min.llldo que sú podcnarn ~e r esct aYizaJ os os índios que estivessem "em cor- Em 1653, Vieira tinha reclamado que nenhuma propo do morudorc
d.t", ou ~eja, os pri~mnc t ro~ que fo~scm resgatados de seus captores para se Maranhão poderia ser resolvida sem que fosse ouvido antes. d dar.mdo
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1111 IV tt. p I 6

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f ,

JO O OOLPO HA
u. " f J lmto u f u n que cri i e ta missão por ordern
qu · . l1brc la d1 pô : cu só tenho as notfcias Ambrósio. O polvo com aquele eu capelo, parece um monge, com aquele us ra os
1 1> infomtar e alegar da razões por que estendidos, p8l'tCC uma la, com aquele nlo ter osso nem espmha. parece a mesma
Jda , c o •raví imos danos que do contrário se brandura. a me ma mans1dl . E debai o dest2 aparfnc tio modesta, ou desta h•po-
crisia tão santa. te temunham conte tamente os dous grande Doutores da IgreJa
latina, e grega, que o dito polvo ~ o mmor traidor do mar Constst esta trai llo do
polvo primeiramente em se vestir. ou pmtar das mesmu ores de todas aquelas con: ,
a que está pegado. As con:s, que no camalelo slo gala no polvo são malfCla, as
tndl figuras, que em Proteu ão fãbula, no polvo são verdade. e anJflcto •
m 19 .. r m io .. r~ uiando a questã 1 do trabalho indígena c do poder tem-
poral · pi rilual ohr· o~ índio aldeados. Entre as várias medidas, propõe, Data da Quaresma de 1655 o "Sermão da se agésima", pregado na Ca-
pore cmpl< . que o go emador· nãodc,eriamterjurisdiçãosobreosíndios· pela Real. Nele, Vieira critica os "estilos cultos", a agudezas gongóricas que
lJUC t ·~ tcnam um pr \Curador-geral em cada capitania; que seriam total- então eram usadíssimas pelos seus rivais dominicanos da lnquisiçao, como o
m nt~ ujei o aos r IJgio;.os; que no início de cada ano se faria urna lista de famoso pregador frei Domingos de Santo Tomás. Vieira fundamenta a argu
tod o índ1m de se1viço c de todos os moradores da capitania, para repartir mentação no conceito predicável extraído de Mateus, xm. 3, "Ec e eX!ÍI qUI
I m<11adorc ; que o número de aldeamentos seria reduzidQ. seminat, seminare" (Eis saiu o que semeia a semear}, desenvolvendo-o pala-
para facilitar· m lhc.rar o controle; que índio só poderiam trabalharquatl$ por palavra e acrescentando-lhe semen suum, "a sua semente". O leitor
IIH: • Jor.t de ua • ldcias; que nl!nhum deles deveria trabalhar sem que an1llll
pensar que fala abstratamente do pregador evangélico e da II:Oria da
f•1 c pago; que toda as emana ou a cada quinze dias haveria uma ti mas fala efetivamente de si mesmo e dos mi sionários Jesuftas do
e do Maranhão e Grão-Pará, tamb6n atacando destemidamente o San-
ndc vendcnam se u p1od uto . Além d1 o, somente os eclesiásticos pod •
da Inquisição, quando ataca o estilo do seu maior pregador e di tio-
f tZCI l!ntro~d ''" ~.: ri:Jo; um.t única ordem religiosa, a ser nomeada pelo
duas es~ies de pregadores, "os que ficam" e "os que saem" É nesse
·nc.m • n.t do índios; nenhum deles poderia ser trazido do sertão
que faz o trocadilho "paçofpassos", condensando o programa mi io
Ih preptu,trc m rO<;a c aldl!ia ; o índios de corda seriam resgatad
da Companhia de Jesus. Perguntando ironicamente o que acontecerá
pregadores no Dia do Juízo, afmna que então "Os de cá achar-vos-eis
A ituaç.tn se ag1.tvava. porém, e Vieira decidiu ir a Lisboa para tentar mais paço; os de lá, com mais passos". 25 Ou seja, "o que ficam ·
1111lucm:iar dnctamt.:n tc a r ortt.: em favor da causa jesuítica. Antes, por611, em na Corte, como os dominicanos da Inquisição, com mai apego às
lJ de junh< de Iü5·1. pr egou o f.unosís~imo "Sermão de Santo Antônio", em do mundo, e "os que saem" a pregar nas missões, como os Jesuíta do
que a\ va1 i,ts o.:~p~cics de p1·ixc\ do mar são metáforas das várias esp6cics de ~ll'atthã<o, com mais ações virtuosas e mais sofrimentos. No dommgo seguin
con upçõ • c cnnuptos do Maranhão, do Brasil c de Portugal. Uma PC411Willll~: a quinquagésima, fn:i Domingos de Santo Tomás deu o troco, mas Vieira
Jmo<;U .1 d.1 tll1t.: supcnor dt.: Vicir3 é a alegoria dn polvo. Significando retomou a diatribe. O "Scrmlo da sexagésima" foi escolhido por ele para
ta em gcr.ll. ela 1.1mbém parece aludir a carmcliti.l~. inimigos de Vieira os volumes de suas obras oratórias, ficando conhectdo como o principal
Luís. c .1 dominkanns, seus \'clhos inimi gos do Santo Ofício, no R ino: doutrinário do "m6todo porcupas de pregar'' A1nda na Quaresma de
em Portugal, pregou pa o .-e~ do remo o bdfasimo "Sermio
\I Ja que c\t,unn~ n;l\ cova~ do mar, ante~ qui! s:namos delas, temos IA o trmle
t~m ~uas qur1 a . c gt ande, , n:io menos que Slo Basrllo e Saoro
poli n,' ont1.1 < qual ~ C)WJilUltl~ da alma-...
ladtld',emquelQc&,a &1Mü em JUÍ7ae
l&!taa Vt ira
a~~~----l;.~~
' \o lei P \h•n u \' 1, 161 1 (\I r ), maio 21", em Cartas, l I, Cll., p 589
''r 1 I J o 1\ , l6~J. 11 nl (•". em Cartal t. I, 11, pp 431-441.

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JO O OOLPO HA
u. " f J lmto u f u n que cri i e ta missão por ordern
qu · . l1brc la d1 pô : cu só tenho as notfcias Ambrósio. O polvo com aquele eu capelo, parece um monge, com aquele us ra os
1 1> infomtar e alegar da razões por que estendidos, p8l'tCC uma la, com aquele nlo ter osso nem espmha. parece a mesma
Jda , c o •raví imos danos que do contrário se brandura. a me ma mans1dl . E debai o dest2 aparfnc tio modesta, ou desta h•po-
crisia tão santa. te temunham conte tamente os dous grande Doutores da IgreJa
latina, e grega, que o dito polvo ~ o mmor traidor do mar Constst esta trai llo do
polvo primeiramente em se vestir. ou pmtar das mesmu ores de todas aquelas con: ,
a que está pegado. As con:s, que no camalelo slo gala no polvo são malfCla, as
tndl figuras, que em Proteu ão fãbula, no polvo são verdade. e anJflcto •
m 19 .. r m io .. r~ uiando a questã 1 do trabalho indígena c do poder tem-
poral · pi rilual ohr· o~ índio aldeados. Entre as várias medidas, propõe, Data da Quaresma de 1655 o "Sermão da se agésima", pregado na Ca-
pore cmpl< . que o go emador· nãodc,eriamterjurisdiçãosobreosíndios· pela Real. Nele, Vieira critica os "estilos cultos", a agudezas gongóricas que
lJUC t ·~ tcnam um pr \Curador-geral em cada capitania; que seriam total- então eram usadíssimas pelos seus rivais dominicanos da lnquisiçao, como o
m nt~ ujei o aos r IJgio;.os; que no início de cada ano se faria urna lista de famoso pregador frei Domingos de Santo Tomás. Vieira fundamenta a argu
tod o índ1m de se1viço c de todos os moradores da capitania, para repartir mentação no conceito predicável extraído de Mateus, xm. 3, "Ec e eX!ÍI qUI
I m<11adorc ; que o número de aldeamentos seria reduzidQ. seminat, seminare" (Eis saiu o que semeia a semear}, desenvolvendo-o pala-
para facilitar· m lhc.rar o controle; que índio só poderiam trabalharquatl$ por palavra e acrescentando-lhe semen suum, "a sua semente". O leitor
IIH: • Jor.t de ua • ldcias; que nl!nhum deles deveria trabalhar sem que an1llll
pensar que fala abstratamente do pregador evangélico e da II:Oria da
f•1 c pago; que toda as emana ou a cada quinze dias haveria uma ti mas fala efetivamente de si mesmo e dos mi sionários Jesuftas do
e do Maranhão e Grão-Pará, tamb6n atacando destemidamente o San-
ndc vendcnam se u p1od uto . Além d1 o, somente os eclesiásticos pod •
da Inquisição, quando ataca o estilo do seu maior pregador e di tio-
f tZCI l!ntro~d ''" ~.: ri:Jo; um.t única ordem religiosa, a ser nomeada pelo
duas es~ies de pregadores, "os que ficam" e "os que saem" É nesse
·nc.m • n.t do índios; nenhum deles poderia ser trazido do sertão
que faz o trocadilho "paçofpassos", condensando o programa mi io
Ih preptu,trc m rO<;a c aldl!ia ; o índios de corda seriam resgatad
da Companhia de Jesus. Perguntando ironicamente o que acontecerá
pregadores no Dia do Juízo, afmna que então "Os de cá achar-vos-eis
A ituaç.tn se ag1.tvava. porém, e Vieira decidiu ir a Lisboa para tentar mais paço; os de lá, com mais passos". 25 Ou seja, "o que ficam ·
1111lucm:iar dnctamt.:n tc a r ortt.: em favor da causa jesuítica. Antes, por611, em na Corte, como os dominicanos da Inquisição, com mai apego às
lJ de junh< de Iü5·1. pr egou o f.unosís~imo "Sermão de Santo Antônio", em do mundo, e "os que saem" a pregar nas missões, como os Jesuíta do
que a\ va1 i,ts o.:~p~cics de p1·ixc\ do mar são metáforas das várias esp6cics de ~ll'atthã<o, com mais ações virtuosas e mais sofrimentos. No dommgo seguin
con upçõ • c cnnuptos do Maranhão, do Brasil c de Portugal. Uma PC411Willll~: a quinquagésima, fn:i Domingos de Santo Tomás deu o troco, mas Vieira
Jmo<;U .1 d.1 tll1t.: supcnor dt.: Vicir3 é a alegoria dn polvo. Significando retomou a diatribe. O "Scrmlo da sexagésima" foi escolhido por ele para
ta em gcr.ll. ela 1.1mbém parece aludir a carmcliti.l~. inimigos de Vieira os volumes de suas obras oratórias, ficando conhectdo como o principal
Luís. c .1 dominkanns, seus \'clhos inimi gos do Santo Ofício, no R ino: doutrinário do "m6todo porcupas de pregar'' A1nda na Quaresma de
em Portugal, pregou pa o .-e~ do remo o bdfasimo "Sermio
\I Ja que c\t,unn~ n;l\ cova~ do mar, ante~ qui! s:namos delas, temos IA o trmle
t~m ~uas qur1 a . c gt ande, , n:io menos que Slo Basrllo e Saoro
poli n,' ont1.1 < qual ~ C)WJilUltl~ da alma-...
ladtld',emquelQc&,a &1Mü em JUÍ7ae
l&!taa Vt ira
a~~~----l;.~~
' \o lei P \h•n u \' 1, 161 1 (\I r ), maio 21", em Cartas, l I, Cll., p 589
''r 1 I J o 1\ , l6~J. 11 nl (•". em Cartal t. I, 11, pp 431-441.

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SERMàES

JOÃO ADOLFO HANSEN


bo latino rapio, ''rapinar'', dizendo que os ladrões de lá e os de cá sempre
roubam em todo os eu modos c tempos: m1l cruzados em três anos, segundo se lhe vão logrando bem as indu.,rnas. Tudo 1sto sat
do sangue e do ,uor do tristes fndios, aos quats trata como escra,os seus. que nenhum
:'\:io são só IJdrõe·, diz o Santo, os que cortam bolsas. ou espreitam os que se vão tem lihcrdad~ nem p.u-a dctxar de servir a ele nem para poder servir a outrem [.. F'
bar:har. para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem
este titul • são aquele a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou Depois da morte de D. João IV, passou a definir explicitamente como
0
go\ em o das provinctas. ou a administração das cidades, os quais jâ com manha, já "heresia" a escravidão dos índios e a violência dos colonos contr.t os jesuítas.
com força. roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes Escrevendo ao amigo, padre André Fernandes, diz que os jesuítas vivem no
roub::m ctdades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor. nem Maranhão e Grão-Pará"[ ... ] um inferno abreviado". 78 Em carta de 20 de abril
pengo. os outros. se furtam, são enforcados, estes furtam c enforcam. Diógenes, que de 1657 para o novo rei, D. Afonso VI, é terrível a afirmação sobre os dois
tudo \ia com mais aguda v1sta que os outros homens, viu que uma grande tropa de milhões de índios mortos pelos portugueses. Na data, o rei tinha 14 anos e
'aras e ministros de JUSttça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: " Lá
pode-se supor que efetivamente se dirigia à regente, a rainha-mãe D. Luísa de
:lo os ladrões grandes enforcar os pequenos''. Dtlosa Gréc1a, que unha tal prega-
dor''• Gusmão, e ao Conselho Ultramarino. Ele ere valido da rainha e provavelmente
esperava medidas favoráveis que viessem reforçar sua autoridade:
Em 9 de abril de 1655, obteve uma provisão régia determinando várias
Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões mats
medidas fa,orá,ei s aos jesuítas e aos índios; em 16 de abril de 1655, voltou de dois milhões de índios. e mais de quinhentas povoações como grandes cidades. e
p;u-a o. Iaranhão. pondo-a em práti ·a imediatamente. Segundo a provisão, os disto nunca se viu castigo [... ] no ano de mil, seiscentos e cincDl'nta e cinco. se
coloniais não mais podiam declarar guerra aos índios sem autorização da Co- cativaram no rio das Amazonas dois mil índios, entre os quais muitos eram amigos e
roa: os índios catequizados seriam aldeados e governados por seus chefes com aliados dos portugueses, e vassalos de V. M., tudo contra a d1sposição da lc1 que \cio
naquele ano a este Estado, e tudo mandado obrar pelos mesmos que unham maior
a orientação da Companhia de Jesus; os comandantes das expedições que obrigação de fazer observar a mesma lei.29
fossem ao sertlio para resgatar ''índios de corda" - efetivamente, escravizar
quai quer índios bravos que encontrassem-, seriam indicados pelos jesuítas. Enquanto essas tiranias ocorriam no Maranhão, diz, não houve ninguém.
A reação dos civis e eclesiásticos maranhenses foi violentíssima, mas o gover- secular ou religioso, que zelasse pela salvação das almas dos índios, que foram
nador André Vidal de Negreiros apoiava Vieira. Mandou prender e julgar os para o inferno. Por isso, vê nos adversários dos jesuítas a instigação do demô-
responsáveis pelos tumultos e os degredou. Outra vez, a roda da Fortuna girou. nio "[ ... ] para impedir o bem espiritual tanto dos portugueses como dos índios.
A vitória de Vieira durou pouco: seu protetor, o rei D. João IV, morreu em 6 de que uns com os outros se iam ao inferno". O que contraria radicalmente a
DO\ embro de 165u. A profecia do Quinto Império não se havia cumprido quan- destinação divina de Portugal como nação universalizadora da cristandade:
do o rei estava vivo; logo, como o rei era essencial no seu projeto salvífico,
Vieira afirmou que D. João IV ia ressuscitar. Os outros reinos da cristandade [...] têm por fim a conservação dos vassalo • em
ordem à felicidade temporal nesta vida, e à felicidade eterna na outra: o reino dc.-
Em 4 de abril de 1654, tinha enviado carta ao rei, falando-lhe da corrupção Portugal, de mais deste fim universal a todos, tem por fim particular e própno a
dos governadores do Maranhão e Grão-Pará e "do sangue e do suor dos tristes propagação e a extensão da f6 católica nas terras dos gentios, para que Deus o levan-
dos índios": tou e instituiu; e quanto Portugal mais se ~tar com este fim. tanto maJs t'Crta e
segura será sua conservaçlo; e quanto mais se desviar dele tanto maJ duVIdosa c
arriscada.30
Tru~ são os d01~ capnães-morcs em que se repartiu este governo: Baltasar de Sousa não
tem nada, lnâcto do Rego não lhe basta nada; e eu não sei qual é maior tentação, se a
necessidade, se a cobtça. Tudo quanto há na capttanta do Pará, tirando as terras, não vale LXVII Ao roi D. Joio IV. l6S4. aWU•, an CGnias, I. l, e1L, pp 416-417.
dez mtl cruzados, como é notório, e desta terra há de tirar Inácio do Rego mais de cem l.XXVL AD padrt A1ltW ~ II$5G ('r OD: Cartas. t I, c:iL, p 4S9
JJCXVU. Ao rei D Atba$0 W. tCíll .U ~ fllt. Qlrfa.r, t I. et~. p 468
4iQ.
o de. bom ladrão". em S•mrõe~, v. V, cit, p. 65 .

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JOÃO ADOLFO HANSEN


bo latino rapio, ''rapinar'', dizendo que os ladrões de lá e os de cá sempre
roubam em todo os eu modos c tempos: m1l cruzados em três anos, segundo se lhe vão logrando bem as indu.,rnas. Tudo 1sto sat
do sangue e do ,uor do tristes fndios, aos quats trata como escra,os seus. que nenhum
:'\:io são só IJdrõe·, diz o Santo, os que cortam bolsas. ou espreitam os que se vão tem lihcrdad~ nem p.u-a dctxar de servir a ele nem para poder servir a outrem [.. F'
bar:har. para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem
este titul • são aquele a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou Depois da morte de D. João IV, passou a definir explicitamente como
0
go\ em o das provinctas. ou a administração das cidades, os quais jâ com manha, já "heresia" a escravidão dos índios e a violência dos colonos contr.t os jesuítas.
com força. roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes Escrevendo ao amigo, padre André Fernandes, diz que os jesuítas vivem no
roub::m ctdades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor. nem Maranhão e Grão-Pará"[ ... ] um inferno abreviado". 78 Em carta de 20 de abril
pengo. os outros. se furtam, são enforcados, estes furtam c enforcam. Diógenes, que de 1657 para o novo rei, D. Afonso VI, é terrível a afirmação sobre os dois
tudo \ia com mais aguda v1sta que os outros homens, viu que uma grande tropa de milhões de índios mortos pelos portugueses. Na data, o rei tinha 14 anos e
'aras e ministros de JUSttça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: " Lá
pode-se supor que efetivamente se dirigia à regente, a rainha-mãe D. Luísa de
:lo os ladrões grandes enforcar os pequenos''. Dtlosa Gréc1a, que unha tal prega-
dor''• Gusmão, e ao Conselho Ultramarino. Ele ere valido da rainha e provavelmente
esperava medidas favoráveis que viessem reforçar sua autoridade:
Em 9 de abril de 1655, obteve uma provisão régia determinando várias
Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões mats
medidas fa,orá,ei s aos jesuítas e aos índios; em 16 de abril de 1655, voltou de dois milhões de índios. e mais de quinhentas povoações como grandes cidades. e
p;u-a o. Iaranhão. pondo-a em práti ·a imediatamente. Segundo a provisão, os disto nunca se viu castigo [... ] no ano de mil, seiscentos e cincDl'nta e cinco. se
coloniais não mais podiam declarar guerra aos índios sem autorização da Co- cativaram no rio das Amazonas dois mil índios, entre os quais muitos eram amigos e
roa: os índios catequizados seriam aldeados e governados por seus chefes com aliados dos portugueses, e vassalos de V. M., tudo contra a d1sposição da lc1 que \cio
naquele ano a este Estado, e tudo mandado obrar pelos mesmos que unham maior
a orientação da Companhia de Jesus; os comandantes das expedições que obrigação de fazer observar a mesma lei.29
fossem ao sertlio para resgatar ''índios de corda" - efetivamente, escravizar
quai quer índios bravos que encontrassem-, seriam indicados pelos jesuítas. Enquanto essas tiranias ocorriam no Maranhão, diz, não houve ninguém.
A reação dos civis e eclesiásticos maranhenses foi violentíssima, mas o gover- secular ou religioso, que zelasse pela salvação das almas dos índios, que foram
nador André Vidal de Negreiros apoiava Vieira. Mandou prender e julgar os para o inferno. Por isso, vê nos adversários dos jesuítas a instigação do demô-
responsáveis pelos tumultos e os degredou. Outra vez, a roda da Fortuna girou. nio "[ ... ] para impedir o bem espiritual tanto dos portugueses como dos índios.
A vitória de Vieira durou pouco: seu protetor, o rei D. João IV, morreu em 6 de que uns com os outros se iam ao inferno". O que contraria radicalmente a
DO\ embro de 165u. A profecia do Quinto Império não se havia cumprido quan- destinação divina de Portugal como nação universalizadora da cristandade:
do o rei estava vivo; logo, como o rei era essencial no seu projeto salvífico,
Vieira afirmou que D. João IV ia ressuscitar. Os outros reinos da cristandade [...] têm por fim a conservação dos vassalo • em
ordem à felicidade temporal nesta vida, e à felicidade eterna na outra: o reino dc.-
Em 4 de abril de 1654, tinha enviado carta ao rei, falando-lhe da corrupção Portugal, de mais deste fim universal a todos, tem por fim particular e própno a
dos governadores do Maranhão e Grão-Pará e "do sangue e do suor dos tristes propagação e a extensão da f6 católica nas terras dos gentios, para que Deus o levan-
dos índios": tou e instituiu; e quanto Portugal mais se ~tar com este fim. tanto maJs t'Crta e
segura será sua conservaçlo; e quanto mais se desviar dele tanto maJ duVIdosa c
arriscada.30
Tru~ são os d01~ capnães-morcs em que se repartiu este governo: Baltasar de Sousa não
tem nada, lnâcto do Rego não lhe basta nada; e eu não sei qual é maior tentação, se a
necessidade, se a cobtça. Tudo quanto há na capttanta do Pará, tirando as terras, não vale LXVII Ao roi D. Joio IV. l6S4. aWU•, an CGnias, I. l, e1L, pp 416-417.
dez mtl cruzados, como é notório, e desta terra há de tirar Inácio do Rego mais de cem l.XXVL AD padrt A1ltW ~ II$5G ('r OD: Cartas. t I, c:iL, p 4S9
JJCXVU. Ao rei D Atba$0 W. tCíll .U ~ fllt. Qlrfa.r, t I. et~. p 468
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SE. 'ÓES

Eml~.v~r•·~~~-.-.all
é indicativo de que IÍBdlea•ilo·---~-.11
porém. e. quandodeeidiu irpla:aPIItit.flflllldM
pelos colonos de Bel6m.

Ao voltar derrotado para Portugal. o SadiO Olfeió '1fji11Jilfl~ lira,~· ·


inquiri-lo sobre suas profecias baseadas nas Tmwudo BuiJaitat*!lailll~t
na carta para o bispo do Japão. Encerrando o ctclo du mlu&s ao
~Iaranhão. para onde nunca mais voltaria, em 6 de janeu-o de 1662 ieira
pregou o !.ermão que é, como diz Thomas Cohen em um livro mag111fic:o, o
mais importante que jamais pregou sobre o Brasil. 33 o ..Sermlo da Epifa-
ema que escre,eu para o
nia ... :\ele transparece sua ira e, simultaneamente. a firme detenninaçio
o rei • ·a carta. acusa tam-
cristã de incluir os colonos que expulsaram os jesuítas do Maranhão e Grão-
da proibição de escravizar
Pará no projeto salvífico por meio de uma nova tentativa de conciliaçio.
Com ela_ ao mesmo tempo dissolve as resistências e reforça a justiça alegada
da sua posição. No exórdio, afirma que está mudo e que será o E~·angelho
que falará por ele. A data da Epifania comemora o mistério da vocação e
a conversão dos gentios à Fé. Segundo Vieira, até o dia em que está pre-
gando, a Igreja comemorou, na data, o nascimento de Cristo. No dia em
que prega, diz, a data celebra o nascimento da Cristandade. E ta resulta da
incorporação do ovo Mundo descoberto por Portugal à missão jesuítica.
a data também se comemora a humanidade de Cri to visitado pelos três
reis magos . Citando o texto bíblico e intérpretes. Vieira afirma que eram
três porque representavam a Ásia, a África c a Europa, mas não a Améri-
ca, que faltava na adoração de Deus. O quarto rei c~perado é o que traz a
América para Cristo. É um rei português. ou melhor, a "pcs oa mfstica"
que foi encarnada por grandes reis portugueses dos séculos XV e XVI, D
leiS d~ V \I , e porque damo' tonta a V M dos excessos com João 11. D. Manuel c D. Joüo llJ: "Para melhor intcligênda desta duas
dc;pr~zJd , e porque ~tenJemch a lthcrdade e JUsttç.l do' mrser~v~rs fndrns
vocações. ou destas duas Epifanias, havemos de supor que ne te me mo
cu t < e qu de rr ,. o wnvert~ndn, t' sobretudo porque \Oillm c\turvo ao'
mundo l'tn diferentes tempos houve dois mundos: o Mundo Velho. que co-

C'lul•·
11
l'hom.,, Co ht:n, " I h~· t t'~
Mn\lnnmv c ltmt 11 ltl u,,,
llll'inl l•tuphan) , \ll1 Ih,. ,.,,... o/ lu11111'
1l u11,J l'.ut•"i ••l (\1 nlunJ, Cahfórnta tanford UDi.WI'Iify
•*
nldltle ltrhtt

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SE. 'ÓES

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é indicativo de que IÍBdlea•ilo·---~-.11
porém. e. quandodeeidiu irpla:aPIItit.flflllldM
pelos colonos de Bel6m.

Ao voltar derrotado para Portugal. o SadiO Olfeió '1fji11Jilfl~ lira,~· ·


inquiri-lo sobre suas profecias baseadas nas Tmwudo BuiJaitat*!lailll~t
na carta para o bispo do Japão. Encerrando o ctclo du mlu&s ao
~Iaranhão. para onde nunca mais voltaria, em 6 de janeu-o de 1662 ieira
pregou o !.ermão que é, como diz Thomas Cohen em um livro mag111fic:o, o
mais importante que jamais pregou sobre o Brasil. 33 o ..Sermlo da Epifa-
ema que escre,eu para o
nia ... :\ele transparece sua ira e, simultaneamente. a firme detenninaçio
o rei • ·a carta. acusa tam-
cristã de incluir os colonos que expulsaram os jesuítas do Maranhão e Grão-
da proibição de escravizar
Pará no projeto salvífico por meio de uma nova tentativa de conciliaçio.
Com ela_ ao mesmo tempo dissolve as resistências e reforça a justiça alegada
da sua posição. No exórdio, afirma que está mudo e que será o E~·angelho
que falará por ele. A data da Epifania comemora o mistério da vocação e
a conversão dos gentios à Fé. Segundo Vieira, até o dia em que está pre-
gando, a Igreja comemorou, na data, o nascimento de Cristo. No dia em
que prega, diz, a data celebra o nascimento da Cristandade. E ta resulta da
incorporação do ovo Mundo descoberto por Portugal à missão jesuítica.
a data também se comemora a humanidade de Cri to visitado pelos três
reis magos . Citando o texto bíblico e intérpretes. Vieira afirma que eram
três porque representavam a Ásia, a África c a Europa, mas não a Améri-
ca, que faltava na adoração de Deus. O quarto rei c~perado é o que traz a
América para Cristo. É um rei português. ou melhor, a "pcs oa mfstica"
que foi encarnada por grandes reis portugueses dos séculos XV e XVI, D
leiS d~ V \I , e porque damo' tonta a V M dos excessos com João 11. D. Manuel c D. Joüo llJ: "Para melhor intcligênda desta duas
dc;pr~zJd , e porque ~tenJemch a lthcrdade e JUsttç.l do' mrser~v~rs fndrns
vocações. ou destas duas Epifanias, havemos de supor que ne te me mo
cu t < e qu de rr ,. o wnvert~ndn, t' sobretudo porque \Oillm c\turvo ao'
mundo l'tn diferentes tempos houve dois mundos: o Mundo Velho. que co-

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o dos autores. e e~ecutores destes ~ tmlaS vaes,.

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SERM6F.S

rqo tradal ~ causa~ do cauve1ro licito Mas porque nós queremos s6 os lfcifot,
deléndetnos (pr01b1mo ) os Jlfc•tos, por 1sso nos nAo querem naquela terra, e
la amd la

Quais são os •·remédios" propostos? "O primeiro e fundamental de


era que aquelas terras fo sem povoadas com gente de melhores COIItiiiiDeiL~
\WJadeiramentc cristã.''" Aqui, critica a colonização portuguesa corndeál:i
d..do , demon trando a contradição existente no fato de o regimento doa
. ernadores detennínar que a" ida dos portugueses deve ser honesta pa
~ exemplo na conv rsão dos índios e, ao mesmo tempo"[ .•.] os ~roadM
man am par:1 as mesmas terras são os criminosos e malfeitores
do f Jo das enxo ias. e levados a embarcar em grilbaes".•
o.. ro "remédio" é "[ ... ] a boa eleição dos sujeitos a quem se
·· ·nda. "[ .] é que as congregações eclesiMticas daGiedfeàMi
e is sujeitos. que saibam dizer a verdadeeqa~a·a•
. 'que todos [os remédios} que l'on!:aUIIISC!e. .ill•dl
c I ra daquelas almas, se lhes devem nios6tdlll

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SERM6F.S

rqo tradal ~ causa~ do cauve1ro licito Mas porque nós queremos s6 os lfcifot,
deléndetnos (pr01b1mo ) os Jlfc•tos, por 1sso nos nAo querem naquela terra, e
la amd la

Quais são os •·remédios" propostos? "O primeiro e fundamental de


era que aquelas terras fo sem povoadas com gente de melhores COIItiiiiDeiL~
\WJadeiramentc cristã.''" Aqui, critica a colonização portuguesa corndeál:i
d..do , demon trando a contradição existente no fato de o regimento doa
. ernadores detennínar que a" ida dos portugueses deve ser honesta pa
~ exemplo na conv rsão dos índios e, ao mesmo tempo"[ .•.] os ~roadM
man am par:1 as mesmas terras são os criminosos e malfeitores
do f Jo das enxo ias. e levados a embarcar em grilbaes".•
o.. ro "remédio" é "[ ... ] a boa eleição dos sujeitos a quem se
·· ·nda. "[ .] é que as congregações eclesiMticas daGiedfeàMi
e is sujeitos. que saibam dizer a verdadeeqa~a·a•
. 'que todos [os remédios} que l'on!:aUIIISC!e. .ill•dl
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JC una M nuel
a ( ta apre entaram a D. Ped um proJ t d perd ra n -
-n v . Como condi ã para o me mo. C d 1 rmm u qu o ri
tão -novo de riam financiar Companhi P nugu d Índi On ntats.
Companhia ra um elh projeto de 1 ira49 e Antônio Corret Bra • Pedro
Álvare Caldas e Manuel da Gama de Pádua, riquí imos merciant s cri
tãos-novo • dispuseram-se a financtá-1 Em Li boa, ontudo, aumenta a
murmuração popular contra os jud us. Uma c n piração am a ou Pedro,
em 1673, com o retomo de D. Afonso I, enta ilado na ad 1ra. Correram
boatos de que era apoiada por cristãos-novos Em 1674. as Corte de Li boa
opuseram-se ao perdão geral e fizeram a Coroa d istir do projeto da Comp -
nhia das Índias. Os comerciantes cristãos-novos ainda tentaram bt r o fa'<or
do papa, oferecendo 500.000 cruzados à Cúria romana para a guerra da Polôma
contra os turcos otomanos. Nesse ano, o papa determinou a suspen o dos
autos-da-fé, exigindo que a Inquisição mandasse para Roma uma compilação
Ro 1 • 1669-1675
dos processos para exame de suas atividades. Apesar da ordem papal, o prín-
cipe D. Pedro proibiu o inquisidor-geral de remeter os papéis A murmura ã
P.tra fins de te texto. bata dizer qu'. em Roma, Vieira freqUentou o
da plebe aumentou e pasquins infamantes circularam: "Quem deseJar ser JU-
P la 10 RrJri >. d.~rainha Cri tina da Suécia, pas ando a pregarem italiano a partir deu, herege, sodomita, e casar três vezes, vá falar com o padre Manuel
d I T!. Em I67·t, na Acad mia Real de Roma c no Palácio de Cristina da Suécia, Fernandes, confessor de Sua Majestade, e com Manuel da Gama de Pádua e
pr po e um problema· se o mundo em mais digno de ri o ou de lágrimas; e qual Pedro Álvares Caldas, que tem bulas do padre Quental para tud As Con
do dor and.tíJ ma1~ pmden te, · Demócrito. que ria sempre, se Heráclito, que de 1679-1680 infonnaram a D. Pedro seu desejo de que o Santo Ofk1o reto-
cmpr c h or~na . Vierra cnt.to pregou o sc nnão "As lágrimas de Heráclito", masse as práticas suspensas. Em 1680, morreu Manuel da Gama de Pádua, o
cncendn o prcgad(lr itali,lf1o (ii rolamo Cattaneo, autor do sennão "O riso de comerciante que havia conseguido interessar a C6ria romana pela c usa c
D m ' nto" Era lamo'Í'\ irno, ma' se u principal ohjctívo na cidade era livrar-se ti-nova. Manuel Fernandes demitiu-se da fUnçlo de CODfeuor real. obede
daj uri,drç<~o da lnqu r"ilrao portuguc a. Em 17 de ahril de 1675, o papa Clemente cendoaoOeralda ompanhiadeJesva. Eina&Oifocfe le&l,opapa restabeleceu
I ·concedeu Ih•' um hrc\'t.: que o lr Ha\a do tribunal c o absolvia de todas aa a Inquiaiçlo em Portugal. Nesse ano e no soptnte.. muit.oa c:omercíante& cri
r·stnçix:s c penas. ·,10 quis ficar em Roma c, em agosto de 1675, chegava tios-novos foram presos. Bm 1682, D. P~emf.Jsboa um pode
nov.tm ·r11e .1 Li hoa Ainda acred itava ser capaz de influenciar a Corte em favor
dos cristãos· no~ os contr.t .t lnqUI. ição, quarta entidade que, sem ser fome, peste
nc.m gucna. L,tu. a\ a calarmdadcs rgualmcntc lastimosas no comum e particular do
rcrno, comocscrc\cu em 1690 .to conde de Ca tela Melhor." Mais uma vez, sem
succs~o. I>. Pedro o ignorou, mantendo-o a distância. Quando voltou para o
em 1681. em a sétima c últtma vct quL' atravessava o Atlântico.

nla an ( "ndc rl ( 'a ,tclu Mdhor [600, JU[ho 15", em Cartas, I [JI, c:il, p. 593.

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JC una M nuel
a ( ta apre entaram a D. Ped um proJ t d perd ra n -
-n v . Como condi ã para o me mo. C d 1 rmm u qu o ri
tão -novo de riam financiar Companhi P nugu d Índi On ntats.
Companhia ra um elh projeto de 1 ira49 e Antônio Corret Bra • Pedro
Álvare Caldas e Manuel da Gama de Pádua, riquí imos merciant s cri
tãos-novo • dispuseram-se a financtá-1 Em Li boa, ontudo, aumenta a
murmuração popular contra os jud us. Uma c n piração am a ou Pedro,
em 1673, com o retomo de D. Afonso I, enta ilado na ad 1ra. Correram
boatos de que era apoiada por cristãos-novos Em 1674. as Corte de Li boa
opuseram-se ao perdão geral e fizeram a Coroa d istir do projeto da Comp -
nhia das Índias. Os comerciantes cristãos-novos ainda tentaram bt r o fa'<or
do papa, oferecendo 500.000 cruzados à Cúria romana para a guerra da Polôma
contra os turcos otomanos. Nesse ano, o papa determinou a suspen o dos
autos-da-fé, exigindo que a Inquisição mandasse para Roma uma compilação
Ro 1 • 1669-1675
dos processos para exame de suas atividades. Apesar da ordem papal, o prín-
cipe D. Pedro proibiu o inquisidor-geral de remeter os papéis A murmura ã
P.tra fins de te texto. bata dizer qu'. em Roma, Vieira freqUentou o
da plebe aumentou e pasquins infamantes circularam: "Quem deseJar ser JU-
P la 10 RrJri >. d.~rainha Cri tina da Suécia, pas ando a pregarem italiano a partir deu, herege, sodomita, e casar três vezes, vá falar com o padre Manuel
d I T!. Em I67·t, na Acad mia Real de Roma c no Palácio de Cristina da Suécia, Fernandes, confessor de Sua Majestade, e com Manuel da Gama de Pádua e
pr po e um problema· se o mundo em mais digno de ri o ou de lágrimas; e qual Pedro Álvares Caldas, que tem bulas do padre Quental para tud As Con
do dor and.tíJ ma1~ pmden te, · Demócrito. que ria sempre, se Heráclito, que de 1679-1680 infonnaram a D. Pedro seu desejo de que o Santo Ofk1o reto-
cmpr c h or~na . Vierra cnt.to pregou o sc nnão "As lágrimas de Heráclito", masse as práticas suspensas. Em 1680, morreu Manuel da Gama de Pádua, o
cncendn o prcgad(lr itali,lf1o (ii rolamo Cattaneo, autor do sennão "O riso de comerciante que havia conseguido interessar a C6ria romana pela c usa c
D m ' nto" Era lamo'Í'\ irno, ma' se u principal ohjctívo na cidade era livrar-se ti-nova. Manuel Fernandes demitiu-se da fUnçlo de CODfeuor real. obede
daj uri,drç<~o da lnqu r"ilrao portuguc a. Em 17 de ahril de 1675, o papa Clemente cendoaoOeralda ompanhiadeJesva. Eina&Oifocfe le&l,opapa restabeleceu
I ·concedeu Ih•' um hrc\'t.: que o lr Ha\a do tribunal c o absolvia de todas aa a Inquiaiçlo em Portugal. Nesse ano e no soptnte.. muit.oa c:omercíante& cri
r·stnçix:s c penas. ·,10 quis ficar em Roma c, em agosto de 1675, chegava tios-novos foram presos. Bm 1682, D. P~emf.Jsboa um pode
nov.tm ·r11e .1 Li hoa Ainda acred itava ser capaz de influenciar a Corte em favor
dos cristãos· no~ os contr.t .t lnqUI. ição, quarta entidade que, sem ser fome, peste
nc.m gucna. L,tu. a\ a calarmdadcs rgualmcntc lastimosas no comum e particular do
rcrno, comocscrc\cu em 1690 .to conde de Ca tela Melhor." Mais uma vez, sem
succs~o. I>. Pedro o ignorou, mantendo-o a distância. Quando voltou para o
em 1681. em a sétima c últtma vct quL' atravessava o Atlântico.

nla an ( "ndc rl ( 'a ,tclu Mdhor [600, JU[ho 15", em Cartas, I [JI, c:il, p. 593.

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SERMÕES

JOÃO ADOLFO HANSE:-.1


auto-da-f,~ para o qual foram levados prisioneiros de outras cidades de Portu-
gal. Em Coimbra. estudantes arruaceiros queimaram um boneco vestido de jesuíticas do Sul, como tinham feito nas reduções espanholas do Guairá no
jesuíta, declarando que era Vieira. judeu vendido para judeus. Em 1681, ele início do século XVII:
tinha retomado para a Bahia, "deserto", "desterro", "purgatório", como tantas
vezes repele nas cartas que escreveu da Quinta do Tanque, uma chácara onde (.. .]não duvidei escrever a EJ-re1, pai de S. M.. que tanto podia ele pôr lei aos índ1os
os jesuítas aclimatavam plantas da África e da Ásia em Salvador. como aos mglescs e franceses; e, querendo-me argumentar dcpo1s em contrário em
Desse deserto ou desterro, entre 1681 e 1694, enviou muitas cartas para presença do Marquês de Gouve1a, o Conde de Soure. Prestdentc do Conselho Ultra·
marino.lhe d1sse eu que os fnd1os eram mais livres que S Sas.. porque eles ao menos
a Europa pelas frotas anuais. São cartas deliberativas e judiciais, familiares e
nasceram vassalos, e os fndios não, e eram lão absolutos senhores de suas liberdades
negociai . tratando dos assuntos particulares e públicos do império: a crise da como das suas terras."'
economia açucare1ra; a seca: a fome; o cometa; a "bicha", a febre amarela
vinda nos navios negreiros. Data de 1683 seu conflito com o governador Antô- Na mesma época, contudo, outro jesuíta, o padre vi itador Luís Mami:mi,
nio de Sousa de .!\.Ieneses. o ''Braço de Prata". O governador tinha perdido um quando fez seu relatório sobre o colégio de São Paulo. informou que nas fazen-
braço na guerras pernambucanas aos holandeses. e costumava trazer, sob o das dos jesuítas não havia distinção na divisão das tarefas entre os quase 300
casaco. um braço artificial de prata amarrado ao pescoço. Vieira o chamou. índios e as várias dezenas de escravos africanos. Mamiani concluía então que
ma]\'adamente, de ·'meio homem". Na ocasião, o alcaide de Salvador foi as- 80% da renda do colégio vinham do trabalho indígena. 51 Em 1696, o rei deu
sas inado por mascarados em uma manhã de domingo, quando saía da missa. razão aos paulistas. Em 1694, em uma carta geral para a nobreza de Portugal.
Pertenciam ao clã de Vieira, pois eram homens de Bernardo Vieira Ravasco, Vieira se havia despedido do grande teatro do mundo. Ressuscitado das cinzas
eu ;rmão e secretário do Estado do Brasil. Pesou sobre Vieira a suspeita de de Coimbra, ainda retocaria a arte de morrer até 17 de julho de 1697, esperan-
ser mandante do crime. Indo a palácio para exigir outro tratamento do gover- do o favor real, que nunca veio.
n dor. que mandara os soldados invadir a igreja onde os criminosos estavam
si lado e mantinha Bernardo preso, foi destratado por Sousa de Meneses, que
ao berros o pôs para fora do palácio. as cartas que então envia para amigos
da no reza, em Portugal. sua referência ao fato é altiva e irônica: lembrando
ter sido honrado nos ma cres palácios da Europa e da Nova Espanha, afirma
que fOI preciso voltar à Bahia para ser assassino de homens e ser expulso do
palácio loc ... l por um "meio homem". Também datam desse tempo suas medi-
ações e plenos para liYTar o irmão do cárcere e proteger o sobrinho, Gonçalo
Rava.;co de Al buquerque Cavalcante, refugiado na Corte, da fúria do gover-
nador.
, ·o ermão quepregaem 1684nasexéquias darainha,D.MariaFrancisca
Isabel de Sabóia, o maior e)ogio da defunta que sempre o desprezou tem uma
ponta atre• idíssima de desdém irônico também observável na sua correspon-
êncra para o conde da Ericeira. Em 1690 e 1692, opôs-se aos habitantes de
S 'J Paulo no negócio dos índios. Em 1694, emitiu parecer sobre dezesseis
ú~ ida que tinham acerca da administração do gentio, dando voto contrário a
eles. Ind1gnado com o descimento de indígenas, escreve a D. Pedro li Tr"'""""u-c·"'
das redu-õcs je uíticas. Defende mais uma vez a velha posição da CCIIDJ~8IID1l~
con r o bandeirante de São Paulo. que continuavam assaltando as

52

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SERMÕES

JOÃO ADOLFO HANSE:-.1


auto-da-f,~ para o qual foram levados prisioneiros de outras cidades de Portu-
gal. Em Coimbra. estudantes arruaceiros queimaram um boneco vestido de jesuíticas do Sul, como tinham feito nas reduções espanholas do Guairá no
jesuíta, declarando que era Vieira. judeu vendido para judeus. Em 1681, ele início do século XVII:
tinha retomado para a Bahia, "deserto", "desterro", "purgatório", como tantas
vezes repele nas cartas que escreveu da Quinta do Tanque, uma chácara onde (.. .]não duvidei escrever a EJ-re1, pai de S. M.. que tanto podia ele pôr lei aos índ1os
os jesuítas aclimatavam plantas da África e da Ásia em Salvador. como aos mglescs e franceses; e, querendo-me argumentar dcpo1s em contrário em
Desse deserto ou desterro, entre 1681 e 1694, enviou muitas cartas para presença do Marquês de Gouve1a, o Conde de Soure. Prestdentc do Conselho Ultra·
marino.lhe d1sse eu que os fnd1os eram mais livres que S Sas.. porque eles ao menos
a Europa pelas frotas anuais. São cartas deliberativas e judiciais, familiares e
nasceram vassalos, e os fndios não, e eram lão absolutos senhores de suas liberdades
negociai . tratando dos assuntos particulares e públicos do império: a crise da como das suas terras."'
economia açucare1ra; a seca: a fome; o cometa; a "bicha", a febre amarela
vinda nos navios negreiros. Data de 1683 seu conflito com o governador Antô- Na mesma época, contudo, outro jesuíta, o padre vi itador Luís Mami:mi,
nio de Sousa de .!\.Ieneses. o ''Braço de Prata". O governador tinha perdido um quando fez seu relatório sobre o colégio de São Paulo. informou que nas fazen-
braço na guerras pernambucanas aos holandeses. e costumava trazer, sob o das dos jesuítas não havia distinção na divisão das tarefas entre os quase 300
casaco. um braço artificial de prata amarrado ao pescoço. Vieira o chamou. índios e as várias dezenas de escravos africanos. Mamiani concluía então que
ma]\'adamente, de ·'meio homem". Na ocasião, o alcaide de Salvador foi as- 80% da renda do colégio vinham do trabalho indígena. 51 Em 1696, o rei deu
sas inado por mascarados em uma manhã de domingo, quando saía da missa. razão aos paulistas. Em 1694, em uma carta geral para a nobreza de Portugal.
Pertenciam ao clã de Vieira, pois eram homens de Bernardo Vieira Ravasco, Vieira se havia despedido do grande teatro do mundo. Ressuscitado das cinzas
eu ;rmão e secretário do Estado do Brasil. Pesou sobre Vieira a suspeita de de Coimbra, ainda retocaria a arte de morrer até 17 de julho de 1697, esperan-
ser mandante do crime. Indo a palácio para exigir outro tratamento do gover- do o favor real, que nunca veio.
n dor. que mandara os soldados invadir a igreja onde os criminosos estavam
si lado e mantinha Bernardo preso, foi destratado por Sousa de Meneses, que
ao berros o pôs para fora do palácio. as cartas que então envia para amigos
da no reza, em Portugal. sua referência ao fato é altiva e irônica: lembrando
ter sido honrado nos ma cres palácios da Europa e da Nova Espanha, afirma
que fOI preciso voltar à Bahia para ser assassino de homens e ser expulso do
palácio loc ... l por um "meio homem". Também datam desse tempo suas medi-
ações e plenos para liYTar o irmão do cárcere e proteger o sobrinho, Gonçalo
Rava.;co de Al buquerque Cavalcante, refugiado na Corte, da fúria do gover-
nador.
, ·o ermão quepregaem 1684nasexéquias darainha,D.MariaFrancisca
Isabel de Sabóia, o maior e)ogio da defunta que sempre o desprezou tem uma
ponta atre• idíssima de desdém irônico também observável na sua correspon-
êncra para o conde da Ericeira. Em 1690 e 1692, opôs-se aos habitantes de
S 'J Paulo no negócio dos índios. Em 1694, emitiu parecer sobre dezesseis
ú~ ida que tinham acerca da administração do gentio, dando voto contrário a
eles. Ind1gnado com o descimento de indígenas, escreve a D. Pedro li Tr"'""""u-c·"'
das redu-õcs je uíticas. Defende mais uma vez a velha posição da CCIIDJ~8IID1l~
con r o bandeirante de São Paulo. que continuavam assaltando as

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CIIL71JRA E ()p(l/.tNCIA DO BRASIL
JANICE THEODORO DA SILVA

partes em que se subdivide antes de iniciarmos uma viagem mais detalhada etn CulDAJX>S NA LBmJRA
meio à forma c ao conteúdo deste livro
A primeira parte, "Cultura e opulência do Brasil na lavra do açúcar_ Ao se produzir um texto para informar o leitor sobre uma obra como
engenho real moente e con-ente", é dedicada ao açúcar. Subdivide-se em tJts Cultura e opul2ncia do Brasü, escrita por um estilista do porte do padre
grandes núcleos de análise: a plantação e o fabrico do açúcar, os modos brasi.. André João Antonil, o maior perigo é supor ser possível resumir os temas
!eiras de se vender c comprar. Em seguida Antonil analisa o modo de preparar tratados no livro. Pode parecer simples relatar o que contém cada uma das
a cana e todas a engrenagens de funcionamento e fabrico do engenho. E para quatro partes em que se divide a obra e falar do açúcar, do tabaco, do ouro, do
terminar esta unidade o autor detalha o modo de purgar o açúcar, os preços gado e do couro. Milhares de escritores fizeram esse percurso-com maior ou
amigos e moderno , retomando a história da produção do açúcar desde o plan-- menor habilidade. Mas, apesar de uma produção intensa de estudos sobre a
tio da cana até as formas pelas quais o açúcar vai deixar o Brasil. O autor, na economia colonial brasileira, sentimos necessidade de voltar a Antonil e ao
part1: dedicada à produção do açúcar, analisa os problemas do engenho cotn século XVII. Por quê?
uma profundidade que não se repete nas outras partes do livro. Ter a capacidade de transpOrtar o leitor no tempo e recuperar a sensibi-
A ·egunda parte recebe o título de "Cultura e opulência do Brasil lidade dos séculos XVII e XVIII é tarefa que poucos couseguem realizar.
para penetrar no universo mental de Antonil é necessário lançar mio
la\ra do tabaco". A folha do tabaco é analisada levando em cottsi(iet'lllQi~
mesmas ferramentas que ele utiliza: a língua e o estilo. Bssas são as cha-
que abrem as portas do dlfiago trazendo à tona a visão de tempo, a per-
do território e o conhecimento dos homens.
O mistério e a beleza dc;sse-toxto nio estão contidos apenas no conteúdo
livro. mas na tPnna come ti uamda a cultura e a opulência no Brasil
reproduziroteltO ~a sua e a sua aura &iste uma iBfi.Di..
4e escritos q ~ 1'e$lUIIÍdos porqae a mt:esar" aio
~·~
um~~
~ ~~·o

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CIIL71JRA E ()p(l/.tNCIA DO BRASIL
JANICE THEODORO DA SILVA

partes em que se subdivide antes de iniciarmos uma viagem mais detalhada etn CulDAJX>S NA LBmJRA
meio à forma c ao conteúdo deste livro
A primeira parte, "Cultura e opulência do Brasil na lavra do açúcar_ Ao se produzir um texto para informar o leitor sobre uma obra como
engenho real moente e con-ente", é dedicada ao açúcar. Subdivide-se em tJts Cultura e opul2ncia do Brasü, escrita por um estilista do porte do padre
grandes núcleos de análise: a plantação e o fabrico do açúcar, os modos brasi.. André João Antonil, o maior perigo é supor ser possível resumir os temas
!eiras de se vender c comprar. Em seguida Antonil analisa o modo de preparar tratados no livro. Pode parecer simples relatar o que contém cada uma das
a cana e todas a engrenagens de funcionamento e fabrico do engenho. E para quatro partes em que se divide a obra e falar do açúcar, do tabaco, do ouro, do
terminar esta unidade o autor detalha o modo de purgar o açúcar, os preços gado e do couro. Milhares de escritores fizeram esse percurso-com maior ou
amigos e moderno , retomando a história da produção do açúcar desde o plan-- menor habilidade. Mas, apesar de uma produção intensa de estudos sobre a
tio da cana até as formas pelas quais o açúcar vai deixar o Brasil. O autor, na economia colonial brasileira, sentimos necessidade de voltar a Antonil e ao
part1: dedicada à produção do açúcar, analisa os problemas do engenho cotn século XVII. Por quê?
uma profundidade que não se repete nas outras partes do livro. Ter a capacidade de transpOrtar o leitor no tempo e recuperar a sensibi-
A ·egunda parte recebe o título de "Cultura e opulência do Brasil lidade dos séculos XVII e XVIII é tarefa que poucos couseguem realizar.
para penetrar no universo mental de Antonil é necessário lançar mio
la\ra do tabaco". A folha do tabaco é analisada levando em cottsi(iet'lllQi~
mesmas ferramentas que ele utiliza: a língua e o estilo. Bssas são as cha-
que abrem as portas do dlfiago trazendo à tona a visão de tempo, a per-
do território e o conhecimento dos homens.
O mistério e a beleza dc;sse-toxto nio estão contidos apenas no conteúdo
livro. mas na tPnna come ti uamda a cultura e a opulência no Brasil
reproduziroteltO ~a sua e a sua aura &iste uma iBfi.Di..
4e escritos q ~ 1'e$lUIIÍdos porqae a mt:esar" aio
~·~
um~~
~ ~~·o

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CULTURA E OPULlNCIA DO BRASIL JANICB TIIBOOORO DA SILVA

Observem. aci ma de tudo. o estilo capaz de despertar no leitor vúi mente o empreendimento e. ao mesntotempo perceber a&~ dos
. ·t- d nem stlmpre po~síveis de ser descritos. Ao falar das ativi homens. E, em meio a asa pereepçio, ainda conj1rJa ama aguçada &elllibüi·
q_;m rca o. · .
- , de.en\ oh·em no engenho o mestre do !lçúcar, o banquerro
que . , • ,•
e o ajuda- dade para os pequenot problemas~
u~ir . :\n toni 1conjuga a ati vidade desempenhada com pnnc1p1os etiCos e
quai. d~vem nortear a conduta de cada personagem citado na obra. Nem detxe os papas c as CICI'Ü1J1'U ctae tem na ema da 1lldlber 011 SCible a...,..
0 exposta ao pó, ao vento, à traÇa c ao<et~pDD, para que depois nlo -.fa ~
conjugação é fctta com muito engenho, de tal forma que o relato de An mandar dizer muitas IDJSSIS a Santo Ati(Opio paraacbar algum papel ~que
obre processo da produção de açúcar não apaga a presença de homens q desapareceu. quando houvcrmisterde-..Jo. .Ponptc lbe~'Piaaidou
0
atuam de forrna equilibrada ou cruel, justa ou injusta, verdadeira ou hi~ serva ure duas ou tres folhas da caixacfascnbora pn embrulhar com aocpe 1llli
lhe agradar; e o filho mais pequeoo dmt tamNm aJpmu da .-.. ,... piollt'
A JU'>IlÇ c v rd Je os obngam a não misturar o açúcar de um lavrador com o do caretas. ou para fazer banjuinhos de prapcJ. em que aavepem IIICISCII ~ ou
outro; e por1 ;o. nas formas que manda pôr no tenda!. façaquehajasinalcomquese finalmente, o vento fart com que V0$!1ibra ela cata se111 pena.
possam d1<:mgUJr das outras que pertencem a outras donos para que o meu c o teu.
JOJmJgos da paz. não ;ejam causa de bulhas. E. para que sua obra seja perfctta. tenha
~:><>a corre- pondência com o feitor da moenda, que lhe envia o caldo. com o banqucU'O
c ;otobanque1ro. que lhe sucede de noite no oficio, e com o purgadordo açúcar, para
que \ cJ:unJuntamente donde nasce o purgar bem ou mal em as fonnas, c sejam entre
,I como os olho. que igualmente vigiam e como as mãos que unidamente trabalham.~

PRIMEIRA PARTE
CULTI:RA E OPULÊNCIA DO BRASIL NA LAVRA
00 AÇl'CAR -ENGENHO REAL MOENTE E CORRENTB

1 a primeira parte do livro o autor trata do capital (cabedal) que o

de engenho necessita para possuir um engenho real. Além dos lavradores.


arrendam terra. o senhor depende da escravaria e de boa capacidade de.
\Crno para adrninistr .
O investimento para a montagem de um engenho é tão grande que
alerta sobre o ri. co que alguns homens presunçosos enfrentam ao
engenhocas e emprestar dinheiro. Muitos, diz ele, perdem tudo: logo
safra se vi:em desprovidos de condição para pagar as dívidas assumidas.
têm mats juízo prderem er lavradores, ainda que tenham sob suas ordens.
ou quarenta escravos A capacidade de agenciar tudo, da terra aos
· ct, "'' . incluindo arrendaml.!nlos e manutenção do engenho, é rara.
1 rat,mdo de temas que di7em respeito à montagem da economia
no Bras ti, Antonil oscila entre uma admirável capacidade de avaliar

11.1111, I' X6

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CULTURA E OPULlNCIA DO BRASIL JANICB TIIBOOORO DA SILVA

Observem. aci ma de tudo. o estilo capaz de despertar no leitor vúi mente o empreendimento e. ao mesntotempo perceber a&~ dos
. ·t- d nem stlmpre po~síveis de ser descritos. Ao falar das ativi homens. E, em meio a asa pereepçio, ainda conj1rJa ama aguçada &elllibüi·
q_;m rca o. · .
- , de.en\ oh·em no engenho o mestre do !lçúcar, o banquerro
que . , • ,•
e o ajuda- dade para os pequenot problemas~
u~ir . :\n toni 1conjuga a ati vidade desempenhada com pnnc1p1os etiCos e
quai. d~vem nortear a conduta de cada personagem citado na obra. Nem detxe os papas c as CICI'Ü1J1'U ctae tem na ema da 1lldlber 011 SCible a...,..
0 exposta ao pó, ao vento, à traÇa c ao<et~pDD, para que depois nlo -.fa ~
conjugação é fctta com muito engenho, de tal forma que o relato de An mandar dizer muitas IDJSSIS a Santo Ati(Opio paraacbar algum papel ~que
obre processo da produção de açúcar não apaga a presença de homens q desapareceu. quando houvcrmisterde-..Jo. .Ponptc lbe~'Piaaidou
0
atuam de forrna equilibrada ou cruel, justa ou injusta, verdadeira ou hi~ serva ure duas ou tres folhas da caixacfascnbora pn embrulhar com aocpe 1llli
lhe agradar; e o filho mais pequeoo dmt tamNm aJpmu da .-.. ,... piollt'
A JU'>IlÇ c v rd Je os obngam a não misturar o açúcar de um lavrador com o do caretas. ou para fazer banjuinhos de prapcJ. em que aavepem IIICISCII ~ ou
outro; e por1 ;o. nas formas que manda pôr no tenda!. façaquehajasinalcomquese finalmente, o vento fart com que V0$!1ibra ela cata se111 pena.
possam d1<:mgUJr das outras que pertencem a outras donos para que o meu c o teu.
JOJmJgos da paz. não ;ejam causa de bulhas. E. para que sua obra seja perfctta. tenha
~:><>a corre- pondência com o feitor da moenda, que lhe envia o caldo. com o banqucU'O
c ;otobanque1ro. que lhe sucede de noite no oficio, e com o purgadordo açúcar, para
que \ cJ:unJuntamente donde nasce o purgar bem ou mal em as fonnas, c sejam entre
,I como os olho. que igualmente vigiam e como as mãos que unidamente trabalham.~

PRIMEIRA PARTE
CULTI:RA E OPULÊNCIA DO BRASIL NA LAVRA
00 AÇl'CAR -ENGENHO REAL MOENTE E CORRENTB

1 a primeira parte do livro o autor trata do capital (cabedal) que o

de engenho necessita para possuir um engenho real. Além dos lavradores.


arrendam terra. o senhor depende da escravaria e de boa capacidade de.
\Crno para adrninistr .
O investimento para a montagem de um engenho é tão grande que
alerta sobre o ri. co que alguns homens presunçosos enfrentam ao
engenhocas e emprestar dinheiro. Muitos, diz ele, perdem tudo: logo
safra se vi:em desprovidos de condição para pagar as dívidas assumidas.
têm mats juízo prderem er lavradores, ainda que tenham sob suas ordens.
ou quarenta escravos A capacidade de agenciar tudo, da terra aos
· ct, "'' . incluindo arrendaml.!nlos e manutenção do engenho, é rara.
1 rat,mdo de temas que di7em respeito à montagem da economia
no Bras ti, Antonil oscila entre uma admirável capacidade de avaliar

11.1111, I' X6

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n I /1 H.\ 1 OI' I Lf"'c ftl /10 BRA SI/. JA ICB 1'ti8000RO DAS

llllll 0 que é de outro o purgador deve saber quando o a?úcar está ~nxu
001 O castigos devem ocorrer, mas de forma moderada, sem fmper.o vinga
c qtw~ .~o 0 " 11 ,11 , de purgat hem. De\ e saber também evttar que suJem u 0 , abrindo a possibilidade do pen!lo, perdlo que possa impedir a fuga ancon-
t.lll<Jlft· dl· md c aluw·ntar o tl)orccgos que s~o a pra~a consta~te de todas veniente para o senhor. É necessário, diz Antonil, que dê a elos espaço para
l.t . 1 ~ t.k pur~a 1 () l·a• \<:Íro é aquele que encatxa o açucar dcpots de purgado folguedos, porque assim sentirio alfvlo do cativeiro, evitando- o d o
1 .ua f un\<to mandar 1ir.JT da fôrmas, assistir quando se ma cava e guardá-lo e a melancolia que, muitas vezes os levam à morte.
c111 lur.; 11 t•ro. Cabe .1 c1 • também pesar c repartir entre o senhor de engenho o que se deve evitar nos engenhos é a bebida feita com garapa azeda ou
1 0 · J. 1vtiHlom·s h cahc .unda ao purgador tirar o dízimo c a vintena ou quinto água ardente, substituindo-as por garapa doce que nio causa dano.
qu 1 p.1g.un m qul' I.Jvr.tm em terras do engenho c que entregam a caixas para
I) l'lllh.ll<jllt'. Governo da famflia e hospitalidade
M.t·. o IIIJJPJ dc\alio para quem comanda tão grande empresa é pôr em
Se é difícil controlar os escravos, nlo mais fácil o go o da famllia.
p 11 ,, todo . unpcduulo ,, discórdia. Trahalho árduo em terra onde os homens
Diz Antonil: "Mau é ter nome de avarento, mas nlo 6 glória dtgna de louvor o
.111 m.u~ dtc •.1do ao sangue do que a caridade
ser pródigo".9 Ter os filhos no engenho é criá-los incapazes d con ar
bre outra coisa que cão, cavalo ou boi. Deixá-los na cidade 6 faoilitar o contat
O nhor do engenho e os escravos
com doenças vergonhosas e com os víctos. Tamb6m nlo dev onsentir
/\ H'l.t~·.to do~ ~enhores de engenho com seus escravo que a mãe lhes mande dinheiro, ainda que secretamen porqu o dinheiro
c1 n d,t n:ononu.1 colonial no Brasil. Antonil refere-se a essa relação poderá os conduzir ao jogo e à vida Mcil. O melhor ensino 6 o bom e mpfo
nHHIJ propncduc.k ''Os c'cravos são as mão~ e os pés do senhor de engenho, dos pais.
pnrqut• sem ck·' JJnllrasil não é po sívcl fazer, con enar e aumentar fazenda,
n •rn lt'J l'll!'Cnho corren te" .'• A hospitalidade tanto ele b6tpodea 001110 de- 01 d uma açlo rt6l e uma
\ntond uuci.1 o seu rcl.rto camcterizando a diferença dos escravo VIrtude crlatl, ono Btllll.mallO•••~tQI-r-petque faltudo fora da. lido
p.utJr d.ts na~ck' de que sao 011 •inano: Sao Tomé. Angola, Cabo Verde as estalaaone. vlo nte dllrCOIIJI&o nos enaeuhol todos
ordlnariamODIO acham de clltllletro
\h><;.nnhtqul' P.n.t ele o. que nJ,~:cmm no Bra ai sao os mai industrio os
kndn pcll qu,tllo h!x.m". Os mul.uo , egundo o autor, ao os que têm
' "'"' Drtum p1merhac' d.1 éJJIK.t catado na ohra qu "o Brasil é o inferno
lll' •r os, pun•.JtnrJc> dm bran~·o c p.u-aí o do mulaws c da mulatas".
lt~Jtoll mulut,Js o.tutnr wnsidL·r.t petdi~.to mantk\t,t porque. em geral, diz
rnmt• 'llt'lll .tlrbcJdo~dc ;, i: lista do l·urpn. de r ·retido~ peGtdos, c me mo
Jl'lllt<'' ,,, lll' •rJs lllx·tt,ts n>llllllll.tlll .1 ~cr .1tum.1 J ·muito .1
\ l'Slt.t\ id.tlllt.lo L' roloç,tda em 411C,t.to l'lll momento algum do tcx~
cnnlr,IJtP \ntuml ~ • Jt•fcrl.' .trmp•lll:incJa do tt.th.tlho · cr.tvo para
•lÇllt.llt:it .l ,S,•gtlllld\l l'SSC JlCIClll SO. an.tli~a ,1 import:incia do U t nto
'·stllllcnta • da nuxkr.tç.rn do tr.tl'.tlho, de tal fonna que o scravos
·•t.llr.u. \l\ cr c pl.mt.ll su.Js t\ ç.t~ que llws d,1ràc1 sustento." oBra il,
dtl~r quL' 1;11,1 o ··~cr,l\ n <In llt'C<'ssarios lr~s PPP. a aber, pau, p1o c pano.

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n I /1 H.\ 1 OI' I Lf"'c ftl /10 BRA SI/. JA ICB 1'ti8000RO DAS

llllll 0 que é de outro o purgador deve saber quando o a?úcar está ~nxu
001 O castigos devem ocorrer, mas de forma moderada, sem fmper.o vinga
c qtw~ .~o 0 " 11 ,11 , de purgat hem. De\ e saber também evttar que suJem u 0 , abrindo a possibilidade do pen!lo, perdlo que possa impedir a fuga ancon-
t.lll<Jlft· dl· md c aluw·ntar o tl)orccgos que s~o a pra~a consta~te de todas veniente para o senhor. É necessário, diz Antonil, que dê a elos espaço para
l.t . 1 ~ t.k pur~a 1 () l·a• \<:Íro é aquele que encatxa o açucar dcpots de purgado folguedos, porque assim sentirio alfvlo do cativeiro, evitando- o d o
1 .ua f un\<to mandar 1ir.JT da fôrmas, assistir quando se ma cava e guardá-lo e a melancolia que, muitas vezes os levam à morte.
c111 lur.; 11 t•ro. Cabe .1 c1 • também pesar c repartir entre o senhor de engenho o que se deve evitar nos engenhos é a bebida feita com garapa azeda ou
1 0 · J. 1vtiHlom·s h cahc .unda ao purgador tirar o dízimo c a vintena ou quinto água ardente, substituindo-as por garapa doce que nio causa dano.
qu 1 p.1g.un m qul' I.Jvr.tm em terras do engenho c que entregam a caixas para
I) l'lllh.ll<jllt'. Governo da famflia e hospitalidade
M.t·. o IIIJJPJ dc\alio para quem comanda tão grande empresa é pôr em
Se é difícil controlar os escravos, nlo mais fácil o go o da famllia.
p 11 ,, todo . unpcduulo ,, discórdia. Trahalho árduo em terra onde os homens
Diz Antonil: "Mau é ter nome de avarento, mas nlo 6 glória dtgna de louvor o
.111 m.u~ dtc •.1do ao sangue do que a caridade
ser pródigo".9 Ter os filhos no engenho é criá-los incapazes d con ar
bre outra coisa que cão, cavalo ou boi. Deixá-los na cidade 6 faoilitar o contat
O nhor do engenho e os escravos
com doenças vergonhosas e com os víctos. Tamb6m nlo dev onsentir
/\ H'l.t~·.to do~ ~enhores de engenho com seus escravo que a mãe lhes mande dinheiro, ainda que secretamen porqu o dinheiro
c1 n d,t n:ononu.1 colonial no Brasil. Antonil refere-se a essa relação poderá os conduzir ao jogo e à vida Mcil. O melhor ensino 6 o bom e mpfo
nHHIJ propncduc.k ''Os c'cravos são as mão~ e os pés do senhor de engenho, dos pais.
pnrqut• sem ck·' JJnllrasil não é po sívcl fazer, con enar e aumentar fazenda,
n •rn lt'J l'll!'Cnho corren te" .'• A hospitalidade tanto ele b6tpodea 001110 de- 01 d uma açlo rt6l e uma
\ntond uuci.1 o seu rcl.rto camcterizando a diferença dos escravo VIrtude crlatl, ono Btllll.mallO•••~tQI-r-petque faltudo fora da. lido
p.utJr d.ts na~ck' de que sao 011 •inano: Sao Tomé. Angola, Cabo Verde as estalaaone. vlo nte dllrCOIIJI&o nos enaeuhol todos
ordlnariamODIO acham de clltllletro
\h><;.nnhtqul' P.n.t ele o. que nJ,~:cmm no Bra ai sao os mai industrio os
kndn pcll qu,tllo h!x.m". Os mul.uo , egundo o autor, ao os que têm
' "'"' Drtum p1merhac' d.1 éJJIK.t catado na ohra qu "o Brasil é o inferno
lll' •r os, pun•.JtnrJc> dm bran~·o c p.u-aí o do mulaws c da mulatas".
lt~Jtoll mulut,Js o.tutnr wnsidL·r.t petdi~.to mantk\t,t porque. em geral, diz
rnmt• 'llt'lll .tlrbcJdo~dc ;, i: lista do l·urpn. de r ·retido~ peGtdos, c me mo
Jl'lllt<'' ,,, lll' •rJs lllx·tt,ts n>llllllll.tlll .1 ~cr .1tum.1 J ·muito .1
\ l'Slt.t\ id.tlllt.lo L' roloç,tda em 411C,t.to l'lll momento algum do tcx~
cnnlr,IJtP \ntuml ~ • Jt•fcrl.' .trmp•lll:incJa do tt.th.tlho · cr.tvo para
•lÇllt.llt:it .l ,S,•gtlllld\l l'SSC JlCIClll SO. an.tli~a ,1 import:incia do U t nto
'·stllllcnta • da nuxkr.tç.rn do tr.tl'.tlho, de tal fonna que o scravos
·•t.llr.u. \l\ cr c pl.mt.ll su.Js t\ ç.t~ que llws d,1ràc1 sustento." oBra il,
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I I ((N\ r1 l'l \!/I /111 H/11\1/
JANI B THl!OOORO DA IL A

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Cl"LTl'RA E tll'C.Ltl\D:\ DO BR,\ '/L
JA I I! THEODORO DA

Com is 0 se ntcndcr:í donde nasce o ter esta doce droga tantos nomes diversos. antes
d ft'l!raro maJ not>re e o ma1s perfeito de açúl'ar; porque. confom1c o eu princípio, pedras o adas, ou nas peças de fino linho, no meio, se acha pano de estopa.
rndh~na e pcrfe1ção. e conft'rmc o· e~tados di ver os pelos quais passa. vai também a s1m t mbém se poderia mandar açúcar com meno~ arrobas, ou açucar
mudando d· nomes. E a. tm, na moenda. chama- c ~umo de cana; nos paróis do ma cavado. por branco.
encenho. ate entrar na catd tra do me1o. caldo; nc~ta. caldo fcrvtdo; na caldetra de As im, o açúcar sai do canavial onde nasce, vai até os portos do BrasJI.
n ;lar. clar1ticado; na bacta, co do; nas tachas, melado; utumamcntc. têmpera: e, na navega para Portugal e é repartido entre muitas cidades da Europa.
f'rmas. açú ·ar. de cujas d11 e as qualidade falaremo . quando chegarmos a vê-lo
Quanto aos preços, muitas vezes a necessidade obriga a vender barato
po ·to nas ca~xas.''
que tanto custou a servos e senhores. A falta de na ios e a Jta dos p~os do
cobre. ferro e pano e. particulannente, do valor dos escravos são os pn11Cipal
motivos de o açúcar ter subido tanto de p~o Se redumem o p~ das coi a
Uvrolll que 'êm do reino e dos escra os que v~m de Angola e C ta da Guiné, os
~'a terceira parte do livro, Antonil continua descrevendo as formas do- preços poderiam se tomar mais moderados.
produção do açúcar. procurando avaliar o processo em seu conjunto tanto no A Bahia po sui cento e quarenta e sei engenhos. Pernambuco. duzent
que diz re peito ao valor do produto como em relação ao custo humano. T~ e quarenta e sei e Rio de Jane1ro, cento e trinta e seiS. os engenhos da
os artifícios de linguagem utilizados, desde a escolha das metáforas até a sola-- Bahia se produzem quatorze mil e quinhentas caixas de açúcar; em Pernambuco,
ção e tilística.. representam uma vontade clara de despertar no leitor a consci doze mil e trezentas caixas; e no Rio de Janeiro, dez mil, duzentas e inte, ou
cia plena de que "para regalar com doçura os paladares os homens mui"P'""'•._.t.. seja, num ano o Brasil produz trinta e seis mil oitocentas e
os tormentos e a penas". precioso produto.
Para se ter uma idéia do volume da produção. um engenho real faz
der de 120 a 300 pães de açúcar. O açúcar produzido pode ser repartido é reparo singular dos que COIIfeJIIphun as c:caas lllblrals ver que as que
proveito ao g!ncro humano Dlo se mcluzeaa • perfeiçJo sem pwarem pn
cai ·a. fecho. pão. cara, lasca. torrão e migalhas.
por not4veis apertos, e 1110 ae Ya bem DI Eurapa110 piiiiO de I
Se as terras forem do engenho, o lavrador paga o quinto (além da e no VInho, rrutoa da terra llo aex:essáiol entmados.
de cada cinco pães. paga um) e também o dízimo que se deve a Deus. dos e moídos anta do cbcglllem a ser perfeitamellle o que E
O açúcar é colocado em caixas que são fechadas com oitenta e vemosnaf~deaçdcar,oqoal.desckoprimolro....._de pl-~r:H!~ct..""ar

pregos e marcadas conforme o tipo do açúcar. Existem várias castas de às mesas e passar entte os den a tepOIIIr--se 110 que
ar ''porque também nesta droga há sua nobreza, há casta vil, há uma vida cheia de llis e tantos IDIIl1tftof fl'llt ii.'NII&IAID li.l'llll;,s ua 1nao

Há o açúcar branco e o mascavado. Há o açúcar branco fino, redondo e ~~~--~-:--~~-~.~~u~mu-


O açúcar fi no é o melhor. que fica em cima da fôrma, o redondo é menos
e o baixo menos amda. O mascavado é de cor parda e fica no fundo da
O acúcar que pinga das fôrmas quando se purga chama-se mel e o que
re chama-se remei. Do mel pode-se fazer aguardente.
Para se distinguir o açúcar marcam-se as caixas com ferro ardente
com tint.a. Cada caixa recebe três marcas: a das arrobas, a do engenho e
nh r ou mercador re~ponsável pelo embarque do produto. A marca
o produto porque, a sim como nas pipas de breu que vêm de Portugal se

p -,,

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Cl"LTl'RA E tll'C.Ltl\D:\ DO BR,\ '/L
JA I I! THEODORO DA

Com is 0 se ntcndcr:í donde nasce o ter esta doce droga tantos nomes diversos. antes
d ft'l!raro maJ not>re e o ma1s perfeito de açúl'ar; porque. confom1c o eu princípio, pedras o adas, ou nas peças de fino linho, no meio, se acha pano de estopa.
rndh~na e pcrfe1ção. e conft'rmc o· e~tados di ver os pelos quais passa. vai também a s1m t mbém se poderia mandar açúcar com meno~ arrobas, ou açucar
mudando d· nomes. E a. tm, na moenda. chama- c ~umo de cana; nos paróis do ma cavado. por branco.
encenho. ate entrar na catd tra do me1o. caldo; nc~ta. caldo fcrvtdo; na caldetra de As im, o açúcar sai do canavial onde nasce, vai até os portos do BrasJI.
n ;lar. clar1ticado; na bacta, co do; nas tachas, melado; utumamcntc. têmpera: e, na navega para Portugal e é repartido entre muitas cidades da Europa.
f'rmas. açú ·ar. de cujas d11 e as qualidade falaremo . quando chegarmos a vê-lo
Quanto aos preços, muitas vezes a necessidade obriga a vender barato
po ·to nas ca~xas.''
que tanto custou a servos e senhores. A falta de na ios e a Jta dos p~os do
cobre. ferro e pano e. particulannente, do valor dos escravos são os pn11Cipal
motivos de o açúcar ter subido tanto de p~o Se redumem o p~ das coi a
Uvrolll que 'êm do reino e dos escra os que v~m de Angola e C ta da Guiné, os
~'a terceira parte do livro, Antonil continua descrevendo as formas do- preços poderiam se tomar mais moderados.
produção do açúcar. procurando avaliar o processo em seu conjunto tanto no A Bahia po sui cento e quarenta e sei engenhos. Pernambuco. duzent
que diz re peito ao valor do produto como em relação ao custo humano. T~ e quarenta e sei e Rio de Jane1ro, cento e trinta e seiS. os engenhos da
os artifícios de linguagem utilizados, desde a escolha das metáforas até a sola-- Bahia se produzem quatorze mil e quinhentas caixas de açúcar; em Pernambuco,
ção e tilística.. representam uma vontade clara de despertar no leitor a consci doze mil e trezentas caixas; e no Rio de Janeiro, dez mil, duzentas e inte, ou
cia plena de que "para regalar com doçura os paladares os homens mui"P'""'•._.t.. seja, num ano o Brasil produz trinta e seis mil oitocentas e
os tormentos e a penas". precioso produto.
Para se ter uma idéia do volume da produção. um engenho real faz
der de 120 a 300 pães de açúcar. O açúcar produzido pode ser repartido é reparo singular dos que COIIfeJIIphun as c:caas lllblrals ver que as que
proveito ao g!ncro humano Dlo se mcluzeaa • perfeiçJo sem pwarem pn
cai ·a. fecho. pão. cara, lasca. torrão e migalhas.
por not4veis apertos, e 1110 ae Ya bem DI Eurapa110 piiiiO de I
Se as terras forem do engenho, o lavrador paga o quinto (além da e no VInho, rrutoa da terra llo aex:essáiol entmados.
de cada cinco pães. paga um) e também o dízimo que se deve a Deus. dos e moídos anta do cbcglllem a ser perfeitamellle o que E
O açúcar é colocado em caixas que são fechadas com oitenta e vemosnaf~deaçdcar,oqoal.desckoprimolro....._de pl-~r:H!~ct..""ar

pregos e marcadas conforme o tipo do açúcar. Existem várias castas de às mesas e passar entte os den a tepOIIIr--se 110 que
ar ''porque também nesta droga há sua nobreza, há casta vil, há uma vida cheia de llis e tantos IDIIl1tftof fl'llt ii.'NII&IAID li.l'llll;,s ua 1nao

Há o açúcar branco e o mascavado. Há o açúcar branco fino, redondo e ~~~--~-:--~~-~.~~u~mu-


O açúcar fi no é o melhor. que fica em cima da fôrma, o redondo é menos
e o baixo menos amda. O mascavado é de cor parda e fica no fundo da
O acúcar que pinga das fôrmas quando se purga chama-se mel e o que
re chama-se remei. Do mel pode-se fazer aguardente.
Para se distinguir o açúcar marcam-se as caixas com ferro ardente
com tint.a. Cada caixa recebe três marcas: a das arrobas, a do engenho e
nh r ou mercador re~ponsável pelo embarque do produto. A marca
o produto porque, a sim como nas pipas de breu que vêm de Portugal se

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c 111/IIH.~ I 111'11/ fNc'J~ /!0 IlHA\//

1 Jt-~ 1 1 , w 1 wrtw \t' plant.t. limp.t. colhe. hcncficiu, uru, enrola, como .s fumo do chimbo bebido
p;tdt o~ na ,dl .111 dl'ga t, luwlmcntc. como se dá o rendimento a rcpurt1ç
v cuaç , hvia a ma e dtmiaul
l. tb.t, lll'lll tli vu ,,, p;utrs do lllttlldo. Urbano VIII, b rv ndooabuaodo
o t.lb.tL'o tll'w ~L' t st'lllL',ulo nos 111 ses de maio, junho e julho em t nu Igreja de S o Pedro em Roma, no adt~ e alpendre do templot, e JAOCet1cilO X
1( 11 1 <''>lt'Jcatl.l 1kpt~is dt' st•nt·ado de v -se cuidar ·mtirar o capim s m proibiu nas igrejas de todo o arcebifpado
dtur. 1r •1 planla. 1\ l.tg.ut.t. a formiga. o pulgão c o grilo podem causar mui o tabaco ben ficiado e enrolado pap o NU dízimo a • Hi
r t 1,1.. n .. n.t pl.lllt.t , dl'\'l'lldn o l.tvrador ser sempre vigilante.
mai de cem ano , diz Antonil o tabaco começou a plantado benetic:iad
<)uando .1 pl.tnt.t wnta com oito ou dez folhas, tira-se: o olho de cima p
no Brasil. orno uma sementeira de delej01 difundiu- nlo só peta Europa
l(lll' n.... , 1111 tHllllls s ·m qttL' ~c tire a substância da. folhas.
ma também em outras partes do mundo N idade de Lo Qeda por
\ s folhas ~.il cortadas junto ao talo e dependuradas longe do sol mas mais de oitocentas mil almaa, vendas de tabaco ultrap o número de
lu~· ,u km \ enttl.tdtl, p.ua que equem em perder a ub tância. urad sete mil. Se considerarmos o que N vende a cada ano em toda Bretanh
lolh.1.. tira . c o t.tlo c se faz urna corda da grossura de três d do . Jundres, França, Espanha. Itália e. o quo va1 para as Índia Octdentaia e Orien
ctllll.t. L' tlflll.t·st: num pau c a sim toda a noite sedes nrola e enrola, tais, teremos a dimenslo desse cO!Mrcio.
.tpc tt.llldo ma1 s p.u.t que fique mais dura. O último beneficio é te11noe~w·~ Qualquer descaminho do tabaco no Brasil é purudo com pena& de de~
,,,Jd.t du mcs mn t.tbaco com erva-doce, alfavaca e manteiga de porco.

da..,
do para Angola e, em Portugal. a pena ainda é mais rigorosa O rigor das penas
ca-'> l' .tlrntsc,tr c amb.tr, mistura-se a calda com mel de açúcar bem gro só prova o grande lucro desse comérçio. O tabaoo já foi encontrado em peças
p.t s..t se na ntda e. em seguida. fazem-se os rolos. 18 de artilharia, dentto de caixas e f&cJ1a doDtro de barris de farinha
Os rolos s:io cobertos com folhas de caruvatá amarrados com da terra, de breu, de melado. ~ t11àle frascos de vinho
Det ois · 1.11 uma ~.:apa de couro da medida do rolo e marca- e com o mesmo dentro d estátaas oca&. d 1 Tanta nções sugerem a t1
lh' dono. \ ~s im s.1o desp.tchado por mar. ma, o apetite e a esporança. do htcto que aoomp tabaco.
t.tl>act' da pnmeir.t folha é o melhor. serve para cachimbo, para
c.tr t' ptsar. () fr.tco só crv • para beber no cachimbo. Os melhores
·m po s.tll de Al.tgu.L. Pernambuco. Campos da Cachoeira e das
ParJ pisar o t.l!>.u.:o s:io ne~.:cssárias bacia de cobre e mexer com
que ~eJ.Il 1 Úl' peJr.t-mármnrc. ~.:om a mão de pisar de pau. Pisado,
' o que fic.tr de m.ti gwsso pi.;,t-. c novamente até se reduzir a pó. E
fL'I'Ill.l ·m que mai etlmunlL'ntc se procura o tabaco.
O tab,t '<'no B1.tsil é expt111ado sem mistura e por is o tanto se
. I.!. n.1 !ta lia. por e cmplo. mi. tura- c com mel, um pouco de vinho,
bc t 1 • d 'Pt' iç com a: mã . se fazem bolinho . depois se passa por uma
lim p·tra qu · · ~ tran fl,nne em um pó bem fino e solto. Pode-se
tjllt. ·rem da r algum ~.heim. b n·ifar água cheiro a ou colocar num vaso
11' n:c Ih •u uma bauru lha inteir,L
hnto · cham.tm o tabaC\l de cr\a-·anta. Há os que não podem vi v r
l 1 c l'hnnband a qualqu ·r hora. Tant o marítimos como os tralballilad~
. forr ~ pcs. as Illlbre , olJado e eclesiá ticos fumam.

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c 111/IIH.~ I 111'11/ fNc'J~ /!0 IlHA\//

1 Jt-~ 1 1 , w 1 wrtw \t' plant.t. limp.t. colhe. hcncficiu, uru, enrola, como .s fumo do chimbo bebido
p;tdt o~ na ,dl .111 dl'ga t, luwlmcntc. como se dá o rendimento a rcpurt1ç
v cuaç , hvia a ma e dtmiaul
l. tb.t, lll'lll tli vu ,,, p;utrs do lllttlldo. Urbano VIII, b rv ndooabuaodo
o t.lb.tL'o tll'w ~L' t st'lllL',ulo nos 111 ses de maio, junho e julho em t nu Igreja de S o Pedro em Roma, no adt~ e alpendre do templot, e JAOCet1cilO X
1( 11 1 <''>lt'Jcatl.l 1kpt~is dt' st•nt·ado de v -se cuidar ·mtirar o capim s m proibiu nas igrejas de todo o arcebifpado
dtur. 1r •1 planla. 1\ l.tg.ut.t. a formiga. o pulgão c o grilo podem causar mui o tabaco ben ficiado e enrolado pap o NU dízimo a • Hi
r t 1,1.. n .. n.t pl.lllt.t , dl'\'l'lldn o l.tvrador ser sempre vigilante.
mai de cem ano , diz Antonil o tabaco começou a plantado benetic:iad
<)uando .1 pl.tnt.t wnta com oito ou dez folhas, tira-se: o olho de cima p
no Brasil. orno uma sementeira de delej01 difundiu- nlo só peta Europa
l(lll' n.... , 1111 tHllllls s ·m qttL' ~c tire a substância da. folhas.
ma também em outras partes do mundo N idade de Lo Qeda por
\ s folhas ~.il cortadas junto ao talo e dependuradas longe do sol mas mais de oitocentas mil almaa, vendas de tabaco ultrap o número de
lu~· ,u km \ enttl.tdtl, p.ua que equem em perder a ub tância. urad sete mil. Se considerarmos o que N vende a cada ano em toda Bretanh
lolh.1.. tira . c o t.tlo c se faz urna corda da grossura de três d do . Jundres, França, Espanha. Itália e. o quo va1 para as Índia Octdentaia e Orien
ctllll.t. L' tlflll.t·st: num pau c a sim toda a noite sedes nrola e enrola, tais, teremos a dimenslo desse cO!Mrcio.
.tpc tt.llldo ma1 s p.u.t que fique mais dura. O último beneficio é te11noe~w·~ Qualquer descaminho do tabaco no Brasil é purudo com pena& de de~
,,,Jd.t du mcs mn t.tbaco com erva-doce, alfavaca e manteiga de porco.

da..,
do para Angola e, em Portugal. a pena ainda é mais rigorosa O rigor das penas
ca-'> l' .tlrntsc,tr c amb.tr, mistura-se a calda com mel de açúcar bem gro só prova o grande lucro desse comérçio. O tabaoo já foi encontrado em peças
p.t s..t se na ntda e. em seguida. fazem-se os rolos. 18 de artilharia, dentto de caixas e f&cJ1a doDtro de barris de farinha
Os rolos s:io cobertos com folhas de caruvatá amarrados com da terra, de breu, de melado. ~ t11àle frascos de vinho
Det ois · 1.11 uma ~.:apa de couro da medida do rolo e marca- e com o mesmo dentro d estátaas oca&. d 1 Tanta nções sugerem a t1
lh' dono. \ ~s im s.1o desp.tchado por mar. ma, o apetite e a esporança. do htcto que aoomp tabaco.
t.tl>act' da pnmeir.t folha é o melhor. serve para cachimbo, para
c.tr t' ptsar. () fr.tco só crv • para beber no cachimbo. Os melhores
·m po s.tll de Al.tgu.L. Pernambuco. Campos da Cachoeira e das
ParJ pisar o t.l!>.u.:o s:io ne~.:cssárias bacia de cobre e mexer com
que ~eJ.Il 1 Úl' peJr.t-mármnrc. ~.:om a mão de pisar de pau. Pisado,
' o que fic.tr de m.ti gwsso pi.;,t-. c novamente até se reduzir a pó. E
fL'I'Ill.l ·m que mai etlmunlL'ntc se procura o tabaco.
O tab,t '<'no B1.tsil é expt111ado sem mistura e por is o tanto se
. I.!. n.1 !ta lia. por e cmplo. mi. tura- c com mel, um pouco de vinho,
bc t 1 • d 'Pt' iç com a: mã . se fazem bolinho . depois se passa por uma
lim p·tra qu · · ~ tran fl,nne em um pó bem fino e solto. Pode-se
tjllt. ·rem da r algum ~.heim. b n·ifar água cheiro a ou colocar num vaso
11' n:c Ih •u uma bauru lha inteir,L
hnto · cham.tm o tabaC\l de cr\a-·anta. Há os que não podem vi v r
l 1 c l'hnnband a qualqu ·r hora. Tant o marítimos como os tralballilad~
. forr ~ pcs. as Illlbre , olJado e eclesiá ticos fumam.

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d I.1L 'I 1 F OI' I fl VCI \ DO BR.\. 11. JAt Ili'. THEODORO IH Sll \

. \I · pr"'' 1,·-lnwnt·. •m \1utro. ril'leiros .• ugerc Antonil,


,lrfl1l',l~ d ' OUI L'· · J-. l ' , • ,
tirt mai. \ uro (\>rll 1d '· t'- . k.c hridt'res. para não s' suJettarem a repani-
1
• • a111·,·,, 1 1, 101 \t··srlt .1~ im ,'u.1 ~1Jjcstadc não deixou de obt r
".H'. n.l ' ~c 01 -. • • · -· • · ·
l!f,\1,k lu ·ro n.1 C.t~.l J.t \h •,.ü dL I Il de Janeiro.
• \ ·de d '\IH ! ,, tu muH.l g nlt' a d ·i ar. u.t. terr.t
·"' u' 'I•' c.mun.>sJ.J·mmas ~LH.Jctnn!.lmilp•. st'a.s• ·uparam m
, t. r. 11 nJ.lr .:.11 r 'ncg 'J.lf uro. lllJl. rara 0 St'll rróprit1 l •ndíci 'UO que

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d I.1L 'I 1 F OI' I fl VCI \ DO BR.\. 11. JAt Ili'. THEODORO IH Sll \

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CC l I R I OPVC l I IJV ftRA 11

Concluindo o seu estudo sobre opa da COC!IIOIIIIIia lllrWiileilra.


defende a proposta de que é Justo. canto para FUIIDda re.l
bem público. fa oreccr a cooquista e o deseovolvimllltoec<~nftiiBil:o
o lucro que a colônia gera para Portugal. pl'OI\Ielliealle du llavGura!Hk
açúcar e tabaco. da mineração e do era gnmde. sendo. portiDIO.
os requerimentos e demandas elabf:lra(losM ,coaOaia f<~S~Cm•eq101liitk11s n~pida­
mente para Portugal, o que nos 1e a a pensar
c lônia era muito IDOI'06IL Da mesma forma .A.toail estuDIV a mubi}llticlaçio
das igrejas.. para que todos tivessem mais MD6d10 para
A organização da economia colonial brasileira apnmonmenao da
religiosa sem dúvida guantiriam a cxpanlio do podutivoc~dlcoaa·
cialização do açúcar. tabaco, ouro e gado mcdiaaee lril.icll• ec:OIIlne~~bu~
adas no mercaulilismo.
É admirável neste livro aio
tincia da colônia DOS qaalasclo
fabuloso cusro bumiDo -=llllll1iriD:(IIPILa lll:odiiiCIO dO 1111;
Trata-se de wn bomela cam ••pâldlk villlioaill116do :IJRliCIMIC DIJ8J
futuro· nio apeaas .....-~--­
dos seoboles como. plillliplllla-.~IIM•IIICIIIMII.IIIIl'lae má ciD • ..._

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CC l I R I OPVC l I IJV ftRA 11

Concluindo o seu estudo sobre opa da COC!IIOIIIIIia lllrWiileilra.


defende a proposta de que é Justo. canto para FUIIDda re.l
bem público. fa oreccr a cooquista e o deseovolvimllltoec<~nftiiBil:o
o lucro que a colônia gera para Portugal. pl'OI\Ielliealle du llavGura!Hk
açúcar e tabaco. da mineração e do era gnmde. sendo. portiDIO.
os requerimentos e demandas elabf:lra(losM ,coaOaia f<~S~Cm•eq101liitk11s n~pida­
mente para Portugal, o que nos 1e a a pensar
c lônia era muito IDOI'06IL Da mesma forma .A.toail estuDIV a mubi}llticlaçio
das igrejas.. para que todos tivessem mais MD6d10 para
A organização da economia colonial brasileira apnmonmenao da
religiosa sem dúvida guantiriam a cxpanlio do podutivoc~dlcoaa·
cialização do açúcar. tabaco, ouro e gado mcdiaaee lril.icll• ec:OIIlne~~bu~
adas no mercaulilismo.
É admirável neste livro aio
tincia da colônia DOS qaalasclo
fabuloso cusro bumiDo -=llllll1iriD:(IIPILa lll:odiiiCIO dO 1111;
Trata-se de wn bomela cam ••pâldlk villlioaill116do :IJRliCIMIC DIJ8J
futuro· nio apeaas .....-~--­
dos seoboles como. plillliplllla-.~IIM•IIICIIIMII.IIIIl'lae má ciD • ..._

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/'/'OI' ttl 1'~ /'/t 11 11/IA '11 CAR r, IUfi!Ofe MOt

I J /,JIU I·I I I
,..... 11 nc'1 10 J.,, ,du:,f ""
I IJl , l / 1I
aavo• A 12 de novembro, """
YVI
de deM:ol nir.ação. a revoluçõe de índependbu:'1a dai ex~coJ~001ll5
,,reLu c) , 111 ,, lo ri• f 'Jfl lillll ~ ·l''· IJ l'cdw I I ch<~ a Conf>IIIUÍnte. ,t>éríc<~ rão decr JVa . o entant • o nucíment d Br
1
H,,11 tf,Íllo pr• ,, , ;~ v rhad " r: xJiad() para a !·rança, com &eu irmloa prccmméncia íngle a, com a pel1l'UUlblc1a da dínut1a dos Bra que.
M 111 m 11 11 u n r<~ f 11 Jo- rt.unbém d ptJiadc, cxil<~diJ~). pa1> ando por Viao gindo da tropas d~ Napoleão, atravessaram o Atlântico oltad pela arma
11 P nli<ll 1 f1• •.wdo 1 H11rd au K rn 5 de juf/Jo de lll24. Aí, vigiado pela da hritanic:a.
P''"' 1., Jr.HH , Hnp dHl o de voh<~r ao Bra il por han~oi~ Chateaubríand. nu Se a maior parte das principal lideranças portuguesas emigram para a ex-
111
lrt cfq /,xt lforv,ll lur~dr,(omornarqu~ de Palrnela, vivecomdificuldadc colônia, armstando consigo boa parte de~ e quadros adm~ntstrab os lá
p 11 hh~<wd'' .w1 !'111'\l fl\ mulw c Odr• no.\ f{rt'X"'· Durante a viagem de ficaram personagens importantes do mundo luso-brastlesro. Dentre eles o pauhsta
r '''rn" m JlQ'J,, .111.1 a falece uo navio. !·orçado a abdicar em 1831, Pedro José Bonifácio de Andrada e Silva. intelectual e cienusta dos ma1 destacados da
1, md1ç' lllt<Jr d,. Pedro li. com S anos. Nesse ano, sob o pseudônimo arcádico Europa. Personagem proeminente na vida póblíca européia. professor em Coimbra
r1 • A 111 ' nc<' Uí w. publica O poeta dellerrado. Ode e5crita em Bordtus em amadurecido na cultura da Ilustração, eta um cosmopolita e viajado pesqutsador
Jll2'i No ~11 0 ~q wnte 6 de~tituído da tutoria de Pedro IJ. por força do ministro tradutor, crítico, homem de ação. "BruUeiro", foi afastado no processo de im-
cb lu tiç;,, o pJdn !Jtc,go Antonio rcijcí, que o acusa de tentativa de levante plantação da corte e na reorganização do governo bragantino nos trópicos
Jrmado nt>/' i'' d<' Janeiro em lil11 I~m IWB, é definitivamente afastado da Bonifácio somente regressaria em 1819.já com 56 anos. após 36 anos longe do
tut ,,,,t, r IJrandr, c par.t Niterói "na condição de preso por conspira~ e Brasil. Participou do processo de tentativa de consolidação do império luso-bra~
f'C II !lrh IÇ t'HI I (lfdcm pública". Em uns. julgado a revelia, é absolvido, vínde sileiro, ultrapassado pela revolução liberal de 1820em Portugal, recolonizadora.
fal c ·r em f'a4u cuí .1 ()de ahril de Jil3S. e pela revolução da independência no Brasil.
O 1114u ieto Jo é BonifáCio, leitor de clássicos, cientista e tradutor • Nos embates entre a revolução descolonizadora. a contra-revolução e a
Ilu nhCJidt, ck:lt-ndcu .1 introduçao da vacina, do sistema métrico, da meteorologit, conciliação, teve papel decisivo, na liderança da construção do moderno Esta-
pr K.upou ~c com os problemas da população brasileira, da língua, da cul do brasileiro. Em 1833, defmitivamente alijado do jogo do poder, o Brasil de
uo '' , dos a n<~lfHbclo (.t~scgurado na Instrução de 19 de junho de 1822)~ pendente e escravocrata, já ocupava lugar es~vel no concerto das naçoes
' I rm.t agr.ína, da 1ndú Iria, da agricultura, da universidade. Como afirmoao embora diversamente do que ele preconizara.
h1 tori.tdOJ J o~é I Ioncíno Rodrigues, o projeto de José Bonifácio sobre a ab01i Conhecedor do mundo político, Bonifácio tinha clara noção das dificulda-
çao do trafico c da c~cravtdão constitui a mais importante obra brasileiraCOJI-' des de construção no Atlântico sul de um novo pafs. Para se fonnar uma
t~a o rráfko, " ·"clando sua grandeza de estadista". Talvez mais se~ "nação", sabia ele. requer-. um ••povo • uma "Identidade nacional". com cer-
d11cJ, cr.:10 cu. do projeto sobre os índios, de sua compacta correspond&tlll ta homogeneidade 6D:doa ~ GUit:Qral. :Miucado por seu tempo, como Pichle
~ubJl' tema~ \ános e de sua ação diplomática, que o qualificam como o ftu1c1ap Goethe, ou pelOJ ~canos. Bonifác1o bga--se, des-
do1 da política exterior brasileira. Homem da Ilustração, avançado para de o início do ' D01111a identidade cultural". E ma1s.
trrnpo. Jo é B ~nifácio foi posto fora da história, tendo sua imagem prC(:oni·~~,ai·fli!~~~.i!laae e compooente mdissociável da
!O'lii~Uasvezesmvisitado em conjuntu
gada co~ 0 rcv1gorarncnto da mentalidade atrasada do Segundo Reinado.
n:cstuda-lo. ~ionalidallle" por historiadorel
a.aBulilde&~Omha Gilber-
,. .:- - - Paoro Joaé
Ü CONTEXTO
·~-
~-~ lll8ftlndamen-

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M 111 m 11 11 u n r<~ f 11 Jo- rt.unbém d ptJiadc, cxil<~diJ~). pa1> ando por Viao gindo da tropas d~ Napoleão, atravessaram o Atlântico oltad pela arma
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1, md1ç' lllt<Jr d,. Pedro li. com S anos. Nesse ano, sob o pseudônimo arcádico Europa. Personagem proeminente na vida póblíca européia. professor em Coimbra
r1 • A 111 ' nc<' Uí w. publica O poeta dellerrado. Ode e5crita em Bordtus em amadurecido na cultura da Ilustração, eta um cosmopolita e viajado pesqutsador
Jll2'i No ~11 0 ~q wnte 6 de~tituído da tutoria de Pedro IJ. por força do ministro tradutor, crítico, homem de ação. "BruUeiro", foi afastado no processo de im-
cb lu tiç;,, o pJdn !Jtc,go Antonio rcijcí, que o acusa de tentativa de levante plantação da corte e na reorganização do governo bragantino nos trópicos
Jrmado nt>/' i'' d<' Janeiro em lil11 I~m IWB, é definitivamente afastado da Bonifácio somente regressaria em 1819.já com 56 anos. após 36 anos longe do
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fal c ·r em f'a4u cuí .1 ()de ahril de Jil3S. e pela revolução da independência no Brasil.
O 1114u ieto Jo é BonifáCio, leitor de clássicos, cientista e tradutor • Nos embates entre a revolução descolonizadora. a contra-revolução e a
Ilu nhCJidt, ck:lt-ndcu .1 introduçao da vacina, do sistema métrico, da meteorologit, conciliação, teve papel decisivo, na liderança da construção do moderno Esta-
pr K.upou ~c com os problemas da população brasileira, da língua, da cul do brasileiro. Em 1833, defmitivamente alijado do jogo do poder, o Brasil de
uo '' , dos a n<~lfHbclo (.t~scgurado na Instrução de 19 de junho de 1822)~ pendente e escravocrata, já ocupava lugar es~vel no concerto das naçoes
' I rm.t agr.ína, da 1ndú Iria, da agricultura, da universidade. Como afirmoao embora diversamente do que ele preconizara.
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çao do trafico c da c~cravtdão constitui a mais importante obra brasileiraCOJI-' des de construção no Atlântico sul de um novo pafs. Para se fonnar uma
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d11cJ, cr.:10 cu. do projeto sobre os índios, de sua compacta correspond&tlll ta homogeneidade 6D:doa ~ GUit:Qral. :Miucado por seu tempo, como Pichle
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do1 da política exterior brasileira. Homem da Ilustração, avançado para de o início do ' D01111a identidade cultural". E ma1s.
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PHUJI 10.~ I'ARA O BRA IL

, ou 1 u~ s~·lva . Antcdpando Rondon, e também Freire, Bonif4cio


qul'

,, 111 ~..1.1o •h cr a r~a rnat auva e empreendedora. pot reúne a VIVICidade iiJipe..
tu o C' .11 bu t t do n gro uJm a mobtlidadc e sens1b1hdade do europeu; pois o íudio
n t ~~lmcm m l;~ncohro e apáuco, estado de que nlo ai senlo por gl"'llde
e( c neta d p ni'le , ou pela embnaguez, a sua música~ 16gubre, e a ua c1uça
r · tr e tm(),el que a do negro. 1

1>.11 '111 nd.:r- e. hoje. por que seus principai textos- os mais c~

mt 111 1 c um programa e de uma teoria doBra il de todo o s6:ulo XIX


r m r· l md1os e os negros na x-colônia. Para esse líder ilustrado.._
Lt nh 'l r Pari durnnte a Revolução Francesa. impunha-se eliminaroC'allCI.ft

d ra 1dão e redefinir o papel do lemento nati o, o mais autentic:a111ieftft


11 I" Em uat ·a,oequacionamentodosdoistemasniosurgedi'issodal8

0 O [)()CU"fE."'TT: DOS INDIOS

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PHUJI 10.~ I'ARA O BRA IL

, ou 1 u~ s~·lva . Antcdpando Rondon, e também Freire, Bonif4cio


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,, 111 ~..1.1o •h cr a r~a rnat auva e empreendedora. pot reúne a VIVICidade iiJipe..
tu o C' .11 bu t t do n gro uJm a mobtlidadc e sens1b1hdade do europeu; pois o íudio
n t ~~lmcm m l;~ncohro e apáuco, estado de que nlo ai senlo por gl"'llde
e( c neta d p ni'le , ou pela embnaguez, a sua música~ 16gubre, e a ua c1uça
r · tr e tm(),el que a do negro. 1

1>.11 '111 nd.:r- e. hoje. por que seus principai textos- os mais c~

mt 111 1 c um programa e de uma teoria doBra il de todo o s6:ulo XIX


r m r· l md1os e os negros na x-colônia. Para esse líder ilustrado.._
Lt nh 'l r Pari durnnte a Revolução Francesa. impunha-se eliminaroC'allCI.ft

d ra 1dão e redefinir o papel do lemento nati o, o mais autentic:a111ieftft


11 I" Em uat ·a,oequacionamentodosdoistemasniosurgedi'issodal8

0 O [)()CU"fE."'TT: DOS INDIOS

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/'/WJ/.1(1.\ /'ARA O IlRAS/I,
CAMI Os OIJIIIIERM~ MCYT

1 rn que \l' 1:ncon1ram; segundo, o modo errado como os portugueses têm tra.
tado m índios. "ainda quando de~ejamos dome~ticá-los e fazê-los felizes". gregos c os romanos, "nações" muito instruídas e civthzadas, que 1 aram
()uanto <I ~Jiuuçào em <.Ule se acham, faz uma série de observações que, culos até adotar o cristianismo. E que os negros da Áfnca apesar de 1 rem
embora marcada\ pelo refom1ismo do despotismo esclarecido, revelam os juízos contato há séculos com os europeus, ainda estão "qua e no me mo •estado
de barbaridade" que o "nossos índios do Brasil".
de uma sociedade ainda presa aos valores estabelecidos, europeizada, branca,
pré-capitali\ta. Daf se dizer serem os índios "povos vagabundos", envolvidos Sua lógica é notável, nesse hábil e dialético movimento de rotaç 0 de
posições. Algo de Rousseau ronda sua teoria das civilizações e da cultura
em guerras contínuas c roubos, não terem freios religiosos ou civis, sendo-lhes
Segundo pensa, "o homem em estado selvático, e mormente o índio bra 0 do
"insuportável ~ujcitarem-se a kis, c costumes regulares". Entregues natural-
Brasil, deve ser preguiçoso". Tese radical. E aqui nasce uma prefiguração d
mente a preguiça, diz ele, fogem dos trabalhos regulares e aturados; temem
sua curiosa antropologia, que faria escola no Brasil no século gumtc, ao
sofrer lorne~. se abandonarem sua vida de caçadores. As "nações" inimigas
constatar que esse indígena pode arranchar-se em terrenos bundantes de
dos hrancos temem ser aldeadas, com medo de vingança depois, ou, presumi-
caça e pesca, de frutos silvestres, vivendo cômodo todo os dias e posto ao
damente valentes, desprezam os brancos por não terem sido castigados, prefe-
tempo, "sem os melindres de nosso luxo". O índio "não tem idéia de pro pen
nndo continuar a "roubar-nos a servir-nos''. Além disso, os valentes e poderosos dade, nem desejo de distinções e vaidades sociais, que são as molas podero a
entre eles temem perder esse respeito e os privilégios de guerreiros; e se en- que põem em atividade o homem civilizado". Tem, sim, uma "razão sem exer-
trarem "no seio da Igreja" deverão abandonar suas "contínuas bebedices", a cício", pouco treinada, é "falto de uma razão apurada, falto de precaução" por
polil.!amia e os divórcios voluntários. O que explica, segundo Bonifácio, que as não se preocupar mais senão com sua conservação física. Do que não v ,
r.lp.trigas casadas ,!dotassem mais facilmente a religião cristã, "porque assim nada lhe importa, nota o Patriarca. reduzindo-o assim brutalment ao estado
sc!'uram os maridos c se livram de rivais". natural: "É como o animal silvestre seu companheiro".
Ma~ o deputado das Luzes mostra o outro lado da mesma questão vista a O índio é diferente do homem civilizado, pois "para ser feliz o homem
p<~rtir do mau componamento dos brancos. O medo dos indígenas derivaria civilizado precisa calcular, e uma aritmética, por mais grosseira e manca que
dos cat1veirm antigos, do desprezo com o qual foram tratados, "o roubo contí- seja lhe é indispensável". Já o índio bravo, "sem bens e sem dinheiro, nada t m
nu o de ~ uas mclho1es terras", os serviços a que os sujeitamos, pagando pouco que calcular, e todas as idéias abstratas de quantidade e numero, sem ru qua1
ou nenhum salário ("jornais"), alimentando-os mal, "enganando-os nos contra a razão do homem pouco difere do instinto dos brutos, lhe são desconhecidas"
tos de w mpra, e venda, que com eles fazemos". E completa seu arrazoado Aqui está a diferença entre as duas civilizações, ou ntre a c1 ihzação e
dcn uncimtdo que os índios são tirados por anos c anos de suas famílias e roçaa a barbárie. Numa formulação cortante e inovadora. diz que o "índio da Amert
para o ~c rv iços do Est<tdo c de particulares. Em suma, damos-lhes todos OS ca parece um homem novo" por ter que repelir a força pela força, ndo a
no• o >ICJo c doenças, sem lhe~ comunicar nossas virtudes e talentos. Em guerra uma necessidade. "Bntlo a fraqueza e covmfia que alguns escritore5
contta te com a v1 ào que o E tado lu o-brasileiro tinha do assunto, isso 6 europeus fazem ingênitas aos fndios desaparecem. e uma oragem e valentw
re\olucmnano. Et'i ua u ·c~tão: que há poucos exemplos na Europa tomam o teu lugar". &oando Montaigne
do século XVI, lembra ele a descri9IO"' uma beralhl contada por Jean de
Léry, noinfciodacolonizaçlo,depoiJ~~contrao e
tu ror heccndo pnmcrro o que ~lo e devem er naturalmente 01 finalmente, do ÚldlO Camaslo CODb'a OI ueáellJo XVD
n a depor Jch m o o mero de os converter no que nos cumpre que Com rnenta1tc1aae ~ íiQ. eDOI'JI

••HM•
ele interpreta que taf,dtflilfiiiWufíW.Â'l•tuil~~
magistrados o
obrigaçio ..., fDalltl!tllll
diapersoa aa uwro~•

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CAMI Os OIJIIIIERM~ MCYT

1 rn que \l' 1:ncon1ram; segundo, o modo errado como os portugueses têm tra.
tado m índios. "ainda quando de~ejamos dome~ticá-los e fazê-los felizes". gregos c os romanos, "nações" muito instruídas e civthzadas, que 1 aram
()uanto <I ~Jiuuçào em <.Ule se acham, faz uma série de observações que, culos até adotar o cristianismo. E que os negros da Áfnca apesar de 1 rem
embora marcada\ pelo refom1ismo do despotismo esclarecido, revelam os juízos contato há séculos com os europeus, ainda estão "qua e no me mo •estado
de barbaridade" que o "nossos índios do Brasil".
de uma sociedade ainda presa aos valores estabelecidos, europeizada, branca,
pré-capitali\ta. Daf se dizer serem os índios "povos vagabundos", envolvidos Sua lógica é notável, nesse hábil e dialético movimento de rotaç 0 de
posições. Algo de Rousseau ronda sua teoria das civilizações e da cultura
em guerras contínuas c roubos, não terem freios religiosos ou civis, sendo-lhes
Segundo pensa, "o homem em estado selvático, e mormente o índio bra 0 do
"insuportável ~ujcitarem-se a kis, c costumes regulares". Entregues natural-
Brasil, deve ser preguiçoso". Tese radical. E aqui nasce uma prefiguração d
mente a preguiça, diz ele, fogem dos trabalhos regulares e aturados; temem
sua curiosa antropologia, que faria escola no Brasil no século gumtc, ao
sofrer lorne~. se abandonarem sua vida de caçadores. As "nações" inimigas
constatar que esse indígena pode arranchar-se em terrenos bundantes de
dos hrancos temem ser aldeadas, com medo de vingança depois, ou, presumi-
caça e pesca, de frutos silvestres, vivendo cômodo todo os dias e posto ao
damente valentes, desprezam os brancos por não terem sido castigados, prefe-
tempo, "sem os melindres de nosso luxo". O índio "não tem idéia de pro pen
nndo continuar a "roubar-nos a servir-nos''. Além disso, os valentes e poderosos dade, nem desejo de distinções e vaidades sociais, que são as molas podero a
entre eles temem perder esse respeito e os privilégios de guerreiros; e se en- que põem em atividade o homem civilizado". Tem, sim, uma "razão sem exer-
trarem "no seio da Igreja" deverão abandonar suas "contínuas bebedices", a cício", pouco treinada, é "falto de uma razão apurada, falto de precaução" por
polil.!amia e os divórcios voluntários. O que explica, segundo Bonifácio, que as não se preocupar mais senão com sua conservação física. Do que não v ,
r.lp.trigas casadas ,!dotassem mais facilmente a religião cristã, "porque assim nada lhe importa, nota o Patriarca. reduzindo-o assim brutalment ao estado
sc!'uram os maridos c se livram de rivais". natural: "É como o animal silvestre seu companheiro".
Ma~ o deputado das Luzes mostra o outro lado da mesma questão vista a O índio é diferente do homem civilizado, pois "para ser feliz o homem
p<~rtir do mau componamento dos brancos. O medo dos indígenas derivaria civilizado precisa calcular, e uma aritmética, por mais grosseira e manca que
dos cat1veirm antigos, do desprezo com o qual foram tratados, "o roubo contí- seja lhe é indispensável". Já o índio bravo, "sem bens e sem dinheiro, nada t m
nu o de ~ uas mclho1es terras", os serviços a que os sujeitamos, pagando pouco que calcular, e todas as idéias abstratas de quantidade e numero, sem ru qua1
ou nenhum salário ("jornais"), alimentando-os mal, "enganando-os nos contra a razão do homem pouco difere do instinto dos brutos, lhe são desconhecidas"
tos de w mpra, e venda, que com eles fazemos". E completa seu arrazoado Aqui está a diferença entre as duas civilizações, ou ntre a c1 ihzação e
dcn uncimtdo que os índios são tirados por anos c anos de suas famílias e roçaa a barbárie. Numa formulação cortante e inovadora. diz que o "índio da Amert
para o ~c rv iços do Est<tdo c de particulares. Em suma, damos-lhes todos OS ca parece um homem novo" por ter que repelir a força pela força, ndo a
no• o >ICJo c doenças, sem lhe~ comunicar nossas virtudes e talentos. Em guerra uma necessidade. "Bntlo a fraqueza e covmfia que alguns escritore5
contta te com a v1 ào que o E tado lu o-brasileiro tinha do assunto, isso 6 europeus fazem ingênitas aos fndios desaparecem. e uma oragem e valentw
re\olucmnano. Et'i ua u ·c~tão: que há poucos exemplos na Europa tomam o teu lugar". &oando Montaigne
do século XVI, lembra ele a descri9IO"' uma beralhl contada por Jean de
Léry, noinfciodacolonizaçlo,depoiJ~~contrao e
tu ror heccndo pnmcrro o que ~lo e devem er naturalmente 01 finalmente, do ÚldlO Camaslo CODb'a OI ueáellJo XVD
n a depor Jch m o o mero de os converter no que nos cumpre que Com rnenta1tc1aae ~ íiQ. eDOI'JI

••HM•
ele interpreta que taf,dtflilfiiiWufíW.Â'l•tuil~~
magistrados o
obrigaçio ..., fDalltl!tllll
diapersoa aa uwro~•

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CARLOS G ILHERME MQ'r

ó podem reprimir
devoram. E ha emo de
ri tio , Ih 1 mo feito

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CARLOS G ILHERME MQ'r

ó podem reprimir
devoram. E ha emo de
ri tio , Ih 1 mo feito

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R J 1 I\ I' I I BR \/L ( ARLO GUILHHRM MOT

n.t 1J J aJ1,, 'l.jUth~rar-. ·-i.un o culti' o e o f abri

I'ROPOST\.

uces Í\ " civiliza ão d

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R J 1 I\ I' I I BR \/L ( ARLO GUILHHRM MOT

n.t 1J J aJ1,, 'l.jUth~rar-. ·-i.un o culti' o e o f abri

I'ROPOST\.

uces Í\ " civiliza ão d

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F' ROl/- TOS ~\RA O BRASIL CARLOS GUILHERMe MOl'A

colônias. E qui.!. nada ohstante, não se arruinaram as colônias, nem o império É tempo, e ma•s que tempo, que acabemos com om trti'k:o tio b~aroecanuceuo, ~
ingl~ . . _ .. . . , tempo rambém que vamos acabando gradualmente a~ os úlbJIIOI veslfgJOS da escra-
Cone iamando de modo explícito seus conc1dadaos brastle1ros a adota. vtdão entre nós, para que venhamos a formar em poucas genaç6es umauaç1o homoge-
n.!m a causa da abolição, propõe os argumentos da "mzão, e da religião cristã, nea, sem o que nunca seremos verdadeiramente bv~Q, l'elpons4vetJ c felizes É da
maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade ffstca e CIVIl.
da hon 1a c do brio nacional''. E aqui se localizam os valores que embasam e
JUStificam sua tese indcpendentista c abolicionista, bastante avançada para o
Aqui reside a tese principal de Bonifácio, enunctada no mesmo tom da
·Bra~il ~cr11aleiro, numa conjunção de linhas ideológicas que desenham- pela
Convenção Nacional durante o período jacobino da Revolução Prancesa . A
w 1 prrmcrra num ambiente institucionalizado- o espaço nacional com homens
nação requer um povo, e que seja, dizia ele, o resultado de am4lgama (tenno
1r r~;\ Nesse sentido, está à frente até das lideranças independentistas da
que retira da química, que estuda inclusive o amálgama, ou nlo, de metai
América do Norte, inclusive de Thomas Jefferson. Pode-se entender, também,
diversos) de elementos que componham "um todo homogêneo e compacto,
a partir dessas po~içõcs radicais, por que seria, poucos meses depois, exilado,
com perseguição e risco de morte em alto-mar. que não se esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política"
Incita os deputados, comparando seu papel de químico que serlo agente
Autodcfine-sc ele como "cristão c filantropo", e pede o auxílio de Deus,
dessa "tão grande e difícil manipulação", e faz o julgamento dW'o da naç
que o "anime para ousar levantar minha fraca voz no meio desta augusta As-
portuguesa, "de que fazíamos outrora parte". Segundo pensa, "nenhuma talvez
Sl!mbleia". Lembra que seus ouvintes e pares são legisladores - ou seja,
pecou mais contra a humanidade".
agenll:~ da história - e têm por essa razão responsabilidade tremenda. Não
bla de revolução, mas prega a "regeneração política" do país, e justiça, pro- Aí está sua ruptura. Esse "outrora" joga para o passado um cont.encroao
pondo uma série de medidas concretas para a formação de um outro tipo de de erros, uma política desumana, a barbárie. Bonifácio faz história, ma tam
bémjulga a história com impiedade:
~~· ictl<itll' c. a longo prazo. de mentalidade. Para a independência nacional nl0
h<~stava a reforma política; necessário era constituir uma nova sociedade, vistó
Foram os portugueses os primeiros que, desde o tempo do infante D HoJirlque
que o despoti mo anterior queria que "fôssemos um povo mesclado e hetero-
fizeram um ramo do comúçio legal deprear homens livres. e veudl-los ClOIIe
geueo, sem nacional idade. e sem irmandade, para melhor nos escravizar". PaJ.II nos mercados europeus e americanos. Ainda hoje perto de 40 000 c:ríJCU~VhumaAu
.1 n:gencração, a Constituição liberal c duradoura deveria abrigar os pressU são arrancadas da África, privadas de 101.18laqa. de ICUI pm. filhoa I
postos da nova sociedade. portados às nossas regiGcs, ac:m aiiiCDOl'~ rapuwemouua p6t
Para tanto, Bonrfácio 1\!COITc a uma série de hábeis argumentos, c ares, e destinadas a trabalhar toda vic!J ®bailodo.IÇDJte eruel de aenham, el
çando por assustar as elites: deve-se acabar com o "país continuamente seus filhos, e os filhos de seus ftlhol ,PUt rolO o Rmpl'el •
do por uma multidão imensa de escr.rvos bmtais c inimigos", chegando a
num dos arttgos a revolução de escravos de São Domingos (hoje Haiti), A frase é sofisticada. ao fa1l~d~bí-1Joit - -
1791 As eli tes não devem ser apenas justas, como também penitentes.
o grande tema da época, o
mostras de arrependimento, pois "fomos contra a religião que diz 'não família, liberdade, futuro.
aos out1os o que queremos que na o nos façam a nós"' (em sua fOimtllatçãct~Q
.me\esada). lláhil, desfia uma série de mazelas que acompanham o
inc~ndios. rouhos, guerras, "que fomentamos entre os selvagens da
Qt~ · · ac.t~"ll!~~ com essas mortes e martírios sem conta, flagelos em
nropno tc 1ntnno" I~ . c pode imaginar o quanto suas palavras
tnltcnt . pohtico social. turbulento desde a insurreição de 1817
) tl,mdo \tlhr..:tudo os meios da empresa negreira, tão fort na

90

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F' ROl/- TOS ~\RA O BRASIL CARLOS GUILHERMe MOl'A

colônias. E qui.!. nada ohstante, não se arruinaram as colônias, nem o império É tempo, e ma•s que tempo, que acabemos com om trti'k:o tio b~aroecanuceuo, ~
ingl~ . . _ .. . . , tempo rambém que vamos acabando gradualmente a~ os úlbJIIOI veslfgJOS da escra-
Cone iamando de modo explícito seus conc1dadaos brastle1ros a adota. vtdão entre nós, para que venhamos a formar em poucas genaç6es umauaç1o homoge-
n.!m a causa da abolição, propõe os argumentos da "mzão, e da religião cristã, nea, sem o que nunca seremos verdadeiramente bv~Q, l'elpons4vetJ c felizes É da
maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade ffstca e CIVIl.
da hon 1a c do brio nacional''. E aqui se localizam os valores que embasam e
JUStificam sua tese indcpendentista c abolicionista, bastante avançada para o
Aqui reside a tese principal de Bonifácio, enunctada no mesmo tom da
·Bra~il ~cr11aleiro, numa conjunção de linhas ideológicas que desenham- pela
Convenção Nacional durante o período jacobino da Revolução Prancesa . A
w 1 prrmcrra num ambiente institucionalizado- o espaço nacional com homens
nação requer um povo, e que seja, dizia ele, o resultado de am4lgama (tenno
1r r~;\ Nesse sentido, está à frente até das lideranças independentistas da
que retira da química, que estuda inclusive o amálgama, ou nlo, de metai
América do Norte, inclusive de Thomas Jefferson. Pode-se entender, também,
diversos) de elementos que componham "um todo homogêneo e compacto,
a partir dessas po~içõcs radicais, por que seria, poucos meses depois, exilado,
com perseguição e risco de morte em alto-mar. que não se esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política"
Incita os deputados, comparando seu papel de químico que serlo agente
Autodcfine-sc ele como "cristão c filantropo", e pede o auxílio de Deus,
dessa "tão grande e difícil manipulação", e faz o julgamento dW'o da naç
que o "anime para ousar levantar minha fraca voz no meio desta augusta As-
portuguesa, "de que fazíamos outrora parte". Segundo pensa, "nenhuma talvez
Sl!mbleia". Lembra que seus ouvintes e pares são legisladores - ou seja,
pecou mais contra a humanidade".
agenll:~ da história - e têm por essa razão responsabilidade tremenda. Não
bla de revolução, mas prega a "regeneração política" do país, e justiça, pro- Aí está sua ruptura. Esse "outrora" joga para o passado um cont.encroao
pondo uma série de medidas concretas para a formação de um outro tipo de de erros, uma política desumana, a barbárie. Bonifácio faz história, ma tam
bémjulga a história com impiedade:
~~· ictl<itll' c. a longo prazo. de mentalidade. Para a independência nacional nl0
h<~stava a reforma política; necessário era constituir uma nova sociedade, vistó
Foram os portugueses os primeiros que, desde o tempo do infante D HoJirlque
que o despoti mo anterior queria que "fôssemos um povo mesclado e hetero-
fizeram um ramo do comúçio legal deprear homens livres. e veudl-los ClOIIe
geueo, sem nacional idade. e sem irmandade, para melhor nos escravizar". PaJ.II nos mercados europeus e americanos. Ainda hoje perto de 40 000 c:ríJCU~VhumaAu
.1 n:gencração, a Constituição liberal c duradoura deveria abrigar os pressU são arrancadas da África, privadas de 101.18laqa. de ICUI pm. filhoa I
postos da nova sociedade. portados às nossas regiGcs, ac:m aiiiCDOl'~ rapuwemouua p6t
Para tanto, Bonrfácio 1\!COITc a uma série de hábeis argumentos, c ares, e destinadas a trabalhar toda vic!J ®bailodo.IÇDJte eruel de aenham, el
çando por assustar as elites: deve-se acabar com o "país continuamente seus filhos, e os filhos de seus ftlhol ,PUt rolO o Rmpl'el •
do por uma multidão imensa de escr.rvos bmtais c inimigos", chegando a
num dos arttgos a revolução de escravos de São Domingos (hoje Haiti), A frase é sofisticada. ao fa1l~d~bí-1Joit - -
1791 As eli tes não devem ser apenas justas, como também penitentes.
o grande tema da época, o
mostras de arrependimento, pois "fomos contra a religião que diz 'não família, liberdade, futuro.
aos out1os o que queremos que na o nos façam a nós"' (em sua fOimtllatçãct~Q
.me\esada). lláhil, desfia uma série de mazelas que acompanham o
inc~ndios. rouhos, guerras, "que fomentamos entre os selvagens da
Qt~ · · ac.t~"ll!~~ com essas mortes e martírios sem conta, flagelos em
nropno tc 1ntnno" I~ . c pode imaginar o quanto suas palavras
tnltcnt . pohtico social. turbulento desde a insurreição de 1817
) tl,mdo \tlhr..:tudo os meios da empresa negreira, tão fort na

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1'/<0JI.TOS /11/1,\ O BRA:./1.
CARLOS GlJ!LHERME I A

1ul .mdo. er um fa,or comprá lo para lhes conservar a vida, ainda que em te um sistema de superstições e abusos anti- octai ... E. leitor de \ ltaire.
catiH:tro. Rl.!futa, a~.-..im, com vigor. os argumentos consolidados ao longo de ataca ··nosso clero, em muita parte ignorante e corrompido rpois] é o pnme'r
c ulo de exploração. incrustados na mentalidade dessa rude sociedade que se erve de escravos", para acumular. enriquecer, omeret r. p an r
c era\ tsta. formar muitas vezes com as "desgraçadas escra as um harém turc · Den n-
\ J longo da introdução aos pontos que irá propor para a feitura da lei,
cia os pseudo-estadistas, os "nos o comprad re e \endedores de c me hu-
rc' Ja-sc a ompo ição de sua ideologia monarquista liberal-con titucional, mana". venais "que só empunham a vara dajusti a para oprimir de gra d ·
undad.t em uma tmpr sionantemente sólida visão do direito público. do direito ficando a ordem de\ alores "de todo im enida no Brastl ',dominando no á-
r\ ti d.l ht tmia em geral Afinal. era leitor de Aristóteles, Sêneca. Cícero, rio 0 lu o e a corrupção. que nasceu entre nós nte da CJ 'hzação e da nd' •
l'lut : . Tá !lo, trgtlJO. Tu o LÍ\ io, Bacon. Leibniz. Bayle, Montesquieu, tria E qual a cau a dos males? A escra\ idão... E rebate o anugo argument
·en I n. Humc. Gtbbon, Herde r. Buffon ( obretudo). Meister e Voltaire, den- que ela é nece sária porque a gente do Brastl ''é froux preguiÇosa .
IR utr dás ·._ lem de Cam3e e \'ieira ~osso deputado. utilizando-se tem. diz. e para demonstrá-lo. recorre ao exemplo de ~o Paulo antes da
pJ idade d • rgumema ão. de observação do acontecimentos ão do engenhos de a úcar, que tinha poucos escra~os. e c 1a em po
âneo . do uso da dialética (que retira do clá sico ), alcança uma e agricultura. na base do milho. feijão, farinha, arroz toucinhos. carnes de
d• ied de bast:mte avançada para sua época: pois ele domina, co. etc. E calcula matematicamente que aqui produzia c nco
milho que em Ponugal. "estando as horas d trabal necessanoda la
razão inversa do produto da mesma".
Tal como Jefferson o fazia. baseia-se em ál u
ra ão l com a Índia, por exemplo, onde e iste ··unpoh · a
em castas", ou com a Cochinchina). Preocupad
te. ad' ene que naqueles países o ulti ocorria "sem nec:essi~:lc
matas e esterilizar terrenos. como desgraçadamen
do··. l'm precursor da ecologia. como se rê
Para re\ ner esse quadro. propugna a in1tmduciode tOO\'·as
ropéias. d eno c m poucos fa d insllrUI:netHOS
rústi o " e. com e práticas. o terre110. Mm,.,.nrtn nrt..'U< tralo.ll!\ldo,
fi ará''. Em sínt 3
:

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1'/<0JI.TOS /11/1,\ O BRA:./1.
CARLOS GlJ!LHERME I A

1ul .mdo. er um fa,or comprá lo para lhes conservar a vida, ainda que em te um sistema de superstições e abusos anti- octai ... E. leitor de \ ltaire.
catiH:tro. Rl.!futa, a~.-..im, com vigor. os argumentos consolidados ao longo de ataca ··nosso clero, em muita parte ignorante e corrompido rpois] é o pnme'r
c ulo de exploração. incrustados na mentalidade dessa rude sociedade que se erve de escravos", para acumular. enriquecer, omeret r. p an r
c era\ tsta. formar muitas vezes com as "desgraçadas escra as um harém turc · Den n-
\ J longo da introdução aos pontos que irá propor para a feitura da lei,
cia os pseudo-estadistas, os "nos o comprad re e \endedores de c me hu-
rc' Ja-sc a ompo ição de sua ideologia monarquista liberal-con titucional, mana". venais "que só empunham a vara dajusti a para oprimir de gra d ·
undad.t em uma tmpr sionantemente sólida visão do direito público. do direito ficando a ordem de\ alores "de todo im enida no Brastl ',dominando no á-
r\ ti d.l ht tmia em geral Afinal. era leitor de Aristóteles, Sêneca. Cícero, rio 0 lu o e a corrupção. que nasceu entre nós nte da CJ 'hzação e da nd' •
l'lut : . Tá !lo, trgtlJO. Tu o LÍ\ io, Bacon. Leibniz. Bayle, Montesquieu, tria E qual a cau a dos males? A escra\ idão... E rebate o anugo argument
·en I n. Humc. Gtbbon, Herde r. Buffon ( obretudo). Meister e Voltaire, den- que ela é nece sária porque a gente do Brastl ''é froux preguiÇosa .
IR utr dás ·._ lem de Cam3e e \'ieira ~osso deputado. utilizando-se tem. diz. e para demonstrá-lo. recorre ao exemplo de ~o Paulo antes da
pJ idade d • rgumema ão. de observação do acontecimentos ão do engenhos de a úcar, que tinha poucos escra~os. e c 1a em po
âneo . do uso da dialética (que retira do clá sico ), alcança uma e agricultura. na base do milho. feijão, farinha, arroz toucinhos. carnes de
d• ied de bast:mte avançada para sua época: pois ele domina, co. etc. E calcula matematicamente que aqui produzia c nco
milho que em Ponugal. "estando as horas d trabal necessanoda la
razão inversa do produto da mesma".
Tal como Jefferson o fazia. baseia-se em ál u
ra ão l com a Índia, por exemplo, onde e iste ··unpoh · a
em castas", ou com a Cochinchina). Preocupad
te. ad' ene que naqueles países o ulti ocorria "sem nec:essi~:lc
matas e esterilizar terrenos. como desgraçadamen
do··. l'm precursor da ecologia. como se rê
Para re\ ner esse quadro. propugna a in1tmduciode tOO\'·as
ropéias. d eno c m poucos fa d insllrUI:netHOS
rústi o " e. com e práticas. o terre110. Mm,.,.nrtn nrt..'U< tralo.ll!\ldo,
fi ará''. Em sínt 3
:

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PROJETOS PAR,\ O BRASIL CARLOS GUILHERME MOTA

Com 0 andar do tempo, serão postos em livre circulação cabedais mor-


tos. que não são absorvidos com a adoção desse sistema, livrando adernai as
famílias do mau exemplo e da tirania, poupando o Estado de seus inimigos, ou
seja, dessa gente que "hoje não tem pátria, e que podem vir a ser nosso
irmãos e nossos compatriotas".
Fazendo um apelo a uma inspiração profunda na religião de Jesus Cristo
"e não em momices e superstições", propõe que seja dada aos escravos toda a
civilização de que são capazes no seu desgraçado estado, "despojando-os 0
menos que pudermos da dignidade de homens e cidadãos".
Nessa perspectiva, cidadania, pátria, propriedade, fraternidade, liberda-
de, imigração, miscigenação e imigração delineariam os contorno da nova
idéia de nação independente, sustentada por uma sólida "sociedade civil". Que
deixasse o passado para trás, o que não aconteceu... Pois os interesses dos
comerciantes negreiros junto à coroa, associados aos interesses de grandes
proprietários de terras que ainda se utilizavam do trabalho escravo, e que co-
meçavam a ver renascer sua força com o crescimento da economia cafeeira,
conseguiram alijar Bonifácio da cena histórica brasileira.
Monarquista e constitucionalista ferrenho, a figura mais importante e i-
sível da jovem nação (tanto quanto Benjamin Franklin, "the Doctor". nos Esta-
dos Unidos), nosso sábio foi apeado do poder, aviltado, exilado em Talence,
nos arredores de Bordeaux, na França. Fez-se a independência, mas escra o
e índios continuariam no limbo de sua "incorrigível barbaridade", sem aber
exatamente qual era seu lugar no mundo que o português cnou.

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PROJETOS PAR,\ O BRASIL CARLOS GUILHERME MOTA

Com 0 andar do tempo, serão postos em livre circulação cabedais mor-


tos. que não são absorvidos com a adoção desse sistema, livrando adernai as
famílias do mau exemplo e da tirania, poupando o Estado de seus inimigos, ou
seja, dessa gente que "hoje não tem pátria, e que podem vir a ser nosso
irmãos e nossos compatriotas".
Fazendo um apelo a uma inspiração profunda na religião de Jesus Cristo
"e não em momices e superstições", propõe que seja dada aos escravos toda a
civilização de que são capazes no seu desgraçado estado, "despojando-os 0
menos que pudermos da dignidade de homens e cidadãos".
Nessa perspectiva, cidadania, pátria, propriedade, fraternidade, liberda-
de, imigração, miscigenação e imigração delineariam os contorno da nova
idéia de nação independente, sustentada por uma sólida "sociedade civil". Que
deixasse o passado para trás, o que não aconteceu... Pois os interesses dos
comerciantes negreiros junto à coroa, associados aos interesses de grandes
proprietários de terras que ainda se utilizavam do trabalho escravo, e que co-
meçavam a ver renascer sua força com o crescimento da economia cafeeira,
conseguiram alijar Bonifácio da cena histórica brasileira.
Monarquista e constitucionalista ferrenho, a figura mais importante e i-
sível da jovem nação (tanto quanto Benjamin Franklin, "the Doctor". nos Esta-
dos Unidos), nosso sábio foi apeado do poder, aviltado, exilado em Talence,
nos arredores de Bordeaux, na França. Fez-se a independência, mas escra o
e índios continuariam no limbo de sua "incorrigível barbaridade", sem aber
exatamente qual era seu lugar no mundo que o português cnou.

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Autobio ifi.

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Autobio ifi.

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Autor: um senhor de 64 anos de idade, que vive em desespero. Local:
fazenda Atalaia, no estado do Rio de Janeiro. Tempo de execução da obra:
quinze dias, na maior parte dos quais o autor tinha de interromper 0 trabalho,
atacado por crises violentas de enxaqueca. Momento: julho de 1878, imediata-
mente após a decretação da falência da empresa Mauá & Cia. Intenção origi-
na 1do trabalho: provar a credores prejudicados com a falência que o empresário
mereceu a confiança nele depositada. Resultado posterior: na avaliação do
economista Celso Furtado, um dos quinze livros básicos para se entender o
Brasil.
As condições precárias em que foi escrita Exposição aos credores. sua
finalidade episódica, conjuntural, jamais indicariam o destino posterior da obra
de Irineu Evangelista de Sousa, visconde de Mauá. Se ao improvisado escritor
faltavam tempo e vontade de fazer literatura ou análise, as próprias condições
do momento ajudavam a dar intensidade a suas palavras. Da fazenda onde
acompanhava o marido desesperado, Maria Joaquina de Sousa, também sobri-
nha do autor, escrevia a uma filha: "Teu pai envelheceu dez anos nestas quatro
semanas. Tenho me esforçado para consolá-lo, mas é difícil quando se tem
razão e se reconhece que [a falência) foi uma grande injustiça".
Injustiça: esse o sentimento envolvido intensamente na obra. Daí que ela
implique, acima de tudo, um julgamento moral: onde estaria a razão. que deve-
ria presidir a justiça- no homem que escrevia ou nas circunst&ncias que o
arrastaram a escrever como falido?
A falência dava nova forma à questão. O hvro era uma novidade para
aquele senhor. Ele escrevia muito, todos os dias. Mas sua especialidade eram
canas comerciais. De vez em quando. por exigência das situações, escre ia
um ou outro artigo de jornal, quase sempre para se defender ele a&aques O
debate de idéias desempenhava um papel muito seci1Dd4rio em s priorida-
des de empresário. Para Mauá, ~fora.amito mais importante ~ a
construção de obras visíveis, s6U4a, ~.-,~ E uma respo8Ca.a llJU
mentos, para ele, exigia aç a vkla ilttDiRir8·1111JIGD-
der críticas com inaupll'JÇ~---·
mais consistentes QCUIWi iDJIIIIII~
Vitória
&ideraçsõesrnc.;n'l'allmQ,dejkuati-·
deixava no WIDBQilD·~MIIII

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Autor: um senhor de 64 anos de idade, que vive em desespero. Local:
fazenda Atalaia, no estado do Rio de Janeiro. Tempo de execução da obra:
quinze dias, na maior parte dos quais o autor tinha de interromper 0 trabalho,
atacado por crises violentas de enxaqueca. Momento: julho de 1878, imediata-
mente após a decretação da falência da empresa Mauá & Cia. Intenção origi-
na 1do trabalho: provar a credores prejudicados com a falência que o empresário
mereceu a confiança nele depositada. Resultado posterior: na avaliação do
economista Celso Furtado, um dos quinze livros básicos para se entender o
Brasil.
As condições precárias em que foi escrita Exposição aos credores. sua
finalidade episódica, conjuntural, jamais indicariam o destino posterior da obra
de Irineu Evangelista de Sousa, visconde de Mauá. Se ao improvisado escritor
faltavam tempo e vontade de fazer literatura ou análise, as próprias condições
do momento ajudavam a dar intensidade a suas palavras. Da fazenda onde
acompanhava o marido desesperado, Maria Joaquina de Sousa, também sobri-
nha do autor, escrevia a uma filha: "Teu pai envelheceu dez anos nestas quatro
semanas. Tenho me esforçado para consolá-lo, mas é difícil quando se tem
razão e se reconhece que [a falência) foi uma grande injustiça".
Injustiça: esse o sentimento envolvido intensamente na obra. Daí que ela
implique, acima de tudo, um julgamento moral: onde estaria a razão. que deve-
ria presidir a justiça- no homem que escrevia ou nas circunst&ncias que o
arrastaram a escrever como falido?
A falência dava nova forma à questão. O hvro era uma novidade para
aquele senhor. Ele escrevia muito, todos os dias. Mas sua especialidade eram
canas comerciais. De vez em quando. por exigência das situações, escre ia
um ou outro artigo de jornal, quase sempre para se defender ele a&aques O
debate de idéias desempenhava um papel muito seci1Dd4rio em s priorida-
des de empresário. Para Mauá, ~fora.amito mais importante ~ a
construção de obras visíveis, s6U4a, ~.-,~ E uma respo8Ca.a llJU
mentos, para ele, exigia aç a vkla ilttDiRir8·1111JIGD-
der críticas com inaupll'JÇ~---·
mais consistentes QCUIWi iDJIIIIII~
Vitória
&ideraçsõesrnc.;n'l'allmQ,dejkuati-·
deixava no WIDBQilD·~MIIII

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1an10 DOI q dw
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Hlltido de ua vida unha
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btulllpt.,.& JIICIIW~:tr IIDl caraiaho pail,
,, "'' · d.t , "itullw.t tllfl l'>l.t, t•rlfuu . porque nmdenova quem vivia do tta
. . . . . . . .IJK:ia. paa leuJ
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10 •
dH._,_....,.fl~um desvio pocte.
A, x"·~·~~' d" lo11u11.t dl' lrim·u ajudou a aumentar a inveja contra
,, 11 I• 11111 a 1''" ,, na ''ulfU'>I t~r·•" de ~u:• riqueza. Enquanto foi multo
1111p1t olllll lt'Vr IJ;j :umas Jltllll harrar esse sentimentos. Poi
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cutltul nh ··;.com uma C.:lliiÇa inabalável na capacidade de creac:imento
tHIIllhtlll, t~tkir.t. hu cantlnwnstantemente novos melhorameDtol
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a< 11ou .ti a menti! o rflulo d barão- numa opcraçlo que delmclnsl*

100

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. . . . . . . .IJK:ia. paa leuJ
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10 •
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4U / 011/0GRMIA JORGE CALDEIRA

Jill'rJllllJUL'st,1o d ·adotar uma política t:conômica rt:stritiva, que favorecia a pals e não via diferença entre os dois resultados. Tudo o que considerava
, iJ,1 h11,1 Jc rt•n tistas t.!m dt:tnmc nto do crc cimento econômico. A sim, a em. importante, tudo o que esperava de bom, perdia sentido prático. Naquele 010 •
prt's,t dL' 1au.t em como um.l hakia pre a numa pequena enseada : sempre menta não havia mais as armas de semprc, somente a pena. Com ela lutaria
,uriscada ;) falta de t.! spuço para se 1110\ Ímentar. Várias vezes ele e caparu Para a maioria dos brasileiros, a falência parecia uma boa obra moral: 0 país s~.:
J ,ts tL·nwti' .t~ dt.! seus ,1dvcrsario. de fechar o cerco. De sa vez, não c capou. li vrava de um mal, afastava um perigo. Perigo traduzido na imagem demoníaca
F.tlttlll·lht• dinheiro em cai \a para manobrar. Um ocorro de liquidcz do Banco do emprc ário, que a falência parecia exorcizar. A faiCncia era derrota nao
Jo Hr.tsil s ·ria ·ufic:it•nte pa r.t •vitar o encalhc, ma. lhe foi negado. apenas pessoal: parecia uma prova evidente de que o caminho trilhado por
Pda~ lé1: da t'pt a, .t f.tlta de caixa tornava obrigatória a liquidação do Muuá não deveria ser seguido por outros.
lll' , l'itl l'nl II~S .lllos .. a liquid.tçfio roi decretada. Não import lVa que a ern- Pcça de defesa, a Exposiçcío aos credores tem urna estrutura narrati v.t
1' ·s.t I K • olid.t. n ·m quc tive .. 'ótima pt:rspcctivas econômicas. Mauá foi muito simples. Começa com um breve resumo dos anos iniciai de vida do
,,hrig.td 1 .t , t·m trt~s .mo .liquitl.tr um patrimônio monumental num país t:m que cmpre ário, até o momento em que ele lança seu primeiro empreendimento
.Lpropria crise tl·~l' LKadt•ada pela moratôria tornava mais pre árias as condi- industrial , a fundição e estaleiro da Ponta de Areia. A partir daí, numa série de
~' tl's ti· liquid ''· Fk quase on. eguiu o que parecia impos íwL entrc outras 25 capítulos curtos, descreve o desenvolvimento de um número idcntico d~
Clli'J por Jllt' ~u ,1s ·mprt:sa · n;i,) tinham problema, econômico.: o ativo era cmpre as que criou, que dirigiu ou de que participou. O estilo é seco, dirt•to,
. up ·nm ,to p.t . iH1 o. Ires anlls de prazo. fez uma redução de 80% do ma i parecido com o dos jornais do século XX que com o dos livros de sua
p.ts~i' ''· cpoca . Em poucas palavras o autor narra as circunstância , os cálculo~ de
Collll'\ ·t· otimo enc.uninhamcnto dos negocio. c o total apoio dos credo- rentabilidade ou as razões que o levaram ao negócio, e seus resultados. Qua ~c
r'.. tiniu de cnntom.tr apenil. um ob t:iettlo hurocnítico: obter prorrogação da nada de discussões laterais, raros elogios ou lamentações. Apenas o último
111• ra tl na .. tas .1 grande .trma que empregava para c defender perdera . ua capítulo, referente a seu banco, destoa disso. Ali há uma discussiio mais alen-
m 1gra \ moratt ria foi um sinal· estavam rompidas a barreiras para os ata· tada. Todo o argumento sobre a falência se concentra nesse final - c o ar~u ­
qu •s d · ·eu.•ld\ crsan< s unca. como ncs c período, Mauá foi tão atacado. mcnto será detalhado adiante.
Aind.t a· im. llltiOuou como :empre. fc mo urvado sob o pe o da morató- Antes dele, é preciso considerar a estrutura geral. O pequeno livro che-
ria. m.mt ' c. ua p siç;io tle jamai rt:. pondcr a ataques pe soai . No máximo. gou a ser depois publicado com o tftulo de Autobiografia. Título curio o. que
em momen to' !ltim,,s, faz1a ob ervaçõcs de tudo que c passava em cartas confunde uma lista de obras com a narração da intimidade. Mas também título
pata amigo.. uma dt!las. conclui u: "Em leão deitado, até burro dá coice". O compreensível. Para Mauá, de fato, as obras, a empresa c confundiam com
i~·~: qu • l ' J rrubou \ ·ío de uma manohra de ba tidores. com a qual os adver- 0
sentido de sua vida. As poucas páginas dedicadas a cada empresa re um1am
ano '.JUntaram para impedir a boa liquidação do negócios- uma pos ibili· an?s de trabalhos, glórias e frustrações- o plano das obras e resultados finan -
dad' ma1' que razoa\cl em face do hrilhante de empenho da liquidação. Emm ce~ros identificado diretamente com o dos de ejos e onho pessoais. Nada
ente pod •ro a. o que significava •mpregar cada interpretação de cada vírgula alem di ·
sso tmportava ao narrador, o que levou à troca pó tuma do título, s ·m
d..t l•t co.ntra n .11h ~r. áno . • 10 fim. venceram graças a um parágrafo do Código que nada parecesse estranho. Mas a mudança só foi pos ív I porque s a
rt lal qu . ~nga\ a a presença física dos credores para aprovar a prorro- associação se tomou algo imputável legitimamente a um empre ária. a épo·
-e \b~a !lnha credores não apenas em todo o Brasil. mas espalhados ~·era uma confusão imposswel. Melhor dizendo. ra algo quas inadmissível.
~ \.'m .P~Ise · \ s procuraçõc desses credores não foram reconhecidas e auá não pensava a obra como lista de realizações pessoai • a não ser por um
• f lenc1a ro1 d.::cretada.
1
subterfúgio··os argumentos de ordem pes oal eramJUStl
d
. 'fiJcatJvas
. para os cre-
E 0
qu_adro do drama vivido nos quinze dias como escritor num retiro t ores. Ele escreveu o livro para pedir desculpas públicas aos homens de quem
IÇao n~s-crednre~ é a exposição do sentido de uma vida, mas é, Ornou di h ·
d
-
n e1ro e não pagou. Apenas indiretamente. outros tão presentes.
. po I ao de uma frust . - . d h
nh raçao. a o ornem que construía, do ho-- a versários com força suficiente para impedir a liquidação das dívidas - e a
.l c m um grande futuro econômico para seu bolso e
manutenção da honra comercial do autor.
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4U / 011/0GRMIA JORGE CALDEIRA

Jill'rJllllJUL'st,1o d ·adotar uma política t:conômica rt:stritiva, que favorecia a pals e não via diferença entre os dois resultados. Tudo o que considerava
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Clli'J por Jllt' ~u ,1s ·mprt:sa · n;i,) tinham problema, econômico.: o ativo era cmpre as que criou, que dirigiu ou de que participou. O estilo é seco, dirt•to,
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~ \.'m .P~Ise · \ s procuraçõc desses credores não foram reconhecidas e auá não pensava a obra como lista de realizações pessoai • a não ser por um
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subterfúgio··os argumentos de ordem pes oal eramJUStl
d
. 'fiJcatJvas
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qu_adro do drama vivido nos quinze dias como escritor num retiro t ores. Ele escreveu o livro para pedir desculpas públicas aos homens de quem
IÇao n~s-crednre~ é a exposição do sentido de uma vida, mas é, Ornou di h ·
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n e1ro e não pagou. Apenas indiretamente. outros tão presentes.
. po I ao de uma frust . - . d h
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.l c m um grande futuro econômico para seu bolso e
manutenção da honra comercial do autor.
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A UTOB/OGRAFJA JORGE CALDEIRA

Como projeto literário, Exposição aos credores era obra de circunstân- ara isso durante a vida. Mas que, naquele momento, não poderia deixar de
cia. Pouco mais que uma lista, de leitura fácil, sem pretensão maior. Mandada p
a ontar aquela que const"derava a causa u'1"ttma de todo 0 desastre: 0 modo
imprimir numa pequena tipografia, apenas para distribuição a homens que ti- p . . h .
como 0 governo mtervm a na econonna.
nham dinheiro a receber, e receberiam em vez disso as desculpas escritas do Essa é a discussão de fundo em toda a obra. O argumento de Mauá é
empresário. Mas tomou-se um clássico, um tipo especialíssimo de clássico. relativamente simples: fez tudo o que um empresário individual poderia fazer. e
Não pode ser explicado somente por seu conteúdo, como os demais. A secura arou porque o Estado não queria empresas crescendo.
da linguagem, a falta aparente de idéias interligadas impedem o caminho tradi- p . . d
Sustenta a pnmerra parte o argumento no cerne da obra, a descrição de
cional de análise, centrada no conteúdo. Para entender a importância da obra, seus empreendimentos. O estaleiro da Ponta de Areia, primeira indústria do
é preciso acompanhar suas metamorfoses entre os leitores, que foram muitas, Brasil, que chegou a empregar mil e duzentos funcionários na década de 1850
elc.:vando passo a passo seu conceito. O tempo se encarregou de reverter o e no qual foram produzidos 72 navios- mais guindastes, engenhos de açúcar,
contexto da leitura e da avaliação crítica. canos de ferro, motores, peças de bronze, pontes metálicas e uma infinidade
Na época da publicação, Exposição aos credores foi recebida como de objetos. A primeira estrada de ferro do país. Uma companhia de iluminação
peça comercial. Razoável para os credores que acreditavam no empresário, a gás no Rio de Janeiro. Uma empresa de navegação na Amazônia. A Estrada
mas em geral apenas a queixa de um indivíduo ganancioso e em boa hora de Ferro Santos a Jundiaí. Dezenas de outros empreendimentos menores no
afastado do domínio de grandes massas de dinheiro. No entanto, a voz queixo- país. Mas não era só: Mauá tinha bancos e empresas no Uruguai, Argentina.
sa do narrador aos poucos foi se associando a um sentimento nacional: o de Inglaterra e França. No auge de seus negócios, chegou a controlar um conjun-
que o Brasil é um país que desperdiça oportunidades, que não consegue cres- to de dezessete empresas espalhadas por seis países.
cer, que vai ficando para trás enquanto o mundo avança. Na via inversa, o No mundo pós-Mauá, em que estruturas multinacionais são comuns, en-
mundo ao qual se opunha o indivíduo que remava contra a maré deixou de ter tende-se com mais facilidade esse tipo de descrição. Mas, na época dos em-
a importância que parecia ter em 1878. Nenhum brasileiro hoje levaria a sério preendimentos de Mauá, tal estrutura era uma raridade. Eram os tempos do
um projeto cuja proposta fosse conter o desenvolvimento econômico para evi- capitalismo concorrencial, quando o âmbito das empresas era muito limitado.
tar prejuízos para nobres proprietários de terras e seus sócios comerciantes. Mais ainda, era quase inexistente a estrutura de fundar negócios a partir de um
Nenhum brasi leiro levaria a sério tentativas deliberadas de se evitar que o país banco, empregado como instrumento de financiamento para grandes projetos
tivesse indústrias, consideradas "artificiais", para não ameaçar sua natural empresariais do grupo. O negócio de Mauá, em essência, era controlar um
vocação para a agricultura e a natural destinação de todos os trabalhadores banco de investimentos e, ao mesmo tempo, as empresas financiadas por ele.
para um poço onde nenhum de seus direitos fosse reconhecido. Negócio com estrutura avançada mesmo para a Inglaterra, então a maior po-
ssim. o que na época era drama pessoal, pode muito bem ser visto atual· tência capitalista do planeta.
mente como drama nacionaL A sensação de frustração do empresário é a sen- Por causa dessa estrutura, os empreendimentos de Mauá sempre foram
sa ão de todos os brasileiros com a situação do país. A descrição das barreiraS melhor entendidos na Inglaterra que no Brasil. Enquanto os grandes ricos do
que encontrou é a de impedimentos que irritam os leitores posteriores. país o odiavam, os maiores milionários ingleses faziam questão de imestir seu
• 'a última frase da obra há uma pista para o valor que permitiu a dinheiro nos projetos desenhados por aquele estranho tipo tropical. No sécul~
tr:m c ndência .. [auá termina sua Exposição aos credores com as seguinteS passado, Mauá sensibiliza.va gente que pensava no futuro. Gente como 0 escn-
pai 'ra : •·p la pane que me toca. fui vencido, mas não convencido". A fraSe tor francês Júlio Veme, que o tomou personagem de um de seus livro • ~agem
é u~;a citação: o utor original foi o imperador D. Pedro li, obrigado a reco- à Lua. Conta a história de um capitão que, tendo desenvolvido um projetO de
- r unu deci ão do Vaticano com a qual não concordava. Remete o leitor foguete lunar e estando às voltas com dificuldades para que as pessoas ao
qu onte' e o ímpeto empresarial: a própria monarquia. Re· redor o entendam, imagina uma saída. Faz um apelo aos homens de ~
de pa agem. feita por um monarquista, incapaz de proferir visão no mundo, que possam investir em algo como um foguete. Entre w
iP ta ao governo de seu país, mesmo tendo todos os motiVOS homens, inclui o barão de Mauá, do Brasil.

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A UTOB/OGRAFJA JORGE CALDEIRA

Como projeto literário, Exposição aos credores era obra de circunstân- ara isso durante a vida. Mas que, naquele momento, não poderia deixar de
cia. Pouco mais que uma lista, de leitura fácil, sem pretensão maior. Mandada p
a ontar aquela que const"derava a causa u'1"ttma de todo 0 desastre: 0 modo
imprimir numa pequena tipografia, apenas para distribuição a homens que ti- p . . h .
como 0 governo mtervm a na econonna.
nham dinheiro a receber, e receberiam em vez disso as desculpas escritas do Essa é a discussão de fundo em toda a obra. O argumento de Mauá é
empresário. Mas tomou-se um clássico, um tipo especialíssimo de clássico. relativamente simples: fez tudo o que um empresário individual poderia fazer. e
Não pode ser explicado somente por seu conteúdo, como os demais. A secura arou porque o Estado não queria empresas crescendo.
da linguagem, a falta aparente de idéias interligadas impedem o caminho tradi- p . . d
Sustenta a pnmerra parte o argumento no cerne da obra, a descrição de
cional de análise, centrada no conteúdo. Para entender a importância da obra, seus empreendimentos. O estaleiro da Ponta de Areia, primeira indústria do
é preciso acompanhar suas metamorfoses entre os leitores, que foram muitas, Brasil, que chegou a empregar mil e duzentos funcionários na década de 1850
elc.:vando passo a passo seu conceito. O tempo se encarregou de reverter o e no qual foram produzidos 72 navios- mais guindastes, engenhos de açúcar,
contexto da leitura e da avaliação crítica. canos de ferro, motores, peças de bronze, pontes metálicas e uma infinidade
Na época da publicação, Exposição aos credores foi recebida como de objetos. A primeira estrada de ferro do país. Uma companhia de iluminação
peça comercial. Razoável para os credores que acreditavam no empresário, a gás no Rio de Janeiro. Uma empresa de navegação na Amazônia. A Estrada
mas em geral apenas a queixa de um indivíduo ganancioso e em boa hora de Ferro Santos a Jundiaí. Dezenas de outros empreendimentos menores no
afastado do domínio de grandes massas de dinheiro. No entanto, a voz queixo- país. Mas não era só: Mauá tinha bancos e empresas no Uruguai, Argentina.
sa do narrador aos poucos foi se associando a um sentimento nacional: o de Inglaterra e França. No auge de seus negócios, chegou a controlar um conjun-
que o Brasil é um país que desperdiça oportunidades, que não consegue cres- to de dezessete empresas espalhadas por seis países.
cer, que vai ficando para trás enquanto o mundo avança. Na via inversa, o No mundo pós-Mauá, em que estruturas multinacionais são comuns, en-
mundo ao qual se opunha o indivíduo que remava contra a maré deixou de ter tende-se com mais facilidade esse tipo de descrição. Mas, na época dos em-
a importância que parecia ter em 1878. Nenhum brasileiro hoje levaria a sério preendimentos de Mauá, tal estrutura era uma raridade. Eram os tempos do
um projeto cuja proposta fosse conter o desenvolvimento econômico para evi- capitalismo concorrencial, quando o âmbito das empresas era muito limitado.
tar prejuízos para nobres proprietários de terras e seus sócios comerciantes. Mais ainda, era quase inexistente a estrutura de fundar negócios a partir de um
Nenhum brasi leiro levaria a sério tentativas deliberadas de se evitar que o país banco, empregado como instrumento de financiamento para grandes projetos
tivesse indústrias, consideradas "artificiais", para não ameaçar sua natural empresariais do grupo. O negócio de Mauá, em essência, era controlar um
vocação para a agricultura e a natural destinação de todos os trabalhadores banco de investimentos e, ao mesmo tempo, as empresas financiadas por ele.
para um poço onde nenhum de seus direitos fosse reconhecido. Negócio com estrutura avançada mesmo para a Inglaterra, então a maior po-
ssim. o que na época era drama pessoal, pode muito bem ser visto atual· tência capitalista do planeta.
mente como drama nacionaL A sensação de frustração do empresário é a sen- Por causa dessa estrutura, os empreendimentos de Mauá sempre foram
sa ão de todos os brasileiros com a situação do país. A descrição das barreiraS melhor entendidos na Inglaterra que no Brasil. Enquanto os grandes ricos do
que encontrou é a de impedimentos que irritam os leitores posteriores. país o odiavam, os maiores milionários ingleses faziam questão de imestir seu
• 'a última frase da obra há uma pista para o valor que permitiu a dinheiro nos projetos desenhados por aquele estranho tipo tropical. No sécul~
tr:m c ndência .. [auá termina sua Exposição aos credores com as seguinteS passado, Mauá sensibiliza.va gente que pensava no futuro. Gente como 0 escn-
pai 'ra : •·p la pane que me toca. fui vencido, mas não convencido". A fraSe tor francês Júlio Veme, que o tomou personagem de um de seus livro • ~agem
é u~;a citação: o utor original foi o imperador D. Pedro li, obrigado a reco- à Lua. Conta a história de um capitão que, tendo desenvolvido um projetO de
- r unu deci ão do Vaticano com a qual não concordava. Remete o leitor foguete lunar e estando às voltas com dificuldades para que as pessoas ao
qu onte' e o ímpeto empresarial: a própria monarquia. Re· redor o entendam, imagina uma saída. Faz um apelo aos homens de ~
de pa agem. feita por um monarquista, incapaz de proferir visão no mundo, que possam investir em algo como um foguete. Entre w
iP ta ao governo de seu país, mesmo tendo todos os motiVOS homens, inclui o barão de Mauá, do Brasil.

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JORGE C LDE RA

-~·-ões. en\'Olvimento com a polüica fiscal. necess>dade


~~:-o !!TOS. O de suas empresas envo· "ia a prestaçã de se
!O . ~
pon.wro. diretamente o governo. como concess:onário e muuas ezes
d r de ubsídios para os negócios.
A partir dessa constatação. di'. ide-se a heranç da de ~1:1 á _ e i".a
própria conónuidade da divisão está o sinal da 1m rtâ cía do i r • ·,
enenle interpretativa estão os que considerain \ álido o argu •o do a . r E
q e. por isso. em geraJ apresentam • fauá como um pal in da li re in1c:a ~
e do progres o. com a vida emperrada por go>emantes q e fi ariam me r
em algum século anterior ao XIX. Tradição imciada por Alberto de Fana. qt:e
publicou em 1924 o li \To Jfauá .. ·a vertente oposta. cujo inaugurador ti i Edg
de Castro Rebello, autor de Jfauá: restaurarulo a >erdade. da o lu;: err
1932. a argumentação do favorecido foi retrabalbada a partir de um mstrume .
tal marxista. FaJso o empresário que se quer privado no Brasil. porque -
passa de um filho espúrio dos favores do Tesouro.
Assim Exposição aos credores passou pelo século XX. como um..t o a
que coloca emblematicamente o papel do empresário privado na soc1eda e
brasileira. Papel positivo e fundamentaJ, para os liberais; retrógrado e incapaz
de heroísmo, na via oposta.
Dessa duplicidade de vertentes possíveis de leitura deri\a em pane a
riqueza do livro de Mauá. Duplicidade que se expressa em sua estrutura· ao
mesmo tempo confissão pessoaJ, gesto de dor de um homem e análLe da ida
econômica do pais, com conclusões que transcendem a figura indi\ idual e p
jetam um problema.
_a :ne· e a argumentação, desem•olvída no último A proximidade do sécuJo XXI, com o fim das barreiras ideológ1ca q e
Ma. O a1TI1d r ce. tra o fracasso não na sua capa- garantiam a firmeza das vertentes interpretativas do século - sub ttuídas
as arre •as · .s i•ucionais existentes no BrasiJ parao por um cenário tão geral como incerto em seus resuJtados, o da globahzar(
íntese .. fauá diz que a excessiva interferência - , pennitíu um novo enquadramento para o livro. Várias reed1ções f r m
::: nam melhor se dirigidos por particulares foi a realizadas a partir dos anos 80, com ensaios que mostravam a surpreendente
atualidade do dilema original. O lugar do Estado na economia brastle1ra tão
e • se o d"sc ido há um século. Enquanto tiver im- solidamente assegurado por Getúlio Vargas e tão extraordinariamente ampl a-
po ~ e. . 'ele se concentra a parte substantiva daS do no regime militar, (ornou-se o fulcro do drama brasileiro neste fim
· •o q e o le aram da posição de panfleto à de clássi- século. Drama já presente no livro, drama que toma sua leitura quase ob
ca . p rca ão falz mal do governo parecia quase cinismo para gatória.
E - a todto m<}men o. apresentaram Mauá como uma figura A sobrevivência do que parece ser um caso individual como estrutura
,.,.,,•• ~ n-...~•:.e ~on ·á .o do que pretendia ser: um favorecido do Estado. forte na discussão sobre o destino do país, enfim. não pode ser ignorada. Ma1
~---'""' '1-'c; g3.m:~ooam· heíro com fa ·ore inconfessáveis. Um argumento fácil que dar ou não dar razão aos argumentos do empresário que sofria. 0 livro tem
em;) .camente. Da primeira à última empresa, havia con- valor porque narra questões fundamentais para o Brasil Nesse quadro. talvez

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JORGE C LDE RA

-~·-ões. en\'Olvimento com a polüica fiscal. necess>dade


~~:-o !!TOS. O de suas empresas envo· "ia a prestaçã de se
!O . ~
pon.wro. diretamente o governo. como concess:onário e muuas ezes
d r de ubsídios para os negócios.
A partir dessa constatação. di'. ide-se a heranç da de ~1:1 á _ e i".a
própria conónuidade da divisão está o sinal da 1m rtâ cía do i r • ·,
enenle interpretativa estão os que considerain \ álido o argu •o do a . r E
q e. por isso. em geraJ apresentam • fauá como um pal in da li re in1c:a ~
e do progres o. com a vida emperrada por go>emantes q e fi ariam me r
em algum século anterior ao XIX. Tradição imciada por Alberto de Fana. qt:e
publicou em 1924 o li \To Jfauá .. ·a vertente oposta. cujo inaugurador ti i Edg
de Castro Rebello, autor de Jfauá: restaurarulo a >erdade. da o lu;: err
1932. a argumentação do favorecido foi retrabalbada a partir de um mstrume .
tal marxista. FaJso o empresário que se quer privado no Brasil. porque -
passa de um filho espúrio dos favores do Tesouro.
Assim Exposição aos credores passou pelo século XX. como um..t o a
que coloca emblematicamente o papel do empresário privado na soc1eda e
brasileira. Papel positivo e fundamentaJ, para os liberais; retrógrado e incapaz
de heroísmo, na via oposta.
Dessa duplicidade de vertentes possíveis de leitura deri\a em pane a
riqueza do livro de Mauá. Duplicidade que se expressa em sua estrutura· ao
mesmo tempo confissão pessoaJ, gesto de dor de um homem e análLe da ida
econômica do pais, com conclusões que transcendem a figura indi\ idual e p
jetam um problema.
_a :ne· e a argumentação, desem•olvída no último A proximidade do sécuJo XXI, com o fim das barreiras ideológ1ca q e
Ma. O a1TI1d r ce. tra o fracasso não na sua capa- garantiam a firmeza das vertentes interpretativas do século - sub ttuídas
as arre •as · .s i•ucionais existentes no BrasiJ parao por um cenário tão geral como incerto em seus resuJtados, o da globahzar(
íntese .. fauá diz que a excessiva interferência - , pennitíu um novo enquadramento para o livro. Várias reed1ções f r m
::: nam melhor se dirigidos por particulares foi a realizadas a partir dos anos 80, com ensaios que mostravam a surpreendente
atualidade do dilema original. O lugar do Estado na economia brastle1ra tão
e • se o d"sc ido há um século. Enquanto tiver im- solidamente assegurado por Getúlio Vargas e tão extraordinariamente ampl a-
po ~ e. . 'ele se concentra a parte substantiva daS do no regime militar, (ornou-se o fulcro do drama brasileiro neste fim
· •o q e o le aram da posição de panfleto à de clássi- século. Drama já presente no livro, drama que toma sua leitura quase ob
ca . p rca ão falz mal do governo parecia quase cinismo para gatória.
E - a todto m<}men o. apresentaram Mauá como uma figura A sobrevivência do que parece ser um caso individual como estrutura
,.,.,,•• ~ n-...~•:.e ~on ·á .o do que pretendia ser: um favorecido do Estado. forte na discussão sobre o destino do país, enfim. não pode ser ignorada. Ma1
~---'""' '1-'c; g3.m:~ooam· heíro com fa ·ore inconfessáveis. Um argumento fácil que dar ou não dar razão aos argumentos do empresário que sofria. 0 livro tem
em;) .camente. Da primeira à última empresa, havia con- valor porque narra questões fundamentais para o Brasil Nesse quadro. talvez

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AUTOB/OGRAF/tl JORGE CALDEIRA

compcn e olhar para o argumento de Mauá no que vale para além do peso ponsável pela ~statização, dirigido pelo próprio imperador, era que havia risco
trazido pelas interpretações opostas que vigoraram no século XX. demais em detxar o controle do mercado de capitais nas mãos de agentes
:Vtau:í não de creve a intervenção estatal como uma questão de princí- privados - apresentados_ como aventure~ros. irresponsáveis. Mauá perdeu a
pio. Pelo contrário, o Ih ro traz muitos trechos em que ele clama por ela, ern batalha e o banco, mas nao se deu por satisfeito. No ano seguinte, linha reuni-
que afirma que é uma obrigação do Estado apoiar os empresários nacionais. 0 do capitais para montar um banco maior ainda- e nesse momento foi impedido
que discute, isto sim, é a maneira como tal intervenção acontece. Trata-se de estruturar a empresa como uma sociedade anônima, e limitado na capitali-
portanto, de uma discussão no campo das oportunidades e meios. ' zação do negócio.
Apreciado com essa necessária limitação, o argumento central ganha A forma quase obrigatória das grandes empresas, sejam de qne ramo ou
outro significado Não é discussão sobre ideologia, mas sobre atos práticos. país forem, é a das sociedades anônimas. É, enfim, de empresas que são gran-
Clama, digamos assim, por uma intervenção "correta" do governo, aquela que des porque recorrem ao mercado de capitais para ganhar estrutura financeira
permita desenvolvimento de empresas, não uma que as limite- como julga ter à altura dos desafios que pretendem enfrentar. As empresas brasileiras de to-
acontecido em seu caso. am bastante dessa tendência geral, mesmo quando as comparaçõe · são feitas
Assim se chega ao fundo do argumento. Mauá atribuiu seus problemas em números relativos. Quando necessitam do mercado de capitais, não encon-
de I878 a um ato governamental de 1854: a proibição de que organizasse sua tram um mercado privado de acionistas ou tomadores de bônus. Só lhes resta
empresa-mãe, o banco de investimentos, como uma empresa de capital aberto 0 Estado, seja por meio de suas instituições financeiras, seja por favores fis-

e na qual os acionistas correriam riscos de capital. Por causa disso, tudo o que cais ou fundos de pensão.
É certo que hoje isso é uma via obrigatória -como foi obrigatória para
fe.t: sempre correu um risco evitável. Sem poder recorrer a capital de tercei-
Mauá desde 1854. O que diferencia seu argumento da situação presente c!
ros ficava permanentemente descapitalizado, correndo riscos muito maiores.
uma hipótese: e se fosse diferente? Uma hipótese que ele, ao contrário dos que
Parece pouco, mas é um argumento forte. Mauá toca no grande proble-
vieram depois, pôde apresentarno livro como possibilidade real. Afinal, tinha o
ma estrutural de todas as empresas brasileiras até hoje: a ausência de um
dinheiro, tinha capital - o que não teve, diz, foi a permissão do governo para
mercado de capitais desenvolvido que as suporte. Diz que esse mercado não
se desenvolveu porque o governo atuou o tempo todo para impedir que fosse seguir seu caminho.
Este o nervo exposto: uma possibilidade, uma responsabilidade. Uma
privado- e não porque o Brasil era um país pobre em capitais ou em instru-
possibilidade que ganha ênfase dramática com o caso pessoal. Mais que a
mentos huma ~ para geri-los.
discussão finalista e escolástica sobre o papel do Estado na economia, está a
'm simples golpe de vista sobre a estrutura das grandes empresas brasi-
grande questão, posta em forma pessoal: quem faz o progresso, o empresário
leJraç. na época ou depois dela, permite ver que essa distorção importa. Em-
ou seus inimigos? Quem cuida do interesse público melhor: empresários uu
pre a grande, no Brasil, quase só estatal ou familiar. Para além dessas, domina
governantes?
o capital estrangeiro. porque possui por trás das empresas um acesso privilegi-
O brilho empresarial de Mauá dá brilho a suas crenças e hipóteses - u
ado a mercado de crédito internacionais. A única maneira "nacional" de com- resultado final do negócio fala contra elas. O deslocamento entre o sentimento
pen ar essa desvantagem é o apelo a uma sólida fortuna particular, em geral de grandeza e frustração dá mais qualidade literária, drama c fluidez para a
composta de atil:os de elevado valor patrimonial e baixa liquidez. Saída cuja
leitura.
face isí\e) é'a presença de empresários brasileiros nas listas de homens mais Este final de século ~crescenta um elemento extra: a possibilidade de
ncos do mundo. em visÍ\·eJ contraste com a ausência de empresas brasileiras entregar o controle do desenvolvimento a agentes privados, que parecia enter-
nas mesmas listas. rada desde a década de 30 ressurgiu com seus esplendores e misérias. Mas
o centro dessa diferença está o mercado de capitais. Financiamento de out . . ' . ' . (' t é orno uma discussão de
ra vez, aqut, uma leitura finahsta do 1Jvro JS o • c
..,o prazo. no Brasil, só o feito por empresas financeiras estatais. Essa situa· · , . · ) pod ocultar problemas rele-
Pnnciplo sobre o papel do Estado na economia e
ç xi te desde 1853, quando o governo imperial estatizou o Banco do Brasil. vantes.
fundado dois anos antes por Mauá. O argumento central do movimento res·
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AUTOB/OGRAF/tl JORGE CALDEIRA

compcn e olhar para o argumento de Mauá no que vale para além do peso ponsável pela ~statização, dirigido pelo próprio imperador, era que havia risco
trazido pelas interpretações opostas que vigoraram no século XX. demais em detxar o controle do mercado de capitais nas mãos de agentes
:Vtau:í não de creve a intervenção estatal como uma questão de princí- privados - apresentados_ como aventure~ros. irresponsáveis. Mauá perdeu a
pio. Pelo contrário, o Ih ro traz muitos trechos em que ele clama por ela, ern batalha e o banco, mas nao se deu por satisfeito. No ano seguinte, linha reuni-
que afirma que é uma obrigação do Estado apoiar os empresários nacionais. 0 do capitais para montar um banco maior ainda- e nesse momento foi impedido
que discute, isto sim, é a maneira como tal intervenção acontece. Trata-se de estruturar a empresa como uma sociedade anônima, e limitado na capitali-
portanto, de uma discussão no campo das oportunidades e meios. ' zação do negócio.
Apreciado com essa necessária limitação, o argumento central ganha A forma quase obrigatória das grandes empresas, sejam de qne ramo ou
outro significado Não é discussão sobre ideologia, mas sobre atos práticos. país forem, é a das sociedades anônimas. É, enfim, de empresas que são gran-
Clama, digamos assim, por uma intervenção "correta" do governo, aquela que des porque recorrem ao mercado de capitais para ganhar estrutura financeira
permita desenvolvimento de empresas, não uma que as limite- como julga ter à altura dos desafios que pretendem enfrentar. As empresas brasileiras de to-
acontecido em seu caso. am bastante dessa tendência geral, mesmo quando as comparaçõe · são feitas
Assim se chega ao fundo do argumento. Mauá atribuiu seus problemas em números relativos. Quando necessitam do mercado de capitais, não encon-
de I878 a um ato governamental de 1854: a proibição de que organizasse sua tram um mercado privado de acionistas ou tomadores de bônus. Só lhes resta
empresa-mãe, o banco de investimentos, como uma empresa de capital aberto 0 Estado, seja por meio de suas instituições financeiras, seja por favores fis-

e na qual os acionistas correriam riscos de capital. Por causa disso, tudo o que cais ou fundos de pensão.
É certo que hoje isso é uma via obrigatória -como foi obrigatória para
fe.t: sempre correu um risco evitável. Sem poder recorrer a capital de tercei-
Mauá desde 1854. O que diferencia seu argumento da situação presente c!
ros ficava permanentemente descapitalizado, correndo riscos muito maiores.
uma hipótese: e se fosse diferente? Uma hipótese que ele, ao contrário dos que
Parece pouco, mas é um argumento forte. Mauá toca no grande proble-
vieram depois, pôde apresentarno livro como possibilidade real. Afinal, tinha o
ma estrutural de todas as empresas brasileiras até hoje: a ausência de um
dinheiro, tinha capital - o que não teve, diz, foi a permissão do governo para
mercado de capitais desenvolvido que as suporte. Diz que esse mercado não
se desenvolveu porque o governo atuou o tempo todo para impedir que fosse seguir seu caminho.
Este o nervo exposto: uma possibilidade, uma responsabilidade. Uma
privado- e não porque o Brasil era um país pobre em capitais ou em instru-
possibilidade que ganha ênfase dramática com o caso pessoal. Mais que a
mentos huma ~ para geri-los.
discussão finalista e escolástica sobre o papel do Estado na economia, está a
'm simples golpe de vista sobre a estrutura das grandes empresas brasi-
grande questão, posta em forma pessoal: quem faz o progresso, o empresário
leJraç. na época ou depois dela, permite ver que essa distorção importa. Em-
ou seus inimigos? Quem cuida do interesse público melhor: empresários uu
pre a grande, no Brasil, quase só estatal ou familiar. Para além dessas, domina
governantes?
o capital estrangeiro. porque possui por trás das empresas um acesso privilegi-
O brilho empresarial de Mauá dá brilho a suas crenças e hipóteses - u
ado a mercado de crédito internacionais. A única maneira "nacional" de com- resultado final do negócio fala contra elas. O deslocamento entre o sentimento
pen ar essa desvantagem é o apelo a uma sólida fortuna particular, em geral de grandeza e frustração dá mais qualidade literária, drama c fluidez para a
composta de atil:os de elevado valor patrimonial e baixa liquidez. Saída cuja
leitura.
face isí\e) é'a presença de empresários brasileiros nas listas de homens mais Este final de século ~crescenta um elemento extra: a possibilidade de
ncos do mundo. em visÍ\·eJ contraste com a ausência de empresas brasileiras entregar o controle do desenvolvimento a agentes privados, que parecia enter-
nas mesmas listas. rada desde a década de 30 ressurgiu com seus esplendores e misérias. Mas
o centro dessa diferença está o mercado de capitais. Financiamento de out . . ' . ' . (' t é orno uma discussão de
ra vez, aqut, uma leitura finahsta do 1Jvro JS o • c
..,o prazo. no Brasil, só o feito por empresas financeiras estatais. Essa situa· · , . · ) pod ocultar problemas rele-
Pnnciplo sobre o papel do Estado na economia e
ç xi te desde 1853, quando o governo imperial estatizou o Banco do Brasil. vantes.
fundado dois anos antes por Mauá. O argumento central do movimento res·
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AUTOBIOGRAf"IA JORGE C.ALDEII!A

O atraso da economia brasileira, a péssima distribuição da riqueza, 0 É apenas nesse sentido que se podem entender a
afastamento de grande parte da população dos benefícios do progresso são sobre o papel do Estado apresentadas em Expo.tiçiío ao aedore fa '(
elementos relevantes na discussão atual. Relevantes não apenas pelas maze. nos leva a uma nova inversão: agora o empresário parece um Jdeali ta, não 0
las evidentes, mas também porque feitos numa realidade em que a estatização homem prático que sempre foi. Daí a suspeição: apresenta ua hlpóte e em
do mercado de crédito foi um fato pennanente. causa própria, não em busca do interesse geral.
Esse fato permite colocar o problema em outro patamar. A Exposição Entra-se assim de volta no terreno da ética, no julgamento dos atos em
aos credore~ lida com outra questão que sobreviveu ao livro de maneira função do bem que podem trazer. Nesse campo, e não no das finalidade
aguda· a forma peculiar de separar "público" e "privado" existente no Brasil. últimas, é que Exposição aos credores é efetivamente um J .m exemplélr
.Mauá segue estritamente as definições liberais para separar tais espaços. sobre o Brasil: toca, como nenhum oulro texto que trctta da economia bra~iJc 1 -
Pública é a esfera da lei, e privada a esfera de liberdade, que está para além ra, numa questão ética: qual o correto caminho para colocar em ação empre-
dela. Mais ainda, delimita idealmente o papel do Estado como guardião dessa sáliOS privados e governo para o desenvolvimento nacional? Mais que 1 o.
separação, tendo como função primordial garantir a esfera da liberdade_ apresenta, numa leitura agradável, a maior parte dos dados necessário para
em termos econômicos, sancionar legalmente os interesses dos proprietários uma resposta -e esse "agradável" é um desvio que ajuda a tomar convíncent·
privados. O livro é uma afirmação desses ideais contra o comportamento o argumento. A simpatia com o drama pessoal se confunde com adesão ao
concreto das autoridades. É. em outras palavras, um protesto contra a não- argumento liberal. Isso, no entanto, está longe de invalidar o restante ape ar
adoção de tal doutrina. da questão pessoal, os temas fundamentais do país estão presentes. Tocad ~
A revolta contra o governo que domina os leitores liberais -e, na via de maneira profunda, desenvolvendo pontos essenciais. Tanto quanto o autor.
in"ersa, a revolta contra as atitudes de Mauá que domina os leitores defenso- o leitor é levado a um dilema: vencer-se pela leitura, ou convencer o ndrrador
rc da intervenção- deriva de um deslocamento, que o livro aponta. De fato, de seu erro. Uma questão que as mudanças econômicas ao longo de mais de
a separação entre as esferas do público e do privado no Brasil não segue as um século deixaram como alternativa intocada, drama vivo da interpretação
doutrmas liberais. Antes. deriva da distinção entre público e privado vinda do econômica do país, ponto de separação de visões de mundo. 'os qumze diJ
Antigo Regime, e baseada sobretudo em Aristóteles. A linha de corte, em mais duros de sua vida, Irineu Evangelista de Sousa foi capaz de expnm~r o
lugar de passar pela esfera da lei, deriva do acesso a uma condição estamental. dilema de um século.
Público. ness 1isão, é o espaço do comércio e da riqueza monetária- um
espaço qui.! deve ser controlado por outro tipo de pessoas que não comercian-
tes, donas de títulos estamentais. Para o filósofo grego, caso o espaço público
fosse dominado pelos homens do dinheiro, desmoronaria uma ordem social que
era garantida, sobretudo, pelos proprietários de terra. Assim, o trabalho ma-
nual do comércio. o contato com o dinheiro, embora fosse a marca distintiva da
esfera pública, era também uma marca de desqualificação: quem lida com
dinheiro devi.! ser excluído das decisões do Estado - uma esfera reservada
com exclusividade para nobres proprietários de terra.
, Enquanto Mauá trabalha como apóstolo das definições liberais, seus ad-
versanos s~ pautam pelo esquema aristotélico. Lutam para impedir que um
poder que. Imagina m reserva do apenas a eles caia em mãos erradas. Agem
11
' para Impedir o progresso, mas para não perder um comando que lhes
pa c essencial para que ha·a J ordem na soc1"ed ade, mesmo que Isso
. custe o
pngrcsso.

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AUTOBIOGRAf"IA JORGE C.ALDEII!A

O atraso da economia brasileira, a péssima distribuição da riqueza, 0 É apenas nesse sentido que se podem entender a
afastamento de grande parte da população dos benefícios do progresso são sobre o papel do Estado apresentadas em Expo.tiçiío ao aedore fa '(
elementos relevantes na discussão atual. Relevantes não apenas pelas maze. nos leva a uma nova inversão: agora o empresário parece um Jdeali ta, não 0
las evidentes, mas também porque feitos numa realidade em que a estatização homem prático que sempre foi. Daí a suspeição: apresenta ua hlpóte e em
do mercado de crédito foi um fato pennanente. causa própria, não em busca do interesse geral.
Esse fato permite colocar o problema em outro patamar. A Exposição Entra-se assim de volta no terreno da ética, no julgamento dos atos em
aos credore~ lida com outra questão que sobreviveu ao livro de maneira função do bem que podem trazer. Nesse campo, e não no das finalidade
aguda· a forma peculiar de separar "público" e "privado" existente no Brasil. últimas, é que Exposição aos credores é efetivamente um J .m exemplélr
.Mauá segue estritamente as definições liberais para separar tais espaços. sobre o Brasil: toca, como nenhum oulro texto que trctta da economia bra~iJc 1 -
Pública é a esfera da lei, e privada a esfera de liberdade, que está para além ra, numa questão ética: qual o correto caminho para colocar em ação empre-
dela. Mais ainda, delimita idealmente o papel do Estado como guardião dessa sáliOS privados e governo para o desenvolvimento nacional? Mais que 1 o.
separação, tendo como função primordial garantir a esfera da liberdade_ apresenta, numa leitura agradável, a maior parte dos dados necessário para
em termos econômicos, sancionar legalmente os interesses dos proprietários uma resposta -e esse "agradável" é um desvio que ajuda a tomar convíncent·
privados. O livro é uma afirmação desses ideais contra o comportamento o argumento. A simpatia com o drama pessoal se confunde com adesão ao
concreto das autoridades. É. em outras palavras, um protesto contra a não- argumento liberal. Isso, no entanto, está longe de invalidar o restante ape ar
adoção de tal doutrina. da questão pessoal, os temas fundamentais do país estão presentes. Tocad ~
A revolta contra o governo que domina os leitores liberais -e, na via de maneira profunda, desenvolvendo pontos essenciais. Tanto quanto o autor.
in"ersa, a revolta contra as atitudes de Mauá que domina os leitores defenso- o leitor é levado a um dilema: vencer-se pela leitura, ou convencer o ndrrador
rc da intervenção- deriva de um deslocamento, que o livro aponta. De fato, de seu erro. Uma questão que as mudanças econômicas ao longo de mais de
a separação entre as esferas do público e do privado no Brasil não segue as um século deixaram como alternativa intocada, drama vivo da interpretação
doutrmas liberais. Antes. deriva da distinção entre público e privado vinda do econômica do país, ponto de separação de visões de mundo. 'os qumze diJ
Antigo Regime, e baseada sobretudo em Aristóteles. A linha de corte, em mais duros de sua vida, Irineu Evangelista de Sousa foi capaz de expnm~r o
lugar de passar pela esfera da lei, deriva do acesso a uma condição estamental. dilema de um século.
Público. ness 1isão, é o espaço do comércio e da riqueza monetária- um
espaço qui.! deve ser controlado por outro tipo de pessoas que não comercian-
tes, donas de títulos estamentais. Para o filósofo grego, caso o espaço público
fosse dominado pelos homens do dinheiro, desmoronaria uma ordem social que
era garantida, sobretudo, pelos proprietários de terra. Assim, o trabalho ma-
nual do comércio. o contato com o dinheiro, embora fosse a marca distintiva da
esfera pública, era também uma marca de desqualificação: quem lida com
dinheiro devi.! ser excluído das decisões do Estado - uma esfera reservada
com exclusividade para nobres proprietários de terra.
, Enquanto Mauá trabalha como apóstolo das definições liberais, seus ad-
versanos s~ pautam pelo esquema aristotélico. Lutam para impedir que um
poder que. Imagina m reserva do apenas a eles caia em mãos erradas. Agem
11
' para Impedir o progresso, mas para não perder um comando que lhes
pa c essencial para que ha·a J ordem na soc1"ed ade, mesmo que Isso
. custe o
pngrcsso.

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jOAQl L f NABT (o

Urn estadista do inzpério

Luiz Felipe de Alcncac;tro

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jOAQl L f NABT (o

Urn estadista do inzpério

Luiz Felipe de Alcncac;tro

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A GÍ!NR~fl DA OBRA

Um estadista do império completa o seu centenário. Com efeito, cntn!


1897 c !899 foram publicados os três volumes da obra que Joaquun Nabuco
começara a preparar algun s anos antes sobre a vida de seu pai. José Thomaz
Nabuco de Araújo ( 1813-1 878).
Magistrado, deputado, senador, ministro c prócer do Segundo Remado, 1
Nabuco de Araújo conservou o hábito de recolher c classificar os documentos
que diziam respeito às suas lides políticas, assim como sua corre~pondênna
particu lar. O estudo, o aproveitamento desse acervo ameaçado de dbpcr~ão
teria consti tuído a razão imediata que levou Nabuco a redigir Um e.1tadí.lta
Como ele próprio escreveu, "foi o receio de que, se cu mesmo o nao fizc~sc,
nunca fosse utilizada essa para mim preciosa coleção que me dcc1diu a empreen-
der a obra". Antes de analisar as motivações mais complexas do autor, con·
vém examinar de perto a documentação que utilizou c o método posto em
prática para redigir o livro.
Numa carta a seu cunhado Hilário de Gouveia, Joaquim Nabuco da ..t
dimensão do arquivo paterno. Trinta mil documentos -afora os livros, discur·
sos e anais parlamentares - , dos quais foram selecionados "três caixões" de
textos com o "i ndispensável" para a redação de Um estadista. 2 De seu lado.
praticando o jornalismo acadêmico desde seus I 7 anos, quando ingressou na
Faculdade de Direito de São Paulo (1866) c conviveu com personalidades
como Castro Alves, Rui Barbosa e dois futuros presidentes da Repúbl ica
(Rodrigues Alves e Afonso Pena), homem viajado, dono de uma cultura cos·
mopolita, ex-diplomata em Washington e Londres, Nabuco pennancccu atento
às atividades políticas do pai, à evolução da monarquia e da sociedade brasilei-
ra. Seu arquivo pessoal comporta mais de dez mil documentos. a maior parte

1
Alguns autores, e até o grande historiador Capistraoo de Abreu, referem-se ao pcrfc.>do do rciJladn
de D. Pedro 11 ( 1840-1889) como "Segundo Império", ao mvés de "Segundo Remado" Ao
emprega r essa denominação, tais autores estabelecem, cvJdentemeote. urm analogia cnt r~ 0
2
reinado de D. Pedro 11 e o "Second empire" que transcorria na França na me ma época (!85
1870). Trata-se, no entanto, de um equívoco. o reino de o Pedro 11 configura um verdadeiro
segu ndo reinado no quadro de um mesmo iiiiJII!rio, sucedendo no mesmo sistema constituciOnal
posto em vigor em 1824, no contexto de um mesmo temtóno imperial c na seqüénc•a de uma
regência na qual a continuidade din,stica dos Bragança nfto sofreu interrupçio. Circunst!nc•as
I ~ue não estavam presentes DO Second empire de Napolei~ Ill. " 'm Nabu o
Carta de Joaquim Nabuco a Hiürio de Gouveia. Petrópolis, IO.JII·I894 ·em Joaqw . ·
Um eMadista do implrio, 2 volumes; prcf,cio e cronologra Raymundo Faoro. po~fKJO Evald
11 1317 8
Cabral de Mello (S• edlçlo. Rio de Janeiro· Topbooks, 1997), v • PP • ·

llS

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A GÍ!NR~fl DA OBRA

Um estadista do império completa o seu centenário. Com efeito, cntn!


1897 c !899 foram publicados os três volumes da obra que Joaquun Nabuco
começara a preparar algun s anos antes sobre a vida de seu pai. José Thomaz
Nabuco de Araújo ( 1813-1 878).
Magistrado, deputado, senador, ministro c prócer do Segundo Remado, 1
Nabuco de Araújo conservou o hábito de recolher c classificar os documentos
que diziam respeito às suas lides políticas, assim como sua corre~pondênna
particu lar. O estudo, o aproveitamento desse acervo ameaçado de dbpcr~ão
teria consti tuído a razão imediata que levou Nabuco a redigir Um e.1tadí.lta
Como ele próprio escreveu, "foi o receio de que, se cu mesmo o nao fizc~sc,
nunca fosse utilizada essa para mim preciosa coleção que me dcc1diu a empreen-
der a obra". Antes de analisar as motivações mais complexas do autor, con·
vém examinar de perto a documentação que utilizou c o método posto em
prática para redigir o livro.
Numa carta a seu cunhado Hilário de Gouveia, Joaquim Nabuco da ..t
dimensão do arquivo paterno. Trinta mil documentos -afora os livros, discur·
sos e anais parlamentares - , dos quais foram selecionados "três caixões" de
textos com o "i ndispensável" para a redação de Um estadista. 2 De seu lado.
praticando o jornalismo acadêmico desde seus I 7 anos, quando ingressou na
Faculdade de Direito de São Paulo (1866) c conviveu com personalidades
como Castro Alves, Rui Barbosa e dois futuros presidentes da Repúbl ica
(Rodrigues Alves e Afonso Pena), homem viajado, dono de uma cultura cos·
mopolita, ex-diplomata em Washington e Londres, Nabuco pennancccu atento
às atividades políticas do pai, à evolução da monarquia e da sociedade brasilei-
ra. Seu arquivo pessoal comporta mais de dez mil documentos. a maior parte

1
Alguns autores, e até o grande historiador Capistraoo de Abreu, referem-se ao pcrfc.>do do rciJladn
de D. Pedro 11 ( 1840-1889) como "Segundo Império", ao mvés de "Segundo Remado" Ao
emprega r essa denominação, tais autores estabelecem, cvJdentemeote. urm analogia cnt r~ 0
2
reinado de D. Pedro 11 e o "Second empire" que transcorria na França na me ma época (!85
1870). Trata-se, no entanto, de um equívoco. o reino de o Pedro 11 configura um verdadeiro
segu ndo reinado no quadro de um mesmo iiiiJII!rio, sucedendo no mesmo sistema constituciOnal
posto em vigor em 1824, no contexto de um mesmo temtóno imperial c na seqüénc•a de uma
regência na qual a continuidade din,stica dos Bragança nfto sofreu interrupçio. Circunst!nc•as
I ~ue não estavam presentes DO Second empire de Napolei~ Ill. " 'm Nabu o
Carta de Joaquim Nabuco a Hiürio de Gouveia. Petrópolis, IO.JII·I894 ·em Joaqw . ·
Um eMadista do implrio, 2 volumes; prcf,cio e cronologra Raymundo Faoro. po~fKJO Evald
11 1317 8
Cabral de Mello (S• edlçlo. Rio de Janeiro· Topbooks, 1997), v • PP • ·

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UM HS7i\DIS1'A DO /MPÉ/1/0
LUIZ FELJI>B DE ALP.NC'ASTk J

<.fo:. quais referentes ao Segundo Reinado. 3 Depois de sua morte, sua filha, formados pelo en~ino acadêmi~o c a frcqüentaçã~ de biblioteras púbhcas. os
Carolina Nabuco, tirou proveito <.lesse acervo para redigir a sua biografia, A
vida de Joaquim Nabuco ( 1928). pcn'ódicos aparec1am
. . como vc1culos quase . exclusivos da difusão · dt.: idéia~
Como a mawna dos personagens mfluentes da época, Nabuco expnmia
Na elaboração de Um estadista, Nabuco pesquisou outras fontes, obten- seus pontos de vista na imprensa diária. Entre outras colaborações, atuou como
do de alguns contemporâneos de seu pai, ainda vivos no início da década de articulista no jornal A Reforma (em I 87 I ,1872 e 1873), que defendia o 1dcáno
I 890, informações sobre os primeiros anos da vida de Nabuco de Araújo como liberal, travou uma viva polêmica literária com José de Alencar no antigo )ornai
e~tudante de Direito, magistrado c homem político. Assim, a narrativa de Um
0 Globo ( 1875), teve uma coluna diária em O Pafs ( 1886). No recém-funda
e.1tarlista ~e articula em tomo de documentos de natureza bem distinta. do Jornal do Brasil (1891), de inclinação monarquista, Nabuco lançou·sc em
Em primeiro lugar vêm os textos oficiais, que constituem a parte mais discussões sobre D. Pedro li e os homens políticos do Segundo Reinado. Jdé~as.
suh~tantiva da obra. Discursos de Nabuco de Araújo em diversas ocasiões; fragmentos e capítulos de suas obras foram publicados em jorna1s c revista~ do
quando era ministro da Justiça (como a longa intervenção de 23 de março de Rio de Janeiro e de São Paulo antes de tomar a forma de livros completos.
I 866 na Câmara, em resposta aos ataques dos deputados do Partido Liberal, A predominância desse gênero de mídia incidia na maneira de escrever.
texto que Nabuco considera o ''tipo perfeitamente acabado e colorido da arte Na medida em que se dirigiam ao público de leitore. de jornais, os intelectuais
parlamentar'' de seu pai); no posto de senador pela Bahia (tal o discurso "de do Segundo Reinado procuravam fazer uso de um estilo mais direto, evitando o
jurisconsulto e de político de vastas previsões", de 26 de setembro de 1871, a jargão acadêmico europeu e a linguagem especializada das diversas disciplinas
favor da Lei do Ventre Livre que seria aprovada dois dias depois); na exposi- universitárias. Essa circunstância responde pela narrativa segura e clara de
ção de estudos ministeriais de sua responsabilidade (relatórios diversos e em alguns livros importantes da época, como, por exemplo, a llist6ria gctal do
particular a análise sobre a organização do Poder Judiciário apresentada ao Brasil (1854), de Vamhagen, cuja leitura é ainda apreciada pelos estudantes
governo em 1856); no exame de tratados diplomáticos no Conselho de Estado, dos dias de hoje. Já não será mais o caso no final do século, quando o cientificbmo
onde ocupava o posto de relator da seção dos Negócios Estrangeiros (memorial empola a narrativa de muitos autores, e mesmo de jornalistas escritores, como
sobre o tratado das novas fronteiras da Tríplice Aliança com o Paraguai em sucede com Euclides da Cunha em Os sertões. 4
1872J; na introdução de projetos de lei e decretos imperiais recolhidos no apên- O Correio Mercantil (no qual Tavares Bastos publicou seus escritos,
dice documental do livro. Do apêndice também constam textos até então iné- depois reunidos em livros) e o Jornal do Comércio, largamente utilizados na
ditos (cartas • unes Machado, líder da Praieira, à sua mulher; as cartas de feitura de Um estadista, eram os jornais cariocas que serviam de rcfer\:nc1a
Cotegipe ao visconde do Rio Branco) c panfletos sobre a Guerra do Paraguai. nacional no Segundo B,einado. Aliás, o Jornal do Comércio, do qual Nabuco
Em segundo lugar aparecem os artigos e comentários extraídos da im- foi correspondente em Londres, ocupa nessa época um destaque inédito na
prensa do Segundo Reinado c estrangei ra (como a inevitável Revue des Deux- Imprensa brasileira de ontem e de hoje. Constituindo um excelente órgão de
foruies, r i a parisiense de ensaios sociológicos, políticos e literários muito informação e de debate, o jornal se apresentava também como um verdadeiro
l1 a pela eiJtc in clcctual do império; a imprensa argentina, citada na análise "Diário Oficial", publicando decretos, leis e, quase sempre. os debate parla-
dJ cn õe diplomática~ urgidas em 1871 e I872 entre o império e as repúblí- mentares transcritos integralmente por seus taquígrafos na Cámara e no Scna-
c do Prata, na seq t!ncia da Guerra do Paraguai). t um contexto em que a
I' 'ca pari mentar e os d.:bates importantes só tomavam corpo e expressão
e ade1ram n nacional nas estreitas camadas da população escolarizada,
J panflc o e re i tas desempenhavam um papel decisivo. Na ausên· ' Para avahar o contraste entre os dois estilos, compareiii-Je, por exemplo. /J nr~r e a [IJl)D{ li
de Gonçalves de Magalhks, Memória hiJtóríca t docWMnuula da r< olll{du do pro In ra dt
rd e'ro mercado editorial de livros e de uma massa de leitores Maranhão desde 1839 até 1840 {1848}, em Novos Estudo -Ctbrap. a• 23 19 9, PP 14 (,6
Como E~hdes da Cunha em Canudos, Gonçalves de Magalbics regJSUou 110 M.araohSo c• •
ta ao~ antes de Os urliJts, o olhar do i11telec1ualllfballo sobre a~ re10IU s.erWitJI
:"nta de Gonçalves de Magalhães, escorretta e dltcu. lliO faz alarde de btT 11 tco
(>peça em ~lise geológícas

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LUIZ FELJI>B DE ALP.NC'ASTk J

<.fo:. quais referentes ao Segundo Reinado. 3 Depois de sua morte, sua filha, formados pelo en~ino acadêmi~o c a frcqüentaçã~ de biblioteras púbhcas. os
Carolina Nabuco, tirou proveito <.lesse acervo para redigir a sua biografia, A
vida de Joaquim Nabuco ( 1928). pcn'ódicos aparec1am
. . como vc1culos quase . exclusivos da difusão · dt.: idéia~
Como a mawna dos personagens mfluentes da época, Nabuco expnmia
Na elaboração de Um estadista, Nabuco pesquisou outras fontes, obten- seus pontos de vista na imprensa diária. Entre outras colaborações, atuou como
do de alguns contemporâneos de seu pai, ainda vivos no início da década de articulista no jornal A Reforma (em I 87 I ,1872 e 1873), que defendia o 1dcáno
I 890, informações sobre os primeiros anos da vida de Nabuco de Araújo como liberal, travou uma viva polêmica literária com José de Alencar no antigo )ornai
e~tudante de Direito, magistrado c homem político. Assim, a narrativa de Um
0 Globo ( 1875), teve uma coluna diária em O Pafs ( 1886). No recém-funda
e.1tarlista ~e articula em tomo de documentos de natureza bem distinta. do Jornal do Brasil (1891), de inclinação monarquista, Nabuco lançou·sc em
Em primeiro lugar vêm os textos oficiais, que constituem a parte mais discussões sobre D. Pedro li e os homens políticos do Segundo Reinado. Jdé~as.
suh~tantiva da obra. Discursos de Nabuco de Araújo em diversas ocasiões; fragmentos e capítulos de suas obras foram publicados em jorna1s c revista~ do
quando era ministro da Justiça (como a longa intervenção de 23 de março de Rio de Janeiro e de São Paulo antes de tomar a forma de livros completos.
I 866 na Câmara, em resposta aos ataques dos deputados do Partido Liberal, A predominância desse gênero de mídia incidia na maneira de escrever.
texto que Nabuco considera o ''tipo perfeitamente acabado e colorido da arte Na medida em que se dirigiam ao público de leitore. de jornais, os intelectuais
parlamentar'' de seu pai); no posto de senador pela Bahia (tal o discurso "de do Segundo Reinado procuravam fazer uso de um estilo mais direto, evitando o
jurisconsulto e de político de vastas previsões", de 26 de setembro de 1871, a jargão acadêmico europeu e a linguagem especializada das diversas disciplinas
favor da Lei do Ventre Livre que seria aprovada dois dias depois); na exposi- universitárias. Essa circunstância responde pela narrativa segura e clara de
ção de estudos ministeriais de sua responsabilidade (relatórios diversos e em alguns livros importantes da época, como, por exemplo, a llist6ria gctal do
particular a análise sobre a organização do Poder Judiciário apresentada ao Brasil (1854), de Vamhagen, cuja leitura é ainda apreciada pelos estudantes
governo em 1856); no exame de tratados diplomáticos no Conselho de Estado, dos dias de hoje. Já não será mais o caso no final do século, quando o cientificbmo
onde ocupava o posto de relator da seção dos Negócios Estrangeiros (memorial empola a narrativa de muitos autores, e mesmo de jornalistas escritores, como
sobre o tratado das novas fronteiras da Tríplice Aliança com o Paraguai em sucede com Euclides da Cunha em Os sertões. 4
1872J; na introdução de projetos de lei e decretos imperiais recolhidos no apên- O Correio Mercantil (no qual Tavares Bastos publicou seus escritos,
dice documental do livro. Do apêndice também constam textos até então iné- depois reunidos em livros) e o Jornal do Comércio, largamente utilizados na
ditos (cartas • unes Machado, líder da Praieira, à sua mulher; as cartas de feitura de Um estadista, eram os jornais cariocas que serviam de rcfer\:nc1a
Cotegipe ao visconde do Rio Branco) c panfletos sobre a Guerra do Paraguai. nacional no Segundo B,einado. Aliás, o Jornal do Comércio, do qual Nabuco
Em segundo lugar aparecem os artigos e comentários extraídos da im- foi correspondente em Londres, ocupa nessa época um destaque inédito na
prensa do Segundo Reinado c estrangei ra (como a inevitável Revue des Deux- Imprensa brasileira de ontem e de hoje. Constituindo um excelente órgão de
foruies, r i a parisiense de ensaios sociológicos, políticos e literários muito informação e de debate, o jornal se apresentava também como um verdadeiro
l1 a pela eiJtc in clcctual do império; a imprensa argentina, citada na análise "Diário Oficial", publicando decretos, leis e, quase sempre. os debate parla-
dJ cn õe diplomática~ urgidas em 1871 e I872 entre o império e as repúblí- mentares transcritos integralmente por seus taquígrafos na Cámara e no Scna-
c do Prata, na seq t!ncia da Guerra do Paraguai). t um contexto em que a
I' 'ca pari mentar e os d.:bates importantes só tomavam corpo e expressão
e ade1ram n nacional nas estreitas camadas da população escolarizada,
J panflc o e re i tas desempenhavam um papel decisivo. Na ausên· ' Para avahar o contraste entre os dois estilos, compareiii-Je, por exemplo. /J nr~r e a [IJl)D{ li
de Gonçalves de Magalhks, Memória hiJtóríca t docWMnuula da r< olll{du do pro In ra dt
rd e'ro mercado editorial de livros e de uma massa de leitores Maranhão desde 1839 até 1840 {1848}, em Novos Estudo -Ctbrap. a• 23 19 9, PP 14 (,6
Como E~hdes da Cunha em Canudos, Gonçalves de Magalbics regJSUou 110 M.araohSo c• •
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UM I \1,1/l/\1,\ /itl /M/'1 H/li I.lllZ i'l~l.ll'l'. IJI AI hN< AS .tO

1 ltl Nahuco jll'MJllisuu as etlk\ocs do Jmnal do Comércio p·trn s · inteirar do Um t•s/ltdista comporta uma terceira série de documento,, formutla pot
.wthil'nk poltttw tlll~ prilllL'itos anos da cat rdra de seu pai, ~ohretudo durante os . ·scências, correspondência privada c descriçücs de cidadL•. L' ambtcnt ·
rernutt. ,. . . .
atlll~ em que ck proprio se encontrava ausente do país, na Europa ( 1873 1874 c onde viveu Nabuco de ArauJO. Dessa formn .. o ltvro Incorpora as inter ·s~anlt'~
J, 77) l' t'lll Washingtnn ( 187(!). Em todo caso, llm t•statlisfa está semeado de obsl:rvações do barão de Penedo, sobre a v1da dos estudantes de Direito em
1 ·ktL'Ilcia~ cxpltcit,ts ou impltcitas às matcrias editoriais do Jomal do Comér- Olinda na década de 1830, quando Nabuco Ara(tjo completava cu curso.
r w. cujo L'Stilt tl.msparccc em algumas da pas agens do livro. ·1 Boa parte da bibliografia oitocentista relativa ao império tamhl!m consta d.ts
llavi.t outro g~ncro de imprensa, reprc. cntado pelas folha de província rdcrências da obra. Algumas vezes (como na abordagem da Lei do Yt:ntrc
c o. JOt nais partidarios. Praticando uma linguagem mais livre c aberta ao bra- Livre ou da Questão Religiosa), Nabuco indica em nota de rodape o livros
silcmsmo d,t smtaxe c do ocabulário -como o demonstra o periódi o recifcnsc mais importantes publicados sobre o tema focalizado em seu capítulo.
O ('araprtn•im tI R32-18·l2). do padre Lopes Gama-, muitos des,cs pcriódi- Na parte dos depoimentos que ajudaram a constituir a obra, é intercs~an­
~.:o , que haviam conhecido seu momento de glória na descentralização política tc Jar relevo às pessoas que Nabuco freqüentava quando redigia Um estadiç
operada durante a rcgcncia, ainda continuavam ativos.h Nabuco de Araújo, ta. Nessa época, informa Evaldo Cabral de Mello, junto com outros dois
julgando os cYento da Revolução Praieira, considerava tais jornai "foco de pernambucanos que haviam ocupado postos eminentes no Segundo Reinado
anarquia imoralidade". cu filho e pressa no livro uma opinião mais tolerante (João Alfredo, conselheiro de Estado, senador, ministro do império no mini t<!-
obre c , as "folha volantes. segundo o sistema de pasquim, que é o que tem- rio da Lei do Ventre Livre e presidente do Conselho de Ministro que promul-
peru\a anllgamentc a prepotência da autoridade". Entretanto, Nabuco reserva gou a Abel ição, e Soares Brandão, senador e ministro dos Negócios Estrangeiros
sua preferência à grande imprensa compassada e séria da corte, uma das no gabinete de 24 de maio de 1883), seus vizinhos de ma no bairro de Botafogo.
base da documentação de Um estadista. no Rio de Janeiro, Nabuco entretinha discussões sobre o passado recente do
Acresce ainda a enorme influência- difícil de avaliar no Brasil descen- império. Cabral de Mello registra alguns ecos dessas conversas nas páginas de
tralizado e televisual da atualidade- da corte e de sua imprensa. Capital do Um estadista do império. 8 Logo de saída, no prefácio do livro, Nabuco marca
império, sede do governo e das representações diplomáticas, maior centro ur- o contraste entre o período histórico que se propunha a descrever e os transes
bano, econômico e cultural da nação, dispondo de um porto que canalizava dois políticos do momento. A disparidade entre as "lutas pacíficas" do império e o
terços do comércio externo do país e constituía escala obrigatória das grandes estrondo dos canhões da marinha na Baía de Guanabara, que tumultuavam os
carreiras marítimas (o Canal do Panamá só será inaugurado em 1914), o Rio primeiros anos da república, durante a Revolta da Annada (1893-1894), quan-
de Janeiro detmha uma hegemonia jamais igualada por nenhuma outra cidade do começou a redigir a biografia de seu pai.
bra ileira do passado ou presente. Na realidade, a hegemonia política e cultu- De posse desse variado e copioso acervo documental, Nabuco deu a Um
ral do Rio de Janeiro tem seu peso na maneira pela qual Nabuco concebe o estadista uma forma específica que merece ser examinada.
Segundo Reinado e a história do Brasil oitocentista.

A ESTRUTURA DO UVRO

Como foi assinalado por vários comentadores, a obra va1· a1'em da biogra-
' Quando o acesso e a leitura do Jornal da Comércio se tornarem facilitados pela cópia doS
mtcrofilmes dos exemplares oilocentistas em CDs. ficará clara a enorme influência desse peri6·
fia para abranger análises sóbre os temas da época. a sociedade e os modos de
dtco sobre: a forma, o conteúdo e o csttlo dos livros poHticos da época.
' P.tdrc Lopes Gama. O Carapuceiro 1832·1842, prefácio de Leonardo Dantas Silva, 3 volumes 7 p . . . d longOS anos embatxador do
(Rectfe Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1983). Para uma coletânea e um comeotiriO ranc•sco Carvalho Moreira, o bario de Penedo, bam Slllo uran&e de 1877)
tntrodutóno das crõmcas publicadas nesses três volumes, cf. Evaldo Cabral de Mello (org.), O B ·1 . . denS como adido 1ega~ 1
rast em Londres, e Joaquim Nabuco ah semra sob suas or N Luiz Felipe d
''' pu<.~tro (São Pauto: Companhia das Letras, 1996). Para um apanhado geral sobre o telllli Evaldo Cabral de Mello, "O fim das casas-grandes". em Fcmando ov::; a mudtrnuúule
I 1 l tann•. Conrribuiçdo à história da imprensa braúleira 1812-1869 (Rio de Jaudr Alcncastro (orgs.), Hlst4rla da vida prlvoda no BTtJSU - Jmpino. ~
1117, en .a NaciOnal, 1945) l14cio~~al, volume 11 (Sio Paulo: Compubia dls Letra. l991). pp.

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.wthil'nk poltttw tlll~ prilllL'itos anos da cat rdra de seu pai, ~ohretudo durante os . ·scências, correspondência privada c descriçücs de cidadL•. L' ambtcnt ·
rernutt. ,. . . .
atlll~ em que ck proprio se encontrava ausente do país, na Europa ( 1873 1874 c onde viveu Nabuco de ArauJO. Dessa formn .. o ltvro Incorpora as inter ·s~anlt'~
J, 77) l' t'lll Washingtnn ( 187(!). Em todo caso, llm t•statlisfa está semeado de obsl:rvações do barão de Penedo, sobre a v1da dos estudantes de Direito em
1 ·ktL'Ilcia~ cxpltcit,ts ou impltcitas às matcrias editoriais do Jomal do Comér- Olinda na década de 1830, quando Nabuco Ara(tjo completava cu curso.
r w. cujo L'Stilt tl.msparccc em algumas da pas agens do livro. ·1 Boa parte da bibliografia oitocentista relativa ao império tamhl!m consta d.ts
llavi.t outro g~ncro de imprensa, reprc. cntado pelas folha de província rdcrências da obra. Algumas vezes (como na abordagem da Lei do Yt:ntrc
c o. JOt nais partidarios. Praticando uma linguagem mais livre c aberta ao bra- Livre ou da Questão Religiosa), Nabuco indica em nota de rodape o livros
silcmsmo d,t smtaxe c do ocabulário -como o demonstra o periódi o recifcnsc mais importantes publicados sobre o tema focalizado em seu capítulo.
O ('araprtn•im tI R32-18·l2). do padre Lopes Gama-, muitos des,cs pcriódi- Na parte dos depoimentos que ajudaram a constituir a obra, é intercs~an­
~.:o , que haviam conhecido seu momento de glória na descentralização política tc Jar relevo às pessoas que Nabuco freqüentava quando redigia Um estadiç
operada durante a rcgcncia, ainda continuavam ativos.h Nabuco de Araújo, ta. Nessa época, informa Evaldo Cabral de Mello, junto com outros dois
julgando os cYento da Revolução Praieira, considerava tais jornai "foco de pernambucanos que haviam ocupado postos eminentes no Segundo Reinado
anarquia imoralidade". cu filho e pressa no livro uma opinião mais tolerante (João Alfredo, conselheiro de Estado, senador, ministro do império no mini t<!-
obre c , as "folha volantes. segundo o sistema de pasquim, que é o que tem- rio da Lei do Ventre Livre e presidente do Conselho de Ministro que promul-
peru\a anllgamentc a prepotência da autoridade". Entretanto, Nabuco reserva gou a Abel ição, e Soares Brandão, senador e ministro dos Negócios Estrangeiros
sua preferência à grande imprensa compassada e séria da corte, uma das no gabinete de 24 de maio de 1883), seus vizinhos de ma no bairro de Botafogo.
base da documentação de Um estadista. no Rio de Janeiro, Nabuco entretinha discussões sobre o passado recente do
Acresce ainda a enorme influência- difícil de avaliar no Brasil descen- império. Cabral de Mello registra alguns ecos dessas conversas nas páginas de
tralizado e televisual da atualidade- da corte e de sua imprensa. Capital do Um estadista do império. 8 Logo de saída, no prefácio do livro, Nabuco marca
império, sede do governo e das representações diplomáticas, maior centro ur- o contraste entre o período histórico que se propunha a descrever e os transes
bano, econômico e cultural da nação, dispondo de um porto que canalizava dois políticos do momento. A disparidade entre as "lutas pacíficas" do império e o
terços do comércio externo do país e constituía escala obrigatória das grandes estrondo dos canhões da marinha na Baía de Guanabara, que tumultuavam os
carreiras marítimas (o Canal do Panamá só será inaugurado em 1914), o Rio primeiros anos da república, durante a Revolta da Annada (1893-1894), quan-
de Janeiro detmha uma hegemonia jamais igualada por nenhuma outra cidade do começou a redigir a biografia de seu pai.
bra ileira do passado ou presente. Na realidade, a hegemonia política e cultu- De posse desse variado e copioso acervo documental, Nabuco deu a Um
ral do Rio de Janeiro tem seu peso na maneira pela qual Nabuco concebe o estadista uma forma específica que merece ser examinada.
Segundo Reinado e a história do Brasil oitocentista.

A ESTRUTURA DO UVRO

Como foi assinalado por vários comentadores, a obra va1· a1'em da biogra-
' Quando o acesso e a leitura do Jornal da Comércio se tornarem facilitados pela cópia doS
mtcrofilmes dos exemplares oilocentistas em CDs. ficará clara a enorme influência desse peri6·
fia para abranger análises sóbre os temas da época. a sociedade e os modos de
dtco sobre: a forma, o conteúdo e o csttlo dos livros poHticos da época.
' P.tdrc Lopes Gama. O Carapuceiro 1832·1842, prefácio de Leonardo Dantas Silva, 3 volumes 7 p . . . d longOS anos embatxador do
(Rectfe Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1983). Para uma coletânea e um comeotiriO ranc•sco Carvalho Moreira, o bario de Penedo, bam Slllo uran&e de 1877)
tntrodutóno das crõmcas publicadas nesses três volumes, cf. Evaldo Cabral de Mello (org.), O B ·1 . . denS como adido 1ega~ 1
rast em Londres, e Joaquim Nabuco ah semra sob suas or N Luiz Felipe d
''' pu<.~tro (São Pauto: Companhia das Letras, 1996). Para um apanhado geral sobre o telllli Evaldo Cabral de Mello, "O fim das casas-grandes". em Fcmando ov::; a mudtrnuúule
I 1 l tann•. Conrribuiçdo à história da imprensa braúleira 1812-1869 (Rio de Jaudr Alcncastro (orgs.), Hlst4rla da vida prlvoda no BTtJSU - Jmpino. ~
1117, en .a NaciOnal, 1945) l14cio~~al, volume 11 (Sio Paulo: Compubia dls Letra. l991). pp.

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li /Mil /,lo IJU IM/'(R/0 I I/.

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e os au•ores suscetí eis de ter influenciado a feitura de
nho ara mim que os críticos ensaístas contemporâneos (como
portugue~a .
H . de, ;I, hiteJ. os sociólogos, e mesmos os sociólogos-historiadores, como
, 'uma longa digressão sobre a excelência da at 'na plartar!lc;.t;u
R do Faoro, sube ~imam o impacto das fontes no trabalho do historia-
pai. J ·abuco pretende que ele nunca "escre·.eu m d u IJlJ
d 'a \ erdade, todo historiador, ao lidar com as fontes primárias (manus-
discurso··. Machado de Assis, relembrando a época em que co Ja c mo
cnto . documentos impresso e. eventualmente. testemunhos orais) -
lista as sessões do Senado para o Diário do Rto de Janeim. dÍ.l o c ár
in strumento e sencial de seu ofício -. é levado a selecionar. organizar e
minha impressão é que preparava os seus d1scu os··. 4 Frase pouco i ci 1 a q
hierarquiar o material disponível obre o tema que se propõe estudar. Nesse
se deve, talvez, a divergência pontual com, 'abuco. seu am:go fraterno na época
proc so elas 1ficatóno, o histon<.~dor privilegia determinadas fontes, usa de
da redação de Um estadista. Mas é Machado quem tem razão. Como a m.l na
outra de maneira secundária e negligencia as séries documentais que, na sua
dos parlamentares que se preocupavam em deixar suas f <tias registrada p<tra
a·.aJiação, contêm dados insuficientes ou inapropriados ao enfoque de seu es-
posteridade, Nabuco de Araújo preparava seus di:.curws e em seguida o ree -
tudo. A partir d:.tí, >CU trabalho passa a ser moldado, condicionado e até res-
crevia, a partir da taquigrafia registrada no Senado ou na Cámara O recurso .l
tringido pela natureza das fontes. o limite, os capítulos de um livro podem se
citações latinas, que aparece com alguma freqtiéncia nos d1scursos parlamcnta
reve ir de formatos diferenciados. Um historiador que esteja escrevendo um
res e na narrativa do livro, também deve sercontextualizado. Com efe:to o latin 'no
h vro obre o tráfico negreiro, por exemplo, será levado a redigir as partes
básico, herdado do ensino jesuítico e religioso da época colonial. d hulhado na
relativas a análi t:: quantitativa de seu tema de maneira bastante diversa do
aulas de catecismo, do ensino secundário e, com mais dcnsJdade. nas faculdade
capítulo em que aborda, baseado em fontes de outra natureza, o debate teoló-
de Direito, fazia parte da cultura da população escolarizada do impéno e da
gico c mí~~ionário sobre a legitimidade da escravidão no século XVII.
primei ras décadas da república.
Ob-. ia mente, o gênero biográfico, e muito mai s ainda, a redação da bio-
Quando apareceu o primeiro tomo de Um e.\tadista. José \'erí s1mo afir-
grafia paterna. não se presta a essa prolixidade de estilos. Ainda assim, Nabuco
mou que a intercalação dos discursos e textos oficiais con tituía um "dcfe1t
d1 punha, como se pôde entrever nas páginas acima, de fontes bastante varia-
[... J na estrutura do livro". 1 ~ Veríssimo escrevia numa conjuntura em que ta1
da • que poderiam ter imprimido um feitio diferente a Um estadista. O fato de
0 discursos ainda não tinham adquirido a estampa de documentos histórico · 't•
livro Ler tomado o tom compassado e institucional que o caracteriza não
entanto, quer tenha sido um defeito ou, ao contrário, um efc.:ito narrdli\O
?ecorre simplesmente do amor filial que movia seu autor. Decorre, isso sim, da
m crprctação política que Joaquim Nabuco enuncia sobre o império a partir deliberadamente elaborado, o procedimento contribuiu, com o passar do anos.
d<Js fontes -discursos parlamentares, documentos do Conselho de Estado. P~ra dar o tom edificante que caracteriza a obra. Retratando questõe di tan-
~Iadas da atualidade republicana e incorporadas ao passado- um pa. ado q_uc
"ruptura histórica provocada pcla Abolição fazia ficar cada vez mais longtn
~~1<!6 Yltlril
I
lla
r m co ,.
Fazenda. "Antiqualhas e memórias do R1o de Janeiro" em Revi.1ta do lmtituto
r;,,~rájlro BrtHiielfo, tomo 95, vol 149, 1927, PP 24G-50
n Whlle Metnh 11 rory TI /li . . . . · •
::------
m 0\'c 10 h H te storu·at lmagm a11on 111 Nwetet!nlh-Century Europt .. Machado de Assis, "O velho Senado", em Joaqu1m Nabuco, Um estaduta dt 111 ' >ll ·
a 11 d 10 ,r /~ opk~ns Un~ve" Y 11 Press, l975 , The Contento[ the Form. Narrative Díscount u Ane~o. v 11, p. 1280.
a epre~rnrnrton (Ilalttmore Johns Hopkins Unlversity Press, 1990). Jos~ Verlssimo. "Um historiador poHtico, o sr Joaqu1m abuco • em Joaq •m ah c L'
~ltadura do imphw, cit., Anexo. v 11, p 1300.

12J

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e os au•ores suscetí eis de ter influenciado a feitura de
nho ara mim que os críticos ensaístas contemporâneos (como
portugue~a .
H . de, ;I, hiteJ. os sociólogos, e mesmos os sociólogos-historiadores, como
, 'uma longa digressão sobre a excelência da at 'na plartar!lc;.t;u
R do Faoro, sube ~imam o impacto das fontes no trabalho do historia-
pai. J ·abuco pretende que ele nunca "escre·.eu m d u IJlJ
d 'a \ erdade, todo historiador, ao lidar com as fontes primárias (manus-
discurso··. Machado de Assis, relembrando a época em que co Ja c mo
cnto . documentos impresso e. eventualmente. testemunhos orais) -
lista as sessões do Senado para o Diário do Rto de Janeim. dÍ.l o c ár
in strumento e sencial de seu ofício -. é levado a selecionar. organizar e
minha impressão é que preparava os seus d1scu os··. 4 Frase pouco i ci 1 a q
hierarquiar o material disponível obre o tema que se propõe estudar. Nesse
se deve, talvez, a divergência pontual com, 'abuco. seu am:go fraterno na época
proc so elas 1ficatóno, o histon<.~dor privilegia determinadas fontes, usa de
da redação de Um estadista. Mas é Machado quem tem razão. Como a m.l na
outra de maneira secundária e negligencia as séries documentais que, na sua
dos parlamentares que se preocupavam em deixar suas f <tias registrada p<tra
a·.aJiação, contêm dados insuficientes ou inapropriados ao enfoque de seu es-
posteridade, Nabuco de Araújo preparava seus di:.curws e em seguida o ree -
tudo. A partir d:.tí, >CU trabalho passa a ser moldado, condicionado e até res-
crevia, a partir da taquigrafia registrada no Senado ou na Cámara O recurso .l
tringido pela natureza das fontes. o limite, os capítulos de um livro podem se
citações latinas, que aparece com alguma freqtiéncia nos d1scursos parlamcnta
reve ir de formatos diferenciados. Um historiador que esteja escrevendo um
res e na narrativa do livro, também deve sercontextualizado. Com efe:to o latin 'no
h vro obre o tráfico negreiro, por exemplo, será levado a redigir as partes
básico, herdado do ensino jesuítico e religioso da época colonial. d hulhado na
relativas a análi t:: quantitativa de seu tema de maneira bastante diversa do
aulas de catecismo, do ensino secundário e, com mais dcnsJdade. nas faculdade
capítulo em que aborda, baseado em fontes de outra natureza, o debate teoló-
de Direito, fazia parte da cultura da população escolarizada do impéno e da
gico c mí~~ionário sobre a legitimidade da escravidão no século XVII.
primei ras décadas da república.
Ob-. ia mente, o gênero biográfico, e muito mai s ainda, a redação da bio-
Quando apareceu o primeiro tomo de Um e.\tadista. José \'erí s1mo afir-
grafia paterna. não se presta a essa prolixidade de estilos. Ainda assim, Nabuco
mou que a intercalação dos discursos e textos oficiais con tituía um "dcfe1t
d1 punha, como se pôde entrever nas páginas acima, de fontes bastante varia-
[... J na estrutura do livro". 1 ~ Veríssimo escrevia numa conjuntura em que ta1
da • que poderiam ter imprimido um feitio diferente a Um estadista. O fato de
0 discursos ainda não tinham adquirido a estampa de documentos histórico · 't•
livro Ler tomado o tom compassado e institucional que o caracteriza não
entanto, quer tenha sido um defeito ou, ao contrário, um efc.:ito narrdli\O
?ecorre simplesmente do amor filial que movia seu autor. Decorre, isso sim, da
m crprctação política que Joaquim Nabuco enuncia sobre o império a partir deliberadamente elaborado, o procedimento contribuiu, com o passar do anos.
d<Js fontes -discursos parlamentares, documentos do Conselho de Estado. P~ra dar o tom edificante que caracteriza a obra. Retratando questõe di tan-
~Iadas da atualidade republicana e incorporadas ao passado- um pa. ado q_uc
"ruptura histórica provocada pcla Abolição fazia ficar cada vez mais longtn
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r m co ,.
Fazenda. "Antiqualhas e memórias do R1o de Janeiro" em Revi.1ta do lmtituto
r;,,~rájlro BrtHiielfo, tomo 95, vol 149, 1927, PP 24G-50
n Whlle Metnh 11 rory TI /li . . . . · •
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m 0\'c 10 h H te storu·at lmagm a11on 111 Nwetet!nlh-Century Europt .. Machado de Assis, "O velho Senado", em Joaqu1m Nabuco, Um estaduta dt 111 ' >ll ·
a 11 d 10 ,r /~ opk~ns Un~ve" Y 11 Press, l975 , The Contento[ the Form. Narrative Díscount u Ane~o. v 11, p. 1280.
a epre~rnrnrton (Ilalttmore Johns Hopkins Unlversity Press, 1990). Jos~ Verlssimo. "Um historiador poHtico, o sr Joaqu1m abuco • em Joaq •m ah c L'
~ltadura do imphw, cit., Anexo. v 11, p 1300.

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11\t I· I\')/, I I {)(1/I/1'/-RIO LLIIZ FELIPE DE ·\ LE C·\STIW

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le'l). ,I le·e de· I ~7 1 > t' lmf.l c•l.t du lavra de· N.1huco dt• Ar;tUjo, [, 1(1·c 1do pou 1 0
,ulle s "'' ~ 11 a apwva(:tll nu l'arl:une•nto. ri
No~ ~~tiS 'li os <' nos sc:us ac'l't tos. N;~htlco, ('01110 todo ht\toll;rdm l <'~ta
tributa I io tlncllnjunllltll historica q111' divi~avu Nos ano de ll'<Lrç. 1n do flVI o,
unn peldiu pt•r·cehc:l' os desdoh1 amcntos ullt·r lcm·~ de algn11s dos h'nl.ls pollltn>~
,. sociais qut' su1·gi11111 110 finnl do impcSrin. Fator que tL'r.! l<llttli'm JWs.ldo na
~ suheslinlU(!IO do pu~wl da política i1nigranli~1a .
1111
Mnis complicado c o salto sobre algutna~ q1H'S1tks do pass.tdo, ,. , 1 rl'I.J
v:1brevidade com que o livro uborda as laboriosas ncgodaçc •s dtplmnatic.ls,
11
'IH< 11·, 11 .!1111.l< ltn.l. p.lr.l .lhll<'< . '' l'.u'lam 'llln ·ongrcgav.1os ugt·n- econômicas, políticas t: policiais prcct:dcndo a suprcs~ao do tdfico nq!tciro
lh .1 .1<' d.1 m~11t11 'll'll.ll l/ ,1 ' ,1\1 d.1 pllllllca ht.1~i1L•i1.1. Desde l~1go, clandcstino em I 850. Nus suas estadas em Londn·s, Juaquim Nahuco le·u. Jo
c1 ·ntl' • da .Hn td.H.k . q11c St' dt·~cnrol.un à margem da t 'âmum m~:nos em parte, os autos das comissões parlamt:ntarcs de inquérito do Paria
· ],, • t n.lth' 11.1<' ·LI nr • · m u llltl ~tup.1s es~enci.li. d.1 histotia nnpetial c. por mcnto britânico obre o tdfico de africanos. Há nl'ssa documentação d.H.lm
'"'' m ·-.n,. n"'' !!·lnh.un l •st.1quc em Um , •.~fadista Pc f.lto. o livm passa ao d~:vastndorcs sohre o comprometimento brasileiro na pirataria ncgrcir.t. rK De
l.lr•'t' J.t pt ltti 'o i rcgtonalt• munil..tpal. J · mo1 tmcntos rq;ionaliMa c. de uma putado, seu pai acompanhou, a partir de 1848. as tratativa~ oficiais c oficiosas
nwt •i r.t !! •t.JI da. l}Ul' ~ t&: debatida 11.1s câmar.1s e nas asscmblciu provin- que 0 gabinete saquarcma c, sobretudo, o ministro da Justiça. Eusébio Qlll•ir(s
c·i.ti~ . cl'lu.mdo. oh\ tJillt'llh:, J Revolução Praieira. CliJ.l devassa judicial foi e 0 ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulino Soares de Sousa (viscondc de
lt·' .td.t .1 c'.1hn pt'r N.thucn de .\r.IUJO. ,\Jguns comcntadorcs da obra obscrva- Uruguai), desenvolviam com os fazendeiro e negreiros brasileiros, de um lado.
r.mt. '<'11\ pc n i n(lnci;.~. que o objetivo de JoJquim ahuco consi tia em seguir o e com o governo britânico, de outro, sobre a que tão mais perigosa enfrentada
iunct u i11 poltl i '' de seu pai . t' n:io em redtgtr a hi tôria do império. Ainda pelo império. Considerado pelo direito internacional um ato de pirataria. o trá -
,1 un. h. 1~m.1' com o~ quat, 1 ahuco de Araújo lidou bastante que não rcce- fico negreiro brasileiro estava à beira de provocar um conflito armado com a
~ m no h' 10 um L•• IJmcnto à .11t11ra
Inglaterra. Apesar da cessação do tráfico clandestino em 1850. as tensões
f ai te mJ d.1 imigr.tção c do tr.1halho rural. mal resolvido nas discussões persistiram em torno do estatuto dos africanos introduzidos após a lei de 7 dc
no PJl'lantcnlo, ma 'i\ Jmcntc dc b:rtido 0:1 província , obretudo em São Paulo. novembro de 183 J. Tensões que desembocaram no "affaire Christie". levan-
Efcti\ .nncntc. L m c.ltaclisra não trJtJ da Lei de Locação de Serviços na Agri· do à ruptura de relações diplomáticas entre a Inglaterra e o Brasil (1863-1865).
cullur.1 11,'791. à qual Nabuco de Araújo dedicou boa parte de sua atenção no Como se sabe, a lei de 1831 proibia o tráfico atlântico de escravos c determ!·
pcn do qu' prcc ·dc u . u.t morte. Concebida para fazer a junção entre a políti· nava a imediata soltura dos africanos introduzidos após essa data, os quats
c.1 nnigrant1sta que s • in iciava e a legislação emancipacionista que fechava eram considerados homens livres. Conseqüentemente, todos os proprietários
tr~s < iculo d l' . cravismo. de pcnneio aos interesses divergentes dos fazen·
de africanos desembarcados após 1831 estavam praticando o crime de man~~r
pessoas livres em cárcere privado. Ministro da Justiça, Nabuco de ArauJO
dwos do 'ordestc e do Centro-Sul quanto à imigração estrangeira c à migra·
arbitrou questões delicadas sobre a matéria. Em 1854, no desdobramento de
<~ inLerprO\ incial dos trah.1lhadores livres e ex-escravos, a lei de 1879 constiLUía
uma decisão do Senado, ele redigiu uma recomendação aos delegados de po·
'qua t' um Código Rural", segundo os comentadores da época. Para redigi-la.
o então ~on elheiro de Estado e tudou os relatórios das comissões sobre a
imt_;r.tção que e tiveram em São Paulo, como também a legislação européia
.ttm·nt ao trabalho compulsório nas colônia oitocentistas. A despeito de ter " V. . unier Da tscra••idiio '"' Trabu -
• . La
CJa-se a esse respeito o livro esclarecedor de Mana Luc•o · mo
fL ... c,•nhec ldJ como Lei Sinimbu (presidente do Conselho de Ministros e • lho livre (Campinas: Papiros. 1988). . em O> rdatonos dJ>
mi Tl' da .,;cultura do gabinete que apre entou o projeto referente a essa No livro, Nabuco se refere aos Britüll Parliamtnrary Paptrs que reun
COmissões da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes rclabvos li queseãu

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c1 ·ntl' • da .Hn td.H.k . q11c St' dt·~cnrol.un à margem da t 'âmum m~:nos em parte, os autos das comissões parlamt:ntarcs de inquérito do Paria
· ],, • t n.lth' 11.1<' ·LI nr • · m u llltl ~tup.1s es~enci.li. d.1 histotia nnpetial c. por mcnto britânico obre o tdfico de africanos. Há nl'ssa documentação d.H.lm
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Inglaterra. Apesar da cessação do tráfico clandestino em 1850. as tensões
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pessoas livres em cárcere privado. Ministro da Justiça, Nabuco de ArauJO
dwos do 'ordestc e do Centro-Sul quanto à imigração estrangeira c à migra·
arbitrou questões delicadas sobre a matéria. Em 1854, no desdobramento de
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uma decisão do Senado, ele redigiu uma recomendação aos delegados de po·
'qua t' um Código Rural", segundo os comentadores da época. Para redigi-la.
o então ~on elheiro de Estado e tudou os relatórios das comissões sobre a
imt_;r.tção que e tiveram em São Paulo, como também a legislação européia
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• . La
CJa-se a esse respeito o livro esclarecedor de Mana Luc•o · mo
fL ... c,•nhec ldJ como Lei Sinimbu (presidente do Conselho de Ministros e • lho livre (Campinas: Papiros. 1988). . em O> rdatonos dJ>
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COmissões da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes rclabvos li queseãu

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DO IVI'lRIO
LUIZ FELIPE DI! AL CASTRO

Imperador. uma Ctmara. clmdaclasua oulidllde e que pede IOiertDtia; um


que reduz a ser um pmaneu"; partidos que sio apenas SOciedldes coopera~~ as de
coI lo ou de seguro contra a mis&ia: todas apareocias de um governo 1
ão preservadas por orgulho nacioDat, como f01 a dignadade roosuJar oo lmptaio
Romano. mas, no fundo, o que temos 6 um goYm!O de uma simpli pnrmb
m que as responsabthdades se dividem ao infinito, e o poder esti conct'lllrado nas
mão de um só.,

o ataque arrasador de O abolicionismo ilustra a dimensão do recuo


con ervador do pensamento nabuquiano estampado em U111 estadista.
A respeito da personalidade dos políticos do Segundo R inado. abu o
traça às ezes alguns perfis psicológicos. Assim, quando fala d Luí Pedrerra
do Couto Ferraz.. visconde de Bom Retiro, ministro do império do gabinet de
Paraná. ele menciona sua grande timidez e dificuldade em falar m públic
Malgrado seu alor e experiência. Pedreira só discursava quando um de seu
colegas de ministério. tal abuco de Araújo, usava de subterfügios para forçá-
lo a subir na tribuna do Parlamento. abuco Dio abafa os sentiment de
personagens e, a propósito do arbítrio do imperador lba dos senadore
eleitos em lista trfp1ice pelas províncias, nota pcrspiclzmcote a '"ferida mcurá-
el" assim criada nos eleitos preteridos na nomeação.
Contudo. elo nio se permite nenhuma obsena9lo irreven:n .
em Um estadista nada que se compare às sutilezas ele bado de as
quando menciona. por exemplo. a surdez do DlllRlu& de OliDda. obrigando-o
d scer da tribuna para sentar-se ao lado do parlamentar que o aparte& ,
mania do nador gadc:ho J8 Arújo Ribearo, viscoade do Rio Graode,
sempre com o didonirio lado para verificlr ou tal
palavras de um orador Jeaftimas '. Sem paralD tu
macbldlau~IIIDltleaimlpm de um seDid«
deolsaa'tlllarfOIIiao'" para formollr-.,..~~~~~~~~.-;

----~·----~-~a.n·*----

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DO IVI'lRIO
LUIZ FELIPE DI! AL CASTRO

Imperador. uma Ctmara. clmdaclasua oulidllde e que pede IOiertDtia; um


que reduz a ser um pmaneu"; partidos que sio apenas SOciedldes coopera~~ as de
coI lo ou de seguro contra a mis&ia: todas apareocias de um governo 1
ão preservadas por orgulho nacioDat, como f01 a dignadade roosuJar oo lmptaio
Romano. mas, no fundo, o que temos 6 um goYm!O de uma simpli pnrmb
m que as responsabthdades se dividem ao infinito, e o poder esti conct'lllrado nas
mão de um só.,

o ataque arrasador de O abolicionismo ilustra a dimensão do recuo


con ervador do pensamento nabuquiano estampado em U111 estadista.
A respeito da personalidade dos políticos do Segundo R inado. abu o
traça às ezes alguns perfis psicológicos. Assim, quando fala d Luí Pedrerra
do Couto Ferraz.. visconde de Bom Retiro, ministro do império do gabinet de
Paraná. ele menciona sua grande timidez e dificuldade em falar m públic
Malgrado seu alor e experiência. Pedreira só discursava quando um de seu
colegas de ministério. tal abuco de Araújo, usava de subterfügios para forçá-
lo a subir na tribuna do Parlamento. abuco Dio abafa os sentiment de
personagens e, a propósito do arbítrio do imperador lba dos senadore
eleitos em lista trfp1ice pelas províncias, nota pcrspiclzmcote a '"ferida mcurá-
el" assim criada nos eleitos preteridos na nomeação.
Contudo. elo nio se permite nenhuma obsena9lo irreven:n .
em Um estadista nada que se compare às sutilezas ele bado de as
quando menciona. por exemplo. a surdez do DlllRlu& de OliDda. obrigando-o
d scer da tribuna para sentar-se ao lado do parlamentar que o aparte& ,
mania do nador gadc:ho J8 Arújo Ribearo, viscoade do Rio Graode,
sempre com o didonirio lado para verificlr ou tal
palavras de um orador Jeaftimas '. Sem paralD tu
macbldlau~IIIDltleaimlpm de um seDid«
deolsaa'tlllarfOIIiao'" para formollr-.,..~~~~~~~~.-;

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"ou p.11.1vras de um orad r rnm u n o I gftimus". 'em aparnt v macular, a
tl'rtt·ira ironiumuchndiann dem I a imag m d um enador mo o mnrqu
de: llanhac m, "s m d nte nem vai r político", para fonnular uma fina an li
Pt1htka: "a figuru d lt nha mera uma raz!o vi {vel contra vitah iedade do
St:11.1do, ma. t mbém no qu a italiciedade dava qu la ca a uma
l'il'ncia de durnç o perpétua, que parecia ler- e no ro to e n trat d
m mbro.".'

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• qu•m abuco, o tlbolit-UJIIUMO 41 ec1ç1o (Pdnlpolla: lm), pp 1 0.171
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11. p 12 7.

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EDUARDO PRADO

A ilusão americana

Lúcia Líppi Oliveira

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EDUARDO PRADO

A ilusão americana

Lúcia Líppi Oliveira

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'.,do ·•utordc A i/u.lao nmaicnna'.quc apresenta remo~. pmk
do ! 1' 1 '...
rdu'll
: ' ado na linha de frt.!nte do momuquista. qut.! cnmh:-~tcram a r:r.u'h!"1-
cfl:ncontr ·I· r ·ça das armas em 1889. Na cido em I8(10. de urn ela t.tvo-
ca ms. wlada pt.: '1 101:- da lavoura de café paulista. no fmal
· •
do secu 1o Xl
' • ~: I·l
'd da cxpans.IO .
recr o p . mtiiJdo de riqueza clcgftm;ia c cultura. Ja nos hnnc(ls
, c vt\'Cll em um ' . .
cn:sct.:U I· t , a na imprensa acadêmica e publicava crônJcas no JOrnal
. . lares. co a Jorav . . ., ' .
csco ,. Como boa parte dos filhos da elite hrastlcrra da cpoc.:a.
reio Pnu rstnno. , . ,
Cor . Faculdade de Direito de São p,IUio. llnde teve como colegas dt:
ingressou na . B .I J .,. J u ' ui
. ,,. de Castilhos, Joaquim Francisco de Ass1s ras1 c u 10 c ;VJcsq
turm•l 1u ro . .d.
· . n a se tomar políticos ilustres. Após o bacharelado, drv1 J:J o tem-
ta que vrcra 1 · d·
· raze 11da no interior de São Paulo c os centros co mopolrtas ,1
po entre a I· '

Europa.
Radicado em Paris, a partir de 1886, transformou a casa onde morava
em um verdadeiro centro de estudos brasileiros e portugueses. Desse círculo
privilegiado fizeram parte intelectuais da estatura de Eça de Qu ·irós. Ramalho
Ortigão, Joaquim Nabuco, Afonso Arinos e Rio Branco, ntre outros. t o cl!n-
tenário da Revolução Francesa, em 14 de julho de !889, Eduardo Prado inte-
grou a representação oficial brasileira à exposição de Paris. que festejou a
queda da Bastilha.
Quatro meses depois, com a proclamação da república no Brasil, deu
início ã carreira de polemista, usando como veículo a ReviMa de Portugal.
Nela escreveu, sob o pseudônimo de Frederico de S., artigos mais tarde reu-
nidos no livro Fastos da ditadura militar no Brasil. Mas foi em 1893, çom A
ilusão americana- primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São
Paulo-, que passou a enfrentar problemas mais sérios. Sentindo-se persegui-
do. "fugiu" para a Europa.
Isso não o impediu, porém, de continuar fazendo propaganda anti-repu-
blicana na terra natal. Em 1897 foi sócio fundador da Academia Brasileira de
Letras, onde assumiu a cadeira ng 40, escolhendo como patrono o visconde do
Rio Branco. Voltou definitivamente ao país em 1900, a fim de retomar os ata-
Leres d.c pol't' · dor, htstorrador
I rco, pesqutsa . . . Por pouco tempD. Na \'I a-
e escntor.
gem
I . que fez R' d J ·
· ao lO e anetro, em 9 de agosto de 190 l. para tomar po se no
~stltuto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi contagiado pela febre amar la
orrcu no dia 30, em São Paulo, aos 41 anos de idade. 2

' Eduardo Prad A 1I


' Sob 0• usdo IVnmcana (S' ediçlo. Sio Paulo lbra a. 1980)
re oCautor ' ver
1967) a 0d1dO MOIA Filho
I • A vida tk Eduordu Prado (Rio de Janc11 J'* Olymps
' olrção Documento Brasllesros, 129

135

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Radicado em Paris, a partir de 1886, transformou a casa onde morava
em um verdadeiro centro de estudos brasileiros e portugueses. Desse círculo
privilegiado fizeram parte intelectuais da estatura de Eça de Qu ·irós. Ramalho
Ortigão, Joaquim Nabuco, Afonso Arinos e Rio Branco, ntre outros. t o cl!n-
tenário da Revolução Francesa, em 14 de julho de !889, Eduardo Prado inte-
grou a representação oficial brasileira à exposição de Paris. que festejou a
queda da Bastilha.
Quatro meses depois, com a proclamação da república no Brasil, deu
início ã carreira de polemista, usando como veículo a ReviMa de Portugal.
Nela escreveu, sob o pseudônimo de Frederico de S., artigos mais tarde reu-
nidos no livro Fastos da ditadura militar no Brasil. Mas foi em 1893, çom A
ilusão americana- primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São
Paulo-, que passou a enfrentar problemas mais sérios. Sentindo-se persegui-
do. "fugiu" para a Europa.
Isso não o impediu, porém, de continuar fazendo propaganda anti-repu-
blicana na terra natal. Em 1897 foi sócio fundador da Academia Brasileira de
Letras, onde assumiu a cadeira ng 40, escolhendo como patrono o visconde do
Rio Branco. Voltou definitivamente ao país em 1900, a fim de retomar os ata-
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' Sob 0• usdo IVnmcana (S' ediçlo. Sio Paulo lbra a. 1980)
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I • A vida tk Eduordu Prado (Rio de Janc11 J'* Olymps
' olrção Documento Brasllesros, 129

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iWSÃO AMERJC.\, 'A LÚCIA LIPJ>I OLI, EJf'.A

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iWSÃO AMERJC.\, 'A LÚCIA LIPJ>I OLI, EJf'.A

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A ILUSÃO AMERJCANA LÚCIA Lli'Pl OLIVEIRA

Eduardo Prado transmite seus argumentos centrais ao leitor com nqueza vamos acompanhá-lo na demonstração de sua tese. Eduardo Prad(J apre-
de mterpretação. A Ilusão america11a levanta a tese de que entre o Brasil e 05 t' sua visão sobre a sociedade norte-americana através da política. privJle-
Estados Unidos. e seus respectivos povos. existe um verdadeiro abismo cultu. sen a- a condução de sua d'1p1omac1a.
iando · Esta beIece a d'f 1 erença entre d o1s
·
ral. com separação de raça. de religião, de índole, de língua, de história e de g omentos- o da instauração da república, em 1776, e o da virada do éculo
tradiçõc . Portanto. nada deveria levá-los a possuir as mesmas instituições e a ;IX. No final do século XVIII, "homens extraordinários, da velha c~tirpe
mesma fo1ma de governo. Até o fato de ambos estarem situados no mesmo saxônica. revigorada pelo puritanismo e alguns deles bafejados pelo lilosofismo,
contmente não passaria de mero acidente geográfico, verdadeiro equívoco surgiram nas treze colônias inglesas da América do Norte. Resolveram cons-
causado por mutações geológicas. tituir em nação independente a sua pátria".6
OBra il encontrt-se voltado para o Leste, onde nasce o sol. ou seja, para Prossegue dizendo que, ao se emanciparem politicamente. os norte-ame-
a Europa. onde estão os centros mais populosos e importantes, e não para os ncanos tiveram como aliados os reis da França e da Espanha . Não pretendi-
outros paí es americanos. A geografia também nos separa dos países andinos; am, então, fazer proselitismo, divulgar a idéia de que as demais colônias na
ilha imensa. por si só um continente. O autor retoma a idéia de que o no da Aménca deveriam ser independentes ou republicanas, como eles. 'o caso da
Prata e o no Amazonas foram mares que se comunicavam no passado, confir- Aménca Latina, nos diz Eduardo Prado, foi a Inglaterra que a aJudou a conse-
mando um.t 1déia antiga e famosa- a existência da ilha Brasil. A junção com guir a independência no século XIX, ao defender esses novos países contra as
o terntório do Andes, superficial. não gerou muitos laços físicos e culturais. monarquias européias que pretendiam intervir na América a favor da Espanha.
Eduardo Prado não só demarca as diferenças entre o Brasil e os Estados A política externa norte-americana viveu, no final do século XIX. sob a
Umdos. mas também as do Brasil com as demais nações do hemisfério. Ao ég1dc do pan-americanismo. A Doutrina Monroe. que se origina na mensagem
longo do texto aparecem inúmeras referências negativas aos países hispano- encami nhada pelo presidente James Monroe ao Congresso dos Estado Uni-
americanos. "Estudem um a um", diz o autor, "c o traço característico de todos dos, em 1823, tinha como objetivo afirmar a soberania nacional dos paí ·e- do
eles, alé!Tl da contínua tragicomédia das ditaduras, das constituintes e das sedi- continente contra as pretensões das monarquias européias que forma•am a
'rões. que é .t vida desses países, é a ruína das finanças. "4 Santa Aliança. A doutrina se opunha às pretensões francesas de intervir na
A América espanhola, ao adotar o modelo norte-americano por ocasião América espanhola e às pretensões russas de estabelecer novas feitorias na
do movimentos de independência durante o século XIX, teria renegado suas costa do Pacífico.
trad1 õe . "O Br·•,il, mais feliz, instintivamente obedeceu à grande lei de que Para Eduardo Prado, a Doutrina Monroe ficou restrita ao declaratóno.
as nações devem se reformar dentro de si mesmas, como todos os organismos não tendo o significado de compromisso nem de aliança. como imaginavam os
\ 1vos. com a própria substância."5 Em 1889, no entanto, cometia o mesmo erro republicanos jacobinos. Os Estados Unidos não estavam. de forma alguma.
dos VIZinhos. dispostos a comprar as brigas da América Latina com as potências além-mar
A fraternidade americana seria outra menti~a divulgada pelos republica- Daí não ter nenhuma base, segundo o autor, "a crendice que c qu r espalhar
nos. O autor defende seu ponto de vista apresentando exemplos de ódios nacio- no Brasil de que os Estados Unidos não consentem na América outro gover-
nats, a altos. ataques, lutas entre os países do continente que desmentem OS no senão o republicano''. 7
id'!ai fraternos. Denuncia a "ilusão americana" mostrando as diferenças do Ao relatar os eventos mais significativos das relações entre os Estados
Bra il com o outros países da América do Sul e, no mesmo tom, aponta e Unidos e o Brasil durante o sécllio XIX, ele mostra que a nossa independên ia
d nuncia a ba1xa qualidade da política norte-americana dirigida aos "irmãos do só foi reconhecida pelos norte-americanos depois que Portugal o f; z. e ainda
• ui"
assim graças à intervenção inglesa. Menciona conflitos no rio da Prata que
envolveram apreensão de navios e e igências desmedidas e e orbitantes que

: lbid. p. 22
lbid. p. 30.

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A ILUSÃO AMERJCANA LÚCIA Lli'Pl OLIVEIRA

Eduardo Prado transmite seus argumentos centrais ao leitor com nqueza vamos acompanhá-lo na demonstração de sua tese. Eduardo Prad(J apre-
de mterpretação. A Ilusão america11a levanta a tese de que entre o Brasil e 05 t' sua visão sobre a sociedade norte-americana através da política. privJle-
Estados Unidos. e seus respectivos povos. existe um verdadeiro abismo cultu. sen a- a condução de sua d'1p1omac1a.
iando · Esta beIece a d'f 1 erença entre d o1s
·
ral. com separação de raça. de religião, de índole, de língua, de história e de g omentos- o da instauração da república, em 1776, e o da virada do éculo
tradiçõc . Portanto. nada deveria levá-los a possuir as mesmas instituições e a ;IX. No final do século XVIII, "homens extraordinários, da velha c~tirpe
mesma fo1ma de governo. Até o fato de ambos estarem situados no mesmo saxônica. revigorada pelo puritanismo e alguns deles bafejados pelo lilosofismo,
contmente não passaria de mero acidente geográfico, verdadeiro equívoco surgiram nas treze colônias inglesas da América do Norte. Resolveram cons-
causado por mutações geológicas. tituir em nação independente a sua pátria".6
OBra il encontrt-se voltado para o Leste, onde nasce o sol. ou seja, para Prossegue dizendo que, ao se emanciparem politicamente. os norte-ame-
a Europa. onde estão os centros mais populosos e importantes, e não para os ncanos tiveram como aliados os reis da França e da Espanha . Não pretendi-
outros paí es americanos. A geografia também nos separa dos países andinos; am, então, fazer proselitismo, divulgar a idéia de que as demais colônias na
ilha imensa. por si só um continente. O autor retoma a idéia de que o no da Aménca deveriam ser independentes ou republicanas, como eles. 'o caso da
Prata e o no Amazonas foram mares que se comunicavam no passado, confir- Aménca Latina, nos diz Eduardo Prado, foi a Inglaterra que a aJudou a conse-
mando um.t 1déia antiga e famosa- a existência da ilha Brasil. A junção com guir a independência no século XIX, ao defender esses novos países contra as
o terntório do Andes, superficial. não gerou muitos laços físicos e culturais. monarquias européias que pretendiam intervir na América a favor da Espanha.
Eduardo Prado não só demarca as diferenças entre o Brasil e os Estados A política externa norte-americana viveu, no final do século XIX. sob a
Umdos. mas também as do Brasil com as demais nações do hemisfério. Ao ég1dc do pan-americanismo. A Doutrina Monroe. que se origina na mensagem
longo do texto aparecem inúmeras referências negativas aos países hispano- encami nhada pelo presidente James Monroe ao Congresso dos Estado Uni-
americanos. "Estudem um a um", diz o autor, "c o traço característico de todos dos, em 1823, tinha como objetivo afirmar a soberania nacional dos paí ·e- do
eles, alé!Tl da contínua tragicomédia das ditaduras, das constituintes e das sedi- continente contra as pretensões das monarquias européias que forma•am a
'rões. que é .t vida desses países, é a ruína das finanças. "4 Santa Aliança. A doutrina se opunha às pretensões francesas de intervir na
A América espanhola, ao adotar o modelo norte-americano por ocasião América espanhola e às pretensões russas de estabelecer novas feitorias na
do movimentos de independência durante o século XIX, teria renegado suas costa do Pacífico.
trad1 õe . "O Br·•,il, mais feliz, instintivamente obedeceu à grande lei de que Para Eduardo Prado, a Doutrina Monroe ficou restrita ao declaratóno.
as nações devem se reformar dentro de si mesmas, como todos os organismos não tendo o significado de compromisso nem de aliança. como imaginavam os
\ 1vos. com a própria substância."5 Em 1889, no entanto, cometia o mesmo erro republicanos jacobinos. Os Estados Unidos não estavam. de forma alguma.
dos VIZinhos. dispostos a comprar as brigas da América Latina com as potências além-mar
A fraternidade americana seria outra menti~a divulgada pelos republica- Daí não ter nenhuma base, segundo o autor, "a crendice que c qu r espalhar
nos. O autor defende seu ponto de vista apresentando exemplos de ódios nacio- no Brasil de que os Estados Unidos não consentem na América outro gover-
nats, a altos. ataques, lutas entre os países do continente que desmentem OS no senão o republicano''. 7
id'!ai fraternos. Denuncia a "ilusão americana" mostrando as diferenças do Ao relatar os eventos mais significativos das relações entre os Estados
Bra il com o outros países da América do Sul e, no mesmo tom, aponta e Unidos e o Brasil durante o sécllio XIX, ele mostra que a nossa independên ia
d nuncia a ba1xa qualidade da política norte-americana dirigida aos "irmãos do só foi reconhecida pelos norte-americanos depois que Portugal o f; z. e ainda
• ui"
assim graças à intervenção inglesa. Menciona conflitos no rio da Prata que
envolveram apreensão de navios e e igências desmedidas e e orbitantes que

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i1 11 f/ ÃO AMf R/CANil LÚC' lA Ll i'Pl OI !VE! R

11 ovcrno nnrt .tmct tcano passou .1 fazer ao govemo brasileiro. Também no tiam a orgia financeira, as falsas melhorias c a presença dos avent ureiros ame-
c 1 Hl.t •u ·n .tJU\Ia que B t J\Í I. Argentina c Uruguai fizeram contra o Paraguai,
ricanos.
.1 po içao do I >lado Unidos não fo i reco mendável. A diplomacia americana Eduardo Prado cita, também, o caso das ilhas Ma h inas que, em 1R31.
que .1~ 1 t1.1 •lindo muda ·Impassível, se toma cúmplice do caudilho paraguaio: arrebatadas da Argentina por na vios norte-americanos. foram ent regues à Jn-
nu ilertc.;it · uo louvor cri ando me~mo dificuldade c se comportando como latcrra. E segue mencionando numerosos incidente durante todo o éculo
c~ p1.1 ele Lupt•t, "tra u1do" o e. ército aliado. ~rX. nos quais a diplomacia, a marinha, os corsários c a tropas amcncana
P.u.1 • tmplil tear a relações com o resto do continente, Eduardo Prado fizeram estragos no território, no comércio e na produção dos países da Amé-
,thottl.t .1 pulítka do~ f\tado Unidos em relação ao México. Em primeiro rica Latina. Os norte-americanos, critica o autor. sempre se rcfcn,un .10~ ou
lu • 1r, lllt'llLHllla a má fé do gO\erno de Washington no caso do Texas. tros países da América do Sul c ao Brasil de forn1a grosseira c arrogante.
considerando seus governos instáveis e incapazes.
I nmr< u o quanto Jll de a rc\O)ta daquele tcrntório, annnou-o a sc parar-~c do Mé- A América Central também merece atenção do autor. "A mfehz kara-
llll , JW ,, m.u dcp r cs~d ah,onc ·lo, e dcpor s declarou guerra ao México, vcrdadCJra
gua", o processo do Panamá, o caso de Cuba são mencionado~ no hvro. (h
u rr,, dt• um<\111\ la que humilhou aquela rcpubhca ao extre mo e arrcbmou-lhe metade
dn ~~~ lc lfJI(>no '
patriotas cubanos sonhavam com a independência da ilha c pensavam que, sob
a Doutrina Monroe, podiam contar com o apoio norte-americano em sua luta.
Fizeram de Nova York seu quartel-general e, com a aquiescência nnrt.:-amc
nos mats tat dc, admite o autor de A ilusüo americana, os Estados
lfrudos e 1 t.tm que" França tcttras c suas tropas do território mexicano, mas ricana, organizaram a conspiração c compraram armas. Até que, na ultun;•
hora, a polícia americana atendeu aos reclamos da Espanh,t, acabando com
o preço w hrado fm murto alto. O governo de Maximiliano, príncipe liberal
suas esperanças. "Os patriotas cubanos, talvez injustamente, acusam scmpt<'
• liilll!'t'li O, foi o mar& honc~ t o de• de a independência do México. Combateu
seus auxiliares, americanos mercenários. de traição."9 Os Estados Umdm tt'-
n ahu ,,, do clero, <tboli u leis de scn tdão no campo que ainda existiam e, com
riam vendido Cuba à Espanha, em troca de favores comerciais, de iscnçoes de
~ .1 .tt ll udcs. <tlranr o !idio das c la ~~c~ conservadoras. Os Estados Unidos
direitos sobre seus produtos.
pr t.tram o scn i o de .tt:Jhar com c se governo para entregar o poder a seus
p wpno~ 1 •prc l.! nta ntcs.
"Para o México, ela [a política americana Item sido um algo1., e JMra a
América Central, um inimigo", 10 prossegue Eduardo Prado. citando, tamhrm ,
( >tidro .to cstr angc rro fm mccntrYado c o militarismo republicano, o cau-
a malograda companhia, com sede na França, que pretendia construrr urn ca-
dilhi~mo, fi~: nu n:inando. como nm dcmat s paí~cs da América Latina. Generais
nal transoceânico ligando o Atlântico ao Pacífico. Os Estados Unidos empre-
~ 1.:1 ctamm no poder, J" que a constituição copiada da norte-americana im-
garam toda a sua influência para atrasar c embargar a obra, a ftm de atender
l't'(ha que t pre rdc ntc ft ca ~c por mai s de um período presidencial consecuti·
aos in<ercsscs das ·ompanhias de ferro transcontincntais. r~ pr~ t:iso notar que
vo. O Mt· tco sob os r.c ncrai s Díaz c Gonzálc7:, que dominaram o país durante
m.us de vmtc an0<:,. c tornou território livre puro~ "um bando de aventureiros"
° Canal do Panamá ~ó foi aberto anos mais tarde, quando o\ Fstados I Jnidm
obtiveram a anulação de tratado anterior com a fnglatcrra c promov ·ram a
patwcinados pela representa ão diplomátiCa norte americana C'onccssõc ·
s~cessão do Panamá, território colombiano. Só entao é que realizaram a obra.
pm ilt:gtos c outJ as formas de fraude financeira proliferavam a custa do tesou
Os conflitos decorrentes da atuação de aventureiros americano~ intcr~s
tn nu: rc.mo. Graça& a isso, grandes fortuna s no Méxrco c nos Estados Unido
sados nas riquezas do Peru c oo Chile são igualmente abordados A República
1nt,mt am ·alhadas. muitas delas com falsas obras que só existiam no papel
do Pt'ru também sofreu nas suas relações com os Estados Unido~ Durante
A~stm. dcpoi de haver retalhado o território mexicano em 1848, c da vitória
urna das muitas revoluções no pais, navios americanos se envolveram no wn
nuh tar drfi nrtiva. o~ E tad0s Unidos constitufram um 1erdadeiro protetorado
nr · P~ll~. o ~ "enerais de plantão, "eleitos" ob o regime republicano, garan·

' lb rd , p 7 4 .
• lé!l r 17 ~ li>rd , p
72

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c 1 Hl.t •u ·n .tJU\Ia que B t J\Í I. Argentina c Uruguai fizeram contra o Paraguai,
ricanos.
.1 po içao do I >lado Unidos não fo i reco mendável. A diplomacia americana Eduardo Prado cita, também, o caso das ilhas Ma h inas que, em 1R31.
que .1~ 1 t1.1 •lindo muda ·Impassível, se toma cúmplice do caudilho paraguaio: arrebatadas da Argentina por na vios norte-americanos. foram ent regues à Jn-
nu ilertc.;it · uo louvor cri ando me~mo dificuldade c se comportando como latcrra. E segue mencionando numerosos incidente durante todo o éculo
c~ p1.1 ele Lupt•t, "tra u1do" o e. ército aliado. ~rX. nos quais a diplomacia, a marinha, os corsários c a tropas amcncana
P.u.1 • tmplil tear a relações com o resto do continente, Eduardo Prado fizeram estragos no território, no comércio e na produção dos países da Amé-
,thottl.t .1 pulítka do~ f\tado Unidos em relação ao México. Em primeiro rica Latina. Os norte-americanos, critica o autor. sempre se rcfcn,un .10~ ou
lu • 1r, lllt'llLHllla a má fé do gO\erno de Washington no caso do Texas. tros países da América do Sul c ao Brasil de forn1a grosseira c arrogante.
considerando seus governos instáveis e incapazes.
I nmr< u o quanto Jll de a rc\O)ta daquele tcrntório, annnou-o a sc parar-~c do Mé- A América Central também merece atenção do autor. "A mfehz kara-
llll , JW ,, m.u dcp r cs~d ah,onc ·lo, e dcpor s declarou guerra ao México, vcrdadCJra
gua", o processo do Panamá, o caso de Cuba são mencionado~ no hvro. (h
u rr,, dt• um<\111\ la que humilhou aquela rcpubhca ao extre mo e arrcbmou-lhe metade
dn ~~~ lc lfJI(>no '
patriotas cubanos sonhavam com a independência da ilha c pensavam que, sob
a Doutrina Monroe, podiam contar com o apoio norte-americano em sua luta.
Fizeram de Nova York seu quartel-general e, com a aquiescência nnrt.:-amc
nos mats tat dc, admite o autor de A ilusüo americana, os Estados
lfrudos e 1 t.tm que" França tcttras c suas tropas do território mexicano, mas ricana, organizaram a conspiração c compraram armas. Até que, na ultun;•
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o preço w hrado fm murto alto. O governo de Maximiliano, príncipe liberal
suas esperanças. "Os patriotas cubanos, talvez injustamente, acusam scmpt<'
• liilll!'t'li O, foi o mar& honc~ t o de• de a independência do México. Combateu
seus auxiliares, americanos mercenários. de traição."9 Os Estados Umdm tt'-
n ahu ,,, do clero, <tboli u leis de scn tdão no campo que ainda existiam e, com
riam vendido Cuba à Espanha, em troca de favores comerciais, de iscnçoes de
~ .1 .tt ll udcs. <tlranr o !idio das c la ~~c~ conservadoras. Os Estados Unidos
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pr t.tram o scn i o de .tt:Jhar com c se governo para entregar o poder a seus
p wpno~ 1 •prc l.! nta ntcs.
"Para o México, ela [a política americana Item sido um algo1., e JMra a
América Central, um inimigo", 10 prossegue Eduardo Prado. citando, tamhrm ,
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a malograda companhia, com sede na França, que pretendia construrr urn ca-
dilhi~mo, fi~: nu n:inando. como nm dcmat s paí~cs da América Latina. Generais
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garam toda a sua influência para atrasar c embargar a obra, a ftm de atender
l't'(ha que t pre rdc ntc ft ca ~c por mai s de um período presidencial consecuti·
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m.us de vmtc an0<:,. c tornou território livre puro~ "um bando de aventureiros"
° Canal do Panamá ~ó foi aberto anos mais tarde, quando o\ Fstados I Jnidm
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patwcinados pela representa ão diplomátiCa norte americana C'onccssõc ·
s~cessão do Panamá, território colombiano. Só entao é que realizaram a obra.
pm ilt:gtos c outJ as formas de fraude financeira proliferavam a custa do tesou
Os conflitos decorrentes da atuação de aventureiros americano~ intcr~s
tn nu: rc.mo. Graça& a isso, grandes fortuna s no Méxrco c nos Estados Unido
sados nas riquezas do Peru c oo Chile são igualmente abordados A República
1nt,mt am ·alhadas. muitas delas com falsas obras que só existiam no papel
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A~stm. dcpoi de haver retalhado o território mexicano em 1848, c da vitória
urna das muitas revoluções no pais, navios americanos se envolveram no wn
nuh tar drfi nrtiva. o~ E tad0s Unidos constitufram um 1erdadeiro protetorado
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t1 IWSÀO AMERICANA
LÚCIA LIPPJ OLIVEIRA

trabundo do guano- proibido pelas leis peruanas. Ao serem aprisionados viveram num período histórico de pureza moral. em tempo de patriotismo e de
donos dos nav10s . consegUiam. que o governo de was h'mgton rompesse reJa.
'os
abnegação". 12 Isso era muito diferente do que se via no final do século XIX.
ções diplomáticas c exigisse indenizações que acabaram sendo pagas pelo em que a vida americana estava sob o império do industrialismo e das finanças,
P..:ru . e quando se sentia a expansão do despotismo dos monopólios, que faziam
A história desse país é apresentada por Eduardo Prado como exemplo a crescer todas as formas de corrupção.
ser observado. Depois do período trágico e heróico da conquista, e de termina.
do o domínio colonial, o Peru vivia, segundo o autor, setenta anos de desgraça A repúbhca norte-americana não teve sua mfãncia corroída pela corrupção. nem a sua
republicana que transformaram a mais rica possessão espanhola em um dos puerícia se passou nos jogos sangrentos das guerras crvis. Era ela Já quase ecutar
países mais pobres c infelizes do mundo. O guano, adubo natural , que deveria quando o seu solo foi fratricidamente regado pelo sangue de seus filhos; e os vrcHJS
constituir uma riqueza nacional, se tornou sua desgraça. Foi declarado proprie- contra os quais lutam hoje os patriotas[ ... ] São vícios de hoje. faltas atuais, que não
podem se jus ti ficar no exemplo dos antepassados."
dade nacional e sua extração passou a ser objeto de concessões feitas a pani-
cularcs Mesmo com favorecimentos pessoais, sua exportação produzia enonnes
Eduardo Prado reconhecia, portanto, que a república de Washington fora
excedentes ao t..:souro peruano, mas isso não durou.
criada em um período histórico no qual predominaram o patriotismo e a abne-
D01s .nencrars de boa vontade [. ) secundados por outros colegas, por muitos coro·
gação. Baseia sua afirmação em Montesquieu, na proposição de que as repú-
nérs c por um cxértrto rodo metido a político, acabaram com os saldos, e o Peru deixou blicas precisam ter como fundamento a virtude, e considera que esta foi a base
de scrcx cc~· ão na América espanhola, ficou tão fahdo como qualquer outra repúbli· da república norte-americana no tempo dos fundadores, dos pais da pátria. O
ca ,11 vícios e as faltas, que ele menciona existirem no final do século XIX. não
estavam presentes desde o início, e foram se constituindo a medida que os
O <tutor quis mostrar que aventureiros americanos faziam alianças com Estados Unidos se transformaram em sociedade industrial burguesa Os que
políticos con-uptos sul-americanos e, diante dos problemas que enfrentaram, justificam a corrupção e o crime dizendo que são próprios das instituições
pass;tram a exigir e nbter indenizações milionárias, já que suas demandas eram novas estão falseando a verdade histórica, nos diz Eduardo Prado, condenando
colocadJs sob a proteção da diplomacia e da marinha norte-americanas. Os os que pretendem defender os problemas e as falhas dos primeiros anos repu-
Estados Unidos são acusados por Prado de prepotência, vulgaridade, cinismo, blicanos no Brasil.
rupmagem c espe\.:utação, c sua política externa é qualificada como invasora, A república, forma moderna de governo, estimula os abusos do capitalis-
tirânica, arrogante e oportunista. As repúblicas da América espanhola são, por mo. O capital cresce por si só, os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres
outro lado, rdentilicadas com o militarismo e o caudilhismo. cada vez mais pobres. O materialismo sem medidas, o interesse pri\'ado sem
Os argumentos de Eduardo Prado seguem um mesmo raciocínio. O au· limites conduzem os Estados Unidos ao utilitarismo e a formularem uma politi·
tor descreve a atuação dos Estados Unidos em suas incursões na América ca nacional em que os interesses econômicos predominam sobre os vaiare
Latina, fazendo comparações com a política da Inglaterra, mostrando como éticos. A pureza moral, o patriotismo, a solidariedade dos tempos originais ão
csl.t sempre foi melhor do que aquela. Compara a vida política das repúblicas valores já abandonados pela república dos Estados Unidos.
d.r América espanhola com a monarquia brasileira e o saldo é sempre favorá· Os novos tempos de corrupção e de monopólio são representados pelo

---
vcl à realeza. famoso secretário de estado, Janj.es Blaine. "Foi e tinha que ser o estadista de
Importa destacar que a realidade da pol ítica, da vida norte-americana sua época!", nos diz Eduardo Prado em tom irônico. Blaine, à frente do De par-
contemporânea difere para o autor da do tempo dos fundadores da pátria. Daí lamento de Estado, tentou promover a I Conferência Pan-Americana, interes-
\Ua observação: "Os pais da pátria americana, os fundadores da Constituição,

:: lbid. p. 87.
" lbíd .• p kl lb,d., p. 89.

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t1 IWSÀO AMERICANA
LÚCIA LIPPJ OLIVEIRA

trabundo do guano- proibido pelas leis peruanas. Ao serem aprisionados viveram num período histórico de pureza moral. em tempo de patriotismo e de
donos dos nav10s . consegUiam. que o governo de was h'mgton rompesse reJa.
'os
abnegação". 12 Isso era muito diferente do que se via no final do século XIX.
ções diplomáticas c exigisse indenizações que acabaram sendo pagas pelo em que a vida americana estava sob o império do industrialismo e das finanças,
P..:ru . e quando se sentia a expansão do despotismo dos monopólios, que faziam
A história desse país é apresentada por Eduardo Prado como exemplo a crescer todas as formas de corrupção.
ser observado. Depois do período trágico e heróico da conquista, e de termina.
do o domínio colonial, o Peru vivia, segundo o autor, setenta anos de desgraça A repúbhca norte-americana não teve sua mfãncia corroída pela corrupção. nem a sua
republicana que transformaram a mais rica possessão espanhola em um dos puerícia se passou nos jogos sangrentos das guerras crvis. Era ela Já quase ecutar
países mais pobres c infelizes do mundo. O guano, adubo natural , que deveria quando o seu solo foi fratricidamente regado pelo sangue de seus filhos; e os vrcHJS
constituir uma riqueza nacional, se tornou sua desgraça. Foi declarado proprie- contra os quais lutam hoje os patriotas[ ... ] São vícios de hoje. faltas atuais, que não
podem se jus ti ficar no exemplo dos antepassados."
dade nacional e sua extração passou a ser objeto de concessões feitas a pani-
cularcs Mesmo com favorecimentos pessoais, sua exportação produzia enonnes
Eduardo Prado reconhecia, portanto, que a república de Washington fora
excedentes ao t..:souro peruano, mas isso não durou.
criada em um período histórico no qual predominaram o patriotismo e a abne-
D01s .nencrars de boa vontade [. ) secundados por outros colegas, por muitos coro·
gação. Baseia sua afirmação em Montesquieu, na proposição de que as repú-
nérs c por um cxértrto rodo metido a político, acabaram com os saldos, e o Peru deixou blicas precisam ter como fundamento a virtude, e considera que esta foi a base
de scrcx cc~· ão na América espanhola, ficou tão fahdo como qualquer outra repúbli· da república norte-americana no tempo dos fundadores, dos pais da pátria. O
ca ,11 vícios e as faltas, que ele menciona existirem no final do século XIX. não
estavam presentes desde o início, e foram se constituindo a medida que os
O <tutor quis mostrar que aventureiros americanos faziam alianças com Estados Unidos se transformaram em sociedade industrial burguesa Os que
políticos con-uptos sul-americanos e, diante dos problemas que enfrentaram, justificam a corrupção e o crime dizendo que são próprios das instituições
pass;tram a exigir e nbter indenizações milionárias, já que suas demandas eram novas estão falseando a verdade histórica, nos diz Eduardo Prado, condenando
colocadJs sob a proteção da diplomacia e da marinha norte-americanas. Os os que pretendem defender os problemas e as falhas dos primeiros anos repu-
Estados Unidos são acusados por Prado de prepotência, vulgaridade, cinismo, blicanos no Brasil.
rupmagem c espe\.:utação, c sua política externa é qualificada como invasora, A república, forma moderna de governo, estimula os abusos do capitalis-
tirânica, arrogante e oportunista. As repúblicas da América espanhola são, por mo. O capital cresce por si só, os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres
outro lado, rdentilicadas com o militarismo e o caudilhismo. cada vez mais pobres. O materialismo sem medidas, o interesse pri\'ado sem
Os argumentos de Eduardo Prado seguem um mesmo raciocínio. O au· limites conduzem os Estados Unidos ao utilitarismo e a formularem uma politi·
tor descreve a atuação dos Estados Unidos em suas incursões na América ca nacional em que os interesses econômicos predominam sobre os vaiare
Latina, fazendo comparações com a política da Inglaterra, mostrando como éticos. A pureza moral, o patriotismo, a solidariedade dos tempos originais ão
csl.t sempre foi melhor do que aquela. Compara a vida política das repúblicas valores já abandonados pela república dos Estados Unidos.
d.r América espanhola com a monarquia brasileira e o saldo é sempre favorá· Os novos tempos de corrupção e de monopólio são representados pelo

---
vcl à realeza. famoso secretário de estado, Janj.es Blaine. "Foi e tinha que ser o estadista de
Importa destacar que a realidade da pol ítica, da vida norte-americana sua época!", nos diz Eduardo Prado em tom irônico. Blaine, à frente do De par-
contemporânea difere para o autor da do tempo dos fundadores da pátria. Daí lamento de Estado, tentou promover a I Conferência Pan-Americana, interes-
\Ua observação: "Os pais da pátria americana, os fundadores da Constituição,

:: lbid. p. 87.
" lbíd .• p kl lb,d., p. 89.

142 143

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A IWSÃO AMERICANA
LÚCIA LIPPI OLIVEIRA

sada em criar uma união alfandegária de todos os países da América. Isso A república brasileira, sob a ditadura republicana, cedeu aos desejos dos
mostra como a Doutrina Monroe queria assumir um caráter predominante. Estados Unidos, assinando o tratado de reciprocidade comercial _ 0 tratado
mente econômico, e não mais militar ou de defesa da soberania. A doutrina Blaine-Salvador (Salvador de Mendonça, o então embaixador brasileiro em
passa a se relacionar com tarifas e impostos nas relações comerciais entre Washington), que em nada beneficiava os interesses brasileiros. O presidente
08
E tados Unidos e a América Latina. E, continua Eduardo Prado, "ele [Blaine] Cleveland dizia que "os bons negócios é que fazem bons amigos", daí as rela-
imaginava a águia americana pairando, de pólo a pólo, com as asas poderosas ões entre Brasil e Estados Unidos envolverem basicamente relações econô-
expandidas".
~cas, ou seja, a tentativa de criar uma área livre de comércio, de estabelecer
A águia simbólica, ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra cláusulas de reciprocidade em seus negócios. Foi Blaine quem levou o
como acreditavam sul-americanos ingênuos. Ao contrário, com Blaine no p~ panamericanismo a assumir caráter econômico e apresentar uma face mais
der, a ave passa a significar a política imperial dos Estados Unidos, que repre- agressiva da Doutrina Monroe. A questão passa a ser não só conservar a
senta. de fato, uma ameaça para toda a América, já que os países latinos têm Europa fora da América Latina, mas impor a esta as mercadorias e as idéias
sofrido a arrogância e, às vezes, a rapinagem dos norte-americanos. norte-americanas.
No conflito entre o Brasil e os Estados Unidos, o amor-próprio brasileiro "Nos Estados Unidos, a palavra América significa a parte do novo conti-
sempre saiu vencedor, já que de um lado estava a integridade dos nossos ho- nente que obedece ao governo de Washington." 14 Os norte-americanos têm
mens de Estado durante o império e, do outro, a diplomacia trapaceira e ganan- um sentimento de acentuada superioridade, que é feito de amor-próprio e de
ctosa dos Estados Unidos. A classe plutocrática suga a seiva americana em desprezo pelos sul-americanos. No caso particular do Brasil, o governo ameri-
busca do ouro. Dominando as estradas de ferro, as docas, as fábricas, essa cano foi o último, de todos os governos do novo continente, que reconheceu a
classe de milionários convertia os políticos em súditos. E é daí que a designa- república, inspirado na frieza, quase hostilidade, com que a imprensa recebeu a
ção de político se toma, nos Estados Unidos, uma verdadeira injúria. revolução.
A classe dos donos de estradas de ferro, dos industriais monopolistas que o Eduardo Prado lembra que o imperador desfrutava de grande prestígio
protecionismo enriqueceu, promove a subordinação dos políticos e do governo nos Estados Unidos, principalmente após a visita que fez à exposição de Fila-
dos Estados Unidos. Eduardo Prado cita Andrew Carnegie, escocês prodigiosa- délfia, em 1876, no centenário da independência. Seu amor à liberdade, seu
mente enriquecido, dono de fundições gigantescas e autor de livros em que exal- espírito aberto impressionaram os norte-americanos. "Os discursos pronuncia-
ta o capitalismo. a felicidade da riqueza e a superioridade dos Estados Unidos. dos no Senado americano, quando se discutiu o reconhecimento da república
Monopol.ista, Camegie liderou manifestações contra a Europa, mas, di- brasileira, consistiram, quase que exclusivamente, não no elogio dos vencedo-
ante de greves em suas próprias fábricas, fazia uso de milícias privadas, com a res, mas na exaltação das virtudes do grande vencido.'' 1s
aprovação governamental. Eduardo Prado aponta como um dos principais pro- Por outro lado, os jornais americanos publicavam informes do Brasil que
blemas a promiscuidade entre o público e o privado, resultado dos interesses recebiam via Buenos Aires e Montevidéu, "onde as notícias são todas exage-
sem limite da classe rica. Essa seria prova inequívoca da corrupção que se radas e apimentadas com a má vontade dos nossos irmãos argentinos e uru-
instaura na política burguesa norte-americana.
guaios, que são nossos inimigos[ ... ]. Os Estados Unidos são, para o resto do
"O poder dos milionários não encontra nos Estados Unidos nenhum cor- mundo, o veículo transmissor da bflis argentina contra o Brasil", 16 nos diz Eduardo
reli\ o eficaz nas leis ou na ação da autoridade pública. Tudo lhe é lícito, tudo Prado.
lhe .é possível." E prossegue dizendo que os homens de bem, os mais cultos e
Na diplomacia e na ord~m econômica, os Estados Unidos têm apresen-
sábtos, os poetas, os filantropos, evitam todo contato com a política, já que esta tado fartura de maus exemplos ao Brasil. Os males da república norte-ameri-
serve como campo de atuação dos homens subservientes. Em outros países do
<-on nente os homens de valor não querem ser títeres nas mãos do militaris·
ntl 'los Estados U ·d ~ lbid., p. 154.
DI os, temem estar a serviço dos financistas ou seja, elll
am w o~ casos o home 'bl. , . lbid., p. 155
· ' m pu tco perde a sua dignidade, a sua independêncra. K fbid., p. 161:

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A IWSÃO AMERICANA
LÚCIA LIPPI OLIVEIRA

sada em criar uma união alfandegária de todos os países da América. Isso A república brasileira, sob a ditadura republicana, cedeu aos desejos dos
mostra como a Doutrina Monroe queria assumir um caráter predominante. Estados Unidos, assinando o tratado de reciprocidade comercial _ 0 tratado
mente econômico, e não mais militar ou de defesa da soberania. A doutrina Blaine-Salvador (Salvador de Mendonça, o então embaixador brasileiro em
passa a se relacionar com tarifas e impostos nas relações comerciais entre Washington), que em nada beneficiava os interesses brasileiros. O presidente
08
E tados Unidos e a América Latina. E, continua Eduardo Prado, "ele [Blaine] Cleveland dizia que "os bons negócios é que fazem bons amigos", daí as rela-
imaginava a águia americana pairando, de pólo a pólo, com as asas poderosas ões entre Brasil e Estados Unidos envolverem basicamente relações econô-
expandidas".
~cas, ou seja, a tentativa de criar uma área livre de comércio, de estabelecer
A águia simbólica, ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra cláusulas de reciprocidade em seus negócios. Foi Blaine quem levou o
como acreditavam sul-americanos ingênuos. Ao contrário, com Blaine no p~ panamericanismo a assumir caráter econômico e apresentar uma face mais
der, a ave passa a significar a política imperial dos Estados Unidos, que repre- agressiva da Doutrina Monroe. A questão passa a ser não só conservar a
senta. de fato, uma ameaça para toda a América, já que os países latinos têm Europa fora da América Latina, mas impor a esta as mercadorias e as idéias
sofrido a arrogância e, às vezes, a rapinagem dos norte-americanos. norte-americanas.
No conflito entre o Brasil e os Estados Unidos, o amor-próprio brasileiro "Nos Estados Unidos, a palavra América significa a parte do novo conti-
sempre saiu vencedor, já que de um lado estava a integridade dos nossos ho- nente que obedece ao governo de Washington." 14 Os norte-americanos têm
mens de Estado durante o império e, do outro, a diplomacia trapaceira e ganan- um sentimento de acentuada superioridade, que é feito de amor-próprio e de
ctosa dos Estados Unidos. A classe plutocrática suga a seiva americana em desprezo pelos sul-americanos. No caso particular do Brasil, o governo ameri-
busca do ouro. Dominando as estradas de ferro, as docas, as fábricas, essa cano foi o último, de todos os governos do novo continente, que reconheceu a
classe de milionários convertia os políticos em súditos. E é daí que a designa- república, inspirado na frieza, quase hostilidade, com que a imprensa recebeu a
ção de político se toma, nos Estados Unidos, uma verdadeira injúria. revolução.
A classe dos donos de estradas de ferro, dos industriais monopolistas que o Eduardo Prado lembra que o imperador desfrutava de grande prestígio
protecionismo enriqueceu, promove a subordinação dos políticos e do governo nos Estados Unidos, principalmente após a visita que fez à exposição de Fila-
dos Estados Unidos. Eduardo Prado cita Andrew Carnegie, escocês prodigiosa- délfia, em 1876, no centenário da independência. Seu amor à liberdade, seu
mente enriquecido, dono de fundições gigantescas e autor de livros em que exal- espírito aberto impressionaram os norte-americanos. "Os discursos pronuncia-
ta o capitalismo. a felicidade da riqueza e a superioridade dos Estados Unidos. dos no Senado americano, quando se discutiu o reconhecimento da república
Monopol.ista, Camegie liderou manifestações contra a Europa, mas, di- brasileira, consistiram, quase que exclusivamente, não no elogio dos vencedo-
ante de greves em suas próprias fábricas, fazia uso de milícias privadas, com a res, mas na exaltação das virtudes do grande vencido.'' 1s
aprovação governamental. Eduardo Prado aponta como um dos principais pro- Por outro lado, os jornais americanos publicavam informes do Brasil que
blemas a promiscuidade entre o público e o privado, resultado dos interesses recebiam via Buenos Aires e Montevidéu, "onde as notícias são todas exage-
sem limite da classe rica. Essa seria prova inequívoca da corrupção que se radas e apimentadas com a má vontade dos nossos irmãos argentinos e uru-
instaura na política burguesa norte-americana.
guaios, que são nossos inimigos[ ... ]. Os Estados Unidos são, para o resto do
"O poder dos milionários não encontra nos Estados Unidos nenhum cor- mundo, o veículo transmissor da bflis argentina contra o Brasil", 16 nos diz Eduardo
reli\ o eficaz nas leis ou na ação da autoridade pública. Tudo lhe é lícito, tudo Prado.
lhe .é possível." E prossegue dizendo que os homens de bem, os mais cultos e
Na diplomacia e na ord~m econômica, os Estados Unidos têm apresen-
sábtos, os poetas, os filantropos, evitam todo contato com a política, já que esta tado fartura de maus exemplos ao Brasil. Os males da república norte-ameri-
serve como campo de atuação dos homens subservientes. Em outros países do
<-on nente os homens de valor não querem ser títeres nas mãos do militaris·
ntl 'los Estados U ·d ~ lbid., p. 154.
DI os, temem estar a serviço dos financistas ou seja, elll
am w o~ casos o home 'bl. , . lbid., p. 155
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u:n ' PPl Oll\EIR-\

da ~ci humana.

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da ~ci humana.

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No lu •<H d;1 a111<::aça c do pcri •o tanque, Sílvio Rom~.:ro, por exemplo, falava do EucLIDES DA Cu HA
pcngo ale mito ..
Ao longo do século XX, o livro foi dest<lcado menos como defesa da
monarquia, que j;í havia pouca chances de o império ser restaurado. Sua
r ·rupcra<; to deveu ~c muito mais a ser considerado a primeira obra que aprc.
Os sertões
sen tava uma vis;~o antiamericana, muito antes de serem desfraldadas as ban-
dciru\ wnu.t o unpo..:rí,illsmu ianque. O livro também demarca a diferenças c
.1 d1 tfincia~ t:ntrc o Br,1sil c os dcmais países da América Latina, versão que
pt:ntMill ccu na cultura política brasileira durante quase todo o século c que só
conwçou a ~c alterar reccntcmentc.
Logo após a publicação de A i/meio americana a presença norte-ame-
Walnice Nogueira Galvão
ric,ma avançou muito mms não só na América do ui c Central, mas em dire-
ç;IO à Á~1a, com a anexação do I Ia •a í c das Filipinas (1898). Com a ascensão
c o governo de 1 hcodorc Roosevelt na pre idência dos Estado Unidos (1901 -
1909), o país passou a as um ir papel ainda maior c mais agrcssi vo na América
Latina Por outro lado, Theodorc Roosevelt, com sua forte personalidade, de-
senvolveu uma grande campanha contra a corrupção e contra os trustes, mos-
trando que, pelo menos em parte, as denúncias de Eduardo Prado sobre a vida
de negocíos nos Est,tdos Unidos tinham fundamento.
É nc~sa époc"I que os Estados Unidos estavam começa ndo a se afirmar
como verdadeira potência mundial. o que vai se consolidar após as duas guer-
ras mundiais.
As Dhserva~ocs c os exemplos citados por Ed uardo Prado em sua análi-
s · sohre o. Fstados Unidos expõem com clareza as bases do seu pensamento-
a defesa dos valores do mundo ibérico ou europeu, do catolicismo, da honra
c do re~peito à hierarquia. Esse. são valorcs que reaparecem toda vez que se
condena o mundo capitalista c se denunciam os ma les da civilização burguesa.
A .málisc das diferenças e distâncias entre o Brasi l e os Est.ados Unidos
<Oll\titui um,! trilha que teve continuadores ao longo do século XX, valendo
cit.Ir o h\·to de Viana Moog ~6

' t P10nt m>1. puhhcJdo m 1954. Sobre o lema. \er Lúcta Ltppt Olivetra
r' d1l lltl( w,za/ rw Bra.ul ~ no\ E.\tndcJ:J Umdo'i (Belo Horizonte
1,lr ltlc!adc.

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No lu •<H d;1 a111<::aça c do pcri •o tanque, Sílvio Rom~.:ro, por exemplo, falava do EucLIDES DA Cu HA
pcngo ale mito ..
Ao longo do século XX, o livro foi dest<lcado menos como defesa da
monarquia, que j;í havia pouca chances de o império ser restaurado. Sua
r ·rupcra<; to deveu ~c muito mais a ser considerado a primeira obra que aprc.
Os sertões
sen tava uma vis;~o antiamericana, muito antes de serem desfraldadas as ban-
dciru\ wnu.t o unpo..:rí,illsmu ianque. O livro também demarca a diferenças c
.1 d1 tfincia~ t:ntrc o Br,1sil c os dcmais países da América Latina, versão que
pt:ntMill ccu na cultura política brasileira durante quase todo o século c que só
conwçou a ~c alterar reccntcmentc.
Logo após a publicação de A i/meio americana a presença norte-ame-
Walnice Nogueira Galvão
ric,ma avançou muito mms não só na América do ui c Central, mas em dire-
ç;IO à Á~1a, com a anexação do I Ia •a í c das Filipinas (1898). Com a ascensão
c o governo de 1 hcodorc Roosevelt na pre idência dos Estado Unidos (1901 -
1909), o país passou a as um ir papel ainda maior c mais agrcssi vo na América
Latina Por outro lado, Theodorc Roosevelt, com sua forte personalidade, de-
senvolveu uma grande campanha contra a corrupção e contra os trustes, mos-
trando que, pelo menos em parte, as denúncias de Eduardo Prado sobre a vida
de negocíos nos Est,tdos Unidos tinham fundamento.
É nc~sa époc"I que os Estados Unidos estavam começa ndo a se afirmar
como verdadeira potência mundial. o que vai se consolidar após as duas guer-
ras mundiais.
As Dhserva~ocs c os exemplos citados por Ed uardo Prado em sua análi-
s · sohre o. Fstados Unidos expõem com clareza as bases do seu pensamento-
a defesa dos valores do mundo ibérico ou europeu, do catolicismo, da honra
c do re~peito à hierarquia. Esse. são valorcs que reaparecem toda vez que se
condena o mundo capitalista c se denunciam os ma les da civilização burguesa.
A .málisc das diferenças e distâncias entre o Brasi l e os Est.ados Unidos
<Oll\titui um,! trilha que teve continuadores ao longo do século XX, valendo
cit.Ir o h\·to de Viana Moog ~6

' t P10nt m>1. puhhcJdo m 1954. Sobre o lema. \er Lúcta Ltppt Olivetra
r' d1l lltl( w,za/ rw Bra.ul ~ no\ E.\tndcJ:J Umdo'i (Belo Horizonte
1,lr ltlc!adc.

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0& tempos que se ucedem à proclama ã da rep. r . e
d'd;~ um ano antes pela libertação dos escra\os, a 1 ma e -
1
to'n' 0 nac1onal de insurreições rnaí ou menos profundas e
teffl ·
~ezes limitadas a pequenos Je, antes loca1 . Até que o no o cg1me con-
5
a lide e passe a funcio nar, vános anos decorrerão A Guerra de Canudo
:sencadeada no sertão da Bahia em 1896-1897. não é mats do que um e -
sas revoltas que compõem o cortejo de uma mudança de regune. Dedtcado
crônica de um evento histórico, que seu autor testemunhou de corpo pre nt ,
Os sertões tem por objeto essa guerra.
Os elementos de diversa natureza que estiveram na origem d ua com-
posição, entre eles a formação do autor, a conjuntura histónca. o momcnt<
cultural e literário, bem como as práticas discursivas da época, dc\em cr
tomados em consideração, para que esse livro possa ser apreciado no JU~to
contexto.

Ü AUTOR E! SUA FORMAÇÃO

Para começar, detenhamo-nos um instante na formação do autor. típico


fruto da Escola Militar, tal como ela era em seu tempo. Até 181 O, ano em que
D. João VI, recém-chegado ao país, cria a escola, o oficialato era obrigatoria-
mente formado no exterior, o que queria dizer sobretudo Portugal. O ohjettvo
primordial da nova instituição era antes de mais nada qualificar o oficialato e
preparar os engenheiros necessários para os serviços públicos civis, como a
construção de estradas, portos e pontes.
Assiste-se assim ao paradoxo de uma escola que copia um modelo ins-
taurado pela Revolução Francesa, funcionando com materiais didáticos fran-
ceses tais como os programas de ensino e os manuais escritos por encomenda,
instalada numa remota colônia escravista aurífera e açucareira, na periferia de
um império. O caráter inovador da escola, valorizando as ciências c a tecnologia,
em detrimento do prestígio na época conferido ao estudos clássicos ou ~
ret6rica, vai gerar entre os alunos um comportamento vanguardista e uma
atitude contestatária. Bem como, o qÚe não é menos notável, instigar à consciên-
cia da cidadania e à militância política. Tudo isso coisas extremamente raras
nos rincões coloniais.
Quando Euclides ingressa na Escola Militar. em 1885, os alunos, além de
acreditarem na ciência e no progresso, estavam empenhados na batalha pela
unplantação do regime republicano e pela abolição do cativeiro. Essas dispo6J-

JH

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0& tempos que se ucedem à proclama ã da rep. r . e
d'd;~ um ano antes pela libertação dos escra\os, a 1 ma e -
1
to'n' 0 nac1onal de insurreições rnaí ou menos profundas e
teffl ·
~ezes limitadas a pequenos Je, antes loca1 . Até que o no o cg1me con-
5
a lide e passe a funcio nar, vános anos decorrerão A Guerra de Canudo
:sencadeada no sertão da Bahia em 1896-1897. não é mats do que um e -
sas revoltas que compõem o cortejo de uma mudança de regune. Dedtcado
crônica de um evento histórico, que seu autor testemunhou de corpo pre nt ,
Os sertões tem por objeto essa guerra.
Os elementos de diversa natureza que estiveram na origem d ua com-
posição, entre eles a formação do autor, a conjuntura histónca. o momcnt<
cultural e literário, bem como as práticas discursivas da época, dc\em cr
tomados em consideração, para que esse livro possa ser apreciado no JU~to
contexto.

Ü AUTOR E! SUA FORMAÇÃO

Para começar, detenhamo-nos um instante na formação do autor. típico


fruto da Escola Militar, tal como ela era em seu tempo. Até 181 O, ano em que
D. João VI, recém-chegado ao país, cria a escola, o oficialato era obrigatoria-
mente formado no exterior, o que queria dizer sobretudo Portugal. O ohjettvo
primordial da nova instituição era antes de mais nada qualificar o oficialato e
preparar os engenheiros necessários para os serviços públicos civis, como a
construção de estradas, portos e pontes.
Assiste-se assim ao paradoxo de uma escola que copia um modelo ins-
taurado pela Revolução Francesa, funcionando com materiais didáticos fran-
ceses tais como os programas de ensino e os manuais escritos por encomenda,
instalada numa remota colônia escravista aurífera e açucareira, na periferia de
um império. O caráter inovador da escola, valorizando as ciências c a tecnologia,
em detrimento do prestígio na época conferido ao estudos clássicos ou ~
ret6rica, vai gerar entre os alunos um comportamento vanguardista e uma
atitude contestatária. Bem como, o qÚe não é menos notável, instigar à consciên-
cia da cidadania e à militância política. Tudo isso coisas extremamente raras
nos rincões coloniais.
Quando Euclides ingressa na Escola Militar. em 1885, os alunos, além de
acreditarem na ciência e no progresso, estavam empenhados na batalha pela
unplantação do regime republicano e pela abolição do cativeiro. Essas dispo6J-

JH

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OS SERTÕES
WAL:>;ICE. 'OGCEIRA GAL\ÃO

ções de e ·pírito permanecerão dominante , como se verá, tanto no pro·e


· do fumro eng nhe1ro· m1·1·Jtar quanto em seu 1·1vro Os sertões. ~ to de :t\fas é preci ~ c?nvir que o seu foi o único a tomar- e um monumento da
, 1da
literatura brastle1ra; todos os outros, sem exceção. perderam interesse ao lon-
go do tempo. _ , .
E é digno de nota que nao so no Bras!l, mas em geral por toda a América
CORRESPO:>;DE ITE DE GUER RA Latina, a história das insurreições populares tenha sido escrita por militares.
Segundo Angel Rama, isso se explica por que o projeto modemizador, que
Euclides da Cunha viria a participar da Guerra de Canudos como enviad rejudicava as populações rurais pobres, foi em toda parte imposto a força
0
e -pecial do jornal A Pro1·íncia (hoje O Estado) de S. Paulo. De lá remeteu um pelo exérci to, que já então ocupava posição de mando nos países neo-ibéricos
série de reportagens que se tomaria célebre, mas que ele mesmo nunca republic a
ou. ~o conti nente. Os militares, sem esquecer o tenente, e adjunto do mini tro da
E que o apareceria em forma de livro postumamente, em 1939, com o título de Guerra, Euclides da Cunha, foram ao mesmo tempo os algozes e as testemu-
Can11dos- Diário de uma expedição. Entretanto, o interesse maior da série é nhas que legaram seu depoimento à posteridade.
o fato de poder ser vista a poste rio ri como o embrião de Os sertões.
Marco na história da imprensa nacional, essa guerra foi de um impacto
A TERRA
extraordináno: pela primeira vez no país foi feita uma cobertura em bloco no
palco dos acontecimentos. As principais folhas do Rio de Janeiro, São Paulo e É com a primeira parte, intitulada "A terra", abrindo o livro como um
Bahia criaram uma coluna especial, quase sempre intitulada "Canudos", dedicada majestoso pórtico, esplêndido em suas galas literárias, que o lei tor entra em
exclusivamente ao assunto, por toda a duração da guerra Além disso, estampa- contato com o livro. Assim, Os sertões começa sublinhando o privilégio que
vam qualquer coisa: invencionices, pareceres dogmáticos de militares de partido concede ao espaço, ao investir diretamente o planalto central brasileiro. onde
previamente tomado, e até trechos da correspondência do comandante da quar- se situa Canudos.
ta e ·pedi,..ão com sua esposa. Todas essas publicações tinham o objetivo comum A primeira frase reza: "O planalto central do Brasil desce, nos litorais do
de reforçar a idéia de uma iminente restauração monárquica. Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se
A importância Ja imprensa nesse lance não deve ser minimizada. O jor- em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas [etcT. Des e
nal era, na época, antes da invenção dos meios de comunicação audiovisuais, o modo, o narrador, impessoalmente identificado ao leitor ("quem o contorna"),
mau medwm por excelência. A util ização da figura do enviado especial, ou vai propor uma investigação integral dessa imensa porção do país. revelando a
seja, um jornalista que vai observar pessoalmente os eventos no próprio local, heterogeneidade que a caracteriza. Assim o fazendo, desenha um percurso
é quase uma novidade no Brasil da época. E certamente a Guerra de Canudos que dá uma improvável volta completa em tomo do planalto central, mostran-
foi o primeiro evento no país a ser totalmente coberto como tal, ou seja, como do-o ao leitor através do olhar do narrador.
evento mediático. o que foi viabilizado pela recente instalação de redes de Considerando-o de três pontos de vista, a saber o astronômico, o topo-
t légrafo cobrindo o sertão, pelas quais transitavam as notícias. E é curioso, no gráfico e o geológico, passa a argumentar que se trata de uma "região ~riv ile­
qu conceme à campanha, que os correspondentes fossem em geral militares. giada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina". O porque dessa
al.;u deles m~smo combatentes. afirmação, só bem mais à frente se desvendará. . .
C Jmo a Guerra de Can udos provocou uma comoção considerável que Procede então à descrição topográfica e geológica da regiã~. fetta com
m0 i!Jzou a opinião pública- num primeiro tempo para apoiá-la e num segundo uma paixão tal que lhe atribui belêza inaudita e capacidade de atrair 0 ho~e~.
empo para denunciá-la-, não é de surpreender que a maioria dos enviadOS Esta capacidade se assinala .mclustve em seus no · s• que correm ao. contrariO,
.
Clat< tenha escrito livros a respeito do que ali assistiram, utilizando suas da costa para o interior, arrebatando-o no seu cur50 · 0 rumo dos nos vat cons-
reportag -ns e notas inéditas. lituir mais um dos paradoxos tão do gosto desse autor. .. d
ç • - gião dá margem a qua ros
rm é q lC, quando o livro de Euclides surgiu em dezembro de 1902,já Diversificando ainda mais sua tetçao, are b em
, . recipitam saltam e tom am
pre ·dido por mu1tas outras reportagens e livros, ficcionais ou nãO· naturais mais imponentes" ate. Os nos se P '
/55
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OS SERTÕES
WAL:>;ICE. 'OGCEIRA GAL\ÃO

ções de e ·pírito permanecerão dominante , como se verá, tanto no pro·e


· do fumro eng nhe1ro· m1·1·Jtar quanto em seu 1·1vro Os sertões. ~ to de :t\fas é preci ~ c?nvir que o seu foi o único a tomar- e um monumento da
, 1da
literatura brastle1ra; todos os outros, sem exceção. perderam interesse ao lon-
go do tempo. _ , .
E é digno de nota que nao so no Bras!l, mas em geral por toda a América
CORRESPO:>;DE ITE DE GUER RA Latina, a história das insurreições populares tenha sido escrita por militares.
Segundo Angel Rama, isso se explica por que o projeto modemizador, que
Euclides da Cunha viria a participar da Guerra de Canudos como enviad rejudicava as populações rurais pobres, foi em toda parte imposto a força
0
e -pecial do jornal A Pro1·íncia (hoje O Estado) de S. Paulo. De lá remeteu um pelo exérci to, que já então ocupava posição de mando nos países neo-ibéricos
série de reportagens que se tomaria célebre, mas que ele mesmo nunca republic a
ou. ~o conti nente. Os militares, sem esquecer o tenente, e adjunto do mini tro da
E que o apareceria em forma de livro postumamente, em 1939, com o título de Guerra, Euclides da Cunha, foram ao mesmo tempo os algozes e as testemu-
Can11dos- Diário de uma expedição. Entretanto, o interesse maior da série é nhas que legaram seu depoimento à posteridade.
o fato de poder ser vista a poste rio ri como o embrião de Os sertões.
Marco na história da imprensa nacional, essa guerra foi de um impacto
A TERRA
extraordináno: pela primeira vez no país foi feita uma cobertura em bloco no
palco dos acontecimentos. As principais folhas do Rio de Janeiro, São Paulo e É com a primeira parte, intitulada "A terra", abrindo o livro como um
Bahia criaram uma coluna especial, quase sempre intitulada "Canudos", dedicada majestoso pórtico, esplêndido em suas galas literárias, que o lei tor entra em
exclusivamente ao assunto, por toda a duração da guerra Além disso, estampa- contato com o livro. Assim, Os sertões começa sublinhando o privilégio que
vam qualquer coisa: invencionices, pareceres dogmáticos de militares de partido concede ao espaço, ao investir diretamente o planalto central brasileiro. onde
previamente tomado, e até trechos da correspondência do comandante da quar- se situa Canudos.
ta e ·pedi,..ão com sua esposa. Todas essas publicações tinham o objetivo comum A primeira frase reza: "O planalto central do Brasil desce, nos litorais do
de reforçar a idéia de uma iminente restauração monárquica. Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se
A importância Ja imprensa nesse lance não deve ser minimizada. O jor- em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas [etcT. Des e
nal era, na época, antes da invenção dos meios de comunicação audiovisuais, o modo, o narrador, impessoalmente identificado ao leitor ("quem o contorna"),
mau medwm por excelência. A util ização da figura do enviado especial, ou vai propor uma investigação integral dessa imensa porção do país. revelando a
seja, um jornalista que vai observar pessoalmente os eventos no próprio local, heterogeneidade que a caracteriza. Assim o fazendo, desenha um percurso
é quase uma novidade no Brasil da época. E certamente a Guerra de Canudos que dá uma improvável volta completa em tomo do planalto central, mostran-
foi o primeiro evento no país a ser totalmente coberto como tal, ou seja, como do-o ao leitor através do olhar do narrador.
evento mediático. o que foi viabilizado pela recente instalação de redes de Considerando-o de três pontos de vista, a saber o astronômico, o topo-
t légrafo cobrindo o sertão, pelas quais transitavam as notícias. E é curioso, no gráfico e o geológico, passa a argumentar que se trata de uma "região ~riv ile­
qu conceme à campanha, que os correspondentes fossem em geral militares. giada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina". O porque dessa
al.;u deles m~smo combatentes. afirmação, só bem mais à frente se desvendará. . .
C Jmo a Guerra de Can udos provocou uma comoção considerável que Procede então à descrição topográfica e geológica da regiã~. fetta com
m0 i!Jzou a opinião pública- num primeiro tempo para apoiá-la e num segundo uma paixão tal que lhe atribui belêza inaudita e capacidade de atrair 0 ho~e~.
empo para denunciá-la-, não é de surpreender que a maioria dos enviadOS Esta capacidade se assinala .mclustve em seus no · s• que correm ao. contrariO,
.
Clat< tenha escrito livros a respeito do que ali assistiram, utilizando suas da costa para o interior, arrebatando-o no seu cur50 · 0 rumo dos nos vat cons-
reportag -ns e notas inéditas. lituir mais um dos paradoxos tão do gosto desse autor. .. d
ç • - gião dá margem a qua ros
rm é q lC, quando o livro de Euclides surgiu em dezembro de 1902,já Diversificando ainda mais sua tetçao, are b em
, . recipitam saltam e tom am
pre ·dido por mu1tas outras reportagens e livros, ficcionais ou nãO· naturais mais imponentes" ate. Os nos se P '
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WALNIC I. NOCoi'I.JKA Co!\IV r)

XÍI.JU •xiqu s. c.ilx:<;as-de-fradc, yuip:ís, palmatórias-do inferno. Em suma, <I ~iio


d;r c,liiiJO?;r no ardor da~ ·ca é bem traduzida pelo termo tupi caatmuluvo, OU
111 tcJTIP 01 J
ríos. irnpcdrndo m de se prl'Crprldf<'lll Jc urna •" IC/ d,r r,n,rs nt.ll
• · •
l evando de roldao o prcc<~no htrrnm 1.: crodmdn ;r ~up •rfr··r,, 1 •I · ·.urdno
uwtodcx:rrte, cx prc ~\imdo uma "vegetação agonizante, doente c informe, cxau,. · tlt~ s. . . .. I
' d. novo a seca. Assrrn ~c comlrlurrra loco urn SI' ll'llt.t dr ur r •.r ,u>mtnro
t.J, num e s pa ~ rno doloroso" solo c . .
. 1,5 b·rrato c duradouro, que f;u ra a ualtltc/,Jtrah.tlh,u ,r w11 favor , ,. rl.rll
srntP ~.: . • ' • . .
Entrt:taniO, a• vezes , súbitas tempestades violentíssimas anunciam firn . os pc•fÍgOS, da eVa()OfiiÇ:JO raprda flOJ' lliiO ll[lJ't'\l'lllar 11111 l'~Jll'lh<) d olf'U.I
0 do
d,1 c~ ração sl'c:a . E no di.t ~eguinte, fato rnuiras vczc · observado, a caaringa
únrco. c, vasto . . é o dt'~L'IIo' "·">. .1 1 Jr c• 11
· · O problema Cl~nlral a ..sn alacado
r · ~ w sc11a c se cobre toda de verde. Outras espécies da nora fazem enrão sua
rncra con·sc"üência .., daquele, porque O rnartrr 10 do houwm, ,rJr,t o' ·fi, xn .,,.
.tpanç.w. ( 01110 mulungus noridos. caraíbas, baraúnas, marizciros, qwxabciras
tortura maior• ma i~ .ampla, , "abrangendo a cconnr111a gt•r,lf d.r V1d:r i'• ,. dn
rco;t i1os, ouricuris, umburanas,jurcrnas, cri trinas c, coroando rudo, umbuzeiro~ rnartírio secu lar da l erra ... ·
qu< fu rw:ccm o suculcnto fruto agridoce apreciado na região. O senão, de
ulft mo que t·, se mcramorfoscw em paraíso.
() IIOMJIM
Alt; .r fauna , que parrrra cm busca de paragens mais amenas, ressurge
com a procr~~ao de cairirus, queixadas, emas, scriemas, sericóias, tapircs ou
.rnt . r~ . nrr ~ a s, mocós, veados c mesmo bezerros perdidos. Ma c tá logo à vi&la A questão prirnacial - c por isso a mais compll'xa ·no ··~.rrrclu do honwur
o retorno crclíco da seca. brasileiro é sem dúvida a rncstiçagcrn, nó l'OIH.:cituul corn qrrc ~.t· dd>ciii.HII ·I
l'nx.:urando situar o ser! fio de Canudos numa tipologia geográfica , o au- época rodos os pensadores do país. A dificuldade dcc~H."'Jitl tlr· .rv.tlr.rr oi'
lnr tt·rmrnil pm conclurr que ele é inclassificável, na medida em que suas ca- J'l!SJlCC(iVélS COntribuiçõeS de índiOS, bJ,llnC:OS C llegJI)~ ..')JfJCIJid,ldt• oil!'llJIJ,ld I
pdo fato de a miscigenação nüu .ser unrforme t' ~·t·r ar VJJ rm lrpos d,· <lllllhlll.i
racteríMrcas não corncidcm cxatamenlc corn nenhuma das categorias cxisrcntcs.
Juq.~rncnte por causa dessa oscilação dual entre a esrcri lidade estiva! c a cxu-
ção, podendo resultar no rnularo (branco com lll'gro).llo ma11whr< o nu 1 trr rhn• .i
(branco com índio), c no cafu;. (negro com índio). ·r mim dt•s ll'rrrkrranr .11r.r
hcr oillllil hihcrnal, ft:v.r a pen ·ar que "a naturCla se compra; em urn jogo de
.rnlílt'St' " vés de sucessivos cruzamcnlos. para o pardo, qut' st•ri.r 11 hrasrlrrrn. I n.in •
possível enfrentar a quL·~tiio sem ante~ analrsar o hrslt li rco das v;u r.ts 'or" n
O tft . t'rlo im morra! no~ o é pmduzrdn só por agenrcs narur:ris. Também o
lc& de povoamento.
honwrn ~.: rcspon~.rvel pela r:XÍ\ll:ncia de!~:, c parlicul<trrncnrc enlrc nós. Os
Preocupado com a influrncia do duna t' J,rs c:oordt•nad.l !'<'ol''· f 11 ,1
ullollil<rdorc hcrdurarn do.s rndios o costume dl! fatcr a queimada para des-
SOhJ'C () iJOJllelll, () aulor Vai COillparar dill'IO:IIfL'S ll'gÍtll'S do pab 11.1 \o li J,JhrfrrJ.r
h,Jsl,u o mato c preparar o planlro. c :rrnJa a expandiram ao abrir pastos para o
de de seus condicionantes mesológicns. A m·sll· o qu.tdrot: hem drlt'll'llh' do
j.:.tdo em lOJa a pnrçao ccntr .ti do pars. Desde os rempos da colônia sucessivos
h:íhilat ama;ônko, assim como o que st• passa no~ t'Jltll' diH'I)'< do '1 11
gmr:rnm IL'rn proibido. SL'Ill ê\Jio, esse coslurnc. Sirllt'lizando c concluindo:
oror rc no Sul. I~s~t·s dados teriam tido st·u pesnnu po\ o.llll<'lll 11 unt rai ti••JMI
"( 'oi.Jhorando wrn os ckmcntos rnctcnrol<ígicos, com o [vl·ntol nordeste, com
concedendo ao hundt•irantc paulista.jü cruz.1do nm1 o rndw. rrlllllfHH'ttrolo 'h 01
.t ~m·~·úo dos c~tratLJs. c:nrn as caní rrlas, com a crosao cólia, com us tcmpe ta·
rl'dn l'slahilitado. Bt•rwficiado de!.de o pollh> de purtrd.r por Hlll <lrm.t JIJ,it
dcs suhilânc;rs o homt•rn fl'l-se uma componl'r1le nefasta entre as forças
illlleno c dt• llll'rtorclo contrastes, este se tor 111111 um dnmi11.rJnr d.l 1<' 11 •1· .nrl
dayurk L lim.t dcmnlrdor."
11nn1o c livtt'. l'm isso, seu pape I nu dt: Ilia' ,um . ·n't) t JtllOI •I<,. llldOI!J,l rf <li
I\ las. harn1oni;.rndn··SL' com n ritmo das forças cósrnk·a~ que a cada pns·
.r Sl'l dl' prinwira plan:t.
~t1 <' Lr.Jn~lotmam nn ~t·u conrr,írio, o homem que criou o deserto tarnllélll
rnúer.tl'\lin~:'ui lo. P.n.t t.tnlo. h.tsta atentar para wtustos l'Xl'mplos c verifi·
'.r r l't 111l(l 11s n>m.mo~ na Tnnrsi.t, à beira do deserto do Saar.r, souberam cn· Q SI Rl I O
H um·t St luç.to p.tr,J ,, ll.tgel<>, a qu.tl milênios 111.1is tarde os colonizadores

fr t'~ ll'' ll.tltlari.rm na mcsnurcgiào. A ~nlw.-.io u)n. i tiu 'llll'rf:!U r uma St• nao ~l' pode propriament ''~ulnr mm lt,J quc'nohlrrrnllln.mln•
t' l ·I' qu,·n.t · h.tnag •n. qut• dt•svi.lss •m as ton·,•nh.'S sat.OllolÍS do n ,,_ f I qu
Pnlti •ic o hr.t~rl iro", ·ntr tanto 1'\ll til no uma ul ' \ I n11

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H um·t St luç.to p.tr,J ,, ll.tgel<>, a qu.tl milênios 111.1is tarde os colonizadores

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WALNJCE NOGUEIRA GALVAO

. urgido de tanto. l'aldcamentos c dc tanlo ondicionamentos mesológicos d'. 0 diagnóstico de Antônio Conselheiro é contraditório, o lellor perceben-
1
vcrgc ntc . Dclincaram-st' dcs c modo duas categorias de mestiçagem
do 11 hesit:Jção do autor entre decretá-lo não desequilibrado c constdetá-lo
ord '. te, confonm: se tratas~c do litoral ou do sertão. No litoral, onde 0 af~~~ "doente grave", afetado de paranóia. Determinado pelas variáveis raclil!S que
l\lllt> foi .1hundantc como mão-de obra para os canaviais e engenhos,
. d . 0 po.. entramm em sua constituição, sob o influxo da condições do meio foi rcgrcdindo
vo.lllll' ll!O t ' ndcu a a~ . entnr- c c o 11po prc ommuntc a cr o mulato. No sertã até tornar-se um heresiarca, a exemplo daqueles do cristinnilimo primtti\'o.
,,k ritmo dt• \ td.l durís~inll). a\ csso à scdcntarização, os bandeirnntcs paulist<~~
Envolvido por tabela nas lutas de família entre Maciéis c Arau1os . •ilém das
·o~ mdios acab.1r.1m por pr,'lduzir c 1mo tipo predominant • o curiboca. atrocidades de que seu clã foi vítima viveu infelicidades pe soais que 0 lev:t -
\ popul.t ' Jl) do sert:il. após Ir~ · cculo, de i ·olamcnto. c mostra rc. ram à loucum. Quando ressurge, é já como o Peregrino. que as ·im c intitul,tv:t,
cr· Í\',t et'm rclaç:io .to prt"Cnte por niio t •r rcc •bido influência posteriores. partindo para trinta anos de peregrinação pelos sertões, em penitência sab ·-se
J),·dk.mdo-. ' colctivam ·ntc .to trabalho nômade do rcgime pastoril, manift• ta ltl por que pecados. "Condensando o ob curantismo de três ruças", a pessoa
t' t1.1 ·o, p. ict,logtcos d.1mdolc .tv ·nturcira dos bandeirantes c da impulsividud~ do líder "rres eu tanto que se projetou na Hi tótia''.
indtgcn.t. t •nto .10 tipo fí ico, ou fL·nótipo. o autor encontra ncle uma grande Líder místico, Antônio Conselheiro, acompanhado de scu SCljltazcs. \a
Ulll h rmid.td '. d ·onde conclui que ertancjo ~"o tipo de uma sub alegoria gut:a a pclo sertão. Quando cntrava nas vilas e aldeias, fazia seu st:rmão d•:m-
ctni ·.1 J·' Ctln titutd.t". Fort 'corajn o. sem dúvida ele é: ma,. por ter parado te da igrt:ja e depois ia comandar a construção ou reconstrução dt: igrcj:ts.
no tl'mpo. i"'u.tlml'nte H rasado e ·upcr tkio. o. cemih::rios c açudes. Assim se passaram trinta anos. com o s~quito scmprc ,,
pl · atinnar .1 supcnoridud' do •rtanejo. procede o autor então a um aumentar. Até que a Igreja, já de há muito não \·endo com bon ·olho · aquck
diagm,sttl'l' contra. tin1 entre dots tipo, dt.' \ aquciro•. o ·rtanejo e o gaúcho. competidor avulso, mandou uma missão investigar o que se pns uva no arr,Hal
Dt ~ti ngu· m·: ·por tudl)..lt ' pd,t roupa ·.jaque meioc pinho odoprimciro de Canudos, onde os conselhciristas se tinham finalmente refugiado.
m 'lJ u. 11 ·ar.tt ·r tanto quanto o meio genero o do segundo. o primeiro se A narrativa dessa missão, que se conhece pela pala\ ras de um do.
th'lll .1 .li' ui a qut.' s • tran~mud.t num Jtimo em ativid,td • violen! 1, enquanto no enviado , frei João Evangeli ta do Monte Marciano. é seguida d • perto ~lo
. ~undl . • notam .1jO\ ialid.tde c o •n. o dc fe. ta. autor. De acordo com ela, o dois capuchinhos dt ·garam a C.mudo:. p.u:1
LLngl • ..:ur. o ' \.!mina a. \e. tes do ertan ·jo. sua momdia, seu co tu· executar es õe de reavivamento, como cru comum em todo o sertão. P1c a-
m' .. u IJ: 'r. s ·u foklor '. o· Mdi · que dt.'sen\'Oive para enfrentar a eca ram no recinto sagrado, pura uma multidão ho til c ostensivamente arm,ld.t.
•t ·rn:~m nt p.lir.tr l l em .tmea ·a llbrc sua cabe 'a c. finalmente, sua rdigio- Denunciaram os perigos a que estavam expo tos os pec.tdores ali ~umdo . al'
~id.td Lt.l, 'l'lliO •le. rne. u.;a. porque ab on·e elementos da crença dos obedecerem ma i a Antônio Conselheiro do que ~ Santa Madre lgrqa. Onl ·-
ind1 ''· J p0rtugtl' -e, • d,), africano . entre elas as superstiçõe de toda naram que o presentes se desarmassem e abandonas em o arrai<~l eu hd 'r.
md ·m l t t ianismo. Compro\·am-n o fato de j.i terem havido na região. e voltando aos lares di tantes. E finalmente interpelaram o n elhctro quanto a
hJ t.:mpos. \,trw. outr · :urto · de in urrciçõe marcadas pela religião. poi · eu dissídio com a república, e orlando-o a aceitar a nova fL rma de g~.wemo.
<'m la mi:tu • Jl. i(!UJ irn nte o b.lnditi mo e tomou endêmico. ~01110 re ultado, tiveram que sair dali meio fugiJo . amedrontado pela re.u;a
Ytolenta que os ameaçou .
. De volta. fizeram seu relatório, em vit1udc dP qual a Igreja retir u s.:u
010
"-· :rõ:-.·1o Co~sELHEJRo ap a Antônio Conselheiro e pa ou a engro ar as fileira' de to.k - quanD
auguravam o desmantelamento de 'Canudo-.

UM PARJ1-..'TESE IRRIT.-\:-;TE

mem··
es a ordem de nívei di cursi\os. \atn enc ntrar n:~ parte ··o ho-
uma argumentação bem urpre •ndcnte. ~ gund da.

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WALNJCE NOGUEIRA GALVAO

. urgido de tanto. l'aldcamentos c dc tanlo ondicionamentos mesológicos d'. 0 diagnóstico de Antônio Conselheiro é contraditório, o lellor perceben-
1
vcrgc ntc . Dclincaram-st' dcs c modo duas categorias de mestiçagem
do 11 hesit:Jção do autor entre decretá-lo não desequilibrado c constdetá-lo
ord '. te, confonm: se tratas~c do litoral ou do sertão. No litoral, onde 0 af~~~ "doente grave", afetado de paranóia. Determinado pelas variáveis raclil!S que
l\lllt> foi .1hundantc como mão-de obra para os canaviais e engenhos,
. d . 0 po.. entramm em sua constituição, sob o influxo da condições do meio foi rcgrcdindo
vo.lllll' ll!O t ' ndcu a a~ . entnr- c c o 11po prc ommuntc a cr o mulato. No sertã até tornar-se um heresiarca, a exemplo daqueles do cristinnilimo primtti\'o.
,,k ritmo dt• \ td.l durís~inll). a\ csso à scdcntarização, os bandeirnntcs paulist<~~
Envolvido por tabela nas lutas de família entre Maciéis c Arau1os . •ilém das
·o~ mdios acab.1r.1m por pr,'lduzir c 1mo tipo predominant • o curiboca. atrocidades de que seu clã foi vítima viveu infelicidades pe soais que 0 lev:t -
\ popul.t ' Jl) do sert:il. após Ir~ · cculo, de i ·olamcnto. c mostra rc. ram à loucum. Quando ressurge, é já como o Peregrino. que as ·im c intitul,tv:t,
cr· Í\',t et'm rclaç:io .to prt"Cnte por niio t •r rcc •bido influência posteriores. partindo para trinta anos de peregrinação pelos sertões, em penitência sab ·-se
J),·dk.mdo-. ' colctivam ·ntc .to trabalho nômade do rcgime pastoril, manift• ta ltl por que pecados. "Condensando o ob curantismo de três ruças", a pessoa
t' t1.1 ·o, p. ict,logtcos d.1mdolc .tv ·nturcira dos bandeirantes c da impulsividud~ do líder "rres eu tanto que se projetou na Hi tótia''.
indtgcn.t. t •nto .10 tipo fí ico, ou fL·nótipo. o autor encontra ncle uma grande Líder místico, Antônio Conselheiro, acompanhado de scu SCljltazcs. \a
Ulll h rmid.td '. d ·onde conclui que ertancjo ~"o tipo de uma sub alegoria gut:a a pclo sertão. Quando cntrava nas vilas e aldeias, fazia seu st:rmão d•:m-
ctni ·.1 J·' Ctln titutd.t". Fort 'corajn o. sem dúvida ele é: ma,. por ter parado te da igrt:ja e depois ia comandar a construção ou reconstrução dt: igrcj:ts.
no tl'mpo. i"'u.tlml'nte H rasado e ·upcr tkio. o. cemih::rios c açudes. Assim se passaram trinta anos. com o s~quito scmprc ,,
pl · atinnar .1 supcnoridud' do •rtanejo. procede o autor então a um aumentar. Até que a Igreja, já de há muito não \·endo com bon ·olho · aquck
diagm,sttl'l' contra. tin1 entre dots tipo, dt.' \ aquciro•. o ·rtanejo e o gaúcho. competidor avulso, mandou uma missão investigar o que se pns uva no arr,Hal
Dt ~ti ngu· m·: ·por tudl)..lt ' pd,t roupa ·.jaque meioc pinho odoprimciro de Canudos, onde os conselhciristas se tinham finalmente refugiado.
m 'lJ u. 11 ·ar.tt ·r tanto quanto o meio genero o do segundo. o primeiro se A narrativa dessa missão, que se conhece pela pala\ ras de um do.
th'lll .1 .li' ui a qut.' s • tran~mud.t num Jtimo em ativid,td • violen! 1, enquanto no enviado , frei João Evangeli ta do Monte Marciano. é seguida d • perto ~lo
. ~undl . • notam .1jO\ ialid.tde c o •n. o dc fe. ta. autor. De acordo com ela, o dois capuchinhos dt ·garam a C.mudo:. p.u:1
LLngl • ..:ur. o ' \.!mina a. \e. tes do ertan ·jo. sua momdia, seu co tu· executar es õe de reavivamento, como cru comum em todo o sertão. P1c a-
m' .. u IJ: 'r. s ·u foklor '. o· Mdi · que dt.'sen\'Oive para enfrentar a eca ram no recinto sagrado, pura uma multidão ho til c ostensivamente arm,ld.t.
•t ·rn:~m nt p.lir.tr l l em .tmea ·a llbrc sua cabe 'a c. finalmente, sua rdigio- Denunciaram os perigos a que estavam expo tos os pec.tdores ali ~umdo . al'
~id.td Lt.l, 'l'lliO •le. rne. u.;a. porque ab on·e elementos da crença dos obedecerem ma i a Antônio Conselheiro do que ~ Santa Madre lgrqa. Onl ·-
ind1 ''· J p0rtugtl' -e, • d,), africano . entre elas as superstiçõe de toda naram que o presentes se desarmassem e abandonas em o arrai<~l eu hd 'r.
md ·m l t t ianismo. Compro\·am-n o fato de j.i terem havido na região. e voltando aos lares di tantes. E finalmente interpelaram o n elhctro quanto a
hJ t.:mpos. \,trw. outr · :urto · de in urrciçõe marcadas pela religião. poi · eu dissídio com a república, e orlando-o a aceitar a nova fL rma de g~.wemo.
<'m la mi:tu • Jl. i(!UJ irn nte o b.lnditi mo e tomou endêmico. ~01110 re ultado, tiveram que sair dali meio fugiJo . amedrontado pela re.u;a
Ytolenta que os ameaçou .
. De volta. fizeram seu relatório, em vit1udc dP qual a Igreja retir u s.:u
010
"-· :rõ:-.·1o Co~sELHEJRo ap a Antônio Conselheiro e pa ou a engro ar as fileira' de to.k - quanD
auguravam o desmantelamento de 'Canudo-.

UM PARJ1-..'TESE IRRIT.-\:-;TE

mem··
es a ordem de nívei di cursi\os. \atn enc ntrar n:~ parte ··o ho-
uma argumentação bem urpre •ndcnte. ~ gund da.

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\\\(.f( f r>;(l(illiR\(,\1\ \11

1\ • ,dt.l ao dtl bran o como 1.1ça ~upctiM eta con ·nte n.1 lt'llii,J do
"' •undt' unp 'I r;di~mo t•uropt.:u, n.1s ultunas tléc.tda.~ tio seculo 1X ,,. 011 ,1s
pltldllZid•l' • l'\ idcntcmcntc, pelo~ ·uropeus
.• . . () <]llt' l' lll:ll' UI rll'lllk l'lllllJllt'lll
Jt•r. p.u.1 11 castl 1k' pcns.mwnto brasiiL'If(' Jn me~nl.lt'poc,J. t' q1u 0 r.u 1 ~mo
st'J·• a ·r1to t' :.~provado preCisamente por ,tquelcs qut•l'lc t.li~r 11 mmJ
1\ prl'lt:rêu ·w pelo mtlio não~ no\ idaJ ·nem t•strt•J,It'lll (h- ,,.,to
1
.1. 1 1.1

. histom:am ·ntc dat.tda c a~sume, no imagm.il io das l'lilt's ·olnni,Ji~. uma l1nt
~';10 ueflagrat.la pdl s lliOI'illlClllOS d. indt•pcndt~nda IIJ Allll'l it'.l l.dlllt.l RI' I
1 in.Jit:,Jr ancestrais indíg ·nas s1gnillcava opor-se .111 rolmuz;1dor unlpt·u

dt minantc. Na l!poca da independência, era lrcqtlentc \l'ft'lll s~ ht.lsilciros


fL•ncgar seu nome português c adotar um nomt• indígena. l·:s~a lt'il 1111h ~~ .lll
ab origciH'- i\ qual se sorna ma i tarue aqucl.1 que afinn.t o autoctonl~llln do
mdio. ponto de vista igualmcnt • Jefcndido cm Os urtocs nm~!Jtun1 uma
primem1 manifestação de nacionalismo, ou nativtsmo.
o plano literário, encontra-se o corrd;Jto dess.t pns!lu.t 11.1 tl'lfl'lll<'
indianista do Romanti mo. Enquanto nas litcmtma t•uropéia. o indianiSillth ·up.1
um lugar re. !rito. na literatura hr.Jsilt-ira toma-se dominanll' pnrqut• !t'lll supn1
te no idcario da conjuntura hi tórica. No Romanti!.tno n.1!11 o, o indin .J~smnt' <1
pnpcl que tem na literatura europ~ ia o c.tvalcilo cJrante. o .mcesu.d mcd11 v.ll.
de uma ~poca em que a ,, Õt.'. do horn ·n · cr.un dt•!t'nmnadas P<)t \'otlm~s
nobres. E ·sa personagem a pu r 'Ct' as im como uma reaç.w cnntr.t o
mercantilismo e o material i. mo burguês trMiJo p ·la r ·voluçatl mJu~tri.tl. l~.l'
·,1111' um.1 p 1 1111,1~ ·m d,• .1nt.mh'1 ta '"r comn a auto-atinnaçio de uma liter.Jtura hrasil•ir.t indt•p,·ndl'nk d.1
hl< IJJ,•, I .ll'II,J fd1111111l'n!t' cntr' ~UJ rnn ·i~ll~Ja C ,IS tt•orias raci ta • po1tuguesa passa pelas obras indianistas de dois autmcs ntl\l'l.'l'tllf\(,1,, Jn t'
I 1111111.111lh• i'' r thl' •,u .tpro im.Jdanwntt' ,Jum.t acomot.l,t)'otO. Sua conclusà(l. tk r\lt•ncar, primeiro a dar nível i\ prosa r·ahst,J, c o !!Iandt• poL'1.1 ronhlntJC<1
IIIC P 'f.IU,It' '111 Llltlli,ldl .llltl'lll as lnHI,l. expo~I.J S ali llle~ll\ll t'lll seU li\f(l, <ion,·alws Dias. Por t'Sses dois motivos comergt•ntcs nacit1n,lli~m,, ,. H
'.tj.lr ·c ·ndn 1111do tn .'lJnlt' llll lt'\1<1, ~ .t de que o hr.t. Jk'lrtl do \crtao scnJ '1 111
i1HIIsmo o índio imaginário, que como se satx· nadJ tt'lll a 1 c1 l'tlln .1411 lcs
P1im 'fil' I'Hxlutn d.t mrs,·1gcn.1ç.io dos h.mJl'ir.mtt'. hr;mt O\ com os índiO~ Ju ll',IIS, \ t'ill ,I tornar-se (l emblema da "brasiiJdadt•".
r.ll\h' h(•s '·rui,,. d. IStll,lllll'IIIO. Fs ol rnistur.l, ond. só L'lllrariam as melhores
lJIIJhd.tdt•\ d '' Jn.ts r.tç.t., t' tJUt'. 11.1 mdhm tr,tdic;ão n.Jcion.tl, scqtlcstra 1'
11 10
'• · l'll\.lunu o Sl'll.lnl.'jo. Fstt• pr im ·irn t' n táwl r •stJitado ("Os ·rtuncjtl A LliT
.nn 's tk tud,, um h'tlt'. ''), ~ •ri.t a r.J\'•1 t rasil ira prüpriamt'lllt' dita. ou pcl•l
111 11 11111
' ''' ·' suhl'at •g,•li.l,·tnica. c mforme suas p.ilan.1 Acrsct•nte-.c. par
' mpt.· •nd 1 ·st.l r,•ntor ·~x· .. o drama intdn:tual •.h) .tutor. dilacerado 111
11 11
u,J ,. J, lt:sg.lt,Jr u mt•mtiria do. canudt•ns ·s c o • aht!r de ua épocA
qu 'Ih 'l n.t 11~;, ntrario E: a disl'lt ao foi por •lc m smo hamadad ''Udl

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pnpcl que tem na literatura europ~ ia o c.tvalcilo cJrante. o .mcesu.d mcd11 v.ll.
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mercantilismo e o material i. mo burguês trMiJo p ·la r ·voluçatl mJu~tri.tl. l~.l'
·,1111' um.1 p 1 1111,1~ ·m d,• .1nt.mh'1 ta '"r comn a auto-atinnaçio de uma liter.Jtura hrasil•ir.t indt•p,·ndl'nk d.1
hl< IJJ,•, I .ll'II,J fd1111111l'n!t' cntr' ~UJ rnn ·i~ll~Ja C ,IS tt•orias raci ta • po1tuguesa passa pelas obras indianistas de dois autmcs ntl\l'l.'l'tllf\(,1,, Jn t'
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IIIC P 'f.IU,It' '111 Llltlli,ldl .llltl'lll as lnHI,l. expo~I.J S ali llle~ll\ll t'lll seU li\f(l, <ion,·alws Dias. Por t'Sses dois motivos comergt•ntcs nacit1n,lli~m,, ,. H
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u,J ,. J, lt:sg.lt,Jr u mt•mtiria do. canudt•ns ·s c o • aht!r de ua épocA
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OS ,\UUtltS
WALNICE NOGUEIRA GALVÃO

c'nns1·llwuo,qut· c1a católico c beato mas não tinha sido ordenado sacerd
• . lOS
uhtinl1.1 ou lidO a tolcJ,JilCJa I v1g ános Ioca1s,
. con f orme oca o. Sabe-se taOte ' te Pires Ferreira. Emboscadas estas em Uauá, seguiu-se um combak "an-
tx: qul'. Jll'tamcntc por nao ser pa re, c c pregava somente no adro d·rn.
111 · ~ d 1 grento. em que os canu,denses foram dizimados. Ainda assim, sem sab~r ava-
ig1t·ju• c nao no altur, c queM! abstinha de administrar os sacramentos co a. liar a quantidade em numeros e os recursos de que o adversário dispunha, a
• rno
~ ·• .um:ntc , o bat•~mo, etc. Pc1cgrinava acompanhado por um séquito q 0 tropas bateram em retirada. Esse episódio passou à história como a primeira
, ue 0 expedição contra Canudos, ou Expedição Pires Ferreira ( 1896).
at:oltL!V.t na. nhr.ts c nas orações. rezando junto com ele.
01a, o .tdvcnto da república acarreta alterações que perturbam 0 ânirn Enceta-se então a preparação de uma nova ofensiva, sempre com tropas
estaduais baianas, agora mais numerosas e mais bem armadas. hem como ~ob
do~ pc1egrinos De um lado, ~ão decretados novos impostos, que gravam~
0 comando de uma patente mais alta, o major Febrônio de Brito. Em janeiro de
popul<u,;io poiJJe do sertão. De outro, certas medidas laicas, mas afetando
1897 deslanchao ataque, que resulta igualmente em derrota, nos arredores de
prJncJpio, rehgiosos vincadamcnte tradicionai • ão postas em ação. É caso
0 Canudos. Essa foi a segunda expedição contra Canudos, ou Expedição Febrônio
da t'Jl.lraç~o entre Igreja c Estado, a liberdade de culto e a instituição do
de Brito.
l':t .uncnto CJvil pela Assembléia Constituinte de 1890. Especialmente esta,
qut• rontr.Jdllla frontalmente um sacramento católico.
Apcís algum,,., csraramuça com as autoridades das vilas e arraiais do
0 DESASTRE
imcnnr. os peregrinos passaram a evitar as aglomerações urbanas e a afundar-
( cada Vl'l. mais no deserto, para votar-se à vida contemplativa. Acabam por
A terceira expedição ganha uma patente superior, tendo por comandante
,Jrrandt.tr, por volta do ano de I893. na tapera de uma fazenda abandonada no
um coronel, e que coronel: Moreira César tivera sua reputação firmada duran-
lundo do ;crtJo d.t Balua, longe de tudo. As ruínas eram de uma antiga proprie-
te a campanha contra a Revolução Federalista no sul do país, quando se desta-
tl.•<lt· fun ltaria ora ab<tndonada c que pertencera à Casa da Torre, um vasto
cara pelo rigor da repressão que exercia, ganhando então o cognome de
dom mio ú criação de gado estabelecido pelo bandeirante Garcia d' Ávila nos
"Corta-cabeças", ou "Corta-pescoço". O perigo que Canudos veio a repre-
p11mtí1Jio da rolúma. Sohre as ruínas os peregrinos instalam seu acampamen-
sentar, após essas duas derrotas, já é agora considerado de alçada nacional c
to. edilic.un pouco a pouco seu~ barracos de pau-a-pique - futura Tróia de
grave demais para ficar sob a responsabilidade de tropas estaduais. Monta-se
'"'flll, no o nnor euclidiano-. reconstroem a pulso, e pedra por pedra, um uma grande ofensiva, com forças federais vindas de todo o país, armamento
nt1go templo loc,JI l.Omcçam a erguer um outro muito maior, defronte àque- moderno incluindo canhões, e uma ampla campanha no sentido de alertar a
le A111hos no largo central do povoado, serão batizados como Igreja Velha e opinião pública. Os ânimos estão exaltados, a demagogia patriótica cspicaçada,
lgn:j.1 'ov,t F<.ta ·a imtalado o arraial de Canudos, nome pelo qual já era c começa-se a insinuar que os incidentes do sertão apontam para uma tentati-
onhccida ·• untiga fatt•nda . va de restauração monárquica.
Ü da ct'n~tnJçao dJ Igreja Nova que decorre um primeiro incidente, a Acompanhada pela atenção de todo o país, a terceira expedição se reúne
nHrltlplic.t\ão ddc . e .. , olumando até Jdlagrar uma verdadeira guerra. em Salvador c marcha para Canudos. Chega a atacar o arraial, ma após
to h.1 lllJ.deira nu sertão. cuja cobertura vegetal típica é a caatinga. a algumas horas, sofrendo pesadas perdas, inclusive a de seu comandante, hate
qual. como\ m10s. nJo p.tssa de um mato ralo. de garranchos, gravetos e cac· em retirada, dehandando, enquanto para facilitar a fuga joga fora armas c
11 1
I' r o o pô' o de Canudos tinha comprado c pago antecipadamente na munições - que serão coletadas e ;ntesouradas pelos canudense - e até
:d.tdc d Juazeiro um lote de peças necessárias para as obras da Igreja Nova. i>Cças de farda, como dólmans ou botas.
Jo tcnJn 1do ntreguc a encomenda. apesar de paga, ameaçaram ir buscá·
A celeuma provocada por mais eua derrota é incalculável. Manifestaçõc
la pc ' llm nt •.
0 de rua nas duas principais cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo, acabaram
' .filctarn, organizados num.t proci são precedida pela bandeira~O se transformando em motins em que o furor da multidão se desencadeou obre
05
•nt Santo, cantando hinos religiosos. Mas as autoridades IocaJS alvos mais óbvios, ou seja, os poucos jornais monarquistas sobrevivente ·
11\ ocarlt '· parJ recebê-lo . tropas estaduais, comandadas pelo renen- quatro foram empastelados e o dono de um deles foi linchado. Todos clamavam

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OS ,\UUtltS
WALNICE NOGUEIRA GALVÃO

c'nns1·llwuo,qut· c1a católico c beato mas não tinha sido ordenado sacerd
• . lOS
uhtinl1.1 ou lidO a tolcJ,JilCJa I v1g ános Ioca1s,
. con f orme oca o. Sabe-se taOte ' te Pires Ferreira. Emboscadas estas em Uauá, seguiu-se um combak "an-
tx: qul'. Jll'tamcntc por nao ser pa re, c c pregava somente no adro d·rn.
111 · ~ d 1 grento. em que os canu,denses foram dizimados. Ainda assim, sem sab~r ava-
ig1t·ju• c nao no altur, c queM! abstinha de administrar os sacramentos co a. liar a quantidade em numeros e os recursos de que o adversário dispunha, a
• rno
~ ·• .um:ntc , o bat•~mo, etc. Pc1cgrinava acompanhado por um séquito q 0 tropas bateram em retirada. Esse episódio passou à história como a primeira
, ue 0 expedição contra Canudos, ou Expedição Pires Ferreira ( 1896).
at:oltL!V.t na. nhr.ts c nas orações. rezando junto com ele.
01a, o .tdvcnto da república acarreta alterações que perturbam 0 ânirn Enceta-se então a preparação de uma nova ofensiva, sempre com tropas
estaduais baianas, agora mais numerosas e mais bem armadas. hem como ~ob
do~ pc1egrinos De um lado, ~ão decretados novos impostos, que gravam~
0 comando de uma patente mais alta, o major Febrônio de Brito. Em janeiro de
popul<u,;io poiJJe do sertão. De outro, certas medidas laicas, mas afetando
1897 deslanchao ataque, que resulta igualmente em derrota, nos arredores de
prJncJpio, rehgiosos vincadamcnte tradicionai • ão postas em ação. É caso
0 Canudos. Essa foi a segunda expedição contra Canudos, ou Expedição Febrônio
da t'Jl.lraç~o entre Igreja c Estado, a liberdade de culto e a instituição do
de Brito.
l':t .uncnto CJvil pela Assembléia Constituinte de 1890. Especialmente esta,
qut• rontr.Jdllla frontalmente um sacramento católico.
Apcís algum,,., csraramuça com as autoridades das vilas e arraiais do
0 DESASTRE
imcnnr. os peregrinos passaram a evitar as aglomerações urbanas e a afundar-
( cada Vl'l. mais no deserto, para votar-se à vida contemplativa. Acabam por
A terceira expedição ganha uma patente superior, tendo por comandante
,Jrrandt.tr, por volta do ano de I893. na tapera de uma fazenda abandonada no
um coronel, e que coronel: Moreira César tivera sua reputação firmada duran-
lundo do ;crtJo d.t Balua, longe de tudo. As ruínas eram de uma antiga proprie-
te a campanha contra a Revolução Federalista no sul do país, quando se desta-
tl.•<lt· fun ltaria ora ab<tndonada c que pertencera à Casa da Torre, um vasto
cara pelo rigor da repressão que exercia, ganhando então o cognome de
dom mio ú criação de gado estabelecido pelo bandeirante Garcia d' Ávila nos
"Corta-cabeças", ou "Corta-pescoço". O perigo que Canudos veio a repre-
p11mtí1Jio da rolúma. Sohre as ruínas os peregrinos instalam seu acampamen-
sentar, após essas duas derrotas, já é agora considerado de alçada nacional c
to. edilic.un pouco a pouco seu~ barracos de pau-a-pique - futura Tróia de
grave demais para ficar sob a responsabilidade de tropas estaduais. Monta-se
'"'flll, no o nnor euclidiano-. reconstroem a pulso, e pedra por pedra, um uma grande ofensiva, com forças federais vindas de todo o país, armamento
nt1go templo loc,JI l.Omcçam a erguer um outro muito maior, defronte àque- moderno incluindo canhões, e uma ampla campanha no sentido de alertar a
le A111hos no largo central do povoado, serão batizados como Igreja Velha e opinião pública. Os ânimos estão exaltados, a demagogia patriótica cspicaçada,
lgn:j.1 'ov,t F<.ta ·a imtalado o arraial de Canudos, nome pelo qual já era c começa-se a insinuar que os incidentes do sertão apontam para uma tentati-
onhccida ·• untiga fatt•nda . va de restauração monárquica.
Ü da ct'n~tnJçao dJ Igreja Nova que decorre um primeiro incidente, a Acompanhada pela atenção de todo o país, a terceira expedição se reúne
nHrltlplic.t\ão ddc . e .. , olumando até Jdlagrar uma verdadeira guerra. em Salvador c marcha para Canudos. Chega a atacar o arraial, ma após
to h.1 lllJ.deira nu sertão. cuja cobertura vegetal típica é a caatinga. a algumas horas, sofrendo pesadas perdas, inclusive a de seu comandante, hate
qual. como\ m10s. nJo p.tssa de um mato ralo. de garranchos, gravetos e cac· em retirada, dehandando, enquanto para facilitar a fuga joga fora armas c
11 1
I' r o o pô' o de Canudos tinha comprado c pago antecipadamente na munições - que serão coletadas e ;ntesouradas pelos canudense - e até
:d.tdc d Juazeiro um lote de peças necessárias para as obras da Igreja Nova. i>Cças de farda, como dólmans ou botas.
Jo tcnJn 1do ntreguc a encomenda. apesar de paga, ameaçaram ir buscá·
A celeuma provocada por mais eua derrota é incalculável. Manifestaçõc
la pc ' llm nt •.
0 de rua nas duas principais cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo, acabaram
' .filctarn, organizados num.t proci são precedida pela bandeira~O se transformando em motins em que o furor da multidão se desencadeou obre
05
•nt Santo, cantando hinos religiosos. Mas as autoridades IocaJS alvos mais óbvios, ou seja, os poucos jornais monarquistas sobrevivente ·
11\ ocarlt '· parJ recebê-lo . tropas estaduais, comandadas pelo renen- quatro foram empastelados e o dono de um deles foi linchado. Todos clamavam

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pt lo HIIIIJilÍI<JITll'IIIIJ ut~~a amca~·;~ nacional coJIII'a a n.:p(JhiJca ( J~o. t'>tud~hlr· , crn m:..nulít.c (ru m:mulkha, r; r,., (r rnhlau1
wn1·Ja
a ~imJJ;Hn UJn,t pclíçuo cxí~índo a l1qti•uaçao do!-. ~cqua.r.c~ do "dcJ~Cnt:r;,rJ,, formada ~;rn c;ornhlé<. <: vrmblé:t•., I..(Jm r .gt tro na<; 1,
lkpul.tdo~ L' •,cnadorcs n.:ío dl\cutíarn outra coisa 110 Parlamento. () <:élchrt r·ttnhém tfl<ll'. t<~rdc crn (Juirnariíe•,J<o ~
com (1 ' • • •
JIHI~I" J<ui Barbm.t,camJwaouo libcrall'>mocdodtrcilO, futurod<.:lcgadoh 1a•.if Á medida qut.; r1 a~.sédt'' con\lrtngc 11 arrawl, d•• q <~1 • J.. m.
fO a ('onfcrém;ia da Pat em Haia lx:tn comr> candidato a pm~idénda, prcJfcnu ~c;ndo oc;upacJ~,~. a rc•.i<.téncia inquebrantável d<r. <:a11uden. '• '1 JfMI a ·1 d a
p;tle\lr:t p1íbhca na qual chamou os canudcn&c~ de "horda de mcntccap 111~ c fiar a comprccn~ao c a crmf.lituír-sc em emgma. Algun d1a ar tr_ d , fin. I,
!!'"é'"· durndo qut· uào pa~savam de um caso de po lícia, a qual deveria ha\taJ par I,a menta-~c uma mndiçlí(), n~;gociada prrr Antônto B 'dtmhc,, rncrnbfll da
p;11 a l·lirniná-los. o~ jornats trataram a derrota como uma calamidade nacional, guarda pt.;~~o<d de Anlímio Ccm~clheiro. Para comtcrnaçao der·. alllcan , , en
dis'>cminando a insegurança c n alannc em toda parte, multiplicando nolícia\ !regam-se cerca de trczcnta~ mulheres, reduzida'> pela fr}me <J c md•'fa d
fahas, cJrlas forjada~ c focos conspiralórios até internacionais. c;squcletos, acompanhadas pelas crianças c por algun~ velhw; c a re i téncta
f· nc ,c clima que Euclides da Cunha pela primeira vez ~c pronuncia recrudesce, mais forte agora porque desvencilhada de um pel-e, mr>rto. Final-
sobre a guerra dc Canudos, publicando no jornal A Provfncía (hoje O r~·sttulo) mente, após um bombardeio intenso de vário~ dia~ c da utílizaçao pioncJr<~ d.;
de S. f'mrln dois artigos intitulados "A nossa Vcndéia", onde expressa opinião uma espécie de napa lm primitivo- a gasolina espalhada sobre as ca•,a "'inda
cm nada diferente das demais. habitadas é incendiada por bastões de dinamite sobre ela lançado<; -o arraral
Prepara-se entiio uma quarta expedição, na qual novamente sobe a pa- &e calou, sem se render, a 5 de outubro de 1897. Os últimos re~btente~.
tcnle em comando, agora o general Artur Oscar de Andrade Guimarães, as- calcinados numa cova no largo das igrejas, não eram mais que quatr(), dos
Sl~lido por quatro outros generais - seu irmão Carlos Eugênio de Andrade quais dois homens, um velho e um menino.
(ruimar5es, Cláudio do Amaral Savagct, Silva Barbosa e Miguel Maria Girard. O recenseamento oficial do exército computou 5.200 ca5a~. o que, a
Até um marechal a expedição chegou a ter, pois o ministro da Guerra, mare- base da estimativa conservadora de uma média de cinco pessoas por cac;<~.
dMI Machado Biltcncourt, deslocou-se para o teatro das operações, lá perma- estimativa baixa para o sertão, dá uma população de 26 mil pessoas. Ou seJa,
necendo cpm seu gahinetc adrede montado, e despachando ao lado de Canudos, a contagem elevou Canudos à posição de segunda cidade do Estado da Bahia
em Monte Santo. As tropas são mobilizadas em todo o país, desde o Amazo- na época, coeva de uma São Paulo que mal atingia 200 mil habitantes. O
nas até o Rio Grandc Jo Sul. cadáver de Antônio Conselheiro, que morrera dias antes do final. foi exumado.
Sua cabeça foi cortada e levada para a Faculdade de Medicina da Bahia para
ser autopsiada, com a intenção de descobrir-se a origem de seus descaminho .
A EXPEDIÇÃO FINAL o que, segundo rezavam as teorias lombrosianas, podia ser inferido a partir das
dimensões do crânio e da dissecação do cérebro. Mas, infelizmente, os resul-
A quarta expedição põe-se em marcha em junho de 1897 (com Euclides, lados não foram conclusivos.
nomeado adido do ministro da Guerra, seguindo depois com uma das colunas
em agosto) c vai assediar o arraial, o qual é cercado para impedir socorro ou
reforços. Mas sobretudo para tolher o abastecimento de água, tão preciosa na REPERCUSSÕES
ea.Jtinga seca e penosamente obtida em cacimbas no Jeito seco do rio vaza·
Barns.
Após uma guerra que se revefou ingloriamente como uma chacina de
Entrementes, os canudenses, que antes só dispunham de poucas e arcai·e pobres-diabos, ficou evidente que não houvera conspiração alguma e qu e~te
cas peças de fogo, daquelas de carregar pela boca - arcabuzes, bacamartes bando de sertanejos miseráveis não tinha qualquer ligação.com os ~anarqUis­
coluhrinas - agora dispõem do mais moderno armamento da época, abandona· tas instituídos - gente branca, urbana e de outra classe social, que t~nha ~o~or
do pela t<'rceira expedição em debandada. E especialmente os cobiçados rifleS a '1agunços" e ''fanáticos" pobres como aqueles-, nem qualquer apoio logisuco,
<k repeti'< to Mannlicher austríacos, marca logo metamorfoseada na fala set· seja no país, seja no exterior.
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fO a ('onfcrém;ia da Pat em Haia lx:tn comr> candidato a pm~idénda, prcJfcnu ~c;ndo oc;upacJ~,~. a rc•.i<.téncia inquebrantável d<r. <:a11uden. '• '1 JfMI a ·1 d a
p;tle\lr:t p1íbhca na qual chamou os canudcn&c~ de "horda de mcntccap 111~ c fiar a comprccn~ao c a crmf.lituír-sc em emgma. Algun d1a ar tr_ d , fin. I,
!!'"é'"· durndo qut· uào pa~savam de um caso de po lícia, a qual deveria ha\taJ par I,a menta-~c uma mndiçlí(), n~;gociada prrr Antônto B 'dtmhc,, rncrnbfll da
p;11 a l·lirniná-los. o~ jornats trataram a derrota como uma calamidade nacional, guarda pt.;~~o<d de Anlímio Ccm~clheiro. Para comtcrnaçao der·. alllcan , , en
dis'>cminando a insegurança c n alannc em toda parte, multiplicando nolícia\ !regam-se cerca de trczcnta~ mulheres, reduzida'> pela fr}me <J c md•'fa d
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f· nc ,c clima que Euclides da Cunha pela primeira vez ~c pronuncia recrudesce, mais forte agora porque desvencilhada de um pel-e, mr>rto. Final-
sobre a guerra dc Canudos, publicando no jornal A Provfncía (hoje O r~·sttulo) mente, após um bombardeio intenso de vário~ dia~ c da utílizaçao pioncJr<~ d.;
de S. f'mrln dois artigos intitulados "A nossa Vcndéia", onde expressa opinião uma espécie de napa lm primitivo- a gasolina espalhada sobre as ca•,a "'inda
cm nada diferente das demais. habitadas é incendiada por bastões de dinamite sobre ela lançado<; -o arraral
Prepara-se entiio uma quarta expedição, na qual novamente sobe a pa- &e calou, sem se render, a 5 de outubro de 1897. Os últimos re~btente~.
tcnle em comando, agora o general Artur Oscar de Andrade Guimarães, as- calcinados numa cova no largo das igrejas, não eram mais que quatr(), dos
Sl~lido por quatro outros generais - seu irmão Carlos Eugênio de Andrade quais dois homens, um velho e um menino.
(ruimar5es, Cláudio do Amaral Savagct, Silva Barbosa e Miguel Maria Girard. O recenseamento oficial do exército computou 5.200 ca5a~. o que, a
Até um marechal a expedição chegou a ter, pois o ministro da Guerra, mare- base da estimativa conservadora de uma média de cinco pessoas por cac;<~.
dMI Machado Biltcncourt, deslocou-se para o teatro das operações, lá perma- estimativa baixa para o sertão, dá uma população de 26 mil pessoas. Ou seJa,
necendo cpm seu gahinetc adrede montado, e despachando ao lado de Canudos, a contagem elevou Canudos à posição de segunda cidade do Estado da Bahia
em Monte Santo. As tropas são mobilizadas em todo o país, desde o Amazo- na época, coeva de uma São Paulo que mal atingia 200 mil habitantes. O
nas até o Rio Grandc Jo Sul. cadáver de Antônio Conselheiro, que morrera dias antes do final. foi exumado.
Sua cabeça foi cortada e levada para a Faculdade de Medicina da Bahia para
ser autopsiada, com a intenção de descobrir-se a origem de seus descaminho .
A EXPEDIÇÃO FINAL o que, segundo rezavam as teorias lombrosianas, podia ser inferido a partir das
dimensões do crânio e da dissecação do cérebro. Mas, infelizmente, os resul-
A quarta expedição põe-se em marcha em junho de 1897 (com Euclides, lados não foram conclusivos.
nomeado adido do ministro da Guerra, seguindo depois com uma das colunas
em agosto) c vai assediar o arraial, o qual é cercado para impedir socorro ou
reforços. Mas sobretudo para tolher o abastecimento de água, tão preciosa na REPERCUSSÕES
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Barns.
Após uma guerra que se revefou ingloriamente como uma chacina de
Entrementes, os canudenses, que antes só dispunham de poucas e arcai·e pobres-diabos, ficou evidente que não houvera conspiração alguma e qu e~te
cas peças de fogo, daquelas de carregar pela boca - arcabuzes, bacamartes bando de sertanejos miseráveis não tinha qualquer ligação.com os ~anarqUis­
coluhrinas - agora dispõem do mais moderno armamento da época, abandona· tas instituídos - gente branca, urbana e de outra classe social, que t~nha ~o~or
do pela t<'rceira expedição em debandada. E especialmente os cobiçados rifleS a '1agunços" e ''fanáticos" pobres como aqueles-, nem qualquer apoio logisuco,
<k repeti'< to Mannlicher austríacos, marca logo metamorfoseada na fala set· seja no país, seja no exterior.
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OS ,/.RliJI.

Vi nf cou ·então uma notável reviravolta da opinião, que mudou de l<!fj,


(J c tudanl ·~ ~>e rnanifc~t;un de no ·o, mas desta vez para prote tar cr n . ·
a (J
ma acre. ( J jun ta Ruí Barb:J<;a agora chama os canudcn,;cs de "meu•.' tlítr
()
. ' · 1m,mete oh er um habeas rorpus para ele•,- depoí~ de monos. Ue;çr
re ·que o no1 'íário Jomalí IJCO era tcndcncío~c, e em grande parte fal<, 1ficad:
Se 11e- · urr mea culpa gcneralu..ado, cujo exemplo mais perfeito é o livro
• . . • 0J
trto'' . q pr )(;Ufa reabli1tar os IOJUSIJçados c resgatá-los para a históna.
Adernai , deixou de ser egredo que a conduta do exército e~tivera longe
de r Jr p ochávcl Alguns raro~ correspondentes de guerra já haviam re~c­
)Jd a prát1 a, aceita por odos, inclusive pelos comandantes, de degolar em
pú h o pn ioneiro amarrados. Tal prática tinha até seu apelido castrense
o eufemi mo gra ata >ermelha, po1s, como as descrições das testemunha
e larecem rJ procedimento era o seguinte: o executor eventual colocava-se
r.í do p:1 10ne1ro, esticava-lhe o pescoço para trás puxando seus cabelos ou
gu o o tra fon .s, pela introdução de do1s dedos da mão esquerda em
narina , e com a mão direita degolava-o, o que fazia o sangue escorrer do
pe c .o para aixo pe a frt;nte do corpo, tingindo sobre ele como que uma

de admirar, pois, que em consequéncia a reputação do exército,


1 t1 g ira na uerra do Paragu:u e por isso passara a ocupar uma primeiro elemento de composição que impona re er.
1
e pr 1 a p na a condução da política nacional, tivesse sido poluí- O segundo elemento é constituído pela intertex i
o exér.1 o que forç ra a abolição dos escravos no último ano do li· ro, e é o que lhe dá seu sopro enciclopédico, tex os e a re
q e -rrubara a monarquia em prol da república e que fornecera os temente citados e submetidos a discussão _·a parte sobre ·.
-· o p .; 1dentes. A6ora, a re\elação das atrocidades cometidas em recorre não somente a suas próprias reportagens e caderne -~
m da a v ndade crianças obre viventes. cobriu o exército de um também as reportagens dos outros correspondentes. às ordens-<lCHf
OPI'óbllo ttal ~~ue e 1;m ários anos de recuperação. Os presidentes da Repúbli· cito, aos relatórios de governo. No capítulo inic1al, "A terra ·. são . bi
anos aoen ci\Ís, bem como o ministro da Guerra suas- textos e autores de geologia, de meteorologia. de botáni a z
o Bi encou rt física. de química. Em "O homem", o mais polêmico e que ·o ..:~ma
• Cl<1 Importante da guerrc1 de Canudos, e que convém espécie de conjeturas, o autor passa em re,ista e ri de etnol g1 .
rla{!t fTilninliza~r.é ·ela ompleta n processo de consolidação do regime repu- ria da colon iz.ação, de folclore, de psiquiatria, de ne ro ia, de
rm· iu exorCJzar o espectro de uma eventual restauração Entre a polifonia e a intertextuaJidade, que sem se
P ·r rmem a 1~ta dos te temunhos pode-se dizer que a opi· a dificuldade de lidar com uma tal ~valanche de sabere é e ·idente e
a fi maníp•1lada e que os canudenses ser. iram de bode expiatório •e em paráfrases discordantes que se sucedem. . 1mpo 1 ihdade de re z.ar
Ele d <>empenharam Ín\olumariamente o papel de inimigo urna síntese, ou mesmo sínteses parciais. o texto a ança Jogando c m tod t
aq -lt que M! enfrenta coletivamente e que penní!e de antíteses, que podem tomar 0 aspecto de uma figura freqüentemente pr:
I legi·<t da • o ox1moro
- - ''Tróia de taipa", ·Hércules-Quas1'modo·• - aparece r
Oú encadeamento de paráfrases que se contradizem

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re ·que o no1 'íário Jomalí IJCO era tcndcncío~c, e em grande parte fal<, 1ficad:
Se 11e- · urr mea culpa gcneralu..ado, cujo exemplo mais perfeito é o livro
• . . • 0J
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Adernai , deixou de ser egredo que a conduta do exército e~tivera longe
de r Jr p ochávcl Alguns raro~ correspondentes de guerra já haviam re~c­
)Jd a prát1 a, aceita por odos, inclusive pelos comandantes, de degolar em
pú h o pn ioneiro amarrados. Tal prática tinha até seu apelido castrense
o eufemi mo gra ata >ermelha, po1s, como as descrições das testemunha
e larecem rJ procedimento era o seguinte: o executor eventual colocava-se
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narina , e com a mão direita degolava-o, o que fazia o sangue escorrer do
pe c .o para aixo pe a frt;nte do corpo, tingindo sobre ele como que uma

de admirar, pois, que em consequéncia a reputação do exército,


1 t1 g ira na uerra do Paragu:u e por isso passara a ocupar uma primeiro elemento de composição que impona re er.
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e pr 1 a p na a condução da política nacional, tivesse sido poluí- O segundo elemento é constituído pela intertex i
o exér.1 o que forç ra a abolição dos escravos no último ano do li· ro, e é o que lhe dá seu sopro enciclopédico, tex os e a re
q e -rrubara a monarquia em prol da república e que fornecera os temente citados e submetidos a discussão _·a parte sobre ·.
-· o p .; 1dentes. A6ora, a re\elação das atrocidades cometidas em recorre não somente a suas próprias reportagens e caderne -~
m da a v ndade crianças obre viventes. cobriu o exército de um também as reportagens dos outros correspondentes. às ordens-<lCHf
OPI'óbllo ttal ~~ue e 1;m ários anos de recuperação. Os presidentes da Repúbli· cito, aos relatórios de governo. No capítulo inic1al, "A terra ·. são . bi
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o Bi encou rt física. de química. Em "O homem", o mais polêmico e que ·o ..:~ma
• Cl<1 Importante da guerrc1 de Canudos, e que convém espécie de conjeturas, o autor passa em re,ista e ri de etnol g1 .
rla{!t fTilninliza~r.é ·ela ompleta n processo de consolidação do regime repu- ria da colon iz.ação, de folclore, de psiquiatria, de ne ro ia, de
rm· iu exorCJzar o espectro de uma eventual restauração Entre a polifonia e a intertextuaJidade, que sem se
P ·r rmem a 1~ta dos te temunhos pode-se dizer que a opi· a dificuldade de lidar com uma tal ~valanche de sabere é e ·idente e
a fi maníp•1lada e que os canudenses ser. iram de bode expiatório •e em paráfrases discordantes que se sucedem. . 1mpo 1 ihdade de re z.ar
Ele d <>empenharam Ín\olumariamente o papel de inimigo urna síntese, ou mesmo sínteses parciais. o texto a ança Jogando c m tod t
aq -lt que M! enfrenta coletivamente e que penní!e de antíteses, que podem tomar 0 aspecto de uma figura freqüentemente pr:
I legi·<t da • o ox1moro
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Oú encadeamento de paráfrases que se contradizem

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f:.RTíJí

CAPI TRA o DE ABREU

Capítulos de história colonial

Ronaldo Vainfas

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f:.RTíJí

CAPI TRA o DE ABREU

Capítulos de história colonial

Ronaldo Vainfas

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TRAços BIOGRAr1cos

Capistrano nasceu em 1853, filho de Jerônimo Honório de Abreu e de


Antônia Vieira de Abreu, na então Província do Ceará. Nasceu em Colominjuba,
termo de Maranguape, interior dessa província, e ali passou a infância, fazen-
do curso primário em escola de província. Mais tarde continuou os estudos em
Pernambuco, estudou francês e inglês, mas não chegou a ingressar na Facul-
dade de Direito do Recife, ficando sem diploma superior.
Tinha pouco mais de vinte anos quando resolveu mudar para a corte, em
1875, e quase nenhuma experiência profissional, embora fosse um leitor voraz
de tudo que lhe vinha às mãos e tenha publicado alguns artigos na imprensa
cearense. Logo que chegou à corte, Capistrano conseguiu modesto emprego
na Livraria Garnier e pouco depois uma vaga de professor no Colégio Aqui no.
lecionando francês e português. Em 1879, começou a trabalhar na imprensa
como redator da Gazeta de Notícias, dedicando-se a textos de crítica literária
e de história da literatura, ao mesmo tempo em que ingressou no quadro de
funcionários da Biblioteca Nacional.
Faria sua verdadeira estréia como historiador em 1883. concorrendo à
cátedra de Corografia e História do Brasil do Imperial Colégio D. Pedro ll,
antes ocupada por Gonçalves Dias. Concorreu com a tese "O descobmncnto
do Brasil", texto que viria a ser clássico. Ingressou em 1887 no Instituto Histó-
rico e Geográfico Brasileiro mas continuou lecionando no Pedro II até I 899, de
onde sai u em razão de uma reforma de ensino que acabou com sua cátedra A
partir de então, viveria do trabalho de jornalista e mesmo da pesquisa histórica,
apoiado sobretudo financeiramente por Paulo Prado, seu grande admirador,
discípulo e editor.

Ü SONHO DE UMA "NOVA HISTÓRIA" DO BRASIL

. Capistrano teve, assim, uma formação tipicamente autodidata. Apr~ndeu


Inglês e francês, depois aprenderia alemão, italiano, latim, holandês c mesmo
línguas indígenas, assunto que o apaixonava.' Leu por conta própria Herhcrt

A PaTiir de 1909 passou a estudar sistematicamente o "bacacn", lfngua Jc ind1o~ habltanle> no


Norte do Brasil (ele que também estudava 0 Iupi e a llngua gE <los carin)}, vin~o a pubh<ar R<r·txn
hu-nr-ku A lf11gua dos raxinauás do rio fbuau, ajlr11•me do Mrrru (Rio de ];10e1ro: l'rcli:llur de
~~ruaçu, 1914). Tais estudos afastnnam Capistrnno úo 1rabalho de r~cúiçào M Capttulol .J.-
11.\Iória f'fJ/OIIial.

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TRAços BIOGRAr1cos

Capistrano nasceu em 1853, filho de Jerônimo Honório de Abreu e de


Antônia Vieira de Abreu, na então Província do Ceará. Nasceu em Colominjuba,
termo de Maranguape, interior dessa província, e ali passou a infância, fazen-
do curso primário em escola de província. Mais tarde continuou os estudos em
Pernambuco, estudou francês e inglês, mas não chegou a ingressar na Facul-
dade de Direito do Recife, ficando sem diploma superior.
Tinha pouco mais de vinte anos quando resolveu mudar para a corte, em
1875, e quase nenhuma experiência profissional, embora fosse um leitor voraz
de tudo que lhe vinha às mãos e tenha publicado alguns artigos na imprensa
cearense. Logo que chegou à corte, Capistrano conseguiu modesto emprego
na Livraria Garnier e pouco depois uma vaga de professor no Colégio Aqui no.
lecionando francês e português. Em 1879, começou a trabalhar na imprensa
como redator da Gazeta de Notícias, dedicando-se a textos de crítica literária
e de história da literatura, ao mesmo tempo em que ingressou no quadro de
funcionários da Biblioteca Nacional.
Faria sua verdadeira estréia como historiador em 1883. concorrendo à
cátedra de Corografia e História do Brasil do Imperial Colégio D. Pedro ll,
antes ocupada por Gonçalves Dias. Concorreu com a tese "O descobmncnto
do Brasil", texto que viria a ser clássico. Ingressou em 1887 no Instituto Histó-
rico e Geográfico Brasileiro mas continuou lecionando no Pedro II até I 899, de
onde sai u em razão de uma reforma de ensino que acabou com sua cátedra A
partir de então, viveria do trabalho de jornalista e mesmo da pesquisa histórica,
apoiado sobretudo financeiramente por Paulo Prado, seu grande admirador,
discípulo e editor.

Ü SONHO DE UMA "NOVA HISTÓRIA" DO BRASIL

. Capistrano teve, assim, uma formação tipicamente autodidata. Apr~ndeu


Inglês e francês, depois aprenderia alemão, italiano, latim, holandês c mesmo
línguas indígenas, assunto que o apaixonava.' Leu por conta própria Herhcrt

A PaTiir de 1909 passou a estudar sistematicamente o "bacacn", lfngua Jc ind1o~ habltanle> no


Norte do Brasil (ele que também estudava 0 Iupi e a llngua gE <los carin)}, vin~o a pubh<ar R<r·txn
hu-nr-ku A lf11gua dos raxinauás do rio fbuau, ajlr11•me do Mrrru (Rio de ];10e1ro: l'rcli:llur de
~~ruaçu, 1914). Tais estudos afastnnam Capistrnno úo 1rabalho de r~cúiçào M Capttulol .J.-
11.\Iória f'fJ/OIIial.

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~p T 'W DF. !IISTÓRIA COL.OVIAL RONALDO VAI ..... FAS

nd _ e pelo darv. in i mo social em voga no final do século ue incomodava tanto a Capistrano na portentosa llistr5ria geral do Brasil,
lnt r ·-se tam ;m pela filosofia positivista de Augusto Comte e ad. oq do ensino da "h.1stona
• · pa.r.tna
· "?.
0 • r 111 téri ·a do ;ran t! Taine ( 1828-1862) e do inglês Henry Buck!
base Incomodava-o antes de tu do o estr., o, a escnta
. f na
. . , I
e rnsensrve .
do vrscon-
-I 62 . :-.ta o que mais o encantava era a escola histórica alemã, a de porto Seguro, título que o imperador concederia a nosso primeiro grande
m t i-.a de cntica documental celebrizada por Leopold von Ranke, as d~
hrsto
n'ador premiando-o por sua contribuição à memória da nação. Capistrano
' .
lenü d • hr tóna natural, economia e sociedade. A geografia era drnirava a erudição de Varnhagen, mas detestava seu texto. de que vánas
e e t dos r11cularrnente cara a Capistrano, que, entre outros feitos a zes se queixou em sua vasta correspondência, e almejava escrever uma
nn tr duziri:l do alemão o li\ ro de J. E. Wappoeus, Handbuch de; ~~stória viva e vivaz. Incomodava-o também a cronologia rígida de Varnhagcn.
•rap/1 .: zmd Starisri · des Kaserreiches Brasilien (Leipzig, 1871), publi- a história do Brasil começando em 1500 e acompanhando, pari passu, os latos
om o título de A geografia física do Brasil, em 1884. oficiais até a chegada da "corte joanina" ao Brasil. E nisso chegamos ao ponto
a ·rdade. o intere se de Capistrano pelas relações entre história e central. Capistrano rejeitava o caráter "oficial" da história feita por Varnhagen,
::r ii e ua convicção de que as sociedades eram profundamente marcadas história empenhada em sustentar a coerência do império desde as origens co-
;,e,-cu tura c pelo meio geográfico estariam presentes no futuro Capítulos de loniais, sua unidade territorial, a excelência da dinastia de Bragança.
!ustórw colonial obra clássica de nossa historiografia que nos cabe aqui E temos aqui que fazer um breve parêntesis, comentar um pouco a obra
apn: cn ar a leitor. de Varnhagen, para que possamos compreender o ânimo de C'apistrano ~m
Cont -nos José Honório Rodrigues que o sonho de escrever uma "nova seu Capítulos de história colonial. Escrevendo no meado do século XIX.
história" do Brasil era multo antigo em Capistrano. Pelo menos foi o que disse Vamhagen, paulista de Sorocaba e filho de alemães, se empenharia em cons-
p u!o Prado. em carta de 1924. quase no fim da vida, revelando que tivera tal truir uma história do Brasil à feição dos interesses imperiais da elite dominan-
1déra h:n ia cinquenta anos.· Uma "nova história" do Brasil, portanto, eis o que te. Elite centralizadora e escravocrata, vale dizer, que lograra t1 -tito 11.1
G:tp ano pretendia escrever, e, se não foi aos 21 anos, sê-lo-ia mais tarde, conservação do império, superando a abdicaÇão de D. Pedro 1, a crise rcgcnl'Íal.
m mero a seus estudos e quando preparou a reedição crítica da grande obra as rebeliões espoucadas de norte a sul do país nos anos 1830. A mesma clitt'
de hr tóna bras i lei até então escrita, a História geral do Brasil, de Francis- que arquitetara o "Golpe da Maioridade", entronizando D. Pedro 11 pdo hem
co Adolpho de Varnhagen. publicada originalmente em cinco volumes, de 1854 da unidade impcrial. 4
a 1857. Na llist6ria de Varnhagen, louva-se a colonização portuguesa. sua ,lbt.t
O onho amadureceu ali pelos anos 1890, pelo que se vê na carta que cxpansionista, seu ímpeto civilizatório; c louva-se mais a dinastia dl' Bra •.mça
e creveu ao barão do Rio Branco, contando que desejava escrever uma histó- - a que pertencia D. Pedro JI - que a de Avis. É uma história clitista, lauJ.ttú-
na dtferente. "dizer algumas cotsas novas", quebrar os "quadros de ferro de ria dos "vencedores", que despreza o índio, mal fala do negro, t' dcsumh.r
Varnhagcn", introduzir assun tos até então pouco estudados, por vezes desco- sempre das rebeliões, dcsqualificando-as.
nh • ido as bandeiras. as minas, as estradas, a criação do gado. 3 Não pode passar s m registro o fato d Varnh 1 n 1 r cs ·1ito un1.1 /li
Capi~tranu já ensaiara os pnmciros passos em 1889, quando publicou tôria gt•ral do /Jrasil muito distinta da proposta de Kurl von Murtius, o 11a1u
Canunh01 alllif{M e povoamento do Brasil. Mas o projeto era mais ambi· ralista alemão que, em 1844, ganhara o oncurso promovido lu n. · m ~·n.td
cr fat.er uma gnmdc lu~tória do Brasil diferente da de Varnhagen. Porquê? lr~stituto Histórico c Geográfico Bra il iro obre "Como
hrstória do Brnsil". Von Martius unhara p mio pn pond
uma história do Brasil deveria r "fu d t r · "

' a I' '''I' <I· t m 211 dt ma1o de I'J24 Aput/ lt»~ Honório Rodrigues, "P.~pllcaçlo", teJIO
fi< 1 1
OfJI/ulu tl~ llt ltirta ro/rmta/ ((>' t<h~ao R10 de Janeiro· CIVIIizaç O OriJilOIIt
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l<u, llr~n "cru 17 de ahnl de: IK9Q, tbrd, p XII

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lnt r ·-se tam ;m pela filosofia positivista de Augusto Comte e ad. oq do ensino da "h.1stona
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-I 62 . :-.ta o que mais o encantava era a escola histórica alemã, a de porto Seguro, título que o imperador concederia a nosso primeiro grande
m t i-.a de cntica documental celebrizada por Leopold von Ranke, as d~
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n'ador premiando-o por sua contribuição à memória da nação. Capistrano
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lenü d • hr tóna natural, economia e sociedade. A geografia era drnirava a erudição de Varnhagen, mas detestava seu texto. de que vánas
e e t dos r11cularrnente cara a Capistrano, que, entre outros feitos a zes se queixou em sua vasta correspondência, e almejava escrever uma
nn tr duziri:l do alemão o li\ ro de J. E. Wappoeus, Handbuch de; ~~stória viva e vivaz. Incomodava-o também a cronologia rígida de Varnhagcn.
•rap/1 .: zmd Starisri · des Kaserreiches Brasilien (Leipzig, 1871), publi- a história do Brasil começando em 1500 e acompanhando, pari passu, os latos
om o título de A geografia física do Brasil, em 1884. oficiais até a chegada da "corte joanina" ao Brasil. E nisso chegamos ao ponto
a ·rdade. o intere se de Capistrano pelas relações entre história e central. Capistrano rejeitava o caráter "oficial" da história feita por Varnhagen,
::r ii e ua convicção de que as sociedades eram profundamente marcadas história empenhada em sustentar a coerência do império desde as origens co-
;,e,-cu tura c pelo meio geográfico estariam presentes no futuro Capítulos de loniais, sua unidade territorial, a excelência da dinastia de Bragança.
!ustórw colonial obra clássica de nossa historiografia que nos cabe aqui E temos aqui que fazer um breve parêntesis, comentar um pouco a obra
apn: cn ar a leitor. de Varnhagen, para que possamos compreender o ânimo de C'apistrano ~m
Cont -nos José Honório Rodrigues que o sonho de escrever uma "nova seu Capítulos de história colonial. Escrevendo no meado do século XIX.
história" do Brasil era multo antigo em Capistrano. Pelo menos foi o que disse Vamhagen, paulista de Sorocaba e filho de alemães, se empenharia em cons-
p u!o Prado. em carta de 1924. quase no fim da vida, revelando que tivera tal truir uma história do Brasil à feição dos interesses imperiais da elite dominan-
1déra h:n ia cinquenta anos.· Uma "nova história" do Brasil, portanto, eis o que te. Elite centralizadora e escravocrata, vale dizer, que lograra t1 -tito 11.1
G:tp ano pretendia escrever, e, se não foi aos 21 anos, sê-lo-ia mais tarde, conservação do império, superando a abdicaÇão de D. Pedro 1, a crise rcgcnl'Íal.
m mero a seus estudos e quando preparou a reedição crítica da grande obra as rebeliões espoucadas de norte a sul do país nos anos 1830. A mesma clitt'
de hr tóna bras i lei até então escrita, a História geral do Brasil, de Francis- que arquitetara o "Golpe da Maioridade", entronizando D. Pedro 11 pdo hem
co Adolpho de Varnhagen. publicada originalmente em cinco volumes, de 1854 da unidade impcrial. 4
a 1857. Na llist6ria de Varnhagen, louva-se a colonização portuguesa. sua ,lbt.t
O onho amadureceu ali pelos anos 1890, pelo que se vê na carta que cxpansionista, seu ímpeto civilizatório; c louva-se mais a dinastia dl' Bra •.mça
e creveu ao barão do Rio Branco, contando que desejava escrever uma histó- - a que pertencia D. Pedro JI - que a de Avis. É uma história clitista, lauJ.ttú-
na dtferente. "dizer algumas cotsas novas", quebrar os "quadros de ferro de ria dos "vencedores", que despreza o índio, mal fala do negro, t' dcsumh.r
Varnhagcn", introduzir assun tos até então pouco estudados, por vezes desco- sempre das rebeliões, dcsqualificando-as.
nh • ido as bandeiras. as minas, as estradas, a criação do gado. 3 Não pode passar s m registro o fato d Varnh 1 n 1 r cs ·1ito un1.1 /li
Capi~tranu já ensaiara os pnmciros passos em 1889, quando publicou tôria gt•ral do /Jrasil muito distinta da proposta de Kurl von Murtius, o 11a1u
Canunh01 alllif{M e povoamento do Brasil. Mas o projeto era mais ambi· ralista alemão que, em 1844, ganhara o oncurso promovido lu n. · m ~·n.td
cr fat.er uma gnmdc lu~tória do Brasil diferente da de Varnhagen. Porquê? lr~stituto Histórico c Geográfico Bra il iro obre "Como
hrstória do Brnsil". Von Martius unhara p mio pn pond
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( 11/ //1,/0\ !JL 11/ITr'JIIIA (OI ONIM. RONAt 1>0 VA I~FAS

1
·u~·s, u 111 dio, 0 nt'gto alricano -. proposta multo inovadora para uma épOca ('entro Industrial do Brasil, que, em 1905, foi incumbido pelo mini~tro da
m qu 0 tr.ífico ncgr 'Íro c~t.tva no auge c o índto estava quase exterminado. dodústria. Viação c Obras Públicas. Lauro Muller. de t•laborar uma obra com
.tom•nn no lítor.tl. ~nformações sobre todas as indústrias exploradas no país. fazendo-a preceder
'.to 1• o c.t o aq ui de examinar o texto de Von Martius, sua motivações, :. um estudo histórico. no qual participaria Capistrano de Abreu. Daí surgiu o
a 1111 t rro .t mmc~ que lht: valeram o laurel. O fato é que Varnhagen não c 10 "Noções de história do Brasil até 1800'', publicado em O Brasil. Sua~
~ •utu • ~c· pl.lllo n.t c :lcbn: c clássica 1/istória geral do Brasil, apesar de tcX
riquezas · --1 ' • F01. a base dos Caprtu
naturais. Suas uwustnas. ' l os que, dt p01s
. de
1 ohr.t de rnáxun.1 crudição. rica na reconstituição de fatos então pouco co.
mil atropelos, seria publicado à parte, em separata, em 1907
nh '(,ulo , c .1té nH.: mo cui dado a nos tnforrnaçocs etnográficas sobre 05 ín. Capistrano sofreu para concluir os Capítulo.\. Fora-lhe cnconwnd.tdo
dtil\
ampliar o texto até o período republicano. Mas Capistrano nao passou de IROO.
( Jflt tr.ano r ·conhecia, como já di~se, os méntos de Varnhagt:n, mas de. levando meses para concluir o livro. sempre insatisfeito com os Jesultadm,
plot v.I w.1 fa lt.t dc \ ·n ~ihi lidadc em relação à vida social, às diversidades queixando-se de tudo e de todos. "Sou verdadeiramente um galé", est n Vt'll a
r •ttJn,ti , .1o povo Capi~trano se preocupava com o povo, ausente em Studart. "Sinto necessidade de passar uma semana fora do Rio, na ( rüvca , em
V.mth.•r 11 I >til <I "o povo durante três ~éculos capado e rccapado, sangrado c Petrópolis [... 1 Por maior esforço acho que esta semana ainda nao tcrmin:uei
r•• ~a rwr,Hlo"' ()m·txou ~~de Varnhagcn até no seu "necrológio", que fez em [... ]Ficarei doente se não me livrar de semelhante amofinaçao ."~ Publicou o
lll7H, c nttt,lfldo o, quando rm:no~. por ua "falta de espírito plástico c simpáti· livro em 1907, mas logo pensou em reescrevê-lo para uma ~cgunda t.di~,to,
tarefa que jamais conseguiu fazer. As demais edições da obra foram tlld:t
póstumas.
Atrasos e improvisos à parte, Capftu/o.1 de Jmtârw mlonial : ltvro
A ( (J\11'fi'iiÇM> DOS Cl!f'flll/.0!) chave de nossa historiogmfla. considerado por alguns. wrno Jo~é llonortc)
Rodrigues, "obra-prima da historiografia brasileira". É opiniao justa'/

ENTRE! A TRADIÇAO I~ A RAIJI( AI lDADI•

Antes de tudo, é o caso de dizer que C'apistrano, que tanto ~:ntH.. a a


Varuhapcn por inúmeras imperfeições da 1/ntória geral, tampouçc1 · •uau q
plano de Von Martius, para quem a história do Bra il devia e r c crrta cl r·n
do d "lu•.ào das três raças" como problemática central A bem da v rdad •• lc
n.to parc·cc ter jamai se interessado por e se problema corno nucl o de uma
hi lcíria do Bra~il, c os Capftulos sllo muito acanhados no tr tament(J do ma
da nri CI •cnaçao, como veremos.
li á, porém, importante inov,ções na e trutura da obra em u tem n
que, !>eguramente, não obedece a u~ lógica de "hl tória ofi ial" partindo do
d ohrimento. segumdo os fatos' tuciona· • os govem a m asõe t
çhegada da corte de O. João, em 1808, ou à própria andependência É dad

lidara em 21 de IIOYnabro de 1906 lb4d. p XX

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.tom•nn no lítor.tl. ~nformações sobre todas as indústrias exploradas no país. fazendo-a preceder
'.to 1• o c.t o aq ui de examinar o texto de Von Martius, sua motivações, :. um estudo histórico. no qual participaria Capistrano de Abreu. Daí surgiu o
a 1111 t rro .t mmc~ que lht: valeram o laurel. O fato é que Varnhagen não c 10 "Noções de história do Brasil até 1800'', publicado em O Brasil. Sua~
~ •utu • ~c· pl.lllo n.t c :lcbn: c clássica 1/istória geral do Brasil, apesar de tcX
riquezas · --1 ' • F01. a base dos Caprtu
naturais. Suas uwustnas. ' l os que, dt p01s
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1 ohr.t de rnáxun.1 crudição. rica na reconstituição de fatos então pouco co.
mil atropelos, seria publicado à parte, em separata, em 1907
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ampliar o texto até o período republicano. Mas Capistrano nao passou de IROO.
( Jflt tr.ano r ·conhecia, como já di~se, os méntos de Varnhagt:n, mas de. levando meses para concluir o livro. sempre insatisfeito com os Jesultadm,
plot v.I w.1 fa lt.t dc \ ·n ~ihi lidadc em relação à vida social, às diversidades queixando-se de tudo e de todos. "Sou verdadeiramente um galé", est n Vt'll a
r •ttJn,ti , .1o povo Capi~trano se preocupava com o povo, ausente em Studart. "Sinto necessidade de passar uma semana fora do Rio, na ( rüvca , em
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r•• ~a rwr,Hlo"' ()m·txou ~~de Varnhagcn até no seu "necrológio", que fez em [... ]Ficarei doente se não me livrar de semelhante amofinaçao ."~ Publicou o
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tarefa que jamais conseguiu fazer. As demais edições da obra foram tlld:t
póstumas.
Atrasos e improvisos à parte, Capftu/o.1 de Jmtârw mlonial : ltvro
A ( (J\11'fi'iiÇM> DOS Cl!f'flll/.0!) chave de nossa historiogmfla. considerado por alguns. wrno Jo~é llonortc)
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ENTRE! A TRADIÇAO I~ A RAIJI( AI lDADI•

Antes de tudo, é o caso de dizer que C'apistrano, que tanto ~:ntH.. a a


Varuhapcn por inúmeras imperfeições da 1/ntória geral, tampouçc1 · •uau q
plano de Von Martius, para quem a história do Bra il devia e r c crrta cl r·n
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n.to parc·cc ter jamai se interessado por e se problema corno nucl o de uma
hi lcíria do Bra~il, c os Capftulos sllo muito acanhados no tr tament(J do ma
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li á, porém, importante inov,ções na e trutura da obra em u tem n
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d ohrimento. segumdo os fatos' tuciona· • os govem a m asõe t
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lidara em 21 de IIOYnabro de 1906 lb4d. p XX

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RQ, ALDO \ It-;FAS
\P{T I ,J DE IIISTÓRH COWIIIAL

jto do tupinambás em capítulo de mesmo titulo-. sem falar na reiteração de


q .: p1 tr no n:i d ·ixa de adotar cena ordem cronológica a partir do ter .
""'. b d .. . . ce,. ~ertos estereótipos sobre a preguiça dos índios.
r p u Io, l A o n ore . e 'a1 umanando. em alguns capítulos 0 c
1
.
u roc ~l ma.r ame dos eculos X\'I ao XVIII, a exemplo do regim
• tato o capítulo Jljá traz como novidade o próprio título, "Fatores exóticos··.
. • d · - f e de sobretudo se considerarmos que o ''exótico". no caso, é primeiramente Porto-
plt.lnl:t here d1tanas, a tn\ a ·oe rancesas do século XVI das hola d
, . . ' n esas ai. Se amhagen concebia a história do Brasil como continuação da h1stória
\ li. J mt do de limites entre portugueses e espanhóis Mas de tr 05 gortuguesa. Cap1strano
'
• • • • n e
1
vel nos portugueses, estrangeiros. Português "estra-
A

que d1r~~mo convenc10na1s de alguns capítulos, há outros verdadeira. p I . .


nho ao continente", ao qua se JUntana o negro, "também alienígena". \ale
1 ntc m no ratJ~.:O . como no caso do clássico ·•o enão" e no do últi
dizer. E a propósito desse encontro Capistrano ensaia alguma nota o re a
dck ''Trê é... ulo depo1s". mo
mescla cultural -e nem tanto racial -que marcaria nossa história: ·o negro
.unh guid d~ entre o convencional e o inovador que se percebe na
trouxe uma nota alegre ao lado do português taciturno e do índio orumbático.
uJtctura da obra. 1 to e. o compromisso de tratar dos "grandes fatos" e ao
As suas danças lascivas, toleradas a princípio, tomaram-se instituição nacio-
mes n tempo ~rgulhar em assuntos desconhecido , reaparece de vários modos
n narrati\ .1 do onze capítulo . Vale comentá-los. na1".10
O capítulo Jll se atém ao descobrimento. assunto que Capistrano estuda-
"Antt:cedentes indígenas'', título do primeiro capítulo, trata fundamental-
ra para a tese da cátedra do Pedro 11 nos anos 1880. É capítulo que reconstitui.
mente da natureza br.c;ílica, a comprovar a paixão de Capistrano pela geogra-
em linhas gerais, a expansão ultramarina portuguesa, a viagem de Pedro Ah a-
fia Ele localiZJ oBra 1l, descreve em linhas gerais as características regionais, res Cabral, os primeiros contatos. Não deixa de inquietar a superficialidade do
serras, planaltos. errados. baixadas, caatingas, rios, com destaque para 0 capítulo comparado à tese anterior sobre O descobrim!!nlo do Brastl. Ne-
ão Franc1sco que seria por ele considerado o rio da unidade nacional. Des- nhuma ênfase na intencionalidade do descobrimento. te e de que Capistrano
!Cft: e o clima. menciona a flora, comenta a fauna, "muito rica em insetos,
era expoente; nenhuma discussão maior sobre se navegadores de outra par-
pt i , a\eS. peixes e pequeno quadrúpcdes". Ocupa-se dos índios em me- tes estiveram no Brasil antes de Cabral, como Diego de Lepe e Vicente Pinzón.
no de duas páginas, um pouco sobre os tupis, outro tanto sobre os que falavam Capistrano bem conhecia a anterioridade desses navegadores e soubera inter-
''línguas travadas"· gê . canris, os tremembés das praias do Ceará ... pretar com inteligência esse fato ao dizer que, "sociologicamente falando. o
Nos parágrafos finais do capítulo, dispõe-se a discutir se, por causa do descobridores do Brasil foram os portugueses, pois neles inicia- e a no a
me10 geográfico, o índto era ou não indolente. E afirma: história, por eles se continua por séculos (... ]". 11 Mas nesse capítulo do Capí-
tulos, Capistrano é só descritivo.
Indolente o mdígena era. sem dúvtda. mas também era capaz de grandes esforços,
Termina-o comentando os primeiros tempos. "Pau-bra i!, papagaios. es-
podta dar muno de st O pnnctpal efeno dos fatores antropogeográficos foi dispensar
a cooperJção [. I A mesma au ênctn de cooperação, a mesma mcapac1dade de açlo
cravos, mestiços condensam a obra das primeiras décadas", as im afinna o
mcurporada e mtehgente. hmllada apenas pela dtvisão do trabalho e suas consequen· autor. Dá boa pista sobre as ambivalências de náufragos e degredado do
ctas. parece terem o~ mdígenas legado a seus sucessores.• anos iniciais, lembrando que uns "sucumbiram ao meio" e viraram até antropó-
fagos, e outros "insurgiram-se contra ele e impuseram sua vontade", auxilian-
Trata-se, pots, de uma abertura inovadora da história do Brasil, pois r