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Semana 03 Metodologia da Pesquisa

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O que é ciência?

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O conceito de ciência

O que é ciência? Essa pergunta tem sido feita ao longo


de vários períodos e por vários trabalhos de metodologia
científica, e as tentativas de se estabelecer uma resposta
definitiva não foram conclusivas. As definições, muitas
vezes, são demasiadamente breves e, ao mesmo tempo,
acabam variando consideravelmente.

Qualquer tentativa de conceituação de “ciência” estará


de acordo com o contexto que o estabelece. Desta forma,
cada ponto de vista sobre o tema, ao estabelecer uma
definição, enfatizará determinados aspectos considerados
principais. Para algumas correntes, como o racionalismo, a
ciência é o conhecimento absoluto e a única forma de se
chegar à verdade sobre o mundo.

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Para a Filosofia, ela pode ser considerada apenas um dos
vários tipos de conhecimento, ao lado das religiões, da poesia
e da arte, por exemplo.
Outras correntes, de cunho pós-moderno, como a
desconstrução e o anarquismo epistemológico, criticam a
ciência e a veem como o recalque de um ser humano que se
diz racionalmente autônomo, para poder dominar o mundo,
por meio da razão e da objetividade.
Ruiz afirma que,

Se a mente humana pudesse atingir o


universo em sua abrangência infinita, a
ciência seria uma e infinita como seu próprio
objeto, mas as limitações da mente humana
exigem a fragmentação do real para melhor
poder atingir cada um dos seus segmentos;
daí resultar a pluralidade das ciências. (RUIZ,
2013, p.128).

Do ponto de vista histórico-descritivo, a ciência nunca se


mostrou como um processo pronto, mas sempre inacabado e
em desenvolvimento, sujeito a revisões e reelaborações. Esse
é um ponto de partida adotado para a perspectiva de “ciência”
em nossa disciplina.

Qualquer tentativa de conceituação de


“ciência” estará de acordo com o enfoque que o
estabelece; cada ponto de vista, ao estabelecer
uma definição, irá enfatizar determinados
aspectos considerados principais ou definitivos.

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O processo científico

Tendo em vista nossa reflexão inicial e sabendo que o


processo científico é dinâmico e está em constante evolução,
que tal ler e refletir sobre algumas definições de ciência?
Para Lakatos, a ciência é uma “sistematização de
conhecimentos, um conjunto de proposições logicamente
correlacionadas sobre o comportamento de certos fenômenos
que se deseja estudar”. Trata-se, assim, de um conjunto de
ações e atividades racionais cujo objeto é limitado e capaz de
ser submetido à verificação, por meio de um conhecimento
sistemático. (LAKATOS, 2003, p.80).
Gil define a ciência como forma de conhecimento que
pretende formular leis que regem os fenômenos. De acordo
com o autor,

Embora sendo as mais variadas essas leis


apresentam vários pontos em comum: são
capazes de descrever séries de fenômenos;
são comprováveis por meio da observação e
da experimentação; são capazes de prever
– pelo menos de forma probabilística –
acontecimentos futuros. (GIL, 2003, p.2).

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Ruiz elenca várias características que formariam o
conceito de ciência, e, a partir delas, destaca os seguintes
aspectos:

Conhecimento certo do real pelas suas


causas; conjunto orgânico de conclusões
certas e gerais metodicamente demonstradas
e relacionadas com objeto determinado;
atividade que se propõe demonstrar a verdade
dos fatos experimentais e suas aplicações
práticas; conhecimento sistemático dos
fenômenos da natureza e das leis que os
regem, obtido através da investigação, pelo
raciocínio e pela experimentação intensiva;
estudo de problemas solúveis, mediante
método científico. (RUIZ, 2013, p.131).

Perceba que essas definições procuram abarcar uma noção


“tradicional” de ciência, pautada na lógica, na matemática.
Essa noção é proveniente do racionalismo, da Idade Moderna.
A ideia da busca da verdade, objetividade e sistematização – o
agrupamento dos fatos e objetos em categorias – está presente
em todas as épocas. Estas são algumas das características
atribuídas ao chamado “conhecimento científico”, que
estudaremos adiante. Este tipo de conhecimento tem como
meta observar um objeto de estudo bem delimitado e responder
dúvidas que se estabelecem sobre ele. Além disso, ele tem a
pretensão de ser racional e sistemático e revelar aspectos da
realidade.

A ideia de busca da verdade, objetividade


e sistematização – o agrupamento dos fatos
e objetos em categorias – está presente nas
definições de ciência apresentadas.

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Objetivos da ciência

Um dos principais objetivos da ciência é tornar compreensíveis


os fatos e fenômenos do universo. Esse é um objetivo de cunho
teórico, ou seja, abstrato e especulativo, que deve chegar a leis, e
pretende ser alcançado da forma mais imparcial possível.
Esse propósito tem como principal consequência prática a
melhoria das condições de vida humana. Como veremos no próximo
segmento, enquanto os fenômenos naturais, atmosféricos e físicos
não são conhecidos, não podem ser controlados. Apesar disso,
muitos fenômenos, mesmo depois de descobertos e categorizados,
ainda não podem ser controlados.
Assim, os objetivos práticos da ciência estão ligados ao
domínio desses fenômenos a favor do homem, à manipulação dos
eventos físicos – que se ligam às ciências naturais – e à criação e
aos avanços da tecnologia – que se ligam as ciências exatas - ao
conhecimento das estruturas sociais, culturais e ideológicas, bem
como dos aspectos psicológicos do ser humano – que se ligam às
ciências humanas. Neste sentido, por meio da constante evolução
do conhecimento, a ciência proporciona um aperfeiçoamento da
relação do homem com o mundo.

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Toda ciência deve ter um objeto de estudo bem-delimitado.
Ao analisar um objeto, a ciência preocupa-se em determinar as leis
gerais que o regem, bem como distinguir as características que estão
relacionadas ao grupo de objetos ao qual ele pertence. Esta ação não
significa, entretanto, que a ciência irá ditar regras a serem seguidas
pelo seu objeto de estudo. Esse procedimento normativo seria até,
aliás, anticientífico, já que toda regra envolve subjetividade e juízo
de valor. Se a intenção da ciência pressupõe a objetividade, sua
atividade nesse sentido é observar seu objeto de estudo e descrever
as regras que são normalmente seguidas por ele.
Para entender essa reflexão, vamos pensar na gramática
normativa, que todos aprendemos na escola. Ela é uma disciplina
que dita regras que devem ser seguidas para o uso da variante
linguística culta. É a forma com que os bons escritores vão escrever
seus livros, por exemplo, e que distingue construções certas de
construções erradas, o que se deve e o que não se deve usar. Ela
não é, portanto, científica, já que prescreve uma linguagem a ser
usada. Seria científica, por exemplo, uma gramática que descreve
o uso efetivo da linguagem pelos falantes, chegando, da mesma
forma, a regras que são seguidas por eles, sem juízo de valor.

Um dos principais objetivos da ciência é


tornar compreensíveis os fatos e fenômenos
do universo.
Toda ciência deve ter um objeto de estudo bem
delimitado.

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De onde veio a ciência?

O medo e o surgimento da
ciência

Para o homem pré-histórico, os fenômenos naturais


eram incompreensíveis. Como seres nômades, eles ficavam
apreensivos com os eventos que presenciavam. Sentiam
medo, por exemplo, das tempestades, dos raios, das variações
de temperatura, daquilo que, para eles, era desconhecido e
inexplicável.
Como explicam Kauark et al. (2010, p. 17), a reação
dos seres humanos primitivos era, portanto, tentar fugir e se
esconder desses eventos, porque não dominavam as técnicas
relevantes para lidar com os perigos naturais e ficavam reféns
do aleatório.
Podemos pensar que ainda hoje sentimos “medo” de alguns
fenômenos naturais. Muitos, por exemplo, ficam assustados
com trovões; em alguns lugares, é comum ocorrerem
terremotos com determinada frequência e violência, o que
também assusta os moradores da região. Podemos pensar em
enchentes, relâmpagos, raios e mudanças nas marés.

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O medo e o espanto, na realidade, podem ter alavancado
a busca do saber, do entendimento do que era obscuro. O
desconhecido pode causar inquietação. Quando um evento já
nos é familiar, já foi analisado e catalogado, ficamos muito
mais tranquilos. Por exemplo, quando temos uma doença em
que aparecem manchas no corpo, mas vemos que as causas,
as características, as técnicas de tratamento já são conhecidas,
lidamos com esse evento da forma mais natural possível.
Assim, o surgimento da ciência se deu, principalmente,
pela necessidade da compreensão do mundo.

O medo e o espanto, na realidade, serviram


como impulsos para a busca do saber, para
a busca do entendimento daquilo que era
obscuro.

Magia e misticismo como caminho


para a busca do conhecimento.

Antes do surgimento de uma ciência categórica e que


pudesse comprovar os fatos analisados, ainda na pré-história,
os homens começaram a se apoiar no misticismo e na magia
para tentar explicar os fenômenos desconhecidos. Assim, já
tendo presenciado os fenômenos naturais por diversas vezes,
o medo dá lugar ao conformismo e à tentativa de explicação
por meio das crenças e superstições (KAUARK et al. 2010, p.
17).

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De acordo com Mattar, a Medicina, por exemplo, “tem
uma longa pré-história mesclada à magia: na Babilônia, já
identificamos médicos realizando cirurgias; os médicos egípcios
utilizavam uma grande variedade de remédios, incluindo o
ópio; [...] na China, praticava-se a Acupuntura”. (MATTAR,
2008, p.6).
Havia, então, um pensamento especulativo, que atribuía
às divindades as causas e consequências dos fenômenos, até
então, inexplicáveis. As tempestades, por exemplo, podiam
ser consequência da ira dos deuses. As secas podiam ser um
castigo pela desobediência dos membros das comunidades. As
boas colheitas podiam ser fruto da benevolência dos deuses.
Entretanto, a explicação de muitos fenômenos era
contraditória, e tantos outros permaneciam sem qualquer
explicação. A busca de respostas por meio das crenças e
da mitologia não estava mais sendo suficientes, já que os
pensamentos eram abstratos e associativos e resultavam
somente em aplicações práticas imediatas.
Apesar disso, essa fase representou um passo importante
na trajetória da inteligência humana, já que o pensamento
especulativo, elaborado por meio de metáforas e associações
simbólicas, gerou um impulso fundamental para a próxima
etapa na busca do conhecimento.

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Desta forma, com a evolução das civilizações, esse
pensamento especulativo se tornou, gradativamente,
organizado e sistemático. O objetivo era buscar respostas
através de caminhos que pudessem, de fato, ser comprovados.
A necessidade de saber o porquê dos acontecimentos foi o
impulso para a evolução do homem e o surgimento da ciência
e a curiosidade humana fez o papel que influenciaria os
métodos científicos utilizados atualmente.

Havia, antes do surgimento da ciência, um


pensamento especulativo, que atribuía
ao misticismo e às crenças e superstições as
causas e consequências dos fenômenos, até
então, inexplicáveis.

O surgimento da ciência

A necessidade de compreensão dos fenômenos naturais


e do mundo não é a única causa da evolução do conhecimento
humano e do surgimento da ciência. Para se estabelecer no
mundo, nas comunidades, nas estruturas sociais primitivas, os
homens precisaram aprender novos conhecimentos e recursos
para garantir a própria sobrevivência.
O cotidiano exigia do ser humano saberes para que
ele lidasse com as plantações, com as variações climáticas e
com os alimentos, bem como aprendizagens relacionadas à
construção de abrigos e ferramentas. Para o desenvolvimento
dessas técnicas, também é necessário um saber estruturado.

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Nesse sentido, a capacidade de aprender a manipular os
recursos naturais e transformá-los em bens manufaturados
e úteis foi um fator fundamental que a ciência trouxe para
o desenvolvimento das civilizações, mas isso só aconteceu
depois de dez mil anos, com o abandono da vida nômade
(MATTAR, 2008, p. 6).
Apenas o conhecimento sistemático, através da ciência
metódica, é capaz de produzir tecnologia avançada. Esta
situação diferencia o homem de outros animais, ainda que
saibamos que estes últimos são dotados de espécies de
“técnicas” para construir tocas, ninhos etc. Com as ciências
e com as técnicas, os homens passaram a lidar com o meio
natural de forma muito mais eficaz e segura.
O desenvolvimento do conhecimento científico e técnico
também está intrinsecamente ligado à característica da vida em
sociedades e comunidades. Na vida coletiva, o conhecimento é
transmitido de um indivíduo a outro, pelas sucessivas gerações,
e esse compartilhamento é essencial para o desenvolvimento
da ciência. Como explica Mattar (2008), com o surgimento da
escrita, surge também o pensamento racional, que ajuda nas
demonstrações por meio da razão e da experiência.

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O pensamento mítico e metafórico se transformou em
pensamento sistemático e estruturado de forma muito lenta.
Vale ressaltar que ainda hoje existem comunidades que
perpetuam os seus principais saberes a partir da tradição oral,
afinal, conforme já foi dito, os tipos de conhecimento podem
coexistir. Mesmo com o início da busca por um saber de caráter
comprobatório e lógico, foram necessários milhares de anos
para a ciência se estabelecer de forma definitiva. Veremos um
pouco sobre essa história no próximo segmento.

O desenvolvimento do conhecimento
científico e técnico está intrinsecamente
ligado à característica da vida em sociedades e
comunidades.

REFERÊNCIAS

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed.


São Paulo: Atlas, 2008.
KAUARK, F. Metodologia da pesquisa: guia prático Itabuna.
Via Litterarum, 2010.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de
metodologia científica. São Paulo: Atlas, 2003.
MATTAR, J. A. Metodologia científica na era da
informática. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
REIS, J. C.; GUERRA, A.; BRAGA, M. Ciência e arte: relações
improváveis? História, Ciências, Saúde, Rio de Janeiro, v.
13, p. 71-87, out. 2006.
RUIZ, J. A. Metodologia científica: guia para eficiência
nos estudos. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.

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