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CONCEITO E HISTÓRIA DO TERMO.

O conceito de estética foi introduzido na filosofia por


Alexander Baumgarten em 1750, referindo-se à cognição por Estética. Do grego aisthesis,
meio dos sentidos. Para ele a estética tinha exigências significa "faculdade de sentir",
próprias, pois alia a sensação e o sentimento à racionalidade. "compreensão pelos sentidos",
Define a beleza estética como “a perfeição – à medida que é "percepção totalizante".
observável como fenômeno do que é chamado gosto – é a
beleza”.
Kant daria continuidade a esse uso, utilizando a palavra "estética” para designar os
julgamentos de beleza, tanto na arte quanto na natureza. A partir do século XX, a constatação
da existência de muitos valores estéticos além da beleza levou o objeto da estética a deixar de
ser "a produção voluntária do belo".
Com esta ampliação o conceito passa a se referir, além de aos julgamentos e às
avaliações, também às qualidades de um objeto, às atitudes do sujeito para considerar o objeto
e, principalmente, à experiência prazerosa que o indivíduo pode ter diante de uma obra de arte.
Mais importante do que tudo, o estético passou a denominar outros valores artísticos, que não
só beleza no sentido tradicional.
Por isso, sob o nome estética enquadramos um ramo da filosofia que estuda
racionalmente os valores propostos pelas obras de arte e o sentimento que suscita nos seres
humanos. Ao estudar a história das artes, entretanto, encontramos expressões como: estética
renascentista, estética realista, estética socialista etc. Nesses casos, a palavra "estética”, usada
como substantivo, designa um conjunto de características formais que a arte assume em
determinado período, que corresponde ao que chamamos estilo. Esse é um significado restrito
do termo estética.

O BELO E O FEIO: QUESTÃO DE GOSTO


De Platão ao classicismo, os filósofos tentaram fundamentar a objetividade da arte e da
beleza. Para Platão, a beleza é a única ideia que resplandece no mundo. Se, por um lado, ele
reconhece o caráter sensível do belo, por outro, continua a afirmar sua essência ideal, objetiva.
O ideal d’O Belo, porém, se distingue do estudo dos produtos da atividade artística, assim como
dos objetos belos em geral.
Segundo o pensamento platônico, somos obrigados a admitir a existência do "belo em si"
independentemente das obras individuais que, na medida do possível, devem se aproximar
desse ideal universal. Contudo, de acordo com Platão, a beleza em si não é evidente ao nosso
aparato perceptivo. Sua presença objetiva seria atestada não pelo olho, mas pela alma, “órgão”
capaz de visualizar a estrutura racional das coisas belas.
O classicismo vai ainda mais longe, pois deduz regras para o fazer artístico a partir do
belo ideal, fundando a estética normativa. É o objeto que passa a ter qualidades que o tornam
mais ou menos agradável, independentemente do sujeito que as percebe.
Nos séculos XVII e XVIII, do outro lado da polêmica, os filósofos empiristas Locke e Hume
relativizam a beleza, uma vez que ela não é uma qualidade das coisas, mas só o sentimento na
mente de quem as contempla. Por isso, o julgamento de beleza depende tão somente da
presença ou ausência de prazer em nossas mentes. Todos os julgamentos de beleza, portanto,
são verdadeiros, e todos os gostos são igualmente válidos. Aquilo que depende do gosto e da
opinião pessoal não pode ser discutido racionalmente, donde o ditado: "Gosto não se discute".
O belo, portanto, não está mais no objeto, mas nas condições de recepção do sujeito. Voltaremos
ao tema no capítulo "Concepções estéticas", nesta Unidade.
No século seguinte, Kant, na tentativa de superar a dualidade objetividade-subjetividade,
debruça-se sobre os julgamentos estéticos, ou de beleza, e não sobre a experiência estética.
Afirma que o belo é "aquilo que agrada universalmente, ainda que não se possa justificá-lo
intelectualmente". Para ele, o objeto belo é uma ocasião de prazer, cuja causa reside no sujeito.
O princípio do juízo estético, portanto, é o sentimento do sujeito, e não o conceito do objeto.
Entretanto, esse sentimento é despertado pela presença do objeto. Embora seja um sentimento,
portanto, subjetivo, individual, há a possibilidade de universalização desse juízo, pois as
condições subjetivas da faculdade de julgar são as mesmas em cada ser humano.
Belo, portanto, é uma qualidade que atribuímos aos objetos para exprimir um certo estado
da nossa subjetividade. Sendo assim, não há uma ideia de belo nem pode haver regras para
produzi-lo. Há objetos belos, modelos exemplares e inimitáveis. Hegel, em seguida, introduz o
conceito de história ao estudo do belo, e, a partir do século XIX, a beleza muda de face e de
aspecto através dos tempos. Essa mudança (devir), que se reflete na arte, depende mais da
cultura e da visão de mundo vigentes do que de uma exigência interna do belo.
Hoje em dia, de uma perspectiva fenomenológica, consideramos o belo como uma
qualidade de certos objetos singulares que nos são dados à percepção. Beleza é, também, a
imanência total de um sentido ao sensível. O objeto é belo porque realiza sua finalidade, é
autêntico, verdadeiramente segundo seu modo de ser, isto é, por ser um objeto singular, sensí-
vel, carrega um significado que só pode ser percebido na experiência estética. Não existe mais
a ideia de um único valor estético baseado no qual julgamos todas as obras. Cada objeto singular
estabelece seu próprio tipo de beleza.
A questão do feio está implícita na problemática do belo. Por princípio, o feio não pode ser
objeto da arte. No entanto, podemos distinguir, de imediato, dois modos de representação do
feio:
• a representação do assunto "feio", como na obra de Rochelle Costi;
• e a forma de representação feia.
No primeiro caso, embora o assunto "feio" tenha sido banido do território artístico durante
séculos (pelo menos desde a Antiguidade grega até a época medieval), no século XIX ele vem
a ser reabilitado. No momento em que a arte rompe com a ideia de ser cópia do real para ser
considerada criação autônoma que tem a função de revelar as possibilidades do real, ela passa
a ser avaliada de acordo com a autenticidade da sua proposta e sua capacidade de falar ao
sentimento.
No segundo caso, trata-se de percebermos que o problema do belo e do feio foi deslocado
do assunto para o modo de representação. Só haverá obras feias na medida em que forem
malfeitas, isto é, que não correspondam plenamente a sua proposta. Em outras palavras, se
houver uma obra feia – neste último sentido -, não haverá obra de arte.

GOSTO E SUBJETIVIDADE
O conceito de gosto não deve ser encarado como uma preferência arbitrária e imperiosa
da nossa subjetividade. Quando o gosto é entendido dessa forma, ele refere-se mais a si mesmo
do que ao mundo dentro do qual ele se forma, e esse tipo de julgamento estético decide o que
prefiro em virtude do que sou. Passo a ser a medida absoluta de tudo (aquilo de que eu gosto é
bom e aquilo de que eu não gosto é ruim), e essa atitude só pode levar ao dogmatismo e ao
preconceito. A subjetividade em relação ao objeto estético precisa estar mais interessada em
conhecer, entregando-se às particularidades de cada objeto, do que em preferir. Nesse sentido,
ter gosto é ter capacidade de julgamento sem preconceitos. É a própria presença da obra de arte
que forma o gosto: torna-nos disponíveis, supera as particularidades da subjetividade, converte
o particular em universal.
A obra de arte convida a subjetividade a se constituir como olhar puro, livre abertura para
o objeto, e o conteúdo particular a se pôr a serviço da compreensão em lugar de ofuscá-la
fazendo prevalecer as suas inclinações. À medida que o sujeito exerce a aptidão de se abrir,
desenvolve a aptidão de compreender, de penetrar no mundo aberto pela obra. Gosto é,
finalmente, comunicação com a obra para além de todo saber e de toda técnica. O poder de
fazer justiça ao objeto estético é a via da universalidade do julgamento do gosto.
ATITUDE E RECEPÇÃO ESTÉTICA
Apreciar as qualidades estéticas de uma obra de arte é bem diferente de notar suas
propriedades físicas: tamanho, peso, material de que é feito. Seu valor econômico, de troca,
também não entra em consideração na apreciação estética.
Costuma-se dizer que a experiência estética, ou a experiência do belo, é gratuita, é
desinteressada, ou seja, não visa a um interesse prático imediato. Só nesse sentido podemos
entender a gratuidade dessa experiência; jamais como inutilidade, uma vez que ela responde a
uma necessidade humana e social.
Ressalte-se que a experiência estética:
• não visa ao conhecimento lógico, medido em termos de verdade;
• não tem como alvo a ação imediata;
• e não pode ser julgada em termos de utilidade para determinado fim.
Algumas vezes essa atitude desinteressada é chamada de contemplativa. Não nos
enganemos, entretanto, com o significado dessa palavra. A contemplação não se opõe à ação:
ao contrário, ela é também uma ação, pois é percepção ativa, que envolve a antecipação e a
reconstrução. É o que se verifica na experiência musical; nas artes visuais (sobretudo em seus
aspectos formais, como a relação da figura com o fundo, formas, cores e tonalidades, diferentes
planos etc.); na literatura (na estrutura narrativa).
Por exemplo, o interesse pela obra de Rochelle Costi é pelo uso inusitado de frutas podres
na composição da cena e que resulta em uma padronagem altamente decorativa; pela escolha
do tema "toalhas de mesa”, sim, separado de sua utilidade prática e ligado ao fato de ser
incomum em arte e de acrescentar significados à obra. O interesse se volta, ainda, para a
composição, para o material brilhante sobre o qual foi impressa a imagem e para o seu tamanho.
Todos esses aspectos formais da obra de arte contribuem para que possamos fazer uma leitura
de seus significados.
A experiência estética é a experiência da presença tanto do objeto estético como do
sujeito que o percebe. Nenhum argumento racional ou conjunto de regras poderá nos convencer
de que um objeto é belo se não pudermos percebê-lo por nós mesmos, se não estivermos frente
a frente com ele.
A obra de arte, como já dissemos, pede uma recepção justa, que se abra para ela e ao
mesmo tempo não lhe imponha normas externas. Essa recepção tem por finalidade o
desvelamento do objeto, por meio de um sentimento que o acolhe e que lhe é solidário.
A obra de arte espera que aquele que a aprecia "jogue o seu jogo", isto é, entre no seu
mundo, de acordo com as regras ditadas pela própria obra para que seus múltiplos sentidos
possam aparecer.
O espectador, ao acolhê-la, atualiza as possibilidades de significado da arte e testemunha
o surgimento de algumas significações contidas na obra. Outros a verão, e outros significados
surgirão. Todos igualmente verdadeiros.

Agora deve ficar mais fácil entender a definição de estética como "compreensão pelos
sentidos" e "percepção totalizante". A arte desafia o nosso intelecto tanto quanto as nossas
capacidades perceptivas e emocionais. Quando nos expomos a uma obra de arte - seja ela
erudita ou popular - de peito aberto, sem preconceitos e sem impor limites à experiência, todo o
nosso ser, tudo o que somos, pensamos e sentimos, se faz presente e contribui para o
surgimento de um sentido no sensível. Ao mesmo tempo, cada experiência estética educa o
nosso gosto, torna a nossa sensibilidade mais aguda, nos enriquece emocional e
intelectualmente, por meio do prazer e da compreensão que nos proporciona.