Você está na página 1de 12

Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.758.912 - GO (2017/0062715-0)

RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI


RECORRENTE : AMELIA CRISTINA OTTOBONI
ADVOGADOS : MARCELLO TERTO E SILVA E OUTRO(S) - GO021959
GISELA PEREIRA DE SOUZA MELO - GO019718
RECORRIDO : BRUNO RICARDO DOS SANTOS PUPIN
ADVOGADOS : THAIS DE CUNTO SARTO - GO035684
TATIELE MOREIRA LOBATTO - GO034612
EMENTA

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RESSARCIMENTO. VIOLAÇÃO DO ART. 557 DO


CPC/73. NÃO OCORRÊNCIA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚMULA
282/STJ. INADMISSIBILIDADE. ÔNUS DA PROVA. NATUREZA DO NEGÓCIO
JURÍDICO CELEBRADO ENTRE AS PARTES. DOAÇÃO. CONTRATO SOLENE.
AUSÊNCIA DE PROVA. TRANSFERÊNCIA DE VULTOSA QUANTIA. LEGÍTIMA
EXPECTATIVA DE RESTITUIÇÃO. MÚTUO GRATUITO VERBAL. JULGAMENTO:
CPC/73.
1. Ação de ressarcimento ajuizada em 21/11/2012, de que foi extraído o
presente recurso especial, interposto em 25/05/2015 e distribuído ao
gabinete em 31/03/2017.
2. O propósito recursal é decidir, primordialmente, sobre o ônus da prova e
a natureza do negócio jurídico celebrado entre as partes: se empréstimo,
como defende a recorrente em sua petição inicial; ou doação, como afirma
o recorrido em sua defesa.
3. A confirmação de decisão unipessoal do Relator pelo órgão colegiado
sana eventual violação do art. 557 do CPC/73.
4. A ausência de decisão acerca dos dispositivos legais indicados como
violados impede o conhecimento do recurso especial (Súmula 282/STF).
5. O contrato de doação é, por essência, solene, exigindo a lei, para sua
validade, que seja celebrado por escritura pública ou instrumento particular,
salvo quando tiver por objeto bens móveis e de pequeno valor (art. 1.168 do
CC/16).
6. No particular, a par de não haver qualquer documento que ateste
expressamente o ato de liberalidade, não se pode considerar como de
pequeno valor, para que se dispense a solenidade, a quantia de R$ 45.000,00
(quarenta e cinco mil reais), sobretudo porque à época do depósito o
montante representava quase 83 salários mínimos vigentes.
7. A transferência de vultosa quantia da recorrente para o recorrido, sem a
expressa estipulação de que se tratava de uma doação, induz à conclusão da
existência da obrigação de restituí-la, e não o contrário, pois essa é a
conduta ordinariamente esperada de quem a recebe por quem a entrega.
8. A legítima expectativa da recorrente de receber, ainda que sem a
Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 1 de 4
Superior Tribunal de Justiça
cobrança de juros, o montante que havia transferido, aliada à ausência de
prova escrita da alegada doação, evidencia que o contrato estabelecido
entre as partes se trata, em verdade, de um mútuo gratuito verbal.
9. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido.
ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Terceira


Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas
taquigráficas constantes dos autos, por unanimidade, conhecer em parte do recurso
especial e, nessa parte, dar-lhe provimento, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)
Relator(a). Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva,
Marco Aurélio Bellizze e Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.

Brasília (DF), 27 de novembro de 2018(Data do Julgamento)

MINISTRA NANCY ANDRIGHI


Relatora

Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 2 de 4
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.758.912 - GO (2017/0062715-0)
RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : AMELIA CRISTINA OTTOBONI
ADVOGADOS : MARCELLO TERTO E SILVA E OUTRO(S) - GO021959
GISELA PEREIRA DE SOUZA MELO - GO019718
RECORRIDO : BRUNO RICARDO DOS SANTOS PUPIN
ADVOGADOS : THAIS DE CUNTO SARTO - GO035684
TATIELE MOREIRA LOBATTO - GO034612

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO NANCY ANDRIGHI (RELATOR):

Cuida-se de recurso especial interposto por AMELIA CRISTINA


OTTOBONI, fundamentado nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional,
contra acórdão do TJ/GO.
Ação: de ressarcimento, ajuizada pela recorrente, em face do
recorrido, na qual requer a devolução da quantia de R$ 45.000,00, entregue a este
a título de empréstimo, pactuado na forma verbal.
Sentença: julgou improcedente o pedido, porque não comprovada a
realização do empréstimo.
Acórdão: manteve a decisão unipessoal do Relator que negou
provimento à apelação interposta pela recorrente, nos termos da seguinte
ementa:

AGRAVO INTERNO. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESTITUIÇÃO DE IMPORTÂNCIAS.


TRANSAÇÃO VERBAL ENTRE SOGRA E GENRO. DOAÇÃO. RECURSO
MANIFESTAMENTE IMPROCEDENTE. ART. 557, CAPUT, CPC. ÔNUS DA PROVA.
INOVAÇÃO RECURSAL.
1 - É possível ao relator, por decisão monocrática, negar seguimento ao recurso
quando presentes as hipóteses do art. 557, caput, do Código de Processo Civil,
quais sejam, recurso manifestamente inadmissível, improcedente, prejudicado ou
contrário a súmula ou jurisprudência do tribunal de origem ou de tribunal superior.
2 - É vedado inovar o pedido em sede recursal, porque não se pode recorrer do que
não foi objeto de discussão e decisão na sentença impugnada.
3 - Tratando-se de ação de restituição de importâncias, amparada em transferência
de valores pela autora ao réu, então esposo de sua filha, a quem se atribuía
Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 3 de 4
Superior Tribunal de Justiça
descontrole financeiro, àquela incumbia a demonstração do alegado empréstimo.
Não tendo a autora produzido prova cabal da existência do negócio jurídico, qual
seja, o empréstimo, torna-se imperiosa a improcedência do pedido formulado na
inicial.
4 - Não havendo no agravo interno qualquer argumento novo capaz de modificar a
conclusão proposta, a manutenção da decisão monocrática recorrida, por seus
próprios e jurídicos fundamentos, é de rigor.
AGRAVO INTERNO DESPROVIDO.

Recurso especial: alega violação dos arts. 333, I, 515, caput e § 1º, e
557, todos do CPC/73, bem como dos arts. 538 e 541 do CC/02.
Sustenta que o acórdão recorrido "amparou-se em jurisprudências de
outros tribunais, uma delas contrária à própria linha de argumentação defendida"
(fl. 399, e-STJ), de modo que não poderia o Relator negar seguimento à apelação,
monocraticamente.
Afirma que, no recurso de apelação, "atacou a tese do juízo de
primeiro grau de que o negócio jurídico entabulado com o apelado/recorrido teria
sido doação, não obstante o desrespeito ao seu caráter formal e solene" (fl. 403,
e-STJ), razão pela qual cabia ao TJ/GO examinar os pressupostos do contrato de
doação.
Assevera que a doação é contrato formal, admitindo-se a doação
verbal apenas quando seguida da tradição e se o objeto for bem móvel e de
pequeno valor, relativamente ao patrimônio do doador.
Ressalta que é incontroverso no acórdão impugnado que "foi o
recorrido quem alegou a existência de doação como fato impediditvo/modificativo
do direito da autora/recorrente" (fl. 411, e-STJ), cabendo àquele o ônus da prova
da realização do referido negócio jurídico e não a esta a prova de sua inexistência.
Juízo prévio de admissibilidade: o recurso foi inadmitido na
origem, dando azo à interposição do AREsp 1.072.529/GO, provido para
determinar a autuação em especial.

Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 4 de 4
Superior Tribunal de Justiça
É o relatório.

RECURSO ESPECIAL Nº 1.758.912 - GO (2017/0062715-0)


RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : AMELIA CRISTINA OTTOBONI
ADVOGADOS : MARCELLO TERTO E SILVA E OUTRO(S) - GO021959
GISELA PEREIRA DE SOUZA MELO - GO019718
RECORRIDO : BRUNO RICARDO DOS SANTOS PUPIN
ADVOGADOS : THAIS DE CUNTO SARTO - GO035684
TATIELE MOREIRA LOBATTO - GO034612
EMENTA

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RESSARCIMENTO. VIOLAÇÃO DO ART. 557 DO


CPC/73. NÃO OCORRÊNCIA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚMULA
282/STJ. INADMISSIBILIDADE. ÔNUS DA PROVA. NATUREZA DO NEGÓCIO
JURÍDICO CELEBRADO ENTRE AS PARTES. DOAÇÃO. CONTRATO SOLENE.
AUSÊNCIA DE PROVA. TRANSFERÊNCIA DE VULTOSA QUANTIA. LEGÍTIMA
EXPECTATIVA DE RESTITUIÇÃO. MÚTUO GRATUITO VERBAL. JULGAMENTO:
CPC/73.
1. Ação de ressarcimento ajuizada em 21/11/2012, de que foi extraído o
presente recurso especial, interposto em 25/05/2015 e distribuído ao
gabinete em 31/03/2017.
2. O propósito recursal é decidir, primordialmente, sobre o ônus da prova e
a natureza do negócio jurídico celebrado entre as partes: se empréstimo,
como defende a recorrente em sua petição inicial; ou doação, como afirma
o recorrido em sua defesa.
3. A confirmação de decisão unipessoal do Relator pelo órgão colegiado
sana eventual violação do art. 557 do CPC/73.
4. A ausência de decisão acerca dos dispositivos legais indicados como
violados impede o conhecimento do recurso especial (Súmula 282/STF).
5. O contrato de doação é, por essência, solene, exigindo a lei, para sua
validade, que seja celebrado por escritura pública ou instrumento particular,
salvo quando tiver por objeto bens móveis e de pequeno valor (art. 1.168 do
CC/16).
6. No particular, a par de não haver qualquer documento que ateste
expressamente o ato de liberalidade, não se pode considerar como de
pequeno valor, para que se dispense a solenidade, a quantia de R$ 45.000,00
(quarenta e cinco mil reais), sobretudo porque à época do depósito o
montante representava quase 83 salários mínimos vigentes.
7. A transferência de vultosa quantia da recorrente para o recorrido, sem a
expressa estipulação de que se tratava de uma doação, induz à conclusão da

Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 5 de 4
Superior Tribunal de Justiça
existência da obrigação de restituí-la, e não o contrário, pois essa é a
conduta ordinariamente esperada de quem a recebe por quem a entrega.
8. A legítima expectativa da recorrente de receber, ainda que sem a
cobrança de juros, o montante que havia transferido, aliada à ausência de
prova escrita da alegada doação, evidencia que o contrato estabelecido
entre as partes se trata, em verdade, de um mútuo gratuito verbal.
9. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido.

Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 6 de 4
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.758.912 - GO (2017/0062715-0)
RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : AMELIA CRISTINA OTTOBONI
ADVOGADOS : MARCELLO TERTO E SILVA E OUTRO(S) - GO021959
GISELA PEREIRA DE SOUZA MELO - GO019718
RECORRIDO : BRUNO RICARDO DOS SANTOS PUPIN
ADVOGADOS : THAIS DE CUNTO SARTO - GO035684
TATIELE MOREIRA LOBATTO - GO034612

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO NANCY ANDRIGHI (RELATOR):

O propósito recursal é decidir, primordialmente, sobre o ônus da


prova e a natureza do negócio jurídico celebrado entre as partes: se empréstimo,
como defende a recorrente em sua petição inicial; ou doação, como afirma o
recorrido em sua defesa.

1. Do julgamento monocrático pelo Relator (art. 557 do


CPC/73)
A jurisprudência do STJ orienta que a confirmação de decisão
unipessoal do Relator pelo órgão colegiado sana eventual violação do art. 557 do
CPC/73 (REsp 1.677.737/RJ, 3ª Turma, julgado em 19/06/2018, DJe de
29/06/2018; AgRg no AREsp 390.024/MS, 4ª Turma, julgado em 21/08/2018, DJe
de 29/08/2018).
Logo, considerando que, no particular, a decisão monocrática do
Desembargador foi integralmente confirmada pelo colegiado do TJ/GO, não há
falar em violação do art. 557 do CPC/73.

2. Da ausência de prequestionamento
O acórdão recorrido não decidiu acerca do art. 515, caput e 8 1º, do

Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 7 de 4
Superior Tribunal de Justiça
CPC/73, indicado como violado, o que atrai a incidência da Súmula 282/STF.

3. Do ônus da prova da prova e da natureza do negócio


jurídico celebrado entre as partes (art. 333, |, do CPC/73 e arts. 538 e
541 do CC/02)
O ponto nodal para a solução da controvérsia diz respeito ao ônus da
prova e à natureza do negócio jurídico celebrado entre AMELIA CRISTINA
OTTOBONI e seu genro, BRUNO RICARDO DOS SANTOS PUPIN, considerando que
é incontroverso nos autos que ela transferiu para a conta corrente dele R$
45.000,00 em dinheiro.
A propósito do ônus da prova, reza o art. 333, l e II, do CPC/73 que ao
autor incumbe provar o fato constitutivo de seu direito; ao réu, o fato impeditivo,
modificativo ou extintivo do direito do autor.
No particular, segundo o acórdão impugnado, a recorrente, em sua
petição inicial, afirma que emprestou ao recorrido a quantia de R$ 45.000,00
(quarenta e cinco mil reais); na contestação, o recorrido admitiu ter recebido o
valor da recorrente, mas alegou se tratar de uma “doação da mãe [recorrente] para
arcar com parte das dívidas contraídas de forma compulsiva pela filha Cristina” (fl.
353, e-STJ).
Tal o contexto, sobressai, de um lado, a conclusão de que cabia à
recorrente comprovar que transferiu o dinheiro ao recorrido, sob a obrigação de
posterior restituição, por ser fato constitutivo do seu direito; e ao recorrido, de
outro lado, cabia demonstrar que a entrega do dinheiro consubstanciava, na
verdade, uma doação, um ato gratuito de mera liberalidade, por ser fato impeditivo
do direito da recorrente.
Assim distribuído o ônus da prova, a primeira conclusão que se pode
Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 8 de 4
Superior Tribunal de Justiça
extrair é a de que o recorrido não se desincumbiu do ônus de provar que o
depósito da quantia de R$ 45.000,00 (quarenta e cinco mil reais) feito pela
recorrente na sua conta corrente – fato, inclusive, que foi por ele confirmado –
deu-se a título de doação, por mera liberalidade.
Isso porque, quando se trata de doação, justamente por encerrar
disposição gratuita e permanente do patrimônio, o contrato deve ser sempre
interpretado restritivamente (art. 114 do CC/02), inclusive para preservar o
mínimo existencial do doador, evitando-lhe prejuízos decorrentes de seu ato de
generosidade.
Essa interpretação restritiva recai, em especial, sobre o elemento
subjetivo do negócio – a intenção do doador de transferir determinado bem ou
vantagem para outrem, sem qualquer contraprestação; o espírito de liberalidade –
porquanto o elemento objetivo, que é a respectiva transferência, consubstancia-se
na simples tradição ou registro, a depender da natureza móvel ou imóvel do bem
doado.
Daí se justifica o contrato de doação ser, por essência, solene,
exigindo a lei, para sua validade, que seja celebrado por escritura pública ou
instrumento particular, salvo quando tiver por objeto bens móveis e de pequeno
valor (art. 1.168 do CC/16).
E, no particular, a par de não haver qualquer documento que ateste
expressamente o ato de liberalidade, não se pode considerar como de pequeno
valor, para que se dispense a solenidade, a quantia de R$ 45.000,00 (quarenta e
cinco mil reais), sobretudo porque à época do depósito – 23/03/2011 – o
montante representava quase 83 salários mínimos vigentes.
Nesse contexto, por faltar a prova de elemento essencial, o negócio
jurídico celebrado entre sogra e genro não pode ser qualificado, segundo o fez o
Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 9 de 4
Superior Tribunal de Justiça
TJ/GO, como uma doação, desconsiderando a formalidade exigida por lei.
Noutro ângulo, é bem verdade que, assim como a doação, o mútuo
gratuito também representa manifestação de solidariedade humana, na medida
em que o mutuante dispõe temporariamente de seu patrimônio em favor do
mutuário, sem exigir deste nada a mais por isso. Trata-se, portanto, de negócio
jurídico igualmente gratuito, mas que, diferentemente da doação, é informal, não
exigindo solenidade.
Nessa toada, a transferência de vultosa quantia da recorrente para o
recorrido, em favor do casal, mas sem a expressa estipulação de que se tratava de
uma doação, induz à conclusão da existência da obrigação de restituí-la, e não o
contrário.
Com efeito, a conduta ordinariamente esperada de quem recebe, por
quem entrega, ainda que como uma “ajuda financeira dos familiares, a título
gracioso” (fl. 357, e-STJ), valor equivalente a 83 salários mínimos – atualmente,
algo próximo de R$ 80.000,00 – é a sua restituição integral.
Aliás, no particular, o fato de o cenário delineado nos autos revelar
que a transferência do dinheiro se deu em 23/03/2011 e que esta ação de
ressarcimento foi ajuizada em 23/11/2012 só reforça a constatação quanto à
legítima expectativa da recorrente de receber, ainda que sem a cobrança de juros,
o montante que havia transferido.
Tal circunstância, aliada à ausência de prova escrita da alegada
doação, evidencia que o contrato estabelecido entre as partes se trata, em
verdade, de um mútuo gratuito verbal.
Convém registrar, por fim, que, se eventualmente o empréstimo foi
contraído porque “o casal passou por muitas dificuldades econômicas, devido ao
descontrole financeiro da filha da apelante [recorrente]”, caberá ao recorrido
Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 10 de 4
Superior Tribunal de Justiça
exercer contra a ex-mulher a pretensão de reaver o valor desembolsado, na
medida em que demonstrar que a quantia não se reverteu em benefício da
sociedade conjugal, mas apenas em favor do cônjuge virago. Do contrário, porque
casado sob o regime da comunhão parcial de bens e, portanto, solidariamente
responsável pelas obrigações assumidas durante o matrimonio, poderá pleitear a
devolução da metade daquilo que restituiu à recorrente.

Forte nessas razões, CONHEÇO EM PARTE do recurso especial e,


nessa extensão, DOU-LHE PROVIMENTO para julgar procedente o pedido deduzido
na petição inicial, condenando o recorrido a restituir à recorrente a quantia de R$
45.000,00, devidamente atualizada desde o desembolso.
Em consequência, inverte-se a sucumbência, mantido o valor dos
honorários estabelecidos na sentença.

Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 11 de 4
Superior Tribunal de Justiça

CERTIDÃO DE JULGAMENTO
TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2017/0062715-0 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.758.912 / GO

Números Origem: 04135136820128090051 201294135139 41351368 5206735

PAUTA: 27/11/2018 JULGADO: 27/11/2018

Relatora
Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro MOURA RIBEIRO
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. MÁRIO PIMENTEL ALBUQUERQUE
Secretária
Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : AMELIA CRISTINA OTTOBONI
ADVOGADOS : MARCELLO TERTO E SILVA E OUTRO(S) - GO021959
GISELA PEREIRA DE SOUZA MELO - GO019718
RECORRIDO : BRUNO RICARDO DOS SANTOS PUPIN
ADVOGADOS : THAIS DE CUNTO SARTO - GO035684
TATIELE MOREIRA LOBATTO - GO034612

ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Fatos Jurídicos - Ato / Negócio Jurídico

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Turma, por unanimidade, conheceu em parte do recurso especial e, nessa parte,
deu-lhe provimento, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a) Relator(a).
Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva, Marco
Aurélio Bellizze e Moura Ribeiro (Presidente) votaram com a Sra. Ministra Relatora.

Documento: 1777344 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 06/12/2018 Página 12 de 4