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Uma produção da

Cia. de Teatr
Teatro
eatr o Lusco-
Lusco-Fusco

Um espetáculo original de
Alef Barros & Gustavo Dittrichi

Ideia original & Argumento Música de


Gustavo Dittrichi Alef Barros

Arranjos musicais de Arranjos vocais de


Dario Ricco,, Hiago Guirra, Marco de Laet Joyce Roldan

Dramaturgia Direção Geral & Encenação


(com base na experimentação Gustavo Dittrichi
d os Artistas)
Gustavo Dittrichi Direção Musical
Marco de Laet

Produção e Realização
Lusco--Fusco Produções Artísticas
Lusco

www.cantosdecoxiaeribalta.com.br
www.cantosdecoxia eribalta.com.br
PERSONAGENS
O Poeta
O Músico
A Jovem Atriz
O Jovem Ator
A Primadonna
O Dono da Cia.
A Faxineira
Um Ator ou uma Atriz do Coro que irá interpretar um Menino de Rua
Atrizes do Coro que irão interpretar uma Cigana, Prostitutas, Artistas Boêmias e outros
papeis
Atores do Coro que irão interpretar um Prostituto, Artistas Boêmios e outros papeis

Roteiro revisado por Gustavo Dittrichi em agosto/201


agosto/2018
/201 8 .
PRIMEIRO ATO
Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 1
(Sobe o pano, palco vazio de atores. Uma estação de trem. No topo vemos um relógio, no
centro do palco existe um tablado simulando uma plataforma de estação de trem e uma
escada de mão deitada simula os trilhos. Algumas malas de viagem antigas estão espalhadas.
A iluminação é cinzenta, apagada, chapada. Bem no centro do tablado, está uma mala e,
sobre ela, um chapéu. Enquanto ainda estão fora de cena, os artistas cantam. Um foco se
acende sobre a mala.)

CORRE-TRILHO

TODOS (fora de cena, cantam em staccato, sussurrando, no ritmo de uma locomotiva)


Corre vida, corre trilho
Corre vida, corre
Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre, corre

Corre vida, corre trilho


Corre vida, corre
Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre, corre...

(Enquanto cantam, o Músico entra com um violão, vai até a mala no centro do palco,
coloca o chapéu, coloca o pé sobre a mala e começa a tocar o violão.)

TODOS (o staccato vira voz plena; o sussurro vira melodia)


Corre vida, corre trilho
Corre vida, corre
Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre...

Corre vida, corre trilho


Corre vida, corre
Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre...

(Enquanto cantam, os artistas vão entrando no palco e ocupando posições paradas,


distribuídas pelo palco. Enquanto isso, o Poeta caminha pelo proscênio, iluminado por um
foco seguidor. Ele carrega balões coloridos e caminha como se estivesse em uma corda
bamba.)

Este texto é de propriedade intelectual da Cia. de Teatro Lusco-Fusco e seu conteúdo não pode ser divulgado,
parcialmente ou integralmente, sem autorização. Apenas para fins de estudo e ensaio.

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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA (canta para o público)


Espera,
a viagem é de ida e volta se você quiser
O assento é garantido, ou pode até ficar de pé
A estrada foi feita de ferro, madeira e história
E a paisagem é fumaça-gente-sonho-cor-memória

(Conforme cada artista vai cantando, acende um foco sobre ele, enquanto os demais se
apagam, ficando sob a iluminação cinzenta.)

JOVEM ATOR
Entre frestas é que eu vejo a luz
O trem chegou pra me trazer você
Não sei é bonita, disfarçada,
Esquisita, rara...

PRIMADONNA
se é mulher.
É só mais um na multidão...

POETA
Multidão que clama por um pouco de paixão.
Dia-a-dia das janelas o homem vê o sonho ali
É perto, dá pra ver. É longe pra abraçar.
Por quê?

DONO DA CIA.
São tantos que se foram, tantos que 'inda vão partir
São tantos que pararam sem razão de existir

PRIMADONNA
São tantas as mulheres que esperam quem não vai voltar
São tantos os meninos sem sapatos para engraxar

MÚSICO
São tantos que fogem da dor
E tantos que só querem ter alguém para quem cantar.

JOVEM ATRIZ
Entre frestas é que eu vejo a luz
O trem chegou pra me trazer “o que”?
Será que a vida por mim tão sonhada,
Ou será que nada vou merecer?

É num instante que o mundo se faz PRIMADONNA


Seja o que for, eu vou mais! Eu quero mais!

TODOS
Corre vida, corre trilho
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Cantos de Coxia e Ribalta

Corre vida, corre


Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre...

Corre vida, corre trilho


Corre vida, corre
Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre...

(Black-out.)

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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 2
(Um foco de luz, onde entra uma atriz como a Anunciadora da Estação de Trem.)

ATRIZ como ANUNCIADORA DA ESTAÇÃO DE TREM


Atenção, senhores passageiros: o próximo trem na plataforma 4 chega em 15 minutos. (Sai.
Luz se acende.)

POETA
Atenção, senhores passageiros... Atenção, senhoras e senhores! Damas e vagabundos!
Respeitável público! Pedimos a licença de interromper vossa viagem: eu poderia estar
roubando, eu poderia estar matando... Mas estou aqui, oferecendo um pouco de poesia.
Pois é isto que nós, artistas, fazemos: roubamos a sua apatia, matamos a sua mecanicidade.
Tiramos você de sua rotina ordinária, e apresentamos a você: o extraordinário! Nem que
seja por pouco tempo,enquanto você aguentar ficar sentado nessa poltrona. (Para o
Músico.) Música! (Músico começa a tocar.) Estamos reunidos hoje aqui para contar uma
história...

MÚSICO
Uma história inédita!

POETA
É, talvez ela não seja tão inédita assim... Afinal, dizem que todas as histórias são uma
repetição eterna da mesma velha história de sempre...

MÚSICO
Então vamos contar a mesma história de sempre?

POETA
Talvez, mas com um pouco de poesia... um pouco de magia... Do nosso jeito, com o nosso
canto!

MÚSICO
Perfeito!

POETA
Mas me diga, sobre o que será a história que vamos contar hoje?

MÚSICO
Ora! Vamos falar sobre Teatro!

POETA
Ah, não... Não, não, eu não suporto essas peças de teatro que resolvem colocar no palco o
próprio Teatro! Isso é muito chato! Além de ser narcisista e propor uma discussão que
interessa apenas para os próprios artistas...

MÚSICO
Mas não é para isso que fazemos Teatro?
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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA
Não! Nós fazemos Teatro para o público! (Pausa.) Nada mais justo do que ele então opinar
no que quer ver!

(NOTA DE DIREÇÃO: Vai até o público e improvisa com ele, perguntando sobre o que ele deseja que
seja a história que irão contar. Provavelmente, tudo o que ocorrerá na cabeça do público estará contido no
espetáculo. Pára quando alguém falar sobre o tema "amor".)

POETA
Hoje, nós contaremos uma história sobre tudo isso e mais um pouco! Contaremos sobre
paixões, amor, arte e sobre poesia!

MÚSICO
E sobre Teatro! Afinal, como é que podemos fazer Teatro sem falar do teatro?

POETA
É um bom questionamento.

É DO TEATRO QUE SE VIVE

MÚSICO
É... do...
teatro que se vive,
É uma vida de espelhos.
A arte imita a vida

POETA
O que é vida, senão arte?

MÚSICO
É cada um cumprindo o seu papel

POETA
A diferença é que nem todo ator é bacharel!

É do teatro que se vive


E eu não largo nem por um decreto

MÚSICO
Seria como uma andorinha no inverno,

POETA
A santidade no inferno

MÚSICO
e uma história sem amor.

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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA
Rapaz, olha só que coisa!

MÚSICO
O que?

POETA
O que nós vamos contar aqui é justamente uma história de amor!

MÚSICO
Ah, que coincidência!

POETA
É do teatro que se vive

DONO DA CIA.
E o que é o amor senão teatro?
Encenação por um punhado de afeto

POETA
Eu não concordo!

DONO DA CIA.
Eu sou esperto, dê um pouco de atenção

Por toda vida eu vida eu vi acenos e gracinhas,


Vi meninos e meninas se mostrando nessa luz.
Eu vi inveja, vi ciúmes, vi promessas, vi falácias e conversas
Pra viver “o tal” amor.

POETA
De que adianta ver a cena toda pronta,
Só talento e muita pompa,
Se não há o que dizer?
Eu não importo se soar idealista,
Mas eu acho uma conquista
Crer no amor sem esquecer

POETA & MÚSICO DONO DA CIA.


Que é do teatro que se vive, Que amor o que?
É uma vida de espelhos. É só teatro caricato, é só teatro canastrão.
A arte imita a vida É só teatro sem vergonha, é só teatro pastelão.
O que é vida, senão arte? Não tem sentido essa romantização,
É cada um cumprindo o seu papel Não tem sentido essa romantização.
A diferença é que nem todo ator é bacharel

CORO
É do teatro que se vive,
É uma vida de espelhos.
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Cantos de Coxia e Ribalta

A arte imita a vida


O que é vida, senão arte?
É cada um cumprindo o seu papel
A diferença é que nem todo ator é bacharel!

Que é do teatro que se vive,


É uma vida de espelhos.
A arte imita a vida
O que é vida, senão arte?
É cada um cumprindo o seu papel
A diferença é que nem todo ator é bacharel!

(Trecho de sapateado.)

CORO
É... do... teatro que se vive
É uma vida de espelhos.
A arte imita a vida
O que é vida

CORO 1
senão arte?

CORO 2
Senão arte?

CORO 3
Senão...

TODOS
Arte!

JOVEM ATRIZ
É cada um cumprindo o seu papel

CORO MASCULINO
A diferença é que nem todo

CORO FEMININO
A diferença é que nem todo

TODOS
A diferença é que nem todo
ator é bacharel!

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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 3
(Uma estação de trem. O Poeta e o Músico conversam ao fundo, sob uma luz obscura.
Entra uma das atrizes, enquanto o músico toca o violão, acende o mesmo foco enquanto o
Poeta e o Músico ficam na iluminação obscura.)

ATRIZ como ANUNCIADORA DA ESTAÇÃO DE TREM


Atenção, senhores passageiros: o próximo trem na plataforma 4 tem como destino... o
futuro!

(Apaga o foco, acende luz total.)

POETA
Eu estou escrevendo uma poesia nova! O que você acha dela? Você acha que vira música?

MÚSICO
O amor sempre vira música! Olhe aqui! (Começa a tocar. Entra um Menino de Rua, que os
interrompe.)

MENINO DE RUA (falando pausadamente como um texto decorado)


Bom-dia-pessoal! Eu-estou-aqui-...-para-pedir-ajuda-...-para-minha-mãe-...-que-está-doente-
...-e-para-minha-irmã-...-que-não-pode-andar! Eu-preciso-muito-da-colaboração-dos-
senhores-com-uma-moeda...

POETA
Espera! Qual é o seu nome?

MENINO DE RUA
(Fala algo incompreensível), tio, me dá uma moeda?

POETA
Uma moeda?

MENINO DE RUA
É! Pode ser nota, moeda, qualquer coisa para me ajudar.

POETA
Deixe-me ver... (vasculha os bolsos da calça e depois do colete, e encontra uma moeda).
Aqui está! Uma única moeda. É tudo o que eu tenho. (Segura a moeda consigo.) Mas
espere... Você gosta de poesia? (Olha para o Músico e depois para o Menino.) Você sabe
ler? (Entrega o papel para o Menino.)

MENINO DE RUA (pega o papel)


(Com dificuldades para ler) "Olhe... para... o 'se-o'... Veja a imam... imen..."

POETA
Você não sabe ler muito bem, não é?

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Cantos de Coxia e Ribalta

MENINO DE RUA
Sei não, senhor.

POETA
Olha... eu escrevo poesias. Eu vou te dar essa moeda em troca do seu tempo.

MENINO DE RUA
Do meu tempo?

POETA
Sim, e da sua sensibilidade!

MENINO DE RUA
Ih, 'cêis são esquisito, hein!

POETA
Calma... é só você ouvir o que eu vou contar e me dizer o que acha, certo?

MENINO DE RUA
Só ouvir?

POETA
Sim!

MENINO DE RUA
Então está bem!

POETA
"Olhe para o céu
Veja a imensidão
Somos tão pequenos,
Somos frágeis,
Somos grão e pó..."
(Espera por alguma reação.) É isso, acabou! Eu parei neste verso. (Pausa.) E então, você
gostou?

MENINO DE RUA (preocupado com a moeda)


É...

POETA
O que você entendeu?

MENINO DE RUA
(Pausa.) É... eu acho que fala da gente, que está aqui na cidade. A gente olha para o céu,
para o alto, e as coisas são tão grandes, e a gente é assim, pequenininho, né...? Que
ninguém olha pra gente...

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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA
Você entendeu a poesia. (Entrega a moeda para ele.) Mas também quero te dar isso... (Dá o
papel para o Menino.) São os versos que eu escrevi, eu já sei de cor. E eu quero lhe pedir
uma coisa: eu acabei de lhe dar a minha última moeda, como um gesto de boa ação. E
assim como fiz, quero que você entregue pra alguém esta poesia... passe adiante. E quando
fizer isso, peça para que essa pessoa faça o mesmo!

MENINO DE RUA
Ih, mais esquisitice...

POETA
É como se fosse um presente! Igual a minha moeda... e você vai entregar para alguém que
achar que precisa. Tudo bem? Temos um acordo?

MENINO DE RUA
Tudo bem, tio! Valeu aí, hein! 'Cêis são legal! Valeu hein, tio! (Sai. Músico ri.)

MÚSICO
Então agora você vai sair por aí distribuindo poesia?

POETA
E não é isso o que nós artistas fazemos? Quem sabe assim, minha poesia não chega em
mais ouvidos?

(Vão saindo. Iluminação volta a ser obscura, apenas um foco sobre a Anunciadora da
Estação de Trem.)

ATRIZ (como ANUNCIADORA DA ESTAÇÃO DE TREM)


Senhores passageiros, o trem na plataforma 4 está partindo agora. Não perca sua viagem!
Você poderá embarcar em histórias que jamais imaginou... Quem sabe quais destinos foram
selados por ela? (Sai.)

(Sob a iluminação obscura, todos passam e caminham, dando uma ideia de movimento.)

CORRE-TRILHO - VINHETA 1
TODOS
Corre vida, corre trilho
Corre vida, corre
Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre, corre

Corre vida, corre trilho


Corre vida, corre
Corre trilho, corre
Corre vida-trilho
Trilho corre, corre
Vida corre, corre...
--
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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 4
(Nos bastidores do Teatro. A Primadonna e o Dono da Cia. vêm discutindo de fora de
cena.)

PRIMADONNA
Isso é um absurdo! Um absurdo! Eu falei para você que nós não precisávamos de uma
nova atriz; e o que você faz? Coloca um aviso de "precisa-se de artistas" bem na marquise
do Teatro!

DONO DA CIA.
Nós precisamos de sangue novo na Companhia!

PRIMADONNA
"Nós" precisamos? "Você" precisa!

DONO DA CIA.
Você sabe muito bem que a nossa nova peça precisa de uma atriz...

PRIMADONNA (interrompendo)
Nós já temos uma atriz! A principal atriz dessa companhia! (Pausa.) E além do mais, nós
temos aquelas duas meninas abestalhadas do Coro.

DONO DA CIA.
Nós não precisamos de Coro. Precisamos de alguém que seja boa. Pense nisso: alguém tão
boa que possa contracenar com você no mesmo nível, você não iria querer isso?

PRIMADONNA
Eu não preciso de ninguém "contracenando" comigo, eu posso muito bem fazer meu
trabalho sozinha, obrigada.

DONO DA CIA.
Você sabe que estamos mal de público! Gente nova talvez possa atrair mais atenção!

PRIMADONNA
E você vai fazer o quê, colocar uma menina nova de pernas abertas no palco para chamar
público?

DONO DA CIA.
Se preciso... (pausa) sim. Mas a verdade é que precisamos de mais uma atriz, você não pode
fazer todas as personagens da peça! E além do mais, precisamos de alguém mais jovem, e
não estou dizendo que você está velha! Estou dizendo que você pode pensar um pouco
mais no bem da companhia!

PRIMADONNA
Estou pensando no bem da Companhia! Com que dinheiro vamos pagar uma nova atriz?
Você sabe muito bem como está nossa situação financeira...

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Cantos de Coxia e Ribalta

DONO DA CIA.
Alguém que traga ares novos pode mudar essa situação, atrair público! Pense nisso: você
poderia até ensinar essa nova atriz...

(Primadonna gargalha. Dono da Cia. também, e logo estão todos em uma gargalhada
histérica e coletiva. Poeta entra correndo, e em seguida vão entrando o Músico e o Coro.)

POETA
Pessoal! Pessoal! (Pausa.) Tudo bem por aqui?

PRIMADONNA
Ah, tudo ótimo! Como sempre, maravilhoso!

POETA
Eu imagino que temos boas notícias! (Para o Dono da Cia.) Me diz que temos! Eu vi que
você tirou o cartaz dizendo "Precisa-se de artistas" da marquise do Teatro. Isso só pode
significar que você já encontrou alguém para a peça nova! (Pausa.) E aí, você encontrou
alguém?

PRIMADONNA
Conta para ele! Nós temos alguém?

DONO DA CIA.
Ela virá fazer um teste.

PRIMADONNA
Eu não posso acreditar nisso!

POETA
Não se preocupe, eu estou escrevendo um papel excelente para você!

PRIMADONNA
Ah, mas não se trata de mim, imagina! O que eu estou dizendo é que não precisamos de
uma nova atriz...

(Entra o Jovem Ator correndo.)

JOVEM ATOR
Pessoal! Acabei de pegar esta carta na nossa caixa de correio. (Pausa.) É um aviso de
despejo. Está dizendo que estamos devendo seis meses de aluguel, e que se não pagarmos
em breve, seremos despejados.

(Pausa entre todos, olham para o Dono da Cia. e a Primadonna.)

MÚSICO
Lembra que uns empresários tentaram comprar o Teatro algumas vezes, tentaram nos
convencer a aceitar um dinheiro para darmos o fora? Eles querem derrubar o nosso Teatro
pra construir um prédio comercial ou algo assim. Na certa, eles estão pressionando os
locadores!
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PÁGINA 15
Cantos de Coxia e Ribalta

(Burburinho.)

POETA
Espera! Estamos devendo seis meses de aluguel! Por que não sabíamos disso?

(Pausa.)

DONO DA CIA.
A Companhia está falida. A verdade é esta. Estamos falidos.

PRIMADONNA
Nós não estamos falidos. Não é verdade... nós já conversamos sobre isso...

DONO DA CIA.
É verdade sim! E vocês sabem muito bem da situação. Faz meses que não conseguimos
pagar ninguém aqui! (Discussão com Primadonna.) Nós não temos mais dinheiro. Nem
para pagar nem o aluguel.

PRIMADONNA
Então faremos uma nova peça! Uma peça diferente!

DONO DA CIA.
Mas com que dinheiro, mulher? (Nova discussão de todos, burburinho.)

POETA
Espera! É isso, a nossa Primadonna tem razão! A nova peça, que estou escrevendo: se
estivermos todos juntos, eu tenho certeza que ela vai ser um sucesso! E vamos conseguir
não só o dinheiro do aluguel, mas lançar nossa Companhia de volta aos tempos áureos!

(Burburinho com desconfiança.)

POETA
Sabe o que está faltando para a gente? Lembrarmos que somos uma Companhia de Teatro!
Que estamos juntos nessa! Que estamos todos aqui em favor da Arte! Sabe o que falta?
Acreditar isso! Está faltando magia! Está faltando ritmo!

(Um músico começa com uma percussão.)

POETA (aponta para o músico)


Estão vendo! É disso que estou falando! Está faltando alma para contarmos esta história!

MÚSICO
Está faltando uma música nova!

(Alguém entra tocando uma pandeirola.)

PRIMADONNA
Tudo bem, e o que esta sua "grande história" vai contar?
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Cantos de Coxia e Ribalta

(Corre até o baú ao fundo, e tira de lá alguns objetos.)

POETA (enquanto começa a pintar o rosto de branco, lembrando levemente um palhaço.)


Nós vamos contar a história de um artista... de um Poeta! Que em uma noite de luar, está
procurando inspiração para escrever uma grande poesia!

PRIMADONNA (irônica, pára a música)


Poesia...?

POETA
Todo o mundo tem direito à sua poesia!

(Música retona.)

MENINO, POETA, VOCÊ

POETA
Eu vejo alguém que vai além do que eu sonho
Eu vejo além do que alguém já pôde ver
Eu quero alguém que me desperte certo sono
Eu sou menino, sou poeta, sou você

Eu só não rezo se não vejo mais saída


Tô sem comida, sem bebida e sem amor
Se não tô fácil, não é falta de dormida
Eu sou carícia, sou afeto, sou rancor

Toda criança tem direito à sua roda


Toda ciranda tem direito ao seu anel
Que tu me deste, era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou

Toda morena tem direito a seu xaxado


Se é brasileira, tem direito a seu baião
Toda menina que enjoa da boneca
É sinal de que o amor já chegou no coração

Eu vejo alguém que vai além do que eu sonho


Eu vejo além do que alguém já pôde ver
Eu quero alguém que me desperte certo sono
Eu sou menino, sou poeta, sou você

PRIMADONNA
Tudo bem, mas e então? Para onde a história vai?

POETA
E então... o Poeta encontra alguém... (corre até o baú, tira uma saia de dentro dele.) Ele
encontra uma Cigana! (Entrega a saia para uma das atrizes do Coro, que a veste.)
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PÁGINA 17
Cantos de Coxia e Ribalta

ATRIZ como CIGANA


Por uma moeda, eu vou ler a sua sorte! (Poeta estende a mão para ela.) Vejo que você está
buscando por respostas... Você possui uma grande missão: a missão do amor!

PRIMADONNA (irônica)
"Missão do amor"? Nossa! Os textos estão ficando cada vez melhores!

POETA
E então, naquele momento, a Cigana entrega para o Poeta um presente.

ATRIZ como CIGANA


Aqui está! Leve com você este frasco.

POETA
Então o Poeta pergunta: "mas o que contém este frasco?". E a Cigana lhe responde...

POETA e ATRIZ como CIGANA (juntos)


Este frasco contém a felicidade.

ATRIZ como CIGANA


Ele lhe ajudará a escrever a grande poesia de sua vida; mas para isto, você deverá passá-lo
adiante...

POETA e ATRIZ como CIGANA (juntos)


Afinal, ninguém pode possuir a felicidade.

ATRIZ como CIGANA


A felicidade é um presente e deve ser passado adiante.

POETA como POETA


Mas quando? Como vou saber quando devo passar este frasco?

ATRIZ como CIGANA


Quando o conteúdo dele já tiver te preenchido. (Pausa.) Não se preocupe. Você saberá
quando.

PRIMADONNA
Bem... é uma nova ideia...

DONO DA CIA.
A premissa é boa!

POETA
A minha prece é pra aquele que não sabe
Que liberdade nu'é escolha do patrão
Estive preso muito tempo, é verdade
Mas hoje a dor é só pretexto pra canção
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PÁGINA 18
Cantos de Coxia e Ribalta

Toda formiga segue sempre a sua rota


Todo caminho segue sempre o seu padrão
De grão em grão é que a galinha enche o papo
Se a pressa inimiga, dê adeus à perfeição

Toda floresta sempre tem os seus mistérios


O anoitecer cumpre sempre o seu papel
Se a vara é curta não cutuque que sou onça
Sou a erva venenosa, sou a cobra cascavel

Eu vejo alguém que vai além do que eu sonho


Eu vejo além do que alguém já pôde ver
Eu quero alguém que me desperte certo sono
Não sou menino nem poeta, sou você!

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PÁGINA 19
Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 5
(Nos bastidores do Teatro. A trupe já está ensaiando uma das cenas da peça. Um mercado
aberto popular, as pessoas circulam dando a ideia de movimentação.)

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Panos, panos de todos os tipos! Coloridos! Panos para vestidos, para casacos, couro!
Panos, todos os tipos de panos! (Para alguém que passa.) Panos, senhora?

POETA como POETA (entra)


Olá! Boa tarde, meu jovem!

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Boa tarde, senhor.

POETA como POETA


Que belos panos que você tem aqui, não?

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Os mais belos de todo o mercado! Procura por algo específico?

POETA como POETA


Eu quero o mais belo pano que você tiver, e que minha poesia puder pagar!

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Eu não entendi.

POETA como POETA


Estou procurando um tecido bonito para que eu possa costurar a capa para o livro que
estou escrevendo! Um livro de poesias!

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Poesias?! Então você é um poeta?

POETA como POETA


Estou em busca da poesia da minha vida! Aquela que será capaz de capturar um momento
em palavras, aquela que de tão simples poderá conter nela um Universo inteiro! Bom, pelo
menos, estou tentando.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Neste caso eu tenho exatamente o que o senhor precisa! (Pega um pano.) Este é couro! E é
legítimo! Couro tingido; o mais belo couro para o mais belo livro.

POETA como POETA


Bem, rapaz... posso imaginar quanto custa isso, e deve estar bem além do que posso pagar.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


São apenas 20 moedas de prata!
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PÁGINA 20
Cantos de Coxia e Ribalta

POETA como POETA


Como eu disse... muito além do que eu posso pagar!

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Sabia que eu sempre quis ser Poeta? Ou um grande escritor! Deixar minhas obras no
mundo... É como um grande músico: ele não morre. Apenas vira música. Quem sabe um
dia eu não possa virar poesia!

POETA como POETA


Ora, rapaz... Quem diria! Um jovem mercador que também é um poeta.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Não, senhor, não sou poeta. Comecei a escrever alguns versos, mas minhas palavras são
rudes... lhes faltam beleza.

POETA como POETA


Rapaz, é tudo uma questão de encontrar sobre o que deseja escrever! (Pausa.) Espera... E se
eu lhe ajudasse?

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Me ajudar?

POETA como POETA


Sim, com sua poesia. Se eu lhe ajudasse, tentasse lhe guiar com os seus versos... e em troca,
você me daria o couro para que eu confeccionasse a capa do meu livro.

JOVEM ATOR como JOVEM APRENDIZ DE MERCADOR


Você diz, como aulas?

POETA como POETA


Sim, aulas! Eu vou ser como seu Mestre. Lhe ajudarei a encontrar a inspiração que você
tanto deseja!

JOVEM ATOR como JOVEM APRENDIZ DE MERCADOR


Eu gostaria muito!

POETA como POETA


Então temos um acordo! (Apertam as mãos. Entrega o pano.) Amanhã, na primeira hora
da manhã, antes que o mercado seja tomado pelo turbilhão diário, estarei aqui, para ler os
seus versos.

PRIMADONNA (interrompendo)
Esperem! Eu não estou entendendo nada! Este texto parece muito confuso, cheio de "bla-
bla-blás"! Não entendo para onde esta história está indo! Afinal de contas, não iríamos
contar uma história sobre felicidade?

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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA
Se você esperar um pouco o desenvolvimento do argumento, eu garanto que você vai
entender para onde a peça está indo.

DONO DA CIA.
Olha, eu devo concordar que não estou entendendo o porquê de falarmos tanto de poesia.
Talvez devamos incluir alguma coisa sobre amor, sobre romance, e todas essas baboseiras
que o público adora assistir!

(Começa uma discussão. Entra a Jovem Atriz, interrompendo.)

JOVEM ATRIZ
Com licença! (Faz-se silêncio.) Eu iria perguntar se eu vim ao lugar certo, mas não preciso
mais! (Entusiasma-se.) Ver vocês todos assim, tão... tão bonitos! Com certeza, estou no
lugar certo!

PRIMADONNA
E você, quem é?

JOVEM ATRIZ
Eu respondi ao anúncio... para atrizes! E eu vim para o teste.

PRIMADONNA (para o Dono da Cia.)


Ah, mas ela veio para o teste!

JOVEM ATRIZ
É aqui o teste, não?!

PRIMADONNA (para o Dono da Cia.)


Diga para ela se é aqui o teste!

POETA
Olha, não liga para eles, não! É aqui mesmo o teste, seja bem-vinda! Eu sou o Poeta da
Companhia!

MÚSICO
E eu sou o Músico!

(Jovem Ator pára por um momento, fitando-a.)

JOVEM ATRIZ
E você, quem é?

DONO DA CIA. (interrompendo)


Mas veja, como ela é bonita! Mais bonita do que eu pensei! Tem uma cara boa!
(Primadonna está olhando irritada.) Não?!

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Cantos de Coxia e Ribalta

PRIMADONNA
Bonita, sim. Bonita até demais! Jovem demais. Não parece saber o que está fazendo e
tampouco saber alguma coisa de Arte.

JOVEM ATRIZ
Mas eu sei! Eu sei sim, eu ensaiei o texto que me mandaram para o teste...

PRIMADONNA
Aaaaah, você ensaiou o texto, que gracinha!

DONO DA CIA.
Já chega! (Pausa.) Ela veio aqui para fazer o teste, mais nada.

JOVEM ATRIZ
Acho que é hora de mostrar o que eu sei.

DONO DA CIA.
Acho que é hora d'ela mostrar o que sabe...

PRIMADONNA
Ah, você vai mostrar... que ótimo! Muito bem, então vamos ver o teste! Mas quem vai
aplicá-lo sou eu!

DONO DA CIA.
Não será necessário isso...

PRIMADONNA
Imagina, eu faço questão!

DONO DA CIA.
Mas...

PRIMADONNA
(Num grito) Eu vou! (Pausa.) Vamos, todos vocês, liberem o palco pois vou precisar dele.
Músico, querido! Traga aqui as partituras da música que estávamos ensaiando na semana
passada. Quero ouvir como é essa sua voz.

JOVEM ATRIZ
Mas e o texto que estudei para o teste...?

PRIMADONNA
Meu bem, quem é vivo faz ao vivo. Não me importa o texto que você estudou, porque
quem sabe, sabe. Se você sabe, prove. (Entrega a partitura à ela.) Vamos, estão esperando o
quê? (Para a Trupe, que começa a tocar uma batucada.) Eis como este teste irá funcionar:
eu canto primeiro, e você repete. É tudo muito simples. (Limpa a garganta.)

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Cantos de Coxia e Ribalta

CANTO À MÃE D'ÁGUA

PRIMADONNA
Canta o que te move
Canta o canto sonhador
Canta a alegria, canta o choro, canta a dor
Canta o que já foi e o que vem lá
E lá vem canto que alimenta
Qualquer tipo de cantar

JOVEM ATRIZ
Canta o que te move
Canta o canto sonhador
Canta a alegria, canta o choro, canta a dor
Canta o que já foi e o que vem lá
E lá vem canto que alimenta
Qualquer tipo de cantar

PRIMADONNA
Iara, mãe d’água, foi quem me ensinou
Que o anzol fisga o peixe
E o canto o pescador

JOVEM ATRIZ
Iara, mãe d’água, foi quem me ensinou
Que o anzol fisga o peixe
E o canto o pescador

PRIMADONNA
Muito bem! Vamos elevar o nível dessa música, e agora que você aprendeu a melodia e está
na moda esse negócio de ator-criador, vamos tentar um improviso com a letra da música.

Canta o que te falta

JOVEM ATRIZ
Canta o que te faz cantar

PRIMADONNA
Canta um pedido para alguém: “que não se vá!”

JOVEM ATRIZ
Canta o amor, canta para os seus

PRIMADONNA
Pra todos que você amou
E ainda não se esqueceu

JOVEM ATRIZ
Canta sem motivo
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Cantos de Coxia e Ribalta

PRIMADONNA
Canta para impressionar

JOVEM ATRIZ
Canta pintassilgo, rouxinol e sabiá

PRIMADONNA
Canta porque quer, canta pra você

JOVEM ATRIZ
O canto é feito uma oração
que ajuda a gente a viver

PRIMADONNA & JOVEM ATRIZ


Iara, mãe d’água, foi quem me ensinou
Que o anzol fisga o peixe
E o canto o pescador

PRIMADONNA, JOVEM ATRIZ & CORO


Iara, mãe d’água, foi quem me ensinou
Que o anzol fisga o peixe
E o canto o pescador

(Travam uma batalha vocal, utilizando potência e melisma, com a palavra 'Iara', até o final
da música.)

PRIMADONNA
(Longa pausa após o término da música.) "Canta pintassilgo, rouxinol e sabiá"?

DONO DA CIA.
Mas muito bem, menina! Você é perfeita!

JOVEM ATRIZ
Sou?

POETA
Ela é, não é?

MÚSICO
Eu nunca ouvi uma voz tão doce!

JOVEM ATOR (como enfeitiçado)


Nem eu.

PRIMADONNA
Vocês parecem um bando de urubus em cima da carniça!

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Cantos de Coxia e Ribalta

DONO DA CIA.
Carniça? Essa menina é filé mignon de primeira! (Para a Primadonna.) Pode ser a nossa
chance de transformar esse teatro em uma mina de ouro!

PRIMADONNA (para a Jovem Atriz)


Bom, garota... você é boa. Isso eu admito. Boa como há muito tempo eu não via aparecer
por estas bandas.

JOVEM ATRIZ
Obrigada.

PRIMADONNA
Mas... você é jovem demais, bonita demais... e sonhadora demais para o nosso espetáculo.

JOVEM ATRIZ (provocadora)


Então quer dizer que o meu problema é ser jovem e bonita?

PRIMADONNA
Você é ousada, garota.

DONO DA CIA.
Eu diria que isso é uma vantagem!

PRIMADONNA
Você não tem capacidade para ser Artista. E sabe o porquê? Porque para isso, são
necessárias algumas feridas, e você é boneca demais para ter cicatrizes.

JOVEM ATRIZ
Eu garanto que estou disposta a aprender.

PRIMADONNA
Existem algumas coisas que não se ensinam, meu bem... (Inicia uma discussão.)

DONO DA CIA. (interrompendo)


Já chega, já chega! Nós estamos no meio dos nossos ensaios, com um prazo apertadíssimo
para a estreia! (Para a Primadonna.) Nós precisamos dela!

JOVEM ATRIZ
Eu prometo que vou me esforçar bastante!

DONO DA CIA (para Primadonna)


Ela promete que vai se esforçar bastante!

PRIMADONNA
Isso é o mínimo que esperamos de você.

DONO DA CIA (para Jovem Atriz)


É o mínimo que esperamos de você!

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Cantos de Coxia e Ribalta

PRIMADONNA
Já chega! Você está dispensada, garota. Esteja aqui amanhã, na primeira hora do dia.

GAROTA DO CORO
Ela passou?

DONO DA CIA
Ela passou? (Olha para a Primadonna). Ela passou!

(Trupe comemora. Todos abraçam a Jovem Atriz, exceto o Jovem Ator, que a fita.)

POETA
Olha, eu preciso lhe dizer: isto é o maior elogio que você vai conseguir dela. Seja bem-
vinda! (A abraça.)

(Jovem Atriz vai saindo, sem antes trocar olhares com o Jovem Ator.)

JOVEM ATRIZ
Então, eu estarei aqui... na primeira hora do dia... sem atrasos, e aquecida! Iara...

PRIMADONNA
Mas que garotinha ousada! Vêm cá que eu posso te levar para conhecer a Iara
pessoalmente! (Começa a esbravejar.)

DONO DA CIA.
Respira! Você respira! (Pausa para respirar.) Você confiou em mim durante todo este
tempo em que estivemos à frente desta Companhia. Eu só peço que continue confiando.

PRIMADONNA
Muito bem. Mas escute muito bem o que eu estou dizendo... dizendo, não, profetizando:
esta garota vai fazer merda.

(Burburinho, todos saem. Luz muda, acompanhada por uma música de transição.)

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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 6
(Quando a luz se firma, o Poeta já está com um papel na mão, analisando a poesia do
Jovem Ator.)

POETA como POETA


Não, não, não, não! Não é assim que se escreve uma poesia!

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Mestre, eu não sei mais o que devo fazer! As minhas palavras são simples demais... Elas
não rimam, não dançam, nem cor sequer elas tem!

POETA como POETA


Isso porque elas são apenas palavras, que buscando serem belas, perdem todo o seu
verdadeiro significado!

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Eu não entendo...

POETA como POETA


Um grande poeta costumava dizer que a boa poesia deve ser escrita com a alma; e que as
grandes obras de arte nascem a partir de um desejo íntimo, de uma necessidade.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Mas Mestre, é sobre isso que eu escrevo! Sobre as flores, e as montanhas, e o céu no
horizonte... (é interrompido quando o Poeta rasga a poesia dele.)

POETA como POETA


E agora, o que você está sentindo?

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Eu sinto que jamais vou conseguir ser um poeta.

POETA como POETA


Pelo menos, agora você já está sentindo alguma coisa! Feche os olhos: se amanhã fosse o
seu último dia de vida, e você pudesse escrever uma única poesia para deixar no mundo,
sobre o que você escreveria? Sobre o que seria? Sobre quem seria? O que você eternizaria?

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


(Pausa.) Uma garota...

POETA como POETA


Qual garota?

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


A garota mais bela que eu já vi em toda a minha vida...

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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA como POETA


Descreva essa garota...

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Ela tem uma pele tão clara que parece mármore branco... e tem os contornos do rosto de
uma cor vermelha... E os olhos escuros, negros, penetrantes e perdidos... E ela cantava uma
canção...

JOVEM ATRIZ (de fora de cena)


Corre vida, corre trilho...

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


... e era a voz mais doce e mais profunda que eu já ouvi!

POETA como POETA


Parece que encontramos sua necessidade. (Pausa.) Onde está essa garota? Ela existe?

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Eu a vi passar uma vez... e desde então, é nela em quem eu penso... e tudo o que eu quero é
encontrá-la... desde que eu a vi, eu só durmo para sonhar com ela. Mas eu nunca mais a vi...

POETA (para o público)


E então, neste momento da peça, o Jovem Mercador pega um violão e começa a dedilhar e
a cantarolar sobre aquela moça que ele viu passar...

CANÇÃO PRA NAMORADA (CONVITE)

JOVEM ATOR
Digo oi pra você, como pode prever,
Este é um convite
Pode à porta adentrar
E fazer do meu lar brincadeira de pique.
Digo oi pra você, não demore pra ver
Que te quero em meus dias
Que o teu acordar seja enfim o ninar
Da minha melancolia.

A menina que me deu amor


Que me deu o sol
Que me deu a paz
Que abriu meu céu
Não deixo nunca mais
Pois dela eu sou
E minha sei que é
Lindinha, minha flor.
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Cantos de Coxia e Ribalta

Digo oi pra você, apesar de querer


Só dizer-te bom dia
Mas eu sei, vai chegar
Quando me bastará
Só cantar de alegria

POETA como POETA


Isso sim é uma verdadeira poesia... (Pausa.) Com exceção desse trecho, "lindinha, minha
flor", eu acho que isso podemos melhorar! (Ambos riem.) Eu conheço alguém que poderia
ajudá-lo a encontrar essa moça que você procura. Se a voz dela é tão doce e inesquecível
como você disse, eu posso lhe ajudar.

(Se abraçam e saem.)

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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 7
(O Bairro dos Boêmios.)

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO (dedilhando alguma coisa no violão)


O amor... quando penso em amor, eu imagino os acordes de uma harpa em uma catedral.
Um piano melancólico no centro de uma sala de estar. Talvez trompetes em um bar
enfumaçado de cigarro... Imagino uma orquestra, com um coro cantando em uníssono... e
de repente, uma única nota destoa para dar brilho à melodia. Até que venha a resposta de
uma outra nota que também destoe, mas que se encaixem perfeitamente, em perfeita
vibração, uma na outra. Uma música sem resolução... e é nessa falta de resolução que a
música vira amor! (Continua dedilhando.)

(Entram o Poeta e o Jovem Ator.)

POETA como POETA


Meu caro amigo! (Abraça o Músico.) Venho até você para lhe pedir ajuda; ajuda que só
você será capaz de dar!

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Sou todo ouvidos!

POETA como POETA


Este é o meu aprendiz! Ele está caminhando com suas primeiras palavras dentro da poesia!
E a musa inspiradora de sua obra existe, de fato! Ele a viu passar pela praça, mas não sabe
o nome dela... lembra apenas de sua doce voz, que é indescritível. Eu prometi a ele que
ajudaria a encontrá-la.

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Você é um rapaz de sorte! Eu conheço todas as mais belas vozes da cidade.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Então, você pode me ajudar a encontrá-la?

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Me diga como esta garota se parece!

(Jovem Ator hesita.)

POETA como POETA


Vamos, rapaz! Diga a ele o que você disse a mim!

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Ela... tinha a mais linda voz que eu já ouvi! E os mais lindos olhos também, e o seu
cabelo... era da cor do cobre. E ela estava vestida de vermelho... e cantava, e dançava, os
seus pés flutuavam sobre o chão!

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Cantos de Coxia e Ribalta

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Espera, rapaz... Você disse que ela estava vestida de vermelho?

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Sim! Estava belíssima... você conhece a minha dama?

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Veja bem... esta "dama" que você disse ter visto, talvez ela não seja exatamente a "dama
romântica" que inspira suas poesias.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


O que quer dizer?

POETA como POETA


Ele quer dizer que pode ajudar a encontrá-la! (Empurra o Jovem Ator.) Deixe-me tratar
com o meu amigo músico por um instante. (Volta-se para o Músico.)

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Uma dama de vermelho! Todos nós sabemos qual é o tipo de mulher que se veste de
vermelho em nossa cidade!

POETA como POETA


O rapaz é jovem! O que podemos fazer?

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Contar a verdade à ele?

POETA como POETA


E de que serve a verdade?! Um coração apaixonado não morre pela ilusão, mas pela
ausência dela. Já dizia a poetisa que as ilusões são para a alma o que a atmosfera é para a
Terra. Como podemos tirar a poesia de um jovem rapaz sonhador? A vida, por si só, é um
sonho. É o despertar que nos mata.

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Deixe então que ele busque sua dama de vermelho. E veja por si só sua ilusão ser desfeita.

POETA como POETA


Ou quem sabe ela possa ver nele a ilusão que espera, e os dois possam formar uma aliança
como a lua e o céu. (Volta-se para o público.) Neste momento, mesmo sabendo que o
Jovem Mercador pode estar indo de encontro à um triste e melancólico destino, o Poeta
assente o encontro. Pois naquele momento, ele está preenchido por completo pela
inspiração daquele jovem coração apaixonado (tira o frasco do bolso); e subitamente, se
lembra das palavras da Cigana...

ATRIZ como CIGANA


Este frasco lhe ajudará a escrever a grande poesia de sua vida; mas para isto, você deverá
passá-lo adiante, quando o conteúdo dele já tiver te preenchido. Não se preocupe. Você
saberá quando.

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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA como POETA (para o Jovem Ator)


Ei, rapaz! Eu já sei onde está a garota que você procura. Hoje, no cair da noite, eu me
encontrarei com você no mercado e levarei você até o Distrito Vermelho, onde está a sua
bela dama.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR (abraça o Poeta)


Muito obrigado! Eu agradeço muitíssimo.

POETA como POETA (para o Jovem Ator antes que possa sair)
Espere, rapaz! Eu tenho algo a lhe dar... um presente. Antes de encontrar você, eu ganhei
este frasco de uma Cigana. Ela me disse que ele me ajudaria com a minha poesia, mas que
eu deveria passá-lo adiante quando soubesse que a hora chegou. E ela chegou! Graças a
você, eu já sei como terminar a minha poesia.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Mas o que contém este frasco?

(Poeta e Cigana se olham. Mudança de luz.)

ATRIZ como CIGANA


Como podemos segurar aquele instante que sabemos que é a felicidade e tentar fazer ele
durar para sempre?

MÚSICO
Como podemos impedir os acordes do amor de se tornar uma sinfonia dentro de nossos
corações?

POETA
Como podemos impedir o amor de seguir seu curso? Em todas as grandes histórias de
amor, ele sempre superou todas as adversidades!

CIGANA
Julieta e Romeu!

MÚSICO
Isolda e Tristão!

POETA
Bentinho e Capitu!

MÚSICO
Dom Quixote e sua Dulcineia!

CIGANA
Joelma e Chimbinha! (Pausa. Fica sem graça e sai.

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PÁGINA 33
Cantos de Coxia e Ribalta

(Sai a Cigana, Poeta e Músico voltam para a cena.)

MÚSICO como MÚSICO BOÊMIO


Os sonhos deste jovem são inspiradores! Mesmo que o faça sofrer.

POETA como POETA


Do sofrimento nós fazemos boa poesia.

É DO TEATRO QUE SE VIVE (REPRISE)

POETA
É... no...
teatro que se vive o amor e seus acasos
A cena vira vida e a vida não passa de cena
O artista tenta sempre ser fiel
Só não percebe que se torna o seu próprio réu.

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PÁGINA 34
Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 8
(O Distrito Vermelho. A banda se caracteriza como Ciganos, enquanto os atores da trupe,
à luz aparente, montam o cenário dos panos que compõe o Distrito Vermelho. A banda
toca um arranjo cigano mambembe, enquanto as Prostitutas circulam. Elas tem
características de ciganas. Entram o Poeta e o Jovem Ator.)

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Que lugar é este?

POETA como POETA


Aqui é o Distrito Vermelho. Fique por aqui, eu vou tentar encontrar alguém que possa nos
ajudar a achar a sua... "dama". Mas talvez você deva se preparar, pois ela pode não ser
exatamente o que você procura. (Dá uma moeda ao Jovem Ator.) E fique com essa moeda,
você vai precisar. (Sai. Entra o Cafetão cantarolando.)

DONO DA CIA. como CAFETÃO


Boa noite! Sejam bem-vindos ao Distrito Vermelho, onde todas as suas fantasias podem ser
realidade; pelo preço certo, é claro. E aqui, nós temos tudo o que o seu desejo possa
querer... Nós temos a sujinha. Temos a estrangeira. Temos a virgem, a sadomasoquista.
Temos a experiente! E para quem tem um gosto alternativo, temos ele! Pode fazer a sua
escolha... mas não esqueça que cada uma das suas fantasias tem um preço! Molhem nossa
mão que molharemos as suas calças! Dancem!

(Dançam.)

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Boa noite!

DONO DA CIA. como CAFETÃO (olhando-o de cima a baixo)


Boa noite! (Pausa.) Você não parece o tipo que frequenta o nosso humilde Distrito.

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Na verdade, é a primeira vez que venho aqui...

DONO DA CIA. como CAFETÃO (passando as mãos nele)


Primeira vez, que delícia...

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Eu estou aqui procurando uma garota!

DONO DA CIA. como CAFETÃO


Nós temos várias! Mas pelo seu rostinho, eu poderia dizer que você prefere um garoto...

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Eu não estou procurando uma garota qualquer! Estou procurando uma garota especial!

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PÁGINA 35
Cantos de Coxia e Ribalta

DONO DA CIA. como CAFETÃO


Então você veio ao lugar certo! Aqui todas as garotas são especiais!

(Jovem Atriz como Prostituta tira o véu do rosto.)

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Ali! Ali está ela! É ela quem eu procuro.

(O Cafetão vai até a Prostituta vivida pela Jovem Atriz. A empurra até o Jovem Ator.)

DONO DA CIA. como CAFETÃO


Ô, menina! Tem alguém que quer te conhecer! Ele é bonito, jovem... Portanto, coloque um
sorriso no seu rosto, e faça por merecer.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


E então... você tem dinheiro? (Pausa.) Rapaz, estou falando com você!

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


É você... é você quem eu estive procurando durante toda a minha vida.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Que bom para você. E o dinheiro?

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Dinheiro? (Entrega a moeda para ela, confuso.)

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Bem... isso é muito pouco para a noite toda. Vai ter que ser rápido.

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Eu... não preciso da noite toda. Eu sou um jovem poeta! Estive procurando por você, eu...
eu escrevi uma poesia! Se você pudesse ouvi-la...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA (gargalha)


Poesia? Você está me pagando para ouvir poesia? Que tipo de mulher que você pensa que
eu sou?

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Não me entenda mal, eu... estive procurando por você. Procurando pelo amor...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Meu caro... muitos homens me procuram buscando o amor. Todos eles... encontram.

OFÍCIO DA NOITE

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Rapaz!
Ou como você mesmo disse, "jovem poeta"...
Você não é o primeiro
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PÁGINA 36
Cantos de Coxia e Ribalta

A procurar pela noite a mulher que te faz prisioneiro.


Jamais, jamais
Darei meu amor como oferta
Há um preço e se ele for caro,
A porta está aberta.

É isso: o meu tempo é apertado,


e à medida que for pago
ele pode aumentar.
A noite pra você dura uma lua,
mas pra mim, se estou na rua,
dura sete sem parar.

Me faço de menina, jovenzinha, boazinha, como quer.


Se o desejo te domina,
abaixa a calça, passa a grana,
eu sou mulher.
Mulher...
Mulher!

(Música pausa. Canto em crescendo.)

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Dança quem puder, tenta se encaixar
O mundo é das mais fortes
que aparentam a fraqueza!
Dança pra quem vê, para quem passar
Seu corpo é uma vitrine,
não se faça de princesa! CORO FEMININO (contraponto suave)
Dança, finja bem! Dança sem chorar Dança!
Não perca o seu tempo, Dança sem chorar
dê o bote, vá depressa!
Dança até cair, até desmaiar Dança!
Seu sangue vale ouro, Até desmaiar
aproveite a recompensa!

(Dançam.)

CORO FEMININO 1 CORO FEMININO 2 (contraponto forte)


Dança quem puder, tenta se encaixar Dança!
O mundo é das mais fortes Tenta se encaixar
que aparentam a fraqueza! que aparentam a fraqueza!
Dança pra quem vê, para quem passar Dança!
Seu corpo é uma vitrine, Para quem passar
não se faça de princesa! Não se faça de princesa!
Dança, finja bem! Dança sem chorar Dança!
Não perca o seu tempo, Dança sem chorar
dê o bote, vá depressa! dê o bote, vá depressa!

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PÁGINA 37
Cantos de Coxia e Ribalta

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA e CORO FEMININO


Dança até cair, até desmaiar
Seu sangue vale ouro,
aproveite a recompensa!

Dança até cair, até desmaiar


Seu sangue vale ouro,
aproveite a recompensa!

Dança até cair, até desmaiar


Seu sangue vale ouro,
aproveite a recompensa!
(Gargalhada.)

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Seu tempo acabou.

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Espere... eu tenho algo a lhe mostrar!

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Rapaz, eu não tenho tempo a perder!

CANÇÃO PRA NAMORADA (REPRISE)

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Digo oi pra você, como pode prever,

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR e POETA como POETA


Este é um convite

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Pode à porta adentrar
E fazer do meu lar

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR e POETA como POETA


Brincadeira de pique.
Digo oi pra você, não demore pra ver
Que te quero em meus dias
Que o teu acordar seja enfim o ninar
Da minha melancolia.

(Trecho instrumental.)

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Digo oi pra você, apesar de querer
Só dizer-te bom dia
--
Este texto é de propriedade intelectual da Cia. de Teatro Lusco-Fusco e seu conteúdo não pode ser divulgado,
parcialmente ou integralmente, sem autorização. Apenas para fins de estudo e ensaio.

PÁGINA 38
Cantos de Coxia e Ribalta

Mas eu sei, vai chegar


Quando me bastará
Só cantar de alegria

(Pausa. Risinhos abafados entre as Prostitutas.)

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


O que é isso? (Pausa.) Por que você fez isso?

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


A música... é para você.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Eu não estou aqui para isso! E não sou quem você pensa. (Olha para as outras prostitutas.)
Tem mais alguma coisa que eu possa fazer por você? Se não, você já pode ir embora.

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Eu estou apaixonado por você.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Você está louco! Eu sou paga para amar os homens, e só dura enquanto o dinheiro durar!
O que você está achando que sente é uma ilusão! O amor não existe.
JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR
E ainda assim, eu amo você, desde a primeira vez que a vi, cantando na praça! Apesar das
guerras, do sangue derramado, do desejo confundido, amar você é a ilusão mais real que eu
jamais vivi, e é mais forte do que a própria realidade.

(Um apito.)

ATRIZ como UMA DAS PROSTITUTAS


A Polícia!

(Tumulto, todos correm, o Poeta e o Músico saem de cena. A Jovem Atriz puxa o Jovem
Ator para um canto, onde se escondem. A Polícia surge, enquanto o Jovem Ator e a Jovem
Atriz estão escondidos em um canto do palco. A Polícia arrasta uma das prostitutas pelo
cabelo e sai.)

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


(Desconfortável com a proximidade.) Acho que já podemos sair. (Saem.) O que foi isso?

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Esse lugar não é para você. Eles vêm e destroem tudo aqui...

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Por que?

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA

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PÁGINA 39
Cantos de Coxia e Ribalta

Porque nós somos o que somos. (Pausa.) Você precisa ir embora, aqui não é seguro para
você.

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Mas quando nos veremos de novo?

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Nós não nos veremos de novo!

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Mas...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA (interrompendo)


Olha, rapaz, eu já disse! Eu não sou quem você pensa!

JOVEM ATOR como APRENDIZ DE MERCADOR


Eu vi o jeito que você ouviu minha poesia. E eu sei que ela não é em vão. Por favor.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Uma noite. É tudo o que vou lhe dar. Mas aqui não! Eu encontro com você amanhã de
noite, na praça onde você me viu pela primeira vez.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Então você lembra?

(Jovem Ator sorri e sai.)

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO


O que é que você está fazendo? Arrastando esse pobre garoto pro seu mundo...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Eu falei isso só para ele ir embora. E além do mais, isso não é da sua conta!

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO


Você tem razão... Foi só um aviso. Eu já vi isso acontecer antes, e acaba mal. (Pausa.)
Então, você vai simplesmente deixar ele esperando você? Você sabe que ele vai voltar.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Ele é jovem. Ele vai me esquecer se eu não aparecer, e encontrar outra garota. Como nós,
existem muitas por aí...

(Miss Coração-Quebrado sai.)

OFÍCIO DA NOITE - REPRISE

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Não sei se o que me falta é um reparo,
Mas confesso, eu declaro que isso pode me abalar.
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Cantos de Coxia e Ribalta

A noite, que por hora me desnuda,


Se apresenta como chuva para me acariciar.

Será a minha sina


Ser levada pela oferta de um qualquer?
Haverá outra saída?

CORO FEMININO
Uh, uh, uh...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA (dançando)


Dança quem puder, tenta se encaixar.

CORO FEMININO
Uh, uh, uh...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA (dançando)


Dança pra quem vê, para quem passar

CORO FEMININO
Uh, uh, uh...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA (dançando)


Dança, finja bem, dança sem chorar

CORO FEMININO
Uh, uh, uh...

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA (dançando)


Dança até cair, até desmaiar...

CORO FEMININO
Uh, uh, uh...

HOMENS
Dança...
tenta se encaixar.
Dança...
para quem passar.
Dança...
Dança sem chorar.
Dança...
até desmaiar.
Ah, ah, ah...
(Black-out.)

FIM do PRIMEIRO ATO.


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SEGUNDO ATO
Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 9
(Antes mesmo de terminar o intervalo entre o primeiro e o segundo ato, surge uma figura
caracterizada, tipificada e engraçada, uma Faxineira, varrendo o salão. As cortinas estão
fechadas, e ela espana os panos da cortina. Ela acha estranho o sinal de retorno do segundo
ato, e quando as cortinas se abrem, ela vai varrer o palco. Início do Segundo Ato. A luz
acentua a volta do espetáculo. A Faxineira encara o público.)

FAXINEIRA
É teatro, é?! 'Tarra passano teatro aqui? Ôxi, cêis sabe que eu gosto muito de teatro, sempre
gostei dessas coisa. Quando eu era cabrita ainda, eu dizia pra papai que eu queria ser artista.
Mar'daí papai deu-me um tapa nas venta e disse: "filha minha num vai ser artista não, que
isso é coisa de puta e de viado! Filha minha vai ser direita!". E daí eu tirei essas ideia
desmiolada das cabeça. E resolvi faxiná... né. Pelo menos, eu ganho mais! (Diverte-se.
Pausa. Tira um radinho do bolso.) Ói, cêis num se incomode não, que eu prefiro fazê o
sirviço ouvindo uma musiquinha. Tudo bem? Tudo bem, que eu vou ouvir de qualquer
jeito. (Começa a tocar uma música ritmada em forró) Daqui a pouco o teatro já vai volta,
viu. Num se aperreie não. É que agora os ator tão tudo lá dentro, tomando um cafezinho,
fumando uns... Ma'falo nada não. Enquanto eles tão lá dentro, eu aproveito pra dar um
ajeito nessas coisa... Porque olhe, eu digo pra vocês: ator é um bicho porco! Deixa tudo
jogado, esparramado, essas fantasia que eles usa então, quando eu tenho que lavá... É um
futum da moléstia, uma caatinga que Deu'melivre, num sei como guenta. (Pausa.) Ôxi, cêis
tão me olhando assim c'umas cara de besta! Mas cêis sabe que eu tô até que gostando de
ficá aqui em cima... Debaixo dos holofóte... Se papai me visse aqui, me 'rebentava!
(Diverte-se.) Ma'ói, já que eu tô aqui em cima, eu vou é apruveitá! Vou cantá pr'ocêis... Mas
vou cantar umas música mais animada, porque ói... eu gosto muito de teatro, mas esse aí
que eles tão fazendo é de uma tristeza, de uma lentidão, dá até uma gastura... (Aponta.) Ói
lá! Tem gente durmindo no meio da apresentação. Que coisa... Mais ói só vocês, eu vô
cunta umas coisa pr'ocêis. (Para a banda.) Música!

MÚSICA DE TRANSIÇÃO DE CENA

FAXINEIRA
É todo dia, toda hora, quando eu vejo um esfregão
Me dá'um desejo, uma vontade de cantar
Olho pro povo no escurinho, assistindo a encenação,
Pego esse ensejo e começo a interpretar

Essa é uma música de transição de cena


E eu tô aqui pra módi a gente prosear
É que os artista tão lá atrás trocando as roupa
E é preciso qu'algum trouxa fique aqui pra enrolar

(Vai até o baú e tira de lá uma caveira.)

FAXINEIRA
"Ser ou não ser? Eis a questão". (Diverte-se.) Ôxi, eu nunca intindi direito essas coisa
esquisita que se faz em teatro. Mas tem uma cena aqui ói, que eu sei fazê direitinho. (Faz
uma sátira da Primadonna fazendo escândalo.)
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PÁGINA 43
Cantos de Coxia e Ribalta

Fico pensando, maquinando, eu sozinha e os meus botão,


Enquanto limpo, boto tudo pra brilhar
Que é muito estranho, esquisito, dá até preocupação
Esses menino que trabáia sem ganhar.

Essa é uma música de transição de cena


E eu tô aqui pra módi a gente reclamar
Esse povinho de teatro é tudo fresco
Mais ensaia que apresenta,
E eu só chego pra arrasar.

(Canta e dança uma paródia de "Ofício da Noite". Um produtor entra e interrompe.)

PRODUTOR
Oi! Cinco minutos, hein! (Sai.)

FAXINEIRA
Ôxi, que eu já tô indo... (Pausa.) Querido! (Pausa.) Amado!

Impressionante é que essa gente de teatro musical


É só sorriso, simpatia pra danar.
Na sua frente é um carinho, num se iluda pessoal,
Tu vira as costa e já tem um pra detonar.

Essa é uma música de transição de cena


E essas parede tem história pra contar
O que num dá de pilantragem, picuinha, bafafá
E outras coisa'que é mió deixar pra lá...

(Faxineira enlouquece e começa a rodar com a vassoura.)

Essa é uma música de transição de cena


E Deus me livre que eu não gosto de agourar
É que se o grupo não tiver uns patrocínio
Nem o dinheiro pra faxina eles vão ter pra pagar, ai!

Essa é uma música de transição de cena


Aquieta, gente, eu tô aqui é pra ajudar
É claro que se a peça fosse melhorzinha
Com umas música pra cima era mais fácil de estrear.

Lara, lara, lara, lara, lara, lara-ra


Lara, lara, lara, lara, lara, lara...

(Ergue a vassoura parodiando um musical famoso. Agradece ao público e sai.)

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PÁGINA 44
Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 10
(Música grandiosa, os atores se posicionam em cena. O Poeta toma a frente.)

POETA
E assim se inicia o segundo ato de nosso espetáculo! Até então, o Jovem Mercador marcou
um encontro com a Cortesã...

PRIMADONNA
Prostituta!

POETA
E ela resolveu que iria ao encontro, mesmo lutando contra os próprios sentimentos.

PRIMADONNA (bufando)
Uh...

(Entra a Faxineira e entrega uma carta ao Dono da Cia.)

POETA
O Jovem espera sua amada em cima de uma ponte, enquanto, no céu, as estrelas observam.
(Se acende uma cortina de pequenas luzes ao fundo.) E a lua brilha alta e majestosa no
firmamento! (O Poeta puxa uma corda que leva uma esfera prateada até o topo do cenário;
que é iluminada como a lua.) E é nesse momento, com o clima do amor pairando sobre
eles, que ela chega...

SOB A LUZ DA LUA

POETA
Sob a luz da lua
Sinto que ela vem
Pra levar pra outro lugar
A canção além

Vejo ao longe a sombra


Seu perfume está
Confundido com o das flores,
Esse é o meu ar.

Ela vem chegando como deusa


Ele espera como à realeza
Nem uma palavra é dita,
Nem um gesto ele faz,
Nem um riso frouxo a toma,
Nem sorrir ele é capaz.
Os dois parados se olham
Os dois como na primeira vez
O tempo parece que pára

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Cantos de Coxia e Ribalta

POETA, JOVEM ATRIZ e JOVEM ATOR


O tempo...

POETA
E então, nesse momento, os dois se olham profundamente... E é mais que um simples
olhar: é um olhar profundo, de encontro de almas, de reconhecimento. E então, eles se
beijam. (O Jovem Ator e a Jovem Atriz beijam-se, completamente tomados pela atmosfera
e misturando e confundindo seus sentimentos com os de seus personagens.)

Sob a luz da lua


Algo vai mudar
Dois caminhos se entrelaçam
Um mais um... um par.

Todo o resto some


Ele, ela e só
Nada importa,
Não existe,
Tudo é menor.

Sob a luz da lua vemos o casal


Estes refletores são nosso canal
Isso é teatro, isso é real.
Não perca a cena,
Não perca o final.

DONO DA CIA.
Bravo! Bravíssimo! É isso o que o público quer: emoção, romance, chorar, todas essas
baboseiras que trazem muito dinheiro!

PRIMADONNA
Sim, sim, é realmente uma música tocante... Mas gostaria de saber quando é que a minha
personagem entra!

POETA
Em breve, em breve... Prosseguindo com a história: o Jovem Mercador diz para a sua
amada:

POETA & JOVEM ATOR como JOVEMMERCADOR


Recebi este presente, que hoje eu te repasso.

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Essa garrafa contém a felicidade; e agora, ela é tua.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


A felicidade?

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Cantos de Coxia e Ribalta

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Sim! Mas não existe felicidade que se contenha em um vidrinho como esse, quando você
está em minha frente.

(Ela pega o presente. Os dois se beijam.)

JOVEM ATOR como JOVEM MERCADOR


Eu te amo! (Continua a beijá-la.)

POETA
Mas então, ela, ao ouvir a declaração de amor que nunca ouvira em toda a sua vida...

PRIMADONNA
Espera aí! Ela é uma Prostituta e nunca ouviu um "eu te amo"?! Pelo amor de Deus, os
homens dizem "eu te amo" nos braços de prostitutas a todo o momento, muito mais do
que dizem nos braços das esposas!

POETA
Então, eu reformulo: ao ouvir uma declaração de amor tão verdadeira, como nunca havia
ouvido antes... melhor?!

PRIMADONNA
Que seja...

POETA
Então ela pára por um momento, assustada... congelada. Como se o que ele lhe oferecesse
fosse demais para ela.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Eu... eu preciso ir!

POETA
E ela foge dali, deixando o Jovem sob a luz da lua e sob os olhos atentos das estrelas... e
resolve voltar para o Distrito Vermelho, onde ela se sente estranhamente segura... E é
então que a sua personagem (para a Primadonna) terá sua grande cena! Acabo de escrever,
aqui está o texto. Você fará a grandiosa Miss Coração-Quebrado! Uma prostituta velha e
decadente, que no passado foi a grande cortesã de seus tempos, abandonada por um grande
amor!

POLICIAL (entra em cena de forma caricata)


E então, Miss Coração-Quebrado! Não é só o seu coração que ficará quebrado!

POETA
Neste momento, chega de volta a jovem Cortesã, encontrando todo o local destruído... e
aquela senhora caída no chão.

PRIMADONNA

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parcialmente ou integralmente, sem autorização. Apenas para fins de estudo e ensaio.

PÁGINA 47
Cantos de Coxia e Ribalta

Senhora?!

POETA
Por favor, o texto!

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO (espia o texto e faz de forma


caricata)
'Oh, oh, que dor...'

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


O que aconteceu? A senhora está bem?! Deixe-me ajudá-la.

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO (ainda de forma caricata)


Não, não! Não preciso que ninguém me ajude. (Levanta-se de forma graciosa, quase nu
movimento de dança, o que não condiz com a personagem.) Só gostaria de lhe dizer,
menina... (vai até a Jovem Atriz e se posiciona na frente dela, cobrindo-lhe) Só gostaria de
lhe dizer, menina... (esquece o texto)

CORISTA (soprando o texto)


Que o amor...

PRIMADONNA
Que o amor!

CORISTA (soprando o texto)


Nada mais é...

PRIMADONNA
Nada mais é!

CORISTA (soprando o texto)


Que uma utopia!

POETA
Esta cena não é para ser feita assim!

PRIMADONNA
Ah, não?! Então como?

POETA
É para ser triste, dramática.

PRIMADONNA
Bom, é difícil fazer uma cena dramática com um texto desses!

POETA
Esta personagem é uma velha! Triste, abandonada pela vida, ela deveria estar muito mais...

PRIMADONNA

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parcialmente ou integralmente, sem autorização. Apenas para fins de estudo e ensaio.

PÁGINA 48
Cantos de Coxia e Ribalta

Velha?! Você está dizendo que eu sou velha? Olha, com licença, mas eu já aguentei demais
por aqui! Estou esperando faz dias para poder passar o meu solo e minha grande cena
dramática, e você me entrega um texto como esse? Você tem ideia de com quem está
falando? Eu sou a principal atriz desta companhia, há décadas; e você vêm me dizer que
estou velha!

JOVEM ATRIZ
Eu acho que ele quer dizer é que a personagem é um pouco menos pomposa. (Silêncio
entre todos. Dono da Cia. deixa escapar um suspiro.)

PRIMADONNA
Ah, você acha, querida? Que eu saiba, uma atriz inexperiente como você não deveria "achar
nada". Ou você quer me ensinar a fazer o meu trabalho?

JOVEM ATRIZ
Desculpe, eu não tive intenção...

PRIMADONNA
Não teve intenção? É por isso que eu não tenho paciência para quem está começando...

(Começa uma discussão, que cresce até envolver a todos. O Dono da Cia. encerra a
discussão com um grito.)

DONO DA CIA.
Parou! Já deu! (Pausa.) Pelo amor de Deus! Será que não podemos ter um ensaio
produtivo? Aqui está! (Tira uma carta do bolso.) Eu estive escondendo isso, mas é o único
jeito de fazer com que vocês compreendam a gravidade da situação! Nós recebemos uma
data de despejo: daqui duas semanas. Nós temos uma semana para estrear esta peça, fazer
sucesso, e quitar nossas dívidas, ou daqui duas semanas, estaremos no olho da rua. (Pausa,
breve silêncio.) Vocês não entendem? Ou essa peça estreia e nos dá lucro... ou será o fim
da nossa Companhia.

POETA
Ele tem razão. Este é o momento de permanecermos juntos! Estamos quase acabando a
peça!

PRIMADONNA
Eu estou sendo mal-aproveitada! (Para o Dono da Cia.) Você, mais do que ninguém, sabe o
que eu posso fazer em cima de um palco.

JOVEM ATRIZ
Eu tenho algo a dizer! (Silêncio novamente. Dono da Cia. bufa e choraminga.) Existe um
motivo pelo qual eu procurei esta Companhia, pelo qual eu fiz meu teste e pelo qual eu
queria muito estar aqui. (Para a Primadonna.) Eu já assisti você. Mais de uma vez. Na
verdade, eu até perdi as contas de quantas vezes eu viajei para ver você encenando. Eu
olhei para você, no palco, e desejei ser um décimo do que você é. Eu devo dizer que,
depois que eu a conheci, de fato... Você não é exatamente o que pensei. Você pode ser
dura, arrogante às vezes. Mas você sabe fazer Arte como nunca vi ninguém fazer. A única
razão para eu ter vindo para esta Companhia foi porque eu admiro tanto você que esperava
que eu pudesse aprender algo. E embora eu sinta que talvez eu não devesse dizer tudo isso,

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PÁGINA 49
Cantos de Coxia e Ribalta

eu ainda estou dizendo, porque foi aqui que eu aprendi o significado de estarmos juntos! E
eu sei que podemos estrear e fazer essa peça ser um sucesso...

(Silêncio.)

PRIMADONNA
Muito bem... uma semana para a estreia. Vamos ensaiar! (Luz acentua a cena, retomam suas
posições.)

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Por favor, deixe-me ajudá-la.

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO


Não! Não preciso que ninguém me ajude. (Levanta-se com dificuldade.)

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


O que aconteceu aqui?

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO


O que sempre acontece, menina... Enquanto você estava com o seu príncipe encantado,
vieram nos lembrar qual é o nosso lugar. (Pausa.) O que foi, menina?! Vai mentir que não
foi encontrar o rapaz da outra noite? As notícias circulam, todas nós já estamos sabendo, e
em breve, o Cafetão ficará sabendo também. Então, escute um conselho, que eu lhe dou de
graça: pare com isso. Mande esse rapaz embora e lembre-se de quem você é!

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Ele me ama! (Primadonna gargalha.) Ele me ama, e eu posso fugir com ele, se eu quiser!

PRIMADONNA
Escute bem, minha criança: o amor é uma utopia. Mais cedo ou mais tarde, ele vai se
cansar e vai embora. Porque, no final das contas, nós sempre seremos o que somos, e ele
sempre vai ser o que é: um homem, buscando domar coisas que ele não pode domar. Ele
se cansará!

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Alguém machucou você... Alguém machucou você tão fundo que você se esqueceu de
quem você é! (Corre para ela.) Você não é isso! Nós não somos isso! (Pausa.) Vamos
embora. Vamos provar para nós mesmas que nós podemos.

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO


Olhe para mim: não existe "segunda chance" para mim. Você ainda é jovem... mas o
destino já escolheu o meu fim. Mas vá, menina... Vá, e escute uma coisa: o amor vai te
machucar.

JOVEM ATRIZ como PROSTITUTA


Eu descobri que não sei muito sobre o amor... mas não diz o Poeta que ele só é bom se
doer?

PRIMADONNA como MISS CORAÇÃO-QUEBRADO

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Cantos de Coxia e Ribalta

Você diz isso, minha criança, pois está na nossa natureza: nós gostamos de sofrer. E quer
saber o porquê? Porque o sofrimento nada mais é que uma poesia. (Pausa.) Vá! Vá, me
deixe em paz, anda!

(Sai Jovem Atriz.)

POETA
Senhoras e senhores, Miss Coração-Quebrado canta uma canção de abandono.

O LAMENTO DA PRIMADONNA

PRIMADONNA
Tento não pensar, já é tão tarde pra sonhar
Os dias são crueis, eu já sabia
que cada por do sol é uma agonia,
que o tempo é amigo só de quem bem quer.

Eu não devia esperar


que um braço estendido me ajudasse,
que o beijo que eu lhe dei hoje voltasse,
que o final da história não fosse o meu fim.

Tento não pensar, já é tão tarde pra sonhar.


Os dias são crueis, eu já sabia,
pros homens sou apenas "a vadia",
e pro resto eu nem existo, eu sou ninguém.

Eu não devia me mostrar


pronta pra ser maltratada,
pronta pra levar porrada,
pronta pra não ser amada, pronta...
Pra viver só.
Pra ver...

Que já passou, morreu, murchou, danou, perdeu.


Sobrou, mudou, se transformou, se foi, e eu?
Fiquei jogada aqui, largada sem país.
Virei um nada, nada, nada, nada, nada, nada

Que já passou, morreu, murchou, danou, perdeu.


Sobrou, mudou, se transformou, se foi, e eu?
Fiquei jogada aqui, largada sem país.
Virei um nada, nada, nada, nada, nada, nada

Nada!
A sobra, o bagaço, eu sou erva-daninha, a piada do palhaço
Fui posta na esquina mas não ganho um trocado
Escória, a putinha sem dinheiro pro cigarro
"Coitada, olha a velha, tá mofando a solidão!

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PÁGINA 51
Cantos de Coxia e Ribalta

Passou a vida toda procurando explicação!


Ah, não! não merece nem um gesto de afeição!
Devia estar morta no inferno, em redenção!
Coitada, a putinha sem dinheiro pra afeição!
A velha, erva-daninha, na esquina, solidão!
Devia estar morta no inferno, em redenção!"

Que já passou, morreu, murchou, danou, perdeu.


Sobrou, mudou, se transformou, se foi, e eu?
Fiquei jogada aqui, largada sem país.
Virei um nada, nada, nada, nada, nada, nada
Nada...

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PÁGINA 52
Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 11
(Jovem Ator está sentado bem para frente do palco. A iluminação é azul e bem fraca, pois é
noite. O Jovem Ator veste roupas largadas, a camisa semi-aberta, e lê um livro, com um
lampião iluminando-o. A ideia é dar um caráter de tensão erótica. Ao fundo, entra a Jovem
Atriz devagar, caminhando e observando-o. Ela veste roupas de dormir brancas
esvoaçantes, sensuais. Enquanto caminha pra ele, ela canta.)

COMO SE EU JÁ FOSSE TUA

JOVEM ATRIZ
Me toma pela mão
E anda por aí
Me leva como se eu já fosse tua
Não sei falar, nem respirar,
Não sei quem sou

Não lembro da minha casa, dos meus pais,


Das notícias nos jornais, nem do ano que eu nasci.
Só lembro que a noite quando é fria
Não me deixa ser menina
Escurece sem perdão.

(Música prossegue numa improvisação de piano. O diálogo todo a seguir tem um caráter de
tensão e nervosismo entre os dois.)

JOVEM ATOR
Que lindo.

JOVEM ATRIZ
Eu estava ensaiando. É um trecho da peça. (Pausa.) De teatro.

JOVEM ATOR
Eu sei. São palavras lindas. (Pausa.) Eu estava lendo.

JOVEM ATRIZ
Desculpe se eu te atrapalhei. Se você quiser, eu posso ir embora.

JOVEM ATOR
Não! Eu quero que você fique.

(Jovem Atriz senta-se.)

JOVEM ATRIZ
Passa essa cena comigo?

JOVEM ATOR (relutante.)


Claro...

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PÁGINA 53
Cantos de Coxia e Ribalta

JOVEM ATRIZ
Aqui no roteiro diz que eles estão sozinhos... (Aproxima-se dele.) E diz que um se
aproxima do outro... (Pausa.) Posso tentar uma coisa? (Beija o Jovem Ator. Pausa. Se afasta
e ri.)

JOVEM ATOR
O que foi?

JOVEM ATRIZ
Eu sou tímida... (Pausa.) Acho que minha presença te deixa desconfortável... Se você
quiser, eu posso ir embora.

JOVEM ATOR
Não... não é nada disso... É que... (Pausa.) Fica.

JOVEM ATRIZ (se coloca na frente dele)


Passa essa cena comigo...

Me toma pela mão


E anda por aí
Me leva como se eu já fosse tua
Não sei falar, nem respirar,
Não sei quem sou

JOVEM ATOR
Eu devo ter vivido lá atrás
Onde não havia paz
Não falavam sobre o amor

JOVEM ATRIZ
Me sinto entre a jaula e o bicho
Vou gostando do perigo
E temendo a proteção

JOVEM ATRIZ & JOVEM ATOR


Me toma pela mão
E anda por aí
Me leva como se eu já fosse tua / teu
Não sei falar, nem respirar
Não sei quem sou

JOVEM ATOR
Eu posso te mostrar como é estar
Afogado no seu mar, envolvido em seu calor.
Seu corpo sobre o meu;

JOVEM ATRIZ
... e o seu rosto
Vai roçando meu pescoço
Me arrepia...

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parcialmente ou integralmente, sem autorização. Apenas para fins de estudo e ensaio.

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Cantos de Coxia e Ribalta

JOVEM ATOR
... me aquece.

(Penumbra. Foco no pianista. Conseguimos distinguir, na penumbra, a silhueta da Jovem


Atriz tirando a camisa do Jovem Ator e ele tirando a camisola dela. Fim da música, black-
out.)

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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 12
(Luz da manhã, entram o Poeta, o Músico, o Dono da Cia., a Primadonna e o coro
conversando sobre os ensaios.)

MÚSICO
Eu gostei muito do que fizemos ontem no ensaio, achei muito produtivo.

DONO DA CIA.
Realmente, a nossa nova atriz é um sucesso! (Primadonna olha feio.) É claro que sem você,
minha querida, não teríamos podido apreciar tanta beleza.

POETA
O seu solo realmente foi muito bonito!

PRIMADONNA
Eu sei! (Para uma garota do coro.) Querida, uma água para mim? (Rola um jogo de olhares
do Poeta com a garota do coro, que sai para buscar água.)

DONO DA CIA.
Eu sinto que nossa Companhia estará de volta ao topo!

(Entra o Jovem Ator, sonolento e com roupas de dormir.)

PRIMADONNA
Mas o que é que é isso? Este Teatro está virando um albergue?!

(Jovem Ator percebe suas roupas e fica tímido.)

POETA
Rapaz, rapaz, estávamos procurando por você!

DONO DA CIA.
Sim, sim! Nós vamos ensaiar novamente a cena de ontem, para fazermos alguns pequenos
ajustes. Vá se arrumar, rapaz!

PRIMADONNA (para o Jovem Ator)


E onde é que está a novata?

JOVEM ATOR (com vergonha)


E porque eu deveria saber?

PRIMADONNA
Ora, querido... Eu já tive sua idade.

DONO DA CIA.
Sim, há muito tempo atrás!

PRIMADONNA
O que?!
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Cantos de Coxia e Ribalta

DONO DA CIA.
Não, nada! Já faz muito tempo que estamos enrolando aqui para começarmos nosso
ensaio! Rapaz, onde está a menina?

JOVEM ATOR
Eu não sei onde ela está... Eu acordei e ela não estava mais comigo. (Reação das pessoas.)
Não, esperem! Nós estávamos ensaiando uma cena! E acabamos adormecendo! Mas
estávamos apenas ensaiando...

DONO DA CIA.
Olha, rapaz... as explicações estão piorando tudo, vá procurá-la, vá, vá! Precisamos dela
para começarmos o ensaio!

PRIMADONNA
Tenho que dizer que me preocupa um pouco o final da peça. Queridos, Músico, Poeta:
vocês já terminaram?

MÚSICO
Ainda não...

POETA
Sim, mas estamos construindo o final!

PRIMADONNA
Construindo?!

POETA
Sim... eu ainda estou com uma dúvida de como esta história deve terminar... eu acho que
ela merece um final grandioso!

PRIMADONNA
Bem, "grandioso" ou não, lembre-se que temos uma semana para estrear esta peça...

DONO DA CIA. (tentando ser simpático)


Ou teremos que ser "grandiosos" debaixo da ponte?

POETA
Não se preocupem!

ATRIZ DO CORO (entrando com uma garrafa de água e um papel na mão)


Aqui está sua água, madame.

PRIMADONNA (pega a água)


Nem abriu?!

ATRIZ DO CORO
Acabaram de entregar esta carta. É dos donos do teatro. Eu não tive coragem de abrir.
(Pausa.)

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Cantos de Coxia e Ribalta

PRIMADONNA
Menina sonsa, me dá isso aqui! (Pega a carta e abre.)

MÚSICO
O que diz?

(Pausa.)

DONO DA CIA.
E então...? (Pega a carta e lê. Pausa.) Eles anteciparam o prazo de despejo. Nós temos três
dias para sair daqui.

POETA
Mas como?! Eles não podem...?!

DONO DA CIA.
Sim, podem, é uma ordem judicial. (Joga o papel no chão.)

JOVEM ATOR (pega a carta do chão)


Mas... e agora?!

(Acorde, todos olham para o Dono da Cia. Música dramática, um foco de luz sobre o
Dono da Cia., todo o resto escurecido.)

FORA DO CICLO

DONO DA CIA
Fora do ciclo
Distante de encontrar respostas simples pro que eu perguntei
Enxergar qual a saída para o que eu não sei
Clarear...

Dentro do risco,
Algemado à histórias que eu ainda não deixei pra trás
Amarrado como um barco sem sair do cais
Eu perdi!

Cada luta que eu tentei ganhar


Todo dia dentro preso, condenado a esse lugar
Mas pra quê? Se quanto mais arrisco
Mais parece que eu perco.
Mas pra quê? Se quanto mais arrisco
Mais parece que eu perco.

Perto do abismo,
Me iludindo em inventar o meu caminho e minhas próprias leis
Receber por tudo aquilo que eu me doei
Me f...

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Cantos de Coxia e Ribalta

Aos montes chegam contas a pagar


E não tem um desgraçado aqui disposto a ajudar
Acabou e aquele belo sonho não passou de desperdício!
Acabou e todos meus sonhos se tornaram desperdício!

(Coreografia caótica, em uma espécie de pesadelo, onde o Coro dança e representa uma
canção no estilo Broadway.)

CORO
Fora do ciclo
Distante de encontrar respostas simples pro que eu perguntei
Enxergar qual a saída para o que eu não sei
Lá-la-lá!

Cada luta que eu tenta ganhar


Todo dia dentro preso, condenado a esse lugar
Mas pra quê? Se quanto mais arrisca
Mais parece que se perde...
Mas pra quê? Se quanto mais arrisco
Mais parece que se perde...

(Música vai diminuindo e coreografia também. O Dono da Cia é abandonado.)

DONO DA CIA.
Mas pra quê? Se quanto mais arrisco
Mais parece que eu perco.
Mas pra quê? Se quanto mais arrisco
Mais parece que eu perco.

(Música diminuindo.)

Acabou e aquele belo sonho não passou de desperdício...


Acabou e todos meus sonhos se tornaram desperdício.

(Blackout. Ao fundo, é possível ouvir as pessoas chamando pelo Dono da Cia. Volta a luz.)

PRIMADONNA
Querido! Estamos falando com você! O que é que há?!

DONO DA CIA.
Acabou! Tudo acabou. Estamos acabados.

POETA
Não, não estamos! Nós ainda temos a peça! Ela já está praticamente pronta!

DONO DA CIA.
Você não ouviu? Nós temos três dias para sair daqui!

PRIMADONNA
Então nós iremos estrear amanhã!

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Cantos de Coxia e Ribalta

MÚSICO
Amanhã?

PRIMADONNA
A peça está pronta!

POETA
Falta a última cena...

PRIMADONNA
Que você vai terminar hoje! Nós podemos muito bem estrear amanhã. Tudo o que
precisamos é de casa cheia na nossa estreia. Nós vamos abrir mão dos nossos cachês, e
com o dinheiro, podemos acertar esses meses de aluguel atrasados. E depois, faremos uma
temporada de sucesso! Nós não estamos acabados!

POETA
É... é isso mesmo! A poesia vai vencer no final!

PRIMADONNA
Muito bem! Você (para alguém), vá colocar na porta do teatro um aviso de que amanhã,
teremos uma grande estreia de um espetáculo inédito! Vocês, queridos (para o Músico e o
Poeta), vão terminar de escrever esta peça, vamos, vamos! (Para o Dono da Cia) Querido?
(Não responde, Primadonna vira-se para os outros.) E vocês? Não tem trabalho para
terminar? Pois então arrumem! Vão dar os últimos toques nos cenários, nos figurinos que
faltam, temos uma estreia amanhã! Vamos, vamos, circulando!

(Todos saem, Primadonna fica sozinha com o Dono da Cia. Senta-se ao lado dele.)

PRIMADONNA
Nós vamos estrear. Nós vamos conseguir. Este é o nosso lugar. Ninguém vai tira-lo de nós.
(Pega na mão dele.) Estivemos sempre juntos, à frente desta Companhia. Você sabe tudo o
que passamos e você sempre confiou em mim durante todo este tempo. Continue
confiando. Não desista agora. (Pausa.) Hãn? (Fazendo graça.) Hãn? Hãn?

(Levantam-se e dão as duas mãos.)

DONO DA CIA.
Está certo... Nós ficamos tantos anos lutando para continuarmos de pé! E aqui estamos! É
só mais uma crise, não é?

PRIMADONNA
Claro que sim!

DONO DA CIA.
Você tem razão!

PRIMADONNA
É claro que eu tenho razão! Eu sempre tenho razão!

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Cantos de Coxia e Ribalta

BEM NA HORA

PRIMADONNA
Bem na hora que o salto quebra,
A janela emperra,
A maçaneta sai na mão.
Bem na hora que o carro morre,
O cachorro foge,
Desafina o violão.

DONO DA CIA.
Bem na hora que o tempo fecha,
O guarda-chuva quebra,
Não tem espaço no busão,
Bem na hora que a meia fura,
A vista fica escura
E não tem grana nem pro pão.

Não,

PRIMADONNA
Não!

DONO DA CIA. & PRIMADONNA


Não é a primeira não
Não é a primeira vez
Não é a primeira não

DONO DA CIA.
Não,

PRIMADONNA
Não!

DONO DA CIA. & PRIMADONNA


Não é a primeira não
Não é a primeira vez
Não é a primeira...

PRIMADONNA
Bem na hora que a marmita esfria,
A sombra não alivia,
E descompassa o coração,
Bem na hora que unha lasca,
O para-brisa embaça
E a quina encontra o meu dedão.

DONO DA CIA.
Bem na hora que a crise chega,
A conta tá vermelha

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PÁGINA 61
Cantos de Coxia e Ribalta

E eu não encontro solução,

PRIMADONNA
Bem na hora que a cachaça acaba,
A pomba passa e caga,
Vida sem explicação.

DONO DA CIA.
É na hora que você me pega
Fala besteira à beça,
Enche o meu peito de emoção,
Ai é bonito que você resiste,
Resiste e insiste
Me deixa até sem opção.

Não,

PRIMADONNA
Não!

DONO DA CIA. & PRIMADONNA


Não é a primeira não
Não é a primeira vez
Não é a primeira não

DONO DA CIA.
Não,

PRIMADONNA
Não!

DONO DA CIA. & PRIMADONNA


Não é a primeira não
Não é a primeira vez
Não é a primeira não

(Divertem-se e improvisam na música.)

DONO DA CIA.
Eu só espero que seja a última! (Pose final.)

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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 13
(O quarto da Jovem Atriz. Ela entra já vestida com roupas de dia e com uma carta em
mãos, lendo. Parece animada e ansiosa. Fecha a carta com pressa e vai até uma mala de
viagem em um canto do palco, e começa a arrumá-la. Entra o Jovem Ator.)

JOVEM ATOR
Ei... onde você estava? O pessoal está todo te procurando. Vai começar o ensaio. Eu
acordei e você não estava mais lá. (Aproxima-se dela e tenta beijá-la. Ela resiste por um
instante.) O que está havendo? (Percebe a mala.) O que é isso?

JOVEM ATRIZ
Eu recebi uma carta, hoje de manhã... (Mostra carta para ele.) É uma oportunidade... para
fazer um filme no cinema. Eu fiz um teste faz algum tempo, antes de entrar para a
Companhia, e... O fato é que eu nem me lembrava mais disso, mas hoje de manhã, chegou
esta carta. As filmagens começam em uma semana, então eu preciso viajar agora mesmo. É
a minha oportunidade. Eu esperei por isso a minha vida toda.

JOVEM ATOR
Mas... mas e a companhia? E o espetáculo...?

JOVEM ATRIZ
Vocês não precisam de mim!

JOVEM ATOR
Precisamos sim! Eu preciso! A peça vai estrear amanhã!

JOVEM ATRIZ
O que?

JOVEM ATOR
Nós temos que sair em três dias, então anteciparam a peça para amanhã. Todos estão
contando com você!

JOVEM ATRIZ
(Pausa.) Eu não posso... eu não posso perder esta oportunidade! É o tipo de coisa que
acontece uma vez só na vida!

JOVEM ATOR
E a gente? Este também é o tipo de coisa que acontece uma vez só na vida!

JOVEM ATRIZ
Espera, do que você está falando?!

JOVEM ATOR
Do que acontece... entre nós.

JOVEM ATRIZ
Você está confuso. Eu não sou o que você pensa. Para de me tratar desse jeito.

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PÁGINA 63
Cantos de Coxia e Ribalta

JOVEM ATOR
Eu estou apaixonado por você. (Pausa.) Eu te amo!

JOVEM ATRIZ
Não, você não ama...

JOVEM ATOR
Então você vai determinar o que eu sinto também?

JOVEM ATRIZ
Você não ama! Você não está apaixonado por mim. Você está apaixonado por uma ideia de
quem eu sou. E eu não sou essa pessoa. (Pega a mala para ir embora.)

JOVEM ATOR
Então, você vai embora? Vai fugir, na surdina?

JOVEM ATRIZ
Você achou o que? Que eu iria ficar aqui para sempre?

JOVEM ATOR (agarra a Jovem Atriz e a beija)


Eu te amo! Eu te amo, e eu sei que você me ama também! Por favor, não vá embora, não
vá... (Beijando-a.)

JOVEM ATRIZ (tentando desvencilhar-se até explodir num grito)


Pára com isso!

JOVEM ATOR (ajoelha no chão)


Eu te amo... eu faço qualquer coisa...

JOVEM ATRIZ
(Pausa por um momento.) Então... então vêm comigo. Fuja comigo! Vamos embora daqui!
Nós somos jovens, nós temos o mundo inteiro. Eu tenho o mundo inteiro pra ver e pra
conquistar!

JOVEM ATOR
Mas... e a Companhia?

JOVEM ATRIZ
O que vamos conseguir aqui?! Esse lugar está velho, decadente...

JOVEM ATOR
Eles precisam de mim! E precisam de você também!

JOVEM ATRIZ
Eles podem ensaiar outras pessoas!

JOVEM ATOR
Eles não querem outras pessoas! Eles escolheram você! E o meu coração escolheu você.

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PÁGINA 64
Cantos de Coxia e Ribalta

JOVEM ATRIZ
(Pausa.) Eu não posso... Você me vê da forma errada... eu não sou quem você pensa. Você
não está apaixonado por mim. Você é só um jovem mercador apaixonado por uma
prostituta. (Volta-se para sair.)

JOVEM ATOR (agarrando-a novamente e tentando beijá-la)


Eu te amo... eu te amo...

(O abraço começa a se transformar numa briga mais agressiva, até que a Jovem Atriz bate
nele e o empurra.)

JOVEM ATRIZ
Me solta! (Pausa.) No final das contas, você é o que todo homem é. Querendo possuir o
que não é posse, querendo domar o que é selvagem. Mas a verdade é que fui eu que domei
você. Eu domei você, com o coração. Afinal, cada um usa as armas que pode. (Pausa.) Eu
não amo você.

JOVEM ATOR
Não é verdade, você ama sim, eu sei que ama!

JOVEM ATRIZ
Eu não amo você! Ficar com você foi bom, mas não era de verdade! E isso de "amor", da
maneira como vocês imaginam aqui, é lindo, é uma poesia... mas não existe de verdade.
Cedo ou tarde, você vai perceber isso. Você se apaixonou por uma personagem... mas se
esqueceu que esta personagem vende a ilusão de que você está sendo amado, porque afinal
de contas, ela é paga pra isso. "Há um preço, e se ele for caro, a porta está aberta". (Pausa.)
Eu vou embora. Não me siga!

JOVEM ATOR (enquanto ela está saindo)


Você sabe que eu vou precisar contar para o Dono da Cia. que você está indo embora.

JOVEM ATRIZ
Faça como quiser.

(Saem. Muda a cena, entram o Poeta e o Músico.)

POETA
Para que este espetáculo alcance o seu ápice, nós precisamos de sacrifício! Alguém deve
morrer.

MÚSICO
Morrer? Mas isso combina com a dramaturgia?

POETA
Perceba bem: em todas as histórias, um grande sacrifício pelo bem-comum precisa ser feito
para que a vitória não passe em branco. É preciso saber perder algo para ganhar. Alguém
deve morrer!

MÚSICO
Mas quem?

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PÁGINA 65
Cantos de Coxia e Ribalta

(Entram o Diretor, a Primadonna e o Coro.)

PRIMADONNA
Muito bem, como estamos indo com a finalização da peça?

POETA
Eu já sei exatamente como vamos terminar este espetáculo... Vamos ensaiar!

JOVEM ATOR (entrando correndo)


Espera, espera! (Pausa.) Está tudo perdido. Nós não podemos estrear amanhã!

DONO DA CIA.
Do que você está falando?

PRIMADONNA
Onde está aquela fedelha?

JOVEM ATOR
Ela está indo embora. Está tudo... acabado.

DONO DA CIA. (num riso nervoso)


Espera aí... indo embora, como assim indo embora?! Agora?!

(Surge a Jovem Atriz, com malas nas mãos. Ela pára ao ver todos olhando para ela.)

DONO DA CIA.
Não! Isso só pode ser uma brincadeira... uma piada, é uma piada, não é?! (Vai até ela.) Olhe
nos meus olhos e me diga que você está nos abandonando.

(Jovem Atriz entrega para ele a carta.)

DONO DA CIA.
Eu não acredito nisso.

(Silêncio.)

PRIMADONNA
Eu não gostaria de dizer isso... Nem sei se este é o momento oportuno para dizer... (com
um prazer sádico) Mas eu a-vi-sei!

(Pausa.)

JOVEM ATRIZ
Eu sinto muito. Eu não vou esquecer de vocês, mas eu simplesmente não posso ficar.
(Pega a garrafa da felicidade do casaco). Eu sei que o que estou fazendo não é o certo,
mas... eu queria dizer adeus e espero que um dia me perdoem. (Vai até a Primadonna e
entrega a garrafa). "Você passará esse frasco adiante quando o seu conteúdo já tiver te
preenchido". Obrigada. Por tudo. (Sai.)

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PÁGINA 66
Cantos de Coxia e Ribalta

PRIMADONNA
Garota! (Olha para ela.) Você será uma grande atriz.

(Jovem Atriz sai.)

MÚSICO
E agora?! O que nós vamos fazer?

DONO DA CIA.
As malas. Nós iremos fazer as malas. É tudo o que nos resta.

POETA
Não! Nós vamos apresentar este espetáculo.

DONO DA CIA.
Mas que jeito? Ela foi embora. Nós não temos como substituir alguém assim! Vamos
admitir: nós perdemos.

POETA
Nós não vamos desistir. Esta história precisa ser contada. Nós daremos um jeito! (Todos
parecem desanimados e começam a se retirar, mas o Poeta os chama.) Esperem! Sabe o que
está faltando para a gente? Lembrarmos que somos uma Companhia de Teatro! Que estamos
juntos nessa! Que estamos todos aqui em favor da Arte! Sabe o que falta? Acreditar nisso!
(Pausa.) Afinal, o que esta garrafa significa?

DONO DA CIA.
Que todo o mundo aqui está no mesmo barco, e que ele está afundando.

POETA
Não! Significa que não é o fim... não enquanto houver um legado para passar adiante.

IMENSIDÃO

POETA
Olhe para o céu, veja a imensidão,
Somos tão pequenos, somos frágeis, somos grão e pó
Nada mais que um punhado de pó

Olhe pra você, que mundo em expansão!


Cabe num só peito o grito de uma nação. É só.
Nada mais que um punhado de pó.

Vida vai e vem depressa


E eu à espera da promessa
Que o amanhã virá e essa
Roda vai girar, girar...

POETA e JOVEM ATOR


Vida vai e vem depressa
E eu à espera da promessa

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PÁGINA 67
Cantos de Coxia e Ribalta

Que o amanhã virá e essa


Roda vai girar, girar...

TODOS
Vida vai e vem depressa
E eu à espera da promessa
Que o amanhã virá e essa
Roda vai girar, girar...

Vida vai e vem depressa


E eu à espera da promessa
Que o amanhã virá e essa
Roda vai girar, girar...

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Cantos de Coxia e Ribalta

CENA 14
(Escuro. Uma leve luz de breu, cinzenta, similar à do início do espetáculo, ilumina o palco.)

CORRE-TRILHO - VINHETA 2

TODOS
Corre, corre vida
Corre trilho, corre vida
Trilho, trilho, corre vida
Corre-trilho, corre

Trilho, corre vida


Corre trilho, corre-trilho
Vida, vida, corre trilho
Corre-vida

Corre vida, corre


Corre trilho, corre vida
Corre vida-trilho, corre vida-trilho
Corre

Trilho, corre vida,


Corre trilho, corre-trilho
Vida, vida, corre trilho
Corre-vida

(O batuque finaliza, uma luz em foco sobre o Poeta.)

POETA (acapella)
Eu vejo alguém que vai além do que eu sonho...
Eu vejo além do que alguém já pode ver...
Eu quero alguém que me desperte certo sono...
Eu sou menino, sou poeta...

MENINO DE RUA
Ô tio! Lembra de mim?!

POETA (olhando para ele por um momento)


Me desculpe... eu... eu não...

MENINA DE RUA
Você não sabe quem eu sou?! Eu te digo. Eu sou "nada mais que um punhado de pó"!
(Pega um papel, amassa e joga no chão.) Tá aqui, olha! Sua poesia? Lembra dessa poesia
que você me deu? "Somos tão pequenos".

POETA
Eu lembro de você... eu te dei uma poesia! Mas você está diferente agora...

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PÁGINA 69
Cantos de Coxia e Ribalta

MENINO DE RUA
Ah, aí sim, tá lembrando, né?! É isso aí! Você me deu uma poesia, e o que mais? (Saca uma
faca.) Fala, tio!

POETA
Espera aí, o que é isso?!

MENINO DE RUA
Fala! O que foi que você falou pra eu fazer com essa poesia?

POETA
Eu pedi para que você entregasse para alguém... para que você passasse a poesia adiante,
como um gesto de boa ação.

MENINO DE RUA
É isso aí... e foi o que eu fiz. Eu levei pr'os moleques da esquina. Tinha cinco deles. Daí o
maior chegou pra mim e disse: "olha só o que a mocinha trouxe! Uns versinhos de
mariquinha..." Daí eu olhei bem pra eles e falei que tinha ganhado uma moeda pelos versos,
e eles disseram: "uma moedinha! A gente vai te dar muito mais. Vamos levar essa mocinha
ali pro canto e mostrar como é que a gente faz com uma mariquinha pra ele aprender a ser
homem". Eles levaram minha moeda, me levaram tudo! Foi a tua poesia que fez isso!

POETA
Mas... eu não tive... a intenção... eu queria... ajudar.

MENINO DE RUA
De boa intenção, o inferno tá cheio, tio! Aliás, o inferno é aqui mesmo. Quis fazer o bem?!
Onde é que está o bem, "Poeta"? O que é o "bem" pra você? (Pausa.) Eu decorei cada
linha dessa poesia. E eu finalmente entendi. A gente sempre vai ser o que a gente é! No
fundo, no fundo, não existe mudança nenhuma. Eu sempre vou ser "nada mais que um
punhado de pó". Esquecido. Fiquei esperando o dia para passar a sua poesia adiante, tio...
O dia chegou!

POETA
Alguém deve morrer.

(Um foco se acende no meio. Ambos vão para este foco. O Poeta abre os braços.)

CORO
Eu sou menino, sou poeta...

(O Menino de Rua esfaqueia o Poeta, que caí. Acorde grave de piano. A ação fica suspensa
por um momento. Iluminação volta aos poucos ao normal, mas ainda assim, fica um ar de
penumbra ao fundo. Entra o Jovem Ator correndo, vê o corpo, tenta reanimá-lo. Chegam
os outros e, conforme percebem que está morto, ficam em silêncio. Saem, fica apenas o
Jovem Ator sobre o corpo. Voltam segurando malas de viagem. Chega a Jovem Atriz,
também com uma mala. Jovem Ator e Jovem Atriz se abraçam. Todos colocam o corpo do
Poeta sobre o tablado.)

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PÁGINA 70
Cantos de Coxia e Ribalta

CAI O PANO & FINALE

DONO DA CIA
Cai o pano, fim da atração
O que foi real ou ilusão?

PRIMADONNA
A mocinha

JOVEM ATOR
O vilão

DONO DA CIA
Faço parte... dessa encenação

DONO E MÚSICO
O trem parou na estação e eu desembarquei
Andei por cima desses trilhos, como andei
Eu soube que o trem irá voltar de onde partiu,
E o caminho recomeça outra vez.

DONO, MÚSICO & PRIMADONNA


O trem parou na estação e eu desembarquei
Andei por cima desses trilhos, como andei
Eu soube que o trem irá voltar de onde partiu,
E o caminho recomeça, recomeça outra vez... outra vez

DONO DA CIA & MÚSICO JOVEM ATOR


Cai o pano, fim da atração Não há mais motivos pra cantar
O que foi real ou ilusão? Eu sei que o tempo é quem dirá

DONO DA CIA, MÚSICO, JOVEM ATOR, PRIMADONNA


A mocinha, o vilão
Faço parte dessa encenação

TODOS
Corre vida trilho, corre vida, corre trilho, vida trilho, corre vida, corre trilho corre
Vida, corre trilho, corre vida, corre trilho, vida vida, corre trilho, corre vida

POETA
Tudo há de passar: a dor, a alegria
Histórias são contadas, seguem sendo repetidas
A ribalta se apaga, a coxia silencia.

(Música muda.)

Vida vai e vem


Vida vai e vem...

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PÁGINA 71
Cantos de Coxia e Ribalta

(Três acordes graves de piano. A Jovem Atriz recolhe do chão o papel amassado com a
poesia. Timidamente, começa a cantar.)

JOVEM ATRIZ
Vida vai e vem depressa...
E eu à espera da promessa...
Que o amanhã virá e essa...
Roda vai girar...

(Aos poucos, todo o Coro vai se juntando à música.)

CORO
Vida vai e vem depressa
E eu à espera da promessa
Que o amanhã virá e essa
Roda vai girar, girar...

Vida vai e vem depressa


E eu à espera da promessa
Que o amanhã virá e essa
Roda vai girar, girar!

(Se unem em volta do corpo do Poeta, em uma roda, de mãos dadas.)

Vida vai e vem depressa


E eu à espera da promessa
Que o amanhã virá e essa
Roda vai girar, girar!

Vida...
Vida
Vida!

(A Primadonna e a Jovem Atriz, juntas, estendem a garrafa da felicidade em direção ao


público. Chuva de papel colorido. Cai o pano.)

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