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Parte fI - A letra de câmbio

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cia uma promessa direta de pagamento entre apenas dois sujeitos, o emi-
tente (subscritor) e o beneficiário (tomador). À semelhança da letra, o
cheque contém uma ordem de pagamento, com a particularidade relevan-
tíssima de tal ordem ser necessariamente dirigida a um banco ou institui-
ção de crédito onde o emitente possui uma provisão de fundos (106).

III. A disciplina jurídica da letra de câmbio consta fundamental-


mente das Convenções de Genebra de 1930, que foram integradas no
direito interno de numerosos países: assim aconteceu também em Por-
tugal através do Decreto n.? 23 721, de 29 de março de 1934, diploma
que, ao mesmo tempo que revogou os arts. 278.° e segs. do CCom,
aprovou entre nós as chamadas 'Lei Uniforme relativa às Letras e Livran-
ças" (LULL) e 'Lei Uniforme relativa ao Cheque" (LUC) (107).
Trata-se de um direito uniforme cambiário que vigora numa boa
parte dos países da "Civil Law". Ao contrário, os países da "Common
Law" são dominados na matéria pelo "Bill of Exchange Act" inglês e
pelas regras do "Uniform Commercial Code" norte-americano (108). Por
fim, assinale-se ainda a existência de uma "Convenção sobre Letras e
Livranças", aprovada pelas Nações Unidas em 1988 (109).

2. Requisitos

L A letra de câmbio é um título rigorosamente formal: para que o


título nasça e produza os seus efeitos próprios, ele deve observar deter-

(106) °
Sobre a livrança e cheque, vide desenvolvidamente infta Parte III e Parte IV
(107) Sobre estas Leis, vide entre nós DELGADO, A. Pereira, Lei Uniforme das
Letras e Livranças Anotada, 7.a edição, Petrony, Lisboa, 1996, e Lei Uniforme dos Che-
ques Anotada, 5.a edição, Petrony, Lisboa, 1990. Para uma monumental e universal
recensão legislativa, vide SCHEITLER, Wolfgang/BüELER, Heinrich, Das Wechsel- und
Scheckrecht aller Lãnder, 15 vols., D. Wirrschaftdienst, Kiiln, 1957.
(108) Y:--ITTEMA,Hessel/Bxrtzx, Rodolfo, The Law of Negotiable Instruments (Bill
01 Exchange) in the Americas, 2 vols., Ann Arbor, Michigan, 1969.
(109) SCHÜTZ, Carsten, Die UNCITRAL-Konvention uber Internationale Gezogene
Wechsel und Internationale Eigenwechsel vom 9.Dezember.l988, Walter de Gruyter,
Berlin/New York, 1992.

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56 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

minados requisitos formais. Estes requisitos vêm enumerados no art. 1.°


da LULL, consubstanciando-se num conjunto de menções obrigatórias
relativas à declaração cambiária do sacador, emitente do título: a falta
de alguma destas menções cartulares acarreta a consequência de que "o
escrito não produzirá efeitos como letra" (art. 2.° da LULL) (110).

II. Este formalismo é, de resto, corroborado pela existência de


um modelo normalizado deste título de crédito, aprovado pela Portaria
n.v 28/2000, de 27 de janeiro: naturalmente, uma letra de câmbio não
deixará de o ser pelo facto de se encontrar titulada em documento dife-
rente do modelo oficial, desde que respeitando as menções legais.
°
Sublinhe-se ainda que título pode ser objeto de duplicatas (emissão de
saques em múltiplas vias: cf. arts, 64.° e 65.° da LULL) (III) e de cópias
(art. 67.° da LULL) (112), encontrando-se, além disso, sujeito a imposto
de selo de 0,5% sobre o respetivo valor (arts. 1.0, n.v 1, e 65.° do eIS,
ponto 23.1. da respetiva Tabela Geral).

(110) Sobre o formalismo cambiário, vide RAposo, A. Simões, Apontamentos sobre


o Artigo 1. o da Lei Cambidria Uniforme, in: XIX "Gazeta dos Advogados da Relação
de Luanda" (1949), 97-109; XAVIER, V. Lobo/SOARES, M. Ângela, Letras e Liuranças:
Requisitos Essenciais (Art. 1.°, n. os 1 e 2, e Art. 15. o, n." 1 e 2, da Lei Uniforme das Letras
e Livranças), in: 13 "Revista de Direito e Economia" (1987), 313-328. Como vimos
oportunamenre, a entrega material ("rradirio") do tírulo ao romador representa ainda
um requisito essencial e adicional do nascimento de qualquer relação carrular (cf supra
Pane 1,5.2. (III)): nesre senrido rambém, para o caso especial da letra, vide CAROLSf-EI.D,
Schnorr von, Der Wechsel ais Rechtskomplex, in: "Festschrift ftir Heinrich Lehmann",
Band 2, 594-614, Walter de Gruyter, Berlin, 1956.
(III) Cada via deve conrer o seu número próprio, sob pena de ser havida como
uma letra distinta (arr. 64.°, n.? 2, da LULL). Cf DIAS, Gonçalves, Duplicação da
Letra, in: 27 "Revista da justiça" (1942), 133-136.
(112) As cópias distinguem-se das duplicaras já que, ao passo que as primeiras
apenas podem ser criadas com o saque, as últimas podem sê-lo por qualquer portador
da letra. Sublinhe-se ainda que a cópia da lerra (mesmo autenticada), quando desa-
companhada do resperivo original, não legirima o portador a exigir o pagamento
cambiário: cf FURTADO,]. Pinto, Títulos de Crédito, 143, AJmedina, Coimbra, 2000;
Acórdão do Supremo Tribunal de jusriça de 10-Xl-1993 (ZEFERINO FARIA), in: 431
"Boletim do Minisrério da jusriça" (1993), 495-501.

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Parte II - A letra de câmbio 57

III. A inobservância das menções obrigatórias previstas no art. 1.°


da LULL é sancionada com o vício mais grave, a inexistência: ressalvados
os casos excecionais em que tal falta possa ser suprida pela lei (falta de
indicação da época de pagamento, do lugar do pagamento, e do lugar
da emissão: cf. art. 2.°, n.O 2 a 4, da LULL) (113), o documento a que
S

falte uma das menções legais obrigatórias, mais do que um título inválido
ou ineficaz, não pode sequer ser havido como uma letra de câmbio de
todo em todo (114). Tal não significa, todavia, que tal documento seja
destituído de relevância jurídica. Para além de não se poder excluir
liminarmente a possibilidade da sua conversão num outro negócio jurí-
dico sempre que reúna os respetivos requisitos (art. 293.° do CCivil) (115),
tal documento poderá valer como um simples quirógrafo (art. 376.° do
CCivil) - ou seja, um documento particular probatório da obrigação
fundamental subjacente - (116), sendo ainda controvertido se e em que

(113) Dentro das menções ou requisitos obrigatórios, há assim que distinguir entre
requisitos essenciais - cuja falta ocasiona inapelavelrnenre a inexistência da letra - e
requisitos não essenciais - cuja falta pode ser suprida nos termos legais (v. g., na falta de
indicação do lugar de pagamento este considera-se o local designado ao lado do nome
do sacado: cf. art, 2.°, n.v 3, da LULL). Tal distinção, outrossim que no plano da exis-
tência jurídica da própria letra, possui ainda relevância em vários outros planos (veja-se,
por exemplo, o arc. 119.°, n.? 1, do CN). Sobre esta distinção, vide ainda AsCENSÃO,
J. Oliveira, Direito Comercial, vol. III, 103 e segs., Lisboa, 1992; MARTINS, A. Soveral,
Títulos de Crédito e ValoresMobiliários, 42 e segs., Almedina, Coimbra, 2008.
(114) Cf. CRlONNET, Marcel, De l'Omission des Mentiom Obligatoires de la Lettre
de Change, in: "Recueil Dalloz" (1989), 129-134. Sobre a questão da relevância da
interpretação carcular no domínio das letras incompletas, vide CANARIS,Claus- Wilhelm,
Die Bedeutung allgemeiner Auslegungs- und Rechtsfortbildungskriterien im Wechselrecht,
in: 42 "[uristenzeitung" (1987), 543-553.
(115) Sobre a conversão de letras de câmbio viciadas, vide HUECK, Alfred/CANARls,
Claus-Wilhelm, Recbt der Wertpapiere, 67 e segs., 12. Aufl., Vahlen, München, 1986;
entre nós, a propósito da conversão formal, FERNANDES,L. Carvalho, A Conversão dos
Negócios Jurídicos Civis, 698 e seg., Quid Juris, Lisboa, 1993.
(116) Cf. na doutrina, ASCENSÃO,J. Oliveira, Direito Comercial, vol. III ("Títulos
de Crédito"), 111, Lisboa, 1992; na jurisprudência, Acórdão do Supremo Tribunal de
Justiça de 24-1-2002 (LEMOS TRIUNFANTE),in: www.dgsi.pt. Sobre a distinção entre
força probatória e executiva dos documentos particulares, vide SAMPNO, J. Gonçalves,
A Prova por Documentos Particulares, 109 e segs., Almedina, Coimbra, 2004.

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termos poderá valer também como um título executivo extrajudicial


(art, 46.°, n.? 1, aI. c), do CPC) - ou seja, um documento que legitima
o seu titular ao exercício de ação executiva não cambiária pela quantia
pecuniária contra quem nele figura como devedor (117).

IV Finalmente, as letras de câmbio podem ainda incluir um con-


junto muito variado de menções facultativas: são exemplos as cláusulas
"não à ordem" (que proíbem o endosso: cf. arts. 11.°, n.? 2, e 15.°, n.? 2,
da LULL), as cláusulas "não aceitável" (que proíbem a apresentação ao
aceite: cf. art. 22.°, n.? 2, da LULL), as cláusulas "sem despesas" (que
dispensam o protesto: cf art. 46.° da LULL), as cláusulas de juros (que
estipulam o vencimento de interesses sobre a quantia cambiária: cf.
art. 5.° da LULL) , as cláusulas "para cobrança" (que criam o endosso
por procuração: cf. art. 18.° da LULL), as cláusulas de domiciliação
(art. 4.° da LULL), e assim por diante.

2.1. Menções Obrigatórias

I. A primeira menção obrigatória deste título de crédito consiste na


inserçãoda palavra "letra"no texto cartular (art. 1.0, n.? 1, da LULL). Trata-se
de uma designação imperativa por razões de certeza jurídica: a inserção deve
ser feita no texto do próprio documento escrito (e não isoladamente, noutra
parte deste ou em folha anexa), não se admitindo variantes nacionais
("saque", "cambial") ou, quando o título não seja redigido em língua por-
tuguesa, estrangeiras (v. g., "bill of exchange", "leme de change") (1181.

(1171 Num sentido afirmativo, vide GERALDES,A. Abrantes, Títulos Executivos,


61 e segs., Almedina, Coimbra, 2003; num sentido negativo, LOPES-CARDOSO, Eurico,
Manual da Acção Executiva, 66 e segs., reirnp., Almedina, Coimbra, 1992; num sentido
intermédio, fazendo depender o carárer executivo do título da natureza não formal do
negócio causal subjacente e da respetiva alegação pelo exequente, FREITAS,J. Lebre,
A Acção Executiva, 61 e segs., Almedina, Coimbra, 2004.
(IIH) Satisfaz assim plenamente este requisito a fórmula sacramental adorada
no modelo normalizado de letra, cujo texto reza assim: "No seu vencimento, pagará
V"(s) Ex.a(s) por única via desta letra a ... " (ponto 1.2.1. da Portaria n.? 28/2000,
de 27 de janeiro).

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Parte II - A letra de câmbio 59

II. Em segundo lugar, a letra deve conter um "mandato puro e


simples de pagar uma quantia determinada" (art, 1.0, n.? 2, da LULL).
Por um lado, tal significa dizer que a letra deve enunciar uma ordem de
pagamento incondicionada e incondicionável, não podendo o sacador
sujeitar essa ordem a condição, sob pena da sua nulidade (art. 2.0 da
LULL) (119). Por outro lado, tal ordem de pagamento deve ter por objeto
uma quantia pecuniária: estão assim excluídas as "letras de mercadorias"
(pagáveis em bens) ou quaisquer outras que não tenham por objeto uma
soma em dinheiro (v. g., letras pagáveis através de cheque) (120). Final-
mente, a quantia pecuniária deve ser determinada, ou seja, deve consis-
tir num montante exato expresso em moeda com curso legal no país ou
no estrangeiro (v. g., euros, dólares: cf art, 41.0 da LULL), sendo esse
montante usualmente indicado, de forma cumulativa, em algarismos e
por extenso (cf an. 6.0 da LULL): estão assim excluídas, por exemplo,
as cláusulas penais, as quais, fixando uma obrigação pecuniária eventual
(porque dependente do incumprimento do aceitante), sempre tornariam
também incerta a quantia cambiária total (121).

(119) Esta proibição legal do saque condicional- que conhece também proibi-
ções simétricas no caso do aceite (art. 26.°, n.v 2, da LULL: cf infa Parte II, 3.2.
(1IJ)) e endosso (art. 12.°, n.v 1, da LULL: cf. infra Parte II, 3.3., a nota 171) das
letras - compreende-se: a aposição de condições, pela insegurança jurídica gerada em
torno da verificação do evento previsto, sempre seria suscetível de comprometer seria-
mente o valor de circulação da letra. Não violam este requisito, todavia, as chamadas
letras documentarias, associadas à remessa documentária na compra e venda internacio-
nal de mercadorias (DIAS, Gonçalves, Letras Documentárias, in: 32 "Revista da Justiça"
(1948), 145-147): tais letras são já perfeitas, contendo uma ordem incondicional de
pagamento da soma pecuniária ao vendedor, com a particularidade de o seu aceite ou
pagamento pelo comprador funcionar como condição da entrega dos documentos
comerciais por parte do banco intermediador. Sobre a remessa ou cobrança documen-
tária ("documentary collection", "Dokumenteninkasso"), vide CASTRO, G. Andrade,
O Crédito Documentário Irrevogável, 64 e segs., uep, Porro, 1999.
(120) HUECK, Alfred/CANARlS, Claus-Wilhelm, Recht der Wertpapiere, 62, 12.
Aufl., Vahlen, München, 1986.
(121) Uma exceção a esta regra pode ser encontrada no caso das cláusulas de juros,
que o legislador admitiu apenas nas letras à vista e a certo termo de vista (arr. 5.° da
LULL). A razão de ser desta discriminação entre os diferentes tipos de letras (art. 33.°

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III. Em terceiro lugar, a letra deve conter o nome do sacado (art. 1.0,
ri.? 3, da LULL). Tal menção obrigatória consistirá no nome civil, firma

ou denominação da pessoa singular ou coletiva: neste último caso, a letra


tanto poderá identificar o sacado através da firma ou denominação do
ente coletivo como através do nome ou firma pessoal de um seu gerente,
administrador ou outro representante orgânico, devendo em tal hipótese,
todavia, ser feita expressa menção à qualidade representativa em que estes
intervêm, sob pena de eles próprios serem havidos como sacados (122).
Por outra banda, nada impede que uma letra mencione uma pluralidade
de sacados (salvo com o limite previsto no art. 2.°, n.? 3, da LULL) ou
que aquela seja sacada sobre o próprio sacador (v. g., uma sucursal ou
divisão sem personalidade jurídica de um banco, para realizar uma

da LULL) é simples: ao passo que, nas letras a cerro termo de data e pagáveis em dia
fixo, é sempre possível aos subscritores cambiários calcular de antemão o montante de
eventuais juros, incluindo-os assim na quantia cambiária a pagar, nas letras à vista e a
certo termo de vista, em que "ex definitione" é impossível saber antecipadamente qual
o dia exato do resperivo vencimento e, consequentemente, calcular o montante dos
juros vencidos, torna-se indispensável, para tal efeito, a inclusão de uma cláusula
expressa de juros. Sublinhe-se ainda que semelhante cláusula, que apenas pode ser
aposta pelo sacador, respeita exclusivamente aos juros convencionais (com exclusão dos
juros legais, v. g., art. 48.°, n.? 2, da LULL: cf. DELGADO, Abel, Lei Uniforme das Letras
e Livranças Anotada, 61, 7." edição, Petrony, Lisboa, 1996), encontrando-se sujeita,
com a ressalva do disposto no art. 5.°, n.? 2, da LULL, às regras gerais dos juros
comerciais do arr. 102.°, § 1 e § 2, do CCom (cf. ANTUNES, J. Engrácia, O Regime
Jurídico dos Actos de Comércio, 42 e segs., in: IX "Thernis - Revista da Faculdade de
Direito da Universidade Nova de Lisboa" (2009), n.v 17, 19-60).
(122) Sublinhe-se que a letra deve conter apenas o nome do sacado - e já não
o seu aceite (are. 21.° da LULL), que poderá até nunca vir a ocorrer sem que com isso
fiquem prejudicadas as obrigações dos demais signatários, mormente do sacador - e
que tal nome poderá inclusive ser puramente fictício ou imaginário - já que essa
fictividade, quando não resulte do simples exame do título ("Kellerwechsel"), não
prejudica a validade da letra e das demais obrigações (art. 7.° da LULL) (cf KOI.LER,
lngo, Falschung und Verfolschung von Wertpapieren, in: 35 "Wertpapier-Mitteilungen
- Zeitschrift für Wirtschafts- und Bankrecht" (1981), 210-220; SI'ADA,Paolo, "Forma"
e "verità" della Sottoscrizione Cambaria, in: XXVIl "Rivista di Diritro Civile" (1981),
234-240). Sobre a conexa, embora diferente, questão da forma do aceite no caso dos
sacados-pessoas colerivas, vide ainda infra Parte II, 3.2. (II!).

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Parte II - A Letra de câmbio 61

transferência de fundos, saca uma letra sobre outra sucursal do mesmo


banco: cf. art. 3.°, n.? 2, da LULL).

IV. Depois ainda, em quarto lugar, a letra deve mencionar a época


de pagamento (art. 1.0, 11.° 4, da LULL). As modalidades de vencimento
vêm taxativamente fixadas no art. 33.° da LULL, o qual dispõe que "uma
letra só pode ser sacada à vista; a certo termo de vista; a certo termo de
data; pagável no dia fixado" (123): significa isto que a indicação na letra da
época de pagamento tem de reconduzir-se a uma das quatro formas típi-
cas previstas na lei, sendo assim nulas as letras que prevejam modalidades
atípicas ou mistas de vencimento, v. g., quando se estipule que o portador
poderá escolher uma das modalidades legais de apresentação ou que a letra
se vence na data da entrega de determinadas mercadorias (art, 33.°, "in
fine", da LULL). Todavia, sublinhe-se que a falta de indicação absoluta
da modalidade de vencimento já não acarreta a invalidade da letra, presu-
mindo-se que a letra é pagável à vista (art. 2.°, n.? 2, da LULL).

V. Uma quinta menção obrigatória consiste no Lugarde pagamento


(art. 1.0, n.? 5, da LULL): por lugar de pagamento entende-se aqui
naturalmente, não uma mera indicação geográfica ou genérica (v. g., nos
escritórios da empresa em Lisboa, no domicílio do devedor), mas um
endereço ou morada específica contendo todos os elementos relevantes
para o desempenho da função desta menção ("maxime", rua, número,
localidade ou freguesia, cidade, concelho). A indicação do local de
pagamento pode ser direta - através de referência expressa ao "locus
solvendi" - ou indireta - consistindo, na falta daquela, no lugar
designado ao lado do nome do sacado (art, 2.°, n.v 3, da LULL). Moda-
lidade particular é a chamada "letra domiciliada" (art. 4.° da LULL) ,
que indica como local de pagamento o domicílio de terceiro, geralmente
um banco (124).

(123) Sobre o vencimento das letras, vide infra Parte II, 4.1.
(124) Aqui se abrange tanto o caso em que o terceiro paga a letra em represen-
tação do devedor (letra domiciliada em sentido próprio) como aquele em que a letra

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VI. Uma sexta menção, extremamente relevante, é a do nome do


tomador, ou seja, "a pessoa a quem ou à ordem de quem deve ser paga"
a letra (art. 1.0, n.v 6, da LULL). O tomador é o primeiro portador da
letra: trata-se da pessoa singular ou coletiva a quem o título é entregue
pelo sacador e que é beneficiária da ordem de pagamento nele contida.
A regularidade desta menção está dependente de vários pressupostos.
Desde logo, ela tem de existir: a letra é um título à ordem, pelo que a
letra sacada ao portador, sem indicação do beneficiário, é inadmissí-
vel (125). Depois ainda, a indicação do nome do tomador poderá con-
sistir no seu nome civil, firma, ou denominação (consoante a natureza
jurídica daquele), devendo em qualquer caso ser determinada: a indica-
ção de pessoas indeterminadas (v. g., aos sócios de determinada sociedade)
ou simplesmente determináveis (u. g., ao vencedor do próximo concurso
"euro milhões") não será assim suficiente. Finalmente, aquela indicação
pode revestir diferentes modalidades: assim, é admissível que o tomador
seja o próprio sacador (art. 3.°, n.v 1, da LULL) - caso em que não se
torna necessária a repetição sacramental do seu nome, bastando a expres-
são "pague-se a mim ou à minha ordem" ou equivalente - ou que seja
indicada uma pluralidade de tomadores - consista esta numa indicação

é paga diretamenre pelo devedor no domicílio desse terceiro (letra domiciliada em


sentido impróprio) (assim MARTINS, A. Soveral, Títulos de Crédito e Valores Mobiliários,
41, Almedina, Coimbra, 2008). Sobre a questão de saber se uma letra poderá indicar
uma pluralidade de locais de pagamento, vide CORREIA, A. Ferrer, Lições de Direito
Comercial, vol. III ("Letra de Câmbio"), 113 e seg., Coimbra, 1975.
(125) Embora a letra seja um título à ordem, que não pode nascer ao portador,
ela pode ocasionalmente circular como um título ao portador no caso do chamado
endosso em branco, ou seja, sem indicação do nome do beneficiário ou endossado
(arts, 12.°, n.? 3, 13.°,11.° 2, da LULL). Como melhor veremos adiante, o titular de
uma letra endossada em branco pode transmitir a lerra a um terceiro sem a endossar
(art. 14.°, n.? 3, da LULL), hipótese em que tudo se vai passar como se a letra houvesse
sido transferida do endossante em branco para o atual portador, não ficando quaisquer
vestígios da sua passagem intermédia pelas mãos do endossado em branco. Donde, ao
cabo e ao resto, o emitente de uma letra de câmbio dispõe sempre, afinai, da possibi-
lidade de a transformar num título ao portador. basta que saque a letra à própria ordem
- e a endosse depois ao portador.

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Parte II - A letra de câmbio 63

conjunta ou alternativa (consoante os direitos emergentes da letra são


exercitáveis simultaneamente por todos ou individualmente por qualquer
deles) .

V1I. Uma penúltima menção consiste na indicação da data e lugar


do saque (art. 1.°, n. ° 7, da LULL). A data justifica-se essencialmente
para determinar o respetivo vencimento (no caso das letras a certo termo
de data) e a contagem de determinados prazos de apresentação ("maxime",
nas letras à vista e a certo termo de vista); por seu turno, o lugar serve
para determinar a lei aplicável (com particular relevância nas letras de
circulação internacional) (126). A ausência destas menções despoleta
consequências algo diversas: ao passo que a falta de indicação da data
(ou indicação de data impossível: v. g., 23 a.c.) (127) torna a letra inválida,
a falta de indicação do lugar do saque faz presumir que este será o desig-
nado ao lado do nome do sacador (art. 2.°, n.v 4, da LULL), apenas
originando a invalidade da letra se também este não existir.

VIII. Uma última e relevantíssima menção consiste na assinatura


do sacador (art. 1.0, n.? 8, da LULL). Em princípio, exige-se a assinatura
autógrafa do sacador, isto é, do seu próprio punho - embora apenas
aparentemente autógrafa, não sendo relevante a falsidade da assinatura
que não seja evidente no título (art. 7.° da LULL) (128) -, representando

(126) CE. ainda os arts, 3.°, 5.° e 6.° da "Convenção Destinada a Regular Certos
Conflitos de Leis em Matéria de Letras e Livranças", assinada em simultâneo com a
Convenção de Genebra de 1930, acolhida entre nós pelo Decreto n.? 23 721, de 29
de março de 1934.
(127) Outra modalidade de data impossível será, por exemplo, a estipulação de
uma data de saque posterior à data de vencimento do tÍtulo (cf. KLUNZINGER, Eugen,
Zur Stõrung der Zeitrelation zwischen Aufiteliungs- und Verfalldatum beim Wechsel, in:
24 "Wertpapier-Mitceilungen" (1970), 177-181). Sobre a diferente questão das chama-
das letras pós-datadas, vide FAVARA, Ettore, Cambiale Postdatata e Bollo, in: XXVII
"Banca, Borsa, e Titoli di Credito" (1964), TI, 29-33.
(12R) Expressão máxima da tutela da aparência e da literal idade cararerfstica
dos títulos de crédito, as letras de câmbio que contenham assinaturas folsas produzem
os efeitos que lhe são próprios, não afetando a validade das posições dos demais

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64 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

o seu nome, firma ou denominação: não são assim admissíveis, por


exemplo, assinaturas "de cruz", assinaturas de chancela (exceto para
títulos emitidos em série: cf art. 373.°, n.v 2, do CCivil) (129), ou outras
formas de subscrição (v. g., impressão digital) (130). Podem, todavia,
existir outras modalidades especiais de assinatura: é o caso da "assinatura
por procuração" - admitida implicitamente pelo art. 8.° da LULL
(desde que o procurador declare assinar em nome do representado, sob
pena de ele próprio ser considerado o sacador) (131) - e da "assinatura
a rogo" - admissível nos termos gerais dos art. 373.°, n.O 1 e 4, do S

CCivil e art. 154.° do CN (desde que, não sabendo ou podendo o


rogante assinar, a assinatura seja feita por outrem acompanhada dos

signatários cambiários, exceto quando a falsificação seja ostensiva ou evidente aos


olhos de homem médio (cf também HUECK, Alfred/CANARIS, Claus-Wilhelm, Recht
der Wertpapiere, 93, 12. Aufl., Vahlen, München, 1986). Suponha-se assim, por
exemplo, que A saca uma letra sob a assinatura forjada de B, sendo a letra aceite por
C e emitida a favor de D, endossando este posteriormente a letra a E: desde que a
letra preencha os demais requisitos formais do art. 1.° da LULL, o atual portador
poderá exigir o seu pagamento de C e D, já que a falsidade da assinatura do sacador
(exceto quando patente) não inquina a validade das obrigações cambiárias destes
últimos.
(1291 GAVALDA,Christian, La Validité de Certaines Signatures à la Criffi d'Effets
de Commerce, in: "[urisclasseur Périodique" (1966), I, doctrine, 2034; SANTORO, Vir-
rorio, Sottoscrizione di Girata Apposta Mediante Timbro-Firma, in: LIV "Banca, Borsa,
e Titoli di Credito" (1996),427-434.
(130) Sobre as assinaturas cambiárias em geral, vide MÜNCH, Joachim, Die Rei-
chweite der Unterschrift im Wechselrecht, Duncker & Humblot, Berlin, 1993.
(1311 No caso de representação sem poderes e com excesso de poderes, o art. 8.°
da LULL previu um regime especial em desvio às regras gerais: o "falsus procurator"
responde ele próprio como obrigado cambiário, exceto quando o portador da letra agir
dolosa ou negligentemente (ou seja, soubesse ou devesse saber da falta ou limitação
dos poderes de representação: cf arts. 16.°, n.v 2, e 17.0, "in fine", da LULL) ou em
caso de ratificação do representado (art. 268.° do CCivil). Sobre a figura, em geral,
vide HAUCK, Peter, Wechselrecht: Haftung des Vertretersohne Vertretungsmacht gemo Art. 8
WC, in: 19 "[urisrische Arbeirsblarter" (1987), 200-201; SAN PEDRO, L. Velasco, La
Representación ella Letra de Cambio, Lex Nova, Valladolid, 1990; para o caso especial
do sacador que age como representante do sacado, vide TIEDTKE, Klaus, Der Aussteller
eines Wechselsals Vertreterdes Bezogenen, in: 31 "Berriebs-Berater" (1976),1535-1539.

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Parte II - A letra de câmbio 65

competentes reconhecimento notarial da assinatura e certificação notarial


do rogo) (132).

2.2. A Letra em Branco

I. Designa-se por letra em branco ("blank instrument", "Wechsel-


blankett", "cambiale in bianco", "Iettre en blanc") o documento que,
não contendo todas as menções obrigatórias essenciais referidas no art.
1.0 da LULL, possua já a assinatura de, pelo menos, um dos signatários
cambiários, acompanhado de um acordo expresso ou tácito de preenchi-
mento futuro das menções em falta (133).

II. É frequente, na prática comercial, que uma letra de câmbio seja


sacada ou aceite mesmo antes de ela se encontrar completamente preen-
chida: por exemplo, se um empresário solicita uma abertura de crédito
a um banco, é usual que aquele subscreva logo em favor deste uma letra,
deixando "em branco", todavia, o montante da quantia cambiária por
ainda não estar determinado em definitivo o preciso valor do acredita-
menta bancário (134). Esta figura, conhecida noutras ordens jurídicas,

(132) Trata-se de entendimento doutrinal pacífico entre nós, desde muito cedo:
cf. COELHO, J. Pinto, O Problema da Assinatura a Rogo nas Letras, in: 2 "Revista da
Ordem dos Advogados" (1942), 161-211; SILVA,J. Leite, Assinatura a Rogo nas Letras,
in: 51 "Gazeta da Relação de Lisboa" (1938), 273-275.
(133) Sobre a figura, vide FIGUEIREDO, Mário, Letra em Branco, in: 55 "Revista
de Legislação e de Jurisprudência" (1922), 209-211, 225-227, 257-259, 273-274,
289-290; RODRIGUES, J. Conde, A Letra em Branco, AAFDL, Lisboa, 1989. Noutros
quadrantes, vide BEUTHIEN, Volker, Blankoübergabe von Wechselblanketten, in: 21
"Betriebs-Berater" (1966), 883-885; ESCARRA,Jean, La Lettre de Change en Blanc, in:
209 "Annales de Droit Commerciale" (1908),36-47; LERMA,G. Sánchez, La Letra de
Cambio en BLanco, Bosch, Barcelona, 1999; 01'1'0, Giorgio, Incompletezza, Completezza
e «Bianco» di Operazione Cambíaríe Sucessioe, in: "Banca e Titoli di Credito - Scriti
Giuridici", vol, IV, 396-442, Cedam, Padova, 1992.
(134) Figura de assinalável relevo prático, como é demonstrado pela abundante
jurisprudência existente, a letra em branco é muito utilizada no contexto das relações
bancárias, mormente no âmbito dos mútuos bancários, garantias bancárias, e crédito
ao consumo. Para algumas ilustrações jurisprudenciais recentes, vide os Acórdãos do

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66 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

foi também acolhida implicitamente entre nós no art. 10.0 da LULL,


estando a sua relevância juscambiária dependente da observância de três
requisitos essenciais.
De uma banda, é necessário que estejamos perante um modelo
normalizado de letra ou, pelo menos, diante de documento donde conste
já a palavra "letra" suscetível de traduzir a intenção de assumir uma
obrigação cambiária, ainda quando faltem todos ou alguns dos demais
elementos do an. 1.0 da LULL: como é evidente, uma simples folha de
papel em branco assinada por alguém não poderá dar origem a uma letra
mediante o futuro preenchimento dessas menções, posto que, muito
justamente, o seu subscritor não podia querer ou saber estar a criar um
título cambiário (135). De outra banda, é ainda necessário que o docu-
mento contenha a assinatura de, pelo menos, um dos obrigados cam-
biários (mormente do sacador), sendo por este voluntariamente emitido:
como parece evidente, um documento que não haja sido subscrito por
ninguém não pode dar origem a vinculações jurídico-cambiárias nem,
consequentemente, ser havido ou futuramente confecionado como

Supremo Tribunal de Justiça de 13-XII-2007 (ALVESVELHO) (in: www.dgsi.pt) e


de 8-XI-2001 (QUIRINO SOARES) (in: IX "Coletânea de Jurisprudência/Acórdãos do
STJ" (2001), III, 106-108); os Acórdãos da Relação de Lisboa de 17-Il-2000 (LOPES
VALVERDE)(in: XXV "Coletânea de Jurisprudência" (2000), I, 115-116), de 2-IV-1998
(OUVEIRA ROCHA) (in: XXIII "Colerânea de Jurisprudência" (I 998), II, 124-126), e
de 16- V-1996 (NASCIMENTO COSTA) (in: XXI "Coletânea de Jurisprudência" (1996),
III, 92-94); e o Acórdão da Relação do Porro de 8-IV-1997 (SOARESDE ALMEIDA), in:
www.dgsi.pt.
(135) Sobre esta irrelevância dos documentos não cambiários (cf ainda arr. ].0,
n.v 1, da LULL) , cf. ainda FIGUEIREDO, Mário, Letra em Branco, 210, in: 55 "Revista
de Legislação e de Jurisprudência" (1922),209-211,225-227,257-259, 273-274,
289-290. É discutido se se poderá falar ainda de letra em branco - e, sobretudo, em
que termos - relativamente ao caso das "letras supletivamente completas" _ ou seja,
letras cujas menções em falta são supríveis por disposição legal mas que vêm a ser
preenchidas em sentido divergente (v. g., época de pagamento, lugar de pagamento:
cf. arr. 2.°, n.:" 2 e 3, da LULL) - e das "letras facultativameme completas" _ ou
seja, letras que contêm todas as menções obrigatórias previstas no art. 1.0 da LULL
mas a que vêm a ser adicionadas menções facultativas (v. g., cláusulas de juros, de
cobrança, sem despesas, erc.),

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Parte II - A letra de câmbio 67

letra (136); e não se poderá certamente falar de letra em branco a respeito


daqueles casos em que uma letra incompleta entre em circulação sem a
vontade do seu subscritor (v. g., extravio, roubo, coação). Finalmente,
e mais importante, é ainda exigido que o subscritor cambiário haja fir-
mado com o sujeito a quem a letra foi entregue um acordo destinado a
fixar os termos do preenchimento futuro das menções em falta (v. g.,
quantia cambiária, lugar ou época de pagamento, etc.). Esse acordo de
preenchimento pode ser expresso (por documento escrito ou mero acordo
verbal) (137) ou meramente tácito (mormente, quando resulta concluden-
temente do negócio ou relação subjacente à emissão da letra) (138), mas,
em todo o caso, deverá ter existido: na falta ou invalidade (139) de um
tal acordo, estaremos perante uma letra incompleta, que será sempre

(136) À primeira vista, dir-se-ia que a letra em branco pressupõe a assinatura


do sacador, já que esta se trata de uma menção obrigatória sem a qual a letra nem
sequer existe (arts. I.v, n.v 8, e 2.°, n.v 1, da LULL) (assim, MARTINS, A. Soveral,
Títulos de Crédito e Valores Mobiliários, 45, Almedina, Coimbra, 2008; VASCON-
cm.os, P. Pais, Direito Comercial - Títulos de Crédito, 62, AAFDL, Lisboa, 1988).
A verdade, todavia, é que nada impede que uma letra em branco possa nascer
graças a assinatura de outros obrigados cambiários (aceitante, endossante, avalista):
ponto é que o acordo de preenchimento implique a subscrição futura da mesma
pelo sacador. Sobre a chamada dupla subscrição em branco, em que a letra incom-
pleta é assinada por dois sujeitos cambiários, vide CUNHA, C. Vicente, Letras e
Liuranças: Paradigmas Actuais e Recompreensão de um Regime, 650 e segs., Diss_,
Coimbra, 2009.
(137) Neste sentido, vide, na doutrina, RODRIGUES,]. Conde, A Letra em Branco,
47, AAFOL, Lisboa, 1989; na jurisprudência, o Acórdão do Supremo Tribunal de
Justiça de 13-XII-2007 (ALvES VELHO), in: www.dgsi.pt.
(138) Cf., na doutrina, DELGADO, Abel, Lei Uniforme das Letras e Livranças Ano-
tada, 80, 7.a edição, Petrony, Lisboa, 1996; na jurisprudência, o Acórdão do Supremo
Tribunal de Justiça de 11-II-2003 (FERREIRARAMoS), in: www.dgsi.pt.
(139) Aos casos de inexistência de um pacto de preenchimento, parecem ser ci.e
equiparar aqueles outros em que tal pacto seja inválido, mormente por indererrninaçfã-o
do objeto negocial (art. 280.°, n.? 1, do CCivil): nesse sentido, vide o Acórdão da
Relação do Porto de 8-IV-1997 (SOARES DE ALMElDA), que julgou nulo o pacto de
preenchimento que omitia quaisquer limites quantitativos ou temporais ao preen cla j-
mento das menções cambiárias em branco pelo portador (in: www.dgsi.pr).

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68 Os Títulos de Crédito- Uma Introdução

havida como nula à face do disposto no art. 2.° da LULL (140). Natu-
ralmente, a lena em branco, sendo válida, apenas produzirá os seus
efeiros próprios como lena com o seu preenchimento integral, ou seja,
quando dela constem rodos os requisiros legais essenciais constantes do
art. 1.0 da LULL (141).

III. A violação do pacro de preenchimenro origina o chamado


preenchimento abusivo, regulado no art. 10.0 da LULL: se uma letra em
branco "tiver sido completada contrariamente aos acordos realizados,
não pode a inobservância destes acordos ser motivo de oposição ao
portador, salvo se este tiver adquirido a letra de má fé ou, adquirindo-a,
tenha cometido uma falta grave" (142).
Por preenchimenro "abusivo" entende-se genericamente aquele que
é efetuado em violação dos termos do pacto de preenchimento: abran-
gem-se aqui assim, quer os casos de desconformidade relativa às menções
formais da letra (v. g., relativamente às menções do art. l.>, n.O 2 ou 4, S

o portador introduziu uma quantia cambiária superior ou uma data de


vencimento diferente àquelas que haviam sido acordadas com o subscri-
tor), quer os demais casos de desconformidade relativa a outros aspetos

(140) Afigura-se-nos assim algo exagerado afirmar que "pode existir letra (ou
livrança) em branco sem ter havido prévio contrato de preenchimento" (Acórdão do
Supremo Tribunal de Justiça de 6-IV-2000 (DIONíSIO CORREIA), in: www.dgsi.pt).
Esse contraro constitui um pressuposto "sine qua non" da própria figura da letra em
branco, enquanto particular título cambiário cujo subscriror o destina ao preenchimenro
futuro por outro sujeiro, e que justamente a permite distinguir da mera letra incompleta,
enquanto documento juscambiariamente irrelevante: o que porventura poderá ser dito,
com maior propriedade, é que a mera subscrição e entrega do título será em si mesma
suficiente para, em muitos casos, permitir inferir concludentemente que o subscritor
pretendeu confiar o seu preenchimento ao resperivo destinatário, considerando o
contexto negocial subjacente onde tal entrega se processou.
(141) Os efeitos do seu preenchimenro retroagem assim, em princípio, à data do
saque (ASCENSÃO, J. Oliveira, Direito Comercial, vol. III ("Títulos de Crédito"), 117,
Lisboa, 1992).
(142) FERREIRA, Waldemar, A Ilicitude do Preenchimento Abusivo da Letra de
Câmbio ou Nota Promissória em Branco, in: VIlI "Scientia Ivridica" (1959), 399-410.

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Parte TI - A letra de câmbio 69

daquele pacto (v. g., preenchimento extemporâneo por falta de verifica-


ção de determinada condição relativa ao negócio fundamental, de decurso
de prazo mínimo, etc.). Ora, da referida norma legal resulta que o
subscritor em branco apenas se poderá prevalecer de tal preenchimento
abusivo perante um terceiro a quem a letra tenha sido transmitida pela
sua contraparte no pacto de preenchimento caso prove que esse terceiro
tinha (má fé) ou deveria ter (falta grave) conhecimento de ter em mãos
uma letra emitida em branco que veio a ser preenchida com tais descon-
formidades (143). O que é também dizer que o portador mediato e de
boa fé poderá sempre exigir o pagamento da letra do subscritor ou qual-
quer outro obrigado cambiário, não lhe podendo ser oposta a exceção
do preenchimento abusivo, restando a este último acionar cambiaria-
mente os seus próprios garantes, se os houver (art. 49.° da LULL), ou
civilmente o sujeito ou sujeitos que violaram o pacto de preenchimento
(art. 799.° do CCivil) (144).

3. Os Negócios Jurídico-Cambiários

1. Uma vez analisada a letra de câmbio de uma perspetiva estática


ou genética - ou seja, os requisitos formais de que depende o seu
nascimento -, cumpre agora proceder ao estudo da dinâmica ou vida
deste título de crédito. Tal significa, no essencial, examinar os diferen-
tes negócios ou operações jurídicas que têm a letra por objeto: são eles
o saque (arts. 1.0 a 10.° da LULL), o aceite (arts. 21.° a 29.° da LULL),
o endosso (arts. 11.° a 20.0 da LULL) e o aval (ar ts. 30.° a 32.0
da LULL).

(143) Sobre o ónus probatório do subscritor em branco, FURTADO, J. Pinto,


Títulos de Crédito, 146, Almedina, Coimbra, 2000; na jurisprudência, Acórdão do
Supremo Tribunal de Justiça de ll-IV-2000 (TOMÉ DE CARVALHO), in: www.dgsi.pt.
(144) Sobre a questão de saber se a proteção conferida pelo art. 10.0 da LULL
abrange apenas os portadores mediatos de letras completas ou também incompletas,
vide, em sentidos opostos, CORREIA, A. Ferrer, Lições de Direito Comercial, vol. III
("Letra de Câmbio"), 139 e seg., Coimbra, 1975; MARTINS, A. Soveral, Títulos de
Crédito e Valores Mobiliários, 46 e seg., Almedina, Coimbra, 2008.

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70 Os TítuLos de Crédito - Uma Introdução

II. Para além destes negócios fundamentais, seria ainda possível


falar de um outro: o chamado aceite e pagamento por intervenção ("inter-
vention for honour", "Ehreneintritt"), previsto e regulado nos arts. 55.°
a 63.° da LULL. Figura tecnicamente complexa, hoje quase destituída
de relevo prático, trata-se de uma operação jurídico-cambiária que tem
por função primordial proteger um determinado subscritor cambiário
em face do exercício das ações de regresso nas letras de câmbio (145).

3.1. Saque

I. O saque ("draw", "Ausstellung", "ernission", "tratta") é o negócio


cambiário originário, graças ao qual a letra nasce (146). Trata-se de uma
declaração unilateral e abstrata, feita pelo emitente do título (sacador), que
tem por conteúdo expresso uma ordem de pagamento dirigida ao sacado
para que este pague uma quantia pecuniária determinada ao tomador ou
à ordem deste - de acordo com a fórmula sacramental, "no seu venci-
mento, pagará Va Ex. a por via única desta letra a F. ou à sua ordem" -,
e ainda, implicitamente, uma promessa de pagamento dirigida ao tomador
e aos portadores sucessivos de que o sacado aceitará e pagará a letra e que,
caso tal não aconteça, o próprio sacador a pagará.

II. A obrigação do sacador é, assim, uma obrigação de garantia pela


aceitação e pelo pagamento da letra: dada a promessa implícita no saque,
o sacador responderá, em princípio, pelo aceite e pelo pagamento da
letra por parte do sacado (art. 9.°, n.? 1, da LULL) (147).

(145) Sobre a figura, vide maiores desenvolvimentos infra Parte II, 4.4.
(146) Dizer que o saque constitui a declaração originária significa apenas dizer
que, sem ele, não pode haver letra - mas já não, forçosamente, que ela seja a decla-
ração primogénita ou que o seu conteúdo seja redigido pelo próprio sacador. Com
efeito, não é infrequente que as letras de câmbio sejam preenchidas diretamenre pelo
sacado ou pelo tomador (v. g., banco): todavia, apenas com o saque da letra, consubs-
tanciado na aposição da assinatura do sacador, nasceu a relação jurídica-cambiaria, com
os seus efeitos próprios.
(147) HIRSCH, Ernst, WC Art. 9: Zur Garantie und Transportfunlaion des Wechse-
lindossaments, in: 7 "Neue Juristische Wochenschrift" (1954), 1568-1569.

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Parte II - A Letra de câmbio 71
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A imperatividade desta garantia, todavia, é parcial. Com efeito, o


sacador pode exonerar-se da sua garantia de aceite da letra (art, 9.0, n.? 2,
"ab initio", da LULL): mediante a aposição nesta da cláusula "letra não
aceitável" ou equivalente, o sacador desresponsabiliza-se por qualquer
eventual recusa de aceite por parte do sacado, impedindo assim o por-
tador de, munido do competente protesto, o acionar prematuramente
em via de regresso (art, 43.°, n.? 1, da LULL) (148). O mesmo já não
sucede, naturalmente, quanto à sua garantia de pagamento da letra: o
sacador será sempre responsável perante o portador por tal pagamento,
sendo qualquer cláusula exoneratória tida pura e simplesmente como
não escrita (art, 9.0, n.v 2, "in fine", da LULL).

III. Via da regra, o saque é uma ordem de pagamento dada por


uma pessoa (sacador) e dirigida a outrem (sacado) em favor de um ter-
ceiro (tomador). Esta estrutura trilateral ou triangular, todavia, pode
assumir variantes, dando lugar a modalidades especiais de saque.
É o caso do saque à ordem do próprio sacador (art. 3.°, n.? 1, da
LULL). Trata-se indubitavelmente da modalidade atualmente mais
difundida na prática, em que sacador e tomador coincidem: como já foi
assinalado, as letras são hoje fundamentalmente um instrumento de
garantia e cobrança de créditos, destinando-se a munir o sacador-toma-
dor (credor cambiário) de um título executivo perante o devedor cam-
biário (aceitante), pelo que raramente aquele pretenderá negociar ou
mobilizar o seu crédito perante terceiros (ressalvada a hipótese do des-
conto bancário). É ainda o caso do saque sobre o próprio sacador (art. 3.0,
n.? 2, da LULL): modalidade especial que aproxima a letra da livrança,
ela surge normalmente associada aos pagamentos realizados entre sucur-
sais e outras divisões sem personalidade jurídica de uma mesma empresa
(v. g., a agência A de um banco, para pagar um serviço ou transferir
fundos para a agência B do mesmo banco, saca uma letra à ordem

(148) Sobre as letras não aceitáveis (are. 22.°, n.? 2, da LULL) , vide infra Parte II,
3.2. (11).

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72 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

desta) (149). É também o caso do saque por ordem e conta de um terceiro


(art, 3.°, n.? 3, da LULL): modalidade sobretudo utilizada pelos empre-
sários que assim pretendem evitar a má imagem associada a quem coloca
em circulação numerosas letras, a sua parricularidade reside no facto de
a letra ser emitida por conta de alguém que não figura no título como
sacador (v. g., A saca uma ou mais letras por conta do proponente B,
em situação económica difícil, omitindo a sua identificação ou apondo
a cláusula "por conta" seguida das iniciais deste) (I50). Finalmente, é ainda
o caso do saque plural: apesar de a LULL não o prever expressamente, a
doutrina e jurisprudência vêm admitindo que uma letra possa ser sacada
por uma pluralidade de sacadores, caso em que estes se tornam coobri-
gados cambiários solidários, podendo assim qualquer um deles ser acio-
nado em via de regresso pela totalidade da quantia cambiária (151).

IV. Sendo a letra de câmbio um título de crédito, a sua transmissão


faz-se mediante endosso (art. 483.° do Ceom, art. 1l.°, n.? I, da LULL).

(149) Diferente é o saque realizado pelo sócio único sobre a sua própria sociedade,
o qual, todavia, não deixa de possuir especiais incidências jurídico-cambiais: cf. VON
BIEBERSTEIN,Wolfgang, Zum Identitdtsproblem bei der Einmanngesellschafi im u/ecbsel-
rechtlichen Verkehrsschutz, in: 20 "Juristenzeitung" (1965),403-407.
(150) O saque por ordem e conta de terceiro não se confunde, pois, com o saque
por procuração (art. 8.° da LULL), a que atrás se referiu (cf. supra Parte II, 2.1. (VIII»:
ao passo que, neste último, o sacador é o terceiro representado (já que o emitente do
título ou procurador atua em sua representação), no primeiro caso, o sacador é o
próprio emitente do título, uma vez que ele efetuou o saque em nome próprio (embora
por conta alheia). Sobre a figura, vide DIAS, Gonçalves, Da Letra e Livrança, vol. II,
446, Coimbra, 1939; Acórdão da Relação de Lisboa de 2-1I-1979 (ALCIDES DE
ALMEIDA), in: IV "Coletânea de Jurisprudência" (1979), 128-129.
(151) Sobre esta modalidade (admitida expressamente, aliás, pelo pretérito
art. 284.0 do CCom), vide CORREIA, A. Ferrer, Lições de Direito Comercial, vol. III
("Letra de Câmbio"), 152, Coimbra, 1975; DELGADO, Abel, Lei Uniforme das Letras
e Livranças Anotada, 55, 7. a edição, Perrony, Lisboa, 1996; FURTADO,J. Pinto, Tuulos
de Crédito, 147, Almedina, Coimbra, 2000. Sobre ourras modalidades atípicas e
híbridas, bem como a questão da sua admissibilidade - v. g.. saque à ordem e sobre
o sacador, saque à ordem do sacado -, vide SENDIM, P. Melero, Letra de Câmbio,
vol. I, 430 e seg., A1medina, Coimbra, 1980.

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Parte 11 - A letra de câmbio 73
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Este regime de circulação, todavia, pode ser alterado no caso das cha-
madas letras não à ordem ("non-transferable bill of exchange", "Rekta-
wechsel", "Ietrre non à ordre"): sempre que uma letra seja sacada com a
aposição de uma cláusula "não à ordem" ou outra equivalente, que
proíbe o seu endosso, ela "só é transmissível pela forma e com os efeitos
de uma cessão ordinária de créditos" (art. 11.°, n.O 2, da LULL) (152).
As diferenças entre os dois regimes de circulação são significativas: ao
contrário do endosso (negócio unilateral que requer a mera assinatura
do endossante e a tradição do título), a transmissão da letra não à ordem
configura um negócio jurídico bilateral cuja eficácia depende ainda da
sua notificação ao devedor (art, 583.° do CCivil); ao contrário do
endosso (que constitui o endossante numa obrigação de garantia pela
aceitação e pagamento da letra, salvo estipulação diversa), a transmissão
da letra não endossável investe o cedente numa mera responsabilidade
pela existência e exigibilidade do crédito (art, 587.° do CCivil); e ao
contrário do endosso (que investe o endossado num direito autónomo
em relação aos anteriores subscritores), o direito do cessionário é o mesmo
direito do cedente, sendo assim oponíveis àquele todas as exceções pes-
soais que o devedor pudesse opor a este (art. 585.° do CCivil) (153).

(152) O interesse prático desta figura consiste em permitir ao sacador, garante


último do pagamento da letra, limitar a sua responsabilidade cambiária ao tomador e
evitar assim a multiplicação de novos titulares de uma pretensão cambiária imune às
exceções pessoais que pudesse aduzir contra aquele (endossados). Sobre a figura, vide,
entre nós, SARMENTO, P. Morais, Da Admissibilidade e do Valor da Cláusula "Não à
Ordem" nas Letras, in: 13 "Revista da Ordem dos Advogados" (1953), 182-240; noutros
quadrantes, MOSSA, Lorenzo, La Cambiale non all'Ordine, in: XXXII "Rivista dei Diritto
Commerciale e dei Diritto Generale delle Obbligazioni" (1934), 785-803. A doutrina
diverge quanto a saber se se poderá falar ainda aqui, "surnrno rigore", de uma letra de
câmbio: num sentido afirmativo, CORREIA, A. Ferrer, Lições de Direito Comercial, vol. III
("Letra de Câmbio"), 24, Coimbra, 1975; em sentido inverso, FURTADO, J. Pinto,
Títulos de Crédito, 167, Almedina, Coimbra, 2000.
(IS3) WEIMAR, Wilhelm, Zur Ausbildungsforderung: Zession und Indossament, in:
31 "Monatsschrift für deutsches Recht" (1977), 24-26. Esta cláusula especial pode
resultar da vontade das partes, mas também da própria lei, como sucede no caso das
letras subscritas no âmbito de contratos de crédito ao consumo a fim de proteger o
consumidor contra os riscos inerentes à circulação do título através de endosso (are. 22.0

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74 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

3.2. Aceite

I. O aceite ("acceptance", "Akzept", "acceptation", "accettazione")


é o negócio jurídico-cambiãrio, de natureza unilateral e abstrata, pelo
qual o sacado aceita a ordem de pagamento que lhe foi dirigida pelo
sacador e se obriga a pagar a letra no vencimento ao tomador ou à ordem
deste (154).
O saque, constituindo a declaração cambiária originária, não repre-
senta em si mais do que uma ordem de pagamento dada pelo emitente
ao sacado para que este pague ao tomador a soma cambiária indicada
na letra. Todavia, como é óbvio, o sacado não fica obrigado a pagar tal
quantia só porque alguém (o sacador) prometeu que ele o faria: o sacado
só se vincula cambiariamenre pelo aceite (155).

II. A apresentação da letra ao aceite do sacado é assim um ato fun-


damental na economia cambiária. Porque das duas, uma. Se o sacado
aceita a letra (doravante denominado "aceitante"), ele torna-se o obrigado
cambiário em via principal: a ele caberá sempre o dever de pagar a letra
aceite, seja ao portador na data do respetivo vencimento (art. 28.°, n.? 1,
da LULL), seja mesmo a qualquer subscritor cambiário que já a tenha

do Decreto-Lei n.O 133/2009, de 2 de junho): sobre a problemática, vide LERMA,


G. Sanchez, Los Instrumentos Cambiarios y la Defensa de LosConsumidores, in: 16 "Actua-
lidad Civil" (1997), 343-368; MÜLLER, Georg, Auswirkungen des Verbraucherkreditge-
setzes aul das Wechsel- und Scheckrecbt, in: 45 "Werrpapier-Micreilungen - Zeitschrifr
für Wirrschafts- und Bankrechr" (1991),1781-1790.
(154) LASTRES,J. Pi ta, La Aceptación de la Letra de Cambio, La Ley, Madrid, 1992.
Modalidade particular do aceite, associada à concessão de crédito e à figura geral do
desconto, é o chamado aceite bancário, que consiste em um banco aceitar uma letra
sacada sobre si por um seu cliente: sobre a figura, vide ANTUNES, J. Engrácia, Os Con-
tratos Bancários, 127, in: AAVV, "Estudos em Homenagem ao Professor Doutor Car-
los Ferreira de Almeida", vol. II, 71-155, Almedina, Coimbra, 2011.
(155) Diferente é a questão de LIma eventual vinculação extracambiária: se o sacado
se obrigou para com o sacador a aceitar a letra, através de convenção exrracartular, a
recusa de aceite perante o tomador ou outro portador poderá acarretar para o sacado
a inerente responsabilidade civil contratual nos termos gerais (arr. 798.° do CCivil).

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Parte II - A Letra de câmbio 75

pago antes do vencimento (arts. 28.°, n.v 2, e 49.° da LULL). Se o


sacado recusa o aceite, isso abre caminho ao acionamento dos obrigados
cambiários de garantia (sacadores, endossantes, avalistas): através do
chamado "protesto por falta de aceite" (ato de certificação notarial da
recusa de aceite), o portador da letra fica legitimado a exigir de imediato
o pagamento integral da mesma ao sacador ou demais obrigados em via
de regresso (art, 43.° da LULL) (156). Qual o respetivo regime?
Por um lado, quanto ao seu lugar e prazo, a letra deve ser apre-
sentada pelo portador ao aceite no domicílio do sacado até à data do
seu vencimen to (art. 21.° da LULL), podendo o sacador estipular que
o aceite apenas se verifique após certa data (art. 22.°, n.v 3, da LULL)
e o sacado solicitar uma segunda apresentação (art. 24.0 da LULL): tal
significa que toda a apresentação posterior àquela data valerá como
apresentação para pagamemo e não aceite, sendo também o competente
protesto, em caso de recusa, protesto por falta de pagamento e não de
aceite (157).
Por outro lado, quanto à sua natureza, a regra é a apresentação
facultativa: o tomador (ou outro portador posterior) tem o poder mas
não o dever de apresentar a letra ao aceite do sacado (158). Existem,
todavia, duas exceções a esta regra. Uma consiste no chamado "aceite
obrigatório" ("Vorlegungsgebot"), em que o portador deve apresentar a

(lS6) CHANTEUX-Bul, Maryvonne, Le Refos d'Accepter une Lettre de Change, in:


XXXI "Revue Trimestrielle de Droit Commercial er de Droit Économique" (1978),
707-729; SANCHEZ, G. ]ímenez, EL Reembolso de La Letra por Falta de Aceptación _
«Facultas SoLutionis» de LosObrigados Cambiarios en Regreso, in: 122 "Revista de Derecho
Mercantil" (1971), 503-598.
(IS7) Sobre o protesto por falta de aceite e por falta de pagamento, vide infra
Parte II, 4.3.
(IS8) Na generalidade dos casos, a letra será apresentada ao aceite. Com efeito,
as terras de câmbio desempenham hoje primacialmente uma função de mecanismo de
garantia e cobrança de crédito, sendo usualmente sacadas à ordem do próprio sacador
e destinando-se a manter-se nas mãos deste, exceto no caso do desconto bancário (cf.
supra Parte II, 1.2. e 3.l.): ora, como é compreensível, tal função pressupõe o aceite
da letra pelo devedor no momento da resperiva emissão, sem o qual esta perderia
qualquer relevo prático para o credor.

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76 Os TítuLos de Crédito - Uma Introdução

letra ao aceite. Essa obrigatoriedade pode resultar da vontade dos subs-


critores cambiários (sacador ou endossantes: art. 22.°, n.O 1 e 4, da S

LULL) ou ter origem na própria lei (como sucede no caso das letras a
certo termo de vista: art. 23.° da LULL): a falta ou intempestividade da
apresentação ao aceite por parte do portador origina para este a perda
de todos os seus direitos de ação contra os obrigados cambiários em via
de regresso (art. 53.° da LULL) (59). A outra consiste no chamado "aceite
proibido" ("Vorlegungsverbot"), em que o portador não pode apresentar
a letra ao aceite. São as chamadas letras "não aceitáveis", previstas no
art. 22.°, n.? 2, da LULL, caraterizadas pelo sacador ter vedado a sua
apresentação ao aceite do sacado (mediante aposição de cláusula de
"aceite proibido" ou equivalente): caso o portador da letra, em contra-
venção desta proibição cambiária, a apresente ao aceite do sacado, a
recusa deste será juridicamente inócua, não o investindo em qualquer
direito de ação contra o sacador e os demais obrigados cambiários em
via de regresso (160).

III. A declaração de aceite consiste numa declaração cambiária escrita


(mediante a expressão "aceite" ou outra equivalente) e assinada pelo
sacado em qualquer parte da letra (art. 25.°, n.? 1, da LULL) - sem
prejuízo dos chamados "aceite em branco" (simples assinatura na parte

(159) Sobre a figura e regime do aceite obrigatório, vide COIU~EIA,A. Ferrer, Lições
de Direito Comercial, vol. JI[ ("Letra de Câmbio"), 156 e segs., Coimbra, 1975.
(160) As letras não aceitáveis são frequentemente utilizadas como um mecanismo
de defesa contra o vencimento prematuro da letra, quando o sacador saiba ou tema
que o sacado não aceitará a letra, embora confie que este a pagará na data do resperivo
vencimento: v. g., se o empresário nacional A fornece umas mercadorias ao empresário
estrangeiro B e titula o seu crédito através de uma letra de câmbio sacada sobre este,
o sacador A poderá ter interesse em apor uma cláusula deste tipo a fim de se precaver
conrra o risco de B recusar o seu aceite, por ainda não ter recebido as mercadorias no
momento em que a letra lhe seja apresentada pelo portador. Sobre a figura e o regime
do aceite proibido, vide CORREIA, A. Ferrer, Lições de Direito Comercial, vol. ll l ("Letra
de Câmbio"), 160 e segs., Coimbra, 1975; para maiores desenvolvimenros, BÜLOW,

Peter, Kommentar zum WechseLgesetz und Scheckgesetz, 185 e segs., 3. AuA., Muller,
Heidelberg, 2000.

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Parte II - A letra de câmbio 77

anterior da letra: cf. art. 25.°, n.? 1, "in fine", da LULL) (161) e "aceite
riscado" (anulação da declaração antes da restituição da letra: cf art. 29.°
da LULL) (162) -, não sendo, em princípio, datada - exceto se se tra-
tar de letra a certo termo de vista ou apresentável em data fixa conven-
cionada (art. 25.°, n.? 2, da LULL) (163). Por outra banda, o aceite deve
ser "puro e simples" (art. 26.°, n.? 1, da LULL). Tal como no caso do

(161) Com exceção do saque, todos os negócios cambiários podem resultar da


mera aposição da assinatura do declarante, sem qualquer declaração adicional: fala-se
então de "aceite em branco" (art. 25.°, n.? 1, parte final, da LULL), "endosso em
branco" (art. 13.°, n.? 2, da LULL) ou "aval em branco" (are. 31.°, n.? 3, da LULL),
sendo justamente pela localização da referida assinatura no contexto do documento
que se afere qual ° negócio em causa: assim, por exemplo, a assinatura do sacado na
parte anterior ou rosto da letra, mesmo quando desacompanhada da palavra aceite ou
equivalente, valerá como aceite (arr. 25.°, n.? 1, parte final, da LULL). Discutido é,
todavia, se e em que condições será admissível afastar o significado negocial da locali-
zação das assinaturas mediante prova da diferente intenção do subscritor (para o caso
do aval, cf. infra nota 187).
(162) O arr. 29.0, n.v 2, da LULL prevê ainda que qualquer eventual anulação
do aceite, efetuada nos termos do n.? 1, fique privada de efeitos quando o sacado haja
informado por escrito o porrador de que aceita a letra: trata-se de um desvio ao prin-
cípio geral da literalidade (cf. supra Parte I, 3.4.), já que a lei atribuiu aqui relevância
jurídico-cambiária às declarações extracartulares de um subscritor da letra.
(163) Tal como se salientou oportunamente, o sacado tanto poderá ser uma
pessoa singular ou coletiva. Ora, neste último caso, afigura-se que a assinatura do
respetivo represenranre legal ou orgânico ("maxime", um administrador ou gerente
social), ainda quando não acompanhada da expressa menção a essa qualidade, deverá
valer como um aceite válido desde que tal qualidade possa ser deduzida de factos
concludentes nos lermos do are. 217.° do CCivil, designadamente quando seja completa
e inequívoca a identificação da pessoa coletiva representada (v. g., quando acompanhado
de carimbo ou chancela com a firma ou denominação): neste sentido também se pro-
nunciou o Acórdão de Uniformização do Supremo Tribunal de Justiça n.v 1/2002, de
6 de dezembro de 2001, in: "Diário da República", I série, n.? 20, de 24 de janeiro
de 2002 (cf. ainda CUNHA, C. Vicente, Vinculação Cambiária de Sociedades: Algumas
Questões, in: MVV, "Nos 20 Anos do Código das Sociedades Comerciais", vol. 1,
361-393, Coimbra Editora, Coimbra, 2007). Sobre a questão do aceite por adminis-
tradores de facto, vide SÁENZ,J. Echebarría, La Aceptacián Cambiaria por Factores y
Administradores de Hecho, in: XV "Revista de Derecho Bancaria y Bursátil" (1997),
437-473.

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78 Os Títulos de Crédito - Uma introdução

saque (art. 1.0, n.v 2, da LULL), o aceite condicionado ou modificado


(mediante qualquer alteração ao teor da letra, v. g., lugar de pagamento,
vencimento, etc.) é proibido - equivalendo a uma recusa de aceite que
legitima o portador a lavrar o competente protesto e acionar de imediato os
obrigados em via de regresso (arts, 26.°, n.? 2, e 43.°, n.? 1, da LULL) -,
embora não seja nulo - já que o aceitante fica vinculado nos termos
do seu aceite modificado (art. 26.°, n.? 2, "in fine", da LULL) (164): isso
significa que, caso o sacado aceite a letra mas lhe altere a data de venci-
mento, o lugar do pagamento ou outro dado cambiário, o portador da
letra poderá, à sua escolha, ou bem reclamar daquele o pagamento nos
termos da letra modificada, ou bem lavrar protesto por falta de aceite a
fim de acionar os obrigados em via de regresso. Finalmente, o sacado
que aceitou não tem qualquer direito de posse ou propriedade sobre a
letra aceite (art. 24.°, n. ° 2, da LULL), sem prejuízo do direito de soli-
citar uma nova apresentação da mesma (art. 24.°, n.? 1, da LULL) e de
exigir a entrega da letra e respetivo documento de quitação no momento
do seu pagamento (art. 39.°, n.O 1, da LULL) (165).

IV. Uma derradeira e importante observação. No modelo legal


clássico, a letra de câmbio constitui um instrumento de pagamento
destinado a circular pelas mãos de múltiplos portadores, que obedece a
uma caraterística triangulação de negócios jurídicos cronologicamente
sucessivos (saque, aceite, endosso). Todavia, como já foi assinalado, a
letra de câmbio deixou de funcionar como um meio de pagamen to, para

(164) Uma exceção a esta regra é o chamado aceite parcial, limitado a uma parte
da quantia cambiária (art. 26.°, n.? 1, "in fine", da LULL), que valerá assim como
aceite relativamente a essa parcela cambiária e recusa de aceite relativamente à parcela
remanescente (cf. art. 39.°, n.'" 2 e 3, da LULL), legitimando o portador a exigi-Ia
junto dos obrigados em via de regresso (cf. art. 51.° da LULL). Em contrapartida, no
caso de aceite excedentário, isto é, superior à quantia cambiária, deve entender-se que
o aceitante se vincula apenas por esta quantia (HUECK, Alfred/CANARIS, Claus- Wilhelm,
Recht der Wertpapiere, 80, 12. Aufl., Vahlen, München, 1986).
(165) Sobre o problema da recusa de restituição de letra que se encontra na posse
do aceitante para pagamento, vide o Acórdão da Relação do Porto de 9-Y-1996 (SALEIRO
DE ABREU), in: XXI "Colerânea de Jurisprudência" (J 996), Ill, 195-196.

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Parte 1/ - A letra de câmbio 79

passar a representar hoje, quase exclusivamente, um instrumento de


garantia e de crédito (166). Ora, como bem sublinha Carolina CUNHA,
esta mutação funcional levou a uma erosão da tradicional ortodoxia da
referida triangulação: na "praxis" cambiária, a esmagadora maioria das
letras de câmbio são hoje títulos sacados à ordem do próprio sacador
(e não de terceiro) e que não se destinam a circular (raramente saindo
das mãos daquele, exceto nas hipóteses de desconto bancário), onde, por
conseguinte, o aceite é anterior ou contemporâneo ao próprio saque (e não
posterior, como no modelo legal), já que, antes dele, as letras carecem
compreensivelmente de relevância ou interesse para o sacador-toma-
dor (167).

3.3. Endosso

L O endosso ("indorsement", "Indossamen t", "endossernenr",


"giratà') é o negócio cambiário que faz circular o título: tal como as
demais declarações (saque, aceite, aval), estamos diante de uma declaração
jurídica, de caráter abstrato e unilateral, pela qual o tomador ou qualquer
outro portador posterior (endossante) transmite a letra e todos os direitos
dela emergentes a um terceiro (endossado ou endossatário) (168).
Como já sabemos, a letra é um título de crédito à ordem, destinado
a circular por endosso - como já alguém lhe chamou, um "viajante
nato" (169). Ora, justamente, o tomador de uma letra (bem como qual-

(166) Cf. supra Parte II, 1.2.


(167) Como refere a citada autora, "materialmente, o aceite tende a ser a primeira
declaração cambiária inscrita no título ( ... ), ou, quando muito, é contemporâneo do
saque" (Letras e Liuranças: Paradigmas Actuais e Recompreensão de um Regime, 101, Diss.,
Coimbra, 2009).
(168) Sobre a figura, vide FERRARA,Francesco, La Girata della Cambiale, Foro
Italiano, Roma, 1935; OPITZ, Peter, Der Funktionswandel des Wechselindossaments,
Duncker & Humblot, Berlin, 1968.
(169) PARTESOTfI,Giulio, II Trasfirimento della Cambiale, Cedam, Padova, 1977.
Como já foi assinalado (cf. supra Parte II, 1.2. (II)), o progressivo declínio da circula-
ção das letras de câmbio fez perder a este negócio cambiário o brilho de outros tempos,
já que, não raro, as letras são sacadas a favor do próprio sacador, que não as pretende

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80 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

quer portador posterior desta) não é obrigado a aguardar pela data do


respetivo vencimento para se fazer pagar, podendo, antes disso e alter-
nativamente, endossar a mesma a um terceiro: ao fazê-lo, o endossante
está a dar uma nova ordem de pagamento ao sacado em favor do endos-
sado, responsabilizando-se pela aceitação e cumprimento daquela. Ou
seja: no fundo, o endosso funciona como uma espécie de "novo saque",
com a particularidade de o seu conteúdo já estar previamente definido
e de possuir um beneficiário diferente, que agora não é o tomador mas
o endossado (170).

II. O endosso está sujeito a determinados requisitos objetivos e


subjetivos.
No que toca aos pressupostos objetivos, o endosso exprime-se através
da mera assinatura do endossante aposta no verso do título (daí a sua
raiz etimológica "en dos"), usualmente em sentido transversal ou em
folha anexa (no caso de os endossos já não caberem na letra), podendo
ou não ser acompanhada de declaração expressa (neste último caso,
através da expressão "pague-se a F. ou à sua ordem" ou equivalente,
aponível, juntamente com a assinatura, em qualquer parte do título)
(art. 13.°, n.? 1, da LULL) (171). Em princípio, esta declaração cambiá-

transmitir (mobilizando o crédito carrular) mas apenas munir-se de um título executivo


que assegure a cobrança coerciva dos seus direitos (para a eventualidade do não paga-
mento do devedor).
(170) Neste senrido também, o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de
16-XIJ-1986 (FREDER1CO BAPTISTA),que justamente afirma que o endosso "configura
um novo saque" (in: 362 "Boletim do Ministério da Justiça" (1986), 568). A doutrina
germânica exprime idêntica ideia, afirmando: "Das Indossament isr eine neuc Trarte".
(171) Tal declaração, à semelhança do saque, deve ser incondicional - conside-
rando-se como não escrita ou irrelevante qualquer condição aposta (arr. 12.°, n.? 1,
da LULL), que não afera assim a validade e eficácia plenas do endosso - c total -
sendo nula qualquer eventual limitação a uma parte da quantia cambiaria (arr. 12.°,
n.? 2, da LULL), que assim retira validade ao endosso parcial. Esta regra, todavia,
conhece exceções no âmbito de outros tipos de títulos de crédito: pense-se, por exem-
plo, na admissibilidade do endosso parcial das apólices de seguros (arr. 38.°, n.? 2, da
LCS).

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Parte II - A letra de câmbio 81

ria indicará o nome do beneficiário do endosso, mas não é forçoso que


assim seja: é o chamado "endosso em branco" ("indorsement in blank",
"Blankoindossament", "endossement en blanc"), no qual o endossante
se limita a apor a sua assinatura, no verso do título ou em folha anexa,
omitindo o nome do endossado (art. 13.°, n.v 2, da LULL), ou então a
endossá-la ao portador (art. 12.°, n.? 3, da LULL) (172).
No que toca aos pressupostos subjetivos, o endosso pode ser realizado
(legitimidade ativa) pelo tomador da letra, por qualquer portador legiti-
mado por uma série ininterrupta de endossos, ainda que o último seja
em branco, ou ainda qualquer cessionário ou sucessor "rnortis causa" de
um destes. E pode ser realizado a favor (legitimidade passiva) de qualquer
terceiro estranho à cadeia cambiária, do sacado, e até de um dos obriga-
dos cambiários (sacador, endossantes, avalistas) (art. 11.°, n.O 3, da LULL):
neste último caso, em que a letra, graças a uma cadeia de sucessivos
endossos, retorna às mãos de um anterior portador e endossante, estare-
mos diante do chamado "reendosso" ("Rückindossament") (173).

(ln) O endossado em branco constitui um portador legítimo da letra (art. 16.°,


n.? 1, da LULL), podendo, à sua escolha, optar por preencher o espaço com o seu nome
ou de terceiro, endossar de novo a letra nominativarnente ou em branco, ou transmitir
o título tal como o recebeu (art. 14.0, n." 2, da LULL): neste último caso, a letra fun-
cionará como título ao portador, já que, não ficando rasto da sua passagem intermédia
pelas mãos do endossado em branco, o portador atual será sempre considerado como
portador imediato, e não mediato, do endossante em branco. Sobre a figura - de
assinalável relevo prático, já que permite a circulação de letras através da mera "traditio"
e liberta o portador da sua usual obrigação de garantia -, vide LABORDE, Lacoste, De
l'Endossement en Blanc, Diss., Toulouse, 1899; STRANZ,Martin, Blankoindossament ais
Wechselbürgschaft?, in: 7 "Neue [uristische Wochenschrift" (1954), 1917-1917.
(lnl A particularidade desta figura reside no regime aplicável ao direito de
regresso, ficando o reendossado impedido de acionar os demais intervenientes na cadeia
de reendossos. Se uma letra é sucessivamente endossada (A-B, B-C, C-O, D-E, E-C),
as obrigações de garantia do reendossado C para com D e E e as de O e E para com
C como que se compensam reciprocamente, indo C recuperar a sua posição primitiva
cambiaria (antes do endosso feito a O) e apenas podendo acionar em via de regresso
os obrigados que o antecederam nessa posição (B e A). Cf TORRES, A. Quifíones, EI
Endoso de la Letra de Cambio a Favor de Personas que lá Figuran en la Letra, in: XI I I
"Revista de Derecho Bancario y Bursátil" (1994), 595-634.

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82 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

III. O endosso produz três tipos de efeitos: ele transmite os direitos


cambiários, garante a aceitação e pagamento da letra, e legitima a posse
do portador (174).
Desde logo, o endosso tem por efeito transmitir a propriedade do
título e todos os respetivos direitos emergentes para o endossado,
incluindo os de apresentar a letra a aceite, cobrá-la na data de vencimento
ou endossá-la de novo a terceiro (efeito de transmissão). Todavia, assinale-se
a existência de determinadas modalidades especiais de endosso que se
encontram destituídas desta eficácia translativa normal: talo caso do
endosso "por procuração" (que apenas confere ao endossado o direito a
cobrar a quantia cambiária em nome e por conta do endossante: cf.
art. 18.0 da LULL) e do endosso "em garantia" (que investe o endossado
na posição de credor cambiário pignoratício: cf. art. 19.0 da LULL) (175).
Depois ainda, o endosso tem por efeito constituir o endossante
numa obrigação de garantia da aceitação e pagamento da letra perante
o endossado e os portadores subsequentes, investindo os últimos num
direito de regresso contra o primeiro - ou seja, graças ao endosso, o
endossante garante que a letra vai ser aceite (se ainda não o foi) e paga

(174) Para maiores desenvolvimentos, vide MORTZSCH, Matrhias, Die Garantie-


zeichnung des Wechsels, Perer Lang, Frankfurt am Main, 1995; Orrrz, Perer, Der
Funktionswandel des Wechselindossaments, Duncker & Humblot, Berlin, 1968.
(17\) Sobre estas figuras, vide RAPOSO, A. Simões, Apontamentos sobre os Artigos
18. o e J 9. o da Lei Cambiária Uniforme, in: XVI "Gazeta dos Advogados da Relação de
Luanda" (1946), 1-10; sublinhando a natureza fiduciária do endosso por procuração,
FERNANDES,L. Carvalho, A Admissibilidade do Negócio Fiduciário no Direito Português,
236, in: "Ars Iudicandi - Estudos em Homenagem ao Prof. Doutor A. Castanheira
Neves", vol. II, 225-253, Coimbra Editora, Coimbra, 2009; sobre os chamados endos-
sos por procuração e em garantia "encobertos" - ou seja, endossos que, não obstante
desprovidos das menções expressas dos arts, 18.0 e 19.0 da LULL, têm a si subjacente
um mandato para cobrança ou a constituição de penhor sobre créditos cambiários -,
vide CUNHA, C. Vicente, Letras e Livranças: Paradigmas Actuais e Recompreensão de um
Regime, 96, Diss., Coimbra, 2009. Noutros quadrantes, vide ASSIG, ALBRECHT, Das
Inkassoindossament im Wechselrecht, Diss., Mainz, 1985; RUBlO, J. Viguera, La Prenda
Cambiaria: EI Endoso en Garantía, Civiras, Madrid, 1994; PORTALE, Giuseppe, Girata
"Valeur en Compte" e "Girara per Procura", in: XLII "Banca, Borsa, e Tiroli di Credito"
(1979), 333-349.

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Parte [/ - A letra de câmbio 83

pelo sacado, e que, se não o for, ele próprio a pagará (efeito de garan-
tia) (176). De novo, existem algumas modalidades especiais de endosso
que não originam tal responsabilidade cambiária de regresso: talo caso
do endosso com cláusula "sem garantia" ou "sem regresso" (que exonera
o endossante da sua responsabilidade de aceite e/ou pagamento perante
os endossados imediato e mediatos: cf art. 15.°, n.? I, da LULL) (177),
do endosso com "cláusula não à ordem" (que, proibindo o endosso,
exonera o endossante da sua responsabilidade cambiária apenas em face
dos endossados mediatos: cf. art. 15.°, n.O 2, da LULL) (1781, e do endosso
com cláusula sem "protesto" ou "sem despesas" (que, ao invés, torna mais
onerosa a responsabilidade cambiária do endossante, ao dispensar o
portador de lavrar o protesro por falta de aceite ou pagamento para
exercer os seus direitos de regresso: cf. art. 46.° da LULL) (179)

(176) Desta perspetiva, dir-se-ia que a letra é um título de crédito cujo valor
aumenta à medida que circula, já que cada endosso vem adicionar um novo garante
ou devedor aos devedores cambiários preexistentes (RlPERT, Georges/ROBLOT, René,
Traitéde Droit Commercial, vol. II, 217, 14cmcédition, LGDJ, Paris, 1994).
(177) Há quem sustente, com base num argumento de identidade ou até maioria
de razão, que o endossante poderá igualmente apor na letra uma cláusula de limitação
da responsabilidade cambiária, circunscrevendo esta a uma parte da quantia cambiária
(CUNHA, C. Vicente, Letras e Livranças: Paradigmas Actuais e Recompreensão de um
Regime, 89, Diss., Coimbra, 2009): claro está, se todos os sucessivos endossantes apu-
serem tal cláusula, pode chegar-se a um resultado prático funcionalmente equivalente
ao de um endosso parcial, proibido por lei (cf. supra nota 171).
(17B) A letra endossada "não à ordem" ("Rektaindossamem"), prevista no art. 15.°,
n.v 2, da LULL, não se confunde com a letra sacada "não à ordem" ("Rektawechsel"),
atrás analisada (cf supra Parte II, 3.1. (IV)). As duas figuras distinguem-se fundamen-
talmente em virtude do alcance da proibição de endosso: ao passo que a cláusula "não
à ordem" aposta pelo sacador tem por consequência proibir totalmente o endosso a
todos os portadores da letra, a mesma cláusula aposta por um endossante apenas veda
o endosso ao endossado imediato, mas não aos mediatos.
(179) Sobre esta cláusula, vide BOUTERON,Jacques, De La Clause de Retour Sans
Frais, in: XXXVIII "Annales de Droir Commercial et Industriei Français, Étranger et
Internationale" (1929), 229-236. Na jurisprudência portuguesa, embora para o caso
(paralelo) da livrança, vide o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 29-X-2009
(SANTOSBERNARDINO),in: XVII "Coletânea de Jurisprudência - Acórdãos do STJ"
(2009), III, 114-115.

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84 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

Finalmente, o endosso legitima a posse do endossado no sentido em


que, sendo a legitimidade do portador de uma letra aferida pela existên-
cia de uma série ininterrupta de endossos (art. 16.°, n.? 1, da LULL),
aquele se presumirá como sendo o seu titular legítimo (efeito de legiti-
mação): tal significa que o endossado fica plenamente habilitado ao
exercício dos direitos cambiários, exigindo o pagamento da letra ou
transmitindo-a, não lhe podendo ser opostas quaisquer eventuais irre-
gularidades das posses dos anteriores portadores, salvo em caso de má fé
ou culpa grave (180).

IV. Assinale-se, por último, que, sendo o endosso o mecanismo


típico de circulação da letra de câmbio (art. 483.° do CCom, art. 11.°,
n.v 1, da LULL), existem diversas modalidades impróprias de transmis-
são (181). Assim sucederá, por exemplo, nos casos das letras que são objeto
de transmissão "inter vivos" através de consignação de rendimentos (art, 660.°,
n.O 2, do CCivil e art. 881.°, n.? 3, do CPC), doação (art. 940.° do
CCivil), usufruto (art. 1467.° do CCivil), ou mera cessão de créditos
(art. 577.° do CCivil) - v. g., nas hipóteses já referidas das letras não
à ordem (arts. 11.°, n.v 2, e 15.°, n.v 2, da LULL) ou de endosso pos-
terior ao protesto por falta de pagamento (art. 20.° da LULL) -, de
transmissão "rnorris causa" por sucessão - no caso de morte do seu
portador, sucedendo os herdeiros ou legatários no crédito cambiário (cf ,
todavia, arts. 2261.° e 2262.° do CCivil) -, de transmissão em via
executiva e insolvencial (art. 857.° do CP C, arts. 46.° e 91.° do CIRE)

(180) Além de permitir ao devedor cambiá rio liberar-se plenamente da sua obri-
gação mediante pagamento efetuado a esse endossado (art. 40.°, n.? 3, da LULL). Cf.
ainda PELLJZZI, Giovanni, Esercizio dei Diritto Cartolare e "Legittimazione Attioa", in:
V "Rivista di Diritro Civile" (1959), 148-l86. Sobre o princípio geral da inoponibi-
lidade das excepções cambiarias, vide infra Parte II, 4.6.
(181) FERRI, Giuseppe, L'Acquisto dei Titoli di Credito con Mezzo Diverso della
Girata, in: "Srudi in Onore di Edoardo Volterra", vol. IV, 163-178, Ciuffre, M ilano,
1971. Algumas destas modalidades impróprias de transmissão, porque não encontram
expressão formal no texto da letra, tornam assim necessário que o rransmissário Faça
prova da titularidade material (v. g., documento de cessão de créditos, habilitação de
herdeiros, etc.) para poder exercer os direitos cambiários.

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Parte 11- A letra de câmbio 85

ou em via empresarial (designadamente, em caso de trespasse) (182) -,

e assim por diante.

3.4. Aval

I. O aval ("security endorsernent", "Wechselbürgschaft", "avalio")


é o negócio jurídico-cambiário através do qual uma pessoa (avalista ou
dador do aval) garante o pagamento da letra por parte de um dos seus
subscritores (avalizado) (183).
O aval representa assim uma nova obrigação cambiária, que tem
por finalidade garantir ou caucionar obrigação cambiária idêntica e
preexistente de um signatário da letra de câmbio. Apesar de economi-
camente possuir um fim semelhante à fiança, o aval representa uma
obrigação pessoal de garantia dotada de um regime jurídico próprio:
assim, ao passo que a fiança é uma garantia de natureza acessória (art. 627.°,
n.? 2, do CCivil), a obrigação do avalista é autónoma, subsistindo mesmo
no caso de a obrigação do avalizado ser nula por qualquer razão que não
um vício de forma (art. 32.°, n.v 2, da LULL) (184); ao passo que a fiança
comum tem natureza subsidiária (benefício da prévia excussão do fiador: cE
art. 638.° do CCivil), a obrigação do avalista é solidária, respondendo este
a par dos demais subscritores pelo pagamento integral da letra (art. 47.°,

(182) Sobre a transmissão de letras no caso de transmissão de empresas ("maxime",


trespasse), vide ANTUNES, ]. Engrácia, A Empresa corno Objecto de Negócios - :4.sset
Deals" versus "Share Deals", 760, in: 68 "Revista da Ordem dos Advogados" (2008),
715-793.
(183) CARNEIRO, J. Sá, O Aval na Lei Uniforme, in: 57 "Revista dos Tribunais"
(1939), 82-84; RODRlGUES, N. Madeira, Das Letras:Aval e Protesto, Almedina, Coim-
bra, 2005. Noutros quadrantes, vide BALTAR,A. Fernández-Albor, El Aval Cambiaria.
Civitas, Madrid, 1992; GEISENBERGER,Bernard, L'Aval des Effits de Commerce, LGD],
Paris, 1955; MARTENS, Klaus-Peter, Die Bürgschaft im Wechselrecht und in der Konkur-
renz mit anderen Sicherungsrechten, in: 26 "Betriebs-Berater" (1971), 765-770; ROSSI,
Guido, L'Auallo come Garanzia Cambiaria Tipica, Giuffre, Milano, 1962.
(184) Para uma ilustração desta autonomia substancial, vide o Acórdão do
Supremo Tribunal de Justiça de 24-1-2008 (OLIVEIRAROCHA), in: XVI "Coletânea de
Jurisprudência - Acórdãos do STJ" (2008), I, 59-61.

Coimbra Editora®:
86 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

n. 1 e 2, da LULL); e ao passo que a fiança tem um alcance bilateral


OS

(sub-rogação do fiador nos direitos do credor contra o afiançado: cf.


art. 644.° do CCivil), a obrigação do avalista tem projeções plurilaterais,
ficando aquele ainda sub-rogado nos direitos emergentes da letra contra
os obrigados em face do avalizado (art. 32.0, n.? 3, da LULL) (185).

II. O aval está sujeito a determinados requisitos objetivos e subje-


tivos.
No que toca aos pressupostos objetivos, a declaração de aval deve ser
escrita (mediante a expressão "bom para aval" ou equivalente) e assinada
pelo avalista no verso da letra ou em folha anexa (art, 31.°, n. 1 e 2, OS

da LULL), sendo que a mera assinatura aposta no rosto ou face anterior


do título, que não seja a do sacador ou sacado, valerá também como aval
(art. 31.°, n.? 3, da LULL) (186). O aval pode ser nominativo ou "em
branco" - consoante indica expressamente o nome do avalizado ou, ao
invés, o omita, presumindo-se neste caso que aquele será o sacador
(art. 31.°, n.v 4, da LULL) (187) -, total ou parcial- consoante garante

(185) NETO, A. Gonçalves, Peculiaridades do Aval como Obrigação Cambiaria de


Garantia, [uruá, Curitiba, 1986. A distinção entre aval e fiança, sendo geralmente reco-
nhecida na doutrina, nem sempre tem sido entendida uniformemente na jurisprudência
portuguesa, particularmente a propósito dos descontos bancários por aceite: com posições
divergentes, vide os Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de 25- VlI-1978 (SANTOS
vicros), in: 279 "Boletim do Ministério da Justiça" (1978), 214-217, e de 15-X-1981
(RODRIGUES BASTOS),in: 310 "Boletim do Ministério da Justiça" (1981), 308-314.
(186) Sobre a assinatura colocada na parte posterior ou verso do título, vide os
Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de 29- VI-2004 (AFONSO CORREIA) e de
24-X-2006 (ALvESVELHO), respetivamenre in: XII "Coletânea de jurisprudência - Acór-
dãos do STJ" (2004), II, 122-124, e XIV "Coletânea de jurisprudência - Acórdãos
do STJ" (2006), III, 96-98.
(187) A doutrina e a jurisprudência divergem quanto à natureza absoluta ou
meramente relativa da presunção legal quando, no domínio das relações imediatas, se
prove a intenção de designar como avalizado outro signatário da letra: no primeiro
sentido, vide SENDIM, P. Melero, Letra de Câmbio, vol. 11, 856, Almedina, Coimbra,
1980; Assento do Supremo Tribunal de Justiça de 1-1l-1966 (Al.BERTOTOSCANO), in:
154 "Boletim do Ministério da Justiça" (1966), 131-133; no último sentido, ou equi-
valente, MARTINS, A. Soveral, Títulos de Crédito e Valores Mobiliários, 75, Almedina,

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Parte !J - A Letra de câmbio 87
----------------

a totalidade ou apenas parte da quantia cambiária (art. 30.°, n.? 1, da


LULL) -- e singular ou plural -- consoante dado por, ou a favor de,
um único ou vários sujeitos (188).
No que toca aos seus pressupostoS subjetivos, pode ser avalista (legi-
timidade ativa) qualquer terceiro ou subscritor cambiário (art. 30.°, n.? 2,
da LULL): atenta a função de garantia do aval, ressalvam-se logicamente
os casos do aceitante (que já é, por definição, o obrigado cambiário
principal) e do sacador perante um endossante (que com o aval jamais
ficaria mais obrigado do que já era). E pode ser avalizado (legitimidade
passiva) qualquer um dos subscritores da letra (incluindo sacadores,
aceitantes, endossantes, ou outros avalistas), desde que, naturalmente,
seja responsável pelo pagamento da letra (art. 30.°, n.? 1, da LULL):
pela mesma razão, exclui-se o caso de um endossante "sem garantia" que
se haja exonerado da responsabilidade cambiária de pagamento (art, 15.°,
n.? 1, da LULL) ou do sacado que (ainda ou já) não aceitou.

III. Finalmente, no que respeita aos efeitos do aval, haverá que


distinguir entre a situação ativa e passiva do avalista.
Do ponto de vista da sua situação passiva, dispõe a lei, desde logo,
que o avalista "é responsável da mesma maneira" que o avalizado
(art. 32.°, n.? 1, da LULL): tal significa dizer que o avalista responde
perante as mesmas pessoas e na mesma medida em que responde o ava-
lizado, podendo prevalecer-se ou ser-lhe opostas quaisquer vicissitudes
da obrigação do último (v. g., o avalista de sacador que apôs na letra

Coimbra, 2008; Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de 14-X-I997 (COSTA


SOARES),in: 470 "Boletim do Ministério da Justiça" (1997), 637-647, e da Relação de
Coimbra de 2-II-20IO (BARATEIROMARTINS), in::XXXV "Colerânea de jurisprudência"
(2010),1, 26-28. Sobre questão congénere, noutras ordens jurídicas, vide GORÉ,
François, L'AvaL de la Lettre de Change sans Indication du Débiteur Garanti, in: "Recueil
Dalloz" (1957), Chronique, 105-110; ROSSI,Guida, La Presunzione di Avalio, in: XXlII
"Banca, Borsa, e Titoli di Credito" (1960), 198-228.
(188) Sobre o aval plural, vide VASCONCELOS,P. Pais, PLuralidade de Avales por
um Mesmo Avalizado e "Regresso"do Avalista que Pagou Sobre Aqueles que Não Pagaram,
in: AAVV, "Nos 20 Anos do Código das Sociedades Comerciais", vol, III, 947-978,
Coimbra Editora, Coimbra, 2007.

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88 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

uma cláusula "aceite proibido", não poderá ser acionado em caso de


recusa de aceite; o avalista de sacado com aceite parcial, responderá
apenas por essa parte da quantia cambiária (189); o avalista de endossante
que apôs na letra uma cláusula "não à ordem", não responderá perante
os endossados mediatos) (190). Depois ainda, dispõe a lei que a obrigação
do avalista se mantém "mesmo no caso de a obrigação que ele garantiu
ser nula por qualquer razão que não seja um vício de forma" (art. 32.°,
n.? 2, da LULL): isto quer dizer que a sua obrigação é materialmente
autónoma e independente em face da obrigação do avalizado (cf. ainda
art. 7.° da LULL), apenas não respondendo perante o devedor nos casos
em que esta última seja ostensivamente inexistente ou inválida em virtude
de vícios extrínsecos objetivamente revelados no próprio título (v. g., aval
de terceiro estranho à cadeia cambiária, aval de sacado que recusou o
aceite ou de endossante que se exonerou da sua garantia de aceite e
pagamento da letra, aval de aceite ou endosso assinados fora do local
prescrito na lei, etc.) (191). Finalmente, a responsabilidade do avalista é
solidária com a dos demais obrigados cambiários (art. 47.°, n.? 1, da
LULL): ou seja, o avalista não goza de qualquer benefício de excussão

(18~) Questão controversa, que divide a doutrina e jurisprudência portuguesa, é


ainda a da necessidade ou desnecessidade do protesro para o portador poder acionar
o avalista do aceitante: sobre tal questão, vide infra nota 211.
(190) Neste sentido, vide também CORRELA,A. Ferrer, Lições de Direito Comercial,
vol. III ("Letra de Câmbio"), 215, Coimbra, 1975; NETO, A. Gonçalves, O Aval:
Alcance da Responsabilidade do Avalista, 2.a edição, Revista do Tribunais, São Paulo,
1993; MONTOUT - Roussv, Nadine, La Situation juridique Ambigue du Donneur d'Aual,
in: "Recueil Dalloz" (1974), Chronique, 197-202. Para o caso particular da insolvên-
cia do avalizado, vide GUARDIOLA,J. Lopez, Ejercicio Anticipado de la Acción Cambia-
ria Directa Contra el Avalista dei Aceptante Declarado en Quiebra, in: 246 "Revista de
Derecho Mercantil" (2002),2170-2178.
(191) Sobre o ponro, vide, na doutrina, SENDIM, P. Melero, Nulidade do Aval por
Vício de Forma, in: Xlll "Direito e Justiça" (1999), 315-329; na jurisprudência, res-
tringindo aparentemente o "vício de forma" aos casos de vícios de localização da
assinatura dos subscritores, vide os Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de
19-fIl-2002 (MIRANDA GUSMÃO), in: X "Coletânea de Jurisprudência - Acórdãos do
STJ" (2002),1, 147-148, e de 28-1X-2006 (MOREIRA CAMILO), in: XlV "Coletânea
de Jurisprudência - Acórdãos do STJ" (2006), IIl, 68-70.

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Parte 11- A letra de câmbio 89

prévia dos sacadores, aceitantes ou endossantes, respondendo em primeira


linha pelo pagamento da letra diante do portador (192).
Já do ponto de vista da sua situação ativa, o avalista que pagou a
letra "fica sub-rogado nos direitos emergentes da letra contra a pessoa a
quem foi dado o aval e contra os obrigados para com esta em virtude
da letra" (art, 32.°, n.? 3, da LULL): pagando a quantia cambiária ao
portador, o avalista fica assim investido numa posição de credor cambiá-
rio, passando a ser titular de um direito próprio e autónomo (193) graças
ao qual poderá ressarcir-se em via de regresso contra o avalizado e ainda
todos aqueles subscritores que garantiam este (194).

4. As Vicissitudes das Obrigações Cambiárias

4.1. Vencimento

1. A letra de câmbio tem quatro modalidades de vencimento ("Ver-


fali", "écheance", "rermini"): à vista, a certo termo de vista, a certo termo

(1921 DIAS, Gonçalves, Pressupostos da Acção Cambiária contra o Avalista, in: 30


"Revista da Justiça" (1945), 81-83 e 177-180.
(1931 Justamente advertindo não se tratar propriamente de um caso de sub-roga-
ção (como erroneamente a lei o qualifica), mas antes de aquisição originária e "ex novo"
de um direito próprio, vide o Acórdão da Relação de Coimbra de 25-III-2010 (JORGE
ARCANJO), in: XXXV "Colerânea de Jurisprudência" (2010), II, 26-28.
(1941 Questão específica, que a LULL não regulou, é a de saber se, em caso de uma
pluralidade de avalistas (aval coletivo), o coavalista que pagou terá ou não um direito de
regresso contra os demais coavalistas. A nossa doutrina e jurisprudência dominantes vêm
sustentando que, salvo convenção em contrário, aquele coavalista é titular de um direito
de regresso relativamente aos demais coavalistas, nos termos gerais do regime das obri-
gações solidárias (arts, 524.° e 516.° do CCivil), à semelhança do previsto para a plura-
lidade de fiadores (art, 650.° do CCivil) (CUNHA, C. Vicente, Letras e Liuranças: Para-
digmas Actuais e Recompreensão de um Regime, 304 e segs., Diss., Coimbra, 2009;
Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça n.v 7/2012, de 5 de junho (ABRANTESGERAL-
DES),in: DR, n.? 137, de 17 de julho de 2012, 3796-3805; em sentido oposto, todavia,
VASCONCELOS,P. Pais, Pluralidade de Avales por um Mesmo Avalizado e "Regresso" do
Avalista que Pagou Sobre Aqueles que Não Pagaram, in: AAvv, "Nos 20 Anos do Código
das Sociedades Comerciais", vol. III, 947-978, Coimbra Editora, Coimbra, 2007; Acór-
dão do Supremo Tribunal de Justiça de 27-X-2009 (AzEVEDO RAMOS), in: XVII "Cole-
tânea de Jurisprudência - Acórdãos do STr (2009), III, 103-110).

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90 Os TítuLos de Crédito - Urna Introdução

de data, e em data determinada (art. 33.°, n.? I, da LULL) (195). As letras


à vista são letras que se vencem na data da respetiva apresentação (art. 34.°
da LULL). As letras a certo termo de vista são letras que se vencem
decorrido o prazo nelas previsto ("termo de vista") contado a partir da
data do respetivo aceite ou protesto por falta de aceite (art. 35.° da
LULL). As letras a certo termo de data são letras que se vencem decorrido
o prazo nelas previsto ("termo de data") contado a partir da data da sua
emissão. As letras pagáveis em data fixa são letras que, tal como o próprio
nome indica, se vencem no dia nelas estipulado (196).

II. Estas modalidades de vencimento são taxativas:a estipulação na letra


de modalidades de vencimento atípicas (diferentes das previstas na lei), mis-
tas (resultantes da combinação de duas ou mais modalidades típicas) ou
plurais (decorrentes da aposição de modalidades sucessivas)acarreta a nulidade
da letra (art. 33.°, n.? 2, da LULL) (197). Além disso, ao lado do vencimento
normal ou "stricto sensu", haverá ainda que ter em conta a possibilidade de
vencimento antecipado ou prematuro da letra: como veremos melhor adiante,
nos casos de recusa total ou parcial do aceite, de insolvência do sacado, e de
insolvência do sacador de letra não aceitável, a lei concede ao portador do
título a faculdade de ser pago antes da data do respetivo vencimento, por via
da ação de regresso sobre os obrigados cambiários (art. 43.0 da LULL) (ln).

(1~51 Paradoxalmenre, o modelo oficial e normalizado da letra de câmbio (Portaria


n.v 28/2000, de 27 de janeiro), a que já fizemos anteriormente referência, foi pensado
exclusivamente para as letras de vencimento em dia fixo (cf. 1.2.1. da Portaria), não
permitindo, senão com dificuldade, a adaptação a outras modalidades de vencimento.
Sobre o vencimento cambiário, vide em geral MARTíNEZ, V Santos, Vencimiento y Pago
de LaLetra, in: VI "Revista de Oerecho Bancario y Bursátil" (1986), 515-580.
(19(,) Para efeitos do regime do vencimento cambiário, tenham-se ainda em conta
os arts. 36.0, 37.°, 72.0 e 73.° da LULL, preceitos supletivos e interpretativos da vonrade
dos subscritores em certas situações de dúvida: por exemplo, se uma letra for sacada a
3 meses de data no dia 31 de novembro, ela vencer-se-a a 28 ou 29 de fevereiro do ano
seguinte consoanre se trate ou não de ano bissexto (arr. 36.°, n.? 1, da LULL).
(197) Para o caso particular de falta de indicação absoluta da modalidade de
vencimento, vide supra Parte II, 2.1. (IV).
(I~H) Em contrapartida, afigura-se inteiramente lícito a prorrogação do vencimento
cambiário, mediante um acordo entre credor e devedor cambiários (com consentimento

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Parte 11 - A Letra de câmbio 91

4.2. Pagamento

L O termo perficiente da letra de câmbio, enquanto título de cré-


dito que incorpora o direito a uma prestação pecuniária, dá-se com o
pagamento: o pagamento representa assim o ato pelo qual é cumprida a
ordem cambiária dada pelo emitente do título (199).

II. Relativamente aos seus requisitos, assoma o dever de apresentação


a pagamento por parte do portador da letra. Tal apresentação é feita, via
de regra, ao sacado, podendo também, em certos casos especiais, ser feita
a outras entidades, v. g.} um interveniente (art. 55.°, n.v 1, da LULL),
uma câmara de compensação (art, 38.°, n.? 2, da LULL) , ou mesmo um
terceiro (art. 27.°, n.? 1, da LULL) (200). Quanto ao prazo dessa apre-
sentação, há que distinguir: as letras à vista devem ser apresentadas a
pagamento, em princípio, no prazo de um ano a contar da data da sua
emissão, salvo prazo maior ou menor aposto pelo sacador ou endossan-
tes (art, 34.° da LULL); já as demais modalidades (letras a certo termo
de vista, termo de data ou com data fixa) devem ser apresentadas a paga-
mento no dia do seu vencimento ou nos dois dias úteis seguintes (art, 38.0
da LULL). Por seu turno, a letra deve ser, naturalmente, apresentada no
lugar do pagamento (are. 1.0, n.v 5, da LULL): o "lo cus solvendi" corres-
ponderá ao endereço concreto indicado na letra, ao lugar designado ao
lado do nome do sacado (na falta de indicação expressa: art. 2.0, n.? 3,

dos demais afetados, "maxirne", os obrigados em via de regresso) no sentido de alterar


para dia posterior a data do vencimento da letra (NAEGELI,Edouard, Die WechseLpro-
Longation nach schweizerischem, deutschem und õsterreicbischem Recht, 24 e segs., Schul-
thess Polygraphischer Verlag, Zurich, 1956).
(199) Sobre o pagamento cambiário, vide LIBERTINI,Mario, Pagamento Cambia-
rio e Revocatoria Fallimentare, Giuffre, Milano, 1974; LÓPEz, L. Fajardo, EL Pago de La
Letra en la Prática judicial, Thomson/Aranzadi, Navarra, 1999; SOERGEL,Otto, Rechts-
fragen zur InzahLungnahme von Kundenwechseln, in: 17 "Neue Juristische Wochenschrift"
(1964),1943-1945.
(200) As câmaras de compensação foram há muito extintas, sendo substituídas
nessa função pelos serviços de compensação do Banco de Portugal (cf Decreto-Lei
n.? 381/77, de 9 de setembro, e Instrução do BP n.v 25/2003, de 15 de outubro).

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92 Os Títulos de Crédito - Uma introdução

da LULL), num outro domicílio do sacado (art. 27.°, n.? 2, da LULL) ,


ou no domicílio de terceiro (art. 4.° da LULL) (201). O incumprimento
do dever de apresentação a pagamento, nos prazos legais ou conven-
cionais aplicáveis, acarreta várias consequências: a mais relevante con-
siste na perda do direito de regresso do portador, que ficará assim
impedido de acionar todos os obrigados cambiários, à exceção do
aceitante (ar L 53.°, n.? 1, da LULL); outras consequências secundárias
consistem, por exemplo, no direito de qualquer obrigado cambiário
solicitar a consignação em depósito da quantia cambiária (art. 42. ° da
LULL) (202).

III. Relativamente ao seu procedimento e conteúdo, existem várias


especialidades a reter. O pagamento será realizado, em via principal,
pelo aceitante: caso este não o faça, o pagamento poderá ainda ser rea-
lizado, em via secundária, pelo interveniente (nos casos de aceite e paga-
mento por intervenção: cf. arts. 59.° e 6l.° da LULL) e, em via de
regresso, pelo sacador, endossantes, e avalistas (obrigados cambiários de
garantia: cf. art. 43.°, n.? 1, da LULL). O pagamento pode ser total
mas também, ao invés do direito comum (art. 763.°, n.? 1, do CCivil),
meramente parcial (art. 39.°, n.v 2, da LULL): no primeiro caso, o
devedor que pagou pode e deve exigir que lhe seja entregue a letra jun-
tamente com o respetivo documento de quitação (art. 39.°, n.? 1, da
LULL, arts. 787.° e 788.° do CCivil), já que, como sabemos, caso o
portador de uma letra já paga fique na sua posse e a transmita a um
terceiro de boa fé, o sacado arrisca-se a pagar de novo o débito cambiá-

(201) Sobre as letras domiciliadas, vide supra Parte II, 2.1. (V).
(202) Tenha-se presente que, tal como é bem salientado no Acórdão do Supremo
Tribunal de Justiça de I-X-2009 (ÁLVARO RODRIGUES), a apresentação a pagamenro tem,
nos títulos de crédito, uma função equivalente à da inrerpelação do devedor nos direitos
de crédito em geral: ora, do mesmo modo que nas obrigações a prazo certo o resperivo
vencimento não carece de interpelação, entrando o devedor em mora caso a prestação
não seja cumprida na data prevista (arr. 805.0, n.? 2, do CCivil), também assim nas letras
pagáveis em dara fixa o sacado entrará de imediato em mora caso não tenha cumprido
a sua obrigação cartular nessa data (in: www.colectaneadejurisprudencia.com).

Coimbra Editora<l\)
Parte Ir - A letra de câmbio 93

rio (art. ]6.° da LULL) (20.3); no último caso, o sacado pode exigir que,
além de lhe ser dada quitação, se faça menção expressa na letra do paga-
rnento parcial realizado (art. 39.°, n.? 3, da LULL), podendo o portador
exigir a parte cambiária remanescente a qualquer obrigado em via de
regresso (204). Por último, o pagamento pode ser feito na data de venci-
mento mas também antes dessa data - no último caso, sempre com o
consemimento do portador (a quem não pode ser imposto o pagamento
prematuro, "rnaxime", quando a letra vença juros: cf. art. 40.°, n.? I, da
LULL) e por conta e risco do sacado (que poderá ser obrigado a pagar
de novo a letra caso se venha a demonstrar que o portador não era o
verdadeiro titular do direito cambiário: cf. art. 40.°, n.? 2, da LULL).

IV. Finalmente, a lei associa importantes efeitos ao pagamento de


uma letra. O mais relevante consiste indubitavelmente no efeito libera-
tório do pagamento para o sacado, exonerando-o da respetiva obrigação
cambiária (art. 40.°, n.? 3, "ab initio", da LULL). Sublinhe-se, todavia,
que este efeito liberatório está subordinado a determinados pressupostos
- exigindo-se que o devedor haja verificado a legitimidade formal do
portador apurada mediante uma sucessão regular de endossos extrinse-
camente válidos (arts. 16.° e 40.°, n.? 3, "in fine", da LULL) e que haja
efetuado o pagamento na data do vencimento cambiário (cf. art. 40.°,
n.? 2, da LULL) - (205) e também a determinados limites - quando o

(203) SIRENA, Pietro, Possesso della Cambiale da Parte Debitare e Presunzione di


Pagamento, in: XXXIX "Rivista di Diritto Civile" (1993),391-397. É caso para dizer
que o primado da incorporação cartular é de tal ordem que, numa reformulação do
velho brocardo latino, "quem paga mal paga, não duas, mas ... quantas vezes for neces-
sário, até pagar bem!".
(204) Possibilidade que a lei apenas abre para o pagamento parcial realizado, em
via principal, pelo sacado, e já não, em via de regresso, pelos demais subscritores carn-
biários (SERRA, A. Vaz, Títulos de Crédito, 170, in: 60 "Boletim do Ministério da
Justiça" (1956), 5-354).
(205) Justamente porque o portador da letra deve justificar o seu direito através de
uma sucessão regular de endossos, deve entender-se que o devedor que pretende efetuar
um pagamento liberatório está obrigado, nos casos em que o último endosso válido
inscrito na letra é um endosso completo e nominativo, a controlar a identidade do por-

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94 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

devedor haja efetuado o pagamento ao portador com "fraude" ou "falta


grave" ("maxime", quando conhecesse ou devesse conhecer uma eventual
ilegitimidade material do portador: cf. art. 40.°, n.? 3, da LULL). Ao
lado deste efeito fundamental, existem ainda naturalmente outros
secundários, tais como o direito do sacado a exigir que o título lhe seja
entregue (arr. 39.°, n.? 1, da LULL), o direito de regresso de qualquer
outro signatário que haja pago a letra sobre os respetivos garantes (art. 49.°
da LULL), etc. (206).

4.3. Protesto

L O protesto ("pratest", "protêr"), figura regulada nos arts. 44.°


a 46.° da LULL e arts. 119.° a 130.° do CN (207), consiste num ato
jurídico formal, efetuado perante um notário, destinado a certificar a
falta do aceite ou do pagamento da letra por parte do sacado (função de
segurança jurídica), bem como a dar conhecimento desta aos demais
subscritores cambiários (função informativa) e a salvaguardar os direitos
do portador da letra (função conservatória) (208).

tador, assegurando-se de que este é o beneficiário desse mesmo endosso (MARTI'JS,


A. Soveral, Títulos de Crédito e ValoresMobilidrios, 94, Almedina, Coimbra, 2008).
(206) O signacário cambiário que pagou a letra ao portador adquire "ipso iure" a
propriedade do rítulo e passa a ser titular de um direito de exercício de regresso recupe-
ratório sobre os seus próprios garames: sobre a qualificação jurídica deste direiw, vide
PFLUG, Hans-Joachim, Der Rücklaufende Wechsel, 51 e segs., Beck, München, 1967.
(207) Chegaram a existir cartórios notariais privativos do protesco de letras e
outros títulos de crédito em Lisboa e no Porco (art. 32.° da LODGRN, aprovada pelo
Decreto-Lei n.v 87/200 I, de 17 de março, entretanto revogada pelo Decreco-Lei
11.0 129/2007, de 27 de abril), bem como uma "Central de Proresros de Efeitos" gerida
pelo Banco de Portugal (Instrução do BP n.? 12/2005, de 16 de maio), também ela
revogada (Cana-Circular n.? 21/20l0/DET, de 25 de novembro de 2010), cujas fun-
ções passaram a ser parcialmente substituídas pela "Central de Responsabilidades de
Crédito" (Decreto-Lei n.? 204/2008, de 14 de outubro, e Instrução do Banco de
Portugal n.? 21/2008, de 15 de janeiro de 2009).
(20S) Sobre a figura, RODRIGUES, N. Madeira, Das Letras: Aval e Protesto, 2.a edi-
ção, Almedina, Coimbra, 2005; nourros quadrantes, BATTAGLlNI, Mario, II Protesto,
Giuffre, Milano, 1972; BORGES, R. Olivera, The W-ziver ofProtest: A Comparative Study,

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Parte I [ - A letra de câmbio 95

II. Existem dois tipos diferentes de protesto (209). O protesto por


falta de aceite constitui a certificação formal da recusa (total ou parcial)
do aceite da letra pelo sacado: este protesto, que é efetuado contra o
sacador, deve ser realizado no prazo de apresentação ao aceite (arts, 21.°
e 44.°, n.? 2, da LULL, arts. 121.° e 122.° do CN) e dispensa a apre-
sentação a pagamento e o protesto por falta de pagamento (art. 44.°,
n.? 4, da LULL). O protesto por falta de pagamento representa a cer-
tificação formal da recusa de pagamento da letra pelo sacado: este pro-
testo, que é efetuado contra o sacado (ou interveniente) aceitante, deve
ser realizado no prazo de quatro dias úteis seguintes à data do venci-
mento, exceto no caso das letras à vista (art. 44.°, n.v 3, da LULL) (210).
Sublinhe-se que o protesto, se bem que privado dos seus efeitos cambi-
ários próprios, pode ser realizado fora dos prazos legais: com efeito, a
apresentação intempestiva da letra não é fundamento de recusa do pro-
testo (art, 123.° do CN), já que o portador pode necessitar do mesmo
para outros efeitos jurídicos (v. g., interrupção da prescrição, meio de
prova, etc.).

III. O protesto despoleta eftitos relevantfssirnos. O seu principal


efeito reside na conservação dos direitos do portador contra os obrigados

in: 44 "Michigan Law Review" (1945), 113-148; RUBlO, J. Viguera, La Notificación


dei Protesto, Montecorvo, Madrid, 1977; WAGNER, Kurt, Wechsel und Protest, Manz,
Wien, 1998.
120')) TRJOLA, Roberto, II Protesto per Mancato Pagamento, Giuffrê, Milano, 1989.
Existem ainda outros tipos especiais de protesto, no caso de suspensão de pagamentos
ou penhora infrutífera do sacado (arr. 44.°, n." 5, da LULL), de falta de entrega de
uma via de letra enviada ao aceite (art. 66.°, n.v 2, 2.0, da LULL), e de falta de entrega
do original da letra ao titular legítimo de cópia (arr. 68.°, n.? 2, da LULL).
(210) Este prazo resulta da conjugação do art. 38.°, n.? 1, da LULL (segundo o
qual uma letra é pagável no dia do vencimento "ou num dos dois dias seguintes") e
do art, 121.°, n.v 1, aI. c), do CN (segundo o qual a letra deve ser protestada no prazo
de "dois dias úteis seguintes àquele ou ao último daqueles em que a letra é pagável").
Em sentido semelhante, ASCENSÃO,J. Oliveira, Direito Comercial, voI. III ("Títulos de
Crédito"), 198, Lisboa, 1992; MARTINS, A. Soveral, Títulos de Crédito e Valores Mobi-
liários, 104, Almedina, Coimbra, 2008.

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Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

cambiários em via de regresso: ressalvado o caso das letras em que tenha


sido aposta cláusula "sem despesas" ou "sem protesto" (arr. 46.° da LULL)
ou casos de força maior (art. 54.° da LULL), a falta ou intempestividade
da sua realização acarreta para o portador da letra a perda dos seus direi-
tos contra o sacador, os endossantes e os demais obrigados cambiários,
à exceção do aceitante (art. 53.° da LULL) (211). Além disso, o portador
que protestou a letra está ainda sujeito a um dever de entrega simultânea
no cartório notarial das "cartas-aviso" destinadas a notificar a apresenta-
ção do protesto cambiário a todos os que sejam responsáveis perante o
portador, a começar pelo endossante e sacador (art. 45.0 da LULL e
art. 124.° do CN): tais cartas-aviso, que obedecem a modelo oficial
(art. 124.°, n.? 2, do CN), são expedidas por correio pelo notário no
dia da apresentação da letra a protesto ou no dia seguinte (art. 125.° do
CN), só podendo ser lavrado o respetivo instrumento de protesto decor-
ridos cinco dias úteis após tal expedição ou dez dias após a data da
apresentação (art. 126.°, n.? 1, do CN) (212).

(211) CHANH, N. Xuan, La Déchéance des Droits du Porteur de la Lettre de Change


pour l'Inexécution des ses Obligations au Regard de la Présentation de l'Effet à l'Acceptation
ou au Paiement, in: "Recuei] Dalloz" (1979), doctrine, 77-80. Quanto à controversa
questão da necessidade do protesto para o portador acionar o avalista do aceitante, a
maioria dos autores e tribunais portugueses inclina-se no sentido de o dispensar: na
doutrina, COELHO, J. Pinto, Perde ou Não o Portador da Letra os seus Direitos contra o
Avalista do Aceitante por não ter Feito o Protesto Atempadamente?, in: 4 "Revista da
Ordem dos Advogados" (1944), 193-207; REIS, A. Ferreira, A Responsabilidade do
Avalista do Aceitante na Letra de Câmbio e do Subscritor da Liurança, Legis, Porto, 2011;
na jurisprudência, os Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de 7-1-1993 (SÁ
COUTO), in: 423 "Boletim do Ministério da Justiça" (1993), 554-558, e de 14-V-1996
(MIRANDA GUSMÃO), in: 457 "Boletim do Ministério da Justiça" (1996), 387-392.
Todavia, em sentido oposto, vide SENDIM, P. Melero/MENDES, E. Ferreira, A Natureza
do Aval e a Questão da Necessidade ou não do Protesto para Accionar o Avalista do Acei-
tante, Almedina, Coimbra, 1991.
(212) Sobre a invalidade do protesto, especialmente no âmbito do regisro infor-
mático de protestos, vide FIORUCCI, Fabio, 11Protesto !llegittimo, Giuffre, Milano, 2005;
sobre os efeitos do protesto inválido, vide ZENO-ZENCOVICH, Vincenzo, Consideraziont
sul Danno da Protesto Illegittimo, in: LlV "Banca, Borsa, e Titoli di Credito" (1991),
498-503.

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Parte fI - A letra de câmbio 97

4.4. Intervenção

L A intervenção ("intervention for honour", "Ehreneintritt", "inter-


vento", "intervention"), figura regulada nos arts. 55.° a 63.° da LULL,
consiste numa vicissitude juscambiária relativa àquelas letras que são aceites
ou pagas por um terceiro (denominado interveniente) no lugar de um dos
obrigados cambiários (denominado honrado ou interventor) (213).

II. A fonção primacial da figura consiste em evitar o exercício prematuro


do direito de regresso por parte do portador da letra, em consequência da
falta de aceite ou de pagamento da mesma. É sabido que, via de regra, o
aceite é devido pelo sacado (art. 21.° da LULL), sendo que a recusa do aceite
legitima o portador a, mediante o competente protesto, exercer o seu direito
de ação mesmo antes do vencimento (art. 43.°, n.? 3, 1.0, da LULL); e ainda
que o pagamento é devido pelo aceitante (art, 38.° da LULL), cuja recusa
permite àquele portador acionar, também lavrando protesto, todos os demais
obrigados cambiários (art. 43.°, n.? 2, da LULL). Ora bem: como forma
de evitar semelhante desfecho, a lei permitiu que qualquer dos obrigados
cambiários possa designar um terceiro para, "em caso de necessidade" (ou
seja, em caso de recusa de aceite ou pagamento), aceitar ou pagar a letra ao
portador (art. 55.°, n.? 1, da LULL).

III. O regime LegaL da intervenção cambiária é bastante com-


plexo (214). Quanto às suas modalidades, como já o dissemos, a inter-

(213) Sobre a figura, vide, entre nós, ASCENSÃO, J. Oliveira, Direito Comerciai,
vol. III ("Títulos de Crédito"), 205 e segs., Lisboa, 1992. Noutros quadrantes, BÜLOW,
Peter, Kommentar zum Wechseigesetz und Scheckgesetz, 292 e segs., 3. Aufl., Müller,
Heidelberg, 2000; DUPICHOT, ]acquesIGuÉvEL, Didier, Les EjJets de Commerce, 130
e segs., 3""" édirion, Montchrestien, Paris, 1996; ELLlNGER, Peter, Negotiable Instru-
ments, in: "International Encyclopedia of Comparative Law", vol. IX, Chapo 4, 124 e segs.,
Mohr, Tübingen, 2000; SEGADE,]. Gómez, La lntervención Cambiaria, in: II "Revista
de Derecho Bancario y Bursátil" (1982), 261-328.
(214) Apesar desta complexidade técnica, a verdade é que este instituto perdeu clara-
mente a sua importância prática - razão pela qual ele não nos merecerá aqui senão uns
breves apontamentos. Com efeito, as suas raízes históricas lançam-se num tempo em que

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98 Os Títulos de Crédito - Uma introdução

venção pode verificar-se relativamente ao aceite da letra - caso em que


o interveniente surge no papel de obrigado cambiário em via principal
(arts, 56.° a 58.° da LULL) - ou ao pagamento da letra - caso em
que aquele se assume como um verdadeiro "solvens" cambiário (ans. 59.°
a 63.° da LULL) (215). Por outro lado, quanto à sua natureza, a inter-
venção pode ser provocada - resultante de cláusula especial contida na
letra que indica uma determinada pessoa para "em caso de necessidade"
("in case of need", "Notfall", "au besoin") aceitar ou pagar (art. 55.°,
n.? 1, da LULL) - ou espontânea - independente de qualquer indicação
ou incumbência especial feita na letra (art. 55.0, n.? 2, da LULL) (216). Por
outro lado ainda, quanto aos respetivos sujeitos, têm legitimidade ativa para
a intervenção (honrado) o sacador, um endossante ou um avalista (art. 55.0,
n.? 1, da LULL), e têm legitimidade passiva (interveniente) qualquer terceiro
estranho à cadeia carnbiária, o próprio sacado, ou qualquer obrigado cam-
biário, com exceçâo do aceitante (art. 55.0, n.? 3, da LULL) (217). Finalmente,
no que concerne aos respetivos efeitos, há que distinguir consoante se trate
de aceite ou pagamento por intervenção: no primeiro caso, a intervenção

os obrigados cambiários não dispunham dos meios necessários de informação célere e eficaz
de eventuais recusas de aceite ou pagamento - o que não sucede nos dias de hoje (ZOLLNER,
Wolfgang, Wertpapierrecht- Ein Studienbuch, 121,14. Aufl., Beck, München, 1987).
(215) Sobre o regime destas modalidades, vide MARTINS, A. Soveral, Títulos de
Crédito e Valores Mobiliários, 60 e segs., 99 e segs., Almedina, Coimbra, 2008; noutros
quadrantes, para maiores desenvolvimentos, vide BÜLOW, Perer, Kommentar zum Wech-
selgesetz und Scheckgesetz, 296 e segs., 3. AuA., Muller, Heidelberg, 2000.
(21(,) A diferença fundamental entre estas modalidades respeita exclusivamente
ao aceite por intervenção: com efeito, apenas no primeiro caso a intervenção se impóe
à vontade do portador, que assim estará impedido de atuar em via de regresso sem
antes exibir a letra ao interveniente (arr. 56.°, n.?' 2 e 3, da LULL).
(217) O honrado deve estar identificado, já que a extensão da obrigação do
inrervenienre depende e é determinada pela obrigação do honrado. No caso de inter-
venção provocada, será considerado honrado aquele obrigado cambiário que apôs a
cláusula especial de intervenção ou aquele que esta cláusula indica como tal (art. 56. 0,

n.? 2, da LULL); já no caso de intervenção espontânea, na falta de indicação expressa


por parte do interveniente, a lei presume que o honrado será o sacador (arrs. 57.0,
n.? 2, e 62.°, n.? 1, da LULL). Cf. DELCADO, A. Pereira, Lei Uniforme das Letras e
Liuranças Anotada, 297, 7." edição, Perrony, Lisboa, 1996.

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Parte I! - A letra de câmbio 99

implica o dever do portador apresentar a letra cujo aceite foi recusado pelo
sacado ao aceite do interveniente (o que significa dizer que aquele vê
excluído o exercício imediato e antecipado do direito do regresso que lhe
assistiria, em via geral, em face do honrado e dos obrigados cambiários
subsequentes: cE art. 56.°, n. 2 e 3, da LULL), e a assunção por parte do
OS

interveniente da posição juscambiária do honrado, que assim fica investido


nas obrigações deste para com o portador e endossantes posteriores (art. 58.°,
n.? 1, da LULL) mas também sub-rogado nos direitos emergentes da letra
paga contra o honrado e anteriores subscritores na cadeia cambiária (cf
art. 63.°, n.? 1, da LULL); no último caso, a intervenção implica o dever
do portador apresentar a letra ao interveniente (não podendo recusar o
pagamento feito por este, sob pena de perder o seu direito de ação contra o
honrado e endossantes posteriores: cf art. 61.° da LULL), além de ficar
sub-rogado nos direitos emergentes da letra paga contra o honrado e ante-
riores subscritores na cadeia cambiária (art, 63.0, n. ° 1, da LULL).

4.5. Ações Cambiárias

I. As ações cambiarias são ações destinadas a exercer judicialmente


os direitos cambiários (218). Como vimos oportunamente, a letra é um
título executivo (arts. 46.°, n.? 1, aI. c), e 51.° do CPC), que habilita

(218) OOMÉNECH, F. Adan, Crédito Cambiario y Tiaela fudicial, in: XXV "Revista
de Oerecho Bancario y Bursáril" (2006), 87-114. Sublinhe-se que, dada a coexistência
usual das relações cambiárias e fundamentais (cf. supra Pane I, 5.3.), o portador carn-
biário conserva o seu direito de lançar mão da ação fondamental (alternativamente ou
secundariamente em relação à ação cambiária, consoante a letra haja sido emitida "pro
soluto" ou "pro solvendo"), bem assim como de cumular pedidos relativos a direitos
carrulares e extracartulares ou suscitar a coligação de devedores cartulares ou extracar-
miares (art. 30.°, n.? 3, do CPC) no âmbito de um mesmo processo declarativo (v. g.,
responsabilização dos bens comuns do casal no caso de letras subscriras pelo cônjuge
comerciante, nos termos do art. 1691.°, n.? 1, alo d), do CCivil e art. 15.° do CCom).
Sobre o eventual recurso ao instituto do enriquecimento sem causa nos casos em que
o porrador esreja impedido de recorrer a qualquer das ações (cambiária e fundamental),
vide CASTELLANO,Caetano, La Responsabilità Cambiaria nei Limiti dell'Arricchimento,
147 e segs., Cedam, Padova, 1970; SÁNCHEZ,C. ]iménez, Acciôn Causal y Acción de
Enriquecimiento, in: VII "Revista de Derecho Bancario y Bursátil" (1987), 7-34.

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tOO Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

assim os portadores de letras vencidas e não pagas a recorrer à ação


executiva contra os respetivos devedores: tal como existem obrigados
cambiários em via principal e em via de regresso, assim também as ações
cambiárias podem classificar-se em ações di retas - quando são dirigidas
contra o devedor principal (o aceitante) - ou ações de regresso
- quando são dirigidas contra os devedores em "via de regresso", ou
seja, os demais signatários da letra (sacador, endossantes, avalistas).

II. A ação cambiária direta pode ser exercida pelo portador contra
o sacado-aceitante sempre que este tenha recusado o pagamento da letra
ao portador na data do respetivo vencimento (219). Particularmente
importante é a ação cambiária de regresso (art. 43.° da LULL), que pode
ser exercida pelo portador, quer na situação anterior (recusa de paga-
mento da letra no vencimento), quer mesmo antes do vencimento da
letra sempre que se verifique um dos seguintes casos: recusa total ou
parcial de aceite (arts. 21.°, 26.°, n.v 2, e 44.°, n. 2 e 4, da LULL),OS

insolvência do sacado ou do sacador de letra não aceitável (arts. 36.°


e 91.° do CIRE, arts. 22.°, n.? 2, e 44.°, n.> 6, da LULL), mera sus-
pensão de pagamentos (art. 20.°, n.v 1, alo a), do CIRE) , ou execução
infrutífera do património do sacado (art. 20.0, n.? 1, aI. e), do CIRE,
art. 828.°, n.v 7, do CPC, art. 44.°, n.v 5, da LULL) (220).

III. O regime e os efiitos jurídicos das ações cambiárias são múltiplos,


não podendo aqui senão ser sinteticamente mencionados. Aspeto fun-
damental é o princípio da solidariedade passiva de todos os obrigados
cambiários (principal e de regresso): nos termos do art. 47.° da LULL,
o portador da letra pode acionar em juízo, à sua escolha, todos, alguns
ou apenas um qualquer desses obrigados (sacadores, aceitantes, endos-

(2191 Por força da exceção comida na parte final do art. 53.0, n.? 1, da LULL,
esta açâo pode ser igualmente exercida nos casos de extinção do direito de ação aí
referidos contra os demais obrigados cambiários.
(2201 Sobre estes últimos casos especiais, vide BÜLOW, Perer, Kommentar zum Wech-
selgesetz und Scheckgesetz, 250 e segs., 3. Aufl., Müller, Heidelberg, 2000; DUPICI-IOI', Jacques/
/GuiOvEL, Didier, Les 1:.Yfitsde Commerce, 191, 30m" édition, Montchrestien, Paris, 1996.

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Parte I/ - A Letra de câmbio 101

santes, avalistas) (art, 47.° da LULL) (221) Na ação proposta contra o


devedor ou seus herdeiros (222), o portador pode pedir o pagamento da
quantia cambiária, acrescido dos juros remuneratórios eventualmente
convencionados, dos juros moratórios legais (223), e das despesas incorri-
das (v. g., avisos, protestos) (224) (art. 48.° da LULL) (225). Por seu turno,
na sequência da ação cambiária movida pelo portador, o obrigado cam-
biário de regresso que tenha pago a letra aparece também investido num
conjunto semelhante de direitos contra os respetivos garantes (arts. 47.°,
n.? 2, e 49.° da LULL), além de outras prerrogativas especiais, v. g.,

(221) Entre nós, vide TELES, J. Galvão, Interpretação do Art. 47.° da L.u.L.L., in:
1 "Revista da Ordem dos Advogados" (1941),438-445; noutras latitudes, CAMPOBASSO,
Gian Franco, I Sogetti Passivi della Responsabilità SoLidaLe Cambiaria, in: LXXI "Rivisra
dei Diritto Commerciale e dei Dirirto Generale deli e Obbligazioni" (1973), 161-202;
CALERO,J. Gómez, La RespomabiLidad SoLidaria de LosObLigados Cambiarias, in: I "Revista
de Derecho Bancario y Bursátil" (1981), 245-308. Verdadeiramente, não se poderá falar
aqui com propriedade de "solidariedade passiva" - já que estamos perante, não uma
mesma obrigação cambiária com vários condevedores, mas sim várias obrigações cambi-
árias autónomas de conteúdo idêntico (fazendo, por isso, mais sentido falar antes de uma
"pluralidade passivá') - e de "regresso" - já que este, no Direito Civil, opera sempre
pela ordem das sucessivas cessões do crédito (havendo assim um regresso "per saltum").
(222) GONÇALVES,L. Cunha, A Acção Cambiária contra os Herdeiros e Representan-
tes dos Signatários da Letra, in: 24 "Gazeta da Relação de Lisboa" (1911), 489-490.
(223) KRUSE, Anne, Der Zinsanspruch des WechseLinhabers gegen den Akzeptanten
bei verspiiteter VorLage, in: 14 "Zeitschrift für Wirrschaftsrecht und Insolvenzpraxis"
(1993), 1143-1147. Por força do art, 4.° do Decreto-Lei n.? 262/83, de 16 de junho,
o portador pode exigir a taxa legal de juros comerciais arualmente em vigor, e não a
taxa de 6% prevista no art. 48.°, n.v 2, da LULL: sobre a questão do regime dos juros
moratórias das letras, livranças e cheques, vide ANTUNES, J. Engrácia, O Regime Jurídico
dos Actos de Comércio, 40 e segs., in: IX "Thernis - Revista da Faculdade de Direito
da Universidade Nova de Lisboa" (2009), n.? 17, 19-60.
(224) Sobre o conceito de despesas, vide o Acórdão da Relação de Lisboa de 18-1-2007
(CAIoIANODUARTE),in: XXXII "Coletânea de jurisprudência" (2007), I, 85-87.
(225) O portador da letra, em alternativa à ação cambiária, dispõe de um outro
mecanismo para tornar efetivo o seu direito - é o chamado ressaque ("Rückwechsel",
"retrai te" , "cambiale rivalsa", "letra de resacà'), figura prevista no art. 52.° da LULL
que permite ao portador sacar uma nova letra à vista sobre um dos obrigados cambiá-
rios, pagável no domicílio deste.

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102 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

direito à entrega da letra e à eliminação de endossos (art. 50.0 da LULL)


e à menção do pagamento no caso de aceite parcial (art. 51.0 da LULL) (226).
De ação em ação, a letra irá assim percorrer agora um caminho inverso
ao que seguiu na sua circulação - tendo como derradeiro responsável e
executado o aceitante (se a letra foi aceite) ou o sacador (no caso oposto).

4.6. Exceções Cambiárias

L O subscritor de uma letra que haja sido objeto de uma ação


judicial cambiária pode defender-se, como sucede em via geral, invocando
em seu favor as chamadas exceções cambiárias ("Einwande", "eccezione",
"exceprions"), ou seja, determinadas circunstâncias que tornem impro-
cedente, total ou parcialmente, definitiva ou temporariamente, a preten-
são do autor, portador da letra (227).

II. As exceções cambiárias podem ser agrupadas em diferentes categorias.


Tomando por base o critério do sujeito legitimado para a sua invocação,
é possível distinguir entre exceções absolutas e relativas: as primeiras são opo-
níveis por qualquer devedor cambiário ao portador da letra, v. g., a inexistên-
cia da letra por falta das menções legais obrigatórias (arts. 1.0 e 2.0 da LULL),
o decurso do prazo prescricional (art. 70.0 da LULL), ou a extinção do crédito
cambiário por cumprimento; já as segundas, mais complexas e relevantes,
apenas podem, em regra, ser opostas por determinados devedores, v. g, os
portadores mediatos e de boa fé em sede de vicissitudes das relações funda-

(226) PFLUG, Hans-joachim, Der Rücklaufende Wechsel, Beck, München, 1967.


Outra importante prerrogativa do obrigado acionado em via de regresso consiste na
possibilidade de recorrer ao incidente da intervenção provocada (ares. 330.° e segs. do
CPC) dos demais obrigados cambiários que o garantem e do aceitante, obrigado prin-
cipal: neste sentido também, no âmbito de ações declarativas, vide o Assento do
Supremo Tribunal de Justiça de 28-VII-1981 (AMARALAGUIAR), in: 309 "Boletim do
Ministério da Justiça" (1981), 179-186.
(227) Sobre esta importante temática, vide FRIEDEL, George, De I'Tnopposibilité des
Exceptions en Matiêre des Effits de Commerce, Diss., Paris, 1951; TI-IOMSEN, Detlef, Die
Einwendungslehre im englishen und deutschen Wechselrecht, Haag Herschen, Frankfurt,
1977; RODRfGUEZ,E. Barrero, Excepciones Cambiarias, Tiram Lo Blanch, Valencia, 2007.

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Parte fl - A letra de câmbio 103

mentais (art. 17.0 da LULL) ou os obrigados cambiários à exceção do aceitante


na falta de protesto tempestivo (art. 53.0 da LULL).
Outra distinção, assente no critério do alcance dos respetivos efeitos,
separa entre exceções perentórias e dilatórias: as primeiras traduzem-se em
factos modificativos, impeditivos ou extintivos que tornem improcedente
a pretensão cambiária do autor, v. g., a invalidade ou o incumprimento
do negócio causal subjacente à letra (art. 17.0 da LULL) ou a ilegitimi-
dade possessória do portador (art. 16.0 da LULL); já as segundas refe-
rem-se a factos ou circunstâncias que se limitam a suster temporariamente
a pretensão do autor, sem todavia a perimir, v. g., incumprimento do
negócio causal pelo autor, ou acordo expresso com o devedor cambiário
e fundamental no sentido de apenas acionar a letra após haver exigido
o pagamento aos demais obrigados.
Finalmente, atendendo ao critério da narureza das próprias exceções,
avulta a distinção entre exceções causais e reais: ao passo que as primeiras
são decorrentes das relações jurídicas fundamentais ou subjacentes ("in
causam"), as últimas decorrem das posses anteriores da letra ("in rem").
Será justamente sob este último prima classificatório que procederemos
em seguida à descrição e análise do regime das exceções cambiárias (228).

III. Como oportunamente se salientou, o portador de uma letra de


câmbio, ou mesmo de um título de crédito em geral, é titular de um
direito autónomo - e isto num duplo sentido.
De uma banda, o direito cambiário do portador é independente do
negócio fundamental que lhe esteve na origem, sendo-lhe inoponíveis as
eventuais exceções deste decorrentes (art. 17.0 da LULL) (229): se A compra

(228) As classificações legais e doutrinais das exceções cambiárias são variadas,


distinguindo-se também entre exceções reais e pessoais, cartulares e extracartulares,
objetivas e subjetivas, etc.: para algumas ilustrações, vide, entre nós, FIGUEIREDO, Mário,
CaracteresGerais dos Títulos de Crédito e seu Fundamento Jurídico, 99 e segs., F. Amado,
Coimbra, 1919; noutros quadrantes, PAz-AREs, Cándido, EL Sistema de LasExcepciones
Cambiarias, 712 e segs., in: 178 "Revista de Derecho Mercantil" (1985),681-741.
(229) Cf. ainda o art. 16.°, n.? 2, do Anexo II da "Convenção da Lei Uniforme
em Matéria das Letras e Livranças" (vulgarmente conhecida por Convenção de Genebra

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104 Os Títulos de Crédito - Uma Introdução

um imóvel a B, saldando a sua dívida através do saque de uma letra à ordem


do vendedor, o qual, posteriormente, a endossa a um terceiro C, não será
lícito a A recusar o respetivo pagamento perante o portador C opondo-lhe
a inexistência (não existiu afinal qualquer negócio), a nulidade (v. g., ino-
bservância da forma legal solene, simulação de preço: cf arts. 240.°, 875.°
do CCivil), a exceção de não-cumprimento (v. g., o imóvel ainda não lhe
foi entregue: cf art. 428.° do CCivil) ou o cumprimento defeituoso (v. g.,
o imóvel tinha defeitos estruturais: cf art. 913.° do CCivil) do negócio de
compra e venda celebrado com B. De outra banda, o direito do portador
sobre a letra é independente da posse dos portadores anteriores, sendo-lhe
inoponíveis quaisquer eventuais ilegitimidades possessórias destes (art. 16.0
da LULL): exemplificando de novo, se A endossa em branco uma letra a
B, que entretanto é furtada por C, o qual (seja mediante novo endosso,
nominativo ou em branco, seja mediante mera tradição manual) a transmite
por sua vez a D, que nada sabe do que se passou, a posse do portador atual
D prevalecerá sobre a do portador originário B, não lhe sendo oponível a
ilegitimidade do portador intermédio C (230).

IV Todavia, esta autonomia do direito cambiário do portador não


é absoluta.
Desde logo, o princípio geral da autonomia cartular e conexa inopo-
nibilidade das exceções causais, previsto no art. 17.° da LULL, apenas vale
relativamente aos portadores mediatos e de boa fé (231). Com efeito, tal prin-

de 1930), que expressamente exclui da LULL "qualquer outra questão respeitante às


relações jurídicas que serviram de base à emissão da letra".
(230) Sobre a auronomia como cararerística fundamental dos títulos de crédito,
vide supra Pane I, 3.5.
(231) Segundo alguma doutrina, esta típica inoponibilidade das exceções causais
enconrraria o seu fundamenro, não num princípio da autonomia dos títulos de crédito,
mas no princípio geral da eficácia relativa dos direitos de crédito ("res inter alias acta")
(CUNHA, C. Vicenre, Letras e Liuranças: Paradigmas Actuais e Recompreensão de um
Regime, 270 e segs., Diss., Coimbra, 2009). Sem negar as afinidades que o regime
juscambiário possui com o regime juscivilisra geral, não se nos afigura que tal funda-
menração teórica alternativa apresente reais vantagens comparativas na construção do
art. 17.0 da LULL, a começar pelo facto de a própria existência do referido principio

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