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ABOLI

CIONI
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Abolicionismo:perguntas frequentes
Um guia da Critical Resistance
Tradução livre do capítulo:
“Frequently Asked Questions”
Extraído do Guia de Recursos:
“The Abolitionist Toolkit”
Escrito por:
Critical Resistance Abolition Toolkit Workgroup, 2004
O original está disponível em:
http://criticalresistance.org/resources/the-abolitionist-toolkit/
Lua Negra
krakatoa@riseup.net
IMPORTANTE
NÃO TENHAS VERGONHAS DE ADMITIR QUE NÃO TENS TODAS AS RESPOSTAS

Estas são algumas das perguntas que mais ouvimos por parte de
pessoas que procuram compreender melhor a abolição e conversar
sobre a perspetiva abolicionista. Estas respostas não são o que
acreditamos que deva ser dito em todas as situações. Elas servem
para nos dar ferramentas e ideias para pensarmos sobre como
devemos responder a este tipo de perguntas colocadas por pessoas à
nossa volta.
Ser abolicionista significa criar comunidades estáveis para
que defendes apenas que que as pessoas voltem para casa,
todas as pessoas devem sair
ao mesmo tempo que intervimos no
da prisão?
sentido de encerrar as prisões.
Na sua base, a abolição não Enquanto conjunto de crenças
se limita simplesmente a políticas, a abolição do PIC
abrir as portas da prisão. É, (Complexo Industrial Prisional,
essencialmente, sobre criar PIC daqui para a frente) baseia-
novos modos de vida. Imaginar se num sentimento relativo
o futuro baseado na abolição aquilo que é possível fazer.
significa uma mudança radical Como tal, em vez de pensarmos
na forma como entendemos a no que queremos destruir será
vida em coletivo e as relações mais útil pensar sobre o que
interpessoais. É necessário precisamos de construir para
abolir o PIC. A nossa perspetiva participar numa economia,
deve incluir todas as pessoas meios para expressar opiniões,
afetadas pelo PIC, não só xs interesses e preocupações e
traficantxs de droga ou aquelxs inexistência de violência
erradamente condenadxs. É física e psicológica (tanto de
necessário criar contextos para indivíduos como do Estado).É
todxs e garantir a satisfação necessário começar a construir
das necessidades básicas de este tipo de contextos para
vida, tais como habitação que, ao mesmo tempo, seja
segura e estável, alimentação possível a abolição de seja o
suficiente, acesso a cuidados de que for. Precisamos de ambientes
saúde, acesso a informação e a saudáveis que não dependam da
ferramentas para processar essa punição e da agressão nem que
informação, recursos para protejam os interesses do Estado
dxs ricxs ou dxs poderosxs. Não penitenciárias, de centros
nos podemos apenas livrar das de detenção e de hospitais
prisões sem fazer estas mudanças punitivos de “saúde” mental.
radicais, isso significa
O que fazer com os
elaborar planos e dar pequenos
violadores, pedófilos e
passos guiados pelos nossos assassinos? Não são pessoas
sonhos, encontrar meios para que precisam mesmo de estar
acreditar que as coisas podem presas?
efetivamente ser diferentes e
que cada umx de nós pode ir A violação sexual, o abuso
concretizando esta visão no sexual de crianças e o
quotidiano. Também siginifca, assassinato são problemas muito
claro, abrir as portas das sérios e perturbadores para
prisões, derrubando muros de todxs xs que se preocupam com
o bem-estar de entes queridxs, sobre qual poderá ser a
filhxs e membros das suas resposta mais apropriada para
comunidades. Atos ou agressões responder ao dano, chegamos a
gravemente danosas podem, conclusões diferentes sobre as
compreensivelmente, provocar mudanças que são necessárias
grande raiva e medo. Essa raiva realizar. Se queremos que as
pode levar ao desejo de punir, sociedades onde vivemos sejam
enquanto que o medo pode levar saudáveis, seguras e justas,
então devemos por em prática
ao desejo de tentar remover da
alternativas à punição. Vamos
sociedade xs responsáveis. Mas a
considerar alguns pontos em
“necessidade” de prender alguém particular.
é uma falsa necessidade. Ninguém
precisa de ser trancadx. Se 1) Punição e encarceramento
dedicarmos algum tempo a pensar não são respostas
apropriadas ao dano
Para compreender porque é que necessidades e das experiências
a punição e o encarceramento não só da pessoa que sofreu
não são respostas apropriadas o dano, como da pessoa que o
ao dano, poderá ajudar infligiu e da comunidade à
recorrer ao senso comum, para volta, por outras palavras, da
nos ajudar a desenvolver sociedade no seu todo. Para a
uma resposta mais adequada. nossa discussão aqui, o que
Se seguirmos esse caminho, interessa em primeiro lugar é
chegamos a uma conclusão tentar entender aquelxs que
bastante diferente acerca da cometeram os atos danosos, bem
punição e do encarceramento. como o contexto em que o dano
A consciencialização é um dos ocorreu. Quando procuramos
primeiros passos. É preciso ter uma maior consciência das
estarmos conscientes das circunstâncias, a nossa
perceção em relação ao que precisam de cuidado e de
aconteceu é mais contundente. preocupação. A tentativa
Ao procurar contextualizar de desenvolver níveis
a agressão e os fatores mais aprofundados de
determinantes que conduziram ao consciencialização dá-nos uma
dano ou à agressão, acabamos visão mais ampla que nos permite
por concluir facilmente que deixar de olhar o ato danoso
mais do que uma pessoa deve ser apenas como um ato isolado.
responsabilizdx. Até as piores Quando vemos a agressão como um
agressões não acontecem sem evento que está interligado e
razão alguma. Muitas pessoas que não pode ser percecionado de
que cometem agressões foram forma isolada, deixa de fazer
agredidas no passado. O que sentido canalizar a raiva apenas
demonstra que também contra um indivíduo em
particular. Esta raiva será mais exercendo mais violência não
produtiva se direcionada para faz sentido. Em vez de punir,
outro lado. A abolição é uma as pessoas que prejudicaram
visão que procura transformar as seriamente outras pessoas
condições sociais e económicas deveriam ter acesso a formas
que conduzem à violência. apropriadas de apoio, desde
Atualmente, a punição reitera supervisão até a recursos
a violência, reproduzindo-a ao sociais e económicos. Além
invés de a desencorajar, além disso, em vez da punição,
de incentivar a vingança como também precisamos de formas
forma de resolver os problemas. humanas de responsabilização.
Se alguém cometer uma agressão Responsabilização significa
e também já sofreu agressões em manter as pessoas comprometidas
algum momento da sua vida, punir com xs outrxs. Precisamos de
uma alternativa porque a que garantam a segurança e o
punição cria um sentimento bem-estar de várias formas. Em
de isolamento social em vez primeiro lugar, estes espaços
de responsabilidade para com devem garantir que a pessoa ou
as outras pessoas. É difícil pessoas que cometeram o ato
conceber respostas alternativas não prejudiquem ninguém. Em
porque o predomínio das prisões segundo lugar, estes espaços
enquanto resposta impediu-nos de devem garantir que as pessoas
procurar e desenvolver outras que procuram vingança não
alternativas. Algumas coisas, agridam a pessoa (ou pessoas)
no entanto, podem ser ditas. que exerceram a violência. Por
Imediatamente após um incidente útimo, estes espaços devem
grave, há a necessidade garantir que a pessoa (ou
especialmente urgente de espaços pessoas) que cometeu a violência
não se prejudique. Por estes porque envolve, sem dúvida, um
espaços procurarem a segurança uso do poder violento e abusivo.
e o bem-estar, não devem Percebe-se isto mais claramente
ser em nada semelhantes às em termos de políticas e
prisões. Devem, na verdade, práticas. Em primeiro lugar,
ser exatamente o oposto, já as políticas e práticas nunca
que as prisões são ambientes devem ser ditadas pela força ou
fundamentalmente desumanos e pelo medo. Devem sim basear-
violentos. se na preocupação com o bem-
estar coletivo. Como vivemos
2) O encarceramento de
numa sociedade onde os média
pessoas é um abuso violento
de poder se aproveitam dos nossos medos
e raiva, somos constantemente
Encarcerar alguém é errado atingidxs por notícias sobre
atos de violência que são não devem basear-se em casos
codificados de maneira racista, individuais. Mesmo que apenas
classista e homofóbica. Por uma pequena percentagem de
exemplo, associar a violência pessoas seja presa por atos
e o “crime” às comunidades realmente horríveis, estes
negras é uma prática tão atos podem ter um efeito muito
enraizada e tão comum que a desigual na forma como as
população negra é criminalizada políticas são conduzidas. As
como um todo. Neste caso, o políticas, em vez de se basearem
medo é usado politicamente e em casos individuais, devem ser
a população negra torna-se um desenvolvidas com o bem coletivo
alvo. Em segundo lugar, as em mente. Para que as respostas
políticas e práticas de qualquer aos danos sejam apropriadas
instituição, grupo ou sociedade estas devem ser formuladas à
medida de cada situação, no brancxs pobres para as camadas
entanto, é prática comum seguir inferiores da sociedade através
diretrizes gerais para responder do uso constante de violência.
a todos a danos. O PIC está Em terceiro lugar, as políticas
longe de garantir justiça, e práticas não devem criar
igualdade e um tratamento humano instituições antidemocráticas
digno, o que acontece é que ou autoritárias, contudo, as
funciona no sentido exatamente prisões são fundamentalmente
oposto a estes pressupostos. No antidemocráticas e autoritárias.
passado, tal como no presente, o Como as prisões não podem
PIC tem sido o eixo central da funcionar sem o trabalho
supremacia branca e da dominação prisional e a submissão geral,
de classe, empurrando muitas xs prisioneirxs são impedidxs de
pessoas negras, não-brancas e se organizarem. Como forma de
desculpabilizar a sua posição prisões ou polícia?
de poder, as pessoas que
administram estas instituições Uma forma de responder a esta
são facilmente conquistadas pergunta é perceber de que forma
por crenças que desumanizam xs é que estás segurx. Enquanto
prisioneirxs. Tratar alguém os média e os políticos se
brutalmente torna-se plausível concentram no “crime” como um
quando o alvo não é considerado grande problema nos EUA, o facto
como ser humano, especialmente é que as taxas de criminalidade
em termos de raça. Quando alguém caíram ou permaneceram as
deixa de ser considerado humano, mesmas desde o período anterior
quase toda a violência ou abuso ao grande boom da prisão. Além
torna-se possível. disso, a elaboração e aplicação
de leis “duras contra o crime”
Como ficaremos segurxs sem
não tiveram um grande impacto dependência de drogas. As
na “segurança pública”. pessoas mais vulnerabilizadas
Estas campanhas políticas e são as mais propensas a recorrer
mediáticas alimentam o pânico, a medidas desesperadas, quando
particularmente, em relação empregos e a assistência social
ao crime urbano. Veja-se, por (como, por exemplo, o tratamento
exemplo, que a maioria das para a dependência de drogas
agressões físicas ocorre entre ou os recursos para a redução
pessoas que se conhecem. A do risco de dependência) não
violência aleatória não é tão estão disponíveis, muitas vezes
comum quanto aparenta ser. O devido às políticas estatais.
crime económico, como o roubo, O governo cria ainda outros
está frequentemente ligado a crimes aumentando a capacidade
uma queda na economia ou à da polícia para controlar as
pessoas. Neste sentido, veiculando a sensação de risco
vadiagem, mendicidade, e insegurança. É claro que
acampamentos públicos, entre danos ou agressões acontecem,
outros, são usados como desculpa e qualquer movimento para a
para a polícia incomodar pessoas abolição do PIC tem de criar
sem abrigo, pessoas queer, formas de prevenção eficazes e
jovens e outrxs que vivem ou considerar as circunstâncias
socializam nas ruas. Assim, de todxs xs envolvidxs quando
enquanto a violência real tais actos acontecem. Antes de
acontece todos os dias, o medo pensarmos como alcançar esta
pela nossa segurança pública meta importante, também é útil
baseia-se menos nas formas de criar uma nova perspetiva para
violência reais e mais naquelas o que queremos dizer quando
que são hiperbolizadas falamos em segurança. Enquanto
a polícia e as prisões podem não brancas, pessoas pobres,
fazer algumas pessoas sentirem- imigrantes e outrxs), há
se seguras, elas não estão menos oportunidades para as
de facto a contribuir para a pessoas mais afetadas pelo
nossa segurança, especialmente crime e pela pobreza obterem
a longo prazo. Em vez disso, recursos para lidar com as
polícia e prisões produzem questões problemáticas que
barreiras maiores a outros tipos atingem os contextos onde
de segurança que necessitamos vivem. A polícia tem como alvos
para viver. Como a maioria bairros específicos e pessoas
dos recursos financeiros são específicas para vigilância
direcionados para o policiamento e controlo. Como resultado,
e o controlo de pessoas pessoas negras e não-brancas,
(especialmente pessoas negras e pessoas pobres, pessoas queer e
outras vêem muitas vezes a em alterar as taxas oficiais de
sua segurança ameaçada pelas crime, como o foco no combate
rusgas policiais – o que ao crime enquanto a única via
inclui abusos físicos, assédio para criar segurança limita o
constante ou o risco de serem que pensamos sobre as formas
removidas das suas comunidades. como nos mantemos segurxs. Bens
O impacto do encarceramento essenciais como a habitação, a
é igualmente grave. Muitas alimentação, o acesso a cuidados
pessoas negras e não brancas e de saúde mental e física, e
pessoas pobres sofrem em geral saber que estas necessidades não
porque familiares e vizinhanças estão constantemente em risco,
estão a ser removidas das suas são também fundamentais para a
comunidades. Não só a criação segurança das pessoas. Trabalhar
da polícia e da prisão falharam para acabar com o PIC
significa criar todos estes envolvem pessoas comuns (que
tipos de segurança, incluindo constituam alternativas à
a estabilidade quotidiana, a polícia, aos tribunais e às
autodeterminação e os meios prisões) e que atendam às
para lidar com a violência necessidades de qualquer pessoa
interpessoal. A abolição do PIC afetada por um ato danoso
é uma forma de criar segurança. ou uma agressão. Cuidar das
Os projetos de organização necessidades de todxs é crucial
abolicionista concentram-se em para evitar que a violência
derrubar o sistema porque o aconteça novamente. O sistema
consideram desnecessário. Estes atual não está centrado nem
projetos também criam segurança assenta nesta premissa. Uma vez
através de melhores estratégias que muitos danos e agressões
para lidar com os danos que acontecem entre pessoas que
se conhecem, desenvolver Claro que quando as pessoas
estratégias de responsabilização estão em perigo iminente – seja
sem punição funciona no esse perigo provocado pela
sentido de manter as famílias ameaça de violência física
e as comunidades unidas ao exercida por umx parceirx
contribuírem para a redução íntimx ou por uma ameaça na rua
da violência no seio destas. – temos de encontrar uma forma
As estratégias abolicionistas de a colocar imediatamente
concentram-se em responder às em segurança. Até agora, xs
desigualdades sociais pois estas abolicionistxs ainda não criaram
geram violência. Deste modo, soluções práticos para oferecer
contribuem para a estabilidade e alternativas à polícia. Este tem
a autodeterminação, prevenindo de ser um dos nossos projetos,
danos e agressões. em conjunto com outros que têm
o objetivo de criar melhores um mundo que não dependa do
alternativas para efetivamente policiamento e da punição
garantir aquilo que seria verifica-se nos casos em que
suposto o PIC concretizar. as pessoas precisam que alguém
Construir essas alternativas de externo se envolva, e a polícia
organização faz parte da visão é normalmente a única opção. Em
abolicionista para criar uma muitas e diversas situações,
segurança real. tais como, quando se está
em perigo iminente de ameaça
O que posso fazer em vez de física, quando se ouve um
chamar a polícia?
barulho estranho ou uma briga
na rua, ou até quando alguém
Um dos maiores problemas que
precisa de direções para algum
enfrentamos ao tentar construir
lugar, a polícia é chamada. A
nossa crescente dependência a polícia porque precisam de
da polícia em todas estas apoio para intervir numa dada
situações reforça o PIC. Como situação. Mas quando chamas a
abolicionistas não acreditamos polícia na maioria das vezes
que podemos apenas dizer “nunca esta só te dá más opções.
chames a polícia” e as pessoas Chamar a polícia é uma solução
vão ficar seguras. Mas é preciso abrangente para problemas que
pensar sobre o que acontece normalmente são específicos
quando a polícia é chamada, e têm origens específicas. A
porque é que é chamada, e como polícia é uma solução genérica,
é que podemos criar as nossas uma espécie de resolve-tudo, mas
próprias estratégias de modo com apenas uma opção real: eles
a substituir a polícia. Faz podem ameaçar ou usar a força.
sentido que as pessoas chamem Os polícias têm o poder legal e
físico para dirigir a situação, a polícia chega. Não só a pessoa
acabando assim por ter controlo que foi violentada e ameaçada
sobre todas as opções. Isto, fica sem opções, como também
na maioria das situações, a pessoa que chamou a polícia
significa não fazer nada ou e todas xs outrxs à volta.
excluir uma pessoa (ou mais) Até mesmo xs vizinhxs que não
removendo-a do seu contexto. têm uma ligação direta com a
Estas estratégias não são, de situação perdem o controlo. Isto
modo geral, eficientes na gestão acontece porque mais polícias na
de um conflito imediato e/ou área significa mais vigilância,
na prevenção de outros. Chamar o que significa o afastamento
a polícia não garante que a e a remoção de mais pessoas
situação vá melhorar. Todas as das comunidades. Esta perda de
pessoas perdem o controlo quando controlo sobre a situação
acontece especialmente nas acalmem, ou ajudar a verificar
comunidades negras, entre outras aquele barulho estranho, ou
comunidades racializadas que já fornecer um abrigo temporário,
sofreram sob intensa repressão e ou ajudar alguém a sair. O
vigilância policial. Uma opção problema é que geralmente não
mais eficiente pode passar por configuramos estas situações
pedir ajuda a outra pessoa – com antecedência, pelo que as
umx vizinhx, familiar ou amigx. pessoas ligam para a polícia
Telefonar a alguém que possa (mesmo que não queiram) já
rapidamente ir ter contigo e que não há outra solução.
que ajude a acalmar as coisas e Pode ajudar aqui relembrar
a encontrar soluções. A solução que não chamamos a polícia de
pode consistir em permanecer forma natural esta solução é
até que todas as pessoas se constantemente publicitada. Nós
ouvimos dizer isso por parte de tão simples como fazer a umx
professorxs na escola primária, amigx uma pergunta básica: “Se
nos filmes, nas notícias e eu precisar, posso ligar-te?” Ou
nos média em geral, por parte dizer a alguém: “Se precisares
de pessoas que o fazem no de alguém, podes-me ligar”.
nosso quotidiano e não menos Sabemos que isto não é uma
importante, por parte da própria solução adequada para todas as
polícia. Por isso faz sentido a situações. Mas temos de começar
necessidade de nos organizarmos a testar soluções práticas.
para criar alternativas. Não tem
de ser complicado, ou envolver
um milhão de planos à priori ou
necessitar de um compromisso
altamente complexo. Pode ser
O que distingue a para membros da família ou para
perspetiva abolicionista advogadxs. Estas ações ajudam
do PIC das perspetivas
a garantir que as pessoas
reformistas?
presas sejam tratadas como
seres humanos. No entanto, há
Xs abolicionistas são
também reformas que no final
normalmente descritxs como
tornam impossível o objetivo a
inflexíveis. Existem várias
longo prazo de nos livrarmos do
formas de abolir o PIC e
PIC. Por exemplo, em resposta
não apenas um único caminho
às condições terríveis que a
para um mundo sem prisões e
maioria dxs prisioneirxs vive no
policiamento. Há ações que fazem
país, xs abolicionistas podem
sentido de antemão, como a
concentrar-se em estratégias que
oposição a mudanças limitativas
tentam, em primeiro lugar,
nos regulamentos de visitas
perceber como podemos deixar as mais do que apenas inclusivas
pessoas fora das grades ao invés ou exclusivas pois remetem para
daquelas que têm como objetivo a diferentes estratégias empregues
construção de melhores prisões. e compreendem uma distinta visão
Construir novas celas e prisões a longo prazo. Estas diferenças
ajuda a prolongar a vida do dependem do que queremos como
PIC como um sistema. O que objetivo último. A história do
vai diretamente contra a meta reformismo trouxe coisas como as
abolicionista de a longo prazo próprias prisões (na forma de
eliminar o sistema carcerário. penitenciárias) e a expansão dos
E também só contribui para que, sistemas penitenciários quando
no final, tenhamos de fechar novas prisões são construídas
mais uma prisão. As diferenças para “substituir” os antigos
entre ambas as abordagens são prédios superlotados ou em
ruínas. A prisão de Folsom A principal diferença entre
na Califórnia foi construída as duas posições é a de
para substituir a prisão de tentar melhorar o PIC ou
San Quentin para lidar com a tentar derrubar o PIC. Por
superlotação e as condições estas razões, às vezes alguns
precárias - ambas as prisões grupos abolicionistas usam
ainda existem quase 125 anos estratégias que podem definir-
depois. Sentenças com tempos se como reformistas ao invés de
mínimos de cumprimento de abolicionistas (como oferecer
pena, sentenças definitivas e melhores cuidados de saúde e
o sistema de justiça juvenil educação a pessoas presas,
consistem em reformas que tornando a liberdade condicional
fortaleceram o PIC ao invés de acessível a mais presxs,
derrubá-lo ou mesmo diminuí-lo. apoiando as greves de presxs) –
intervenções que não contribuem Como podemos falar de
necessariamente para a abolição abolicionismo sem usar a
do sistema. No entanto, palavra abolicionismo? É
existem certas estratégias importante usar a palavra
(como o comércio entre presxs mesmo que seja assustadora?
“violentxs” e “não-violentxs” ou
a construção de novas prisões Como e quando falar sobre
e a melhoria das condições nas abolicionismo depende muito da
prisões) que minam o trabalho situação e dos nossos objetivos.
que xs abolicionistas fazem e Em alguns casos, é necessário
permitem fazer a distinção entre dizer a palavra abolição alto e
abolição e reformismo. frequentemente. Precisamos de
encontrar formas de introduzir
a ideia nas discussões e
debates quotidianos. É preciso talvez seja melhor falar sobre a
verbalizá-la com bastante abolição usando o senso comum e
frequência e em situações sem usar a palavra. Embora seja
suficientes para que se torne importante falar principalmente
uma das palavras que usamos sobre alternativas, é necessário
para falar sobre o conjunto garantir que não estamos a
de estratégias para lidar com tentar colocar pessoas em perigo
o PIC. Muitas pessoas têm com esta perspetiva, pelo
realmente medo que, sem prisões contrário, estamos a tentar
e sem polícia, pessoas más andem imaginar o que pode realmente
pelas ruas a matar pessoas contribuir para a segurança
aleatoriamente, e por isso coletiva. Quando falamos sobre
defendem o controlo policial e a abolição sem realmente dizer
a prisão. Ao conversar com elxs, a palavra, precisamos de nos
concentrar em medidas práticas
e numa visão clara sobre o
objetivo que defendemos e
que desejamos que aconteça.
Esperamos que ao falar sobre a
abolição sem usar a palavra,
possamos criar um senso comum
que eventualmente conduzirá, um
cada vez mais amplo sector da
população, a utilizar a palavra
com segurança e de forma
reflexiva.
Lua
Negra