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Já escrevi isso amanhã

Antonio Lobo Antunes (1942), em umas das poucas entrevistas1 monólogos da história. Disse
que escrever bem é o mesmo que fazer um solo de Jazz, também relatou uma história ao qual
o saxofonista Charlie Parker (1920-1935) jogou seu instrumento no chão e chutava gritando
“Já toquei isso amanhã”. Escrever crônicas se passa pela frase do Parker, pois é um gênero
muito versátil e para o crítico Otto Maria Carpeaux (1900-1978) pode ser considerada a filha
do folhetim. Se olharmos o seu nascimento no Séc. XIX, na França, que pode ser datada no dia
21 de janeiro, no ano 18002. Podemos perceber que esse gênero trata do cotidiano com uma
fluidez e liberdade que o estilo permite.

Com alguns anos já na história da literatura, tendo como protagonistas autores como Machado
de Assis (1839-1908), por sua pena mais de seiscentas crônicas, mas mesmo assim, nos dias de
hoje é considerado um gênero menor. Assim como o romance policial e a ficção cientifica, já o
quadrinho então, nem entra em cena.

O crítico literário Wilson Martins (1921-2010), disse que a crônica é a literatura do dia a dia,
mas não por isso menor; muito pelo contrário, pois ajuda o escritor a manter seu oficio
diariamente e exercitar sua escrita. Sendo um gênero diário, dado ao esquecimento, é na
crônica que percebemos a utilidade do inútil, assim parafraseando o teólogo Hans Urs von
Balthasar (1905-1908), pois são elas que realmente importam, já que não podemos guardar
um sorriso, mas captar o momento e esperar pela próxima oportunidade. Uma boa crônica
chega próxima ao poder da inutilidade da vida diária, plantando ali seu verdadeiro poder.

No livro Nossas Crônicas (2019) de André Alvez, Lucilene Machado, Maria Adélia Menegazzo,
Raquel Naveira e Theresa Hilcar, podemos ver o gênero chegar ao seu limite com o estilo de
cada autor que usou com delicadeza, por vezes, a maestria no melhor sentido da palavra.

O livro tem uma estrutura de 73 crônicas, seguindo uma sequência de um autor diferente em
cada texto e não uma seção especifica para cada autor. Fazendo o leitor ler todos os textos e
não um autor por vez.

André, tem uma escrita limpa e um estilo próximo do realismo mágico, conversa com
personagens da filosofia passando pela cidade morena. Presencia remédios brigando para
mostrar qual tem mais utilidade e também, tem uma nostalgia leve em cada crônica ao
lembrar os tempos de infância, ou de uma Campo Grande atemporal. Sem humor e sua leve
ironia deixa suas crônicas leve, como deve ser.

Luciene é uma romântica, gosta mesmo é de falar de amor e suas implicações. Nos traz um
olhar por vezes angustiado em relação aos relacionamentos, mesmo assim, tem uma pena
sincera e trata a vida como ela é, sem véu, sem filtro.

Maria Adélia é uma voz feroz e muito irônica ao contexto político. Faz questão de mostrar o
problema dos buracos, leis e corrupção. Gosta de lembrar dos seus tempos de magistério, mas

1
https://www.revistabula.com/17592-lobo-antunes-ironiza-o-premio-nobel-e-afirma-que-
saramago-e-uma-merda/
2
https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k415703q
não deixa de falar de como a política influencia a vida de quem lhe é muito próxima, nos
fazendo lembrar de verdadeiros horrores.

Raquel Naveira é uma verdadeira errante, faz questão de deixar claro isso em seus textos.
Sempre mostra a universalidade de Campo Grande, para dar um exemplo simples ela viaja aos
quatro cantos da terra. Lembra quadros, esfinges, poetas metafísicos ingleses, mas sempre faz
questão representar isso pela cidade morena. Suas crônicas são metafisicas, teológicas, é um
pedaço do tempo que estava guardado no coração da escritora que ela de alguma maneira
pois para fora.

Por fim, temos Theresa Hilcar, sua crônica é visceral, mostra a nudez da alma humana, da luz
para a desgraça que passa por nossos olhos e fazemos questão de não ver. Mesmo assim, é
capaz de mostrar com um certo lirismo com o susto que é se ver avó e pensar no carinho que
já tem pelo neto.

Cada autor nos mostra problemas comuns ao cotidiano, sendo eles: violência, corrupção, bar,
preguiça, mercado, transito. O livro Nossas Crônica (2019), é um livro para se ler com olhos
abertos, pois nos mostra uma Campo Grande e um mundo, que só cabe em uma crônica.3

3
Meu único problema com o livro foi técnico, pois pela falta de um editor teve problemas simples que
poderia ter sido evitado, como várias junções de palavras.

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