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Canto I-Proposição

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AS armas e os Barões assinalados E também as memórias gloriosas
Que da Ocidental praia Lusitana Daqueles Reis que foram dilatando
Por mares nunca de antes navegados A Fé, o Império, e as terras viciosas
Passaram ainda além da Taprobana, De África e de Ásia andaram devastando,
Em perigos e guerras esforçados E aqueles que por obras valerosas
Mais do que prometia a força humana, Se vão da lei da Morte libertando,
E entre gente remota edificaram Cantando espalharei por toda parte,
Novo Reino, que tanto sublimaram; Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

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Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram. 22
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Estava o Padre ali, sublime e dino,
Que outro valor mais alto se alevanta Que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Consilio dos deuses-Canto I Com gesto alto, severo e soberano;
19 Do rosto respirava um ar divino,
Já no largo Oceano navegavam, Que divino tornara um corpo humano;
As inquietas ondas apartando; Com ũa coroa e ceptro rutilante,
Os ventos brandamente respiravam, De outra pedra mais clara que diamante.
Das naus as velas côncavas inchando; 23
Da branca escuma os mares se mostravam Em luzentes assentos, marchetados
Cobertos, onde as proas vão cortando De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
As marítimas águas consagradas, Os outros Deuses, todos assentados
Que do gado de Próteu são cortadas, Como a Razão e a Ordem concertavam
20 (Precedem os antigos, mais honrados,
Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Mais abaixo os menores se assentavam);
Onde o governo está da humana gente, Quando Júpiter alto, assi dizendo,
Se ajuntam em consílio glorioso, Cum tom de voz começa grave e horrendo:
Sobre as cousas futuras do Oriente. 24
Pisando o cristalino Céu fermoso, – «Eternos moradores do luzente,
Vêm pela Via Láctea juntamente, Estelífero Pólo e claro Assento:
Convocados, da parte de Tonante, Se do grande valor da forte gente
Pelo neto gentil do velho Atlante. De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
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Como é dos Fados grandes certo intento
Deixam dos sete Céus o regimento,
Que por ela se esqueçam os humanos
Que do poder mais alto lhe foi dado,
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
Alto poder, que só co pensamento
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Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.
«Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
Ali se acharam juntos num momento
Cum poder tão singelo e tão pequeno,
Os que habitam o Arcturo congelado
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
E os que o Austro têm e as partes onde
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do Céu sereno:
Assi que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.
26 Ouvido tinha aos Fados que viria
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«Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Ũa gente fortíssima de Espanha
Vê que já teve o Indo sojugado
Que co a gente de Rómulo alcançaram, Pelo mar alto, a qual sujeitaria
E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
Quando com Viriato, na inimiga Da Índia tudo quanto Dóris banha,
Por vencedor da Índia ser cantado
Guerra Romana, tanto se afamaram; E com novas vitórias venceria
De quantos bebem a água de Parnaso.
Também deixo a memória que os obriga A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Teme agora que seja sepultado
A grande nome, quando alevantaram Altamente lhe dói perder a glória
Seu tão célebre nome em negro vaso
Um por seu capitão, que, peregrino, De que Nisa celebra inda a memória.
D' água do esquecimento, se lá chegam
Fingiu na cerva espírito divino. 32
Os fortes Portugueses que navegam.
27 Vê que já teve o Indo sojugado
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«Agora vedes bem que, cometendo E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
Sustentava contra ele Vénus bela,
O duvidoso mar num lenho leve, Por vencedor da Índia ser cantado
Afeiçoada à gente Lusitana
Por vias nunca usadas, não temendo De quantos bebem a água de Parnaso.
Por quantas qualidades via nela
de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve: Teme agora que seja sepultado
Da antiga, tão amada, sua Romana;
Que, havendo tanto já que as partes vendo Seu tão célebre nome em negro vaso
Nos fortes corações, na grande estrela
Onde o dia é comprido e onde breve, D' água do esquecimento, se lá chegam
Que mostraram na terra Tingitana,
Inclinam seu propósito e perfia Os fortes Portugueses que navegam.
E na língua, na qual quando imagina,
A ver os berços onde nasce o dia. 33
Com pouca corrupção crê que é a Latina.
28 Sustentava contra ele Vénus bela,
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«Prometido lhe está do Fado eterno, Afeiçoada à gente Lusitana
Estas causas moviam Citereia,
Cuja alta lei não pode ser quebrada, Por quantas qualidades via nela
E mais, porque das Parcas claro entende
Que tenham longos tempos o governo Da antiga, tão amada, sua Romana;
Que há-de ser celebrada a clara Deia
Do mar que vê do Sol a roxa entrada. Nos fortes corações, na grande estrela
Onde a gente belígera se estende.
Nas águas têm passado o duro Inverno; Que mostraram na terra Tingitana,
Assi que, um, pela infâmia que arreceia,
A gente vem perdida e trabalhada; E na língua, na qual quando imagina,
E o outro, pelas honras que pretende,
Já parece bem feito que lhe seja Com pouca corrupção crê que é a Latina.
Debatem, e na perfia permanecem;
Mostrada a nova terra que deseja. 34
A qualquer seus amigos favorecem.
29 Estas causas moviam Citereia,
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«E porque, como vistes, têm passados E mais, porque das Parcas claro entende
Qual Austro fero ou Bóreas na espessura
Na viagem tão ásperos perigos, Que há-de ser celebrada a clara Deia
De silvestre arvoredo abastecida,
Tantos climas e céus exprimentados, Onde a gente belígera se estende.
Rompendo os ramos vão da mata escura
Tanto furor de ventos inimigos, Assi que, um, pela infâmia que arreceia,
Com impeto e braveza desmedida,
Que sejam, determino, agasalhados E o outro, pelas honras que pretende,
Brama toda montanha, o som murmura,
Nesta costa Africana como amigos; Debatem, e na perfia permaneA qualquer seus
Rompem-se as folhas, ferve a serra
E, tendo guarnecido a lassa frota, amigos favorecem.
erguida:
Tornarão a seguir sua longa rota.» 35
Tal andava o tumulto, levantado
30 Qual Austro fero ou Bóreas na espessura
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
Estas palavras Júpiter dizia, De silvestre arvoredo abastecida,
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Quando os Deuses, por ordem respondendo, Rompendo os ramos vão da mata escura
Mas Marte, que da Deusa sustentava
Na sentença um do outro diferia, Com impeto e braveza desmedida,
Entre todos as partes em porfia,
Razões diversas dando e recebendo. Brama toda montanha, o som murmura,
Ou porque o amor antigo o obrigava,
O padre Baco ali não consentia Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Ou porque a gente forte o merecia,
No que Júpiter disse, conhecendo Tal andava o tumulto, levantado
De antre os Deuses em pé se levantava:
Que esquecerão seus feitos no Oriente Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
Merencório no gesto parecia;
Se lá passar a Lusitana gente.
O forte escudo, ao colo pendurado,
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Deitando pera trás, medonho e irado;
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Ouvido tinha aos Fados que viria
Mas Marte, que da Deusa sustentava
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Ũa gente fortíssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria AEntre todos
viseira as partes
do elmo em porfia,
de diamante
Da Índia tudo quanto Dóris banha, Alevantando um pouco, muioseguro,
Ou porque o amor antigo obrigava,
Ou porque a gente forte o merecia,
Por dar seu parecer se pôs diante
E com novas vitórias venceria
DeJúpiter,
De antre osarmado,
Deuses forte
em péese levantava:
duro;
A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Altamente lhe dói perder a glória EMerencório no gesto
dando ũa pancada parecia;
penetrante
O conto
Co forte do
escudo,
bastão aonocolo pendurado,
sólio puro,
De que Nisa celebra inda a memória.
Deitando pera trás, medonho
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, e irado;
Um pouco a luz perdeu, como enfiado;
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E disse assi: – «Ó Padre, a cujo império Tu«Que,
só, tu,sepuro
aquiAmor,
a razão comse força crua,
não mostrasse
Tudo aquilo obedece que criaste: Que os corações
Vencida do temorhumanos tanto obriga,
demasiado,
Se esta gente que busca outro Hemisfério, Deste causaque
Bem fora à molesta
aqui Bacomorte sua,
os sustentasse,
Cuja valia e obras tanto amaste, Como
Pois se
quefora pérfida
de Luso vêm,inimiga.
seu tão privado;
Não queres que padeçam vitupério, SeMas
dizem,
estafero Amor,
tenção sua que
agoraa sede
passe,tua
Como há já tanto tempo que ordenaste, Nem com lágrimas tristes se mitiga,
Porque enfim vem de estâmago danado;
Não ouças mais, pois és juiz direito, É Que
porque queres,
nunca tirarááspero
alheiaeenveja
tirano,
Razões de quem parece que é suspeito. Tuas arasque
O bem banhar
outrememmerece
sangue ehumano
o Céu deseja.
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«Que, se aqui a razão se não mostrasse 120
«E tu,
Vencida do temor demasiado, Estavas, linda Inês,que
Da determinação posta
tensemtomada
sossego,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse, De teus
Não anos por
tornes colhendo
detrás,docepoisfruto,
é fraqueza
Pois que de Luso vêm, seu tão privado; Naquele engano
Desistir-se da da alma,
cousa ledo e cego,
começada. Mercúrio, pois
Mas esta tenção sua agora passe, Que a Fortuna não
excede em ligeireza deixa durar muito,
Porque enfim vem de estâmago danado; Nos
Ao saudosos
vento levecampos
e à setadobem
Mondego,
talhada,
Que nunca tirará alheia enveja De teus
Lhe vá formosos
mostrar aolhosterranunca
onde enxuto,
se informe
O bem que outrem merece e o Céu deseja. Aos
Da montes
Índia, eensinando
onde a gentee às se
ervinhas
reforme.
40 O nome que no peito escrito tinhas.
«E tu, Padre de grande fortaleza,
«E tu, Padre de grande fortaleza,
Da determinação que tens tomada 121
Da determinação que tens tomada
Não tornes por detrás, pois é fraqueza Do teu Príncipe ali te respondiam
Não tornes por detrás, pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada. As lembranças que na alma lhe moravam,
Desistir-se da cousa começada.
Mercúrio,excede em ligeireza Que sempre ante seus olhos te traziam,
Mercúrio, pois excede em ligeireza
Ao vento leve e à seta bem talhada, Quando dos teus formosos se apartavam;
Ao vento leve e à seta bem talhada,
Lhe vá mostrar a terra onde se informe De noite, em doces sonhos que mentiam,
Lhe vá mostrar a terra onde se informe
Da Índia, e onde a gente se reforme. De dia, em pensamentos que voavam;
Da Índia, e onde a gente se reforme
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
«E tu, Padre de grande fortaleza,
41determinação que tens tomada Eram tudo memórias de alegria
Da
Como
Não isto por
tornes disse, o Padre
detrás, poderoso,
pois é fraqueza
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A cabeça inclinando, consentiu
Desistir-se da cousa começada.
De outras belas senhoras e Princesas
No que disse
Mercúrio, pois Mavorte
excede em valeroso
ligeireza
Os desejados tálamos enjeita,
AoE vento
néctarleve
sobre
e àtodos esparziu.
seta bem talhada,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas
Pelo
Lhe vácaminho
mostrarLácteo
a terraglorioso
onde se informe
Quando um gesto suave te sujeita.
DaLogo cada
Índia, um dos
e onde Deuses
a gente sese partiu,
reforme.
Vendo estas namoradas estranhezas,
Fazendo seus reais acatamentos,
O velho pai sesudo, que respeita
Pera os determinados apousentos.
O murmurar do povo e a fantasia
Ines de castro- canto III Do filho, que casar-se não queria,
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Passada esta tão próspera vitória, Tirar Inês ao mundo determina,
Tornado Afonso à Lusitana terra, Por lhe tirar o filho que tem preso,
A se lograr da paz com tanta glória Crendo co sangue só da morte indina
Quanta soube ganhar na dura guerra, Matar do firme amor o fogo aceso.
O caso triste, e dino da memória Que furor consentiu que a espada fina
Que do sepulcro os homens desenterra, Que pôde sustentar o grande peso
Aconteceu da mísera e mesquinha Do furor Mauro, fosse alevantada
Que depois de ser morta foi Rainha. Contra ua fraca dama delicada?
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Traziam-a os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
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124 Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Traziam-a os horríficos algozes Movido das palavras que o magoam;
Ante o Rei, já movido a piedade; Mas o pertinaz povo e seu destino
Mas o povo, com falsas e ferozes (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Razões, à morte crua o persuade. Arrancam das espadas de aço fino
Ela, com tristes e piedosas vozes, Os que por bom tal feito ali apregoam.
Saídas só da mágoa e saudade Contra ua dama, ó peitos carniceiros,
Do seu Príncipe e filhos, que deixava, Feros vos amostrais - e cavaleiros?
Que mais que a própria morte a magoava, 131
125 Qual contra a linda moça Policena,
Pera o céu cristalino alevantando, Consolação extrema da mãe velha,
Com lágrimas, os olhos piedosos Porque a sombra de Aquiles a condena,
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Um dos duros ministros rigorosos); Mas ela, os olhos com que o ar serena
E depois nos mininos atentando, (Bem como paciente e mansa ovelha)
Que tão queridos tinha e tão mimosos, Na mísera mãe postos, que endoudece,
Cuja orfindade como mãe temia, Ao duro sacrifício se oferece:
Pera o avô cruel assim dizia: 132
126 Tais contra Inês os brutos matadores,
-«Se já nas brutas feras, cuja mente No colo de alabastro, que sustinha
Natura fez cruel de nascimento, As obras com que Amor matou de amores
E nas aves agrestes, que somente Aquele que depois a fez Rainha,
Nas rapinas aéreas têm o intento, As espadas banhando, e as brancas flores,
Com pequenas crianças viu a gente Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Terem tão piadoso sentimento Se encarniçavam, férvidos e irosos,
Como com a mãe de Nino já mostraram, No futuro castigo não cuidosos.
E cos irmãos que Roma edificaram: 133
127 Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito Teus raios apartar aquele dia,
(Se de humano é matar ua donzela, Como da seva mesa de Tiestes,
Fraca e sem força, só por ter subjeito Quando os filhos por mão de Atreu comia!
O coração a quem soube vencê-la), Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A estas criancinhas tem respeito, A voz extrema ouvir da boca fria,
Pois o não tens à morte escura dela; O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Mova-te a piedade sua e minha, Por muito grande espaço repetistes!
Pois te não move a culpa que não tinha. 134
128 Assim como a bonina, que cortada
E se, vencendo a Maura resistência, Antes do tempo foi, cândida e bela,
A morte sabes dar com fogo e ferro Sendo das mãos lacivas maltratada
Sabe também dar vida com clemência Da minina que a trouxe na capela,
A quem pera perdê-la não fez erro. O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Mas, se to assim merece esta inocência, Tal está, morta, a pálida donzela,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro, Secas do rosto as rosas e perdida
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente, A branca e viva cor, com a doce vida.
Onde em lágrimas viva eternamente. 135
129 As filhas do Mondego a morte escura
Põe-me onde se use toda a feridade, Longo tempo chorando memoraram,
Entre liões e tigres, e verei E, por memória eterna, em fonte pura
Se neles achar posso a piedade As lágrimas choradas transformaram.
Que entre peitos humanos não achei. O nome lhe puseram, que inda dura,
Ali, co amor intrínseco e vontade Dos amores de Inês, que ali passaram.
Naquele por quem mouro, criarei Vede que fresca fonte rega as flores,
Estas relíquias suas, que aqui viste, Que lágrimas são a água e o nome Amores!
Que refrigério sejam da mãe triste.»
Canto iv-despedidas de belem 90
«Qual vai dizendo: – «Ó filho, a quem eu tinha
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Só pera refrigério e doce emparo
E já no porto da ínclita Ulisseia,
Desta cansada já velhice minha,
Cum alvoroço nobre e cum desejo
Que em choro acabará, penoso e amaro,
(Onde o licor mistura e branca areia
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Co salgado Neptuno o doce Tejo)
Porque de mi te vás, o filho caro,
As naus prestes estão; e não refreia
A fazer o funéreo encerramento
Temor nenhum o juvenil despejo,
Onde sejas de pexes mantimento?»
Porque a gente marítima e a de Marte
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Estão pera seguir-me a toda a parte,
«Qual em cabelo: – «Ó doce e amado esposo,
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Sem quem não quis Amor que viver possa,
«Pelas praias vestidos os soldados
Porque is aventurar ao mar iroso
De várias cores vêm e várias artes,
Essa vida que é minha e não é vossa?
E não menos de esforço aparelhados
Como, por um caminho duvidoso,
Pera buscar do mundo novas partes.
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nas fortes naus os ventos sossegados
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Ondeiam os aéreos estandartes;
Quereis que com as velas leve o vento?»
Elas prometem, vendo os mares largos,
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De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.
«Nestas e outras palavras que diziam,
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De amor e de piadosa humanidade,
«Despois de aparelhados, desta sorte,
Os velhos e os mininos os seguiam,
De quanto tal viagem pede e manda,
Em quem menos esforço põe a idade.
Aparelhámos a alma pera a morte,
Os montes de mais perto respondiam,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Quási movidos de alta piedade;
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte
A branca areia as lágrimas banhavam,
Sustenta só co a vista veneranda,
Que em multidão com elas se igualavam.
Implorámos favor que nos guiasse
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E que nossos começos aspirasse.
«Nós outros, sem a vista alevantarmos
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Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
«Partimo-nos assi do santo templo
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Que nas praias do mar está assentado,
Do propósito firme começado,
Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Determinei de assi nos embarcarmos,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Sem o despedimento costumado,
Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo
Que, posto que é de amor usança boa,
Como fui destas praias apartado,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
Cheio dentro de dúvida e receio,
Adamastor canto v
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.
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Porém já cinco Sóis eram passados
«A gente da cidade, aquele dia,
Que dali nos partíramos, cortando
(Uns por amigos, outros por parentes,
Os mares nunca d' outrem navegados,
Outros por ver somente) concorria,
Prosperamente os ventos assoprando,
Saüdosos na vista e descontentes.
Quando ũa noute, estando descuidados
E nós, co a virtuosa companhia
Na cortadora proa vigiando,
De mil Religiosos diligentes,
Ũa nuvem que os ares escurece,
Em procissão solene, a Deus orando,
Sobre nossas cabeças aparece.
Pera os batéis viemos caminhando.
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«Tão temerosa vinha e carregada,
«Em tão longo caminho e duvidoso
Que pôs nos corações um grande medo;
Por perdidos as gentes nos julgavam,
Bramindo, o negro mar de longe brada,
As mulheres cum choro piadoso,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
Os homens com suspiros que arrancavam.
– «Ó Potestade (disse) sublimada:
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Que ameaço divino ou que segredo
Amor mais desconfia, acrecentavam
Este clima e este mar nos apresenta,
A desesperação e frio medo
Que mor cousa parece que tormenta?»
De já nos não tornar a ver tão cedo.
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«Não acabava, quando ũa figura «E do primeiro Ilustre, que a ventura
Se nos mostra no ar, robusta e válida, Com fama alta fizer tocar os Céus,
De disforme e grandíssima estatura; Serei eterna e nova sepultura,
O rosto carregado, a barba esquálida, Por juízos incógnitos de Deus.
Os olhos encovados, e a postura Aqui porá da Turca armada dura
Medonha e má e a cor terrena e pálida; Os soberbos e prósperos troféus;
Cheios de terra e crespos os cabelos, Comigo de seus danos o ameaça
A boca negra, os dentes amarelos. A destruída Quíloa com Mombaça.
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«Tão grande era de membros, que bem posso «Outro também virá, de honrada fama,
Certificar-te que este era o segundo Liberal, cavaleiro, enamorado,
De Rodes estranhíssimo Colosso, E consigo trará a fermosa dama
Que um dos sete milagres foi do mundo. Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso, Triste ventura e negro fado os chama
Que pareceu sair do mar profundo. Neste terreno meu, que, duro e irado,
Arrepiam-se as carnes e o cabelo, Os deixará dum cru naufrágio vivos,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo! Pera verem trabalhos excessivos.
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E disse: – «Ó gente ousada, mais que quantas «Verão morrer com fome os filhos caros,
No mundo cometeram grandes cousas, Em tanto amor gerados e nacidos;
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, Verão os Cafres, ásperos e avaros,
E por trabalhos vãos nunca repousas, Tirar à linda dama seus vestidos;
Pois os vedados términos quebrantas Os cristalinos membros e perclaros
E navegar meus longos mares ousas, À calma, ao frio, ao ar, verão despidos,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Despois de ter pisada, longamente,
Nunca arados d' estranho ou próprio lenho; Cos delicados pés a areia ardente.
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«Pois vens ver os segredos escondidos «E verão mais os olhos que escaparem
Da natureza e do húmido elemento, De tanto mal, de tanta desventura,
A nenhum grande humano concedidos Os dous amantes míseros ficarem
De nobre ou de imortal merecimento, Na férvida, implacábil espessura.
Ouve os danos de mi que apercebidos Ali, despois que as pedras abrandarem
Estão a teu sobejo atrevimento, Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
Por todo o largo mar e pola terra Abraçados, as almas soltarão
Que inda hás-de sojugar com dura guerra. Da fermosa e misérrima prisão.»
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«Sabe que quantas naus esta viagem «Mais ia por diante o monstro horrendo,
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas, Dizendo nossos Fados, quando, alçado,
Inimiga terão esta paragem, Lhe disse eu: – «Quem és tu? Que esse estupendo
Com ventos e tormentas desmedidas; Corpo, certo me tem maravilhado! »
E da primeira armada que passagem A boca e os olhos negros retorcendo
Fizer por estas ondas insofridas, E dando um espantoso e grande brado,
Eu farei de improviso tal castigo Me respondeu, com voz pesada e amara,
Que seja mor o dano que o perigo! Como quem da pergunta lhe pesara:
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«Aqui espero tomar, se não me engano, – «Eu sou aquele oculto e grande Cabo
De quem me descobriu suma vingança; A quem chamais vós outros Tormentório,
E não se acabará só nisto o dano Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
De vossa pertinace confiança: Plínio e quantos passaram fui notório.
Antes, em vossas naus vereis, cada ano, Aqui toda a Africana costa acabo
Se é verdade o que meu juízo alcança, Neste meu nunca visto Promontório,
Naufrágios, perdições de toda sorte, Que pera o Pólo Antártico se estende,
Que o menor mal de todos seja a morte! A quem vossa ousadia tanto ofende.
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«Fui dos filhos aspérrimos da Terra, «Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano,
Qual Encélado, Egeu e o Centimano; Já que minha presença não te agrada,
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra Que te custava ter-me neste engano,
Contra o que vibra os raios de Vulcano; Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?
Não que pusesse serra sobre serra, Daqui me parto, irado e quási insano
Mas, conquistando as ondas do Oceano, Da mágoa e da desonra ali passada,
Fui capitão do mar, por onde andava A buscar outro mundo, onde não visse
A armada de Neptuno, que eu buscava. Quem de meu pranto e de meu mal se risse.
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«Amores da alta esposa de Peleu «Eram já neste tempo meus Irmãos
Me fizeram tomar tamanha empresa; Vencidos e em miséria extrema postos,
Todas as Deusas desprezei do Céu, E, por mais segurar-se os Deuses vãos,
Só por amar das águas a Princesa. Alguns a vários montes sotopostos.
Um dia a vi, co as filhas de Nereu, E, como contra o Céu não valem mãos,
Sair nua na praia e logo presa Eu, que chorando andava meus desgostos,
A vontade senti de tal maneira Comecei a sentir do Fado imigo,
Que inda não sinto cousa que mais queira. Por meus atrevimentos, o castigo:
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«Como fosse impossíbil alcançá-la, «Converte-se-me a carne em terra dura;
Pola grandeza feia de meu gesto, Em penedos os ossos se fizeram;
Determinei por armas de tomá-la Estes membros que vês, e esta figura,
E a Dóris este caso manifesto. Por estas longas águas se estenderam.
De medo a Deusa então por mi lhe fala; Enfim, minha grandíssima estatura
Mas ela, cum fermoso riso honesto, Neste remoto Cabo converteram
Respondeu: – «Qual será o amor bastante Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas,
De Ninfa, que sustente o dum Gigante? Me anda Tétis cercando destas águas.»
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«Contudo, por livrarmos o Oceano «Assi contava; e, cum medonho choro,
De tanta guerra, eu buscarei maneira Súbito d' ante os olhos se apartou;
Com que, com minha honra, escuse o dano.» Desfez-se a nuvem negra, e cum sonoro
Tal resposta me torna a mensageira. Bramido muito longe o mar soou.
Eu, que cair não pude neste engano Eu, levantando as mãos ao santo coro
(Que é grande dos amantes a cegueira), Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
Encheram-me, com grandes abondanças, A Deus pedi que removesse os duros
O peito de desejos e esperanças. Casos, que Adamastor contou futuros.
55 Canto VI Tempestade e chegada à índia
«Já néscio, já da guerra desistindo, 70
Ũa noite, de Dóris prometida, Mas neste passo, assi prontos estando,
Me aparece de longe o gesto lindo Eis o mestre, que olhando os ares anda,
Da branca Tétis, única, despida. O apito toca: acordam, despertando,
Como doudo corri de longe, abrindo Os marinheiros dũa e doutra banda,
Os braços pera aquela que era vida E, porque o vento vinha refrescando,
Deste corpo, e começo os olhos belos Os traquetes das gáveas tomar manda.
A lhe beijar, as faces e os cabelos. – «Alerta (disse) estai, que o vento crece
56 Daquela nuvem negra que aparece!»
«Oh que não sei de nojo como o conte! 71
Que, crendo ter nos braços quem amava, Não eram os traquetes bem tomados,
Abraçado me achei cum duro monte Quando dá a grande e súbita procela.
De áspero mato e de espessura brava. – «Amaina (disse o mestre a grandes brados),
Estando cum penedo fronte a fronte, Amaina (disse), amaina a grande vela!»
Qu' eu polo rosto angélico apertava, Não esperam os ventos indinados
Não fiquei homem, não; mas mudo e quedo Que amainassem, mas, juntos dando nela,
E, junto dum penedo, outro penedo! Em pedaços a fazem cum ruído
Que o Mundo pareceu ser destruído!
72 78
O céu fere com gritos nisto a gente, Nunca tão vivos raios fabricou
Cum súbito temor e desacordo; Contra a fera soberba dos Gigantes
Que, no romper da vela, a nau pendente O grão ferreiro sórdido que obrou
Toma grão suma d' água pelo bordo. Do enteado as armas radiantes;
– «Alija (disse o mestre rijamente, Nem tanto o grão Tonante arremessou
Alija tudo ao mar, não falte acordo! Relâmpados ao mundo, fulminantes,
Vão outros dar à bomba, não cessando; No grão dilúvio donde sós viveram
À bomba, que nos imos alagando!» Os dous que em gente as pedras converteram.
73 79
Correm logo os soldados animosos Quantos montes, então, que derribaram
A dar à bomba; e, tanto que chegaram, As ondas que batiam denodadas!
Os balanços que os mares temerosos Quantas árvores velhas arrancaram
Deram à nau, num bordo os derribaram. Do vento bravo as fúrias indinadas!
Três marinheiros, duros e forçosos, As forçosas raízes não cuidaram
A menear o leme não bastaram; Que nunca pera o céu fossem viradas,
Talhas lhe punham, dũa e doutra parte, Nem as fundas areias que pudessem
Sem aproveitar dos homens força e arte. Tanto os mares que em cima as revolvessem.
74 80
Os ventos eram tais que não puderam Vendo Vasco da Gama que tão perto
Mostrar mais força d' ímpeto cruel, Do fim de seu desejo se perdia,
Se pera derribar então vieram Vendo ora o mar até o Inferno aberto,
A fortíssima Torre de Babel. Ora com nova fúria ao Céu subia,
Nos altíssimos mares, que creceram, Confuso de temor, da vida incerto,
A pequena grandura dum batel Onde nenhum remédio lhe valia,
Mostra a possante nau, que move espanto, Chama aquele remédio santo e forte
Vendo que se sustém nas ondas tanto. Que o impossíbil pode, desta sorte:
75 81
A nau grande, em que vai Paulo da Gama, – «Divina Guarda, angélica, celeste,
Quebrado leva o masto pelo meio, Que os céus, o mar e terra senhoreias:
Quási toda alagada; a gente chama Tu, que a todo Israel refúgio deste
Aquele que a salvar o mundo veio. Por metade das águas Eritreias;
Não menos gritos vãos ao ar derrama Tu, que livraste Paulo e defendeste
Toda a nau de Coelho, com receio, Das Sirtes arenosas e ondas feias,
Conquanto teve o mestre tanto tento E guardaste, cos filhos, o segundo
Que primeiro amainou que desse o vento. Povoador do alagado e vácuo mundo:
76 82
Agora sobre as nuvens os subiam «Se tenho novos medos perigosos
As ondas de Neptuno furibundo; Doutra Cila e Caríbdis já passados,
Agora a ver parece que deciam Outras Sirtes e baxos arenosos,
As íntimas entranhas do Profundo. Outros Acroceráunios infamados;
Noto, Austro, Bóreas, Áquilo, queriam No fim de tantos casos trabalhosos,
Arruinar a máquina do Mundo; Porque somos de Ti desamparados,
A noite negra e feia se alumia Se este nosso trabalho não te ofende,
Cos raios em que o Pólo todo ardia! Mas antes teu serviço só pretende?
77 83
As Alciónias aves triste canto «Oh ditosos aqueles que puderam
Junto da costa brava levantaram, Entre as agudas lanças Africanas
Lembrando-se de seu passado pranto, Morrer, enquanto fortes sustiveram
Que as furiosas águas lhe causaram. A santa Fé nas terras Mauritanas;
Os delfins namorados, entretanto, De quem feitos ilustres se souberam,
Lá nas covas marítimas entraram, De quem ficam memórias soberanas,
Fugindo à tempestade e ventos duros, De quem se ganha a vida com perdê-la,
Que nem no fundo os deixa estar seguros. Doce fazendo a morte as honras dela!»
84 90
Assi dizendo, os ventos, que lutam Assi mesmo a fermosa Galateia
Como touros indómitos, bramando, Dizia ao fero Noto, que bem sabe
Mais e mais a tormenta acrecentavam, Que dias há que em vê-la se recreia,
Pela miúda enxárcia assoviando. E bem crê que com ele tudo acabe.
Relâmpados medonhos não cessavam, Não sabe o bravo tanto bem se o creia,
Feros trovões, que vêm representando Que o coração no peito lhe não cabe;
Cair o Céu dos eixos sobre a Terra, De contente de ver que a dama o manda,
Consigo os Elementos terem guerra. Pouco cuida que faz, se logo abranda.
85 91
Mas já a amorosa Estrela cintilava Desta maneira as outras amansavam
Diante do Sol claro, no horizonte, Subitamente os outros amadores;
Mensageira do dia, e visitava E logo à linda Vénus se entregavam,
A terra e o largo mar, com leda fronte. Amansadas as iras e os furores.
A Deusa que nos Céus a governava, Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
De quem foge o ensífero Orionte, Sempiterno favor em seus amores,
Tanto que o mar e a cara armada vira, Nas belas mãos tomando-lhe homenagem
Tocada junto foi de medo e de ira. De lhe serem leais esta viagem.
86 92
– «Estas obras de Baco são, por certo Já a manhã clara dava nos outeiros
(Disse), mas não será que avante leve Por onde o Ganges murmurando soa,
Tão danada tenção, que descoberto Quando da celsa gávea os marinheiros
Me será sempre o mal a que se atreve.» Enxergaram terra alta, pela proa.
Isto dizendo, dece ao mar aberto, Já fora de tormenta e dos primeiros
No caminho gastando espaço breve, Mares, o temor vão do peito voa.
Enquanto manda as Ninfas amorosas Disse alegre o piloto Melindano:
Grinaldas nas cabeças pôr de rosas. – «Terra é de Calecu, se não me engano.
87 93
Grinaldas manda pôr de várias cores «Esta é, por certo, a terra que buscais
Sobre cabelos louros a porfia. Da verdadeira Índia, que aparece;
Quem não dirá que nacem roxas flores E se do mundo mais não desejais,
Sobre ouro natural, que Amor enfia? Vosso trabalho longo aqui fenece.»
Abrandar determina, por amores, Sofrer aqui não pôde o Gama mais,
Dos ventos a nojosa companhia, De ledo em ver que a terra se conhece;
Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas, Os giolhos no chão, as mãos ao Céu,
Que mais fermosas vinham que as estrelas. A mercê grande a Deus agardeceu.
88 94
Assi foi; porque, tanto que chegaram As graças a Deus dava, e razão tinha,
À vista delas, logo lhe falecem Que não somente a terra lhe mostrava
As forças com que dantes pelejaram, Que, com tanto temor, buscando vinha,
E já como rendidos lhe obedecem; Por quem tanto trabalho exprimentava,
Os pés e mãos parece que lhe ataram Mas via-se livrado, tão asinha,
Os cabelos que os raios escurecem. Da morte, que no mar lhe aparelhava
A Bóreas, que do peito mais queria, O vento duro, férvido e medonho,
Assi disse a belíssima Oritia: Como quem despertou de horrendo sonho.
89 Canto ix A ilha dos mores-preparativos
– «Não creias, fero Bóreas, que te creio 18
Que me tiveste nunca amor constante, Porém a Deusa Cípria, que ordenada
Que brandura é de amor mais certo arreio Era, pera favor dos Lusitanos,
E não convém furor a firme amante. Do Padre Eterno, e por bom génio dada,
Se já não pões a tanta insânia freio, Que sempre os guia já de longos anos,
Não esperes de mi, daqui em diante, A g1ória por trabalhos alcançada,
Que possa mais amar-te, mas temer-te; Satisfação de bem sofridos danos,
Que amor, contigo, em medo se converte.» Lhe andava já ordenando, e pretendia
Dar-lhe nos mares tristes, alegria.
19 25
Despois de ter um pouco revolvido Já sobre os Idálios montes pende,
Na mente o largo mar que navegaram, Onde o filho frecheiro estava então,
Os trabalhos que pelo Deus nascido Ajuntando outros muitos, que pretende
Nas Anfiónias Tebas se causaram, Fazer ũa famosa expedição
Já trazia de longe no sentido, Contra o mundo revelde, por que emende
Pera primo de quanto mal passaram, Erros grandes que há dias nele estão,
Buscar-lhe algum deleite, algum descanso, Amando cousas que nos foram dadas,
No Reino de cristal, líquido e manso; Não pera ser amadas, mas usadas.
20 26
Algum repouso, enfim, com que pudesse Via Actéon na caça tão austero,
Refocilar a lassa humanidade De cego na alegria bruta, insana,
Dos navegantes seus, como interesse Que, por seguir um feio animal fero,
Do trabalho que encurta a breve idade. Foge da gente e bela forma humana;
Parece-lhe razão que conta desse E por castigo quer, doce e severo,
A seu filho, por cuja potestade Mostrar-lhe a formosura de Diana.
Os Deuses faz decer ao vil terreno (E guarde-se não seja inda comido
E os humanos subir ao Céu sereno. Desses cães que agora ama, e consumido).
21 27
Isto bem revolvido, determina E vê do mundo todo os principais
De ter-lhe aparelhada, lá no meio Que nenhum no bem púbrico imagina;
Das águas, algũa ínsula divina, Vê neles que não têm amor a mais
Ornada d' esmaltado e verde arreio; Que a si sòmente, e a quem Filáucia ensina;
Que muitas tem no reino que confina Vê que esses que frequentam os reais
Da primeira co terreno seio, Paços, por verdadeira e sã doutrina
Afora as que possui soberanas Vendem adulação, que mal consente
Pera dentro das portas Herculanas. Mondar-se o novo trigo florecente.
22 28
Ali quer que as aquáticas donzelas Vê que aqueles que devem à pobreza
Esperem os fortíssimos barões Amor divino, e ao povo caridade,
(Todas as que têm título de belas, Amam sòmente mandos e riqueza,
Glória dos olhos, dor dos corações) Simulando justiça e integridade;
Com danças e coreias, porque nelas Da feia tirania e de aspereza
Influïrá secretas afeições, Fazem direito e vã severidade;
Pera com mais vontade trabalharem Leis em favor do Rei se estabelecem,
De contentar a quem se afeiçoarem. As em favor do povo só perecem.
23 29
Tal manha buscou já pera que aquele Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,
Que de Anquises pariu, bem recebido Senão o que sòmente mal deseja.
Fosse no campo que a bovina pele Não quer que tanto tempo se releve
Tomou de espaço, por sutil partido. O castigo que duro e justo seja.
Seu filho vai buscar, porque só nele Seus ministros ajunta, por que leve
Tem todo seu poder, fero Cupido, Exércitos conformes à peleja
Que, assi como naquela empresa antiga Que espera ter co a mal regida gente
A ajudou já, nestoutra a ajude e siga. Que lhe não for agora obediente.
24 Canto ix-A ilha dos amores- a (a)ventura de
No carro ajunta as aves que na vida Lionardo
Vão da morte as exéquias celebrando, 77 Leonardo, soldado bem disposto,
E aquelas em que já foi convertida Manhoso, cavaleiro e namorado,
Perístera, as boninas apanhando; A quem Amor não dera um só desgosto
Em derredor da Deusa, já partida, Mas sempre fora dele mal tratado,
No ar lascivos beijos se vão dando; E tinha já por firme pros[s]uposto
Ela, por onde passa, o ar e o vento Ser com amores mal afortunado,
Sereno faz, com brando movimento. Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu fado ter mudança,
76 82
Quis aqui sua ventura que corria Já não fugia a bela Ninfa tanto,
Após Efire, exemplo de beleza, Por se dar cara ao triste que a seguia,
Que mais caro que as outras dar queria Como por ir ouvindo o doce canto,
O que deu, pera dar-se, a natureza. As namoradas mágoas que dizia.
Já cansado, correndo, lhe dizia: Volvendo o rosto, já sereno e santo,
– «Ó formosura indina de aspereza, Toda banhada em riso e alegria,
Pois desta vida te concedo a palma, Cair se deixa aos pés do vencedor,
Espera um corpo de quem levas a alma! Que todo se desfaz em puro amor.
77 83
«Todas de correr cansam, Ninfa pura, Oh, que famintos beijos na floresta,
Rendendo-se à vontade do inimigo; E que mimoso choro que soava!
Tu só de mi só foges na espessura? Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Quem te disse que eu era o que te sigo? Que em risinhos alegres se tornava!
Se to tem dito já aquela ventura O que mais passam na manhã e na sesta,
Que em toda a parte sempre anda comigo, Que Vénus com prazeres inflamava,
Oh, não na creias, porque eu, quando a cria, Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mil vezes cada hora me mentia. Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.
78 84
«Não canses, que me cansas! E se queres Destarte, enfim, conformes já as fermosas
Fugir-me, por que não possa tocar-te, Ninfas cos seus amados navegantes,
Minha ventura é tal que, inda que esperes, Os ornam de capelas deleitosas
Ela fará que não possa alcançar-te. De louro e de ouro e flores abundantes.
Espera; quero ver, se tu quiseres, As mãos alvas lhe davam como esposas;
Que sutil modo busca de escapar-te; Com palavras formais e estipulantes
E notarás, no fim deste sucesso, Se prometem eterna companhia,
‘Tra la spica e la man qual muro he messo.’ Em vida e morte, de honra e alegria.
79 Canto X- Despedida de tetis e regresso a PT
«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve 142
Tempo fuja de tua formosura; Até 'qui Portugueses concedido
Que, só com refrear o passo leve, Vos é saberdes os futuros feitos
Vencerás da fortuna a força dura. Que, pelo mar que já deixais sabido,
Que Emperador, que exército se atreve Virão fazer barões de fortes peitos.
A quebrantar a fúria da ventura Agora, pois que tendes aprendido
Que, em quanto desejei, me vai seguindo, Trabalhos que vos façam ser aceitos
O que tu só farás não me fugindo? Às eternas esposas e fermosas,
80 Que coroas vos tecem gloriosas,
«Pões-te da parte da desdita minha? 143
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. «Podeis-vos embarcar, que tendes vento
Levas-me um coração que livre tinha? E mar tranquilo, pera a pátria amada.»
Solta-mo e correrás mais levemente. Assi lhe disse; e logo movimento
Não te carrega essa alma tão mesquinha Fazem da Ilha alegre e namorada.
Que nesses fios de ouro reluzente Levam refresco e nobre mantimento;
Atada levas? Ou, despois de presa, Levam a companhia desejada
Lhe mudaste a ventura e menos pesa? Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
81 Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
«Nesta esperança só te vou seguindo: 144
Que ou tu não sofrerás o peso dela, Assi foram cortando o mar sereno,
Ou na virtude de teu gesto lindo Com vento sempre manso e nunca irado,
Lhe mudarás a triste e dura estrela. Até que houveram vista do terreno
E se se lhe mudar, não vás fugindo, Em que naceram, sempre desejado.
Que Amor te ferirá, gentil donzela, Entraram pela foz do Tejo ameno,
E tu me esperarás, se Amor te fere; E à sua pátria e Rei temido e amado
E se me esperas, não há mais que espere.» O prémio e glória dão por que mandou,
E com títulos novos se ilustrou.
145 151
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Os Cavaleiros tende em muita estima,
Destemperada e a voz enrouquecida, Pois com seu sangue intrépido e fervente
E não do canto, mas de ver que venho Estendem não sòmente a Lei de cima,
Cantar a gente surda e endurecida. Mas inda vosso Império preminente.
O favor com que mais se acende o engenho Pois aqueles que a tão remoto clima
Não no dá a pátria, não, que está metida Vos vão servir, com passo diligente,
No gosto da cobiça e na rudeza Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
Dũa austera, apagada e vil tristeza. E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
146 152
E não sei por que influxo de Destino Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Que os ânimos levanta de contino Possam dizer que são pera mandados,
A ter pera trabalhos ledo o rosto. Mais que pera mandar, os Portugueses.
Por isso vós, ó Rei, que por divino Tomai conselho só d' exprimentados,
Conselho estais no régio sólio posto, Que viram largos anos, largos meses,
Olhai que sois (e vede as outras gentes) Que, posto que em cientes muito cabe,
Senhor só de vassalos excelentes. Mais em particular o experto sabe.
147 153
Olhai que ledos vão, por várias vias, De Formião, filósofo elegante,
Quais rompentes liões e bravos touros, Vereis como Anibal escarnecia,
Dando os corpos a fomes e vigias, Quando das artes bélicas, diante
A ferro, a fogo, a setas e pelouros, Dele, com larga voz tratava e lia.
A quentes regiões, a plagas frias, A disciplina militar prestante
A golpes de Idolátras e de Mouros, Não se aprende, Senhor, na fantasia,
A perigos incógnitos do mundo, Sonhando, imaginando ou estudando,
A naufrágios, a pexes, ao profundo. Senão vendo, tratando e pelejando.
148 154
Por vos servir, a tudo aparelhados; Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós tão longe, sempre obedientes; De vós não conhecido nem sonhado?
A quaisquer vossos ásperos mandados, Da boca dos pequenos sei, contudo,
Sem dar reposta, prontos e contentes. Que o louvor sai às vezes acabado.
Só com saber que são de vós olhados, Nem me falta na vida honesto estudo,
Demónios infernais, negros e ardentes, Com longa experiência misturado,
Cometerão convosco, e não duvido Nem engenho, que aqui vereis presente,
Que vencedor vos façam, não vencido. Cousas que juntas se acham raramente.
149 155
Favorecei-os logo, e alegrai-os Pera servir-vos, braço às armas feito,
Com a presença e leda humanidade; Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
De rigorosas leis desalivai-os, Só me falece ser a vós aceito,
Que assi se abre o caminho à santidade. De quem virtude deve ser prezada.
Os mais exprimentados levantai-os, Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Se, com a experiência, têm bondade Dina empresa tomar de ser cantada,
Pera vosso conselho, pois que sabem Como a pres[s]aga mente vaticina
O como, o quando, e onde as cousas cabem. Olhando a vossa inclinação divina,
150 156
Todos favorecei em seus ofícios, Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
Segundo têm das vidas o talento; A vista vossa tema o monte Atlante,
Tenham Religiosos exercícios Ou rompendo nos campos de Ampelusa
De rogarem, por vosso regimento, Os muros de Marrocos e Trudante,
Com jejuns, disciplina, pelos vícios A minha já estimada e leda Musa
Comuns; toda ambição terão por vento, Fico que em todo o mundo de vós cante,
Que o bom Religioso verdadeiro De sorte que Alexandro em vós se veja,
Glória vã não pretende nem dinheiro. Sem à dita de Aquiles ter enveja.