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DAS LISTAS DE FAMÍLIA AO RECENSEAMENTO DO IMPÉRIO: A

PRODUÇÃO DA “LEGIBILIDADE” DA POPULAÇÃO NO CENSO DE


1872.

Diego Nones Bissigo (UFSC)

Resumo:
O recenseamento de 1872 forneceu aos agentes políticos do Império o “algarismo exato” da
população brasileira, apresentando-a dividida por idades, cores, nacionalidades, estados civis,
profissões e várias outras categorias. O olhar sobre o censo enquanto fonte é recorrente, mas,
enquanto objeto de investigação, ainda há muito a ser aprofundado. O objetivo desta
comunicação é explorar três listas de família originais preenchidas naquela contagem. Essas
listas indicam a importância de se analisar o nível da coleta de dados para compreender
melhor a produção da “legibilidade” da população brasileira pelas lentes do Estado imperial.
Instruções confusas na própria lista, categorias abertas ou fechadas demais, o analfabetismo
de grande parte da população e os poderes de correção de dados dos agentes recenseadores
são fatores que influenciaram grandemente as formas de preencher a ficha e os conteúdos
nelas registrados. Entre os dados das listas e os números finais publicados, em alguns casos,
abrem-se grandes frestas que tornam o censo menos auto-evidente e permitem uma melhor
“leitura” da sociedade que essa contagem procurou representar.
Palavras-chave: Estatística; Recenseamento de 1872; Listas de família.

Abstract:
The 1872 census provided Brazilian Empire’s political agents with the “exact number” of the
population, presenting it divided by ages, “colors”, nationalities, civil statuses, professions
and many other categories. The look upon the census as a source is frequent, but as an object
of investigation, there is very much to be developed. The aim of this communication is to
explore three original and filled “family lists” (census forms) from that survey. These lists
indicate the importance of analyzing the data collection level to better understand the
production of the “legibility” about the Brazilian population through the lenses of the imperial
State. Cluttered instructions on the list, categories that were too open or too restricted, the
illiteracy of a vast portion of the population and the powers of data correction of the census-
takers are elements that influenced largely the ways of filling up the form and the contents
recorded on them. In some cases, there are large gaps between the data on the lists and the
published final numbers, make the census less self-evident and allow an improved “reading”
of the society that survey intended to represent.
Keywords: Statistics; Brazilian 1872 Census; Family list (census form).

1
Na seção Estatística do relatório do Ministério do Império referente a 1869
encontramos a seguinte constatação do titular da pasta, Paulino José Soares de Sousa: “O
progresso nacional não se compadece com a ignorância em que estamos acerca do algarismo
exato da população do país […]” (RMNI, 1870, p. 25). Após décadas de Independência
política, o Brasil ainda não possuía uma contagem completa de sua população, situação que
estava prestes a mudar com a lei nº 1829 de 9 de setembro de 1870 a qual lançaria as bases
para a realização do que viria a ser o censo de 1872. O desabafo do ministro Soares de Sousa
está inserido em um texto no qual constata a necessidade estatal de um recenseamento
completo da população. Em jogo, o “progresso nacional” não poderia mais repetir as décadas
de tentativas infrutíferas, nas quais censos parciais e estimativas resultavam mais de
iniciativas individuais de estudiosos e agentes públicos do que de uma política nacional e
contínua. Encontrar o “algarismo exato” da população era um objetivo ao mesmo tempo
científico, administrativo e político, justificado na própria etimologia da palavra “estatística”
e na sua definição, como a encontrada no Dicionário de Moraes Silva: “a ciência de Estado,
ou do Estadista, do Governo”. (SILVA, 1813, p. 769).

Logo, o ministro evocava a necessidade da consolidação da ciência estatística no Brasil


para vencer a “ignorância” que impedia o “progresso nacional”. Um censo completo
representaria a busca pelo “algarismo exato” e, nas palavras de James Scott, proveria o Estado
brasileiro de um instrumento de “legibilidade” a partir da “simplificação” radical de uma
população heterogênea e espalhada por um amplo território, ainda desconhecida aos olhos da
administração imperial, por meio de sua transformação em algarismos que pudessem ser
agregados e transformados num quadro sinóptico de fácil leitura e interpretação. (SCOTT,
1998, p. 2).

Muito conhecido enquanto fonte por parte de historiadores e inúmeros outros


estudiosos, o censo de 1872 é muitas vezes tomado como um produto a-histórico, sendo os
seus dados lidos, apropriados, interpretados muitas vezes de maneira acrítica ou
descontextualizada. Suas tabelas não contêm os habitantes do Brasil em 1872, mas a
representação deles por meio de uma linguagem matemática produzida a partir de uma
operação complexa de logística, articulação política e cálculos matemáticos. O censo é,
portanto, um instrumento de “leitura” aplicado pelo Estado imperial sobre sua população.
Para que ele pudesse ser completado, foram necessários cerca de sete anos entre a aprovação
2
das primeiras legislações (a lei nº 1829 supracitada) até a publicação definitiva e comentada
de seus resultados em dezembro de 1876 (DGE, 1877).

A Diretoria Geral de Estatística (DGE) foi o órgão público criado especificamente para
a realização do primeiro recenseamento, dirigida por Manuel Francisco Correia – deputado e
senador, ministro e conselheiro, ativista pela instrução pública – e interinamente por Joaquim
de Medeiros e Albuquerque (1872) e José Maria do Couto (1873 e 1875). Foi a DGE a
responsável pela elaboração das listas de família que serviram de instrumento de coleta de
dados, bem como seu despacho às províncias e posterior recolhimento. Uma vez recebido o
material preenchido, seus funcionários trataram de ler e interpretar todas as fichas, extraindo
delas nomes e dados, transformando-os em valores numéricos que depois foram tabulados e
transformados no que chamamos de “Recenseamento Geral do Império”, especialmente
conhecido pela publicação oficial lançada em algum momento em 1875. (IBGE, [prov. 1875])

O objetivo desta comunicação é tratar principalmente da primeira etapa do trabalho


desenvolvido pela Diretoria Geral de Estatística: a produção das listas de família e análise
sobre as suas categorias, a dinâmica da distribuição do material e seu preenchimento, e, por
fim, alguns apontamentos sobre as transformações ocorridas entre os dados das listas e as
tabelas finais do censo. A ênfase sobre a lista de família se dá por sua centralidade na coleta
de dados sobre os quais se construíram as conclusões de todo o recenseamento. O projeto de
“leitura” do Estado imperial brasileiro, portanto, não se deu de forma imediata. A produção
do conhecimento estatístico foi mediado pela lista de família, tanto por sua estrutura interna
quanto pela circulação desse material em cada paróquia do império.

É relativamente conhecido aos estudiosos do Império que o desenvolvimento da


estatística brasileira se deu de forma bastante descontínua e precária por várias décadas desde
a Independência: “Há províncias em que de então até hoje não mais se procedeu a
arrolamento algum”, lembrou o ministro Soares de Sousa no relatório mencionado. E
prosseguindo: “algumas em que se malograram as tentativas nesse sentido; outras em que se
conseguiu algum resultado, mas incompleto”. (RMNI, 1870, p. 24). As iniciativas de
recenseamentos eram, às portas da década de 1870, locais ou provinciais e mesmo assim não
dispunham da regularidade necessária para servir à administração pública.

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As tentativas de impor a presença coordenada e universal do Estado na área estatística
encontraram um ponto alto na proposta do recenseamento de 1852 que, após diversos focos
de resistência popular, foi cancelada juntamente à implantação do registro civil de
nascimentos e óbitos. O ensaio frustrado de 1852 tem sido objeto de interessante debate
historiográfico que tem apontado causas para além do medo da reescravização por parte da
população livre de cor ou da intriga de padres contra a laicização de registros tipicamente
eclesiásticos. Estudiosos têm sugerido um descompasso os anseios modernizadores e
centralizadores dos representantes do Estado de um lado, e segmentos populacionais inteiros
nos interiores provincianos, de outro. Segundo Tarcísio Botelho (2005, p. 330):

Creio ser possível afirmar que, quando se intentou, em 1852, medir a nação,
aqueles que eram vistos como seus componentes não se sentiam como tal.
Percebiam, no máximo, a presença ameaçadora do Estado; não conseguiam,
ademais, ver-se refletidos nele.
A década de 1870, no entanto, trazia outro panorama social no Brasil. A persistência da
escravidão encontrava-se pela primeira vez seriamente ameaçada após a Lei do Ventre Livre
(1871), a imigração estrangeira livre estava em ascensão, a busca pelo “progresso” espelhado
(ou ao menos inspirado) nos países europeus tornava-se constante nos discursos e a
necessidade de estatística tornou-se ainda mais imperativa, tanto por motivos de
administração interna quanto de prestígio externo. É nesse contexto que três milhões de listas
de família e 25 mil cadernetas para agentes recenseadores foram distribuídas para todas as
paróquias do Império. (RMNI, 1871, Anexo H, p. 25)

A lista era uma grande tabela tipografada consistindo nas seguintes colunas: (1)
“Número de ordem” (numeração dos indivíduos listados), (2) “Nomes, sobrenomes e
apelidos”, (3) “Cor”, (4) “Idade”, (5) “Estado” [civil], (6) “Lugar do nascimento”, (7)
“Nacionalidade”, (8) “Profissão”, (9) “Religião”, (10) “Instrução” e, (11) “Condições
Especiais e Observações”. (Conferir Anexo). Algumas dessas colunas possuíam sub-divisões,
como é o caso de “Lugar do nascimento”, na qual se perguntava de um lado se “No Brasil”
requerendo-se a província ou cidade e, de outro lado, se “Fora do Brasil” requerendo-se nesse
caso o país de nascimento. Um olhar rápido sobre a ficha evidencia algumas respostas que se
procurava obter da população brasileira: suas origens, sua nacionalidade, suas faixas etárias,
suas ocupações e seu estado intelectual. O decreto nº 4.856, de dezembro de 1871, que
regulamentou o censo, havia pedido o inquérito sobre esses itens. Curiosamente, o decreto

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não menciona a “condição social”, embora seu artigo 2º deixasse claro que “todos os
habitantes do Império, nacionais ou estrangeiros, livres e escravos, serão recenseados no lugar
ou habitação em que se acharem no referido dia”. Quando acessamos as tabelas do censo de
1872 encontramos a população claramente dividida entre livres e escravos sendo essa
segmentação fundamental para a sociedade brasileira naquele período. No entanto, a lista de
família não traz espaço específico para que se demarquem as condições sociais dos indivíduos
recenseados. O que ocorreu na prática foi uma mistura de formas de se preencher os quadros
disponíveis para explicitar essa informação.

Para chegar a essa conclusão, utilizamos três listas de famílias preenchidas na época do
recenseamento. Há possibilidade de nenhuma delas ter sido computada no recenseamento,
motivo pelo qual resistiram em arquivos separados e puderam ser analisadas.1 A primeira lista
provém do domicílio de Antônio Gonçalves Gravatá e sua esposa, casal “branco” de 72 e 74
anos respectivamente, e vários “pretos” entre escravos e libertos, moradores do “município da
capital” da “província da Bahia”. (IBGE, Lista de família– Gravatá). A segunda lista indica
uma família “parda” encabeçada por João Baptista Paulínio, “lavrador”, e morador do
“município do Espírito Santo” (BNRJ, Lista de família – Paulínio). Por fim, a terceira lista
refere-se a um “empregado público” da Corte chamado Rafael Arcanjo Galvão, listando seus
filhos, netos, agregados e escravos (BNRJ, Lista de família – Galvão).2 O número exíguo de
exemplares preenchidos, a heterogeneidade das composições domiciliares e as suas
proveniências de locais distintos impedem certamente qualquer generalização, mas permitem
várias análises quanto às formas possíveis de interpretar e preencher a lista de família.

No que se refere à condição social dos indivíduos recenseados, nenhuma das três fichas
coincide. A orientação dada na própria lista era de que os indivíduos deveriam ser listados em
ordem hierárquica: primeiro os membros da família imediata, depois “criados” e “escravos” e,
por fim, “agregados” e “hóspedes”. A família de João Baptista Paulínio apresenta cinco
indivíduos que, apenas pelas idades e estado civil, podemos pressupor que sejam sua esposa e
seus três filhos. Não há nenhuma menção à condição social. Na lista da família Galvão, da

1
Sabe-se que ao menos a ficha da Bahia não foi computada, segundo informação de Nelson Senra (2006, p.
358).
2
As listas não possuem data ou paginação. De ora em diante, toda vez que citadas no texto, serão diferenciadas
pelo sobrenome do chefe de cada família. Referências completas ao final do texto.

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Corte, temos a informação de que alguns indivíduos são escravos porque na última coluna de
“Observações e Condições Especiais” assim está listado. Por exemplo, Maria, “parda” de 26
anos aparece como “escrava do [?] Dom[ing]os Laur[?] Gomes de Carv[alho]”. Acima dela
encontramos “Dorothéa”, africana de 75 anos, que sabemos ser “liberta” porque essa
informação está explicitada ao lado do seu nome, na coluna “Nomes, sobrenomes e apelidos”.
Passo à terceira lista, da família de Antônio Gravatá, na qual encontramos Flora, “africana”,
de “mais de 40” anos, que sabemos ser “escrava” pois assim está escrito na referida última
coluna, a de “Observações”. Abaixo de Flora, temos Argentina e Paciência, uma africana,
outra crioula, que também sabemos ser escravas porque um “idem” na última coluna do
formulário evidencia a mesma condição social cativa de Flora. Ao longo da lista dessa
família, é nessa coluna final que se encontram todas as informações sobre condições sociais.
É de sua leitura que ficamos sabendo que Theodorico, crioulo, de 8 anos, “é f[ilh]o da
esc[rava] Flora” e que Adão e Tobias, ambos africanos com “mais de 40” anos foram libertos
“[…] com a cond[iç]ão de acompanhar seus senhores [durante a] vida”. Quanto aos “brancos”
desse domicílio (assim como do domicílio dos Galvão), não há menção alguma à sua
condição social.

Os dois últimos domicílios mencionados possuem mais escravos e agregados, assim


como pessoas “brancas” sobre as quais não se escreveu nada em relação a suas condições
sociais. Para a discussão atual, no entanto, os exemplos citados nos bastam para tecer
conclusões que nos levam a instigantes questões acerca da coleta de dados do censo. Ora, a
primeira família podemos pressupor livre por falta de evidências em contrário. Foi assim que
o fizeram (ou fariam) os estatísticos da DGE ao ler esta lista? Ao que tudo indica, sim. Na
casa dos Galvão, sabemos que Faustina de “7 anos” era liberta por haver ao final de seu nome
a expressão “liberta” entre parênteses. Mas não temos confirmação explícita de que Isabel e
Rafael, de 7 e 5 anos, respectivamente eram livres. Só o sabemos porque acima de seus nomes
consta o termo “Netos”. Logo, por sua idade e pela indicação de pertencimento à família do
proprietário, inferimos sua liberdade. A análise contextual parece evidente, mas seria tão
evidente quanto multiplicada por milhões de domicílios? Seria sempre fácil identificar
parentescos se o chefe da família ou o recenseador não utilizasse de legendas como “Netos”
como o fez Rafael Galvão?

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Ainda que os funcionários da DGE estivessem mais adaptados às configurações
domiciliares do Império, estariam aptos a destrinchar as condições sociais de todos os
indivíduos por meio de inferências? Devemos lembrar que a responsabilidade pela veracidade
das informações era atribuída primeiramente ao chefe da família (Decreto nº 4856, Art. 6º).
Em teoria, a DGE apenas “leria” as informações explícitas dos formulários e as “traduziria”
em valores numéricos, mas, como notamos nas listas de família, muitas informações estão
implícitas e certamente requereram muitas horas de “interpretação” dos formulários por parte
desses agentes. Para complicar, enquanto que o domicílio de Antônio Gravatá tem todos os
escravos e libertos listados numa mesma coluna, a última, o domicílio de Rafael Galvão tem
os libertos identificados na coluna de “Nome” e os escravos na de “Observações”, a última. O
local de identificação da condição social é, portanto, variável não só entre famílias, como
dentro da lista de uma mesma família.

Entre a inexistência de informações (os livres por exclusão) ou uma das duas colunas
privilegiadas (“Nomes” ou “Observações”), definir escravos, libertos e livres é menos óbvio
do que parece quando “lemos” a população brasileira consolidada em 85% de livres e 15% de
escravos nas tabelas finais do censo. (DGE, 1877, p. 8) Primeiramente, porque nota-se que os
libertos foram unidos aos livres, “inchando” essa categoria em detrimento dos cativos. Adão e
Tobias, por conseguinte, seriam estatisticamente “livres” ainda que a lista de família deixe
claro que eram obrigados a servir seus ex-senhores enquanto esses vivessem. A experiência
da liberdade condicional não transparece de tantos outros milhares de libertos não transparece
nos 85% livres. Em segundo lugar, a questão é mais complexa porque há casos em que não é
a liberdade de membros brancos do domicílio que precisa ser inferida mas, mais complicado,
a catividade de membros “pretos” como o caso do já citado menino Theodorico, do domicílio
baiano. A coluna de “Observações” nos diz que ele é “filho da escrava Flora”, mas não que
ele próprio fosse escravo. Podemos mais uma vez deduzir que a ausência de argumentos
contrários o torne escravo? Ou que, ao contrário, ele fosse tido por livre pela DGE visto que
falta de menção específica a ele mesmo ser cativo (seja pela palavra “escravo”, seja por algum
“idem” replicador)?

Se a questão da condição social encontra tamanhos percalços pela falta de um quadro


específico para explicitar essa informação, a questão do sexo não é menos complicada. A falta
de coluna específica para o sexo dos indivíduos também gerou problemas, como nos lembra
7
Nelson Senra (2006, p. 360): “Como o sexo não é explicitamente investigado, terá sido pelos
nomes que se o revelou. Afora haver nomes dúbios, a grafia nem sempre é clara. Desse modo,
não há automatismo na apuração”.

Bert Barickman (2003) já havia explorado listas de família de censos provinciais


baianos da década de 1830. Neles, também encontrou fugas do padrão sugerido no formulário
de coleta, heterogeneidade nas formas de responder e adaptações aos propósitos originais de
algumas colunas. Sua análise o levou à conclusão de que a coluna “profissão” no censo
provincial de 1835 havia sido majoritariamente apropriada para explicitar relações de
parentesco com o chefe da família ao invés de indicar uma ocupação econômica ou
especialização produtiva. Temos aí uma adaptação que escapou ao propósito original de quem
desenvolveu a ficha, bem como permitiu transparecer relacionamentos internos dos
domicílios, não só legítimos, como também filhos “ilegítimos”, esposas consensuais sob o
nome de “domésticas” e indícios de famílias escravas (Ibid., p. 302-310). Nas listas
disponíveis para análise do censo de 1872 não encontramos tamanhas inversões, mas
podemos facilmente associar os improvisos presentes na coluna “Observações” originalmente
destinada a informar sobre a existência de pessoas com deficiências físicas, hóspedes e
moradores temporários da casa e a frequência (ou não) das crianças nas escolas. Notamos, no
entanto, que a coluna também foi utilizada para expressar a condição social (inclusive quando
condicional) e a filiação de alguns escravos.

Mas o preenchimento da ficha não era apenas condicionado pela sua leitura e
interpretação. Um outro elemento deve ser acrescido para se compreender melhor sob que
condições se produziram as informações elementares do recenseamento de 1872: trata-se da
figura do agente recenseador e os poderes e responsabilidades a ele atribuídos por lei. O
agente recenseador, segundo o decreto nº 4.856, seria escolhido pela comissão censitária
local, composta de cinco habitantes letrados e de boa índole na paróquia (Ibid., art. 9º). Além
de entregar as fichas aos moradores quinze dias antes da data-referência de 1º de agosto e
recolhê-las preenchidas a partir daí, os agentes recenseadores deveriam

[…] encher as listas ou boletins dos chefes de família, que não souberem ler
e escrever, e dos que se tiverem recusado a enchê-las, solicitando para isso
dos mesmos chefes de família, ou de pessoas da vizinhança as informações e
esclarecimentos necessários (Ibid., art. 10, §2º).

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João Baptista Paulínio foi provavelmente uma das pessoas que teve sua lista preenchida
pelo agente Francisco Gomes de Aguiar, o qual evidenciou sua ação assinando duas vezes o
documento: a primeira na linha correspondente à sua função e a segunda na linha relativa ao
chefe da família. O próprio censo de 1872 nos informa que apenas 15,74% da população
brasileira sabia ler, número que subia ligeiramente para 21,9% se fosse considerada apenas a
população livre/liberta com mais de 5 anos de idade. (DGE, 1877, p. 19-20). Logo, apenas um
quinto da população que poderia ser considerada “chefe de família” e ser responsável pelo
preenchimento da lista era letrada. Tendo em vista que muitos domicílios concentravam
vários moradores letrados enquanto outros tantos nenhum, a fatia de lares cujas fichas foram
preenchidas pelos próprios chefes é certamente menor do que um quinto. E ainda devemos
considerar aqueles chefes que, sabendo ler, porventura tenham se recusado a preencher as
listas ou se sentido inseguros nessa tarefa. O papel dos agentes recenseadores não deve ser
desprezado da análise da produção do censo. Ainda que na maior parte dos casos eles tenham
se limitado a transcrever as informações ditadas oralmente, eles certamente optaram por
pequenas correções de informações tanto para fazê-las caber nas colunas da lista quanto
porque era sua obrigação legal “[…] verificar a lista ou boletim com o chefe de família, ou
pessoa que encheu a mesma lista, a fim de serem corrigidos os erros e inexatidões” (Ibid.).

Após a avaliação dos agentes recenseadores, cabia à comissão censitária paroquial fazer
a verificação de pendências, “[…] preenchendo as lacunas, retificando os esclarecimentos
inexatos, examinando se os chefes de família ou os estabelecimentos cometeram erros ou
fizeram ocultações pelos quais não dessem os agentes”. (Ibid., art. 9º, §6º). Dessa forma, antes
de subir à capital da província, todas as listas de cada paróquia passariam por duas peneiras, a
dos agentes recenseadores e a da comissão paroquial, ambos com poderes e obrigações de
fiscalizar, exigir informações e, mais, corrigir por conta própria as que entendessem ser
inexatas ou incompletas.

Ao lidar com o nível paroquial, o censo de 1872 torna-se muito mais complicado e
menos evidente do que parece seu resultado final. Mesmo que todos tivessem as mesmas
instruções e formulários, é difícil imaginar que as diferenças regionais, de paróquia a paróquia
e de agente e agente não tenham gerado padrões de preenchimento e adaptações as mais
díspares, especialmente quando em jogo estavam a capacidade e a vontade de cada um desses
agentes em reconhecer erros e imperfeições e querer corrigi-las. Não temos evidência
9
concreta das transformações operadas por falta de fontes tais como as cadernetas nas quais os
agentes recenseadores deveriam listas as correções efetuadas ou ao menos os lares nos quais
haviam encontrado problemas. Podemos, entretanto, imaginar que os agentes arbitraram sobre
condições sociais, cores, e estados civis dúbios em todo o país.

Da mesma forma, seja por atuação dos agentes, comissões ou dos próprios chefes de
família, as colunas referentes a nacionalidade, lugar de nascimento, religião e idade, por
exemplo, podem ser analisadas pelas diferentes formas (ou não) com que foram preenchidas.
Em alguns casos, a própria lista determinava em que categorias possíveis as pessoas poderiam
se enquadrar: no “estado civil”, se solteiras, casadas ou viúvas; na “religião”, se católicas ou
não; na “instrução”, se letradas ou não. Mesmo com variações possíveis, essas colunas
admitiam apenas um número limitado de respostas, as quais poderiam ser contestadas em sua
veracidade (um “casado” consensual deveria ser tido por “solteiro”, por exemplo), mas não
permitiam variações confusas (qualquer religião outra que não fosse a católica seria
simplesmente considerada “acatólica”).

Há categorias mais abertas como, por exemplo, o lugar de nascimento, que ora era
expresso como cidade, ora província. Por exemplo, na casa de Rafael Galvão, a parda
Lucinda, de 45 anos, teria nascido em “Campos do Rº de Janeiro” enquanto que a preta
Simphorosa, de 27 anos, na “Prov. do Ep.to Sto”.

No entanto, nenhuma categoria é tão aberta quanto a de “profissão”. A própria lista


instrui o preenchimento: “declara-se a profissão, ofício ou ocupação habitual ou os meios de
vida” (IBGE, Lista de família). A própria descrição já é ampla, pois reconhece vários
sinônimos ou equivalentes do que seria a “profissão” dos brasileiros em 1872. Na publicação
final do censo encontramos as profissões divididas em “agrícolas”, “manuais e mecânicas”,
“comerciais”, “artes liberais”, “manufaturas” e “sem classificação”. Há ainda um grupo sem
profissão alguma. Uma conferência nos números das tabelas indica que esse grupo
economicamente “inativo” corresponderia a 42,04% de uma população recenseada total de
9,9 milhões de habitantes. Segundo o censo, a população averiguada com idade inferior a 16 e
superior a 60 anos compreendia 4,8 milhões de pessoas. Logo, ainda que o grupo “sem
profissão” fosse composto exclusivamente de crianças, adolescentes e idosos, alguns deles
deveriam obrigatoriamente ter sido considerados “com” profissão/ocupação. Na família

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Galvão, nenhuma das quatro mulheres brancas (e livres) com idade superior a 20 anos teve
profissão alguma associada a elas. Se “donas” e “senhoritas” também forem adicionadas ao
grupo “sem profissão”, ele se torna ainda mais apertado. Seria possível, ainda, que o grupo
“sem profissão” correspondesse a simples vazios deixados nos formulários? A possibilidade
surge na lista da família Paulínio na qual apenas o “pai” é considerado “lavrador”. Os demais
moradores do domicílio não têm profissão/ocupação alguma registrada, nem o termo “idem”
ou marcas similares para indicar repetição da resposta. Como os funcionários da DGE
deveriam ter lido essa ficha? Mais uma vez, deveriam presumir a informação baseados no fato
de que provavelmente todos os integrantes de uma família parda e iletrada labutassem na
mesma função com o chefe da família? Ou, ao contrário, deveriam ler literalmente o
formulário e considerar os vazios como “sem profissão”? Qualquer que tenha sido a opção
tomada, ela tinha implicações: de um lado, estariam deduzindo ou criando informação ao
invés de apenas recebê-la pronta da lista; de outro, estariam correndo o risco de ignorar e sub-
registrar população economicamente ativa.

O grupo de profissão “não classificada” não é menos interessante. Ao contrário, nela se


encontram “criados” e “jornaleiros” (agrupados em “pessoas assalariadas”) e pessoas do
“serviço doméstico”. Não se separam as profissões por condições sociais, logo, escravos,
libertos e livres estão misturados em suas “profissões”, “ocupações” ou “meios de vida”.
Maria, Simphorosa e Cesária, “criadas a jornal” no domicílio de Rafael Galvão, estão
enquadradas no grupo de profissão “não classificada” justamente porque consta na ficha que
sua ocupação é “serviço doméstico”. Maria e Simphorosa eram escravas e Cesária, liberta. Na
casa de Antônio Gravatá, Flora, Argentina e Paciência também se enquadrariam fora de uma
“classificação” por se ocuparem como/de, respectivamente, “cozinheira”, “lavadeira” e “todo
o serviço”. No mesmo domicílio, encontramos Adão e Tobias, encarregados de “serviço da
rua”, assim como Estêvão, de 13 anos, “ajudante a pedreiro”, Iara, de 13 anos, “do serv[iç]o
da casa” e Cleta, 10 anos, mesma ocupação.

Percebemos, assim, que se considerou como “não classificado” todo tipo de serviço
doméstico e urbano mais elementar e diversificado. E que indivíduos bastante jovens tiveram
ocupações associadas a seu nome nas listas, certamente inserindo-os no quadro dos “não-
classificados”. É plausível pensar de Estêvão e Iara, ambos com 13 anos. Seria plausível
também aplicar a Cleta, com 10 anos? Se houve critério etário para se julgar a atividade
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produtiva, ele não foi documentado nas fontes utilizadas. Se não houve, mais uma vez, os
estatísticos da DGE ficaram à mercê das inúmeras formas possíveis de registrar tipos de
“profissão”, “meios de vida” ou “ocupação” de pessoas de várias cores, condições sociais,
nacionalidades e faixas etárias. Como afirmado, as tabelas de população unificaram a todos:
de crianças a idosos, escravos e livres, nacionais e estrangeiros.

Se os “não-classificados” e os “sem profissão” somam quase 60% da população total,


quem ocupa o restante do “bolo” da massa de trabalhadores brasileiros de 1872? Habitantes
com “profissões agrícolas” correspondem a outros 32,5% da população, ou, se reduzirmos a
escala para os trabalhadores “com” profissão, eles correspondem sozinhos a 56%. Nesse
grupo encontrar-se-iam provavelmente os membros da família Paulínio, caso considerados
todos “lavradores”. Esse termo não indica propriedade da terra, arranjo de trabalho, nem
tampouco confirma a condição social das pessoas a ele associadas. Mais uma vez, temos uma
massa uniformizada de “lavradores” e “criadores” que compunham um terço da população
nacional, ou 3,2 milhões de pessoas.

Ao final da análise, somam menos de 10% todas as demais categorias


profissionais/ocupacionais, nos quais entrariam certamente Rafael Galvão, “empregado
público” e seus filhos Rafael Filho e Luiz Manuel, ambos “engenheiros”. Junto a eles,
comerciantes, industriários, juristas e advogados, clérigos, militares e artistas compunham as
profissões “manuais e mecânicas”, “liberais”, “manufaturas” e “comerciais”. Para os
propósitos desta comunicação cabe evidenciar como os quadros relativos às
profissões/ocupações no censo de 1872 estão sujeitos a inúmeras ponderações e não podem
ser tomados sem compreensão da impressionante diversidade de “meios de vida”, idades e
arranjos de trabalho envolvidos em categorias aparentemente homogêneas.

Em três famílias analisadas, encontramos grande heterogeneidade nas formas de


preencher e no conteúdo declarado nas listas de família. Multiplicando-as aos milhares,
podemos imaginar quantas surpresas e desafios encontraram os agentes e comissões locais,
bem como os funcionários da DGE na Corte. Imaginar o sexo de pessoas com nome dúbio,
deduzir a condição social sem informações explícitas, tornar livre um liberto condicional e
achar métodos para classificar as inúmeras formas de trabalho dentro de categorias mais
simples e coerentes são apenas alguns dos exemplos que nos permitem compreender melhor

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por quais caminhos percorreram as informações que vieram a compor a base de dados do
recenseamento, o qual foi utilizado como retrato fiel e científico do Brasil imperial e até hoje
tem sido apropriado sem que, em grande parte dos casos, se tenha noção das condições de sua
produção.

Por esse motivo a lista de família foi escolhida como o fio condutor desta exposição,
pois dela derivam os dados do censo e nelas reside parte da legitimidade do recenseamento.
Sua análise não objetiva a desconstrução do recenseamento, cujos números garantiram, se não
o “algarismo exato” da população brasileira, o algarismo mais próximo possível obtido com
os recursos disponíveis no contexto apresentado. A análise das listas objetiva antes enriquecer
esse recenseamento, complexificando as categorias consolidadas e aparentemente
homogêneas com informações que permitam “ler” com mais precisão a operação censitária de
1872 e aprimorar nossa utilização desse documento enquanto fonte e enquanto objeto de
pesquisa. Enquanto objeto, o recenseamento abre portas para discutir – pelas listas de família,
por exemplo – questões sociais, econômicas, políticas e geopolíticas do Brasil imperial da
década de 1870 e dimensionar qual o alcance e as limitações da “legibilidade” estatal sobre os
quase dez milhões de habitantes recenseados em 1872 e tabulados e simplificados nos anos
seguintes nas dependências da DGE.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARICKMAN, B. J. “Reading the 1835 Parish Censuses from Bahia: Citizenship, Kinship,
Slavery, and Household in Early Nineteenth-Century Brazil.”. The Americas. Vol. 59, n. 3,
jan/2003.

BOTELHO, Tarcísio R. “Censos e construção nacional no Brasil Imperial.” Revista Tempo


Social. Vol. 17, N. 1. São Paulo: USP, junho 2005, p. 321-341.

LOVEMAN, Mara. “Blinded Like a State: The Revolt against Civil Registration in
Nineteenth-Century Brazil.” Comparative Studies in Society and History. Cambridge
University Press, 2007, p. 5-39.

13
MAMIGONIAN, Beatriz G. “O Estado nacional e a instabilidade da propriedade escrava: a
Lei de 1831 e a matrícula dos escravos de 1872.” Almanack Braziliense, Guarulhos, n.2, 2º
semestre 2011, p. 20-37.

MATTOS, Hebe M. “Identidade camponesa, racialização e cidadania no Brasil monárquico: o


caso da ‘Guerra dos Marimbondos’ em Pernambuco a partir da leitura de Guillermo
Palacios.” Almanack Braziliense, n. 3, maio 2006, p. 40-46.

OLIVEIRA, Maria L.F. “O Ronco da Abelha: resistência popular e conflito na consolidação


do Estado nacional, 1851-1852.” Almanack Braziliense, n. 1, maio 2005, p. 120-127.

SCOTT, James C. Seeing Like a State: How certain schemes to improve the human condition
have failed. New Haven: Yale University Press, 1998.

SENRA, Nelson. História das Estatísticas Brasileiras. Vol. 1: As Estatísticas Desejadas


(1822-c.1889). Rio de Janeiro: IBGE, 2006.

Abreviações:

BNRJ – Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

DGE – Diretoria Geral de Estatística

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

RMNI – Relatório do Ministério dos Negócios do Império

Fontes

BRASIL. Lei nº 1.829 de 09/09/1870.

BRASIL. Decreto nº 4.856de 30/12/1871.

BNRJ, [Lista de família – João Baptista Paulinio]. Seção de Manuscritos, II-34, 13, 003.

BNRJ, [Lista de família – Rafael Arcanjo Galvão]. Seção de Manuscritos, MAP-III, 3, 14.

DGE, Relatorio e Trabalhos Estatisticos apresentados ao illm. e exm. sr. Conselheiro Dr. José
Bento da Cunha e Figueiredo, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império pelo

14
Diretor Geral Conselheiro Manoel Francisco Correia em 31 de dezembro de 1876. Rio de
Janeiro, Tipografia de Hyppolito José Pinto, 1877.

IBGE, [Lista de família – Antônio Gonçalves Gravatá] Arquivo A3, G1. Disponível em
http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/instrumentos_de_coleta/doc1101.pdf. Acesso em
junho de 2014.

IBGE, Recenseamento do Brazil em 1872, Rio de Janeiro: Typographia G. Leuzinger, s.d.


[prov. 1875].

Relatório do Ministério dos Negócios do Império apresentado em 1870. Rio de Janeiro:


Typographia Nacional, 1870.

Relatório do Ministério dos Negócios do Império apresentado em 1871. Rio de Janeiro:


Typographia Nacional, 1871.

SILVA, Antonio Moraes. Diccionario da lingua portugueza. Lisboa: Typographia Lacerdina,


1813.

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ANEXO: Transcrição da lista de família do recenseamento de 1872

Fonte: IBGE, Lista de Família. Arquivo A3 G1. Disponível em


http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/instrumentos_de_coleta/doc1101.pdf. Acesso em junho de 2014.

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