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UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO E INOVAÇÃO/PRPPGI


MESTRADO PROFISSIONAL EM SOCIOLOGIA - ProfSocio
DISCIPLINA: Teoria das Ciências Sociais

PROFESSORES: Cláudio Roberto dos Santos de Almeida

ALUNO: Demétrio Cardoso da Silva

TEORIAS DISCUTIDAS E POSSÍVEIS DE EMPREGO NA PESQUISA

1. INTRODUÇÃO

No decorrer do Módulo II da disciplina Teorias das Ciências Sociais, foram


discutidos Representações Individuais e Representações Coletivas, em Emille Durkheim, A
Metodologia de Max Weber, em, Julien Freund, O Conceito de Sistema Social, em Talcott
Parsons, Estruturas, Habitus e prática, em Pierre Bourdieu, e Elementos para uma Teoria da
Estruturação, em Anthony Giddens. Em verdade, todos essas perspectivas teóricas trazem
elementos fundamentais para o desenvolvimento do meu trabalho de pesquisa, essencialmente
focado na problemática do ensino de sociologia na formação policial. Contudo, ainda rescende
de uma teoria mais alinhada com a prática de ensino e elaboração de conteúdos curriculares
apropriados ao desenvolvimento da atividade de polícia, especialmente alinhavada com a
Sociologia da Violência.

Numa perspectiva de formação policial mais ampla, com abordagem


sociopsicológica da violência e do crime, além desses autores e suas teorias, há que ser buscado
autores de uma linha de pensamento teórico mais específico da sociologia, com foco na
violência, crime e controle social, como forma de um agente de segurança pública possa
elucidar os fenômenos sociais, em suas variações no tempo e nas multifacetas relações
estruturadas, a partir dos diversos processos sociais, mais amplos e de longa duração. Nesta
dimensão, outros autores e teorias necessitam ser englobados e ajustados ao quadro teórico da
pesquisa a ser desenvolvida. Contudo, há que se ressaltar a importância das obras discutidas no
decorrer do Módulo II da disciplina Teorias das Ciências Sociais.

2. APRESENTAÇÃO DAS INTENSÕES DE PESQUISA


Seguindo o quanto firmado na Carta de Intenções para o ingresso no Mestrado
Profissional em Sociologia, tenho em vista pesquisar as relações estabelecidas entre os
conteúdos curriculares e a prática do ensino de sociologia nos cursos de formação de policiais
militares, por perceber certa problemática possivelmente relacionada aos conteúdos,
manifestada sobremaneira na dificuldade de compreensão de conceitos, definições e
concepções teóricas, mas também no evidente desprezo pela disciplina da sociologia, enquanto
ciência das relações sociais e ferramenta adequada ao trabalho dos agentes de segurança
pública, especialmente por ser capaz de desenvolver no policial a reflexão sobre os fenômenos
sociais aos quais está submetido no dia-a-dia do exercício da atividade de segurança publica.

A inserção do ensino de sociologia na formação de soldados da Polícia Militar da


Bahia vem ocorrendo desde o ano de 2003. Essa inclusão ocorreu por orientação da Matriz
Curricular Nacional para ações formativas dos profissionais da área de Segurança Pública,
apresentada em Seminário de Segurança como referencial teórico-metodológico para orientar
as Ações Formativas dos Profissionais das diferentes instituições de Segurança Pública –
Polícia Militar, Polícia Civil e Bombeiros Militares, compreendida a partir de eixos
articuladores e áreas temáticas orientadores dos mais diversos programas e projetos, articulados
e orientados pela então Secretaria Nacional de Segurança Pública – Senasp.

Desde aquela época, 2003, por ter habilitação para o magistério de sociologia da
educação, venho atuando como professor de Introdução à Sociologia na formação profissional
de policiais. No decorrer dessa prática em sala de aula, fui detectando algumas problemáticas
inerentes a dificuldades por parte dos alunos, sobretudo em relação aos conteúdos apresentados,
elaborados pelos órgãos de ensino da PM, apesar do esforço contínuo em melhorar a prática de
sala de aula. Apesar do esforço, a problemática com a compreensão dos conteúdos propostos
tem sido evidenciada no decorrer das formações subsequentes, independentemente do nível de
formação dos alunos submetidos a esses cursos de formação, onde parte considerável tem
formação do ensino médio, mas um percentual elevado tem formação superior em diversas
áreas de conhecimento.

Duas questões chaves perpassam como problema a justificar a pesquisa de campo


no âmbito da formação dos soldados da Polícia Militar no Batalhão de Ensino, Instrução e
Capacitação de Juazeiro. Quais sejam: as dificuldades dos alunos em compreender os
conteúdos propostos, não conseguindo mensurar os conceitos a partir da prática, e a aparente
indiferença sobre a aplicabilidade dos conhecimentos de sociologia na prática policiamento
ostensivo. Portanto, as intenções de pesquisa estão firmadas na investigação sobre os conteúdos
curriculares e a prática de ensino de sociologia na formação dos soldados da Polícia Militar,
através do Batalhão de Ensino, Instrução e Capacitação de Juazeiro, buscando compreender
como as estruturas simbólicas são percebidas pelos alunos a partir da realidade cotidiana da
Policia Militar e como o ensino de sociologia pode contribuir para a reflexão do policial sobre
essas estruturas e essa realidade.

3. APRESENTAÇÃO DAS TEORIAS OU AUTORES TRABALHADOS

No decorrer do Módulo II, e também durante todo transcurso da disciplina Teoria


das Ciências Sociais, a partir dos textos apresentados, alguns autores dialogaram com as
intenções da pesquisa no âmbito da Polícia Militar, ainda que suas teorias não estivessem
diretamente relacionadas com o ensino de sociologia, principalmente no ambiente de formação
policial. Esse tênue distanciamento de uma linha teórica mais aproximada da pedagogia de
ensino da sociologia levanta questões de ordem epistemológica que possam orientar um
enquadramento teórico metodológico capaz de viabilizar a investigação pretendida, sobretudo
dentro de um viés pedagógico que contemple as práticas de ensino da sociologia como ciência
da sociedade.

Desses autores, poderíamos citar Émlle Durkheim, Pierre Bourdieu, Anthony


Giddens, porém, fora dos textos do Módulo II, muitos autores sinalizam teorias que podem ser
ajustada ao projeto de pesquisa, e aqui poderia destacar a Construção Social da Realidade, obra
dos autores Peter Ludwig Berger e Thomas Luckmann, por que trazem uma discussão da
sociologia do conhecimento, dialogando metodologicamente dentro do conhecimento empírico,
com claro debate sobre a realidade cotidiana.

Iniciando pelo clássico Émlle Durkheim, na perspectiva das Representações


individuais e representações coletivas, podemos concordar com seu pensamento, no sentido de
que a analogia é, de fato, uma estratégia legítima de comparação e a comparação é, sem dúvida,
um método eficaz, de se compreender as relações sociais, seguramente um meio eficazmente
prático para tornar os fenômenos inteligíveis. O autor traz reflexões sobre a vida coletiva,
defendendo a teoria de que a vida coletiva é feita de representações a partir da vida mental do
indivíduo, essa lógica supõe um pressuposto teórico muito atrativo ao campo de reflexão das
relações internas e externas da instituição PM, pois que é possível se levantar a hipótese de que
a realidade percebida pelos sujeitos da caserna (quartéis da instituição PM) pressupõem
construções simbólicas determinadas presumivelmente pelas representações sociais, mas
também originadas nas representações individuais, que podem teoricamente ser comparáveis de
certa forma.

Se tentarmos compreender as relações sociais a partir dessas reflexões, cooptando


esse raciocínio para o campo de estudo sobre o ensino de sociologia na Polícia Militar, não
poderíamos desprezar a lógica da consciência individual como simples reflexo dos processos
celebrais subjacentes aos indivíduos dos quartéis, numa analogia com a visão do autor, é
possível se compreender como um impulso que os acompanha, porém não os constitui na sua
individualidade. É como se os integrantes da instituição policial fossem movidos por estruturas
estruturantes e estruturadas, percebido por Giddens (2009), em Elementos da Teoria da
Estruturação.

Nesta perspectiva teórica, chamando a discussão para uma conexão com as


sociologias interpretativas, é possível se conceber primazia à ação e ao significado na
explicação da conduta humana, onde os conceitos estruturais não são extraordinariamente
distintos e o sistema de coerção passa despercebido. A estrutura tem precedência sobre a ação e
seus atributos restritivos são fortemente acentuados. De acordo a teoria da estruturação, não
seria a experiência dos indivíduos nem a existência de qualquer modelo de totalidade social,
mas as práticas sociais ordenadas a partir do espaço e do tempo. Aqui é possível adequar
proposições de uma metodologia para o ensino da sociologia na formação dos soldados da
Polícia militar. Merece reflexão o conjunto de práticas sistemática e simbolicamente elaboradas
pela estrutura de poder dominante, que se materializa nas consciências individuais dos sujeitos
da caserna.

Voltando a dialogar com Durkheim, em representações individuais e coletivas,


segundo o autor, um indivíduo dotado de consciência não se conduz como um ser em que
atividade se reduzisse a um sistema de reflexos, posto que ele hesita, tateia, delibera e é com
essa particularidade que ele se identifica. (DURKHEIM, 2007). Ele assegura que o sujeito, na
sua individualidade, não estaria em condições estruturais para inventar uma língua ou uma
religião, por que tais fenômenos são uma espécie de produto de uma comunidade ou de um
povo. Segundo Durkheim, existe uma sistemática separação entre o indivíduo, em sua
individualidade, e o social, no aspecto de sua complexidade coletiva. Socialmente, as
representações coletivas sintetizam o que os homens pensam sobre si mesmos e sobre a
realidade que os cerca. Transcendendo esse ideia para a realidade construída na instituição
policial militar, poderíamos deduzir que, embora exista os indivíduos nas suas individualidades,
prevalece as representações simbólicas produzidas pela corporação, a partir dos valores
estabelecidos como instrumento de manutenção de um dado poder simbólico, o que
encontraríamos nas teorias de estruturas, hábitos, campos e prática em Pierre Bourdieu.

Segundo Pierre Bourdieu (Teoria da Ação, 2007, págs. 48/49), em suas reflexões
sobre espaço social e campo de poder, a noção de espaço social contém o princípio de uma
apreensão relacional do mundo social. Aqui cabe destacar as especificidades do ambiente da
caserna, onde se presume a prevalência de um campo de poder que institui a compreensão dos
seus agentes a partir das relações estabelecidas no campo de suas estruturas. O campo do poder,
em contradição aos espaços sociais, não se confunde com outros campos, por ser espaço de
relações de força em meio às diferentes tipologias de capital ou de seus agentes suficientemente
providos de deferentes formas para dominar seu campo correspondente, cujas lutas se
intensificam sempre que o valor relativo de seu capital social é posto em conflito. Segundo o
consagrado autor,

os condicionamentos associados a um classe particular de condições de existência


produzem habitus, sistemas de disposições duráveis e transponíveis, estruturadas
estruturantes predispostas a funcionar como estruturas estruturantes. ele quer dizer:
princípios gerados e organizadores de práticas e de representações que podem ser
objetivamente adaptadas ao seu objetivo sem supor a interação consciente de fins e
domínio expresso das operações necessárias para alcançá-los, objetivamente
"reguladas" e "regulares" sem nada ser o produto da obediência a algumas regras.
BOURDIEU, 2009, p. 87).

Daí decorre a preponderância reforçada nas representações sociais dominantes.


Cabe o registro de que o autor define como capital social. Esta estruturação de pensamento
possibilita amoldar a instituição policial na condição de instrumento de poder do Estado
direcionado à coerção física e ao controle social sobre os indivíduos, através das representações
sociais em movimento na sociedade atual. As ações policiais, neste sentido, não estão afastadas
das relações de dominação estatal.

Mas, voltando a Durkheim e Giddens, é possível harmonizar suas teorias a uma


intenção de pesquisa focada na investigação, a partir de uma análise fenomenológica sobre as
questões que envolvem a prática de ensino e a proposta curricular do ensino de sociologia na
formação dos soldados da Polícia Militar. A teorização na perspectiva desses dois autores seria
suplementar a uma teoria, de suporte pedagógico-metodológico, direcionada ao ensino de
sociologia. Numa perspectiva estruturalista, poderíamos plagiar Giddens (2009) para afirma
que atividades humanas são recursivas, não são criadas por agentes sociais, mas continuamente
recriadas par esses atores através dos próprios recursos pelos quais estes se expressam como
atores sociais.

Alargando o debate em torno da proposta de pesquisa sobre o ensino de sociologia


na formação da Polícia Militar, ainda que se busque uma linha teórico-metodológica de
aplicação pedagógica, é possível perceber a estreita relação da sociologia do conhecimento
nessa nuance de investigação. Aqui cedemos espaço à teoria encampada por Berger e
Luckmann (2004) sobre a construção da realidade social. Embora não declinem uma lógica
focada na pedagogia do ensino, os autores levantam o debate sobre como o homem constrói o
seu próprio conhecimento da realidade, tratando das relações entre o pensamento humano e o
contexto social dentro do qual ele vive. Berger e Luckmann levantam questões metodológicas
em nível teórico apontando a análise fenomenológica como sendo um percurso possível para se
descrever noções empírica da própria sociologia. Neste sentido, surge um limiar capaz de
orientar as questões metodológicas da pesquisa no campo do ensino de sociologia na formação
de policiais. Entretanto, outras linhas teóricas necessitam ser consultadas, posto que o viés a ser
pesquisado seja essencialmente o ensino de sociologia.

4. INSERÇÃO DA PERGUNTA DE PESQUISA NO REFERRENCIAL


TEÓRICO DISCUTIDO

Embora ainda esteja sendo construído, poderíamos defender que a linha de


pesquisa tenderá a ser formatada a partir das diversas teorias apresentadas no decorrer das
discussões de todos os Módulos. É bem verdade que algumas alterações certamente ocorrerão,
sobretudo como forma de ajustar o enquadramento teórico do projeto de pesquisa. A proposta
inicial então seria a enquadrada nos conteúdos curriculares e na prática de ensino na formação
policial no 3º Batalhão de Ensino, Instrução e Capacitação da Policia Militar, sediado em
Juazeiro, que é a Unidade formadora dos agentes públicos que atuarão na segurança pública das
diversas comunidades da região.

Conforme já dito na introdução, o ensino de sociologia vem sendo aplicado no 3º


BEIC em todos os cursos de formação de soldados desde o ano 2003, quando fui o professor
indicado como titular da disciplina Introdução à sociologia. Em todas as turmas, de lá para cá,
foi possível detectar questões relacionadas à compreensão de conceitos, conteúdos teóricos e
manifesto desprezo pela aplicabilidade dos conhecimentos da sociologia ao desempenho das
atividades de policiamento. A partir da formulação de algumas questões observadas no decorrer
das atividades de ensino de sociologia, duas perguntas de pesquisa estão formuladas, ou seja:

a) A prática de ensino e os conteúdos de Sociologia rompem as estruturas


simbólicas estruturantes e estruturadas na realidade cotidiana da Polícia Militar?

b) Como o Ensino e os conteúdos de sociologia podem estimular e


contemplar a compreensão do policial sobre as estruturas estruturadas e estruturantes da
realidade cotidiana na Polícia Militar?

Estas duas questões, inicialmente, deverão carrear a formatação do


enquadramento teórico do projeto de pesquisa, além de servir de sustentação para o caminhar
na formação do pensamento metodológico no decorrer da investigação.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todas as propostas teóricas apresentadas dentro da disciplina Teorias das Ciências


Sociais são imprescindíveis ao desenvolvimento de qualquer pesquisa na área de ciências
sociais, mais especificamente na área de sociologia. Os diferentes autores e seus fundamentos
teóricos colaboraram decisivamente para o desenvolvimento teórico metodológico dos
mestrandos, sobretudo na formulação de questões epistemológicas relacionadas a cada campo
de intenção de pesquisa.

Dentro de uma análise didático-pedagógica, foram satisfatoriamente alcançadas as


metas em cada módulo, com sistemática compreensão das teorias, suas variáveis
epistemológicas e percurso histórico, desde a escola europeia passando pela escola de Chicago
e aportando na América Latina e Brasil, debatidas suas transformações metodológicas e
tendências da modernidade no campo da modernidade.

Resta, porém, revisar pontos da grade curricular que não ficaram evidentes, dada a
questões outras, decorrente de leitura aprofundada, mas também dos afazeres diários que não
colaboraram para melhor assentar pontos que ficaram obscuros em decorrência da própria
dinâmica do dia-a-dia das aulas e do calendário em si. Cabe aqui evidenciar a importância dos
seminários, em que foram apresentados com relevante importância dada pelos mestrando e
também pela maneira coerente, didática e primorosa com que o professor pode conduzir o
semestre. Foi expetacular!
6. REFERENCIAS

 BERGER, Peter L. LUCKMANN, Thomas. A construção social da


realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2004;

 BOURDIEU, Pierre. Estruturas, Habitus e prática. In: ________. O Senso


Prático. Petrópolis: Vozes, 2009;

 _________________. O Poder simbólico. In: BOURDIEU, Pierre. O


Poder Simbólico. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 2004. 310p. (cap.1)

 DURKHEIM, Emille. Representações individuais e representações


coletivas. In: ______ Sociologia e Filosofia. São Paulo: Ícone, 2007;

 GIDDENS, Anthony. Comte, Popper e o positivismo. In: ______ Política,


Sociologia e Teoria Social. São Paulo: ED. Unesp, 1997;

 _________________. Elementos para uma Teoria da Estruturação. (cap.1)


In: _____. A Constituição da Sociedade: sobre a teoria da estruturação. São Paulo: Martins
Fontes, 2009;

 _________________. Estruturalismo, pós-estruturalismo e a produção da


cultura. In: _____ & TURNER, Jonatan. Teoria Social Hoje. Unesp, 1996;

 RINGER, Fritz. A metodologia de Max Weber: unificação das ciências


sociais e da cultura. São Paulu: Edusp, 1997.

 WAGNER, Helmut, A abordagem fenomenológica da Sociologia. In:


SHUTZ, Alfred. Sobre fenomenologia e relações sociais. Petrópolis: Vozes, 2012;