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Fundamentos

Metodológicos
do Ensino de
Arte e Música
Material Teórico
Criatividade e desenvolvimento artístico

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Ms Solange Santos Utuari

Revisão Textual:
Profa. Ms. Rosemary Toffoli
Criatividade e desenvolvimento artístico

• Criatividade e desenvolvimento artístico

• Os caminhos da criação

• Como conhecer e estimular a arte das crianças?

• Os movimentos do desenho da criança

· A proposta da unidade é apontar concepções históricas


sobre o conceito de criatividade e desenvolvimento artísticos,
principalmente na infância. Para tanto, vamos investigar
autores que escrevem sobre o que é criatividade e sobre as
fases do desenvolvimento infantil em relação à linguagem da
Arte, com base nos estudos de Mirian Celeste Martins, Gisa
Picosque, Terezinha Guerra e Isabel Petry Kehrwald entre
outros autores.

Nesta unidade, estudaremos o conceito de criatividade e as fases do desenvolvimento artístico


da criança, faremos alguns apontamentos históricos e conceituais mostrando as ideias sobre
criatividade e como as crianças percorrem seus processos na ação criadora.
Fundamentaremos nosso trabalho, entre outros autores, nas pesquisas das educadoras: Mirian
Celeste Martins, Gisa Picosque, Fayga Ostrower e Isabel Petry Kehrwald. Veremos como essas
autoras percebem os processos de criação e o desenvolvimento da mente criadora das crianças.
Conhecer como as crianças se desenvolvem é fundamental para a formação de pedagogos que
lidarão com projetos e ações educativas que exigem saberes sobre o processo de criação, não
apenas na área de arte, mas em todas as áreas de conhecimento. Criar é um ato inerente ao ser
humano, a educação pode tanto abrir portas e potencializar a criatividade, quanto ser repressora
no processo de criação das crianças. Nesse sentido, nosso estudo é extremamente relevante.
Quanto às atividades propostas na unidade, é importante que você realize todas com afinco
e determinação. Teste seus conhecimentos respondendo às questões sugeridas, observe o
que você já sabe e o que precisa ainda saber, e amplie seus conhecimentos lendo o material
complementar e os textos sugeridos no decorrer do curso.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

Contextualização
Para o momento de contextualização, sugerimos a leitura de dois textos:
1- O artigo: Processo criativo: para quê? para quem? Da autora Professora Dra.
Isabel Petry Kehrwald.
Isabel Petry Kehrwald, é doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul e coordenadora do Pólo FUNDARTE do Projeto Arte na Escola. Pesquisadora no ensino
de arte tem desenvolvido vários trabalhos sobre o conceito de criatividade. No decorrer dos anos,
muitas ideias sobre o conceito de criatividade foram formadas. Hoje se sabe que a criatividade
não é uma coisa mágica e, sim, ligada à inteligência e capacidade de reflexão em relação a tudo
que vivemos e percebemos na vida. Criamos seja qual for a área de atuação, a partir da nossa
realidade e contexto, porque somos seres de um tempo e de uma sociedade. Fique atento ao que
esta autora coloca sobre o conceito de criatividade. Em nosso estudo, vamos procurar compreender
como se dá a criação no cotidiano e na arte. Interessa saber também como as crianças criam e
desenvolvem por meio de expressões artísticas.

Explore

O texto está disponível:


http://artenaescola.org.br/sala-de-leitura/artigos/artigo php?id=69372

2- Capitulo de livro: O aprendiz da arte in MARTINS, Miriam Celeste. PICOSQUE,


Gisa. GUERRA, M. Terezinha Telles. Didática do Ensino de Arte. A língua do mundo: poetizar,
fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998. (páginas 90-151). Neste você poderá aprender
mais sobre os movimentos do desenvolvimento da capacidade criadora da criança nas artes (há
uma versão mais recente deste livro com o título Teorias do ensino de arte de 2010).
As três autoras são muito respeitadas no cenário do ensino de arte e possuem várias
publicações entre livros e materiais de apoio ao trabalho pedagógico de educadores em arte.

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Criatividade e desenvolvimento artístico

Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer
que seja o campo de atividade, trata-se, nesse “novo”, de novas coerências
que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo
novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto,
a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar,
configurar, significar. (Fayga Ostrower, 2007, p.09)

Nesta unidade, faremos uma reflexão a respeito do conceito de


criatividade, desenvolvimento da ação criadora da criança e o ensino
de Arte. Inicialmente, faremos alguns apontamentos históricos sobre o
conceito de criatividade procurando desmistificar algumas ideias. Em
seguida, passaremos a estudar as fases do desenvolvimento infantil com
foco na produção artística refletindo como a escola vem lidando com estes
temas: criatividade e a arte da criança.
Figura 1 Picasso: Claude desenhando, Françoise
e Paloma. http://vidasdecolegio.blogspot.com.
br/2008_09_01_archive.html

Os caminhos da criação

A arte tem se transformado radicalmente nos últimos tempos, assim como os meios de
informação e a maneira de aprender arte. Vivemos imersos em um mundo cheio de sons, imagens
e gestos. Muitas coisas já foram criadas e o mundo contemporâneo nos apresenta inúmeras coisas
prontas. Diante desta realidade como as crianças criam? O que é criatividade nos dias atuais?
Segundo estudos de Lowenfeld (1970,p.62):

A definição de criatividade depende de quem a exponha. Com freqüência,


os pesquisadores são algo limitados em suas explanações, enunciando que
a criatividade significa flexibilidade do raciocínio ou fluência de ideias; ou
também pode ser a capacidade de transmitir novas ideias ou de ver as
coisas em novas relações; em alguns casos a criatividade é definida como a
capacidade de pensar de forma diferente das outras pessoas.

Historicamente, o conceito de criatividade tem sido associado a muitos fatores e causas. Na


Grécia antiga tínhamos a ideia de criatividade como “dom divino” dado pelas musas. Eram
nove musas, seres mitológicos que, segundo a lenda, inspiravam o ser humano a realizar nove
artes. Arte, nesse tempo, significava fazer algo com maestria, fazer bem, criar de maneira bela...
Essa ideia podia estar ligada ao mundo das artes, mas também a outras áreas. Ainda hoje
falamos sobre a arte de cozinhar, escrever, amar...

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

A cada musa era atribuído um talento. Calíope estava ligada ao canto e


à poesia épica; Clio, à História; Polímnia, à retórica e à música cerimonial;
Euterpe, à música; Terpsícore, à dança; Érato, ao canto e à poesia lírica;
Melpômene, à criação de textos e à atuação de atores nas tragédias; Tália,
à comédia; e Urânia, à astronomia. Não existiam musas para a pintura e
escultura, porque essas artes, naquele tempo, não eram consideras artes
maiores por serem consideradas trabalhos braçais.
Assim, para ser artista talentoso e criativo, era preciso cair na graça de
alguma musa que supostamente lhe daria um “dom”. Mas nesta cultura
antiga apenas o homens livres podiam ser criativos e ser reconhecidos
Wolfgang Sauber - por seus grandes feitos, pois apenas estes podiam ganhar os dons das
en.wikipedia.org
nove musas. Mulheres e escravos não podiam receber os dons das musas.
As mulheres, por exemplo, podia apenas imitar os dons das musas e assim inspirar os seus
homens a criarem, daí surgiu o termo a “musa inspiradora”. Na Grécia antiga existiram várias
escolas para mulheres que aprendiam a imitar os talentos das musas na dança, poesia, música...
Estas escolas foram chamadas de museus.
Para ser criativo era preciso receber um “dom” que estava ligada a outra a concepção que
mostrava a ideia de “merecimento”. E como dissemos antes apenas os homens (gênero másculo)
podiam ser merecedores dos talentos das musas.
Esta concepção atravessou os tempos e durante
a Idade Média esta ideia migrou para o sentido de
“Dom divino dado por Deus” (visão teocêntrica
do universo). Nas regiões como no catolicismo, o
judaísmo e até no islamismo uma pessoa só podia
ser talentosa e criativa se recebesse este “dom”
de Deus. Mas esta dádiva só podia ser dada a
quem merecesse. Assim, a ideia de merecimento
aparece também nestas culturais na Idade Média.
Como a valorização do artista como um grande mestre que aconteceu
principalmente no Renascimento surge a ideia de “gênio nato” , aquele
que nasce especial e com um “dom artístico”, as vezes esta ideia também
era associada a concepção de “Dom divino dado por Deus”. Ainda
hoje é comum as pessoas se referirem a Leonardo da Vinci, artista
renascentista, como um “Gênio”. Na verdade, este artista pesquisou
muito e realizou grandes inventos e produções artísticas porque era
curioso e inventivo.
Nos séculos que seguem, a ideia de “dom artístico” foi ampliada para a noção de
“virtuosismo”, aquele que tem uma capacidade especial para criar em função de sua habilidade
técnica ou genialidade. No século XIX principalmente na cultura ocidental ligada ao movimento
do romantismo, é forte a visão de que para criar é preciso de uma inspiração (ideia associada
a musa inspiradora). O artista tinha que viver as mais profundas paixões para criar.
No século XX com os experimentos artísticos estas noções sobre o conceito de criatividade e
o ato criador foi aos poucos dando espaço para a ideia de pesquisa, vivência, repertório cultural
e experimentação. Esta ultima está mais próxima da ideia atual de criatividade.

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No Brasil as ideias modernistas defendiam que todos podiam ser criativos e fazer arte.
Em nosso tempo o tema “criatividade” tem sido abordado em diferentes áreas.

“Eu acredito na intuição e na inspiração. A imaginação é mais importante


que o conhecimento. O conhecimento é limitado, enquanto a imaginação
abraça o mundo inteiro, estimulando o progresso, dando à luz à evolução.
Ela é, rigorosamente falando, um fator real na pesquisa científica.”
(Albert Einstein 1931)

Para estudar sobre o tema criatividade na


contemporaneidade, podemos nos basear em vários
estudos. Para Vygotsky (1990, p. 16) a criatividade é fruto do
desenvolvimento do individuo em meio social e histórico. A
concepção de criação como algo mágico está cada vez mais
superada. Atualmente, é mais aceita a ideia de habilidade
mental ou competência argumentativa diante da vida e
das coisas. Habilidade de pensamento que se desenvolve Woodleywonderworks - Flickr.com

desde quando somos crianças, seguindo na vida adulta, pois é sempre possível aprender e
criar. Para Vygotsky aprendemos a observar e a estabelecer relações, criamos memórias sobre
as coisas, armazenamos dados a partir de encontros com acontecimentos na vida que nutrem a
imaginação. Este processo se dá nas experiências de cada um, no meio sócio-histórico-cultural.
Vygotsky, assim como Albert Einstein (1931), afirmam que é a criação que ajuda o ser
humano a projetar o futuro. Desta forma, imaginar é importante para criar coisas ainda não
existentes e para romper com a realidade e rotina.
Cometer erros e se sentir angustiado ao não saber como criar, faz parte do processo
experimental do pensamento criativo. Segundo Rubem Alves (2008, p.12):

O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não
é preciso que seja uma dor doída. Por vezes a dor aparece como aquela
coceira que tem o nome de curiosidade

No caso dos artistas estes buscam materialidades e linguagens para expressar seu pensamento. A
criação do artista não se dá de modo mágico e misterioso, com base na ideia de dom artístico, mas
no esforço, no trabalho contínuo e reflexões. Esta é uma visão bem contemporânea do ato criador.
Também temos de desmistificar alguns conceitos e esclarecer algumas ideias, assim podemos
afirmar que:

• A criatividade não é apenas um privilegio dos artistas ou das crianças pequenas. Há


pessoas criativas em todas as áreas e idades.

• Podem ser artistas aqueles que se propuserem a estudar as linguagens e a experimentar,


poetizar e ter a intenção de fazer arte.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

• Nem toda criança é criativa, isto irá depender de sua cognição, percepção, história,
contexto, motivação e disposição para criar. No entanto, percebemos que as crianças
geralmente são mais criativas que alguns adultos porque ainda não aprenderam a ter
tantos medos quanto os adultos. O medo é inimigo da criação.

• Na criação há pensamento lógico (racional) tanto quanto há imaginação e intuição.

• Criar é aprender a fazer escolhas. Existem muitas possibilidades e dentre estas a pessoa
criativa “escolhe e experimenta”, novamente “escolhe e experimenta”, até chegar a
resultados que lhe pareçam satisfatórios. Mas este processo pode nunca terminar, porque
estamos sempre inventando alguma coisa.

• Segundo a ciência e muitos teóricos, criar não é “dom” é sim habilidade e intenção em
pesquisar, experimentar, conhecer, entrar em vigília criativa, que é um estado mental em
que ficamos pensando tanto em uma questão que acabamos por encontrar soluções. As
vezes parece que isto ocorre ao acaso, mas na verdade é um exercício de pensamento e
concentração em um tema.

• A intuição é a chave da criação? Sim as vezes não sabemos como resolver um problema
ou criar algo mas temos uma intuição e perseguimos uma ideia até conseguir encontrar
soluções.

• Ter muitos problemas torna as pessoas mais criativas? A resolução de problemas exercita
a capacidade de propor soluções e a habilidade de análise e resolução.

Hoje há uma preocupação em formar pessoas criativas, muito mais que apenas técnicas
porque vivemos um momento de necessidade de adaptação e inovação o tempo todo. Neste
sentido as preocupações na formação de uma mente criadora não deve se ater a ideias míticas
do passado como dom ou genialidade, porque estas estão ligadas a noções de merecimento e
genética especial, isto não cabe mais em sistemas democráticos. Não podemos dizer que uma
criança merece ser mais criativa que outra em função de dádivas sobrenaturais ou sistemas
genéticos fora do comum.
Para Gardner (1999) cada indivíduo, tem o seu próprio jeito de ler o mundo e de reinventá-
lo. A mente humana é portadora de complexidade e não há um único modo de explicar como
a criatividade se desenvolve.
Em relação ao ensino de arte na escola como podemos definir, por exemplo, quando uma
criança faz um desenho criativo? O que é um desenho bom ou ruim. Na arte contemporânea
o desenho pode ser aceito em muitas formas e expressões: figurativo, abstrato, expressionista,
real, estilizado, colorido, em apenas uma única cor...
Como saber reconhecer um ato criador nas aulas de arte? É comum encontrar nos planos de
aulas dos educadores a frase citada em objetivos: “ desenvolver a criatividade”. Para ser criativo
é preciso querer, experimentar e as vezes este processo pode ser doloroso e angustiante. Quantas
vezes nos deparamos com este sentimento ao ter que criar ou resolver algum problema? Se criar
é querer, podemos conseguir alcançar o objetivo em “desenvolver a criatividade do outro” ( no
caso do aluno)?

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Certamente não podemos deixar o outro ( no caso o aluno) mais
criativo, mas podemos criar situações de aprendizagem em que este
possa experimentar seus processos de criação e desenvolver a sua própria
criatividade, uma vez que este processo é pessoal e intransferível.
O processo de criação se dá entre observar o mundo, construir uma
memória e imaginar:
sxc.hu

• Observação: é por meio da observação que lemos, vivemos o mundo e criamos nosso
repertório cultural. Para criar é essencial ter repertório, não se cria a partir do nada.

• Memória: precisamos conhecer o tema, material ou linguagem sobre o qual queremos


criar. Nossa memória nos ajuda a guardar informações importantes para serem usadas
no ato criador. Além de lembrar também construímos conceitos a partir de nossas
percepções, experiências um dia vivenciadas e armazenadas na memória para serem
usadas quando necessário.

• Imaginação: está na capacidade de criar situações e coisas ainda não concretizadas,


no campo imaginário, no sonho acordado. É por meio da imaginação que projetamos o
futuro. Você se lembra de desenhos animados antigos em que os personagens falavam
e viam imagens das pessoas por um telefone? Isto era ficção no passado, mas hoje
isto é realidade e no futuro você pode imaginar o que irá acontecer? Assim caminha a
humanidade, entre sonhos e experiências, vamos criando o futuro.

A Persistência da Memória é uma pintura do artista


espanhol Salvador Dalí é uma imagem surrealista e pode
sugerir muitas leituras sobre como o tempo passa e constrói
memórias das coisas. Mas guardamos em nossa memória
tudo que vivemos? O que guardamos? Talvez apenas certos
momentos, tempos vividos de modo significativo. Dali era
um artista espanhol e ficou conhecido pela capacidade
de criar mundos imaginários, universos surrealistas. Para
criar imagens, representava coisas que conhecia com
imagens de sonhos, do subconsciente. Criou várias obras
nas linguagens da pintura, escultura, objetos e cinema. Foi
uma figura excêntrica perante o público e crítica. Deixou
sua marca na história da arte como um dos maiores artistas
http://arthistory.about.com/od/from_exhibitions/ig/ do surrealismo. Costumava dizer que a inteligência sem
dali_painting_and_film/dali_moma_0708_11.htm ambição é como um pássaro sem asas.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

Como conhecer e estimular a arte das crianças?

Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com


as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por
parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas
simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de
arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins,
ela me pediria para ensinar-lhes as lições das pás, enxadas e tesouras de
podar. Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria
com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas
e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Ai, encantada
com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério
daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas
pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza
musical. A experiência da beleza tem de vir antes!
Rubem Alves, 2008

Para refletir sobre como as crianças criam e como nós adultos podemos ajudar neste processo
sem direcionar, trouxemos um pensamento do autor Rubem Alves, para mostrar que o ensino de
arte deve, assim como em qualquer outra área, ser significativo e trabalhar com o senso estético.
A arte é uma linguagem expressiva em que conceitos podem ser construídos pelo sentir, refletir,
imaginar... E como toda linguagem tem: conteúdos, formas, percursos de criação, saberes estéticos e
culturais, interlocuções com outras áreas do conhecimento e com a própria vida cotidiana da criança.
A concepção de ensino contemporâneo procura respeitar as fases da produção artística infantil
e seu universo imaginativo e expressivo.
A criança está disponível para experimentar as coisas no mundo e a partir da experiência
aprende a conhecer. A aprendizagem quando explorada pela percepção das belezas nas coisas
pode tornar-se significativa. A apresentação de imagens de obras de arte e a experimentação de
materiais, pode ampliar e estimular o processo de criação das crianças.
Muitas vezes nós professores, temos a preocupação de compreender as produções dos pequenos,
chegamos até a fazer anotações sobre os desenhos das crianças para ajudar também os pais a
entender melhor essas produções. Será que essa prática representa o melhor caminho? Quando
escrevemos sobre os desenhos estamos interferindo na
visualidade, já não é mais o desenho deles e sim um
monte de escritas, muitas vezes realizadas com canetas
vermelhas que realçam a anotação do educador, em que
o desenho da criança fica em segundo plano. Alguém
já escreveu sobre a obra de um artista abstrato? É um
pintor cubista? Já pensou como seria uma exposição
contemporânea cheia de recados para o público
entender a obra? Talvez não restasse espaço para
percepção sensível. Entender o desenho da criança é
bom para o adulto ou para a criança? Figura 11 Desenho do Vinicius aos 3 anos de idade.

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Minha tarefa pode ser comparada à obra de um explorador que penetra numa
terra desconhecida. Descobrindo um povo, aprendo sua língua, decifro sua
escrita e compreendo cada vez melhor sua civilização. Acontece o mesmo
com todo adulto que estuda a arte infantil.
Arno Stern, apud Martins, 2010: p.84.

Como Stern, também nos aventuramos na busca de conhecer o universo das produções
artísticas das crianças. Muitas vezes nos vemos perguntando para a criança o que ela desenhou,
ou que ela quis dizer em suas produções. Mas será que estamos respeitando o modo de criar dos
pequenos? A criança vive suas experiências, a cada momento inventa e explora um jeito muito
particular de compreender o mundo a sua volta. Compreender como a criança se expressa é
um desafio para o adulto.
O Pintor Pablo Picasso se aborrecida quando alguém o indagava sobre o sentido da sua arte.

Não há quem não queira compreender a arte. Isso me faz estranhar que não
se queira compreender, também, o canto dos pássaros. Por que amamos a
noite, as flores e toda a beleza que nos rodeia sem ter vontade de analisar-
lhes os mistérios? Quando se trata, de uma obra de arte, todo mundo acha
que tem de compreendê-la. Por quê?
Pablo Picasso ( apud Simões Jr, 1985, p.69).
Garçon à la pipe

Como um pássaro que voa livre a imaginação das crianças não pode ser controlada. É possível
compreender o que as crianças colocam em seus desenhos? Há possibilidade de compreender,
porém não de forma a traduzir os significados, mas na busca por estudar como se dá o seu
processo criador, para respeitar e potencializar essa habilidade de pensamento.
Não devemos fazer anotações nos desenhos das crianças, isto as deixa inseguras.
Mario de Andrade foi importante estudioso do desenho das crianças.
Este poeta marcou história ao elaborar planos para educação infantil e
criar concursos de arte ainda na década de 1930, além de sua trajetória
como poeta e escritor. Em seu exercício de olhar para a produção dos
pequenos com olhos de poeta, Mario costumava dizer que o adulto
deveria perceber que as crianças não são “seres descuidados, vivendo
da alegria dos brinquedos e das pequenas reações diante de dores
da vida”(apud Faria, 1999, 184), a criança tem seu modo de sentir o
mundo, as vezes de forma dramática, outras de forma lúdica, imaginária.
As crianças não são indiferentes, estão atentas ao que acontece ao seu
redor, tem seu jeito de criar mistérios interiores, as vezes impenetrável
nas palavras de Mario de Andrade. O poeta também dizia que a criação
das crianças não tem limites e que o adulto deve motivar e acompanhar
Mario de andrade
esta criação e nunca direcionara-la.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

O desenho nos toca do mesmo jeito que o som curto dos instrumentos
de cordas dedilhadas, o piano, o cravo, uma guitarra. O verdadeiro limite
do desenho não implica de forma alguma o limite do papel, nem mesmo
supondo margens. Na verdade, o desenho é ilimitado.
Mário de Andrade, escritor, poeta ensaísta e professor.

Larrosa (2004, p.161) fala de uma concepção de infância como acontecimento, neste
pensamento podemos dizer que: a criança registra em seus desenhos o que lhe acontece. A
criança é o “sujeito da experiência é, sobretudo o espaço onde tem lugar os acontecimentos”.
Assim quando analisamos a produção das crianças é importante perceber que lhes acontece
neste momento. A cada momento ela se interessa por assuntos, temas, cores, formas e muitos
outros interesses que lhe chamam a atenção. São formas de estar e perceber o mundo que
difere da lógica dos adultos. Acredito que o grande problema é que muitas vezes olhamos para
a produção das crianças com os olhos de adultos, ou seja, sobre a nossa concepção de arte,
ignorando a opinião das crianças, autoras de suas produções.
Segundo as autoras Mirian Celeste Martins; Gisa Picosque e Maria Terezinha Telles
Guerra(2010) as crianças apresentam seu processo de criação em movimentos no fluxo da vida,
cada criança se desenvolve entre uma fase e outra diante das oportunidades e do contato com
arte. Oportunidades oferecidas pelo mundo ao seu redor, neste contexto o professor, escola,
família, amigos são determinantes na construção de saberes, hipóteses, poéticas e criação pessoal.
Esta ideia apresenta uma concepção de que a criança é um ser em constante transformação, e
nas experiências com o mundo, imita, constrói e reconstrói símbolos para se expressar. Estudar
a produção das crianças pode proporcionar atitudes educativas mais conscientes por parte
dos educadores a respeito do desenvolvimento artístico na infância. Ao estudar as produções
artísticas infantis devemos ter um o olhar atento não apenas para o produto final, mas para o
processo como um todo, que envolve escolhas de assuntos, materiais e resolução de questões
da linguagem da arte, como por exemplo: como a criança usa as linhas, formas e cores, em que
fase está e como escolhe representar suas ideias nos desenhos, pinturas e outras linguagens.
Há poesia nas produções das crianças, mas apenas um olhar sensível poderá compreender.
Assim ler os desenhos das crianças constituiu em um exercício do olhar sensível do professor.
A criança, ao desenhar, expressa o que percebe sobre o mundo ou a respeito do que imagina
naquele momento. A lógica do pensamento da criança é diferente da lógica do adulto. Dessa
forma precisamos estar atentos a esta diferença. Um bom desenho para a criança necessariamente
não passa pela mesma concepção de Arte dos adultos. A cada fase ou movimento de criação
a criança expressa visões de mundo e “cada movimento tem uma beleza e uma significação
próprias, sendo necessária a compreensão de tudo o que ele envolve” (MARTINS, GUERRA E
PICOSQUE, 2010, p.87).
Ao estudar a produção dos pequenos podemos perceber
que as crianças têm ritmos diferentes na sua produção artística,
os movimentos (ou fases) são influenciados com o meio
ambiente em que vivem. Notamos que há momentos abstratos
pré-figurativos e figurativos. O melhor não seria classificar as
fases por idade e sim por movimentos de interesse e estímulos.
Mariano Cecowiski - en.wikipedia.org

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Os estudos sobre o desenho da criança passaram por muitas concepções, mas há muito
a descobrir sobre esta forma de linguagem expressiva. Há uma ideia de que o ser humano
procura assinalar sua presença no mundo deixando suas marcas pessoais. Isto se confirma
quando olhamos a arte rupestre.
As crianças demonstram prazer e satisfação em seus gestos ao perceberem que podem deixar
suas marcas. Talvez seja este o motivo das paredes das casas que tem crianças pequenas serem
marcadas por desenhos.

Os movimentos do desenho da criança

Cada movimento tem uma beleza e uma significação próprias, sendo


necessária a compreensão de tudo o que ele envolve. Estudar esses
movimentos é compor um pano de fundo para nossa leitura sobre o ser
expressivo da criança e do jovem, alimentando nosso olhar para ver o
grupo singular que está a nossa frente nas diversas salas de aula as quais
trabalhamos. (MARTINS e PICOSQUE, 2010).

Há inúmeras publicações sobre o desenho e as fases da mente criadora das crianças, mas
como fundamentação teórica para o nosso estudos estamos indicado o livro Didática do
ensino da arte: poetizar, fruir e conhecer arte das autoras Mirian Celeste Martins; Gisa
Picosque e Maria Terezinha Telles Guerra, publicado pela editora paulista FTD em 1998 ( há
uma versão mais recente deste livro com o titulo Teorias do ensino de arte de 2010). Este
livro traz em seu terceiro capitulo o texto O aprendiz da arte, um texto( p.90 a 125) que
indicamos como muito interessante para compreender como as crianças e jovens criam em seus
desenhos e outras linguagens artísticas. Este texto aborda as fases do desenvolvimento criativo
e artístico das crianças e jovens em quatro movimentos:

Primeiro movimento: traços nas garatujas.

“A criança está atenta e aberta às experiências e ao mundo, sem medo dos


riscos, por isso arrisca-se. Vive intensamente”(MARTINS , 2010, p.89).

Neste momento a criança está entre seus primeiros anos de vida até cerca
de três anos, mas a idade da criança é apenas um fator de reconhecimento
desta fase, pois como dissemos antes, o contexto em que esta criança
vive e cresce e suas questões motoras e cognitivas também são relevantes
no reconhecimento de qualquer fase. O período da Garatuja, muitas
sxv.hu

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

vezes não é valorizado pela escola, é um momento rico em que a criança pequena aprende
a manipular riscadores. Um lápis, um pedaço de giz de cera ou até mesmo seu dedinho são
materiais expressivos no registro de suas descobertas e na exploração do espaço da folha de
papel, parede ou outro suporte.
A criança sente prazer em fazer linhas em todos os sentidos, descobrem as muitas possibilidades
que seu corpo pode traçar, um lápis ( um riscador) pode ser entendido como ampliação do seu
corpo, assim as crianças desenham com o corpo, e não apenas com as mãos. Fazem movimentos
corporais ao desenhar em linhas rápidas, lentas, no meio da folha, nos cantos. Hora são linhas
produzidas com força, hora são linhas suaves, desenhando, percebem o potencial de seu corpo
e da sua imaginação.
É um momento de experimentação e não há intenção de representar algo figurativo.
Neste movimento o desenho figurativo não é importante. O desenho é uma maneira de
expressão singular de cada criança, com o tempo as crianças passam de linhas e formas
abstratas a figuras, elementos visuais que muitas vezes se repetem na mesma composição ou
em ocasiões diferentes. Neste movimento (fase) ofereça muitos materiais, de diferentes tipos.
Ofereça também para criança suportes grandes como folhas de papel ou espaços em paredes
preparadas para este fim. Não pergunte o que ela quis fazer ou crie expetativas de formas
figurativas, esta fase não se exige isto.

Segundo movimento: a criança em momentos simbólicos.

“A criança está atenta e aberta às experiências e ao mundo, sem medo dos


riscos, por isso arrisca-se. Vive intensamente”(MARTINS , 2010, p.89).

Ao observar os desenhos das crianças entre 3 anos e meio a 5


anos podemos perceber que as crianças têm ritmos diferentes na
sua produção artística, os movimentos também são influenciados
pelo meio social em que vivem. Notamos que há momentos
abstratos, pré-figurativos e figurativos em que as figuras humanas
são protagonistas. Childrens Book Review - Flickr.com

Percebemos nesta fase os desenhos de raio-X, em que a criança desenhar o que está dentro
das figuras ou casas. Como por exemplo, uma criança que desenha a mãe que está gravida de
seu irmãozinho. Há também efeitos chamados de repartimento, em que vemos nos desenhos
visões de planos laterais e aéreos como por exemplo, o desenho de um campo de futebol em
que os goleiros estão deitados um de lado e o outro no lado contrário.
A produção artística das crianças neste movimento tem ênfase na fase simbólica, elas
desenham aquilo que sabem do que vê e não exatamente o que vê. A função das coisas tem
maior atenção em relação à descrição, a cor é simbólica e não relacional. A criança conta
histórias sobre o seu desenho, é a idade da fabulação e as ideias colocadas em seus desenhos
apresentam um mundo muito particular, mostram a sua imaginação.

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Trocando Ideias
O pintor Pablo Picasso dizia que pintava as coisas com as imaginava e não exatamente como as via,
assim é o desenho da criança nesta fase, é uma produção simbólica e não realista.

Neste momento do desenho da criança aparecem as primeiras figuras. Percebemos no adulto


uma ansiedade para compreender essas produções, assim estimulam as crianças a realizarem
suas figuras mais próximas do real, mais isto é uma necessidade do adulto e não essencialmente
da criança. Vemos que na escola muitas vezes os modelos estereotipados são apresentados as
crianças para sanar uma insegurança dos adultos, normatizando a produção. Este procedimento
desvaloriza o processo de criação dos pequenos.

Atenção
Desenhos prontos não devem ser oferecidos as crianças em nenhuma idade ou função como de re-
creação ou em datas comemorativas, isto atrapalha a sua produção e limita sua criatividade. Inclusi-
ve há alguns desenhos que já vêm até com as cores determinadas, mostrando onde deve ser pintado
de verde ou vermelho como no caso de arvores por exemplo. Este tipo de desenho de árvores mostra
que estas são sempre de um único jeito. Isto além de atrapalhar o desenho, no caso deste exemplo,
também ensina um conceito em ciências errado, porque sabemos que a natureza é formada pela
biodiversidade. Enfim, não devemos dar desenhos prontos as crianças em nenhuma situação ou
data comemorativa. Isto é um grande problema na escola, porque para alguns professores sem co-
nhecimento e até acomodados esta prática é bastante corrente e aceita.

Outro problema bastante comum é a colocação de legendas nos desenhos. As crianças


percebendo que não se fazem entender pelos seus desenhos, ficam inseguras e com o tempo
diminui o seu ritmo de produção. Aprendem a dizer que não são boas em desenhar.
Os desenhos das crianças, em função de práticas metodológicas equivocadas por parte da
escola, com o tempo ficam cada vez mais pobres e padronizados. Ou seja, a criança entra na
escola com um grande potencial expressivo e criativo e sai da escola depois de anos sem saber
desenhar ou criar. É muito comum ver em desenhos de adultos, casas, flores, árvores, figuras
humanas com formas mecânicas e repetitivas. A escola geralmente quando não sabe trabalhar
com o processo criador da criança, faz um desserviço, atrapalhando muito mais que ajudando.
O papel da escola é fazer a criança crescer e se desenvolver e não estagnar sua produção
criadora. A criança pode ter seu processo criador potencializado pelos educadores na escola,
mas estes precisam estar sensíveis e conscientes de seu papel para não contaminar os desenhos
das crianças com formas estereotipadas.
Pablo Picasso dizia que a criança produz a verdade em seus desenhos e pinturas, gostava de
dizer que a antes ele desenhava como Rafael ( artista renascentista), mas precisou de toda uma
existência para aprender a desenhar como as crianças.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

Diante dos desenhos das crianças, nós adultos precisamos ser cuidadosos e estar atentos as
falas e movimentos. Oferecer muitos materiais, oportunidades e situações de aprendizagem em
que elas possam experimentar e criar com liberdade é um caminho.
Como dissemos antes escrever ao lado do desenho da criança, fazendo legendas que
chamam mais atenção que a obra da criança, apresenta uma ideia de não compreensão o
que pode frustrar a criança. Quando escrevemos sobre os desenhos estamos interferindo na
visualidade, já não é mais o desenho deles e sim um monte de escritas, muitas vezes realizadas
com canetas vermelhas que realçam a anotação do educador, em que o desenho da criança
fica em segundo plano.
Não precisamos saber exatamente o que elas dizem em seus desenhos, mas ouvi-las é
importante, desse modo chegamos a conclusão que é melhor não perguntar “o que você quis
desenhar”, mas estimular a criança a contar a história do seu desenho. Anotações podem ser
feitas na parte de trás do desenho para não danificar os desenhos das crianças.
Como um exemplo para sua reflexão segue um relato de uma situação real acontecida em
uma sala de aula que envolveu uma professora e uma criança de cinco anos de idade.

O caso do desenho da Bailarina.


“Uma professora dedicada ao seu trabalho solicitou certa vez que sua turma falasse e desenhasse
sobre as coisas que eles mais gostavam de fazer. Uma garotinha de cinco anos de idade, disse que
gostava de dançar Balé, um garoto da mesma idade manifestou o prazer que tinha em jogar Futebol.
Cada criança foi colocando suas preferências. Depois da conversa a professora pediu a eles que se
desenhassem fazendo suas coisas preferidas. A garotinha que gostava de Balé começou a desenhar
uma bela Bailarina, com roupas cor de rosa, sapatilhas vermelhas e uma fita amarela para prender o
cabelo, igual ao que as bailarinas costumam usar. A professora passava entre as mesas para ver como
os seus alunos desenvolviam a tarefa.
Quando olhou para o desenho da menina ficou feliz, conseguia ver nitidamente uma bela bailarina,
mesmo assim sentou ao lado da criança e carinhosamente fez uma interferência, desenhou uma
flecha indicando a palavra Bailarina. Que belo desenho! Disse a professora ao se levantar. A
criança preenchida de alegria ao perceber que agradá-la a professora continuou seu desenho.
Com um lápis de cor preta começou a cobrir a figura da Bailarina com linhas curvas em traços
rigorosos e intensos. A bailarina cor de rosa tinha já quase desaparecido em meios as linhas pretas
quando a professora notou o ocorrido e deu um grito com a criança indagando: Por que você
estragou seu desenho? A menina assustada com a reação da professora tentou se explicar: Não
estraguei não, eu desenhei a musica! “

É possível que a bailarina dance sem música? Na visão da menina não. Não precisamos
compreender os desenhos das crianças como compreendemos uma bula de remédio. A
interpretação dos desenhos feitos pelos pequenos requer um olhar mais sensível com foco no
universo particular, imaginário de cada aprendiz.
Na produção da criança vemos como ela busca resolver seus problemas, na intenção de
representar as coisas. Mas esta representação não está na forma, está nas soluções que dá para
mostrar sua interpretação sobre o mundo. No entanto esta busca na representação não segue a
ideia de real por aparência do objeto desenhado, mas na investigação de recursos técnicos e de
linguagem. É uma representação simbólica.

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Terceiro movimento: desenhando e aprendendo a escrever.

[...]
Do que é feita a nuvem
Do que é feita a neve
Como é que se escreve
Reveillon

Well, Well, Well


Gabriel...
(Trecho da música: Oito anos, Adriana Calcanhotto)

Com a linguagem escrita em pleno desenvolvimento expressivo a criança percebe que há


um mundo com signos que pode usar para se comunicar e se relacionar culturalmente. No seu
desenho aparece um sentimento de busca de “verossimilhança em sua representação”. É uma
fase de transição entre uma concepção de mundo simbólico e a compreensão de realidades
que acontece geralmente com a chegada dos seis anos de idade e se estende até aos nove
para dez anos. Mas é importante lembrar que dentro desta fase há muitas particularidades de
desenvolvimento, já que cada criança um ser singular.

Nesta fase a criança é muito curiosa e tem interesse cientifico nas coisas do mundo. São os
momentos de muitas perguntas; como funciona isto ou aquilo? Como nascem as coisas? Há
muita curiosidade no pensamento que quer conhecer melhor o mundo, mente imaginativa e
pesquisadora em plena vivacidade.

Na produção da criança vemos como ela busca resolver seus problemas, na intenção de
representar as coisas mais próximas do que são. Mas esta realidade não está na forma, está
nos detalhes e descrição, como exemplo colocar listas em uma figura para mostrar que se trata
de uma abelha.

A criança expressa seu potencial criador a partir da relação entre observação, memória e
imaginação. Já sabemos que apresentar modelos de imagens é uma pratica que se torna negativa,
mas por outro lado apresentar obras de arte as crianças para que elas conheçam e ampliem o
seu olhar é bastante positivo. Assim como trazer imagens do cotidiano como ilustrações, cenas
de desenhos animados, imagens publicitarias e outras da cultura visual, podem fazer dessa
criança uma leitora de imagens mais critica. Porém a apreciação de imagens tem como objetivo
nutrir o olhar das crianças e não deve ser usadas para releituras que se caracterize como cópias.

Apresentar os elementos de linguagem também pode ampliar o conhecimento da criança


a respeito da linguagem do desenho, como se constitui e como ela pode realiza-lo com maior
segurança e riqueza de detalhes e narrativas. É a alfabetização visual. A autora Fayga Ostrower
(1991, p. 65.) diz que com apenas cinco elementos de linguagem podemos realizar muitas obras
visuais: superfície, linha, volume, cor e luz.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

Quarto movimento: a descobertas de estilos


Por volta dos onze anos a criança começa um momento de muitas mudanças em sua vida, é
a fase da adolescência que começa a despontar. Esta fase se desdobra até o fim da adolescência
é uma fase de transição e questões como “quem sou? Do que gosto? Do que minha turma
gosta? Para onde vou? Como posso me expressar? São latentes na garotada que está preparada
para conhecer a arte e seus códigos e linguagens.
É comum os jovens acharem que desenho é coisa de criança pequena, outro problema pode
ter sido como o desenho foi tratado na escola. Mas há adolescentes que gostam de desenhar e
fazer arte. Linguagens como teatro e musica por exemplo são bem procuradas para expressão
dos jovens. A escola deve aproveitar estas características.
Neste momento aparecem nos desenhos imagens surrealistas, paisagens, desenhos de
moda em que as meninas criam figurinos novos e fazem desenhos românticos enquanto é
mais comum ver nos desenhos de meninos os super-heróis, carros e logótipos. Os desenhos
de Mangá (quadrinho de origem oriental) são apreciados tanto por meninas como meninos.
As representações de gêneros de sexo feminino ou masculino, pode aparecer, mas hoje estas
questões são tratadas de modo mais aberto e isto não é uma norma. Este é um momento em
que as técnicas e teorias de arte podem ser mais trabalhadas.

Para refletir
O ensino de arte deve ser lúdico, em que brincar é fundamental para aprender principalmente
nos três primeiros movimentos. As crianças elaboram traços e desenhos simbólicos, depois
criam desenhos mais descritivos e reais, buscam por estilos e linguagens expressivas. Em cada
movimento há sempre uma potencialidade a ser desenvolvida pelos educadores com crianças e
adolescentes, cabe a cada escola, elaborar um plano de ação educativa que valorize o processo
de criação dos alunos. Para criar é preciso ter repertorio assim a escola deve ampliar sempre os
saberes dos alunos, sem nunca podar seu modo de descobrir e reinventar o mundo.
O estudo do desenvolvimento da capacidade criadora e expressa nas artes na formação de
pedagogos é fundamental para que mais mudanças sejam realizadas a fim de formar no futuro
pessoas mais criativas. O pedagogo além de atuar no ensino de arte em séries iniciais, também
pode ocupar cargos de coordenação e orientação pedagógica. Neste sentido saber sobre os
conceitos e novas propostas didáticas para o ensino de arte é fundamental neste processo de
valorização da arte na escola.
Para finalizar a unidade II, convidamos você a fazer uma reflexão. O texto apresentado nesta
unidade cita questões sobre a criatividade e as fases do desenvolvimento artístico com foco no
desenho das crianças.
Agora pense a respeito:
Você acha mesmo que oferecer desenhos prontos e estereotipas pode prejudicar o
desenvolvimento das crianças?
Como você acha que o desenho deve ser trabalhado na escola?
O que é um bom trabalho de arte para você?

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Em sua opinião, ter criatividade é uma questão de dom, genialidade ou desenvolvimento
intelectual?
Você se considera uma pessoa criativa?
Como são os seus desenhos? Você acha que a escola influenciou o modo como você desenha
hoje?
O que você aprendeu de novo ao estudar esta unidade?
Essas questões nos ajudam a pensar sobre os processos de criação e qual o papel da escola
neste desenvolvimento. E também sobre a importância da arte em nossa educação.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

Material Complementar
Há dois materiais para ampliar seus estudos:
1- Assista ao filme Leitura do Desenho Infantil (O desenho estranho). Disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=xs7_G-edPvI. Acesso em 10 de junho de 2013.

2- Leia a reportagem O percurso do desenho livre de estereótipos, disponível em:


https://goo.gl/XBC6vn. Acesso 10 de junho de 2013.

Os dois materiais podem ampliar sua visão sobre a produção artística das crianças.

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Referências
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Disponível em: <http://super.abril.com.br/blogs/superblog/frase-da-semana-a-imaginacao-e-
mais-importante-que-o-conhecimento-einstein/>. Acesso em: 21 maio 2013.

ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Planeta do Brasil, 2008.

ERDIK, Edith. Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil. 4.


ed. rev. ampl. Porto Alegre, RS: Zouk, 2010.

FARIA, Ana Lúcia Goulart de. Educação pré-escolar e cultura: para uma pedagogia da
educação infantil. Campinas: Ed. da Unicamp, São Paulo: Cortez, 1999.

KEHRWALD, Isabel Petry. Processo criativo: para quê? para quem? disponível:<http://
artenaescola.org.br/sala-de-leitura/artigos/artigo.php?id=69372&%5Cprocesso_criativo_para_
que_para_quem>. Acesso em 10 de junho de 2013.

LARROSA, Jorge. Linguagem e educação depois de Babel. Belo Horizonte: Autêntica,


2004.

LOWENFELD, Viktor. Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou,


1970.

MARTINS, M. C. PICOSQUE, G. GUERRA, M. T. Teoria e prática do ensino de arte: a


língua do mundo. São Paulo: FTD, 2010.

OSTROWER, F. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Editora Campos Ltda,1983.

____________. Criatividade e processo de criação. 21ª ed. – Petrópolis: Vozes, 2007.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1990.

VYGOTSKY. La imaginación y el arte en la infancia. Madrid: Akal, 1990.

______. A formação social da mente. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

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Unidade: Criatividade e desenvolvimento artístico

Anotações

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www.cruzeirodosulvirtual.com.br
Campus Liberdade
Rua Galvão Bueno, 868
CEP 01506-000
São Paulo SP Brasil
Tel: (55 11) 3385-3000