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A América Latina Existe?

Existe uma América Latina? Não há dúvida que sim. Mas é sempre bom aprofundar o
significado dessa existência.

No plano geográfico é notória a unidade da América Latina como fruto de sua


continuidade continental. A esta base física, porém, não corresponde uma estrutura
sócio-política unificada e nem mesmo uma coexistência ativa e interatuante. Toda a
vastidão continental se rompe em nsacionalidades singulares, algumas delas bem pouco
viáveis como quadro dentro do qual um povo possa realizar suas potencialidades.
Efetivamente, a unidade geográfica jamais funcionou aqui como fator de unificação,
porque as distintas implantações coloniais, das quais nasceram as sociedades latino-
americanas coexistiram sem conviver, ao longo dos séculos. Cada uma delas se
relacionava diretamente com a metrópole colonial. Ainda hoje, nós, latino-americanos,
vivemos como se fôssemos um arquipélago de ilhas que se comunicam por mar e pelo
ar e que, com mais freqüência, voltam-se para fora, para os grandes centros econômicos
mundiais, do que para dentro. As próprias fronteiras latino-americanas, correndo ao
logo da cordilheira desérica, ou da selva impenetrável, isolam mais do que comunicam e
raramente possibilitam uma convivência intensa.

(...) Voltando a olhar o conjunto da América Latina, observam-se certas presenças e


ausências que colorem e diversificam o quadro. Por exemplo, a presença indígena é
notória na Guatemala e no Altiplano Andino, onde é majoritária, e no México onde os
índios se contam aos milhões e predominam em certas regiões. Nestes casos, é tão
grande a massa de sobreviventes da população indígena que se integrou às sociedades
nacionais com um campesinato etnicamente diferenciado, que seu destino é se
reconstituírem, amanhã, como povos autônomos. Isto significa que países como a
Guatemala, a Bolívia, o Peru e o Equador e áreas extensas de outros como o México e a
Colômbia estarão sujeitos, nos próximos anos, a profundas convulsões sociais ou os
restaurarão como federações de povos autônomos.

Totalmente distinta é a situação dos demais países onde só se encontram microetnias


tribais, mergulhadas em vastas sociedades nacionais etnicamente homogêneas. Nestes
casos, uma presença indígena visível, seja na língua como o guarani do Paraguai —
seja, sobretudo no fenótipo da maioria da população como o corre no Brasil, no Chile e
na Venezuela —, deve serlevada em conta.

(...) Assim, os continentes negros e indígenas tiveram de enfrentar enormes obstáculos


para ascender da condição de escravos à de proletários concentraram-se principalmente
nas camadas mais pobres da população. Além da pobreza oriunda da superexploração
de que foram e são vítimas, pesa sobre eles muita discriminação, inclusive a proveniente
da expectativa generalizada de que continuem ocupando posições subalternas, as quais
dificultam sua ascenção a postos mais altos da escala social.

(...) O certo é que nossa latino-americanidade, tão evidente para os que nos olham de
fora e vêem nossa identidade macroétnica essencial, só ainda não faz de nós um ente
político autônomo, uma nação ou uma federação de estados nacionais latino-
americanos. Mas não é impossível que a história venha a fazê-lo. A meta de Bolívar
era opor aos estados unidos setentrionais os estados unidos meridionais. A P\atria
Grande de Artigas, a Nuestra América de Martí apontam no mesmo rumo.
(...) A expressão América LAtina alcança conotações altamente significativas na
oposição entre anglo-americanos e latino-americanos, que, além de seus diversos
conteúdos culturais, contrastam mais fortemente ainda quanto aos antagonismos sócio-
econômicos. Aqui, os dois componentes se alternam, como a América pobre e a
América rica, com posições e relações assimétricas de poderio em um pólo e
dependência no outro. Pode-se dizer que, de certa forma, é principalmente como o
outro lado da América rica que os latino-americanos melhor se reúnem debaixo de uma
mesma denominação.

(...) A unidade essencial da América Latina decorre, como se vê, do progresso


civilizatório que nos plasmou no curso da Revolução Mercantil — especificamente, a
expansão mercantil ibérica —, gerandouma dinâmica que conduziu à formação de um
conjunto de povos, não só singular frente ao mundo, mas também crescentemente
homogêneo. Mesmo quando sobreveio um novo processo civilizatório, impulsionado,
desta vez, pela Revolução Industrial, e a América LAtina se emancipando da regência
ibérica — e no mesmo impulso se fragmentou em múltiplas unidades nacionais —,
aquela unidade macroétnica se manteve e se acentuou. O processo civilizatório que
opera nos nossos dias, movido agora por uma nova revolução tecnológica — a
termonuclear —, por mais que afete os povos latino-americanos, só poderá reforçar sua
identidade étnica como um dos rostos pelo qual se expressará a nova civilização. É
atémuito provável que engendre a entidade política supranacional que, no futuro, será o
quadro dentro do qual os latino-americanos viverão o seu destino. Dentro deste quadro
se destacarão mais visíveis e afirmativasdo que hoje algumas nacionalidades (quéchua,
aimará, maia, mapuche etc.) atualmente oprimidas. Mas o cenário macroétnico dentro
do qual todos os povos do subcontinente coexistirão terá uma feição ibero-americana.

(Darcy Ribeiro, América Latina: a Pátria Grande)