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Copyright© 2018 — Todos os direitos reservados a: Drago Editorial

Nome da Obra: A Tragédia dos Romanov


Autora: Márcia Sarcinelli
Revisão: Patrícia Drago
Capa e diagramação: Denis Lenzi
Editores Responsáveis: Gustavo Drago & Patrícia Drago

Imagens da capa: Portrait of Grigori Rasputin (Wikipedia)


Alexandra Feodorovna & Tsar Nicholas II (Wikipedia)

Dados de Catalogação

Sarcinelli, Márcia
A tragédia dos Romanov/ Márcia Sarcinelli
1ª edição - Rio de Janeiro, RJ - Drago Editorial, 2018.

ISBN: 978-85-9596-115-9

1 - Biografia, 2- História, 3 - Literatura Brasileira

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utili-
zada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem a autorização
por escrito da editora.
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

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Aos meus pais,
Marci e Guilherme Sarcinelli

Em memória de
Gianfranco Santagata
Agradecimentos

Professor Cid de Oliveira

Glecy Coutinho

José Hildo Sarcinelli Garcia


Sumário

INTRODUÇÃO............................................................................................................13

I. A HERANÇA POLÍTICA DE NICOLAU II.....................................................15

II. CZARÉVITCH NICKY.........................................................................................29

III. SUNNY....................................................................................................................35

IV. ROMANCE E TRAGÉDIA.................................................................................45

V. NICOLAU O INFORTUNADO..........................................................................71

VI. HAIA........................................................................................................................93

VII. O ALMIRANTE DO PACÍFICO.....................................................................97

VIII. NICOLAU O SANGUINÁRIO....................................................................117

IX. A MALDIÇÃO HEREDITÁRIA.....................................................................139

X. LUPUS IN FABULA............................................................................................153

XI. ARMAGEDON....................................................................................................205

XII. ANTES DO FIM................................................................................................245

XIII. GOSPODIN ROMANOV..............................................................................289


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INTRODUÇÃO
“O caráter de um homem é o seu destino.”
(Heráclito)

Alexandre III, pai de Nicolau II, fundamentou seu reinado em seu


pavor de atentados e em seu ódio a tudo o que vagamente recendesse a
liberalismo. Os métodos terroristas que utilizava para combater o terrorismo
garantiram seu lugar na galeria de horrores dos czares russos. E no entanto,
nem ele, nem Pedro o Grande, notório por sua crueldade, foram chamados
sanguinários. Esse epíteto a Rússia reservaria para Nicolau II, o doce e
frágil czar dos olhos de gazela.
Sem ser cruel – ao contrário, sendo essencialmente bom e amável –
Nicolau II promoveu bárbaras carnificinas e iniquidades indefensáveis em
um reinado acéfalo e predominantemente caótico, e entra para a História
como um czar sanguinário. Suas inegáveis virtudes pessoais (amor à pátria,
lealdade, dedicação à família, senso de honra e de dever, temperamento
amável e completa devoção a Alexandra, o amor de sua vida) não contri-
buíram para torná-lo um bom czar, e ainda menos um grande czar. Para
a História, suas boas intenções e as qualidades morais que o distinguiam
em sua vida privada são acessórios secundários, obliterados por seus atos e
omissões no exercício de sua vida pública.
Alexandra, a imperatriz mais odiada de todos os tempos, é musa e
coautora de tragédias pessoais e coletivas, e a primeira de uma longa série de
escolhas insalubres deste homem banal e infortunado. Dramas e catástrofes
Nicolau e Alexandra enfrentariam unidos, perplexos e resignados ao que
consideravam a inexorabilidade do destino ou a vontade de Deus.
Chegada a sua hora, Rasputin surge-lhes, terrível e maravilhoso,
repelente e irresistível, personificando as “forças obscuras” que infectavam
o trono. Íncubo que aceleraria a destruição do Império e o trágico fim
dos Romanov, para a Rússia, Rasputin era a encarnação do demônio; para
Nicolau e Alexandra, a resposta a todas as suas preces.
Juntos, Nicolau e Alexandra resistiriam com cega pertinácia aos
conselhos de amigos, parentes e servidores capazes e fiéis, aos apelos da
razão, ao acúmulo das evidências de seus desacertos e aos anúncios da
catástrofe que se delineava, e nada os salvaria de si mesmos. Até o fim,
jamais compreenderiam o que lhes acontecera, o que fizeram a si próprios,
à sua família, à dinastia e à Rússia. Alexandra limitar-se-ia a ruminar seu
rancor pela traição de todos e a cultivar seu orgulho e mau humor, que o

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tempo e as intempéries conseguiriam exacerbar. Nicolau apegar-se-ia a um


fatalismo que o absolvia de culpas e erros e o eximia de autocrítica.
Talvez, como observa o historiador Robert Massie em “Nicholas
and Alexandra”, não seja justo equiparar Nicolau II a seus grandiosos
ancestrais, pois seria impossível determinar como eles teriam reagido às
pressões que Nicolau sofreu e aos cataclismos que o aguardavam na aurora
de um século convulso. Por outro lado, ao compará-lo a seus contempo-
râneos nos tronos da Europa (os reis Eduardo VII e Jorge V, o Kaiser
Guilherme II e o Imperador Francisco José), verifica-se que a mesma
catástrofe que catapultou os Romanov do trono russo destituiu Guilherme
II e Francisco José de seus impérios. Quanto a Eduardo VII e Jorge V
(respectivamente tio e primo de Nicolau), suas virtudes e temperamentos
eram muito semelhantes àqueles do último czar. Na Inglaterra, onde era
necessário apenas que o soberano fosse um bom homem para ser um
bom rei, o autocrata tão execrado provavelmente teria sido um monarca
exemplar.
Nicolau II era um homem do século XIX lançado no turbilhão de
acontecimentos dramáticos e ideias radicais que caracterizaram o século
XX, no qual foi obrigado a reinar e cujas dimensões não foi capaz de
apreender. Por sua incapacidade de adaptar-se aos novos tempos e às suas
necessidades, o último czar viu esfacelar-se o mundo que conhecia e amava
e assistiu perplexo à ruína de seu Império. Um homem comum com uma
missão extraordinária, estava condenado a decepcionar sucessivamente,
porque seu destino era muito maior do que ele, e esmagou-o. Por estar
tão aquém de desempenhar a função a que se via fadado por um decreto
divino, Nicolau II condena à extinção o próprio conceito desta função na
História da humanidade.
Decididamente, Nicolau II não foi um grande homem. Mas a sua é
uma grande história e merece ser contada.

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I
“De vós, milhões existem;
De nós – enxames e enxames e enxames.
Tentai lutar contra nós.
Sim, nós somos os citas; asiáticos, sim
De olhos oblíquos e cúpidos
...Oh, velho mundo
A Rússia é uma esfinge.
Na alegria e na dor
E jorrando sangue negro
Ela te inquire, inquire, inquire
Com ódio e com amor...”

(A. Blok, “Os Citas”)


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A HERANÇA POLÍTICA DE NICOLAU II


“É o jugo de Gêngis Khan que até hoje desonra a
alma do povo sobre o qual se abateu.”
(K. Marx)

Desde que começaram a penetrar as florestas e estepes russas, a


partir do século VI, os eslavos estavam habituados à constante ameaça
representada por povos nômades belicosos. Nada, entretanto, preparara-os
para a invasão dos mongóis no inverno de 1236-7, a única invasão bem-su-
cedida da Rússia durante o inverno em toda a história. Seu aparecimento,
“como uma escuridão perseguida por uma nuvem”, causou um choque
ainda não completamente eliminado da consciência coletiva do povo russo,
um impacto moral e espiritual sem par na história do país.
Proclamado “Altíssimo Senhor” dos povos mongóis, turcos e
tártaros, Gêngis Kahn (1167-1227 circa) reunira os povos das estepes e
lançara-se à conquista do mundo. O “flagelo de Deus” submeteu sem
piedade e “sem descer da sela” um império que se estendia da China
Setentrional ao Mar Negro. Seus descendentes continuariam sua missão de
“Soberano do Universo” tomando e arrasando Bagdá, onde massacraram
100.000 habitantes, chegando à Palestina, ainda ocupada pelos cruzados,
ao norte da Índia e à Europa Central.
O enorme exército liderado por Batu, o neto de Gêngis Khan que
herdara “todos os territórios do Império Global Mongol na direção do
sol poente”, representava uma poderosíssima força militar incomparável
na época, e penetrou a floresta russa massacrando, queimando e pilhando
cidades e vilas. Este ramo do Império Mongol era conhecido como a Horda
de Ouro e era uma visão infernal: milhares de cavaleiros portando lanças,
sabres, adagas, arcos e escudos, que galopavam a uma incrível velocidade
em todas as direções como uma nuvem de gafanhotos e que quase nunca
desmontavam. Os guerreiros comiam sobre as selas, sob as quais mantinham
provisões de carne crua temperada com alho e cebola (sua contribuição à
culinária internacional); suas tendas eram facilmente montadas e erguidas
quando levantavam acampamento e com igual facilidade transportadas na
garupa dos cavalos. Cada guerreiro mongol possuía até quatro cavalos,
e um mongol montado era uma força colossal. Depois de lançar sobre
seus adversários uma chuva de flechas que escureciam o dia e perfuravam
armaduras, a cavalaria mongol atirava-se sobre os sobreviventes com
lanças e foices. Durante os cercos, os guerreiros costumavam catapultar

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cadáveres, além de pedras, para dentro das fortalezas inimigas. Marco Polo
escreveria sobre os mongóis em suas “Viagens”:

“Eles nunca combatem de maneira previsível, mas circulam incessantemente


enquanto disparam contra o inimigo. E como não consideram desonra fugir de uma
batalha, às vezes fingem fazê-lo e, ao se afastarem, viram-se sobre a sela e... lutam como se
estivessem cara a cara com o inimigo, devido à grande quantidade de flechas que lançam
na direção de seus perseguidores, que já se consideravam vencedores.”

A dinâmica de combate dos incomparáveis guerreiros mongóis


(importância do elemento surpresa, ataque aos flancos do inimigo e em
todas as direções ao mesmo tempo, cerco, fuga simulada etc.) aliada às
técnicas apreendidas dos chineses (artilharia e técnicas de assédio) inspiraria
a Blitzkrieg (Guerra-Relâmpago) de Hitler, na II Guerra Mundial.
Depois de reduzir Kiev a cinzas, os invasores seguiram em
direção ao Oeste. Teriam conquistado toda a Europa se em 1242, quando
o continente parecia à mercê do terror mongol, a notícia da morte do
Grande Khan não os levasse de volta à Mongólia, para não mais voltar. A
esta altura, o imenso Império Mongol estendia-se do Japão à Hungria.
Todo o Nordeste da Rússia e Novgorod tornaram-se estados
tributários da Horda de Ouro, cujo centro situava-se em Sarai, no Baixo
Volga. Na verdade, o exército invasor era liderado pelos mongóis, mas
constituía-se em sua maioria de povos de origem turca, conhecidos como
tártaros. Os mongóis não estavam interessados em terras e, ao invés de
ocupar os territórios conquistados como haviam feito na China e no
Irã, países bem mais ricos e civilizados do que a Rússia, impuseram-lhe
tributos a serem pagos em moeda e recrutas. Todas as cidades eram
forçadas a abrigar oficiais mongóis e suas guardas armadas, cuja função
era coletar impostos, selecionar e enviar recrutas (especialmente crianças) e
salvaguardar os interesses do Khan. Nenhuma força os detinha ou impedia
que cometessem todo o tipo de atrocidades contra a população refém, e as
crônicas russas da época relatam profusamente as barbaridades perpetradas
por eles. Em raras ocasiões a população se rebelava, e sua insubordinação
era invariavelmente punida de forma brutal.
Seria, entretanto, um erro pensar nos mongóis e tártaros da Horda
de Ouro simplesmente como uma malta de bárbaros sanguinários. À época,
eles eram, sob todos os aspectos, culturalmente superiores aos russos.
Como demonstrariam eloquentemente alemães e japoneses durante a II
Guerra, povos altamente civilizados tendem a comportar-se de maneira

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odiosa em território conquistado. Quanto maior a diferença cultural entre


conquistador e conquistado, maior a possibilidade de encarar suas vítimas
como sub-humanas e de tratá-las como tal.
O Khan mongol tornou-se o primeiro soberano incontestável
da Rússia, referido como o Czar (ou César), título até então reservado
ao Imperador de Bizâncio. Vigiados pelos agentes mongóis, os príncipes
russos eram obrigados a agir contra seus próprios interesses e sobretudo
contra seus próprios súditos, arrancando da população os tributos em
moedas e recrutas exigidos pelos invasores. Ao menor sinal de desobe-
diência eram punidos, muitas vezes com a morte. Com o passar do tempo,
uma espécie de seleção natural determinaria que apenas os mais cruéis e
oportunistas dentre os príncipes sobrevivessem, e a “colaboração” passou
a ser a maior virtude política russa.
O domínio mongol na Rússia deixaria marcas profundas e sequelas
políticas perversas. Os russos absorveram dos mongóis a concepção política
que limita as funções do Estado à coleta de impostos e à manutenção da
ordem, eximindo-o de qualquer responsabilidade pelo bem-estar público.
O isolamento dos príncipes de seus súditos (que sempre fora uma tendência
dos príncipes russos) foi agravado pela influência mongol, tornando-os
ainda menos conscientes de suas responsabilidades políticas e mais
ambiciosos e predatórios. Acostumou-os, também, assim como a toda a
população, a encarar toda autoridade como arbitrária. Ao príncipe, por
qualquer tipo de infração ou ao menor sinal de agitação popular, bastava
ameaçar chamar os mongóis (como mais tarde chamariam os cossacos),
para garantir obediência instantânea, prática que logo se tornaria um hábito.
A vida na Rússia foi extremamente brutalizada pela convivência
com o invasor violento e rapace. A pena de morte, por exemplo, foi
introduzida no código penal russo pelos mongóis, assim como práticas
punitivas cruéis, como a tortura e a mutilação. O chicote também foi um
legado tártaro. A ideia de que o Estado é basicamente arbitrário e iníquo
e de que é preciso obedecê-lo e submeter-se simplesmente porque ele é
forte passaria a integrar definitivamente a mentalidade russa. As caracte-
rísticas do desenvolvimento interno do Estado – o abismo que separa a
autoridade política da sociedade e o modelo patrimonial de governo –
devem igualmente à Horda de Ouro e aos cerca de dois séculos de domínio
mongol, as suas sementes.
Uma excelente análise da influência tártaro-mongol sobre o regime
e a psicologia do povo russo é apresentada pelo diplomata francês Marquês
de Custine em seu famoso relato de viagem à Rússia:

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“Os grãos-duques de Moscou, forçados a oprimir seus povos em proveito dos


tártaros, carregados eles próprios como escravos até os confins da Ásia, ordenados a
comparecer perante a Horda em virtude de qualquer capricho, reinando apenas sob a
condição de que servissem de instrumento dócil à opressão, destronados tão logo
deixassem de obedecer, instruídos no despotismo pela servidão, esses príncipes familia-
rizariam seus povos com as violências da conquista que sofriam pessoalmente: eis como,
ao correr do tempo, os príncipes e a nação se perverteram mutuamente...” (“La Russie
en 1839”).

As crises dinásticas seguidas pelo colapso da Horda de Ouro no final


do século XIV, a queda de Constantinópoles e o fim do Império Bizantino
no século XV libertam a Rússia da subserviência aos dois impérios, cujo
legado modelaria seu perfil político e seu modelo religioso. Os tártaros,
últimos ocupantes asiáticos, permaneceriam na Rússia por cerca de 500
anos.
Na segunda metade do século XV, os grandes príncipes de Moscou
começam a reclamar o título imperial. Ivan III seria o primeiro governante a
autoeleger-se Czar, título originalmente conferido ao Imperador Bizantino
e ao Khan da Horda de Ouro. Moscou proclama-se a incorruptível e eterna
“Terceira Roma”, destinada a substituir para sempre as corruptas e extintas
Romas de Pedro e Constantino.
Finalmente emancipados, os czares conseguiriam transformar
a Rússia, que em 1600 era tão vasta quanto o resto da Europa, em um
gigantesco império, com um altíssimo custo para todos os envolvidos. O
ritmo e o vigor de sua expansão não têm precedentes na História: entre
a metade do século XVI e o fim do século XVII, a Rússia acumula uma
média de 35.000 km (o equivalente à Holanda de hoje) por ano, durante
cento e cinquenta anos consecutivos. Na metade do século XVII a Rússia
conquista a Sibéria, duas vezes maior do que toda a Europa, e reina sobre
o maior território do planeta.
Apesar de sua imensidão territorial, o estado russo era relativamente
pobre, e uma das razões desta condição era sua baixa densidade popula-
cional, mesmo para os padrões da época. Enquanto na Europa Ocidental
a densidade populacional média no século XVI girava em torno de 20 a
30 habitantes por km², nas regiões mais populadas da Rússia – Novgorod,
Pskov e o Volga – esta média não excedia 1 a 3 habitantes por km². Grande
parte da Rússia era composta de floresta virgem e de regiões totalmente
selvagens e, entre os Urais e Tobolsk, capital da Sibéria, numa distância de
aproximadamente 750 km, viviam cerca de 10 mil habitantes.

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Estas questões, entretanto, não preocupavam os poderosos czares,


satisfeitos por reinar absolutos sobre um território que ultrapassava a
superfície da Lua. Herdeiros dos Khans mongóis, os czares russos sempre
tenderiam a identificar poder político com o acúmulo de território e este
com a autoridade absoluta. As ideias de equilíbrio do poder que nasciam
na Europa Ocidental no século XVII e o conceito de reciprocidade entre
o Estado e a sociedade permaneceriam alheios à sua mentalidade, como à
dos russos em geral. Até o século XVIII, os russos sequer tinham noção de
“Estado” e “sociedade”, conceitos bem desenvolvidos na Europa Ocidental
desde o século XIII, com as práticas feudais e do Direito Romano. Para o
russo, o Estado era o czar e seu patrimônio, e a sociedade não era vista como
um todo, mas fragmentada em classes.
Em “Russia Under the Old Regime”, R. Pipes esclarece a principal
razão para o insaciável apetite da Rússia por novas terras:

“[Os czares russos] instintivamente identificavam soberania com aquisição


de território. Expansão ao longo da superfície da terra relacionava-se em suas mentes à
expansão em profundidade, no sentido de poder político sobre os súditos, como um
ingrediente essencial de soberania”.

Isolada da Europa desde a invasão dos mongóis, a Rússia iniciaria


a sua adaptação ao cenário europeu a partir do final do século XVII, com
os esforços de Pedro o Grande no sentido de abrir uma “janela para o
Ocidente”. Durante cerca de dois séculos, a Rússia absorvera a concepção
tártaro-mongol de organização do poder, sem contudo aliá-la aos princípios
do direito romano nos quais baseava-se a civilização europeia. Diz-se que
com Pedro, a Rússia aprende técnicas ocidentais; com Elizabeth, maneiras
ocidentais e com Catarina, a moral ocidental. A ocidentalização da Rússia faz
grandes progressos no século XVIII; o que começa como simples imitação
das modas ocidentais pela elite russa evolui para uma verdadeira identificação
com o espírito da cultura ocidental.
A questão da reconciliação da Rússia com a modernidade revela
o eterno dilema russo: como conciliar o legado mongol com o legado de
Roma, a tradição e a modernidade, como europeizar-se sem desrussificar-se?
Este seria o desafio de todos os czares desde Pedro o Grande.
Em “História Geral das Civilizações”, Maurice Crouzet descreve a
Rússia na época da Guerra da Criméia (1853-1856):

“Um poder baseado na obediência, um povo supersticioso, popes ignaros e desacre-


ditados, um alto clero a serviço do autocrata, uma nobreza latifundiária munida de amplos

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privilégios sob a condição de se associar estreitamente ao governo e ajudá-lo a manter o


camponês sob tutela, uma burocracia cuja arbitrariedade é moderada por certa bonomia,
mas que a preguiça, a incúria e a vaidade não tornam menos odiosa (a máxima pretende
que todo mundo rouba e que o próprio Cristo roubaria se não tivesse as mãos pregadas na
cruz), uma polícia provida de tribunais próprios, submetendo o país a uma vigilância estrita e
uma quarentena permanente, operando mesmo fora da Rússia com o desconhecimento das
embaixadas, um exército, instrumento de ordem tanto como de conquista, mas debilitado
pelo desleixo. A massa camponesa, alternadamente resignada e inclinada a reações brutais,
convencida de que o czar – o paizinho, batiushca – só pode querer o bem, mas hostil a seus
agentes, habituada, além disso, à vida comunitária e desejando agudamente a posse da terra
– mais ainda do que a abolição da servidão (‘minhas costas são tuas, Senhores, mas a terra
me pertence’) – incapaz, de resto, de melhorar a própria sorte. Uma burguesia medíocre e
um artesanato pobre [...]. Uma indústria dependente do Estado, de algumas famílias nobres
e de capitalistas estrangeiros, protegida pelas tarifas, mas rotineira (o Império cessa de
exportar ferro, porque não encontra mais compradores, e vende cereais). [...] Um comércio
paralisado pela carência de vias de comunicações, pela regulamentação e pela penúria de
dinheiro. Tudo, na estrutura social, na própria mentalidade, opõe-se ao desenvolvimento do
capitalismo liberal que, lêvedo de uma revolução econômica, só poderia subverter o Antigo
Regime, absolutista e senhorial.”

Encontramo-la praticamente imudada na época de Alexandre III,


que a legaria a Nicolau II, que faria de tudo para mantê-la exatamente assim.

•••

“Cárcere, palácio, santuário, avenida contra o


estrangeiro, bastilha contra a nação, apoio dos
tiranos, masmorra dos povos: eis o
Kremlin... obra de um ser sobre-humano, porém
maléfico. A glória na escravidão, eis a alegoria
simbolizada por esse monumento satânico, tão
extraordinário como arquitetura quanto as visões
de São João na poesia: é a habitação que convém
às personagens do Apocalipse...”
(Marquês de Custine)

Em 1881, o czar Alexandre II, avô do futuro Nicolau II, é


assassinado por terroristas. Conhecido como o “Czar Libertador”,
Alexandre II havia libertado os servos da gleba e empreendido uma série

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de reformas moderadas, desagradando assim tanto os tradicionalistas


quanto os anarquistas. Na verdade, o czar libertador não libertara ninguém
e irritara a todos. Libertar o camponês da servidão sem conceder-lhe meios
de vida e abandoná-lo à própria sorte equivalia a condená-lo a um destino
mais terrível e impor-lhe um cálice ainda mais amargo do que a própria
escravidão – além de semear no coração da nobreza a negra semente de um
largo rancor. Turgueniev escreveria em “Fumaça” sobre o catáter eslavo
apegado à escravidão:

“...O governo livrou-nos da gleba, graças lhe sejam dadas; mas o hábito da
escravidão está ainda profundamente enraizado em nós para que possamos desemba-
raçar-nos rapidamente. Em tudo, e por tudo, precisamos de um senhor. Na maior
parte do tempo, este senhor é um ser vivo: às vezes é uma certa tendência, como, por
exemplo, neste momento, a mania das ciências naturais. Por que? Que motivos nos levam
a sujeitarmo-nos assim voluntariamente? É um mistério; tal é a nossa natureza, parece.
O importante é que tenhamos um senhor, e que ele não erre nunca. Somos verdadeiros
servos. Nossa altivez, como a nossa baixeza, são servis. Venha um novo senhor, abaixo o
antigo. [...] Nós nos glorificamos de saber negar mas, ao invés de negar como um homem
livre, combatendo com a espada, é como lacaios que lutamos, lacaios que só sabem dar
socos, e dando-os somente quando o patrão permite. [...]”

Sobre as reformas de Alexandre II, o autor comentaria:

“...As novas intituições funcionavam mal, as velhas tinham perdido toda a força;
a inexperiência tinha que lutar contra a má-fé; o antigo estado de coisas não sustentava
mais nada, inútil e já todo vacilante, como os vastos pântanos de lama: apenas sobrenadava
a grande palavra ‘liberdade’, pronunciada pelo czar, como outrora pairava sobre as águas
o espírito de Deus.”

O assassinato de Alexandre II, no momento em que este preparava


novas reformas que permitiriam à sociedade uma maior participação
nas decisões políticas, teria duas consequências imediatas: interromperia
a lenta e dolorosa marcha do Império em direção à realidade europeia
e convenceria seu sucessor, Alexandre III, da necessidade de reforçar o
caráter autoritário do sistema.
Embora tenha entrado para a História como o Czar Libertador, a
mais notável realização de Alexandre II foi a invenção do Estado Burocrá-
tico-Policial, em resposta à crescente ameaça do terrorismo. Antes da I
Guerra Mundial, nenhum outro país no mundo possuía duas polícias: uma

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para proteger o Estado e outra para proteger seus cidadãos. O resultado


direto da radicalização do governo seria a radicalização da oposição, e
o século XIX vê multiplicarem-se os atentados terroristas na Rússia e o
aprimoramento, com Alexandre III, do Estado Policial que herdara do pai.
Com o assassinato de Alexandre II, a mudança do governo caracte-
riza-se basicamente pela transição das reformas moderadas à proibição de
qualquer reforma. A vontade modernizadora e purgativa de Alexandre III
concentrar-se-ia no estímulo aos setores econômico e industrial, no pronto
esmagamento das revoltas e no saneamento do Estado de elementos
liberais. A amarga lição que Alexandre III aprendera com o assassinato
do pai evidencia-se no Manifesto de 1881, que bane do governo todos os
artesãos das reformas sociais, reinstaurando a autoridade sem concessões.
Liderando a nova leva de supertradicionalistas que compunham
o governo nacionalista, antissemita e opressor de Alexandre III, figura
Konstantin Pobedonostsev, procurador do Santo Sínodo e mentor de
Alexandre III. Quando ainda era tutor do novo czar, Pobedonostsev
observara abertamente que Alexandre Alexandrovitch era fundamen-
talmente estúpido – o que exigia que tivesse firmes e excelentes conselheiros
quando lhe coubesse a vez de reinar. Dizia-se que ele exercia sobre Alexandre
III uma ascendência comparável a de Torquemada sobre Ferdinando e
Isabella ou a de Père Lachaise sobre Luís XIV. Ao contrário do que diria
a sua posteridade, contudo, Pobedonostsev não pecava pela obtusidade
de que o acusavam, e graças a seus esforços a Revolução só apresentaria
um ensaio orquestrado em 1905. Frio, implacável e rígido, Pobedonostsev
era um homem determinado a manter de pé um regime no qual cria, a
governar um país que amava e que era, como já o dissera Catarina, “grande
demais para ser governável”, e fazia-o com as ferramentas de que dispunha.
Famoso jurista e professor de Direito Constitucional, Pobedonostsev
era um inimigo ferrenho do parlamentarismo e de seus subprodutos, e
defensor incansável do que considerava os pilares do poder: a autocracia e a
burocracia. De acordo com Pobedonostsev, a função primordial do Estado
era manter a ordem e a estabilidade da sociedade, dispondo para tal da
Igreja Ortodoxa, que assegurava à autocracia uma legitimidade imanente, e
da polícia, braço armado da vontade do soberano nos limites do Império,
e mesmo – secretamente – para além dele.
O reinado de Alexandre III é caracterizado por ações opressivas
destinadas a restabelecer a segurança do Estado e a ordem pública. Uma
rápida sucessão de medidas de emergência selaria a sujeição da sociedade
ao poder arbitrário da polícia e da burocracia. Toda a sociedade estava

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sob investigação por parte de uma polícia onipotente e onipresente, cuja


esfera de autoridade alargava-se a cada novo decreto. A. Lopukhin, chefe
do Departamento de Polícia de 1902 a 1905, escreveria que o decreto de 14
de agosto de 1881 condenava

“...toda a população da Rússia a depender das opiniões pessoais de funcionários


da polícia política... A polícia constitui todo o poder de um regime cuja existência chegou
ao fim.... É à polícia que o regime recorrerá em primeiro lugar caso tente ressuscitar-se”.

Alexandre III herda um Estado Policial, e com suas medidas


draconianas transforma-o em um Estado Totalitário. Como esclarece R.
Pipes(op.cit.):

“Sob um regime policial, a atividade política é considerada criminosa e aos


órgãos de segurança são concedidos poderes praticamente ilimitados para garantir que
a proibição seja observada. O sistema é essencialmente defensivo; é criado para reagir a
provocações. O Totalitarismo é caracterizado por uma atitude mais positiva: enquanto
inclui também todos os elementos do Estado Policial, ele os supera, e tenta reorganizar
toda a sociedade de tal maneira que todas as instituições públicas e expressões da vida
social, mesmo aquelas sem conotação política, estejam sob a gerência da burocracia, ou,
mais especificamente, de seu aparato de segurança. Tudo é politizado e tudo é dirigido”.

Sobre o punho de ferro de Alexandre III, seu ministro da Guerra


diria: “É como Pedro o Grande com o seu knut”11 – ao que o ministro do
Exterior replicaria, tristemente: “Não. É só o knut, sem Pedro o Grande.”
Entretanto, como a História demonstraria de forma bastante
eloquente, é uma lei da física como da metafísica que a centripetência
aumenta a centrifugência. Ao invés de fortalecer o Estado, as medidas
totalitárias de Alexandre III o denigrem. Nas palavras do ex-diretor do
Departamento de Polícia, Lopukhin:

“...a proteção do Estado da forma como é realizada pelo Corpo de Gendarmes


transforma-se em uma guerra contra toda a sociedade e... leva à destruição da autoridade do
Estado, cuja inviolabilidade só pode ser assegurada através de uma união com a sociedade.
Alargando o abismo entre a autoridade do Estado e o povo, engendra a revolução. Por
isto, a atividade da polícia política é prejudicial não apenas para o povo, mas também para
o Estado”.
Os esforços de Alexandre II no sentido de elevar o nível do sistema
1 Chicote

24 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

educativo na Rússia e suas relativas concessões à liberdade de imprensa e de


publicação, são rapidamente cancelados por outros decretos de Alexandre
III, que desferem um golpe mortal na educação. O ensino primário é
relegado à Igreja, o secundário concentra-se no estudo de línguas mortas
e praticamente abole as matérias científicas do programa; o acesso de
mulheres, judeus e de outros elementos politicamente duvidosos às univer-
sidades é radicalmente limitado e o número de diplomados é drasticamente
reduzido. Com sua política de repressão e regressão, Alexandre III atinge
em cheio a intelligentsia que compunha a oposição.
As diversas nacionalidades fagocitadas pelo Império, como os
poloneses e ucranianos, também sofreriam muito sob a bota russifi-
cadora e ortodoxa de Alexandre III. Os judeus seriam obrigados a viver
em zonas residenciais específicas (guetos) e, a partir de 1887, o numerus
clausus restringiria o número de estudantes judeus a 10% dos habitantes
das zonas de residência. Discriminações, pogroms e medidas repressivas
brutais atingiriam fiéis de todas as religiões: católicos, protestantes, judeus,
budistas, muçulmanos, contribuindo para a formação de inúmeras seitas
na Rússia.
Em contraste com o retrocesso político e social, o florescimento
econômico do Império durante o governo de Alexandre III é inegável.
As indústrias desenvolvem-se em diversos domínios, sobretudo têxtil,
metalúrgico e petroleiro. Os industriais unem-se ao governo no esforço
de modernização industrial da Rússia, aliando poder público e iniciativa
privada em nome do progresso econômico.

•••

O grão-duque Alexandre, futuro czar Alexandre III, era um


homem rude e simples, de hábitos austeros. Levantava-se ao raiar do
dia, servia seu próprio desjejum e dirigia-se imediatamente à sua sala de
trabalho. Silencioso, seguro e incansável, suas únicas distrações eram a
caça e intermináveis caminhadas nos bosques. Usava suas roupas até que
praticamente se desintegrassem, e suas meias furadas eram cerzidas para que
pudesse continuar a usá-las indefinidamente. Este estilo de vida espartano
que caracterizava seu modo de vestir, seus hábitos alimentares, seus raros
momentos de lazer, toda a sua vida, ele o impôs a seus filhos, cujo caráter
tratava de moldar à base de gélidos banhos matinais, exercícios ao ar livre,
leitos duros, preceptores medievais e uma frugalidade que beirava o jejum.
O grão-duque separava distintamente sua vida pública de sua

D R AG O E D I TO R I A L 25
M Á RC I A S A RC I N E L L I

vida privada, não permitindo de maneira alguma que se misturassem.


A grão-duquesa, futura czarina Maria Feodorovna, encarregava-se das
crianças e da administração da vida doméstica e social do casal, jamais
imiscuindo-se nos assuntos de Estado. O grão-duque e a grão-duquesa
não podiam ser mais diferentes; ele, uma espécie de urso, sisudo, avaro,
avesso às obrigações sociais; ela, vaidosa, superficial, anfitriã encantadora e
amante dos bailes e festas da corte. Nicolau conciliaria esta dupla herança,
amando ao mesmo tempo os prazeres mundanos e a vida ao ar livre,
retirada e simples, a disciplina militar e o alegre convívio com os camaradas
oficiais.
Um dia, quando tinha 12 anos, Nicolau é chamado ao quarto onde
jazia seu avô moribundo, vítima de um atentado à bomba. Ensanguentado,
desfigurado, as pernas arrancadas, um olho que pendia, a imagem do avô
que agonizava, vítima da violência de seus próprios súditos, jamais deixaria
o jovem grão-duque.

•••

Desde 1866, seis atentados à vida de Alexandre II já haviam sido


realizados por niilistas e grupos revolucionários. A 17 de fevereiro de
1880, uma bomba explode no Palácio de Inverno, matando 40 guardas
finlandeses. O czar, que neste momento entretinha o príncipe da Bulgária,
contempla impassível o tilintar dos candelabros de cristal sobre a sua
cabeça e observa calmamente:

“Deus salvou-me a vida mais uma vez.”

O Embaixador alemão comentaria a reação do czar ao atentado:



“É-se tentado a considerar moribundo um corpo social que falha em reagir a
tamanho choque.”

Previsivelmente, e consoante a seu caráter policial, após cada


atentado o governo endurece e torna-se ainda mais coercitivo. O Exército,
a Polícia, o Santo Sínodo e a Polícia Secreta aperfeiçoam seus métodos de
vigilância e repressão, gerando mais descontentamento e multiplicando os
atentados terroristas.
A 1º de março de 1881, Alexandre II assina o decreto liberalista
que prevê a formação de um corpo constitucional e dava os primeiros

26 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

passos em direção à monarquia constitucional nos moldes do sistema


britânico. Em seguida, como fazia todos os domingos, o czar inspeciona a
Guarda, longo processo que tomava-lhe várias horas, e retorna ao Palácio
de Inverno, como de hábito, por uma rota que variava constantemente.
Neste dia, contudo, os terroristas triunfam sobre todas as suas precauções.
Um estudante chamado Ryassok lança uma bomba na carruagem que
levava Alexandre II e fere um cossaco da Guarda. O czar insiste em
parar a carruagem para informar-se sobre as condições do cossaco e,
quando assegurava a todos que “graças a Deus” não estava ferido, um
outro estudante, o anarquista polonês Hrieniewicki, atira uma bomba a
seus pés. Suas pernas são arrancadas na explosão, mas o czar ainda vivia e
pede para ser levado “ao Palácio, para morrer lá”. Escoltado por cossacos
ensanguentados sobre cavalos manchados de sangue, o czar moribundo é
entregue aos braços da amante que ele adorava com ardor juvenil, entre os
quais expira pouco depois.
O romancista L.Tolstoy escreve uma carta a Pobedonostsev, na qual
pedia ao ministro que convencesse Alexandre III a perdoar os assassinos
do pai. A carta apelava para os sentimentos cristãos de Pobedonostsev e
urgia-o a seguir os ensinamentos do Cristo, perdoando seus inimigos. Após
ler a carta de Tolstoy, Alexandre III comentaria:

“Se o crime me tocasse pessoalmente, eu teria o direito de perdoar os culpados,
mas não posso perdoá-los em nome de meu pai.”

Como esquecer o fim horrível que tivera o Czar Libertador que,


contra a própria nobreza, insistira no caminho das reformas sociais e em
troca fora brutalmente assassinado, após uma longa série de atentados
mal sucedidos, justamente quando preparava novas reformas? Diante do
assassinato de Alexandre II, Alexandre III decide ser o fortalecimento da
autocracia e o fim das reformas a única via de governo possível. Nicolau vê
confirmadas as suas impressões nas atitudes do pai, pelo qual é fortemente
influenciado, e por sua formação de herdeiro, inaugurada naquele exato
momento.

D R AG O E D I TO R I A L 27
“Pereça o dia em que nasci

II
E a noite em que foi dito: um menino foi concebido!
Que esse dia se mude em trevas!
Que Deus, lá do alto, não se incomode com ele;
Que a luz não brilhe sobre ele;
Que trevas e obscuridade se apoderem dele,
Que nuvens o envolvam, que eclipses o apavorem,
Que a sombra o domine, esse dia
Que não seja contado entre os dias do ano,
Nem seja computado entre os meses!
Que seja estéril esta noite,
Que nenhum grito de alegria se faça ouvir nela.
Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoaram os dias,
Aqueles que são hábeis para evocar Leviatã!
Que as estrelas de sua madrugada se obscureçam,
E em vão espere a luz,
E não veja abrirem-se as pálpebras da aurora,
Já que não fechou o ventre que me carregou
Para me poupar a vista do mal!”

(Livro de Jó – 3: 3-10)
M Á RC I A S A RC I N E L L I

CZARÉVITCH NICKY
“Todo jovem é um imbecil.”
(Nelson Rodrigues)

O dia do nascimento de Nicolau II (18 de maio) era considerado


o mais infortunado de todo o calendário litúrgico ortodoxo, o dia de São
Jó. Desde cedo Nicolau identificar-se-ia e inspirar-se-ia nesta sofrida
personagem do Antigo Testamento. Muitas de suas atitudes enigmáticas
e sua impassibilidade diante dos acontecimentos mais dramáticos do seu
reinado seriam ditadas por essa identificação e pelo clássico fatalismo
russo, e não necessariamente pela indiferença e apatia de que, a bem da
verdade, também padecia.
Surpreendentemente, Nicolau não fora preparado por seu pai
para reinar um dia e, ao contrário de seus predecessores, não teve bons
preceptores (à parte o grande historiador Kliutchevski, de quem foi um
aluno medíocre e indiferente). Mesmo aos 24 anos de idade, seu pai
considerava-o ainda infantil, superficial, incapaz de um julgamento sério,
indigno de realizar funções importantes, ainda que na periferia do governo,
ou mesmo de ocupar cargos simbólicos. Muitos motivos podem explicar a
recusa do czar a preparar seu sucessor para reinar: Alexandre III desprezava
o czarévitch, em sua opinião excessivamente parecido com a czarina, fútil
e festeira, e teria preferido que seu filho Mikhail fosse seu herdeiro; o
czar era ainda jovem e uma espécie de colosso de força e saúde, e aparen-
temente acreditava poder viver para sempre. Ao manter o czarévitch longe
do governo, Alexandre III zelava ciumentamente por seu poder e julgava
assim adiar o dia em que outro seria soberano em seu lugar.
Nicky, como era chamado em família, recebeu a educação de um
cavalheiro, não a que se deveria dedicar ao herdeiro do maior império da Terra.
O czarévitch era excelente nadador, tenista, patinador e cavaleiro; falava
fluentemente inglês, francês, alemão e dinamarquês, além do russo; tocava
piano lindamente (fora aluno do compositor Mikail Glinka, considerado o
fundador da música moderna russa) e era um verdadeiro pé-de-valsa, muito
popular entre os jovens aristocratas europeus. Contudo, sua formação não
o preparara para o exercício do poder, que seu temperamento lasso já
naturalmente repelia. Além de ser física e moralmente discreto em relação
ao pai e aos tios altíssimos e retumbantes, o que o diminuía diante destes
como de si mesmo, Nicky demonstrou sempre um desinteresse por seus
estudos e pela coisa pública que raiava a apatia. Como Oblomov, Nicky
parecia sempre perguntar-se: “Mas quando é que poderei descansar?”

30 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Preguiçoso, infantil e superficial, o czarévitch apagado e inerte que


mais tarde seria chamado de “czar patético”, desaparecia à sombra do pai,
um homem grave, decidido e temível, e de seus predecessores, os czares e
czarinas do imenso império que herdaria em breve.
Da perigosa situação do czarévitch, Alexandre III tinha plena
consciência mas, poucos anos antes de morrer, ainda não demonstrava
a menor inclinação a remediá-la. A inexperiência política do futuro
czar preocupava ministros e nobres próximos a Alexandre III, que se
perguntavam como um dia Nicolau seria capaz de reinar. A reação do czar
à proposta do Ministro Witte, que sugeria que o czarévitch – então com 24
anos de idade – presidisse o comitê criado para a construção da ferrovia
Transiberiana, ilustra bem o desprezo de Alexandre III pelo filho:

— “Como? Mas o senhor conhece o czarévitch! Alguma vez teve com ele uma
conversa séria?
— “Não, Majestade – responde Witte —, nunca tive esta felicidade.
— “Mas é uma criança! Meu filho só é capaz de julgamentos pueris. Como
poderia presidir um comitê?
— “E no entanto, Majestade, se o czarévitch não for iniciado nas questões de
Estado, jamais as conhecerá.”

Os esforços de Witte conseguem eleger o desapaixonado Nicky à


presidência do comitê, mas as reações do czarévitch a este como a outros
ensaios de governo apenas confirmam as expectativas de seu pai. O diário
de Nicky registra, a 18 de fevereiro de 1892, uma única consideração sobre
sua participação numa das construções mais importantes do século:

“Recebi dois engenheiros franceses que estão aqui para a construção da Transi-
beriana. São dois senadores”.

Ainda por insistência de Witte, nesta mesma época Nicky é nomeado


membro do Comitê das Finanças. O entusiasmo que manifesta por esta
nomeação está registrado em seu diário, a 25 de fevereiro do mesmo ano:

“Há dois dias fui nomeado membro do Comitê das Finanças. Muita honra e
pouca diversão. Antes da sessão do Comitê dos Ministros, recebi seis membros desta
Instituição. Reconheço que jamais suspeitei de sua existência. A sessão foi demorada:
durou até 3 e um quarto e por isso atrasei-me e não pude ir à exposição da Academia.”

Antes dessa pálida atuação, Nicky havia sido associado (termo

D R AG O E D I TO R I A L 31
M Á RC I A S A RC I N E L L I

que não traduz qualquer função real) ao Conselho de Estado, assim que
completara 18 anos. No Conselho composto de dignitários octogenários,
Nicky entediava-se mortalmente. A 20 de março de 1890, seu diário atesta
sua monumental indiferença à sua estreia no poder, que ele considerava
uma simples formalidade a ser cumprida com resignação:

“Fui ao Conselho de Ministros, a sessão durou duas horas”.

E, a 9 de abril:

“Fui à sessão do Conselho de Estado, que durou ao todo vinte minutos”.

Esses e outros registros no mesmo estilo colegial enfadado acusam


a sua imaturidade e até hoje fornecem excelente material difamatório:

“Esta manhã presidi o Conselho de Estado e quando começou-se a discutir


sobre a utilidade do ensino do latim nas escolas superiores, simplesmente fugi. Pensei que
fosse morrer.”

“Hoje não houve reunião do Conselho. Este fato não me desesperou.”

Pode-se concluir que diários e cartas escritos durante toda uma vida,
se não são o próprio retrato de seu autor, inevitavelmente revelam traços
fundamentais de seu caráter. Tudo o que decide registrar ou omitir em
seus relatos, independentemente do estilo em voga, deve ser considerado
importante e revelador. Sobre isto, já nos tinham prevenido Terêncio:
“Qual é o teu caráter, já o indicou teu discurso”2 e Cassidoro: “As palavras
são o espelho e o coração do homem.”3
Os diários e cartas do czarévitch Nicky revelam um jovem apolítico
e quase abúlico, dificilmente entusiasmado pelos eventos de sua época
ou por emoções de qualquer natureza. Deve-se levar em consideração,
entretanto, que os diários de jovens aristocratas do século XIX em geral
eram apenas um exercício disciplinar, e não o registro dramático de
sentimentos profundos e de fervores políticos ou religiosos, e que os
diários de seus contemporâneos – como seu primo, o futuro Rei George
V, por exemplo – seguiam o mesmo estilo. É bem verdade que as cartas e
anotações de Guilherme II, também primo do czarévitch e futuro Kaiser
2 Quale ingenium haberes, fuit indicio oratio.”
3 Speculum...cordis hominum verba sunt.”

32 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

da Alemanha, eram bem mais prolixas e mesmo torrenciais, e fervilhavam


com a violência de suas paixões, o ardor de suas opiniões políticas e um
agudo interesse por tudo o que se passava no mundo em sua época.
Sobre o estilo e o conteúdo dos diários de Nicolau, o historiador R.
Charques, em “The twilight of Imperial Russia”, observa:

“É o diário – é-se tentado a dizer o diário pouco divertido – de uma nulidade, de


um homem evidentemente imaturo e de interesses claramente insignificantes. Duas linhas
sobre esta audiência oficial, três linhas sobre esta outra, uma simples alusão a uma terrível
calamidade... banalidade sobre banalidade. As anotações se prolongam em uma sucessão
de observações sobre o tempo e sua relação com atividades ao ar livre: levar os cães a
passear, colher cogumelos, ir à caça, andar de bicicleta, patinar, remar, e com os fatos mais
insignificantes da vida doméstica. Os eventos de relevo e as questões importantes do dia
são anotados brevemente com descaso ou não são nem mesmo mencionados.”

E no entanto, Nicky vivia em uma época interessantíssima, em uma


Rússia politicamente efervescente e em pleno renascimento das artes. Até
o início do século XIX, a literatura russa era praticamente insignificante
e virtualmente desconhecida na Europa. A publicação dos poemas de
Alexander Pushkin (1799-1837) – cujo caráter totalmente russo possuía
entretanto a universalidade dos grandes da sua e de outras épocas – marca
o início de uma era de esplendor literário. O surgimento de Pushkin no
cenário russo europeu é comparável ao de Shakespeare na Inglaterra do final
do século XVI. Em seu rastro seguiriam outras estrelas como: Lermontov,
Gogol, Herzen. Pouco depois, as obras notáveis de Nekrassov, Dostoiévski,
Tchekov, Tolstoy, Goncharov e Turguenev, seguidos por simbolistas como
Blok e futuristas como Maiakovsky, caíam sobre a Europa como bombas
e constituíam uma herança literária e cultural verdadeiramente russa –
não necessariamente eslavófila e paroquial como queriam alguns, mas
igualmente única, apesar das inevitáveis influências ocidentais, sobretudo
alemãs e francesas.
A vida cultural russa fervilhava, a despeito de uma censura que
praticamente suprimia o pensamento independente de poetas, escritores
e jornalistas. Herzen é exilado em 1848, Lermontov e Pushkin estariam
presos se já não estivessem mortos, “Almas Mortas” custara a Gogol sua
liberdade. Em 1849 Dostoievsky – condenado à morte pelo crime de
possuir uma máquina impressora – escapava ao pelotão de fuzilamento e
era enviado à Sibéria para cumprir uma sentença de dez anos de trabalhos
forçados; em 1901, Tolstoy era excomungado e a esta altura, a maioria dos

D R AG O E D I TO R I A L 33
M Á RC I A S A RC I N E L L I

grandes artistas russos havia sido exilada, presa ou condenada à morte


social e política. Nekrasov perguntava-se “Quem pode ser feliz na Rússia?”
e realmente o país parecia dedicado a eliminar, rechaçar ou calar seus filhos
mais brilhantes. Apenas sob o regime soviético, sobretudo a partir de 1935,
a vida na Rússia seria ainda mais difícil.
Na música, Glinka, Dargomyski, Borodin, Rimski-Korsakov e
Mussorgski propunham ritmos e combinações sonoras geniais e inusitadas.
O ballet, inspirado na dança popular russa, inaugurava uma carreira
triunfal. A arquitetura, a pintura e a escultura também floresciam; verifi-
cava-se o renascimento do gênero arquitetônico propriamente russo e a
escola romântica e a realista de pintores surpreendiam a Europa com uma
abundância de belas obras.
Em meio a esta ebulição cultural, artística e política, bocejava o
herdeiro de Todas as Rússias, e parecia viver cego e surdo, sonolento, mas
sobretudo pequeno, em uma época de grandes.
Se, por um lado, Nicky em seus relatos era avaro de informações a
respeito de política, de suas primeiras atuações junto ao governo, de suas
obrigações de herdeiro, de suas leituras e de qualquer assunto cultural,
por outro era extremamente prolixo ao relatar divertimentos, exercícios
militares e a prática de esportes. Seus diários estão repletos de intermi-
náveis informações sobre caça, observações meteorológicas, relatos de
patinação, tênis e noitadas pantagruélicas com os amigos. Ao contrário
do pai, incansável trabalhador pouco propenso a desperdiçar seu tempo
dormindo ou divertindo-se, Nicky lamuria-se continuamente ao longo
de seus diários por estar sempre cansado quando se trata de realizar
alguma obrigação e sobre sua constante necessidade de sono (que ele não
atribui às noitadas divertidas com seus amigos). Sua falta de curiosidade
intelectual, sua aversão ao trabalho e a toda vida cultural é evidente e no
mínimo alarmante. É bem verdade que esse era o perfil da jeunesse dorée que
representava a decadência moral do fim do século, mas essa vida banal e
intelectualmente vazia certamente não convinha a um futuro imperador.

34 D R AG O E D I TO R I A L
III“Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.”

(Fernando Pessoa)
M Á RC I A S A RC I N E L L I

SUNNY
“Ouvimos todas nós os gritos dela,
da infortunada princesa estrangeira.”
(Eurípides, “Medéia”)

Para a princesa Alice, a filha mais feia da rainha Vitória e do


príncipe Alberto, a rainha – famosa por suas obsessões casamenteiras –
havia colhido um marido no pequeno grão-ducado de Hasse. Embora
decadentes, os von Hasse eram a mais antiga dinastia protestante da Terra.
Contavam, entre seus antepassados, ninguém menos do que o Imperador
Carlos Magno, além de Santa Elizabete da Hungria e Maria, rainha da
Escócia – e continuavam a combinar matrimônios com as melhores casas
reais da Europa. De fato, na família real inglesa há mais sangue dos von
Hasse do que de qualquer outra dinastia.
Considerada feia mesmo por seus próprios pais, a “pobre Alice”,
como a chamavam, era também inteligente, independente, culta e muito
pia, de temperamento arrebatado e autoritário, e apaixonou-se à primeira
vista pelo primo alemão que a mãe lhe designara, o belo príncipe Ludwig.
Apesar de atraente, gentil e afetuoso, Ludwig era uma espécie de nulidade,
a quem Alice trataria sempre como uma criança, exercendo sobre ele uma
autoridade maternal e esmagando-o muitas vezes com sua superioridade
intelectual e moral.
Um ano após o noivado, uma desgraça vem atingir a rainha Vitória,
de cujo abalo ela jamais se recuperaria: durante os preparativos para o
casamento de Alice, morre o depressivo e instável príncipe consorte, a 14
de dezembro de 1861. Os gritos histéricos da rainha – usualmente contrita
– ecoavam tétricos pelo castelo de Windsor. “Agora já não há mais niguém
que me chame Vitória”, refletiria ela, tristemente.
Em julho de 1862 casam-se, em função privada, a princesa Alice
da Grã-Bretanha e o príncipe Ludwig von Hasse em Osborne House,
residência estiva da rainha Vitória. A cerimônia é realizada seis meses
após a morte do príncipe consorte e portanto, apenas no limiar de um
dos mais longos e dedicados lutos da história, o de Vitória por Alberto.
O matrimônio, simples e funéreo, assemelha-se perturbadoramente a um
réquiem, com a família da noiva de luto fechado e em prantos. O arcebispo
também chorava ao realizar a cerimônia diante de um enorme retrato
do casal real em que o príncipe Alberto parecia estender a mão para os
convivas. Após a cerimônia, os pais do noivo dão os pêsames à inconsolável

36 D R AG O E D I TO R I A L
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rainha Vitória. Ela própria escreveria que “o casamento de Alice parecia um


funeral”. Não haveria lua de mel e uma carruagem fechada aguardava os
noivos para conduzi-los a Hasse imediatamente após a cerimônia. Assim
que a carruagem parte, abre-se o céu e sobre a ilha de Wight desaba um
memorável temporal. Sob maus auspícios começava a vida de uma das
mais trágicas famílias reais da Europa.
Alice e Ludwig enfrentariam inúmeras dificuldades financeiras e
políticas e tragédias pessoais, que naturalmente se refletiriam em sua vida
conjugal, sempre conturbada. Suas diferenças fundamentais de caráter, se
por um lado eram componentes da mútua atração, por outro, geravam
problemas insolúveis em sua relação. Enquanto Alice era uma intelectual,
uma mulher sensível, de sentimentos profundos e temperamento exaltado,
Ludwig era infantil e superficial, emocionalmente árido e um tanto tolo.
Alice era culta, amava os livros, a música e os estudos, enquanto Ludwig
amava a bebida e os cavalos. Entretanto, inúmeras cartas e diários
testemunham o amor que sentiam realmente um pelo outro, embora seu
casamento não tenha sido tranquilo. Mesmo as cartas de amor de Alice
revelam o autoritarismo e por vezes um certo desprezo intelectual com que
tratava o marido fraco e pueril:

“...caro Ludwig, se as crianças me escrevessem cartas tão infantis – apenas breves


relatórios de onde e o que comeram e onde estiveram etc e nada mais, nenhuma opinião,
observação ou comentário – eu ficaria surpresa; mais ainda me surpreendo quando o
fazes tu.”

“...Eu poderia viver perfeitamente feliz e contente vivendo em um casebre, se


pudesse compartilhar meus interesses e minhas aspirações intelectuais com um marido cujo
amor forte e protetor me ajudasse a evitar os obstáculos colocados em meu caminho pela
minha própria natureza, pelas circunstâncias externas e por meu excesso de escrúpulos”.

“...Tentei muitas vezes falar-te de coisas sérias, quando sentia a necessidade,


mas nunca nos entendíamos; tenho a impressão de que a verdadeira amizade seja algo
impossível para nós...”

Entre 1863 e 1870 Alice tem cinco filhos e, como a situação


financeira dos von Hasse não lhes permitisse contratar babás e amas de leite,
a princesa ocupava-se ela própria dos filhos recém-nascidos, debilitando
sua saúde, que sempre fora delicada. Era infeliz e emocionalmente instável,
sujeita a crises nervosas e a períodos de depressão que se alternavam a

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

surtos maníacos, durante os quais esfalfava-se em causas sociais e a cuidar


obsessivamente de doentes que, quando não havia, tratava de procurá-los.
Alice era uma típica dama inglesa, rígida, puritana, autoritária
e crítica. A educação dos filhos era espartana e ela tratou sempre de
incutir-lhes disciplina e senso do dever. A rotina dos jovens príncipes
era árdua e mesmo exaustiva, com atividades físicas e intelectuais perfei-
tamente cronometradas para o máximo aproveitamento do tempo. Muito
trabalho, pouca diversão, poucas concessões, uma severa rejeição a toda
a superficialidade e uma religiosidade mística contribuiriam para forjar o
caráter de sua filha Alix (futura czarina da Rússia), já muito semelhante ao
da mãe e ao da avó Vitória. Alix combinaria o puritanismo e a austeridade
de sua formação vitoriana à altivez e à implacabilidade germânicas, numa
fórmula de difícil digestão.
Com o passar dos anos, a princesa tornava-se cada vez mais
maternal e didática em relação ao marido, tendendo a infantilizá-lo. Além
das dificuldades para criar marido e filhos, igualmente dependentes, Alice
empenhava-se muito em adaptar-se ao novo país e à sua nova posição, mas
até a sua morte continuaria a sentir-se uma estranha em Darmstadt.
Em dezembro de 1871, quando estava grávida de sua sexta filha,
seu irmão Bertie, o príncipe de Gales, contrai a febre tifóide, e ela decide
ir à Inglaterra para assisti-lo. Nada a encantava mais do que um doente de
que se ocupar. Com os esforços e a dedicação da irmã e da esposa, Bertie
recupera-se, mas o desvelo de Alice custa-lhe caro: física e emocionalmente
devastada, Alice prostra-se durante dias sobre o sofá, incapaz de mover-se,
dormir ou comer. Acima de tudo preocupava-a a possibilidade de que
aquela atmosfera mórbida de quarto de doente e sua própria debilidade
física e psíquica viessem a afetar a criança ou mesmo a provocar um aborto.
Surpreendentemente, a gravidez é levada a termo e a 6 de junho
de 1872 nasce Alix Victoria Helena Luisa Beatrice, uma linda princesinha,
saudável e vivaz, que anos mais tarde entraria para a história como
Alexandra Feodorovna, a mais odiada czarina da Rússia. Entre seus
padrinhos constavam o futuro rei Eduardo VII da Inglaterra e esposa, e o
futuro czar da Rússia, o grão-duque Alexandre e esposa. Em cartas à rainha
Vitória, Alice descreveria sua nova filha:

“É uma menina doce e alegre, que sorri sempre, com uma covinha em uma
bochecha...”

Os primeiros anos de vida da princesa Alix parecem desmentir os

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

maus presságios que sua mãe tivera durante a gravidez. Em 1874, quando
do nascimento de sua irmã Maria, Alix já era chamada Sunny (solar,
radiante), por sua alegria e vivacidade contagiantes.
O irmão de Alix, Frittie, era hemofílico, e aos dois anos de idade
sofre uma terrível hemorragia, causada por um leve ferimento na orelha.
Um ano mais tarde, enquanto a mãe tocava a Marcha Fúnebre de Chopin
ao piano, Frittie atravessa correndo o quarto e cai pela janela, aterrissando
sobre um terraço de pedra 6 metros abaixo. O menino ainda estava vivo e
não sofrera fraturas graves, mas morreria naquela noite de uma hemorragia
cerebral.
A esta altura, a hemofilia era velha conhecida da medicina, descrita
e catalogada nos anais da literatura especializada desde o início do século
XIX. Tanto os médicos das cortes quanto os membros da família da rainha
Vitória estavam a par da doença que ela espalharia pelas casas reais da
Grã-Bretanha, Alemanha, Espanha e Rússia através dos casamentos de
seus filhos e netos. Embora soubessem da necessidade de evitar uniões
consanguíneas para não multiplicar as chances de produzir herdeiros
hemofílicos condenados a uma morte prematura, a hemofilia era um mal
politicamente inevitável para os nobres filhos da Rainha Vitória, que não
podiam esquivar-se de matrimônios profícuos.
A morte do pequeno Frittie é apenas o primeiro dos muitos aconte-
cimentos trágicos que marcariam a infância de Alix, cuja consequência
imediata foi transformar sua mãe em uma fanática religiosa obcecada
pela morte. Fechada em um luto perpétuo, eternamente entregue a ritos
fúnebres e fascinada pela ideia e sobretudo pelo desejo da morte, Alice
contagia os filhos com sua melancolia e suas obsessões. Alix e seu irmão
Ernie já soavam fatalistas e funéreos na mais tenra idade e sonhavam em
“morrer todos juntos”. Estas ideias lúgubres encantavam a mãe deprimida
e doente, que as incentivava. Todos viviam à sombra do irmãozinho morto.
Em 1877 o príncipe Ludwig torna-se grão-duque Ludwig IV. A
partir deste momento, Alice pode dedicar-se muito menos aos filhos,
absorvida por seus deveres de grão-duquesa. Apesar de seus problemas
de saúde, de seus períodos de depressão e de suas crises nervosas, Alice,
a princípio, desempenha brilhantemente seu papel de primeira-dama e
transforma o pequeno grão-ducado em um centro cultural, atraindo para
Darmstadt personalidades como David Strauss, John Ruskin, Thomas
Carlyle, Alfred Tennyson e Brahms, com quem chega a tocar duetos ao
piano.
Estes esforços e esta dedicação, contudo, acabam por drená-la

D R AG O E D I TO R I A L 39
M Á RC I A S A RC I N E L L I

física e emocionalmente, e seus períodos de depressão tornam-se cada vez


mais frequentes. Na verdade, Alice não resistia às pressões psicológicas e à
tensão derivadas de sua nova posição social. Seu temperamento melancólico
seria agravado pelo exercício destas funções, pela sensação de alheamento
que sentiria sempre em Darmstadt e pela perda do filho. A tendência à
depressão que herdara do pai verificar-se-ia mais tarde na pequena Alix, a
esta altura já fortemente impressionada pelo caráter lúgubre e instável da
mãe, que lhe falava continuamente do consolo da morte e das alegrias do
além. Em carta à Rainha Vitória, Alice escreveria:

“Não acredito que saibas como eu me sinto mal, e quanto esteja incrivelmente
fraca. ...não sirvo para quase nada... Vivo estirada sobre o sofá e não vejo ninguém, e
mesmo assim continuo fraca.”

Gerard Noel escreveria sobre Alice:

“Talvez fosse impossível para ela não herdar [do pai, o príncipe
Albert], o tipo de melancolia cujo principal antídoto era a tendência a
dominar os outros, quando não havia ninguém em condições de satisfazer
seu desejo inconsciente de ser dominada. A isto devemos acrescentar o
fatalismo unido à inteligência herdada do príncipe consorte.”

À exceção de Ella, em novembro de 1878 todas as crianças von
Hasse e o grão-duque Ludwig contraem difteria. Alice subdivide-se para
atender a todos os doentes. Na noite de 16 de novembro morre a pequena
May, de 4 anos. A dor causada pela perda da filha e os esforços para
cuidar de todos os outros exaurem Alice, que acaba contraindo a doença.
Extenuada e deprimida, não encontra mais forças para lutar por si mesma
e morre a 14 de dezembro, aos 35 anos de idade.
A família estava dilacerada. Impedidas de comparecer ao funeral,
as crianças puderam apenas observar, com os rostos colados ao vidro da
janela, o caixão da mãe que passava e desaparecia na névoa de dezembro.
O quarto de Alice, para alegria da rainha Vitória, permaneceria exatamente
como no dia de sua morte, seu leito coberto para sempre por um pano
negro.
Este monumento à dor não poderia deixar de agradar à rainha
Vitória que, após vinte anos da morte de seu amado Alberto, não apenas
continuava de luto, como mantinha as roupas e todos os objetos pessoais
do defunto exatamente como ele os deixara. O urinol do falecido era lavado

40 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

todas as manhãs, e todas as noites ela abraçava seu camisolão, sempre


cuidadosamente disposto em seu lugar no leito matrimonial.
O sofrimento provocado pela morte da mãe modifica comple-
tamente o caráter da pequena Alix, antes notável por sua alegria constante
e contagiante que lhe valera o apelido “Sunny”. Embora continuasse a
ser chamada assim na intimidade até o fim de sua vida, com a morte da
mãe, Alix sofre uma verdadeira metamorfose: a criança vivaz e feliz que
inspirara o simpático apelido dá lugar a uma menininha sombria, tímida e
reclusa, desconfiada de situações, lugares e pessoas não familiares, nervosa
e insegura. Alix sente-se protegida apenas em companhia dos familiares
próximos, e mesmo entre eles torna-se famoso o seu senso de humor
precário e sua seriedade extemporânea.
Após a morte da mãe, Alix é criada por sua avó, a rainha Vitória,
responsável por sua formação intelectual e moral desde então. Além de
supervisionar sua educação tipicamente inglesa, a rainha determinava os
livros que a neta deveria ler, que matérias estudar, que peças de músicas
tocar ao piano, como sentar-se usando um vestido de corte, como receber
visitas e entreter convidados, onde passar as férias etc, e levava a princesa
em suas viagens pela Inglaterra e pela Europa, impondo à formação de
Alix um tom ainda mais puritano e austero.
Os planos da avó toda-poderosa para a formação e o futuro de sua
neta predileta incluíam o marido que ela considerava ideal: seu neto Eddy.
Alix deveria desposá-lo, tornando-se duquesa de Clarence e Avondale, em
seguida princesa de Gales e finalmente, Rainha da Inglaterra e Imperatriz
da Índias.

•••

No príncipe Eddy reconhecia-se um certo grau de retardo mental,


que praticamente impossibilitaria a sua educação. Seu preceptor, John Neale
Dalton, tentou com afinco instruí-lo minimamente durante oito longos
anos, ao fim dos quais viu-se forçado a referir ao príncipe de Gales que seu
filho Eddy era “insuficiente, não em uma ou duas matérias, mas em todas”.
O preceptor justificava este fato pela “condição de anormal inatividade
de sua mente, [que o impedia de dedicar] atenção a qualquer assunto por
mais de alguns minutos seguidos. [Eddy] permanece sentado, indiferente
e distraído, e o tempo que perde, desperdiça-o ociando.” Pope-Henessy
descreve-lo-ia como:

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

“...retardado e totalmente apático. Era mimado e totalmente volúvel. Não havia


recebido uma instrução adequada e consequentemente era completamente privado de
interesses. Era tolo e vazio como um peixe dourado em uma bolha de cristal.”

A batalha para impor ao príncipe inconsistente e apalermado uma


educação digna do futuro rei da Inglaterra é temporariamente interrompida
e dá-se início à segunda etapa de sua formação: um período de três anos na
Marinha Real. Tanto Eddy quanto seu irmão George haviam frequentado a
Academia Naval e juntos prestariam serviço no HMS Bacchante. O príncipe
de Gales esperava que a disciplina militar reforçasse o caráter de Eddy e
fizesse dele “um homem”, se não brilhantemente instruído, ao menos forte
e corajoso. Os três anos na Marinha, entretanto, surtem um estranho efeito
sobre o futuro rei e evidenciam-se seus “desvios de conduta”. Mais uma
vez seu preceptor é obrigado a informar ao príncipe de Gales que seu filho
havia aprendido apenas atividades “de natureza dissoluta”.
Após os três anos de serviço na Marinha, a família retoma a inglória
luta em prol da educação compulsória do ineducável príncipe Eddy. Ele
passa a frequentar o Trinity College em Cambridge, sob a orientação de
um novo preceptor: James Keneth Stephen, escolha que em breve revelar-
-se-ia desastrosa. Stephen era um poeta de certa notoriedade, ávido leitor
da obra do Marquês de Sade e um homossexual devasso, famoso em certos
meios por sua insaciabilidade e seus gostos bizarros, com sérios problemas
psíquicos. Acredita-se que tenha influenciado fortemente o jovem príncipe,
que o preceptor levava consigo todas as noites aos piores antros da cidade.
Em 1885, diante do pífio desempenho de Eddy e de certas singula-
ridades de seu comportamento que começavam a alarmar a família, Eddy é
forçado a abandonar sua última chance de educar-se e seu pai despacha-o
para o Exército. Designado como oficial do X Regimento da Cavalaria
de Hussardos, de que seu pai era coronel, esperava-se que a disciplina
do Exército atuasse sobre Eddy onde a Marinha falhara: moldando e
fortalecendo seu caráter.
A esta altura, contudo, já se faziam muitas conjecturas sobre a vida
privada do príncipe Eddy e não apenas no âmbito da família real. Era de
domínio público que ele freqüentava um certo bordel para homossexuais
em Cleveland Street, famoso por seus habitués aristocráticos, e todo o reino
murmurava sobre a sua devassidão. Não fossem os esforços da família
real para salvaguardar a reputação do príncipe e proteger seu nome do
opróbrio público, Eddy teria facilmente se tornado uma personagem da
crônica policial da época e o escândalo contaminaria toda a família. O

42 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

envolvimento do príncipe Eddy com a mala vita londrina seria cercado de


mistério, assim como o resto de sua vida.

•••

Na madrugada de 31 de agosto de 1888, o corpo de uma prostituta


de Whitechapel, Polly Nichols, é encontrado na rua por um passante. Sua
garganta havia sido cortada e seu ventre estripado.
Whitechapel era um bairro pobre e sórdido do East End londrino
em que pululavam prostitutas, bêbados e toda a escória da puritana
sociedade vitoriana. Nas nove semanas que se seguem ao assassinato de
Polly Nichols, quatro outras prostitutas são mortas da mesma forma em
Whitechapel: Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddows e
Mary Kelly. A ferocidade do primeiro assassinato é superada pelos que
se seguem: Annie Chapman é praticamente decapitada, estripada e seus
intestinos jogados por sobre seu ombro. Na mesma noite são mortas
Elizabeth Stride e Catherine Eddows. No dia seguinte, um pedaço do rim
de Catherine é encontrado em um hospital de Londres, acompanhado de
uma carta remetida “Do Inferno” e assinada por “Jack, o Estripador”.
Mary Kelly é a última vítima de Jack, que nunca seria encontrado.
Uma das mais divulgadas teorias, contudo, reza que Jack o Estripador
era na realidade o príncipe Eddy, iniciado em práticas sinistras por seu
ex-preceptor James K. Stephen. Uma testemunha que viu Mary Kelly em
companhia do assassino descreveria com minúcias um homem que bem
poderia ser o príncipe. Afirma-se que este, sabendo esquartejar e preparar
a caça, possuía suficientes conhecimentos anatômicos para estripar um ser
humano com certa precisão. Especula-se também que as diversas cartas
enviadas por Jack o Estripador aos jornais teriam sido escritas por James
K. Stephen. Sobretudo pareceu sempre suspeito que quase todas as provas
fundamentais sobre o caso tenham sido deliberadamente destruídas, como
se a polícia desejasse ocultar a identidade do assassino.
Embora nada fosse provado, os rumores e insinuações envolvendo
o futuro rei da Inglaterra ameaçavam a estabilidade do trono britânico. A
rainha Vitória não se deixou cegar pela fúria e tratou de apressar o mágico
encontro entre o parvo e dissoluto Eddy e o pilar da virtude, Alix. Já em
1887, ainda traumatizada pelo casamento da irmã de Alix com o grão-duque
russo Serguei Romanov, a rainha escreveria à neta Victoria:

“...estou decidida, no coração e na mente, a garantir-me a querida Alicky [apelido

D R AG O E D I TO R I A L 43
M Á RC I A S A RC I N E L L I

de Alix entre os parentes ingleses] para Eddy ou para Georgie. Deves impedir que outros
russos ou outras pessoas venham raptá-la.”

Abraçada ao camisolão do defunto Alberto, a rainha Vitória


tramava o casamento do século.

44 D R AG O E D I TO R I A L
IV
“Amor! Amor que destilas desejo
pelos olhos e instilas a volúpia
dulcíssima nos corações que invades,
queiram os deuses que não te vejamos
de perto com teu séquito de males
e que não nos persigas tanto assim!
[...]
Amor, que traz para os mortais consigo
A ruína e todas as calamidades!”

(Eurípides, “Hipólito”)
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ROMANCE E TRAGÉDIA
“Que mal terrível é o amor para os mortais!”
(Eurípides, “Medéia”)

No verão de 1884, o czarévitch Nicky encontra pela primeira vez


a princesa Alix von Hasse em São Petersburgo, durante as festividades
do casamento de sua irmã Elisabeth (Ella) von Hasse com o grão-duque
Serguei Romanov. Nicky tinha então 16 anos de idade e Alix, 12. Desta
época datam as primeiras inscrições de “Nicky e Alix” nas janelas do
pavilhão italiano e as primeiras referências que Nicky faria em seu diário ao
amor que sentia por Alix.
Cinco anos depois da primeira visita, Alix retorna a São Petersburgo
com a família e comparece a inúmeros bailes, patina no Nevka congelado,
joga Badminton, vai à ópera, ao teatro, a concertos e banquetes, quase
sempre em companhia de Nicky, que não perdia qualquer oportunidade de
estar com ela.
O luxo asiático dos bailes e banquetes, a música das balalaikas,
a suntuosidade dos uniformes e dos vestidos, a proverbial exuberância
russa, tudo encanta a jovem Alix, agora com dezesseis anos. Sem falar
nas maravilhas pessoais do incansável e apaixonado czarévitch: anfitrião
excepcional, Nicky tinhas maneiras impecáveis, era charmoso, espirituoso,
grande desportista, poliglota, excelente pianista e, embora não fosse alto
como seus tios e primos bem mais espetaculares, era elegantíssimo e
galante. Não bastassem tantas prendas, Nicky tinha um rosto belíssimo e
doces olhos azuis, praticamente irresistíveis. Desta época, Alix se recordaria
sempre com saudades, como de alguns dos dias mais felizes de sua vida.
Tinha início um romance místico e exaltado, uma das histórias de amor
mais trágicas do século.
Notícias de que Alix e Nicky estavam sempre juntos alcançam
a Rainha Vitória que, furibunda, interroga a família sobre um possível
romance entre os dois. Os interrogados negam fervorosamente qualquer
envolvimento entre Alix e Nicky. A rainha, entretanto, estava decidida a
“livrar Alix das garras dos primos russos” e começa a tramar um matrimônio
adequado para a sua neta predileta.

•••

A Rainha Vitória odiava profunda e declaradamente o “gordo

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

czar”, como chamava Alexandre III, e desprezava a Rússia, sua recente


civilização, sua corte dissoluta, sua sociedade depravada e sua resistência
à democracia. Preocupavam-na o crescimento da anarquia e o apego dos
czares tiranos à autocracia, prevendo sérios problemas políticos e perigos
variados para as netas, que insistiam em aventurar-se pelo imenso, inóspito
e incompreensível império, casando-se com os belos e bárbaros primos
russos. Isso, sem mencionar o problema religioso, pois ao desposarem
grão-duques na linha de sucessão ao trono, eram obrigadas a renunciar
aos “erros” do protestantismo para converter-se ao cristianismo ortodoxo.
Odiando os russos em geral e os Romanov em particular (considerava-os
“arrogantes e frívolos”), preocupada com a situação interna e a política
externa da Rússia, a possibilidade de uma união entre Alix e o bárbaro
Nicky aterrorizava-a.
Antes de Alix, sua irmã Ella, uma das princesas mais belas da
Europa, já havia desprezado excelentes partidos, como Fritz von Baden e
Guilherme II da Prússia para casar-se com o belíssimo grão-duque Serguei
Romanov, tio de Nicky. A poderosa avó via com horror estas escolhas do
coração e estava resolvida a salvar a insensata Alix de si mesma. Os planos
da Rainha Vitória para a neta predileta eram bem definidos: reservara para
ela a honra de sucedê-la como a futura rainha da Inglaterra. Não fosse
a irresistível paixão que dominara Alix desde o primeiro contato com o
czarévitch, seu destino teria sido bem outro.
Fiel a seu plano e contando com a cumplicidade de alguns parentes
(enquanto outros, como Ella e seu marido Serguei, esforçavam-se ao
máximo para unir os dois pombinhos), a rainha convida Alix a passar uma
temporada na Inglaterra. A ideia era que, entre partidas de tênis, cavalgadas,
bailes e jogos, sua amizade com o príncipe Albert – ou Eddie, como era
chamado em família – se aprofundasse. Depravado, frívolo e notoriamente
medíocre, a falta de virtudes do desditoso Eddy deveria ser compensada
por uma consorte enérgica e brilhante. Alix era a candidata perfeita, não
apenas por encarnar as qualidades requeridas para o cargo, como por ser a
queridinha da rainha.
Eddie apaixona-se imediatamente pela princesa Alix que, entretanto,
permanece indiferente aos seus parcos encantos e à sua proposta de
casamento. Para ela já era tarde demais: a esta altura estava perdidamente
apaixonada pelo czarévitch Nicky.
A notícia de que Alix recusara a irrecusável proposta de tornar-se
Rainha da Inglaterra e da Irlanda e Imperatriz da Índia surpreende a todos
e especialmente a avó que, desesperada, tenta por todos os meios fazê-la

D R AG O E D I TO R I A L 47
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mudar de ideia. Em cartas furiosas à irmã mais velha de Alix, a rainha,


incrédula e magoada, esbraveja:

...“recusa a melhor posição do mundo! ...Ainda não tem 19 anos, devemos
recordar-lhe seriamente que é uma loucura não colher esta oportunidade de desposar um
homem tão gentil, bom e cheio de sentimento, com um caráter confiável, para não falar
da família de origem, unida e feliz e com uma posição que é a melhor do mundo! O pobre
Eddie está tão sentido por perdê-la! Você e Ernie [Ernst Ludwig, irmão de Alix] não
podem fazer nada? Que loucuras tem ela na cabeça?”

Disposta a atacar em várias frentes, a rainha serve-se também


do Príncipe de Gales, pai do sofrido Eddie, para tentar impedir que
Alix cometesse o disparate de trocá-lo por um “maldito russo”, filho do
“gordo czar” que ela odiava. A princesa de Gales era irmã da czarina Maria
Feodorovna, nascida princesa Dagmar da Dinamarca. Como o czar e a
czarina também não vissem com bons olhos o envolvimento de Nicky e
Alix, a rainha Vitória e o czar tornam-se aliados no esforço para separar
o czarévitch e a princesa. “Alemãs, nunca mais!”, vociferava Alexandre
III referindo-se à sua própria mãe, nascida – como Alix – princesa de
Hasse-Darmstadt, tão mal recebida na Rússia e a quem atribuía-se a culpa
pela infelicidade do czar Alexandre II.
Além da profunda antipatia que tanto o czar quanto a czarina
nutriam pelos alemães em geral, os von Hasse em especial pareciam-lhes
particularmente inadequados. Família obscura (ao contrário da união
brilhante e útil que haviam sonhado para o czarévitch), com um histórico
de graves problemas de saúde e uma tendência à hipocondria e ao fanatismo
religioso, tudo parecia sugerir que a noiva não seria apropriada. Além disso,
Alexandre III considerava o czarévitch muito jovem e imaturo para casar-se
(e, aliás, para qualquer outra coisa que não fosse a prática de esportes, bailes
e viagens recreativas) e naturalmente esperava obter vantagens políticas
com o casamento do herdeiro, vantagens que uma união com Alix não
oferecia.
Motivos pessoais também moviam o czar e a czarina. Durante sua
estada em São Petersburgo, Alix não causara boa impressão à família imperial
e à corte. Sua natureza cítrica desagradara em cheio. Fatalmente comparada
à sua irmã Ella, uma mulher belíssima, elegante e muito popular na corte
de São Petersburgo, o contraste entre as duas irmãs gerava comentários
maldosos e as comparações invariavelmente desfavoreciam Alix, um tipo
apagado e socialmente lúgubre. Acharam-na excessivamente tímida e

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

nervosa (ao cumprimentar estranhos, por exemplo, e à menor emoção,


placas vermelhas surgiam de repente em seu rosto e pescoço), antipática,
desinteressante, rígida, deselegante, mal-humorada, mal vestida e, como se
não bastasse, falava um francês atroz e dançava mal. Em resumo, era um
espantalho, e definitivamente inadmissível como futura czarina.
Como resultado desta campanha, Alix e Nicky são impedidos de
encontrar-se quando, em 1890, ela vai a Ilinskoie visitar a irmã, e a entrada
de Alix em São Petersburgo é proibida.
Para o czarévitch, Alexandre III providencia uma amante (a
graciosa bailarina Matilde Tchesinskaya) e uma longa viagem ao Oriente,
único momento em que o czar parece tentar remediar a discutível educação
que provira a seu herdeiro, tão inadequada a um futuro imperador.

•••

“A viagem é a mais burra e


empobrecedora das experiências.”
(Nelson Rodrigues)

Naturalmente desinteressado pelo mundo em geral e pelo Oriente


em especial (universo que julgava povoado de selvagens e de “macacos”,
como chamava os orientais), Nicky não fora preparado por seus tutores
nem por qualquer leitura ou reflexão para a viagem que pretendia completar
sua formação de herdeiro de 1/6 do planeta. A esta que seria uma excelente
oportunidade para despertar seu interesse pelo mundo que o cercava e no
qual, em breve, desempenharia um papel capital, o czarévitch permanece
alheio, indiferente às maravilhas que presenciava e ao universo que
descobria, mostrando-se perpetuamente blasé, quando não simplesmente
farto, e pleno de preconceitos pueris.
Nicky apreciava imensamente seus companheiros de viagem (seu
irmão preferido, Jorge, alguns jovens aristocratas russos e o príncipe Jorge
da Grécia) e a viagem começa bem. O grupo parte de navio de Atenas e
veleja alegremente em direção ao Cairo, a Bombaim, Singapura, Bangkok,
Saigon, Hong Kong, e o czarévitch é por toda parte aclamado e festejado.
Em Bombaim, entretanto, as condições de saúde de seu irmão Jorge, que
era tuberculoso, pioram sensivelmente e o pobre grão-duque é obrigado a
desembarcar e retornar à clínica no Cáucaso, onde passava a maior parte do
ano. Esta é uma grande decepção para Nicky, e seu discreto entusiasmo pela
viagem que mais o aborrecia do que divertia ou instruía, atenua-se conside-

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

ravelmente. Seus relatos de viagem primam pela fleuma e pela escassez


de informações relevantes, atendo-se a enumerar cidades, monumentos e
templos, sem qualquer comentário. Além das bailarinas de Bangkok, que o
encantam, apenas a Índia consegue inspirar ao impassível czarévitch (que,
como seu pai, nutria uma forte antipatia pelos britânicos), alguma emoção:

“É insuportável, em Deli, estar-se de novo cercado de ingleses e ver por toda


parte uniformes vermelhos!”.

A tudo o mais, Nicky permanece alheio e distante. Um agudo


desinteresse por tudo o que via inspira-o a descrever este importante
périplo a que o obrigara o pai, como:

“... sem sentido. Palácios e generais são os mesmos no mundo inteiro, e isto é
tudo o que me permitem ver. Teria sido melhor ficar em casa.”

Depois da decepção sofrida em Bombaim com a partida de Jorge,


o Japão reservava ao czarévitch um drama cujas consequências seriam
vividas mais tarde por toda uma geração. Após visitar Tokyo, Nagasaki e
Kyoto, sendo recebido com honra e fausto como sempre, Nicky é violen-
tamente atacado, em Otsu, por um jovem japonês, que salta sobre ele e
atinge-lhe o crânio com um golpe de sabre. A bengala do príncipe Jorge
da Grécia impede que um segundo golpe atinja a cabeça do czarévitch,
que já sangrava profusamente e por pouco não perde um olho. O samurai
vingava-se desta forma do comportamento desrespeitoso do czarévitch em
Kyoto (aparentemente, Nicky e seus amigos haviam decidido urinar diante
de um templo). O ferimento, relativamente profundo, deixaria uma grande
cicatriz e até a sua morte Nicky se queixaria de fortes dores de cabeça, que
ele atribuía ao golpe de sabre. A cicatriz mais profunda, entretanto, seria a
exacerbação da fobia de atentados que o assombrava desde o assassinato
do avô e a confirmação de seus preconceitos, que se transformam em
verdadeiro ódio aos japoneses, atitude que contribuiria em grande parte
para precipitar uma absurda guerra contra o Japão em 1904.
A notícia do atentado causa furor em São Petersburgo e Alexandre
III ordena que o czarévitch deixe imediatamente o Japão e retorne a
São Petersburgo, passando primeiramente por Vladvostok, para colocar
a primeira pedra no terminal da Transiberiana. Situada nos confins do
Império, Vladvostok era uma pequena cidade gelada e lamacenta, povoada
em grande parte por coreanos e chineses. A antipatia recentemente inflamada

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do czarévitch por tudo o que fosse asiático reacende-se em Vladvostok


e ele parte tão rapidamente quanto o permitem as conveniências para a
sua amada São Petersburgo, pérola da civilização, mais convencido do que
nunca da superioridade dos russos sobre os orientais.

•••

Enquanto isso, Ella fazia secretamente as vezes de cupido, levando


e trazendo cartinhas de Alix a Nicky e vice-versa, para despeito da Rainha
Vitória, a quem não escapavam as suas manobras. Em mais uma de sua
longa série de cartas à neta Victoria, a rainha esbraveja :

“ ...Quanto a Alicky e Nicky, tu me havias garantido que este ano não haveria
mais nada a temer. Mas agora sei ao certo que, não obstante as precauções de todos vós
– de teu pai, de Ernie e tuas – e, o que é pior, contra a vontade dos pais dele, que não
querem que N. se case com A. porque, segundo a opinião de todos, este matrimônio...
não é justo e não traria felicidade alguma, portanto sem levar nada disto em consideração
e às nossas costas, Ella e S[erguei] fazem de tudo que está a seu alcance para que este
matrimônio se realize, encorajando os jovens e mesmo exortando-os a casarem-se!
“Teu pai deve intervir energicamente, não deve mais permitir visitas de A. à
Rússia e ele, tu e Ernie devem insistir para que toda esta história acabe.
“A situação na Rússia está tão feia, tão degenerada, que a qualquer momento
poderiam acontecer coisas terríveis...
“Escrevi a teu pai, ele deve ser forte e resoluto, mas temo muito que não o seja.
“Tanto aqui quanto na Alemanha (onde a Rússia não é amada), as consequências
seriam as piores, e poderia haver uma separação entre as nossas famílias...”

Alix debatia-se entre o desejo de obedecer ao pai, agradar a avó e


permanecer fiel ao seu coração. Antes de morrer, em 1892, seu pai fê-la
jurar que não se casaria com Nicky, juramento que ela estava decidida a
cumprir. Seus diários, entretanto, enchem-se de poemas de amor e orações
e, embora resignada e obediente, Alix sentia-se profundamente infeliz.
De sua parte, Nicky também ruminava em silêncio a paixão que
os beijos da bela Tchesinskaya não conseguiam aplacar, e esperava que
a seriedade de seus propósitos minasse a resistência de seus pais. Estes
continuavam a caça à noiva adequada, se não ideal. A eleita deveria pertencer
a uma dinastia reinante, concordar em converter-se à religião ortodoxa (os
Romanov nunca se uniam em matrimônio aos Habsburg ou aos Bourbon,
por exemplo, porque a Igreja Católica não permitia a conversão à religião

D R AG O E D I TO R I A L 51
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Ortodoxa), e não ser prima em primeiro grau do czarévitch (para evitar a


propagação de doenças hereditárias), exigências que limitavam a escolha.
Enquanto Nicky continuava a rezar para que o pai lhe permitisse
casar-se com Alix, a família selecionava cuidadosamente candidatas mais
dignas da posição de futura czarina da Rússia. O czar sugere a princesa
Helena, filha do conde de Paris, pretendente ao trono da França. O
matrimônio uniria ainda mais a Rússia à sua única aliada digna de menção.
Helena, contudo, era católica, e corria o risco de ser excomungada se
ameaçasse casar-se com um “herege” russo, e este argumento põe fim às
tratativas.
A segunda candidata, a princesa Margarida da Prússia, provocaria
a Nicky muitos pesadelos, inspirados por sua suprema feiura. Mesmo
temendo a fúria do pai, diante da possibilidade de unir-se em matrimônio
aos bigodes da princesa da Prússia, Nicky declara que antes preferiria
fazer-se monge. Não se cogitou mais dessa união.

•••

“A velhice é a coisa mais inesperada que


pode acontecer a um homem.
(L. Trotsky)

Em 1892, a grão-duquesa Ella decide espontaneamente conver-


ter-se à religião ortodoxa. A conversão não era exigida no seu caso, pois o
grão-duque ocupava uma remota posição na linha de sucessão. Alix, chocada
com a decisão da irmã, declara inúmeras vezes que jamais abandonaria a
religião protestante.
Desde a morte do pai, que adorava, Alix torna-se ainda mais
melancólica e reclusa, e sua saúde é abalada. Sofre continuamente de
ciática, submetendo-se a longos tratamentos, inclusive fora da Alemanha.
Seu irmão Ernst Ludwig sobe ao trono e ela, como última princesa de
Hasse-Darmstadt, reina ao seu lado. Sua ligação com o irmão, já muito
forte, torna-se um tanto mórbida após a morte do pai, quando ela passa a
referir-se a ele como “tudo o que lhe restava”. Terríveis cenas de ciúme são
testemunhadas no castelo quando ele anuncia seu noivado com Victoria
Melita, também neta da Rainha Vitória.
Em sua carta a Nicky de novembro de 1893 (entregue secretamente
por sua irmã Ella), Alix afirma mais uma vez sua decisão de jamais
abandonar a sua religião.

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“... Não posso agir contra a minha consciência e tu, meu caro Nicky, que tens
também uma forte vontade, poderás compreender que para mim é um pecado renunciar
à minha fé, e eu seria infeliz por toda a minha vida se soubesse com certeza que fiz
alguma coisa de injusto. Estou certa de que não desejarias que eu agisse contra as minhas
convicções. Como poderia ser feliz uma união que começa sem a bênção de Deus?... Acho
que é justo que eu te diga mais uma vez que nunca mudarei a minha confissão. Estou
certa de que compreenderás e condividirás o meu ponto de vista, ou seja, de que estamos
sofrendo por algo que é impossível, e que não seria justo da minha parte fazer-te esperar
em vão por algo que jamais se realizará.”
A resposta de Nicky não é menos sofrida e ele ora consola, ora
desculpa-se, ora seduz com os encantos da religião ordodoxa a adorada
“Sunny”. Em carta à Xenia, irmã de Nicky, Alix é categórica e, pedindo-lhe
que evite este assunto tão doloroso para ela, afirma com convicção que
aquele casamento jamais se realizaria.
Em São Petersburgo, entretanto, um acontecimento inesperado vem
alterar o destino dos dois enamorados. Alexandre III, antes irremovível em
sua decisão de impedir qualquer encontro entre Nicky e Alix (havia mesmo
proibido a ida de Nicky a Coburg para o casamento de Ernst Ludwig e
Victoria Melita), começa a repensar suas atitudes. Aos 49 anos de idade,
o czar, até então forte como um carvalho, está gravemente doente. Vê-se
obrigado a considerar a situação de seu herdeiro, tão despreparado, um
tanto frívolo e infantil e – condição ainda mais grave – solteiro, e sem
uma noiva em perspectiva. Muito a contragosto, mas resolvido a remediar
imediatamente a condição do czarévitch, Alexandre III arranca do filho
a promessa de que, se mais uma vez Alix se recusasse a converter-se à
religião Ortodoxa, ele desistiria definitivamente da princesa e se compro-
meteria a aceitar uma noiva apropriada o mais rapidamente possível. Por
enquanto, Alix era preferível a noiva nenhuma.
Felicíssimo e cheio de esperanças, Nicky parte para Coburg, munido
de um padre ortodoxo e de uma professora de russo para a provável futura
noiva.
Desta vez, diante da inesperada reviravolta do destino, da pressão
do amado, dos primos, da irmã, do padre, enfim, Alix cede. Os dois correm
a dar a notícia à Rainha Vitória, também em Coburg para o casamento dos
dois netos. Entre lágrimas de felicidade, comunicam à rainha a capitulação
de Alix, notícia que a “atinge como um raio”, como diria mais tarde,
descrevendo o golpe que a abatera. Diante do fait accompli, entretanto, a
rainha vê-se obrigada a aceitar o inevitável e a desejar felicidades aos noivos.
O diário do czarévitch, tão reticente sobre suas viagens, leituras,

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

estudos, obrigações e participação no governo, agora transborda de


detalhadas descrições de passeios idílicos. Todo o diário é uma écloga,
uma longa ode aos encantos de Alix, enfim, o Cântico dos Cânticos,
mas também um constante e perturbador desfiar dos achaques de sua
amada, que o afligem. Transformado pela felicidade que a união com Alix
lhe proporciona, Nicky mostra-se pela primeira vez capaz de expressar
sentimentos.
De São Petersburgo, o czar e a czarina enviam presentes à noiva
(um bracelete de esmeraldas, um magnífico ovo de páscoa de Fabergé e a
Ordem de Santa Catarina) e a sua benção.
Em cartas e em anotações em seu diário, Alix expressa, não apenas
a felicidade incomparável de finalmente pertencer ao seu amado, mas –
estranhamente – também sua resistência em aceitar o casamento do irmão,
de sequer vê-lo em companhia da noiva.
Os principais jornais da Inglaterra, da Alemanha e da Rússia
noticiam com alarde o noivado que unia mais uma vez o pequeno principado
de Hasse-Darmstadt ao grande império russo. Um jornal de Darmstadt,
contudo, publica um longo artigo sobre as núpcias que expressam as
mesmas preocupações da Rainha Vitória com o destino da jovem princesa:

“É apenas com um sentimento de profunda dor e pena que o povo alemão
acompanha a graciosa e amada princesa Alix durante a sua viagem rumo à Rússia. Não
posso banir dos meus pensamentos o secreto pressentimento de que essa princesa, que
derramou tão amargas lágrimas ao partir de Darmstadt, venha a ter uma vida plena de
lágrimas e amarguras em terra estrangeira...
“Entretanto, o povo alemão não pode considerar estas núpcias com alegria
nem com admiração por decisões ditadas apenas pelo coração. O povo alemão não pode
esquecer as palavras do poeta: ‘Os príncipes são apenas escravos de sua posição; não
podem seguir os ditames de seu coração’.
“Se lançamos o olhar ao czar que se debate entre os espasmos da morte; sobre
a ‘vida privada’ do esposo; sobre a renúncia à fé evangélica da princesa, uma fé à qual
pertenceu até hoje, sincera e convicta da sua verdade, pensamos que apenas uma natureza
heroica seja capaz de superar todas estas terríveis situações.
“Tendo o povo alemão acreditado, até o último momento, na ruptura dessa
união que não pode trazer felicidade alguma à esposa, na medida em que se podem prever
estas coisas, só nos resta envergonharmo-nos de que, no país da liberdade de consciência
e de convicções, possam-se sacrificar por considerações de ordem política a própria fé e
o próprio coração. Os alemães sentir-se-ão felizes se souberem que a princesa encontrou
verdadeira e duradoura felicidade junto ao seu esposo. Enquanto isso, só podemos rezar

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

por sua prosperidade e esperar que tudo corra da melhor maneira possível, malgrado este
obscuro e incerto futuro.”

Por outro lado, enquanto o “povo alemão” decantava as virtudes e


agruras de sua bela e gélida princesinha, aqueles que a conheciam de perto
exprimiam pareceres bem diversos. O ex-encarregado de assuntos russos
em Darmstadt, conde Osten-Saacken, relata seu interessante colóquio com
o marechal da corte de Hasse, em que lhe pede notícias sobre Alix:

“Quando deixei Darmstadt, a princesa Alix era uma menina. Dizei-me
francamente o que pensais dela agora que está crescida”

Ao que o marechal da corte responde, prontamente:



“Que sorte para os Hasse-Darmstadt que a levais embora!”

Nicky tomava a primeira de sua longa lista de decisões infelizes,


insistindo em uma união com uma mulher que desagradava virtualmente
a todos. As conseqüências políticas mais óbvias e imediatas desta decisão,
como a possibilidade de que a noiva fosse mal recebida na Rússia e de
que pudesse angariar antipatias para o herdeiro, teriam ramificações ainda
insuspeitáveis nesta época, e nem mesmo a pessimista Rainha Vitória
poderia prever um roteiro tão sinistro.

•••

Os temores de Alexandre III sobre a hereditariedade da noiva


pareciam confirmar-se. Logo após o noivado, Alix parte para a Inglaterra
para visitar a avó e para tratar-se de ciática e reumatismo nos banhos
de Harrogate. Os diversos males de que padecia a princesa, ao invés de
espantarem o noivo, têm o efeito de reforçar sua inclinação a cultuar
doenças. Sua tendência aos queixumes, característica aparentemente
inédita na família Romanov, tradicionalmente circunspecta e dissimulada
com relação a problemas de saúde em geral, agrava-se notavelmente. Em
seu diário, Nicky derrama-se em anotações detalhadas sobre as famosas
enxaquecas e as dores nas pernas de Alix que a impediam de caminhar
ou de estar em pé, exatamente como sempre forneceram informações
sobre suas próprias dores de cabeça (mesmo antes do golpe de sabre) e sua
necessidade de sono jamais satisfeita. Mais do que um cúmplice passivo,
Alix encontra em Nicky um perfeito parceiro de sua histeria.

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Na intensa correspondência que Nicky e Alix mantêm desde então


transparecem suas diferenças de caráter. Enquanto Nicky demonstra senso
de humor, espontaneidade e leveza em suas declarações de amor eterno,
na descrição de sua rotina, de seus deveres de herdeiro ao trono e de suas
preocupações com a saúde da amada, Alix revela-se desde o início muito
séria, ambiciosa, preocupada, insegura, desprovida de senso de humor,
sempre maternal e autoritária em relação ao noivo. Sua tendência ao
fanatismo religioso começa a evidenciar-se também, assim como o estilo
literário que a imortalizaria: algo entre grilo falante e anjo da guarda, uma
espécie de consciência do futuro marido que exortava-o a beber e fumar
menos, a evitar excessos, a rezar etc., velando inexoravelmente por ele,
funções que insistiria em desempenhar até a sua morte. Em cartas a Nicky
e nas anotações que fazia no diário em que ele registrava lacônicos relatos
de seus dias, Alix instruía-o em praticamente tudo, de hábitos salutares à
vida espiritual, e suas pias interferências liam-se após cada breve registro
do noivo. No futuro, instruiría-o também sobre política.

•••

Sempre muito tímida e insegura, Alix procurava adiar o momento


de apresentar-se à corte russa como noiva do czarévitch. Já em 1889,
quando estivera em São Petersburgo, percebera a impressão desagradável
que seus modos austeros e altivos causaram na sociedade russa. A primeira
oportunidade de retornar a São Petersburgo seria em julho de 1894, para
o casamento de Xênia, irmã de Nicky. Desta provação, entretanto, ela
consegue esquivar-se, com a desculpa do tratamento para o reumatismo.
Em junho deste ano, quando vai visitar a noiva na Inglaterra em
seu magnífico iate Poliarnaia Zvezda (Estrela Polar), Nicky confessa-lhe o
seu affair com a bailarina Tchesinskaya, terminado imediatamente após o
noivado. Alix reage perdoando-o deste imenso pecado:

“...Neste mundo, estamos todos expostos a tentações e, quando somos jovens,


nem sempre podemos combatê-las ... mas, desde que nos arrependamos e retornemos à
estrada reta, Deus nos perdoa...”.

Em outubro, a saúde do czar piora visivelmente e Alix é chamada a


Livadia, na Criméia, onde a família reunía-se em torno do czar moribundo.
Em carta à irmã mais velha de Alix, a rainha Vitória desabafa seus temores
com relação ao futuro da neta:

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“... Toda a minha ansiedade por seu futuro matrimônio é agora maior do que
antes, quando penso que ela, tão jovem, deva subir a um trono tão inseguro e que sua vida
e a de seu marido estarão sempre em perigo...”.

•••

“Que fardo, e ninguém me ensinou nada,


parece-me que o universo vai desabar sobre mim!”
(Lúis XVI, quando da morte de Luís XV)

“Um homem forte não precisa do poder. Um homem


fraco é por ele esmagado.”
(Nicolau II)

Em Livadia, a carruagem que levava Alix e Nicky ao palácio de


verão é recebida pela população com flores e entusiasmo. No palácio,
entretanto, Alix encontra um clima de velório, em que todos sussurravam
nos quartos em penumbra.
Nos dias que antecedem a morte de Alexandre III, Alix observa que
os médicos, conselheiros, ajudantes, funcionários do governo e membros
da família que entravam e saíam do palácio não se preocupavam em
informar o czarévitch sobre a saúde do czar. Dedicada a orientar, consolar
e comandar, Alix escreve no diário de Nicky:

“Deves fazer com que os médicos te digam primeiramente a ti como está teu pai
e que se aconselhem contigo, porque és o futuro czar”.

Nicky, entretanto, não se encontra em condições de ouvir


conselhos, petrificado como está diante da inevitabilidade de seu destino,
que o horroriza. Preparado para a vida militar e mundana, mas não para
cumprir os deveres de herdeiro ao trono, tanto o czar quanto o czarévitch
percebem, tarde demais, como a sua formação fora inadequada e quão
pouca sabedoria demonstrara Alexandre III ao agir como se fosse viver e
reinar para sempre.
Diante deste Hércules que definhava, deste baluarte da autocracia
que desabava, Nicky sente-se física e moralmente pequeno, incapaz de
suportar o fardo sobre-humano de governar 140 milhões de almas pela
afirmação indiscutível de sua onipotência, pela simples emanação de seu
poder transcendente.

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Alix mostra-se incansável em suas exortações ao noivo:

“O que quer que aconteça, sofre, suporta e persevera...”


“Quando te sentires vergar sob a tua pesada cruz, eleva teu olhar a Deus!”

Reunindo as forças que lhe restavam, Alexandre III finalmente
manda chamar o czarévitch para transmitir-lhe, in articulo mortis, sua herança
espiritual, que poderia resumir-se nestes mandamentos:

– Evitar a qualquer custo o caminho do liberalismo escolhido por seu predecessor,


Alexandre II, escolha que não o salvara de ser despedaçado pela bomba dos anarquistas
revolucionários;
– Colocar sempre em primeiro lugar a manutenção da paz, dentro e fora da
Rússia, para que o país possa desenvolver-se livre e tranquilamente; em termos de política
externa, manter sempre uma posição de independência. (“A Rússia não tem amigos, todos
temem a grandeza do nosso Império. Evitar de qualquer maneira as guerras...”);
– Conservar a autocracia como forma de poder (“Se a autocracia cair, e Deus não
o permita, a Rússia também cairá com ela, e se a potência russa tradicional for destruída,
haverá uma era de desordens e de guerras civis...”);
– Em termos de política interna, defender a Igreja, que nos anos difíceis salvou
a Rússia;
– Ser forte e corajoso e não demonstrar debilidade.
– Ouvir a todos, mas obedecer apenas a si mesmo e à sua consciência;
– Ter sempre em mente que o czar carrega a responsabilidade do destino de seus
súditos diante do mais alto de todos os juízes. A fé em Deus e seu sacro dever de czar
devem ser o fundamento de sua vida.

Nicolau ouve sério e contrito os conselhos e pedidos do pai


moribundo, jurando respeitar suas últimas vontades.
Alexandre III morre dois dias depois, a 1° de novembro, aos 49
anos de idade, e o desespero de Nicky é patente. Diante de Alix, que assiste
perplexa a este espetáculo, Nicky lança-se nos braços do cunhado Sandro,
dizendo:

“Sandro, o que devo fazer? O que será de mim, de ti, de Xenia, de mamãe, de
toda a Rússia? Não estou pronto para ser czar! Não quero ser czar! Não entendo nada do
governo do Estado...”

Provavelmente o czar mais poderoso desde Alexandre I, Alexandre

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III foi sinceramente pranteado pelo povo russo. Este, que seria o último
funeral de um czar, era um espetáculo de pompa e solenidades inéditas
na Europa ocidental. As reações internacionais à sua morte prematura
revelavam um profundo respeito pelo czar que conseguira a proeza de
manter a paz dentro e fora da Rússia (mesmo durante a crise dos Bálcans,
Alexandre III resistira bravamente às ambições expansionistas de seus
generais e a provocações externas, mantendo-se fora do conflito) e, para a
elite, muita ansiedade com relação ao governo do futuro czar.
Sobre Nicolau, que caminhava em direção ao trono como quem
caminha para o cadafalso, Alexandre III lançava a sua sombra de homem
forte e determinado, de implacável defensor da autocracia russa. A
comparação com o frágil e inseguro Nicky, doce criatura que ameaçava
chorar todas as vezes que o chamavam “Majestade”, era inevitável e avassa-
ladora.
No dia seguinte à morte de Alexandre III celebra-se, em cerimônia
solene, a conversão de Alix à religião ortodoxa, que a partir deste dia passa
a chamar-se Alexandra Feodorovna. Durante 17 dias, de manhã e de tarde,
Alexandra comparece com seu véu negro à catedral para assistir ao ofício
fúnebre com a família imperial. “Ave de mau agouro”, murmurava o povo,
fazendo o sinal da cruz quando ela passava. Muitos viam pela primeira vez
a noiva do novo czar, vestida de negro, ao lado do caixão de Alexandre III.
O corpo do czar, embalsamado quando já haviam transcorrido três
dias da sua morte, permanece exposto ao público ainda por três semanas
antes de ser sepultado. Parte do ritual consistia em beijar os lábios do
augusto defunto, que depois de poucos dias exibia uma cor pavorosa e
emanava um poderoso odor. Esses ritos macabros, que teriam horrorizado
muitas mocinhas, a Alexandra não pareciam assustar ou repelir. Conquistada
pelo esplendor bizantino das igrejas, pela solenidade dos ritos e por toda a
magnificência da religião ortodoxa, Alexandra em breve se esqueceria da fé
que havia renegado, para abraçar com todo o fervor de seu temperamento
exaltado e inclinado ao misticismo, a nova Igreja que a acolhia.
Entretanto, luto ou não luto, urgia casar o novo czar. A cerimônia
deveria realizar-se tão logo terminassem os quase intermináveis rituais
do funeral de Alexandre III, cuja salma percorria toda a Rússia, e antes
do Advento (uma espécie de quaresma durante a qual, segundo a Igreja
Ortodoxa, não é permitido realizar matrimônios). O luto oficial pelo czar
defunto seria então interrompido por um dia.
Até então, Alexandra desagradara apenas à nobreza russa com
sua timidez, seu mau humor e sua austeridade. Com o matrimônio em

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seguida ao funeral, o povo russo, notoriamente supersticioso, começa a


referir-se a ela como a “niemka [alemã] do mau-olhado”, e dizia-se que “os
matrimônios celebrados após um funeral estão fadados à desgraça”. “O
meu casamento” – comentaria Alexandra – “celebrado logo depois [do
funeral de Alexandre III], pareceu-me ainda um daqueles ritos fúnebres
aos quais eu acabara de assistir.”
Os oito mil convidados que abarrotavam as salas oficiais do
Palácio de Inverno na manhã de 26 de novembro, maravilham-se com
a beleza do casal imperial, sobretudo de Alexandra Feodorovna que,
pálida e séria, coberta de diamantes, singrava majestosamente em direção
à capela, como uma aparição celestial. Devido ao luto, não haveria baile
após a longuíssima cerimônia de matrimônio, apenas uma recepção aos
convidados, naturalmente com o típico fausto estonteante das cerimônias
e comemorações russas.
Já no dia seguinte ao casamento, Nicolau é engolido por suas
obrigações de czar, recebendo ministros e assinando intermináveis atas,
funções que o mortificavam, pois não se considerava à altura de desempe-
nhá-las. Antes e depois destes encontros, Nicolau mostrava-se sempre
muito nervoso e abatido.
Enquanto não se providenciava sua residência definitiva, o casal é
forçado a viver no Palácio Anitchkov, no qual reinava absoluta a czarina
mãe, Maria Feodorovna. Desde os tempos de Paulo I (1796), a czarina mãe
gozava de uma posição predominante em relação à esposa do novo czar.
Logo, a tensão entre Alexandra e a sogra atinge níveis insuportáveis,
apesar dos esforços de Alexandra para adaptar-se à desagradável situação.
Como descreve Olga, irmã de Nicolau que também vivia no palácio com o
marido, a velha e a nova corte coabitavam sob o mesmo teto:

“[Alexandra e minha mãe] certamente haviam tentado compreender-se, mas


não haviam conseguido. Eram diferentes demais em termos de caráter, hábitos, compor-
tamento. Minha mãe retomou, passado o primeiro choque, as suas funções públicas, mais
presunçosa e forte do que nunca. Adorava divertir-se, amava as joias, os belos vestidos e
a luz dos refletores sobre ela. Tudo o que aborrecia meu pai era o seu elemento. Agora
sentia-se senhora absoluta. Começou até a dar a Nicky conselhos sobre negócios de
Estado, sobre os quais nunca se havia interessado. Sua palavra na casa era lei. E Alicky era
tímida, fechada, às vezes de mau humor e nunca afável com as outras pessoas. No palácio,
nunca agradava ninguém: se estava séria, dizia-se logo que estava de novo de mau humor,
se por acaso sorria, dizia-se que era fingimento.
“Deve-se dizer que minha mãe escutava com prazer todas estas maledicências.

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E...suas amigas nunca foram muito benévolas com relação a Alicky, desde o início –
sobretudo no que se referia ao ciúme que sentia de sua sogra”.

Nas diversas cartas nostálgicas que envia neste período a seus


parentes, sobretudo a seu irmão Ernst, Alexandra expressa sua aversão
aos compromissos sociais a que a sua posição a obrigava. Referindo-se à
recepção do Ano Novo de 1895 que o czar oferecera ao corpo diplomático,
ela confidencia:

“Foi terrível, pensei que fosse morrer! Tive que falar com eles em francês, e
quase todos me eram estranhos...”

A esta altura, suas enxaquecas eram mais constantes do que


nunca, provavelmente devido à tensão que reinava no Palácio Anitchkov.
Entretanto, em março de 1895 uma grande felicidade vem aliviar as agruras
do sofrido casal, que só encontrava conforto em sua vida privada: Alexandra
estava grávida. Agora, finalmente poderia eximir-se dos odiados bailes e
recepções que tanto a aterrorizavam e exauriam. Certamente inspirada por
sua nova condição de mãe de um provável herdeiro, Alexandra inaugura
nesta época – ainda que timidamente, a princípio – sua longa carreira de
conselheira política do marido, imiscuindo-se nos negócios de Estado,
sobretudo quando o vê nervoso e inseguro, o que era uma constante na
vida do czar.
Na primavera, Nicolau finalmente decide-se a transferir-se com a
czarina para Tsarskoe Selo, no Palácio Alexander, o mais íntimo de todos os
seus palácios e o seu predileto. Projetado pelo arquiteto italiano Giacomo
Quarenghi, o palácio era uma belíssima construção em estilo neoclássico,
de linhas arquitetônicas simples, ao contrário de seu vizinho pomposo e
barroco, o palácio de Catarina. Seu interior, contudo, muito sofreria com
as interferências de Alexandra, que o submeteria aos golpes mortais de seu
gosto burguês. O príncipe Felix Yussupov escreveria a respeito:

“Apesar de suas dimensões modestas, o palácio teria mantido intacto o seu


encanto, não fossem as infelizes “melhorias” trazidas pela jovem imperatriz. Ela substituiu
a maior parte dos quadros e dos baixo-relevos por boiserie de mogno e ângulos íntimos do
pior gosto possível. Encomendou da Inglaterra móveis novos fabricados pela Maples e a
velha mobília foi descartada e armazenada em algum lugar.”

Ao invés de servir-se das elegantes peças de antiquariado da coleção

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de Catarina a Grande colocadas à sua disposição, Alexandra decide decorar


todo o palácio encomendando por correspondência móveis fabricados
pela grande loja popular inglesa, para desespero da família, horror dos
visitantes e deleite da corte, que a criticava com revigorado fervor. As
atrocidades cometidas pela czarina contra o Palácio Alexander em sua
missão decoradora não seriam facilmente perdoadas pela alta sociedade,
que já a desprezava.
A 15 de novembro de 1895 nasce Olga, a primeira filha de Nicolau
e Alexandra. O casal havia decidido que, se fosse menino, chamar-se-ia
Paulo, o que muito preocupou a czarina mãe. O único czar da dinastia
Romanov de nome Paulo era o filho de Catarina a Grande, doente mental
de duvidosa legitimidade que fora assassinado em um complot de família.
Nem mesmo a compreensível decepção causada pelo fato de não
ter produzido o herdeiro ao trono vem nublar a felicidade do jovem casal,
especialmente de Alexandra, que resplandecia na maternidade. Contra
todos os conselhos da família e os costumes em vigor, e para horror da
Rainha Vitória e das nurses inglesas, Alexandra insiste em amamentar a filha
e recusa os médicos ingleses sugeridos pela avó.
Embora apreciasse muito mais o seu papel de mãe e esposa,
Alexandra não podia subtrair-se às suas obrigações de czarina que, relutante
e mal-humorada, via-se forçada a cumprir. Em novembro de 1895 termina
o luto oficial pela morte do Czar Alexandre III e desta vez a própria
Alexandra organiza a recepção do Ano Novo para 3500 convidados.
Nicolau anota orgulhoso em seu diário:

“Pela primeira vez demos juntos a nossa recepção de Ano Novo. Alix
desempenhou suas funções perfeitamente. Recebeu os diplomatas, o Conselho de Estado,
os membros do Senado, a corte e o séquito...”

•••

“Embora o czar em seu ser físico seja


como os outros homens, em sua autoridade ele é como Deus.”
(Agapetus, escritor bizantino do século VI)

A data da coroação do czar e da czarina é fixada para o dia 26 de


maio de 1896. De acordo com a tradição, a cerimônia seria realizada em
Moscou, onde Ivan III proclamara-se o primeiro “Czar e Autocrata de

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todas as Rússias”, quase quatro séculos antes. Com a queda de Roma e


depois de Bizâncio, o príncipe Ivan declarava-se o poderoso senhor da
“Terceira Roma, e uma quarta jamais haverá.”
Por mais de 700 anos Moscou fora a fortaleza da religião ortodoxa,
a cidade das “40 vezes 40 igrejas” que ostentavam altas cúpulas em forma
de cebola e uma floresta de cruzes que apontavam para o céu. Na cerimônia
da coroação, tradição que perdurava há séculos, realizava-se a unção física
e espiritual do representante de Deus na Terra, e cada coroação renovava
o poder da religião ortodoxa e da autocracia. Era a suprema celebração da
Igreja russa, seu poder e sua majestade encarnados na excelsa pessoa do
czar.
Nicolau e Alexandra chegam a Moscou uma semana antes da
data da coroação e todos os dias realizavam-se cerimônias, entre as quais
uma impressionante serenata de 1200 vozes. Depois das recepções a
reis, príncipes e embaixadores, o casal retira-se, segundo a tradição, a um
convento, para meditar sobre a importância do próximo evento. Moscou
fervilhava de convidados e visitantes. Palácios eram restaurados, outros
construídos, lâmpadas para a iluminação noturna eram colocadas nas
portas da cidade e nos arcos de triunfo, edifícios e casas eram pintados e
adornados, ostentando bandeiras e faixas. De toda parte chegavam pessoas
para assistir ao “maior espetáculo da Terra”; dizia-se que os doentes eram
curados e os fracos recuperavam a força ao verem um czar ser coroado.
Nicolau teria preferido a primeira coroa dos soberanos russos,
aquela que Vladmir o Monômaco usara 8 séculos antes. Dois motivos
poderiam ser atribuídos à sua escolha: o período anterior a Pedro o Grande
é considerado menos ocidental, mais russo, e portanto a sua seria uma
preferência inspirada na antiga tradição. Por outro lado, poderia tratar-se
de uma consideração prática, visto que a coroa arcaica, bem mais simples
do que aquela do tempo de Catarina a Grande, pesava apenas 900 gramas.
Entretanto, conselheiros e mestres de cerimônia impõem-lhe exatamente
a coroa preciosa e pesadíssima, alta como uma mitra, que ostentava uma
cruz de diamantes, enormes rubis, quarenta e quatro diamantes grandes e
diversos menores, e 38 pérolas rosadas, numa exibição da riqueza da Rússia
e do peso da dignidade dos czares.
Os sinos do Kremlin anunciam o início da procissão, seguidos pelos
sinos das outras igrejas. O cortejo é aberto pelos regimentos de elite, pela
cavalaria da Guarda Imperial e pela Guarda Cossaca, orgulho do exército
russo, todos resplandecentes em seus esplêndidos uniformes. Em seguida
desfilam os nobres da corte e os representantes dos diversos territórios

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russos, que na variedade e na riqueza de seus trajes coloridos e exóticos,


refletem a imensidão do império. Acompanham-nos a Guarda Musical,
entoando o hino do czar, enquanto a multidão explode em gritos de “Deus
proteja o Czar”.
Finalmente, Nicolau II surge sozinho, a cavalo, saudando com a mão
direita a multidão que o aclama. Atrás dele seguem grão-duques, monarcas
de diversos países, embaixadores e em seguida, a carruagem dourada em
forma de ovo que levava Alexandra e a czarina mãe. Puxada por oito
cavalos e acompanhada por vários oficiais, pajens e cossacos, a carruagem
que Fabergé reproduziria nos mínimos detalhes era um espetáculo à parte.
Em meio aos vivas da multidão, o cortejo chega à Catedral
Ouspensky no Kremlin. Diante do portão, Alexandra e Nicolau são
recebidos pelo clero e abençoados com água benta. Em seguida, beijam a
cruz e os ícones. O trono de Nicolau, que pertencera a Alexei Romanov, é
cravejado de 870 diamantes, além de pedras preciosas. Já aquele destinado
a Alexandra é de marfim e fora confeccionado para a princesa Sophie
Paléologue de Bizâncio, esposa de Ivan o Terrível. Um terceiro trono,
colocado ao seu lado, destinava-se à czarina mãe, Maria Feodorovna.
Um coro espetacular abre a cerimônia, que duraria cinco longas
horas. O czar é ungido no peito, enquanto Alexandra recebe a unção
apenas na fronte. Dois sacerdotes cobrem os ombros do czar com o
manto púrpura bordado a ouro e ornado de arminho. Das mãos de um
dos sacerdotes – como representante de Deus - Nicolau recebe a coroa,
com as palavras:

“Este signo visível é o símbolo da invisível coroa, que te é concedida como chefe
supremo de toda a Rússia, por Nosso Senhor Jesus Cristo, com a Sua benção, juntamente
com o mais alto e soberano poder sobre o teu povo”.

Ungido com o óleo santo, Nicolau é proclamado “Nicolau II,


Verdadeiro e Único Imperador e Autocrata de Todas as Rússias”, e pode –
por esta única vez – penetrar no santuário e celebrar a missa como oficiante
da Igreja Ortodoxa. Quando subia os degraus em direção à iconostase, o
colar da Ordem de Santo André escorrega-lhe dos ombros e cai sobre o
tapete com um baque surdo. Apenas poucas pessoas se apercebem desse
fato e mais tarde seriam obrigadas a jurar segredo sobre o ocorrido para
evitar os comentários supersticiosos que o incidente fatalmente suscitaria.
Em suas memórias, Maurice Paléologue, por muitos anos
Embaixador da França em São Petersburgo, registraria as explicações que
lhe fornecera o ex-ministro da Justiça sobre os poderes e deveres do czar:

64 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“O czar é o ungido do Senhor, enviado por Deus para ser o supremo guardião da
Igreja e o todo-poderoso regente do Império. Na crença popular ele é até mesmo a imagem
de Cristo na Terra.
“Tendo recebido seu poder diretamente de Deus, é apenas a Deus que ele deve
prestar contas. Da origem essencialmente divina de sua autoridade resulta que a autocracia
e o nacionalismo são inseparáveis. Portanto, é necessário eliminar os tolos que ousam atacar
estes dogmas! Liberalismo constitucional é uma heresia e uma estúpida quimera.
“Só há vida nacional dentro da estrutura da autocracia e da ortodoxia. Se reformas
políticas são necessárias, elas devem ser realizadas apenas no espírito da autocracia e da
ortodoxia.”

A propósito do momento da coroação, a irmã de Nicolau, Olga,


observaria:

“...a partir deste momento, Nicolau tornava-se o único responsável diante de Deus.
Isto parece pouco realístico hoje, numa época em que o poder absoluto de um soberano está
tão desacreditado, mas no momento da coroação este vínculo, que fazia do czar da Rússia o
servidor de Deus, parecia sólido e consolador.”

Tendo na mão direita o cetro e na esquerda o globo imperial, Nicolau


ajoelha-se e pronuncia o juramento da coroação. Em seguida ergue-se e, com
um gesto, chama Alexandra, que se ajoelha diante dele. Por um instante,
Nicolau pousa simbolicamente sobre a cabeça da esposa a sua coroa. Um
observador diria mais tarde que Alexandra era

“...seguramente a mais bela entre as damas presentes [e que] ao subir ao palco...


parecia-se mais à Efigênia que se dirige ao sacrifício do que à imperatriz do mais potente
império do mundo.”

Os grão-duques Serguei e Pavel, irmãos do falecido Alexandre III,


cobrem os ombros de Alexandra com o pesado manto da coroação. Nicolau
ajuda-a a levantar-se, e com um delicado beijo sela a sua coroação.
Centenas de vozes entoam o canto Mnogoie Lieto (muitos anos de vida),
e inicia-se o Te Deum, enquanto explodem os 101 disparos que anunciam que
o czar foi coroado. Nicolau então levanta-se e recita a prece por seu povo,
provavelmente o momento mais emocionante de toda a cerimônia. Diante
dos súditos ajoelhados, Nicolau II ora, solene e emocionado:

“Eleito czar e juiz dos Teus súditos, inclino-me diante de Ti, Senhor, e rogo-Te
que me conduzas e me guies com Tua sabedoria em meu imenso dever”.

D R AG O E D I TO R I A L 65
M Á RC I A S A RC I N E L L I

A cerimônia conclui-se com a liturgia e então a czarina mãe e os


membros da família, por ordem de idade e grau de nobreza, passam a
beijar a mão do czar e da czarina. O cortejo deixa a igreja e, ao sair, o casal
coroado inclina-se três vezes diante da multidão que, entusiasmada, entoa
o hino do czar. Os sinos do Kremlin dão o tom para as outras igrejas e
tem início um interminável badalar em toda a cidade. Como escreveria
Elisabeth Heresch em “Alessandra, tragedia e fine dell’ultima zarina”:

“Quem poderia, presenciando a cerimônia de coroação de um czar, permanecer


indiferente a tal espetáculo, que reflete a concepção de um poder temporal concedido
‘pela bondade de Deus’? Menos do que todos a própria Alexandra que, em sua propensão
ao misticismo, é subjugada pela profunda simbologia dos rituais e vê reforçada sua opinião
sobre o ‘poder concedido por Deus’, que a acompanharia pelo resto da vida.”

A notória histeria de Alexandra, sua natureza dramática e inflamável


e sua tendência ao fanatismo, ao fervor religioso e ao misticismo, seriam
agudamente exacerbadas pela conversão à religião ortodoxa, cujos rituais
e liturgias predispunham à exaltação estética e ao desvio místico. A nova
religião invade-a com a força de uma revelação, alterando até a deformidade
a sua fé, a sua visão de Deus, numa degeneração mórbida do sentimento
religioso, substituído por arrebatamentos de furor santo.

•••

“Tragédia é a luta do homem contra o que é


mais forte do que o homem.”
(G.K. Chesterton)

Alexandra não era a primeira czarina alemã. Ana Leopoldovna, por


exemplo, mãe do czar Ivan VI, era uma duquesa de Braunschweig-Lü-
neburg. Catarina Alexeievna (Catarina a Grande), nascera Augusta Sofia
Friederike von Anhalt-Zerbst. A primeira esposa do czar Paulo, Natalia
Alexeievna, era Guilhermina Luisa, princesa de Hasse-Darmstadt, e
sua segunda esposa, Maria Feodorovna, era Sofia Dorotéia, princesa de
Württemberg. Alexandre I, que entrou para a história como o czar que
derrotou Napoleão, casou-se com Luisa Augusta Durlach, princesa de
Baden-Baden, futura czarina Elizabeth Alexeievna. Seu sucessor desposaria
Alexandra Feodorovna, nascida Carlota Joaquina da Prússia. Maximiliana
Guilhermina Augusta Sofia Maria von Hasse-Darmstadt seria a czarina

66 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Maria Alexandrovna, esposa de Alexandre II, avô de Nicolau II. Esta longa
cadeia de princesas alemãs seria quebrada com o casamento de Alexandre
III, pai de Nicolau, com a princesa Dagmar da Dinamarca, czarina Maria
Feodorovna.
À parte Nicolau II e Alexandra que, contra a vontade de suas
respectivas famílias, haviam decidido casar-se por amor, a sequência
de uniões com princesas alemãs atendia a interesses dinásticos e visava
amainar a antiga e perigosa inimizade entre russos e alemães. Na verdade,
os Romanov pouco têm de eslavo, sendo basicamente alemães em termos
biológicos.
Além de notórios supersticiosos, os russos costumavam alternar
sua proverbial hospitalidade e recente abertura ao Ocidente com crises
xenófobas e surtos de eslavofilia, e teriam desde o início prevenções contra
Alexandra. Começaram por dizer que ela havia entrado no país atrás de
um caixão (sua chegada coincidira com a agonia e morte de Alexandre III,
o que era considerado mau agouro). Em seguida, quando ela parecia ter
conquistado uma certa popularidade com sua beleza e genuína dedicação
à fé ortodoxa, uma tragédia ocorrida durante os festejos da coroação viria
comprometer seriamente a sua imagem, como também a de Nicolau.
Quatro dias após a coroação, havia sido preparada uma gigantesca
festa popular em uma área utilizada para exercícios militares, conhecida
como Prado de Kodynka. Para essa finalidade, havia ali dezenas de
trincheiras e fossas, além de poços abandonados. A escolha de Kodynka
para a realização da festa popular era igualmente ditada pela tradição; a
comemoração da coroação de Alexandre III também acontecera ali.
Motivos práticos também orientavam a escolha: o prado era provavelmente
o único lugar nas vizinhanças de Moscou capaz de abrigar a multidão
prevista para a festa. Seriam distribuídos presentes (cálices esmaltados com
a águia imperial e o monograma do novo czar) e haveria bebida, comida
e espetáculos teatrais e circenses para todos. Anunciara-se a presença do
casal imperial, prevista para o meio-dia. À meia-noite começavam a chegar
muitas famílias que queriam garantir seu lugar na festa, e de madrugada o
número de pessoas já beirava os cem mil. Para controlar a multidão, haviam
sido destacados apenas 60 soldados, cujo comandante observava com
crescente apreensão a rápida multiplicação e o amontoamento de pessoas
durante a noite. Ao raiar do dia, temendo uma catástrofe, o comandante
solicita reforços, que não chegariam a tempo.
De repente difunde-se a notícia de que os souvenires não seriam
suficientes para todos. De fato, não seria possível contentar as cerca de

D R AG O E D I TO R I A L 67
M Á RC I A S A RC I N E L L I

500.000 pessoas que já se comprimiam diante dos cordões que isolavam


a praça onde se realizaria a festa. A multidão se impacienta e enfurece
com essa notícia, rompe os cordões de isolamento e precipita-se sobre
as pranchas de madeira que cobriam as fossas e trincheiras. As pranchas
não suportam tanto peso e se rompem, ferindo e prendendo inúmeras
pessoas, que por sua vez eram pisoteadas pelas que vinham atrás. Não
era possível deter o estouro da massa que atropelava e esmagava os que
estavam à frente, caindo uns sobre os outros nas fossas, nas trincheiras, nos
poços, e continuava a empurrar e a avançar. Gritos e lamentos de homens,
mulheres e crianças ouviam-se mesmo à distância. À luz do dia que nascia
o prado tinha o aspecto tenebroso de um campo de batalha. Por toda a
parte viam-se cadáveres ensanguentados. As comidas, bebidas e presentes
permaneceriam intactos.
A tragédia de Kodynka poderia ter sido evitada: durante a festa da
coroação de Alexandre III, trinta e duas pessoas haviam sido pisoteadas
no mesmo local. Entretanto, os organizadores das comemorações de 1896
preferiram ignorar esse precedente. Cerca de duas mil pessoas morreram
nesta triste ocasião e contavam-se milhares de feridos.
Diante de tal catástrofe, Nicolau e Alexandra decidem interromper
a programação oficial. Naquela noite o casal deveria comparecer a um
baile oferecido pelo embaixador francês, conde Louis Gustave Montebello.
Entretanto, os quatro supertios do czar, Vladmir, Alexei, Serguei e Pavel
tratam de convencê-los de que tal atitude seria encarada como uma ofensa
pela delegação francesa (a esta altura, a França era a única aliada da Rússia,
além do insignificante Montenegro) e de que a mesma desgraça acontecera
na Inglaterra e ninguém se preocupara excessivamente com o fato. Muito a
contragosto, entristecidos e assustados, Nicolau e Alexandra comparecem
ao baile (que, aliás, já havia sido cancelado pelo embaixador, na certeza
de que suas majestades não compareceriam à festa na mesma noite do
ocorrido). Um observador definiu-o como “o baile mais triste da História”.
Agindo contra seus princípios morais e sua natureza, Nicolau
sepulta suas intenções sob a pressão dos tios aterrorizantes. Esta lamentável
decisão, ditada não por sua consciência, mas por sua família, concorreria
para denegrir sua imagem, dentro e fora da Rússia. Mais do que a própria
catástrofe (encarada como outro negro presságio de um trágico reinado), a
imagem do casal que saltitava alegremente horas após tão funesto aconte-
cimento, indiferente a tantas mortes e a tanto sofrimento, conquistaria
muitas antipatias. Sobretudo Alexandra seria muito criticada (porque o czar
era popular por definição), e por muito tempo seu nome estaria ligado à
tragédia da coroação, que não seria facilmente esquecida. Comentava-se:

68 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“A niemka dança... A ela não importa que milhares de mujiks tenham morrido esta
manhã! Por acaso ela não está acostumada aos funerais?”

As providências tomadas pessoalmente por Nicolau e Alexandra,


que durante dias correm de hospital em hospital para visitar os feridos,
pagam pelo sepultamento dos mortos e conferem generosas doações
e pensões (subtraídas de seus fundos privados) às famílias atingidas,
não bastariam para aplacar a indignação da população pela indiferença
demonstrada pelos soberanos ao seu sofrimento. Poucos souberam que
a czarina estava grávida na ocasião e que a terrível tensão causada pela
tragédia provocara-lhe um aborto.
Chegado o momento de punir os culpados pela tragédia de Kodynka,
mais uma vez a atitude de Nicolau decepciona. Os responsáveis pela
organização da comemoração, o ministro de corte conde Vorozov-Daskov
e o governador de Moscou, grão-duque Serguei, não seriam sequer tocados.
Com relação a este último, há duas versões sobre a atitude de Nicolau:
segundo a primeira, ele teria desejado demitir Serguei, mas sucumbira à
pressão de outros familiares que ocupavam cargos importantes e ameaçavam
demitir-se em represália à punição de Serguei; na segunda versão dos fatos,
o grão-duque oferecera sua demissão e Nicolau não a aceitara. A verdade é
que o relacionamento entre Alexandra e Ella (irmã de Alexandra e esposa
do grão-duque) esfriaria consideravelmente depois deste evento. A saga
da punição dos culpados terminaria com a demissão do chefe supremo da
polícia de Moscou, enquanto Serguei e Voronzov-Daskov permaneceriam
como dantes, intocados.
Algumas semanas após a coroação, uma nova tragédia viria coroar
a série de acontecimentos funestos que a população russa interpretava
como maus presságios ligados à presença de Alexandra. Durante uma
cerimônia em honra do casal imperial em Kiev, antiga capital de São
Vladmir, venerada como a segunda cidade sagrada da Rússia, um barco que
levava trezentos espectadores afunda diante dos olhos atônitos do czar e da
czarina. Entre a população supersticiosa comentava-se que “pela influência
nefasta da niemka, nosso imperador está fadado a catástrofes” e “a morte
a acompanha”.
O reinado inaugurado com um banho de sangue terminaria com
um banho de ácido, e já se liam os prenúncios de um trágico destino.

D R AG O E D I TO R I A L 69
V
“No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo Inverno após novo Outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.”

(Fernando Pessoa)
M Á RC I A S A RC I N E L L I

NICOLAU O INFORTUNADO
“A voz alta, é o soberano; a voz baixa, é a soberania. Aqueles que em um reino
sabem distinguir essa voz baixa e entender o que ela
sussurra à voz alta, esses são os verdadeiros historiadores.”
(Victor Hugo, “L’homme qui rit”)

Nicolau II pagaria caro pelos erros políticos de Alexandre III. Entre


outros lapsos e equívocos paternos, destaca-se o de tê-lo criado, a ele que em
breve seria senhor de 1/6 do planeta, como um playboy, e de tê-lo mantido,
até os 24 anos de idade, distante das questões de Estado e praticamente de
qualquer responsabilidade.
Desde o primeiro ano de seu reinado, Nicolau demonstra claramente
ser um tipo imaturo e influenciável, tristemente despreparado para o
cumprimento de seu “imenso dever”. Suas decisões baseiam-se geralmente
nos conselhos da última pessoa a falar com ele e nos nebulosos ditames da
sua “intuição” ou do seu “instinto”. Os primeiros anos de seu reinado são
marcados pela compulsão de agradar a todos o tempo todo. Consequen-
temente, conseguiu apenas a façanha de desagradar a todos a maior parte
do tempo. A princípio, submetia-se à autoridade e aos conselhos da mãe,
por hábito e por respeito à sua experiência como czarina ao lado do pai;
a Pobedonostsev, por considerá-lo um eco da voz do pai e um defensor
contumaz da autocracia; e aos supertios Vladmir, Alexei, Serguei e Pavel,
por puro terror de contrariá-los. Perseguido pelo fantasma do pai terrestre,
pelos desígnios do Pai celeste, pelas exigências dos tios, pelas exortações dos
ministros e pelas pressões da mãe, Nicolau II debatia-se, confuso e indefeso.
Sem vontade ou arbítrio, vagava nos mares de sua insegurança essencial, de
suas perpétuas hesitações hamletianas e de seu completo desinteresse por
tudo o que não fosse absolutamente trivial ou aparentemente espiritual.
Aos poucos, porém, a influência dessas personagens sobre o czar é
substituída por uma única voz: a de Alexandra, a única pessoa a quem ele
temia mais do que aos tios e que em pouco tempo passa a julgar-se mais
capacitada a compreender a situação política da Rússia do que o marido.
Alexandra Feodorovna viria salvá-lo de si mesmo e de todos os outros,
substituindo e personificando todas as vozes que o assombravam, inclusive
a da sua consciência. Em breve, a czarina conseguiria remover praticamente
todos os conselheiros de que Nicolau se fiava, isolando-o politicamente
e alienando-o ainda mais das questões de política interna, às quais fora
sempre um tanto indiferente.

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Quando o czar ignorava as recomendações do ministro Witte – o


que fazia com alarmante frequência – o ministro muitas vezes lhe perguntava
quem o havia aconselhado, e a resposta de Nicolau pouco variava:

“A pessoa na qual eu confio sem reservas, a czarina”.



Nicolau II, o filho menos amado de Alexandre III, o mais baixo dos
Romanov, que desaparecia entre os tios e primos altíssimos e fisicamente
espetaculares, o orador medíocre, sofria claramente de um complexo de
inferioridade que muitas vezes o levava a portar-se de maneira mesquinha
e ciumenta. Até o fim de sua vida, este homem inseguro e indeciso evitaria
instintivamente as inteligências mais agudas e as vontades mais poderosas,
preferindo cercar-se de pessoas intelectualmente inexpressivas e mesmo
muito inferiores a ele sob todos os aspectos. Witte escreveria que era da
natureza do czar:

“... desgostar de pessoas que demonstravam firmeza em suas opiniões, discurso


e ações.”

Entretanto, uma certeza absoluta o coração do czar abrigava e


desta, nem o mais hábil manipulador dentre seus súditos o afastaria. Da
origem divina de seus poderes de autocrata e da necessidade de defendê-los
a qualquer custo, Nicolau II jamais duvidaria. Conquanto a sua fé em seus
poderes autocráticos fosse inexorável, esta noção tanto fortalecia suas
decisões – quando as tomava – quanto o aterrorizava e paralizava diante da
enormidade de sua missão. Seus poderes, ele os exercia esporadicamente, e
sem referência ao curso dos acontecimentos. Tudo era feito aparentemente
a partir de impulsos momentâneos ou inspirados por intrigas desta ou
daquela pessoa. Sabia-se também que o czar por vezes bebia muito e que
este hábito afetava seu julgamento e apressava suas decisões.
Alexander Mosolov, chefe da chancelaria da corte, escreveria que
Nicolau possuía:

“...uma fé inquebrantável na natureza providencial de seu alto cargo. A sua missão


provinha de Deus, de suas ações ele era responsável apenas diante de sua consciência e
diante de Deus. Nisto a imperatriz o apoiava com absoluta convicção. Responsável apenas
diante de sua consciência, de sua intuição, de seu instinto, daquela coisa incompreensível
que atualmente é chamada inconsciente, e cuja noção não existia no século XVI, quando
os czares de Moscovia haviam forjado para si próprios um poder absoluto. Responsável

D R AG O E D I TO R I A L 73
M Á RC I A S A RC I N E L L I

diante de elementos que não são a razão e que às vezes são contrárias à razão. Responsável
diante do imponderável, do misticismo que se apoderava dele cada vez mais.”

•••

“A Rússia não é a Inglaterra. Aqui não é necessário


esforçar-se para conquistar o afeto do povo.”
(Alexandra Feodorovna)

Em 30 de janeiro de 1895 Nicolau II devia apresentar à nação um


projeto político. O país agitava-se, os ânimos ferviam, no aguardo das
renovações que traria o governo do jovem czar. Desde a terrível Fome
seguida da epidemia de cólera em 1891-93, que ceifara cerca de 400.000
vidas humanas, a Rússia clamava por uma transformação do sistema
político. Acreditava-se que Nicolau seria o arquiteto desta transformação
e muito se esperava do novo czar, tão diferente do pai tirano e que
havia viajado, dentro e fora da Rússia, mais do que seus predecessores
desde Pedro o Grande. Isto supostamente tornava-o mais permeável às
influências ocidentais e conferia-lhe uma compreensão mais profunda das
relações internacionais do Império. Ao contrário de Alexandre III, que tão
implacavelmente opusera-se ao matrimonio de Nicolau com Alexandra,
na Rússia acreditava-se que a princesa inspiraria ao czar algo da sabedoria
da avó Vitória e o aconselharia a adotar o modelo de monarquia consti-
tucional inglês. O tempo se encarregaria de evidenciar o erro deste último
julgamento. Quanto ao primeiro – relativo à permeabilidade do czar às
influências liberais e às suas aspirações a modernizar o regime – Nicolau o
corrigiria imediatamente.
Nesta ocasião, o zemstvo4 de Tver dirige a Nicolau II um apelo a
“ouvir a voz do povo”, o que preocupa o Santo Sínodo5 e irrita o tradicio-
nalista Pobedonostsev, sempre alerta ao menor indício de insurreição
contra a autoridade. Diante das delegações da nobreza e dos represen-
tantes dos zemstva de toda a Rússia, a resposta de Nicolau retumba como
um fenômeno de desapontamento:

“Estou feliz por ver aqui os representantes de todas as classes que vêm exprimir
seus sentimentos de súditos leais. Creio na sinceridade destes sentimentos abrigados nos
corações de todos os russos. Mas estou informado de que em certas reuniões de zemstva,
4 Assembleia Rural
5 Instituição dominante da Igreja Ortodoxa Russa, criada em 1721 para substituir o
Patriarcado.

74 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

elevaram-se algumas vozes que exprimem sonhos insensatos quanto à participação de seus
representantes na direção de assuntos de Estado. Todos devem saber que, consagrando
todos os meus esforços ao bem do povo, manterei o princípio da autocracia tão firme e
constantemente quanto o fez meu inesquecível pai.”

A resposta de Nicolau, que naturalmente entusiasma os ultracon-


servadores, cai como uma bomba sobre os representantes dos zemstva e a
intelligentsia longamente silenciada por Alexandre III, que nutria esperanças
de ver realizadas as urgentes reformas sociais e políticas no governo do
novo czar. Nicolau no entanto deixa bem claro, desde janeiro de 1895, que
nada mudaria no Império, e que a sua preocupação era a mesma de seu
pai: garantir a todo custo a manutenção da autoridade sem concessões,
da autocracia que era seu dever salvaguardar e transmitir, intacta, a seu
herdeiro. Este princípio, que ele considerava sagrado, legitimado por
leis atemporais, Nicolau II, manso e facilmente influenciável como era,
defenderia com todas as suas forças até o momento de sua abdicação. As
tímidas reivindicações expressas pelos representantes dos zemstva e dos
diversos grupos ditos liberais – que ainda não pretendiam a promulgação
de uma constituição – ele as define “sonhos insensatos”, e sua impopula-
ridade estreia neste dia. Sua distância e ignorância da realidade da população
e sua tendência a idealizar o “bom mujik”, que ele julgava representar a
verdadeira voz da Rússia, levam-no a crer que seu apego à autocracia fosse
compartilhado pela maioria da população. As vozes que se erguiam para
expressar “sonhos insensatos”, em sua opinião, exprimiam apenas o desejo
de uma minoria mal-intencionada. Na verdade, Nicolau II herdara de seu
pai apenas o corpo agonizante da autocracia. Disto, entretanto, ele não se
apercebe, e permanece alheio a todos os sinais e oportunidades que se lhe
apresentariam para garantir, se não a ressurreição da autocracia, ao menos
a sobrevivência de seu sucedâneo mais inócuo, a monarquia constitucional.
Após o choque causado pelo discurso infeliz do czar, de quem
se esperavam medidas que ao menos amenizassem o conservadorismo
reacionário que marcara o reino do pai, a Rússia é surpreendida por uma
revelação ainda mais chocante: a autoria do discurso. A princesa Ekaterina
Radziwill relata que, encontrando Konstantin Podedonostsev pouco depois
da apresentação do projeto de governo do czar, os dois passam a comentar
– como o fazia toda a Rússia pensante – o famoso discurso.
“Suponho que estejam dizendo que fui eu quem aconselhou o czar a pronunciar
aquelas palavras ridículas?”, observou Pobedonostsev.
“Naturalmente”, responde a princesa.

D R AG O E D I TO R I A L 75
M Á RC I A S A RC I N E L L I

“Bem” – disse ele –, “poderiam ter-me creditado um pouco de inteligência e de


bom senso... Ninguém está mais convencido do que eu de que a autocracia seja o único
governo possível para este país, mas há um abismo entre estar convencido disso e aconselhar
o czar a ferir os sentimentos do povo até a medula... Aquilo que era necessário em 1881 não
o é certamente em 1895. Nosso país é próspero, está em paz, o niilismo foi destruído. Que
razão havia para lançar assim uma ameaça a toda a nação? Não, eu não tenho nada a ver com
os ‘sonhos insensatos’. Mesmo se tivesse escrito um discurso baseado nesses princípios,
jamais me teria expressado em termos tão crus. O meu conselho foi o de exprimir apenas
lugares comuns ao receber as delegações e o imperador me havia prometido limitar-se a
obviedades. Fiquei tão estupefato quanto qualquer outro quando soube esta noite o que
ocorrera no Palácio de Inverno, estupefato e escandalizado!”
“Mas, então” – perguntou a princesa Radziwill –, “quem pode ter aconselhado o
imperador a cometer tal erro?”
“Ainda não adivinhaste? Foi a jovem imperatriz, naturalmente.”
“Ela? Mas o que sabe ela da Rússia ou do que é oportuno dizer ao povo russo?”
“Exatamente!”– respondeu Pobedostsev. “Não sabe nada. Mas acredita saber
tudo, e está sobretudo obcecada pela ideia de que o imperador não se saiba impor, que
não lhe seja dado tudo o que ela crê que lhe seja devido. É mais autocrática do que Pedro
o Grande, e talvez tão cruel quanto Ivan o Terrível. Tem uma mente pequena que acredita
conter uma grande inteligência.”

•••

“Não respirarei este triplo perfume de mujik russo, pois não


pertenço à alta sociedade que, de tempos em tempos, sente a
necessidade de convencer a si mesma de que não está
totalmente afrancesada...”
(Turgueniev, “Fumaça”)

Naturalmente, o projeto de governo do novo czar não se resumia


à destruição dos sonhos dos liberais. Exatamente como fizera seu pai,
Nicolau II pretendia dedicar seus esforços ao fortalecimento da autocracia
e ao desenvolvimento econômico e industrial do Império. O artesão de sua
política econômica seria Serguei Witte, o mesmo Ministro das Finanças de
Alexandre III. As concepções tão modernas quanto eslavófilas deste homem
brilhante garantiriam à Rússia, em pouco tempo, prosperidade, prestígio no
exterior e um lugar respeitável no mundo moderno, atraindo investidores
estrangeiros para a indústria nacional. Com Witte, a Rússia parece alcançar
a modernidade.
Entretanto, o Ministro preocupava-se também com as terríveis

76 D R AG O E D I TO R I A L
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condições de vida dos camponeses e dos operários russos, que começavam


a agitar-se. Em inúmeras entrevistas e relatórios, Witte não cessa de
informar o czar da real situação dos camponeses, que contrastava com
a ideia romântica que Nicolau acalentava sobre o “povo russo”, em sua
opinião dócil, religioso e leal. Sua insistência para que Nicolau organizasse
uma conferência para resolver estas questões encontrava invariavelmente
um czar surdo e obtuso, deliberadamente alheio aos temas sociais,
preocupado apenas em atender às reivindicações da pequena nobreza rural,
que reclamava certos privilégios. Além de julgar as condições sub-humanas
em que viviam os camponeses sob sua ótica místico-fatalista, Nicolau cria
firmemente na fidelidade dos mujiks à monarquia.
A fábula do bom e leal mujik (pequeno homem, em russo), apegado
à terra, pacífico, monarquista, tradicionalista, devoto, sincero e autêntico
não era acalentada apenas pelo ingênuo e alienado czar. Grande parte da
aristocracia russa que na verdade só conhecia o camponês de nome, e da
Rússia culta, impregnada do romantismo político da época, nutria idêntica
fé.
A bem da verdade, o camponês russo nunca se revoltava contra
a autoridade do czar, mas contra os agentes da autocracia, e apenas
raramente. Uma vez a cada século, aproximadamente, mujiks enfurecidos
rebelavam-se contra os senhores de terras e oficiais do estado, pilhando,
matando, queimando casas e plantações e apossando-se de propriedades,
em surtos de violência impressionantes. À parte estes episódios isolados,
os camponeses em geral eram realmente pacíficos e por natureza recorriam
preferivelmente à astúcia e à dissimulação ao invés da violência para
conseguir o que queriam.
A vida e o trabalho do camponês russo estavam sujeitos aos caprichos
de um clima implacável que o condenava a meses de trabalho ininterrupto
em um ritmo frenético, seguidos de um longo período de ociosidade e
muitas vezes fome, dependendo do resultado das colheitas. Esmagado pela
vontade arbitrária de seus senhores e pelas forças invencíveis da natureza, a
válvula de escape do mujik (além dos violentíssimos levantes ocasionais) era
a bebida, na realidade um passatempo nacional. Os camponeses russos não
bebiam regularmente, mas alternavam períodos de total abstinência com
outros de completo abandono, em que consumiam incríveis quantidades
de álcool em rápida sucessão, para mergulhar o mais depressa possível em
um estado de torpor etílico. Na Páscoa, o quadro de embriaguez em massa
agravava-se consideravelmente. Nesta época, inteiras vilas que emergiam
da inatividade forçada, da escuridão e do isolamento do longo inverno,

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

festejavam a primavera e inauguravam o novo ciclo de trabalho exaustivo


que os aguardava, embriagando-se até o estupor, durante vários dias.
Até o século XVI, quando aprenderam com os tártaros a arte de
destilar, os russos bebiam apenas hidromel e vinho de frutas. Na metade
do século XVII, a embriaguez era um problema tão sério que a Igreja
tentou proibir completamente o álcool. As várias tentativas de combater
seu consumo excessivo nunca eram levadas adiante, porque a maior fonte
de renda do Estado provinha do imposto sobre o álcool, e o governo,
portanto, tinha interesse em seu consumo.
Quanto à famosa religiosidade do camponês, esta resumia-se
à devoção externa, às fórmulas e ritos para combater “o mal”: o mujik
observava os jejuns e sacramentos, comparecia aos cultos e fazia
continuamente o sinal da cruz, apenas porque cria assim salvar sua alma, e
não por possuir uma fé verdadeira. Como escreveu Belinski em sua famosa
“Carta Aberta a Gogol”:

“Acreditas que o povo russo seja o mais religioso do mundo. Isto é uma mentira!
A base da religiosidade é a devoção, a reverência, o temor a Deus. O homem russo, ao
contrário, invoca o nome do Senhor enquanto se coça. Ele diz do ícone: se não servir para
rezar, servirá para cobrir as panelas. Olha mais de perto e verás que este é por natureza um
povo profundamente ateísta, que ainda retém uma boa dose de superstição, mas nem um
traço de religiosidade... Esta aparece entre nós apenas nas seitas sismáticas...”.

Sobre a relação dos russos com a religião, R. Pipes (op.cit.) escreve:

“A superficialidade da ligação da Ortodoxia com as massas evidenciou-se pela


relativa facilidade com que o regime comunista conseguiu arrancar o cristianismo do
coração da Rússia e substituí-lo por um culto próprio. Este trabalho mostrou-se de muito
mais difícil realização entre católicos, muçulmanos e ortodoxos dissidentes.
“A verdadeira religião do russo era o fatalismo. O camponês raramente creditava
qualquer evento, especialmente infortúnios, à sua própria vontade. Era sempre “a vontade
de Deus”, mesmo quando a responsabilidade era claramente sua, por exemplo, quando
seu descuido causava um incêndio ou a morte de um animal.”

Politicamente, o camponês russo era um monarquista superficial,


no sentido de que não concebia outra autoridade terrena que não emanasse
do czar, que considerava o vigário de Deus na Terra. Ao czar, o mujik
atribuía tudo de bom que lhe acontecia, enquanto que todo e qualquer
infortúnio era a “vontade de Deus”, ou culpa dos senhores de terra e dos

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agentes do governo. Ele via o czar como um pai (que ele chamava Batiushka
– paizinho), e cria firmemente que, se fosse ao Palácio de Inverno, seria
recebido pessoalmente por ele e teria seus desejos prontamente atentidos.
Acreditava que o czar queria que os camponeses fossem donos de todas as
terras do Império, e que seu desejo era frustrado pelos senhores de terras.
A emancipação dos servos por Alexandre II, em 1861, veio reforçar esta
convicção. Para desespero dos socialistas revolucionários que tentavam
catequizá-los, os camponeses invariavelmente respondiam: Tsar dast (o czar
proverá).
A crença na lealdade monarquista do “bom mujik” era a base da
política imperial no século XIX. Muitas das atitudes do governo, como por
exemplo a relutância em industrializar as vilas ou educar as massas, eram
inspiradas pelo desejo de preservar o camponês tal como era: simples e
leal. Na verdade, como esclarece R. Pipes (op.cit.):

“A lealdade do camponês era uma lealdade pessoal à imagem idealizada de um


soberano distante que ele via como seu pai terrestre e protetor. Não se tratava de lealdade
à instituição da monarquia enquanto tal e certamente não a seus agentes, quaisquer
que fossem. O camponês não tinha qualquer razão para sentir-se ligado ao Estado que
lhe tomava tudo e não lhe dava nada em troca. Para o camponês, a autoridade era no
máximo um fato da vida que deveria ser aceito exatamente como a doença, a velhice
ou a morte, mas que nunca poderia ser ‘bom’, e de cujas garras todos tinham o direito
de tentar escapar à primeira oportunidade. A lealdade ao czar não implicava qualquer
responsabilidade cívica e na verdade escondia uma profunda repulsa contra instituições
políticas... A personalização de todas as relações humanas, tão característica do camponês
russo, produzia um monarquista superficial que parecia conservador, mas que era de fato
totalmente anarquista.”

Finalmente, quanto ao apego do camponês à terra, esta crença


tão cara às elites russas mostrou não ter o menor fundamento: à primeira
oportunidade de ganhar a vida fazendo qualquer outra coisa na cidade (de
preferência artesanato ou usura), o mujik abandonava campo, arado e vila,
sem remorsos e sem pesar.
Embora não houvesse uma solução simples para a crise agrária que
convulsionou a Rússia no final do século XIX, o governo imperial, que
era o único a possuir capital para investir na reforma da agricultura (e que
extraía a maior parte de sua renda da exploração do camponês), preferiu
destiná-lo à indústria pesada e à construção de ferrovias. A famosa crise
agrária que contribuiu grandemente para o colapso do Império poderia,

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

grosso modo, resumir-se no fato de que, embora fosse um país basicamente


agrário (na verdade praticamente feudal), em nenhum outro país da
Europa a agricultura era praticada com tanta negligência. A história da
agricultura na Rússia é a de uma terra impiedosamente explorada e levada
à exaustão. A chegada – com todo o atraso – da industrialização, que
roubou ao camponês sua única fonte de renda suplementar (a fabricação
caseira de roupas e utensílios que as máquinas passaram a fazer melhor,
mais depressa e a menor custo), os encargos fiscais excessivos e um
incontrolável crescimento populacional (entre 1750 e 1850 a população
do império quadruplicou) tornaram impossível para o camponês do final
do século XIX sustentar-se com a agricultura. Enquanto o crescimento
populacional da Rússia Imperial, naquele momento histórico, era o mais
alto da Europa, sua produção de grãos era a mais baixa. Entretanto, os
cereais constituíam o principal produto de exportação do país. Mesmo
quando não havia grão suficiente para seu povo, a Rússia continuava
exportando. Excetuando-se a possibilidade de fome geral que dizimaria
a população do campo, o grão para alimentar estas bocas suplementares
deveria vir de outra fonte qualquer. Intensificar a produção através da
industrialização ou de métodos mais racionais de agricultura estava fora de
cogitação: os camponeses por natureza resistiam a mudanças e, além disto,
explorar novas terras onerava menos o estado do que investir em melhorias
nas antigas. Já na década de 1880, não havia um metro quadrado sequer de
terra virgem na Rússia central e sul, elevando o preço de seu arrendamento
a níveis estratosféricos.
Na virada do século, a situação no campo estava madura para a
explosão da violência. Ao menor sinal de revolta, o governo respondia
alternadamente com medidas cosméticas que não solucionavam coisa
alguma e com demonstrações brutais de força. O descontentamento geral
que a miopia política de Nicolau não vislumbrava atingiria uma estatura
que já se delineava e dentro em pouco fugiria ao seu controle. Nem mesmo
a pressão exercida por Witte, desde 1895, conseguia interessá-lo nos
problemas dos trabalhadores rurais e urbanos da Rússia, enquanto ainda
era possível tentar resolvê-los. Apenas em 1902 o czar sucumbe aos apelos
do ministro, que a esta altura ele considerava um inconveniente, um fardo
insuportável, apesar de sua brilhante atuação, e de mau grado concede a
conferência na qual o ministro há tanto tempo insistia.
No fim, a autocracia seria destruída exatamente pelo camponês que
ela considerava seu mais firme suporte.

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

•••

“Não quero uma felicidade tão penosa,
nem opulência que me esmague o coração!”
(Eurípides, “Medéia”)

Aos 22 anos de idade, a princesa apagada e obscura Alix von


Hasse torna-se Sua Majestade Imperial Czarina Alexandra Feodorovna,
Imperatriz da Rússia, grão-duquesa de Smolensk, da Lituânia, Volínia,
Podólia e Finlândia; princesa da Estônia, Livônia, Curlândia, Semigalia,
Bialystock, Carelia, Tver, Iuguria, Perm, Viatka, Bulgária e outros países;
grão-duquesa do Baixo Novgorod, de Tchernigov, Kiazan, Polotsk, Rostov,
Iaroslavl, Belozersk, Oudoria, Obdovia, Condia, Vitebsk, Mstislav e do
Norte; Augusta Consorte do Soberano de Cartalinia, Iveria, Kabardinia,
Armênia, Turquestão; herdeira ao trono da Noruega; duquesa de Schles-
wig-Holstein, Stormarn, Ditmars e Oldenburg; da dinastia dos Romanov-
-Holstein-Gottorp. Seu marido era uma espécie de semideus na Rússia, o
soberano mais poderoso e mais rico do mundo, detentor de um patrimônio
de aproximadamente 20 bilhões de dólares. O czar era o feliz proprietário
de mais de 1 bilhão de dólares em reservas privadas em ouro, além das mais
preciosas joias do mundo, de cerca de 150 milhões de acres de terras e de
milhões de dólares em bancos estrangeiros. Além disso, possuía o Palácio
de Inverno em São Petersburgo, dois palácios em Tsarskoe Selo, três
em Peterhof, dois em Livadia na Criméia e o Kremlin em Moscou, além
dos palácios Anitchkov, Elagin e Gatchina na capital e nas redondezas;
os palácios Petrovsky e Nescensky em Moscou; três reservas de caça na
Polônia que se estendiam por milhares de acres; diversos pavilhões de
caça na Finlândia; dois trens especiais e os maiores e mais luxuosos iates e
carruagens de toda a Europa.
Até então habituada à economia, às renúncias, aos vestidos herdados
e constantemente reformados, às férias em locais de segunda categoria,
às magras mesadas da avó Vitória, enfim, a toda uma vida de pequenas
privações, sua nova situação tanto a fascinava quanto a aterrorizava.
Desde o final do século XVIII, o papel de czarina era praticamente
uma questão de interpretação da detentora do título, mas em geral
resumia-se a ser o árbitro das elegâncias e a mais brilhante estrela da
vida mundana na Rússia. Maria Feodorovna, a czarina mãe, encarnaria
com perfeição o ideal de elegância, charme, desenvoltura e encantadora
sociabilidade que se esperava de uma czarina. Seus bailes esplêndidos,

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

que se estendiam até o nascer do dia eram todos memoráveis e em tudo


irrepreensíveis. Era muito amada e admirada na corte por sua simpatia,
afabilidade e tolerância com os pequenos escândalos que temperavam a
vida da alta sociedade petroburguesa, e invariavelmente ditava a moda
em São Petersburgo. Embora esta concepção frívola das responsabi-
lidades da Czarina de Todas as Rússias constituísse mais a regra do que a
exceção entre suas predecessoras, à austera e puritana Alexandra tamanha
futilidade indignava. Horrorizavam-na sobretudo os escândalos rotineiros
que a ninguém escandalizavam: em São Petersburgo, os adultérios eram
de domínio público e a homossexualidade dos jovens aristocratas era
francamente ostentada.
Sua infeliz estreia na corte russa aos 17 anos havia sido aparentemente
esquecida e agora esperava-se que, superada sua timidez de princezinha
provinciana, ela estivesse à altura do esplendor que a czarina mãe trouxera
à corte russa. Alexandra contava com algumas vantagens que a ajudariam a
iniciar uma brilhante vida de sociedade: era belíssima, jovem, e irmã de uma
das maiores beldades da Rússia, a mui admirada grão-duquesa Ella. A ideia
de que dois soberanos tão lindos, jovens e apaixonados estavam prestes a
inaugurar um novo ciclo de fausto e magnificência na corte mais luxuosa
da Europa provocara um verdadeiro frisson na alta sociedade, sobretudo
na capital, onde já se comemorava antecipadamente o renascimento dos
fulgores bizantinos que o reino de Nicolau e Alexandra pressagiava.
Alexandra, contudo, sequer se esforçava em camuflar sua aversão
por esta sociedade corrupta e depravada, e sua repulsa era prontamente
percebida, conquistando antipatias onde quer que fosse. Todo o seu
comportamento era um acinte, um insulto a toda a sociedade, e nem ela nem
Nicolau pareciam perceber ou mesmo importar-se com as conseqüências
desta alienação. Muda, paralisada pela timidez, a face pétrea coberta de
placas vermelhas, Alexandra cumpria, recalcitrante e mal-humorada, as
funções a que a obrigava a sua posição. Ao lado do marido, participava de
recepções oficiais, revistas militares, bailes de sociedade, visitas a hospitais
etc., com a mesma rigidez e a mesma antipatia que a consagrariam. Desde
o início, sua timidez, seu puritanismo e sua sogra trabalhariam incessan-
temente contra ela.
Aos bailes imperiais, sobretudo, Alexandra parecia reservar a
apoteose da deselegância e do azedume. A escolha de seus vestidos, por
exemplo, sempre infeliz e contrária a todo o bom senso e, sobretudo, a todo
o bom gosto (geralmente brocados pesadíssimos carregados de brilhantes)
era agravada por sua desastrosa obstinação em usar todas as joias da coroa

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ao mesmo tempo. Assim, a magnificência dos bailes imperiais, ao invés de


emprestar algum brilho à jovem czarina, apenas evidenciava cruelmente a
sua inadequação.
À entrée que decepcionava pelos trajes e adornos deselegantes e
pela postura gélida da protagonista, seguia-se um interminável desfiar de
gafes. Em lugar de divertir-se a bailar e a circular lepidamente pelos salões
como uma borboleta, Alexandra singrava, tarda e funérea, pelo braço do
marido semideus, cumprimentando os convivas com uma rígida inclinação
de cabeça, mais militar do que graciosa. Ao receber os convidados que
faziam fila para render-lhe homenagem, ela permanecia em silêncio,
o braço duro estendido em riste para o beija-mão como quem prepara
um golpe, e de vez em quando lançava olhares ansiosos ao fim da fila
para verificar quantas pessoas ainda devia cumprimentar. Durante todo
esse longo e doloroso processo, Alexandra jamais sorria e não procurava
esconder o fato de que para ela o baile era um suplício, e invariavelmente
mostrava-se cáustica e desgraciosa. Seu porte, seus gestos, sua expressão
e certos aspectos desagradáveis do seu caráter, como o seu puritanismo,
eram interpretados como desprezo pela corte; em represália, seus modos
provincianos eram implacavelmente criticados. Alexandra dançava mal e a
contragosto; seu francês era risível e não se falava outra língua na corte; era
orgulhosa e introvertida; detestava o ócio e as maledicências da corte; era
moralista e eliminava das listas de convidados pessoas tocadas pela menor
suspeita de escândalo.
Sobretudo o comportamento libertino dos Romanov a horrorizava.
Os tios de Nicolau, que sempre foram violentos e turbulentos, na época
de Alexandre III guardavam-se bem de contrariá-lo e comportavam-se
praticamente como donzelas. Diante do trepidante e inócuo sobrinho,
entretanto, que pasmava para eles com seus olhos de Bambi sem jamais
encontrar argumentos ou forças para detê-los, os ferozes grão-duques
entregavam-se livremente a seus excessos. Divorciavam-se, casavam-se
com mulheres divorciadas e apoderavam-se das esposas alheias. Ao menor
sinal de oposição aos seus desejos, urravam ameaças, esmurravam móveis e
destroçavam objetos de decoração. Uma vez libertos da presença tonitruante
de Alexandre III, o grão-duque Pavel obtém o divórcio de Anastácia de
Leuchtemberg, Kiril casa-se com a ex-cunhada de Alexandra em um enredo
de ópera bufa e Mikail, irmão do czar, rapta a esposa de um oficial de seu
regimento. Em meio a toda essa libertinagem, Alexandra erguia-se como
uma torre de pudicícia que vigiava as torpezas da corte e especialmente
as da família Romanov. Apenas ela enfurecia-se e enfrentava-os – antes,

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impulsionava seu trêmulo marido a confrontá-los, obtendo quase que


invariavelmente cômicos resultados. Acima de todos estes escândalos –
para suprema indignação de Alexandra – pairava o incomparável pecado
da czarina mãe, que ostentava seus amores ilícitos com um ajudante de
campo.
Alexandra declarara guerra à boa sociedade e a boa sociedade
contra-atacou. A cada baile, a cada recepção, a cada banquete, a czarina
via-se alvo de comentários maldosos que eram sibilados às suas costas, e
de piadas de mau gosto. Sobretudo as comparações à sempre cintilante
czarina mãe eram inevitáveis e letais. Ao lado de sua rival Maria Feodorovna,
Alexandra parecia ácida e murcha, um tipo fúnebre que a exuberância russa
naturalmente rejeitava. Sua decisão de excluir da lista de convidados certas
senhoras, cuja vida privada não era exatamente um modelo de virtude,
teve o efeito de desagradar unanimemente, sobretudo por serem estas
senhoras alegremente recebidas pela czarina mãe, que pouco se ocupava
da vida privada de seus convivas. Alargava-se inexoravelmente o abismo
entre Alexandra e a sociedade, as críticas tornavam-se mais mordazes e as
intrigas mais malévolas. Para a sociedade russa, a czarina era ainda Maria
Feodorovna, e Alexandra, a alemã impostora.
Em 1906, o caso Kiril ilustraria bem o moralismo vitoriano e a
rigidez teutônica de Alexandra, que tanto destoavam da futilidade da aristo-
cracia russa. Quando o grão-duque Kiril Vladmirovitch decide desposar
Victoria Melita, ex-esposa do irmão de Alexandra, a czarina pronuncia-se
furiosamente contrária à união, exortando o czar a mostrar-se inflexível com
o primo, que precisava de sua autorização para casar-se. A um membro da
casa reinante não era permitido o casamento com uma prima em primeiro
grau, e muito menos com uma mulher separada. Entretanto, o czar poderia
autorizar o matrimônio, se assim o desejasse, e a tendência de Nicolau
seria exatamente esta, para evitar os confrontos que tanto o desagradavam
e exauriam. Quando pressionado pelo primo, Nicolau não lhe permitia
e tampouco lhe proibia o casamento, apenas repetia uma de suas frases
prediletas: “Com o tempo tudo se resolve...”, na esperança de poder adiar
indefinidamente a sua decisão. Por fim, ansioso e apaixonado, Kiril parte
ao encontro da noiva na Alemanha, violando assim mais uma lei, segundo a
qual um grão-duque não podia deixar o país sem o consentimento do czar.
Kiril e “Ducky” (apelido de Victoria Melita) casam-se e retornam a
São Petersburgo para apresentar a Nicolau o fait-accompli. A retaliação, cuja
inspiração seria atribuída exclusivamente a Alexandra, não se faz esperar.
Na própria noite da chegada do casal, Kiril recebe o ultimatum do czar:

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condenação à perda do título, da patente e das condecorações militares


conquistadas na marinha e na guerra russo-japonesa, exclusão da marinha
imperial, cancelamento de seus emolumentos e privilégios, e ordem para
deixar o país em 24 horas. Embora esperassem alguma forma de punição
exemplar que precederia a inevitável aceitação do inevitável por parte do
czar, o ultimatum surpreende Kiril e Ducky e escandaliza toda a família.
A opinião geral era de que a czarina, enfurecida contra a ex-cunhada,
havia perseguido implacavelmente o marido, cuja natureza era doce e
conciliadora, até que este cedesse aos seus desejos de vingança.
No dia seguinte à expulsão do filho, o pai de Kiril, o mais velho
e respeitado tio de Nicolau e há 25 anos Comandante de Regimento do
Exército, precipita-se, furibundo, na sala de trabalho do czar. Diante do
silêncio de Nicolau em resposta ao seu pedido de anulação do ultimatum,
o grão-duque, descontrolado, arranca do uniforme suas condecorações,
esmurra estrondosamente a mesa do czar e sai batendo a porta com
tal violência, que a rompe. Mais uma vez, a impassibilidade de Nicolau
diante desta cena, à demissão do grão-duque e às súplicas da família é
atribuída à influência maligna de Alexandra sobre ele. Tentativas de fazê-la
compreender quão deletérias eram as suas intervenções revelavam-se fúteis
diante de sua obstinação.
Sua recusa a ouvir sugestões e conselhos, até mesmo da grão-duquesa
Maria Pavlovna, que a iniciara na etiqueta da corte, contribui apenas para
isolá-la ainda mais. Em seu furor de evidenciar e resguardar de qualquer
ameaça a posição hierárquica do czar, Alexandra continuamente feria, não
apenas a etiqueta da corte russa, como a de outros países. Quando da visita
do rei da Inglaterra à Rússia, por exemplo, diante da questão dos presentes
a serem oferecidos ao rei e às figuras mais importantes de seu séquito,
Alexandra comporta-se de maneira antipática, mesquinha e inconveniente.
Em primeiro lugar, insiste em que o czar não distribua pessoalmente os
presentes como exigia a etiqueta; apenas quando lhe é assegurado de
que também o rei cumpriria esta formalidade, não opõe mais resistência.
Entretanto, para escândalo da nobreza russa, que já a considerava um
misto desagradável de inglesa puritana e alemã avara (caráter tão contrário
à natureza russa), Alexandra insiste em que os presentes não sejam muito
generosos e em escolhê-los ela própria. Horrorizado e incrédulo, o chefe
da chancelaria da corte, Masolov, mostra-lhe então o precioso presente
que o rei ofereceria ao czar. Desta vez, Nicolau dispensa as intervenções
da esposa e procede de acordo com o protocolo. Mais tarde, Masolov
escreveria sobre Alexandra:

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“...o horizonte da czarina era o de uma obscura princesa alemã, uma mãe
maravilhosa que em casa ama a ordem e a economia, mas que por sua natureza, não
está em condições de ser uma verdadeira czarina. Isto era particularmente desagradável
levando-se em conta a força de seu caráter e da sua vontade, que poderiam ter sido de
grande ajuda para o soberano. Infelizmente, suas ideias não eram as do soberano, e com o
tempo, a sua ajuda se transformaria em dano. ...não conseguiu compreender a alma russa
até o fim de seu reinado; até seu trágico fim não falava russo, a não ser com seus padres e
com os funcionários mais humildes... E assim não foi capaz de atrair o amor que sua irmã
conseguiu inspirar.”

Cercada por tradições, etiquetas, praxes, ritos, disciplinas, hábitos,


clima, idiomas e pessoas que lhe eram estranhos – quando não hostis ou
repugnantes – Alexandra sentia-se bisonha e inadequada. Consequen-
temente, tornava-se cada vez mais gélida, e portanto ainda menos palatável.
Toda a atitude de Alexandra, com seu caráter crepuscular, parecia contrastar
com a voluptuosidade do caráter russo e, enquanto Nicolau subdividia-se
para agradar a todos, ela desprezava orgulhosamente a popularidade,
incorrendo por isto em graves erros políticos.
Estes e outros erros de julgamento ainda mais crassos teriam
consequências funestas e contribuiriam para elegê-la, entre a nobreza de
São Petersburgo como entre a população russa, a czarina mais impopular
de todos os tempos.

•••

“Pode ser que o nosso destino seja termos ilusões,


porém isto não significa que a ilusão deva ter a
mesma força que o destino.”
(L. Abel , “Metateatro”)

Um novo sofrimento viria agravar os tormentos da naturalmente


atormentada czarina. Após oito anos de matrimônio, Alexandra falhava
constantemente em sua função orgânica de czarina: fornecer ao Estado
um herdeiro. Tendo produzido quatro lindas filhas nestes oito anos,
Alexandra começava a desesperar-se, e mesmo Nicolau, normalmente tão
fatalista e conformado, não era indiferente a este infortúnio. Já em 1899,
informado de que o terceiro bebê era mais uma vez uma menina, Nicolau
retira-se para fumar furiosamente, na tentativa de aplacar seu nervosismo e
frustração, antes de dar os parabéns à czarina. A culpa desta condição tão

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desesperadora para o czar, mais uma vez é atribuída pela população à má


estrela de Alexandra. Esta, que até então recorrera a preces, súplicas, jejuns,
promessas, penitências, peregrinações e devoções variadas para ser agraciada
com um filho varão, após o nascimento da quarta grão-duquesa em 1901
sente-se pronta a recorrer aos artifícios mais extravagantes, sucumbindo
inexoravelmente ao paganismo ortodoxo. Tinha início uma verdadeira
romaria de homens e mulheres “de Deus” que, convocados por Nicolau e
Alexandra, desfilavam seus trapos pelo Palácio Alexander. Muitos desses
indivíduos eram claramente charlatães ou simplesmente dementes, mas em
sua maioria eram indicados por membros do próprio clero. Em geral, a
obscurantista e supersticiosa Igreja Ortodoxa estimulava estes contatos e
pregava a intervenção divina através de indivíduos considerados santos por
alguma excentricidade em sua conduta ou por apresentarem certos defeitos
físicos ou mesmo doenças mentais. Em “Guerra e Paz”, Tolstoy escreve
que a personagem Maria Bolkonsky cercava-se de “homens e mulheres
de Deus”, eles também criaturas bizarras e muitas vezes repugnantes. Em
“Infância”, Tolstoy descreve os yurodivy (idiotas sagrados) como imundos,
deformados, incoerentes. A personagem “Grisha” é na verdade um
amálgama de todos os yurodivy que o autor encontrara em Yasnaya Polyana
durante a sua infância, e que tanto o impressionaram.
Um dos primeiros “conselheiros espirituais” do casal imperial seria
“Matronushka a Descalça”, uma camponesa de quase 80 anos, mentalmente
retardada, que prevê o nascimento de um herdeiro. Em seguida os
soberanos passam a consultar Daria Osipova, uma estranha mulher que
urrava suas predições durante aterrorizantes ataques epilépticos. Estes
espetáculos horrorizavam Alexandra, que rapidamente liberou-se dela.
Um “conselheiro” ainda mais bizarro era Mitia Koliaba, um camponês
surdo-mudo considerado uma garantia de comunicação direta com Deus.
Mitia não tinha os dois braços e sofria de ataques epilépticos particu-
larmente violentos, durante os quais era tomado por uma espécie de
histeria religiosa que o levava a saltitar pela sala cuspindo e lançando urros
horrendos. Uma testemunha de uma dessas demonstrações de revelação
divina citada nas memórias de Witte escreveria que

“Era preciso ter nervos de aço para suportar a presença daquele idiota.”

Surtos e salivações não impediriam que os monges de Optina


Pustyn, o monastério de Dostoievsky, proclamassem-no “abençoado”.
Uma jovem estudante do Instituto Smolny, a melhor escola para moças

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da Rússia, casar-se-ia com a estranha criatura em um acesso de exaltação


religiosa.
Em setembro de 1901, Alexandra acompanha o czar em uma
viagem à França. Lá, encontra-se secretamente com um taumaturgo
famoso no beau monde francês, conhecido como “mago”. Philippe Nizier
já havia sido denunciado duas vezes pelos médicos de Lyon por exercício
ilegal da medicina, processos que só fizeram aumentar consideravelmente
sua clientela. O mago havia sido apresentado à czarina pelas princesas
Militsa (esposa do grão-duque Pedro Nicolaievitch) e Anastácia (futura
esposa do grão-duque Nicolai Nicolaievitch), filhas do rei de Montenegro.
As irmãs montenegrinas, conhecidas na corte como “os corvos”, devido
aos seus cabelos negros e às suas vozes roucas e desagradáveis, davam
início a um longo período de obscura influência na vida de Alexandra,
inaugurando um reinado de ocultismo que viria exacerbar ainda mais o já
exaltado misticismo da czarina.
Antes de apresentar-se ao casal imperial, M. Philippe é interrogado
por Maniulov, subchefe da Okrana, (a Polícia Secreta Russa) na França.
Apesar de desconfiado por natureza e profissão, Manuilov também é
conquistado pelos modos simples e reservados e pelo olhar límpido e
penetrante deste homem tão claramente inofensivo.
Desde o início, M. Philippe exerce sobre Nicolau e Alexandra
um poder magnético, uma atração irresistível, e o casal passa a revelar
ao mago de Lyon seus segredos de alcova, suas aspirações mais secretas,
convencendo-o sem dificuldade a transferir-se a Tsarskoe Selo, onde uma
belíssima villa lhe seria reservada.
Alguns dos poderes mágicos que o francês afirmava deter
pareceriam incríveis mesmo aos mais crédulos, como o dom de acalmar as
águas para que o iate de sua majestade navegasse mais confortavelmente, e
a capacidade de tornar-se invisível quando usava um certo chapéu. Além de
seus “dons sobrenaturais”, Nicolau e Alexandra apreciavam intensamente
a suavidade e a discreção de M. Philippe. Duas noites por semana, sessões
de hipnotismo e de necromancia eram realizadas na residência do mago,
durante as quais o fantasma de Alexandre III era invocado. O imperial
ectoplasma ditava ao filho inúmeras resoluções que este, de outra forma,
não teria ousado tomar. Assim, questões de Estado como de saúde eram
resolvidas em sessões espíritas presididas pelo “único verdadeiro amigo”
do casal.
Boa parte da corte limitava-se a rir das excentricidades de Nicolau
e Alexandra que, se não promoviam bailes e festas como nos bons tempos

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do ancien régime, ao menos forneciam combustível para renovadas maledi-


cências. Entretanto, o comportamento esdrúxulo de suas majestades,
especialmente o de Alexandra, preocupava os elementos mais racionais da
família e da corte. A atmosfera de irracionalidade que reinava no palácio
Alexander e o estado de alucinação da imperatriz neurastênica perturbavam
profundamente a czarina mãe, e mesmo no exterior murmurava-se sobre
a vaga ocultista que varria a corte russa. Na França – a caixa-forte do
império – o barão Alphonse Rothschild confessa a Witte os seus temores
pela segurança dos enormes investimentos que fizera na Rússia. Segundo
o financista, um país cuja corte fora invadida por charlatães não era lugar
para se investir dinheiro.
Para um homem tão poderoso, capaz de invocar os mortos e de
curar os vivos, entre outras tantas maravilhas, prognosticar ou mesmo
determinar o sexo do próximo filho dos soberanos não deveria representar
um problema. De fato, M. Philippe garante a Nicolau e Alexandra a produção
do decantado herdeiro pelo simples poder de sua vontade, naturalmente
após o exercício de complicados e esotéricos métodos terapêuticos.
A esta altura, Nicolau e Alexandra eram dependentes dos poderes
do mago para quase tudo. Quando em 1902 ela anuncia uma nova
gravidez, o casal não duvida de que desta vez a czarina daria à luz um filho
varão, convicção encorajada por M. Philippe. Após apenas alguns meses,
entretanto, a gravidez anunciada revela-se fictícia. Conquanto a crença de
suas majestades na veracidade dos poderes mágicos de M. Philippe não
houvesse sofrido um sério abalo, este foi um rude golpe para o prestígio do
mago que, diante da indignação de toda a corte, vê-se obrigado a deixar o
país e retornar à sua existência bem menos glamurosa na França. A pressão
exercida pelo mundo religioso, sobretudo pelo confessor de Alexandra, que
a exortava constantemente a abandonar a perigosa crença no ocultismo,
contribuiria de maneira decisiva para que Nicolau e Alexandra desistissem
das interferências de M. Philippe.
Agora a sociedade não ria mais. De acordo com Bryan Moynahan:

“Se um charlatão podia convencer a imperatriz de que ela estava grávida – e ela
não era nenhuma menina, mas mãe de quatro filhas – então Witte convenceu-se de que
ela acreditaria em qualquer coisa. E quando ela acreditava em alguma coisa, seu marido,
‘débil, mas bom’, era rapidamente convencido também – e ele era um homem com poder
ilimitado sobre o bem-estar de 140 milhões de súditos. Philippe foi realmente um presságio.
Se a imperatriz podia encantar-se por um homem santo, então por temperamento e caráter
era provável que ela o fizesse de novo. Rasputin era um acidente prestes a acontecer.”

D R AG O E D I TO R I A L 89
M Á RC I A S A RC I N E L L I

(Bryan Moynahan, “Rasputin, the saint who sinned”)

•••

Impressionados pelas repreensões de seus confessores e tomados


subitamente por um ardente desejo de purificar-se de sua recente
aberração, Nicolau e Alexandra passam a dedicar-se fervorosamente a uma
nova obsessão, desta vez circunscrita à esfera da ortodoxia. O processo
de canonização de um monge obscuro, morto em odor de santidade em
1820, que não interessava a ninguém e contava apenas com um vago
envolvimento do Santo Sínodo, torna-se subitamente prioritário com a
intervenção dos soberanos. Seus restos mortais haviam sido enterrados há
60 anos, perto de um poço em Saratov, de cujas águas dizia-se que curavam
os doentes, os cegos, os surdos e as mulheres estéreis.
As graves objeções que se apresentavam à canonização do monge
(seu cadáver passara pelos estágios normais de putrefação e, de acordo
com a Igreja Ortodoxa, sem o indispensável elemento da incorruptibi-
lidade do corpo não há santidade do espírito) são rapidamente contornadas
e o processo agiliza-se com inédita velocidade. Quando o bispo Anton
ousa pronunciar-se contra a proposta de canonização, o czar rapidamente
expede-o para a Sibéria. A campanha de Nicolau e Alexandra força o bispo
de São Petersburgo a declarar que a conservação dos restos mortais do
monge Serafim não era essencial para a determinação de sua santidade,
contradizendo assim centenas de anos de direito canônico da Igreja
Ortodoxa Russa. Quando Pobedonostsev, outrora preceptor do czar e
agora ministro do culto, protesta que semelhante providência requereria
anos de investigação, Alexandra interrompe-o, furiosa, afirmando que
“tudo depende dos poderes do czar, mesmo o de fazer santos.”
Como tutor supremo da Igreja, Nicolau, movido por uma súbita
e irresistível paixão pelo bem-aventurado monge Serafim (e apoiado
à distância pela magia e pela fé de M. Philippe, com quem mantinha
intensa correspondência), ordena a máxima diligência nos procedimentos
necessários à canonização, sacudindo o Santo Sínodo de sua sonolência
habitual. Em breve, provas irrefutáveis de santidade são descobertas na
biografia do asceta, plena de virtudes e de prodígios até então insuspeitados.
Superadas magicamente todas as objeções iniciais, promulga-se o
decreto de canonização para fevereiro de 1903. O czar é avisado de que
Serafim havia realizado uma desagradável profecia: o monge previra que
seria um dia canonizado, na presença do czar e de sua família, mas que rios

90 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

de sangue afogariam o país logo depois, e que milhões de russos seriam


espalhados pelos quatro cantos da Terra. Nicolau ignora a maldição,
insiste na canonização do monge e decide revestir de uma pompa extraor-
dinária as liturgias pontificiais da solenidade de beatificação. Cem mil
peregrinos recebem com hinos e aclamações os soberanos que inauguram
a solenidade. Litanias e salmos seguem-nos, e às relíquias do novo-santo,
até o dia seguinte.
Um banquete é servido na véspera da cerimônia, durante a qual
camponeses que se diziam curados pelas águas do poço desfilam diante
dos olhos maravilhados da czarina. Antes eram cegos – diziam – ou
surdos, ou aleijados. Os convidados notam a excitação de Alexandra, que
parecia estar em transe, com a respiração alterada, os olhos vidrados, o
rosto coberto pelas tais placas vermelhas. À meia-noite ela deixa a mesa do
banquete e é levada pelos padres à sepultura do monge Serafim para rezar.
Terminada a oração, ela banha-se nas águas do poço milagroso. Alexandra
tinha certeza de que engravidaria em breve e de que desta vez proveria ao
Império o seu herdeiro. Efetivamente, poucos meses mais tarde a czarina
estaria novamente grávida.

D R AG O E D I TO R I A L 91
VI
“Não entendo, absolutamente, o que faço: pois
não faço o que quero; faço o que aborreço. Não
faço o bem que quero, mas o mal que não quero,
esse pratico.
“Encontro pois em mim esta lei: quando quero
fazer o bem, o que se me depara é o mal.
Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser.
Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que
luta contra a lei do meu espírito e que está nos
meus membros.
“Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste
corpo que me acarreta a morte?”

(Romanos, 7: 15 - 24)
M Á RC I A S A RC I N E L L I

HAIA
“Não há boa ação que não seja punida.”
(G. Vidal)

Em 1898, a leitura do livro de I.S. Bloch, “O Futuro da Guerra”,


que previa devastações provocadas por um conflito mundial, impressiona
profundamente o jovem czar. A tese de Bloch era simples e profética:
a guerra não tinha futuro e as novas invenções tornavam o combate
impossível ou suicida:

“Outrora, a guerra apelava à imaginação do homem e os poetas e pintores não


conheciam tema mais tentador do que a descrição do heroísmo do guerreiro... Tudo isso
há muito deixou de existir. A guerra foi-se tornando cada vez mais mecânica. As batalhas
modernas serão decididas por homens deitados em valas improvisadas que eles próprios
cavarão para se protegerem de um inimigo distante e invisível... Em vez de uma contenda
corpo a corpo, a guerra tornar-se-á uma espécie de empate forçado em que nenhum dos
exércitos será capaz de vencer o outro.”

Bloch também alertava para as conseqüências sociais da guerra,


além das baixas e perdas materiais, e previa que a guerra moderna teria a
capacidade de rasgar o tecido social.
Inspirado pelo livro de Bloch, Nicolau II é visitado por uma idéia
luminosa: o desarmamento e a paz universais. O czar concebe o projeto –
natimorto – da I Conferência pela Paz em Haia, lançando ao mundo um
apelo para o fim da corrida armamentista cujas consequências financeiras
e morais seriam catastróficas. Opondo-se à marcha inexorável da História,
a iniciativa do czar conduziria à formação da Corte de Arbitragem
Permanente de Haia, e seria quase que unanimemente rejeitada pelas
potências europeias.
Na verdade, o pai da grande idéia de Nicolau era o seu desejo de
tranquilidade nos confins ocidentais (não se fiava de seus vizinhos austríacos
e alemães e temia as interferências da Inglaterra e dos EUA), enquanto
dedicava-se a seus sonhos expansionistas no Oriente. Os conselhos do
ministro imperial das Finanças, Witte, acrescentariam aos sentimentos
humanitários do czar e às suas manobras táticas o elemento financeiro: o
custo dos armamentos modernos ameaçava esmagar o orçamento russo.
Seria mais econômico convocar uma conferência internacional que se
ocupasse do problema do armamento do que substituir a obsoleta artilharia

94 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

russa pelas novas armas de aço temperado e de tiro rápido. Os recursos do


Império estavam aquém das ambições do czar.
Em geral, a Europa surpreende-se – negativamente – com a “grande
ideia” do czar, considerada em muitos países absurda e hipócrita. Mas
são sobretudo as vozes de seus rivais no Bósforo e no Extremo Oriente
a expressar maior indignação. O Príncipe de Gales classifica a iniciativa
czarista como “o maior absurdo de que já ouvira falar” e a previsível
resposta do Kaiser Guilherme II, cuja índole era naturalmente avessa à
ideia do desarmamento, contribuiria para afundá-la definitivamente.
Prolixo e beligerante como sempre, Guilherme II telegrafaria exaltado ao
primo russo:

“Como é possível sequer imaginar um monarca, um chefe supremo do exército,


dissolvendo seus regimentos consagrados por séculos de tradição, abandonando assim
suas próprias cidades aos anarquistas e à democracia?!...”

Ridicularizada pelas duas grandes potências europeias, entrin-
cheiradas atrás do princípio da soberania nacional, a proposta russa de
desarmamento e de paz universal estava fadada ao malogro, mas renderia
alguns frutos: representantes de vinte países europeus, além dos EUA,
México, Japão, China, Sião e Pérsia, reúnem-se em Haia em 1899, naquela
que inicialmente é chamada de “Câmara da Corte Internacional de Justiça”.
As vinte e seis nações realizam uma convenção sobre as regras de condução
da guerra moderna, contando com a presença de especialistas em direito
internacional de vários países. Além dos esforços para regulamentar armas
e exércitos, as conferências visavam uma codificação das regras da guerra
terrestre e naval, e a formação de uma corte permanente de arbitragem.
O czar sugere em 1899 (e novamente em 1907, quando da II
Conferência) o banimento dos bombardeios de balão e os participantes
concordam em “abster-se do uso de projéteis cujo único objetivo seja a
difusão de gases asfixiantes ou deletérios”, sendo “lógico proibir novos
meios, sobretudo se tiverem caráter bárbaro e pactuarem com meios
traiçoeiros”. Apesar das objeções dos ingleses, a conferência de 1899
reafirmaria a posição dos russos contra o uso de balas explosivas e a de
1907 colocaria sob rigorosa regulamentação as minas subaquáticas. A
proposta russa de proibição dos submarinos torpedeiros é adiada indefi-
nidamente e a eliminação da artilharia de fogo rápido é definitivamente
rejeitada, assim como as sugestões de congelamento dos orçamentos e do
tamanho das estruturas militares.

D R AG O E D I TO R I A L 95
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Apesar das críticas e objeções, solenes e, em retrospecto, irônicas


promessas seriam feitas em Haia: a de não utilização de gases asfixiantes
(que no entanto seriam usados por alemães, franceses e ingleses na Grande
Guerra) e a de não utilização de projéteis explosivos, conhecidos como
balas dum-dum (que entretanto os italianos usariam na Etiópia em 1934,
com a desculpa de que os “selvagens não são seres humanos”).
Em sua “História da Guerra, Armas e Homens”, R. O’Connel
escreveria sobre as conferências de Haia:

“...completamente desprovido de disposição de vigilância ou obrigatoriedade de


aplicação, este edifício de legalismo em breve seria reduzido a migalhas pelo desespero
dos combates da I Guerra Mundial.
“Mesmo que as resoluções tivessem sido melhor formuladas, continuaria a
pôr-se em cheque a seriedade dos participantes. Houve um elemento de dissimulação, um
ar de irrealidade a envolver as deliberações de Haia, tipificado pela conduta da Rússia, que
convocava a I Conferência de Paz, travava uma guerra desesperada com o Japão e depois
convocava a segunda conferência em menos de uma década.”

Ainda hoje pode-se ver, na Corte de Justiça de Haia, um retrato de


seu fundador. Por respeito às delegações soviéticas, o retrato seria oculto
por uma cortina a partir de 1917 e até o advento da Perestroika era exibido
aos visitantes apenas quando expressamente solicitado. No edifício da
ONU, por outro lado, uma lápide comemorativa exibe o pensamento e o
nome do fundador da corte de Haia, Nicolau II.

96 D R AG O E D I TO R I A L
“Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça

VII
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um vento frio passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me


A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá


Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.”

(Fernando Pessoa)
M Á RC I A S A RC I N E L L I

O ALMIRANTE DO PACÍFICO
“Os bons conselhos, venham de onde vierem, nascem da
prudência do príncipe, e não a prudência do príncipe dos
bons conselhos.”
(N. Macchiavelli)

“A mão que afaga é a mesma que apedreja.”


(A. dos Anjos)

Purificado e exaltado pela recente experiência mística da beatificação


do monge Serafim, Nicolau vê-se envolvido em uma moderna cruzada.
Indiferente e apático quando se tratava de política interna, Nicolau II era
como que galvanizado pelo exercício da política externa e pelas questões
militares, que o encantavam como a um menino que brinca de soldado. À
exceção dessas fascinantes atividades, Nicolau encarava todo e qualquer
aspecto de seus deveres de czar como uma insuportável interrupção de sua
vida familiar, de seus prazeres burgueses, de seu perpétuo idílio amoroso.
Estes aspectos abrangiam desde as recepções e banquetes oficiais até as
soporíferas reuniões com seus ministros, a cujos relatórios e admoestações
ele dispensava apenas uma atenção frugal, pontuada por cavos bocejos,
enquanto olhava pela janela com seus magníficos olhos bizantinos,
seriamente desinteresado.
Essencialmente ministro do Exterior de si mesmo, o czar era em
geral surdo a apelos e conselhos de ministros e parentes no tocante à política
externa. No entanto, entre 1894 e 1904, Nicolau seria inconscientemente
teleguiado pelo pérfido primo “Willy” (apelido do Kaiser Guilherme II,
imperador da Alemanha) e até o limiar da Grande Guerra, a relação entre
os dois imperadores seria decisiva para o destino da Europa.
Em 1894, quando da coroação de Nicolau, aos vinte e seis anos
de idade, o kaiser tinha trinta e cinco anos e reinava há seis. Guilherme
II não apenas era mais experiente do que Nicolau, como também mais
ambicioso e frequentemente perverso, manipulador e falso, características
que escapavam à perspicácia do jovem czar, um tipo mais denso. Com
o tempo, Nicolau conseguiria libertar-se do maligno influxo do primo
prussiano, mas os dez anos de maus conselhos já teriam empurrado a
Rússia em direção a uma catástrofe militar na Ásia e corroído ainda mais os
alicerces do Império. Mais uma vez, Nicolau reagiria tarde demais quando
ainda tinha poder de decisão.

98 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

O príncipe Ernst von Hasse, irmão mais velho da czarina e primo


do Kaiser, compara os dois imperadores em um retrato impiedoso e
provavelmente não muito imparcial:

“Guilherme era um intrigante nato. Na juventude fora apaixonado por minha
irmã Ella e, depois que ela casou-se com o grão-duque russo Serguei, tio de Nicolau
II, perseguiu seu marido com calúnias. Amava as tramóias, era inconstante e indelicado
e primava pela falta de tato. Isto não apenas com relação a Serguei, mas também, por
exemplo, aos ingleses, de quem não gostava. Amava a afetação, e dava a impressão de ser
um homem potente e vigoroso, mas na realidade não era muito forte, era moralmente
vil, superava dificilmente as adversidades e tendia à inveja. Era transportado a estados de
ânimo momentâneos, que se espelhavam também em suas simpatias, e podia rapidamente
mudar de ideia sobre suas propensões e aversões. Era contudo muito inteligente, sabia
reagir com prontidão e era um excelente orador.
“Nicolau era alheio a intrigas, podia-se detectar a bondade em seus olhos grandes
e profundos como aqueles de um fiel cão de caça. Sabia também ser fascinante, apesar do
temperamento modesto, e minha irmã Alix teve uma esplêndida vida familiar. Nicolau era
o senso do dever em pessoa, era sincero e altruísta, coisa muito anômala em um russo. Era
inteligente, mas agia com grande prudência, e as suas decisões, às quais chegava apenas
depois de longas reflexões, eram frequentemente intempestivas, e portanto ele parecia
indeciso e irresoluto.”

Outras testemunhas do atribulado relacionamento de Nicolau e


Guilherme II fornecem descrições aparentemente mais objetivas, como o
Ministro do Exterior Isvolsky:

“A diferença de temperamento entre os dois era impressionante. Guilherme,


com seu caráter impetuoso, tinha ascendência sobre Nicolau que, em termos de persona-
lidade, não estava à sua altura. O czar sabia intuir o que escondia o comportamento de
comediante de Guilherme, e todavia ficava sempre nervoso quando o kaiser estava por
perto.”

Maurice Paléologue, por muitos anos embaixador da França em


São Petersburgo e mais tarde biógrafo da czarina, escreveria:

“Guilherme era muito mais alto... tinha um andar imponente e amava os gestos
teatrais, acuradamente preparados antes de cada ocasião. Apreciava sobretudo o luxo e a
pompa, e tendia ao exibicionismo. Era extremamente inteligente e um esplêndido orador
mas, ao mesmo tempo, era impulsivo, podia tornar-se irascível e brigão. Amava as paradas

D R AG O E D I TO R I A L 99
M Á RC I A S A RC I N E L L I

militares, as festividades de todo tipo e os esportes, que constituíam para ele uma diversão
e davam-lhe a oportunidade de exibir-se em diferentes trajes.
“Nicolau, embora não fosse muito alto, era de compleição atlética. Seu amor
pelos esportes como as caminhadas, a vela, o tênis, a equitação, o ciclismo, devia-se
ao prazer pelas atividades físicas e certamente não ao desejo de pompa e luxo. Não se
preocupava em deslumbrar. Vestia de preferência o simples uniforme de coronel com a
condecoração que lhe havia dado o pai. Era modesto de aspecto como de temperamento,
tranquilo, simples, consciencioso e bastante tímido; na intimidade, contudo, sabia ser
espirituoso e fascinante, às vezes mesmo malicioso. Era inteligente e aberto, mas tinha
uma mentalidade estreita e pouca originalidade. Dava a impressão de não conseguir
explorar plenamente suas capacidades intelectuais.”

Anos mais tarde, os biógrafos E. Heresch e R. Massié descreveriam


as personagens cujas alianças e atitudes determinariam o futuro da Europa
e do mundo:

“Guilherme tinha múltiplos interesses e podia conversar durante horas sobre


qualquer campo artístico, enquanto que Nicolau se interessava principalmente por
história e questões militares. Ambos eram religiosos, mas a fé de Nicolau era profunda
e tocada pelo misticismo da ortodoxia, que respeita as outras religiões, mas na realidade
considera-se a única ‘fé legítima’. A religiosidade determinava também a inclinação de
Nicolau ao fatalismo, a sua certeza de que tudo estava nas mãos de Deus, que velava
incessantemente sobre o cumprimento de seu dever.
“Guilherme, por outro lado, era tolerante quanto às outras religiões, mesmo
com relação ao Islam e aos judeus, dos quais se cercava com prazer nos ambientes
artísticos e intelectuais... Guilherme e Nicolau concordavam sobre a origem divina do
poder autocrático, que o kaiser não se cansava de sublinhar o tempo todo. Para Nicolau,
entretanto, o fundamento divino era tão óbvio que no quotidiano não merecia sequer ser
mencionado. De resto, como a Alemanha era dotada de uma constituição parlamentar que
previa um livre sistema de partidos, a autocracia de Guilherme era apenas uma fachada, e
não era comparável àquela russa...
“Os dois soberanos, contudo, tinham em comum uma certa tendência ao
misticismo, na realidade mais consoante à mentalidade russa do que àquela alemã. Se
na Rússia podia-se crer nos dotes sobrenaturais, ‘divinos’, de um Rasputin, de sua parte
Guilherme mantinha um conselheiro que se ocupava de ocultismo e reencarnação,
conhecido como o ‘Cagliostro do kaiser’. Este, porém, afastado da corte alemã em 1908,
não provocou danos sérios, enquanto que os estragos feitos por Rasputin à Rússia até o
seu assassinato, não foi possível sanar.”
(Elisabeth Heresch, “Nicola II – Vita e morte dell’ultimo Imperatore di Russia”)

100 D R AG O E D I TO R I A L
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“Em termos de caráter, os dois imperadores eram completamente diferentes.


Nicolau era gentil, tímido e dolorosamente consciente de suas limitações; o kaiser era
presunçoso, valentão e ridiculamente exibicionista. Nicolau odiara a idéia de tornar-se um
soberano; Guilherme praticamente arrancara a coroa de seu pai moribundo, Frederico
III. Depois de coroado, Nicolau tentou viver tranquilamente com sua esposa, evitando
espalhafato. Guilherme adorava desfilar em botas negras de cano alto, capa branca, colete
prateado e um capacete pontudo de aspecto maligno.
“A face magra, os frios olhos cinzentos e o cabelo claro e enrolado eram parcialmente
mascarados por seu maior orgulho: seu bigode. Este era uma coisa enorme e peluda com
impressionantes pontas viradas para cima, a criação de um talentoso barbeiro que aparecia
no palácio todas as manhãs com uma lata de cera. Em parte, este elegante arbusto ajudava
a compensar uma outra distinção física que Guilherme tentava desesperadamente esconder.
Seu braço esquerdo era atrofiado, uma infelicidade aparentemente devida ao uso de fórceps
no nascimento de Guilherme... Tanto quanto possível, ele mantinha seu membro danificado
escondido, enfiando-o em bolsos especialmente costurados em suas roupas. Durante as
refeições, o kaiser não podia cortar sua carne sem a ajuda de alguém.
“Na atmosfera militar da corte prussiana em que cresceu, seu braço deformado
teve um pronunciado efeito sobre o seu caráter. Um príncipe prussiano tinha que cavalgar
e atirar. Guilherme forçou-se a realizar com excelência as duas coisas e ainda tornou-se um
ótimo nadador, remador e jogador de tênis. Seu braço direito tornou-se extraordinariamente
poderoso, e seu aperto de mão era forte como o aço. Guilherme intensificava a sensação de
dor girando seus anéis para a parte interna de sua mão direita, de forma que suas joias feriam
a carne [de quem o cumprimentava].
“O temperamento irrequieto de Guilherme, suas vaidades e manias, suas rápidas
oscilações entre excitação histérica e negro desespero, mantinham seus ministros em
constante apreensão. ‘O kaiser’, disse Bismarck, ‘é como um balão. Se não segurarmos bem
o seu cordão, não se sabe aonde ele vai parar.’
“Testemunhar o riso do kaiser era uma experiência assustadora. ‘Quando o kaiser
ri, o que lhe acontece com frequência’, escreveu um observador, ‘ele o faz em total abandono,
jogando a cabeça para trás, abrindo a boca até a sua máxima capacidade, sacudindo todo o
corpo, e muitas vezes batento um pé no chão para demonstrar seu excessivo divertimento
com alguma piada.
“Seus maus modos ofendiam igualmente a parentes e estranhos... Escrevendo à
sua mãe, a rainha Vitória, a mãe de Guilherme disse do filho, então com vinte e oito anos
de idade: ‘Você me pergunta como estava Guilherme quando esteve aqui. Estava tão mal
educado, desagradável e impertinente comigo quanto possível.”
(R. Massie, “Nicholas and Alexandra”)

Guilherme II era unanimemente detestado. Alexandre III o

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desprezava e, quando forçado a dirigir-lhe a palavra, dava-lhe as costas e


falava-lhe por sobre o ombro. A czarina mãe Maria Feodorovna odiava-o
e descrevia-o como um nouveau-riche real, cujo império fora construído
em parte à custa de sua amada Dinamarca e da Holanda. Sua sucessora
Alexandra Feodorovna – prima do kaiser – não suportava a sua presença,
seu humor vulgar e sua essencial brutalidade, e mal disfarçava a sua
repulsa. A Nicolau, entretanto, Guilherme II tanto repelia quanto atraía,
e o estranho pacto Willy –Nicky teria trágicas consequências. Nicolau não
podia deixar de desprezá-lo, e mesmo de ridicularizá-lo em segredo, mas
admirava a verve do primo prussiano e não soube temê-lo, atitude que lhe
custaria caro.
Irritado com a antigermânica aliança entre a Rússia e a França
firmada em 1892, Guilherme II tramava a sua dissolução e exercitava sua
cínica duplicidade em conspirações e intrigas. Suas cartas a Nicolau revelam
seu desejo de dividir as duas potências e, de maneira ainda mais evidente,
suas intenções de enfraquecer a Rússia, envolvendo-a em uma guerra fora
da Europa:

“Não é a amizade entre a França e a Rússia o que me incomoda, mas o perigo


para o princípio da monarquia, com a instalação dos republicanos em um pedestal. Os
republicanos são revolucionários de nature. A República Francesa surgiu da fonte da
grande revolução e propaga suas ideias. O sangue de Suas Majestades ainda está naquele
país. Pense – foram eles felizes ou tranquilos desde então? Não é verdade que têm se
arrastado de derramamento de sangue em derramamento de sangue, de guerra em guerra,
até envolverem a Europa e a Rússia em rios de sangue? Nicky, acredite-me, a maldição
de Deus caiu sobre aquele povo para sempre. Nós, soberanos cristãos, temos um dever
sagrado imposto a nós pelos Céus: sustentar o princípio do direito divino dos reis.”

A aliança russo-francesa sobreviveria a este como a outros ataques,


mas o kaiser logo perceberia em Nicolau um terreno fértil em que semear
as suas sementes de cizânia. Tanto Nicolau quanto Guilherme odiavam os
orientais e o kaiser constantemente arengava sobre o “perigo amarelo”.
Seu discurso aos marinheiros que partiam para a China quando da revolta
dos Boxers em 1900 evidencia seus temores e preconceitos com relação ao
Oriente:

“Deveis saber, meus homens, que estais prestes a encontrar um inimigo astuto,
bem armado e cruel! Encontrai-o e vencei-o. Não dai-lhe trégua. Não tomai prisioneiros.
Matai-o quando cair em vossas mãos. Há mil anos atrás, os hunos do rei Átila escreveram

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

seu nome que ainda ressoa, terrível, em lendas e fábulas. Possa o nome da Alemanha ressoar
através da história chinesa daqui a mil anos.”

Embora o pavor que o kaiser sentia dos orientais fosse genuíno, em


sua relação com Nicolau ele o exagerava e dramatizava, temperando-o com
considerações filosóficas e com uma retórica mística, e mesmo com alegorias
de gosto duvidoso. Em 1902, ele envia ao czar uma tela que retratava a si
próprio em resplandecente armadura, segurando um enorme crucifixo na
mão direita. A seus pés agachava-se um minúsculo Nicolau II, vestindo um
caftan bizantino; em seus olhos lia-se humilde devoção. Ao fundo singrava
uma frota de navios russos e alemães em um mar azulíssimo.
Guilherme II adivinhara o secreto desejo de expansão oriental do
czar, desejo que coincidia com sua preocupação em manter a Rússia ocupada
fora da Europa para minimizar sua influência no Ocidente. Estas também
eram as intenções do chanceler Bismarck, que durante anos promoveu a
expansão da Rússia na Ásia:

“A Rússia nada tem que fazer no Ocidente. Aqui ela só poderia contrair o niilismo
e outras doenças. Sua missão é na Ásia; lá ela representa a civilização.”

Empurrando a Rússia em direção ao Oriente, a Alemanha afastava-a


de um envolvimento nos Bálcans e da possibilidade de ajuda à França,
em caso de conflito. Em suas cartas enfadonhas e virulentas, o kaiser
bombardeava o czar, apelando para o seu misticismo confuso, e sua real
intenção de enfraquecer um inimigo temível como a Rússia passava desper-
cebida a Nicolau, ainda inocente de suas intrigas:

“Deus predestinou-te visivelmente a fazer triunfar a lei do Cristo em todo o


Extremo Oriente. Assim, a Mandchúria e a Coréia devem pertencer-te...”

Recentemente, o kaiser dedicara ao czar o título de “Almirante do


Pacífico” (e a si próprio o de “Almirante do Atlântico”). Segundo Guilherme
II, a Rússia tinha uma “sagrada missão” na Ásia:

“É claro que o grande dever da Rússia é cultivar o continente asiático e defender


a Europa do avanço da Grande Raça Amarela. Nisto sempre me encontrarás ao teu lado,
pronto a ajudar-te no que eu puder. Compreendeste bem o chamado da providência...
na defesa da Cruz e da antiga cultura cristã europeia contra o avanço dos mongóis e do
budismo. Não permitirei que ninguém interfira e te ataque por trás na Europa enquanto
realizas a grande missão que os Céus te ordenaram.”

D R AG O E D I TO R I A L 103
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Estas palavras regavam as secretas aspirações do czar que, embora


pacífico por natureza, nutria verdadeira paixão pelas virtudes e atividades
militares e uma tendência a romantizar a guerra. Durante a guerra contra
o Japão, ele escreveria sobre a “alegria” com que os oficiais deixavam para
trás suas famílias “por amor à Pátria e pela glória do nosso Exército”. Para
ele, a guerra era uma questão de honra e uma oportunidade para realizar
feitos heróicos, além de expandir o Império, reafirmar seu prestígio e
converter as massas de infiéis à Ortodoxia. Witte diria de Nicolau:

“Seu pai era um czar orgulhoso e um nobre equânime e despre-


tensioso. Nicolau II não é um czar orgulhoso, mas é um coronel muito
orgulhoso e pedante.”

•••

“Meu verdadeiro conselho está na minha cabeça.”


(Luiz XI)

Nicolau II estava prestes a quebrar o juramento que fizera ao pai em


seu leito de morte, de evitar as guerras a todo custo. A natureza das intenções
do czar é revelada pelo ministro Witte, que criticava sua política externa.
Segundo Witte, Nicolau teria dito claramente ao General Kuropatkin
(ministro da Guerra e Comandante Supremo das Forças Armadas, que
também se opunha às ambições czaristas) que sonhava para a Rússia a
Mandchúria, a anexação da Coréia, a supremacia no Tibet, a ocupação da
Pérsia e ainda o Bósforo e os Dardanelos. Kuropatkin escreveria em seu
diário:

“[O imperador] está convencido de que seus ministros, particularmente Witte,
tenham razões pessoais para impedi-lo de realizar seus sonhos, que ele identifica como
a ‘vocação da Santa Rússia’... Eis porque o imperador tem a impressão de que um
Besobrazov qualquer, que canta em uníssono com ele, compreenda suas intenções melhor
do que nós. Eis porque joga conosco com a astúcia, mas seu espírito e sua experiência se
consolidam e, a meu ver, não obstante sua inata insegurança, ele se apressa a desembara-
çar-se de seus tutores e a impor diretamente a sua vontade.”

A vontade do czar era realizar seu sonho de conquistar o Oriente e


tornar-se o “Almirante do Pacífico”.

104 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

•••

Às personalidades retumbates e aos caráteres contundentes que


ensombreciam a sua já pálida figura, Nicolau II preferia as personagens
inócuas e as inteligências subalternas. Dotado de um infalível faro para
o banal, o Czar de Todas as Rússias cercava-se de parvos e néscios, de
curandeiros e profetas de feira. Este método de seleção não se aplicava
apenas à escolha de seus amigos pessoais, o que já configura um grave erro
político de conseqüências imprevisíveis, pois o cercar-se de tolos representa
sempre um perigo para qualquer governante; Nicolau II tenderia sempre a
eleger ministros, conselheiros e generais da mesma forma com que escolhia
seus “amigos”, pressagiando lúgubres auspícios.
Além do intrigante e manipulador Guilherme II, o czar rodeara-se
de um grupo de aduladores que estimulava seus delírios expansionistas. O
grupo incluía o grão-duque Alexander Mikailovich, o general Besobrazov
(recomendado ao czar pelo kaiser em pessoa), o almirante Alexeiev, o
contra-almirante Abaza e o ministro do Interior Plehve, um ex-oficial de
polícia grosseiro e obtuso, símbolo máximo da autocracia enlouquecida.
Atormentado pelas contínuas revoltas e greves em São Petersburgo, que
resistiam às repressões mais violentas, Plehve abraçara calorosamente a
ideia de uma “pequena guerra vitoriosa” para distrair o ânimo popular
dos problemas internos do Império. Quanto aos opositores da campanha
do czar no Oriente, o kaiser consegue alienar e em seguida, convencer
Nicolau a demitir seu melhor conselheiro, o ministro Witte. Após exonerar
o ministro, o czar escreveria em seu diário:

“Agora, sim, poderei reinar.”

Além de Witte, outra voz que alertava o czar para os riscos de


sua política externa é silenciada, com a demissão do ministro do Exterior
Lambsdorff.
Referindo-se ao Ministério do Exterior da Rússia, o embaixador
alemão declarou jamais ter presenciado tamanha preguiça:

“Todos os oficiais chegam às 11 ou 12hs e desaparecem às 16hs para jamais


serem vistos de novo. Durante o horário de trabalho eles nada fazem além de fumar e
passear pelos corredores.”

Um desentendimento entre a Rússia e o Japão a propósito da

D R AG O E D I TO R I A L 105
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Coréia, proporciona a oportunidade de satisfazer os apetites predatórios


do czar e ao mesmo tempo distrair a população dos problemas internos
do Império e estancar a maré da revolução, que já se alastrava. Totalmente
predisposto contra o Japão, país contra o qual acalentava antigos precon-
ceitos e antipatias pessoais, Nicolau sucumbe à obsidiante influência de
Guilherme II, aos estímulos de seus generais belicosos e à sua própria
natureza de cruzado, e praticamente provoca a guerra entre os dois países.
Aproveitando-se da decrepitude do império chinês, em 1898 a
Rússia impusera à China um tratado abusivo que garantia a conclusão
da ferrovia Trans-Siberiana na Mandchúria em troca de apoio contra
os avanços do Japão, que recentemente abocanhara territórios chineses
cobiçados pela Rússia. Em 1895, uma guerra entre a Coréia e o Japão
consagrara a superioridade terrestre e marítima dos japoneses. Estes,
poucos meses depois de ocupar Formosa, ameaçavam tomar Pequim,
forçando a China a assinar um tratado de paz. A esta altura, a Rússia não
havia concluído a Trans-Siberiana e necessitava de um porto de águas livres
na costa da Mandchúria. Até 1898, o uso do único porto russo no Pacífico,
Vladivostok, era impossibilitado pelo gelo durante três meses por ano.
Escorados pela França e pela Alemanha, os russos pressionam
os japoneses a ceder-lhes a península de Liaotung, sede da base de Port
Arthur, e comprometem-se a abandonar suas bases na Coréia. Diante da
demora da Rússia em cumprir sua parte no acordo e retirar suas tropas
da Coréia, o Japão alia-se à Inglaterra e arma-se para a guerra. A situação
agrava-se quando o czar nomeia o general Alexeiev governador geral da
província coreana de Quantum e o general Besobrazov superintendente
da Coréia Setentrional, ignorando os protestos do Japão. De nada servem
as admoestações de Witte, que profetizava hecatombes, alarmado com a
presunçosa temeridade do czar, que arriscava-se a provocar uma guerra
contra o Japão.
A ilusão de ter à sua disposição um grande potencial militar,
alimentada pelo General Besobrazov e sua camarilha, contribuiria para a
tomada de mais uma decisão infeliz de Nicolau II. Seus almirantes haviam-lhe
garantido que os japoneses eram incapazes de manejar modernos navios
de guerra, que eram “como crianças brincando com barquinhos em uma
banheira.” Na verdade, Nicolau herdara o maior exército do mundo, mas
ao contrário do exército japonês, recentemente reformado, o russo era mal
equipado e ultrapassado. Horror dos horrores, os russos estavam prestes a
vergar-se sob a superioridade da “grande raça amarela”.

106 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

•••

“Não há inimigo insignificante. Todo inimigo é uma potência.”


(Nelson Rodrigues)

Após mais de dois séculos de cristalização e isolamento, o Japão


modernizara inteiramente sua estrutura política e econômica. A chave
desta renovação era um exército recrutado e uma indústria pública de
armamento. A partir da metade do século XIX, o Japão eliminaria, com a
restauração Meiji e a Revolta Satsuma, a maior parte dos privilégios feudais
do regime Tokugawa e expandiria seu programa armamentista. No final
do século havia aumentado suas despesas com o exército terrestre em 60
por cento e o orçamento naval em 200 por cento. Em 1903, os japoneses
gastavam em armas mais do que qualquer estado europeu (mais de 10 por
cento do rendimento nacional) e gozavam ainda de outra vantagem: sua
base militar industrial permaneceria sob rigoroso controle do Estado até a
II Guerra Mundial.
A partir de 1877 verifica-se no Japão a transição de um exército
destinado apenas à defesa interna para uma força a ser usada no estrangeiro.
O Japão construíra um exército formado de armas europeias e de práticas
disciplinares que o elevavam ao status de grande potência imperial,
praticamente garantindo a inevitabilidade de um choque com potências
ocidentais. Este choque aconteceria em 1904 com a mais atrasada, mais
feudal, menos industrializada, menos desenvolvida e menos europeia das
potências europeias, a Rússia.
Apesar de irritados com as pretensões czaristas na Ásia e de terem
cumprido sua parte no acordo que a Rússia desonrara, os japoneses ainda
estavam dispostos a negociar um desfecho pacífico para o impasse da
Coréia. O marquês Ito vai a São Petersburgo tentar um novo acordo e é
virtualmente ignorado pelo czar e seus ministros. Diante do vergonhoso
tratamento a que é submetido e encontrando todas as portas fechadas
às suas iniciativas de negociação, Ito ainda recorre a uma solicitação por
escrito. Mais uma vez é ignorado e retorna, humilhado e preocupado, ao
Japão. Durante todo o ano de 1903 o embaixador japonês Kurino tenta
advertir os russos da possibilidade de uma guerra entre os dois países e
suplica em vão por uma audiência com o czar, que entretanto “não tem
tempo para encontrar-se com a delegação japonesa”. Tendo falhado em
sua missão, ele também deixaria São Petersburgo em fevereiro de 1904.
Os devaneios místicos, as obsessões napoleônicas, o ódio aos

D R AG O E D I TO R I A L 107
M Á RC I A S A RC I N E L L I

japoneses (que continuava a chamar “macacos”, mesmo em documentos


oficiais), os conselhos do pérfido Willy e o lobby de Besobrasov e Plehve
terminam por convencer Nicolau de que a Providência lhe conferira
a sagrada missão de fazer resplandecer a cruz do Salvador no Oriente.
Entre hesitações, oscilações, provocações sub-reptícias e francas ofensas
ao Japão, que ainda tentava um acordo amistoso, Nicolau acaba tornando
inevitável uma guerra entre os dois países. Era evidente para o mundo
inteiro a responsabilidade do czar pelo confronto, que provocara com sua
ambição, seu orgulho e a obstinação típica dos fracos.
Nicolau compartilhava da tranquilidade dos generais e almirantes
do grupo de Besobrazov, para os quais a vitória da Rússia, em caso de
guerra com o Japão, era garantida, sem que os russos precisassem disparar
um só tiro. Bastaria que os soldados de Sua Majestade atirassem seus bonés
sobre os pequenos japoneses para provocar uma debandada geral. Estavam
certos de que o Japão blefava quando resistia aos avanços da Rússia no
Oriente. Não podiam levar a sério aquela pequena ilha que ousava aborrecer
o grande urso russo.
Mesmo aqueles que se opunham à chama guerreira e expansionista
recentemente acesa no czar, até então apático e inerte, não tinham dúvidas
quanto à vitória da Rússia. Acima de tudo, Nicolau estava convencido
de que a decisão de declarar guerra ou optar por um acordo pacífico
dependia exclusivamente de sua vontade soberana. Durante a recepção de
gala ao corpo diplomático no réveillon de 1904, o czar dirige-se em termos
humilhantes ao embaixador japonês Shinkiro Kurino e discursa com certo
ardor sobre o poderio militar russo e sobre o risco que corriam aqueles que
abusavam de sua paciência e de seu amor pela paz. O cordeiro tinha seu dia
de leão, sacudindo a juba e exibindo as presas para os diplomatas atônitos.
Quando o kaiser já espumava de impaciência diante da indefinição
de Nicolau, que nem declarava guerra ao Japão e nem atendia às súplicas
de novas negociações, os japoneses tornam desnecessária uma decisão por
parte da Rússia. Aquele que Nicolau descrevia como um povo “desagradável,
desprezível e fraco” não blefava, como em breve se verificaria. A 6 de
fevereiro de 1904, enquanto Nicolau e Alexandra assistiam à apresentação
da ópera “Rusalka” no Teatro Mariinsky, os japoneses inauguram as
hostilidades com um ataque surpresa à esquadra russa em Port Arthur
(performance que repetiriam com igual sucesso contra os americanos em
1941, em Pearl Harbour). O comandante russo de Port Arthur, General
Alexeiev, preferira ignorar os relatórios da inteligência russa que já o haviam
prevenido da aproximação dos japoneses. Nenhum dos canhões dos sete

108 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

navios de guerra ancorados em Port Arthur estava carregado e nem um


só torpedo posicionado para proteger a frota. Alexeiev havia dado ordens
para não ser incomodado e estava deitado, lendo um livro em seu estúdio
quando ouviu as explosões. Tinha início uma guerra absurda e claramente
evitável, página vergonhosa da história da Rússia, escrita a partir de mais
uma decisão infeliz de Nicolau II. Suas consequências seriam um inútil
derramamento de sangue, um golpe profundo na imagem interna e externa
do governo czarista, o recrudescimento das paixões revolucionárias e do
ódio da população contra os Romanov, e o enfraquecimento da autocracia.
Witte registraria em seu diário naquele dia:

“Que tristeza para a Rússia! Que tristeza para o imperador, este pobre homem
desafortunado...Ele é um homem bom, e de maneira alguma estúpido, mas não tem
vontade própria.”

Para esta “insolência japonesa”, como a classificava, Nicolau não


estava preparado, e escreveria em seu diário:

“Isto sem uma declaração de guerra. Deus nos ajude!”

Mesmo surpreendidos pelo ataque japonês sem declaração de


guerra, e tendo sofrido sérios danos à sua frota, o clima na Rússia é festivo
e patrioteiro na manhã seguinte. Multidões exaltadas enchem as ruas de
São Petersburgo, estudantes marcham em direção ao Palácio de Inverno
carregando bandeiras e entoando hinos. Aclamado pelo povo, Nicolau
surge à sacada de seu estúdio no palácio e saúda a multidão. Seu aspecto
denota um estado de espírito bem diverso: tendo flertado com a guerra e
com a conquista do Oriente, o czar provavelmente questionava agora a sua
própria temeridade, que sacrificava a Rússia em prol da tradicional insacia-
bilidade czarista que o acometera, apesar das advertências de seu pai, cujos
conselhos jurara seguir. A possibilidade de derrota ainda não lhe ocorrera,
mas sua natureza pacífica revoltava-se diante do derramamento de sangue
a que condenava sua amada Rússia. Acima de tudo, preocupavam-no
os relatórios que continuavam a chegar sobre os danos infligidos pelos
japoneses em Port Arthur à frota e ao prestígio da Rússia. Mas nem os
mais pessimistas seriam capazes de prever a catástrofe que se aproximava.
Às primeiras perdas, que Nicolau orgulhosamente considera
“insignificantes”, seguem-se notícias dramáticas. A superioridade da
moderna frota japonesa sobre as obsoletas naves russas – ainda alimentadas

D R AG O E D I TO R I A L 109
M Á RC I A S A RC I N E L L I

a carvão e dotadas apenas de canhões fixos – e a vantagem do elemento


surpresa no ataque a Port Arthur, possibilitam ao Japão causar danos
irreparáveis à marinha russa.
O primeiro grande confronto ocorreria em abril, na Batalha de
Yalu, no norte da Coréia. Os excelentes soldados japoneses, treinados
ao estilo prussiano, provam desde o início sua superioridade sobre os
soldados russos. Estes, em sua grande maioria analfabetos, mal treinados,
mal equipados, mal calçados, forçados a portar mochilas pesadíssimas
e vestindo longos casacos que os faziam tropeçar, nem sabiam por que
lutavam e em todos os sentidos encontravam-se em franca desvantagem.
Embora o exército japonês consistisse de 600.000 homens e o
russo de quase 3 milhões, o Japão pôde enviar imediatamente 150.000
homens ao front asiático, onde enfrentaram um número muito inferior de
soldados russos. Enquanto as perdas japonesas eram rapidamente substi-
tuídas, os russos eram obrigados a carregar armas, munições, provisões e
reforços por mais de 6.000 km através da Ferrovia Trans-Siberiana que,
aliás, não estava completa. Faltavam 160 km de ferrovia nas montanhas ao
sul do Lago Baikal. Durante o inverno, soldados, armamentos, provisões
e munições tinham que atravessar o lago gelado em trenós puxados por
cavalos, penosa travessia que durava três dias.
Inaugurada com fervor patriótico, a guerra russo-japonesa perde
em pouquíssimo tempo o apoio popular. As agitações crescem perigo-
samente em São Petersburgo e transformam-se em surtos contra tudo o
que representasse o Estado. O ministro do Interior Plehve, provavelmente
o homem mais odiado da Rússia a esta altura, é assassinado por terroristas.
Durante o verão e o outono de 1904, a infantaria japonesa ataca
todos os fortes em torno a Port Arthur. Após 8 meses em que ambas
as partes sofreriam um número impressionante de baixas, os russos
rendem-se, entregando toda a península de Liaotung ao Japão. Em janeiro
de 1905 forma-se um impressionante front de 65 km na Mandchúria, na
mais importante batalha terrestre antes da I Guerra Mundial. Liderados
pelo General Kuropatkin, os russos perdem 1/3 de seu exército. Uma
série de batalhas na Mandchúria envolveria cerca de 1 milhão de homens,
terminando em dois meses com um saldo de 100.000 russos mortos e a
tomada de Mukden pelos japoneses. A queda de Port Arthur em janeiro de
1905 tem um poderoso efeito desmoralizante sobre as tropas e as deserções
se multiplicam.
As esperanças russas repousavam em sua frota, a maior do mundo
depois da inglesa e da francesa. Na verdade, em termos quantitativos a

110 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

frota russa do Extremo Oriente era proporcional à Marinha Imperial


Japonesa. Os russos possuíam mais navios de guerra e cruzadores, e os
japoneses mais torpedeiros e contratorpedeiros. Com o ataque surpresa a
Port Arthur, entretanto, o Japão garantira a soberania no mar. Os navios
russos que sobreviveram às investidas japonesas foram depois afundados
pelas minas subaquáticas – tanto japonesas quanto russas – cujo uso a
Rússia tentaria banir durante a segunda conferência de Haia.
O golpe de misericórdia seria infligido à marinha russa, orgulho
do czar, durante a batalha de Tsushima. Instigado por Guilherme II,
Nicolau envia a Frota Báltica em uma aventura desesperada para restaurar
a supremacia naval russa no Pacífico. Todas as naves e canhões da frota
de Rosdestvensky foram benzidos pessoalmente pelo czar; cada uma das
naves levava um retrato de Nicolau II e um ícone enviado pela czarina.
Impedido pelos ingleses de atravessar o canal de Suez, o Almirante
Rosdestvensky vê-se obrigado a circunavegar todo o continente africano
em direção a Vladivostok – empresa de proporções heroicas, sobretudo
para as pesadas e antiquadas naves russas. Após seis meses de uma viagem
repleta de dificuldades e até de tragicômicos incidentes que por pouco não
provocam uma guerra com a Inglaterra, Rosdestvensky chega ao canal
de Tsushima a 27 de maio de 1905 com duas esquadras navais, onde o
Almirante Togo o aguardava com nipônica paciência. Circundado pela
frota japonesa, quase toda a frota russa é afundada ou capturada. Em 45
minutos, a Frota Báltica perde todos os 8 navios de guerra, 7 cruzadores
e 6 contra-torpedeiros. Quatro mil e trezentos marinheiros são mortos e
Rosdestvensky é ferido e feito prisioneiro.
Após meses de humilhantes derrotas em um contínuo espetáculo
de incompetência militar, a Rússia finalmente capitula e o Japão emerge
como uma nova potência mundial. O custo em vidas da guerra russo-ja-
ponesa é altíssimo. Os japoneses admitem ter perdido mais de 630.000
homens e as perdas da Rússia aproximam-se de um milhão. Guilherme
II mal disfarçava seu contentamento, ainda que camuflado por uma falsa
solicitude. Considerava-se o autor da desventura do primo, embora a
responsabilidade pela humilhação nacional infligida à Rússia coubesse
claramente ao czar.
A Batalha de Tsushima obrigaria todas as grandes potências
mundiais a rever suas táticas navais. A quase aniquilação da frota do
Almirante Rosdestvensky e as espantosas vitórias do Japão escreveriam
uma página fundamental da história da guerra. A Inglaterra, cuja segurança
dependia da Royal Navy, deparou-se com a aterradora possibilidade de

D R AG O E D I TO R I A L 111
M Á RC I A S A RC I N E L L I

perder uma guerra em uma tarde. O kaiser, que tanto prezava sua Frota
do Mar Alto, tremia diante desta possibilidade até então inimaginável. Na
Áustria, Francisco José toma medidas para consolidar a fortaleza de Pola
“para que não nos aconteça um Port Arthur”. Nos EUA, o desastre de
Tsushima convence o Presidente Roosevelt da impossibilidade de dividir
uma frota como os russos haviam feito e da urgência da construção do
canal do Panamá.
Robert O’Connel (op.cit.) observa que desde o século XV, quando
os turcos adotaram armas de fogo, nenhuma outra sociedade não ocidental
mostrara uma real afinidade pelo armamento apurado. Os japoneses
demostraram que a tradição armada ocidental, elemento chave de 4 séculos
de dominação militar, já não era apanágio exclusivo do Ocidente. Entretanto,
equivalente ao que parecia ser o auge do ascendente marcial ocidental,
seria de se esperar que a vitória japonesa sobre a Rússia constituísse uma
revelação chocante, o que no entanto não aconteceu. Os japoneses eram
vistos praticamente como uma aberração, uma raça valente, “boa para
copiar coisas”, mas com pequeno potencial ativo. E pouca preocupação
houve de que outros seguissem os seus passos.
Ainda mais grave foi a opinião profissional no Ocidente, que
optou por ignorar o poder devastador das minas subaquáticas, embora
estas afundassem tantos navios quanto as outras armas navais combinadas.
Além disto, o poder de fogo naval revelara-se ineficaz, exceto a muito
curto alcance, conhecimento que seria utilizado apenas como argumento a
favor de armas maiores. Os relatórios sobre a guerra em terra – observada
por alguns dos maiores especialistas do mundo – foram interpretados de
maneira a ignorar o enorme poder das trincheiras e a capacidade mortífera
da artilharia de fogo rápido.

“E assim este prelúdio ao Armagedon passou como que desapercebido, ou pelo


menos foi largamente ignorado pelas instituições militares que, em menos de uma década,
viriam a sofrer as consequências”.

•••

“Todo coração tem sofrimentos secretos que o


mundo desconhece, e muitas vezes chamamos frio
o homem que é apenas triste.”
(H. W. Longfellow)

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Existem várias versões sobre a reação de Nicolau II à notícia do


desastre de Tsushima. A mais famosa reza que ele recebeu o telegrama
enquanto jogava tênis e, depois de lê-lo, guardou-o tranquilamente no
bolso e continuou a partida. Uma outra descreve o czar que remava ao ser
informado sobre Tsushima e continuou alegremente a remar. Sua irmã Olga,
por sua vez, atesta que estava presente quando Nicolau recebeu a notícia
e descreve a dor do irmão que, pálido, cambaleava e procurava o apoio de
uma cadeira, enquanto a czarina chorava, desconsolada. R. Massie escreve
que o czar encontrava-se a bordo do trem imperial quando foi informado
da derrota da Rússia. Após ouvir a notícia, mandou chamar o ministro da
Guerra, General Sakharov, com o qual teve uma longa conversa. Ao staff de
Nicolau que aguardava em outro vagão, Sakharov declararia:

“Sua Majestade demonstrou reconhecer perfeitamente os problemas que temos
diante de nós e delineou um plano de ação bastante sensato. Sua compostura é admirável”.

As duas últimas versões, que retratam um imperador composto


e controlado mesmo diante da terrível derrota de seu país, parecem mais
verossímeis do que as duas primeiras, que descrevem um czar frio e
indiferente. Sua dificuldade de demonstrar sentimentos, sua aristocrática
preocupação com a compostura em face da adversidade, sua inegável
indiferença às questões de política interna e seu essencial fatalismo muitas
vezes confundido com frieza, contribuíram para a criação de lendas a seu
respeito, sobretudo a partir da desastrosa aventura no Oriente.

•••

A esta altura, os japoneses enfrentavam um problema muito parecido


ao de Hitler em 1941. Tendo surrado o urso russo, este teimava em continuar
lutando. A reserva de homens do império russo parecia inesgotável e
continuava a chegar pela Trans-Siberiana. Os japoneses então decidem-se
a contatar secretamente o presidente dos Estados Unidos para que este
servisse de mediador na crise. Roosevelt aceita imediatamente e sem reservas
a proposta do Japão: “Agradou-me muitíssimo a vitória japonesa – diria em
seguida o presidente americano – pois eles jogam o nosso jogo”.
Roosevelt desprezava o “insignificante déspota russo”:

“O czar é uma criaturinha ridícula. Não foi capaz de fazer a guerra e agora é
incapaz de fazer a paz.”

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Após a espetacular derrota em Tsushima, Nicolau resolve aceitar a


oferta de mediação dos EUA e convoca o ex-ministro Witte, recentemente
exonerado, para realizar as negociações de paz. Embora o ex-ministro o
irritasse com seu complexo de Cassandra (apenas ele previra o desastre
militar a que Nicolau condenara a Rússia), com suas objeções à política
externa suicida e à política interna apática do czar, este vê-se obrigado a
reconhecer em Witte o homem mais indicado para a missão.
Desde o embarque no navio alemão “Wilhelm der Grosse” em
companhia de um enxame de jornalistas europeus, Witte mantém a pose
de “representante do maior Império da terra”, indisturbado pelo fato
de ter sido este poderoso império temporariamente envolvido em uma
ligeira dificuldade. Ao chegar em Portsmouth para a conferência de paz,
Witte encontra uma América fervilhante de admiração pelos pequenos
japoneses que haviam derrotado o grande Império russo. Aproveitando-se
sabiamente da postura destacada e discreta da delegação japonesa, que
evitava a atenção dos jornalistas, Witte apressa-se em reverter esta imagem.
Mais tarde, ele escreveria:

“Posso dizer que consegui conduzir a opinião pública americana a nosso favor.
Eu gradualmente conquistei a imprensa... Sob este aspecto, o todo-poderoso japonês
Komura cometeu um grave erro... evitou sempre os jornalistas... Tirei vantagem da falta de
tato do meu adversário para colocar a imprensa contra ele e a sua causa ... ao meu compor-
tamento deve-se em parte a transformação da opinião pública americana. Esforcei-me
para tratar todos os americanos com os quais estive em contato com a maior simplicidade.
Ao viajar, fosse em trens especiais, automóveis do governo ou barcos, eu agradecia a
todos, conversava com os engenheiros e apertava a mão a todos – em poucas palavras,
tratava todas as pessoas, qualquer que fosse sua posição social – como iguais. Esta atitude
significou um grande esforço para mim, como o é sempre um comportamento a que não
estamos habituados, mas seguramente valeu a pena.”

O custo da farsa de simpatia e amabilidade de Witte, na verdade


um homem orgulhoso e inflado, parece ter sido considerável, e mais tarde
ele não pouparia críticas mordazes aos americanos em geral e a Roosevelt
em especial. Sobre o almoço com o presidente americano em Long Island
após a conferência, Witte desabafa:

“[a refeição] para um europeu era praticamente indigerível. Não havia toalha
de mesa e apenas água gelada ao invés de vinho... os americanos não têm o menor gosto
culinário... são capazes de comer qualquer coisa que se lhes apresente.”

114 D R AG O E D I TO R I A L
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“Fiquei chocado com a ignorância [de Roosevelt] em política externa... Ouvi os


julgamentos mais ingênuos.”

De sua parte, Roosevelt também mostrar-se-ia imune ao charme


pessoal do garboso Witte, de quem diria:

“Não posso dizer que gostei dele, pois considero seu estilo fanfarrão e presunçoso
não apenas tolo, como terrivelmente vulgar quando comparado ao discreto cavalheirismo
dos japoneses. Acima de tudo, ele me pareceu um homem totalmente desprovido de
ideais.”

Transformados pela sagacidade de Witte em vilões, os japoneses
desde o início da conferência encontram dificuldades em realizar suas
reivindicações. Ciente de que o Japão enfrentava dificuldades econômicas
que podiam impedi-lo de continuar a guerra, Nicolau ordena a Witte que
conclua as tratativas de qualquer maneira no dia seguinte:

“Prefiro continuar a guerra a esperar por graciosas concessões por parte do


Japão”.

Diante do ultimatum da Rússia, o Japão, que chegara como vencedor,


cede. Witte obtém excelentes condições, mantendo-se irredutível em suas
posições. É verdade que o Japão obtém a concessão da península de
Liaotung, o sul da Mandchúria, a parte meridional da ilha de Sakhalin e o
reconhecimento da Coréia como esfera de interesse japonesa, enquanto
que os russos vencidos vêem-se forçados a desocupar a Coréia. Por outro
lado, à Rússia não se exige qualquer forma de ressarcimento e ainda lhe
permitem conservar suas posições na Mandchúria setentrional, possibi-
litando assim manter um equilíbrio com seu rival japonês no Extremo
Oriente. Conclusão benigna e inesperada, dadas as culpas da Rússia, a que
se seguem pacíficos tratados comerciais de cooperação com o Japão e a
China, e o bônus adicional do reconhecimento da Mongólia externa como
área de influência russa. Em resumo, a vileza da Rússia é recompensada
com um acordo vantajoso que o Império teria conseguido sem derramar
uma só gota de sangue se apenas tivesse tratado honesta e pacificamente
com o Japão quando teve a oportunidade. Quando no Japão soube-se das
condições do armistício, houve demonstrações de protesto nas ruas por
parte da população enfurecida com a gravidade do ultraje.
Não obstante as impressionantes proezas diplomáticas de Witte

D R AG O E D I TO R I A L 115
M Á RC I A S A RC I N E L L I

– verdadeiros trabalhos de Hércules – o golpe ao orgulho do czar e ao


prestígio da Rússia era profundo demais para ser camuflado. A respeito do
triste fim da sagrada missão da Santa Rússia na Ásia, interrompida pelos
“macacos japoneses” que ele tanto desprezava e que em 15 meses haviam
colocado de joelhos o potente Império russo, Nicolau escreveria em seu
diário:

“Hoje à tarde fui à missa de Ação de Graças pela conclusão da paz. Devo
confessar que, com toda a boa vontade, não pude ficar realmente contente...”

Orgulho ferido ou não, o czar via-se forçado a reconhecer o


valor dos feitos praticamente olímpicos de Witte e ao seu retorno,
recebe-o pessoalmente em seu iate e presenteia-o com o título de conde.
Entretanto, seu desprezo e repulsa por este homem brilhante que com
tanta competência e devoção o servira, resistiria a mais esta façanha. Na
verdade Nicolau nutria por Witte um certo despeito, um secreto ciúme de
seu lustre e inteligência. A óbvia superioridade moral e intelectual de Witte
o exasperavam – a ele e à czarina. Os sentimentos do czar eram percep-
tíveis em todas as suas atitudes com relação ao ex-ministro, mesmo quando
oficialmente obrigado a ser-lhe grato.
Witte, entretanto, estava muito orgulhoso de si próprio e gabava-se
continuamente de sua espetacular atuação, para despeito de seus adversários
no governo e mesmo do próprio czar:

“Meu desempenho foi um completo sucesso, e no final o Imperador Nicolau
viu-se moralmente obrigado a recompensar-me de maneira excepcional, conferindo-me
o título de conde. Isto ele o fez a despeito do desafeto pessoal que ele próprio e a czarina
nutrem por mim e apesar das intrigas conduzidas contra mim por uma multidão de
burocratas e cortesãos cuja vileza iguala-se apenas à sua estupidez.”

A derrota da Rússia significou a queda em desgraça da autocracia e


forneceu o impulso final à revolução que se preparava.

116 D R AG O E D I TO R I A L
“Eram muitos, levavam o ídolo
sobre os ombros, era espessa
a fila da multidão
como uma saída do mar

VIII
com roxa fosforescência.

Pulavam dançando, elevando


graves murmúrios mastigados
que se uniam às frituras
e aos tétricos tambores.

Paletós roxos, sapatos


roxos, chapéus
enchiam de manchas violetas
as avenidas como um rio
de enfermidades pustulosas
que desembocavam nos vidros
inúteis da catedral.
Algo infinitamente lúgubre
como o incenso, a copiosa
aglomeração das chagas
feria os olhos unindo-se
com as chamas afrodisíacas
do apertado rio humano.
[...]”

(Pablo Neruda, “Procesión en Lima”)


M Á RC I A S A RC I N E L L I

NICOLAU O SANGUINÁRIO

“O príncipe que tiver mais temor de seu povo do que dos estrangeiros,
deve construir fortificações, mas o que tiver mais temor dos estrangeiros do
que do povo, não precisa preocupar-se com isto....
A melhor fortaleza... é não ter o ódio do povo,
pois que, se tiveres fortalezas e fores por ele odiado,
elas não te salvarão...”
(N. Macchiavelli – “O Príncipe”)

Em uma carta endereçada a Nicolau II em 1902 (que ele


provavelmente nunca recebeu), Tolstoi assim informa o czar da situação
do país:

“Não gostaria de morrer sem ter-vos dito o que penso da vossa atual atividade, do
que esta poderia ser, da grande felicidade que poderia trazer a milhares de seres humanos
e a vós próprio, mas também da grande desventura que ela pode causar a estes mesmos
seres e a vós se esta política prosseguir na mesma direção de hoje...
“Um terço da Rússia encontra-se sob um regime de vigilância especial, ou seja,
ilegal. Os exércitos da polícia secreta crescem sem cessar. As prisões, as colônias penais
estão abarrotadas de prisioneiros políticos, sem falar nas centenas de milhares de prisio-
neiros comuns que agora juntam-se aos operários. A censura emana uma quantidade de
proibições que não existiam nem mesmo na época detestável dos anos quarenta. Nunca
as perseguições religiosas foram tão frequentes e cruéis como hoje, e a cada dia pioram
ainda mais. Por toda parte mandam-se tropas armadas contra o povo... Já houve derrama-
mentos fratricidas de sangue, e outros se estão preparando que serão ainda mais cruéis. E
a população camponesa, estes cem milhões de camponeses, não obstante o crescimento
do balanço estatal, ou talvez por causa dele, torna-se cada dia mais pobre; assim a carestia
tornou-se um fenômeno normal. Igualmente normal é o descontentamento de todas as
classes sociais em relação ao governo.
“A causa de toda esta situação é perfeitamente clara. Ei-la: vossos conselheiros
afirmam que, sufocando qualquer movimento vital do povo, garantem a prosperidade do
próprio povo e a vossa segurança pessoal.
“Mas seria mais fácil deter o curso de um rio do que a eterna marcha da
humanidade, estabelecida por Deus.”

O que sabia o czar do descontentamento de seu povo, do movimento

118 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

dos universitários, cuja voz ele calava com a prisão e o degredo? Da cólera
dos poloneses e finlandeses, que ele alienava com seu rigor nacionalista?
Da revolta dos judeus, que ele perseguia e massacrava com seus pogroms?
Das reivindicações dos operários, que ele exauria e explorava com jornadas
de trabalho massacrantes e salários miseráveis? Da surda fúria dos mujiks,
que ele condenava à fome e à degradação com a cobrança de impostos
abusivos e a negação de todos os direitos? Nicolau II estava consciente
apenas de um descontentamento difuso, cujo eco chegava-lhe já diminuído
e que ele insistia em ignorar. Os distúrbios, desordens, greves, revoltas e
motins ele atribuía às más intenções de alguns elementos infiltrados nas
fábricas e quartéis e não a uma real necessidade de reforma do governo.
E estava certo de que a vontade de Deus era soberana e prevaleceria no
final, qualquer que fosse a sua atitude ou opinião. Convinha aguardar o
desenrolar dos acontecimentos.
Poder-se-ia perguntar se Nicolau II tinha consciência de si próprio
como uma personagem histórica, da importância histórica de seus atos,
palavras, decisões e omissões. Aparentemente, era consciente apenas de si
mesmo como indivíduo, como marido e pai, aliás excepcional, e certamente
da colossal missão que Deus lhe havia conferido. Tal fatalidade o esmagava,
mas ele a aceitava com a trágica submissão de um cordeiro pascal. No
fundo, tudo o que queria era viver em paz com sua família em Tsarskoe
Selo, mas acima de tudo que não o aborrecessem com questões políticas,
sonho que finalmente realizaria ao abdicar em 1917.
Na verdade, seria simplista atribuir o desinteresse de Nicolau
pela coisa pública, seu alheamento político e sua aparente indiferença
pelas vicissitudes e agruras do povo russo apenas à sua debilidade moral
e à crescente influência de Alexandra sobre as suas decisões. Outros
componentes fundamentais desta personagem trágica, como a sua postura
místico-fatalista, não podem ser desprezados. O fatalismo de Nicolau II
e sua crença no mito do Czar Batiushka (Czar Paizinho) são elementos
essenciais para a compreensão de sua impassibilidade diante das muitas
adversidades que conheceu e das catástrofes que ajudou a precipitar.
Pedra angular da autocracia russa, o mito do Czar Batiushka
origina-se na crença na simbiose espiritual entre o czar demiurgo e seu
povo, e era sinceramente acalentado por Nicolau II e esposa, pelos tradicio-
nalistas de plantão, pela Igreja Ortodoxa Russa e pela plebe em geral. O
caráter do Czar Batiushka, o paizinho do povo, era tipicamente russo: ao
mesmo tempo terrível e santo. Embora tenha se esforçado heroicamente
para ser terrível (ensaio que lhe valeria o emblema de sanguinário durante

D R AG O E D I TO R I A L 119
M Á RC I A S A RC I N E L L I

a Revolução de 1905), o maior desejo de Nicolau era ser santo – ou


obedecer apenas a Deus e ignorar o “mundo”. Seus atos, palavras, decisões
e omissões o demonstram cada vez mais à medida que amadurece (ou
cristaliza-se) como autocrata e caminha inexoravelmente para a abdicação,
com a resignação de um mártir. O mito do Czar Batiushka, reforçado e
exaltado pelo misticismo russo, garantia a infalibilidade do czar – mesmo,
como no caso de Nicolau II, diante de sua incompetência quase criminosa,
mesmo quando suas iniciativas desastrosas condenavam a Rússia à ruína
e à anarquia. Porque o czar era o “ungido do Senhor”, seu braço era a
extensão do braço de Deus e a sua vontade era a Dele.6

•••

“O terror deve ser combatido com o terror.”


(Nicolau II)

Começando por Serguei Witte, Nicolau II realizaria uma verdadeira


espoliação de inteligências em seu governo. Responsável pelo boom da
industrialização russa no reinado de Alexandre III, Witte foi o pai dos
empréstimos – sobretudo franceses – que aceleraram o desenvolvimento
industrial da Rússia, até então uma espécie de relíquia feudal. Foi também o
pai das ferrovias e da Trans-Siberiana, o promotor das indústrias e aciarias
de Krivoy-Rog e do Donec, da abertura dos campos petrolíferos de Baku
e da primeira Exposição Industrial de Nizni-Novgorod. Era internacio-
nalmente admirado e reverenciado e na Rússia, a czarina-mãe proclamava-o
o ministro mais brilhante do governo e o único insubstituível. Acrescente-se
a tantas prendas o fato de Witte ser maçon e de ostentar uma esposa judia,
e têm-se motivos de sobra para que ele se fizesse detestar pela súcia de
incompetentes e bajuladores que compunha o governo e para que o casal
imperial desenvolvesse por ele uma antipatia incurável. Aproveitando-se
das oposições de Witte aos seus delírios de conquista do Oriente, Nicolau
demite o ministro que com suas realizações, seu magnetismo pessoal e
seu gênio financeiro ensombrecia-o a ele, o Czar de Todas as Rússias. Em
seguida seria a vez de Lambsdorff, ministro do Exterior também contrário
à sua política externa. Mais tarde eliminaria, pelos mesmos motivos, o
ministro Stolypin e o grão-duque Nikolai Nikolaievitch.
Passados os primeiros anos de reinado em que todas as suas
6 Stalin não repudiaria esta pérola da era czarista, reconhecendo que “o povo precisa
de um czar”, e autointitulando-se o “paizinho do povo”.

120 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

decisões eram determinadas pelos ministros que herdara do pai e pelos tios
diante dos quais tremia como uma folha, Nicolau começa a pensar e a agir
com crescente independência e mesmo com uma certa ousadia, sobretudo
quando se tratava de política externa. Seu relacionamento com os ministros
muda drasticamente: passa a desconfiar deles – quando lhes adivinha
traços liberais, ou a detestá-los – quando se sente diminuído por seus feitos
e sua importância. Quanto aos velhos ministros do tempo de Alexandre
III, Nicolau não ousava demiti-los, mas seu período de glória passara e
o czar aguardava apenas que o tempo desse cabo destas sacras ruínas
do ancien régime. A todos os ministros Nicolau tratava como domésticos,
exigindo-lhes um comportamento subserviente. Não confiava neles, mal
suportava a sua presença e substituía-os com impressionante facilidade e
frequência: em seu reinado contam-se onze ministros do Interior entre 1905
e 1917, oito ministros do Comércio e nove da Agricultura. Este carrossel
de ministros acelerar-se-ia durante a Grande Guerra: em três anos houve
quatro ministros do Conselho, quatro procuradores do Santo Sínodo e seis
ministros do Interior.
Os ministros lutavam entre si pelas voláteis simpatias e boas
graças do czar – distribuídas ao sabor do momento – de que dependia
a sua sobrevivência. Seguiam diferentes caminhos sem sequer suspeitar
da necessidade de um trabalho em equipe para apresentar um plano de
governo. Assim, faziam despesas sem consultar o ministro das Finanças,
o ministro da Justiça não sabia o que fazia o ministro do Interior, que
por sua vez não consultava outros ministros a respeito de coisa alguma.
Apenas o czar era responsável por tudo o que havia e acontecia na Rússia,
ocupando-se dos mais ínfimos pormenores, como a concessão de leitos
hospitalares destinados a anciãos, de bolsas de estudos em ginásios etc.
Além disso, a hostilidade do czar em relação aos liberais, sua resistência
a qualquer tipo de crítica ao governo e sua proverbial repulsa pelo debate
político aprofundavam perigosamente o abismo entre o czar e seus súditos,
alienando ainda mais povo e elite. Às vésperas de uma das mais sérias
crises por qual a Rússia já passara – e cujos contornos já se delineavam –
Nicolau orgulhosamente opta pelo isolamento político. Durante a crise da
Mandchúria, ele decidira ouvir apenas aqueles cuja opinião era idêntica à
sua e aos misteriosos ditames da sua “intuição”. Agora que os ventos da
revolução sopravam com vigor renovado após a vergonhosa derrota da
Rússia, Nicolau preparava-se cuidadosamente para agir da mesma forma.
Em 1903 os operários dos novos centros industriais de Baku,
Rostov, Tbilisi, Kiev e Odessa começam a agitar-se e iniciam longas greves.

D R AG O E D I TO R I A L 121
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Em Ufa, a polícia enfrenta os grevistas à bala e há confrontos violentos


em Kiev, Nikolaiev e outras cidades. Odessa é o cenário de um longo e
sangrento confronto com a polícia, que terminaria por disparar contra
os manifestantes desarmados que reivindicavam uma assembleia consti-
tuinte. A classe operária não era mais uma massa politicamente amorfa e
preparava-se para entrar em cena de maneira organizada.

•••

“O verdadeiro santo é o que açoita e mata


o povo para o bem do povo.”

(C. Baudelaire)

Em visita à Rússia em 1903, o famoso mágico Houdini fornece um


quadro interessante da situação do país. A polícia do czar estava por toda
parte e gozava de poderes praticamente ilimitados; isso valia também no
mundo do espetáculo onde, se o número realizado por um artista estrangeiro
desagradava ao chefe da polícia, este podia ordenar sua expatriação em 24
horas. Houdini percebe o clima de revolta na Rússia. O czar governava com
punho de ferro e seus opositores eram deportados para a Sibéria. Inúmeras
vezes, Houdini viu centenas de prisioneiros acorrentados conduzidos pelas
ruas.
Não obstante seu visto estivesse em ordem, Houdini era
continuamente vigiado. Um dia, estando em um parque deserto, resolve
praticar o idioma russo declamando o pequeno discurso que fazia antes
de cada espetáculo: “Desafio a polícia de todo o mundo a prender-me...”
Em poucos minutos vê-se cercado pela polícia e levado à prisão secreta de
Butirskaya, em Moscou, de onde só é libertado quando o empresário do
teatro consegue explicar quem ele era.
O antissemitismo russo chocou Houdini, por ser mais forte e
virulento ali do que em outros países da Europa. Como seu sobrenome
não era tipicamente judeu, Houdini havia-se feito passar por católico para
entrar na Rússia, porque era expressamente proibida a entrada de judeus
no país. Ele diz ter sido testemunha do famoso massacre em Kishinev e
logo em seguida sabe de outro pogrom em Glishnick. “Coisas deste gênero
– escreveria ele em seu artigo para o ‘Dramatic Mirror’ – só poderiam
acontecer na Rússia.”

122 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Quando finalmente seus compromissos em Moscou terminam, no


outono de 1903, Houdini sente-se aliviado:

“Quando se deixa a Rússia, sente-se como se tivesse saído de uma espécie de
prisão.”

•••

“Não sou eu quem deve merecer a confiança do meu povo.


É ele quem deve merecer a minha.”
(Nicolau II)

Na primavera de 1904, as tripulações dos navios que retornavam


após as primeiras derrotas no Oriente começavam a amotinar-se. Para
grande indignação do czar, pessoalmente ofendido por este comportamento
aviltante de seus marinheiros que assim atentavam contra sua tranquilidade e
o decepcionavam dolorosamente, outras tripulações são arrastadas pela onda
revolucionária. A desordem alastra-se, contamina os camponeses ao sul do
país e ameaça atingir as cidades. O czar ordena medidas punitivas cada vez
mais duras, o que apenas instiga novos e mais violentos protestos.
As medidas adotadas por Nicolau II podem parecer restritas ao
autoritarismo czarista, mas aquela era uma época de lutas sangrentas entre o
poder e a classe operária em todas as nações industrializadas, e a reação dos
governantes era basicamente a mesma, inclusive nos países democráticos.
Nos EUA, durante a greve da Pullman em 1894, o futuro presidente e então
juiz William Howard Taft escrevia à sua esposa:

“Será necessário que os militares matem parte da multidão para que o problema se
resolva. Até agora eles só mataram 6. Isto não é suficientemente para impressionar.”

Ao final da greve, 30 manifestantes haviam sido mortos, 60 feridos


e 700 presos. Seis anos depois, T. Roosevelt, em campanha para a vice-presi-
dência, diria privadamente:

“O sentimento que agora anima grande parte do nosso povo só pode ser suprimido...
tomando-se dez ou doze de seus líderes, perfilando-os diante de um muro e fuzilando-os.
Acredito que chegaremos a tanto. Esses líderes estão planejando uma revolução social e a
subversão da República americana.”

D R AG O E D I TO R I A L 123
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Os terríveis sofrimentos causados pela guerra contra o Japão,


as consecutivas derrotas militares, a carestia e a fome que reinavam nas
cidades provocam uma vaga de revoltas e demonstrações de protesto que
não seria contida com medidas coercitivas. Considerado pelos revolucio-
nários o maior símbolo do Estado Policial, o ministro do Interior Plehve é
brutalmente assassinado em julho de 1904.
A obra-prima de Vyacheslav Plehve fora a caça e apreensão de
todos os envolvidos no assassinato de Alexandre II. Nomeado ministro do
Interior em 1902, após o assassinato de seu predecessor, Plehve inaugura
uma nova era de repressão no Estado Policial czarista. Sua primeira
providência é a proibição de toda e qualquer reunião política; estudantes
são proibidos de andar em grupos pelas ruas de Moscou e São Petersburgo.
Era impossível dar-se uma festa sem a prévia autorização da polícia.
O foco do ódio de Plehve, contudo, eram os 5 milhões de judeus
russos. A cidade de Kishinev, na Bessarábia, foi o palco de um dos mais
tristemente famosos pogroms do reinado de Nicolau II, ele também declara-
damente antissemita.
No Domingo de Páscoa de 1903, uma multidão enfurecida mata
47 judeus, fere outros 500 e destrói 600 casas. A polícia intervém apenas
após o segundo dia de “tumulto”. O pogrom é oficialmente condenado pelo
governo, o governador de Kishinev é demitido, alguns “desordeiros” são
julgados e condenados, mas Plehve continua no poder. Com sua lucidez
habitual e sua vocação para profeta, Witte diria a Plehve que sua política
tornava seu assassinato inevitável.
O antissemitismo na Rússia tem suas raízes nas mais antigas
tradições da Igreja Ortodoxa, para a qual o judeu é um infiel, o assassino
de Jesus, e todos os czares suportavam essa fé. Pedro o Grande recusava-se
a admitir mercadores judeus na Rússia, alegando ser seu dever “erradicar
o mal, não multiplicá-lo”. O argumento de Catarina a Grande, era: “Dos
inimigos de Cristo não desejo ganho nem lucro”, e restringiu os judeus
do império a uma área da Polônia e da Ucrânia. A raiz desse ódio era
teológica e, uma vez convertidos à Ortodoxia, os judeus passavam a ser
aceitos na sociedade. O antissemitismo na Rússia empurraria os judeus em
um número cada vez maior para as fileiras do terrorismo revolucionário.

•••

“Cuida para que não te odeiem com razão”


(Marcos Pórcio Catão)

124 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Depois dos marinheiros de Tsushima, a queda de Port Arthur


desencadearia a fúria de multidões de operários. Em janeiro de 1905 o
padre Gapon, líder de um movimento sindical secretamente controlado
pela polícia, organiza uma greve de 100.000 operários, número que no dia
seguinte chega a 200.000. Sua intenção era liderar uma marcha pacífica
de trabalhadores ao Palácio de Inverno para entregar ao czar uma petição
em nome de todo o povo russo, uma súplica para que o czar não os
deixasse morrer de fome. Em três dias a petição recolhe mais de 150.000
assinaturas. Gapon não era um revolucionário; na verdade, era um sincero
monarquista que, infiltrado entre os operários para mais tarde identificar
seus líderes à polícia, passara para o lado dos trabalhadores, reconhecendo a
necessidade das reformas políticas e sociais que reivindicavam. A “Grande
Petição” redigida pelo padre contagiado pelo desespero dos trabalhadores
demonstra a sua fé no mito do czar Batiushka. A velha lenda do santo
czar impedido por seus agentes de fazer o bem do povo inspira Gapon a
compor uma súplica pungente, e nem por isso menos ingênua, a um czar
surdo e inacessível, por natureza e posição, às necessidades de seu povo:

“Soberano,

“Nós, operários e habitantes da cidade de São Petersburgo e de vários estados,


com as nossas esposas, os nossos filhos e os nossos velhos pais enfermos, viemos a
Vós, Soberano, em busca de justiça e proteção. Estamos condenados à miséria, somos
oprimidos, forçados a realizar trabalhos superiores às nossas forças, somos insultados,
não somos reconhecidos como seres humanos, tratam-nos como escravos condenados
a suportar a própria amarga sorte em silêncio. E nós suportamos; mas empurram-nos
sempre mais fundo no abismo da miséria, da injustiça e da ignorância. O despotismo
e o arbítrio nos sufocam, e nós estamos sufocados. Não aguentamos mais, Soberano.
Atingimos o limite das nossas forças. Para nós chegou o terrível momento no qual a morte
é preferível à continuação de insuportáveis tormentos.
“E assim abandonamos o trabalho, declarando aos nossos patrões que não o
retomaremos se antes não forem satisfeitas as nossas reivindicações. Nós não pedíamos
demais, queríamos apenas aquelas poucas coisas sem as quais a vida não é vida, mas
colônia penal, sofrimento ininterrupto. A nossa primeira reivindicação pedia aos patrões
discutir as nossas exigências junto a nós. Eles porém recusaram-se, negaram-nos o direito
de falar das nossas exigências, com o pretexto de que a lei não reconhece este direito.
Os nossos pedidos eles também consideraram ilegais: reduzir o número de horas de
trabalho a 8 por dia; estabelecer conosco e com o nosso acordo uma tarifa para o nosso
trabalho; examinar os nossos desacordos com a direção da fábrica; aumentar o salário dos

D R AG O E D I TO R I A L 125
M Á RC I A S A RC I N E L L I

manuais e das mulheres até um rublo por dia; suprimir as horas extraordinárias; tratar-nos
com educação e sem ofensas; reparar os locais de trabalho de modo que neles se possa
trabalhar sem morrer devido às terríveis correntes de ar, à chuva ou à neve.
“Na opinião dos nossos patrões e da administração das fábricas e das oficinas,
tudo isto é ilegal, a menor destas solicitações lhes parece um crime, e o desejo de melhorar
a nossa situação parece-lhes um insulto.
“Soberano, viemos aqui, milhares e milhares de nós, seres humanos apenas
na aparência, porque na realidade a nós, como a todo o povo russo, não se reconhece
nenhum direito humano, nem mesmo o direito de falar, de pensar, de reunir-se, de discutir
as nossas exigências, de tomar providências para melhorar a nossa situação. Fomos
escravizados, e isto aconteceu com a proteção dos vossos funcionários, com a ajuda e a
cumplicidade deles. Todos aqueles que entre nós ousam levantar a voz para defender os
interesses da classe operária e do povo são presos ou condenados à deportação. O bom
coração, a compaixão são punidos como crimes. Apiedar-se do homem oprimido, privado
de direitos, martirizado, significa cometer um grave delito. Toda a população operária
e os camponeses são vítimas do arbítrio de um governo de funcionários formado de
peculatários e predadores que não se preocupam realmente com os interesses do povo...
O governo dos funcionários conduziu o país à ruína completa, arrastou-o a uma guerra
vergonhosa e está levando rapidamente a Rússia à sua perdição. Nós, operários e povo,
não temos voz a respeito do modo como são gastos os enormes impostos que pesam
sobre nós. Não sabemos nem mesmo para onde vai ou a que serve o dinheiro extraído de
um povo reduzido à miséria...
“Soberano, tudo isto está em conformidade com as leis divinas por cuja graça
Vós reinais? E pode-se viver sob semelhantes leis? Não seria talvez melhor morrer, morrer
todos nós, trabalhadores de toda a Rússia?... Eis o que se ergue diante de nós, Soberano,
e foi isto o que nos impulsionou a marchar em direção aos muros do vosso palácio. Aqui
buscamos a nossa última salvação. Não recusai-vos a ajudar o vosso povo, arrancai-o da
tumba da injustiça, da miséria e da ignorância, dai-lhe a possibilidade de forjar seu próprio
destino, liberai-o da opressão insuportável dos funcionários. Demoli o muro que existe
entre Vós e o vosso povo e fazei com que este governe junto a Vós. Vós fostes colocado
ali, na verdade, para fazer a felicidade do povo, mas esta felicidade os funcionários nos
arrancam das mãos, ela não chega a nós, que recebemos apenas dores e humilhações.
Examinai sem cólera, com atenção, os nossos pedidos; estes não visam o mal, mas o
bem, tanto para nós quanto para Vós, Soberano. Não é a insolência que fala por nós, mas
a consciência da necessidade de sair de uma situação insuportável para todos. A Rússia
é grande demais, as suas necessidades diversas demais para que os funcionários possam
governá-la sozinhos. É indispensável que o povo seja representado, é preciso que o povo
se ajude e se governe. Apenas o povo conhece suas verdadeiras necessidades, não recusai
a sua ajuda, acolhei-o, convocai imediatamente os representantes da terra russa de todas

126 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

as classes, de todos os estados, inclusive os representantes dos operários. Fazei com que
em breve compareçam aqui o capitalista e o operário, o funcionário e o padre, o doutor
e o professor, fazei com que todos... elejam seus representantes. Que todos sejam iguais
e livres no direito de voto e assim ordenai que as eleições para a Assembleia Constituinte
sejam feitas com sufrágio universal, secreto e igual para todos.
“Este é o nosso principal pedido, tudo se baseia nele, este é o único unguento
para as nossas chagas dolorosas, sem o qual estas chagas nos levarão rapidamente à morte.
“Apenas uma medida, contudo, não poderá curar as nossas chagas. São
necessárias outras, e nós as diremos abertamente a Vós, Soberano, como a um pai, em
nome de toda a classe operária:

1 – Medidas contra a ignorância e a ausência de direitos do povo russo:


– Liberação imediata e retorno de todos aqueles que sofreram por suas
convicções políticas e religiosas, por greves e desordens nos campos.
– Proclamação imediata da liberdade e da inviolabilidade da pessoa, da liberdade
da palavra e de estampa, da liberdade de reunião, da liberdade de consciência em termos
de religião.
– Instrução pública geral e obrigatória paga pelo Estado.
[...]
– Igualdade de todos, sem exceção, diante da lei.
– Separação entre a Igreja e o Estado.

2 – Medidas contra a miséria popular:


– Abolição dos impostos indiretos e sua substituição por um imposto direto e
progressivo sobre a renda.
[...]
– Pôr fim à guerra conforme a vontade do povo.

3 – Medidas contra a opressão do capital sobre o trabalho:


– Abolição da figura dos inspetores de fábrica.
– Criação, dentro das fábricas e oficinas, de comissões permanentes de represen-
tantes eleitos pelos operários...
– Jornada de trabalho de 8 horas e regulamentação das horas extraordinárias.
[...]

“Estas, Soberano, são as nossas principais necessidades; apenas satisfazendo-as


pode-se liberar a nossa pátria da escravidão e da miséria, pode-se fazê-la prosperar, apenas
se os operários puderem organizar-se para defender seus interesses contra a exploração
impudente dos capitalistas e do governo de funcionários que depreda e estrangula o

D R AG O E D I TO R I A L 127
M Á RC I A S A RC I N E L L I

povo. Ordenai e jurai satisfazer estas necessidades e tornareis a Rússia feliz e gloriosa
e esculpireis o vosso nome nos nossos corações e nos de nossos descendentes até a
eternidade. Se, contudo, não o fizerdes, se não escutardes a nossa súplica, nós morreremos
aqui, nesta praça, diante do vosso palácio. Não sabemos mais aonde ir, não temos outras
possibilidades. Restaram apenas dois caminhos: ou em direção à liberdade e à felicidade,
ou em direção à tumba. Seja a nossa vida imolada pela Rússia sofredora. Este sacrifício
não nos custa: fá-lo-emos com prazer.”

G. Gapon, padre.
J. Vasimov, operário.

O czar é oficialmente informado da marcha apenas no dia anterior,


em Tsarskoe Selo. É muito improvável, contudo, que ele não tenha tomado
conhecimento dela antes disso através de sua onisciente polícia secreta,
visto que até fora da Rússia sabia-se da grande súplica que os operários
entregariam ao czar. O grão-duque Pavel, tio de Nicolau, ceando com o
embaixador Paléologue em Paris, já se perguntava “por que o czar não recebe
os delegados dos grevistas?”. Oficiais que chegavam da Mandchúria eram
imediatamente informados de que “amanhã começará uma revolução”.
No dia anterior ao da marcha dos operários, Nicolau escreveria em
seu diário:

“Dia claro e frio. Trabalhei muito e li muitos relatórios. Fredericks [chefe da


Guarda do Palácio e ministro da Corte] veio almoçar conosco. Fiz um longo passeio.
Desde ontem, todas as oficinas e as fábricas de São Petersburgo estão em greve. Foram
convocadas tropas para reforçar a guarnição. Até agora os operários estão tranquilos.
Calcula-se que sejam 120.000. O chefe de sua Associação é uma espécie de padre socialista
chamado Gapon. À noite, Mirsky [o novo ministro do Interior que substituíra Plehve]
veio apresentar-me o relatório sobre as medidas adotadas.”

Na manhã seguinte, Domingo, 22 de janeiro de 1905, o padre


Gapon inicia sua marcha em direção ao Palácio de Inverno. Grupos
formados nos bairros operários convergem ao centro da cidade. Vestiam
suas roupas domingueiras e pesados casacos e marchavam, bem-hu-
morados, de braços dados, entoando hinos religiosos. Armados apenas
de cruzes, ícones, imagens do czar e de sua fé no amor do Paizinho da
Rússia por seu povo oprimido, os manifestantes percorrem as ruas geladas
de São Petersburgo, ansiosos pelo encontro com o czar, inocentes da
violência que os aguardava. Seguindo instruções do czar, o príncipe Mirsky

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

convocara reforços à capital. Suas ordens eram de, em nenhuma circuns-


tância, permitir aos operários aproximarem-se do Palácio de Inverno.
O Regimento Preobrajensky alinhava-se rigidamente sobre a neve,
bloqueando o acesso ao palácio. Os soldados haviam sido informados de
que os operários planejavam assassinar a família imperial e destruir o Palácio
de Inverno. De repente, alguns tiros para o alto disparados pelos soldados
desorientam os manifestantes que, ao invés de interromper a marcha, são
empurrados para diante em direção à barreira de soldados armados. Diante
da insistência da multidão em marchar em direção ao Palácio de Inverno
onde, em todo o caso, o czar não se encontrava, os soldados abrem fogo
sobre homens, mulheres e crianças, tingindo de sangue a neve das ruas. Era
o Domingo Sangrento. Quando as balas começam a atingir manifestantes,
ícones, bandeiras, cruzes, imagens, ouvem-se os gritos de: “O czar não vai
nos ajudar!” e “Não temos mais czar!”
Oficialmente, o número de mortos é de 92, além de centenas de
feridos. Na realidade, sabe-se que pelo menos 500 pessoas morreram
e cerca de 3 mil foram feridas. O Domingo Sangrento é um marco na
história da Rússia e simboliza a ruptura definitiva do pacto sagrado que
unia povo e czar, assinalando o fim do mais belo conto de fadas russo, o
mito do Czar Batiushka.
Agora as organizações de trabalhadores falavam em estender a
greve por todo o Império. Trotsky, que retornara clandestinamente do
exílio, festejava a preciosa contribuição de Nicolau II à causa revolucionária:

“A revolução chegou... Um único movimento da revolução levou o povo a galgar
vários degraus de consciência... ” .

No dia seguinte ao massacre, o escritor Gorky comentava a reação


do czar:

“Se eu fosse o czar da Rússia, saberia agir de modo a assegurar a monarquia


absoluta por toda a eternidade. Iria a Moscou, me apresentaria no Kremlin sobre um
cavalo branco circundado por meu séquito e diria:
“Reúnam imediatamente o povo de Moscou em torno a mim!” Uma vez reunido
o povo, eu lhes diria: ‘Meus filhos, estais descontentes com os meus ministros, com os
meus funcionários e com os ricaços que vos exploram e vos maltratam. Por isso eu, o
vosso czar, julgarei eu mesmo, aqui mesmo, esses ladrões e esses malvados.’ E depois de
escutar as lamúrias do povo, mandaria cortar algumas cabeças, sem qualquer procedimento
judiciário. Garanto que a partir daquele momento não precisaria temer qualquer atentado.
O povo me protegeria melhor do que qualquer Okrana.”

D R AG O E D I TO R I A L 129
M Á RC I A S A RC I N E L L I

No exterior, a indignação contra a “crueldade do czar” é genera-


lizada. Ramsay MacDonald, futuro I Ministro da Inglaterra, acusa Nicolau
II de “assassino” e de “criatura manchada de sangue”. Padre Gapon, de seu
esconderijo na Finlândia, redige uma carta aberta ao czar:

“...Nicolau Romanov, ex-czar e atual assassino da alma do império russo: o


sangue inocente de trabalhadores, de suas esposas e filhos encontra-se para sempre entre
vós e o povo russo... Possa este sangue derramado recair sobre vós, carrasco! Convoco
todos os partidos socialistas da Rússia a concluir um acordo imediato e iniciar uma revolta
armada contra o czarismo!”

Entretanto, a reputação do padre, maculada por suas precedentes


conexões com a polícia secreta, leva o Partido Social Revolucionário a
ordenar a sua morte. É enforcado em abril de 1906, na Finlândia.
Em Tsarskoe Selo, Nicolau II recebe, alarmado, a notícia do
massacre. Seu diário registra:

“Um dia doloroso. Sérias desordens aconteceram em São Petersburgo quando


os trabalhadores tentavam chegar ao Palácio de Inverno. As tropas foram forçadas a abrir
fogo, em várias partes da cidade, e há muitos mortos e feridos. Senhor, como isto é triste
e doloroso!”

A czarina desesperava-se. A partir de 1904, após o nascimento do
herdeiro que devia ao Estado, Alexandra intensificara seu envolvimento
nas questões políticas e inaugurara uma exaustiva queda de braço pela
sobrevivência a qualquer custo da autocracia. A esta altura era evidente a
decisão de Alexandra de guiar e instruir o marido – que ela percebia débil
e indeciso – na execução de suas funções. Todos os dias ela “rezava a Deus
para dar-lhe a sabedoria” necessária para ajudar seu augusto esposo a tomar
decisões de natureza política e a escolher seus ministros. Em uma carta
particularmente torrencial e confusa à princesa Victoria von Battenberg,
ela expõe suas impressões sobre o Domingo Sangrento:

“Podes compreender a crise por que estamos passando! A cruz do meu pobre
Nicky é pesada, sobretudo porque ele não tem ninguém em quem possa confiar totalmente
e que possa realmente ajudá-lo. Ele tem tido tantas decepções amargas, mas com tudo
isto, mantém-se corajoso e cheio de fé na misericórdia de Deus. Ele esforça-se tanto,
trabalha com tanta perseverança, mas a falta do que eu chamo de ‘verdadeiros’ homens
é grande... Os maus estão sempre à mão, os outros mantêm-se distantes com a desculpa

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

da falsa humildade. Tentaremos ver mais pessoas, mas isto é difícil. De joelhos, eu rezo a
Deus para me dar sabedoria para ajudá-lo em seu pesado dever.
“Não acredite em todos os horrores que os jornais estrangeiros publicam. Eles
nos deixam de cabelos em pé – horrível exagero! Sim, as tropas – infelizmente – foram
obrigadas a disparar. A multidão foi repetidamente avisada de que Nicky não estava na
cidade... e ordenada a retirar-se, mas eles não cediam e então houve derramamento de
sangue. Ao todo, 92 foram mortos e de 200 a 300 foram feridos. Uma coisa horrível, mas
se isso não tivesse sido feito, a multidão teria atingido uma dimensão colossal e 1.000
teriam sido esmagados. Por todo o país, naturalmente, isto tem-se espalhado. A petição
só tinha dois pedidos relativos aos trabalhadores e todo o resto era atroz: separação da
Igreja do governo etc. Se uma pequena delegação tivesse calmamente trazido uma petição
real para o bem dos trabalhadores, nada disso teria acontecido. Muitos dos trabalhadores
ficaram desesperados quando souberam mais tarde o que a petição continha e suplicaram
para voltar ao trabalho sob a proteção das tropas.
“Petersburgo é uma cidade corrupta, nem um átomo russa. O povo russo é
profunda e verdadeiramente devotado ao seu soberano e os revolucionários usam seu
nome para provocá-los contra seus senhores... embora eu não saiba como. Como eu
desejaria ser mais inteligente e mais útil. Eu amo o meu novo país. Ele é tão jovem,
poderoso e há tanto bem nele, ainda que desordenado e infantil. Pobre Nicky, sua vida
é amarga e difícil. Se seu pai tivesse conseguido mais homens, reunindo-os em torno
dele, agora teríamos muitos para preencher os cargos necessários; agora só dispomos de
homens velhos ou jovens demais, ninguém com quem contar. Os tios são inúteis, Misha
[grão-duque Mikail, irmão do czar] é ainda apenas uma criança...”

Os ministros reúnem-se em um clima pandemônico e Witte sugere
ao czar que se dissocie do massacre, declarando que as tropas dispararam
por conta própria. Nicolau, no entanto, recusa-se a manchar a honra de
seu amado exército recorrendo a esta solução covarde. Decide receber em
Tsarskoe Selo uma delegação de 34 trabalhadores, que ele acolhe com uma
prédica paternalista sobre a necessidade de apoiar o exército e de rejeitar os
maus conselhos dos traiçoeiros revolucionários:

“Incitados a vir ao meu palácio entregar-me um pedido, vós fostes provocados


à revolta contra mim e o meu governo. As greves e as reuniões sediciosas obrigam e
obrigarão sempre o governo a recorrer à força militar, causando fatalmente vítimas
inocentes. Sei que a vida do operário não é fácil. Há muito a fazer para melhorá-la e regula-
mentá-la, mas deveis ser pacientes. Vós próprios tendes consciência de que é necessário
ser justos com seus patrões e não perder de vista as condições da nossa indústria.
“Quanto a vir como uma multidão revoltada a declarar-me quais são os vossos

D R AG O E D I TO R I A L 131
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direitos, este é um ato criminoso. Tenho fé na honra e nos sentimentos dos operários e
em sua inabalável fé em mim. Eis por que vos perdoo este erro.”

Ainda ignorante das reais dimensões dos últimos acontecimentos,


Nicolau perdoa seu povo por insurgir-se contra ele. O povo, entretanto, não
o perdoaria. Três semanas após o Domingo Sangrento o grão-duque Serguei
Alexandrovitch, governador de Moscou, é assassinado por terroristas
revolucionários. Incompetente, implacável e arrogante, o grão-duque
sintetizava em sua pessoa todos os defeitos dos Romanov e simbolizava
tudo o que os revolucionários desejavam destruir. Provavelmente o
membro mais detestado da família Romanov, Serguei extraía desse ódio
generalizado um certo orgulho perverso. Inimigo fervoroso de qualquer
forma de liberalismo, o grão-duque, entretanto, reservava a quintessência
do seu ódio aos judeus russos, e dedicava incansável diligência a libertar
Moscou desse flagelo. Sua primeira providência oficial como governador
foi a expulsão de cerca de 20 mil judeus da cidade. Em seguida, decretou
a proibição da praxe seguida pelos judeus de adotar nomes cristãos para
poderem frequentar a universidade. Proibiu aos novos imigrantes judeus
a residência em Moscou, à exceção das mulheres, às quais era permitido
permanecer na cidade, desde que se registrassem como prostitutas.
Mesmo seus familiares não o suportavam: era vaidoso (chegava a
usar espartilho e pó-de-arroz) petulante, insensível, obtuso e – segundo
a crônica da cidade – homossexual e sádico. Sua vida privada era um dos
temas mais picantes de Moscou. Seu casamento com Ella era infeliz e o
casal vivia praticamente vidas separadas.
Tendo fornecido por tanto tempo munição para que seus inimigos o
atacassem, é surpreendente que Serguei circulasse, impávido e provocante,
em meio aos caos e à violência que reinavam na cidade, protegido apenas
por uma escolta exígua. A audácia e a ferocidade dos revolucionários
que o atacaram (o grão-duque foi totalmente desmembrado por uma
bomba que o atingiu no peito quando passava em sua carruagem pelo
Kremlin) repercutiram violentamente sobre os nervos da czarina, mais por
suas implicações metafísicas do que políticas. Alexandra considerava um
verdadeiro sacrilégio que o assassinato tivesse ocorrido no Kremlin, o mais
venerado dos santuários nacionais. Nicolau, contudo, não pareceu sensibi-
lizar-se com o triste fim do tio e cunhado. O príncipe Leopoldo da Prússia,
hóspede do czar no dia do assassinato de Serguei, conta que esperava que
o banquete previsto para aquela noite fosse cancelado devido ao terrível
evento e que, ao procurar o czar no salão, deparou-se com Nicolau e seu

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primo Sandro (Aleksandr Mikailovitch) que se faziam cócegas mutuamente


e tentavam derrubar um ao outro do sofá.
A onda de greves, instigada pela indignação e pelo ódio contra o
czar desde o Domingo alastra-se, e a violência cresce em todo o Império,
incluindo os territórios da Polônia e da Finlândia. A destruição da frota
russa em Tsushima inspira uma série de motins nos navios que ainda se
encontravam no Báltico e na frota do Mar Negro. Seu mais famoso episódio
seria imortalizado pelo cineasta S. Eisenstein em 1913: marinheiros do
navio de guerra Potemkin, enfurecidos com a carne estragada servida em
uma refeição, revoltam-se contra seus oficiais, içam a bandeira vermelha,
atiram os oficiais ao mar e passam a bombardear as cidades ao longo da
costa do Mar Negro.
Os 400.000 trabalhadores em greve em janeiro transformam-se em
2 milhões em outubro, quando todo o Império, de Varsóvia aos Urais,
é paralisado. Em São Petersburgo interrompe-se o fornecimento de
alimentos; escolas, hospitais e estações de trem são fechados, os jornais
desaparecem de circulação e não há luz elétrica. Tropas de cossacos
patrulham a cidade. Bandeiras vermelhas tremulam em vários telhados.
No interior, camponeses invadem propriedades, queimando, pilhando,
mutilando o gado. O czar reage enviando tropas para sedar as revoltas, mas
as forças armadas haviam sido dizimadas pela guerra contra o Japão, que
lhe infligira graves perdas, e pelas deserções e motins. Todavia, a revolta
dos camponeses é reprimida com inusitada brutalidade. Em carta à czarina
mãe, Nicolau a informaria de que:

“...muitos bandos de revoltosos foram dispersos e suas casas e suas propriedades


incendiadas.”

Foi um massacre. Como escreveria o historiador Bruce Lincoln:



“...nenhum Romanov antes de Nicolau II havia jamais chacinado os próprios
súditos de maneira tão maciça e em escala nacional.”

E, no entanto a revolta continuou. Nicolau e Alexandra estavam


impossibilitados de deixar o palácio em Tsarskoe Selo, temendo ser
assassinados. Em desespero, o governo incentiva mais pogroms, sobretudo
na Ucrânia e na Bessarábia, na tentativa de desviar as energias do povo
para qualquer outra atividade. Apenas no porto de Odessa mil judeus
são massacrados em poucos dias. As correntes políticas moderadas que

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ainda pretendiam a negociação com o governo perdem espaço para os


radicais bolcheviques e mencheviques. Surge uma nova organização de
trabalhadores, os Soviets (Conselhos) que reuniam representantes eleitos
pelos trabalhadores. O mais importante era o Soviet de São Petersburgo,
presidido por Trotsky.
Agora as exigências dos operários não se restringiam apenas a
aumentos salariais e melhores condições de trabalho. Reivindicavam uma
constituição e um Parlamento. Chegara a Revolução.
Nicolau registra em seu diário a sua própria revolta:

“Adoeço só de ler as notícias. Greves nas escolas e fábricas, policiais assassinados,


cossacos, revoltas. Mas os ministros, ao invés de agir com rápidas decisões, apenas
reúnem-se em assembleias como um bando de galinhas assustadas e cacarejam sobre a
necessidade de realizar uma ação ministerial conjunta.”

O ensaio de revolução de 1905 é visto pela intelligentsia como um


fiasco. Sua exasperação volta-se contra o czar e o czarismo. O Conselho
de Ministros é descrito como uma natureza morta, “morta como Cartago
antes de sua destruição”, como o define Repin, e Nicolau é retratado em
caricaturas como um asno. Poetas como Konstantin Balmont exprimem
com vigor a cólera popular:

“O nosso czar”

“Nosso czar – Mukden; nosso czar – Tsushima


Nosso czar – uma mancha de sangue
Um cheiro de pólvora e de fumaça
Negra é a sua alma
Nosso czar – fraco, cego
Prisão e knut, que fuzila e enforca
Czar! Uma corda de forca, és tu
A hora do castigo te aguarda
Czar – que começou aonde? – em Kodynka
Que terminará aonde? – no cadafalso.”

Se até então julgara indigno ir às ruas portando a bandeira vermelha,


a partir do Domingo Sangrento a intelligentsia inicia um pacto com os
extremistas: Merejkovsky com Savinkov, Bely com Valentinov, Gorky com
Lenin. Músicos, pintores, escritores e poetas unem-se em uma luta política

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

explícita contra Nicolau II. Artistas como Rimsky-Korsakov, Repin, Blok


e mesmo o monarquista Tolstoy relevam suas diferenças e unem-se contra
a autocracia.

•••

“Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude.”
(T. di Lampedusa)

Retornando glorioso dos EUA como mediador, Witte parecia


a escolha ideal para pôr fim à Revolução. A pedido do czar, ele redige
um memorando em que expõe as duas únicas soluções para a crise: uma
ditadura militar ou a constituição. Embora a segunda alternativa fosse
contrária à natureza deste convicto monarquista, o gênio das finanças que
o habitava reconhecia que conceder uma constituição era a solução mais
econômica e mais simples para a crise política do Império. Seus conselhos
são corroborados pela reação do grão-duque Nikolai Nikolaievitch, o
gigantesco primo do czar conhecido como Nikolasha, então comandante
militar do distrito de São Petersburgo, para quem o czar reservara a honra
de ser ditador militar:

“Se o imperador não aceitar o programa de Witte, se ele quiser forçar-me a ser
ditador, eu me matarei diante dele com este revólver. Temos que apoiar Witte a qualquer
custo. É necessário para o bem da Rússia.”

O czar, entretanto, resiste, e sua resposta ao memorando de Witte


é categórica:

“Não aceitarei jamais uma forma de governo de representação porque a


considero perigosa para o povo que Deus confiou à minha tutela.”

A Mirsky Nicolau diria:

“Não mantenho a autocracia para meu prazer pessoal, sigo-lhe os princípios


apenas porque estou convencido de que seja necessário para a Rússia. Por mim, eu me
desembaraçaria com prazer.”

Witte encontra-se com o czar no final de outubro e aconselha-o a


conceder ao país um parlamento e uma constituição. Apesar da implacável

D R AG O E D I TO R I A L 135
M Á RC I A S A RC I N E L L I

perseguição de Alexandra, paladina da teocracia que o atormentava dia


e noite com argumentos teológicos para que resistisse às pressões a esta
altura irresistíveis, e apesar de sua própria repulsa à ideia de uma consti-
tuição, Nicolau termina cedendo o que já lhe tomavam.
Em carta à czarina mãe, ele descreve os acontecimentos no auge
da crise:

“E então, os dias calmos começaram. Perfeita ordem nas ruas, mas ao mesmo
tempo todos sabiam que alguma coisa estava para acontecer. As tropas aguardavam o
sinal, mas o outro lado não começava. Era como a sensação que se tem antes de uma
tempestade de verão. Todos estavam tensos e extremamente nervosos... Durante todos
estes dias terríveis, eu constantemente me encontrava com Witte. Com muita frequência
nós nos encontrávamos de manhã cedo e nos separávamos apenas à noite. Só havia duas
saídas: encontrar um militar enérgico para esmagar a rebelião à força. Assim teríamos
tempo para respirar, mas era provável que tivéssemos que usar a força novamente dentro
de poucos meses, e isto significaria rios de sangue e no final estaríamos no mesmo ponto
de partida.
“A outra saída seria conceder ao povo seus direitos civis, liberdade de imprensa e
também ter todas as leis confirmadas por uma Duma [Parlamento] – o que naturalmente
seria uma constituição. Witte defende energicamente esta solução. Ele diz que, embora
arriscada, esta é a única saída para o presente momento. Quase todas as pessoas com
que tive oportunidade de consultar são da mesma opinião. Witte disse-me claramente
que aceitaria a presidência do Conselho de Ministros apenas sob a condição de que seu
programa seja aceito e que ninguém interfira com seus atos. Ele... compôs o Manifesto.
Nós o discutimos durante dois dias e enfim, invocando a ajuda de Deus, eu o assinei...
Meu único consolo é que esta é a vontade de Deus e esta grave decisão guiará a minha
querida Rússia para fora deste caos intolerável em que ela se encontra há quase um ano.”

A 30 de outubro, Nicolau II assina uma proclamação imperial pela
qual concedia uma constituição e instiuía um parlamento eleito pelo povo.
Aquela noite um de seus colaboradores encontrou-o chorando em seu
estúdio.

“Hoje não me abandonem” – disse o czar –, “estou muito triste. Sinto que
assinando este ato perdi a coroa. Agora está tudo acabado.”

Ironicamente, a sessão inaugural do Parlamento – a Duma –


acontece na Sala do Trono do Palácio de Inverno, o sancta sanctorum da
autocracia. O czar, a czarina e a czarina mãe adentram solenemente a sala,

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vestindo hábitos de cerimônia e cobertos de joias. Seguiam-nos pajens em


libret que portavam sobre almofadas de veludo as insígnias da autocracia: a
coroa do Estado Imperial, o globo e o cetro, símbolos do poder ilimitado
do czar. Enquanto Nicolau lia o discurso de inauguração da Duma diante
de operários, camponeses, membros do clero e da nobreza, a atmosfera
carregava-se de ódio. Alexandra e Maria Feodorovna mal continham as
lágrimas. Se para o povo esta vitória tardia representava apenas uma tíbia
medida conciliatória, para Alexandra aquele era o funeral de suas esperanças
e ambições, do legado legítimo do herdeiro do czar.
O Manifesto de 30 de outubro de 1905 transforma o Império em
uma monarquia semiconstitucional, garantindo uma série de liberdades
inéditas na Rússia (liberdade de consciência, da palavra, de reunião e de
associação) e prevê a eleição de um Parlamento, a Duma. Tratava-se de um
grande ensaio de democracia na Rússia. O czar todavia mantém sua prerro-
gativa sobre os assuntos externos e a defesa do Império, e poder absoluto
para nomear e demitir ministros.
A situação, contudo, agrava-se ao invés de melhorar. Witte torna-se
alvo de injúrias e de rancores por parte da direita – que o odiava por ter
degradado a autocracia; dos liberais – que não confiavam nele; e da esquerda
– que temia que ele tivesse assassinado a revolução ainda no berço. Trotsky
escreveria:

“O proletariado sabe o que não quer. Ele não quer o policial facínora Trepov
[comandante geral da polícia], nem o liberal tubarão das finanças Witte: nem o focinho do
lobo, nem o rabo da raposa. Ele rejeita o chicote da polícia embrulhado no pergaminho
da constituição.”

O Manifesto subtrai à polícia parte de seu poder, o que convida à


insurreição e à violência em várias partes do Império. Nos estados bálticos,
os camponeses revoltam-se contra seus senhores alemães e proclamam
uma série de pequenas repúblicas. Na Ucrânia, em Kiev e Odessa, ultradi-
reitistas que se autoproclamavam Centúrias Negras voltam-se contra seu
bode expiatório preferido, os judeus, e dedicam-se a sangrentos pogroms,
com o apoio da Igreja e do governo. No Cáucaso, a fúria dos direitistas
é dirigida contra os armênios. Na Polônia e na Finlândia, o Manifesto é
encarado como um indício de debilidade do Império, inspirando surtos de
revolta contra a bota russa que os esmagava. Em dezembro, o Soviet de
Moscou leva dois mil estudantes e operários para as barricadas e anuncia
um “Governo Provisório”. Os rebeldes resistem às forças do governo

D R AG O E D I TO R I A L 137
M Á RC I A S A RC I N E L L I

durante dez dias e a insurreição só é sufocada pelo poder dos argumentos


do Regimento Semenovsky, convocado de São Petersburgo, cuja artilharia
mostra-se bastante persuasiva.
Nicolau ouve, perplexo e amargurado, os relatos das reações à
sua tentativa de constitucionalismo. Felizmente, agora podia apontar
um culpado: Witte e seu maldito Manifesto. O próprio Witte observa
horrorizado o resultado de sua boa ação e muda radicalmente de atitude.
Em dezembro, o czar escreve à czarina mãe, eterna admiradora do
ex-ministro das Finanças:

“Ele [Witte] agora está preparado para prender os principais líderes da revolta.
Há muito tempo eu vinha insistindo para que o fizesse, mas ele sempre esperava resolver
tudo sem medidas drásticas.”

Novamente, em janeiro de 1906:

“Quanto a Witte, desde os acontecimentos em Moscou ele mudou radicalmente


sua visão; agora quer enforcar e fuzilar todo mundo. Um perfeito camaleão. Esta
naturalmente é a razão porque ninguém mais confia nele.”

Em vão, Witte ainda faria tentativas desesperadas para salvar os


últimos resquícios de consideração do czar que sua contribuição acabara
por dizimar. Apesar desses derradeiros esforços (como a eliminação e a
adição de algumas frases ao Manifesto que redigira), Witte nunca viria
a participar do Parlamento que ajudara a criar. Na véspera da primeira
assembleia, Nicolau pediria a sua resignação.
A propósito de Witte e do cálice amargo do Manifesto que ele o
forçara a tragar, diria o czar:

“Enquanto eu viver, nunca mais confiarei neste homem para coisa alguma.
Bastou-me a experiência do ano passado. Ainda é como um pesadelo para mim.”

138 D R AG O E D I TO R I A L
IX
“Todos os meus temores se realizam,
e o que temo vem atingir-me.
Não tenho paz, nem descanso,
nem repouso, só tenho agitação.
...

Quem me tornará tal como antes,


nos dias em que Deus me protegia,
quando a sua lâmpada luzia sobre a minha cabeça,
e a sua luz me guiava nas trevas?
Tal como eu era nos dias de meu outono,
Quando Deus velava como um amigo sobre minha tenda,
quando o Todo-Poderoso estava ainda comigo,
e os meus filhos em volta de mim;
quando os meus pés se banhavam no creme,
e o rochedo em mim derramava ondas de óleo;
quando eu saía para ir à porta da cidade,
e me assentava na praça pública?”

(Livro de Jó)
M Á RC I A S A RC I N E L L I

A MALDIÇÃO HEREDITÁRIA
“Pobres planos de vida, o que podeis contra uma
hereditariedade torrencial?”

(Racine, “Phèdre”)

Em meio ao desastre da aventura místico-bélica de Nicolau II,


enquanto o país era continuamente humilhado e destroçado externamente
por derrotas militares e internamente por incêndios, atentados, greves,
revoltas e saques, Alexandra anuncia a vinda do decantado czarévitch,
trazendo enfim um pouco de ânimo à população e ao czar. A 12 de agosto
de 1904 nasce Alexei Nikolaievitch Romanov, herdeiro ao trono russo.
Em todo o Império ressoam os 300 tiros de canhão e o badalar
interminável dos sinos das igrejas que anunciam o nascimento do herdeiro
de todas as Rússias, o primeiro a nascer de um czar reinante desde o século
XVII. Finalmente, um bom auspício em um reinado marcado, desde o
início, por maus agouros.
Sua Alteza Real é um lindo bebê, de cachinhos louros e grandes
olhos azuis muito límpidos e redondos, que os soberanos adoram exibir
em público. Seu nome é uma homenagem a Alexei o Pacífico, pai de Pedro
o Grande, o terceiro czar da dinastia Romanov e o preferido de Nicolau II.
Os supersticiosos, contudo, interpretam a escolha do nome como mais um
mau presságio: Alexei era também o nome do filho e herdeiro de Pedro o
Grande, torturado e assassinado pelo próprio pai.
Entretanto, o filho que Alexandra adora com todo o ardor de
sua natureza apaixonada, manifesta desde as suas primeiras semanas
de vida sintomas que os médicos não ousam diagnosticar. Alexandra é
provavelmente a primeira a reconhecer o mal que ameaçava a vida do
czarévitch, não tanto por intuição maternal quanto por familiaridade com
a terrível doença que ceifara a vida de muitos de seus parentes próximos e
que ela transmitira ao filho.
Alguns dias após o nascimento de Alexei, Nicolau anotava em seu
diário:

“Alexandra e eu estamos muito preocupados. Uma hemorragia começou hoje


de manhã sem causa aparente no umbigo de nosso pequeno Alexei. Durou intermiten-
temente até a noite. Tivemos que chamar o médico Fedorov, que às 7 horas aplicou um
curativo. A criança estava calma e alegre, mas foi terrível suportar tanta ansiedade.”

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Nicolau e Alexandra teriam que conviver com a “terrível


ansiedade” por toda a vida. Com o passar dos meses, Alexei começa a
ficar de pé em seu berço, a engatinhar e a caminhar como qualquer outro
bebê. Contudo, ao contrário de outros bebês, ao cair ou esbarrar nos
móveis, horríveis hematomas surgiam em suas pernas e braços, causan-
do-lhe muito sofrimento. Após o nascimento de quatro filhas, o herdeiro
que Alexandra há muito devia ao Estado vem ao mundo estigmatizado
por uma maldição hereditária: a hemofilia. Desde então, o fatalismo que já
caracterizava Nicolau e o fanatismo religioso de Alexandra exacerbam-se
perigosamente. Mesmo aqueles que não conheciam o terrível segredo que
Suas Majestades guardavam e nada suspeitavam do constante terror em
que viviam, observam em Alexandra uma forma de depressão ansiosa que
se agravava progressivamente e em Nicolau, um fatalismo que, se antes
confundia-se com apatia, agora beirava a renúncia. Ele, que sempre se
impressionara com o fato de ter nascido no dia de Jó, passa a identifi-
car-se cada vez mais com esta personagem infortunada e resignada, uma
espécie de joguete entre as forças do bem e do mal. Quanto a Alexandra,
sua saúde física e mental, até então frágil, sofria agora um golpe de que não
se recuperaria.

•••

A hemofilia é uma doença tão antiga quanto o homem e sempre


esteve ligada à ideia de uma maldição familiar, porque observava-se a
sua repetição em uma mesma família. No antigo Egito, uma mulher cujo
primeiro filho tivesse morrido de hemorragia ao nascer, era proibida de
gerar outros filhos. O Talmud proibia a circuncisão numa família em que
duas crianças apresentassem hemorragias fatais.
Os genes da hemofilia são transmitidos pelas mulheres aos homens
da família. Com raras exceções, as mulheres são apenas transmissoras e
não desenvolvem a doença. Entretanto, nem todos os membros do sexo
masculino de uma família em que se verifica a hemofilia são atingidos e
nem todas as mulheres são portadoras do gene.
A hemofilia não é tão rara quanto se pensa e verifica-se em todos
os continentes e em todas as raças, atingindo um percentual de um caso
para cada 10.000 homens. Embora continue sendo uma doença grave e
incurável, atualmente os hemofílicos contam com medicamentos para
aliviar a dor que não causam dependência, com transfusões, em caso de
hemorragia e com leves aparelhos confeccionados em plástico e metal

D R AG O E D I TO R I A L 141
M Á RC I A S A RC I N E L L I

para proteger as articulações. No início do século XX, contudo, a medicina


tinha pouco conforto a oferecer ao doente e à sua família, e dificilmente o
hemofílico sobrevivia aos difíceis anos da infância.
Para Alexei, o maior sofrimento resultava de hemorragias nas
articulações, que inflavam-se como balões, exercendo pressão nos nervos,
impedindo seus movimentos, às vezes durante meses, e causando-lhe dores
atrozes. Os médicos teriam receitado morfina para aliviar a dor, mas Nicolau
e Alexandra temiam a dependência que a droga gerava e nunca permitiram
que fosse ministrada ao filho. Mesmo durante as inúmeras vezes em que
esteve à beira da morte, suportando sofrimentos indizíveis que levavam ao
desespero todos os moradores do palácio, obrigados a ouvir por dias a fio
seus gritos e gemidos; mesmo nas piores crises, o único alívio para Alexei
era desmaiar.
Preso nas articulações, o sangue tinha um efeito corrosivo e
lentamente destruía tecidos e cartilagens. Como consequência, as pernas e
braços do pobre czarévitch às vezes adotavam estranhas e rígidas posições
em ângulos bizarros que o prendiam ao leito durante meses e o condenavam
ao uso de aparelhos ortopédicos pesados e desconfortáveis, que forçavam
seus membros a retornar à posição correta. Hemorragias do nariz, boca ou
ouvido, embora indolores, podiam ser fatais. Em uma ocasião, Alexei quase
morreu em consequência de uma hemorragia no nariz.
Os pais das crianças hemofílicas são compreensivelmente superpro-
tetores e hipervigilantes. A família real espanhola, por exemplo, almofadava
seus filhos hemofílicos, os móveis de suas residências e mesmo as árvores
do parque onde brincavam. O primeiro caso conhecido de hemofilia na
família da Rainha Vitória foi o de seu filho caçula, Príncipe Leopold,
duque de Albany, nascido em 1853. Aterrorizada com a possibilidade
de que o jovem príncipe se ferisse e provocasse uma hemorragia fatal, a
rainha era excepcionalmente ligada a este filho. Entretanto, seus constantes
conselhos e proibições não conseguiram proteger o príncipe de todos os
perigos a que estava exposto, apenas garantiram uma difícil convivência e
incontáveis desentendimentos entre mãe e filho. Leopold sobreviveria a
vários incidentes quase fatais e viria a morrer aos 31 anos de idade de uma
hemorragia cerebral após uma leve pancada na cabeça.7
Se o príncipe Leopold fosse o único herdeiro do Império Britânico,
7 Este que é considerado o primeiro hemofílico da realeza era tio de Alexandra. Alice e
sua irmã Beatrice eram portadoras do gene da hemofilia, assim como Alexandra e sua
irmã Irene, o que se verificou quando tiveram filhos. Um dos filhos de Irene, o príncipe
Heinrich, morreria aos 4 anos de idade de uma hemorragia, pouco antes do nascimento
de Alexei.

142 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

sua vida teria sido ainda mais difícil e vigiada. Este era o caso de Alexei
que, apesar de ter quatro irmãs saudáveis, era o único herdeiro ao trono
de Nicolau II. Desde o reinado do czar Paulo, filho – e inimigo mortal –
de Catarina a Grande, a coroa russa passava apenas através da linhagem
masculina. Se Nicolau e Alexandra não tivessem produzido um herdeiro, ou
se este herdeiro morresse, a coroa passaria ao irmão mais jovem de Nicolau,
Mikail, e depois para a família de seu tio Vladmir.
Nicolau e Alexandra cobrem de brinquedos caríssimos o menino
que não pode brincar, que vive cercado de enfermeiras que tanto o protegem
quanto o sufocam. Quando Alexei completa cinco anos, os médicos sugerem
que as enfermeiras sejam substituídas por companheiros guarda-costas. Dois
marinheiros da Marinha Imperial – Derevenko e Nagorny – são selecionados
para proteger o czarévitch daí em diante. Os marinheiros vigiam-no enquanto
brinca, quando está bem, e atuam como enfermeiros, quando está acamado.
Derevenko garantiria seu lugar na história pela devoção e paciência com que
cuidava de Alexei, e mais tarde pelos maus-tratos e humilhações que infligiria
ao czarévitch durante a prisão domiciliar.
Apesar dos cuidados obsessivos que o cercavam, Alexei sempre
conseguia burlar a vigilância de todos e consequentemente sempre se feria.
Para ele, o mais leve ferimento significava uma hemorragia, longos períodos
acamado, dores lancinantes e a possibilidade de perder um membro ou
morrer. Cada crise determinava um longo e intenso sofrimento para
Alexei e toda a sua família, que observava impotente o martírio da criança.
Entretanto, a mais torturada era Alexandra, por ser mãe e por saber-se
transmissora do sofrimento do filho. Apesar da cooperação de Nicolau,
marido e pai maravilhoso que subdividia-se para ajudá-la, mesmo durante
as mais graves crises do governo, Alexandra sentia-se só em seu combate e
em seu segredo, em um mundo em que a paz, a felicidade e mesmo Deus a
haviam abandonado.
Maurice Paléologue, que na época era embaixador da França na
Rússia e conheceu de perto a czarina, oferece um dos melhores retratos da
metamorfose sofrida por Alexandra a partir do diagnóstico de Alexei:

“Desde esse dia e no espaço de alguns meses, observaram-se nela graves distúrbios
das funções orgânicas e da atividade nervosa: insônias, espasmos respiratórios e cardíacos,
enxaquecas, sensações alternadas de frio e de calor, vertigens, tremores, palpitações, sobres-
saltos, angústias, eretismo permanente da sensibilidade geral, todas as formas caprichosas e
desconcertantes da neurose emotiva. Seu caráter e sua fisionomia mudavam continuamente.
“A esta altura, ela tem 35 anos, é ainda bela, alta e esbelta. Mas suas feições

D R AG O E D I TO R I A L 143
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estão endurecidas, ostentando palidez ou rubor súbitos ; seus olhos têm às vezes um brilho
estranho, sombrio e fixo; ou ainda, durante horas ela tem o olhar extinto, morno, a boca e as
sobrancelhas contraídas. Uma insuperável fadiga abate-a súbita e inexplicavelmente. Todo
esforço externo a desgosta. E, mais do que nunca, qualquer cerimônia enche-a de terror,
pois ela teme sempre que suas forças a traiam publicamente.
“Assim, ela se confina mais e mais no círculo estreito de sua intimidade familiar; ela
hostiliza São Petersburgo e deseja residir apenas em Tsarskoe Selo, no Peterhof ou, melhor
ainda, em Livadia, nas costas longínquas da Criméia. O imperador não a contraria jamais,
não apenas porque tem pena dela, mas também porque seus gostos simples e sua timidez
natural se acomodam de bom grado a esta vida reclusa”.
(M. Paléologue – “Alexandra Féodorovna, Impératrice de Russie”)

Na corte russa não se suspeitava do grave problema do czarévitch,


que era mantido no mais absoluto sigilo, e da angústia que corroía a czarina.
Consequentemente, a reclusão de Alexandra, seus humores negros e suas
maneiras cada vez mais duras e altivas geravam muito rancor entre os nobres,
sobretudo os Romanov, que multiplicavam suas críticas a Alexandra (e os
elogios à sempre animada czarina mãe, tão mais elegante e graciosa). É ainda
M. Paléologue (op.cit.) quem descreve a pompa da corte russa até que o
luto secreto de Alexandra o empalidecesse e praticamente o condenasse à
extinção:

“Até então, nenhuma corte da Europa podia rivalizar com a dos Romanov na
suntuosidade dos espetáculos, na riqueza das carruagens e das librets, na magnificência dos
cortejos, no brilho dos uniformes, dos vestidos e das joias, na extraordinária impressão de
fausto e de poder que emanava de todas as cerimônias. Do outono ao verão, salvo durante
a Semana Santa, havia uma longa série de bailes, de concertos, de jantares no Palácio de
Inverno, sem contar as recepções de praxe. Continuamente, os grão-duques e grão-duquesas,
o corpo diplomático, os altos dignitários, os generais, ministros e estrangeiros de passagem
eram convidados à mesa imperial. Frequentemente, também, suas majestades aceitavam
convites para jantar com os embaixadores e com os representantes da velha aristocracia
russa... Agora tudo isso acabara. A saúde de Alexandra serve de motivo para suprimir pouco
a pouco todos os bailes, todos os concertos, todas as recepções e mesmo todos os jantares
em família.
“Logo faz-se um vazio em torno dos soberanos. Os grão-duques e as grão-du-
quesas só os procuram muito raramente. À parte as relações obrigatórias de Nicolau com
seus ministros e alguns funcionários da corte, nenhuma voz, nenhum sopro penetra mais na
atmosfera silenciosa e claustral dos palácios imperiais”.

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

A esta altura, a czarina era uma mulher gravemente desequilibrada,


provavelmente à beira de um colapso nervoso. O isolamento voluntário, a
angústia e o sentimento de culpa pela doença do filho – cujo sofrimento
era obrigada a assistir, impotente – e o peso do segredo que carregava,
contribuem para atiçar seu já perigosamente inflamado misticismo. Ela
multiplica suas preces, suas súplicas e devoções.
No bosque vizinho ao palácio em Tsarskoe Selo, ela faz construir
Feodorovsky Sobor, uma igreja de um esplendor digno das antigas igrejas
moscovitas, encarregando-se ela própria da decoração. Além de muito
ouro e pedras preciosas, Alexandra faz questão de oratórios subterrâneos,
criptas baixas e janelas estreitas que garantiam uma obscuridade fantas-
magórica. Assim que a construção de Feodorovsky Sobor é concluída,
Alexandra orna-a suntuosamente com uma fortuna incalculável em cruzes,
ícones, trípticos, cálices, tapetes e tecidos preciosos. O santuário reservado
apenas aos clamores da czarina e de sua família resplandecia como um sol
subterrâneo.

•••

“O amigo é a obra-prima da natureza.”


(Emerson)

A compulsão para carregar a cruz dos que lhe eram caros Alexandra
herdara da mãe, Alice, uma especialista em lutos e sofrimentos variados.
Esta qualidade evidencia-se em Alexandra desde a juventude. Em carta
à princesa Marie Bariatinsky, uma das raras amizades que faria em seus
primeiros anos na Rússia, a czarina traça a sua definição de “amigo”:

“Preciso ter uma pessoa para mim, se eu quiser ser eu mesma. Não fui feita para
brilhar diante de uma assembleia – não tenho o discurso fácil ou brilhante necessário para
tal. Prefiro o ser interior, e isto atrai-me com muita força. Como você sabe, sou do tipo
‘missionária’. Quero ajudar as pessoas na vida, ajudá-las a travar suas batalhas e a carregar
suas cruzes.”

Alexandra teria esta oportunidade ao conhecer a princesa Sonia


Orbeliani em 1898. Embora a princesa lhe fosse simpática, é apenas quando
ela cai gravemente doente que os sentimentos da czarina são realmente
despertados. Apesar das críticas que sofreria por parte dos membros da
corte, Alexandra não hesita em abandonar suas obrigações para dedicar-se

D R AG O E D I TO R I A L 145
M Á RC I A S A RC I N E L L I

à amiga doente. Durante nove anos – até a morte da princesa em 1915 –


Alexandra é seu anjo da guarda.
Sonia foi a amiga que mais se aproximou do ideal da czarina. Este
ideal seria personificado por Ana Alexandrovna Taneyeva, uma jovem que
trabalhava na chancelaria do czar. Em 1901, Ana estava doente e a czarina
fez-lhe uma breve visita no hospital. Tratava-se de uma visita protocolar,
apenas uma dentre as muitas que Alexandra faria naquele dia. Ana, então
com 17 anos, atribui a este gesto trivial uma dimensão metafísica e toma-se
de súbita paixão pela czarina. Em visita ao palácio após sua recuperação,
Ana e Alexandra atestam que são as mais tímidas de toda a corte e riem da
falta de graça uma da outra. A czarina então descobre que Ana toca piano
e canta lindamente. As duas iniciam um dueto que duraria até a morte de
Alexandra. Em 1905 já eram inseparáveis, para despeito de toda a corte,
que não perdoaria a Alexandra mais este insulto.
Ana pertencia a uma antiga família da pequena nobreza russa que
há gerações servia aos Romanov com fidelidade canina. Desprezando
o abismo hierárquico que as separava, Alexandra toma-se rapidamente
de amores pela jovem tímida e provinciana, cujas roupas e maneiras
denunciavam imediatamente sua condição subalterna. Indiferente ao
choque e ao rancor que sua escolha causava à nobreza que ela banira de sua
convivência, Alexandra dedica-se com seu fervor habitual a uma relação
intensa e escandalosa com Ana Alexandrovna. Escandalosa não apenas
pela diferença de status que as separava, mas também pela assiduidade de
Ana ao lado da czarina e pelo ardor da amizade, temperada por crises de
ciúme e pelas alegrias da reconciliação.
Em suas memórias, Pierre Gilliard, preceptor do czarévitch,
forneceria uma boa análise da amizade entre Alexandra e Ana:

“As relações entre Sua Majestade e Madame Virubova eram muito íntimas, e
raramente passava-se um dia em que ela não visitasse a imperatriz. A amizade durou muitos
anos. [...] Seus infortúnios eram a sua ligação com a czarina, que também sofria tanto, e
ansiava por consolá-la. A jovem que passou por tantos maus momentos conquistara a
sua compaixão. Tornou-se a confidente da czarina, e a bondade que a czarina lhe dedicou
transformou-a em sua eterna escrava.
“O temperamento de Madame Virubova era sentimental e místico, e sua
desenfreada afeição pela czarina era definitivamente perigosa, porque desprovida de
crítica e alheia à menor noção de realidade.
“A czarina não podia resistir a uma devoção tão completa e sincera. Autoritária
como era, ela queria que seus amigos fossem seus, exclusivamente seus. Ela apenas

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concebia uma amizade na qual pudesse estar absolutamente certa de ser a parte dominante.
Sua confiança devia ser premiada com uma entrega total. E não percebia como era perigoso
encorajar demonstrações deste tipo de lealdade fanática.
“Madame Virubova tinha a mente de uma criança, e suas experiências infelizes
aguçaram sua sensibilidade sem amadurecer seu caráter. Carente de intelecto e discriminação,
era vítima de seus impulsos. Suas opiniões sobre homens e situações eram irrefletidas e,
contudo, radicais. Uma simples impressão era suficiente para convencer sua inteligência
limitada e pueril. Ela prontamente classificava as pessoas, de acordo com a impressão que
lhe haviam causado, como ‘boas’ ou ‘más’ – em outras palavras, ‘amigos’ ou ‘inimigos’. [...]
“... na realidade ela era um agente, dócil e inconsciente, mas nem por isto menos
nocivo, de um grupo de indivíduos inescrupulosos que a usavam em suas intrigas. [...]
“Completamente desprovida de força de vontade, ela estava totalmente sob a
influência de Rasputin e tornara-se sua mais fervorosa seguidora na corte.”

A aparência de Ana inspirava muitos comentários maldosos, e


mesmo Paléologue, o Embaixador Francês, não lhe pouparia ácidas críticas:

“Jamais uma preferida real foi tão despretensiosa. Ela era bastante corpulenta, de
aspecto grosseiro, tinha um cabelo grosso e lustroso, o pescoço gordo, um rosto bonito e
inocente, de bochechas rosadas, grandes olhos claros e lábios grossos e carnudos. Vestia-se
sempre muito simplesmente e seus adornos baratos davam-lhe uma aparência provinciana.”

O príncipe Felix Yussupov, em suas memórias, também a retrataria
sem piedade:

“Havia uma espécie de baile todos os sábados em casa dos Taneiev. Estas festas
eram grandes e muito alegres. Ana, a mais velha das meninas Taneiev, era alta e corpulenta,
com uma face balofa e oleosa, e sem o menor charme. Embora não fosse de maneira alguma
inteligente, era muito esperta e maliciosa. Era um grande problema encontrar parceiros para
ela. Ninguém poderia prever que essa moça sem atrativos seria um dia a amiga íntima e o
gênio mau da czarina. Foi principalmente graças a ela que Rasputin tornou-se tão influente.”

Paléologue parece de certa forma concordar com as impressões do


príncipe Yussupov quanto à influência deletéria de Ana sobre a czarina e
consequentemente sobre o czar:

“Que pessoa curiosa é Madame Virubova! [...]


“Fisicamente é um tipo pesado e grosseiro, com uma cabeça redonda, lábios
carnudos, olhos límpidos desprovidos de expressão, corpulenta e corada. Tem 32 anos de

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

idade.Veste-se com simpicidade provinciana e é muito devota, mas estúpida. [...] Tivemos
uma longa conversa. Virubova impressionou-me com sua falta de atrativos e sua imbeci-
lidade.
“...Quando as crianças vão dormir, Madame Virubova permanece com os
soberanos até a meia-noite e assim participa de todas as suas conversações, colocando-se
sempre da parte de Alexandra. Como o imperador não se aventura jamais a tomar qualquer
decisão sem consultar a opinião, ou antes, a aprovação, da esposa, o resultado é que são a
imperatriz e Madame Virubova que governam a Rússia!”

Witte escreveria sobre ela:

“Era uma típica, estúpida dama de São Petersburgo, além de tudo feia e disforme,
tão comum quanto um biscoito de farinha. Uma jovem que acontecia estar apaixonada
pela czarina, que ela fixava com olhos ardentes de lua-de-mel, e suspirava.”

Além das roupas de mau gosto e de baixa qualidade, o que mais


chamava a atenção em Ana decididamente era a sua obtusidade quase
heroica. Sua ideia de conversação resumia-se em repetir tudo o que seu
interlocutor dizia como se fora uma resposta; conversar com ela era como
“conversar com um gramofone”.
Alexandra e Ana compartilhavam a paixão pela música, uma
timidez social que as cristalizava e emudecia diante de estranhos, o
fanatismo religioso e uma perigosa tendência ao desvio místico. Em seus
diários, Alexandra agradece a Deus por ter-lhe enviado uma amiga como
Ana, com quem passava longas horas ao piano, conversando intermina-
velmente sobre assuntos pios ou simplesmente em silêncio, de mãos dadas
como duas colegiais, olhos nos olhos, em mudo êxtase. Nos salões de São
Petersburgo esta inexplicável e ofensiva amizade causava furor.
Em 1907, Alexandra providencia para Ana um casamento muito
acima de sua posição social com um oficial da marinha, um herói da guerra
russo-japonesa, o tenente Alexander Vassilievitch Virubov. As núpcias são
celebradas com inadequada pompa em Tsarskoe Selo, na grande igreja da
corte, com a presença de Suas Majestades Imperiais. A suntuosidade e o
local da cerimônia e a presença do casal imperial não condiziam absolu-
tamente com a condição subalterna dos noivos, fornecendo novo impulso
para maledicências e despeitos. A czarina presenteia o casal com uma
pequena villa a 200 metros do palácio, munida de um telefone especial que
conectava as duas residências.
Meses depois, o tenente Virubov pediria o divórcio sem apresentar

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maiores explicações. Traumatizado e ensandecido por sua experiência como


combatente, o tenente era também impotente como resultado de graves
ferimentos de guerra e o casamento jamais se consumara. Ana, entretanto,
manteria até o fim o nome do marido, entrando para a história como Ana
Virubova.
Esta idílica amizade seria seriamente abalada a partir de 1914,
quando Ana desvia seu olhar apaixonado de Alexandra para Nicolau, com a
mesma ardência, o mesmo estupor e o mesmo abandono que antes dedicara
a Alexandra. O arrefecimento da devoção de Ana pela czarina, substituída
por uma espécie de infecção sentimental pelo czar, viria reciclar elementos já
presentes nesta estranha tríade, quando a musa era Alexandra. Verificam-se,
então, terríveis cenas de ciúme de Ana, absurdas pela pretensão e ridículas
pela dramaticidade, e a estreia de faceirices picantes de uma coqueteria
patética, dadas as características da pretendente e a situação do pretendido.
Nicolau esquivava-se como podia às efusões e ao esplendor rubicundo da
intensa Ana, mas sua resistência escapava à inteligência bronca de Madame
Virubova, que cria realmente poder disputá-lo com Alexandra. E no entanto,
os três continuariam a frequentar-se com espantosa assiduidade.
A partir desta época, Alexandra muitas vezes refere-se a Ana em suas
cartas a Nicolau como ‘a vaca’, e queixa-se do desvanecimento desta amizade
que fora tão importante para ela:

“Sei que é desagradável escrever sobre ela, mas tu sabes como ela consegue ser
irritante. Verás quando retornares que ela te dirá o quanto sofreu na tua ausência [...]. Sê
gentil, mas firme quando voltares e não lhe permitas aquelas brincadeiras com os pés etc.
Do contrário ela piora muito depois e é necessário acalmá-la.”
(Trecho de carta de 27 de outubro de 1914)

“...como ela se afastou de mim desde o seu horrível comportamento, especialmente


durante o outono, o inverno e a primavera de 1914 – nada será como antes – lentamente
ela rompeu aquele íntimo ligame durante os últimos quatro anos – não posso mais estar à
vontade com ela como antes – embora ela diga que me ama tanto, eu sei que é muito menos
do que antes e tudo está concentrado em sua própria pessoa – e em ti.
“É melhor sermos cuidadosos quando retornares.[...] ”
(Trecho de carta de 27 de janeiro de 1915)

“Envio-lhe uma carta bem gorda da parte da vaca, a criatura está doente de amor
e não podia esperar mais, se ela não despejar seu amor ela explode.”
(Trecho de carta de 6 de outubro de 1915)
Desentendimentos e disputas pelo amor do czar à parte, a amizade

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

entre Ana e Alexandra duraria por toda a vida da czarina. Em 1915, Ana
sofreria um acidente quase fatal e sua condição de doente carente de
cuidados e atenção conquistaria mais uma vez o afeto de Alexandra.

•••

O sofrimento do filho, o isolamento da corte e do mundo, a crise


política da Rússia – cujas implicações filosóficas perturbavam-na profun-
damente – contribuiriam para intensificar o misticismo desordenado e a
progressiva paranoia da czarina. A partir dos trágicos acontecimentos de
1905, ela passa a ver em todos – mesmo na família do czar – inimigos da
autocracia e da ortodoxia. Sobretudo a doença de Alexei, o terrível segredo
que guardava e o desempenho de seu papel de mater dolorosa debilitavam-na
gravemente.
A contínua tensão sob a qual vivia repercutiria em sua saúde física,
que fora sempre precária. Quando jovem, sofrera terrivelmente de ciática;
as cinco vezes em que estivera grávida – ao longo de 10 anos de matrimônio
– foram períodos difíceis que deixaram suas sequelas; a batalha contra
a hemofilia de Alexei – que duraria enquanto ele vivesse – acabaria por
drená-la, física e emocionalmente. Durante as crises do filho ela jamais se
poupava, velando-o por dias e noites a fio, sem dormir ou descansar. Assim
que o perigo passava, contudo, verificava-se o fenômeno de revezamento
de doenças e Alexandra caía enferma, queixando-se de dores no coração
e movendo-se apenas com a ajuda de uma cadeira de rodas. A partir de
1908, a czarina era “realmente uma mulher doente”, como observaria a
grão-duquesa Olga Alexandrovna, sua cunhada:

“Sua respiração era rápida e ofegante e claramente dolorosa. Várias vezes vi seus
lábios tornarem-se azuis. A constante preocupação com Alexei arruinou completamente
sua saúde.”

Dr. Botkin, entretanto, que todas as tardes às 5 horas examinava-a


e auscultava seu coração, diria mais tarde que a czarina era apenas histérica.
Hoje, provavelmente seus sintomas seriam diagnosticados como “síndrome
do pânico”.
Compreensivelmente, a incapacidade de Alexandra de cumprir suas
funções públicas, de participar de qualquer evento, preocupava Nicolau.
Em carta à czarina-mãe, ele desabafa:
“Ela fica de cama a maior parte do dia, não recebe ninguém, não levanta para

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almoçar e fica na varanda dia após dia... É muito importante que ela melhore, por ela
mesma, pelas crianças e por mim. Estou completamente esgotado de tanto preocupar-me
com sua saúde.”

O desaparecimento de Alexandra da vida pública e a constante


ausência do czarévitch constituíam um grande mistério e geravam incríveis
rumores, embora ninguém suspeitasse da verdade. Ainda em 1916, o
embaixador americano George Marye escreveria:

“Ouvimos todo o tipo de estórias sobre qual seria o problema dele [Alexei], mas
a mais autêntica parece ser a de que ele tem algum problema circulatório...”

Mesmo Pierre Gilliard, o preceptor suíço que encontrava-se


diariamente com a família, durante anos não saberia dizer qual o problema
de seu aluno Alexei. Quando o czarévitch não comparecia a alguma função
pública, o que acontecia com preocupante regularidade, anunciava-se
que ele estava resfriado ou que tinha torcido o tornozelo. Naturalmente
ninguém acreditava nestas explicações e os rumores cresciam.
Alexandra cria piamente no poder de cura da fé e das orações. Com
o passar dos anos e a sucessão de hemorragias de Alexei, o espetáculo do
sofrimento do filho não lhe rouba a fé, mas convence-a de que era indigna
do milagre pelo qual rezava fervorosamente dia e noite. Reconhecendo-se
como instrumento de tortura do filho – pois fora ela quem lhe transmitira
a doença – não podia imaginar-se como o veículo de sua salvação. Se Deus
rejeitava as suas preces, era preciso encontrar alguém que estivesse mais
próximo a Ele para conseguir o milagre.
O tempo estava maduro para a chegada de Rasputin.

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“...Salve, demônio mudo!
És o mais intenso animal
Místico eterno
Do inferno carnal...

Quantos encantos
Tem tua barba,
tua fronte larga,

X
rude Don Juan!
Que grande acento em teu olhar
Mefistofélico
e passional!

Vais pelos campos


com tua manada,
feito um eunuco,
sendo um sultão!
Tua sede de sexo
Nunca se apaga;
Bem aprendeste
Do grande pai Pã!

A cabra
lenta vai te seguindo,
enamorada com humildade;
mas tuas paixões são insaciáveis;
a velha Grécia
te compreenderá.

Ó ser de profundas lendas santas


de ascetas fracos e Satanás,
com pedras negras e cruzes toscas,
com feras mansas e covas fundas,
onde te viram por entre a sombra
soprar a chama do sexual!

(Federico García Lorca, “O Bode”)


M Á RC I A S A RC I N E L L I

LUPUS IN FABULA

“É difícil traçar no fenômeno a linha divisória entre as


tendências pessoais e as tendências coletivas: a vida
resumida do homem é um capítulo instantâneo da vida de
sua sociedade... Acompanhar a primeira é seguir
paralelamente e com mais rapidez a segunda; acompanhá-
las juntas é observar a mais completa mutualidade de
influxos.”

(Euclides da Cunha, “Os Sertões”)

À natureza hostil e ao isolamento da Sibéria, vasta e inóspita,


resiste apenas o forte. Heróico pela simples sobrevivência a circunstâncias
ambientais praticamente intoleráveis, o siberiano, como o nosso sertanejo,
parece indolente e apático ao olhar menos atento. Um exame superficial
não lhe adivinha a força e a resistência que reserva para o grave perigo ou
a séria adversidade. Até lá, mostra-se murcho e preguiçoso, lento e pesado,
armazenando energia e potência para batalhas mais significativas. Extinto
o agente propulsor do esforço hercúleo que o transforma e engrandece,
extingue-se nele a vitalidade e retorna o siberiano à antiga inação e a um
fatalismo paralisante. Na Sibéria, o que o antagonismo da natureza não
abate, tempera e enrijece. Onde não consome, germina o estoicismo e o
que não destroi, fortalece.
O inverno siberiano – gélido, escuro, silencioso – pode prolon-
gar-se por nove meses e a temperatura chega a atingir 60 graus negativos.
Durante este longo período, o siberiano conta com poucas horas de luz
por dia. No verão, o sol não se põe por dois meses, quando dia e noite se
fundem nas famosas noites brancas. Preponderam ali todos os excessos da
natureza, o que é nocivo ao homem, o que o repele e desagrega. A terra é
ingrata, o clima adverso, as chuvas inúteis ou nefastas, a produção agrícola
a mais baixa da Europa. O frio legendário é inimigo brutal que, como o
sol do sertão euclidiano, “é forçoso evitar, iludir ou combater”. O perfil do
homem das estepes em luta quotidiana contra o determinismo topográfico
e climático é comparável ao do homem dos sertões descrito pela pena
magistral de Euclides da Cunha:

“É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e sinuoso,
aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida,
num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente...
“É o homem permanentemente fatigado.
“Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra
remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas,
na tendência constante à imobilidade e à quietude.
“Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
“Nada é mais surpreendedor do que vê-lo desaparecer de improviso. Naquela
organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o
aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear de energias adormecidas.
O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura
e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar
desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea,
todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro,
reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num
desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.
“Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em
todos os pormenores da vida sertaneja – caracterizado sempre pela intercadência impressio-
nadora entre extremos impulsos e apatias longas.”
[...]
“Ora, nada mais explicável do que este permanente contraste entre extremas
manifestações de força e agilidade e longos intervalos de apatia.
“Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra, o sertanejo do norte teve
uma árdua aprendizagem de reveses. Afez-se, cedo, a encontrá-los, de chofre, e a reagir, de
pronto.”

Para o siberiano, a música, a dança, o álcool são antídotos contra


a gélida monotonia que o circunda. Da mesma forma, as condições físicas
particularmente rigorosas em que vive e que ameaçam esmagá-lo como uma
fatalidade inexorável, encorajam a resposta extática: o entusiasmo religioso,
as possessões genuínas ou simuladas como gestos de desesperança, as fugas
para os eremitérios nas florestas. Em “Êxtase Religioso”, Ioan Lewis expõe
as circunstâncias que encorajam a resposta extática:

“...precisamente aquelas [circunstâncias] em que os homens se sentem constan-


temente ameaçados por pressões severas que não sabem como combater ou controlar,
exceto através dos heroicos vôos do êxtase através dos quais tentam demonstrar que são
iguais aos deuses. Assim, se o entusiasmo é uma resposta à opressão e repressão, aquilo
que ele procura proclamar é o domínio humano triunfante de um ambiente intolerável.”

D R AG O E D I TO R I A L 155
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Terra de superstição, na Sibéria mística e mágica o cristianismo


ortodoxo convive harmoniosamente com o paganismo, os ícones milagrosos
com os “vôos mágicos”, as orações e penitências com o fenômeno do
xamanismo.
Sendo ambos vítimas da brutalidade da terra e dos elementos, a
religiosidade do siberiano é em muitos aspectos símile à do sertanejo e, como
tudo o que os cerca e molda, tende ao excesso:

“O homem dos sertões... mais do qualquer outro está em função imediata da terra.
É uma variável dependente no jogar dos elementos. Da consciência da fraqueza para os
debelar, resulta, mais forte, este apelar constante para o maravilhoso, esta condição inferior
de pupilo estúpido da divindade. Em paragens mais benéficas, a necessidade de uma tutela
sobrenatural não seria tão imperiosa. Ali, porém, as tendências pessoais como que se
acolchetam às vicissitudes externas e deste entrelaçamento resulta, copiando o contraste
que observamos entre a exaltação impulsiva e a apatia enervadora da atividade, a indiferença
fatalista pelo futuro e a exaltação religiosa.
[...]
“No entanto há traços repulsivos no quadro desta religiosidade de aspectos tão
interessantes, aberrações brutais, que a derrancam ou maculam... A alma de um matuto é
inerte ante as influências que a agitam. De acordo com estas pode ir da extrema brutalidade
ao máximo devotamento.”
(Euclides da Cunha, op.cit.)

Locus classicus do xamanismo, a experiência extática é considerada na


Sibéria, como nas regiões ártica e central-asiática, a experiência religiosa por
excelência, e o xamã, o mestre do êxtase em torno do qual gira a vida mágico-
-religiosa da sociedade. O xamanismo não é em si uma religião e coexiste com
várias formas de magia e religião. Mircea Eliade define-o como “técnica do
êxtase”. Em “O Conhecimento Sagrado de Todas as Eras”, o autor descreve
o fenômeno:

“O xamanismo é um fenômeno religioso característico dos povos siberianos e


uralo-altaicos. A palavra “xamã” é de origem tungue (saman) e, por intermédio do russo,
entrou para a terminologia científica das línguas europeias. Embora sua expressão mais
completa seja encontrada nas regiões árticas e da Ásia Central, o xamanismo não deve
ser considerado como um fenômeno restrito a esses países. Ele ocorre, por exemplo, no
Sudeste da Ásia, na Oceania e entre muitas tribos indígenas da América do Norte. Deve-se
fazer uma distinção, todavia, entre as religiões dominadas por uma ideologia xamanista e
técnicos xamanistas (como é o caso das religiões na Sibéria e na Indonésia) e as outras nas
quais o xamanismo constitui antes um fenômeno secundário.

156 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“O xamã é pajé, sacerdote e condutor de almas; ou seja, ele cura doenças, dirige
os sacrifícios comunitários e acompanha as almas dos mortos ao outro mundo. Consegue
cumprir todas essas funções por meio de suas técnicas de êxtase, isto é, pelo poder que
tem sua alma de sair do corpo à vontade.[...]
“No norte e no centro da Ásia, de maneira geral, as experiências são realizadas
durante um período de tempo indeterminado, durante o qual o futuro xamã fica doente
e permanece na tenda ou perambula pela floresta, comportando-se de maneira tão
excêntrica que poderia ser interpretada como loucura. Diversos autores chegaram ao
extremo de explicar o xamanismo ártico e siberiano como a expressão ritualizada de uma
doença psicomental, especialmente de histeria das regiões árticas. Mas o “eleito” só se
torna um xamã se puder interpretar sua crise patológica como uma experiência religiosa
e conseguir curar a si mesmo. As sérias crises que às vezes acompanham a “eleição” do
futuro xamã devem ser consideradas como experiências de iniciação. Toda iniciação inclui
a morte e a ressurreição simbólicas do neófito. Nos sonhos e alucinações do futuro xamã
pode ser encontrado o padrão costumeiro da iniciação: ele é torturado por demônios, seu
corpo é esquartejado, ele desce ao mundo inferior ou sobe ao céu e finalmente ressuscita.
Isto é, ele conquista um novo modo de ser que lhe permite relacionar-se com os mundos
sobrenaturais. O xamã agora é capaz de “ver” os espíritos e ele mesmo se comporta como
um espírito; ele consegue sair do corpo e viajar em estado de êxtase em todas as regiões
cósmicas. A experiência de êxtase em si mesma, entretanto, não é suficiente para produzir
um xamã. O neófito precisa ser instruído pelos mestres nas tradições religiosas da tribo e
aprender a reconhecer as várias doenças e curá-las. [...]
“A função mais importante do xamã é curar. Visto que a doença é entendida
como uma perda da alma, o xamã primeiramente tem de averiguar se a alma do doente
extraviou-se para longe da aldeia ou se foi raptada por gênios malévolos e está aprisionada
no outro mundo. Na segunda circunstância, o xamã tem de descer ao mundo inferior, uma
tarefa complicada e perigosa. [...]”

Em “Él chamanismo y las técnicas arcaicas del éxtasis”, Eliade


explica que o xamanismo encontra-se “no seio de um considerável número
de religiões porque continua a ser uma técnica extática à disposição de
uma determinada minoria e constitui, de certo modo, a mística da religião
respectiva.
Elementos da estrutura do xamanismo siberiano e central-asiático
existem difusos no resto do mundo: relações especiais com os “espíritos”
(almas de defuntos, animais míticos, espíritos da natureza etc); a amizade
com os animais (conhecimento de sua língua, transformação em animal
etc.); capacidades extáticas que permitem o voo mágico (viagem da
alma); ascensão ao céu e descida aos infernos, domínio do fogo, cura de

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

enfermidades etc. O xamã é o “grande especialista” da alma humana. Só


ele a “vê”, porque conhece sua “forma” e seu “destino”.

•••

“O xamã começa sua nova, sua verdadeira


vida por uma ‘separação’ ... por uma
crise espiritual que não está desprovida de
grandeza trágica nem de beleza.”
(Mircea Eliade, “El chamanismo y
las técnicas arcaicas del éxtasis”)

Grigori Efimovitch Novyk, segundo filho de Efim e Ana, nasce


a 10 de janeiro de 1869 em Pokrovskoe, uma aldeia siberiana na província
de Tobolsk. Seu pai é um camponês e negociante de animais relativamente
abastado, e sua isbá é mais ampla e mais cômoda do que a de seus vizinhos.
Alcoólatra dedicado e analfabeto convicto, Efim considera perda de
tempo a educação dos dois filhos, que não frequentam a escola e crescem
praticamente como selvagens. Para os habitantes de Pokrovskoe, o resto
da Rússia era terra ignota e cidades como Moscou e São Petersburgo, um
planeta distante. Até 1885, antes que a Transiberiana a alcançasse, a viagem
da cidade vizinha de Tyumen à capital requeria seis semanas.
Quando tinha oito anos de idade, Grigori e seu irmão, brincando às
margens de um rio, caem na água gelada. Com muito esforço, conseguem
resistir à correnteza que os arrasta por um longo trecho, mas não às
consequências do banho gélido, e adoecem seriamente. Não há hospitais ou
mesmo médicos nas redondezas e apenas a parteira local assiste como pode
os dois meninos. O irmão mais velho morre após alguns dias, mas Grigori
resiste, febril e delirante, por longas semanas. Uma bela manhã desperta
fresco e sorridente e, aos pais espantados com sua súbita recuperação,
narra que Nossa Senhora lhe aparecera vestida de branco e lhe dissera que
estava curado. Imediatamente o padre da aldeia é convocado para constatar
o milagre e conclui que Grigori havia sido realmente visitado pela Santa
Virgem.
Na aldeia às margens do universo habitado, a religião – mais
precisamente o misticismo – representa um papel fundamental, e toda
a trama do quotidiano de seus habitantes é tecida a partir da crença em
milagres, mensagens do além, interferências e manifestações divinas ou
diabólicas. Os mujiks veem em tudo sinais sobrenaturais, que interpretam

158 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

à sua maneira. Para os habitantes da remota Pokrovskoe, a enfermidade


seguida da “aparição” despe o jovem Grigori de sua condição humana
profana e outorga-lhe uma condição espiritual, conferindo-lhe poderes
mágicos semelhantes aos dos xamãs. Grigori torna-se uma espécie de
celebridade local graças ao milagre que o salvara da morte e ninguém
estava mais convencido do que ele próprio de que era o filho dileto dos
Céus, destinado a um futuro esplendoroso.
Entretanto, enfraquecido pela longa doença e deprimido com
a morte do irmão, Grigori dorme mal, chora sem motivo, balbucia
incoerências e vive em perpétuo estado de confusão mental. Obcecado
pela visão de Nossa Senhora, que não volta a visitá-lo, torna-se cada vez
mais estranho, ora taciturno e inerte, ora agitado e irritadiço.
Diversos autores interpretam casos de possessão e certos tipos
de doenças nervosas como um meio que indivíduos fracos encontram de
angariar a atenção e o respeito que de outro modo lhes seriam negados.
Alguns estudiosos atribuem uma origem histérica aos casos de possessões,
visões sobrenaturais e de fenômenos como o xamanismo nas regiões
árticas e subárticas. Segundo esta teoria, estes fenômenos explicam-se
pela influência do meio sobre a labilidade nervosa dos habitantes destas
regiões. O frio excessivo, as longas noites, o isolamento, a carência de
certas vitaminas etc., influiriam sobre a constituição nervosa destes
povos, provocando enfermidades mentais como a “histeria ártica”, como
é geralmente conhecida na literatura. Estudiosos como M. Ohlmarks
afirmam que em nenhuma parte do mundo as enfermidades psíquicas são
tão intensas e tão extensas como nas zonas árticas.
Mircea Eliade (op.cit.), entretanto, contesta que:

“...a suposta origem ártica do xamanismo não procede necessariamente da


labilidade nervosa dos povos que vivem demasiado próximos ao polo e das epidemias
específicas do Norte, a partir de uma certa latitude. Como se viu, análogos fenômenos
psicopáticos dão-se em distintas partes do mundo. ...O homem religioso, como o enfermo,
sente-se projetado em um nível vital que lhe revela os dados fundamentais da existência
humana, ou seja, a solidão, a insegurança e a hostilidade do mundo que o rodeia. Porém, o
mago primitivo, o curandeiro ou o xamã, não é apenas um enfermo: é, antes de tudo, um
enfermo que conseguiu curar e que curou-se a si mesmo. Muitas vezes, quando a vocação
do xamã ou do curandeiro se manifesta através de uma enfermidade ou de um ataque
epiléptico, a iniciação do candidato equivale a uma cura.
“...os xamãs, tão parecidos, aparentemente, aos epilépticos e aos histéricos, dão
prova de uma constituição nervosa superior à normal, pela qual logram concentrar-se

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com uma intensidade inacessível aos profanos, resistem a esforços esgotadores, dominam
seus movimentos extáticos etc.
“...Em geral, o xamã siberiano e norte-asiático não apresenta nenhum indício
de desintegração mental. Sua memória e sua faculdade de autodomínio são claramente
superiores às da maioria.”

Além de exibir um comportamento errático, oscilando sempre


entre a apatia e a excitação, após a doença Grigori passa a conversar com
os animais, cuja linguagem parece conhecer e cuja companhia prefere à
dos homens. Este novo “dom” não passa despercebido aos habitantes de
Pokrovskoe e ele adquire certa notoriedade ao amansar cavalos considerados
indomáveis. Grigori torna-se uma espécie de “veterinário espiritual” dos
animais da aldeia. Quando estavam doentes ou feridos, Grigori sussurra-
va-lhes algumas palavras, acariciava-os um pouco, e eram imediatamente
curados. Mais uma vez seu nome percorre a aldeia quando ele revela o
paradeiro de um cavalo do vizinho que desaparecera há dias, bem como a
identidade daquele que o roubara. Anos mais tarde Grigori relataria a um
padre que durante suas peregrinações, mais de uma vez vira-se cercado por
lobos, que no entanto não lhe fizeram mal. Seu único terror era o demônio:

“O maligno me perseguia, dizendo: ‘És exaltado, tu não tens medo’.”

Mircea Eliade (op.cit.) escreve que em muitas tradições, a amizade


com os animais e a compreensão de sua linguagem constituem síndromes
paradisíacas, equivalem a conhecer os segredos da natureza e portanto, o
poder de profetizar.
Em “Carisma – Êxtase e perda de identidade na veneração ao
líder”, C. Lindholm compara a personalidade dos líderes carismáticos às
dos xamãs e observa que a identificação com os animais é claramente
instrumental, uma vez que

“...o controle dos animais é fundamental para as sociedades de caçadores e


pastores. Mas a identificação com o mundo animal também é simbolicamente enfatizada,
de tal forma que o xamã sente, de forma típica, ser ‘um só’ com seus familiares animais.
“Entretanto, a confusão entre o eu do xamã e a natureza também ilustra a
ambivalência do xamanismo, uma vez que o xamã pode adquirir não apenas o poder de
ajuda, mas também os hábitos violentos e canibais de seus opostos animais. Lembramos,
dentro deste contexto, o relacionamento especial que Hitler, Manson e Jones tinham com
o mundo animal. Todos parecem ter tido uma atração marcante, aparentemente estranha,

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por animais; Hitler, inclusive, gostava de se chamar de lobo, enquanto Manson se descrevia
como um coiote, e Jim Jones se cercou de animais de estimação por toda a sua vida.”

V. A. Yukovskaya descreveria em suas Memórias a habilidade de
Grigori de imitar os animais, de tal maneira que parecia possuído por eles:

“Lembro-me de sua habilidade de transformar-se instantaneamente, como um


mágico de antigamente: jogava-se no chão e de repente saltava um lobo cinzento, rolava
sobre si mesmo e de repente parecia voar um corvo negro, caía no chão como uma pedra e
então rastejava uma serpente verde dos bosques.”

Mais tarde, o poder de compreender os animais e de dominá-los


manifestar-se-ia em uma das filhas de Grigori, Maria, que se tornaria
domadora de leões.

•••

“Subirei acima das mais altas nuvens


e me tornarei semelhante ao Altíssimo.”
(Is, 14:14)

Com o passar do tempo, Grigori sente-se cada vez mais fascinado


pelos “homens de Deus” que vagavam por toda a Rússia narrando
histórias de suas peregrinações, profetizando e realizando curas milagrosas.
Barbudos e imundos, os peregrinos faziam voto de pobreza e viviam do
pão e da hospitalidade alheios, que pagavam com a pregação das escrituras
e orientação espiritual. Seu pai acolhe-os de bom grado e toda a família
reúne-se em torno ao peregrino para ouvir suas histórias edificantes. Grigori
bebe as palavras dos “homens de Deus” e deseja tornar-se ele também um
peregrino, um stranik; sonha em caminhar até os confins da terra com um
bastão, mendigando sua existência e ensinando a palavra do Senhor, curando
e profetizando.
Ainda mais fascinante para a imaginação do jovem Grigori era a
figura mítica do stárets, espécie de mestre espiritual que vivia em mosteiros
ou nos eremitérios, homens venerados em toda a Rússia como santos, seres
iluminados a quem se devia obedecer e adorar.
Dostoiévsky retrata em “Os Irmãos Karamazov” os stártsi (“os
veneráveis”) e esclarece sua influência e importância na Rússia:

“O que é o stárets, afinal? O stárets é aquele que absorve a tua alma e a tua

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

vontade. Tendo escolhido um stárets, abdicas de tua vontade e a entregas a ele com toda
obediência, com inteira resignação. O penitente submete-se voluntariamente a essa prova,
a essa dura aprendizagem, na esperança de, após um longo estágio, vencer a si mesmo,
dominar-se a ponto de atingir, afinal, depois de ter obedecido toda a sua vida, a liberdade
perfeita, isto é, a libertação de si mesmo, e evitar a sorte daqueles que viveram sem encontrar
a si mesmos.
“...em certos casos os stártsi estão investidos de uma autoridade incompreensível
e sem limites. É por isso que em muitos de nossos mosteiros essa instituição foi a princípio
quase proibida. Entretanto, o povo imediatamente começou a ter grande veneração pelos
stártsi. No nosso mosteiro, as pessoas simples e as mais distintas vinham em multidão
prosternar-se diante dos stártsi e lhes confessavam suas dúvidas, seus pecados, seus
sofrimentos, implorando conselhos e orientação... Seja como for, a instituição dos stártsi
manteve-se e implanta-se pouco a pouco nos mosteiros russos. É verdade que esse modo
experimentado e já milenar de regeneração moral, que faz o homem passar da escravidão à
liberdade, aperfeiçoando-o, pode também tornar-se uma arma de dois gumes: em lugar da
humildade e do domínio de si mesmo, pode desenvolver um orgulho satânico e fazer um
escravo em lugar de um homem livre.
“...pessoas do povo vindas de todos os pontos da Rússia para ver [o stárets] e
receber sua benção. Prosternavam-se diante dele, choravam, beijavam seus pés e o lugar
onde ele se achava, lançando gritos; as mulheres estendiam para ele seus filhos; traziam
possessos. O stárets falava-lhes, fazia uma curta oração, dava-lhes sua benção, depois
mandava-os embora. [Aliocha] compreendia perfeitamente que para a alma resignada do
povo russo simples, vergado sob o trabalho e o sofrimento, mas sobretudo sob a injustiça
e o pecado contínuos – o seu e o do mundo – não há maior necessidade e consolo do que
encontrar um santuário ou um santo, cair de joelhos, adorá-lo.”

Em “Padre Sérgio”, Tolstoi escreve que a personagem Kassatski

“...vivia, não sob sua vontade, mas sob a vontade do stárets, e nessa resignação
havia uma particular tranquilidade.”

Homens e mulheres do povo, burgueses e aristocratas consultavam


os stártsy sobre questões triviais, complicadas questões sentimentais ou
problemas espirituais, como a um oráculo.
Com muita insistência, Grigori consegue convencer o pai da irresisti-
bilidade de sua vocação (Efim atribuía a escolha do filho à simples preguiça)
e a deixá-lo partir em peregrinação, que ele inaugura visitando os santuários
locais e passando meses com os eremitas da região. O rigor moral, a miséria
da vida destes ascetas e as mortificações a que se submetiam impressionam
vivamente o jovem Grigori, então com 18 anos.

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A “fuga para o deserto” é um clássico da experiência iniciática e,


assim como as mortificações e jejuns, a contemplação ascética e a privação
sensorial, induz aos estados de dissociação mental ou transe. Quando retorna
de suas primeiras expedições, Grigori abstém-se de carne, doces e bebidas
alcoólicas.
Aos 19 anos, Grigori conhece Praskóvia Dubrovna em uma festa no
monastério de Abalatsk, enamora-se de suas tranças louras e de seus olhos
negros e, esquecendo seus recém-adquiridos hábitos castos, casa-se com ela
e leva-a a viver na casa do pai. Os primeiros anos de matrimonio transcorrem
serenamente, mas o jovem casal não é abençoado com o nascimento de um
filho. Orações, unguentos, promessas, peregrinações, todos os esforços
parecem inúteis até que finalmente, após quatro anos de infertilidade,
Praskóvia engravida e dá à luz um menino, que no entanto morre após seis
meses. A morte da criança provoca em Grigori uma rebelião contra o criador
que lhe tomara o filho por quem tanto ansiara, e passa a conduzir uma vida
de aplicada devassidão, entregando-se a todos os excessos de sua natureza
exuberante. Data desta época o apelido que o imortalizaria, Rasputin. O
significado do nome é ambíguo, podendo derivar do termo rasputstvo, que
significa ‘depravação’, ou de rasputi, ‘bifurcação’, ou ainda de rasputo, ‘aquele
que escolhe situações intrincadas’.
Em 1892, Rasputin é acusado de roubo e a assembleia da aldeia o
expulsa por um ano. Ele então decide partir em peregrinação ao monastério
de Verkhoture, a 400km de Pokrovskoe. Ali ele conhece o stárets Makari, que
vivia na floresta uma vida dura e solitária de penitente, arrastando correntes
para melhor mortificar a carne. Como muitos outros antes e depois dele,
Rasputin sucumbe ao fascínio do stárets, que ensina-lhe rudimentos de leitura
e escrita e a decifrar a Bíblia. Tendo encontrado seu caminho de Damasco,
Rasputin entrega-se à sua febre mística com o mesmo ardor com que se
entregara às antigas dissipações. Nesta época, ele passa a integrar uma das
seitas que pululavam na Rússia czarista, a seita dos Khlisty (Flagelantes).

•••

“Cá entre nós, há duas coisas que eu sempre observei


estarem em singular concordância: pensamentos
supercelestiais e conduta subterrânea.”
(Montaigne)

M. Paléologue (op.cit.) esclarece a opção de Rasputin pela obscura


seita dos Khlisty:

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“... seus instintos místicos se afirmavam cada dia mais imperiosos. A robustez
do seu temperamento, o ardor dos seus sentidos, a audácia desenfreada de sua imaginação
o atormentavam continuamente. É então que ele entra para a seita lúbrica dos Khlisty, ou
Flagelantes. Assim ele mostrava, de uma vez por todas, como era profundamente russo
por todo seu dinamismo interior, por todas as suas concepções e todas as suas ideias;
como ele possuía fortes e profundas raízes na terra russa...
“Paralelamente à Igreja oficial tão imponente e pomposa quanto submissa ao
poder autocrático, o fervor popular havia criado inumeráveis seitas, mais ou menos ocultas,
onde se exprimiam, pelos ritos mais bizarros, todas as formas e todos os desvios possíveis
do sentimento religioso, dos mais elevados aos mais ignóbeis, com uma incoercível atração
pelo anarquismo, o exagero e o absurdo.”

Hoje em dia, as seitas que dão ênfase a aspectos que a igreja cristã
tende a ignorar, como a cura divina, as profecias ou o pânico escato-
lógico do Apocalipse, encontram inúmeros adeptos em todo o mundo.
Ciência Cristã, Seicho-No-Iê, Rosacrucionismo, Escola da Unidade, Novo
Pensamento, Testemunhas de Jeová e Mormonismo são alguns exemplos
desse fenômeno.
As seitas da Rússia no final do século XIX eram inúmeras: havia a
austera congregação do Raskol, fundada sobre a necessidade de estabelecer
uma relação direta entre a alma do crente e Deus, sem a mediação do
clero. Já os Dukhobors só admitiam a intuição interior como fonte de
fé e se recusavam a prestar serviço militar por não aceitarem derramar
sangue; os Beglopopovtsy, os padres abjuradores que condenavam a servidão
demoníaca da Igreja oficial; os Molokan (bebedores de leite) – seita que
Tolstoy admirava e a cujos integrantes doou grande parte de sua fortuna,
empobrecendo assim sua esposa e seus descendentes – dedicavam-se a
uma vida de pureza integral; os Straniky (errantes) que, para escapar ao
reinado do Anticristo, vagavam indefinidamente pelas estepes geladas da
Sibéria; os Stundistas, que pregavam o comunismo agrário “para pôr fim
ao reino dos faraós”; os Bialoritzy, que vestiam-se de branco “como os
anjos celestes” e iam de vilarejo em vilarejo professando a inocência; os
Skoptzy, que se emasculavam para fugir às torpezas carnais; os Pomortsy, que
renegavam o batismo recebido na infância, acreditando que o Anticristo
reinava na Igreja; os Nikudichniky, que repudiavam a ordem social e
procuravam debaixo da terra, “onde o pecado é impossível”, o verdadeiro
reino de Jesus. Os Duchitely (estranguladores) que, por piedade, abreviavam
a agonia dos moribundos cortando-lhes a garganta; os Khlisty, que em seus
episódios de êxtase erótico sentiam-se possuídos pelo Espírito Santo.

164 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Estas e outras seitas eram naturalmente secretas e de difícil


detecção. A que entretanto maior ameaça representava à Igreja Ortodoxa
era a dos Khlisty, em cujas práticas e rituais pagãos os teólogos identificavam
o culto à Deusa Mãe dissimulado de adoração à Virgem Maria, o tantrismo,
a via satânica. Muitos de seus integrantes eram monges de monastérios
venerados e membros respeitados da Igreja Ortodoxa que publicamente
professavam a crença nos dogmas da Igreja mas que observavam apenas os
ritos externos da fé ortodoxa. Somente outros sectários e os teólogos mais
atentos conseguiam identificá-los, por certos sinais que compartilhavam.
Seu número aumentava perigosamente e contaminava a aristocracia ociosa,
aldeias e monastérios, infiltrando-se no seio da própria Igreja, corroendo
suas bases. As raras vozes que se erguiam contra a seita eram caladas pelo
descrédito público ou com o exílio para os confins gelados da Sibéria.
Os membros da seita Khlisty eram cerca de 120.000 e distinguiam-se
pela extravagância e sensualidade de suas práticas. Se, por um lado, pareciam
animados pelo mais alto espiritualismo, por outro, pregavam a união direta
com Cristo através de rituais orgiásticos. Os fiéis reuniam-se à noite em uma
cabana ou, mais frequentemente, em uma clareira na floresta. Iniciavam os
ritos invocando o Espírito Santo, entoando hinos e cânticos, e em seguida
punham-se a dançar freneticamente, num ritmo cada vez mais rápido e
alucinante. O chefe da dança chicoteava aqueles que não demonstrassem
o devido vigor. Tomados de vertigens ou de pura exaustão, os fiéis caíam
ao chão, em êxtase ou presas de convulsões, plenos do “influxo divino”, e
entregavam-se avidamente à luxúria, ao estupro, ao incesto.
Rasputin havia encontrado o seu elemento. Nenhuma outra
doutrina corresponderia tão bem à sua natureza entre bestial e mística
quanto à dos Khlisty.

•••

“Apesar dos meus pecados tremendos, eu sou um Cristo


em miniatura, um pequeno Cristo, como aqueles dos ícones.”
(Rasputin)

Depois da temporada com o stárets Makari, Rasputin parece transfi-


gurado. Em Pokrovskoe murmurava-se que ele havia enlouquecido de vez.
Mostrava-se alternadamente prostrado ou superexcitado, balbuciava frases
desconexas, gaguejava e invocava o nome de Deus continuamente. Parecia
profundamente angustiado, presa de uma agitação nervosa a que se seguiam

D R AG O E D I TO R I A L 165
M Á RC I A S A RC I N E L L I

períodos de depressão. Era-lhe difícil permanecer em casa e sobretudo


dedicar-se aos pesados trabalhos no campo, e raramente transcorria mais de
uma semana com Praskovia.
Vagabundear de cidade em cidade opera em Rasputin um efeito
entorpecedor e ele perde completamente o gosto pelo trabalho quotidiano,
que já o repelia antes de empreender este périplo purificador. Põe-se então
a errar pelos vilarejos da Sibéria, a mendigar o pão “em nome do Cristo” na
porta dos conventos, oscilando sempre entre a libertinagem e a religiosidade.
Vaga com seu bastão de peregrino de um monastério a outro, dormindo onde
o acolhem e alimentando-se do que lhe oferecem. Cada vez suas errâncias
o levam a lugares mais distantes. Em 1893 vai à Grécia, ao Monte Atos,
onde conhece os monges mais austeros e virtuosos, cuja devoção ortodoxa
o encanta e inspira.
Enriquecido pela peregrinação, Rasputin retorna à Rússia e em
três anos visita Kiev, as ilhas Solovki, Valaamo, Sarov, Optina e outros
lugares santos, venerados pela Igreja Ortodoxa. Aonde quer que esteja,
contudo, retorna sempre a Pokrovskoe durante o verão para ajudar o pai
com os trabalhos na fazenda e cumprir seus deveres conjugais. Estes hiatos
permitem-lhe recuperar as forças e ainda engravidar Praskovia três vezes.
As alegrias da paternidade, todavia, não lhe arrefecem o ardor religioso e
Rasputin compreende que sua missão na Terra é a propagação da santa
palavra. Em 1900, sua reputação de “Homem de Deus” que cura os males do
corpo e do espírito era sólida em Pokrovskoe e arredores. Seus exorcismos e
curas eram comparados aos milagres evangélicos e ele já era famoso por seus
dons proféticos, bem como por seu formidável apetite sexual.
Entusiasmado com o clima de veneração que o circundava, Rasputin
aluga uma casa próxima à sua, escava nichos nas paredes onde exibe as
relíquias que recolhera em suas errâncias e abre aos habitantes de Pokrovskoe
a ‘sua’ igreja. Na capela secreta, Rasputin promove reuniões místicas, alegres
epifanias dionisíacas que, a exemplo dos rituais khlisty, progridem até um
clímax orgiástico. Maria Rasputin escreveria em suas memórias que nesta
época o pai participou de uma missa negra durante a qual o Pai Nosso
era recitado de trás para frente, enquanto o sacerdote, vestido de negro,
derramava vinho sobre o corpo de uma moça nua que servia de altar.
Rasputin encontra seus discípulos principalmente entre as mulheres.
I. Lewis (op.cit.) observa que cultos de êxtase clandestino sempre atraíram
seguidores entre os fracos e oprimidos e particularmente entre as mulheres
de sociedades dominadas por homens.
Em breve, a fama da Igreja de Rasputin ultrapassa as fronteiras da

166 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

aldeia. Ecos de suas místicas bacanais chegam aos ouvidos do bispo de


Tobolsk e sérias acusações de adesão à seita herege dos Khlisty pesam sobre
a sua cabeça. A ausência de provas impede que seja condenado por heresia,
mas diante desta crítica conjuntura ele julga conveniente desaparecer de
Pokrovskoe por algum tempo e retomar suas peregrinações. Desta vez, sua
romaria o leva a Kazan, cidade sacra, sede de uma das quatro academias
de teologia da Rússia. Ali ele impressiona expoentes do clero com suas
pregações, seu olhar de fogo e sua “pureza” espiritual. Testemunhas
referem que era impossível não notá-lo. Sua figura sugeria algo de
misterioso, reforçado pelos olhos fundos e penetrantes, os movimentos
abruptos, o discurso nebuloso e enigmático. Suas opiniões eram ousadas
e imperativas, expressas com absoluta convicção. Tudo isto surpreendia
alguns e subjugava muitos.
A fama de autêntico vidente e profeta abre-lhe as portas da Igreja
oficial, que lhe oferece sustento e proteção. Aonde quer que o levassem seus
delírios místicos, Rasputin era precedido por uma carta de recomendação
ao bispo local. Ele compreende que seu momento chegara e que tudo o que
desejasse se realizaria, para maior glória de Deus. Chega a São Petersburgo
(a pé – e descalço) na primavera de 1903, aos 34 anos de idade.

•••

“A serpente antiga, a quem chamam diabo e


Satanás, que seduz o universo inteiro.”
(Apo 12:9)

A boa sociedade de São Petersburgo acolhe de bom grado o mujik


siberiano sujo, cabeludo e barbudo, que o alto clero apresenta como um
stárets e cujos ensinamentos recomenda vivamente. O olhar magnético que
Rasputin fixa em seus interlocutores por longos momentos e seu discurso
incoerente proferido em uma voz rouca e encantatória causam um espécie
de frisson místico. Embora este fenômeno se manifestasse principalmente
entre as mulheres, os homens em geral também não eram imunes àquela
sua espécie de poder hipnótico e submetiam-se aos interrogatórios que
Rasputin invariavelmente lhes impunha, revelando-lhe seus segredos e
anseios. Mesmo os mais céticos sucumbiam à fascinação que o stárets
suscitava e, como que encantados por seu olhar irresistível, presentea-
vam-no com particulares inconfessáveis de suas vidas, sem opor a menor

D R AG O E D I TO R I A L 167
M Á RC I A S A RC I N E L L I

resistência. Rasputin fitava-os com imperturbável fixidez e perscrutava-os


avidamente. Concluído o interrogatório, fazia-lhes sermões e profecias e
citava textos desconexos das Escrituras.
O fato de ser praticamente analfabeto, de exprimir-se com dificuldade,
estropiando as palavras e interrompendo-se continuamente para caminhar
pelo aposento, benzer-se e retomar sua prédica torrencial, não arrefece o
interesse de seus ouvintes por seu furor oratório. O número de seus adeptos
multiplica-se em pouco tempo.
Freud escreve em seus “Artigos sobre Hipnotismo e Sugestão”
que um grande número de pessoas submete-se à hipnose apenas através
da fixação do olhar. Misto de xamã, stárets e sacerdote khlisty, Rasputin é
também um hipnotizador extraordinariamente dotado. Há vários relatos
sobre as suas performances, mas o melhor testemunho de suas habilidades
como hipnotizador devemo-lo a Félix Yussupov, o príncipe que garantiria
seu lugar na história como o assassino de Rasputin.
Curioso sobre os métodos de cura do stárets, Yussupov procura-o
em seu apartamento em São Petersburgo alegando estar doente:

“O stárets fez-me deitar no sofá. Então, fitando-me intensamente, passou as mãos
gentilmente sobre o meu peito e a minha cabeça, após o que ajoelhou-se, pousou as mãos
sobre a minha fronte e murmurou uma prece. Seu rosto estava tão próximo ao meu que
tudo o que eu podia ver eram seus olhos. Ele permaneceu nesta posição por algum tempo,
então ergueu-se bruscamente e aplicou passes mesméricos sobre o meu corpo.
“Rasputin possuía um extraordinário poder hipnótico. Senti como se alguma
energia ativa emitisse calor, como uma corrente quente em todo o meu ser. Caí em um
torpor e meu corpo tornou-se dormente; tentei falar, mas minha língua não me obedecia e
gradualmente fui tomado por uma sonolência, como se um poderoso narcótico me tivesse
sido administrado. Tudo o que eu podia ver eram os olhos brilhantes de Rasputin; dois
pontos de luz fosforescente fundindo-se em um anel luminoso que aproximava-se e depois
afastava-se. Eu ouvia a voz do stárets, mas não conseguia compreender o que ele dizia.
“Fiquei neste estado, impossibilitado de protestar ou de mover-me. Apenas minha
mente estava livre e eu percebia claramente que estava sucumbindo ao poder deste homem
maligno. Então senti em mim a vontade de lutar contra este poder. Aos poucos, o desejo
de resistir tornou-se cada vez mais forte, formando um escudo protetor ao meu redor. Tive
a sensação de que uma batalha impiedosa estava sendo travada entre Rasputin e eu. Sabia
que o estava impedindo de obter um domínio completo sobre mim, mas mesmo assim não
podia me mover: tinha que esperar que ele me ordenasse que me levantasse.”

Percebendo a resistência de Yussupov, Rasputin finalmente desiste


de hipnotizá-lo e encerra bruscamente a sessão, dizendo-lhe:

168 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“Bem, meu caro, isto é o bastante para a primeira vez.”

Alguns anos mais tarde, quando o poder político do stárets crescera


a ponto de decidir nomeações e demissões de ministros de Estado, Rasputin
visitaria sucessivamente dois primeiros-ministros, Piotr Stolypin e Vladmir
Kokovtsov, a pedido da czarina. Stolypin descreveria seu encontro com
Rasputin:

“[Rasputin] correu seus olhos sobre mim, murmurou trechos misteriosos e


inarticulados das Escrituras, fez estranhos movimentos com as mãos e comecei a sentir
uma indescritível repugnância por aquele canalha. Entretanto, eu percebia que o homem
possuía um enorme poder hipnótico, que começava a produzir uma forte impressão moral
em mim, apesar da repulsa que eu sentia. Consegui libertar-me...”

A cena repetir-se-ia com Kokovtsov, sucessor de Stolypin:

“Quando Rasputin veio ao meu estúdio e sentou-se em uma poltrona, fui


surpreendido pela expressão repulsiva de seus olhos. Fundos e próximos um do outro,
fixaram-se em mim por um longo tempo e Rasputin não os desviava, como se estivesse
tentando exercer alguma influência hipnótica. Quando o chá foi servido, Rasputin agarrou
um punhado de biscoitos, jogou-os em seu chá e mais uma vez fixou em mim seus olhos
de lince. Eu estava me cansando de suas tentativas de hipnotismo e disse-lhe claramente
que era inútil olhar-me tão fixamente porque seus olhos não tinham o menor poder sobre
mim.”

R. Massie (op.cit.) observa que, após suas entrevistas com o stárets,


tanto Stolypin quanto Kokovtsov estavam convencidos de que haviam
triunfado sobre o mujik. Na verdade, ao resistir a Rasputin, ambos haviam
selado seu destino político. Os encontros haviam sido arranjados pela
czarina para que Rasputin avaliasse os dois ministros. Ao deixá-los, ele
informaria a Alexandra que ambos desconsideravam-no, a ele e à vontade
de Deus. Os relatórios do stárets minariam a reputação dos dois primeiros-
-ministros e determinariam a sua queda.
Füllop-Miller, biógrafo de Rasputin, narra ainda outro episódio
que evidencia o poder hipnótico do stárets e sua dualidade:

“Uma jovem que ouvira falar do estranho santo veio de sua província para a
capital e visitou-o em busca de... instrução espiritual. Seu olhar gentil e monástico... tudo
em princípio inspirou sua confiança. Mas quando ele se aproximou dela, ela sentiu imedia-

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tamente que um outro homem totalmente diferente, misterioso, astuto e corrupto, fitava-a
por trás dos olhos que irradiavam bondade e gentileza.
“Ele sentou-se diante dela, aproximou-se bastante e seus olhos, de um azul muito
claro, mudaram de cor, tornando-se profundos e escuros. Um olhar agudo penetrou-a,
fascinando-a. Seus membros foram tomados de um peso plúmbeo quando o rosto largo
e enrugado do stárets, alterado pelo desejo, aproximou-se dela. Sentindo seu hálito quente
sobre a face, viu como aqueles olhos... vagavam furtivamente sobre seu corpo inerte até
que ele baixou as pálpebras em uma expressão de sensualidade. A voz de Rasputin adotara
um sussurro apaixonado e ele murmurava palavras estranhas e voluptuosas em seu ouvido.
“Quando estava a ponto de abandonar-se a seu sedutor, uma vaga memória
surgiu em sua mente... ela lembrou-se de que o havia procurado para perguntar-lhe sobre
Deus... e gradualmente despertou... começou a resistir... Ele, de repente, percebeu sua
resistência interior, seus olhos semicerrados abriram-se novamente, ele ergueu-se e deposi-
tou-lhe um beijo paternal na testa. Seu rosto, até então deformado pelo desejo, tornou-se
de novo sereno e assumiu outra vez a expressão gentil do mestre espiritual. Pôs-se a falar
com sua visitante em um tom benevolente e condescendente, a mão direita erguida em
uma benção. Seu olhar era novamente gentil e amistoso, quase humilde, e apenas no fundo
daqueles olhos espreitava o outro homem, o animal sensual.”

•••

A vaga ocultista que varria a corte russa vinha preencher o vácuo


deixado pelo declínio da religião estabelecida e reafirmar a primazia da
experiência mística em face do secularismo. Fenômeno de que padecem
cada vez mais as sociedades mais sofisticadas, a Rússia parecia, naquele
momento, particularmente súcuba de seus efeitos, provavelmente devido
à natureza da religião ortodoxa e não apenas à de seus fiéis. O esplendor
extraordinário dos aspectos externos do Cristianismo Ortodoxo, com seus
ícones, imagens, relíquias, incensos, tesouros, santos e mártires, parecia
predispor seus praticantes – como acontece com a religião católica – ao
desvio místico, à adoração da forma sem a compreensão do espírito.
Em resposta ao edito do Santo Sínodo de fevereiro de 1901 que o
excomungava, Tolstoy ataca duramente esta tendência da religião ortodoxa
e revela alguns dos motivos pelos quais o escritor afastara-se da Igreja, sem
contudo deixar de proclamar-se profundamente cristão:

“...convenci-me de que o ensinamento da Igreja Ortodoxa é, em sua teoria,


uma mentira pérfida e perniciosa; em sua prática, reúne as mais grosseiras superstições e
sacrilégios, ocultando por completo todo o significado do ensinamento cristão.

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“Basta ler o missal e seguir as celebrações incessantemente realizadas pelo clero


ortodoxo e examinar a missa cristã para perceber que todas essas celebrações não são
outra coisa senão diversas formas de sortilégio, que se adaptam a todos os acontecimentos
eventuais da vida. [...]
“Na extrema-unção, bem como na crisma, vejo o recebimento de um sortilégio
grosseiro, assim como na reverência aos ícones e relíquias e em todas aquelas cerimônias,
orações e fórmulas sacramentais que se encontram no missal. Na eucaristia, vejo a
divinização da carne e a deturpação dos ensinamentos cristãos. No sacerdócio, além de
uma clara preparação ao embuste, vejo uma flagrante violação às palavras do Cristo: “A
ninguém chameis de mestre, pai, preceptor.” (Mateus, 23:8-10) [...].
“Viesse [Cristo] agora e visse as coisas que a Igreja faz em Seu nome, ainda com
maior e mais legítima fúria jogaria fora todas essas vestimentas clericais, lanças, cruzes,
cálices, velas, ícones e tudo aquilo que, por meio de sortilégios, utiliza-se para ocultar das
pessoas o Cristo e Seu ensinamento.”

•••

“Sou um ser superior, e apenas através de mim te podes


salvar. Para isto, deves fundir-te comigo, corpo e alma.
Tudo o que vem de mim é uma fonte de luz, que
absolve os pecados.”
(Rasputin)

Rasputin sente-se desde o início perfeitamente à vontade em meio


a personagens ilustres e às grandes damas do beau-monde. Comporta-se e
veste-se exatamente como quando frequentava apenas os camponeses
de sua aldeia na Sibéria. Seus modos à mesa são repulsivos. É glutão e
beberrão, come com as mãos e aspira ruidosamente a sopa. Suas unhas
são sujas, longas e retorcidas, e seus dentes escuros e estragados. A barba,
negra, caudalosa, emaranhada, ostenta resíduos de refeições anteriores. Os
cabelos são longos e oleosos e ele exala um insuportável miasma, misto de
suor almiscarado e de roupas ensebadas, com as quais se deita e se levanta
todos os dias.
Entretanto, o traço mais marcante de Rasputin são seus olhos,
descritos por amigos e inimigos como penetrantes e irresistíveis. Ana
Virubova, que o adorava, decanta-o com benevolência:

“[Rasputin] tinha um rosto pálido, cabelos longos, uma barba descuidada e olhos
extraordinários, grandes, luminosos, brilhantes.”

D R AG O E D I TO R I A L 171
M Á RC I A S A RC I N E L L I

O monge Iliodor, que passaria a odiá-lo como a quase totalidade


dos padres e bispos que no início o veneravam, descreve os famosos olhos
de Rasputin:

“...cinzentos e frios como o aço, afundados sob as sobrancelhas cabeludas, que


de repente reduziam-se a dois pequenos pontos.”

Paléologue oferece uma boa descrição do stárets:

“Rasputin era moreno, com cabelos longos e grossos, uma barba negra e densa, a
testa ampla, o nariz largo e proeminente e boca sensual. A total expressão de sua persona-
lidade, contudo, parecia concentrar-se em seus olhos. Estes eram de um azul pálido,
excepcionalmente brilhantes, profundos e magnéticos. Seu olhar era ao mesmo tempo
penetrante e doce, inocente e astuto, distante e concentrado. Quando falava seriamente,
suas pupilas pareciam irradiar magnetismo. Ele exalava um forte odor animal, como o
cheiro de um bode.”

V. Yukovskaya, durante algum tempo assídua frequentadora do


círculo rasputiniano, retrata-o em suas memórias:

“Lembro-me daquele homem estranho, com sua voz rouca e calma, o sorriso
enigmático nos lábios finos e pálidos, o olhar magnético que cintilava momentaneamente
nos olhos claros, que olhavam não apenas com a pupila, mas com todo o olho, por trás
dos quais alguém às vezes olhava para fora, alguém terrível, poderoso, que nos convidava
a segui-lo em um impenetrável labirinto [...].
“Em um momento, um simples camponês analfabeto sentava-se ali, grosseiro,
coçando-se de vez em quando, sua língua movendo-se com dificuldade e as palavras
saindo desajeitadamente [...], então de repente ele se transformava em um profeta
inspirado – o guardião de um segredo que apenas ele conhecia – que nos convidava a
segui-lo nas alturas das descobertas espirituais, em um reino até então desconhecido, em
que pecado e verdade fundiam-se harmoniosamente. Mas então o estranho ser transfor-
mava-se de novo, os dentes rangendo em bestial sensualidade; por trás do espesso véu
de rugas alguém acenava, alguém voraz, incontrolável como um filhote selvagem, que
acaricia como um animal com uma secreta sede de destruição.
“O invisível lobisomem aparece pela última vez e em seu lugar senta-se um
cinzento andarilho siberiano, que por trinta anos procurou por Deus nesta terra,
conversando com calma gentileza sobre os lagos azuis, as florestas intermináveis [da
Sibéria] e suas palavras são simples e sinceras, ele próprio é sincero – mas por quanto
tempo?”

172 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

A fama de santidade de Rasputin conquista a simpatia e a admiração


do clero e ele passa a conviver com padres, bispos e arcebispos, dos mais
obscuros aos mais eminentes, dos mais corruptos aos mais virtuosos,
e todos pensam vislumbrar nele a “centelha divina”. Suas cartas de
recomendação abrem-lhe as portas do inspetor da Academia de Teologia
de São Petersburgo e confessor da czarina, monsenhor Teofan. Este decide
verificar de perto os sinais da graça divina no famoso mujik milagreiro.
Teofan impressiona-se de tal maneira com o ardor místico e a fé simples
de seu visitante que sente-se tentado a proclamar sua convicção de estar
diante de um santo desde o início mas, por prudência, resolve submeter
suas conclusões ao crivo de outras inteligências. Convencido de que o
stárets era o despertador de almas pelo qual ansiava há muitos anos, Teofan
convoca a alta cúpula do clero para que examinem o fenômeno Rasputin.
Um após o outro, o reitor da Academia de Teologia de São Petersburgo,
o bispo encarregado dos cursos de instrução religiosa e mesmo os bispos
Ermogen e Iliodor, baluartes da ortodoxia, rendem-se à aura mística do
mujik siberiano.
O bispo Ermogen, admirado e respeitado em toda a Rússia pelo
rigor de sua ortodoxia, o brilho de sua inteligência, a nobreza de seu caráter,
seu ascetismo e seus sacrifícios – por vezes despropositados e mesmo
blasfemos - em prol da elevação espiritual (havia-se emasculado para evitar
ceder a tentações carnais) conduz um dos exames mais rigorosos dos
dons e virtudes extraordinários atribuídos a Rasputin. Sua conclusão é a
mesma de muitos outros bispos que o haviam conhecido: tratava-se de
um “homem de Deus”, uma espécie de santo. Julgam-no a encarnação
da consciência popular russa e um mensageiro da verdadeira palavra. A
originalidade de seu aspecto como de seu discurso causa forte impressão
a seus doutos interlocutores, que não duvidam de suas virtudes e poderes.
Surpreendentemente, mesmo a sujeira e o mau cheiro de Rasputin são
considerados sinais de santidade.
Ermogen e Iliodor conduzem-no enfim à presença de Jean de
Kronstadt, famoso visionário que assistira Alexandre III em sua agonia
e que toda a Rússia venerava como santo. O padre identifica indiscu-
tíveis sinais de santidade em Rasputin e, durante a missa, diante de toda
a congregação, pronuncia um discurso inspirado, digno de sua fama de
profeta e vidente:

“Meu filho, adverti a tua presença. Tens em ti a centelha da verdadeira religião.


Mas toma cuidado: o teu futuro está no teu nome!”

D R AG O E D I TO R I A L 173
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Em seguida abençoa-o e pede-lhe que o abençoe – fato inédito que


equivalia a nomeá-lo seu sucessor.
Rasputin sente-se consagrado, ungido pelas palavras do santo padre
diante da multidão que abarrotava a basílica, e não tem dúvidas quanto ao
seu destino. Muitos eclesiásticos propõem-lhe então uma preparação para
ordenar-se sacerdote, propostas que Rasputin repetidamente recusa. Hostil
por natureza às limitações da vida sacerdotal e à submissão à Igreja do
Estado, ele prefere ser um simples stárets e um vagabundo. Seus protetores
veem na decisão de Rasputin um sinal de humildade; rejeitava as dignidades
eclesiásticas por julgar-se pequeno e indigno. H. Troyat comenta a modéstia
de Rasputin:

“Esta falsa humildade dissimula na verdade o orgulho desmedido de um


autodidata, convencido de que é o único detentor da verdade. Desde o momento de sua
aparição nos círculos eclesiásticos de São Petersburgo, Rasputin compreende que a Igreja
precisa mais dele do que ele dela. Aonde quer que se encontre e o que quer que faça,
colocar-se-á sempre à disposição de Deus e não dos padres. Agora não existiam mais
intermediários entre ele e o Céu.”

•••

“Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro


deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da
iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que
se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto
de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como
se fosse Deus.”
(II Tes 2:3,4)

É surpreendente que teólogos no mínimo familiarizados com


as doutrinas fundamentais da fé não tenham podido identificar os falsos
ensinamentos e os falsos milagres do falso profeta. Isto talvez revele mais
sobre a esquizofrenia religiosa e a cegueira espiritual de que padeciam os
próprios teólogos do que sobre a capacidade de persuasão ou os poderes
hipnóticos de Rasputin. Estes, afinal, não agiam sobre aqueles que lhe
resistiam ou que dele duvidavam. A ambivalência de atos e palavras de
Rasputin certamente não passaria pelo crivo do léxico e do contexto
bíblicos ou de uma exegese correta. A ânsia de identificar no mujik obsceno,

174 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

repugnante e mentiroso um enviado do Senhor, cegava os teólogos para as


evidências de sua iniquidade, de suas aberrações psicológicas e distorções
teológicas, e predispunha-os ao êrro.
Cerca de 250 ocorrências nas Escrituras preenchem a definição
restrita de milagre. Segundo a Bíblia, o milagre possui cinco dimensões
que, juntas, diferenciam o milagre verdadeiro do falso:

I - dimensão sobrenatural: é exceção à lei natural, o que exclui anomalias ou


eventos incomuns como meteoros, eclipses, terremotos, curas psicossomáticas, magias
etc;

II - dimensão teológica: pressupõe um Deus que realiza estes atos sobrenaturais;

III - dimensão moral: manifesta o caráter moral de Deus;

IV - dimensão teleológica: ao contrário da mágica, nunca serve de entrete-


nimento e não glorifica a criatura, mas o Criador, pois o efeito não pode ser maior do que
a causa. Apesar de não natural, é adequado à criação e à natureza do Criador;

V - dimensão doutrinária: comprova, direta ou indiretamente, reivindicações da


Verdade; demonstra que o profeta é realmente enviado por Deus; confirma a Verdade de
Deus por meio de um servo de Deus. Mensagem e milagre caminham juntos.

Além de suas cinco dimensões, o milagre verdadeiro tem marcas distintas:

- produz resultados imediatos;


- é infalível;
- não apresenta recaída: nos casos de cura, esta é permanente e não depende
mais da intervenção mágica de ninguém. Pseudomilagres, sobretudo do tipo psicosso-
mático, geralmente fracassam. Não funcionam em pessoas que não têm fé (não em Deus,
mas no curandeiro) e às vezes não funcionam em pessoas que têm fé. Quando funcionam,
seu efeito é parcial e/ou temporário.

Milagres falsos tendem a acompanhar rebelião moral ou ira contra


Deus (I Sm 15:23); imoralidade sexual (Judas 7); ascetismo (I Cor 7:5);
legalidade (Col 2:16,17); orgulho em supostas visões (Col 2:18,19); mentira
e fraude (I Tes 4:2) e outras obras da carne. São geralmente associados
ao ocultismo e incluem: contatos com os espíritos (Dt 18:10-12); uso de
médiuns ou hipnose (Dt 18:11); perda de controle das próprias faculdades

D R AG O E D I TO R I A L 175
M Á RC I A S A RC I N E L L I

mentais (I Co 14:32,33); conduta desordenada (I Co 14:39,40); uso de


meios de adivinhação (Dt 18:9-14; Lev 19:26-31; II Re 21:6; 23:24; Is 8:19);
esvaziamento da mente ou uso de frases repetitivas (Mt 6:7); autodeificação
(Gn 3:4,5; II Ts 2:9); idolatria ou uso de imagens na adoração (Ex 20:3,4;
Rm 1:18-25); experiências com aparições de pessoas mortas (Dt 18:11).
Curas psicossomáticas, fenômenos naturais e atos de seres
humanos não devem ser interpretados como intervenções diretas ou
verdadeiros milagres. Curas apenas perifericamente relacionadas ao corpo
acontecem em diversas religiões e não possuem valor apologético, e
diversos eventos considerados sobrenaturais podem ser apenas psicosso-
máticos. Sob hipnose, por exemplo, muitas pessoas podem ser induzidas
a perder a consciência da dor tão completamente que podem sofrer
cirurgia sem anestesia. Alguns pacientes foram até curados de verrugas sob
hipnose. Sabe-se que “pacientes neuróticos e histéricos frequentemente se
aliviarão de seus sintomas pelas sugestões e pelo ministério de curandeiros
carismáticos. É tratando os pacientes desse tipo que os curandeiros afirmam
suas vitórias mais dramáticas.”8
Nada há de milagroso neste tipo de cura. Psiquiatras, dentistas,
acupunturistas e praticantes de terapias ditas “alternativas” aliviam milhares
desses pacientes de seus sintomas todos os anos. Doenças emocionalmente
induzidas em geral podem ser revertidas por meio de terapia psicológica ou
das “curas pela fé”, quando a atitude mental adequada ocasiona um efeito
de cura.
Nenhuma dessas curas, contudo, é sobrenatural. O efeito da mente
sobre o corpo é um processo natural. Não implica a suspensão das leis
naturais, mesmo quando envolve uma pessoa que afirma atuar como um
canal de Deus. A fé em vários tipos de deuses ou no médico ou curandeiro
ocasionará o mesmo efeito. Efeitos semelhantes, entretanto, não provam
causas idênticas. Esses fenômenos, conquanto maravilhosos, não são
milagrosos. Curas milagrosas não exigem fé e nem mesmo contato pessoal;
são sempre bem sucedidos e não apresentam recaídas; são curas de doenças
orgânicas e não apenas de enfermidades funcionais e são sempre instan-
tâneas. Milagres verdadeiros são realmente sobrenaturais; falsos milagres
são, na melhor das hipóteses, supranormais.9

8 W. Nolem, A doctor in search of a miracle.


9 Fontes: N. Geisler, Enciclopédia de Apologética; Signs and Wonders; Ética Cristã. B.B.
Warfield, Counterfeit Micracles. A. Kole, Miracle and Magic. J.S. Mill, Three Essays on
Religion, Utility of Religion and Theism.

176 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

•••

Rasputin não se esforçava terrivelmente para ocultar seu lado


bestial e suas proezas de sátiro eram públicas e notórias: estuprara uma
freira durante um ritual de exorcismo em um convento em Kazan; fora
visto saindo de um prostíbulo com uma moça nua, que ele espancava
com o cinto; em Tobolsk seduzira uma senhora casada e até então pia e
devota que, após o “romance” com Rasputin, percorria a cidade a bradar
sua paixão pelo stárets – para não mencionar outras proezas como furtos,
bebedeiras, atentados ao pudor. Perseguido pela polícia, Rasputin era
sempre defendido pelas autoridades eclesiásticas.
Ao invés de escandalizar por sua bestialidade e devassidão, as
façanhas lúbricas de Rasputin pareciam contribuir apenas para confirmar
sua santidade e elevar seu prestígio a cada dia. Pessoas se ajoelhavam
quando ele passava, beijavam-lhe as mãos, tocavam-lhe as vestes como
se fossem relíquias e chamavam-lhe “Nosso Cristo, nosso Salvador”,
pedindo-lhe: “Ora por nós, pobres pecadores, Deus te escutará...” Ele a
todos abençoava, perdoava pecados e exortava-os a “mortificar a carne”.
Preocupados em pavimentar o caminho de Rasputin rumo à glória,
o clero não dá ouvidos ao bispo de Tobolsk, recém-chegado da Sibéria.
Monsenhor Anton trovejava os pecados de Rasputin aos quatro ventos:
roubos, estupros, heresias, escândalos variados. Surdo às acusações ao seu
protegido, Monsenhor Teofan insiste em que, apesar de suas fraquezas
e pecadilhos ocasionais, Rasputin é um homem de Deus e um autêntico
vidente. Graças à sua fé simples e absoluta, ao seu aspecto messiânico
e ao seu discurso direto e contundente, Rasputin é o paladino ideal para
combater, em nome da Igreja, os influxos deletérios que se difundiam na
aristocracia russa. Teofan visava sobretudo o casal imperial e especialmente
a czarina, cujo pendor ao ocultismo afastava-a cada vez mais do seio da
ortodoxia e ameaçava tornar-se escandaloso.
Diante das sérias acusações do bispo de Tobolsk, que o perseguia
em São Petersburgo, Rasputin julga oportuno volatilizar-se mais uma vez e
parte para Pokrovskoe. Após um período de afastamento que permite aos
seus protetores abafar as vozes de seus difamadores, Rasputin retorna a
São Petersburgo, a pedido de Monsenhor Teofan, no início de 1905.
O stárets encontra uma São Petersburgo em pleno tumulto. Os
acontecimentos de Port Arthur e do Domingo Sangrento são exalta-
damente debatidos nas ruas, nos cafés e nos salões. Entre batalhas perdidas,
greves, revoltas e atentados terroristas, o império parece desintegrar-se.

D R AG O E D I TO R I A L 177
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Fato inédito e sintomático da decomposição moral do país e da depressão


geral do espírito público, o czar é abertamente criticado, pela plebe como
pela nobreza. Acusam-no de debilidade moral, indecisão crônica, incompe-
tência e crueldade. Responsabilizam-no pela vergonha da Rússia e por
seu sangue derramado. À czarina, contudo, reservavam-se as críticas mais
mordazes, os epítetos mais cruéis.
Entretanto, a brutal repressão do governo aos elementos suspeitos
e aos tradicionais bodes expiatórios consente ao beau-monde a perpetuação
de sua vida mundana. Entre 1901 e 1904 mais de vinte mil “subversivos”
são exilados na Sibéria e os pogroms se brutalizam e se multiplicam assusta-
doramente. Um relatório de Karl Liebknecht delineia o Estado Policial de
Nicolau II, ainda mais repressor do que o de Alexandre III:

“Entre 1906 e 1910, foram condenados à morte por crimes políticos 5.735
pessoas...
“A atrocidade desta cifra advém sobretudo do fato de que, entre 1825 e 1905...
somente 625 criminosos políticos foram condenados à morte...
“Durante os primeiros cinco anos da era constitucional, o número de
condenações à morte aumentou 180 vezes! Nos últimos tempos, o número de execuções
na Alemanha teve uma média de 15 ao ano.
“Entre 1906 e 1910, as instâncias jurídicas condenaram um total de 37.735 pessoas
por delitos políticos, 8.640 foram enviadas ao presídio (katorga) – exceção feita aos 5.735
condenados à morte – 4.144 às companhias de detidos, 1.292 aos batalhões disciplinares
e 1.858 aos domicílios coatos [deportação de indivíduos privados de qualquer assistência,
alimentos, roupas adequadas, remédios, instrumentos ou dinheiro, para regiões desertas e
inóspitas]; cada condenado foi privado de direitos civis.
“...Sobre [a cabeça dos prisioneiros políticos] paira sempre a ameaça de um
sistema disciplinar bárbaro ou de uma cela em trevas, e a punição a pauladas, que os
ministros da Justiça e da polícia consideram agora novamente indispensável, é a punição
mais corrente. Torturas de estilo medieval figuram na ordem do dia de várias casas de
correção. Deste modo, sufoca-se o que resta de sensibilidade e de dignidade humana nos
prisioneiros que sobrevivem às epidemias e aos projéteis dos guardas, colocados diante das
janelas das celas e sempre prontos a disparar. Aos infelizes que desejem subtrair-se a esta
existência infernal resta apenas a fuga pela morte. É por isto que verdadeiras epidemias de
suicídio vieram juntar-se às epidemias de doenças.”

Nos teatros e nos salões veem-se as mesmas damas e os mesmos
cavalheiros que realizam os mesmos rituais sociais, indiferentes à sangria
do país.

178 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Neste momento dramático dá-se o début de Rasputin junto à nobreza


petroburguesa. Sob instigação de Monsenhor Teofan, que trombeteava
suas múltiplas maravilhas, Rasputin é admitido nos melhores salões. O
bispo Iliodor apresenta-o a Olga Lokhtina, esposa de um conselheiro de
Estado. A jovem senhora padecia de neurastenia e a medicina mostrava-se
incapaz de aliviar seus sofrimentos. Para Rasputin, entretanto, a raiz de
sua melancolia é muito evidente. Ele faz-lhe uma longa prédica paternal e,
percebendo que o som de sua voz a fascinava, opta pelo método terapêutico
que o consagraria. O remédio age magicamente sobre os nervos sensíveis
de Olga, que é libertada de seus tormentos morais. Esta experiência ensina
ao “homem de Deus” que não existem diferenças entre a camponesa e a
dama de sociedade: acontentadas na carne, aplaca-se em ambas a sede de
absoluto.
Olga Lokhtina torna-se amante do stárets e, grata e apaixonada,
dá-lhe lições de leitura, escrita e boas maneiras, e recomenda-o às famílias
mais importantes da cidade. Nas reuniões da condessa Ignatiev, esposa de
um ex-ministro do Interior definida como “uma mulher instável, de inteli-
gência limitada”, Rasputin triunfa definitivamente e inaugura seu estrelato.
Apaixonada por ocultismo, a condessa recebe em sua casa banqueiros,
fabricantes de armamentos, ministros e religiosos fanáticos, e entretém-nos
com médiuns que fazem levitar as mesas e invocam os espíritos. Cercado
de um público predominantemente feminino, exaltado e crédulo, Rasputin
brilha como um sol, e mesmo os homens rendem-se ao seu fascínio, talvez
por contágio histérico. Os convidados da condessa Ignatiev bebem as
palavras do stárets, que interpreta as Escrituras à sua maneira, adivinha o
caráter e prediz o futuro de seus ouvintes apenas olhando-os nos olhos. Os
famosos olhos de Rasputin, mais do que impressionar, parecem encantá-los
e como que os paraliza. Suas pupilas reduzem-se a um minúsculo ponto
quando se exalta e diz-se que irradiam uma luz fosforescente.
Sob a recomendação dos bispos, Rasputin insere-se no círculo mais
exclusivo da sociedade de São Petersburgo, encabeçado pelas princesas
montenegrinas Anastácia e Militsa, muito próximas à czarina. Desde a sua
primeira aparição nos salões das grão-duquesas, Rasputin causa sensação,
sobretudo entre as senhoras, ociosas, entediadas, crédulas, adeptas do
ocultismo de salão e das práticas de necromancia então em voga. As mais
exaltadas cortam as unhas do stárets e costuram-nas em suas roupas como
talismãs. Desinibido, Rasputin beija e abraça as damas em público.
Logo sua presença torna-se indispensável em qualquer recepção
elegante e naturalmente nenhuma sessão espírita era digna do nome sem

D R AG O E D I TO R I A L 179
M Á RC I A S A RC I N E L L I

a participação do profeta siberiano. As irmãs montenegrinas, entretanto,


superavam a todos em sua admiração exuberante e babosa pelo “homem
de Deus” e decidem apresentá-lo ao casal imperial.
Muito se especularia sobre a credulidade de Nicolau e Alexandra,
que tão prontamente abriram suas portas e entregaram suas almas a um
mujik obsceno e imundo, um impostor. Na verdade, antes de enfeitiçar
Suas Majestades, Rasputin já havia convencido inúmeras pessoas, e não
apenas os simplórios e incautos, da autenticidade de seus superpoderes. Se
nos anos seguintes ele apareceria como uma figura diabólica, ao raiar do
século XX ele era o Bojy Tcheloviek (homem de Deus), o stárets. Se doutos e
experientes exegetas podiam sucumbir aos enigmáticos encantos do falso
stárets, não é de se espantar que Alexandra, com sua tendência a mistificar
a realidade e no estado de desespero e confusão em que se encontrava,
ainda com mais fervor o fizesse.
Nicolau e Alexandra, apesar de curiosos e ansiosos para conhecer
o stárets de cujas maravilhas tanto se falava, resolvem consultar primeiro o
bispo Teofan sobre a autenticidade das virtudes de Rasputin. As palavras
do bispo em quem confiavam completamente varrem suas dúvidas e
apreensões e decidem o encontro:

“Grigori Efimovitch é um camponês, um simples. Vossas Majestades só têm


a lucrar ao ouvi-lo, porque é a voz da terra russa que se exprime por sua boca. Eu sei
de tudo o que lhe reprovam. Conheço seus pecados: são inumeráveis e frequentemente
abomináveis. Mas há nele uma tal força de contrição e uma fé tão ingênua na misericórdia
celeste que eu garantiria praticamente sua salvação eterna. Após cada arrependimento
ele ressurge puro como uma criança que acaba de ser lavada nas águas batismais. Deus o
favorece manifestando sua predileção.”

Em novembro de 1905, Militsa recebe Suas Majestades em sua


residência e apresenta-lhes seu protegido. Este surge-lhes vestido com sua
indefectível túnica e suas botas de mujik e comporta-se como se estivesse
diante de dois camponeses de Pokrovskoe, e não de Suas inacessíveis
Majestades Imperiais. Trata-os com rudeza e familiaridade inusitadas, o
que, ao invés de chocá-los ou ofendê-los, encanta-os com o que julgam
expressar a “voz da terra russa”. Além do mais, a corte de São Petersburgo
fervilhava de aduladores e subservientes e a postura de ousada autenti-
cidade de Rasputin age como um bálsamo sobre os pobres egos inflados
de Suas Majestades. Para Rasputin, é tudo muito simples: Nicolau é czar,
Grigori é stárets; um necessita do outro. Sem hesitar, chama-lhes paizinho

180 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

e mãezinha, e fala-lhes calmamente da sua Sibéria, da vida obscura nas


aldeias geladas, da infinita paciência do camponês russo e da presença de
Deus nos acontecimentos da vida quotidiana.
Nesta mesma noite, Nicolau anota em seu diário:

“Conheci um Homem de Deus, Grigori, da província de Tobolsk.”

Ao contrário da boa impressão que causa a Nicolau e Alexandra,


para Rasputin Suas Majestades representam uma amarga desilusão.
Sobretudo Nicolau, o mítico Czar de Todas as Rússias, entidade superior
dotada de poder ilimitado sobre coisas e pessoas, revela-se uma grande
decepção. A fé primitiva do mujik na infalibilidade do czar demiurgo,
onipotente e onisciente, não resiste à proximidade da pessoa do czar. Este
homem bom e anódino, de uma mansidão de pomba, cuja alma não aspira
a culminâncias, mas a um destino confortável e burguês, parece-lhe um
vencido. Incompetente ou infortunado, pergunta-se toda a Rússia, e com
ela o stárets que procura desvendar a alma de Nicolau II.
Horrorizado com a pequenez daquele que julgara o mais poderoso
dos homens e de cuja autoridade dependiam tantos destinos, Rasputin
dirige o olhar à czarina. Nela adivinha uma vontade de ferro, o susten-
táculo da autocracia que esperara encontrar no czar, mas também a clássica
neurastenia e a histeria religiosa que caracterizavam as mulheres do seu
séquito.
Além dos salões das grão-duquesas montenegrinas, Rasputin
frequenta assiduamente a residência de uma certa condessa (referida
posteriormente apenas como condessa de O.) em cujas recepções reunía-se
a nata da autocracia e da teocracia russas. Inúmeras questões políticas e
sobretudo da hierarquia eclesiástica eram debatidas e deliberadas em seu
salão. Além de ilustres convivas de carne e osso, a condessa era famosa
por receber também visitantes do outro mundo. Uma noite, durante uma
sessão espírita, o fantasma de São Serafim de Sarov (o monge canonizado
graças aos esforços de Nicolau e Alexandra) aparece-lhe, envolto em uma
auréola cintilante e lhe diz:

“Um grande profeta está entre vós. Ele tem a missão de revelar ao czar a vontade
da Providência e de conduzi-lo por vias gloriosas.”

Este oráculo impressiona a todos os que dele têm notícia, mas


ninguém emociona-se mais do que Nicolau, provavelmente o único devoto

D R AG O E D I TO R I A L 181
M Á RC I A S A RC I N E L L I

de São Serafim além de Alexandra, e advogado de sua canonização. Ninguém


duvida de que o tal profeta seja Rasputin.

•••

“Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado


Da Vossa alta clemência me despido
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a Vos irar tanto pecado,


A abrandar-Vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que Vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada


Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada.


Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na Vossa ovelha a Vossa glória.”

(Gregório de Matos, “Soneto”)

A verborréia mística que Rasputin assimilara dos Khlisty conferia


uma conveniente camuflagem espiritual ao seu erotismo feroz e encantava
igualmente a nobres e plebeus. Aparentemente, a seus inúmeros admiradores
escapava a natureza herética da doutrina Khlisty, que exercia um fascínio
especial sobre as mulheres e cuja ideia central pode-se apreender das palavras
do próprio Rasputin, seu maior divulgador:

“É apenas através do arrependimento que podemos alcançar a nossa salvação.


Portanto, é preciso pecar para termos ocasião de nos arrepender. Assim, quando Deus nos
envia uma tentação, devemos ceder a ela a fim de obter a condição prévia necessária a uma
penitência frutífera. A primeira palavra de vida e de verdade que o Cristo trouxe aos homens
não foi ‘Penitenciai-vos’?10 Mas como fazer penitência, se antes não tivermos pecado?”
10 Mt 4:17

182 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Outro de seus argumentos prediletos era:

“O que normalmente nos impede de ceder à tentação não é o horror ao pecado;


porque, enfim, se o pecado nos fizesse realmente horror, não seríamos tentados a cometê-lo.
Por acaso temos vontade de comer algo que nos repugna? O que nos impede de pecar e nos
aterroriza é a prova que a penitência reserva ao nosso orgulho. A contrição perfeita implica
uma humildade absoluta. Ora, nós não queremos nos humilhar, mesmo diante de Deus.
Eis todo o segredo de nossas resistências à tentação. Mas o Juiz Supremo não se engana. E,
quando estivermos no Vale de Josafá, Ele nos relembrará todas as ocasiões de salvação que
Ele nos ofereceu e que nós recusamos.”

Na verdade, estes sofismas nada tinham de original e já eram
professados no século II da nossa era pelo herege Montanus, que obtinha
praticamente o mesmo sucesso de Rasputin, sobretudo entre as mulheres.

•••

“ Vede que ninguém vos engane. Muitos virão


em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo. E
seduzirão a muitos.”
(Mt 24:4,5)

Após o primeiro encontro em casa da grão-duquesa Militsa,


Rasputin ansiava por rever Suas Majestades. Convencido da legitimidade de
seus extraordinários dons e da infalibilidade de seus poderes, o stárets não
duvidava de que suas intervenções fossem indispensáveis – e urgentes – aos
atormentados soberanos. Embora indiferente à política, a ebulição do país e
a irritação da opinião pública não lhe passavam despercebidas.
Através de seus contatos com a elite do clero de São Petersburgo,
em outubro de 1906 Rasputin consegue ser admitido em Tsarskoe Selo,
honra concedida a raros eleitos, para entregar a Suas Majestades um ícone
milagroso de São Simão de Verkhoture. A visita fora arranjada pelo príncipe
Putiatyn, marechal da corte, a pedido do czar.
Rasputin é recebido por Nicolau, Alexandra e as crianças, e juntos
tomam o chá. Nada neste cenário inusitado parece perturbá-lo, e ele conversa
livremente com a família imperial enquanto suga estrondosamente seu chá
com um cubo de açúcar entre os dentes, apalpa os doces com as mãos sujas
e macula as cadeiras com suas roupas ensebadas. Após abençoar toda a
família, retira-se dignamente. Nicolau registra esta estranha aparição em
seu diário com sua clássica circunspecção:

D R AG O E D I TO R I A L 183
M Á RC I A S A RC I N E L L I

“Grigori chegou às 18:15. Trouxe um ícone de São Simão de Verkhoture, viu as


crianças e ficou conosco até as 19:15.”

Nicolau solicita em seguida a opinião do marechal da corte sobre


o visitante. O príncipe declara que o stárets parecera-lhe “mentalmente
perturbado”. A resposta desagrada visivelmente o imperador, que dá-lhe as
costas e põe-se a puxar a barba para baixo e a olhar pela janela, conhecidos
sinais de irritação que a excelente educação de Nicolau deixava transparecer.
E assim, o libertino repelente de Pokrovskoe, o mujik devasso a
quem chamavam “o Venerável” faz sua entrada no Palácio Imperial e sua
ascendência sobre os soberanos é instantânea.
A fé de Nicolau e Alexandra na santidade de Rasputin era
praticamente inquebrantável desde que este fora introduzido em seu
estreito círculo. Entretanto, a partir de 1907, com a recrudescência dos
episódios hemofílicos do czarévitch, Rasputin tem a oportunidade de
exibir-se como curandeiro milagroso, e a admiração dos soberanos evolui
para uma veneração irracional, sobretudo por parte da czarina. Até então
Nicolau e Alexandra haviam contado apenas com os limitados recursos
da medicina convencional, que mostrava-se cada vez mais impotente para
aliviar o crescente sofrimento do czarévitch, e com as orações de Alexandra,
que suplicava dia e noite pela cura do filho.
Em outubro de 1907, um fato tão secreto quanto corriqueiro vem
garantir a importância da presença de Rasputin junto à família imperial
e conferir veracidade à sua fama de curandeiro. Alexei sofre uma queda
ao brincar no jardim em Tsarskoe Selo e queixa-se de fortes dores em
uma perna. Presa de pânico ao verificar o edema que lhe distendia a pele,
Alexandra recorre aos médicos. Estes prescrevem as usuais compressas
de lama quente que como de hábito não aliviam o sofrimento da criança.
Desesperada diante da agonia que há dias testemunhava sem poder intervir,
Alexandra decide recorrer aos dons sobrenaturais do stárets. Rasputin
chega ao palácio à meia-noite, impassível diante da gravidade da situação
e da natureza da intervenção que se esperava dele. O stárets acreditava
seriamente em seus superpoderes e desde o início tem uma atuação
impressionante. Diante do leito do czarévitch doente que gemia, já sem
forças para gritar, as feições deformadas por dores lancinantes, Rasputin
fita-o intensamente e recita uma estranha oração que soa como um
encantamento. Aos poucos, os gemidos do menino diminuem até cessar,
ele finalmente relaxa e adormece. Rasputin deixa bruscamente o quarto,
totalmente extenuado. Ainda mais estranha do que a sua atitude é a súbita

184 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

recuperação de Alexei, que há dias os médicos tentavam, em vão, tratar. Na


manhã seguinte, ele acorda sorrindo e Alexandra verifica que o edema havia
desaparecido. Em torno ao leito do czarévitch a família constata o milagre
pelo qual suplicavam há anos. Fascinada pela evidência da santidade do
stárets, Alexandra liquefaz-se em muda adoração. Esta mágica recuperação
repetir-se-ia todas as vezes em que Rasputin interviesse, e a gratidão dos
soberanos raiava à idolatria.
Sinceramente convencido de que Deus operava através dele,
Rasputin é o único a não se impressionar com o “milagre”. A partir deste
dia, sua presença no palácio é constante e cada vez mais indispensável. Para
evitar os comentários maldosos que as visitas de um simples mujik ao palácio
despertariam, Rasputin entra sempre por uma escada de serviço. Chega
antes do jantar, brinca com Alexei, acolhendo com naturalidade a honra de
compartilhar da intimidade de Suas Majestades. Continua a tratá-los com
franqueza e rústica simplicidade e a chamá-los mãezinha e paizinho, o que os
encanta. Henri Troyat (op. cit.) observa que Rasputin, tratando desta forma
os soberanos, sem o embaraço de testemunhas ou a rigidez de mediadores,
erguia-se como o representante da Santa Trindade que garantia a glória da
Rússia. Não havia salvação – escreve – fora desta união entre os princípios
monárquicos e religiosos e a terra, onde os primeiros afundam suas raízes. O
povo constituía o húmus necessário a manter e alimentar a árvore da aristo-
cracia ortodoxa. Para Alexandra, Rasputin simbolizava a Rússia sagrada e
secreta que ela idealizava e amava. A verdadeira Rússia – não aquela dos
salões, deflorada e europeizada – mas a Rússia dos

“...sofrimentos humildes, da piedade ancestral, dos trabalhos obscuros, das doces


tradições e das crenças irracionais. [...] Quanto mais folclórica é a sua visão do país, mais ela
se sente chamada a amá-lo e protegê-lo. Consciente de que a corte a denigre em segredo,
convence-se de que a imensa nação russa, ainda prisioneira das trevas, a adora e respeita.
E Rasputin aparece-lhe como o autêntico mensageiro daquela Rússia. Através dele entra
em comunhão não apenas com o Deus da Igreja, mas também com a espessura humana
da província. Quando o vê, barbudo, rude, o olhar penetrante, é como se toda a raça russa
se prostrasse diante dela. Não suportaria vê-lo sem suas roupas e botas de camponês ou
ouvi-lo usar a linguagem refinada dos nobres. Rasputin intui imediatamente a ascendência
que conquistara sobre ela e saboreia-a como uma vitória. [...] Jura a si mesmo protegê-la e
afastar do czar os malvados que pululam mesmo nos corredores do palácio. Pode fazê-lo,
pois Deus está com ele.”

Desde o início, acontece entre Rasputin e Alexandra uma estranha


alquimia. Este mujik que ela admira porque encarna uma força telúrica

D R AG O E D I TO R I A L 185
M Á RC I A S A RC I N E L L I

é também um “homem de Deus”, emblema da Rússia irracional que ela


venera porque excita sua imaginação metafísica e aplaca seu cio místico.
A rotina sexual pouco ortodoxa do stárets, sua sensualidade brutal e
descontrolada parecem não interessar-lhe, ou ela simplesmente aceita seus
componentes torpes como contrapartida necessária a seus componentes
sublimes. Suas fraquezas morais a enternecem, seu misticismo primitivo a
encanta, e suas intervenções milagrosas convertem sua devoção em culto
aberto ao santo Rasputin. Arauto da misericórdia divina, Rasputin vinha
resgatá-la de seu longo ordálio, arrancar o czarévitch às garras da morte,
reatar os místicos laços entre o czar e seu povo e sacralizar o reinado de
Nicolau II, que vacilava perigosamente.
A devoção de Alexandra a Rasputin seria sempre fervorosa e
resistiria aos ataques mais ferrenhos. Mesmo quando as vozes da Rússia
se elevassem em uníssono contra o Rasputin profanador do trono, quando
a imprensa exumasse dia após dia as torpezas do Rasputin libertino,
quando o clero finalmente apontasse o dedo acusador contra as aberrações
sacrílegas do Rasputin diabólico e quando as evidências se acumulassem,
irrefutáveis, contra o Rasputin devasso. Mesmo quando membros de sua
própria família a advertissem contra o Rasputin cínico e lúbrico que viria
a ser a sua nêmesis, para a czarina ele seria sempre o Rasputin bem-aven-
turado. Alexandra continuaria a defendê-lo e a obedecê-lo com histérica
persistência, a venerá-lo em vida como santo e na morte como mártir.
Superada a desilusão inaugural que a proximidade de Suas
Majestades provocara, Alexandra desperta em Rasputin impulsos contra-
ditórios, um misto de admiração, inveja e desprezo típicos de homens
em sua situação: o pobre feliz diante da rica desafortunada; o súdito
insignificante indispensável à soberana toda-poderosa; o homem rude no
esplendor de sua virilidade diante da grande dama em declínio. Se por seus
atributos naturais Rasputin exerce em Alexandra um fascínio irremissível,
pelas oportunidades que a doença do czarévitch apresenta-lhe de exibir-se
como salvador, seu domínio sobre ela é completo. Enquanto à natureza
da czarina correspondiam os arrebatamentos extáticos e os desvarios da
veneração totalitária, os poderes de Rasputin pareciam inegáveis e ele
nascera para ser adorado. Serviam aos propósitos um do outro. O stárets
prova sua eficácia e indispensabilidade e consegue da czarina o que quer.
Em princípio cautelosamente, tateando o território, ele amplia sua esfera
de influência até tornar-se o homem mais poderoso da Rússia. Para ela,
ele é a voz da vertigem que ela atribui a um chamado celestial. Para ele, ela
é o passaporte para o ápice do poder secular dissimulado de autoridade

186 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

espiritual. Tendo-se encontrado por uma combinação de circunstâncias


fortuitas, Alexandra e Rasputin transpõem o abismo social que os divide
através de uma força de atração que os congrega irresistivelmente.

•••

“Ai do país no qual apenas o escravo e o


mentiroso estão próximos do trono.”
(A. Pushkin)

Na primavera de 1908, o bispo Teofan realiza em Pokrovskoe uma


investigação sobre Rasputin, a pedido da czarina. O stárets hospeda-o em
sua nova isbá, maior e mais bela do que a precedente (de fato a melhor
casa da aldeia), e trata de impressioná-lo com suas estórias da aparição da
Santa Virgem, retemperadas agora com o acréscimo da manifestação dos
apóstolos Pedro e Paulo aos seus olhos de vidente. Encantado com as
narrativas feéricas de Rasputin, Monsenhor Teofan permanece surdo às
vozes que se erguem em toda a região contra o comportamento libertino
de seu protegido e às acusações de heresia inutilmente renovadas pelo bispo
de Tobolsk. Retorna a São Petersburgo proclamando a glória apoteótica
de Rasputin e declara a Suas Majestades a sua certeza de que o mujik de
Pokrovskoe não apenas era santo e vidente, mas o eleito do Senhor para
conciliar os soberanos com a Santa Rússia.
Retornando à capital, Rasputin é recebido no palácio com delirante
entusiasmo. Em casa de Olga Lokhtina, cujo leito continuava a honrar,
seu séquito de adoradores expandia-se vertiginosamente. Seus seguidores
conferiam-lhe benemerências e mercês, doavam-lhe objetos e dinheiro,
abriam-lhe as portas de seus palácios, e as damas disputavam seus favores
sexuais.
Rasputin fizera neste ínterim algumas concessões à elegância,
sem contudo abdicar do estilo pitoresco que o consagrara na sociedade
e que sabia convir ao seu personagem entre bárbaro e civilizado. Graças
a recentes subvenções, sua camisa de mujik e o cordão que lhe cinge a
cintura agora são de seda, as calças de rico veludo e as botas, de bom couro.
Sobretudo, apresenta-se um pouco menos sebáceo e oloroso. Se a voz e o
olhar do stárets continuam a revolver as vísceras de seus interlocutores, a
renovação de seu vestuário e as melhorias em sua higiene pessoal ofendem
menos o olfato e preservam o mobiliário de certas agressões.
A doutrina Khlisty que pregava a inobservância de preceitos

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

morais e prometia o nirvana através do abandono ao êxtase sexual agrada


enormemente às sensibilidades ociosas de damas e cavalheiros dos mais
elevados círculos sociais. Estes ideais elásticos difundidos por Rasputin
seduzem seus seguidores e angariam centenas de novos adeptos. Rasputin
ensina que o pecado não apenas é aprovado, é oferecido por Deus para
que o homem caia tão baixo quanto possível e finalmente arrependa-se
humildemente e assim ascenda a Ele. Propagando o novo evangelho das
fraquezas humanas, Rasputin surge como o mensageiro da nova aliança
entre Deus e os homens, conciliando o inconciliável.
Em pouco tempo, cria-se um mito erótico-místico em torno de
Rasputin. Atribuem-lhe um sexo de proporções épicas, o apetite sexual de
um sátiro, visão de profeta, poderes de mago e o coração de um santo. O
pungente odor almiscarado que exalava apesar das novas medidas higiênicas
parece atrair mais do que repelir, sendo mesmo considerado irresistível por
muitas senhoras.
Em 1908, a proximidade do stárets ao trono e suas ligações
com o alto clero tornavam-no inatacável, seus seguidores garantiam sua
manutenção em grande estilo, sua fama de sátiro evangélico o enaltecia ao
invés de denegri-lo e sua influência política prometia alargar-se. O destino
parecia sorrir-lhe sem reservas e todas as portas abriam-se ao seu comando.

•••

“Não posso tolerar que um homem de grande


coração e inteligência comece pelo ideal da
Santa Virgem e acabe no de Sodoma.”
(Dostoievsky, “Os irmãos Karamazov”)

Mais aborrecido do que preocupado com os rumores que


começavam a circular sobre o comportamento escandaloso de Rasputin,
Nicolau encarrega o comandante do palácio de submeter o stárets a um
interrogatório, sem que a czarina soubesse. Ao contrário de Alexandra,
cuja recente “investigação” visava apenas corroborar oficialmente o que
ela já sabia intimamente, i.e., que o santo homem era mesmo um santo,
a intenção do czar era verificar se a fama de libertino de Rasputin tinha
fundamento. Como a czarina, Nicolau não duvidava dos dons de cura e
da origem divina dos poderes do stárets. Diferentemente dela, contudo,
o czar temia o escândalo em que as alegadas aberrações de Rasputin os
envolveria. Alexandra encarrega um religioso evidentemente subjugado

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

pelos encantos de Rasputin da missão de confirmar sua santidade. Nicolau


ordena a oficiais responsáveis pela segurança do palácio, nada impres-
sionados pelas proezas do mujik siberiano, que o interroguem, de forma
cortês, mas implacável.
Refratário ao charme telúrico de Rasputin, o comandante do
palácio, General Dediulin, informa ao czar a impressão que Rasputin
lhe causara no curso de seu interrogatório. Tratava-se de “um camponês
esperto e falso”, hábil em desfrutar seu poder de sugestão para enganar
seus discípulos e angariar favores para si próprio. Nicolau ouve impassível
a conclusão de general e dispensa-o sem comentários.
Pressentindo o perigo que Rasputin representava para Suas
Majestades, Dediulin extrapola as ordens do czar e solicita ao general
Gerasimov, chefe da Okrana, que colha informações sobre o stárets em
Pokrovskoe e mantenha-o sob estreita vigilância em São Petersburgo. Os
relatórios dos agentes secretos são categóricos: trata-se de um impostor, um
falso profeta entregue a todos os excessos e incapaz de conter seus impulsos
sexuais. Em sua aldeia é acusado de roubo, estupro e propagação de cultos
heréticos. Em São Petersburgo, frequenta casas de banho em companhia
de prostitutas e embriaga-se rotineiramente nos piores antros da cidade.
Gerasimov comunica suas conclusões a seu superior direto, o ministro do
Interior e presidente do Conselho, Stolypin. Horrorizado com o teor dos
relatórios, Stolypin precipita-se a Tsarskoe Selo para revelar ao czar a real
natureza do homem que ele admitia no seio de sua família como amigo
e conselheiro. Surpreendido pelo longo elenco de malfeitos de Rasputin
que a diligência da Okrana compusera à sua revelia, a princípio Nicolau
mostra-se embaraçado, em seguida, francamente ofendido e finalmente
irado. Fechado no súbito mau-humor que seus ministros tanto receavam
provocar, Nicolau recusa-se a ouvir até o fim o relatório de horrores e
interrompe-o, cáustico:

“Não temos talvez o direito, a imperatriz e eu, de escolher as nossas relações, de


frequentar quem quisermos?”

A suspicácia do czar encerra a questão e a entrevista. Antevendo


desgraças para o país e para si próprio, Stolypin retira-se, acabrunhado.
Gerasimov, entretanto, não se dá por vencido e reforça a vigilância em
torno do stárets. Descobrindo ainda outros particulares picantes sobre a
vida dissoluta de Rasputin, o chefe da Okrana incita Stolypin a exilá-lo na
Sibéria. Arriscando-se a incorrer na antipatia de Nicolau e talvez a perder o

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

cargo – já vacilante desde que confrontara o czar – Stolypin ordena a prisão


de Rasputin na estação de São Petersburgo assim que tentasse retornar a
Tsarskoe Selo.
Prevenido por sua própria rede de espiões sobre as intenções
da Okrana, Rasputin repete a sua hégira e parte precipitadamente para
Pokrovskoe. Ali ele aguarda pacientemente que se aplaquem os ânimos na
capital, dedicando-se a decorar sua nova isbá e a exibir fotos que o imorta-
lizavam em companhia da fina flor da sociedade petroburguesa.
Enquanto em Pokrovskoe Rasputin entretinha campônios com a
exibição de seus sucessos mundanos, em São Petersburgo Nicolau ordenava
a suspensão da vigilância da Okrana e devotava-se ao congelamento social
e político do devotado ministro Stolypin. Recebia-o raramente e com
crescente frieza, e permanecia invariavelmente surdo a seus conselhos.
Parecia evidente que os dias do inimigo de Rasputin estavam contados.

•••

“O que tem a opinião pública a ver comigo?”


(Nicolau II)

Em 1910, a sorte de Rasputin parece mudar. O bispo Teofan é


procurado na Academia de Teologia por duas mulheres que acusam o
stárets de violência sexual. Não é a primeira vez que Teofan ouve denúncias
do gênero contra seu protegido que, no entanto, sempre conseguia safar-se,
servindo-se da clássica lábia de camponês e da farsa de eterno penitente.
Talvez pela força evocativa dos detalhes torpes, talvez por desafiar quanti-
tativamente a paciência do bom bispo, o fato é que desta vez a crônica das
vilezas de Rasputin corrói em Teofan a crença em sua pureza.
Recusando-se a dar ouvidos às explicações nebulosas e claudicantes
do acusado e decidido a desmascará-lo, o bispo solicita uma audiência com
o czar. Tudo o que consegue é ser recebido pela czarina, acompanhada
pela inevitável Ana Virubova. Embora pressentisse a futilidade de seus
esforços, Teofan prega durante uma hora a iniquidade de Rasputin, que
ele julga encontrar-se “em um estado de confusão espiritual”. Alexandra
declara-se mortificada por estas revelações, que ela, no entanto, não
considera graves. Estes eram os pecados do homem, que não chegavam
a conspurcar a pureza do santo. A obstinação da czarina silencia o bispo,
que retira-se, consternado, mas decidido a unir-se à facção dos inimigos
declarados de Rasputin.

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

O momento de sua adesão não poderia ser mais propício, e acontece


exatamente quando monarquistas e socialistas, intelectuais e religiosos,
preocupados com a influência maligna do stárets na corte, organizam
uma campanha difamatória na imprensa. O jornal “Notícias Moscovitas”
acusa Rasputin de ser um charlatão que desonra a família imperial. “A
Palavra” publica, entre 20 de maio e 26 de junho, uma série de dez artigos
denunciando as torpezas do “stárets perverso”, divulga os nomes de suas
vítimas e expõe a teoria khlisty de Rasputin sobre a ascensão à beatitude
espiritual através do ato carnal. Os artigos revelam também as relações
equívocas de Rasputin com a extrema direita e os “ambientes dinásticos”.
Os artigos inspiram muitas outras vítimas da lubricidade de
Rasputin a denunciá-lo publicamente e fornecem evidências suficientes
para minar a devoção de antigos adeptos e protetores. O bispo Ermogen
vê com horror ruir a máscara do homem que ajudara a aproximar de Suas
Majestades e adere ele também à sanha acusatória de seus delatores. Urgia
demolir o mito do stárets e remover aquela excrescência que se elevava,
obscena, por trás do trono.
A campanha encoraja uma insuspeitável insurreição dentro do
Palácio Alexander e contagia membros da família Romanov. A babá
de Alexei, Maria Vikniakova, revela aos ouvidos incréus da czarina que
Rasputin a havia “desonrado” em seu quarto no palácio. Agastada por esta
tentativa de denegrir “padre Grigori”, como o chamava, Alexandra pune a
babá com dois meses de suspensão.
Às acusações da babá seguem-se as de uma dama de companhia de
Suas Majestades, Sofia Tiutcheva. Indignada com a presença de Rasputin
nos quartos das filhas do czar, mesmo à hora de dormir, quando vestiam
apenas camisolas, a Tiutcheva temia pela segurança das meninas. O
stárets passeava seu olhar lúbrico pelos aposentos das grão-duquesas, que
adentrava sem bater, que invadia já. Diante da gélida resposta da czarina,
que se recusa a ouvi-la, Sofia dirige-se corajosamente ao czar, revelando-lhe
suas dúvidas quanto à pureza das intenções do stárets. Nicolau pergun-
ta-lhe, tristemente:

“Então também não crês na santidade de Grigori Efimovitch? E o que dirias se


te dissesse que sobrevivi a estes tempos difíceis apenas graças às suas preces?”

O zelo de Sofia Tiutcheva é recompensado com dois meses


de suspensão, como medida disciplinar. Tamanha injustiça impele-a a
demitir-se e a dedicar o resto de seus dias a divulgar o fato de ter sido

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expulsa do palácio por delatar o excesso de intimidade de Rasputin com as


grão-duquesas.
Fazendo coro às vozes que se insurgiam contra o stárets, a irmã de
Alexandra, viúva do grão-duque Serguei, tenta com igual insucesso alertar a
czarina sobre o perigo que Rasputin representava para o prestígio da coroa.
A grão-duquesa suplica à irmã que se desembarace do stárets a tempo.
Alexandra recusa-se a ouvi-la e indica-lhe secamente a porta.
A czarina-mãe e o grão-duque Nikolai Nikolaievitch (cujo decrépito
cãozinho de estimação Rasputin curara magicamente durante uma recepção
em casa da princesa Militsa), temendo uma revolta palaciana e o fim da
dinastia, tentam convencer o czar a liberar-se do “abjeto mujik”, obtendo
idênticos resultados.
Preocupado com o escândalo que abalava os alicerces do trono,
Stolypin retoma seu propósito de afastar Rasputin do palácio e apresenta ao
czar novos e mais escabrosos relatos da concupiscência do stárets. O czar
ouve-o com sua sólita fleuma até que a evocação de certos particulares em
um banho público parece atingi-lo. Com um sorriso de desprezo, replica
ironicamente:

“Eu sei, lá também ele anda pregando as Escrituras.”

Desta vez, Nicolau sucumbe à força dos argumentos de Stolypin e


decide-se, não sem pesar, a afastar Rasputin de São Petersburgo até que se
acalme o surto de animosidade contra ele.
Encurralado pelos inimigos e aconselhado pelos amigos, Rasputin
conforma-se a deixar a capital e decide empreender uma peregrinação à
Terra Santa. Pretendia com este estratagema furtar-se aos olhos de seus
detratores e acrescer sua fama de santidade na ingrata Rússia.
Cada etapa da viagem de Rasputin é ilustrada por uma série de cartas
desarticuladas e vagamente compreensíveis, dirigidas à sempre fiel Ana
Virubova. Esta e outras devotas do santo homem leem, releem e copiam
suas missivas para melhor difundir o pensamento do bem-aventurado
Rasputin entre seus discípulos. Incrivelmente, em 1916 o conjunto desta
obra insípida e absurda, após sofrer diversas correções, é publicado em
luxuosíssima encadernação sob o título “Meus pensamentos e reflexões”.
Os três meses e meio de ausência logram silenciar os ataques contra
Rasputin em São Petersburgo e, como ele bem previra, acrescentam novo
lustre à sua auréola de santidade. Sua primeira providência ao retornar à
Rússia, em junho de 1911, é solicitar uma audiência com Suas Majestades em

192 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

sua residência de Peterhof. É recebido com a alegria e a devoção de sempre


e seus relatos de viagem são ouvidos com pio interesse. Convencido de
que seu lugar nos corações de Suas Majestades estava garantido, Rasputin
retoma sua rotina de beato libertino.

•••

“Sou maldito, vil e degradado, mas beijo a fímbria do


manto que envolve o meu Deus; sou a estrada diabólica,
mas sou, no entanto, Teu filho, Senhor, e Te amo, sinto
a alegria sem a qual o mundo não poderia subsistir.”
(Dostoievsky, “Os Irmãos Karamazov”)

No dia 31 de agosto de 1911, Rasputin encontrava-se em Kiev,


em meio à multidão que via passar a carruagem que levava o presidente do
Conselho. Sacudido por um súbito tremor, Rasputin exclama, apontando
o ministro:

“A morte o segue! Está atrás dele!”

Durante toda a noite ele continuaria a arengar sobre a morte


de Stolypin. Esta previsão do trágico fim do ministro realizar-se-ia
pontualmente no dia seguinte e consagraria Rasputin como profeta.
No dia 1º de setembro, em meio às comemorações da inauguração
do monumento a Alexandre II, um terrorista dispara dois tiros contra o
ministro, durante uma noite de gala no teatro de Kiev. Tudo acontece sob
os olhos de Nicolau, Olga e Tatiana, que também se encontravam no teatro.
Stolypin encontra forças para fazer o sinal da cruz na direção do camarote
imperial antes de desabar. Morreria após cinco dias de agonia e Nicolau
parece indiferente à morte de seu fiel servidor, um grande enfadonho de
que pretendia liberar-se em breve. Sua expressão permanece impassível
enquanto é levado do teatro e não lhe ocorre sequer interromper o curso
das celebrações.
Na verdade, o czar estava profundamente chocado com a tragédia
do ministro e atemorizado pelas inúmeras possibilidades que semelhante
atentado sugeriria a seus inimigos. Em carta à czarina-mãe, ele relata o
ocorrido e revela em parte suas emoções:

“...Olga e Tatiana...presenciaram tudo. Enquanto Stolypin era carregado para fora

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

do teatro, ouviu-se um grande rumor no corredor próximo ao nosso camarote; tentavam


linchar o assassino. Lamento dizer que a polícia o salvou da multidão e levou-o para uma sala
isolada para um primeiro interrogatório... Dois de seus dentes haviam sido arrancados. O
teatro encheu-se de novo, cantou-se o hino nacional e eu parti com as meninas às 11 horas.
Podes imaginar com que emoções... Tatiana estava muito perturbada e chorou muito... O
pobre Stolypin teve uma péssima noite.”

Abalada por estes eventos dramáticos, a família imperial parte para a


Criméia para algumas semanas de repouso.
Em São Petersburgo, os bispos Ermogen e Iliodor, horrorizados com
a rápida propagação de rumores sobre o teor das relações da czarina com
Rasputin, decidem unir-se para eliminar o “filho de Satanás” e convidam-no
para um encontro assim que este retorna à capital. Ao comparecer à
entrevista, Rasputin depara-se com um tribunal formado por Mitia Koliaba
(seu predecessor como “conselheiro espiritual” de Suas Majestades) e por
meia dúzia de padres truculentos, liderados pelo bispo Ermogen. Este,
brandindo um crucifixo, precipita-se sobre Rasputin, aos gritos de

“Espírito maligno! Em nome de Deus proíbo-te de aproximar-te do sexo feminino!


Proíbo-te de penetrar no palácio do czar e de relacionar-te com a czarina!”

Segue-se um farfalhar de batinas, e todos os padres tentam, a golpes
de crucifixo, subjugar Rasputin, que no entanto distribui socos e pontapés e
consegue escapar.
Assustado, o stárets busca refúgio em casa de Olga Lokhtina e, tão
logo Suas Majestades pisam em São Petersburgo, corre à presença da czarina
para narrar a violência que sofrera. Esta pressiona o czar, que por sua vez
pressiona o Santo Sínodo a afastar Ermogen de São Petersburgo. Como o
bispo se recusasse a partir e insistisse em ser recebido pelo czar para justifi-
car-se, é acusado de insubordinação e exilado no convento de Zirovitchy, em
estado de desgraça. Iliodor é despachado ao monastério de Floritcheva na
qualidade de simples monge.
Todas as precauções para abafar o escândalo mostram-se inúteis e a
imprensa saboreia dias de glória ao expô-lo em pormenores. Um jornal lança
o libelo “Rasputin, o pervertido místico” e tem seus exemplares prontamente
confiscados pela polícia.
O jornal Golos Moskvy (A Voz de Moscou) publica uma carta à
redação intitulada “A voz de um simples ortodoxo”, assinada por Mikhail
Novoselov, diretor da revista “Biblioteca Religiosa e Filosófica”:

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“Quousque tandem abutere patientia nostra?” Este grito de indignação escapa


irrefreável do coração de todos os cristãos contra o astuto conspirador que atenta contra
a Santa Igreja Ortodoxa, o desprezível corruptor de almas e corpos, Grigori Rasputin,
que se permite ocultar seus malfeitos sob o véu da santidade da Igreja. Quousque... é
a pergunta que todos os verdadeiros filhos da igreja Ortodoxa são forçados a dirigir ao
Sínodo, quando veem com angústia a horrenda tolerância demonstrada por esta alta
instituição eclesiástica com relação a Grigori Rasputin.
“Como explicar o silêncio dos bispos que no entanto sabem perfeitamente do
comportamento deste mistificador? Por que se calam os guardiães da Fé quando, nas
cartas a mim endereçadas, tratam este falso doutor de pseudosectário, de erotômano e
de charlatão? Aonde está a santidade do Sínodo se, por incúria ou vileza, nada faz para
conservar e salvaguardar a pureza da religião cristã e se, ao contrário, consente a um
sectário cobrir todas as suas torpezas com um véu de santidade? Aonde está a potência
do Sínodo, se esse não pretende realizar qualquer esforço para impedir que a Igreja seja
conspurcada pela proximidade deste herege?”

Ainda piores do que as notícias dos jornais eram as estórias
impublicáveis que circulavam informalmente: Alexandra e Ana Virubova,
dizia-se, eram amantes de Rasputin. O stárets ordenava ao czar que tirasse
suas botas e lavasse seus pés. Ele estuprara as quatro grão-duquesas e
transformara o palácio em um harém.
Caricaturas do “monge louco”, como se lhe referiria a posteridade –
que nada tinha de louco e de monge ainda menos – surgem nos periódicos,
nos muros das casas, em cartas de baralho.
Antes de submeter-se à condenação do Santo Sínodo, Iliodor
encontra tempo para redigir um memorial intitulado “Grishka” (apelido de
Grigori), no qual acusa Rasputin de pertencer à seita maldita dos Khlisty,
de corromper dezenas de mulheres e de destruir o prestígio do czar. Para
ilustrar as acusações, cita textualmente trechos de cartas da czarina e das
grão-duquesas a Rasputin, que ele subtraíra ao stárets quando ainda eram
amigos. Sobretudo as cartas de Alexandra caem como uma bomba sobre a
opinião pública, já bastante inflamada:

“Meu amado, inesquecível mestre, salvador e conselheiro, quanto me pesa a tua


ausência! Minha alma não encontra paz e sinto-me bem apenas quando tu, meu mestre,
te sentas ao meu lado, quando te beijo as mãos e repouso a cabeça sobre o teu santo
ombro. Então sinto-me leve e nutro apenas um desejo: adormecer pela eternidade sobre
o teu ombro e em teus braços. Que felicidade sentir-te junto a mim! Onde estás?... Não
demores. Espero por ti e sofro sem ti.

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“Aquela que te ama pela eternidade,


“M [amãe].”

Nos salões, nos teatros, nos cafés, nas ruas da capital e em toda a
Rússia comentam-se abertamente as relações íntimas entre a czarina e o
mujik siberiano. Mesmo aqueles que conheciam a probidade de Alexandra,
o amor que a unia a Nicolau e o estilo místico açucarado de seus afetos,
unem-se ao coral difamatório. Mais do que nunca Alexandra é desprezada
e aviltada.
Coroando a onda de sensações que o caso Rasputin concedia à
imprensa, os jornais publicam fotos de “padre Grigori” circundado de
suas admiradoras. Entre elas resplandece, alva e nédia, Ana Virubova.
Exemplares escapados à diligência da censura são vendidos a preços
astronômicos no mercado e passam de mão em mão. Rasputin contribuía
mais à causa revolucionária do que Port Arthur, o Domingo Sangrento e
todos os atentados a bomba.
O general Bogdanovitch, cujas reuniões políticas ditavam a opinião
dos monarquistas, escreveria em seu diário:

“Não é o czar quem governa a Rússia, mas o cavaleiro de indústria Rasputin. Este
declara a quem interessar possa que não é a czarina quem precisa dele, mas “Nicolau”.
Não é espantoso? E mostra uma carta, na qual a czarina afirma “sentir-se tranquila apenas
quando apóia a cabeça em seu ombro”. A imperatriz-mãe em pessoa, Maria Feodorovna,
alarmada por este falatório nauseabundo em torno ao palácio, convoca o presidente do
Conselho Kokovtsov e expressa-lhe suas preocupações. Sempre fora hostil aos modos ao
mesmo tempo altivos e exaltados da nora; agora acusa-a de conduzir a Rússia à catástrofe.
‘Minha nora não percebe que está perdendo a si própria e à dinastia’, diz. ‘Crê sinceramente
na santidade de um aventureiro; e nós, impotentes, não podemos evitar uma catástrofe
que parece inevitável’.”

Nas reuniões da Duma, o caso Rasputin está sempre em pauta e


inspira discussões acaloradas sobre as “forças ocultas” que agem por trás
do trono. O discurso inflamado do deputado da extrema direita Vladmir
Purishkevitch seria repetido em toda a Rússia:

“Mas aonde iremos parar? Querem destruir o nosso último baluarte, a Santa
Igreja Ortodoxa. Já vimos a Revolução atentar contra o poder supremo... Felizmente sem
sucesso. O Exército permaneceu fiel. Agora, para cúmulo do azar, as forças da escuridão
atacam a última esperança da Santa Rússia, a sua Igreja... E o pior é que, ao que parece,

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estas desgraças nos chegam do alto do trono imperial. Um vil impostor, um khlist, um
mujik ignorante ousa aproveitar-se de nossos padres... Quero sacrificar-me e matar este
canalha!”

O presidente da Assembleia redige uma moção – à qual aderem


imediatamente 48 deputados – que exige do ministro Makarov a suspensão
do sequestro irregular imposto aos órgãos de imprensa contrários a
Rasputin. Makarov ensaia um protesto, o que inflama ainda mais o
presidente da Duma:

“Vós conheceis o penoso drama que a Rússia está vivendo! No centro deste
drama encontramos um personagem enigmático e tragicômico, uma espécie de espírito do
outro mundo, ou o produto atual de séculos de ignorância... Com que meios este homem
conseguiu ascender a uma posição central e conquistar uma potência tal que os mais altos
dignitários do poder temporal e espiritual baixam a cabeça à sua passagem?”

Profundamente ofendido e furioso com o mar de lama que


via engolfar a czarina, Nicolau ainda resiste a afastar Rasputin de São
Petersburgo e do palácio. Reage proibindo que se mencione o stárets
durante as reuniões da Duma. Kokovtsov alerta o czar sobre o perigo de
ofender a suscetibilidade dos deputados e desencadear um desconten-
tamento geral contra a monarquia com uma medida tão rígida. À sugestão
de Kokvotsov de exilar o indesejável mujik na Sibéria, Nicolau mostra-se
incoercível:

“Hoje exige-se a partida de Rasputin; amanhã será a vez de outro.”

Consente, entretanto, que Kokovtsov encontre-se com Rasputin e


tente convencê-lo amistosamente a deixar a capital até que se acalmem os
ânimos.
Henry Troyat (op.cit.) relata a impressão que o stárets causa ao
presidente do Conselho e a reação do czar:

“O encontro realiza-se na metade de fevereiro de 1912. O presidente do
Conselho colhe uma impressão desfavorável [do stárets]. ‘Rasputin’, escreveria ele em
suas memórias, ‘pareceu-me um típico vagabundo siberiano, bastante inteligente, mas
que recitava o papel de idiota, de louco visionário, segundo um esquema pré-estabe-
lecido. Fisicamente, faltava-lhe apenas o uniforme de forçado.’ Kokovtsov refere tudo
ao imperador em termos velados. Nicolau II, o olhar distante, escuta-o de má vontade,

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visivelmente exasperado por saber que todos denigrem o homem no qual ele e sua esposa
confiam totalmente. Na sua opinião, as culpas de Rasputin são apenas um pretexto
inventado pelos inimigos da monarquia para cobrir de lama a família imperial. Desde
quando um czar deve submeter-se em silêncio a que o critiquem? É ou não é o senhor
absoluto do próprio destino e daquele da nação? Nem Pedro o Grande, nem Catarina II,
nem Nicolau I, nem Alexandre III teriam tolerado semelhante violação de suas prerro-
gativas autocráticas!”

Preocupado com as proporções que o escândalo atingira em poucos
dias, Rasputin resigna-se a partir mais uma vez para Pokrovskoe.
O presidente da Duma, Rodzianko, dedicado patriota e monarquista,
decide preparar o espírito do czar e envenená-lo contra Rasputin para
impedir que a czarina o chame de volta. Imbuído desta “missão de saúde
pública”, Rodzianko prepara um volumoso relatório no qual apresenta
evidências do envolvimento de Rasputin com a seita Khlisty, a maçonaria
e os judeus progressistas, reúne artigos da imprensa que denunciam os
crimes do stárets e inclui cópias das famosas cartas da família imperial.
Consegue ser recebido pelo czar, e durante duas horas expõe suas razões
para considerar Rasputin um indivíduo perigoso para o trono. O czar ouve
impassível as diatribes de Rodzianko contra “padre Grigori” e acompanha-o
à porta sem exprimir a mínima contrariedade. No dia seguinte, envia-lhe
uma cópia do dossier do Santo Sínodo, que inocenta Rasputin da acusação
de pertencer à seita Khlisty.
Ingenuamente, Rodzianko interpreta a reação do czar como um
convite a perseverar em suas investigações. Envolve a chancelaria da Duma
em sua missão e durante dias os secretários da Assembleia copiam páginas
e páginas de documentos comprometedores. Ao final deste estrênuo
trabalho, solicita nova audiência com o czar, que no entanto recusa-se
a recebê-lo e solicita-o a expor suas conclusões por escrito. Desiludido,
Rodzianko obedece e a 8 de março envia ao czar seu relatório, de que não
ouviria mais falar.
Neste ínterim, Alexandra telegrafa a Rasputin para pedir-lhe
explicações sobre o destino das cartas da família imperial, agora de domínio
público. O stárets proclama vigorosamente sua inocência, atribui ao ignóbil
Iliodor a culpa de todo o escândalo e afirma sua devoção a Cristo e à família
imperial. Esclarecido o desagradável mal-entendido, Alexandra convida-o
a encontrá-los em Tsarskoe Selo antes da partida da família para a Criméia.
Com a cumplicidade de Ana Virubova, Rasputin, que não havia sido
convidado a acompanhar a família em sua viagem, entra como clandestino

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em um dos vagões do trem imperial. Um policial adverte sua presença e


alerta o czar que, temendo exacerbar a maledicência em torno do stárets,
fá-lo descer entre São Petersburgo e Moscou. Impávido, Rasputin toma o
trem sucessivo e chega a Ialta três dias depois de Suas Majestades.
Um jornal local anuncia que Rasputin hospedara-se no luxuoso
Hotel Rússia e que Nicolau, Alexandra e seus filhos o recebiam como a um
amigo e festejavam a Páscoa juntos. A população local tece comentários
maldosos sobre a presença do “demônio” junto a suas majestades.
Murmura-se que a czarina não suporta viver sem seu amante e leva-o em
suas viagens.
Perseguido pelos rumores que pensara ter deixado na capital,
Nicolau vê-se forçado a explicar a Rasputin como a sua presença no
momento comprometia a família imperial. Muito a contragosto, o stárets
conforma-se em fazer as malas e partir para a Sibéria, jurando voltar
apenas quando fosse invocado como salvador. Lança então um ultimato,
na verdade mais uma de suas profecias que em breve surpreenderia pela
exatidão:

“Esperarei dia e noite que o czar me chame para junto de si. Se não o fizer,
perderá dentro de oito meses seu filho e pouco mais adiante seu trono.”

A profecia realizar-se-ia com impressionante acurácia. Oito meses


depois, o czarévitch recebia a extrema unção em Spala e o czar via-se
forçado a recorrer a seu único salvador.

•••

“Senhor, não sou digno de que entreis em


minha morada. Mas dizei uma só palavra
e o meu servo será salvo.”
(Mt 8:8)

Em 1º de setembro a família imperial transfere-se para a reserva


de caça de Bialowieza, na Polônia. Cercada de 32.000 acres de floresta,
Bialowieza era o único lugar da Europa onde ainda podia-se encontrar
o bisão europeu, seus últimos exemplares reservados ao deleite pessoal
do czar. Caçador apaixonado, Nicolau partia à caça todas as manhãs em
alegres cavalgadas com aristocratas poloneses.
Alexei, que não podia cavalgar, costumava remar em um lago da

D R AG O E D I TO R I A L 199
M Á RC I A S A RC I N E L L I

reserva. Em uma de suas excursões, cai e fere a coxa esquerda ao descer do


barco. Dr. Botkin examina-o e constata um pequeno inchaço logo abaixo
da virilha, onde uma lasca de madeira havia-se alojado. Alexei queixa-se
de dores e é forçado a estar imóvel por vários dias. Após uma semana
o inchaço desaparece e Botkin proclama-o curado, receitando-lhe apenas
mais uma semana de repouso.
Após duas semanas em Bialowieza, a família parte para Spala, a
antiga reserva de caça dos reis da Polônia, e Nicolau retoma sua rotina de
caça e prática de esportes.
Alexei, entretanto, não se sente bem, está indisposto e um pouco
febril. A visão do menino pálido e triste por estar sempre em casa sem poder
brincar decide Alexandra a levá-lo em um passeio de carruagem. Partem
acompanhados de Ana Virubova, sacudidos pelo rolar da carruagem sobre
a estrada irregular. Após alguns quilômetros, Alexei começa a queixar-se de
dores na perna e no abdômen. Preocupada, Alexandra ordena ao cocheiro
que retorne imediatamente. Havia contudo um longo trecho a percorrer e
a cada movimento os gritos do czarévitch tornavam-se mais terríveis. Em
suas memórias, Ana Virubova descreveria o episódio como

“...uma horrível experiência. Cada movimento da carruagem, cada irregularidade


na estrada causava à criança as piores torturas e quando chegamos em casa, ele estava
quase inconsciente de dor.”

Examinando o menino, Dr. Botkin detecta uma severa hemorragia.


Os melhores médicos são convocados de São Petersburgo: o pediatra
Ostrogorsky, o cirurgião Rauchfuss, os clínicos Fedorov e Derevenko.
Foi diagnosticado “um grave envenenamento do sangue”. O professor
Fedorov, médico russo de reputação internacional, explica a Nicolau que
aquela era praticamente uma sentença de morte, diante da qual reconhecia
a própria impotência:

“A medicina nada pode fazer.”

Nenhum deles é capaz de aliviar o sofrimento do czarévitch e Suas


Majestades não permitiam que lhe ministrassem analgésicos.
A hemorragia forma um enorme hematoma que abrange a perna
esquerda, a virilha e o baixo-ventre. A perna de Alexei recolhe-se contra o
peito.
Nicolau escreveria à mãe:

200 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“O pobrezinho sofria intensamente, as dores vinham em espasmos a cada


quarto de hora. A febre fazia-o delirar dia e noite; ele de repente sentava-se na cama e cada
movimento trazia de novo a dor. Ele praticamente não dormia, não tinha forças para chorar
e repetia apenas ‘Senhor, tende piedade de mim’...”

Durante onze dias – o período mais difícil da crise – os gritos e
gemidos de Alexei tomam a casa e os empregados vedam os ouvidos com
algodão para poder trabalhar. Alexandra não deixa a cabeceira do filho
para trocar de roupa, comer ou dormir. Semiconsciente e lívido, o corpo
contorcido, os olhos saltados das órbitas, Alexei pede à mãe que o ajude.
Alexandra senta-se segurando sua mão e acariciando-lhe os cabelos, pedindo
silenciosamente a Deus que liberte o filho de sua tortura. Lágrimas correm
por seu rosto subitamente envelhecido. Nicolau não suporta tão bem a
provação e várias vezes deixa repentinamente o quarto do filho para chorar.
Fora do quarto do doente a vida seguia alegremente seu curso.
Preocupados em manter a farsa de normalidade, Nicolau ia à caça com
os aristocratas poloneses, as grão-duquesas organizavam representações
domésticas de peças de teatro, o chá era servido à hora ditada pelo protocolo
e convidados continuavam a comparecer aos jantares oferecidos por Suas
Majestades.
Apesar de todas as precauções, começavam a circular boatos sobre
o czarévitch e mesmo fora da Rússia, especulava-se sobre a sua saúde. No
“London Daily Mail” lia-se que o herdeiro do czar fora gravemente ferido
em um atentado terrorista. Finalmente, alertado por Dr. Fedorov de que a
hemorragia no estômago de Alexei seria provavelmente fatal, o czar permite
a publicação de boletins médicos sobre o estado do czarévitch, sem contudo
mencionar a causa da doença. Os insólitos comunicados são interpretados
pela nação como o anúncio do próximo fim do herdeiro e comovem o país,
que une-se em oração pela salvação do czarévitch. Em todas as igrejas da
Rússia celebram-se funções religiosas por seu restabelecimento. Nas grandes
catedrais e nas pequenas capelas os russos rezam dia e noite.
Os médicos admitem que não podem operar Alexei, com receio de
agravar a hemorragia e declaram-se impotentes, incapazes sequer de aliviar
sua dor, uma vez que não podiam ministrar-lhe morfina.
Nicolau e Alexandra estavam certos de que seu filho morreria em
breve. O próprio Alexei esperava e desejava a morte e perguntava à mãe:

“Quando eu morrer não vou sofrer mais, não é mamãe?”

D R AG O E D I TO R I A L 201
M Á RC I A S A RC I N E L L I

A 10 de outubro o czarévitch está em coma e recebe os últimos


sacramentos. O boletim que segue para São Petersburgo sugere que o
próximo anunciaria a morte do herdeiro.
Nesta mesma noite, exauridas todas as esperanças, Alexandra pede
a Ana Virubova que telegrafe a Rasputin em Pokrovskoe:

“Médicos desesperam. Tuas orações são a nossa única esperança.”

Em suas memórias, Maria Rasputin escreveria que o pai


encontrava-se à mesa com a família quando recebeu o telegrama. Ao ouvir
o conteúdo da mensagem lido em voz alta por Maria, Rasputin imedia-
tamente se levanta e dirige-se ao salão onde estavam expostos os ícones e
diz à filha:

“Minha pombinha, tentarei cumprir o mais difícil e mais misterioso de todos os


ritos... Não tenhas medo e faz com que ninguém entre aqui. Podes ficar se quiseres, mas
não fales comigo e não me toques. Não faças barulho. Apenas reza.”

Em seguida, pondo-se de joelhos diante das imagens, exclama:

“Cura teu filho Alexei, se tal é a Tua vontade! Dá-lhe a minha força, oh Deus,
para que possa curar-se!”

Enquanto ora, o rosto iluminado pelo êxtase, um suor abundante


escorre-lhe pela fronte. Ele arqueja, presa de um sofrimento sobrenatural,
e cai para trás, uma perna dobrada, a outra rígida. Segundo o testemunho
de Maria, Rasputin

“...parecia debater-se contra uma terrível agonia. Estava certa de que morreria.
Após o que me pareceu uma eternidade, abriu os olhos e sorriu. Ofereci-lhe uma xícara de
chá já frio, e ele bebeu avidamente. Alguns instantes depois voltava a si.”

Tomando para si o sofrimento de Alexei, substituindo-se


mentalmente a ele e absorvendo a sua agonia física e espiritual, mais uma
vez Rasputin age como xamã e mais uma vez logra sucesso. Como os
xamãs siberianos, Rasputin realiza o “voo mágico” e parece deter o dom
da simultaneidade e da ubiquidade.
Tão logo recupera suas forças, Rasputin apressa-se em telegrafar à
czarina :

202 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“Deus contou as tuas lágrimas e ouviu as tuas preces. O pequeno não morrerá.
Não permitas que os médicos o molestem muito.”

Em Spala, a czarina parece renascer ao ler o telegrama do stárets e


não duvida de que seu filho esteja salvo.
De fato, no dia seguinte Alexei ressurgia do coma, sua temperatura
se normalizava e o hematoma começava a ser reabsorvido. Às 14 horas os
médicos constatam que a hemorragia se estancara. Proclamam-no fora de
perigo e Fedorov admite:

“É uma melhora simplesmente inexplicável, totalmente estranha às pesquisas da


ciência.”

A devoção da czarina ao segundo messias conhece um novo ímpeto


e ela está certa de que enquanto pudesse contar com as intervenções de
Rasputin – mesmo à distância – seu filho viveria.
Alexei melhorava dia a dia. Nicolau podia dedicar-se com renovado
vigor à caça ao cervo e às suas inúmeras práticas esportivas, Alexandra
retomava pouco a pouco suas funções e a 2 de novembro um último boletim
médico informava à nação a cura completa do herdeiro ao trono.
Em novembro, os médicos consideram-no apto a ser transferido
a Tsarskoe Selo. Por ordem da czarina, a estrada que levava à estação é
pavimentada. De volta ao Palácio Alexander, Alexandra telegrafa a Rasputin
solicitando sua presença o mais brevemente possível. Ele entretanto prefere
fazer-se esperar e realiza seu retorno triunfal em dezembro.
Alexandra e as quatro grão-duquesas recebem o herói em casa de
Ana Virubova. Rasputin surge, endomingado, acompanhado por esposa e
filhas. Serve-se o chá e as grão-duquesas tecem amizade com Maria e Várvara.
Troyat (op.cit.) comenta a insólita cena:

“[Rasputin], sentado no centro deste círculo íntimo e inteiramente feminino,


saboreia o prazer de uma situação inusitada: a família de um camponês siberiano e a de Suas
Majestades, unidas pela amizade em torno de um samovar. Caíram as barreiras. A Rússia
profunda e aquela dos palácios se compreendem e se amam. O falatório da Duma e das
casas aristocráticas nada podem contra esta aliança do cetro e do arado. Enquanto czar e
povo marcharem juntos, o império seguirá esplendidamente o seu caminho. Como prova
de reconhecimento, a imperatriz inscreve Maria, a filha mais velha de Rasputin, no liceu
Steblin-Kamenska de São Petersburgo.”

Até então uma criança alegre e vivaz, depois de Spala Alexei

D R AG O E D I TO R I A L 203
M Á RC I A S A RC I N E L L I

torna-se sério e pensativo. Durante meses sua perna esquerda permaneceria


encolhida junto ao peito. Os médicos impõem-lhe um aparelho ortopédico,
um triângulo de metal que aos poucos forçava a perna a extender-se.
Durante um ano Alexei não seria capaz de caminhar e mesmo depois de
um ano ainda era submetido a uma série de banhos de lama e mancava
visivelmente. Em suas fotos oficiais, o czarévitch aparecia sempre sentado,
de modo que não se notasse a perna retraída.

204 D R AG O E D I TO R I A L
XI
“Por mim se vai à cidade dolente;
Por mim se vai ao sofrimento eterno;
Por mim se vai entre a perdida gente.
Justiça moveu o meu eterno fautor;
Criou-me a Suprema Potestade;
Suma Sapiência e Primeiro Amor.
Antes de mim apenas coisas eternas foram criadas;
E eu, eternamente existo.
Abandonai toda a esperança, vós que entrais.”

(Dante Alighieri, “A Divina Comédia” – Inferno, Canto III)


M Á RC I A S A RC I N E L L I

ARMAGEDON
“Toda moderação na guerra é um absurdo.”
(C. Von Clausewitz)

Tendo revolucionado os princípios essenciais da guerra, Napoleão


Bonaparte e Carl Von Clausewitz11 ditariam por muito tempo o tom
diplomático-militar na Europa. Embora tenha sido escrito antes do advento
das ferrovias e de armas que transformariam radicalmente o cenário da
guerra, nem por isto o livro de Clausewitz pode ser considerado obsoleto.
Até hoje os neoclausewitzianos continuam a adotar suas máximas: o
mundo é um conjunto de Estados, cada qual com sua lei; o objetivo da
política internacional é o poder e o poder é obtido por meio da violência.
O século XIX testemunhou um salto vertiginoso da ciência e
da tecnologia e, na Europa pós Napoleão e Clausewitz, o recrutamento
universal possibilitou a formação do exército de milhões. O culto à
ofensiva, o total aniquilamento do inimigo e o uso da tecnologia para a
destruição em massa tornaram-se dogmas militares. As potências europeias
aperceberam-se também da implausibilidade das leis internacionais e da
obsolescência dos preceitos de conduta cavalheiresca da casta militar. Só
não previram a senilidade, não apenas das regras da guerra vigentes, como
de uma série de princípios morais.
Embora se tratasse de um fenômeno europeu, a política prussiana
era a que melhor representava o militarismo pós-industrial. A Prússia foi
provavelmente o Estado que mais rapidamente se militarizou e aderiu
ao modelo clausewitziano de Estado Nacional. Esta nova mentalidade e
as novas tecnologias garantiram-lhe rápidas vitórias contra a Dinamarca
em 1864, a Áustria em 1866 e a França em 1870. De todos os europeus,
os alemães foram os que mais seguiram os preceitos clausewitzianos e
encontraram ocasião de constatar sua eficácia em suas vitórias através de
um exército baseado no recrutamento em massa, do emprego de táticas
ofensivas e de estratégias que visavam a completa destruição das forças
adversárias.
O grande erro, sobretudo por parte dos prussianos, foi o concen-
11 Considerado um “filósofo da guerra”, Carl Von Clausewitz (1780-1831) define a guerra
como uma continuação da política de Estado; um instrumento racional de política
nacional, baseada em uma avaliação de custos e lucros; um ato legítimo de violência,
planejado com o propósito de forçar o adversário a executar seu desejo. Segundo
Clausewitz, o Estado pode e deve servir-se da violência para atingir seus objetivos. Seu
livro “Da Guerra” tornar-se-ia uma espécie de Bíblia para os militares do século XIX.

206 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

trar-se na ofensiva e na necessidade de uma batalha decisiva para aniquilar o


inimigo, e ignorar ao menos duas das máximas de Clausewitz:

1 - A superioridade da defesa sobre o ataque.


2 - Não recuar diante de nenhuma efusão de sangue, cultivar
a impiedade e a excessiva brutalidade e servir-se de todos os meios para
destruir completamente o inimigo conseguirá vantagem sobre seu adversário
se este não agir da mesma forma.

•••

“ Não queiras cair apenas porque acreditas poder


encontrar quem te levante. Isto, ou não sucede,
ou, quando sucede, não te trará segurança, porque
é fraco meio de defesa o que de ti não depende.”
(N.Macchiavelli, “O Príncipe”)

A Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) custara à França a Alsácia-


-Lorena e milhares de vidas. A humilhação e as perdas sofridas pelo país
suscitariam um desejo nacional de vingança que só se aplacaria 47 anos mais
tarde, em Versailles. Com o estabelecimento do Império Germânico em
1871, a Alemanha Imperial emerge da guerra como uma potência militar
invencível, convicção acalentada sobretudo pela própria Alemanha. Sobre a
Prússia, O’Connell (op.cit.) escreveria:

“...esse exército proverbialmente mascarado de Estado, renascera das cinzas.


Esmagada em Jena-Auerstetd por Napoleão, reemerge, não punida, mas remilitarizada, sem
ter aprendido mais nada sobre a guerra além da famosa preferência de Deus pelas legiões
maiores e melhores. Abandonou os gigantes de Potsdam e os autômatos dos Hohenzollern
substituindo-os por um Volks exército e um cérebro militar centralizado [...] posto a
funcionar graças aos esforços de Helmuth von Moltke. Foi esse exército que conquistou à
Prússia a sua grandeza e unificou a Alemanha mediante um encadeado de vitórias militares
quase sem esforço. Mas com isso iria reforçar um perigoso leitmotif belicoso que acabaria por
trazer a ruína e a devastação.”

Os discursos de Otto von Bismarck, primeiro ministro prussiano


de 1862 a 1890 e chanceler do Reich de 1871 a 1890, revelavam sua natureza
violenta e maquiavélica, que lhe valeriam o respeito e o ódio da Europa. Em
1862 ele diria ao I Ministro britânico Disraeli:
“Quando chegar ao poder, meu primeiro cuidado será... reorganizar o exército...

D R AG O E D I TO R I A L 207
M Á RC I A S A RC I N E L L I

[Depois] agarro o melhor pretexto para declarar guerra à Austria, dissolvo a Dieta alemã,
submeto os Estados menores e dou unidade nacional à Alemanha, sob direção prussiana.”

Dito e feito. Já no poder, Bismarck declararia a um grupo de


parlamentares:

“As grandes questões atuais não serão decididas por discursos nem por votos da
maioria – este foi o grande erro de 1848-49 – mas com o sangue e o ferro.”

Bismarck consegue realizar praticamente todos os seus sonhos


prussianos: todo-poderoso de 1862 a 1890, reorganiza o exército, unifica a
Alemanha e em 10 anos vence três guerras. Não obstante a postura de superio-
ridade militar über alles, o Reich entretanto opta por uma estratégia diplomática
prudente e discreta a partir de 1871. Sob a égide de Bismarck, estreita seus
laços com a Áustria-Hungria dos Habsburg em uma Tríplice Aliança que
inclui a volátil Itália, e cultiva relações amistosas com a Inglaterra e a Rússia.
Vingativo, violento e tirânico, Bismarck pelo menos era lúcido e
agraciado com uma flexibilidade tática praticamente ilimitada. Tudo muda em
1888 com a ascensão ao trono do estridente e instável Guilherme II, cujo
moto era: “política mundial como dever, potência mundial como objetivo,
frota naval como instrumento.” O afastamento de Bismarck e a belico-
sidade do kaiser praticamente arremessam França e Rússia nos braços uma
da outra, temível aliança que mais adiante atrairia a Inglaterra, formando a
Tríplice Entente. Nos anos que antecedem a Grande Guerra, a Europa escapa
inúmeras vezes a uma guerra envolvendo as grandes potências e seus aliados,
o que Clausewitz profeticamente chamara de “guerra absoluta”.
Pressentindo a agonia do Império Otomano, cuja decomposição
gerava um vácuo político nos Bálcans, em 1853 a Rússia deixa-se levar por suas
taras autocráticas e invade a Turquia, dando início à Guerra da Criméia. Em
1875, a minoria sérvia da Bósnia-Herzegovina e seus aliados montenegrinos
rebelam-se contra o domínio otomano com o apoio da Rússia que, acorrendo
em defesa do povo eslavo, lança-se mais uma vez contra os turcos em 1877. A
Turquia é forçada a firmar o humilhante Tratado de Santo Estevão em 1878,
reconhecendo a ocupação russa na Bessarábia, a anexação de Chipre pelos
britânicos e o status provisório da Bósnia-Herzegovina como protetorado da
Áustria-Hungria.
Em 1903, oficiais ultranacionalistas liderados por Dragutin
Dimitrievitch – o legendário Ápis – assassinam o rei Alexandre e a rainha
Draga da Sérvia. Alexandre é substituído por Pedro I, um nacionalista
comprometido com o projeto da Grande Sérvia. Ápis era um dos criadores

208 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

dos grupos terroristas “Mão Negra” e “Jovem Bósnia”, dedicados sobretudo a


desinfetar os Bálcans da presença austro-húngara. Todas as facções terroristas
eslavas eram financiadas e apoiadas – aberta ou veladamente – pela Rússia,
grande mãe de todos os povos eslavos.
Ainda em 1903, surge um desentendimento entre a Alemanha e a
Rússia a propósito da construção da ferrovia que ligaria a Alemanha à Pérsia,
a Berlin-Bagdad-Bahn.
Em 1905, o kaiser Guilherme II desembarca com pompa e séquito
no porto de Tânger, reacendendo a velha chama entre Alemanha e França.
Em 1908, por ocasião da anexação da Bósnia-Herzegovina ao Império
Austro-Húngaro, Nicolau II consegue evitar uma guerra entre a Rússia e a
Áustria-Hungria, numa peripécia diplomática considerada vergonhosa pelas
potências europeias. A Rússia é internacionalmente humilhada e o governo
sérvio, irritado pela anexação, lança-se em uma campanha pela conquista dos
despojos turcos da Macedônia e da Albânia.
Em 1911, a chegada da canhoneira alemã Panther ao porto de Agadir,
em óbvio desafio aos franceses, por pouco não provoca mais uma guerra
entre os dois países. A Inglaterra também irrita-se com a presença alemã em
Agadir, temendo as intenções do kaiser quanto às águas do Atlântico, onde a
Royal Navy reinava soberana.
Em 1912, sérvios, gregos, búlgaros e montenegrinos unem-se – por
assim dizer – na inflamada Liga Balcânica e ameaçam destruir o precário
equilíbrio das alianças europeias. Quatorze aliados vencem a I Guerra
Balcânica contra o que restara do Império Otomano. Um ano depois, a Liga
envolve-se na II Guerra Balcânica, desta vez unida contra a Bulgária, com o
apoio da Turquia. A Sérvia surge como a grande vitoriosa e a maior potência
balcânica. A Grécia, a Romênia e a Albânia conquistam territórios e vantagens
e a Bulgária alia-se ao Império Austro-Húngaro.
Em 1913, agravam-se os conflitos de interesse entre a Áustria-Hungria
e a Rússia nos Bálcans. Apesar da pressão de seus generais, que consideravam
praticamente ganha Constantinopla, antigo sonho da Rússia, Nicolau resiste à
tentação de intervir militarmente na região. Políticos moderados aconselham
ao czar cautela e neutralidade, em vista da instabilidade interna e do despreparo
militar da Rússia, que não resistiria às forças combinadas da Áustria-Hungria
e da Alemanha. Nicolau entretanto acreditava que a Alemanha manter-se-ia
neutra e não interviria em caso de conflito.
No outono de 1913, o kaiser Guilherme II envia a Constantinopla uma
missão permanente. Embora irritado com a atitude do primo, como sempre
belicoso e histriônico, Nicolau permanece convicto de que a Alemanha
manteria a sua neutralidade. Sua convicção era aparentemente refratária a

D R AG O E D I TO R I A L 209
M Á RC I A S A RC I N E L L I

evidências ainda mais claras da beligerância do kaiser, como a resposta deste


ao protesto de Nicolau contra a ocupação de Constantinopla:

“Prevejo que entre as duas raças – a eslava e a alemã – explodirá brevemente um


conflito: devo preveni-lo. Saiba que os alemães darão início às ações bélicas. Se uma guerra é
inevitável, não é relevante quem a inicia. Estou preocupado com o que pode acontecer, mas
digo-lhe que a guerra é inevitável – creia-me, não estou exagerando...”

Ainda que estes desentendimentos em geral terminassem em acordos


amistosos, a Europa sabia-se sentada sobre um barril de pólvora. O menor
impasse ameaçava o delicado equilíbrio europeu e levava à mobilização geral.
As disputas entre Inglaterra e Alemanha pela supremacia no mar, os fermentos
nacionalistas no Império Austro-Húngaro, a aspiração das nações eslavas à
autonomia, a política balcânica russa, o revanchismo francês, o imperialismo
britânico e o pangermanismo alemão apontavam para um desfecho bélico.
A consciência desta situação e o advento da Revolução Industrial aceleram a
corrida armamentista, que assume um ritmo frenético.
Cada uma das grandes potências compõe um plano de ação que
garantiria uma rápida vitória após um breve conflito, caso o frágil edifício de
alianças e acordos secretos desmoronasse. A Alemanha, forçada desde 1894,
com a aliança franco-russa, a considerar a possibilidade de uma guerra em
duas frentes, elabora o Plano Schlieffen. O plano alemão previa a invasão da
França através do Luxemburgo e da Bélgica, e a varredura dos franceses em
um gigantesco movimento circular que os empurraria em direção à Alsácia-
-Lorena, onde os aguardaria o abraço germânico. Durante este simples
exercício, considerado pelos prussianos contemporâneos uma obra-prima da
estratégia militar, parte do exército conteria as forças do czar no front oriental.
A ação contra a França duraria no máximo seis semanas, após o que o grande
Reich poderia dedicar-se à aniquilação do exército russo. “Almoço em Paris e
jantar em São Petersburgo”, como gostava de repetir o kaiser.
O famoso Plano 17 da França era igualmente ofensivo e previa que,
quando a Alemanha atacasse a oeste, os franceses rumariam em direção à
Alsácia-Lorena e às Ardenas, diretos a Berlim.
A Áustria pretendia esmagar a cabeça da “víbora sérvia” em uma
breve campanha e invadir a Rússia a partir da Polônia.
A Rússia planejava uma dupla ofensiva: uma contra a Áustria-
-Hungria, ao norte dos Cárpatos e outra contra a Alemanha, na Prússia
Oriental.
A Inglaterra tramava o bloqueio e o estrangulamento gradual da

210 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Alemanha à distância, servindo-se de sua superioridade naval inconteste.


Para o combate terrestre, a “pérfida Albion” enviaria seis divisões em ajuda
às forças francesas.
Em retrospecto, destacam-se os aspectos absurdos de cada plano
e as coincidências entre eles. É evidente uma confluência de esquemas
táticos; aparentemente, todos haviam lido o seu Clausewitz – não muito
atentamente – e estavam decididos a atirar-se uns contra os outros à primeira
oportunidade. Esta coincidência deve-se ao culto à ofensiva recentemente
reanimado na Europa e à insistência dos generais em ignorar informações
da inteligência. O Plano 17 não parecia levar em consideração a esmagadora
superioridade alemã em termos de homens e de armas. Além disto, o general
Joffre sistematicamente desprezava relatórios da espionagem que informavam
que a Alemanha pretendia invadir a Bélgica – com a qual havia firmado um
tratado de não agressão, ao qual os alemães se referiam como “um pedaço
de papel”– e cortar o flanco do ataque francês. Por sua vez, a Alemanha
prefere ignorar o fato de não possuir apoio logístico para levar a cabo o
Plano Schlieffen em todo o seu esplendor. Chegado o momento de pô-lo
em ação, improvisa e compromete sua eficácia. Quanto aos russos, bastar-
-lhes-ia reunir suas tropas e aguardar calmamente que todos se atacassem
mutuamente para então colher os frutos que o tempo, o clima, a superio-
ridade numérica e a imensidão de seu território lhes garantiriam.
O pendor militarista e as antipatias acirradas pelas ideologias naciona-
listas do final do século XIX não permitiriam que reinasse a razão ou mesmo
o velho bom senso entre as potências europeias, que pareciam ansiar por
uma solução bélica. Tendo resistido à quase irresistível tentação de intervir
militarmente durante as duas guerras balcânicas, à iminência de um grave
conflito nações mais beligerantes como a Alemanha e a Áustria-Hungria, e as
rancorosas como a França, aguardavam apenas uma provocação para pôr em
marcha a máquina de destruição com que pretendiam surpreender o mundo.
O barril de pólvora seria aceso em 1914, em Saraievo.

•••

“Uma guerra entre a Rússia e a Áustria seria


extremamente benéfica para a revolução.
Mas é muito pouco provável que Francisco José
E Nicky nos façam esse favor.”
(Lenin – carta a Gorki)

D R AG O E D I TO R I A L 211
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Em 1914, o imperador Francisco José tinha 84 anos e reinava desde


1848. Como o de Nicolau II, seu reinado parecia marcado por múltiplos
infortúnios: seu único filho e herdeiro, o príncipe Rodolfo, suicidara-se
com sua amante em um pacto de amor em Mayerling; sua esposa adorada,
a imperatriz Elisabeth12, fora assassinada pelo punhal de um anarquista;
seu irmão Maximiliano tornara-se imperador do México e fora fuzilado
pelas tropas de Benito Juarez. Tudo o que lhe restara era seu sobrinho – e
herdeiro, desde a morte de Rodolfo – o arquiduque Francisco Ferdinando,
que já lhe inspirava desgostos variados.
Contrariando a vontade do tio, Francisco Ferdinando casara-se com
uma plebeia, Sophia Chotek, que para cúmulo das aflições do imperador,
era tcheca. Francisco José obrigara o sobrinho a renunciar ao trono em
nome de todos os filhos que tivesse com Sophia. Em público, a esposa
do herdeiro do Império Austro-Húngaro era forçada a colocar-se atrás da
mais insignificante das damas da corte e a sentar-se em um ponto remoto
à mesa imperial. As constantes humilhações impostas a Sophia inspiravam
cenas violentas entre Francisco Ferdinando e sua família. O imperador,
contudo, não cedia.
Um tipo moderado e de ideias liberais, o arquiduque era um
fenômeno de impopularidade na corte como em todo o Império. Ao
contrário do tio, defendia a “monarquia trialista” que estenderia aos eslavos
(que formavam 2/5 do Império) a mesma autonomia de que gozavam
austríacos e húngaros. Francisco Ferdinando pretendia assim drenar o
movimento pan-eslavista que incitava tchecos, croatas, eslovacos, sérvios
e eslovenos à insurreição. Esta solução desagradava tanto a austríacos e
magiares – pouco interessados em dividir o poder – quanto aos naciona-
listas eslavos, que viam ameaçado o seu sonho de formar um reino eslavo.
No dia 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando
visitava Saraievo, a capital da província austríaca da Bósnia-Herzegovina,
após observar as manobras militares austríacas junto à fronteira com a
Sérvia. A data escolhida para a sua visita é encarada pelos sérvios como
uma provocação: no dia 28 de junho de 1349 a Sérvia era derrotada e
engolida pelo império turco.
Embora fosse um católico fervoroso, Francisco Ferdinando
cobrira-se de “talismãs mágicos”, que esperava que o protegessem de
quaisquer perigos naquele dia. Como símbolo de suas intenções pacíficas,
12 Trata-se da mítica Sissi, uma das mulheres mais patologicamente vaidosas de todos
os tempos e provavelmente a mais ilustre anoréxica da história, imortalizada nos anos
’50 em uma série de filmes.

212 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

o arquiduque viera acompanhado de sua esposa Sophia, mãe de seus três


filhos deserdados, e dispensara as tropas imperiais reservadas para a sua
proteção. Apenas 150 policiais locais encarregavam-se de sua segurança,
enquanto Francisco Ferdinando e Sophia desfilavam em carro aberto em
meio à multidão. Devido à sua origem plebeia, Sophia jamais acompanhava
o marido em viagens oficiais. Neste dia, contudo, o arquiduque obtivera
para ela uma permissão especial, em homenagem a seu aniversário de
casamento.
O arquiduque e sua esposa foram recebidos pela população com
sorrisos e acenos. Retratos do herdeiro adornavam as fachadas das casas
e dos edifícios. Francisco Ferdinando estava muito satisfeito. Quando a
comitiva se aproximava da prefeitura em meio a um cortejo de flores,
uma bomba destinada ao carro imperial – que teria aterrissado no colo de
Sophia se o motorista não desviasse a tempo – atinge o terceiro carro da
comitiva e fere dois oficiais austríacos. A polícia detecta rapidamente em
meio à multidão o autor do atentado, que ingere ali mesmo uma cápsula
de cianureto e atira-se no rio Miliatchka. O veneno entretanto não surte
qualquer efeito, pois havia sido adquirido muito antes do atentado e perdera
suas propriedades. Para cúmulo de seus dissabores, a água do rio naquele
trecho chegava-lhe à altura do umbigo. O jovem terrorista sobrevive à
dupla tentativa de suicídio, para enfrentar um violento interrogatório da
polícia.
O arquiduque estava furioso e compreensivelmente abalado. Sua
visita amigável e suas boas intenções eram recompensadas com atentados
terroristas. “Venho para uma visita – gaguejava – e sou recebido com
bombas!”
Após uma rápida deliberação, um oficial da comitiva imperial
solicita uma guarda militar para Suas Majestades – o que ofende os brios
do governador da província: “O senhor então acha que Saraievo está cheia
de assassinos?”
Decidiu-se por fim voltar por uma rota diferente. O motorista do
carro imperial, contudo, erra o caminho e entra em uma rua sem saída
onde coincidentemente um dos conspiradores tomava cerveja em um bar.
O terrorista vê-se frente a frente com o carro aberto do herdeiro e decide
colher a oportunidade de eliminá-lo ali mesmo. Sobe no estribo e dispara
duas vezes. Sophia cai contra o peito do marido. Francisco Ferdinando
continua na mesma posição e por alguns momentos ninguém percebe que
ele havia sido atingido no pescoço e sangrava profusamente. O governador,
sentado no banco da frente, ouve-o murmurar:

D R AG O E D I TO R I A L 213
M Á RC I A S A RC I N E L L I

“Sophia, Sophia, não morra! Viva para os nossos filhos!”

Sophia, porém, já estava morta. Quinze minutos mais tarde, em um


quarto ao lado do salão onde o champagne gelava em baldes de prata para
a festa da sua recepção, o arquiduque expirava. Suas últimas palavras foram:

“Isto não é nada”.

O assassino era um jovem bósnio de origem sérvia. Gavrilo Princip


tinha 19 anos e fora treinado e armado pelo grupo terrorista Mão Negra,
que defendia a união eslava sob o comando da Sérvia. Preso horas depois do
atentado, Princip (que também ingerira uma cápsula de cianureto que não lhe
causaria qualquer mal estar) morreria de tuberculose em 1918, após quatro
anos de sofrimentos atrozes em uma gélida prisão austríaca, sem sequer
suspeitar da importância histórica de seu último ato como homem livre. O
assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Saraievo funcionaria
como o “mais poderoso detonador da história da humanidade”13 e seu eco
repercutiria pelo século afora.

•••

“Todos querem esta guerra, todos estão felizes


por verter o próprio sangue em seu altar...”
(R. Rolland)

Na primavera de 1914, quando seu secretário de Estado apresen-


tou-lhe documentos que comprovavam que a Alemanha preparava-se para
a guerra, Nicolau recusou-se a ouvi-lo e a levar a sério suas advertências.
Mesmo depois do atentado de Saraievo, diante de embaixadores e ministros
preocupados com a possibilidade de uma guerra contra a Áustria-Hungria e
sua aliada Alemanha, Nicolau diria:

“Não consigo acreditar que o kaiser deseje uma guerra. Se os senhores o


conhecessem como eu o conheço! Se soubessem como seus gestos podem ser teatrais!”

E, aos temores do presidente da França, Poincaré, com relação à


guerra que julgava iminente, Nicolau objetaria:
13 J. Binder, “Jornal do Século XX”.

214 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“O Imperador alemão é muito cauto para lançar seu país em selvagens aventuras
e, quanto a Francisco José, este preferiria morrer em paz...”

A avaliação de Nicolau das intenções do kaiser e suas previsões


sobre a reação do imperador austríaco ao atentado de Saraievo provaram
ser tão equivocadas e pueris como em geral tendiam a ser seus julgamentos
de situações e indivíduos. Entretanto, o czar não foi o único a subestimar
os elementos desta crise que determinaria a deflagração de uma guerra
mundial.
Em retrospecto, a inevitabilidade da guerra, com suas terríveis
emanações e sequelas, parece evidente; tão evidente que é necessário um
grande esforço imaginativo para aceitarmos o fato de que, para a grande
maioria dos europeus, este desfecho era inimaginável. A Europa reagiu
a Saraievo com horror anestesiado. Afinal, guerras, revoluções, conspi-
rações, assassinatos e atentados terroristas eram os ingredientes da política
balcânica, e no máximo esperava-se algum tipo de medida punitiva contra a
Sérvia. Passado o espanto inicial, a imprensa expressava a indignação geral
diante da violência do atentado, mas não lhe atribuía maiores consequências
políticas. O jornal francês Le Figaro, por exemplo, vaticinava: “Nenhum
motivo de preocupação”, lembrando que atentados à bomba eram fatos
corriqueiros e informando que tanto o kaiser Guilherme II quanto o czar
da Rússia velejavam alegremente em seus iates espetaculares sob o sol de
verão.
Entretanto, o rancor justificado e fundo de Francisco José não se
aplacaria com frouxas medidas punitivas. Até então, o velho imperador
resistira ao impulso de conduzir uma guerra preventiva contra os sérvios;
a partir de 1913, com a inflação territorial da Sérvia, Francisco José ansiava
por uma desculpa para esmagá-la. Melhor desculpa do que o assassinato de
seu herdeiro não havia.
O chefe de Estado-Maior austríaco, Conrad von Hötzendorff,
proclama o assassinato a “declaração de guerra da Sérvia à Áustria-
-Hungria”. O imperador escreveria a Guilherme II:

“...não foi o trabalho de um único indivíduo, mas um plano bem organizado


cujas tramas estendem-se até Belgrado. Embora seja difícil estabelecer a cumplicidade
do governo sérvio, ninguém pode duvidar de que sua política de união dos eslavos sob
a bandeira sérvia encoraja tais crimes e que a continuação desta situação é um perigo
crônico para a minha casa e os meus territórios. A Sérvia precisa ser eliminada como fator
político nos Bálcans.”

D R AG O E D I TO R I A L 215
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Enquanto a Europa encarava Saraievo como mais um imbroglio


balcânico, Viena fervia. Após o assassinato, um oficial do ministério das
Relações Exteriores austríaco, enviado a Saraievo para investigar a respon-
sabilidade do governo sérvio, conclui que este não estava envolvido no
ato terrorista. As autoridades alemãs chegam à mesma conclusão. O
chanceler von Bülow garante que “o governo sérvio não instigara nem
desejara o assassinato. Os sérvios estavam exaustos após duas guerras.”
Estas informações, contudo, não refreariam o ímpeto bélico austríaco, nem
abrandariam o ressentimento de Francisco José.

•••

“É belo bater-se, as mãos puras e o coração inocente,


e com a própria vida operar a justiça divina.”
(L. Gillet a R. Rolland, 1/8/1914)

Ao invés de atacar a Sérvia imediatamente, como desejariam


Francisco José e seus generais, o chanceler Berchtold prefere adotar uma
tática mais sutil. Berchtold sugere enviar à Sérvia um ultimato tão aviltante
que nenhuma nação soberana poderia aceitá-lo.
O texto do ultimato, enviado à Sérvia a 23 de julho, declarava que
o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando havia sido orquestrado
por oficiais sérvios em Belgrado com o beneplácito do governo sérvio.
Como compensação, a Áustria exigia que oficiais austríacos conduzissem
sua própria investigação no país. O ultimato, que expirava em 48 horas, exigia
também a supressão de toda a propaganda nacionalista sérvia dirigida contra
o Império, a dissolução das sociedades nacionalistas sérvias e a demissão de
todos os oficiais sérvios “antiaustríacos”.
As implicações do ultimato eram claras e todos os diplomatas
europeus que leram o documento não tiveram dúvidas quanto às intenções
da Áustria. Em Londres, o secretário do Ministro do Exterior, Sir Edward
Gray, disse ao embaixador austríaco que jamais um governo havia dirigido
a outro tão formidável documento. Em Viena, o conde Hoyos, oficial do
governo, diria que

“As exigências da Áustria são tais que nenhum país que possua o mínimo de
orgulho nacional ou dignidade poderia aceitá-las.”

Em São Petersburgo, o ministro do Exterior Sazonov concluía


simplesmente:

216 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“C’est la guerre européenne.” (É a guerra europeia).

Ao receber o ultimato, o governo sérvio imediatamente recorre


à Rússia, sua tradicional protetora. Em resposta ao apelo sérvio, Nicolau
telegrafa de Tsarskoe Selo ao príncipe sérvio:

“Enquanto houver esperança de evitar derramamento de sangue, todos os meus


esforços concentrar-se-ão nesta direção. Se falharmos em alcançar este objetivo, apesar de
nossos sinceros desejos de paz, Vossa Alteza Real pode estar certa de que a Rússia de modo
algum permanecerá indiferente ao destino da Sérvia.”

Um conselho militar reúne-se em Krasnoe Selo a 24 de julho e no


dia seguinte Nicolau convoca seus ministros a Tsarskoe Selo. Para os homens
reunidos no estúdio do czar, o ultimato da Áustria à Sérvia parecia dirigido
diretamente à Rússia. Defensora da independência da Sérvia e eterna protetora
dos povos eslavos, a ameaça à Sérvia era um acinte ao poder da Rússia e
à sua influência política nos Bálcans. Ministros e generais proclamavam
inadmissível para uma potência como a Rússia, tolerar a afronta à Sérvia.
O ultimato causa grande agitação na Rússia, ferida em seu orgulho
eslavo pela política retaliatória e expansionista austríaca. A opinião geral,
sobretudo nos círculos pan-eslavistas, patrioteiros e militaristas russos, era
de que seria inaceitável uma posição de neutralidade por parte da Rússia
diante da possibilidade de um conflito austro-sérvio. Em 1908, quando da
anexação da Bósnia-Herzegovina, a Rússia havia sido humilhada de maneira
espetacular, sua diplomacia ridicularizada internacionalmente e sua influência
política nos Bálcans desacreditada. Sir Arthur Nicholson, então embaixador
britânico em São Petersburgo, escreveria que

“Na história recente da Rússia... nunca houve um momento em que o país sofreu
tal humilhação e, embora tenha enfrentado dificuldades e problemas internos e externos e
tenha sofrido derrotas no campo de batalha, a Rússia jamais havia sido forçada a submeter-se
às exigências de um país estrangeiro.”

Apesar da relutância do czar em engajar-se em uma guerra para a


qual sabia não estar preparado, ministros e generais estavam decididos
a não permitir que a Rússia fosse novamente aviltada e sua soberania na
Europa questionada. A lembrança da infâmia de 1908 ainda pulsava entre
eles e mesmo o czar, manso mas orgulhoso, estava resolvido a não ignorar
semelhante ultraje.

D R AG O E D I TO R I A L 217
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Através de Sazonov, ministro das Relações Exteriores, a Rússia inicia


tentativas de negociação com a imperturbável Áustria. Esta, firme em sua
determinação de vingar-se da Sérvia e insuflada pela fidelidade nibelúngica
de Guilherme II, despreza os esforços russos no sentido de evitar um
confronto armado. Guilherme II também permanece surdo aos apelos de
Nicolau para que sirva de mediador entre a Áustria e a Sérvia e submeta a
contenda à Corte Arbitrária de Haia. Enquanto isso, o embaixador sérvio
na Rússia telegrafava, animadíssimo, a Belgrado, informando que o apoio
russo era garantido e que neste caso:

“...um ataque por parte de Viena é quase desejável. Esta é a nossa ocasião
histórica. Portanto, avante, em nome de Deus!”

Para perplexidade de Viena e espanto geral, a Sérvia aceita


praticamente todas as exigências do ultimato e a 25 de julho responde à
Áustria em termos quase vergonhosamente conciliatórios. Em Viena, o
chanceler Berchtold, atônito com o desenlace de sua manobra tática, decide
ocultar aos embaixadores a resposta da Sérvia. Quando o embaixador
alemão em Viena pede para ler o documento, Berchtold esquiva-se alegando
excesso de trabalho no Ministério do Exterior.
Três dias depois, a 28 de julho, Berchtold e seus colegas haviam-se
decidido. A Áustria rejeita a resposta da Sérvia e emite uma declaração
de guerra. A 30 de julho proclama a mobilização geral e a 31 de julho
bombardeia Belgrado.
Contra as admoestações do kaiser, que insistia na necessidade
de sua neutralidade, a Rússia inicia operações militares e a 30 de julho
inaugura a mobilização geral. Ignorando que o kaiser instigava Francisco
José a declarar guerra à Sérvia e à Rússia, prometendo-lhe apoio incondi-
cional, Nicolau ainda tenta negociar com Viena uma solução pacífica para
o conflito. Para assisti-lo nesta missão, o czar tenta servir-se de ninguém
menos do que Guilherme II, típico prussiano a quem nada alegrava mais
do que uma boa guerra. Neste mesmo dia, a Alemanha declara guerra à
Rússia, conseguindo ainda surpreender o czar. E assim, claudicante e aos
arrancos, Nicolau II era empurrado como uma rês em direção a mais uma
decisão infeliz: a de envolver-se em uma guerra quixotesca para a qual sabia
não estar preparado, guerra que não tardaria a ser-lhe fatal, a ele, à sua
família, à dinastia e ao Império.
Pode-se dizer que, se os motivos que levaram a Alemanha, a
Áustria, a Inglaterra e a França a embrenhar-se em uma “guerra absoluta”

218 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

eram torpes, os da Rússia eram simplesmente estúpidos. Foram poucas,


contudo, as pessoas que se esforçaram em dissuadir o czar de lançar-se em
uma guerra absurda contra inimigos tão potentes, apenas para defender
os sérvios. Como exemplo expressivo destes raros e corajosos esforços
figura a grande pitonisa da era czarista, o conde Witte. O ex-ministro
procuraria servir-se dos últimos resquícios de consideração que lhe tinha
o imperador para tentar convencê-lo do despropósito desta guerra. Tudo
o que consegue é irritar o czar, que era dado a longos rancores – neste
caso reavivados diariamente pela czarina, que em matéria de rancor não
encontrava par em toda a cristandade. Enquanto vivessem, Suas Majestades
não lhe perdoariam o infeliz Manifesto.
Em suas memórias, M. Paléologue registraria uma conversa com
Witte, durante a qual o ex-ministro, lúcido e pragmático como sempre,
formula suas preocupações:

“Esta guerra é uma loucura! Por que razão a Rússia deveria combater? Pelo nosso
prestígio nos Bálcans? O nosso sacro dever de ajudar os nossos irmãos de sangue? Esta é
uma romântica quimera ultrapassada. Na Europa, qualquer pessoa que raciocine considera
pouco mais do que nada este povo violento e vaidoso, os sérvios que não possuem sequer
uma gota de sangue eslavo, que são no máximo turcos batizados. Devemos impor aos
sérvios a punição que eles merecem. Isto, com relação ao objetivo da guerra.
“Falemos agora das vantagens que a guerra poderá nos trazer. O que podemos
esperar? Uma expansão do país? Santo Deus! Não é o império de Sua Majestade suficien-
temente grande? Por acaso não temos na Sibéria, no Turquistão, no Cáucaso e nas
terras puramente russas, imensos territórios que ainda nem foram explorados? O que
poderíamos anexar ao império? A Prússia Oriental? Por acaso o soberano não possui
súditos alemães em número suficiente? E a Galícia? Está cheia de judeus! Constantinopla,
a cruz do cristianismo erguida sobre Santa Sofia, o Bósforo, os Dardanelos? É pura
loucura até mesmo dedicar a isto uma séria reflexão.
“E, mesmo que conseguíssemos uma vitória total, e os Hohenzollern e os
Habsburg fossem tão pequenos a ponto de mendigar a paz e submeter-se às nossas
condições – isto não significaria o fim do domínio alemão, mas antes a proclamação de
repúblicas em toda a Europa! Seria também o fim do czarismo.
“Prefiro não falar do que nos aguardaria caso fôssemos derrotados... A minha
conclusão prática é a de que devemos concluir o mais rapidamente possível esta estúpida
aventura.”

Outras tentativas, menos racionais mas de cunho igualmente


profético, partiriam do já todo-poderoso Rasputin, a esta altura senhor

D R AG O E D I TO R I A L 219
M Á RC I A S A RC I N E L L I

absoluto da saúde do czarévitch hemofílico e do precário equilíbrio da


czarina histérica. De seu leito no Hospital de Tyumen, onde se recuperava
de uma tentativa de assassinato, o stárets envia um telegrama ao czar,
através do eterno pombo-correio, Ana Virubova:

“A guerra trará o fim da Rússia e de Vós próprios e perdereis tudo, até o último
homem.”

A conselho do general Nikolai Nikolaievitch, que estava presente


quando o czar recebeu o telegrama, Nicolau rasga em pequenos pedaços
a funesta mensagem. Rasputin entretanto não desiste, e envia ao czar uma
carta de próprio punho:

“Caro amigo, repito mais uma vez que sobre a Rússia paira uma nuvem
gigantesca, plena de sofrimentos e lutos; é escura e não permite a passagem de nenhuma
luz. Escorrerá um mar incalculável de lágrimas e de sangue. Eu sei, exige-se de Vós a
guerra, e Vós não compreendeis que ela trará inexoravelmente a destruição. É difícil o
caminho do Senhor quando se esgota a razão. O pai-czar não deve permitir aos loucos
que o destruam e que destruam seu povo. E, mesmo que vençamos a Alemanha, o que
será da Rússia? Não se poderá recordar tanto sofrimento desde o início dos tempos, e a
Rússia se afogará em sangue. A queda será terrível e a dor não terá fim.”

Nicolau II fora até então pressionado, sobretudo pelos pan-esla-


vistas, por seus generais e pela opinião pública a posicionar-se claramente a
favor da Sérvia. A partir da declaração de guerra da Alemanha à Sérvia e da
mobilização geral da Rússia, a crise se precipita. A Alemanha declara guerra
à Rússia e em seguida, à França. A Bélgica nega a passagem dos alemães
por seu território e a Alemanha invade a Bélgica. A Inglaterra e a Sérvia
declaram guerra à Alemanha, a Áustria à Rússia, a França e a Inglaterra à
Áustria e o Japão à Alemanha. Rússia, Inglaterra e França declaram guerra à
Turquia. A Itália e a Grécia proclamam-se neutras, mas a primeira declararia
guerra à Áustria em maio de 1915 e a segunda unir-se-ia aos aliados em
1917. Em agosto de 1916, a Romênia declararia guerra à Áustria-Hungria.
As nações pareciam dominadas por uma estranha vertigem, uma espécie de
alucinação coletiva que as precipitava loucamente, umas contra as outras,
sem temor e sem escrúpulos. Um silêncio como que cúmplice reinava nas
Igrejas, e nem uma voz se ergueria nos templos contra o furor sanguinário
que se apoderava de nações cristãs.
A Grande Guerra transformaria para sempre a face do mundo e

220 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

a alma dos homens. Ao final de quatro anos de conflito, custara 10 milhões


de vidas, 21 milhões de mutilados, cerca de 230 trilhões de dólares e quatro
impérios: a Áustria-Hungria, a Alemanha, a Turquia e a Rússia. Além disso, os
Estados Unidos se afirmariam como superpotência e nunca mais deixariam
de interferir nas crises europeias.
Naturalmente, a expressão “Primeira Guerra Mundial” não seria
usada até 1939, com o advento da Segunda Guerra Mundial. Até então
o conflito seria designado apenas como Grande Guerra e, como a Peste
Negra e a Grande Depressão, dispensava outros adjetivos. Nunca houvera
uma guerra sequer semelhante em toda a história da humanidade e cria-se
que seria para sempre única. Na verdade, a Grande Guerra permanece única
em seu significado. Séculos de civilização ocidental sofreriam um abalo sem
paralelo na história. A visão que o homem ocidental possuía de si próprio
seria para sempre abalada, gerando uma crise moral e espiritual de que não
mais se recuperaria. O século XX inaugura-se, não com a morte da rainha
Vitória em 1901, mas em 1914, em Saraievo. De sob os escombros do velho
mundo, o homem surgia para sempre transmutado.
Ao final da guerra, entre 1918 e 1919, cerca de 50 milhões de pessoas
morreriam durante a pandemia de gripe espanhola (cuja origem alguns autores
atribuem aos cadáveres insepultos da Grande Guerra). Esses números,
entretanto, figuram apenas em notas do rodapé da História, ofuscados pelo
fútil morticínio da Grande Guerra.

•••

“Oh Deus! Como é bela a guerra


Com suas canções e suas longas tréguas!”
(G. Apollinaire)

A guerra era iminente e nenhum dos países envolvidos quis renunciar


aos próprios objetivos políticos em nome da paz: a Áustria-Hungria
agarrava-se com unhas e dentes ao ideal imperialista multinacional e ao seu
rancor de superpotência ultrajada que permitia-lhe finalmente subjugar a
Sérvia; a Sérvia almejava uma expansão territorial nos Bálcans; a Inglaterra
temia o expansionismo russo e alemão no Oriente Médio; a França resolvera
servir-se do apoio russo para vingar-se da Alemanha e instigava a Rússia à
guerra; a Alemanha desejava engolir a França e diminuir o poder da Rússia
e instigava a Áustria à guerra; a Rússia temia um novo fiasco de sua política
balcânica, via-se ameaçada por uma revolução interna, e esperava deslocar
o foco da ira popular para inimigos externos.

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

Em abril de 1912, durante a greve dos trabalhadores das minas de


ouro Lena na Sibéria, um oficial embriagado ordenara aos soldados que
abrissem fogo contra os grevistas que realizavam uma passeata pacífica.
Duzentas pessoas morreriam durante este “Segundo Domingo Sangrento”.
Em 1913, o ano do tricentenário da dinastia Romanov, 700.000 trabalhadores
estavam em greve em toda a Rússia e em julho de 1914 este número cresceria
para 1.500.000. Em São Petersburgo, multidões de grevistas e desordeiros
quebravam janelas, saqueavam lojas e erguiam barricadas nas ruas. A
declaração de guerra da Alemanha, contudo, apaga magicamente a chama
revolucionária dos operários. Uma atmosfera patriótica envolve a Rússia e
os inimigos e conflitos internos desaparecem diante da estatura do inimigo
externo comum. Todos os extratos da população russa unem-se no esforço
heroico de combate à tradicionalmente odiada Alemanha. Indústrias bélicas
trabalham a todo vapor, organizam-se ações de coleta de fundos, palácios
transformam-se em hospitais, civis e militares participam ativamente do
esforço de guerra. Num impulso nacionalista, o nome de origem alemã da
cidade de São Petersburgo é substituído por seu equivalente eslavo Petrograd.
Em seu furor epistolar habitual, Alexandra exorta maternalmente o
czar a cumprir seus deveres de “Paizinho do Povo” ao conduzir esta “guerra
salutar”:

“Apenas uma coisa importa: as nossas tropas devem ser exemplares em todos
os sentidos, e não roubar ou saquear, estas ações horríveis devem ser deixadas para os
prussianos. Isto é desmoralizante, e assim se perde o controle sobre os soldados: estes
combatem então por sua própria conta e não pela honra de seu país. Faz de tudo para que
eles não imitem os maus exemplos...”

•••

“ ...assim, se não morres, antes que morras te


tornarás pernicioso para sempre.”
(Ângelo Silésio)

O mórbido apego da czarina a Rasputin, intensificado após os


acontecimentos de Spala, florescia em direta proporção à ferocidade dos
inimigos do stárets. Os mais inflamados, como o general Bogdanovitch,
o chefe do Departamento de Polícia Beletchky e o grão-duque Nikolai
Nikolaievitch, planejavam assassiná-lo.

222 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Indiferente aos complots que se urdiam para eliminá-lo, Rasputin


alargava sua influência política. Através da czarina, determinava demissões
e admissões de ministros e recebia diariamente legiões de suplicantes que
vinham à sua casa em romaria para pedir, comprar ou negociar favores.
Muitas carreiras brilhantes e muitas ruínas políticas e financeiras seriam
tecidas em sua sala de visitas.
Rasputin continuava a frequentar assiduamente Ana Virubova e
os disputadíssimos salões das baronesas Rosen e Ikskul, e circulava entre
a nata da sociedade petroburguesa. Seu séquito de devotas era sempre
numeroso e exaltado, e o ardor de algumas admiradoras, como Olga
Loktina, ultrapassava muitas vezes o limite da decência. Enlouquecida de
paixão pelo stárets, Olga havia perdido a boa aparência e as boas maneiras.
Seguia o mestre pela cidade, descabelada e mal vestida, a clamar o seu
amor por aquele que ela considerava a reencarnação de Cristo. Aonde quer
que o encontrasse, Olga atirava-se sobre seu ídolo e devorava-o de beijos,
suplicando-lhe que a abençoasse. Seus excessos e extravagâncias eram
tolerados na corte de Rasputin apenas por caridade.
Políticos influentes como o presidente do Conselho Goremykin
e o ministro das Finanças Bark; proprietários de jornais como o príncipe
Mechersky; industriais e banqueiros como Putilov, Manus e Rubinstein;
os nobres, os ricos e os poderosos que pouco tempo antes limitavam-se a
ridicularizar o reles mujik, agora faziam-lhe a corte, e todos tomavam-no
a sério. Haviam afinal compreendido que apenas uma recomendação do
stárets todo-poderoso podia angariar a fugaz atenção de Suas Majestades.
Enquanto ministros de Estado comprovavam sua superfluidade
ascendendo e caindo em rápida sucessão, Rasputin perdurava. Suas roupas
de camponês em dia de feira, seu sotaque siberiano, suas maneiras à mesa,
a grenha oleosa e o cheiro de bode não ofendiam mais a suscetibilidade
de seus refinados detratores. Na impossibilidade de eliminá-lo, convinha
cultivá-lo.
Enquanto isso, do fundo de sua humilde cela em Floritcheva, o
ex-bispo e agora monge Iliodor tanto instigara seus ex-paroquianos de
Caritchyn à rebelião, que o Santo Sínodo, exaurida sua paciência cristã,
tomara-lhe o direito ao exercício do sacerdócio. Imperturbável em sua
cruzada contra o “ignóbil Grigori”, Iliodor contra-ataca firmando com seu
próprio sangue uma carta na qual abjurava a fé ortodoxa e se separava da
Igreja. Impulsionado por um desejo de vingança que tanto as reações a ele
contrárias quanto as favoráveis pareciam alimentar, Iliodor retoma o nome
laico de Serguei Trufanov e funda uma comunidade religiosa. Às margens

D R AG O E D I TO R I A L 223
M Á RC I A S A RC I N E L L I

da hierarquia eclesiástica, a “Nova Galiléia” associava homens e mulheres


unidos pelo ódio a Rasputin. O objetivo maior da estranha tertúlia era
capturar o falso stárets e emasculá-lo para impedir que desviasse outras
ovelhinhas do rebanho ortodoxo.
A mais fanática dentre os fiéis de Trufanov era Sonia Gutcheva.
Outrora famosa pela beleza, inteligência e casta espiritualidade, ela tanto
suplicara a Deus que a libertasse da “maldição da beleza física” que
aparentemente tivera suas súplicas atendidas. Sonia contraíra sífilis e em
conseqüência perdera o nariz. Assim desfigurada, incapaz de mostrar-se
grata ao pronto atendimento de suas preces e provavelmente ensandecida
pela doença, Sonia adere à Nova Galiléia. Torna-se uma furiosa inimiga
de Rasputin e resolve assassiná-lo. O rosto devorado pela sífilis, os olhos
rubros e alucinados, Sonia Gutcheva bradava aos quatro ventos as suas
intenções:

“Grishka é o demônio! Vou trucidá-lo!”

É provável que não fosse levada a sério devido ao seu estado


deplorável e que a julgassem simplesmente louca. Trufanov, contudo,
exaltava o fervor espiritual da pobre Sonia e estimulava sua corajosa
iniciativa, aconselhando-a apenas a evitar precipitações que comprome-
tessem o êxito da trama.
Os espetaculares sucessos mundanos de Rasputin começavam a
enfastiá-lo. As senhoras o cortejavam, os maridos o aturavam e consultavam,
todos o solicitavam e ele, farto e saciado como um nababo, ansiava pela
tranquilidade bucólica de sua aldeia na Sibéria. Em junho de 1914, parte
com sua filha Maria para Pokrovskoe. É recebido na estação por uma
multidão exaltada que clama por sua benção. Com dificuldade, consegue
chegar em casa, onde Praskovia, Varvara e Dmitri o aguardavam. Logo
acorrem vizinhos com oferendas para o ilustre stárets. Rasputin fala-lhes
do hospital que pretendia construir na aldeia e abençoa os fiéis. A oportu-
nidade de realizar a missão espiritual da Nova Galiléia finalmente chegara.
No dia seguinte, a família Rasputin vai à Igreja, e a prédica do
padre que oficiava a missa previne a grei contra as artimanhas do Anticristo,
dos falsos profetas que aproveitam-se da boa fé e da ingenuidade dos
fiéis. Rasputin ignora as diatribes do padre insignificante, tão claramente
dirigidas a ele próprio, e concentra-se em suas orações. Entre os presentes
destaca-se uma mulher coberta de andrajos, cujo rosto permanecia oculto
por uma faixa à altura do nariz.

224 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

De volta a casa, Rasputin depara-se mais uma vez com a mendiga


sem nariz, que lhe estende a mão pedindo uma esmola. Enquanto ele
vasculha os bolsos à procura de um kopek, a mulher extrai de sob os trapos
uma espécie de sabre e crava-o com toda a sua força no ventre do stárets.
Em seguida, retira com violência o sabre da barriga de Rasputin, de cujo
ferimento jorra um jato de sangue, e tenta golpeá-lo mais uma vez. Antes
de cair por terra, Rasputin consegue contê-la desferindo-lhe um soco na
testa. Neste momento, alguns vizinhos agarram a mendiga enlouquecida,
que gritava como uma possessa:

“Larguem-me! Larguem-me! Eu matei o Anticristo! Deus seja louvado, o


Anticristo está morto!”

Rasputin arrasta-se até a porta de casa e desmaia nos braços de


Praskovia. O ferimento era extenso e profundo e expunha as entranhas
do stárets. Dmitri envia às pressas um telegrama ao médico mais próximo,
que se encontrava em Tyumen, a 90km de distância. Enquanto aguardam a
chegada do médico, a parteira local ajuda Praskovia a lavar a ferida e conter
a hemorragia. O Dr. Vladmir consegue cobrir a distância em 8 horas,
a cavalo, e opera o paciente ali mesmo, à luz de velas. No dia seguinte,
Rasputin é transferido de barco ao hospital de Tyumen.
A polícia consegue evitar que a mendiga – obviamente Sonia
Gutcheva – seja linchada pela multidão enfurecida. Acusada de atentado
premeditado a homicídio, Sonia confessa ter agido sob instigação de
Trufanov – ex-bispo Iliodor – que lhe confiara a missão de assassinar o
Anticristo. Submetida a perícia psiquiátrica, Sonia é proclamada legalmente
insana e enviada ao manicômio de Tomsk. Trufanov consegue escapar à
perseguição da polícia e foge para a Suécia, travestido de mulher.
No hospital, Rasputin recupera-se do golpe. O cirurgião de Tyumen
declara-o fora de perigo e atribui sua rápida recuperação à robustez de sua
constituição. Recomenda-lhe apenas algumas semanas de repouso para um
completo restabelecimento.
Ocultistas afirmavam que a cama do stárets era cercada de certas
pedras magnetizadas que ele trazia dos Urais, que ele dormia sempre com
a cabeça voltada para o Norte (magnético, não geográfico) e que a isso
se devia a sua legendária resistência física e não apenas à sua constituição
hercúlea de camponês siberiano. Este expediente ele teria aprendido com
os xamãs, em suas errâncias pela Sibéria.
Em Tsarskoe Selo grassava o pânico. A czarina oscilava entre a

D R AG O E D I TO R I A L 225
M Á RC I A S A RC I N E L L I

indignação que o atentado a seu ídolo lhe inspirava e a euforia diante do


que considerava um novo milagre: a salvação do stárets. A 30 de junho, o
czar escrevia ao ministro do Interior Maklakov:

“Soubemos que ontem, na aldeia de Pokrovskoe, na província de Tobolsk, foi


cometido um atentado contra a pessoa do stárets Grigori Efimovitch Rasputin, por nós
muito venerado. No curso do atentado, Rasputin foi ferido no ventre por uma mulher.
Temos motivos para temer que ele tenha se tornado o alvo dos desígnios perversos de
uma súcia de indivíduos suspeitos. Pedimos-lhe que organize uma investigação em torno
a estes acontecimentos e que proteja Rasputin de um eventual segundo atentado contra
a sua vida.”

O hospital de Tyumen é inundado de telegramas com votos de


longa vida ao mártir Rasputin. A czarina despacha o eminente cirurgião
von Breden para realizar uma nova cirurgia em seu amado padre Grigori.
O novo intervento é realizado com sucesso, von Breden retorna a São
Petersburgo garantindo a pronta recuperação do stárets e – sottovoce –
apregoando as discretas dimensões do santo membro. As indiscrições do
médico percorrem a cidade, mas a lenda da superpotência viril de Rasputin
prevalece.
Tão logo é capaz de caminhar, Rasputin parte para Petrogrado
acompanhado das filhas Maria e Várvara. O stárets depara-se com uma
cidade em estado de alucinação. A atmosfera irracional e jubilosa da
capital surpreende-o. Bandeiras tremulam nas janelas, regimentos desfilam
emprumados ao som de músicas marciais, a venda do álcool é proibida,
voluntários apresentam-se alegremente para trabalhar nas fábricas de
armamentos e pais congratulam-se pelos filhos convocados a morrer pela
Rússia. Para a alma camponesa de Rasputin, era incompreensível que uma
guerra pudesse ser motivo de júbilo e a cidade parece-lhe um manicômio.
Tendo escapado milagrosamente ao sabre de Sonia Gutcheva,
Rasputin ressurge em Tsarskoe Selo, praticamente incólume e fresco como
um pepino. Suas Majestades recebem-no como a um mártir ressuscitado e
suas devotas afogam-no em xaroposa adoração. Rasputin, entretanto, está
triste. Suas tentativas de dissuadir o czar de submeter a Rússia aos horrores
da guerra fracassaram clamorosamente. Desiludido, retorna em novembro
a Pokrovskoe, onde tenta inutilmente pacificar seu espírito. Um mês depois,
movido pela curiosidade e pelo temor de ser excluído do centro dos aconte-
cimentos, volta a Petrogrado. Embora convencido de que o czar cortejasse
a própria destruição – e a do povo russo – deixando-se convencer por

226 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

seus generais a embrenhar-se em uma guerra de que nenhum bem poderia


advir, Rasputin opta por uma postura ambígua: se não fora capaz de evitar
a guerra, podia ao menos tirar proveito dela. Por que soterrar sua incandes-
cência pessoal em Pokrovskoe quando podia brilhar ao lado da czarina
enquanto o czar brincava de soldado em Stavka?
O verdadeiro reinado de Rasputin estava prestes a ser inaugurado.

•••

“É tão agradável encontrar pessoas mais


estúpidas do que nós...”
(J. K. Jerome)

O Exército do czar era um colosso. Durante os três primeiros


anos de guerra, 15.500.000 homens partiriam para combater pela Santa
Rússia. A imprensa inglesa apelidara-os de “rolo compressor russo”. O
único capital russo, contudo, era o material humano. Apesar dos esforços
para modernizar o exército após a guerra contra o Japão, a indústria russa
era ainda pequena e primitiva e suas ferrovias inadequadas. A maioria dos
generais russos era incompetente e corrupta, e a desinteligência genera-
lizada do alto comando do exército condenava o excelente soldado russo,
corajoso e incrivelmente resistente a adversidades, a partir para o front sem
armas, sem munição, sem alimento, capacetes ou botas. Após cerca de seis
meses de combates, os soldados da artilharia eram ameaçados com a corte
marcial se disparassem mais de três rounds por dia. Além disso, enquanto
os soldados franceses, austríacos e alemães percorriam de 150 a 200 milhas
até o front, os russos viajavam cerca de 800 milhas pelas precárias ferrovias
russas.
Entretanto, a sanha patriótica que inflamava a Rússia minimizava
os contratempos e as dificuldades que minavam o glorioso Exército de Sua
Majestade. Mais uma vez os problemas internos desapareciam diante da
ameaça externa. Partidos políticos esqueciam suas diferenças e confrater-
nizavam, na certeza de uma fácil e rápida vitória. A fraca estreia austríaca
permite sucessos iniciais ao Exército Russo, alimentando ilusões de glórias
militares e uma eufórica previsão de que a guerra seria concluída em três
meses.
A intenção do czar era desde o início comandar ele próprio o
seu exército, no papel de czar-guerreiro que lidera suas tropas em defesa
da pátria. Seus ministros e generais trataram de dissuadi-lo de realizar

D R AG O E D I TO R I A L 227
M Á RC I A S A RC I N E L L I

sua sacra missão, argumentando que ele assim arriscaria seu prestígio em
caso de retirada ou derrota, e criaria um vácuo no governo. O comando
supremo coube então ao grão-duque Nikolai Nikolaievitch Romanov – ou
Nikolasha, como era chamado em família.
O ministro da Guerra, General Vladmir Sukhomlinov, e o
grão-duque Nikolasha, odiavam-se mutuamente. Não bastassem suas
limitações naturais, ambos empenhavam-se com grande afinco em sabotar
um ao outro. Nikolasha era um tipo bastante ornamental. Adorado
pelos soldados, que impressionava com seu porte imperial, sua estatura
gigantesca de mítico guerreiro eslavo e sua total dedicação ao Exército, o
grão-duque infelizmente padecia de uma inteligência medíocre e era um
mau estrategista. O czar admirava-o e temia-o. Rasputin odiava-o, porque
uma vez telegrafara ao grão-duque oferecendo-se para ir ao Quartel
General benzer um ícone, e o grão-duque respondera:

“Venha. Será imediatamente enforcado.”

A czarina odiava-o por suas campanhas anti-Rasputin, por ter


desposado uma mulher divorciada (a quem ela também passara a odiar, a
princesa montenegrina Stana) e por suspeitá-lo de liderar uma revolução
de palácio para depor o czar e enviá-la a um convento. Acima de tudo,
odiava-o porque ele eclipsava o pobre Nicolau que, além de insulso, não
possuía exatamente o physique du rôle. Tenaz em seus rancores e açulada por
Rasputin, Alexandra não descansaria enquanto não convencesse o marido
a destituir o pérfido Nikolasha de seu posto de generalíssimo.
Em um trecho de “Dr. Jivago” que narra uma revista realizada pelo
czar e o grão-duque a uma unidade no front da Galícia, Boris Pasternak
retrata bem as diferenças entre os dois homens e as impressões que
causavam:

“Acompanhado do grão-duque Nikolai Nikolaievitch, o czar passou em revista os


granadeiros enfileirados. A cada sílaba de sua saudação tranquila, levantavam-se explosões
e ondas de ‘hurras’ tonitruantes, que marulhavam como água agitada nos baldes.
“O czar, que sorria timidamente, dava a impressão de ser mais velho e desgastado
do que nas notas de rublos e moedas. Seu rosto era flácido e um pouco inchado. A cada
minuto, ele olhava de soslaio, com um ar de culpa para Nikolai Nikolaievitch, sem saber o
que se exigia dele em tais circunstâncias. Então, Nikolai Nikolaievitch inclinava-se respei-
tosamente até seu ouvido e, sem palavras, apenas com movimentos das sobrancelhas ou
do ombro, tirava-o da dificuldade.

228 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“O czar causava pena, naquela manhã cinzenta e quente da montanha. Provocava


arrepios pensar que a discrição e a timidez podiam ser a essência do opressor e que aquela
fraqueza condenava e perdoava, conciliava e dividia.
“Ele deveria ter dito algo como ‘Eu, minha espada e meu povo’, como Guilherme
II, ou algo parecido. Mas, de qualquer modo, falar sobre o povo, sem falta. Porém, ele
estava, à maneira russa, natural e tragicamente acima dessa vulgaridade.”

Nicolau ressentia-se secretamente da facilidade com que


Nikolasha dirigia-se aos soldados, aos quais sempre sabia o que e como
dizer, enquanto que ele, o Czar de Todas as Rússias, nunca encontrava as
palavras adequadas para a ocasião, balbuciava banalidades e obviedades,
corava como um adolescente e parecia temer cair do cavalo.
Quanto a Sukhomlinov, dificilmente a Rússia conseguiria um
ministro da Guerra menos competente. Vaidoso, covarde, preguiçoso
e tragicamente ignorante das necessidades do Exército, Sukhomlinov
encarava a responsabilidade de organizar e suprir o grande Exército
russo com surpreendente leveza. As armas modernas, ele as desprezava e
considerava indignas do soldado corajoso, e tratou de armar a cavalaria com
sabres e a infantaria com baionetas. Como resultado de sua incompetência
criminosa e de suas sabotagens, o Exército russo entrou em combate mal
equipado e mal treinado, dispondo de 60 baterias de artilharia pesada contra
381 alemãs. Enquanto as armas russas calavam-se por falta de munição, as
metralhadoras alemãs matraqueavam ininterruptamente.
Invejoso da posição do glamuroso Nikolasha que almejara para si,
como vingança o ministro da Guerra negava sistematicamente munição ao
exército. Quando o chefe da artilharia veio comunicar-lhe, em prantos, que
os soldados russos eram dizimados por falta de munição, Sukhomlinov
disse-lhe simplesmente que fosse “para o diabo”.
Sukhomlinov contudo não era desprovido de encantos e soubera
conquistar a simpatia, e mesmo a admiração do imperador. As fulgurantes
qualidades militares do gigante Nikolasha – cuja retumbância deprimia e
humilhava o czar – desapareciam diante das repousantes virtudes do relapso
mas charmoso Sukhomlinov. Seus relatórios lacônicos e absurdamente
otimistas pareciam ao czar concisos e eficientes, ao invés de irresponsáveis
e preguiçosos; sua tranquilidade e bom humor diante das adversidades, para
o czar eram indícios de competência e autoconfiança, e não de indiferença
e superficialidade. E assim, à medida que se avolumavam as evidências da
inépcia e da leviandade do ministro da Guerra, crescia o apego de Nicolau
II a ele.

D R AG O E D I TO R I A L 229
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Sob instigação de Nikolasha, em julho de 1915 Sukhomlinov seria


julgado responsável pelas mais graves derrotas militares e – para tristeza do
czar – substituído pelo General Polivanov. Entretanto, os dias de Nikolasha
como generalíssimo também estavam contados. Ansioso por comandar
ele próprio o seu amado Exército e perseguido pelas litanias obsidiantes
de Alexandra, que urgia-o a liberar-se do grão-duque, neste mesmo ano
Nicolau o substituiria como Comandante Supremo, em mais uma de suas
decisões infelizes.

•••

“Me gustas quando callas.”


(P. Neruda)

Nicolau detém-se frequentemente em Stavka, no Quartel General,


de onde parte regularmente para inspecionar as bases do front ocidental. É
com alegria que o czar abraça a rotina rude e masculina e o clima de urgência
de Stavka. A disciplina militar, a convivência com os oficiais e a possibi-
lidade de estar sempre ao ar livre vêm libertá-lo das intrigas de Petrogrado
e da sufocante opressão feminina do palácio Alexander, embora sentisse
realmente falta da família.
De Tsarskoe Selo, a czarina segue atentamente o desenrolar
dos conflitos, mantendo-se informada através da leitura dos jornais, dos
despachos da corte e dos telegramas e cartas que o czar lhe envia religio-
samente. Por sua vez, Alexandra escreve-lhe todos os dias uma longa carta,
em que o mantém a par da situação na capital e no resto do país. Além das
sólitas expressões de amor eterno, sempre açucaradas e temperadas com
faceirices de colegial, as cartas de Alexandra agora resumem-se basicamente
a conselhos políticos e militares, admoestações, exortações e reivindicações
absurdas, cuja fonte de inspiração é bem evidente. Seu teor cada vez mais
enérgico e quase encantatório revela a inflação do autoritarismo da czarina
e a crescente influência de Rasputin sobre os assuntos de Estado:

“Se ao menos pudesses ser mais severo, meu Amor [...].


Eles precisam aprender a tremer diante de ti – lembra-te de que M. Philippe
e Grigori disseram a mesma coisa. Precisas ordenar que as coisas sejam feitas, e não
perguntar se é possível fazê-las [...] não peças, ordena simplesmente, sê enérgico pelo bem
do teu país!
(Trechos de carta de 10 de junho de 1915)

230 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“Por favor, meu anjo, faz Nikolasha ver com teus olhos... Espero que a minha
carta não te tenha aborrecido, mas nosso Amigo me persegue e eu sei que será fatal para
nós e para o país se seu desejo não for realizado. Ele fala a sério.
(Trecho de carta de 11 de junho de 1915)

“Como eu gostaria que Nikolasha fosse diferente e não se opusesse ao homem


que nos foi enviado por Deus!
“As nomeações feitas por Nikolasha me espantam. Ele está longe de ser
inteligente, é obstinado, e são outros que o guiam [...]. Além do mais, não é ele o adversário
do nosso Amigo? Ele só pode trazer infortúnio.[...] Nosso Amigo te abençoa e exige,
absolutamente, que se organize no mesmo dia, em todo o front, uma procissão religiosa
pedindo a vitória[...] Por favor, dê as ordens necessárias.”
(Trechos de carta de 12 de junho de 1915)

“Perdão, mas não me agrada a escolha do ministro da Guerra Polivanov. Não é


ele inimigo de Nosso Amigo?”
(Trecho de carta de 12 de junho de 1915)

“Envio-te um bastão que pertenceu ao nosso Amigo. Ele o usou e agora presen-
teia-o a ti, juntamente com a Sua benção. Se pudesses usá-lo de vez em quando seria bom
tê-lo em teu compartimento, perto daquele que M. Philippe tocou.
(Trecho de carta de 14 de junho de 1915)

“Não tenho a mínima confiança em Nikolasha – sei que ele está longe de ser
inteligente e, sendo contrário a um homem de Deus, seu trabalho não pode ser abençoado,
nem seu conselho ser bom.
“... os inimigos de nosso Amigo são nossos inimigos [...].
“As pessoas temem a minha influência.[...] Grigori disse [...] que eles sabem que
eu tenho uma vontade forte, vejo através deles e ajudo-te a ser firme.”
(Trechos de carta de 16 de junho de 1915)

“É culpa de Nikolasha e de Witte se a Duma existe, e isto causou-te mais


preocupação do que felicidade. [...] não me agrada que Nikolasha tenha algo a ver com
estas grandes reuniões que tratam de questões internas, ele compreende tão pouco o
nosso país, e impõe-se aos ministros com sua voz alta e suas gesticulações. Leva-me à
loucura às vezes a sua falsa posição [...]. Nunca te esqueças de que és e deves continuar
sendo um Imperador autocrático – não estamos prontos para um governo constitucional
[...]. Ninguém sabe quem é o Imperador agora [...]. É como se Nikolasha decidisse tudo,
fizesse todas as escolhas e as mudanças. Isso me aborrece profundamente.”

D R AG O E D I TO R I A L 231
M Á RC I A S A RC I N E L L I

(Trecho de carta de 17 de junho de 1915)

“Nikolasha conhece a minha força de vontade, e teme a minha influência (guiada


por Grigori) sobre ti; é tudo tão claro.”
(Trecho de carta de 25 de junho de 1915)

“Odeio quando estás no Quartel General [...] ouvindo os conselhos de Nikolasha,


que não são e não podem ser bons – ele não tem o direito de agir como age, introme-
tendo-se no que te concerne. Todos estão chocados pelo fato de que os ministros dirigem
a ele os seus relatórios, como se ele agora fosse o soberano. Ah, meu Nicky, as coisas não
estão como deveriam estar e por isso Nikolasha mantém-te junto a si para dominar-te com
suas ideias e maus conselhos.”
(Trecho de carta de 25 de junho de 1915)

“Antes do Conselho dos Ministros, não te esqueças de segurar em uma mão o


pequeno ícone que nos deu o nosso Amigo e de pentear-te mais vezes com o pente Dele.”
(Trecho de carta de 15 de setembro de 1915)

“[Nosso Amigo] insiste em que envies um telegrama ao rei da Sérvia [...]”


(Trecho de carta de 3 de outubro de 1915)

“Devo comunicar-te uma mensagem da parte de nosso Amigo, inspirada em uma


visão que teve durante a noite. Ele te pede que ordenes uma imediata ofensiva contra Riga.”
(Trecho de carta de 15 de novembro de 1915)

“Não me julgues louca por ter-te enviado a garrafinha que nos deu o nosso Amigo.
Creio que seja vinho madeira. Por favor, enche uma taça e bebe tudo de um só gole à saúde
Dele.”
(Trecho de carta de 11 de janeiro de 1916)

“Nosso Amigo pede-te encarecidamente que não nomeies Makarov como ministro
do Interior [...].”
(Trecho de carta de 23 de maio de 1916)

“Lembra-te de que M. Philippe disse para não ousar conceder uma constituição,
pois isto seria o teu fim e o fim da Rússia, e todos os verdadeiros russos dizem o mesmo.
“...fomos colocados por Deus no trono e devemos mantê-lo com firmeza e
passá-lo intacto a nosso filho – se tiveres isto em mente, te lembrarás de ser o Soberano
[...].”
(Trechos de carta de 14 de dezembro de 1916)

232 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“...meu Amor, sê firme, mostra a mão do patrão, isto é do que os russos precisam.
Amor e bondade tu sempre mostrastes – agora deixa-os sentir o teu punho [...].
“Devem aprender a temer-te, amor não é suficiente.”
(Trechos de carta de 22 de fevereiro de 1917)

As respostas do marido, ao contrário, são sempre submissas e


placatórias e revelam claramente o orgulho que as façanhas autocráticas de
Alexandra inspiram ao czar tímido e abúlico. A czarina maníaca-opressiva
reina em sua ausência como ele nunca ousara reinar e Nicolau liquefaz-se de
admiração:

“Imagine, a minha esposinha, ajudando o maridinho ausente! Que pena que tu não
tenhas desempenhado esta função há muito tempo [...].
“Nada me dá mais prazer do que poder ter orgulho de ti, como tive todos estes
meses em que me admoestastes energicamente para que fosse mais firme e mantivesse a
minha opinião.”
(Trecho de carta de 25 de agosto de 1915)

“Sim, decididamente tu deverias ser meus olhos e meus ouvidos aí – perto da


capital, enquanto eu devo ficar aqui. Este é bem o trabalho para ti, manter os ministros na
linha, e assim prestas a mim e ao nosso país um enorme serviço. Oh, minha preciosa Sunny,
estou tão feliz porque encontrastes finalmente um trabalho digno de ti! Agora posso estar
tranquilo e não me preocupar com questões internas.
“Deus te abençoe, meu Anjo, meu Coração, Cérebro e Alma.[...]”
(Trecho de carta de 23 de setembro de 1916)

“Me ajudarías muito se falásses com os ministros e os vigiásses.”


(Trecho de carta de 24 de setembro de 1916)

“O que escreves sobre ser firme – o patrão – é a pura verdade. Eu não me esqueço
disto – estejas certa, mas eu não preciso berrar com as pessoas o tempo todo. Uma resposta
calma e categórica normalmente é suficiente para colocá-las em seus lugares.”
(Trecho de carta de 23 de fevereiro de 1917).

•••

“...cortina de fogo, morteiros, gás, tanques,


metralhadoras, granadas. São palavras,
palavras, mas abraçam todo o horror do mundo.”
(E.M.Remarque)

D R AG O E D I TO R I A L 233
M Á RC I A S A RC I N E L L I

A guerra transformava-se em simples chacina, incompreensível


para todos os participantes. Muitos dos famosos princípios táticos e
estratégicos de Clausewitz provavam-se inúteis. A tecnologia militar
desenvolvera-se prodigiosamente desde 1870 e seu uso impossibilitava
manobras e movimentos em 1914. Com os exércitos imobilizados, a guerra
não servia aos propósitos de nenhum dos oponentes. Entre 1914 e 1918,
as linhas não se moveriam sequer 15km em qualquer direção.
Novas armas são introduzidas para tentar romper o impasse:
morteiros de trincheira, lança-chamas, granadas de mão, gases venenosos e
tanques. Intensificava-se o morticínio, mas as linhas permaneciam imóveis.
Era uma situação sem precedentes na história militar ocidental, e ninguém
parecia saber como resolvê-la. Em milhares de quilômetros de trincheiras
profundas, milhões de homens mergulhados em lama e sangue confronta-
vam-se através da terra de ninguém, cercada de arame farpado e protegida
por metralhadoras. A intervalos, lançavam-se em ofensivas que lhes valiam
uma ou duas milhas de lama ao preço de centenas de milhares de vidas.
As armas modernas inauguravam a era do banho de sangue, e os homens
pagavam-lhes um preço terrível.
R. O’Connell (op.cit.) escreve que a relação entre guerra e armas
havia mudado radicalmente. As armas dominavam todos os setores e
derrubavam as categorias e os mecanismos psicológicos que tradicio-
nalmente as enquadravam. Ninguém estava preparado para a impessoa-
lidade e sobretudo para a formidável letalidade da guerra tecnológica,
e como todos os lados adotaram inicialmente a estratégia ofensiva, o
resultado foi uma inédita carnificina. A ceifa sangrenta seria a maior desde
a guerra dos 30 anos.
A vida dos soldados nas trincheiras era um outro tipo de inferno.
Vivendo praticamente soterrados em meio à lama, aos companheiros
mortos que por vezes permaneciam entre os vivos durante dias e às
ratazanas vorazes que lhes disputavam as rações, ensandecidos pelo
barulho ensurdecedor dos bombardeios incessantes e pelo terror dos
gases venenosos, os combatentes passaram a sofrer de um novo tipo de
perturbação psíquica, conhecida como shell shock (psicose de guerra).
Um certo cabo austríaco, ex-mendigo e futuro Chanceler do
Reich e Comandante Supremo das Forças Armadas Alemãs, seria profun-
damente marcado por sua experiência da guerra de trincheiras, pelo custo
da guerra em dois fronts e pelo trágico desfecho das ambições alemãs.
Estas experiências concorreriam para inspirar-lhe a Blitzkrieg – a Guerra
Relâmpago que sacudiria a Europa nos anos 30 e 40 com seus ataques

234 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

fulminantes e coordenados – e para que tentasse evitar a qualquer custo


uma outra guerra em dois fronts. Entretanto, como sói acontecer aos
grandes gananciosos, o cabo Hitler esquecer-se-ia das amargas lições da
Grande Guerra e envolveria a Alemanha em uma II Grande Guerra em
vários fronts. A este, somaria o erro fatal de Napoleão e invadiria a Rússia,
legando à Alemanha uma herança ainda mais trágica e desonrosa e um
cálice ainda mais amargo do que o anterior.
Apenas longe das trincheiras a guerra era ainda personalizada
e heroica: nos céus, batalhas de Fokkers, Nieuports e Spads imortali-
zariam heróis como os pilotos Richthoffen (conhecido como “Barão
Vermelho”), Fonck, Guynemer e Ball. Em terra, reinavam a imobilidade e o
tecno-massacre. Como observa A. Rapoport em prefácio ao “Da Guerra”
de Clausewitz, o tremendo caráter sanguinário da Grande Guerra atribui-se
a uma tecnologia mortífera e à substituição da guerra de movimento (na
qual era possível romper o contato) por uma guerra de trincheiras em que
as forças adversárias ficavam fortemente presas ao terreno.

•••

“Em meio à pilha de ossos decompostos,


quem é Czar, quem é escravo, quem é juiz
ou guerreiro?”
(Alexei Tolstoy)

No início da guerra, em agosto de 1914, os russos são massacrados


na batalha de Tannenberg, apesar de sua superioridade numérica. A
incompetência do alto comando, a crônica escassez de munição e de
mantimentos para homens e cavalos, a ausência de coordenação entre o I e o
II Exércitos russos, o imperdoável hábito do comandante do II Exército de
enviar mensagens não codificadas e a genialidade e ousadia de Hindenburg
e Ludendorff, custam ao Exército russo 150.000 vidas e 93.000 feridos.
O I Exército russo, liderado por Rennenkampf, tenta um contra-ataque
suicida e falha espetacularmente. O general envia sua cavalaria contra o
fogo dos canhões alemães. Assim, na aurora da guerra, a Rússia sofria a
perda de centenas de milhares de homens, incluindo inúmeros oficiais, a
flor da aristocracia russa que era abatida de suas selas. Nas duas batalhas,
os alemães perdem cerca de 20.000 homens. Rennenkampf é expulso do
Exército e Samsonov, Comandante do II Exército, comete suicídio. Para
os alemães, a vitória em Tannenberg representa uma vingança longamente

D R AG O E D I TO R I A L 235
M Á RC I A S A RC I N E L L I

aguardada: 5 séculos antes, naquele mesmo lugar, os eslavos venciam os


Cavaleiros Teutônicos.
Após esta sangrenta derrota, as tropas do czar conseguem expulsar
os austríacos do território russo. Alcançam uma grande vitória em Lemberg,
tomam Lvov e o leste da Galícia. Não por muito tempo.
O ano de 1915 seria o das amargas surpresas. Em fevereiro a
Alemanha lança uma nova ofensiva na Prússia Oriental. Em maio, 1500
canhões abrem fogo contra uma só seção do front russo. Enquanto a
artilharia russa permanece muda, 700.000 granadas chovem sobre as
trincheiras, reduzindo os 16.000 homens de uma divisão a 500, em 4 horas.
Przemysl e Lvov – tomadas pelos russos em 1914 – são reconquistadas
em junho de 1915 em confrontos duríssimos e as tropas russas evacuam a
Polônia e a Lituânia. A esta altura, 1/3 dos soldados russos não tinha rifles
e esperava nas trincheiras que seus camaradas caíssem para apoderar-se
de suas armas. Enquanto aguardavam nas trincheiras, eram moídos pela
massacrante artilharia alemã. Durante a retirada da Galícia, um oficial
chegou a sugerir que se armassem os soldados com machados. Em
Stavka, o General Belaiev relataria o início da tragédia do Exército russo,
e concluiria:

“O Exército afoga-se em seu próprio sangue.”

O grão-duque Nikolai Nikolaievitch, por sua vez, encarava com


aristocrática fleuma a sangria da Rússia para salvar a França da invasão dos
alemães. Seu lema era o mesmo de muitos outros oficiais russos: nas mnogo,
“somos muitos”. Quando o adido militar francês oferece-lhe os pêsames
pelas perdas na batalha de Tannemberg, Nikolasha responde galantemente:

“Estamos felizes por ter realizado este sacrifício por nossos aliados.”

Ao final de 1914, após apenas 5 meses de guerra, 1 milhão de russos


haviam sido mortos, feridos ou capturados. No verão de 1915, 1.400.000
estavam mortos ou feridos e 976.000 eram prisioneiros. A artilharia alemã
havia simplesmente varrido todo o front oriental e os soldados russos
sobreviventes combatiam apenas com baionetas. O entusiasmo inicial que
animara civis e militares deixara-os após alguns meses de guerra e dava
lugar ao desespero.
A Itália, convencida do colapso do Império Austro-Húngaro,
abandona a Tríplice Aliança e adere à Entente, solicitando à Rússia – que

236 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

já sangrava profusamente pela França – ajuda militar contra a Áustria. Para


perplexidade do czar, que ainda não se refizera do golpe representado pela
perda da Polônia, a Bulgária alia-se às potências centrais contra a Rússia
e, unindo-se às tropas alemãs, esmaga inapelavelmente o Exército sérvio.
Soberbos nas paradas militares mas confusos, mal equipados e mal
treinados para as batalhas, os soldados russos enfrentam seus inimigos com
sabres, baionetas e escassa munição. Já os alemães, em 1915 inauguram a
guerra química moderna com a introdução do gás venenoso, infligindo
severas baixas, particularmente entre os russos.14 Os ingleses introduzem o
tanque e todos aperfeiçoam o poder da artilharia, que assume proporções
até então inimagináveis.

•••

Com a guerra, floresce o prestígio político de Rasputin, e seu


apartamento na rua Gorochovaia torna-se uma espécie de antecâmara
do palácio imperial. Desde as primeiras horas da manhã, centenas de
pessoas derramam-se pelos degraus da escada e amontoam-se em frente
ao edifício do stárets. São funcionários insignificantes em busca de uma
recomendação, estudantes e camponeses indigentes, esposas dispostas a
tudo pelo bem da carreira dos maridos, beatas histéricas, mulheres atraídas
pela reputação sexual de Rasputin, políticos que reconhecem no stárets
a única via de acesso à czarina. A todos Rasputin atende com singeleza,
distribui aos pobres os rublos que lhe doam os ricos, escrevinha bilhetes
ilegíveis de recomendação a este ou aquele ministro em pedaços de papel
ou guardanapos, pondera o grau de fidelidade e de utilidade dos políticos
à sua pessoa e avalia os dotes físicos das suplicantes (apesar da fama de
macho insaciável, Rasputin era moderadamente seletivo). Seus bilhetinhos
abrem todas as portas em Petrogrado. Os ricos recompensam sua boa
vontade com doações em dinheiro e os pobres com cestas de frutas ou
queijo. As mulheres submetem-se aos afagos brutais do mujik, cuja técnica
de aproximação consistia em desabotoar-lhes a blusa para indicar que lhe
agradavam.
Misturados à horda de pedintes, agentes da Okrana instalavam-se
nos degraus que conduziam ao apartamento de Rasputin, tanto para
14 Em quatro anos de guerra, o uso de gases deletérios por parte de alemães, ingleses
e franceses causaria 1,3 milhões de baixas, mas seu efeito estratégico mostrar-se-ia
praticamente nulo. Além disso, uma simples mudança de vento devolvia o veneno a
seus utilizadores. Até hoje, o “soldado químico” invisível, silencioso e letal, é objeto
de repulsa entre os principais exércitos contemporâneos.

D R AG O E D I TO R I A L 237
M Á RC I A S A RC I N E L L I

vigiá-lo quanto para protegê-lo de possíveis atentados. Às vezes aconte-


cia-lhes encontrar alguma jovem senhora que ingenuamente recorrera ao
stárets, descendo as escadas aos trambolhões, esguedelhada e descomposta,
fugindo aos beijos urgentes e às carícias ousadas do santo homem.
Um relatório da Okrana sobre a rotina vigiada de Rasputin, datado
de 18 de fevereiro de 1913, descreve a escalada da impudência do stárets:

“Se, como descrito, durante as primeiras visitas de Rasputin a São Petersburgo


ele tomava um certo cuidado em seus encontros com prostitutas, verificando se estava
sendo seguido, procurando os becos mais escuros etc., durante sua última visita em janeiro
deste ano ele conduziu estes encontros abertamente, não teve receio de andar pelas ruas
em estado de embriaguez e de cometer sacrilégios contra igrejas Ortodoxas.
“...[Rasputin] então foi ao restaurante na rua Znamenskaia e, ao sair de lá, parou
para atender a um chamado da natureza na porta de uma igreja. Depois disso foi ao hotel
[...], para onde logo lhe levaram uma prostituta do restaurante. Depois de meia hora,
voltou para casa.”

Um novo relatório de 1916 revela a magnitude, a complexidade e


o ônus do sistema de vigilância de Rasputin:

“Há cerca de um ano atrás, o departamento foi informado de um suposto


atentado à vida de Rasputin e consequentemente foram ordenadas medidas mais severas
para protegê-lo, então 5 homens foram apontados para o trabalho em dois turnos, assim
como um motorista, e ao todo a proteção e a vigilância de Rasputin requeria 11 homens.
“Todos os dias Rasputin recebia de 80 a 100 visitantes, excluindo os regulares.
Aqueles que vinham com petições eram identificados [...].
“Os resultados da vigilância de Rasputin [...] eram em geral enviados ao
Departamento de Polícia, enquanto o rascunho permanecia com o Departamento de
Segurança. Ao todo, cerca de 5000 pessoas foram usadas para manter Rasputin sob
vigilância. Além de estabelecer seus contatos, a vigilância incluía a inspeção de sua corres-
pondência e todos os dias era mantido um diário detalhado dos eventos.
“Durante o último ano, Rasputin quase sempre ia a Tsarskoe Selo de carro.
Rasputin quase nunca estava sóbrio. Simanovich e o restaurante Villa Rodé eram seus
fornecedores de vinho, bebidas, frutas etc.
“Virubova visitava Rasputin quase todos os dias. Sempre que Rasputin ia a casa
dela em Tsarskoe Selo, a Imperatriz chegava cerca de 30 minutos depois. O encontro
durava cerca de 1h 20min. [...]”
Para aliviá-lo da pesada gerência de seus múltiplos negócios,
Rasputin recorre ao auxílio de grandes nomes como o banqueiro Rubinstein

238 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

e o presidente da União dos Construtores Ferroviários, Manus. Afinal, a


guerra que ele tanto temera rendia-lhe bons frutos.
A maior parte do dia, Rasputin consagra ao atendimento às
multidões que o procuram. À noite, dedica-se a beber como uma esponja,
a dançar e a exibir-se escandalosamente em público durante formidáveis
orgias; em seguida comparece, lesto e lúcido, à primeira missa, e retorna à
casa para mais uma jornada de assistência a seus necessitados. Tudo isto
sem dormir, lavar-se ou trocar de roupa, e sem que os cerca de 6 litros
de vinho madeira que consumia a cada refeição – além das bebedeiras
noturnas – afetassem-lhe a transcendente agudeza do raciocínio ou a
tranquilidade da digestão. Mais do que nunca ele entrega-se a uma metódica
e calculada libertinagem, como que testando os limites sobre-humanos de
sua resistência à dissipação. Sentindo-se favorecido por Deus e protegido
pelo poder temporal, venerado pelos pobres, adulado pelos ricos e amado
pelas mulheres, Rasputin julga-se um semideus. E pode prová-lo: como
se verificaria em breve, seus poderes de cura resistiam à mais diligente
devassidão.
Em janeiro de 1915, Anna Virubova é vítima de um acidente
ferroviário. Retirada de sob as ferragens em que ficara presa durante horas,
seu estado é lastimável: tem as pernas e a coluna vertebral esmagadas. O
médico que a examina no local do acidente proclama o seu fim iminente
e declara ser “inútil disturbá-la”. Transportada ao hospital de Tsarskoe
Selo, recebe os últimos sacramentos. Recuperando por alguns momentos a
consciência, Ana pede que padre Grigori ore por ela. Sua mãe tenta opor-se,
mas a czarina corre a telefonar a Rasputin, que promete estar presente
à cabeceira da moribunda. Retardado por uma série de contratempos,
incluindo uma tempestade de neve, quando Rasputin finalmente chega ao
hospital Ana jazia em coma, cercada pela família imperial e assistida pelo
médico da corte.
Sem olhar para ninguém, sem sequer cumprimentar Suas
Majestades, Rasputin fixa em Ana seu famoso olhar perfurante e parece
realizar um esforço colossal: suas feições se contraem, ele empalidece e
transpira profusamente. Os presentes observam-no em um silêncio solene.
Após alguns minutos, Rasputin toma a mão de Ana e, parodiando o “Talita
kumi”15 do Cristo que ele julgava encarnar, diz:

“Anushka, acorda!”

15 “Menina, levanta-te” (Mc, 5:41)

D R AG O E D I TO R I A L 239
M Á RC I A S A RC I N E L L I

A estas palavras, Ana abre de repente os olhos e murmura numa voz muito
débil:

“Grigori,és tu! Deus seja louvado!”

Rasputin prediz então que ela se salvaria, mas que seria para sempre
inválida. Em seguida dá alguns passos em direção à porta, revira os olhos
e desmaia.
Mais uma vez Rasputin operava a mágica do xamã, que toma
para si o sofrimento alheio, ou – na interpretação da czarina – realizava
o milagre da ressurreição. Qualquer que fosse a explicação para o fato, os
médicos são forçados a admitir uma cura realmente prodigiosa, graças à
atuação de Rasputin.
A convalescência de Ana, contudo, seria longa e penosa. Seis
meses acamada, outros seis em cadeira de rodas, em seguida caminharia
com a ajuda de muletas. Apenas depois de um ano ela recuperaria o uso
parcial das pernas, e mancaria para o resto da vida. Entretanto, sua gratidão
e admiração por aquele que ela acreditava tê-la ressuscitado não conhece
limites ou freios. Assistida pela mística devoção da czarina, Ana proclama
o novo milagre de padre Grigori. Milagre que vem exaltar não apenas a fé
de seus adeptos em sua infalibilidade, como a do próprio Rasputin em sua
impunidade. E ele entrega-se ainda com maior fervor aos seus excessos.
Uma Petrogrado em delírio acolhe de braços abertos o stárets
libertino. Quanto mais terríveis as notícias do front e mais abarrotados os
comboios de feridos que afluem à cidade com sua carga de horrores, maior
parece a fúria de prazeres de seus habitantes. Teatros, bares, cafés e restau-
rantes estão sempre repletos; o proibicionismo – sugerido inclusive por
Rasputin – fale completamente, e nos locais o álcool é servido abundan-
temente em xícaras de chá. Rasputin circula abertamente com prostitutas,
canta, faz piruetas sobre as mesas, dança freneticamente a hoppak (dança
ucraniana) acompanhado de músicos ciganos, e ostenta sua exuberância
sexual nos melhores restaurantes e nos piores antros da cidade. Testemunhas
relatam que durante uma de suas pândegas noturnas em um local da moda,
ele ordena ao coro que cante a Ave Maria, enquanto ele próprio entoava aos
berros a sua canção preferida: “Cocheiro, chicoteie os cavalos”. Uma noite,
seu comportamento escandaloso em um restaurante ofende os brios de
um oficial, que o esbofeteia em público. O local é interditado por diversos
dias, a notícia percorre a cidade, mas nada muda na rotina sócio-sexual do
stárets. Cercado de suas prostitutas, seus ciganos e seus amigos banqueiros

240 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

– cujos subsídios ele dilapida sem piedade – Rasputin circula todas as noites
de bar em bar, intrépido e incauto. Antes de retirar-se, invariavelmente
embriagado, Rasputin distribui entre músicos e dançarinas alguns rublos
ou lembrancinhas, bafejando-lhes pios conselhos sobre a conduta moral
que agrada ao Senhor.
Em março de 1915 Rasputin vai a Moscou, e já no dia seguinte
à sua chegada, causa sensação em um dos mais célebres restaurantes
da cidade, o Yar. O relatório do chefe da seção moscovita da Okrana
informaria que Rasputin, completamente embriagado, confidenciava aos
músicos que “o caftan que usava fora um presente ‘da velha’, costurado
com suas próprias mãos” e “O que diria ‘a velha’ se me visse aqui”. Em
seguida, pôs-se a exibir o próprio sexo enquanto distribuía às dançarinas
bilhetinhos que diziam “Ama-me com todo o coração” e outros versos do
gênero. Às expressões de choque e repulsa dos presentes, Rasputin reage
explicando que era assim que se portava no Palácio Alexander em presença
de Suas Majestades.
A nova proeza do stárets repugna e delicia a cidade, tão fascinada
quanto horrorizada com mais este escândalo envolvendo o protegido da
czarina. Temendo pelo prestígio da coroa, o governador de Moscou corre
a Petrogrado a informar o ocorrido ao ministro do Interior Maklakov.
Este, no terror de irritar o czar, expõe-lhe verbalmente uma versão muito
edulcorada dos fatos, que o czar ouve, impassível.
Entretanto, Rasputin é convocado a Petrogrado para explicar-se.
Humílimo, o stárets realiza seu ato de contrição: gaguejando e transpirando,
bate no peito, verga-se, rasteja, admite ser um vil pecador, indigno dos
dons de que o favorecia o Senhor, mas jura fidelidade e amor incondi-
cional a Suas Majestades. Na verdade, Rasputin reconhece-se pecador e
blasfemo. Mas um blasfemo reverente. A blasfêmia, afinal, não deixa de ser
uma participação no sagrado.
Assegurado do previsível perdão do czar e da inabalável confiança
da czarina, Rasputin escafede-se mais uma vez para Pokrovskoe, a refazer-se
dos excessos de sua concupiscência.
Fútil manobra. Nem todos compartilhavam da boa vontade do
imperador poliana ou da religiosa reverência da czarina para com o stárets
impostor. Na costumeira sarabanda de ministros, Sherbatov substitui o
tremelicante Maklakov no ministério do Interior e prontamente retoma a
delicada questão do Restaurante Yar com a atenção que lhe julga devida.
Sherbatov encarrega seu vice-ministro Diunkovsky de entregar ao czar o
relatório completo da Okrana sobre as façanhas de Rasputin em Moscou.

D R AG O E D I TO R I A L 241
M Á RC I A S A RC I N E L L I

Embora horrorizado com as minúcias do relatório, Nicolau ordena que


seja arquivado e mantido em segredo. Diunkovsky, entretanto, não contém
a língua e trombeteia a história aos quatro ventos.
Os pormenores escabrosos do caso chegam aos ouvidos da
czarina, que se enfurece, não contra o comportamento de padre Grigori –
coitado – mas contra os fariseus que o acusavam injustamente. Em carta
ao czar, que se encontrava em Mogilev, Alexandra exige imediata retaliação:

“[Diunkovsky] não é um homem correto: mostrou aquele ignóbil pedaço de


papel ao [grão-duque Pavlovitch], que referiu tudo ao [grão-duque Pavel Alexandrovitch],
que por sua vez contou tudo a Ella. É preciso dizer-lhe que estás farto destas histórias
imundas e que é teu desejo que ele seja severamente punido.”

Retornando a Petrogrado, Nicolau aceita ler um relatório ainda


mais minucioso sobre os incidentes em Moscou e – para imensa tristeza
da czarina – recusa-se a receber Rasputin, que tornava a solicitar uma
audiência para justificar-se. O stárets vê-se forçado a voltar a Prokovskoe
em estado de desgraça, e clamando inocência.
Entretanto, a “Gazeta Moscovita” consegue por as mãos no
relatório ultraconfidencial da Okrana e publica com estrondo as peripécias
de Rasputin no Restaurante Yar, além de detalhes picantes sobre a vida e
a obra do “Homem de Deus”. O caso agora era de domínio público. Em
suas memórias, M. Paléologue comenta o artigo da “Gazeta”:

“Todo o passado do homem, suas origens ignóbeis, roubos, bebedeiras, deboches


e intrigas, o escândalo de suas relações com a alta sociedade, oficiais e membros do clero
são cruamente expostas. Mas, sabiamente, não há alusões à sua intimidade com o czar e
a czarina.
“‘Como isto é possível?’”, escreve o autor destes artigos. “Como um aventureiro
abjeto como este conseguiu escarnecer da Rússia por tanto tempo? Não é assombroso
pensar que a Igreja oficial, o Santo Sínodo, a aristocracia, os ministros, o Senado e
numerosos membros do Conselho do Império e da Duma tenham se rebaixado perante
este cão? Não é o pior ataque que se pode fazer contra o regime? Até ontem os escândalos
políticos e sociais que conjuravam o nome de Rasputin pareciam naturais. Hoje a Rússia
decidiu dar um fim a isto...”

Magoado e atônito, Nicolau reage demitindo sumariamente


Diunkovsky, acusado de revelar um segredo de Estado. A polícia, por sua

242 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

vez, é severamente repreendida por suas injustas perseguições a padre


Grigori e por excesso de zelo no cumprimento de suas funções.
Nos confins da Sibéria, Rasputin exulta. Mais cedo ou mais tarde,
seus inimigos caem como moscas. Ansioso por um encore, refaz as malas e
retoma, lépido e fagueiro, o caminho de Petrogrado, mar de delícias em que
ansiava por mergulhar mais fundo. Tão logo chega à cidade, recomeça a sua
ronda noturna pelos locais da moda e suas orgias quotidianas, divertindo-se
enormemente em irritar seus inimigos.

•••

“Todo reino dividido contra si mesmo será destruído...”


(Lc, 11:17)

Em 1915, alemães e austríacos, temendo a perpetuação da guerra,


que já os exauria física, moral e financeiramente, decidem recorrer a
meios não militares para debilitar a Rússia e seduzi-la com propostas de
paz. O sonho de tomar Paris e desbaratar o Exército russo em poucas
semanas revelara-se inexequível, as novas armas de destruição em massa
não admitiam vencedores, dessangrando a todos igualmente, e urgia
quebrar o impasse. Como observa E. Heresch (op.cit.), o czar era um dos
poucos governantes a desejar concluir a paz exclusivamente através de
meios militares. Nicolau II entrara em guerra decidido a não concluir a
paz enquanto houvesse um único soldado inimigo em território russo. O
czar cria firmemente no poder de choque de seu imenso Exército, e não
suspeitava da desmoralização que o minava.
Além de inúmeras tentativas de aproximação a Suas Majestades
através de países neutros e de personagens insuspeitáveis que ofereciam
condições quase honrosas para concluir-se uma paz em separado – invaria-
velmente rejeitadas por Nicolau e Alexandra – os alemães concentraram-se
na destruição psicológica do inimigo. Estes foram os bons tempos dos
agentes secretos. O Estado Maior alemão e o Ministério das Relações
Exteriores em Berlim, conquanto não abandonassem as discretas mas
constantes tentativas de negociar uma paz em separado, dedicavam-se a
abalar o moral dos combatentes russos com propaganda pacifista e revolu-
cionária, e planejavam financiar uma revolução na Rússia. Se o czar insistia
em continuar a guerra, um novo governo provavelmente estaria disposto
a aceitar as condições de paz que a Alemanha estava pronta a oferecer. A
Rússia, como as outras nações envolvidas na guerra, estava exangue.

D R AG O E D I TO R I A L 243
M Á RC I A S A RC I N E L L I

As preces do Estado Maior alemão parecem ser atendidas quando


o russo Lazar Israel, aliás Alexandre Parvus, aliás Dr. Helphand, consegue
obter uma entrevista com o conselheiro da Embaixada Alemã, e em
seguida é recebido pelo secretário de Estado em Berlim. Ressentido contra
o regime czarista, Parvus propõe ao governo alemão, exausto da guerra,
exatamente o que lhe convinha: uma receita de revolução para a Rússia.
O programa de Parvus previa a criação de um comitê revolucionário
composto de personalidades carismáticas que guiassem e sustentassem o
movimento; propaganda pacifista e revolucionária dirigida, sobretudo, ao
proletariado industrial em Petrogrado, Moscou e nos centros manufatu-
reiros da Sibéria; interrupção das linhas de fornecimento de alimentos e
munição que provocasse situações de privação entre os soldados no front
e a população nas cidades e criasse caos espontâneo, motins e rebeliões
em massa; atear fogo a poços de petróleo; fornecer aos revolucionários
material explosivo para destruir pontes e linhas ferroviárias; insuflar os
movimentos separatistas na Ucrânia e na Finlândia e aumentar a pressão
política com campanhas orquestradas na imprensa.
Segundo Parvus, o homem ideal para liderar o movimento revolu-
cionário era Vladmir Ilych Ulianov – ou Lenin – então exilado na Suíça,
onde preparava os fundamentos teóricos da Revolução. O entusiasmo já
ebulitivo dos alemães fervilha ao conhecer os pontos programáticos de
Lenin: proclamação de uma república, renúncia a anexações e reparações,
abandono das pretensões aos Dardanelos e a Constantinopla, oferta de paz
sem considerar a situação e sem consultar a opinião dos Aliados, autonomia
dos povos, expropriação dos latifúndios etc.
Nem mesmo dos sonhos mais delirantes de Guilherme II brotaria
este lírio de programa. Instantaneamente conquistados, os alemães
avançam imediatamente um capital inicial de 2 milhões de marcos em
ouro (o equivalente a cerca de vinte milhões de euros atuais). A partir de
Copenhaguen, Parvus começa a tecer a sua teia de contatos com revolu-
cionários russos exilados, e em pouco tempo põe em ação o front secreto
alemão. Dois meses depois do primeiro pagamento, cinco milhões de
marcos em ouro já haviam passado de Berlim a Petrogrado através de
Parvus, e ainda muitos outros milhões seriam requisitados. A Áustria-
-Hungria também contribuiria, ainda que em modesta escala, com o
financiamento da Revolução na Rússia.

244 D R AG O E D I TO R I A L
XII
“[...]
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;


Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão –
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!

Quantos Césares fui!


Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!”

(Fernando Pessoa )
M Á RC I A S A RC I N E L L I

ANTES DO FIM

“Ó Querer, desvio de toda angústia, tu,


minha necessidade! Preserva-me para
uma grande vitória!”
(F. Nietzsche – “Assim Falou Zaratustra”)

Em abril de 1915, enquanto Rasputin et caterva esfalfavam-se na


Petrogrado que nunca dormia ou badernavam nos restaurantes moscovitas,
1.400.000 soldados russos estavam mortos ou feridos e 976.000 eram
prisioneiros. O anúncio da retirada da Galícia inspirara o saque de lojas,
escolas e fábricas alemãs em Moscou, em um tumulto que duraria dois dias.
A árvore de Natal, tradição de origem germânica, fora banida, e as obras de
compositores alemães como Bach e Beethoven não eram mais executadas.
O ressentimento nacional culminaria com o acirramento das críticas contra
a czarina alemã, acusada de nutrir simpatias pelo inimigo.
Retornando de uma inspeção ao front, Rodzianko proclama diante
da Duma que o país era governado por incapazes, que os bravos soldados
russos morriam pela incompetência de seus comandantes e que a imperícia
e a traição nas altas esferas políticas e militares condenava a Rússia ao
caos e à derrota. Imediatamente elegem-se bodes expiatórios, enforcam-se
oficiais sob acusação de traição, e o ministro da Guerra Sukhomlinov,
tão simpático ao czar, é substituído pelo general Polivanov, um tipo bem
menos divertido. Apenas nomeado, Polivanov declara que a guerra era
conduzida a despeito de qualquer estratégia, e mesmo de todo o bom
senso. Em agosto, Varsóvia, Kovno, Brest-Litovsk e Vilnius são tomadas
pelos alemães e rapidamente o Conselho de Ministros destitui o chefe do
Estado Maior. Como fizera Kutusov em 1812 contra os franceses, Nikolai
Nikolaievitch ordena a retirada para salvar o que restava do Exército russo.
Todas estas medidas mostram-se inúteis e apenas comprovam ao
czar a urgência de assumir ele próprio o comando supremo de seu amado
exército. Esta parecia-lhe a oportunidade ideal para realizar seu sonho.
Apenas ele, pai e juiz de seus súditos, poderia cumprir a sacra missão de
conduzir à glória o grande Exército russo. Era sempre com pesar que
deixava as alegrias da vida militar para retornar à sórdida Petrogrado, com
suas intrigas intestinas e seus conluios palacianos. Mas quando às portas
do Império rugia o huno, parecia-lhe decididamente absurdo estar ali a

246 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

assinar intermináveis atas e a ouvir o incessante cacarejar de seus ministros


enquanto seus soldados, privados de sua santa liderança, eram dizimados
às centenas de milhares. A queda de Varsóvia precipita-o. Com o coração
aos pulos mas a consciência apaziguada, Nicolau II trota rumo a uma de
suas decisões mais infelizes: assumir o Comando Supremo do Exército e
premiar os delírios autocráticos da czarina e as canalhices de Rasputin com
as rédeas do Império.
Perseguido pelo interminável mantra de Alexandra e acalentando
ele próprio um anseio de glórias militares, de grandezas e bravuras em
campos de batalha, o czar tíbio e vacilante via-se já heroico e para sempre
honrado. Batizado finalmente no sangue das batalhas, suas façanhas
guerreiras ecoariam pelos séculos afora. Cravejado de medalhas, senão de
balas, retornaria em triunfo após uma justa vitória que o sagraria como
Nicolau o Destemido, seus antigos fracassos apagados para sempre. Seus
retratos doravante o imortalizariam potente e orgulhoso, digno da grandeza
de seus ancestrais. Afinal, o que podia o furor teutonicus contra o Ungido do
Senhor?
Em agosto, Nicolau e Alexandra vão a Petrogrado sem ser
anunciados. Visitam primeiramente a Fortaleza de Pedro e Paulo, e
ajoelham-se diante dos túmulos dos czares; em seguida, dirigem-se à
Catedral de Nossa Senhora de Kazan, onde permanecem por longas horas
ajoelhados diante do ícone da Virgem, pedindo-lhe orientação. Nesta
mesma noite, o Conselho de Ministros é convocado ao Palácio Alexander.
A aspiração ao status de mártir que animava o czar evidencia-se em
sua explicação a Paléologue, pouco antes da reunião com o Conselho de
Ministros:

“Agora devo ir onde sou necessário. Se para a salvação da Rússia é necessária


uma vítima sacrificial, eu serei esta vítima. Seja feita a vontade de Deus!”

Após jantar com Alexandra e Ana Virubova, Nicolau pede-lhes


que orem para que sua resolução permaneça firme, e dirige-se à reunião
segurando na mão direita um pequenino ícone presenteado por Ana para
transmitir-lhe coragem.
Em vão, os ministros rogam-lhe em coro que abandone tão
azardado projeto. O momento era crítico – do Báltico aos Cárpatos os
russos batiam em retirada. Kovno, Grodno e Brest-Litovsk capitulavam
e a Polônia, a Lituania e a Galícia haviam sido tomadas pelos alemães. O
número de baixas era estarrecedor. Os hospitais transbordavam de feridos

D R AG O E D I TO R I A L 247
M Á RC I A S A RC I N E L L I

que chegavam do front aos milhares. O Quartel General de Stavka, ameaçado


de bombardeios, havia sido transferido para Mogilev. Diante deste cenário,
a decisão de Sua Majestade parecia-lhes intempestiva e suicida. Um após
o outro os ministros argumentam que a máquina governamental seria
totalmente desorganizada com a constante ausência do chefe de Estado,
e que as derrotas militares e crises políticas lhe seriam atribuídas. Por fim,
percebendo que, conquanto se dignasse ouvi-los, a resolução do czar
já estava tomada, os ministros suplicam-lhe que não vá ao front naquele
momento em que o Exército estava derrotado. Nicolau, contudo, não se
deixa dissuadir. Ouve-os a todos sem interrompê-los, a testa coberta de
suor, e então agradece-os um por um e anuncia calmamente:

“Senhores, dentro de dois dias parto para o Quartel General.”

Diante da obstinação do czar, que julgavam catastrófica, oito


dentre os treze ministros decidem demitir-se e entregam a Nicolau uma
carta coletiva de demissão. “É nosso dever”, declara o ministro do Exterior
Sazonov, “...dizer ao czar francamente que sob as atuais condições não
podemos governar o país... O Conselho não pode realizar suas funções se
não tiver a confiança do Soberano.”
O efeito da carta é nulo; Nicolau apenas informa aos ministros que,
enquanto não decidisse substituí-los, tratassem de permanecer onde estavam
e cumprissem as suas obrigações. Alexandra, contudo, não esqueceria esta
afronta enquanto vivesse. Até então ela aceitara o Conselho de Ministros
como um órgão necessário ao funcionamento do regime autocrático – ao
contrário da Duma, que ela encarava como uma ameaça à autocracia e ao
futuro reinado do czarévitch. A partir da recusa do Conselho a apoiar a
decisão do czar – em sua opinião a única possível – Alexandra dedicar-
-se-ia a substituir um por um todos os ministros do Conselho. Todos, à
exceção do decrépito e senil Goremykin, então Primeiro Ministro, o único
a apoiar o czar em tudo o que fizesse e dissesse. Embora ele próprio
também suplicasse em várias ocasiões ao czar que o demitisse por estar
velho demais, surdo e confuso demais para exercer o cargo, Goremykin era
o preferido de Alexandra e Rasputin e ambos fariam de tudo para mantê-lo
em seu posto.
Havia ainda o desagradável mas necessário encargo de aliviar o
grão-duque Nikolai Nikolaievitch de seu pesado dever, suprimindo-lhe o
cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas. Conquanto inevitável,
nem por isso era menos aterrorizante para o czar a ideia de enfrentar o

248 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

incomensurável, irascível e – pior – extremamente popular Nikolasha.


A czarina-mãe suplica ao filho que reconsidere a sua decisão e adverte-o
contra o risco de descontentar o Exército naquele momento, afastando um
comandante tão popular. Maria Feodorovna insiste também sobre o perigo
de abandonar Petrogrado nas mãos de Deus-sabe-quem (na verdade todos
sabiam quem), instaurando o caos no governo. Felizmente a consciência do
czar – Alexandra – não o deixava em paz, e ele não daria ouvidos a fúteis
admoestações, ainda que bem intencionadas.
A Nikolai Nikolaievitch o czar redige uma carta elegante e
elogiosa, uma obra-prima de diplomacia em que com uma mão afagava o
orgulho do grão-duque e com a outra subtraía-lhe o cargo. O czar conclui
agradecendo profusamente o ex-generalíssimo por sua bravura e excelência
no cumprimento do dever e oferecendo-lhe o comando do Exército
do Cáucaso. A carta é entregue pelo General Polivanov a Nikolasha, que
comenta simplesmente:

“Deus seja louvado; o Imperador libertou-me de um dever que me exauria.”

Aliviado, Nicolau registraria em seu diário:


“...Tudo correu bem!...”

E escreveria a Alexandra:

“Minha amada Sunny,


“Graças a Deus está tudo concluído e aqui estou com esta nova, grave respon-
sabilidade sobre os meus ombros. Mas cumpriu-se a vontade de Deus – sinto-me tão
calmo, como depois de comungar! Durante toda a manhã do memorável dia 23 de agosto,
enquanto me dirigia para cá, rezei muito e li a tua primeira carta várias vezes. Quanto mais
se aproximava o momento do meu encontro com [Nikolasha], mais serena tornava-se a
minha alma.
“Nikolasha aproximou-se com um sorriso gentil e perguntou apenas quando eu
ordenava que ele partisse. Eu respondi, da mesma maneira, que ele podia permanecer por
dois dias; ele então falou sobre questões concernentes a operações militares, sobre alguns
generais etc. E isto foi tudo!
“Nos dias seguintes, durante o almoço e o jantar, ele esteve falante e de bom
humor, como não se lhe via há meses! Petya [grão-duque Pyotr Nikolaievitch] também, mas
seus ajudantes de campo tinham uma expressão sombria – era até engraçado.
“Nikolasha repetiu-me que deixava o posto tranquilizado por saber que terei um
ajudante como o general Alexeiev. [...]

D R AG O E D I TO R I A L 249
M Á RC I A S A RC I N E L L I

“Agora inicio uma nova página e o que será escrito nela só Deus Todo Poderoso
o sabe.
“Assinei a minha primeira prikaz [ordem] com uma mão bastante trêmula!”

A czarina apoia e exulta:

“Que alívio! Abençoo-te, meu anjo, e abençoo a tua decisão, esperando que seja
coroada de sucesso e nos conduza à vitória interna e externa.”

Em Tsarskoe Selo, o Triunvirato celebra a queda de Nikolasha e


a estreia do Generalíssimo Nicolau como uma vitória pessoal. Rasputin
naturalmente aplaude uma resolução que eliminava um de seus inimigos
mais tenazes e declara abertamente à czarina:

“Se o nosso Nicolau não tivesse tomado o lugar de Nikolasha, podia dizer adeus
ao trono.”

O czar partira para Mogilev levando uma carta de Alexandra, mais


eloquente e arrebatada do que de hábito:

“Meu amado, não encontro palavras que expressem tudo o que sinto – meu coração
transborda. Desejo apenas apertá-lo em meus braços e sussurrar palavras de amor intenso,
coragem e bençãos intermináveis... Lutaste esta luta por teu país e teu trono – sozinho e
com muita bravura e decisão. Eles nunca haviam visto tanta firmeza em ti... Sei bem o que
te custa... perdoa-me, meu anjo, por não tê-lo deixado em paz e por tê-lo perseguido tanto,
mas eu conheço bem demais o teu caráter maravilhosamente gentil e desta vez tu tinhas que
superá-lo, tinhas que vencer a tua luta sozinho contra todos. Será uma página gloriosa do
teu reino e da História da Rússia, a história destes últimas semanas... Nosso amigo diz – e eu
também creio nisto absolutamente – que este é o início da glória do teu reino... Dorme bem,
meu raio de sol, salvador da Rússia.[...]”

Se Alexandra e Rasputin parecem tão certos do sucesso da nova


missão do czar, este, hesitante nesta como em outras situações, firma ordens
com mãos trêmulas e vive sobressaltado, mas persiste na obsessão do “sacro
dever”, como se apreende de uma de suas cartas a Alexandra:

“Assumi hoje o comando de todas as forças navais e terrestres presentes no teatro


de operações [...]. Nutro a firme convicção de que a misericórdia divina nos acompanhará
em nossa fé absoluta na vitória final e no cumprimento de nosso sacro dever de defender
a pátria até o fim. Não nos mostraremos indignos da terra russa.”

250 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Uma espécie de sorte de principiante vem favorecê-lo, e fortalecer


suas titubeantes convicções. Logo em seguida à sua estreia como Comandante
Supremo, o XI Exército ataca na Galícia duas divisões alemãs, realizando
a proeza de capturar 7.000 soldados e 150 oficiais. Delirante de felicidade,
Nicolau escreve a Alexandra:

“E tudo isto aconteceu imediatamente após as nossas tropas saberem que eu


assumira a liderança. Isto realmente é obra de Deus – e tão rápida!”

Felizmente para o czar, imediatamente após a troca de comando


a ofensiva alemã perdera o ímpeto. Convencidos de que as imensas perdas
de 1915 haviam definitivamente esgotado o Exército russo, os alemães
dão-lhe as costas e passam a concentrar-se no front ocidental. Em junho
de 1916 a massa da artilharia alemã e um milhão de soldados da infantaria
reuniam-se na fortaleza de Verdun. De repente, para espanto dos generais
alemães concentrados a Oeste, os russos passam a atacar a Leste. Tinha
início a ofensiva Brusilov, uma das poucas ofensivas que levam o nome de
um comandante, o general russo Alexei Brusilov. Depois da grande retirada
de 1915, o Exército russo, que parecia definitivamente derrotado, ressurge
reequipado e nutrido graças aos esforços heroicos do novo ministro da
Guerra, Polivanov. A ofensiva visava ajudar os aliados; os alemães ameaçavam
seriamente as defesas francesas em Verdun e os austríacos massacravam
os italianos ao norte da Itália. Surpreendidos pelo ataque de Brusilov, os
austríacos recuam, e na retirada, perdem metade de suas forças no Leste em
uma semana. Os russos, por pouco, não colocam o Exército austríaco hors
de combat com a Ofensiva Brusilov, mas mais uma vez reforços alemães vêm
salvar a Áustria (e perverter o Plano Schlieffen). Dezoito divisões alemãs
são transferidas de Oeste para Leste em socorro aos austríacos e o ataque a
Verdun é abandonado. A Itália e a França estavam salvas, novamente a um
preço altíssimo para a Rússia.
Se antes tremia de indecisão e vergava sob o peso sobre-humano de
suas responsabilidades, Nicolau agora fremia de um arrebatamento bélico
que o transformava, e vibrava com uma deliciosa sensação, para ele inédita: a
certeza de estar com a razão, de ter tomado a decisão correta, contra a opinião
de todos. Em cartas a Alexandra fulguram centelhas deste novo Nicolau:

“O comportamento de certos ministros continua a surpreender-me! Depois de


tudo o que eu lhes disse na famosa reunião noturna, achei que tivessem compreendido
que eu realmente falava a sério.

D R AG O E D I TO R I A L 251
M Á RC I A S A RC I N E L L I

“Bem, pior para eles! Eles temiam fechar a Duma – pois foi feito! Eu vim para cá
e substituí Nikolasha contra o conselho deles; o povo aceitou estas medidas com natura-
lidade e compreendeu-as assim como nós. A prova – montanhas de telegramas tocantes que
recebo de diferentes lugares. Tudo isto mostra-nos claramente uma coisa – que os ministros,
vivendo sempre na cidade, sabem muito pouco sobre o que acontece no país. Daqui eu
posso julgar corretamente os verdadeiros sentimentos de diferentes classes de pessoas: tudo
deve ser feito para conduzir esta guerra a um fim vitorioso e não há dúvidas sobre isso.
Todas as delegações que recebi outro dia disseram-me isto oficialmente – e assim é em toda
a Rússia.
“As duas únicas exceções são Petrogrado e Moscou – dois pontinhos no mapa do
nosso país!”

•••

A partir de outubro de 1915, Nicolau passara a levar consigo o


czarévitch Alexei, agora com 11 anos de idade, em suas idas ao Quartel
General. Esta não fora uma decisão fácil ou leve para Suas Majestades,
especialmente para Alexandra. A czarina explicaria ao tutor do czarévitch,
Pierre Gilliard, que o czar tomara esta ousada resolução porque toda a sua
vida sofrera por sua timidez e por estar tão mal preparado para os deveres de
um imperador, quando da súbita morte de Alexandre III, e decidira evitar os
mesmos erros na educação do filho.
Ao czar preocupava também o ambiente opressivo em que vivia o
czarévitch, sufocado pela adoração das mulheres, os cuidados dos médicos e
a constante vigilância dos marinheiros. Nicolau resolve iniciar a educação do
futuro czar salvando-o da perpétua veneração da mãe e das irmãs e apresen-
tando-o ao mundo masculino e vibrante de ação e perigo do Quartel General.
Foi extremamente difícil para Alexandra ver partir o filho naquela
manhã de outubro de 1915, felicíssimo em seu uniforme de soldado raso.
Mas ela também concordava que a vida reclusa que Alexei levava em Tsarskoe
Selo não poderia prepará-lo para reinar. Mesmo sabendo que ele estaria
sempre com o pai, rodeado pelos cuidados de seus médicos e pelos olhos
vigilantes dos dois marinheiros, Alexandra não ignorava os riscos que corria
o filho hemofílico: o sacudir dos trens que podiam provocar-lhe quedas e
hematomas, as viagens por regiões suscetíveis a bombardeamento, longas
caminhadas e revistas às tropas que exigiriam que estivesse muito tempo em
pé – todas estas situações poderiam ser-lhe fatais. De fato, nenhum médico
permitiria a qualquer outro hemofílico este tipo de aventura.
Em suas cartas a Alexandra, Nicolau descreve a alegria que Alexei

252 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

levava ao Quartel General, sua seriedade ao acompanhar o pai em inspeções


às tropas, visitas a hospitais, fábricas e estaleiros, o prazer de acordar todas as
manhãs junto ao filho e a gradual diminuição da timidez do czarévitch. Ao
contrário do pai, Alexei não era naturalmente tímido, apenas superprotegido
e desabituado a situações e pessoas estranhas.
Em diversas ocasiões Alexei feriu-se, teve febre e esteve acamado,
verificando-se então um fato inédito na história: um Imperador todo-po-
deroso e Comandante Supremo do maior Exército do mundo que, durante
uma guerra, em pleno Quartel General, servia dia e noite de ama-seca e
enfermeiro ao filho doente. Aos oficiais, adidos militares e embaixadores
que testemunhavam estes estranhos acontecimentos, Nicolau não oferecia
explicações e nunca discutia a saúde do filho.
Enquanto isto, do fundo de seu famoso boudoir lilás, a czarina
governava o maior Império da terra, e não aceitava outros conselheiros
além de Rasputin e Ana Virubova. Em suas cartas quotidianas, Alexandra
escrevia a Nicolau que seu “Amigo” era mais competente do que qualquer
dos ministros e apenas ele poderia conduzi-los à vitória. Todas as manhãs,
às 10 horas, a czarina telefonava a Rasputin, que a esta hora já dissipara a
embriaguez noturna, e consultava-o sobre questões políticas ou militares,
sobre nomeações de ministros ou relações entre os membros da família
imperial. Os conselhos de Rasputin eram naturalmente ditados por Deus,
como o stárets não cansava de lembrar-lhe. Alexandra repetia fielmente
ao marido as divinas advertências de padre Grigori e em seus surtos de
fetichismo religioso enviava-lhe objetos que pertenciam ao stárets ou que
haviam sido tocados por ele, para que com seu poder benéfico ajudassem o
czar a vencer batalhas internas e externas.
Em dezembro, o czar deixa Alexei em Mogilev para realizar uma
série de inspeções. Durante a sua ausência, o czarévitch, que estava resfriado,
depois de um espirro mais violento sofre uma séria hemorragia no nariz.
Incapaz de estancá-la, Dr. Fedorov aconselha o Imperador a retornar o mais
rapidamente possível a Mogilev. Ao chegar ao Quartel General, Nicolau
encontra o filho pálido e febril, a narina obturada por tufos de algodão
ensanguentados, e leva-o imediatamente para Tsarskoe Selo.
A crise é a pior desde Spala. Conquanto indolores, as hemorragias
do nariz são extremamente perigosas para sujeitos hemofílicos. Ao contrário
de hemorragias externas, que podem ser contidas sob pressão, este tipo de
hemorragia é muito difícil de conter e na época era quase sempre fatal.
Gilliard estava no trem que levava o czarévitch para casa e relata
que:

D R AG O E D I TO R I A L 253
M Á RC I A S A RC I N E L L I

“...as forças do paciente diminuíam rapidamente. Tínhamos que mandar parar o


trem para trocar os tampões [do nariz]. O marinheiro Nagorny segurava Alexei Nikolaievitch
na cama (ele não podia deitar-se completamente) e duas vezes durante a noite ele desmaiou
e eu achei que fosse o fim.”

Finalmente em casa, o czarévitch moribundo é recebido pela mãe,


acompanhada pela indefectível Ana Virubova, que descreve a cena em suas
memórias:

“Nunca poderei esquecer a angústia com que a pobre mãe aguardava a chegada
do filho doente, talvez morto. E nunca poderei esquecer a palidez de cera, quase cadavérica,
do rostinho do menino enquanto era levado com infinito cuidado para o palácio e colocado
sobre a sua cama. Acima dos curativos ensanguentados, seus olhos azuis olhavam-nos
com indescritível sofrimento e parecia a todos à sua volta que chegara a última hora da
infeliz criança. Os médicos [...] exauriam todos os meios científicos possíveis para deter a
hemorragia incessante. Desesperada, a Imperatriz mandou chamar Rasputin. Ele entrou
no quarto, fez o sinal da cruz sobre a cama e, olhando fixamente para a criança quase
moribunda, disse calmamente aos pais ajoelhados: ‘Não se alarmem. Nada vai acontecer.’
Ele então saiu do quarto e do palácio. Isto foi tudo. A criança adormeceu e no dia seguinte
estava tão bem que o Imperador partiu para [Mogilev]. Naquele dia, ele inspecionaria 84.000
soldados e jantaria com 105 oficiais no trem imperial. Dr. Derevenko e Prof. Feodorov me
disseram depois que eles nem tentavam explicar a cura.”

Em maio de 1916, apenas seis meses após a hemorragia quase fatal


de Alexei, a czarina permitiria que ele retornasse ao Quartel General. Ele
fora promovido de soldado a cabo e estava muito orgulhoso. Em dezembro
de 1916 o czarévitch faria a sua última visita ao QG.

•••

“Degradai primeiro as Artes se quiserdes degradar a Humanidade,


Contratai Idiotas para Pintar com luz fria e sombra quente:
Dai alto Preço aos piores, deixai os melhores em desgraça,
E com Obras de Ignorância enchei todos os lugares.”
(William Blake, “Conselho aos Papas que Sucederam à Era de Rafael”)

Nos meses que se seguem à entrega da carta de demissão dos


ministros, verifica-se um novo e ainda mais frenético carrossel. Em dezesseis

254 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

meses a Rússia depara-se com quatro diferentes Primeiros-Ministros, cinco


ministros do Interior, quatro ministros da Agricultura e três ministros da
Guerra, todos apontados por Rasputin. Os primeiros signatários a serem
despachados, sem qualquer explicação, são o Príncipe Scherbatov, ministro
do Interior; Samarin, Procurador do Santo Sínodo; Krivoshein, ministro da
Agricultura e Khatarinov, Controlador do Estado.
A permanência de Goremykin no cargo de Primeiro Ministro
revela-se inviável. O pobre homem era vaiado todas as vezes em que tentava
abrir a boca na Duma e seus colegas ministros ignoravam-no comple-
tamente. Alexandra e Rasputin intrigam e urdem em vão e Goremykin
finalmente pôde ir para casa. Para substituí-lo, Nicolau aponta Alexander
Khvostov, ministro da Justiça ultraconservador e um dos que se recusaram
a assinar a carta de demissão. Quaisquer que fossem as suas virtudes,
Khvostov devia antes passar pelo crivo de Rasputin, como esclarece
Alexandra em carta ao czar:

“Nosso amigo disse-me para adiar a partida do Velho [Goremykin] até que ele
tivesse se encontrado com Khvostov na quinta-feira [...] Grigori está tristíssimo com a
saída do querido Velho, diz que ele é um homem tão correto, mas que teme as vaias da
Duma que te colocariam em uma horrível posição.”

Khvostov, contudo, é descartado após a entrevista com Rasputin,


que relata à czarina ter sido tratado como um pedinte. O próximo candidato,
Boris Stürmer, só não era uma total insignificância porque gozava de uma
das piores reputações do país. Paléologue o descreveria como

“...pior do que uma mediocridade – intelecto de terceira categoria, mau, sem


caráter, de honestidade duvidosa, sem experiência e sem a menor ideia dos assuntos de
Estado. O melhor que se pode dizer a seu respeito é que possui um enorme talento para
enganar e bajular... Sua nomeação justifica-se apenas pela suposição de que servirá exclusi-
vamente como uma ferramenta; em outras palavras, exatamente devido à sua insignifi-
cância e servilismo... [ele] foi altamente ... recomendado ao Imperador por Rasputin.”

Para espanto de toda a Rússia pensante e sobretudo da Duma, que


encara a nomeação como uma afronta, o país amanhece com um novo
Primeiro Ministro. Temendo uma nova onda de vaias que inviabilizaria
a posse de Stürmer, Rasputin sugere ao czar que faça à Duma uma visita
inesperada e pronuncie algumas frases placatórias. O engenho funciona
magicamente. A aparição do czar ofusca a nomeação de Stürmer; canta-se

D R AG O E D I TO R I A L 255
M Á RC I A S A RC I N E L L I

um Te Deum, o czar condecora Rodzianko com a ordem de Sant’Ana e


todos se felicitam.
O próximo da lista de Alexandra e Rasputin seria o ministro da
Guerra Polivanov, antigo desafeto da czarina. Após a saída de Sukhomlinov,
Polivanov em pouco tempo realizara verdadeiros prodígios como ministro
da Guerra, treinando e equipando o Exército, ressuscitando-o para lançar a
grande ofensiva de 1916. Infelizmente, sua insistência em ignorar o stárets e
em trabalhar em conjunto com a Duma condenava-o ao extermínio político
no reinado de Alexandra. O destino do ministro é selado quando descobre
que Stürmer havia cedido a Rasputin quatro potentes automóveis oficiais
do Ministério da Guerra, velozes demais para serem seguidos pelos velhos
carros da polícia durante sua vigilância noturna. Os vigorosos protestos de
Polivanov inspiram a pena igualmente vigorosa da czarina, que bombardeia
o czar com suas diatribes epistolares:

“Livre-se de Polivanov [...] qualquer homem honesto seria melhor do que ele
[...] Lembre-se de livrar-se de Polivanov [...] Amorzinho, não vacile, isso é muito sério.”

Em março de 1916, Polivanov é substituído pelo General Shuvaiev,


cuja única virtude era sua cega devoção ao czar. “Oh, que alívio, agora
poderei dormir!” – escreve Alexandra ao marido complacente.
A Polivanov segue-se Sazonov. Ministro do Exterior desde 1910,
Sazonov era correto e competente, e conquistara a confiança tanto do czar
quanto dos governos aliados. Os embaixadores da Inglaterra e da França,
Buchanan e Paléologue, tinham-no em alta consideração e apelam ao
czar por sua readmissão. Os poderes de persuasão da czarina, contudo,
mostram-se mais eficazes; ela dedica todo o inverno a denegrir o excelente
ministro junto ao czar. Em sua campanha difamatória, Alexandra muitas
vezes serve-se de argumentos pueris, que, no entanto, surtem o efeito
desejado:

“...aquele intrometido do Sazonov [...] Sazonov é tão maçante [...]”


“Gostaria que pensasses em um bom sucessor para Sazonov – não é necessário
que seja um diplomata. Apenas para garantir que mais tarde não sejamos enganados pela
Inglaterra e que, quando chegar o momento das questões de paz definitivas nós sejamos
firmes. O velho Goremykin e Stürmer nunca o suportaram e ele é tão covarde em relação
à Europa e é parlamentarista – e isto seria a ruína da Rússia.”

A queda de Sazonov precipita-se com a questão da autonomia

256 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

que a Rússia prometera à Polônia no início da guerra. As sucessivas


derrotas militares e as perdas de território adiam a realização da promessa,
ativando os ultraconservadores que temiam que a autonomia de parte do
Império contagiasse outras províncias com ideias de liberdade. Alexandra
e Rasputin alegavam que os futuros direitos do Bebê (como ela chamava
Alexei) estavam em risco. Entretanto, Sazonov continuava a insistir. Em
julho, o ministro encontra-se com o czar em Mogilev e deixa o Quartel
General entusiasmado: “O Imperador adotou completamente as minhas
ideias...”- diria ele a Buchanan e a Paléologue. Contente com o desfecho
de sua entrevista com o czar, Sazonov parte para a Finlândia para alguns
dias de descanso, durante os quais pretendia compor uma Proclamação
Imperial de Independência da Polônia.
Assim que o ministro deixa o QG, Alexandra e Stürmer precipi-
tam-se a Mogilev e convencem Nicolau a demiti-lo. Em vão, Buchanan e
Paléologue tentam convencer o czar a reconsiderar a sua decisão. Buchanan
então solicita-lhe permissão para que o rei George V condecore Sazonov
em reconhecimento aos serviços prestados à Aliança. Apesar do tratamento
injusto que dispensara ao ministro, demitindo-o sumariamente após ter
concordado com suas reivindicações, Nicolau alegra-se sinceramente com
a honra concedida a Sazonov pelo governo da Inglaterra. O czar gostava
realmente deste homem que não ousara salvar das garras de Alexandra e
Rasputin, e apreciava as suas qualidades.
Depois de tantos sobressaltos, a maior das surpresas seria o
substituto de Sazonov no ministério do Exterior: ninguém menos do que
Stürmer, que assim acumulava dois cargos de imensa responsabilidade.
Devido ao seu caráter e à sua função de marionete, sua indicação equivalia
a eleger Rasputin para as duas pastas. A nomeação foi um choque terrível
para Buchanan e Paléologue, que agora viam-se na contingência de lidar
diretamente com um indivíduo que desprezavam. Buchanan escreveria a
Londres:

“Nunca poderei ter relações confidenciais com um homem em cuja palavra não
se pode confiar.”

Paléologue, após uma entrevista com Stürmer em sua nova


condição de Primeiro Ministro e ministro do Exterior, escreveria sobre ele
em seu diário:

“Seu olhar, agudo e adocicado, furtivo e maligno, é a própria expressão da

D R AG O E D I TO R I A L 257
M Á RC I A S A RC I N E L L I

hipocrisia... ele emite um intolerável odor de falsidade. Em sua bonomia e sua afetada
polidez sente-se que ele é baixo, intrigante e traiçoeiro.”

A polícia e a Okrana respondiam ao ministério do Interior,


responsável pela preservação da lei e da ordem e praticamente do próprio
regime na Rússia. Este cargo conferia a seu detentor poder quase ilimitado
sobre os súditos de Sua Majestade, dentro e fora do país, e era compreen-
sivelmente muito cobiçado. A escolha do felizardo recai sobre o simpático,
porém incapaz e instável Alexander Protopopov, vice-presidente da Duma,
e revelar-se-ia desastrosa como as precedentes.
Charmoso, moderadamente liberal e socialmente palatável,
Protopopov era muito popular junto à Duma, mas perde de uma só
vez todos os amigos assim que aceita a nomeação e passa a venerar
abertamente Rasputin. Na verdade, Protopopov e Rasputin conheciam-se
há alguns anos. Protopopov tinha sífilis e já havia sido desenganado pelos
médicos quando decide procurar Badmaiev, um siberiano charlatão então
em voga na capital, que dizia curar doenças incuráveis com ervas e orações.
Badmaiev apresenta-o a seu amigo Rasputin e o vice-presidente da Duma,
fascinado por ocultismo, passa a frequentar o círculo místico do stárets.
Informado pela czarina de que o czar via com bons olhos o seu
protegé, em setembro Rasputin dá início à sua campanha para que Nicolau o
designasse para a vaga de ministro do Interior. Para Alexandra os desejos
de padre Grigori eram ordens e ela retoma a sua perseguição ao czar:

“Grigori suplica que nomeies Protopopov... Ele gosta de nosso Amigo há pelo
menos quatro anos e isto diz muito sobre um homem.”
“Por favor, tome Protopopov como ministro do Interior. Como ele faz parte da
Duma, seria de grande efeito e fecharia as bocas [dos deputados].”

Nicolau resiste por alguns dias, mas finalmente cede e telegrafa a


Alexandra o seu consentimento. Felicíssima com essa nova vitória política
do seu reinado, a czarina responde:

“Deus abençoe a sua nova escolha [Protopopov]. Nosso Amigo diz que agiste
muito sabiamente ao nomeá-lo.”
“Tanto Stürmer quanto Protopopov confiam totalmente na maravilhosa e divina
sabedoria do nosso Amigo.”

A nomeação causa escândalo na Duma, e o consentimento de

258 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Protopopov é considerado traição. Pressionado a demitir-se, Protopopov


retruca:

“Mas como podeis me pedir isso? Toda a minha vida eu sonhei ser vice-go-
vernador, e agora eu sou ministro!”

Logo em seguida à sua nomeação, o comportamento de Protopopov


começa a mudar e ele torna-se cada vez mais excêntrico. Comparece às
reuniões da Duma vestindo um uniforme de general de gendarmes, e
mantém longas conversações com um ícone colocado sobre a sua mesa.
“Ele me ajuda em tudo.” – diria Protopopov a Kerensky sobre o seu
relacionamento com o ícone – “Tudo o que faço é sugerido por ele.” Sua
orientação política também muda radicalmente, e ele se transforma em um
arquiconservador, determinado a esmagar a revolução pela força e a salvar
a autocracia e a ortodoxia. Rodzianko escreveria que durante as reuniões
da Duma ele revirava os olhos em uma espécie de êxtase, murmurando:

“Sinto que salvarei a Rússia. Sinto que apenas eu posso salvá-la.”

O embaixador francês Paléologue, sempre um excelente cronista


dos eventos de sua época e agudo observador de caráteres, assim resumia
o panorama político da Rússia no reinado de Alexandra:

“Já não há dúvidas de que a política russa é guiada pela corriola da imperatriz.
Mas quem encarna essa camarilha? Quem lhe fornece o programa e a guia? Certamente
não a imperatriz, que ademais é excessivamente emotiva e inconstante, psicologicamente
instável e insensata demais para idealizar e realizar um plano político. É o instrumento de
uma conspiração, cuja presença eu percebo constantemente neste ambiente. Como ela,
também as pessoas que a circundam não passam de instrumentos: Rasputin, a Virubova, o
general Voekov, Taneiev, Stürmer e outros, são apenas comparsas, intrigantes e marionetes.
O pior é o ministro do Interior Protopopov, que, realmente, não é de todo normal.
“Eu creio que a infausta política, pela qual serão responsáveis perante a História
a imperatriz e seu bando, seja-lhes sugerida por quatro homens: o chefe da extrema direita
do Conselho Imperial, Cheglovitov, o metropolita de Petrogrado Pilgrim, o ex-chefe do
departamento de polícia Beletzky e o banqueiro Manus. À exceção destes quatro homens,
vejo apenas o jogo de forças anônimas, esparsas, que operam umas contra as outras e que
pretendem salvar a essência do czarismo mas que, inexoravelmente, a destroem.”

O presidente da Duma, Rodzianko, movido pelas mesmas preocu-

D R AG O E D I TO R I A L 259
M Á RC I A S A RC I N E L L I

pações que agitavam Paléologue e todos aqueles que eram fiéis ao czar, em
março de 1916 consegue uma audiência com Nicolau, e mais tarde registraria
suas palavras ao soberano:

“Disse-lhe tudo: das intrigas dos ministros, que trabalhavam uns contra os outros
com a mediação de Rasputin, da falta de um projeto político, do abuso geral de poder,
do desprezo pela opinião pública, da exasperação do povo, que terminaria por perder a
paciência. Contei-lhe sobre os contatos de Rasputin com personagens equívocos, as suas
libertinagens e as suas orgias e avisei-o sobre a irritação que seu estreito relacionamento com
a família imperial e a sua influência nos negócios de Estado provocavam na população e nos
homens honestos do governo.
“Se realmente os ministros de Vossa Majestade visassem unicamente o bem de
nosso país, a presença de um homem como Rasputin não teria significado algum para as
questões de Estado. O problema, contudo, é que estes dependem em parte dele e o envolvem
em suas intrigas. Ninguém vos abre os olhos sobre o papel que este homem representa, cuja
presença mina a confiança no poder supremo do Estado e pode ter graves consequências
sobre o futuro da dinastia, uma vez que distancia o coração do povo de seu imperador.’
“Enquanto eu enumerava estas dolorosas verdades, o czar calava ou demonstrava
espanto, permanecendo todavia cordial e cortês. Quando acabei, o soberano solicitou o meu
parecer sobre o andamento da guerra. Respondi que podíamos contar com o Exército e com
a população, mas que eram os vértices militares e sobretudo a situação política interna que
obstavam a vitória.”

Na mesma época, o embaixador inglês telegrafava ao Foreign Office


de Londres:

“Se o soberano conservar os atuais conselheiros, temo que uma revolução seja
inevitável.”

A conselho de Rasputin, a responsabilidade pela organização do


fornecimento de alimentos, um dos problemas mais sérios que a Rússia
enfrentava, é transferida do ministério da Agricultura para o ministério do
Interior – que contava com a polícia para reforçar suas ordens. Na ausência
do czar, Alexandra realiza, ela mesma, a transferência, sem ao menos solicitar
a aprovação do marido. Em seguida, ela lhe escreveria:

“Perdoa-me pelo que fiz – que tive que fazer – nosso Amigo disse que era absolu-
tamente necessário. [...] Tive que tomar esta atitude eu mesma porque Grigori diz que
Protopopov assim terá tudo em suas mãos... e assim salvará a Rússia ...”

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

O czar previsivelmente aquiesce e assim, no terrível inverno de


1916-17, tanto a polícia quanto o fornecimento de alimentos jaziam nas
mãos trêmulas do delirante Protopopov, marionete de Rasputin.

•••

“Amor condusse noi ad una morte”


(Dante Alighieri, “Inferno”)

Paralelamente às suas incursões em questões de política interna,


Alexandra e Rasputin passam a intervir também em operações militares.
A princípio timidamente, ambos evoluem de meros curiosos a instrutores
militares, como se apreende de certos trechos de cartas de Alexandra a
Nicolau, a partir de novembro de 1915:

“...queria tanto saber quais são os seus planos com relação à Romênia. Nosso
Amigo está tão ansioso para conhecê-los.”

“Nosso Amigo temia que, se não tivéssemos um grande exército para passar
através da Romênia, seríamos presos em uma armadilha pela retaguarda.”

“Antes que eu me esqueça, devo transmitir-te uma mensagem de nosso Amigo,


ditada pela visão que teve esta noite. Ele suplica-te que ordene um avanço em direção a
Riga, ele diz que é necessário, caso contrário os alemães se estabelecerão tão firmemente
durante todo o inverno, que nos custará muito sangue e esforço para movê-los... ele diz
que agora isto é o mais essencial e suplica-te seriamente que ordenes ao nosso exército
que avance, ele diz que nós podemos e devemos, e que eu tinha que escrever-te imedia-
tamente.”

“Nosso Amigo envia sua benção a todo o Exército Ortodoxo. Ele suplica que
não avancemos maciçamente ao norte porque se continuarmos tendo sucesso ao sul,
eles próprios recuarão a norte, ou avançarão e então suas perdas serão imensas – se
começarmos lá, nossas perdas serão muito pesadas. Ele diz que este é o seu conselho.”

Era extremamente difícil para os contemporâneos de Nicolau II


– como o seria para a sua posteridade – compreender como um homem
em sua posição, e sobretudo em sua situação, podia encarar com natura-
lidade que a esposa instável e um mujik semianalfabeto e amoral ditassem
ordens ao maior exército do mundo durante o maior banho de sangue que

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

a História já conhecera. Em resposta a Alexandra, Nicolau jocosamente


comenta a reação do general Alexeiev às novas aventuras da czarina:

“Contei a Alexeiev como estás interessada em questões militares e sobre as


informações que me pediste em tua última carta. Ele sorriu e não disse nada.”

O pobre general provavelmente não encontrara palavras que


expressassem o seu horror diante de tamanho absurdo: o czar, ademais
Comandante Supremo das Forças Armadas, a sorrir das travessuras da
bem amada e seu amigo sociopata, prestes a lançá-los todos em um abismo
sem fundo. Após a abdicação de Nicolau II, Alexeiev escreveria:

“Quando os papéis da czarina foram examinados, descobriu-se entre eles um


mapa que indicava detalhadamente a disposição das tropas ao longo de todo o front.
Apenas duas cópias deste mapa haviam sido preparadas, uma para o Imperador e outra
para mim. Isto foi um grande choque para mim. Deus sabe quem mais fez uso deste
mapa.”

Embora encantado pela sanha militarista da czarina e feliz em


compartilhar segredos militares com ela, em suas cartas o czar sempre lhe
pedia que não revelasse informações confidenciais a Rasputin:

“Suplico-te, meu amor, não comuniques estes detalhes a ninguém. Escrevi-os


apenas para ti... rogo-te, guarde-os contigo, absolutamente ninguém deve conhecê-los.”

Impérvia às súplicas do marido, a czarina respondia-lhe sem


constrangimento que havia revelado todos os “segredos” a Rasputin.
Era-lhe inconcebível esconder-lhe ou negar-lhe qualquer coisa, exatamente
como era inconcebível para o czar esconder ou negar qualquer coisa a ela.
Suas respostas eram quase sempre as mesmas:

“Ele não dirá a ninguém. Tive que pedir-lhe a benção para a tua decisão.”

Mais tarde, o príncipe Yussupov declararia a sua convicção de que


Rasputin fosse um espião:

“Rasputin defendia uma paz em separado com os alemães, que o pagavam, e


indubitavelmente era um agente inimigo. A sua posição na corte e o poder que tinha
sobre a maior parte dos ministros e até dos generais, davam-lhe um conhecimento preciso

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

da situação dos exércitos e dos movimentos das tropas. Ele informava tudo aos alemães e
assim, obviamente, o Exército russo sofria derrotas que poderiam ter sido evitadas.”

Muitas outras vozes expressariam mais ou menos a mesma suspeita,


mas é muito mais provável que Rasputin, sem sabê-lo, colaborasse com
agentes russos que trabalhavam para os alemães – porque conhecia segredos
militares que lhe revelava a czarina; porque bebia muito e punha-se a berrar
a sua ascendência sobre os soberanos; porque circulava em companhia de
indivíduos mais que suspeitos e porque gostava de vangloriar-se de seus
“conhecimentos”.

•••

“Eu sempre cedo e no final fazem-me de tolo;


sem vontade, sem caráter...”
(Nicolau II)

Em outubro de 1916 o governo composto por Alexandra e Rasputin


desintegrava-se, e com ele toda a Rússia. Escândalos brotavam entre os
ministros marionetes, o país enfrentava a sua mais séria crise econômica,
greves e revoltas de operários lembravam o terrível ano de 1905, motins
e deserções grassavam no Exército. Em Petrogrado, dois regimentos
convocados a dispersar uma multidão de operários em greve passa para o
lado dos operários e atira contra a polícia. A situação só é controlada com a
intervenção de quatro regimentos de cossacos. Cento e cinquenta soldados
são fuzilados. No front, passados os primeiros meses em que a sorte parecera
sorrir ao Exército russo, agora imperavam o morticínio e a incompetência.
Nas cidades aumentava a carestia e o inverno prometia mais fome e mais
miséria. Na Duma, os partidos de direita como de esquerda atacavam
abertamente o governo de Alexandra e Rasputin.
Nicolau começava a sucumbir às terríveis pressões que a guerra,
a crise econômica e política da Rússia e o exercício de sua dupla função
acarretavam. O czar sofre uma crise nervosa e seus médicos receitam-lhe
doses diárias de cocaína (produto de que ele já se servia ocasionalmente para
tratar sua sinusite) para combater o cansaço crônico e a melancolia, e ópio
à noite contra a insônia. Além desta terapia, o czar passara a beber mais do
que de hábito e fumava ininterruptamente. Sua aparência e suas maneiras
– antes impecáveis – denunciavam seu estado interior: estava emaciado,
envelhecido, acinzentado, mostrava-se ora apático, ora irritável e ácido, e
em geral parecia um sonâmbulo.

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Em seu diário, Paléologue registraria sua preocupação com a saúde


do czar:

“Recentemente o Imperador tem sofrido de doenças nervosas que se manifestam


em uma excitação doentia, ansiedade, perda de apetite, depressão e insônia.
A Imperatriz não descansou enquanto não o fez consultar o charlatão Badmaiev,
um engenhoso discípulo dos feiticeiros mongóis. O embusteiro logo descobriu em
sua farmacopéia o remédio apropriado para o caso de seu augusto paciente: um elixir
composto de ‘ervas tibetanas’, de acordo com uma fórmula mágica, e deve ser prescrito
com muita cautela.
Todas as vezes em que o czar serviu-se desta droga, seus sintomas desapa-
receram magicamente, ele não apenas recuperou seu sono e apetite, como experimentou
uma deliciosa sensação de bem-estar e de vigor, e uma curiosa euforia.
Considerando seus efeitos, o elixir deve ser uma mistura de meimendro e haxixe,
e o Imperador deveria evitá-lo.”

Em cartas a Alexandra, Nicolau expõe suas preocupações, revela a


ansiedade e a irritabilidade que o caracterizam nesta época e pela primeira
vez parece levemente crítico com relação às intromissões da esposa:

“Às vezes, parece que a minha cabeça vai explodir de tanto pensar em que nome
indicar para este ou aquele cargo.”

“Todas essas mudanças fazem a minha cabeça girar. Na minha opinião, elas são
frequentes demais. De qualquer forma, não são boas para a situação interna do país, já que
cada homem traz alterações à administração.”

“O que mais me preocupa é a questão dos suprimentos... os preços continuam a


subir e as pessoas começam a passar fome. É óbvio aonde esta situação pode levar o país.
O velho Stürmer não pode resolver essas dificuldades... É o problema mais sério com que
eu já me deparei...”

Em novembro Nicolau leva Alexei em uma visita à czarina-mãe


em Kiev. Maria Feodorovna e a filha Olga impressionam-se muito com o
horrível aspecto e o nervosismo do czar. “Fiquei chocada ao ver Nicky tão
pálido, magro e cansado”, escreveria Olga. Pierre Gilliard também percebe
a mudança do imperador:

“Ele nunca me parecera tão preocupado. Normalmente era muito controlado,

264 D R AG O E D I TO R I A L
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mas nessa ocasião mostrou-se nervoso e irritável, e uma ou duas vezes falou asperamente
com Alexei Nikolaievitch.”

Para grande aborrecimento do czar, a czarina-mãe faz-lhe um longo


sermão sobre os perigos a que ele expunha a dinastia e o país, deixando-se
guiar por Alexandra e Rasputin. Maria Feodorovna exige que ele demita
Stürmer e Protopopov e exile Rasputin na Sibéria. Irritado, o czar emudece
e não promete nada. Mãe e filho despedem-se secamente.
Quando o czar retorna de Kiev, a revolta dos deputados da Duma
não podia mais ser ignorada. O líder dos liberais Miliukov, em um dos seus
ataques a Stürmer e ao governo de Alexandra e Rasputin, perguntava após
cada acusação:

“Isto é estupidez ou traição?”

Somados à pressão exercida pela czarina-mãe em Kiev e pelos


embaixadores Buchanan e Paléologue, os clamores da Duma parecem surtir
efeito e o czar decide demitir Stürmer. Rasputin e Alexandra resistem e
defendem como podem o ministro, mas esta seria uma das raras ocasiões em
que Alexandra encontraria a resistência do marido. Stürmer é substiuído por
Trepov e a czarina estava desolada:

“Foi um doloroso choque... Senti um enorme nó na garganta – um homem tão


devotado, honesto e seguro... Eu sinto muito porque ele gosta tanto de nosso Amigo... De
Trepov eu pessoalmente não gosto e nunca poderei ter por ele os mesmos sentimentos
que nutria pelo velho Goremykin e por Stürmer – eles eram da velha safra... aqueles dois
me amavam e vinham a mim com qualquer problema que os preocupasse para não pertur-
bar-te – este Trepov, infelizmente, eu duvido que goste de mim e se ele não confia em mim
e em nosso Amigo, tudo será mais difícil. Eu disse a Stürmer para dizer a [Trepov] como se
comportar com Grigori e para protegê-lo sempre.”

Alexander Trepov, contudo, sabia muito bem como comportar-se


em relação a Rasputin. Monarquista conservador, Trepov estava decidido a
salvar o regime purgando-o da maligna influência do falso stárets, começando
por aliviar o governo da presença de Protopopov, criatura de Rasputin. Ao
aceitar a nomeação para Primeiro Ministro, Trepov arrancara do czar a
promessa de demitir o ministro do Interior. Nicolau escreveria a Alexandra:

“Sinto muito por Protopopov, um homem tão bom e honesto, mas ele pulava de

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

uma ideia a outra e não se decidia a respeito de nada. Notei isto desde o início. Dizem que
há alguns anos ele ficou alterado após uma certa doença... É arriscado deixar o ministério do
Interior em mãos como estas em tempos como estes... Suplico-te apenas que não envolvas
nosso Amigo nisso. A responsabilidade é minha e portanto desejo ser livre em minha
decisão.”

Nicolau, entretanto, não contava com a obstinação e a força do


apelo da czarina. Percebendo que tanto Stürmer quanto Protopopov, seus
mais eficazes instrumentos políticos, escapavam-lhe das mãos, Alexandra se
desespera:

“Perdoa-me, querido, crê em mim. Eu te suplico que não substituas Protopopov


agora, ele vai ficar bem, dá-lhe a chance de tomar o suprimento de alimentos em suas mãos
e eu te asseguro, tudo ficará bem... Oh, amorzinho, podes confiar em mim. Posso não
ser muito inteligente – mas tenho um forte sentimento e isto muitas vezes ajuda mais do
que o cérebro. Rogo-te que não substituas ninguém até que nos vejamos, falemos disso
calmamente...”

E no dia seguinte:

“Amorzinho, meu anjo... não demitas Protopopov. Tive uma longa conversa
com ele ontem – o homem é totalmente são... calmo e completamente devotado, o que
infelizmente pode-se dizer de poucos, e ele vai conseguir – as coisas já estão melhorando...
não mudes ninguém agora, senão a Duma pensará que é uma realização deles, e que eles
conseguiram expulsar todo mundo... Querido, lembra-te de que o problema não é o homem
Protopopov ou x.y.z., mas é a questão da monarquia e do seu prestígio, que não podem ser
abalados... Não penses que eles se limitarão a eliminar Protopopov, mas expulsarão todos
aqueles que são devotados a ti um por um – e então nos expulsarão. Lembra-te... o czar
governa, e não a Duma. Perdoa-me por escrever-te novamente, mas eu luto pelo teu reino
e pelo futuro do Bebê.”

Não satisfeita, a czarina chega dois dias depois ao Quartel General,


e então pela primeira vez o casal tem uma séria desavença. Alexandra vence
a queda de braço e Protopopov permanece onde estava, mais louco do que
nunca.
Apesar do abalo que causara no relacionamento com o marido,
Alexandra exultava ao vê-lo partir, curvado e exausto, para o front: vencera
mais uma batalha contra os inimigos da autocracia. Suas cartas continuavam
a chover sobre o czar cada vez mais melancólico e previamente derrotado,
esvaziado de toda a vontade:

266 D R AG O E D I TO R I A L
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“Estou totalmente convencida de que uma grande era de grandeza e beleza


está chegando para o teu reino e para a Rússia... devemos deixar um país forte para o
Bebê e não ousar ser fracos por causa dele, ou ele terá um reinado ainda mais difícil,
consertando os nossos erros e puxando as rédeas que deixastes soltas. Tu sofres pelas
falhas nos reinados dos teus predecessores e Deus sabe as dificuldades que enfrentas.
Deixa que o nosso legado seja mais leve para Alexei. Ele tem uma vontade forte e uma
mente independente, não deixes que as coisas te escapem por entre os dedos, forçando-o
a construir tudo de novo. Sê firme. Eu, teu muro de sustentação, estou atrás de ti e não
vacilarei... A Rússia adora sentir o chicote – é a sua natureza – terno amor seguido de
punho de ferro para punir e conduzir. Como eu gostaria de derramar a minha força nas
tuas veias [...].
“Sê Pedro o Grande; Ivan o Terível, Imperador Paulo – esmaga-os a todos – não,
não rias, seu levado [...].
“Deves dar ouvidos a mim e não a Trepov. Fecha a Duma [...].”

Nicolau responde à esposa com insólita acidez:

“Minha cara, agradeço-te pelo sermão... falas-me como se eu fosse uma criança
[...].
“Teu pobre e fraco maridinho,
Nicky”

Ao perceber que Nicolau não cumpriria sua promessa de afastar


Protopopov, Trepov tenta demitir-se, e depara-se com um czar mal
humorado e prepotente, digno do orgulho da czarina:

“Alexander Trepov, ordeno-te que cumpras as tuas obrigações com os colegas


que decidi indicar-te.”

Trepov tenta então uma saída desesperada. Envia seu cunhado


ao apartamento de Rasputin com uma proposta, a seu ver, irrecusável:
uma belíssima villa em Petrogrado com todas as despesas pagas, incluindo
guarda-costas, além do equivalente a 95.000 dólares caso ele conseguisse
a demissão de Protopopov e se abstivesse dali em diante de interferir no
governo. Rasputin responde a mais esta tentativa de suborno com uma de
suas estrondosas gargalhadas. Seu poder era imenso, e ademais, ele nunca
se importara com dinheiro.
A esta altura Rasputin e Alexandra eram odiados em todo o Império.
A czarina era acusada de traição, de simpatia pelo inimigo, de drogar o czar

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

e de ser amante de Rasputin sob as barbas do marido. Rasputin era acusado


de idiotizar o czar para reinar em seu lugar. Em Mogilev, o general Alexeiev
ousara informar ao czar que a censura das cartas dos soldados revelara uma
enorme incidência de comentários maldosos sobre a natureza da relação
entre a czarina e Rasputin – ao que o czar respondera com o silêncio de
sempre.
À medida que os rumores se intensificavam, diminuíam os sinais
externos de respeito em presença da czarina – nos hospitais que ela fundara
e em que servia como enfermeira voluntária, oficiais, médicos, enfermeiras
e soldados feridos tratavam-na com desrespeito e às vezes bastante
rudemente. Todos referiam-se a ela como a Niemka (a alemã), exatamente
como em sua época Maria Antonieta era chamada na França de l’Autri-
chienne (a austríaca). O grão-duque Alexander, ou Sandro, primo e cunhado
do czar e um dos poucos verdadeiros amigos do casal, perguntou certa
vez a um membro da Duma qual a razão para estes apelidos e rumores
infundados, e o deputado lhe respondeu:

“Se a czarina é assim tão patriota, por que ela tolera a presença daquele animal
embriagado que circula abertamente na capital em companhia de espiões alemães e
simpatizantes do inimigo?”

Enquanto Rasputin não se importava minimamente com o ódio


que inspirava – para ele um emblema de seu poder – Alexandra ora entris-
tecia-se, ora irritava-se, ora pressionava o marido a defendê-la como um
homem, e tinha uma boa explicação para os sentimentos que provocava:

“Por que as pessoas me odeiam? Porque sabem que tenho uma vontade forte e
que quando estou convencida de estar certa (e além do mais abençoada por Grigori), não
mudo de ideia e isto eles não suportam. Mas são apenas os maus.
“Lembra-te das palavras de M. Philippe quando ele me deu a imagem com o
sino. Como tu és assim, bom, confiante e gentil, eu deveria ser o teu sino, e os maus
intencionados não conseguiriam se aproximar de mim e eu te avisaria. Aqueles que me
temem não me olham nos olhos [...].”

“...ninguém me defende dos horrores e fúrias de Petrogrado, todos podem dizer,


escrever, insinuar qualquer coisa sobre a sua Imperatriz e ninguém se levanta, repreende,
pune ou multa estes tipos. [...]
“Um marido comum não suportaria por uma hora sequer estes ataques à sua
esposa. Pessoalmente eu não ligo a mínima – quando eu era jovem, sofri horrivelmente com

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estas injustiças ditas sobre mim (e quão frequentemente!) – mas agora as coisas mundanas
(as maldades) não me tocam tão profundamente, apenas meu velho Nicky deveria me
defender, pois muitos pensam que não te importas e te escondes atrás de mim...”
(Trechos de cartas a Nicolau, dezembro de 1916)

Para a família Romanov, era evidente a necessidade de uma mudança


radical no regime, para garantir a subsistência da dinastia e da nação. Em
novembro, o czar recebe em Mogilev a visita do primo, o grão-duque
Nikolai Mikailovitch, famoso historiador e presidente da Sociedade
Histórica Imperial. Cansado de enviar cartas a Nicolau instando-o a apoiar
a Duma e a livrar-se de Rasputin e de sua súcia, o grão-duque decidira
dirigir-se pessoalmente ao czar. Após um longo discurso, que o czar ouve
em silêncio, o primo entrega-lhe uma carta. Esta, Nicolau julga conter as
mesmas admoestações que acabara de ouvir e envia-a ainda lacrada para
Alexandra. Para horror da czarina, a carta era uma longa e dramática
acusação contra ela própria:

“Tu confias nela, isso é natural. Entretanto, o que ela te diz não é a verdade;
ela apenas repete o que lhe foi astutamente sugerido. Se não fores capaz de remover esta
influência de sobre ela, ao menos protege-te a ti próprio.”

Apoplética com a confirmação de sua paranoia, com o marido


que nunca a defendia e com os Romanov que, ao invés de ajudá-la em seu
calvário, uniam-se a seus inimigos para destruí-la, Alexandra escreve ao
marido:

“Li a carta de Nikolai e estou enojada. Deverias tê-lo interrompido na metade


de seu discurso sobre mim e dito que se ousasse tocar no meu nome mais uma vez tu o
mandarias para a Sibéria – pois trata-se praticamente de alta traição [...].”

A família, entretanto, persistia. Na verdade, os Romanov haviam


sido divididos por Rasputin em duas facções distintas: de um lado Nicolau
e Alexandra, de outro o resto da família, liderado pela czarina-mãe. Em uma
reunião dos Romanov encabeçada por Maria Feodorovna, o grão-duque
Pavel, único tio vivo de Nicolau, é escolhido para a missão de pedir ao czar
em nome da família que concedesse uma constituição e afastasse Rasputin
enquanto era tempo. A 16 de dezembro o grão-duque toma chá com
Nicolau e Alexandra, e faz o requerimento em nome da família. Nicolau
recusa, argumentando que havia jurado em sua coroação entregar o poder

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autocrático intacto a seu herdeiro. Enquanto o czar falava, a czarina olhava


para o grão-duque e balançava a cabeça em desaprovação. Este, então, passa
a falar abertamente sobre a influência deletéria de Rasputin e da urgência
de afastá-lo do trono – fato sobre o qual nobres, plebeus, membros da
Duma e militares concordavam. Desta vez, Nicolau permanece em silêncio
enquanto Alexandra calorosamente defendia Rasputin. A visita termina
quando o czar se levanta e conduz o grão-duque à porta.
Após a tentativa do grão-duque, a grão duquesa Victoria, esposa do
grão duque Kiril, cujo casamento a czarina tanto se esforçara por impedir,
tenta em vão convencer Alexandra a livrar-se de Rasputin. À sua visita
segue-se a da grão-duquesa Ella, irmã da czarina e viúva do grão-duque
Serguei. Vestida com o hábito cinza e branco da ordem religiosa que
fundara após o assassinato do marido por terroristas em 1905, Ella viera
de Moscou especialmente para tentar explicar à irmã que, com suas
interferências políticas e sobretudo com seu apego a Rasputin, Alexandra
empurrava o país em direção à Revolução. À menção do nome do stárets
a czarina torna-se gélida e diz apenas lamentar que a irmã dê ouvidos aos
rumores maldosos que circulavam sobre padre Grigori, e sugere que se
encerre a entrevista. Em seguida ordena que uma carruagem conduza a
grão-duquesa à estação. As irmãs despedem-se friamente após o que
seria seu último encontro. “Ela me expulsou como a um cão!” – diria a
grão-duquesa em lágrimas ao príncipe Yussupov – “Pobre Nicky, pobre
Rússia!”

•••

“Meu irmão branco” – disse o xamã apache –, “provavelmente não acreditarás,


mas sou muito poderoso. Nunca morrerei. Se atirares contra mim, a bala não penetrará
minha carne ou, se penetrar, não me ferirá... Se cravares uma faca em minha garganta,
empurrando-a para cima, ela atravessará meu crânio e sairá no alto da minha cabeça... Sou
muito poderoso. Se eu desejar matar alguém, tudo o que tenho a fazer é estender a mão e
tocar essa pessoa. Ela morre. Meu poder é como o de um deus.”

(Albert Reagan, “Notes on the Indians of the Fort Apache Region”)

Em dezembro o líder da Extrema Direita na Duma, deputado


Vladmir Purishkevitch, faz uma denúncia pública contra Rasputin. Orador
brilhante que garantia enorme audiência mesmo entre seus inúmeros
adversários, Purishkevitch era um patriota arrebatado e um dos mais

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furiosos defensores da autocracia. Era também um fanático antissemita e


um paranoico obcecado por complots revolucionários, intrigas e traições que
farejava onde quer que fosse. Purishkevitch troveja por duas horas sobre as
“forças obscuras” que pairavam sobre o país e destruíam a dinastia:

“Não é mais admissível que uma recomendação de Rasputin baste para que os
seres mais abjetos sejam presenteados com os cargos mais altos! [...] De pé, senhores
ministros! Se sois realmente patriotas, se a glória da Rússia [...] significa alguma coisa para
vós, dirigi-vos ao Quartel General e atirai-vos aos pés do czar. Ousai dizer-lhe que a ira da
multidão faz-se perigosa, que a Revolução é iminente e que um mujik obscuro não pode
mais governar a Rússia!”

O gran finale arranca aplausos clamorosos da audiência. Entre os


ouvintes encontrava-se um dos homens mais ricos da Rússia, o príncipe
Félix Yussupov, que no entanto não aplaudia, e olhava para o nada.
A fortuna dos Yussupov excedia a dos czares da Rússia, à época
estimada em cerca de 500 milhões de dólares. Aos 29 anos de idade, após
a morte de seu irmão, Félix era o único herdeiro dos quatro palácios em
Petrogrado, três em Moscou e mais trinta e sete espalhados pela Rússia nas
propriedades da família, além de campos de petróleo, minas de carvão e
ferro, moinhos e fábricas.
Félix Yussupov nascera em 1887 no Palácio Moika em Petrogrado,
em meio a tesouros das Mil e Uma Noites, incluindo uma das maiores
coleções de arte da Europa. Ceias servidas em pratos de ouro para duas mil
pessoas eram fato corriqueiro em sua vida de conto de fadas. Seu pai uma
vez presenteou sua mãe com a mais alta montanha da Criméia.
O nascimento do príncipe fora uma grande decepção para a princesa
Zenaida, uma das mulheres mais belas de sua época. Após dar à luz três
filhos, dos quais apenas um sobrevivera, a linda princesa rezava por uma
filha. Para consolar-se do grave desapontamento que Félix representava,
Zenaida vestia e penteava o pequeno príncipe como uma menina. Em suas
memórias, Yussupov escreveria que os caprichos de sua mãe teriam uma
influência duradoura sobre o seu caráter.
Na adolescência, Félix era descrito como o jovem mais bonito da
Europa. Encorajado pelo irmão mais velho, vestia as roupas, perucas e joias
de sua mãe e divertia-se a enganar os cavalheiros nos bares e restaurantes da
cidade, deixando-se cortejar. Com seus olhos lânguidos emoldurados por
longos cílios negros, os traços delicados e as maneiras suaves, tomavam-no
facilmente por uma linda mocinha. Em uma de suas noites de travesti em

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Paris, Félix narra ter sido cortejado por um cavalheiro gordo de bigodes –
que em seguida descobriria tratar-se de Sua Majestade o Rei Eduardo VII
da Inglaterra.
Imensamente rico, belo, cortejado, mimado, adulado e sexualmente
ambíguo, Félix bocejava pela vida, dedicando seu tempo e energia à busca de
prazeres bizarros e ao cultivo de vícios, perversões, bizantinices e extrava-
gâncias variadas, e permitia-se tudo. Como um herói byroniano, sofria de
spleen e apenas as fortes emoções arrancavam-no de seu tédio perpétuo.
O príncipe conhecera Rasputin antes de seu casamento, em
1914, com a princesa Irina, sobrinha do czar. Obcecado por ocultismo
e fascinado por experiências insólitas, Félix procurara Rasputin atraído
pela fama de mestre dos espíritos que o stárets conquistara nos salões de
Petrogrado, e durante uma de suas visitas deixou-se hipnotizar. Em seus
encontros sucessivos, Rasputin vangloriara-se do fascínio que exercia sobre
Suas Majestades e sobre as mulheres em geral:

“Com eles [Nicolau e Alexandra] não faço cerimônia; se não obedecem à minha
vontade, esmurro a mesa e saio. Então correm atrás de mim e me suplicam que fique!”

“Eles me devem a sua posição. Como poderiam desobedecer-me?”

“A czarina é uma soberana muito sábia. É uma segunda Catarina. Quanto a ele,
ele não é nenhum czar-imperador. Do que ele entende? É como uma criança!”

“Eles devem atender a todas as minhas ordens. Quando tivermos concluído


este negócio [a guerra], nominaremos Mãezinha regente por toda a minoridade do filho.
Quanto a ele, nós o mandaremos repousar em Livádia. Ficará mais do que contente.”

“Quando acompanho aquelas senhoras aos banhos públicos, digo-lhes: ‘Agora


despe-te e lava o mujik.’”

Os exóticos encantos do stárets fenecem em pouco tempo, e


Yussupov acaba desenvolvendo por ele uma repulsa física e moral. Meses
antes de agir, inspirado talvez pelas enormidades rasputinianas ou instigado
pela crescente indignação de sua mãe – notória inimiga de Rasputin
– Yussupov já acalentava a ideia de um homicídio ritual que libertaria a
Rússia do stárets perverso e o imortalizaria como o salvador da pátria.
Durante uma conversa com Rodzianko a respeito de Rasputin, o deputado
lhe dissera:

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

“O que se pode fazer quando todos os ministros e a maioria das pessoas que
convivem com Suas Majestades são instrumentos de Rasputin? A única solução é matar o
patife, mas não há um homem em toda a Rússia com coragem para fazê-lo. Se não fosse
tão velho, eu mesmo o faria.”

A entrevista com Rodzianko e o discurso de Purishkevitch eliminam


os últimos escrúpulos do príncipe justiceiro. Após uma noite insone,
Yussupov procura Purishkevitch e, excitadíssimo, declara-lhe que planejava
assassinar Rasputin e que precisava de ajuda; não poderia fazê-lo sozinho.
Imediatamente conquistado, Purishkevitch concorda em ajudá-lo e juntos
elegem mais três conspiradores: o oficial Sukhotin, o médico do exército
Lazovert e o melhor amigo de Yussupov, Dmitri Pavlovitch Romanov,
filho do grão-duque Pavel. Elegante, charmoso e espirituoso, Dmitri era
um grande predileto da czarina, na verdade um dos poucos Romanov que
ela suportava. Nos últimos anos Alexandra preocupava-se com os hábitos
boêmios recentemente adquiridos por Dmitri, ultimamente sempre em
companhia do devasso Yussupov, cujos dandismo e dúbia sexualidade a
horrorizavam.
Os conspiradores decidem-se pelo envenenamento como o
método menos arriscado para eliminar Rasputin e elegem o cianureto
de potássio o veneno ideal para simularem uma morte natural. O palácio
Moika é escolhido como o local do crime e Félix prepara uma sala no porão
especialmente para a ocasião. A data da “execução”, como a chamavam, é
fixada para a meia-noite de 16 de dezembro.
Yussupov dedica alguns dias a conquistar a confiança do stárets
e então convida-o para uma visita à sua casa. Percebendo sua hesitação,
o príncipe tenta seduzi-lo com a promessa de apresentá-lo à sua esposa,
a famosa princesa Irina de cuja beleza Rasputin ouvira falar inúmeras
vezes. Obcecado por visões de sua própria morte que ultimamente o
visitavam, há semanas Rasputin andava deprimido e desconfiado, evitava
sair, sobretudo à luz do dia, e suspeitava de pessoas que não pertencessem
ao seu círculo íntimo. Conquanto lhe fosse simpático, Félix não era um
de seus amigos íntimos, mas a curiosidade de conhecer a princesa, que na
verdade encontrava-se então na Criméia, convence-o a participar do chá à
meia-noite no palácio Moika.
No centro da sala ricamente adornada com tapetes, espelhos e
obras de arte, Yussupov dispusera a mesa junto à qual Rasputin beberia
sua última xícara de chá. Na tarde de 16 de dezembro, Félix pede a seus
empregados que separem garrafas de vinho tinto e madeira, preparem

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chá para seis, comprem biscoitos e doces e levem tudo para o porão. Dr
Lazovert calça luvas de borracha e, separando todos os doces cobertos com
glacé cor-de-rosa, corta-os ao meio e enche-os com uma dose de cianureto
suficiente, segundo ele, para matar vários homens instantaneamente. Duas
das quatro taças de vinho seriam também envenenadas com uma solução
de cianureto, vinte minutos depois que Yussupov partisse para buscar
Rasputin.
Chegando ao apartamento da rua Gorochovaia, Félix observa
que o stárets preparara-se com inusitado esmero – provavelmente para
agradar a princesa Irina. Yussupov nunca o vira tão limpo e arrumado.
Um pungente odor de sabonete barato acusava um de seus banhos, e ele
usava uma camisa de seda clara ricamente bordada, cingida por um cordão
vermelho, calças pretas de veludo e excelentes botas de couro. Seu cabelo
e sua barba estavam penteados e reluziam pela ação de algum produto
oleoso. Diante deste camponês lavado e enfeitado, Yussupov é tomado
por uma súbita piedade. A ideia de enganá-lo e envenená-lo, de assassinar
covardemente um hóspede em sua casa horroriza-o, e por alguns instantes,
Yussupov sente-se paralisado. Impressiona-o sobretudo a confiança que
Rasputin parecia depositar-lhe. Era este então o grande vidente, incapaz de
prever sua própria morte?
Enquanto o príncipe ruminava suas tenebrosas intenções, Rasputin
falava ininterruptamente, queria assegurar-se de que veria realmente a
princesa Irina, de que não haveria mais ninguém no palácio, de que depois
iriam ver os ciganos, de que a princesa Zenaida estava mesmo fora da
cidade. Tranquilizado por Yussupov, Rasputin lhe diz:

“Não gosto de tua mãe. Sei que ela me odeia; ela é amiga de Elizabeth [Ella].
Ambas conspiram contra mim e espalham calúnias a meu respeito. A própria czarina
me disse várias vezes que elas são as minhas piores inimigas. De fato, esta noite mesmo
Protopopov veio ver-me e fez-me jurar que eu não sairia nos próximos dias. ‘Eles o
matarão’- disse ele – ‘Teus inimigos preparam alguma maldade contra ti!’ Mas eu sei que
não conseguirão, apenas perderão tempo e energia – não têm poder suficiente. Agora
chega de conversa, vamos embora.”

Aos 45 minutos do dia 17 de dezembro, Purishkevitch e Dmitri


Pavlovitch encontravam-se no porão do palácio Moika e acabavam de
‘batizar’ as taças com a solução de cianureto de potássio, quando ouvem
o carro de Yussupov entrar no pátio. Os dois correm escada acima, e
Sukhotin liga o gramofone. Durante horas ouvir-se-ia a mesma música:

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“Yankee Doodle Went to Town”. Purishkevitch escreveria em suas memórias


que esta melodia o perseguiria pelo resto de sua vida.
Ao entrar no palácio, Rasputin parece suspeitar do cenário e da
música que lhe chegava de um dos andares superiores. Yussupov explica-lhe
que a princesa Irina recebia alguns amigos em seus aposentos, mas que
em breve viria encontrá-los no porão. O príncipe oferece-lhe vinho e chá,
mas, para seu desapontamento, Rasputin recusa um e outro. Estaria ele
desconfiado de alguma coisa? Yussupov estava nervoso e preocupado, mas
decidido a não permitir que o hóspede saísse vivo de sua casa.
Finalmente Rasputin pede chá. Yussupov nervosamente oferece-lhe
biscoitos e os doces cobertos com o glacé cor-de-rosa. Rasputin come um
após outro dos doces que adorava. Yussupov olhava-o, petrificado – a
qualquer momento o stárets cairia duro sobre o tapete persa. Passam-se dez
ou quinze minutos, Rasputin continuava farfalhoso e glutão, devorava os
doces cor-de-rosa e os biscoitos, bebia vinho tinto e agora pedia Madeira,
o seu preferido. Yussupov serve-o em uma das taças contendo cianureto
e observa ansiosamente o stárets que provava o vinho, estalava a língua e
já pedia mais, circulando tranquilamente pela sala, apreciando a decoração.
Deparando-se com o violão de Yussupov sobre uma cadeira, Rasputin
pede-lhe que toque alguma coisa alegre. Desesperado, o príncipe tenta
esquivar-se, mas Rasputin insiste, e ele então toca e canta suas músicas
ciganas preferidas. O relógio marcava 02h30min e o stárets continuava em
plena forma.
Temendo que seus amigos não suportassem o suspense e
aparecessem na sala a qualquer momento, arruinando o plano, Yussupov
deixa o hóspede com a desculpa de ir chamar a princesa, e vai ao seu
estúdio, onde se reuniam os outros conspiradores. Assim que o veem,
correm ao seu encontro – todos, menos Dr. Lazovert, cujos nervos
estavam em frangalhos e que já havia desmaiado uma vez – perguntando
ao mesmo tempo se estava tudo acabado, se Rasputin já estava morto.
Pálido e desanimado, Yussupov narra a sobrenatural resistência do mujik
que, após duas taças de vinho com cianureto e diversos doces envenenados,
continuava a conversar e a cantar alegremente como se nada houvera, seu
único sintoma os arrotos estrondosos que o sacudiam de vez em quando.
Todos exclamam aturdidos: “Mas não é possível!” Por fim, resolvem
recorrer à ação menos sutil e mais eficaz de uma arma de fogo. Munido
de uma Browning que lhe emprestara Dmitri, Yussupov retorna ao porão
com passos firmes, mais decidido do que nunca a dar cabo do stárets.
Yussupov encontra-o de cabeça baixa, respirando com dificuldade.

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“Sentes-te mal?” – pergunta-lhe o príncipe, com a arma atrás das costas.


“Sim” – responde Rasputin – “tenho a cabeça pesada e me arde o estômago.
Dá-me mais uma taça de Madeira. Vai me fazer bem.” Yussupov mais uma
vez serve-lhe o vinho. Após beber de um gole o conteúdo da taça, Rasputin
parece reanimar-se e volta a ser ele mesmo, sugerindo que fossem logo ver
os ciganos. Constatando que o veneno definitivamente não surtia efeito,
Yussupov finalmente saca a arma enquanto o stárets dava-lhe as costas
para admirar um crucifixo na parede, e dispara. Com um urro, como o de
um animal ferido, Rasputin desaba sobre um tapete de pele de urso branco.
Ouvindo o tiro, os conspiradores precipitam-se escada abaixo. Em
sua pressa e nervosismo, esbarram no interruptor e por alguns instantes
acham-se todos no escuro. Correndo de um lado para o outro, tropeçam
nos móveis e uns nos outros. Acima de tudo temiam esbarrar no cadáver.
Finalmente, Yussupov encontra o interruptor, a luz retorna ao recinto e
os cúmplices põem-se a examinar o corpo. Deitado de costas, os olhos
fechados, as mãos crispadas, Rasputin ainda não estava morto. Em sua
agonia, fazia caretas horrorosas, era sacudido por espasmos e uma enorme
mancha de sangue espalhava-se por sua camisa de seda e já maculava o
lindo tapete de urso. Momentos depois, seus movimentos cessavam. O
médico examina-o, detecta a bala que o atingira na altura do coração e
proclama-o perfeitamente morto. Dmitri e Purishkevitch removem-no
da pele de urso e depositam-no sobre o pavimento de pedra. Satisfeitos
e sobretudo aliviados com o cumprimento de sua heroica missão, os
conspiradores sobem para deliberar sobre os últimos detalhes do plano,
abandonando o corpo no porão.
De repente, Yussupov é tomado por uma súbita dúvida; desce
sozinho ao porão, levanta o corpo pelos braços e põe-se a sacudi-lo
violentamente, para assegurar-se de que estava realmente morto. Quando
finalmente deixa-o cair de novo sobre o pavimento, o príncipe detecta
um discretíssimo, quase imperceptível tremor na pálpebra esquerda do
cadáver. Observando-o atentamente, bem de perto, percebe, horrorizado,
que uma série de tremores contraía-lhe o rosto. De repente abre-se o olho
esquerdo; em seguida abre-se o direito e Yussupov depara-se com os
dois olhos “de víbora” de Rasputin que o fixavam com “uma expressão
de ódio diabólico”. O sangue gela-se-lhe nas veias e ele tenta gritar, ou
correr, e não consegue; estava como que petrificado. E então o impensável
acontece: com um movimento súbito, Rasputin põe-se de pé, espumando
pela boca e berrando como um possesso. Balançando convulsivamente as
mãos no ar, Rasputin atira-se sobre Yussupov e tenta estrangulá-lo. Seus

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olhos pareciam querer saltar das órbitas, golfadas de sangue escorriam-lhe


pela boca e todo o tempo ele repetia “Félix, Félix...”, com uma voz rouca
e borbulhante. Segue-se uma luta feroz e apenas com muito esforço
Yussupov consegue libertar-se das garras de ferro de Rasputin, que cai
de costas sobre o pavimento mas torna a levantar-se, gemendo pavoro-
samente. Yussupov, aterrorizado, pensava lutar contra o próprio Satanás –
a quem envenenara e contra cujo coração disparara, mas que retornava do
inferno para vingar-se. Descabelado, os olhos arregalados, Yussupov voa
escada acima, gritando numa voz aguda:

“Purishkevitch, atire, atire, ele está vivo! Ele vai fugir!”

Atrás dele seguia Rasputin, de quatro, rugindo o seu nome:

“Félix...Félix...”

Purishkevitch, que viera armado, saca sua arma e desce correndo as


escadas. De uma das janelas, o deputado depara-se com uma cena em que
não podia crer: o homem que haviam envenenado e que vira expirar sobre
o tapete de pele de urso com uma bala no coração, corria celeremente pelo
pátio em direção ao portão principal do palácio, gritando:

“Félix, Félix, vou contar tudo à czarina!”

Incrível.
Com as mãos trêmulas, Purishkevitch mira, atira e erra. Rasputin
passa a correr mais rápido e a gritar mais alto. Novamente Purishkevitch
atira e erra. Mordendo o pulso esquerdo para impedir que tremesse, ele
novamente atira e desta vez acerta o stárets nas costas, quando ele já
alcançava o portão. O deputado atira ainda uma vez e atinge-o na cabeça.
Rasputin cai com o rosto na neve, as mãos na cabeça. Purishkevitch
alcança-o e põe-se a chutá-lo furiosamente na cabeça com a ponta de sua
bota. Rasputin range os dentes e revira os olhos, mas já não se move.
Purishkevitch chama dois empregados do príncipe e ordena-lhes
que levem o corpo para o pátio interno. Ele então corre ao palácio à procura
de Yussupov e encontra-o em um dos banheiros a vomitar copiosamente.
O deputado tenta acalmá-lo e leva-o para o seu estúdio. Esverdeado, o
olhar vago, Yussupov repetia apenas: “Félix, Félix, Félix...”, com a voz do
defunto. Um empregado então vem informá-lo de que dois agentes da

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polícia estavam no portão e insistiam em ser recebidos. Haviam ouvido


os tiros e exigiam explicações. Orgulhosamente, Purishkevitch explica aos
policiais que havia assassinado Rasputin, inimigo público número um.
Impressionados pela estatura social dos envolvidos – um príncipe, um
grão-duque, um deputado – os agentes se retiram, prometendo manter
segredo.
Esta não era a primeira vez em que Purishkevitch orgulhosamente
revelava o segredo do assassinato do stárets. Antes de executá-lo já havia
revelado tudo a pelo menos dois deputados, que por sua vez já haviam
contado a outros. Yussupov também não se contivera e contara à princesa
Irina, a seu cunhado Teodor e a Rodzianko, seus planos de assassinar
Rasputin.
Assim que os agentes se retiram, Yussupov sente-se melhor e
decide dar uma última olhada no cadáver. A visão do corpo tumefato e
ensanguentado parece desencadear a fúria do príncipe, que repentinamente
toma de um porrete de madeira e atira-se sobre o corpo de Rasputin.
Talvez por ainda não acreditar que estivesse realmente morto após ter
sido envenenado e baleado três vezes, talvez presa de uma crise nervosa,
Yussupov põe-se a espancá-lo sistematicamente, golpeando-o com o
porrete na cabeça e no peito com uma ferocidade sem pressa. Com muita
dificuldade os empregados contém o príncipe, que continuava a golpear a
cabeça do stárets, repetindo “Félix, Félix, Félix”, e conduzem-no escada
acima. Assim que chegam ao estúdio, Yussupov desmaia.
No pátio interno, os outros quatro utilizam uma cortina e cordas
para amarrar o cadáver. Deixando Yussupov aos cuidados dos empregados,
depositam o embrulho no carro do grão-duque e acrescentam correntes de
ferro e pesos com que pretendiam amarrá-lo para evitar que submergisse.
Rumam então em direção à ponte Petrovsky, a um ponto no rio Nevka em
que o gelo se havia partido. De cima da ponte jogam o corpo de Rasputin
sem maiores precauções – e esquecendo as correntes e pesos. No palácio
Moika, Yussupov dormia o sono dos justos.
No dia seguinte, Ana Virubova recebe um telefonema de uma
das filhas de Rasputin, informando que o pai saíra na noite anterior
com Yussupov e ainda não retornara. Conquanto insólita, a ausência do
stárets ainda não pressagiava uma desgraça. Poucos minutos depois, um
telefonema de Protopopov informa à czarina que naquela madrugada um
policial ouvira tiros de pistola provenientes do palácio de Yussupov. O
agente dirigira-se ao palácio e fora recebido por um membro da Duma
chamado Purishkevitch que, aparentemente em avançado estado de

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embriaguez, informara-o de que acabara de matar Rasputin. O policial


não levara a sério a declaração do deputado, tomando-a por uma inocente
brincadeira de bêbados.
Agora, Alexandra e Ana Virubova estavam aterrorizadas. À tarde
Dmitri Pavlovitch e Yussupov tentam inúmeras vezes falar ao telefone com
a czarina e suplicam audiências; desejavam explicar-se. Alexandra recusa-se
terminantemente a atendê-los e a recebê-los pessoalmente.
Purishkevitch relataria em suas memórias que fora chamado ao
Palácio Moika naquela tarde e que, ao chegar, encontrara o príncipe e o
grão-duque Dmitri agitadíssimos, a beber xícara após xícara de café com
cognac. Eles lhe disseram que a czarina sabia que Rasputin estivera com eles
na noite anterior e acusava-os de tê-lo assassinado.

“Por causa daquele monstro – disse Yussupov – tive que matar um dos meus
melhores cães e deitá-lo no pátio onde a neve estava manchada pelo sangue do stárets...
Tive que fazê-lo, caso algum Sherlock Holmes descubra alguma pista e recorra a cães
farejadores. Passei o resto da noite de ontem com meus guardas a limpar a casa e agora,
como vês, Dmitri Pavlovitch e eu estamos compondo uma carta para a czarina e esperamos
poder entregá-la hoje mesmo.”

Na carta à czarina, Yussupov jurava pela honra de seu nome que


Rasputin nunca estivera em sua casa. Houvera realmente uma festa em seu
palácio na noite anterior, durante a qual um convidado embriagado atirara
em um cão. Todos haviam bebido muito e, consequentemente, feito e dito
tolices. Alexandra não responde à carta e encaminha-a ao ministério da
Justiça.
Tremendo diante do pai, o temível grão-duque Pavel Alexan-
drovitch, Dmitri também juraria, sobre um ícone sagrado e sobre o retrato
de sua falecida mãe, que não sujara as mãos com o sangue do mujik.
Dois dias depois do desaparecimento do stárets, Paléologue
escreveria em seu diário:

“O corpo de Rasputin ainda não foi encontrado. A czarina está desesperada. Ela
suplicou ao Imperador, que se encontra em Mogilev, que retorne a Petrogrado imedia-
tamente.
“Confirmou-se que os assassinos são o príncipe Yussupov, o grão-duque Dmitri
e Purishkevitch. Não havia senhoras presentes. Neste caso, como Rasputin foi atraído ao
palácio de Yussupov?
“Pelo que sei, é a presença de Purishkevitch o que confere ao drama seu

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verdadeiro sentido e alto interesse político. O grão-duque Dmitri é um jovem de 25 anos


ativo, patriota e capaz de atos de coragem no campo de batalha, mas volúvel e impulsivo;
parece ter-se lançado cegamente nesta aventura. O príncipe Félix Yussupov tem 29 anos e
é dotado de raciocínio rápido e gosto estético; mas seu diletantismo tende excessivamente
à perversão da imaginação e a representações literárias da morte, portanto eu temo que
ele tenha encarado a morte de Rasputin sobretudo como um cenário digno de seu autor
favorito, Oscar Wilde. Em todo caso, seus instintos, semblante e maneiras aproximam-no
muito mais de Dorian Grey do que de Brutus...
“Por outro lado, Purishkevitch, que tem mais de cinquenta anos, é um homem
de doutrina e de ação. Considera-se o defensor do absolutismo ortodoxo e dedica igual
veemência e habilidade a advogar a teoria do ‘Czar Autocrata, Emissário de Deus’.
“Em 1905, ele era presidente da famosa liga reacionária, a Associação do
Povo Russo, e foi ele quem inspirou e dirigiu os terríveis pogroms contra os judeus. Sua
participação no assassinato de Rasputin esclarece toda a atitude da Extrema Direita nos
últimos meses; significa que os defensores da autocracia, sentindo-se ameaçados pela
loucura da Imperatriz, estão determinados a agir, se necessário, contra o Imperador.”

Três dias após seu desaparecimento, o corpo de Rasputin é


encontrado no gelo do Nevka, próximo ao Palácio Bielosselsky. A autópsia
revelaria que o stárets fora envenenado, recebera um tiro na altura do
coração, um nas costas e outro na cabeça, fora brutalmente espancado, mas
morrera afogado. Havia água em seus pulmões e ele conseguira soltar-se
das cordas que o amarravam.
Até o último momento, a czarina esperara que Deus poupasse
a vida de seu “salvador e único amigo”. Para Nicolau, o elemento mais
doloroso de toda esta história era o fato de que o stárets fora assassinado por
membros da família imperial: “Enche-me de vergonha que parentes meus
tenham manchado suas mãos com o sangue de um simples camponês” –
diria ele aos Romanov que tentavam defender Dmitri – “Um assassinato é
sempre um assassinato.” Não obstante a repulsa que lhe inspirava o crime
covarde do príncipe e do grão-duque, sua punição seria bastante suave.
Dmitri Pavlovitch é imediatamente despachado para a Pérsia, onde se
uniria às tropas de Sua Majestade – medida que lhe salvaria a vida, pois
estaria longe quando os bolcheviques começassem a executar os Romanov.
Yussupov é exilado em uma de suas propriedades na província de Kursk.
No ano seguinte, ele deixaria a Rússia com a princesa Irina, levando apenas
um milhão de dólares em joias e dois Rembrandts. Em Purishkevitch,
Nicolau não ousa tocar; seu prestígio político aumentara muito com a sua
participação no assassinato de Rasputin. Nem mesmo o Czar e Autocrata

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de Todas as Rússias podia punir um membro da Duma considerado um


herói nacional.
Em todo o país comemorava-se a morte do stárets perverso. O
povo se abraçava e beijava nas ruas, cantava hinos nos teatros e acendia
velas a São Dmitri nas igrejas. À medida que os detalhes do assassinato eram
revelados, Félix e Dmitri eram aclamados como heróis e muitos se congra-
tulavam pelo fato de Rasputin ter morrido afogado, o que impossibilitava a
sua canonização. Traído, envenenado, espancado enquanto jazia indefeso e
assassinado pelas costas, na opinião de muitos, Rasputin tivera a morte que
merecera. Para outros, como Trotsky (inimigo declarado da autocracia) e a
czarina mãe (inimiga de Rasputin) o crime era obra de covardes e o cenário
de extremo mau gosto.
Embora escrevesse breves comentários sobre o “inesquecível
Grigori” em seu diário e enfrentasse a família, que o pressionava a perdoar
Félix e Dmitri, não se pode afirmar que o czar tenha sofrido com a morte
de Rasputin. A czarina, por outro lado, conquanto não enlouquecesse de vez
como muitos esperavam, sofre horrivelmente a perda de seu mestre espiritual
e amigo. Alexandra guardaria para sempre a camisa ensanguentada do stárets
como uma relíquia, e ele é enterrado com uma carta da czarina sobre o peito:

“Meu querido mártir, dá-me a tua benção, para que ela me siga sempre no caminho
triste e sombrio que ainda devo atravessar aqui embaixo. Lembra-te de nós lá do alto em
tuas santas orações!
Alexandra”

Poucos meses antes de morrer, após assistir com as duas filhas e a


família imperial a missa de Páscoa, Rasputin voltava para casa quando sua
carruagem para subitamente diante de uma pequena capela. Com um grito
sufocado, Rasputin desmaia sobre as almofadas do assento, assustando Maria
e Várvara. Voltando a si, o stárets explica às filhas que tivera

“...uma horrível visão: o meu cadáver jazia nesta capela, e por um momento experi-
mentei a minha agonia...E que agonia!... Rezem por mim, minhas pombinhas, a minha hora
se aproxima.”

De acordo com seu secretário e confidente Simonovitch, cerca de


uma semana antes de seu assassinato Rasputin deixara a seus cuidados uma
carta, entitulada “Pelo Espírito de Grigori Efimovitch Rasputin-Novyk, da
Aldeia de Pokrovskoe”, endereçada ao czar:

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“Escrevo e deixo esta carta em Petrogrado. Sinto que deixarei este mundo
antes do dia 1° de janeiro. Desejo explicar ao povo russo, ao Paizinho, à Mãezinha e às
crianças, à Terra Russa, o que eles devem compreender. Se eu for morto por assassinos
comuns, especialmente por meus irmãos camponeses, tu, Czar da Rússia, nada tens a temer,
permanece em teu trono e governa, e tu, Czar da Rússia, não temerás por teus filhos, eles
reinarão por centenas de anos na Rússia. Mas se eu for assassinado por nobres, e eles
derramarem o meu sangue, suas mãos se sujarão com o meu sangue, por 25 anos eles não
poderão lavar o meu sangue de suas mãos. Eles deixarão a Rússia. Irmãos matando irmãos,
matarão uns aos outros e odiarão uns aos outros e por 25 anos não haverá nobres no país.
Czar da Terra Russa, se ouvires o som de sinos que te dizem que Grigori foi assassinado,
compreende isto: se foram os teus parentes a determinarem a minha morte, então ninguém
da tua família, ou seja, nenhum dos teus filhos ou parentes viverá por mais de dois anos. Eles
serão mortos pelo povo russo... Eu serei morto. Não estou mais entre os vivos. Reza, reza,
sê forte, pensa em tua abençoada família.”

•••

“Se em certa altura


Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse dito as frases que só agora, no meio do sono, elaboro
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.”
(F. Pessoa, “Adiamento”)

Algumas semanas após o assassinato de Rasputin, o czar sofre


um colapso nervoso. Nicolau deixa Mogilev e isola-se durante dois meses
em Tsarskoe Selo, onde não recebia praticamente ninguém e passava o dia
em companhia de sua adorada família, quando não estava trancado em sua
sala de mapas, imóvel por horas a fio, inclinado sobre os mapas do front, ou
caminhando sozinho no bosque. Paléologue refere que o aspecto do czar
horrorizou os hóspedes da recepção do Reveillon de 1917 e imediatamente
difundiu-se o boato de que a czarina o estava drogando. Sua aparência
chocava seus raros visitantes, entre eles o embaixador da França:

“As palavras do Imperador, seus silêncios, suas reticências, suas feições graves e
tesas, seus pensamentos distantes e a vaga e enigmática qualidade de sua personalidade,

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me confirmam a impressão de que Nicolau II sente-se subjugado e dominado pelos eventos,


de que perdeu a fé em sua missão, de que abdicou internamente e agora está resignado à
catástrofe.”

A aparência de morto-vivo e certas atitudes do czar alimentavam


os rumores de que ele estava sendo drogado pela czarina. O ex-Primeiro
Ministro Kokovtsov, que não o via há um ano, espantou-se com o aspecto
e o comportamento do czar ao encontrá-lo em Tsarskoe Selo em fevereiro
de 1917:

“...ele estava praticamente irreconhecível. Seu rosto estava muito fino, encovado e
coberto de rugas. Seus olhos estavam embaçados e erravam de objeto a objeto... o branco
dos olhos estava decididamente amarelo e as retinas estavam sem cor, cinzentas e sem
vida... A face do czar tinha uma expressão de desalento. Ele mantinha um sorriso triste e
forçado nos lábios e repetia muitas vezes: ‘Estou perfeitamente bem e saudável, mas passei
muito tempo sem me exercitar, e estou habituado a fazer muitas atividades. Repito, Vladmir
Nikolaievitch, estou perfeitamente bem. Tu não me vês há muito tempo, e provavelmente
eu não tive uma boa noite. Agora mesmo vou sair para uma caminhada e a minha aparência
melhorará’
“... o czar continuava a ouvir-me com o mesmo sorriso doentio, olhando
nervosamente à sua volta. [...] Fiz-lhe uma pergunta perfeitamente simples e o czar reduziu-se
a um estado de incompreensível confusão. O estranho, quase vazio sorriso remaneceu fixo
em seus lábios; ele me olhava como que buscando ajuda [...] Por longo tempo, ele me olhou
em silêncio, como que tentando lembrar-se de algo.”

Kokovtsov deixa a sala em prantos. Ao sair encontra o médico da


família Imperial Dr. Botkin e o marechal da corte, conde Benckendorff, e
pergunta-lhes, indignado: “Não vedes o estado do czar? Ele está à beira de
um distúrbio mental!” Botkin e Benckendorff respondem-lhe simplesmente
que o czar não estava doente, apenas cansado.
Mesmo após o retorno do czar a Tsarskoe Selo, a czarina reinava
absoluta em seu lugar. O principal telefone do palácio fora instalado no
famoso boudoir lilás de Alexandra, e não sobre a mesa de trabalho de Nicolau.
Além disto, com o consentimento do marido, Alexandra passara a ouvir em
segredo as conversas oficiais do czar. Kokovtsov escreveria sobre isto:

“A porta do estúdio do czar que comunicava com a sala de espera estava semiaberta,
o que nunca acontecera antes, e tive a impressão de alguém estava ali. Pode ter sido apenas
uma ilusão, mas tive esta impressão durante toda a minha audiência.”

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

Kokovtsov não estava enganado, e Alexandra servir-se-ia deste


método inúmeras vezes. Pouco depois, ela faria derrubar uma parede do
estúdio e construir escadas que levavam a uma varanda, de onde ela podia
ouvir as audiências do czar confortavelmente deitada e oculta por cortinas.
A dança dos ministros continuava no reinado de Alexandra.
Trepov, que substituíra Stürmer como Primeiro Ministro em novembro,
demite-se em janeiro e é substituído pelo príncipe Golitsyn, que por sua
vez suplica ao czar que nomeie qualquer outra pessoa.
O único ministro que contava, entretanto, era Protopopov, cada
vez mais desequilibrado e já tentando substituir Rasputin também em suas
funções espirituais junto à czarina. Como fizera o stárets, Protopopov
agora telefonava todas as manhãs às 10 horas em ponto para Alexandra
ou Ana Virubova. Ele narrava-lhes como o espírito de Rasputin o visitava
à noite e o aconselhava em tudo. Em Petrogrado, contava-se que no meio
de uma audiência Protopopov caíra de joelhos diante da czarina, dizendo:

“Majestade, vejo Cristo atrás de vós!”

Paléologue registraria em suas memórias o gosto de Protopopov


pela necromancia:

“O velho príncipe Kurakin, um mestre da necromancia, teve o prazer de invocar


algumas vezes com sucesso o fantasma de Rasputin.
“Ele imediatamente mandou chamar Protopopov, o Ministro do Interior, e
Dobrovolsky, o Ministro da Justiça; eles compareceram imediatamente. Desde então,
os três têm-se reunido secretamente durante horas todas as noites, ouvindo as solenes
palavras do morto.”

Com o czar catatônico, o ministro do Interior ensandecido e a


czarina desequilibrada, a situação da Rússia era desesperadora no inverno
de 1917. Todos – à exceção de Nicolau e Alexandra – pressagiavam
uma catástrofe. No front continuava o morticínio, os hospitais estavam
superlotados, havia falta de tudo, a fome imperava nas cidades e proliferavam
as greves de operários, os saques, os motins e as deserções. O velho amigo
de Suas Majestades, grão-duque Alexander Mikhailovitch, vem a Tsarskoe
Selo para tentar convencer Alexandra a afastar-se da política e explicar ao
primo e cunhado a necessidade de conceder uma constituição enquanto
era tempo. Certo de que a Revolução não tardaria se não se tomassem
medidas drásticas, Sandro, como era carinhosamente chamado por Suas

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Majestades, enviara ao czar uma longa carta, na qual suplicava-lhe como


homem, como cristão, como russo, como parente etc., que não arrastasse a
Rússia consigo ao abismo que parecia atraí-lo, e concluía:

“...devo dizer que, por mais estranho que pareça, o Governo é hoje o órgão que
está preparando a Revolução, o povo não quer isto, mas o Governo está se servindo de
todos os meios disponíveis para criar o maior número possível de pessoas descontentes,
e está conseguindo. Estamos testemunhando o inédito espetáculo de uma revolução que
parte do alto, e não de baixo.”

Sandro suplicara a Alexandra uma audiência e agora pedia-lhe


pessoalmente que se afastasse da política. A czarina estava deitada sobre
seu divã e o czar sentava-se a seu lado, fumando um cigarro após o outro.
Embora o czar estivesse presente, Sandro dirigia-se a ela:

“Tenho sido teu amigo por vinte e quatro anos... e como amigo, eu te digo que
todas as classes da população opõem-se à tua política. Tens uma linda família, por que
não te concentras [nela]? Por favor, Alix, deixa os assuntos de Estado para o teu marido.”

Alexandra cora e olha para o marido que, mudo, continuava a


fumar. Ela então replica que não era possível a um autocrata compartilhar
seus poderes com um parlamento, a que Sandro responde:

“Estás muito enganada, Alix. Teu marido deixou de ser um autocrata em outubro
de 1905.[...]
“Lembra-te, Alix, estive calado por trinta meses! Por trinta meses eu não te disse
uma palavra sobre os infelizes eventos do nosso governo, ou melhor, do teu governo!
Percebo que queres afundar e que teu marido deseja o mesmo, mas e nós? Devemos todos
sofrer por tua cega obstinação? Não, Alix, não tens o direito de arrastar teus parentes
contigo para um precipício! És incrivelmente egoísta!”

Ainda sem sinal do marido fumante, Alexandra diz a Sandro que se


recusava a continuar a discussão, que ele exagerava o perigo e que um dia
reconheceria que ela estava certa. Sandro então beija-lhe a mão e retira-se.
A maior parte da família Romanov não se contentaria em escrever
cartas, suplicar entrevistas e em beijar a gélida mão da czarina, e falava
abertamente em uma revolução de palácio que deporia o czar à força e
mandaria Alexandra para um convento.
Como a crise interna da Rússia afetasse a sua posição de aliada

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

militar, os embaixadores Buchanan e Paléologue eram constantemente


pressionados a servirem-se de seus cargos para tentar o que outros já
haviam tentado e falhado: convencer o czar da necessidade da criação de
um parlamento. A tentativa de Paléologue fale tristemente, não resistindo
às respostas vagas e friamente corteses de Nicolau. Buchanan consegue
ser recebido em Tsarskoe Selo a 12 de janeiro e pede permissão ao czar
para falar livremente. Permissão concedida, Buchanan não perde tempo e
inaugura seu discurso dizendo que a Rússia precisava de um governo em
que pudesse confiar, e que era necessário que o czar derrubasse o muro
que o separava de seu povo e recuperasse a sua confiança. Era definiti-
vamente a frase errada para dirigir à Sua Majestade. Pondo-se de pé e com
uma expressão dura no rosto agora permanentemente cansado, Nicolau
pergunta:

“Queres dizer que eu devo reaver a confiança do meu povo ou que o povo deve
reaver a minha confiança?”

Era o velho erro de perspectiva de Nicolau que quase lhe custara


a coroa em 1905. Buchanan consegue safar-se respondendo que ambos
necessitavam recuperar a confiança um no outro, e ataca o próximo tópico:
Protopopov. O embaixador pede a permissão de Sua Majestade para
dizer que o ministro do Interior levava o país à ruína. Nicolau responde
secamente que Protopopov fora colhido das cadeiras da Duma para ser-lhes
agradável e que tudo o que ganhara em troca foram queixumes e críticas.
Decididamente a conversa não ia bem. Buchanan então diz ao czar que a
Revolução era iminente e que neste caso, apenas uma pequena parte do
Exército poderia ser usada para defender a dinastia. Reconquistada a fugaz
atenção do czar, o embaixador prossegue bravamente:

“Estou ciente de que um embaixador não tem o direito de usar a linguagem


que usei com Vossa Majestade, e tive que reunir toda a minha coragem para falar como
falei [...] mas se eu visse um amigo que caminhava [...] em direção a um precipício, não
seria meu dever, Majestade, avisá-lo do perigo? E não é também meu dever avisar Vossa
Majestade de que há um abismo diante de vós?”

Sensibilizado pelas palavras de Buchanan, Nicolau agradece o


amigo e despede-se comovido. Em seu compartimento secreto, a czarina
tremia de indignação com a impertinência do embaixador, e lamentava o
triste fato de não poder exilá-lo na Sibéria, já que não era um súdito de Suas
Majestades.

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O próximo a tentar convencer o czar a mudar o rumo do governo


seria o presidente da Duma, Rodzianko. Dias antes ele recebera a visita do
grão-duque Mikail, irmão do czar – e herdeiro, em caso de falecimento
do czarévitch. “Misha”, como toda a família e toda a Rússia, estava muito
preocupado com a situação do país, com o envolvimento de Alexandra em
questões de Estado e com a total complacência de Nicolau. Como não tivesse
nenhuma influência sobre o irmão, Misha vinha pedir a opinião de Rodzianko
sobre a situação, e possivelmente a sua ajuda. “Alexandra Feodorovna é feroz
e universalmente odiada” – declara Rodzianko – “e todas as classes clamam
por sua eliminação. Enquanto ela permanecer no poder, continuaremos na
estrada da ruína.” O grão-duque pede-lhe então que tente falar com o czar.
Nicolau recebe Rodzianko a 20 de janeiro. O presidente da Duma
é implacável:

“Majestade, a situação do país tornou-se ainda mais crítica e ameaçadora do que


nunca. Os sentimentos do povo são tais, que aguardam-se grandes revoltas[...]Toda a Rússia
clama unanimemente por uma mudança de governo e pela nomeação de um Primeiro
Ministro que conte com a confiança da nação[...]Majestade, não há um único homem
honesto ou confiável em vosso governo; os melhores foram eliminados ou se demitiram[...]
Não é segredo que a Imperatriz dá ordens sem o vosso conhecimento, que os ministros se
dirigem a ela para resolver questões de Estado[...]A indignação e o ódio contra a czarina
crescem em todo o país [...].
“...Para salvar vossa família Vossa Majestade deveria impedir a Imperatriz de
exercer qualquer influência política[...]. Majestade, não obrigueis o povo a escolher entre vós
e o bem do país!”

Ao ouvir estas palavras, Nicolau parece ter sido atingido por um


raio. Pálido, a testa coberta de suor, apertando a cabeça com as duas mãos,
ele pergunta a Rodzianko:

“Será possível que por vinte e dois anos eu tentei fazer o que era melhor e por vinte
e dois anos só cometi erros?”

A pergunta era estarrecedora e retórica, mas Rodzianko não resiste à


oportunidade histórica de dizer ao Czar de Todas as Rússias:

“Sim, Majestade. Durante vinte e dois anos seguistes o caminho errado.”

Visivelmente perturbado, Nicolau promete a Rodzianko que depois


da guerra realizaria as reformas necessárias no sistema autocrático.

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

“Mas não agora, durante o conflito. Não se pode demonstrar fraqueza ao inimigo
e, além disso, não posso fazer duas coisas ao mesmo tempo. E agora há a guerra.”

Rodzianko deixa o czar com seus sombrios pensamentos e retira-se,


convencido de que a entrevista fora decisiva e de que em breve ver-se-iam
os resultados.
Um mês depois, nada havia mudado e o deputado encontra um
czar frio e áspero, muito diferente do czar acessível e sincero que caíra
em si após 22 anos de pecados inconscientes. Rodzianko avisa-lhe que a
Revolução se aproximava e conclui:

“Considero meu dever, Majestade, expressar minha profunda convicção de que


este será meu último relatório a Vossa Majestade.”

Suas palavras finalmente parecem encorajar o czar a tomar as


medidas que poderiam salvar a Rússia. A 6 de março, Nicolau reúne seus
mais importantes ministros e informa-lhes que no dia seguinte anunciaria
na Duma a nomeação de um novo governo responsável. Naquela mesma
noite, porém, o czar convoca o presidente do Conselho, Golyzin, a Tsarskoe
Selo, informa-o de que estava de partida para Mogilev, e que decidira não
nomear o novo governo. “Mudei de ideia”, disse simplesmente.
O corajoso discurso de Rodzianko seria o último alerta a Nicolau
II, que assim perdia o direito de alegar não ter sido avisado.

288 D R AG O E D I TO R I A L
“Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,

XIII
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!


E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!


E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,


Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!”

(A. dos Anjos, “Vozes da Morte”)


M Á RC I A S A RC I N E L L I

GOSPODIN ROMANOV

“O que falhei deveras não tem esperança nenhuma


Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para
Todo o tempo, para todos os universos...”
(Fernando Pessoa)

Durante o terrível inverno de 1917 a temperatura em Petrogrado


atinge 30 graus negativos. O frio, a carestia, a escassez de alimentos e de
combustível provocadas pela guerra, pela incompetência generalizada
do governo de Alexandra e pelos atos de sabotagem orquestrados pelos
alemães, forneciam os ingredientes por que os revolucionários ansiavam.
Trens eram bloqueados pelo gelo e por sabotadores, as caldeiras das
locomotivas congelavam e se rompiam, o fornecimento de alimentos
estava praticamente paralizado, fábricas eram fechadas ou reduziam
dramaticamente a produção, filas longas e sinuosas como rios humanos
formavam-se diante das padarias, cujas portas muitas vezes não se abriam
porque não havia pão.
Na Duma, todos se acusavam mutuamente e alguns deputados
cogitavam em declarar o czar incapaz de governar. A população, gelada,
faminta, exausta da guerra e das filas e atiçada pelos discursos dos revolu-
cionários, finalmente se revolta, no aniversário do “Domingo Sangrento”.
Aos gritos de “Pão, pão! Abaixo a guerra! Abaixo os alemães!”, uma
multidão andrajosa e enfurecida percorria as ruas de Petrogrado. Nas
intermináveis filas diante dos mercados crescia a agitação, vitrines eram
quebradas e lojas de alimentos saqueadas. Em várias fábricas os operários
entravam em greve.
As forças da ordem careciam de elementos essenciais para assegurar
a ordem. As tropas da capital agora consistiam de 170.000 homens, em sua
maioria jovens camponeses mal treinados e mal nutridos, e velhos recrutas
cansados, rejeitados pelos generais no front. Em geral faltavam-lhes oficiais,
armas, munição, além de treinamento adequado e motivação.
A 10 de março a situação estava fora de controle e o General

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

Khabalov, comandante do Distrito Militar de Petrogrado – notoriamente


incompetente – telegrafava ao czar em Mogilev:

“Comunico que, devido à falta de pão, nos dias 8 e 9 de março iniciaram-se


greves em muitas fábricas. No dia 9 cerca de 200.000 trabalhadores cruzaram os braços e
expulsaram à força aqueles que não queriam aderir à greve. O tráfico urbano foi interrompido
pelos operários, alguns dos quais, nos dias 9 e 10 à tarde, dirigiram-se à Nevsky-Prospekt [a
principal avenida de Petrogrado], de onde foram expulsos. Vitrines de lojas foram quebradas
e verificaram-se atos de violência nos bondes, mas as tropas não recorreram às armas.
Quatro policiais ficaram feridos. Uma multidão de manifestantes foi dispersa pelos cossacos.
De manhã, quebraram os braços do chefe da polícia de Vyborg, que também foi ferido na
cabeça, enquanto o chefe da guarda Krylov foi morto na tentativa de dispersar a multidão.
Cinco esquadrões do IX Regimento de Reserva da Cavalaria de Krasnoe Selo, uma Centúria
da Guarda de Corpo Pavlovsky e cinco esquadrões do Regimento de Reserva da Cavalaria da
Guarda participaram da repressão à revolta, além da guarnição de Petrogrado.”

Fiel à sua miopia e à sua surdez eletivas, Nicolau não percebia a


magnitude da situação. Julgava tratar-se apenas de arruaças de que poderia
perfeitamente encarregar-se a polícia, e responde ao general com um
telegrama lacônico:

“Ordenamos que liquideis amanhã mesmo as desordens na capital, intoleráveis


neste momento difícil de guerra contra a Alemanha e a Áustria.”

Apesar da má qualidade de suas tropas, Khabalov estava decidido


a cumprir as ordens do czar. No dia seguinte, a cidade amanhece coberta
de enormes cartazes que anunciavam a proibição de assembleias e reuniões
públicas e ordenavam aos grevistas a retornar ao trabalho, sob pena de serem
enviados ao front.
Os cartazes são totalmente ignorados e a multidão de revoltosos
continuava a engrossar. Neste dia, duzentas pessoas são mortas na capital
e muitos dos soldados começam a revoltar-se contra seus oficiais, que
ordenavam que atirassem contra cidadãos russos. A Compahia Pavlovsky
recusa-se a abrir fogo contra a multidão e, como seu comandante insistisse,
atira contra ele. A Guarda Preobrajensky é convocada para desarmar os
soldados amutinados e reconduzi-los ao quartel.
Neste mesmo dia, Rodzianko telegrafava ao czar:

“A situação é séria. Na capital reina a anarquia, o governo está paralizado,

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transporte, provisões e aquecimento estão caóticos e o descontentamento geral cresce


de hora em hora. Nas ruas, atira-se a esmo, as tropas disparam umas contra as outras. É
indispensável e urgente encarregar da formação de um novo governo uma personalidade
que goze da confiança do país. Deve-se excluir qualquer possibilidade de adiamento.
Qualquer hesitação seria fatal. Peço a Deus que nesta hora a responsabilidade não recaia
sobre aquele que porta a coroa.
Rodzianko.”

O czar persiste em não compreender e comenta o telegrama de


Rodzianko com seu Chefe de Estado Maior, Alexeiev:

“Aquele gordo Rodzianko enviou-me um monte de absurdos a que nem me


darei o trabalho de responder.”

O “gordo” Rodzianko sugeria concessões e o czar envia reforços.


Nicolau ordena ao General Ivanov, Comandante do front da Galícia, que
reúna quatro de seus melhores regimentos do front e marche para a capital
para conter a revolta à força. O czar determina a suspensão da sessão
da Duma e telegrafa a Alexandra informando que decidira retornar a
Petrogrado dentro de dois dias.
Os soldados da Companhia Pavlovsky retornam ao quartel furiosos
com seus oficiais e durante toda a noite seus comandantes tentam em vão
controlá-los. Às seis da manhã de 12 de março, um sargento da companhia
mata um capitão que o esbofeteara no dia anterior. Os oficiais fogem do
quartel e a companhia marcha ao som da banda para unir-se à Revolução.
O motim contagia rapidamente outros regimentos, inclusive a legendária
Guarda Preobrajensky, o mais antigo e leal regimento do Exército, criado
por Pedro, o Grande. Este é um dia decisivo, com a adesão dos militares
aos revoltosos.
Paléologue narra a cena observada da janela da Embaixada da
França naquela segunda-feira:

“Às oito e meia desta manhã, quando eu acabava de vestir-me, ouvi um estranho
e prolongado estrondo, que parecia vir da Ponte Alexander. Olhei para fora, não havia
ninguém na ponte, usualmente muito movimentada. Mas quase imediatamente, uma
multidão desordenada carregando bandeiras vermelhas surgiu no final da ponte... na
margem esquerda do Nevka e, do lado oposto, um regimento veio ao seu encontro. Parecia
que estava para acontecer um violento confronto mas, ao contrário, os dois grupos se
uniram. O Exército estava fraternizando com a Revolução.”

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O General Khabalov telegrafa ao czar informando-o de que até


mesmo os tradicionais regimentos de elite como o Pavlovsky, o Volinsky, o
Semonovsky, o Ismailovsky, o Litovsky, o Oranienbaum e o Preobrajensky
recusavam-se a atirar contra os revoltosos e uniam-se a eles. Não era mais
possível garantir a ordem na capital. O Palácio de Justiça, o Ministério
do Interior, a sede da Okrana e várias delegacias de polícia estavam em
chamas, o arsenal saqueado, as portas das prisões abertas e os prisioneiros
libertados. Os Correios e a Fortaleza de Pedro e Paulo haviam sido tomados
e 66.000 soldados engrossavam as hostes da Revolução.
O colapso da lei e da ordem convence Rodzianko a ignorar
a ordem do czar e a Duma estava em sessão quando uma massa de
trabalhadores, soldados, estudantes e presidiários portando bandeiras
vermelhas e entoando a Marselleise chega ao Palácio Tauride. A multidão
invade os corredores e as salas e abarrota o Parlamento. Vinha oferecer
apoio à Duma. Acuado, Rodzianko é forçado a apoiar o socialista revolu-
cionário Alexander Kerensky e promete suporte à Revolução. Às 3 da tarde,
a Duma aponta um Comitê Executivo Temporário para restaurar a ordem
e controlar as tropas. O Comitê incluía líderes de todos os partidos, exceto
da Extrema Direita. Enquanto isso, uma assembleia rival formava-se sob o
mesmo teto da Duma: o Soviet [Conselho] dos Soldados e Trabalhadores.
Embora Rodzianko presidisse o Comitê Temporário da Duma, Kerensky
era a figura central e funcionava como uma ponte entre o Comitê e o Soviet.
É eleito Vice-Presidente do Soviet e, dali a três dias, nomeado Ministro da
Justiça do Governo Provisório.
No dia anterior, o Gabinete Imperial reunira-se pela última vez.
Protopopov fora forçado a renunciar e deixara a sala ameaçando suicidar-se.
O irmão do czar, Mikail, tendo ouvido o relato dos ministros, decide apelar
pessoalmente ao czar para que elegesse um governo responsável que
contasse com a confiança da nação. Mikail telefona ao Quartel General,
explica ao General Alexeiev a situação e solicita-lhe que faça o pedido ao
czar. Quarenta minutos depois, Mikail já desesperava quando Alexeiev
retorna a ligação:

“O Imperador agradece-o. Ele está de partida para Tsarskoe Selo e diz que
decidirá lá.”

A resposta do czar expurga os últimos vestígios de disposição


do Gabinete, que dissolve-se naquele momento. À noite, a maioria dos
ministros entregava-se à Duma, preferindo a prisão ao linchamento.

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Kerensky acredita ter evitado um massacre ao proteger os ministros do ódio


da população:

“Nos primeiros dias da Revolução, a Duma estava cheia dos mais odiados oficiais
da monarquia...
“Dia e noite a tempestade revolucionária rugia em torno a estes prisioneiros. Os
imensos saguões e intermináveis corredores da Duma fervilhavam de soldados armados,
trabalhadores e estudantes. As ondas de ódio... faziam tremer as paredes. Se eu apenas tivesse
movido um dedo, se eu simplesmente tivesse fechado os olhos e lavado as minhas mãos,
toda a Duma, toda São Petersburgo, toda a Rússia poderia ter sido arrastada por torrentes
de sangue humano, como aconteceu com Lenin em outubro.”

Na terça-feira, 13 de março, a cidade estava nas mãos dos revolucio-


nários. Apenas 1500 soldados de Khabalov guardavam o Palácio de Inverno.
Do outro lado do rio, na Fortaleza de Pedro e Paulo, os revolucionários
ameaçavam bombardear o palácio e concedem ao general e seus homens 20
minutos para deixar o local. Os últimos soldados leais ao czar abandonam
então o palácio e tratam de desaparecer na cidade ou aderir à Revolução.
A multidão, ora celebrava com selvagem alegria os feitos dos revolu-
cionários, ora entregava-se a surtos de violência, saques, tumultos, incêndios.
Os bombeiros eram impedidos de apagar o fogo nos edifícios públicos
porque a turba queria ver os prédios queimarem. Mansões como a da
ex-amante do czar, a bailarina Tchesinskaya, eram saqueadas e vandalizadas.
Carros armados abarrotados de soldados percorriam a cidade ostentando
suas bandeiras vermelhas. Na base naval de Kronstadt, os marinheiros
assassinam brutalmente seus oficiais, matando um e enterrando o outro vivo
ao lado do cadáver.
Na quarta-feira, cai Petrogrado e as tropas marcham em perfeita
ordem rumo ao Palácio Táuride para jurar aliança à Duma. O exército que em
1905 esmagara a Revolução, em 1917 garantia-lhe o sucesso. Com espanto
e tristeza, o embaixador francês vê passar a flor da elite da Guarda Imperial,
os Cossacos, a legião sagrada do Regimento de Sua Majestade e a Garde
Equipage, que servia a bordo do iate Standart e conhecia pessoalmente a
família imperial. Liderando os marinheiros marchava o grão-duque Kiril,
o primeiro Romanov a romper publicamente sua aliança com o czar, que
naquela semana havia perdido a capital, mas ainda mantinha o trono.

294 D R AG O E D I TO R I A L
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•••

“Teus pastores dormem, ó rei de Assur,


teus heróis estão inertes.
Teu povo está disperso pelas montanhas
sem que ninguém o ajunte.
Não há remédio para a tua ferida,
tua chaga é incurável.
Todos os que forem informados de tua sorte
aplaudirão pelo que te acontece;”
(Na 3:18,19)

Apesar das semanas de descanso com a família, o czar retornara


a Mogilev física e moralmente exausto, e no dia 11 de março apresentara
sintomas de uma oclusão coronariana. Era evidente para todos que o czar
não se recuperara de seu colapso nervoso e que era um homem acabado.
Ainda furioso com a incapacidade de Kabalov de conter alguns
arruaceiros, na segunda-feira à noite, o czar recebe um telegrama da czarina:

“Concessões inevitáveis. Tumulto nas ruas continua. Várias tropas passaram para
o lado do inimigo.”

Nicolau convence-se de que sua presença na capital era impres-


cindível e decide partir à meia noite, quando já era tarde demais. Antes, porém,
resolve reunir-se com o General Ivanov, que levaria reforços a Petrogrado. O
trem imperial só parte às 3 horas da manhã seguinte e sofre mais um atraso:
para não obstacular a saída dos trens que levavam suprimentos ao Exército,
o czar decide tomar uma rota secundária e mais longa, adiando ainda mais a
sua chegada a Petrogrado.
Às duas horas da manhã de quarta-feira, a cerca de 150km da capital,
o trem imperial interrompe sua marcha. Um oficial informa que revolu-
cionários armados de metralhadoras ocupavam a ferrovia e era impossível
prosseguir. O czar é acordado no meio da noite e alternativas são discutidas:
seguir a Leste rumo a Moscou, ao Sul, em direção a Mogilev ou a Oeste, para
Pskov. Nicolau concorda com seus oficiais e o trem parte rumo a Pskov.
O General Alexeiev então revoga as ordens do General Ivanov –
cuja odisseia também fora frustrada pelos revolucionários – de conduzir
reforços à capital. Mais tarde, sua atitude seria interpretada como cumpli-
cidade com a Revolução e traição à dinastia.

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Às oito da noite, o trem imperial finalmente chega à estação de


Pskov. Na plataforma, ao invés da Guarda de Honra que tradicionalmente
recebia o czar, encontravam-se apenas os generais Ruzky e Danilov. Ruzky
portava más notícias: toda a guarnição de Petrogrado e Tsarskoe Selo,
incluindo a Guarda Imperial, os Cossacos e a Garde Equipage, comandada
pelo grão-duque Kiril, aderira à revolução.
A notícia de que a sua guarda pessoal unira-se aos rebeldes representa
um grande choque para Nicolau, e talvez neste momento ele tenha apreendido
a real proporção dos últimos eventos. Tão palpitantes notícias finalmente o
mobilizam, e o czar resolve agir. Ele pede a Ruzky que telegrafe a Rodzianko
concedendo-lhe o que lhe recusara por tanto tempo: um ministério aceitável
à Duma, tendo o próprio Rodzianko como Primeiro Ministro, com plenos
poderes sobre questões internas.
A dramática resposta de Rodzianko, se não pulveriza definitivamente
as ilusões do czar, abala-as seriamente:

“Vossa Majestade e o General Ruzky aparentemente não se dão conta do que está
acontecendo na capital. Uma terrível Revolução irrompeu. O ódio à Imperatriz atingiu o
ápice. Para impedir derramamento de sangue, fui forçado a prender todos os ministros...
Não enviem mais tropas. Eu mesmo mantenho-me por um fio. O poder escapa-me das
mãos. As medidas que Vossa Majestade propõe chegam tarde demais. O tempo para elas se
foi. Não há mais volta.”

A descrição de Rodzianko era fiel ao cenário da capital, e mesmo


minimalista, mas o czar certamente considerou-a hiperbólica. Embora a
esta altura dos acontecimentos ele já não pudesse entregar-se à negação das
evidências, seu caráter irresoluto e a morosidade com que normalmente
inteligia inclinavam-no a um perpétuo adiamento de atitudes que beirava o
estupor.
Naquela manhã, um acordo entre o Comitê da Duma e o Soviet
produzira o núcleo de um Governo Provisório. Rodzianko continuava
a participar das discussões do governo, mas sua influência minguava
rapidamente. Embora o Comitê e o Soviet discordassem basicamente a
respeito de todos os assuntos importantes, mesmo os membros monarquistas
do Comitê concordavam que, para salvar a dinastia e o trono, Nicolau II devia
ser sacrificado. O czar deveria abdicar em favor do filho, com o grão-duque
Mikail como regente até que Alexei Nikolaievitch atingisse a maioridade.
Guchkov, agora Ministro da Guerra, declarava:

“É de vital importância que Nicolau II não seja deposto através da violência.

296 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

A única forma de assegurar a permanência de uma nova ordem, sem causar um choque
muito grande, é a sua abdicação voluntária.”

•••

“Quanto a ti, eis o que ordenou o Senhor:


Descendência alguma levará o teu nome.
Farei desaparecer, do templo de teus deuses,
As imagens esculpidas e as imagens fundidas.
Vou preparar o teu sepulcro, porque és pouca coisa.”
(Na 1:14)

Os líderes do novo governo em Petrogrado contatam a cúpula do


Exército. O próprio General Alexeiev, Chefe do Estado Maior e braço
direito de Nicolau para questões militares, considerava a abdicação do
czar como a única solução para os problemas políticos e o impasse militar
do país. A pedido de Rodzianko, Alexeiev solicita o parecer de todos
os comandantes dos diferentes fronts. Na manhã seguinte, chegavam as
respostas, tristemente unânimes: Sua Majestade devia abdicar. Em seu
telegrama, o grão-duque Nikolai Nikolaievitch suplicava-lhe, “de joelhos”,
que abdicasse e salvasse a dinastia.
Na manhã do dia 15 de março, Ruzky reúne todos os telegramas
dos generais e deposita-os, sem comentários, sobre a mesa junto à qual
sentava-se o czar. A cada telegrama que lia, Nicolau tornava-se mais
pálido. Finalmente, ele dá as costas a Ruzky, dirige-se à janela, e por longos
momentos limita-se a olhar para fora, imóvel. As mensagens de seus
generais, dos camaradas do Exército que ele amava, agem sobre ele com
a violência de uma bofetada, e provocam a reação que vinte telegramas
apocalípticos de Rodzianko jamais conseguiriam suscitar: o czar desperta
enfim como que de um sono profundo, de um pesadelo em que ele era
autocrata de um imenso Império. Enquanto olhava pela janela, Nicolau
sentia esvaírem-se suas ilusões de grandeza e de vitórias militares, e doía-lhe
o peito pensar que até mesmo seus generais o desprezavam. Via-se de
repente reduzido às suas reais dimensões: um homem banal e anti-heroico
que um destino avassalador esmagara, e a quem agora todos acusavam de
ter sido apenas ele próprio. E então um alívio imenso e irresistível como
uma onda gigantesca inundou-lhe a alma, exausta do fardo insuportável
que carregara por vinte e dois anos, e que agora lhe arrancavam à força.
Nem sempre é simples identificar a vocação de um indivíduo,

D R AG O E D I TO R I A L 297
M Á RC I A S A RC I N E L L I

muitas vezes camuflada por camadas e camadas de máscaras e fachadas


sociais, como a profissão a que é levado, por inúmeros motivos, a exercer,
ou mesmo por suas ações ao longo de sua existência. A verdadeira vocação
do sujeito, entretanto, fulgura como pano de fundo em todas as suas
atitudes, omissões, escolhas, necessidades, anseios e compulsões, mesmo
quando estes parecem afastá-lo de seus reais propósitos ou privá-lo de seus
mais caros desejos. A verdadeira vocação de Adolf Hitler, por exemplo, era
o suicídio, e não a liderança ou a eterna conquista, como pode parecer ao
olhar menos atento.
Nicolau II era um mártir nato. Sua índole renunciatária havia-se
cronificado com o tempo, à medida que a vida lhe apresentava oportu-
nidades para exercer esse talento, culminando com seu trágico fim, típica
apoteose do mártir vocacional. Toda a sua trajetória é uma inexorável
caminhada em direção à renúncia, sonho secreto que pôde realizar ao ver-se
livre do imenso Império que herdara a contragosto. Seus próximos passos
o conduziriam ao patíbulo, ao sacrifício que enfrentaria com a serenidade e
a angélica expressão de quem finalmente encontrou seu caminho na vida.

•••

“Estou cansado de reinar sobre escravos.”


(Frederico o Grande)

De repente o czar parece despertar de seu devaneio à janela, vira-se


com um movimento brusco e anuncia com voz firme e clara:

“Decidi abdicar em favor de meu filho Alexei.”

O czar faz então o sinal da cruz e conclui:

“Agradeço aos senhores por seu excelente e fiel serviço. Espero que continuem
servindo ao meu filho.”

Um documento de abdicação, elaborado às pressas sob a supervisão


do General Alexeiev, é produzido e aprovado pelo czar, que o assina às 15
horas do dia 15 de março de 1917. Como previa a lei, o trono passava do
pai para o filho. Aos 12 anos de idade, Sua Majestade Imperial Alexei II era
agora Czar e Autocrata de Todas as Rússias.
Quando tudo parecia resolvido, uma questão burocrática vem

298 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

adiar os procedimentos: em Petrogrado, a ala monarquista do Comitê havia


decidido que os delegados Gutchkov e Shulgin deveriam testemunhar a
assinatura do documento de abdicação.
Enquanto aguardava os dois delegados – que levariam 6 horas para
chegar a Pskov – o czar reflete sobre as consequências de sua última decisão.
Até então ele supusera que lhe seria permitido retirar-se para Livadia com
toda a família, inclusive Alexei, até que atingisse a maioridade. Ali poderia
finalmente dedicar-se a tudo o que mais amava: as alegrias da vida familiar, a
caça, a prática de esportes, o cultivo de flores e longas caminhadas, enquanto
preparava Alexei para reinar. Uma conversa com o Dr. Fedorov faria com
que mudasse de ideia. Nicolau mandara chamar o médico e pedira-lhe sua
opinião sincera sobre a expectativa de vida de Alexei. Ciente da importância
da questão, Fedorov responde com prudente franqueza:

“A ciência nos ensina, Majestade, que a hemofilia é uma doença incurável. No


entanto, aqueles que padecem dela, algumas vezes atingem uma idade bastante avançada. De
qualquer forma, Alexei Nikolaievitch está à mercê de qualquer acidente.”

O médico prossegue expondo ao czar a situação do filho: Alexei


Nikolaievitch nunca poderia montar a cavalo e seria forçado a evitar qualquer
atividade física que o exaurisse ou forçasse suas articulações. Além de sua
opinião de médico, Fedorov esclarece a Sua Majestade que, tendo abdicado,
ele seria exilado da Rússia com a Imperatriz, e o novo governo jamais
permitiria que o futuro czar fosse educado no estrangeiro por seus pais
depostos. O czar vê-se então diante de novo dilema: embora Alexei fosse
por direito o herdeiro do trono da Rússia, Nicolau não podia abandoná-lo
a estranhos, sobretudo com os riscos a que a hemofilia o expunha constan-
temente.
Quando Guchkov e Shulgin finalmente chegam, às 9 da noite, são
imediatamente levados à presença de Nicolau, no trem Imperial. Guchkov
inicia um discurso decorado sobre a necessidade da abdicação de Sua
Majestade, quando Nicolau o interrompe:

“Este longo discurso é desnecessário. Decidi renunciar ao trono. Até às 3 horas


da tarde de hoje, eu teria abdicado em favor de meu filho Alexei. Mas agora mudei minha
decisão em favor de meu irmão Mikail. Espero que compreendais os sentimentos de um
pai.”

Apenas a última frase, pronunciada com uma voz ligeiramente


trêmula, denunciava os sentimentos do czar, em geral um mestre na arte de

D R AG O E D I TO R I A L 299
M Á RC I A S A RC I N E L L I

ocultar emoções. Nicolau entrega então aos emissários de Petrogrado o novo


documento, que removia pai e filho do trono da Rússia, e assina-o diante das
testemunhas. Em poucos minutos extinguia-se um reinado que durara 22
anos e 142 dias, um reinado trágico, pleno de desventuras e indubitavelmente
de graves erros, de que Nicolau se despojava como que de uma roupa velha.
Mais uma vez seu excepcional autocontrole diante de situações adversas é
interpretado como indiferença ao seu destino e ao da Rússia, como testemu-
nharia Guchkov:

“A abdicação aconteceu de maneira simplicíssima, e o protagonista parecia longe


de compreender a tragédia que se desenrolava à sua volta, tanto que me perguntei se
estávamos diante de uma pessoa normal. Talvez o czar não se apercebesse da situação e do
ato que realizara, e continuou a não dar-se conta até o último momento. Mesmo um homem
de nervos de aço teria demonstrado naqueles momentos a sombra de uma emoção.”

Ao irmão, o grão-duque Mikail, Nicolau telegrafaria:

“À Sua Alteza Imperial Mikail Alexandrovitch:


Os eventos dos últimos dias forçaram-me a este irrevogável passo. Perdoa-me se
te imponho tamanho fardo, não estou em condições de evitá-lo. Retorno ao Estado Maior e
espero poder partir dentro de poucos dias para Zarskoe Selo. Imploro a Deus que te ajude
e ao teu país.
Nicky.”

Os últimos atos de Nicolau II como czar foram duas assinaturas em


documentos que o Governo Provisório lhe enviara: a nomeação do príncipe
Lvov como I Ministro e do grão-duque Nikolai Nikolaievitch mais uma vez
como Comandante Supremo das Forças Armadas.
No dia seguinte Nicolau segue para Mogilev para despedir-se de seu
Exército. Seu rosto não denunciava a menor emoção, não concedia espanto
nem dor, apenas o imenso cansaço que o abatia há meses. À noite, porém,
no diário em que sempre anotava suas impressões com sua clássica fleuma e
a máxima economia de sentimentos, o czar deposto escreveria:

“Pelo bem da Rússia, e para manter as tropas em combate, decidi dar este passo...
Deixei Pskov à 1 hora da manhã. Ao meu redor, vejo apenas traição, covardia e falsidade.”

Nos momentos que se seguiram a este que seria seu último ato
político e que selava a cisão definitiva entre o homem público e o homem

300 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

privado, Nicolau provou vergonha, amargura e uma profunda tristeza por


si, pela pátria, pela dinastia, pela família. Acima de tudo, abatia-o a depressão
moral e física de um homem que, tendo lutado contra inimigos internos
e externos mais fortes do que ele, finalmente reconhecia-se indigno de
seu posto e incapaz de realizar seu dever. Mais do que uma ruptura com
a Rússia, a abdicação de Nicolau II assinala a ruptura de seu pacto com
Deus. Como a sua fé na infalibilidade de Deus era inquebrantável, Nicolau
não se sentia abandonado por Ele, ao contrário, sentia que havia falhado
vergonhosamente por ser indigno da sagrada missão que Deus lhe confiara,
o que o humilhava profundamente.

•••

“Na noite terrível, substância natural de todas as noites,


Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.”
(Fernando Pessoa, Adiamento)

Na Rússia, a reação à queda do czar foi surpreendentemente


morna, como se não se houvera apreendido plenamente seu significado
ou como se àquela altura a abdicação não fizesse mais diferença. Apenas
os camponeses em geral reagiram com tristeza e horror – mesmo aqueles
que ostentavam bandeiras vermelhas. Nas igrejas reinava um silêncio de
tumba. Os Romanov, naturalmente, estavam estarrecidos. O grão-duque
Alexander escreveria:

“Nicky deve ter perdido a cabeça. Desde quando um soberano abdica porque
falta pão e há desordem na capital? Ele tinha um Exército de 15 milhões de homens à sua
disposição!”

Ainda mais do que a sua renúncia, a abdicação em nome do filho


horroriza toda a família. Para os legalistas, monarquistas devotados e
tradicionalistas, a manobra era ilegal e inaceitável, portanto inválida. Mesmo

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

os seus mais leais servidores não conseguiam compreender a decisão do


czar. Sazonov, ex-ministro do Exterior, comentaria com Paléologue:

“Conheces o meu amor pelo Imperador e com que devoção o servi. Mas
enquanto eu viver, jamais o perdoarei por ter abdicado em nome do filho. Ele não tinha
o menor direito de fazê-lo! Existe no mundo alguma lei que permita que os direitos de
um menor sejam abandonados? E o que dizer quando estes direitos são os mais sagrados
e augustos da Terra! Imagine destruir uma dinastia de 300 anos e a maravilhosa obra de
Pedro o Grande, Catarina II e Alexandre I! Que tragédia! Que desastre!”

Fora da Rússia, a tragédia de Nicolau II era comemorada, mesmo


pelos Aliados pelos quais a Rússia derramara rios de sangue e cujo pacto
o czar honrara até o fim, com a lealdade e o senso de dever que o caracte-
rizavam. Na Inglaterra, a House of Commons celebrava a queda do tirano
sanguinário. De Paris, o ministro Albert Thomas telegrafava a Kerensky
suas “congratulações e saudações fraternais”.
Os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer o
Governo Provisório, apenas uma semana após a abdicação de Nicolau II.
Às vésperas de entrar na guerra, para os americanos a deposição do czar
por um governo democrático aliviava-os do desconforto de lutar ao lado
de uma nação autocrática. No dia 2 de abril, o Presidente Woodrow Wilson
instruiu o Congresso a declarar guerra às Potências Centrais para garantir
um mundo “seguro para a democracia”. O presidente falou também com
fervor missionário sobre “os acontecimentos maravilhosos e exaltantes que
se estavam verificando na Rússia nas últimas semanas”, sobre a autocracia
que fora eliminada pelo “grande, generoso povo russo, que se unia em toda
a sua ingênua majestade e poder às forças que lutavam pela liberdade no
mundo, pela justiça e pela paz.”
A Alemanha, que havia apoiado e largamente financiado os revolu-
cionários, naturalmente estava satisfeita com o resultado de seus esforços,
mas como o movimento fugia rapidamente ao controle de seus organi-
zadores, o Reich agora temia que o flagelo exorbitasse dos limites do
império czarista e contagiasse a própria Alemanha.
Anos depois, uma única voz fora da Rússia erguer-se-ia em defesa
do czar humilhado e derrotado, sua memória perpetuamente execrada: a
voz de Winston Churchill:

“É típico das tendências superficiais desta nossa época considerar o regime


czarista como uma obtusa, corrupta, incompetente tirania. Mas um exame de seus trinta

302 D R AG O E D I TO R I A L
A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

meses de guerra contra a Alemanha e a Áustria deveria corrigir estas vagas impressões e
expor os fatos dominantes. Pode-se medir a força do Império russo pelo cerco que suportou,
pelos desastres aos quais sobreviveu, pelas forças inesgotáveis que desenvolveu e por seu
poder de recuperação. No governo dos Estados, quando grandes eventos estão em marcha,
o líder da nação, quem quer que ele seja, é considerado responsável pela derrota e glorificado
pelo sucesso. Não importa quem determinou as ações, quem planejou a luta, à suprema
autoridade responsável cabe a culpa ou o crédito.
“Por que deveria este duro teste ser negado a Nicolau II? Ele cometeu muitos
erros, que governante não os cometeu? Ele não era nem um grande comandante, nem
um grande príncipe. Era apenas um homem simples e sincero, de habilidades medianas,
de caráter misericordioso, que baseava toda a sua vida em sua fé em Deus. Mas o peso de
decisões supremas repousava sobre ele. Nos momentos cruciais em que todos os problemas
resumem-se a Sim ou Não, quando os eventos transcendem as capacidades do homem
e quando tudo é imperscrutável, ele tinha que fornecer as respostas. Dele era a função
da agulha do compasso. Sim ou não à guerra? Avançar ou retirar? Direita ou esquerda?
Democratizar ou aguentar firme? Desistir ou perseverar? Estes eram os campos de batalha
de Nicolau II. Por que ele não deveria colher honra destas batalhas? O devotado ataque
das tropas russas que salvou Paris em 1914; a orquestrada agonia da falta de munição que
determinou a retirada; a lenta recuperação de forças; as vitórias de Brusilov; a ofensiva russa
na campanha de 1917, invicta, mais forte do que nunca; ele não tem participação em nada
disto? Apesar de erros vastos e terríveis, o regime que ele personificava, que ele presidia, ao
qual seu caráter pessoal doava sua centelha vital, tinha neste momento vencido a guerra para
a Rússia.
“Ele está prestes a ser derrubado. Uma mão negra, enluvada a princípio em
loucura, agora intervém. Expulsa o czar. Entrega-o e a tudo o que ele ama à injúria e à morte.
Denigre seus esforços, difama sua conduta, insulta sua memória; mas que se detenha agora
esta mão para nos dizer quem mais foi julgado capaz. Quem ou o que poderia guiar o Estado
russo? Homens dotados e ousados; homens ambiciosos e impetuosos, espíritos audaciosos
e autoritários – estes não faltavam. Mas nenhum deles poderia responder às poucas, simples
perguntas para as quais a vida e o destino da Rússia se voltaram.”

Nicolau II parecia ter conseguido a façanha de aborrecer igualmente


a bolcheviques, democratas, anarquistas, monarquistas, russos, ingleses,
franceses, alemães e sua própria família. Entretanto, o ódio da população
concentrava-se, não na figura do czar, mas no regime autocrático e seus
agentes, e acima de tudo na czarina. Um mês após a abdicação de Nicolau
II, um jornal de Petrogrado publicava uma “Carta Aberta a Alexandra
Feodorovna”:

“Tudo se cumpriu. O momento tão ansiado da liberdade chegou. A Rússia está

D R AG O E D I TO R I A L 303
M Á RC I A S A RC I N E L L I

ébria de frenética alegria, de uma felicidade sem limites, por ter sido libertada da angústia
que a dominava até agora.
“É o fim da tirania! Por mais de vinte anos, Vossa Majestade, a Czarina, traiu e
vendeu a Rússia. Sobre os seus ombros Vós desferistes golpe após golpe, sobre o mesmo
país que a acolheu, simples princesa, de braços abertos. Foi depositada todavia em Vós
a esperança de que não fôsseis como Maria Feodorovna, que em cinquenta anos de vida
na Rússia, sequer esforçou-se para aprender a língua russa... Já este detalhe demonstra
seu completo desprezo em relação ao nosso povo e a sua completa incompreensão de
sua função de czarina. De Vós, entretanto, desde o início, esperava-se uma outra atitude.
“Diante de Vós pôs-se de joelhos um povo de muitos milhões de pessoas,
sedento de esclarecimentos, de instrução e de ver realizarem-se os seus direitos. Mas o que
Vossa Majestade semeou neste terreno a não ser desprezo e ódio? Vossa posição deu-vos
inesgotáveis possibilidades de fazer o bem, e o povo vos teria sido grato e bendiria o vosso
nome por todas as gerações futuras. Mas o que foi feito de todas aquelas reivindicações
contitucionais pelas quais o povo tanto clamou?
“O que Vossa Majestade deu de bom ao país em vinte e cinco anos, além de uma
nova ala no Palácio de Inverno?
“Vossa Majestade disse sempre que era alemã como aquela que os russos
chamaram “a grande”. Vossa autoestima é ridícula! A única coisa que possuís em comum
é o fato de serem alemãs... Mas Catarina esqueceu sua própria origem, e assim fez o
nosso povo... Para assemelhar-se a Catarina a Grande, a Vós faltam compreensão e tato.
Catarina esforçou-se por reunir em torno a si as pessoas mais instruídas de sua época
e percorreu com elas um caminho feito de grandes realizações e de objetivos elevados.
Vossa Majestade só conseguiu encontrar Rasputin; esse aborto moral, essa escória da
humanidade e esse homem dissoluto e criminoso tornou-se o seu mais íntimo amigo,
interlocutor e quem sabe o que mais...
“Vossa Majestade chegou ao trono russo apenas com o horizonte de vossa
cozinha, na qual preparava com as próprias mãos vosso prato preferido, o mingau de
aveia. Não fostes nem por um momento uma verdadeira czarina, inspirada por uma
elevada missão. Não vos ocorreu nem por um momento a ideia de que o povo esperava
de Vós qualquer coisa além de servir-vos, gastar por Vós o dinheiro ganho com esforço,
e por este dever viver sem liberdade ou mesmo na prisão, ou ser exposto a humilhações
e exílio.
“Em um outro país, ou nos primeiros momentos da Revolução, Vós teríeis sido
condenada à morte na câmara de tortura e teríeis terminado vossos dias na fogueira. Mas
o povo russo é superior aos sentimentos de vingança e nutre por Vós apenas desprezo!
E não é a alemã que o povo odeia em Vós, mas a mulher, a pessoa, a czarina! Vós nos
traístes durante vinte anos e no final desfechastes-nos o golpe de misericórdia, mas este
golpe voltou-se contra Vós.

304 D R AG O E D I TO R I A L
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“Deixai este país, que Vós não tivestes capacidade de compreender e nem de
amar, mas não vos esqueçais de deixar aqui os objetos preciosos que o grão-duque Pavel
Alexandrovitch vos doou para a Coroa.
“Lembrai-vos de que foram comprados com o dinheiro do povo que Vós tanto
desprezais!...
“Que a desonra e o desprezo sejam os últimos a acompanhá-la, os companheiros
de uma traidora!
“Inclino-me profundamente aos combatentes pela nossa liberdade! Honra e
eterna gratidão aos nossos libertadores!
“Uma cidadã finalmente livre,
A artista A .W. Darial.”

•••

Removidos Nicolau e Alexei do trono, o novo czar – em potência


se não em ato – não parecia ansioso por reinar, ao contrário de sua esposa,
a condessa Brasova, que mal podia esperar para arrancar de Alexandra
as joias da coroa. Para certos membros da Duma, urgia convencer o
grão-duque Mikail Alexandrovitch a abdicar também, antes que a Brasova
e os monarquistas o convencessem de que seria maravilhoso ser czar.
Rodzianko e Kerensky estavam certos de que não encontrariam dificuldades
em persuadi-lo a renunciar. Mikail não se interessava minimamente por
política e não era nada popular, na verdade era uma perfeita nulidade, um
fraco, inoperante e acabrunhado, dominado pela esposa ambiciosa – que
por acaso não se encontrava em Petrogrado quando da visita dos deputados
à sua residência.
A primeira pergunta de Mikail a Rodzianko foi se a Duma poderia
garantir-lhe a vida, caso ele subisse ao trono. Rodzianko respondeu-lhe que
não, explicando ao grão-duque que não possuía tropas à sua disposição que
pudessem sustentá-lo. Por sua vez, os monarquistas Shulgin e Miliukov
tentavam convencer o grão-duque a aceitar a coroa, a não pôr fim à
dinastia. Após duas horas em que ouvira em silêncio os argumentos das
duas facções, Mikail, visivelmente emocionado, declara que decidira defini-
tivamente renunciar ao trono. Melodramático como sempre, Kerensky
salta sobre o grão-duque exclamando:

“Alteza, sois uma alma nobre e nunca me cansarei de dizê-lo!”

Um novo documento de abdicação é redigido ali mesmo e Mikail

D R AG O E D I TO R I A L 305
M Á RC I A S A RC I N E L L I

assina-o. A dinastia inaugurada por Mikail I, que aceitara recalcitrante o trono


da Rússia, extinguia-se 304 anos depois, com a renúncia de Mikail II.

•••

“Creio, perante a evolução imensa,


Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui.”
(Augusto dos Anjos, “Último Credo”)

Embora profundamente ferido pela traição de seus generais, de


quem jamais esperara que se unissem contra ele, Nicolau não podia partir
sem dizer adeus aos seus soldados, ao Exército que ele tanto amara e que
para ele fora sempre um oásis em que se refugiava das agruras da política
interna. Imediatamente após assinar o segundo documento de abdicação,
Nicolau pede permissão ao Governo Provisório para ir a Mogilev. No
Quartel General, a aparência do czar, seus olhos fundos, o olhar perdido,
impressionam e entristecem a todos. Um melancólico jantar é servido para
o ex-czar e os generais, cuja atmosfera é comentada por um dos oficiais
presentes:

“Todos nós tínhamos o coração partido; não conseguíamos comer ou beber. E no


entanto o Imperador manteve um impressionante autocontrole e fez-me várias perguntas
sobre os homens que compunham o Governo Provisório; mas ele usava uma camisa de
colarinho baixo e não pude deixar de ver que estava o tempo todo engolindo sua emoção.”

Como Ordem do Dia, Nicolau redige sua despedida do Exército:

“Ao Chefe de Estado Maior:


“Pela última vez dirijo-me a Vós, meus amados soldados. Depois da minha
abdicação em meu nome e em nome de meu filho ao trono russo, o poder passou ao
Governo provisório, constituído pela Duma. Que Deus o ajude a conduzir a Rússia à glória
e à prosperidade. Que Deus ajude também a Vós e a vossas vitoriosas tropas a preservar a
nossa pátria do malvado inimigo. Durante dois anos suportastes um duro serviço de guerra,
muito sangue foi derramado, grandes esforços foram realizados, e aproxima-se a hora em
que a Rússia, unida aos seus gloriosos aliados em um único esforço em direção à vitória,
destruirá as últimas forças do inimigo. Esta guerra sem precedentes deve ser conduzida
até a plena vitória.

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“Quem agora deseja a paz é um traidor da pátria. Sei que todo soldado leal
também pensa assim. Cumpri o vosso dever, defendei a vossa gloriosa pátria, submetei-vos
ao Governo Provisório, obedecei aos vossos superiores, e pensai que toda a insubor-
dinação, toda a indisciplina, favorece apenas o inimigo.
“Creio firmemente que não se tenha apagado em vossos corações o infinito
amor por vossa grande pátria. Deus vos abençoe, e São Jorge, mártir e portador de vitória,
vos conduza ao triunfo.”

Apesar de seu conteúdo conciliatório e praticamente inócuo, o


Soviet não permitiria que a mensagem chegasse às tropas porque, além de
não acatar Ordens do Dia de monarcas depostos, temia o risco de que o
ex-czar deixasse saudades e, ao contrário dos socialistas, não desejava dar
continuidade à guerra.
Nicolau permanece em Mogilev por cinco dias, durante os quais a
mudança de seu statu quo é camuflada com muito tato por todos os que o
cercavam, e ele é tratado sempre com muita cortesia. O General Alexeiev
organiza uma cerimônia de despedida, à qual comparecem todos os oficiais
que se encontravam no Quartel General. Nicolau agradece um por um a
todos os oficiais por sua lealdade e dedicação, pede-lhes que continuem a
servir à Rússia e que a conduzam à vitória. Tremia-lhe a mão direita e um
triste sorriso cristalizado repuxava-lhe os lábios. Sua modéstia e simpli-
cidade impressionam a todos, e quando ele conclui seu breve discurso, a
sala explode em gritos de hurras.
Anos mais tarde, o General Titchmeiev descreveria a cena:

“[O czar] aparentemente estava muito tranquilo, apenas o tremor de sua mão
direita traía sua emoção... e começou a falar como sempre de forma clara e límpida. Sua
emoção era perceptível de quando em quando, pelas pausas artificiais que fazia em seu
discurso. Lembro-me perfeitamente de suas primeiras palavras: ‘Hoje, vejo-vos pela última
vez. É a vontade de Deus e a consequência da minha decisão’.
“Acrescentou que havia abdicado pelo bem da Rússia e que esperava que
vencêssemos a guerra. Agradeceu-nos por havermos servido com tanta fidelidade a ele e
à pátria, e encarregou-nos de servir com fé, consciência e lealdade, também ao Governo
Provisório, e a qualquer custo conduzir à vitória a luta contra o ‘malvado e desleal inimigo’.
“...Atrás do soberano alguém de repente soluçou alto e aquele som bastou para
que em diversos pontos da sala, aqueles que com muito esforço se haviam controlado,
derramassem-se também em lágrimas.
“Alguns choravam baixo, outros soluçavam alto e assoavam o nariz, outros ainda
sibilavam: ‘Silêncio! Assim tornais tudo mais difícil para o soberano!’ O czar... esforçou-se

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por sorrir, mas não conseguiu, e seu rosto parecia deformado. Com os olhos úmidos de
lágrimas, ele continuou a [cumprimentar os oficiais um a um].
“Muitos oficiais daquele batalhão, feridos mais de uma vez e ainda não
totalmente curados, estavam muito debilitados, tanto que dois deles desmaiaram... No
mesmo instante, um forte e barbudo cossaco... desabou com o rosto no chão.
“O soberano [então] não suportou mais... e retirou-se com passos rápidos...”

Muitos choravam abertamente, mas ninguém pediu ao ex-czar que


reconsiderasse sua decisão. Ninguém lhe pediu que ficasse.
No dia seguinte, enquanto Nicolau sentava-se sozinho em seu
quarto, os oficiais e suas tropas juravam aliança ao Governo Provisório. Na
cerimônia religiosa que se seguiu, pela primeira vez em séculos os nomes
do czar e da família imperial foram omitidos das orações.
No segundo dia de sua permanência no Quartel General, Nicolau
recebe a visita da czarina mãe. Maria Feodorovna recebera a notícia da
dupla abdicação em Kiev, e a grão-duquesa Olga relataria que

“A notícia da abdicação de Nicolau atingiu-nos como um raio. Estávamos


estarrecidas. Minha mãe estava fora de si [e] dizia que aquela fora a pior humilhação de
sua vida... e culpava Alexandra... por tudo.”

Durante duas horas mãe e filho estiveram sozinhos, até que o


grão-duque Alexander, que acompanhara a czarina mãe a Mogilev, uniu-se
a eles. O grão-duque encontrou Maria Feodorovna, sempre uma rocha
de autocontrole, desabada sobre uma cadeira, chorando histericamente.
Diante dela fumava o filho que, mudo, olhava para os próprios pés.
Durante os três dias em que Maria Feodorovna permaneceu em
Mogilev, mãe e filho estiveram sempre juntos. Nicolau procurava consolar
sua mãe, que pela primeira vez em sua vida perdera a pose e sentia-se
aterrorizada, envergonhada e desgraçada. O falso otimismo com que
Nicolau tentava encorajá-la a princípio tranquilizou-a um pouco, e ela em
breve recuperou seu legendário autocontrole. Parecia-lhe, todavia, que o
filho vivesse em uma atmosfera irreal e que se apegasse a absurdas ilusões
sobre o futuro. Estes seriam seus últimos momentos juntos. Mãe e filho
jamais tornariam a encontrar-se.
Ainda no Quartel General, Nicolau comunicou ao Governo
Provisório seus três últimos desejos: permanecer em Tsarskoe Selo até que
toda a família estivesse curada (Alexei e três das grão-duquesas estavam
acamados com sarampo); poder em seguida partir com a esposa e os filhos

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para Murmansk e embarcar para a Inglaterra, caso esta lhe concedesse


asilo; ao fim da guerra poder retornar e viver em Livádia, na Criméia. O
príncipe Lvov, então líder do Governo Provisório, telegrafou-lhe dizendo
que suas duas primeiras solicitações haviam sido aceitas e que o ministro
do Exterior pedira formalmente ao embaixador inglês que solicitasse
oficialmente a autorização de Londres.
A autorização seria concedida e transmitida a Lvov a 23 de março.

•••

Enquanto isso, em Tsarskoe Selo, a czarina lutava contra uma


verdadeira epidemia de sarampo que contagiara três das grão-duquesas,
Alexei e Ana Virubova. Notícias fragmentadas sobre a situação em
Petrogrado e o adiamento da vinda de Nicolau chegavam-lhe confusas e
às vezes contraditórias. No dia 12 de março, Rodzianko, então líder do
Comitê Temporário da Duma, alerta a czarina sobre o perigo que corria
e aconselha-a a deixar Tsarskoe Selo com os filhos o mais rapidamente
possível. Nicolau telegrafa de Mogilev avisando que um trem estaria à
disposição de sua família e que ele próprio chegaria na manhã do dia 14.
Alexandra, entretanto, recusa-se a partir devido às condições de saúde dos
filhos, especialmente de Alexei. De qualquer modo, as ferrovias estavam
obstruídas pelos revolucionários e a família provavelmente não conseguiria
ir a lugar algum.
Neste mesmo dia, uma turba de soldados rebeldes dirige-se ao
Palácio Alexander para capturar a “alemã” e seu filho e levá-los à capital.
Chegando a Tsarskoe Selo, contudo, a multidão distrai-se quebrando
vitrines, invadindo casas de vinhos, pilhando, embriagando-se e atirando
para o alto, e esquece-se ou desiste de seu propósito inicial. Encarregados
da defesa do Palácio Alexander havia cerca de 1500 homens: elementos
leais colhidos do Regimento da Guarda Imperial, dois esquadrões de
Cossacos da Escolta do Imperador e uma bateria de artilharia. Durante
toda a noite esperou-se um ataque. Alexandra, todavia, estava confiante e
não se cansava de repetir:

“Eles são todos nossos amigos... são tão devotados a nós...”

A chegada de Nicolau estava prevista para o dia seguinte e


Alexandra levanta-se às 5 horas da manhã para esperá-lo. Apenas às 8 horas
ela é avisada de que o trem do Imperador fora detido em Malaya Vishera.

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Ela então envia um telegrama, e uma série de outros telegramas, e não


obtém resposta. Todos retornavam com a mesma anotação: “Endereço do
Destinatário Desconhecido”.
No dia seguinte, o czar assinava o documento de abdicação,
enquanto a czarina, inocente da catástrofe que a espreitava, lamentava-se
da falta de luz e água no palácio e da doença dos filhos. No dia 16 de
março Alexandra é informada de que circulavam panfletos em Petrogrado
anunciando a abdicação do czar. Ela recusa-se a crer no que julgava
meros boatos. À noite, porém, o grão-duque Pavel vai ao palácio dar-lhe
pessoalmente a notícia da abdicação de Nicolau em seu nome e em nome
de Alexei, e da renúncia de Mikail ao trono. Lili Dehn, uma amiga de
Alexandra que estava hospedada no palácio, testemunha a reação da czarina
à notícia da abdicação e do fim da dinastia:

“...a porta se abriu e a Imperatriz apareceu. Seu rosto estava desfigurado pela
agonia, seus olhos cheios de lágrimas. Ela cambaleava... e eu acorri para ajudá-la a chegar
à escrivaninha entre as janelas. Ela apoiou-se pesadamente no móvel e, tomando minhas
mãos entre as suas, disse entre soluços: ‘Abdiqué!’ Eu não podia crer no que ouvia e
esperei que ela dissesse mais alguma coisa. Suas palavras eram quase inaudíveis: ‘Meu
pobre querido... sozinho lá... o que ele deve ter suportado, meu Deus, o que ele deve ter
sofrido... E eu não estava lá para consolá-lo’...”

Gilliard descreveria a luta da czarina para conter sua emoção diante


dos filhos, para não alarmá-los:

“Eu a vi no quarto de Alexei Nikolaievitch... Seu rosto era uma visão terrível,
mas com uma força de vontade quase sobre-humana, ela forçava-se a ir aos quartos das
crianças como de hábito, para que os jovens doentes... de nada suspeitassem.”

Finalmente, no dia 17, o czar obtém permissão para telefonar


à esposa. Sabendo que o telefonema era monitorado de ambos os
lados, Nicolau limita-se a dizer: “Já sabes?”, ao que a czarina responde
simplesmente: “Sim”, e passam a discutir a saúde dos filhos.
No dia 21, o General Kornilov apresenta-se no Palácio Alexander
e comunica a Alexandra que ela estava presa. O General explicava à czarina
que sua prisão era meramente uma medida de precaução contra possíveis
excessos do Soviet e dos revolucionários, enquanto Alexandra olhava-o,
muda e gelada, recusando-se a estender-lhe a mão em cumprimento.
Kornilov informa-lhe que Nicolau havia sido detido em Mogilev e

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retornaria a Tsarskoe Selo no dia seguinte. Assim que a saúde das crianças
o permitisse, o Governo Provisório enviaria toda a família a Murmansk e
dali seguiriam para a Inglaterra. Finalmente aplacada, Alexandra degela-se
à ideia de poder partir com toda a família para a Inglaterra, e passa a tratar
o General com um arremedo de cortesia.
Decretada a prisão domiciliar da família imperial, os regimentos
que guardavam o Palácio Alexander são substituídos por novas tropas,
filhas da Revolução. O conde Benckendorff, uma das poucas pessoas dentre
amigos, parentes e empregados a compartilhar a prisão dos ex-soberanos,
descreve seus novos guardiães:

“Os soldados da guarda tinham uma horrível aparência. Descompostos,


barulhentos, brigões. Os oficiais, que os temiam, tinham muita dificuldade de impedí-los
de rondar o palácio e entrar em todos os quartos... Havia sempre muitas brigas entre eles
e os empregados... que eles odiavam por darem atenção à família imperial.”

Assim que o General Kornilov sai, a czarina manda chamar Gilliard


e comunica-lhe que o czar chegaria no dia seguinte e que era necessário
contar às crianças o que havia acontecido. Ela diria tudo às grão-duquesas,
e pede a Gilliard que dê a notícia a Alexei. Em suas memórias, ele registraria
sua conversa com o ex-czarévitch:

“Eu disse [a Alexei] que o czar retornaria de Mogilev na manhã seguinte


e que nunca mais voltaria para lá.
“ – Por que?
“ – Teu pai não quer mais ser Comandante Supremo.
“Ele ficou muito impressionado com isso, porque adorava ir ao Quartel
General. Depois de um momento, eu acrescentei:
“ – Sabes, teu pai não quer mais ser czar, Alexei Nikolaievitch.
“Ele me olhou atônito, tentando decifrar a minha expressão.
“ – O que? Por que?
“ – Ele está muito cansado e teve muitos problemas ultimamente.
“ – Ah, sim, mamãe me disse que pararam seu trem quando ele estava
vindo para cá. Mas depois disso Papai não vai mais ser czar?
“Eu então lhe disse que o czar abdicara a favor do grão-duque Mikail, que
também renunciara ao trono.
“ – Mas então quem vai ser czar agora?
“ – Não sei. Talvez ninguém.
“ – Mas se não há um czar, quem governará a Rússia?

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“Eu então lhe expliquei que havia sido formado um Governo Provisório...”

Às 4 horas daquela tarde as portas do palácio são trancadas. Era o


primeiro dia do cativeiro da família imperial. Do lado de fora, os soldados
da guarda divertiam-se embriagando-se, entoando canções revolucionárias
ou obscenas, e atirando contra o cervo domesticado.
A 21 de março, no mesmo dia em que as portas do Palácio
Alexander se fechavam, Nicolau anotava em seu diário:

“Último dia em Mogilev... Às 10h30min fui ao Estado Maior e despedi-me


de todos. Depois disse adeus também aos oficiais e aos Cossacos da Guarda do
Corpo e do Regimento Misto. Pensei que meu coração fosse explodir...
“Meu coração está pesado, dói-me o peito e estou profundamente triste.”

O trem que levava Nicolau chega à estação de Tsarskoe Selo no


dia 22 de março. Representantes da Duma entregam o prisioneiro ao novo
Comandante do Palácio Alexander, que o conduziria à prisão domiciliar.
Uma pequena farsa aguardava o ex-soberano à entrada do Palácio.
Olhando para dentro do carro, a sentinela pergunta quem ia lá, e então
telefona ao oficial de plantão solicitando autorização para deixar passar o
carro. O oficial grita de onde estava: “Quem vai lá?” “Nicolau Romanov”,
responde a sentinela. “Deixa-o passar”, replica o oficial.
Subindo os degraus que levavam à porta do palácio, Nicolau leva
a mão ao quepe em saudação aos soldados sujos e emarfanhados que se
amontoavam nas escadas, fumando, falando alto, rindo e fitando o ex-czar
com descarada curiosidade e arrogância. Nenhum deles retribui a saudação.
Um dos poucos empregados que permaneceram com a família
depois de decretada sua prisão domiciliar anuncia, tonitruante, a chegada
de Nicolau, como se nada houvera mudado:

“Sua Majestade, o Imperador!”

Alexandra, sempre tão pesada de corpo e alma, ao ouvir o anúncio


da chegada do marido corre-lhe ao encontro, lépida como uma libélula,
e por longo tempo eles estiveram abraçados. Entre soluços ela acaricia-
va-lhe os cabelos e dizia-lhe que o marido e pai era-lhe infinitamente mais
precioso do que o czar. Nos braços de Alexandra, a cabeça apoiada sobre
o seu peito, Nicolau finalmente pôde chorar o seu império perdido, o fim
de suas lutas inglórias e o naufrágio de suas esperanças.

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•••

“Agora zombam de mim os mais jovens do que eu,


aqueles cujos pais eu desdenharia de colocar
com os cães de meu rebanho...
Agora sou o assunto de suas canções,
o tema de seus escárnios;
Afastam-se de mim com horror,
não receiam cuspir-me no rosto.
Desamarraram a corda para humilhar-me,

sacudiram de si todo o freio diante de mim.


À minha direita levanta-se a raça deles,
tentam atrapalhar meus pés...
Cortam a minha vereda para me perder,
Trabalham para a minha ruína...”
(Livro de Jó, 30: 1 – 13)

Com a prisão domiciliar, inaugura-se para o ex-czar e sua família


o teatro do insulto. Todos os dias renovam-se as humilhações aos prisio-
neiros, sobretudo a Nicolau, vítima predileta da criativa perversidade de
seus guardiães. No primeiro dia em que Nicolau sai para caminhar no
pequeno trecho do jardim do palácio em que lhe era permitido exercitar-se
durante uma ou duas horas por dia, os guardas resolvem divertir-se barran-
do-lhe o caminho. Quando ele então vira-se e começa a caminhar em outra
direção, outro guarda posta-se diante dele, até que ele vê-se cercado por
seis guardas armados com rifles, que o empurram com seus punhos ou
com suas armas, nesta ou naquela direção:

“Não podes ir para lá, Gospodin Polkovnik [senhor coronel].”


“Não permitimos que vás naquela direção, Gospodin Polkovnik.”
“Obedeça nossas ordens, Gospodin Polkovnik.”

Nicolau então volta-se, e com grande dignidade retorna ao palácio.


Da janela, Alexandra observa a cena, e pela primeira vez compreende
plenamente a que a Revolução reduzira o Czar de Todas as Rússias.
Quando Nicolau tentava andar de bicicleta, os guardas entreti-
nham-se introduzindo suas baionetas entre os raios das rodas da bicicleta
para fazê-lo cair. O ex-czar então levantava-se e retomava o seu exercício,

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apenas para ver-se tratado da mesma forma, até que desistisse e retornasse
ao palácio. Alexei testemunha muitas vezes estas humilhações infligidas ao
pai; embora nada dissesse, seu rosto denunciava sua revolta tornando-se de
repente muito vermelho.
Uma das brincadeiras preferidas dos guardas acontecia durante as
refeições da família, quando tomavam do ex-czar seu prato, alegando que
ele já comera o suficiente. Os soldados também retiravam, com as mãos
imundas, bocados de comida dos pratos das grão-duquesas, para “experi-
mentá-los”.
Indisciplinados, agressivos, sujos e na maior parte do tempo
embriagados, os soldados circulavam livremente pelo palácio, entravam
e saíam dos quartos das grão-duquesas e seguiam-nas quando iam ao
banheiro, em cujas paredes escrevinhavam versos obscenos ou rabiscavam
desenhos pornográficos especialmente para elas.
Inesperada foi a atitude do marinheiro Derevenko, que há oito
anos acompanhava e protegia Alexei. Infectado pela propaganda revolu-
cionária, Derevenko resolve vingar-se dos anos de servidão e passa a tratar
Alexei como a um escravo, ordenando-lhe que lhe calçasse as botas, que
lhe trouxesse “imediatamente” isto ou aquilo, que lhe servisse a bebida
etc., ordens que o menino, perplexo, tentava obedecer. Derevenko é então
afastado, e apenas o fiel marinheiro Nagorny permaneceria a seu lado, até
que os revolucionários o assassinassem por excesso de devoção ao ex-cza-
révitch.
Os filhos de Nicolau estavam naturalmente assustados (sobretudo
Alexei, que vivia sobressaltado, e à noite gritava durante o sono, presa de
terríveis pesadelos), mas todos respeitavam a rotina de atividades sugeridas
por Alexandra e Nicolau, e procuravam manter-se ocupados. Gilliard
ministrava-lhes lições de Francês; Gibbs de Inglês; Nicolau de História e
Geografia; e Alexandra, de Alemão e Religião. Sempre que possível Nicolau
e os filhos faziam exercícios ao ar livre. À noite, o ex-czar lia em voz alta
para a família e todos faziam juntos as suas orações.
Alexandra envelhecia e murchava a olhos vistos e parecia já ter
morrido, como nas grandes tragédias, mortes preparatórias. Macérrima e
grisalha, a ex-czarina desfilava sua majestosa tristeza (na qual, como quer
Racine, reside todo o poder da tragédia) e ruminava seus rancores sempre
renovados.
Todos, entretanto, inspiravam-se na força moral e na coragem
de Nicolau diante da tragédia que viviam. A fé do ex-czar permanecera
inabalada, mesmo quando viu-se despido de toda a sua glória terrena, de

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sua magnificência imperial, pelo mesmo Deus que o ungira e coroara.


Como a personagem bíblica com que sempre se identificara, Nicolau
dizia-se internamente: “O Senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja
o nome do Senhor.”16 Esta confiança na infalibilidade dos desígnios de
Deus e na Sua misericórdia era fonte de esperança e conforto para toda a
família nos momentos de desespero, e permitia-lhes que se resignassem às
humilhações quotidianas e às privações, com a mesma naturalidade com
que haviam aceitado o fausto e o luxo. Virtude rara entre os poderosos,
a humildade nos derrotados, nos grandes abatidos, é preciosa, e a família
e os amigos do czar que compartilhavam de seu cativeiro admiravam-na
imensamente.
Em sua vida pública, a resignação místico-fatalista com que
encarara todas as desgraças que se abateram sobre ele e sua amada Rússia
contribuíram para formar a imagem do soberano fraco e indiferente ao
destino de seu país, imagem pela qual chegou a ser desprezado ou odiado.
Em sua vida privada, contudo, esta mesma aceitação fatalista dos desígnios
divinos e a digna serenidade com que enfrentava as sucessivas humilhações
e tormentos com que o perseguiriam até o último dia de seu cativeiro
destacavam-se como indicadores de supremas virtudes e de fortaleza de
caráter. As mesmas características que antes da abdicação eram percebidas
como deploráveis, agora pareciam nobres e louváveis. Os traços de caráter
que o denegriam como soberano, do qual se esperava uma grandeza de
porte e de espírito que lhe faltava, enobreciam-no agora como pai e marido.
É somente depois da queda que Nicolau revela suas qualidades morais,
perceptíveis apenas na derrota, após a destruição do mundo que conhecera
e amara, e sobre o qual fora obrigado a reinar. Insignificante e por vezes
infame na prosperidade, Nicolau resplandecia, grande e virtuoso, na
adversidade. Derrotado como czar e como comandante militar, o cidadão
Nicolau agora brilhava como pai e marido.
Apesar dos sofrimentos da prisão domiciliar, esta era a vida com
que sempre sonhara, o papel para o qual o seu caráter morno e doce o
inclinava e sua limitada formação o preparara. Eximido das contingências
do cargo e do peso da coroa, livre do poder absoluto, Nicolau era feliz.

•••

Na madrugada do dia 23, um bando de soldados invade a pequena


capela no parque imperial e exuma o corpo de Rasputin. Os soldados levam
16 Jó 1:21

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o caixão a uma clareira no bosque, abrem-no e depõem o corpo putrefato


do stárets sobre uma pilha de lenha, encharcam-no de gasolina e ateam
fogo. Por mais de seis horas o corpo de Rasputin queimaria, enquanto um
vento gélido espalhava as suas cinzas. Como ele previra, seu corpo não
seria deixado em paz, mas seria queimado, e suas cinzas dispersas ao vento.

•••

O colapso da estrutura burocrática e policial do regime czarista


e a insistência do Governo Provisório em continuar a guerra ofensiva
inspiram o surgimento de uma miríade de comitês, soviets e órgãos de
controle popular que, ao invés de combatê-lo, alimentavam o caos.
Os camponeses, que não haviam participado da Revolução de Março,
descobrem na paralisia da administração rural a oportunidade de realizar
o velho sonho de confiscar a terra a seus senhores. Violentos conflitos
agrários culminam com a expropriação de grandes propriedades privadas,
enquanto o governo clamava por paciência e respeito aos procedimentos
legislativos apropriados. À massa infrene não interessavam, contudo, as
sutilezas do parlamentarismo, e os camponeses trataram de tomar à força
o que Alexandre II lhes havia prometido.
Ainda mais urgente do que o problema da redistribuição de terras
era a questão da guerra. A população e o exército estavam exangues e
exigiam o fim da carnificina. Após a Revolução, o número de deserções
e confraternizações com o inimigo havia aumentado assustadoramente,
sobretudo após a “Ordem Número 1” emitida pelo Soviet de Petrogrado.
A ordem desferira um golpe decisivo na disciplina militar, com a criação de
soviets de soldados e a abolição das relações hierárquicas tradicionais entre
os oficiais e seus homens.
Em abril de 1917, o ministro das Relações Exteriores, Miliukov,
publica uma nota assegurando os Aliados que a Rússia continuaria a lutar até
a completa vitória sobre as potências inimigas. Violentos protestos públicos
determinam a demissão do governo de Lvov. Forma-se então uma nova
administração, que desta vez incluía membros do Soviet. A colaboração de
mencheviques e social-revolucionários com o governo burguês pró-guerra
desvia as simpatias populares para o partido bolchevique, o único a defender
uma política antiguerra. Exilado na Suíça, Lenin bradava a transformação
da guerra imperialista em uma série de guerras revolucionárias em todos os
países beligerantes: a Revolução Internacional.
Aparentemente, a Alemanha nada conseguira com a queda do

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czarismo; o Governo Provisório insistia em continuar a guerra. Seria


necessário fortalecer os bolcheviques, e os alemães não perdem tempo:
providenciam a imediata repatriação de Lenin, sua companheira Krupskaya
e 17 outros bolcheviques que se encontravam em Zurique. Churchill
comentaria a manobra alemã:

“Os líderes alemães dirigiram contra a Rússia a mais terrível de todas as armas.
Transportaram Lenin em um vagão selado como um bacilo da peste, da Suíça à Rússia.”

Em junho, o novo ministro da Guerra e Primeiro Ministro,


Alexander Kerensky, ordena uma nova ofensiva militar contra a Áustria.
Pela primeira vez abundavam suprimentos e munição, e 31 divisões russas
inauguram a ofensiva com um pesado bombardeio ao longo de 40 milhas
do front da Galícia. Para deleite de Kerensky, durante duas semanas os
russos avançam, os austríacos sofrem sérias baixas e recuam rapidamente.
Da prisão domiciliar, Nicolau encomenda um Te Deum para celebrar
a vitória. Cedo demais. Mais uma vez a Alemanha vem socorrer a sofrida
Áustria e bloqueia o avanço do exército russo. Os comitês dos soldados
então se reúnem para debater a questão e, diante da nova conjuntura,
os soldados recusam-se a lutar. O contra-ataque alemão provoca uma
debandada geral.
A catástrofe militar inspira novas manifestações na capital. Cerca de
500.000 pessoas carregando imensas bandeiras vermelhas marcham pelas
ruas de Petrogrado aos gritos de “Abaixo a guerra” e “Abaixo o Governo
Provisório”. Lenin e Trotsky não estavam preparados para orquestrar o
levante, e o Governo Provisório consegue silenciá-lo espalhando a notícia
de que Lenin era um agente alemão traidor da pátria. O artifício funciona
temporariamente e os Quartéis Generais bolcheviques – a mansão da
bailarina Tchesinskaya, os escritórios do Pravda e a Fortaleza de Pedro
e Paulo – são invadidos e ocupados. Trotsky entrega-se à polícia, mas
Lenin consegue escapar e atravessa a fronteira disfarçado de bombeiro.
O “Levante de Julho” fora esmagado, mas o novo governo deparava-se
com a multiplicação de manifestações públicas cada vez mais iradas,
revoltas rurais, o depauperamento da indústria e do Exército, uma inflação
galopante e movimentos pela independência nacional na Finlândia, na
Polônia, na Ucrânia e no Cáucaso.
Relutante em solucionar a questão agrária e em conceder uma
Assembleia Constituinte e decidido a continuar a guerra, o Governo
Provisório via eclipsar-se o seu poder. Apenas os bolcheviques, bem

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mais afinados com as necessidades de hoi polloi, prometiam “Paz, Terra e


Liberdade”, e sua hora não tardaria.

•••

A segurança do czar e de sua família sempre fora uma preocupação


do Governo Provisório. Kerensky declararia que

“O ex-imperador e a família imperial não eram mais inimigos políticos, apenas


seres humanos sob nossa proteção. Nós encarávamos qualquer manifestação de vingança
como indigna da Rússia Livre.”

Por insistência de Kerensky (então ministro da Justiça), o novo


governo coerentemente abole a pena capital. Nicolau, que só tinha a ganhar
com a nova lei, considera-a entretanto

“...um erro. A abolição da pena capital arruinará a disciplina do Exército. Se ele


[Kerensky] pretende com isso salvar-me do perigo, diga-lhe que estou pronto a morrer
pelo bem do meu país.”

Kerensky, contudo, persiste em seus bons propósitos. Aos gritos


enfurecidos do Soviet de Moscou que exigia a execução do czar, ele replica
que não seria “o Marat da Revolução Russa”, e que levaria ele mesmo o
czar para Murmansk, “pois a Revolução não se vinga”.
Murmansk era a porta para a Inglaterra, para onde Kerensky e seus
ministros pretendiam despachar czar e família. Logo após a abdicação, o
rei George V, primo de Nicolau e de Alexandra, manifestara interesse por
sua segurança. Fiando-se na boa vontade de Sua Majestade, o embaixador
Buchanan solicita-lhe oficialmente asilo para a família imperial. Apesar das
restrições do Primeiro Ministro Lloyd George, que temia que a presença
de Nicolau o Sanguinário e sua esposa alemã suscitasse a antipatia pública
contra o governo de Sua Majestade, o pedido de asilo realizado pelo aliado
Governo Provisório não podia ser recusado. Buchanan recebe instruções
de informar a Kerensky que Nicolau seria recebido na Inglaterra, desde
que o governo russo se responsabilizasse por todas as suas despesas.
O Soviet estava em polvorosa. O czar deposto, seu maior trunfo
e provavelmente uma peça fundamental a ser usada nas negociações de
paz com a Alemanha, escapava-lhes ileso para viver feliz na Inglaterra, até

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que os monarquistas o depositassem mais uma vez no trono da Rússia.


Choviam telegramas para todas as cidades, ordenando que se bloqueasse
a passagem do trem do czar. Em seguida, o Soviet decide aprisioná-lo na
Fortaleza de Pedro e Paulo, até o momento de seu julgamento e execução.
Kerensky é forçado a adiar a viagem dos prisioneiros até que se
acalmassem os ânimos bolcheviques. Enquanto isso, na Inglaterra, a notícia
do asilo político concedido ao czar deposto provoca fortes reações no seio
do Partido Trabalhista e entre os liberais, e o governo britânico ensaia uma
deselegante retirada. Em abril, a Inglaterra anuncia semioficialmente:

“O governo de Sua Majestade não insiste em sua prévia oferta de hospitalidade


à família imperial.”

Em Petrogrado, Buchanan gagueja desculpas lacrimosas a um


Kerensky atônito.
A recusa da Inglaterra e a crescente fragilidade do Governo
Provisório precipitam as providências quanto ao destino da família
imperial, cuja segurança Kerensky não poderia garantir por muito tempo
em Tsarskoe Selo. Seria necessário evacuá-los de Petrogrado e enviá-los para
algum ponto distante na Rússia. Após uma breve deliberação, Kerensky
decide-se pela longínqua Tobolsk, cidade próspera e pacífica na Sibéria
Ocidental que o Soviet ainda não contaminara. Em agosto ele comunica a
transferência a Nicolau, sem revelar-lhe seu destino final, apenas aconse-
lhando-o a levar roupas quentes e seus agasalhos mais pesados.
A data da partida é fixada para o dia seguinte ao décimo terceiro
aniversário de Alexei, que a família celebra na capela do palácio. Todos
choravam durante a breve cerimônia e os próprios soldados pareciam
tocados.
O trajeto envolvia quatro dias de trem e dois de navio a vapor pelos
rios Tura e Tobol. Do convés do “Rus”, a família vê surgir Pokrovskoe,
a aldeia de Rasputin. Sua isbá de dois andares destacava-se das simples
cabanas dos camponeses locais e era facilmente identificada. Alexandra
tinha lágrimas nos olhos ao ver pela primeira vez a casa de seu “mestre e
salvador”.
Em Tobolsk, o comandante da guarda inspeciona a casa do
governador, confiscada para abrigar os prisioneiros, e encontra-a dilapidada
e desguarnecida. Ele então contrata pintores, eletricistas e bombeiros, e
compra móveis das famílias locais – inclusive um piano para alegrar as
tristes soirées das grão-duquesas. Enquanto isso, a família e sua comitiva

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M Á RC I A S A RC I N E L L I

aguardavam a bordo do “Rus”. Para quebar a monotonia, todas as tardes o


barco fazia excursões à margem do rio, detendo-se em praias desertas onde
Nicolau e as crianças podiam caminhar. Ocupada em ruminar seus rancores
e atormentada por seus achaques, Alexandra era imune às delicadezas
conferidas pelo governo de Kerensky aos prisioneiros.
Nove dias depois, a casa estava pronta para receber a família. Embora
fosse a maior da cidade, a residência do governador não comportava todos
os membros da comitiva, e a casa em frente é expropriada para contê-los.
Kobilinsky, o comandante da guarnição que tão gentilmente provira
às necessidades da família imperial, a princípio não instala guardas dentro
da residência e concede considerável liberdade aos prisioneiros, permitin-
do-lhes mesmo atravessar a rua em visita à comitiva instalada na casa em
frente. Os soldados imediatamente revoltam-se contra a emancipação dos
prisioneiros e exigem sua restrição e a construção de uma cerca alta em torno
à casa. Temendo a ira do Soviet, Kobilinsky relutantemente acede.
A família fazia suas orações vespertinas em um ângulo da sala
decorado com ícones e velas. Um padre da região comparecia todas as noites
para conduzir as orações, mas, como não havia altar consagrado, não podia
dizer a Missa. Kobilinsky então permite que a família assista regularmente a
missas privadas em uma igreja vizinha. Duas fileiras de soldados cercavam os
prisioneiros, da residência até a igreja; ao vê-los passar, transeuntes ajoelha-
vam-se e faziam o sinal da cruz.
Logo os moradores da cidade passam a enviar oferendas de doces,
frutas e pacotes de açúcar para os augustos prisioneiros, e os camponeses
traziam regularmente ovos e manteiga. Kerensky escolhera Tobolsk porque
ali a Revolução era um eco distante e os tentáculos do Soviet ainda não a
haviam alcançado. Mesmo a disciplina dos soldados, longe da atmosfera
efervescente de Petrogrado, agora aproximava-se do aceitável, ainda que
permanecessem hostis à família.

•••

“...não há necessidade alguma de separar o monarca da plebe: toda autoridade é


igualmente má. Há três espécies de déspota. Há o que tiraniza o corpo. Há o que tiraniza
a alma. Há o que tiraniza o corpo e a alma. O primeiro chama-se Príncipe. O segundo
chama-se Papa. O terceiro chama-se Povo.”
(O. Wilde)

Muitos autores concordam com Lenin em que a semente da


Revolução na Rússia foi plantada pelo Czar Libertador, Alexandre II, com

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A T R AG É D I A D O S RO M A N OV

o Ato de Emancipação de 1861. As contradições intrínsecas de sua reforma


administrativa geraram novas forças sociais e políticas que, confinadas
à rígida estrutura do estado autocrátic