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Nº 504 | Ano XVII | 8/5/2017

Pier Paolo
Pasolini
Um trágico moderno
e sua nostalgia
do sagrado

Entrevistados
Luciano De Fiore
Vinícius Honesko
Giorgio Agamben
Maria Betânia Amoroso
Maurício Dias
Alex Calheiros
Cláudia Alves Leia também
Davi Pessoa Trebor Scholz ■
Massimo Pampaloni Hugo Albuquerque ■
EDITORIAL

Pier Paolo Pasolini, um trágico


moderno e sua nostalgia do sagrado

O
italiano Pier Paolo Pasolini só conse- Alves, doutoranda em Teoria e História Literá-
gue unanimidade num rótulo: o de espí- ria pela Unicamp. Por sua vez, Davi Pessoa,
rito indomável. É um artista fluido, que professor da Universidade Estadual do Rio de
vai da poesia ao cinema, passando pelo jorna- Janeiro, analisa o cineasta italiano a partir das
lismo e pelas artes plásticas. Sua busca por um entrevistas concedidas por ele.
mundo melhor requer ações de revolucionário,
Por fim, Massimo Pampaloni, professor no
de alguém capaz de se manter livre mesmo ten-
Pontifício Instituto Oriental, de Roma, analisa
do sido inscrito num partido político; descrente,
um dos filmes mais conhecidos de Pasolini, O
mas capaz de reconhecer um Deus humano. Sua
Evangelho segundo São Mateus.
obra se tornou uma referência na luta contra
qualquer tipo de opressão, ou fascismos. Voltar Por sua vez, o atual momento político brasi-
ao artista italiano num tempo tão belicoso, e de leiro é descrito por Hugo Albuquerque, mes-
inabilidade de reconhecer o humano no rosto do tre em Direito Constitucional pela Pontifícia
outro, pode ser inspirador. É a aposta da pre- Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP,
sente edição da revista IHU On-Line. a partir do comentário crítico da pesquisa “Por
que os pobres não votam mais no PT?”, publi-
O professor Josmar de Oliveira Reyes, do
cada recentemente pela Fundação Perseu Abra-
curso de Realização Audiovisual da Unisinos,
mo. Segundo ele, “a universidade tem um papel
apresenta o artista, que é reconhecido princi-
bastante salutar no processo de reprodução de
2 palmente por sua filmografia.
um pensamento tradicional e padronizado en-
Luciano De Fiore, professor na Universi- quanto, ao mesmo tempo, colabora para o alhe-
dade Sapienza de Roma, descreve um amplo e amento da vida social no nosso país”.
instigante perfil da obra e da vida de Pasolini.
Enfim, completam a edição o comentário de
Já o professor da Universidade Federal do Pa- Fernando Del Corona, sobre o filme Central,
raná – UFPR Vinícius Honesko aponta que de Tatiana Sager, codirigido por Renato Dornel-
uma boa forma de pensar Pasolini é a partir do les, o artigo de Jacopo Paffarini, professor
filósofo italiano Giorgio Agamben, que, além de no Programa de Pós-Graduação em Direito do
compactuar com muitas perspectivas, foi amigo IMED, intitulado Mãos Limpas, o Tratado de
pessoal do artista. Maastricht e Francis Fukuyama. E o Brasil de
Agamben, que fez “uma ponta” no filme O hoje?, e a entrevista com Trebor Scholz, pro-
Evangelho Segundo São Mateus (1964), de Pa- fessor na The New School, em Nova York, sobre
solin, em entrevista publicada na Itália, fala da as mudanças do e no mundo do trabalho.
trajetória do amigo. A entrevista é traduzida e A todas e a todos, uma boa leitura e uma exce-
publicada na presente edição. lente semana.
Maria Betânia Amoroso, professora da
Universidade Estadual de Campinas – Uni-
camp, observa que Pasolini busca compreender
a si mesmo e as transformações do mundo no
qual se insere.
Para Maurício Dias, professor da Univer-
sidade de São Paulo, Pasolini é um poeta que
não cabe em rótulos. E se Pasolini não cabe
em classificações estilísticas, tampouco se as-
senta na linearidade temporal. É o que des-
taca o professor da Universidade de Brasília
– UnB Alex Calheiros.
O Pasolini das páginas de jornais, autor de tex- Foto: Wikipédia -
tos e críticas, é a faceta pesquisada por Cláudia Domínio público

8 DE MAIO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

Sumário
4 ■ Temas em destaque
6 ■ Agenda
8 ■ Tema de Capa | Josmar de Oliveira Reyes: Pasolini, o iconoclasta
14 ■ Tema de Capa | Luciano De Fiore: O artista de alma inconstante e suas eternas buscas
21 ■ Tema de Capa | Massimo Pampaloni: Pasolini e a nostalgia do sagrado
28 ■ Tema de Capa | Alex Calheiros: A força extemporânea de Pasolini, um trágico moderno
32 ■ Tema de Capa | Vinícius Nicastro Honesko: O socialismo pasoliniano e a crítica à
hipocrisia de quem quer melhorar o mundo
38 ■ Tema de Capa | Giorgio Agamben: A anarquia de Pasolini vista pelo amigo Agamben
42 ■ Tema de Capa | Maria Betânia Amoroso: A busca pelas verdades pessoais através do
debate contemporâneo
48 ■ Tema de Capa | Maurício Santana Dias: O poeta livre de amarras
52 ■ Tema de Capa | Davi Pessoa: A tolerância geradora de guetos
57 ■ Tema de Capa | Cláudia Tavares Alves: O incisivo, persuasivo e afetivo Pasolini das
páginas dos jornais
62 ■ Hugo Albuquerque: Mercado e Estado, dois oligopólios em permanente negociação
entre si
69 ■ Trebor Scholz: Contra a servidão ao algoritmo, o cooperativismo de plataforma
74 ■ Cinema | Fernando Del Corona: “É um segundo Carandiru” 3
78 ■ Crítica Internacional | Jacopo Paffarini: Mãos Limpas, o Tratado de Maastricht e Francis
Fukuyama. E o Brasil de hoje?
80 ■ Publicações | Jean-Bosco Kakozi Kashindi: Ubuntu como ética africana, humanista
e inclusiva
81 ■ Publicações | Tea Frigerio: Viver as Bem-aventuranças numa Igreja em saída
83 ■ Outras edições

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EDIÇÃO 504
TEMAS EM DESTAQUE

Entrevistas completas em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias

“A Lava Jato nos deixará a herança de um


judiciário incontrolável”
“Na verdade, o que parece é que o tribunal não quer que determinadas
informações venham à tona. Se se trata de uma delação, a pessoa deveria
dizer tudo o que ela sabe. Diante dessas ‘solturas’, nos perguntamos qual é
o critério para que ocorram, porque fica sempre a dúvida.”
Cândido Grzybowski, doutor em Sociologia pela Sorbone, Paris, e diretor geral do Ibase de 2000 a 2014

Os feminismos e suas disputas


“O Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais
em todo o mundo. De janeiro de 2008 a abril de 2013 foram 486 mortes. Em
2013 foram 121 casos de travestis e transexuais assassinados em todo o Brasil.”
Berenice Bento, doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília – UnB e professora na
Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

A instrumentalização do sistema energético


4
brasileiro e a transformação dos políticos em
capitães-do-mato
“Há setores da economia que não são concorrenciais, que são aqueles em que
a natureza provê as bases materiais para a produção de bens e insumos, cujo
custo de produção é geralmente 10% do seu valor de mercado, como é o caso
do setor de petróleo, do setor de minérios, e os potenciais hidráulicos.”
Ildo Sauer, doutor em Engenharia Nuclear pelo Massachusetts Institute of Technology. Atualmente
é professor titular da Universidade de São Paulo – USP

Movimentos tradicionais, autonomistas e um


novo ciclo de lutas no Brasil
A crise petista transformou a esquerda em um “lugar de muita melanco-
lia”, que produz uma “fixação” por “Bolsonaros”, ao invés de criar “afetos
mais potentes para continuar caminhando, pensando novas possibilida-
des, criando brechas”.
Alana Moraes, mestra em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

A nova classe trabalhadora, seu imaginário e


a reprodução de valores liberais
Os partidos e parte da intelectualidade gostam de tentar colocar as pes-
soas em ‘caixinhas’ ou trabalhar com categorias totalizantes: direita X
esquerda; coxinha X mortadela. Essas categorias não fazem sentido no
imaginário desta população.
Jordana Dias Pereira, graduada em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.

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Textos na íntegra em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias

O pacto com o Islã A chantagem liberal. Ataque a grupo de índios


que ajuda a unidade Artigo de Slavoj Žižek deixa vítimas com mãos
entre os cristãos. Artigo decepadas no Maranhão
de Andrea Riccardi

“A arriscada viagem de “Não podemos ao menos dis- Um grupo Gamela foi bru-
Francisco evidencia uma cutir a questão? Sim, Macron talmente atacado no Povo-
unidade adquirida entre é pró-europeu - mas, que tipo ado de Bahias, município
mundos cristãos. Ou, me- de Europa ele personifica? A de Viana no Maranhão. Os
lhor, com as suas experiên- mesma Europa, cujo fracasso índios decidiram se retirar
cias particulares no Oriente alimenta o populismo de Le de uma área tradicional re-
islâmico, os coptas susten- Pen, a Europa anônima a ser- tomada e, quando saíam,
tam o ‘pacto egípcio’, que viço do neoliberalismo! Este sofreram uma investida de
foi delineado nesses dias”. é o cerne da questão: sim, Le dezenas de homens armados
A opinião é do historiador Pen é uma ameaça, mas se co- de facões, paus e armas de
italiano Andrea Riccardi, locarmos todo o nosso apoio fogo. Um carro de polícia
fundador da Comunidade de em Macron, não ficaríamos estava junto ao grupo de fa-
Santo Egídio e ex-ministro presos, andando em círculos, e zendeiros e capangas antes
italiano, em artigo publicado combatendo o efeito ao apoiar da ação violenta.
no jornal Corriere della Sera a sua causa?”, escreve Slavoj
Informação publicada por
e reproduzido pelo IHU. Žižek, filósofo e crítico cultural,
Congresso em Foco, 1-5-
em artigo publicado por Pági-
2017.
5
na/12 e reproduzido pelo IHU.

Diálogo para além Projeto de ruralista Preocupado com CNBB,


da crise de valores. prevê pagamento de Temer chamou núncio
Entrevista com trabalhador rural com apostólico ao Planalto
Julia Kristeva comida ou casa

Julia Kristeva sabe como Proposta do coordena- Com interlocução fragiliza-


surpreender. Intelectual- dor da frente parlamentar da junto à Igreja, o presidente
-ponte entre Oriente e Oci- avança sobre direitos traba- Michel Temer convocou para
dente (nascida na Bulgária, lhistas no campo. Segundo uma reunião o embaixador
tornou-se uma pensadora o Valor, além de permitir a da Santa Sé no Brasil, o nún-
que se aproveitou da melhor troca do salário por remune- cio apostólico dom Giovanni
tradição francesa), enquanto ração de “qualquer espécie”, d’Aniello. O encontro se deu ao
fala ao telefone, é capaz de ir texto prevê jornada de até 12 mesmo tempo em que ocorria
da sua paixão pelo futebol à horas e 18 dias consecutivos. a 55ª Assembleia-Geral da
amada Teresa de Ávila, pas- Conferência Nacional dos Bis-
Reportagem publicada por
sando pelo islamismo que ra- pos do Brasil (CNBB). O go-
Congresso em Foco, 2-5-
dicaliza os jovens franceses, verno anda preocupado com
2017.
a um sincero elogio a Bento oposição dos líderes católicos
XVI (mas ela também aprecia nacionais a seus projetos re-
muito Bergoglio). A repor- formistas. Informação publi-
tagem é de Lorenzo Fazzini, cada por Veja, reproduzida
publicada no jornal Avvenire pelo sítio italiano Il Sismógra-
e reproduzido pelo IHU. fo, reproduzida pelo IHU.

EDIÇÃO 504
AGENDA

Programação completa em ihu.unisinos.br/eventos

Saúde e as políticas Itinerários Impasses e


públicas para a versados – redes, possibilidades
adolescência pertenças e modos da esquerda na
de ser nas periferias América Latina
de Porto Alegre

9/mai 10/mai 11/mai


Horário Horário Horário
14h 19h30min às 22h 19h30min às 22h
Ministrantes Conferencista Conferencista
Profa. Dra. Rosângela Bar- Prof. Dr. Leandro Rogério Prof. Dr. Fabio Luís Barbo-
biani, Esp. Fulvia Schuster, Pinheiro – UFRGS sa dos Santos – Unifesp
Lic. Fábio Bernardo da
Silva, MS Lizandro Lui Local Local
Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignacio Ellacuría e
Local Companheiros – IHU Companheiros – IHU
Sala Ignacio Ellacuría e Campus Unisinos Campus Unisinos
Companheiros – IHU
Campus Unisinos

6
Do morro ao asfalto. O Sistema A reinvenção da
As novas centralidades Biogeográfico política e da esquerda.
da periferia e a do Cerrado, as Um olhar a partir das
metrópole policêntrica comunidades periferias
tradicionais e cultura

15/mai 16/mai 17/mai


Horário Horário Horário
19h30min às 22h 19h30min às 22h 19h30min às 22h
Conferencista Conferencista Conferencista
Prof. Dr. Gerardo Silva – Prof. Dr. Altair Sales Barbo- MS Henrique Bosso da
UFABC sa – PUC Goiás Costa – USP
Local Local Local
Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU Companheiros – IHU Companheiros – IHU
Campus Unisinos Campus Unisinos Campus Unisinos

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Interface dos direitos VI Colóquio Internacional VI Colóquio Internacional


humanos com o IHU. Política, Economia, IHU. Política, Economia,
contexto biopolítico Teologia. Contribuições Teologia. Contribuições
da obra de da obra de
Giorgio Agamben Giorgio Agamben

18/mai 23/mai 23/mai


Horário Horário Apresentação de trabalhos
17h30min às 19h 8h30min às 22h
Horário
Conferencista Conferencistas 17h às 18h30min
Profa. Dra. Aline Albuquer- Prof. Dr. Alain Gignac, Prof.
que de Oliveira – UnB Dr. Colby Dickinson,
Prof. Dr. Castor Bartolomé
Local Ruiz
Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU Local
Campus Unisinos Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU
Campus Unisinos

7
VI Colóquio Internacional Bioma caatinga Bioma caatinga:
IHU. Política, Economia, – biodiversidade, políticas de conservação/
Teologia. Contribuições riquezas e fragilidades conservação e o
da obra de paradigma da “Convivência
Giorgio Agamben com o Semiárido

24/mai 25/mai 31/mai


Horário Horário Horário
8h30min às 12h30min 19h30min 19h30min
Conferencistas Conferencista Conferencista
Prof. Dr. Rodrigo Karmy Bol- MS Rodrigo Castro – Aliança Haroldo Schistek, Teólogo
ton – Universidad de Chile da Caatinga e a Associação e agrônomo – Instituto Re-
Prof. Dr. Colby Dickinson – Caatinga gional da Pequena Agrope-
Loyola University Chicago cuária Apropriada – IRPAA
Local
Local Sala Ignacio Ellacuría e Local
Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU Campus Unisinos Companheiros – IHU
Campus Unisinos Campus Unisinos

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

Foto: Flickr CC

8 Pasolini, o iconoclasta
Josmar de Oliveira Reyes¹

P
ier Paolo Pasolini1 nasceu em Bo- Com formação universitária em Letras,
lonha, em 1922, mas foi em Roma Pasolini foi um grande estudioso de filolo-
que desenvolveu sua carreira pro- gia e semiologia, tendo lançado livros so-
digiosa. Grande figura da cultura italiana bre o assunto.
do século XX, foi um intelectual e artista Pasolini se filia ao PCI logo após o térmi-
brilhante e eclético, se exercitando nos no da Segunda Guerra Mundial, mas acaba
mais diversos registros, notadamente na sendo desfiliado dois anos após, ao desco-
poesia, no teatro, no romance, no jorna- brirem que mantinha relações sexuais com
lismo, mas sobretudo no cinema, onde adolescentes. Por esta mesma razão, ele
adquiriu notoriedade. Figura política, perde seu posto de professor de letras. Ele
sendo notoriamente ligado ao Partido Co- se manterá, no entanto, engajado na ide-
munista Italiano - PCI, se tornou célebre ologia de esquerda durante toda sua vida.
(amado e odiado) pelo seu engajamento Sua luta política nasceu da constatação e
em causas polêmicas, o que ocasionou revolta em relação à diferença de classes
dúvidas em relação às circunstâncias de e ao abismo social do pós-guerra. Ele de-
seu assassinato em novembro de 1975 na testava toda forma de autoritarismo, seja
praia de Ostia, próximo de Roma. Homos- do pai, dos fascistas ou da moral burguesa.
sexual assumido, houve a condenação de Nascido no meio burguês, de pai militar,
um jovem de 17 anos por seu assassinato, sua obra cinematográfica e seus escritos
apesar das dúvidas que pairam até hoje. políticos e semiológicos ressaltarão seus
questionamentos socioculturais, associa-
1 Josmar de Oliveira Reyes é doutor em Ciências da Co-
municação e da Informação, Artes do Espetáculo e Novas dos a metáforas históricas, religiosas e
Tecnologias pela Université de Paris 3 (Sorbonne Nou- sexuais. Gozará de um ambiente cinema-
velle) e professor do curso de Realização Audiovisual da
Unisinos. tográfico favorável para levar adiante seus

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“Trabalhar com atores não


profissionais, segundo
o cineasta, daria maior
autenticidade às histórias
que pretendia contar.”

questionamentos. Ele assistirá aos filmes e Ele constrói seu patrimônio cultural
conhecerá os cineastas do Neorrealismo, desde a juventude, lendo clássicos da
que abordarão sobretudo temas sociais e literatura como Dostoiévski6, Tolstoi7,
políticos em suas obras. Visconti2 (nascido Shakespeare8, entre outros. Descobre a
em família aristocrática) tratará dos con- paixão pelo cinema, frequentando o ci-
flitos econômicos e sociais de pescadores neclube da Universidade de Bolonha no
sicilianos em A terra treme (1952) (finan- início dos anos 40. Nesta época, divide
ciado pelo partido comunista). Vittorio De seu tempo entre a literatura, os esportes
Sica3 tratará do desemprego no clássico (amante de futebol) e o cinema. Demons-
Ladrões de Bicicleta (1948), Rossellini4, tra igualmente um interesse enorme pe-
da resistência política em Roma, Cidade las artes plásticas, começando (mas in-
9
Aberta (1945) e Giuseppe De Santis5, do terrompendo) uma tese abordando Della
conflito de arrozeiros em Arroz Amargo Francesca e Caravaggio. Sua primeira
(1949). Pasolini encontrará, portanto, um atividade profissional será voltada à lite-
campo fértil para o exercício intelectual ratura no envolvimento com clubes literá-
e artístico, tendo estes exemplos. Ele, no rios e na escrita de livros de poesia como I
entanto, carregará com tintas fortes seus Diarii (Os Diários) e I Pianti (Os Choros).
quadros, causando constantemente polê- Alguns de seus poemas serão escritos no
mica no que concerne a suas criações. dialeto de sua região.

6 Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881): um dos


maiores escritores russos e tido como um dos fundadores
2 Don Luchino Visconti di Modrone (1906-1976): des- do existencialismo. De sua vasta obra, destacamos Crime
cendente da nobre família milanesa dos Visconti, foi um e castigo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamázov.
dos mais importantes diretores do cinema italiano. Em A esse autor a IHU On-Line edição 195, de 11-9-2006,
1951 filmou Bellissima, com a grande atriz italiana Anna dedicou a matéria de capa, intitulada Dostoiévski. Pelos
Magnani, Walter Chiari e Alessandro Blasetti. O primeiro subterrâneos do ser humano, disponível em http://bit.ly/
filme colorido foi em 1954, Senso, com Alida Valli e Farley ihuon195. Confira, também, as seguintes entrevistas sobre
Granger. O primeiro grande prêmio da crítica chega em o autor russo: Dostoiévski e Tolstoi: exacerbação e estra-
1957, quando ele recebe o Leão de Ouro do Festival de nhamento, com Aurora Bernardini, na edição 384, de 12-
Cinema de Veneza pela fita Le notti bianche, uma transpo- 12-2011, disponível em http://bit.ly/ihuon384; Polifonia
sição delicada e poética de uma história de Dostoiévski, atual: 130 anos de Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski,
com Marcello Mastroianni, Maria Schell e Jean Marais. na edição 288, de 6-4-2009, disponível em http://bit.ly/
(Nota da IHU On-Line) ihuon288; Dostoiévski chorou com Hegel, entrevista com
3 Vittorio De Sica (1901-1974): foi um dos mais impor- Lázló Földényi, edição nº 226, de 2-7-2007, disponível em
tantes diretores e atores do cinema italiano. Como ator http://bit.ly/ihuon226. (Nota da IHU On-Line)
estreou em 1932, no filme Dois Corações Felizes. Como 7 Liev Tolstoi (1928-1910): escritor russo de grande in-
diretor sua estreia foi em 1939, com o filme Rosas Escar- fluência na literatura e na política do seu país, teve uma
lates. Em 42 anos de carreira recebeu três prêmios Oscar importante influência no desenvolvimento do pensamen-
de melhor filme estrangeiro: em 1946 por Vítimas da Tor- to anarquista; concretamente, considera-se que era um
menta, em 1948 por Ladrões de Bicicletas, e em 1971 por cristão libertário. Suas obras mais famosas são Guerra e
O Jardim dos Finzi-Contini. É considerado o precursor do Paz, de 1865, onde ele descreve dezenas de diferentes
neorrealismo italiano e seu último filme foi A Viagem, com personagens durante a invasão napoleônica de 1812; e
Richard Burton e Sophia Loren, e que estreou dias depois Anna Karenina, de 1875, que traz a história de uma mu-
de sua morte, em Paris. (Nota da IHU On-Line) lher presa nas convenções sociais e um proprietário de
4 Roberto Rossellini (1906-1977): foi um diretor de ci- terras (reflexo do próprio Tolstoi), que tenta melhorar a
nema italiano, considerado um dos mais importantes vida de seus servos. (Nota da IHU On-Line)
cineastas do neorrealismo italiano, com contribuições ao 8 William Shakespeare (1564-1616): dramaturgo inglês.
movimento, com filmes como Roma, città aperta (Roma, Considerado por muitos como o mais importante dos
Cidade Aberta, título em Português) e outros. (Nota da escritores de língua inglesa de todos os tempos. Como
IHU On-Line) dramaturgo, escreveu não só algumas das mais marcantes
5 Giuseppe De Santis (1917-1997): foi um diretor de ci- tragédias da cultura ocidental, mas também algumas co-
nema e roteirista italiano, um dos líderes do neorrealismo médias, 154 sonetos e vários poemas de maior dimensão.
cinematográfico. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

Em função de sua expulsão do Partido Gramsci e, sobretudo, Uma Vida Violenta,


Comunista, ele se instala em Roma e tra- acusada de obscena.
balhará na Cinecittà9, o que permitirá sua A partir dos anos 60, sua carreira será
aproximação com o cinema. Conhecerá dedicada principalmente ao cinema até
Sergio Citti10, que lhe apresentará a perife- sua morte trágica em novembro de 1975.
ria romana. Esta descoberta será fonte de Ele dirigirá 20 filmes. O cinema jamais
inspiração. Ele aprenderá o dialeto roma- viu cineasta mais contestado e condena-
no, se apaixonará pelo modus vivendi des- do. Desajuste Social (Accattone - 1961) é
tes romanos suburbanos e escreverá Meni- realizado graças ao auxílio de seus amigos
nos da Vida (Ragazzi di Vita), que está na cineastas Fellini e Bolognini. Uma caracte-
origem de seu primeiro roteiro de cinema rística forte em sua filmografia, sobretudo
para o filme Accatone (Desajuste Social – em seus primeiros filmes, o já citado Desa-
1961). Seu primeiro verdadeiro trabalho juste Social, mas também Mamma Roma
para o cinema foi a escrita do roteiro do (1962), A Ricota (1963) e O Evangelho se-
filme de Mario Soldati11, A Mulher do Rio gundo São Mateus (1964), é a utilização de
(1954), em parceria com Giorgio Bassani12 atores não profissionais. O protagonista de
e estrelado por Sophia Loren13. Em 1955, seu primeiro filme é Franco Citti15, irmão
ele é processado por imoralidade em seu de seu amigo Sergio Citti, com quem tra-
livro Meninos da Vida, mas acaba sendo balhará constantemente (Mamma Roma,
absolvido. Começa a tornar-se conhecido, Édipo Rei e Decameron, entre outros).
sobretudo após colaborar com Fellini14 no Outro ator não profissional com caracte-
roteiro de Noites de Cabíria (1957). Nos rísticas populares projetado por Pasolini
anos 50, duas de suas obras literárias se- foi Ninetto Davoli16, que protagonizou fil-
rão atacadas fortemente: As Cinzas de mes célebres do realizador, como Gaviões
e Passarinhos (1966), Decameron (1971) e
9 Cinecittà: é um complexo de teatros e estúdios situados
As Mil e Uma Noites (1974). Eles se co-
10 na periferia oriental de Roma responsável pela maior par- nheceram durante a filmagem de A Ricota
te da produção cinematográfica italiana: aí vários filmes
são rodados e espetáculos televisivos são gravados. (Nota e tiveram uma relação amorosa que durou
da IHU On-Line) nove anos.
10 Sergio Citti (1933-2005): foi um diretor de cinema e
roteirista italiano. Seu nome está ligado à parceria artística
com Pier Paolo Pasolini. Era irmão de Franco Citti. (Nota Trabalhar com atores não profissionais,
da IHU On-Line) segundo o cineasta, daria maior autenti-
11 Mario Soldati (1906-1999): foi um escritor, crítico de
arte e cineasta italiano. Dirigiu cerca de 30 filmes entre cidade às histórias que pretendia contar.
1938 e 1959. Os mais conhecidos são Piccolo Mondo Anti-
co, Malombra e La Provinciale. Como Autor, Soldati obteve Para realizar O Evangelho segundo São
destaque com os livros La verita’ sul caso Motta (1ed. 1937; Mateus, Pasolini escolheu atores nas ruas
tr. Port.: Lisboa, Arcadia, 1961) e Lettere da Capri (publi-
cado em 1953, tr. Port: Lisboa, Minerva,1973). (Nota da de vilarejos do sul da Itália onde o filme
IHU On-Line)
12 Giorgio Bassani (1916-2000): foi um romancista, poeta
seria gravado. Sua leitura era que estas fi-
e editor italiano. Nas suas obras faz uma análise lírica e guras humanas lembravam os corpos e os
amarga da burguesia judaica italiana. (Nota da IHU On
-Line) semblantes daqueles que haviam vivido na
13 Sophia Loren (1934) é uma atriz italiana. Começou
sua carreira no cinema em 1950. Aos 15 anos, apareceu
Palestina há dois mil anos. Em Mamma
em vários papéis menores até ser contratada para cinco Roma, para contar a narrativa conflituosa
filmes pela Paramount em 1956, lançando sua carreira
internacional. Atuou em filmes notáveis como The Pride de uma ex-prostituta e seu filho, Pasolini
and the Passion, Houseboat, It Started in Naples. Ganhou contou com a prestação da grande atriz
fama internacional em 1962, quando recebeu o Oscar de
Melhor Atriz pelo filme Duas mulheres, que também lhe italina Anna Magnani17, atriz de renome
rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes.
Ela detém o recorde por ter recebido seis David di Do-
natello Awards de Melhor Atriz, o maior número já rece-
bido, pelos filmes: Duas Mulheres (1960); Ontem, Hoje e 15 Franco Citti (1935-2016): foi um ator italiano. Ficou
Amanhã; Matrimônio à Italiana (pelo qual ela foi nomeada famoso pela sua interpretação do papel principal do fil-
para um segundo Oscar); I girasoli; A viagem (1974); e Um me Accattone de Pier Paolo Pasolini (em 1961). Em 1967
Dia Muito Especial. Sua carreira atingiu o auge em 1964, surgiu no papel principal de Oedipus Rex, também de Pa-
quando recebeu 1 milhão de dólares para estrelar o filme solini. Ficou também célebre pela interpretação de Calò
A Queda do Império Romano. Além do Oscar, ela ganhou em The Godfather e The Godfather Part III e pela deixa ‘In
um Grammy Award, cinco Globos de Ouro especiais, um Sicily, women are more dangerous than shotguns’. O seu
Bafta, o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, e irmão foi o cineasta e argumentista Sergio Citti. (Nota da
o Oscar Honorário em 1991. Em 1995, ela recebeu o Prê- IHU On-Line)
mio Cecil B. DeMille pelas realizações ao longo da vida. 16 Ninetto Davoli: ator italiano, que nasceu em San
Em 1999, Sophia Loren foi reconhecida como uma das 25 Pietro a Maida, na província de Catanzaro. Logo após o
maiores lendas do cinema norte-americano do sexo femi- nascimento, se mudou com seus pais para Roma, onde
nino na pesquisa do American Film Institute, da AFI’s 100 cresceu na então favela Borghetto Prenestino, na Via Pre-
Years...100 Stars. (Nota da IHU On-Line) nestina. Simpático e de sorriso aberto, é descoberto por
14 Federico Fellini (1920-1993): um dos mais importan- Pier Paolo Pasolini que, depois de ter lhe dado um papel
tes cineastas italianos. Ficou eternizado pela poesia de no filme O Evangelho segundo S. Mateus (1964), o escolhe
seus filmes, que, mesmo quando faziam sérias críticas à como coestrela, ao lado de Totó, do filme Uccelacci e Uc-
sociedade, não deixavam a magia do cinema desaparecer. cellini (1966) e mais tarde nos episódios a Terra vista da
Geralmente fazia críticas ao totalitarismo, marxismo e à Lua (1967) e Quais são as nuvens? (1968). (Nota da IHU
Igreja. Uma de suas obras mais conhecidas é La dolce vitta. On-Line)
(Nota da IHU On-Line) 17 Anna Magnani (1908-1973): foi uma atriz italiana. Uma

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que já havia trabalhado com Rossellini em (o ator britânico Terence Stamp22) à casa
Roma, Cidade Aberta e Visconti em Be- de uma rica família milanesa e que mante-
líssima. A maioria do elenco, no entanto, rá relações sexuais com todos os membros
era composta de atores não profissionais. da família: pai, mãe, filhos e, inclusive, a
Em A Ricota, um dos episódios do filme empregada, causando uma desordem psi-
RoGoPaG (dirigido também por Rosselli- cológica de todos. Trata-se de uma grande
ni, Godard e Ugo Gregoretti), Orson Wel- crítica à burguesia italiana, o que, obvia-
les18 faz o papel de um diretor que quer mente, causou escândalo quando de sua
filmar a paixão de Cristo e que “contrata” estreia em 1968. Um advogado romano
um ator que só pensa em comer durante tentou impedir sua estreia, alegando obs-
a filmagem. Este filme foi também julga- cenidade. O filme teve, no entanto, uma
do blasfematório por ultraje à religião. No boa recepção crítica, recebendo inclusi-
entanto, o filme é antes de tudo um insul- ve dois prêmios no Festival de Veneza de
to aos valores burgueses. Com Gaviões e 1968: o grande prêmio do Ofício Católico
Passarinhos, Pasolini confronta o famoso e o prêmio de interpretação feminina para
cômico italiano Totó e Ninetto Davoli para Laura Betti (igualmente grande amiga do
tratar metaforicamente da crise do Partido cineasta). O filme é a adaptação do roman-
Comunista Italiano e do comunismo. ce escrito pelo próprio cineasta.
Na sequência, o diretor bolonhês irá diri- Os anos 70, os últimos da vida de Paso-
gir duas tragédias (Édipo Rei e Medeia) e lini, são marcados ainda pela realização
seu filme de maior repercussão (Teorema). de obras extremamente polêmicas, sen-
A adaptação da tragédia de Eurípedes terá do a mais radical o seu último filme Saló
como intérprete principal a maior cantora ou os 120 dias de Sodoma (1975). Antes
lírica de todos os tempos: Maria Callas19. disso, realiza a chamada Trilogia da Vida
Para a tragédia de Sófocles20, ele contará formada pelos textos literários adapta-
com a presença de Silvana Mangano21, que dos O Decamerão (Boccaccio) (1971),
será igualmente a atriz principal do con- Os Contos de Canterbury (Chaucer) 11
troverso Teorema. Esta atriz já havia sido (1972) e As Mil e uma Noites (1974). Es-
uma das musas do Neorrealismo, estre- tes filmes abordam temas tabus ligados
lando Arroz Amargo e viria a ser requisi- à sexualidade, como homossexualidade
tada por Visconti em dois filmes extraor- e pedofilia. A ideia original de Saló está
dinários: Morte em Veneza e Violência e na grande obra do Marquês de Sade, Os
Paixão. Teorema conta a chegada de um 120 dias de Sodoma, cuja ação se desen-
jovem misterioso de uma estranha beleza rola no fim do reinado de Luís XIV. Este
filme, tratando de uma sociedade dita-
torial e fascista, será descrito como obra
das maiores de seu tempo, Magnani foi premiada com visionária e grande testamento do cine-
o Oscar de Melhor Atriz pela Academia de Hollywood e asta. Enquanto montava Saló, Pasolini
considerada por seus pares como o maior talento da in-
terpretação dramática desde Eleonora Duse. (Nota da IHU escreve, em colaboração com seu amigo
On-Line)
18 Orson Welles (1915-1985): ator americano, escritor, di-
Sergio Ricci, seu último e derradeiro
retor e produtor que trabalhou extensivamente no rádio, roteiro, intitulado Porno-Teo-Kolossal,
teatro e cinema. Ele é lembrado por seu trabalho inovador
em todos os três meios, mais notavelmente César (1937), um filme sobre pornografia, teologia e
uma adaptação da Broadway; a estreia do Mercury Thea- de grande espetáculo, segundo o dire-
tre, A Guerra dos Mundos (1938), uma das transmissões
mais famosas da história do rádio; e Cidadão Kane (1941), tor. Seu romance, Petrolio, inacabado,
que é constantemente classificado como um dos melho-
res filmes de todos os tempos. (Nota da IHU On-Line) será publicado postumamente em 1992.
19 Maria Callas (1923-1977): soprano grega, considera-
da a maior celebridade da ópera do século XX e a maior Pasolini, além de toda sua produção li-
cantora de todos os tempos. Os críticos elogiavam sua
técnica bel canto, sua voz de grande alcance e suas inter- terária, proporá ainda uma nova leitura
pretações dramáticas, que a levaram a ser saudada como da semiologia do cinema em seu livro
La Divina. Seu tipo vocal era classificado como raríssimo
soprano absoluto. Seu repertório, por sua vez, variava de A Experiência Herética (1968), ao tra-
Opera seria clássica para as óperas bel canto de Donizetti,
de Bellini e de Rossini e, ainda, para as obras de Verdi, de tar de conceitos por ele desenvolvidos,
Puccini e de Wagner. (Nota da IHU On-Line) como cinema de poesia e subjetividade
20 Sófocles: dramaturgo grego. Viveu em Atenas, cerca
de 400 anos antes da Era Cristã. Considerado um dos mais indireta livre.
importantes escritores gregos da tragédia. Édipo Rei, An-
tígona e Electra são as suas peças mais conhecidas. (Nota
da IHU On-Line)
21 Silvana Mangano (1930-1989): foi uma atriz italiana. 22 Terence Henry Stamp: é um ator inglês. Um ícone se-
Após o casamento com o produtor Dino De Laurentiis xual da década de 1960, namorou estrelas famosas tais
trabalhou com os nomes mais importantes do cinema ita- como Julie Christie e Brigitte Bardot, além da modelo Jean
liano: Federico Fellini, Vittorio De Sica, Alberto Lattuada, Shrimpton. Foi escolhido pela revista Empire como uma
Marco Ferreri, Pier Paolo Pasolini, Franco Zeffirelli, Tinto das 100 estrelas mais sexys da história do cinema. (Nota
Brass e Luchino Visconti. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line)

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Mais recentemente, o cineasta ítalo-ame- retti25 já havia evocado Pasolini em seu fil-
ricano Abel Ferrara23 fará uma homenagem me Caro Diário (1993).
a Pasolini, retratando os últimos dias do re-
alizador bolonhês no filme simplesmente
cinema fazendo um dos atores principais em Platoon e
intitulado Pasolini (2014) e estrelado pelo vilões - como o de Speed 2: Cruise Control (br: Velocidade
ator americano Willem Dafoe24. Nanni Mo- Máxima 2) e Spider-Man (Homem-Aranha). Também atuou
em comédias, como The Life Aquatic with Steve Zissou (br:
A Vida Marinha com Steve Zissou), além de emprestar
sua voz a um personagem de Finding Nemo (Procurando
23 Abel Ferrara: é um cineasta norte-americano. Aos 15 Nemo). Fez também o filme A Última Tentação de Cristo,
anos de idade mudou-se para Peekskill, onde conheceu no qual fez o papel de Jesus. (Nota da IHU On-Line)
Nicholas St. John, amigo de escola que posteriormente 25 Nanni Moretti (1953): é um cineasta, ator e roteiris-
iria escrever vários de seus filmes. (Nota da IHU On-Line) ta cinematográfico italiano. Cresceu em Roma e desde a
24 Willem Dafoe Jr.: é um ator estadunidense. Conside- adolescência cultivou suas grandes paixões, o polo aquá-
rado um dos mais talentosos de sua geração, marcou o tico e o cinema. (Nota da IHU On-Line)

Referências bibliográficas:
Hervé Joubert-Laurencin. Pasolini, portrait du poète en cinéaste. Editions Cahiers du ciné-
ma, 1995.
Cahiers du Cinéma nº 691, julho/agosto 2013.

12

Filmografia de Pasolini
1961 – Accattone - Desajuste Social
1962 – Mamma Roma
1963 – Rogopag – Relações Humanas
1964 – Comícios de Amor
1964 – O Evangelho segundo São Mateus
1966 –Gaviões e Passarinhos
1967 – Édipo Rei
1968 – Teorema
1969 – Amor e Raiva
1969 – Medéia
1969 – Pocilga
1970 – Anotações para uma Oréstia Africana
1971 – Decameron
1972 – Os Contos de Canterbury
1974 – As Mil e Uma Noites
1975 – Saló ou Os 120 Dias de Sodoma

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Leia textos sobre Pasolini publicados pelo IHU


- A poesia do Jesus de Pasolini. Entrevista com Faustino Teixeira, publicada na revista IHU
On-Line, número 418, de 12-12-2012, disponível em http://bit.ly/2qtwoQX.
- O olhar de Cristo, há 50 anos. Notícias do Dia de 21-7-2014, no sítio do Instituto Humani-
tas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2pJkTnz.
- Por um espírito verdadeiramente socialista. Notícias do Dia de 27-10-2016, no sítio do
Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2pZPo9T.
- Um Jesus revolucionário e um intelectual importante para hoje. Notícias do Dia de 28-
3-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2paaEFP.
- Mamma Roma, de Pasolini, é oráculo do pior mundo possível. Notícias do Dia de 28-
3-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2qAhy8n.
- Abel Ferrara reconstitui as horas finais do cineasta Pasolini. Notícias do Dia de 6-11-
2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2qAkHoA.
- Pasolini, consumismo e Brasil. Notícias do Dia de 21-11-2015, no sítio do Instituto Huma-
nitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2pyI4k0.
- Madre Teresa, Pier Paolo Pasolini e o reconhecimento da santidade. Artigo de Angelo
Comastri, Notícias do Dia de 5-9-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, dispo-
nível em http://bit.ly/2pJh55H.
- ‘Althusser e Pasolini: Filosofia, Marxismo e Filme’. Entrevista com Agon Hamza, Notícias do Dia
de 18-7-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2qAiF83.
13
- Pasolini e o catolicismo: a história de um combate. Notícias do Dia de 18-7-2016, no sítio
do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2pJdTHn.
- ‘’Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim’’. Entrevista
com Pier Paolo Pasolini, Notícias do Dia de 19-12-2011, no sítio do Instituto Humanitas Uni-
sinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2qtAHvI.
- Dois contra o mundo: Pasolini e Betti. Notícias do Dia de 24-9-2016, no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2qtvqny.
Leia mais em ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias

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O artista de alma inconstante


e suas eternas buscas
Para Luciano De Fiore, “Pasolini sempre se moveu entre paixão
e ideologia, entre a tentação narcisista para uma solução
individual e a tentação histórica de um compromisso coletivo”

João Vitor Santos | Tradução: Juan Luis Hermida

P
ier Paolo Pasolini é visto pelo dade de Pasolini. Segundo De Fiore, a
professor Luciano De Fiore leitura de sua obra hoje nos dá impulso.
como um ser de alma incons- “Como se o poeta deixasse a testemu-
tante, sempre se movimentando entre nha à política e convidasse a agir. Em-
dualidades, jamais se prendendo a mo- bora permaneça em nossos sentidos o
delos. “Ele sempre se moveu entre pai- desespero do luto, da perda”, analisa.
xão e ideologia, entre a tentação narci- “Porque a vida é até mesmo perdida,
sista para uma solução individual e a mas é de grande ajuda reconhecê-la e
tentação histórica de um compromisso saber aceitá-la. É também luto e melan-
coletivo; entre a promessa da redenção colia, que é algo diferente do lamento.
pela ideologia e o compromisso real, ele Uma nova consciência, a luz da passa-
sabia do risco inerente da ideologia, o gem, pode ser um estímulo para lutar
conformismo”, define. Por isso, segun- para que o futuro seja ainda uma di-
14 do o professor romano, a figura de Pa- mensão rica e possível, e não somente
solini é extremamente crítica, capaz de resquício do passado”, completa.
ver além de seu tempo. “A crise da ide-
ologia marxista, a propagação capilar Luciano De Fiore é romano, estu-
contemporânea da ideologia burgue- dou filosofia na Itália e na Alemanha. É
sa evolutiva indicavam a Pasolini que professor de História da Filosofia Con-
algo não estava funcionando na mesma temporânea na Universidade Sapienza
concepção marxista do tempo”, explica. de Roma. Entre seus livros mais recen-
Isso, de certa forma, causava descon- tes, está um estudo sobre Hegel, La cit-
forto entre ele e os militantes, marxis- tà deserta (Lithos, 2012), um livro so-
tas mais duros, por exemplo. bre Philip Roth, Fantasmi del desiderio
(Editori Internazionali Riuniti, 2012), e
Na entrevista a seguir, concedida por
outro sobre filosofia e o mar, Anche il
e-mail à IHU On-Line, De Fiore de-
mare sogna. Filosofie dei flutti (Editori
monstra como Pasolini “põe em ques-
Internazionali Riuniti, 2013) e Passag-
tão a necessidade do processo de queda
e de conscientização”. E, talvez, nessa gi sul vuoto (Galaad Edizioni, 2015).
busca esteja a explicação para a atuali- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que conexões Luciano De Fiore – “Fiquei im-


se pode fazer entre o pensa- pressionado com a sua citação (...) O
IHU ideias, de autoria de Leda Maria Paulani,
mento político de Pier Paolo que tem como título A (anti)filosofia de Karl Marx, SONHO DE UMA COISA. Eu ficaria
Pasolini e as reflexões de Karl disponível em http://bit.ly/173lFhO. Também so- muito grato se você me transcreves-
bre o autor, confira a edição número 278 da IHU
Marx1? On-Line, de 20-10-2008, intitulada A financeiriza- se a frase de Marx – ou a página in-
ção do mundo e sua crise. Uma leitura a partir de
Marx, disponível em http://bit.ly/ihuon278. Leia, teira – a partir da qual trouxesse a
igualmente, a entrevista Marx: os homens não são citação, e enviasse para mim, para
1 Karl Marx (Karl Heinrich Marx, 1818-1883): fi- o que pensam e desejam, mas o que fazem, con-
lósofo, cientista social, economista, historiador e cedida por Pedro de Alcântara Figueira à edição
revolucionário alemão, um dos pensadores que 327 da IHU On-Line, de 03-05-2010, disponível
exerceram maior influência sobre o pensamento em http://bit.ly/ihuon327. A IHU On-Line pre- Século XXI, que retoma o argumento central da
social e sobre os destinos da humanidade no sé- parou uma edição especial sobre desigualdade obra de Marx O Capital, disponível em http://bit.
culo XX. Leia a edição número 41 dos Cadernos inspirada no livro de Thomas Piketty O Capital no ly/IHUOn449. (Nota da IHU On-Line)

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“Como se Pasolini, o poeta,


deixasse a testemunha à
política e convidasse a agir”

colocá-la como epígrafo do livro”. É desejo deverá ser guiado, obedecido havia desmascarado a idolatria da
o dia 26 de janeiro de 1962 e Pier Pa- e acompanhado da ação revolucio- sucessão do tempo em si, a idolatria
olo Pasolini escreve assim a Franco nária. Pasolini é atingido por este as- que tende a ser acompanhada por
Fortini2. Dois amigos, dois homens pecto da carta de Marx. Sua vocação uma euforia real de progresso e que
de letras “engagés” (engajados), fre- pedagógica é refletida na formulação é um dos traços patológicos e que
quentemente em amarga controvér- do jovem revolucionário alemão: o caracterizam a hipermodernidade.
sia. A frase de Marx a que se refere sonho de uma coisa é a reforma da
Pasolini dará o título e aparecerá em consciência. De uma consciência
breve na epígrafe do seu romance, O que quer e que pode obter o mundo. IHU On-Line – É possível afir-
sonho de uma coisa3. Ele é retirado Que pode e quer mudar a realidade mar que Pasolini faz uma an-
da famosa última carta que Marx es- de acordo com o próprios planos tropologia da sociedade italia-
creveu a Arnold Ruge4 em Paris, em político-pedagógicos, selecionados e na de sua época? Por quê?
setembro de 1843. vividos coletivamente.
Luciano De Fiore – Pasolini de- 15
Pasolini a cita assim: “O nosso lema O desenvolvimento não é o nosso testava os aspectos opressivos e des-
deve ser, portanto: a reforma da destino, ao menos não por escolha. trutivos da nossa história recente, da
consciência não por meio de dogmas, Mas se nós preferimos o progresso, devastação, do “genocídio” por meio
mas pela análise da consciência clara também podemos decidir ao invés dos quais são impostos a estrutura
por si mesma, ou quando presente na de voltar, melhor então ir em fren- de produção atual e seu sistema de
forma de religião ou política. Em se- te. Acredito que a possibilidade de valores. Odiado, em nome de um
guida, vai parecer que o mundo tem escolha, subtraído do determinis- passado cancelado e pisoteado que
sido desde muito o sonho de uma mo da filosofia da história, foi o que prometia um futuro diferente. Os
coisa...”. O que impressiona tanto fascinou Pasolini no texto de Marx. olhos do polemista viram, talvez
Pasolini na frase de Marx, a ponto de Pode dar-se a novidade, mantendo depois dos do poeta, o espetáculo
ter a inspiração para o título de um uma ligação com a tradição, sem trágico da tendência opulenta e con-
romance? Para Marx, tratava-se de compartilhar a “necessidade”? A sumista a que se entregou a socieda-
traduzir o sonho, o sonho antigo que necessidade dos fatos, do que acon- de italiana dos anos 50 em diante.
a humanidade sonha sobre si mesma teceu, pode servir como pano de Eles viram – e souberam descrever
(da própria autorrealização, no fun- fundo da nova gramática profunda, – a catástrofe do mundo rural, das
do, da sua própria felicidade) na sua sem determiná-la? culturas intermédias, das línguas,
aspiração, em possibilidade real. O da aprovação do comportamento, o
A crise da ideologia marxista, a
propagação capilar contemporâ- declínio da educação escolar, o cres-
2 Franco Fortini (1917-1994 ): nascido Franco nea da ideologia burguesa evolu- cente poder da televisão. Toda a obra
Lattes, foi um poeta , crítico literário , ensaísta de Pasolini é orientada por uma éti-
e intelectual italiano . Uma figura controversa, é tiva indicavam a Pasolini que algo
considerado algumas das personalidades mais
não estava funcionando na mesma ca da rejeição – como a chamou Gian
interessantes da paisagem cultural do século XX.
(Nota da IHU On-Line) concepção marxista do tempo. Pa- Carlo Ferretti6 – que rejeita a neces-
3 Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 2006. (Nota da sidade do neocapitalismo consumis-
IHU On-Line) solini nunca aceitou que o “depois”
4 Arnold Ruge (1802-1880): foi um filósofo e es-
sempre coincidisse com “o melhor”. ta. Uma ética baseada também num
critor político alemão. Tornou-se associado com
os jovens hegelianos. Em 1837, com E. T. Echter- Diremos – com Ernst Bloch5 – que sentimento conservador, que explica
meyer fundou a Hallesche Jahrbücher für Kunst
und deutsche Wissenschaft. Neste periódico ele
assumiu o ponto de vista da filosofia hegeliana.
Em Paris, Ruge coeditou o Anais Franco-Alemães 5 Ernst Bloch (1885-1977): foi um dos principais Jürgen Moltmann, Johann Metz e Gustavo Gutiér-
com Karl Marx. Ele tinha pouca simpatia com as filósofos marxistas alemães do século XX. Es- rez (e com ele a Teologia da Libertação), o movi-
teorias socialistas de Marx, e ambos os pensa- creveu durante sua vida sobre os mais diversos mento ecologista na Alemanha, Herbert Marcuse,
dores se distanciaram por divergências políticas. assuntos, mas especialmente sobre utopia, pelo Fredric Jameson, Hans Heinz Holz , dentre outros.
Ele deixou Paris em 1845 para ir à Suíça e, em se- qual hoje é conhecido. Exerceu uma influên- (Nota da IHU On-Line)
guida, tornou-se um livreiro em Leipzig. (Nota da cia difusa em diferentes ambientes intelectuais: 6 Gian Carlo Ferretti (1930 ): é um crítico literário
IHU On-Line) Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, os teólogos e historiador italiano. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

a nostalgia do sagrado e o perguntar- manidade é tão elevada, rigorosa, amado Papa João XXIII8.
-se sobre os valores novos e antigos. ideal para ir além do solo comum da
Por sua parte, sempre tinha tenta-
humanidade”. A figura de Cristo, de
A força da sua causa foi um escân- do recuperar no próprio secularis-
acordo com Pasolini, é portadora de
dalo, primeiramente, em escanda- mo algumas características de uma
uma notícia fundamental no terreno
lizar. Os artigos então reunidos em espiritualidade religiosa, desde os
religioso: “Cristo aceitou o tempo
Escritos Piratas e nas Cartas Lute- dias do Evangelho segundo Mateus
‘unilinear’, que é o que chamamos de
ranas são quase todos um sinal do (1964), filme espelho de uma visão
história. Ele rompeu com a estrutura
mais apocalíptico julgamento, que de mundo permeada no fundo de va-
circular das antigas religiões: e falou
se origina, no entanto, a partir de lores precisamente épico-religiosos.
de um ‘final’, não de um ‘retorno’”.
um dado que Pasolini acredita que
Já no início do ano de 1966 Pasoli-
adquiriu: no Ocidente, a burguesia O cristianismo, como que se equi-
ni pensava em um filme sobre Paulo
e o povo uniram as suas histórias vocando com o Cristo e colocando-o
de Tarso. São Paulo vive, entre fortes
pela primeira vez na história da hu- entre parênteses, foi principalmen-
sofrimentos, a contradição entre o
manidade. A unificação ocorreu sob te a religião do mundo rural. Mas,
homem chamado à dantesca “tran-
o signo do desenvolvimento neoca- depois da guerra, o cristianismo de
sumanização” e o homem velho, cha-
pitalista, cujo caráter é totalitário. rural transformou-se em urbano:
mado a organizar, a mediar, a institu-
Totalitário a ponto de permitir a to- “característica de todas as religi-
cionalizar a sua mensagem profética.
lerância, uma falsa virtude: “É mais ões urbanas – logo das elites e das
Mas pode a profecia tornar-se carne,
justo, melhor, um mundo repressivo classes dominantes – é a substitui-
sem se tornar ideologia, igreja? Pa-
que um mundo tolerante, porque na ção (cristã) do final ao retorno: do
solini foi um ávido leitor das Cartas
repressão se vivem as grandes tra- misticismo soteriológico à devoção
Paulinas, conquistado inicialmente
gédias, nascem a santidade e o he- rústica. Portanto – continua Pasoli-
pela força revolucionária do apósto-
roísmo. Na tolerância se definem as ni – uma religião urbana, como pa-
lo, capaz de demolir, “com a força da
diversidades, se analisam e se isolam drão, é infinitamente mais capaz de
sua mensagem religiosa, um tipo de
as anomalias, são criados os guetos. aceitar o modelo de Cristo do que
sociedade fundada na violência de
Preferiria ser injustamente conde- qualquer religião camponesa”. Se
classe, o imperialismo, e acima de
16 nado, que ser tolerado”, escreveu quiser sobreviver, a Igreja, entendi-
tudo a escravidão”.
em um jornal em janeiro de 1973. da como uma comunidade de fiéis,
Ele mesmo muitas vezes condenado, não pode deixar de abraçar e de fa- Mas também é fascinado pelo São
quase nunca tolerado. zer sua própria cultura “moderna, Paulo fundador da Igreja-institui-
livre, antiautoritária, em constante ção, organizador de grupos, pre-
Foi, por conseguinte, feita na Itália
mudança, contraditória, coletiva, es- ceptor dos mais intransigentes, que
uma “revolução antropológica”, no
candalosa”. Mas a Igreja “cala num apenas abjurou de uma Lei e que
sentido em que Marx falava nos Ma-
momento em que deve falar, deve- imediatamente institui outra. O que
nuscritos econômico-filosóficos do
ria entrar na cabeça da oposição, mais une Pasolini e São Paulo na
44, que aprovou todos os preceden-
porque a oposição ao novo poder mesma contradição é a dificuldade
tes culturais particulares no signo
só pode ser contestada por caráter do discurso profético, quase sempre
da vigente ideologia do desenvolvi-
religioso”. Pasolini acreditava, en- coberto pelas vozes e pelos rumores
mento. Uma aprovação que deve ser
tão, que a Igreja Católica não tinha cotidianos, um zumbido de fundo
rejeitada.
aderido aos resultados do Concílio contra o qual, no entanto, sai ainda
Vaticano II7 e dos ensinamentos do mais acentuada a santidade atempo-
ral do discurso Paulino. Mas creio,
IHU On-Line – De que forma o contudo, que o escritor Pier Paolo
7 Concílio Vaticano II: convocado no dia 11-
pensamento teológico da socie- 11-1962 pelo papa João XXIII. Ocorreram quatro Pasolini se identifica também com o
dade católica italiana da época sessões, uma em cada ano. Seu encerramento
deu-se a 8-12-1965, pelo papa Paulo VI. A revi- Paulo abalado pela obsessão da ins-
aparece nas reflexões de Paso- são proposta por este Concílio estava centrada
tituição; no Paulo que é livre da Lei
na visão da Igreja como uma congregação de fé,
lini? Como ele articula a teolo- substituindo a concepção hierárquica do Concílio sendo chamado novamente a fideli-
gia para fazer sua crítica à pri- anterior, que declarara a infalibilidade papal. As
transformações que introduziu foram no sentido dade à Lei.
mazia do capital? da democratização dos ritos, como a missa rezada
em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos
Luciano De Fiore – Primeiro de diferentes países. Este Concílio encontrou resis- gl/8MDxOM. Em 2015, o Instituto Humanitas
tência dos setores conservadores da Igreja, de- Unisinos – IHU promoveu o colóquio O Concílio
tudo, duas palavras do mesmo Pa- fensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto
frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando das transformações tecnocientíficas e sociocultu-
solini sobre sua relação pessoal com a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Con- rais da contemporaneidade. As repercussões do
a religião e com a fé: “em palavras cílio Vaticano I. A revista do Instituto Humanitas evento podem ser conferidas na IHU On-Line
Unisinos – IHU, publicou na edição 297 o tema 466, de 1-6-2015, disponível em https://goo.gl/
muito simples e pobres: eu não acre- de capa Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de LiJPrZ. (Nota da IHU On-Line)
15-6-2009, disponível em https://goo.gl/GVTuEO, 8 Papa João XXIII (1881-1963): nascido Angelo
dito que Cristo seja Filho de Deus, bem como a edição 401, de 3-9-2012, intitulada Giuseppe Roncalli. Foi Papa de 28-10-1958 até
porque não sou crente, pelo menos Concílio Vaticano II. 50 anos depois, disponível a data da sua morte. Considerado um papa de
em https://goo.gl/5IsnsM, e a edição 425, de transição, depois do longo pontificado de Pio XII,
conscientemente. Mas acredito que 1-7-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como convocou o Concílio Vaticano II. Conhecido como
evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail o “Papa Bom”, João XXIII foi canonizado em 2013
Cristo é Divino: creio que nele a hu- Bakhtin e seu Círculo, disponível em https://goo. pelo Papa Francisco. (Nota da IHU On-Line)

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IHU On-Line – Como o tema cruz, se queremos mesmo com um IHU On-Line – Como compre-
da paixão aparece na obra de certo vitimismo, Pier Paolo também ender o que está na gênese da
Pasolini e pode ser articulado representou-se a si mesmo. crítica feita por Pasolini?
na crítica social?
Luciano De Fiore – A fase his-
Luciano De Fiore – Pasolini tórica objeto de toda a atenção e
nunca teve uma iluminação deter- IHU On-Line – De que forma paixão de Pasolini é a fase da opu-
minante. Não conheceu as ruas de o senhor interpreta a estética lência, do capitalismo avançado e do
Damasco. Ele sempre se moveu en- de Pasolini em seus filmes, en- consumismo. No Ocidente, dado que
tre paixão e ideologia, entre a ten- quanto elemento de sua crítica no Hemisfério Sul esse desenvolvi-
tação narcisista para uma solução política-econômica-social? mento mostra sua outra face, mise-
individual e a tentação histórica de Luciano De Fiore – A polêmica rável e faminta. Já no final dos anos
um compromisso coletivo; entre a de sempre entre arte e política, entre 50, Pasolini faz uma viagem para
promessa da redenção pela ideo- os intelectuais “comprometidos” e África e em seguida, em 1961, encara
logia e o compromisso real, ele sa- os não, a que Pasolini não pôde esca- o subcontinente indiano. Em 1970
bia do risco inerente da ideologia, par, recebe um novo impulso a partir também vem ao Brasil, acompanha-
o conformismo: “eu nunca tive a de seus filmes. O estatuto da imagem do de Maria Callas12, e vai ao Rio de
ousadia de montar a cavalo (como do filme, ainda mais do que o texto Janeiro e a Salvador. Ele escreve al-
muitas pessoas poderosas, ou mui- literário, surge junto com a questão guns poemas significativos, incluin-
tos míseros pecadores): eu caí sem- se o meio – neste caso o filme – é do o sombrio Gerarchia, traduzido
pre, e meu pé permaneceu enre- capaz de realizar o mundo, ou au- também ao português no início dos
dado no estribo. Por isso não sou tenticá-lo sem legitimá-lo. No início anos 80 por Michel Lahud13. Estes
capaz da cavalgada, mas de ser ar- dos anos 60, Pasolini realiza alguns são seus primeiros versos:
rastado, batendo a cabeça na poeira filmes que fotografam e juntos trans-
e nas pedras. Eu não posso voltar a figuram a “Nova Pré-história” que
montar no cavalo dos Hebreus e dos estava acontecendo na antropologia Se chego numa cidade
Gentios nem cair para sempre na clássica, agonizante. São eles Accat-
Terra de Deus”, escreveu em uma além do oceano
tone (1961), Mamma Roma (1962), 17
carta a Dom Giovanni Rossi9. La ricotta. Chego muitas vezes numa cidade
Quando ele representava a paixão nova, transportado pela dúvida.
Precisamente este último, La ri-
no cinema, fazia através de uma lei- cotta, um média-metragem ilus- Convertido de um dia pro outro em
tura não épica do evangelho de Ma- tra a escolha de Pasolini por uma peregrino
teus e com a crucifixão e morte de imagem que vire sobre si mesma,
um desgraçado faminto, o Stracci, de uma fé na qual não creio;
ou seja, reflexo autorreflexivo,
no filme La Ricotta (1963). Eviden- sem correr o risco espectral e in- representante de uma mercadoria
temente, no final, Stracci é resumido transitivo próprio da imagem au- há muito depreciada,
no destino trágico de um certo povo torreferencial, típico, por exem-
urbano marginalizado. mas é grande, sempre, uma estra-
plo, de Fellini 10. Diferentemente
nha esperança
Em certo sentido, pode ser consi- dele, Pasolini faz uma pergunta
derada uma Paixão sui generis, sem dramática sobre a sobrevivência
redenção, até mesmo a horrível his- da arte em um mundo onde até
mesmo a transcendência do di- A dúvida é o primeiro sentimento
tória de dois jovens que se apaixo- na bagagem de Pasolini. Em qual-
nam, e são em seguida assassinados vino se misturou com as necessi-
dades e com a nova idolatria do quer cidade. Especialmente na pe-
em Salò, ou os 120 dias de Sodo- riferia do mundo. Chega carregado
ma (1975). No Evangelho segundo espetáculo, que nos mesmos anos
despertava as bem conhecidas re- pelas suas próprias dúvidas. No sis-
Mateus (1964), Pasolini confiou o tema capitalista e sobretudo no seu
papel da Virgem Maria a sua mãe, flexões de Guy Debord 11.
modelo de desenvolvimento econô-
Susanna Colussi. A paixão tornou-
-se ainda um fato mais pessoal: na
10 Federico Fellini (1920-1993): um dos mais 12 Maria Callas (1923-1977): soprano grega, con-
importantes cineastas italianos. Ficou eternizado siderada a maior celebridade da ópera do século
9 Giovanni Rossi (1856-1943): foi um anarquista pela poesia de seus filmes, que, mesmo quando XX e a maior cantora de todos os tempos. Os crí-
italiano, engenheiro agrônomo, médico veteriná- faziam sérias críticas à sociedade, não deixavam ticos elogiavam sua técnica bel canto, sua voz de
rio de profissão e escritor que por influência dos a magia do cinema desaparecer. Geralmente fazia grande alcance e suas interpretações dramáticas,
socialistas libertários experimentalistas franceses, críticas ao totalitarismo, marxismo e à Igreja. Uma caráteres que levaram-na a ser saudada como La
escreveu uma série de livros sobre a criação de de suas obras mais conhecidas é La dolce vitta. Divina. Seu tipo vocal era classificado como o ra-
comunidades experimentais. Foi membro da As- (Nota da IHU On-Line) ríssimo soprano absoluto. Seu repertório, por sua
sociação Internacional dos Trabalhadores (AIT) 11 Guy Debord (1931-1994): filósofo e sociólogo vez, variava de ópera-séria clássica para as ópe-
de Pisa, fundou a Colônia Agrícola Experimental francês, autor de A sociedade do espetáculo - Co- ras bel canto de Donizetti, de Bellini e de Rossini
Cittadella em Cremona, e ganhou notoriedade ao mentários sobre a sociedade do espetáculo (Rio de e, ainda, para as obras de Verdi, de Puccini e de
tentar implementar a colônia experimental Cecília Janeiro: Contraponto, 1997) e fundador da Inter- Wagner. (Nota da IHU On-Line)
no ano de 1890, em território brasileiro, na cida- nacional Situacionista (IS). Sobre ele, confira ainda 13 Michel Lahud (1949-1992) foi um dos primeiros
de de Palmeira, estado do Paraná. (Nota da IHU a autobiografia Panégyrique (Paris: Éditions Gé- nomes a falar em Pasolini no Brasil. (Nota da IHU
On-Line) rard Lebovici, 1989). (Nota da IHU On-Line) On-Line)

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TEMA DE CAPA

mico. Ele vem de expoente desse Pasolini continua a excluir a pos- das, muitas vezes escondidas, a
mundo, contudo: representante de sibilidade de rotas de fuga individu- longo prazo. Considerava neces-
uma mercadoria – o capitalismo – ais: “Há momentos na história em sário manter viva a atenção para
que considera, há tempo, desvalo- que não se pode ser inocente, você a tradição. Estava comprometido
rizado, atestado de uma fé – aquela tem que estar ciente.” Talvez, não em compreender a longo prazo o
em progresso – na qual não acre- apenas momentos. Talvez, é aqui o Ocidente e o seu espírito, para dar
dita. Desembarca num país que na velho drama, é a história em si para consciência política e cultural a essa
sua bandeira verde-ouro tem es- cortar radicalmente a possibilidade compreensão, a única maneira de
crito apenas “ordem e progresso”, da inocência, desde o momento do fazer tremular “belas bandeiras”
quer dizer, ordem e progresso. Este tempo linear aparecem uma sucessão da mudança. Parecia-lhe essencial
é um ponto de resolução, central de culpas e redenções. O que Pasolini uma “consciência da vida”, grams-
do Pasolini ideólogo. Não acredita- põe em questão é a necessidade do cianamente concreta, que surgisse
va que o desenvolvimento e o pro- processo de queda e de conscientiza- a partir da interpretação de alguns
gresso coincidissem. Considerava ção: esperava em um mundo em que momentos fundamentais, aqueles
possível desconectar o progresso tomar consciência não implicasse ne- que marcam as voltas radicais, que
do desenvolvimento. cessariamente a perda da inocência. mudam de direção com os ventos.
Pasolini quer entender se mesmo A aversão para o desenvolvimen- Para aqueles que são jovens, ou
em face à sombra do mundo capita- to surgiu a partir de ver inscrita a
ainda não o conhecem, aconselharia
lista estava avançando a aprovação, afirmação da necessidade de aquele
alguns dos seus trabalhos que ex-
a destruição das culturas particula- modelo, mecanicamente dialético,
pressam esse seu espírito, esse dese-
res: e se ainda existem focos de re- da matança da ingenuidade para
jo de mudança. Entretanto, algumas
sistência que se opõem – talvez in- o triunfo da consciência. Processo
das suas publicações: a coleção de
genuamente – à aceleração artificial no qual, na verdade, muitas vezes
poesias As Cinzas do Gramsci, o ro-
da nova sociedade industrial, com a o dado natural de partida é mor-
teiro do filme de São Paulo16, as suas
intenção de esmagar o passado. Pro- tificado por necessidade lógica do
esquema. Daí a citação de Saba, no intervenções polêmicas coletadas
cura uma paisagem diferente, aquela
Empirismo Herege14: “Não, o co- nos Escritos Piratas e a última co-
18 do sonho, e que encontra nas viagens
munismo\ não obscurecerá a beleza leção poética, A Melhor Juventude.
para países distantes, como a Índia,
e o Iêmen, o Brasil, a Eritreia. No e a graça”! Permanecem muito interessantes
hemisfério Sul, ainda bate com suas também alguns de seus filmes: Teo-
próprias forças um tempo diferente rema (1968), e sobretudo, O Evan-
do tempo linear do desenvolvimento gelho segundo Mateus.
IHU On-Line – Quais as obras
que tem prevalecido no Norte; um que melhor traduzem o pensa- 16 Paulo de Tarso (3-66 d. C.): nascido em Tar-
tempo circular segregado nas civi- mento de Pasolini? so, na Cilícia, hoje Turquia, era originariamente
lizações não urbanas, nas quais há chamado de Saulo. Entretanto, é mais conhecido
Luciano De Fiore – Pier Paolo como São Paulo, o Apóstolo. É considerado por
espaço para os valores tradicionais, muitos cristãos como o mais importante discípulo
para o sagrado, para as tradições: e é Pasolini pertence cronologicamente de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais impor-
tante no desenvolvimento do Cristianismo nas-
fascinado pela possibilidade de que ao “primeiro”. No fundo enevoado e cente. Paulo de Tarso é um apóstolo diferente dos
distante que parece absorver eventos demais. Primeiro porque, ao contrário dos outros,
para o Sul não se faz necessário dar Paulo não conheceu Jesus pessoalmente. Antes
passo ao tipo de desenvolvimento agora como distantes como o perío- de sua conversão, se dedicava à perseguição dos
primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusa-
que já marcou o rosto do Norte. do pós-guerra, o boom econômico, lém. Em uma dessas missões, quando se dirigia a
o 1968. Ele morreu em setembro de Damasco, teve uma visão de Jesus envolto numa
grande luz e ficou cego. A visão foi recuperada
Necessidade do processo 1975: tinha apenas 53 anos de idade. após três dias por Ananias, que o batizou como
cristão. A partir deste encontro, Paulo começou
de queda Em seu tempo, nada de computador, a pregar o Cristianismo. Ele era um homem culto,
nem telefones celulares, nenhum frequentou uma escola em Jerusalém, fez carreira
no Templo (era fariseu), onde foi sacerdote. Era
Mas no mundo industrializado, pensamento fraco, nenhuma pro- educado em duas culturas: a grega e a judaica.
Paulo fez muito pela difusão do Cristianismo en-
no qual avança a Nova Pré-Histó- gramação de televisão comercial ou tre os gentios e é considerado uma das principais
ria, o que resta a ser feito? Como próteses mnemotécnicas15: uma era fontes da doutrina da Igreja. As suas Epístolas for-
mam uma seção fundamental do Novo Testamen-
fazer sentir a sua voz de oposição pré-digital. to. Afirma-se que ele foi quem verdadeiramente
transformou o cristianismo numa nova religião,
entre os gritos animados dos meios Pasolini considerava ainda pos- superando a anterior condição de seita do Judaís-
de comunicação, do novo tipo de mo. A IHU On-Line 175, de 10-4-2006, dedicou
sível um trabalho de interpretação sua capa ao tema Paulo de Tarso e a contempora-
escola, da informação difundida; das grandes aventuras estruturais
neidade, disponível em http://bit.ly/ihuon175, as-
sim como a edição 286, de 22-12-2008, Paulo de
como agir para denunciar os limi- e culturais de nosso tempo que Tarso: a sua relevância atual, disponível em http://
tes do consumismo, capazes de “fa- bit.ly/1o5Sq3R. Também são dedicadas ao religio-
se deslocam de ligações profun- so a edição 32 dos Cadernos IHU em formação,
zer uma aculturação, uma centra- Paulo de Tarso desafia a Igreja de hoje a um novo
sentido de realidade, disponível em http://bit.ly/
lização, que nenhum governo, que 14 Lisboa: Assírio & Alvim, 1982. (Nota da IHU ihuem32, e a edição 55 dos Cadernos Teologia
se declarava centralista, nunca foi On-Line) Pública, São Paulo contra as mulheres? Afirmação
15 É uma técnica de estimulação da memória. e declínio da mulher cristã no século I, disponível
capaz” de alcançar? (Nota da IHU On-Line) em http://bit.ly/ihuteo55. (Nota da IHU On-Line)

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IHU On-Line – Como com- valores de fundo do cristianismo, menos em parte. Com categorias
preender a crítica de Pasolini o valor da cultura, a redenção dos contemporâneas, falaremos sobre
ao Partido Comunista Italiano povos oprimidos, como era menos sustentabilidade: o crescimento do
– PCI depois de ele ter dito que pessoal poderia agir no terreno da volume de bens materiais não cons-
apenas o comunismo seria capaz política no modelo que se estava es- titui a riqueza em si mesmo, se não
de originar uma nova cultura? tabelecendo e que já tendia a equipa- for acompanhado de uma análise
rar o gozo com a Lei. do seu impacto ambiental e social.
Luciano De Fiore – Embora ex-
Os empresários brasileiros menos
pulso em 1949 por indignidade mo- Era, contudo, uma proposta éti-
gananciosos visando sim o cresci-
ral do PCI, Pasolini se sentia sempre co-política que teve o objetivo de
mento da receita, mas sem destruir
politicamente próximo ao Partido, transformar a Itália e os italianos;
as matérias-primas, a verdadeira ri-
manifestando isso nos atos e acre- uma proposta, portanto, registrável
queza do país: a Floresta Amazônica,
ditando ainda na proveitosa lição no horizonte nietzschiano do asce-
a Mata Atlântica, a costa, mas tam-
do Marx: “Quando falo da crise dos tismo, no sentido próprio do exercí-
bém a música popular, as tradições.
partidos marxistas – expressão que cio. Mas não um exercício solitário.
abrevio em crise do marxismo – falo Apesar de ser um intelectual e um Talvez não seja coincidência que no
sobre isso porque eu sei que quero poeta, apesar de ser oposição, vili- Brasil ainda se dá tanta atenção para
que esta crise seja resolvida: é claro pendiado, às vezes combatido com Pasolini. A crise introduzida pelo
que eu não vejo uma alternativa fora violência e incompreensão não só neocapitalismo, a consciência das
do marxismo, e na minha escolha a pelos seus inimigos, Pier Paolo Pa- dificuldades encontradas pelo novo
visão de um futuro neocapitalista solini escolheu para a vida fazer um conceito de tempo, não convenceu,
equivale ao inferno.” caminho junto aos outros. Nunca no entanto, Pasolini a tomar par-
sozinho, exceto nos momentos em tido nessa frente spengleriana que
Austeridade: era a substância ética
que a solidão foi o fruto amargo de sanciona a decadência do Ocidente,
de uma proposta política que o PCI,
uma expulsão, de uma rejeição. E nem para trazê-la mais perto de lei-
na figura do seu secretário Enrico
mesmo assim, para cada isolamento turas da realidade influenciadas pelo
Berlinguer17, dirigiu ao país na onda
seguiu uma aproximação, um retor- pensamento do Heidegger19, além
da emergência causada pela primei-
no, a recorrência como companhei- disso, em seus últimos anos, ainda 19
ra crise do petróleo na década de se-
ro de viagem e de luta de forças que não sai de moda. Em todo caso, foi
tenta. Era uma proposta que critica-
na Itália e no mundo lutavam pela estimulado pelo confronto com as
va na raiz a absolutização do objeto
liberdade e a justiça. As posições to- posições de Sartre20, com quem se
de consumo, e que foi ridicularizada
madas por Pasolini não foram nunca reuniu pessoalmente várias vezes.
e oposta pelo poder por seu suposto
“in-dialéticas” – como disse Roland
moralismo. Em certo sentido, a crí-
Barthes18. Ele sempre buscou o diá-
tica burguesa foi direto ao alvo, mas
logo, a troca, o enfrentamento, e não
não sabia, ou sabia mal (expressar- 19 Martin Heidegger (1889-1976): filósofo ale-
somente com seus pares, os intelec-
-se com Pasolini). Não conseguia mão. Sua obra máxima é O ser e o tempo (1927). A
tuais, mas também com as pessoas, problemática heideggeriana é ampliada em Que
entender de fato que o núcleo da é Metafísica? (1929), Cartas sobre o humanismo
por exemplo, através do correio com (1947) e Introdução à metafísica (1953). Sobre
iniciativa política foi uma revolta
os leitores das revistas comunistas, Heidegger, confira as edições da IHU On-Line
contra a cada vez mais difundida lei 185, de 19-6-2006, intitulada O século de Heide-
e mais tarde dos principais jornais gger, disponível em http://bit.ly/ihuon185, e 187,
sadiana que – na sociedade de con- de 3-7-2006, intitulada Ser e tempo. A descons-
burgueses. trução da metafísica, disponível em http://bit.ly/
sumo – tende a substituir a forma
ihuon187. Confira, ainda, Cadernos IHU em for-
kantiana do superego (o dever pelo mação nº 12, Martin Heidegger. A desconstrução
da metafísica, que pode ser acessado em http://
dever), a forma, precisamente sadia- bit.ly/ihuem12, e a entrevista concedida por Er-
na, do dever de desfrutar. A proposta IHU On-Line – Qual a atuali- nildo Stein à edição 328 da IHU On-Line, de 10-
dade do pensamento de Paso- 5-2010, disponível em https://goo.gl/dn3AX1,
ética subjacente à política do PCI de intitulada O biologismo radical de Nietzsche não
Berlinguer era de fato radicalmen- lini na Itália, na Europa e no pode ser minimizado, na qual discute ideias de sua
conferência A crítica de Heidegger ao biologismo
te anti-sadiana: propor um modelo mundo de hoje? de Nietzsche e a questão da biopolítica, parte inte-
grante do ciclo de estudos Filosofias da diferença,
de engajamento cívico com base no Luciano De Fiore – A distin- pré-evento do XI Simpósio Internacional IHU: O
sacrifício, é entendida como partici- (des)governo biopolítico da vida humana. (Nota
ção/divergência entre o progresso e da IHU On-Line)
pação individual, com a adesão aos o desenvolvimento continua sendo 20 Jean-Paul Sartre (1905-1980): filósofo existen-
cialista francês. Escreveu obras teóricas, roman-
uma das suas percepções mais im- ces, peças teatrais e contos. Seu primeiro roman-
ce foi A náusea (1938), e seu principal trabalho
17 Enrico Berlinguer (1922-1984): foi um político portantes e ainda atuais. O Brasil filosófico é O ser e o nada (1943). Sartre define
italiano. Em 1943 ele se juntou ao Partido Comu- de hoje parece tê-la introjetado, ao o existencialismo em seu ensaio O existencialismo
nista. Após a guerra, ele estava entre os principais é um humanismo como a doutrina na qual, para
arquitetos da reconstituição da sua organização o homem, “a existência precede a essência”. Na
juvenil, a FGCI , que liderou até 1956. Em 1962, Crítica da razão dialética (1964), Sartre apresenta
ele entrou para o secretariado da PCI e tornou- suas teorias políticas e sociológicas. Aplicou suas
se chefe da seção estrangeira. Eleito secretário- 18 Roland Barthes (1915-1980): crítico literário, teorias psicanalíticas nas biografias Baudelaire
geral do partido em 1972, realizando este papel sociólogo e filósofo francês. Entre suas obras se (1947) e Saint Genet (1953). As palavras (1963) é a
até sua morte prematura, que ocorreu após uma destacam: Elementos de semiologia (1965), Siste- primeira parte de sua autobiografia. Em 1964, foi
doença súbita durante um comício. (Nota da IHU ma da moda (1967), O Império dos signos (1970). escolhido para o prêmio Nobel de literatura, que
On-Line) (Nota da IHU On-Line) recusou. (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

Um ponto de originalidade pode ao longo de novos caminhos, recu- de respeito sem medo. Eu choro um
ser apreendido no próprio fracassa- perando um cruzamento que está mundo morto. Mas não estou morto
do deslize das teorias mais radicais, atrás de nós e ele pensou que talvez eu que o choro. Se queremos ir em
aquelas que se deslocam de uma ainda acessível. frente, devemos chorar o tempo que
consciência similar – enquanto que não pode voltar atrás, que digamos
de outra forma amadurecida – da não/a esta realidade que nos tem
crise do conceito de progresso, ten- IHU On-Line – Deseja acres- bloqueado na sua prisão.”
dem a conceber o tornar-se como centar algo?
uma inevitável expulsão, isolamen-
to do Senso. Tanto é assim que as Luciano De Fiore – Apenas
uma coisa. Ao ler Pasolini agora, Lamentamos, e ao mesmo tempo,
críticas de Pasolini à opulência, en-
ou ao ver um dos seus filmes, você sentimos um impulso: como se Paso-
quanto colorindo-se na fase final de
experimenta melancolia. Acontece lini, o poeta, deixasse a testemunha
tons românticos, nunca investiram
na técnica e na ciência como tais, sobretudo na releitura dos seus po- à política e convidasse a agir. Embo-
mas apenas a sua função na segun- emas As Cinzas de Gramsci, mas ra permaneça em nossos sentidos o
da metade do século XX. Pasolini também A Nova Juventude. Como desespero do luto, da perda. Porque
permaneceu fiel – talvez não sem neste fragmento, de seus últimos po- a vida é até mesmo perdida, mas é
alguma ingenuidade – a um ideal de emas: “Eu olho para trás, e choro os de grande ajuda reconhecê-la e saber
emancipação de tornar-se verdade países pobres, as nuvens e o trigo, a aceitá-la. É também luto e melanco-
em nossa história, e mais, graças ao casa escura, a fumaça, as bicicletas, lia, que é algo diferente do lamento.
trabalho, intenso como entendido aviões/ que passam como um tro- Uma nova consciência, a luz da pas-
por Marx, como a essência do ho- vão; e as crianças olham para eles, sagem, pode ser um estímulo para
mem “como um ser genérico”, então com uma maneira de rir do coração, lutar para que o futuro seja ainda
como trabalho social, uma vez cons- olhos que olhando em redor quei- uma dimensão rica e possível, e não
cientes da necessidade de caminhar mam de curiosidade sem vergonha, somente resquício do passado. ■

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Pasolini e a nostalgia do sagrado


Massimo Pampaloni destaca como Pasolini, de uma forma
mística, apreende a história do Cristo vivo na terra, o
revolucionário que busca a transformação de um mundo
João Vitor Santos | Tradução: André Bressane de Oliveira

A
obra de Pasolini é capaz de gerar cheio de significados que acabam ecoan-
inúmeras sensações, como diz o do no roteiro do filme. “O clima daque-
doutor em Ciências Eclesiásticas les dias rodava em torno de dois polos: o
Orientais, o padre Massimo Pampaloni: famoso discurso do secretário do Partido
“quando eu leio e releio Pasolini, alterno Comunista Italiano, e membro influente
entre admiração e decepção, raiva e ter- do Comitê Soviético Central, Palmiro To-
nura, mas nunca, nunca, uma página sua gliatti e a Pacem in Terris, do Papa João
me deixa indiferente”. Talvez esses senti- XXIII”, recorda. “Na verdade Pasolini foi
mentos só não sejam mais contraditórios e se manteve um ateu. Mas a sua busca
do que explicar o fato de o artista produ- pelo homem e sua profundidade não
zir um filme sobre Jesus Cristo com ta- poderia impedi-lo de encontrar-se, mais
manha densidade como o Evangelho se- cedo ou mais tarde, com o Transcendente
gundo São Mateus (1964) sem saber ao estritamente dito”, completa Pampaloni.
certo se crê no messias. Para o professor Massimo Pampaloni, jesuíta, é
Pampaloni, a explicação para isso está na doutor em Ciências Eclesiásticas Orien-
percepção do artista. “O Cristo de Pasoli- tais pelo Pontifício Instituto Oriental, 21
ni, para Pasolini, não é Jesus Cristo, Fi- de Roma, instituição em que também
lho de Deus, encarnado para nos salvar”, foi vice-reitor entre 2010 e 2016. Desde
mas o ser humano que vem para revolu- 2016, é decano da Faculdade de Ciências
cionar. “O Jesus do Evangelho de Mateus Eclesiásticas Orientais da mesma univer-
é deliberadamente privado de quaisquer sidade, na qual também leciona Teologia
características divinas. É uma obra, no Patrística oriental e Patrologia Siríaca.
entanto, para questionar, assim como se Também é professor convidado no pro-
pode questionar a qualquer sábio do pas- grama de Pós-Graduação em Teologia da
sado”, completa o professor. Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
Na entrevista a seguir, concedida por – Faje, de Belo Horizonte, na Facoltà Te-
e-mail à IHU On-Line, Pampaloni ain- ologica dell’Italia Meridionale (Sezione
da destaca que “Pasolini era um homem San Luigi) em Nápoles e no Instituto Pa-
profundamente humilde, pronto para tristico Augustinianum de Roma na área
aprender com a realidade”. Por isso, se- de teologia patrística siríaca. É membro
gundo ele, é fascinado pela história que de Syriaca, a associação dos siriacistas
é reconstituída por Mateus. “Não há dú- italianos. Entre suas publicações, desta-
vida acerca da sinceridade de sua busca camos o livro organizado por ele Le vie
pelo homem, de seu verdadeiro amor del sapere in ambito siro.mesopotami-
co dal III al IX secolo (Roma: Edizioni
pela humanidade, pelos pobres e simples
de sua terra”, pontua. E o momento em Orientalia, 2013).
que toma contato com o texto também é Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em uma das o cinema pode ser lugar de ex- Mistério? Como?
entrevistas que o senhor conce- pressão do Mistério. Entretan- Massimo Pampaloni – No que
deu à IHU On-Line1, disse que to, destaca que para isso é pre- se refere àquela entrevista, eu disse:
ciso que quem faça o cinema “O Cinema torna-se lugar de Expres-
1 A referida entrevista foi publicada na revista IHU busque o Mistério. No seu cine- são do Mistério se quem faz cinema
On-Line, número 403, de 24-9-2012, disponível
em https://goo.gl/moRff9. (Nota da IHU On-Line) ma, Pier Paolo Pasolini busca o deixa, em sua vida, aberta a porta ao

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TEMA DE CAPA

Mistério”. O que quis dizer foi que, (1920-2006), chamou, com uma fe- fundo homossexual, considerado na
na medida em que o autor do filme liz expressão, de “a nostalgia do sa- época uma ofensa contra a moral pú-
tem a intenção de usar a mediação grado”. Isto é o que encontramos em blica, punível por lei)7, ele declarou:
do filme para realmente comuni- muitos dos filmes de Pasolini (não “apesar de vocês, continuo e conti-
car uma ideia e sabe como fazê-lo, todos), porque é isso que o animava. nuarei comunista no sentido autên-
então o resultado certamente será tico da palavra”8.
expressão dessa ideia. Portanto,
IHU On-Line – Como o senhor No entanto, não há dúvida acerca
se a consciência do diretor é uma
compreende a figura de Pasoli- da sinceridade de sua busca pelo ho-
consciência cuja busca do Mistério
ni, essencialmente a sua místi- mem, de seu verdadeiro amor pela
tem importância, é claro que ela vai
ca, alguém que se intitula ateu e humanidade, pelos pobres e simples
aparecer no resultado. Atenção: isso
produz um filme com tamanha de sua terra. O grito de horror quase
não significa automaticamente que
densidade como O Evangelho desesperado ao ver desaparecer os
os espectadores entenderão (e isso
segundo São Mateus (1964)? rostos “de filhos dignos e humildes,
aconteceu seja com Pasolini, seja
com os seus belos pescoços, seus be-
com todos os grandes diretores). E Massimo Pampaloni – Pesso- los rostos claros sob os ferozes tufos
isso por duas razões básicas: a pri- almente, acho que a minha relação inocentes”9, dando lugar “às másca-
meira é que não basta ter olhos e ou- com a produção de Pasolini envolve ras horríveis que os jovens colocam
vidos para entender a linguagem do uma contínua alternância de estados no rosto, tornando-se feios como
cinema, ou seja, nem todos os espec- de ânimo. Pasolini está localizado prostitutas velhas de uma injusta
tadores são capazes de ler um filme. dentro do mundo italiano comunista iconografia”, indica a grande muta-
A segunda, é que em qualquer modo do pós-guerra, com toda a sua estru- ção antropológica a qual, como um
a busca pelo Mistério deve ser uma tura ideológica. Mesmo quando, em observador atento da realidade, sen-
realidade também na consciência do 1945, seu irmão Guido foi morto no tiu a chegada, mas, preso na gaiola
espectador, caso contrário o filme massacre de Porzûs pelos guerrilhei- ideológica marxista, não pôde ver
vai responder a uma pergunta que ros comunistas5, Pasolini, ainda que todas as implicações. Por isso, quan-
não existe. condenando o massacre e pedindo do eu leio e releio Pasolini, alterno
Dito isto, a questão de saber se Pa- justiça6, não mudou de ideia. Mes- entre admiração e decepção, raiva e
22 mo quando, no dia 26 de outubro de
solini buscava expressar o Mistério ternura, mas nunca, nunca, uma pá-
é mais complexa do que podemos 1949, ele foi expulso do Partido Co- gina sua me deixa indiferente.
pensar. Por isso vem a tentação munista Italiano - PCI por “indigni-
dade moral” (havia sido denunciado Então, como você observa, na ver-
de responder “sim e não”. Eu diria
como resultado de um escândalo de dade Pasolini foi e se manteve um
que se nós entendemos o Mistério
ateu. Mas a sua busca pelo homem
e a Transcendência, como faziam —
e sua profundidade, disse Nazare-
para colocar alguns exemplos muito mes. Também atuou como músico e compositor.
Foi amigo pessoal de diretores famosos italianos no Taddei, não poderia impedi-lo
especiais para mim — A. Tarkovsky2 como Federico Fellini e Ermanno Olmi. (Nota da de encontrar-se, mais cedo ou mais
(1932-1986), ou Federico Fellini3 IHU On-Line)
5 Em fevereiro de 1945, enquanto a guerra estava tarde, com o Transcendente estrita-
(1920-1993) de La Strada (1954), prestes a terminar, e os nazi-fascistas já estavam
em retirada, mas ainda no território, a região de mente dito. Ele o encontrou? Talvez
La Dolce vita (1960) e também La
Pasolini, o Friuli, era cobiçada pelos comunistas sim, no nível inicial. A trágica morte
voce della Luna (1990), então eu di- do Marechal Tito (1892-1980), que queria que ela
fosse ocupada por partidários comunistas para interrompeu um caminho do qual
ria que não. Porém, com certeza en- anexá-la no fim da guerra. Para evitar que isso
acontecesse, também estava presente a Brigada
não podemos saber o resultado. Ta-
contro em Pasolini aquilo que meu
Osoppo, formada por partidários democráticos ddei escreveu: “É certo que Pasolini
mestre, o jesuíta Nazareno Taddei4 moderados, não comunistas. Em fevereiro de
1945, com um engano, 22 partidários da Brigada tinha encontrado esse ponto [...] no
Osoppo foram massacrados pela Brigada Garibal- qual o estudo do homem acaba ten-
2 Andrei Tarkovsky (1932-1986): cineasta russo, di-Natisone. Os comunistas tentaram culpar os
considerado um dos mais importantes do cine- nazistas, mas um da Brigada Osoppo sobreviveu e do que lidar com o Transcendente
ma soviético. Seu cinema apresentava um caráter contou a verdade. O irmão de Pasolini, Guido, era
introspectivo e complexo no qual as questões hu- um dos 22. Sobre o fato, cfr. A. Lenoci, Porzus. La e com a religião, que é o elo entre
manas eram sempre colocadas em primeiro pla- Resistenza tradita, Bari, 1998. Também é interes- aquele Transcendente e o homem.
no. Entre seus filmes, destacamos Stalker (1979) e sante a última carta que Guido escreveu ao irmão
Nostalgia (1983). Sobre Tarkovski, confira a edição Pier Paolo, em que, justamente, descrevia as ma- Como estudioso e artista, Pasolini
26 do Cadernos Teologia Pública, intitulado Um nobras dos comunistas iugoslavos e italianos, e,
olhar teopoético: teologia e cinema em O Sacrifí- por outro lado, a intenção da Brigada Osoppo “de não esconde que não é possível estu-
cio, de Andrei Tarkovski, de autoria de Joe Marçal combater pela bandeira italiana e não pelo ‘pano’
Gonçalves dos Santos, disponível em http://bit.ly/ russo”, Lettera di Guidalberto Pasolini (Ermes) al
O3y4J3. (Nota da IHU On-Line) fratello Pier Paolo, scritta in data 27-11-1944 da
3 Federico Fellini (1920-1993): um dos mais Porzûs (Attimis, Udine), do Fundo Pasolini (P.P.P. 7 Cfr. F. GIOVANNINI, Comunisti e diversi: il PCI
importantes cineastas italianos. Ficou eternizado I.608.2), p. 6, conservada no Archivio contempora- e la questione omosessuale, Bari: Dedalo, 1980,
pela poesia de seus filmes, que, mesmo quando neo A. Bonsanti, Gabinetto G.P. Viesseux, Firenze, p. 56. Para uma releitura recente do caso, cfr. A.
faziam sérias críticas à sociedade, não deixavam versão fotográfica em https://goo.gl/9ZuVkc [úl- TONELLI, Per indegnità morale. Il caso Pasolini
a magia do cinema desaparecer. Geralmente fazia timo acesso: 04/05/2017]. (Nota do entrevistado) nell’Italia del buon costume, Bari: Laterza, 2015.
críticas ao totalitarismo, marxismo e à Igreja. Uma 6 “Os meus companheiros comunistas fariam (Nota do entrevistado)
de suas obras mais conhecidas é La dolce vitta. bem, creio eu, em aceitar a responsabilidade, a 8 Carta a Ferdinando Mautino de 31 de outubro
(Nota da IHU On-Line) se preparar para pagar a pena, já que esse é o de 1949, cit. in F. GIOVANNINI, Comunisti e diver-
4 Nazareno Taddei (1920-2006): padre jesuíta, único modo para apagar aquela mancha vermelha si…, cit., p. 57. (Nota do entrevistado)
comunicólogo e docente universitário, diretor de de sangue que é bem visível no vermelho da sua 9 P. P. PASOLINI, “7 gennaio 1973. Il ‘Discorso’ dei
cinema e de programas de televisão. Os primeiros bandeira”, cit. in P. P. PASOLINI, Un paese di tem- capelli”, in ID., Scritti corsari, Milano: Garzanti,
reconhecimentos da RAI - a televisão de Estado porali e primule, editado por N. Naldini, Parma: 1992 (orig. 1975), pp. 5-11, aqui: p. 9. (Nota do
italiana - foram ganhos com seus programas e fil- Guanda, 1993, p. 183. (Nota do entrevistado) entrevistado)

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dar o homem sem a sua dimensão pergunta é esta. A outra está na defi- bora abertos ao Transcendente (es-
religiosa. E, então, automaticamen- nição acima mencionada: nostalgia pecialmente Fellini) no sentido mais
te o estudo do homem torna-se o es- do sagrado, porque não podemos amplo em comparação com Pasolini,
tudo daquela dimensão. Do homem esquecer que Pasolini teve uma in- quando descrevem o homem se de-
se passa à religião; do humano se fância profundamente católica, que tém naquilo que o homem se tornou,
passa ao sagrado. Portanto, reli- permeou a sua cultura de base nos naquilo que é no momento em que
gião, sagrado”10. moldes do catolicismo camponês o descreve. Pasolini, no entanto, está
típico do Friuli. Depois se afastou sempre aberto ao futuro, “procuran-
O padre servita David Maria Tu-
e explicitamente o deixou. Porém do as raízes no antigo e na natureza.
roldo11 (1916-1992), poeta, escritor e
ficou uma espécie de saudade, um E é substancialmente o pano de fun-
filho da mesma terra de Friuli, como
profundo desejo por algo (nunca do sobre o qual se pode vislumbrar
Pasolini, e único sacerdote presente
chegou ao ponto que nos autorizaria seu anseio pelo Sagrado”17.
em seu funeral, segue esta linha. Pa-
a dizer “por Alguém”), que iria pre-
solini sempre se manteve um comu-
encher o vazio deixado pelo abando-
nista12, mas era “uma alma religiosa IHU On-Line – Por que o
no. Mesmo em suas expressões mais
sem religião; um crente sem fé; uma Evangelho segundo São Mateus
violentas e críticas contra a Igreja,
alma inquieta porque não encontra- é considerado uma das melho-
contra o Vaticano, contra a Demo-
va ponto absolutamente brilhante e res representações fílmicas de
cracia Cristã etc., sempre se sente
totalmente convincente de todas as Jesus, inclusive pelo Vaticano?
ressoar os passos de uma marcha na
coisas que procurava. Na verdade,
direção de um amadurecimento es- Massimo Pampaloni – Vou di-
foi a imagem da inquietação uni-
piritual, especialmente desde que ele zer algo que talvez pareça “herético”,
versal: sempre oprimido pela carga
entrou no mundo do cinema, desde mas em se tratando de Pasolini eu
moralista. Independentemente do
os anos 196014. não posso calar. Eu acho que é um
que se possa dizer, talvez até mes-
mo em seu pecar quotidiano, foi um A “mística” de Pasolini, então, tal- grande filme, porque foi feito por um
dos mais inocentes, um dos mais vez seja encontrada em outra defi- grande diretor, com essa abertura
puros. Ninguém sofreu mais do que nição, que pode impressionar à pri- interior dentro dos limites mencio-
ele a sua condição, e ninguém pagou meira vista, dada por Turoldo: “Ele nados no início desta entrevista18.
Mas, de acordo com meu mestre Ta- 23
como ele para ser ele mesmo”13. era um missionário, se sentia em
uma missão; Ele tinha a tarefa de ddei — e eu concordo plenamente —,
Assim, a primeira resposta à sua quando Pasolini grava o filme, essa
denunciar o mal. Ele sempre sonhou
com libertação do pecado, ainda que nostalgia do sagrado não está ain-
fosse um pecador, e um grande pe- da totalmente em ação. Certamen-
10 N. TADDEI et. AA.VV., Fede e non credenza nel
cinema contemporaneo, Roma, CSCS, 1969, cito cador! O senso do mal nele é trágico. te, diz Taddei, estamos um passo à
da versão eletrônica, sem indicação de páginas, frente em relação à primeira fase da
gentilmente disponibilizadas pela Sra. G. Grasselli, Ele sempre sonhou com uma igreja
durante anos secretária e assídua colaboradora que o salvasse, apesar de ter desis- sua filmografia (Accattone de 1961,
de Nazareno Taddei e hoje presidente do CiSCS,
o centro de estudos fundador por Taddei. (Nota tido de qualquer igreja. Na verdade, Mamma Roma de 1962, La Ricotta
do entrevistado) de 1963, filme que implicou na sua
11 David Maria Turoldo (1916 - 1992): padre, no final das contas, ele desiste inclu-
teólogo, filósofo, escritor e poeta italiano, mem- sive da igreja marxista”15. condenação por desacato à religião).
bro da Ordem dos Servos de Maria. Não era ape-
nas um poeta, figura profética na eclesial e forte Estamos ainda na dimensão total-
defensor civil de instâncias de renovação cultural Finalmente, uma observação muito mente terrena, embora sempre cen-
e religioso, destaque para sua inspiração para re- aguda de Taddei. Ingmar Bergman16
conciliação. Ele é considerado por alguns um dos trado no ser humano.
representantes mais importantes de uma mudan- (1918-2007) ou o mesmo Fellini, em-
ça de catolicismo na segunda metade do 900 , o O Evangelho segundo São Mateus
que lhe valeu o título de ‘consciência pesada da
Igreja’, (Nota do IHU On-Line) (1964) e Édipo Rei (1967) são uma
12 “[...] Pasolini continua sendo comunista, con- 14 N. Taddei, “Pasolini. La nostalgia del sacro”. Se-
tinua sendo um companheiro, ainda crê naquela minário de estudos – Cittadella Cristiana, Assis, pesquisa a respeito das raízes anti-
direção; ele tem uma visão muito mais realista e 9-13/1988, in EDAV, nn. 158-159, abril-maio 1988, gas, da sabedoria do passado. Mas o
livre do que todos os outros intelectuais. Pasolini pp. 16-23, aqui: p. 22. (Nota do entrevistado)
nunca teria se vendido a esses agrupamentos po- 15 In D. M. TUROLDO, Pasolini, poeta inquieto, Jesus do Evangelho de Mateus é de-
líticos nascidos depois, que são de um pobreza, solo e innocente. Il ricordo di David Maria Turol-
de uma miséria e de um pragmatismo únicos. É do, no site do Centro de Estudos Pier Paolo Pa- liberadamente privado de quaisquer
verdade que ele também sentia o desmorona- solini de Casarsa della Delizia, in https://goo.gl/ características divinas. É uma obra,
mento das ideologias, mas nunca teria acabado KOBiUF [último acesso: 04/05/2017]. (Nota do
no pragmatismo; muito menos nesse pragmatis- entrevistado) no entanto, para questionar, assim
mo, agora até socialista e religioso. Apenas para 16 Ernst Ingmar Bergman (1918-2007): drama-
te dizer em que quadro eu inseriria esses proble- turgo e cineasta sueco. Estudou na Universidade
mas e em que vastidão se deveria reler tudo o que de Estocolmo, onde se interessou por teatro e, 17 N. TADDEI, “Pasolini. La nostalgia del sacro”.
aconteceu e que está acontecendo”, in D. M. TU- mais tarde, por cinema. Iniciou a carreira em 1941, Seminário de estudos – Cittadella Cristiana, Assis,
ROLDO, Pasolini, poeta inquieto, solo e innocente. escrevendo a peça teatral “Morte de Kasper”. Em 9-13/1988, in EDAV, nn. 158-159, abril-maio 1988,
Il ricordo di David Maria Turoldo, no site do Cen- 1944, desenvolveu o primeiro argumento para o pp. 16-23, aqui: p. 22. (Nota do entrevistado)
tro de Estudos Pier Paolo Pasolini de Casarsa della filme “Hets”. Realizou o primeiro filme em 1945, 18 Eu também, como o meu mestre Taddei, he-
Delizia, in https://goo.gl/KOBiUF [último acesso: “Kris”. Seus trabalhos lidam geralmente com sito em chamá-lo de obra-prima, porque, como
04/05/2017]. (Nota do entrevistado) questões existenciais, como a mortalidade, a so- muitos diretores, aliás, Pasolini, embora seja ex-
13 In D. M. TUROLDO, Pasolini, poeta inquieto, lidão e a fé. Sobre o cineasta, confira a entrevista cepcional nas cenas individuais, não leva em con-
solo e innocente. Il ricordo di David Maria Turol- com Andreia Vasconcellos, intitulada Bergman e sideração o fato da diferença fundamental entre
do, no site do Centro de Estudos Pier Paolo Pa- o contínuo turbilhão contraditório da dúvida exis- a estrutura de uma obra literária e a de uma obra
solini de Casarsa della Delizia, in https://goo.gl/ tencial, publicada na revista IHU On-Line núme- cinematográfica. Mas se trata sempre de uma “fi-
KOBiUF [último acesso: 04/05/2017]. (Nota do ro 412, de 18-12-2012, disponível em http://bit. neza” dentro de um filme que, contudo, continua
entrevistado) ly/2eX8g0Z. (Nota da IHU On-Line) sendo magnífico. (Nota do entrevistado)

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como se pode questionar qualquer deste desejo aparece em uma outra Jesus é esse que ele apresenta
sábio do passado. O mesmo Pasoli- obra-prima que se intitula Teorema no filme?
ni disse: “Eu quero fazer uma obra de 1968.
Massimo Pampaloni – Eu di-
de poesia. Não é uma obra religiosa
Agora sim, posso responder a sua ria que cada representação cine-
no sentido usual do termo, nem uma
pergunta. O filme deixa essa mara- matográfica da história de Jesus
obra de alguma forma ideológica.
vilhosa sensação de “religiosidade”, Cristo é diferente uma da outra.
Em palavras muito pobres e simples:
porque o assunto é tratado com Assim colocada sua pergunta, po-
eu não acredito que Cristo é o filho
grande respeito e abertura ao texto deria parecer que estas “outras” se-
de Deus, porque eu não sou um cren-
do Evangelho. Mas todas as dimen- jam homogêneas e que, ao contrá-
te — pelo menos na consciência. Mas
sões divinas no sentido pleno da pa- rio, esta representação de Pasolini
eu acredito que Cristo é divino: eu
lavra foram removidas. Certamente, seria diferente das outras em al-
penso, isto é, que nele a humanida-
o Cristo de Pasolini, para Pasolini, guma coisa. Todas são expressões
de é tão elevada, rigorosa, um ideal
não é Jesus Cristo, Filho de Deus, do mundo interior e do horizonte
para ir além dos termos comuns da
encarnado para nos salvar. Porém a de consciência do autor. Nenhuma
humanidade. Por isso eu digo “poe-
sua atuação é tão fina e delicada, é delas é a “verdadeira” história de
sia”: um instrumento irracional para
tão respeitosa em acompanhar o rit- Cristo! Cada filme é uma visão que
expressar os meus sentimentos irra-
mo do texto de Mateus, que o fiel que o diretor queria dar, é a sua visão:
cionais em relação a Cristo”19. Não
assiste ao filme consegue facilmente da figura de Jesus, ou de um aspec-
é difícil compreender que “divino”
“integrar” aquilo que está faltando. to particular da sua história. Todos
aqui é identificado com o irracional e
Não surpreende que um incrédulo os filmes seguem este raciocínio.
não com a fé na divindade de Cristo
aprecie o filme por sua carga “revo-
(pelo menos no início ele não se pre- Tome A Última Tentação de
lucionária”, pois Pasolini a colocou;
ocupava com as questões acerca da Cristo, o filme de Martin Scorse-
e esta pessoa vai estar alinhada a
existência de Cristo)20. se23 (1988), adaptado do romance
reduzir Cristo a uma simples ima-
N.  Kazantzákis (1883-1957)24. Aqui
Digo isto porque Pasolini era um gem poética, ou a um personagem
Scorsese imaginou que Jesus, na
homem profundamente humilde, socialmente engajado. O crente, ao
cruz, teve que lidar com a sua maior
24 pronto para aprender com a realida- contrário, admirando esta obra, vai
tentação: acreditar que a Cruz era
de. Durante uma exibição do filme integrar sem perceber aquilo que
desnecessária; que não era necessá-
Édipo Rei para os alunos da Facul- está faltando e terá uma grande ex-
rio ir até o fim com a sua oferta de
dade de Medicina da Universidade periência estética que, para ele, vai
amor ao homem; e que ele poderia
Católica de Roma, organizada por adquirir dimensão espiritual. Aquele
viver uma vida “normal”. Da mesma
Nazareno Taddei, Pasolini também que conhece a linguagem do cinema,
forma, o filme muito criticado — na
foi. No final do filme se estabeleceu e pode ler o filme, vai distinguir, as-
minha opinião injustamente — A
um diálogo entre Taddei e Pasolini. sim como Taddei, a ideia central que
Paixão, de Mel Gibson25 (2004), tem
Em certo ponto Taddei diz a Pasolini Pasolini quis comunicar através da
que ele percebeu uma certa nostal- linguagem do cinema: “O Evangelho
23 Martin Scorsese (1942): cineasta, ator, produ-
gia de Deus, tomando como exemplo de Mateus é um texto antigo que — tor e roteirista norte-americano. De sua filmogra-
alguns elementos do filme. No iní- através da história de Cristo, homem fia, destacamos A Última Tentação de Cristo e A
ilha do medo. Martin Scorsese também é diretor
cio Pasolini negou veementemente: misteriosamente nascido de uma do filme Silêncio (2016). O IHU publicou uma séie
de textos debatendo o filme. Entre eles Todos os
“Não, não. Não há nostalgia de Deus; virgem, que viveu misteriosamente sons do silêncio de Deus. Artigo de Roberto Espo-
há apenas o contraste entre o mundo fazendo milagres e depois tortura- sito, disponível em http://bit.ly/2op1TXE; e Em ‘Si-
lêncio’, de Scorsese, questão linguística se esvai, O
racional e irracional”. Mas, no final do por suas doutrinas contrárias ao comentário é de Inácio Araujo, crítico de cinema,
publicado por Folha de S. Paulo, disponível em
do diálogo, ele exclamou: “Mas sabe estabilishment de seu tempo — tor- http://bit.ly/2nXGdVY. Vejo outros textos em ihu.
que você tem razão? Agora que pen- nou-se emblema para uma vida ple- unisinos.br/maisnoticias/noticias. Há, ainda, um
Medium produzido pelo IHU sobre o filme. Acesse
so sobre isso, quando eu estava fa- na de humanidade, mas obrigatório em http://bit.ly/2qJytbH (Nota da IHU On-Line)
24 Níkos Kazantzákis (1883 —1957): foi um
zendo o filme, estava lendo um livro em relação à luta contra os poderes escritor, poeta e pensador grego. Comumente
(e citou o livro) que tratava de como, tirânicos que se sucedem nas dife- considerado o mais importante escritor e filóso-
fo grego do século XX, tornou-se mundialmen-
da natureza, é possível elevar-se a rentes épocas da história”22. te conhecido depois que, em 1964, Michael Ca-
Deus. é perceptível que, sem querer, coyannis realizou o filme Zorba, o Grego baseado
em seu romance homônimo (em grego: Βίος και
na verdade, eu expressei este desejo Πολιτεία του Αλέξη Ζορμπά). É também o autor
IHU On-Line – No que a re- grego contemporâneo mais traduzido. (Nota da
de Deus”21. Porém, a clara presença IHU On-Line)
presentação do Martírio de 25 Mel Gibson (1956): ator, diretor de cinema,
produtor cinematográfico e roteirista nascido nos
19 Carta de Pasolini ao Dr. Lucio Caruso, feverei- Jesus Cristo feita por Pasolini Estados Unidos e naturalizado australiano. No
ro de 1963, citada em “Compie 50 anni il Vangelo difere de tantas outras? Que início de sua carreira, recebeu elogios de críticos
secondo Matteo di Pier Paolo Pasolini”, in EDAV, e comparações com estrelas do cinema clássico.
n. 422, set. 2014, pp. 3-8, aqui: p. 3. (Nota do en- Estrelou filmes de ação, como as séries Mad Max
trevistado) e Máquina mortífera, mas ampliou sua atuação
20 Cfr. N. Taddei, “Il Vangelo secondo Matteo di 9-13/1988, in EDAV, nn. 158-159, abr.-mai. 1988, para papéis como Hamlet e comédias. Como di-
Pier Paolo Pasolini”, in EDAV, n. 276, jan. 2000, pp. pp. 16-23, aqui: p. 20. (Nota do entrevistado) retor e produtor, é responsável por títulos como
6-18, aqui: p. 6. (Nota do entrevistado) 22 N. TADDEI, “Il Vangelo secondo Matteo di Pier Coração valente (1995), O Patriota (2000), A pai-
21 N. Taddei, “Pasolini. La nostalgia del sacro”. Se- Paolo Pasolini”, in EDAV, n. 276, jan. 2000, pp. 6-18, xão de Cristo (2004) e Apocalypto (2006). Durante
minário de estudos – Cittadella Cristiana, Assis, aqui: p. 10. (Nota do entrevistado) dez anos, foi considerado “persona non grata” em

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uma dimensão teológica de grande a atenção para algumas coisas. No de março de 1963 sobre a abertura
profundidade, mas para ser lida e dia 4 de outubro de 1962, Pasolini se para o mundo católico; e a Pacem in
identificada exige conhecer não só hospedou no Pro Civitate Christia- Terris32, do Papa João XXIII, de 11
a linguagem do filme, mas também na, fundada em Assis em 1939, por de abril de 1963. O roteiro do filme,
a teologia e a patrística. Neste fil- um padre da diocese de Milão, Don que terminou em 8 de maio de 1963,
me podem ser encontrados todos Giovanni Rossi. O trabalho apostó- foi influenciado por esta atmosfera33.
os grandes temas cristológicos dos lico desta organização destacou-se Lembremos que após a morte do
Padres da Igreja dos primeiros cinco significativamente, sobretudo no Papa em junho do mesmo ano, Pa-
séculos. Pasolini está interessado em pós-Vaticano II28, como um lugar de solini dedicou o Evangelho segundo
Cristo como um símbolo dos ideais paz e evangelização no espírito do Mateus à “querida, feliz, memória
em que acreditava no momento em Concílio29. Foi durante a sua estadia familiar de João XXIII”.
que ele fez o seu filme: um revolu- em Assis, na ocasião visitada por
Quando João XXIII morreu, Pa-
cionário, uma vítima do sistema que João XXIII30, por ocasião da abertu-
solini estava na Palestina para fa-
não tolera aqueles que vão contra. ra do Concílio Vaticano II, que Pa-
zer algumas inspeções, que deram
solini teve a ideia de fazer um filme a
origem ao documentário Inspeções
partir do Evangelho de Mateus, por-
IHU On-Line – Como compre- na Palestina para o Evangelho de
que tinha lido uma cópia deste evan-
ender a opção de Pasolini pelo Mateus. De certa forma desapon-
gelho no quarto onde estava hospe-
Evangelho de Mateus e não por tado, porque não tinha encontrado
dado. O clima daqueles dias girava
outra narrativa bíblica sobre o a atmosfera que queria, ele passou
em torno de dois polos: o famoso
Martírio de Cristo? a buscar o lugar ideal em Matera
discurso do secretário do Partido
(onde filmou nas famosas “pedras”,
Massimo Pampaloni – O Evan- Comunista Italiano, e membro in-
ou seja, casas rupestres, assim como
gelho de Mateus se presta, mais do fluente do Comitê Soviético Central,
fez Mel Gibson para The Passion),
que qualquer outro, a uma narrati- Palmiro Togliatti31, realizado em 20
Massafra, o Etna...: tudo foi filmado
va que se encaixava no horizonte de no Sul da Itália; bem como para a
Pasolini. Mas aqui há um paradoxo, teo, Milano: Garzanti, 1964. Recentemente R. Chie-
escolha do elenco, Pasolini foi leva-
si, (ed.), Cristo mi chiama ma senza luce. Pier Paolo
que passou despercebido por muitos Pasolini e il Vangelo secondo Matteo, Recco: Le do pelo desejo de ter rostos que não
comentaristas. Muitos justificam di- Mani Editore, 2015. (Nota do entrevistado) 25
28 Concílio Vaticano II: convocado no dia 11- lembravam atores profissionais, so-
zendo que o motivo pelo qual foi es- 11-1962 pelo papa João XXIII. Ocorreram quatro
bretudo para a figura de Cristo. Foi
sessões, uma em cada ano. Seu encerramento
colhido este evangelho seria porque deu-se a 8-12-1965, pelo papa Paulo VI. A revi- escolhido Enrique Irazoqui34, que na
manifesta em modo exuberante a são proposta por este Concílio estava centrada
na visão da Igreja como uma congregação de fé, época era um sindicalista catalão de
dimensão humana de Cristo. Na re- substituindo a concepção hierárquica do Concílio menos de vinte anos. Para o papel de
anterior, que declarara a infalibilidade papal. As
alidade não é assim. O Evangelho de transformações que introduziu foram no sentido Nossa Senhora já idosa, tomou uma
Mateus tem como objetivo mostrar da democratização dos ritos, como a missa rezada
em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos decisão que acabou famosa, quando
que Jesus é o Messias esperado, o diferentes países. Este Concílio encontrou resis- escolheu sua própria mãe, Susanna.
tência dos setores conservadores da Igreja, de-
Filho de Deus. Porém, mesmo tendo fensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus
declarado repetidamente a sua in- frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando Assim, a busca de lugares onde fil-
a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Con-
tenção de não tocar ou acrescentar cílio Vaticano I. A revista do Instituto Humanitas mar e a escolha do elenco mais uma
nada ao texto simples de Mateus, Pa- Unisinos – IHU, publicou na edição 297 o tema vez giram em torno do homem. Em
de capa Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de
solini corta claramente as partes que 15-6-2009, disponível em https://goo.gl/GVTuEO, sua viagem para a Palestina foi dito
bem como a edição 401, de 3-9-2012, intitulada
mostram a divindade de Cristo26. Concílio Vaticano II. 50 anos depois, disponível
em https://goo.gl/5IsnsM, e a edição 425, de 1924, entrou para o Comitê Executivo da Inter-
1-7-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como nacional Comunista, da qual foi Secretário entre
evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail 1937 e 1939, na Espanha, durante a Guerra Civil.
IHU On-Line – Como foi a pre- Bakhtin e seu Círculo, disponível em https://goo. Em 1944, Togliatti retornou à Itália, e foi eleito
gl/8MDxOM. Em 2015, o Instituto Humanitas Secretário Geral do Partido Comunista. (Nota da
paração de Pasolini para rodar O Unisinos – IHU promoveu o colóquio O Concílio IHU On-Line)
Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto 32 Pacem in terris: Carta encíclica do Papa João
Evangelho segundo São Mateus? das transformações tecnocientíficas e sociocultu- XXIII a todos os homens e mulheres de boa- von-
rais da contemporaneidade. As repercussões do tade, com uma mensagem de esperança. A Pacem
Massimo Pampaloni – Toda a evento podem ser conferidas na IHU On-Line in Terris enuncia quatro critérios para uma socie-
466, de 1-6-2015, disponível em https://goo.gl/ dade em paz: verdade, justiça, amor e liberdade.
história já foi bem explicada em ou- LiJPrZ. (Nota da IHU On-Line) Trata-se de quatro valores tão essenciais que
29 Cfr. T. Subini, La necessità di morire. Il cinema di constituem não somente os sinais que nos per-
tros lugares27. Limito-me a chamar Pier Paolo Pasolini e il sacro, Roma: EdS, 2008, 50- mitem reconhecer uma sociedade realizada, mas
52. (Nota do entrevistado) também os quatro princípios que sustêm o edifí-
30 Papa João XXIII (1881-1963): nascido Ange- cio da paz. A revista IHU On-Line já abordou esse
Hollywood por conta de comentários antissemi- lo Giuseppe Roncalli. Foi Papa de 28-10-1958 até tema na edição número 53, datada de 31 de mar-
tas, por dirigir bêbado e ainda em decorrência de a data da sua morte. Considerado um papa de ço de 2003, com o título 40 anos depois: Pacem in
outros escândalos de racismo e violência domés- transição, depois do longo pontificado de Pio XII, terris. (Nota da IHU On-Line)
tica. Depois dessas confusões, participou de fra- convocou o Concílio Vaticano II. Conhecido como 33 Cfr. T. Subini, “Introduzione”, in Tre studi su “Il
cassos como O fim da escuridão (2010), Um novo o “Papa Bom”, João XXIII foi canonizado em 2013 vangelo secondo Matteo” di Pier Paolo Pasolini,
despertar (2011) e Plano de fuga” (2012). Voltou a pelo Papa Francisco. (Nota da IHU On-Line) editado por T. Subini, Milano: Raffaello Cortina
dirigir com Até o último homem (2016). (Nota da 31 Palmiro Togliatti (1893-1964): político e di- Editore, 2010, pp. ix-xxi, aqui: p. xii. (Nota do entre-
IHU On-Line) rigente do Partido Comunista da Itália. Usou o vistado)
26 Para os exemplos, pode-se ver o que está es- pseudônimo de Ercole Ercoli e Maria Correnti. 34 Enrique Irazoqui (1944 ): é um ator e acadê-
crito em N. Taddei, “Il Vangelo secondo Matteo di Membro do Partido Socialista Italiano, fez parte mico espanhol. É conhecido do público por seu
Pier Paolo Pasolini”, in EDAV, n. 276, jan. 2000, pp. do grupo dell’ “Ordine Nuevo” e foi um dos fun- papel como Jesus Cristo no filme O Evangelho
6-18, aqui: p. 6.(Nota do entrevistado) dadores do Partido Comunista Italiano. Em 1921 Segundo Mateus de Pier Paolo Pasolini. (Nota da
27 Cfr. G. Gambetti, (org.), Il Vangelo ssecondo mat- foi eleito para o Comitê Central do Partido, e em IHU On-Line)

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

que “[Pasolini não estava interessa- na, RAI, ganhou dois prêmios inter- tos puramente humanos e entra em
do] nas formas arquitetônicas das nacionais de melhor documentário uma dimensão transcendente, você
cidades da Palestina (“pré-cristã e em 1958 e 1959. Pe. Giovanni Rossi de certo modo foi respeitoso, mas o
todas um pouco fúnebres”), queria enviou-lhe uma pré-visualização, entendeu como se fosse uma fábula,
sobretudo ir ao encontro dos ho- por intermédio do padre jesuíta Fa- como uma lenda.”
mens, do cheiro e da cor das estra- varo, do roteiro do filme, para que
“Eu não acredito em Cristo... não
das, sentir a poeira e do ar daque- fizesse uma avaliação. No arquivo
acredito em Cristo... bom, também
les lugares um pouco ‘perdidos no Taddei ainda se conserva a respos-
não é exato. Aos poucos, conforme
tempo….”35. Inclusive o rosto “ver- ta do padre Nazareno: “Muito boa
filmava eu senti a força deste grande
dadeiro” dos protagonistas fazem como sugestão de tradução cinema-
personagem.”
parte dessa busca inquieta e febril da tográfica inspirada no evangelho.
profunda humanidade que via desa- Mas é apenas uma sugestão: ainda “Que para você nem sequer exis-
parecer lentamente, substituída pela existem muitos elementos faltantes tiu.”
vulgaridade e pela violência da mu- para a redação de um roteiro que “Mas eu não sei, e não me importo”
dança antropológica em andamento, possam dar uma ideia de como será
em nome de uma forma sutil, mas o resultado das imagens sugeridas. “Lenda, precisamente”
igualmente horrível, de controle to- Além disso, a partir de uma única “Poesia!”
talitário em nome de um hedonismo sequência, não podemos ver como
de massa. todo o trabalho estará sob o perfil “Certo, poesia! Tudo bem! Mas o
rítmico e de composição do todo”. discurso foi sobre a história.”
Como é possível ver, Taddei não po- “Mas eu respeitei a história”
IHU On-Line – Pasolini teve dia dizer nada sobre o roteiro, exceto
uma espécie de consultor para que as condições iniciais pareciam “A história de quem? Do Cristo, o
produzir O Evangelho segun- ser boas. Taddei foi convidado para Filho de Deus? Por que, então, nas
do São Mateus? O que o senhor a pré-visualização do filme, que teve tentações você colocou aqueles dois
sabe sobre essa história de bas- lugar precisamente na sede da Pro enquadramentos longos após a par-
tidor acerca do filme? Civitate Christiana em Assis. E aqui tida do diabo e não após a última
26 está um detalhe que poucos sabem. resposta de Cristo?”
Massimo Pampaloni – Houve
várias partes interessadas. Algumas Na pré-visualização, o filme não “Mas eu não acredito que Cristo era
são conhecidas. Por exemplo, o pa- mostrava o episódio do Primado de o Senhor do mundo: ele foi tentado
dre Giovanni Rossi era um daque- Pedro. Além disso, após a projeção, pelo diabo e é pronto, só isso”
les que, de alguma forma, apoiaram Taddei, que ainda não havia conhe-
cido Pasolini em pessoa, o viu descer “Então é lenda”38.
Pasolini para o filme. Houve, então,
a figura de Pe. Andrea Carraro, um sozinho para o bar do edifício. Sem Taddei apontou, então, que fal-
usar de muita gentileza, Taddei disse tava o Primado de Pedro e outros
biblista ligado ao Pro Civitate Chris-
tiana36 que o acompanhou na via- então a Pasolini: elementos. Pasolini respondeu que
gem à Palestina, de que já falamos. “Você acredita em Cristo?” ele o tinha filmado, mas não tinha
Mas, surpreendentemente, menos ficado satisfeito. Desde esse dia uma
conhecida é a contribuição de meu Pasolini disse: “O que você quer di- amizade nasceu, intensa e frutuosa,
zer?” com Taddei, até a morte de Pasolini.
professor de linguagem cinemato-
gráfica, já mencionado várias vezes, “Em Cristo como realidade históri- Taddei disse que quando ele foi alu-
Nazareno Taddei37. Eu gostaria de ca e como filho de Deus.” gar pela primeira vez o Evangelho
oferecer aos leitores da IHU On-line segundo Mateus em 16 mm, para o
“Não”, respondeu Pasolini. seu curso, ele percebeu que Pasolini
algumas informações não muito co-
nhecidas. “Está muito claro no filme”, ​​disse o tinha cortado as duas cenas em lon-
padre Taddei. go alcance e tinha inserido a cena do
Em 1962, o padre Taddei já era Primado de Pedro39.
conhecido no campo da comunica- “O que quer dizer?” - respondeu
ção de massa e da leitura de filmes. Pasolini – “é o primeiro católico que Taddei frequentemente convidava
Graças a ele a televisão estatal italia- me diz isso.” Pasolini em seus cursos, outras ve-
zes, quando Pasolini sabia que Tad-
35 P. Spila, Pier Paolo Pasolini, Roma: Gremese,
“Você tocou os aspectos humanos dei faria uma leitura de um de seus
1999, p. 45. (Nota do entrevistado) de Cristo, do nascimento e a primei- filmes, muitas vezes aparecia na pla-
36 Cfr. “Viaggio in Palestina (1963). I ‘Sopralluo-
ghi’ per un ‘Vangelo’ da farsi”, no site do Centro ra parte geral até ….” teia. Taddei sempre era convidado
de Estudos Pier Paolo Pasolini de Casarsa della
Delizia in https://goo.gl/swzzBz [último acesso: “... a chamada dos Apóstolos”,
04/05/2017]. (Nota do entrevistado) 38 Relatado em N. Taddei, “Il Vangelo secondo Ma-
37 Tomo a liberdade de remeter – para um recente completou Pasolini. tteo di Pier Paolo Pasolini”, in EDAV, n. 276, jan.
perfil dele por ocasião dos 10 anos da morte – a 2000, pp. 6-18, aqui: p. 6. (Nota do entrevistado)
M. Pampaloni, “Nazareno Taddei: un pioniere della “Sim, e também a morte. Mas o res- 39 Relatado em N. Taddei, “Il Vangelo secondo Ma-
comunicazione”, La Civiltà Cattolica, IV (2016), pp. tteo di Pier Paolo Pasolini”, in EDAV, n. 276, jan.
492-501. (Nota do entrevistado) to, onde Cristo se destaca dos assun- 2000, pp. 6-18, aqui: p. 6-7. (Nota do entrevistado)

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por Pasolini para a pré-visualização biente familiar; quase sempre aten- e casa, acho que aí estão presentes
de seus filmes. de ao telefone a mãe, ou a sobrinha algumas características humanas
que vive com eles desde que ela era
Termino com uma outra memó- dignas de consideração”40. ■
criança. Telefonei no dia de Natal:
ria de Pasolini contada por padre Pasolini estava lá com sua mãe. Ora, 40 Relatado in N. Taddei, “Pasolini. La nostalgia del
Taddei. “Quando telefono para ele, um homem com a fama de Pasoli- sacro”. Seminário de estudos – Cittadella Cristiana,
Assis, 9-13/1988, in EDAV, nn. 158-159, abr.-mai.
do outro lado do fio se escuta o am- ni, que passa a vida entre trabalho 1988, pp. 16-23, aqui: p. 18. (Nota do entrevistado)

Leia mais
- O cinema como lugar de possibilidade de expressão do Mistério. Entrevista com Massi-
mo Pampaloni, publicada na revista IHU On-Line número 403, de 24-9-2012, disponível em
http://bit.ly/2pNZoQr .
- Divina Comédia. A relação entre poesia e Deus. Entrevista com Massimo Pampaloni, pu-
blicada na revista IHU On-Line número 301, de 20-7-2009, disponível em http://bit.ly/2qIBiXE.

27

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

A força extemporânea de
Pasolini, um trágico moderno
Alex Calheiros observa a vida e obra do artista italiano,
pontuando a potência de seu pensamento que existe
e resiste para além do tempo linear

João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado

S
e são as contradições que nos preendido pelos marxistas, pois dizia
definem como seres humanos, que agora, classe dominante e classe
esse aspecto emerge com força dominada, finalmente, se igualaram.
na vida e na obra de Pasolini. “Veja, Ele não disse que a luta de classes ha-
Pasolini, como ele mesmo disse, está via acabado, ou que as classes haviam
protegido por suas contradições. Dizer acabado, mas que os valores que dife-
que ele é em certo sentido conservador, renciavam uma classe das outras clas-
diz algo, mas diz muito pouco sobre sua ses, agora participavam dos mesmos
figura intelectual; dizer, ao contrário, valores, aquele do consumo”, pontua
que antecipa questões, e preocupações, o entrevistado. “Pasolini nos convoca
típicas do nosso tempo, diz algo, mas a resistir, a encarar a vida como um
também diz pouco. Gosto de dizer que negócio nosso, sem providência, sem
Pasolini é um extemporâneo, para di- destino. A palavra de ordem é resistir.
28 zer que a potência de seu pensamento Édipo o que fez foi resistir, Medeia o
nos abarca com a mesma pertinência que fez foi resistir. Resiste também o
com que abarcou seu próprio tempo”, soldadinho em Salò”, complementa.
avalia o professor e pesquisador Alex
Calheiros, em entrevista por e-mail à Alex Sandro Calheiros de Moura
IHU On-Line. é graduado e doutor em Filosofia pela
Universidade de São Paulo - USP. Atu-
Um dos aspectos que atravessa a
almente é professor da Universidade
obra do poeta e cineasta italiano é a
de Brasília - UnB, onde atua nas áreas
tematização do conflito civilizacional
de Filosofia, com ênfase em História
que marcou o século 20, onde o ca-
da Filosofia, sobretudo nos temas rela-
pitalismo se transformou em forma
cionados ao cinema italiano, realismo,
genocida de cultura. O curioso, no
entanto, é que recebeu crítica inclusi- neorrealismo, crítica e filosofia política.
ve dos marxistas. “Pasolini é incom- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que Paso- tos de desaparecimento de alguma em seus romances, num primeiro
lini pode ser considerado um cultura que resistiu. Por exemplo, a momento, mas depois também, e
intelectual para além de seu cultura camponesa do norte italiano, sobretudo, em seus filmes. Penso
tempo? profundamente cristã, tão bem re- que Roma enquanto personagem em
tratada em sua poesia dialetal, aque- sua obra é a passagem mais impor-
Alex Calheiros – Acho que você
la do dialeto de sua mãe, friulana. tante da obra pasoliniana, pois, de
coloca muito bem a questão. Muitas
O fato de ser a cultura materna diz certa forma, ele sai de uma perspec-
vezes Pasolini é entendido como um
muito, e poderíamos falar muito so- tiva mais provinciana e se torna um
conservador, já que reclama a perda
bre o dispositivo edipiano usado por poeta nacional, um poeta civil, pois
de culturas milenares que estão de-
Pasolini aqui. Mas depois também passa a falar mais claramente da Itá-
saparecendo de maneira rápida. Se
há a perda das culturas citadinas, lia, e da cidade para o mundo, para
olharmos bem, em sua obra, Pasolini
como aquela romana ou napolitana, usar uma velha formulação, que não
vai tematizar justamente os momen-
mas sobretudo romana, destacada gostaria fosse entendida do ponto

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“Gosto de dizer que Pasolini é um


extemporâneo, para dizer que a
potência de seu pensamento nos
abarca com a mesma pertinência
com que abarcou seu próprio tempo”

de vista imperialista ou colonizador, nosso tempo. As questões que Paso- sua substituição por uma forma de-
mas justamente, cosmopolita. lini colocou naquele momento ainda vastadora e genocida de cultura, que
nos interpela, mas é preciso também era aquela, como eu disse, neocapita-
Pasolini, torna-se, finalmente, um
estar atento para as diferenças cultu- lista, fundada no consumo. Lembre-
poeta civil. Depois, sabemos, sua re-
rais e políticas que produziram seu -se aqui de Medeia1. Medeia atualiza
flexão estende-se pela África, Orien-
pensamento. a tragédia antiga justamente aqui. O
te Médio, Brasil. Enfim, todo o mun-
desespero de Medeia-Callas, é por
do, antes dito subdesenvolvido, pois Pasolini, é claro, viveu um momen-
conta de seu apagamento, da impos-
é em favor deles que ele se coloca. Tal to completamente diverso do nosso.
sibilidade da convivência de seus va-
atitude por vezes foi encarada pela Por vários motivos, o Brasil nos anos
lores, arcaicos, telúricos, com aquele
crítica como populista. Outras vezes, 1960 e 1970 não era a Itália do mes-
moderno, racional, instrumental, de
paradoxalmente, Pasolini é entendi- mo período, mas o Brasil de agora
Jasão. Por isso, às vezes, Pasolini é
do como uma espécie de profeta do tampouco é a Itália dos anos 1960
incompreendido pelos marxistas,
apocalipse, aquele que aponta para e 1970. São outros percursos histó-
pois dizia que agora, classe domi-
29
as contradições que produzimos e ricos, políticos e culturais. Não há
nante e classe dominada, finalmen-
que inviabilizaram a nossa própria paralelo possível, de um certo modo.
te, se igualaram. Ele não disse que
existência. Inicialmente tratava dis- Por outro lado, há um paralelo pos-
a luta de classes havia acabado, ou
so dum ponto de vista cultural, mas, sível, para além de todas as diferen-
que as classes haviam acabado, mas
por fim, e de fato, prematuramente, ças. Pasolini se dedicou durante toda
que os valores que diferenciavam
também passou a se referir a nos- a sua trajetória, mas de modo mais
uma classe das outras classes, agora
sa existência física. O tema final de dramático no final dos anos 1960
participavam dos mesmos valores,
sua obra trata justamente do desa- e início dos anos 1970, às grandes
parecimento da humanidade. Seria transformações que seu país estava aquele do consumo.
preciso falar mais sobre a questão, sofrendo com o ingresso finalmente Assim, os valores da burguesia ne-
pois Pasolini não está falando meta- num modo de capitalismo avança- ocapitalista seriam os únicos valores
foricamente. A experiência humana do. O que ele, na esteira de outros possíveis. A burguesia neocapitalis-
acabou. críticos, chamava de neocapitalis- ta, violenta e dominadora, não so-
mo, caracterizado principalmente mente calava a voz e a experiência
Veja, Pasolini, como ele mesmo dis-
numa ideia de consumo, não apenas do outro, mas literalmente a estava
se, está protegido por suas contradi-
material, mas sobretudo imaterial, exterminando. Numa guerra só há
ções. Dizer que ele é em certo sentido
um modo de vida inaudito na ex- um vencedor ao seu final, mas de
conservador, diz algo, mas diz muito
periência humana que agora unia todo modo existe. Seus valores são
pouco sobre sua figura intelectu-
aquilo que classicamente sempre os valores de um sujeito subjugado,
al; dizer, ao contrário, que antecipa
esteve separado: a classe dominante escravizado e colonizado. Por isso,
questões, e preocupações, típicas do
e as classes subalternas. Esta união acreditamos, apesar da experiência
nosso tempo, diz algo, mas também
se dava através de valores que não da derrota, na possibilidade da re-
diz pouco. Gosto de dizer que Paso-
eram mais apenas materiais, mas, vanche, da superação. Está aqui o
lini é um extemporâneo, para dizer
principalmente, simbólicos. Estava significado clássico da luta de clas-
que a potência de seu pensamento
aí aquilo que Pasolini caracterizava ses. Mas para que haja luta de clas-
nos abarca com a mesma pertinência
como uma tragédia moderna.
com que abarcou seu próprio tempo.
1 Medeia é uma das personagens mais terríveis e
Por isso sua pertinência hoje. Pasoli- De fato, Pasolini é um trágico e te- fascinantes da mitologia, ao envolver sentimentos
contraditórios e profundamente cruéis, que inspi-
ni não está à frente ou atrás de qual- matiza este conflito civilizacional, raram muitos artistas ao longo da história - na es-
quer tempo, mas para além do seu o desaparecimento de um mundo, cultura, pintura, teatro, cinema, ópera. Sua história
é relida por Pasolini no filme com o mesmo nome,
tempo e, antes de tudo, para além de aquele que se conhecia há séculos, e de 1969. (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

ses, oposição de valores, é preciso talvez, descrença numa possibilida- ra, através de Maquiavel4, a experi-
que haja o outro. Mas não fomos de qualquer de superação. Podemos ência democrática e republicana da
somente escravizados e colonizados dizer que a origem do seu marxismo, vida política. Acho que a grandeza
por tais valores, tivemos nossos va- como para muitos – eu diria quase do marxismo de Pasolini está na ca-
lores aniquilados e por isso os valo- todos – intelectuais do pós-guerra pacidade de produzir dissonâncias,
res burgueses tornaram-se os únicos italiano, significa dizer que ele é de aquilo que chamamos de crítica. Na
valores viáveis e possíveis. Por isso, algum modo gramsciano2. Dizer, no compreensão de que numa vida polí-
em nossa cultura, só há lugar para entanto, que Pasolini é gramsciano tica sadia, nos igualamos na possibi-
o consumo. É disso que fala um dos não diz tudo, pois o gramscianismo lidade, madura, de expressar nossas
textos mais lúcidos de Pasolini: Os no pós-guerra italiano se diz de mui- ideias, nossas discordâncias, mas,
jovens Infelizes. tos modos. Então eu diria que Pa- claro, levando em conta que na po-
solini é um marxista3, de matriz gra- lítica, a crítica visa ao bem comum,
msciana e ainda assim, em Gramsci, o contrário é tirania. Vivemos num
IHU On-Line – Como compre- ele tem uma leitura, se não original, tempo tirânico no sentido pleno da
ender o mal que nos aflige hoje, ao menos dissonante em relação ao palavra. Pasolini levantou-se contra
tendo como inspiração a obra gramscianismo do Partido Comunis- o imperialismo tirânico do capita-
de Pasolini? ta Italiano. lismo contemporâneo e seus apare-
lhos, a televisão, os jornais, a escola.
Alex Calheiros – Ora, o mal que Eu penso aqui que Pasolini se iden-
nos aflige, a tragédia que nos asso- tifica com o Gramsci marxista, mas O cinema de Pasolini guarda uma
la é justamente o desaparecimento com profundas raízes humanistas. E particularidade. É verdade que ele é
dos valores que se opõem aos va- quando falo de humanismo, não es- marxista, um certo marxismo, como
lores de uma sociedade fundada tou me referindo a um humanismo eu disse. Mas as matrizes estéticas
na ideia unicamente do consumo e difuso, como poderia ser, também, o de Pasolini são muitas. Eu destacaria
suas consequências mais imedia- humanismo cristão. Estou pensando as referências trágicas. Então, é ver-
tas. O problema maior não está em naquela que foi a preocupação de dade que Pasolini é crítico do mar-
compreender o Mal instalado, mas Gramsci na experiência carcerária, xismo, como muitos marxistas são
30 em recriar novos valores, em re- quando se dá conta não apenas do críticos do marxismo. Tal fato não
sistir. Noutro texto muito lúcido e autoritarismo do fascismo, mas so- inviabiliza o marxismo. Há muitas
belo, intitulado O genocídio dos va- bretudo do autoritarismo presente tendências e acho que Pasolini tam-
galumes, Pasolini está especulando no campo da esquerda mundial de bém compreendia como natural e
sobre a pertinência ainda da resis- seu tempo, principalmente o stali- benfazeja a crítica. A cinematografia
tência. Resistir a essa força devas- nismo. O marxismo de Gramsci é pasoliniana é vasta, mais vasta ainda
tadora, em sentido pleno, maléfica. peculiar justamente quando recupe- sua obra escrita: poesia, romance,
crítica literária, teatro, crítica cultu-
2 Antonio Gramsci (1891-1937): foi um filósofo ral de modo amplo, textos de inter-
marxista, jornalista, crítico literário e político ita-
venção política, entrevistas, roteiros.
IHU On-Line – O que a cine- liano. Escreveu sobre teoria política, sociologia,
antropologia e linguística. Com Togliatti, criou Enfim, uma obra vastíssima e ainda
matografia de Pasolini revela o jornal L’Ordine Nuovo, em 1919. Secretário do
Partido Comunista Italiano (1924), foi preso em mais complexa que apenas o seu
acerca do marxismo, essencial- 1926 e só foi libertado em 1937, dias antes de cinema. Mas gostaria de destacar a
mente o italiano? Ele pode ser falecer. Nos seus Cadernos do cárcere, substituiu
o conceito da ditadura do proletariado pela “he- sua trilogia grega (Édipo, Medeia e
lido como um crítico desse mo- gemonia” do proletariado, dando ênfase à direção
intelectual e moral em detrimento do domínio do o ensaio cinematográfico intitulado
delo marxista? Estado. Sobre esse pensador, confira a edição 231
da IHU On-Line, de 13-8-2007, intitulada Grams-
Oresteia africana). O elemento trá-
Alex Calheiros – Pasolini em um ci, 70 anos depois, disponível para download em gico, aliás, pode ser visto em toda a
http://www.ihuonline.unisinos.br/edicao/231.
determinado momento declarou-se (Nota da IHU On-Line) sua cinematografia, desde Accattone
um comunista dissidente. Então, em 3 Karl Marx (Karl Heinrich Marx, 1818-1883): fi- e, sobretudo, Salò, seu último filme.
lósofo, cientista social, economista, historiador e
primeiro lugar, Pasolini se autode- revolucionário alemão, um dos pensadores que Aqui nós temos uma questão inte-
clara um comunista. Heterodoxo, é exerceram maior influência sobre o pensamento
social e sobre os destinos da humanidade no sé- ressante: se por um lado o marxismo
verdade, mas ainda assim comunis- culo XX. Leia a edição número 41 dos Cadernos apresenta um quadro dramático das
IHU ideias, de autoria de Leda Maria Paulani, que
ta. Estamos então diante de mais um tem como título A (anti)filosofia de Karl Marx, dis- relações sociais, um sistema de opo-
paradoxo. De fato, podemos dizer, ponível em http://bit.ly/173lFhO. Também sobre o
autor, confira a edição número 278 da IHU On-Li-
em linhas gerais, que um comunista ne, de 20-10-2008, intitulada A financeirização do
mundo e sua crise. Uma leitura a partir de Marx, 4 Nicolau Maquiavel (1469-1527): historiador, fi-
acredita na possibilidade de supera- disponível em http://bit.ly/ihuon278. Leia, igual- lósofo, dramaturgo, diplomata e cientista político
ção de um determinado tipo de cul- mente, a entrevista Marx: os homens não são o que italiano do Renascimento. É reconhecido como
pensam e desejam, mas o que fazem, concedida fundador da ciência política moderna por escre-
tura, no caso, a capitalista, ou neo- por Pedro de Alcântara Figueira à edição 327 da ver sobre o Estado e o governo como realmente
IHU On-Line, de 3-5-2010, disponível em http:// são, e não como deveriam ser. Separou a ética da
capitalista. Um comunista acredita, bit.ly/2p4vpGS. A IHU On-Line preparou uma política. Sua obra mais famosa, O Príncipe, foi de-
ou deveria acreditar, na transforma- edição especial sobre desigualdade inspirada no dicada a Lourenço de Médici II. Confira a edição
livro de Thomas Piketty O Capital no Século XXI, 427 da IHU On-Line de 16-9-2013, A política des-
ção, mas, em seus filmes, sobretudo, que retoma o argumento central da obra de Marx nudada. Cinco séculos de O Príncipe, de Maquiavel,
O Capital, disponível em http://www.ihuonline. disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br/
acompanhamos gradativamente sua, unisinos.br/edicao/449 . (Nota da IHU On-Line) edicao/427. (Nota da IHU On-Line)

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sições produtivas, pois pressupõe dos homens era determinada pelos responsáveis por nossas vidas, mas
obviamente uma superação dese- deuses, como se disse, pela força do nós mesmos.
nhada no horizonte revolucionário, destino, infinitamente mais forte
De certo modo, Pasolini é um trá-
no fim da luta de classes e da domi- que qualquer mortal. Sendo a tragé-
gico, um trágico moderno. Mudaram
nação, no fim da ideologia; a tragé- dia o fim desta ordem, sua narrativa
os deuses que supostamente domi-
dia, por outro lado, significa exata- representa também a transformação nam nossas vidas, mudaram os va-
mente a incapacidade do indivíduo do mundo. Ora, a tragédia é irmã lores antagônicos que nos colocam
de exercer ou vislumbrar qualquer de outras duas instituições gregas, em uma condição trágica, aquela de
transformação possível. A tragédia a cidade e a filosofia. Tanto a cidade decidir, aquela de tomar um partido,
acontece num mundo determinado quanto a filosofia significam o triun- mas o esquema é o mesmo. Como
pelo destino, um mundo no qual as fo da liberdade humana diante das trágico e como marxista, a mensa-
forças do indivíduo são fracas diante forças imutáveis do destino. Medeia gem de Pasolini é de certa forma
da força inexorável do destino. Uma mata os filhos não porque é desna- também trágica, no bom sentido da
coisa, no entanto, é a visão trágica turada ou louca, mas para que esta palavra, isto é, pedagógica. Pasoli-
do mundo, a visão antiga do mundo, lógica se encerre. Agora, nos ensina ni nos convoca a resistir, a encarar
outra coisa é a representação trágica. a tragédia, nascida contemporane- a vida como um negócio nosso, sem
A tragédia classicamente também amente com a cidade e a filosofia, providência, sem destino. A palavra
significa a representação do fim de a vida humana é negócio humano, de ordem é resistir. Édipo o que fez
uma ordem, do fim de um mundo. produto das decisões humanas e, foi resistir, Medeia o que fez foi re-
Na antiguidade, a tragédia significa por consequência, responsabilidade sistir. Resiste também o soldadinho
o fim de uma época em que a vida humana. Não são mais os deuses os em Salò.■

31

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TEMA DE CAPA

O socialismo pasoliniano e a crítica à


hipocrisia de quem quer melhorar o mundo
Vinícius Honesko analisa a forma como o artista italiano, sem
uma tolerância que apaga e homogeneíza, resiste a um
neofascismo que se perfaz enquanto capitalismo do consumo
João Vitor Santos

S
egundo o professor Vinícius Ni- apresenta uma perspectiva de tolerância
castro Honesko, Pier Pasolini re- que, muito mais do que movimento de
conhece uma impossibilidade de aceitação do outro, é vista por Pasolini
melhorar o mundo. “Dizia ele que aque- como tolerância do poder comunista,
les que dizem fazer algo para melhorar o “que vem de cima” para que indivíduos
mundo são cretinos e, quando menos se se tornem “bons consumidores”.
espera, acabam presos por calúnia”, ex- Vinícius Nicastro Honesko é gra-
plica. Dado que, com isso, o mundo pode duado em Direito pela Universidade
piorar, “cabe a nós lutar não para que Estadual de Londrina, no Paraná, mes-
melhore, mas para evitar sua piora; lutar tre em Filosofia e Teoria do Direito pela
por manter um mínimo e, quiçá, por uma Universidade Federal de Santa Catarina
sociedade verdadeiramente socialista”. - UFSC e doutor em Literatura pela mes-
Honesko, em entrevista concedida por ma instituição. Fez estágio pós-doutoral
32 e-mail à IHU On-Line, destaca que o na Universidade Estadual de Campinas
“socialismo” de Pasolini está diretamente - Unicamp e atualmente é professor do
ligado com a ideia de anarquia do poder. Departamento de História e do pro-
“Uma sociedade verdadeiramente socia- grama de pós-graduação em História
lista não pode advir de uma estrutura da Universidade Federal do Paraná -
que, em si, recobre o vazio e vela para que UFPR. É autor do livro O Paradigma
este não seja exposto enquanto tal, mas do Tempo: Walter Benjamin e messia-
só pode ser fruto da resistência revolto- nismo em Giorgio Agamben (Vida e
sa que incessantemente é preciso manter consciência; 2009) e de vários ensaios
em pé”, completa. e capítulos de livro. Ainda atua como
Por fim, o professor ainda atualiza o tradutor, com destaque para traduções
conceito de neofascismo. Segundo ele, de obras de Giorgio Agamben. Entre as
“o neofascismo denunciado por Pasolini elas, destacamos O que é o Contempo-
é como uma espécie de imagem sombria râneo? e outros ensaios (Argos: 2009),
da obsessão pelo consumo que naqueles Categorias Italianas. Ensaios de poéti-
anos embrenha-se na sociedade italiana ca e literatura (UFSC: 2015) e Bartley,
e começa a lhe corroer qualquer sentido ou da contingência (Autêntica: 2015)
de, justamente, comum”. Assim como Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor os primeiros contatos que com sua – lembro de A Ricota (1963) e dos
compreende a obra de Pier Pao- obra se tem, por vezes alguns incô- textos ensaísticos de Pasolini para
lo Pasolini? Por que o trabalho modos – e lembro-me de quando os jornais e revistas italianos, com os
do cineasta e escritor italiano pela primeira vez vi Teorema (1968), quais desde o início senti como que o
lhe desperta interesse? por exemplo –, outras vezes até mes- fenômeno do “bom encontro”.
mo certa repulsa – e evoco aqui Salò
Vinícius Nicastro Honesko (1975), sobretudo para aqueles que A “obra” de Pasolini identifica-se
– Pasolini é uma figura complexa, com ele topam de modo desavisado em muito com a própria imagem
multifacetada, que desperta, desde –, outras tantas certa identificação do poeta-diretor. Lembro-me de

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“A dimensão desse
socialismo pasoliniano
diz respeito à posição
de resistência”

um pequeno documentário de Car- crítica literária, passando por seu ci- Vinícius Nicastro Honesko –
lo di Carlo1, de 1967, em que Paso- nema e teatro, ingressando em seus Com essa ideia, fiz menção a um pe-
lini diz, apontando para o sofá onde textos sobre a política e a sociedade, queno texto em que Pasolini falava
encontram-se algumas edições de Pasolini não se estaca num período sobre a impossibilidade de melho-
seus livros: “A história da minha determinado e ali fica recluso como rar o mundo. Dizia ele que aqueles
vida é a história dos meus livros. Eis numa cripta, mas parece estar lam- que dizem fazer algo para melhorar
meus livros e, aqui, neste sofá, está pejando. Sua figura parece lampejar o mundo são cretinos e, quando me-
praticamente toda minha vida”. A ainda hoje, como alguém que nos nos se espera, acabam presos por
obra de Pasolini confunde-se com propõe certo olhar para o mundo calúnia. O mundo, continuava ele,
os gestos de Pasolini, confunde-se que, sim, pode sempre piorar (como pode sim piorar, mas cabe a nós lu-
com seu corpo de tal modo que sua ele costumava dizer). tar não para que melhore, mas para
figura é, em todo seu caráter para- evitar sua piora; lutar por manter
doxal (oximoro, como ele mesmo se Em suma, a “obra” de Pasolini,
um mínimo e, quiçá, por uma socie-
definia), carregada de tensões e, por como você se refere, é muito mais
dade verdadeiramente socialista.
33
isso, desperta interesses não só de um movimento constante de tudo
leitura – algo como uma curiosida- isso que é a figura de Pasolini; e os Essa imagem do socialismo tem
de por decifrar verdades históricas diversos incompletos, projetos etc. para Pasolini um peso enorme. No
de um contexto, a Itália dos 60 e 70, que encontramos em seus papéis são contexto em que escreve, é preciso
ou por compreensão da constituição a mostra de alguém que nunca para- lembrar, os embates pessoais dele
dos debates públicos em torno à so- va diante de uma ideia, mas que, pelo com o Partido Comunista Italiano –
ciedade, ao cinema e artes, à política contrário, era capaz de abandoná-la PCI eram imensos: pressentia que,
etc. –, mas de diálogo. em absoluto, de refazê-la dos pés à do ponto de vista institucional, o
cabeça, de não parar o movimento PCI ainda era o que restava à Itália
Digo, sobretudo, que Pasolini é al- de vida que seus gestos cumpriam (ainda carregava certa “força do pas-
guém com quem conversar, um con- em cada obra. sado”, dizia), mas, desde o lugar da-
temporâneo nosso com o qual ainda quele que luta para evitar uma “piora
podemos fazer lampejar imagens no do mundo”, era falho, insuficiente e
constante momento de perigo que IHU On-Line – Certa vez, o logo acabaria por “trair a causa”, por
é o presente, para lembrar Walter senhor referiu o autor como assim dizer (e não custa lembrar que
Benjamin2. Desde seus poemas à sua alguém “verdadeiramente os acordos firmados pelo PCI com os
socialista”3. O que isso signifi- democratas cristãos, tendo como ho-
1 Carlo Di Carlo (1938-2016): foi um documenta-
rista italiano. Dedicou-se à realização de curtas- ca tanto na perspectiva política rizonte intransponível a “governabi-
metragens e vários documentários, alguns dos quanto na crítica social desferi-
quais foram premiados em festivais e alcançou lidade”, seriam o exemplo da pedra
acima da média consciência, de modo La men- da por Pasolini? de toque dos contextos de instaura-
zogna di Marzabotto e Dove va la Germania? Uma
e outra vez ele se aproximou de seus diretores fa- ção do neoliberalismo nos fins dos
voritos Antonioni e Pasolini nestas obras. (Nota da original para a teoria estética. Entre as suas obras
IHU On-Line) mais conhecidas, estão A obra de arte na era da 70 e início dos 80).
2 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. sua reprodutibilidade técnica (1936), Teses sobre o
Foi refugiado judeu e, diante da perspectiva de conceito de história (1940) e a monumental e ina- O horizonte “socialista” de Pasolini
ser capturado pelos nazistas, preferiu o suicí- cabada Paris, capital do século XIX, enquanto A ta-
dio. Associado à Escola de Frankfurt e à Teoria refa do tradutor constitui referência incontornável passava por outros lugares: a “nos-
Crítica, foi fortemente inspirado tanto por auto- dos estudos literários. Sobre Benjamin, confira a
res marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo entrevista Walter Benjamin e o império do instan- talgia” da vida – que não era um
místico judaico Gershom Scholem. Conhecedor te, concedida pelo filósofo espanhol José Anto- amor pelo passado, mas um “amor
profundo da língua e cultura francesas, traduziu nio Zamora à IHU On-Line nº 313, disponível em
para o alemão importantes obras como Quadros http://bit.ly/zamora313. (Nota da IHU On-Line) pela vida” que restava, digamos,
parisienses, de Charles Baudelaire, e Em busca do 3 A referência foi feita durante conferência de
tempo perdido, de Marcel Proust. O seu trabalho, Honesko promovida pelo Instituto Humanitas ainda fora da apreensão pela lógica
combinando ideias aparentemente antagônicas Unisinos – IHU. A reportagem sobre essa pales- avançada do capitalismo de então –,
do idealismo alemão, do materialismo dialético tra pode ser lida em http://bit.ly/2pZPo9T. (Nota
e do misticismo judaico, constitui um contributo a IHU On-Line) a contestação radical do mundo neo-

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TEMA DE CAPA

capitalista (e o colocar em jogo o pró- forma como os governos, naqueles ferenças culturais e modos de vida,
prio corpo nessa crítica), a insistência anos, estão se rearranjando em prol não à TV (por mais que nela se expu-
em lutar contra a deglutição das cul- da sistemática capitalista financeira sesse para, justamente, dizer não),
turas pelos vícios da homogeneiza- – inclua-se aí o PCI! –, algo que nos mas também não aos jovens burgue-
ção promovida pela “civilização do dias de hoje se faz uma platitude, é ses universitários que se rebelavam
consumo” que estava se instaurando prova disso), mas só pode ser fruto em 68, não ao aborto (que, naquele
naquele contexto italiano etc. Em da resistência revoltosa que inces- contexto, acabaria por ser um modo
suma, a dimensão desse socialismo santemente é preciso manter em pé. de legitimar, mais do que um direito
pasoliniano diz respeito à posição de das mulheres, o gozo capitalístico).
resistência, apesar de tudo. Não pen-
IHU On-Line – De que formas As provocações de Pasolini passa-
so que ele tenha sido um utópico, mas
as provocações de Pasolini po- vam pelo corpo. Já disse8 que Paso-
muito mais alguém que, nisso talvez
dem nos inspirar a pensar nas lini se portava tal qual um Diógenes
– ouso – próximo a um Deleuze4,
questões de nosso tempo? em meio aos aparatos institucionais
pensava essa resistência como uma
dos anos 60 e 70. Um intelectual que
linha de fuga, mesmo que em direção Vinícius Nicastro Honesko – apostava a vida desarrazoadamen-
do próprio coração do problema: por Respondo ao som de Velha roupa te, se podemos dizer assim. Não um
exemplo, seu “romance” Petróleo se- colorida, do Belchior6, que acaba de delírio, mas tomado de pathos, de
ria uma espécie de denúncia das atro- falecer. E o verso “o passado é uma emoção – também não num sentido
cidades do poder, digamos assim; seu roupa que não nos serve mais” talvez psicologizado –, de paixão (e ainda
Salò seria uma alegoria de como ele seja uma espécie de eco pasoliniano antes de seu despontar como grande
via o poder não na Salò fascista da no rapaz latino-americano que insis- diretor, digamos, já numa coletânea
década de 40, mas na Itália – e no tentemente trabalhava em traduções de ensaios publicada em 1960, esse
mundo – em 1975. e versões da Divina Comédia7 dan- ser tomado pela tentativa de compre-
Ou seja, a resistência pela arte, se tesca. Talvez na mais famosa delas, ensão dos outros – escritores, nesse
assim posso dizer, não com um viés os versos de encerramento possam caso – já se apresentava no título
apenas engajado (como nos traços também ser um modo de, homena- dado ao livro: “Paixão e ideologia”).
de um Sartre5), mas como potencia- geando Belchior, revolver as terras
34 e tradições italianas desde onde nos Pasolini se deixava afetar no pró-
da por ser, mesmo que denunciati-
provoca Pasolini: “Enquanto hou- prio corpo e, como resposta, mui-
va, negação absoluta – e, mais uma
ver, corpo e tempo e / algum modo tas vezes o “não” era a provocação
vez ouso dizer, por um viés talvez
de dizer não / eu canto”. radical. Seu dizer não pode hoje
bataillano ou mesmo blanchotiano:
reverberar como um “Eu preferiria
a potência da resistência de quem Pasolini insistia em dizer não, por não” de Bartleby9 (ainda que a pu-
se sabe impotente; o gesto de quem mais que isso pudesse causar escân- jança pasoliniana seja o reverso da
diz algo mesmo quando nada mais dalo à direita ou à esquerda: não ao apatia do escrevente, mesmo assim,
há para dizer. Parece-me que esse PCI (por mais que soubesse ser, por ambos carregam efeitos próximos
“socialismo” de Pasolini está em co- vezes, o que havia de “saída” à polí- nessa negativa do mundo tal qual se
nexão direta com sua constatação – tica institucional italiana), não aos apresenta), pode nos “inspirar” a ao
sobre a qual falarei logo mais – da democratas cristãos, não à moder- menos pensar em que medida o im-
anarquia do poder: uma sociedade nização capitalista que achatava di- perativo da “ação”, da “melhoria de
verdadeiramente socialista não pode
advir de uma estrutura que, em si,
recobre o vazio e vela para que este 6 Belchior (1946-2017): Antônio Carlos Gomes 8 Trata-se de um texto meu publicado na revista
Belchior Fontenelle Fernandes, conhecido sim- Passagens, da UFC. O texto é fruto do primeiro
não seja exposto enquanto tal (e a plesmente como Belchior, foi um cantor e com- Seminário Pasolini, que aconteceu na Casa Rui
positor brasileiro, um dos membros do chamado Barbosa, no Rio de Janeiro, em março de 2016
Pessoal do Ceará, que inclui Fagner, Ednardo, Ro- (organizado por Davi Pessoa e Manoel Ricardo de
dger, e outros. Foi um dos primeiros cantores de Lima). O texto está disponível em http://bit.ly/2q-
4 Gilles Deleuze (1925-1995): filósofo francês. MPB do nordeste brasileiro a fazer sucesso nacio- 3v0F0. (Nota do entrevistado)
Assim como Foucault, foi um dos estudiosos de nal, em meados da década de 1970. Seu álbum 9 Bartleby, o Escrivão, ou Bartleby, o Escritu-
Kant, mas tem em Bérgson, Nietzsche e Espinosa, Alucinação, de 1976, é considerado por vários rário: conto do escritor norte-americano Herman
poderosas interseções. Professor da Universidade críticos musicais como o mais revolucionário da Melville (1819-1891). A história apareceu pela
de Paris VIII, Vincennes, Deleuze atualizou ideias história da MPB e um dos mais importantes de primeira vez, anonimamente, na revista america-
como as de devir, acontecimentos e singularida- todos os tempos para a música brasileira. Belchior na Putnam’s Magazine, dividida em duas partes.
des. (Nota da IHU On-Line) ganhou o primeiro lugar no IV Festival Universi- A primeira parte foi publicada em novembro de
5 Jean-Paul Sartre (1905-1980): filósofo existen- tário de 1971 com a música “Hora do almoço”, 1853, e concluída na publicação em dezembro do
cialista francês. Escreveu obras teóricas, roman- interpretada por Jorge Melo e Jorge Teles. Entre mesmo ano. O conto foi relançado no livro The
ces, peças teatrais e contos. Seu primeiro roman- os seus maiores sucessos estão Apenas um Rapaz Piazza Tales em 1856 com pequenas alterações.
ce foi A náusea (1938), e seu principal trabalho Latino-Americano, Como Nossos Pais, Mucuripe e Certo dia, quando o narrador pede a Bartleby
filosófico é O ser e o nada (1943). Sartre define Divina comédia humana. Outras composições de para revisar um documento, o jovem simplesmen-
o existencialismo em seu ensaio O existencialismo Belchior de grande sucesso foram Paralelas (gra- te responde “Eu preferiria não fazer”. É a primeira
é um humanismo como a doutrina na qual, para vada por Vanusa) e Galos, noites e quintais (regra- das inúmeras recusas seguintes de Bartleby. Para
o homem, “a existência precede a essência”. Na vada por Jair Rodrigues). (Nota da IHU On-Line) a consternação do narrador e irritação dos outros
Crítica da razão dialética (1964), Sartre apresenta 7 Divina Comédia: poema de viés épico e teoló- escrivães, Bartleby executa cada vez menos suas
suas teorias políticas e sociológicas. Aplicou suas gico da literatura italiana e mundial, escrito por tarefas no escritório. O narrador tenta por diver-
teorias psicanalíticas nas biografias Baudelaire Dante Alighieri no século XIV. O poema - talvez o sas vezes entender Bartleby e aprender sobre ele,
(1947) e Saint Genet (1953). As palavras (1963) é a maior do Ocidente - descreve uma viagem onde mas o jovem repete sempre a mesma frase quan-
primeira parte de sua autobiografia. Em 1964, foi se sucedem diversos acontecimentos. Sua força do é requisitado a fazer suas tarefas ou dar infor-
escolhido para o prêmio Nobel de literatura, que está na riqueza das alegorias, que tornam o relato mações a seu respeito: “Eu preferiria não fazer”.
recusou. (Nota da IHU On-Line) atemporal. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)

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mundo”, não deva ser colocado em tais corpos já estavam subsumidos comum. Ele chegou a definir esse neo-
questão em figuras como a “linha de na nova lógica, abjura seu trabalho, fascismo: “Este poder está na própria
fuga” (ou “desterritorialização”, para como se esse movimento de resistên- totalização dos modelos industriais:
pensarmos com Deleuze), a “deser- cia já não mais fosse suficiente. é uma espécie de possessão global
ção”, a “inoperosidade” (e isso, mais das mentalidades pela obsessão de
Assim, o movimento é paradoxal
uma vez, me remete ao “sumiço” de produzir, de consumir e de viver em
mas, em seu caráter de fundo, man-
Belchior). Pensar nosso tempo é li- função disto. É um poder histérico,
tém a condição da liberdade de dizer e
dar com um tempo em que o pensar, que tende a massificar os comporta-
desdizer, de enfrentar e não se deixar
por si só, já é tarefa árdua; no tem- mentos (...). O fascismo histórico era
abalar pelo fato de ter de abortar o en-
po da automação dos viventes e da um poder grosseiramente fundado
frentamento. Para Pasolini a liberdade
“smartificação” das máquinas, tal- sobre a hipérbole, sobre o misticismo
(dos liberais e, talvez, já pressagiando
vez o “não” seja uma forma de ain- e o moralismo, sobre a exploração, o
aquela que será a dos neoliberais) não
da permanecer em pé, de se colocar patriotismo, o familiarismo... O novo
podia gerar sentidos. Ele estava preo-
na vida com paixão e sem as ilusões fascismo é propriamente uma pode-
cupado com como ainda poder fazer
com uma racionalidade que, como laços em um mundo onde isso parecia rosa abstração, um pragmatismo que
fiel da balança, poderia conduzir a a cada instante se tornar interditado. canceriza toda a sociedade, um tumor
uma emancipação da humanidade Talvez as palavras do Comitê Invisível central, majoritário...”.
(essa abstração já há muito falida). possam ser interessantes para, hoje, Sua denúncia, no entanto, não signi-
serem uma espécie de atualização de ficava que ele não estivesse implicado
uma possível ideia pasoliniana de li- nesse novo tipo de arranjo do poder.
IHU On-Line – Como Pasolini
berdade: “De um ser autenticamente Aliás, Pasolini nunca se escusou da
compreende o conceito de re-
livre, nem sequer se diz que é livre. Ele responsabilidade de ser em certa me-
sistência? Podemos associá-lo
apenas é, existe, move-se conforme dida cúmplice da instauração desse
à ideia de liberdade?
seu ser. Só se diz de um animal que ele neofascismo. Parece-me, ao lê-lo, que
Vinícius Nicastro Honesko – está em liberdade quando cresce num para ele a questão se mostra numa
Retomando a questão anterior, penso meio já de todo controlado, esqua- outra clave: somos – e digo: nós, pe-
que a resistência tem justamente a drinhado, civilizado: no parque das quena burguesia planetária – sempre 35
ver com essa “negativa”, com essa es- regras humanas onde se dá o safári. em alguma medida responsáveis por
pécie de constante tentativa de não se “Friend” e “free” em inglês, “Freund” esse tipo de movimentação política
deixar tomar pelos modos de produ- e “frei” em alemão, provêm da mesma
reacionária e destrutiva.
ção de sentido que nos enclausuram raiz indo-europeia que remete à ideia
seja no utilitarismo (e o recorrente de uma potência comum que cresce. Acho interessante que você tenha
– e, ultimamente, crescente – discur- Ser livre e estar ligado são uma e a usado o termo intolerância. Aliás,
so anti-intelectual é só um sintoma mesma coisa. Eu sou livre porque es- Pasolini detestava a ideia de tole-
disso), seja num jogo ilusório de con- tou ligado, porque faço parte de uma rância. Dizia, sobretudo em relação
quistas de um espaço público, de uma realidade mais vasta do que eu. Na às questões polêmicas (drogas, an-
razão comunicativa, de um logos em Roma Antiga, os filhos dos cidadãos ticoncepcionais, aborto etc.) de seu
que as medidas das coisas humanas eram os liberi: por meio deles, era tempo: “Eu não acredito que a atual
poderiam ser levadas da melhor for- Roma que crescia”. forma de tolerância seja real. Ela foi
ma possível e, com isso, nos condu- decidida ‘de cima’: é a tolerância do
zir a um reino da liberdade. Resistir, poder consumista, que necessita de
para Pasolini, tem a ver com aquilo IHU On-Line – Que relações uma absoluta elasticidade formal nas
que ele chamava seu caráter oximo- podemos estabelecer entre o ‘existências’ para que os indivíduos
ro de estar no mundo. Paradoxal, “neofascismo” referido por se tornem bons consumidores.” Ou
oximoro, coloca-o imediatamente no Pasolini com a ideia de neo- seja, a totalização do neofascismo,
front de uma batalha que por vezes fascismo, de intolerância e de já vislumbrava ele, exigia certa dose
ele encampa com toda sua força e ou- recusa do outro, que circula de uma tolerância capaz de colocar
tras vezes denega, abjura, abandona. contemporaneamente? todos – justamente: o achatamento
Isso fica claro em seus últimos anos Vinícius Nicastro Honesko – e aniquilamento das diferenças em
quando empreende sua tentativa de Creio que é preciso entender o ne- benefício de uma massificação total
exibir o que poderia escapar ao nefas- ofascismo denunciado por Pasolini – no circuito do consumo. Parece-
to poder neocapitalista, isto é, os cor- – que ele dizia ser muito mais nefas- -me que o que estamos assistindo
pos daqueles ainda não tomados por to do que os fascismos históricos – hoje é o desdobramento inevitável
essa lógica (faço menção à Trilogia como uma espécie de imagem som- da totalização dos comportamen-
da Vida e às odes à África, ao Brasil bria da obsessão pelo consumo que tos. Uma vez tudo (supostamente,
e ao sul da Itália que fazia em alguns naqueles anos embrenha-se na so- claro!) incluído na lógica, uma vez
poemas, algo que retomarei a seguir), ciedade italiana e começa a lhe cor- que já não há contestação à boa vida
mas que, ao perceber que mesmo roer qualquer sentido de, justamente, promovida pelas melhorias advindas

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TEMA DE CAPA

a todos (ainda supondo...) pelos de- ber que não há composição unívoca sumo: a sala de cinema. Com seus
senvolvimentos tecnológicos, já não possível, mas apenas o instransponí- atores não profissionais advindos
há mais por que tolerar aqueles que vel estar no mundo com esse outro, da periferia de cidades como Nápo-
se negam a participar do todo e que com toda a dificuldade que compor- les, Roma, Edimburgo (que pessoal-
não reconhecem tais melhorias: deles ta o gesto do “a-frontamento” desse mente convidava para participar das
é mais fácil se desfazer. Uma espécie outro. Em suma, suportar o face a filmagens como atores) Pasolini tra-
de lógica biopolítica da depuração do face, a própria relação que inclui o tava de, portanto, exibir seu gesto de
“corpo total dos integrados” parece eu (não uma tolerância “do” outro, resistência. Entretanto, ele percebe,
ser o mecanismo de funcionamento mas um suportar o fato de que o “eu” pouco tempo depois de filmar a Tri-
da lógica contemporânea desse des- e o “outro” marcam a possibilidade logia da Vida (onde esse seu modo de
dobramento do neofascismo cujo de um mundo). operar atinge seu ápice) que esse seu
nascimento Pasolini apenas sondava. gesto de algum modo esbarra num
limite: até mesmo esses corpos são
Penso que estamos, sim, vendo IHU On-Line – Como o senhor apreendidos no movimento de tota-
uma continuação nefasta – em âm- compreende a representação lização do neofascismo. O que fazer?
bito muito estendido: Brasil, Europa, dos corpos na obra de Pasolini Bem, ele trata de expor como vê esse
EUA etc. – daquilo que via Pasolini. e qual sua associação com a po- poder tentacular: filma Salò.
O que ele não poderia imaginar é lítica dos rostos?
a que ponto a ideia “libertária” das Em outras palavras, mesmo quando
tecnologias de informação poderiam Vinícius Nicastro Honesko – já percebe que aquilo que mais ama (os
ser ainda um elemento (o requinte Pasolini procurou, ao menos durante corpos dos marginalizados, seus rostos
de crueldade...) para disseminar um um tempo (em específico entre 1970 e pobres e belos, como costumava dizer)
“embuste” de diálogo e, assim, exibir 1974), nos corpos e nos ainda “margi- parece-lhe interditado, não renuncia a
as entranhas do funcionamento da nalizados” pela sistemática nascente do seus intentos. Que seja num grito – de
“falsa tolerância” por ele denunciada: neocapitalismo de então uma espécie desesperança, mas sem medo: e gosto
agora que está exibida em sua falsida- daquilo que ele chamava de “força do sempre de lembrar que talvez o adágio
de, a tolerância passa a ser um mote passado”. De fato, a ideia de um passa- latino nec spe nec metu seja um ótimo
das más consciências esclarecidas do em que a massificação e “destruição” modo de se referir a Pasolini –, mas
36 dos corpos (lembro dos textos de Paso-
(remeto aqui mais à ideia do cinismo não se cala: a denúncia, a resistência, o
contemporâneo de Peter Sloterdijk10) lini que polemizam com as roupas e ca- bradar mesmo que lhe custasse a vida
e, com isso, um lugar vazio que – belos dos “jovens rebeldes” de 1968; di- são os modos de insistir, de continuar
mesmo com as melhores intenções – zia ele que as marcas da rebeldia, uma seu papel de “destotalizar” (como disse
abre caminho para as manifestações vez apreendidas e tornadas “mercado- certa vez em entrevista a Jean Duflot: o
mais agudas da violência. ria”, já não poderiam sinalizar nada de intelectual “tem o dever de exercer uma
rebeldia em face daquilo contra o que função crítica sobre práticas políticas
Com isso, numa pequena digres- supostamente se rebelava) ainda não globais, de ‘destotalizar’, senão, que
são, quero dizer que mais do que havia se cumprido parece ser o tom da intelectual seria ele?”), apesar de tudo.
“tolerar” o outro é preciso encará-lo “nostalgia” pasoliniana. A nostalgia da
justamente em sua diferença; mais vida, a que já fiz referência, diz respeito
do que “massificação” dos desiguais à necessidade de encontro com esses IHU On-Line – É possível
ou “manutenção” das diferenças por corpos e rostos que ainda não se fazem compreender as questões de
meio de um discurso que pressupõe iguais (consumidores) por um poder fundo que inspiram Pasoli-
a “tolerância” (que no fundo, e nes- que tudo massifica, achata e, por fim, ni a partir das elaborações de
sa leitura pasoliniana, é, apesar de destrói, diria Pasolini. Agamben12? Como?
tudo, um outro modo de negar esse
outro), é talvez, para dizer com Jean- Para ele esses corpos, nesse período
do início dos anos 70, poderiam ter 12 Giorgio Agamben (1942): filósofo italiano. É
-Luc Nancy11, ser-com o outro, perce- professor da Facolta di Design e arti della IUAV
sobrevivido em alguns rincões (Áfri- (Veneza), onde ensina Estética, e do College In-
ternational de Philosophie de Paris. Formado em
10 Peter Sloterdijk (1947): filósofo alemão. Desde ca, sul da Itália, Iêmen, Índia, Brasil) Direito, foi professor da Universitá di Macerata,
a publicação de Crítica da razão cínica, é consi- que ainda não estavam no “circuito” Universitá di Verona e da New York University,
derado um dos maiores renovadores da filoso- cargo ao qual renunciou em protesto à política do
fia atual. Em 2004, encerrou sua trilogia Esferas do novo poder. Pasolini trata, portan- governo estadunidense. Sua produção centra-se
(Sphären), cujos primeiros volumes foram publi- nas relações entre filosofia, literatura, poesia e,
cados em 1998 e 1999. Interessado na mídia, di- to, de levar esses que estão fora para fundamentalmente, política. Entre suas principais
rige Quarteto filosófico, programa cultural da ca- o “centro” desse lugar por excelência obras estão Homo Sacer: o poder soberano e a vida
deia de televisão estatal alemã ZDF. Tem inúmeras nua (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002), A lingua-
obras traduzidas para o português, como Regras da sociedade do espetáculo e do con- gem e a morte (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005),
para o parque humano - uma resposta à carta de Infância e história: destruição da experiência e ori-
Heidegger sobre o humanismo (São Paulo: Esta- gem da história (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006);
ção Liberdade, 2000). No sítio do IHU On-Line, de publicações e pela heterogeneidade de temas. Estado de exceção (São Paulo: Boitempo Editorial,
foram publicadas várias traduções de entrevistas Datam da década de 60 o início de suas reflexões, 2007), Estâncias – A palavra e o fantasma na cul-
concedidas pelo filósofo. Entre elas “Filósofos são que atravessam desde a leitura de filósofos clás- tura ocidental (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007) e
produtores de conceitos”, disponível em http://bit. sicos (Descartes, Kant, Hegel), ao envolvimento Profanações (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007).
ly/2qShyQG. Acesse mais em ihu.unisinos.br/mais- com figuras essenciais para a filosofia francesa do Em 4-9-2007, o sítio do Instituto Humanitas Uni-
noticias/noticias. (Nota da IHU On-Line) século XX (Nietzsche, Heidegger, Bataille, Merleau sinos – IHU publicou a entrevista Estado de exce-
11 Jean-Luc Nancy (1940): é um filósofo francês. -Ponty, Derrida etc.), assim como reflexões sobre ção e biopolítica segundo Giorgio Agamben, com
A obra de Nancy é marcada pelo grande tamanho arte e literatura. (Nota da IHU On-Line) o filósofo Jasson da Silva Martins, disponível em

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Vinícius Nicastro Honesko – mais precisamente na dimensão polí- um modo ou de outro, algumas va-
Para mim é evidente que Pasolini é tica que envolve a noção de anarquia. riações das exibições que Pasolini faz
um dos autores fundamentais para se desse “vazio do Poder” (que, aliás, é
Pasolini sempre se colocou como
compreender Agamben. Desde as aná- o título do clássico ensaio conhecido
alguém que tinha uma nostalgia do
lises agambenianas sobre a linguagem como “texto dos vagalumes”).
arcaico, de algo que faria com que
e literatura (presentes em livros como
o amor pela vida crescesse. Por fim, Por fim, gostaria de lembrar de uma
Categorias Italianas – e neste a leitu-
quando já não mais aposta nesse ar- recente entrevista de Agamben sobre
ra agambeniana de Giovanni Pascoli é
caico, como já disse acima, decide um de seus últimos livros, Pulcinella.
em muito devedora da que faz Pasolini
expô-lo tal como tomado pelo po- Ovvero divertimento per li regazzi.
ainda nos anos 40 –, Che cos’è la filo-
der contemporâneo. E assim o exibe Diz ele: “Pulcinella me fascina porque
sofia?, Idea da Prosa, dentre outros)
em sua alegoria desse poder: Salò. exibe em seu próprio corpo os vícios do
até os últimos desenvolvimentos da
“Nada é mais anárquico do que o po- mundo onde vive, e porque também
série Homo Sacer (sobretudo em O
der. Porque o poder faz o que quer, ele é insensato e vil. Ao mesmo tempo,
uso dos corpos), Pasolini sempre se
como quer, quando quer”, diz, no no entanto, ele mostra como, uma vez
insinua. No sentido de sua pergunta,
filme, o Monsenhor. Essa imagem, liberados de sua inscrição no poder,
Agamben pode ser uma boa lente para
retomada em diversas ocasiões por estes mesmos defeitos podem se tor-
se apreender algumas questões paso-
Agamben, é a exposição de que no nar a cifra de uma outra humanidade,
linianas, sim. Para não me alongar,
fundo de todo instituído permanece de uma superior anarquia. Também a
talvez um dos pontos fundamentais
um vazio, de que a arché, a origem, é anarquia, com efeito, pode ser compre-
dessa relação esteja na ideia de arché,
sempre vazia e a política é um confli- endida apenas se primeiramente é libe-
to justamente em torno desse vazio. rada de sua apreensão no poder, ape-
http://bit.ly/jasson040907. A edição 236 da IHU A anomia, o estado de exceção tor- nas se nos lembramos, como Pasolini
On-Line, de 17-9-2007, publicou a entrevista
Agamben e Heidegger: o âmbito originário de uma nado regra nos tempos da democra- faz dizer um dos hierarcas de Salò, de
nova experiência, ética, política e direito, com o cia espetacular, enfim, tudo isso que que a anarquia pertence antes de tudo
filósofo Fabrício Carlos Zanin, disponível em ht-
tps://goo.gl/zZRChp. A edição 81 da publicação, denuncia Agamben, são as mostras ao poder”. O vazio da arché é aquilo
de 27-10-2003, teve como tema de capa O Estado
de exceção e a vida nua: a lei política moderna, dis- da anarquia do poder. Aliás, exibem que a todo instante o poder trata de
ponível para acesso em http://bit.ly/ihuon81. Em o mecanismo de funcionamento do recobrir: talvez Pasolini tenha levan-
30-6-16, o professor Castor Bartolomé Ruiz pro- 37
feriu a conferência Foucault e Agamben. Implica- poder que faz o que, como e quando tado esse véu e nos exibido uma visão
ções Ético Políticas do Cristianismo, que pode ser
assistida em http://bit.ly/29j12pl. De 16-3-2016 quer. E não é por acaso que todo o atroz: seu Salò; talvez Agamben esteja
a 22-6-2016, Ruiz ministrou a disciplina de Pós- empreendimento arqueológico de nos mostrando, a seu modo, como essa
Graduação em Filosofia e também validada como
curso de extensão através do IHU intitulada Im- Agamben (ainda que nos traços de visão do atroz pode se espraiar ainda
plicações ético-políticas do cristianismo na filosofia
de M. Foucault e G. Agamben. Governamentalida- Foucault13) carrega em seu seio, de mais por lugares que, recobertos de be-
de, economia política, messianismo e democracia las palavras, tentam nos fazer crer – a
de massas, que resultou na publicação da edição
241ª dos Cadernos IHU ideias, intitulado O poder 13 Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês. contrario do adagio nec spe nec metu
pastoral, as artes de governo e o estado moderno, Suas obras, desde a História da Loucura até a His- – que tudo há de melhorar, que o mun-
que pode ser acessada em http://bit.ly/1Yy07S7. tória da sexualidade (a qual não pôde completar
Em 23 e 24-5-2017, o IHU realizará o VI Colóquio devido a sua morte) situam-se dentro de uma do há de melhorar; mas Pasolini já nos
Internacional IHU – Política, Economia, Teologia. filosofia do conhecimento. Foucault trata princi-
Contribuições da obra de Giorgio Agamben, com palmente do tema do poder, rompendo com as alertou em relação a isso...■
base sobretudo na obra O reino e a glória. Uma concepções clássicas do termo. Em várias edições,
genealogia teológica da economia e do governo a IHU On-Line dedicou matéria de capa a Fou-
(São Paulo: Boitempo, 2011. Tradução de: Il regno cault: edição 119, de 18-10-2004, disponível em
e la gloria. Per una genealogia teológica dell’ecco- http://bit.ly/ihuon119; edição 203, de 6-11-2006, em http://bit.ly/ihuon343, e edição 344, Biopolíti-
nomia e del governo. Publicado originalmente por disponível em http://bit.ly/ihuon203; edição 364, ca, estado de exceção e vida nua. Um debate, dis-
Neri Pozza, 2007). Saiba mais em http://bit.ly/2h- de 6-6-2011, intitulada ‘História da loucura’ e o ponível em http://bit.ly/ihuon344. Confira ainda a
CAore. A atual edição da IHU On-Line traz uma discurso racional em debate, disponível em http:// edição nº 13 dos Cadernos IHU em formação,
entrevista com Agamben sobre o amigo Pasolini. bit.ly/ihuon364; edição 343, O (des)governo biopo- disponível em http://bit.ly/ihuem13, Michel Fou-
(Nota da IHU On-Line) lítico da vida humana, de 13-9-2010, disponível cault. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- Reflexões sobre os espaços urbanos contemporâneos: Quais as nossas cidades? Ar-
tigo de Vinícius Nicastro Honesko, publicado no Cadernos IHU ideias, número 253, dispo-
nível em http://bit.ly/2qJz7Sz.
- Por um espírito verdadeiramente socialista. Reportagem produzida pelo Instituto Huma-
nitas Unisinos – IHU, publicada nas Notícias do Dia de 27-10-2016, disponível em http://bit.
ly/2pZPo9T.
- A impossibilidade de melhorar o mundo. Entrevista com Vinícius Nicastro Honesko,
publicada na revista IHU On-Line número 495, de 17-10-2016, disponível em http://bit.
ly/2pde6Q4.

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

A anarquia de Pasolini vista


pelo amigo Agamben
Giorgio Agamben, em entrevista concedida à filósofa italiana Valeria
Montebello, destaca pontos do pensamento do cineasta e poeta
Valeria Montebello| Tradução: Davi Pessoa | Edição: João Vitor Santos

É
possível perceber ecos da obra capital internacional de transformar a
cinematográfica e dos escritos de Itália (que é aos poucos metodicamen-
Pier Paolo Pasolini no pensamen- te vendida) num parque de férias e de
to do filósofo italiano Giorgio Agamben. passatempo gastronômico-cultural”.
E isso não é dado ao acaso, pois, além Giorgio Agamben é professor da Fa-
de compactuarem perspectivas, os dois colta di Design e arti della IUAV (Veneza),
eram amigos bem próximos. O filósofo onde ensina Estética, e do College Inter-
chegou até a “fazer uma ponta” no fil- national de Philosophie de Paris. Forma-
me O Evangelho Segundo São Mateus do em Direito, sua produção centra-se
(1964), de Pasolini, ao viver Filippo. nas relações entre filosofia, literatura, po-
“Diria que num certo momento Pa- esia e, fundamentalmente, política.
solini talvez acreditasse poder aceder
diretamente à anarquia. Saló (1976) é O IHU realizará nos dias 23 e 24 de
38 certamente uma representação da anar- maio o VI Colóquio Internacional IHU
quia do poder, mas uma representação – Política, Economia, Teologia. Contri-
desesperada, que não procura arrancar buições da obra de Giorgio Agamben,
a anarquia das mãos do poder, como se com base sobretudo na obra O reino
Pasolini não conseguisse mais distinguir e a glória. Uma genealogia teológica
a sua anarquia daquela dos quatro hie- da economia e do governo (São Paulo:
rarcas malvados”, pontua Agamben em Boitempo, 2011). Saiba mais em http://
bit.ly/2hCAore .
entrevista à Valeria Montebello.
A partir de Pasolini, Agamben tam- Esta entrevista com Agamben foi fei-
bém tece a crítica aos tentáculos do ca- ta por Valeria Montebello, filósofa que
pitalismo de nosso tempo. “Sinto não vive em Roma e escreve para o Studio,
sei se comiseração ou desprezo pela ATP Diário e originalmente publicada
tentativa, atualmente em curso por par- no idioma italiano em Lo Sguardo: Ri-
te de um grande punhado de miserá- vista di Filosofia, n. 19, 2015 (III), no
veis, de colocar a gastronomia, a moda dossiê Pier Paolo Pasolini: resistenze,
e o espetáculo artístico-cultural (não a dissidenze, ibridazioni, organizada por
Antonio Lucci e Luciano De Fiore, que
arte) no lugar da poesia, do pensamen-
concedeu o texto já traduzido em portu-
to e daquilo que resta de vida espiritu-
al”, critica. E completa: “isso coincide, guês à IHU On-Line.
de resto, com o projeto por parte do Confira a entrevista.

Valeria Montebello – Pasolini seu fim – e sua referência a mesmo da anarquia”? Podemos
foi um lúcido analista do Poder Saló ou os 120 dias de Sodoma pensá-lo, antes, como uma for-
que definia “sem rosto” e de (1976), no livro Nudez (“a úni- ma de resistência, de princípio,
sua congênita arbitrariedade. ca verdadeira anarquia é aque- em vez que de reação?
A propósito da origem anárqui- la do poder”), como se insere
ca que o diferencia – anarquia o ingovernável, “aquilo que Giorgio Agamben – O poder se
que, no fundo, também seria está para além do governo e até constitui capturando em seu inte-

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REVISTA IHU ON-LINE

“Saló é certamente uma representação


da anarquia do poder, mas uma
representação desesperada,
que não procura arrancar a
anarquia das mãos do poder”

rior a anarquia, na forma do caos e acreditasse poder aceder diretamen- lugar da poesia, do pensamento e
da guerra de todos contra todos. Por te à anarquia. Saló é certamente daquilo que resta de vida espiri-
isso, a anarquia é algo que se torna uma representação da anarquia do tual. Isso coincide, de resto – do
pensável somente se conseguimos, poder, mas uma representação de- momento em que as duas coisas
em primeiro lugar, expor e desti- sesperada, que não procura arrancar caminham sempre juntas e os
tuir a anarquia do poder. Klee1, em a anarquia das mãos do poder, como miseráveis também são sempre
suas aulas, diferencia o verdadeiro se Pasolini não conseguisse mais pagos –, com o projeto por parte
caos, princípio genético do mundo, distinguir a sua anarquia daquela do capital internacional de trans-
do caos como antítese da ordem. No dos quatro hierarcas malvados. De formar a Itália (que é aos poucos
mesmo sentido, penso que se deva um modo mais geral, nos últimos metodicamente vendida) num
diferenciar a verdadeira anarquia, anos, ele parece querer ultrapassar a parque de férias e de passatempo
princípio genético da política, da obra para chegar imediatamente aos gastronômico-cultural.
anarquia como simples antítese da seus fantasmas (“Por que fazer uma
arché (em seu duplo significado de obra quando se pode sonhá-la”?). 39
“princípio” e “comando”). Mas, em Acredito que isso não seja possível Valeria Montebello – “Eu da-
todo caso, ela é algo que se tornará e que, como você sugere – embora ria toda a Montedison por um
acessível apenas quando uma potên- não ame as categorias psicológicas vaga-lume”: o famoso desa-
cia destituinte tiver desativado os –, essa tentativa possa coincidir com parecimento dos vaga-lumes
dispositivos do poder e tiver liberta- uma pulsão de morte. anunciado por Pasolini, por
do a anarquia que eles capturaram. causa dos “refletores ferozes
do poder”. Didi-Huberman3
Valeria Montebello – Inicial- fala de amizade “estrelar” en-
Valeria Montebello – Micci- mente Saló devia ser um filme tre Agamben – horizonte apo-
ché2, anos atrás, propunha ler sobre um industrial milanês, calíptico – e Pasolini – nostal-
a Trilogia da vida com Saló que colocasse a nu a mistifi- gia – sob o signo do desespero
(1976), incorporando os últi- cação da grande produção ali- do presente. Vem em minha
mos filmes numa Tetralogia da mentar. Sobrevive mais de um mente a potência, o papel que
morte. De fato, o último filme eco disso na cena do filme em tal conceito aristotélico tem em
pode ser visto também como a que o hierarca ordena ao jo- sua obra e sua possível resis-
mescla entre impulso sádico ao vem: “então, coma a merda”. O tência ao ato. A transparência
gozo e pulsão de morte, o impe- consumidor médio come mer- pode acolher a luz ou perma-
rativo do gozo como forma de da, é consciente disso e conti- necer em sua escuridão. Assim,
destruição da vida? nua a fazê-lo. O que você pensa parecem delinear-se vários
Giorgio Agamben – Diria que da EXPO, em seu logo “Alimen- níveis de visibilidade: há um
tar o planeta, energia para a
num certo momento Pasolini talvez
vida” e em sua quase obrigató- 3 Georges Didi-Huberman (1953): nascido em
Saint-Étienne, é filósofo, historiador, crítico de arte
1 Paul Klee (1879-1940): pintor e poeta suíço ria tendência atual? e professor da École de Hautes Études em Scien-
naturalizado alemão. Seu estilo, grandemente ces Sociales, em Paris. Considerado um dos gran-
individual, foi influenciado por várias tendências Giorgio Agamben – Sinto não des intelectuais franceses de sua geração. Autor
artísticas diferentes, incluindo o expressionismo, de uma vasta obra ensaística, baseado em autores
cubismo e surrealismo. Foi um estudante do sei se comiseração ou desprezo como Freud, Benjamin, Pasolini e Warburg. Trata
orientalismo e era um desenhista nato que rea- pela tentativa, atualmente em cur- de temas que vão da filosofia da imagem à his-
lizou experimentos e dominou a teoria das cores, tória da arte, passando por cinema e literatura.
sobre o que escreveu. Com o pintor russo Wassily so por parte de um grande punha- Alguns de seus livros: O que vemos, o que nos olha
Kandinsky, seu amigo, era famoso por dar aulas (Editora 34), Diante da imagem (Editora 34), A
na escola de arte e arquitetura Bauhaus. (Nota da do de miseráveis, de colocar a gas- Imagem Sobrevivente. História da arte e tempo dos
IHU On-Line) tronomia, a moda e o espetáculo fantasmas segundo Aby Warburg (Contraponto) e
2 Lino Micciché (1934-2004), historiador e crítico Imagens apesar de tudo (Lisboa, KKYM). (Nota da
de cinema italiano. (Nota de Valeria Montebello) artístico-cultural (não a arte) no IHU On-Line)

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

ser exposto à luz como algo de de uma sociedade, num certo sentido, dos os lados, das fotos nas pa-
inevitável, ou se pode pensar atrasada. Apesar disso eu me lembro redes aos broches de 1 Euro
numa forma de resistência, a de ter visto quando criança um reba- dentro de uma velha máquina
dos vaga-lumes, como a dos nho de ovelhas que percorria todas as de venda de gomas de mascar.
peixes nos abismos de que fala manhãs a Rua Flaminia até a Praça do Sem que pudesse fazer nada, a
Aristóteles4 em De anima, de Povo, para depois entrar na Villa Bor- nostalgia tomou conta de mim.
algo que só pode estar sob a ghese. A minha infância coincidiu, ao Uma nostalgia de algo que ja-
força das trevas. Poderíamos contrário, com o início do processo fre- mais conheci, mas que talvez
considerar a amizade “estre- nético de industrialização e destruição vivi sentindo os carinhos de
lar” entre Pasolini e Agamben que se deu depois da Segunda Guerra minha avó – com suas sábias
sob o signo da resistência. Você Mundial. Diferentemente de Pasolini mãos ao reconhecer as ervas
também afirma, de fato, que e de Elsa Morante6 (que lhe era próxi- nos campos, ao desenredar os
não é necessário deixar-se “ce- ma), eu não podia criar ilusões sobre a fios. Penso que uma certa nos-
gar pelas luzes do século”, os sobrevivência daquilo que num certo talgia de retorno, de habitação,
mesmos “refletores ferozes do tempo se chamava de povo ou de cria- nos une; poder ser vista como
poder” de Pasolini e, ainda em turas edênicas não contaminadas. um retorno a si mesmo, como
Nudez, você escreve que olhar algo que diz respeito a cada um
para “a escuridão da época” e Às vezes, pergunto-me o que teria tão intimamente e, exatamente
perceber nela “uma luz que, dito Elsa e Pier Paolo se tivessem po- por isso, não pode senão dizer
direcionada para nós, se dis- dido ver a transformação atual dos respeito a todos?
tancia infinitamente de nós” é seres humanos e de suas relações por
a tarefa de um pensamento crí- efeito dos celulares e, mais em geral, Giorgio Agamben –Vivemos
tico voltado à atualidade... dos dispositivos fornidos de uma tela. uma fase de extrema decadência da
Minha crítica do moderno é, por isso, cidade, no sentido que os homens
Giorgio Agamben – A resistência menos impregnada de nostalgia e parecem ter perdido qualquer rela-
ao moderno em nome dos vaga-lumes tomou necessariamente a forma de ção com o lugar em que vivem. É evi-
se produziu não por acaso numa cul- dente que – como acontece em mui-
uma pesquisa arqueológica voltada
40 tura, como a italiana, em que o de- tas cidades italianas – se a cidade
a identificar no passado as causas e
senvolvimento industrial chegou atra- se transforma num assim chamado
as razões do que aconteceu. Mas não
sado. Pasolini nasceu num país cuja ‘centro histórico’, que só deve servir
acredito que seja por isso menos radi-
população era composta em 70% de ao consumo turístico e à diversão de
cal. Em questão, em todo caso, está a
camponeses e na qual o fascismo havia fins de semana, ela não tem mais ra-
compreensão do presente.
procurado conciliar a industrialização zão alguma de ser. A cidade era, an-
com o controle social. Pode ocorrer, tes de tudo, o lugar da vida política
no entanto, que justamente uma situ- e, ao mesmo tempo, do habitar como
ação aparentemente atrasada, malgra- Valeria Montebello – A propó-
prerrogativa humana. Tanto a políti-
do suas contradições, passe a ser em sito da decadência das cidades ca quanto a faculdade de habitar (e
certos aspectos mais avançada do que e das periferias que se tornam não simplesmente de se alojar) estão
outras, que perderam toda capacida- os novos centros, falemos do desaparecendo, graças também às
de de resistir. Mesmo Ivan Illich5, ou Pigneto7, bairro muito caro a iniciativas conjuntas dos capitalistas
seja, o mais profundo e coerente entre Pasolini, onde caminhava en- e dos arquitetos.
os críticos da modernidade, provinha tre as pessoas “pobres e reais”.
Estive há pouco tempo, à noite, A nostalgia não é suficiente. Seria
em Necci8, um local que Paso- necessária uma nova forma de vida
4 Aristóteles de Estagira (384 a.C.-322 a.C.):
lini frequentava e, realmente, que possa reencontrar, ao mesmo
filósofo nascido na Calcídica, Estagira. Suas
reflexões filosóficas ­- por um lado, originais; seu rosto vem à tona por to- tempo, a capacidade de habitar e
por outro, reformuladoras da tradição grega - a vida política. É óbvio que tanto o
acabaram por configurar um modo de pensar que
se estenderia por séculos. Prestou significativas
6 Elsa Morante (1912-1985): escritora italiana, habitar como a política deveriam ser
talvez mais conhecida pelo seu romance La Storia.
contribuições para o pensamento humano, Com exceção de um período durante a Segunda pensados desde o início e redefini-
destacando-se nos campos da ética, política, Guerra Mundial, sempre viveu em Roma. Desde dos. Ugo di San Vittore9 distinguia
física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, os 13 anos, publicava alguns textos em diversos
retórica, zoologia, biologia e história natural. É jornais infantis, e aos 18 anos decide se dedicar três modos de habitar: aquele pelo
à literatura, deixando sua família e seus estudos.
considerado, por muitos, o filósofo que mais Colaborou com o hebdomadário Oggi de 1939 a qual a pátria é doce, aquele pelo qual
influenciou o pensamento ocidental. (Nota da 1941. Em 1974 publicou La Storia, que suscitou
IHU On-Line) polêmica, e depois Aracoeli, em 1982. Doente
todo solo é pátria e, o terceiro, aque-
5 Ivan Illich (1926-2002): pensador e polímata após uma fratura do fêmur, ela tentou se suicidar le pelo qual o mundo todo é um exí-
austríaco. Foi autor de uma série de críticas às em 1983. Recebeu em 1984 o Prêmio Médicis por
instituições da cultura moderna. Escreveu sobre Aracoeli. (Nota da IHU On-Line) lio. É necessário inventar um quarto
educação, medicina, trabalho, energia, ecologia 7 Bairro de Roma, formado a partir de 1870. Du- modo e, com este, uma política que
e gênero. Pensador da ecologia política, foi uma rante a Segunda Guerra Mundial foi palco de
figura importante da crítica da sociedade indus- manifestações populares antifascistas. (Nota de esteja à sua altura. ■
trial. Confira a edição 46 da IHU On-Line, de Valeria Montebello)
9-12-2002, intitulada Ivan Illich, pensador radical 8 Restaurante fundado em 1924; Pasolini o fre-
e inovador, disponível em http://bit.ly/ihuon46. quentava com frequência durante as filmagens de 9 Ugo di San Vittore (1096-1141), teólogo, filósofo
(Nota da IHU On-Line) “Accattone”. (Nota de Valeria Montebello) e cardeal francês. (Nota de Valeria Montebello)

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REVISTA IHU ON-LINE

Conheça algumas obras de Agamben em português


- Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002)
- O reino e a glória. Uma genealogia teológica da economia e do governo (São Paulo:
Boitempo, 2011)
- O que resta de Auschwitz (São Paulo: Boitempo, 2008)
- Altíssima pobreza (São Paulo: Boitempo, 2014)
- O uso dos corpos (São Paulo: Boitempo, 2017)
- A linguagem e a morte (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005)
- Infância e história: destruição da experiência e origem da história (Belo Horizonte: Ed.
UFMG, 2006)
- Estado de exceção (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007)
- Estâncias – A palavra e o fantasma na cultura ocidental (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007)
- Profanações (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007)

Leia mais 41

- Estado de exceção e biopolítica segundo Giorgio Agamben. Entrevista especial


com Jasson da Silva Martins, publicada nas Notícias do Dia de 3-9-2007, no sítio do
Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/jasson040907.
- Agamben e Heidegger: o âmbito originário de uma nova experiência, ética, polí-
tica e direito. Entrevista com Fabrício Carlos Zanin, publicada na revista IHU On-Line,
número 236, de 17-9-2007, disponível em https://goo.gl/zZRChp.
- O Estado de exceção e a vida nua: a lei política moderna. Revista IHU On-Line, número
81, de 27-10-2003, disponível em http://bit.ly/ihuon81 .
- Foucault e Agamben. Implicações Ético-Políticas do Cristianismo. Conferência
do professor Castor Bartolomé Ruiz, promovida pelo IHU, disponível em http://bit.
ly/29j12pl .
- O poder pastoral, as artes de governo e o estado moderno. Artigo de Castor Bar-
tolomé Ruiz, publicado no Cadernos IHU ideias, número 241, disponível em http://bit.
ly/1Yy07S7.

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

A busca pelas verdades pessoais


através do debate contemporâneo
Pasolini, segundo Maria Betânia Amoroso, é o artista
que quer compreender a si mesmo e o mundo ao qual
está ligado por um mesmo movimento
João Vitor Santos

A
vida e a obra de Pier Paolo Pa- que a dita civilização ocidental tomara
solini é algo que se une numa só o rumo da catástrofe, o que mais atrai
forma, não é possível dissociá- os leitores”, avalia Betânia.
-las. Para a professora e pesquisadora Maria Betânia Amoroso é profes-
Maria Betânia Amoroso, é nisso que sora e pesquisadora no Departamento
consiste a essência de suas produções. de Teoria Literária da Universidade
“Há uma procura, ao longo de sua vida, Estadual de Campinas - Unicamp. O
de verdades que são pessoais, em pri- foco de suas pesquisas é literatura e a
meiro lugar, mas ao mesmo tempo são crítica italiana do século XX, onde in-
sempre inflexões do debate contem- sere a obra de Pasolini. Suas primeiras
porâneo”, destaca em entrevista con- pesquisas acerca do autor são de 1970,
cedida por e-mail à IHU On-Line. quando realizava mestrado na Itália.
“Acredito que esse processo, tão raro de No Brasil, escolheu a crítica literária do
42 acontecer, seja devido à combinação de italiano, escrita para jornais e publica-
uma atitude intelectual, incansável, de da em livro (Descrizioni di Descrizioni,
estudo e pesquisa e uma postura crítica 1972) como objeto de pesquisa para o
permanente, constantemente levada à Doutorado, tese que mais tarde foi pu-
exacerbação”, avalia. blicada no livro A paixão pelo real. Pa-
Segundo a professora, “é tamanha a solini e a crítica literária (São Paulo:
autoidentificação de Pasolini com as Edusp, 1997). Em 2003, publicou Pier
questões da Itália do século XX que Paolo Pasolini, um perfil intelectual
tinha a convicção de que a sua auto- (São Paulo: Cosac & Naify, 2002). Re-
biografia, exposta no conjunto de sua centemente, foi curadora da Jornada
produção, coincidia com a história do Pier Paolo Pasolini e Michel Lahud, da
país”. A Itália do artista passava por Biblioteca Mário de Andrade e Istituto
transformações motivadas pela econo- Italiano di Cultura – São Paulo. Ainda
mia neocapitalista que traria consequ- na antologia Poesia de Pier Paolo Paso-
ências para todas as esferas da vida hu- lini (São Paulo: Cosac & Naify, 2015), é
mana. Era isso que o inquietava e, para tradutora de texto de introdução, assi-
a professora, é o que ainda o faz tão nado por Alfonso Berardinelli, e autora
atual. “Acredito ser justamente a per- do posfácio da obra.
cepção de Pasolini, muito precoce, de Confira a entrevista.

IHU On-Line – Recentemen- faz dele um pensador contem- anos e é reconhecido como um po-
te, as produções de Pier Paolo porâneo? eta importante por um dos maiores
Pasolini são constantemente críticos literários, não só da Itália,
revisitadas. Sua obra não teve Maria Betânia Amoroso – Pa- Gianfranco Contini1. Em 1951 é
o mesmo destaque durante solini publica seu primeiro livro, de
sua vida ou eram consideradas poesia, Poesie a Casarsa (Casarsa 1 Gianfranco Contini (1912-1990): crítico literário
marginais? Como compreen- era a cidade de sua mãe no Friu- e filólogo italiano, historiador da literatura italiana
e um dos maiores expoentes da crítica estilística.
der essas redescobertas? O que li, norte da Itália) em 1942, aos 20 (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

“Pasolini se posicionou com


muita clareza contra aqueles
que cediam, em suas obras, à
militância fácil e verborrágica”

convidado para organizar uma an- vida humana. Uma das críticas mais comentados os inúmeros processos
tologia da poesia dialetal italiana, contundentes é a que faz à noção de aos quais foi submetido. Quem qui-
publicada no ano seguinte com um progresso como substancialmente ser conhecer alguns dos textos que
seu estudo memorável que abre a antagônica à de desenvolvimento, geraram o debate ao redor do seu
antologia. A obra é resenhada por ou seja, o enriquecimento do país ou nome, o projetando como pensador
Eugenio Montale2, outro nome ab- do indivíduo, tão proclamados como contemporâneo, existe uma coletâ-
solutamente central na literatura meta para a inclusão da Itália entre nea – a primeira publicada no Brasil,
italiana do século XX. Em 1955, os países desenvolvidos, longe esta- em 1990 – intitulada Os jovens infe-
organiza e publica outro trabalho, va de trazer os benefícios ou a felici- lizes4, organizada por Michel Lahud
também de muito fôlego, dedica- dade anunciados. e da qual participei como tradutora.
do à poesia popular. Se medirmos
O mergulho numa existência onde
a centralidade de um escritor pelo
todos os desejos são sintetizados
interesse que desperta na crítica, IHU On-Line – O que seria a
pelo consumo e pelo dinheiro trans- 43
sem dúvida, já nesse início, Pasolini “crítica social” para Pasolini?
formaria os italianos em monstros,
é “consagrado”, inicialmente como
indistintos como classe, indiferen- Maria Betânia Amoroso – Po-
poeta, filólogo e crítico literário. A
ciados nos seus desejos e sem ex- demos considerar ponto de partida
partir daí, o reconhecimento do seu
pressão própria. Acho que por aqui a convicção da geração de Pasolini
valor crítico, literário e artístico só
dá para perceber a razão pela qual – aqueles nascidos nas primeiras
cresce enquanto sua produção, que
hoje, mais do que nos anos 60 ou 70, décadas do século XX, na Itália– de
já nasce múltipla (os poemas em
se veja Pasolini como contemporâ- que ser escritor ou cineasta ou crí-
friulano são por ele traduzidos em
neo. Tanto na Itália como fora dela. tico literário, enfim, implicava ser
italiano, ao pé da página), vai se
E mais ainda quando a crise, deline- intelectual, o que por sua vez signifi-
ampliando, abarcando outros gêne-
ada por ele, atinge dimensões plane- cava acompanhar de perto a vida po-
ros e linguagens como a do cinema,
tárias (no sentido de crise ambiental lítica e nela intervir. É a geração que
por exemplo.
e em todo o planeta). Essa percepção viveu a guerra, o fascismo, a recons-
Talvez, a marginalidade a que você não era somente de Pasolini, evi- trução do país como esperança de
se refere esteja mais relacionada à dentemente, mas foi ele quem mais democratização da sociedade. Dito
atuação, às intervenções públicas se confrontou, publicamente e com isso, é preciso lembrar também que
de Pasolini em jornais, revistas, de- mais veemência, com intelectuais e Pasolini se posicionou com muita
bates enquanto intelectual, prin- políticos, dentro e fora do Partido clareza contra aqueles que cediam,
cipalmente nas décadas de 1960 e Comunista Italiano - PCI3. em suas obras, à militância fácil e
1970. O centro desses debates po- verborrágica. O seu livro Descrições
Para se ter uma ideia da dimensão
deria ser resumido na expressão, de descrições, que é a reunião de re-
do confronto, ou do desencontro
hoje muito conhecida, do próprio senhas que escreveu por dois anos,
entre Pasolini e a Itália, dois anos
Pasolini, “mutação antropológica”. de 1972 a 1975, traz inúmeras inter-
após seu brutal assassinato, foi pos-
Com ela chamava a atenção para o venções desse gênero: contra a es-
sível organizar um volume (Pasolini:
fato de estar ocorrendo uma pro- critora Dacia Maraini5, por exemplo,
cronaca giudiziaria, persecuzione,
funda transformação na sociedade que confiara que suas ideias sobre o
morte, 1977) no qual são narrados e
italiana, comandada pela economia
neocapitalista com resultados in-
contornáveis em todas as esferas da 3 Partido Comunista Italiano (PCI): nasceu com 4 São Paulo: Brasiliense, 1990. (Nota da IHU On
a denominação inicial de Partido Comunista da -Line)
Itália, da cisão de uma corrente de esquerda do 5 Dacia Maraini (1936): escritora, poeta, ensaísta,
Partido Socialista Italiano liderada por Amadeo dramaturga e roteirista italiana que faz parte da
2 Eugenio Montale (1896-1981): foi um poeta e Bordiga e Antônio Gramsci. Entre 1924 e 1926, “geração dos anos trinta”, juntamente com alguns
escritor italiano, Prêmio Nobel de Literatura em Gramsci foi secretário do partido. (Nota da IHU dos autores mais conhecidos da literatura italiana.
1975. (Nota da IHU On-Line) On-Line) (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

feminismo a isentavam das questões da ordem psicológica e textual, uma com outro título, A nova juventude
que a própria escrita, sempre pesso- outra, existencial. Acredito que seja (1973). Estou cada vez mais conven-
al, subjetiva, sugere. Nesse sentido, possível compreender a “paixão pelo cida que esse “processo criativo” de
tudo o que Pasolini produz tem uma real” de Pasolini (este foi o título que Pasolini é também sua concepção de
dupla dimensão: é crítica social e é, dei ao primeiro livro que publiquei, literatura (ampliaria a palavra, en-
ao mesmo tempo, autobiografia e di- em 1997, sobre o autor) a partir des- globando em seu sentido outras lin-
ário intelectuais. ses elementos. guagens e manifestações artísticas),
algo que não se descola da vida e que
exige reformulação e movimentos
IHU On-Line – É comum ver- IHU On-Line – Como se dava o constantes. A “obra” é o contrário de
mos a obra de Pasolini, dos poe- processo produtivo de Pasolini? “sistema”, é fragmento de outra coi-
mas aos filmes, associada ao “re- sa que está sendo sempre gestada.
alismo”. Embora o termo seja Maria Betânia Amoroso – De- Acho essa a melhor definição para
de difícil definição, o que seria o pois que foram publicadas as 5 mil aquela palavrinha tão banalizada e
“realismo” para Pasolini? páginas que compõem a obra com- tão pouco precisa: projeto10.
pleta de Pasolini, seu processo criati-
Maria Betânia Amoroso – vo e de produção ganhou novos con-
Como você mesmo antecipou, em- tornos. Em primeiro lugar, escrevia IHU On-Line – Que associa-
bora seja muito difícil dar conta do muito e sempre. Organizava índices ções e dissociações se pode fa-
sentido da palavra “realismo”, sabe- de obras futuras que eram guarda- zer entre as obras de Pasolini e
mos que Pasolini foi leitor do Mime- dos em pastas, muitas vezes já con- Italo Calvino11?
sis6 de Auerbach7. Um dos registros tendo um possível título.
disso está na cena que descreve Pa- Maria Betânia Amoroso – Nós
solini ao lado de Fellini8, que guia, O que a leitura dessa obra imensa sabemos que a leitura das obras varia
ambos rodando pela periferia de confirma é que os gêneros literários, segundo os leitores e a época dessas
Roma. Conta-se que Pasolini levava com os quais ainda hoje se costu- leituras. No caso dos livros de Calvi-
no bolso um exemplar do livro. O ma apresentar a obra de um autor, no, há uma primeira recepção italia-
44 escritor, que escrevera dois roman- contavam pouco ou nada. Talvez ti- na (seu primeiro livro, Os caminhos
ces sobre a periferia da cidade, tinha vessem contado lá no início quando dos ninhos de aranha, é de 1947)
sido convidado a auxiliar o diretor escreveu poemas idílicos, em dialeto que os lê com certa desconfiança,
nas pesquisas para o filme Noites de friulano, mas sua poesia sofre mui- embora reconhecendo seu imenso
Cabíria (1957). tas transformações dos anos 20 ao talento narrativo. Essa desconfiança
final de sua vida, caminhando cada é resultante de pontos de vista dos
Mimesis, a meu ver, está na base vez mais rumo à prosa ou misturan- críticos, e muito próprios da cultura
do “realismo” pasoliniano: é no en- do poesia e ensaísmo crítico. Um fil- literária italiana da época. Com uma
frentamento corporal, através da me como Salò (1975), traz, junto aos volumosa e importante produção de
razão e dos sentidos, que a experiên- créditos finais, a bibliografia utiliza- prosa poética no pós-guerra, entre
cia do mundo se faz conhecer como da, o que é mais comum num ensaio. outras expectativas, espera-se por
“fulguração”. Estamos, portanto, Frases, trechos presentes em Des- romances capazes de elaborar, ana-
anos luz distantes de uma visão de crições de descrições reaparecem lisar os movimentos da sociedade, e
realismo como cópia ou imitação do no romance póstumo e inacabado Calvino é um grande fabulador, que
real. Mesmo em relação a Auerbach Petróleo. Teorema (1968) é o título oferece narrativas breves encanta-
(e à estilística), tenho a impressão de de um filme conhecido e também o doras, mas que não são romances.
que há uma diferença importante: título de um roteiro-romance. São O próprio Calvino, segundo a crítica,
Pasolini pressupõe a participação todos indícios da liberdade de cria- tentando responder a essa expecta-
dos sentidos, a experiência do escri- ção e imaginação de Pasolini. tiva, ensaiou romances ou mesmo
tor, acrescentando (ou alterando a
Walter Siti9, responsável pela or- escreveu narrativas mais realistas.
ordem de importância) ao que era
ganização dos volumes, comenta Esse seria um primeiro momento da
em um dos textos introdutórios que, fortuna crítica calviniana e italiana.
6 São Paulo: Perspectiva, 2015. (Nota da IHU On
-Line) um pouco antes de morrer, Pasolini Há, porém, outro momento que
7 Erich Auerbach (1892-1957): foi um filólogo tinha o plano de reescrever os seus
alemão e estudioso de literatura comparada as- coincide com as traduções de sua
sim como crítico de literatura. Seu trabalho mais livros, o que não surpreende. O ato obra mundo afora, no qual Calvino
conhecido é Mimesis, uma história da representa-
ção na literatura ocidental dos tempos antigos até de reescrever acompanha-o sempre:
os modernos. (Nota da IHU On-Line) reescreveu os poemas idílicos que
8 Federico Fellini (1920-1993): um dos mais 10 Escrevi um pequeno texto sobre isso que pode
importantes cineastas italianos. Ficou eternizado constavam do volume A melhor ju- ser lido em http://bit.ly/2pxMdVi. (Nota da entre-
pela poesia de seus filmes, que, mesmo quando vistada)
faziam sérias críticas à sociedade, não deixavam ventude (1954), publicando-os agora 11 Italo Calvino (1939-1985): escritor cuba-
a magia do cinema desaparecer. Geralmente fazia no, radicado na Itália, autor de livros como As
críticas ao totalitarismo, marxismo e à Igreja. Uma Cidades Invisíveis (São Paulo: Companhia das Le-
de suas obras mais conhecidas é La dolce vitta. 9 Walter Siti: é um crítico literário, ensaísta e es- tras, 1998) e da trilogia Os Nossos Antepassados.
(Nota da IHU On-Line) critor italiano. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)

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passa a ser considerado um repre- seriam? —, mas a diferença maior 1990; e, mais recentemente, em
sentante daquilo que por certo tem- não é aquela apontada pela crítica: 2015, a coletânea Pier Paolo Pasoli-
po se nomeou como pós-moderno. ambos são escritores que, ao refletir ni. Poemas.
Nessa leitura, seus livros, alguns sobre a literatura, refletem sobre o
Os filmes chegam por aqui não na
mais do que outros, são tidos como mundo onde vivem. Mais uma vez
ordem cronológica dos lançamentos
exemplos de uma literatura onde a palavrinha: ambos constroem, ao
na Itália. O caso de Teorema é inte-
prevalece a ideia de jogo, de análise longo de suas vidas, projetos que são
ressante. Ao longo de 1969, segundo
combinatória de elementos, uma li- de vida, de literatura e de política.
o Jornal do Brasil, Teorema consta
teratura toda voltada para as ques-
da lista dos livros mais vendidos,
tões da linguagem. Questões essas
oscilando entre o oitavo e o terceiro
que são consideradas, sempre de IHU On-Line – Como se dá a lugar. Pelo mesmo jornal é contada
um certo ponto de vista, distantes recepção de Pasolini no Brasil? a saga do Teorema-filme. Em 31 de
das questões de ordem ética e po- O que as percepções do autor maio de 1969, a censura institucio-
lítica que sempre estiveram decla- sobre as periferias do mundo nalizada pela ditadura civil e mili-
radamente presentes nas obras de têm a dizer ao nosso país? tar proíbe sua exibição. Em 18 de
Pasolini. Cito um texto e um livro,
Maria Betânia Amoroso – Sem novembro do mesmo ano, o filme é
ambos emblemáticos e úteis para
dúvida, Pasolini se torna conhecido liberado sem cortes e projetado no
se compreender os elementos que
no Brasil mais pelos filmes que di- Cine Condor, no Largo do Machado,
sustentam a oposição Calvino-Pa-
rige do que pelos livros que escreve. no Rio de Janeiro. No final de 1969,
solini: “Calvino moralista, ou como
Pela pesquisa que fiz em jornais, são ainda segundo o Jornal do Brasil, na
permanecer são depois do fim do
os críticos e cineastas brasileiros li- classificação anual, feita por críticos
mundo” escrito pelo crítico italiano
gados ao Cinema Novo16 os primei- de cinema, Teorema ocupa o quar-
Alfonso Berardinelli12 e o livro de
ros a dar destaque a sua produção. to lugar, cabendo a Glauber Rocha20
1988 de Carla Benedetti13 Pasolini
Alguns poucos artigos, escritos nos e O dragão da maldade contra o
contro Calvino. Per una letteratu-
suplementos literários, por críticos santo guerreiro21 o primeiro. Veja,
ra impura14.
como Otto Maria Carpeaux17, Alfre- Teorema é lido e visto durante a di-
Já pelos títulos é possível deduzir do Bosi18 e Ruggero Jacobbi19, apre- tadura e provavelmente por aqueles 45
alguns desses elementos: a distância sentam e comentam a sua produção que também assistiam ao filme de
de Calvino em relação ao realismo poética, mas o impacto que os filmes Glauber: são cruzamentos como esse
literário e a vida social italiana, o produzem é bem maior. que constroem a recepção.
que se traduziria por uma busca de
O primeiro livro de poemas comen- Portanto, é através do seu cinema
“formas puras”, de uma “literatura
tado é As Cinzas de Gramsci, publi- que Pasolini se afirmou por aqui. A
pura”. Pasolini, nessa visão estreita,
cado em 1957 na Itália. A partir do partir desses primeiros momentos,
seria exatamente o contrário (como
final dos anos de 1960, amplia-se o houve sempre ciclos de seus filmes
se isso existisse!). Recentemente,
espectro: entre outros, são publi- que são apresentados a novas gera-
porém, e com mais ênfase por oca-
sião dos 30 anos da morte do escritor cados A hora depois do sonho, em
(1985-2015), esse Calvino menos cí- 1968; Teorema em 1969; o romance
20 Glauber de Andrade Rocha (1939-1981): foi
vico perde lugar para outra interpre- Meninos da vida em 1985; a anto- um cineasta brasileiro, ator e escritor. Começou
a realizar filmagens (seu filme Pátio, de 1959, ao
tação na qual o caráter ético de sua logia já citada, Os jovens infelizes: mesmo tempo em que ingressou na Faculdade de
vida e de sua escritura são reconhe- antologia de ensaios corsários em Direito da Bahia, hoje da Universidade Federal da
Bahia, entre 1959 a 1961), que logo abandonou
cidos como centrais15. Seu interesse para iniciar uma breve carreira jornalística, em que
o foco era sempre sua paixão pelo cinema. Queria
pela antropologia e o distanciamen- 16 Cinema Novo: movimento cinematográfico uma arte engajada ao pensamento e pregava uma
brasileiro, influenciado pelo neorrealismo italiano nova estética, uma revisão crítica da realidade. Era
to do marxismo é um modo de refle- e pela “Nouvelle Vague” francesa, com reputação visto pela ditadura militar, que se instalou no país
tir sobre os caminhos para a sua pró- internacional. Surge em circunstâncias idênticas em 1964, como um elemento subversivo. (Nota
ao do movimento homônimo português, tam- da IHU On-Line)
pria literatura e, ao mesmo tempo, bém referido como Novo Cinema. (Nota da IHU 21 O Dragão da Maldade contra o Santo Guer-
On-Line) reiro: filme brasileiro de 1969, do gênero aventu-
para a sociedade italiana, já distante 17 Otto Maria Carpeaux (1900-1978): nascido ra e western, dirigido por Glauber Rocha. O filme é
dos dilemas do imediato pós-guerra. Otto Karpfen, foi um ensaísta, crítico literário e conhecido internacionalmente como Antonio das
jornalista austríaco naturalizado brasileiro. (Nota Mortes, nome do protagonista, e que apareceu
Os dois escritores são profundamen- da IHU On-Line) em outro filme do diretor, Deus e o Diabo na Terra
18 Alfredo Bosi: professor universitário, crítico e do Sol (1964). Apesar da história simples, o diretor
te diferentes entre si – e como não historiador de literatura brasileira. É um dos imor- Glauber Rocha a conta de uma forma alegórica,
tais da Academia Brasileira de Letras. Escreveu, misturando cordel e ópera, priorizando a música
entre outros, Brás Cubas em três versões (Rio de e os ritos folclóricos próprios da população nor-
Janeiro: Companhia das Letras, 2006) e História destina. Glauber envolve a narrativa dentro do
12 Traduzido por mim e publicado, em 1999, em concisa da literatura brasileira (44ª ed. São Paulo: olhar metalinguístico comum ao cinema novo. A
http://bit.ly/2pxNHPm. (Nota da entrevistada) Cultrix, 2007). (Nota da IHU On-Line) câmera arrastada e a música vibrante nordestina
13 Carla Benedetti (1952): crítica literária e en- 19 Ruggero Jacobbi (1920-1981): foi um cenó- dão quase uma impressão de continuação a Deus
saísta italiana. (Nota da IHU On-Line) grafo, diretor e crítico teatral, cineasta, roteirista e o Diabo. Por muitos é considerado a obra-prima
14 Turim, Itália: Bollati Boringhieri, 1998. (Nota da ítalo-brasileiro que esteve no Brasil, ao término do Mestre Glauber, que mistura o ritual antropo-
IHU On-Line) da II Guerra Mundial. Trabalhou no Teatro Brasi- fágico nordestino, sua “seita” e seu folclore ao en-
15 Para quem quiser conhecer o último debate, leiro de Comédia junto com Gianni Ratto, Luciano contro apoteótico com uma forma diferente de se
sugiro que acessem a revista eletrônica Doppio- Salce, Flaminio Bollini Cerri e Adolfo Celi. Foi um fazer cinema, seguindo os parâmetros do cinema
zero e a série de artigos “Calvino trent’anni dopo”. dos pioneiros do moderno teatro paulista. (Nota novo - já passado a fase experimental da primeira
(Nota da entrevistada) da IHU On-Line) leva de filmes. (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

ções. Em 2002, a Mostra Internacio- Cristo revolucionário através -entrevistas (ou algo próximo) como
nal de Cinema apresentou uma ses- do Evangelho de Mateus? Comícios de amor (1965), que in-
são toda dedicada à filmografia de vestiga a familiaridade dos italianos
Maria Betânia Amoroso – Há
Pasolini. Escrevi para essa mostra nos anos 60 com a sexualidade, ou
uma afirmação pressuposta na per-
uma pequena apresentação de Paso- Notas para uma Oréstia africana
gunta que dá como natural que o
lini que foi publicada em livro intitu- (1970) que responde ao seu grande
“pertencimento” a uma instituição,
lado Pier Paolo Pasolini. Três anos interesse pelo terceiro mundo. Tanto
seja ela um partido ou uma igreja,
depois, o Istituto Italiano di Cultura a presença de “comícios” – palavra
tolha a liberdade de escolha do in-
organizou outro ciclo, com a proje- do universo semântico da política
divíduo ou signifique uma adesão
ção de filmes, organização de mesas – como a de “notas” – que faz parte
cega, obediente às suas convenções,
e discussões. Me lembro muito bem do vocabulário de um estudioso ou
princípios e interpretação do mun-
que foi preciso pedir ao Fondo Pier pesquisador – me levam novamente
do. Claro, isso acontece. No caso
Paolo Pasolini22 autorização para fa- a pensar na circularidade dos temas,
de Pasolini, entretanto, há uma li-
zer mais sessões do que as combina- da sobreposição dos gêneros que são
berdade quase absoluta em relação
das (eram cópias recém-restauradas funcionais a sua própria concepção
a qualquer vínculo limitante, seja
e o número de projeções tinha sido de obra.
ele de ordem estética ou política. É
previamente determinado).
propositivo e polêmico, sempre. Há
Nos últimos tempos – me refiro uma procura, ao longo de sua vida,
aos últimos dez, quinze anos – o de verdades que são pessoais, em IHU On-Line – Da filmografia
interesse pela obra, não só cinema- primeiro lugar, mas ao mesmo tem- de Pasolini, qual o seu preferi-
tográfica, e pela figura de Pasolini po são sempre inflexões do debate do? Por quê? E qual filme acha
cresceu enormemente. Eu ousaria contemporâneo. Acredito que esse que tem mais a dizer e que ins-
dizer que o interesse pela poesia foi processo, tão raro de acontecer, seja pira a pensar sobre nosso tem-
um dos maiores. De modo geral, já devido à combinação de uma atitu- po e o mundo de hoje?
que seria difícil mapear, neste es- de intelectual, incansável, de estu- Maria Betânia Amoroso – Não
paço, todos os aspectos da questão, do e pesquisa e uma postura crítica sei se tenho um filme preferido. O
46 acredito ser justamente a percepção permanente, constantemente leva- primeiro filme de Pasolini a que
de Pasolini, muito precoce, de que a da à exacerbação. assisti foi O Evangelho segundo
dita civilização ocidental tomara o S. Mateus (1964), nos anos 70, no
rumo da catástrofe, o que mais atrai Cine Sesc, em São Paulo. Portanto,
os leitores (e espectadores) brasilei- IHU On-Line – Quais são e antes de ter ido fazer um mestrado
ros. Falando da Itália e escrevendo como compreender as princi- em dialetologia na Itália e antes de
sobre ela, sugere relações possíveis pais fontes de inspiração dos saber quem era Pasolini. Passados
entre aquele país e o Brasil e outras filmes do diretor? tantos anos, ainda retenho a im-
periferias porque o rumo é o mesmo, pressão, muito forte na época, da
o estabelecimento do capitalismo Maria Betânia Amoroso – O
dureza do Cristo, um Cristo intran-
avassalador. Acrescente-se a isso o cinema proposto por Pasolini é um
sigente, de fala cortante e incisiva.
envolvimento do autobiografismo capítulo importante no conjunto da
A segunda impressão vem do fato
em toda sua produção: é tamanha a sua obra. Ele teorizou sobre cinema
de ter escalado amigos e a própria
autoidentificação de Pasolini com as (o texto mais conhecido é o Cine-
mãe para encarnarem os apóstolos
questões da Itália do século XX que ma de poesia) seguindo de perto, e
e Maria. Ambas as impressões são
tinha a convicção de que a sua au- muitas vezes discordando, das te-
sinais que interpreto naquela mes-
tobiografia, exposta no conjunto de ses linguísticas e semiológicas dos
ma chave do discurso coletivo feito
sua produção, coincidia com a histó- anos 70. Mas sua experiência como
por um intelectual, sem a frieza ou
ria do país. É uma combinação de poeta, romancista e crítico literário
o distanciamento da razão racional.
coisas muito poderosa! (quando começa a filmar já é escri-
tor) continua a alimentá-lo. Isso sig- Gosto muito de Gaviões e passari-
nifica que sua formação literária é nhos (1966), outro filme-ensaio que
um forte aliado na concepção de seu me parece extremamente feliz como
IHU On-Line – Como com-
cinema. Evidentemente, para quem resultado pela capacidade do cine-
preender a figura de Pasolini,
já assistiu a algum de seus filmes, há asta em articular no tecido de uma
alguém que se mantém livre
uma técnica fílmica pasoliniana, de- fábula tantas discussões. Em parti-
mesmo aderindo ao Partido
senvolvida ao longo dos anos. Seria cular aquela sobre as relações entre
Comunista, que se diz ateu e
difícil comentá-la aqui. linguagem, corpo e política. É assim
consegue compreender um
que compreendo, graças às inumerá-
As fontes de inspiração, entre-
veis conversas com Alex Calheiros23,
tanto, são as mais diversas: além
22 Organismo ligado ao Centro de Estudos Pier dos filmes que têm como ponto de
Paolo Pasolini Casa Colussi - Casarsa della Delizia. 23 Alex Calheiros: graduado e doutor em Filoso-
(Nota da IHU On-Line) partida obras literárias, há filmes- fia pela Universidade de São Paulo, é professor da

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o episódio do frade que recebe a mis- um grau insuportável. Já tínhamos IHU On-Line – Deseja acres-
são determinada por São Francisco visto muitíssima violência no cine- centar algo?
de pacificar os gaviões e os passari- ma, principalmente no cinema ame- Maria Betânia Amoroso – Tal-
nhos. A sequência é um primor. As ricano, mas em Salò é outra coisa. vez chamar a atenção para o mo-
tentativas de compreensão da lin- Há, claro, a referência direta ao fas- vimento central em todo Pasolini,
guagem dos pássaros para poder fa- cismo, às relações entre carrasco e aquele que une vida e obra. A pre-
zer sua pregação só darão resultados
vítima, há a presença de Sade, mas o sença física do corpo em Pasolini é
quando aos sons são incorporados os
que torna o filme único é a descrição testemunhada pela premência em
pulinhos dos passarinhos. E tudo isso
encenado pelo incrível Totó (acho do estado de violência em si. que cada obra nasce. Cada obra é
que este é o filme que mais gosto!). necessária e presente. Assim dizen-
Mas há outros, os ligados às tra-
do, procuro ir na direção contrária
Salò (1975) me parece uma obra- gédias gregas (Édipo rei, Medeia), daqueles que entendem essa relação
-prima. Através das imagens, a vio- o espetacular Accattone (1961), que como um contar sobre a vida. Me
lência vai num crescendo até atingir faz de um personagem das periferias parece que temos em Pasolini muito
urbanas uma espécie de herói trá- mais a incessante necessidade de es-
Universidade de Brasília. Tem experiência na área gico, além de documentários como
de Filosofia, com ênfase em História da Filosofia, crever, desenhar, filmar, entrevistar,
atuando principalmente nos seguintes temas: Notas para uma Oréstia africana para encontrar a vida que sempre es-
cinema italiano, realismo, neorrealismo, crítica e
filosofia política. (Nota da IHU On-Line) (1970), Os muros de Sanaa (1964). capará e, então, a busca recomeça.■

47

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TEMA DE CAPA

O poeta livre de amarras


Maurício Dias analisa texto e estrofes de Pasolini que,
segundo ele, não cabem em nenhum modelo
João Vitor Santos

E
xperimentador. Para o profes- ções consolidadas”, completa. E para se
sor de Letras da Universidade ter ideia de tamanha lucidez, vale des-
de São Paulo - USP Maurício tacar as preocupações de Pasolini com
Santana Dias, essa é a melhor palavra a vulnerabilidade da própria ideologia
que define a obra como um todo de – de esquerda – que assumia. “Gramsci
Pier Pasolini. Ele qualifica o artista ita- é um dos tantos espectros que ronda-
liano como “‘ensaiador’ das formas ar- ram Pasolini, e aquele poema elegíaco
tísticas mais variadas, transitando do [As cinzas de Gramsci] está intimamen-
poema ao romance, à crítica cultural te ligado à crise do pensamento de es-
e literária, ao cinema, ao jornalismo, querda, mais especificamente comunis-
ao teatro”. Assim, no que diz respeito ta, da Itália de meados dos anos 1950”.
a estética, é extremamente complicado
classificar os movimentos de Pasolini. Maurício Santana Dias é professor
No que diz respeito à temática de seus de Letras Modernas e Estudos da Tra-
dução na Universidade de São Paulo
48 poemas, o professor reconhece que até
a figura do “poeta civil” não dá conta - USP, crítico literário e tradutor. Foi
de definir o italiano. “Percebe-se um professor da Universidade do Estado
profundo mal-estar de Pasolini com a do Rio de Janeiro - Uerj entre 1995 e
possibilidade de ser fixado numa for- 1998, jornalista cultural do jornal Folha
ma imutável, num rótulo de fácil con- de S. Paulo entre 1998 e 2003, pesqui-
sumo”, explica Dias. sador visitante da Georgetown Univer-
Na entrevista a seguir, concedida por sity (Washington, DC) em 2000 e fez
e-mail à IHU On-Line, o professor pós-doutorados nas universidades La
explica por que o artista italiano tem Sapienza, de Roma, e Sorbonne Nou-
sido tão recuperado. “A voz de Pasoli- velle, em Paris. É autor de A Demora:
ni se impõe com muita força em nossos Claudio Magris, Danúbio, Microcos-
mos (São Paulo: Lumme, 2009), e já
dias”, pontua. “Com sua obra sempre
traduziu mais de 40 títulos, entre eles
provocadora, muitas vezes no limite do
textos e poemas de Pasolini. Atualmen-
escândalo de tão ousada, soube abrir
te prepara uma edição das cartas de Ita-
espaços como poucos artistas do século
20, provocando seus leitores e interlo- lo Calvino.
cutores a pensar e a sair de suas posi- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor mentador, um “ensaiador” – no sen- das formas artísticas mais variadas,
define a poesia de Pier Paolo tido que Galileu1 deu à expressão –
Pasolini?
lizá-lo para fazer observações astronômicas. Com
1 Galileu Galilei (1564-1642): físico, matemático, ele descobriu as manchas solares, as montanhas
Maurício Santana Dias – É uma astrônomo e filósofo italiano que teve um papel da Lua, as fases de Vênus, quatro dos satélites
poesia de difícil definição, porque preponderante na chamada revolução científica. de Júpiter, os anéis de Saturno, as estrelas da Via
Desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do Láctea. Estas descobertas contribuíram decisiva-
não pode ser identificada a este ou movimento uniformemente acelerado e do movi- mente na defesa do heliocentrismo. Contudo a
mento do pêndulo. Descobriu a lei dos corpos e principal contribuição de Galileu foi para o mé-
aquele movimento mais ou menos enunciou o princípio da inércia e o conceito de re- todo científico, pois a ciência se assentava numa
preciso, a esta ou aquela poética. ferencial inercial, ideias precursoras da mecânica metodologia aristotélica de cunho mais abstrato.
newtoniana. Galileu melhorou significativamente Por essa mudança de perspectiva é considerado
Pasolini foi antes de tudo um experi- o telescópio refrator e terá sido o primeiro a uti- o pai da ciência moderna. (Nota da IHU On-Line)

8 DE MAIO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

“Essa figura do ‘poeta


civil’, do artista engajado,
acabou prevalecendo
entre o seu público”

transitando do poema ao romance, à Maurício Santana Dias – Maurício Santana Dias – Há al-
crítica cultural e literária, ao cinema, Justamente pela abrangência de gumas questões que são recorrentes
ao jornalismo, ao teatro. Essa extra- formas e ideias que seus poemas em Pasolini, como sua atenção à vida
ordinária vontade de experimenta- mobilizam, pelo seu caráter anti- dos que estão à margem da sociedade
ção pode ser percebida claramente dogmático e experimental – sem burguesa que, na Itália, foi tomando
nos sete ou oito livros de poesia que ser vanguardista –, penso que a feições próprias a partir de meados
ele publicou ao longo de três dé- voz de Pasolini se impõe com mui- dos anos 1950. Os personagens de
cadas, em que ele não só variou de ta força em nossos dias. Quando seus versos, romances e primeiros fil-
forma, começando muito próximo digo isso não me refiro propria- mes são todos ligados ao mundo do
do lirismo de poetas provençais, de mente a certas ideias que Pasolini subproletariado das grandes cidades,
simbolistas franceses, de Giovanni lançou e que reverberaram e ainda Roma acima de tudo, com sua lingua-
Pascoli2 e dos herméticos italianos reverberam, como a noção de “ge- gem, seu modo de pensar, sua fé e sua
para, a partir de meados dos anos nocídio cultural” das sociedades descrença, suas estratégias de sobre-
1960, se abrir a uma quase indistin- pré-burguesas ou não burguesas, vivência etc. E de fato Pasolini convi-
ção entre o verso e a prosa, mas tam- a “mutação antropológica” que o veu intensamente com esses grupos, 49
bém de problema, incorporando a consumismo e o tipo de vida do sobretudo a partir de 1950, quando
suas poesias os grandes debates que capitalismo tardio estariam pro- ele se fixou em Roma.
mobilizaram artistas e intelectuais movendo, à sua crítica feroz à TV
entre os anos 1940-1970. como indutor dessa espécie de ho- Esses personagens, que num
mogeneização e administração da primeiro momento são vistos
E aí me refiro mais especificamen- por Pasolini quase como exilados
vida. Penso sobretudo na abertu-
te aos debates da esfera pública, em de um mundo rural e arcaico
ra que seus versos promovem no
que o lirismo subjetivo vai cada vez
sentido de ampliar a experiência em extinção, mais tarde passam
mais cedendo espaço a questões
de novas formas e ideias que, por a integrar plenamente aquela
políticas e culturais daqueles anos
aberrantes ou utópicas que sejam, cultura burguesa e a pensar e se
agitados, tanto é que Pasolini acaba
criando para si a imagem de “poeta
precisam de espaço para que pro- comportar segundo seus valores,
liferem, e nesse sentido Pasolini, mas sem deixar de estar à margem,
civil”. Essa figura do “poeta civil”,
com sua obra sempre provocadora, de ser marginal. Os versos e textos
do artista engajado, acabou prevale-
muitas vezes no limite do escânda- em prosa de Pasolini flagram
cendo entre o seu público, ainda que
Pasolini se voltasse insistentemen- lo de tão ousada (de uma “deses- e denunciam essa mutação
te contra essa “identidade” que ele perada vitalidade”), soube abrir como poucos, e a retrabalha
mesmo criou, já que no fim das con- espaços como poucos artistas do obsessivamente em várias obras.
tas tal imagem obscurecia em grande século 20, provocando seus leitores Mas a cada obra – livro, filme, peça,
parte o caráter complexo, ambíguo e e interlocutores a pensar e a sair de
ensaio – o problema muda, Pasolini
contraditório de sua experimenta- suas posições consolidadas. Ob-
sente agudamente a aceleração
ção, sempre em movimento. viamente ele pagou um preço bem
histórica e, como alguém que
caro por isso, suscitando reações
violentas ou simplesmente incom-
faz parte desse processo (e não o
preensão – mas não indiferença. assiste confortavelmente de fora),
IHU On-Line – No que a poe- ele mesmo revê incessantemente
sia de Pasolini inspira a pensar suas posições, procurando lhe dar
nos problemas da sociedade novas formas.
contemporânea? IHU On-Line – As questões de
fundo que inspiram o poeta e
2 Giovanni Pascoli (1855-1912 ): foi um poeta e o cronista Pasolini são as mes-
acadêmico italiano figura, emblemática da litera- mas? Como elas aparecem nos IHU On-Line – Que aproxi-
tura italiana do final do século XIX . (Nota da IHU
On-Line) distintos gêneros literários? mações podemos fazer entre

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

as obras de Pasolini e Cesare distante, como procurei mostrar em anos mais tarde, referir-se ironica-
Pavese3? meu estudo introdutório que acom- mente a si como o “poeta das Cinzas
panha a tradução de Trabalhar can- de Gramsci”.
Maurício Santana Dias – Eu di-
sa (São Paulo: Cosac Naify, 2009).
ria que, apesar dos inegáveis pontos Percebe-se um profundo mal-es-
Natalia Ginzburg8 faz dele um perfil
de contatos entre os dois – a reflexão tar de Pasolini com a possibilidade
magistral em Retrato do amigo, que
que ambos fazem sobre o mito, sobre – que sempre acontece, porque é a
está no livro As pequenas virtudes9.
as sociedades arcaicas, sobre figuras via mais fácil – de ser fixado numa
marginais do mundo em acelerado Já Pasolini foi oposto disso: um ar- forma imutável, num rótulo de fá-
processo de aburguesamento, e pen- tista onívoro, voraz, que experimen- cil consumo – justo ele, que era o
dor por uma poesia mais narrativa e tou de tudo e se transformou inces- artista da inquietação e da mobili-
discursiva –, as poéticas de Pasolini santemente até a morte. dade permanente. Nesse sentido,
e Pavese são quase opostas. Numa me lembra o problema de uma far-
famosa antologia que o poeta Edo- sa teatral de Pirandello12, “Quando
ardo Sanguineti4 lançou em 1969, si è qualcuno”, que encena justa-
ambos (além do poeta Elio Paglia-
rani5) foram reunidos sob a mesma
“A voz de Pa- mente essa transformação do ar-
tista vivo e pensante numa estátua
rubrica de “realismo experimental”,
o que a meu ver criou muitos mal-
solini se im- de pedra, um monumento sempre
igual a si mesmo.
-entendidos. põe com mui- Gramsci é um dos tantos espectros
Pavese é o poeta da autodisciplina
e do controle quase maníacos, que ta força em que rondaram Pasolini, e aquele
poema elegíaco, longo e magnífico
publica um único livro de poemas
(Trabalhar cansa) onde tudo é cal-
nossos dias” (Italo Calvino13, outro escritor mui-
tíssimo diferente de Pasolini, lhe diz
culado milimetricamente. Seus ver- numa carta de 1955 que se trata da
sos longos e aparentemente infor- melhor poesia que estava sendo es-
mes obedecem a regras estritas que crita na Itália daqueles anos), está
50 ele mesmo criou para si, e que em IHU On-Line – Pasolini pode intimamente ligado à crise do pen-
boa parte derivam do anapesto gre- ser pensado como “poeta das samento de esquerda, mais especi-
go6. O fato de ele ter escrito uma tese Cinzas de Gramsci”10? Por quê? ficamente comunista, da Itália de
sobre Walt Whitman7 também gerou meados dos anos 1950. Depois so-
mal-entendidos entre seus críticos, Maurício Santana Dias – Tanto brevêm outras questões, que mere-
que leram Pavese como um poeta de o volume publicado em 1957 quan- cerão de Pasolini outros tratamen-
versos livres e narrativos. Nada mais to o longo poema nele incluído, As tos formais – mas a etiqueta é algo
cinzas de Gramsci11, são sem dúvi- que gruda e não larga mais.
da um momento central da obra de
3 Cesare Pavese (1908-1950): foi um escritor e
poeta italiano. Combatente antifascista, o que lhe Pasolini – e, a meu ver, onde ele al-
rendeu três anos de prisão no sul da Itália. Nes-
sa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver”, cançou os resultados mais notáveis
título original “Il Mestiere di Vivere”, uma autocri-
IHU On-Line – De que forma a
como poeta. Mas ele mesmo irá,
tica revelada em reflexões sobre a sua arte, seus poesia de Pasolini chega ao ci-
processos criativos e sobre o sentido da existên-
cia. (Nota da IHU On-Line) nema? Como a crítica social de
4 Edoardo Sanguineti (1930-2010): foi um poe- 8 Natalia Ginzburg (1916-1991): foi uma escri- seus versos se traduzem para a
ta, escritor italiano e um dos principais teóricos tora italiana. Nascida Natalia Levi na capital da
do Grupo 63. Também foi crítico literário, autor Sicília numa família judaica de origem triestina, sétima arte?
de peças teatrais, ensaios e professor de literatura seu pai, Giuseppe Levi, era professor universitário
das universidades de Torino, Salerno e Gênova. e seus três irmãos foram prisioneiros durante o
Sua atuação foi marcada pela batalha cultural regime fascista. (Nota da IHU On-Line)
iniciada com a experiência vanguardista dos anos 9 São Paulo: Cosac & Naify, 2015. (Nota da IHU 12 Luigi Pirandello (1867-1936): foi um drama-
60. (Nota da IHU On-Line) On-Line) turgo, poeta e romancista siciliano. Foi um grande
5 Elio Pagliarani (1927-2012): foi um poeta e crí- 10 Antonio Gramsci (1891-1937): foi um filósofo renovador do teatro, com profundo sentido de
tico de teatro italiano. Ele trabalhou no mundo marxista, jornalista, crítico literário e político ita- humor e grande originalidade. Suas obras mais
da edição e foi o crítico de teatro do jornal Paese liano. Escreveu sobre teoria política, sociologia, famosas são: Seis personagens à procura de um
Sera 1968-1987. Foi um dos principais expoentes antropologia e linguística. Com Togliatti, criou autor, Assim é, se lhe parece, Cada um a seu modo
da nova vanguarda (aparecendo entre outros na o jornal L’Ordine Nuovo, em 1919. Secretário do e os romances O falecido Matias Pascal, Um, Ne-
antologia I novissimi de 1961), um dos protago- Partido Comunista Italiano (1924), foi preso em nhum e Cem Mil e Esta Noite Improvisa-se. Sua
nistas do Grupo 63, no qual, no entanto, ocupa- 1926 e só foi libertado em 1937, dias antes de primeira peça de teatro foi O Torniquete escrita
va uma posição autônoma e pessoal. Sua poesia, falecer. Nos seus Cadernos do cárcere, substituiu entre 1899 e 1900 e encenada pela primeira vez
não sem tons populistas e crepusculares, vem da o conceito da ditadura do proletariado pela “he- em 1910. Recebeu o Nobel de Literatura de 1934.
notícia e da vida quotidiana; prosa, inserções de gemonia” do proletariado, dando ênfase à direção Luigi Pirandello participou da campanha “coleta
dialeto, colagem de vários conteúdos são os in- intelectual e moral em detrimento do domínio do do ouro”, organizada pelo ditador italiano Benito
gredientes de seu estilo. (Nota da IHU On-Line) Estado. Sobre esse pensador, confira a edição 231 Mussolini, que visava levantar fundos para o país.
6 Anapesto: é uma unidade rítmica do poema. da IHU On-Line, de 13-8-2007, intitulada Grams- A campanha era uma resposta à Liga das Nações
É formado por duas sílabas átonas (ou breves) e ci, 70 anos depois, disponível para download em que impôs sanções econômicas à Itália após esta
uma sílaba tônica (ou longa), em ritmo ascenden- http://bit.ly/ihuon231. (Nota da IHU On-Line) ter invadido e declarado guerra a Etiópia (1935-
te. (Nota da IHU On-Line) 11 As cinzas de Gramsci foi escrito em 1954, pu- 36). Pirandello doou sua medalha do Prêmio No-
7 Walt Whitman (1819-1892): foi um poeta, en- blicado pela primeira vez em uma coletânea bel à campanha. (Nota da IHU On-Line)
saísta e jornalista norte-americano, considerado homônima de 1957 sob a responsabilidade da 13 Italo Calvino (1939-1985): escritor cuba-
por muitos como o “pai do verso livre”. Paulo Le- editora italiana Garzanti, trazendo a profunda in- no, radicado na Itália, autor de livros como As
minski o considerava o grande poeta da Revolu- quietação do poeta acerca dos meios expressivos Cidades Invisíveis (São Paulo: Companhia das Le-
ção americana, como Maiakovsky seria o grande capazes de dar forma literária à representação do tras, 1998) e da trilogia Os Nossos Antepassados.
poeta da Revolução russa. (Nota da IHU On-Line) povo. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)

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Maurício Santana Dias – Pa- Maurício Santana Dias – Qui- Eu, como tradutor, talvez precisasse
solini começa a escrever poesia semos, eu e Alfonso Berardinelli15, escrever um livro paralelo a respeito.
ainda menino, se forma em Letras que organizou a antologia comigo,
e publica seu primeiro livro aos chegar a uma seleção de textos que,
20 anos de idade. É um grande na medida do possível e de nossos
conhecedor de filologia e da tra-
dição da poesia dialetal na Itália,
incontornáveis gostos pessoais,
desse conta da enorme variedade
“Percebe-se um
da qual organizou uma importante
antologia publicada em 1955.
de formas, ideias e imagens que
compõem o magma poético de Pa-
profundo mal-
Quando ele chega ao cinema com
solini. A operação era ainda mais
delicada e, em certo sentido, arbi-
-estar de Paso-
Accatone (1961), às vésperas de
fazer 40 anos, é um escritor e um
trária (e violenta) por se tratar do
primeiro livro de poemas de Paso-
lini com a pos-
intelectual maduro, que já havia
elaborado longamente em versos,
lini publicado no Brasil. Tivemos
sobretudo o cuidado de não ofe-
sibilidade de
ensaios, romances e textos jorna-
lísticos vários daqueles núcleos
recer ao leitor brasileiro uma ima-
gem parcial de um poeta tão com-
ser fixado numa
conceituais-imagéticos que ele de-
pois iria desdobrar nos anos 1960
plexo, mutante e “ensaiador” como forma imutável,
Pasolini, o cuidado de não reforçar
e 1970 até chegar àquela espécie
de apocalipse sem revelação que é
certos estereótipos ligados à sua num rótulo de
fácil consumo”
figura: o polemista, o militante,
Salò (1975).
o profeta, o apocalíptico. Por isso
São muito conhecidas as teoriza- selecionamos textos de cada um
ções de Pasolini sobre o “cinema de de seus livros de poesia e não só:
poesia”, mas não se deve entendê- percebendo um movimento do ver-
-lo como uma transposição pedes- so de Pasolini em direção à prosa IHU On-line – Quais os desa-
tre de um meio, a poesia, para ou- ensaística, beirando a indistinção fios para se traduzir Pasolini
tro meio, o audiovisual do cinema. entre um e outro em um livro como tanto em termos linguísticos 51
Com certeza a aposta de Pasolini na Trasumanar e organizzar, extra- quanto sociais, levando em
arte cinematográfica se vinculava a polamos o “estritamente” poético e conta a passagem dos tempos?
sua “paixão pelo real”, o desejo de incluímos alguns textos muito im-
adesão quase imediata às coisas, portantes de seus livros de ensaio Maurício Santana Dias – Os
como se as palavras, desgastadas, Empirismo eretico, Lettere lute- poemas friulanos16, por exemplo, eu
já não fossem suficientes para no- rane e Scritti corsari, enfatizan- jamais os teria traduzido sem me va-
mear a “totalidade” da experiência. do justamente esse contínuo que ler das traduções literais que o pró-
Mas acho importante lembrar que, atravessa três décadas de trabalho prio Pasolini fez. Mas sempre ten-
ao ser assassinado em novembro de intelectual e criativo. tando seguir o ritmo e a sonoridade
1975, Pasolini estava trabalhando do friulano (por sorte, há alguns ví-
Foi difícil chegar a essa forma fi-
no projeto de um novo longa-me- deos de Pasolini lendo seus poemas
nal, tivemos de deixar de fora tex-
tragem (Porno-Teo-Kolossal), tinha friulanos no YouTube). Outra difi-
tos extraordinários e por isso mes-
um longo e inacabado texto narrati- culdade foi lidar com a intensa al-
mo antológicos, mas, levando em
vo na gaveta – Petrolio – e militava ternância de registros, muitas vezes
conta nosso critério de base – dar
assiduamente na imprensa italiana. dentro de um mesmo poema. E ten-
a ver a multiplicidade quase ines-
Mas a morte violenta veio coincidir tar acompanhar de perto a velocida-
gotável de Pasolini –, acho que o
com o “mal radical” de Salò, dan- de do pensamento pasoliniano, suas
volume correspondeu a esse pro-
do a impressão de que não haveria reviravoltas e fintas, não é tarefa das
pósito. É claro que se trata apenas
mais nada depois daquilo. mais fáceis. Para usar uma imagem
de uma primeira abordagem anto-
lógica da poesia de Pasolini, e espe- futebolística, futebol de que ele tanto
ramos que a partir daí a história da gostava, muitas vezes o tradutor ti-
IHU On-Line – Como foi a ex- recepção de Pasolini no Brasil siga nha de voltar várias vezes o mesmo
periência de revisitar poemas vários outros rumos. lance para não se deixar driblar. Mas
de diversas fases de Pasolini nem sempre isso foi possível.
para a tradução da antologia Quanto às dificuldades de tradução,
lançada recentemente pela Co- acho que só a leitura de cada poema
sac Naify14? Quais seus maiores e de cada verso poderia explicitá-la.
16 Literatura Friulana refere-se à literatura própria
desafios nessa tradução? da região de Friuli, Venezia-Giulia, região localiza-
15 Alfonso Berardinelli (1943): crítico literário e da no nordeste da Itália. A escrita em Friulano é
ensaísta italiano, que trabalhou com vários jornais uma das línguas reconhecidas como oficiais pelo
14 Pasolini, poemas. São Paulo: Cosac Naify, 2015. italianos como Avvenire, Il Sole 24 Ore e Il Foglio. estado italiano desde 1999. (Nota da IHU On-Li-
(Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) ne)

EDIÇÃO 504
TEMA DE CAPA

A tolerância geradora de guetos


Davi Pessoa analisa Pasolini, a partir das entrevistas concedidas
por ele, como artista problematiza a ideia do “diferente”
João Vitor Santos

S
ão muitos os que destacam a di- tamos todos em perigo’”, refere o pro-
ficuldade de enquadrar Pasoli- fessor. Reconhecendo que ainda se tem
ni em apenas uma perspectiva. muito o que descobrir do Pasolini para
“Gosto muito de pensar seu percurso a além do cinema, provoca: “seu pen-
partir de limiares, já que é um pensador samento, sua presença entre nós, sua
múltiplo. Pasolini põe em movimen- inserção na nossa paisagem como luta
to zonas transversais, oblíquas, com o pela vida, deve ser sempre um motivo
intuito de confrontar os saberes insti- de alegria, visto que seu pensamento e
tuídos dentro de espaços limitados”, seu corpo se colocaram sempre contra
pontua o professor e tradutor Davi Pes- toda forma de Poder”.
soa. Observando o pensamento do ar- Davi Pessoa é professor de Literatu-
tista italiano, destaca sua atenção para ra Italiana na Universidade Estadual do
pensar “o diferente”, que em Pasolini Rio de Janeiro - Uerj. É autor de Ter-
é o criminoso, homossexual, pobre ou ceira Margem: Testemunha, Tradu-
52 meridional, a vítima em potencial do ção (Rio de Janeiro: Editora da Casa,
linchamento social. “Nesse sentido, o 2008). Atua também como tradutor de
personagem que emerge de suas entre- literatura e filosofia italiana. Entre as
vistas e de seus trabalhos trama uma obras que traduziu, destacamos A ra-
rede de muitos contágios e contamina- zão dos outros (São Paulo: Lumme Edi-
ções, e isto é um gesto político”, analisa. tor, 2009) e Ou de um ou de nenhum
É por essa contaminação, destaca Pes- (São Paulo: Lumme Editor, 2010),
soa, que Pasolini formula, por exemplo, de Luigi Pirandello, O tempo que res-
a ideia de que a tolerância cria guetos, ta (Belo Horizonte: Autêntica, 2016),
vista por ele como “aspecto mais atroz” Meios sem fim (Belo Horizonte: Autên-
da falsa democracia. Assim, o artista tica, 2015), do filósofo Giorgio Agam-
observa a tolerância como algo mais ben, e Uma gozação bem-sucedida
perverso do que a proibição. Por essas (São Paulo: Carambaia, 2017), de Italo
perspectivas é que Pessoa reconhece Svevo. Atualmente está trabalhando na
a atualidade do italiano. “Estamos vi- tradução do texto Petróleo, de Pier Pa-
vendo atualmente violências por todo o olo Pasolini. O livro deve ser publicado
país, e por todo o Mundo, ou como diria pela Editora 34.
Pasolini, em sua última entrevista: ‘Es- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você de Pasolini. Nesse período, “figurae” sim, a figura Pasolini reúne muitas
compreende a figura de Pier não significava a apreensão de algo, categorias heterogêneas, as quais só
Paolo Pasolini? não algo passível de representação se tornam acessíveis a partir de um
ou a apreensão e representação do procedimento anacrônico.
Davi Pessoa – Compreendo Paso-
lini tal como se compreendia a noção aspecto visível das coisas, mas muito Posso dar como paradigma, nesse
de “figura”, na Idade Média – perío- mais a transferência de um sentido sentido, a leitura a contrapelo de O
do que, como sabemos, é fundamen- a outro, como impossibilidade de Decameron – ressalto a presença do
tal para o percurso do pensamento apreensão de certa visibilidade. As- artigo no título do filme de Pasolini

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“Pasolini reúne muitas categorias


heterogêneas, as quais só se
tornam acessíveis a partir de
um procedimento anacrônico”

em detrimento do livro de Boccac- ralidades, das diferenças. Em 1969, tradução, muito mais que dar mais
cio – ao lado de uma reflexão trazi- ele escreve para a revista Tempo: sacralidade ao “texto original”, tal
da à tona por ele, em 1969, sobre a “O homem médio – ou seja, a opi- como o nomeamos, ela profana o
sobrevivência e o desaparecimento nião pública representada e, diria, texto original, ela restitui ao uso co-
de cidades históricas em seu mun- oficializada pelos jornais – requer mum dos homens o que se encontra-
do contemporâneo, como é o caso ainda, como na profundidade dos va separado.
do filme Os muros de Sanaá (1970), milênios, o ‘bode expiatório’: isto é,
No entanto, para que haja profana-
que é um curta-manifesto direciona- sente a necessidade de linchamen-
ção no gesto da tradução é necessá-
do à Organização das Nações Unidas to. As vítimas que serão linchadas
rio que se coloque em ação um novo
para a Educação, a Ciência e a Cultu- continuam a ser regularmente pro-
uso do texto a ser traduzido. E para
ra - Unesco para o reconhecimento curadas entre os ‘diferentes’. Esta-
que isso possa ocorrer, podemos
da cidade como patrimônio histórico mos ainda, em outras palavras, no
compreender a tradução como uma
da humanidade. Além disso, Pasoli- auge da civilização de Himmler. Os
brincadeira que desarticula certas
ni conseguia perceber, naquele mo- ‘lager’ os esperam”.
normatizações de leitura em torno 53
mento em que estava procurando lo-
O ‘diferente’ (criminoso, homos- da produção de um escritor, como é
cações para seu filme-homenagem a
sexual, pobre ou meridional: estas o caso de Pasolini, que possui uma
Boccaccio1, que a população daquela
são as atribuições da vítima que será vastíssima fortuna crítica. A tradu-
cidade já sofria uma fortíssima mu-
linchada, regularmente procurada) ção, nesse sentido, abre uma nova
tação antropológica em decorrência
se configura como ‘monstro’. Nesse série de leituras sobre seu pensa-
da chegada do mundo capitalista.
sentido, o personagem que emerge mento, um novo uso.
Assim, era seu modo de ler outro
de suas entrevistas e de seus tra-
tipo de “peste” que estava obliteran- Pasolini, na passagem do ano 1959
balhos – o pasticheur – trama uma
do toda uma cultura. para o ano 1960, recebe o convite do
rede de muitos contágios e contami-
ator Vittorio Gassman3 e do diretor
nações, e isto é um gesto político.
Luciano Lucignani4 para traduzir A
IHU On-Line – Que persona- Oresteia (ou A Orestíada), de Ésqui-
gem Pasolini constitui a partir lo, para o Teatro Popolare Italiano
IHU On-Line – Traduzir é um – Tpi, e o aceitou, mesmo se achan-
de suas entrevistas, quando
modo peculiar de ler um texto? do despreparado, e a respeito desse
fala de si mesmo? O que esse
Por quê? E, no caso de Pasolini, desafio, ele escreve: “Como tradu-
discurso sobre si revela acer-
quais os desafios para tradução zir? Eu já possuía um ‘italiano’: e era
ca de seu pensamento e ativis-
e compreensão de seus pensa- naturalmente aquele das Cenere di
mo político?
mentos e provocações? Gramsci (com alguma parte expres-
Davi Pessoa – Durante uma en- siva sobrevivida em L’usignolo della
Davi Pessoa – Esta minha propo-
trevista com Giuseppe Cardillo, em chiesa cattolica); sabia (por instinto)
sição “traduzir é um modo peculiar
1969, em Nova Iorque, Pasolini lhe que poderia fazer uso dele.” O uso
de ler um texto” provém de outra,
diz: “Sou, na realidade, um pasti- dessa língua menos sublime, mais
de Italo Calvino2, quando diz que
che”, ou seja, uma mancha em que
“traduzir é o verdadeiro modo de ler
se acumulam muitos pigmentos. Há
um texto”. A tônica, portanto, não se
em todo o percurso de Pasolini uma 3 Vittorio Gassman (1922-2000): foi um ator, di-
encontra no verdadeiro, mas na sin- retor, roteirista, escritor e ator italiano, com desta-
tomada de posição em favor das plu- que para atuação no campo de teatro, cinema e
gularidade da leitura. Desse modo, a
televisão. (Nota da IHU On-Line)
4 Luciano Lucignani (1922-2008): foi um diretor
1 Giovanni Boccaccio (1313-1375): foi um autor de cinema e roteirista italiano. Após a guerra, cul-
e poeta italiano, filho de um mercador. Boccaccio 2 Ítalo Calvino (1939-1985): escritor cuba- turalmente envolvido em Partido Comunista Ita-
não se dedicou ao comércio como era o desejo no, radicado na Itália, autor de livros como As liano – PCI , intensifica o trabalho como diretor de
de seu pai, preferindo cultivar o talento literário Cidades Invisíveis (São Paulo: Companhia das Le- teatro, crítico, e roteirista. Foi o fundador e diretor
que se manifestou deste muito cedo. (Nota da tras, 1998) e da trilogia Os Nossos Antepassados. até sua morte da Academia de Arte Dramática da
IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) Calábria. (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

“civil”, como ele a nomeia, provocou movimento estético, seja do ci- que pode emergir desse choque, des-
um imenso mal-estar aos olhos dos nema ou da poesia da Itália da sa luta pela vida como inserção hu-
helenistas e filólogos mais conserva- época? mana numa determinada paisagem.
dores, porém, Pasolini via que nes-
Davi Pessoa – Difícil traçar fron-
ta “brincadeira”, nesta profanação,
teiras na obra de Pasolini. Aliás, a
se encontrava um modo peculiar de IHU On-Line – Qual a atuali-
própria noção de obra é ali coloca-
leitura do texto de Ésquilo naqueles dade de Pasolini? Por que o po-
da em xeque o tempo todo, por isso
anos. Sua provocação era, portanto, eta, cineasta e ativista político,
mesmo sua predileção pelo termo
mediante o gesto da tradução, profa- essa personalidade tão ímpar,
“appunti”, isto é, anotações, esbo-
nar a discussão política presente no está sendo redescoberta agora?
ços, aquilo que está constantemente
texto clássico aos olhos de seu pre-
em processo de metamorfose. Gosto Davi Pessoa – Talvez seja me-
sente. Creio, em última análise, que
muito de pensar seu percurso a par- lhor, diante dos tempos em que vive-
traduzir os textos de Pasolini signifi-
tir de limiares, já que é um pensador mos, falar da inatualidade de Paso-
ca colocar em movimento um novo
múltiplo. Pasolini põe em movimen- lini. Não se trata de redescoberta, e
olhar – diante de nossas catástrofes
to zonas transversais, oblíquas, com no caso de nosso país tudo ainda ca-
atuais – sobre seu pensamento.
o intuito de confrontar os saberes minha bem devagar. Nos anos 1970,
instituídos dentro de espaços limi- por exemplo, surgiram as primeiras
tados, ou ainda, para confrontar a traduções dos textos de Pasolini en-
IHU On-Line – Quais as ca- famosa tríade tão importante, pa- tre nós. Depois, entramos num hia-
racterísticas mais marcantes radigmaticamente, a Michel Fou- to, e ainda hoje se traduzem muito
na poesia, no texto de Pier Pa- cault6: Saber, Poder, Subjetividade. pouco os textos de Pasolini por aqui,
olo Pasolini? Lembro-me de Éric Dardel7, geógra- e certamente há um grupo que faz
Davi Pessoa – Em toda a poesia fo francês, autor de L’Homme et la um imenso esforço para que seus
de Pier Paolo há um nível de con- Terre (1990), quando aponta que “a textos, poemas, entrevistas, sejam li-
taminação muito intenso de muitos paisagem não é, na sua essência, fei- dos em revistas, visto que as editoras
estilos, bem como há um corte en- ta para ser olhada, mas sim inserção brasileiras ainda têm muita resistên-
54 tre os chamados gêneros literários. do homem no mundo, lugar de luta cia de publicar seus livros.
Podemos, assim, ler As cinzas de pela vida, manifestação do seu ser
com os outros”. Estou, neste momento, traduzindo
Gramsci como uma espécie de en-
Petróleo, o romance inacabado, que
saio. Na linguagem de sua poesia há Assim, muito mais que enquadrá- sairá pela Editora 34, depois de um
traços de materiais estilísticos muito -lo numa moldura, numa paisagem longo processo de negociação por
disparatados, como aqueles da poe- específica e imóvel, é mais interes- causa dos direitos etc. Maurício San-
sia dialetal, da poesia decadentista, sante, e muito mais rico, aproximá- tana Dias10 preparou uma antologia
socialista etc. Como ele diz numa -lo, por sua vez, daquilo que pode, a da poesia de Pasolini, que saiu pela
certa entrevista com Jon Halliday5: priori, nos parecer muito distante, Cosac Naify, no ano passado, que
“Não tenho um estilo pessoal, com- isto é, aproximá-lo, ao mesmo tem- certamente também foi resultado de
pletamente inventado por mim, em- po, de Carlo Carrà8 (1881-1966) e um esforço para que o projeto fosse
bora possua um estilo reconhecível. Masaccio9 (1401-1429), para ver o adiante. Maria Betânia Amoroso11
Não sou reconhecível porque sou in-
está traduzindo, também para a 34,
ventor de uma forma estilística, mas 6 Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês. os Escritos corsários, que será pu-
pelo grau de intensidade a que levo a Suas obras, desde a História da Loucura até a His-
tória da sexualidade (a qual não pôde completar blicado, em breve, na íntegra, já que
contaminação e a fusão de diferen- devido a sua morte) situam-se dentro de uma
filosofia do conhecimento. Foucault trata princi- em 1990 foi publicada uma antologia
tes estilos.” Ainda: aquilo que lemos
palmente do tema do poder, rompendo com as dos textos desse volume, preparada
com muita intensidade na poesia de concepções clássicas do termo. Em várias edições,
a IHU On-Line dedicou matéria de capa a Fou- por Michel Lahud, com tradução
Pasolini é o grau de violência, de in- cault: edição 119, de 18-10-2004, disponível em dele e da Amoroso. E ainda há livros
tensidade, a profundidade do senti- http://bit.ly/ihuon119; edição 203, de 6-11-2006,
disponível em http://bit.ly/ihuon203; edição 364, que jamais tiveram uma única tra-
mento, a paixão que se encontra em de 6-6-2011, intitulada ‘História da loucura’ e o
discurso racional em debate, disponível em http://
seus versos. bit.ly/ihuon364; edição 343, O (des)governo biopo-
lítico da vida humana, de 13-9-2010, disponível ao Humanismo e introduzem uma plasticidade
em http://bit.ly/ihuon343, e edição 344, Biopolíti- nunca antes vista na pintura. Foi o primeiro gran-
ca, estado de exceção e vida nua. Um debate, dis- de pintor italiano depois de Giotto e o primeiro
ponível em http://bit.ly/ihuon344. Confira ainda a mestre da Renascença italiana. Masaccio enten-
IHU On-Line – Como classi- edição nº 13 dos Cadernos IHU em formação, deu o que Giotto iniciara no fim da Idade Média
fica a obra de Pasolini? É pos- disponível em http://bit.ly/ihuem13, Michel Fou- e tornou essa compreensão acessível a todos.
cault. (Nota da IHU On-Line) Começou a trabalhar ainda quando Gentile da Fa-
sível associar o artista a algum 7 Éric Dardel (1899-1967): foi um geógrafo fran- briano, artista do Gótico Internacional, estava em
cês, professor de história e geografia e diretor de Florença. Morreu aos 28 anos, mas sua obra é ma-
colégio. (Nota da IHU On-line) dura. Foi chamado Masaccio (Tommaso Grandão)
8 Carlo Carrà (1881-1966): foi um pintor italiano para distingui-lo de seu principal colaborador,
5 Jon Halliday: é um historiador e escritor bri- do futurismo. Participou em diversas edições da Masolino. (Nota da IHU On-Line)
tânico, especializado na história da Rússia, fre- Bienal de Arte de São Paulo. (Nota da IHU On-Li- 10 É um dos entrevistados dessa edição da IHU
quentador sênior do King’s College de Londres. ne) On-Line. (Nota da IHU On-Line)
Jon Halliday é irmão do historiador Fred Halliday. 9 Masaccio (1401-1429): pintor do período da Re- 11 A professora está entre os entrevistados nesta
(Nota da IHU On-Line) nascença Italiana. Seus afrescos são monumentos edição da IHU On-Line. (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

dução no Brasil. Vamos ver se tudo tância do uso do termo “processo” tantes para se compreender e
isso muda de figura, interesse há por em detrimento do termo “estrutura”. aprofundar a análise sobre o
parte de estudiosos da obra do Paso- Nesse sentido que poderíamos ler o legado de Pasolini?
lini, falta mesmo é mais coragem por conceito de traduzibilidade, a par-
Davi Pessoa – A lista é imensa,
parte de nossos editores. tir do ensaio A tarefa do tradutor,
mas aconselho a leitura de Roberto
de Walter Benjamin13. No gesto da
Tal ação em conjunto é funda- Longhi14, Paul Valéry15, Gianfranco
tradução, o mais importante não é a
mental para que os limiares – sobre Contini16, Elsa Morante17, Ernesto
“tradução”, isto é, o fim, mas a “tra-
os quais destacava anteriormente De Martino18, Antonio Gramsci19,
duzibilidade”, o modo de “vir-a-ser”,
– possam ser transcorridos pelos Rimbaud20, Giuseppe Ungaretti21,
os meios, a experiência, o contato e o
leitores brasileiros, já que por aqui
contágio entre linguagens.
Pasolini ainda é muito visto, isto é, 14 Roberto Longhi (1890-1970): foi um histo-
sua produção cinematográfica, mas riador de arte italiano, famoso por seus estudos
sobre Domenico Veneziano, Hendrick ter Brug-
pouco lido, conhece-se muito pou- ghen, Caravaggio, Velasquez, Masolino, Masaccio
co de sua poesia, bem como de suas IHU On-Line – Que associa- e particularmente sobre Piero della Francesca (es-
ções é possível se fazer entre tudo célebre de 1927). Sua descoberta das igrejas,
relações com as artes plásticas. Por museus e coleções de arte em toda a Europa, em
isso, no ano passado e neste ano, no Walter Benjamin e Pasolini? sua viagem de dois anos entre 1920 e 1922, lhe
permitiu, através de numerosas revistas, livros e
Rio de Janeiro, primeiro, na Casa de exposições, chamar atenção sobre os artistas
Davi Pessoa – Há, sem dúvida, esquecidos da Renascença. Desenvolveu uma
Rui Barbosa, depois, no Museu Mar, muitas analogias que poderíamos tra- pesquisa sobre as estruturas figurativas e sobre a
verbalização da imagem. (Nota da IHU On-Line)
eu e o Manoel Ricardo de Lima, po- çar aqui, mas vou me referir a uma, 15 Paul Valéry (1871-1945): nascido Ambroise
eta, crítico e professor da UniRio, que creio que seja aquela que desdo- -Paul-Toussaint-Jules Valéry, foi um filósofo, es-
critor e poeta francês da escola simbolista cujos
decidimos fazer o Seminário Pasoli- bra tantas outras linhas a partir do escritos incluem interesses em matemática, filo-
ni, com o objetivo de ampliação da sofia e música. (Nota da IHU On-Line)
choque entre seus pensamentos. No 16 Gianfranco Contini (1912-1990): crítico lite-
figura do escritor – como destaco no fragmento Escavar e recordar, de rário e filólogo italiano , historiador da literatura
italiana e um dos maiores expoentes da crítica
início desta entrevista, assim, mui- Benjamin, lê-se: “A língua tem indi- estilística. (Nota da IHU On-Line)
tos pesquisadores de diversas áreas 17 Elsa Morante (1912-1985): escritora italiana,
cado inequivocamente que a memória talvez mais conhecida pelo seu romance La Storia.
já puderam contribuir para transla- não é um instrumento para a prospec- Com exceção de um período durante a Segunda
Guerra Mundial, sempre viveu em Roma. Desde
ções de sentido com o pensamento ção do passado; é, antes, o meio. É o os 13 anos, publicava alguns textos em diversos 55
de Pier Paolo. jornais infantis, e aos 18 anos decide se dedicar
meio onde se deu a vivência, assim à literatura, deixando sua família e seus estudos.
como o solo é o meio no qual as an- Colaborou com o hebdomadário Oggi de 1939 a
1941. Em 1974 publicou La Storia, que suscitou
tigas cidades estão soterradas. Quem polêmica, e depois Aracoeli, em 1982. Doente
após uma fratura do fêmur, ela tentou se suicidar
IHU On-Line – Em seus estu- pretende se aproximar do próprio em 1983. Recebeu em 1984 o Prêmio Médicis por
dos, o senhor refere a preocu- passado soterrado deve agir como um Aracoeli. (Nota da IHU On-Line)
18 Ernesto De Martino (1908-1965): foi um et-
pação do autor com a traduzi- homem que escava”. Pasolini, em todo nógrafo, antropólogo e historiador das religiões.
(Nota da IHU On-Line)
bilidade. No que consiste essa seu percurso, de modo análogo ao de 19 Antonio Gramsci (1891-1937): foi um filósofo
traduzibilidade de Pasolini e Benjamim, se aproximava do mais marxista, jornalista, crítico literário e político ita-
liano. Escreveu sobre teoria política, sociologia,
qual o significado dessa postu- distante para realizar uma observação antropologia e linguística. Com Togliatti, criou o
incansável do mais próximo. jornal L’Ordine Nuovo, em 1919. Secretário do Par-
ra? tido Comunista Italiano (1924), foi preso em 1926
e só foi libertado em 1937, dias antes de falecer.
Davi Pessoa – Pasolini, na en- Nos seus Cadernos do cárcere, substituiu o concei-
to da ditadura do proletariado pela “hegemonia”
trevista já citada com Jon Halliday, do proletariado, dando ênfase à direção intelec-
destaca seu desacordo com os estru- IHU On-Line – Que outros ar- tual e moral em detrimento do domínio do Esta-
tistas e escritores são impor- do. Sobre esse pensador, confira a edição 231 da
turalistas franceses, embora nutrisse IHU On-Line, de 13-08-2007, intitulada Gramsci,
70 anos depois, disponível para download em
uma profunda admiração por Lévi- http://bit.ly/ihuon231. (Nota da IHU On-Line)
-Strauss12, e ali argumenta a impor- 13 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. 20 Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891):
Foi refugiado judeu e, diante da perspectiva de poeta francês. Produziu suas obras mais famosas
ser capturado pelos nazistas, preferiu o suicídio. quando ainda era adolescente sendo descrito por
Associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica, Paul James, à época, como “um jovem Shakespea-
12 Claude Lévi-Strauss (1908-2009): antropólogo foi fortemente inspirado tanto por autores mar- re”. (Nota da IHU On-Line)
belga que dedicou sua vida à elaboração de mo- xistas, como Bertolt Brecht, como pelo místico 21 Giuseppe Ungaretti (1888-1970): foi um poe-
delos baseados na linguística estrutural, na teoria judaico Gershom Scholem. Conhecedor profundo ta italiano e também professor da Universidade
da informação e na cibernética para interpretar da língua e cultura francesas, traduziu para o ale- de São Paulo. De pais italianos, Ungaretti nasceu
as culturas, que considerava como sistemas de mão importantes obras como Quadros parisien- no Egito, para onde sua família se havia mudado,
comunicação, dando contribuições fundamentais ses, de Charles Baudelaire, e Em busca do tempo mas anos depois eles voltaram pra Itália e o pai
para a antropologia social. Sua obra teve grande perdido, de Marcel Proust. O seu trabalho, com- trabalhou na construção do canal de Suez onde
repercussão e transformou, de maneira radical, o binando ideias aparentemente antagônicas do morreu. Estudou por dois anos na Sorbonne de
estudo das ciências sociais, mesmo provocando idealismo alemão, do materialismo dialético e do Paris e colaborou com Giovanni Papini e Ardengo
reações exacerbadas nos setores ligados princi- misticismo judaico, constitui um contributo origi- Soffici na revista “Lacerba”. Em 1914 voltou à Itália
palmente às tradições humanista, evolucionista nal para a teoria estética. Entre as suas obras mais e se engajou voluntariamente como soldado na
e marxista. Ganhou renome internacional com conhecidas, estão A obra de arte na era da sua Primeira Guerra Mundial. Combateu na provín-
o livro As estruturas elementares do parentesco reprodutibilidade técnica (1936), Teses sobre o con- cia de Trieste, na frente do Carso, uma das mais
(1949). Em 1935, Lévi-Strauss veio ao Brasil para ceito de história (1940) e a monumental e inacaba- duras durante a Guerra, e em seguida na França.
lecionar Sociologia na USP. Interessado em et- da Paris, capital do século XIX, enquanto A tarefa No final da guerra, o poeta permaneceu em Paris,
nologia, realizou pesquisas em aldeias indígenas do tradutor constitui referência incontornável dos escrevendo poemas e para jornais. Em 1921 ele se
do Mato Grosso. As experiências foram sistema- estudos literários. Sobre Benjamin, confira a en- mudou para Marino (Roma) e colaborou no Ser-
tizadas no livro Tristes Trópicos (São Paulo: Com- trevista Walter Benjamin e o império do instan- viço de Imprensa do Ministério dos Negócios Es-
panhia das Letras), publicado originalmente em te, concedida pelo filósofo espanhol José Antonio trangeiros. Esta época é marcante porque os anos
1955 e considerado uma das mais importantes Zamora à IHU On-Line nº 313, disponível em vinte assinalam uma mudança na vida privada e
obras do século 20. (Nota da IHU On-Line) http://bit.ly/zamora313. (Nota da IHU On-Line) cultural do poeta, quando ele aderiu ao fascismo,

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TEMA DE CAPA

Dostoiévski22, como ele mesmo di- zia, “minhas leituras traumáticas”. ta, mas caracterizada e circunscrita.
A tolerância é o aspecto mais atroz
ao assinar o Manifesto dos intelectuais fascistas
da falsa democracia. Poderia lhe di-
em 1925. No período entre guerras colaborou
IHU On-Line – Deseja acres- zer que é realmente muito mais hu-
assiduamente com revistas e trabalhou como
professor de línguas. Residiu no Brasil, onde seu centar algo? milhante ser ‘tolerado’ que ser ‘proi-
primeiro emprego fixo foi entre os anos 1936 e bido’ e que a permissividade é a pior
1942, quando deu aulas de Literatura Italiana na
Universidade de São Paulo. Também neste perío- Davi Pessoa – Em 1972, numa das formas de repressão”. Estamos
do, sofreu a perda de seu filho de 9 anos e de seu
irmão. (Nota da IHU On-Line) entrevista dada a Dacia Maraini23 vivendo atualmente violências por
22 Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881): para o jornal L’Espresso, Pasolini todo o país, e por todo o Mundo, ou
um dos maiores escritores russos e tido como um
dos fundadores do existencialismo. De sua vasta lhe diz: “É a tolerância que cria os como diria Pasolini, em sua última
obra, destacamos Crime e castigo, O Idiota, Os
Demônios e Os Irmãos Karamázov. A esse autor a guetos, porque é através da tolerân- entrevista, poucas horas antes de
IHU On-Line edição 195, de 11-9-2006, dedicou a ser assassinado: “Estamos todos em
matéria de capa, intitulada Dostoiévski. Pelos sub- cia que os ‘diferentes’ podem vir à
terrâneos do ser humano, disponível em http://bit. tona, porém, sob a condição de se- perigo”. Assim, seu pensamento, sua
ly/ihuon195. Confira, também, as seguintes entre-
vistas sobre o autor russo: Dostoiévski e Tolstoi: rem e permanecerem minoria, acei- presença entre nós, sua inserção na
exacerbação e estranhamento, com Aurora Ber- nossa paisagem como luta pela vida,
nardini, na edição 384, de 12-12-2011, disponível
em http://bit.ly/ihuon384; Polifonia atual: 130 (Nota da IHU On-Line) deve ser sempre um motivo de ale-
anos de Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, na 23 Dacia Maraini: escritora, poeta, ensaísta,
edição 288, de 06-04-2009, disponível em http:// dramaturga e roteirista italiana que faz parte da gria, visto que seu pensamento e seu
bit.ly/ihuon288; Dostoiévski chorou com Hegel, “geração dos anos trinta”, juntamente com alguns corpo se colocaram sempre contra
entrevista com Lázló Földényi, edição nº 226, de dos autores mais conhecidos da literatura italiana.
02-07-2007, disponível em http://bit.ly/ihuon226. (Nota da IHU On-Line) toda forma de Poder.■

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REVISTA IHU ON-LINE

O incisivo, persuasivo e afetivo


Pasolini das páginas dos jornais
Cláudia Alves estuda a produção jornalística do escritor italiano
que, segundo ela, numa época de ebulição política e cultural
leva o debate intelectual ao cidadão comum
João Vitor Santos

A
faceta cineasta de Pier Paolo Pa- tores, criando redes de interações e fa-
solini é reconhecida e celebrada zendo com que o escritor assumisse “o
por muitos, enquanto seu lado papel de alguém disposto a denunciar
poeta é enaltecido por outros. Entretan- de maneira enfática e polêmica as mu-
to, pouco ainda se ouve sobre o articulis- danças sociais e culturais que estavam
ta, que manifestava suas ideias nas pá- ocorrendo na Itália naquele período”.
ginas da imprensa italiana. Olhar para
Cláudia Tavares Alves se dedica
essa perspectiva do pensador é o objeti-
à pesquisa sobre Pasolini desde 2007,
vo da pesquisadora Cláudia Tavares Al-
quando ainda cursava Estudos Literá-
ves. Para ela, é importante analisar esses
rios pela Universidade de Campinas
textos, pois “as ideias que circulam em
- Unicamp. Durante seu mestrado,
seus escritos jornalísticos se encontram
pesquisou o ensaísmo corsário no livro
com suas produções em vários momen-
tos de sua obra, porque Pasolini é sem- Scritti corsari, período que fez estágio 57
pre poeta, é sempre articulista, é sempre de pesquisa em Bolonha, na Itália. Em
cineasta”. “O grande mérito do escritor 2016, ingressou no doutorado de Teo-
italiano foi conseguir se comunicar com ria e História Literária pela Unicamp,
os cidadãos de uma forma muito mais com financiamento da Fundação de
incisiva, persuasiva, e também afetiva Amparo à Pesquisa do Estado de São
em certa medida”, completa. Paulo - Fapesp para o projeto de pes-
quisa sobre o jornalismo italiano dos
Na entrevista a seguir, concedida por
anos 1970 e a importância que Pasolini
e-mail à IHU On-Line, Cláudia recor-
assumiu nesse contexto. Entre seus ar-
da que Pasolini pertence a uma geração
tigos publicados, destacamos Diálogos
de pensadores extremante engajados
com o caos: a produção jornalística
politicamente, mas também muito pre-
de Pasolini nos anos 1960 (Revista
ocupados em levar a discussão do mo-
Darandina, v.9, 2016), Pasolini ensa-
mento político italiano para as ruas.
ísta: um estranho numa terra hostil
“Foram pessoas que viram e viveram o
(Revista Letras Escreve, v. 6, 2016) e
fascismo, a segunda guerra mundial e a
O jornalismo corsário de Pier Paolo
Itália do pós-guerra, e nessas circuns-
Pasolini nos anos 1970 (Revista Passa-
tâncias se envolveram profundamente
gens, v. 7, 2016 – esse volume foi espe-
com essas questões”, explica. A postura
polêmica de Pasolini, expressa em seus cial sobre Pasolini).
textos, geraram muitas respostas de lei- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como era o lini foi de uma geração de escritores segunda guerra mundial e a Itália do
jornalismo italiano nos anos bastante engajada politicamente, pós-guerra, e nessas circunstâncias
1970? E como os textos de Pier isto é, de escritores que, para além se envolveram profundamente com
Paolo Pasolini se inserem nesse de seus trabalhos literários, estavam
essas questões políticas e sociais.
contexto? preocupados em discutir o momen-
to político italiano. Foram pessoas Esse engajamento criou uma espé-
Cláudia Tavares Alves – Paso- que viram e viveram o fascismo, a cie de atmosfera intelectual em que

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TEMA DE CAPA

era comum haver um intenso debate critas por outros escritores, publica- tando nomes e situações políticas
de ideias entre eles. Os jornais italia- das em outros jornais. Ou seja, havia que o colocam em destaque.
nos, tanto os especializados quanto uma teia constante de circulação de
É também nesse período que al-
os de grande circulação, funciona- ideias, em que Pasolini acabou por
guns de seus conceitos mais conhe-
vam como um meio para que esse assumir o papel de alguém dispos-
cidos se consolidam, como a ideia de
debate acontecesse. Para se ter uma to a denunciar de maneira enfática
“mutação antropológica” e o “novo
ideia, em 1972, Pasolini foi convida- e polêmica as mudanças sociais e
do para manter uma coluna fixa em fascismo”, e tais ideias são repeti-
culturais que estavam ocorrendo na
um dos maiores jornais italianos, o das à exaustão a cada oportunidade.
Itália naquele período.
Corriere della Sera. Ele já era um es- Sem dúvida, há uma linha progres-
critor marxista muito conhecido na siva de ideias entre esses dois mo-
Itália e, naquele momento, acredita- mentos de sua produção jornalística,
ram que ele poderia contribuir com
um jornal tradicionalmente visto
“É também nes- mas de um ponto de vista discursivo
e literário, suas escolhas posteriores
como de direita. se período que demonstram uma necessidade quase
visceral de se colocar como um inte-
Assim como ele, outros tantos es-
critores mantiveram colunas ou alguns de seus lectual disposto ao que fosse preciso
para manifestar sua indignação.
contribuíram esporadicamente em
diversos periódicos desse tipo, de
conceitos mais
forma que essa dinâmica estabeleceu
diálogos essenciais para se pensar a
conhecidos se IHU On-Line – O que repre-
sociedade italiana. Entre os grandes
escritores da época, podemos pensar
consolidam, sentam esses textos de Paso-
lini publicados em jornais no
em Elsa Morante1, Italo Calvino2,
Natalia Ginzburg3, Alberto Moravia4,
como a ideia de contexto de sua obra? Quais as
conexões possíveis entre o ci-
entre outros. Todos tiveram passa-
gens importantes pelo jornalismo
‘mutação an- neasta, o poeta e o articulista?
58
italiano. Nesse meio, Pasolini se des- tropológica’ e o Cláudia Tavares Alves – É
sempre difícil lidar com essa noção
tacou como um dos mais polêmicos,
por isso era comum que seus textos ‘novo fascismo’” de várias faces em Pasolini. Foi um
grande poeta, e na Itália é muito re-
gerassem uma série de respostas es-
conhecido por isso. No Brasil, che-
1 Elsa Morante (1912, Roma-1985): escritora ita-
gou como cineasta e grande parte de
liana, talvez mais conhecida pelo seu romance La seu reconhecimento por aqui se deve
Storia. Com exceção de um período durante a Se-
gunda Guerra Mundial, sempre viveu em Roma. IHU On-Line – Que rupturas e à sua produção cinematográfica.
Desde os 13 anos, publicava alguns textos em continuidades há entre as pro- Atualmente, é visto mundialmente
diversos jornais infantis, e aos 18 anos decide se
dedicar à literatura, deixando sua família e seus duções jornalísticas de Pasolini como um grande intelectual que pu-
estudos. Colaborou com o hebdomadário Oggi
de 1939 a 1941. Em 1974 publicou La Storia, que da década de 1960 e 1970? blicou críticas violentas em jornais
suscitou polêmica, e depois Aracoeli, em 1982. e polemizou sempre que possível.
Doente após uma fratura do fêmur, ela tentou se Cláudia Tavares Alves – En-
suicidar em 1983. Recebeu em 1984 o Prêmio Mé- Ou seja, estamos falando de uma
dicis por Aracoeli. (Nota da IHU On-Line) quanto escritor, Pasolini esteve en-
2 Italo Calvino (1939-1985): escritor cuba- única pessoa que produziu muito e
no, radicado na Itália, autor de livros como As
volvido desde muito cedo com pu-
que procurou sempre se reinventar
Cidades Invisíveis (São Paulo: Companhia das Le- blicações em jornais. Nos anos 1960,
tras, 1998) e a trilogia Os Nossos Antepassados. para encontrar novas formas de se
(Nota da IHU On-Line) esse trabalho se tornou um pouco
3 Natalia Ginzburg (1916-1991) foi uma escritora
mais esquematizado e constante. expressar.
italiana. Nascida Natalia Levi na capital da Sicília
numa família judaica de origem triestina, seu pai, Nos periódicos Vie Nuove e Tem- Sendo assim, as ideias que circu-
Giuseppe Levi, era professor universitário e seus
três irmãos foram prisioneiros durante o regime po, manteve as colunas “Diálogos lam em seus escritos jornalísticos se
fascista. (Nota da IHU On-Line)
4 Alberto Moravia (1907-1990): tem o pseudôni-
com Pasolini” e “O Caos”, nas quais encontram com suas produções em
mo de Alberto Pincherle. Foi um escritor e jorna- suas análises políticas começaram vários momentos de sua obra, por-
lista italiano. Começou escrevendo para a revista
900, onde publicou seu primeiro conto. Escreveu a ganhar mais corpo e notoriedade. que Pasolini é sempre poeta, é sem-
sua primeira novela, Os Indiferentes, em 1929. Tra-
balhou durante muitos anos no jornal Il Corriere Quando, no início dos anos 1970, re- pre articulista, é sempre cineasta.
della Sera, tendo viajado para a Inglaterra, onde cebe o convite para escrever para o Quando escreveu o primeiro texto de
morou dois anos, Estados Unidos, México e Chi-
na. Em abril de 1945 casa-se com Elsa Morante. grande Corriere della Sera, Pasolini jornal de que se tem notícia, publica-
Autor considerado persona non grata pelo regi-
me fascista de Mussolini, é obrigado a trabalhar passa a falar com um público cada do em 1942, Pasolini já escrevia poe-
como roteirista cinematográfico sob outro nome, vez mais amplo e diversificado, logo sia. E assim todas as suas produções
por causa das leis raciais vigentes. No pós-guerra,
volta a trabalhar como escritor e roteirista, co- suas estratégias discursivas também foram se entrelaçando, tratando das
nhecendo Pier Paolo Pasolini e também começa
a trabalhar como crítico cinematográfico no L’Ex- se adaptam a essas circunstâncias. mesmas temáticas, interessando-
presso. Foi também eleito representante da Itália Fica cada vez mais polêmico em seus -se em compreender a realidade
no Parlamento europeu, por uma lista do PCI, de
1984 até sua morte. (Nota da IHU On-Line) escritos, fazendo denúncias, apon- que tanto o intrigava. A dificuldade

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existe então por tentarmos fragmen- dorias, segundo seu ponto de vista. você esteve na Universidade de
tar esse escritor que foi sempre um Ainda como consequência, ele en- Bolonha, em contato com todo
só. Por isso, é comum entre a crítica xergou o crescimento de alguns se- acervo de Pasolini, além de ter
pasoliniana falar do caráter poético tores, como a mídia e as escolas, na acesso à bibliografia e a críticas
de seus ensaios ou da perspectiva manipulação da opinião pública, de sobre sua obra. O que o contato
ensaística de seus filmes. Estamos maneira que toda a sociedade pas- com esses materiais revelou so-
sempre falando de um único homem sou a responder a um mesmo tipo bre a figura de Pasolini?
cheio de ideias e de sensibilidade o de comportamento burguês. Os ci-
Cláudia Tavares Alves – Como
bastante para expressá-las das mais dadãos que fugissem desse padrão
mencionei, Pasolini chegou ao Bra-
variadas maneiras. seriam no máximo tolerados pelo
sil como cineasta e aqui é conhecido
sistema, mas sempre segundo uma
pelo grande público como diretor
falsa ideia de tolerância e liberdade.
de cinema. É muito comum eu con-
“Atualmente, é Esses são temas recorrentes na so-
ciologia, e por isso muitos outros au-
tar a alguma pessoa que estudo o
jornalismo de Pasolini e ela reagir
visto mundial- tores chegaram às mesmas conclu-
sões que Pasolini, mas acredito que
dizendo que não sabia que o Paso-
lini do cinema foi também escritor.
mente como o grande mérito do escritor italiano
foi conseguir se comunicar com os
Quando comecei minha pesquisa,
lá em 2007, eu também só conhe-
um grande inte- cidadãos de uma forma muito mais
incisiva, persuasiva, e também afe-
cia o Pasolini do cinema e foi aos
poucos que o resto de sua obra foi
lectual que pu- tiva em certa medida. O que quero aparecendo para mim. Com o mes-
dizer com isso é que é relativamente
blicou críticas
trado e a ida à Itália, essa primeira
fácil encontrar comparações entre impressão se desfez completamente,

violentas em
nossos tempos atuais e as críticas e foi surpreendente, e emocionante
elaboradas por Pasolini e por tantos ao mesmo tempo, perceber que, na

jornais e pole- outros intelectuais. Continuamos a


viver em um mundo onde a lógica
Itália, Pasolini é uma figura conhe-
cida e adorada por muitos italianos. 59
mizou sempre capitalista dá o tom das nossas rela-
ções econômicas, políticas e sociais,
Seus livros de poesia estão expostos
nas vitrines de várias livrarias, seu
que possível” e o consumismo é ainda o padrão de
comportamento que influencia, de
rosto está grafitado nas paredes, há
diversos eventos e exibições sobre
alguma maneira, qualquer indivíduo ele... enfim, eu estava inserida em
inserido nesse sistema como um ser um ambiente em que o escritor era
social. Seja na sociedade italiana, amplamente conhecido.
IHU On-Line – Como você seja na sociedade brasileira, esses
estímulos estão ainda muito presen- O contato com seu acervo foi me-
analisa a crítica política e social
tes e acho que é difícil fugir do “mal diado então por essa minha expe-
feita por Pasolini nas páginas
burguês” denunciado por Pasolini. riência. Encontrei diversas disser-
dos jornais? As temáticas abor-
tações e teses sobre o escritor, não
dadas por ele se mantêm atu-
Porém, por outro lado, é inegável faltaram materiais bibliográficos e
ais? De que forma? que existam iniciativas interessantes recortes de jornais e revistas sobre o
Cláudia Tavares Alves – O fe- hoje em dia que buscam questionar assunto que eu estava pesquisando,
nômeno da “mutação antropológi- esse modelo de vida. Me parece um e com cada pessoa que eu conver-
ca” conceituado por Pasolini surge movimento natural, possível de existir sava, Pasolini assumia uma impor-
a partir de uma percepção muito justamente porque as análises de tipo tância única, como se todo mundo
apurada do escritor de que a so- pasolinianas estão mais consolidadas tivesse uma história para contar so-
ciedade italiana apresentava sinais com o passar do tempo. Digo, não há bre um filme, um poema, um texto.
de mudanças sociais, sobretudo no mais dúvidas de que a ideia de produ- Essa sensação se tornou ainda mais
comportamento dos jovens. Segun- ção desmedida de bens de consumo forte quando pude visitar a cidadezi-
do Pasolini, o modelo capitalista ga- não vai dar certo, por exemplo. Déca- nha em que sua mãe nasceu, Casarsa
nhara força na Itália após o fim da das se passaram, há mais gente atenta della Delizia, onde o escritor passou
segunda guerra mundial e a segun- às catástrofes iminentes, então é natu- alguns anos de sua vida. Naquele lu-
da revolução industrial, que teria ral que o próprio ser humano encontre gar, Pasolini estava em tudo. Então
ocorrido tardiamente ali. Mas era estratégias de sobrevivência. posso dizer que cheguei à Univer-
um modelo feroz, cruel, que con- sidade de Bolonha como uma pes-
taminava toda a população com a quisadora focada nos objetivos da
ideia de consumismo desmedido, a IHU On-Line – Por ocasião pesquisa, mas saí muito emocionada
ponto de todos se tornarem merca- de sua pesquisa de mestrado, por perceber que, na Itália, Pasolini

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TEMA DE CAPA

é o intelectual que se comunicou, locais eram ainda redutos de prá- região norte, mais desenvolvida e
que se conectou ao seu país, e esse ticas sociais que já estavam soter- industrializada, e à região sul, mais
vínculo resiste até hoje. radas pelo capitalismo na Itália. rural e menos rica. Até certo ponto,
Ele chegou até a esquematizar o suas diferenças econômicas eram
roteiro de um possível filme sobre determinantes também para as dis-
esse terceiro mundo, interessado tinguirem culturalmente, a ponto
“Continuamos em explorar a África, a Ásia e a
América Latina, mas infelizmente
de terem dialetos e costumes muito
diferentes entre si.
a viver em um não teve tempo de realizar devido
à sua morte prematura. Pasolini denuncia justamente o

mundo onde a momento em que essa diversidade


começa a desaparecer e todos os jo-
lógica capita- IHU On-Line – Como pen-
vens se tornam iguais por vestirem
as mesmas roupas, se interessarem
lista dá o tom sar a crítica social de Pasolini
hoje, em uma Europa dividida
pelas mesmas coisas, falarem a
mesma língua. Acredito então que,
das nossas e inábil para lidar com ques-
tões como imigrações, em um
no limite – e excluindo os casos das
migrações ocasionadas por guer-
relações eco- mundo em que a recusa do ou-
tro e o não diálogo parecem
ras ou por regimes ditatoriais, pois
envolvem questões humanitárias
nômicas, políti- ser constantes? indiscutíveis –, o intelectual iden-
tificaria nas sociedades de hoje um
cas e sociais” Cláudia Tavares Alves – Esse
exercício de pensar as críticas de movimento em busca à estabilidade
Pasolini no mundo de hoje tem econômica, mas também às con-
sido bastante recorrente entre sequências sociais que essa busca
aqueles interessados em sua obra. poderia gerar: tradições populares
É interessante porque, de um lado, cada vez mais ausentes e com as
60 IHU On-Line – Qual era a per- particularidades de cada povo cada
cepção de Pasolini sobre o dito os pensamentos deixados por ele
estavam relacionados a um lugar vez mais em vias de desaparecer. Só
terceiro mundo? que, para o escritor, essa ideia de
e a um tempo específicos, isto é,
Cláudia Tavares Alves – Ape- à Itália do pós-guerra. Por outro defender a tradição estaria distan-
sar de esse conceito de terceiro lado, os movimentos que ele reco- te dos argumentos conservadores,
mundo já não fazer mais muito nheceu naquela sociedade duran- justificando-a pela via contrária,
sentido para nós, naquele mo- te aquele período são fenômenos que seria a padronização total, a eli-
mento se referia aos países sub- característicos de todos os países minação completa do que diferencia
desenvolvidos, que passaram pelo que passaram pela industrialização uma cultura da outra.
processo de descolonização tar- tardia e, de maneira mais ampla, É um posicionamento forte, mui-
diamente e que, por isso, possuí- que se modificaram à medida que o to retórico, quase ambíguo e que,
am e possuem até hoje problemas sistema capitalista se consolidava. por vezes, foi mal interpretado, mas
significativos de desenvolvimento
Pensar Pasolini hoje é sempre ar- para Pasolini parecia não haver ou-
econômico e, consequentemente,
riscado de um ponto de vista, mas tro caminho para combater a homo-
de desenvolvimento humano. Po-
bastante lógico de outro. Não posso geneização causada pelo capitalismo
rém, aos olhos de Pasolini, eram
afirmar que, enquanto intelectual se não o de defender um tempo an-
justamente esses os países menos
interessado em compreender a so- terior à sua implementação. Seria,
contaminados pela lógica burgue-
ciedade italiana, Pasolini chegou a portanto, catastrófico pensar que o
sa, que já dominava a Itália.
pensar a questão da imigração, por mundo caminha para uma unifica-
Seu interesse por esses países exemplo. Apesar dos movimentos ção baseada em valores capitalistas
se justifica então pela possibili- migratórios existirem desde sem- e em bens de consumo. Pasolini di-
dade de encontrar ali resquícios pre, ele parecia mais interessado ria que “quando o mundo clássico
de sociedades ligadas a tradições em pensar as fronteiras existentes estiver exaurido, quando todos os
culturais e religiosas que ainda dentro da própria Itália e em como camponeses e artesãos estiverem
não foram totalmente usurpadas elas se diluíam e se tornavam invi- mortos, quando a indústria tiver tor-
pelas práticas do capitalismo e do síveis conforme a lógica do consu- nado o ciclo de produção incontro-
consumismo. É daí que surgem as mo igualava a todos. Nesse senti- lável, daí então nossa história estará
locações cinematográficas em paí- do, uma crítica que sempre fazia acabada”. Com certeza caminhamos
ses asiáticos e africanos, e o olhar era em relação aos jovens do sul e rumo ao fim de uma história, mas
sempre atento aos países latino- do norte. Na Itália, essa divisão é seguimos com esperança, para ver
-americanos. Para Pasolini, esses bem marcada e está relacionada à qual começará a partir de então.■

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EDIÇÃO 504
ENTREVISTA

Mercado e Estado, dois oligopólios


em permanente negociação entre si
Para Hugo Albuquerque, é preciso romper com relações perversas
e a esquerda “tem de ser o movimento da sociedade, em favor da
sociedade, muitas vezes contra o Estado e o Mercado”
Patricia Fachin

P
ara entendermos a complexida- menta a recente pesquisa realizada pela
de da vida social, política, econô- Fundação Perseu Abramo, a qual, na sua
mica e, mais especificamente, a avaliação, “é esquemática demais” e sus-
situação brasileira na atual conjuntura, tentada por “dois fantasmas” que também
poderíamos “fazer um favor a nós mes- rondam a esquerda: “(1) uma falta de ên-
mos saindo de dicotomias falsas”, adver- fase não apenas metodológica como tam-
te Hugo Albuquerque à IHU On-Line. bém epistemológica em relação ao pro-
Uma das dicotomias a serem superadas, cedimento que levam a conclusões como
sugere, é a que diz respeito ao Estado e ao essas; (2) o enorme tabu que é a questão
Mercado, que não devem ser vistos como da classe, seja porque nem sempre alguns
completamente opostos. “Estado e Mer- pressupostos básicos da sociologia fun-
cado estão mutuamente implicados. Um cionam muito bem cá nos trópicos, seja
não existe sem o outro”, diz. Nesse senti- porque, mesmo quando funcionam, eles
62 do, frisa, a esquerda tem que “romper es- nos joguem na cara o enorme apartheid
sas relações perversas. A esquerda tem de com o qual convivemos quotidianamen-
ser o movimento da sociedade, em favor te - e que não conseguimos reverter”. E
da sociedade, muitas vezes contra o Esta- critica: “A universidade tem um papel
do e o Mercado, que são instâncias inter- bastante salutar nesse processo de repro-
dependentes e hierárquicas que buscam dução de um pensamento tradicional e
gerir as nossas vidas”, defende. padronizado enquanto, ao mesmo tem-
Crítico do modo como a Operação Lava po, colabora para o alheamento da vida
Jato tem conduzido as suas investiga- social no nosso país”.
ções, especialmente por estar gerando
Hugo Albuquerque é mestre em Di-
um “cenário de criminalização da polí-
reito Constitucional pela Pontifícia Uni-
tica, sobretudo de esquerda”, Albuquer-
versidade Católica de São Paulo - PUC-
que admite que “há uma coisa útil” nesse
-SP, e sócio do Saccomani, Albuquerque
processo, à medida que a Operação tem
& Biral Advogados Associados. Também
demonstrado “que isso que chamamos
é editor da Autonomia Literária.
de ‘mercado’ não passa do oligopólio de
grandes proprietários, e o ‘Estado’, o oli- A entrevista foi publicada original-
gopólio dos grandes políticos, ambos em mente nas Notícias do dia de 3-5-2017,
permanente negociação entre si, dentro, no sítio do Instituto Humanitas Unisi-
fora, abaixo e acima da lei”. nos – IHU, disponível em http://bit.
Na entrevista a seguir, concedida por ly/2prfFKl.
e-mail, Hugo Albuquerque também co- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você res- Hugo Albuquerque – Não creio to capaz de situar o PT na conjuntura
ponde a uma das perguntas que que essa seja a pergunta central da atual, afinal, ela se trata de fundação
norteou a pesquisa realizada pesquisa. Ela até se pretende menos partidária, o que é perfeitamente le-
pela Fundação Perseu Abramo: simplista, pois quer determinar qual gítimo. Contudo, do meu ponto de
“Por que os pobres não votam é a ação política desses “pobres” - o vista, o nó górdio está no fato de que
mais no PT?” que implica formar um conhecimen- antes mesmo de tentar entender o

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“A universidade tem um
papel bastante salutar nesse
processo de reprodução
de um pensamento
tradicional e padronizado”

que é a composição de classe no Bra- cia que a própria “resposta”); o pensamento moderno laiciza pos-
sil atual, ela se perde no processo e tulados teológicos, principalmente
(2) o sujeito investigador aparece
nos fundamentos do que poderia ser aqueles ligados à escatologia, e o que
como acima e além do objeto inves-
uma investigação coesa. É, reitero, era exceção se torna uma regra.
tigado - e o objeto investigado é, por
um problema de fundamento.
sinal, um sujeito histórico, mas isso Na pesquisa em questão, existem
parece lateral; algumas certezas de fundo, sobre
Metodologia
itens que não são uma questão de
(3) a gramática revela uma forte
Centrar uma pesquisa dessas na escolha binária, mas essa linguagem
forma de Estado, porque as questões
mera captação de opiniões é, por seu acaba traduzindo a realidade e (i) se
políticas são colocadas em torno do
turno, buscar entender um fenôme- cria a expectativa de que o “pobre”
Estado, como se a política fosse mo-
no pelos efeitos, talvez os menos cla- responda entre X e Y; (ii) existe a
nopólio dele.
ros deles, mas isso é apenas a ponta predisposição a supor que X seja a
do iceberg em matéria de problema Pensando em relação ao primeiro “resposta normal” e Y “uma resposta 63
de entendimento da questão de clas- ponto, podemos chegar ao postu- anormal”; (iii) existem julgamentos
se no Brasil de hoje. Quando Alana lado provavelmente mais precioso que se derivam, seja em relação ao
Moraes, Henrique Parra, Jean Tible, de Espinosa: Não rir, nem chorar, que é normal ou anormal responder,
Salvador Schavelzon e eu redigimos compreender [diante das ações hu- o que foi respondido e o que explica-
nossa avaliação a respeito, em “A Pe- manas], algo que ele escreve logo ria esses juízos. O exercício de escuta
riferia Contra o Estado?”, partilhá- no Primeiro Capítulo do Tratado não funciona com um julgamento
vamos do entendimento de que isso Político e faz parte de uma precisa prévio. Os velhos romanos já sabiam
não era um mero “erro metodológi- e rigorosa refutação do voluntaris- disso, quando relativizavam a figura
co”, mas o resultado óbvio de uma mo e do idealismo. Não devemos, ao do julgamento mesmo no campo do
forma de fazer uma investigação, ex- refletir sobre determinado assunto, direito, ao contrário dos modernos.
pressando previamente não apenas nos basear em premissas dadas e di-
um certo modelo de ciência como recionadas para o julgamento, sem Método da inversão
também de mundo. A pesquisa, en- o risco de querermos enquadrar a
fim, fala mais sobre ela mesma do nossa investigação a coordenadas Sobre o segundo ponto, lembremos
que sobre o que pretende analisar. da grande revolução epistemológica
prévias e estanques.
Esse sintoma nos diz muito, inclusi- que Marx promoveu em relação a
ve por ser algo bastante recorrente. O pensamento moderno tradicio- Hegel. Parte daquilo que se chama
nal é, sobretudo pela influência pe- de método da inversão. Se a realida-
Esse modelo de ciência não deixa sada de Descartes e Kant, uma busca de é mesmo um nexo de movimentos
de ser uma expressão do modo de obsessiva pelo julgamento, o que na que se colidem, com um assumindo
pensar hegemônico no PT atual (e pós-modernidade ganha ares de vul- uma posição antagonista em relação
em muitos lugares da esquerda, in- garização: tudo deve coincidir com ao outro, produzindo, assim, novos
felizmente), aludindo a uma forma uma separação do bem e do mal, o movimentos, não é possível que al-
fraca de positivismo. Eu acrescenta- julgamento é uma proposição neces- guém esteja fora disso. Ocorre que
ria alguns pontos para reflexão sobre sária a qualquer raciocínio lógico, a o teórico não poderia estar alheio,
essa perspectiva que merecem ser apoteose da política, do direito e da acima ou intangível ao horizon-
pontuados: arte é sempre o juízo. Isso é um equí- te de eventos. Perceba a perversa e
(1) o sujeito investigador aparece voco que Espinosa demonstra bem. nada coincidente semelhança entre
com juízos prévios antes mesmo de O julgamento é uma possibilidade, as palavras Teo (étimo que designa
as questões serem feitas (portanto, a não uma necessidade do pensamen- “deus” em grego) e teoria: isso parte
pergunta acaba tendo mais relevân- to. Ele se torna na medida em que da noção de que tanto a divindade

EDIÇÃO 504
ENTREVISTA

quanto o processo de construção de são quem pode ou não ser os agen- parâmetros subjetivos estabelecidos
conceitos são ligados à observação tes transformadores dessa “política” pelo outro competidor. É um pou-
transcendente do caos, na qual o – que derivaria da necessidade, não co disso que desfavorece uma certa
“teórico” é alguém isento de inter- do desejo - e que a instância eleitoral linha hegemônica petista, exposta
ferência da realidade material. Isso é o único caminho para a geração de nessa pesquisa, mesmo face a argu-
é impossível. direitos, sendo que investigar qual mentos ruins de um Instituto Liberal
a postura desses pobres em relação ou um outro colunista “liberal” da
Quando alguém se presta a obser- Folha, por exemplo.
ao Estado e, sobretudo, ao PT - ou
var a realidade material, ele passa
algum outro partido de esquerda,
a fazer parte dela e precisa ter isso
como se isso fosse o único veícu- A direita brasileira
em mente, justamente para só a par-
lo transformador possível - seja a
tir daí poder falar algo com o míni- O tragicômico é que nem mesmo
resposta que deve/pode mover as
mo de objetividade. Se a realidade é assim os tais “novos liberais” se saem
ações. Isso é esquemático demais,
movimento, nós somos movidos por bem, mesmo retoricamente, sobre o
uma mecânica tosca como as velhas
ela também. Se um certo fenômeno que dizem a respeito da periferia.
máquinas medievais.
é um movimento autônomo, o pro- Ao contrário, o surto de popularida-
cesso de observação e descrição dele de dessa direita chegou ao ápice no
está condicionado ao seu movimento IHU On-Line - Como analisa e ano passado, quando tudo convergiu
(embora a recíproca seja verdadei- avalia as interpretações feitas à para a derrubada de Dilma. Mas ago-
ra, as causas e a forma de observa- esquerda e à direita dos resul- ra veio Temer e executou em grande
ção o alteram em certa medida). No tados da pesquisa elaborada medida as propostas que essa gente
caso da pesquisa, a separação entre pela Fundação? Que pontos e defendia, mas ele não tem populari-
sujeito e objeto é estanque e clara. discursos são destacados à es- dade alguma. Muitas vezes eu tenho
Existem nós e eles. Nem mesmo se o querda e à direita? a impressão de que vou abrir o jornal
pesquisador fosse finlandês ele seria e descobrir que Temer está com po-
alheio à pesquisa no momento em Hugo Albuquerque - Em um
pularidade negativa.
que a realizou, imagine nesse caso. primeiro momento é evidente que
64 existe uma tentativa da “nova” di- A universidade tem um papel bas-
Quanto ao terceiro ponto, lembra- reita brasileira de se aproveitar do tante salutar nesse processo de re-
ria Gilles Deleuze & Felix Guattari resultado da pesquisa, forçando uma produção de um pensamento tradi-
no Mil Platôs, ao diferenciarem que interpretação que seja favorável às cional e padronizado enquanto, ao
uma ciência de Estado não é ape- suas teses, o que é em grande medi- mesmo tempo, colabora para o alhe-
nas uma ciência que fala sobre o da possível pela maneira claudicante amento da vida social no nosso país.
Estado, mas de um discurso que é como a investigação foi feita, inclusi-
A própria nova direita brasileira
estruturado para não chegar a outra ve por ela assumir na sua gramática
não está conseguindo ser eficiente
conclusão que não essa. O mesmo e na sua estrutura uma linguagem
dentro dos seus parâmetros, das re-
vale para Antonio Negri e os auto- conservadora - como se vê pela in-
gras do jogo, que ela mesma definiu!
nomistas/operaístas italianos, os sistência em se basear em opiniões, e A Guerra Fria brasileira, portanto,
quais concluem que a imanência não no exame da realidade material está em aberto. Essa nova direita
entre sujeito e objeto, no âmbito do e nas suas relações. brasileira, seja do alto das colunas de
trabalho e também da produção de
Isso me lembra um documento jornais de circulação nacional ou na
conhecimento tem de ser levado às
precioso chamado As Nove Teses da militância de página de Facebook,
últimas consequências. E não pode-
Oposição de Esquerda (ao Partido está bem longe dos gatos-mestres da
ria ser diferente. Ditadura Militar brasileira e prosse-
Comunista Francês), escrito tam-
O resultado é uma pesquisa que bém por Guattari nos anos 1960 (pu- gue tentando enquadrar a realidade
parte de pressupostos pelos quais o blicado no Brasil em uma coletânea num plano ideológico. Isso obvia-
“Estado” é necessariamente a ins- de vários escritos dele chamada Psi- mente não se confirma porque é im-
tância própria da política, na qual canálise e Transversalidade), o qual possível: é quase um stalinismo de
“os pobres” necessariamente são antevia, com acerto digno de uma direita, o que não deixa de ser curio-
quem pode ou não ser os agentes Cassandra, o fracasso do Socialismo so na medida em que é exatamente
transformadores dessa “política” e Real e dos socialismos reformistas essa a formação de muitos dos “gu-
que a instância eleitoral é o único por pretenderem disputar com o rus” desse campo.
caminho para a geração de direitos. Bloco Capitalista de acordo com os
parâmetros desenvolvidos... pelo Fantasmas da esquerda
Perceba, o resultado é uma pesqui-
próprio Bloco Capitalista!
sa que parte de pressupostos pelos Do ponto de vista dos intelectuais
quais o “Estado” é necessariamente Evidentemente, e isso é uma ques- e acadêmicos de esquerda, eu li mui-
a instância própria da política, na tão lógica, você não consegue ser ta coisa, afinal a pesquisa despertou
qual “os pobres” necessariamente melhor do que alguém dentro dos uma miríade de artigos de gente

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muito boa, mas eu acredito que há ria que eu coloquei em cima, na qual direito à propriedade quando ele não
dois fantasmas que giram em torno ou você é partidário do Estado ou é para os trabalhadores e pobres. Eu
do tema: do Mercado - é uma lógica da qual não compreendo como ceticismo ao
comungam, em cenários opostos, Estado possa ser liberal. Não é; isso
(1) uma falta de ênfase não apenas
muitos “socialistas” e “liberais” bra- contradiz uma literatura básica.
metodológica como também episte-
sileiros. Uma incrível mistificação,
mológica em relação ao procedimen-
obviamente, uma vez que não há Es-
to que levam a conclusões como es- IHU On-Line - Pode explicar
tado sem Mercado e vice-versa.
sas - coisa que nos esforçamos para o que foi a pesquisa de Eder
fazer no nosso artigo; Sader sobre a periferia pau-
(2) o enorme tabu que é a questão lista nas décadas de 70 e 80?
Mercado, o oligopólio dos Que resultados semelhantes
da classe, seja porque nem sempre empresários x Estado, o oli-
alguns pressupostos básicos da so- ela teve em comparação com a
gopólio dos políticos pesquisa da Fundação Perseu
ciologia funcionam muito bem cá
nos trópicos, seja porque, mesmo E se há uma coisa útil nessa bara- Abramo e como os resultados
quando funcionam, eles nos joguem foram tratados à época pelos
funda chamada Lava Jato é, vejam
na cara o enorme apartheid com o setores progressistas?
só, demonstrar que isso que cha-
qual convivemos quotidianamente - mamos de “mercado” não passa do Hugo Albuquerque - Eder Sa-
e que não conseguimos reverter. oligopólio de grandes proprietários, der, que infelizmente nos deixou
A universidade tem um papel bas- e o “Estado”, o oligopólio dos gran- muito cedo, é um dos melhores
tante salutar nesse processo de re- des políticos, ambos em permanen- exemplos de como o PT, em grande
te negociação entre si, dentro, fora, medida, era um partido mais atual
produção de um pensamento tradi-
abaixo e acima da lei. Quem se opõe no passado. E isso não tem nada a
cional e padronizado enquanto, ao
ao Estado pode muito bem ser anar- ver com uma idílica volta ao passa-
mesmo tempo, colabora para o alhe-
quista ou comunista como, ainda por do, ao “PT das origens” como ima-
amento da vida social no nosso país.
cima, também o liberalismo não ad- ginam algumas correntes e partidos
Sobre esses fantasmas, eu escre- voga o fim do Estado, mas sua relati- que derivaram da sigla da estrela,
vi há quatro anos, quando tratei da mas sim o símbolo de um intelectual
65
vização. O próprio “neoliberalismo”,
classe sem nome, e vejo que de lá que a pesquisa vê de maneira até orgânico que já resolvia grande par-
para cá não mudou muito: a questão oposta ao “liberalismo popular”, não te das confusões teóricas vistas nes-
da classe é o momento em que mes- decretou o fim do Estado em parte sa pesquisa: Sader tem uma sociolo-
mo a intelectualidade que ousa pen- alguma, mas sim buscou direcionar gia ancorada na premissa de que ele
sar além se depare, ela mesma, com os recursos comuns para construir não está lidando com objetos, mas
seus demônios interiores, seja no grandes aparatos prisionais, poli- com atores sociais e políticos ativos.
seu papel na sociedade ou do apara- ciais e aumentou brutalmente o em- Daí o título de sua principal obra
to conceitual que tem à mão - e nessa preendimento da Guerra. ser Quando novos personagens
ânsia se reproduz um discurso que, entraram em cena - experiências e
muito embora seja bem intenciona- Nas periferias brasileiras, nas quais lutas dos trabalhadores da Grande
do, tem uma gramática tradicional, as pessoas têm seus direitos suspen- São Paulo 1970-1980 - de que você
buscando mediante tipos sociológi- sos ou relativizados, onde as pessoas pode ler trechos no próprio site da
cos definir o que são os pobres - à são tratadas como objetos descartá- própria FPA.
época os tais pobres que estariam veis, é natural que elas demonstrem
opiniões nada afeitas ao Estado Ele não conduzia uma pesquisa base-
“ascendendo à classe média”. ado na clarividência de um investiga-
Nas periferias brasileiras, nas quais dor profético - e transcendente - face a
as pessoas têm seus direitos suspen- meros objetos emissores de “opinião”,
IHU On-Line - O que tem se
sos ou relativizados, onde as pessoas mas na verificação de um processo
entendido pelo termo “libe-
são tratadas como objetos descartá- de atuação de sujeitos históricos que
ral” ao avaliar os resultados
veis, é natural que elas demonstrem pode ser observada por alguém, de
da pesquisa?
opiniões nada afeitas ao Estado - forma incontornável, envolvido no
Hugo Albuquerque - Na pesqui- que chega bastante lá na forma po- processo - pela impossibilidade de
sa você pode verificar acepções con- licial e repressiva. Quando pessoas estar alheio. Isso certamente é muito
fusas do termo “liberal”. Uma delas da periferia defendem seu direito à mais “moderno” do que fazer opinio-
bastante simplória, como oposta a propriedade não é manifestação de metria à la sociologia americana so-
“conservador” (no sentido de cos- liberalismo, mas a constatação de bre escolhas que não são binárias - o
tumes), e na outra como postura que direito algum delas é respeitado, que tem mais a ver com processos nos
contraposta à ideia do Estado como inclusive o direito a ter seu lar e suas quais as pessoas podem fazer escolhas
lugar central da política, o que é risí- posses em segurança. O liberalismo objetivas como, talvez, uma eleição ou
vel. Isso é um pouco da lógica biná- tupiniquim, contudo, só defende o a escolha de produtos.

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ENTREVISTA

IHU On-Line - A pesquisa da do pelo conservadorismo stalinista. pobre, eu devenho pobre quando
Fundação Perseu Abramo de- Nada disso é novo, acredite. experimento essa dor e quero trans-
monstra, ainda que de modo formar isso. Ser de direita pressupõe
geral, que os moradores da adotar esse fato como natural e, as-
periferia paulista têm valores IHU On-Line - A esquerda sim, buscar uma ordem do mundo
mistos, que incluem desde a va- sempre manteve seu discurso na qual o sistema não deve se preo-
lorização individual e do méri- político e social ancorado nos cupar em universalizar essas condi-
to, a ações coletivas e políticas pobres. Quais os desafios de ções de vida, onde, seja pelo deixar
públicas eficientes. Conside- superar esse discurso e apostar morrer ou pelo fazer morrer, você
rando esse resultado, quais são no comum? não tenha como diretriz básica a
os desafios postos às políticas Hugo Albuquerque - A esquer- preocupação com a garantia da vida
públicas e à atuação do Estado da sempre manteve seu discurso socialmente considerada.
no sentido de garantir serviços assentado na ideia de um mundo
que possam ser compatíveis Eu não preciso ser trabalhador
diferente da modernidade bur- para defender os trabalhadores. Eu
com a autonomia dos cidadãos guesa. Evidentemente, não existe
e garantir o bem comum? não preciso ser negro para defender
coincidência entre a necessidade de os negros. Eu não preciso ser mulher
Hugo Albuquerque - Como eu pobres e ricos ao funcionamento ou para defender as mulheres. Eu não
coloquei acima, é difícil concluir êxito nem de esquerda nem de di- preciso ser árvore para defender as
muita coisa a partir da pesquisa, reita, inclusive porque isso nem se- árvores. Eu não preciso ser um ani-
diferentemente do que se pode con- ria uma questão: como a maior par- mal para defender os animais. Ainda
cluir sobre a pesquisa ela mesma. A te das pessoas é pobre em relação à mais a pobreza, que é uma questão
pesquisa fala mais sobre si mesma elite – e pobre é um conceito sem- de existência precária, o que não
do que sobre quem buscou enten- pre relativo –, a direita não existiria é defendida em si (ou para si) pelo
der. O que esses ecos na forma de porque fatalmente essa divisão se- próprio pobre, nunca jamais dire-
opinião demonstram é uma plati- ria dissolvida. Por que diabos existe
tamente salvo em casos de maso-
tude: a priori, as pessoas desejam a desigualdade social então? Porque
quismo. A esquerda tem por norte a
66 própria liberdade. Quem não dese- existe um jogo complexo de sujei-
alteridade, a luta por um mundo me-
ja isso? O que eu vejo é que não há ção voluntária “dos de baixo” para
lhor, mesmo que determinada luta
nenhuma contradição nesses ecos. “os de cima” – e também de violên-
não seja a minha, seja a do outro.
As pessoas querem uma sociedade cia “dos de cima” contra “os de bai-
Isso não implica negar o indivíduo,
mais forte, elas não nutrem muitas xo”. Sem o pobre que não acredita
mas entender que o próprio bem-es-
ilusões; ou melhor, nutrem tanto na sua necessidade de ser obediente
tar dele depende do nexo de relações
quanto todas as pessoas que moram para um dia ser rico, não haveria ca-
sociais, econômicas e políticas.
nos bairros ricos nutrem. Mas a si- pitalismo. Sem ricos que desprezam
tuação mais emergencial leva tanto sua vida confortável, dificilmente O devir-pobre não é necessaria-
a conclusões que podem ser impres- teríamos revolução também. mente do pobre, ele pode levar um
sionantes: uma lógica de solida- rico a romper com a sua classe e
riedade de guerra impressionante Direita e esquerda se derivam de
defender o interesse dos mais ne-
para quem mora em bairros ricos, e fatos socioeconômicos, mas não se
cessitados, do mesmo modo que
uma lógica pragmática igualmente expressam puramente neles, pois a
um pobre pode se sujeitar volun-
assustadora para quem certa segu- realidade socioeconômica em si é um
tariamente e defender o interesse
rança material garante determinada dado objetivo, a política é uma coisa
do patrão, denunciando colegas
“pureza” ideológica - mas isso vale que surge num segundo momento,
grevistas - não é porque alguém é
tanto para certa parte da esquerda em cima das contradições sociais
pobre que defende o interesse polí-
quanto para a nova direita, para os e econômicas, na qual a esquerda
tico dos pobres (a regra, por sinal,
tais “liberais”. consiste, em apertada síntese, numa
proposta de um mundo feito sem a é não defender, do contrário os po-
Hoje, um projeto político inovador exploração das pessoas, sem divisão bres não seriam pobres!). Isso não
passa pela defesa das multidões e de- e hierarquização social, econômica tem a ver com o binômio consciên-
pende de ser construído desde baixo. e política e, portanto, com univer- cia de classe/histórica e alienação,
Não existe garantia de vida coletiva salização das condições de vida e de mas sim com uma questão de de-
saudável sem se preocupar com os vida com qualidade. Não precisa ser sejo. Tampouco você vai entender
direitos individuais e vice-versa, é pobre para ser de esquerda. Nem ser isso perguntando, “ei, amigo o que
quase um axioma. Nenhum sistema rico para ser de direita. você acha de x ou y”, mas com uma
durou muito tempo sem tentar equi- pesquisa séria de como o desejo,
librar um pouco esses dois aspectos, A recusa à pobreza que ao meu ver e dos outros que se
vide os bolsheviks revolucionários associaram nesse texto, se localiza,
que uniram a ação social à liberação A recusa à pobreza é um devir, ser cria e destrói no interior do insano
dos costumes, o que só foi reverti- pobre não coincide com um devir maquinário capitalista.

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Uma nova esquerda precisa redes- que eu disse, o que, infelizmente, eleições até lá: do mesmo modo que
cobrir isso, e entender que para ter o implica dizer que ela só piorou e tivemos Yeltsin na Rússia e Berlus-
que oferecer, é preciso ter coragem junto com isso piorou as coisas no coni na Itália. Ou isso ou uma tra-
e a capacidade de sair de um cômo- país. O Brasil perdeu uma boa opor- gédia pior com a extrema-direita.
do conservadorismo na prática, na tunidade de consertar algumas coi- Uma solução para o país passa pelo
linguagem, no pensamento. A atual sas, de coibir outras, dando um ar desfazimento dos velhos oligopólios
situação é ruim justamente porque a de disputa política e de forma envie- da construção civil, dentre outros,
esquerda busca se diferenciar acei- sada. A maneira como Lula tem sido na criação de empresas menores e
tando a gramática, as coordenadas e tratado é absurda: ano passado, fa- nesse momento na socialização de
até o modo da direita de fazer polí- lávamos da condução coercitiva ile- setores estratégicos - enquanto você
tica, e, retornando às questões ante- gal que foi realizada contra ele, hoje democratiza decisões de um modo
riores, obviamente ela vai continuar é o fato de estar sendo obrigado a geral criando comitês da sociedade
perdendo se repetir isso. ouvir todas as dezenas de testemu- civil para verificar grandes obras,
nhas que ele chamou em sua defesa, por exemplo.
uma ameaça ilegal e intolerável à Sim, eu continuo acreditando que
IHU On-Line - Como os setores sua liberdade física.
progressistas, a esquerda em ge- a corrupção é um problema grave,
ral ou ao menos a nova esquer- Ao libertar ou amenizar penas de mas só a resolveremos com demo-
da que faz a crítica à esquerda executivos corruptores, ser leniente cratização das decisões políticas, o
petista, deveriam pensar o binô- com políticos de direita implicados que exige uma reforma nas nossas
mio Estado x mercado? e, ainda, excessiva - ou até abusiva- instituições políticas e um misto de
mente - dura com políticos à esquer- fortalecimento/responsabilização
Hugo Albuquerque - Eu não da delatados ficamos num quadro da sociedade. Hoje as decisões são
sei como as pessoas devem ou não tenebroso para o Direito, no qual tomadas por poucas pessoas no si-
pensar algo, mas podíamos fazer uma operação que se pretende ao lêncio de suas salas em palácios. É
um favor a nós mesmos saindo de mesmo tempo investigadora, acusa- ilusório crer que isso vá mudar só
dicotomias falsas. Estado e Mercado dora e julgadora nos conduz para um com mais punição. A solução para
estão mutuamente implicados. Um cenário de criminalização da políti- a corrupção continua sendo mais 67
não existe sem o outro. Como não ca, sobretudo de esquerda. democracia participativa e mais
existe também pobreza sem riqueza. transparência, não uma lógica de
O papel que eu defendo para a es- Corrupção sistêmica julgamento ou desconstrução total -
querda é o de romper essas relações a “violência do nada” à qual eu me
perversas. A esquerda tem de ser o Temos um problema de corrupção referia, que inclusive é tolerada por
movimento da sociedade, em favor sistêmica e um dos principais pro- muitos políticos e intelectuais alter-
da sociedade, muitas vezes contra o curadores da República a atuar no nativos ou de esquerda.
Estado e o Mercado, que são instân- caso, de forma muito parcial e pre-
cias interdependentes e hierárquicas cipitada, procura dizer que o Lula é
que buscam gerir as nossas vidas. E líder da quadrilha. Não, não é. Es- IHU On-Line - Nos setores de
a associação de moradores de bair- tamos falando de um esquema que esquerda muitos apostam no
ro não é Estado, nem o comerciante tem décadas de existência e envolve retorno de Lula à presidência
da periferia é Mercado nesse senti- políticos de praticamente todos os em 2018. Como vê essa possi-
do. Nem público nem privado, o co- grandes partidos, conforme o apura- bilidade de modo geral? Quais
mum. A Greve Geral do último dia do pela própria operação. É impos- seriam as consequências disso
28 de abril prova que ainda há muito sível Lula ter sido chefe dele quando para o país como um todo, para
espaço para se fazer e se pensar. era apenas um líder sindical ou líder a política e para a própria es-
da oposição. querda e a nova esquerda que
tenta se solidificar com a crise
IHU On-Line - Na última en- Se Lula cometeu crimes, isso preci- da esquerda petista?
trevista que nos concedeu, você sa, ainda, ser provado, mas ele pre-
cisa ter direito amplo à defesa, o que Hugo Albuquerque - Lula certa-
comparou a Lava Jato à Glas-
me parece que não tem sido obser- mente é melhor do que seria uma hi-
nost e à Operação Mãos Limpas.
pótese louca como a de Bolsonaro, ou
Diante das últimas investiga- vado. Isso me incomoda. Porque não
de um neopopulista como um Doria.
ções e das últimas delações pre- se pode desperdiçar a oportunidade
Lula foi o grande presidente da nossa
miadas, em que praticamente de deflagrar uma operação sobre um
breve experiência democrática, no en-
todo o sistema político brasilei- tema tão delicado e importante com
tanto espera governar refazendo pactos
ro é denunciado, como vê e ava- tom inquisitorial e punitivo, ainda
e criando novos grandes acordos para
lia o andamento da Operação? mais de forma enviesada.
transformar o momento em que esta-
Hugo Albuquerque - De lá para O resultado ainda pode ser a eleição mos não no fim ou no colapso da Nova
cá a Lava Jato apenas confirmou o de um populista em 2018, se houver República, mas numa espécie de breve

EDIÇÃO 504
ENTREVISTA

blecaute. Taticamente isso pode ser Uma eleição pode ser suspensa ano bém há equívocos importantes, tanto
importante, mas tem de ser visto com que vem ou, simplesmente, não permi- que estamos como país nessa situação
certas ressalvas. Muitos avanços foram tam que Lula seja candidato ou o der- e o próprio Lula sofre um bombardeio
lentos demais nesses últimos anos jus- rubem assim que eleito. Lula pretende - não se pode esperar que alguém como
tamente por falta de uma organização refazer os pactos em um país que teria Lula seja imprudente e se lance ao con-
mais enfática da multidão, com tudo saído dos trilhos, supostamente, por flito aberto, mas se ele não tiver noção
sendo feito pela lógica de conciliação ter adotado a lógica do conflito, mas de que a lógica de conciliação tem um
dos grandes sindicatos e suas organi- resta saber se é possível refazer esses limite bem definido, estará ele mesmo
zações. Tanto que muito daquilo que pactos ou se é eficaz refazê-los, uma vez perdido. Mas, independentemente da
foi construído foi facilmente desfeito. que existe a necessidade premente de importância que possa ter uma candi-
E agora, a própria elite brasileira, que reverter muitas das reformas que Te- datura Lula no atual contexto, não será
sempre preferiu negociar, resolveu, a escolha do Presidente da República
mer fez.
como no resto da América Latina, ir à ou a presença de Lula lá que irão salvar
luta de classes. O próprio cenário geo- Existe uma grande parcela de verdade a pátria ou eximir a responsabilidade
político é tenebroso e bélico. na prudência política de Lula, mas tam- da tarefa militante desde baixo.■

Leia mais
- A violência do nada. A Nova Direita e as paixões tristes. Entrevista especial com Hugo
Albuquerque, publicada nas Notícias do Dia de 17-3-2016, no sítio do Instituto Humanitas
Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2qhnkz4.
- “Vivemos um momento constituinte. É preciso pensar, atuar, propor como nunca”.
Entrevista com Hugo Albuquerque, publicada na revista IHU On-Line número 481, de 21-3-
2016.
68

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Contra a servidão ao algoritmo,


o cooperativismo de plataforma
Trebor Scholz analisa a maneira pela qual aplicativos digitais
como Uber e Airbnb contribuem para a concentração de
renda e fragilização dos trabalhadores e usuários
João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado | Tradução: Walter O. Schlupp

N
ão restam dúvidas de que a economia local. “Qual é a lógica de se
revolução 4.0 vem transfor- encaminhar para uma empresa do Vale
mando radicalmente as for- do Silício os lucros da locação de curto
mas de vida no século 21. Na surdez prazo no Rio de Janeiro, São Paulo ou
absoluta dos processos de algoritmi- Recife, entregues através da plataforma
zação, isto é, da redução das relações de software americana Airbnb?”, pro-
às lógicas dos aplicativos, a liberdade voca. “Essa economia pode ser operada
transforma-se em escravidão aos dis- de forma diferente, justa e em benefício
positivos digitais. “Privacidade, espe- das comunidades locais. [...] o coopera-
cificamente neste caso, refere-se à falta tivismo de plataforma trata da criação
de transparência do algoritmo. Há mui- de uma economia digital diversificada,
tos relatos recentes sobre as maneiras onde também alternativas éticas têm
pelas quais os motoristas são manipu- espaço para prosperar e oferecer um
lados pelo algoritmo do Uber. E, dife- 69
futuro justo de trabalho a um segmento
rentemente das empresas tradicionais da economia”, propõe.
de táxi, também os passageiros podem
ser identificados pela empresa, a qual Trebor Scholz é acadêmico ativis-
agora sabe quem está indo para onde, ta e professor associado para Cultura
e ela não parece hesitar em fazer uso e Mídia na The New School em Nova
dessas informações para beneficiar seu York. É autor dos livros Uber-Worked
resultado financeiro”, aponta Trebor and Underpaid. How Workers Are
Scholz, em entrevista por e-mail à IHU Disrupting the Digital Economy (New
On-Line. “Dito isto, gostaria de subli- York City: Polity. 2016), em que analisa
nhar o mascaramento que caracteriza os desafios lançados pelo trabalho di-
a narrativa utilizada pela economia ex- gital e introduz o conceito de coopera-
trativa de compartilhamento: mobilizar tivismo de plataforma; Digital Labor:
a linguagem do amor e da contracultura The Internet as Playground and Fac-
para vender serviços comerciais, mui- tory (Routledge, 2013), e Ours to Hack
tas vezes ilegalmente”, complementa. and to Own: Platform Cooperativism.
A New Vision for the Future of Work
A crítica, no entanto, não pretende eli-
and a Fairer Internet (com Nathan
minar os dispositivos tecnológicos, mas
estabelecer uma lógica que seja mais Schneider, OR, 2016).
benéfica para os trabalhadores e para a Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como compre- partilhamento, economia colabora- fing1 ou BlaBlaCar2.


ender a lógica da economia de tiva, economia do biscate ou (talvez
compartilhamento? Quais seus mais realisticamente) economia sob 1 Couch surfing: trata-se de um site que faz a
interação entre turistas que querem hospedagem
limites e suas potencialidades? demanda, começou com o ímpeto grátis durante uma viagem e pessoas que gos-
tariam de receber esses visitantes. (Nota da IHU
do autêntico compartilhamento de On-Line)
Trebor Scholz – O que conside- recursos subutilizados. Basta pensar 2 BlaBlaCar: trata-se de uma plataforma para par-
tilhar carro, em que os condutores que têm luga-
ramos hoje como economia do com- em novas empresas como Couchsur- res livres no veículo buscam passageiros a procura

EDIÇÃO 504
ENTREVISTA

Rapidamente, a linguagem desses es- emprego e outro, essas ocupações po- criativa” sempre esteve associado à
paços econômicos emergentes foi assu- dem ser benéficas. Minha crítica se introdução de novas tecnologias (por
mida por empreendimentos financia- levanta quando falamos de trabalho exemplo, rádio, TV, Internet), parece
dos por capital de risco, que usavam o de longo prazo, quando pensamos que com a economia de compartilha-
discurso do compartilhamento, da aju- nesses biscates como emprego. mento o que se perde em caráter per-
da mútua, solidariedade, devastação manente é muitos empregos.
Não sou nostálgico quanto à relação
ecológica, mudança social (exemplo:
de emprego. Mas atualmente muita Pense, por exemplo, no fato de que
Occupy, Primavera Árabe) e até mes-
gente atribui maior flexibilidade à eco- 40% dos motoristas do Uber nos Es-
mo amor e intimidade para beneficiar
nomia de compartilhamento, que mui- tados Unidos são universitários e, em
suas startups voltadas para o lucro. Foi
tos empregos fixos não conseguem ofe- proporção muito maior, “caucasianos”
uma narrativa muito sedutora.
recer. Por outro lado, em troca de certo [i.e., nem “latinos”, nem afrodescen-
grau de flexibilidade os trabalhadores dentes], diferentemente dos taxistas
estão renunciando a todos os direitos tradicionais. A economia do biscate
IHU On-Line – De que forma tradicionalmente associados ao empre- torna-se palatável para essas partes
a economia de compartilha- go. Isto se aplica pelo menos nos Esta- da população a entrarem nesse tipo de
mento pode fragilizar as rela- dos Unidos, onde uma série de direitos trabalho. O que acontece, então, com
ções de trabalho? dos trabalhadores é garantida por lei os motoristas latinos e afro-americanos
Trebor Scholz – Empresas de tra- via Fair Labor Standards Act de 1938. que costumavam dominar esse merca-
balho on-line, rotuladas de empresas Na economia gig, os trabalhadores não do? Esta não é apenas uma questão de
tecnológicas, vieram na esteira da cri- têm seguro-desemprego; zero seguro- baixos salários, mas também de pesso-
se financeira de 2008, a qual colocou -saúde; nenhum seguro a remunerá- as sendo ainda mais marginalizadas.
um número cada vez maior de pessoas -los em caso de acidente de trabalho.
Esses problemas não serão resolvi-
na situação de precisarem aceitar um Como os trabalhadores são disper- dos rapidamente.
trabalho de contrato autônomo, mes- sos e, de um modo geral, desarticula-
mo que preferissem empregos de tem- Na ausência de contratos vinculan-
dos entre si, essa economia também
po integral. Hoje, cada terceirizado tes e regulamentos sensatos, empresas
representa um golpe significativo
70 americano é um freelancer ou autôno- como o Uber podem mudar a remune-
para os sindicatos tradicionais, já que
mo contratado. Nos Estados Unidos, ração dos motoristas de uma hora para
estes não conseguem funcionar como
a economia do biscate é dominada outra. Isso não é mera especulação,
unidades de negociação eficaz para
por companhias como TaskRabbit3, mas tem, de fato, acontecido em cida-
grandes massas de trabalhadores.
Uber4, Airbnb5. Na Europa, você pode des como Chicago, onde, sob pressão
acrescentar a Deliveroo6 e outras; na Além disso, com Uber e outras em- competitiva, empresas de repente re-
China, Didi Chuxing7. presas nessa economia emergente, duzem a renda dos motoristas em até
podemos ver que para muitos moto- 30%. A economia de compartilhamen-
Tecnologicamente, essas empresas ristas, dependendo da cidade, depois to torna a vida quotidiana imprevisível
criam muitos benefícios de curto pra- de se descontarem todas as despesas, para os trabalhadores. O Uber atual-
zo para os consumidores (conveni- o salário por hora muitas vezes fica mente, por exemplo, está subsidiando
ência, acesso a mão de obra de baixo abaixo do salário mínimo. Em alguns cada corrida pela empresa. Não se deve
salário, flexibilidade e a oportunida- casos, há também questões de seguro desconsiderar a perspectiva de o Uber
de de ganhar algum dinheiro à parte). dos motoristas e dos passageiros. tornar-se um monopólio de transporte
Para estudantes ou pessoas entre um global, quando então poderiam ditar
preços à vontade. Como Tim Wu9 e
de uma forma alternativa e mais barata de viajar.
(Nota da IHU On-Line) IHU On-Line – É nesse sen- outros pesquisadores de monopólios
3 TaskRabbit é um aplicativo que se propõe a co- explicaram, após a “fase de destruição
nectar usuários com pessoas da própria vizinhan- tido que se dá o conceito de
ça para fazer pequenos trabalhos ou atividades. “ubercapitalismo”? criativa” segue uma “fase de ouro”,
(Nota da IHU On-Line)
4 Uber: é uma empresa multinacional norte-a- quando entram em jogo os ganhos des-
mericana, prestadora de serviços eletrônicos na Trebor Scholz – Os pesquisadores sas empresas. Mas, logo em seguida,
área do transporte privado urbano e baseada em detectaram um padrão do que acon-
tecnologia em rede, através de um aplicativo que o principal objetivo dessas empresas
oferece um serviço semelhante ao táxi tradicional. tece cada vez que o Uber entra numa
(Nota da IHU On-Line)
5 Airbnb: inicialmente era um site em que pes- cidade. É um processo ligado à anula-
soas alugavam apenas quartos em uma casa com ção da lei federal e dos regulamentos Clássicos da Economia, promovido pelo IHU em
moradores, mais ou menos aos modos do Couch 2005. (Nota da IHU On-Line)
Surfing, porémpago. A coisa deu tão certo, que o locais. Enquanto aquilo que o econo- 9 Tim Wu: é um acadêmico norte-americano,
site começou a ser usado para alugar apartamen- professor da Columbia Law School, antigo mem-
tos inteiros. (Nota da IHU On-Line) mista austríaco-americano Joseph bro do grupo de reforma Free Press e um contri-
6 Deliveroo: trata-se de um serviço em parce- Schumpeter8 chamou de “destruição buidor regular da revista The New Yorker. É muito
ria com redes de restaurantes e estabelecimentos renomado pelo seu trabalho sobre neutralidade
independentes e se responsabiliza pelas entregas da rede no seu artigo Network Neutrality, Broa-
com suas centenas de motoristas e ciclistas. (Nota dband Discrimination, popularizando o conceito
da IHU On-Line) 8 Joseph Alois Schumpeter (1883 -1950): eco- através da sua contribuição com a lei de neutra-
7 Didi Chuxing: é uma companhia de transporte nomistas austríaco, entusiasta da integração da lidade da rede de 2010.Wu também contribuiu
situada na China que oferece transporte e aluguel Sociologia como uma forma de entendimento de significativamente com as políticas de comunica-
de veículos por meio de aplicativos. (Nota da IHU suas teorias econômicas. Seu pensamento esteve ção sem fio, notavelmente com sua contrubuição
On-Line) em debate no I Ciclo de Estudos Repensando os “Carterfone”. (Nota da IHU On-Line)

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(como foi o caso, por exemplo, da Wes- rotinas específicas de passageiros, as- brinquedos on-line no final da década
tern Union quando da introdução do sim reconhecendo sua dependência do de 1990. Os lucros reais do Uber não
telégrafo) passa a ser a manutenção do serviço, para, em seguida, usar essas impressionam. Pelo menos até agora.
poder e a eliminação dos concorrentes. dependências visando gerar os preços Mas a razão pela qual a economia de
de busca estrategicamente. compartilhamento tem tantas conse-
quências é que essas empresas estão
Muito também se poderia dizer sobre
IHU On-Line - Como compre- produzindo modelos para novas for-
a locação de curto prazo, onde a dinâ-
ender as divisões das diferentes mas de trabalho.
mica racial influi de uma forma que an-
classes de trabalhadores nesse tes não era tão acentuada no mercado Em 2008, a empresa farmacêutica
contexto em que as relações de de aluguel. No Airbnb, por exemplo, é Merck, por exemplo, vendeu sua fá-
trabalho são atravessadas pela muito mais difícil para um homem brica da Filadélfia para uma empresa
economia de compartilhamento? afro-americano oferecer um aparta- que demitiu todos os 400 funcioná-
Trebor Scholz – Há também a mento para alugar do que para uma rios e depois os recontratou como au-
questão da classificação dos trabalha- mulher branca. Preciso mencionar tônomos. A Merck então contratou a
dores, que é complicada. O Uber insis- também que o Airbnb está frequente- empresa para continuar a fazer anti-
te que os motoristas são todos autôno- mente usando inverdades para falar bióticos para eles, usando exatamen-
mos contratados, o que em boa parte sobre seu modelo de negócios. Como te os mesmos funcionários.
me parece correto. Mas há também demonstrou o pesquisador canadense
A uberização da sociedade é tam-
o segmento dos motoristas cuja roti- Tom Slee10, contradizendo os dados
apresentados pelo Airbnb, a grande bém uma expressão da crescente
na diária é idêntica à dos motoristas desigualdade de renda e de capital,
maioria dos aluguéis em grandes cida-
empregados. Eles dirigem oito horas o que leva a um neofeudalismo, onde
des como Paris, Nova York, Roma ou
por dia, seis dias por semana. Esses os 10% do topo têm tanto dinheiro
Londres são aluguéis de apartamentos
motoristas, com razão, pleitearam ser que podem alugar empregados à von-
inteiros, e não aluguéis onde o hospe-
classificados como funcionários e re- tade. A única diferença, agora, é que
deiro está presente. Isso é importante,
ceber os benefícios correspondentes. esses funcionários são contratados
porque mostra que o Airbnb não está
Um juiz no Reino Unido recentemen- por meio de aplicativos sob demanda.
ajudando predominantemente os po- 71
te decidiu a favor de um grupo de tais
bres, como sugere o Airbnb, mas na
motoristas do Uber, concedendo-lhes
verdade beneficia a classe média alta,
o status de empregado. Mas esse é um IHU On-Line – Como analisa
que pode passar temporada em sua
incidente isolado. Não mudou a situa- a forma como países da Europa
casa de férias enquanto monetiza sua
ção da maioria dos motoristas. e Estados Unidos estão lidando
residência na cidade.
Preciso apontar outro problema: a com essa realidade – e essen-
Dito isto, gostaria de sublinhar o cialmente os riscos – da econo-
privacidade. Privacidade, especifica-
mascaramento que caracteriza a mia de compartilhamento? E o
mente neste caso, refere-se à falta de
narrativa utilizada pela economia que o senhor tem visto sobre
transparência do algoritmo. Há muitos
extrativa de compartilhamento: a experiência brasileira ou da
relatos recentes sobre as maneiras pe-
las quais os motoristas são manipula-
mobilizar a linguagem do amor e da América Latina?
dos pelo algoritmo do Uber. E, diferen- contracultura para vender serviços
Trebor Scholz – Os riscos da
temente das empresas tradicionais de comerciais, muitas vezes ilegalmente.
economia de compartilhamento nos
táxi, também os passageiros podem ser Estados Unidos são muito diferen-
identificados pela empresa, a qual ago- tes daqueles nos países nórdicos, por
ra sabe quem está indo para onde, e ela IHU On-Line – Como se dá a exemplo. Na Dinamarca, Noruega,
não parece hesitar em fazer uso dessas uberização da sociedade? Finlândia e Suécia os trabalhadores
informações para beneficiar seu resul- recebem amplos benefícios sociais do
Trebor Scholz – Em 2015, 24% dos
tado financeiro. Além disso, você pro- Estado, o que torna a renda efetiva de
americanos relataram ganhar dinhei-
vavelmente já leu sobre o software do um indivíduo um fator de muito me-
ro com a economia de plataforma, de
Uber identificando funcionários mu- nor importância. Seus governos aco-
acordo com um relatório de pesquisa
nicipais por meio do seu local de em- lhem favoravelmente a economia de
da Pew. Em termos de produto Inter-
barque em prédios federais ou dos seus sharing, em parte porque conseguem
no Bruto - PIB, no entanto, o trabalho
cartões de crédito federais. O Uber, em que os desempregados voltem a traba-
baseado em plataformas é um fator de
seguida, usou essas informações para pequena monta. A avaliação do Uber lhar em tempo parcial, de modo que
bloquear essas pessoas, impedindo- em mais de US$ 70 bilhões é tão es- então ficam bem na foto, pelo menos
-as de usar o seu serviço, por suspeitar peculativa quanto a de muitas lojas de em termos estatísticos. O que estes
que usariam essas viagens para avaliar governos precisam ter em mente, no
o serviço e falar com os motoristas. 10 Tom Slee: é um pesquisador doutor em quími- entanto, é 1) a qualidade desses servi-
Existem outros exemplos em que ficou ca, mas dedica seus estudos e escritos acadêmi- ços ocasionais e 2) o fato de empresas
cos a questões relacionadas à tecnologia e socie-
claro que o Uber consegue identificar dade. (Nota da IHU On-Line) como Uber ou Airbnb não pagarem

EDIÇÃO 504
ENTREVISTA

impostos, o que coloca toda a Previ- pessoas comuns pensam suas prietários da plataforma. Estes exem-
dência Social estatal [welfare state] relações na Internet? Não há plos mostram que essa economia pode
desses países em grande risco no lon- riscos de fragilização das rela- ser operada de forma diferente, justa e
go prazo. ções de trabalho? em benefício das comunidades locais.
Atualmente, existem várias centenas
É um tanto desconcertante o fato de Trebor Scholz – Desde 2014,
de cooperativas de plataformas em
os reguladores na Europa e na Améri- tenho trabalhado em um novo mo-
todo o mundo, sendo desenvolvidas
ca Latina não serem mais resistentes delo, novo espaço econômico, que
em setores como assistência à infân-
ao modelo de negócios que canaliza chamo de cooperativismo de pla-
cia, prestação de cuidados, finanças,
dinheiro para o Vale do Silício, em taforma. O cooperativismo de pla-
jornalismo, armazenamento de dados,
vez de contribuir para a economia taforma implica a introdução do
transporte, educação e muitos outros.
local. Os municípios ficam frequen- modelo de negócio cooperativo na
Você pode ler meu livro em português
temente intimidados com as táticas economia digital, permitindo que
para saber mais sobre essas empre-
agressivas, a incrível criatividade e os também os sindicatos se reinventem
sas e as oportunidades que estão se
orçamentos de guerra dessas empre- no processo11. Esta é uma oportuni-
sas de economia de compartilhamen- abrindo por meio de tecnologia como
dade estratégica para os tecnólogos,
to. Qual é a lógica de se encaminhar a cadeia de blocos [block chain], que
em particular focando no software
para uma empresa do Vale do Silício livre, que pode usar as tecnologias permite operação descentralizada das
os lucros da locação de curto prazo no empresas. Até agora, na América La-
da economia de compartilhamento.
Rio de Janeiro, São Paulo ou Recife, tina, houve poucos exemplos da eco-
Todas as manhãs nos levantamos e nomia de plataforma cooperativa, mas
entregues através da plataforma de
tomamos uma xícara de café, talvez isso está mudando agora.
software americana Airbnb? Em ter-
leiamos o jornal, ou consultemos as
mos de know-how essas plataformas Há muitas maneiras diferentes de se
notícias de modo on-line, no celular
não são de alta tecnologia. O que dá formarem cooperativas de platafor-
ou no computador. A probabilidade
aos proprietários dessas plataformas ma: 1) podem ser empresas start-ups
maior é que os sites que visitamos se-
uma vantagem significativa é a lógica de capital de risco que fracassaram e
jam de propriedade das mesmas qua-
de o-vencedor-leva-tudo, eles estão se foram transformadas numa coopera-
tro ou cinco empresas. O mesmo vale
72 beneficiando com os dados que conse-
para os serviços que discuti até agora. tiva de trabalhadores; 2) existem coo-
guem coletar de milhões de consumi- perativas tradicionais que se deslocam
dores. Quem for o primeiro no merca- Há uma concentração extrema, são
monopólios em vias de se formar, o para o mercado on-line; 3) pode haver
do on-line muitas vezes é o que sairá empresas que operam meramente
ganhando. Mas é preciso lembrar que que também leva a uma enorme con-
centração de dados. Atualmente a através de um algoritmo e tecnologia
uma coalizão de cidades brasileiras ou blockchain - como Arcade City13 e Aus-
uma federação de cooperativas e mo- legislação antitruste é mais relevante
do que nunca. Os usuários da inter- tin; 4) ou cooperativas de plataforma
radores brasileiros poderia, com rela- podem ser colaborações entre sindi-
tiva facilidade, criar uma plataforma net e os trabalhadores em platafor-
mas digitais não têm voz alguma para catos e cooperativas. A Green Taxi
de aluguel de curto prazo que poderia Cooperative, em Denver, nos Estados
se manifestar sobre o que acontece
gerar receita. Unidos, é um exemplo. Cooperativas
nas plataformas das quais eles mais
O que precisamos lembrar é que nos dependem. Se quisermos mudar ge- lançaram a empresa, mas o sindicato
50% inferiores da escala de renda as nuinamente a forma como as plata- pode ajudá-los a influenciar a regula-
mulheres estão significativamente so- formas são operadas, temos de mu- mentação local em Denver em favor
brerrepresentadas, implicando que as dar as estruturas de propriedade. do modelo de trabalho cooperativo.
mulheres são mais fortemente afetadas Também há, naturalmente, muitos
pela desigualdade do que os homens. Em 2014, comecei a detectar empre-
sas de transporte que seriam proprie- desafios, tais como financiamento, ma-
O capitalismo é bem-sucedido demais rketing e o efeito de rede. O objetivo, no
para seu próprio bem; está desenfrea- dade dos motoristas, gerenciadas via
aplicativo. Um site de fotografia como entanto, não é tomar conta por comple-
do, e o futuro é uma incógnita. Neste
Stocksy United12 era propriedade dos to desses negócios financiados pelo ca-
contexto, a economia de compartilha-
fotógrafos, mesmo assim gerando pital de risco; o objetivo não é destruí-
mento permite que os pobres, isto é,
mais de US$ 7 milhões em receita. -los, como alguns têm sugerido. Em vez
quase todos nós monetizemos nossos
Um aplicativo que oferece serviços de disso, o cooperativismo de plataforma
ativos anteriormente privados: nosso
limpeza – como Up & Go – fornece to- trata da criação de uma economia digi-
quarto vago, carro, ferramentas elétri-
dos os serviços através de membros de tal diversificada, onde também alterna-
cas, bicicleta e, possivelmente, até mes-
cooperativas que também são copro- tivas éticas têm espaço para prosperar
mo o guarda-roupa. É uma verdadeira
e oferecer um futuro justo de trabalho
financeirização do cotidiano.
11 Acesse a página em http://platform.coop/ a um segmento da economia. ■
about. (Nota do entrevistado)
IHU On-Line – De que forma 12 Stocksy United: trata-se de uma plataforma
o cooperativismo de platafor- cooperativa de disponibilização de fotos em que 13 Arcade City: é uma comunidade de provedo-
os fotógrafos são remunarados à medida que res e consumidores peer-to-peer de compartilha-
ma pode mudar o modo como suas fotos são usadas. (Nota da IHU On-Line) mento. (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

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EDIÇÃO 504
CINEMA

Para atenuar a falta de espaço na Cadeia Pública de Porto Alegre, as celas ficam abertas, e os presos habitam os corredores inóspitos dos pavilhões

74

“É um segundo Carandiru”
Documentário Central retrata situação precária
do maior presídio do Rio Grande do Sul

Fernando Del Corona1


Se houvesse uma rebelião, só teria uma forma de conter: é um segundo Carandiru.” Esta
frase, dita em certo momento do documentário Central por um policial militar responsável
pela Cadeia Pública de Porto Alegre – antes chamada de Presídio Central – entre 2013 e
2014, demonstra o efeito perdurante que o massacre ocorrido em outubro de 1992 teve sobre o
imaginário nacional quando se trata da situação carcerária no país. Abordado no livro Estação
Carandiru, de 1999, do médico Dráuzio Varela, e adaptado para as telas por Hector Babenco,
em 2003, a matança que vitimou 111 homens na Casa de Detenção de São Paulo, após uma ação
desastrosa da Polícia Militar para conter uma revolta dos presos, expôs na mídia a situação in-
sustentável dos presídios do país, escancarando uma dúvida acerca do poder de reabilitação do
sistema carcerário no Brasil.
Nos mais de 20 anos seguintes, pouco foi feito para mudar essa situação, e cenários seme-
lhantes se repetiram: em 2002, um motim no Presídio de Urso Branco, em Rondônia, deixou 27
mortos; uma rebelião na Casa de Custódia de Benfica, no Rio de Janeiro, resultou em 30 mortes
em 2004. No primeiro dia de 2017, 56 membros da facção criminosa PCC (Primeiro Comando

1 Fernando Del Corona é mestrando em Comunicação e especialista em Televisão e Convergência Digital pela Universidade do
Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, graduado em Produção Audiovisual pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul – PUCRS. Em seu artigo de conclusão da especialização, pesquisou a relação de fãs da série Game of Thrones com spoilers
no ambiente do site reddit. Em sua dissertação, em fase de desenvolvimento, investiga a presença da imagem-tempo na obra da
diretora norte-americana Sofia Coppola.

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da Capital) foram assassinados em uma revolta que durou mais de 17 horas no Complexo Pe-
nitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus. Quatro dias depois, uma chacina vitimou 33
presos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima. Menos de duas semanas depois,
dez morreram em uma rebelião na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Natal.
Central, dirigido por Tatiana Sager e codirigido por Renato Dornelles, não gira em torno
de uma rebelião ou de um massacre – ainda que mostre rapidamente o emblemático motim
em 1994, que terminou com um tenso enfrentamento, com reféns, no Hotel Plaza São Rafa-
el, em Porto Alegre. No entanto, como a fala do policial militar sugere, essa é uma questão
importante ao se pensar como lidar com uma situação insustentável como é a dos presídios
nacionais – e em especial a da Cadeia Pública de Porto Alegre, considerada, em 2008, o pior
presídio do país na CPI do Sistema Carcerário, na Câmara dos Deputados, e onde, em fevereiro
deste ano, foi descoberto um túnel em construção que resultaria na maior fuga de prisioneiros
do estado.
O que Sager apresenta é uma miríade de problemas estruturais, capturando esgotos a céu
aberto, infestações de baratas e ratos e – situação comum na maioria dos presídios nacionais
– superlotação. Atualmente, mais de 4,5 mil detentos ocupam um espaço destinado a menos
de 2 mil – mais do que o dobro da lotação prevista. Para atenuar a falta de espaço, as celas
ficam abertas, e os presos habitam os corredores inóspitos dos pavilhões. As galerias, por sua
vez, são dominadas por cinco facções criminosas, que funcionam em um acordo tácito com a
Polícia Militar, que administra a instituição. Ambos os lados buscam diminuir o número de
mortes dentro do presídio, que são ruins para os negócios comandados pelos criminosos – o
que não impede a ocorrência de “suicídios” forçados pela ingestão de drogas ou por espanca-
mentos coletivos.
A diretora intercala entrevistas com diversas pessoas – presos e seus familiares, guardas,
jornalistas – com cenas gravadas dentro das galerias pelos próprios detentos durante dois
dias, recurso semelhante ao utilizado por Paulo Sacramento em seu documentário O Prisio- 75
neiro da Grade de Ferro, de 2003. Isso apresenta uma visão mais próxima da realidade dos
presos e do seu dia-a-dia, sua alimentação, como dormem, como passam o tempo e as con-
dições muitas vezes insalubres em que se encontram. Essa estratégia narrativa dá origem a
algumas das situações mais intrigantes do filme, como a apresentação do momento em que
um dos presos mostra com a câmera as condições decrépitas do prédio onde habitam, seguido
por um policial militar declarando que as coisas não são tão ruins como se imaginam. É esse
mesmo policial que, quando fica clara a abundância de drogas e a presença de armamentos
dentro da prisão, nega a situação de maneira pouco convincente, alegando que, se admitisse
que isso acontecesse, ele estaria cometendo crime. Um outro administrador ainda declara sua
frustração quando é dito que são as facções que dominam a prisão. O que fica claro através de
tudo isso é o delicado equilíbrio que existe entre o poder público e o criminoso – fato que, de
uma maneira ou outra, diminui consideravelmente o número de mortes dentro do presídio,
ainda que a maior parte das mortes registradas sejam por questões de saúde.
O que Sager busca expor é um sistema em que o presídio, mais do que um lugar de rea-
bilitação – o que, a rigor, não ocorre –, se torna o centro nevrálgico do crime organizado no
estado. A complicada distribuição dos prisioneiros, entre primários, reincidentes, afiliados a
gangues e homossexuais e travestis, gera situações que forçam novos ingressantes no sistema
– frequentemente viciados em drogas – a se relacionar com as facções em busca de algum
apoio, gerando dívidas que se expandem para fora da penitenciária, em um perigoso círculo
de reincidência que, muitas vezes, envolve as famílias dos detentos. O poder das gangues se
estende também para os arredores do presídio, onde o tráfico de drogas e de armas domina a
vida dos moradores e os negócios.
Observa-se os rostos jovens de alguns dos encarcerados, muitos com apenas 18 ou 19 anos,
a maioria deles presos por tráfico de drogas. Um deles lamenta a tristeza de sua mãe, sua única
visitante, ao vê-lo ali; o próprio pai morrera lá dentro. Um preso mais experiente comenta a
importância da droga dentro do presídio, já que, se não fossem elas para acalmar os presos,
“morria mais de 50 por dia”. O cenário que se desenvolve ao longo do filme é a desolação de um
sistema falido de luta contra as drogas que se retroalimenta, gerando mais crime no lugar de
controlá-lo.

EDIÇÃO 504
CINEMA

Central, que gozou de relativo sucesso de público para um documentário nacional,


atraindo mais de 12 mil espectadores em suas quatro primeiras semanas em cartaz,
é uma expansão do curta O Poder Atrás das Grades, realizado em 2014 por Sager
e adaptado do livro Falange Gaúcha, de Dornelles, lançado em 2008. Ao contrário
do documentário de Paulo Sacramento, Central busca pintar um retrato mais amplo
e menos pessoal da situação, por meio da variedade de depoimentos, e focando
sua narrativa principalmente neles. O espectador é apresentado a diversas facetas
da situação atual da Cadeia Pública, sem a pretensão de receber soluções simples.
É um filme que vem acrescentar uma cuidadosa
análise para o complexo fenômeno dos presídios
no Brasil, uma questão fortemente enraizada na
cultura popular, mas que, ironicamente, parece
esquecida pelo público até que a próxima grande
tragédia chegue à mídia. O sistema carcerário,
conforme sugere um dos entrevistados, funciona
efetivamente como um ambiente de punição
privada e com uma forte diferença de classe e
raça.

A ideia de que a cidade será mais segura com


a retirada do criminoso da rua para colocá-lo em
reclusão com outros criminosos, sem o investi-
mento do estado em um processo de reabilitação
e readaptação, vem sido desmentida há muitos
anos. O fato de que o massacre do Carandiru está
76 tão enraizado na memória nacional aponta para
uma consciência desse cenário lúgubre, mas não
há interesse em solucioná-lo. É uma maneira de o
estado – e a população – virar o rosto para uma Central (2017), de Tatiana Sager e Renato
Dornelles
tragédia anunciada.

Ficha técnica
Central – O filme (2017)
Duração: 1h15min
Direção e roteiro: Tatiana Sager e Renato Dornelles
Produção: Beto Rodrigues e Tatiana Sager
Elenco: atores desconhecidos
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Brasil
Acesse o trailer em http://bit.ly/2qhjy8K

8 DE MAIO | 2017
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77

EDIÇÃO 504
CRÍTICA INTERNACIONAL

Mãos Limpas, o Tratado de Maastricht e


Francis Fukuyama. E o Brasil de hoje?
Jacopo Paffarini

A
fraqueza interna da política brasileira é o verdadei-
ro déficit do pais. Não há saída da crise através do
emprego da lawfare, com o uso da lei como arma de
guerra assimétrica
Jacopo Paffarini é É graduado em Direito pela Uni-
versità degli Studi di Perugia e doutor em Direito Público
pela Università degli Studi di Perugia, Itália, tendo reali-
zado estágio pós-doutoral em Direito do IMED, no Brasil.
Atualmente é professor no Programa de Pós-Graduação
Stricto Sensu em Direito do IMED. É pesquisador visitante
do Instituto Max-Planck de Direito Público Comparado –
Heidelberg, Alemanha.
Eis o artigo.

78

Já houve muitas ocasiões – na mídia, no mundo acadêmico e judiciário – para destacar os


aspectos comuns entre a investigação Lava-Jato e Operação Mãos Limpas na Itália. Não há mui-
to para acrescentar ao que já foi dito sobre o conflito entre a magistratura e a politica partidária,
as dificuldades desta última em articular uma exit strategy, o uso maciço (no mínimo questio-
nável) das delações premiadas, enfim, a manipulação (por ambos os lados) da opinião publica e
a emergência de propostas populistas (em particular de um populismo à direita). Mesmo assim,
existe algo que ainda não foi tratado de forma adequada, um elemento diferencial que permitiria
entender o porque, por exemplo, a Lava-Jato não tem a mesma eficácia que obteve Mãos Lim-
pas. Esta operação, determinou o falecimento de todo um inteiro sistema de partidos políticos, a
reforma da imunidade parlamentar e o descarte de muitos lideres da velha classe política.
É comum, para quem não é acostumado ao método comparativo, operar confrontos sem
considerar o contexto. Não leva a sério a comparação (política ou jurídica, ou em qualquer outro
nível) quem concentra-se sobre efetiva concordância de alguns elementos, ignorando o que eles
representam pela fase histórica especifica. O impacto da Operação Mãos Limpas não foi limitado
ao cenário italiano, mas foi decisivo também para avançar no processo integrativo europeu e na
demissão do controle estatal da economia criado com a contribuição do maior partido comu-
nista da Europa Ocidental. O Partido Comunista Italiano (PCI) se dissolve com a confluência de
dois fenômenos, a Operação Mãos Limpas e a dissolução da União Soviética. Era o maior partido
de linha eurocomunista e também o maior do “ocidente”.
O ano de 1992 representa tudo isso: o Tratado de Maastricht determina a crise da soberania
estatal, a regulação das finanças passa a ser competência dos “técnicos” da Comissão de Bruxe-
las, a política nacional já não é julgada pelos seus programas, mas para a sua capacidade de ace-
lerar a unificação. Os EUA acabam nesse período de promover a governança global (global go-
vernance, conceito coalhado de críticas e operado com visíveis e invisíveis constantes violações
de soberania) como o instrumento de unificação dos interesses particulares, sendo que o fim da
ameaça soviética abriu o caminho para o império indisputado da rule of law and democracy.1

1 FUKUYAMA, Francis. The end of history and the last man. New York: Free Press, 1992. (Nota do autor)

8 DE MAIO | 2017
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“A virada ‘berlusconiana’
da Itália foi uma obra de
marketing eleitoral que reflete
aquele período histórico
e a sua linguagem”

A virada “berlusconiana” da Itália, que demorou uns vinte anos, foi uma obra de marketing
eleitoral que reflete aquele período histórico e a sua linguagem. O discurso do Berlusconi resul-
tou eficaz pelo seu poder midiático e porque concretiza-se em slogans simples: em primeiro lu-
gar, a política deveria tratar de problemas de pessoas comuns e que o trato de questões públicas
deveria ser a partir de uma abordagem pragmática e não mais ideológica. Em segundo, se a velha
classe política com a sua cultura fracassou, então era tempo de trazer empresários para uma
participação mais ativa na política. Não seria exagero considerar que uma parte considerável da
elite brasileira aventa a possibilidade de uma “fórmula Berlusconi”.
Ao tempo, na Itália, ninguém quis atrapalhar a operação Mãos Limpas: a multiplicação
dos episódios de delação foi uma consequência do apoio irrestrito dos partidos políticos aos
magistrados. A herança desta época é o “justicialismo”, que anos depois foi utilizado contra
os conflitos de interesse de Berlusconi, e que por muito tempo caracterizou o debate politico
italiano, acabando qualquer tentativa de projetação alternativa à governance. A “politica dos
gestores” incluiu os partidos, mas só ao nível institucional inferior, no enquanto o nível superior
é controlado pelo capital financeiro transnacional através da sua instituição representativa na 79
região: o Banco Central Europeu, cujos Presidentes são mais procurados pela empresa do que
os chefes de governo.
O Brasil do 2017 não é a Itália (e a Europa) do 1992. É por isso que a Lava-Jato não consegue
os mesmos resultados. Há, sem dúvida, o desencanto com a política pode ser identificado, por
exemplo, nas manifestações que ocorrem no pais, quando se gritam palavras como “fora todos”
ou “intervenção militar já!” (obs: não há nada mais tecnocrático que um governo autoritário,
afirmava Hans Kelsen). Contudo, a época que nós temos pela frente, aparentemente, é caracteri-
zada por um retorno ao local e ao politico. A perda de poder hegemônico do bloco que dominou
a cena internacional nos últimos vinte cinco anos, enfraquece a onda neoliberal e promove um
maior comprometimento dos Estados no governo da economia. Esta é a leitura que entendemos
precisa ser feita para interpretar a Presidência de Trump nos EUA, do Brexit e dos partidos que
contestam a governança europeia). O Brasil parece ir na contramão perante essas tendências,
ignorando até o fim do suporte financeiro-logístico norte americano à politicas de abertura dos
mercados. A USAID e outras agências de intervenção nas relações exteriores da Superpotência
vão sofrer cortes, o «buy American, hire American!” promovido como lema de Donald Trump
permite a interpretação do recuo dos investimentos estadunidenses fora do pais2.
Nesse contexto, a fraqueza interna da politica brasileira é o verdadeiro déficit do pais. Não
há saída da crise através do lawfare (o emprego da lei como arma de guerra, incluindo como
recurso de guerra de baixa intensidade ou conflito irregular ou assimétrico). Retomar a discus-
são sobre planejamento econômico e ao mesmo ir promovendo formas de controle democrático
sobre a economia e a administração pública, formam a única alternativa à intolerância e à de-
gradação do debate politico. ■

2 http://www.reuters.com/article/us-usa-trump-budget-state-idUSKBN16N0DQ. (Nota do autor)

Expediente
Coordenador do curso de Relações Internacionais da Unisinos: Prof. Ms. Álvaro Augusto
Stumpf Paes Leme
Editor: Prof. Dr. Bruno Lima Rocha

EDIÇÃO 504
PUBLICAÇÕES

Ubuntu como ética africana,


humanista e inclusiva

O
Cadernos IHU Ideias número 254 traz o artigo Ubuntu como éti-
ca africana, humanista e inclusiva, assinado por Jean-Bosco Kakozi
Kashindi. O texto demonstra que ubuntu é a pedra angular da ética
africana, que é biocêntrica, ou seja, centrada na vida. Os povos africanos, em
geral, têm uma forma particular de viver e expressar o mundo que os carac-
teriza, os determina e os diferencia de outras povoações. Essa forma é sua vi-
são de mundo é ubuntu. E a partir daí, todo o edifício ético-filosófico africano
é construído. Chega-se a tal constru-
ção partindo da ideia de humanidade,
delimitada pelo termo ubuntu. Em
termos gerais, ubuntu significa, por
um lado, a humanidade que é viven-
ciada e realizada com os outros, e, por
outro, a humanidade como valor.
80 Kashindi é natural da República do
Congo, onde se graduou em Filosofia.
Especializou-se em Religião, no
Centre de Formation Missionnaire
Notre Dame d’Afrique, na cidade de
Bukavu (República Democrática do
Congo). Mestre e doutor em Estudos
Latino-americanos pela Universidade
Nacional Autônoma do México –
UNAM.

Esta e outras edições do Cader-


nos IHU ideias podem ser obtidas
diretamente no Instituto Huma-
nitas Unisinos – IHU, no campus
São Leopoldo da Unisinos (Av. Unisi-
nos, 950), ou solicitadas pelo endere-
ço humanitas@unisinos.br. Informa-
ções pelo telefone (51) 3590-8213.

8 DE MAIO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

Viver as Bem-aventuranças
numa Igreja em saída

E
m sua edição de número 121, o Cadernos Teologia Pública traz o
artigo intitulado Viver as Bem-aventuranças numa Igreja em saída,
de Tea Frigerio, missionária de Maria – Xaveriana, mestra em Ciên-
cias da Religião pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.
Na apresentação do texto, a autora conta que o Mateus – Matthaios – do
primeiro evangelho representa cada discípulo – mathetes – que foi instruí-
do – matheteutheis – e compreende tudo o que lhe foi ensinado – synienai:
cumprindo e caminhando na justiça do Reino. As Bem-Aventuranças são o
canto apaixonado de Jesus: memória original de Deus que se desloca movido
pelo clamor do povo oprimido e, ao mesmo tempo, convocação para comuni-
dade escutar a voz dos pobres, humi-
lhados, aflitos, que têm fome e sede.
Escuta e se coloca a caminho para res-
tabelecer a justiça. Justiça é o cami-
nho traçado para que o Reino acon- 81
teça. Caminho que ao mesmo tempo
indica o ritmo do passo: misericórdia,
pureza de coração, paz – shalom. Ser
Bem-aventurado, honrado se torna o
ethos da comunidade: espiritualidade
que é proposta não para pessoas in-
dividuais, mas sequela comunitária
com consequências econômicas, po-
líticas e religiosas. Tornar-se ‘casa’,
comunidades das bem-aventuranças,
aprender com as ‘ekklesias mateanas’
a ser comunidade, igreja aberta, uni-
versal, em saída.
Esta e outras edições do Cader-
nos Teologia Pública podem ser
obtidas diretamente no Instituto
Humanitas Unisinos – IHU, no
campus São Leopoldo da Unisinos
(Av. Unisinos, 950), ou solicitadas
pelo endereço humanitas@unisinos.
br. Informações pelo telefone (51)
3590-8213.

EDIÇÃO 504
82

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Outras edições em www.ihuonline.unisinos.br/edicoes-anteriores

Cinema e transcendência. Um debate

Edição 412 | Ano XII | 18-12-2012

“Pasolini, Bergman, Lars von Trier, Malick, Cameron, diretores de


obras como o clássico O Evangelho segundo São Mateus até o mais re-
cente Avatar, passando por importantes diretores indianos, japoneses,
chineses e coreanos, são alguns nomes do atual panorama cinematográ-
fico debatidos na última da edição da IHU-On-Line de 2012, que discute
os diferentes e controversos modos de presença da transcendência no ci-
nema contemporâneo.”

Macunaíma: 80 anos depois. Ainda um


personagem para pensar o Brasil 83

Edição 268 | Ano VIII | 11-8-2008

“Uma obra que desafiou convenções, fugindo dos cânones oficiais da


literatura brasileira e promoveu uma subversão lingüística. Deu e dá o
que pensar. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter continua atual, 80
anos após sua estréia. Mário de Andrade escreveu a rapsódia em suas fé-
rias, e a tal “gramatiquinha” girou o mundo ao sabor de uma comicidade
modernista. Para analisar essa obra, a IHU On-Line entrevistou vários
pesquisadores e pesquisadoras sobre o tema.”

O Brasil no cinema

Edição 83 |Ano III |10-11-2003

“O surgimento do cinema, no século XIX, alterou definiticamente a per-


cepção humana. Com a dinâmica de seus décimos de segundo o cinema
também ajudou a humanidade a empreender viagens de aventuras e de
esperanças, mas também contribuiu para a alienação e deseperança.
Que papel cabe ao cinema brasileiro? Qual sua contribuição para os an-
seios de igualdade, expressos pelos movimentos sociais? Esses e outros
temas compõem a edição da IHU On-Line.”

EDIÇÃO 504
84

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