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Da Medicina do Trabalho à Saúde do Trabalhador

Medicina do Trabalho – Inglaterra, metade do século XIX (Revolução Industrial)


o Serviço médico de empresa: centrados na figura do médico, prevenção dos riscos à saúde
provenientes da tarefa deveria ser de responsabilidade da figura médica, a responsabilidade
pela ocorrência de problemas de saúde era transferida ao médico.
o A inexistência de programas de assistência a saúde oferecidos pelo Estado, fez com que o
serviço médico das empresas assumisse um papel vicariante, que criou uma dependência do
trabalhador e seus familiares, bem como servia como instrumento de controle da força de
trabalho.
o 1953: Fomento à formação de médicos do trabalho.
o Objetivos: assegurar a proteção contra qualquer risco que resulte do trabalho; contribuir à
adaptação física e mental dos trabalhadores; manutenção do bem-estar pleno da saúde física e
mental do trabalhador.
o Influência do pensamento mecanicista.
o Seleção de pessoal, controle do absenteísmo, licenças médicas.

Saúde Ocupacional
o Contexto da guerra e do pós-guerra: perda de vidas, acidentes e doenças do trabalho ->
pagamento de indenizações em razão de acidentes de trabalho.
o Ampliação da atuação médica na relação com a saúde do trabalhador: intervenções no
ambiente; formação de equipes multiprofissionais
o Críticas: mantém o referencial mecanicista da medicina do trabalho; não concretiza o apelo à
interdisciplinaridade; a capacitação dos recursos humanos, a incorporação de tecnologia e a
produção do conhecimento não acompanham as mudanças nos processos de trabalho; apesar
de enfocar no coletivo de trabalhadores continua a tratá-lo como objeto de suas ações de
saúde;
o Maio de 1968: movimento social na França – questionamentos acerca do sentido da vida,
significado do trabalho entre outros.
o Transferência da indústria para o 3º mundo.
o Implantação de novas tecnologias: automação e informatização – permitiram ao Capital
diminuir sua dependência dos trabalhadores e ao mesmo tempo aumentar o controle sobre os
mesmos.
o A saúde ocupacional assenta-se na concepção teórica da multicausalidade do processo saúde-
doença- os fatores de risco do adoecer e do morrer são considerados como tendo o mesmo
valor de agressão ao homem (hospedeiro).
o Final dos anos 60: denúncia dos efeitos negativos da medicalização e do caráter reprodutor e
ideológico das instituições médicas.
o Surgem programas alternativos de autocuidado e saúde, de assistência primaria, ênfase na
participação comunitária.
o Ganha corpo a teoria da determinação social do processo saúde-doença, cuja centralidade
colocado no trabalho contribuí para a consolidação de criticas à medicina do trabalho e à saúde
ocupacional.
o Conseqüências: desconfiança por parte dos trabalhadores acerca dos procedimentos éticos dos
profissionais da saúde ocupacional; a participação do trabalhador em questões da saúde pôs em
xeque conceitos da saúde ocupacional como de exposição segura e procedimentos como os
testes médicos de pré-admissão e periódicos.
o A informatização e a automação introduzem novos riscos a saúde provenientes da organização
do trabalho que não podem ser extirpados pela medicalização.

Saúde do Trabalhador
o Início dos anos 80, contexto da democratização nacional.
o Um campo em construção na saúde pública.
o Objeto: processo de saúde-doença dos grupos humanos em sua relação com o trabalho.
o Ruptura com o enfoque da determinação social que desconsidera a subjetividade.
o Busca explicações do adoecer e do morrer de forma articulada com os valores, crenças, idéias e
representações sociais e a possibilidade de consumo de bens e serviços.

Clínica do Trabalho

Correntes principais:

1. Psicopatologia do Trabalho -> Psicodinâmica do Trabalho


Horizonte doutrinal: Psicanálise

2. Clínica da Atividade (ergonomia francófona + psicopatologia do trabalho)


Horizonte doutrinal: sócio-histórica e lingüística.

Psicodinâmica do Trabalho

o Objeto: dinâmicas intra e intersubjetivas do trabalho


o O exame dos sistemas psicológicos defensivos é o recurso principal da psicodinâmica do trabalho. A
conjuração do sofrimento pode desembocar no prazer quando o trabalho é reconhecido na
organização, ou pode se voltar contra o sujeito quando isto não ocorre, podendo prejudicar a
capacidade de pensar e de raciocinar de um lado, e de outro, a compreensão do mundo.
o Não é uma psicologia do trabalho, mas sim do sujeito.
o A atitude de negação do risco pelo sujeito deve ser tomada como um procedimento psicológico
destinado a conter o medo, um sistema de defesa/ estratagema que contem valor simbólico guardado
na iniciativa de domínio sobre o perigo pelos trabalhadores e não o inverso.
o O medo, desenvolvido pela intensificação do trabalho e do desemprego na atualidade, corroí
progressiva e lentamente a saúde mental dos trabalhadores. (dejours, 2000).

Clínica da Atividade

o Ênfase nas relações entre atividade e subjetividade.


o O trabalho não é visto somente como trabalho psíquico, mas como uma atividade concreta e
irredutível.
o Trabalhar atualmente é assumir responsabilidades sem ter responsabilidade efetiva na definição do
trabalho, amplamente submetido a objetivos fictícios. -> exemplo de uma das dissociações do
trabalho atual.
o Vivencias de impotência, ressentimento, melancolia ou mesmo euforia profissional formam um quadro
clinico confuso: aquele de uma atividade onde a disponibilidade psicológica investida para se sentir
alguém que é imprescindível no serviço prestado a outros é simultaneamente derrotada pela
organização, a ponto de fazer mal a ela mesma.
o Uma disponibilidade psíquica cada vez maior é exigida aos trabalhadores para agir nos meios
profissionais, os quais reclamam que os trabalhadores coloquem cada vez mais de si no trabalho. Em
contrapartida a disponibilidade exigida pressupõe troca, mas a organização que deveria colocar seus
recursos a disposição dos assalariados se furta massivamente a esta missão.
o O trabalho se deserta de sua função psicológica para os sujeitos quando o oficio se perde – ou não é
mais buscado – quando ele se confunde com a execução de procedimentos não importando se são
úteis.

A atividade impedida

o A conceitualização que a clinica da atividade se propõe para dar conta do sofrimento difere daquela
proposta pela psicodinâmica do trabalho.
o O sofrimento é uma atividade contrariada, um desenvolvimento impedido.
o A organização do trabalho de numerosos serviços e da indústria tende hoje em dia a diminuir aqueles
que trabalham. Estes últimos estão estreitados, como que encolhidos pela atividade realizada.
o A clínica da atividade retoma a herança da psicopatologia do trabalho por tentar ultrapassar a
definição clássica do fenômeno psicológico, propondo incluir neste conceito os conflitos do real.
Assim, a atividade não é somente aquilo que se faz, mas o Real da atividade é também aquilo que se
tenta fazer sem conseguir, aquilo que se desejaria ou poderia fazer, aquilo que não se faz mais, que se
pensa ou se sonha poder fazer em outro momento.
o A fadiga, o desgaste violento, o estresse se compreende tanto por aquilo que os trabalhadores não
podem fazer, quanto por aquilo que eles fazem.

o O esforço não é somente aquele que o sujeito faz para seguir a cadência. É igualmente aquele esforço
que ele deve aceitar para fazer refrear a sua própria atividade.

o A existência do sujeito é marcada por conflitos vitais que os indivíduos buscam reverter em intenções
mentais, para deles se desprender. Estas reversões pertencem à atividade e podem ser altamente
defensivas. A proteção se torna uma anestesia, mas esta não é a única possibilidade de realização do
Real da atividade (de se fazer aquilo que se deseja). Existem dois modos de compensação das
dificuldades sofridas: as defesas, que ao fixar as proteções sobre os objetivos fictícios, diminuem
aqueles que trabalham; e as reações, que autorizam um verdadeiro desprendimento subjetivo dos
conflitos do Real, permitindo ao trabalhador, sair do seu lugar e ampliar seu campo de visão através da
autoconfrontação cruzada – estudo daquilo que os trabalhadores fazem, que eles dizem que fazem e
aquilo que eles fazem a partir do que eles dizem.

Saúde Mental e Saúde do Trabalhador

o A redefinição do conceito de saúde mental pela perspectiva da saúde do trabalhador propõe que o
trabalho seja considerado fator constitutivo de adoecimento e de saúde mental. – Estudos de
Canguilhem na década de 80.
o Esta noção aproxima-se do tema da subjetividade, o que amplia as abordagens centradas no
diagnostico das doenças e transtornos mentais.
o Rediscussão de temas clássicos, como, por exemplo, a identidade: Costa (1989) sugere que a
causalidade da doença é atravessada pelas formas subjetivas de vivenciá-la e acaba por construir a
noção de “identidade de trabalhador” como traço identificatório que sustenta outros elementos da
identidade psicológica.
o Dois eixos de análise da saúde mental e do trabalho:
1. Ênfase na construção de instrumentos diagnósticos que permitam a associação de sintomas de
origem psicológica com as situações de trabalho.
 Influencia da epidemiologia como referencial metodológico.
 Importância traduzida em políticas de saúde pública e de assistência, melhores e
maiores garantias de acesso aos direitos sociais dos trabalhadores acometidos por
adoecimento ocupacional com comprometimento de sua saúde mental.
2. Ênfase nas representações sociais dos trabalhadores e de suas experiências no cotidiano de
trabalho e nas situações de adoecimento. Evidência das formas de expressão do sofrimento
advindo do trabalho
 Estudos em representações sociais e Psicopatologia do Trabalho ou Psicodinâmica.
 Vínculos entre as pressões do trabalho e as defesas do sujeito e não entre as pressões e
as doenças.
 Abordagem do coletivo e não do individual: estudos das representações sociais do “estar
doente” ou do “ser trabalhador”; ressaltam-se as estratégias de defesa coletivas
construídas para suportar o sofrimento advindo do trabalho.
 Influencia da Psicanálise e de CiSo.

o Reconhecimento no trabalho (Dejours, 1994): importante função nas possibilidades de saúde mental -
o reconhecimento pela hierarquia e reconhecimento advindo da família e da sociedade
o Novos elementos para a discussão sobre saúde mental e trabalho: os processos de reestruturação
produtiva, as novas estratégias de gestão a eles relacionados e os processos de informatização do
trabalho.
o Informatização -> transtornos - embotamento afetivo
o Dejours (1994): o sofrimento no trabalho aumenta na medida em que os conhecimentos práticos ou
tácitos são transformados em prescrições, pois o que poderia ser considerado como uma produção
do trabalhador volta-se contra ele na forma de modos impostos e controlados do exercício da
atividade.

Trabalho prescrito e Trabalho Real

o Trabalho prescrito: é o que é determinado para ser executado pelos trabalhadores. Pode ser prescrito
oralmente (pequenas e médias empresas) ou por escrito.
 Tarefa: o comando que a organização oferece para a execução do mesmo; é composta
por toda parte do trabalho que é constituída e determinada pela organização (as
condutas, os métodos de trabalho, as instruções), tudo que o trabalhador tem que fazer
e como fazê-lo, bem como o conjunto de objetivos a serem atingidos, as especificações
dos resultados a obter, os meios para a execução e as condições necessárias para a
mesma (espaço de trabalho, meios materiais, objeto de trabalho, ambiente físico,
tempo, organização do trabalho, requisitos). Também pode ser identificada como
prescrita e como real: a prescrita refere-se às condições apropriadas, a tarefa na forma
correta, ideal, e a real é a mesma tarefa na forma como ela realmente chega e é
entendida pelo trabalhador.
o Trabalho Real: pode ser definido como o trabalho realmente executado; uma síntese entre a tarefa e o
homem que a executa.
 Atividade: a maneira como o trabalhador executa essa tarefa; é resultado de um
trabalho de reelaboração e reorganização da tarefa por parte do trabalhador.
Subjetividade e Trabalho

o Maneira como os indivíduos vivenciam e dão sentido as suas experiências de trabalho.


o Duas dificuldades: a definição da subjetividade e a compreensão de uma relação que está em constante
transformação.
o Guatarri e Rolnik (1986) concebem a subjetividade como matéria-prima de toda e qualquer produção,
alem de ser gerida por produções de sentido (agenciamentos coletivos de enunciação) que não são
redutíveis a agentes individuais ou coletivos.
o De acordo com Ferraroti (1983), o homem é síntese vertical de uma historia social. Não se trata apenas
de refletir o social, mas cada sujeito se apropria do social e através de processos de mediação, o filtra e
o ressignifica, estruturando sua subjetividade.
o A ética possui por função sistematizar e justificar racionalmente um determinado código ou padrão de
conduta, quadro de normas e valores e determinada postura a ser ensinada aos e exigida dos sujeitos.
Ela acaba por espelhar o universo coletivo e subjetivo humano, pressionando para a definição dos
modos de subjetivação.
o Pensar sobre as conexões da subjetividade com o trabalho implica pensar os modos como as
experiências do trabalho delineiam modos de agir, pensar, sentir e trabalhar que evocam a conexão
entre diferentes elementos, valores, necessidades e projetos. Implica em diferentes possibilidades de
invenção e criação de outros modos de trabalhar, na forma de transgressões ou mesmo de resistências-
potências na conexão dos diversos elementos e dos modos de produzir e trabalhar.
o É a analise do sujeito através dos modos de subjetivação, o modo como o sujeito deve relacionar-se
coma regra a qual se vê obrigado a cumprir e também a forma como deve se reconhecer ligado a esta
obrigação.
o O processo de reestruturação do trabalho criou uma serie de demandas que provocaram varias
transformações nas formas de organização do trabalho.
o A necessidade de um novo modelo de trabalhador, com capacidade de lidar com tecnologias e
processos mais flexibilizados e exige dele uma maior flexibilização.
o Novas formas de gestão com a exigência da criação de personalidades adaptáveis ao extremo,
de acordo com as mudanças da organização, exigindo a sujeição e adaptação do desejo do
trabalhador aos objetivos da empresa e a internalização forçada de suas metas.
o O trabalhador é transformado em colaborador.
o A psicopatologia do desemprego atinge não só aqueles fora do mercado de trabalho, mas também os
que se encontram em situações de precarização e instabilidade.
o A analise dos desviantes como patologias, levaram a invisibilização de muitas formas de resistência
que, por contrariarem a norma, eram concebidas como patologias.

IVAR ODONE : OS INSTRUMENTOS DE AÇÃO

A proposta de psicologia do trabalho de Ivar Oddone surge a partir da experiência dele com operários da
FIAT. O fato de ter se originado da experiência com uma categoria específica não restringe as elaborações
teóricas e metodológicas a esta categoria. O trabalho desenvolvido por ele inaugura uma nova forma de
compreender o papel do trabalhador (operário ou não) na produção de conhecimentos e na intervenção sobre
as relações entre a saúde e o trabalho. Esta nova forma de compreender o papel do trabalhador tem
importantes repercussões na constituição de novas disciplinas e na formação profissional de psicólogos,
médicos, enfermeiros, ergonomistas, engenheiros.... Em vários países como a França e o Brasil. Entre estas
repercussões estão os desdobramentos em abordagens teorico-metodologicas como as que estamos
estudando nesta disciplina, em especial a Clinica da Atividade e a Ergologia. Estas abordagens tem levado
adiante as contribuições de Oddone, com trabalhadores de diferentes categorias profissionais, como carteiros,
aviadores, trabalhadores em hospitais, trabalhadores de serviços de saúde, professores, entre outros, que não
são considerados operários.
Há uma consistente publicação que vem divulgando a importância desta perspectiva. Então, você está certa,
pois a perspectiva iniciada por Oddone é sim válida para se pensar, compreender, aproximar, analisar
atividades que sejam realizadas a partir de qualquer outra categoria profissional.
Penso ser importante chamar atenção para uma observação que você faz sobre "colocar o trabalhador como
colaborador no processo de diagnóstico acaba eliminando muitas dificuldades". Observe, nesta
perspectiva, não se trata de "colocar" o trabalhador como "colaborador" no processo. Pois colocar pressupõe
que alguem o tira e o coloca. Trata-se sim de convidá-lo a ocupar um lugar no processo. E esse lugar não é de
colaborador, mas sim de um sujeito ativo que participa de todas as etapas do processo, inclusive tendo o
mesmo nível de responsabilidade nas decisões tomadas. E mais: o processo no qual ele participa não é apenas
de diagnóstico, é também o de intervenção, avaliação da intervenção e definição de novas estratégias de
enfrentamento dos problemas.

o A causa da impotência e da inconstância humana não deve ser atribuída a algum vício da natureza
humana, mas, sim, na potência comum da Natureza.

o A importância do trabalho como algo que estimula, provoca inteligência, habilidade psicomotriz e
capacidade de criação.

o Outono Quente – movimento operário em 1968 na França: Odone procura meios de subsidiar os
coletivos de trabalho, manter e alargar seu raio de ação.
o Objetivo: estender o poder de ação dos coletivos de trabalhadores do meio de trabalho real e sobre
eles mesmos. A tarefa consiste em inventar ou reinventar os instrumentos desta ação pela via da
superação concreta ao invés do protesto contra as pressões ou pela via da negociação.
o Não se pretende uma nova psicologia do trabalho, mas um modo de desenvolvimento desta psicologia.

o Procurou-se sair da monetização dos riscos: denuncia sem ação.


o Duas vias para sair desse dilema e reduzir a nocividade do ambiente:
o Substituir os maus médicos e psicólogos por bons especialistas dispostos a reconhecer a
validade dos protestos dos trabalhadores.
o Pesquisa de novos critérios que permitissem definir o índice de nocividade do ambiente e novas
formas de participação operária. – Constituição do grupo operário homogêneo: instrumento
vivo de avaliação dos riscos e de validação de soluções elaboradas.
o Foco da Psicologia: formalização e transmissão da experiencia profissional; mobilização subjetiva
dirigida à supressão do risco profissional.
o O centro de gravidade da investigação psicológica se desloca do diagnostico à invenção de um
enquadramento e de um dispositivo em que se possa pensar coletivamente o trabalho para reorganizá-
lo.

o Apropriar-se do meio
o Uma parte substancial da experiência do operário lhe é desconhecida. Esta experiencia deve não
apenas ser reconhecida, mas também transformada A sua transmissão efetiva equivale sempre ao seu
desenvolvimento.
o Descrição da experiencia no grupo homogêneo: ele se reapropria aos poucos, à medida que aumenta a
complexidade da solução dos problemas - caminhando da relação do homem com sua tarefa particular
até se interessar pela empresa inteira e por todos os modelos teóricos que fundamentam a
organização do trabalho.
o O grupo homogêneo se torna protagonista da analise do meio de trabalho e assegura a validação dos
resultados obtidos por especialistas. Não é um grupo portador apenas da experiencia bruta de seus
membros, como também daqueles que já o deixaram, e, em particular, dos julgamentos de valor que
se estabeleceram – o meio profissional não é apenas um meio social, mas um meio histórico.
o “O lugar dos trabalhadores na produção do conhecimento sobre seu trabalho”.

o Gêneros de Atividades e Grupos Homogêneos


o Questão de investigação: a função psicológica do trabalho – o modo como os operários desenvolvem
uma experiência e estruturam seu comportamento.
o É como se houvesse um não sei o que, feito de regras de conduta e de estratégias individuais que em
parte unificasse os trabalhadores e em parte os diferenciasse. Eles não podem ser considerados uma
coleção de indivíduos separados, pois formam um conjunto, que acaba elaborando planos para
resolver problemas que o trabalho impõe. Existe uma estruturação do comportamento em planos
individuais orgânicos, organicamente reunidos na consciência social coletiva.
o A atividade individual encontra seus recursos em uma historia coletiva que retém, capitaliza, valida ou
invalida as estratégias de comportamento concernentes as relações com a tarefa, com os camaradas de
trabalho, com a hierarquia ou com as organizações. Se tais recursos se esgotam a vida psicológica no
trabalho é diminuída.

Saúde Mental e Trabalho


 A Saúde do Trabalhador no Brasil situa-se no domínio da Saúde Coletiva, situada num campo
interdisciplinar e multiprofissional, em que se diferencia da Medicina do Trabalho e da Saúde
Ocupacional. Essa configuração do campo da Saúde do Trabalhador pode ser observada no Brasil a
partir da década de 80, acompanhando o processo de democratização do país, com estudos orientados
predominantemente para o trabalho industrial, no bojo do Movimento pela Reforma Sanitária, tendo a
reforma sanitária italiana como inspiração. A saúde do trabalhador configura um campo de saber e de
práticas que demandam da Psicologia uma atuação sobre o trabalho e sobre as estruturas e processos
que o organizam, a partir do locus dos serviços públicos de saúde.
 Desde a promulgação da atual Constituição Federal, em 1988, a saúde do trabalhador se amplia no
SUS.
 Lei orgânica da Saúde (1990): Saúde do trabalhador: “conjunto de atividades que se destina, através de
vigilância epidemiológica e sanitária, à promoção e à proteção da saúde dos trabalhadores submetidos
aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho. A característica que diferencia a Saúde do
Trabalhador é a afirmação do trabalhador como sujeito ativo no processo saúde-doença, e não
simplesmente como objeto da atenção à saúde como na Saúde Ocupacional e pela Medicina do
Trabalho, cujo foco é a saúde do trabalho, da produção e não a do trabalhador. Não é mais o
julgamento da aptidão para o trabalho que está em questão.
 Eixos de analise da saúde mental e do trabalho, construídos por abordagens teórico-metodológicas
diferentes:
 1º eixo: influenciado pela corrente epidemiológica, refere-se ao diagnostico dos sintomas de
origem “psi” e sua vinculação às situações de trabalho. Ênfase na construção de instrumentos
psicológicos que estabeleçam nexos causais entre os sintomas e as situações de trabalho. Sua
importância traduz-se na construção de políticas de saúde e de assistência aos trabalhadores.
 2º eixo: enfatiza as representações dos trabalhadores e suas experiências no cotidiano de
trabalho, e nas situações de adoecimento, sendo influenciado fortemente pelas ciências sociais
e pela psicanálise. Estudos no campo a psicodinâmica e da psicopatologia do trabalho.

Teorias de Estresse: as pesquisas sobre estresse tornaram-se visíveis após da década de 1950 após a SGM.

 As condições ambientais do trabalho constituem variáveis que podem repercutir na afetividade do


trabalhador. Alguns fatores importantes são: condições físicas (temperatura, iluminação, ruído),
condições temporais (horário de trabalho, intervalos de descanso, duração do turno de trabalho) e
condições sociais (relações com colegas, estilos de liderança, clima organizacional). A repercussão delas
sobre a afetividade pode se dar no bem-estar (ótimo funcionamento psicológico e experiências
positivas, envolve desde autoaceitação a propósito de vida, crescimento pessoal, domínio do ambiente,
autonomia e relacionamento positivo com outras pessoas) do indivíduo/trabalhador e/ou na influência
direta sobre a saúde do trabalhador (combinação de indicadores psicológicos e físicos/fisiológicos).
 O estresse, dentro da perspectiva biopsicossocial, deve ser considerado não só como uma reação do
organismo, mas também como uma relação particular entre a pessoa ou algo que exige dela mais que
suas próprias habilidades ou recursos e que põe em perigo o seu bem-estar.
 Síndrome inespecífica, constituída por todas as alterações não específicas produzidas num sistema
biológico. Esse caráter inespecífico explica a grande difusão do termo.
 A explicação para ocorrência do estresse é biológica: necessidade de adaptação ou ajustamento do
organismo frente às pressões do meio com as quais ele se depara.
 Reação ante demandas sociopsicológicas, um estado intermediário entre saúde e doença, possível
indicador das conseqüências do trabalho sobre os indivíduos, sem necessariamente apresentar um
quadro patológico definido.
 O Dr. Hans Selye, da Universidade de Montreal, utilizou o termo Síndrome Geral de Adaptação (SGA)
na década de 50 para denominar o “conjunto de reações que um organismo desenvolve ao ser
submetido a uma situação que exige esforços para adaptação.” Fases: alarme -> resistência ->
exaustão. O termo não é restrito ao âmbito do trabalho e envolve primordialmente alterações
fisiológicas de adaptação do organismo a situações de estressoras.
 Eustress: tensão com equilíbrio entre esforço, tempo, realização e resultados. No eustress (estresse
positivo), o esforço de adaptação gera sensação de realização pessoal, bem-estar e satisfação das
necessidades, mesmo que decorrente de esforços inesperados – esforço sadio. Quando fazemos algo
agradável e nos sentimentos valorizados pelo esforço despendido.
Desdobramentos: fascínio do stress; tensão para competitividade; revigoramento; engajamento
social; atitude empreendedora.
 Distress: tensão com rompimento do equilíbrio biopsicossocial por excesso ou falta de esforço,
incompatível com o tempo, resultados e realização.
o Desdobramentos: eclosão de doenças; sobrecarga pessoal e profissional; envelhecimento
precoce; desorganização do projeto de vida; trabalho compulsivo
 Estresse ocupacional: reação tensional experimentada pelo trabalhador diante de agentes estressores
que surgem no contexto de trabalho e são percebidos como ameaças à sua integridade (alguns fatores
que são disfuncionais podem levar ao estresse ocupacional são: questões intrínsecas ao trabalho, papel
na organização, relacionamento no trabalho, desenvolvimento na carreira, estrutura e clima
organizacional, interface lar e trabalho).
 A relação trabalho/estresse não é direta:

Estímulo externo no trabalho/ condições ambientais (poluição, ruído, temperatura,


iluminação)/organização e conteúdo do trabalho (atividades monótonas, repetitivas e
fragmentadas, sobrecarga, conflito e ambigüidade de papeis) -> respostas psicológicas
moderadas por fatores situacionais (suporte social) e individuais (autoestima e lócus de
controle)-> conseqüências ao bem estar do indivíduo: insatisfação, ansiedade, depressão,
bornout, fadiga, irritação.
 Um fator estressante do trabalho é uma condição ou situação que exige adaptação do funcionário.
 Ambigüidade de papel: grau de incerteza sobre suas funções e responsabilidades no trabalho.
Ambigüidade do que se deve fazer.
 Conflito de papéis: quando as pessoas experimentam solicitações incompatíveis, seja no trabalho
(papel interior/ entre as múltiplas demandas do trabalho) ou entre o trabalho e o não-trabalho
(papel exterior/ entre as demandas do trabalho e outras atividades: família, por exemplo)
 Carga de trabalho: pode ser qualitativa (dificuldade do trabalho em relação à capacidade da pessoa)
e quantitativa (sobrecarga, acúmulo de atividades) – tem relação com os 3 tipos de desgaste citados
abaixo.
 Fatores sociais estressantes: conflito interpessoal, um dos elementos mais estressantes.
 Política organizacional: percepção de que os colegas e supervisores estão empenhados em
comportamento interesseiro no qual colocam seus próprios interesses acima dos interesses da
organização e dos de outras pessoas.
 Controle: até que ponto os funcionários são capazes de tomar decisões sobre seu trabalho.
Relaciona-se fortemente com o desgaste psicológico.
 Ritmo determinado pela máquina: quando a máquina define quando o funcionário deve agir.
 Modelo controle/demanda: os efeitos dos fatores estressantes do trabalho são produto de uma
complexa interação entre as demandas e o controle do funcionário. A demanda leva ao desgaste
apenas quando existe pouco controle do trabalhador. Dar controle para as pessoas pode ser uma
boa estratégia para reduzir os efeitos negativos do estresse do trabalho.
 O desgaste no trabalho é uma provável reação negativa do funcionário a um fator estressante, como
ansiedade, frustração ou sintomas físicos, como dores de cabeça, problemas digestivos, distúrbios do
sono. 3 tipos de desgaste: reações psicológicas(raiva, ansiedade, frustração, insatisfação no trabalho),
reações físicas (dores de cabeça, tontura, taquicardia, problemas estomacais, doenças do coração, etc)
e reações comportamentais (acidentes, fumo, uso de substâncias psicoativas, rotatividade). Fatores
estressantes levam ao desgaste.
 Estafa: estado de desgaste psicológico que um funcionário pode experimentar depois de estar no
trabalho por um longo tempo. (exaustão emocional, baixa motivação, depressão e pouca energia para
desempenhar o trabalho).
 Inventário de estafa de Maslach Burnout Inventory (MBI) mede três componentes da estafa:
exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal.
 Escala Holmes-Rahe atribui diferentes valores a fatores estressantes.
 Grande carga de trabalho, Baixo controle, ambigüidade e conflito de papeis -> Estafa-> ausência,
insatisfação, sintomas na saúde, baixo desempenho, rotatividade.
 Exaustão emocional: sentimento de cansaço e fadiga no trabalho -> fadiga; ausência.
 Despersonalização: desenvolvimento de um sentimento cínico e hostil com relação aos
outros -> tratamento bruto e descuidado com clientes e outras pessoas;
 Redução da realização pessoal: sentimento de que não está realizando nada de importante
no trabalho -> baixa motivação e desempenho
 Burnout: resposta prolongada a agentes estressores do contexto de trabalho. É uma síndrome
composta por três dimensões: exaustão (de forças emocionais e físicas), cinismo (despersonalização,
inclui distanciamento de vários aspectos do trabalho) e ineficácia (dimensão autoavaliativa, se refere
aos sentimentos de incompetência para a realização de tarefas e de declínio da produtividade). Pode
ter como causas: características da tarefa (muito trabalho em curto período de tempo, ambigüidade e
conflito entre papéis, ausência de suporte social no trabalho), características ocupacionais (cuidadores
de pessoas, professores e gerentes), características organizacionais (processo de redução de pessoal,
exigências organizacionais por maior produtividade, por maior tempo dedicado e flexibilidade pessoal
para executar tarefas diferentes na empresa).
 A severidade do estresse depende das características da demanda, qualidade da resposta emocional e
processo de enfrentamento (coping) mobilizados no indivíduo.
 Somente a sobrecarga de atribuições não leva diretamente ao estresse, mas sim quando ela está
associada à falta de autonomia, assim, as conseqüências para se lidar com a situação ficam restritas.
 De acordo com o modelo de cinco etapas, o processo de estresse no trabalho se da quando um fator
estressante objetivo (1) leva à percepção (2), e ela é avaliada pelo indivíduo (3). Se for avaliada como
desafio ou ameaça, a percepção pode levar a desgaste de curto prazo (4) e, eventualmente, a desgastes
de longo prazo (5).
 Cooper e Artrose: indicadores de estresse que evidenciam a dinâmica psicossomática:
o Psicológicos: instabilidade emocional, ansiedade, depressão, agressividade, irritabilidade.
o Danos físicos: úlceras, alergias, asma, enxaquecas, alcoolismo, disfunções coronarianas e
circulatórias.
o Sociais: queda de desempenho profissional, ausências, acidentes, conflitos domésticos, apatias.

 Acidentes de trabalho: Os acidentes ocorrem por falta cometida pelo empregado contra as regras de
segurança ou por condição de insegurança que existem no ambiente de trabalho. Podemos classificar
basicamente as causa de um acidente de trabalho em dois fatores: ATO ou CONDIÇÃO INSEGURA.
o Existe uma terceira classificação de causas de acidentes que são as causas naturais, responsável
por 1 a 2% dos acidentes. As causas naturais são os fatores da natureza, tais como vulcão,
terremotos, maremotos, tempestades, etc, onde a tecnologia não tem controle ou previsões
mais confiáveis.
o Atos e condições inseguras são fatores que, combinados ou não, desencadeiam os acidentes do
trabalho. São portanto, as causas diretas dos acidentes. Assim, pode-se entender que prevenir
acidentes do trabalho, em síntese, é corrigir condições inseguras existentes nos locais de
trabalho, não permitir que outras sejam criadas e evitar a pratica de atos inseguros por parte
das pessoas.
 Atos inseguros: É a maneira como as pessoas se expõem, consciente ou
inconscientemente, a riscos de acidentes. Ex:
· Ficar junto ou sob cargas suspensas.
· Usar máquinas sem habilitação ou permissão.
· Lubrificar, ajustar e limpar maquina em movimento.
· Inutilizar dispositivos de segurança.
· Uso de roupa inadequada.
· Transportar ou empilhar inseguramente.
· Tentar ganhar tempo
· Expor partes do corpo, a partes móveis de maquinas ou equipamentos.
· Imprimir excesso de velocidade.
· Improvisar ou fazer uso de ferramenta inadequada a tarefa exigida.
· Não utilizar EPI.
· Manipulação inadequada de produtos químicos.
· Fumar em lugar proibido.
· Consumir drogas, ou bebidas alcoólicas durante a jornada de trabalho.
 Condições inseguras: São as falhas, os defeitos, irregularidades técnicas e carência de
dispositivos de segurança que pões em risco a integridade física e/ou a saúde das
pessoas e a própria segurança das instalações e equipamentos. Ex:
· Falta de proteção em máquinas e equipamentos
· Deficiência de maquinário e ferramental
· Passagens perigosas
· Instalações elétricas inadequadas ou defeituosas
· Falta de equipamento de proteção individual
· Nível de ruído elevado
· Proteções inadequadas ou defeituosas
· Má arrumação/falta de limpeza
· Defeitos nas edificações
· Iluminação inadequada
· Piso danificado
· Risco de fogo ou explosão

Higiene no trabalho: conjunto de normas e procedimentos que visa à proteção da integridade física e mental
do trabalhador, preservando-o dos riscos à saúde inerentes ao cargo e ao ambiente.
Ambiente físico de trabalho: iluminação, ventilação, temperatura, ruídos.
Ambiente psicológico: relacionamentos humanos agradáveis; tipo de atividade agradável e motivadora;
estilo de gerência democrático participativo; eliminação de possíveis fontes de estresse.
Aplicação de princípios de ergonomia: maquinas e equipamentos adequados às características
humanas; mesas e instalações ajustadas ao tamanho das pessoas; ferramentas que reduzam a
necessidade de esforço físico humano.
Saúde ocupacional: relaciona-se à assistência médica preventiva por meio do programa de controle
médico de saúde ocupacional, que conta com exame médico periódico, pré-admisional e demissional,
palestras de medicina preventiva, elaboração de mapas de riscos ambientais.
Clínica do Trabalho- Duas correntes principais: Uma construída na metamorfose da psicopatologia do
trabalho (Le Guillant) em Psicodinâmica do Trabalho (Dejours). E outra, mais recente, Clínica da Atividade,
aborda o problema da subjetividade no trabalho (intersecção da ergonomia francófona com a psicopatologia
do trabalho; corrente histórico-cultural em psicologia e em linguística- Bakhtin e Vygostski)
Psicodinâmica do trabalho
 Le Guillant; precursor da disciplina Psicopatologia do trabalho cujo objeto de estudo era o potencial
psicopatológico do trabalho com base em metodologia e pressupostos psicanalíticos. Buscava a análise
da dinâmica dos processos psíquicos mobilizados pela confrontação do sujeito com a realidade do
trabalho.
 Dejours identificou duas contradições: o sofrimento psíquico ocorre na esfera individual enquanto as
questões referentes ao trabalho ocorrem na esfera coletiva; ambigüidade - patológico VS não
patológico.
 Necessidade de um método que analisasse o “sujeito em relação” e que superasse a visão
dicotômica entre normal e patológico, de modo a privilegiar a normalidade para compreender
como o indivíduo alcança certo equilíbrio psíquico mesmo submetido a condições de trabalho
desestruturantes.
 Psicopatologia do trabalho -> Psicodinâmica do trabalho: objetivo: compreensão das estratégias às
quais o trabalhador recorre para manter-se saudável, apesar de certos modos patologizantes de
organização do trabalho.
o Bivalência do sofrimento: O sofrimento é inerente ao processo de trabalho, impossível de
ser eliminado; não é necessariamente patogênico, mas pode tornar-se quando todas as
possibilidades de adaptação ao trabalho para colocá-lo em concordância com o desejo
individual forem utilizadas e as demais possibilidades estiverem bloqueadas. O sofrimento
pode ser transformado em criatividade (sofrimento criativo) ou pode tornar-se patogênico
(sofrimento patogênico) quando as defesas individuais e coletivas fracassam.
o Concepção de homem e objeto de estudo: aquilo que é constitutivo do sujeito, a partir de
sua historia passada, pode manter-se ou deteriorar-se em função do uso que pode ser-lhe
dado na confrontação com a situação de trabalho. O destino das aptidões construídas desde
a infância, na confrontação com a organização do trabalho, é seu objeto de interesse
o Estratégias coletivas de defesa: transformam a percepção da realidade, mascarando o
sofrimento, impedindo a ação contra as pressões patogênicas do trabalho e alimentam a
resistência contra a mudança; levam à transformação e à eufemização da percepção da
realidade que faz os trabalhadores sofrerem por impossibilidade de vencer a rigidez das
pressões organizacionais. Os trabalhadores colocam-se na função de agentes ativos de uma
atitude provocadora ou de uma minimização diante da pressão patogênica (operação
estritamente mental).

Paradoxo: sofrimento individual VS estratégias coletivas: vários sujeitos experimentando


por si um sofrimento único seriam capazes de unir seus esforços para construir uma
estratégia defensiva comum. Estas funcionam como regras que supõe consenso de
acordo partilhado. O mecanismo de defesa está interiorizado, persiste mesmo sem a
presença física de outros, enquanto a estratégia coletiva se sustenta por um acordo,
depende de condições externas. A negação da percepção neste último caso é operada
coletivamente, a nova realidade é construída /validada a partir de um coletivo ou por
uma comunidade inteira.
Alienação: as estratégias coletivas de defesa contribuem para estabilizar a relação
subjetiva com o trabalho e alimentar uma resistência a mudança. Torna-se ela mesma
tão poderosa que corre o risco de transformar –se num objetivo em si mesma, com
vistas a vencer tudo que possa desestabilizá-la. Como se o sofrimento fosse resultado de
um enfraquecimento de uma estratégia defensiva e não conseqüência do trabalho.
As diversas abordagens que tratam do estresse destacam a importância do conceito de alienação reforçando
que esta constitui o ponto central dos estudos da interação saúde mental e trabalho. A maioria das
investigações sobre o estresse tem analisado como os aspectos psicossociais do trabalho levam às alterações
dos mecanismos psiconeuroendócrinos, considerando os aspectos básicos nos estudos da relação entre
estresse e trabalho: o controle sobre o trabalho e o trabalho alienado. O trabalho alienante é entendido ora
em virtude da organização do trabalho, quando limita as capacidades criativas e de autogestão do
trabalhador, ora quando o trabalho mantém o trabalhador econômica e pessoalmente alienado, como um
fator desencadeador do estresse organizacional. Os mecanismos de alienação normalmente não são
percebidos e não são conscientes para os trabalhadores, são deste modo, incorporados e vivenciados por eles
como estranhos a sua subjetividade.
Ideologia defensiva: a estratégia passa a ser vista como promessa de felicidade ->
desemboca em conflitos de poder que não resultam em nenhuma solução.
o Metodologia da Psicodinâmica: “os fatos não existem em si e por isso não podem ser
coletados, eles devem ser extraídos em discussão, construídos”. A psicodinâmica do
trabalho não é uma psicologia do trabalho, mas uma psicologia do sujeito. Assim, privilegia
as entrevistas, os princípios da psicanálise para a escuta clínica adaptados ao contexto de
trabalho, cujo foco reside na análise dos aspectos relacionados à subjetividade do
trabalhador vinculados na organização do trabalho, como: responsabilidade, hierarquia,
comando e controle sobre o trabalho. A demanda deve partir sempre dos trabalhadores,
pois a intervenção só é possível apenas a partir do reconhecimento do sofrimento por parte
destes. Prevê-se uma intervenção grupal sobre as vivencias de sofrimento, tendo em vista a
necessidade de eliminarem-se as idiossincrasias sempre presentes no sofrimento. O
objetivo deste esforço é delimitar o que no sofrimento, que é sempre vivido
individualmente, origina-se de uma situação que atinge o grupo. A mudança não passa
necessariamente por uma intervenção macrossocial, mas ocorre a partir do campo
microssocial ocupado pelos trabalhadores.
o De acordo com Dejours, o trabalho não cria doenças mentais específicas. Não existem
psicoses e neuroses do trabalho; as descompensações psicóticas e neuróticas dependem,
em ultima instancia, da estrutura das personalidades, adquirida antes do engajamento na
produção. A estrutura de personalidade pode explicar a forma sob a qual aparece a
descompensação e seu conteúdo, mas é insuficiente para explicar o momento escolhido.
o O homem organiza-se a partir de suas experiências da primeira infância. A sexualidade
(libido) é sua maior força motriz. O trabalho é portador de sofrimento e afasta o homem
do prazer; o melhor trabalho é o que permite sublimar o sofrimento; quando há
sublimação não há desprazer no trabalho.

Clínica da Atividade: Surgiu em 1990 na frança, seu principal autor é Yves Clot.
 Com a transformação contemporânea das tecnologias e com a ampliação do setor serviços, os
acidentes de trabalho com morte ou perda de membros, bem como as agressões à saúde por cargas
químicas, físicas e mecânicas, passam a competir pela nossa atenção com agressões que tem origem,
predominantemente, na organização do trabalho. A exploração no mundo do trabalho toma outros
contornos, apresentando novas exigências quanto ao uso de capacidades criativas e adaptativas –
características subjetivas - da força de trabalho. A organização taylorista do trabalho interditava a
singularidade dos trabalhadores. Pode-se afirmar que, hoje, “lá onde a iniciativa estava interditada,
nós a vemos obrigatória sob a forma de uma solicitação sistemática da mobilização pessoal e coletiva.
A prescrição da atividade se tornou prescrição da subjetividade” (Clot, 1999: 6). Características antes
consideradas próprias do modo de ser de cada um, que com elas nascia ou não, são vistas atualmente
como competências a serem treinadas e exigidas do mesmo modo que a capacidade técnica. Ainda na
descrição de Y. Clot, encontra-se hoje “De um lado, uma real desprescrição operatória; do outro, uma
prescrição temporal que nos parece uma tirania do imediatismo. (...). Segue-se uma possante
autoprescrição cujos efeitos para a saúde física e psíquica ainda estão por ser avaliados.(Osório, 2007)
 Concepção de homem como um ser em movimento, capaz de imprimir algo de singular naquilo de
que participa, e no qual também se produz, capaz de intervir em sua própria história; e à uma
concepção de trabalho como um processo coletivo e singular, de criação e recriação da história de um
ofício; e da atividade de trabalho como processo de produção não só de coisas ou serviços, mas
também de subjetividades.
 Entre o trabalho prescrito e o trabalho real, conceitos oriundos da ergonomia, há um caminho de
confrontos denominado o real da atividade.
 Atividade impedida: o sofrimento é visto como uma atividade contrariada, um desenvolvimento
impedido; uma amputação do poder de agir. Conflitos do real: a atividade não é somente aquilo que se
faz; o real da atividade é também o que não se faz, que não se pode fazer, o que se tenta fazer sem
conseguir. A fadiga, o desgaste, o estresse são compreendidos tanto por aquilo que os trabalhadores
não podem fazer quanto por aquilo que fazem.
 Dissociações do trabalho atual: assumir responsabilidades sem ter responsabilidade efetiva na
definição do trabalho, submetido a objetivos fictícios.
 Métodos de ação: reformulação das instruções ao sósia, apresentada por I. Oddone e a
autoconfrontação cruzada (Clot, 1999)

Epidemiologia

 É herdeira da lógica da epidemiologia geral, cujo foco reside na produção de conhecimentos sobre o
processo de saúde-doença, o planejamento de ações de políticas de saúde e a prevenção de doenças.
 A preocupação com estudos diagnósticos de saúde e trabalho com características epidemiológicas
remontam ao final do século XVII com Bernardino Ramazzini. Le Guillant foi pioneiro ao articular os
aspectos sociais às condições objetivas e subjetivas do trabalho e fatos clínicos na busca de possíveis
determinantes do sofrimento psíquico neste âmbito. A concepção de trabalho mais compatível com
essa proposta tem sido encontrada em Marx e Leontiev, para os quais a trabalho/atividade aparece
como fator de construção da individualidade do sujeito, sendo o elo entre sujeito e sociedade. A partir
de Marx faz-se necessário reconhecer a natureza social e histórica do processo saúde-doença: a
psicopatologia só pode ser decifrada se remetida aos vínculos concretos do homem na vida.
 Faz uma revisão crítica aos métodos estritamente quantitativos (teoria do estresse) e aos qualitativos
(psicodinâmica, Dejours). Há de se considerar o trabalho como um fenômeno objetivo e subjetivo,
valendo-se tanto de estratégias semi-clínicas como de instrumentos de avaliação baseados em escalas
psicométricas.
 Tem como pressuposto a multicausalidade e a percepção de um homem sóciohistórico, na qual os
fatores sociais além dos individuais, façam parte da investigação.
 O homem vive e desenvolve-se em e pelo conflito com os outros homens, a natureza e consigo próprio.
Sua principal força motriz é o trabalho, seu e dos outros, hoje e na própria história dos homens. O
homem é fundamentalmente um ser psicossocial.
 O trabalho é ou deve ser sempre prazeroso, pois é a forma como o homem constrói a si próprio. O
sofrimento no trabalho deve ser combatido, porque é produto de algum tipo de alienação.
 O indivíduo vive e precisa viver em constante metabolismo com a natureza, fazendo o mundo e sendo
feito por ele. Quando este circuito se rompe, quando o trabalho é alienado, a doença mental ocorre.
Um trabalho sadio é aquele no qual o sujeito sente e sabe que o autotransforma, e no qual pode
controlar a direção em que isso ocorre.
 Metodologia: A metodologia de investigação deve ser interdisciplinar, deve reconstruir a totalidade
significativa e resgatar a história. Assim, o estudo divide-se em três grandes momentos que enfocam o
problema por ângulos complementares.
o 1º Observação do trabalho, registro e análise documental: procura-se apreender aspectos da
cultura organizacional, estrutura e funcionamento, além de proceder-se a análise de
tarefa/desenho do trabalho, dos cargos ou das categorias funcionais que serão objeto do
diagnóstico.
o 2º Inventários de condições de trabalho e saúde mental: medidas quantitativas com a inclusão
de escalas relacionadas ao trabalho em si e de personalidade, sofrimento no trabalho ou saúde
geral, procura-se obter o perfil da categoria, para então analisá-lo em relação aos dados
colhidos no primeiro momento, e então, instrumentalizar o 3º momento.
o 3º Entrevistas, estudo de caso: metodologia clínica com características de estudos de caso;
procede-se o aprofundamento do diagnóstico.

Ergonomia
 Surgiu oficialmente na Inglaterra no final da década de 40; seu corpo teórico-metodológico encontra-
se em estágio de estruturação consolidação; No Brasil a ergonomia toma a partir da década de
1970.
 A ergonomia pode ser definida como uma abordagem científica antropocêntrica que se fundamenta
em conhecimentos interdisciplinares das ciências humanas para, de um lado, compatibilizar os
produtos e as tecnologias com as características dos usuários e, de outro, humanizar o
contexto sociotécnico de trabalho, adaptando-o tanto aos objetivos do sujeito e/ou grupo,
quanto às exigências das tarefas.
 Dois traços distintivos da disciplina: investigar para compreender o objeto de estudo (produção de
conhecimentos) e produzir soluções para transformar as situações-problemas investigadas (aplicação
de conhecimentos) na perspectiva de propor alternativas que articulem harmoniosamente o bem-estar
dos sujeitos, a eficiência e a eficácia de suas atividades.
 As variáveis indivíduo e ambiente são dimensões analíticas transversais à teoria e à prática da
ergonomia:
o A variável “indivíduo” constitui um segmento populacional específico que compõe a classe
trabalhadora, constituída de homens e mulheres que, regra geral, são remunerados em função
desta condição; e
o A variável “ambiente” se caracteriza por um contexto sociotécnico singular, espacial e
formalmente circunscrito, cuja configuração é ditada por regras formais e informais.
 A inter-relação indivíduo-ambiente não se dá a esmo, mas é mediada pelo trabalho:
o A variável “trabalho” que, sumariamente, caracteriza-se como uma atividade humana
ontológica singular, baseada em estratégias de regulação, por meio das quais o sujeito
interage com o ambiente e seus multifatores, buscando garantir os meios necessário à
sobrevivência, proporcionar o seu bem-estar físico, psicológico e social e, ainda, responder
às tarefas prescritas.

 Trabalho prescrito e trabalho real


o Trabalho prescrito é o que é determinado, pré-escrito para ser executado pelos trabalhadores e o
trabalho real é aquilo que é realmente executado.
o Tarefa: a prescrição, o comando, e o que a organização oferece para execução do mesmo; aquilo
que deve ser feito. A tarefa é composta por toda parte do trabalho que é constituída e determinada
pela organização (condutas, métodos de trabalho, instruções), tudo que o trabalhador tem que
fazer e como fazê-lo, bem como o conjunto de objetivos a serem atingidos, as especificações dos
resultados a obter, os meios fornecidos para execução da tarefa e as condições necessárias para
execução do trabalho (ambiente físico e humano, tempo, ritmo e cadência da produção). A tarefa
também pode ser entendida como prescrita (condições apropriadas, forma correta e ideal) e real
(forma como realmente chega e é entendida pelo trabalhador).
o Atividade: a maneira do trabalhador de executar essa tarefa que lhe é determinada; aquilo que se
faz. É mais do que a tarefa realmente executada, é fruto de uma síntese entre a tarefa e o homem
que a executa. É portanto, o resultado de um trabalho de reelaboração e reorganização da tarefa
por parte do trabalhador.

 Estresse profissional x Neurose profissional:


o Estresse profissional: processo de perturbação momentânea, gerado pela mobilidade excessiva
de sua energia da adaptação para o enfrentamento das solicitações de seu meio ambiente
profissional, que ultrapassem as capacidades atuais, físicas ou psíquicas.
o Neurose profissional: estado de desorganização persistente da personalidade com consequente
instalação de uma patologia, vinculada a uma situação profissional ou organizacional. Ex:
neurose de excelência ou doença da idealização = luta incessante para satisfazer os ideais de
excelência, de sucesso demandados pela sociedade, em detrimento de sua personalidade real.
 Numa investigação diagnóstica, um dos instrumentos mais importantes no processo é a anamnese.
 A carga de trabalho é dividida em: física, cognitiva e psíquica. A noção de carga psíquica, que como as
demais é socialmente produzida, pode ser dividida em: sobrecarga psíquica (estado de tensão
prolongado) e a subcarga psíquica (impossibilidade de desenvolvimento e de uso da capacidade
psíquica).

Qualidade de vida no trabalho: é o conjunto das ações de uma empresa que envolve a implantação de
melhorias e inovações gerenciais e tecnológicas no ambiente de trabalho. A construção da qualidade de
vida no trabalho ocorre a partir do momento em que se olha a empresa e as pessoas como um todo, o que
chamamos de enfoque biopsicossocial – o que representa o fator diferencial para a realização e
diagnostico, campanhas, criação de serviços e implantação de projetos voltados para a preservação e
desenvolvimento das pessoas, durante o trabalho na empresa. -> a origem do conceito vem da medicina
psicossomática que considera o ser na sua integralidade.

Ciências que tem contribuído ao estudo da QVT: saúde, ecologia, ergonomia, economia, psicologia,
sociologia, administração, engenharia.
ETAPAS PARA A IMPLANTAÇÃO DE UM PROGRAMA DE QVT:

1. Sensibilização
2. Preparação
3. Diagnóstico
4. Concepção da implantação do projeto
5. Avaliação da difusão
ENRIQUECIMENTO DO EMPREGO: trabalho flexível (flextime), banco de horas, jornada
comprimida.

INTERESSE PELA QVT: satisfação do empregado e produtividade empresarial