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CAMINHO

paÍa a inicia-f,0 frminina

Sdrit&ltrcra
CIP-Brasil. Catalogaçãona-Publicação
Câmara Brasileira do Livro, SP
Sylvia Brinton Perera

Perera, Sylvia Brinton.


Caminho para a iniciação feminina / Sylvia Brinton
Perera; (tradução Aracéli M. Elman; revisão Marlene'
Crespo). São Paulo: Ed.'Paulinas, 1985.
- (Coleção amor e psique)
Bibliografia.
ISBN 85-05-00324-1
1. Feminilidade (Psicologia) 2. lnana (Divindade sume-
riana) 3. fung, Carl Gustav,
Psicologia I. Título.
1875-1961 4. Mulheres
- CAMINHO PARA
""iii,iii- A rNrclAÇÃo FEMININA
854743

Indices para catálogo sistemático:

l. Feminilidade: Psicologia sexual 155.333


2. Inana: Divindade: Mitologia sumeriana 299.9
5. Jung, Carl Gustav: Psicologia analítica 150.1954
4. Mulheres: Psicologia 155.633

Coleção AMOR E PSIQUE


Uma busca interior em Psicologia e Relieião, |ame's Hillman
A sombra e o mal nos contos de fada, Marie-Louise von Franz
A individuação nos contos de fada, Marie-Louise von Franz
A
- C. G. lung e P. Tillich,
psique como sauamento lohn P.
Dourley
Do inconscientea Deus, Erna Van de Winckel
Contos de fada vividos, Hans Dieckmann *
Caminho paru a iniciação feminina, Sylvia Brinton Perera
r Em preparação Edições Paulinas

h*, .-'
Tltulo orlglnal
Dcrcent to the Goddess, a way oÍ Intclatlon for women
@ Sylvla Brinton Perera TNTRODUçÃO À COLEçÃO AMOR E P§rQUE
Tradução
Aracéll M. Elman

Revisão
Marlene Grespo

Coleção AMOR E PSIOUE Na busca de sua alma e do sentido de sua vida o


dirigida por
homem descobriu novos caminhos que o levam para a
Dr. Léon Bonaventure
Pe. lvo Storniolo
sua interioridade: o seu próprio espaço interior torna-se
Profa. Maria Elci S. Barbosa um lugar novo de experiência. Os viajantes destes ca-
minhos nos revelam que somente o Amor é capaz de
engendrar a Alma, mas também o Amor precisa da
Alma. Assim, em lugar de buscar causas, explicações psi-
copatológicas das nossas feridas e dos nossos sofrimen-
tos, precisamos em primeiro lugar amar a nossa alma,
assim como ela é. Deste modo é que poderemos reco-
nhecer que estas feridas e estes sofrimentos nasceram
de uma lalta de amor. Por outro lado revelam-nos que
a alma se orienta para um Centro pessoal e transpessoal,
para a nossa unidade e a realização de nossa totalidade.
Assim, a nossa própria vida carrega em si um sentido, o
de restaurar a nossa unidade primeira.
Finalmente não é o espiritual que aparece primeiro,
mas o psíquico, e depois o espiritual. É a partir do olhar
clo imo espiritual interior que a alma toma seu sentido,
o que significa que a psicologia pode de novo estender a
cp EDrçÔEs PAULTNAS
mão para a teologia.
Ruâ Dr. Pinto Ferraz, 183 Esta perspectiva psicológica nova é fruto do esforço
04117 - São Paulo SP (Brasil)
- para libertar a alma cla dominação da psicopatologia,
End. telegr.: PAUL|NOS
do espírito analítico e do psicologismo, para que volte
a si mesma, à sua própria originalidade. Ela nasceu de
reflexões durante a prática psicoterápica, e está come-
çando a renovar o modelo e a finalidade da psicoterapia.
É uma nova visão do homem na sua existência cotidiana,
. do seu tempo, e dentro de seu contexto cultural, abrindo
O EDICÕES PAULINAS - SÃO PAULO 1985
ISBN - 85-05-00324-1 dimensões diferentes de nossa existência para podermos
reencontrar a nossa alma. Ela poderá alimentar todos
aqueles que são sensíveis à necessidade de colocar mais Prólogo
alma em todas as atividades humanas.
A finalidacle da presente coleção é precisamente res-
tituir a alma a si mesma e de "ver aparecer uma gera-
ção de sacerdotes capazes cle entenderem novamente a
linguagem da alma", como C. G. Jung o desejava.
O espírito positivista que ainda hoje informa todos
os setorei da ciência moderna levou-nos a um "complexo
de superioridade", graças ao qual julgamos ter atingido
o g.url máximo da ãssim chamada civilização ocidental,
ão. comportamos como quem construiu e se instalou
"num pedeslal no topo do mundo. E é do alto desse pe'
destaÍ que, com olhar orgulhosamente complacente e- sor'
riso irônico, costumamos considerar a vida dos antigo-s,
achando-os táo atrasados em suas cosmovisões e reli-
giões, táo ingênuos em seus mitos e lendas, táo grossei-ros
ã- .ru tecãologia e costumes. Contudo, basta que lan-
cemos um olhaicrítico para nós mesmos e o mundo que
nos rodeia para descobrlr que, no fundo, os verdadeiros
atrasados, ingênuos e grosseiros somos nós mesmos'
A mais elementar psicologia nos ensina que apenas
um décimo da psique humana é consciente; os outros'
nove décimos sáo inconscientes. Isso significa, no míni-
mo, que somos os mais ambíguos seres deste planeta,
e tão mais perigosos quanto menos conscientes estiver-
mos da t ottu piOpria ambigüidade. Em outras palavras,
na teoria so*ós càpares de pensar e projetar uma coisa,
mas na prática vivêmos outra, e geralmente o contrário
clo que havíamos pensaclo e projetado. Percebemos que
,rotà pedestal científico e tecnológico foi construído à
custa de uma atitude unilateral que privilegiou apenas a
consciência, exilando para a sombra e a treva do incons'
ciente as já tão obscuias dimensões do mundo dos afetos
;!,, e dos instintos qlle, na realidade, presidem ao nosso
comportamento e ação. Ora, como o inconsciente man'
:'!l
:i,
1;'
tém uma atitude de compensação em relação à consciên-
* cia, tudo o que é reprimido e relegado ao inconsciente
,1,
torna-se exatamente o contrário. E é assim que a nossa

I
*
ambigüidade se torna extremamente perigosa: teorica- um imenso e valioso parâmetro para equacionar os pro'
mente elaboramos os mais refinados sistemas de pensa- blemas psíquicos individuais e coletivos da humanidade
mento e produzimos os mais requintados instrumentos contemporânea. O presente livro de Sylvia Brinton Pe-
mas, na prâtica, usamos nosso pensamento e instrumen- rera, terapeuta em Nova Iorque, se inscreve na longa
tos não para o crescimento mas para a opressão, divisão esteira das pesquisas de Jung, hoje continuadas de for-
e até mesmo para a destruição da humanidade. Nossa ma vigorosa pelos discípulos e herdeiros do seu pensa-
deusa razão calocou-nos numa armadilha: julgávamos mento e preocupações.
ser a fina flor da civilização, e descobrimos que nossos Sylvia Brinton Perera traça paralelos entre os pro'
afetos e instintos indiferenciados e reprimidos nos tor- blemas e sonhos de pacientes atuais e o mito sumério
naram bárbaros, capazes de destruir o mundo todo e de- de fnana, mais conhecido como "A descida de Inana".
sequilibrar a galâxia nunr só dia. A mais antiga forma escrita desse mito data do terceiro
Descoberta a nossa fundamental e perigosa ambigüi- milênio antes de Cristo, mas é provável que sua origem
dade, descemos do nosso pedestal, olhamos de novo para seja muito mais antiga. A leitura do livro, provavelmente
os antigos, e levamos um choque: enquanto dedicamos iniciada com ceticismo e curiosidade, pouco a pouco vai
toda a nossa energia para elaborar um décimo da cons- dando lugar à admiraçáo, pois logo percebemos que esse
ciência eles trabalhavam com os nove décimos do incons- mito não só equaciona todo o problema de uma socie-
ciente; enquanto ficamos purificando nossas idéias e ins- i:I
i dade patriarcal, mas também projeta o longo e árduo
trumentos, eles equacionavam o mundo obscuro dos ar- ?
':, caminho para a sua correta superaçáo. Um mito de cinco
quétipos, as matrizes inconscientes não só das nossas *
.ll
mil anos. . .
n
idéias, mas também do nosso comportamento. Espanta- ie A sociedade patriarcal ou, como diríamos hoje, ma-
dos e humilhados, descobrimos que eles têm muito mais chista, caracteriza-se pela unilateralidade: dá primazia ao
a nos ensinar do que nós a eles! Suas cosmovisões, reli- homem em detrimento da mulher, privilegia as dominan'
giões, mitos e lendas são, na verdade, espelhos em que, tes masculinas à custa da rejeição e repressão das domi-
de forma projetada e simbólica, podemos contemplar a nantes femininas. Chegamos assim a uma forma de so-
nossa complexidade humana, mergulhada em seus pro- ciedade que se afirma nos valores de percepção, pensa-
blemas e dúvidas, angústias, anseios e buscas. Os anti- mento, pesquisa, iniciativa e luta heróica para elaborar o
gos, porém, não ficaram apenas na constatação do que mundo externo com os conseqüentes corolários da ri-
somos: também foram capazes de equacionar e analisar -
validade, competição e arrivismo, tão característicos do
os problemas e angústias, projetar e concretizar cami- nosso ocidente capitalista a excpensas da rejeição dos
trhos de solução, alem de esclarecer as dúvidas e anseios -,
valores tipicamente femininos, como a intuição, sentimen-
humanos, abrindo perspectivas de buscas equilibradas e to, sensibilidade, criatividade, receptividade e esforço pa-
correta para o crescimento e maturação dp humano. ciente para elaborar o mundo subjetivo.
Devemos a Carl Gustav Jung a redescoberta da im- Tanto as mulheres como os homens acabam perden-
portância das cosmovisões, religiões, mitos e lendas dos do muito numa sociedade patriarcal, pois o masculino e
antigos. Nessas projeções espontâneas do inconsciente co- o feminino, se bem que em graus e conotações diversas,
letivo, isto é, do inconsciente comum a toda a humani- são características psicológicas e comuns a ambos os se-
dade, Jung descobriu as estruturas básicas da psique, xos. Com efeito, a mulher é feminina na sua consciência
percebendo que esses testemunhos antigos constituíam e masculina no seu inconsciente (à alma da mulher Jung

8
deu o nome masculino de animus); enquanto isso, o mente o contrário. São poucos os gue, à custa de muito
homem é masculino na sua consciência e feminino no esforço e sacrifício, conieguem chegar a uma verdadeira
seu inconsciente (razáo pela qual Jung denomina a alma relação de complementariedade.
do homem com o termo feminino anima). O que acon- O mito sumério "A clescida de Inana" ajuda-nos a
tece numa sociedacle patriarcal? Mulheres e homens são compreender a tarefa da iniciação ao feminino, que-tan'
defraudados na sua própria identidade e integridade. As to a mulher como o homem são chamados a realizar
mulheres são as vítimas maiores pois acabam per- dentro de uma sociedade patriarcal e machista' Não se
clendo a própria identidade consciente de ser mulher, trata apenas de uma tarefa individual; esta, quando mui'
cabendo-lhes uma escolha difícil: ou permanecem femi- " ou a inte'
,t to, poderá salvar a identidade desta mulher
ninas, ficando entorpecidas como a Bela Adormecida ou l gridud" daquele homem' O mito abre, por outro lado, as
relegadas como a Gata Borralheira, ou então têm que perspectivai mais amplas de uma tarefa his-tórica: te-
adaptar-se ao munclo do homem, assimilando e desenvol- i ãi.t it o feminino, rejeitado e exilado da cultura cons'
vendo valores e características tipicamente masculinos. ,ciente há mais de cinco mil anos, a fim de que a-]rurya'
As que optam pelo último caminho são as que conse- inidade recupere a própria alma, que tanta falta l]rre faz
guem lugar e função na sociedade patriarcal. Os homens, para que o-mtrndo seja mais humano, mais criativo e
por sua vez, perdem a conexão com a sua interioridade, sensível a si próprio.
com a sua anima: aparentemente eles estáo à vontade Pesquisas a. cle Svlvia Brinton Perera e a de
na sociedade patriarcal; na realidade, porém, são seres "ôrno
Esther Harding (Os mistérios da mulhet, brevemente nes-
humanos pela metacle: escravizados pela percepção obje- ta coleção) sãã estimulantes poderosos que nos levam a
tiva e pelo espírito de análise, consumidos pela rivali- ,rr-"rõ"u, descobertas, pois ábtem novas e insuspeitadas
dade e competição, eles acabam perdendo todo contato perspectivas, fustigando nossas dúvidas latentes e susci-
com sua alma, deixando de ser receptivos, sensíveis e ia"dt novas buscas. De modo particular, eu gostaria de
criativos. ver os resultados desse tipo de pesquisa aplicado à Bíblia'
E o que acontece na relação entre os sexos? üao e Não é na Bíblia que vamos encontrar o fermento ju-
preciso muita análise ou imaginação. Basta ver a reali- daico-cristão que fôrjou a estrutura básica da psique do
dade de todos os dias: à parte o desempenho fisiológico nosso mundo ãcidenial? Estudá-la do ângulo psicológico
genital, as relações entre os sexos ou sáo insípidas ou não nos levaria à descoberta das raízes cia nossa estru'
tornam-se dramaticamente infernais. Insípidas quando as tura psíquica, tanto individual como coletiva?
relações são vividas no clima do faz-de-conta: tudo está Também a Bíblia nasceu num ambiente patriarcal,
bem porque um e outro, talvez por comodismo, estão que privilegiava o homem e os valores masculinos, em
dispostos a abrir mão das próprias exigências, renun- detrimento da mulher e dos valores femininos. Mas a
ciando a qualquer crescimento em comum. Infernais Bíblia é uma proposta de libertação e redenção, em to'
quando os parceiros colocam-se mutuamente as exigên- dos os níveis à dimensões do humareo. Nela também va'
cias: a mulher exige do homem uma compreensão, sen- rnos encontrar modelos e caminhos para a libertação e
sibilidade e receptividade que ele nunca desenvolveu; o resgate da mulher e do feminino. Às mulheres estão pre-
homem exige da mulher essas mesmas qualidades femi- sentes e rnarcam pontos-chave da história de Israel e do
ninas que a sociedade patriarcal fez com que ela rejei- cristianismo, história que se tornou parâmetro para com-
tasse e reprimisse, tornando-se, no inconsciente, exata- preenclermos a própria açáo de Deus dentro de toda a

10 1l

L,.
hlctória. E o que vemos nessa história? Um séquito de sua boca faz-nos ouvir o hino da redenção do princípio
mulheres que, embora reprimidas e relegadas a iomUra" feminino: "Minha alma proclama a grandeza do Senhor,
souberam representar seú papel na seqüãncia de eventos , meu espírito se alegra em Deus meu salvador, porgue ele
que tinham no bojo a ação do própiio Deus: ao lado olhou para o fu,tmilhação de sua setl,a.. ." (Lc l,46ss).
de Sara, a estéril qtre dá à luz, têmos Rebeca,
ú" ;-
buste torna o povó israelita e judaico (JacO) herdeiro
A Bíblia também nos aponta o caminho para a re'
denção da mulher e do feminino, tarefa que leva à liber-
das promessas, à custa do poro ãdomita iEsaú); no êxo-
tação de todos nós. O Apocalipse de João, livro que apre'
do é Maria, a irmã de Aarâo, que canta a libeitação; na senta a natlJreza e o modo do testemunho cristão, mos-
conquista da terra é Raab, uma prostituta, que proi"g"
os espiõ-es que vão explorar a terra; no tempo da realá
tra simbolicamente que a tarefa fundamental dos cris'
tãos é a redenção do feminino. No capítulo doze João
d_ Betsabéia,
-esposa de Davi, que trama "ó* o profeta nos apresenta a mulher celeste, mãe do Messias e dos
Natã a subida de Salomão ao trono... E os exàmplos cristããs, descendentes-irmãos do Messias. Essa mulher,
poderiam ser multiplicados. Dois deles, contudo, nao po_ perseguida pelo Dragão, do Mal, refugia-se no deserto,
dem deixar de ser mencionados lud.ite e Ester. Os livios
iugar-de interiorização, luta e transformação. No c-apí-
de Judite e Ester não são históricos, mas propriamente
novelas edificantes, que têm a finalidade de-eniinar; são,
tuÍo dezessete encontramos no deserto outra mulher,
uma prostituta depravada que se chama "Babilônia, a
portanto, produtos que nossa psicologia moderna clas-
Grande, a mãe dai prostitutas e das abominações da
sificaria de p_roieçõei inconsciôntes, cãmpensadoras da terra". Quem seria ela senão o feminino rejeitado e re-
unilateralidade do mundo patriarcal: estis duas mulhe. primido que, de modo paradoxal, agora se volta negati-
res entram em ação quando o povo judaico está em si- vamente contra os homens? A mulher celeste e a prosti'
tuação dificil e não há mais esperançás (em outras pala-
tuta terrestre devem se encontrar, dialogar e se redimir.
vras, elas representam o princípio ferninino inconscíente
O fruto desse confronto é apresentado no capítulo de'
que entra em ação quanclo o princípio masculino cons-
zenove e no vinte e Llm: surge agora a figura da noiva
ciente da sociedade patriarcal está eigotado). Ora, tanto do Messias, a humanidade redimi.da, purificada e liberta,
Judite quanto Ester conseguem a viiória e o benefício enfeitada e resplandecente para realizar as núpcias com
:-. {t"ot do seu povo, e gráças a quais recursos? Graças
à delicadeza e doçura, beleza e seãução, aliadas:à origi
c Messias Jestts, o Cordeiro. . . Mulheres e homens pre-
cisam encontrar, clialogar, transformar e redimir o femi-
,alidade criativa, características típicas da feminilidadãt nino rejeitado. Só depois disso estarão prontos para uma
No,momento crítico é o femininó que salva o mundo verdadeira união cle amor. Só depois disso serão capa'
unilateral dos homens. . . zes de gerar liberdade e vida. Só então estarão verdadei-
O_ evangelista Mateus menciona quatro mulheres na ramente abertos e receptivos para fazet a experiência
genealogia de Jesus. Se as olharmos de perto, veremos de Deus.
que nenhuma delas foi um exemplo de mbrd. Culpa de-
las, ou da sociedacle patriarcal qle as relegou à sámbra Pe. Ivo Storniolo
da prostituição e aos subterfúgios da trapaça para en- São Paulo, abril de 1985.
c.on_tlar um lugar ao sol? Contudo, Maria, à virgem mae
do Messias Jesus, é o protótipo da libertação deiodas as
mulheres, e o canto que o evangelista Lucas coloca em

t2 13
Introdução

O retorno à deusa, para renovação numa base de


origem e num espírito feminino, é um aspecto vitalmen'
te importante na busca gue a mulher moderna empre-
ende em direção à totaliclade. Nós, mulheres que alcan'
çamos sucesso no mundo, somos, via de regra, "filhas
do pai", ou seja, somos bem adaptadas a uma socie-
dade de orientação masculina, e acabamos por repudiar
nossos próprios instintos e energias mais integralmente
femininos, rebaixando-os e deformando-os da mesma for-
ma que nossa sociedade o fez. Precisamos retornar a
esse mundo e r:edimir o que o patriarcado freqüente'
mente considera apenas como uma ameaça perigosa, cha'
mando-o de rnãe terrível, dragão ou bruxa 1.
O ego patriarcal clos homens, e também o das mu-
lheres, pará atingir o seu estágio heróico e de discipli-
namento do instinto, cle esforço e de progresso, voou
para longe do terror puro causado pela deusa. Tentou-se
matá-la ou dividi-la em pedaços para tirarJhe a potência.
Mas é em direção a eles, e especialmente aos seus aspec-
tos reprimidos pela cultura, aquelas profundezas ctôni-
.ãóti"as e inelutáveis, que o novo ego, bem equili
"ur,
brado ern yin e yang em seu processo de individuação,
cl.eve retornar para ó encontro de sua mattiz e da força
incorporad.a e ilexível que lhe permitam ser ativo e vul-

Tabuinha contendo a primeira metade do poema "A descida I Erich Neumann, "Sobre a Lua e a Consciência Matriarcal",
de Inana" (Coleção llilprecht, Universidàde de Jena) in Pais e Mães (Ed. Símbolo).
15
nerável e conquistar Llma base própria, como
também
relacionar-se com os outros d" mànei.a empática.
Esse retorno é freqüentemente consiàerado
como
um modelo de desenvokimento feminino _ é ;
Erich Neumann chama de reconexão com o si mesmo, n;; 1
o arquétipo da totalidade e centro regulador d,
nalidade, ;;;;;:
depois que o uroboros e o parceiro matri- Descida e retorno
-
monial patriarcais desvencilharam_se d; mãez. M;;
Adrienne Rich fala por muitas de nós quando
"A mulher que eu precisava chamar de mãe "r"r"r",
ciada antes de eu ter nascido,,3. Infelizm""t",
foilii"r_
mas mulheres modernas (na verdade, quase
ã"itirri_
todas) não O mito de Inana-Ishtar e Ereshkigal
.eceberam desde o início os cuidados'dã mae. p"to
trário, foram criadas em lares difÍceis, de autoridad" "Ã Há muitas histórias e mitos sobre a descida da deusa
;ú;-
trata e coletiva ("cortadas do contato com a terra pelos
e a descida até a deusa, como a Izanami japonesa, o
tornozelos", como observou uma mulher), cheios
preciso" e dos "deve-se,, do superego. Ou, então,
d;; ;; mito de Coré-Perséfone dos gregos, a Psique romana
acaba_ ou as heroínas de contos de fadas que vão até a Mãe
ram por identificar-se com o pai e-a cultura puíriu."ui,
Ilulda, a Baba Yaga ou a bruxa da Casa de Pão de Mel'
eilienando-se de sua própria base feminina e
dá mã; te;: O mito mais antigo que se conhece sobre esse motivo
soaf que freqüentemenie é por elas considerada fraóa
i.rrelevante a. Essas mulheres têm a necessidade prà*""tã
e foi escrito sobre tabuinhas de cerâmica, no terceiro mi-
Iênio a.C. (embora possa ser até mais antigo, remontan-
de se defrontarem com a deusa em sua reahâade fun- clo mesmo a ternpoi anteriores à própria escrita)' Ele é
damental.
comumente co,tiecido como a "Descida de Inana", a
Uma conexão interior dessa natureza é uma iniciaçáo rainha suméria do céu e da terra s. Há duas versões
essencial para a maior parte das mulheres modernas
do acádicas mais tardias baseaclas nessa fonte, mas com6'
Ocidente; sem ela na.o podemos ser completas. Err;;;;_ variações, que conhecemos como a "Descida de Ishtar"
cesso requer-, a um só tempo, um sacrifício de No poema sumério, Inana decide ir ao mundo sub-
nó.sa
identidade €nquanto filhas e.spirituais do patriarc^d"
uma descida para dentro-do espírito au à"rrrã;';;ó;
; terrâneo; ela "retira seu coração do mais alto dos céus e
o coloca no mais profundo da terra" 7, "abandonou o
uma extensão enorme da força e da paixão do feminino ao Mundo Inferior ela des-
céu, abandonoll a i"t.a
está adormecida no mundo - subterrâneo, no exílio há a"rt't. Como precaução, -entretanto, a deusa dá instru-
mais de 5000 anos.
5Samuel Noah Kramer, The Sacred Marriage Rite^:. Aspect
of Faith. Mvth attd Ritunl in Anciutt Sumer, p' 108-121, e ver
iâ";ú-'aã"oiane Wolkstein e Samuel Noah Kramer, Inanna,
Neumann, "psychological Stages of Feminine Development,,, Queen of Heaven and Earth, Her Stories amd Hymn<, ^
- -ã Alé*ander
^2
p.96. Heictel, The'Gitgamesh Epics and Old Testament
-Patallels,
-' -í p. 119-128.
n,',d'Nfl"l:irt'1[á-ff ;Aing the crystal"' in Poems: setected Jakobsen, The Treasttres of Darkness: A History
iúâitiild
ot' Mesopotamian Religiore, p. 55. _
a Carolyn G. Heilburn, Reinventing Womanho,od., p. 37_50.
' s Kiamer, Sacred- Mariiage RlÍe,
.
p. 108.

16 L7
çôes a Ninshubur, sua executiva de confiança, no sentido ,à vida, Inana é avisada de que precisará mandar alguém
de pedir ajudq aos deuses paternos para garantir o seu
lao Mundo Inferior para ocupar seu lugar. Para agarrar
resgate, caso ela não volte dentro de três ãias.
,rçssa vítima de sacrifício os demônios a rodeiam, enquan'
fnana é detida na primeira porta do Mundo Inferior,
e solicitam-lhe que revele sua identidade. O guardião da |to ela retorna através das sete portas e exige suas vestes.
', A última parte do mito envolve a busca de um subs'
entrada informa Ereshkigal, a rainha do Graãde Abismo,
que Inana, "Rainha do Céu, do lugar onde o sol nas- l,tituto. Inana não entrega nenhum daqueles que lamen'
ce" e, pede para qéÍ aclmitida à ,,teira de onde não há
Itaram sua morte. Mas, por fim, defronta-se com seu
consorte anterior, Dumuzi (mais tarde denominado Ta'
retorno", a firn de presenciar os funerais de Gugalana, rnuz) sentado, feliz da vida, em seu trono. Inana o fita
marido de Ereshkigal. Esta se enfurece, e insistJque a com os mesmos olhos mortÍferos que Ereshkigal pusera
deusa do mundo superior seja tratada de acordo u, sobre ela, e os demônios o agarram. Dumuzi desaparece
leis e ritos destinaclos a todos os que entram "o?,
no seu com a ajuda de Utu, o deus sol e irmão de Inana. Utu
reino: ela deve ser trazida à sua presença ,,nua e cur-
, transforma-o em cobra para facilitar-lhe a fuga. Num
vada". lpoema relacionado à narrativa, Dumuzi sonha com sua
O guardião executa as ordens. A cada uma das sete r, própria queda, e vai até a irmã, Geshtinana, que o ajuda
portas de entracla ele remove uma peça das magníficas
vestes de Inana. "Agachada e desnuda,,, como oi sumé- i ã interprêtar o sonho e fugir. Quando a fuga se- mostra
j inútil, ela o protege e se oferece para o sacrifício em
rios eram colocados no túmulo, ela é julgada pelos sete ii' seu lugar. Inana decide que ambos devem dividir ,a
juízes. Ereshkigal mata-a. Seu corpo é enfiãdo n-um poste,
condenàção, e passar seis meses cada um no mundo sub-
onde se transforma numa carne esverdeada peh lutre- terrâneo. O último poema termina com as seguintes pa-
fação. Depois de três dias, vendo que fnana-não iolta,
lavras:
a assistente Ninshubur coloca em execução suas instru-
ções de levantar o povo e os deuses com tambores fú- 'Inana colocou Dumuzi nas mãos do eterno.
nebres e lamentações.
Sagrada Ereshkigal! Suave é o teu louvor"
10.

Ninshubur dirige-se a Enlil, deus supremo do céu e


da terra, e a Nana, o deus lua e pai de Inana. Ambos Este mito e as deusas Inana, Ereshkigal e Geshtinana
recusam-se a interferir nos caminhos exigentes do Mun-
colocaram-se em ação e me têm guiado desde que li
do Inferior. Finalmente Enki, deus das ãguur e da sa- pela primeira vez as traduções de Kramer, em 1973. Des-
bedoria, ouve o apelo de Ninshubur e resgata a deusa, cobri que, ao entrar em contato com esse material táo
usando para isso dois carpidores que ele modela com a
l, antigo, de urna era em que a Grande Deusa ainda era
sujeira acumulada debaixo de sua unha: estes se es- , 't itul, consegui resgatar uma parte de minha relação com
gueiram pelo Mtrnclo Inferior sem serem notados, le- o instinto feminino arquetípico e com núcleos essenciais
vando o alimento e a água da vida que Enki lhes dera, do espírito.
e_ asseguram a libertação de Inana ao compadecerem-se
Não posso saber o significado dessas histórias par-a
de Ereshkigal, que agora está gemendo peio morto, ou os sumérios, mas elas têm um modelo cósmico, sazonal,
em dores de parto. Ela se sente tão gratã pela empatia transformativo e psicológico. E servem como uma tela
que, finalmente, entrega o corpo de Inanà. Restiiuída de projeção onde- tenho tentado ver uma maneira de
e Ibid., p. ll2. lo Wolkstein e Kramer.
18 19
curar algumas das feridas psicológicas que existem em intelectuais e dotadas daquilo gue denominei " egos-ani-
mim, em minhas amigas e companheiras, e nas mulheres Ítxus". Lutamos por defender as virtudes e ideais estéticos
sem mãe com as quais trabalho em terapia. Todas nós a. nós apresentados pelo superego patriarcal. Mas enche-
crescemos sob o patriarcalismo e lutamos com proble- mo-nos de auto-rejeição e de uma sensação profunda de
mas semelhantes. O material clínico a ser usado neste li- feiúra e fracasso quando não conseguimos satisfazer nem
vro vem de experiências e sonhos que são meus, de mi- aliviar as exigências de perfeição do superego.
nhas amigas,f de minhas analisaridas. Uma mulher com mais de dez anos de análise jun-
guiana me disse há pouco tempo: "Passei anos tentando
relativizar uma coisa que nunca tive: um ego verdadei-
Filhas do patriarcado ro". Realmente, ela tem apenas um ego-animus, e não
um que seja verdadeiramente seu para relacionar-se com
É precisamente na mulher que tem uma relação o inconsciente e com o mundo exterior. Sua identidade
pobre com a mãe que o arquétipo do si mesmo primeiro baseia-se em adaptações da persona àquilo que o animus
se constela, naquela que tende a buscar sua plenificação lhe diz que deve ser feito; assim, ela a um só tempo se
através do pai ou do homem amado. Pode tratar-se de adapta às projeções que lhe impingem e se rebela contra
uma mulher sem nenhuma relação com o mito de Coré- elas. Conseqüentemente essa moça quase não tem o
Deméter, pois "não pode acreditar", como uma delas me senso do seu próprio nÍrcleo pessoal de identidade, do
colocou, "que alguma mãe estivesse ali para confortá-la valor e de um ponto de vista femininos. Isto se dá por se
e lamentar", caso ela desaparecesse por uma fenda aber- terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais,
ta na terra. Ela pode ter uma experiência intensa na virtudes que freqüentemente apenas se definem por sua
vida sexual, mas falta-lhe o lastro de uma conexão ego-si relação com o masculino: a mãe e esposa fecunda e
?nesmo sólida. Uma mulher expressou isso quase como bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a compa-
um'manifesto no começo da análise: nheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhan-
te. Como tantas escritoras feministas declararam pelos
"Eu insisto em ter o carinho de um homem. Qual- tempos afora, esse modelo coletivo e o comportamento
quer fonte feminina me enfurece. O homem é res- daí resultante é inadequado paÍa a vida; nós nos muti-
ponsável pelo universo. As mulheres não passam de lamos, despotenciamos, silenciamos e enfurecemos, ten-
um segundo lttgar. Odeio túneis, Kali, minha mãe tando comprimir nossos espíritos dentro dele, na certa
e este corpo de mulher. O que eu quero é um ho- exatamente como nossas avós deformaram seus corpos
mem". §ensíveis dentro de espartilhos, por causa de um ideal
ll.

Qtrem fala assim é uma mulher jovem que estava


'' 11 Ver, por exemplo, de Tillie Olsen, SiÍezces; de Adrienne
Rich, Ol Wcman Born e On Lies, Secrets and Silences; de Ca-
em terapia porque, embora fosse considerada uma aluna rolyn lleilbrun, Reinventing Womanhood e, de Dorottry Diner'
excelente, nesse momento encontrava dificuldades para §tein, The Mêrmaid and the Minotaur, Vale a pena assinalar crue
redigir sua tese de doutorado. mesmo Toni Wolff em seu ensaio "Structural Forms of the Fe-
ntinine Psyche" (Zurique, 1946 que pode ser encontrado em
O problema é que nós, mulheres muito feridas na quase todas as bibliotecas cle-Centr:s Junguianos) explica as
relação com o feminino, quase sempre temos uma per' ehtegorias Mãe, Amazona, Hetaera (n. da Ti.: Grego, "hetetra",
mülher dissoluta, cortesã corripanheira), e Mediadora basicamen-
sona miuito eficiente, uma boa imagem pública. Cresce- tc em relação ao masculino. Embora válida, essa terminolcgia
mos como filhas clóceis do patriarcado, freqüentemente dêve ser entendida mais introvertidamente, significando cuidados

20 2l
curar algumas das feridas psicológicas que existem em intelectuais e dotaclas daquilo que denominei "egos-ani-
mim, em minhas amigas e companheiras, e nas mulheres flxus". Lutamos por defender as virtudes e ideais estéti,cos
sem mãe com as qtrais trabalho em terapia. Todas nós a. nós apresentados pelo superego patriarcal. Mas enche-
crescemos sob o patriarcalismo e lutamos com proble- mo-nos de auto-rejeição e de uma sensação profunda de
mas semelhantes. O material clínico a ser usado neste li- feiúra e fracasso quando não conseguimos satisfazer nem
vro vem de experiências e sonhos que são meus, .de mi- aliviar as exigências de perfeição do superego.
nhas amigas e de minhas analisaridas. Uma mulher com mais de dez anos de análise jun'
guiana me disse há pouco tempo: "Passei anos tentando
relativizar uma coisa que nunca tive: um ego verdadei'
Filhas do patriarcado ro". Realmente, ela tem apenas um ego-animus, e não
um que seja verdadeiramente seu para relacionar-se com
É precisamente na mulher que tem uma relação o inconsciente e com o mundo exterior. Sua identidade
pobre com a mãe que o arquétipo do si mesmo primeiro baseia-se em adaptações da persona àquilo que o animus
se constela, naquela que tende a buscar sua plenificaçâo Ihe diz que deve ser feito; assim, ela a um só tempo se
através do pai ou do homem amado. Pode tratar-se de adapta às projeções que lhe impingem e se rebela contra
uma mulher sem nenhuma relaçáo com o mito de Coré- elas. Conseqüentemente essa moça quase não tem o
Deméter, pois "não pode acreditar", como uma delas me senso do seu próprio nÍrcleo pessoal de identidade, do
colocou, "que alguma mãe estivesse ali para confortá-la valor e de um ponto de vista femininos. Isto se dá por se
e lamentar", caso ela desaparecesse por uma fenda aber- terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais,
ta na terra. Ela pode ter uma experiência intensa na virtudes que freqüentemente apenas se definem por sua
vida sexual, mas falta-lhe o lastro de uma conexão ego-si relação com o rnasculino: a mãe e esposa fecunda e
tnesmo sólida. Uma mulher expressou isso quase como bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a compa-
um'manifesto no começo da análise: nheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhan-
laÁ
te. Como tantas escritoras feministas declararam pelos
.tru lnsrsro em ter o carinho de um homem. Qual- tempos afora, esse modelo coletivo e o comportamento
quer fonte feminina me enfurece. O homem é res- daí resultante é inadequado para a vida; nós nos muti-
ponsável pelo universo. As mulheres não passam de lamos, despotenciamos, silenciamos e enfurecemos, ten-
um segundo lugar. Odeio túneis, Kali, minha mãe tando comprimir nossos espíritos dentro dele, na certa
e este corpo de mulher. O que eu quero é um ho- éxatamente como nossas avós deformaram seus corpos
mem". §ensíveis dentro de espartilhos, por causa de um ideal11.
Quem fala assim é uma mulher jovem que estava ll Ver, por exemplo, de Tillie Olsen, Silences.; de Adrieme
Rich, Ol Wõman Born e On Lies, Secrets and Silences; de Ca'
em terapia porque, embora fosse considerada uma aluna rolyn Fieilbrun, Reinrtenting Womanhood e, de Dorot§ Diner'
excelente, nesse momento encontrava dificuldades para §teín, The Mêrmaid and the- Minotaur, Yale a pena assinalar oue
redigir sua tese de doutorado. mesmo Toni Wclff em seu ensaio "Structural Forms of the Fe-
rninine Psyche" (Zurique, 1946 que pode ser encontrado em
O problema é que nós, mulheres muito feridas na ouase todâs as bibliotecas cle-Centrcs Junguianos) explica as
relação com o feminino, quase sempre temos lma per- iategorias Mãe, Amazona, Hetaera (n. da Tr.: Grego-, "hetera",
nrutf,er dissoluta, cortesã corripanheira), e Mediadora basicamen'
sona rn:uito eficiente, uma boa imagem pública. Cresce- te em relação ao masculino. Embora válida, essa te-rminolcgia
mos corno filhas clóceis do patriarcado, freqüentemente deve ser entenclida mais introvertidamente, significando cuidados

20 2t
Nós também nos sentimos ignoradas por não haver seja mulher), na época das histórias escritas, já se havia
imagens vivas que reflitam nossa inteirezá e variedade. efetuado uma despotenciação e divisão arquetípica do
Então, onde deveremos procurar sÍmbolos que expres- arquétipo cia deusa. A Grande Inana fora dividida de
sem o pleno mistério e força do feminino, oird" buscar vários modos, incluindo os aspectos do mundo superior
modelos para imagens de vida pessoal? As " deusas gre- e os do inferior. Havia, assim, a necessidade de cami-
gas tardias e Maria, Virgem Mãe e Medianeira, não me nhar através das cluas regiões para restaurar o sentido
atingiram o âmago tão intensamente quanto Ereshkigal- de totaiidade criativa e abranger os intercâmbios rÍtmi'
-Inana, Kali e Ísis u. A imagem da deusa enquanto si cos da vida. Inana, a Rainha do Céu, foi, talvez, a primei'
mesmo deverá..ter uma coerência plenamente incorpora- ra iniciada, da qual se tem registro escrito, a submeter'
da. Assim, tive que considerar as divindades femiiinas -se, a tal aventura.
gregas como aspectos parciais de um modelo de totali-
dade, e procurar sempre as forças sombrias ocultas em
suas histórias: o aspecto de Gorgônia em Atenas, a sub-
terrânea Afrodite-Urània, a Deméter Negra etc. Quatro perspectivas do mito
Mesmo nas histórias de Inana, e em outros escrios A descida e retorno de Inana do mundo de Ereshki'
primitivos dos sumérios e egípcios, fica evidente o fato gal pode ser vista pelo menos de quatro Pontos de vista.
de que as potências originais do feminino foram "re-' Em primeiro lugar ela serve como imagem rítmica da
freadas". Segundo Kramer, "as deusas que detinham a ordem da natureza: a vegetação sazonal, a diminuição e
sup-remacia no panteão dos sumérios foram gradualmen- a fartura dos silos 16, a transformação dos cereais e da
te forçadas pelos teólogos a descerem as eicadasn 13, ê uva pela fermentação, bem como as alternações do pla-
suas forças, atribuíclas então a deuses masculinos, o que neta Inana (nosso Vênus). Ele fica no céu como estrela
abriu espaço ao aparecimento da consciência apolínia, da manhã ou da tarde por 250 ou 236 dias respectiva-
característica do lado esquerdo do cérebro, e definida mente, e então por um certo período parece afundar
por suas discriminações éticas e conceituais la. no horizonte, em frente ou atrás do sol, vindo a ressur-
Isto significa que a divindade criadora inicial foi gir do outro lado da noite.
cliferenciada, partida em diversos aspectos. Na Suméria, Em segundo lu-gar, trata-se de um processo de ini-
a deusa do mar, Namu, gerou várias divindades, e a ter- ciação nos mistérios. Existe uma passagem para dentro
ra foi arrebatada ao céu, assim como "Ereshkigal foi e para fora do mundo inferior, mais tarde denominada
carregada para o kur (palavra que significa Mundo In- porta de Inana-Ishtar. Outros que empreenderam a jor-
ferior, deserto, mato, local desolado)-como prêmio" 15. nada para tornarem-se conscientes do mundo subterrâ-
Mesmo na Suméria Antiga (embora a deusa da escrita neo, tàmbém foram aconselhados a passar por ela 17. A
ipassagem de Inana e seus diferentes estágios podem, por
maternos.,.companheirismo e capacidade de funcionar mais como
intermediárias de nossas profirnCezas psicológicas do que de isso, óf"."cer um modelo parâ a descida em busca de
parceiros do mundo exterioi. lrlrais vida no abismo da deusa escura e, a seguir, pata
l2_Ver, de David R. Kingsley
- _ , The Sword. and the Flute;
e, de^leverl9v-labrilB, "Isis, Ãncíént Goddess, Modern Woman,í. f;etornar ao rnundo. In.ana mostra-nos o caminho, sendo
13 Samuel Noah Kralqer, From the Poetry of Sumer, p. 27ss. a primeira a sacrificar-se por uma sabedoria feminina
la Erich Neumann. The Origins and Hístory of Coiscious-
ness; e Edward C. Whitmont, '"The Momentum of 'man,,. ,, to Jacobsen, p. 623.
15 "Inanna and the Hultrppu Tree", de Wolkstein e Kramer.
17 Heidel, p. 134.

22 23
profunda, e por reclenção. Ela desce, submete-se e morre. trabalho no plano astral da magia, bem como da
Essa abertura a ser trabalhada é o núcleo central da ex- terapêutica (tanto para o homem quanto para
periência da alma humana, confrontada com o transpes- ). A necessidade de tal aventura é o combusti
soall8. Ela nâo se baseia na passividade, mas numa ãis- que alimenta o interesse atual pela psicologia da cria'
posição ativa de receber. dade e pelos estágios primitivós pré-edipianos do de'
O.processo de iniciação nas tradições esotéricas e olvimento do homem e de suas patologias'
místicas do Ocidente envolve a exploração de diferentes Ligar-se a esses níveis de consciência exige sacrifício
modalidades de consciência e a redescoberta da experiên- urf,""tot do mundo superior do si mesmo em favor
cia de unidade com a natureza e o cosmos, o que inevita- árp""tot obscuros, difãrentes e de estado alterado'
velmente é perclido com o desenvolvimento do sentido ,ifiãa sacrificar-se em favor de uma base de ser re-
de objetividade. Esta necessidade para os que estão ida e indiferenciada, na esperança de renascer com
-
a ela clestinados força-nos a mergulhar ftrndo !.ru r"r- percepção mais profunda e ressoante' É retornar'
gatar modos de consciência diferentes dos níveis intelec- ágotu'dL posse dàssas ressonâncias, integrando-as à
tuais e de "processos secunclários" que o Ocidente soube :iãncia cérebro-mentalizada comum do Ocidente, for'
tão bem refinar. Ela nos força a enfrentar as profun- o o que Jean Gebser chamou de consciência inte-
dezas arcaicas carregadas de emoção e dimensões mági- P. Considerada a partir dessa perspectiva, a descida
cas, que são incorporadas, cheias de êxtase e transfor- Inana é a revelação de um ritual iniciático diretamen-
mação. Essas profundezas são pré-verbais, freqüente- relevante para a experiência feminina de nossos-dias'
mente antecedem a imagem e são capazes de nos arre- l"-êãÃ"ã"ã"tà*""tê, o mito também é a descriçãotan' de
batar e sacudir até a medula. m padrão de saúde psicológica para o feminino -
A esse nível recebemos o senso da força cósmica e nas mulhe.., qrráoto nos homens' Ele oferece um
una; ai somos tocacÍos e, através da intensidade de nos- Jelo do ritmo dã encarnação-ascensão da alma .s-adi1'
sos afetos, aprendemos que existe um processo vivo de §-f.Ãúe*, á" "* processo que promove a cura' "A aI-
equilíbrio. A esse nível o ego consciente é esmagado pela reeiõ-es,:t1*::t::t:
#;-;; á;s20.es]relas e retornaaasdescida
paixão e por imagens numinosas. E, embora abalados, ãiãt" lr.rrg Como veremos, de Inana pode
clestruídos mesmo enquanto nos conhecemos, somos rea- l[r consid"erada como â encarnação de forças cósmicas
glutinados numa nova concepção e devolvidos à vida co- H"o"t.ãfÀreis na carne temporal e corruptível' mas é
mum. Essa viagem é o objetivo dos mistérios iniciáticos iã*Ue* uma descida com o propósito de resgatar valo-
i'ãt fra muito reprimidos, e de unificar o superior e o
18 Talvez a alma seja consideraCa feminina porque tantas inferior num novo Padrão.
e-xpgriências femininas d.o ego-corpo estabelecem - a penetração Vejo-me freqüentemente orientada por esse mito em
dC fronteiras dentro e fora áe si 'mesma (menstruaçâo, ato'se- pro"etõot analítiõos profundos, pois ele mostra' por ana-
xual, amamentaçãg). Essa experiência corporal prepara o ego
para a sua capacidade de sofrer a ação, de deixàr que outrem ilõ-;;;- o id"al' conscientJ da personalidade (que
exerça influência sobre ele. E essa penetraçáo é análoga à da p-o-áãtiu*", chamar de ideal do ego-, ou ego-animus .hli-
alma pelo divino. Em muitas culturas compâra-se o fiel a uma superego), quando {erido
rroiva otr esposa da divinclade. Os homens §ão induzidos a igua- iàrt.ofi"o, por ser guiaclo pe\opela
Iarem-se a Radha, ou à noiva de Cristo para, assim, subrnete- ãà t"t cortado de síras raíies desvalorização da ma'
rem-se à divindade transpessoal. Em outras culturas as mulheres World"'
tambem cuidam das ftrnções alimentares e excretoras. Há uma 19 Jean Gebser, "The Foundations of the Aperspective
analogia entre essas atividades "relaixantes" e a atenção cuida-
dosa da alma a fim de receber o numinoso superior e ô inferior. ;i§i,zr;:2f n,;ü*lj;fl ?f ,tíiit'*,1,'3".Ift:"'a"il
",,'!,:;,f 25
24
téria e do feminino, pode aproximar-se das realidades
<rbscuras da terra e do inconsciente. E ele o faz artan-
cando lentamente as cascas de defesa e de identificação
com a persona, numa regressão controlada àqueles ní
veis de processos primários e iniciais, onde nos esperam
a morte de padrões inadequados e o nascimento de um 2
ego autêntico, váUdo e equilibrado. O mito também nos
mostra como os níveis reprimidos. e sombrios podem Osuperioreoinferior:
ser elevados e entrar na vida consciente através de mu- qualidades do feminino
clanças violentas e sofrimentos para transformar radi-
calmente os padrões. de energia consciente.
Finalmente, essa história pode proporcionar alguma
orientação nos perigos de nossa era, quando as forças
da deusa retornam à cultura ocidental. De início, o re- Inana
torno de Inana do mundo inferior foi demoníaco (apesar
de ter restaurado a fertilidade da terra, estéril durante a :14 deusa Inana, cujo nome semÍtico é Ishtar, apresen-
sua ausência), embora, ao final, como o leio agora, ela üma imagem simbólica multifacetada, um modelo de
tenha engendrado um novo modelo de relacionamento do feminino que se proteja para além do as-
igualitário e de camaradagem entre o homem e a mulher meramente maternal. Outras deusas da Suméria
(ver cap. 9). iàm grandes mães do mar e da terra. Ao assumir em
O nosso planeta passa por uma fase o retorno da iu culto o símbolo do duplo eixo das divindades anti-
deusa que foi pressagiado nesse mito. Na - época de seu s, Inana combina céu e terra, matéria e espírito, reci-
surgimento a ênfase centralizava-se na descida da deusa, e luz, generosidade telúrica e orientação celestial.
na perda de suas energias e símbolos para a cultura, e origem talvez ela estivesse ligada aos grãos e aos si'
no resgate subseqüente desses valores simbolizados em comunais enquanto recipientes, aos armazéns de tâ'
Ereshkigal. O munclo atual poderá presenciar a circulatio rnaras. cereais e otrtros víveres. Entre os seus emblemas
completa, pois, graclativamente, uma extensão enorme do rtais antigos incluem-se essa casa de armazenamento e
feminino foi sendo reprimida, e já está há muito tempo rm laço ou trouxa de tecido, feitos talvez das fibras
no mundo inferior. que fechavam as portas dos silos, sendo o deus tâmara
um de seus mais antigos noivos divinos 21. Dessa forma
I deusa se manifesta, do mesmo modo que Deméter e
ieriduwen, como nume de fertilidade impessoalz.Diz'se,

26
numa que cle seu útero jorravam cereais e le_ da vida cortada de seu jardim por Gilgamesh) zl.
-canção,
gumes23. consorte ela dá o trono, o cetro, assessores, o báculo
Desde o início ela também aparece impressa em la_ a coroa, bem como a promessa de boas colheitas, jun-
cres e vasos antigos como deusa celestial, representada te com as alegrias de sua cama.
por uma estrela. Enquanto deusa de chuvas suaves e ter- Mas Inana também é a deusa da guerra. À batalha
ríveis tempestades e enchentes, bem como do céu carre- a "dança de Inana" e ela, ao conceder a vitória, "é o
gado (cujas nuvens são seus seios), é chamada rainha orta-flechas sempre à mão.. . o coração da batalha,
do céu e considerada esposa de An, o antigo rei sol. ,.o braço dos guemeiros"ã. Mais apaixonada do que
Irrana é também, desde tempos antiqüíssimoi, a deusa (por ser dotada das energias dos instintos sefva-
da imprevisível e ra.diante esirela da manha e do entar- mais tarde atribuídos a Ártemis), a deusa é descrita
decer, despertando a vida e fazendo-a dormir, controlan- hino como "onidevoradora na força.,. atacando co-
do as temas das fronteiras, chamando o deus sol, seu a tempestade agressiva", mostrando um "rosto assus-
irmão, ou ô-deus lua, seu pai, para a atividade ou o r" e um "coração teroz" 26. E é com profundo gozo
repouso. Ela representa as regiões limítrofes e interme- ela canta suas glórias e proezas: "O céu é meu, a
diárias, e as energias impossíveis de conter ou definir, ra é minha. Sim. Eu sou uma guerreira. Haverá um
das quais não se pode tei certeza ou segurança. Não se s que possa enfrentar-me?"27 "Os deuses não passam
trata do feminino enquanto noite, mas muito mais da pardais; eu sou falcão; os Anunaki (deuses) capen-
s-imbolização da consciência da transição e dos limites, por aí eu sou uma magnífica vaca selvagem" 28.
dos lugares de intersecção e passagem que implicam
-
mito apresenta-a lutando com o dragão do kur e
criativrdade, mudança e todas as alegrias e dúvidas pe- rtando-o. Entre os animais Inana tem por companheiro
culiares a uma consciência humana fléxível, lúdica e nln- leão, e sete deles puxam sua carruagem. Em alguns
ca estável por longo tempo. antigos um escorpião aparece ao seu lado.
É de modo igualmente apaixonado que ela se apre-
Sob a forma cle estrela do entardecer, Inana con- como a deusa do amor sexual. Entoa canções de
Erega a corte pela época da lua-nova para ouvir os pe- lse, enquanto se enfeita e fala do desejo e das delícias
didos clos deuses, e para ser celebrada cóm música, fesias fazer amor. Clama pelo consorte e amado, seu "ho-
e encenações de batalhas sangrentas. Ela reclama o eu: de mel", que "sempre me acaricia" 29, atraindo-o
os princípios ordenadores, as potências, talentos e ritos o seu "colo sagraclo" para desfrutar-lhe as delícias
do mundo civilizado e superior. Enquanto juíza, con- doras de vida e a ternura sexual em seu leito de
grega a corte para "decretar o destino" e "tripudiar so- sagradas. Mais extrovertida que Afrodite, quer e
bre o transgressor", simbolizando a capaçidaaã do senti-
mento de avaliar periódica e rejuvenescidamente, e que 2a Devido à sua ajuda humana e heróica Gilgamesh recebe
recompensa o p.tkku e o mikku, distintivos reais que mais
acompanha o senso da vida como um processo de mu- caem no mundo subterrâneo e ocasionam-lhe o conheci-
tação. da mortalidade (cf. introdução aos trabalhos de Wolkstein
amer, para a discussão mais ampla dessa lenda, "Inanna
Como rainha da terra e sua fertilidade, ela demama the Huluppu Tree").
realeza sobre o mortal escolhido para ser o pastor do 25 Jacobsen, p. 137.
povo, e o acolhe em seu leito e trono (feitos de uma 26 Kramer, Poetry of Sumer, p. 88,
27 lbid., p. 97.
28 Jacobsen, p. 138.
23 Kramer, Poetry ol Sumer, p, 94. 29 Kramer, Socred Marriage Rite, p. 96.

28 29
arrebata,-deseja e destrói, para
depois sofrer e compor Embora tenha dois filhos, e o povo e o rei da Suméria
canções de lamentação. Inana nem sempre desperta -um sejam considerados sua progênie, ela não é maternal,
desejo interior; o qlre ela faz é reclamar suas necessida- segundo o nosso uso do termo. Como Ártemis, ela se
des afirmativamente, e celebrar o próprio corpo em can- enãontra na "região liminar, a meio caminho entre a ma'
ções. Trata-se de_uma receptividade ativa. Ela clama pelo ternidade e a vúgindade em sua ioie de vivre, e mais a
preenchimento do co{po, cantando louvores à sua uülua, mescla de desejoã assassinos, de fecundidade e animali'
convidando Dumuzi para o leito para.,Arar minha vulva, dade" 33. Trata-ie de uma puella quintessencial e positiva,
homem do meu coração" 30. por i-sso Inana é considerada uma virgem-prostituta eternamente jovem, dinâmica e in'
a deusa das cortesãs, a prostituta que ..chama os homens tensa (ã, ,rôt t"r*os de Esther Harding, "una -em .si
de dentro das tavernas" ao levaniar-se no céu como es- ,*ar*ui'). Inana jamais se apresenta como esposa domés'
trela da tarde. E, uma vez no céu, é chamada de noiva e tica e máe estabiÍízada clentro do patriarcalismo. A deusa
esposâ, hieródula (suprema sacerdotisa e prostituta ri- mantém sua independência e magnetismo como amante,
tual) dos deuses. jovem esposa e ,ii,ru. E não é a amante dos próprios
propicia a cura, é fonte de vida, compõe canções Íilhot. Esia função e conceito me parecem uma invenção
-Fla
diz-se que as faz nascer, sendo criativa ern todoà os
-aspectos. E o desencadear das emoções também está na do patriarcalismo e de tempos em-que a mulher estava
enfiaquecida, vivendo sua potencialidade sobre rebentos
sua dependência: .rnut"rrliros amados e invejados s.
Entretanto, apesar de todo o poder enquanto
Infernizar, instrltar, escarnecer, profanar e vene- deusa da fertilidadã, ordem, guerra, amor, bem como do
rar eis o teu clomínio, Inana. - céu, da cura, das emoções e da catÇão; apesar-de osten-
-
Depressão, calami«lacle, mágoa e tar o título de Senhora dos Mil OfÍcios e Rainha, Inana
tação - alegria e exul-
eis o teu domínio, fnana. é uma errante. Como Ereshkigal, ela foi destronada por
Tremor, -susto, apavoramento e deslumbramento
e glória - fnana... 3l
eis o teu domínio, 33 Kerényi, "Kore", de Jung e Kerenyi, Science o'f Mythology'
- p. 105.
34 Inana descreve os seus dois filhos desta maneira: um "qtte
Inúmeros poemas retratam-na apaixonada, ciumen- ti"ôãpãiã mi'rr / Que rye corta.as.unhasÉeome afaga os
ta, ressentida, alegre, tímida, exibicionista, sorrateira, "rrt.
;;ü;irJ^;-,rã-;;d;
-/ é'o ii".r braço.direito: I meg.b1a5o
exaltada, ambiciosa, generosa, e assim por diante: toda ;;;;á" E-o ,i,ot iia"i; lwolkslein e Kramer, p' óóó7)' Eles
;àH;àã""h;ü.:'É-;il;; "à;iúü d" qu-e não sêrão destruídos
a gama de aíetos pertence à deusa. pelos
-ú-*"ri,demônios no d;;-r-í"'-ú:;"iau'^ Sett consorte amado-- é
Com freqüência Inana é descrita como ,'filha dos q"" nao é sãtl]iÉ".-É ? ele que, nc fim, Inana escolhe
para mandar para o *""ããi"ut"rrâneô em seu lu-gar' Em alguns
deuses" e "donzela" e, na verdade, na época em que seus ã;ãr".r(riáme'r,
ela aparece referindese a Dumuzi
últimos hinos foram escritos, a deusa, da mesmà forma
ilil;;;põ;d;; - S acred Mariage
ãoãã' " riIt §!t_", - _?:
.

que Atenas, é freqüentemente vista como ',condicionada õõ-sil, *"t "5isto"ü-.;ir*a";-


-Jíilaã; parece simpiesmente ser um uso específico-que
iara indicar
pela ligação paterna" 32, embora alguns poemas sugiram ; r*"ã- a", táiíõr- âá-c-onsangüinidade
que ela tenha uma ligação próxima e alêgre com a mãe.
#";;iã;ãá ;;;id;i ",í;;;"itó. 1áis áíelativos ramiliares sáo
pela antropologia
ãàffi#tr"s;fiã;i;'G''á"'ú-ãtZ* qtt" "á"t'"tiao'
It"t'u chania de
tribal) e é pela *".*à"iurãó- EreshkigalqYe
ro Ibid., p. 59.
;i;;; *"t i,;úu". l"à"u ã i rdais antigaséu
'álrtrlrã,
grande deusa de
têiiiàl ã'iu"iiriô"r um amanre Qfg lusar. Trata-se do
3l Jacobsen, p. l4l. rei anual. Mas o ,"i Àiiur*"ã;ffiã iiit".(ver t dmortal amado,
32 Karl Kerényi, Athene Virgin and Mother, p. adiante' cap' e)'
45. àü"-íii-ãrái;"ã"-tis,r"t-ãa;;ó; à d"uta
30 31
Enlil, deus celeste da segunda geração. Inana encontra- Na verdade, muito do que Inana simbolizava para
-se profundamente enraizada no substrato patriàrcài. sumérios foi exilado desde aquela época. Muita§ das
|I1s.. da p_erspectiva - do patriarcado, cujo porta-voz ualidacles ostentadas pelas deusas do mundo superior
é Gilgamesh, Inana-Ishtar é volúvel, porr"ã cúfiável e ram dessacralizadas no Ocidente, assumidas por divin-
causa certa de sofrirnento para seus amados consortes 35. masculinas e/ou extremamente comprimidas, idea-
Por isso Gilgamesh, que oiiginalmente lhe dá sua força pelb código moral e estético do patriarcado. É por
humana para construirJhe ã leito e o trono ile cumpii- que a maioria das deusas gregas foram engolidas
cidade, volta-se contra ela e insulta a deusa da terrà a seus pais e a deusa hebraica foi despotenciada. Resta-
fim de usurpar-lhe o poder. Num canto lamentoso Inanà -nos apenas deusas minimizadas ou restritas apenas
queixa-se a Enlil sobre a perda de sua casa: determinados aspectos. E muitos dos poderbs antes
tados pela deusa perderam a conexão com a vida
Eu, a mulher que ele encheu de temores. . . mulher: o feminino apaixonadamente erótico e lúdi-
Encheu a mim, a rainha do céu, de consternação.... ; o feminino multifacetado dotado de vontade própria,
Eu, a mulher que vai de uma extremidade à outra icioso, real.
da terra diga-me, onde é minha casa.
Diga-me, em - que ciclacle poderei viver. . . Na verdade, as mulheres têm vivido apenas no do-
Eu, tua filha... a hieróclula, a noiva dele, io pessoal, na periferia da cultura do Ocidente, em
diga onde é minha casa.. . fortemente circunscritas, freqüentemente subor-
O pássaro tem um ninho, mas eu minha ninhada a homens, posição social, filhos etc., ocultando
foi dispersa, - necessidade de pocler e paixão 38, vivendo em segu-
o peixe descansa em águas calmas, mas eu _ meu e.secundariamente na relação com nomes sobre-
lugar de descanso náo existe, , nos quais se projetou todo o poder que a
o cachorro se deita na soleira, mas eu tura legitirna para eles. O que, entáo, se tornou com-
soleira para mim... 3ó - não há nto coletivamente aceitável para as mulheres, per-
a conexão com o sagrado, ao mesmo tempo em que
.
A canção pode ter sido escrita para lastimar alguma restatpra natural da deusa era reduzida. Tornou-se ca-
catástrofe no seu templo principal, àm Erech. Mas, á um vez mais hipertrófico o superego patriarcal, original-
nível mais profundo, esta é ialvez a declaração mais te necessário para inculcar a sensibilidade ética; a
antiga e pungente da condição da deusa e mulher como , esse superego foi fortalecido pela Igreja cristã
exílio. Assim como as últimas esposas babilônicas de itucional, com o fim de disciplinar as emoções tri-
Israel, expulsas de suas casas pelõ patriarcalismo 37, a e selvagens do mundo medieval3e. A partir do apa-
grande deusa pré-babilônica também conhece e canta o to do Utilitarismo e do Vitorianismo, o superego
expatriamento. De fato, a busca de um lar é um dos te- imiu e regressou tanto essas energias vitais, que
mas recorrentes nos sonhos do inÍcio do trabalho analí_ elas têm que irromper, forçando, entre outras coi-
tico de muitas mulheres, filhas do patriarcalismo. , o retorno da deusa à cultura ocidental.
35 Heidel. p. 50-52. 38 Cf . Woman, C4lture and Society, Michelle Zimbalist Rosal'
f! §rqmer, ?getry of Sumer, p.92.
37 Esdras 10,3-43.- e Louise Lamphere.
39 Edwar C. Whilmont, em trabalho a ser publicado.

32 33
. Camlnho para a iniciação
Pela repressão, â alegria do feminino foi rebaixada para aquelas que são incapazes de relacionar-se com um
como mera frivolidade; sua sensualidade alegre foi di- Deus masculino. O sofrimento, a perda das vestes, a hu_
minuída como coisa de prostituta, ou então, sentimenta- mr]hação, a flagelação de Inana, ás estações de sua des-
lizada e maternalizada; sua vitalidade foi curvada sob o cida, a "crucificação" no poste do mundo inferior, a
peso das obrigações e cla obediência. Foi essa desvalori- ressurreição: tudo prefigura a paixão de Cristo, represen_
zaçáo que geroLr as filhas desenraizadas e subterrâneas t-an_do, talvez, a primeira imagem arquetípica da divin-
do patriarcalismo, separanclo a força feminina da J'ai- dade agonizante, cujo sacrifício redime à te.ra devas-
xão, tornando setrs sonhos e ideais um céu inatingível, tada. Não foi pelos pecados da humanidade que Inana
mantidos pomposamente por um espírito que soa falso se sacrificou, mas, sim, pela necessidade de vida e de
quando comparado aos padrões instintivos simbolizados da terra. Ela está mais relacionada à terra
pela rainha do céu e da terra. O que também produziu ,do que ao bem e ao mal. Sua descida e retorno ofere-
fúrias frustradas, pois Inana inclusive é freqüentemente rcem, lodavia; um modelo para nossas próprias jornadas
demoníaca, quando vive inconscientemente em mulheres psicológico-espirituai s.
reprimidas pelo patriarcado. A descrição que a atriz June
Havoc faz das mulheres de sua família mostra um qua-
- E, diferindo da história de Cristo, em que os atos
destrutivos perpetrados contra o Salvador eiu* o pro-
dro da ebulição das energias reprimidas e fermentadas uto da pura malícia e medo humanos (sendo, urii*,
da deusa: de oferecer, muito humanamente, um modelo de
Lça e do uso de um bode expiatório), no poema
Todas as mülheres da (nossa) família... tinham io eles partem de uma fonte transpessoal. Assim
ambição, força e uma amarga independênciai ca- destrói, a deusa também pode redimir. E isso nos
a algumas considerações sobre Ereshkigal a irmã
savam-se cedo, e logo vinha o divórcio. Finalmente -
entregavam-se ao álcool, às drogas e à loucura. Elas
ria de fnana.
queriam liberdade total, e não sabendo como ir à
luta para alcançâ-la, acabavam horrivelmente frus-
tradas. Os homens, para elas, não passavam de uma a deusa escura
conveniência; nenhuma tinha a capacidade de des-
A outra deusa maior deste mito é Ereshkigal, rainha
frutar o amor 0.
mortos e do mundo subterrâneo. Seu nome significa
da Grande Habitação Inferior". Mas antes de
Por outro lado, quando vivida conscientemente em relegada ao kur, o lugar estrangeiro fora da cons-
sua funçáo de feminino exilado e sofredor, a deusa Inana patriarcal, ela era uma deusa dos cereais, e mo-
proporciona a imagem da divindade, talvez, portadora na parte superior 42. Simboliza, dessa forma, a Gran-
do sofrimento e redenção das mulheres modernas. Mais Esfera da natureza: acima, cereais e crescimento;
próxima, para muitas cle nós, do que o Cristo da lgreja,
xo, sementes e morte para brotar de novo. Para a
ela sugere um padrão arquetípico capaz de dar sentido ciência matriarcal ela representa o continuum, no
à busca feminina al, podendo suplantar o mito cristão estados diferentes são experimentados simplesmen-
40 New York Times, 12 de agosto de 1980, p. 67. a Íransformação de uma única energia. Para o
41 Cf. C. G. Jung, "A Vida §imbólica" ín Obra Completa, v. 18,
parágrafos ó30ss, 42 Jacobsen, p. 99.

34 35
patriprcado a morte representa a violentação da vida, O poema que descreve a descida de Inana nos diz
uma brutalidade a ser temida e controlada, tanto quan- da primeira clas violentações de Ninlil-Ereshkigal
to possível, por meio da distância e da ordem mental. por Enlil, produziu-se Nana-Sin, o deus lua, nascido no
Um mito narra os fatos que levaram ao nascimento ndo inferior antes de levantar-se para iluminar a es-
do deus lua; nele, essas duas perspectivas são apresen- dão e medir o tempo com seus ciclos crescentes e
tâdas lado a lado, pois, no mundo superior, Ereshkigal, Nana-Sin, na verdade, é pai de Inana (e tam-
enquanto deusa dos cereais, era conhecida comô Ninlil, do deus sol). Conseqüentemente a mãe dele, Nin-
e chamavam-na esposa de Enlil, o deus sol da segunda reshkjgal, é a avô de Inana nessa genealogia um
geração. Nessa conclição, a deusa foi repetidamente vio- to do feminino incontido e primário, que foi - vio-
lentada pelo marido, oculto em vários disfarces a3. Em , abatido, e que, mesmo assim, continua a produ-
solidariedade à jovem Ereshkigal, os deuses puniram frutos. Ereshkigal tornou-se um símbolo da morte
Enlil pela violência pqrpetrada e mandaram-no para o ra para o patriarcado, e foi banida para o
mundo inferior. Por amor ao parceiro, Ninlil seguiu-o bterrâneo. Mas, mesmo assim, o corpo do poema re-
aLé lâ, tornando-se, aí, conhecida como Ereshkigal. Enlil bra sua força arcaica, e o último verso ensina a sua-
continuou a aparecer como deus sol e regente do céu, dade de vir a conhecê-la enquanto símbolo da Grande
mas é possível que também tenha assumido outra for-
ma subterrânea. Assim como o Zeus subterrâneo era
denominado Hades 4, Enlil pode muito bem ser o Guga-
lana do mito de descida, o grande touro do céu, o ma- de Ereshkigal
rido de Ereshkigal que foi morto.
Do ponto de vista do patriarcado, a violentação da
deusa estabelece o domínio masculino sobre a vida cul- : Diz-se que as outras violentações geraram monstros.
tural consciente (e, talvez, sobre a agricultura), relegan-
cln o poder feminino e a fertilidade ao mundo inferior.
 Grande Esfera produz uma caótica armadura de guer-
que é monstruosa para a visão do mundo heróico e
Assim, quando o deus An arrebatou o céu e Enlil domi-
nou a terra, tendo a consciência seu espaço para cres- iiatriarcal com sua ênfase sobre a ordem e o controle
Ereshkigal desafia a consciência diferenciada.
cer, então "Ereshkigal foi tomada como prêmio pelo gran-
é paradoxal, senclo a urn só tempo vaso e viga. É a
cie inferior" 45. Mas na persrrectiva da consciência mági-
de tudo, onde a energia encontra-se inerte e a cons-
co-matriarcal a deusa não é um prêmio para ser arreba-
ia dorme encolhida. É o lugar onde a vida potencial
tado à vida; nem é a morte uma violentação e destruição
imóvel (mas em dores de parto), abaixo de toda a
da vida, mas, sim, uma transformação à qual, como o
grão ao ceifador, a deusa de boa vontade se entrega, e capacidade de distinção, mas mesmo assim
e agindo. É a energia banindo a si mesma para
mas comandando o processo 6. ''mundo subterrâneo, espantosa clemais para ser fitada
a3 Samuel Noah Kramer, Siltnerian Mythology, p. 4347. as experiências primárias da infância e a escuridão
aa Kerényi, "Kore", in Science ol Mythology, de Jung e Keré- tp*"
nyi, p. 125. tornou-se sua grande habitação e, para ela, a sede de uma
45"Inanna and the ltruluppu Tree", de Wolkstein e Kramer. l fertilidade.
46 Assim, a tradução que Jacobsen faz da linha acima é a7 Da rhesma forma, os iniciados nos mistérios de Elêusis
igualmente relevante: "Ereshkigal recebeu o kur corno prêmio". ôncontravam conforto em Deméter-Perséfone e no conhecimento
E tornou-se rainha, pois, com a separaçãô do céu e da terra, o üa vida eterna obtido alravés do mistério.

3ó 37
da lua, os locais de esquecimento que constituem o solo apresenta uma qualidade do ódio primitivo. Ela se
perigoso no qual se aventura a consciência daluz do dia: he d9 fúria, arnbição e medo de perder o que possui,
é a matríz original. A deusa.subtemânea contém a sabe- gando ao desprezo por si mesma. Simbohzã a instin-
doria desse isolamento e amargura; Ereshkigal é a recep- ade crua separada cla consciência, a necessidade e
tividade plena, embora seja a adversária e vencedora ine- agressividade a nível inferior. E é um guardião que
vitáve1 nos embates com a morte. O mito mostra-a de- 'eshkigal envia para tratar com a intrusa, um homêm
pendendo de iniciativas do mundo superior, embora reine defendê-la.
sobre a terra sem retorno o domínio de tudo que se Tais imagens sugerem que as fúrias defensivas e caó-
estende para baixo do horizonte da consciência. como o ódio, a ambição e mesmo a liberação do
Sua violentação sugere algumas analogias com a his- s, são aspectos inevitáveis do submundo arquetípi-
tória cle Perséfone, mas mostra a potência primitiva e . São as maneiras de o inconsciente reagir a intromis-
paradoxal em forma qrua, havendo em Ereshkigal muito indesejadas. Nós as vemos quando um complexo é
da Gorgônia e da Deméter Negra: o poder e o ierror, as tigado, pois o inconsciente tem auto-defesas podero-
sanguessugas sobre a cabeça, o olhar terrível congelando . O mito diz que elas fazem parte da Grande Deusa;
a vida, a ligação íntima com o não-ser e o destino. A timos, entâo, essas energias compulsivas e inconscien-
deusa contém e personifica as regras do mundo infe- trabalhando para obscurecer o ego. Quando a persona-
rior, ao sentar-se frente aos sete juízes a8 para receber consciente é chamacla a confrontar-se com afetos
aqueles que vêm até ela através dos sete portões de sua tipo, ela sofre bloqueios, fica embaraçada, teme
casa de lápisJazúli. Em outros mitos seu consorte é Ni-
nazu (deus da cura), ou Nergal (deus da peste, da guerra 'se sob uma força superior, refugiando-se quase
rnpre na ansiedacle ou no afastamento, ficando suspen-
e da morte) ae. iacima da vida. Aí precisamos reverenciar essas ener-
e considerá-las como aspectos da deusa que devem
Afeto primitiuo respeitados. E conscientemente devemos permitir
eles entrem na vida.
No poema da Descida Ereshkigal aparece primeira-
mente cheia de ódio pela invasão de Inana em seus do- 'gM
mínios, a seguir, ativamente destrutiva, depois em sofri-
mento e, finalmente, agradecida e generosa. Durante o Partindo da perspectiva dos acontecimentos que en-
<idio seu rosto fica amarelo, e os lábios ficam pretos s0; veram Inana no mundo inferior, constatamos que as
ela golpeia a própria coxa e morde-se 51. Sua preocupa- s simbolizaclas por Ereshkigal estão ligadas não ape-
ção é que Inana ressuscite os mortos, seus servos, pri- à destruição ativa, mas, também, à transformação,
vando-a de pão e cerveja, e forçando-a, assim, a comer daqueles processos lentos, de célula a célula, co-
poeira e a beber água, como os próprios mortos s2. Aí a gestaçáo e a decadência, a trabalharem sobre o
48 Às vezes o deus lua e Gilgamesh, e mesmo o deus sol e
iente passivo e estagnado, de modo até mesmo in-
Dumuzi em suas formas subterrâneas juntam-se aos juízes de e contrário à sua vontade. Essas forças impessoais
Ereshkigal (Jacobsen, p. 228). e destroem, incubam e dão à luz com impie-
4e Ibid. implacável. (Até a sravidez pode ser sentida desse
so Heidel, p. 122.
51 Kramer, Sacred Marriage Rite, p. ll3. ). Aqui elas agem sobre Inana, reduzindo-a ao es-
s2 Heidel, p. 122 primitivo da matéria animal inerte mas trata-se
-
:i8 39
da matéria que sofre muclança em submissão passiva ao
, Essa estase aparente sugere o potencial da imersão
dado de fato. Ela apodrece. É freqüente sentir-se a for- purificadora na escuridão do desconhecido. Mas, também,
uma dissolução e um processo lento, que requer uma
ça de Ereshkigal como coisa negativa, ao nível psicológi- grande paciência de quem a ele se submete. Os domínios
co, quando se parte da perspectiva do Logos ativo, abs-
trato e patriarcal. Diante dele tais forças trazem um vá- :de Ereshkigal representam a única certeza da vida: a de
cuo ou caos sem esperanças, vazio, destroçado, amorte- que todos nós morreremos um dia. Mas, devido a essa
cido e estéril. rnesma certeza, esse reino é a manifestação do desco-
O domínio de Ereshkigal quando lá estamos nos pa- e do alheio por excelência, onde a vida cons-
rece sem limites: é irracional, primitivo e totalmente in- oiente se encontra em estacio de adormecimento. Na ver.
diferente à nossa sorte, surgindo mesmo como destrui- dade, resta-nos pouquíssima consciência quando quase
dor de nossa indiviclualidade. É a enetrgia, que só agora há movimento para nos ativar os sentidos. Ficamos
começamos a conhecer pelo estudo dos buracos negros idos ao aspecto obscuro da intuição, o faro do mu-
e da desintegração do§. elementos, bem como dos proces- a orientar-nos para as potencialidades iirfinitas
sos de fermentação, do câncer, da degeneração e das ati- & imortais inerentes ao momento que, embora sendo pas-
vidades inferiores do cérebro que regulam os movimen- vamente recebido, é incorporado e vai-se embora. Aqui
tos peristálticos, a menstruação, a gravidez e outras for- dstem, ao mesmo tempo, a inércia e uma fonte de cura
mas da vida corporal às quais temos de nos submeter. tar. Esse é o lugar de sobrevivência e de começos
Trata-se do aspecto destrutivo-transformador da vontade idos como a terra e a rocha. É o lugar do si mesmo
cósmica. Como Kali, Ereshkigal, através do tempo e do status nascendi, o brilhante escondido na matéria, e,
sofrimento, "impiedosamente tritura. . . todas as diferen- üambém, do fim concebido como o retorno da atividade
,&orepousoeàmorte.
ças... em seus fogos indiscriminadores"S3, dos quais,
entretanto, jorra vida nova. Ela simboliza o abismo, que
é a fonte e o fim a base de todo o ser. Lei natural
-
Matéria
O vizir de Ereshkigal chama-se Namtar, "destino".
As energias de Ereshkigal também estão relaciona- reino da deusa tem uma legalidade própria, à qual
das à estase aparente, e à solidez aglutinante e unifica- deuses celestes da Suméria se curvam. É a "lei do
dora da matéria como princípio cósmico. São as forças grande subterrâneo", lei da realidade, das coisas como
básicas e retentoras que visam conservar e enraizar, es- são, uma lei natural pré-ética e freqüentemente ater-
tando intimamente relacionadas ao chacra muladhara, izadora, que sempre precede os julgamentos do su-
aos seus medos e instintos de sobrevivência que buscam patriarcal e daquilo que gostaríamos que acon-
continuidade e segurançasa. Aqui a energia "repousa...
adormecida... estática.. . na matéria sólida" sob a for- Íir Recebi em terapia uma mulher de meia-idade que
ma de inércia ss, as vibrações mais lentas da energia cós- fivera guiada por um ego-animus competente e ativo,
mica. seus filhos saírem de casa, e que, agora apresentava,
53 Kingsley, 140-141 sintor4a físico doloroso, uma colite bastante forte.
s4 Swamy Rama e outros, Yoga and Psychoterall): The Foi assim que ela escreveu sobre o "retorno ao começo
Ettclution of Cctnsciousness, p. 22ó231. iiue está abaixo de qualquer artifício ou controle":
ss Kimberley McKell, The Psychology oÍ Tantric Chacras.

40
4t
Cresci sob uma ordem que agora me parece coisa
falsa, pois sei que existe oútra. A lei verdadei_ trás da coagulação estâva, para a primeira paciente, o
ra é engolir, respirar e defecar calor da terra e a paciência lenta voltada para o corpo
todos os proces_ fÍsico, a fim de curar-se. E a segunda, quando conseguiu
sos do corpo. Não existe nem -certo, nem àrrado,
apenas as coisas como elas são. É uma ordem divi- olhar por trás cla pedra, viu que lá estava a vida sa-
na que encontro ao constatá-la em meu próprio grada, frágil e fora do tempo dos desertos que ela amava,
corpo: não se trata de uma ordem imposta, mas de e da cultura popular, que resiste e valoriza a natureza
uma permissão. O equilíbrio das forças está sem_ e até mesmo as pedras.
pre mudanclo, mas ele se revela por si mesmo se Quando não reverenciadas, as forças de Ereshkigal
eu puder esperar. Mas é um equilíbrio tenso, não são sentidas como depressão s7 e uma abissal agonia de
um equilíbrio morto. Há uma ordem mesmo nesse desamparo e futilidade desejo inaceitável e energia
processo analítico caótico, em meus ódios, mesmo destrutivo-transformadora,- autonomia inaceitável ( neces-
na depressão. Um tipo diferente de lei, de tempo e sidade de separação e de auto-afirmaçáo) que desinte-
de sofrimento. gram, revolvem e devoram o senso individual -, de capaci-
dade e valor. Uma mulher que, sem saber, esteja sofren-
Essa mulher tinha sido treinada a evacuar a partir do sob o domínio de Ereshkigal, acaba colocando seu
da primeira semana de vida pelo uso constante á" s,.r- superego-animus negativo em primeiro lugar, e é domi-
positórios. Ao término cla terapia, ela me disse: ,,Vejo a nada. Ela acaba cortada de seus afetos primais, perden-
terapia como um processo que vai desde a colite, até eu do a consciência em relação a eles. Entretanto, uma pes-
me firmar como uma cagona estabelecida',. Sua inicia- soa assim cai facilmente no mundo subterrâneo como
ção à deusa escura ao nível do muladhara tàntrico foi num turbilhão, ou ama e segue um homem de tendências
profunda e me ensinou muita coisa. psicóticas ou psicopáticas que pode levá-la para baixo,
em direção às profundezas. Ou procura compulsivamente
o submundo, esconde-se da vida, viciando-se nos mais di-
A experiência analítica de Ereshkigal versos modos de amortecer as dores do fluxo de mudan-
ças, que são demasiadas para a sua capacidade fragmen-
Esse chão yin bâsico, essa experiência e substrato, ,tada. Ou pode, ainda, i<lentificar-se inconscientemente às
sâo uma constante com a qual tantas filhas do pai negati- coisas que a cultura rejeitou como inferiores e perdidas,
vo só têm pouca ou nenhuma ligação. Às vezes momentos forçando-se à introversão por um sentido negativo de
de terror evocam-no negativamente, como quando uma singularidade s8.
paciente corn pneumonia teve a sensação de que seu pei-
to estava se enchenclo cle terra, ou quando uma outra, Identificando-se com Ereshkigal, a mulher pode sen-
por medo, recolheu sua alma a uma profundidade tão r-se presa numa estase sem fim, incapaz de mover-se,
grande de si mesma, que passou a sentir-se como uma ndo o desespero pesado e o vazio de quem é vio-
pedra estéril e intocável. O trabalho sobre essas imagens
devolveu-lhes Lrm sentirlo de vida potencial incorpoiada 57 Agora, a depressáo é de duas a seis vezes mais freqüente
que estava oculta no estado estático e paralisado. por tre múlheres do-que entre homens nos Estados Unidos. Cf., de
ie Scarf, Unfiiished Business: Pressure Points in the Lives
só Marie-Louise von Franz, O Feminino nos Contos de Fa.das, omen, iotrbieda:r, 1980, N. York, que auxiliará o leigo na
ver "A Donzela sem Mãos" (Ed. SÍmbolo). o do assunto.
58 Sylvia Perera Massell, "The Scapegoat Complex".

42 43
lentada pelo animus se. Ela pode identificar-se com a d.eu- Imagens da deusa clo abismo aparecem constante-
sa enquanto a grande clevoradora que recebe toda a vida e quando o ego idealizado está para sofrer mortifi-
de volta, sempre faminta e voraz. Com freqüCncia ator_ e ser radicalmente transformado. O pesadelo de
nrentam-ná sintomas somáticos, distúrbios em órgãos ab- professora universitária mostrava um planeta ne-
dominais ou processos celulares degenerativos. aproximando-se dela no começo de uma aula, vomi-
vapores que faziam sua mente intelectualizada so.
. É um grande alívio saber a que altar recorrer quan-
do somos confrontadas com essaÀ condições. Mas Eiesh- um branco. Ela sentiu-se completamente destruída,
kigal não quer ser venerada pelos modo, se nada r:estasse de mim". Uma mulher de negó-
Como os deuses ctônicos eleÀentares, pelos "orr"rr"ionais.
quais se fa- , elegante e competente, confrontou-se num sonho
ziam sacrifícios em holocallsto @, eli exige a morte, a imagem de "uma criatura gorda e feia, como a
a destruição completa das diferenças e do sentido ma- dos cupins, que se contorcia lentamente em on-
nifesto de indivllualidacle: na verdâde, a transformação de parto ou defecação". A paciente estava chocada
total. A empatiá que ela exige é terrível: render-se, es- ver uma coisa "tão bestial e medonha". Outra clien-
perar e gemer com ela. Ao nível mágico-arcaico cla cons_ ,iLrfllâ mulher que começava a defrontar-se com sua
ciência, suas vítimas agradecidas vão sendo conduzidas I capacidade emocional e intelectual, e que
de volta à grande devoradora (e os sumérios sentiam te se definira como uma criança excêntrica
que a atenção e os oferecimentos diretos detinham a , teve este sonho:
rnão das divindades mais malévolas) ó1. Mas, para nós,
servir e reverenciar essa força em seu ritmo e destruição Estou numa plataforrna de metrô, tentando apa-
impessoais, parece tão monstruoso quanto os seus filhos. nhar um saquinho com um "hamburguer" que caiu
Então quase sempre enfurecemo-rror-o, negamos o que se e se espatifou. Não muito longe vejo uma mulher
passa, nos protegemos e distanciamos numa defesa con- enorme envolvida ern roupas negras; o seu aspecto
tra o sentido da renclição irremediável às suas forças ins- é frio e sádico. Ela me observa. Parece uma cobra
tintiva,s e impessoais, tentando abafar a humilhação he- rainha e tem o rosto amoral da escuridão. Ela pode
róica do ego ao ser trazido tão baixo, a ponto de lermos fazer qualquer coisâ, e não tem o mínirno interesse
de nos confrontar com a nossa insigniiicância original pela vida olr em ser bondcsa. É objetiva, eficiente,
dentro do cosmos. Entretanto, ,o-"ãt" um ato. cle ren- feita de terra dura, e tão impiedosa quanto possível.
ciição consciente e voluntária poderá transformar em vi-
da o lado venenoso da deusa Lr",rru. A morte da deusa Este sonho era o presságio de uma depressão, na
do céu, essa mulher bonita, ativa e diferenciada, somada
o seu granclioso ego idealizado foi moído em carne
à ação dos carpidores de Enki no desenrolar da história, l, forçando-a a aceitar a força calma da som-
-positiva que anteriorrnente a amendrontava. Aos pou-
equilibra e plenifica o vazio aparente de Ereshkigal.
foi se reencaminhando para uma nova profissão, e
iu livrar-se de unia relação pessoal insatisfatória
Patricia Berry, "The Rape of Demeter/persephone and Neu- tarde ela sonhou que a mulher sombria mudou-se
.s9
rosis. o quarto de sua empregada, substituindo uma mu-
_ ó0 Jane Elen Harrison, prollegomena
Religion.
to the Study of Greek boazinha, caseira e insignificante.
ó1 Enki, dessa fornra, ensincu-os a deter uma das pragas de Com freqüência encontramos esse aspecto do femi-
Namtar. subterrâneo na análise, quando a mulher puella,
44 45
identificada com o an.imus desce para o mundo que
esse l, curar para relacionar-me sem ser ferida, nem per-
mesmo anim.us idealista rotulou como mau e âoentio, yl der a consciência.
ou feio e- repelente.-A regressão ou introversão é quase {
sempre de tal profundidade e é tão lenta, q"" lí1:, Só quando somos reduzidas às profundezas de uma
se transformar num mergulho profundo 'aÉp."rliuo, íüã 6for e depressão que adormecem os sentidos, e nos re.
próximo cla morte, podenão maiifestar-se "de fôrma 4luzem ao caos e à emocionalidade atemporais e pré-ver-
as-
- a tudo aquilo
sustadora, caso não haja orientação quanto uoS .bais que chamamos de horrível ou in.
,"*
significados e padrõ_es aiquetípi.or. Ertà paciente-as-sim fiantil, e que associamos às dimensões arcaicas da cons-
o descreve em seu diárioi ç.iência só aí descobrimos que a única deusa a ser ser.
-
Vida e reverenciada é Ereshkigal. O contato com ela en-
...urna decadência lenta de todos os ,deve_se,, a
taiza à mulher e aglutina sua potencialidade para con-
'frontar
morte dos,€nvoltórios de minha vida que parecià o masculino e o patriarõado de igual pàra igual.
apodrecer. Tive que aceitar essa lentidáo
quilamente daquilo que eu julgava ser eu "-;;;i
mesma.
O medo sempre presente dá, ão sacrificar o meu A rejeição de Ereshkigal pelo patriarcado
velho e competente eu social, acabar *o..""aà iuá_
bém. Mesrno assim, nesse local depressivo, onde sen_ l. A coasciência patriarcal separou a deusa da nature-
ti a inércia no abraço da matériá total a me t
e, violentando-a, relegou-a ao mundo inferior. Sornos
ver como cimento, está presente uma liberação "rruol-
de
Hdvertidos a não olhar muito de perto o seu lado assus-
energia tão profunda que me faz perceber outro ftâao. e destrutivo ó2. Levara*-rra f,r.u fora de nossa cons-
{êiência,
sentido de tempo e ela agora recolhe-se às profundezas do incons-
- só seidequenovo.
ceram, e preciso cortá-las
minÊas unhas cres-
'biente. Ereshkigal nunca aflora em seu aspecto terrível.
Chego ao que é baixo e lento, não o humano e Quando fazern uma festa, os deuses lhe pedem que man-
quente, m.as o desapegado. Muito além da idéia de de alguém buscar sua comicla 6:1. Mesmo assim, ela não é
significado ou não-significado. 'ontagônica ao masculino, pois está rodeada de juízes;
lpPus consortes e criados são homens e ela gera e dá à
,luz meninos. E a deusa é facilmente demovida da fúria
Outra cliz:
"'que sentiâ por Nergal por ele ter maltratado o seu
emissário. Quando Nergal reconhece que "era apenas
Ando tão lenta. ..é nauseante, como carne esver_ 'aÍnor o que você queria de mim, desde meses atrâs até
deada. Nunca me permiti ser tão passiva e estar tão '&gora", a deusa lhe oferece casamento e poder sobre o
tmundo subterrâneo, que
mergulhada na feiírra, mas isso nern me atinge mais. o ele aceita ff.
É reconhecer que não me importo, e daí? irro p* lL Contrariando muito do que já se escreveu, esse mito
rece tão frio, mas tem uma fôrça que pode acolÊer i§ugere que a consciência das camadas profundas da
e- aceitar qualquer coisa, até mesmo ã do.. Agora ,psique não é uma adversária da consciência patriarcal
sinto-me à vontade no universo. fsso equilibrã al-
guma coisa que temi por toda a vida nà violência i: 62 Marie-Louise von Franz, A Sombra e o Mal nos Contos de
,"Fad.as, Ediçôes Paulinas, São Paulo, 1985.
de minha mãe e no meu medo e ódio em tocar o ó3 Heidel, p. 129.
pênis de um homem. Era aí que eu tinha de me 64 Jacobsen, p.229.

46 47
e heróica dos deuses celestes. As forças e sistemas
da objetividade dos olhos de Ereshkigal
Grande Esfera não querem dominar ou mesmo
resistir
aos processos hierárquicos do Logos, orientados
progresso. Entretanto, elas exigem reverênci"
pu.à ã Há afeto, energia e legitimidade em Ereshkigal. Há
.Jrp"íto. os seus olhos de morte. Pois Inana é morta e
Ereshkigal se enfure,ce quandJé desrespeitadu. " fràta_r" em pedaços numa ação descrita com trieza espan-
um,a deusa orguthosa,
fe de ataque,
tema -.. qt.r" ,rão constrói um sis-
nem ultrapurru^o, seus próprios limites.
no poema:
Ela,apeaas exige ser recdrrhecidu ú; à;;;-;; A sagrada Ereshkigal sentou-se em seu trono...
"o,,o o Grande AltÍs_
igualdade, tão válida e importante quanto Semicerrou os olhos e fitou-a (Inana) com olhos
simo. E Nergal finalmente o percebL uo a"f.orrtàr-r" de morte, proferiu a palavra contra ela, a palavra
ela. "ãà da ira, bradou contra ela um grito, o grito da in-
verda&, q.r"* foge do seu fluxo de mudancas criminação.
. Na
e de. ,,infaniis,, Massacrou-a, transformou seu corpo em cadáver,
seus impulsoi e dividiãàs t;;ã^ã"-
fensivo inerente à consciência heróica e hierárquica.-Á e o cadáver foi pendurado num gancho67.
nrojeção desses conteúdos na figura ãa mae leva
a consi- Na poesia dos sumérios, a expressão "olhar de vida"
derá-la como inimiga 65, e à ,"ãrr.à.--."conhecer
seu as_ usada às vezes para sugerir alguém que, cheio de amor,
pecto próprio de sabedoria, que também é
necessária à outra pessoa e proporciona vitalidade com o olhar.
vida, pois faz parte dela, Essá atituàe equivaleria
u ur,.r_ empenho em descrever a força dos olhos lembra ima-
tar a.pró?ria origem, pois Ereshkigal é iavó do primitivas da deusa Olho, e a deusa sob a forma
sol e da
estrela. De seu ventre surgem u, -lr"rr", celestes
lhos da- peste e da morte. -É a fonte da consciê""i"
o. fi- olho no Egito, bem como a importância vital dos
" 1*_ da mãe para o bebê de colo. A primeira coisa que
zjda pelas luzes orientadoras do céu e pelas
dos mortais.
d.;; ; ;;- crianças colocam no rosto, quando começam a de-
Ênhar a figura humana, são os olhos. Na escultura su-
A concepção tântrica dos chacras está muito mais ia e babilônica, os olhos dos deuses e dos fiéis são
_
próxima da sua realidade psíquica do que o ponto de e transformados praticamente em discos
vista da consciência hierárquicâ e patriaôat quà r"Uai*a ticos que nos fixam, para transmitir sua potência
a deusa. Para o tantrismo, iada contem sua pró- ica de sede da alma.
pria forma de percepção, e cada"Éac.a
um deles pr.rê ;;; Neste poema os olhos de Ereshkigal aliam à palavra
perspectiva distinta, e todas elas devem sei
acolhidas
à emoção o julgamento da consciência e o próprio ato
como facetas de uma mesma consciência cósmica que crime. São olhos de morte, impiedosos, sem nenhum
vibra harmoniosamente no indivíduo idealmentr.á;r;;- volvimento pessoal. Para os humanos que foram pa-
Mas est?To: apenas engatinhando para a percepção pelo meclo e que perderam todo o senso de
11.
dessa capacidade de consciência autêntiôa e polivalerrtà e de paradoxo, eles podem ser o olhar: odioso
". Le congela a vida, como o ódio materno que se mistura
inveja, corrói a energia do filho e destrói todas as
isas que ainda estão no início o sadismo e a fúria
ó5
-
seu e§tado bruto, em forma arquetípica. Ou são ainda
Dinerstein, The Mermaicl and the Minotaur.
óó Edward C. Whitrnont, ,.ffre nfámerí.rrã'Lt Uurr,,. ó7 Kramer, Sacred Marriage Rlte, p. ll4.
48
49
os olhos da dep,ressão, aos quais ,,tudo parece morto,,.
Podem ser os olhos que transpassa* u lridu, u p.o:"iáo Uma mulher sonhou: "servem-me o veneno do mun-
de nosso medo e fírrià humanà, agarrando ú á.;;;; e no rótulo está escrito 'descaso'". Ela vinha sofren-
ou imagem e tornando-os concretos e estáticos. olhos porque não suportava mais o que ela imaginava ser a
assim causam psicose; nós os vemos em indivíduos que do seu amante. A cena mostrou-lhe, entretanto,
passam por estados psicóticos, nos quais se perde a ãa_ o que ela sentia era a indiferença da natureza.
pacidade de ver o processo da vida e do espiiito-atravJs que como a vítima que procura adesões submissas e a
do estreito fragmento em que a estrutura estática está no consolo proveniente de um parceiro, ela deve-
contida como um fato parcial. beber o veneno para entrar em comunhão com a
Podem ser os olhos que perdem o senso da totali_
Arquetipicamente, esses olhos de morte são impla-
dade maior. Ou, então, su§eriruma capacidade de .".àÁ
veis e profundos, enfocando uma objetividade imedia-
objetivos, um nfr.o relacionamento com o outro e uma
que considera as pretensões, os ideais e mesmo a in-
auto-afirmação ao nível demoníaco, coisas que não têm 'idualidade e o relacionamento como coisas irrelevan-
muito a ver com aquilo que nossa cultura gãsta de con-
Eles também encerram e possibilitam o mistério de
siderar feminino. Jung, ao escrever sobie o chacra
a percepção radicalmente diferente e pré-cultural. Co-
muladhara., lembra o valor do aspecto negativo do si
os olhos das caveiras em volta da casa da bruxa e
nxesmo. Existe um "tipo de ódio.. . que séria descrito
nos termos da filosofia ocidental comó uma premência sa russa da natureza, a Baba Yaga70, eles percebem
ou instinto impelindo em direção à individuaçáo,,68, pois a objetividade própria cla natureza e de nossos so-
escavando alma a dentro, para encontrar a ver-
sua função é destruir a participation mystiqzzL e sinjula-
nua, e ver a realidade por trás de sua miríade de
rizar e separar um indivíduo anteriormente fundião e
identificado com seres amados. , ilusões e defesas.
A certa época, a ciência ocidental aspirava a atin-
poema, ao perder os véus, Inana vê sua própria r essa visão. Mas nós, humanos, não temos olhos tão
-No
profundidade misteriosa: é Ereshkigal que tambem a jetivos. Podemos ver apenas verdades limitadas, fatos
encara. Aí se dá uma experiência imediata e profunda tivos e indeterminados. Nós e a nossa própria sub-
de seu si mesmo subterrâàeo. Esse momento nu é como ividade fazemos parte da realidade que queremos des-
a quinta cena da Vila dos Mistérios, quando o fauno, ao r. Entretanto, a realidade é desmascarada ante a
olhar dentro de uma tigela que funci,ona como
"rp"iho,
aÍ vê refletida a máscara do Dionísio terrÍvel sob a for-
ma de senhor do mundo subterrâneo. É o momento de huma reserva pora o m_unCo à sua volta.. . uma poderosa
ntracorrente se levanta. . . O espírito se lhe revela como sendo
autoconfrontação para a deusa da vida ativa e do amor 6e.
Inorte. . . para enfrentar uma -vida sobrecarregadq e i1 c-ontra
a morte surge corno um valor supremo... ocultandolhes a
ur.C, G. Jung.,. Psychologial Commentary on Kund.alini yoga" ssidade assustadora de condtrzir todos os laços para elas
,^
(Co_nferência realizada a ls de outubro de' 1932, in Spring, pl 2, e de desistir do relacionâmento no mundo à fim de
t97s). Itrar a relação com o espírito e, a partir daí, consigo prô
.
óe As palawas Linda Fierz-David aplicam-se bem a Inana, ... As mulheres devem... ter a ousadp de saltar para a
-de
embora o termo "fusão,, fosse mais apro^priado ao seu texto ãã
qu.e "relação": "Viver de- acordo corir d princÍpio a" i"t"çao,
oerxar-se envolver e envolver os.outros é uma necessidade- da
natureza de toda mulher. . Mas_quando a relação se dá ài custái
da própria alma, quand.o as mullieres flue^ã e transbordam iêm

50
visão de Ereshkigal. Torna-se nada ,,Neti, imagem, boa aceitação. Ela é crua, caótica e surpreen-
neti,', como
diz o sânscrito -
mas ao mesmo tempo é íudo: á ú;; te, dando o panorama de um chão abaixo da ética,
clo paradoxo por- trás do véu da Gíande Deusa e "àã estética ou mesmo clos opostos. É o olho instintivo
templo da sabedoria. Esses olhos incorporam e vêem a olho do espírito na natureza. AÍ está a visão que -
partir da vertiginosidade do abismo quã recebe tudo de hkigal, Kali e Gorgônia proporcionam ao iniciado.
volta, que reduz o maya dançante e lúãico da deusa ourÀ o que significa a visão aterradora da cabeça guardiã
tornar inerte a matéria e deter a vida sobre a terra. templos de Shiva 72. Ela é medonha e, ao mesmo
Esses olhos tornam óbvios os padrões e ideais da , derrama uma refinada percepção de realidade
consciência coletiva racional e habiiual _ a nossa ma- aqueles que conseguem suportá-la. O que aí se
ne_ira de enxergar dentro dos limites lingüísticos, presos ta é a visão do feminino sombrio que Psique não
a."espaços conceituais"-r, qrr" formam oLundo il, iu sustentar, o conhecimento que ela devia levar
"p* Afrodite a Inana grega para
- vislumbrou-o por- instantestorná-la bela e
rências diferenciadas. Eles penetram e descem até à suts-
tância mesula da realidade pré-verbal. Também trans_ .. Psique e caiu incons-
passam os padrões coletivos que não correspondem à ver- , pois aquela era não estava pronta para um conhe-
dade pura da vida. E, assim, destroem a- identificação to dessa ordern. Agora precisamos conhecer essa
com os ideais do animus. Tornam possível .r*u p"r""pião , pois já estamos trabalhando com suas energias
da realidade sem as distorções e pré-concepções dó s"- na astrofísica e na física nuclear.
perego. O que significa ver, não o que podéria ser bom Psicologicamente, tal conhecimento e maneira de ver
ou mau, mas o que existe antes de qualquer julgamento, tram que a destruição e transformação em algo até
e que é sempre confuso, cheio de emoçõês e dai percep_ nte novo f.azem parte do ciclo da realidade 73.
ções pré-verbais dos sentidos mais próximos (tatofoffatã, foi como esta mulher o percebeu:
paladar). Isto implica, antes de màis nada, não áe preo-
cupar com o outro exterior, nem com uma forma co_
letiva ou imperativa. Ver dessa forma, o que de início Vejo que, pelo menos na maior parte das vezes,
é tão assustador, porque não pode ser legitimado pelo não dá para fazer nada sem magoar alguém, sem
coletivo, pode causar o que a cõnsciência dã Logos tãme sacrifício, dor ou traição. Vejo que tudo termina e
como mero caos, com as possibilidades de uma percep_ começa em outro lugar. A inocência é uma coisa
impossível.
ção totalmente rejuvenescida, um novo padrão, umÍr pers-
pectiva criadora, trma exploração que nunca termina.
Essa visão é raclical e perigosamente inovadora, mas É difícil suportar um conhecimento desses. Tenta-
não necessariamente maléfica, a não ser que se dê de melhorálo, encobri-io, evitá-lo. Mas, ao encarar essa
forma desequilibrada e, conseqüentementô, estática e básica, a mulher desistirá de ser agradável aos
parcial. Ela pode parecer monstruos a, teia e até petrifi- tivos ideais paternos e do animus. É como atingir
cadora para o não iniciado, pois separa-nos de irossas base sólida, de onde tudo isso parece irrelevante.
defesas e prepara um sacrifícià das fàceis compreensões ivizam-se todos os princÍpios e a mulher se abre
coletivas e clas esperanças e expectativas de teúnos uma paradoxos inerentes à vida com o si mesmo,

_ 7l Antonio T de Nicolas, ll,Ieditations Through the Rig Vedas: ?2 Joseph Cambbell, Myths to Live By, p. 103-104.
Faur Dimensional Man, p.'24. 73 Isto f.az parte dos ensinamentos do Bhagavad Gita.

52 53
Uma mulher forçada a perceber essa visão sonhou ela. Tal visão é transpessoal e é uma força que pode
com uma senhora belíssima, cujas pupilas encerravam proteção assim Atenas, gorgopis (de olhos bri-
pequenos crânios, e através dos olhos dela minha pa_ -
ies) e de olhos de coruja, ostentava os olhos de Gor-
ciente via urn vasto céu noturno. Outra mulher relaiou sobre seu escudo; da mesma forma Inana pôde
uma visão cle sua avó, já morta, com os olhos afundados s tarde incorporar a si mesma os "olhos da morte"
para dentro da cabeça. "Esses olhos incluem tudo. Vêem
através da própria base da vida e conseguem sustentar
essa objetividade. Eles significam que a dbr é inevitável.
Não posso me esconder", escreveu ela.
Como analista cleixo-me guiar por essa visão ao ex-
pressar minha própria verdacle: "É o que sinto agora, é
o que vejo". Isso é objetivo e revela a minha disciimina-
ção válida no lnomento. Mas, como uma devassa, pode
rnachucar quem está sendo visto. pode sepa.a.-mã do
outro. Mas quany'o perco a conexão com a solidez dessa
frieza aparente, ou tento suavizá-la como boa mãe ou
boa filha, então meu. ego se desenraíza e a frieza recai
no inconsciente e vo]ta.se contra mim, ou contra o outro,
via animus. Quando na terapia uma mulher projeta so-
bre mim essa visão pétrea a nível do mulaihaia, e eu
tenho medo de ser julgada assim tão fria e de valorizar
isso como uma objetividade transpessoal e feminina, da
qual participo e que também valorizo como autoproteção,
então eu a perco e posso acabar ficando petrificada e
inconsciente de medo; vou sentir que isso vem para rnim
só como transferência negativa, e vou tentar deter a rai-
va da paciente.
Esse olho frio e objetivo é, talvez, uma base de ava-
liação feminina do domínio do lado esquerdo do cérebro.
Ele não se deixa enganar por um desempenho responsá-
vel e nem por conquistas a nível da vontade. Enóontra
os fatos inelutáveis em seus processos a armadura dos
vetores emocionais que dão vida a cada momento e que
tr)assam, enquanto outros se aglomeram no presente, dei-
xando o indivíduo à mercê do tempo e de processos so-
bre os quais não se tem controle, mas nos quais se pode
encontrar uma sustentação ao se conseguir reverenciar
a própria mudança e encontrar um modo de progredir
54 55
nível mágico da consciência ele é suportado numa in-
ibilização 77. AÍ não há percepção de sofrimento.
Mas ele é wa parte do feminino. Esquecemo-nos
que ainda neste século os partos eram assistidos pela
: por isso as mulheres que morriam dando à luz
igualadas pelos astecas aos guerreiros que mor-
3 m nas batalhas. E Àrrne Bradstreet escreveu um poema
adeus ao marido e aos filhos pequenos, quando come-
Sofrer e permanecer separada o parto de mais uma criança 78. É o que leva Cotton
ther e seus contemporâneos a considerarem que
as dificuldades, tanto da submissão como do parto,
às quais o sexo feminino é condenado, foram trans-
§ofrimento nível inconsciente e consciente formadas numa bênção. . . Deus santifica as cadeias,
- as doresn as mortes que ainda as esperam; . . .como
No mito o yi.n aparentemente frio da visão de Eresh- uma ocasião derradeira de séria devoção 7e.
kigal está intimamente relacionado ao yin sofredor.
fnana está inerte, empalada e Ereshkig al jaz ;".,
mendo num sofrimento de morte ou de pario. nla e ;;: l. a vida da mulher tem sido uma realidade de partos
sim descrita:
ãs_ Íepetidos e verdadeiramente presenciados pela morte,
tim ciclo natural que manteve a maior parte de sua vida
Mãe que dá à luz, por causa de seus filhos i:entrada na áspera maligniclade da realidade, na sensa-
Ereshkigal jaz enferma,ltalvez em dores de partol. ção de estar vivendo à beira do abismo. Assim, a criati-
Sobre seu corpo divino nenhum lençol foi estendidã, üidade feminina se consumiu nos partos, nas artes e na
qlanutenção domésticas coisas sujeitas ao desgaste e à
seu peito divino como um vaso de shagan não é - devoradas além de não ter
pl,estruição, coisas a serem
[velad6] z+
fnuito valor num contexto cultural mais - amplo, embora
[suas garras, como ancinhos de cobre(?) estão
sobre ela] zs :fonstituam a força civilizatória básica de qualquer cul-
seus cabelos parecem sanguessugas sobre sua {ura, imediata e pessoal, construída nos pequenos inters'
cabeça76. fícios do processo de manter a sobrevivência. Num con-
[pxto desses, não é de espantar que o homem judeu
O sofrimento é uma parte relevante do feminino 6§radeça a Deus por não ter nascido mulher. Mas o
subterrâneq. E-1. pode permanecer inconsciente até que il
o advento da deusa daluz o desperte para a percepção, ;, 77 Çgrlrirde Ujhely, "Thoughts Concerning the Causa Finalis,
mova-o do entorpecimento silencioso em direçao a'áo.. ôf ttre Cognitive Mode Inherent in pre0edipal Psychopathology".
per, também, de Dorothy Soelle, SuÍ"Íering, Fortress Press, 1975,
Filadélfia.
74 Kranrer, Sacred Marriuge Rite, p. 116.
' ' 7E Penelope Washbourne, ed., Seasons ol Womm, P' 52: -
/r Jacobsen, p. 58. ?e Citado po.r Margareth W. Masson, in "The Typology of l!§
76 Kramer, Sacred Marriage
Rite, p. 116.
, Female as a lÚIodel foi the Regenerate: Puritan Preaching, ló90-
173A", p.312
56
57
ferimento, para a mulher, não é necessariamente uma il, não havendo nenhuma saída clara para o deses'
condição patológica. Faz parte do ciclo de menstruações A única coisa que podemos fazer é agüentar, quase
e partos, e da vida diâria em seu aspecto de sangue. ientes, mal suportando a dor e a impotência,
pensas corno ntrm encalhe acima da vida, até, ou se
, Ereshkigal está presa e incorpora um processo or- acaso, um ato de graça chegar com uma nova sabe-
denado: o de que "tudo o que está vivo molre,,, de que
morte e nascimento são coisas familiares à história da Essas desgraças frias e impessoais, embora po-
mulher, e que a dor e a mudança são coisas inevitáveis. te iniciatórias, são o domínio de Ereshkigal.
EIa sofre isolada, e agüenta em submissão paciente.
fsto nos lembra que muitas clas grandes deusaÀ sofrem
poste de Ereshkigal: fixando e encarnando
e são feridas pela separação de um filho, da mãe ou
clo amante. Elas não evitam o sofrimento; pelo con-
trârio, enfrentam-no e expressam a sua realidáde. Algu- Dessa perspectiva, o poste de Ereshkigal pode pare-
mas, como Parvati, amada de Shiva, assumem o sofri- tão terrível e assustador quanto aqueles nos quais
mento para atrairem a atenção do homem que amam e penduravam cabeças nos castelos do outro mundo,
para- restaurarpm o equilíbrio da vida. Algumas ficam do as concepções celtas e hindus. Uma mulher ver-
paralisadas ou empaladas, pois sofrer pode levar a uma essa miséria: "A minha dor por ter sido abando'
terrível passividade, a uma inércia negativa (como a da por minha rÍLãe é. como um prego no coração.
Peiritoos grega, que ficou rericla no Hades). E nos do- viver na morte". É o nada abissal de quem é filho da
mínios de Ereshkigal há uma paralisação, um ponto de uma vida de mortificação. Outra expressou o
impasse onde tudo é insalubré, desumano e ericravado. inte - quando começou a reexperimentar o seu senso
Inana está empalacla, Ereshkigal emite grunhidos de dor. privação por meio cla análise: "É como um falo sem
N-ão há esperança, nenhuma resposta yang efetiva, Íte- uma imagem de desejo no inferno, tão bruta que não
nhuma saída por rneio de trabalho ou forçã de vontade. ser tocada para receber, tornando-se assim uma
Esse é o outro laclo da frieza da deusa escura. vazia". Suas necessidades haviam sido estraçalha-
Aqui, entretanto, o sofrimento é um caminho pri- (ficara órfã aos dois anos, tendo sido mandada para
mordial; trata-se do sacrifício da atividade, que pãd" instituiçáo) e manifestavam-se de maneira tão agu-
até mesmo levar ao renascimento e à iluminaçáo, quan- e inalcançável no clomínio humano que só podiam
do aceito como uma maneira de acolher a vida. Sügere sentidas como impulsos feios e terríveis. Uma ter-
uma presença em seu nível mais escuro: um sentido de ra paciente via a imagem do pênis de seu tio como
perda total, até mesmo da capacidade de açáo, uma poste do qual ela penctia suspensa. Ela se lembrava
perda tão profunda qlre nada mais importa, " arre- suas assustadoras investidas físicas e de suas fúrias,
messada para além do poço escuro da dor" m. É o lugar , por tê-Io iclealizado, tinha medo de abandonar a
da impotêrrcia cliante do afeto caôtico, entorpecido e .rão que sentia por homens que se parecessem com
canalizado; o lamento de um ódio solitário por não ser "porque, deste modo, sentia uma espécie de segu-
capaz, e de percla e de necessidades implacáveis, um lu- familiar". Esse cruel sadismo humano é como o
gar infernal, onde ludo o que sabemos fazer se revela e de Ereshkigal, que impede a vida humana cons'
le. "E com freqüência nos surpreendemos preferindo
doen.tes ou "quase loucas" a termos de enfrentar a
t-o- Ge_rgrd Àdanley Hopkins, Poems and prose
. Hopkins Ed. W. Gaidner, Londres, of Gerard. Man-
ley 1953, p, ó1.
dessa clor.

58 59
Mas há um outro lado cla irnagem do poste de em- e alucinante, e refugiar-se nos pequenos detalhes
palamento. Ao contrário da cena deãcrita pejo mito
eEio. cotidiano. Ela identificou a humilhação que sofria à
cio tardio, segundo a qual Isis se fecunda ôo* o ,"à*Bã ifixão de Cristo, pois não via nenhum modo de afas-
de Osíris dep_ois de ele ter morrido, aqui se trata de o cálice que lhe davam e ainda não conhecia a histó-
um parceiro ferninino. A Grande Deusa ãstá morta, e é de Inana, nem sentia nenhuma conexão com o fe-
penetrada enquanto permanece passiva e sem vida,
redu- Depois de enfocar durante meses os aspectos
zida a carne. Nao há nenhum- movimento ou estimu- da existência, e ao começar a ver uma
lação evidente. Há apenas a colocação do rrà perspectiva, pôde também perceber que o que ela
poste de empalam"lrg.F rnana é pregada nessa "orpo-
fi*uçáá estava presente no interior dos fatos. A paciente
terrível. A potencialidade de suas -"miríad.es de ofíciàs" a fazer* trabalhos de percepção sensorial, a hon-
e- capacidades está- triturada, e isso parece fazer parte
seu col:po com roupas coloridas e de textura bonita.
daquilo.-que fecunda um novo espíriio dentro deú, da
:obriu que seus sentimentos se abriam na relação de
mesma forma que a limitação pode clamar por criativi-
ferência com a terapeuta. Conseguiu valorizar sua
dade.
concreta e sentimental e finalmente foiJhe possível
Eis como uma cliente expressa a sua experiência rar a depressão como uma dádiva que lhe trou-
do lado doloroso dessa fixatioi
um sentido novo à existência.
,Outro aspecto do potencial de encarnação entrevisto
É como se minha casa em desordem fosse a minha
cruz. Estou verdacleiramente fixada, fora das fan- simbologia do poste foi articulado por uma mulher
tasias relativas à idealização de um lar e de uma falou sãbre o iento recém-desperto da realidade de
vida em grancle estilo, ou de ser uma pessoa im_ corpo:
portante. Estou lá pendurada e os velhos rótulos
não me dizem mais nada. perdi todo o controle de Uma mulher é pregada na cruz quando vem a pri-
como as coisas clevem ser e de como me erguer e meira menstruação. É por isso gue eu odiava esse
organizar em obrigações e deveres. Agarro-me a aspecto e fingia que ele não tinha importância
detalhezinhos que me amarram. São o ãpoio para nerrhu*a. Aí, com a energia de um touro, a mulher
me fazer ultrapassar uma dor que nem sequêr é tem que tomar sua cruz, permitir ser transpassada
dramática e desesperada: é apenás entorpeciÀento. por eÍa e deixar-se pender entre os dois cravos. É a
Náo há sentido, nem controte. SO *" ,ertu esperar éxigência da natureza em relação à mulher, e uma
e esperar. E nem mesmo esperar por algumà sal- crui diferente da cristã, pois temos que pender dos
vação conhesida. pregos através dos tempos. Eu sempre achei isso
sujõ, e que a mudança de ânimo e a dor do meu
Essa mulher de 48 anos passou grande parte da período eram um verdadeiro sacrifício. Mas vejo
vida agrrardando que reconhecôssem o-seu ,ulãr, agora, pela experiência de minha filha, que a ener-
rando finalmente receber cuidados maternos e ser"rp"-
pro- gía qrre aí existe é igual à energia fálica, com a
curada por um cavaleiro num corcel branco para iedi áiferãnça de haver em nós dois sustentáculos que
mir- a sua passividade. A análise conseguiu mudar a ajudam" a formar um vaso.
qualidade dessa inércia. Ela sentiu que -poderia sacri- Apesar da repulsa consciente pela menstruação, essa
ficar os dramas costumeiros, aquela atividade incons- ,"r tirho urn- senticlo instintivo do "touro da máe",
ó0 Or
e sey depoimento Iembra grande altar com chifres, poste de Ereshkigal como capacidade feminina
e o deus da lua em forma de !
ãhifres que, permaneceÍ separada
o senhor das mulheres sr, É possível' q;"em;*i;tu1;;
Creta, era
conexão entre essa intuição do deus de chifres * O poste causa uma abertura de penetração, que é o
e
o Gugalana do mito (.cf. 5). Ele permanece ,,morto,f rumento iniciatório da deusa, assim com o era o
ou ativamente privado de 9ap.
seu efeito menstrual quando impessoal de qualqtrer homem nos tempos de Ina'
umd mulher fica grávida. Nesse contexto poa" nur". lshtar. F.sther Harding interpretou esse ritual como
sugestão
§e que o mito de Descida apresãnte reverbe_"
rações relativas ao mistério central dã experiêrrci;
oferecimento da liberação das energias da relação se-
i;_ à deusa82. Sendo o yin receptivo e vazio por natu'
minina: a gravidez. há o perigo de as mulheres, ao sentirem o seu pró'
Em várias culturas a mulher em trabalho de parto vazio, especialmente nllma cultura patriarcal, pro'
é amarrada a uma árvore, ou se abraça u pr.á ãu, preenchimento e realização através de parceiros
a luz. (A mãe de Buda é um "tu ã;*" Ji
b"* nos ou de fithos, ou de servirem os ideais coleti-
"*"-pü,
gumas tribos da Amazônia que têm p-or prâtica amarrar do animus na prostituição aos pais. Terão inveja
a mãe acima do solo, e ela fica depãnduiada no troncá pênis e irão procurá-lo para satisfazer o desejo de
até a.criança aparecer). É claro q.r" u submissão às er; ou tentarão desvencilhar-se da sensação de im'
expenências do corpo são uma maneira de a mulher,
mes_ na veneração a um homem que lhes dê prazet
mo de uma deusa, estar fixa a experiência concreta: e a possibilidade de fundirem-se em gozo. Perce-
pregada na realidade para encontrai a fírmeza o espaço interior pode fazer a mulher sentir-se vazia,
ae suá
própria posição. vidà, oca, como se lhe faltasse nutrição ou subs'
Esse sentido sugere ia uma cavidade oral, devido à falta da mãe ou
impessoal feminina. Ela dá -um aspecto da energia yang -
amante. Ela tem ânsia de ser preenchida e poderá
firmôza, crava na ieafiâadã
material, enraíza o espírito na matéria e no momento. gradar-se na dependência de outrem ou na impreg-
Trata-se, assim, de um apoio, uma viga de sustentafaà pelo animus. Poderá perder a própria alma na
adentrando o fluxo da viàa. ó poste tÀmbém ," urr"à"- de fundir-se no amante.
lha ao falo ou consolo da deuà escura, ou ao membro A necessidade da mulher de fundir-se com o mas-
de seu
-marido Gugalan-a, _que foi morto. Há analogias
com o falo gelaclo do diabô, o senhor dos mundos"in-
feriores e consorte de Diana, como o concebia- ã. ua"p-
tos ocidentais dos ritos de bruxaria. para eles, es.e faio
os unia numa comunidade por meio da participação na
experiência ritual do espírito impregnadôr da íuiur"ru. muita freqüência não há distinção entre a necessi'
e que a mulheç sem carinho tem da própria mãe ou
um parceiro masculino. Talvez, pelo fato de tantas
serem nutridas pelo animus patriarcal do tutor
8l de considerarem seus irmãos e pais mais afetuosos
.Eslhe Harding, Woman,s Mysteryes, p. g4.
tantçs, elas continuam a buscar força e cuidados
f; A palavra horn_tarirUeú .ígirifi"u cravo, prego e
^..^,i.I._d^1
gy:.!ge. obJeto que
pretaçao da autora. Não-seja _semelhante a um chifre; dai à iãter-
há a mesma equivalênciâ de sentido. 8z Ibid., 135ss.

62 ó3
maternais nos homens e em seus próprios animus, des. forteeinteiro.Éo que ilustram os sonhos
valorizando os cuidado. * o feminino" *"rÃo mulheres:
quando os têm ao seu alcance."orrfúto
Vou buscar meu diagnóstico porque estou termi-
- O poste de Ereshkigal preenche o vazio oni-receptivo
da mulher com a farç{ yang feminina. Satisfaz o vàntre nando a análise. O médico diz que eu tenho testícu-
eternamente aberto, dancto à mulher a sua própria intei_ los; eu pensei que fosse colite. Agora vejo que não
reza, para que ela não seja mais uma p"rroà rneramente lpreciso ser criada de ninguém; com meus bagos
dependente de homem õu de filho, mas possa li'posso crlar o que precrso.
em si mesma como indivíduo pleno e sôparado. ";i;i; Noto que minha mãe, que normaknente se apre-
Ela
poderá-apoiar-se em. seu Sim ,", Não como numa r,§eota com uma feminilidade de boneca e sempre
viga sólida e pessoal. O poste "de
"i,Ereshkigul i*p."J;-ã ,se curva aos seus amantes, também tem um pênis
mulher com uma nova atitude sagrada sob o negligée. Agora ela pode fazer amor apaixo-
O empalamento dá continuidade a"*"."úçáã-;-"id". l, nadamente, pois é homem e mulher ao mesmo
um processo que I tempo.
possibilita a irrupção cla capacidade de exiitir ,ô*
"- -es-
rado e de ser inteira em si ir"rrrru ao servir a deusa
,À mãe do sonho é como a Afrodite barbada, a for-
:y.u - poder negar e afirmar, suportar com solidez e
ttrrneza, hermafrodita da deusa do amor. Ambas as mulhe'
destruir e criar. A fonte agora é interior e,
portanto, não há necessidade de p.ãcurar valorizaçaa eram donas de seu próprio poste, tinham pontos de
indiscriminada ou masoquista forá de si mesmà,-;; pessoais e podiam tomar posse de sua criatividade
de tentar tornar amigávãl o mundo à sua volta para conexões individuais e apaixonadas com a vida.
consegtrir apoio, ou de amansar os outros em buscà de Outra rnulher, clepois de deixar claro ao amante seu
recompensa. A necessidade básica de ser satisfeita, tão pessoal da realidade, arriscando-se com isso a
mal atendida pela irrãe em tantas mulheres *oaà."ur, , sonhou:
encontra uma rnaneira de plenificar-se, e um modelo
verdadeiro de apoio e ernbaümento é atingido. Visito uma mulher muito velha que parece uma
bruxa. Ela guarda duas cobras venenosas que en-
Nossa cultura desencoraja as mulheres de buscarem
sua potência impessoal feminina. Tal concepção é consi_
tram em minha vagina. Fico petrificada, e tento
puxá-las para fora. A velha me diz que, enquanto
derada monstruosa, e elas são mais estimulàáa, u
as cobras ficarem juntas, não me morderão. Relaxo,
dóceis e a "relacionarem-se por meio d.e Eros,, com ".r"Á
as e experimento uma curiosa sensação de segurança.
figuras sádicas do animus pât".ro, do que a reivindica-
Sei que terei de mantê-las juntas. Entra a filha da
rem a sua própria força sádica e afirmativa. bruxa e promete ajudar-me.
- A conjunclio
substitui
dessa espécie com o falo da deusa não
outra, posterioi, de casamento entre mas_ Aqui, as serpentes impregnadoras são os opostos, que
culino e feminino; o que ela faz é aclarar a conjunctio lern fecundar e proteger quando estão unidos no abis-
menor, possibilitando dessa forma outra mais am_ de Ereshkigal e no nível da consciência por um ego
pla, autêntica e apaixonada. pois, quando uma mulher funcionp como um vaso concorde e equilibrado. Elas
c-onsegue sentir sua atitude centrada na sua própria in_ destruirão, mas chamarão à cena uma nova sombra
dividualidade, ela pode abrir-se para receber ó o.rtro ", eü€ a sonhadora associou a "uma mulher que
"*
64 ó5
Caminho para a iniciação
pode ser muito desagradável, mas que diz sua verdade cortante. Ela nutre e cuida de mim. Em algum
porque vai a fundo até encontrá-la".
Essas mulheres começaram a servir o feminino som.
brio. E nelas manifestou-se uma nova energia para man-
terem-se firmes num chão que elas sentem pertencer às
suas realidades agora individualmente experimentadas. O ais inôorporado, e alicerçado com mais firmeza. Mas
que equivale a defrontar-se com o animus patriarcal co- c é, também, mais difuso. E mantém uma relação com
letivo, mesmo sob o risco de serem consideradas desa. totalidade da gestalt ao longo do tempo e dos afetos
gradáveis ou sem tato, e terem que destruir os velhos ifestos em sensações, enquanto ainda vê as partes
modos sentimentais de amar e o senso de ajustamento jetivamente, e subordinadas ao todo 83.
que tinham anteriormente por serem só agradáveis, Imagens oníricas cle mulheres com falo ou de ob-
leais e "sadias". Pois até que se satisfaçam as exigências semelhantes que penetram a sonhadora são, na
demoníacas da deusa escura, a mulher rião tem força ia das vezes, associadas a figuras de aspecto te'
para evoluir de filha ao ser adulto que consegue enfren- escuras, exigentes, fiéis ao seu próprio cami'
tar a força patriarcal em sua forma desumana. ,
-
fortes e apaixonadas. São imagens intrinsecamente
Uma mulher começou a lutar por seus afetos poten- itivas. Mas, de início, a figura decente, boa e limpa
tes anteriormente envoltos em sonhos e quistos somáti. ego as teme como às bruxas e às coisas imundas,
cos, e sonhou o seguinte: intuir o inevitável desmembramento do ideal egóico
que estas potencialidades sejam englobadas e res'
Um homem perturba a filha com um enorme falo ás. Segue-se um exemplo no sonho de uma paciente:
que destaca de seu corpo [desligado de sua huma-
nidadel quando não precisa mais usá-lo. A filha é Sou levada a algum lugar por um grupo de mulhe'
pequena demais para falar do terror que sente, res [as quais elà caracteríza como pessoas fortes e
mas pode representá-lo por meio de bonecos que franlas-|. Elas vão me sacrificar numa mesa de
a terapeuta consegue interpretar. pedra. Üma das mulheres tem um volume sob a
iorpu que, no fim, mostra não ser um falo, mas,
O trabalho com o sonho levou a mulher a reconhecer sim, uma faca enorme.
lembranças de abusos sofridos na infância, e que eram
impossíveis de ser ordenados, eliminados e absorvidos r Ela finalizou o relato exclamando: "Como podem
pelo seu modo de ser normalmente guiado pelo animus, flzer isso logo a mim que sou tão boazinha?", tornando
Um aprofundamento maior levou-a a descobrir que ainda ente o quanto a suá persona sentimentalizada temia
tratava as emoções pré-verbais profundas com a mesma se resguardava de uma auto-afirmação genuína'
indiferença cheia de desprezo que o pai bêbado mani-
festava contra o seu interior delicado de criança; em
outras palavras, ela ainda era atormentada pelo animus,
Várias mulheres expressaram a diferença entre a
f.orça yang da deusa e o yang do animus patriarcal e 83 Está clpro que o homem também -tem essa capjlcidade'
judicativo. Uma delas assim se expressa: "Há uma força que, aJ ,rei"t, ei* sonhos,. as figuras do- animus refletem o
-i"t"'i"i"".
iÍã à" mais'yang Ãmbos são válidos e necessá'
parecida ao útero com um pênis dentro. Não é só uma para os dois ""
sexos.

66 67
inteligente e encantadora; mas estava cheia de
e medo, e conseguia apenas relacionar-se com
homossexuais. O sonho que mencionamos, bem
o próprio mito, sugere a necessidade de relacionar
superior feminino, seja ele patologicamente re-
4 ou saudável, à sombra do mundo inferior. Pois,
Adeusa bipolar: que uma mulher possa desidentificar-se desse ciclo
seu padrão transpessoal de totalidade, ela
as duas irmãs sofrer a morte do ideal egóico dentro do ciclo.
tação desse ideal está ligada à imobilização de
do núcleo da inteireza feminina ilentro do
subterrâneo.
poema mostra Inana chamando Ereshkigal de ir-
A deusa bipolar é sua sombra ou complemento; juntas, as duas
formam o núcleo de inteireza bipolar do arqué-
O que me trouxe ao mito àe descida de Inana foi um rfeminino, a biunicidade mãe filha da Grande
sonho inicial de uma cliente: "Vou procurar minha irmã âr Ele é análogo à estrela fnana - ora no alto,
sob as águas do mar. Ela está no fundo, pendurada num baixo - do amor e
pois a jovem deusa virgem
gancho de açougue". A imagem sugeria a sua necessi- - "é com notável freqüência 'equalizada'
itutas
dade de buscar as qualidades do feminino, multifacetado feminina e urabórica dos começos" e. A deusa
e forte, suspensas nas profundezas do inconsciente e de mundo superior simboliza todas as modali-
levá-las de volta à vida no mundo da consciência, pois das energias vitais associando-se ativamente umas
aqui a irmã é análoga a Inana e à sua capacidade de e fluindo juntas, aí incluídas as ligações de
relacionamento fecundo e confiante. Essa mulher vivera e as oposições carregadas de força. Abaixo, e fre-
com a sensação de estar alienada e como que exilada no sob forma reprimida, está a energia que se
inferno, sentindo-se bem mais próxima do reino obscuro sobre si mesma, mergulhando em introversões auto-
de Ereshkigal do que das energias simbolizadas pela s. É a energia que torna a mulher capaz de
imagem de Inana. separada e presente em si mesma, de so-
No começo interpretei o gancho de açougue como sozinha.
uma indiferença perversa que relacionamos à sua ex- nível psicológico vemos esses dois tipos de ener-
periência de família e ao seu animus. Não me foi pos" modalidades empáticas e autopreservadoras bá-
sível encontrar a amplificação de Inana até que o des- da psicologia feminina, no tocante a todos os rela-
nudamento das defesas esquizóides se processasse du- tos interiores e exteriores: filhos, projetos cria-
rante dois anos, e a paciente já estivesse adiantada nesse homens, e mesmo as emoções autônomos e os
caminho subterrâneo. Fiquei, então, agradecida pelo en- tos e percepções da mulher. O envolvimento ati-
sinamento do mito de que a lentidão terrível do pro- solicita o outro, que envolve o parceiro em amor
cesso, porta por porta, era o ritmo certo.
Minha cliente er:a uma mulher identificada com os T.-W. Danzell; citado por Erich Neumann em The Great
valores patriarcais. Cursava a universidade tentando ser , p. 197.

ó8 69
ativo e num abraço guerreiro é Inana; a espiral descen. " da mulher; a parte de baixo são as energias
dente e regressiva, solitária , e até mesmo fria e indiferen. ", "mal-cheirosas", impessoais e negativas, agressi-
te ao outro é Ereshkigal ss. e desapaixonadas. Nossas divisões culturais não têm
O mito nos diz que não é patológico ser inconstante; conteúdo que tinham as dos sumérios, pois
trata-se, isto sim, de um serviço à deusa bipolar da vicla celebrava sua vulva com prazer, libertando-lhe a
e da transformação. Muitas mulheres ficam enroscadas E mesmo em nossa cultura há diferenças gerais,
na parte separadora do ciclo, e reagem negativamente o como individuais. O que está reprimido nas filhas
cheias de culpa à sua aparente impiedade, caindo em e empreendedoras do patriarcado, nem
depressão. Ou, então, agarram-se a alguma coisa que ain. é esqueciclo ou desvalorizado por quem está pre-
da oferece relacionamento, mesmo quando esta soa falsa às tarefas de mãe e esposa.
e como um desserviço à sua própria inteireza (o que se Relacionar-se com as imagens do feminino que são
prolonga até que o si tnesmo reforce suas exigências por adas nesse mito, faz algumas mulheres senti-
meio de trma frieza e irascibilidade inconscientes). E fa- tomadas peio iado erótico e ativo-afirmativo de
zem isso por não conseguirem reconhecer o núcleo bi. ; elas conseguem sentir as energias anteriormente
polar da totalidade. a
sendo agora espelhadas na deusa do mundo su-
Esse núcleo se repete em muitos pares de deusas: . É como se tivessem que redimir o potencial de
Atenas e Medusa, a Afroclite celeste e a Afrodite Urânia ralidade feliz, e/au a afirmação ativa do subterrâneo
(a mais velha das manifestações do destino), a Mãe Kali psique. Outras mulheres, já confortavelmente cons-
e a devoradora Kali-Durga, o lado claro e o escuro da lua. tes de suas capacidades eróticas e/ou afirmativas,
Podemos relacionar esses pares aos dois tipos de energia sentir a necessidade de ir ao encontro do poten-
do ciclo menstrual: a fase ovulatória (branca) e a mens- de receptividade paciente e de gestação, refletido na
trual propriamente clita (vermelha) e. A bifurcação sem- ra de Ereshkigal. Podem ter que "descer" tempora-
pre aparece, nas imàgens de sonhos das mulheres patriar- te de parlrões aceitos de comportamento para um
calmente orientadas, como um seccionamento do corpo odo de introversão (até mesmo de depressão ou gra-
feminino que o divide em duas partes: acima e abaixo da verdadeiras) a fim de continuarem o processo de
cintura. A parte superior representa o lado mais aco- tizaçã,o de sua totalidade potencial.
lhedor, cultural e pessoalmente "melhor" e mais "comu- Não obstante qual extensão do padrão seja imagem
,vivência concreta, e1e está lá, pois a alternância, o ca-
85 Essa divisão das duas deusas sugere uma percepção antiga que oscila é uma função do si mesmo femí-
e intuitiva do funcionamento do cérebro, só agora confirmada que se alterna no tempo, manifestando-se primeiro
cientificamente por Paul Maclean e outros (cf., por exemplo, de
Mary Long, "Ritual and Deceit", em Science Digest, p. 87-121, fase, depois noutra. As duas imagens da deusa re-
novembro/dezembro, 1980). O cérebro primitivo, "reptiliano", é fases de uma mesma totalidade que precisam
responsável pela autopreservação, agressão violenta, dominação
e comportamentos de exibição rituais e repetidos. Sáo núcleos vistas e reverenciadas.
de comportamento grosseiramente análogos aos associados pelos Assim o mito nos ensina o modelo da circulatio ge-
sumérios à figura de Ereshkigal. C setor lÍmbico do cérebro, de vida. Inana marcha com determinação para o
com os processos do neocórtex pré-frontal, funciona na preser-
vação da espécie: nutrição, empatia, laços sociais. Comportamen- inferior, indo de maneira ativa e consciente para
tos que são, a grosso mo'do, associados às características de to-sacrifício. É assim que a mulher moderna tem
Inana. aquiescer e cooperar na introversão e regressão ne-
_- !ó _Penelope Shuttle e Peter Redgrove,
Eve's Cure and Everywoman.
The Wise Wound:
ao mundo subterrâneo, o mundo dos níveis
70 71
arcaicos e mágicos da consciência. Deve descer para en. e apertados um ao outro pareciam uma só- pes'
contrar seus começos instintivos e encarar a face da ,E ela explicava: "Duas irmãs abraçadas fazem
Grande Deusa, e a sua própria antes de ter despertado forte. E é a maneira pela qual consigo abra-
para a consciência. Deve ir até a matriz das energias quando preciso de uma mãe e não há ninguém
transpessoais antes de elas terem sido liberadas e tor. , ajude. E., u mim, como a irmã-a sua-irmã"'
nadas aceitáveis. É o sacrifício do que está em cima em liu bilh.t"r para a terapeuta, chamando-a de
favor do que está embaixo. (Nessa perspectiva, 'Inana ". Não é apenas um formalismo lingüístico que
é uma prefiguraçãc de Cristo e de Odim, ou, encar- chamar Ereshkigal de irmã.
nando-se através das esfer4,s planetárias da terra, é a an incesto sugere culdados e proteção a nível uro-
cestral da Sofia Gnóstica). ao nível dós laços simbióticos que firmam a
er em sua auto-estima, permitindolhe ir em frente
sua alma feminina, livre das amarras do coletivo
Insesto com a mãe ou a irmã :. Isso freqüentemente emerge junto-com imagens
tes a comér alguma coisa, incidentalmente a pró-
Quero levantar o tema do i,hcesto com a mãe ou a terapeuta, para àbsorver fragmentos da alma que
irmã porque ele está claramente implícito na bipolari. r são vistos apenas no espelho da outra componente
dade da deusa. Isso tem muitas conotações para a mu- . "Eu só quero que você fique aí sen-tada quieta,
lher. No presente contexto trata-se de uma maneira de poder e incorporá-la a mim", disse uma
"incorporar as forças obscura.s da mãe, ao invés de fugir . butra"o*êJu
imaginava-se Co*o "uma lesma autode-
ou destruí-Ias" 87. A ligação erótica pode permitir uma ... vivendo abaixo de todas as coisas, appnas
conexão íntima com qualidades positivas da sombra às lentamente minha raiva, gula e pregüiça, en-
quais a mulher nunca teve acesso dentro de si mesma. rto você observa. Porque, de alguma forma, eu sei
É também o retorno à possibilidade de estar intima- você também passou por isso". Como um-pelicano
mente religada a outrem igual a si mesma, e que pode hórico (o vaso alquímico da circulatio), ela sentia
ratificar plenamente o feminino. r precisava
-"frurnura seus instintos rejeitados' EIa
Neste domínio está incluído o mistério do amor ot "orr.rrrii.
pelos nomes que usara a vida toda
entre mãe e filha e entre mulheres iguais. Anne Sexton rotulá-los pecado, pois sentia Oge nreglsay-a
escreveu sobre "a caverna do espelho, aquela mulher "omã á substância sem nenhuma ideali-
aceitar-lhes
dupla que olha para si mesma", no poema "A Imagem
Dupla". Uma cliente sonhotr que estava "olhando no lF freqtiente ocorrer uma fixação de transferência
espelho e vendo outra mulher exatamente igual a mim ú quando a terapia atinge- este nível é
e que, por isso, faz-me sentir segura e autêntica". E "toáruda as defesas do -
animus
fusão urobóiica que derrete
Adrienne Rich: o "Espelho em que duas são vistas como mite o renascimento com a capacidade de exprimir
uma. É ela a qtrem chamamos de irmã" 88. Uma paciente e sentimentos de maneira ativa' A imagi'
sempre pintava duas irmãs se abraçando e "os dois

87 Karen Ellias Button, "The Dark Mother in Contemporary


Women's Poetry", in Anima, an Experimental Journal, p. 8, v. 4,
a.2.
88 Rich, Poetns, p. 193.

72 73
-se emergir sab ir torma de um bebê de cinco centíme- ide cada analisando. Há sempre novas experiências
tros, "como o nenê que entrou no ventre de Maria num surpresas, nova§ percepções e aberturas aprofun-
raro de luz". E esse bebê pôde ser cuidado e nutrido ou ampliando-se nos domínios sem fim da psi-
pela terapia. Um incesto desse tipo com a mãe permite
curar o ego-animars ferido pela dissolução no acolhi rHá ainda um outro aspecto do incesto com a mãe
mento gerador de confiança da terapia. E isso permite o quase sempre aparece na análise das filhas do pai
nascimento e a criação do si mesmo criança como irovo energicamente repudiam as mães fracas, iden-
padrão de totalidade. excessivamente ao espírito e intelecto mas-
Aí, como em toda relação de amor, dá-se uma fe- Suas rnães eram vistas como o modelo de in'
cundação recíproca. fnana traz percepção e atividade di- do qual elas tentaram escapar a qualquer
ferenciadas para dinamizar o reino dã Ereshkigal, causar Nesse caso, o incesto com a mãe pode ser o des-
um sofrimento consciente e, quem sabe, até um nasci- r doloroso para as qualidades com ela comparti-
mento. Em troca, ela recebe sua própria morte e renas- , a identidade com a fêmea humilhada e despre-
cimento, a capaciclade de testemunhar e uma nova força r. Certa mtrlher, depois de explorar as característi-
na presença introvertida. Sobre aiterra, Inana é como da sombra do pai, desvencilhou-se da identificação
uma cornucópia, jorrando dádivas, sendo poderosanren- ele e começou a pensar na mãe. Ficou perplexa ao
te iniciatória. No subterrâneo, torna-se passiva, sendo §cobrir: "Eu repeti a vida de minha mãe. Pensei que
ela própria a iniciada. A deusa dissolve-se, tornando-se , fosse parecida com meu pai por ser sua filha prefe-
receptáculo dos processos vitais a degeneração como . Mas vejo que sou igualzinha a ela. Minha mãe
gestação subterrânea, não de um- filho, mas do Ser em totaknente servil, pertencia a ele subservientemente.
seu aspecto aparentemente mais negativo. Mas Ereshki- duas nos perdemos". Outra, depois de uma visita
gal torna-se ao mesmo tempo ativa e consciente. A fecun- dos pais, desesperou-se: "Sou igualzinha a ela
clação recíprocar entre as deusas exerce um efeito profun- e mesquinha, odeia e vive tentando agradat,- é
do em cada uma e em suas capacidades criativas; mais merdinha assustada. Eu me achava tão forte e
amplamente, ela modifica a relação entre o mundo in- igente e pensava que tinha escapado de tudo aquilo".
ferior e o superior, criando um novo equilíbrio masculi- outra, que só enxergava a sombra negativa da mãe,
no-feminino que se manifesta no mundo da consciência. çou a examinar as ligações que sentia the haverem
No espaço analítico a fecundação recíproca e pro- dano: "sempre odiei sua inveja de desmancha-
funda expressa-se pela transferência e contratransferên- , mas agora vejo que sou igual. Ela acoihe pes-
cia intensas, inevitáveis quando o trabalho se adianta abandonadas e deixa os filhos de lado, enquanto
nos níveis mágico e arcaico da psique. De maneira especí- cuido de meus alunos e ignoro as minhas próprias
fica, os dois lados são atingidos de modo profqndo por idades. É a mesma coisa".
complexos comuns ou complementares e têm de rela- Ery todos os exemplos a mãe pessoal é idêntica à
cionar-se aos padr'ões de energia arquetípica que se cons- rrâ negativa da mulher, que é então projetada sobre
telam nesses campos sensíveis. Como ensina Jung, am- mãe. Quándo adultas, as filhas do pai ficam humilha-
bas as partes emergirão transformadas de um trabalho ao verem os laços de fraqueza e auto-rejeição que
iniciático, pois ambas empreendem juntas a jornada. partilhamco- á mãe. O iisight prega-as na realida'
Mesmo que o analista já tenha explorado grande parte ãestrói-lhes o ideal grandioso e heróico do ego, ini-
desse território, novas áreas sempre serão abertas,atra- um período de mergulho na depressão, enquanto

74 75
as faz sofrer pela identificação com o feminino ferido o
desprezado. Isto Iembra muito o fato de Inana ter apo.
drecido no poste da Ereshkigal violentada e negligãn.
ciada.
Até que as qualidades da sombra negativa sejam
vistas em seu contexto ctiltural mais amplo, a filha ien.
te-se particularmente amaldiçoada e num abandonb sem 3
esperança. É quando uma perspectiva feminista pode
surtir efeitos terapêuticos: ver que todas as mullieres Descida, sacrifício
sofreram menosprezo cultural significa que não é culpa e transformação
da mulher o sentir-se fraca e inadequada em sua viãa
e no apoio devido à própria filha. A perspectiva arque.
típico-cultural remove o ônus da mãe concreta e parti.
cular e, daí, redime um ciclo de anseios insatisfêitos,
de mágoas, Írustrações e desejos fle vingança que, de
outro modo, poderão continuar até à velhice, barrando a
aceitação de si mesma. A perspectiva feminista permite
uma atitude de testemunho solidário com o si mesmo e a iO motivo da descida é lugar-comum no trabalho de
(Aplica-se, mesmo diferenciadamente, tanto a ho-
mãe. Esse testemunho reestrutura o problema e é aná-
quanto a mulheres, embora aqui eu me ocupe
logo, como veremos, à ação dos carpidores de Enki,
nas da experiência feminina do processo) 8e. Empre-
descidas otr introversões a serviço da vida, para
terr:ar maiores extensões do que ficou mantido in-
iente no mundo irrferior pelo si mesmo, até termos
s suficientes para a viagem e vontade de sacrificar
rma parte da libido em favor de sua libertação.
descidas mais clifíceis são as que vão às profundezas
tivas e urobóricas, onde sofremos algo semelhante
r89 A maior diferença com relaçáo ao desenvolvimento mas'
[qo é que, até recentemente, e mesmo assim somenÍe- na
mêtaae da vicla, a maior parte dos homens não tinham
de de descer às suas profundezas reprimidas, uma vez
de início, já se haviam libeitado da infância, identificando'se
"cultura,
ideais ciá pois nisso sempre foram apoiados pelo
do exterior, sem sentirem nenhumá resistência interna. Pre
mente, como não há modelo adequado de totalidade cole'
te aceito para servir de modelo- ao desenvolvimentg dq
masculino, e como c ideal heróico do ego também náo é
uado, os homens são forçados a r:elacionarem-se cada vEz
diferentemente com suas lrrofundezas e a otlsarem, descidas
iduais que lhes permitam reigatar padrôes instintivos e de
reprimidos.

76 77
ao esquartejamento total. Mas há outras, expressas por Os estudiosos inclinam-se a descartar como mera
imagens de descidas a
_túneis, à barrigu oü uo ,ftá.", pa a razáo alegada por fnana para justificar sua
para dentro de montanhas ou de pr""ir.*o,
passar por algumas das mais fáceis, "rp"i-hor.
para afro,r*u.o,o, Ereshkigal, minha irmã mais velha,
endurecimentos e gerarmos energia, antes de ,ro, porque teu marido, o deus Gugalana foi morto,
urair_
carmos nas descidas fragmentadõras até as profundezas para comparecer aos rituais funerários. . . que
de nossas feridas primoidiais, e trabalf,ur*or- uo
psicossomático do sofrimento básico.
il;I assim sejael.

As descidas mais profundas levam à reorganizaçáo Mas etr creio que essas- palavras mostrarn a verdade:
e- transformação radicais da personalidade desce mesmo para presenciar os rituais de se-
;;;;-i;ã
Mas, como a jornada do xamã-ou a de l"u"u,-Àrtao-r* tamento de Gugalana.
deadas..de pe-rigo coRcreto. Na terapia o analista O nome Gugalana significa "grande touro do céu".
confia touro é um símbolo de energia masculina primordial
poder "guiar" e acompanhar o anaiisando ;;
;;j;ã;
do inconsciente. Mas álgumas destàsdescidas ;.;;6;; to força fertilizadora cla natureza. Na Suméria ele
do alcance da terapia, -ou abrem-r" ,ru, fendas oculiá, relaciona a vários deuses locais e celestes: o deus pri-
dos, acessos psicótiàos. Todas elas, àntretu"iã, -;;: ial, An, é chamado de "fértil touro reprodutor" e2
dã" ,"grande touro feroz" e3, e foi ele quem criou o touro
trada a níveis diferentes de consciência e podem, hriati_
vamente, Iiberar a vida, Todas implicari .ofrí*"rrtã. .e que Ishtar exigiu para castigar Gilgamesh por
Todas servem como iniciação. A meditação, o sonho ofendido e4. Nana, o deus lua, tem os chifres em
imaginação ativa são moáos de descer. Bem como as
ea te que o tornam um deus celeste (mais tarde
depressões, as crises de ansiedade e às experiências é celebrado como protetor dos criadores de gado).
drogas alucinógenas.
com il também é considerado uma "personificação da
"95. e dos "ventos da primavera
L 1--- J tÍazem
r_ ____-' -_ -- [que] -- a rLa-
de volta à vida" eó. Ele é marido de Ninlil-Ereshki-
fundido os estudiosos. Na versão mais antiga do mito e provavelmente o Gugalana do poema. Trata-se do
a descida nada tem a ver com a libertação áe Dumuzi- mo touro do signo astrológico terrestre, o signo
-Tamuz, pois a deusa ainda nem o *urrãou puru primavera, oposto ao Escorpião, que é aquático. E há
üá1*r.
As versões mais tardias sugerem que ela q"ã, ."r."r"i_ de Inana-Ishtar ao lado de homens es-
tar os mortos, e a reação de Ereshkigal ão intrometi_ , que são seus servos. A deusa também incor-
mento da rainha do céu envolve o a fertilidade da terra, e o touro pode ser represen-
escura tem de perder algo até então -áo que a .ai"nà tivo de sua força masculina complementar. Certamen-
muriido em seu
poder, alguma coisa que estava morta para o mundo
superior. Sua reação pocle até sugerir o medo de con_ 91 Kranrer, Sacred Marriag,e Rite, p. ll3.
trontar-se com outro nír,el de consciência e de sentir 92 Jacobsen, p. 95.
sua própria misér:ia e,-ainda, o medo de chegar à per- e3 Ibid., p. 110.

cepção do sofrimento m.
9aO deús An anuncia que o touro sobre a terra -causará
e anos de fome (Heidel,'p. S:1. Ishtar e seus seguidores la'
:ntam-lhe a rnorte, quanclo Gilgamesh e Enkidu, arroqando seus
leres mortafs cont.à os da nalureza, sacrificam-no (ibid., p. 54).
9s Jacobsen, p. 98.
eo Heidel, p. 122-123. so lbid., p. 99.

78 79
te a morte do touro a envolve de modo pessoal na épica eÍn tneu pai mostrou-me ser como o Mágico de Oz.
de Gilgamesh, bem como no poema da bescida. -'----
'
é só um homenzinho por trás da cortina que mal
"O deus Gugalana foi morto,,. Ele é, creio eu, o levar à frente o seu trabalho, e que fica lu-
âspecto subterrâneo de Enlil. A escolhu ,ro"uúrrh-'aã para manter-se de pé", disse uma mulher ao con-
poema sugere que fnana deva testemunhar de modo e com os fatos da vida pessoal de seu pai. Outra
presente a sombra reprimida do deus celeste, o fato
de due o pai era um inquisidor, e foi-capaz de
Enlil ter sido um estüprador e por isso mandàd; a sombra arquetípica por trás das virtudes que
o mundo subterrâneo, como caJtigo por sua violência. O*
inistro protestante, lhe havia inculcado. Ao defron-
Os deuses pais do mundo celeste iao-são simplesmente com essa imagem do sonho, ela disse com sur-
puros e admiráveis. Eles têm um lado infeiior, uma e intensidade: "Eles queimavam mulheres". Pela
grande sombra separaila e recolhida no inconsciente. vez teve coragem de olhar para o sadismo im-
O poema sugere que essa sombra é como o furor de nos ideais patriarcais que ela admirava, e pôde
um touro, como o desejo e a dominação em estado bs como inimieos do feminino e de si mesma.
puro, a violência sádica arrasadora, * e uma opressão
clemoníaca o*. A sombra taurina defensiva e irreàovível
llQuando tr*u Jilhu clo pai vê a confusão e irrele-
é um elemento do patriarcado e de seus ideais heróicos,
, para a sua personalidade, das virtudes e concei-
que até então a haviam orientado, ela pode também
que arrasa o feminino e luta por controlar e manter o r a desprender-se deles, usando, para isso, o olho
que é seu, indo em frente no ataque, não se importando r da objetividade de Ereshkigal. Uma cliente ima-
se irá destruir a sensibilidade lúdica e o relacidnamento a falta de consistência do pai como algemas que
empático. Na descida de Inana está implícita a confron- dlevia usar, como a armadura caótica de rótulos que
tação corn essa sombra patriarcal e aiquetípica. Inana bolava em suas tentativas de escapar de seus domí-
deverá ver os limites do pai e ser testô-,rrrhu do quà O vento, então, soprou os rótulos caprichosamente
estava reprimido; deverá reencontrar Ereshkigal. ta frente, para qlre a moça pudesse lêJos. Aí ela
. Psicologicamente, para as mulheres de hojã a morte
do touro do céu mostra que as coisas que antes susten-
que tudo isso tinha muito pouco a ver com a
realidade, mas mesmo assim sentiu uma perda ver-
tavam o ego-animus náo podem mais funcionar. O prin_ ira, e lamentou o fim de um sistema de identidade
cípio ancestral do pai foi despotenciado junto o, até então havia dacto sentido à sua vida. Mas não
ideais e imperativoi do animis, que antes formava "ori.um um sistema fincado na realidade (a paciente sonha-
todo.orgânico pa-ra dar identidade a filha do pai. A des- com vigas gigantescas suspensas no céu, a ameaçá-la),
iocntificação pode ocorrer de várias maneirai. euando parecesse que essa ilusão alimentasse a sua vida.
consegue enxergar para além da fachada que idealiza o uma mulher assim, enfrentar tal perda é como la-
pai cgr_no modelo, a mulher pode começar a perceber a r a morte de alguégr. Na depressão que se segue
fragilidade humana oculta .* t.rdo isso, conseluindo, as- ve descer abaixo da àdesão aos ideais que violen-
sim, libertar-se do magnetismo compulsivo-do iáeal. o feminino e a dividiram em metade de baixo e
"O que eu julgava ser tanta força, vitalidade e inteligên- de cima. A mulher é forçada a introverter-se e
a si mesma em sacrifício, para passar pelo es-
do7er, o 9ge destrói pela raiz, N. da T. jamento dissolvente da velha identidade.
-I 2"tt-b.uuy,
,- ,'^ ,/o usar da força para coagir alguém. Todos termos
oerrvados de bull, touro, sendo impossível manter
grnal do texto na tradução em português. N. da T.o sabor ori-

80 81
Inana e o casamento de morte O mito do nascimento das plantas comestíveis. . .
sernpre envolve o sacrifício espontâneo de um ser
divino. Este pode ser uma mãe, uma jovem, uma
fnana empreende a descida para testemunhar a mor.
criança ou um homem... [Nesse motivo mitológico
te do touro do céu. A parte seguinte do mito refere-se tão difundidol a idéia fundamental é de que a vida
ao casamento mortal: a morte e o empalamento no poste
só pode nascer do sacrifício de outra vida: a morte
fálico da deusa escura, o incesto com a dimeasáo'ying por violência é criativa no sentido de a vida imola-
da mãe. A narrativa descreve fnana descendo ,ã
"o*se lê: da tornar-se manifesta... em outro nível de exis-
estivesse vestida para casar-se, e em seus olhos
tência. O sacrifício ocasiona uma mudança gigan-
]9""- ele_ venha, que ele venha", e no disco peitoral:
"Venha, homem, venha". No início parece qr.r" ãla qr",
tesca 9.
usar o poder de sedução para ressuicitar o *orto, p-u.u
reanimar o touro celeste. Mas Inana vai mesmo có-o Os ritos da mãe-terra envolvem um hierosgamos
"testemunha" dos ntos fúnebres, "assim seja,,, como al- uma morte violenta. Nos rituais primitivos, a pes-
guém que também aquiesce em sofrer o que, como clara- sacrificada é o bode expiatório da comunidade. A ví'
mente sabe, irá lhe acontecer. O funerál também é o é oferecida à deusa terrestre para que ela prodiga-
seu, ela se prepara. É pôr esse meio que a deusa pode "boas colheitas, boas estações e saúde" lm. Ela é "o
-e
se abrir e receber as forças poderosas adormecid* ,o que fecunda a mãe terra" 101. De acordo com Erich
subterrâneo. Como qualquer iniciada, ela se rende cora-
josamente ao próprio sacrifício, para ganhar nova força
e conhecimento e7. Como a semente que morre para re- O sacrifÍcio do filho, oficiado pela mãe, originou-se
nascer, a deusa dos silos se submete. Como a pedra, o em tempos remotos com o sacrifício da filha... a
metal, precioso e a madeira-de-lei do poema, que sáo vítima é uma mulher, e num dia seguinte uma me-
partidos pelos artesãos durante o proiesso criativo es, nina representando a deusa terra (representando o
fnana deixa-se quebrar para uma nova criação. milho); ela é decapitada, e seu sangue aspergido so-
bre frutos, sementes etc., para garantir-lhes a re-
produção. Os elementos fundamentais desses rituais
ãe fertilidade são a decapitação da mulher enquan-
Sacrifício e intercâmbio de energia to deusa, o sacrifício frutÍfero de seu sangue, o es'
folamento {e seu corpo, e a investidura do sacer-
O sacrifício é a base dos ritos de fertilidade primiti- dote. . . em sua pele 1')2.
vos. Inana oferece-se em sacrifício, testemunha á morte
das forças férteis e traz a si mesma como semente. En- Esses rituais eram generalizados. Há evidência de
trega a própria libido para replenificar a fonte perdida. realizaçáo no antigo México, entre os Pawnees 103 e,
E de sua imolação voluntárià depende a contiiruidade
99 Mircea Eliade, "Terra Mater and Cosmic Hierogamies",
da criação. Como observa Eliade:
iprins, n. 35 (1955).
lo0 Ibid.,"p. 38.
, e7 Keré.nyi,
rényi, p. l3v.
"Kore", in Science ol Mythotogy. de Jung e Ke- r0l Ibid., p! 39.
102 §surnann, Great Mother, p. 192-194.
98 Kramer, Sacred Marriage Rite, p,
ll4. ro3 f,,liads, "Terra I\{ater", p. 39.

82 83
provavelrnente, entre os precursores dos sumérios. Tal. rkigal rú, pelo sofrimento e, finalmente, pela des-
vez a imolação de porcos em Atenas, e seu esquarteja. de uma oferenda substitutiva. Por fim Dumuzi é
mento, quando se tornavam carne podre e fertilizadora, te redimido no mundo exterior pelo sacrifício
seja uma adaptação tardia da mesma necessidade de sa. ua irmã. Nessa troca arquetÍpica, a libido corre de
crificar à terra o que vem da terra, a fim de gerar mais núcleo a outro. Nenhuma das partes permanece es'
vida. . Tudo está em processo morte, sacrifício, de'
, ressurreiçáo como- parte do dinamismo da
Sabemos que Inana, enquanto estava no mundo in.
Esfera da vida. -
ferior, nada gerava nem copulava. A terra estava estéril.
A deusa se retirara em auto-sacrifício: era o primeiro 'A nível psicológico, o aspecto processual é experi-
bode expiatório. Da perspectiva desse sacrifício podemos ntado de maneira dolorosa e lenta. Sentimo-nos iden'
ver que fnana mantém o equilíbrio da vida. Dos "céus com quaisquer aspectos que nos sejam mais
altíssimos" ela vai para "as maiores profundezas da ter. imos, e raramente conseguimos encontrar o alívio
ra". Ela deverá ir proporcionalmente tão fundo quanto a proporcionado pelos momentos de clareza, co-
altura em que estivera anteriormente; do extrôvertido quando se consegue ver o núcleo a partir de uma
ativo à carne inerte e passiva; do diferenciado e ideal iva transcendental. Embora a depressão e o
ao indiferenciado e primal. Só assim o equilíbrio exigido de nossas ilusões e ideais incompletos sejam
pela Grande Esfera pode ser mantido. É um intercâmbio iras de levar a cabo uma troca de libido análoga à
de libido para fins de xenovação. ritual mítico, o processo se manifesta de maneira
tiosa e piora quando nos culpamos pela depressão.
Vemos por esse mito que, nas origens, a vítima do forçadas a oferecer aquilo a que nos agarramos,
sacrifício não tinha nada a ver com um oferecimento lo que pagamos caro para obter. E nada nos pode
pela remissão dos pecados. A ética estava fora disso: a Certeza de que a perda será recompensada da
havia aí apenas a necessidade que existe, sob a lei na. ira que desejarnos. No sistema abrangente da psi-
tural da conservação de energia, de manter o equilÍbrio o sacrifício pocle alterar o equilíbrio de energia em
energético do sistema global da vida. Trata-se de um n ponto que não desejaríamos mudar. Só podemos
dado conhecido da consciência matriarcal e da física mo. que iremos encontrar renovação e relacionamento
derna. É a base da psicologia e de qualquer tipo de as forças poclerosas do mundo subterrâneo, e que
transformação. E a teoria da libido de Jung está baseada envolverá a quebra dos velhos modelos, a morte
neste fato profundo e cósmico. ,uma ge.stalt em que, de certo modo, nos sentíamos
O mito da descida e retorno de Inana está centrado , a morte de uma identidade aparentemente com-
Raramente nos aproximaríarnos desse desmem'
no arquétipo do intercâmbio de energia através do sa.
se nossa dor já não fosse muito intensa.
crifício. Ele revela um modelo complexo: o touro celeste
é morto; a terra perde o seu princípio fecundador e é Que Inana precisa restaurar-se em §eu aspecto sub'
recompensada pela imolação da deusa; Inana torna-se Ineo, está implícito na noção do campo uno de ener'
a. carne do submundo, seu alimento e fertilizante apo. i da deusa (asiim Hera retira-se para o banho anual
drecido que, em troca, é resgatado a partir das origens
de Enhi. A ascensão da deusa deve ser paga pelo nasci- rl04 Isto pode ser análogo ao aflorarnento o,pressivo de Inana
mei,o aot demônios qríando ela renasce db mundo inferior
mento de alguma coisa monstruosa .tás irí.arrhas de , adiante, cap. 9).

84 85
que a rejuvenesce e revirgina). Mais específica e psicolo- descida como forma de regressão terapêutica controlada
gicarnente para uma filha do pai, a necessidade de des.
cer está implícita no lamento de Inana ao deus celeste
sobre percla de seu lar. Ela havia sido desapropriada ' O que tenho visto e experimentado em mim mesma
-a iem outras mulheres que sã.o filhas bem-sucedidas do
e perdera o foco da auto-aceitação e do amoi pióprio.
Ela precisa sacrificar a dependência para vo e, freqüentemente, filhas sem mãe do animus
oi deuses ldo patriarcado, é que sofremos uma falha básica (ter'
"om
patriarcais a fim de encontrar o lar verdadeibo no fe-
minino básico e na perspectiva processual do ser. pois de Michael Balint). Não temos o correto senso de
própria base e nem ligação adequada com nossas
como filha, irmã e hieródula dos deuses celestes mas-
e necessidacles incorporadas, de forma a nos pro'
culinos, ela sofreu a diminuição de sua própria potência,
isso que muitas de nós conhecemos (e até-mesmo apre- de um ego processual feminino e flexível, vm ego
ciamos) quando nos relacionamos principalmente coir/e
uilibrado em yin e yang. Há uma falha nos níveis bási-
através de nossos parceiros masculinos e de nosso de nossa personalidade uma divisão profunda,
tida pela lealdade a ideais - culturais repressores, que
animus.
im o ego alienado clo mundo real, de maneira re-
Um poema diz que fnana desistiu de escolher o deus e inflada na identificação com o si mesmo.
agricultor para marido a fim de aceitar o pastor Dumuzi, isso precisamos passar por uma "regressão con-
porque seu irmão, o deus sol, forçou o enlace tos. fnana " até os níveis da fronteira com o mundo sub-
não estava firme em sLla própria base de sentimentos. râneo da deusa escura de volta ao que éramos
Ela foi perstradida. Talvez isso fosse inevitável ou até tes de termos a nossa conhecida- forma atual, de volta
mesmo necessário. Mas como hetaera (companheira) que níveis mágicos e arcaicos da consciência, e às pai-
prodigaliza e serve as alegrias do mundo, aiendendo tam- e ódios transpessoais que ali nos destroem e ali-
bém os deuses masculinos, ela está sempre ameaçada de tam ao mesmo tempo: é a volta à mente-corpo e
perder-se através da criação de ligaçõei e de cúidados estágios pré-verbais do útero-túmulo, em busca do
subservientes. Inana precisa voltar à deusa feminina es- inino profundo, da "máe dupla" de que fala Jung 16.
cura e inaceitável e renovar sua própria potência, não
para usá-la como um escudo defensivo de guerreira Na jornada para baixo despimos as identificações e
- relacionadas ao animus, introvertendo-nos em di-
como fez Atenas ao religar-se a Gorgônia ã vestir sua
face ameaçadora
!ção aos níveis primordiais, de início humilhantes e
mas para vê-la reéstruturada, renas- .stasdores, depois mais seguros. Aí podemos apren-
cida num processo - interior que está ligado à abrangên-
cia plena dos núcleos instintivos femininos. a sobreviver de maneira diferente e a aguardar a
de renascer. Às vezes esperamos muito tempo,
tidas em conhecer nossos inícios primitivos a partir de
nova perspectiva, com os sentimentos desvencilha-
. 105 Kramer,
tar.que,
Sacred Mariage Rite, p.69-70. pode-se argumen-
de acordo com umá teoria-junguiana ..ortodoAa,,, a dos significados antigos, como que suspensas aci-
aceitaçáo do irmão ao invés do pai seia po-sitiva. Mas isso póde da vida. Nas profundezas do mundo inferior, as ener-
ser enganoso. O animus-irmão íambém 'pode desviar uma'mu- opostas e caóticas da Grande Esfera lutam em nós
lher de suas necessidades ou servir de tiorta-voz ao animus da
mãe (segrrndc Patricia Finley, em comuniàação pessoal). Nos poe- uanto nos sentimos sem energia. Elas desmembram
mas de Inana, sua mãe, Ningal, pressiona o êncontro da fittra
com Dumuzi, Ela e Utu_p:eÀsionam Inana a aceitar o pastor too JunB, "A Máe Dupla", in Obra Completa, v. 5, parágrafos
como consorte (ibid., p. 76). t2.

86 87
o velho complexo do ego-animus e suas identificações um tal acolhimento e participação vão além dos
defeituosas. de uma terapia verbal e, conseqüentemente,
A esse nível o trabalho terapêutico envolve os afetos a disposição do terapeuta a ser "não ortodoxo"
mais. pr-ofundos, e está inevitavelmente ligado p.otl.- mesmo, a desafiar algumas proibições do superego,
"
sos "infantis" pré-verbais. O terapeuta d'eue estãr dis-
parece fazer o outro sentir-se profundamente aliado
posto a participar quando se tornar necessário, freqüen_ aceito ao nível matriarcal arcaico. Um analista, ao
temente trabalhando ao nível da mente-corpo, onde alinda ir como portador das projeções arquetípicas, deve
não há imagem da percepção do outro, e -onde instinto, itar os sentimentos e necessidades profundamente in-
e percepção §ensoiiál começam u uetr.rtirra.-re,-Jé s do outro, dando-lhes mais importância do que
?t:t?,
início, em sensações corporais quã podem-.", irt"Áiii_ convenções coletivas abstr"atas e impessoais.
cadas para fazer aflorar-a lembiania ou a imagem. Si Jung descreve a descida ao nível mais profundo co-
lêr1cio, aten_ção afirmativa espelhando futã.]-Jã"rr, "o caminho para baixo, o caminho yin... [para] a
", respiração,
abraçar, trabalhar com sons e cantar, gestos, a escuridão da humanidade" ro7. É a essa descida
ações não-verbais corno desenho, construção com aieia a deusa Inana e nós, mulheres contemporâneas, de-
e também cerâmica ou blocos, dança: tuão tem o seu nos submeter, inclo aos lugares profundos e em-
tempo e lugar. ários, onde beleza e feiúra extrema flutuam ou se
A esse nível mágico e matriarcal, os elementos ri- vem num estado paradoxal aparentemente sem sen-
tuais são fortes e devem ser respeitados, e até encoraia- A vida perde o sabor. Mas é um processo sagrado,
dos. os gestos e encenações de psicodráma poá;-;il_ mesmo de podridão, pois representa a submissão
dar a criar ou recriar ú* e.puio, emoção, sentimento Ereshkigal e aos mistérios destruidores e transforma-
ou. um núcleo arquetípico. MaJ o terapeuia deve guiar_se que a deusa simboliza.
pelas conexões afetivãs poderosas de transferênãa e de
contratransferência, e pelas imagens de sonho e fantasia,
para sentir como e para onde o processo quer ir. A ati_
tude terapêutica deve ser a de permitir ativamente a
cada,paciente estar consigo de todos os modos
que forem necessários. Isso -e.rio
pode levar a muitos tipos
de improvisação criativa. Açõás, gestos e permissõ"r, iur_
to simbólicas como literais, pará tocar à pré-ego regre_
dido e oculto, e ajudá-lo a alrender a sentir-se válido e
a confiar.
Tal comportamento maternalmente nutritivo e de
companhia exerce efeitos profundos, embora freqüente-
mente fique em segredo óu não se manifeste aó nível
das palavras. Seu impacto pode revelu.-r" up"rru. .À
imagens oníricas ou, ános rnais tarde, quandd nos con-
tar-ery- que eles foram fatores decisivos ãe mudança no
trabalho analítico. Freqüentemente, parte do efeiio se
deve à sensação que o ánahsando ou^o paciente tem de 107 Js1g, The Visions Sentinors, p. ll8-119.

88 89
Assim, tanto a putrefação quanto a extração da al-
são simbolizaclas pelo desnudamento, pois a roupa
a carne do humano, e a morte, o despojar-se das vestes
Despir-se, para os seres humanos já encar-
em egos físicos -
é uma maneira de desencarnar,
6 fim da existência ao-,nível do ego fÍsico e a revelação
si mesnto oculto. Por outro lado, para a deusa estelar
Desvendando e ultrapassando para as filhas do pai inadequadamente'encarnadas,
é uma maneira de incorporar a alma na
as entrada§ atéria terrestre.
Ficar nu também está relacionado com exibicionis-
é necessário andar nua diante da deusa. Para nós
freqüentemente significa despirmo-nos frente ao si
e por isso sentimo-nos tão expostas, especial-
Desvendando te quando os pais ou outras pessoas que incorpo-
o si mesmo zombaram de nós no início de nossa
A deusa este]ar submete-se a um processo de en- fância. É extremamente ousada essa exposição, que per-
carnação e concrettrde que implica no seu desnudamento. ite aceitar o ego físico frente ao si mesmo ou à grande
F.s'se processo sugere ã remàçao das velhas ilusões e Ao rerrelarmos tudo, encontramos sua aceitação
falsas identidades, que talvez possam ter sido úteis no etiva de tudo o que somos. Fomos vistas, e assim
mundo superior, mas que não valem nada no mundo s existir. Mas devemos nos desvendar e exibir
subterrâneo. Ali ficamos nuas diante dos olhos da deusa *
escura que tudo vêem. Desvendar, retirar os véus signi- Isso é muito difícil para uma filha do pai (e, prova-
fica o despojamento total, a revelação da deusa a- si não foi por acaso que Atena nasceu vestida
mesma o striptease original. Sugere uma necessidade uma armadura completa), pois significa, a um só
de ficar -radicalmente exposta, inrlefesa e aberta para ter po, desistir clas defesas e ilusôes de identidade con-
a alma perscrutada pelo olho da morte, o olho iombrio as pelas honrarias do mundo superior, essas fun-
do si mesmo, e sinais de poder e status conseguidos do patriarca-
que serve como aprovação e identidade de persona
-liza Jung escreve qtre freqüentemente "despir-se simbo-
a extração da alma" 108, e cita um texto alquímico: a mulher que é servil aos pais e ao animus.
"Tire as minhas roLlpas para que minha belezalrrt"riot Para os terapeutas que trabalham nos níveis mais
possa ser revelada" t@. Essa beleza é a alma, filha do sol esse processo também é essencial, pois nos
e da lua. Mas, continua Jung, "ficar nu [também] signi ite ser penetrados pela realidade do outro na força
fica putref açáo" , e na alquimia " a nigredo também é-re- dos afetos, sem nos defendermos com a persona
presentada como a 'vestimenta da t'110. ssional. Só assim é possível orientar o outro hones-
"r"r.i65o' pela realidade interior e de fato experimentada.
assim. evitamos isolá-lo numa subjetividade falsa,
loe It
191 t g, Obra Campleta, v. 14, parágrafo 43, n. 66.
é sentida como um inferno quando the devolvemos
Jbid., parágrafo-43.
lro Ibid., parâgrafo 44, n. 72. o que ele sente, rotulado como se fosse projeção.
90 9t
Nos domínios do feminino escuro não há a possibilidacle Visto ainda de uma outra perspectiva, o desnuda'
de nos escondermos. Revelamo-nos por nossos sonhos e das vestes cle Inana sugere a sua percepção a par'
pela reverberação de nossos complexos. Nos níveis pro. diferentes níveis de consciência, o mesmo se dan-
fundos da transferência e da coitratransferênciu, o-i". m a iniciada que lhe segtre o caminho. As sete
terior e o exterior se, fundem, e dois indivíduos da vestimenta real ficam-lhe sobre o corpo aos
tilham a mesma realidade psÍquica no campo de "o*pur.
fária [s dos chacras do poder kundalini. Em diferentes
la participation mystique:-aqii quase se-pre é difÍ;il íes, ela ostenta coroa, cetro ou brincos; gargantilha,
discernir de quem é esie afetà ou aquela i*ug"*. Irto, de pedraria, anel cle ouro, adorno envolvendo os
mostra-nos o mito, faz parte da lei do subterrâneo; quem is, pulseiras e uma vestimenta própria da nobreza
desce tem que se despir. Analista e analisando'eicon. ie de culotes, na versão acádica). Ao despojar-se e
tram-se num espaço profundo para submeterem-se à vestir-se desses objetos, a sua atenção seria chamada
transformação de casamento e morte exigida pela deusa. r.os chacras correspondenteslll. EIa é rebaixada ao
do muladhara descoberto o material rígido e
da encarnação, o chão nu- dos fatos e das reali-
Despir-se, no significado esotérico e oriental, como
nos conta o Bhagavad-Gita, é despojar-se das identidades.
"Assim como alguém tira as róupas velhas e veste as corpóreas; a dettsa, agora, fica bem abaixo da
novas, o ser interior despe corpos velhos e entra nou- co* sua embriagante união de opostos (e Inana
tros novos". A clescida, e o retorno da deusa Inana, bem sa qlre preside a essa união), e abaixo da cons-
como os mistérios de Elêusis, expressam a mensagem cósmica: ela passa a viver ao nível da pélvis -
da vida interior inextinguível. Os êstudiosos julgam lue da descida ãte o chacra da raiz, onde a vida
os sumérios e os acádicos não acreditavam em reencar_ está adormecida e se restaura numa outra união
nação, embora a Ereshkigal acádica guardasse a âgua I de opostos.
da vida que usou para rêanimar o cadâver de Ina"na.
Talvez esse motivo tenha mais a ver com o renascimento
entradas
e a reiluminação da consciência. Inana submete-se ao
abandono das velhas identidades, reduz-se à matéria-pri- , As sete entraclas da casa de Ereshkigal encontram
ma e, então, renasce. Assim, os indivíduos que passam em material egípcio. Neumann descreve "as
pelas_iniciações nos processos sagrados, deixãm àe hdo moradas do mundo inferior... como sete aspectos
as velhas identidades e entram em outras novas. O des- inino" 1I2. Ele chama as guardiás das sete entra-
vendamento faz parte do processo iniciático. de "manifestações cla grande deusa em seu aspecto
vel' 113. Essas diferenciações dos monstros do mundo
. Alguma sugestão das fases preparatórias da prosti-
t-uiçio sagrada também pode estar Jubjacente ao rirotivo :;ttr y5o tenhc conhecimento de nenhuma alusão em material
do desnudamento. Como as freiras atuais, que se des- hério-acádico sobre a percepÇão de tais centros de energia
pojam da identidade secular, as sacerdotisas do templo É consciência. Mas sinto qde, pela ordenaçáo cuidadosa das
de Inana podem ter passado por um processo semelhãn- ú!s. to"nte essâ interfrciaçáo não é forçada. E Joseph
mpbell""ttsugeriu numa conferência que. o entrelaçam-e.nto, das
te, como o de morrer pela iniciação na crvz do falo im- tÊlserpentãs em sete voltas em tornõ da tgÇa da Gudéia babi-
pessoal de um homem qualquer que as deixava abertas ca oôde simbolizar o kundalini e seus chacras'
ttz Neurúann, Great Mather, p. 1ó0.
para sentirem a própria sexualidade como um aspecto 113 Ibid. Para uma descrição das guardiás egípcias das en-
do serviço à deusa. cf.. O Livro Egípcio dos Mortos, p' 1ó0,

92 93
inferior acádico-sumérico deram-se muito depôis de o mi.
to da Descida ter sido escrito. Aqui há só um guardião,
Neti. As portas tahzez estejam mãis exatamentã relacio.
nadas às sete posições planetárias, em conjunção com as
quais o planeta Inana-Ishtar deveria movér-se ao descer
e subir nos céus; os sumérios faziam observações as.
t-ronômicas dos planetas com muita exatidão, inclusive 7
dos retornos de Vênus 114, cada um deles com suas corre-
lações metálicas e psicológicas 115. Se nos aprofundarmos O testemunho
muito nos significados específicos das portas, iremos lon-
ge demais; isto nos levaria em direçãô à psicologia dos e a base da sabedoria
chacras e dos planetas, seu significado simbólicJ e ins-
tintual e ao papel do terapeuta ao lidar com essas ener.
gias.
As portas também são estágios de um caminho ini.
ciático e sacrificial, semelhantes às estações da Cruz. Elas
podem aparecer como motivo onírico iob vários disfar.
ces. Uma mulher sonhou com a figura de uma Marilyn Inana preparou a estratégia do seu resgate antes de
Monroe inocente caindo através de sete sacadas de uma er, e incumbiu Ninshubur de realizá-la, caso ela não
morte sangrenta. O sonho era o pre.núncio de uma forte tasse da iornada dentro de três dias. A deusa presen-
depressão, e da introdução da ionhadora num mundo que iria precisar de ajuda se ficasse presa no mundo
cle afetos primitivos e eruptivos que lhe deram abertura um motivo comum em muitas mitologias e
para as profundidades cla psique. Outra sonhou que ti- prática - analítica.
nha de passar sua urina por sete filtros. "preciso ôuidar Ninshubur, a executiva de confiança de Inana, evi-
de me colocar abaixo do centro da fogueira. Meus senti ia a organizaçáo sacerdotal dos deuses suméricos e
mentos podem irromper e dcstruir tudo". Ela via o pro. templos das deusas. Estes possuíam uma organização
cesso analítico como uma descida potencial ao infeino, ito próxima à doméstica. Ninshubur, cujo nome sig-
onde os controles rígidos não funóionariam mais para ica Rainha do Oriente, era a ajudante ou vizir da gran-
reger sua vida. Seu processo permitiuJhe uma descida deusa, o braço terrestre e executivo de Inana, cha-
cuidadosa, tornando o trabalho menos precipitado do sempre que esta precisasse de ajuda em suas ne-
que o da primeira mulher, reassegurandoJlie quã a psique rdes ou projetos. É ela quem leva o noivo até a
permitiria um ritmo ajustado às suas necessidades. m da deusa, e-quando Inana enganou o eu de Enki,
princípios ordenadores do mundo, fazendo-o ficar
, ela confiou em Ninshubur para assegurar-lhes a
114 Cf. S. P. Mason, A History of the Sciences. iagem segura para o seu templo de Erech. Também
. _ttf Apqleio descreve a sua iniciaçâo romana nos mistérios
de Isrs: "Eu qre e-proximo das fronteiras da Ninhsubúr qúem afastou os emissários violentos,
morte. Após pene_
trar os umbrais de Proserpina, retorno através de todõs oô ele.
rrrentos. À meia-noite vejõ o sol brilhando intensamente. Eu
o deus da sabedoria mandou atrás de Inana para
estava na presença dos deuses superiores e dos deuses inferiores,,. tar o eu,

95
94
No mito da Descida é a Ninshubur que Inana confia . E no poema a deusa diz: "Foi ela quem salvou
o seu salvamento. É a auxiliar quem grita e dá alarmc vida, lró.
depois que sua senhora se ausenta por três dias no Uma mulher chamou a analista para dizer que es'
mundo inferior, conclamando homens e mulheres, e p0. se sentindo suicida, e que tinha consumido e vomi'
dindo a intercessão dos deuses celestes em favor da deusa. uma enorme torta de chocolate. Na terapia ela se
ara consciente de que aquele comportamento devora-
Psicologicamente, parece que Ninshubur concretiza
era uma maneira de se cuidar quando se sentia fe'
aquela nossa pequena parte que se mantém acima dn
superfície enquanto a alma afunda, o aspecto ainda cons-
e mal podia relacionar sua angústia presente ao
da rejeição por uma figura mascülina que repre-
ciente e funcional da psique; ele consegue testemunhar
se a autoridade. Ao começar a desidentificar-se dos
os fatos que se desenrolam acima e abaixo da superfície,
habituais cla expressão concreta, impulsiva e in-
sentindo-se ligaclo ao destino da alma. Na terapia, é a
parte aberta para sentir e responsabilizar-se pela ação c
rte de sua culpa, sentiu-se desesperada - tão
rada que decidiu chamar sua,analista, "embora
compreensão, enquanto o maior quinhão da energia do
fossà abjetamente dependente e humilhante".
analisando se encontra submerso no inconsciente; tra-
testemunho e o pedido aberto de socorro eram um
ta-se, na realidade, da parte capaz de sustentar a aliança
ortamento novo para ela, e revelava a sua função
terapêutica. É análogo, em importância, à consciência
te de Ninshtúur, a capacidade de ver e agir em
funcional, humilde e forte ao mesmo tempo, que per- do valor e das necessidades de sua própria alma.
mite que a vida continue, e que impede um acesso psicó-
tico e a perda total da alma, que consegue persistir na
jornada até encontrar o que é necessário. Trata-se da
porta-voz do si mesmo, aquela que ouviu Inana, que man. busca nas fontes erradas
tém o controle dos dias e que grita de dentro do seu fnana havia peclido a Ninshubur para ir inicialmente
sentimento mais profundo que a deusa deve ser ressus.
deus celeste Enlil, o pai supremo universal, depois a
citada. Para mim Ninshubur é o modelo da função sa- nna-Sin, seu pai pessoal e deus lunar e, finalmente,
cerdotal mais profunda e reflexiva do si mesmo da mu. Enki. Por que ela não manda a auxiliar procurar sua
lher, aquela que opera freqiientemente como simples exe-
>, ou até Ninhursag, a mãe terra? Os poetas de sua
cutora das ordens do si mesmo quando a alma está mais rltura viram Inana, já e infelizmente, valorizando mais
ameaçada.
poder masculino do que o das mães. Talvez isto se dê
Nos poemas em que é mencionada, ela não tem vida ser ela a hieródula dos deuses, ou pelo fato de a
própria ou outra especificidade a não ser a capacidade sentir neles maior potência cultural. De qualquer
de servir; Ninshubur simplesmente executa com precisão na procura da atitude necessária para ajudáJa
e competência o que a deusa lhe pede. Ela é _quase invi situação extrema, Inana começa pela escolha er'
sível em sua obediência profunda e desprovida de ego De início ela procura em fontes aparentemente po-
na rrerdad-e, a pedido de fnana, com roupas rs mas que sãó, na verdade, incapazes e estancadas.
-de veste-se,
mendiga. Mesmo assim é da integridade e reverência Com freqüência constatamos essa busca de ajuda em
da "serva fiel", Ninshubur, e de sua capacidade de ação equívo"cas na terapia de pacientes que insistem
que depende a transformação no mito, essa transforma-
ção que restituiu uma Inana renascida ao grande mundo uó \rvqlks1.i, e Kramer.

96 97
4 - Caminho para a iniciação ..
em apelar__para quem irá rejeitá-los, ou por princípio É interessante que o deus lua, Nana-Sin, ao qual há
(dizendo: "essas necessidades são infantis;), ou por^di- üentes referências como sendo o protetor das mu-
ferenças tipológicas, ou de ponto de vista e-de n?vel de importe-se muito pouco, nesse mito, com a si-
consciência. Eles continuam esperando.o auxílio de fon. difícil de Inana. Na Suméria ele é descrito como
tes tão pouco generosas, porque o forte arquétipo paren_ que ilumina a noite e mede o tempo, trazendo
tal foi inicialmente projetado em quem nao pod-ia àpoiar à água dos alagados, aos caniços do papiro e
e valorizar o indivíduo. Só depois de tentativàs ,"peiidur, rebanhos. É também o administrador e o juiz do
e de ficarem entalados nesse inferno de privaçõei ."s. inferior na época da lua nova. Mas acima do
sentimentos ou mesmo de voltarem-se contra o" pró- ele se torna menos ordeiro. Dizem que se ca-
prio impulso -carente, identificando-se, assim, com o deus com Ningal ("a grande senhora" e deusa do papiro)
coletivo da agressão, o superego esses indivíduos aca- te, sem pedir consentimento a seu pai,
bam aprendendo a afastar-se. - -
Realmente muito da terapia diz respeito a aprender- O mundo de Nana tem pontos de contato com os
mos a abandonar os velhos padrões e a voltarmo-nos de Ur. Banhos lustrais periódicos e casamentos
para fontes verdadeiramente generosas e que aceitem a também tazem parte do seu culto. Geralmente
nossa individualidade. Só quando se aprendã a preencher não se interessa pelos filhos. É um deus distante e
a estrutura arquetípica parental com um novo conteúdo, de acordo com seus ritmos próprios, que não se
é que se consegue perceber que o que está errado não com os filhos. Numa narrativa mítica, Utu e
é a necessidade ou o impulso para a vida, e sim o fato irmã, Inana, aparecem mesmo seduzidos pela facção
de esse impulso estar dirigidô para o objeto errado. inimigos que tentam causar um eclipse de seu pai, a
Entretanto, os irmãos são muito unidos: Utu in-
Ambos os deuses, o celeste e o lunar, recusam-se ou
não ousam resgatar Inana do local de estagnação no Inana na escolha do marido (não obstante a
idade do pastor Dumuzi ser atribuída ao efeito
mundo inferior. Eles concretizam o respeito lmpessoal
da h.ra).
do patriarcado pela lei e pela ordem, que se distancia
clemais, a um só tempo, de sua "filha" Inana e do femi- Para Inana o princípio paterno náo é mediado por
nino obscuro. Eles consideram Inana simplesmente uma relação pessoal. Talvez mesmo haja um antagonis-
ambiciosa, alguém que quer ir longe demais. Eles a vêem entre pai e filha, o que tem muito a ver com a riva-
através de suas próprias sombras taurinas. E citam a re- entre as cidades de Ur e de Erech e suas divin-
gra:-''Quem vai para a Grande Habitação tem que ficar mas também sugere alguns dos proble-
lâ» tt7. Parecem mesmo desprezá-la, félizes pof ela ter psicológicos quando se é filha de um pai lunar. No
recebido o que merecia. É exatamente como o superego Nana se restringe meramente a papaguear as pala-
e aqueles que vivem sob suas leis estreitas, atacàm õu do pai altÍssimo, Enlil. Ele é ciumento de seu poder
abandonam os indivíduos ou apetites que ousam mo- ilho, embora inconscientemente confinado com um
ver-se para além das fronteiras convencionais e coletivas. abstrato e senil. De dentro das suas defesas pes-
Não há ajuda para os que se desviam das forças de , ele despreza e ignora a filha por estar envolvido
controle. com sua anima frágil e também esposa, Ningal,
1r7 Ibid. u8 J6solssn, p. 124-125.

98 99
a deusa dos caniços de papiro. Ele também se ocupa das
mudanças, das purificações e da produtividade da terra, 8
As filhas desse tipo de pai puer, sempre chegam ao
consultório sob uma fachada de auto-suficiência, como A consciência empática
heroínas de uma sedução dirigida mas amarrada. Elas se
desesperam porgue não conseguem a atenção de seus
pais a não ser momentaneamente e de modo inconscien-
te, freqüentemente como objeto sexual, e atrapalham-se
ao ter que defender-se tentando provar sua igualdade e água, da sabedoria e da criatividade
merecimento da estima paterna. Nelas a sensualidade é
: deus da
uma coisa separada; conseguem ganhar os homens e/ou No mito da Descida há um "pai" que ajuda: é Enki.
seus feitos, mas não sentem ternura, e a consideração nome significa "senhor da terra" (como Posseidon).
que têm por si próprias é mínima. Estão sempre envol-
o deus trapaceiro da água e da sabedoria, aquele g9e
vidas em conseguir as bênçãos e a atenção pessoal do verna o flúxo dos mares e rios, e mora no fundo do
pai, tentando mesmo eclipsáJo para satisfazer essa ne' . Em vários mitos ele aparece particularmente
cessidade. Elas clamam por ele de várias maneiras, sem' mo de Inana. E na presente narrativa, é ele quem
pre esperando a rejeição de um desinteresse frio e nar- ia o processo cla sua libertação.
cisístico. Enki é uma divindade notável. Na Suméria suas
as foram comparaclas ao poder gerador do sêmen e
Iíquido amniótico lre. Sobre selos cilíndricos (como
, uiru forma acádica mais tardia), ele é representado
ndo uma jarra qtre verte água. Esta representação
a constelação do Carregador de Água, Aquarius;
m Enki é mais geralmente comparado ao Capricórnio,
peixe-cabra l2c, qlte pode atravessar as profundezas e
lugares mais altos, sendo complementar à Grande Mãe,
i seu signo de Câncer. Assim ele está ligado, ao mesmo
npo, a Ninhursag (que era originalmente chamada
terra a contrapartida antiga de Enki) e a Eresh-
- -,
- pnt<i é o macho procriador,
criativo, brincalhão e do-
l
iado de empatia. Como Mercúrio, ele encerra em si os
,epostos e não tem ligações abstratas com os princípios
rda lei. Embora se diga que Enki criou o eu (os princípios
i
tts A mesma palavra é usada para as três substâncias (ibid',
o. -ríó'F-livabeth
111).
'- Williams Forte, Ancient Near Eastern-Seals,
n. 39 e 41.

101
100
ordenadores'do mundo e da civilização), sua ord.em é
criativa, e não estática e mantenedora do status qua. condição morta e seca. . . E eu sinto que essas águas
Sua sabedoria liga-se à improvisação e é orientadu'po, nunca vão parar enquanto houver vida em mim.
uma natureza_ empâtica. Por ter uma amplidão bissexual Ninguém consegue um dia parar de urinar e de
(num mito diz-se que ele deu a luz a óctuplos) Enki cuspir.
pode penetrar em qualquer necessidade ir"s*o nas E assim suas paixões se abriram e puderam expres-
do mundo subterrâneo. nSó a consciência- [de ambos os
, porque ela parour cle proteger-se com aqueles seus
s,exosl pode penetrar no mundo invisível áe Tânatos e hos hábitos inibidores. Pôde confiar gue a analista
de todas as componentes psíquicas da natureza humana beria o seu fluxo. Conseguiu abandonar aquela ini-
que são derivadas da morte" l2r. A consciência de Enki aprendida, bem como a necessidade de proteger
é como a do segundo chacra, svandhisthuna., em que ,,a cuidava clela.
confiança na vida e no si mesmo constituem a sabàdoria Esse fluir faz parte da energia simbolizada pelas
clas águas maternais". A confiança, a fluidez, o êxtase e de Enki. Ele também é o deus escultor criativo,
a aceitação lubrifica,.dora daquilo que é qualidades ido como "fazedor de imagens" e o deus dos ar'
do modo de consciência do iegundo chacra - podem e artistas, "deus do arquétipo, a forma origin3l"123.
"curar os males da estagnação do primeiro [chàcra],,, um dos criadores dos homens: numa competição com
e a fome de poder do terceiro w. A sabedoriã ae n*i deusa da terra, na qual os dois fizeram várias formas
iorra e irrompe; solta a inércia e a rigidez do mundo argila, quando a deusa criava deformidades, Enki en-
inferior. No mito sumérico suas águas opõem-se à deusa rtrava os lugares que elas poderiam ocupar na vida.
do deserto. Kur, conhecido como ós domínios de Eresh- improvisa infinitamente para criar aquilo que o mo-
kigal, é uma palavra que também significa deserto. E to requer. E pouco se importa com as regras e pre-
são as águas de Enki que irão restaurar as terras de- tes dos deuses patriarcais cheios de princípios ele-
vastadas; elas são o símbolo do fluxo interminável das chamado para ti
energias da vida.
, sendo por isso, freqüentemente
^_-a---_-----
os de situáções de impasse; e consegue os meios de
Como o fluxo clos afetos libidinosos, essas águas nos
, ou, então, domina o caos que eles tanto temem.
levam de volta à vicla depois de uma depressão-que ro- com freqüência, o mediador entre o mundo dos pais
,
çou a morte. Uma mulher expressou assim a experiência o do feminino. Sempre flui criativamente com a vida,
desse retorno:
assim conserva a possibilidade de reestruturar o siste-
a a partir do seu próprio ímpeto. No mito da Descida
Eu não votr rnais me conter. Vou deixar jorrar, qúebra a inércia do paradigma defensivo-legalista
rasgar, vou ser detestável. Vou deixar minhas rea- um enfoque totalmente novo. Mais do que guiar-se
ções-explodirem. E pronto. Se gostar, gostou. [Aqui r lei e precedentes, Enki inicia um processo novo, e
ela tez uma pausal. Só dizer iiso já muda alguma isso relorrendo a algo que até aqui fora ignorado:
coisa. Dá para sentir algo fluindo. Toda essa carên- se deixa guiar pelo sentimento.
cia e inveja. É, táo estranho sentir isso, como se eu Enki toma um pouco de sujeira que estava embaixo
respira.sse fundo. Deve ser uma cura para a minha
suas unhas piniadas de vermelho 124, uma coisinha
. 121 Jabes. Hillman, referindo.se
Anáti§-e, Ed. Pàz e Terrã, 1984.
a Tirésias, em O Mito da 123 Jaçq[s6n, p. 111.
tz+ O vermeilio é uma cor particularmente associada a Enki
122 McKell, p. 20gss. Suméria, segundo os estudiósos (Forte, n. 37).
102 103
insignificante e rejeita da, até mesmo invisível anterior-
1nent9, e que sobrara do processo criativo maior. A terra
é o elemento do muladhara e cle Ereshkigal. É, .
to incorporado que corresponde à energL da matéria "f"À"*ã separados. Assim, não representam a consciência
oa carne em que Inana se transformara no mundo sub_ quanto corte, separação ou ato de colocar-se em posi-
terrâneo: o limo dos rios de Enki, a argila _ *uté.á i adversária, mas, sim, a consciência enquanto empa-
prima das construções das cidades da Éuméri" ; ã;; e espelho. Por isso conseguem esgueirar-se por todas
tabuinhas nas quais a escrita cuneiforme fi"o" pr"re. portas, sem ser clesafiados, até Ereshkigal: "como mos-
vada. E o material no qual a cultura suméria -se en_ ; eles voaram pelas frestas das portas" 127. São cria-
carna e dá testemunho ao mundo. No mito, é com ele humildes e não heróicas, sem definição e nem mes-
que os homens e as mulheres são criados. necessidade de individualização, sem nenhum senso
. No processo analítico essa sujeira é anátloga à prima que chamaríamos.de necessidade do ego. Essas criatu-
materia a reatividade impremêditada, cruã e básica, assexuadas representam a atitude fundamental
aberta a -todas as possibilidaàes, por ser feita do mesmo atrair as bênçãos da deusa escura.
material empregado pelo deus ,ro p.ocesso criativo. Tra_ ;' O que Enki lhes ordena é o que fazem os terapeutas
r.a-se, conseqüentemente, do material es lugares de abismo pré-verbal e original, onde a
emocional básico
do processo analítico, bem como o de todas as formas ue e o corpo se encontram em seus limites, onde
de vida. Sua vasta potência oculta-se nas pequenas va- é sem tempo e espaço e onde o que vale são os
riações das emoções fortes e autônomur, ,roi detalhes do nível mágico da consciência 128. Essas criatu-
concretos vibrantes e dolorosos, nas fantasias compul- aproximam-se da cleusa ignorando os processos de
sivas que mal se revelaram ao exterior ou que foiam ia e das leis do mundo superior. E elas testemu-
mesmo escondidas. Essa sujeira oculta sob ai unhas é ham e espelham mais com a empatia do que com a
como a psique autônoma: revela-se nos fatos pequenos, tificação inflacionada, que perde a noção de distân-
pessoais, no aqui e agora, carregados de emôçaà, qu; entre Você e Eu. A capacidade deles é uma coisa
não são grandiosos e nem prova ãe desempenho efetivo, riada. Vêem, sentem e aÍ sofrem juntos. Ào honrarem
segundo os moldes preferidôs do superego,. são, pelo con_ ideusa exprimem o sofrimento da existência que Eresh-
trário, a escória cleiprezada dos pàcessos vitais: a ma. sente agora, pois a consciência também chegou até
téria sólida, misteriosa e capaz de mudar radicalmente la, e, conseqüentemente, a percepção da dor. E os dois
a perspectiva analítica. arpidores valiclam essa experiência. Enki ensinou-os a
na força cla vida, mesmo quando ela ecoa sua
Imagens que espelham a deusa escura Queixar-se é uma voz da deusa escura. É um modo
'Com ido e profundo de exprimir a vida na alma feminina.
a sujeira da unha Enki modela dois criados significa procurar alívio a qualquer preço, mas, sim,
carpidores, um kulatur e um kurgarra. Eles são descri. plesmente manifestar como é recebida a existência
tos como "devotos assexuados" t25 o, ,,criatura(s) nem certas coisas por um ser vulnerável e sensível. É uma
macho, nem fêmea" 126. Talvez se trate de seres pái-o..
127 Ibid.
llf $-rq5ner, Sacred Marriage Rite, p. 166_167. 128 Edward C Whitmont, "The Magic Dimension of Cons-
126Wolkstein e Kramer. (em coautoria com Ujhely).

tu 105
das hases da função do sentimento, que não deve ser que você me oferece eu recuso, inclusive o espaço
vista e julgada a partir da perspectiva estóico-heróica para ser eu mesma. [E, pouco depois de falar, a
do superego, como autocomiséração idiota ou choramin. paciente teve coragem de adormecer, confiando, fi.
guice passiva; é apenas um fato autônomo ,.as nalmente na aceitação da terapeuta].
- que coisas
são assim". A sabedoria cle Enki nos ensina sofrer Eu consigo chorar sozinha. É chorar perto de al..
junto é um aspecto do respeito profundo. guém que... Não quero respostas, só alguém que
se sente perto enquanto eu choro. fsso mexe com
Os carpidores lamentam com Ereshkigal. euando ela
-
diz: "Ai! Está doendo dentro de mim!", ãles respondem
alguma coisa dentro cle mim. Sinto a esperança
e a vida retornarem de lá do fundo como o bor-
em eco. "Ai! Tu que gemes, nossa rainha. Ai! Está doendo bulhar de uma fonte que mal se ouve no come-
dentro de ti!" Quando ela diz: "Ai! Está doendo fora - e então
, de mim", eles ecoam: "Ai! tu que gemes, nossa rainha. ço, quase congelada, depois, uma lama,
um riozinho de água.
Ai! está doendo fora de tit» 12e O eco compõe uma litania,
transforma a dor em oração e poesia. A miséria es-
cura da vida se transforma na canção da deusa. Esta-
belece a arte como unta resposta solidária, reverente e fora
e criativa às paixões e dores da vida. E mostra a
força dessa litania. O que agora jorra de Ereshkigal
não é mais clestruição, é generosidade. A rainha da A terminologia de Ereshkigal e dos carpidores é sig-
natureza encontra-se agradecida pelo espelhamento hu- tiva: dentro e fora. Define a região limítrofe, que
milde 9 por ouvir a canção de si meima. O que a um dos primeiros parâmetros da percepção infantil.
tocou foi precisamente a expressão empática. Elá res- ta-se de uma região pouquíssimo clara das camadas
ponde assim às pequenas criaturas: profundas do complexo maternal. Pois dentro e fo-
Sejam vocês quem forem: tendem a fundir-se e a fluir juntos no nível mágico da
e da ligação simbiótica (como quando a mãe
[Porque] disseram: De dentro de mim para den- imenta as necessidades da criança como suas, e a
tro de ti, percebe as emoções inconscientes da mãe). Isso
de fora de mim para fora de ti,
na análise durante a identificação por projeções
se são detrses, pronunciar-lhes-ei uma palavra de se dá na transferência e na contratransferência. Na
bondade,
rde, Eu e Vós são tão fluidos nesse campo da part|
se são homens, decretar-lhes-ei um destino de bon-
dade 130.
ion mystique, qtte freqüentemente não há sentido
objetividade e diferença entre as fronteiras psíquicas
Vemos ocorrer essa transformação na terapia quan.
duas pessoas. O que hâ é a sensação de união e inti-
clo a própria miséria é aceita e confirmada. Êis como
de que pode ser sintonizada por meio de intuições
duas mulheres expressaram seu senso de transformação:
percepções êinestésicas sutis.
Como é que você me agüenta? A única coisa que eu À fronteira entre dentro e fora, entre Eu e Vós, é a
faço é reclamar. Eu não dou nada de volta. tudo o ra, a {ltima e a mais misteriosa das entradas da
de Ereshkigal. É o local da membrana osmótica
129.
_l(1amsr, Sacred Marriage Rite, p, 116.
130 Ibid. mãe e filho, si mesmo e o outro, si mesmo e os

106 t07
deuses. A porta para além (ou para fora) e para dentro rena sensação de confusão. Certa mulher contou-me
da existência, encarnada tal qril u conhecerior, , uú".- sonho e fei comentários sobre o período em que sen'
tura para o nascimento qLrando que estava dentro e uUu"donando a segurança do que ela chamava
interligado vem para_fora; - e a portao dã morte quando "tt*
sistema de definição de meu pai":
'irirt".rru pai":- "OIho
"Olho por uma
o qle estava separado retorna. É análoga ao -hoúzonte, á" a" vidro e u"io ,-u mulÉer do lado de fora'
onde, como estrela, Inana traz o amanhãcer e o pôr dá está na cama, ou vestida ou debaixogde uma pele
sol. E o lugar de cruzamento, onde dois torna*ls" ;ú;;. ó que ádentro? o que é fora?caindo tye é real?
e um torna-se dois. Experimentarmos esse fluxo de iden- "* to-me se minha vidi estivesse aos pe-
tidade
-ampla e desacorrentada equivale a sermos ali_
"o*o
". Mas a paciente tinha vontade de enfrentar a
mentados na consciência arcaica, na embriagaez urobó. são. Outra mulher tentou desesperadamente man-
rica que permite à vida florescer, e à coniciência ex- o cántrole sobre a desorientação, ãeixando o lado de
pandir-se ou dissolver-se. Fluir para a percepção dos li- tro e o de fora rigidamente separados' -Ela d?ia:
mites é começar a encontra. a sua própria bãe de exis- ã"à. Lá""iras de relacionar-mà: do lado de fora
tência separada. euando temos a experiêrcia dessa fron- os outros e o que eles esperam de mim e' depois'
teira, isso freqüentemente se dá cãm uma consciência nivel interior, mesma. Mas isso é tão confuso e
nascida do sofrimento e da perda: ou ficamos conscien- sfocado que até "o*igo
parece autista. Aí eu sou uma pequena
tes da perda do prazer e da fusão quando atingimos o incesa .dlitá.iu, mas sei que ninguém cons-eguiria me
senso de estarmos separador, ou acábamos atin-gindo a pà.iãt'l l*Uas haviam viiido a iensação dolorosa da
perda da autonomia individual ao nos fundirmoã e ser- icrepância entre os ideais coletivos exteriores.do su;
mos, então, engolidos ou clissolvidos num receptáculo ,go u percepção de suas realidades pessoais' que
m-aioy. O impossível é existirmos sem essas duai expe- vam" ocultas a um lado, por diferirem demais do
riências. que era aceitável aos olhos do mundo exterior'
A consciência receptiva ferninina não sente o limite :-- Át relações de transferência e contratransferência'
como uma fronteira de demarcação rígida a separar o por cánstetarem o receptáculo da relação- Parental com
qu9 é experimentado como "eu" daquiló que é ,,não eu,,. a criança e com o nívál mágico-arcaico da consciência'
A limitação não é uma barreira fiia, que demarca um podem propiciar o contato- concreto.com um pt::":::
senso claro de identidade individual ém oposição ao ã,r. eisas patologias de limite' A empatia' por sua
gut{ot então, percebiclo como o objeto da ação heróica. ",r.à
il"ioú; é o tipo de -sentimento 1":,dit:
A divisão é bem mais permeável e facilmentà penetrada "ãúiluaorí,
solve ã fronteira declaradamlnte defensiva e rígida e
pela percepção empática desse outro, aquela càpacidade acolhe a confusão informe quando ainda não se formou
de sentir junto e compartilhar a s,ra p.eierça emocional. nenhuma ressonância Permeável'
O indivíduo ao qual essa fronteiia se apresentou de
!o1ma muito rígida, ou muito permeável I devido à
falta de afirmação pessoal ou à existência de barreiras
inadequadas (rÍgidas demais e cheias de privação, ou ex- tEnki, o Patrono dos teraPeutas
cessivamente abertas, levando a infantiliiações sufocan-
tes) sofre a incapacidade de distinguir dLntro e fora,
e não - consegue fluir livremente adiante, para depois
it,

,q, sabedoria de Enki pode ir ao encontro da deusa


retornar. Às vezes isto se manifesta apenas como uma ,primordial na consciência cle seu sofrimento e em seu
108 109
sofrimento por tornar-se consciente de seu interior e presença empátrca e um espelhamento que a atinge
exterior. Na percepção de si mesma, enfim. maneira
t irrestrita.
Nós, os terapeutas, ao trabalharmos esse nível de
Para mim Enki também é o deus dos analistas. Ele ue, somos como aquelas criaturinhas yin náo oposi-
é capaz de efetuar uma rgestruturação da inércia da os servos do deus Enki. Estamos presentes, acei-
psique com o que estiver ao seu alcance escondido
- para uma e permitimos que as coisas sejam como são, ex-
debaixo da unha. E encaminhar a situação a verdade dos afetos obscuros. Essa presença
perspectiva diferente. Ele é capaz de improvisar. Neste
lica a nossa confiança na participation mystique das
mito o deus traz à cena um fator anteriormente irrele- samadas mais profundas da consciência como um pro-
vante: o sentimento em relação à deusa Inana que se pesso da deusa, até mesmo quando ele é doloroso e pa-
estende à sua irmã do mundo inferior, um sentimento
dirigir-se para a morte e a depressão, fazendo-nos
que respeita a causa da própria estagnação. Ao invés de
§entir agudamente a nossa inadequação em ocasionar a
levantar-se conira a forçá feminina piofunda que o mun-
prudança. Aí aguarclamos pacientemente, aprofundando-
do superior teme, porque ela pareCe paralisai e acabar igtros e espelhando juntos, até que a deusa, enquanto Tem-
com a vida, ele descobre valor onde aparentemente só
existe miséria. Valor srúiciente para confirmar a deusa , esteja pronta para "decretar um destino de bon-
mesmo enquanto miséria, e espelhar essa dor por dentro
Trabalhar assim requer que o analista esteja sempre
e por fora, para depois entregar-lhe tudo isso como uma
cládiva.
to a aproximar-se tanto os carpidores, a compar-
por meio do sentimento a dor do complexo que
constela primeiro no paciente. Isso implica a possibi-
- Éeo intensificá-lo
afeto
nosso procedimento ao nos voltarmos para um
até encontrarmos os seus vetores de contaminação psíquica e de compartilharmos
próprios. Ou quando examinamos uma defesa e desco- nosso próprio complexo. De uma tal cumplicidade po-
brimos que a sua função é a de preservar a vida. Isso emergir a cura radical, que só ocorre quando se com-
pode se dar até mesmo quando consideramos a dor ilha em profundidade, quando paciente e terapeuta
cgmo parte válida do processo da vida (não como culpa até atingirem Llma dor comum aos dois. Então
cle ninguém, mas simplesmente como um fato da existdn- cura, com freqüência, acontece quando o analista tra-
cia). Essa atitude desvia o afeto da perspectiva adver- em sua própria atitucle e experiência em relação
sária, do patriarcado, que busca urn boàe expiatório, complexo, ou quando há uma mudança na psique do
tentando culpar as pessoas ou os fatos para dàpois re- :iente. A diferenciação é muito pouco clara; podemos
movê-los do caminho ou, então, busca um jeito de agir dizer que o campo mutuamente constelado ativa
ativamente para "fazer alguma coisa a respeito,,. Conii energias primordiais que dinamizam o processo da
clerar a dor como parte doprocesso anphaã perspectiva 131

que a concebe apenas como um sinal patológico -ou ,*


estigma. Permite a empatia com o sofrimentó e possibi- l3l {Jp dos problemas do terapeuta de sexo masculino que
à vontade nessas caÍradas
to se sente a profundas oa
mais p{'otunoas
camadas mars da pslque
psique
lita a cura natural. AEre caminho ao sofrimentà, para que, ao sentir-se cercado pelo feminino (e não entendendo bem
gestar uma nova solução dentro de seus moldes e em lr qual nível de feminino), ele pode rdentificar a intimidade
seu tempo adequado. Aí a ctrra ocorre, não simplesmente um r:egistro de natureza seruel, especialmente quando a
porque se encontrou Llm significado ou uma imagem, lerência éstiver erotizada em seu polimorfismo. Para uma
a resposla, interpretada cu física, do terapeuta mas-
mas porque se cleu atenção ao processo da vida, e tam. (à sua necessidade cte intimidade primária de modo indi-

110 111
compartilhar, enquanto modalidade de terapia, . Já são yin, rcceplivos por criação. E não tendo
-Esse
confirma a vicla humana mesmo na escuridao de üas idades adversárias e defensivas próprias, conse-
rnisérias. Mas, algumas vezes, nas fases de transferência guem manipular a matéria crua do inconsciente servin-
negativa, eJe significa aceitar o papel de testemunha da tloJhe de eco e testemunha. Como escreve Jung, mani-
predação do paciente contra u ,ridà, perrnanecendo sem pular essa matéria permite-nos valorizar e tornaÍ huma-
nenhuma outra reação, a não de solidariedadã. Do o que, de outra forma, seria rígido demais e arrasa-
""r'á
Significa estar disposto a não tirar a força do d"r".p"ro dor para o participante inocente e áão iniciado:
e da raiva com protestos que defendem os interessei do
próprio ego otJ que, na verdade, expressam a nossa má_
goa. A única saída, então, é ficar óom o paciente, que Quando irrompem de dentro da mente natural,
essas coisas são horríveis, insuportáveis mesmo,
está cego e preso ccmo a carne ,ru, gurrui de fráshki
mas descobre-se ao manipulá-las por algum tempo,
gal; é sentir a dor e reverenciá-la com aceitação partici
gue elas são, na verdade, incrivelmente preciôsas 133.
pante e soliclária, sem se precipitar pelas féndas mais
escuras da natureza que, rressal horas, surgem à nossa
As figuras assexuadas de Enki foram criadas sem
frente. Quando o receptá"ulo da transferênõia é forte e
específico. Não se trata de eunucos, nem de ho-
há consciência suficiente para sentir a diferença ,i êróticos. Mas de imagens que sugerem o nível de se-
qeepo_9 o outro, aí a confrontação e a interpretação".rtr"são idade pré-genital e polimorfa que estâ a serviço da
vitais. Mas isto só é possível dépois que se'forrno"
deusa nessa camada profunda da psique. Elas
ambiente de aceitação, um ondt os "- a ligação da heroína ou puella com homens
Rers,glalidade possam ser"rpuço
congregados "oÀpÀ"ã"io
u, ,"*".rt",
{a totalrclade possam
oa " no serviço da grande mãe por sua criativi-
germinar. le artÍstica, vícios ou homossexualismo. Devido ao fa-
Tal empatia não é coisa própria de humanos, se_ de a relação de uma tal mulher com a mãe ser pobre
gundo o ideal heróico do ego.- É'por isso que ,"áp."
houve tabus impedindo que-se entiasse no mundo sub-
por não conseguir valorizar a si mesma ou ao seu
terrâneo c«rm orgulho, ou estando muito ativo ou emocio. , ela com freqüência parece procurar o feminino
homens devotos, nos filhos e amantes da deusa com
nalmente vibrante. Gilgamesh preveniu Enkidu p;;;-
quais se sente a salvo cla penetração emocional e
trar lá corlo se fosse um escravo, ou que para isso se tal, homens que lhe oferecem paixão e sensibilidade,
tornasse invisível. E.^os iniciados espiriiuaii ,,da passa-
gern escura de perséfone,, ou da "grtta ou da como a sua própria resistência ao patriarcado. Si-
adãrada larmente, os homens homossexuais são freqüentemen-
Afrodite" recebiam ordens de ,,deJpirem suas vestes e atraídos para o grande pai oculto atrás da filha eterna
tornarem-se todos como noivos reôém-casad.os, .rouba-
clos de sua viriliclade pelo espírito virgem, " r:á. Arri*, I pal.
os terapeutas que trabalham com o incônsciente devem , O sonho de uma mulher dá a imagem do sentido
estar dispostos a suportar a invisibilidade pesso"i ; ; da deusa encoberta por seus companheiros ho-
inação. os carpidoreJ3a são dotados dessa atitude neces.

feren_ciado_e genilalmente erótico) pode ser Dois homens que se amam estão sentados em mi-
sentida como uma
traição. Não é disso qrre eta necé.s'ita-"*üd;-;ü-dô;;ã; nha cozinha. Um está ferido. Seu pênis foi cortado.
poss_?_r-econhecê-lci, a não ser mais tarde. --
uz Jung, Obra Completa, v. 9, 2t parte, parágrafo
339. 133 Jung, The Visions Seminars, p. 91.
tt2 113
Caminhos para
Dou-Ihe um beijo e noto que ele se transforma va- mata, Ereshkigal pode tanto destruir quanto criat
garosamente numa mulher de seios fartos. O outro , dependendo de nossa atitude em relação à deusa
se ajoelha enquanto a mudança de sexo se processa
silenciosamente. O primeiro homem é agora uma
Em versões anteriores, Enki entregou aos seus cria-
mulher. Ela me lembra trm anúncio que eu vi numa
a comida e a ágtra da vida que estavam em seu po-
drogaria, propaganda de um creme que rejuvenes'
cia a pele, fazendo o tempo como que parar era
. Ereshkigal, grata pelo espelhamento reverente, vol-
uma mulher escura e bonita. - para eles, aprecia-lhes a ajuda e garante que serão
Ela oferece o decreto de "um destino
bondade", a"dâdíva das águas, o rio em suas cheias"
Ela associou o homem que se ajoelhava ao tio ma-
terno (um artista) e ao aspecto da sombra de seu pai. a "dádiva dos grãos, os campos prontos para a colhei-
Mas a mulher temia ir ao encontro da autoridade soli- ta". Eles pedem o corpo que está pendurado. Ereshkigal,
tária do si mesmo porque isto parecia colocar em perigo onisciente, refere-se a ele como "o cadáver de sua se-
os seus relacionamentos, mesmo sendo eles amargos, ". E entrega-o. Ela está transformada, generosa e
ica. Deu-se um milagre pelo sacrifício de Inana e
tumultuados e superficiais. Em contrapartida, ela se fir-
mava numa rnalícia fria e intelectual, um arremedo de
Enki ter tomado a atitude adequada. A fertilidade
,d'o touro do céu que havia morrido renasce no útero
força que a mulher associava ao companheiro homos-
sexual ferido e clominadc pela mãe que aparece no so- &ombrio.
nho. A açáo deste sonho mostra-a voltando-se para essa ;1 O mesmo motivo aparece em contos de fada, onde,
maneira de ser com um beijo de aceitação. Ela come- por exemplo, a Baba Yaga e a Mãe Hulda mostram uma
çava a ver seu valor como o único tipo de afirmação face bondosa quando servidas com tato e obediência sub-
quà conseguira encontrar. O beijo transforma o animus rnissa pelas mulheres que as visitam. E é exatamente o
homoerótico castrado numa imagem sem idade da deusa quê mostra este sonho de uma mulher contemporânea:
que_, embora sob a forma de propaganda coletiva, per-
mite uma relação reverencia,l direta com o feminino ar- Encontro uma mulher terrível, de rosto escuro e
quêtípico. roupa preta; ela está de pé perto da janela da
' sala que dá para a praça. Ào voltar-se para mim,
faz-me sentir um medo enorme. Ela me manda ir
A generosidade de Ereshkigal à capela recolher ramos velhos com grãos que es-
Nas versões de Ishtar dos poemas da Descida a ma tão espalhados pelo assoalho e me ordena que os
neira de Enki aproximar-se do feminino permite a Eresh- use para fazer pão. Devo encontrar a faca, o pilão
kigal produzir sua essência, a âgua da vida, que ela con- e uma panela nos cantos escuros da casa. Com mui-
serva no subterrâneo. Esse enfoque volta a inércia para ta dificuldade, pois nunca fizera isso antes, e muito
o sdu próprio aspecto gerador de vida. Leva o que estava devagar, consigo moer os grãos e fazer a farinha.
morto à- gestação, mostra que o inconsciente sofre e
: Tenho que usar saliva para umedecêJa. Finalmen-
produz vida 134. Como a Gorgônia, cujo sangue tanto cura te faço um filão, e fico imaginando onde assá-lo.
A mulher escura abre as saias e mostra-me um for-
. 134 Js1g, "The Symbolic Life", in Obra Completa, v. 18, pa- ' no incandescente. Estupefata, coloco o filão dentro
rágrafo ó31. dele. Quando olho para cima, ajoelhada como estou,

tt4 115
vejo que seu rosto se iluminou e se encheu de bon-
dade. Nunca uma coisa me deixou tão maravilhada.

Para a deusa não é vergonha alguma que uma mu-


lher se submeta. Mas, como bem observou von Franz,
esse serviço de boa vontade nem sempre é a maneira 9
de conseguir o que se precisa da deusa da natureza.
Às vezes, ela deve ser abordada muito mais com coragem 0 preço do retorno: o amado
heróica e ativa do que com submissão heróica. Gretel
teve que empurrar a deusa escura para dentro do forno
se tranforma em bode expiatório
da transformação. Algtrmas vezes ela pede resistência,
em outras deve ser servida, e em certas situações o que
se deve fazer mesmo é ftigir. Tudo depende da personali-
dade consciente do visitante e de que qualidades devem
ser ganhas do lado escuro do padrão do instinto e da O retorno de Inana: retomo do que estava reprimido
imagem. Para Inana, a deusa das alturas, orgulhosa, apai-
xonada e ativa, o sacrifício de submissão, a humildade Com freqüência nós nem percebemos quando chega o
e o espelhamento passivo são os caminhos compensató- momento do retorno. Podemos simplesmente ficar deso-
rios da libertação. rientadas e tontas como se fôssemos bebês, totalmente
novas diante da vida. E é assim que Inana revive. Ela é
"aspergida" com o alimento e a éryaa da vida 13s. Há uma
unção ou Iibação dessas coisas boas, uma garantia do
seu valor e uma confirmação em doses de conta-gotas.
Pois, exatamente como iniciados que são alimentados
como se fossem crianças, Inana, a iniciada renascida na
deusa escura, é aspergida e retorna lentamente à vida.
O alimento e a âgua representam uma nova libido para
repor a que se perdeu no sacrifício. Restauram o equilí-
brio da alma e permitem a Inana viver novamente no
mundo superior.
A análise reflete esse processo de alimentação na
necessidade de reforçar repetidamente o analisando in'
seguro com pequenas doses imunizadoras, até que lhe
iseja possível suportar a experiência de ser aceito. Mas é
preciso evitar os riscos da pressa, permanecendo nos in'
findáveis afetos e fatos da vida diâria em todos os seus
detalhes, até que o fluxo das energias da vida volte à
alma assustada.
135 \rfelftsf6i11 e Kramer.

tt6 tt7
Pago o que devo a um homem (que esconde sua
- Inana é reintegrada na vida ativa e ergue-se
cida do mundo inferior. Entretanto,
renas- paixão sob uma fachada sofisticada e intelectual),
ela volia dentro de De repente todas as sirenas da cidade começam a
uma atmosfera demoníaca: está rodeada pelos peque-
nosdemônios impiedosos de Ereshkigal, cujà tarefá é iei- soar, como se fosse haver um bombardeio atômico.
vindicar os mortos. Neste mito eles devém exigir um Descubro que náo há nenhum lugar em gue eu pos-
substituto para levarem ao mundo subterrâneo, ã Inana sa me esconder.
retorna com os seus próprios "olhos da morte" para es-
colher o bode expiatório. Defrontar-se com a irmá escura Ela descreve um ataque nuclear como uma força
trouxe-lhe o conhecimento da realidade abissal de que a impessoal e destrutiva.
vida e todas as mudanças exigem sacrifício. É exatamen- Outra mulher temia transformar-se num leopardo fu-
te esse o conhecimento do qual fugiram a moralidade caso conseguisse se afirmar. Mas, ao mesmo tem-
do patriarcado e as filhas eternamente virgens dos pais, vangloriava-se de sua força: "Agora consigo enfren-
pretendendo fazer tudo muito certo a fim de evitar a dor meu marido. Vejo que prefiro mesmo feri-lo ao in-
de suportar sua própria renovação, seu ser separado e de simplesrnente deixáJo magoar-me. Ele que se en'
sua singularidade. fnana retorna com aspecto désagradá- com isso", ameaçava, liberando sua potência re-
vel e exigindo o direito de sobreviver. Elà não é a jovem vindicada. Significava que a velha contenção sen-
bonita, filha do pai, mas, sim, uma mulher feia, egoísta, e obediente do casamento não era mais viável.
impiedosa e disposta a ser bastante negativa e a não se a não podia mais contentar-se corn uma afirmação in'
importar com nacla. ta, representando a mártir frágil que tudo aceita. A
Conhecemos bem esse retorno demoníaco da força base da relação de casamento, que estabelecia a co'
reprimida da sombra. Embora, em última instância, se e os cuidados maternais como substitutos do
dê em favor da vida, essa realidade normalmente entra r entre pessoas iguais, havia morrido, e agora os
em erupção ao nascer, e precisa de muito amansamento. iros eram forçados a criar um novo padrão de
Pode tratar-se mesmo de um "aqimal chucro" ou, na ionamento. É assim que a transformação individual
realidade, simplesmente do aspeóto amedrontador de
ja as novas instituições da era pós-patriarcal.
uma mulher que pára de ocultar-se a fim de ocupar o
lugar verdadeiro diante de si mesma e/ou daqueles que
a cercam. Vemos esta forma demoníaca da deusa que sacrifício do bode expiatório substituto
retorna em grande parte na fúria inicial do movimento
de libertação feminina. Para a maioria esse estágio do
Ao voltar, o problema de Inana é encontrar o seu
movimento já passou, mas cada mulher iniciada deve
passar individualmente por aí 136. Neste ponto da terapia tituto. A qu.em escolher como bode expiatório? A lei
conservação e clo sacrifício da energia permite a sua
uma mulher sonhou o seguinte:
ão. O mito revela que essa lei é o fundamento dos
13ó Neumann diz: "Por ter sido humilhado
e abusado como do deus anual. Como vimos, a ruptura do padrão
objeto de- prazer, o feininino vinga-se regredindo à hostilidade totalidade só pode ser compensada pelo sacrifício.
matriarcal contra o masculino" ('?sychológical Stages of Femi-
nine Development", p. 8ó). Sua pàrsp-ectiva? patriaical, baseada A um certo nível vemos que só o consorte mais
apenas nunra posição adversária. Este enfoque mal toca em por Inana consegue igualar-se a ela. Numa can'
assuntos mais amplos, inerentes ao retorno de Inana e das mu- de amor que compôs para Dumuzi, ela diz:
lheres modernas à deusa escura,
119
118
A você, amado, homem do meu coração, dade da deusa escura pois, nesse caso, falar objetiva.
eu trouxe um destino mau... mente âmeaçâ â nossa visão do amor, baseada nâs neces.
A você, que pôs a mão direita em minha vulva, sldades infantis cle cuidados e proteção provenientes dos
que acariciou minha cabeça éom a esquerda, pais. Por isso, quase sempre pisamos em ovos, retro-
tocou minha boca com a sua, cedemos e levantamos defesas à nossa volta e à do outro,
fez-me beiiar sua cabeça. quando ele ou ela parece fraco demais para suportar os
Esta é arazáo pela qual decretaram um destino mau, fatos sem um terrível contra-ataque de desforrá.
assim é tratado o "dragão" das mr,rlheres 137... Quando dependemos do outro para nos sentirmos
valorizados, permanecemos dóceis ou explodimos apenas
O amor da cleusa por Dumuzi trouxe-lhe muita ale- a nível inconsciente. Mas, dispormo-nos a mandar Dumu-
gria e riquezas. Mas ele ousou participar de sua intimi- zi para baixo significa ousarmos responder por nossa
dade, e isso tem seu preço. Nos mistérios mais tardios própria realidade, significa termos a coragem de nos di-
é proibido ver o rosto dela e continuar vivo. Nenhum rigir para onde com certeza há um complexo mesmo
mortal consegue suportar-lhe a face assustadora e sobre- -
que então o outro se coloque na defensiva, fazendo
viver ileso. Dumuzi conseguiu isso e muito mais e, conse- com
que seu ego se perca para nós no mundo inferior. Este é
qüentemente, tornou-se sagrado, mais exatamente "sacri-
o lado extrovertido e de desafio ao amado na confron-
ficado". Como a um iniciado, a deusa o envolve em seu tação com Dumtvi. O lado introvertido implica o sacri-
aspecto subterrâneo. AÍ está o mistério esotérico e psico-
fício e a desistência do ideal mais querido em favor de
lógico do seu sacrifício. Inana desafia um igual ã em- fnana. A bela afabilidade da deusa do amor e da filha
preender a mesma descicla que ela suportou talvez
p4ra buscar igual força e sabedoria. - tão humana do pai, a identificação com o espírito e
com o fato de precisar tornar as coisas sempre fáceis
E, tratando-se do amado, isso dói muito mais, pois e inocentes esses ideais do animus devem ser reorien-
significa ser conhecido e conhecer os complexos do ou-
tados para a- deusa escura e mudados profundamente a
tro em profundidade. Há momentos inevitáveis de "mau seu serviço, a fim de que a mulher real, a serviço de seu
destino", pois quem é íntimo a§re as feridas mais fun- ,,si mesmo, possa sobreviver. Aqui o amado Dumuzi é
das e, assim, os amantes torna,{n-se inimigos. Mas eles a atitude preferida do animus, o velho rei, que a alma
são ao mesmo tempo inimigos amados, pois o sofrimen-
feminina deve entregar ao si mesmo e matar, enquanto
to cria separações sobre as quais saltam novas paixões. fonte primária de rr-lor identidade próprios.
Com freqüência, quando estamos empenhados em nos de- "
senvolver psicologicamente, vemo-nos escolhendo uma
pessoa íntima que, para esse fim, esfregará em nosso
bumuzi
nariz os nossos piores complexos.
Talvez, na verdade, apenas nos interessemos em ma-
goar quando atribuímos ao outro um valor tão grande , Mitologicamente Dumuzi é o rei pastor agonizante,
uma prefiguração de Abel e de Cristo. Seu nomã significa
quanto a nossa necessiclade de dizer a verdade quan-
- igual- "filho de confiança"; entre os pastores sua mãe eã deu-
do há uma verdadeira (embora às vezes, temida) que representa a ovelha e, entre os criadores de gado,
dade. Em situações de intimidade onde não se sente protetora da^s vacas selvagens. Em outros tempos ela
igualdade é extremamente difícil falar com a objetivi- aparece como deusa do papiro (em nenhum lugar Du.
137 Kramer, Sacred Marriage Rite, p.
tA5. rnuzi é apontado como filho de Inana). Seu pai, Enki,
t20 l2l
personifica as águas fertilizadoras das quais dependem i Antes de Inana chegar à cidade de Erech e encontrar
as safras 138. Um clos aspectos de Dumuzi relaciona-se ao Dumuzi, há três outras figuras que lhe aparecem no câ.
deus das tamareiras, outro ao dos cereais e à força con- minho, todas vestidas com roupas grosseiras de cânha-
tida na cevada, que possibilita a fabricação da cerveja 13e. rno, e que se atiram aos pés da "máe" Inana. E a deusa
Jacobsen considera-a "o élan da vida nova da natureza livra Ninshubur e os próprios filhos do poder dos de-
vegetal e animal" lm. tnônios. Mas quando Dumuzi é encontrado, ele se mostra
Mas Dumuzi é também o rei rnortal e o pastor do indiferente aos sofrimentos de Inana, e "veste-se com rou-
povo, um homem identificado com o princípio da imor- pas nobres... sentaclo num trono a'l1s" t4z. O amado não
talidade enquanto impregnador e colheita ao mesmo tem- se prostra ao vêJa rodeada de demônios. Nem desce
po. Num vaso de Uruk do quarto milênio ele figura no do trono. Como consorte e deus anual, ele fora poupado
papel de consorte de Inana durante o rito do casamento do sofrimento de trma terra estéril, e agora pãrecã irr-
sagrado. Nesse papel ele representa o homem plenamente consciente em relação à deusa, a não ser pelos seus as-
encarnado, mas uma espécie de homem-deus, um homem pectos afrodíticos e de fecundidade. Dumuzi desfruta o
tornado imortal. Como consorte, ele é iniciado no ser- papel do favorito, endeusado e enobrecido na própria
viço à deusa imortal da vida e da fecundidade. Sua cons- ignorância. E Inana libera ódio e vingança sobre ele: é o
ciência se reconcilia com os limites da vida, pois os trans- demonismo da deusa recém-chegada. Sobre ele a deusa
(semicerrou
cende pelo fluxo de energia transpessoal que lhe confere o olho da morte, falou contra ele a palavra,
um senso de ser, e este senso está apoiado em recursos a palavra da ira. . .»141, Inana repete as ações da irmã
superiores aos poderes mortais. Como Apuleio, que se escura, agora, porém, no mundo da luz, incorporando
torna semelhante ao sol e, por adorá-lo, acaba sendo plenamente o aspecto subterrâneo de familiaridade com
venerado pelos fiéis, Dumuzi é deificado no seu papel a morte, próprio de Ereshkigal.
de rei e consorte. Até essa hora Dumtrzi náo sente medo, e nem se com-
Mas ele é o marido mortal da deusa da terra, e deve porta de modo servil. Está seguro e identificado com o
morrer para que a fecundidade e a criação da terra pos- deus. É forte o suficiente (ou inconsciente o bastante
sam renovar-se. Sua libido humana -'é necessária para com relação à sua fragilidade humana) para manter-se
reivindicar à terra o que ela concede (os seios de Inana), como consorte e rei favorecido, como homem deus, e
e arar o solo (a vulva de Inana la1 ) para a terra tornar-se itão como uma criança que implora piedade à mãe. O que
fértil novamente. Mas essa morte também se faz necessá- requivale a honrar Inaná profundarnente, pois
contra ôu-
ria para fins de renovação, pois, enquanto rei, ele se muzi ela pode descarregar (e suavizar na hora devida)
identifica com as colheitas e o ápice da perfeição e força a sua profunda necessidade cle sobreviver. É a realidade
divinas que, inevitavelmente, entram em declínio. Aqui dele, segura e separada, que vai ao encontro da realidade
essas energias são sacrificadas ainda em suas primícias, dela. Encara-a como a uma igual e não tenta nenhuma
para dinamizar o ciclo das estações de vida e de morte, apaziguaçáo. Assim ela não preci5a importar-se com na-
das uniões de amor e separações dolorosas, das comu- da. Pode cortar os laços desiguais que existem entre
nhões e partidas. 'deusa e mortal. rainha e servo, pais é filhos; pode en-
contrar o espaço. onde testar Dumuzi e incorporar mais
138 Jbid., p. 15ó, n. 25.
13e Jacobsen, p. 2627.
p.26.
Mo [l>id., ]f] §pmer, Sacred Marriage Rite, p. ll8.
l4l (1sms1, Sacred Murriage Rite, p.81, 59; e Jacobsen, p. 46. r43 p.
Ibid., 119.

122 123
19 qr" sente por essa força e pela necessidade que a
de si mesma ao mundo consciente. E assim obtém dele
o respeito profundo, proveniente da confrontação. .lher tem de incorporá-la.
fsto sugere um dos aspectos em que as energias trans- ' Ao ver a dor infligida, a apaixonada pode deixar-se
pessoais reclamam um parceiro humano, agora não como transformar pelo sofrimento e remorso. idas a energia
voz espelhadora, e sim como dignidade equivalente. por ,Ha mulher quase sempre é prematuramente desviada ãe
identificar-se como conscrte da deusa, Dumuzi podia in- beu curso por um pai, irmão ou marido que, de tão
corporar- temporariamente uma força transpessoal para rptesos no complexo materno, não conseguem suportar
contrabalançar a dela. Assim, Inana termiàa o atàque o problema. AÍ eles se prostram e a consolam, como os
furioso de seu retorno demoníaco. Os demônios já têm filhos de Inana, ou se àfurecem como um touro do in-
um enfoque e podem clespender toda a fúria na per- ferno a investir de dentro de suas profundezas incons-
seguição de Dumuzi. E sua capacidade de poder confion- cientes. É a energia assertiva da mulher que lhe permite
tá-los alivia o povo da terra, pois ele permanece como feclamar uma identidade separada e individual, ou vol-
seu rei e defensor ao receber o embate da fúria, consti- tar-se contra si mesma ou contra os filhos fÍsicos ou
tuindo o bode expiatório e a oferenda de paz desse povo. pqíquicos, ou, então, transferir essa energia para as ma-
Com muita freqüência, no mundo atual, um mem- tlobras de uma agressividacle passiva. Nãs dois últimos
bro familiar mais próximo, ou o terapeuta, pode ser o casos ela perde a chance de valorizar suas necessidades
e-scolhido para suportar a erupção dal energiàs indoma- verdadeiras. É quando as mulheres precisam de ajuda
das quanclo um iniciado volta renascido do mundo sub_ mútua e dos homens, pois estamos mal e mal engati-
terrâneo, mas estando ainda envolto em seu aspecto de- ühando em aprender como nos libertar dos ideais ãnti-
moníaco. Se for possível reconhecer isso conscientemen- gos e sentimentais. E podemos nos tornar detestáveis
te e se, nas devidas proporções, se puder acolher essa Çnquanto estivermos aprendendo a assumir nossa iden-
realidade, ela se tornará parte de Lm processo mais tidade plena.
amplo. Neste contexto, a falta cle reverência de Dumuzi pela
- Neste ponto, o mito revela o problema das mulheres
identificadas com o ideal pultural pervertido do relacio-
fnana renascida pode ser vista de uma perspectiva ãife-
fente, e que é extremamente importante no momento em
namento sentimental e da autonegação como meio de que as mulheres lutam por trazer seus sentimentos e
serem reconhecidas. Na verdade, quando consideradas forças para o nível da consciência. Dumuzi vivia em festa
maternais ou compadecidas, elas estão permitindo que çnquanto sua companheira sofria. O consorte não valori-
suas,próprias necessidades sejam postas de lado. perdem za aquela descida e ignora a deusa em seu retorno, pois
o relacionamento verdacleiro para fundirem-se com o ou- pode-se considerar que ele tem um relacionamento mlito
tro, mas fundir-se assim é simplesmente um modo de pobre com suas profundezas e com sua sensibilidade vul-
evitar a confrontação. Isso prende no mundo subterrâ- nerável. Assim, ele nega a deusa, esconde-se de sua
neo a força que seria necessária para desenvolver a sua dor e necessidade, tornando-se pomposo e alegre. Di-
integridade individual. Mas nem por isso o complexo de ferente dos "filhos" excessivamertte perplexos e humil-
identidade individual perrle a enãrgia. Sua força reflui, des, ele se coloca alto demais- e- rráo tem nenhu-
e a mulher cai mrm ciclo repetitivo de depressões. Ou, rna sensibilizaçáo empática pela causa de Inana. Vemos
então, fica à procura, até encontrar alguém que possa isso com .freqüência no homem narcisista, que nega
defrontá-la com igualdade e receber a energia ãpaixona- au faz pouco caso dos sofrimentos de sua companheiia,
da do complexo e fazenclo-o assentar dãvido ao res- oomo, por exemplo, depois de ela ter dado a luz, ou
-
124 tzs
quândo ela se angustia ao buscar uma estrutura inde.
pendente fora da família "dele". O homem pode, então,
bancar o coitadinho ou considerar-se o mais importante,
aquele que, em ambos os casos, deve vir em primeiro
lugar na ordem de prioridacle. Esse comportamento po-
de se dar de um modo sutil ou aberto, mas, de uma 10
forma ou de outra, são atittrdes que se destinam a roer
por baixo a iuta cle uma mulher. Especialmente quando Equilíbrio:
ela começa a sentir-se forte e a desafiar-lhe a suprema-
cia, ele pode começar a desviar-se de suas responsabili
a aceitação do Processo
clades, acusando-a ou clesprezando-a, ou fugindo para a
passividade e o descompromisso. Dessa forma o homem
se trai, revelando ele também a necessidade de descer
ao mundo subterrâneo, a necessidade de encontrar a re-
lação com um feminino interior que ele possa aceitar solugão: a sabEdoria da mudança
de modo não-defensivo e respeitar como igúal.
No mito, a transmutação de Dumuzi numa cobra
poderia ser simbolicamente considerada como um modo "Leve-o daqui", ordena Inana. E os demônios, ins-
de tentar esquivar-se da própria necessidade de confron- do destino "que não aceitam oferendas", amar-
to com as profudezas do inconsciente. A fuga em busca iíá- espancam Dumuzi. Sua experiência de tortura não
Liifer"" da asonia cle Jó ou da de Cristo. E, como seus
da irmã, que é o final cle um outro poema, oferece um
prognóstico rnais promissor quanto ao desenvolvimento flãscendente-s míticos, ele apela a Deus para ser poupado'
de sua anima e individualidade. E que, através do sofrimento, Dumuzi acorda plenamen-
i; ;..; a reverência ao medo e para a mortalidade. Ele
ê àrrancado do statu.s de realeza e deificaçáo para a
percepção repentina dos limites do tempo, da inse-guran-
êa humana e cla morte. Sente dor e medo ao enfrentar
à aspecto sombrio da deusa' E isto o ensina a sentir
temor e respeito por Inana, ao mesmo tempo que per-
cebe o valor de sua vida mortal' Dumuzi tenta salvar-se;
gferece suas lágrimas, apela para Utu, o deus sol, que
arranjou t", com Inana. E Utu o atende.
Ele difere"u.u*"nto
de Gilgamesh, pois não perde sua imor-
talidade em favor da serpente. Ao contrário, ao ser trans'
formado, Dumuzi ganha o conhecimento das serpentes:
o de que nada morre na Grande Esfera. Assim como a
cobra troca de pele (e Inana trocou suas vestes), as
formas da vida se perdem e se renovam. A energia imor-
redoura do poder da serpente permanece. Assim, em
t26 t27
outras encarnações Dumuzi subirá ao trono e ao leito cuja "alma abandonou-o como um gavião que
de Inana, servindo como consorte mortal da deusa da atrás de um pássaro' 145. A pessoa cai no incons-
vida. A instituição do clireito divino dos reis, símbolo , é vencida pela emoção e fica em pânico. E, na
de vida renovada, continuará e, através dela, Dumuzi tidade com o rnedo, tenta sobreviver ao ataque. Ela
"escapará" de sua mortalidade. O poema termina dizen- , assim, esconder-se fora da vida até que haja a
do que, sob a forma de cobra", "Dumuzi, o rei, escapou de renascer nllm meio mais clemente. O medo
de seus demônios" 14. Esta é a fuga do iniciado e da a a alma mortal e provoca a sua descida. Aí o
dimensão mágico-matriarcal da consciência, uma perspec- subterrâneo pode ser um refúgio, um esconderijo.
tiva do mcdelo cle totalidade do ciclo de transformação tatamos essa descida em ataques de anima ou ani-
de energia. negativos, ocasião em que o emocional se sobrepõe
Quem consegue a transformaçáo é Utu, o irmão solar senso de identidade pessoal. E também nas histórias
de fnana. Em resposta às lágrimas de Dumuzi e à sua de indivíduos que se sentem marginalizados, ou
oferenda de sofrimento e terror mortais, o deus solar bodes expiatórios, por não terem encontrado se-
o torna sagrado. Ele sacrifica sua encarnação humana rança satisfatória em nenhum ambiente acolhedor. Aí
e garante-lhe a forma imorredoura da serpente, consorte mundo subterrâneo se apresenta às suas almas como
imortal da deusa e símbolo da energia da vida. refúgio doloroso, e qlrase sempre o retorno à vida
Utu, o deus sol, é o equilíbrio de Ereshkigal. Ele, nos moldes da história de Inana.
assim como Enki, está fora das características do Logos
patriarcal por não ser adversário do feminino, e sim,
complementar a ele. Como outras divindades celestes, 6utra solução: o remorso de Inana e o reequilíbrio
ele aparece ao lado do feminino como o gêmeo da lua ôa energia
noturna e da estrela-deusa (ou como filho ou consorte
cla terra). Pela transformação que opera em Dumuzi, sua Em outros mitos ("O Grito Mais Amargo" t4ó, "O So-
mensagem sugere que a vida continua, que não existem nho de Dumuzi" e "O Retornoil 147), a história apresenta
limites fixos; o que há são apenas transformações de fÍnais diferentes. Dois novos elementos são adicionados.
energia. Isso equilibra to medo de Dumuzi, da mesma I{á a reação de Inana à morte do seu esposo real e
forma que a mensagem de Ereshkigal de que a vida uma nova personagem: Geshtinana, a irmã de Du-
termina e que há limites e separações - equilibra a fnuzi.
inocência virgem de Inana. O deus solar e- a deusa som- ' Em primeiro lugar aparecem as canções sobre a
bria são os pilares do templo esotérico com sua sabe- mágoa da Grande Deusa pela perda do amacio:
doria de mudança. Nesse mito não há nenhum final que { Inana lamenta por seu jovem noivo:
possamos considerar estável, nenhuma solução, a não ser I "Meu esposo desapareceu, doce esposo. . .
a da sabedoria profunda. " Meu esposo se foi por entre as plantas. . .
Vemos essa mudança de forma psicológica quando ' Meu esposo, que partiu em busca de alimento,
uma pessoa é tomada por um medo terrível ou por um
i foi jogado às plantas...
adversário por clemais poderoso. O medo leva-a, então,
para fora da dimensão humana. Perde-se a alma, como 14s K1anlgf. Sacred Marriage Rite, p. ll9.
14ó J666§5sn, p. 4g_52.
14+ Wolkstein e Kramer. 147 Wolkstein e Kramer.

t28 129
A Grande Deusa lamenta e se rejubila, enquanto seu
-...que foi buscar água, foi jogado à água. rio processo cle transformação de vida e morte ao
Meu noivo, qual mão esmagâdã,
Partiu d4 sid4ds" 1a8. . . do tempo traz-lhe novos mortais e os leva, num
,,aprisionado,,, ,,mor- ciclo de consortes, até que Gilgamesh contesta o
,. }lu chora porque Dumuzi foi lugar, rejeita sua proposta de casamento sagrado,
tí)", "náo mais se únha,,, ,, jâ náo trata a mãe de Inana a instituição do reinado sobre bases novas e pro'
como sua própria máe", ,,não entra mais em competi-
ções com os moços de sua cidade,,, ,,não exerce mais iiiove aviltamento da deusa. Como Ereshkigal, Inana
o
suas doces funções junto às moças d.e sua cidade,,. fnana
ê ,rrn padrão arquetípico cle energia. Cada geração de
está desolacla. E sai em busca do amado d"rupur""iáo. hum.rôs é afetada e se transforma pelo contato com a
"Suaviza o lugar em que o arnado está enteriado,,, deusa bipolar e duradoura, e deve encontrar equilíbrios
a pgstentadores para a vida dentro da variação enorme
estepe deserta que Ihe serve de túmulo (fora da cidade, que se lhes apresenta. Pois os humanos devem mudar
onde mais tarde os hebreus levariam os seus bodes
sempre, lutando e fiu-indo para permanecerem em equi-
expiatórios para serem sacrificados). Ela o faz trans_ líbrio incluindo nisso uma porção suficiente do rea-
formando uma velha cleusa (mãe de filhos homen;i ;;
lismo -
e do serviço de Ninshubur para sobreviverem no
odre, para.qu-e o jovem viajante possa beber ag"a fí"rtã
mundo profano. É um teatro que nunca termina, uma
nesse local. É como se uma velha fonte e reservatório
ação de equilíbrio sem desfecho ou mesmo um ideatr
de libido se transformasse noutra nova. O que constitui pré-fixado.
um grande amparo por parte da deusa. Ao que parece,
o apoio maternal pode mudar de forma, para-aliriiar até
mesmo as nossas desciclas ao que para nós vem a ser
Uma terceira solução: Geshtinana, a irmã de Dumuzi
a morte.
A deusa lamenta por seu amado. Nem ela consegue Mas o problema se complica ainda mais quando ô
escapar à tristeza profunda que a transformaçao pãde consideramos de uma perspectiva humana. A deusa Ina-
trazer a um coração sensível. Enquanto instrumentô do na, devido a toda a sua intensidade arquetípica, não tem
destino ela causa dor, mas sofre e dá alívio ao mesmo a nossa capacidade de conexão humana e pessoal. F'Ia é
tempo. fnana estava inconsciente de sua própria trans_ servida por qualquer mortal que desempenhe as fun-
forSaçgg aopeimanecer no mundo subteriânà, á"q"u"-
ções de Dumuzi. EIa é a deusa que só se relaciona com
to Ereshkigal urrava de dor. No Mundo Superior é I'nana suas necessidades inerentes e outras intensidades impes-
quem sofre pela separação do amado. soais. Nós, humanos, temos um problema mais sério, pois,
Mas há outras canções ao longo das dinastias da por sermos pequenos e limitados pelo tempo, estamos
Suméria que descrevem seus reencontros felizes com Du- iambém maii envolvidos numa rede de intimidades pes-
muzi, em suas renovadas reencarnações como rei da ter- soais.
ra e da cidade de Inana. "No dia áe ,ir para a cama,f Nós servimos, somos moldados e dinamizados pelas
No Ano Novo, o clia dos ritos", ela leva õutros homens energias arquetÍpicas, as dertsas, mas também cuidamos
para o seu leito no ritual do casamento sagrado. E as- de nós mesmos, incorporados na terra, e das outras cria-
sim celebra-se o ciclo da vida que não rnorr! t+e. turas frágeis com as quais compartilhamos nossos desti'
148 Kranier, Sacred Marriage
Rite, p. l2g. nos. Nós não apenas ltttamos para permanecer numa
l4e Ibid., p. 63ss., 92, 100. relaçáo consciente com o domínio arquetípico, como
130 131
também para evitar a identificação com qualquer arqué-
tipo particular, a fim de que o equiiibriã, nuiao Geshtinana indica a possibilidade de continuar'
-em
gerador de vida seja manticlo. Mas, uirdu urri*, ã;"":" )s em nosso respeito pela deusa da vida e da morte
mos estar ao lado de Inana enquanto deusa das paixôes ra além do patriarcado. Mas isto tem um preço: o da
e afetos, do arnor- e da guerro 1. u a"rru qr"-;;;;;;; hceitação voluntária.
nossa vida pessoal e limitada pelo tempo aqui na ,' Gãshtinana, irmã de Dumuzi, filha e esposa de Enki,
terra. ldeusa dos caniços de papiro, é mulher sábia, "hábil
Devemos também servi-la ao iustentarmos ãs domínios
terrestres e humanos e suas necessidades incorporadas. cscriba... que conhece o significado das palavras... que
l50. Na imagem de um
Pois devemos servir a deusa por meio e dentro das co- conhece o significaclo dos sonhos"
nexões pessoais, encarnadas nô local onde sofremos 8onho, o pastor se vê destruído, bem como o seu tra-
sas paixões: a vida diária. E esse aspecto, como vem
nos- balho. O pastor vê um papiro sozinho, curvado e cho-
sugerindo no mito do ,,Sonho de Dumuzi,, (ver adiantài, rando em luto, e olrtros dois derrubados e cortados' O
também faz-parte do serviço a fnana, a grande deusa rei chama a irmã para interpretar a visáo. E Geshtinana
impessoal. É que, por meio de nossas paixões e sacri_ faz uma previsão de luto para sua máe, e de um destino
fícios, a deusa recebe o seu amado de irolta, d" ,", já traçado para si e o irmão. Ela o força a fugir, pois
;'rê o" dernônios vindo contra" ele, e jura não revelar
ventre sagrado a vida pode fluir livremente. "
A própria natureza nada a ninguém a fim de protegê-lo, mesmo que por isso
. da vida terrestre, e mesmo a venha a sei torturada. Mais tarde, quando Dumuzi foge
da deusa, impedem a possibilidade de ela ter um único
e eterno parceiro. o consorte fr*tífero da deusa é mor- para a casa da deusa e aí, por fim, é capturado, ela se
tal, um homem-deus, Llm homem feito deus põe a chorar e procura loucamente pelo irmão.
prestado a ela. Ele incorpora a bipolaridade'deÉb ,"r;li; Como Ninshubur, mas agora a serviço da dimensão
morte"e humana, Geshtinana faz tudo o que pode para redimir
vida do processo eterno de transformação. Isto assusta
e desagrada o nosso- Jado que, como "Cifgurn"rf,, q"À, quem ela perdeu para o mundo subterrâneo. Segue o
eternidade e estase. Mas coào a deusa tirnbem'é ma- clestino entrevisto no sonho de Dumuzi, mas o faz como
téria, não há estase e nem eternidade possíveis para a muJ.her e mortal, por meio da deusa, e não dos deuses
vida material. Iemos de ganhar nossa eiernidade d" o.r_ supremos. Como Inana, de quem é amiga em outros mi'
tro modo, sem nos agarrarmos às identidades daquilo tos e cujo amor conhece muito bem 151, encontra o túmu-
que denominamos nossos ideais heróicos. Temos de ir lo de Dúmuzi e chora. Então, seguindo o padrão estabe-
além da ,lenigração da deusa como volúvel, p.. Cifg"- lecido por Inana, oferece-se para ficar no lugar do irmão
mesh e.pelo ego patriarcal, aprendendo, pelo no mrr.rdo inferior, consentindo em sua própria queda.
a servi-la em sua inconstância-. Essa é a missão """t.á.io, Ambas descem depois cle sofrerem uma perda e se'
psicoló- paração: a morte de um companheiro vital (é por isso
gica primordial de nossa era.
que os túmulos sempre foram considerados como en-
Quem nos mostra esse sentido na narração do ,,So-
nho de Dumuzi" é uma nova personagem mítica. Geshti- tradas para o mundo inferior e suas profundezas incons-
nana, a irmã do rei pastor, tira-nos ãa intensidade dra_ cientes). Mas Geshtinana não se entrega pela mesma
mática das forças míticas devastadoras. Ela funciona co_ paixão da deusa pela aventllra e pelo poder. Sua moti-
mo uma ponte entre os núcleos de energia arrasadora vação é uma paixão humana: o sofrimento e o amor.
que foram libertados pelo material de Inana
e os núcleos rso Ibid., p. 122.
clo rnundo pessoal, que são menores, mais terrestr€s e 151 Jaçs!5sn, p. 27-28.

132 133
E Inana fica tão comovida por sua oferta de sacrifício terrestre, ultrapassando os ritmos e afetos primários e
que modifica a sentença de Dumuzi, e suaviza o destino impessoais de rainha que a deusa representa. Geshtinana
que o sonho previu para Geshtinana. Estabelece que ir- consegue ler as mensagens do inconsciente e, além disso,
mão e irmã se alternem, passando cada um seis meses mantém-se firme até mesmo contra os demônios. Ela é
no mundo inferior, e os outros seis na face da terra. a imagem de quem consegue ficar entre os domínios hu-
PermiteJhes incorporar o ciclo da deusa: descida e retor- manos e os transpessoais e compartilhar o fardo de inter-
no, retorno e descida, as reorganizações intermináveis do ligá-los.
núcleo da vida. Geshtinana parece simbolizar o resultado da descida
"Geshtinana" significa 'videira do céu'. Um de seus e do retorno de Inana, um broto novo do encontro da
cognomes é "raiz principal da vinha" re, É a força da deusa com a irmã sombria, uma "cepa nova da videira
uva colhida no outono e do vinho fermentado que com cla vida". Entretanto, quando comparada com a Grande
ela se faz na primavera, assim como Dumuzi personifica Deusa, ela parece humilde, humana e sensivelmente cons'
os cereais colhidos na primavera e dos quais se Íaz a ciente. Como filha de Enki, ela atua como apoio para a
cerveja fermentada. Ela é tão próxima do irmão quanto dimensão do sentimento. Ampara o irmão dependente e
Inana o é de Utu, o deus sol. Talvez até mais próxima, amedrontado, e reage criativamente ao que lhe fora de-
pois há um poema que mostra o pastor iniciando Geshti- cretado por participar consangüineamente de seu des-
nana na vida sexual, mostrandoJhe esse incesto tam- tino e sentimentos. Geshtinana é muito diferente do con-
bém entre os animais de seu rebanho. Geshtinana apare- sorte homem-deus; ela é uma "mulher sábia". É cons-
ce como a irmã terrestre e enraizada do par de gêmeos. ciente. E tornou-se consciente pelo sonho e pelo medo
Ela tem a ver com a libido endógama e consangüínea, do irmão ao mesmó tempo. IVlas tem força suficiente
que representa uma conexão íntima e pessoal com o para mitigar e assumir o sofrimento humano por meio
masculino: nascidos juntos do mesmo ventre e morren- do sacrifício consciente e cheio de amor. Ela se oferece
do juntos os dois cortados e derrubados na mesma à deusa, sua amiga, por causa do amor apaixonado que
- Geútinana
imagem. Assim, personifica a mulher que po- tem pelo irmão. E dessa forma não foge ao destino e
de ser a irmã-companheira do homem mortal. A ma- nem denigre a deusa do destino, como fizeram Gilgamesh
neira com que ela se preocupa com Dumuzi ultrapassa e o mundo patriarcal. Apresenta-se como voluntária. E
a capacidade impessoal cla deusa, pois considera os pela aquiescência corajosa e lúcida, explode o môdelo
núcleos frágeis da vida em sua sabedoria humana, de- haseado na vÍtima de sacrifício, preferindo confrontar-se
sejando dividir a carga de seus fardos no amor e no pessoalmente com o mundo subterrâneo. Oferece-se de
sofrimento: ela serve a detrsa renascida, mas também boa vontade para servir a Ereshkigal e Inana a um só
consegue manter o seu próprio eixo. tempo.
Geshtinana aparece na história depois da descida e Sua imagem lembra a de Cristo, embora seja pro-
retorno de Inana. EIa não sente a defensividade de uma fundamente feminina e mais pessoal. A vida dele foi en-
filha dos pais, para quem qualquer auto-sacrifício pelo tregue pelo bem cle todos os homens, num gesto gran'
masculino sem a busca de alguma recompensa pessoal é dioso. Ela, porém, se oferece aceitando corajosamente o
muito difícil. Stn capacidade de relacionamento é mais próprio destino por um homem de quem ela gosta, o
próxima, rnais específica e incorporada no sentimento irmão, a quem chama de "homem adorado" ls3. É uma
153 Jsrnss Hillman, "Sobre a Feminilidade Psicológica", in
152 Jbid., p. 27" O Mito da Análise, Ed. Paz e Terra, 1984.

134 13s
atitude pessoal e restrita, uma resposta individuai e tam- cada volta. Podemos ficar imaginando como uma mulher
bém individtralizarla. Trata-se de üm ato criativo pessoal humana, ou uma anima, deve transformar-se pelo ritmo
para servir simultaneamente ao processo da vida ãe Ina_ de nosso serviço a fnana e ao Grande Mundo Superior,
na e à própria constelação encarnada da deusa do amor com suas paixões ativas, relacionamentos extrovertidos e
e da guerra: seus sentirnentos pessoais. Este é o limite coletivos, bem como pela expressão criativa de tudo isso.
dos nossos sentimentos concretamente vivenciad.os aqui E também que mudanças trará o serviço a Ereshkigal e
na terra: o da valorjzaçáo específica, aqui e.agora. poâe- ao mundo de escuridão incubada e de estase aparente,
mos fazer extrapolações a partir daí, mas é néssa escala onde os efeitos do inconsciente coletivo atuam sobre
que o experimentamos. nós, e atingimos o centro de nossa condição solitária
Geshtinana não é um modelo grandioso, uma respos- ancorada na deusa e no muladhara. Cabe-nos agüentar a
ta única para o processo. Geshtinana é ela mesmu, sucessão das fases descendente-ascendente-descenden-
resposta tem a especificidade de seus sentimentos e"^rrru
rea_ te. . . como serviço a ambos os aspectos: o do instinto
lizaçã,o pessoal. Mas, para mim, ela expressa a possibili- feminino e o dos padrões do espírito. É muito difícil
clade encarnada de servir a deusa e i vida'huiaana ao sentir e dizer: "Ereshkigal Sagrada, doce é o teu lou-
llesm-o tempo. Ela é um resultado e uma incorporação vor!", mas isso é táo essencial quanto acolhermos de
de todo o processo de iniciação: do lado de Inaná ela'e a volta ao mundo superior e consciente a abrangência to-
escuridão renovada, a paixão e o remorso; do lado de tal do feminino, simbolizada por fnana. Reconhecer
Dumuzi, a realeza divina, a dependência humana e o Ereshkigal pode levar-nos a encontrar significado na dor,
medo. É uma mulher que sente ãe modo pessoal e pode na perda e até mesmo na morte, assim como precisamos
relacionar-se com amor, enquanto do inas- reafirmar o significado da alegria apaixonada, da luta e
"o*purrh"ira
culino. Ela está disponível para servir ãs aspectos lumi- da ambição de Inana. Todas elas são experiências sa-
nosos e sombrios cle suas profundezas e também os da gradas e válidas para nós, mulheres.
deusa. Os poemas não a retratam com a mesma exube- Ao personificar o processo alternando-se com seu
rância de Inana. Ela nem conhece o reino de Ereshkigal, animus-irmão na realidade de cima e na de baixo, su-
pois ainda não iniciou a descida. Sua personalidade ãao portando e abarcando o jogo dos opostos, Geshtinana
apresenta nenhumconflito entre relacionar-se com o ama_ permanece fora do modo patriarcal, pois sua posição é
do ou ficar sozinha e em sua própria profundidade. Mas sempre criativa, sempre relativa e flexível. Isso não pode
Geútinana-.quer enfrentar esÀa desciáa. E é a isso que ser deliberadamente alcançado como um ideal, mas so-
muitas mulheres modernas estão sendo chamada, mente sofrendo as paixões e sentimentos individuaLiza-
f,o,
seus sonhos e sentimentos. dos, que em Geshtinana representam o seu serviço à
Quando o poema termina, Geshtinana ainda não des- íleusa, e passando pelas descidas e retornos exigidos por
ceu. Quem vai antes é Dumuzi. O que sugere que os fnana. Enquanto vinho, ela simboliza um novo espírito
ideais do animus ou do superego devãm sei ultrápassa- feminino e uma antiga, mas sempre nova, consciência
d_os,
-antes
que a mulher porsá fazer uma experiência $o processo. Cada nova colheita da videira deve descer
tão direta e pessoal. Êo mundo inferior para fermentação e, a seguir voltar
Podemos imaginar o que mudará em Geshtinana, cima transformada, como o fruto da mudança cau-
que diferenças ela apresentará no primeiro retorno, bem trada pelo subterrâneo. Como o vinho sempre novo, sua
como nos subseqüentes, pois cada descida é um processo gualidade e gosto sofrerão variações: cada ano apresen-
novo, e uin equilíbrio também novo deverá surgir a uma safra diferente. Não existe um padrão de perfei.

136 137
ção que deva, ou mesmo precise, sêr atingido. Trata_se de subterrâneo. E precisamos, como diz Jung, "con'
process-o que depende closritmos da terrã, o que forçosa. sonhando o mito".
T"ltg farâ o paladar e a qualidade sofrerem variaioes. Não há modelos que se adaptem perfeitamente à nos-
E é disso mesmo que se irata: faz parte da disciimi situação. Apenas podemos, por meio dessa lenda anti-
naçã9 pelo sentimento e de uma alegria e tristeza corres.
pondentes. , saber a que força clevemos servir. E ainda está para
vivido e escrito como cada uma de nós deverá en-
Precursora de Dionísio, Geshtinana aponta_nos uma o seu equilíbrio e desenvolvimento individual, en-
nova espécie de ego em individuação: o que celebra e
aceita os processos de transformaçao de ,idu morte;
to descemos e stüimos, para novamente iniciarmos
ciclo.
que_ incorpora o equililrio sempre mutante " o pes-
entre
soal e o transpessoal lsa; q.r" o,i.u enfrentar u, **Urã,
do mundo inferior e voltar para a vida, incorporurao
sensível e humanamente as suas energias, ao inves de
Os mitologumenos da descida e retorno de Inana re-
reprimi-las. lintroduzem duas grandes deusas, padrões de energia fe'
Os fatos do destino de Geshtinana oferecem um pro-
blema, se formos considerá-la como modelo pura u. ilr_ trninina primária, e seus companheiros, bem como â posr
lheres modernas. Esse destino, conforme foi sibilidade de uma resposta individual humana para tra'
pela deusa, pode nos trazer fé no processo a" ;;";;ig;à; zêJos à vida encarnada e pessoal. A história apresenta
*"au"fu, um modelo de saúde e de cura para as separações entre
o que nos ajuda a deixarmos conscientemente as coisas
acontecerem, e também nos sustém no desejo de viver_
superior e inferior, entre o ideal coletivo e a realidade
processual bipolar e transformativa subjacente ao mo-
mos 9m novos espaços psicológicos. E, como muitas de
nós, ela pode escolher servir o seu próprio destino indivi_
ãelo feminino de totalidade. As imagens do mito podem
dual orientar-nos na caminhada, enquanto sofremos o retorno
mas da maneira que isso era concebido na Su_
méria- antiga. à deusa e à renovação, seguindo os passos de Inana e,
a seguir, os de Geshtinana.
Nós provavelmente não conseguiríamos aceitar por
muito tempejlrm clestino que nos impedisse de viver rima A implicaçáo para as mulheres modernas é que, só
clepois que a amplitude total e mesmo demoníaca dos
relação mais consciente com nosso cãmpanheiro (ou com
nosso animus). A Suméria resolveu o problema de rela- afôtos eã objetividade do feminino sombrio for sentida
cionamento colocando uma alternância de posições cons- e reivinclicada, um companheirismo verdadeiro, de en-
cientes e inconscientes: Geshtinana e Dumuzi não se en_ contro de almas, apaixonado e individual poderá ser pos-
sível entre o homem e a muiher como seres iguais. Inana
contram mais, eles se revezam duas vezes por ano nesse
ciclo infindável. E não temos nenhuma evidência de de_ vai para iunto de sua irmã ancestral sombria (o feminino
senvolvimento psicológico, de acréscimo de sabedoria com ..piirrridol, e dela se separa. E isso (com a ajuda de
o passar dos anos. Ninshubur, Enki e Dumuzi) traz à cena Geshtinana - o
modelo de alguém que consegue ter sua própria posição,
Nós, mulheres modernas, temos uma história longa
que está se tornando cada vez mais consciente. podemós manter seu valor e relacionar-se amorosamente com o
sentir os efeitos cle nossa luta leiga no patriarcado e no masculino, bem como diretamente com suas próprias
profundezas" É o modelo da mulher que está disposta a
154 Jams5 Hillmar
"on Psychological Feminitv"' in Mvth ãofrer humana e pessoalmente a amplitude total que é
of Anatysis, pp. 215-29ti a deusa.
138
139
clossÁRlo DE TERMOS IUNGUTANOS isão da consciência ao inconsciente, o que é típico acon.
quando o ego assume um número excessivo de conteúdos
perdenclo, assim, a capacidade de discernimento.
4rli"l" (lat-., "arma')- o lado feminino inconsciente da persona-
tidade do homem. Ém leisúifi;;Êp"? fi;ô:-
sonhos eta e Intukão. Uma das quatro funções psíquicas. É a função irracio
de mutheres.q_ue yão. desde g p.ortiiúiã-ãiã;;"í"*"spirituar nar revela as posslol[oaoes
nal que ncs revera possibilidades lnerentes
inerentes ao momenro
momento pre-
(sabedoria). É.ô princÍpio de Erôs; assim, o aeie"?ãrviÃento
aa
fente. Contrasta com a sensaçã,o (que percebe a ralidade ime.
anima de um homem iefiete-se em sua maneiri ae iãÉúorru._r" íliata por mero
grata meio oos
dos senrlcros físicos), por sentlr
sentidos nslcosr, através oo
sentir atraves do rn-
in-
com as murheres. A identificação com a animi donsciente, como, por exemplo, na visãci repentina de um con-
loíõ Àãoif"rtu._."
na v.ariação freqüenre de h'umor,
sensibilidade.
;i;miri{il ';-ià Íip*-
"t
Animus (rat., "espÍrito").-o lado ma:-qurino inconsciente da per- Participatinn mystique. Termo cunhado pelo antropólogo lévy-
sonalidade de uma mulher. personiriãi- õ Bruhl, para denotar uma ligação psicológica primitiva com obje-
A.identificação com o animus pode tornar i;;ã;í;t1;-e; roããi.
uma inurhei rÍgida, tos ou pessoas, ocasionan<lo um laço inconsciente poderoso.
inflexívet em..suas opir:iões e fàzê_ta ;;;"ir;."; à.il'a]."rrro".
Íreqüentes. visto eni .e., uspe"iõ- *ui. Persona (lat., "máscara de ator"), Nosso papel social, derivado
homem inter-icr que funcicni como ponteó;iti"",
í"aiiàu, e o da expectativa de grupos e de treino desde a infância. Um ego
entre o eso dà muher forte relaciona-se com o mundc exterior por meio de uma per-
e os recursos criativos que estão erà seu inconscie-nie."--
sona flexível a iclentificação com uma peisona específica (cómo
Arquétipos. Em. si rnesmos eles são, irrepresentáve,is, mas apa- rrr,édico, intelectual, artista etc.) inibe o desenvolvimento psico-
recem na consciência sob a forma de imãgeni .- iáe-íui--à.q"êti_ lógico.
picas. Trata-se de. padrões oo *ôtirrôJ ü?r;;ú;-á;;
i,consciente co.retiüo, sendo ,c* ao
o:üiú;^-dãii*i"aãI'réugio"u, 'Praieção. Processo pelo qual uma qualidade ou caracterÍstica
mitologias, tendas e contos ae raaài. úãáiõ;ü;_r;;;.^!"rrou. pessoal inconsciente é percebida e refletida num objeto exterior
por meio de imagens de sonhos e vrsoes. ou numa pessoa, provocando uma reação. A projeção da anima
ou do animus numa mulher ou num homem real traduz-se
Assac-iação.Urn fluxo espontâneo cle pensamentos e imagens, pela experiência cle ficar apaixonado. Expectativas frustradas
inrertigadqs ao redor de' umà iáeia eôpeciliôã,-ã-aãteiminaao indicam a necessiclade de afastar as projeções para conseguir
por conexões inconscientes. um melhor relacionamento com a realidade das pessoas.
complexo, um grupo de idéias ou imagens emocionarmente Puella aeterrla (lat., "menina eterna"). Indica um certo tipo de
regadas. *" "::]lT?]._t ,* comple.ro enconrra_se ,r* car- nrulher que permanece pcr muito tempo em estado de adoles-
ou irnagem arquetípica. ".queffi cência psÍquica, o que geralmente se deve a um forte laço psico-
lógico inccnsciente com o pai. Sua contrapartida masculina é o
Constelado. Sernp.re que houver uma fcrte reação emocional puer a.eternus, o eterno menino, que apresenta uma ligação cor-
uma pessca ou idéia, um complexo terá sido a
respondente com a mãe.
"o"it.tuáã-iàiivado).
Eg?. O complexo central do campo ,la consciência. Sentimento. Uma das quatro funções psíquicas. É uma força
pode relacionar-se objetivamentd com conteúdos Um ega forte racional que percebe as situações e os relacionamentos sob um
ativados
c.nsciente (isto é, ouiros complexos), sem iaeniinããr-." do in-
-"ãr,
.r., critério de valor. O sentimento precisa ser diferenciado da emo-
(o que seria um cstado a, pãi:àiiããt. ção; que é devida à ativação de um complexo.
en_dent e. O,. terceiro,, reconciliador que emerge
!:::_!:^,r-!:t c(sob do Símbolo. A melhor expressão possível de alguma coisa que é
llcr9{rscrrgnrg a forma de um sírnbolo ou ae iima -nãva ati_ essencialmente desconhecida. O pensamento simbólico é não-Ii-
ryrrsr, qepors que os near; orienta-se pelo lado direito do cérebro, sendo complçirlentar
ctentemente e a tensão-opostos conflitantes se diferenciaram cons-
entre etres foi suportaàã:-----**- ao pensamento lógico e linear, próprio do lado esquerdô do cá
Individuacão. A percepção consciente da rearidade própria rebro,
rinica de üma pessoa, i É;;rs";à;';;ü,:; ;ã'JH;#iLl,au0..e Si mesmo. Arquétipo da totalidade e centro regulador da psique.
e linritações. Esse piocesso-tàva à- experimáni"I-i^-ií-*"r*o É experimentado co:mo uma força transpessoal que transcende
como o centro r-egnladc»r da p,sique. o ego, como, por" exernplo, Deus.
Inflação. !.stado no qqar--se tern um senso irrealisticamente Sombra. Uma parte inconsciente da personalidade, caracterizada
ou baixo (nesre caso,- innaçao-iieêàiivaj-ae-iàãntüàãá.'i"ài"ualto por traços e atitudes qLte o e:ga tende a rejeitar. Nos sonhos ela
u é representada por pessoas do mesmo sexo que o sonhador,
140
t4t

iiL*
Transferência e contratransterência. Casos particulares de proje-
ção, comumente usados para descrever laçõs emocionais iricons- BIBLIOGRAFIA
cientes, que surgem entre duas pessoas num relacionamento
analítico ou terapêutico.
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144 145
INDICE

Prólogo
5 Introdução
17 1. DESCIDA E RETORNO
t7 O mito de Inana-Ishtar e Ereshkigal
20 Filhas do patriarcado
23 Quatro persPectivas do mito
27 2. O SUPERIOR E O INFERIOR: QUÀLIDADES
DO FEMININO
27 A deusa Inana
35 Ereshkigal, a deusa escura
37 Qualidades de Ereshkigal
42 A experiência analítica de Ereshkigal
47 A reieição de Ereshkigal pelo patriarcado
49 e oÉleiividade dos olhos de Ereshkigal
5ó 3. SOFRER E PERMANECER SEPARADA
56 Sofrimento nível inconsciente e consciente
59
-
O poste de Ereshkigal: fixando e encarnando
63 O poste de Ereshkigal como capacidade femi-
nina de permanecer seParada
68 4. A DEUSA BIPOLAR: AS DUAS IRMÃS
68 A deusa bipolar
72 Incesto com a mãe ou a irmã
77 5. DESCIDA. SACRIFÍCIO E
TRANFORMAÇÃO
77 A descida
82 Inana e o casamento de morte
82 Sacrifício e intercâmbio de energia
87 A descida como forma de regressão terapêutica
cotttrolada
90 6. DESVF,NDANDO E ULTRAPASSANDO
AS ENTRADAS
90 Desvendando
93 As entradas
95 7. O TESTEMUNHO E A BUSCA DA SABEDORIA
95 Ninshubur
97 A busca nas fontes erradas
101 8. A CONSCIÊNCIA EMPÁTICO.CRIATIVA
101 Enki: deus das águas, da sabedoria e da
criatividade
104 Imagens que espelham a deusa escura
107 Dentro e fora
109 Enki, o patrono dos terapeutas
114 A generosidade de Ereshkigal
tt7 9. o PREÇO DO RETORNO: o AMADO
SE TRANSFORMA EM BODE EXPIATORIO
tt7 O retorno de Inana: retorno do que estava
reprimido
lt9 O sacrifício do bode expiatório substituto
t2t Dumuzi
127 10. EQUILÍBRIO: A ACEITAÇÃO Do PRocESSo
127 Uma solução: a sabedoria da mudança
129 Outra solução: o remorso de Inana e o
reequilíbrio da energia
131 Uma terceira solução: Geshtinana, a irmã de
Dumuzi
139 Resumindo
139 Glossário de termos junguianos
143 Bibliografia

h&,
A sociedade patriarcal ualoriza e promoue ape-
nos os aspectos masculinos, subestimando e até J
mesmo reprimindo os aspectos feminínos. O re- E

sultado é que a mulher se esuazia, perde sua iden-



tidade feminina essencial e se torna uma "cópia" ô'E

caricatural do homem; o homem, por sua uez, s!



reduzído à masculínidade bruta e unilateral, per- 90

de a ligaçõo com ot ià,iõi'às femini,tnos do seu <9


ili
ô
mundo interior e passa a ter uma relaçõo opres- I

sora para com a mulher. Como restaurar a femi-


nilidade, despotenciando a unilateralidade do
mundo patriarcal, a fim de reequilibrar a identi-
dade psicológica dos sexos e plenificar a relaçõo
entreohomemeamulher?
A psicóloga Syluia Brinton Perera encontrou uma
resposta no mito de lnanna-lshtar, a deusa su-
méria do céu e daterua. Conhecida como "A des-
cida de lnanna", a t'orma escrita mais antiga des-
se mito data de 3.000 a.C. Relacionando o his-
tória da deusa lnanna com o processo psícológi-
co de suas pacientes, a Autora percebe que esse
míto equaciona ndo sô a tarefa, mas também
aponta para o modo de processar uma iniciaçõo
da mulher à sua própria t'eminilídade. Além dís-
so, também abre ímplicitamente uma perspecti-
ua para o homem restaurar em si os ualores do
feminino.

tN
ô
6
o
o
6
z@
ut