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RESUMO

A Psicopedagogia nasceu de uma necessidade: contribuir na busca de soluções para a


difícil questão do problema de aprendizagem. Enquanto prática clínica, tem-se
transformado em campo de estudos para investigadores interessados no processo de
construção do conhecimento e nas dificuldades que se apresentam nessa construção.
Como prática preventiva, busca construir uma relação saudável com o conhecimento, de
modo a facilitar a sua construção. No momento, a validade da Psicopedagogia, como
um corpo teórico organizado, não lhe assegura a qualidade de saber científico, devendo-
se fazer realmente ainda muito no sentido de ela sair da esfera da empírica e poder vir a
estruturar-se como tal. O termo psicopedagogia distingue-se em três conotações: como
uma prática, como um campo de investigação do ato de aprender e como (pretende-se)
um saber científico. Esse termo, por vezes, na literatura, é tratado como sinônimo de
outros. De acordo com Maria Regina Maluf (1991), "a literatura atual permite que sejam
tratados como equivalentes as denominações Psicologia Educacional, Psicologia
Escolar e Psicopedagogia". Segundo essa autora, os objetos de estudo não apresentam
diferenças que justifiquem serem tratados como áreas discretas, pois "há entre elas uma
unidade, embora não propriamente a mesma identidade" (1991, p. 4). Afirma também
M. R. Maluf que, do ponto de vista da atuação profissional, o psicólogo educacional, o
psicólogo escolar e o psicopedagogo desempenham papéis semelhantes (cf. Maluf,
1991).É possível observar, que nem sempre a formação, como ocorre no Brasil, prepara
o aluno para uma prática consistente, a qual requer grande conhecimento teórico e
compromisso social, implícito na tarefa a que o psicopedagogo se propõe. Tal prática se
baseia em conhecimentos de diversas áreas: Psicologia da Aprendizagem, Psicologia
Genética, Teorias da Personalidade, Pedagogia, fundamentos de Biologia, fundamentos
de Lingüística, fundamentos de Sociologia, fundamentos de Filosofia, fundamentos de
Atendimento Psicopedagógico. Conhecimentos específicos dessas áreas, articulados,
alicerçam a prática psicopedagógica.O compromisso do psicopedagogo é com a
transformação da nossa realidade escolar, e só através do exercício reflexivo
superaremos os obstáculos que se nos impõem

1. INTRODUÇÃO

O problema trabalhado nesta monografia é o que leva o aluno ao fracasso escolar e


Quais são os causadores do fracasso escolar? A pesquisa bibliográfica é a metodologia
usada nesta monografia.Tendo como objetivo Analisar os conhecimentos teóricos
objetivando entender alguns elementos sobre o funcionamento comportamental e
cognitivo da pessoa humana na fase de seu desenvolvimento, afim de melhor
compreende – lá., tem ainda como objetivo compreender as diferentes situações do
fracasso escolar. Através de aspectos físicos, químicos e psicológicos que levam a
alteração de comportamento e por fim Analisar os fatores que influenciam no fracasso
escolar.

Na atualidade, várias pesquisas têm sido realizadas na busca de compreender o fracasso


escolar na alfabetização tendo em vista os problemas que a leitura e a escrita apresentam
à educação (PATTO, 1996; MICOTTI, 1987; SCOZ, 1994). Essas pesquisas indicam a
existência de problemas no processo de ensino-aprendizagem da linguagem na primeira
série, isto é, problemas relativos à alfabetização, pois é na primeira série que
normalmente ocorre à alfabetização.
O educando chega à escola com um grande número de experiências, de aprendizagens
que são ignoradas pelo professor, pois mesmo antes de ingressar na escola a criança já
possui inúmeras vivências que deveriam servir como ponto de partida das atividades do
professor.A criança, mesmo não reconhecendo os símbolos do alfabeto, já "lê" o seu
meio, estabelecendo relações entre significante e significado. A escola deve dar
continuidade a esse processo defendendo a livre expressão da criança, pois com isso o
educando enfrentará com mais tranqüilidade a grande aventura do primeiro ano escolar:
aprender a ler e escrever.

Nesse sentido, é necessário que os educadores tenham conhecimentos que lhes


possibilitem compreender sua prática e os meios necessários para promoverem o
progresso e o sucesso dos alunos. Uma das maneiras de se chegar a isso é através das
contribuições que a Psicopedagogia proporciona, pois é a área que estuda e lida com o
processo da aprendizagem e com os problemas dele decorrentes. Sua nova visão vem
sendo apresentada pela Psicopedagogia e vem ganhando espaço nos meios educacionais
brasileiros, despertando o interesse dos profissionais que atuam nas escolas e buscam
subsídios para sua prática.

O interesse em pesquisar a forma como a intervenção psicopedagógica pode contribuir


para a prevenção do fracasso escolar na alfabetização é devido à desatenção que tem
sofrido o ensino da leitura e da escrita, e o baixo rendimento escolar, nas primeiras
séries do Ensino Fundamental; e como também, devido à importância do trabalho
psicopedagógica preventivo que se baseia principalmente na observação e análise
profunda de uma situação concreta, no sentido de detectar possíveis perturbações no
processo de aprendizagem promovendo orientações didático-metodológicas de acordo
com as características dos indivíduos e grupos.

2.FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Tendo como princípio a atuação ímpar do professor na formação do cidadão


freqüentador de uma unidade de aprendizagem: a escola, a questão da aprendizagem
pode passar pela questão de entender a relação professor-aluno e a representação que o
primeiro tem em relação ao segundo. Este estudo procura contribuir com reflexões para
que seja possível uma revisão e reciclagem de práticas e metodologias que indique um
caminho inverso ao universo da mídia: a afetividade e a atuação de um jovem criativo,
executor de obras sociais. O intuito principal é auxiliar este jovem a canalizar energias
para sua autonomia e construção de uma identidade cidadã saudável.

Tomando como base que a Psicopedagogia tem como objeto de estudo o aprender,
preocupando-se no seu surgimento com as questões relacionadas aos déficits de
aprendizagem, torna-se um suporte rico de contribuição neste trabalho. A preocupação
principal da Psicopedagogia é o aprendizado do ser humano, integrando o cognitivo e o
afetivo para realizar o processo como um todo.Para fazer uma junção do nome
propriamente dito, teremos: “Pedagogia” que se preocupa mais com o conhecimento
cognitivo e intelectual; e a “Psicologia” que está voltada para a busca do bem estar do
indivíduo. Então temos a psicopedagogiaque relaciona a capacidade do aluno de se
sentir competente no seu aprendizado, relacionando-o com prazer.

A Psicopedagogia dos conteúdos na sala de aula revoluciona a inter-relação professor-


aluno. Se de um lado o aluno é visto de um modo integrativo e participa da construção
do conhecimento, de outro é indispensável uma transformação na postura do
professor. É importante que o educador tenha os cuidados necessários para permitir que
a autonomia do educando avance sem que ele, educador, se sinta ameaçado e não exija
mais que o aluno pode dar. Ao facilitar e organizar o processo produtivo de
aprendizagem o educador deve assegurar a todos a prática e vivência, a possibilidade de
observar e construir o conhecimento.

O trabalho psicopedagógico atua não só no interior do aluno ao sensibilizar para


construção do conhecimento, levando em consideração os desejos do aluno, mas requer
também uma transformação interna do professor. Para que o professor se torne um
elemento facilitador que leve o educando ao desenvolvimento da autopercepção,
percepção do mundo e do outro, integrando as três dimensões, deve estar aberto e atento
para lidar com questões referentes ao respeito mútuo, relações de poder, limites e
autoridade. Quando se fala da profissão professor, não se pode deixar de enfatizar a
“Influência do Professor e do ambiente escolar” na vivência dos alunos.A seriedade
profissional do professor se manifesta quando compreende o seu papel de
instrumentalizar dos alunos para a conquista dos conhecimentos e sua aplicação na vida
prática; incute-lhes a importância do estudo na superação das suas condições de vida;
mostra-lhes a importância do conhecimento das lutas dos trabalhadores, orienta-os
positivamente para as tarefas da vida adulta. Tais propósitos devem ser concretizados na
prática, através de aulas planejadas nas quais se evidenciem a segurança nos conteúdos
e nos métodos de ensino; a constância e firmeza no cumprimento das exigências
escolares pelos alunos; o respeito no relacionamento com os alunos.

O paradigma de que o professor ao mesmo tempo em que não deve contemporizar com
a negligência e com o descumprimento dos deveres, deve estar atento para o bem
relacionamento humano com os alunos. O respeito se manifesta, pois, no senso de
justiça, no verdadeiro interesse pelo crescimento do aluno, no uso de uma linguagem
compreensível, no apoio às suas dificuldades, nas atitudes firmes e serenas.

O ambiente escolar pode exercer, também um efeito estimulador para o estudo ativo dos
alunos. Os professores precisam procurar unir-se a direção da escola e aos pais para
tornar a escola um lugar agradável e acolhedor.

Uma das poucas alegrias da vida numa época de ansiedade é o fato de sermos forçados a
tomar consciência de nós mesmos. Quando a sociedade contemporânea, nesta fase de
reversão de padrões e valores, não consegue dar-nos uma nítida visão “do que somos e
do que devemos ser”, vemos lançados à busca de nós mesmos. A dolorosa insegurança
que nos rodeia torna-se um incentivo a indagar: será que nos passou despercebido
algum manancial de força e orientação?De modo geral prefere-se indagar: como é
possível alcançar a integração interior numa sociedade tão desintegrada? Ou então:
como empreender a longa evolução para a auto-realização numa época em que quase
nada é certo, nem no presente, nem no futuro?

Gente muito preocupada tem ponderado tais questões. O psicoterapeuta não possui
respostas mágicas. A nova luz que a psicologia profunda lança sobre os motivos ocultos
dos nossos pensamentos, sentimentos e ações será de grande ajuda, sem dúvida alguma,
na busca do próprio eu. Mas existe algo além dos conhecimentos técnicos e
compreensão pessoal que anima o sujeito a aventurar-se até onde os anjos temem pisar e
apresentar suas idéias e experiências sobre as difíceis questões da vida.
Observando a história da humanidade, podem perceber que hoje, mais do que nunca, o
processo de desenvolvimento está centrado na aquisição do conhecimento e marcado
por grandes transformações. Atualmente a humanidade vivencia grandes avanços
tecnológicos que possibilitam a ocorrência acelerada de novas pesquisas e descobertas.
Para acompanhar esse processo de mudanças a aquisição do conhecimento torna-se
imprescindível.

Além disso, viver a era da integração em todos os setores do planeta, que se expressa de
maneira mais ampla, pelo fenômeno da globalização. Percebemos que em todos os
níveis e nas diferentes áreas de atuação existe um grande anseio, uma busca constante
pela integração. Esse movimento é pouco explicitado, mas percebe-se que está presente
em estado latente na maioria de nós.

A descoberta de nosso potencial permite não só o reconhecimento de nossa capacidade


de autoria, mas também cria condições para a abertura de espaços onde outros se
reconheçam autores. Para isso não há mágica. Com certeza a origem dessas mudanças
passa pela educação. Recentemente, várias mudanças curriculares têm sido realizadas
propondo educar o indivíduo para torná-lo cidadão. Tais medidas significam um
avanço. Entretanto, essas medidas só serão bem sucedidas se forem acompanhadas de
um trabalho com os indivíduos aprendentes que habitam em cada ensinante. Ou seja,
com os educadores responsáveis pelas linhas de frente da educação.

Neste sentido a escola deve ser um espaço de promoção da articulação da realidade


interna e externa do aprendiz, tornando a educação e a formação como um trabalho de
duas questões indissociáveis. Uma das tarefas da escola é desenvolver a habilidade de
negociação e a convivência pacífica, como algo imprescindível em um mundo
globalizado. A escola deve trabalhar o autoconhecimento como possibilidade de
abertura para o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de julgamento.

A tônica desses princípios é o compromisso com a cidadania exigindo, para isso,


educadores críticos da realidade e uma escola que não seja apenas reprodutora das
relações de trabalho, mas que possibilite o desenvolvimento do autoconhecimento dos
educadores, a fim de que construam relações de autonomia. Esses princípios enfatizam
em igual medida as áreas convencionais no que se refere ao domínio das disciplinas; a
dimensão social, no que se refere aos valores e atitudes; a dimensão pessoal, no que se
refere aos afetos, sentimentos e preferências dos indivíduos.

A concretização desses princípios exige um investimento de possibilidades de aprender


a aprender de alunos e educadores. Para isso, a escola necessita de um espaço onde os
educadores possam recriar a si mesmos como aprendentes, sentindo-se autores de seus
próprios pensamentos e, conseqüentemente, capazes de ensinar e aprender.

Esses fatos, aliados ao contexto global explicam a importância crescente da


psicopedagogia, que na sua concepção atual, já nasce com uma perspectiva
globalizadora condizente com os rumos da aprendizagem na atualidade. Ela ocupa um
lugar privilegiado porque justamente não está em um único lugar, sua força está
justamente localizada no poder transitar pelas fendas, pelos espaços entre
objetividade/subjetividade – ensinante/aprendente.
De acordo com CIAMPA (1998), num primeiro momento somos levados a ver a
identidade como um traço estatístico que define o ser. Como algo que aparece
isoladamente, imutável, estático.A partir dessas considerações, penso que a Construção
da Identidade é uma Questão de Aprendizagem. Precisamos sempre nos perguntar quem
queremos ser a partir da possibilidade de aprender. Quando perguntamos quem
queremos ser, essa pergunta sem uma resposta prévia, pode nos assustar. Entretanto,
como futuros profissionais psicopedagogos, não podemos nos esquecer que a força da
Psicopedagogia é justamente poder perguntar sobre seu próprio objeto, porque a
Psicopedagogia trata do aprender e aprender implica perguntar e perguntar-se.

Parece então necessário e saudável que a Psicopedagogia como outra área de


conhecimento ligada com a subjetividade do “Ser – Humano” esteja sempre aberta para
perguntar sobre sua identidade, considerando os conhecimentos adquiridos, o presente e
o futuro, enfim, o desejo de se transformar, de continuar crescendo.

2.1. EMBASAMENTO DO TRABALHO


PSICOPEDAGÓGICO
O termo psicopedagogia apresenta-se, hoje, com uma característica especial. Quanto
mais tentamos elucidá-lo, menos claro ele nos parece. Como diz Lino Macedo (1992),
"o termo já foi inventado e assinala de forma simples e direta uma das mais profundas e
importantes razões da produção de um conhecimento científico: o de ser meio, o de ser
instrumento, para um outro, tanto em uma perspectiva teórica ou aplicada". Neste
sentido, enquanto produção de conhecimento científico, a Psicopedagogia, que nasceu
da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem, não basta
como aplicação da Psicologia à Pedagogia. Macedo lembra-nos, ainda, que no Novo
Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, é definido como "aplicação da psicologia
experimental à pedagogia"(1992,p. VII).Para Maria M. Neves, a psicopedagogia
inicialmente foi utilizada como adjetivo, indicando uma forma de atuação que apontava
a inevitável interseção dos campos do conhecimento da Psicologia e Pedagogia.
Posteriormente a Psicopedagogia assumiu uma conotação substantiva, o que por um
lado correspondeu a uma aplicação conceitual e, por outro, causou um lamentável
estado de confusão, devido à utilização de toda uma polissemia aplicada a um só termo.

Para Kiguel, "historicamente a Psicopedagogia surgiu na fronteira entre a Pedagogia e


Psicologia, a partir das necessidades de atendimentos de crianças com ‘distúrbios de
aprendizagem’, consideradas inaptas dentro do sistema educacional convencional"
(1991, p. 22). " Os fatores etiológicos utilizados para explicar índices alarmantes do
fracasso escolar envolviam quase que exclusivamente fatores individuais como
desnutrição, problemas neurológicos, psicológicos, etc. "No Brasil, particularmente
durante a década de 70, foi amplamente difundido o rótulo de Disfunção Cerebral
Mínima para as crianças que apresentavam, como sintoma proeminente, distúrbios na
escolaridade.Se a (in)definição do termo psicopedagogia produz um estado de confusão
conforme afirma Neves, vejamos qual é a definição do objeto de estudo da
Psicopedagogia segundo alguns psicopedagogos brasileiros.

Para Kiguel, "o objeto central de estudo da Psicopedagogia está se estruturando em


torno do processo de aprendizagem humana: seus padrões evolutivos normais e
patológicos – bem como a influência de meio (família, escola, sociedade) no seu
desenvolvimento" (1991, p. 24). De acordo com Neves, "a psicopedagogia estuda o ato
de aprender e ensinar, levando sempre em conta as realidades interna e externa da
aprendizagem, tomadas em conjunto. E, mais, procurando estudar a construção do
conhecimento em toda a sua complexidade, procurando colocar em pé de igualdade os
aspectos cognitivos, afetivos e sociais que lhe estão implícitos" (1991, p. 12).

Segundo Scoz, "a psicopedagogia estuda o processo de aprendizagem e suas


dificuldades, e numa ação profissional deve englobar vários campos do conhecimento,
integrando-os e sintetizando-os"(1992,p.2) Para Golbert: (...) o objeto de estudo da
Psicopedagogia deve ser entendido a partir de dois enfoques: preventivo e terapêutico.
O enfoque preventivo considera o objeto de estudo da Psicopedagogia o ser humano em
desenvolvimento enquanto educável. O enfoque terapêutico considera o objeto de
estudo da psicopedagogia a identificação, análise, elaboração de uma metodologia de
diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem (1985, p. 13).

Para Rubinstein, "num primeiro momento a psicopedagogia esteve voltada para a busca
e o desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores de
dificuldades, tendo como objetivo fazer a reeducação ou a remediação e desta forma
promover o desaparecimento do sintoma". E ainda, "a partir do momento em que o foco
de atenção passa a ser a compreensão do processo de aprendizagem e a relação que o
aprendiz estabelece com a mesma, o objeto da psicopedagogia passa a ser mais
abrangente: a metodologia é apenas um aspecto no processo terapêutico, e o principal
objetivo é a investigação de etiologia da dificuldade de aprendizagem, bem como a
compreensão do processamento da aprendizagem considerando todas as variáveis que
intervêm nesse processo" 91992, P. 103)

Do ponto de vista de Weiss, "a psicopedagogia busca a melhoria das relações com a
aprendizagem, assim como a melhor qualidade na construção da própria aprendizagem
de alunos e educadores" (1991, P. 6).Essas considerações sugerem há um certo
consenso quanto ao fato de que ela deve ocupar-se em estudar a aprendizagem humana,
porém é uma ilusão pensar que tal consenso nos conduza, a todos, a um único caminho.
A concepção de aprendizagem é resultado de uma visão de homem, e é em razão desta
que acontece a práxis psicopedagógica.Dos profissionais brasileiros supracitados,
pudemos verificar que o tema aprendizagem ocupa-os e preocupa-os, sendo os
problemas desse processo ( de aprendizagem) a causa e a razão da Psicopedagogia.
Podemos observar esse pensamento traduzido nas palavras de profissionais argentinos
como Alicia Fernandez, Sara Paín, Jorge Visca, Marina Müller, etc., que atuam na área
e estão envolvidos no trabalho teórico. Para eles, "a aprendizagem com seus problemas"
constitui-se no pilar-base da Psicopedagogia.

Segundo Jorge Visca, a Psicopedagogia, que inicialmente foi uma ação subsidiária da
Medicina e da Psicologia, perfilou-se como um conhecimento independente e
complementar, possuída de um objeto de estudo – o processo de aprendizagem – e de
recursos diagnósticos, corretores e preventivos próprios.Atualmente, a Psicopedagogia
trabalha com uma concepção de aprendizagem segundo a qual participa desse processo
um equipamento biológico com disposições afetivas e intelectuais que interferem na
forma de relação do sujeito com o meio, sendo que essas disposições influenciam e são
influenciadas pelas condições socioculturais do sujeito e do seu meio.
Ao psicopedagogo cabe saber como se constitui o sujeito, como este se transforma em
suas diversas etapas de vida, quais os recursos de conhecimento de que ele dispõe e a
forma pela qual produz conhecimento e aprende. É preciso, também, que o
psicopedagogo saiba o que é ensinar e o que é aprender; como interferem os sistemas e
métodos educativos; os problemas estruturais que intervêm no surgimento dos
transtornos de aprendizagem e no processo escolar.No trabalho clínico, conceber o
sujeito que aprende como um sujeito epistêmico-epistemofílico implica procedimentos
diagnósticos e terapêuticos que considerem tal concepção. Para isso, é necessária uma
leitura clínica na qual, através da escuta psicopedagógica, se possa decifrar os processos
que dão sentido ao observado e norteiam a intervenção.

De acordo com Alicia Fernández, necessitamos incorporar conhecimentos sobre o


organismo, o corpo, a inteligência e o desejo, estando estes quatro níveis basicamente
implicados no aprender. Considerando-se o problema de aprendizagem na interseção
desses níveis, as teorias que ocupam da inteligência, do inconsciente, do corpo,
separadamente, não conseguem resolvê-lo.Conhecer os fundamentos da Psicopedagogia
implica refletir sobre as suas origens teóricas, ou seja, revisar velhos impasses
conceptuais que subjazem na ação e na atuação da Pedagogia e da Psicologia no
apreender do fenômeno educativo.

Do seu parentesco com a Pedagogia, a Psicopedagogia traz as indefinições e


contradições de uma ciência cujos limites são os da própria vida humana. Envolve
simultaneamente, a meu juízo, o social e o individual em processos tanto
transformadores quanto reprodutores. Da Psicologia, a Psicopedagogia herda o velho
problema do paralelismo psicofísico, um dualismo que ora privilegia o físico
(observável), ora o psíquico (a consciência).

Essas duas áreas não são suficientes para apreender o objeto de estudo da
Psicopedagogia – o processo de aprendizagem e suas variáveis – e nortear a sua prática.
Dessa forma, recorre-se a outras áreas, como a Filosofia, a Neurologia, a Sociologia, a
Lingüística e a Psicanálise, no sentido de alcançar compreensão desse processo. Para
Sara Paín, "nesse lugar do processo de aprendizagem coincidem um momento histórico,
um organismo, uma etapa genética da inteligência e um sujeito associado a tantas outras
estruturas teóricas, de cuja engrenagem se ocupa e preocupa a Epistemologia; referimo-
nos principalmente ao materialismo histórico, à teoria piagetiana da inteligência e à
teoria psicanalítica de Freud, enquanto instauram a ideologia, a operatividade e o
inconsciente" (1987, p. 15).

Os autores brasileiros Neves, Kiguel, Scoz, Golbert, Rubinstein, Weiss, Barone e


outros, assim como os argentinos Fernández, Paín, Visca, Müller, são unânimes quanto
à necessidade de conhecimentos de diversas áreas que, articulados, devem fundamentar
a constituição de uma teoria psicopedagógica. Ora, nenhuma dessas áreas surgiu
especificamente para responder à problemática da aprendizagem humana. Elas, no
entanto, nos fornecem meios para refletir cientificamente e operar no campo
psicopedagógico, o nosso campo.

Entretanto, não só à Psicanálise recorre o psicopedagogo. Ele busca conhecimentos


também na Psicologia Genética, na Psicologia Social, na Psicolingüística, etc. Sabemos
igualmente que nenhuma dessas áreas surge para responder aos problemas de
aprendizagem: as diversas combinações entre elas resultam, entretanto, em posturas
teórico-práticas diversificadas, porém com diversos pontos de convergência. Assim a
partir de pressupostos teóricos iniciais da Medicina, da Psicologia e da Pedagogia,
foram-se constituindo concepções acerca dos problemas de aprendizagem, as quais
transformaram-se e, consequentemente, transformaram a prática psicopedagógica, até
esta chegar à configuração atual. De qualquer modo, a Psicopedagogia se encontra em
fase embrionária e seu corpo teórico acha-se em construção, amalgamando-se ou
estruturando o seu arcabouço lógico-principal ou ideal. A cada dia surgem novas idéias,
novas situações e mais transformação: o psicopedagogo então transforma a teoria e, por
seu turno, a teoria o transforma. Tratando do mundo psíquico individual e grupal em
relação à aprendizagem e aos sistemas e processos educativos, o psicopedagogo ensina
como aprender e, para isso, necessita apreender o aprender e a aprendizagem. Para o
psicopedagogo, aprender é um processo que implica pôr em ação diferentes sistemas
que intervêm em todo sujeito: a rede de relações e códigos culturais e de linguagem que,
desde antes do nascimento, têm lugar em cada ser humano à medida que ele se
incorpora à sociedade.

Atualmente, a Psicopedagogia refere-se a um saber e a um saber-fazer, às condições


subjetivas e relacionais – em especial familiares e escolares – às inibições, atrasos e
desvios do sujeito ou grupo a ser diagnosticado. O conhecimento psicopedagógico não
se cristaliza numa delimitação fixa, nem nos déficits e alterações subjetivas do aprender,
mas avalia a possibilidade do sujeito, a disponibilidade afetiva de saber e de fazer,
reconhecendo que o saber é próprio do sujeito.Na transição de produção feudal para o
capitalismo surge um novo estilo de homem, um homem livre, assalariado e
especializado em uma produção, ficamos cada vez mais cartesiano, fragmentado,
especifico em sua área de atuação. Perdendo assim uma visão do todo. O mercado
controla esse mesmo homem e o poder especializado ocupado pelos “mal nascidos”
que, antes produtores independentes, passam a ser sujeitos dentro de uma divisão social
entre os capitalistas e os proletariados. Toda essa mudança ocorrida nas relações de
produção visou libertar o homem do jugo do feudalismo e torná-lo livre para vender sua
força de trabalho. Essa transformação, o advento da mais-valia, a transformação do
trabalho em mercadoria, tem decorrências profundas na sociedade humana e, também,
no comportamento humano, que, obviamente estiveram dialeticamente relacionada.

A mão de obra especificada, com novos horários e ritmos de trabalho e novas condições
e maneiras de produção não privilegiava a visão de estudo, escolarização mas apenas
aprender a sua habilidade específica. Assim, a escola aos poucos vai adquirindo
significados diferentes para diferentes classes sociais a partir dos lugares que ocupavam
em seus trabalhos, criando também uma idéia a respeito das diferenças de rendimento
escolar entre alunos surgindo às desigualdades e diferenças dentro da mesma escola
entre os sujeitos. Patto (1990) faz a seguinte afirmação: “E o fato de os novos homens
bem-sucedidos o serem aparentemente por habilidades e mérito pessoal – já que não o
eram por privilégios adquiridos do nascimento – confirmava uma visão de mundo na
qual o sucesso dependia fundamentalmente do indivíduo”.

Patto postula que a ciência nunca foi neutra e sempre esteve presente para manter uma
idéia que as pessoas acreditavam nas verdades ditas. O questionamento surgia quando
havia suposição de que aquela verdade não existia, assim como a concepção de leitura
da escola era desde o início uma verdade acreditada. A instituição e a história cultural
são diferenças formadas por questões acreditadas. A ciência e a ideologia se confundem
pois fazem a leitura quanto opção ideológica e quanto à escolha psicológica, pode ser
implícita ou explicitamente mas em qualquer posição vai haver uma leitura dialética ou
positivista. Como no início da discussão da escola nova é de ser universal e para todos,
a promessa não se cumpre.

O conceito de problemas ou atrasos na aprendizagem é muito amplo e seu significado


abrangeria qualquer dificuldade observável enfrentada pelo aluno para acompanhar o
ritmo de aprendizagem de seus colegas da mesma faixa etária, seja qual for o fator
determinante desse atraso. Certamente, a população assim é de uma grande
heterogeneidade, não sendo simples encontrar critérios que delimitem com maior
precisão. Os primeiros estudos na área surgiram no século XIX, das ciências médicas
(neurologia, neurofisiologia e neuropsiquiatria), de modo que conceitos de
anormalidade e patologia se transferiram dos hospitais para as escolas.

Com o progresso dos estudos pedagógicos, sociológicos, antropológicos, lingüísticos,


entre outros, surgiram inúmeras questões, como as relacionadas à distinção entre normal
e patológico, o que obriga a uma maior objetividade no uso de termos. O objetivo deste
trabalho é fazer uma ampla abordagem do tema na tentativa de dar conta de importantes
interfaces das questões pedagógicas relativas ao desenvolvimento, à família e ao meio
social.

Busca-se assim, uma visão integrada e integradora da aprendizagem humana,


considerando seus padrões evolutivos normais e patológicos, bem como as influências
do meio social (família, escola e sociedade), determinantes do seu desenvolvimento. Em
qualquer sala de aula existem alunos que, por diferentes motivos, não acompanham seus
pares, independente do nível de complexidade dos conteúdos ou da metodologia
utilizada naquele contexto específico.

2.2. CONCEPÇÃO DE ALFABETIZAÇÃO


Tradicionalmente, o processo de alfabetização estava diretamente relacionado com a
inteligência (QI), essa visão da alfabetização dominou, durante muito tempo, os estudos
e pesquisas na área, explicava o papel desempenhado pela ideologia do dom, na
justificativa do fracasso em alfabetização, atribuindo a responsabilidade por esse
fracasso às chamadas disfunções psiconeurológicas da aprendizagem da leitura e da
escrita

O foco da análise da alfabetização voltou-se para as abordagens cognitivas, sobretudo


da Psicologia Genética de Piaget, Embora Piaget não tenha realizado pesquisas sobre a
aprendizagem da leitura e da escrita, vários pesquisadores têm estudado a alfabetização,
entre esses, destaca-se Emília Ferreiro.Mas apesar de todos os estudos realizados, ainda
hoje a alfabetização tem sido considerada como processo de aquisição do código
alfabético, em que a escrita representa a transcrição dos sons em fonemas.Nessa
concepção de alfabetização e do seu processo de desenvolvimento o aluno é
considerado como aquele que não possui qualquer conhecimento, que deve estar pronto
para receber as informações de como lidar com esse código, através de um professor
que, detendo o conhecimento, restringe-se apenas a transmiti-lo. A escola considera-se
guardiã do objeto cultural: a linguagem escrita, tomando-o como algo estático e
imutável, como um modelo a ser seguido, que exige do educando uma atitude de
respeito diante deste objeto e ainda cópia e reprodução fiel, sem direito a
modificações.Desta forma, a aquisição da leitura e da escrita deve acontecer através da
utilização de um conjunto de procedimentos: métodos, técnicas e recursos, que
possibilitem aos educandos adquirirem habilidades em relação ao uso desse código. O
trabalho do professor quanto à alfabetização tem-se centralizado na busca do melhor ou
mais eficaz método levantando, assim, uma polêmica em torno dos métodos sintético e
analítico.

Os métodos sintéticos começam pela apresentação de elementos considerados simples


(elementos sem nenhuma significação) e, por composição, vão alcançando as unidades
significativas. Os métodos analíticos partem das unidades com significado (palavras ou
frases) que vão decompondo progressivamente até alcançarem as unidades menores.
Frente a esta dicotomia, muitos professores declaram que utilizam um método misto que
nada mais é, do que uma mistura de elementos recebidos, que estão st1:PersonName
ProductID="em alta. Essa">em alta. Essa forma tradicional leva a escola ver na
alfabetização uma vinculação entre os métodos utilizados e o estado de maturidade ou
prontidão, de conceber a escrita como transcrição gráfica das unidades sonoras e a
leitura como decodificação deste código, essa realidade mostra o total desconhecimento
dos professores e do processo de alfabetização.

De acordo com MOURA (1999, p. 127): ”Essas concepções e as formas de proceder


baseada nos métodos, desnudado as práticas escolares que são de certo modo
responsáveis pelo fracasso das crianças, pela sua expulsão da escola, transformando-as
em analfabetos funcionais que, no futuro, em alguns casos, transforma-se nos adultos
que voltam à escola em busca do conhecimento não adquirido”.

Além da utilização dos métodos, o livro didático é apresentado para o aluno como uma
fonte de conhecimentos do mundo, ao invés de ser um dos objetos de conhecimento. As
atividades de leitura e escrita, baseadas no livro didático, são totalmente desprovidas de
sentido e totalmente alheias ao funcionamento da língua.

Para MOURA (1999, p. 131): “À medida que o professor desconhece o processo de


aquisição que constitui a alfabetização, as características dos sujeitos que aprendem, ele
torna o processo mais difícil do que deveria ser, produzindo fracasso escolares
desnecessários, transformando a experiência da alfabetização em uma experiência
literalmente traumática”.

Em contraposição a essa concepção em torno da alfabetização e a preocupação com os


níveis alarmantes de fracasso escolar, Emília Ferreiro, propõe a psicogênese da língua
escrita, onde o processo de aquisição da escrita é construído pela criança, e os objetivos
da alfabetização devem possibilitar aos educandos irem muito além do que adquirir
habilidades para a leitura e a escrita, mas sim interpretar aquilo que se lê e escreve, o
processo de aprendizagem é resultado da atividade do sujeito que compara, exclui,
ordena e reformula.

Segundo MOURA (1999, p. 140): “A alfabetização consiste num processo pedagógico e


epistemológico deve possibilitar, ao sujeito, a apropriação do sistema de representação
da linguagem escrita e a sua conseqüente reconstrução e utilização para si como objeto
possibilitador da apropriação de novos conhecimentos e de intervenção em diferentes
situações sociais”.
De acordo SMOLKA (1988, p. 47),”Ferreiro deixa bem claro a sua concepção sobre o
sistema de linguagem em contraposição à concepção tradicional e faz a distinção entre a
escrita como sistema de representação da linguagem e a escrita como sistema de
decodificação”.

No primeiro caso, a escrita é concebida como um código de transcrição e a


aprendizagem é concebida como aquisição de uma técnica. Tem-se uma imagem pobre
do sujeito que aprende, não se entende nem se considera as experiências que ele tem e
muito menos as suas concepções sobre a escrita, nem se avalia o seu caminho evolutivo
até chegar à produção da escrita. No segundo caso, a escrita é entendida como um
sistema de representação e a aprendizagem se converte na apropriação de um novo
objeto de conhecimento. Entende-se que o processo de evolução do sujeito em direção à
apropriação da escrita é um processo complexo que se identifica com a própria história
da construção da escrita pela humanidade Desta forma, esta concepção de alfabetização
pressupõe ter bem clara a distinção entre apropriação de conhecimento de aprendizagem
e uma técnica de decodificação, pois a alfabetização é um processo ativo de
reconstrução por parte do aluno que não pode se apropriar verdadeiramente de um
conhecimento se não quando compreendeu seu processo de construção.Essas mudanças
requerem novas atitudes em relação à compreensão dos sujeitos e do objeto da
alfabetização. Requer entender que a escrita não é um produto escolar, mas sim objeto
cultural, resultado do esforço coletivo da humanidade e que não é pela utilização de
técnicas, métodos que o sujeito produz a escrita. O processo de alfabetização, enquanto
construção do conhecimento, é uma tarefa crucial tanto para as crianças quanto para os
professore

Conforme DORNELES (1990, p. 251), “à medida que começamos a estudar mais


profundamente o fracasso escolar, percebemos que, no Brasil, esse problema adquire
características de fenômeno de massa, ou seja, atinge a maior parte da população em
idade escolar”.

Segundo WEISS (2000, p. 16), “os aspectos cognitivos estão ligados basicamente ao
desenvolvimento e funcionamento das estruturas cognoscitivas em seus diferentes
domínios. Inclui-se nessa grande área aspectos ligados à memória, atenção, antecipação.
O fracasso escolar está ligado ao aluno enquanto aprendente, isto é, especificamente às
condições internas de aprendizagem”.

Com relação à área afetiva a autora, ressalta a ligação entre o desenvolvimento afetivo,
e sua relação com a construção do conhecimento e a expressão deste através da
produção escolar. O não-aprender pode, por exemplo, expressar uma dificuldade na
relação da criança com a sua família, será o sintoma de que algo vai mal nessa
dinâmica. Quanto à área social, WEISS afirma que no “diagnóstico psicopedagógico do
fracasso escolar de um aluno não se pode desconsiderar as relações significativas
existentes entre a produção escolar e as reais oportunidades que a sociedade possibilita
aos representantes das diversas classes sociais”.Em relação à área física, constata-se que
os professores entrevistados não consideram como a área que esteja mais relacionada
com as dificuldades de aprendizagem, pelo fato de que em suas classes não havia
crianças portadoras de necessidades especiais ou com déficit físico ou orgânico, mas
reconhecem a importância do corpo na aprendizagem.
Conforme PAIN (1985, p. 22), “é com o corpo que se fala, se escreve, se tece, se dança,
resumindo, é com o corpo que se aprende. As condições do mesmo sejam
constitucionais, herdadas ou adquiridas, favorecem ou atrasam os processo cognitivos e,
em especial, os da aprendizagem”

De acordo com SCOZ (1994, p. 71), a influência familiar é decisiva na aprendizagem


dos alunos. Os filhos de pais extremamente ausentes vivenciam sentimentos de
desvalorização e carência afetiva, gerando desconfiança, insegurança, improdutividade
e desinteresse, sérios obstáculos à aprendizagem escolar.

“A influência da mídia aparece como o segundo fator que contribui para as dificuldades
de aprendizagem, pois conforme LIBÂNEO (2000, p. 72), a televisão passa a ser um
instrumento cada vez mais poderosos no processo de socialização. Um dos aspectos
negativos dessa influência é a tendência à passividade e à dependência das crianças
prejudicando o desenvolvimento pleno de suas capacidades cognitivas e sócio-
afetivas”.Os professores consideram que a pobreza e a condição social dos alunos como
um fator que influencia nas dificuldades de aprendizagem. Para SCOZ (1994, p. 81), a
pobreza dos alunos aparece com forte determinante dos problemas de aprendizagem. A
autora ressalta que sem querer negar que grande parte do fracasso de alguns alunos pode
estar relacionado à pobreza material a que estão submetidos, é importante estar atento
para que a baixa renda das famílias não seja utilizada como justificativa para o
insucesso escolar das crianças, eximindo a escola de qualquer responsabilidade.

Alguns professores apontaram a falta de interesse do aluno como um fator que contribui
para as dificuldades de aprendizagem. Mas, para WEISS (2000, p. 23), é preciso que o
professor competente e valorizado encontre o prazer de ensinar para que possibilite o
nascimento do prazer de aprender. O ato de ensinar fica sempre comprometido com a
construção do ato de aprender, faz parte de suas condições externas. A má qualidade do
ensino provoca um desestímulo, na busca do conhecimento. Não há assim um
investimento dos alunos, do ponto de vista emocional, na aprendizagem escolar, e essa
seria uma condição interna básica. Há casos em que tal desinteresse é visto como um
problema apenas do aluno, sendo ele encaminhado para diagnóstico psicopedagógico
por não ter o menor interesse nas aulas é não estudar em casa, baixando assim sua
produção.Constata-se que mesmo a família estando ciente das dificuldades que
apresenta a criança, muitas vezes, fica omissa não ajudando o professor, não
contribuindo para o trabalho da escola, que deveria ser em conjunto com a família para
superação das dificuldades.

De acordo com SCOZ (1994, p. 143), o contato com a família pode trazer informações
sobre fatores que interferem na aprendizagem e apontar os caminhos mais adequados
para ajudar a criança. Também torna possível orientar aos pais para que compreendam a
enorme influência das relações familiares no desenvolvimento dos filhos.

Quanto à concepção de alfabetização dos professores, percebe-se que esse processo


deve ser prazerosos, desafiador e, principalmente deve possuir significado, que permita
ao aluno ir além de escrever e ler, isto é, que seja uma construção resultante da interação
da criança com a língua escrita.

Conforme WEISS (2000, p. 70), “alfabetizar é penetrar num mundo novo, é mudar o
eixo referencial da vida. O domínio da língua escrita dá à criança uma autonomia ao
mesmo tempo prazerosa e assustadora”.No que se refere ao método de alfabetização
proposto pela escola, todos os professores entrevistados foram unânimes em dizer que a
escola não apresenta um método de alfabetização, todos os professores utilizam um
método pessoal de alfabetização ou em construção comunitária com os demais
professores.

Com relação às alternativas didáticas, FERREIRO (1989, p. 73), afirma que, muitos
professores declaram utilizar um método misto, que nada mais é, em realidade, do que
uma mistura de elementos recebidos, por tradição de outros que estão na moda e de uma
certa dose de intuição.A psicopedagoga Maria Lucia Leme Weiss reflete a preocupação
e a tendência atual da Psicopedagogia no seu compromisso com a escola. Nesse trabalho
preventivo junto à escola, deve-se levar em consideração, inicialmente, quem são os
protagonistas dessa história: professor e aluno. Porém, estes não estão sozinhos:
participam, também, a família e outros membros da comunidade que interferem no
processo de aprendizagem – aqueles que decidem sobre as necessidades e prioridades
escolares.

2.3. A PSICOPEDAGOGIA NA INSTUIÇÃO


ESCOLAR
A Psicopedagogia se ocupa da aprendizagem humana, e surgiu de uma demanda: o
problema de aprendizagem, colocado num território pouco explorado, situado além dos
limites da Psicologia e da própria Pedagogia. Como se preocupa com os problemas de
aprendizagem, o psicopedagogo deve ocupar-se inicialmente com o processo de
aprendizagem, como se aprende, como essa aprendizagem varia, e como se produzem as
alterações na aprendizagem, como reconhecê-las, tratá-las e preveni-las.

Segundo Bossa, o objeto central de estudo da Psicopedagogia está se estruturando em


torno do processo de aprendizagem humana: seus padrões evolutivos normais e
patológicos, bem como a influência do meio (família, escola, sociedade) no seu
desenvolvimento.

O trabalho na instituição escolar, voltado para a psicopedagogia, apresenta duas


naturezas: o primeiro diz respeito a uma psicopedagogia voltada para o grupo de alunos
que apresentam dificuldades na escola. O seu objetivo é reintegrar e readaptar o aluno à
situação de sala de aula, possibilitando o respeito às suas necessidades e ritmos. Tendo
como meta desenvolver as funções cognitivas integradas ao afetivo, desbloqueando e
canalizando o aluno gradualmente para a aprendizagem dos conceitos, conforme os
objetivos da aprendizagem formal. O segundo tipo de trabalho refere-se à assessoria
junto à pedagogos, orientadores e professores. Tem como objetivo trabalhar as questões
pertinentes às relações vinculares professor-aluno e redefinir os procedimentos
pedagógicos, integrando o afetivo e o cognitivo, através da aprendizagem dos conceitos,
as diferentes áreas do conhecimento.

Na sua tarefa junto às instituições escolares, o psicopedagogo, numa ação preventiva,


deve adotar uma postura crítica frente ao fracasso escolar, visando propor novas
alterações de ação voltadas para a melhoria da prática pedagógica nas escolas.Para
resolver o fracasso escolar necessitamos recorrer principalmente a planos de prevenção
nas escolas – batalhar para que o professor possa ensinar com prazer para que, por isso,
seu aluno possa aprender com prazer, tende a denunciar a violência encoberta e aberta,
instalada no sistema educativo, entre outros objetivos.

Tendo por base o livro de Patto “A Produção do Fracasso Escolar: história de submissão
e rebeldia” o qual busca uma reconstrução histórica das idéias presentes na Psicologia.
Importante para compreensão do modo escolar atual precisa-se ter uma visão clara da
estrutura escolar ao longo da história. Assim, Patto retoma a história brasileira para
fazer a compreensão da produção do fracasso escolar de um sistema de ensino que tinha
uma lógica desde muitos anos atrás que não pode ser deixada de lado para entendermos
a realidade educacional dos dias atuais. Não existe crítica sem história, e, fazendo uma
retomada nos marcos da história visando um sistema de ensino que tem concepções
lineares ao longo do tempo.

O aluno, ao ingressar no ensino regular, por volta de 7 anos, traz consigo uma história
vivida dentro do seu grupo familiar. Se a sua história transcorreu sem maiores
problemas, estará estruturado seu superego e poderá deslocar sua pulsão a objetos
socialmente valorizados, ou seja, estará para a sublimação. A escola se beneficia e
também tem função importante nesse mecanismo, pois lhe fornece as bases necessárias,
ou seja, coloca ao dispor da criança os objetos para os quais se deslocará a sua pulsão. A
escola administra esse mecanismo pulsional da criança. É o momento ideal para o
ingresso no ensino regular, já que as suas condições psíquicas favorecem o aprendizado
escolar. Se tudo correu bem no desenvolvimento da criança, estará estruturado o seu
desejo de saber: a epistemofilia. Ingressa na escola com um desenvolvimento construído
a partir do intercâmbio com o meio familiar e social, o qual pode ter funcionado tanto
como facilitador como inibidor no processo de desenvolvimento afetivo-intelectual. Em
seus eventuais bloqueios, a afetividade pode estar operando de forma a impedir a
aprendizagem.A criança não escolhe ir para a escola e, tampouco, o que vai aprender. A
instituição escolar, a rigor, tem a função de preparar a criança para ingressar na
sociedade, promovendo as aprendizagens tidas como importantes para o grupo social ao
qual esse sujeito pertence.Por outro lado, na escola, a criança encontra-se especialmente
com um outro – o professor. O professor escolheu sua tarefa – ensinar o que sabe – e
preparou-se para tal. As motivações que o levaram a eleger essa tarefa podem ser muito
variadas e determinam seguramente uma forma de vínculo com os seus alunos.

Pensar a escola à luz da Psicopedagogia implica nos debruçarmos especialmente sobre a


formação do professor. As propostas de formação docente devem oferecer ao professor
condições para estabelecer uma relação madura e saudável com os seus alunos, pais e
autoridades escolares. Investigar, analisar e realizar propostas para uma formação
docente que considere esses aspectos constitui uma tarefa extremamente importante, da
qual se ocupa a Psicopedagogia. O processo diagnóstico, assim como o tratamento,
requer procedimentos específicos que constituem o que chamo de metodologia ou
modus operandi do trabalho clínico. Ao falar da forma de se operar na clínica
psicopedagógica, ela varia entre os profissionais, a depender, por exemplo, da postura
teórica adotada, além de se contar com o fato de que, como já foi dito, cada caso é um
caso com suas variantes, suas nuances, que diferenciam o sujeito, seu histórico, seu
distúrbio.

Em geral, no diagnóstico psicopedagógico clínico, ademais de entrevistas e anamnese,


utilizam-se provas psicomotoras, provas de linguagem, provas de nível mental, provas
pedagógicas, provas de percepção, provas projetivas e outras, conforme o referencial
adotado pelo profissional. Seja qual for esse referencial, a observação, é de fundamental
importância para precisar melhor o quadro do problema e processar o
tratamento.Quando se faz referência à produção do sujeito, no momento do diagnóstico,
fala-se do material diagnóstico, ou seja, olhar e escutar para decifrar a mensagem do
jogo, de um silêncio, de um gesto, de uma recusa. Mais importante que os instrumentos
utilizados é a atitude do profissional frente à mensagem do cliente.

2.4.O FRACASSO ESCOLAR NA


ALFABETIZAÇÃO
A aprendizagem da leitura e escrita constitui-se uma das tarefas básicas propostas à
educação. Aparentemente simples, essa tarefa constitui, no entanto, um dos problemas
educacionais da atualidade que mais chama atenção, por isso tem sido objeto de estudo.
O assunto tem sido questionado por parte de pais, professores e especialistas em
educação não só no que diz respeito ao domínio da escrita propriamente dita, mas às
repercussões dessa aprendizagem nos vários aspectos da escolaridade.

Quando uma criança ingressa na escola, sua primeira tarefa é aprender a ler e escrever,
sendo a alfabetização o centro das expectativas de pais e professores. Os pais a e própria
criança não têm, em geral, razão para duvidarem do sucesso nessa nova aprendizagem.
No entanto, o que muitas vezes os pais e professores não consideram, é que a leitura e a
escrita são habilidades que exigem da criança a atenção para aspectos da linguagem aos
quais ela não precisa dar importância, até o momento em que começa aprender a ler e
escrever. Por isso, toda a criança encontra alguma dificuldade na aprendizagem da
leitura e da escrita. Aprender a ler exige novas habilidades, novos desafios à criança
com relação ao seu conhecimento da linguagem. Por isso, aprender a ler é uma tarefa
complexa e difícil para todas as crianças.Quando as crianças não conseguem atender às
expectativas da professora, supõe-se e conclui-se que elas têm problemas, pois a escola
constrói um modelo de bom aluno, mas nem todas crianças se adaptam dentro desse
modelo, quando isso acontece os professores recorrem as muletas para explicar tal
situação: "estas crianças não podem aprender porque não há ajuda familiar, falta de
maturidade, suposta lesão cerebral mínima ou transtornos do tipo: psicomotora, na
fonação, percepção, etc..."(FERREIRO, 1989, p. 73).

Sobrecarregados de tanta violencia estas crianças acabam aprendendo que não poderão
aprender, buscando estratégias de sobrevivência neste sistema, tentam adequar-se às
normas e copiam do quadro mesmo sem saber como e porquê. Outras se recusam a
copiar, procuram outras atividades para fazer, surgindo o espaço ideal para a
indisciplina.Várias pesquisas afirmam que o fracasso na leitura constitui uma das
principais causas de repetência ou atraso escolar. Cerca da metade dos alunos repetem a
primeira série onde a repetência é acentuada e está intimamente relacionada com
problemas no ensino e na aprendizagem inicial da leitura e escrita e, nos casos dos
alunos provenientes de família de baixa renda, essa porcentagem sobe para 60%
(TORRES, 1999, p. 12).

Segundo FERREIRO (1989, p. 73)A “escola geralmente, ineficiente para introduzir as


crianças no mundo da língua escrita, é contudo, extremamente eficiente para conseguir
fazer com que assumam a culpa de seu próprio fracasso: um dos maiores danos que se
pode fazer a uma criança é leva-la a perder a confiança em sua capacidade de pensar”.
Nesse contexto, o ensino da escrita tem se reduzido a uma simples técnica que serve e
funciona num sistema de reprodução cultural. Os efeitos desse ensino são evidentes, não
apenas nos índices de evasão e repetência, mas nos resultados de uma alfabetização sem
sentido que produz uma atividade sem consciência, desvinculada da realidade e
desprovida de sentido, tornando a escrita um instrumento seletivo, dominador e
alienador. Já é bem conhecido o fato de que o fracasso escolar não se distribui
democraticamente no conjunto da população. O fracasso escolar inicial, que é o da
alfabetização, se concentra nas populações urbanas e rurais marginalizadas. Constitui,
também, lugar comum assinalar correlações positivas entre o fracasso da alfabetização
no tempo escolar requerido e fatores como estado de saúde da criança (especialmente o
nutricional) o nível de educação dos pais, as condições gerais de vida, etc. os
professores e a instituição escolar têm aceitado, com facilidade, a realidade de tais fatos.

A expressão “fracasso escolar” tem sido utilizada em múltiplos sentidos devido


fundamentalmente, à diversidade de fatores intervenientes no processo da aprendizagem
humana, bem como à diversidade de profissionais que se dedicam ao tema. Atualmente
se reconhece que, ao lado de um pequeno grupo de crianças que apresentam
“transtornos específicos na aprendizagem escolar”, decorrentes de imaturidade e/ou
disfunção psiconeurológica, existem muitas outras que apresentam manifestações
pedagógicas semelhantes, conseqüentes de inúmeros outros fatores não necessariamente
orgânicos. A fronteira entre diferentes grupos de crianças que apresentam dificuldades
de aprendizagem não é muito nítida. Exemplificando: uma criança pode apresentar
irregularidade no traçado das letras, não necessariamente decorrente de alterações de
ordem motora. É preciso considerar que dificuldades gráficas podem decorrer também
de instabilidade emocional e da falta de experiências com instrumentos de escrita.

O estudo dos fatores etiológicos, bem como das reações do meio face a determinada
dificuldade na aprendizagem, é de fundamental importância na seleção da orientação a
ser seguida, evitando-se rotulações apressadas e estresse adicional. A adolescência
abrange determinado período do desenvolvimento que envolve características próprias e
situações específicas; disso resulta a necessidade de um maior aprofundamento do
estudo da sua dinâmica, a fim de permitir um melhor conhecimento das suas exigências
e limites evolutivos.

As diferenças individuais dos adolescentes devem ser sempre consideradas, uma vez
que cada personalidade caracteriza-se por um conjunto de traços pessoais que
determinam formas diversas de comportamento e de inter-relação com o meio ambiente.
Não se pode partir de um esquema de padrões fixos e determinados, pois a experiência
comprova a multiplicidade de atitudes encontradas, reagindo o indivíduo em função das
condições biológicas do seu organismo, da estrutura da sua personalidade, do seu nível
de maturidade, das suas experiências e vivências condicionadas pelo meio ambiente e
pelo seu estilo de vida pessoal.

Dificuldades criadas pela sociedade moderna, “sociedade em crise”, e de complexa


estrutura sócio-econômica, são fatores agravantes da problemática da adolescência
classificada por muitos autores como fenômeno sócio-cultural que pode ser prolongado
ou abreviado de acordo com as culturas onde se processe. A complexidade da vida
moderna, as tensões universais, a competição excessiva dos grupos sociais, as condições
impostas pelo sistema escolar e profissional podem trazer ainda mais problemas para os
adolescentes. Os problemas da autoridade, liberdade e disciplina são importantes para o
adolescente; quando não resolvidos constituem fonte de conflitos que podem mesmo
levá-los a distúrbios mais graves.

Tanto a família, como a escola, devem agir no sentido de favorecer o desenvolvimento


da personalidade do adolescente, ajudando-o a conseguir um bom índice de
ajustamento, ajudar a superar as dificuldades encontradas ao longo do período escolar.
O cérebro sofre uma série de alterações que serão descritas ao longo deste trabalho
mostrando a influência de tudo isso no desempenho escolar do adolescente e em sua
vida social

2.4.1. O FRACASSO ESCOLAR COMO OBJETO DE


ESTUDO
Geralmente quando uma criança é encaminhada pela professora da escola, ela já tem
histórico de fracasso escolar. Por essa razão, apresenta-se muito negativa, ele não
acredita mais, duvida de suas habilidades e potencialidades, generalizando uma
dificuldade sua para outras áreas que domina. Se, entre os dados subjetivos pergunta-se
a criança “qual é sua habilidade?” muitos não sabem o que responder pois se acham
incapazes de fazer qualquer coisa. E isso não é verdade pois todo mundo tem habilidade
para alguma coisa. O problema é que aquelas pessoas foram criadas para pensar que não
servem para nada.

O aluno já havia passado por duas escolas em anos anteriores. O motivo de G. M. ter
saído de sua primeira escola no meio da segunda série foi porque o pai queria que ele
ficasse longe do mangue e longe da mãe. A segunda escola freqüentada era por
“módulos” mas lá não ficou muito tempo pois foi levado ao abrigo.Houve momento de
indignação quando nos deparamos com a professora mais uma vez reclamando da falta
de vontade de G. M. em fazer a tarefa escolar, mesmo sabendo que G. M se encontrava
residindo em um abrigo, longe dos cuidados de seus pais e sem o auxílio dos mesmos.
Verificamos o conteúdo da tarefa que G. M. tinha ignorado. Continha ali perguntas para
ser respondida com seus pais referentes aos cuidados que ele tem em casa, sobre qual a
comida que ele mais gosta “preparada pela mamãe” as brincadeiras com os irmãos, não
esquecendo que no abrigo eles são separados por idade e assim G. M. fica separado de
seu irmão mais novo.

Em outra ocasião, também nos indignamos com a diferença de tratamento em relação ao


aluno. Nos deparamos com ele, em horário de aula, sozinho na biblioteca da escola e
ninguém dentro de sua sala de aula. A resposta de onde estavam seus colegas veio logo:
“Todos foram ao teatro. Menos eu. Eu não tenho três reais para ir lá. Também não tenho
como ir pois precisa de uma autorização dos pais. No abrigo a tia não assina.” No dia
seguinte G.M. não foi à aula, permanecendo a tarde toda na rua até o horário de retorno
ao abrigo. E ele diz: “Eu não fui mesmo tia. A minha professora disse que tinha que
escrever sobre o teatro. Eu não sei escrever sobre isso”.

Antes de trabalhar qualquer dificuldade de aprendizagem do aluno, deve-se fazer uma


reflexão sobre sua vida, dúvidas, conflitos e incertezas. Ter um envolvimento com sua
história. en-lo acreditar que é capaz, que possui dons e habilidades específicas que
podem ent-lo a superar suas dificuldades. ent-lo a entender o mundo em que vive e o
lugar que nele ocupa.
A relação pedagógica, o olhar do professor em quem é investido dentro da sala com ela
e quem não se investe é da responsabilidade do próprio professor, o que é reflexo de sua
formação. Para se ensinar adequadamente uma criança, é necessário que se compreenda
a relação dela com sua família e também com outras crianças da escola, não podendo se
confundir “falta de vontade” da criança em aprender, com os dramas que ela vivencia.
De fato na prática essa olhar de desinvestimento foi verificado nas observações dentro
da escola em relação ao aluno.A experiência deste estudo de caso nos mostra como
nosso olhar passa por filtros que nos impedem de ver a realidade do outro, são filtros
teóricos e de preconceitos. A partir do momento em que se pode olhar para essa
realidade, en-la e ent-la dentro da vertente em que a criança foi educada percebe-se que
ela é cheia de marcas, de pensamentos e comportamentos estereotipados, e normalmente
a criança se comporta como os outros lhe ensinaram a se comportar, o que reflete no seu
desempenho escolar. Não há uma escolha da criança.

Devemos sempre estar atentos a real condição do educador e do educando. O professor,


como representante do papel que lhe é socialmente atribuído, ou seja, ensinar, depara-se
com vários dilemas seus que se misturam com o papel da profissão que ocupa. Os
professores assumem, além de ensinar, a disciplina e em tornar uniforme o que é
diferente produzindo assim, via educação, os privilégios e os sofrimentos.

Sempre que a escola falha na assistência e na formação do aluno quebra-se um elo no


ritmo natural de um desenvolvimento potencial de conquistas, estabelecendo-se a
desordem. Desordem que pode levar a vida do aluno ao caos e que se reflete na
desestruturação da sociedade. Sempre que a escola desvirtua seu papel primordial,
desencadeia-se um mecanismo automático de ressonância, que passa a repercutir na
ordem social de uma cidade, de um país, do mundo.

Na criança problema nos dias de hoje não se faz igualdade social, se faz justiça social
pois não é todo mundo igual e devem-se reconhecer essas diferenças mas a escola nivela
todos como iguais e não se adequar com a origem social de cada um. Dentro da escola
quem pode mais tem menos fracasso escolar. Mesmo diante destes conceitos sociais o
termo resiliência vem se tornando cada vez mais conhecido entre os profissionais de
psicologia e pedagogia. No caso de G. M, que enfrentou as carências afetivas herdadas
por uma infância difícil pode haver ainda a capacidade de recuperação ou adaptação às
más condições de vida se observadas as necessidades e oportunizar mudanças para que
ele mesmo alcance suas necessidades.

O que se deve considerar é que o aluno, assim como o professor, não deixa de “ser
humano” para aprender ou ensinar, ou seja, possui valores, dilemas e conhecimentos
que lhe são característicos. Entra em questão a vida cotidiana desses professores pois
somente conseguindo fazer suspensão desse cotidiano, consegue-se a produtividade, ou
seja, ao retornar à vida cotidiana modificar esse mesmo cotidiano. Mas como suspender
esse cotidiano? Segundo Agnes Heller, estabelecendo condições de compreensão da
noção de cotidiano, apontando para uma perspectiva histórica que permita o seu
emprego, metodologicamente, na investigação dos significados que as representações
sociais fazem surgir das relações entre os seres humanos. Identificar o cotidiano
compondo-o de traços que nos permitisse enta-lo em situações da vida humana, trás a
possibilidade de interpretação histórica.
A ordem do cotidiano está contida na história assim como a ordem das instituições.
Torna-se fácil perceber a história permeada apenas nestes acontecimentos do cotidiano,
de onde tudo parte, mas, como nos sugere Agnes Heller quando afirma que “a vida
cotidiana não está “fora” da história, mas no “centro” do acontecer histórico: é a
verdadeira essência da substância social”.Desse modo às relações de trabalho, a vida
social, as decisões, os acontecimentos econômicos, partem da vida cotidiana; o
cotidiano é a percepção daquilo que se tornou habitual, “comum”, mas sem o qual não
viveríamos humanamente, não reconheceríamos os outros, o mundo e nem a nós
mesmos.

As queixas mais freqüentes dos professores são de que o aluno não tem limite, não tem
disciplina, não quer estudar e enfim, o discurso freqüente de ‘se’ a família ajudasse, ‘se’
tivesse a avó presente e etc. O ‘se’ sempre impondo o mesmo movimento de culpa e de
responsabilidade no outro e não implicando ao que eles (educadores) estão ensinando a
uma criança sem pais presentes. Uma das respostas mais ouvidas pelos professores
quando a pergunta sobre a escolha dos assuntos dados em sala de aula é “parto dos
interesses e necessidades dos meus alunos”. No caso de G.M não se resgatou a questão
de ele ter pais ausentes. Assim, a professora não está tratando todos os alunos da sala
como cada um tendo sua particularidade, mas novamente com a idéia de igualdade entre
todos os alunos. Implica em falar do aluno com problemas mas não o escuta, também o
espaço da escola não condiz com a realidade de todos os alunos ali inseridos.

O pensamento de que “devemos tratar crianças como crianças” implica ao professor


tratar a criança como criança. Mas ao mesmo tempo em que há esse reconhecimento
que diz “você é uma criança”, leva também o mesmo a um reconhecimento de que, se é
criança, foi gerada e logo tem uma família. Então, ao mesmo tempo em que transforma
crianças em diferentes dos adultos, transforma crianças em iguais pois crianças devem
ter, dentro dos conceitos de normalidade, um pai que trabalha e uma mãe que lhe dê
acolhimento. Se uma criança dentro da sala de aula não tem um uma família, fica
diferente do padrão. Mas a professora incorpora um padrão, uma “normalidade”, o
sujeito modelo então o outro é o falso, o fora dos padrões normais. Há uma dificuldade
em conviver com a alteridade pois a relação com a diferença encaixa à normalidade,
onde todos os que não são iguais como anormais. As diferenças de cada um não estão
simplesmente para serem respeitadas pois em verdade sempre continuarão as diferenças
e as subordinações. As diferenças de cada um estão para também cada um se reconhecer
com dessas diferenças ao invés de mistificar.

O preconceito é a categoria do pensamento e do comportamento cotidiano. Além disso,


é um juízo que poderia ser evitado mas, não o é porque confirma ações anteriores e é
compatível com a conformidade. Também tem a função de manter a coesão de grupos e
a interação social pois “se ele é pobre, eu não sou”. Mas quem é então essa criança a
partir dos preconceitos? Naquilo que duvidamos do modo de ser humano inscrevemos a
diferença. Ao mesmo tempo, produz uma interação social, permite o reconhecimento do
indivíduo diante do grupo, e em conseqüência disso estabelece a diferença em relação
ao outro (aquele que não pertence ao grupo). A cultura, a confirmação de uma
ideologia, uma crença religiosa, os hábitos do dia a dia, as possibilidades das relações
familiares, ou com amigos, com estranhos, enfim, tudo se inscreve no cotidiano e este
orienta sobre como agir, o que evitar, aceitar, questionar. Aquilo que nos parece
“normal” somente assim se afirma porque decidimos claramente sobre o que não o é.
No cotidiano construímos a nossa existência e da diferença que estabelecemos com o
outro. É necessário então um exercício diário dos atos fundadores da identidade e da
diferença. O professor, ao perceber o seu cotidiano, as suas tradições, as crenças do que
é correto ou incorreto não deve e-las como únicas. E desses conhecimentos e desses
saberes não mais únicos, dessa mudança de olhar, dessa resignificação que supera-se o
fracasso escolar através da vida cotidiana.Nessa perspectiva, o fracasso escolar passa a
ser explicado pela existência de diferenças individuais na capacidade de aprendizagem
das crianças.

2.5. A PSICOPEDAGOGIA HOJE


A Psicopedagogia tem por objeto de estudo a aprendizagem como um processo
individual, em que a trajetória da construção do conhecimento é valorizada e entendida
como parte do resultado final.Vivemos na era do conhecimento. Não se pode pensar no
exercício da cidadania sem que o cidadão tenha acesso à formação acadêmica mínima
de oito anos mas, na prática, a sociedade demonstra que a exigência real de um segundo
grau e, de preferência, com um pós-médio. Temos visto que para exercer qualquer
profissão, seja ela a mais simples ou a mais complexa, a pessoa será submetida a
treinamentos que devem passar, não apenas por especificidade da função e do local de
trabalho, mas por treinamentos de ética, qualidade, perfil de cliente, economia, etc. A
pessoa é valorizada por seus diplomas mas também por sua capacidade de construir
conhecimento, de gerar instrumentos e serviços adequados ao contexto sócio-
econômico-cultural.Estamos vivendo em plena era de globalização, em que o
conhecimento e as descobertas científicas circulam com uma incontrolável rapidez e as
próprias instituições de ensino têm dificuldade em acompanhar o fluxo dessas
informações. É extremamente fácil acontecer um avanço científico em determinada área
do conhecimento sem que o profissional especializado saiba, ou ainda, é possível que
uma outra pessoa, de outra área do conhecimento venha a saber dessas descobertas antes
do especialista. Ao mesmo tempo que o conhecimento circula com facilidade por todos
os lados, é necessário saber como encontrá-lo, ter acesso à tecnologia adequada e às
fontes de informações seguras do conhecimento..
Diante disso, surge a pergunta: só a informação basta? Sabe-se que não. O que fará a
diferença é a forma como a pessoa integra uma informação, transforma-a em
aprendizagem e a coloca a serviço da comunidade. Nessa perspectiva, a freqüência à
escola não garante o salto qualitativo que requer o movimento social. A Psicopedagogia
tem por objeto de estudo a aprendizagem como um processo individual, em que a
trajetória da construção do conhecimento é valorizada e entendida como parte do
resultado final. A preocupação maior da Psicopedagogia é o ser que aprende, o ser
cognoscente e o seu objetivo geral é desenvolver e trabalhar esse ser de forma a
potencializá-lo como uma pessoa autora, construtora da sua história, de conhecimentos,
e adequadamente inserida em um contexto social.

O trabalho da Psicopedagogia é evitar ou debelar o fracasso escolar em uma visão do


sujeito como um todo, objetivando facilitar o processo de aprendizagem. O ser sob a
ótica da Psicopedagogia é cognitivo, afetivo e social. É comprometido com a construção
de sua autonomia, que se estabelece na relação com o seu "em torno", à medida que se
compromete com o seu social estabelecendo redes relacionais. "Para o pensador
sistêmico, as relações são fundamentais" (CAPRA, p 47)
A dificuldade de aprendizagem nessa definição é entendida e trabalhada com um agente
dificultador para a construção do aprendiz que é um ser biológico, pensante, que tem
uma história, emoções, desejos e um compromisso político-social. "A Psicopedagogia
tem como meta compreender a complexidade dos múltiplos fatores envolvidos nesse
processo" (RUBINSTEIN, p 127 Nem sempre a Psicopedagogia foi entendida da forma
como aqui está caracterizada.
A Psicopedagogia, inicialmente, começou tendo como pressuposto que as pessoas que
não aprendiam tinham um distúrbio qualquer. (BOSSA, p.42) A preocupação e os
profissionais que atendiam essas pessoas eram os médicos, em primeira instância e, em
segunda Psicólogos e Pedagogos que pudessem diagnosticar os déficits. Os fatores
orgânicos eram responsabilizados pelas dificuldades de aprendizagem na chamada
época "patologizante" A criança ficava rotulada e a escola e o sistema a que ela
pertencia, se eximiam de suas responsabilidades: "Ela (a criança) tem
problemas..."Posteriormente, com a ampliação da visão de que o sujeito não é apenas
um ser racional, os psicopedagogos passaram a estudar e a avaliar o processo da
aprendizagem. Porém, essa observação levou a uma prática pautada no refazimento do
processo de aprendizagem e requeria reposição de conteúdos e repetições até que a
criança aprendesse. A criança ficou subdividida em setores e não havia articulação entre
o emocional, a cognição, o motor e o social.

Os vários profissionais envolvidos na questão aprendizagem foram percebendo que não


bastava retirar o eixo da patologia para a aprendizagem, mas era necessário saber que
sujeito era esse, de onde ele vinha e para onde ele queria e podia ir. A constatação que
apenas uma área do conhecimento não conseguiria respostas absolutas e definitivas para
a situação, deflagrou o que é hoje a Psicopedagogia.

Os profissionais interessados nas questões de aprendizagem entenderam que o caminho


era a interdisciplinaridade para compreender a complexidade desse fenômeno. A partir
de diferentes referenciais teóricos, tais como a Pedagogia, a Psicologia, a
Fonoaudiologia, a Psicanálise, a Sociologia, a Neurologia, etc. foram se construindo e
pesquisando outros referenciais, outros instrumentos, outras sínteses. Esse
conhecimento foi construído a partir do encontro desses profissionais, pautado em
teorias, experimentos, pesquisas, práticas diferenciadas e, o mais provocante, de uma
realidade que teimava em incomodar - o fracasso escolar!

Neste raciocínio, a Psicopedagogia não é a justaposição da Psicologia e da Pedagogia e,


nem tampouco, um Pedagogo ou um Psicólogo "mais especializado". A Psicopedagogia
se propõe a investigar e a entender a aprendizagem com base no diálogo entre as várias
disciplinas. O Psicopedagogo é um outro profissional, com um outro referencial, a partir
de um outro conhecimento e com um outro olhar.A psicopedagogia, hoje, é entendida
num contexto de interdisciplinaridade, sem contudo, perder de vista que "Os diferentes
níveis de Realidade são acessíveis ao conhecimento humano graças à existência de
diferentes níveis de percepção, que se acham em correspondência biunívoca com os
níveis de realidade... sem jamais esgotá-la completamente." (NICOLESCU, p 56)

Diante desses avanços, a criança que não está conseguindo aprender é entendida e
trabalhada, não como alguém que possui um déficit ou um problema, mas como um
aprendiz que possui um estilo de aprender diferente, que está diretamente relacionado
ao estilo de família e da comunidade a que pertence.Em face da complexidade das
questões aqui levantadas e da delicadeza do nosso objeto e objetivo de trabalho, não
prescindimos dos nossos parceiros. Trabalhamos e necessitamos dos Pedagogos, dos
Psicólogos, dos Fonodiólogos, etc, mas possuímos os nossos instrumentos de trabalho,
os nossos referenciais, a nossa escuta e o nosso olhar.

Analisando a trajetória aqui apresentada, fica claro o entendimento do porquê da


formação em Psicopedagogia estar organizada na forma de pós-graduação. Ela exige do
aprendiz uma articulação, uma abordagem e um avanço qualitativo inerentes a uma
maturidade profissional e acadêmica. Portanto, é necessário muito cuidado na escolha
do curso de pós-graduação em Psicopedagogia. Devemos analisar a oferta de disciplinas
inerentes a aprendizagem, o número de horas ofertadas, se os professores são
psicopedagogos especialistas, se tem estágio supervisionado por um psicopedagogo. Os
profissionais psicopedagogos, quando inquirido da necessidade ou relevância do curso
de Psicopedagogia ser de especialização, testemunham que apenas a formação é
insuficiente para entender e trabalhar, competentemente, com a aprendizagem e seus
possíveis percalços.
Onde trabalham os psicopedagogos? Como trabalham? Quais as suas ferramentas de
trabalho? Os psicopedagogos trabalham em clínicas, em atendimentos individuais, em
instituições escolares, hospitais e empresas onde se promova aprendizagem. Os recursos
são os que possibilitem entender quais as dificuldades que aquele aprendiz está
enfrentando para aprender e quais as possibilidades para mudança que ele apresenta. Os
instrumentos não costumam ser os padronizados e sim os jogos, as atividades de
expressão artística, a linguagem escrita, as leituras e dramatizações, etc. Enfim,
atividades que valorizem o que a criança sabe, que estimulem a expressão pessoal, o
desejo de aprender e sua possibilidade de amadurecer, vencer situações e resolver
problemas. Os psicopedagogos, tanto em clínicas quanto nas instituições, trabalham
com diagnóstico e intervenção.Por tudo o que aqui foi descrito é que estamos lutando
pela regulamentação da profissão de Psicopedagogo. Entendemos que, se o projeto de
lei que regulamenta a nossa profissão for aprovado, poderemos cuidar da qualidade dos
cursos oferecidos e estender o atendimento à comunidade como um todo, já que
poderemos participar de concursos públicos, de convênios, etc. A aprovação do projeto
de lei será uma oficialização do que já está socialmente reconhecido.

A Associação Brasileira de Psicopedagogia é uma entidade de caráter científico cultural.


Fundada em 1980, tem como objetivo principal congregar profissionais psicopedagogos
e profissionais afins e promover estudos, pesquisas, cursos, encontros e
compartilhamentos. Temos hoje, no Brasil, uma sede nacional localizada em São Paulo,
doze(12) seções, onze (11) núcleos que atendem a todo o território nacional.Obviamente
que muito ainda necessitamos avançar, mas já conseguimos nos fazer entender, nos
diferenciamos e promovemos parcerias sem ocupar ou "invadir o mercado, apenas
estamos exigindo uma legalização de uma atuação já legitimada pelo mercado de
trabalho" (NOFFS, p 2)

As ações que caracterizam uma comunidade cidadã é a luta por uma comunidade justa,
equilibrada, constituída a partir de um objetivo comum e bom para todos. Pois bem, isso
nos leva ao entendimento da nossa responsabilidade e do nosso compromisso político
social de aprender, em cada novo dia, a promover mais aprendizagens. Como nos
ensinou Paulo Freire "Ai de nós, educadores, se deixarmos de sonhar sonhos
possíveis..."
A questão da formação do psicopedagogo assume um papel de grande importância na
medida em que é a partir dela que se inicia o percurso para a formação da identidade
desse profissional.Alicia Fernández afirma o seguinte: "O pensamento é um só, não
pensamos por um lado inteligentemente e, depois, como se girássemos o dial, pensamos
simbolicamente. O pensamento é como uma trama na qual a inteligência seria o fio
horizontal e o desejo vertical, Ao mesmo tempo, acontecem a significação simbólica e a
capacidade de organização lógica" (1990, p. 67).

O trabalho psicopedagógico não pode confundir-se com a prática psicanalítica e nem


tampouco com qualquer prática que conceba uma única face do sujeito. Um
psicopedagogo, cujo objeto de estudo é a problemática da aprendizagem, não pode
deixar de observar o que sucede entre a inteligência e os desejos inconscientes. Diz
Piaget que "o estudo do sujeito ‘epistêmico’ se refere à coordenação geral das ações
(reunir, ordenar ,etc.) constitutivas da lógica, e não ao sujeito ‘individual’, que se refere
às ações próprias e diferenciadas de cada indivíduo considerado à parte" (1970, p. 20).
Desse sujeito individual ocupa-se a psicopedagogia. O conceito de aprendizagem com o
qual trabalha a Psicopedagogia remete a uma visão de homem como sujeito ativo num
processo de interação com o meio físico e social. Nesse processo interferem o seu
equipamento biológico, as suas condições afetivo-emocionais e as suas condições
intelectuais que são geradas no meio familiar e sociocultural no qual nasce e vive o
sujeito. O produto de tal interação é a aprendizagem.

Na maioria das vezes em programas lato sensu regulamentados pela Resolução n°


12/83, de 06.10.83, que forma os especialistas e que os habilita legalmente também para
o ensino superior – ainda que não necessariamente, em termos de conhecimentos, o
aluno esteja realmente habilitado para tal.Além das diferenças resultantes da própria
divergência acerca do que é a Psicopedagogia, ocorre também que, a depender do
enfoque priorizado pelo curso, alguns conteúdos são valorizados em detrimento de
outros. Outro aspecto a considerar é que o curso se destina a profissionais com
diferentes graduações. Estes se identificam com um referencial teórico que irá nortear a
sua prática a partir da formação anterior. Interferem também características de
personalidade no perfil desse profissional.Conhecer a Psicopedagogia implica um maior
conhecimento de várias outras áreas, de forma a construir novos conhecimentos a partir
delas. Ao concluir o curso de especialização em Psicopedagogia, o aluno está iniciando
a sua formação, o que deve ser um ponto de partida para uma eterna busca do melhor
conhecimento.

2.6 A PRÁTICA PSICOPEDAGÓGICA


O trabalho psicopedagógico, implica compreender a situação de aprendizagem do
sujeito dentro do seu próprio contexto. Tal compreensão requer uma modalidade
particular de atuação para a situação em estudo, o que significa que não há
procedimentos predeterminados. Defino esta característica como uma configuração
clínica da prática psicopedagógica.O psicopedagogo, procura observar o sentido
particular que assumem as alterações da aprendizagem do sujeito ou do grupo. Busca o
significado de dados que lhe permitirá dar sentido ao observado. Na medicina, o médico
observa o paciente, vê o que se passa, escuta o seu discurso para fazer o diagnóstico e
proceder ao tratamento. A expressão "olho clínico", emprestada da Medicina, é
freqüentemente utilizada na Psicopedagogia Clínica referindo-se à postura terapêutica
do profissional.
Ora, na instituição escolar, a prática psicopedagógica também apresenta uma
configuração clínica. O psicopedagogo pesquisa as condições para que se produza a
aprendizagem do conteúdo escolar, identificando os obstáculos e os elementos
facilitadores, numa abordagem preventiva. Uns e outros (elementos facilitadores e
obstáculos) são condicionados por diferentes fatores, fazendo com que cada situação
seja única e particular. Esse trabalho requer uma atitude de investigação e intervenção.

A Psicopedagogia preventiva se baseia principalmente na observação e análise profunda


de uma situação concreta, de forma que podemos considerar clínico o seu trabalho.A
função preventiva está implícita na atitude de se considerar aquele grupo específico
como os sujeitos da aprendizagem, de forma a adequar conteúdos e métodos, ou seja,
respeitando as características do grupo a pensar o plano de trabalho. O caráter clínico
está na atitude de investigação frente a essa situação como uma situação particular e
única, quer dizer, há características problemáticas, experiências condições,
manifestações do grupo ou sujeito muitas vezes intransferíveis.O trabalho clínico na
Psicopedagogia tem função preventiva na medida em que, ao tratar determinados
problemas, pode prevenir o aparecimento de outros.

As características da família, da escola, ou até mesmo do professor podem ser a causa


desencadeante do problema de aprendizagem. Assim, essas características que
constituem a causa problemática influenciam também na forma de abordagem do
profissional. Ainda que o psicopedagogo assim o desejasse, seria-lhe impossível negar a
família, a escola, o professor ou mesmo a comunidade.

Para Fernández e Paín, o problema de aprendizagem pode ser gerado por causas internas
ou externas à estrutura familiar e individual, ainda que sobrepostas. Os problemas
ocasionados pelas causas externas são chamados por essas autoras de problemas de
aprendizagem reativos, e aqueles cujas causas são internas à estrutura de personalidade
ou familiar do sujeito denomina-se inibição ou sintoma – ambos os termos emprestados
da Psicanálise. Segundo essas autoras, quando se atua nas causas externas, o trabalho é
preventivo. Já na intervenção em problemas cujas causas estão ligadas à estrutura
individual e familiar da criança, o trabalho é terapêutico.

Segundo Alicia Fernández (1990), (para resolver o problema de aprendizagem reativo)


necessitamos recorrer principalmente a planos de prevenção nas escolas, porém, uma
vez gerado o fracasso e conforme o tempo de sua permanência, o psicopedagogo deverá
também intervir, ajudando através de indicações adequadas para que o fracasso do
ensinante, encontrando um terreno fértil na criança e sua família, não se constitua em
sintoma neurótico.Para resolver o fracasso escolar, quando provém de causas ligadas à
estrutura individual e familiar da criança, vai ser requerida uma intervenção
psicopedagógica especializada. Para procurar a remissão desta problemática, deveremos
apelar a um tratamento psicopedagógico clínico que busque libertar a inteligência e
mobilizar a circulação patológica do conhecimento em seu grupo familiar.

É a escola, indubitavelmente, a principal responsável pelo grande número de crianças


encaminhadas ao consultório por problemas de aprendizagem. Assim é extremamente
importante que a Psicopedagogia dê a sua contribuição à escola, seja no sentido de
promover a aprendizagem ou mesmo tratar de distúrbios nesse processo. "Todo
pensamento, todo comportamento humano, remete-nos à sua estruturação inconsciente,
como produção inteligente e, simultaneamente, como produção simbólica" (Paín, apud
Fernández, 1990, p. 233).

Quando não se pode negar que o homem é sujeito a uma ordem inconsciente e movido
por desejos que desconhece, falar do tratamento psicopedagógico significa muito mais
que discorrer sobre métodos definidos de reeducação.Encontramos na literatura
orientações de tratamento que estão acompanhadas de um plano de treino de memória
visual, onde em síntese as atividades consistem na apresentação de estímulos visuais
que, após serem retirados do campo visual da criança, devem ser evocados e
representados segundo a instrução do reeducador.

O enquadre que se refere ao estabelecimento do marco fundante da ação terapêutica – a


definição do universo da relação clínica – e que, portanto, engloba elementos como
tempo, lugar, freqüência, duração, material de trabalho e estabelecimento da atividades,
nessa modalidade de tratamento tem como objetivo, sempre, solucionar os problemas de
aprendizagem, motivo do encaminhamento.

3. CONCLUSÃO

O fracasso escolar na alfabetização, ainda hoje, faz parte do cotidiano das nossas
escolas, acarretando na grande maioria das vezes na reprovação. O trabalho
psicopedagógico pode e deve ser pensado a partir da instituição escolar, a qual cumpre
uma função social: a de socializar os conhecimentos disponíveis, promover o
desenvolvimento cognitivo e a construção de regras de conduta, dentro de um projeto
social mais amplo.Através da aprendizagem, o sujeito é inserido, de forma mais
organizada, no mundo cultural e simbólico, que o incorpora à sociedade.A entrada na
escola significa antes de mais nada para a criança, uma penetração num círculo social
mais amplo, uma ocasião de enfrentar o desconhecido.Esse momento pode representar
uma oportunidade para um agravamento de tensões, incertezas e carências que já vem
de longe com a criança, mas também pode constituir-se numa oportunidade para que a
criança reexperimente o mundo, as pessoa e a vida de outra maneira: mais construtiva,
mais confiante, mais feliz.Na sua tarefa junto às instituições escolares o psicopedagogo
deve refletir sobre estas questões, buscando dar a sua contribuição no sentido de
prevenir ulteriores problemas de escolaridade.O diagnóstico psicopedagógico é um
processo, um contínuo sempre revisável, onde a intervenção do psicopedagogo inicia,
numa atitude investigadora, até a intervenção. É preciso observar que essa atitude
investigadora, de fato, prossegue durante todo o trabalho, na própria intervenção, com o
objetivo da observação.

Essa constatação reforça a importância do psicopedagogo institucional no sentido de


criar condições juntamente com os professores para que a aprendizagem da leitura e da
escrita aconteça de maneira eficaz, prazerosa e significativa. Atuando, como assessor,
na busca da melhoria do processo de aprendizagem, desenvolvendo um trabalho
integrado professor-psicopedagogo-escola no sentido de melhor desenvolver a prática
educativa. Isto significa que o professor precisa entender como acontece a
aprendizagem da leitura e da escrita, buscando as origens das dificuldades, do fracasso,
avaliar, diagnosticar e, acima de tudo, estabelecer um rumo teórico de ação.Portanto,
através da intervenção psicopedagógica dirigida aos professores que se acredita no real
progresso da aprendizagem voltada sobretudo, a uma educação integrada ao
desenvolvimento do aluno como agente produtor do seu meio e não apenas como um
resultado.

Se estivermos atentos para isto poderemos contribuir para que a escola corresponda de
modo positivo às suas necessidades e expectativas. È uma forma muito eficaz de se
prevenir o aparecimento dos temidos problemas de comportamento.Estes, apesar da
nossa cautela, muitas vezes se manifestam. Para não agravar ou precipitar a sua
evolução a observação continua sendo indispensável e juntamente com ela a atenção e a
dedicação.Quando tudo isso não bastar devemos procurar uma orientação especializada
pois pode ser que o nosso aluno esteja precisando de algo mais que não depende só de
nós

A especificidade do tratamento psicopedagógico consiste no fato de que existe um


objetivo a ser alcançado: a eliminação do sintoma. Assim, a relação psicopedagogo-
paciente é mediada por atividades bem definidas, cujo objetivo é "solucionar
rapidamente os efeitos mais nocivos do sintoma para depois dedicar-se a afiançar os
recursos cognitivos" (Pain, 1986, p. 77). Este é um aspecto cuja prática tem me
mostrado como bastante complicado na atuação do psicopedagogo, pois está
relacionado com a operacionalização do trabalho e conseqüentemente com seu
êxito."Somente uma boa avaliação psicopedagógica de fracasso escolar de uma criança
pode discernir e ponderar devidamente "o que" e o "quantum" é da criança, da escola,
da família e da interação constante dos três vetores na construção das dificuldades de
aprendizagem apontadas pela escola".A conquista do espaço na escola significa uma
escola aberta, contígua à vida, cheia de presenças humanas, realizando experiências
realmente brasileiras.

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Robson Stigar

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