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23/05/2018 Na várzea, técnico dribla a cegueira e coleciona conquistas - Esportes - Estadão

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Na várzea, técnico dribla a cegueira e


coleciona conquistas
Márcio Moreira supera a deficiência visual com criatividade e muito conhecimento de futebol

Gonçalo Júnior, O Estado de S.Paulo


20 Maio 2018 | 07h00

Márcio Moreira é um técnico deficiente visual. Sem enxergar desde os 13 anos por causa do glaucoma,
hoje aos 35 ele se esforça para exercer sua paixão pelo futebol mesmo com as grandes limitações
impostas pela cegueira. É essa busca que o Estado foi conferir no treino do Real Mirim, na periferia de
São Paulo.

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23/05/2018 Na várzea, técnico dribla a cegueira e coleciona conquistas - Esportes - Estadão
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Seu método é particular. Ele reúne os titulares em um canto e faz três filas: uma com zagueiros, outra
com volantes e meias e uma terceira com os atacantes. Nessas filas, ele vai mexendo os jogadores como
peças de xadrez. Quando pede para o volante chegar ao ataque, ele puxa o menino de uma fila para
outra. Faz o mesmo quando fala que o lateral tem de recuar para a linha dos zagueiros.

Márcio Moreira, é cego e técnico numa escolinha de futebol do S. C. Real Mirim, em Parada de Taipas, zona norte de São
Paulo. Ele auxiliado pelo assistente técnico Marcelo Oliveira Foto: Hélvio Romero/Estadão

Suas preocupações são gerais com a organização e compactação das linhas, a velocidade da bola entre
uma linha e outra e a finalização. “Jogar futebol é ocupar os espaços e ter finalização. Tem de chutar a
gol”, diz.

Márcio não treina o time sozinho. Não daria mesmo. Seus olhos no campo são os de Marcelo Oliveira,
volante que atuou no Confiança (SE), mas está sem clube agora. Ele narra os jogos com o olhar de quem
joga. Mas não dá para dizer que Marcelo é quem comanda a equipe. É uma troca. “Às vezes, ele pede
uma mudança que parece estranha, mas depois dá certo. Ele sabe onde a bola está. Não sei explicar”,
diz o atleta de 23 anos.

Os sons também ajudam. Por isso, o treinador pede para os meninos falarem o que estão fazendo em
campo. Ele fica atento ao quique da bola, à maneira como as chuteiras roçam no gramado sintético e ao
“tum” da bicuda. Por isso, prefere o esquema 3-5-2 quando os alas ficam mais abertos, na beirada do
campo. Ele consegue perceber o ala indo ao ataque e voltando.

Por isso também, os jogos com torcida barulhenta são um suplício. “Se o time quiser me atrapalhar é só
fazer batucada”, diz. Aí o auxiliar trabalha mais.

As imagens da memória são o terceiro pilar do técnico. Ele nasceu com glaucoma, doença que causa
uma perda lenta da visão. Ficou cego de vez aos 13. Continuou jogando pelo Instituto de Cegos de
Pernambuco - ele morava no Recife na época. A carreira no futebol de 5, a modalidade para deficientes
visuais, acabou com uma cotovelada que resultou em uma perfuração no olho. “Ainda me lembro do
campo”, ressalta.

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Apesar da limitação visual é possível dizer que, com auxílio de sons e de um parceiro, o técnico pode
atuar também. Sua capacidade de localização de sons, a percepção estratégica de posicionamento de
atletas e até mesmo a capacidade de simular situações de jogo podem levá-lo ao sucesso. A memória
visual quando enxergava facilita a análise de espaços”, diz Páblius Staduto Braga, médico do Esporte e
gestor do Centro de Medicina Especializada do Hospital Nove de Julho.

Márcio Moreira, é cego e técnico numa escolinha de futebol do S. C. Real Mirim, em Parada de Taipas, zona norte de São
Paulo. Ele auxiliado pelo assistente técnico Marcelo Oliveira Foto: Hélvio Romero/Estadão

AJUDA

No campo cedido pela Prefeitura duas vezes por semana, os jogadores também narram os lances.
“Márcio, a gente quase fez um golaço agora”, informa Kauan Alves. Saber quem finalizou, deu o passe e
onde o lateral estava quando o rival atacou ajudam Márcio a conhecer seus atletas. Para atravessar o
gramado, o técnico segura o braço de um dos meninos, do jeito tradicional dos deficientes. A bengala de
metal vai cutucando o gramado com rapidez.

Os meninos não se importam de receber orientações de um técnico cego e o adoram. Acham que ele
podia estar fazendo outra coisa, mas prefere dar atenção a eles. “Ele sabe de futebol”, diz Gustavo
Moraes.

Nem sempre o time foi um mar de rosas. Muitos pais não queriam ver o filho recebendo instruções de
uma pessoa que não vê. O preconceito diminuiu quando o time foi somando troféus nos torneios do
bairro.

O Real Mirim é uma equipe da várzea de Taipas, perto da serra da Cantareira, região carente onde cerca
de 15 mil pessoas lutam por saneamento básico, com esgoto sem tratamento, ruas de terra esburacadas,
pouco lazer e altos índices de criminalidade. O futebol é uma saída de vida e de lazer.

O time vive de doações. O custo mensal é de R$ 3 mil, mas o salário de Márcio como funcionário do
Ministério Público de São Paulo não permite estripulias. Sempre sobra conta para o mês seguinte. Após
tantas lavagens, os coletes azuis ficaram roxos. O técnico e o auxiliar queriam sair para jogar em outros
lugares, fazer excursões, mas nem sempre os meninos têm R$ 10 para ajudar no ônibus.

Potência no futebol de 5, Brasil defende título em junho


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No mês que vem, na Espanha, o Brasil vai defender o título no Mundial do Futebol de 5 disputado por
cegos ou deficientes visuais. O torneio garante vaga para os Jogos Paralímpicos de Tóquio, em 2020. O
País é uma potência na modalidade com quatro títulos mundiais e quatro medalhas de ouro
paralímpicas. O destaque da equipe atual é o gaúcho Ricardinho, atleta da Associação Gaúcha de Futsal
para Cegos (Agafuc) e duas vezes o melhor do mundo. “Sou um privilegiado, pois temos uma grande
geração. Acho que só perdi dois torneios em 25 disputados”, diz o jogador.

No futebol de 5, o goleiro enxerga. As partidas são silenciosas, em locais sem eco. A bola tem guizos
internos para que os atletas consigam localizá-la, mas a torcida só pode vibrar na hora do gol. Há ainda
um guia, o chamador, que fica atrás do gol, para orientar os jogadores. Ele diz para onde devem chutar.
“A cada ano, o time está evoluindo. Temos sistemas de defesa e de ataque bem definidos”, disse Fábio
Luiz Vasconcelos, técnico desde 2013. “Vamos passo a passo, mas teremos jogos difíceis nas quartas de
final”, projeta o treinador.

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