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Elogio da sujidade da política contra a política porca.

A política tem tanto de porca, tantas vezes, como tem de fascinante e limpa, outras vezes,
embora muito menos. É incontornável. O Homem como o animal político que Aristóteles terá
cunhado é uma realidade de sempre. A política é a dimensão de gestão da coisa pública
quando existe coisa pública para decidir. É o que fazer? Indispensável. Sujar as mãos no
sentido de realizar o trabalho necessário tanto para produzir bens e serviços necessários
como para depois decidir como os produzir, distribuir ou consumir é algo de nobre. Essa
sujidade lava-se com água ou com um exame de consciência no fim de cada dia. Outra
coisa é a porcaria política, ainda quando ela é feita com habilidade que a invisibiliza. Porcaria
política como a da corrupção que é inerente a certos poderes e interesses, principalmente
quando se tornam absolutos, e que levam as pessoas a desacreditar da política e a deixar
de ver nela uma necessidade imprescindível. Afirmam mesmo alguns que é preciso acabar
com ela e com os políticos, que, no fundo, dizem, são todos iguais. Se isso fosse mesmo
assim regressaríamos a um tempo antes das cavernas. É no entanto compreensível tanta
gente pensar assim e isso explica também que tantas vezes tantos vão atrás do primeiro
messias populista que aparece. Neste tempo de neoliberalismo triunfante em que o
capitalismo apresenta contornos de apodrecimento mas que não cairá nunca por si próprio
sem que um novo poder diferente o derrube; neste tempo, repito, os insultos lançados em
geral à política e aos políticos em geral convêm aos piores políticos e às piores políticas:
aqueles que crescem na babugem do estertor do capitalismo e que são os fascismos
recorrentes que lhes têm dado, quando necessário, o último fôlego necessário à sua
sobrevivência.
Henrique Santos
Maio de 2019