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O CHAMADO PARA A

LIDERANÇA
REGENERATIVA
VOCÊ É INDISPENSÁVEL PARA A CONS-
TRUÇÃO DE UM MUNDO MAIS BONITO

Felipe Tavares
POR QUÊ?

Porque nos importamos. E isso é suficiente para dedi-


carmos as nossas vidas para a construção de um mun-
do mais bonito.

Nos importamos com a qualidade das relações huma-


nas e ecológicas. Nos importamos com o fato de que
nós, enquanto espécie, ameaçamos a existência de to-
dos os seres da Terra, inclusive a nossa própria.

Nos importamos porque enxergamos um futuro brilhan-


te e, talvez, este seja o único futuro viável: um em que
aprendemos a viver orientados pela inteligência da vida.

Neste futuro assumimos a responsabilidade e as limi-


tações de viver em uma casa comum assim como des-
frutamos da beleza e abundância de viver neste planeta.

A realização desta visão demanda total autorresponsa-


bilidade e engajamento. E você é indispensável para a
construção deste mundo mais bonito.
Precisamos assumir o nosso papel de liderança rege-
nerativa por um motivo simples:

SE NÃO NÓS, QUEM?

Assumir um papel, a partir da nossa essência, capaz de


contribuir para uma causa maior do que a nós mesmos
é um tremendo passo para a realização pessoal e pla-
netária.

Contribuir para a emergência de um mundo mais bo-


nito que funcione para 100% da humanidade e sem
ofensa ecológica é o grande trabalho de nosso tempo.

Para tanto, não estamos sozinhos. Existe uma comuni-


dade global comprometida em sanar as dores de Gaia.
E esta comunidade precisa de você.

O melhor momento para assumir o seu papel regenera-


tivo é agora. E espero que este livro sirva de inspiração
e apoio para a sua caminhada.
Somos uma escola de pensamento ecológico e uma
consultoria em desenvolvimento regenerativo dedica-
da a construir um mundo mais bonito.

WWW.DESENVOLVIMENTOREGENERATIVO.COM

AUTOR

Felipe Tavares é educador e consultor para a regenera-


ção global. Fundamentado na visão sistêmica da vida e
no pensamento regenerativo, trabalha para a evolução
da sustentabilidade rumo a uma integração com a inte-
ligência dos sistemas vivos.
SOBRE ESTE LIVRO

Este é um convite à transformação, um choque cons-


ciente com o objetivo de inspirar mudanças rumo a
uma cultura de cocriação com a inteligência da vida.

Este livro é um compilado de pequenos textos perió-


dicos. Assim, cada ideia compartilhada surgiu em um
contexto particular. Dessa forma, não existe uma line-
aridade estrita e cada texto pode ser lido individual-
mente. No entanto, esta coleção foi ordenada da me-
lhor forma possível.

Nestas palavras eu celebro a liderança, o chamado de


Gaia, a regeneração global e a evolução da consciên-
cia humana. Mas, ainda mais forte, este livro celebra
você e a sua capacidade de transformar realidades.
AGRADECIMENTO

Agradeço à Juliana Diniz pela caminhada compartilha-


da, pelos inúmeros aprendizados e pela revisão atenta
deste trabalho.

UM PRESENTE

ESTE TRABALHO FOI PUBLICADO SOB A LICENÇA CREATIVE

CO M M O N S AT R I B U I ÇÃO 4.0 I N T E R N AC I O N A L (CC BY 4.0)

Isso significa que é um trabalho cultural livre que você


pode distribuir e a partir do qual pode criar trabalhos
derivados devendo apenas atribuir o devido crédi-
to citando o nome da obra, do autor e da instituição
como segue: O chamado para a liderança regenera-
tiva — você é indispensável para a construção de um
mundo mais bonito.

Felipe A. S. Tavares, Instituto de


2019
Desenvolvimento Regenerativo
SUMÁRIO

08 Quem escolhemos ser?

09 Somos feitos de histórias

10 Entre dois mundos

12 Temos a obrigação de jogar um jogo diferente

13 Seja insubstituível

14 A nova zona de segurança

16 O espectador, o participante e o salto mortal

17 O grito

18 Distúrbio generativo

20 Liderança regenerativa

22 Lugar de controle

24 Ayni, a reciprocidade andina

25 Há duas formas de se trabalhar

26 Projetos que se tornam legados

28 Frear é o primeiro passo

29 Amarrando conceitos sobre regeneração

30 Seja a resistência
QUEM ESCOLHEMOS SER?

A luta pelos direitos humanos e da Terra — a luta por


um mundo mais bonito — não é uma corrida de cem
metros, é uma maratona.

A principal tarefa que nos é dada agora é uma reflexão


profunda sobre como iremos servir, a partir da nossa
essência, para a construção do mundo mais bonito
que nossos corações sabem ser possível.

O que eu posso fazer hoje que irá se somar com o


trabalho de amanhã e poderá contribuir significativa-
mente para a regeneração planetária? Como trans-
formar o meu esforço em um legado de esperança e
inspiração para o mundo?

O planeta nos convida a participar desta mudança.


Nos resta, então, descobrir qual papel iremos desem-
penhar para alcançar a mudança que queremos. Para
tanto, temos que redefinir quem somos e redesenhar
como trabalhamos.

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SOMOS FEITOS DE HISTÓRIAS

A todo momento ouvimos, fabricamos e contamos


histórias. Podemos não perceber, mas essas narrativas
— reforçadas dia-a-dia — são o pano de fundo de todas
as nossas escolhas.

O primeiro passo para a transformação é resgatar e ou-


vir essas histórias com novos ouvidos e com uma aten-
ção especial.

Podemos, então, decidir se essas histórias nos servem


ou não. Podemos escolher recriar a narrativa que nos
orienta.

QUAL O NOSSO PAPEL NO MUNDO? O QUE


QUE É SUCESSO? O QUE É IMPORTANTE?

O que precisamos fazer é escolher as histórias que nos


servem, abandonar as que não queremos e recriar a
narrativa do nosso futuro.

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ENTRE DOIS MUNDOS

Dois mundos coexistem. O dominante, com o qual es-


tamos acostumados, é pautado pela dominação. Po-
demos chamá-lo de mundo da separação pois este
acredita que todos os seres são separados e operam a
partir do autointeresse. Desta forma, o que existe é um
ambiente ferrenho de competição.

O outro, embrionário mas latente, é um mundo pauta-


do pela integralidade e respeito à vida. Este reconhece
que todos fazemos parte de uma teia viva e que so-
mos interdependentes. Por isso, podemos chamá-lo de
mundo do interser. Nele acreditamos que só é possível
existir porque todas as outras coisas existem. Assim,
temos um ambiente de cooperação rumo à coevolução
dos sistemas vivos.

O agente de regeneração habita estes dois mundos.


Quando olhamos para as tristezas do mundo da sepa-
ração podemos ficar desesperançosos. É fácil sentir-
-se pequeno diante de um mundo-monstro. Mas, mes-
mo assim, somos compelidos a trabalhar neste lugar. O
trabalho que a liderança regenerativa desempenha no

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mundo da separação é o de resistência, reparo e cura.
É a tentativa de impedir que um mal maior seja feito. É
uma dura luta para frear a destruição.

A realidade do mundo da separação, no entanto, não


invalida os avanços do mundo do interser. Coexistindo
com todas as mazelas, há grandes líderes e iniciativas
que são a materialização de um mundo melhor.

Viver entre dois mundos é aceitar a incerteza, a am-


biguidade e a contradição da caminhada. É realizar o
“trabalho de bombeiro” do ativista e ao mesmo tem-
po desempenhar o “trabalho de visionário” que constrói
novos caminhos.

Trabalhar no mundo do interser é fazer o impensável.


É operar a partir dos nossos corações e cultivar uma
mente ampla e amorosa o suficiente para cuidar e nu-
trir iniciativas transformadoras.

Te convido, humildemente, a assumir o seu lugar. Nem


lá, nem cá, entre dois mundos, abrindo trilhas desco-
nhecidas, mostrando o caminho para um mundo mais
bonito ao mesmo tempo em que cura e repara os da-
nos já causados.

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TEMOS A OBRIGAÇÃO DE JOGAR
UM JOGO DIFERENTE

E se o sucesso fosse medido pela capacidade de con-


tribuir por um mundo melhor para todos?

E se a prosperidade fosse entendida como o resulta-


do da qualidade das relações humanas e ecológicas?

Quais mudanças veríamos se o padrão aceito fosse o


da generosidade? A generosidade em contribuir pelo
fato de que eu posso. A generosidade de acolher a
sua demanda pois eu sei que quando você ganha eu
também ganho e todos nós ganhamos.

Não acredito que temos escolha. Temos a obrigação de


mudar as regras, de jogar um jogo diferente, de aumen-
tar o nível do que é tido como normal.

Nós precisamos de pessoas que refaçam o papel da


humanidade. Precisamos de pessoas que quebrem
as regras, desafiem o estabelecido e superem o con-
vencional. E que nos mostre como.

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SEJA INSUBSTITUÍVEL

Por anos, até mesmo décadas, nossa curiosidade foi


abafada nas escolas. Fomos treinados para a confor-
midade, fomos forçados a caber em uma função pré-
-definida. Nos tornamos facilmente substituíveis.

O mundo precisa de gente singular, de pessoas in-


substituíveis, de pessoas que tenham voz e que se
importam com uma causa maior do que a si mesmas.

Tornar-se curioso é um processo de cinco-dez-quin-


ze anos em que você começa a encontrar a sua voz e
perceber que a coisa mais arriscada a se fazer é jogar
o jogo da conformidade, é ser substituível.

Encontrar o seu papel singular é uma tarefa em co-


munidade, é um ato generoso de doar-se e ser capaz
de perceber-se nos outros. É uma experimentação
corajosa, é se permitir pertencer e ousar contribuir.

É um processo que daqui há algum tempo você vai


desejar ter começado hoje.

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A NOVA ZONA DE SEGURANÇA

Conformidade e regras estabelecidas, ou seja, o


jogo do trabalho convencional, costumava ser a nos-
sa zona de segurança e, ao mesmo tempo, a nossa
zona de conforto.

É confortável a sensação de segurança e de certeza,


mas estar confortavelmente dormente ao ocupar um
papel substituível não é mais seguro.

Apesar da nossa zona de conforto ser a mesma, a nos-


sa zona de segurança mudou.

Vivemos em um mundo em que a conformidade não


é mais recompensada. A sociedade, hoje, na economia
da conexão, valoriza aquelas pessoas corajosas capa-
zes de fazer um trabalho autêntico.

A zona de segurança, então, está na capacidade de


surpreender. Está na capacidade de fazer um trabalho
significativo e em criar conexão.

É preciso sair da zona de conforto para entrar na nova


zona de segurança. Você pode fazer diferente e pode
fazer melhor do que sempre fizeram.

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Você é capaz, com o seu coração e com toda a sua
coragem, de fazer algo surpreendentemente signifi-
cativo que irá mudar o jeito como as coisas são fei-
tas. Algo mais generoso, mais humano, mais atento e
mais profundo.

Com intenção e coragem podemos transformar os


nossos projetos e o nosso trabalho em legados para
a sociedade, em contribuições significativas que são
essenciais para a vitalidade do nosso local de intera-
ção. Nessa jornada precisamos de duas coisas: de uma
mentalidade de aprendizagem por toda a vida e de uma
comunidade de apoio.

JUNTOS PODEMOS NOS TORNAR INDIS-


PENSÁVEIS E INSUBSTITUÍVEIS.

Uma boa avaliação que podemos fazer é nos pergun-


tar: se eu me retirar agora quem verdadeiramente sen-
tirá a minha falta?

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O ESPECTADOR, O PARTICIPANTE
E O SALTO MORTAL

O espectador é aquela pessoa que assiste ao mundo


desenrolar na sua frente. Ela sobe no barco, mas nun-
ca assume o leme. Ela está à mercê do sistema. Está à
deriva.

Já o participante jamais se deixa levar. Esta pessoa


possui uma direção clara e fará os ajustes necessários
para seguir no sentido da sua visão. Ela participa ativa-
mente na criação do mundo.

Passar de espectador para participante exige um salto.


É como subir no trampolim de dez metros e ficar parali-
sado pelo medo. O medo de que algo possa dar errado,
o medo de ferir a própria existência.

E então ter a coragem de reconhecer que esse medo não


possui lastro e que o perigo é o medo que me bloqueia.

E então o salto. E outro, e outro.

Para nos tornarmos participantes precisamos nos


acostumar a saltar no vazio. A encarar o medo e fazer
as pazes com a incerteza.

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O GRITO

Em silêncio é possível ouvir o grito da Terra.

A atenção e o cuidado, grandes expressões do femi-


nino, não surge da percepção externa — nem mes-
mo do cair da floresta — surge de um lugar pou-
co frequentado: as profundezas do ser humano.

O desabrochar da sensibilidade humana é o desabro-


char da Terra. O interesse humano por humanidade e a
busca de coerência ecológica, do cuidado com a casa
comum, surge a partir do autointeresse de Gaia. Este é
o seu despertar, dentro de nós.

Acorde e veja:

VOCÊ É OS OLHOS DA TERRA.

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DISTÚRBIO GENERATIVO

Somos avessos a perturbações. Procuramos, sempre


que possível, um caminho seguro e conhecido sem que
haja grandes mudanças.

Acontece que a principal força evolutiva em sistemas


vivos são os distúrbios.

Segundo a Teoria da Cognição de Santiago, sistemas


vivos respondem a distúrbios com mudanças estrutu-
rais, isto é, mudanças na estrutura física, cerebral, ce-
lular... e o faz de forma a “escolher” quais distúrbios res-
ponder e como responder.

Uma floresta sem distúrbios está fadada ao declínio.


Em um ecossistema, o único equilíbrio que existe é o
equilíbrio dinâmico que incorpora as mudanças como
eventos capazes de promover a evolução.

Assim, para alinhar a nossa mentalidade com a inte-


ligência da vida podemos começar fazendo as pazes
com os distúrbios — com os eventos de caos e des-
truição — e entendê-los como uma força natural ne-
cessária ao equilíbrio dinâmico evolutivo.

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Aquele evento que não estávamos esperando, o desapa-
recimento de algo que nos dava a sensação de seguran-
ça ou mudanças forçadas repentinas e totais podem ser
eventos capazes de gerar mudanças evolutivas.

Talvez não seja possível escolher se queremos ou não


responder a um evento, mas sempre será possível es-
colher como responder. Qual aprendizado é possível in-
corporar a partir disso? Como isso pode me aprimorar
ou como este evento pode me levar a novos rumos?

O Brasil vive hoje um grande e profundo distúrbio es-


trutural, uma afronta inimaginável aos rumos de um
país pautado no respeito, inteligência e integralidade.
Um desrespeito à sua própria história.

Estamos escolhendo responder de que forma?

Desejo que este momento faça florescer em nós a von-


tade e consistência necessária para trabalharmos as
nossas habilidades enquanto agentes de mudança,
empreendedores ecossociais, estrategistas organiza-
cionais, guerreiros da sustentabilidade, líderes com-
passivos… ou seja, a nossa capacidade para a liderança
regenerativa.

Desejo que cada um de nós possa começar a construir


ou ampliar o seu legado conectado ao seu senso de
propósito mais energizante. Agora.

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LIDERANÇA REGENERATIVA

Para alcançarmos um futuro próspero, mais do que fa-


zer as coisas diferente, é necessário redefinir a presen-
ça humana na Terra.

A regeneração é uma proposta de harmonização das


atividades humanas com a inteligência dos sistemas
vivos. Porém, a curva de aprendizagem envolvida nes-
sa mudança é longa.

Precisamos de pessoas que nos mostrem caminhos


para um futuro viável e que nos ajudem a embarcar
em uma jornada de transformação. Precisamos de
pessoas que assumam a responsabilidade de liderar a
partir de um propósito coletivo e cuja motivação seja
sanar as dores de Gaia.

A essas pessoas nós podemos dar o nome de líderes


regenerativos.

Uma liderança regenerativa se expressa de diferentes


maneiras a depender de seu arquétipo pessoal: como a
guerreira comprometida em conter a destruição ecos-
social, a curadora sensível capaz de curar as dores da
Terra ou a professora motivada em transformar a per-

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cepção da realidade. Todas, no entanto, possuem uma
orientação comum: reparar os danos socioambientais
causados pela atividade humana e devolver uma visão
de futuro próspero à humanidade.

A jornada da liderança regenerativa começa nas pro-


fundezas do lugar mais temeroso que podemos aces-
sar. Ela começa dentro de nós mesmos.

Guiados pela premissa de que não é possível realizar a


transformação que queremos para o mundo sem antes
realizarmos a transformação interior de como pensa-
mos e de quem somos capazes de ser, a liderança re-
generativa cruza limiares obscuros e caminha no fio da
navalha da consciência humana.

A transformação pessoal inspira a transformação cole-


tiva. E tudo o que nós queremos é estar com pessoas
que nos inspiram a ser a melhor versão de nós mesmos.

O mundo precisa de lideranças regenerativas e te con-


vida a realizar o seu maior potencial: o de servir às ne-
cessidades da Terra e inspirar outras pessoas a fazer o
mesmo.

VOCÊ É IMPORTANTE DEMAIS


PARA NÃO SER VOCÊ MESMA.

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LUGAR DE CONTROLE

Existem pessoas capazes de gerar grandes mudan-


ças no contexto em que estão inseridas. Uma das suas
principais habilidades é a capacidade de assumir para
si a responsabilidade dos acontecimentos em sua vida.
Chamamos essa característica de autorresponsabili-
dade ou lugar interno de controle.

A característica oposta, o lugar externo de controle,


atribui a fatores externos o maior peso da responsa-
bilidade sobre os acontecimentos. Assim, uma pessoa
operando dessa maneira, de forma reativa, encontra
sempre uma explicação externa para o seu fracasso:
“as pessoas não me entendem”, “meu chefe não reco-
nhece o meu trabalho”, “a minha cidade é isso”, “a minha
família é aquilo”. Ou seja, “eles” estão causando o que
“eu” estou experienciando.

Existem, sim, fatores externos que influenciam a nossa


vida e os nossos projetos. Porém, atribuir a “culpa” de
um fenômeno para algo que está fora da nossa esfe-
ra de influência é um grande restritor enquanto trazer
para si a responsabilidade de mudança é um catalisa-
dor para a evolução.

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“Diante desse acontecimento, o que eu posso transfor-
mar para alcançar os meus objetivos?”, perguntaria o
agente de transformação orientado pela autorrespon-
sabilidade. Estar ciente de que somos responsáveis pe-
las nossas experiências nos permite escolher como ire-
mos reagir com o que está acontecendo à nossa volta.

Pode parecer contraintuitivo, mas podemos reconhe-


cer no outro a nossa própria limitação. Veja, é comum,
ao apresentarmos uma ideia a alguém, que ela não en-
tenda exatamente o que queremos dizer. Pode mesmo
existir uma limitação no outro, mas é uma que reflete a
nossa própria: a incapacidade de se comunicar de for-
ma clara e eficiente.

Assim, quando nos pegarmos culpando os outros, re-


moendo o fato de que eles nos fizeram sentir isso ou
aquilo, devemos nos lembrar que estamos operando
através do lugar externo de controle. Então, trazendo
para nós a responsabilidade da nossa presença, pode-
mos ter escolhas responsáveis sobre como reagir em
determinada situação.

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AYNI, A RECIPROCIDADE ANDINA

Ayni é a espinha dorsal da cultura andina. É o reco-


nhecimento do mundo em sua integralidade e inter-
dependência. É um princípio cosmológico múltiplo
que pode ser simplificado como “troca de energia” ou
“reciprocidade”. É um reflexo da realidade onde tudo e
todos são um só.

Não existe separação na cultura andina. O que existe


é Kausay Pacha, o mundo de energia viva ou o mundo
de abundância.

Desta forma, a melhor maneira de vivermos é em har-


monia com o fluxo natural da vida. E o fluxo natural é o
de dar e receber.

Ayni define um relacionamento. Dá nome ao sentimen-


to de comprometimento em devolver da melhor forma
possível aquilo que recebemos. É uma troca de energia
entre os seres humanos, a natureza e o universo.

Ayni é a busca por uma participação apropriada. É o


equilíbrio entre o dar e receber. É oferecer aquilo que
o outro precisa e ser nutrido pela dádiva da vida.

Presentear é honrar a qualidade da presença do outro.

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HÁ DUAS FORMAS DE SE TRABALHAR

A primeira é gerenciando a entropia, ou seja, tentan-


do controlar a desordem das coisas. Esta abordagem
busca manter as coisas operando como estão ao tentar
controlar a entropia. Para tanto, a atenção é voltada para
os problemas e gargalos. Onde houver um ponto em de-
terioração, faça-se um remendo.

A segunda forma de se trabalhar é cultivando a sintro-


pia. Sintropia é o oposto de entropia. Ou seja, é a capa-
cidade de organização, complexificação e evolução de
um sistema. É o princípio universal dos sistemas vivos
que possibilita o desenvolvimento e a evolução.

Trabalhar para a sintropia é dançar com o plano do po-


tencial, das possibilidades do vir a ser.

Assim, podemos nos perguntar: qual potencial está


presente que se realizado permitirá o sistema evoluir
a ordens maiores de organização? Este problema é re-
sultado de qual potencial não desenvolvido?

Focar na resolução de problemas é como andar para


frente só que olhando para trás. Focar no potencial é
utilizar os problemas como ponto de alavancagem para
um futuro melhor.
25
PROJETOS QUE SE TORNAM LEGADOS

Se o seu objetivo é criar um projeto capaz de gerar um


impacto positivo, não comece pelo projeto, comece
pelo lugar que ele ocupa.

A sustentabilidade de um sistema vivo está ligada di-


retamente a sua integração benéfica com o sistema
maior de que faz parte.

Assim, no início de um projeto regenerativo a nossa


atenção está toda voltada para o lugar.

A primeira tarefa que temos é uma investigação que


nos oriente no entendimento deste lugar.

Quais as suas características únicas? Como são os re-


lacionamentos? Qual a vontade desse lugar? Qual a
sua essência, o seu espírito?

Nessa investigação dois conceitos são fundamentais:


aninhamento e interdependência.

Estar aninhado significa que existe um padrão de or-


ganização de sistemas dentro de sistemas e um in-
teresse mútuo entre esses diferentes níveis baseado
nas energias que são trocadas através deles.

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Se a saúde de um nível se deteriora, a saúde dos de-
mais níveis são afetadas. Perceba como a deterioração
dos rins, por exemplo, reflete no corpo todo.

Se nós quisermos criar projetos que são regenerativos


teremos que entender os sistemas em que eles estão
aninhados, pois são estes sistemas que iremos rege-
nerar.

Desta perspectiva, o potencial que emerge do lugar ad-


vém do relacionamento entre o que torna um lugar úni-
co e o valor que esta singularidade pode levar para o
sistema maior em que ele está aninhado.

Assim, a busca primordial do desenvolvimento rege-


nerativo é revelar um papel singular que seja capaz de
contribuir significativamente para a saúde do lugar em
questão.

Desta forma, temos projetos que se tornam indispen-


sáveis para a comunidade de vida local. Projetos que se
tornam legados e fonte de inspiração.

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FREAR É O PRIMEIRO PASSO

A sustentabilidade busca melhorias relativas. A per-


gunta é: como posso reduzir o meu impacto ambiental?

A resposta costuma vir acompanhada de números. É


possível reduzir 10% do consumo de energia, 25% do
consumo de água, 20% de resíduos...

A atenção está voltada para diminuir o ritmo com que de-


gradamos o planeta. Mas isso não impede o fim trágico.

Se estamos em um carro se movendo sentido a um


abismo, reduzir a velocidade com que ele se aproxima
não salvará os passageiros de um triste fim.

Mas, ao perceber a tragédia a nossa frente, reduzir a


velocidade é o primeiro passo para que se possa fazer
a curva com segurança.

A sustentabilidade nos ajuda a frear. Agora, precisa-


mos de um farol que nos ajude a fazer a curva no sen-
tido certo rumo a um mundo viável.

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AMARRANDO CONCEITOS
SOBRE REGENERAÇÃO

O primeiro passo para entender a regeneração é reco-


nhecer que a vida se organiza em sistemas aninhados,
ou seja, sistemas dentro de sistemas.

Depois é necessário compreender que cada organismo


vivo possui um potencial que surge a partir de suas ca-
racterísticas únicas, de sua essência.

Este potencial, quando trabalhado e revelado, nos in-


forma um papel regenerativo a ser desempenhado.
Este papel reflete uma atividade que permitirá com que
o projeto realize uma contribuição única para a saúde
e vitalidade do sistema maior em que ele está inserido.

Nesta dança opera o princípio da reciprocidade. Eu con-


tribuo para a saúde do sistema em que estou inserido
assim como este contribui diretamente para a minha
saúde e prosperidade.

Assim, uma iniciativa é regenerativa a medida em que


ela desempenha um papel capaz de contribuir para a
vitalidade do sistema em que está inserida.

Agora pergunte a si mesmo: qual a contribuição que


faço para o sistema a que pertenço?

29
SEJA A RESISTÊNCIA

Ser a resistência é se recusar a aceitar ou consentir


com hábitos, práticas e ideologias perigosas. É se lem-
brar de defender o óbvio e não normalizar o absurdo.

Ser a resistência é se opor à ideia de que o planeta e


todas as espécies servem às vontades dos seres hu-
manos. É desafiar o uso utilitarista da natureza e reco-
nhecer o direito de todos os seres à vida.

É rejeitar o consumismo e a ideia absurda de cresci-


mento industrial infinito. É se opor ao vício de poder,
ao assalto à democracia e à afronta aos direitos das
minorias.

Ser a resistência é se opor a objetificação da mulher,


ao racismo e à exploração de pessoas. É lutar por uma
sociedade de direitos básicos universais.

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É rechaçar duramente o lucro com as guerras, com as
doenças, com a fome e com os desastres. É ir contra o
oportunismo amoral da indústria armamentista, farma-
cêutica e de alimentos.

É se recusar a alimentar o jogo da intolerância, ignorân-


cia e violência. É não aceitar discursos de ódio e ata-
ques ao direito de existir.

Ser a resistência é, antes de mais nada, defender os


direitos humanos universais e os direitos da Terra. É se
posicionar e não fugir de conversas difíceis. É se ver no
outro e estar lá para o que é certo.

RESISTA.

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INSPIRARAM ESTE TRABALHO

Sem ordem particular e de diferentes for-


mas e intensidade: R. Buckminster Fuller,
Daniel C. Wahl, Fritjof Capra, Regenesis
Group, Carol Sanford, Charles Eisenstein,
Seth Godin, Stephen Sterling, Gregory
Bateson, Bill Mollison, John Hardman,
Otto Scharmer, Papa Francisco, Humber-
to Maturana, Francisco Varela, Leonardo
Boff, John Tillman Lyle, Yi-Fu Tuan, Ernst
Gotsch, David Orr, Joanna Macy, Geo-
ff Lawton, Henry David Thoreau e outros
que me escapam por hora.