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Falação e Fala (ismo)

Pois o berço, onde a boca pequenina

Abre o infante a sorrir, é a miniatura,

A vaga imagem de uma sepultura,

O gérmen vivo de uma atroz ruína?!

(Olavo Bilac)

Eis as plagas das pedaladas hermenêuticas e seus constantes desvios


falaciosos. Assim, nesta terra de Santa Cruz, carregamos uma pesada cruz, a do
argumento de autoridade, não vemos a autoridade de uma argumentação. Tudo é tese
para doutorado, escrevem-se algumas linhas e copiam-se trinta. Os curós de escribas
copistas.

Nestas terras, cansamos das distinções, das ponderações e demarcações. Aqui,


tudo se permite, thésis é physis, não importa a lógica das coisas, volta-se para os ditos
archais, fazem-se listagens, como de produtos, mas referentes às essências mesmas.
Reuni-se tudo em manuais esquematizados. Passamos Heidegger! Ensina há muito
tempo Duguit, “o edifício jurídico só tem valor enquanto síntese de fatos reais, enquanto
exprime uma realidade social, fundamento de uma regra de conduta ou de uma
instituição política. A construção jurídica do Estado perde seu valor se não expressa, em
fórmulas abstratas, realidades concretas”.

Eis as lições de tempos imemoráveis que, na ignorância de nossas teses,


olvidamos a experiência histórica de Terrae Brasilis, albergando pilares de outras terras.
SE se ainda adequássemos as discrepâncias epistemológicas, que tornam certos
institutos irrealizáveis na práxis do judiciário brasileiro avançaríamos inda mais. Há
que se levar em conta, como dito reiteradamente por autores conhecidíssimos o olhar o
direito sob o escopo da experiência histórica e axiológica das gentes.
O conhecimento comum, até de certos intelectuais, faz-se cristalizar o apego
aos argumentos vindos das tribunícias togas distantes do hebdomadário do brasileiro
mediano. Alertou-nos Paolo Grossi a esse respeito. No curso longínquo da história, eis
que surge a ação comunicativa, quase que recentemente. Fadada ao isomorfismo.
Maquiavel já falava das mudanças que nada mudam. Mas imperioso se afigura a
realidade, permanece-se em jihads partidárias de interesses que não do povo. O próprio
povo, muitas vezes, não quer nem saber de questões políticas, o conhecido fitar
bestializado aos acontecimentos no mundo fenomênico.

Passa-se mais um Sete de Setembro, entretanto, perde-se mais outra


oportunidade, a de pensar os rumos da nação brasileira. As coisas parecem inalteráveis,
difíceis de apreensão, mas aí está o desenvolver-se politicamente. Somos homens, não
porque nos agrupamos socialmente num organismo complexo de torrentes
diversificadas, mas porque discursamos e, discursamos sobre nós mesmos. Se não nos
dermos conta de nossa utilidade e instrumentos que aí estão, disponíveis para
intelectualmente alterar as coisas que se não mudam, que se afiguram nas formas
naturais, qual será nossa razão de ser pensante? Continuaremos agindo por estímulos
externos numa visão mecanicista de redução cognoscitiva e degenerescência racional?
Falando o dito, falando por falar, agindo por agir, sendo o que não se quer, sendo
mesmo assim, não querendo, o homem medíocre da modernidade líquida.

Viver é viver em crise, ora num estado, ora em outro. Somos enquanto aqui
estamos e enquanto lá não estamos. Na dialética das coisas sempre em algum lugar
estamos, crise de identidade é crise de racionalidade e falta de desconhecimento. Como
se já não bastassem nossos desvios cognitivos, decidimos criar mais ismos para falar,
falar e falar.

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