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Sem dúvida a melhor escritora americana do século xx

New York Review of Books

Contagioso como um vício lento


José Guardado Moreira, Expressa
Escritos ao longo de vários anos e alvo de constantes e
obsessivos aperfeiçoamentos.. os contos de «Tudo o que sobe
deve convergir- foram sendo publicados separadamente, valendo
à autora tris prémios O' Henry - o mais prestigiado prémio para
·contos dos Estados Unidos. Postumamente foram recolhidos, por
ordem de publicação. num llnico volume, considerado peta crCtica
como mais uma das obras-primas de Flannery O'Connor, e agora
pela primeira vez traduzidos em portug!Jis.

«{ ... )não é no enredo. ou na arquite.ctura narrativa, que pres-


sentimos à grandeza titerãrla de O'Connor. Éantes nos detalhes,
no desenho preciso das atmosferas e naextraerr:tinária capacidade
de caracterizar, com um mínimo de elementos, uma personagem.»
José Mãrü:! Silva, DN - suplemento 6•

«Apesar de ser muito duro e violento. é de uma violência que


promove a lucidez.»
Gonçalo M. Tavares, Visão

cO seu virtuosismo dá vértigens.»


José Toléntlno Mendonça, Público

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Tudo o que sobe
deve convergir
Flannery O'Connor
Tudo o que sobe
deve convergir

Prefácio e tradução do inglês

Clara Pinto Correia

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Tudo o que sobe deve convergir
Everything that rises must converge

Autor: Flannery O'Connor


Copyright© 1956, 1957, 1958, 1960, 1961, 1962, 1964, 1965
Copyright renovado em 1993 pelos pelos herdeiros de Mazy Flannezy O'Connor.

Tradução: Clara Pinto Correia

Revisão: Jorge David

Capa: Miss Sushie


Paginação: Gabinete Gráfico Cavalo de Ferro

!.• Edição, Novembro de 2006


Impressão e Acabamento: Offsetmais, S.A.
Depósito Legal: 267 404/07
ISBN: 978-989-623-069-2

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ÍNDICE

PREFÁCIO • • • • • • • • • • • . • . . • • • • • • • • • • • • • • • • • . • • • • • . 7

TODO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR • • • • • • • • • • • • • . . • . • • . • • 11

GREENLEAF • • . • • • • • • . • • • • • . • • • • • • • . • • • • • . . • • • • • • • 31

A VISTA DOS BOSQUES • . • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • . • • • • • • • 61

O CAIAFRIO PERMANENTE • • . • • • • • • • • • • • • • • • • • • . • • • • • . 89

OS CONFORTOS DO LAR • • • • . • . • • • • • • • . • • • • • . • • • • . • • • • 121

OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO • • • • • . . • • . • • • • • • • • • • • 147

REVELAÇÃO • • . . • • • • • • • • • • • . • • • • • • • • • • . • • • • • • • • • • 193

AS COSTAS DE PARKER • • • • • • • • • • • . • • • • • • • • • • • • • • • • • • 221

JUÍZO FINAL . • • • • • • • • • • . • • • • • • • • • • . • • • • • • . • . • • • • • 247


PREFÁCIO

UMA QUESTÃO RELIGIOSA

Em 1981 passei três semanas na Universidade do Kansas, pre­


cisamente em Lawrence, onde, um ano mais tarde, haveria de
ser instalado o cenário para o filme The Day After. Foi entre
Dezembro e Janeiro, e a neve acumulava-se nas ruas até meio
da altura dos postes de semáforo, cortada pelo limpa-vidros
num padrão cristalino por cima e barrento por baixo. Depois de
todo o frio que um biólogo pode sofrer num trabalho de campo
invernoso - sobretudo se, como era o meu caso, estiver mal
agasalhado pela estrita falta do hábito - Nova Orleães acaba
por cintilar ao longe como uma estrela balsâmica e tépida, onde
um negro toca saxofone numa esquina e vêm barcos grandes
de rodas gigantescas acostar aos portos. Comprámos o carro
maior e mais barato que conseguimos encontrar (uma carrinha
Volkswagen a cair de podre) e decidimos meter-nos à estrada a
caminho do Grande Sul.
São três dias de viagem através do Bible Beltln, e dormir
dentro daquele carro era tudo menos simples.
Até aparecerem os primeiros grandes pântanos do Mississipi,
com as placas de aviso «Verificar bem se não está um aligator

[!] Conglomerado de Estados no Sul e centro dos Estados Unidos onde os luteranos ortodo­
xos correspondem a cerca de 820/o da população e o texto bíblico é tomado com total serie­
dade como o paradigma a seguir no quotidiano.
8 ü ' CONNOR

no meio da estrada», parecíamos rodar no vazio sem nunca


sairmos do mesmo sítio : a toda a volta, para trás e para fren­
te, estendiam-se a perder de vista campos de cereais já ceifa­
dos e inteiriçados pelo gelo, quebrados ocasionalmente por
um armazém, uma garagem, ou um silo perdidos no meio da
paisagem. A certa altura, no que parecia ser o deserto total
do Inverno, a carrinha avariou-se.
Sondámos a paisagem com os binóculos (éramos biólogos)
e lá descobrimos, ao fundo de um rolamento longínquo de
colinas suaves, aquilo que parecia ser a chaminé de uma
grande habitação.
Já não me lembro como conseguimos fazer a carrinha che­
gar até lá, mas creio que foi a pulso.
A casa pertencia a uma herdade, com um único piso de
madeira pintada de bege que se prolongava para a esquerda
até ao que parecia ser o arco em zinco de uma vacaria e cres­
cia para a direita em direcção a uma arrecadação de forragem
e farinha para os animais. Estavam um tractor e uma retroes­
cavadora estacionados atrás, e um camião de caixa aberta,
baixo, robusto, de rodas grossas e carroceria pesada, parado
próximo do grande alpendre, abrigado debaixo da continua­
ção do telhado, onde se desenhavam a porta de entrada e duas
cadeiras de baloiço com ar de muito usadas. Assim que nos
aproximámos, saltaram da esquina, por debaixo do alpendre,
dois cães presos por uma corrente a um aro de alumínio.
Abriu-nos a porta uma família inteira de pessoas fortes com
bochechas rosadas. O p ai estava de jardineiras de ganga cober­
tas, na parte de cima, por um blusão de lã em quadrados ver­
melhos e pretos. A mãe, de pantufas calçadas por cima de
meias grossas, envergava um fato de treino vagamente alaran­
jado, com dizeres nas costas quase apagados pelas lavagens e
secagens ao sol. Seguiam-nos cinco filhos, numa escadinha de
alturas dos cem aos duzentos centímetros, todos tão parecidos
nos olhos cheios de pestanas, a centrar a cara ossuda de testa
larga, que se tomava difícil diferenciá-los uns dos outros.
Distinguiam-se três rapazes e duas raparigas. O Sol, pendu-
PREFÁCIO 9

rado em total imobilidade no céu quase transparente de


Janeiro, formava um disco de prata que lhes batia de frente·
no rosto campónio.
Os homens expuseram ao pai a questão da avaria, e ele
voltou para dentro depois de enfiar na boca uma pastilha
elástica. Reapareceu em poucos minutos, munido de cabos
grandes, uma caixa de ferramentas, uma lanterna e um esfre­
gão enorme, cheio de nódoas. Limitou-se a fazer um meneio
de cabeça aos meus colegas, e foi deitar-se sem mais hesita­
ções debaixo da nossa carrinha, com aquela prontidão e
segurança de movimentos que caracterizam as pessoas habi­
tuadas desde pequenas a resolverem sozinhas todos os pro­
blemas práticos que a vida lhes apresenta.
Na minha qualidade de única mulher do grupo, fiquei de
lado à conversa com a mãe. As crianças estavam ansiosas por
me apresentarem o seu animal de estimação, e trouxeram ao
colo um porquinho j ovem ainda suavemente cor-de-rosa, que
lhes lambia a cara e os dedos com uma devoção canina des­
mesurada, sobretudo para um suíno daquela idade. A mãe
quis saber de onde eu vinha, mas não conseguiu localizar
Portugal no seu mapa mental do mundo. De forma que pas­
sou de imediato à questão realmente interessante :
- Então e diga-me, honey, que religiões é que existem no
seu país, e qual delas. é a sua?
Bem-vindos ao estranho mundo de Flannery O'Connor.
Tudo isto existe precisamente no Sul dos Estados Unidos, ainda
que esteja cada vez menos à vista.
TUDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR

O médico tinha dito à mãe de Julian que ela devia emagrecer


dez quilos por causa da tensão arterial, por isso, às quartas à
noite, Julian tinha que acompanhá-la de autocarro ao centro
da cidade para uma aula de emagrecimento nas instalações
do YMCA. A aula de emagrecimento era destinada a mulhe­
res trabalhadoras com mais de cinquenta anos que pesassem
entre 80 e 100 quilos. A mãe dele era uma das mais magras,
mas as ditas senhoras não desvendavam a sua idade nem o
seu peso. Não andava sozinha à noite de autocarro desde a
altura em que brancos e negros tinham começado a andar
nos mesmos autocarros ; e, porque a aula de emagrecimento
era um dos seus poucos prazeres, necessária à sua saúde e de
graça, ela dizia que Julian podia pelo menos fazer o sacrifí­
cio de acompanhá-la, tendo em conta tudo quanto ela tinha
feito por ele. Julian não gostava de recordar tudo quanto ela
tinha feito por ele, mas todas as quartas à noite enchia-se de
coragem e acompanhava-a.
Ela estava quase pronta para sair, postada em frente do
espelho do vestíbulo, a colocar o chapéu, enquanto ele, com
as mãos atrás das costas, parecia pregado à moldura da porta,
aguardando, como São Sebastião, que as setas começassem a
trespassá-lo. O chapéu era novo e tinha-lhe custado sete
1 2 ü ' CONNOR

dólares e meio. Ela não parava de dizer, «Talvez não devesse


ter pago tanto por ele. Não, não devia. Vou tirá-lo e devolvê­
-lo amanhã. Não devia tê-lo comprado.»
Julian ergueu os olhos ao céu. «Claro que devia tê-lo com­
prado», disse. «Ponha-o na cabeça e vamos embora.» O chapéu
era horroroso. Uma aba de veludo púrpura dobrada para baixo
de um dos lados e dobrada para cima do outro ; o resto era
verde e parecia uma almofada com o enchimento por fora. Ele
achava que era mais vistoso e patético do que cómico. Tudo o
que lhe dava prazer a ela era medíocre e deprimia-o a ele.
Ela ergueu o chapéu mais uma vez e colocou-o lenta­
mente no cimo da cabeça. Duas asas de cabelo grisalho pro­
jectavam-se de cada lado da sua face corada, mas os seus
olhos, da cor do céu, eram ainda tão inocentes e intocáveis
pela experiência, tal como deveriam ter sido aos dez anos.
Não fosse ela uma viúva que tinha batalhado arduamente
para o alimentar, para o vestir e para o pôr a estudar e que
ainda o sustentava, «até que ele caminhasse pelos seus pró­
prios pés», poderia passar por uma rapariguinha que ele
tivesse que acompanhar à cidade.
«Está óptimo, está óptimo», disse Julian. «Vamos embora.»
Abriu ele próprio a porta e começou a descer o caminho para
a obrigar a sair. O céu apresentava-se de um tom violeta
esmorecido e as casas recortavam-se, escuras, contra ele,
monstruosidades bolbosas e cor de fígado de uma fealdade
uniforme embora não houvesse duas iguais. Como este bairro
tinha estado na moda há quarenta anos atrás, a mãe persis­
tia em pensar que eles tinham sorte em ter lá um aparta­
mento. Cada casa tinha um colar estreito de terra à sua volta
no qual se sentava, normalmente, uma criança suja. Julian
caminhou com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa e lançada
para a frente e os olhos velados pela determinação de se tor­
nar completamente insensível durante o tempo que seria
sacrificado ao prazer dela.
A porta fechou-se, ele voltou-se e deparou-se com a
figura baixa e rechonchuda, coroada pelo horrível chapéu,
TUDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 1 3

que se dirigia a ele. «Bem», disse ela, «SÓ s e vive uma vez e ao
pagar um pouco mais por ele, pelo menos não tenho com que
me envergonhar.»
«Um destes dias vou começar a ganhar dinheiro», disse
Julian sombriamente - ele sabia que isso nunca iria aconte­
cer - «e a mãe poderá ter uma dessas coisas ridículas sempre
que lhe apetecer.» Mas, antes, haviam de mudar de casa.
Imaginou um local onde os vizinhos mais chegados ficassem
a cinco quilómetros para cada lado.
«Acho que estás a sair-te bem», disse ela, calçando as
luvas. «Só acabaste a escola há um ano. Roma e Pavia não se
fizeram num dia.»
Ela era uma das poucas participantes na aula de emagreci­
mento do YMCA que chegava de chapéu e de luvas e que se
apresentava com um filho que tinha estudado na universi­
dade. «Leva tempo», disse ela, «e o mundo está uma desgraça.
Este chapéu ficava-me melhor do que qualquer dos outros,
embora quando a logista o trouxe eu tivesse dito, 'Volte a
guardar essa coisa. Nunca o poria na cabeça', e ela disse,
'Espere só até o ver posto', e quando ela mo colocou, eu disse,
'Bem ! ! !', e ela disse, 'Se quer saber a minha opinião, esse cha­
péu favorece-a a si e a senhora favorece o chapéu, e para
além do mais', arrematou, 'com esse chapéu, jamais se sen­
tirá envergonhada:»
Julian pensou que poderia ter suportado a sua sorte mais
facilmente se ela fosse egoísta, se fosse uma bruxa velha que
bebesse e lhe gritasse. Caminhava ao lado dela, saturado em
depressão, como se no meio do seu martírio ele tivesse perdido
a fé. Apercebendo-se da expressão dele, sombria, sem espe­
rança, irritada, ela parou bruscamente com um olhar aflito e
puxou-lhe o braço para trás. «Espera por mim», disse. «Vou a
casa tirar esta coisa e amanhã vou devolvê-lo. Eu não estava
em mim. Posso pagar a conta do gás com os sete e meio.»
Ele apertou-lhe o braço com muita força. «A mãe não vai
devolvê-lo», disse. «Eu gosto dele.»
«Bem», disse ela, «Não me parece que deva ... »
1 4 o ' CONNOR

«Cale-se e desfrute-o», murmurou, mais deprimido do que


nunca.
«Com o mundo na desgraça em que está», disse ela, «é um
milagre conseguir desfrutar sej a do que for. Estou-te a dizer,
o mundo está às avessas.»
Julian suspirou.
«Claro que», disse ela, «se tiveres consciência de quem és,
podes ir seja onde for.» Ela dizia isto de que cada vez que ele
a acompanhava à aula de emagrecimento. «A maior parte
deles não são o nosso tipo de gente», disse ela, «mas eu sei ser
delicada com toda a gente. Eu sei quem sou.»
«Eles estão-se nas tintas para a sua delicadeza», disse
Julian ferozmente. «Ter consciência de quem se é, só se aplica
a uma geração. A mãe não tem a mais pequena ideia de onde
está neste momento ou de quem é.»
Ela parou e lançou-lhe um olhar repentino. «Eu sei mui­
tíssimo bem quem sou», disse ela, «e se tu não sabes quem és,
envergonho-me de ti.»
«Que inferno», disse Julian.
«Ü teu bisavô foi um antigo governador deste Estado»,
disse ela. «0 teu avô foi um próspero proprietário rural. A tua
avó era uma Godhigh.»
«Olhe à sua volta», disse ele tenso, «e vej a onde está agora.»
E fez um gesto abrangente para indicar a vizinhança, que a
escuridão crescente tomava menos esquálida dentro dos limi­
tes do possível.
«Tu continuas a ser o que és», disse ela. «Ü teu bisavô
tinha uma plantação e duzentos escravos.»
«Já não há escravos», disse ele com irritação.
«Estavam bem melhor quando o eram», disse ela. Julian soltou
um gemido ao ver que a mãe estava lançada naquele assunto.
Entregava-se a ele com regularidade como um comboio em carris
desimpedidos. Ele conhecia cada apeadeiro, cada ramal, cada pân­
tano do trajecto, e sabia o ponto exacto em que a conclusão dela
entraria majestosamente na estação : «É ridículo. É simplesmente
irrealista. Deviam erguer-se, sim, mas do seu lado da cerca.»
TIJDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 1 5

«Vamos esquecer o assunto», disse Julian.


«Aqueles de quem eu tenho pena», disse ela, «são os que
são meio brancos. Esses são uns desgraçados.»
« É capaz de esquecer o assunto?»
«Imagina que éramos meio brancos. Sentir-nos-íamos cer­
tamente confusos.»
«Eu sinto-me confuso neste momento», gemeu ele.
«Bem, falemos de algo agradável», disse ela. «Eu lembro­
-me de ir a casa do avô quando era uma rapariguinha.
Naquela altura a casa tinha uma escadaria dupla que subia
até ao que era na realidade o segundo andar - os cozinhados
eram todos feitos no primeiro. Eu costumava gostar de ficar
em baixo na cozinha por causa do cheiro das paredes.
Sentava-me com o nariz esborrachado contra o estuque e
inspirava profundamente. Na realidade a casa pertencia aos
Godhighs mas o teu avô Chestny pagou o empréstimo e con­
servou-a para eles. Estavam reduzidos à pobreza», disse ela,
«mas, empobrecidos ou não, nunca esqueceram quem eram.»
«Sem dúvida que aquela mansão arruinada não os deixava
esquecerem-se», murmurou Julian. Nunca falava dela sem des­
prezo nem pensava nela sem saudades. Tinha-a visto uma vez
quando era criança antes de ser vendida. A escadaria dupla
tinha apodrecido e sido demolida. Era habitada por pretos. Mas
permanecia na sua cabeça como a mãe a tinha conhecido.
Aparecia nos seus sonhos com regularidade. Ele estava de pé
na varanda ampla, escutando o sussurro da folhagem dos car­
valhos, depois deambulava pelo vestíbulo de tectos altos até ao
salão, que abria para aquele, e olhava para as carpetes gastas
e para os cortinados desbotados. Ocorria-lhe que era ele, e não
ela, que a teria apreciado. Preferia a sua elegância puída a tudo
aquilo que ele pudesse nomear e era por causa dessa casa que
todos os bairros onde viveram depois foram um tormento para
ele - enquanto que ela mal tinha sentido a diferença. Ela cha­
mava à sua insensibilidade «adaptar-se».
«E eu lembro-me da velha escura que era a minha ama,
Caroline. Não havia melhor pessoa no mundo. Sempre nutri
1 6 o ' CONNOR

um grande respeito pelos meus amigos de cor», disse ela.


«Faria tudo no mundo por eles e eles ... »
« É capaz de mudar de assunto, pelo amor de Deus?», disse
Julian. Quando apanhava o autocarro sozinho, fazia questão
de se sentar ao lado de um preto, como que em reparação
pelos pecados da mãe.
«Estás muito sensível esta noite», disse ela. «Estás-te a sen­
tir bem?»
«Sim, sinto-me bem», disse ele. «Agora esqueça o assunto.»
Ela cerrou os lábios. «Bem, tu estás mesmo de péssimo
humor», observou ela. «Não vou dirigir-te mais a palavra.»
Tinham chegado à paragem. Não havia autocarro à vista
e Julian, ainda com as mãos enfiadas nos bolsos e a cabeça
lançada para a frente, fitava de mau humor o fundo da rua
deserta. A frustração de ter que esperar pelo autocarro, para
além de ter de andar nele, começou a arrepiá-lo pelo pescoço
acima como se fosse uma mão quente. A presença da mãe
foi-lhe recordada com brutalidade quando ela suspirou peno­
samente. Olhou para ela com frieza. Mantinha-se muito di­
reita sob o chapéu grotesco, usando-o como um estandarte da
sua dignidade imaginária. Habitava-o um impulso perverso
de lhe quebrar o ânimo. De repente afrouxou a gravata, tirou­
-a e colocou-a no bolso.
Ela ficou hirta. «Por que é que tens de ter esse aspecto
quando me acompanhas à cidade?», disse ela. «Por que é que
tens que me humilhar deliberadamente?»
«Se nunca vai aprender qual é o seu lugar», disse ele,
«pode pelo menos aprender onde eu me encontro.»
«Pareces um - rufia», disse ela.
«Então devo ser», murmurou ele.
«Volto para casa», disse ela. «Não vou incomodar-te. Se
não consegues fazer uma coisinha destas por mim ... »
Rolando os olhos, Julian voltou a pôr a gravata. «Reinte­
grado na minha classe», murmurou. Dirigiu a cara em direc­
ção a ela e sibilou, «A verdadeira cultura está na cabeça, na
cabeça», disse, e bateu na testa, «na cabeça.»
TUDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 1 7

«Está no coração», disse ela, «e na forma como fazes as


coisas, e a forma como fazes as coisas vem de quem tu és.»
«Ninguém no maldito autocarro quer saber quem a mãe é.»
«Eu quero saber quem sou», disse ela friamente.
O autocarro iluminado apareceu no cimo da colina mais
próxima e à medida que se aproximava, desceram o passeio
para se abeirarem dele. Ele colocou a mão debaixo do coto­
velo dela e içou-a para o degrau que rangia. Ela entrou com
um pequeno sorriso, como se estivesse a ingressar numa sala
de visitas onde todos a esperavam. Enquanto ele colocava as
fichas para pagar a viagem, ela sentou-se num dos bancos
compridos da frente, destinados a três pessoas, que estavam
voltados para o corredor. Uma mulher magra de dentes sa­
lientes e cabelo comprido amarelo estava sentada numa
extremidade. A mãe sentou-se ao lado dela e deixou espaço
para Julian ao seu lado. Ele sentou-se e olhou para o chão,
do outro lado do corredor, onde se encontrava um par de pés
magros numas sandálias vermelhas e brancas de lona.
A mãe iniciou imediatamente uma conversa geral, desti­
nada a atrair qualquer pessoa que quisesse falar. «Será que
pode ficar ainda mais quente?», disse, e retirou da mala um
leque de dobrar preto com uma cena japonesa, que começou
a agitar à sua frente.
«Acho que sim», disse a mulher com os dentes salientes,
«mas tenho a certeza de que o meu apartamento é que não
pode ficar mais quente.»
«Deve apanhar o sol da tarde», disse a mãe. Sentou-se na
ponta do banco e olhou para um e para o outro lado do auto­
carro. Estava semicheio. Todos os passageiros eram brancos.
«Estou a ver que temos o autocarro só para nós», disse. Julian
encolheu-se.
«Para variar», disse a mulher do outro lado do corredor, a
dona das sandálias vermelhas e brancas de lona. «Apanhei um
no outro dia e pareciam moscas - à frente, e até ao fundo.»
«0 mundo está uma desgraça por todo o lado», disse a mãe.
«Não sei como é que deixámos chegar as coisas a este ponto.»
1 8 o'CONNOR

«Ü que me irrita são todos aqueles rapazes de boas famí­


lias a roubar pneus de automóveis», disse a mulher de dentes
salientes. «Eu expliquei ao meu filho, disse-lhe tu podes não
ser rico mas foste criado da maneira certa e se eu te apanho
numa confusão dessas, podem mandar-te para o reformató­
rio. É exactamente onde pertences.»
«A educação fala por si», disse a mãe. «Ü seu filho está no
liceu?»
«No nono ano», disse a mulher.
«Ü meu filho acabou a universidade o ano passado. Quer
ser escritor, mas vende máquinas de escrever até se lançar na
escrita», disse a mãe.
A mulher inclinou-se para a frente e observou Julian. Ele
deitou-lhe um tal olhar malévolo que ela voltou a encostar­
-se no assento. No chão, do outro lado do corredor, estava um
jornal abandonado. Ele levantou-se, apanhou-o e abriu-o à
sua frente. A mãe continuou a conversa discretamente num
tom mais baixo, mas a mulher do outro lado do corredor
disse em voz alta: «Que bom. Vender máquinas de escrever é
parecido com escrever. O rapaz pode mudar directamente de
uma actividade para a outra.»
«Eu digo-lhe», disse a mãe, «que Roma e Pavia não se fize­
ram num dia.»
Por detrás do jornal, Julian estava a retirar-se para o com­
partimento interior da sua mente onde passava a maior parte
do tempo. Era uma espécie de bolha na qual ele se instalava
quando não suportava tomar parte no que se passava à sua
volta. A partir daí ele podia observar e julgar, mas, dentro
dele, estava a salvo de qualquer tipo de penetração do exte­
rior. Era o único sítio onde se sentia livre da idiotice geral dos
seus semelhantes. A mãe nunca lá tinha entrado - mas, a
partir dele, conseguia vê-la com absoluta claridade.
A velhota era suficientemente inteligente, e pareceu-lhe
que, se tivesse partido de algumas das premissas correctas,
poder-se-ia ter esperado mais· dela. Vivia de acordo com as
leis do seu mundo de fantasia, fora do qual ele nunca a tinha
TIJDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 1 9

visto pôr um pé. A lei desse mundo era sacrificar-se por ele
depois de ter anteriormente criado essa necessidade gerando
uma confusão. Tinha adquirido os seus sacrifícios apenas
porque a sua própria falta de perspicácia os tomara necessá­
rios. Toda a sua vida tinha sido uma luta para agir como uma
Chestny sem os bens dos Chestny, e proporcionar-lhe a ele
tudo o que ela pensava que um Chestny devia ter; mas já que,
dizia ela, era divertido lutar, porquê queixar-se? E quando se
vencia, como ela tinha vencido, que divertido era olhar para
os tempos difíceis ! Julian não conseguia perdoar-lhe o facto
de ela apreciar a luta, e muito menos o facto de pensar que
ela tinha vencido.
O que ela queria dizer quando afirmava que vencera era
que tinha conseguido educá-lo e enviá-lo para a universi­
dade, e que o resultado era tão positivo - ele era bem pare­
cido (os dentes dela tinham ficado com cáries para que os
dele pudessem ser endireitados), inteligente (ele tinha cons­
ciência de que era demasiado inteligente para ter sucesso), e
tinha um futuro à sua frente (claro que não havia futuro
algum à sua frente) . A mãe desculpava-lhe a melancolia jus­
tificando-a com o facto de ele estar ainda a crescer, e com as
suas ideias radicais que derivavam da falta de experiência
prática. Ela dizia que ele ainda não sabia nada sobre a <<vida»,
que ele não tinha sequer entrado no mundo real - quando,
na realidade, ele estava tão desencantado com o mundo real
como um homem de cinquenta anos.
A maior ironia de tudo isto era, apesar dela, ele ter con­
seguido sair-se tão bem. Apesar de ter andado numa univer­
sidade apenas de terceira categoria, tinha, por iniciativa pró­
pria, saído com uma educação de primeira. Apesar de ter
crescido dominado por uma mentalidade mesquinha, tinha
conseguido desenvolver uma mentalidade aberta. Apesar de
todas as opiniões idiotas que ela tinha, ele não tinha precon­
ceitos nem receio de enfrentar os factos. O mais extraordiná­
rio de tudo era que, em vez de estar cego pelo amor por ela,
como ela estava por ele, ele se tinha libertado dela a nível
20 o'CONNOR

emocional e conseguia vê-la com completa objectividade. Ele


não era dominado pela mãe.
O autocarro parou com um solavanco súbito e arrancou­
-o à sua meditação. Uma mulher vinda do fundo correu para
a frente com pequenos passos e por pouco não caiu por cima
do j ornal dele ao endireitar-se. A mulher desceu, e subiu um
preto de estatura considerável. Julian manteve o jornal em
baixo para observar. Dava-lhe uma certa satisfação ver a
injustiça a operar no dia a dia. Confirmava-lhe a o p inião de
que, salvo raras excepções, não havia ninguém que valesse a
pena conhecer num raio de quinhentos quilómetros. O preto
estava bem vestido e transportava uma pasta. Olhou em volta
e depois sentou-se na extremidade do assento onde estava a
mulher das sandálias de lona vermelhas e brancas. Desdobrou
imediatamente um j ornal e escondeu-se por trás dele. O coto­
velo da mãe de Julian começou imediatamente a bater-lhe
com insistência nas costelas. «Agora percebes porque é que
eu não ando sozinha nestes autocarros», sussurrou ela.
A mulher das sandálias de lona vermelhas e brancas
tinha-se levantado ao mesmo tempo que o preto se sentava e
dirigira-se mais para o fundo do autocarro e ocupado o lugar
da mulher que se apeara. A mãe dele inclinou-se para a frente
e lançou-lhe um olhar de aprovação.
Julian levantou-se, atravessou o corredor, e sentou-se no
lugar da mulher das sandálias de lona. Desta posição, olhou
serenamente para a mãe, do outro lado. A cara dela tinha
ficado de um vermelho irritado. Ele fitou-a, transformando os
seus olhos nos de um estranho. Sentiu a tensão desaparecer
de repente como se tivesse declarado guerra aberta à mãe.
Teria gostado de começar a conversar com o preto e de
falar com ele sobre arte ou política ou sobre qualquer outro
assunto que estivesse acima da compreensão dos que os
rodeavam, mas o homem permaneceu entrincheirado atrás do
seu jornal. Não dava importância à mudança de lugares, ou
nem sequer a tinha notado. Não havia forma de Julian trans­
mitir a sua simpatia.
TUDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 2 1

A mãe mantinha os olhos fixos na cara dele de forma


reprovadora. A mulher com os dentes salientes olhava para
ele avidamente como se o rapaz fosse uma espécie de mons­
tro desconhecida para ela.
«Tem lume?», perguntou ao preto.
Sem levantar o olhar do jornal, o homem procurou no
bolso e entregou-lhe um pacote de fósforos.
«Obrigado», disse Julian. Durante um momento segurou
nos fósforos de forma idiota. Um sinal de NÃ O FUMAR
olhava para ele em cima da porta. Só isto não teria sido sufi­
ciente para o demover; não tinha cigarros. Tinha deixado de
fumar uns meses antes porque não tinha dinheiro para com­
prar cigarros. «Desculpe», murmurou e voltou a entregar os
fósforos. O preto baixou o j ornal e lançou-lhe um olhar abor­
recido. Agarrou nos fósforos e voltou a levantar o jornal.
A mãe continuou a olhar para ele mas não se aproveitou
do seu desconforto momentâneo. Os olhos dela mantiveram
a mesma expressão ferida. A cara parecia estar anormalmente
vermelha, como se a sua tensão arterial tivesse subido. Julian
não deixou que qualquer traço de simpatia transparecesse no
seu semblante. Tendo conseguido alguma vantagem, queria
desesperadamente mantê-la e aprofundá-la. Gostaria de lhe
dar uma lição que lhe ficasse por uns tempos na memória,
mas não parecia haver maneira de levar a coisa mais para a
frente. O preto recusava-se a sair de detrás do jornal.
Julian dobrou os braços e olhou impassivelmente em
frente, encarando-a, mas como se não a visse, como se
tivesse deixado de reconhecer a existência dela. Imaginou
uma cena na qual, quando o autocarro chegasse à paragem
deles, ele permaneceria no lugar e quando ela dissesse, «Não
vais sair?», ele olharia para ela como se fosse uma estranha
que se lhe tinha dirigido impulsivamente. A esquina onde
desciam estava normalmente deserta, mas era bem iluminada
e não lhe faria mal caminhar sozinha ao longo dos quatro
quarteirões até ao YMCA. Ele decidiu esperar até que o
momento chegasse e depois resolver se a deixaria sair sozi-
2 2 o ' coNNOR

nha. Teria de estar no YMCA às dez para a trazer de volta,


mas poderia deixá-la na dúvida se iria ou não aparecer. Não
havia qualquer razão para ela pensar que podia sempre
depender dele.
Retirou-se novamente para o compartimento de tecto alto
escassamente mobilado com grandes peças de mobília antiga.
A sua alma distendeu-se momentaneamente mas depois
tomou consciência da mãe do outro lado do corredor e a
visão contraiu-se. Estudou-a friamente. Os pés dela dentro de
pequenas sabrinas oscilavam como os de uma criança e não
chegavam completamente ao chão. Ela ensaiava nele um
olhar de reprovação exagerada. Ele sentiu-se completamente
desligado. Naquele momento, poderia tê-la esbofeteado com
prazer, como teria feito a uma criança particularmente detes­
tável que estivesse a seu cargo.
Começou a imaginar diversas formas inverosímeis através
das quais pudesse dar-lhe uma lição. Poderia tomar-se amigo
de um distinto professor universitário ou de um advogado
preto e levá-lo para casa para passar o serão. Seria perfeita­
mente legítimo, mas a tensão arterial dela subiria até aos 300.
Não podia pressioná-la de tal forma que ela viesse a ter um
ataque e, para além disso, ele nunca tinha conseguido esta­
belecer amizade com negros. Tentara travar conhecimento no
autocarro com alguns dos de melhor aspecto, aqueles que
pareciam ser professores universitários ou sacerdotes ou
advogados. Uma manhã tinha-se sentado ao lado de um
homem de pele castanho escura com aspecto distinto que res­
pondera às perguntas dele com uma solenidade sonora mas
que era afinal um cangalheiro. Num outro dia, tinha-se sen­
tado ao lado de um preto que fumava charuto e tinha um
anel de diamantes no dedo ; mas, depois de algumas gracejos
fo rmais, o homem tocou a campainha e levantou-se,
enfiando dois bilhetes de lotaria na mão de Julian ao passar
por cima dele para sair.
Imaginava a mãe desesperadamente doente e ele a conse­
guir-lhe apenas um médico preto. B rincou com a ideia
TUDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 2 3

durante alguns minutos e depois deixou que fosse substituída


pela imagem momentânea de si próprio a participar como sim­
patizante numa ocupação. Isto era possível, mas ele não se
demorou na imagem. Em vez disso, abordou o derradeiro hor­
ror. Levava para casa uma linda mulher de aparência negróide.
Prepare-se, dizia. Quanto a isto, nada poderá fazer para impe­
dir. Não há nada que possa fazer acerca disto. Esta é a mulher
que escolhi. É inteligente, digna, mesmo bondosa, e sofreu e
não achou que isso fosse divertido. Agora atormente-nos, vá
atormente-nos. Expulse-a daqui, mas lembre-se, está a expul­
sar-me também a mim. Os olhos tinham-se-lhe estreitado ; e,
através da indignação que tinha gerado, viu a mãe do outro
lado do corredor, de cara arroxeada, reduzida às proporções de
pigmeu da sua natureza moral, sentada como uma múmia por
baixo do ridículo estandarte que era o seu chapéu.
Foi arrancado de novo à sua fantasia quando o autocarro
parou. A porta abriu-se com um sibilar de sucção e, saída da
escuridão, entrou com um rapazinho uma mulher de cor cor­
pulenta, de aspecto mal-humorado, vestida de forma garrida.
A criança, que devia ter uns quatro anos, trazia um fato curto
axadrezado e um chapéu tirolês com uma pena azul. Julian
desejou que ele se sentasse ao seu lado e que a mulher se
comprimisse ao lado da mãe. Não podia imaginar melhor
combinação.
Enquanto esperava pelas fichas, a mulher estudava os
lugares vazios - com a ideia, esperava ele, de se sentar onde
era menos desej ada. Havia qualquer coisa de familiar nela,
mas Julian não conseguia perceber o quê. A mulher era gi­
gantesca. O seu semblante estava determinado, não apenas a
responder ao antagonismo mas a procurá-lo. A inclinação do
seu enorme lábio inferior era como um sinal de aviso : NÃ O
SE METAM COMIGO. A sua figura protuberante estava encai­
xada num vestido de crepe verde e os pés transbordavam dos
sapatos vermelhos. Tinha um chapéu horrível. Uma aba de
veludo púrpura estava virada para baixo de um dos lados e
virada para cima do outro ; o resto era verde e parecia uma
24 ü 'CONNOR

almofada com o enchimento de fora. Tinha uma bolsa ver­


melha gigantesca que tinha saliências por todo o lado como
se estivesse cheia de pedras.
Para desapontamento de Julian, o rapazinho subiu para o
lugar vazio ao lado da mãe. A mãe englobava todas as crian­
ças, pretas ou brancas, na categoria comum de «queridos», e
achava que os pretinhos eram, de uma forma geral, mais que­
ridos que as criancinhas brancas. Sorriu ao menino quando
ele subiu para o assento.
Entretanto, a mulher caiu sobre o lugar vazio ao lado de
Julian. Para seu aborrecimento, encaixou-se nele. Viu a ex­
pressão da mãe mudar quando a mulher se instalou ao seu
lado, e percebeu com satisfação que isto era mais censurável
para ela do que para ele. A cara dela parecia quase cinzenta
e havia uma expressão de reconhecimento sombrio nos seus
olhos, como se de repente se tivesse sentido agoniada com a
perspectiva de um confronto terrivel. Julian apercebeu-se que
era porque ela e a mulher tinham, num determinado sentido,
trocado de filhos. Embora a mãe não tivesse consciência do
significado simbólico disto, senti-lo-ia. O deleite espelhava­
-se abertamente na cara dele.
A mulher a seu lado murmurou qualquer coisa incom­
preensível para si própria. Ele tinha consciência de que ela
estava como que a eriçar-se ao seu lado, rosnando silencio­
samente como um gato zangado. Não conseguia ver nada a
não ser a bolsa vermelha erguida sobre as protuberantes
coxas verdes. Visualizou a mulher no momento em que ela
tinha estado à espera das fichas - a figura imponente,
erguendo-se a partir dos sapatos vermelhos, passando pelas
ancas sólidas, o peito gigantesco, a face arrogante, até ao
chapéu verde e púrpura.
Os olhos dilataram-se-lhe.
A imagem dos dois chapéus, idênticos, abateu-se sobre ele
com o brilho de um nascer de sol radioso. A sua cara ficou
subitamente iluminada pelo gozo. Não podia acreditar que o
Destino tivesse lançado sobre a mãe uma tal lição. Deu uma
TUDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 2 5

gargalhada sonora d e forma a que ela olhasse para ele e visse


o que ele via. Ela virou lentamente os olhos na sua direcção.
O azul deles parecia ter-se transformado num roxo pisado.
Durante um momento, Julian teve a sensação desconfortável
de que ela estava inocente; mas isso durou apenas um segundo
antes da razão o salvar. A justiça dava-lhe o direito de rir.
O sorriso dele petrificou-se até lhe dizer tão claramente como
se o dissesse em voz alta: o seu castigo tem a medida exacta da
sua mesquinhez. Isto devia dar-lhe uma lição duradoura.
Os olhos dela deslocaram-se para a mulher. Parecia não
conseguir suportar olhar para ele e pensar que a mulher era
preferível. Julian tomou de novo consciência da presença
eriçada a seu lado. A mulher fazia ruídos surdos, como um
vulcão prestes a entrar em erupção. A boca da mãe começou
a tremer ligeiramente num dos cantos. Desanimado, ele viu
na cara dela sinais incipientes de recuperação, e apercebeu­
-se de que tudo aquilo ia acabar por lhe parecer apenas
cómico, e não lhe serviria minimamente de lição. Ela man­
teve os olhos na mulher, e um sorriso divertido espalhou-se­
lhe pela cara, como se a outra fosse um macaco que lhe
tivesse roubado o chapéu. O pretinho olhava para ela com
olhos grandes e fascinados. Estava há já algum tempo a ten­
tar chamar-lhe a atenção.
«Carver!», disse a mulher de repente. «Vem cá!»
Quando viu que as atenções recaíam finalmente sobre
ele, Carver encolheu os pés e voltou-se para a mãe de Julian
e riu-se. «Carver!», repetiu a mulher. «Estás a ouvir-me?
Vem cá ! »
Carver deslizou d o assento mas permaneceu d e cócoras
com as costas encostadas à sua base, com a cabeça virada
maliciosamente para a mãe de Julian, que lhe sorria. A mulher
esticou uma mão através do corredor e puxou-o para si. Ele
endireitou-se e recostou-se nos joelhos dela, sorrindo para a
mãe de Julian. «Não é tão querido?», disse a mãe de Julian à
mulher com os dentes salientes.
«Suponho que é», disse a mulher sem convicção.
2 6 ü 'CONNOR

A preta endireitou-o com um puxão, mas ele libertou-se


da mão dela e disparou pelo corredor e trepou, rindo a ban­
deiras despregadas, para o assento ao lado do seu amor.
«Acho que ele gosta de mim», disse a mãe de Julian, e sor­
riu para a mulher. Era o sorriso que usava quando queria ser
particularmente simpática para alguém inferior. Julian viu
tudo perdido. A lição tinha deslizado por cima dela como
chuva num telhado.
A mulher levantou-se e arrancou o rapazinho do assento
como se estivesse a protegê-lo de algum contágio. Julian
conseguia sentir a raiva dela por não possuir nenhuma arma
semelhante ao sorriso da mãe dele. Deu uma palmada com
força na perna da criança. Ele gritou uma vez e depois enfiou
a cabeça no estômago dela e pontapeou-a nas canelas.
«Porta-te bem», disse a preta grande com veemência.
O autocarro parou e o preto que tinha estado a ler o jor­
nal saiu. A mulher afastou-se para o lado e sentou o rapazi­
nho com um baque entre si e Julian. Agarrou-o firmemente
pelo joelho. Pouco depois, ele colocou as mãos à frente da
cara e espreitou a mãe de Julian através dos dedos.
«Eu vej o-teeeeeeeeeeeee !», disse ela e colocou a mão à
frente da cara e espreitou.
A mulher deu-lhe uma palmada para ele baixar a mão.
«Pára de fazer disparates», disse, «antes que eu te bata até
Jesus vivo te abandonar!»
Julian estava agradecido por a próxima paragem ser a
deles. Esticou-se e puxou a corda da campainha. A mulher
levantou-se e puxou-a ao mesmo tempo. Ó meu Deus, pensou
ele. Ele tinha a terrivel intuição de que, quando se apeassem
juntos, a mãe abriria a bolsa e daria uma moeda ao rapazinho.
O gesto ser-lhe-ia tão natural como respirar. O autocarro
parou e a mulher levantou-se e apressou-se a dirigir-se para a
frente, arrastando a criança, que queria permanecer no auto­
carro, atrás dela. Julian tentou libertar a mãe da bolsa.
«Não», murmurou, «quero dar uma moeda ao rapazinho.»
«Não !», sibilou Julian. «Não !»
nmo o QUE SOBE DEVE CONVERGIR 2 7

Ela sorriu para a criança e abriu a mala. A porta do auto­


carro abriu-se e a mulher pegou-lhe pelo braço e desceu, com
ele suspenso na anca. Uma vez na rua pousou-o e abanou-o.
A mãe de Julian teve que fechar a bolsa enquanto estava
a descer o degrau do autocarro ; mas, assim que os seus pés
tocaram no chão, voltou a abri-la e começou a procurar qual­
quer coisa lá dentro. «Não consigo encontrar senão um cên­
timo», sussurrou, «mas parece novo.»
«Não faça isso !», disse Julian ferozmente entre dentes.
Havia um candeeiro na esquina e ela apressou-se a dirigir-se
para lá para ver melhor o interior da bolsa. A mulher movia­
-se rapidamente pela rua abaixo com a criança pela mão,
ainda a arrastar-se atrás dela.
« Ó , rapazinho !», chamou a mãe de Julian e deu alguns
passos rápidos e alcançou-os logo a seguir ao candeeiro.
«Toma, um cêntimo novinho em folha para ti», e segurou na
moeda, que brilhava como bronze na luz fraca. A mulher
colossal voltou-se e durante um momento ficou ali, com os
ombros levantados e a cara congelada de raiva frustrada,
olhando para a mãe de Julian. Então, de repente, pareceu
explodir como uma máquina que tivesse recebido uma onça
de pressão a mais. Julian viu o punho preto afastar-se bran­
dindo a bolsa vermelha. Fechou os olhos e encolheu-se ao
ouvir a mulher gritar: «Ele não aceita cêntimos de ninguém !»
Quando abriu os olhos, a mulher desaparecia pela rua abaixo
com o rapazinho a olhar de olhos arregalados por cima do
ombro dela. A mãe de Julian estava sentada no passeio.
«Eu avisei-a para não fazer isso», disse Julian zangado.
«Avisei-a para não fazer isso !»
Ficou debruçado sobre ela durante um minuto, rangendo
os dentes. As pernas dela estavam estendidas à sua frente e
tinha o chapéu no colo. Ele agachou-se e encarou-a nos olhos.
O seu semblante estava completamente sem expressão. «Teve
exactamente o que merecia», disse ele. «Agora levante-se.»
Apanhou a bolsa e colocou lá dentro tudo o que tinha
caído. Apanhou o chapéu do colo dela. O cêntimo saltou-lhe
2 8 ü ' CONNOR

à vista no passeio, apanhou-o e deixou-o cair dentro da bolsa


diante dos olhos dela. Depois levantou-se, inclinou-se e
estendeu as mãos para a puxar para cima. Ela continuou sem
se mexer. Ele suspirou. Acima deles, de ambos os lados,
erguiam-se edifícios negros de apartamentos, marcados por
rectângulos irregulares de luz. Na extremidade do bloco um
homem saiu de uma porta e caminhou na direcção oposta.
«Muito bem», disse ele, «suponha que alguém passa e quer
saber porque está sentada no passeio?»
Ela agarrou na mão e, respirando com dificuldade, puxou­
-a com força e depois ficou de pé durante um momento, osci­
lando ligeiramente como se os pontos de luz na escuridão
girassem à sua volta. Os olhos, confusos e cheios de sombras,
fixaram-se finalmente na cara dele. O rapaz não tentou
esconder a irritação. «Espero que isto lhe sirva de lição»,
disse. Ela inclinou-se para a frente e os olhos percorreram-lhe
a cara. Parecia tentar determinar a identidade dele. Depois,
como se não encontrasse nele nada de familiar, começou a
andar apressadamente na direcção errada.
«Não vai para o YMCA?», perguntou Julian.
«Casa», murmurou ela.
«Bem, vamos a pé?»
Como resposta ela continuou a andar. Julian acompanhou­
-a, com as mãos atrás das costas. Não via razão para deixar
que a lição que ela tinha recebido passasse sem a corroborar
explicando-lhe o seu significado. Já agora podia fazer-lhe
entender o que lhe tinha acontecido. «Não pense que aquela
era apenas uma negra arrogante», disse. «Era toda a raça negra
que já não aceita os seus tostões condescendentes. Aquela era
a sua igual de raça negra. Ela pode usar um chapéu igual ao
seu, e, decididamente», acrescentou imerecidamente (porque
pensava que era cómico), «ficava-lhe melhor a ela do que a si.
O significado disto tudo», disse, «é que o mundo antigo desa­
pareceu. As práticas antigas são obsoletas e a sua benevolên­
cia não vale um chavo.» Recordou-se amargamente da mansão
que tinha perdido. «Não é quem pensa que é», disse.
TIJDO O QUE SOBE DEVE CONVERGIR 2 9

Ela continuou a marchar em frente, sem lhe dar qualquer


atenção. O seu cabelo estava solto de um dos lados. Deixou
cair a bolsa e não ligou. Ele inclinou-se, apanhou-a e entre­
gou-lha mas ela não a agarrou.
«Não precisa de agir como se o mundo tivesse chegado ao
fim», disse, «porque não chegou. A partir de agora vai ter que
viver num mundo novo e enfrentar algumas realidades para
variar. Anime-se», disse, «não vai morrer por causa disso.»
Ela tinha a respiração acelerada.
«Vamos esperar pelo autocarro», disse ele.
«Casa», proferiu ela com dificuldade.
«Detesto vê-la comportar-se dessa maneira», disse ele.
«Como uma criança. Eu devia poder esperar mais de si.»
Decidiu parar onde estava e fazê-la parar e esperar pelo auto­
carro. «Não ando mais», informou ele, parando. «Vamos de
autocarro.»
Ela continuou a andar como se não o tivesse ouvido. Ele
deu alguns passos e agarrou-lhe no braço. Olhou para a cara
dela e ficou sem respirar. Estava a olhar para uma cara que
nunca tinha visto antes. «Diz ao avô para me vir buscar», disse.
Ele fitou-a, tomado de pânico.
«Diz à Caroline para me vir buscar», acrescentou ela.
Atordoado, ele deixou-a ir e ela guinou para a frente de
novo, caminhando como se uma perna fosse mais curta que
a outra. Uma onda de trevas parecia arrastá-la afastando-a
dele. «Mãe !» gritou ele. «Querida, minha mãe querida, espere !»
Amarfanhada, ela caiu no pavimento. Ele deu uma corrida
e caiu a seu lado a chorar, «Mãezinha, Mãezinha ! » Virou-a.
A cara dela estava ferozmente distorcida. Um olho, enorme e
arregalado, moveu-se ligeiramente para a esquerda como se
tivesse sido desancorado. O outro permaneceu fixo nele, per­
correu-lhe a cara novamente, não encontrou nada e fechou-se.
<<Espere aqui, espere aqui !», gritou ele e ergueu-se num
salto e começou a correr para ir buscar ajuda em direcção a
um aglomerado de luzes que via na distância à sua frente.
«Socorro, socorro !», gritou, mas a sua voz era fraca, nada
30 ü ' CONNOR

mais que um fio de som. As luzes afastavam-se cada vez mais


à medida que ele corria e os seus pés moviam-se como se
estivessem entorpecidos e já não pudessem levá-lo a lado
algum. A onda de trevas parecia arrastá-lo novamente para
ela, adiando, a cada momento, a sua entrada no mundo da
culpa e da dor.
GREENLEAF

A janela do quarto de Mrs. May era baixa, virada a leste, e o


touro, prateado ao luar, encontrava-se por baixo dela, com a
cabeça levantada como se tentasse distinguir - qual deus
paciente, vindo ali de propósito para cortejá-la - um movimento
dentro do quarto. A janela estava escura e o som da respiração
dela era demasiado ténue para passar para o exterior. As nuvens
encobriram a Lua e ocultaram-no e no escuro ele começou a
arrancar a sebe. Pouco depois, as nuvens afastaram-se e ele rea­
pareceu no mesmo lugar, mastigando sem cessar, com uma gri­
nalda de sebe, que tinha arrancado para si próprio, enredada nas
pontas dos cornos. Quando a Lua deslizou novamente para o seu
esconderijo, nada mais assinalava o local onde ele se encontrava
a não ser o som constante do mastigar. Então, repentinamente,
um brilho rosado encheu a janela. Várias barras de luz desliza­
ram transversalmente sobre o animal quando a veneziana se
abriu. Ele recuou um passo e baixou a cabeça, como que para
mostrar a grinalda atravessada nos cornos.
Durante quase um minuto, não houve qualquer ruído
vindo do interior. Depois, quando ele ergueu de novo a sua
cabeça coroada, uma voz gutural de mulher, como quem se
dirige a um cão, disse, «Sai daqui, garanhão !», e um segundo
depois murmurou, «Um touro miserável de uns pretos.»
3 2 ü 'CONNOR

O animal escavou o chão e Mrs. May, de pé e inclinada


para a frente por detrás da persiana, fechou-a rapidamente
com receio que a luz o fizesse arremeter contra o arbusto.
Aguardou durante um segundo, ainda inclinada para a frente,
a camisa de dormir pendendo solta dos seus ombros estreitos.
Os rolos verdes de borracha apareciam muito direitos por
cima da sua testa, e a cara por baixo deles era lisa como
cimento, barrada profusamente com uma pasta feita de cla­
ras que lhe eliminava as rugas enquanto ela dormia.
Durante o sono, tivera a percepção de um mastigar rítmico
e constante, como se alguma coisa estivesse a devorar uma
parede da casa. Apercebera-se de que, o que quer que fosse,
tinha estado a alimentar-se desde que ela era proprietária do
sítio e tinha devorado tudo desde o início da sebe até à casa e
agora estava a devorar a casa, e calmamente, ao mesmo ritmo
constante, continuaria pela casa fora, devorando-a a ela e aos
filhos, e depois prosseguiria, devorando tudo excepto os
Greenleafs, e avançaria sempre, devorando tudo até não
haver mais nada a não ser os Greenleafs numa ilha pequena
toda sua no centro daquilo que tinha sido a propriedade dela.
Quando o mastigar lhe chegou ao cotovelo, ela deu um salto
e tomou consciência que estava de pé, completamente des­
perta, no meio do quarto. Identificou o som de imediato : uma
vaca estava a arrancar os arbustos por baixo da sua janela.
Mr. Greenleaf deixara o portão da azinhaga aberto e ela não
duvídava de que a manada inteira se encontrava agora no
seu relvado. Acendeu a luz fraca do candeeiro rosa da mesi­
nha de cabeceira e depois dirigiu-se à j anela e abriu a per­
siana. O touro, esquelético e de pernas compridas, encon­
trava-se a cerca de cento e vínte metros dela, mastigando
calmamente como um pretendente boçal do campo.
Durante quinze anos, pensou ela enquanto o fitava com
agressivídade, de olhos semicerrados, tinha suportado os por­
cos de gente néscia a desenterrarem-lhe a aveia, as mulas
deles a espoj arem-se no seu relvado, os seus touros esquelé­
ticos a cobrirem-lhe as vacas. Se este não fosse travado ime-
GREENLEAF 3 3

diatamente, transporia a sebe e arruinar-lhe-ia a manada


antes da manhã - e Mr. Greenleaf dormia profundamente
oitocentos metros mais abaixo, na casa do caseiro. Não havia
forma de contactá-lo a não ser que ela se vestisse, entrasse no
carro, guiasse estrada abaixo e o acordasse. Ele viria, mas a
sua expressão, todo o seu ar, cada pausa sua diriam : «Parece­
-me que um ou ambos dos seus rapazes não fariam a mãe
guiar até cá a meio da noite. Se fossem os meus rapazes, eles
próprios teriam apanhado aquele touro.»
O touro baixou e abanou a cabeça e a grinalda escorregou
para a base dos cornos onde se assemelhava a uma coroa de
espinhos ameaçadora. Ela tinha fechado a persiana nessa
altura ; alguns segundos depois ouviu-o afastar-se pesada­
mente.
Mr. Greenleaf diria : «Üs meus filhos nunca teriam permi­
tido que a mãe deles fosse chamar um empregado a meio da
noite. Eles próprios o teriam feito.»
Pesando o assunto, decidiu não incomodar Mr. Greenleaf.
Voltou para a cama pensando que se os rapazes Greenleaf
tinham subido na vida tal se devia ao facto de ela ter dado
emprego ao pai quando mais ninguém o aceitava. Ela tinha
aturado Mr. Greenleaf durante quinze anos, mas mais nin­
guém o aturaria sequer cinco minutos. Só a forma como ele
se aproximava de um obj ecto era suficiente para mostrar a
qualquer pessoa com olhos de ver o tipo de trabalhador era.
Caminhava com os ombros levantados sub-repticiamente, e
nunca parecia mover-se em linha recta. Seguia sempre o perí­
metro de um círculo invisível, e quem quisesse olhá-lo cara a
cara, tinha que se deslocar e postar-se à sua frente. Ela não o
despedia porque sempre duvidara de que ele conseguisse uma
posição melhor. Era demasiado preguiçoso para ir à procura
de outro emprego ; não tinha iniciativa para roubar - e vá,
depois de ela o ter mandado fazer uma coisa três ou quatro
vezes, ele acabava por fazê-la ; mas nunca a informava de que
uma vaca estava doente até ser demasiado tarde para chamar
o veterinário ; e, se o celeiro se incendiasse, ele chamaria a
34 o ' CONNOR

mulher para ver as chamas antes de começar a apagá-las.


E da mulher, ela nem gostava de lembrar-se. Comparado com
a mulher, Mr. Greenleaf era um aristocrata.
«Se fossem os meus rapazes», diria, «eles teriam cortado o
braço direito antes de deixarem que a mãe fosse ... »
«Se os seus rapazes tivessem algum orgulho, Mr.
Greenleaf», gostaria ela de dizer-lhe um dia, «havia muitas
coisas que eles não deixariam a mãe fazer.»

Na manhã seguinte, logo que Mr. Greenleaf apareceu à


porta das traseiras, ela disse-lhe que havia um touro à solta na
propriedade e que ela o queria dentro da cerca de imediato.
«lá cá anda há três dias», disse ele, dirigindo-se ao seu pé
direito, que estava estendido, ligeiramente de lado, como se
tentasse olhar para a sola. Pusera-se de pé ao fundo dos três
degraus das traseiras enquanto ela se debruçava da janela da
cozinha, uma mulherzinha de olhos míopes pálidos, e um
cabelo grisalho que se erguia no alto da cabeça como a poupa
de um pássaro importunado.
«Três dias !», disse ela no guincho contido que se lhe tinha
tomado habitual.
Mr. Greenleaf, olhando para a distância por cima da pas­
tagem mais próxima, retirou um maço de cigarros do bolso
da camisa e deixou cair um na mão. Voltou a guardar o maço
e ficou durante um bocado a olhar para o cigarro. «Eu meti­
-o na cerca dos touros mas ele soltou-se de lá», disse ele daí
a pouco. «Não o vi mais depois disso.»
Inclinou-se sobre o cigarro, acendeu-o e depois virou a
cabeça durante um momento na direcção dela. A parte supe­
rior da cara dele descia gradualmente para a inferior que era
comprida e estreita, com a forma de um cálice grosseiro.
Tinha olhos encovados cor de raposa sombreados por um
chapéu de feltro cinzento que usava inclinado para a frente
seguindo a linha do nariz. A sua compleição era insignifi­
cante.
GREENLEAF 3 5

«Mr. Greenleaf», disse ela, «prenda esse touro hoje d e manhã


antes de fazer sej a o que for. Sabe muito bem que assim ele
vai arruinar o plano da cobrição. Prenda-o e mantenha-o
preso e da próxima vez que houver um touro à solta por cá,
avise-me logo. Está a perceber?»
«Onde é que quer que o ponha?», perguntou Mr. Greenleaf.
«Não me interessa onde o põe», disse ela. «Você deveria ter
algum bom senso, supostamente. Ponha-o num sítio de onde
ele não consiga sair. De quem é o touro?»
Durante um momento Mr. Greenleaf pareceu hesitar entre
o silêncio e a palavra. Estudou o ar à sua esquerda. «Deve
pertencer a alguém», disse após algum tempo.
«Ah, pois deve !», disse ela e fechou a porta com um ruído
preciso.
Entrou na sala de jantar, onde os dois rapazes estavam a
tomar o pequeno-almoço, e sentou-se na beira da cadeira à cabe­
ceira da mesa. Nunca tomava o pequeno-almoço, mas sentava­
-se com eles para se assegurar de que tinham tudo o que preci­
savam. «Francamente!», disse, e começou a contar-lhes do touro,
imitando Mr. Greenleaf a dizer, <<Deve pertencer a alguém.»
Wesley continuou a ler o jornal dobrado ao lado do prato,
mas Scofield deixava de comer de vez em quando para olhar
para ela e rir-se. Os dois rapazes nunca reagiam da mesma
maneira a nada. Eram tão diferentes, dizia ela, como a noite
do dia. A única coisa que tinham em comum era que nenhum
deles se interessava por aquilo que acontecia na propriedade.
Scofield era do tipo comercial e Wesley era um intelectual.
Wesley, o filho mais novo, tivera febre reumática aos sete
anos e Mrs. May pensava que esse fora o factor determinante
para a sua evolução no sentido intelectual. Scofield, que
nunca tinha estado doente um dia sequer na vida, era agente
de seguros. Ela não se teria importado com uma profissão
destas se ele vendesse seguros melhores, mas ele vendia o
tipo de seguros que só os pretos compravam. Era aquilo a que
os pretos chamavam um «homem das apólices». Scofield dizia
que havia mais dinheiro nos seguros dos pretos do que em
3 6 O ' CONNOR

qualquer outro seguro, e insistia muito no assunto. Gritava


«A mãe não gosta de me ouvir dizer isto, mas eu sou o melhor
agente de seguros para pretos desta comarca !»
Scofield tinha trinta e seis anos, uma cara larga agradável
e sorridente mas não era casado. «Pois», dizia Mrs. May, «e se
tu vendesses seguros decentes, alguma rapariga simpática
estaria disposta a casar contigo. Qual é a rapariga simpática
que quer casar com um homem que vende seguros aos pre­
tos? Um dia quando acordares será tarde demais.»
Nestas alturas Scofield assobiava e dizia, «Mas mãezinha,
não vou casar-me antes que você morra e esteja enterrada, e
nessa altura hei-de casar-me com uma camponesa gorda e sim­
pática que possa tomar conta deste sítio !» E uma vez até acres­
centou, « - uma senhora simpática como a Mrs. Greenleaf.»
Quando ouviu o filho dizer isto, Mrs. May levantou-se da ca­
deira, com as costas tão direitas como o cabo de um ancinho,
e foi para o quarto. Sentou-se na beira da cama durante
algum tempo, com a cara abatida de morte. Por fim, murmu­
rou, «Eu mato-me a trabalhar, eu labuto e suo para conservar
este sítio para eles, e assim que eu morrer, eles hão-de casar
com mulheres ordinárias e vão trazê-las para cá e destruir
tudo. Hão-de casar com mulheres ordinárias e destruir tudo o
que eu construí !», e nesse preciso instante resolveu modificar
o testamento. No dia seguinte foi ao advogado e tratou de tor­
nar a propriedade uma herança inalienável para que, se eles
casassem, não pudessem deixá-la às esposas.
A ideia de que um deles pudesse casar com uma mulher
semelhante, ainda que remotamente, a Mrs. Greenleaf, era
suficiente para deixá-la doente. Tinha aturado Mrs. Greenleaf
durante quinze anos, mas a única forma de suportar a mulher
dele tinha sido mantendo-se completamente longe dela. Mrs.
Greenleaf era grande e desmazelada. O quintal à volta da sua
casa parecia uma estrumeira e as suas cinco filhas andavam
sempre sujas ; mesmo a mais nova cheirava rapé. Em vez de
amanhar uma horta ou lavar a roupa, a sua preocupação era
aquilo que ela chamava «a cura através da oração».
GREENLEAF J 7

Recortava meticulosamente todas as histórias mórbidas do


j ornal - os relatos de mulheres que tinham sido violadas e de
criminosos que tinham fugido e de crianças que se tinham
queimado e de descarrilamentos de comboios e de quedas de
aviões e de divórcios de estrelas de cinema. Levava estas
notícias para a mata, cavava um buraco e enterrava-as, e a
seguir deixava-se cair no chão sobre elas, murmurava e
gemia durante cerca de uma hora movendo os braços enor­
mes para a frente e para trás, por baixo de si e para fora
novamente ; por fim, deixando-se ficar estendida, assim sus­
peitava Mrs. May, adormecia sobre a terra.
Mrs. May só descobrira este hábito alguns meses depois
dos Greenleafs começarem a trabalhar para ela. Saiu uma
manhã para inspeccionar um campo que ela queria semeado
com centeio mas que tinha aparecido semeado de trevo por­
que Mr. Greenleaf tinha utilizado as sementes erradas na
máquina de semear. Regressava a casa por uma vereda arbo­
rizada que separava duas pastagens, murmurando para si
mesma e batendo no chão metodicamente com uma vara
comprida que transportava para o caso de encontrar uma
cobra. «Mr. Greenleaf», ia dizendo em voz baixa, «eu não
posso dar-me ao luxo de pagar os seus erros. Sou uma mulher
pobre e este sítio é tudo o que tenho. Tenho dois filhos para
educar. Não posso ... »
Vinda não se sabia de onde, uma voz gutural e agonizada
gemia, «Jesus ! Jesus !» Um segundo depois surgia novamente,
com uma urgência terrível. «Jesus ! Jesus !»
Mrs. May imobilizou-se, com uma das mãos erguida até à
garganta. O som era tão estridente que se sentiu como se uma
força libertada violentamente tivesse brotado do chão e arre­
metesse contra ela. O seu segundo pensamento foi mais
razoável : alguém se ferira na sua propriedade e agora, claro,
iria processá-la, tirando-lhe tudo o que possuía. Nem sequer
tinha seguro. Apressou-se a seguir caminho, e, ao virar numa
curva, viu Mrs. Greenleaf esparramada sobre as mãos e os
joelhos ao lado da estrada, com a cabeça para baixo.
3 8 o 'coNNoR

«Mrs. Greenleaf!», gritou, «O que aconteceu?»


Mrs. Greenleaf ergueu a cabeça. O seu semblante era uma
manta de retalhos feita de suj idade e de lágrimas e os seus
olhos pequenos, da cor de duas ervilhas do campo, estavam
aureolados de vermelho e inchados, mas a sua expressão era
tão calma como a de um buldogue. Oscilava para trás e para
a frente sobre as mãos e os joelhos e gemia : «Jesus ! Jesus !»
Mrs. May estremeceu. Achava que a palavra, Jesus, devia
ser mantida no interior da igreja como outras palavras dentro
do quarto. Era uma boa cristã e tinha muito respeito pela reli­
gião, embora não acreditasse, claro, que tudo aquilo fosse ver­
dade. «0 que é que se passa consigo?», perguntou com rispidez.
«Você interrompeu a minha cura», respondeu Mrs. Greenleaf,
fazendo-lhe um gesto para ela se afastar. «Não posso falar
consigo até acabar.»
Mrs. May ficou parada, inclinada para a frente, com a
boca aberta e a vara erguida do chão como se não estivesse
certa do que queria atingir com ela.
«Oh, Jesus, apunhala-me o coração !», gritou Mrs. Greenleaf.
cdesus, apunhala-me o coração !», e caiu de novo desamparada
na terra, um enorme montículo humano, as pernas e os braços
estendidos como se estivesse a tentar cingir o mundo.
Mrs. May sentiu-se tão furiosa e desamparada como se
tivesse sido insultada por uma criança. «Jesus», disse,
recuando, «teria vergonha de si. Ele dir-lhe-ia para se levan­
tar daí imediatamente e para ir lavar a roupa suj a dos seus
filhos !» Voltou-se e afastou-se o mais rapidamente possível.
Sempre que pensava como os rapazes Greenleaf tinham
progredido no mundo, só tinha que se lembrar de Mrs.
Greenleaf obscenamente esparramada no chão, e dizer para si
própria: «Bem, não interessa a distância que irão percorrer,
vieram daquilo.»
Gostaria de ter podido estipular no seu testamento que,
quando morresse, Wesley e Scofield não deveriam continuar
a dar emprego a Mr. Greenleaf. Ela era capaz de controlar Mr.
Greenleaf; eles não. Mr. Greenleaf tinha-lhe chamado uma
GREENLEAF 3 9

vez a atenção para o facto d e os filhos dela não saberem dis­


tinguir feno de silagem. Ela tinha-lhe chamado a atenção
para o facto de eles terem outros talentos, para o facto de
Scofield ser um homem de negócios de sucesso e de Wesley
ser um intelectual de sucesso. Mr. Greenleaf não fizera
comentários, mas nunca perdia uma oportunidade de lhe
mostrar através da sua expressão, ou de um gesto simples,
que os considerava aos dois infinitamente desprezíveis. Por
mais infra-humanos que os Greenleafs fossem, ele nunca
hesitava em dar-lhe a entender que em qualquer circunstân­
cia semelhante em que os filhos dele pudessem estar envol­
vidos, eles - O. T. e E. T. Greenleaf - agiriam melhor.
Os rapazes Greenleaf eram dois ou três anos mais novos
que os dos May. Eram gémeos e nunca se sabia quando se
estava a falar com o O. T. ou com o E. T., e nunca tinham a
gentileza de o elucidar. Tinham pernas longas, pareciam não
ter carne sobre os ossos e tinham a pele vermelha, os olhos
eram iluminados e inteligentes, da cor das raposas como os
do seu pai. O orgulho de Mr. Greenleaf neles começava pelo
facto de serem gémeos. Ele agia, dizia Mrs. May, como se
aquilo fosse algo esperto que eles mesmos tinham planeado.
Eram enérgicos e trabalhadores e ela admitia perante qual­
quer pessoa que eles tinham evoluído muito - e que a
Segunda Guerra Mundial era responsável pela sua ascensão.
Ambos se tinham alistado. Camuflados com a farda, não se
distinguiam dos filhos das outras pessoas. Percebia-se, claro,
quando abriam a boca ; mas faziam-no raramente. A coisa
mais inteligente da vida deles era terem sido enviados para lá
do oceano e aí terem casado com mulheres francesas. Nem
sequer se tinham casado com francesas ordinárias. Casaram
com boas raparigas, que, naturalmente, não tinham consciên­
cia de que eles assassinavam a língua inglesa ou de que os
Greenleafs eram quem eram.
A condição cardíaca de Wesley não lhe permitira servir o
seu país, mas Scofield ainda estivera no exército durante dois
anos. Não se tinha interessado pela carreira e, no final do seu
40 O ' CONNOR

serviço militar, era apenas um soldado de primeira classe. Os


rapazes Greenleaf eram ambos uma espécie de sargentos, e
Mr. Greenleaf, nessa altura, nunca perdia uma oportunidade
de referir o seu posto. Ambos tinham conseguido ser feridos,
pelo que agora ambos recebiam pensões. Para além disso,
assim que tinham passado ao estado civil, tinham-se apro­
veitado de todos os benefícios e frequentado o curso de agri­
cultura na universidade - ficando entretanto os contribuintes
a sustentar as suas esposas francesas. Ambos viviam agora a
cerca de três quilómetros, seguindo pela auto-estrada, num
pedaço de terreno que o governo os tinha ajudado a adquirir,
num bangaló duplex de tijolo que o governo tinha ajudado a
construir e a pagar. Se a guerra tinha criado alguém, dizia
Mrs. May, tinham sido os rapazes Greenleaf. Cada um deles
tivera três criancinhas, e todas elas falavam inglês e francês
- e, por causa do legado das mães, seriam enviadas para a
escola do convento e educadas com maneiras. «E dentro de
vinte anos», perguntava Mrs. May a Scofield e a Wesley,
«sabem o que aquelas pessoas serão?»
«Alta Sociedade», dizia ela sombriamente.
Tinha passado quinze anos a aturar Mr. Greenleaf e, neste
momento, lidar com ele já era para ela uma espécie de
segunda natureza. A disposição dele em cada dia era um fac­
tor tão importante como o clima para aquilo que se conse­
guia ou não fazer na propriedade, e ela já sabia interpretar a
expressão dele da mesma forma que os camponeses genuínos
interpretam o nascer e o pôr-do-sol.
Ela era uma mulher do campo apenas por convicção.
O falecido Mr. May, um homem de negócios, tinha comprado
a propriedade quando o valor da terra estava em baixa, e
quando morreu era tudo o que tinha para lhe deixar. Os rapa­
zes não tinham ficado satisfeitos por terem que se mudar para
uma quinta arruinada no campo, mas ela não tivera outra
solução. Mandou cortar a lenha da propriedade e com os ren­
dimentos estabeleceu-se no negócio dos lacticínios depois de
Mr. Greenleaf ter respondido ao seu anúncio. «Vi seu anún-
GREENLEAF 4 1

cio e irei pois tenho dois rapazes», era tudo o que a carta
dizia, mas ele chegou no dia seguinte numa carrinha mon­
tada com peças díspares, a mulher e as cinco filhas sentadas
no chão da parte de trás, ele e os dois rapazes na cabina.
Ao longo dos anos em que tinham vivido na sua propriedade,
Mr. e Mrs. Greenleaf quase não envelheceram. Não tinham preo­
cupações, nem responsabilidades. Viviam como os lírios do
campo, do sustento que ela lutava para pôr na terra. Quando ela
estivesse morta e enterrada por causa do trabalho excessivo e
das preocupações, os Greenleafs, saudáveis e prósperos, estariam
prontos para começar a explorar Scofield e Wesley.
Wesley dizia que a razão pela qual Mrs. Greenleaf não tinha
envelhecido era porque libertava todas as suas emoções na cura
através da oração. «Devia começar a rezar, querida», insinuou ele.
Scofield apenas a irritava para além do suportável, mas
Wesley causava-lhe uma verdadeira ansiedade. Era magro,
nervoso e careca, e o facto de ser intelectual exercia uma pres­
são terrivel no seu temperamento. Duvidava que ele viesse a
casar antes de ela morrer mas estava certa de que nessa altura
a mulher errada o caçaria. As raparigas simpáticas não gos­
tavam de Scofield, mas Wesley não gostava de raparigas sim­
páticas. Não gostava de nada. Guiava trinta quilómetros
todos os dias até à universidade onde leccionava e trinta qui­
lómetros de regresso todas as noites, mas dizia que detestava
a viagem de trinta quilómetros e que detestava a universi­
dade de segunda categoria e que detestava os mentecaptos
que lá estudavam. Detestava o país e detestava a vida que
levava ; detestava viver com a mãe e com o idiota do irmão e
detestava ouvir falar da maldita vacaria e do maldito empre­
gado e das malditas máquinas avariadas. Mas apesar de tudo
o que dizia, nunca tomava qualquer iniciativa para partir.
Falava de Paris e de Roma, mas nunca ia sequer até Atlanta.
«Se fosses a esses sítios ias adoecer», dizia Mrs. May.
«Quem é que em Paris se vai preocupar em te preparar uma
dieta sem sal? E achas que se te casasses com uma dessas
aves raras com quem sais ela te cozinharia pratos sem sal?
42 o ' CONNOR

Não, de certeza que não o faria !» Sempre que ela enveredava


por este caminho, Wesley voltava-se com azedume na cadeira
e ignorava-a. Uma ocasião, quando ela tinha insistido bas­
tante no assunto, ele tinha dito de forma áspera, «Bem, por­
que é que não faz qualquer coisa prática, mulher? Porque é
que não reza por mim como Mrs. Greenleaf faria?»
«Não gosto de vos ouvir a brincar com a religião, rapazes»,
tinha ela dito. «Se fossem à igreja, conheceriam raparigas
simpáticas.»
Mas era impossível dizer-lhes alguma coisa. Ao olhar para os
dois agora, sentados um de cada lado da mesa, nenhum deles se
importando absolutamente nada com a ideia de que um touro per­
dido podia arruinar-lhe a manada - que era a manada deles, o
futuro deles - ao olhar para os dois, um CUIVado sobre um jornal
e o outro balançando a cadeira para trás, sorrindo-lhe como um
idiota, apetecia-lhe levantar-se de um salto e bater com o punho
na mesa e gritar: «Vocês vão descobrir um destes dias, vocês vão
descobrir o que é a Realidade quando for tarde de mais !»
«Mãe», disse Scofield, «agora não se zangue mas eu digo­
-lhe de quem é esse touro.» Olhava para ela perversamente.
Deixou a cadeira cair para a frente e levantou-se. Depois, com
os ombros curvados e as mãos levantadas a cobrir a cabeça,
dirigiu-se para a porta em bicos de pés. Recuou até ao vestí­
bulo e puxou a porta até quase esconder todo o corpo
excepto a cara. «Quer saber, amorzinho ?», perguntou.
Mrs. May, sentada, olhava para ele com frieza.
« É o touro do O. T. e do E. T.», declarou. «Eu ontem cobrei
o seguro do preto que trabalha para eles e ele disse-me que
não sabiam desse bovino» ; mostrou-lhe uma superfície exa­
gerada de dentes e desapareceu silenciosamente.
Wesley levantou os olhos e riu-se.
Mrs. May virou novamente a cabeça para a frente, sem
alterar a expressão. «Eu sou a única adulta nesta casa», disse.
Esticou-se sobre a mesa e puxou o jornal que se encontrava
ao lado do prato dele. «Vês como vai ser quando eu morrer e
vocês, rapazes, tiverem que lidar com ele?», começou ela.
GREENLEAF 43

«Vês porque é que ele não sabia de quem era aquele touro?
Porque era deles. Vês aquilo que eu tenho que aturar? Vês
que se eu não tivesse mantido o meu pé sobre o pescoço dele
todos estes anos, vocês, rapazes, poderiam estar a ordenhar
vacas todas as manhãs às quatro da matina?»
Wesley voltou a puxar o jornal para perto do prato e mur­
murou, encarando-a bem de frente, «Eu não ordenharia uma
vaca nem que fosse para salvar a sua alma do inferno.»
«Eu sei que não o farias», disse ela numa voz frágil. Recostou­
-se na cadeira e começou a virar rapidamente a faca ao lado do
prato. «São bons rapazes, o O.T. e o E.T.», disse. «Deviam ter sido
meus filhos.» Este pensamento era tão horrivel que a imagem de
Wesley ficou imediatamente desfocada por uma parede de lágri­
mas. Tudo o que ela conseguia ver era a sua forma escura,
levantando-se rapidamente da mesa. «E vocês os dois», gritou
ela, uvocês os dois deviam ter pertencido àquela mulher!»
Ele estava a dirigir-se para a porta.
«Quando eu morrer», disse ela numa voz fraca, mão sei o
que vai acontecer-vos.»
«Está sempre a tagarelar sobre esse quando-eu-morreni,
rosnou ele ao sair apressadamente, «mas a mim parece-me
uma senhora bastante saudável.»
Durante algum tempo ela deixou-se ficar sentada onde
estava, olhando a direito à sua frente pela janela através do
compartimento para uma cena de cinzentos e verdes indis­
tintos. Distendeu os músculos da cara e do pescoço e inspi­
rou profundamente, mas a cena à sua frente acabou por mis­
turar-se numa massa cinzenta aguada. «Eles que não pensem
que eu vou morrer em breve», murmurou, e logo a seguir
acrescentou, numa voz ligeiramente provocatória : «Eu só hei­
-de morrer quando estiver pronta.»
Limpou os olhos com o guardanapo, levantou-se e diri­
giu-se à janela e fitou a cena à sua frente. As vacas estavam
dispersas por dois pastos de um verde pálido, para lá da
estrada ; e, por detrás delas, cercando-as, ficava um muro
negro de árvores com uma sebe aguçada que afastava o céu
44 ü ' CONNOR

indiferente. As pastagens eram o suficiente para acalmá-la.


Quando olhava para fora através de qualquer j anela da sua
casa, via o reflexo do seu carácter. Os seus amigos da cidade
diziam que ela era a mulher mais extraordinária que conhe­
ciam, por ter conseguido partir, praticamente sem um tostão
e sem experiência, para uma quinta em ruínas e torná-la um
sucesso. «Está tudo contra ti», dizia ela, «O clima está contra
ti, a terra está contra ti e os empregados estão contra ti. Estão
todos aliados contra ti. O remédio é ter mão de ferro !»
«Olhem para a mão de ferro da Mãe !», costumava gritar
Scofield e agarrar-lhe o braço e levantá-lo de tal forma que a sua
mãozinha delicada cheia de veias azuis pendesse do pulso como
a extremidade de um lírio quebrado. As visitas riam sempre.
O sol, movendo-se sobre as vacas pretas e brancas que pasta­
vam, estava apenas um pouco mais brilhante do que o resto do
céu. Baixando os olhos, viu uma forma mais escura que podia ser
a sombra dele projectada num ângulo, movendo-se no meio delas.
Deixou sair um grito agudo, voltou-se e marchou porta fora.
Mr. Greenleaf estava no silo da vala, enchendo um carri­
nho de mão. Ela ficou na borda e olhou-o de cima. «Eu disse­
-lhe para prender aquele touro. Agora está junto da manada
das vacas leiteiras.»
«Ninguém consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo»,
comentou Mr. Greenleaf.
«Eu disse-lhe para fazer isso primeiro.»
Ele empurrou o carrinho para fora da extremidade aberta
da vala em direcção ao celeiro e ela seguiu-o de perto. «E não
pense, Mr. Greenleaf», disse ela, «que eu não sei exactamente
de quem é esse touro ou porque é que não tem tido pressa
nenhuma para me avisar de que ele estava aqui. Já agora
posso também alimentar o touro do O. T. e do E. T., uma vez
que vou tê-lo aqui a arruinar-me a manada.»
Mr. Greenleaf parou o carrinho e olhou para trás. «Ü touro
é deles?», perguntou num tom incrédulo.
Ela não proferiu uma palavra. Apenas desviou os olhos
com a boca cerrada.
GREENLEAF 45

«Eles disseram-me que o touro deles tinha fugido mas eu


nunca pensei que fosse este», disse ele.
«Quero aquele touro preso agora», disse ela, «e vou meter­
-me no carro e ir até casa do O. T. e do E. T. e dizer-lhes que
têm que vir buscá-lo hoje. Eu devia cobrar pelo tempo que ele
tem estado aqui - dessa forma não aconteceria novamente.»
«Eles não pagaram senão setenta e cinco dólares por ele»,
informou Mr. Greenleaf.
«Eu não o teria querido nem dado», disse ela.
«Eles iam simplesmente abatê-lo para aproveitar a carne»,
continuou Mr. Greenleaf, «mas ele soltou-se e enfiou a cabeça
na carrinha. Não gosta de carros e de carrinhas. Eles demo­
raram algum tempo a tirar-lhe o como do guarda-lama e
quando finalmente ficou livre, fugiu e eles estavam dema­
siado cansados para irem atrás dele - mas eu nunca pensei
que fosse este.»
«Não lhe compensava pensar, Mr. Greenleaf», disse ela.
«Mas agora já sabe. Pegue num cavalo e apanhe-o.»
Meia hora depois, da janela da frente, viu o touro, cor de
esquilo, com os quadris salientes e longos cornos claros, cami­
nhando lentamente pela estrada de terra que se estendia em frente
da casa. Mr. Greenleaf seguia-o a cavalo. «Aquele é um touro
Greenleaf sem tirar nem pôni, murmurou ela. Saiu para o alpen­
dre e gritou, «Ponha-o num sítio de onde ele não consiga fugir.»
«Ele gosta de se soltan>, disse Mr. Greenleaf, olhando com apro­
vação para a garupa do touro. <<Este cavalheiro é um desportista.»
«Se aqueles rapazes não vierem buscá-lo, vai ser um des­
portista morto», disse ela. «Estou só a avisá-lo.»
Ele ouviu-a mas não respondeu.
«Esse é o touro com pior aspecto que eu já vi», gritou ela,
mas ele já estava demasiado afastado para ouvir.

A manhã ia a meio quando ela virou para a entrada do


O. T. e do E. T. A casa, um edifício baixo e novo de tij olo ver­
melho que parecia um armazém com janelas, ficava no cimo
46 ü ' CONNOR

de uma colina sem árvores. O sol batia directamente no telhado


branco. Era o tipo de casa que toda a gente construía agora e
nada a assinalava como pertencendo aos Greenleafs excepto
três cães, parte cão de caça, parte spitz, que saíram a correr de
detrás dela assim que parou o carro. Recordou-se de que se
podia sempre identificar o tipo da pessoa pelo tipo do seu cão,
e depois buzinou. Enquanto esperava sentada que alguém
viesse abrir, continuou a estudar a casa. Todas as janelas esta­
vam fechadas e ela interrogou-se se o Governo poderia ter ins­
talado ar condicionado no lugar. Não se via ninguém, e buzi­
nou novamente. Pouco depois abriu-se uma porta e apareceram
várias crianças que ficaram a olhar para ela, sem se mexerem
para se aproximarem. Ela reconheceu logo uma característica
genuína dos Greenleafs - podiam todos ficar parados à porta,
a olhar para as pessoas durante horas.
«Um de vocês não pode vir aqui?», chamou ela.
Um minuto depois, todos começaram a andar em frente,
lentamente. Envergavam macacões e estavam descalços mas
não pareciam tão sujos como ela esperaria. Dois ou três deles
pareciam-se inconfundivelmente com Greenleafs ; os outros
nem tanto. A mais pequena era uma rapariga de cabelo preto
desgrenhado. Pararam a cerca de duzentos metros do auto­
móvel e ficaram a olhar para ela.
« É s muito bonita», disse Mrs. May, dirigindo-se à rapariga
mais pequena.
Não obteve resposta. Pareciam partilhar uma expressão
desapaixonada entre si.
«Onde está a vossa mamã?», perguntou.
Não houve resposta a isto durante algum tempo. Depois
um deles disse qualquer coisa em francês. Mrs. May não
falava francês.
«Onde está o vosso papá?», perguntou.
Após algum tempo, um dos rapazes informou, «Ele tam­
bém não está cá.»
«Ahhhh», disse May como se se tivesse comprovado
alguma coisa. «Onde está o homem de cor?»
GREENLEAF 47

Esperou e concluiu que ninguém ia responder-lhe. «Ü gato


comeu seis linguitas», disse. «Ü que achavam se viessem
comigo para minha casa e deixassem que eu vos ensinasse a
falar?» Riu-se e o seu riso morreu no ar silencioso. Sentia-se
como se estivesse a ser julgada, arriscando a pena de morte,
em frente de um júri de Greenleafs. «Vou lá abaixo ver se
encontro o homem de cor», disse.
«Pode ir se quiser», disse um dos rapazes.
«Bom, obrigada», murmurou e afastou-se no carro.
O celeiro ficava um pouco mais abaixo descendo o trilho
a partir da casa. Ela ainda nunca o vira mas Mr. Greenleaf
tinha-o descrito em pormenor pois tinha sido construído de
acordo com as últimas orientações tecnológicas. Era um
recinto organizado de modo a que as vacas fossem ordenha­
das por baixo. O leite corria em tubos das máquinas para o
compartimento do leite e nunca era transportado por nenhum
balde, tinha dito Mr. Greenleaf, por nenhuma mão humana.
«Quando é que vai arranj ar um assim?», tinha ele perguntado.
«Mr. Greenleaf», dissera ela, «eu tenho que me desemba­
raçar sozinha. Não tenho assistência do Governo para tudo.
A instalação de um recinto para a ordenha iria custar-me
20.000 dólares. Da maneira como as coisas estão, eu quase
não consigo sobreviver.»
«Os meus filhos conseguiram», tinha murmurado Mr.
Greenleaf, e em seguida - «mas nem todos os filhos são
iguais.,.
«Na verdade não !», tinha ela dito. «Agradeço a Deus por
isso !»
«Eu agradeço a Deus por tudo», tinha dito Mr. Greenleaf
com uma voz arrastada.
Bem pode fazê-lo, tinha ela pensado durante o silêncio
intimidador que se seguiu ; você nunca fez nada por si próprio.
Ela parou ao lado do celeiro e tocou a buzina mas nin­
guém apareceu. Ficou sentada longos minutos no carro
observando a vária maquinaria estacionada por ali, inqui­
rindo-se sobre quais estariam pagas. Tinham uma ceifeira
48 ü ' CONNOR

grande e uma enfardadeira rotativa. Essas também ela tinha.


Decidiu, visto que não havia ninguém por ali, descer e esprei­
tar a leitaria para ver se a mantinham limpa.
Abriu a porta da sala de ordenha, enfiou a cabeça e, no
primeiro segundo julgou que ia perder o fôlego. As paredes
imaculadamente brancas reflectiam os raios de sol que entra­
vam pelas duas fileiras de janelas que se encontravam à altura
de uma cabeça dos dois lados. O gradeamento de metal fulgia
ferozmente e ela teve de franzir os olhos de forma a poder
sequer ver alguma coisa. Fez recuar a sua cabeça e fechou a
porta encostando-se a ela, de cenho carregado. A luz lá fora
não era tão brilhante mas ela tinha consciência que o sol
estava a pino, em cima da sua cabeça, como uma bala de
prata pronta a descer sobre o seu cérebro.
Um negro transportando um balde amarelo com ração para
os vitelos apareceu vindo da esquina do barracão das máqui­
nas e dirigiu-se a ela. Era um rapaz de pele amarela clara que
envergava uma farda que os gémeos Greenleaf já não usavam.
Parou a uma distância respeitosa e colocou o balde no chão.
«Onde está Mr. O. T. e Mr. E. T. ?», perguntou ela.
«Mist O. T., ele está na cidade, Mist E. T., ele está acolá no
campo», disse o negro, apontando primeiro para a esquerda e
depois para a direita como se estivesse a indicar a posição de
dois planetas.
«Consegues lembrar-te de um recado?», perguntou ela,
parecendo pensar que isso era pouco provável.
«Eu lembro-me se não me esquecer», disse ele com um
aviso discreto de mau humor.
«Bem, eu escrevo-o então», disse ela. Entrou no carro e
retirou um coto de lápis do livro de bolso e começou a escre­
ver nas costas de um envelope vazio. O preto veio postar-se à
janela. «Eu sou a Mrs. May», disse enquanto escrevia. «0 touro
deles está na minha propriedade e eu quero-o de lá para fora
hoje. Podes dizer-lhes que eu estou furiosa com isto.»
«Aquele touro saiu daqui no sábado», disse o negro, «e ne­
nhum de nós o viu desde então. Não sabíamos onde ele estava.»
GREENLEAF 49

«Bom, agora já sabem», disse ela, «e podes dizer ao Mr. O. T.


e ao Mr. E. T. que se eles não forem buscá-lo hoje, vou dizer
ao pai deles que lhe dê um tiro logo de manhãzinha. Não
posso ter aquele touro a arruinar-me a manada.» Entregou­
-lhe o recado.
«Se eu bem conheço o Mist O. T. e o Mist E. T.», disse ele
agarrando nele, «vão dizer-lhe que faça isso mesmo e lhe dê
um tiro. Já estragou uma das nossas carrinhas e ficamos con­
tentes por não o ver mais.»
Ela inclinou a cabeça para trás e lançou-lhe um olhar
ligeiramente embaciado. «Será que eles esperam que eu uti­
lize o meu tempo e o meu empregado para dar um tiro ao
touro que lhes pertence?», perguntou ela. «Não querem o
touro, e por isso limitam-se a soltá-lo e esperar que outra
pessoa o mate? Ele comeu a minha aveia e arruinou a minha
manada e ainda esperam que eu lhe dê um tiro?»
«Acho que sim», disse ele suavemente. «Ele soltou-se ... »
Ela lançou-lhe um olhar gélido e disse, «Bem, não me espanta
nada. Algumas pessoas são assim mesmo», e um segundo depois
perguntou: «Qual é o patrão, o Mr. O. T. ou o Mr. E. T.?» Sempre
suspeitara que eles brigavam entre si em segredo.
«Eles nunca discutem», disse o rapaz. «São como um
homem dentro de duas peles.»
«Hum. Imagino que o que acontece é que nunca os viste
discutir.»
«Nem mais ninguém os Quviu também», disse ele, des­
viando o olhar como se esta insolência fosse dirigida a outra
pessoa.
«Bom», disse ela, «não terei aturado o pai deles durante
quinze anos sem que ficasse a saber algumas coisinhas sobre
os Greenleafs.»
O negro olhou para ela de repente com um centelha de
reconhecimento. «Você é a mãe do meu homem das apóli­
ces?», perguntou.
«Eu não sei quem é o teu homem das apólices», retorquiu
ela friamente. «Dá-lhes esse recado e diz-lhes que se não vie-
50 o'CONNOR

rem buscar esse touro hoje, obrigam o pai a dar-lhe um tiro


amanhã», e afastou-se no carro.
Ficou em casa durante toda a tarde à espera que os
gémeos Greenleaf viessem buscar o touro. Eles não aparece­
ram. Já agora eu podia estar a trabalhar para eles, pensou
com fúria. Vão pura e simplesmente puxar a corda até ao
limite. À mesa do j antar, voltou a falar do assunto por causa
dos filhos, porque queria que eles percebessem exactamente
quais seriam as intenções do O. T. e E. T. «Eles não querem
aquele touro», disse, « - passa-me a manteiga - por isso sol­
tam-no e deixam que outra pessoa se preocupe com a forma
de se livrar dele por eles. O que é que acham disto? Eu sou
uma vitima. Tenho sido sempre uma vítima.»
«Passa a manteiga à vitima», disse Wesley. Estava com
pior humor do que o habitual porque tinha tido um furo ao
regressar a casa da universidade.
Scofield passou-lhe a manteiga e disse : «Então mãe, não
tem vergonha de dar um tiro a um touro que não fez nada a
não ser deixar uma mísera descendência na sua manada?
Palavra de honra», disse, «com a mãe que tenho, é um mila­
gre eu ter saído um menino tão simpático !»
«Tu não és o menino dela, Irmão», disse Wesley.
Ela inclinou-se para trás na cadeira, os dedos na beira da
mesa.
«Ü que eu sei», disse Scofield, «é que me saí muito bem por
ser tão simpático como sou, vindo de onde vim.»
Quando gozavam com ela usavam a linguagem dos
Greenleafs 1 , mas Wesley fez o seu próprio tom transparecer
por baixo, como o fio de uma faca. «Bem, deixa-me dizer-te
uma coisa, Irmão», disse, inclinando-se sobre a mesa, «é que
se tivesses meio cérebro já saberias.»
«Ü que é, Irmão?», perguntou Scofield, com a sua face
larga sorrindo para a face magra e tensa que se encontrava à
sua frente.

1Referência a uma espécie de calão intraduzivel para português e que Mr. Greenleaf usa
amiúde ao longo do conto. (N. da T.)
GREENLEAF 5 1

« É que», disse Wesley, «nem tu nem eu somos o menino


dela ... », mas parou abruptamente quando ela deixou sair uma
espécie de expiração ofegante e rouca, como um cavalo velho
que foi chicoteado inesperadamente. Mrs. May levantou-se
bruscamente e saiu a correr da sala.
«Eh pá, pelo amor de Deus», rosnou Wesley, «Por que é que
fizeste com que ela começasse?»
«Eu não fiz nada», disse Scofield. «Tu é que fizeste.»
«Ah.»
«Ela já não é tão nova como era e não suporta isto.»
«Ela só consegue sugerir a coisa», disse Wesley. <<Sou eu
que pego sempre nela.»
O semblante simpático do irmão tinha mudado de tal
forma que emergiu entre eles uma semelhança de família
desagradável. «Ninguém sente pena de um palerma nojento
como tu», disse e esticou o braço por cima da mesa para agar­
rar na camisa do outro.
Do quarto ela ouviu um estrondo de pratos a quebrarem­
-se e atravessou a cozinha a correr até à sala de jantar. A porta
do vestibulo estava aberta e Scofield ia a sair. Wesley estava
deitado de costas como se fosse um insecto enorme, com a
extremidade da mesa derrubada a cortá-lo ao meio e cacos
espalhados por cima dele. A mãe libertou-o da mesa e agar­
rou-lhe no braço para o ajudar a levantar-se, mas ele ergueu­
-se com dificuldade e afastou-a com uma carga furiosa de
energia e saiu porta fora a correr atrás do irmão.
A pobre senhora teria desfalecido, mas uma pancada na
porta das traseiras deu-lhe ânimo e fê-la voltar-se. Para lá da
cozinha e do alpendre das traseiras, via Mr. Greenleaf a
espreitar avidamente através da rede. Todo o seu expediente
regressou em plena força, como se tivesse apenas precisado
de ser desafiada pelo próprio diabo para recuperá-lo. «Ouvi
um estrondo», exclamou ele, «e pensei que o estuque pudesse
ter caído em cima da sua cabeça.»
Se tivesse precisado dele, alguém teria tido que ir chamá­
-lo a cavalo. Atravessou a cozinha, o alpendre e ficou por
52 ü ' CONNOR

detrás da rede e disse: «Não, não aconteceu nada, foi só a


mesa que se virou. Uma das pernas estava carcomida», e sem
qualquer pausa, «os rapazes não vieram buscar o touro por
isso amanhã vai ter que abatê-lo.»
O céu estava cruzado por barras vermelhas e púrpura
estreitas e por detrás delas o sol movia-se lentamente como
se descesse uma escada. Mr. Greenleaf agachou-se no degrau,
de costas viradas para ela, o topo do chapéu ao nível dos pés
dela. «Amanhã vou levá-lo a casa como você quer», disse ele.
«Ai não, Mr. Greenleaf», disse ela numa voz sarcástica,
«vai levá-lo a casa amanhã e na próxima semana ele está de
volta. Não vou nessa.» Depois num tom magoado, disse:
«Estou surpreendida com o O. T. e o E. T. por me tratarem
desta maneira. Pensei que tivessem mais gratidão. Aqueles
,
rapazes passaram dias muito felizes neste sítio, não passaram,
Mr. Greenleaf?»
Mr. Greenleaf não disse nada.
«Acho que passaram», continuou ela. «Acho que passaram.
Mas agora esqueceram-se de todos os gestos simpáticos que
tive para com eles. Se bem me lembro, usaram as roupas velhas
dos meus rapazes e brincaram com os brinquedos velhos dos
meus rapazes e caçaram com as espingardas velhas dos meus
rapazes. Nadaram na minha lagoa e caçaram os meus pássaros
e pescaram no meu riacho e eu nunca me esqueci do aniver­
sário deles e o Natal parecia chegar frequentemente, se bem me
recordo. E eles lembram-se de alguma dessas coisas agora?»,
perguntou ela. «NÃÃÃÃÃ011, afirmou.
Durante alguns segundos olhou para o sol que desapare­
cia, e Mr. Greenleaf examinou as palmas das mãos. Depois,
como se tivesse acabado de lhe ocorrer, ela perguntou : «Sabe
a verdadeira razão pela qual eles não vieram buscar aquele
touro?»
«Não, não sei», disse Mr. Greenleaf numa voz mal-humorada.
«Não vieram porque eu sou uma mulher», disse ela. «Pode­
-se fazer seja o que for quando se lida com uma mulher. Se
fosse um homem a dirigir este sítio ... »
GREENLEAF 53

Rápido como uma serpente a atacar Mr. Greenleaf disse:


«Você tem dois filhos. Eles sabem que tem cá dois homens.»
O Sol tinha desaparecido por detrás da fileira de árvores.
Ela olhou para a face escura e astuciosa, virada para cima
agora, e para os olhos alerta, brilhantes por baixo da sombra
da pala do chapéu. Esperou o tempo suficiente para ele per­
ceber que ela estava magoada e depois disse: «Algumas pes­
soas aprendem a ser gratas tarde demais, Mr. Greenleaf, e
algumas nunca aprendem», e voltou-se deixando-o sentado
nos degraus.
Durante metade da noite, no seu sono, ouviu um ruído
como se um pedregulho enorme estivesse a cavar um buraco
na parede exterior do seu cérebro. Ela caminhava no interior,
sobre uma sucessão de colinas lindas e arredondadas, assen­
tando a vara à frente de cada passo. Após algum tempo tomou
consciência de que o ruído era o sol a tentar queimar um
buraco através da fileira de árvores e parou para observar,
segura do conhecimento que este não conseguiria fazê-lo,
porque teria de afundar-se, como fazia todos os dias, no lado
de fora da sua propriedade. Quando ela parou pela primeira
vez, era uma bola vermelha e inchada, mas à medida que o
observava, começou a estreitar e a empalidecer até se parecer
com uma bala. Depois, de repente, irrompeu através das árvo­
res e correu pela colina abaixo em direcção a ela. Mrs. May
acordou com a mão sobre a boca e com o mesmo ruído no
ouvido, mais baixo mas distinto. Era o touro a mastigar por
baixo da janela. Mr. Greenleaf tinha-o deixado em liberdade.
Levantou-se, dirigiu-se à janela no escuro e olhou para
fora através da persiana ligeiramente aberta, mas o touro
tinha-se afastado da sebe e no início ela não o viu. Depois
avistou uma forma pesada a alguma distância, parado como
se estivesse a observá-la. É a última noite em que eu vou atu­
rar isto, disse ela, e ficou a olhar até a sombra ferruginosa se
afastar na escuridão.
Na manhã seguinte, esperou exactamente até às onze
horas. Depois meteu-se no carro e guiou até ao celeiro. Mr.
54 o ' CONNOR

Greenleaf estava a lavar latas de leite. Tinha colocado sete


delas em pé no exterior do compartimento do leite para apa­
nharem sol. Tinha-lhe dito que tratasse disto ao longo de
duas semanas. «Muito bem, Mr. Greenleaf», disse ela, «vá bus­
car a sua espingarda. Vamos matar aquele touro.»
«Pensava que queria estas latas ... »
«Vá buscar a sua espingarda, Mr. Greenleaf», disse ela.
A voz e a cara dela estavam sem expressão.
«Aquele cavalheiro soltou-se a noite passada», murmurou
ele num tom de pesar e inclinou-se novamente para a lata
dentro da qual tinha o braço.
«Vá buscar a sua espingarda, Mr. Greenleaf», repetiu ela
na mesma voz triunfante e sem expressão. «Ü touro está na
pastagem com as vacas que não dão leite. Avistei-o da minha
j anela do primeiro andar. Vou levá-lo de carro até ao campo
e você pode empurrá-lo para a pastagem vazia e dar-lhe um
tiro lá.»
Ele afastou-se lentamente da lata. «Nunca ninguém me tinha
pedido para matar o touro dos meus próprios filhos!», disse
numa voz aguda e áspera. Retirou um trapo do bolso de trás e
começou a limpar as mãos violentamente, e a seguir o nariz.
Ela voltou-se como se não tivesse ouvido nada e asseve­
rou : «Espero por si no carro. Vá buscar a espingarda.»
Ela ficou sentada no carro e observou-o a dirigir-se com
gravidade para o compartimento dos arreios onde guardava
uma espingarda. Depois de ter entrado no compartimento,
ouviu-se um ruído como se ele tivesse pontapeado alguma
coisa que estivesse no seu caminho. Daí a pouco voltou a
aparecer com a espingarda, deu a volta ao carro por trás,
abriu a porta com violência e atirou-se para o lugar vago ao
lado dela. Segurou a espingarda entre os joelhos e olhou em
frente. Ele preferiria dar-me um tiro a mim em vez do touro,
pensou ela, e virou a cara para ele não a ver sorrir.
A manhã estava seca e clara. Mrs. May conduziu através da
mata durante quatrocentos metros e depois pelo descampado
onde havia campos de ambos os lados da estrada estreita.
GREENLEAF 5 5

O gozo de impor a sua vontade tinha-lhe aguçado os senti­


dos. Por todo o lado os pássaros gorjeavam com estridência,
a erva era quase demasiado brilhante para alguém conseguir
olhar directamente para ela, o céu estava de um azul ainda
mais penetrante. «A Primavera chegou !», exclamou a senhora
jovialmente. Mr. Greenleaf levantou um músculo algures
perto da boca em reacção àquilo que lhe parecia ser o comen­
tário mais estúpido que alguém alguma vez tivesse feito.
Quando parou na segunda cancela da pastagem, ele atirou-se
porta fora e fechou-a com estrondo atrás de si. Depois abriu
a cancela e ela passou com o carro. O preto fechou-a e ati­
rou-se de novo para dentro do carro, em silêncio, e ela con­
duziu em redor da pastagem até descobrir o touro, quase no
centro, pastando calmamente entre as vacas.
«Ü cavalheiro está à sua espera», atirou ela ao perfil furioso de
Mr. Greenleaf. <<Empurre-o para a pastagem seguinte e quando o
meter lá dentro, eu levo o carro para lá atrás de si e eu própria
fecho a cancela.»
Ele apeou-se novamente com brusquidão, e desta vez deixou
deliberadamente a porta do carro aberta, por isso ela teve que
esticar-se sobre o assento para conseguir fechá-la. Ficou sen­
tada a sorrir enquanto o via atravessar a pastagem em direcção
à cancela do lado oposto. O preto parecia atirar-se para a frente
a cada passo e a seguir recuar como se apelasse a alguma auto­
ridade para testemunhar que ele estava a ser coagido. «Bem»,
disse ela em voz alta, como se ele ainda estivesse no carro, «são
os seus próprios filhos que estão a obrigá-lo a fazer isto, Mr.
Greenleaf.» Tanto o O.T. como o E.T. estavam provavelmente a
rir dele a bandeiras despregadas neste momento. Conseguia
ouvir as suas vozes nasaladas e idênticas a dizer. «Obrigou o pai
a matar o nosso touro em vez de nós. O pai não está a par do
assunto e pensa que vai matar um óptimo touro. Vai ser um
suplício para o pai dar um tiro àquele touro !»
«Se aqueles rapazes se preocupassem um pouco consigo,
Mr. Greenleaf», disse ela, «teriam vindo buscar aquele touro.
Estou espantada com eles.»
5 6 ü ' CONNOR

Ele estava a dar a volta para abrir primeiro a cancela.


O touro, escuro entre as vacas malhadas, não se tinha mexido.
Mantinha a cabeça baixa, sem parar de comer. Mr. Greenleaf
abriu a cancela e depois começou de novo a dar a volta para se
aproximar dele pela retaguarda. Quando estava a cerca de três
metros atrás dele, bateu os braços contra o corpo. O touro
levantou a cabeça com indolência e depois baixou-a de novo e
continuou a comer. Mr. Greenleaf inclinou-se novamente, agar­
rou em qualquer coisa e atirou-lha com um impulso raivoso.
Ela depreendeu que era uma pedra cortante porque o touro deu
um salto e depois começou a galopar até desaparecer para lá do
sopé da colina. Mr. Greenleaf seguiu-o sem se apressar.
«Não pense que vai perdê-lo !», gritou ela e avançou com
o carro atravessando a pastagem em diagonal. Tinha que
guiar lentamente por cima das valas, e quando alcançou a
cancela, Mr. Greenleaf e o touro não estavam à vista. Esta
pastagem era mais pequena que a anterior, uma arena verde,
envolvida quase completamente por arvoredo. Saiu do carro,
fechou a cancela e ficou a olhar à procura de um sinal de Mr.
Greenleaf, mas o preto tinha desaparecido por completo.
Percebeu imediatamente que o plano dele era perder o touro
na mata. Por fim, ela vê-lo-ia emergir algures vindo do cír­
culo de árvores e dirigir-se-lhe coxeando ; e, quando por fim
estivesse junto dela, diria : «Se conseguir encontrar aquele
cavalheiro naquela mata, é melhor que eu.»
Ela diria: «Mr. Greenleaf, mesmo que eu tenha que entrar
naquela mata consigo e lá ficar toda a tarde, nós havemos de
encontrar aquele touro e dar-lhe um tiro. Você vai dar-lhe um
tiro ainda que eu tenha que puxar o gatilho por si.» Quando
ele percebesse que ela estava decidida haveria de regressar, e
ele próprio mataria o touro rapidamente.
Fez marcha-atrás e guiou até meio da pastagem onde ele
não teria tanto que andar para a alcançá-la quando saísse da
mata. Neste momento, imaginava-o sentado num cepo, dese­
nhando linhas no chão com um pau. Decidiu que esperaria
exactamente dez minutos marcados pelo relógio. Depois
GREENLEAF 57

começaria a buzinar. Saiu do carro e caminhou um pouco e


a seguir sentou-se no pára-choques da frente para esperar e
descansar. Sentia-se muito cansada e inclinou a cabeça para
trás sobre o capot e fechou os olhos. Não percebia porque se
sentia tão cansada quando a manhã ia apenas a meio.
Através dos olhos semicerrados, sentia o sol em brasa por
cima de si. Abriu-os ligeiramente, mas a luz branca forçou-a
a fechá-los de novo.
Durante algum tempo deixou-se ficar encostada ao capot,
interrogando-se sonolentamente porque estaria tão cansada.
Com os olhos fechados, não pensava no tempo dividido em
dias e noites, mas antes em passado e futuro. Chegou à con­
clusão de que estava cansada porque tinha trabalhado sem
parar durante quinze anos. Chegou à conclusão de que tinha
todo o direito a estar cansada, e mesmo a descansar durante
alguns minutos antes de recomeçar a trabalhar. Perante qual­
quer tribunal, poderia decerto afirmar: Trabalhei, não vadiei.
Precisamente neste momento, enquanto ela recordava toda
uma vida de trabalho, Mr. Greenleaf vagueava pelos bosques
e Mrs. Greenleaf estava provavelmente espoj ada no chão, a
dormir em cima da sua cova cheia de recortes. A mulher
tinha piorado ao longo dos anos e Mrs. May acreditava que
ela agora estava completamente louca. «Receio que a sua
mulher tenha deixado a religião pervertê-la», dissera ela uma
ocasião a Mr. Greenleaf com muito tacto. «Tudo na medida
certa, sabe.»
«Ela uma vez curou um homem que tinha metade da tripa
consumida por lombrigas», disse Mr. Greenleaf, ao que ela lhe
virou as costas, meio agoniada. Pobres almas, pensava agora,
tão simples. Passou pelas brasas durante alguns segundos.
Quando se endireitou e olhou para o relógio, tinham pas­
sado mais de dez minutos. Não tinha ouvido qualquer tiro.
Ocorreu-lhe um novo pensamento ; e se Mr. Greenleaf tivesse
provocado o touro atirando-lhe pedras, e se o animal se
tivesse virado a ele, e o tivesse empurrado contra uma árvore,
e esventrado? A ironia da situação aprofundou-se ; O.T. e E.T.
58 O ' CONNOR

arranjariam um advogado de fama duvidosa e processá-la­


-iam. Seria um final adequado para os seus quinze anos com
os Greenleafs. Pensou nisto quase com prazer, como se
tivesse descoberto um desfecho perfeito para uma história
que estava a contar aos amigos da cidade. Depois abandonou
a ideia, porque Mr. Greenleaf tinha uma espingarda consigo.
Decidiu buzinar. Levantou-se e esticou-se por cima da
j anela do carro e deu três buzinadelas longas e duas ou três
mais curtas para o avisar de que estava a ficar impaciente.
A seguir voltou a sentar-se no pára-choques.
Poucos minutos depois emergiu qualquer coisa da linha do
arvoredo, uma sombra negra e pesada que sacudiu a cabeça
diversas vezes e depois deu um salto para a frente. Após um
segundo ela viu que era o touro. Atravessava a pastagem em
direcção a ela num galope lento, numa passada alegre e quase
balanceada, como se estivesse arrebatado por encontrá-la
novamente. Olhou por cima dele para ver se Mr. Greenleaf
também saía do arvoredo, mas ele não o seguia. «Aqui está ele,
Mr. Greenleafü, gritou ela e olhou para o outro lado da pas­
tagem para ver se ele vinha antes dali, mas o preto não estava
à vista. Olhou de novo para o outro lado e viu que o touro,
com a cabeça baixa, corria na sua direcção. Permaneceu com­
pletamente imóvel, não por estar assustada, mas antes como
que possuída por uma incredulidade imóvel. Ficou a olhar
para o traço negro e violento saltando na sua direcção como
se não tivesse qualquer consciência da distância, e, como se
não conseguisse perceber de imediato quais eram as suas
intenções, o touro já tinha enterrado a cabeça no seu colo,
como um amante feroz atormentado, antes de a expressão dela
mudar. Um dos cornos penetrou-a até lhe trespassar o coração,
e o outro curvou-se à volta do seu flanco e segurou-a num
abraço inquebrável. Ela continuou a fitar em linha recta mas
toda a cena à sua frente tinha mudado - a fileira de árvores
era uma ferida escura num mundo que era apenas céu - e ela
tinha o aspecto de alguém que tivesse subitamente recuperado
a visão, mas constatado logo que a luz é insuportável.
GREENLEAF 59

Mr. Greenleaf apareceu a correr com a arma erguida, e ela


viu-o aproximar-se embora não estivesse a olhar na direcção
dele. Viu-o aproximar-se a partir do exterior de um círculo
invisível, a fileira de árvores boquiaberta por detrás dele e
nada por baixo dos seus pés. A espingarda atingiu o touro
quatro vezes. Ela não ouviu os disparos, mas sentiu o tremor
quando o corpo gigantesco caiu, puxando-a para a frente no
cimo da sua cabeça, de tal forma que ela parecia, quando Mr.
Greenleaf a alcançou, estar inclinada a sussurrar uma última
descoberta ao ouvido do animal.
A VISTA DOS BOSQUES

Na semana anterior, Mary Fortune e o velho tinham passado


todas as manhãs a observar a máquina que removia a terra
e a atirava para um monte. A construção decorria na mar­
gem do novo lago, numa das parcelas que o velho tinha ven­
dido a alguém que ia construir um clube de pesca. Ele
e Mary Fortune dirigiam-se ao local todas as manhãs pelas
dez horas e ele estacionava o carro, um velho Cadillac cor de
amora, na margem oposta às obras. O lago vermelho e ondu­
lado abeirava-se suavemente da construção a cerca de
quinze metros e era contornado do outro lado por uma
fileira negra de bosque que parecia, em ambos os extremos
da paisagem, atravessar a água e continuar ao longo da orla
dos campos.
Ele sentava-se no pára-choques e Mary Fortune escarran­
chava-se na capota, por vezes durante horas, enquanto a
máquina se alimentava sistematicamente de um buraco ver­
melho e quadrado no local que fora em tempos uma pasta­
gem para as vacas. Era por casualidade a única pastagem da
qual Pitts tinha conseguido erradicar as ervas daninhas infes­
tantes ; e, quando o velho a tinha vendido, Pitts quase tinha
tido uma apoplexia, - e no que dizia respeito a Mr. Fortune,
ele bem podia tê-la sofrido.
62 ü ' CONNOR

«Qualquer idiota que deixe uma pastagem interferir com o


progresso não figura nos meus livros», dissera ele a Mary
Fortune diversas vezes do seu lugar no pára-choques, mas a
criança não tinha olhos senão para a máquina. Ficava sen­
tada na capota, olhando de cima para dentro da fossa ver­
melha, observando a enorme goela sem corpo empantur­
rando-se de barro e a seguir, com o ruído de um vómito
fundo e moderado e uma lenta rotação mecânica, voltar-se e
cuspi-lo. Os seus olhos pálidos por detrás dos óculos seguiam
este movimento repetido vezes sem conta e o seu rosto - uma
réplica em ponto pequeno do do velho - nunca perdia a
expressão de total concentração.
Ninguém gostava especialmente que Mary Fortune se
parecesse com o avô à excepção do próprio velho. Ele enten­
dia que isso contribuía bastante para o encanto que ela pos­
suía. Pensava que ela era a criança mais esperta e mais bonita
que ele alguma vez tinha visto e dava a entender aos outros
que se acontecesse ele deixar alguma coisa a alguém, Mary
Fortune seria necessariamente a destinatária. A miúda ia
agora nos nove anos. Era baixa e atarracada como ele, tinha
os olhos azuis muito claros, a testa larga e proeminente, o
olhar fixo e penetrante e a compleição rica e corada dele; mas
achava-a mais bonita por também se assemelhar a ele por
dentro. Possuía, em extraordinária medida, a sua inteligência,
a sua vontade firme e a sua determinação. Embora houvesse
uma diferença de setenta anos entre ambos, a distância espi­
ritual entre eles era mínima. A miúda era o único membro da
família por quem ele sentia algum respeito.
Não tinha paciência para a mãe dela, a sua terceira ou
quarta filha (nunca se conseguia lembrar qual), embora
aquela presumisse que tomava conta dele. Ela considerava -
tendo o cuidado de não o afirmar, apenas de dá-lo a enten­
der - que por o aturar na sua velhice, ele lhe deveria deixar
a propriedade. Casara-se com um idiota chamado Pitts e
tivera sete filhos, todos igualmente idiotas à excepção da
mais nova, Mary Fortune, que saía a ele. Pitts era do género
A VISTA DOS BOSQUES 63

de não conseguir conservar um cêntimo e Mr. Fortune tinha


consentido, já lá iam dez anos, que se mudassem para a sua
propriedade e se encarregassem de cultivá-la. O que Pitts lá
criava pertencia a Pitts, mas a terra pertencia a Fortune ; e ele
tinha o cuidado de se assegurar de que nunca se esquecessem
disso. Quando o poço secara, ele não tinha permitido que
Pitts fizesse um furo em profundidade para um novo poço,
mas insistira que obtivessem água canalizando a nascente.
Não tencionava ser ele a custear o furo para um novo poço e
sabia que se deixasse Pitts custeá-lo, sempre que tivesse oca­
sião de dizer a Pitts, «A terra onde estás é minha», Pitts pode­
ria dizer-lhe, «Bem, é minha a bomba que puxa a água que
você bebe.»
Dez anos a viverem ali tinham dado aos Pittses a sensa­
ção de serem proprietários do sítio. A filha tinha nascido e
sido lá criada mas o velho considerava que quando casara
com Pitts ela demonstrara que optava por Pitts em detri­
mento da sua casa ; e, ao regressar, fizera-o como qualquer
outro rendeiro, embora ele não permitisse que pagassem
renda pela mesma razão pela qual não os autorizara a faze­
rem um furo para o poço. Qualquer pessoa com mais de ses­
senta anos está numa posição desconfortável a não ser que
controle o maior quinhão ; e, de vez em quando, ele dava uma
lição prática aos Pittses vendendo uma parcela. Nada enfure­
cia mais o Pitts do que vê-lo vender uma fracção da proprie­
dade a um estranho, porque era evidente que o Pitts queria
não só comprá-la mas ainda ter direiro de opção.
Pitts era um individuo magro com um maxilar comprido,
irascível, obstinado e mal-humorado ; e a mulher era do
género de se orgulhar de fazer o seu dever. É meu dever ficar
aqui e tomar conta do papá. Quem é que o faria se não fosse
eu? Faço-o sabendo muito bem que não vou ser recompen­
sad a por isso. Faço-o porque é o meu dever.
O velho não caía naquela nem por um minuto. Sabia que
eles esperavam com impaciência o dia em que pudessem
colocá-lo num buraco com sete palmos de comprimento e
64 o ' CONNOR

cobri-lo com terra. Assim que isso acontecesse, e mesmo que


ele não lhes deixasse a propriedade, supunham que conse­
guiriam adquiri-la. Em segredo, o velho fizera o seu testa­
mento e deixara tudo num fundo a Mary Fortune, nomeando
o seu advogado, e não Pitts, como executor. Quando ele mor­
resse Mary Fortune poderia fazê-los a todos rabiar; e ele não
duvidava nem por um minuto que ela seria capaz de fazê-lo.
Dez anos atrás eles tinham anunciado que iam dar ao
novo bebé o nome de Mark Fortune Pitts, em atenção a ele,
se fosse rapaz, e ele não esperou para lhes dizer que se eles
associassem o seu nome ao nome de Pitts os expulsaria da
propriedade. Quando o bebé nasceu, uma rapariga, e ele vira
que mesmo apenas com um dia de idade ela se parecia ine­
quivocamente consigo, amolecera e tinha sido ele próprio a
sugerir que lhe dessem o nome de Mary Fortune, como o da
sua querida mãe, que tinha falecido há setenta anos tra­
zendo-o ao mundo.
A propriedade Fortune ficava no meio campo, servida por
uma estrada de terra que se desviava da estrada alcatroada a
uma distância de dois quilómetros e meio ; e ele nunca teria
conseguido vender quaisquer parcelas se não fosse o pro­
gresso, que sempre fôra seu aliado. Ele não era um daqueles
velhos que combatem os melhoramentos, que criticam tudo o
que é novo e receiam todas as mudanças. Ele queria ver uma
estrada alcatroada - por onde passassem muitos carros do
último modelo - em frente da sua porta, queria ver um super­
mercado do outro lado da estrada, queria ver uma estação de
serviço, um motel, um drive-in a uma distância razoável. De
repente o progresso tinha posto tudo isto em marcha. A com­
panhia de electricidade tinha construído uma barragem no rio
e inundara grandes áreas da região circundante e o lago que
se formara banhava as suas terras ao longo de uma extensão
de oitocentos metros. Qualquer Zé-Ninguém, qualquer desgra­
çado, queria ter uma parcela no lago. Falava-se que iriam ter
uma linha telefónica. Dizia-se que asfaltariam a estrada que
passava à porta da propriedade Fortune. Falava-se numa pos-
A VISTA DOS BOSQUES 6 5

sível cidade. E l e achava que esta s e deveria chamar Fortune,


Georgia. Era um homem com uma visão progressista, apesar
dos seus setenta e nove anos de idade.
A máquina que removia a terra tinha parado no dia ante­
rior, e hoje o avô e a neta observavam o barranco a ser apla­
nado por duas enormes retroescavadoras amarelas. A sua
propriedade tinha correspondido a oitocentas jeiras antes de
ele começar a vender parcelas. Tinha vendido cinco parcelas
de vinte jeiras nas traseiras da propriedade, e sabia muito
bem que, de cada vez que vendera uma, a tensão arterial de
Pitts tinha dado um salto. «Os Pittses são do género de gente
que deixa uma pastagem para as vacas interferir com o
futuro», disse a Mary Fortune, «mas nem tu nem eu somos
assim.» O facto de Mary Fortune ser também uma Pitts era
algo que ele não mencionava, de forma cavalheiresca, como
se fosse uma doença de que a criança não era responsável.
Ele gostava de pensar nela como sendo integralmente da sua
cepa. Ele sentava-se no pára-choques e ela na capota com os
pés descalços sobre os seus ombros. Uma das retroescavado­
ras tinha-se deslocado para debaixo deles de forma a nivelar
o flanco da margem onde estavam estacionados. Se tivesse
esticado os pés alguns centímetros para fora, o velho poderia
tê-los pendurado por cima da borda.
«Se não estiver de olho nele», gritou Mary Fortune sobre­
pondo-se ao ruido da máquina, «Vai tirar parte da terra que é sua!»
ccO marco está acolá», gritou o velho. ccEle não ultrapassou
o marco.»
«AINDA não», rugiu ela.
A escavadora passou por baixo deles e dirigiu-se ao flanco
mais afastado. «Bem, fica de olho», disse ele. «Mantém os
olhos abertos e se ele derrubar aquele marco, eu faço-o parar.
Os Pittses são do género de deixar uma pastagem para as
vacas ou uma parcela para as mulas ou uma fileira de feijões
interferir com o progresso», continuou. «As pessoas como tu
e eu com a cabeça no lugar sabem que não podem parar a
marcha do tempo por causa de uma pastagem ... »
66 ü ' CONNOR

«Ele está a fazer oscilar o marco do outro lado !>1, gritou


ela ; e, antes que ele pudesse impedi-la, ela tinha saltado da
capota e corria ao longo da beira do aterro, com o seu vesti­
dinho amarelo ondulando atrás de si.
«Não corras tão perto da beira», gritou ele ; mas ela tinha
já alcançado o marco e estava agachada ao lado para ver se
tinha cedido muito. Debruçou-se da margem e agitou o
punho ao homem da retroescavadora. Ele acenou-lhe e con­
tinuou com o seu trabalho. Tem mais tino no dedo mindinho
do que todas as cabeças juntas daquela tribo, disse para con­
sigo o velho, e observou com orgulho enquanto ela se apro­
ximava dele novamente.
A miúda possuía uma melena abundante de um cabelo
lindo cor de areia - exactamente do género do seu quando
ainda tinha algum cabelo - que crescia liso e estava cortado
mesmo por cima dos olhos e desde as bochechas até às pon­
tas das orelhas, formando uma espécie de porta que abria
para a parte central do rosto. Os óculos tinham uma armação
prateada como os dele, e até no caminhar se parecia com ele,
de estômago esticado para fora, com uma passada cuidadosa
e abrupta, algo entre um oscilar e um arrastar dos pés.
Deslocava-se tão perto da beira do aterro que a parte exterior
do seu pé direito lhe ficava mesmo rente.
«Já disse para não caminhares tão perto da beira», bradou
ele, «se caíres daí não poderás ver este sítio construído.» Era
sempre muito cuidadoso velando para que ela evitasse o
perigo. Não permitia que se sentasse em locais onde houvesse
cobras ou colocasse as mãos em arbustos que pudessem
esconder vespões.
Ela não se afastou um centímetro. Possuía o hábito dele
de não ouvir aquilo que não queria ouvir; e, como este era
um truque que tinha sido ele a ensinar-lhe, o velho era obri­
gado a admirar a maneira como ela o punha em prática.
Antevia que lhe iria ser muito útil na velhice. Ela chegou ao
carro, voltou a subir para a capota sem uma palavra e a colo­
car os pés sobre os ombros dele onde haviam estado antes,
A VISTA DOS BOSQUES 6 7

como se o avô não fosse mais do que uma parte do automó­


vel. Centrou novamente a atenção na escavadora.
«Lembra-te do que não vais ganhar se não ligares»,
comentou o avô.
Ele era um educador severo mas nunca a tinha açoitado.
Estava convicto de que algumas crianças, como os primeiros
seis Pittses, deveriam ser açoitadas uma vez por semana por
princípio, mas havia outras formas de controlar crianças inte­
ligentes e ele nunca tinha posto a mão em Mary Fortune.
Mais ainda, ele nunca tinha permitido que a mãe ou os
irmãos lhe dessem sequer uma bofetada. Com o Pitts mais
velho o caso era diferente.
Era um homem de temperamento sórdido, ressentimentos
feios e pouco razoáveis. Repetidas vezes, o coração de Mr.
Fortune tinha disparado ao vê-lo erguer-se lentamente do seu
lugar à mesa - não à cabeceira, lugar onde Mr. Fortune se
sentava, mas do seu lugar de um dos lados - e abruptamente,
sem qualquer razão, sem qualquer explicação, sacudir a
cabeça na direcção de Mary Fortune e dizer, «Vem comigo», e
abandonar o compartimento, desapertando o cinto enquanto
saía. Aparecia no rosto da criança uma expressão que lhe era
completamente estranha. O velho não conseguia definir essa
expressão, mas, de qualquer forma, enfurecia-o. Era uma
expressão feita em parte de terror, noutra de respeito, e parte
ainda de outra coisa qualquer, algo muito semelhante à coo­
peração. A expressão aparecia no rosto da miúda, e ela levan­
tava-se e seguia o pai para fora da sala. Entravam para a
camioneta e afastavam-se pela estrada para um lugar onde
não os ouvissem e onde ele a espancaria.
Mr. Fortune tinha a certeza que ele a espancava porque os
tinha seguido no seu carro e tinha assistido à cena. Espiara
por detrás de um penhasco a cerca de trinta metros de distân­
cia enquanto a criança se agarrava a um pinheiro e Pitts, de
fo rma tão metódica como se golpeasse um arbusto, lhe batia
nos tornozelos com o cinto. Em sua defesa limitara-se a salti­
tar para cima e para baixo como se estivesse em cima de uma
68 o ' coNNOR

chapa quente, e a ganir tal como um cão quando é açoitado.


Pitts tinha-a chicoteado durante três minutos e depois vol­
tara-se, sem uma palavra, entrara na camioneta e deixara­
-a ali ; ela deslizou pela árvore abaixo ficando sentada e agar­
rada a ambos os pés com as mãos, baloiçando-se para a
frente e para trás. O velho acercou-se para abraçá-la. O rosto
dela estava contorcido num quebra-cabeças de pequenos
altos vermelhos e tanto o nariz como os olhos escorriam
água. Dessa primeira vez, ele precipitou-se sobre ela e falou
atabalhoadamente : «Por que é que não lhe bateste também?
Onde está a tua genica? Achas que eu deixava que ele me
batesse?»
Ela dera um salto e começara a afastar-se dele com o
queixo espetado. «Ninguém me bateU», disse ela.
«E eu não o vi com os meus próprios olhos?», explodiu ele.
«Não está aqui ninguém, e ninguém me bateU», disse ela.
«Nunca ninguém me bateu na minha vida e se alguém o
fizesse, eu matava-o. Pode ver por si próprio que não está
aqui ninguém.»
«Estás a chamar-me mentiroso ou cego !», gritou ele. «Eu vi­
-o com os meus próprios olhos e tu não fizeste nada a não ser
deixar que ele te batesse, não fizeste nada a não ser agarrares­
-te àquela árvore, saltitar e choramingar. Se fosse comigo, teria
sacudido o meu punho em frente da cara dele e ... »
«Não esteve aqui ninguém e ninguém me bateu e se
alguém o fizesse, eu matava-o !», gritou ela e a seguir voltou­
-se e correu pela mata.
«E eu sou um porco de porcelana da Polónia e o preto é
branco !», gritara ele para se fazer ouvir e sentara-se numa
pequena rocha debaixo da árvore, desgostoso e exasperado.
Esta era a forma de Pitts se vingar dele. Era como se fosse ele
que Pitts levasse pela estrada abaixo para espancar; e era
como se fosse ele que se submetia àquilo. No início tinha
pensado que podia impedi-lo dizendo que, se ele batesse na
neta, os expulsaria da propriedade ; mas, quando tentou isto,
Pitts dissera : «Expulse-me e expulsa-a a ela também. Faça
A VISTA DOS BOSQUES 69

isso. Eu tenho o direito de açoitá-la e dou-lhe uma sova todos


os dias do ano se me apetecer.»
Estava determinado a obrigar Pitts experimentar a sua
autoridade sempre que tivesse oportunidade para fazê-lo: e,
de momento, tinha um pequeno esquema na manga que seria
um golpe considerável para Pitts. Estava a pensar com prazer
nessa manobra quando disse a Mary Fortune para se lembrar
que não iria ganhar dinheiro se continuasse a ignorar os seus
conselhos, e acrescentou, sem esperar por uma resposta, que
talvez vendesse outra parcela em breve ; e, se o fizesse, pode­
ria dar-lhe um bónus - mas não o faria se ela continuasse a
ser indolente e e não confrontasse o pai. Tinha frequente­
mente pequenas disputas verbais com a neta, mas eram ape­
nas um passatempo saboroso, como colocar um espelho à
frente de um galo e observá-lo a lutar com o seu reflexo.
«Não quero bónus nenhum», disse Mary Fortune.
«Nunca te vi recusar um único.»
«Também nunca me viu pedir nenhum», disse ela.
«Quanto é que já puseste de parte?», perguntou ele.
«Não tem nada com isso», disse ela e bateu-lhe com os pés
nos ombros. «Não se meta na minha vida.»
«Aposto que o tens cosido dentro do colchão», disse ele,
«tal e qual uma preta velha. Devias pô-lo no banco. Vou
abrir-te uma conta assim que finalize este negócio. Ninguém
poderá consultá-la a não ser eu e tu.»
A retroescavadora movimentou-se novamente por baixo
deles, e abafou o resto do que pretendia dizer. O velho fez
uma pausa, e, quando o ruído se afastou, não conseguiu con­
ter-se mais. «Vou vender a parcela mesmo em frente da casa
para uma estação de serviço», disse. «Assim não teremos que
ir lá abaixo para encher o depósito do carro, apenas sair pela
porta da frente.»
A casa Fortune estava afastada da estrada cerca de sessenta
metros, e eram estes sessenta metros que ele tencionava ven­
der. Era a parte a que a filha chamava despreocupadamente «O
relvado» embora não fosse senão um campo de ervas daninhas.
70 o 'CONNOR

«Está a falar», disse Mary Fortune após um minuto, «do


relvado?»
«Sim senhora !», disse ele. «Estou a falar do relvado», e deu
uma palmada no joelho.
Ela não disse nada e o avô voltou-se e olhou para a neta.
Ali, na pequena abertura rectangular de cabelo, fitava-o o
seu próprio rosto, mas era um reflexo não da sua expressão
actual mas de uma outra mais sombria que indicava o seu
descontentamento. « É onde nós brincamos», murmurou ela.
«Bem, há muitos outros locais onde vocês podem brincar»,
disse ele, irritado com aquela manifesta falta de reacção.
«Deixaremos de ver os bosques do outro lado da estrada»,
disse ela.
O velho fixou-a. «Os bosques do outro lado da estrada?»,
repetiu ele.
«Deixaremos de ver a paisagem», disse ela.
«A paisagem?», repetiu ele.
«Os bosques», disse ela, «deixaremos de ver os bosques
quando estamos no alpendre.»
«Ver os bosques do alpendre?», repetiu ele.
Em seguida ela disse : «0 meu pai põe os bezerros a pastar
naquela parcela.»
A cólera do velho demorou um instante a chegar por
causa do choque. A seguir rebentou num rugido. Deu um
salto, voltou-se e bateu com o punho na capota do carro. «Ele
pode pô-los a pastar noutro sítio qualquer!»
«Vai cair nesse aterro e desejar não o ter feito», disse ela.
Ele saiu da dianteira do carro e passou para o lado, mantendo
sempre os olhos fixos nela. «Achas que eu me importo com o sítio
onde ele põe os bezerros a pastar? Achas que eu deixo um bezerro
interferir nos meus negócios? Achas que eu não me estou nas tin­
tas para o sítio onde aquele imbecil põe os bezerros a pastar?»
Ela estava sentada, com o rosto escarlate, mais vermelho
que o cabelo, reflectindo de forma exacta a expressão dele
naquele momento. «Aquele que chama imbecil ao seu irmão
fica sujeito ao fogo do inferno», disse ela.
A VISTA DOS BOSQUES 7 1

«Não julgues», gritou ele, «para não seres julgada !» A tona­


lidade do rosto dele era um tudo nada mais rubicundo que o
dela. «TU !», disse ele. «Tu que deixas que ele te bata sempre
que lhe apetece e não fazes nada a não ser choramingar um
pouco e saltitar para baixo e para cima !»
«Nem ele nem ninguém me tocou alguma vez», repetiu ela,
medindo cada palavra num tom terrivelmente neutro. «Nunca
ninguém me pôs um dedo em cima e se alguém o fizesse, eu
matava-o»
«E o preto é branco», sibilou o velho, «e a noite é dia !»
A escavadora passou por baixo deles. Com os rostos a
cerca de trinta centímetros de distância, cada um deles con­
servou a mesma expressão até o ruído se afastar. A seguir, o
velho disse : «Volta a pé para casa. Recuso-me a dar boleia a
uma Jezebel !»
«E eu recuso-me a ir com a Meretriz Babilónia», disse ela
enquanto deslizava para o chão do outro lado do carro e
começou a afastar-se pela pastagem.
«Uma Meretriz é uma mulher!», rugiu ele. « É para veres
como és ignorante !» Mas ela não se dignou virar-se e respon­
der-lhe; e, ao observar a pequena figura robusta caminhando
com arrogância através do campo salpicado de amarelo em
direcção aos bosques, o orgulho que tinha nela, como se não
pudesse evitá-lo, regressou como a pequena maré suave do
novo lago - todo excepto a parte que tinha a ver com a recusa
dela em fazer frente a Pitts ; essa retraía-se como um recuo das
ondas. Se ele tivesse podido ensinar-lhe a fazer frente a Pitts
da mesma forma como ela lhe fazia frente a ele, a neta seria
uma criança perfeita, tão destemida e resoluta quanto qual­
quer um poderia desejar; mas possuía, de facto, essa falha de
carácter específica. Era a única particularidade na qual ela não
se assemelhava a ele. Voltou-se e olhou para a distância, sobre
o lago e para os bosques além dele, e disse a si próprio que,
dentro de cinco anos, no lugar dos bosques estariam antes
casas e lojas e parques de estacionamento, e que o mérito de
tudo isso poderia ser em larga medida atribuído a si mesmo.
72 O ' CONNOR

Tencionava ensinar a criança a ter carácter através do


exemplo ; e, como já tinha tomado a decisão em definitivo,
anunciou nesse dia à mesa do almoço que estava a negociar
com um homem chamado Tilman a venda da parcela em
frente da casa para a construção de uma estação de serviço.
A filha, sentada aos pés da mesa com o seu ar exausto,
deixou escapar um gemido como se uma faca romba estivesse
a ser rodada no seu peito lentamente. «Está a falar do rel­
vado !», gemeu ela e deixou-se cair para trás na cadeira repe­
tindo numa voz quase inaudível, «Ele está a falar do relvado.»
As outras seis crianças Pitts começaram a berrar e a cho­
rar, «Onde a gente brinca !», «Não o deixes fazer isso, avô»,
«Deixaremos de ver a estrada!», e idiotices semelhantes. Mary
Fortune não disse nada. Exibia uma expressão obstinada e
reservada como se estivesse a planear um assunto pessoal.
Pitts parara de comer e olhava fixamente em diante. Tinha o
prato cheio mas os punhos jaziam imóveis como duas pedras
de quartzo escuro de cada um dos lados. Os olhos começaram
a mover-se de criança para criança em redor da mesa como
se procurasse uma delas em particular. Por fim, pararam em
Mary Fortune, sentada ao lado do avô. «Foste tu que nos
fizeste isto», murmurou.
«Não fui», disse ela, mas não havia firmeza na sua voz. Era
apenas um gorjeio, a lamúria de uma criança assustada.
Pitts levantou-se e disse, «Vem comigo» ; voltou-se e saiu,
desapertando o cinto ao retirar-se ; e, para desespero com­
pleto do velho, ela deslizou da mesa e seguiu-o, quase correu
atrás dele, saiu porta fora e subiu para a camioneta, e pronto,
afastaram-se.
Esta cobardia afectou Mr. Fortune como se fosse sua. Fê­
-lo ficar fisicamente indisposto. «Ele bate numa criança ino­
cente», disse à filha, que estava aparentemente ainda abatida
aos pés da mesa, «e nenhum de vocês levanta um dedo para
o impedir.»
«Você também não levantou o sem, disse um dos rapazes a
meia voz e daquele coro de rãs ergueu-se um murmúrio geral.
A VISTA DOS BOSQUES 7 3

«Eu sou um velho com um problema cardíaco», disse. «Não


consigo parar um boi.»
«Ela é que lhe meteu a ideia na cabeça», murmurou a filha,
à beira da cadeira, num tom débil e indiferente, a cabeça
rodando de um lado para o outro. «Ela é que o instiga a tudo.»
«Nenhuma criança nunca me instigou a nada !», vociferou
ele. «Tu não és mãe nem és nada ! É s uma vergonha ! Aquela
criança é um anj o ! Uma santa !», gritou ele numa voz tão
aguda que até lhe falhou, obrigando-o a sair apressadamente
da divisão.
Teve que ficar na cama o resto da tarde. O seu coração,
sempre que sabia que a criança tinha apanhado, sentia-se
como se fosse ligeiramente maior que o espaço que o deveria
conter. Mas agora estava mais determinado que nunca a ver
a estação de serviço erguer-se em frente da casa, e se isso
provocasse uma apoplexia a Pitts, tanto melhor. Se de facto
lhe provocasse uma apoplexia e o deixasse paralisado, seria
muito bem feito e nunca mais poderia espancá-la de novo.
Mary Fortune nunca ficava zangada com ele durante
muito tempo, ou zangada a sério, e embora não a tivesse
visto o resto desse dia, quando acordou na manhã seguinte,
ela estava escarranchada no seu peito ordenando-lhe que se
apressasse para não perderem a betoneira.
Os trabalhadores estavam a assentar os alicerces do clube
de pesca quando eles chegaram e a betoneira estava já a fim­
cionar. Era mais ou menos do tamanho e da cor de um ele­
fante de circo ; ficaram de pé a vê-la agitar-se durante cerca
de meia hora. Às onze e meia, o velho tinha um encontro com
Tilman para discutir a transacção e tiveram que partir. Não
disse a Mary Fortune onde iam mas apenas que precisava de
se encontrar com um homem.
Tilman dirigia um armazém rural misto, uma estação de
serviço, um ferro-velho, um stand de carros usados e um
salão de baile a oito quilómetros de distância pela estrada
principal que se ligava à estrada de terra batida que passava
em frente da propriedade dos Fortune. Uma vez que a estrada
74 o ' CONNOR

de terra ia ser asfaltada em breve, ele pretendia aí uma boa


localização para outro empreendimento semelhante. Era um
homem diligente - do género, pensava Mr. Fortune, daque­
les que nunca acompanhavam apenas o progresso mas sim
dos que estavam sempre um pouco à sua frente para poder
estar lá e o receber quando ele chegasse. Tabuletas num sen­
tido e noutro da estrada anunciavam que o armazém do
Tilman se encontrava apenas a cinco quilómetros, apenas a
quatro, apenas a três, apenas a dois, apenas a um ; «Estej a
atento a o armazém d o Tilman, já a o virar d a esquina !» e ,
finalmente, «Ei-lo, Amigos, o armazém d o TILMAN !>1, em
letras vermelhas ofuscantes.
O armazém do Tilman estava rodeado de ambos os lados
por um recinto de velhos chassis de carros usados, uma espé­
cie de enfermaria para automóveis incuráveis. Também vendia
enfeites de exterior, tais como : garças e galinhas de pedra,
vasos, tloreiras, moinhos de vento e, mais para o interior, afas­
tada da estrada de forma a não deprimir os seus clientes do
salão de baile, um fileira de pedras e monumentos tumulares.
A maior parte do seu negócio decorria no exterior, de forma
que o edifício do armazém não tinha requerido um investi­
mento excessivo. Era uma estrutura de madeira com um com­
partimento apenas, ao qual ele tinha acrescentado, nas trasei­
ras, um comprido salão de chapa equipado para os bailes. Este
estava dividido em duas secções : Cor e Brancos, cada uma
delas com os seus divertimentos privativos. Tinha um chur­
rasco e vendia sanduíches de grelhados e refrigerantes.
Ao passar por baixo do telheiro do armazém do Tilman, o
velho lançou um olhar à criança sentada com os pés em cima
do assento e o queixo descansando nos joelhos. Não sabia se
ela se lembraria ou não que era ao Tilman que ele ia vender
a parcela.
«Por que é que entrou aqui?», perguntou ela subitamente,
com uma expressão de suspeita como se farejasse um inimigo.
«Não é da tua conta», disse ele. «Espera no carro e quando
eu sair, trago-te uma coisa.»
A VISTA DOS BOSQUES 7 5

«Não me traga nada», disse ela sombriamente, «porque eu


não vou cá estar.»
«Alto aí», disse ele. «Agora que estás aqui, não há mais
nada que possas fazer a não ser esperani, e saiu do carro e
sem lhe prestar mais atenção, entrando no armazém escuro
onde Tilman o esperava.
Quando saiu, meia hora mais tarde, ela não estava no
carro. Escondera-se, supôs. Começou a andar pelo armazém
para ver se estaria nas traseiras. Espreitou pelas portas das
duas secções do salão de baile e caminhou em volta das
pedras tumulares. A seguir o olhar vagueou pelo recinto de
automóveis corroídos e pensou que ela poderia estar dentro
ou atrás de qualquer um dos duzentos que ali se encontra­
vam. Regressou ao exterior em frente do armazém. Um rapaz
preto, que bebia uma bebida púrpura, estava sentado no chão
encostado ao frigorífico que gotej ava.
«Para onde foi aquela rapariguinha, rapaz?», perguntou.
«Não vi nenhuma rapariguinha», disse o rapaz.
O velho procurou com irritação no bolso, entregou-lhe um
níquel e disse: «Uma rapariguinha bonita com um vestido de
algodão amarelo.»
«Se está a falar de uma criança forte parecida consigo»,
disse o rapaz, «foi-se embora numa camioneta com um
branco.»
«Que género de camioneta, que género de branco?», gritou ele.
«Era uma camioneta de caixa aberta verde», disse o rapaz
estalando os lábios, «e um branco a quem ela chamou "papá".
Eles foram naquela direcção há j á algum tempo.»
A tremer, o velho entrou no carro e dirigiu-se a casa. Os
seus sentimentos alternavam entre a fúria e a mortificação.
Ela nunca o tinha abandonado antes e certamente nunca
pelo Pitts. Pitts mandara-a subir para a camioneta e ela ti­
vera medo de não o fazer. Mas ao chegar a esta conclusão
ficou mais furioso que nunca. O que é que se passava com
ela para não conseguir fazer face a Pitts? Por que razão
havia este defeito específico no seu carácter quando ele a
7 6 o ' CONNOR

tinha treinado tão bem em tudo o mais? Era um mistério


muito desagradável.
Quando chegou a casa e subiu os degraus da frente, lá
estava ela sentada no baloiço, olhando em frente com uma
expressão carrancuda para lá do campo que ele ia vender. Os
olhos dela estavam inchados e aureolados de vermelho mas
ele não lhe viu marcas vermelhas nas pernas. Sentou-se no
baloiço, ao seu lado. Tencionava tornar a voz severa mas em
vez disso saiu-lhe vacilante, como se pertencesse a um pre­
tendente que tentasse ocupar de novo o seu lugar.
«Por que é que me deixaste? Nunca me tinhas deixado
antes», disse.
«Porque quis», disse ela, olhando em frente.
«Nunca tinhas querido», disse ele. «Ele obrigou-te.»
«Avisei-o que me iria embora e fui», disse ela numa voz
baixa e enfática, sem olhar para ele ; «E agora pode ir-se
embora e deixar-me em paz.» Havia qualquer coisa de defini­
tivo na forma como isto soava, um tom que nunca tinha sur­
gido antes nas discussões entre ambos. Ela olhava fixamente
para lá da parcela onde não havia nada a não ser uma profu­
são de ervas daninhas de cor rosa, amarela e púrpura, e para
mais longe, para lá da estrada vermelha, para a linha sombria
de pinhais negros debruados por uma franja verde no topo.
Atrás dessa linha estendia-se uma linha estreita de um azul
acinzentado de bosques mais distantes e para além dela nada
mais do que o céu, completamente vazio à excepção de uma
ou duas nuvens esfiapadas. Ela olhava para esta paisagem
como se esta fosse uma pessoa que ela preferia encarar.
«A parcela é minha, não é?», perguntou ele. «Por que é que
estás tão excitada por eu vender a parcela que me pertence?»
«Porque é o relvado», disse ela. O nariz e os olhos começa­
ram a pingar de forma terrivel mas ela mantinha o rosto inal­
terável e lambia a água assim que estava ao alcance da lín­
gua. «Deixaremos de poder ver para lá da estrada», disse ela.
O velho olhou para lá da estrada para se assegurar de
novo que não havia nada ali para se ver. «Nunca te vi agir
A VISTA DOS BOSQUES 7 7

desta maneira antes», disse ele numa voz incrédula. «Ali não
há nada a não ser os bosques.»
«Deixaremos de vê-los», disse ela, «e aquilo é o relvado e
os bezerros do meu papá pastam ali.»
Ao ouvir aquilo o velho levantou-se. «Estás a comportar-te
mais como uma Pitts do que como uma Fortune», disse. Nunca
antes lhe tinha feito um comentário tão desagradável e arre­
pendeu-se no mesmo instante em que o disse. Magoava-o mais
a ele do que a ela. Virou-se e entrou em casa e subiu as esca­
das em direcção ao quarto.
Por diversas vezes durante a tarde se levantou da cama e
olhou através da janela para lá do «relvado» para a linha de
bosques que ela afirmava que deixariam de poder ver. De
todas as vezes viu o mesmo : bosques - não uma montanha,
não uma queda de água, não qualquer tipo de arbusto ou flor
plantada, nada mais que bosques. A luz do sol entretecia-se
por entre eles nessa altura particular da tarde de forma que
cada tronco estreito de pinheiro se destacava em toda a sua
nudez. Um tronco de pinheiro é um tronco de pinheiro, dizia
para consigo, e qualquer pessoa que queira ver um não pre­
cisa de ir longe por estas bandas. De cada vez que se levan­
tava e olhava para fora, ficava mais convencido do seu bom
senso em vender a parcela. O desgosto que causaria ao Pitts
seria permanente, mas ele podia compensar Mary Fortune
comprando-lhe qualquer coisa. Para os adultos, uma estrada
levava ou ao céu ou ao inferno, mas com as crianças havia
sempre paragens ao longo do caminho onde a atenção delas
podia ser desviada com uma insignificância.
A terceira vez que se levantou para olhar para os bosques,
eram quase seis horas e os troncos descamados pareciam bro­
tar de uma poça de luz vermelha que jorrava do sol quase
oculto que se punha por trás deles. O velho fitou a cena du­
rante algum tempo, como se durante um dilatado instante
tivesse sido arrebatado para fora da agitação de tudo o que
levava ao futuro e fosse retido ali no centro de um mistério
desconfortável de que não se tinha apercebido anteriormente.
7 8 o'CONNOR

Viu-o na sua alucinação, como se alguém estivesse ferido por


detrás dos bosques e as árvores estivessem banhadas em san­
gue. Após alguns minutos esta visão desagradável foi que­
brada pela presença da camioneta de Pitts que parou com um
chiar por debaixo da janela. Voltou para a cama, fechou os
olhos e contra as pálpebras fechadas ergueram-se carrinhas
de um vermelho diabólico num bosque negro.
À mesa do jantar ninguém lhe dirigiu uma palavra,
incluindo Mary Fortune. Ele comeu rapidamente e regressou ao
quarto ; passou o serão enumerando para si próprio as vanta­
gens para o futuro de ter um estabelecimento como o de Tilman
tão perto. Não precisariam de se deslocar para obter gasolina.
Sempre que precisassem de pão, tudo o que teriam de fazer era
sair da porta da frente e entrar na porta das traseiras do Tilman.
Poderiam vender leite ao Tilman. Tilman era um sujeito simpá­
tico. Tilman atrairia outros negócios. A estrada seria asfaltada
em breve. Viajantes de todo o país parariam no Tilman. Se a
filha se achava melhor que o Tilman, seria bom humilhá-la um
pouco. Todos os homens eram criados livres e iguais. Quando
esta frase lhe ecoou na cabeça, o seu sentido patriótico triunfou
e ele apercebeu-se que era seu dever vender a parcela, que ele
tinha por obrigação assegurar o futuro. Olhou pela janela para
a Lua que brilhava por cima dos bosques para lá da estrada e
escutou durante algum tempo o zunido dos grilos e das rãs
arborícolas, e por baixo da sua algazarra, ele conseguia ouvir o
pulsar da futura cidade de Fortune.
Foi para a cama certo de que, como de costume, acorda­
ria de manhã e olhando para um pequeno espelho vermelho
emoldurado por cabelo loiro. Ela teria esquecido tudo o que
se referia à venda e depois do pequeno-almoço iriam até à
vila buscar os documentos ao tribunal. No caminho de
regresso pararia no armazém do Tilman e fecharia o negócio.
Quando abriu os olhos de manhã, dirigiu-os para o tecto
vazio. Ergueu-se e olhou pelo quarto mas ela não estava lá.
Debruçou-se da cama e olhou para baixo mas ela também
não estava lá. Levantou-se, vestiu-se e saiu. Ela estava sen-
A VISTA DOS BOSQUES 7 9

tada no baloiço no alpendre, exactamente como tinha


estado ontem, a olhar p ara lá do relvado na direcção dos
bosques. O velho ficou muito irritado. Todas as manhãs
desde que ela tinha aprendido a trepar, ele encontrava-a, ao
acordar, ou em cima da sua cama, ou por baixo dela. Era
óbvio que esta manhã ela preferia olhar para a paisagem
dos bosques. Decidiu ignorar o comportamento dela de
momento e abordá-lo depois mais tarde quando ela tivesse
esquecido a birra. Sentou-se no baloiço ao lado dela mas ela
continuou a olhar para os bosques. «Pensei que tu e eu
podíamos ir à vila dar uma vista de olhos aos b arcos na
nova loja náutica», disse.
Ela não virou a cabeça mas perguntou desconfiada, em
voz alta. «Por que outra razão é que vai lá?11
«Para mais nada11, disse ele.
Após uma pausa ela disse, «Se é só isso, eu vou11, mas não
se deu ao trabalho de olhar para ele.
«Bom, então vai calçar os sapatos», disse ele. «Não vou à
cidade com uma mulher descalça.» Ela não se deu ao traba­
lho de rir da piada.
O tempo estava tão indiferente como a atitude dela. O céu
não indicava se iria chover ou se não iria chover.
Apresentava um cinzento desagradável e o Sol não se tinha
dado ao incómodo de aparecer. Durante todo o caminho para
a vila, ela deixou-se ficar sentada a olhar para os pés, que
estavam espetados à sua frente, metidos nuns pesados sapa­
tos práticos e castanhos. O velho tinha-se frequentemente
acercado dela sorrateiramente surpreendendo-a a conversar
sozinha com os pés e pensou que desta vez estaria a falar com
eles em silêncio. De vez em quando os lábios dela moviam­
-se mas não lhe diziam nada e deixava passar todos os comen­
tários dele como se não os ouvisse. Ele pensou que lhe ia cus­
tar caro comprar de novo o bom humor dela e que o melhor
a fazer era consegui-lo com um barco, já que ele também
queria um. Ela tinha começado a falar de barcos desde que a
água alcançara a propriedade. Foram primeiro à loja dos bar-
80 ü ' CONNOR

cos. «Mostre-nos os iates para pobres !», gritou ele j ovialmente


para o empregado ao entrar.
«São todos para pobres !», disse o empregado. «Vai ser
pobre quando acabar de pagar um !» Era um j ovem robusto
que envergava uma camisa amarela, calças azuis e possuía
um humor pronto. Trocaram vários comentários espirituosos
numa sucessão de fogo rápido. Mr. Fortune olhou para Mary
Fortune para ver se o rosto dela se tinha animado. Ela estava
de pé olhando de forma abstracta para a parede oposta por
cima de um barco com um motor fora de bordo.
«A senhora não está interessada em barcos?», perguntou o
empregado.
Ela virou-se, saiu de novo para o passeio e entrou nova­
mente para o carro. O velho ficou a olhar para ela com
espanto. Não conseguia acreditar que uma criança com a
inteligência dela pudesse estar a comportar-se desta maneira
por causa da mera venda de um campo. «Acho que ela está a
chocar qualquer coisa», disse ele. «Havemos de voltar noutro
dia», e regressou ao carro.
«Vamos comer um gelado», sugeriu ele, olhando para ela
com preocupação.
«Não quero nenhum gelado», disse ela.
O seu verdadeiro destino era o tribunal mas ele não que­
ria tomá-lo perceptível. «Que tal ires à loj a dos 10 cêntimos r2 1
enquanto eu trato de um assuntozinho meu?», perguntou ele.
«Podes comprar qualquer coisa para ti com esta moeda de
quarto [3 l que eu trouxe.»
«Não tenho nada para fazer em nenhuma loj a dos 10 cên­
timos», disse ela. «Não quero nenhuma moeda de quarto sua.»
Se um barco não lhe interessava, ele não devia ter pen­
sado que uma moeda de quarto lhe interessaria e recriminou­
-se pela estupidez. «Bem, o que é que se passa, pequena?»,
perguntou com delicadeza. «Não te sentes bem?»

[2] O equivalente à loja d o s trezentos d o s nossos dias. (N. da T.)


[J] Quarto de dólar, ou 2 5 cêntimos. (N. da T.)
A VISTA DOS BOSQUES 8 1

Ela voltou-se e olhou-o bem de frente e disse com uma


ferocidade lenta e concentrada : « É o relvado. É lá que os
bezerros do meu papá pastam. Deixaremos de poder ver os
bosques.11
O velho tinha refreado a sua fúria tanto quanto podia. «Ele
bate-te !11, gritou. «E tu preocupaste onde ele vai pôr os bezer­
ros a pastar!11
«Nunca ninguém me bateu na vida», disse ela, «e se al­
guém o fizesse, eu matava-0.11
Um homem de setenta e nove anos de idade não se pode
deixar calcar por uma criança de nove. O seu rosto fixou-se
numa expressão que era tão determinada quanto a dela. « É s
uma Fortune11, disse ele, «OU és uma Pitts? Decide-te.»
A voz dela era alta e positiva e beligerante. «Eu sou Mary­
-Fortune-Pitts11, disse.
«Bom, eu», gritou ele, «sou CEM POR CENTO Fortune !11
Não havia nada que Mary pudesse responder a isto e ela
evidenciou-o. Durante um momento pareceu completamente
derrotada, e o velho viu com uma clareza perturbadora que
esta era a expressão dos Pitts. O que ele viu era a expressão
dos Pitts, pura e dura, e ele sentiu-se pessoalmente conspur­
cado por ela, como se ela tivesse sido encontrada no seu pró­
prio rosto. Virou-se com aversão, fez marcha-atrás e dirigiu­
-se directamente para o tribunal.
O tribunal era um edifício vermelho e branco com a fron­
taria reluzente que se erguia no centro de um largo do qual
a maior parte da relva tinha sido arrancada. Estacionou à sua
frente e disse, «Não saias daqui !», num tom imperativo, saiu
e bateu com a porta.
Levou meia hora a conseguir o documento e que lhe redi­
gissem a escritura da venda e quando regressou ao carro, ela
estava sentada no banco de trás a um canto. A expressão na
parte do rosto que ele conseguia ver era agourenta e retraída.
O céu também tinha escurecido e havia uma corrente quente
e lenta no ar, do género que se sente quando um tufão pode
surgir.
8 2 ü 'CONNOR

« É melhor seguirmos antes de sermos apanhados por uma


borrasca», disse ele enfaticamente, «porque tenho mais um
sítio onde tenho que parar a caminho de casa.» Mas ele bem
poderia estar a transportar um pequeno cadáver pela resposta
que recebeu.

A caminho do armazém do Tilman examinou mais uma


vez as muitas legítimas razões que o conduziam à sua acção
presente e não conseguiu encontrar nem uma falha em
alguma delas. Cogitou que, mesmo que a atitude dela não
fosse definitiva, ele estava permanentemente desapontado
com ela e que quando ela caísse em si teria que pedir des­
culpa ; e que não haveria barco nenhum. Estava lentamente a
chegar à conclusão que o seu problema com ela sempre tinha
sido não ter demonstrado firmeza suficiente. Tinha sido
demasiado generoso. Estava tão ocupado com estes pensa­
mentos que não reparou nas tabuletas que comunicavam
quantas milhas faltavam para o armazém do Tilman até o
último lhe explodir alegremente na cara : «Aqui está, Amigos,
o armazém do TILMAN !» Estacionou por baixo do telheiro.
Saiu sem sequer olhar para Mary Fortune e entrou no
armazém escuro onde Tilman, inclinado sobre o balcão
defronte de uma prateleira tripla de produtos enlatados, o
esperava.
Tilman era um homem de acção rápida e poucas palavras.
Sentava-se habitualmente com os braços cruzados, apoiando­
-se no balcão, e a cabeça insignificante meneando como uma
cobra por cima deles. Possuía um rosto triangular com o vér­
tice em baixo e o cimo do crânio estava coberto por um soli­
déu de sardas. Os olhos eram verdes e muito estreitos e a lín­
gua estava sempre à vista na boca parcialmente aberta. Tinha
o livro de cheques à mão e puseram mãos ao negócio de ime­
diato. Não precisou de muito tempo para analisar a escritura
e assinar o documento da venda. Mr. Fortune assinou-o de
seguida e deram um aperto de mão por sobre o balcão.
A VISTA DOS BOSQUES 8 3

A sensação de alívio d e Mr. Fortune ao apertar a mão de


Tilman foi extrema. O que estava feito, estava feito, não
poderia haver mais discussões com ela ou consigo próprio.
Sentia que tinha agido por princípio e que o futuro estava
assegurado.
Assim que as mãos deles se separaram, uma mudança ins­
tantânea se apoderou do rosto de Tilman no mesmo instante
em que desapareceu completamente sob o balcão como se
tivesse sido arrebatado na parte inferior, pelos pés. Uma gar­
rafa partiu-se contra a linha de produtos enlatados por detrás
do sítio onde ele tinha estado. O velho voltou-se rapida­
mente. Mary Fortune estava à porta, muito corada e com um
aspecto desvairado, com outra garrafa erguida para arremes­
sar. Ao mesmo tempo que o avô se baixava, esta partiu-se
contra o balcão e ela retirou outra da grade. Ele deu um salto
na sua direcção mas ela correu para o outro lado do arma­
zém, gritando qualquer coisa ininteligível e atirando tudo o
que estava ao seu alcance. O velho precípitou-se novamente
sobre ela e desta vez apanhou-a pela ponta do vestido e
puxou-a às arrecuas p ara fora do armazém. Em seguida con­
seguiu agarrá-la melhor e transportou-a ao colo, a criança
ofegante e a choramingar, mas quedou-se repentinamente
flácida nos seus braços, nos p oucos metros até ao carro.
Conseguiu abrir a porta e deixá-la cair no interior. Em
seguida deu a volta a correr até ao outro lado, entrou e con­
duziu para longe tão rapidamente quanto podia.
O seu coração parecia ter o tamanho do carro e corria em
frente, levando-o para um destino inevitável mais rápido do
que alguma vez tinha sido levado. Durante os primeiros cinco
minutos ele não raciocinou, apenas acelerou como se esti­
vesse a ser conduzido no interior da sua própria fúria.
Gradualmente a capacidade de raciocínio regressou. Mary
Fortune, enrolada como uma bola no canto do assento, fun­
gava e arfava.
Ele nunca tinha visto uma criança comportar-se daquela
maneira em toda a sua vida. Nenhum dos seus filhos nem o
84 O ' CONNOR

filho de outra pessoa qualquer tinha alguma vez exibido um


tal mau humor na sua presença, e ele não tinha imaginado
nem por um instante, que a criança que ele próprio tinha
educado, a criança que tinha sido a sua companheira cons­
tante ao longo de nove anos, o envergonharia desta maneira.
A criança à qual ele nunca tinha levantado um dedo !
Então percebeu, com a súbita visão que por vezes surge
com um reconhecimento tardio, que esse tinha sido o seu
erro.
Ela respeitava Pitts porque, mesmo sem justa causa, ele
lhe batia; e se ele - com a sua justa causa - não lhe batesse
agora, não p oderia culpar ninguém a não ser a si próprio se
ela se tomasse numa pesso a perversa. Compreendeu que
tinha chegado o momento em que não podia mais evitar
açoitá-la, e ao sair da estrada p rincipal e virar para a estrada
de terra b atida que levava a casa, disse para si próprio que
quando tivesse acabado, ela nunca mais lhe atiraria nenhuma
garrafa.
Acelerou na estrada de terra batida até chegar à estrema
da sua propriedade e aí virou para um caminho lateral, ape­
nas suficiente largo para o automóvel p assar, e avançou aos
solavancos pelo bosque ao longo de oitocentos metros. Parou
o carro no sítio exacto onde tinha visto Pitts bater-lhe com o
cinto. Era um local onde a estrada alargava de forma a pode­
rem passar dois carros ou um carro poder fazer inversão de
marcha, um local feio, avermelhado e careca rodeado de
pinheiros compridos e esguios que pareciam estar ali reuni­
dos para presenciar tudo o que acontecesse nessa clareira.
Algumas pedras rompiam do b arro .
«Sai», disse ele e esticou-se por cima dela e abriu a porta.
Ela saiu sem olhar para ele ou perguntar o que iam fazer
e ele saiu do lado dele e deu a volta pela frente do carro.
«Agora vou dar-te uma surra !», disse ele e a sua voz era
muito alta e oca e possuía uma qualidade vibratória que
parecia subir e ser transpo rtada através das copas dos pinhei­
ros. Ele não queria ser apanhado numa chuvada enquanto a
A VISTA DOS BOSQUES 8 5

açoitava e disse, «Despacha-te e encosta-te àquela árvore», e


começou a tirar o cinto.
Aquilo que ele tencionava fazer pareceu surgir muito len­
tamente como se tivesse que atravessar um nevoeiro dentro
da cabeça dela. Ela não se mexeu, mas pouco a pouco a sua
expressão confusa começou a desaparecer. Enquanto que
alguns segundos atrás o rosto dela tinha estado afogueado e
distorcido e sem organização, agora esvaziava-se dos míni­
mos traços até nada restar nele a não ser a convicção plena,
uma expressão que passara lentamente pela determinação e
alcançara a certeza. «Nunca ninguém me bateU», disse ela, «e
se alguém o tentar, eu mato-o.»
«Não quero cá má-criação», disse o avô e começou a diri­
gir-se para ela. Sentia os joelhos muito hesitantes, como se
estes pudessem virar quer para a frente quer para trás.
Ela recuou um passo apenas e, mantendo o olhar fixo
nele, tirou os óculos e deixou-os cair atrás de uma p equena
rocha perto da árvore onde ele lhe tinha dito para se encos­
tar. «Tire os óculos», disse ela.
«Não me dês ordens !», disse ele numa voz aguda e bateu­
-lhe desaj eitadamente nos tornozelos com o cinto.
Ela atirou-se a ele tão depressa que lhe seria impossível
lembrar-se que golpe sentiu primeiro, se o peso de todo o seu
corpo sólido, se os pontapés, se os murros do punho dela no
seu peito . Ele zurziu o cinto no ar, sem saber onde bater mas
tentando livrar-se dela até conseguir decidir onde agarrá-la.
«Larga !», gritou ele. «Larga, j á disse !» Mas ela parecia estar
em toda a parte, atacando-o de todas as direcções ao mesmo
tempo . Era como se estivesse a ser atacado não por uma
criança, mas por um b ando de pequenos demónios, todos
com sap atos castanhos práticos e resistentes e pequenos
punhos como pedras. Os óculos dele voaram para o lado.
«Eu disse-lhe para os tirar», rosnou ela sem se deter.
O Fortune agarrou-se ao j oelho e dançou num pé, e uma
chuva de golpes caiu-lhe sobre o estômago. Sentiu cinco gar­
ras na carne do antebraço onde ela se pendurava enquanto os
8 6 ü'CONNOR

pés lhe martelavam mecanicamente os joelhos, e o pulso livre


o esmurrava repetidamente no peito. Então com horror viu­
-lhe a cara erguer-se em frente da dele, com os dentes à mos­
tra, e ele rugiu como um touro quando ela lhe mordeu o lado
da queixada. Pareceu-lhe ver a sua própria cara aproxi­
mando-se para lhe morder de vários lados ao mesmo tempo
mas não p odia acudir-lhes pois estava a ser pontapeado
indiscriminadamente, no estômago e a seguir no baixo-ven­
tre. De repente, atirou-se p ara o chão e começou a rebolar
como um homem em chamas. Ela atirou-se p ara cima dele
instantaneamente, rebolando com ele e continuando a dar
pontapés, e agora com ambos os punhos livres para lhe
esmurrar o peito.
«Eu sou velho !», disse ele com uma voz esganiçada.
«Deixa-me ! » Mas ela não se deteve. Iniciou um novo assalto
ao maxilar dele.
«Pára, pára !», disse ele sem fôlego. « Sou teu avô .»
Ela parou, com a cara exactamente por cima da dele. Um
olho pálido idêntico olhava para um olho pálido idêntico. dá
teve que chegasse?», perguntou ela.
O velho levantou os olhos para a sua própria imagem.
Estava triunfante e hostil. «Você apanhou», disse, «de mim», e
depois acrescentou, martelando cada palavra, «e eu sou uma
Pitts CEM POR CENTO.»
Na pausa ela afrouxou a pressão e o homem aproveita
para lhe agarrar o pescoço. Com uma súbita onda de energia,
conseguiu virar-se e inverter as posições de forma que ele
ficou a olhar para baixo para o rosto que era o seu mas que
tinha tido a ousadia de chamar a si próprio Pitts. Com as
mãos ainda cerradas à volta do pescoço dela, ele ergueu-lhe
a cabeça e b ateu-a com força uma vez contra a rocha que,
por acaso, se encontrava por baixo dela. Malhou com a
mesma p arte mais duas vezes. Depois, olhando para o rosto
no qual os olhos, rolando lentamente para trás, p areciam não
lhe prestar a menor atenção, disse: «Não existe um só pingo
de Pitts em mim.»
A VISTA DOS BOSQUES 8 7

Continuou a olhar fixamente p ara a sua imagem conquis­


tada até se aperceber que, embora estivesse absolutamente
silenciosa, não apresentava a mínima expressão de remorso.
Os olhos tinham rolado de novo para baixo e estavam imó­
veis num olhar fixo que não se apercebia da presença dele.
«Isto deve ensinar-te uma boa lição», disse o velho numa voz
que apresentava um fio de dúvida.
Conseguiu levantar-se com dificuldade sobre as pernas
pontapeadas e inseguras e dar dois passos, mas a dilatação do
seu coração, que se tinha iniciado no carro, persistia ainda.
Virou a cabeça e olhou para trás de si durante muito tempo
para a pequena figura imóvel, com a cabeça em cima da rocha.
Depois caiu de costas e olhou para cima, desamparado,
seguindo os troncos nus até à copa dos pinheiros e o coração
expandiu-se de novo com um movimento convulsivo. A pro­
pagação deu-se tão rapidamente que o velho sentia como se
estivesse a ser puxado por ele através dos bosques, como se
estivesse a correr, tão rapidamente quanto lhe era p ossível,
juntamente com os pinheiros disformes em direcção ao lago.
Apercebia-se que haveria ali uma pequena abertura, um
pequeno espaço por onde p oderia escapar deixando os bosques
para trás. Conseguia já vê-la na distância, uma pequena aber­
tura onde o céu branco se reflectia na água. Crescia à medida
que ele corria na sua direcção até que de repente todo o lago
se abriu diante de si, deslocando-se majestosamente em peque­
nas dobras onduladas em direcção aos seus pés. De repente,
tomou consciência de que não sabia nadar e que não tinha
comprado o barco. De ambos os lados viu que as árvores
esqueléticas tinham engrossado e se tinham tomado fileiras
escuras e misteriosas que marchavam sobre a água e se afas­
tavam na distância. Olhou em redor procurando desesperada­
mente alguém que o ajudasse mas o local estava deserto à
excepção de um enorme monstro amarelo que estava sentado
a um lado, tão imóvel quanto ele, empanturrando-se de barro.
O CALAFRIO PERMANENTE

O comboio de Asbury parou num ponto que permitiu o rapaz


se apear exactamente no sítio onde a mãe, de pé, o esperava.
A cara dela, magra e de óculos, abaixo dele, estava iluminada
por um sorriso largo que desapareceu quando o viu tentando
apoiar-se por detrás do revisor. O sorriso desvaneceu-se tão
repentinamente, e a expressão chocada que o substituiu era
tão absoluta, que o filho se apercebeu pela primeira vez de que
deveria parecer tão doente quanto realmente estava. O céu
exibia um cinzento arrepiado e um surpreendente sol de ouro
branco, como o símbolo de um estranho potentado do oriente,
erguia-se por detrás dos bosques negros que rodeavam
Timberboro. Lançava uma luz estranha sobre o único bloco de
barracões de piso térreo construídos em madeira e tij olo.
Asbury sentiu que estava prestes a presenciar uma transfor­
mação majestosa, que os telhados planos poderiam a qualquer
momento transformar-se nas torres altaneiras de um qualquer
templo exótico a um deus que ele desconhecia. A ilusão durou
apenas um momento antes da sua atenção ser de novo atraída
p ela mãe.
A senhora tinha deixado escapar um pequeno grito ; pare­
cia horrorizada. Asbury sentiu-se satisfeito por ela ver de ime­
diato a morte espelhada no seu semblante. A mãe, aos ses-
90 o'CONNOR

senta anos, ia entrar em contacto com a realidade e ele achava


que, se a experiência a não destruísse, a ajudaria a crescer.
D esceu e cumprimentou-a.
«Não estás com muito bom aspecto», disse ela, e lançou-lhe
um longo olhar clínico.
«Não me apetece falar», disse ele imediatamente. «A via­
gem foi péssima.»
Mrs. Fox reparou que ele tinha o olho esquerdo raiado de
sangue. Estava inchado e pálido e o cabelo apresentava j á
umas entradas terríveis para u m rapaz d e vinte e cinco anos.
O tufo estreito e arruivado que restara no cimo apontava p ara
baixo numa linha que parecia prolongar-lhe o nariz e dar-lhe
uma expressão irritada que combinava com o seu tom de voz
sempre que falava com ela. «Devia estar frio aí em cima», disse
ela. «Por que é que não despes o casaco? Aqui em baixo não
está frio.»
«Não precisa de me dizer que temperatura está !», disse ele
numa voz aguda. «Tenho idade suficiente para saber quando
quero despir o casaco !» O comboio afastou-se deslizando
silenciosamente por trás dele, deixando à vista os blocos
gémeos de armazéns delapidados. Ficou a olhar a mancha de
alumínio que desap arecia nos bosques. Parecia-lhe que o der­
radeiro elo que o unia a um mundo mais vasto se desvanecia
para sempre. Depois voltou-se e encarou a mãe com acrimó­
nia, aborrecido por se ter permitido, ainda que por um
momento apenas, fantasiar um templo imaginário neste
entroncamento rural em ruínas. Tinha-se habituado comple­
tamente à ideia da morte, mas não se tinha acostumado à
ideia de morrer aqui.
Tinha sentido o fim aproximar-se ao longo de quase qua­
tro meses. Sozinho no seu apartamento gelado, encolhido de­
baixo dos seus dois cobertores e do sobretudo e com três cama­
das do New York Times no meio, sentira um arrepio uma noite,
seguido de uma sudação violenta que deixou os lençóis enso­
pados e lhe afastou quaisquer dúvidas respeitantes à sua ver­
dadeira condição. Antes disso tinha sentido uma diminuição
O CALAFRIO PERMANENTE 9 1

gradual na energia e cada vez mais dores - de cabeça e não


só - vagas e inconsistentes. Faltou tantos dias ao emprego
em part-time na livraria que o acabou por perder. D esde
então vivera, ou sobrevivera, apenas das suas economias ; e
estas, diminuindo de dia p ara dia, tinham sido tudo o que o
protegia da família. Agora não restava nada. Estava de volta
às origens.
« Onde está o carro?», murmurou.
«Está acolá», disse a mãe. «E a tua irmã está a dormir no
banco de trás porque eu não gosto de sair tão cedo sozinha.
Não há necessidade de acordá-la.»
«Não», disse ele, «não agitemos as águas.» Agarrou nas
duas malas a abarrotar e começou a atravessar a estrada com
elas.
Eram demasiado pesadas para ele e, ao chegar ao carro, a
mãe viu que o filho estava exausto. Nunca antes tinha vindo
a casa com duas malas. D esde a altura em que partira para a
universidade, tinha sempre regressado apenas com o estrita­
mente necessário para uma estadia de duas semanas e uma
expressão fechada e resignada que revelava estar preparado
para aguentar a visita durante catorze dias unicamente, nem
mais um. «Trouxeste mais do que o habitual», observou ela,
mas ele não respondeu.
Abriu a porta do carro e içou as duas malas para o espaço
ao lado dos pés erguidos da irmã, lançando, primeiro aos pés
- que calçavam sapatos rasos de sufragista inglesa - e depois
ao resto, um olhar de reconhecimento e animosidade. A mulher
estava aconchegada dentro de um fato preto, e tinha um trapo
branco à volta da cabeça com rolos de metal a espreitarem por
baixo. Os olhos estavam fechados e a boca aberta. Ele e ela
possuíam as mesmas feições mas as dela eram maiores. Ela era
oito anos mais velha do que ele e directora da escola básica
do município. Fechou a porta devagar para não a acordar e
depois deu a volta e sentou-se no lugar da frente e fechou os
olhos. A mãe fez marcha-atrás, e, poucos minutos depois, ele
sentiu o carro virar e entrar na estrada principal. Nessa altura,
9 2 ü'CONNOR

abriu os olhos. A estrada estendia-se entre dois campos amplos


de ambrósia-americana amarela.
«Achas que Timberboro melhorou?», perguntou a mãe. Esta
era a sua pergunta p adrão, que devia ser tomada literalmente.
«Ainda existe, não é?», disse ele numa voz desagradável.
«Dois dos armazéns têm fachadas novas», disse ela. Depois,
com uma ferocidade repentina, disse : «Fizeste bem em voltar
para casa, onde podes ser visto por um bom médico ! Vou
levar-te ao Doutor Block esta tarde.»
«Eu não vou», disse ele, tentando evitar que a voz lhe tre­
messe, «ao D outor Block. Nem esta tarde nem nunca. Não
acha que se eu quisesse ir a um médico teria ido lá no Norte,
onde há bons médicos? Não sabe que em Nova Iorque há
melhores médicos do que aqui?»
«Ele interessar-se-ia pessoalmente por ti», elucidou ela.
«Nenhum desses médicos lá no Norte se interessaria pessoal­
mente por ti.»
«Eu não quero que ele se interesse pessoãlmente por mim.»
Depois, passado um minuto, olhando além, para um campo
arroxeado e enevoado, disse, «Ü meu problema transcende
completamente o Block», e a sua voz esmoreceu até se tomar
num som esfiapado, quase um soluço.
Não estava prep arado, como o seu amigo Goetz lhe reco­
mendara, para encarar tudo como uma ilusão. Nem tudo o
que se passara antes, nem as poucas semanas que ainda lhe
restavam. Goetz tinha a certeza de que a morte não era abso­
lutamente nada. Goetz tinha regressado de seis meses no
Japão tão suj o como sempre mas tão condescendente como o
próprio Buda. Encarou a noticia da aproximação do fim de
Asbury com uma indiferença calma. Parafraseando alguma
coisa, diss e : «Embora o Bodhisattva guie um número infinito
de criaturas até ao nirvana, na realidade não existem nem
Bodhisattvas para serem guias, nem criaturas p ara serem
guiadas. » No entanto, graças a uma vaga preocupação pelo
seu bem-estar, Goetz contribuiu com quatro dolares e cin­
quenta cêntimos para o levar a uma p alestra cuj o tema era
O CALAFRIO PERMANENTE 9 J

Vedanta. Foi dinheiro mal gasto. Enquanto Goetz ouvia enfei­


tiçado o homenzinho escuro em cima do estrado, o olhar ente­
diado de Asbury passeava-se pelo público. Sobrevoara as
sari, de um j ovem j aponês, de
cabeças de várias raparigas de
um homem preto retinto envergando um fez, e de várias rapa­
rigas com o aspecto de secretárias. Por fim, na extremidade da
fila, pousou os olhos numa figura de negro, magra e de ócu­
los, um padre. A expressão do padre era de um interesse deli­
cado mas estritamente reservado. Asbury identificou imedia­
tamente os seus próprios sentimentos na expressão tacituma
e superior. Quando o colóquio terminou, um grupo de estu­
dantes, entre eles o padre, reuniu-se no apartamento de Goetz,
mas o homem de preto continuou a manifestar-se reservado.
Ouviu com marcada delicadeza a discussão acerca da morte
eminente de Asbury, mas falou pouco. Uma rapariga de sari
observou que a auto-realização estava fora de questão j á que
significava salvação e a palavra não tinha sentido. «A salva­
ção», parafraseou Goetz, «é a destruição de um simples pre­
conceito, e ninguém se salva.»
«E o que é que você diz a isto?», perguntou Asbury ao
padre e retribuiu o seu sorriso reservado por sobre a cabeça
dos outros. A fímbria deste sorriso parecia tocar uma claridade
gelada.
«Existe», disse o padre, «uma probabilidade real da exis­
tência do Homem Novo, assistido, claro», acrescentou ele de
forma insegura, «pela Terceira Pessoa da Trindade.»
«Ridículo !», retrocou a rapariga do sari, mas o padre ape­
nas a roçou com o seu sorriso, que se mostrava agora ligeira­
mente divertido.
Quando se levantou para sair, entregou em silêncio um
pequeno cartão a Asbury no qual tinha escrito o seu nome, -
Ignatius Vogle, S. J., -, e uma morada. Talvez, pensou Asbury
agora, devesse tê-lo usado ; pois o padre parecia-lhe um
homem do mundo, alguém que teria entendido a singular tra­
gédia da sua morte, uma morte cuj o significado transcendia
completamente o grupo palrador que os rodeava depois da
94 o'CONNOR

conferência. E claro, transcendia Block ainda mais ! «Ü meu


problema», repetiu, «transcende completamente o Block.11
A mãe percebeu logo o que ele queria dizer: queria dizer
que ia ter um colapso nervoso. Escolheu não proferir uma
p alavra. Escolheu não dizer que era precisamente isto que ela
poderia ter dito que ia acontecer. Quando as pessoas pensam
que são inteligentes - mesmo quando são inteligentes - não
há nada que os outros possam dizer-lhes p ara lhes permitir ver
as coisas correctamente, e o problema de Asbury era que, para
além de ser inteligente, possuía um temperamento artístico.
Não sabia onde é que o rapaz tinha ido buscá-lo porque o pai
dele, que era advogado, homem de negócios e agricultor e
político tudo num só, sempre tivera os pés bem assentes na
terra ; de igual modo, também ela sempre tivera os seus bem
firmados. Depois da morte dele, tinha conseguido que ambos
os filhos tirassem um curso superior e que fossem ainda mais
longe ; mas depois verificou que, quanto mais estudavam,
menos sabiam fazer. O pai deles, pelo contrário, tinha fre­
quentado uma escola apenas com uma sala de aula até ao
oitavo ano e conseguia fazer o que quer que fosse.
Poderia ter dito a Asbury o que certamente o ajudaria.
Poderia ter dito, por exemplo : •Se saísses para o ar livre, ou se
trabalhasses durante um mês na vacaria, serias uma pessoa
diferente !» ; mas sabia exactamente como seria recebida tal
sugestão. O filho seria um estorvo na vacaria, mas ela deixá­
-lo-ia trabalhar lá se ele quisesse. Tinha-o deixado trabalhar lá
no ano anterior, quando ele veio passar os seus quinze dias a
casa e estava a escrever a peça. Era uma peça sobre pretos
(porque é que alguém quereria escrever uma peça sobre pretos,
isso transcendia-a) e, nessa altura, disse que queria trabalhar
na vacaria com eles e perceber as coisas pelas quais se interes­
savam. O que lhes interessava era fazerem o menos que lhes
fosse permitido, como ela podia ter-lhe dito logo, se alguém
conseguisse dizer-lhe alguma coisa. Os pretos tinham-no tole­
rado e ele tinha aprendido a colocar as máquinas da ordenha
e uma vez tinha lavado todas as latas e houve uma altura em
O CALAFRIO PERMANENIE 9 5

que ela suspeitou de que ele misturava a ração. Depois uma


vaca dera-lhe um coice e ele não voltara a entrar no estábulo.
Ela sabia que se ele lá entrasse agora, ou se saísse e conser­
tasse cercas, ou fizesse qualquer tipo de trabalho - trabalho a
sério, não escrever - poderia evitar o colapso nervoso. «Afinal
o que é que aconteceu àquela peça que estavas a escrever
sobre os pretos?», perguntou ela.
«Eu não estou a escrever peças», disse ele. «E meta isto na
sua cabeça : eu não vou trabalhar em vacaria nenhuma. Eu não
vou sair para o ar livre. Eu estou doente. Eu tenho febre e arre­
pios, sinto vertigens e tudo o que quero é que me deixe em paz.»
«Então se estás mesmo doente, devias ir ao Doutor Block.»
«E eu não vou ao D outor Block», concluiu ele e afundou­
-se no assento e olhou intensamente à sua frente.
A mãe virou p ara a sua entrada, uma estrada vermelha que
se estendia ao longo de 400 metros e atravessava as duas pas­
tagens da frente. As vacas que não davam leite estavam de um
lado e a manada leiteira do outro. Abrandou e por fim parou
por completo, tendo-lhe captado a atenção uma vaca com as
pernas traseiras afectadas. «Não têm tratado bem dela», obser­
vou, com ar de grande conhecimento de causa. <<Olha-me para
aquele úbere !»
Asbury virou a cabeça abruptamente na direcção oposta,
mas aí uma vaca Guemsey pequena e de olhos arregalados
observava-o atentamente como se pressentisse alguma ligação
entre ambos. « Santo D eus !», gritou ele num tom de agonia,
«não podemos continuar? São seis da manhã !»
«Claro, claro», disse a mãe e ligou o carro rapidamente.
«Ü que é esse grito de dor lancinante?», disse a irmã do
banco de trás, em voz agastada. «Oh, és tu», disse ela. «Bem,
bem, temos o artista de novo entre nós. Que máximo dos
máximos.» A sua voz era francamente nasalada.
Ele não lhe respondeu nem voltou a cabeça. Tinha apren­
dido pelo menos isso. Nunca lhe responder.
«Mary George !», disse a mãe rispidamente. «Asbury está
doente. Deixa-o em paz.»
9 6 o ' CONNOR

«Ü que é que ele tem?», perguntou Mary George.


«Lá está a casa !», disse a mãe como se todos fossem cegos
menos ela. Erguia-se no cimo da colina - uma casa agrícola
branca de dois andares com um alpendre largo e colunas
agradáveis. Ela aproximava-se sempre da casa com um senti­
mento de orgulho e tinha dito mais do que uma vez a Asbury:
«Tens aqui uma casa pela qual metade das pessoas lá do Norte
dariam um braço !»
Tinha visitado uma vez o sítio horrível onde ele vivia em
Nova Iorque. Subiram juntos cinco andares de degraus de
pedra escura, passando por caixotes do lixo destapados em
todos os patamares, para chegar finalmente a dois comparti­
mentos húmidos e mais um armário com uma casa de banho
dentro. «Não viverias assim em casa», tinha ela murmurado.
«Não !», tinha dito ele com uma expressão absorta, «seria
impossível !»
A mãe imaginava que o que se passava era que ela, sim­
plesmente, não compreendia o que sentia alguém sensível ou
como era excêntrica uma pessoa que fosse artista. A irmã
dizia que ele não era artista nenhum e que não tinha talento
e que esse era o problema del e ; mas Mary George também não
era uma rapariga feliz. Asbury dizia que ela se fazia passar por
intelectual mas que o seu Q.I. não devia ultrapassar os setenta
e cinco, e que tudo o que lhe interessava era arranjar um
homem mas que nenhum homem sensato olharia para ela
duas vezes. A mãe tentou dizer-lhe que Mary George podia ser
muito atraente quando se dispunha a isso, e ele respondeu que
esse esforço mental a destruiria. Se ela fosse minimamente
atraente, dissera ele, não seria agora directora de uma escola
básica municipal, e Mary George tinha dito que se Asbury
tivesse algum talento, teria já publicado alguma coisa. O que
é que ele tinha publicado, queria ela saber, e já agora, o que é
que ele tinha sequer escrito?
Mrs. Fox fizera notar que ele tinha apenas vinte e cinco
anos e Mary George dissera que a idade com a qual a maior
parte das pessoas publicava alguma coisa era aos vinte e um,
O CALAFRIO PERMANENfE 9 7

o que fazia c o m que ele o devesse ter feito há j á quatro anos.


Mrs. Fox não estava a par dessas minudências, mas alvitrou
que ele poderia estar a escrever um livro grande. Livro muito
grande uma ova, disse Mary George, ele já se saía bem se pro­
duzisse sequer um poema. Mrs. Fox esperava que não fosse
apenas um poema.
Estacionou o carro na passagem ao lado da casa e um
bando de galinhas-do-mato espalhou-se voando e piando em
volta da casa. «De novo em casa, de novo em casa, iupih>,
exclamou a mãe.
«Santo Deus», gemeu Asbury.
«0 artista chega à câmara de gás», disse Mary George na
sua voz nasalada.
Ele apoiou-se na porta e saiu e, esquecendo as malas, diri­
giu-se à parte da frente da casa como que num torpor. A irmã
saiu e ficou ao lado da porta do carro, fitando de olhos semi­
cerrados a sua figura curvada e insegura. Ao vê-lo subir os
degraus da frente, a boca descaiu-lhe na cara espantada.
«Bem», disse, «passa-se alguma coisa com ele. Parece que tem
cem anos.»
«Eu não te disse?», sibilou a mãe. «Agora vê se te calas e
deixa-o em paz.»
Ele entrou em casa, parando no vestíbulo apenas o tempo
suficiente para observar a sua face p álida e devastada a fitá­
-lo por um instante a partir do espelho na p arede. Segurando-
-se ao corrimão, arrastou-se pelas escadas íngremes acima,
pelo p atamar e depois pelo segundo lance de escadas, mais
curto, e entrou no quarto, um compartimento amplo e arej ado
com um tapete azul desbotado e cortinas brancas recente­
mente colocadas em sua honra. Sem olhar p ara nada, caiu de
barriga p ara baixo na cama que tinha como sua. Era uma
cama antiga e estreita com uma cabeceira ornamental alta,
onde estava esculpido um cesto com um festão a transbordar
de frutos de madeira.
Enquanto ainda estava em Nova Iorque, tinha escrito à
mãe uma carta que enchia dois blocos de notas. Não preten-
9 8 ü 'CONNOR

dia que fosse lida senão após a sua morte. Era uma carta
semelhante à que Kafka dirigira ao pai. O pai de Asbury
tinha morrido havia vinte anos e Asbury considerava o facto
uma enorme benção. Tinha a certeza de que o velho perten­
cera ao b ando do tribunal, um rústico proeminente envol ­
vido e m todos os assuntos de forma desonesta, e e l e sabia
que não teria conseguido suportá-lo. Leu alguma da sua cor­
respondência e ficou horrorizado com a estupidez de tudo
aquilo.
Ele sabia, claro, que a mãe não perceberia a carta de ime­
diato . O seu pensamento literal necessitaria de algum tempo
para apreender o significado, mas achava que ela conseguiria
perceber que lhe perdoava tudo o que lhe tinha feito naquele
sítio. Quanto a isso, supunha que ela tomaria consciência do
que lhe tinha feito apenas através da carta. Achava que ela
não tinha qualquer consciência disso. A satisfação consigo
própria era quase inconsciente ; mas, através da carta, poderia
experimentar uma tomada de consciência dolorosa e isso seria
a única coisa de valor que tinha para deixar.
Se lê-la ia ser doloroso para ela, escrevê-la tinha por vezes
sido insuportável p ara ele - pois para a confrontar, ele tinha
tido que se confrontar a si mesmo. «Eu vim para cá para esca­
par à atmosfera esclavagista dessa casa», tinha escrito, «para
descobrir a liberdade, para alforriar a minha imaginação, para
retirá-la, como se de um falcão se tratasse, da sua gaiola e pô­
-la ' a rodopiar na espiral que se dilata' (Yeats ) e o que é que
descobri? A minha imaginação é incapaz de voar. É um pás­
saro que a mãe domesticou, encolhido, cheio de medo, no seu
galinheiro, recusando-se a sair !» As palavras seguintes esta­
vam sublinhadas duas vezes. «Não tenho imaginação. Não
possuo talento. Não consigo criar. Não possuo nada a não ser
a ânsia por estas coisas. Por que não matou isso também?
Mulher, porque me manietou?»
Ao escrever isto, atingiu o âmago do desespero e pensou
que, ao lê-lo, a mãe iria pelo menos começar a aperceber-se
da tragédia dele e do papel que ela tinha desempenhado. Não
O CALAFRIO PERMANENTE 9 9

que e l a lhe tivesse alguma vez imposto os seus valores. Isso


nunca foi sequer necessário. Os valores dela foram simples­
mente o ar que ele respirou, e quando por fim ele encontrou
outro ar, não conseguiu sobreviver nele. Sentia que mesmo
que ela não percebesse de imediato, a carta deixá-la-ia com
um calafrio constante, e talvez com o tempo a levasse a ver­
-se a si própria tal como era.
O artista sem imaginação destruiu tudo o mais que alguma
vez escrevera - os dois romances sem vida, a meia dúzia de
peças p aradas, os poemas fastidiosos, os contos mal esboça­
dos - e guardara apenas os dois blocos que continham a
carta. Estavam dentro da mala que a irmã, irritada e a arque­
jar, vinha agora a arrastar pelo segundo lance de escadas.
A mãe trazia a mala mais pequena e entrou primeiro. Ele
virou-se quando ela entrou no quarto.
«Vou abrir isto e tirar as tuas coisas para fora», disse ela, «e
tu podes meter-te j á na cama e dentro de alguns minutos
trago-te o pequeno-almoço. »
E l e ergueu-se na cama e disse numa voz irritada : « E u não
quero o pequeno-almoço e posso abrir a minha própria mala.
Deixa estar isso.»
A irmã chegou à porta, a cara cheia de curiosidade, e dei­
xou cair a mala preta com um baque na soleira da porta.
Depois começou a empurrá-la pelo quarto com o pé até estar
suficientemente perto para vê-lo bem. «Se eu estivesse tão
mal-encarada como tu», disse, «ia ao hospital.»
A mãe lançou-lhe um olhar de aviso e ela saiu. Em
seguida, Mrs. Fox fechou a porta, dirigiu-se à cama e sentou­
-se ao lado dele. «Bem, desta vez quero que prolongues a tua
visita e descanses», disse ela.
«Esta visita», disse ele, «será permanente. »
« Q u e maravilha !», gritou ela. «Podes ter um pequeno estú­
dio no teu quarto e todas as manhãs podes escrever p eças e à
tarde podes ajudar na vacaria!»
Ele voltou para ela uma face branca e imp assível. «Feche
as p ersianas e deixe-me dormir», disse.
1 00 ü'CONNOR

Depois de ela sair, ele ficou durante algum tempo a fitar as


manchas de humidade nas paredes cinzentas. A p artir do bolor
no alto, tinham sido esboçadas pelas infiltrações formas com­
pridas de pingentes ; e no tecto, exactamente por cima da cama,
outra infiltração tinha desenhado um pássaro feroz de asas
abertas. Tinha um pingente atravessado no bico e havia pin­
gentes mais pequenos dependurados das suas asas e cauda.
Estava ali desde a sua infância e sempre o irritara e por vezes
assustara. Tivera frequentemente a impressão de que estava em
movimento e prestes a descer misteriosamente e a colocar o
pingente na sua cabeça. Fechou os olhos e pensou : não vou ter
que olhar para ele por muitos mais dias. E em breve adormeceu.

Quando acordou à tarde, havia uma cara rosada de boca


aberta e debruçada sobre ele ; e, a partir de duas grandes ore­
lhas que lhe eram bem conhecidas, os tubos pretos do estetos­
cópio de Block desciam até ao seu peito nu. O médico, vendo
que ele estava acordado, fez uma careta como a de um chinês,
rolou os olhos quase para fora da cara e gritou : «Diz AHIIllH !»
Block era irresistível para as crianças. Num raio de quiló­
metros, elas vomitavam e tinham febre para receber a sua
visita. Mrs. Fox encontrava-se atrás dele, sorrindo de forma
radiosa. «Aqui está o D outor Block !», anunciou como se tivesse
capturado este anj o no telhado para trazê-lo ao seu menino.
«Leve-o daqui», murmurou Asbury. Olhou para a cara asi­
nina a partir do que p arecia ser um buraco negro.
O médico olhou mais atentamente, mexendo as orelhas.
Block era careca e tinha uma face redonda tão estúpida
quanto a de um bebé. Nada nele indicava inteligência excepto
dois olhos frios, clínicos e cor de níquel que se focavam com
uma curiosidade imóvel em tudo o que ele fixasse. «Não há
dúvida que estás com mau aspecto, Azzberry», murmurou ele.
Retirou o estetoscópio e deixou-o cair na maleta. «Não me
lembro da última vez que vi alguém da tua idade parecer tão
mal quanto tu. O que tens andado a fazer à tua saúde?»
O CALAFRIO PERMANENTE 1 0 1

Havia um pulsar constante n a parte posterior d a cabeça de


Asbury como se o coração lhe tivesse ficado aí encurralado e
lutasse para se libertar. «Eu não o mandei chaman>, disse.
Block colocou a mão na face luzidia, puxou a pálpebra
para b aixo e espreitou lá p ara dentro . «D eves ter andado na
farra l á pelo Norte», aventou. Começou a pressionar com a
mão a p arte p osterior do pescoço de Asbury. «Eu cheguei
a ir até lá uma o casião», continuou, «Vi exactamente o pouco
que eles tinham para o ferecer e regressei logo a casa. Abre
a boca.»
Asbury abriu- a automaticamente e o olhar semelhante a
uma broca voltou-se e caiu sobre ela. Ele fechou-a de repente
e disse numa voz ofegante e permeada por silvos, «Se eu qui­
sesse um médico, teria ficado lá pelo Norte onde poderia ter
arranj ado um bom médico !»
«Asbury!», interpôs a mãe.
«Há quanto tempo tens a garganta inflamada?», perguntou
Block.
«Ela é que o mandou chamar!», disse Asbury. «Ela que res­
ponda às perguntas.»
«Asbury !», advertiu a mãe.
Block inclinou-se sobre a maleta e tirou um tubo de borra­
cha. Empurrou a manga de Asbury para cima e atou o tubo à
volta do antebraço. Depois tirou uma seringa e preparou-se
para encontrar a veia, trauteando um cântico enquanto enfiava
a agulha. Asbury jazia com um olhar duro e ultrajado enquanto
a privacidade do seu sangue era invadida por este idiota.
«Lentamente, Senhor, mas com segurança», cantou Block numa
voz sussurrada, «Oh, lentamente, Senhor, mas com segurança.»
Retirou a agulha quando a seringa ficou cheia. «Ü sangue não
mente», disse. Esvaziou-a para um frasco, rolhou-o e colocou o
frasco na maleta. «Azzberry», começou ele, «há quanto tempo ... »
Asbury ergueu-se e atirou para a frente a cabeça que lhe
pulsava e disse : «Eu não o mandei chamar. Não vou respon­
der a nenhuma pergunta. Você não é meu médico. O meu pro­
blema transcende-o completamente.»
1 02 o ' CONNOR

«A maior parte das coisas transcendem-me», disse Block.


«Não encontrei ainda nada que compreenda totalmente», e
suspirou e levantou-se. Os seus olhos pareciam brilhar em
direcção a Asbury como se estivessem muito longe.
«Ele não agiria de forma tão desagradável», explicou Mrs.
Fox, «se não estivesse mesmo doente. E eu quero que venha
cá todos os dias até o pôr bom.»
Os olhos de Asbury ostentavam um violeta furiosamente
faiscante. «0 meu p roblema transcende-o completamente»,
repetiu e voltou a deitar-se e fechou os olhos até Block e a
mãe saírem.

Nos dias seguintes, embora piorasse rapidamente, a sua


mente funcionava com uma clareza terrivel. À beira da morte,
encontrava-se a viver num estado de iluminação que não
tinha nada a ver com o tipo de conversa que se via obrigado
a ouvir da mãe. Essa versava principalmente vacas, que
tinham nomes como D aisy e Bessie Button, e as suas funções
íntimas - as suas mastites e as suas lombrigas e os seus abor­
tos. A mãe insistia que a meio do dia ele saísse e se sentasse
no alpendre e «apreciasse a paisagem» ; e, como resistir-lhe
exigia demasiado esforço, ele arrastava-se para o exterior e
sentava-se hirto e prostrado, com ó s pés embrulhados num
xaile de lã e as mãos agarradas aos braços da cadeira como se
estivesse prestes a saltar para dentro do céu brilhante de um
azul de porcelana. O relvado estendia-se ao longo de duzen­
tos e cinquenta metros quadrados até uma vedação de arame
farpado que o separava da pastagem da frente. A meio do dia
as vacas que não davam leite ficavam por ali, por baixo de
uma fila de eucaliptos. Do outro lado da estrada havia duas
colinas com uma lagoa entre elas e a mãe podia sentar-se no
alpendre e ver a manada atravessar o reservatório dirigindo­
-se p ara a colina do outro lado. Toda a cena era emoldurada
por uma parede de árvores que, na altura do dia em que ele
era obrigado a sentar-se ali, apresentava um azul deslavado
O CALAFRIO PERMANENTE 1 0 3

que lhe recordava c o m tristeza os macacões desbotados dos


pretos.
Ele ouvia com irritação enquanto a mãe pormenorizava as
falhas dos empregados. «Aqueles dois não são estúpidos»,
dizia ela. «Sabem como cuidar dos seus próprios interesses.»
«Precisam de fazê-lo», murmurou ele, mas não valia a pena
discutir com ela. No ano anterior estivera a escrever uma peça
acerca de pretos e quisera estar perto deles durante uns tem­
pos para ver o que é que realmente sentiam em relação à sua
condição, mas os dois que trabalhavam p ara ela tinham per­
dido toda a iniciativa ao longo dos anos. Não falavam. O que
se chamava Morgan tinha a pele castanha clara e uma parte
de sangue índio ; o outro, mais velho, Randall, era muito preto
e gordo. Quando lhe diziam alguma coisa, era como se esti­
vessem a falar para um corpo invisível localizado à direita ou
à esquerda de onde ele realmente se encontrava, e após dois
dias a trabalhar lado a lado, o artista sentia que não tinha
criado qualquer afinidade com eles. Decidiu tentar algo mais
arroj ado do que a conversa e uma tarde, quando estava perto
de Randall observando-o a ajustar uma máquina de ordenha,
tirara os cigarros em silêncio e acendera um. O preto parou o
que estava a fazer e observou-o. Esperou até que Asbu:ry
tirasse duas passas e depois disse: «Ela não deixa que se fume
aqui dentro.»
O outro aproximou-se e ficou parado, a sorrir.
«Eu sei», aquiesceu Asbu:ry e após fazer uma pausa delibe­
rada, abanou o maço e ofereceu-o, primeiro a Randall, que
tirou um, e depois a Morgan, que tirou outro. Tinha-lhes
depois acendido os cigarros e os três tinham ficado a fumar.
Não havia outros sons a não ser o ruído constante das duas
máquinas de ordenha e o chicotear ocasional da cauda de uma
vaca contra o corpo. Era um desses momentos de comunhão
durante os quais a diferença entre pretos e brancos se esfuma.
No dia seguinte, duas l atas de leite tinham sido devolvidas
pela fábrica de laticínios porque tinham absorvido o cheiro do
tabaco. Asbury deu-se como culpado e disse à mãe que fora
1 04 o'CONNOR

ele quem estivera a fumar e não os pretos. «Se tu estavas a


fumar, eles estavam a fumar», disse logo ela. «Achas que eu
não conheço aqueles dois?» A mulher era incapaz de conce­
ber que estivessem inocentes ; mas a experiência tinha-o delei­
tado de tal modo que estava decidido a repeti-la sob qualquer
outra forma.
Na tarde seguinte, quando ele e Randall estavam a despe­
j ar o leite fresco nas latas, ele tinha agarrado no copo de
geleia que os pretos utilizavam para beber e, inspirado, tinha
enchido um copo do leite quente e tinha-o bebido de um
trago. Randall tinha parado de despejar e ficara, meio dobrado
sobre a lata, a observá-lo. «Ela não deixa que se faça isso»,
disse. «Isso é exactamente o que ela não deixa fazer. »
Asbury encheu outro copo de leite e estendeu-lho.
«Ela não deixa», repetiu ele.
«Ouve», disse Asbury asperamente, «O mundo está a mudar.
Não há motivo para que eu não beba a seguir a ti e tu a seguir
a mim !»
«Ela não deixa nenhum de nós beber leite deste», reiterou
Randall.
Asbury continuou a estender-lhe o copo. «Tu aceitaste o
cigarro», disse. «Toma o leite. A minha mãe não vai ficar pre­
judicada se perder dois ou três copos de leite por dia. Temos
que pensar livremente, se quisermos viver livremente ! »
O outro tinha aparecido e estava parado à porta.
«Não quero leite nenhum desse», disse Randall.
Asbury voltou-se e ofereceu o copo a Morgan. «Toma,
rapaz, bebe isto», disse.
Morgan fitou-o ; depois uma evidente expressão de manha
espalhou-se-lhe no rosto. «Eu não o vi a si beber leite nenhum»,
afirmou.
Asbury detestava leite. O primeiro copo de leite quente j á
lhe tinha dado a volta a o estômago. B ebeu metade d o que
segurava e estendeu o resto ao preto, que o agarrou e olhou
para dentro do copo como se ele contivesse um grande misté­
rio ; depois colocou-o no chão perto do aparelho de frio.
O CALAFRIO PERMANENTE 1 0 5

«Não gostas d e leite?», perguntou Asbmy.


«Gosto, mas não vou beber esse.»
«Porquê?»
«Ela não deixa», disse Morgan.
«Meu Deus !», explodiu Asbu:ry, «ela, ela, ela !» Tentou o
mesmo no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte, mas não
conseguiu que eles bebessem o leite. Algumas tardes depois,
quando estava no exterior da casa do leite preparando-se para
entrar, ouviu Morgan p erguntar: «Porque é que o deixas beber
aquele leite todos os dias?»
« Ü que ele faz é com ele», disse Randall. «Ü que eu faço é
comigo.»
«Porque é que ele diz tanto mal da mãe?»
«Ela não lhe bateu o suficiente quando ele era pequeno»,
disse Randall.
A vida intolerável em casa tinha-o derrotado e regressara
a Nova Iorque dois dias mais cedo que o previsto. No que lhe
dizia respeito, já morrera por l á e a questão agora era saber
quanto tempo aguentaria demorar-se por cá. Poderia ter
apressado o seu fim, mas o suicídio não seria uma vitória.
A morte vinha ter com ele legitimamente, como uma j ustifi­
cação, como um presente da vida. Esse era o seu maior
triunfo. Para além disso, p ara as b o as mentes da vizinhança,
um filho suicida indicaria uma mãe que tinha falhado e,
embora fosse esse o caso, ele sentia que p o dia poupá-la a
esta vergonha pública. O que ela aprendesse com a carta
seria uma revelação p rivada. Selou os blocos num envelope
grande e escreveu no exterior: «Para ser aberto apenas após
a morte de Asbu:ry Porter Fox.» Colocara o envelope na
gaveta da secretária no seu quarto e trancara-a e a chave
encontrava-se no bolso do pij ama até conseguir escolher um
local adequado p ara deixá-la.
Quando se sentavam de manhã no alpendre, a mãe achava
que devia falar durante algum tempo de assuntos que lhe inte­
ressassem. Na terceira manhã, começou a falar acerca da
escrita dele. «Quando ficares bem de saúde», disse ela, «penso
1 0 6 O ' CONNOR

que seria agradável escreveres um livro sobre o Sul. Preci­


samos de outro livro como E Tudo o Vento Levou.»
Ele sentiu os músculos do estômago começarem a ficar
tensos.
«Mete-lhe a guerra», aconselhou ela. «Isso faz sempre alon­
gar um livro. »
E l e recostou a cabeça c o m cuidado c o m o se tivesse medo
que se partisse. Um momento depois, disse: «Eu não vou escre­
ver livro nenhum.»
«Bom», disse ela, «Se não te apetece escrever um livro,
podias apenas escrever poemas. São agradáveis.» Apercebeu­
-se que do que ele precisava era de alguém intelectual com
quem conversar, mas Mary George era a única intelectual que
a mãe conhecia e o filho recusava-se a falar com a irmã.
Lembrou-se de Mr. Bush, o pastor Metodista reformado, mas
não abordou o assunto. Agora, contudo, decidiu arriscar.
«Acho que vou pedir ao Dr. Bush que venha ver-te», disse
empolando o grau académico de Mr. Bush. «Havias de gostar
da sua companhia. Ele colecciona moedas raras.»
Não estava minimamente preparada para a reacção dele.
O filho começou a tremer da cabeça aos pés e a soltar garga­
lhadas espasmódicas e sonoras. Parecia prestes a sufocar. Após
um minuto, acalmou-se e começou a tossir. «Se pensa que eu
preciso de ajuda espiritual para morrer», disse ele, «está muito
enganada. E certamente não desse idiota do Bush. Meu Deus !»
«Eu não queria dizer nada disso», j ustificou ela. «Ele tem
moedas que datam do tempo de Cleópatra.»
«Bem, se pedir que ele venha cá, eu mando-o ir para o
inferno», garantiu ele. «Bush ! Essa ultrapassa tudo ! »
«Fico muito satisfeita por haver alguma coisa que t e
diverte», disse ela com mordacidade.
Durante um tempo ficaram sentados em silêncio. Depois a
mãe levantou a cabeça. Ele estava de novo inclinado para a
frente e sorria-lhe. A sua fisionomia encontrava-se cada vez
mais iluminada, como se acabasse de ter uma ideia brilhante.
Ela olhou-o fixamente. «Eu digo-lhe quem quero que venha»,
O CALAFRIO PERMANENTE 1 07

disse ele. Pela primeira vez desde que chegara a casa, a


expressão dele era agradável, embora tivesse também, pensou
ela, um certo ar malandro.
« Quem é que queres que venha?», perguntou, de pé atrás.
«Quero um padre», anunciou ele.
«Um padre?», a voz e o ar da mãe eram de completa incom­
preensão.
«De preferência um Jesuíta», completou ele, entusias­
mando-se cada vez mais. «Sim, sem dúvida um Jesuíta.
Encontra-os na cidade. Pode telefonar e arranj ar-me um.»
«Ü que é que se passa contigo?», perguntou a mãe.
«A maioria deles tem uma educação esmerada», disse ele,
«mas os Jesuítas são à prova de estupidez. Um Jesuíta seria
capaz de discutir alguma coisa sem ser o tempo.» Ele conse­
guia j á, trazendo à memória Ignatius Vogle, S.J., imaginar o
padre. Seria um nadinha mais mundano, talvez, um nadinha
mais cínico. Protegidos pela sua vetusta instituição, os padres
podiam dar-se ao luxo de ser cínicos, de j o gar por ambos os
lados contra o centro. Ele falaria com um homem de cultura
antes de morrer - mesmo neste deserto ! Para além do mais,
nada irritaria mais a mãe do que semelhante visita. Nem per­
cebia como é que não se lembrara disto antes.
«Não és membro dessa Igreja», disse Mrs. Fox secamente.
«Fica a trinta quilómetros daqui. Eles não enviariam ninguém.»
Tinha esperança de que isto pusesse um ponto final no assunto.
Ele recostou-se absorvido pela ideia, determinado a forçá­
-la a fazer o telefonema já que ela fazia sempre o que ele que­
ria se ele insistisse, «Estou a morrer», disse ele, «pedi-lhe ape­
nas que me fizesse uma coisa e recusa-me isso.»
«Tu NÃO estás a morrer.»
«Quando se aperceber disso», disse ele, «será tarde demais.»
Houve outro silêncio desagradável. Por fim, a mãe disse :
«Nos dias de hoje, os médicos não deixam os j ovens morrer.
Dão-lhes alguns desses medicamentos novos.» Começou a
abanar o pé com uma segurança assustadora. «As pessoas j á
não morrem como costumavam morrer», disse ela.
1 08 ü'CONNOR

«Mãe», avançou ele, «tem que estar preparada. Acho que


até o Block sabe e não lhe disse ainda.» Após a primeira visita,
Block tinha voltado de todas as vezes com uma expressão
fechada, sem piadas ou expressões cómicas, e tirara-lhe san­
gue em silêncio, com os seus olhos cor de níquel hostis. Era,
por definição, grande o inimigo da morte, e parecia que se
debatia agora com o artigo genuíno. Tinha dito que não o
medicaria até saber qual era o problema e Asbury rira-se na
cara dele. «Mãe», disse, «eu VOU morrer. », e tentou que cada
palavra caísse como uma martelada sobre a cabeça dela.
Ela empalideceu ligeiramente mas não pestanej ou. «Achas
por um minuto», disse zangada, «que eu tenciono ficar aqui
sentada e deixar que morras?» Os olhos dela estavam duros
como duas velhas cadeias montanhosas observadas à distân­
cia. Ele sentiu o primeiro golpe inequívoco de dúvida.
«Achas?», perguntou ela exasperada.
«Eu acho que não tem nada a ver com isso», disse ele numa
voz trémula.
«Hum», disse ela e levantou-se saindo do alpendre como se
não suportasse estar perto de uma tal estupidez nem mais um
minuto.
Esquecendo o Jesuíta, Asbury recapitulou rapidamente os
seus sintomas : a febre tinha aumentado, acompanhada de
arrepios ; mal tinha energia para se arrastar para o alpendre ; a
comida repugnava-o ; e Block não conseguira dar-lhe a ela a
mínima satisfação. Enquanto estava ali sentado, sentiu o iní­
cio de um novo calafrio, como se a morte estivesse já a cho­
calhar-lhe galhofeiramente os ossos. Tirou a manta dos pés e
colocou-a à roda dos ombros e dirigiu-se vacilante pela
escada acima até à cama.
Continuou a piorar. Nos dias que se seguiram enfraqueceu
tanto e apo quentou-a de forma tão constante o pedido do
Jesuíta que, finalmente desesperada, ela decidiu satisfazer-lhe
o capricho. Telefonou, explicando numa voz reservada que o
filho estava doente, talvez um pouco louco, e queria falar com
um padre. Enquanto ela fazia o telefonema, Asbury estava
O CALAFRIO PERMANENTE 1 09

debruçado sobre a b alaustrada, descalço, embrulhado na


manta, e escutava. Quando ela desligou ele perguntou lá de
cima quando vinha o padre.
«Amanhã durante o dia», disse a mãe com irritação.
Ele apercebia-se, pelo simples acto de ela ter feito o tele­
fonema, que a segurança da mãe estava a começar a ficar aba­
lada. Sempre que ela acompanhava Block à entrada ou à
saída, havia muito bichanar no vestíbulo do andar de baixo.
Nessa noite ele ouviu- a a falar com Mary George em voz
baixa na sala. Pensou ter ouvido o seu nome e levantou-se
indo em bicos de pés até ao vestíbulo e desceu os três primei­
ros degraus até conseguir ouvir as vozes distintamente.
«Tive de chamar aquele padre», estava a mãe a dizer. «Re­
ceio que isto srja sério. Pensava que era apenas um colapso
nervoso mas agora penso que é alguma coisa real. O D outor
Block também pensa que é qualquer coisa real e sej a o que for
é pior por ele estar tão fragilizado.»
«Não sej a tão ingénua, mãe», disse Mary George, <� á lhe
disse que, e digo-lhe mais uma vez : o problema dele é pura­
mente psicossomático.» Não havia nada em que ela não fosse
perita.
«Não», disse a mãe, «a doença é real. É o médico que o diz.»
O rapaz pensou detectar um tremor na voz dela.
«Block é um idiota», disse Mary George. «Tem que encarar
os factos: Asbury não consegue escrever por isso adoece. Vai
ser um inválido em vez de um artista. Sabe de que é que ele
precisa?»
«Não», disse a mãe.
«De dois ou três tratamentos de choque», determinou Mary
George. «Tirar-lhe da cabeça aquela cisma de ser artista de
uma vez por todas.»
A mãe deu um gritinho e ele agarrou o corrimão.
« Ouça-me com atenção», continuou a irmã, «tudo o que ele
vai ser por aqui nos próximos cinquenta anos é um bibelô.»
Ashbury voltou para a cama. Num certo sentido, ela tinha
razão. Ele tinha traído o seu deus, a Arte, mas tinha sido um
1 1 0 ü ' CONNOR

fiel servidor e a Arte enviava-lhe a Morte. Percebera tudo isto


desde o início com uma espécie de claridade mística. Ador­
meceu pensando no canto tranquilo do talhão da família no
cemitério onde descansaria em breve, e, pouco depois, viu o seu
corpo ser transportado lentamente para lá enquanto a mãe e
Mary George observavam sem interesse das suas cadeiras no
alpendre. Enquanto o esquife era transportado na superfície da
represa, elas podiam levantar a cabeça e ver a procissão re­
flectida de pernas para o ar na lagoa. Uma figura magra e
escura com um cabeção seguia-a. Tinha uma misteriosa face
saturnina na qual havia uma mistura subtil de ascetismo e de
corrupção. Asbury era colocado numa campa pouco profunda
no declive da colina e os acompanhantes indistintos, depois de
terem permanecido de pé em silêncio durante algum tempo,
dispersavam-se pelo verde que escurecia. O Jesuíta retirava-se
para um local sob uma árvore morta para fumar e meditar.
A Lua despontava e Asbury apercebia-se de uma presença que
se inclinava sobre ele e de um calor suave na sua face fria.
Sabia que era a Arte vinda para o acordar e então sentava-se
e abria os olhos. Do outro lado da colina todas as luzes esta­
vam acesas na casa da mãe. A lagoa negra estava polvilhada
por pequenas estrelas cor de níquel. O Jesuíta tinha desap are­
cido. À sua volta as vacas espalhavam-se pastando à luz da
lua e uma delas, branca e enorme, violentamente malhada, lam­
bia-lhe suavemente a cabeça como se esta fosse um bloco de
sal. Acordou com uma tremura e descobriu que a cama estava
encharcada do suor da noite e, ao sentar-se tremendo, no
escuro, apercebeu-se de que o fim não estava a muitos dias de
distância. Olhou para dentro da cratera da morte e caiu para
trás, em cima da almofada, com uma vertigem.
No dia seguinte, a mãe notou qualquer coisa de quase eté­
reo na sua face devastada. Parecia uma daquelas crianças
moribundas que têm que celebrar o Natal mais cedo. Asbury
endireitou-se na cama e dirigiu o reposicionamento de várias
cadeiras no quarto e fê-la retirar um quadro de uma donzela
acorrentada a uma rocha porque sabia que aquilo faria sorrir
O CALAFRIO PERMANENTE 1 1 1

o Jesuíta. Fez com que a cadeira de baloiço confortável fosse


retirada dali, e, quando terminou, o quarto, com as suas man­
chas austeras nas paredes, possuía certas características evo­
cativas de uma cela. Sentiu que agradaria ao visitante.
Esperou toda a manhã, olhando irritadamente para o tecto
onde o pássaro com o pingente no bico parecia suspenso e
aguardando também ; mas o padre não chegou até a tarde j á
i r avançada. Logo que a m ã e abriu a porta, uma v o z alta e
ininteligível começou a ribombar no vestíbulo do andar de
b aixo . O coração de Asbury b atia desenfreadamente.
Segundos depois ouvia-se um ranger pesado nas escadas. De
seguida, quase de imediato, a mãe entrou com uma expressão
constrangida, seguida por um velho pesado que atravessou
resolutamente o quarto, agarrou numa cadeira que estava ao
lado da cama e a colocou sob si.
11Sou o Padre Finn - do Purgatório», apresentou-se ele
numa voz bem disposta. Tinha um rosto vermelho enorme,
uma espessa cabeleira de cabelo grisalho e era cego de um dos
olhos, mas o olho saudável, azul e cristalino, focava-se com
nitidez em Asbury. Havia uma nódoa de gordura no seu
hábito. «Então, queres falar com um padre?», indagou. «Muito
acertado. Nenhum de nós sabe a hora em que Nosso Senhor
pode chamar-nos.» Depois ergueu o olho são para a mãe de
Asbury e disse : «Obrigado, pode deixar-nos agora.»
Mrs . Fox ficou hirta e não se mexeu.
«Gostaria de falar com o Padre Finn a sós», disse Asbury,
sentindo de repente que tinha aqui um aliado, embora não
esperasse um padre como este. A mãe lançou-lhe um olhar de
animosidade e abandonou o quarto. O filho sabia que ela não
iria afastar-se da porta.
« É tão bom tê-lo cá», disse Asbury. «Este sítio é incrivel­
mente lúgubre. Não há aqui ninguém com quem uma pessoa
inteligente possa falar. Qual é a sua opinião acerca de Joyce,
padre?»
O padre ergueu a cadeira e aproximou-se. «Vais ter que gri­
tar», disse. «Cego de um olho e surdo de um ouvido.»
1 1 2 o ' CONNOR

«Qual é a sua opinião acerca de Joyce?», repetiu Asbury


mais alto.
«Joyce? Qual Joyce?», perguntou o p adre.
«James Joyce», disse Asbury e riu.
O padre agitou a enorme mão no ar como se estivesse a ser
incomodado por mosquitos. «Não me foi apresentado», disse.
«Vamos lá. F azes as tuas orações de manhã e à noite?»
Asbury pareceu confundido. «Joyce foi um grande escri-
tor», murmurou, esquecendo-se de gritar.
«Não rezas, não é?», disse o padre. «Bom, nunca vais apren­
der a ser bom a não ser que rezes com regularidade. Não podes
amar Jesus a não ser que fales com Ele.»
«0 mito do deus moribundo sempre me fascinou», gritou
Asbury, mas o padre p areceu não ouvir.
«Tens problemas com a castidade?», perguntou ele, e como
Asbury empalidecesse, continuou sem esperar por uma res­
posta. «Todos nós temos, mas deves pedi-la nas tuas preces ao
Espírito Santo. Mente, coração e corpo. Nada se supera sem
oração. Reza com a tua família. Rezas com a tua família?»
«Deus me livre», murmurou Asbury. «A minha mãe não tem
tempo para rezar e a minha irmã é ateia», gritou.
«Uma pena !», disse o padre. «Então deves rezar por elas.»
«Ü artista reza criando», arriscou Asbury.
«Não chega !», vociferou o padre. «Se não rezares todos os dias,
estás a negligenciar a tua alma imortal. Sabes o catecismo?»
«Claro que não», murmurou Asbury.
« Quem te criou?», inquiriu o padre num tom marcial.
«Pessoas diferentes acreditam em coisas diferentes no que
respeita a esse assunto», disse Asbury.
«Foi Deus que te criou», disse o padre secamente. «Quem é
Deus?11
«Deus é uma ideia criada pelo homem», disse Asbury, sen­
tindo que estava a começar a l ançar-se, que este j ogo podia
ser j ogado por duas p essoas.
«Deus é um espírito infinitamente perfeito», esclareceu o padre.
«És um rapaz muito ignorante. Para que é que Deus te criou?»
O CALAFRIO PERMANENTE 1 1 3

«Deus não . . . »
«Deus criou-te para O conheceres, O amares e O servires
neste mundo e p ara seres feliz com Ele no próximo !», disse o
velho padre numa voz demolidora. «Se não te aplicas no cate­
cismo como é que pretendes saber como salvar a tua alma
imortal?»
Asbury viu que tinha cometido um erro e que era altura de
se livrar do idiota do velho. «Oiça», atalhou, «eu não sou
Católico.»
«Uma fraca desculpa p ara não rezares !», bufou o velho.
Asbury afundou-se ligeiramente na cama. «Estou a mor­
rer», gritou.
«Mas ainda não morreste !», arrematou o padre, «e como é
que esperas encontrar-te com Deus face a face quando nunca
falaste com Ele? Como é que esperas conseguir aquilo que não
pedes? Deus não envia o Espírito Santo àqueles que não O
pedem. Pede-Lhe para que te envie o Espírito Santo. »
«0 Espírito Santo?», disse Asbury.
« É s tão ignorante que nunca ouviste falar do Espírito
Santo?», perguntou o p adre.
«Claro que ouvi falar do Espírito Santo», disse Asbury
furioso, «e o Espírito S anto é a última coisa de que eu ando à
procura !»
«E Ele pode ser a última coisa que recebes», disse o padre,
cravando o seu único olho ameaçador exaltado. «Queres que
a tua alma sofra a condenação eterna? Queres ser privado de
Deus por toda a eternidade? Queres sofrer a dor mais terrível,
maior do que o fogo, a dor da p erda? Queres sofrer a dor da
perda por toda a eternidade?»
Asbury moveu os braços e as pernas desamparadamente
como se estivesse pregado à cama pelo olho terrível.
«Como é que o Espírito Santo pode encher-te a alma
quando ela está cheia de lixo?», bramiu o padre. «0 Espírito
Santo não virá até te veres a ti próprio como és - um j ovem
preguiçoso, ignorante e orgulhoso !», acrescentou ele, batendo
com o punho na pequena mesa-de-cabeceira.
1 1 4 ü 'CONNOR

Mrs. Fax irrompeu no quarto. «Chega !», gritou ela. «Como


se atreve a falar dessa maneira com um pobre rapaz doente?
Está a transtorná-lo. Vai ter de sair.»
«Ü pobre rapaz nem sequer sabe o catecismo», disse o
padre, levantando-se. «Eu acho que você o deveria ter ensi­
nado a rezar todos os dias. Negligenciou os seus deveres de
mãe.» Voltou-se para a cama e disse afavelmente, «Vou dar-te
a benção e depois disto tens de rezar todos os dias sem excep­
ção», após o que colocou a mão na cabeça de Asbury e res­
mungou qualquer coisa em l atim. «Chama-me em qualquer
altura», disse, «e poderemos ter outra conversazinha.», e em
seguida caminhou atrás das costas rígidas de Mrs. Fox até à
porta. A última coisa que Asbury o ouviu dizer fo i : «No fundo
é um bom rapaz mas muito ignorante.»
Depois de se ter livrado do padre, a mãe subiu de novo
rapidamente as escadas para lhe recordar de que o tinha pre­
venido mas, quando o viu pálido e cansado e desolado, recos­
tado na cama, olhando fixamente em frente com grandes
olhos infantis em choque, perdeu a coragem e saiu de novo
rapidamente.
Na manhã seguinte ele estava tão fraco que ela decidiu
levá-lo ao hospital. «Eu não vou a hospital nenhum», dizia ele
repetidamente, virando de um lado para o outro a cabeça que
pulsava, como se quisesse separá-la do corpo. «Eu não vou a
hospital nenhum enquanto estiver consciente.» Pensava com
amargura que, quando perdesse a consciência, ela poderia
arrastá-lo para o hospital e enchê-lo de sangue e prolongar­
-lhe o sofrimento durante dias. Estava convencido de que o fim
se aproximava, que seria hoje, e atormentava-o agora pensar
na sua vida inútil. Sentia-se um invólucro que tivesse que ser
enchido por qualquer coisa mas não sabia com quê. Começou
a observar tudo no quarto como que pela última vez - a
mobília antiga ridícula, o padrão do tapete, o quadro estúpido
que a mãe tinha voltado a colocar no sítio. Até olhou para o
pássaro feroz com o pingente no bico e sentiu que o bicho
estava ali por algum motivo que ele não conseguia adivinhar.
O CALAFRIO PERMANENTE 1 1 5

Havia algo que ele procurava, algo que ele sentia que preci­
sava de ter, uma última experiência final e significativa que ele
deveria criar para si próprio antes de morrer - criar para si pró­
prio a partir da sua própria inteligência. Tinha confiado sempre
em si próprio e nunca fora lamechas a respeito do inefável.
Uma vez, quando Mary George tinha treze anos e ele cinco,
ela atraiu-o com a promessa de um presente não especificado
para uma tenda cheia de pessoas e arrastou-o de costas até à
frente, onde estava de pé um homem envergando um fato azul
e uma gravata vermelha e branca. «Tome», disse ela alto. «Eu
já estou salva mas pode salvá-lo a ele. É uma verdadeira peste
e tem um ego grande demais.» Ele soltou-se da mão dela e dis­
parou dali como um pequeno rafeiro e mais tarde, quando lhe
perguntou pelo presente, ela disse: «Terias recebido a Salvação
se tivesses esperado por ela mas como agiste daquela forma,
não recebeste nada !»
À medida que o dia passava, ele ficava cada vez mais frené­
tico com receio de morrer sem proporcionar a si próprio uma
última experiência significativa. A mãe sentava-se ao lado da
cama muito preocupada. Tinha tentado ligar a Block por duas
vezes mas não conseguia apanhá-lo. O rapaz pensou que nem
mesmo agora ela tinha consciência que ele ia morrer, muito
menos de que o fim estava apenas a algumas horas de distância.
A luz no quarto começava a adquirir um matiz bizarro,
quase como se estivesse a materializar-se. Sob uma forma
obscura entrou e pareceu ficar à espera. Lá fora nada ap aren­
tava mover-se p ara além da orla da linha esbatida das árvo­
res que ele conseguia ver alguns centímetros por cima do
parapeito da j anela. De repente, lembrou-se daquela experiên­
cia de comunhão que tivera na vacaria com os pretos quando
fumaram juntos, e subitamente começou a tremer de excita­
ção. Haviam de fumar juntos uma última vez.
Após um momento, virando a cabeça na almofada, disse :
«Mãe, quero despedir-me dos pretos.»
A mãe empalideceu. Durante um instante a cara pare­
ceu prestes a desfazer-se. Depois a linha da boca endureceu ;
1 1 6 o'CONNOR

as sobrancelhas aproximaram-se. «Despedires-te?», disse ela


numa voz sem expressão. «Onde é que vais?»
Durante alguns segundos ele apenas olhou para ela. Depois
disse : «Acho que sabe. Chame-os. Não tenho muito tempo.»
«Isto é absurdo», murmurou ela mas levantou-se e saiu
apressadamente. Ouviu-a tentar novamente contactar Block
antes de sair. Pensou que o facto dela se agarrar a Block numa
altura destas era comovente e patético. Aguardou, prepa­
rando-se para o encontro como um homem religioso se pre­
pararia para os últimos sacramentos. Em breve lhes ouviu os
passos na escada.
«Aqui estão o Randall e o Morgan», disse a mãe, introdu­
zindo-os no quarto. «Vieram cumprimentar-te.»
Ambos entraram sorrindo e arrastaram os pés até perto da
cama. Ficaram ali, Randall à frente e Morgan atrás. «Você está
com bom aspecto», disse Randall. «Você está com muito bom
aspecto.»
«Você está com bom aspecto», disse o outro. « É verdade,
parece óptimo.»
«Nunca o vi com tão bom aspecto antes», reforçou Randall.
«Pois, ele não está com bom aspecto?», assentiu a mãe.
«Para mim ele está óptimo.»
«Sim, senhor», disse Randall, «acho que nem está doente. »
«Mãe», disse Asbury numa v o z esforçada. «Gostava d e falar
com eles a sós.»
A mãe ficou hirta ; depois marchou porta fora. Atravessou
o vestíbulo e entrou no quarto do outro lado e sentou-se.
Através das portas abertas, ele conseguia vê-la começar a
baloiçar-se com impulsos pequenos e curtos. Os dois negros
ostentavam uma expressão semelhante à que teriam se a sua
última protecção tivesse caído.
A cabeça de Asbury estava tão pesada que ele não conse­
guia lembrar-se do que tencionava dizer. «Estou à morte»,
disse.
Ambos os sorrisos gelaram. «Você está com bom aspecto»,
redisse Randall.
O CALAFRIO PERMANENTE 1 1 7

«Vou morrer», repetiu Asbury. D epois lembrou-se com alí­


vio que iam fumar juntos. Esticou-se para agarrar no maço
sobre a mesa e ofereceu-o a Randall, esquecendo-se de o aba­
nar para fazer sair os cigarros.
O negro agarrou no maço e pô-lo no bolso. «Agradeço­
-lhe», disse. «Fico-lhe muito grato .»
Asbury olhou como se se tivesse esquecido novamente. Um
segundo depois apercebeu-se de que a expressão do outro
negro se tomara infinitamente triste ; depois compreendeu que
não era uma expressão triste, mas antes zangada. Tacteou
dentro da gaveta da mesa e retirou um maço fechado e atirou­
-o a Morgan.
«Agradeço-lhe, Mist Asbury», disse Morgan, imediata-
. mente mais animado. «Você está mesmo com bom aspecto.11
«Estou prestes a morrer», disse Asbury com irritação.
«Está com bom aspecto11, repetiu Randall.
«Vai estar a andar por aí dentro de poucos dias», afiançou
Morgan. Nenhum deles p arecia encontrar um local adequado
para descansar o olhar. Asbury olhou ansiosamente através do
vestíbulo para o sítio onde a mãe tinha a cadeira de b aloiço
voltada de forma a lhe virar as costas. Era evidente que ela
não tinha intenção de o livrar deles.
«Imagino que tem uma gripezita», disse Randall após um
tempo.
«Eu tomo um pouco de terebentina com açúcar quando
estou engripado», disse Morgan.
«Cala a boca», disse Randall, virando-se contra ele.
« C al a a tua», ripostou Morgan. «Eu sei o que tomo.»
«Ele não toma o que tu tomas», rosnou Randall.
«Mãe !», chamou Asbury numa voz trémula.
A mãe levantou-se. «Mister Asbury já teve companhia o
tempo suficiente por agora», proclamou ela. «Podem todos
voltar amanhã.»
«Nós vamos indo», disse Randall. «Você está mesmo com
bom aspecto.11
«Não há dúvida», finalizou Morgan.
1 1 8 ü'CONNOR

Saíram em fila indiana concordando um com o outro sobre


o seu óptimo aspecto mas a vista de Asbury ficou turva antes
de eles chegarem ao vestíbulo. Durante um instante viu a
silhueta da mãe como se fosse uma sombra na porta e depois
ela desapareceu atrás deles pela escada abaixo. Ouviu-a tele­
fonar a Block novamente mas escutou sem interesse. A cabeça
andava-lhe à roda. Sabia agora que não haveria qualquer
experiência significativa antes de morrer. Não havia mais
nada a fazer senão entregar-lhe a chave da gaveta onde
estava a carta e esperar pelo fim.
Caiu num sono profundo do qual acordou cerca das cinco
horas para ver a cara branca dela, muito pequena, no fundo de
um poço de escuridão. Tirou a chave do bolso do pij ama,
entregou-lha e murmurou que havia uma carta na secretária
para ser aberta quando ele já cá não estivesse, mas ela não
pareceu entender. Colocou a chave em cima da mesa-de-cabe­
ceira, deixou-a lá e ele regressou ao sonho em que dois calhaus
grandes se perseguiam em círculo dentro da sua cabeça.
Acordou pouco depois das seis e ouviu o carro de Block
parar em baixo na entrada. O ruído era como um chama­
mento, arrancando-o ao seu sono, desanuviando rapidamente
a cabeça. Teve a repentina e terrível premonição de que o des­
tino que o aguardava ia ser mais demolidor do que qualquer
um que ele pudesse ter imaginado. Ficou absolutamente imó­
vel, tão parado como um animal no instante que antecede um
terramoto.
Block e a mãe falavam à medida que subiam as escadas
mas ele não distinguia as palavras. O médico entrou fazendo
caretas ; a mãe sorria. «Adivinha o que tens, querido !», gritou.
A voz dela acertou-lhe como um tiro.
«Encontrou este velho bicho, o velho Block, foi o que fez»,
disse Block, afundando-se na cadeira ao lado da cama. Ergueu
as mãos por cima da cabeça fazendo o gesto de um concor­
rente vitorioso e deixou-as cair no colo como se o esforço o
tivesse deixado exausto. Depois retirou um velho lenço ver­
melho que trazia para fazer brincadeiras com as crianças e
O CALAFRIO PERMANENTE 1 1 9

limpou a cara cuidadosamente, mostrando uma expressão


diferente de cada vez que aparecia por detrás do trapo .
«Acho que seria impossível ser mais inteligente, doutor!»,
disse Mrs. Fox. «Asbury», disse ela, «tens b rucelose. Essa febre
vai continuar a aparecer, mas não vais morrer del a ! » O sorriso
dela era tão brilhante e intenso como uma lâmpada sem aba­
jur. «Estou tão aliviada», suspirou.
Asbury endireitou-se lentamente, com a cara sem expres­
são ; depois voltou a estender-se.
Block inclinou-se sobre ele e sorriu. «Não vais morrer»,
comunicou, com uma satisfação profunda.
O corpo de Asbury manteve-se imóvel, à excepção dos
olhos. Na superfície não pareciam agitar-se, mas, algures nas
suas profundezas obscuras, havia um movimento quase imper­
ceptível, como se alguma coisa lá dentro estivesse a lutar
debilmente. O olhar de Block parecia atingir o fundo como um
alfinete de aço e prender fosse o que fosse até a vida o ter
abandonado. «A brucelose não é assim tão má, Azzberry»,
murmurou. « É o mesmo que a doença de B ang numa vaca.»
O rapaz deixou escapar um gemido baixo e depois ficou
em silêncio.
«Deve ter bebido leite que não estava pasteurizado lá pelo
Norte», presumiu a mãe suavemente e depois ambos saíram
em bicos de pés como se p ensassem que ele estava prestes a
adormecer.
Quando o som dos seus passos desapareceu das escadas,
Asbury endireitou-se novamente na cama. Ele virou a cabeça,
quase sub-repticiamente, para o tampo da mesa-de-cabeceira
onde se encontrava a chave que tinha dado à mãe. Esticou a
mão com rapidez, para assim a agarrar e devolver ao bolso.
Lançou o olhar através do quarto para o pequeno espelho de
moldura oval da cómoda. Os olhos que o fitaram eram os mes­
mos que lhe tinham devolvido o olhar todos os dias a partir
daquele espelho mas p areciam-lhe mais p álidos. Pareciam
purificados pelo choque como se tivessem sido preparados
para alguma visão terrível prestes a abater-se sobre ele. Estre-
1 20 O'CONNOR

meceu e voltou a cabeça rapidamente para o outro lado e


olhou para fora da j anela. Um sol vermelho-dourado ofus­
cante irrompia serenamente de uma nuvem púrpura. Por
b aixo, a linha de árvores recortava-se negra contra o céu car­
mesim. Formava um muro frágil, perfilada como se fosse a
defesa precária que ele tinha erguido na sua cabeça para pro­
tegê-lo do que lá vinha. O rapaz voltou a recostá-la na almo­
fada e fixou o tecto. Os seus membros, que tinham sido ator­
mentados durante tantas semanas pela febre e pelos arrepios,
estavam agora entorpecidos. A velha vida que ainda havia
nele estava exausta. Aguardava a chegada de uma nova. Foi
então que sentiu o início de um calafrio, um calafrio tão pecu­
liar, tão leve, que era como uma agitação quente à superfície
de um mar de frio, mais profundo. A respiração acelerou-se­
-lhe. O pássaro feroz que durante os anos da sua infância e os
dias da sua doença tinha estado suspenso sobre a sua cabeça,
aguardando misteriosamente, parecia de repente mover-se.
Asbury empalideceu e a última película de ilusão foi-lhe
arrancada, como que por um remoinho de vento, da frente dos
olhos. Compreendeu que, durante o resto dos seus dias, fraco,
devastado, mas resistindo, ele viveria perante um terror puri­
ficador. Um grito fraco, um último protesto impossível, esca­
pou-se-lhe da garganta. Mas o Espírito Santo, enformado de
gelo em vez de fogo, continuou, implacável, a descer.
OS CONFORTOS DO LAR

Thomas afastou-se d a j anela e c o m a cabeça entre a p arede e


a cortina olhou para baixo, para a entrada onde o carro tinha
parado. A mãe e a putéfia estavam a apear-se. A mãe surgiu
lentamente, imperturbável e desaj eitada, e em seguida as per­
nas compridas e ligeiramente tortas da putéfia deslizaram para
fora, o vestido acima dos j oelhos. Com um grito de alegria
correu para o cão que saltava, doido de contentamento, tre­
mendo de prazer, para a receber. A raiva concentrou-se no
volumoso corpo de Thomas com uma intensidade silenciosa e
agoirenta, como uma populaça que se reune para a chacina.
C abia-lhe agora a ele fazer a mala, ir para o hotel, e ficar
lá até que a casa voltasse a estar desimpedida.
Thomas não sabia onde estava a mala, detestava fazer
malas, precisava dos seus livros, a sua máquina de escrever
não era portátil, estava acostumado a um cobertor eléctrico,
não suportava comer em restaurantes. A mãe, com a sua cari­
dade temerária, ia destruir totalmente a paz do lar.
A porta das traseiras b ateu e o riso da rapariga avançou a
partir da cozinha, atravessou a entrada, subiu as escadas e
entrou-lhe pelo quarto dentro, atingindo-o como uma des­
carga eléctrica. D eu um salto para o lado e ficou a olhar fixa­
mente à sua volta. As p alavras que tinha pronunciado de
1 2 2 o ' coNNOR

manhã eram inequívocas : «Se trouxer essa rapariga de novo


p ara esta casa, vou-me embora. Escolha - ou ela ou eu.11
A mãe tinha escolhido. Uma dor intensa filou-lhe a gar­
ganta. Foi a primeira vez em trinta e cinco anos ... Sentiu nos
olhos uma súbita humidade que os fazia arder. Depois contro­
lou-se, dominado pela raiva. Na realidade, para a mãe, aquilo
não era escolha nenhuma. Pura e simplesmente, contava com
o seu apego ao cobertor eléctrico. Tinha que mostrar-lhe que
ou sim ou sopas.
O riso da rapariga soou novamente, vindo do andar de
baixo, e Thomas estremeceu. Viu de novo diante dos olhos a
expressão dela na noite anterior. Tinha-lhe invadido o quarto.
Quando o rapaz acordou e viu a porta aberta e a putéfia lá den­
tro. Havia luz suficiente, vinda da entrada, para a tomar visível
à medida que ela se voltava para ele. A cara era semelhante à
de uma actriz numa comédia musical - um queixo pontiagudo,
maçãs do rosto largas, e olhos felinos e vazios. Tinha saltado da
cama e agarrado numa cadeira e depois tinha-a feito recuar
porta fora, como um domador expulsando um felino perigoso.
Empurrara-a em silêncio pelo corredor fora, parando para bater
à porta ao chegar ao quarto da mãe. A rapariga, inspirando
fundo, virou-se e fugiu para o quarto de hóspedes.
Rapidamente, nessa altura a mãe abriu a porta do seu
quarto e espreitou p ara fora com apreensão . A cara, gordu­
rosa com aquilo que ela aplicava à noite, estava emoldurada
por rolos de borracha cor-de-rosa. Olhou para o local onde a
rapariga tinha desaparecido. Thomas estava à sua frente, com
a cadeira ainda levantada em frente dele como se estivesse
prestes a dominar outra fera. «Ela tentou entrar no meu
quarto», sibilou, forçando a entrada. «Acordei e ela estava a
tentar entrar no meu quarto. » Fechou a porta atrás de si e a
sua voz subiu de tom, ultraj ada. «Não vou aturar isto ! Não
vou aturar isto nem mais um dia !»
A mãe, forçada por ele a recuar até à cama, sentou-se
mesmo na beira. Tinha um corpo pesado sobre o qual assen­
tava uma cabeça misteriosamente descamada e incongruente.
OS CONFORTOS DO LAR 1 2 3

«Estou a avisá-la pela última vez.», disse Thomas, «Não vou


aturar isto nem mais um dia.» Havia uma tendência que podia
ser observada em todas as acções dela. Com as melhores
intenções do mundo, acabava por ridicularizar a virtude. Ia no
encalço da generosidade com uma tal intensidade irreflectida
que todas as pessoas envolvidas eram tomadas por parvas e a
própria virtude se tomava ridícula. «Nem mais um dia», repe­
tiu ele.
A mãe abanou a cabeça enfaticamente, com os olhos ainda
na porta.
Thomas colocou a cadeira no chão em frente dela e sen­
tou-se. Inclinou-se para a frente como se estivesse prestes a
explicar alguma coisa a uma criança que tivesse feito uma
maldade.
« É apenas mais uma forma de ela ser infeliz», disse a mãe.
« É horrível, horrível. Ela disse-me como se chamava mas
esqueci-me do que é, mas é uma coisa que ela não consegue
evitar. Uma coisa com que p adece desde que nasceu, Thomas»,
disse ela e colocou a mão no queixo, «consegues imaginar se
fosse contigo ?11
A irritação bloqueou-lhe a garganta. ccNão a consigo fazer
ven1, disse ele em voz rouca, «que se ela não se ajuda a si pró­
pria, a mãe não consegue ajudá-la?»
Os olhos da mãe, íntimos mas intocáveis, tinham o azul das
grandes distâncias depois do pôr-do-sol. «Nimpermaníaca11,
murmurou ela.
«Ninfomaníaca», disse ele furiosamente. «Ela não precisa
de lhe fornecer palavras esquisitas. Ela é moralmente uma
imb ecil. É só o que precisa de saber. Nasceu sem moralidade
- como qualquer outra pessoa pode nascer sem um rim ou
sem uma perna. Percebe?»
«Estou sempre a pensar que podias ser tu», disse ela, com a
mão ainda no queixo. «Se fosses tu, como achas que eu me iria
sentir se ninguém te acolhesse? E se tu fosses um nimperma­
níaco e não uma pessoa brilhante e inteligente e fizesses o que
não conseguias evitar e . . . ?11
1 24 ü ' CONNOR

Thomas sentiu uma aversão por si próprio profunda e in­


suportável, como se estivesse a transformar-se lentamente na
rapariga.
«Ü que é que ela trazia vestido?», perguntou a mãe abrup­
tamente, semicerrando os olhos.
«Nada !», bramiu ele. «E agora, vai tirá-la cá de casa !»
«Como é que eu posso expulsá-la e deixá-la ao frio?», disse
ela. «Esta manhã ela ameaçou novamente matar-se.»
«Mande-a de novo para a cadeia», disse Thomas.
«Não te mandaria a ti novamente p ara a cadeia, Thomas»,
disse ela.
Ele levantou-se, agarrou na cadeira e abandonou o quarto
enquanto ainda conseguia controlar-se.
Thomas gostava muito da mãe. Gostava dela porque era da
natureza dele fazê-lo, mas por vezes não suportava o amor
que ela lhe tinha. Por vezes, esse amor tomava-se apenas num
puro mistério idiota e sentia à sua volta forças, correntes invi­
síveis completamente fora de controlo. Ela agia sempre p ar­
tindo das considerações mais triviais - era o que devia ser
feito - para chegar aos compromissos mais temerários com o
demónio, facto que, claro, ela nunca reconhecia.
O demónio para Thomas era apenas uma forma de expres­
são, mas era uma forma apropriada às situações em que a mãe
se metia. Se ela fosse um pouco culta, ele poderia ter-lhe pro­
vado que, desde a história primitiva do Cristianismo, um
excesso de virtude nunca é justificado, que um bem moderado
produz também um mal moderado, que se António do Egipto
tivesse ficado em casa, e tivesse cuidado da irmã, não teria
sido perseguido por demónios.
Thomas não era um cínico e por isso, longe de se opor à
virtude, encarava-a como o princípio da ordem e a única coisa
que tomava a vida suportável. A sua própria vida era supor­
tável por causa dos efeitos das virtudes mais racionais da mãe
- a casa bem organizada que ela mantinha e as excelentes
refeições que servia. Mas quando a virtude ficava fora do con­
trolo dela, como agora, assoberbava-o uma percepção de de-
OS CONFORTOS DO LAR 1 2 5

mónios que não eram truques mentais, seus ou d a velhota :


eram antes forasteiros com personalidade, presentes, embora
não visíveis, de quem se p oderia esperar a qualquer momento
que gritassem ou fizessem b arulho com uma panela.
A rapariga tinha vindo parar à cadeia municipal há um
mês por passar um cheque careca e a mãe tinha visto a foto­
grafia dela no j ornal. Ao pequeno-almoço, tinha olhado para
a notícia durante muito tempo, e depois tinha-lha p assado por
cima da cafeteira. ulmagina», disse ela, «SÓ com dezanove anos
e naquela cadeia imunda. E não parece ser má rapariga.»
Thomas olhou de relance para a fotografia. Mostrava a
face de uma maltrapilha astuta. Ele notou que a idade média
dos criminosos estava a b aixar cada vez mais.
«Parece uma boa rapariga», disse a mãe.
«As pessoas boas não passam cheques carecas», disse Thomas.
«Não sabes o que farias se estivesses num aperto.»
«Não passava um cheque careca, de certeza», disse Thomas.
«Acho», disse a mãe, «que lhe vou levar uma caixinha de
bombons.»
Se ele tivesse batido o pé, logo naquela altura, talvez não
tivesse acontecido mais nada. Se ainda fosse vivo, o pai teria cer­
tamente batido o pé nessa altura. Oferecer uma caixa de bombons
era o que ela mais gostava de fazer para ser simpática. Sempre
que alguém da sua classe social vinha viver para a cidade, ela ia
visitá-los e levava uma caixa de bombons ; sempre que a filha de
uma das suas amigas tinha um bebé ou ganhava uma bolsa de
estudo, ela fazia-lhe uma visita e levava-lhe uma caixa de bom­
bons; sempre que um idoso partia a bacia, ela estava à sua cabe­
ceira com uma caixa de bombons. Thomas tinha-se divertido ao
imaginá-la a levar uma caixa de bombons à cadeia.
E agora estava no seu quarto com o riso da rapariga a rico­
chetear-lhe na cabeça, maldizendo o facto daquele gesto o ter
feito sorrir.
Quando a mãe regressou da cadeia, irrompeu pelo seu escri­
tório sem bater à porta e deixou-se cair no sofá, erguendo os
pezinhos inchados sobre o braço esquerdo do estofo. Momentos
1 2 6 O ' CONNOR

depois, estava suficientemente refeita para se sentar e colocar


um jornal debaixo deles. A seguir voltou a estender-se. «Não
fazemos ideia de como vive a outra metade», disse.
Thomas sabia que, apesar da conversa dela p assar de um
cliché para outro cliché, existiam experiências verdadeiras por
detrás deles. Não lamentava tanto a circunstância da rapariga
estar na cadeia como o facto da mãe ter lá ido visitá-la.
Gostaria de conseguir p oupá-la a todos os espectáculos desa­
gradáveis do mundo. «Bem», disse ele, e afastou o seu diário,
«é melhor esquecer isso agora. A rapariga tem mais do que
motivos para estar presa.»
«Não imaginas tudo o que ela tem p assado», disse a mãe,
endireitando-se novamente, «Ouve.»
A pobrezinha, Star, tinha sido criada por uma madrasta
que tinha três filhos de outro pai, um deles um rapaz quase
adulto que se aproveitara dela de maneiras tais que a miúda
acabou por fugir e procurar a mãe biológica. Quando a encon­
trou, a senhora limitou-se a enviá-la para uma série de colé­
gios internos para se livrar dela. Vira-se obrigada a fugir de
todos eles pela presença de depravados e sádicos tão mons­
truosos que era impossível descrever os seus actos. Thomas
podia perceber que a mãe não tinha sido poupada aos porme­
nores a que estava a poupá-lo. De vez em quando, se falava
de forma vaga, a voz tremia-lhe e ele p ercebia que ela estava
a lembrar-se de alguma coisa horrível que lhe tinha sido des­
crita o mais graficamente possível. Thomas esperara que a
memória de tudo isto desaparecesse em poucos dias, mas não
foi isso que aconteceu. No dia seguinte, a mãe voltou à cadeia
com lenços de papel e creme hidratante, e, alguns dias depois,
comunicou-lhe que tinha consultado um advogado.
Era nestas ocasiões que Thomas lamentava verdadeiramente
a morte do pai, embora nunca tivesse conseguido suportá-lo em
vida. O velho não teria mesmo admitido semelhante disparate.
Imune à compaixão inútil, teria (sem ela saber) puxado os cor­
delinhos necessários com o seu camarada, o xerife local, e a
rapariga teria sido despachada para a penitenciária estatal onde
OS CONFORTOS DO LAR 1 2 7

cumpriria a sua pena. Ele tinha estado sempre envolvido numa


qualquer acção de grande acrimónia, até que uma manhã (com
um olhar zangado dirigido à mulher como se apenas ela fosse
a responsável) caiu morto ao pequeno-almoço. Thomas tinha
herdado a racionalidade do pai sem a sua crueldade e o amor
da mãe pelo bem sem a sua tendência para fazê-lo. A estraté­
gia dele para qualquer acção prática era esperar para ver o que
acontecia. O advogado descobriu que a história das repetidas
atrocidades era, na sua maior parte, mentira, mas quando lhe
explicou que a rapariga tinha uma personalidade patológica,
não suficientemente louca para o manicómio, não suficiente­
mente criminosa para a prisão, nem suficientemente estável
para viver em sociedade, a mãe de Thomas ficou mais profun­
damente sensibilizada do que nunca. A rapariga admitiu pron­
tamente que a sua história era falsa por ser uma mentirosa com­
pulsiva ; mentia, disse, porque se sentia insegura. Já passara
pelas mãos de vários psiquiatras, e a cada um deles acrescen­
tara mais um último retoque à sua educação. Sabia que não
havia esperança para si própria. Perante tanta desgraça, a mãe
parecia alquebrada por um mistério penoso que apenas um
redobrar de esforços conseguiria tomar suportável. Para seu
desgosto, ela parecia olhar para ele com compaixão, como se a
sua caridade obscura já não fizesse distinções.
Alguns dias depois, a mãe irrompeu triunfante pela sala e
anunciou que o advogado tinha tratado da libertação da rapa­
riga e que a desgraçada ficaria sob responsabilidade - dela.
Thomas levantou-se da cadeira Morrisl4l e deixou cair a
revista que estava a ler. A sua grande face afável contraiu-se
com uma dor terrível de antecipação. «Não vai», disse ele, «tra­
zer essa rapariga para aqui ! »
«Não, não», disse e l a , « acalma-te, Thomas.» Tinha conse­
guido com dificuldade arranjar um emprego à rapariga, um
emprego numa loj a de animais na cidade, e um lugar para

[4] Cadeiras de cabedal almofadadas reclináveis em três posições, passiveis de funcionarem


como sofá individual e como cama, que estiveram muito em voga nos Estados Unidos
durante a primeira metade do século xx. (N. da T.)
1 2 8 o'CONNOR

ficar com uma velhota excêntrica sua conhecida. As pessoas


não eram caridosas. Não se punham no lugar de alguém
como Star que tinha tudo contra si.
Thomas sentou-se de novo e agarrou na revista. Parecia
ter acabado de escapar a um perigo que não queria nem cla­
rificar para si próprio. «Ninguém pode dizer-lhe nada, mãe»,
disse ele, «mas dentro de alguns dias essa rapariga terá fugido
da cidade, depois de lhe ter extorquido tudo o que puder.
Nunca mais vai saber dela.»
Duas noites depois, Thomas chegou a casa e abriu a porta da
sala de estar e foi trespassado por um riso agudo e sem espes­
sura. A mãe e a rapariga estavam sentadas junto da lareira onde
os toros de gás crepitavam acesos. A rapariga dava a impressão
imediata de ser fisicamente aleijada. Tinha o cabelo cortado
como o de um cão ou de um duende e estava vestida segundo a
última moda. Treinava nele um longo olhar familiar e brilhante
que se transformou pouco depois num sorriso íntimo.
«Thomas !», disse a mãe, com a voz firme, determinada a
controlar-se, «Esta é a Star de que ouviste falar tanto. A Star
vai j antar connosco.»
A rapariga apresentava-se como Star Drake. O advogado
tinha descoberto que o seu verdadeiro nome era Sarah Ham.
Thomas não se mexeu nem falou, mas ficou parado à porta
no que parecia ser um acesso selvagem de perplexidade.
Finalmente disse, «Como está, Sarah», num tom de uma tal
repugnância que ficou chocado ao ouvir a sua própria voz.
Corou, sentindo ser indigno de si demonstrar desprezo por
uma criatura assim tão patética. Entrou n a sala determinado a
demonstrar, pelo menos, uma delicadeza conveniente, e dei­
xou-se cair pesadamente numa cadeira.
«Thomas escreve sobre História», disse a mãe lançando-lhe
um olhar ameaçador. « É ele o presidente da Sociedade Histórica
local este ano.»
A rapariga inclinou-se para a frente e dispensou a Thomas
uma atenção ainda mais penetrante. «Fabuloso !», disse com
uma voz gutural.
OS CONFORTOS DO LAR 1 2 9

«Neste momento Thomas está a escrever acerca dos pri­


meiros colonos deste município», disse a mãe.
11Fabuloso !11, repetiu a rapariga. Thomas, com um grande
esforço de força de vontade, conseguiu sentir que estava sozi­
nho na sala.
«Oiça, sabe com quem é que ele se parece?», perguntou Star
com a cabeça inclinada, observando- o de lado.
«Oh, com alguém muito distinto !», disse a mãe maliciosa­
mente.
«Com o chui do filme que fui ver a noite passada», disse
Star. « Star», disse a mãe, « acho que deves ter cuidado com os
filmes que vais ver. Entendo que devias ver só os melhores.
Não me parece que os policiais sej am bons para ti.11
«Oh, este era um daqueles em que o crime não compensa11,
disse Star, «e j uro que o chui era exactamente a cara dele.
Estavam sempre a impingir qualquer coisa ao tipo. Parecia que
não aguentava nem mais um minuto e que ia rebentar. Era um
pagode. E não era nada mal-parecido11, acrescentou com um
olhar apreciativo de soslaio dirigido a Thomas.
« Star», disse a mãe, «parece-me que seria óptimo se come­
çasses a gostar de Música.11
Thomas suspirou. A mãe continuou a tagarelar e a rapa­
riga, sem lhe prestar qualquer atenção, deixou o olhar alon­
gar-se nele. Olhava-o de tal forma que mais p arecia estar a
tocá-lo com as mãos, demorando-se ora nos j o elhos dele, ora
no seu pescoço. Os olhos dela tinham um brilho trocista e ele
sabia que a Sarah estava bem ciente do facto de não supor­
tar que aquela lhe dirigisse o olhar. Não precisava de nada
que lhe dissesse que estava na presença da corrupção em pes­
soa, mas de corrupção sem culpa porque não existia cons­
ciência de responsabilidade por detrás dela. Estava p erante a
forma mais insuportável de inocência. Distraidamente, inter­
rogou-se sobre qual seria a atitude de Deus perante isto, pre­
tendendo, se possível, adoptá-la.
O comportamento da mãe ao longo da refeição foi tão
idiota que quase não conseguia olhar para ela ; e, como supor-
1 3 0 o'CONNOR

tava ainda menos olhar para Sarah Ham, fixou toda a sua
atenção, com desagrado e aversão, no aparador que se encon­
trava do outro lado da sala. A mãe tratava cada observação da
rapariga como se merecesse uma atenção real. Sugeriu vários
planos para o uso salutar do tempo livre de Star. Sarah Ham
tomou tanta atenção a estes conselhos como se tivessem vindo
de um papagaio. Numa ocasião em que Thomas olhou inad­
vertidamente na direcção dela, piscou-lhe imediatamente o
olho. Logo que engoliu a última colher de sobremesa, o rapaz
levantou-se e murmurou, «Tenho que ir, tenho uma reunião.»
«Thomas», disse a mãe, «quero que leves a Star a casa a
caminho da tua reunião. Não quero que ela apanhe táxis sozi­
nha à noite.»
Durante um momento, Thomas ficou em silêncio, furioso.
D epois virou-se e saiu da sala. Dai a pouco regressou com
uma expressão de determinação obscura. A rapariga estava
pronta, esperando à porta da sala, humildemente. Até lhe dei­
tou um grande olhar de admiração e confiança. Thomas não
lhe ofereceu o braço, mas ela agarrou-lhe, apesar disso, e saiu
de casa e desceu as escadas agarrada ao que podia ter sido um
monumento que se movia por milagre.
«Portem-se bem !», gritou a mãe.
Sarah Ham riu-se em silêncio, e deu uma cotovelada a
Thomas.
Ao ir buscar o casaco, ele tinha decidido que esta seria a
sua oportunidade para dizer à rapariga que, a não ser que ela
deixasse de se comportar como um parasita em relação à mãe,
seria ele próprio a encarregar-se, pessoalmente, de que ela
fosse recambiada para a prisão. Dar-lhe-ia a entender que
sabia aquilo que ela andava a tramar, que não era ingénuo e
que havia certas coisas que não toleraria. À secretária, de
caneta na mão, ninguém era mais fluente que Thomas. Assim
que ficou fechado no carro com Sarah Ham, o terror prendeu­
-lhe a língua.
Ela sentou-se em cima dos pés e disse, «Enfim, sós», e sol­
tou uma risadinha.
OS CONFORTOS DO LAR 1 3 1

Thomas desviou o carro da casa e guiou rapidamente até


ao portão. Quando chegou à auto-estrada, acelerou como se
estivesse a ser perseguido.
«Credo !», disse Sarah Ham, tirando os pés do assento,
«onde é o incêndio?»
Thomas não respondeu. S egundos depois sentiu-a aproxi­
mar-se. Primeiro espreguiçou-se, depois encostou-se pouco
a pouco, e finalmente colocou a mão flácida no ombro dele.
«Ü Tomsee não gosta de mim», disse, «mas eu acho- o fabulo­
samente giro.»
Thomas fez os cinco quilómetros e meio até à cidade em
pouco mais de quatro minutos. O semáforo no primeiro cru­
zamento estava vermelho mas ele ignorou-o. A velhota vivia
três quarteirões mais à frente. Quando o carro parou com um
guinchar de pneus no destino, ele saltou p ara fora e deu a
volta a correr até à porta do lado da rapariga e abriu-a. Ela
não se mexeu e Thomas foi obrigado a esperar. Após um
momento, surgiu uma perna, depois a sua cara branca e tor­
tuosa apareceu e fitou-o. Havia qualquer coisa no olhar dela
que sugeria cegueira mas era a cegueira daqueles que não têm
consciência de que não conseguem ver. Thomas estava estra­
nhamente agoniado. Os olhos vazios moveram-se em direcção
a ele. «Ninguém gosta de mim», disse ela num tom rabugento.
«E se tu fosses eu e eu não suportasse ir contigo fechada num
carro ao longo de cinco quilómetros?»
«A minha mãe gosta de ti», resmungou ele.
«El a !», disse a rapariga. «Ela está atrasada uns bons setenta
e cinco anos ! »
Thomas disse sem fôlego, « S e e u descobrir que andas a
importuná-la mais alguma vez, vou fazer com que te metam
novamente na cadeia.» Havia uma força sombria por trás da sua
voz, embora ela fosse pouco mais audível do que um suspiro.
«Tu e quem mais?», disse ela e voltou a sentar-se dentro do
carro como se agora não tencionasse sair de todo. Thomas
inclinou-se para dentro do carro, agarrou-lhe as bandas do
casaco de forma alucinada, puxou-a para fora e soltou-a.
1 3 2 o'CONNOR

Depois correu para o carro e acelerou. A outra porta ainda


estava aberta e o riso dela, sem corpo mas real, ricocheteou
pela rua acima como se estivesse prestes a saltar adentro da
porta aberta do carro e a partir com ele. Esticou-se e fechou a
porta com estrondo e depois seguiu para casa, demasiado
furioso para ir à reunião. Tencionava mostrar muito bem à mãe
o seu desagrado. Tencionava não deixar que ela ficasse com
qualquer dúvida. A voz do pai soava-lhe estridente na cabeça.
Idiota, dizia o velho, impõe-te. Mostra-lhe quem manda
antes que ela to mostre a ti.
Mas, quando Thomas chegou a casa, a mãe, muito sabia­
mente, tinha ido para a cama.

Na manhã seguinte, apareceu ao pequeno-almoço de


sobrolho carregado e com o queixo levantado indicando que
a sua disposição era perigosa. Quando pretendia ser determi­
nado, Thomas começava como um touro que, antes de atacar,
recua com a cabeça b aixa e escava o solo com a p ata. «Muito
bem, agora oiça», começou, puxando a cadeira e sentando-se,
«Tenho uma coisa p ara lhe dizer no que toca à rapariga e só
pretendo dizê-la uma vez.» Inspirou. «Ela não p assa de uma
putéfia. Troça de si nas suas costas. Tenciona arrancar-lhe
tudo o que puder e a mãe não significa nada para ela.»
A mãe parecia ter passado também uma noite agitada. Não
se tinha vestido de manhã e estava de roupão e com um tur­
bante cinzento na cabeça, o que lhe dava um desconcertante
ar de omnisciência. Thomas bem poderia estar a tomar o
pequeno-almoço com uma sibila.
«Hoje vais ter que usar natas enlatadas», disse ela, ser­
vindo-lhe o café. «Esqueci-me de comprar das outras.»
«Está b em, mas ouviu o que eu disse?», murmurou feroz­
mente Thomas.
«Não sou surda», disse a mãe e colocou a cafeteira de novo
no tripé. «Eu sei que p ara ela não passo de um saco de vento.»
«Então porque é que continua com este disparate . . . »
OS CONFORTOS DO LAR 1 3 3

«Thomas», disse ela, e colocou a mão n a face, «podias ser. . . »


«Não sou eu !», disse Thomas, agarrando na perna da mesa
junto do j oelho.
Ela continuou de mão na cara, abanando a cabeça ligeira­
mente. «Pensa em tudo o que tens», começou ela. «Todos os
confortos do lar. E princípios morais, Thomas. Sem más incli­
nações, não nasceste com nada de mal.»
Thomas começou a respirar como uma pessoa que sentisse
um ataque de asma. «Isso não tem lógica nenhuma», disse
numa voz fraca. «Ele havia de ser firme.»
A velhota ficou hirta. «TU», disse, «não és como ele.»
Thomas abriu a boca em silêncio.
«No entanto», disse a mãe, num tom de acusação tão sub­
til que poderia estar a retirar o elogio, «não voltarei a convidá­
-la já que estás tão contra ela.»
«Não estou contra ela», disse Thomas. «Estou contra o facto
da mãe fazer papel de p arva.»
Assim que ele saiu da mesa e fechou a porta do escritório,
o pai instalou-se, de cócoras, na sua cabeça. O velho tinha a
capacidade que os agricultores têm de conversar de cócoras,
embora não fosse do campo mas tivesse nascido e sido criado
na cidade e apenas se tivesse mudado para um localidade mais
pequena mais tarde, de forma a explorar os seus talentos. Com
uma astúcia imperturbável, tinha-os convencido de que era
um deles. No meio de uma conversa no relvado do tribunal,
agachava-se e as duas ou três pessoas que o acompanhassem
também se punham de cócoras sem qualquer interrupção apa­
rente na conversa. Tinha vivido uma mentira através dos ges­
tos ; nunca se tinha dignado a dizer uma.
Deixas que ela te manobre, disse o velho. Não és como eu.
Não és suficientemente homem.
Thomas começou a ler vigorosamente e por fim a imagem
desvaneceu-se. A rapariga tinha-o perturbado no fundo do
seu ser, algures fora do alcance do seu poder de análise.
Sentia-se como se tivesse visto um tomado passar a cem
metros e tivesse sido avisado de que ele inverteria o seu rumo
1 34 o ' CONNOR

e se dirigiria directamente ao seu encontro. Não conseguiu


concentrar-se completamente no trabalho até meio da manhã.
Duas noites depois, estava sentado com a mãe no pequeno
gabinete de trabalho depois do j antar, cada um a ler uma sec­
ção do jornal da tarde, quando o telefone começou a tocar
com a intensidade estridente de um alarme de incêndio.
Thomas esticou-se e pegou-lhe. Assim que agarrou o aus­
cultador, uma voz feminina esganiçada gritou para dentro da
sala, «Venham buscar esta rapariga ! Venham buscá-la ! Bêbeda !
Está bêbeda na minha sala e eu não vou permitir isto ! Perdeu
o emprego e voltou bêbeda ! Não vou permitir isto !»
A mãe deu um salto e agarrou no auscultador.
O fantasma do pai de Thomas ergueu-se diante dele.
Telefona ao xerife, incitava o velho. «Telefona ao xerife», disse
Thomas em voz alta. «Telefona ao xerife para ir l á buscá-la.»
«Vamos j á», dizia a mãe. «Vamos j á buscá-la. Diga-lhe para
ela preparar as coisas.»
«Ela não está em condições de preparar nada», gritou a voz.
«Não devia ter despachado uma pessoa como ela p ara cima de
mim ! A minha casa é uma casa respeitável !»
«Diga-lhe para telefonar ao xerife», gritou Thomas.
A mãe pousou o auscultador e olhou para ele. «Eu não
entregaria um cão àquele homem», disse ela.
Thomas ficou sentado na cadeira com os braços cruzados
fixando a parede.
«Pensa na pobre rapariga, Thomas», disse a mãe, «sem
nada. Nada. E nós temos tudo. »
Quando chegaram, Sarah H a m estava caída de pernas
abertas encostada à b alaustrada dos degraus da frente da pen­
são. Tinha a bóina enfiada pela testa abaixo, no sítio para
onde a velha a tinha atirado, e as roupas saíam da mala a
abarrotar para onde a velha as tinha arremessado. Mantinha
uma conversa de bêbeda consigo própria num tom baixo e
pessoal. Um risco de batôn prolongava-se por uma das faces.
D eixou-se guiar até ao carro e que a mãe dele a sentasse no
banco de trás sem parecer conhecer quem era a sua salvadora.
OS CONFORTOS DO LAR 1 3 5

«Ninguém a quem falar todo o dia, a não ser um bando de


malditos periquitos11, disse num murmúrio feroz.
Thomas, que nem sequer tinha saído do carro, ou olhado
para ela depois do primeiro relance de repugnância, disse :
«Estou-lhe a dizer, de uma vez por todas, o lugar dela é na
cadeia.11
A mãe, sentada no banco de trás a segurar a mão da rapa­
riga, não respondeu.
«Tudo bem, leve-a p ara o hotel», disse ele.
«Não posso levar uma rapariga embriagada p ara um hotel,
Thomas», disse ela. «Sabes isso.»
«Então leve-a ao hospital.»
«Ela não precisa da cadeia, de um hotel ou do hospital»,
disse a mãe, «precisa de uma casa.»
«Não precisa da minha», disse Thomas.
«Só por esta noite, Thomas», suspirou a velha senhora. «Só
por esta noite.»
Tinham passado oito dias desde essa noite. A putéfia
estava instalada no quarto de hóspedes. Todos os dias a mãe
saía para lhe arranj ar um emprego e um lugar onde pudesse
ficar, e falhava, porque a velha tinha difundido o aviso.
Thomas confinava-se ao seu quarto ou ao pequeno gabinete
de trabalho. A sua casa era para ele lar, o ficina, igrej a, tão
pessoal e tão necessária como a carapaça de uma tartaruga.
Não conseguia acreditar que pudesse ser violada desta
maneira. A sua face ruborizada tinha uma expressão cons­
tante de afronta atordoada.
Assim que a rapariga se levantava de manhã, a sua voz
ecoava num blues que se erguia e estremecia, e depois descia
com insinuações de paixão prestes a ser satisfeita e Thomas, à
sua secretária, enchia o p eito de ar e começava freneticamente
a atafulhar os ouvidos com lenços de papel. Cada vez que ele
corria de uma divisão p ara outra, de um andar para outro, era
certo e sabido que ela aparecia. Cada vez que ele estava a
meio das escadas, subindo ou descendo, ela ou se encontrava
com ele e o ultrapassava, encolhendo-se como uma mola, ou
1 3 6 ü 'CONNOR

subia ou descia atrás dele, dando pequenos suspiros trágicos


com sabor a hortelã-pimenta. Parecia adorar a repugnância
que Thomas sentia por ela e atiçá-lo sempre que tinha opor­
tunidade, como se isso aumentasse o seu martírio de uma
forma deliciosa.
O velho - pequeno, como uma vespa, com o seu panamá
amarelecido, o seu fato leve de algodão, a sua camisa cor-de­
-rosa cuidadosamente suj a, a sua gravatinha estreita - pare­
cia ter-se instalado na cabeça de Thomas e a partir daí, nor­
malmente de cócoras, disparava as mesmas sugestões irritan­
tes cada vez que o rapaz fazia uma pausa dos seus estudos
forçados. B ate o pé. Vai falar com o xerife.
O xerife era uma outra edição do pai de Thomas, com a
diferença de que usava uma camisa aos quadrados, um cha­
péu texano e era dez anos mais novo. Era facilmente deso­
nesto, e tinha realmente admirado o seu velho. Thomas, tal
como a mãe, ter-se-ia desviado completamente do seu cami­
nho só para evitar aquele olhar azul claro e transparente.
Continuava a esperar por outra solução, por um milagre.
Com Sarah Ham em casa, as refeições eram um suplício .
«0 Tomsee não gosta d e mim», disse e l a na terceira o u
quarta noite à mesa do j antar e lançou o seu olhar amuado à
enorme figura rígida de Thomas, cuj a face tinha a expressão
de um homem encurralado por cheiros insuportáveis. «Ele não
me quer aqui. Ninguém me quer aqui.»
«0 nome do Thomas é Thomas», interrompeu a mãe. «E não
Tomsee.»
«Mas eu inventei a palavra Tomsee», disse ela. «Acho que é
giro. Ele detesta-me.»
«0 Thomas não te detesta», disse a mãe. «Não somos o tipo
de pessoas que detestam», acrescentou, como se isso fosse uma
imperfeição que tivesse desaparecido da família há muitas
gerações.
«Oh, eu percebo quando não sou desej ada», continuou
Sarah Ham. «Nem sequer me quiseram na cadeia. Se eu me
matasse, será que Deus me quereria?»
OS CONFORTOS DO LAR 1 3 7

«Experimenta e verás», murmurou Thomas.


A rapariga riu às gargalhadas. Depois parou abruptamente,
franziu a cara e começou a tremer. «Ü melhor a fazer», disse,
batendo os dentes, «é matar-me. Assim saio do caminho de
toda a gente. Vou para o inferno e saio do caminho de D eus.
E mesmo o diabo não vai querer-me. Vai escorraçar-me a
pontapé do inferno, e eu nem mesmo no inferno . . . », chora­
mingou.
Thomas levantou-se, agarrou no prato, na faca e no garfo
e levou-os para o gabinete de trabalho para acabar de j antar.
Depois desta cena, decidiu nunca mais comer à mesa. Con­
venceu a mãe a servi-lo à secretária. Durante estas refeições,
sentia intensamente a presença do velho. Parecia inclinar-se
para trás na cadeira, com os polegares enfiados nos suspensó­
rios, enquanto dizia coisas como, Ela nunca me expulsou da
minha própria mesa.
Algumas noites mais tarde, Sarah Ham cortou os pulsos
com uma faca de podar e ficou histérica. Do gabinete onde se
tinha encerrado depois do j antar, Thomas ouviu um guincho,
depois uma série de gritos, depois os passos apressados da mãe
pela casa. Não se mexeu. O primeiro instante de esperança de
que a rapariga tivesse cortado o pescoço desvaneceu-se
quando se apercebeu de que ela não podia ter feito isso e con­
tinuar a gritar daquela maneira. Voltou ao seu diário e em
breve os gritos cessaram. De repente, a mãe irrompeu pelo
gabinete de casaco e chapéu. «Temos de levá-la ao hospital»,
disse. «Ela tentou matar-se. Pus-lhe um torniquete no braço.
Meu Deus, Thomas», disse, «imagina que te sentes tão em
baixo, ao ponto de fazeres uma coisa destas !»
Thomas levantou-se rigidamente e vestiu o casaco e o cha­
péu. «Vamos levá-la ao hospital», disse, «e vamos deixá-la lá.»
«E empurrá-la novamente para o desespero?», gritou a
velha senhora. «Thomas !»
Agora, de pé no meio do quarto, apercebendo-se de que
tinha atingido o ponto em que a acção era inevitável, Thomas
permaneceu imóvel.
1 3 8 o'coNNOR

A sua fúria dirigia-se não à desavergonhada, mas à mãe.


Apesar do médico ter constatado que a rapariga mal se tinha
ferido, o que inflamou a sua raiva por aquele se ter rido do
torniquete e apenas ter aplicado uma pincelada de mercuro­
cromo no corte, a mãe não conseguia esquecer o incidente.
Uma nova carga de p esar parecia ter sido lançada sobre os
seus ombros, e não era só Thomas, mas também Sarah Ham
que estava irritada com isso, pois esta p arecia ser uma mágoa
geral que teria encontrado outro obj ecto, mesmo que a for­
tuna bafej asse qualquer um deles. A experiência de Sarah
Ham tinha mergulhado a velha senhora num luto pelo mundo.
Na manhã seguinte à tentativa de suicídio, ela tinha per­
corrido a casa e recolhido todas as facas e tesouras e trancou­
-as numa gaveta. Esvaziou um frasco de veneno para ratos pela
sanita abaixo e retirou as pastilhas para matar as baratas do
chão da cozinha. Depois, foi até ao escritório de Thomas e sus­
surrou, «Onde está a pistola dele? Quero escondê-la.» «A pistola
está na minha gaveta», rugiu Thomas, «e eu não vou escondê­
-la. Se ela se matar, tanto melhor!»
«Thomas», disse a mãe, «ela vai ouvir-te ! »
«Ela que me ouça !», gritou Thomas. «Não percebe que ela
não tenciona de maneira nenhuma matar-se? Não p ercebe que
os da laia dela nunca se matam? Não ... »
A mãe esgueirou-se pela porta e fechou-a para o fazer
calar-se e o riso de Sarah Ham, muito perto no corredor, en­
trou, matraqueando, pelo quarto dentro. «0 Tomsee vai ver. Eu
vou-me matar e depois ele lamentará não ter sido simpático
comigo. Vou usar a sua pistolazinha, o seu próprio revólverzi­
nho com cabo de madrepérola!», gritou ela e soltou uma gar­
galhada atormentada que imitava um monstro de um filme.
Thomas rangeu os dentes. Abriu a gaveta da secretária e
apalpou a pistola. Era uma herança do velho que tinha sido da
opinião de que todas as casas deviam ter uma arma carregada.
O velho tinha disparado duas b al as uma noite e atingido um
vagabundo, mas Thomas nunca tocara na arma. Não receava
que a rapariga a usasse contra si própria e fechou a gaveta. Os
OS CONFORTOS DO LAR 1 3 9

d a laia dela agarravam-se tenazmente à vida e eram sempre


capazes de arrancar vantagens teatrais de cada circunstância.
Tinham-lhe surgido várias ideias de como se livrar dela, mas
todas elas possuíam um tom moral que indicava terem vindo de
um mente semelhante à do pai, e Thomas tinha-as rej eitado.
Não podia fazer com que a rapariga fosse presa de novo até ela
ter feito qualquer coisa ilegal. O velho teria conseguido, sem
quaisquer escrúpulos, embebedá-la e mandá-la para a auto­
-estrada no carro dele, avisando entretanto a brigada de trân­
sito da sua presença na estrada, mas Thomas considerava isto
indigno da sua estatura moral. As sugestões continuaram a sur­
gir-lhe, cada uma mais ultrajante que a anterior.
Não tinha a mais leve esperança de que a rapariga pegasse
na arma e desse um tiro a si própria, mas nessa tarde, quando
procurou na gaveta, a pistola tinha desaparecido. A porta do
seu escritório fechava-se por dentro, não por fora. Não se
importava com o revolver de cabo de madrepérola, mas a
ideia das mãos de Sarah Ham remexendo nos seus papéis
enfureceu-o. Agora até o seu escritório estava contaminado.
O único local não conspurcado por ela era o quarto dele.
Nessa noite ela entrou lá.
No dia seguinte, ao pequeno-almoço, ele não comeu e não
se sentou. Ficou de pé ao lado da cadeira e transmitiu o ulti­
mato enquanto a mãe beberricava o café como se estivesse
sozinha na cozinha, e em grande sofrimento . «Suportei isto»,
disse ele, «O máximo de tempo que pude. Como vej o que cla­
ramente não se importa comigo, com a minha paz ou o meu
conforto ou com as condições p ara eu poder trabalhar, estou
prestes a tomar a única atitude possível. Vou-lhe dar mais um
dia. Se voltar a trazer a rapariga para casa esta tarde, vou-me
embora. Pode escolher - ela ou eu.» Tinha mais coisas a dizer,
mas nessa altura a voz falhou-lhe e saiu.
Às dez horas, a mãe e Sarah Ham saíram de casa.
Às quatro, ele ouviu os pneus do carro no cascalho e cor­
reu para a j anela. Quando o carro parou, o cão levantou-se,
alerta, tremendo.
1 40 O ' CONNOR

Sentiu-se incap az de dar o primeiro passo que o levaria até


ao armário da entrada para ir buscar a mala. Era como um
homem a quem tivessem entregue uma faca e dito que se ope­
rasse a si próprio se quisesse sobreviver. Tinha as mãos enor­
mes cerradas num desamparo total. A sua expressão era um
tumulto de indecisão e de ultraje. Os seus olhos azuis-claros
pareciam transpirar na face afogueada. Fechou-os por um
momento e, na parte posterior das pálpebras, a imagem do pai
olhou-o de soslaio. Idiota !, sibilou o velho, Idiota ! A putéfia,
a celerada roubou-te a arma ! Vai ter com o xerife ! Vai ter com
o xerife !
Thomas só abriu os olhos passado um momento. Estava
atordoado de uma forma que nunca experimentara antes.
Ficou onde estava pelo menos durante três minutos. Depois
virou-se, como uma embarcação enorme invertendo o rumo,
e estacionou de frente para a porta. Ficou ali mais um
momento, depois saiu, com a expressão de quem ia levar a
provação até ao fim.
Não sabia onde p oderia encontrar o xerife. O homem esta­
belecia as suas próprias regras e o seu próprio horário. Thomas
parou primeiro na cadeia onde ficava o seu escritório, mas ele
não estava lá. Foi ao tribunal e um funcionário disse-lhe que
o xerife tinha ido ao b arbeiro, do outro lado da rua. «Ali está
o ajudante dele», disse o funcionário e apontou pela j anela
para a figura pesada de um homem com uma camisa aos qua­
drados que estava encostado a um carro da polícia, olhando
para o vazio.
«Tem que ser o xerife», disse Thomas e dirigiu-se para o
barbeiro. Embora não quisesse ter nada a ver com o xerife,
tinha consciência que o homem era pelo menos inteligente e
não apenas um monte de carne que suava.
O barbeiro disse-lhe que o xerife tinha acabado de sair.
Thomas começou a dirigir-se de novo p ara o tribunal e ao
subir para o p asseio, vindo da estrada, viu uma figura magra
e ligeiramente curvada a gesticular com irritação p ara o aju­
dante.
OS CONFORTOS DO LAR 1 4 1

Thomas aproximou-se com uma agressividade provocada


pelo nervosismo. Parou bruscamente a três passos e disse
numa voz demasiado alta: «Posso dar-lhe uma palavra?», sem
acrescentar o nome do xerife, que era Farebrother.
Farebrother virou a sua cara astuta e enrugada apenas o
suficiente para reconhecer Thomas, e o ajudante fez o mesmo,
mas nenhum deles falou. O xerife retirou uma b eata minús­
cula do lábio e deixou-a cair aos seus pés. dá te disse o que
tens a fazer», disse ao ajudante. D epois afastou-se com um
ligeiro aceno que indicava que Thomas podia segui-lo se
quisesse falar-lhe. O ajudante passou furtivamente pela fren­
te do carro da polícia e entrou. Farebrother, seguido por
Thomas, atravessou o l argo do tribunal e p arou debaixo de
uma árvore que lançava sombra a um quarto da relva da
frente. Esperou, ligeiramente inclinado p ara a frente, e acen­
deu outro cigarro.
Thomas começou a apresentar o assunto, gaguej ando.
Como não tinha tido tempo de preparar o que ia dizer, era
quase incoerente. Repetindo a mesma coisa várias vezes, con­
seguiu por fim dizer o que queria. Quando acabou, o xerife
ainda estava ligeiramente inclinado para a frente, formando
um ângulo com ele, com os olhos fixos em nada de especial.
Permaneceu nessa posição sem falar. Thomas recomeçou, mais
lentamente e numa voz mais débil, e Farebrother deixou- o
continuar durante algum tempo antes de dizer: «Apanhámo­
-la uma vez.» Depois permitiu-se um semi-sorriso lento, enru­
gado e espertalhaço.
«Não tive nada a ver com isso», disse Thomas. «Foi a
minha mãe.»
Farebrother pôs-se de cócoras.
«Ela estava a tentar ajudar a rapariga», disse Thomas. «Ela
não sabia que a rapariga não podia ser ajudada.»
«Teve mais olhos que barriga, calculo», ruminou a voz por
baixo dele.
«Ela não tem nada a ver com isto», disse Thomas. «Ela não
sabe que estou aqui. A rapariga é perigosa com aquela arma.»
1 42 O ' CONNOR

«Ele», disse o xerife, «não deixava que a relva lhe crescesse


debaixo dos pés. Especialmente qualquer coisa que uma
mulher tivesse semeado.»
«Ela pode matar alguém com aquela arma», disse Thomas
debilmente, olhando p ara baixo, para a copa redonda do cha­
péu texano.
Fez-se um longo momento de silêncio.
«Onde é que ela a tem?», perguntou Farebrother.
«Não sei. Ela dorme no quarto de hóspedes. D eve lá estar,
dentro da mala dela provavelmente», disse Thomas.
Farebrother retomou novamente o silêncio.
«Você podia vir lá a casa e fazer uma busca no quarto de hós­
pedes», disse Thomas esforçando a voz. «Posso ir para casa e dei­
xar o ferrolho da porta da frente aberto e você pode entrar silen­
ciosamente, subir as escadas e fazer uma busca ao quarto dela.»
Farebrother virou a cabeça de forma a poder olhar para os
j oelhos de Thomas. «Parece saber como as coisas devem ser
feitas», disse. «Quer trocar de profissão comigo?»
Thomas não disse nada, porque não se lembrou de nada para
dizer, mas esperou obstinadamente. Farebrother tirou a beata
dos lábios e deixou-a cair na relva. Por trás dele, na varanda do
tribunal, um grupo de pessoas ociosas que tinham estado encos­
tadas do lado esquerdo da porta, passou para o lado direito, onde
o sol brilhava. Um pedaço de papel amachucado voou de uma
das janelas do andar de cima e caiu, rodopiando.
«Vou por volta das seis», disse Farebrother. «Deixe o ferro­
lho fora da porta e não se atravesse no meu caminho - você
e aquelas duas mulheres.»
Thomas deixou escapar um som áspero de alívio que pre­
tendia significar «Obrigado», e atravessou rapidamente a relva
como alguém finalmente posto em liberdade. A frase, «aque­
las duas mulheres», prendia-se-lhe como um ouriço ao espírito
- a subtileza do insulto à mãe ferindo-o mais do que qualquer
das referências de Farebrother à sua própria incompetência.
Ao entrar no carro, ficou subitamente afogueado. Teria entre­
gue a mãe ao xerife - para que ela se tomasse um alvo para
OS CONFORTOS DO LAR 1 43

a língua afiada do homem? Estaria a atraiçoá-la para se livrar


da putéfia? Viu rapidamente que o caso não era esse. Estava
a fazer aquilo p ara o próprio bem da mãe, p ara a livrar de um
parasita que lhes destruíra o sossego. Ligou o motor e guiou
rapidamente até casa ; mas, depois de ter virado para a en­
trada, decidiu que seria melhor estacionar a alguma distância
do edifício e entrar silenciosamente pelas traseiras. Estacionou
na relva e caminhou nesse verde, traçando um círculo até às
traseiras da casa. O céu estava coberto por traços cor de mos­
tarda. O cão dormia no tapete das traseiras. Quando os passos
do dono se aproximaram, abriu um olho amarelo, reconheceu­
-o e fechou-o novamente. Thomas entrou na cozinha. Estava
vazia, e a casa encontrava-se suficientemente silenciosa para
ele se aperceber do tique-taque sonoro do relógio. Faltava um
quarto para as seis. Atravessou rapidamente a entrada em
bicos de pés até à porta da frente e retirou o ferrolho. Depois
parou um pouco à escuta.
Por detrás da porta fechada da sala, ouviu a mãe a resso­
nar calmamente e p resumiu que ela teria adormecido
enquanto lia. Do outro lado da entrada, nem a três p assos do
seu escritório, o casaco preto e a bolsa vermelha da putéfia
estavam pendurados numa cadeira. Ouviu água a correr no
andar de cima e calculou que ela estaria a tomar banho.
Entrou no escritório e sentou-se à secretária para esperar,
notando com desagrado que um tremor o percorria de vez em
quando. Esteve sentado por um minuto ou dois sem fazer
nada. Depois agarrou numa caneta e começou a desenhar
quadrados nas costas de um envelope que estava à sua frente.
Olhou para o relógio. Faltavam onze minutos para as seis.
Após um momento, abriu indolentemente a gaveta central da
secretária por cima do colo. Durante um momento, olhou
fixamente para a arma sem a reconhecer. Depois soltou um
grito e deu um s alto. Ela tinha-a posto de novo no sítio !
Idiota !, sibilou o p ai, Idiota ! Vai pô-la na mala dela. Não
fiques aí parado. Vai pô-la na mala dela.
Thomas ficou parado fixando a gaveta.
1 44 o'CONNOR

Atrasado mental ! Encolerizava-se o p ai. Rápido, enquanto


ainda tens tempo ! Vai pô-la na mala dela.
Thomas não se mexeu.
Imbecil ! , gritou o pai.
Thomas agarrou na arma.
Apressa-te, estúpido, ordenou o pai.
Thomas pôs-se em movimento, segurando na arma com o
braço esticado. Abriu a porta e olhou para a cadeira. O casaco
preto e a bolsa vermelha estavam em cima dela quase ao seu
alcance.
Despacha-te, parvo, disse o pai.
Por trás da porta da sala o ressonar quase inaudível da mãe
aumentava e diminuía. Parecia marcar uma ordem do tempo
que não tinha nada a ver com os instantes que restavam a
Thomas. Não se ouvia qualquer outro som.
Depressa, imbecil, antes que ela acorde, disse o velho.
O ressonar p arou e Thomas ouviu as molas do sofá gemer.
Agarrou na bolsa vermelha. D ava uma sensação de pele ao
toque e ao abri-la, sentiu o cheiro inconfundível da rapariga.
Estremecendo, atirou a arma para dentro e afastou-se. A cara
dele ardia e adquirira uma cor vermelho escura extrema­
mente desagradável.
«0 que é que o Tomsee está a pôr na minha bolsa?», gritou
ela, e as suas gargalhadas satisfeitas saltaram pelas escadas
abaixo. Thomas voltou-se rapidamente.
Ela estava no cimo das escadas, descendo como se fosse
um modelo de moda, uma perna nua a seguir à outra, apare­
cendo à frente do quimono de acordo com um ritmo definido.
«0 Tomsee está a ser maroto», disse ela numa voz rouca.
Chegou aos pés da escada e l ançou um olhar possessivo de
soslaio a Thomas, cuj a cara estava agora mais cinzenta do que
vermelha. A rapariga esticou a mão, abriu a mala com o dedo
e observou a arma.
A mãe abriu a porta da sala e olhou p ara fora.
«0 Tomsee pôs a pistola dele dentro da minha mala !»,
guinchou a rapariga.
OS CONFORTOS DO LAR 1 4 5

«Ridículo», disse a mãe, boctjando. «Para que é que o Thomas


iria pôr a pistola dentro da tua mala?»
Thomas estava ligeiramente curvado, com as mãos pen­
dendo desamparadamente pelos pulsos como se tivesse aca­
bado de tirá-las de uma poça de sangue.
«Não sei p ara quê», disse a rapariga, «mas que o fez, não
há dúvida.», e começou a andar à volta de Thomas, com as
mãos nas ancas, o pescoço esticado para a frente e o seu sor­
riso íntimo ferozmente fixo nele. De repente, a expressão dela
pareceu abrir-se como a bolsa se tinha aberto quando Thomas
lhe tinha tocado. Ficou parada com a cabeça inclinada para
um lado numa atitude de incredulidade. «Credo», disse lenta­
mente, «que exemplar tu me saíste.»
Nesse instante, Thomas amaldiçoou não só a rapariga,
como toda a ordem universal que a tinha tomado possível.
«0 Thomas não iria pôr uma arma na tua mala», disse a
mãe. «0 Thomas é um cavalheiro. »
A rapariga deu u m a risada. «Pode vê-la a l i dentro», disse
ela e apontou para a bolsa aberta.
Encontraste-a na mala dela, estúpido !, sibilou o velho .
«Encontrei-a na mala dela!», gritou Thomas. «A porca da
cabra delinquente roubou-me a arma !»
A mãe ofegou ao ouvir a outra presença na voz dele.
A face semelhante a uma sibila da velha senhora empali­
deceu.
«Encontrou-a uma ova !», guinchou Sarah Ham e correu
para a bolsa, mas Thomas, como se o seu braço fosse guiado
pelo pai, foi o primeiro a agarrá-la e apo derou-se da arma.
A rapariga, num frenesim, atirou-se ao pescoço de Thomas, e
tê-lo-ia apertado com toda a força se a mãe não se tivesse
colocado na frente. Dispara !, gritou o velho.
Thomas disparou. A detonação foi como um ruído que
pretendesse acabar com o mal no mundo. Thomas ouviu-o
como um trovão que destruiria as gargalhadas das desaver­
gonhadas até todos os gritos se calarem e nada ficar a per­
turbar a paz da ordem perfeita.
1 46 o'CONNOR

O eco desvaneceu-se em ondas. Antes da última onda


desaparecer, Farebrother abriu a porta e pôs a cabeça dentro
da entrada. O seu nariz franziu-se. A sua expressão foi,
durante alguns segundos, a de alguém que não queria admi­
tir surpresa. Os seus olhos estavam límpidos como água,
reflectindo a cena. A velha senhora estava estendida no chão
entre a rapariga e Thomas.
O cérebro do xerife funcionou rapidamente, como uma
máquina calculadora.
Viu os factos como se j á estivessem publicados : o suj eito
tinha, desde o início, intenções de matar a mãe e de pôr as cul­
pas na rapariga. Mas Farebrother tinha sido demasiado esperto
para ele. Ainda não se tinham apercebido da cabeça dele à
porta. Enquanto observava a cena, apareciam-lhe em lampej os
percepções novas. Por sobre o corpo, o assassino e a cabra esta­
vam prestes a cair nos braços um do outro. O xerife sabia reco­
nhecer um quadro sórdido quando via um. Estava acostumado
a interromper cenas que não eram tão más como ele desej aria,
mas esta correspondia totalmente às suas expectativas.
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO

Sheppard estava sentado num banco ao balcão que dividia a


cozinha ao meio, a comer cereais do pacote individual de car­
tão. Comia mecanicamente, com os olhos postos na criança
que, de armário em armário na cozinha composta por painéis,
ia recolhendo os ingredientes para o seu pequeno-almoço. Era
um rapaz louro e robusto de dez anos. Sheppard mantinha os
olhos intensamente azuis fixos nele. O futuro do rapaz estava­
-lhe estampado na cara. la ser banqueiro. Não, pior do que isso.
Havia de dirigir uma pequena companhia de empréstimos.
Tudo o que ele queria para o filho era que ele fosse bom e
generoso, e nenhuma dessas coisas parecia provável. Sheppard
era um homem novo mas tinha já o cabelo branco. Ficava-lhe
espetado como um halo estreito e hirsuto por cima da face
rosada e sensível.
O rapaz aproximou-se do balcão com o frasco de manteiga
de amendoim debaixo do braço, um prato com um quarto de um
pequeno bolo de chocolate numa mão e a garrafa do ketchup na
outra. Pareceu não dar pelo pai. Subiu para o banco e come­
çou a barrar o bolo com a manteiga de amendoim. Tinha
umas orelhas redondas enormes que se distanciavam da
cabeça e pareciam afastar-lhe um pouco demais os olhos um
do outro. Vestia uma camisa verde que estava tão desbotada
1 48 ü 'CONNOR

que o cowboy que investia na p arte da frente não p assava de


uma sombra.
«Norton», disse Sheppard, «ontem vi o Rufus Johnson.
Sabes o que é que ele estava a fazer?»
A criança olhou para ele com uma espécie de semiatenção,
o olhar dirigido para a frente, sem que fixasse em algum ponto.
Tinha os olhos de um azul mais claro que os do pai, como se
pudessem ter desbotado com a camisa ; um deles inclinava-se,
quase imperceptivelmente, para o canto exterior.
«Estava num beco», disse Sheppard, «e tinha a mão dentro
de um caixote do lixo. Estava a tentar tirar alguma coisa para
comer.» Fez uma pausa para deixar que isto penetrasse fundo.
<ffinha fome», terminou, e tentou alcançar a consciência da
criança com o olhar.
O rapaz agarrou no bocado do bolo de chocolate e deu-lhe
uma primeira dentada num dos cantos.
«Norton», disse Sheppard, «tens alguma ideia do que signi­
fica partilhar?»
Veio de lá uma centelha de atenção. «Uma p arte é tua»,
disse Norton.
«Uma parte é dele», disse Sheppard lentamente. Não havia
hipótese. Quase todos os defeitos seriam preferíveis ao egoísmo
- um temperamento violento, até uma tendência para mentir.
A criança virou o frasco de ketchup de pernas para o ar e
começou a despej á-lo em cima do bolo.
A expressão de sofrimento de Sheppard aumentou. «Tu
tens dez anos e o Rufus Johnson tem catorze», disse. «No
entanto, tenho a certeza que as tuas camisas serviriam ao
Rufus.» Rufus Johnson era um rapaz que ele tinha tentado
ajudar no refo rmatório ao longo do último ano. Tinha sido
libertado há dois meses. «Quando estava no reformatório
p arecia bastante bem, mas quando o vi ontem era só pele e
osso. Não tem comido bolo b arrado de manteiga de amen­
doim ao pequeno-almoço.»
A criança parou. «Está seco», disse. « É por isso que tenho
que barrá-lo com qualquer coisa.»
OS COXOS HÃO-DE ENlRAR PRIMEIRO 1 49

Sheppard virou a cara para a j anela na extremidade do bal­


cão. O relvado ao lado da casa, verde e uniforme, descia cerca
de mil e quinhentos metros até uma pequena mata suburbana.
Quando a mulher era viva, tinham comido muitas vezes no
exterior. Às vezes até tomavam o pequeno - almoço sobre a
relva. Nesse tempo não se tinha apercebido que a criança era
egoísta. «Presta atenção», disse, voltando-se para ele, «olha
para mim e presta atenção.»
O rapaz olhou para ele. Pelo menos os olhos dele olhavam
para a frente.
«Dei ao Rufus uma chave cá de casa quando ele saiu do
reformatório - p ara lhe mostrar que confiava nele e p ara que
ele tivesse um sítio onde pudesse ir e sentir-se acolhido em
qualquer altura. Ele não a usou, mas acho que a vai usar agora
porque me encontrou e p orque tem fome. E se ele não a usar,
irei à procura dele e vou trazê-lo para cá. Não aguento ver uma
criança a comer restos tirados de caixotes do lixo.»
O rapaz franziu a testa. Começava a aperceber-se que
alguma coisa do que lhe pertencia estava sob ameaça.
A boca de Sheppard distendeu-se, descontente. «0 pai do
Rufus morreu antes de ele nascer», disse. «A mãe está na peni­
tenciária estadual. Foi criado pelo avô numa barraca sem água
nem electricidade e o velho espancava-o todos os dias.
Gostavas de pertencer a uma família assim?»
«Não sei», disse a criança debilmente.
«Bem, podes pensar nisso de vez em quando», disse Sheppard.
Sheppard era responsável pelo programa de actividades
recreativas do município. Ao sábado trabalhava no reformató­
rio como conselheiro, sem receber nada em troca para além da
satisfação de saber que estava a ajudar rapazes com quem mais
ninguém se preocupava. Johnson era o rapaz mais inteligente
com quem ele tinha trabalhado, e de todos o mais despoj ado.
Norton virou o que sobrava do bolo como se já não o qui­
sesse.
«Talvez ele não venha», disse a criança, e os olhos ilumina­
ram-se-lhe ligeiramente.
1 50 o'CONNOR

«Pensa em tudo o que tu tens e que ele não tem !», disse
Sheppard. «Imagina que tinhas de vasculhar em caixotes do
lixo para encontrares comida? Imagina que tinhas um pé
inchado, enorme, e que um dos lados do teu corpo se inclinava
mais que o outro quando andavas?»
O rapaz ficou com uma expressão vazia, obviamente inca­
paz de imaginar tal coisa.
«Tu tens um corpo saudável», disse Sheppard, «uma boa
casa. Nunca te ensinaram nada a não ser a verdade. O teu pai
dá-te tudo o que precisas e tudo o que queres. Não tens um avô
que te bate. E a tua mãe não está na penitenciária estadual.»
A criança afastou o prato. Sheppard suspirou em voz alta.
Um nó de carne apareceu por baixo da boca do rapaz subi­
tamente distorcida. A cara transformou-se numa massa de
inchaços com frestas para os olhos. «Se ela estivesse na peni­
tenciária», começou a dizer numa espécie de ruído subterrâneo,
«eu podia ir vêêêêêê-la.» Rolaram-lhe lágrimas pela cara
abaixo e o ketchup desceu-lhe pelo queixo. Parecia que lhe
tinham batido na boca. Abandonou-se à dor e berrou.
Sheppard ficou sentado, desamparado e infeliz, como um
homem vergastado por uma qualquer força elementar da natu­
reza. Aquela não era uma dor normal. Fazia tudo parte do
egoísmo do miúdo. A mãe tinha morrido há mais de um ano e
a dor de uma criança não deveria durar tanto. «Vais fazer onze
anos», disse num tom reprovador.
A criança começou a fazer um ruído aflitivo, agudo e ofe­
gante.
«Se deixares de pensar em ti e pensares no que podes fazer
por outra pessoa», disse Sheppard, «vais deixar de sentir a falta
da tua mãe.»
O rapaz ficou em silêncio mas os seus ombros continuaram
a tremer. Depois o seu semblante desfaleceu e começou a ber­
rar de novo.
«Achas que eu também não me sinto sozinho sem ela?»,
disse Shepp ard. «Achas que eu nem sinto a falta dela? Sinto,
mas não fico sentado a lamentar-me. Ocupo-me a ajudar
OS COXOS HÃO-DE EN1RAR PRIMEIRO 1 5 1

outras pessoas. Quando é que me vês simplesmente sentado


a pensar nos meus problemas?»
O rapaz afundou-se na cadeira como se estivesse exausto,
com lágrimas novas a rolarem-lhe pela cara abaixo.
«Ü que é que vais fazer hoje?», perguntou Sheppard, para
que ele pensasse noutra coisa.
O rapaz passou o braço pelos olhos. «Vender sementes»,
murmurou.
Sempre a vender qualquer coisa. Tinha quatro frascos de
litro cheios de moedas de níquel e de dez cêntimos que ia
amealhando, e tirava-os do armário de tantos em tantos dias e
contava-os. «Para que é que andas a vender sementes?11
«Para ganhar um prémio.»
«Qual é o prémio ?11
«Mil dólares.»
«E o que é que farias se tivesses mil dólares?»
«Guardava-os», disse a criança e limpou o nariz ao ombro.
«Tenho a certeza que era isso que farias», disse Sheppard.
«Ouve», disse e baixou a voz para um tom quase de súplica,
«imagina que por sorte ganhavas mesmo mil dólares. Não gos­
tarias de os gastar com crianças menos afortunadas que tu? Não
gostarias de dar baloiços e trapézios ao orfanato? Não gostarias
de comprar um sapato novo ao pobre do Rufus Johnson?»
O rapaz começou a afastar-se do b alcão. Depois, de
repente, inclinou-se p ara a frente e ficou debruçado com a
boca aberta por cima do prato. Sheppard suspirou de novo .
Veio tudo fora, o bolo, a manteiga de amendoim, o ketchup
- uma papa doce e mole. Ficou debruçado sobre a regurgita­
ção enquanto continuava a vomitar até estancar o fluxo, e
ficar com a boca aberta por cima do prato, como se esperasse
que o coração lhe viesse à boca a seguir.
«Está tudo bem11, disse Sheppard, «está tudo bem. Não con­
seguiste evitá-lo. Limpa a boca e vai deitar-te.»
A criança permaneceu como estava durante mais um mo­
mento. Depois ergueu a cara e olhou para o pai sem o fixar.
«Vai lá», disse Sheppard. «Vai lá deitar-te. »
1 52 o'CONNOR

O rapaz puxou a extremidade da camisola e limpou a boca.


D ep ois desceu do banco, atravessou a cozinha e saiu.
Sheppard ficou sentado fixando a poça de comida meio
digerida. O cheiro azedo atingiu-o e fê-lo inclinar-se para trás.
A comida veio-lhe à boca. Levantou-se e levou o prato para o
lava-loiça, abriu a torneira e observou com repugnância
enquanto a mistela desaparecia pelo cano abaixo.
A mão magra e triste de Johnson procurava comida dentro
de caixotes de lixos, enquanto o seu próprio filho, egoísta,
indiferente, sôfrego, tinha tanto que vomitava. Fechou a tor­
neira empurrando-a com a mão fechada. Johnson p ossuía uma
verdadeira capacidade de resposta e tinha sido privado de tudo
desde o nascimento ; Norton era apenas mediano, ou talvez
mesmo abaixo da média, e tivera todas as vantagens.
Voltou ao balcão para acabar o pequeno-almoço. Os cereais
estavam moles na embalagem de cartão mas ele não prestou
atenção ao que estava a comer. Johnson merecia qualquer
esforço porque tinha potencial. Ele tinha-se apercebido disso a
partir do momento em que o rapaz entrou a coxear para a sua
primeira entrevista.
O gabinete de Sheppard no reformatório era um cubículo
estreito com uma j anela e uma mesa pequena e duas cadeiras.
Nunca estivera no interior de um confessionário mas pensava
que devia ser um processo semelhante ao que ele tinha ali, com
a excepção que ele explicava, não absolvia. As suas credenciais
eram menos dúbias do que as de um padre ; ele, pelo menos,
tinha sido treinado para o que fazia.
Quando Johnson entrou para a primeira entrevista, ele
tinha estado a ler o processo do rapaz - destruição sem sen­
tido, j anelas partidas, incêndios de caixotes do lixo municipais
- o tipo de coisas que encontrava sempre nos locais onde os
rapazes tinham sido transplantados abruptamente do campo
p ara a cidade, como era o caso. Chegou ao QI de Johnson.
Tinha um QI de 1 40. Ergueu vivamente as sobrancelhas.
O rapaz estava sentado, de ombros descaídos, à beira da
cadeira, com os braços pendentes entre as coxas. A luz vinda
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 5 3

da j anela incidia-lhe na face. Os olhos, cor de aço e imóveis,


estavam obstinadamente fixos em frente. Os seus cabelos finos
e escuros pendiam numa madeixa lisa sobre a testa, não de
forma descuidada como a de um rapaz, mas antes de forma
feroz, como a de um velho. Era perfeitamente palpável na sua
cara a posse de uma espécie de inteligência fanática.
Sheppard sorriu para diminuir a distância entre eles.
A expressão do rapaz não se suavizou. Recostou-se na
cadeira e ergueu até ao joelho um monstruoso pé boto. O pé
estava dentro de um sapato preto pesado, muito gasto e com
uma sola de dez a doze centimetros de grossura. O cabedal
separava-se dela num sítio e a extremidade de uma meia vazia
proj ectava-se para o exterior como uma língua cinzenta de
uma cabeça decepada. O caso tomou-se imediatamente claro
para Sheppard. Os distúrbios que provocava serviam para com­
pensar o pé.
«Bem Rufus», disse, «vej o aqui no teu relatório que apenas
te resta um ano p ara cumprir. O que é que tencionas fazer
quando saíres?»
«Eu não faço planos», disse o rapaz. O seu olhar deslocou­
-se com indiferença para qualquer coisa do lado de fora da
j anela por trás de Sheppard, na distância.
«Talvez devesses fazê-lo», disse Sheppard e sorriu.
Johnson continuou a olhar para além dele.
«Quero ver-te aproveitar tanto quanto possível a tua inteli­
gência», disse Sheppard. «0 que é que é mais importante para
ti? Vamos falar do que é importante para ti. » Os olhos desce­
ram-lhe involuntariamente até ao pé.
«Estude-o até se fartar», disse o rapaz de forma arrastada.
Sheppard corou. A massa deformada e negra inchou diante
dos seus olhos. Ignorou o comentário e o olhar de soslaio que
o rapaz lhe lançava. «Rufus», disse, «meteste-te em muitos sari­
lhos sem sentido mas acho que, quando perceberes por que é
que fazes estas coisas, vais ficar menos inclinado a fazê-las.»
Sorriu. Aqueles rapazes tinham tão poucos amigos, viam tão
poucas caras simpáticas, que metade da sua eficácia provinha
1 54 o'CONNOR

apenas de lhes sorrir. «Há muitas coisas acerca de ti próprio que


acho que posso explicar-te», disse.
Johnson olhou para ele friamente. «Eu não pedi explicação
nenhuma», disse. «Eu já sei por que é que faço o que faço.»
«Bom, óptimo !», disse Sheppard. «Então talvez p ossas dizer­
-me o que te levou a fazer as coisas que fizeste. »
U m brilho negro surgiu n o s olhos do rapaz. «Satanás»,
disse. «Ele tem-me em seu poder.»
Sheppard olhou para ele fixamente. Não havia sinais no
semblante do rapaz de que ele tivesse dito isto para ter graça.
A linha da sua boca estreita denotava orgulho. Os olhos de
Sheppard endureceram. Sentiu momentaneamente um deses­
pero surdo como se fosse confrontado com uma qualquer trama
elementar da natureza que tinha ocorrido há demasiado tempo
para poder ser corrigida neste momento. As questões deste
rapaz quanto à vida tinham obtido resposta através de cartazes
afixados em pinheiros: SATANÁ S TEM-TE EM SEU PODER?
ARREPENDE-TE OU ARDE NO INFERNO. JESUS SALVA. Ele
reconhecia a Bíblia, mesmo sem a ler. O seu desespero foi subs­
tituído por afronta. «Que disparate !», bufou. «Vivemos na era
espacial ! É s esperto demais para me dares uma resposta dessas.»
A boca de Johnson torceu-se ligeiramente. O seu olhar era
desdenhoso mas divertido. Havia uma cintilação de desafio nos
seus olhos.
Sheppard escrutinou-lhe a face. Tudo era possível desde
que existisse inteligência. Sorriu de novo, um sorriso que era
como um convite ao rapaz para que entrasse numa sala de aula
com todas as j anelas escancaradas à luz. «Rufus», disse, «vou
fazer diligências para que tenhas um encontro comigo uma vez
por semana. Talvez haj a uma explicação para a tua explicação.
Talvez eu possa explicar-te o teu demónio. »
Depois disso, tinha falado c o m Johnson todos os sábados
até ao fim do ano. Falava sem método, sobre o tipo de assun­
tos de que o rapaz nunca teria ouvido falar antes. Falava de
coisas que o ultrapassavam um pouco, para lhe dar qualquer
coisa que desej asse alcançar. Deambulava pela simples psico-
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 5 5

logia e pelos ardis da mente humana, até à astronomia e às


cápsulas espaciais que circulavam à volta da terra mais rápi­
das do que a velocidade do som e que em breve rodeariam as
estrelas. Concentrou-se por instinto nas estrelas. Queria dar ao
rapaz algo para ele desej ar obter para além dos pertences dos
seus vizinhos. Queria alargar-lhe os horizontes. Queria que ele
visse o universo, que visse que os seus pontos mais escuros
podiam ser penetrados. D aria tudo para conseguir colocar um
telescópio nas mãos de Johnson.
Johnson falava pouco ; e no que dizia, por causa do seu
orgulho, discordava ou contradizia sem sentido, com o pé boto
sempre erguido sobre o j oelho como uma arma pronta a ser
usada, mas Sheppard não se deixava enganar. Observava-lhe
os olhos e todas as semanas via qualquer coisa esboroar"'."se no
seu interior. Olhando para o semblante do rapaz, empedernido
mas chocado, resistindo à luz que o devastava, percebia que
estava mesmo a acertar no núcleo.
Johnson estava agora livre para viver do que encontrava
nos caixotes de lixo e redescobrir a sua antiga ignorância.
A inj ustiça de tudo aquilo era exasperante. Tinha sido entre­
gue de novo ao avô ; a imbecilidade do velho era imaginável.
Talvez o rapaz já lhe tivesse fugido. A ideia de conseguir a cus­
tódia de Johnson tinha ocorrido a Sheppard anteriormente,
mas o facto de haver um avô estava sempre ali interposto.
Nada o excitava tanto como pensar o que poderia fazer por
aquele rapaz. Primeiro trataria de arranjar-lhe um novo sapato
ortopédico, feito por medida. A coluna de Rufus ficava dese­
quilibrada de cada vez que ele dada um passo. Depois enco­
raj á-lo-ia a ter um interesse intelectual específico. Pensou no
telescópio. Podia comprar um daqueles em segunda mão, e
depois podiam colocá-lo na j anela do sótão. Ficou sentado
durante quase dez minutos a pensar no que podia fazer se
tivesse Johnson aqui com ele. O que era desperdiçado em
Norton faria Johnson desabrochar. Ontem, quando o vira com
a mão dentro do caixote do lixo, tinha-lhe acenado e dirigiu­
-se a ele. Johnson tinha-o visto, parou durante um milésimo
1 5 6 ü 'CONNOR

de segundo, e depois desapareceu com a velocidade de um


rato, mas não antes de Sheppard ter visto a sua expressão
mudar. Algo se acendeu nessa altura nos olhos do rapaz, disso
tinha a certeza, uma recordação da luz perdida.
Levantou-se e atirou a caixa de cereais para o lixo. Antes
de sair de casa, deu uma vista de olhos ao quarto de Norton
p ara se certificar de que ele já não se sentia maldisposto.
A criança estava sentada de pernas cruzadas em cima da
cama. Tinha despej ado os frascos de moedas numa p ilha
grande à sua frente e estava a organizá-las por pilhas de
cinco, dez e vinte cêntimos.

Nessa tarde Norton estava sozinho em casa, sentado no


chão do quarto a colocar pacotes de sementes de flores em fila
à sua volta. A chuva chicoteava os vidros da j anela e matra­
queava no algeroz. O quarto estava escuro mas era iluminado
de vez em quando por relâmpagos silenciosos e os pacotes de
sementes ficavam alegremente visíveis no chão. Sem se
mexer, assim de p ernas cruzadas, o miúdo era como uma
enorme rã pálida no meio do seu j ardim potencial. De repente,
os olhos ficaram-lhe em alerta. Sem aviso, a chuva tinha pa­
rado. O silêncio era pesado, como se a chuvada tivesse sido
abafada através da violência. Continuou imóvel, movendo
apenas os olhos.
Do silêncio chegou-lhe o clique de uma chave a rodar na
fechadura da porta de entrada. O ruído era muito cauteloso.
Chamou a atenção para si próprio e manteve-a como se fosse
controlado mais pelo pensamento do que pelo corpo. Deu um
salto e entrou no armário.
Os passos começaram a mover-se no vestfüulo. Eram deli­
berados e irregulares, um leve e depois um pesado, depois
silêncio como se o visitante tivesse parado para ouvir ou exa­
minar alguma coisa. Um minuto depois, a porta da cozinha
chiou. Os passos atravessaram-na até ao frigorifico. A parede
era a mesma que a do armário. Norton permaneceu com o
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 5 7

ouvido colado a ela. A porta do frigorífico abriu-se. Houve um


silêncio prolongado.
Descalçou os sapatos e depois saiu do armário em bicos de
pés e passou por cima dos pacotes de sementes. No meio do
quarto parou e ali ficou, hirto. Um rapaz magro de face ossuda,
vestido com um fato preto todo molhado, estava parado à sua
porta, bloqueando-lhe a fuga. Tinha o cabelo agarrado à cabeça
por causa da chuva. Parecia um corvo furioso e encharcado.
O seu olhar percorreu a criança de alto a baixo e paralisou-a.
Depois, os seus olhos começaram a mover-se sobre tudo o que
estava no quarto - a cama por fazer, as cortinas suj as na única
j anela grande, a fotografia de uma mulher j ovem de face larga
que se encontrava no meio da desordem em cima do toucador.
A língua da criança soltou-se de repente. «Ele tem estado à
tua espera, vai-te dar um sapato novo porque precisas de comer
o que está nos caixotes do lixo !», disse numa espécie de guin­
cho de rato.
«Eu como coisas tiradas do lixo,., disse o rapaz lentamente,
com os olhos semicerrados, «porque gosto de comer coisas tira­
das do lixo. Percebes?»
A criança disse que sim com a cabeça.
«E eu tenho maneiras de arranj ar o meu próprio sapato.
Percebes?»
A criança disse que sim com a cabeça, hipnotizada.
O rapaz entrou a coxear e sentou-se na cama. Concertou
uma almofada atrás de si e esticou a perna mais curta de forma
a que o sapato preto enorme repousasse conspicuamente numa
dobra do lençol.
O olhar de Norton fixou-se nele e imobilizou-se. A sola era
da grossura de um tijolo.
Johnson agitou-o ligeiramente e sorriu. « Se eu der um pon­
tapé a alguém com este», disse, «isso ensina-lhes a não se mete­
rem comigo.,.
A criança disse que sim com a cabeça.
«Vai à cozinha», disse Johnson, «e faz-me uma sanduíche com
aquele pão de centeio e fiambre e traz-me um copo de leite.»
1 5 8 ü ' CONNOR

Norton saiu como se fosse um brinquedo mecânico, empur­


rado na direcção certa. Fez uma enorme sanduíche, cheia de
gordura, com fiambre a sair dos lados, e encheu um copo de
leite. Depois voltou ao quarto com o copo de leite numa mão
e a sanduíche na outra.
Johnson estava encostado na almofada como se fosse um
rei. «Obrigado, empregado», disse e agarrou na sanduíche.
Norton ficou ao lado da cama, segurando no copo.
O rapaz deu uma dentada na sanduíche e comeu sem parar
até acabar. Depois agarrou no copo de leite. Segurou-o com
ambas as mãos como uma criança; e, quando o baixava para
respirar, havia uns bigodes de leite sobre a sua boca. Entregou
o copo vazio a Norton. «Vai-me ali buscar uma daquelas laran­
j as, empregado», disse asperamente.
Norton foi à cozinha e voltou com a l aranja. Johnson des­
cascou-a com os dedos e deixou cair a casca na cama. Comeu­
-a lentamente, cuspindo os caroços para a frente. Quando aca­
bou, limpou as mãos ao lençol e olhou p ara Norton longa e
apreciativamente.
Parecia ter ficado amolecido pelo serviço. «É s mesmo filho
dele», disse Johnson, «Tens a mesma cara de estúpido.»
A criança ficou ali, impassível, como se não tivesse ouvido.
«Ele não distingue a mão esquerda da direita», disse
Johnson com um prazer rouco na voz.
A criança dirigiu o olhar para um ponto da parede ligeira­
mente ao lado da cara de Johnson e olhou-o fixamente.
«Blá, blá, blá», disse Johnson, «e nunca diz nada.»
O lábio superior da criança ergueu-se ligeiramente, mas
voltou a não dizer nada.
«Conversa fiada», disse Johnson. «Conversa fiada.»
A cara da criança começou a mostrar um ar cauteloso de beli­
gerância. Recuou ligeiramente como se estivesse preparado para
fugir de repente. «Ele é bom», murmurou, «ele ajuda as pessoas.»
«Bom!», disse Johnson com brutalidade. Atirou a cabeça
para a frente. «Ouve bem», assobiou, «Não me interessa se ele
é bom ou não. Ele não tem razão!»
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 59

Norton parecia atordoado.


A porta de rede da cozinha bateu e alguém entrou. Johnson
endireitou-se instantaneamente. «É ele?», perguntou.
«É a cozinheira», disse Norton. «Costuma vir à tarde.»
Johnson levantou-se, coxeou até ao vestíbulo e ficou
parado à porta da cozinha e Norton seguiu-o.
A empregada de cor estava no cubículo a despir um imper­
meável vermelho vivo. Era uma rapariga alta de pele amarelo­
-claro com uma boca como uma grande rosa que tivesse escu­
recido e murchado. O cabelo estava penteado em trancinhas no
cimo da cabeça e inclinava-se para o lado como a Torre de Pisa.
Johnson fez um ruído através dos dentes. «Bem bem. Olhem
só p ara a nossa Aunt Jemima l 5l ,., disse.
A rapariga parou e deitou-lhes um olhar insolente. Era
como se fossem o pó do chão.
«Vamos lá», disse Johnson, «vamos lá ver tudo aquilo que
tens para além de uma preta.» Abriu a primeira porta à sua
direita no vestíbulo e olhou para dentro de uma casa de
banho com azulej os cor- de-rosa. «Uma sanita cor-de-rosa !»,
murmurou.
Voltou uma cara cómica para a criança. «Ele senta-se
naquilo?»
«É para as visitas», disse Norton, «mas ele senta-se lá de vez
em quando.»
«Ele devia esvaziar a cabeça para dentro dela», disse Johnson.
A p o rta da divisão seguinte estava aberta. Era o quarto
onde Sheppard dormia desde que a mulher tinha morrido.
Havia uma cama de ferro de aspecto ascético no chão vazio.
Um monte de uniformes da Liga Infantil de baseball estava
empilhado a um canto. Em cima de uma grande secretária de
fechar, viam-se pilhas de papéis espalhados, seguras em
vários sítios pelos cachimbos. Johnson ficou parado a olhar

[ 5] Logótipo muito antigo de uma marca de farinha para panquecas extremamente popular,
consistindo numa negra gorda de lenço na cabeça, com o sorriso rasgado geralmente asso­
ciado à subserviência dos escravos libertados. Na última década, depois de várias pressões,
esta senhora tomou-se menos caricatural e mais politicamente correcto. (N. da T.)
1 60 ü ' CONNOR

para o quarto em silêncio. Torceu o nariz. «Adivinha quem


é?», disse.
A porta do quarto seguinte estava fechada mas Johnson
abriu-a e enfiou a cabeça na sua semi-obscuridade. As persia­
nas estavam descidas e o ar abafado tinha um leve cheiro a
perfume.
Havia uma cama antiga e larga e um toucador gigantesco
cuj o espelho cintilava na meia-luz. Johnson acendeu o inter­
ruptor da electricidade ao lado da porta e atravessou o com­
partimento até ao espelho e espreitou p ara dentro dele. Um
pente e uma escova de prata estavam p ousados sobre o nape­
ron de linho. O rapaz pegou no pente e começou a passá-lo
pelo cabelo. Penteou-o todo para baixo, por cima da testa.
Depois puxou-o para o lado, ao estilo de Hitler.
«Não mexas no pente dela!», admoestou o miúdo. Estava à
porta, muito pálido, e a respirar pesadamente, como assistisse
a um sacrilégio num local sagrado.
Johnson pousou o pente, agarrou na escova e deu uma
escovadela ao cabelo.
«Ela morreu», disse a criança.
«Não tenho medo das coisas dos mortos», disse Johnson.
Abriu a gaveta de cima e enfiou a mão lá dentro.
«Tira as tuas mãos nojentas e gordas da roupa da minha
mãe !», ordenou a criança numa voz sufocada.
«Não te excites, querido», murmurou Johnson. Ergueu uma
blusa amarrotada de bolas vermelhas e deixou-a cair no
mesmo sítio. Depois, tirou um lenço de seda verde e enrolou-o
à volta da cabeça e deixou-o flutuar até ao chão. A sua mão
continuou a mexer no fundo da gaveta. Após um momento,
surgiu agarrando numa cinta coçada com quatro ligas de metal
a baloiçar. «Isto deve ser a sela dela», observou.
Levantou-a cuidadosamente e sacudiu-a. Depois ajustou-a
à volta da cintura e saltou, fazendo dançar as ligas de metal
para cima e p ara b aixo. Começou a estalar os dedos e a aba­
nar as ancas de um lado para o outro. «Gonter rock, rattle and
roll», cantou. «Gonter rock, rattle and roll. Can 't please that
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 6 1

woman, to save my doggone souz. !61» Começou a andar, batendo


com o pé normal e lançando o pesado para o lado. Foi a dan­
çar pela porta fora, passando pela criança chocada e conti­
nuando pelo vestíbulo em direcção à cozinha.

Meia hora mais tarde, Sheppard chegou a casa. Deixou cair


o impermeável numa cadeira na entrada, foi até à porta da sala
e estacou. O seu semblante transformou-se de repente. Brilhava
de prazer. Johnson tinha-se sentado - uma figura escura, numa
cadeira de espaldar alto forrada de cor-de-rosa. A parede por
trás dele estava forrada de livros do chão ao tecto. O rapaz lia
atentamente um deles. Os olhos de Sheppard semicerraram-se.
Era um volume da Enciclopédia Britânica. Estava tão absorvido
que nem levantou a cabeça. Sheppard susteve a respiração.
Este era o cenário ideal para o j ovem deserdado. Tinha que o
manter aqui. Tinha que consegui-lo, fosse como fosse.
«Rufus !11, exclamou, «é bom ver-te rapaz !», e apressou-se a
entrar com o braço estendido.
Johnson olhou para cima com a expressão vazia. «Ah, olá»,
disse. Ignorou a mão tanto quanto pôde, mas como Sheppard
não a baixou, apertou-a de má vontade.
Sheppard estava preparado para este tipo de reacção. Fazia
parte do disfarce de Johnson nunca demonstrar entusiasmo.
«Como vão as coisas?», indagou. «Como é que o teu avô está
a tratar-te?» Sentou-se na beira do sofá.
«MorreU», disse o rapaz com indiferença.
«Isso não é verdade !», gritou Sheppard. Levantou-se e sen­
tou-se na mesa de apoio mais perto do rapaz.
«Não», disse Johnson, «não morreu. Eu queria que tivesse
morrido.»
«Bom, onde é que ele está?», murmurou Sheppard.
«Partiu para os montes», disse Johnson. «Ele e outros. Vão
enterrar umas bíblias numa caverna e tomar dois de cada espé-

[6] Passagem de um blues tomado famoso por Teny Mcgee, extremamente popular à época.
(N. da T.)
1 6 2 o'CONNOR

cie de animais e essa história toda. Como Noé. Só que agora


vai ser um incêndio, e não um dilúvio.»
O Sheppard repuxou a boca secamente. «Estou a ver», disse.
Depois acrescentou, «Por outras palavras, o idiota do velho
abandonou-te?»
«Ele não é nenhum idiota», disse o rapaz num tom indignado.
«Ele abandonou-te ou não?», perguntou Sheppard com
impaciência.
O rapaz encolheu os ombros.
«Onde está o encarregado de educação da tua liberdade
condicional?»
«Não sou eu que tenho de saber dele», disse Johnson. «Ele é
que tem de saber de mim.»
Sheppard riu. «Espera um minuto», disse. Levantou-se, foi
ao vestíbulo e tirou o impermeável da cadeira e levou-o para
o roupeiro da entrada para o pendurar. Precisava de tempo
para pensar, para decidir como é que iria falar com o rapaz
para que ele ficasse.
Teria que ficar voluntariamente. Johnson fazia de conta que
não gostava dele. Era apenas um meio de preservar o seu orgu­
lho, mas teria que pedir-lhe de tal forma de que o orgulho dele
pudesse ser preservado. Abriu a porta do roupeiro e tirou um
cabide. Um velho casaco de Inverno cinzento da mulher ainda
lá estava pendurado. Puxou-o para o lado mas ele não se
mexeu. Abriu-o com brusquidão e estremeceu como se tivesse
visto a larva dentro de um casulo. Lá dentro estava Norton
com a cara inchada e pálida e com uma expressão entorpecida
de infelicidade. Sheppard olhou-o fixamente. De repente, viu­
-se confrontado com uma possibilidade. « Sai daí», disse. Agar­
rou-o pelo ombro e conduziu- o com firmeza à sala, até à
cadeira onde Johnson estava sentado com a enciclopédia no
colo. Ia arriscar tudo numa j ogada.
«Rufus», disse, «tenho um problema. Preciso da tua ajuda.»
Johnson olhou para cima desconfiado.
«Ouve», disse Sheppard, «precisamos de outro rapaz cá em
casa.» Havia um verdadeiro desespero na sua voz. «Aqui o
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 6 3

Norton nunca teve de partilhar nada na vida. Não sabe o que


significa partilhar. E eu preciso de alguém que o ensine. Que
tal ajudares-me? Fica cá durante uns tempos connosco, Rufus.
Preciso da tua ajuda.» A excitação na sua voz tomava-a quase
um sopro.
A criança regressou à vida de repente. Tinha o semblante
inchado de fúria. «Ele foi ao quarto dela e usou o pente dela!»,
gritou, sacudindo o braço de Sheppard. «Ele vestiu a cinta dela
e dançou com a Leola, ele ... »
«Pára com isso !», repreendeu Sheppard secamente. «Só és
capaz de inventar mexericos? Não te estou a pedir um relató­
rio do comportamento do Rufus. Estou a pedir-te que o faças
sentir bem-vindo cá em casa. Estás a perceber?»
«Vês como é?», perguntou, virando-se para Johnson.
Norton pontapeou a perna da cadeira cor-de-rosa de forma
maldosa, falhando por pouco o pé inchado de Johnson.
Sheppard sacudiu-o com força.
«Ele disse que tu só tinhas conversa fiada !», guinchou a
criança.
Uma expressão maliciosa de prazer atravessou a face de
Johnson.
Sheppard não se deixou desencoraj ar. Estes insultos faziam
parte do mecanismo de defesa do rapaz. «E então, Rufus?»,
disse. «Ficas connosco durante uns tempos?»
Johnson olhou a direito à sua frente e não disse nada.
Sorria ligeiramente e parecia contemplar uma qualquer visão
do futuro que lhe agradava.
«Tanto me faz», disse e virou uma página da enciclopédia.
«Aguento-me em qualquer lado.»
« Ó ptimo», disse Sheppard. « Ó ptimo.»
«Ele disse», insistiu a criança num murmúrio rouco, «que
não distinguias a mão esquerda da direita.»
Fez-se silêncio.
Johnson molhou o dedo e virou outra página da enciclopédia.
«Tenho uma coisa a dizer a ambos», disse Sheppard numa
voz monótona. Os olhos passaram de um para o outro, e então
1 64 o ' CONNOR

falou lentamente, como quem não está na disposição de repe­


tir o que tem a dizer, e fosse do interesse de ambos ouvi-lo. «Se
fizesse alguma diferença o que o Rufus pensa de mim», disse,
«então não estaria a pedir-lhe que ficasse cá. O Rufus vai aju­
dar-me a mim e eu vou ajudá-lo a ele e ambos vamos ajudar­
-te a ti. Eu seria simplesmente egoísta se deixasse o que o
Rufus pensa de mim interferir com aquilo que posso fazer pelo
Rufus. Se posso ajudar alguém, tudo o que quero é fazê-lo. Sou
superior e estou para lá de simples trivialidades.»
Nenhum deles fez um ruído. Norton fixava a almofada da
cadeira. Johnson olhava de forma mais atenta alguma letra
minúscula na enciclopédia. Sheppard olhava para o cocuruto
das cabeças deles. Sorria. Apesar de tudo, tinha ganho. O rapaz
ia ficar. Estendeu o braço e despenteou o cabelo de Norton e
deu uma palmada no ombro de Johnson. «Agora fiquem aqui
os dois sentados e travem conhecimento», disse alegremente e
dirigiu-se para a porta. «Eu vou ver o que a Leola nos deixou
para o jantar.»
Quando ele desapareceu, Johnson levantou a cabeça e
olhou para Norton. A criança olhou também para ele desola­
damente. «Meu Deus, miúdo», disse Johnson numa voz aguda,
«como é que aturas isto?» O seu semblante estava transtornado
com a afronta. «Ele pensa que é Jesus Cristo !»

II

O sótão de Sheppard era uma divisão grande e inacabada com


vigas expostas e sem luz eléctrica. Tinham colocado o telescó­
pio num tripé numa das janelas das águas-furtadas. Apontava
agora para o céu escuro onde uma nesga da Lua, frágil como
uma casca de ovo, tinha acabado de aparecer por detrás de
uma nuvem com uma orla prateada e brilhante. No interior,
uma lanterna de querosene, pousada num baú, proj ectava-lhes
as sombras para cima e confundia-as, com uma ligeira ondu­
lação, nos encaixes acima das suas cabeças. Sheppard estava
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 6 5

sentado num caixote, a olhar pelo telescópio, e Johnson estava


ao seu lado, à espera de espreitar. Sheppard tinha-o comprado
dois dias antes por quinze dólares, numa casa de penhores.
«Páre de monopolizá-1011, disse Johnson.
Sheppard levantou-se e Johnson deslizou para o caixote e
colocou o olho no instrumento.
Sheppard sentou-se direito numa cadeira de espaldar, que
estava afastada alguns metros. O seu semblante estava corado
de prazer. Esta parcela do seu sonho era uma realidade. Numa
semana, tinha tomado possível que o olhar deste rapaz via­
j asse, através de um canal estreito, até às estrelas. Olhou para
as costas de Johnson com total satisfação. O rapaz vestia uma
das camisas de xadrez de Norton e umas calças de caqui novas
que ele lhe tinha comprado. O sapato estaria pronto na
semana seguinte. Levou-o à loj a ortopédica no dia a seguir a
tê-lo acolhido em casa, e mandou tirar-lhe as medidas para
um sapato novo . Johnson era tão sensível no que tocava o pé
como se fosse um obj ecto sagrado. Manteve-se carrancudo
enquanto o empregado, um j ovem com uma careca rosada e
reluzente, lhe media o pé com as suas mãos profanas. O sapato
ia fazer toda a diferença na atitude do rapaz. Até uma criança
com p és normais fica apaixonada pelo mundo depois de ter
recebido um novo par de sapatos. Após ter recebido um par
novo, Norton tinha caminhado durante dias com os olhos pre­
gados aos pés.
Sheppard olhou de relance para o miúdo através do apo­
sento. Estava sentado no chão encostado a um baú, amarrado
com uma corda que tinha encontrado e enrolado dos tornoze­
los aos joelhos. Parecia tão longe dali que Sheppard poderia
estar a vê-lo através da extremidade inversa do telescópio.
Tivera que açoitá-lo apenas uma vez desde que Johnson vivia
com eles - na primeira noite quando Norton tomou consciên­
cia que Johnson ia dormir na cama da mãe. Não aprovava o
método de dar sovas a crianças, em particular com irritação.
Neste caso, tinha feito ambas as coisas e com bons resultados.
Não houvera mais nenhum problema com Norton depois disso.
1 6 6 o'CONNOR

A criança não tinha demonstrado qualquer generosidade


efectiva para com Johnson, mas parecia resignada com o que
não podia remediar. De manhã, Johnson mandava os dois para
a piscina do YMCA, dava-lhes dinheiro para almoçarem no
café e instruções para que se encontrassem com ele à tarde, no
estádio, para assistirem ao treino da sua Liga Infantil de base­
ball. Todas as tardes chegavam ao estádio a arrastar-se, em
silêncio, cada um deles com a cara impenetrável, sem revelar
o que pensava, como se nenhum deles tivesse consciência da
presença do outro. Pelo menos, Sheppard podia dar-se por
satisfeito por não haver lutas.
Norton não demonstrava interesse pelo telescópio. «Não te
queres levantar e olhar pelo telescópio, Norton?», perguntou.
Irritava-o o facto da criança não demonstrar qualquer curiosi­
dade intelectual. «Ü Rufus vai ultrapassar-te num segundo.»
Norton inclinou-se para a frente de forma distraída e olhou
para as costas de Rufus.
Johnson voltou-se, afastando-se do instrumento. A sua cara
tinha começado a encher de novo. A expressão de afronta tinha
desaparecido das suas bochechas ocas e refugiava-se agora nas
cavernas dos seus olhos, como que fugindo da bondade de
Sheppard. «Não percas o teu precioso tempo, miúdo», disse. «Se
viste a Lua uma vez, chega, não há mais nada para ver.11
Sheppard divertia-se com estes súbitos acessos de perversi­
dade. O rapaz resistia a tudo o que suspeitasse ser para o seu
aperfeiçoamento, e quando estava vitalmente interessado nal­
guma coisa esforçava-se por dar a impressão de que estava
aborrecido. Sheppard não se deixava enganar. Em segredo,
Johnson aprendia o que ele queria que ele aprendesse - que o
seu benfeitor era impermeável ao insulto e que não havia fen­
das na sua armadura de bondade e paciência através das quais
uma seta bem sucedida pudesse penetrar. «Um dia poderás ir à
Lua», disse. «Dentro de dez anos os homens provavelmente
farão viagens programadas de ida e volta. Então, rapazes,
vocês poderão ser homens do espaço. Astronautas !11
«Astro-doidos», disse Johnson.
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 67

«Doidos ou nautas», disse Sheppard, «é perfeitamente possí­


vel que tu, Rufus Johnson, vás à Lua.»
Algo na profundidade dos olhos de Johnson se moveu.
Tinha estado de mau humor todo o dia. «Não consigo chegar
vivo à Lua se for até lá», disse, «e quando morrer vou para o
inferno.»
«Pelo menos, existe a possibilidade de ir até à Lua», disse
Sheppard secamente. A melhor forma de tratar este tipo de coi­
sas era ridicularizando-as um pouco. «Conseguimos vê-la.
Sabemos que está lá. Ninguém forneceu provas seguras de que
exista um inferno.»
«A Bíblia forneceu provas», disse Johnson sombriamente, «e
se morrermos e formos para lá vamos arder para todo o sempre.»
A criança inclinou-se para a frente.
«Quem diz que não há inferno», continuou Johnson, «con­
tradiz Jesus. Os mortos são julgados e os maus são condena­
dos ao inferno. Choram e rangem os dentes enquanto ardem, e
a escuridão é eterna.»
A boca da criança abriu-se. Os seus olhos pareceram ficar vazios.
«Satanás governa-o», disse Johnson.
Norton levantou-se bruscamente e deu um passo camba­
leante em direcção a Sheppard. «Ela está lá?», disse em voz
alta. «Ela está lá a arder?» Afastou a corda dos pés com um
pontapé. «Ela está a arder?»
«Oh meu Deus», murmurou Sheppard. «Não, não11, disse,
«claro que não. Rufus está enganado. A tua mãe não está em
lado algum. Não está infeliz. Apenas não existe.» A sua sorte
teria sido mais fácil se, quando a mulher morreu, ele tivesse dito
a Norton que ela tinha ido para o Céu e que um dia ele a veria
de novo ; mas ele não condescendia em educá-lo numa mentira.
A cara de Norton começou a torcer-se. Formou-se-lhe um
nó na garganta.
1
«Ouve», disse Sheppard rapidamente e puxou a criança para
si, «O espírito da tua mãe vive noutras pessoas e viverá em ti
se fores bom e generoso como ela era.11
Os olhos claros da criança endureceram sem acreditar.
1 6 8 o ' coNNOR

A piedade de Sheppard transformou-se em repulsa. O rapaz


preferia que ela estivesse no inferno do que em lado nenhum.
«Estás a perceber?», disse. «Ela não existe.» Colocou a mão no
ombro do rapaz. « É tudo o que eu tenho para dar-te», disse
numa voz mais suave e exasperada, «a verdade.»
Em vez de gritar, o rapaz soltou-se com um puxão violento
e agarrou na manga de Johnson. «Ela está lá, Rufus?», interpe­
lou, «Ela está lá, a arder?»
Os olhos de Johnson brilharam. «Bem», disse, «está se era
má. Era alguma rameira ?11
«A tua mãe não era uma rameira», interferiu Sheppard com
severidade. Tinha a sensação de estar a guiar um carro sem tra­
vões. «Bom, não vamos continuar com este disparate. Estáva­
mos a falar da Lua.»
«Ela acreditava em Jesus?», perguntou Johnson.
Norton tinha uma expressão vazia. Após um segundo disse,
«Sim», como se calculasse que isso era necessário. «Acreditava»,
confirmou. «A toda a hora.»
«Não acreditava nada», murmurou Sheppard.
«Ela acreditava a toda a hora», disse Norton. «Eu sempre a
ouvi dizer que acreditava.»
«Ela está salva», assegurou Johnson.
A criança ainda parecia confusa. «Onde?», disse. «Onde é
que ela está?»
«Lá no alto», disse Johnson.
«Onde é isso?», ofegou Norton.
« É no Céu, algures», afirmou Johnson, umas temos de mor­
rer para chegar lá. Não podemos ir em nenhuma nave espa­
cial.» Havia agora um brilho estreito nos seus olhos, como um
raio fixo no alvo.
«A ida do homem à Lua», disse Sheppard com aspereza, «é
bastante semelhante ao primeiro peixe a rastejar para terra
saindo da água há biliões e biliões de anos. Não tinha um fato
terrestre. Teve que desenvolver pulmões.»
«Quando eu morrer vou para o inferno ou para onde ela
está?», perguntou Norton.
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 6 9

«Neste momento irias para onde ela está», declarou Johnson,


«mas se viveres o suficiente, vais para o inferno.»
Sheppard levantou-se abruptamente e agarrou na lanterna.
«Fecha a janela, Rufus», disse. «São horas de irmos para a cama.»
Ao descer as escadas do sótão ouviu Johnson dizer num
sussurro sonoro atrás dele, «Eu conto-te tudo amanhã, miúdo,
quando Sua Senhoria tiver saído.»

No dia seguinte, quando os rapazes chegaram ao estádio,


ele observou-os à medida que se aproximavam por detrás das
bancadas descobertas e contornavam a extremidade do campo.
Johnson tinha a mão no ombro de Norton e a cabeça incli­
nada na direcção do ouvido do rapaz mais novo, e no sem­
blante da criança havia uma expressão de total confiança,
uma luz que despontava. O sorriso forçado de Sheppard endu­
receu. Esta era a maneira de Johnson tentar irritá-lo. Mas ele
não se deixaria irritar. Norton não era suficientemente esperto
para ser muito prejudicado. Observou a carinha estúpida e
absorvida da criança. Porquê tentar tomá-lo superior? O Céu
e o inferno eram para os medíocres, e ele não passava disso
mesmo.
Os dois rapazes entraram na bancada e sentaram-se a cerca
de três metros, virados para Sheppard, mas nenhum deles lhe
fez qualquer sinal de reconhecimento. Ele olhou de relance
para trás de si onde os pequenos jogadores se espalhavam pelo
campo. Depois dirigiu-se para a bancada. O sibilar da voz de
Johnson parou à sua aproximação.
«0 que é que fizeram os dois hoje?», perguntou alegremente.
«Ele tem estado a falar-me ... », começou Norton.
Johnson deu uma cotovelada nas costelas da criança. «Não
fizemos nada», disse. A sua cara parecia estar coberta por uma
camada de indiferença ; mas, através dela, exibia-se insolente­
mente uma expressão óbvia de cumplicidade.
Sheppard sentiu-se corar, mas não disse nada. Uma criança
num uniforme da Liga Infantil tinha-o seguido e estava a
1 7 0 ü 'CONNOR

tocar-lhe com um taco atrás da perna. Voltou-se e colocou o


braço à volta do pescoço do rapaz e regressou ao jogo com ele.
Nessa noite, quando subiu até ao sótão para se juntar aos
rapazes no telescópio, encontrou Norton sozinho. Estava sen­
tado no caixote, curvado, a olhar intensamente através do ins­
trumento. Johnson não estava lá.
«Onde está o Rufus?», interrogou Sheppard.
«Eu perguntei, onde está o Rufus?i1, repisou mais alto.
«Não sei onde foi», disse a criança sem se voltar.
«Foi onde?», perguntou Sheppard.
«Ele só disse que ia a qualquer lado. Disse que estava farto
de olhar para as estrelas.,.
«Estou a vef>I, disse Sheppard sombriamente. Voltou-se e
desceu as escadas. Procurou por toda a casa sem encontrar
Johnson. Depois foi até à sala de estar e sentou-se. Ontem
tinha estado convencido do seu sucesso com o rapaz. Hoje
encarava a possibilidade de estar a falhar. Tinha sido dema­
siado indulgente, excessivamente preocupado em fazer que
Johnson gostasse dele. Sentiu uma pontada de culpa. Que dife­
rença fazia se Johnson gostava dele ou não? O que é que
aquilo lhe interessava? Quando o rapaz chegasse, esclarece­
riam umas coisas. Enquanto estiveres aqui, não vai haver saí­
das à noite sozinho, percebes?
Eu não tenho de ficar aqui. Tanto se me dá ficar ou não aqui.
Oh, meu Deus, pensou. Não podia levar as coisas a esse
ponto. Teria que ser firme, mas não transformar aquilo num
problema. Agarrou no jornal da tarde. A bondade e a paciên­
cia eram sempre necessárias, mas ele não tinha sido suficien­
temente firme. Ficou sentado com o jornal nas mãos sem o ler.
O rapaz não o respeitaria a não ser que ele mostrasse firmeza.
A campainha da porta tocou e ele foi ver quem era. Abriu-a e
recuou, com uma expressão de desapontamento e de dor.
Um polícia volumoso e taciturno encontrava-se na entrada,
segurando Johnson pelo cotovelo. Um carro patrulha aguar­
dava na estrada. Johnson parecia muito pálido. O seu queixo
estava esticado para a frente de modo a evitar que tremesse.
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 7 1

«Trouxémo-lo aqui primeiro porque ele fez uma algazarra


enorme», disse o polícia, «mas agora que o viu, vamos levá-lo
para a esquadra e fazer-lhe algumas perguntas.»
«0 que é que aconteceu?», murmurou Sheppard.
«Uma casa aqui ao virar da esquina», disse o polícia. «Um
verdadeiro serviço de demolição, pratos partidos por todo o
chão, mobília de pernas para o ar... »
«Eu não tive nada a ver com isso !», disse Johnson. «Eu ia a
passar, a tratar da minha vidinha, quando este chui apareceu e
me agarrou.»
Sheppard olhou para o rapaz severamente. Não fez qual­
quer esforço para adoçar a sua expressão.
Johnson ficou muito corado. «Eu ia só a passar», murmu­
rou, mas sem convicção na voz.
«Vamos lá, rapaz», disse o polícia.
«Não vai deixá-lo levar-me, pois não?», disse Johnson.
«Acredita em mim, não acredita?» Havia um apelo na voz dele
que Sheppard ainda não tinha ouvido anteriormente.
Isto era crucial. O rapaz teria que aprender que não podia
ser protegido quando era culpado. «Vais ter que ir com ele,
Rufus», determinou.
«Vai deixar que ele me leve quando eu estou a dizer-lhe que
não fiz nada?», implorou Johnson com voz aguda.
A expressão de Sheppard endurecia à medida que crescia a
sua consciência da afronta. O rapaz tinha-o traído mesmo
antes de ele ter tido oportunidade de lhe dar o sapato.
Deveriam ir buscá-lo amanhã. Todo o seu desapontamento se
virou de repente contra o sapato ; a sua irritação redobrou ao
olhar para Johnson.
«Fingiu que tinha toda a confiança em mim», murmurou o
rapaz.
«E tinha mesmo», disse Sheppard. A sua face era como que
de madeira.
Johnson afastou-se com o polícia; mas, antes de se mover,
um raio de puro ódio brilhou em direcção a Sheppard vindo
das profundezas dos seus olhos.
1 7 2 ü ' CONNOR

Sheppard ficou à porta e viu-os entrar para o carro patrulha e


afastarem-se. Convocou a sua compaixão. Amanhã iria à esqua­
dra e veria o que podia fazer para o livrar de problemas. A noite
na prisão não lhe faria mal e a experiência ensiná-lo-ia que não
podia tratar com impunidade alguém que só lhe tinha manifes­
tado bondade. Depois, iriam buscar o sapato e talvez, após uma
noite na cadeia, ele fosse ainda mais importante para o rapaz.

Na manhã seguinte, às oito horas, o sargento da polícia


bateu-lhe à porta e disse-lhe que podia ir buscar Johnson.
«Prendemos um preto por essa acusação», disse. «Ü seu rapaz
não teve nada a ver com aquilo.»
Sheppard pôs-se na esquadra em dez minutos, com a cara
ardendo de vergonha. Johnson estava sentado descuidada­
mente num banco de um gabinete exterior desmazelado, a ler
uma revista da polícia. Não havia mais ninguém na sala.
Sheppard sentou-se ao lado dele e colocou a mão com cautela
no seu ombro.
O rapaz olhou para cima - com os lábios curvados - e vol­
tou a olhar para a revista.
Sheppard sentiu-se fisicamente indisposto. A fealdade do
que havia cometido abateu-se sobre ele com uma súbita
intensidade sombria. Tinha-o abandonado exactamente na
altura em que o poderia ter virado de uma vez por todas na
direcção certa. <<Rufus», disse, «peço desculpa. Estava errado e
tu estavas certo. Julguei-te mal.»
O rapaz continuou a ler.
«Sinto muito.»
O rapaz molhou um dedo e virou a página.
Sheppard ganhou coragem. «Eu fui um tolo, Rufus», acres­
centou.
A boca de Johnson deslizou ligeiramente para o lado.
Encolheu os ombros sem levantar a cabeça da revista.
«Esqueces o que aconteceu, por esta vez?», deprecou Shep­
pard. «Não vai repetir-se.»
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 7 3

O rapaz olhou para cima. O s seus olhos estavam brilhantes


e hostis. «Eu esqueço», disse, «mas é melhor você lembrar-se.»
Levantou-se e caminhou com arrogância em direcção à porta.
No centro do compartimento voltou-se e lançou o braço a
Sheppard, ao que este deu um salto, e seguiu-o como se o
rapaz tivesse puxado uma trela invisível.
«0 teu sapato», disse ansiosamente, «hoje é o dia de ir bus­
car o teu sapato !» Graças a Deus havia o sapato !
Mas, quando foram à loja ortopédica, descobriram que o
sapato tinha sido feito dois números abaixo do que devia e um
outro só estaria pronto daí a dez dias. A disposição de Johnson
melhorou de imediato.
O empregado tinha obviamente cometido um erro ao tirar
as medidas, mas o rapaz insistia que o pé tinha crescido. Saiu
da loja com uma expressão satisfeita, como se, ao crescer, o pé
tivesse agido de acordo com uma inspiração própria.
O semblante de Sheppard estava perturbado.
Depois disto, o homem generoso redobrou os seus esforços.
Já que Johnson tinha perdido o interesse pelo telescópio, com­
prou um microscópio e uma caixa de lamelas preparadas. Se
não conseguia impressionar o rapaz com a imensidão, tentaria
o infinitesimal. Durante duas noites, Johnson pareceu absor­
vido com o novo instrumento. Depois, abruptamente, perdeu o
interesse. Mas parecia satisfeito em ficar sentado à noite na
sala de estar a ler a enciclopédia. Devorava a enciclopédia tal
como devorava o seu jantar, compassadamente e sem proble­
mas de apetite. Cada assunto parecia entrar-lhe na cabeça, ser
saqueado e atirado fora. Nada agradava mais a Sheppard do
que ver o rapaz afundado no sofá, de boca fechada, a ler. Após
terem passado duas ou três noites assim, começou a recuperar
o seu sonho. A sua confiança regressou. Sabia que um dia se
orgulharia de Johnson.
Na quinta-feira à noite, Sheppard foi a uma reunião muni­
cipal. No caminho deixou os rapazes no cinema, e apanhou-os
no regresso. Quando chegaram a casa, um automóvel com um
único olho vermelho por cima do pára-brisas esperava em
1 7 4 o ' CONNOR

frente da casa. Os faróis de Sheppard, quando ele virou para a


entrada, iluminaram duas caras sorumbáticas dentro do carro.
«Os chuis !», disse Johnson. «Algum preto arrombou uma
casa algures e vieram buscar-me novamente.»
«Veremos», murmurou Sheppard. Parou o carro na entrada
e desligou as luzes. «Vocês, rapazes, entrem e vão para a cama»,
disse. «Eu trato disto.»
Saiu do carro e encaminhou-se para o carro da polícia.
Enfiou a cabeça na janela. Os dois polícias olhavam para ele
com semblantes silenciosos e conhecedores. «Uma casa na
esquina de Shelton e Mills», disse o que estava no lugar do
condutor. «Parece que um comboio passou por lá.»
«Ele estava no cinema no centro da cidade», afirmou
Sheppard. «0 meu filho estava com ele. Ele não teve nada a ver
com a outra vez e também nada a ver com esta ocorrência. Eu
responsabilizo-me.»
«Se eu fosse a si», disse o que estava mais perto dele, «não
me responsabilizaria por nenhum filho da mãe como ele.»
«Já disse que me responsabilizo», repetiu Sheppard fria­
mente. «Vocês cometeram um erro da última vez. Não come­
tam outro.»
Os polícias olharam um para o outro. «0 funeral não é
nossm>, disse o que estava no lugar do condutor, e rodou a
chave na ignição.
Sheppard entrou em casa e sentou-se na sala de estar no
escuro. Não suspeitava de Johnson, e não queria que o rapaz
pensasse que suspeitava. Se Johnson pensasse que ele suspei­
tava dele novamente, perderia tudo. Mas precisava de saber se
o álibi do rapaz era seguro. Pensou em ir ao quarto de Norton
e perguntar-lhe se Johnson tinha saído do cinema. Mas isso
seria ainda pior. Johnson perceberia o que ele estava a fazer e
ficaria furioso. Decidiu perguntar directamente a Johnson.
Seria directo. Recapitulou na sua cabeça o que iria dizer, depois
levantou-se e foi até à porta do rapaz.
Estava aberta como se lá dentro o esperassem, mas Johnson
estava na cama. Havia apenas a luz suficiente vinda do vesti-
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 7 5

bulo para Sheppard distinguir a sua forma debaixo d o lençol.


Entrou e ficou aos pés da cama. «Foram-se embora», garantiu.
«Disse-lhes que não tinhas nada a ver com aquilo e que me res­
ponsabilizaria.»
Houve um «ÜK» murmurado a partir da almofada.
Sheppard hesitou. «Rufus», disse, «não saiste do cinema
para nada de nada, pois não?»
«Finge que tem toda essa confiança em mim !», gritou uma
voz subitamente ofendida, «e não tem nenhuma ! Não confia
em mim agora mais do que confiava antigamente !11 A voz sem
corpo, parecia vir mais segura das profundezas de Johnson do
que quando a sua cara era visível. Era um grito de reprovação,
com uma pontinha de desprezo.
«Eu confio em ti», disse Sheppard intensamente. «Tenho total
confiança em ti. Acredito em ti e confio em ti completamente.»
«Tem os olhos em cima de mim o tempo todo», disse a voz
sombriamente. «Quando acabar de me fazer um montão de
perguntas, vai atravessar o vestíbulo e fazer um montão delas
ao Norton.»
«Não tenciono perguntar nada ao Norton e nunca o fiz»,
disse Sheppard suavemente. «E não suspeito de ti. Quanto mais
não fosse, porque seria muito difícil vires do cinema até aqui,
no centro da cidade, conseguires arrombar e cometer vanda­
lismo numa casa, e ainda voltares para o cinema no tempo de
que dispunhas.»
« É só por isso que acredita em mim !», gritou o rapaz, «por­
que pensa que não havia maneira de eu ter aquilo.»
«Não, não !», sublinhou Sheppard. «Eu acredito em ti porque
acredito que tens a inteligência e a coragem para não te mete­
res em problemas de novo. Acredito que te conheces suficien­
temente bem a ti mesmo neste momento para saberes que não
tens que fazer coisas dessas. Acredito que podes fazer de ti tudo
aquilo a que te proponhas.»
Johnson sentou-se. Brilhava-lhe na testa uma luz fraca mas
o resto do seu rosto estava invisível. «E eu poderia ter arrom­
bado a casa se quisesse no tempo que tinha», disse.
1 7 6 ü ' CONNOR

«Mas sei que não o fizeste», disse Sheppard. «Não há o


mínimo traço de dúvida na minha cabeça.»
Fez-se um silêncio. Johnson voltou a deitar-se. Depois a
voz, baixa e rouca, como se estivesse a ser forçada a sair com
dificuldade, disse: «Não queres roubar e destruir coisas quando
já tens tudo o que desejas.»
Sheppard susteve a respiração. O rapaz estava a agradecer­
-lhe ! Ele estava a agradecer-lhe ! Havia gratidão na sua voz.
Havia reconhecimento. Ficou ali, a sorrir de forma idiota no
escuro, tentando captar o momento em suspensão. Involun­
tariamente deu um passo em direcção à almofada, estendeu a
mão e tocou na testa de Johnson. Estava fria e seca como ferro
enferrujado.
«Eu compreendo. Boa noite, filho», aquiesceu ; virou-se rapi­
damente e saiu do quarto. Fechou a porta atrás dele e ficou ali
dominado pela emoção.
Do outro lado da entrada a porta de Norton estava aberta.
A criança estava deitada de lado na cama, a olhar para a luz
vinda do vestíbulo.
Depois disto, o caminho com Johnson seria fácil. Norton
sentou-se e fez-lhe um sinal.
Ele viu a criança mas, após o primeiro instante, não deixou
que o olhar se fixasse directamente nele. Ele não podia entrar e
falar com Norton sem quebrar a confiança de Johnson. Hesitou,
mas ficou onde estava como se não visse nada. Amanhã era o
dia em que iriam buscar o sapato. Seria um clímax da cum­
plicidade entre eles. Voltou-se rapidamente e regressou ao seu
quarto.
A criança ficou algum tempo sentada a olhar para o local
onde o pai tinha estado. Finalmente o seu olhar ficou vago e
ele voltou a deitar-se.
No dia seguinte, Johnson estava de mau humor e silencioso
como se tivesse vergonha de se ter exposto. Os seus olhos
tinham uma expressão velada. Parecia ter-se retirado para den­
tro de si próprio e aí estar a viver uma crise de decisão. Sheppard
estava ansioso por chegar à loja ortopédica. Deixou Norton em
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 7 7

casa porque não queria dividir a sua atenção. Queria estar livre
para observar minuciosamente a reacção de Johnson. O rapaz
não parecia satisfeito nem mesmo interessado com a expecta­
tiva do sapato, mas quando este se tomasse uma realidade, cer­
tamente ficaria sensibilizado.
A loja ortopédica era um pequeno armazém de cimento
forrado e atulhado com instrumentos de tortura. Cadeiras de
rodas e andarilhos cobriam a maior parte do chão. Nas pare­
des estavam penduradas toda a espécie de muletas e de
suportes. Membros artificiais estavam empilhados nas prate­
leiras, pernas e braços e mãos, garras e ganchos, correias e
ameses humanos e instrumentos não identificáveis destina­
dos a deformidades indescritíveis. Numa pequena clareira no
meio do compartimento havia uma fila de cadeiras com al­
mofadas de plástico amarelo e um banco para experimentar
sapatos. Johnson deixou-se cair numa das cadeiras e colocou
o pé em cima do banco e ficou sentado taciturnamente com
os olhos fixos nele. No local aproximado do dedo o cabedal
tinha-se aberto de novo e ele remendara-o com um bocado
de lona ; tinha remendado outro sítio com o que parecia ser a
sola original do sapato. Os dois lados estavam atados com
corda.
Havia um afogueamento de excitação na cara de Sheppard;
o seu coração batia-lhe de forma anormalmente rápida.
O empregado apareceu vindo das traseiras da oficina com o
novo sapato debaixo do braço. «Agora está perfeito !», disse.
Escarranchou-se no banco utilizado para experimentar sapatos
e segurou no sapato ao alto, a sorrir, como se o tivesse produ­
zido por magia.
Era um objecto preto, liso e sem forma, que brilhava horri­
velmente. Parecia uma arma embotada, altamente polida.
Johnson olhou para ele sombriamente.
«Com este sapato», disse o empregado, «nem vais notar que
estás a andar. Vais pensar que estás a montar!» Inclinou a
careca rosada e reluzente e começou a desapertar a corda cui­
dadosamente. Retirou o sapato velho como se estivesse a esfo-
1 7 8 o ' CONNOR

lar um animal ainda semivivo. A sua expressão estava tens a.


A massa nua do pé na meia suja fez Sheppard sentir-se nau­
seado. Desviou os olhos até o sapato novo estar calçado. O em­
pregado atou os atacadores rapidamente. «Agora levanta-te e
anda um pouco», indicou, «e vê se o consegues sem deslizar.»
Piscou o olho a Sheppard. «Com aquele sapato», disse, «ele nem
vai perceber que não tem um pé normal.»
A cara de Sheppard estava radiante de prazer.
Johnson levantou-se e caminhou alguns metros. Cami­
nhava rigidamente sem quase nenhuma inclinação no seu
lado mais curto. Parou por um momento, hirto, com as cos­
tas para eles.
«Uma maravilha», disse Sheppard, «uma maravilha !» Era
como se tivesse dado ao rapaz uma nova espinha dorsal. Johnson
voltou-se. A sua boca estava fixa numa fina linha gelada.
Regressou ao assento e retirou o sapato. Colocou o pé dentro
do antigo e começou a atar os atacadores.
«Queres levá-lo para casa e ver se te serve primeiro?», mur-
murou o empregado.
«Não», disse Johnson. «Não vou usá-lo nunca.»
«Qual é o problema?», disse Sheppard, elevando a voz.
«Não preciso de nenhum sapato», confirmou Johnson.
«E quando precisar, arranjo maneira de o obter.» O seu semblante
estava duro mas havia um brilho de triunfo nos seus olhos.
«Oh rapaz», disse o empregado, «O teu problema está no teu
pé ou na tua cabeça?»
«Vai pôr de molho a tua cachimónia», ripostou Johnson. «ÜS
teus miolos estão a ardeu
O empregado ergueu-se, carrancudo mas com dignidade, e
perguntou a Sheppard o que é que ele queria que ele fizesse
com o sapato, que entretanto balouçava desanimadamente
pelo atacador.
A cara de Sheppard estava de um vermelho escuro de raiva.
Fixava um espartilho de cabedal mesmo que estava à sua
frente e ao qual estava preso um braço artificial.
O empregado voltou a perguntar-lhe.
OS COXOS HÃO-DE ENfRAR PRIMEIRO 1 7 9

«Embrulhe-o», murmurou Sheppard. Virou os olhos para


Johnson. «Ainda não está suficientemente maduro para ele»,
disse. «Pensava que era menos criança.»
O rapaz olhou de soslaio. «Já se enganou antes», disse.

Nessa noite sentaram-se na sala de estar e leram como de


costume. Sheppard deixou-se ficar de cenho franzido e entrin­
cheirado atrás do New York Times de domingo. Queria recupe­
rar o seu bom humor, mas, de cada vez que pensava no sapato
rejeitado, sentia um novo ataque de irritação. Não confiava em
si próprio nem mesmo para olhar para Johnson. Tinha-se aper­
cebido que o rapaz rejeitara o sapato porque se sentia inseguro.
Johnson tinha-se assustado com a sua própria gratidão. Não
sabia o que fazer com o novo eu de que estava a tomar cons­
ciência. Tinha consciência de que alguma parte de si, do que
havia sido até aí, passou a estar ameaçada, e de que estava a
encarar-se a si próprio e às suas possibilidades pela primeira
vez. Estava a questionar a sua identidade. De má vontade,
Sheppard sentiu o regresso de uma ligeira simpatia pelo rapaz.
Passados alguns minutos, baixou o jornal e olhou para ele.
Johnson estava sentado no sofá, a olhar por cima da enci­
clopédia. Parecia estar em transe. Poderia ter estado a ouvir
alguma coisa muito ao longe. Sheppard olhou para ele atenta­
mente mas o rapaz continuava a ouvir, e não virou a cabeça.
O pobre miúdo está perdido, pensou Sheppard. E ele limitara­
-se a ficar sentado durante todo o serão, lendo o jornal obsti­
nadamente, sem dizer uma palavra e desse modo quebrar a
tensão. «Rufus», disse.
Johnson continuou sentado, imóvel, a ouvir.
«Rufus», disse Sheppard numa voz lenta e hipnótica, «podes
ser tudo o que tu quiseres no mundo. Podes ser um cientista ou
um arquitecto ou um engenheiro ou seja o que for, em qual­
quer coisa que te proponhas fazer podes ser o melhor.»
Imaginava a sua voz a penetrar nas cavernas negras da psique
do rapaz. Johnson inclinou-se para a frente mas os olhos não
1 80 O'CONNOR

se viraram. Na rua fechou-se a porta de um carro. Fez-se silên­


cio. Depois o ruído repentino da campainha da porta.
Sheppard deu um salto, foi até à porta e abriu-a. O mesmo
polícia que tinha vindo antes estava parado à porta. O carro
patrulha aguardava na estrada.
«Deixe-me ver esse rapaz», disse.
Sheppard franziu a testa e afastou-se. «Ele tem estado aqui
toda a noite», disse. «Posso garanti-lo.»
O polícia entrou na sala. Johnson parecia absorvido no seu
livro. Após um segundo, olhou para cima com uma expressão
irritada, como um grande homem interrompido no seu trabalho.
«0 que é que estavas a ver na janela daquela cozinha em
Winter Avenue cerca de meia hora atrás, rapaz?», perguntou o
polícia.
«Pare de perseguir o rapaz !», disse Sheppard. «Posso confir­
mar o facto de que ele esteve aqui. Eu estive aqui com ele.»
«Ouviu-o», disse Johnson, «estive aqui o tempo todo.»
«Nem toda a gente deixa pegadas como as tuas», disse o
polícia e olhou para o pé deformado.
«Não podem ser as pegadas dele», rosnou Sheppard, furioso.
«Ele esteve aqui o tempo todo. Está a perder o seu tempo e a
fazer-nos perder o nosso.» Sentiu que a palavra nosso selava a
sua solidariedade com o rapaz. «Estou farto disto», clarificou.
«Vocês são demasiado preguiçosos para irem lá para fora e des­
cobrir quem quer que seja que anda a fazer estas coisas. Vêm
aqui automaticamente.»
O polícia ignorou isto e continuou a perscrutar Johnson.
Tinha os olhos pequenos em alerta pespegados na cara gorda.
Finalmente voltou-se para a porta. «Havemos de apanhá-lo
mais cedo ou mais tarde», disse, «com a cabeça dentro de uma
janela e o rabo de fora.»
Sheppard seguiu-o até à porta e fechou-a com força atrás
dele. O seu espírito flutuava. Era isto exactamente de que ele
precisava. Regressou com uma expressão expectante.
Johnson tinha pousado o livro e estava sentado a olhar
para ele maliciosamente. «Obrigado», disse.
OS COXOS HÃO-DE ENI'RAR PRIMEIRO 1 8 1

Sheppard parou. A expressão do rapaz era como a de um


rapinante. Estava abertamente a olhar de soslaio.
«Você também não é um mentiroso nada mau», arremessou.
«Mentiroso?», murmurou Sheppard. O rapaz poderia ter
saído e regressado? Sentiu-se agoniado. Depois, uma onda de
raiva impulsionou-o para a frente. «Saíste?», disse cheio de
fúria. «Eu não te vi sair.»
O rapaz apenas sorriu.
«Foste ao sótão para ver o Norton», disse Sheppard.
«Não», disse Johnson, «aquele miúdo é doido. Não quer
fazer mais nada a não ser olhar por aquele maldito telescópio.»
«Não quero saber do Norton», disse Sheppard com severi­
dade. «Onde é que tu estavas?»
«Eu estava sentado naquela sanita cor-de-rosa sozinho»,
afirmou Johnson. «Não há testemunhas.»
Sheppard tirou o lenço e limpou a testa. Conseguiu sorrir.
Johnson rolou os olhos. «Não acredita em mim», disse. A voz
dele soava aguda da mesma forma que tinha soado na escuri­
dão do quarto há duas noites atrás. «Finge que tem toda essa
confiança em mim e no fundo não tem nenhuma. Quando as
coisas aquecerem, vai desaparecer como todos os outros.»
A estridência tomou-se exagerada, cómica. A imitação era
óbvia. «Não acredita em mim. Não tem qualquer confiança»,
gemeu. «E não é mais esperto que aquele polícia. Aquela con­
versa toda sobre pegadas - aquilo era uma armadilha. Não
havia pegadas. O sítio todo está cimentado nas traseiras e os
meus pés estavam secos.»
Sheppard voltou lentamente a colocar o lenço no bolso.
Deixou-se cair no sofá e fitou a carpete aos seus pés. O pé
deformado do rapaz encontrava-se dentro do seu círculo de
visão. O sapato remendado parecia sorrir-lhe com a cara do
próprio Johnson. Agarrou na extremidade da almofada do sofá
e os nós dos seus dedos ficaram brancos. Um arrepio de ódio
fê-lo estremecer. Ele odiava o sapato, odiava o pé, odiava o
rapaz. A cara empalideceu-lhe. O ódio engasgava-o. Estava
horrorizado consigo mesmo.
1 8 2 o ' CONNOR

Agarrou no ombro do rapaz e apertou-o ferozmente como


quem se ampara e evita cair. «Ouve», disse, «olhaste através
daquela janela para me envergonhares. Era só isso que querias
- abalar a minha resolução de te ajudar, mas a minha resolu­
ção não está abalada. Sou mais forte do que tu. Sou mais forte
do que tu e vou salvar-te. O Bem há-de triunfar.»
«Não, quando não é verdade», disse o rapaz. «Não, quando
não está certo.»
«A minha resolução não está abalada», repetiu Sheppard.
«Vou salvar-te.»
O olhar de Johnson tornou-se de novo malicioso. «Não vai
salvar-me», retrocou. «Antes disso, ainda vai dizer-me para
deixar esta casa. Fiz aqueles outros dois serviços também -
o primeiro e o segundo, quando supostamente estava no
cinema.»
«Não vou dizer-te para te ires embora», disse Sheppard.
A sua voz era átona, mecânica. «Vou salvar-te.»
Johnson atirou a cabeça para a frente. «Salve-se a si
mesmo», sibilou. «Ninguém pode salvar-me a não ser Jesus.»
Sheppard deu uma gargalhada curta. «Não me enganas»,
disse. «Arranquei-te isso da cabeça no reformatório. Salvei-te
disso, pelo menos.»
Os músculos da face de Johnson ficaram rígidos. Formou­
-se uma tal expressão de repulsa na sua cara que Sheppard
recuou. Os olhos do rapaz eram como espelhos distorcidos
nos quais ele se via com uma forma medonha e grotesca. «Eu
mostro-lhe», sussurrou Johnson. Levantou-se abruptamente e
dirigiu-se precipitadamente para a porta como se não conse­
guisse fugir da vista de Sheppard suficientemente depressa,
mas foi pela porta que levava ao vestibulo das traseiras que
passou, não pela porta da frente. Sheppard virou-se no sofá
e olhou para trás de si, por onde o rapaz tinha desaparecido.
Ouviu bater com força a porta do seu quarto. Ele não estava
de partida. Os olhos de Sheppard perderam a intensidade.
Parecia prostrado e sem vida como se o choque da revelação
do rapaz apenas agora atingisse o centro da sua consciência.
OS COXOS HÃO-DE ENIRAR PRIMEIRO 1 8 3

«Se ele simplesmente fosse», murmurou. 11Se ele partisse agora


de sua livre vontade.»

Na manhã seguinte Johnson apareceu na mesa para o


pequeno-almoço envergando o fato do avô com que tinha
vindo. Sheppard fez de conta que não tinha reparado nele mas
bastou apenas um olhar para que ficasse a saber aquilo que já
adivinhara, que estava preso numa armadilha, que não have­
ria nada mais daqui para a frente a não ser uma batalha de
nervos que seria ganha por Johnson. Desejou nunca ter pou­
sado os olhos no rapaz. O falhanço da sua compaixão deixava­
-o como que adormecido. Saiu de casa assim que pôde e
durante todo o dia antecipou com horror o regresso ao fim do
dia. Tinha uma vaga esperança que o rapaz tivesse partido
quando ele regressasse. O fato do avô poderia querer dizer que
se ia embora. A esperança cresceu durante a tarde. Quando
chegou a casa e abriu a porta de entrada, o coração batia-lhe
furiosamente.
Parou no vestíbulo e olhou em silêncio para a sala de estar.
A sua expressão de expectativa desvaneceu-se. A cara parecia
de repente tão velha quanto o seu cabelo branco. Os dois
rapazes estavam sentados muito juntos no sofá a ler o mesmo
livro. O rosto de Norton repousava contra a manga do fato
preto de Johnson. O dedo de Johnson movia-se por baixo das
linhas que estavam a ler. O irmão mais velho e o mais novo.
Sheppard olhou para esta cena sem se mover durante quase
um minuto. Depois entrou no quarto, despiu o casaco e dei­
xou-o cair numa cadeira. Nenhum dos rapazes o tinha visto.
Seguiu para a cozinha.
Leola deixava o jantar no fogão todas as tardes antes de
sair e ele punha-o na mesa. Doía-lhe a cabeça e os seus nervos
estavam tensos. Sentou-se no banco da cozinha e deixou-se
ficar ali, afundado na sua depressão. Interrogou-se se conse­
guiria enfurecer suficientemente Johnson para o fazer sair de
moto próprio. O que o tinha realmente enfurecido na noite
1 84 o ' coNNOR

anterior tinha sido a discussão sobre Jesus. Agora, essa con ­


versa podia enfurecer Johnson ; mas, a ele, deprimia-o. Porque
não dizer simplesmente ao rapaz para se ir embora? Admitir
a derrota. A ideia de encarar Johnson novamente agoniava­
-o. O rapaz olhava para ele como se ele fosse o culpado, como
se fosse moralmente um leproso. Sabia sem presunção que era
um homem bom, que não tinha em si nem consigo nada de
censurável. O que sentia por Johnson neste momento era invo­
luntário. Gostaria de sentir compaixão. Gostaria de conseguir
ajudá-lo. Ansiava pela altura em que não houvesse mais nin­
guém em casa a não ser ele próprio e Norton, quando o
egoísmo simples da criança seria tudo com o que ele teria de
se confrontar, para além da sua solidão.
Levantou-se, tirou três pratos da prateleira e levou-os até
ao fogão. Absorto, começou a deitar o feijão e a carne picada
nos pratos. Quan do a comida estava na mesa, chamou-os.
Trouxeram o livro com eles. Norton empurrou o prato e os
talheres para o lado da mesa onde Johnson estava e mudou
a cadeira para o lado da cadeira de Johnson. Sentaram-se e
colocaram o livro entre si. Era um livro preto com margens
vermelhas.
«Ü que é isso que estão a ler?11, perguntou Sheppard, sen-
tando-se.
«A Bíblia Sagrada», respondeu Johnson.
Deus me dê forças, disse Sheppard em voz baixa.
«Roubámo-la de uma loja dos dez cêntimos [7l ,., confessou
Johnson.
«Nós?», murmurou Sheppard. Voltou-se e olhou penetran­
temente para Norton. A cara da criança estava radiante e os
seus olhos tinham um brilho de excitação. A mudança que o
rapaz tinha sofrido chamou-lhe a atenção pela primeira vez.
Parecia alerta. Vestia uma camisa axadrezada azul e os olhos
tinham um azul mais brilhante do que o que ele alguma vez
tinha visto. Havia nele uma estranha vida nova, o sinal de

[7) Equivalente às nossas modernas lojas dos trezentos. (N. da T.)


OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 8 5

vícios novos, e mais rudes. «Então agora tu roubas?», indagou,


olhando-o furioso. «Não aprendeste a ser generoso, mas apren­
deste a roubar.»
«Não, não aprendeU», disse Johnson. «Fui eu que a roubei.
Ele só montou guarda. Ele não pode manchar-se. Não faz dife­
rença nenhuma em relação a mim. Eu vou para o inferno de
qualquer modo.»
Sheppard não respondeu.
«A não ser», disse Johnson, «que eu me arrependa.»
«Arrepende-te, Rufus», disse Norton numa voz suplicante.
«Arrepende-te, estás a ouvir? Tu não queres ir para o inferno.»
«Pára de dizer disparates», interrompeu Sheppard, olhando
severamente para a criança.
«Se eu me arrepender, vou ser um pregador», disse Johnson.
«Se tencionamos fazer qualquer coisa, não vale a pena fazê-la
só pela metade.»
«0 que é que tu vais ser, Norton?», perguntou Sheppard
numa voz irritada, «um pregador também?»
Um brilho de puro prazer apareceu nos olhos da criança.
«Um homem do espaço !», gritou.
«Que maravilha», disse Sheppard amargamente.
«Essas naves espaciais não te vão servir de nada a não ser
que acredites em Jesus», disse Johnson. Molhou o dedo e
começou a folhear as páginas da Bíblia. «Vou-te ler onde diz
isso», disse.
Sheppard inclinou-se para a frente e impôs-se numa voz
baixa e furiosa, «Põe essa Bíblia de lado, Rufus, e come o j an­
tar.»
Johnson continuou a procurar a passagem.
«Põe essa Bíblia de lado !», gritou Sheppard.
O rapaz parou e olhou para cima. A sua expressão era de
espanto mas também de satisfação.
«Esse livro serve-te para te esconderes atrás dele», disse
Sheppard. «É para cobardes, para pessoas que têm medo de
caminhar pelos seus próprios pés e de compreender as coisas
por si próprios.»
1 8 6 ü ' CONNOR

Os olhos de Johnson pestanej aram rapidamente. Afastou a


cadeira ligeiramente da mesa. «Satanás tem-no sob o seu
poder», disse. «Não apenas a mim mas a si também.»
Sheppard esticou-se sobre a mesa para agarrar no livro mas
Johnson puxou-o e colocou-o no colo.
Sheppard riu-se. «Tu não acreditas nesse livro e tu sabes
que não acreditas nele.»
«Acredito !», defendeu-se Johnson. «Não sabe aquilo em que
eu acredito e aquilo em que eu não acredito.»
Sheppard abanou a cabeça. «Não acreditas nele. É s dema­
siado inteligente.»
«Eu não sou assim tão inteligente», murmurou o rapaz.
«Não sabe nada acerca de mim. Mesmo que eu não acreditasse
nele, mesmo assim seria verdade.»
«Tu não acreditas nele !», insistiu Sheppard.
«Eu acredito nele !», sustentou Johnson sem fôlego. «Vou­
-lhe mostrar que acredito nele !» Abriu o livro no colo e arran­
cou uma página e enfiou-a na boca. Fixou os olhos em
Sheppard. Os maxilares trabalharam furiosamente e o papel
estalou enquanto ele o mastigava.
«Pára com isso», disse Sheppard numa voz seca e esgo­
tada. «Pára.11
O rapaz ergueu a Bíblia e rasgou uma página com os den­
tes e começou a triturá-la na boca, com os olhos a arder.
Sheppard tentou novamente esticar-se por cima da mesa e
arrancou-lhe o livro da mão. «Sai da mesa», disse friamente.
Johnson engoliu o que tinha na boca. Os olhos escancara­
ram-se como se uma visão de esplendor estivesse-se a abrir à
sua frente. 11Comi-a !11, respirou. «Comi-a como Ezequiel e foi
mel para a minha boca l»
«Sai desta mesa», disse Sheppard. Tinha os punhos cerrados
ao lado do prato.
«Comi-a !», gritou o rapaz. O espanto transformou-lhe o
semblante. «Comi-a como Ezequiel e não quero comida ne­
nhuma sua depois disto, nem nunca mais.»
«Vai-te embora, então», disse Sheppard baixinho. «Vai. Vai.»
OS COXOS HÃO-DE ENTRAR PRIMEIRO 1 8 7

O rapaz levantou-se, agarrou na Bíblia e dirigiu-se para o


vestíbulo com ela. Parou à porta, uma pequena figura negra no
limiar de um apocalipse sombrio. «Ü demónio tem-no em seu
poder», disse numa voz jubilosa e desapareceu.

Depois do jantar, Sheppard estava sentado na sala sozi­


nho. Johnson tinha saído de casa mas ele não acreditava que
o rapaz tivesse simplesmente partido. A primeira sensação de
alívio já lhe passara. Sentia-se sem energia e com frio como
se estivesse a chocar uma doença, e o pavor tinha-se insta­
lado dentro dele como um nevoeiro. Partir apenas seria um
final anticlimático demais para o gosto de Jonhson ; havia de
regressar e tentar provar alguma coisa. Poderia voltar uma
semana depois e incendiar a casa. Agora, nada p arecia
demasiado excessivo.
Pegou no jornal e tentou ler. Pouco depois atirou-o para o
lado e levantou-se e dirigiu-se ao vestíbulo e escutou. O rapaz
poderia estar escondido no sótão. Foi até à porta do sótão e
abriu-a.
A lanterna estava acesa, espalhando uma luz ténue nas esca­
das. Não ouviu nada. «Norton», chamou, «estás aí em cima?» Não
houve resposta. Subiu as escadas estreitas para verificar.
Por entre as estranhas sombras semelhantes a vinhas pro­
jectadas pela lanterna, Norton estava sentado com o olho no
telescópio. «Norton», disse Sheppard, «sabes onde foi o Rufus?»
O miúdo estava voltado de costas para ele. Estava sentado,
curvado, atento, as suas grandes orelhas directamente por cima
dos ombros. De repente, acenou com a mão e inclinou-se ainda
mais sobre o telescópio como se não conseguisse aproximar
suficientemente o que via.
«Norton !», repetiu Sheppard mais alto.
A criança não se mexeu.
«Norton!», gritou Sheppard.
Norton sobressaltou-se. Voltou-se. Os seus olhos tinham
um brilho pouco natural. Após um momento pareceu aperce-
1 8 8 o ' cONNOR

ber-se de que se tratava de Sheppard. «Encontrei-a !», diss e


sem fôlego.
«Encontraste quem?», inquiriu Sheppard.
«A mamã !»
Sheppard cambaleou no limiar da porta. A selva de som­
bras em redor da criança adensou-se.
«Anda, vem ver!», gritou. Limpou a cara suada à extremi­
dade da sua camisa de xadrez e depois colocou o olho de novo
no telescópio. As suas costas ficaram imóveis numa intensi­
dade rígida. De repente, acenou de novo.
«Norton», disse Sheppard, «não se vê nada no telescópio
a não ser grupos de estrelas. Bom, já chega por esta noite.
É melhor ires para a cama. Sabes onde está o Rufus?»
«Ela está ali !», clamou Norton, sem se voltar e deixar o
telescópio. «Ela disse-me adeus !»
«Quero-te na cama dentro de um quarto de hora», disse
Sheppard. Após um momento, disse: «Estás a ouvir-me, Norton?»
A criança começou a acenar furiosamente.
«Estou a falar a sério», avisou Sheppard. «Vou verificar se
estás na cama dentro de quinze minutos.»
Voltou a descer as escadas e regressou à sala. Foi até à
porta da frente e lançou um olhar apressado para o exterior.
O céu estava apinhado com as estrelas que ele tinha sido sufi­
cientemente idiota para pensar que Johnson poderia alcançar.
Algures na pequena mata por trás da casa, um sapo deixou
sair uma nota grave e oca. Regressou à sua cadeira e sentou­
-se durante uns minutos. Decidiu ir para a cama. Pôs as mãos
nos braços da cadeira e inclinou-se p ara a frente e ouviu,
como se fosse a primeira nota estridente de um aviso de desas­
tre, a sirene de um carro da polícia, movendo-se lentamente
na vizinhança e aproximando-se até parar com um gemido à
porta de casa.
Sentiu um peso frio nos ombros como se um manto gelado
tivesse sido atirado para cima dele. Foi até à porta e abriu-a.
Dois polícias vinham a subir o caminho trazendo no meio
dos dois um Johnson escuro que protestava, algemado a cada
OS COXOS HÃO-DE ENlRAR PRIMEIRO 1 8 9

um deles. Um repórter corria ao lado deles e outro polícia espe­


rava no carro patrulha.
«Aqui está o seu rapaz», disse o mais sombrio dos polícias.
«Eu não lhe disse que o apanhávamos?»
Johnson puxou o braço ferozmente. «Eu estava à vossa
espera !», disse. «Vocês não me tinham apanhado se eu não
tivesse querido ser apanhado. A ideia foi minha.» Estava a falar
para o polícia, mas olhava de soslaio para Sheppard.
Sheppard olhou para ele friamente.
«Porque é que querias ser apanhado?», perguntou o repór­
ter, dando a volta a correr para ficar ao lado de Johnson.
«Porque é que querias mesmo ser apanhado?»
A pergunta e a presença de Sheppard pareceram enfurecer
o rapaz. «Para mostrar que sou capaz disso àquele grandessís­
simo Jesus feito de metal !», sibilou, e tentou dar um pontapé a
Sheppard. «Ele pensa que é Deus. Prefiro estar no reformatório
do que nesta casa, prefiro estar na cadeia ! O Demónio tem-no
em seu poder. Ele não distingue a mão esquerda da direita, e o
filho dele, que é maluco, tem mais juízo do que ele !» Parou e
depois avançou para a sua fantástica conclusão. «Ele fez-me
insinuações !»
A cara de Sheppard empalideceu. Agarrou-se à ombreira da
porta.
«Insinuações?», disse o repórter ansiosamente, «que tipo de
insinuações?»
«Insinuações imorais !», declarou Johnson. «Ü que é que lhe
passou pela cabeça? Mas eu não admito nada dessas coisas,
sou cristão, sou ... »
A cara de Sheppard estava tensa com a dor. «Ele sabe que
isso não é verdade», disse numa voz abalada. «Ele sabe que está
a mentir. Fiz tudo o que pude por ele. Fiz mais por ele do que
fiz pelo meu próprio filho. Esperava salvá-lo e falhei, mas foi
uma derrota honrosa. Não tenho nada de que me arrepender.
Não lhe fiz quaisquer insinuações.»
«Lembras-te das insinuações?», perguntou o repórter. «Podes
dizer-nos exactamente o que ele disse?»
1 90 o ' CONNOR

«Ele é um ateu porco», insultou Johnson. «Ele disse que o


inferno não existe.»
«Bem, já se viram um ao outro», disse um dos polícias co m
um suspiro sabido. «Vamos embora.»
«Esperem», pediu Sheppard. Desceu um degrau e fitou os
olhos de Johnson num último esforço desesperado para se
salvar. «Diz a verdade, Rufus», concitou. «Tu não queres pro­
pagar esta mentira. Tu não és mau, estás mortalmente con­
fuso. Não tens que compensar esse pé, não tens que ... »
Johnson atirou-se para a frente. «Oiçam-no !», gritou. «Eu
minto e roubo porque sou bom nisso ! O meu pé não tem abso­
lutamente nada a ver com isso ! Os coxos entrarão primeiro ! Os
mancos serão reunidos. Quando eu estiver pronto para ser
salvo, Jesus salvar-me-á, a mim e não àquele ateu mentiroso
de merda, não àquele ... »
«Chega da tua parte», disse o polícia e puxou-o para trás.
«Só queríamos que visse que o apanhámos», informou ele a
Sheppard, e os dois viraram-se e arrastaram Johnson, semi
voltado e gritando na direcção de Sheppard.
«Os coxos ficarão com os despojos», guinchou, mas a sua
voz ficou abafada no interior do carro. O repórter apressou-se
a entrar para o lugar da frente ao lado do condutor, fechou a
porta com força e a sirene gemeu na escuridão.
Sheppard permaneceu ali, ligeiramente curvado como um
homem que foi baleado mas que continua de pé. Após um
minuto voltou-se e entrou em casa e sentou-se na cadeira de
onde se tinha levantado. Fechou os olhos e surgiu-lhe uma
imagem de Johnson rodeado de repórteres na esquadra da
polícia, aperfeiçoando as suas mentiras. «Não tenho nada de
que me censurar», murmurou. Todas as suas acções tinham
sido altruístas, o seu único propósito tinha sido salvar Johnson
para um qualquer tipo de serviço decente, não se tinha pou­
pado, tinha sacrificado a sua reputação, tinha feito mais por
Johnson do que alguma vez fizera pelo seu próprio filho.
A maldade envolvia-o como se fosse um cheiro no ar, tão
perto que parecia vir da sua própria respiração. «Não tenho
OS COXOS HÃO-DE ENIRAR PRIMEIRO 1 9 1

nada de que me censurar», repetiu. A sua voz soava seca e


áspera. «Fiz mais por ele do que fiz pelo meu próprio filho.»
Foi varrido por um pânico súbito. Ouvia a voz jubilosa do
rapaz. Satanás tem-no a si em seu poder.
«Não tenho nada de que me censurar», começou de novo.
«Fiz mais por ele do que fiz pelo meu próprio filho.» Ouviu a
sua voz como se fosse a voz de quem o acusava. Repetiu a
frase em silêncio.
Lentamente, a sua face ficou sem cor. Ficou quase cin­
zenta por baixo do halo branco do seu cabelo. A frase ecoou
na sua cabeça, cada sílaba como um golpe pesado. A boca
torceu-se-lhe e ele fechou os olhos contra a revelação. A face
de Norton ergueu-se perante si, vazia, desamparada, o seu
olho esquerdo inclinado para o canto exterior, quase imper­
ceptivelmente, como se não suportasse uma visão integral da
dor. O coração contraiu-se-lhe com uma repulsa por si pró­
prio tão clara e intensa que ficou sem respiração. Tinha atu­
lhado o seu próprio vazio com boas obras como um glutão.
Tinha ignorado o seu próprio filho para alimentar a visão que
alimentava de si próprio. Via o Diabo de olhos claros, o pers­
crutador de corações, olhando-o de soslaio a partir dos olhos
de Johnson. A imagem que tinha de si próprio encolheu até
tudo estar negro diante de si. Ficou ali sentado, paralisado,
horrorizado.
Viu Norton no telescópio, só costas e orelhas, viu o seu
braço estender-se e acenar loucamente. Uma onda de amor
angustiado pela criança inundou-o como uma transfusão de
vida. A face do rapazinho apareceu-lhe transformada ; a ima­
gem da sua salvação ; toda claridade. Gemeu de alegria. Havia
de compensá-lo completamente. Nunca mais iria deixar que
sofresse. Seria pai e mãe. Ergueu-se de um salto e correu para
o quarto dele, para o beij ar, para lhe dizer que o amava, que
nunca mais o abandonaria.
A luz estava acesa no quarto de Norton mas a cama estava
vazia. Voltou-se e correu pelas escadas do sótão acima e no
topo cambaleou para trás como um homem à beira de um
1 9 2 ü ' CONNOR

precipício. O tripé tinha caído e o telescópio jazia no chão.


Alguns metros acima, a criança pendia na selva de sombras,
logo por baixo da viga de onde se tinha lançado para o seu
voo no espaço.
REVELAÇÃO

A sala de espera do médico, que era pequemss1ma, estava


quase cheia quando o casal Turpin entrou ; e agora Mrs.
Turpin, que era bastante avantajada, fazia-a parecer ainda
mais pequena com a sua presença. Deixou-se ficar hesitante
junto à mesa das revistas colocada no centro, uma demons­
tração viva de que a sala era inadequada e ridícula. Os seus
olhinhos pretos e brilhantes abarcaram todos os pacientes
enquanto avaliava a situação dos lugares disponíveis. Havia
uma cadeira vazia, e um lugar no sofá ocupado por uma
criança loura, enfiada numa farpela azul toda suja, a quem
deveriam ter dito que se encolhesse para dar lugar à senhora.
Tinha cinco ou seis anos, mas Mrs. Turpin apercebeu-se logo
de que ninguém ia dizer-lhe para se afastar. O miúdo estava
afundado no assento com os braços indolentes ao lado do
corpo e a apatia firmada nos olhos ; o ranho escorria-lhe do
nariz sem que ninguém o impedisse.
Mrs. Turpin colocou uma mão firme no ombro de Claud e
disse, numa voz que incluía todos os que quisessem ouvir:
«Claud, senta-te ali naquela cadeira», e empurrou-o na direc­
ção desse lugar vago. Claud era corado, careca e robusto, um
pouco mais baixo que Mrs. Turpin, mas sentou-se como se
estivesse habituado a fazer o que ela mandava.
1 94 o ' coNNOR

Mrs. Turpin ficou de pé. O único homem na sala para além


de Claud era um velhote seco cheio de tendões, que tinha as
mãos macilentas pousadas nos joelhos e os olhos fechados
como se estivesse a dormir ou morto, ou fingindo estar para
não ter que se levantar e dar o lugar a alguém. O olhar dela
pousou de forma agradável numa senhora bem vestida, de
cabelo grisalho, cujo olhar se cruzou com o seu e cuja expres­
são dizia: se aquela criança fosse minha, teria maneiras e
encolhia-se - há espaço suficiente ali para si e para ele.
Claud olhou para cima com um suspiro e fez menção de
se levantar.
«Senta-te», disse Mrs. Turpin. «Sabes que não deves fazer
esforços sobre essa perna. Tem uma úlcera na perna», expli­
cou ela.
Claud apoiou o pé na mesa das revistas e enrolou a perna
das calças para cima de forma a revelar um inchaço purpú­
reo na barriga da perna roliça de um branco-mármore.
«Caramba !», disse a senhora simpática. «Como é que fez
isso?»
«Uma vaca deu-lhe um coice», disse Mrs. Turpin.
«Meu Deus !», disse a senhora.
Claud puxou a perna das calças para baixo.
«Talvez o menino pudesse desviar-se um pouco», sugeriu
a senhora, mas a criança não se mexeu.
«Alguém há-de sair em breve», disse Mrs. Turpin. Não per­
cebia como é que um médico - com tanto dinheiro que
faziam por dia, se bastava enfiar a cabeça pela porta do hos­
pital e olhar para uma pessoa para logo cobrarem cinco dóla­
res - não arranjava uma sala de espera com uma dimensão
decente. Esta era pouco maior que uma garagem. A mesa
estava atravancada de revistas de capa mole e numa das
extremidades havia um grande cinzeiro de vidro verde cheio
de beatas e de compressas de algodão com pequenas manchas
de sangue. Se ela fosse responsável pela organização do local,
aquilo seria esvaziado de vez em quando. Não havia cadeiras
encostadas à parede no topo da sala. Existia um painel rec-
REVELAÇÃO 1 9 5

tangular que permitia ver a recepção onde a enfermeira


entrava e saía e onde a recepcionista ouvia rádio. Um feto de
plástico num vaso dourado estava colocado na abertura e a
sua folhagem descia quase até ao chão. O rádio transmitia
baixinho música gospel.
Nessa altura a porta interior abriu-se, e uma enfermeira,
fez irromper pelo umbral o maior carrapito de cabelo amarelo
que Mrs. Turpin alguma vez tinha visto na vida, e chamou o
paciente seguinte. A mulher sentada ao lado de Claud agar­
rou-se aos braços da cadeira e içou-se ; afastou o vestido das
pernas e passou com dificuldade pela porta por onde a enfer­
meira tinha desaparecido.
Mrs. Turpin instalou-se na cadeira vazia, que a comprimiu
como um espartilho. «Quem me dera emagrecer», disse, revi­
rou os olhos e suspirou de forma cómica.
«Oh, você não é gorda», observou a senhora elegante.
«Üooooh, se sou», disse Mrs. Turpin. «0 Claud come tudo
o que quer e nunca ultrapassa os noventa quilos, mas eu,
basta olhar para qualquer coisa boa de comer que engordo
logo», e o estômago e os ombros tremeram-lhe com o riso.
«Podes comer tudo o que quiseres, não podes, Claud?», per­
guntou ela, virando-se para ele.
Claud apenas sorriu.
«Bem, desde que continue com essa boa disposição», disse
a senhora elegante, «não acho que faça diferença nenhuma
que número veste. Não há nada como a boa disposição.»
Ao lado dela estava uma rapariga gorda de dezoito ou
dezanove anos, de sobrolho carregado, que lia um grosso
livro azul no qual Mrs. Turpin descortinou o título Desen­
volvimento Humano. A rapariga levantou a cabeça e dirigiu o
seu sobrolho carregado a Mrs. Turpin, como se não gostasse
do seu aspecto. Parecia incomodada com o facto de alguém
falar enquanto ela tentava ler. A cara da pobre criatura
estava toda encrespada com acne e Mrs. Turpin pensou como
era penoso ter um aspecto assim naquela idade. Dirigiu um
sorriso afável à rapariga, mas ela limitou-se a devolver o
1 9 6 ü ' CONNOR

olhar com o sobrolho ainda mais carregado. A própria Mrs.


Turpin era gorda, mas sempre possuíra uma pele excelente ; e,
embora tivesse quarenta e sete anos de idade, não tinha uma
única ruga na cara, com excepção da área à volta dos olhos,
só por causa de rir tanto.
Ao lado da rapariga feia estava o miúdo malcriado, ainda
exactamente na mesma posição, e ao lado dele estava uma
velha magra e coriácea num vestido de algodão estampado.
Ela e Claud tinham três sacos de ração para as galinhas na
casa da bomba com o mesmo padrão. Mrs. Turpin deduzira
logo desde o início que o rapazinho pertencia à velha.
Percebia pela maneira como estavam sentados - uma espécie
de alheamento, juntamente com aquele ar mesmo rasca da
escumalha branca, como se fossem ficar ali sentados até ao
Dia do Julgamento Final se ninguém os chamasse e lhes dis­
sesse para se levantarem. E em ângulo recto, mas ao lado da
senhora simpática e bem vestida, estava uma mulher com um
rosto magro que era sem dúvida a mãe da criança. Vestia uma
camisola amarela e calças cor de vinho, ambas com um
aspecto coçado, e tinha os contornos dos lábios todos man­
chados de rapé. O seu cabelo amarelo suj o estava apanhado
atrás com um pedacinho de fita de papel vermelha. Piores
que os pretos, sem dúvida, pensou Mrs. Turpin.
Do hino gospel que estava a ser transmitido percebia-se,
« Quando eu olhei para cima e Ele olhou para baixo», e Mrs.
Turpin, que o conhecia, acrescentou o último verso mental­
mente, «E por um destes dias .eu sei que usarei uma coroa.»
Sem o dar a perceber, Mrs. Turpin observava sempre os
pés das pessoas. A senhora bem vestida calçava uns sapatos
de camurça vermelha e cinza que combinavam com o ves­
tido. Mrs. Turpin tinha calçadas as suas novas sabrinas pre­
tas de cabedal genuíno. A rapariga feia calçava sapatos de
escuteiro e meias pesadas. A velha tinha ténis e a mãe da
escumalha branca tinha o que pareciam ser uns chinelos de
quarto, de palha preta com fio dourado entrançado - exac­
tamente o que se esperaria que ela calçasse.
REVELAÇÃO 1 9 7

Às vezes, à noite, quando não conseguia adormecer, Mrs.


Turpin ocupava-se com a seguinte questão : se não pudesse
ser quem era, que pessoa escolheria ser? Se Jesus lhe tivesse
dito antes de a criar, «Existem apenas dois lugares disponí­
veis para ti. Podes ser ou uma preta ou uma gaja rasca da
escumalha branca», o que teria ela respondido? «Por favor,
Jesus, por favor», diria talvez, «deixa-me esperar até que haja
outro lugar disponível», e a isso ele teria sentenciado : «Não,
tens que ir agora e só tenho esses dois lugares, por isso
decide-te.» Ela ter-se-ia agitado, contorcido, suplicado e ro­
gado, mas não teria conseguido nada e por fim diria: «Tudo
bem, faz-me preta, então - mas isso não quer dizer que seja
uma preta rasca, por favor, que eu não aguento a escumalha.»
E ele tê-la-ia feito uma mulher negra esmerada, limpa e res­
peitável, como ela era, mas negra.
Ao lado da mãe da criança estava uma mulher ainda
jovem de cabelos vermelhos, a ler uma das revistas e a mas­
tigar uma pastilha elástica mais dura do que cabedal [ 8 1 , como
diria Claud. Mrs. Turpin não conseguia ver-lhe os pés. Não
era escumalha, era apenas vulgar. Por vezes, à noite, Mrs.
Turpin também se ocupava designando as classes sociais.
Na base da pirâmide encontrava-se a maior parte das pes­
soas de cor, não o tipo de pessoas que ela teria sido se
tivesse sido assim, mas a maioria das outras ; depois, a
seguir a essas - não acima, apenas afastada - ficava a
gente rasca da escumalha branca ; depois, aí sim, acima,
ficavam os proprietários de casas e, no topo, os proprietá­
rios de casas e de terras, a cujo grupo ela e Claud perten­
ciam. Acima dela e do Claud ficavam as pessoas com muito
dinheiro e casas muito maiores e latifundiários. Mas aqui a
complexidade do assunto começava a acabrunhá-la, j á que
algumas das pessoas com muito dinheiro eram reles e
deviam estar abaixo dela e de Claud, além de que, algumas

[8 ] Expressão muito em voga na época, quando a pastilha elástica ainda era novidade, uti­
lizada para caracterizar as pessoas que a mastigavam com ruído e com a boca toda aberta.
(N. da T.)
1 9 8 ü ' CONNOR

das pessoas que possuíam bom sangue tinham perdido o seu


dinheiro e estavam obrigadas a pagar renda e depois ainda,
havia gente de cor que era também proprietária das suas
casas e terras. Havia um dentista de cor na cidade que tinha
dois Lincoln 's vermelhos e uma piscina e uma quinta com
gado registado de raça pura. Normalmente, quando adorme­
cia, todas as classes de pessoas se afadigavam e agitavam
dentro da sua cabeça e ela sonhava que todas elas estavam
como sardinha em lata numa camioneta de caixa aberta e
eram transportadas para serem largadas num forno de gás.
«Aquele relógio é lindo», disse, e acenou para a sua direita.
O relógio de parede era grande e tinha o mostrador embutido
num ornamento de metal figurando o Sol.
«Sim, é muito bonito», anuiu de forma agradável a senhora
elegante. «E está certissimo», acrescentou, dando uma vista de
olhos ao seu relógio de pulso.
A rapariga feia ao seu lado olhou para cima fixando o
relógio, sorriu de forma afectada, depois olhou directamente
para Mrs. Turpin e sorriu de novo. Em seguida, voltou a olhar
para o livro. Era obviamente filha da senhora, porque, em­
bora não se parecessem nada uma com a outra quanto
à disposição, ambas tinham o mesmo fo rmato de rosto e os
mesmos olhos azuis. Na senhora, esses olhos brilhavam de
forma agradável ; mas, na face marcada da rapariga, pare­
ciam arder em fogo lento ou inflamar-se alternadamente em
labaredas.
E se Jesus tivesse dito : «Muito bem, podes ser uma pessoa
rasca da escumalha branca, ou preta, ou feia!»
Mrs. Turpin sentiu uma grande pena da rapariga, embora
pensasse que uma coisa era ser feia e outra era ser desagra­
dável.
A mulher com os lábios manchados de rapé virou-se na
cadeira e olhou para o relógio. Depois voltou-se novamente
e pareceu olhar ligeiramente para o lado de Mrs. Turpin. Era
estrábica de um dos olhos. «Quer saber onde pode arranjar
um daqueles relógios?», perguntou em voz alta.
REVELAÇÃO 1 99

«Não, já tenho um relógio bonito», disse Mrs. Turpin.


Assim que alguém como aquela conseguisse entrar na con­
versa, havia de monopolizá-la.
«Pode conseguir um com cupões verdes [9J ,., disse a mulher.
«0 mais certo foi ele ter arranjado o dele assim. Se juntar o
número suficiente, pode conseguir quase tudo. Eu arranjei
joalharia.»
Devias era ter arranj ado uma esponja e sabão, pensou Mrs.
Turpin.
«Eu troco os meus por aqueles lençóis com rendas», disse
a senhora simpática.
A filha fechou o livro com força. Olhou de imediato em
frente, directamente para Mrs Turpin e através da cortina ama­
.

rela e do vidro espelhado da janela que constituía a parede por


trás dela. Os olhos da rapariga pareciam de repente iluminados
por uma luz peculiar, uma luz artificial como a que os sinais de
trânsito noctumos emitem. Mrs Turpin voltou a cabeça para
.

ver se havia alguma coisa no exterior que ela devesse ver, mas
não conseguiu descortinar nada. Os vultos que passavam pro­
jectavam apenas uma sombra pálida através da cortina. Não
havia qualquer razão para a rapariga a ter escolhido como
objecto do seu olhar desagradável. «Miss Finley», disse a enfer­
meira, fazendo ranger a porta. A mulher que mascava a pasti­
lha elástica levantou-se e passou em frente dela e de Claud e
entrou na recepção. Calçava sapatos de salto alto vermelhos.
Exactamente do outro lado da mesa, os olhos da rapariga
feia estavam fixos em Mrs. Turpin como se tivesse uma razão
muito particular para não gostar dela.
«Está um tempo óptimo, não está?», disse a mãe da ra­
pariga.
«Está bom tempo para o algodão se conseguirmos que
os pretos o apanhem», disse Mrs. Turpin, «mas os pretos já não

[9]É tradicional, nos Estados Unidos, recortarem-se dos jornais e das revistas, pelo picotado,
umas tiras de papel que dão direito a uma qualquer percentagem de desconto ou a um brinde
quando se entregam na caixa, tanto nos supennercados como em numerosas lojas temáticas.
Os reformados têm a fama de passar o dia a descobrir e recortar cupões. (N. da T.)
200 ü ' CONNOR

querem apanhar algodão. Deixámos de conseguir que os bran­


cos o apanhem e agora não conseguimos que os pretos o façam
- porque têm que estar em pé de igualdade com os brancos.»
«De qualquer maneira têm que tentar», disse a mulher
rasca da escumalha branca, inclinando-se para a frente.
«Tem uma daquelas máquinas de apanhar algodão?», per­
guntou a senhora simpática.
«Não», disse Mrs. Turpin, «deixam metade do algodão no
campo. Também não temos muito algodão. Se quisermos
viver da agricultura nos dias de hoje, temos que ter um pouco
de tudo. Temos uns dois hectares de algodão, alguns porcos
e galinhas e apenas o número suficiente de gado de raça pura
para que o Claud possa tratar deles sozinho.»
«Há uma coisa que eu não quero», disse a mulher rasca da
escumalha branca, limpando a boca com as costas da mão.
«Porcos. Animais noj entos e makheirosos, a grunhir e a foçar
por todo o lado.»
Mrs. Turpin prestou-lhe uma atenção ínfima. «Üs nossos
porcos não são sujos nem cheiram mal», afiançou. «São mais
asseados do que algumas crianças que eu conheço. Os pés
deles nunca entram em contacto com a terra. Temos um
recinto para os porcos - é onde eles são criados, no cimento»,
explicou à senhora simpática, «e o Claud lava-os com a man­
gueira todas as tardes e depois lava o chão.» Muito mais
asseados do que aquela criança ali, pensou. Coitadinho do
desgraçado. Não se tinha mexido a não ser para pôr na boca
o polegar da sua mão suja.
A mulher desviou a cara de Mrs. Turpin. «Tenho a certeza,
jamais lavaria um porco com uma mangueira, ou fosse como
fosse», disse para a parede.
Nem tens porcos para lavar, disse Mrs. Turpin para si própria.
«A grunhir e a foçar e a roncar», resmungou a mulher.
«Temos um pouco de tudo», disse Mrs. Turpin à senhora
simpática. «Não vale a pena termos mais se não conseguimos
nós mesmos dar conta do recado, da maneira como está a
mão-de-obra. Conseguimos pretos suficientes para apanhar o
REVELAÇÃO 20 1

algodão este ano mas o Claud tem que ir buscá-los e levá-los


de regresso a casa à noite. Não querem andar nem meio quiló­
metro. Não senhor. Pode crer», disse e riu alegremente. «Estou
completamente farta de passar a mão pelo pêlo aos pretos, mas
temos que mostrar gostar deles se quisermos que trabalhem
para nós. Quando chegam de manhã, saio de casa e digo-lhes :
'Como é que estão todos hoje?' ; e quando o Claud faz o trans­
porte na carrinha para os campos aceno para dar início à
música, e eles acenam também.» E acenou com a mão rapida­
mente para ilustrar a cena.
«Como se aprendessem todos pela mesma cartilha», disse
a senhora, indicando que compreendia perfeitamente.
«Pois é, credo», disse Mrs. Turpin. «E quando regressam
dos campos, apresso-me a sair com um balde de água gelada.
É assim que vai ser daqui em diante», disse. «Mais vale enca­
rar as coisas de frente.»
«Há uma coisa de que eu tenho a certeza», disse a mulher
rasca da escumalha branca. «Há duas coisas que eu nunca
vou fazer: gostar de pretos ou lavar porcos com uma man­
gueira.» E deixou escapar um ruído de desdém.
O olhar que Mrs. Turpin e a senhora simpática trocaram
indicava que ambas sabiam ser necessário possuir certas coi­
sas para se perceber certas coisas. Mas de cada vez que Mrs.
Turpin trocava um olhar com a senhora, tinha consciência de
que os olhos singulares da rapariga feia ainda estavam pou­
sados nela, e por causa disso sentia dificuldade em voltar a
prestar atenção à conversa.
«Quando somos donos de alguma coisa», disse, «temos que
cuidar dela.» E quando não temos nada a não ser o ar e umas
calças velhas com suspensórios, acrescentou para si própria,
podemo-nos dar ao luxo de vir à cidade todas as manhãs e
ficar sentados na cimalha do tribunal a cuspir.
Uma sombra grotesca com um movimento circular passou
pela cortina por detrás dela e projectou-se palidamente na
parede oposta. A seguir, uma bicicleta fez barulho contra a
parede exterior do edifício. A porta abriu-se e um rapaz de cor
2 0 2 o ' coNNOR

deslizou para o interior com uma bandej a de café. Pousados


nela, estavam dois copos grandes de papel vermelho e branco
com as tampas bem fechadas r 101 . Era um rapaz alto e muito
escuro com umas calças brancas desbotadas e uma camisa
verde de nylon. Mastigava pastilha elástica devagar, como se
o fizesse ao ritmo de música. Pousou a bandeja na abertura da
recepção, ao lado do vaso com o feto, e enfiou a cabeça lá
dentro à procura da recepcionista. Não estava. Descansou os
braços no balcão e esperou, com o traseiro estreito espetado,
balouçando para a esquerda e para a direita. Levantou uma
mão por cima da cabeça e coçou a base do crânio.
«Vês aquele botão ali, rapaz?», disse Mrs. Turpin. «Podes
tocar que ela vem. Está provavelmente algures lá atrás.li
«Ai é?ll, disse o rapaz de forma agradável, como se nunca
tivesse visto a campainha antes. Inclinou-se para a direita e
colocou-lhe o dedo em cima. «Ela às vezes não está», comen­
tou, e torceu-se para encarar o seu público com os cotovelos
atrás de si em cima do balcão. A enfermeira apareceu e ele
voltou-se de novo. A rapariga entregou-lhe um dólar e o
preto procurou no bolso e fez o troco contando as moedas à
medida que lhas entregava. Ela deu-lhe quinze cêntimos de
gorjeta e ele saiu com a bandej a vazia. A porta oscilou len­
tamente e acabou por se fechar com um ruído de sucção.
Durante um momento ninguém falou.
«Deviam mandar todos os malditos pretos novamente para
Áfricall, disse a mulher rasca da escumalha branca. «Foi
donde vieram no início.li
«Oh, eu não passava sem os meus amigos de cor>t, disse a
senhora simpática.
«Há um montão de coisas piores do que um pretoll, con­
cordou Mrs. Turpin. «Há de todos os géneros, assim como o
há todo o género entre nós.li

[ !O] Note-se que se trata de café americano. Por norma, é de cafeteira, fraco, e bebe-se ou
em canecas ou em copos de papel, bastantes deles num impressionante tamanho X L Estes
copos têm tampa, para que o café não se entorne nem arrefeça enquanto o consumidor anda
com ele na rua. As tampas costumam ter um buraquinho, e é por ai que se bebe. (N. da T.)
REVELAÇÃO 203

«Sim, e todos são precisos para fazer girar o mundo», disse


a senhora na sua voz musical.
Quando a mãe acabou de falar, a rapariga de cútis em
ferida cerrou os dentes ruidosamente. O lábio inferior virou­
-se para baixo e ficou do avesso, revelando o interior rosa
pálido da boca. Após um momento voltou à posição habitual.
Era a pior careta que Mrs. Turpin tinha visto alguém fazer
e, durante um momento, teve a certeza de que a rapariga lhe
tinha dirigido a carantonha. Olhava para ela como se toda
a vida a tivesse conhecido e com uma antipatia visceral -
toda a vida de Mrs. Turpin, parecia, e não apenas toda a vida
da rapariga. Mas, moça, eu nem te conheço, disse Mrs. Turpin
em silêncio.
Obrigou-se a prestar atenção à discussão. «Não seria prá­
tico mandá-los de novo para África», confidenciou. «Eles não
iam querer ir. Vivem muitíssimo bem por cá.»
«0 que eles querem não interessa - se eu tivesse alguma
coisa a ver com isso», disse a mulher.
«Não haveria maneira nenhuma de conseguir que todos os
pretos voltassem para lá», disse Mrs. Turpin. «Haviam de se
esconder e estender no chão e de ficar doentes e de se lamu­
riar e de gritar e de fazer uma algazarra e de se prender à
terra. Não haveria maneira nenhuma de os mandar para lá.»
«Vieram para cá», disse a mulher rasca da escumalha bran­
ca. «Voltam da mesma maneira que vieram.»
«Não eram tantos nessa altura», explicou Mrs. Turpin.
A mulher olhou para Mrs. Turpin como se ela fosse uma
idiota chapada, mas Mrs. Turpin não se incomodou com o
olhar, vindo de onde vinha.
«Nããão», disse, «vão ficar cá, pois daqui podem ir até Nova
Iorque, casar com brancos e melhorar a cor da pele. Isso é o
que todos querem fazer, cada um deles, melhorar a cor da pele.
«Sabes o que resulta disso, não sabes?», perguntou Claud.
«Não, Claud, o quê?», disse Mrs. Turpin.
Os olhos de Claud brilharam. «Pretos com caras brancas»,
disse ele sem um sorriso.
204 o ' CONNOR

Todos riram na sala de espera excepto a mulher rasca da


escumalha branca e a rapariga feia. Essa, então, agarrou com
os dedos lívidos no livro que tinha no colo. A mulher rasca da
escumalha branca olhou à volta, fixando cada um dos sem­
blantes como se pensasse que todos eles eram idiotas. A velha
com o vestido feito do saco da ração continuou a fitar sem
expressão os sapatos de cano alto do homem sentado em
frente dela, do outro lado do soalho, aquele que tinha fingido
que estava a dormir à chegada dos Turpin. Ria com vontade,
ainda com as mãos estendidas sobre os joelhos. O miúdo tinha
caído para o lado, de forma que agora estava deitado com a
cara quase em cima do colo da velha.
Enquanto se recompunham das gargalhadas, o coro nasa­
lado na rádio impedia que a sala ficasse em silêncio.

«Tu vais para espaço em branco espaço em branco


E eu vou para o meu
Mas todos iremos para o espaço em branco todos juntos
Jun-tos,
E ao longo desse espaço em branco
Ajudar-nos-emos
So-rrin-do, esteja como estiver
O tempo!

Mrs. Turpin não percebia todas as palavras, mas com­


preendia o suficiente para concordar com o espírito da can­
ção, e isso apaziguou-lhe os pensamentos. Ajudar fosse quem
fosse que precisasse era a sua filosofia de vida. Não se pou­
pava quando encontrava alguém necessitado, fosse branco
ou negro, fosse escumalha branca ou pessoa decente. E de
todas as coisas pelas quais tinha de estar agradecida, era isto
que mais agradecia. Se Jesus tivesse dito, «Podes ser da alta
sociedade e ter todo o dinheiro que quiseres, ser magra e
esbelta, mas não podes ser boa pessoa ao mesmo tempo», ela
sentir-se-ia obrigada a dizer, «Bem, então não me faças
assim. Faz-me uma mulher boa e tudo o resto não interessa,
REVELAÇÃO 205

mesmo que eu sej a gorda, feia ou pobre ! » O seu coração ele­


vou-se. Ele não a tinha feito preta, nem parte da escumalha
branca, nem feia ! Tinha-a feito como era, dando-lhe um
pouco de tudo. Oh, meu Jesus, obrigada !, disse. Obrigada,
obrigada, obrigada ! Sempre que pensava em tudo com o qual
tinha sido abençoada sentia-se leve, como se pesasse sessenta
quilos em vez de noventa.
«Qual é o problema do seu menino?», perguntou a senhora
simpática à mulher rasca da escumalha branca.
«Tem uma úlcera», disse a mulher com orgulho. «Não me
deu um minuto de paz desde que nasceu. Ele e ela são pare­
cidos», disse, fazendo um sinal com a cabeça em direcção à
velha, que passava os dedos coriáceos pelo cabelo pálido da
criança. «Parece que não consigo enfiar nada pela boca
abaixo daqueles dois a não ser Coca Cola e gamas.»
Isso é tudo o que tu tentas enfiar-lhes pela boca abaixo,
disse para si própria Mrs. Turpin. Demasiado preguiçosa para
acenderes o fogareiro. Não havia nada que lhe pudessem
dizer acerca daquele tipo de pessoas que ela não soubesse já.
E o problema não era apenas não terem nada. Se lhes dessem
tudo, em duas semanas estaria tudo partido ou nojento, ou
teriam cortado tudo em pedaços para ser queimado. Sabia
tudo isto por experiência própria. Era preciso ajudá-los, mas
ninguém o conseguia fazer[ n J .
De repente, a rapariga feia revirou os lábios de novo para
fora. Os seus olhos estavam fixos em Mrs. Turpin como se
fossem duas brocas. Desta vez não havia dúvida de que havia
no olhar dela qualquer coisa de urgente.
Ai moça, exclamou em silêncio Mrs. Turpin, não te fiz
nada ! A rapariga poderia estar a confundi-la com outra pes­
soa. Não havia necessidade de ficar ali sentada e deixar-se inti­
midar. «Deves estar na universidade», disse afoitamente,
olhando de frente para a rapariga. «Vejo que estás ler um livro.»

[ li]
O problema mantém-se. Recentemente, u m representante da escumalha branca que con­
seguiu tomar-se um comediante famoso e bem pago (white trash, para os americanos) disse à
GQ americana: •A escumalha branca com dinheiro é o pior pesadelo da América.• (N. da T.)
206 ü ' CONNOR

A rapariga continuou a olhar fixamente e não respondeu


de propósito.
A mãe dela corou por causa desta indelicadeza. «A senhora
fez-te uma pergunta, Mary Grace», chamou em surdina.
«Eu tenho ouvidos», respondeu Mary Grace.
A pobre mãe corou de novo. «A Mary Grace anda no
Wellesley College [ l 2l 11, explicou a senhora. Torceu um dos
botões do vestido. «No Massachusetts [1 3l 11, acrescentou com
uma careta. «E no Verão continua a estudar. Lê o tempo todo,
um verdadeiro rato de biblioteca. Tem obtido óptimos resulta­
dos em Wellesley ; está a tirar Inglês e Matemática e História e
Psicologia e Estudos Sociais», continuou ela a tagarelar, «e
parece-me que é demais. Acho que ela devia sair e divertir-se.»
A rapariga parecia que gostaria de atirá-los a todos pelo
vidro da janela.
«Fica lá muito para o Norte», murmurou Mrs Turpin e pen­ .

sou que, bem, as maneiras dela não beneficiaram nada com isso.
«Eu quase que preferia que ele estivesse doente o tempo
todo», disse a mulher rasca da escumalha branca, forçando de
novo a atenção na sua direcção. « É chato como a potassa
quando não está. Insuportável. Parece que algumas crianças
são naturalmente más. Algumas tornam-se más quando
ficam doentes, mas ele saiu ao contrário. Adoeceu e ficou
bem comportada. Agora não me dá chatices nenhumas. Sou
eu quem está à espera da consulta do médico», terminou.
Se mandasse alguém para África, pensou Mrs Turpin, seria os .

da tua espécie, mulher. «Sim, claro», disse alto, mas olhando para
o tecto, «há um montão de coisas piores que um preto.» E mais
sujos do que um porco, acrescentou para si própria.
«Penso que as pessoas mal-humoradas merecem mais
pena do que quaisquer outras no mundo», disse a senhora
simpática numa voz propositadamente baixa.

[ 1 2]
College de grande qualidade, cotado todos os anos entre os dez melhores dos Estados
Unidos. À época, só admitia meninas. (N. da T.)
[1 3 ]
Estado que foi sempre considerado horrivelmente liberal pelos sulistas americanos. No
passado, foi aqui que começou a libertação dos escravos. No presente, é daqui que vem Ted
Kennedy, de longe o político mais liberal com assento no Senado. (N. da T.)
REVELAÇÃO 207

«Dou graças ao Senhor por ele me ter abençoado com boa


disposição», disse Mrs. Turpin. «Ainda não amanheceu o dia
em que eu não consiga arranjar alguma coisa que me dê von­
tade de rir e ser feliz.»
«Pelo menos, não desde que se casou comigo», disse Claud
com uma cara séria e meio cómica.
Toda a gente se riu excepto a rapariga e a família rasca da
escumalha branca.
O estômago de Mrs. Turpin estremeceu. «Ele é tão cómico»,
disse, «que eu não consigo deixar de me rir com ele.»
A rapariga deixou sair um som alto e desagradável atra­
vés dos dentes.
A boca da mãe estreitou-se e fechou-se com força. «Acho
que a pior coisa do mundo», disse, «é uma pessoa ingrata.
Ter-se tudo e não se apreciar o que se tem. Conheço uma
rapariga», disse, «que tem pais que lhe dão tudo, um irmão
mais novo que a adora, que recebe uma boa educação, que só
usa as melhores roupas, mas que nunca dirige uma palavra
simpática a ninguém, que nunca sorri, que só critica e se
queixa durante o dia inteiro.»
cc É muito velha para levar uma sova?», perguntou Claud.
A cara da rapariga estava quase roxa.
ccSim», disse a senhora, «receio que não haja nada a fazer
a não ser deixá-la entregue à sua insensatez. Um dia vai
acordar e será tarde demais.»
ccSorrir nunca fez mal a ninguém», disse Mrs. Turpin. «Dá­
-nos uma sensação deliciosa de prazer no corpo todo.»
«Claro», disse a senhora com tristeza, «mas há algumas pes­
soas a quem não se pode dizer nada. Não aceitam críticas.»
«Se há uma virtude que eu sei mesmo que tenho», disse
Mrs. Turpin com veemência, «é a gratidão. Quando penso em
tudo o que eu podia ser sem ser eu própria e em tudo o que
tenho, um pouco de tudo, e ainda boa disposição, só me ape­
tece gritar, 'Obrigada, Jesus, por teres feito tudo como é ! '
Tudo podia ter sido diferente !'» Por exemplo, podia perfeita­
mente ter ficado outra qualquer com o Claud.
208 o ' CONNOR

Só de pensar nisto, foi inundada pela gratidão, e sentiu-se


atravessada por uma pontada terrível de alegria. «Ah, obri­
gada, Jesus, obrigada !», gritou em voz alta.
O livro acertou-lhe directamente no olho esquerdo. Atingiu­
-a quase no mesmo instante em que se apercebeu que a rapa­
riga estava prestes a atirá-lo. Antes de sequer poder articular
um som, a cara inflamada veio em direcção a ela, por cima
da mesa, berrando. Os dedos da rapariga afundaram-se na
pele macia do seu pescoço como grampos. Ouviu a mãe gri­
tar e Claud berrar, «Pára !» Houve um instante em que teve a
certeza de estar prestes a vivenciar um terramoto.
Depois a sua visão contraiu-se, começou a ver como se
tudo estivesse a acontecer num pequeno quarto muito ao
longe, ou se tentasse olhar através do lado errado de um
telescópio. A cara de Claud ficou amarrotada e desapareceu
da sua vista. A enfermeira entrou a correr, depois saiu a cor­
rer, depois entrou outra vez. Em seguida, a figura desajeitada
do médico entrou disparada vinda da porta interior. Voaram
revistas para todos os lados quando a mesa se virou. A rapa­
riga caiu com uma pancada surda e a visão de Mrs. Turpin
inverteu-se de repente, vendo tudo enorme em vez de pe­
queno. Os olhos da mulher rasca da escumalha branca esta­
vam completamente fixos no que se afigurava no chão ; a
rapariga lá caída e agarrada de um dos lados pela enfermeira
e do outro pela mãe, - agitava-se e torcia-se num debate
colérico. O médico estava escarranchado sobre ela tentando
pressionar-lhe o braço para baixo. Um segundo depois, con­
seguiu enfiar-lhe uma agulha comprida na veia.
Mrs. Turpin sentia-se completamente oca, à excepção do
coração que oscilava de um lado para o outro como se esti­
vesse a ser agitado dentro tambor de carne vazio e enorme.
«Alguém que não esteja a fazer nada chame a ambulân­
cia», disse o médico na voz sem cerimónias que os verdadei­
ros profissionais adoptam para as ocasiões terríveis.
Mrs. Turpin não conseguiria ter movido um dedo. O velho­
te que tinha estado sentado ao lado dela esgueirou-se agil-
REVELAÇÃO 209

mente para a recepção e fez a chamada, j á que a recepcio­


nista parecia já lá não estar outra vez.
«Claud !», chamou Mrs. Turpin.
O marido já nem estava sentado na cadeira. Ela tinha
consciência de que precisava de levantar-se com um salto e
ir à procura dele, mas sentia-se como uma pessoa a tentar
apanhar um comboio num sonho, quando tudo se move em
câmara lenta e, quanto mais depressa tentamos ir, mais len­
tamente nos movemos.
«Estou aqui», disse uma voz sufocada, muito diferente da
do costume.
Estava dobrado num canto, no chão, branco como a cal, a
segurar a perna. Ela queria levantar-se e ir ter com ele, mas
não conseguia mexer-se. Em vez disso, o seu olhar foi lenta­
mente atraído para baixo, para a cara que se agitava no chão
e que ela conseguia ver por cima do ombro do médico. Os
olhos da rapariga pararam de rolar e fixaram-se nela. Pareciam
de um azul muito mais claro do que anteriormente, como se
uma porta que tivesse estado firmemente fechada por trás deles
estivesse agora aberta para deixar entrar a luz e o ar.
A cabeça de Mrs. Turpin desanuviou-se e a sua capacidade
de movimento regressou. Inclinou-se para a frente até olhar
directamente para aqueles olhos de um brilho feroz. Não
havia dúvidas na sua mente de que a rapariga a conhecia ;
conhecia-a de forma intensa e pessoal, para além do tempo,
do lugar e da condição. «0 que é que me tens a dizer?», per­
guntou com voz rouca e susteve a respiração, aguardando.
Aguardava aquilo que poderia ser uma revelação.
A rapariga ergueu a cabeça. O seu olhar fixou-se intensa­
mente no de Mrs. Turpin. «Volta para o inferno de onde vieste,
velho j avali africano», murmurou ela. A sua voz era baixa mas
clara. Os olhos inflamaram-se-lhe por um momento, como se
registasse com prazer que a sua mensagem tinha atingido o
alvo. Mrs. Turpin deixou-se cair na cadeira.
Após um momento, os olhos da rapariga fecharam-se e
virou a cabeça de lado, exausta.
2 1 0 ü ' CONNOR

O médico levantou-se e entregou a seringa vazia à enfer­


meira. Inclinou-se e colocou ambas as mãos em cima dos
ombros agitados da mãe durante um momento. Estava sen­
tada no chão, com os lábios cerrados, segurando a mão de
Mary Grace no colo. Os dedos da rapariga estavam fechados
à volta do polegar dela, como os de um bebé. «Vão andando
para o hospital», disse ele. «Eu telefono a tratar de tudo.»
«Agora vej amos esse pescoço», disse ele numa voz jovial
para Mrs. Turpin. Começou a inspeccionar-lhe o pescoço com
os dois primeiros dedos. Duas pequenas linhas com a forma de
lua, como espinhas cor-de-rosa, estavam marcadas na tra­
queia. Começava a surgir um inchaço vermelho vivo em redor
do olho. Os dedos dele passaram por cima do inchaço também.
«Deixe-me estar», disse ela com voz pastosa e afastou-o.
«Vá ver o Claud. Ela deu-lhe um pontapé.»
«Já vou vê-lo», disse ele, e mediu-lhe antes a pulsação. Era
um homem magro de cabelo grisalho, dado a gracejos. «Vá
para casa e faça uma folga o resto do dia», ordenou, e deu­
-lhe uma palmadinha no ombro.
Deixe de me dar palmadinhas, resmungou Mrs. Turpin
para si própria.
«E ponha um saco de gelo nesse olho», acrescentou ele.
Depois, foi agachar-se ao lado de Claud e examinou-lhe a
perna. Após um momento, puxou-o para cima e Claud
coxeou atrás dele até à recepção.
Até a ambulância chegar, os únicos sons na sala eram
os gemidos trémulos da mãe da rapariga que continuava sen­
tada no chão. A mulher rasca da escumalha branca não tirava
os olhos da rapariga. Mrs. Turpin olhava em frente, sem fixar
nada de especial. Daí a pouco a ambulância chegou e parou,
uma sombra comprida e escura por trás da cortina da j anela.
Os paramédicos entraram, pousaram a maca ao lado da ra­
pariga, colocaram-na com perícia em cima e levaram-na.
A enfermeira ajudou a mãe a apanhar as coisas dela. A som­
bra da ambulância desapareceu em silêncio e a enfermeira
regressou à recepção.
REVELAÇÃO 2 1 1

«Aquela rapariga vai ser doida, não vai?», perguntou a


mulher rasca da escumalha branca à enfermeira, mas a enfer­
meira continuou a andar até às traseiras e não lhe respondeu.
«Sim, vai ser doida», afirmou a mulher rasca da escuma­
lha branca aos outros todos.
«Pobre criatura», murmurou a velha. A cara do miúdo
ainda estava no colo dela. Os seus olhos fitavam indolente­
mente a cena por cima dos joelhos da avó. Não se tinha
mexido durante a confusão, excepto para encolher uma
perna para baixo de si.
«Agradeço a Deus», disse fervorosamente a mulher rasca
da escumalha branca, «por não ser doida.»
Claud saiu a coxear e os Turpins foram para casa.
Quando a carrinha virou para a estrada de terra batida que
lhes pertencia e chegou ao topo do cabeço, Mrs. Turpin agar­
rou a extremidade da janela e olhou para fora desconfiada.
A terra inclinava-se com graciosidade através de um campo
salpicado de tufos de alfazema. No início da subida, a sua
casinha de caixilhos amarelos, com os canteirinhos plantados
à volta como um avental extravagante, descansava, cheia de
decoro, no seu lugar habitual entre duas nogueiras gigantes­
cas. Ela não teria ficado chocada se notasse alguma delas
ferida com uma queimadura por estarem entre duas chaminés
enegrecidas.
Nenhum dos dois tinha vontade de comer, por isso vestiram
a roupa de casa, baixaram as persianas do quarto e deitaram­
-se, Claud com a perna em cima de uma almofada e ela com um
trapo molhado sobre o olho. No instante em que ela se esten­
deu de costas, a imagem de um porco selvagem com verrugas
no focinho e cornos a despontar por trás das orelhas grunhiu­
-lhe dentro da cabeça. Ela gemeu, um gemido baixo e cavo.
«Não sou», disse numa voz cheia de lágrimas, «não sou um
javali vindo do inferno.» Mas a negação era inútil. Os olhos e as
palavras da rapariga, até mesmo o tom da sua voz, baixa mas
clara, dirigida apenas a ela, não lhe deixavam para onde fugir.
Ela tinha sido escolhida para receber aquela mensagem, embora
2 1 2 ü ' CONNOR

houvesse na sala uma série de gente rasca a quem o insulto se


aplicaria muito mais adequadamente. Só agora é que esta reali­
dade a atingia com toda a força. Estava presente até uma mulher
que negligenciava o próprio filho, mas essa fora ignorada.
A mensagem tinha sido dirigida a Ruby Turpin, uma mulher res­
peitável, trabalhadora, que ia à igreja. As lágrimas secaram. Em
vez disso, os olhos dela começaram a arder de raiva.
Soergueu-se no cotovelo. Claud estava deitado de costas a
ressonar. Queria contar-lhe o que a rapariga lhe dissera mas,
simultaneamente, não desejava insinuar na cabeça dele a
imagem de si própria como um javali vindo do inferno.
«Olha, Claud», murmurou, e empurrou-lhe o ombro.
Claud abriu um olho de um azul-bebé muito pálido.
A mulher olhou-o com prudência. Ele não pensava em
nada. Ele apenas seguia o seu caminho.
«Ü quê, o que é?», perguntou ele, e fechou o olho de novo.
«Nada», disse ela. «A perna dói-te?»
«Dói como o diabo», disse Claud.
«Há-de deixar de doeni, disse ela, e voltou a estender-se.
Num instante, Claud ressonava de novo. Durante o resto da
tarde ficaram ali. Claud dormia. Ela fixava o tecto de sobran­
celhas franzidas. De vez em quando, levantava o punho e
fazia um pequeno movimento de golpear por cima do peito
como se estivesse a defender a sua inocência perante hóspe­
des invisíveis que eram como os que confortavam Job, que
pareciam sensatos mas estavam enganados.
Por volta das cinco e meia, Claud mexeu-se. «Tenho que ir
buscar os pretos», suspirou sem se mexer.
Ela olhava para cima como se houvesse uma escrita inin­
teligível no tecto. A protuberância por cima do olho tinha
ficado de um azul esverdeado. «Ouve lá», disse ela.
«Ü quê?»
«Beija-me.»
Claud inclinou-se e beijou-a ruidosamente na boca. Aca­
riciou-lhe a face pálida e os dedos de ambos entrelaçaram-se.
A expressão de forte concentração dela não mudou. Claud
REVELAÇÃO 2 1 3

levantou-se, gemendo e resmungando, e saiu a coxear. Ela


continuou a examinar o tecto.
Não se levantou até ouvir a carrinha regressar com os pre­
tos. Então ergueu-se e enfiou os pés nos sapatos castanhos,
que nem atou, e caminhou pesadamente até ao alpendre e
agarrou no balde de plástico vermelho. Esvaziou para dentro
um tabuleiro de cubos de gelo e encheu-o até meio com água
e saiu para o pátio das traseiras. Todas as tardes, depois de
Claud trazer os empregados, um dos rapazes ajudava-o a
transportar feno para o exterior e os outros esperavam na
caixa da carrinha até que ele estivesse pronto para os levar a
casa. A carrinha estava estacionada à sombra, debaixo de
uma das nogueiras.
«Como estão todos esta tarde?», perguntou Mrs. Turpin
com a expressão impenetrável, aparecendo com o balde e a
caneca. Havia três mulheres e um rapaz na carrinha.
«Vamos bem», disse a mulher mais velha. «Como vai você?»,
e o olhar dela parou imediatamente sobre o alto escuro na
testa de Mrs. Turpin. «Caiu, não foi?», perguntou numa voz
solícita. A velha era escura e quase desdentada. Tinha um
velho chapéu de feltro que pertencera a Claud descaído para
trás da cabeça. As outras duas mulheres eram mais novas e
mais claras e ambas tinham chapéus de sol novos de um
verde vivo. Uma delas tinha-o na cabeça ; a outra tinha tirado
o dela e o rapaz sorria por debaixo dele.
Mrs. Turpin pousou o balde no chão da carrinha. «Sirvam­
-se», disse. Olhou à volta para se certificar que Claud tinha
partido. «Não, não caí», disse cruzando os braços. «Foi pior
que isso.»
«Nada de mal lhe pode acontecer!», disse a velha. Disse-o
como se todas soubessem que Mrs. Turpin estava protegida
pela Divina Providência de uma forma especial. «Só deu uma
pequena queda.»
«Estávamos na vila no consultório do médico por causa do
coice que a vaca deu a Mr. Turpin», disse Mrs. Turpin num tom
monótono que indicava que não adiantava continuarem com
2 1 4 o ' CONNOR

aquela tolice. «E estava lá uma rapariga. Uma rapariga grande


e gorda com a cara toda cheia de borbulhas. Eu olhava para
aquela rapariga e percebia que ela era estranha mas sem ser
capaz de dizer de que maneira. E eu e a mãe dela estávamos
a conversar e a darmo-nos bem quando de repente, BANG ! Ela
atira-me com o livro enorme que estava a ler e ... »
«Não hi, gritou a velha.
«E a seguir salta por cima da mesa e começa a estrangu­
lar-me.»
«Não !», exclamaram todas, «Não !»
«Porque é que ela fez isso?», perguntou a velha. «0 que é
que a afligia?»
Mrs. Turpin apenas olhou fixamente em frente.
«Alguma coisa a afligia», disse a velha.
«Levaram-na numa ambulância», continuou Mrs. Turpin,
«mas antes de ir, ela rebolava-se no chão e tentavam segurá­
-la para lhe darem uma injecção e ela disse-me uma coisa.»
Fez uma pausa. «Sabem o que é que ela me disse?»
«0 que é que ela disse?», perguntaram elas.
«Disse», começou Mrs. Turpin, e parou, com uma expres­
são sombria e séria. O sol estava cada vez mais branco, empa­
lidecendo o céu por cima das suas cabeças de tal forma que
as folhas da nogueira, por contraste, pareciam negras. Ela
não conseguia pronunciar as palavras. «Uma coisa mesmo
feia», murmurou.
«Ela não devia ter-lhe dito nada feio», disse a velha. «Você
é tão simpática. É a senhora mais simpática que eu conheço.»
«E é bonita também», disse a do chapéu.
«E forte», disse a outra. «Nunca conheci uma senhora
branca tão simpática.»
«Esta é a verdade diante de Jesus», disse a velha. «Amen !
Impossível ser mais simpática e bonita do que é.»
Mrs. Turpin sabia exactamente quanto valia a lisonja dos
pretos e ficou ainda mais zangada. «Ela disse», começou de
novo e desta vez terminou com um sopro feroz, «que eu era
um velho javali vindo do inferno.»
REVELAÇÃO 2 1 5

Fez-se um silêncio estupefacto.


«Onde está ela?», gritou a mulher mais j ovem numa voz
aguda.
«Deixem-me vê-la. Eu mato-a ! »
«Eu mato-a contigo !», gritou a outra.
«Tem de ir para o manicómio», disse a velha com ênfase.
«Você, a senhora branca mais simpática que eu conheço.»
«E é bonita também», disseram as outras duas. «Forte quanto
seria possível e simpática. Jesus está satisfeito com ela !»
«Está mesmo», declarou a velha.
Idiotas ! Resmungou Mrs. Turpin para si própria. Nunca se
podia dizer nada de inteligente a um negro. Podia falar-se
para eles mas não com eles. «Não beberam a água», disse ela
secamente. «Deixem o balde na carrinha quando acabarem.
Tenho mais que fazer do que ficar parada e deixar passar o
resto do dia», e afastou-se e entrou em casa.
Ficou parada durante um momento no meio da cozinha.
A protuberância escura por cima do olho parecia uma nuvem
de um tufão em miniatura que a qualquer momento fosse
varrer o horizonte da sua testa. O lábio inferior projectava-se
perigosamente para fora. Endireitou os ombros maciços.
Depois marchou em direcção à parte da frente da casa, saiu
pela porta lateral e começou a caminhar pela estrada fora em
direcção ao recinto dos porcos. Tinha o aspecto da uma mu­
lher que ia para a guerra sozinha e sem armas.
O sol estava agora de um amarelo profundo, como a lua
das colheitas, e afastava-se em direcção ao poente muito ra­
pidamente por cima da distante linha de árvores como se pre­
tendesse alcançar os porcos antes dela. A estrada estava mar­
cada por sulcos e ela pontapeou várias pedras de tamanho
razoável afastando-as do seu percurso enquanto caminhava.
O recinto dos porcos ficava num pequeno outeiro no final de
uma vereda que tinha início a partir da parede lateral do
celeiro. Era um quadrado de cimento do tamanho de uma sala
pequena, rodeado por uma vedação de cerca de dois metros
de altura. O chão de cimento estava ligeiramente inclinado
2 1 6 o'CONNOR

para que a lavagem dos porcos pudesse escorrer para um rego


de onde era levada para os campos como fertilizante. Claud
estava do lado de fora, na extremidade do cimento, debru­
çado da tábua superior, a lavar o chão do recinto com a man­
gueira. A mangueira estava ligada à torneira de uma cisterna
de água que se encontrava perto.
Mrs. Turpin trepou para o seu lado e olhou para os porcos que
se encontravam no interior. Eram sete leitões hirsutos de focinho
longo - castanhos com manchas cor de figado - e uma porca
velha a poucas semanas de parir. Estava deitada de lado a gru­
nhir. Os leitões corriam em todas as direcções sacudindo-se como
crianças idiotas, com os olhinhos estreitos de porco pro curando
qualquer coisa que tivesse ficado no chão. Ela tinha lido que o
porco era de entre todos os animais o mais inteligente. Duvidava.
Supostamente eram mais espertos que os cães. Até tinha havido
um porco astronauta. Tinha desempenhado a sua missão na per­
feição mas tinha morrido com um ataque de coração em seguida,
porque o puseram erecto dentro do seu fato eléctrico durante o
exame que se tinha seguido, quando naturalmente um porco
deve estar sempre com as quatro patas no chão.
A grunhir e a foçar e a roncar.
«Dá-me essa mangueira», disse ela, arrancando-a das mãos
de Claud. «Vai levar aqueles pretos a casa e depois sai-me de
cima dessa perna.»
«Parece que engoliste um cão raivoso», observou Claud, mas
desceu e afastou-se a coxear. Não ligava aos humores dela.
Até ele estar fora de alcance, Mrs. Turpin deixou-se ficar
num dos lados do chiqueiro, segurando a mangueira e apon­
tando o jacto de água aos quadris traseiros de qualquer lei­
tão que parecesse querer tentar deitar-se. Quando ele já tinha
tido tempo de passar para lá da colina, voltou a cabeça ligei­
ramente, e os seus olhos cheios de raiva observaram o cami­
nho. Ele não estava à vista. Voltou-se para concentrar melhor
a sua energia. Ergueu os ombros e inspirou.
«Por que é que me envias uma mensagem daquelas?», disse
numa voz baixa e feroz, pouco mais que um sussurro mas com
REVELAÇÃO 2 1 7

a força de um grito na sua fúria concentrada. «Como posso ser


eu própria e ser um porco ao mesmo tempo? Como é que estou
redimida e sou do inferno simultaneamente?» A sua mão livre
estava fechada com força, e, com a outra, agarrava a mangueira,
apontando cegamente o jacto de água para dentro e para fora do
olho da velha porca cujo guinchar ultrajado ela nem ouvia.
Do recinto dos porcos tinha-se uma vista da pastagem das
traseiras onde as suas vinte vacas destinadas a abate estavam
reunidas em volta dos fardos de forragem que Claud e o rapaz
tinham espalhado. A pastagem cortada de fresco prolongava­
-se num declive suave até à auto-estrada. Por trás desta
ficava o campo de algodão e a seguir um bosque verde­
-escuro e poeirento que também lhes pertencia. O sol estava
por trás do bosque, muito vermelho, espreitando por cima da
paliçada de árvores como um agricultor inspeccionando os
seus porcos.
«Porquê eu?», rugiu ela. «Não há escumalha por estas ban­
das, preta ou branca, a quem eu não tenha dado alguma
coisa. E todos os dias quebro a espinha até à medula de tanto
trabalhar. E colaboro com a igreja.»
Sentia-se cada vez mais em controlo da situação. «Como é que
eu sou um porco?», perguntou. «Exactamente em que é que eu sou
como eles?», e atirou o jacto de água aos leitões. «Havia lá escu­
malha mais que suficiente. Não era suposto acontecer comigo.»
«Se preferes escumalha, então vá, arranja escumalha», cuspiu
ela. «Podias ter feito de mim escumalha. Ou preta. Se querias escu­
malha, porque é que não me fizeste escumalha?» Abanou o punho
que agarrava na mangueira e uma serpente de água apareceu no
ar durante um momento. «Eu podia deixar de trabalhar, levar tudo
numa boa e ser imunda», rosnou. «Deixar-me ficar pelos passeios
todo o dia a beber cerveja. Mascar rapé e cuspi-lo em cada poça
e trazê-lo espalhado por toda a cara. Eu podia ser sórdida.»
«Ou podias ter-me feito preta. É muito tarde para eu ser
uma preta», disse com um profundo sarcasmo, «mas posso
agir como se o fosse. Deitar-me no meio da estrada e parar o
trânsito. Rebolar-me no chão.»
2 1 8 o ' coNNOR

Na luz que se afundava tudo tomava um matiz misterioso.


A pastagem adquiria um verde brilhante peculiar e a faixa da
auto-estrada tinha-se tomado cor de alfazema. Preparou-se
para um assalto final e desta vez a sua voz rolou por cima da
pastagem. «Vá lá11, gritou, «diz-me que sou uma porca ! Chama­
-me porca novamente. Vinda do inferno. Chama-me j avali do
inferno. Tenta, tenta, se .a chas que podes. Tenta lá por os blo­
cos da base por cima do topo. Anda, tenta ! 11
U m eco deturpado voltou até ela.
Veio uma última vaga de fúria sacudi-la, e ainda bradou :
«Quem é que tu pensas que és?»
A cor de todas as coisas, o campo e o céu escarlate, arde­
ram durante um instante com uma intensidade transparente.
A pergunta voou por cima da pastagem, atravessou a auto­
-estrada, o campo de algodão e voltou para ela claramente
como uma resposta vinda do lado de lá do bosque.
Ela abriu a boca mas não saiu som nenhum.
Uma carrinha minúscula, a do Claud, apareceu na auto­
-estrada, dirigindo-se rapidamente para fora de vista. As mu­
danças rangiam levemente. Parecia um brinquedo de criança.
A qualquer momento, um camião maior poderia abalroá-lo e
espalhar os miolos de Claud e dos pretos na estrada.
Mrs. Turpin ficou ali, os olhos fixos na auto-estrada, todos
os músculos retesados, até que, cinco ou seis minutos mais
tarde, a carrinha reapareceu, de regresso. Ela esperou até que
aquela tivesse tempo de virar para a estrada que lhes perten­
cia. Depois, como uma estátua monumental que ganhasse
vida, baixou a cabeça lentamente e olhou, como que através
do coração do próprio mistério, para os porcos no chiqueiro.
Tinham-se acomodado todos num canto à volta da velha
porca que grunhia mansamente. Um clarão vermelho cobria­
-os. Pareciam ofegar com uma vida secreta.
Até o Sol deslizar finalmente por detrás da linha das árvo­
res, Mrs. Turpin permaneceu ali, com o olhar sobre eles como
se estivesse a absorver uma abismal sabedoria que os fazia
manter vivos. Por fim, levantou a cabeça. Havia apenas um
REVELAÇÃO 2 1 9

faixa púrpura n o céu que cortava um campo carmesim e indi­


cava, como se de uma extensão da auto-estrada se tratasse, o
crepúsculo que descia. Levantou as mãos da parte lateral do
chiqueiro num gesto hierático e profundo. Uma luz visioná­
ria instalou-se nos seus olhos. Via essa faixa de claridade
como uma vasta ponte suspensa que se estendia para o alto
a partir da terra através de um campo de fogo vivo. Por ela,
uma imensa multidão de almas subia, bramindo, para o céu.
Estavam lá companhias inteiras de escumalha branca, pela
primeira vez limpas nas suas vidas, e bandos de negros com
vestes brancas, e batalhões de aberrações e de loucos gri­
tando e batendo palmas e saltando como rãs. E fechando a
procissão havia uma tribo de pessoas que ela reconheceu de
imediato como aqueles que, como ela e o Claud, tinham sem­
pre possuído um pouco de tudo e a sensatez dada por Deus
de tudo usar com justeza. Inclinou-se para a frente para
observar esse grupo mais perto. Marchavam uns atrás dos
outros com grande dignidade, responsáveis como sempre
tinham sido pela ordem e pelo bom senso, e pela moral de um
comportamento respeitável. Eram os únicos que cantavam
afinado. No entanto, conseguia ver pelas suas faces chocadas
e alteradas que até mesmo as suas virtudes estavam a ser
queimadas. Baixou as mãos e agarrou na balaustrada do chi­
queiro, com os olhos semicerrados mas fixos, sem pestanejar.
De repente, a visão desvaneceu-se mas ela permaneceu onde
estava, imóvel.
Quando, por fim, regressou a si, fechou a torneira e regres­
sou a casa lentamente pelo caminho que escurecia. Nos bos­
ques à sua volta, coros de grilos invisíveis tinham começado
a cantar, mas o que ela ouvia eram as vozes das almas, que
subiam para o azul estrelado e cantando aleluias.
AS COSTAS DE PARKER

A mulher de Parker estava sentada no chão do alpendre a


cortar as pontas das vagens de ervilhas. Parker estava sen­
tado no degrau, a alguma distância, observando-a com um
ressentimento silencioso. A mulher era um trambolho, nem
mais, um trambolho. A pele do seu rosto era fina e tão esti­
cada como a pele de uma cebola e os seus olhos eram cin­
zentos e tão aguçados como as pontas de dois espigões de
quebrar gelo. Parker percebia porque é que tinha casado com
ela - não poderia tê-la possuído de nenhuma outra forma -
mas não percebia porque é que, agora, continuava com ela.
Estava grávida e as mulheres grávidas não faziam o seu
género. No entanto ele estava ali, como se ela o mantivesse
sob qualquer feitiço. Isto espantava-o e envergonhava-o.
A casa arrendada ficava isolada, à excepção de uma única
nogueira grande, no cimo de uma barreira alta, sobranceira à
auto-estrada. De vez em quando um carro passava rapida­
mente lá em baixo e os olhos da sua mulher desviavam-se com
suspeita em direcção ao ruído e depois voltavam a focar-se no
jornal cheio de ervilhas que colocara no colo. Os automóveis
eram uma das coisas que ela não aprovava. Além de todas as
outras suas más qualidades, estava constantemente a farejar
pecados. Não fumava nem cheirava rapé, não bebia uísque,
2 2 2 o ' CONNOR

não usava palavras feias e não se pintava, e Deus sabe quanto


um pouco de pintura poderia favorecê-la, pensou Parker. Dada
a sua objecção em relação a pinturas, era ainda mais espantoso
que se tivesse casado com ele. Às vezes ele pensava que ela se
casara com ele para tentar salvá-lo. Outras vezes suspeitava de
que ela no fundo tinha uma predilecção especial por todas as
coisas de que dizia não gostar. Podia percebê-la de uma forma
ou de outra ; era a si mesmo que não conseguia perceber.
Ela virou a cabeça na sua direcção e disse : «Não há ne­
nhuma razão para trabalhares para uma mulher. Podias per­
feitamente trabalhar para um homem.»
«Oh, cala a boca, para variar!», resmungou Parker.
Se tivesse a certeza de que ela tinha ciúmes da mulher para
quem ele trabalhava ainda sentiria alguma satisfação, mas o
mais certo era ela estar preocupada com o pecado que ocorre­
ria se ele e a mulher começassem a gostar um do outro. Ele dis­
sera-lhe que a mulher era uma loira jovem e bem fornecida de
carnes ; na realidade, essa mulher tinha quase setenta anos e
era demasiado seca para se interessar por qualquer coisa que
não fosse fazê-lo trabalhar o máximo possível. É certo que às
vezes as mulheres idosas se interessam por homens mais
novos, especialmente quando estes são tão atraentes como
Parker pensava que era, mas esta mulher idosa olhava para ele
da mesma forma que olhava para o seu tractor - como se
tivesse que mantê-lo porque era o melhor que conseguiria
arranjar. O tractor avariara-se no segundo dia em que Parker
estava a trabalhar com ele e ela mandara-o imediatamente ir
cortar arbustos, murmurando para o preto, pelo canto da boca :
«Este parte tudo aquilo em que mexe.» Também lhe dissera que
usasse uma camisa enquanto trabalhava ; Parker tinha-a tirado
embora o dia não estivesse demasiado húmido ; voltou a vesti­
la com relutância.
Esta mulher feia com que Parker se casara era a sua pri­
meira esposa. Já tivera outras mulheres, mas planeara nunca
se ligar legalmente a ninguém. Vira-a pela primeira vez
numa manhã em que o seu camião se avariara na auto-
AS COSTAS DE PARKER 2 2 3

-estrada. Tinha conseguido arrastá-lo para fora d o pavimento


e p ara um j ardim muito bem arranj ado onde estava uma casa
com a pintura a desfazer-se. Saiu e abriu o capot do camião
e começou a inspeccionar o motor. O seu sexto sentido disse­
-lhe que estava uma mulher a observá-lo. Depois de se ter
debruçado sobre o motor durante alguns minutos, a parte de
trás do seu pescoço começou a arrepiar-se. Espiou o alpendre
e o jardim da casa, que estavam vazios. Uma mulher que ele
não conseguia ver estava ali por perto, atrás de um arbusto
ou dentro de casa, observando-o da j anela.
Subitamente, Parker começou a saltar e a agitar a mão para
cima e para baixo como se a tivesse magoado ao mexer na
maquinaria. Inclinou-se e apertou a mão contra o peito. «Raios
partam !», berrou. «Que Deus vá para o inferno ! Malditos sej am
Deus e Jesus ! Que vá tudo para o inferno !», e continuou, repe­
tindo incessantemente os mesmos insultos tão alto quando
podia.
Sem aviso, uma enorme garra peluda abateu-se na sua
cara e ele caiu de costas, em cima do capot do camião. «Não
profiras sacrilégios nesta casa», ordenou uma voz perto dele.
Parker via tudo tão enevoado que por instantes pensou ter
sido atacado por qualquer criatura celeste, uma espécie de
anjo com olhos de falcão brandindo uma arma ferrugenta.
Quando os seus olhos conseguiram focar-se, viu à sua frente
uma rapariga alta, ossuda, com uma vassoura na mão.
•Magoei a mão,» disse ele. «MAGOEI a mão». Estava tão
entusiasmado que se esqueceu que não tinha magoado a
mão. «Se calhar parti a mão», insistiu, embora a sua voz ainda
não estivesse completamente firme.
«Deixe-me ver», comandou a rapariga.
Parker esticou a mão, a rapariga aproximou-se e olhou
para ela. Não havia qualquer marca na palma e ela agarrou
na mão e virou-a ao contrário. A sua própria mão era seca e
quente e rugosa e Parker sentiu que o contacto com ela o
empurrara de volta à vida. Olhou para ela com mais atenção.
Com esta é que eu não me meto, pensou ele.
2 2 4 o ' CONNOR

Os olhos agudos da rapariga inspeccionaram as costas da


mão vermelha e papuda que agarrava. Tinha uma águia tatuada
a azul e vermelho, empoleirada num canhão. A manga de Parker
estava enrolada até ao cotovelo. Sobre a águia havia uma ser­
pente enroscada em torno de um escudo e nos espaços entre a
águia e a serpente destacavam-se vários corações, alguns deles
atravessados por setas. Acima da serpente havia um naipe de
cartas aberto. Todo o espaço do braço de Parker, do pulso ao
cotovelo, estava ocupado por desenhos berrantes. A rapariga
olhou para aquele espectáculo com um esgar estupefacto de
choque que era quase um sorriso, como se acidentalmente
tivesse entrevisto uma cobra venenosa. Deixou cair a mão.
«A maior parte das outras foram feitas no estrangeiro»,
disse Parker. «Essas aí são quase todas dos Estados Unidos.
Fiz a primeira quando tinha quinze anos.»
«Não me fale nisso,» disse a rapariga. «Não gosto. Não
tenho nada a ver com coisas dessas.»
«Mas deveria ver as que não estão à vista», disse Parker, e
piscou o olho.
Dois círculos vermelhos apareceram como maçãs nas
bochechas da rapariga e suavizaram o seu rosto. Parker
estava intrigado. Não lhe ocorrera, nem por um minuto, que
ela pudesse não gostar de tatuagens. Ainda não conhecera
uma única mulher que não se sentisse atraída por elas.
Parker tinha catorze anos quando viu um homem numa
feira, tatuado dos pés à cabeça. À excepção dos rins, rodea­
dos por uma tanga de pantera artificial, a pele do homem
estava coberta de padrões que pareciam, da distância a que
Parker se encontrava - estava perto da parte de trás da tenda,
sentado num banco -, um único desenho imbricado de cores
brilhantes. O homem, que era baixo e robusto, passeava pela
plataforma e contraía os músculos de forma a que o arabesco
de pessoas, animais e flores na sua pele parecesse ter um
movimento próprio e subtil. Parker sentia-se cheio de emo­
ção, tão comovido como algumas pessoas ficam quando
vêem passar a bandeira nacional. Era um rapaz cuja boca
AS COSTAS DE PARKER 2 2 5

estava normalmente entreaberta. Era pesado e esforçado,


banal como um pão caseiro. Quando o espectáculo acabou
ficara sentado no b anco, olhando para o local onde o homem
tatuado se exibira, até a tenda estar praticamente vazia.
Até essa altura, Parker nunca sentira a mínima vibração
de deslumbramento. Até ver o homem na feira, nunca lhe
passara pela cabeça que a sua própria existência pudesse ser
a expressão de qualquer coisa fora do comum. No momento
em que tal sucedeu não conseguiu realizar esse facto extraor­
dinário, mas uma qualquer forma de inquietação veio insta­
lar-se dentro dele. Era como se um rapaz cego tivesse sido
virado no sentido contrário com tanta delicadeza que nem
percebera que o seu caminho se modificara.
Arranjou a sua primeira tatuagem algum tempo depois -
a águia empoleirada no canhão. Foi feita por um artista
local. Doeu muito pouco, apenas o bastante para Parker
achar que era uma coisa que valia a pena fazer. Isto também
era peculiar, porque até essa altura Parker sempre pensara
que só o que não doesse nada é que valia a pena. No ano
seguinte abandonou a escola porque agora tinha dezasseis
anos e já podia fazê-lo. Foi para a escola técnica por uns
tempos, e depois abandonou a escola técnica e trabalhou seis
meses numa garagem. A única razão por que trabalhava era
para poder pagar mais tatuagens. A mãe trabalhava numa
lavandaria e podia sustentá-lo, mas nunca lhe pagaria uma
tatuagem, a menos que fosse o nome dela dentro de um
coração, o que ele acabou por fazer, embora com uma certa
má-vontade. De qualquer maneira, o nome dela era Betty
Jean e ninguém precisava de saber que se tratava da sua
mãe. Começou a perceber que as tatuagens atraíam o tipo de
raparigas de que ele gostava mas que nunca teriam gostado
dele anteriormente. Passou a beber cervej a e a envolver-se
em lutas. A mãe lacrimej ava pelo que estava a acontecer ao
filho. Uma noite levou-o a uma cerimónia de iniciação reli­
giosa sem lhe dizer onde é que iam. Quando ele viu a igreja
enorme e cheia de luz desprendeu-se bruscamente dela e
2 2 6 O 'CONNOR

desatou a correr. No dia seguinte mentiu no que respeitava


à sua idade e alistou-se na Marinha.
Parker era demasiado robusto para as calças apertadas do
uniforme de marinheiro, mas, em contrapartida, o estúpido
chapelinho branco, puxado sobre a testa, fazia o seu rosto
parecer pensativo, e até intenso. Ao fim de um ou dois meses
na Marinha, deixou de andar de boca entreaberta. As suas
feições endureceram e passaram a ser as feições de um ho­
mem. Ficou na Marinha cinco anos e parecia uma parte
intrínseca do barco cinzento e mecânico, à excepção dos seus
olhos, que tinham a mesma cor de ardósia pálida do oceano
e reflectiam os espaços imensos à sua volta como se fossem
um microcosmo do mar misterioso. Quando chegava a qual­
quer porto, comparava os bairros pobres por onde andava
com Birmingham, Alabama. Onde quer que fosse, arranjava
sempre mais tatuagens.
Perdera rapidamente o interesse por naturezas-mortas, tais
como : âncoras ou carabinas de canos serrados. Tinha um tigre
e uma pantera em cada ombro, uma cobra enrolada num
archote no peito, falcões nas ancas, Isabel II e o príncipe Filipe
sobre o estômago e o figado, respectivamente. Não se preocu­
pava particularmente com o tema, desde que o desenho fosse
colorido ; tinha algumas obscenidades no abdómen, mas apenas
porque esse lhe parecera o lugar mais adequado. Parker costu­
mava sentir-se satisfeito com cada tatuagem durante cerca de
um mês, e depois o que quer que fosse que lhe tinha interessado
na nova aquisição começava a dissipar-se. Quando acontecia
encontrar-se diante de um espelho suficientemente grande,
punha-se à sua frente a analisar o efeito geral. Este nunca lhe
parecia ser um arabesco complexo, mas apenas uma coisa des­
coordenada e mal feita. Então sentia-se possuido por uma
enorme insatisfação, e ia pro curar um novo artista para preen­
cher um novo espaço. A parte da frente de Parker estava quase
completamente coberta mas não tinha nenhuma tatuagem nas
costas. Não sentia qualquer desejo de ostentar tatuagens num
sítio onde não pudesse vê-las. À medida que o espaço disponí-
AS COSTAS DE PARKER 2 2 7

vel à frente para receber tatuagens foi diminuindo, a sua insa­


tisfação cresceu e tomou-se um sentimento mais geral.
Depois de uma das suas licenças não voltou para a
Marinha, mantendo-se antes afastado sem autorização oficial,
bêbedo, numa casa de hóspedes de uma cidade cujo nome des­
conhecia. A sua insatisfação, que até aí havia sido crónica e
latente, tomara-se subitamente aguda e raivosa dentro de si.
Era como se a pantera e o leão e as serpentes e as águias e os
falcões tivessem atravessado a sua pele e vivessem agora no
seu interior travando entre eles uma guerra furiosa. A Marinha
encontrou-o, pô-lo na prisão durante nove meses, e a seguir
despediu-o de forma pouco honrosa.
Depois disso Parker decidiu que o ar do campo era o único
que merecia ser respirado. Alugou a barraca no cimo da bar­
reira, comprou o camião velho e teve vários empregos nos
quais se manteve durante o tempo que lhe apeteceu. Na al­
tura em que conheceu a sua futura mulher, andava a comprar
maçãs aos caixotes e a vendê-las ao quilo pelo mesmo preço
aos residentes isolados ao fundo das estradas rurais desertas.
«Essas coisas todas», disse a mulher, apontando para o
braço dele, «não são melhores do que o que um índio estúpido
faria. É uma expressão de vaidade.» Parecia ter finalmente
encontrado a palavra que queria. «A vaidade das vaidades.»
E que raio é que me importa o que ela pensa?, perguntou
Parker a si próprio, mas estava absolutamente abismado.
«Tenho a certeza de que gosta mais de uma que das outras,
de qualquer forma», disse ele, tentando fazer a conversa
demorar até ser capaz de se lembrar de qualquer coisa que
suscitasse a admiração dela. Voltou a estender o braço na sua
direcção. cDe qual é que gosta mais?», perguntou.
cNão gosto de nenhuma», disse ela. cMas a do frango sem-
pre é um bocadinho melhor que as outras.»
•Qual frango?», quase gritou Parker.
Ela apontou para a águia.
•É uma águia !», disse Parker. «Que idiota é que perderia
tempo a tatuar um frango no braço?»
2 2 8 o ' CONNOR

«Que idiota é que perderia tempo com tatuagens?», per­


guntou a rapariga, e virou-lhe as costas. Voltou lentamente
para dentro de casa deixando-o sozinho para que fosse à sua
vida. Parker ficou ali cinco minutos, olhando boquiaberto
para a porta escura por onde ela acabava de entrar.
No dia seguinte regressou com um caixote de maçãs. Não
era do género de se deixar superar por uma mulher como ela.
Gostava de mulheres carnudas, para não ter que lhes sentir os
músculos, e muito menos os ossos. Quando chegou ela estava
sentada nos- degraus e o jardim estava cheio de crianças,
todas tão magras e pobres como ela ; Parker lembrou-se de
que era sábado. Detestava ter que tentar seduzir uma mulher
quando andavam crianças por perto, mas felizmente trouxera
o caixote de maçãs no camião. Quando as crianças se apro­
ximaram para verem o que é que ele trazia, deu uma maçã a
cada uma e disse-lhes que se pusessem a andar; e isso bastou
para dispersar o grupo inteiro.
A rapariga nem pareceu dar pela sua presença. Podia ser
um porco ou uma cabra tresmalhada que tivesse entrado pelo
quintal e ela estava demasiado cansada para ir buscar uma
vassoura e enxotá-la. Ele pousou a alcofa de maçãs no
degrau ao lado dela. Sentou-se num degrau abaixo.
«Bom proveito», disse-lhe ele, apontando para o caixote ;
depois voltou a ficar silencioso.
Ela agarrou rapidamente numa maçã, como se o caixote
pudesse desaparecer se não se despachasse. As pessoas com
fome deixavam Parker nervoso. Ele sempre tivera muito que
comer. Começou a sentir-se assaz desconfortável. Pensou que
não tinha nada para dizer, portanto para que é que havia de
falar? Agora não conseguia perceber porque é que tinha vol­
tado, ou porque é que não se ia embora antes que tivesse que
desperdiçar outro caixote de maçãs com as crianças. Calculou
que fossem os irmãos e irmãs dela.
Ela mastigou a maçã devagar mas com um certo desvelo
de concentração, levemente inclinada para a frente mas sem
olhar para os lados. A vista do alpendre estendia-se até uma
AS COSTAS DE PARKER 2 2 9

pequena cerca d e ferro e através da auto-estrada para uma


paisagem ondulada de colinas, com uma montanha suave ao
fundo. A5 paisagens abertas deprimiam Parker. Olha-se para
um espaço destes e começa-se a sentir que alguém anda a
perseguir-nos, a Marinha ou o Governo ou a religião.
«De quem são as crianças, são tuas?», perguntou ele ao fim
de muito tempo.
«Ainda não sou casada», disse ela. «São da mãe.» Disse
aquilo como se fosse só uma questão de tempo até ela pró­
pria estar casada.
Pelo amor de Deus, quem é que se casaria com ela?, pen­
sou Parker.
Uma mulher grande e descalça, com uma face larga onde
se destacavam intervalos entre os dentes, apareceu na porta por
trás de Parker. Aparentemente, já ali estava há uns minutos.
«Boa tarde», disse Parker.
A mulher atravessou o alpendre e agarrou no que restava
do caixote de maçãs. «Estamos-lhe muito agradecidos», disse
ela e voltou com o caixote para dentro de casa.
« É a tua velha?», perguntou Parker.
A rapariga disse que sim com a cabeça. Parker lembrou-se
de uma data de coisas vivaças que poderia dizer, como «os
meus sentimentos», mas manteve-se lugubremente silencioso.
Limitou-se a ficar ali sentado, olhando para a paisagem.
Pensou que se calhar estava a chocar uma doença qualquer.
«Se amanhã apanhar pêssegos venho cá trazer-te alguns»,
disse ele.
«Ficava-te muito agradecida», disse a rapariga.
Parker não tinha a mínima intenção de voltar lá com um
cesto de pêssegos mas no dia seguinte deu consigo a fazer
isso mesmo. Ele e a rapariga não tinham praticamente nada
para dizer um ao outro. Uma coisa que ele disse foi: «Não
tenho nenhuma tatuagem nas minhas costas.»
«Ü que é que tens nas costas?», perguntou a rapariga. «A ca­
misa», respondeu Parker. «Ah ah !»
«Ah ah !», disse a rapariga, educadamente.
2 3 0 O'CONNOR

Parker pensou que estava a perder a cabeça. Não podia


acreditar que se sentia atraído por uma mulher assim. Ela não
parecia estar interessada em nada a não ser no que ele trazia
até que, da terceira vez, ele apareceu com duas meloas.
«Como é que te chamas?», perguntou ela.
«0. E. Parker», respondeu ele. ccOu Parker. Ninguém me
trata pelo nome próprio.»
«Qual é e nome próprio?», perguntou ela.
«Não interessa», disse Parker. «Qual é o teu?»
«Digo-te quando me disseres de que nomes é que são essas
duas iniciais», disse ela. Havia apenas um pequeno toque de
malícia no seu tom de voz e foi direito à cabeça de Parker.
Nunca revelara o seu nome a qualquer mulher ou homem, só
para os arquivos da Marinha e do Governo e do registo de
baptismo que lhe tinham passado quando ele fizera um mês ;
a sua mãe pertencia à Igreja Metodista. Quando o nome esca­
pou dos arquivos da Marinha, quase que matara o homem
responsável pelos estragos.
ccSe te disser vais contar a toda a gente», disse ele. «Juro
que nunca direi a ninguém», disse ela. «Juro pelo nome
sagrado de Deus.»
Parker ficou sentado em silêncio durante alguns minutos.
Depois aproximou-se do pescoço da rapariga, puxou o
ouvido dela para junto da sua boca, e sussurrou-lhe o nome
em voz baixa.
ccObadiah11, murmurou ela. A sua face iluminou-se como se
o nome constituísse um sinal. ccObadiah», disse ela.
O nome desceu ainda mais baixo na consideração de Parker.
«Obadiah Elihue11, disse ela numa voz cheia de reverência.
«Se me chamares isso em voz alta rebento-te com os mio-
los», disse Parker. «Como é que te chamas?» «Sarah Ruth Cates•,
disse ela.
«Muito prazer, Sarah Ruth», disse Parker.
O pai de Sarah Ruth era um pregador do Evangelho Funda­
mentalista, mas estava de momento na Florida, espalhando a
Boa Nova. A mãe não parecia preocupar-se com as atenções
AS COSTAS DE PARKER 2 3 1

dele para com a rapariga desde que ele trouxesse um cesto de


qualquer coisa consigo em cada visita. Quanto à Sarah Ruth
propriamente dita, Parker não tinha qualquer dúvida, depois
da terceira vez, de que ela estava doida por ele. Gostava dele
mesmo depois de insistir que pinturas na pele eram a vaidade
das vaidades, e mesmo depois de o ouvir praguejar, e mesmo
depois de lhe ter perguntado se ele tinha recebido a salvação
e de ele ter respondido que não via nada de especial de que
fosse preciso uma pessoa salvar-se. A seguir, inspirado, Parker
disse : «Estarei suficientemente salvo se me deres um beijo.»
Ela encolheu-se. «Isso não é receber a salvação», disse ela.
Não muito depois disso, aceitou ir dar um passeio no
camião dele. Parker estacionou-o numa estrada deserta e
sugeriu-lhe que fossem deitar-se juntos na parte de trás.
«Só depois de estarmos casados», disse ela - tal e qual,
com toda a naturalidade.
«Oh, isso não é preciso», disse Parker e tentou abraçá-la e
ela empurrou-o com tanta força que a porta do camião se
abriu e Parker caiu de costas, estatelado no meio da estrada.
Nesse preciso momento decidiu que nunca mais havia de
querer saber dela para nada.
Casaram-se no notário do concelho porque Sarah Ruth
acreditava que as igrejas eram um acto de idolatria. Parker não
tinha nenhuma opinião definida a esse respeito. O escritório do
notário estava cheio de caixas de cartão contendo fichas e de
livros de registos com papéis amarelos cobertos de poeira
enfiados lá dentro. A notária era uma mulher de cabelo ver­
melho que ocupava aquelas funções há quarenta anos e pare­
cia tão poeirenta como os seus livros. Casou-os por trás de um
gradeamento de ferro colocado sobre a estante e, quando aca­
bou, disse com um gesto gracioso da mão : «Três dólares e cin­
quenta cêntimos e até que a morte vos separe», e logo despa­
chou uns formulários de dentro de uma máquina.
O casamento não produziu qualquer alteração em Sarah
Ruth e deixou Parker mais taciturno que nunca. Todas as
manhãs decidia que estava farto daquilo e que nessa noite
2 3 2 ü ' CONNOR

não voltaria a cas a ; todas as noites voltava. Quando Parker já


não conseguia mesmo aguentar mais aquela vida arranjava
uma tatuagem nova, mas agora a única superfície que ainda
não estava coberta eram as suas costas. Para ver uma tatua­
gem nas costas teria que arranj ar dois espelhos e colocar-se
entre ambos na posição correcta e isto parecia-lhe uma exce­
lente maneira de se armar em parvo. Sarah Ruth, que, se pos­
suísse um pouco mais de senso, teria apreciado uma tatuagem
nas suas costas, nem sequer olharia para ela se estivesse nou­
tra parte do corpo. Quando ele tentava apontar detalhes espe­
ciais das suas aquisições anteriores, ela fechava os olhos com
muita força e, como se isso não fosse suficiente, virava-lhe as
costas. A menos que estivessem totalmente às escuras, prefe­
ria ver Parker vestido e com as mangas desenroladas.
«No altar do julgamento de Deus, Jesus vai perguntar-te o
que é que fizeste toda a tua vida, além de te cobrires de pin­
turas», disse ela.
«Não me enganas com essa conversa do altar», disse Parker.
«Estás com medo que a loira boazona para quem eu trabalho
goste tanto de mim e me diga, vá lá, Mr. Parker, vamos, eu e
você .. . isso sim.»
«Estás a tentar o pecado», disse ela, «e, no altar do jul­
gamento de Deus, também terás que responder por isso.
Devias voltar a ir vender os frutos da terra.»
Parker não fazia muito mais quando estava em casa do que
ouvir o que o altar do julgamento de Deus seria para ele se não
modificasse os seus hábitos. Quando podia, contava umas histó­
rias da loira carnuda para quem trabalhava. «Mr. Parker», repe­
tiu ele o que ela dissera, «eu contratei-o por causa do seu cére­
bn;1.» (E teria acrescentado : «Portanto, porque é que não o usa?»)
«E devias ter visto a cara dela a primeira vez que tirei a
camisa», disse ele. «Mr. Parker», disse ela, «você é um pano­
rama ambulante !» Ela tinha realmente dito isto, mas pelo
canto da boca, com um esgar de desprezo.
A insatisfação de Parker atingiu tais proporções que não
haveria forma de contê-la sem adquirir uma nova tatuagem.
AS COSTAS DE PARKER 2 3 3

Tinha que ser nas costas. Não havia forma d e contornar esse
problema. Uma vaga inspiração começou a animar a sua
mente. Visualizou uma tatuagem nas suas costas a que Sarah
Ruth não pudesse resistir - um tema religioso. Pensou num
livro aberto com a inscrição «B ÍB LIA SAGRADA» tatuada por
baixo e um versículo autêntico inscrito na página. Durante uns
tempos, esta pareceu-lhe ser a aproximação mais correcta ;
depois começou a ouvi-la dizer: «Então e eu não tenho uma
Bíblia verdadeira? Porque é que eu hei-de passar o tempo a ler
sempre o mesmo versículo quando posso ler o texto todo?»
Precisava de uma coisa ainda melhor que a Bíblia ! Pensou
tanto nisso que começou a ter insónias. Também estava a per­
der peso - Sarah Ruth limitava-se a atirar a comida para den­
tro da panela e deixá-la cozer. Não percebia ao certo porque é
que continuava a viver com uma mulher que era feia e estava
grávida, que não sabia cozinhar e deixava-o nervoso e irritá­
vel, e começou a ter um ligeiro tique de um dos lados da cara.
Uma ou duas vezes surpreendeu-se a virar-se abruptamente
para trás, como se andasse alguém a persegui-lo. Tivera um
avô que acabara num manicómio estadual, embora isso só lhe
tivesse acontecido aos setenta e cinco anos, mas por muito
urgente que fosse para ele arraajar uma tatuagem, era ainda
mais urgente arranj ar a tatuagem certa, para despertar as
emoções de Sarah Ruth. À medida que se preocupava cada
vez mais com isso, os seus olhos adquiriram uma expressão
vazia e preocupada. A mulher velha para quem ele trabalhava
disse-lhe que se ele não conseguia manter um mínimo de
concentração durante o trabalho ela sabia muito bem onde
encontrar um miúdo preto de catorze anos que conseguiria.
Parker estava demasiadamente preocupado para chegar
sequer a sentir-se ofendido. Em qualquer outra altura tê-la­
-ia abandonado naquele mesmo instante, dizendo secamente :
«Muito bem, vá buscá-lo.»
Duas ou três manhãs mais tarde estava a fazer fardos de
palha com a enfardadeira espatifada da mulher velha e o seu
tractor desconjuntado num campo grande, completamente nu
2 3 4 ü 'CONNOR

à excepção de uma árvore antiga que se erguia no meio.


A mulher era do tipo de pessoas que não cortaria uma velha
e grande árvore por ser uma velha e grande árvore. A mulher
mostrara a árvore a Parker como se ele não tivesse olhos e
dissera-lhe para ter cuidado para não esbarrar nela quando
precisasse de usar a enfardadeira na sua vizinhança. Parker
começou pela extremidade do campo e foi avançando em cír­
culos em direcção ao centro. De vez em quando tinha que
descer do tractor para desembaraçar o arame dos fardos ou
para tirar uma pedra do caminho. A mulher velha dissera-lhe
para juntar todas as pedras num dos cantos do campo, o que
ele fizera enquanto ela estava a ver. Quando pensava que não
havia perigo, limitava-se a passar por cima das pedras.
Enquanto ia fazendo os círculos concêntricos no campo a sua
mente concentrava-se na escolha do desenho certo para as
costas. O Sol, do tamanho de uma bola de golfe, aparecia à
sua frente e a seguir atrás de si, mas ele começou a vê-lo dos
dois lados, como se tivesse olhos na parte de trás da cabeça.
De repente viu a árvore aparecer à sua frente para o destruir,
e ouviu a sua própria voz rugir num tom incrivelmente alto :
«PASSA-LHE POR CIMA!»
Aterrou sobre as costas enquanto o tractor esbarrava con­
tra a árvore e explodia em chamas. A primeira coisa que
Parker viu foi os seus sapatos a serem devorados pelo fogo.
Um estava preso debaixo do tractor e o outro j azia a uma
pequena distância, ardendo sozinho. Parker não estava den­
tro deles. Sentia a respiração escaldante da árvore a arder na
sua cara. Rastejou para trás, ainda sentado, com os olhos
cavernosos, e se soubesse fazer o sinal da cruz tê-lo-ia feito.
O seu camião estava numa estrada de terra no fim do
campo. Dirigiu-se para lá, ainda sentado, ainda às arrecuas,
mas cada vez mais depressa ; a meio do caminho levantou-se
e iniciou uma espécie de corrida dobrado no estômago,
durante a qual caiu duas vezes de joelhos. As suas pernas
pareciam duas goteiras velhas e enferrujadas. Finalmente
alcançou o camião e arrancou, subindo a estrada aos zigue-
AS COSTAS DE PARKER 2 3 5

zagues. Continuou a guiar depois de ter passado a sua casa,


no cimo da barreira ao lado da auto-estrada, e até atingir a
cidade, a cinquenta milhas de distância.
Parker recusou-se a pensar durante o caminho até à ci­
dade. Só sabia que tinha acabado de ocorrer uma grande
mudança na sua vida, um salto em frente na direcção de um
futuro desconhecido pior do que o presente, e que não havia
nada que ele pudesse fazer a esse respeito. Para todos os efei­
tos, tudo estava consumado.
O artista tinha dois quartos cheios de material desorde­
nado, acima do gabinete de um endireita, numa rua secun­
dária. Parker, ainda descalço, aproximou-se silenciosamente
dele um pouco depois das três da tarde. O artista, que tinha
aproximadamente a idade de Parker - vinte e oito anos -
mas era magro e calvo, estava sentado por trás de um
pequeno estirador, a traçar um desenho a tinta verde.
Levantou os olhos com uma expressão aborrecida e pareceu
não reconhecer Parker na criatura de olhos ocos que apare­
cera à sua frente.
«Deixa-me ver o livro que tem desenhos de Deus11, disse
Parker quase sem fôlego. «Aquele da religião.11
O artista continuou a olhá-lo com uma expressão de supe­
rioridade intelectual. «Não faço tatuagens em bêbedos», disse
ele.
«Tu conheces-me !», gritou Parker. «Sou O. E. Parker! Já me
fizeste várias tatuagens e sempre te paguei !»
O artista olhou para ele por mais um momento, como se
não estivesse completamente certo. «Há algum tempo que não
aparecias», disse ele. «Deves ter estado na cadeia.»
«Casei-me», disse Parker.
«Oh!11, disse o artista. Com o auxílio de espelhos tinha
tatuado um mocho miniatural no cimo da sua própria cabeça,
perfeito em todos os detalhes. Não era maior que uma moeda
de cinquenta cêntimos e usava-o como demonstração da sua
técnica. Havia outros artistas na cidade, mais baratos, mas
Parker nunca quisera nada que não fosse o melhor. O artista
2 3 6 ü ' CONNOR

dirigiu-se a um armano no fundo do quarto e começou a


folhear alguns livros de arte. «Em que género estás interes­
sado?», disse ele. «Santos, anjos, Cristas, ou quê?»
«Deus», disse Parker.
«Pai, Filho, ou Espírito Santo?»
«Só Deus», disse Parker com impaciência. «Meu Deus, quero
lá saber. Qualquer coisa, desde que se pareça com Deus.»
O artista voltou para junto dele com um livro. Removeu
alguns pa� éis de outra mesa, abriu o livro em cima dela e
disse a Parker que procurasse o que lhe agradava mais. «Üs
modernos estão no fim», disse ele.
Parker sentou-se com o livro e humedeceu o polegar.
Começou a folheá-lo, principiando pelo fim, onde estavam os
desenhos mais modernos. Reconheceu algumas imagens - o
Bom Pastor, Deixai Vir a Mim os Pequeninos, o Jesus Sorridente,
Jesus, o Amigo dos Médicos, mas continuou a passar as páginas
de trás para a frente e os desenhos eram cada vez mais inquie­
tantes. Um mostrava a face hirta e verde de um morto manchada
de sangue. Um era amarelo com olhos roxos descaídos. O cora­
ção de Parker começou a bater cada vez mais depressa até pare­
cer emitir o rugido de um grande gerador eléctrico. Passava as
páginas depressa, sentindo que quando chegasse ao desenho
certo havia de receber um sinal. Continuou a avançar até estar
quase no início do livro. De uma das páginas um par de olhos
olhou intensamente para ele. Virou-a rapidamente, mas depois
parou. O seu coração também parecia ter parado ; fez-se um
silêncio absoluto. E esse silêncio dizia, tão claramente como se
o silêncio pudesse falar, VOLTA PARA TRÁS.
Parker voltou ao tal desenho - a cabeça de um Cristo
Bizantino de olhos exigentes, rodeada por uma auréola. Ficou
sentado a tremer; o seu coração começou lentamente a bater
outra vez, como se um poder subtil o trouxesse de volta à vida.
«Encontraste o que querias?», perguntou o artista.
A garganta de Parker estava demasiado seca para lhe per­
mitir falar. Levantou-se e mostrou o livro ao artista, aberto
naquela página.
AS COSTAS DE PARKER 2 3 7

«Isto vai custar-te muito», disse o artista. «Mas n ã o vale a


pena pormos todos estes detalhes, os quadradinhos do
mosaico. Basta só o contorno e alguns dos pormenores mais
interessantes.»
«Tal como está», disse Parker. «Ou é como está aí ou não é
nada.»
«Ü funeral é teU», disse o artista. «Mas eu é que não faço
um trabalho destes de graça.»
«Quanto?», perguntou Parker.
«Vai demorar pelo menos dois dias.»
«Quanto?», disse Parker.
«Em tempo ou dinheiro?», perguntou o artista. Os outros
trabalhos de Parker tinham sido combinados por tempo, mas
ele tinha pago.
«Dez à cabeça e mais dez por cada dia que levar», disse o
artista.
Parker tirou dez notas de um dólar de dentro da carteira ;
tinha só mais três lá dentro.
«Volta amanhã de manhã», disse o artista. «Primeiro pre­
ciso de passar o molde para um papel.»
«Não, não !», disse Parker. «Faz já o molde ou dá-me outra
vez o meu dinheiro», e os seus olhos incendiaram-se como se
estivesse pronto para começar uma briga.
O artista acedeu. Qualquer tipo suficientemente parvo
para querer um Cristo tatuado nas costas, raciocinou ele,
seria também suficientemente parvo para não mudar de
ideias no momento seguinte. De qualquer forma, assim que
começasse o trabalho, j á não haveria tempo para ninguém
mudar de ideias.
Enquanto preparava o molde, disse a Parker que fosse
lavar as costas na bacia com o sabão especial que lá estava.
Parker foi, e quando voltou pôs-se a andar para cá e para lá
através do quarto, flectindo nervosamente os músculos das
costas. Queria olhar para a imagem outra vez mas ao mesmo
tempo não queria. Finalmente o artista levantou-se e mandou
Parker deitar-se na mesa. Esfregou-lhe as costas com álcool
2 3 8 ü 'CONNOR

clorídrico e depois começou a esboçar o contorno da cabeça


com o seu lápis de iodo. Passou mais de uma hora até agar­
rar no instrumento eléctrico. Parker não sentiu qualquer dor
especial. No Japão tinham-lhe feito uma tatuagem do Buda
no cimo do braço com agulhas de marfim ; na Birmânia, um
homenzinho pequenino e castanho como uma raiz tatuara­
-lhe um pavão em cada joelho usando uns pauzinhos afiados,
com mais de meio metro de comprimento ; vários amadores
tinham trabalhado com alfinetes e brasas. Parker estava nor­
malmente tão descontraído e calmo sob as mãos dos artistas
que era frequente adormecer, mas desta vez manteve-se acor­
dado, com todos os músculos tensos.
À meia-noite o artista disse que tinha que parar. Puxou um
espelho, de cerca de dois metros quadrados, de uma mesa
junto à j anela, e foi buscar um espelho mais pequeno à parede
do lavatório e pô-lo nas mãos de Parker. Parker ergueu-se com
as costas contra o espelho grande e moveu o espelho pequeno
até uma chicotada de cores se reflectir por trás de si. As suas
costas estavam quase completamente cobertas por pequenos
quadradinhos vermelhos e azuis e cor de marfim e cor de aça­
frão ; a partir desses quadradinhos já se distinguiam alguns
dos detalhes do rosto - uma boca, o início de duas sobrance­
lhas carregadas, um nariz recto, mas a face estava vazia;
ainda lhe faltavam os olhos. A impressão do momento era
quase a de que o artista o enganara e fizera antes o Amigo
dos Médicos.
«Não tem olhos !•, gritou Parker.
«Há-de ten, disse o artista. «Na devida altura. Ainda temos
um dia inteiro de trabalho pela frente.•
Parker passou a noite numa tarimba da Missão Cristã
Abrigo da Luz. Achava que estes eram os melhores lugares
para ficar na cidade porque eram gratuitos e incluíam uma
espécie de refeição. Conseguiu apropriar-se da última tarimba
disponível e como continuava descalço aceitou um par de
sapatos em segunda mão, que, no estado de confusão em que
se encontrava, calçou para dormir; ainda estava chocado com
AS COSTAS DE PARKER 2 3 9

tudo o que lhe acontecera. Durante a noite permaneceu acor­


dado no longo dormitório cheio de tarimbas ocupadas por
figuras trôpegas. A única luz vinha de uma cruz fluorescente
pendurada na parede ao fundo do quarto. A árvore voltou a
aparecer para o atacar, e depois explodiu em chamas ; o sapato
ardeu calmamente sozinho ; os olhos no livro disseram-lhe
claramente VOLTA PARA TRÁS e ao mesmo tempo não emi­
tiram um único som. Desejou não estar naquela cidade, não
estar naquela Missão do Abrigo da Luz, não estar numa cama
sozinho. Sentiu miseravelmente a falta de Sarah Ruth. A sua
língua afiada e os seus olhos como espigões de quebrar gelo
eram todo o conforto em que conseguia pensar. Decidiu que
estava a perder a cabeça. Os olhos dela pareciam suaves e
dilatados comparados com os olhos do livro, pois embora não
conseguisse rever exactamente a forma desses olhos ainda se
sentia penetrado por eles. Parecia-lhe que, sob aquele olhar, se
tomava tão transparente como a asa de uma mosca.
O artista dissera-lhe para não vir antes das dez, mas,
quando chegou a essa hora, Parker estava à sua espera sen­
tado no chão do corredor escuro. Quando se levantara de­
cidira que, assim que a tatuagem estivesse completa, nunca
mais olharia para ela, que todas as suas sensações do dia e da
noite anteriores eram as sensações de um homem louco e que
voltaria a fazer as coisas de acordo com o seu juízo sensato.
O artista recomeçou no ponto em que tinha ficado.
•Gostava de saber uma coisa», disse ele enquanto trabalhava
nas costas de Parker. «Para que é que queres isto nas tuas cos­
tas? Tomaste-te religioso? Recebeste a salvação?», perguntou
com uma voz trocista.
A garganta de Parker estava seca e salgada. •Não», disse
ele. •Não tenho nada a ver com nada disso. Um homem não
pode salvar-se do que já fez e se tentasse não teria a minha
simpatia.» Estas palavras pareciam sair da sua boca como
fantasmas e evaporar-se imediatamente como se nunca as
tivesse pronunciado.
•Então porque é que .. »
.
240 o'coNNOR

«Casei-me com uma mulher que recebeu a salvação», disse


Parker. «Nunca devia ter feito isso. Tenho que deixá-la. É com­
pletamente doida e está grávida.»
«Isso é que é pior», disse o artista. «Então ela é que te fez
arranjar esta tatuagem.»
«Não», disse Parker. «Ela não sabe de nada disto. É uma
surpresa».
«Achas que ela vai gostar e deixar-te em paz por uns tem­
pos?»
«Ela não pode fazer nada», disse Parker. «Não pode dizer que
não gosta da cara de Deus.» Resolveu que já tinha falado o
suficiente sobre a sua vida privada. Os artistas estavam muito
bem onde estavam mas não tinham nada que andar a meter o
nariz na vida das pessoas normais. «Ontem à noite não dormi
nada», disse ele. «Acho que vou dormir um bocado agora.»
Isto fez o artista calar a boca, mas não ajudou Parker a
adormecer. Permaneceu ali deitado, imaginando como Sarah
Ruth ficaria sem palavras ao ver a cara de Deus nas suas cos­
tas, e por vezes estes pensamentos eram interrompidos pela
visão da árvore em chamas e do seu sapato vazio ardendo
debaixo dela.
O artista trabalhou sem interrupções até depois das qua­
tro da tarde, sem sequer parar para almoçar, detendo rara­
mente o instrumento eléctrico só para limpar o corante que
às vezes escorria pelas costas de Parker. Finalmente deu a
obra por terminada. «Já podes sentar-te e olhar», disse ele.
Parker sentou-se mas permaneceu na extremidade da mesa.
O artista estava satisfeito com o seu trabalho e queria que
Parker olhasse para ele imediatamente. No entanto, Parker
continuava sentado na ponta da mesa, ligeiramente inclinado
para a frente mas com um olhar vazio no rosto. «0 que é que
te deu?», perguntou o artista. «Vai ver a tatuagem !»
«Não me deu nada», disse Parker com uma voz subita­
mente agressiva. «A tatuagem não vai para lado nenhum. Há­
-de estar aí quando me apetecer vê-la.» Parker agarrou na
camisa e começou a vesti-la lentamente.
AS COSTAS DE PARKER 2 4 1

O artista puxou-o pelo braço e empurrou-o para o meio


dos dois espelhos. «Olha agora», disse ele, despeitado por
estarem a ignorar o seu trabalho.
Parker olhou, ficou branco e afastou-se. Os olhos na face
reflectida pelo espelho continuavam a olhar para ele - imó­
veis, directos, totalmente exigentes, encerrados no silêncio.
«Bem, a ideia foi tua, não te esqueças», disse o artista. «Eu
teria recomendado outra coisa qualquer.»
Parker não disse nada. Enfiou a camisa e saiu porta fora
enquanto o artista gritava : «E fico à espera do resto do meu
dinheiro !»
Parker dirigiu-se à loja da esquina. Comprou uma garrafa
de meio litro de uísque e levou-a para uma ruazinha próxima
e bebeu-a toda em cinco minutos. Depois dirigiu-se a uma
casa de bilhares ali perto que costumava frequentar quando
estava na cidade. Era uma sala espaçosa como um celeiro e
fortemente iluminada, com um bar de um lado e máquinas de
jogo do outro e mesas de bilhar ao fundo . Assim que Parker
entrou um homem grande com uma camisa aos quadrados
vermelhos e pretos saudou-o dando-lhe uma grande palmada
nas costas e gritando : «Eeeeeh pá ! O. E. Parker!»
Parker ainda não estava preparado para palmadas nas cos­
tas. «Tira a mão», disse ele. «Tenho aí uma tatuagem fresca.»
«0 que é que arranj aste desta vez», perguntou o homem e
depois gritou para uma data de outros homens junto às
máquinas de jogo : «0 O. E. tem uma tatuagem nova !»
«Não é nada de especial, desta vez», disse Parker e tomou
posição frente a uma máquina que não estava ocupada.
«Vá lá», disse o homem grande, «vamos ver a tatuagem nova
do Parker» e enquanto Parker tentava proteger-se os outros
agarraram-lhe a camisa e puxaram-na para cima. Parker sentiu
todas as mãos caírem instantaneamente e a camisa voltar a des­
cer nas suas costas como um véu sobre o rosto. Fez-se um silên­
cio na sala que Parker ouviu crescer a partir do círculo em tomo
dele, abranger todos os cantos, descer até às fundações do edi­
fício e subir até às barras de madeira do tecto.
242 o ' CONNOR

Finalmente houve alguém que disse «Meu Deus» e todos se


desfizeram numa cacofonia desconexa. Parker encarou-os
com um sorriso incerto na cara.
«Só mesmo o O. E.», disse o homem da camisa aos qua­
drados. «Este rapaz é mesmo passado.»
«Talvez se tenha tomado religioso», gritou alguém. «Bem
podes esperar sentado», disse Parker.
«Ü. E. tomou-se religioso e agora anda a ser testemunha
de Jesus, é ou não é, O. E.?», disse um homenzinho com um
bocado de charuto na boca, num tom irónico. «E de uma
forma muito original, devo dizer !»
«Deixem a descoberta de novas tatuagens com o Parker!»,
disse o homem gordo.
«Eeeeeeh pá !», gritou alguém e todos desataram a assobiar
e a praguejar elogiando o trabalho até que Parker disse :
«Porra, calem a boca.»
«Porque é que meteste aí isso?», perguntou alguém.
«Para gozam, disse Parker. «Porquê, há azar?»
«Então porque é que não gozas?», gritou alguém. Parker
atirou-se para o meio deles, e, como um pé-de-vento num dia
de Verão, armou-se uma luta no meio de mesas viradas ao
contrário e punhos cerrados voltej ando no ar até que dois
deles o agarraram e correram com ele para a porta e o atira­
ram para a rua. Depois abateu-se uma grande calma sobre a
sala de bilhares como um nervo quebrado, como se o grande
edifício em forma de celeiro fosse o navio de onde Jonas aca­
bava de ser lançado ao mar.
Parker ficou sentado durante muito tempo na ruazinha
por trás da sala de bilhares, examinando a sua alma. Viu-a
como uma teia de aranha de factos e mentiras que não era
particularmente importante para ele mas que parecia ser
necessária independentemente da sua opinião. Os olhos que
agora estariam para sempre nas suas costas eram olhos que
lhe reclamavam obediência. Estava tão certo disto como
alguma estivera de alguma coisa. Durante a sua vida, res­
mungando e às vezes praguejando, muitas vezes com medo,
AS COSTAS DE PARKER 243

outras em êxtase, Parker obedecera a instintos deste tipo que


tinham vindo ter com ele - em êxtase quando o seu espírito
se elevara perante a visão do homem tatuado na feira, com
medo quando se alistara na Marinha, resmungando quando
se casara com Sarah Ruth.
A recordação dela fê-lo levantar-se lentamente. Ela sabe­
ria o que ele tinha que fazer a seguir. Tomaria claro o resto da
sua vida, e sentir-se-ia por fim satisfeita. Parecia-lhe agora
que, durante todo este tempo, sempre fora isso que ele quisera,
vê-la satisfeita. O seu camião continuava parado diante do
lugar onde o artista fizera o trabalho, mas não ficava longe.
Dirigiu-se para lá, entrou lá para dentro, guiou para fora da
cidade e para o meio da noite no campo. A sua cabeça estava
praticamente livre dos vapores do álcool e reparou que a sua
insatisfação desaparecera, mas sentiu-se diferente de si pró­
prio. Era como se fosse ele mas ao mesmo tempo um estranho,
guiando através de uma nova paisagem embora tudo o que
via lhe fosse familiar, mesmo durante a noite.
Chegou finalmente à casa sobre a barreira, estacionou
o camião debaixo da nogueira e saiu. Fez tanto barulho
quanto possível para deixar bem claro que continuava no
comando das operações, que tê-la deixado sozinha por uma
noite sem dizer uma palavra não queria dizer nada a não ser
que era assim que ele fazia as coisas. Bateu a porta do carro
com força, bateu com os pés contra os dois degraus para
atravessar o alpendre, e depois embateu na maçaneta da
porta. Não conseguiu abri-la. «Sarah Ruth !», gritou. «Deixa­
-me entrar!»
A porta não tinha fechadura, portanto era óbvio que ela
pusera as costas de uma cadeira contra a maçaneta. Ele
começou a bater na porta e a agitar a maçaneta ao mesmo
tempo.
Ouviu ranger as molas da cama, baixou a cabeça e encos­
tou o olho ao buraco da fechadura, mas a sua vista estava
bloqueada por um pedaço de papel. «Deixa-me entrar», ber­
rou ele. «Para que é que me trancaste na rua?11
244 o ' CONNOR

Uma voz cortante, perto da porta, perguntou «Quem está aí?»


«Eu», disse Parker. «Ü. E.»
Esperou um momento.
«EU», repetiu com impaciência. «Ü. E.»
De lá de dentro continuou a não vir nenhum som.
Ele tentou mais uma vez. «Ü. E.», disse ele, batendo na
porta mais uma ou duas vezes. «0.E. Parker. Tu conheces-me.»
Houve mais um silêncio. Depois a voz disse devagar: «Não
conheço nenhum O. E.»
«Deixa-te de graças», pediu Parker. «Sou eu, o teu velho
O. E., estou de volta. Não precisas de ter medo de mim.»
«Quem está aí?», disse a mesma voz, sem qualquer vestígio
de sentimento.
Parker virou a cabeça como se esperasse que alguém atrás
de si lhe desse a resposta. A noite tinha-se tomado ligeira­
mente mais clara e duas ou três manchas amarelas flutuavam
na linha do horizonte. E então, enquanto ele estava ali
parado, uma árvore de luz cortou o céu.
Parker caiu contra a porta como se tivesse sido pregado à
madeira por uma lança.
«Quem está aí?», perguntou a voz que vinha lá de dentro,
e agora havia nela uma entoação que parecia final. «Quem
está aí, pergunto eu?»
Parker inclinou-se e pôs a boca junto do buraco da fe­
chadura tapado.
«Obadiah», sussurrou, e sentiu imediatamente a luz a des­
cer sobre ele, transformando a teia de aranha da sua alma
num arabesco perfeito de cores, um j ardim de árvores e pás­
saros e animais.
«Obadiah Elihue», sussurrou ele.
A porta abriu-se e ele caiu para dentro. Sarah Ruth estava
de pé, com as mãos nas ancas. Começou imediatamente: «Não
andavas a trabalhar para nenhuma loira boazona e agora vais
ter que pagar-lhe o tractor que estragaste até ao último cen­
tavo. O tractor não estava no seguro. Ela veio cá e tivemos
uma grande conversa e . . . »
AS COSTAS DE PARKER 245

Parker começou a acender o candeeiro de petróleo.


«0 que é que te deu para te pores a gastar petróleo quan­
do é quase dia?», perguntou ela, imperiosamente. «Não pre­
ciso de olhar para ti.»
Uma luz amarela envolveu-os a ambos. Parker apagou o
fósforo e começou a desabotoar a camisa.
«Nem penses que vais levar alguma coisa de mim a esta
hora da manhã», disse ela.
«Cala a boca», disse Parker. «Olha para isto, e depois não
quero ouvir mais nada.» Tirou a camisa e virou-lhe as costas.
«Outra pintura», rosnou ela. «Eu devia ter percebido que
devias estar a meter mais lixo no teu corpo.»
Os joelhos de Parker perderam a força. Virou-se a custo e
gritou : «Olha para isto ! Não te ponhas logo a dizer isso. Olha
para a tatuagem !»
«Já olhei», disse ela.
«Não sabes o que é?11, gritou ele, sufocado de angústia.
«Não, quem é?11, disse Sarah Ruth. «Não é ninguém que eu
conheça.»
«É Ele», disse Parker.
«Ele quem?»
«Deus !», gritou Parker.
«Deus? Deus não é assim !»
«0 que sabes tu sobre como Deus se parece?», grunhiu
Parker. «Tu nunca O viste.»
«Deus não tem cara», disse Sarah Ruth. «Deus é um espí­
rito. Nunca nenhum homem lhe verá a face.»
«Oh, ouve !», resmungou Parker. «É só a imagem Dele.»
«Idolatria!11, bradou Sarah Ruth. «Idolatria ! Andas a infla­
mar-te com ídolos por toda esta santa terra ! Posso aturar as
tuas mentiras e a tua vaidade mas não quero um idólatra
nesta casa l», e agarrou numa vassoura e começou a fustigá­
-lo nas costas.
Parker estava demasiado estupefacto para resistir. Deixou­
-se ficar sentado e que ela lhe batesse com a vassoura até estar
quase inconsciente e ter marcas vermelhas enormes em cima
246 O ' CONNOR

do seu Cristo tatuado. Depois levantou-se aos tropeções e


arrastou-se até à porta.
Ela bateu com a vassoura no chão, duas ou três vezes, e
foi para a janela abaná-la para a limpar do lixo da pele dele.
Sempre agarrada ao cabo, olhou para a nogueira e os seus
olhos tomaram-se ainda mais duros. Ali estava ele - o
homem que chamava a si mesmo Obadiah Elihue - encos­
tado à árvore, a chorar como uma criança.
J U ÍZO FINAL

Tanner estava a preservar todas as suas forças para voltar


para casa. Tencionava caminhar o mais que conseguisse e
entregar-se nas mãos do Todo-Poderoso para percorrer o resto
da distância. Nessa manhã, e na manhã anterior, deixara a
filha vesti-lo e assim conservara mais um pouco de energia.
Agora estava sentado na sua cadeira ao pé da janela - a
camisa azul abotoada até ao pescoço, o casaco nas costas da
cadeira, o chapéu na cabeça - à espera que ela partisse. Não
podia escapar-se até ela desaparecer de cena. A janela dava
para uma parede de tij olo e lá muito em baixo ficava uma rua
estreita cheia do ar de Nova Iorque, o tipo de ar apropriado
para gatos e para lixo. Uns flocos esparsos de neve flutuavam
diante da janela mas eram demasiado leves e ocasionais para
que a sua vista cansada conseguisse detectá-los.
A filha estava na cozinha a lavar a loiça. Afadigava-se
sobre os pratos, falando consigo mesma. Nos primeiros dias
que passara no apartamento o velho ainda lhe respondera,
mas compreendera depressa que as suas respostas não eram
bem-vindas. Ela olhara para ele com irritação, como se aquele
velho idiota não tivesse suficiente senso para saber que não se
responde a uma mulher que está a falar consigo mesma. Fazia
perguntas numa voz e respondia noutra. Com a energia que
248 ü 'CONNOR

conservara no dia anterior deixando-a vesti-lo, o pai escrevera


um bilhete que pregara no lado de dentro do bolso. SE ENCON­
TRADO MORTO ENVIAR EXPRESSO AO CUIDADO DE COLE­
MAN PARRUM, CORINTII , GEORGIA, CONTA A PAGAR PELO
RECEPTOR. Abaixo desta indicação acrescentara: COLEMAN
VENDE AS MINHAS COISAS E PAGA PELO FRETE Et PELO
CANGALHEIRO. SE SOBRAR ALGUMA COISA FICA COM ELA.
AFECTUO SAMENTE, T. C. TANNER. P. S. - FICA ONDE ESTÁS.
NÃO DEIXES QUE NINGUÉM TE CONVENÇA A VIRES PARA
O NORTE. ESTE LUGAR NÃO PRESTA. Levara pelo menos meia
hora a escrever tudo ; a caligrafia era trémula mas seria deci­
frável com um pouco de paciência. Controlara a mão direita
segurando-a com a esquerda. Quando acabara de escrever, já a
filha estava de regresso com os sacos do supermercado.
Hoje, Tanner estava pronto. Tudo o que tinha a fazer era
empurrar um pé à frente do outro até chegar à porta e depois
ao fundo dos degraus. Uma vez na entrada do prédio, havia
de encontrar a saída do bairro. Uma vez fora do bairro, apa­
nharia um táxi para a estação dos comboios de carga. Algum
vagabundo haveria de o ajudar a entrar no vagão. Quando se
apanhasse dentro de um vagão de carga, deitar-se-ia e des­
cansaria. Durante a noite o comboio começaria a rumar ao
Sul, e no dia seguinte, ou na manhã depois do dia seguinte,
morto ou vivo, havia de chegar a casa. Morto ou vivo. Chegar
lá é que era importante ; morto ou vivo não interessava.
Se tivesse tido bom senso, teria partido logo no dia após a
chegada; e se tivesse ainda melhor senso nem sequer teria
chegado. Não ficara completamente desesperado até há dois
dias atrás, quando ouvira a filha e o genro despedirem-se
depois do pequeno-almoço. Estavam diante da porta de
entrada, e ele ia passar três dias fora. Era condutor de um
camião de mudanças de longo curso. Ela devia ter-lhe passado
para as mãos o seu boné de cabedal. «Devias arranjar um cha­
pém>, disse ela. «Um chapéu a sério.»
«E passar o dia sentado com o chapéu na cabeça como
aquele ali», disse ele. «Tudo o que ele faz é sentar-se o dia
JUÍZO FINAL 249

inteiro de chapéu na cabeça. Sentado todo o dia, com a mal­


dito chapéu na cabeça. Dentro de casa !»
«Bem, tu nem sequer tens um chapéu», disse ela. «Só um boné
de cabedal com abas. As pessoas que são alguém usam chapéu.
As outras usam bonés de cabedal com abas como o teu.11
«As pessoas que são alguém !», gritara ele. «As pessoas que
são alguém ! Deixa-me rir !11 O genro tinha uma face musculosa
e estúpida e uma voz de yankee a condizer.
«Ü meu pai está aqui para ficar», disse a filha. dá não vai
durar muito. Foi alguém na altura em que era alguém. Nunca
trabalhou para outras pessoas em toda a sua vida e tinha pes­
soas - outras pessoas - a trabalhar para ele.»
«Ah sim? Pretos. Era tudo o que ele tinha a trabalhar para
ele11, disse o genro. «Eu também já tive um preto ou dois às
minhas ordens.11
«Só tiveste pretos do Norte às tuas ordens», disse a filha,
baixando subitamente a voz de tal forma que Tanner teve que
inclinar-se para a frente para ouvir o resto. «Mas é preciso ter
cabecinha para pôr um verdadeiro preto a trabalhar. É preciso
saber lidar com eles.11
«Ah pois, eu não tenho cabecinha !», disse o genro.
Um dos raros momentos, muito súbitos e ocasionais, em
que Tanner sentia orgulho na filha, viera apoderar-se dele.
Uma vez por outra a mulher dizia qualquer coisa que suge­
ria que ainda tinha algum do bom senso adquirido com a
educação que recebera em casa e que estaria armazenado
dentro de si.
«Tu tens miolos», disse ela. «Só que não os usas muitas
vezes.11
«Ü velho tem um enfarte quando vê um preto no prédio»,
disse o genro. «E agora ela diz-me ... 11
«Não fales tão alto», disse a filha. «Não foi por causa do
preto que ele teve o enfarte.»
Houve um breve silêncio. «Onde é que vais enterrá-10?11,
perguntou o genro, tomando uma linha de ataque diferente.
«Enterrar quem?11 «Aquele ali.11
2 50 o ' CONNOR

«Aqui mesmo em Nova Iorque», disse ela. «Onde é que pen­


savas que eu ia enterrá-lo? Temos um lote no cemitério. Não
vou fazer a viagem até lá abaixo outra vez.»
«OK, só queria ter a certeza», disse ele.
Quando ela voltou para o quarto, Tanner tinha ambas as
mãos cravadas nas costas da cadeira. Os seus olhos perse­
guiam-na como os olhos de um cadáver furioso. «Prometeste­
-me que não me enterravas aqui», disse ele. «As tuas promes­
sas não querem dizer nada. As tuas promessas não querem
dizer nada. As tuas promessas não querem dizer nada.» A sua
voz era tão seca que se tomara quase inaudível. Começou a
tremer, as mãos, a cabeça, os pés. «Enterra-me aqui e vai arder
para o Inferno !», gritou ele e voltou a cair no fundo da cadeira.
A filha dignou-se finalmente a prestar-lhe atenção. «Ainda
não morreste !» Deixou escapar um suspiro portentoso. «Ainda tens
muito tempo para te preocupares com o sítio onde vais ser en­
terrado.» Virou-se e começou a apanhar as secções do jornal
espalhadas pelo chão. Tinha cabelos cinzentos que lhe chega­
vam aos ombros e uma face redonda, que começava a dar
sinais de cansaço. «Eu faço tudo o que posso por ti», lamuriou­
-se ela, «e é assim que tu me retribuis.» Enfiou os jornais
debaixo do braço e disse : «E não me chateies com essa con­
versa do inferno. Não acredito nessas coisas. É tudo uma gran­
dessíssima treta Baptista.» Depois foi para a cozinha.
Ele manteve a boca crispada, a parte de cima da dentadura
presa entre os dentes e o céu da boca. Mesmo assim as lágri­
mas começaram a rolar-lhe pelas bochechas ; limpou cada
uma delas furtivamente no ombro.
A voz dela veio da cozinha. «É pior do que aturar uma
criança. Primeiro queria vir, e agora que está cá,quer ir embora.»
Ele nunca quisera vir.
«Fez de conta que não queria vir, mas eu sabia que ele queria.
Eu disse-lhe, se não quiseres vir não posso obrigar-te. Se não qui­
seres viver como uma pessoa decente eu não posso obrigar-te.»
«Quanto a mim», respondeu a si mesma na voz mais aguda,
«não é quando eu morrer que vou pôr-me com manias. Podem
JUÍZO FINAL 2 5 1

enterrar-me n o sítio que ficar mais a jeito. Quando abandonar


este mundo terei respeito e consideração para com os que cá
ficam. Não vou pensar só em mim.»
«Claro que não», disse a outra voz dela. «Mas tu nunca foste
egoísta. Sempre foste o género de pessoa que se preocupa com
as outras.»
«Oh, eu bem tento !», disse ela. «Eu bem tento.»
Ele deixou cair a cabeça nas costas da cadeira por um
momento e o chapéu descaiu-lhe para os olhos. Tinha criado
três rapazes e aquela filha. Os três rapazes tinham partido,
dois levados pela guerra e um levado pelo Demónio, e não
havia ninguém que sentisse obrigações para com ele a não ser
ela, casada e sem filhos em Nova Iorque como uma grande
dama e pronta a levá-lo consigo quando apareceu lá em casa
e o encontrou a viver daquela forma. Tinha enfiado a cabeça
pela porta da cabana e contemplara a cena, sem expressão no
rosto, durante um segundo. Depois, de repente, dera um grito
e saltara para trás.
«0 que é aquilo ali no chão?»
«É o Colemam�, dissera ele.
O preto velho estava enroscado num colchão duro aos pés
da cama de Tanner, uma pele malcheirosa cheia de ossos
organizada no que parecia ser uma forma humana. Quando
Coleman era novo, parecia um urso ; agora que era velho
parecia um macaco. Com Tanner passara-se o contrário : em
novo parecera um macaco, e em velho parecia um urso.
A filha recuou até ao alpendre. Os assentos de duas cadei­
ras de verga estavam fixados ao tecto do telheiro mas ela re­
cusou sentar-se. Afastou-se três metros da casa como se a
distância fosse necessária para se libertar do mau cheiro.
Depois debitara o seu discurso.
«Não tens nenhum orgulho. Sei quais são os meus
deveres e fui educada para cumpri-los. A minha mãe ensi­
nou-mos, ainda que tu nada tenhas feito para isso. Era uma
mulher de famílias simples mas não era do género de dor­
mir com pretos.»
2 5 2 ü 'CONNOR

Nessa altura o preto levantou-se e esgueirou-se para fora


de casa, uma figura cmvada e silenciosa que Tanner mal teve
tempo de ver desaparecer ao longe.
Ela tinha-o envergonhado. Ele gritou de modo a que
ambos pudessem ouvi-lo. «Quem é que tu julgas que cozinha?
Quem é que me corta a lenha para a lareira e me limpa a
retrete? Ele está ligado a mim. Aquele desgraçado que não
prestava para nada esteve nas minhas mãos durante os últi­
mos trinta anos. Não é um mau preto.»
Ela não ficara impressionada. «E de quem é esta cabana,
afinal?», perguntou. «Tua ou dele?»
«Construímo-la juntos os dois», respondeu ele. «Volta para
a tua casa no Norte. Eu não iria contigo nem por um milhão
de dólares, nem por um saco de sal.»
«Sim, parece que vocês construíram esta choça juntos. E de
quem é que é o terreno?»
«De umas pessoas que vivem na Florida», respondeu ele
evasivamente. Sabia que o terreno estava à venda mas calcu­
lara que fosse demasiado desolado para que alguém quisesse
comprá-lo. Nessa mesma tarde descobriu que se enganara.
Descobriu-o a tempo de voltar para Nova Iorque com ela. Se
o tivesse descoberto um dia mais tarde poderia ainda lá estar
agora, na terra do doutor.
Quando viu a figura escura em forma de toninha a atra­
vessar o campo nessa tarde, percebeu imediatamente o que
acontecera ; ninguém precisava de lhe dar explicações. Se
aquele preto fosse dono do mundo inteiro à excepção de um
talhão ressequido de ervilhas e tivesse acabado de adquirir
esse talhão, atravessá-lo-ia daquela forma, empurrando as
espigas selvagens à sua frente, o pescoço espesso inchado, a
barriga transformada num trono para a corrente de ouro e o
relógio de ouro. Dr. Foley. Só era meio preto. O resto era meio
índio, meio branco.
O doutor era tudo para os pretos - droguista e can­
galheiro e conselheiro e especulador imobiliário, e às ve­
zes deitava maus-olhados, outras vezes tirava maus-olhados.
JUÍZO FINAL 2 5 3

Prepara-te, dissera Tanner a s i mesmo, observando-o a apro­


ximar-se para vir reclamar-lhe qualquer coisa, embora fosse
preto. Prepara-te, porque não tens nada que possas usar con­
tra ele a não ser a pele que trazes à volta dos ossos e essa pele
vale tanto como a pele que as cobras deitam fora. Não tens
qualquer hipótese se o Governo se puser contra ti.
Estava sentado no alpendre num bocado de cadeira encos­
tado à cabana. «Boa tarde, Foley», disse ele e acenou com a
cabeça quando o doutor se aproximou e parou na entrada da
clareira, como se o tivesse visto só naquele instante embora
fosse evidente que o vira atravessar o campo.
«Vim aqui deitar uma vista de olhos à minha propriedade»,
disse o doutor. «Boa tarde.» A sua voz era rápida e alta.
Não é a tua propriedade há muito tempo, pensou ele. «Vi­
-te chegar», disse ele.
«Adquiri este talhão recentemente», disse o doutor e sem
olhar para ele tratou de dar uma volta completa à cabana. Daí
a um momento voltou a aparecer e parou à frente dele. Depois
avançou descaradamente para os degraus da cabana e meteu
a cabeça na porta. Coleman estava lá dentro outra vez, outra
vez a dormir. Foley estudou a cena e depois virou-se para
Tanner. «Conheço aquele preto», disse ele. «Coleman. Coleman
Parrum - quanto tempo é que ele precisa de dormir até se
libertar do álcool que vocês fabricam para aqui?»
Tanner agarrou-se aos bordos da cadeira e segurou-os com
força. «Esta cabana não está na tua propriedade. Está só em
cima dela, por engano», disse ele.
O doutor removeu momentaneamente o charuto da boca.
«0 en-ga-no não foi meu», disse ele.
Tanner limitara-se a ficar sentado, olhando em frente.
«Este tipo de en-ga-no não compensa», disse o doutor. «Eu
ainda nunca encontrei nada que compense», resmoneou ele.
«Tudo compensa», disse o preto, «desde que se saiba o que se
está a fazer.» Ficou ali, a sorrir. Olhou para a construção de cima
a baixo. Depois virou-se e foi inspeccionar o outro lado da
cabana. Fez-se silêncio. O doutor estava à procura do alambique.
2 54 ü ' CONNOR

Devia tê-lo abatido naquela altura. Havia uma arma dentro


da cabana e Tanner podia ter despachado o doutor com facili­
dade, mas desde criança que se abstinha desse tipo de violên­
cias porque tinha medo do Inferno. Nunca matara nenhum,
sempre lidara com eles e levara a melhor com esperteza e com
sorte. Era conhecido por ter um jeito especial para lidar com
pretos. Havia uma certa arte para essas lides. O segredo para
lidar com um preto era mostrar-lhe que os seus miolos não
podiam nada contra os dele; depois eles saltavam-lhe para as
costas e ele sabia que tinha ali uma coisa boa para o resto da
vida. Há trinta anos que trazia Coleman às costas.
Tanner vira Coleman pela primeira vez quando estava a
fazer trabalhar seis deles numa serração no meio de um pinhal
a dez quilómetros de parte nenhuma. Era uma equipa desgra­
çada que viera parar-lhe às mãos, do género dos que às segun­
das-feiras nem sequer apareciam. As coisas que andavam no ar
tinham-nos atingido. Pensavam que andava por aí um novo
Lincoln acabado de eleger que ia abolir o trabalho. Punha-os
na ordem com uma navalha afiada. Acontecera-lhe uma coisa
má qualquer ao fígado que lhe fazia tremer as mãos, mas ele
aprendera uns truques de esculpir madeira para não deixar que
esse tremor se notasse. Não tencionava deixá-los perceber que
as mãos lhe tremiam involuntariamente e também não queria
dar ele próprio por isso. A faca movia-se constantemente, vio­
lentamente, nas suas mãos trémulas, e talhava em pedaços de
madeira pequenas figuras rudimentares - nunca olhava para
elas e não poderia ter dito o que é que elas representavam se
olhasse - que depois atirava ao chão. Os pretos iam apanhá­
-las e levavam-nas para casa ; não havia uma grande distância
entre eles e as profundidades mais negras de Africa. A faca bri­
lhava constantemente nas suas mãos. Mais de uma vez parara
de repente e dissera para um preto meio inclinado, meio ador­
mecido : «Preto, esta faca agora está na minha mão mas se não
parares de desperdiçar o teu tempo e o meu em breve estará na
tua barriga.» E o preto começava a levantar-se - devagar, mas
já estava dominado - antes mesmo de ele acabar a frase.
JUÍZO FINAL 2 5 5

Um preto muito grande d e membros bamboleantes, duas


vezes maior do que ele, começara a aparecer na vizinhança da
serração, olhando para os outros, e, quando não estava a
olhar, dormia num sítio onde todos podiam vê-lo, estirado nas
costas largas, como um urso gigantesco. « Quem é aquele?»,
perguntara aos outros. «Se quer trabalhar, diga-lhe que venha
para aqui e que trabalhe. Se não quer, digam-lhe que se ponha
a andar. Não quero preguiçosos por estas bandas.»
Nenhum dos outros sabia quem ele era. Sabiam que ele
não queria trabalhar. Não sabiam mais nada, embora fosse
provavelmente irmão de um deles, primo deles todos. Tinha­
-o ignorado durante um dia inteiro ; contra os outros seis
Tanner era um homem branco ressequido de face amarelada
e de mãos trémulas. Estava disposto a esperar pelos proble­
mas, mas não para sempre. No dia seguinte o desconhecido
voltou a aparecer. Quando os seis que estavam a trabalhar
para Tanner o viram estendido na sombra durante toda a
manhã, interromperam o trabalho uma boa meia hora antes
do tempo e foram sentar-se a comer o almoço. Não se arris­
cara a mandá-los levantar. Fora direito à raiz do problema.
O desconhecido estava encostado a uma árvore no ftm­
do da clareira, observando-o com os olhos meio fechados.
A insolência da sua face mal disfarçava o estupor em que se
encontrava mergulhado. Estava a pensar: este branco não
é assim muito grande, por isso porque é que está a aproxi­
mar-se de mim com estes ares tão importantes, o que será
que ele quer?
Tinha planeado dizer-lhe: «Preto, esta faca agora está na
minha mão mas se não desapareces da minha vista... », mas à
medida que se aproximava começou a mudar de ideias. Os
olhos do preto eram pequenos e raiados de vermelho. Tanner
calculou que ele trazia uma faca consigo e que estaria dis­
posto a usá-la. A sua navalha continuava a mover-se, dirigida
exclusivamente por uma inteligência oculta e intuitiva que lhe
guiava os movimentos das mãos. Não fazia ideia do que
estava a esculpir, mas quando chegou ao pé do preto tinha
2 5 6 ü ' CONNOR

escavado dois círculos perfeitos do tamanho de uma moeda de


meio dólar no pedaço de casca de pinheiro.
O olhar do preto caiu nas suas mãos e ficou preso nelas.
Descontraiu os maxilares. Os seus olhos não se desviavam da
faca, escavando incessantemente os buracos na casca. Olhava
para a faca como se visse um poder invisível a trabalhar na
madeira.
Tanner olhou para o que tinha nas mãos, e, atónito, viu os
aros de um par de óculos.
Espreitou através deles para lá de uma pilha de aparas e
através do bosque para a casota onde guardavam as mulas.
«A tua vista não é assim muito boa, pois não, rapaz?», per­
guntou ele enquanto esgravatava no chão com a ponta da
bota. Encontrou um pedaço de arame e agarrou-o. Depois
encontrou outro pedaço e agarrou-o também. Começou a atar
os dois arames à casca de madeira com os buracos. Não tinha
pressa, agora que sabia o que estava a fazer. Quando os ócu­
los estavam prontos, estendeu-os na direcção do preto.
«Experimenta estes óculos, rapaz», disse ele. «Detesto ver pes­
soas que não têm boa vista.»
Houve um instante em que o preto podia ter feito uma de
duas coisas : podia ter agarrado nos óculos e tê-los esmagado
ou podia ter agarrado na faca e virá-la contra ele. Viu o mo­
mento preciso, nos olhos lamacentos inchados pelo álcool, em
que o prazer de enfiar uma faca na barriga deste homem
branco estava a ser medido contra outra coisa qualquer, não
poderia dizer o quê.
O preto agarrou nos óculos. Passou cuidadosamente os
arames em tomo das orelhas e olhou em frente. Virou-se para
um lado e para o outro com uma solenidade exagerada, e
depois olhou directamente para Tanner e sorriu, ou fez uma
careta, o branco não tinha a certeza, mas teve a sensação
momentânea de estar perante um negativo da sua própria
imagem, como se ser um p alhaço em cativeiro fosse o destino
comum dos dois. A visão desapareceu antes que ele conse­
guisse decifrá-la.
JUÍZO FINAL 2 5 7

«Pregador», disse ele, «O que é que andas a fazer por aqui?»


Agarrou noutro bocado de casca de árvore e começou a escul­
pir outra vez sem olhar para ele. «Hoje não é domingo.»
«Não é domingo?», disse o preto.
«É sexta-feira», disse ele. «Esse é o vosso maior problema,
pregadores - bêbedos toda a semana, nem sequer sabem
quando é que é domingo. O que é que vês com esses óculos?»
«Vej o um homem».
«Que género de homem?»
«Ü homem que fez estes óculos.»
«Ü homem é preto ou é branco?»
«É branco», disse o preto, como se nesse momento a sua
vista tivesse ficado suficientemente clara para dar finalmente
por isso. <<Sim senhor, é branco.»
«Bem, então trata-o como se tratam os brancos», disse
Tanner. «Como é que te chamas?»
«Coleman.»
E nunca mais vivera sem Coleman desde esse dia. A gente
faz deles macacos e eles saltam-nos para as costas e nunca
mais nos abandonam, mas se deixarmos um deles fazer de nós
um macaco depois só nos resta matá-lo ou desaparecer. E ele
não queria ir para o inferno por matar um preto. Atrás da
cabana, ouviu o doutor deitar abaixo um balde. Ficou sentado,
à espera.
O doutor voltou a aparecer, abrindo caminho para o outro
lado da casa, empurrando montículos dispersos de ervas com
a bengala. Parou no meio do terreno, mais ou menos no
mesmo sítio em que, nessa manhã, a filha lhe fizera o seu
ultimato.
«Não tens o direito de estar aqui», começou ele. «Posso
arranjar-te problemas com as autoridades.»
Tanner deixou-se ficar onde estava, imóvel, olhando atra­
vés do campo.
«Onde é que está o teu alambique?», disse o doutor.
uSe há por aqui um alambique, não me pertence», disse ele
e fechou a boca com força.
2 5 8 ü'CONNOR

O preto riu suavemente. «A tua sorte anda por baixo, não


anda?», murmurou ele. «Não tinhas uma propriedadezinha do
outro lado do rio e não a perdeste já não sei porquê?»
Ele tinha continuado a examinar os bosques à sua frente.
«Se queres pôr o teu alambique a render para mim é uma
coisa», disse o doutor. «Se não queres, é melhor começares a
fazer as malas».
«Não tenho que trabalhar para ti», ele. «Ü Governo ainda
não começou a andar por aí a obrigar os brancos a irem tra­
balhar para os pretos.»
O doutor poliu a pedra do anel com o polegar. «Gosto tão
pouco do Governo como tu», disse. «Mas para onde é que que­
res ir? Queres ir para a cidade e alugar uma suite de luxo no
hotel?»
Tanner não disse nada.
«Está a chegar o dia», disse o doutor, «em que os brancos
VÃO trabalhar para os pretos e bem podias ser o primeiro a
começar.»
«Esse dia para mim nunca chegará», disse Tanner seca
mente.
«Para ti já chegoU», disse o doutor. «Para os outros é que
ainda não.11
O olhar de Tanner passou da cordilheira azulada da linha
de árvores mais distante para o céu pálido e sem cor.
«Tenho uma filha no Norte», disse ele. «Não preciso de tra­
balhar para ti.»
O doutor tirou o relógio do bolso do relógio, olhou para ele
e voltou a pô-lo no bolso. Por um momento contemplou as
costas da mão. Parecia ter medido a situação e saber secreta­
mente o tempo exacto que ia passar até tudo estar virado ao
contrário no mundo. «Ela não quer um velho como tu11, disse
ele. «Talvez diga que quer, mas não está a dizer a verdade.
Mesmo que fosses rico», continuou ele, «eles não te queriam.
Eles lá em cima têm as suas ideias próprias. Até os pretos têm
as suas ideias, e até eu não quero nada com elas.» Olhou outra
vez para Tanner. «Volto para a semana», disse ele, «e se ainda
JUÍZO FINAL 2 5 9

aqui estiveres é porque vais trabalhar para mim.» Ficou ali


mais um momento, a balançar-se nos calcanhares, à espera de
uma resposta. Finalmente virou-lhe as costas e começou a
abrir o caminho de regresso batendo com a bengala contra as
ervas demasiado crescidas.
Tanner continuou a olhar através do campo como se o seu
espírito tivesse sido aspirado de dentro dele e levado para a
floresta e não restasse nada do que ele fora na cadeira a não
ser uma casca. Se na altura soubesse que a sua escolha iria
resultar no que resultara - passar o dia sentado olhando pela
janela para um lugar que não existia ou trabalhar num alam­
bique para um preto - teria sido o preto-branco do preto sem
qualquer margem de dúvida. Atrás de si ouviu a filha regres­
sar da cozinha. O seu coração acelerou mas ao fim de um
momento ouviu-a deixar-se cair num sofá. Ainda não estava
pronta para sair. Não se virou para olhar para ela.
Ela deixou-se ficar sentada em silêncio por uns minutos.
Depois começou : «0 teu problema é», disse ela, «que ficas sen­
tado diante dessa janela o dia inteiro num sítio onde não há
nada para olhar. Precisas de inspiração e de coisas que te ocu­
pem a cabeça. Se me deixasses virar a cadeira ao contrário de
maneira a poderes ver televisão deixavas de pensar nessas
coisas mórbidas, no inferno, no Juízo Final. Meu Deus !»
«0 Juízo Final está a chegar», murmurou ele. «As ovelhas
serão separadas das cabras. Aqueles que cumpriram as suas
promessas serão separados dos que não as cumpriram. Os que
honraram o seu pai e a sua mãe serão separados dos que os
amaldiçoaram. Os que ... »
Ela deixou escapar um suspiro gigantesco que quase o afo­
gou. «Para que é que desperdiço o meu latim contigo?», per­
guntou ela. Levantou-se e dirigiu-se para a cozinha e come­
çou a mexer nas coisas e a atirá-las com força.
Era tão orgulhosa e autoritária! Em casa vivera numa
cabana, mas ao menos tivera ar para respirar. Podia pôr os pés
sobre a terra. Aqui ela nem sequer vivia numa casa. Vivia num
prédio que mais parecia um pombal com toda a espécie de
2 60 o'coNNOR

raças de estrangeiros lá dentro, todos eles malcriados e com


pronúncias esquisitas. Não era um lugar onde um homem são
pudesse viver. No primeiro dia depois da sua chegada ela
levara-o a ver a cidade e ele vira como aquilo era em menos
de quinze minutos. Nunca mais voltara a sair do apartamento.
Não quisera voltar a pôr os pés no comboio subterrâneo nem
nas escadas que se moviam sozinhas nem em nenhum eleva­
dor para nenhum trigésimo quarto andar. Quando estava de
regresso à segurança do apartamento começou a imaginar que
o explorava na companhia de Coleman. Certificava-se de que
Coleman vinha sempre atrás de si. Mantém-te cá dentro ou
esta gente deita-te abaixo, mantém-te à direita ou eles hão-de
virar-te para a esquerda, mantém o chapéu na cabeça, grande
idiota, dissera ele, e Coleman viera a correr no seu movimento
desengonçado e dobrado para a frente, ofegante e a res­
mungar entre dentes. O que é que estás aqui a fazer? Que estú­
pida ideia foi esta de vires para este sítio?
Vim aqui para te mostrar que este lugar não presta. Agora
sabes que estavas muito bem onde estavas.
Eu já sabia, dissera Coleman. Tu é que não sabias.
Quando estava na cidade há uma semana, recebera um pos­
tal de Coleman que havia sido escrito por Hooten na estação
de comboio. c<Sou o Coleman - X , como é que estás,
-

patrão?» Por baixo Hooten escrevera por si mesmo : «Deixa-te


de andar a frequentar esses lugares nocturnos e volta mas é
para casa, grande bandido. Um abraço, W. P. Hooten.» Mandara
a Coleman um postal de resposta, que dizia : ccEste lugar é OK
para quem gosta dele. Um abraço, W. T. Tanner.» Como a filha
tinha que pôr o postal no correio, não pudera acrescentar que
tencionava regressar a casa assim que chegasse o primeiro che­
que com a sua pensão de reforma. Não planeara dizer-lhe, mas
apenas deixar-lhe um bilhete. Quando o cheque chegasse,
metia-se num táxi para a estação do comboio e em breve esta­
ria a caminho. E sabia que isso a faria tão feliz como ia fazê­
-lo feliz a ele. A filha achava a sua companhia deprimente e
o seu dever irritante. Se ele fugisse de casa, ela teria o prazer
JUÍZO FINAL 2 6 1

de ao menos ter tentado, e, ainda por cima, o prazer da sua


ingratidão.
Quanto a ele, teria voltado a viver na terra do doutor e pas­
saria a obedecer às ordens de um preto que chupava charutos
de dez cêntimos. E não se preocuparia tanto com a situação
como se teria preocupado antes. Em vez disso tinha sido des­
graçado por um actor preto, ou pelo menos por um preto que
dizia que era actor.
Cada andar do prédio tinha dois apartamentos. Estava a
viver com a filha há três semanas quando as pessoas do buraco
de pombos ao lado se foram embora. Ele ficara parado na
entrada a observar as mudanças dos que partiam, e na manhã
seguinte observara as mudanças dos novos inquilinos. O corre­
dor era estreito e escuro e ele deixou-se ficar num canto fora do
caminho, oferecendo conselhos que teriam tomado as mano­
bras muito mais simples se alguém lhe tivesse prestado atenção.
A mobília era barata e de fabrico recente e ele decidiu que os
novos inquilinos eram recém-casados e que ia deixar-se ficar
por ali até eles chegarem para lhes dar as boas-vindas e lhes
desejar boa sorte. Depois de algum tempo um preto grande com
um fato azul ligeiro começou a aparecer ao fundo das escadas,
carregando duas malas de lona, com a cabeça baixa para o
auxiliar no esforço. Atrás dele vinha uma mulher jovem e
morena com o cabelo brilhante e cor de cobre. O preto deixou
cair as malas com estrondo diante da porta do apartamento.
«Tem cuidado, queridinho», disse a mulher. «A minha
maquilhagem está toda nessas malas.»
Tanner ficou siderado com o que estava a acontecer
mesmo à frente dos seus olhos.
O preto estava a rir com os dentes à mostra. Deu uma pal­
mada numa das nádegas dela.
«Pára com isso», disse a mulher. «Está ali um velho a olhar
para nós.»
Viraram-se os dois e olharam para ele.
«Como estão?», disse ele e acenou com a cabeça. Depois
entrou rapidamente para dentro da sua própria porta.
2 6 2 o ' coNNOR

A filha estava na cozinha. «Quem é que julgas que alugou


o apartamento aqui ao lado?», perguntou ele com a face toda
a brilhar de excitação.
Ela olhou para ele com um prenúncio de suspeita. «Quem?»,
resmoneou.
«Um preto !», disse ele numa voz agitada. «Um preto da
Alabama do Sul em carne e osso ! E arranjou uma mulher de pele
clara e de cabelo encarnado e agora vão os dois viver no apar­
tamento ao lado do teu !» Deu uma palmada no joelho. «Sim
senhor!», disse ele. «São pretos sim senhor!» Era a primeira vez
desde que chegara à cidade que tinha uma oportunidade para rir.
A face dela tomou-se imediatamente rígida. «Muito bem,
agora ouve o que eu te digo», disse ela. «Mantém-te afastado
deles. Não te ponhas a ir até lá a casa e tentar fazer amizade
com eles. Eles aqui não são como os nossos e eu não quero
problemas com pretos, percebeste? Se temos que viver ao
lado deles limitamo-nos a tratar da nossa vida e eles tratam
da vida deles. É a maneira como as pessoas se entendem no
mundo. Toda a gente pode entender-se se cada um se meter
na sua vida. Viver e deixar viver.» Começou a franzir o nariz
como um coelho, um hábito estúpido que ela tinha. «Aqui no
Norte toda a gente se mete só na sua vida e toda a gente se
entende. E tu terás que fazer o mesmo.»
«Eu já me entendia com pretos antes de tu nasceres», disse ele.
Voltou para o corredor e ficou à espera. Podia apostar que o preto
estava ansioso por conversar com alguém que pudesse entendê­
-lo. Duas vezes, enquanto estava à espera, a sua excitação fê-lo
esquecer as regras do prédio e cuspiu tabaco contra o rodapé. Daí
a vinte minutos, a porta do apartamento voltou a abrir-se e o
preto apareceu na porta. Tinha posto uma gravata e uns óculos
de aros de plástico e pela primeira vez Tanner notou que ele tinha
uma pêra, muito pequenina. Um preto todo aperaltado. Saiu de
casa sem parecer notar que estava outra pessoa no corredor.
«Olá, Johnny !», disse Tanner e acenou com a cabeça, mas
o preto passou por ele sem o ouvir e começou a descer as
escadas rapidamente.
JUÍZO FINAL 2 6 3

Talvez seja surdo e estúpido, pensou Tanner. Voltou para


dentro do apartamento e sentou-se mas de cada vez que ouvia
um ruído no corredor levantava-se e ia a correr enfiar a
cabeça na porta, a ver se seria o preto. Uma vez, a meio da
tarde, conseguiu que o preto o visse pelo canto do olho
quando ia outra vez a dar a volta nas escadas mas antes que
ele conseguisse dizer uma única palavra o homem já estava
dentro do apartamento e tinha batido a porta com força.
Nunca vira um preto mexer-se tão depressa a menos que a
polícia viesse atrás dele.
Estava de pé no corredor bem cedo na manhã seguinte
quando a mulher saiu sozinha, empoleirada em saltos altos
pintados de doirado. Desej ava dar-lhe os bons-dias ou pelo
menos acenar amigavelmente mas o seu instinto aconselhou­
-lhe prudência. Não se parecia com nenhum género de
mulher, preta ou branca, que ele tivesse visto antes ; e man­
teve-se encostado à parede, mais assustado que outra coisa,
tentando tomar-se invisível.
A mulher olhou-o sem simpatia, e depois virou a cabeça
para o outro lado e passou por ele mantendo entre ambos a
maior distância possível, como se estivesse a passar por um
caixote do lixo aberto. Ele susteve a respiração até ela ter
desaparecido. A seguir esperou pacientemente pelo homem.
O preto saiu por volta das oito.
Desta vez Tanner avançou declaradamente na sua direcção.
«Bom dia, Pregador», disse ele. A sua experiência era que sem­
pre que um preto estava com uma expressão sombria este
título bastava para o pôr bem-disposto.
O preto parou abruptamente.
«Eu vi-te mudares-te aqui para o lado», disse Tanner.
«Também não estou aqui há muito tempo. Não é assim um
grande sítio, se queres que te diga. Aposto que gostavas de
estar outra vez no Alabama do Sul.»
O preto não deu um passo nem lhe respondeu. Os seus
olhos começaram a mover-se. Moveram-se do topo do chapéu
preto, desceram até à camisa azul sem colarinho abotoada até
2 64 ü 'CONNOR

ao pescoço, desceram até aos suspensórios desbotados e até às


calças cinzentas e aos sapatos de cano alto e depois voltaram
a mover-se para cima, muito devagar, enquanto uma raiva fria
e inimaginável parecia torná-lo mais rigido e mais pequeno.
«Pensei que talvez soubesses de algum lugar perto daqui
onde a gente pudesse encontrar uma lagoa, Pregador», disse
Tanner, com uma voz mais fina mas ainda consideravelmente
repassada de esperança.
Um barulho gutural e profundo veio de dentro do preto
antes de ele falar. «Eu não sou do Alabama do Sul», disse ele
quase sem fôlego. «Sou de Nova Iorque. E não sou nenhum
pregador! Sou um actor!»
Tanner soltou uma gargalhada curta e discreta. «Todos os
pregadores têm qualquer coisa de actor, não é?», disse ele e
piscou o olho. «Aposto que fazes um bocado de pregação nas
horas vagas.»
<<Eu não prego !», gritou o preto e passou por ele como se
uma colmeia inteira o tivesse atacado de repente, vinda de
parte nenhuma. Atirou-se para as escadas e desapareceu.
Tanner ficou ali parado durante um momento e depois vol­
tou para o apartamento. Durante o resto do dia sentou-se na
sua cadeira e reflectiu sobre se havia ou não de dar ao preto
mais uma oportunidade de fazer amizade com ele. De cada vez
que ouvia um ruído ia até à porta e olhava para fora, mas o
preto só voltou ao fim da tarde. Tanner estava de pé no cor­
redor à sua espera quando ele chegou ao cimo dos degraus.
«Boa tarde, Pregador», disse ele, esquecendo-se de que o preto
dissera que era actor.
O preto parou e agarrou-se ao corrimão. Um tremor sacu­
diu-lhe o corpo da cabeça às ancas. Começou a avançar deva­
gar. Quando estava suficientemente perto inclinou-se e agar­
rou Tanner pelos ombros. «Não vou tolerar mais sacanices»,
sussurrou ele, «de um filho da puta de um velho racista do Sul
de chapéu preto como tu.» Recuperou o fôlego. E depois a sua
voz soou com uma exasperação tão profunda que era quase
uma gargalhada. «E não sou nenhum pregador! Nem sequer
JUÍZO FINAL 2 6 5

sou cristão ! Não acredito nessas tretas. Não há nenhum Jesus


e não há nenhum Deus.»
O velho sentiu o coração dentro dele endurecer e encar­
quilhar-se como um nó de madeira num carvalho antigo. «E
tu não és preto», disse ele, «e eu não sou branco !»
O preto atirou-o contra a parede. Puxou-lhe o chapéu até
aos olhos. Depois agarrou-lhe a frente da camisa empurrou-o
de costas contra a porta aberta e atirou-o para dentro do apar­
tamento com toda a força. Da cozinha, a filha viu-o atingir a
parede às cegas e cair desamparado no chão da sala.
Durante vários dias a sua língua parecia ter-lhe gelado
dentro da boca. Quando descongelou estava do dobro do
tamanho e ele não conseguia fazer-se entender. Queria per­
guntar à filha se o cheque da pensão já chegara porque ten­
cionava comprar um bilhete de camioneta e voltar para casa.
Ao fim de alguns dias, conseguiu que ela percebesse. «Ü che­
que já chegou», disse ela, «e é à justa para pagar as primeiras
duas semanas do médico, e fazes o favor de me dizer como é
que vais para casa se não consegues falar nem andar nem
pensar com clareza e um dos teus olhos ainda está vesgo?
Fazes o favor de me dizer?»
Só nessa altura é que ele se apercebeu da gravidade da
situação em que se encontrava. Pelo menos tinha que fazê-la
compreender que depois de morto devia ser mandado para
casa para ser enterrado lá. Teriam que mandá-lo num vagão
refrigerado de forma a que ele não começasse a apodrecer
durante a viagem. Não queria um cangalheiro do Norte a
mexer nos seus ossos. Chegaria a casa no comboio da manhã
e podiam mandar um telegrama a Hooten para ir chamar
Coleman e Coleman trataria do resto ; ela nem precisaria de ir
com ele. Depois de uma grande discussão, conseguira arran­
car-lhe a promessa. Ela mandá-lo-ia para casa.
Depois disso Tanner dormiu em paz e a sua saúde me­
lhorou ligeiramente. Nos seus sonhos conseguia sentir o ar
fresco da manhã penetrar nas frinchas do caixão de pinho.
Podia ver Coleman à espera, de olhos vermelhos na plata-
2 6 6 o ' coNNOR

forma da estação, e Hooten parado ao seu lado com a sua pala


verde sobre os olhos e as suas mangas-de-alpaca pretas. Se o
velho tonto tivesse ficado em casa, no lugar onde nasceu,
Hooten estaria a pensar, não chegaria agora às seis e meia da
manhã dentro de uma caixa. Coleman tinha posicionado cui­
dadosamente a mula e a carroça emprestadas de forma a
poderem fazer deslizar o caixão directamente do comboio
para dentro da carroça. Estava tudo pronto, e os dois homens,
em silêncio, principiavam a transferir o caixão para dentro da
carroça. Nessa altura Tanner começaria a esgravatar a madeira
do lado de dentro. Eles dariam um salto como se lhes tivesse
chegado o fogo.
Ficavam parados a olhar um para o outro, e depois para a
caixa.
« É ele», dizia Coleman. «Está lá dentro, ele mesmo !» «Ná»,
dizia Hooten.
«Deve ter sido um rato que entrou lá para dentro.»
1& ele. É um dos truques dele.»
«Se é uma ratazana é melhor ficar onde está.»
« É ele ! Vai buscar uma barra de ferro !»
Hooten ia buscar a barra de ferro a resmungar, voltava e
começava a tentar levantar a tampa. Coleman saltava para
cima e para baixo, soprando e ofegando de excitação. Tanner
atirava-se para cima e punha-se em pé com os braços aber­
tos dentro do caixão. «Juízo Final ! Juízo Final !», gritava ele.
«Vocês, seus idiotas, não sabem que hoje é o dia do Juízo
Final?»
Agora ele sabia exactamente quanto valiam as promessas
dela. Mais valia confiar o bilhete pregado ao seu bolso nas
mãos de qualquer desconhecido que o encontrasse morto na
rua ou no vagão de carga ou fosse onde fosse. Ela só pensava
em fazer as coisas à sua maneira. Voltou a sair da cozinha tra­
zendo consigo o chapéu e as luvas e as botas de borracha.
«Agora ouve», disse ela. «Tenho que ir ao supermercado. Não
tentes levantar-te e começar a andar enquanto eu não estou
aqui. Não quero encontrar-te caído no chão quando voltar.»
JUÍZO FINAL 2 6 7

J á não m e encontras aqui quando voltares, pensou ele.


Esta era a última vez em que ele via a sua face estúpida e qua­
drada. Sentiu-se culpado. Ela fora boa para ele e ele reconhe­
cia haver sido apenas uma fonte de problemas.
«Queres um copo de leite antes de eu ir?», perguntou ela.
«Não», disse ele. Depois reuniu todo o seu fôlego para dizer:
«Tens aqui uma casa muito bonita. É uma parte bonita do país.
Desculpa se te dei tanto trabalho com esta doença. A culpa foi
minha, por ter tentado ser amigo daquele preto.» E além disso sou
um grandessíssimo mentiroso, pensou ele para liquidar o sabor
insuportável que aquela última frase lhe fizera subir à boca.
Por um momento ela encarou-o como se ele tivesse per­
dido a cabeça. Depois pareceu reconsiderar. «Vês, não te sen­
tes um bocadinho melhor depois de dizeres uma coisa simpá­
tica?», perguntou ela e sentou-se no sofá.
Os joelhos dele estavam impacientes por se desdobrarem.
Vá lá, vá lá, pensava ele quase a fumegar, despacha-te e põe­
-te a andar.
« É muito bom ter-te aqui», disse ela. «Não quereria que
estivesses em nenhum outro sítio. O meu paizinho !» Fez-lhe
um grande sorriso, esticou a perna direita e começou a enfiar
a bota. «Não desejaria nem ao meu pior inimigo ter que sair à
rua num dia destes», disse ela. «Mas tenho que ir. Podes ficar
aqui a rezar para que eu não escorregue e parta o pescoço.»
Bateu com o pé que tinha a bota enfiada contra o chão e
começou a enfiar a outra bota.
Ele virou os olhos para a janela. A neve estava a começar
a gelar contra o vidro do lado de fora. Quando voltou a olhar
para ela viu-a de pé à sua frente como uma grande boneca de
trapos com o seu casaco e o seu chapéu. Enfiou um par de
luvas verdes de lã. «ÜK», disse ela. «Vou-me embora. Tens a
certeza de que não precisas de nada?»
«Não», disse ele. «Vai lá à tua vida.»
«Então até já», disse ela.
Ele levantou o chapéu apenas o suficiente para revelar
uma nesga da cabeça careca salpicada por manchas escuras.
2 6 8 ü 'CONNOR

A porta para o corredor fechou-se atrás dela. Ele começou a


tremer de excitação. Procurou atrás de si e puxou o casaco
para o colo. Quando conseguiu acabar de vesti-lo, esperou até
parar de ofegar e depois agarrou os braços da cadeira e puxou
o corpo para cima. O corpo parecia um sino enorme cujo
badalo se movia de um lado para o outro sem fazer ruído.
Uma vez levantado, manteve-se no mesmo sítio por um mo­
mento, balançando até conseguir recuperar o equilíbrio. Uma
sensação de terror e de derrota apoderou-se dele. Nunca con­
seguiria chegar a casa. Nunca chegaria lá, nem morto nem
vivo. Empurrou um pé para a frente e não caiu, e recuperou a
confiança. «Ü Senhor é meu paston>, murmurou ele. «Nada me
há-de faltar.» Começou a mover-se em direcção ao sofá, onde
teria algum apoio. Alcançou-o. Estava a caminho.
Na altura em que chegasse à porta já ela devia ter descido
os quatro lances de degraus e passado a porta do prédio.
Contornou o sofá e arrastou-se ao longo da parede, mantendo
um braço apoiado para lhe sustentar o corpo. Ninguém have­
ria de o enterrar aqui. Sentia tanta confiança como se os bos­
ques da Georgia estivessem a esperá-lo à entrada. Alcançou a
porta do apartamento, abriu-a e espiou o corredor. Era a pri­
meira vez que olhava para o corredor desde que o actor o ati­
rara ao chão. Cheirava a mofo e estava vazio. Uma tira estreita
de linóleo estendia-se até à porta contígua, bolorenta e com­
prida. A outra porta estava fechada. «Actor preto», disse ele.
O princípio das escadas estava a três metros de distância e
ele concentrou-se em chegar lá sem perder o apoio da parede.
Ia a meio do caminho quando as suas pernas desapareceram
de repente, ou pelo menos ele sentiu que elas tinham desapa­
recido. Olhou para baixo desorientado, e viu que as pernas
continuavam no sítio. Atirou-se para a frente e agarrou o cor­
rimão com ambas as mãos. Assim apoiado, olhou durante
aquilo que lhe pareceu ser o tempo mais longo da sua vida
para os degraus estreitos e inclinados que se estendiam à sua
frente numa semiobscuridade ameaçadora ; depois fechou os
olhos e me }gulhou. Aterrou de costas no patamar seguinte.
JUÍZO FINAL 2 69

Sentiu o caixão estremecer enquanto o tiravam do vagão


e o passavam para a carroça. Não fez barulho. Ainda não.
O comboio deu um esticão e recomeçou a andar. Sentiu o cai­
xão a ser puxado para a plataforma da estação. Ouviu passos
a aproximarem-se cada vez mais, como se uma pequena mul­
tidão estivesse a reunir-se à sua volta. Esperem só até eles
verem isto, pensou.
«É ele», disse Coleman. «É um dos seus truques.»
«É uma maldita ratazana», disse Hooten.
«É ele. Vai buscar a barra de ferro.»
Sentiu uma luz esverdeada começar a penetrar o caixão.
Empurrou a tampa para cima e gritou em voz fraca: «Juízo
Final ! Juízo Final ! Vocês, seus idiotas, não sabiam que hoje é
o dia do Juízo Final?»
«Coleman?», murmurou.
O preto inclinado sobre ele tinha uma boca crispada num
esgar de má-disposição e olhos sombrios.
«Não há aqui nenhum carvoeiro [14l.11
Esta deve ser a estação errada, pensou Tanner. Estes parvos
tiraram-me do comboio cedo de mais. Quem é este preto?
Ainda nem sequer há luz do dia neste sítio.
Ao lado da cara do preto havia outra cara, uma cara de mu­
lher - pálida, encimada por cabelos cor de cobre todo a brilhar.
«Oh !», disse Tanner. «São vocês.»
O actor inclinou-se mais para a frente e agarrou-o pela
camisa. «Juízo Final !», disse ele numa voz trocista. «Não há
nenhum Juízo Final, velho. Só que talvez o Juízo Final tenha
chegado para ti.»
Tanner tentou agarrar o corrimão para se pôr em pé mas a
sua mão fechou-se no ar. As duas caras, a preta e a mais
pálida, pareciam estar a esfumar-se. Com um esforço enorme
conseguiu mantê-las focadas enquanto levantava a mão, tão
leve como um sopro, e dizia na sua voz mais mundana : «Dá­
-me uma ajudinha, Pregador. Vou a caminho de casa.»

[ 1 4] Jogo de linguagem entre o apelido Coleman e coai man, carvoeiro. (N. da T.)
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A filha encontrou-o quando voltou do supermercado. O cha­


péu tapava-lhe a cara e as pernas e os braços estavam enro­
lados à volta do corrimão ; os seus pés balançavam sobre os
degraus como os pés de um enforcado. Ela abanou-o freneti­
camente e depois foi a correr chamar a polícia. Cortaram-no
com uma serra e disseram que ele já estava morto há pelo
menos uma hora.
Ela enterrou-o em Nova Iorque, mas depois de o ter feito
não conseguia dormir. Noite após noite virava-se e revirava­
-se na cama e a sua face começou a ficar marcada por traços
muito profundos, por isso mandou desenterrar o caixão e des­
pachou o corpo para Corinth num vagão refrigerado. A partir
daí passou a dormir tranquilamente e as suas feições rejuve­
nesceram de novo.