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Sinopse

Príncipe sem valor

Brishen Khaskem, príncipe de Kai, viveu como o herdeiro


substituto na linha sucessória de um trono já predestinado a outro. Um
acordo e uma aliança política entre o reino humano de Gaur e o reino
de Kai-Nast Haradis requer que se case com mulher Gauri para selar o
tratado. Sempre foi um filho obediente, então Brishen concorda com
o casamento e descobre que sua noiva não é tão feia como esperava e
mais linda do que teria imaginado.

A nobre sem importância

Ildiko, sobrinha do Rei Gauri, sempre soube que seu valor para a
família real era uma união estratégica. Resignada com seu destino, se
horroriza ao saber que o noivo não é apenas um aristocrata estrangeiro,
mas o príncipe mais jovem de um povoado pouco familiar e nem
humano. Unindo seu destino com seu marido, Ildiko deixará para trás
tudo o que conhece para abraçar um homem envolto em escuridão,
mas com uma alma forjada pela luz.

Duas pessoas unidas pelos laços da obrigação e da política que


irão descobrir estarem destinados um ao outro, assim como os poderes
de um reino hostil que querem separá-los.
Capitulo Um

Hoje era o dia do casamento de Ildiko e se conseguisse não vomitar sobre


si mesma ou um convidado, consideraria todo o evento um êxito enorme.

Suas criadas se negavam a encontrar seus olhos enquanto amarravam o


vestido e arrumavam as dobras perfeitamente, mas ela podia ver em seus olhos
a piedade e o horror pelo canto do olho. Ildiko disse a si mesma para ignorá-las.
Os casamentos arranjados eram o destino de quase todas as mulheres
aristocratas Gauri, cada um por poder, pelo dinheiro e pelo bem do país. Sua
Majestade, Sangur, O Manco, casou suas duas filhas com príncipes de países
estrangeiros como parte de negociações para acesso aos portos e aliados na
guerra. A sobrinha do Rei Gauri não era uma exceção ao protocolo e Ildiko
sempre esperou um destino similar. A única pergunta era quando – e não se –
aconteceria.

Mas nunca esperei o príncipe de Kai.

O pensamento passou por sua mente. A saliva inundou sua boca quando
náusea subiu por seu estomago e ameaçava chegar à garganta. Ildiko fechou os
olhos e balançou sobre seus pés no banco que estava. Uma mão segurou sua
perna para estabilizá-la e abriu os olhos para olhar a costureira real.

As linhas de preocupação enrugavam os cantos dos olhos da mulher. Ela


cuspiu os alfinetes entre os lábios na mão livre. — Está bem, minha senhora?

Ildiko assentiu. Ela não envergonharia a si mesma ou o Tribunal de Gauri


desmaiando diante dos convidados de Kai. Respirou fundo para acalmar seu
medo. O tempo para lágrimas e a doença passou. Entregou seu terror
anteriormente na intimidade de seu quarto. Poderia estar trêmula, mas continua
com sua dignidade.
Seu futuro esposo enfrentava o mesmo destino. Com o dom do privilégio
vinha a carga da expectativa. Como filho mais novo do Rei Kai, seu dever era
se casar de uma forma beneficiaria para seu povo. Iria se reunir com Ildiko pela
primeira vez, já que se conheceram diante de uma multidão de bispos e se
comprometeram em casamento.

Um fio de suor frio deslizou por suas costas sob o tecido. Como sua
mulher, teria que dormir com ele. Ninguém ouviu falar de filhos nascidos vivos
de um Kai e uma companheira humana, mas isto não importava. Um casamento
consumado funcionava como o selo de sangue em um contrato, ainda que ela
nunca lhe desse filhos. Se Sangur, O Manco não acreditasse que poderia ofender
sua futura família política, ele insistiria em um contingente de testemunhas na
câmara nupcial para verificar a consumação e assegurar que a aliança forjada
pelo casamento fosse completa. No entanto, os Kai não eram humanos, sua
cultura era diferente e em sua maioria desconhecidos aos que estavam além das
fronteiras. Ildiko agradecia seu mistério, o que impediu tal humilhação pública.

A costureira real puxou umas quantas vezes mais em seu vestido, deu
algumas ordens a suas costureiras assistentes para recolher os alfinetes, fios e
agulhas. Ela ajudou Ildiko a descer do banco. — Venha ao espelho e veja, minha
senhora. Está linda.

Ildiko a seguiu até o espelho de corpo inteiro de pé no canto do quarto.


O pálido reflexo olhando para ela não fez nada para animá-la e por um momento
lhe pareceu que fosse uma estranha.

O vestido era uma criação magistral de seda bordada com bronze que
abraçava seus seios, quadris e coxas antes de fluir para fora como uma saia e
uma cauda. O tecido seguia uma linha nos ombros, mas deixava seu pescoço ao
descoberto, as mangas largas terminaram em pontos além das mãos. Seu cabelo
estava penteado em um estilo complexo de tranças juntas e fixadas por
prendedores com pedras preciosas. Usava joias de uma mulher de alta sociedade
e uma grande riqueza.
Ela franziu o cenho ante a imagem. — Que desperdício.

Atrás dela, a costureira empalideceu. — Não gosta do vestido, minha


senhora?

Ildiko assegurou a mulher que ela achava o vestido perfeito. — No


entanto, acho que tudo isso não chamará a atenção de meu noivo ou todos os
Kai.

Os lábios da outra mulher se curvou em desgosto. — Bastardos feios.


Todos eles. O que sabem sobre beleza? — Ela percebeu o insulto em sua
observação. — Tenho certeza que seu noivo será diferente e irá apreciar o
adorável que é.

A probabilidade de que isto acontecesse era pequena. Se ela se casasse com


alguém que não fosse um Kai, a costureira poderia ter razão. Apenas esperava
que ela e seu noivo conseguissem não sair correndo em direções opostas quando
se olhassem pela primeira vez.

Ela pediu uma hora de privacidade antes de ter que se apresentar na corte
e enviou o grupo de costureiras e criadas para fora do quarto. O cheiro das flores
da primavera dos jardins se filtrava pela janela aberta do quarto, atraindo-a.

Ildiko se sentiria falta de muito pouca coisa quando fosse embora com seu
novo esposo. Ela era a sobrinha do Rei, uma criança órfã de sua irmã mais nova.
Seu lugar na família assegurava uma casa senhorial, refeições frequentes e roupa
fina. Não assegurava nada mais e não havia amor entre ela e seus parentes vivos.
Este casamento não poderia lhe oferecer nada diferente, salvo uma mudança em
seu lugar na hierarquia dos Tribunais. Ao se casar com o príncipe, se converteria
em duquesa, uma hercegesé Kai.

A janela dava a uma vista panorâmica dos jardins com grama verde
ondulada, monumentos fantasiosos e as bordas coloridas das flores. Ela se
perderia nos jardins. Foram seu santuário ao longo dos anos, uma escapatória
da perseguição de seus primos e um meio para aliviar sua solidão.
Se a família real Kai tivesse jardins, Ildiko suspeitava que não eram nada
como estes. Imaginou todo tipo de estranhas e macabras plantas contorcidas à
medida que cresciam fora do chão sob a exótica luz da lua e florescendo com
flores ameaçadoras com dentes que ocultavam em suas pétalas. Ninguém
poderia caminhar entre elas sem armadura. Estremeceu.

Seus pensamentos a levou fora do quarto e por alguns degraus da escada


a um corredor que conduzia aos jardins. O sol quente acariciou seus ombros.
Ildiko levantou o rosto à luz e respirou profundamente a madressilva e o jasmim.
A costureira daria um ataque quando percebesse que arruinou a barra de sua
criação, mas a ideia de viajar pelas profundezas de seu lugar favorito em toda
Gaur não deixava Ildiko. Além disso, ninguém no casamento olharia sua barra.
Estariam muito ocupados olhando com horror, para o noivo ou a noiva.

Enquanto caminhava tranquilamente ao longo do sinuoso caminho até o


lago borbulhante com grandes peixes coloridos, tão mansos como cães,
rodeados por dedaleiras1 venenosas de todas as cores e tonalidades, cachos
alaranjados cobertos por uma tela e rodeados de colibris, salgueiros abraçavam
a margem dos tanques maiores, criando dosséis de sombra verde cheias de
samambaias e pulmonárias22 com folhas prateadas. Ildiko passou muitas horas
silenciosas quando criança ali, escondida atrás da cortina de salgueiros, lendo
um livro roubado à luz que passava entre os galhos.

Troncos majestosos salpicavam a paisagem, seus grandes galhos com


grossas folhas. Seguiu seu caminho a um deste gigantes. Ela não visitava esta
parte do jardim com frequência. As rosas da Rainha cresciam ali e Ildiko evitava
os lugares favoritos da Rainha. Sentia segura o suficiente para visitar hoje.
Fantine estava muito ocupada bancando a anfitriã para seus convidados ou

1. Conhecidas também como campainhas.

2. Planta medicinal que surge na primavera e precisa de sombra para se desenvolver e produz flores de diversas cores, desde
vermelho a azul.
contanto o tesouro que trouxeram como presentes para a noiva. Ildiko podia
admirar as centenas de rosas em grupos e linhas solitárias.

Ou era isto o que pensava. Deu a volta em um canto e parou. Uma figura
envolta em um capuz negro, permanecia imóvel junto a uma densa roseira
espinhosa cor de sangue. Virou-se ante o som dos passos de Ildiko. Ela respirou
fundo. Um par de olhos de cor rósea, sem pupilas ou íris, o olhar profundamente
nas sombras das dedaleiras. Uma mão fina de pele cinza como de um cadáver e
com unhas escuras, levantou-se em sinal de saudação silencioso. Ildiko se
equilibrou nas pontas dos pés, a ponto de fugir. Se ela não soubesse melhor,
acreditaria que tropeçou com um demônio no meio das rosas. Ele não era um
demônio apesar da aparência – era um dos Kai. E seria uma grosseria ela sair
correndo de um futuro parente por casamento.
Capitulo Dois

Brishen se preparou para um grito de sua visitante inesperada ou se tivesse


sorte, um grito silencioso e uma corrida louca através das folhas para escapar
dele. A mulher Gauri apenas ficou olhando-o com os olhos abertos com seu
estranho olhar e não fez nada. Era evidente que a surpreendeu com sua presença
no jardim. Ela se afastou quando ele levantou a mão em sinal de saudação,
cauteloso, mas ela não saiu correndo.

— Perdoe-me, senhora. — Disse em voz baixa. — Não foi minha


intenção assustá-la.

A maioria dos Kai que foi presenciar o casamento e acompanhar a noiva


e o noivo em sua viagem de volta para Haradis, viajou para Pricid, a capital do
Reino Gauri, quinze dias antes. Tiveram tempo para se adaptar as aparências
dos Gauri. Brishen e sua escolta pessoal chegaram no dia anterior. Ainda que
ele e alguns de sua tropa tiveram que lidar com os seres humanos Beladine,
vizinhos de fronteiras, não pensou ter visto tanta gente de aspecto repelente em
um só lugar.

Graças aos deuses que usava um capuz para esconder sua expressão, do
contrário, inadvertidamente poderia insultar sua companheira não desejada. Era
jovem, muito mais do que poderia esperar. Para um ser humano Gauri ela
poderia ser bela ou banal, no qual ela se encaixava. Seu lábio superior se curvou
com desgosto ante a visão de sua pele. Pálida com matizes rosa, lhe lembrava a
carne de um molusco amargo Kai, fervido para ser usado de corante. Tinha o
cabelo vermelho à luz do sol e tão diferente em comparação com as mulheres
Kai com seus cabelos prateados.

Seus olhos era o mais incomodava. Diferente dos Kai, os seus eram de um
branco opaco, com azul no centro em forma de esfera com alguns pontos cinza
e negro que se ampliava ou reduzia de acordo com a luz. A primeira vez que
presenciou esta reação em um ser humano, todos os pelos de sua nuca se
arrepiaram. Isto e a forma como as cores contrastavam faziam com que fosse
fácil ver os olhos se movendo nas órbitas, dando a impressão de não fazerem
parte do corpo, mas como se fossem entidades que viviam como parasitas
dentro dos crânios de seus anfitriões.

Ele estava acostumado a ver os frenéticos olhos brancos de um cavalo


assustado, mas não em uma pessoa. Se a impressão de um parasita não lhe
repelisse tanto, pensaria que os humanos viviam em um constante estado de
terror histérico.

A mulher cruzou os braços finos. Apesar da pele e os olhos estranhos e


grotescos, tinha um corpo bonito e traços faciais medianos. Brishen começou a
se inclinar, com vontade sair desta situação incomoda.

— O que acha dos jardins reais?

A pergunta o fez parar. Tinha uma voz agradável, mesmo em um tom


baixo, era rouca. Brishen inclinou a cabeça e a observou um momento antes de
falar. Perdeu o aspecto de lebre assustada e quando ainda tinha dificuldades para
ler corretamente as emoções mais sutis nos rostos humanos, podia dizer que o
observava com curiosidade em lugar de medo.

Ela lhe perguntar o que achava da armadura de Sangur, poderia ser mais
eloquente. Encolheu os ombros. — Há plantas, flores e árvores. — Parou e lhe
ofereceu um sorriso, o qual não podia ver dentro de seu capuz. — E muito sol.

Ela lhe indicou que a seguisse. Hesitou antes de dar um passo de lado, até
que o levou a um banco de concreto sob as sombras de uma árvore grossa.
Sentou-se e indicou que ele fizesse o mesmo. Foi a vez de Brishen se
sobressaltar. Durante seu curto período de tempo em Pricid, seus anfitriões
Gauri foram civis, serviçais e quase servilmente educados. Nunca forma
amáveis. Tanto afeto nesta mulher o surpreendeu. Sentou-se, agradecido pelo
alivio do brilhante do verão.
Ela se virou para ele, seu olhar parasita observando cada parte dele, dos
pés calçados com botas até as mãos apoiadas nos joelhos e depois para os olhos
que brilhavam na sombra do capuz. — A luz do sol realmente incomoda seus
olhos?

Ele piscou. Esperava que lhe perguntasse seu nome e oferecesse o seu. Ele
gostou que ela não o fizesse. Este breve anonimato oferecia um certo descanso
da formalidade. Era um príncipe de sangue e a Gauri de pés leves com certeza
era da realeza. — Somos um povo da noite. Enxergamos melhor na escuridão.
A lua é o sol para nós, vivemos longe da luz.

— No entanto, caminha por nossos jardins no meio da tarde.

Brishen riu. — Uma garantia de que nenhum outro Kai está por perto.

Suas feições sérias se relaxaram em um amplo sorriso. Ela tinha os dentes


de um pequeno cavalo – brancos e quadrados, com exceção de dois caninos
patéticos. Viu crianças Kai com dentes de leite maiores. Ele tentou se concentrar
em suas palavras.

— Tampouco um Gauri. A casa real está muito ocupada neste momento


com seus convidados e o casamento.

A forma como disse casamento – da mesma forma como alguém diz execução
ou sessão de tortura – o fez querer rir. Não tinha nenhuma dúvida de que
pronunciou a mesma palavra com o mesmo tom recentemente.

Era um desafio a considerar isto sem piscar, mas gostou muito de seu
humor irônico. Até agora, se preguntou se a maioria dos Gauri apenas eram
capazes de falar em frases monossilábicas. Seus parentes que chegaram antes
dele, também tinham poucas boas a dizer sobre eles, encontraram falhas em
tudo, desde sua forma de se vestir à suas preferências alimentares. Brishen não
tinha expectativas sobre sua noiva, mas esperava que pudesse possuir um pouco
da atitude agradável que está mulher exibia.
Soltou um suspiro exagerado. — Um assunto tedioso de Estado que ainda
tenho que assistir. Gauri e Kai se perguntando quem iria comer ao outro
primeiro.

As sobrancelhas de sua companheira se ergueram. Seus lábios se fecharam


sobre os dentes e sorriu com malicia. Ela apontou para seu rosto e logo suas
mãos. — Acho que os Kai primeiro, com seus dentes e garras, tem as vantagens
sobre os Gauri.

Brishen bufou. — É verdade, mas você pode ter certeza que não achamos
os seres humanos particularmente atraentes como uma refeição.

— Bem, é bom saber. Tenho certeza que temos um sabor ruim. — Ela
abaixou o olhar e alisou a seda ricamente bordada do vestido sobre os joelhos.
Brishen jurava ter ouvido um sussurro verdadeiro de sarcasmo.

Ela levantou o olhar mais uma vez. Ele se moveu. Gostava de alguns
espinhos, mas aquele olhar direto o desconcertava. Não invejava o lugar de seu
irmão mais velho como herdeiro do trono, entendia seu dever para com o reino
e nunca se incomodou em ser mais que um peão nas maquinações sem fim entre
os impérios. Assumia que futura esposa também não tivesse muita escolha. Era
uma obrigação por suas posições.

— Acho que o príncipe esperava se casar com uma mulher da nobreza


Kai e ser pai de algumas crianças algum dia. Nunca deve ter imaginado um
casamento de conveniência com uma mulher humana para selar uma aliança de
guerra e comercial entre Bast-Haradis e Gaur. Ele pode se ressentir pelas
circunstâncias, mas duvido que guarde algum rancor por sua futura esposa. Ela
é um peão tanto como ele nesta situação. — Brishen franziu o cenho. — A
menos que a noiva seja uma harpia mal caráter.

Ele gostou de sua risada, uma gargalhada gutural como se sentisse uma
alegria secreta adicionada ao momento. Apoiou o cotovelo no encosto do banco
e a bochecha na palma da mão, em uma pose da naturalidade. — Tenho certeza
que sua mãe chamou sua atenção uma ou duas vezes, mas ela se esforça para ser
agradável.

Olharam um para o outro antes dela perguntar. — Você me acha feia,


verdade?

Brishen viu muitos rostos abomináveis no campo de batalha, nunca


retrocedeu ou evitou lutar contra criaturas nascidas dos pesadelos de demônios.
Nenhuma vez sentiu medo ou tentou fugir. Agora, os músculos de suas pernas
ondulavam, com o impulso de fuga. Apertou os dentes em seu lugar, pensando
em como não iniciar uma guerra com seu novo aliado e responder
honestamente.

— Horrível. — Disse. — Uma bruxa.

Outra gargalhada saiu com suas palavras. Brishen ficou aliviado por não
ter recebido isto como um insulto. Nem sequer sabia seu nome, mas gostava
assim e não queria magoá-la. Não tinha a intenção de enfrentar seus parentes
ofendidos por causa de sua resposta.

— E. — Disse. — Você me acha um homem bonito?

Ela encolheu os ombros. — Apenas vi suas mãos e os olhos. Está


escondendo seu rosto do sol com este capuz.

Brishen brincou com a ideia. — Dificilmente. — Nunca lhe faltou


companhia feminina e seu povo o via como bonito. Certamente, não tão feio
como o espirito do sol. Deslizou o capuz para trás pelos ombros.

Os olhos da mulher se abriram mais. Ela respirou forte e apertou a mão


contra o peito. Sua pele como molusco ficou um pouco mais rosada, de certa
forma atraente. Ela ficou em silencio e olhando-o até que ele perguntou. —
Então?
Ela exalou lentamente. O espaço entre as sobrancelhas enrugado. — Se
houvesse saído de debaixo de minha cama quando era criança, eu teria te matado
com a clava do meu pai.

Brishen inclinou-se para trás e riu. Quando parou, limpou as lágrimas dos
olhos e a mulher o olhava com um sorriso nos lábios. Limpou a garganta. —
Não se isto é por causa da minha aparência ou sua inclinação para a violência.

— O primeiro. Se me visitasse, teria que cobrir todos os espelhos em


minha casa ou substituir os vidros que iriam se quebrar. Pode deixar uma matilha
de lobos assustada, apenas mostrando os dentes.

Ele moveu os dentes em um sorriso selvagem. Ela não se afastou dele. —


Ao menos tenho todos os dentes, o que é mais do que posso dizer de alguns
homens e mulheres Gauri. Além disso, prefiro assustar todos que relinchar.

Riram juntos, então as feições da mulher ficaram sombrias. — Obrigada


por não mentir sobre o que pensava de minha aparência. É possível que tenha
uma cor de pele diferente da minha branca, mas sua honestidade é bonita.

Ela lhe encantava e fascinava, Brishen desejou poder ter o prazer de


conhece-la melhor. Mas não tinha tempo. Ele se casava ao entardecer, quando
os olhos humanos e Kai podiam ver com clareza e sem retroceder à visão.

Vozes à distância ecoaram pelo bosque verde e até o santuário de sombras.


A mulher se levantou e passou as mãos pelos amassados imaginários em sua
saia. — Tenho que ir. Estão sentindo minha falta.

Brishen também se levantou e segurou sua mão, surpreso com seu calor
quando esperava uma carne fria e flácida. Ela não tentou se soltar enquanto ele
levava seus dedos para os lábios e os beijava. — Gostei de nosso encontro
casual, senhora. — Soltou-a e se inclinou.

Fez uma breve reverencia e sorriu uma última vez. — Eu também, senhor.
Diminuiu minhas preocupações. Nos encontraremos novamente. — Ela deu a
volta e correu até as vozes que se aproximavam.
Ele poderia vê-la no casamento, mas não havia nenhuma possibilidade de
uma segunda conversa. Brishen a chamou. — Qual seu nome?

Sua voz se elevou na brisa quente, levantando suas suspeitas e esperança.


— Ildiko. Sou Ildiko. — Desapareceu atrás de uma árvore.

Brishen contemplou o caminho que tomou, sua figura já não era visível.
Sem dúvida, não poderia ser coincidência. Sua Gauri se chamava Ildiko.
Capítulo Três

— Você é uma noiva passável Ildiko e irá cumprir adequadamente seu


dever para com o reino e nossa família. — A Rainha Fantine disse enquanto
olhava de forma crítica a aparência de sua sobrinha. — E não se esqueça que
seu dever se estende ao quarto. Não importa que ele seja praticamente um
duende. Você não colocará em perigo esta aliança se negando ao seu novo
marido.

Ildiko apertou a mandíbula com tanta força que sua cabeça doeu. Sua tia
repetiu este mesmo discurso várias vezes e Ildiko poderia recitá-los dormindo.
Se falasse mais uma vez, Fantine iria mastigar as constas da roupa de Ildiko.

Um golpe suave na porta da sala de recepção chamou a atenção da Rainha.


— Entre. — Disse em voz alta.

A porta se abriu, admitindo um pajem da corte com os olhos bem abertos.


Para Ildiko, parecia como se houvesse chupado limões. Inclinou-se para
Fantine. — Sua Majestade, Sua Alteza Real Brishen Khaskhem de Bast-Haradis
deseja falar com a Senhorita Ildiko. — Parou. — Sozinho.

O desgosto de Ildiko se converteu em temor. Ela entrelaçou os dedos para


esconder seu tremor e se virou para a porta completamente. Ao seu lado,
Fantine se enrijeceu de indignação.

— Acho que não. Viola todos os costumes e a conduta apropriada. Ele


pode falar com ela depois do casamento e dos proclames oficiais. O casamento
é em menos de meia hora de qualquer forma. Pode esperar.

Uma mão cinza com unhas afiadas caiu sobre o ombro do pajem. O
homem gritou e saltou de lado, deixando espaço para uma figura com capuz na
porta de entrada. A Rainha e os assistentes ficaram sem folego ao mesmo tempo.
Todos menos Fantine fizeram reverencia quando o príncipe Kai se inclinou
respeitosamente ante ela.

— Sua Majestade, peço sua compreensão. Um momento de intimidade


com minha noiva, por favor.

Ildiko cambaleou em sua reverencia. Esta voz! Ela reconhecia a voz. O


capuz era diferente ao que ele usou com tons apagados no jardim, mas ricamente
bordada que a de seu uso diário. Entre as rosas vibrantes, fazia uma sombra. Ali,
na sala de recepção, iluminada pelo pôr do sol, podia se ver uma silhueta sem
traços distintivos.

Endireitou-se em silencio e ficou impassível junto a Fantine. A Rainha


franziu o cenho, sua expressão rígida, fazendo surcos na máscara pálida de sua
maquiagem. — Isto é incorreto, senhor. Príncipe ou não. Não pode esperar?

Ildiko deslizou um olhar surpreso para sua tia. Fantine não apenas dizia
ao príncipe Kai para sair, mas o repreendia. Ela poderia aconselhar sua sobrinha
sobre seu dever e a importância desta aliança, mas não era hipócrita. Ela também
não a colocaria em perigo sendo indulgente com o pedido do príncipe Kai.

O príncipe, obviamente sabia que tinha a faca e o queijo na mão. — Não,


Sua Majestade, não posso. Apenas peço um pouco de tempo de sua senhoria.

— Chegará tarde em seu próprio casamento. — Advertiu Fantine.

— Com certeza não chegarei. — Brishen manteve-se educado e ao mesmo


tempo firme e determinado.

Os olhos da Rainha se estreitaram. Ela lançou um olhar de advertência


para Ildiko, que não teve problemas para interpretar sua mensagem. Cuidado com
sua língua. Ildiko assentiu. Fantine fez um gesto para as criadas que faziam uma
fila atrás dela como soldados. — Tem quinze minutos. Não mais.

Ela saiu da sala com um gesto incomodo. A última criada da fila se virou
e lançou a Ildiko um olhar de lástima, fechando a porta atrás de si.
Assim que se foram, o rosto de Ildiko se iluminou com um sorriso. — É
você. — Não se incomodou em esconder o alivio em sua voz.

O príncipe diminuiu a distância entre eles e jogou para trás seu capuz, os
olhos brilharam sob a luz da lâmpada amarela, suas feições fortes em tons cinza
e um sorriso com dentes afiados que a fez apertar os joelhos contra o impulso
de se afastar dele. Ele segurou sua mão. Ildiko não hesitou e colocou a palma da
mão na dele, ainda surpresa pelo calor inesperado de sua pele. Se fechasse os
olhos, poderia imaginar facilmente seu tato como um pretendente Gauri. Ele
roçou os lábios levemente nos seus dedos pela segunda vez e a soltou.

— Está decepcionada? — Seu olhar não revelava nada que fosse além de
um movimento leve quando um raio de sol atravessou a janela e atingiu seu
perfil.

Ildiko o levou a parte mais escura da sala, onde as velas proporcionavam


uma luz mais suave. — Aliviada, não decepcionada. — Fez um gesto para uma
mesa com copos e uma garrafa de vinho. — Posso lhe oferecer um copo?

Brishen negou com a cabeça, as diminutas tranças em seu cabelo negro


balançaram ao movimento. Encolheu os ombros sob o mante drapeado que caia
por suas costas. O movimento revelou sua armadura cerimonial sob as roupas
azul e seda marrom. Uma espada na funda, estava em seu quadril. Como seus
parentes no castelo, era alto e esbelto, cada movimento exercido com graça e
contenção.

Ildiko inclinou a cabeça para o lado. — Sabia que era eu quando tomou a
decisão de vir aqui, verdade? Como?

Suas sobrancelhas se arquearam. — Você me disse seu nome quando


perguntei, lembra-se?

— Há várias Ildiko que vivem aqui. É um nome muito comum. Poderia


ser apenas uma criada fiel.
Brishen sorriu e apontou para ela. — Neste vestido? Dificilmente. —
Mostrou seu sorriso cheio de dentes. Ildiko não apertou os joelhos desta vez.
— Apenas sabia. Chame instinto. — Estalou os dedos com um clique das unhas.
— Magia Kai. Todos nascemos com um toque de magia.

Ela balançou a cabeça, sua própria forma de aliviar a preocupação. — Não,


não sabia. Sei muito pouco sobre o meu novo povo, uma vez que estivermos
casados.

Ele a olhou por um momento em silencio. Os olhos de uma coruja,


pensou. Ele e seu povo tinham os olhos de caçadores noturnos, mas sem
pupilas, apenas a luminosidade brilhante que a hipnotizava como um rato.

— Eu te direi tudo. — Disse.

Ela piscou, saindo de seu estupor com sua resposta e esquecendo por
completo a conversa. — Dirá o que?

Tinha os lábios finos, uma queda natural, enfatizada por linhas diagonais
de ambos os lados da boca. Dava-lhe um aspecto sombrio, exceto quando sorria,
como agora. — Sobre os Kai. Se quiser saber mais, eu te direi. Muito melhor do
que qualquer livro Gauri com histórias errôneas sobre nós.

Uma onda de alivio caiu sobre ela, junto com a chama da esperança. Seu
esposo não era Gauri, nem sequer era humano. Era, no entanto, agradável e
amável. Ela achava seu aspecto espantoso e sua honestidade bonita. Ildiko
continuava pensando da mesma forma. Ela poderia estar em uma situação muito
pior. Mais de umas poucas mulheres Gauri tiveram a infelicidade de se casar
com homens de rosto bonito e almas demoníacas.

— Isto é generoso de sua parte. Tenho a intenção de que cumpra sua


promessa. — Disse. Sua curiosidade sobre sua visita se mantinha. — Desviou-
se de seu propósito. O que queria conversar comigo?
Brishen juntou as mãos atrás das costas e Ildiko teve a impressão de que
ele se preparava para entrar em um assunto incomodo. — Minha pergunta é
delicada e perdoe meu insulto ou rispidez. Já pensou na consumação?

O estomago de Ildiko ondulou nas costelas. Ela reprimiu um rubor


envergonhado e tentou dissimulá-lo ao mover de forma desdenhosa os olhos.
Brishen deu um passo atrás. — Todos estão pensando na consumação. —
Disse. — Quase não posso escapar dos conselhos bem-intencionados, tapinhas
simpáticos no braço e sugestões para empregar vários truques, como relaxar e
pensar no dever para com o Rei e o país. — Ela sorriu irônica. — O conselho
mais comum é para me assegurar que o quarto esteja tão escuro que não seja
capaz de vê-lo, caso fique de frente a mim.

A risada de Brishen fez eco por toda sala antes dele parar e se conformar
com um amplo sorriso de olhos luminosos brilhantes. — Disseram-me algo
similar, apenas que devemos consumar o casamento ao meio-dia, quando estou
praticamente cego.

Ildiko abafou sua própria risada atrás de sua mão. — Que a deusa alada
Bursina nos salve de tantos conselhos uteis.

A risada sumiu, mas mantiveram seus sorrisos. Brishen diminuiu o seu. —


O que quer fazer, Ildiko?

Esta era uma pergunta que Ildiko pensou nunca ouvir em sua vida.
Ninguém lhe perguntava o que queria, apenas diziam o que deveria fazer ou
falar. Por um momento ficou sem fala. Esperou paciente enquanto recolhia seus
pensamentos. — Posso ser honesta, Alteza?

Bufou. — Em privado pode me chamar de Brishen3. É um bom nome.

— É um bom nome. Realmente nasceu durante uma tempestade? —


Apesar de não parecer tão volátil ou violento como uma tempestade, seu nome

3
Nascido durante a tempestade.
combinava com ele. Ildiko suspeitava que sua natureza fácil era envolvida por
um caráter tão forte como o aço no crisol4.

Brishen assentiu. — Está me levando para fora do assunto novamente,


Ildiko. Para responder a sua primeira pergunta, sim. Não apenas desejo sua
honestidade, como a exijo. — Encolheu os ombros. — Além disso, acredito
que é um pouco tarde para andar nas pontas dos pés ao redor um do outro,
verdade? Já disse que a acho horrorosa e você expressou sua opinião sobre meu
aspecto, declarando que sou quase um cadáver. Duvido que iremos ofender a
vaidade um do outro neste ponto. Diga o que pensa.

Ildiko colocou sua fé em seu raciocínio e disse. — Gosto de você Brishen,


mas podemos esperar um pouco para a consumação? Nem sequer é tão
necessário, verdade? Não posso ter filhos e me disseram que a linhagem Kai está
assegurada. Tem muitos sobrinhos? — Ela apertou as mãos com tanta força que
as unhas ficaram brancas.

— Muitos. Seis na última contagem. — Brishen se inclinou. — Atenderei


aos seus desejos, senhora.

Ildiko se esqueceu do decoro, a dignidade e toda reserva. Lançou-se para


Brishen e envolveu seus braços ao redor de seu pescoço em um abraço. Ele
ficou rugido, mas não se importou. — Obrigada! — Ela lhe deu um rápido beijo
na bochecha e o deixou ir antes que pudesse empurrá-la ou segurá-la.

Ele inclinou a cabeça e outro leve sorriso curvou sua boca. — Acredite
quando digo que sou eu quem deve agradecer.

Ildiko lhe devolveu o sorriso e logo seguiu seu olhar para além de seu
ombro e ficou ali. Deu a volta e viu o espelho de corpo inteiro nos últimos raios
do sol da tarde. Brishen parou a seu lado e os dois ficaram olhando seus reflexos

4. Recipiente refratário, geralmente de barro, ferro ou platina, no qual, no passado, se usava para purificar a prata.
entre os raios finos, a mulher dourada com cabelos vermelhos Gauri e o príncipe
Kai com seus brilhantes olhos.

Brishen olhou para as imagens. — Ficaremos bem juntos Ildiko de Gauri.

Tocou levemente seu ombro. — Eu acredito Brishen de Bast-Haradis.

Um golpe na porta os advertiu que sua reunião privada acabou. Brishen


ofereceu o braço para Ildiko. — Pronta para se casar, senhora?

Ela colocou a mão em seu cotovelo. — Tente não sorrir muito


amplamente, Alteza. Assustará as crianças na multidão.
Capítulo Quatro

Brishen olhou para sua nova esposa sentada na cadeira enquanto ficava ao
seu lado. Viajavam com um grupo de doze Kai para as fronteiras orientais de
Bast-Haradis e para a capital de Haradis. Uma meia lua, deslizava pelas nuvens
em um movimento rápido, brilhando acima deles. O cabelo de Ildiko ficava mais
vermelho sob a luz da lua, com seu rosto pálido e cansado pela falta de sono.

Tentou convencê-la de que o carro pequeno tinha uma cama e


mantimentos para que pudesse dormir durante a viagem. Ela se negou. — Seus
dias são os meus agora. Tenho que me ajustar o quanto antes. — Interrompeu
esta declaração com trio sucessivo de bocejos.

Brishen apostava que ela não duraria até o amanhecer, mas tinha um
cavalo preparado para ela de qualquer forma. Ele, sua esposa e seu companheiro
Kai foram para estrada, assim que o casamento terminou.

De muitos casamentos que Brishen assistiu durante sua vida, este foi o
mais ridículo. A cerimônia em si foi o anuncio de sua união. Ao julgar pela
reação tanto da multidão Gauri como os Kai, bem poderia ter sido uma
declaração de guerra. As mãos foram para a espada de cada lado e cada grupo
olhou para o outro, prontos para lançarem um contra o outro pelo corredor
cheio de flores. Seus parentes eram facilmente superados em número pelo forte
guerreiros Gauri. Números que por si só garantiriam que, se tal luta explodisse,
seria não apenas sangrenta, mas breve.

Considerando que os Gauri queriam muito esta aliança e os Kai aceitaram


a oferta com entusiasmo, apenas poderia pensar que uma resposta tão impulsiva
em seu casamento com Ildiko foi uma reação visceral de pois povos que
conheciam muito pouco um ao outro e se ressentiam ao entregar um dos seus
àqueles que achavam repugnantes.
Poderia não ser capaz de ler a expressão em seus olhos macabros, mas não
tinha problemas para interpretar as linhas de preocupação na testa de sua noiva.
Não se moveu quando ela o olhou. — Pelas asas de Bursina, Brishen. Assim
nunca chegaremos ao banquete sem derramamento de sangue.

Ela tinha razão e conseguiu acalmar a situação tensa. O ar ficou mais


espesso e a fogo lento cheio de hostilidade quando os bispos de Gauri
proclamaram sua união como abençoada e única. Brishen segurou as mãos de
Ildiko, inclinou-se para frente e deu-lhe um suave beijo em seu rosto. Ela
poderia ter a pele rosada como um molusco, mas era quente e cheirava a incenso
do templo. Deu um passo atrás e sorriu rapidamente.

Suas mãos tremeram nas suas antes dela arquear a sobrancelha. — Lobo.
— Disse em voz baixa.

— Cavalo. — Respondeu igualmente em voz baixa.

Os lábios de Ildiko se moveram até que finalmente cedeu e deixou escapar


uma gargalhada. O som era mágico, mais poderoso que qualquer feitiço bruxo,
mais surpreendente que os olhos em movimento dos Gauri. Tanto a corte Gauri
e a muito menor Kai visivelmente relaxaram. Mãos caíram da espada, a rigidez
nos ombros relaxou e quase todos olharam o casal como se fossem loucos.

Brishen a tomou nos braços e a apertou. — Muito bem, princesa. —


Sussurrou em seu ouvido. — Muito bem.

A ameaça de uma luta ainda persistiu, apesar da aceitação mutua e evidente


entre noiva e noivo. Brishen estremeceu na cadeira enquanto se lembrava do
banquete.

Até então, ele e seu companheiro Kai comeram os pratos preparados pela
mãe cozinheira de um dos Kai, a qual insistiu que fosse com eles. A família real
Gauri ofereceu voluntariamente uma parte de sua cozinha para que ela pudesse
preparar as refeições de seu povo. Brishen pensou que seu povo reclamava
exageradamente sobre a comida Gauri, até que comeu o jantar que os Gauri
prepararam e quase vomitou. Sua prima Anhuset, sorriu para ele de forma
satisfeita. — Eu disse. — Falou com voz presumida.

Oh quanta razão tinha. No banquete, sentou-se ao lado de Ildiko e fizeram


intermináveis e pouco sinceros brindes para a felicidade do casal. O vinho e a
cerveja, ao menos, eram excepcionais. A comida era outra coisa.

Tiveram um momento antes do casamento, quando temeu uma revolta de


seus parentes e uma possível matança. Reuniu os membros ao seu redor no
quarto de hospedes para uma reunião improvisada.

— Temos que mostrar boa-fé para com nossos anfitriões. Comeremos o


que servirem no jantar após o casamento.

Não houve silvos e protestos de todos os Kai. O lábio de Anhuset se


curvou em desagrado. — Já viu o que está gente come? E eles se negam a
desperdiçar, mas a forma como preparam é quase como lixo. Não iria alimentar
um cão com aquilo.

Brishen não se moveu. — Alguém arrancou suas colunas vertebrais


enquanto esperavam que eu chegasse? — Perguntou. Isto os silenciou. — É
apenas comida. São guerreiros Kai treinados na batalha. Podem comer um prato
de sopa e sorrir.

— A primeira vez que sorri para um nobre Gauri, acho que ele molhou a
calça. — O comentário de Anhuset veio com uma risada. Ela inclinou a cabeça
para Brishen. — Você é nosso senhor e príncipe. Nós o seguiremos.

Brishen estreitou os olhos nela. Um desafio disfarçado de obediência. Eles


o seguiriam. Isto significava que ele esperava que fosse o primeiro em
experimentar cada prato antes deles. Como seu líder, era uma conclusão
inevitável. O papel de liderança era dar exemplo: nunca se afastou desta
expectativa.

Ele de todo coração lamentou a ideia no momento em que um servo


colocou um prato fumegante com algo marrom acompanhado, o que lhe
lembrou esterco de cavalo congelado. Ildiko sentou-se junto a ele na mesa
principal. Ela se inclinou para sussurrar em seu ouvido.

— É um ensopado feito do rebanho do próprio Rei. — Ela apontou a


coisa marrom. — É uma batata. Experimente.

Ildiko dividiu sua própria batata longitudinalmente, revelando duas parte


claras e fumegantes. O cheiro flutuou até seu nariz e o fez pensar em terra
úmida. Usou o garfo para transformá-la em uma massa. Tinha certeza que
acabava de presenciar a brutal mutilação de uma larva gigante cozida. Brishen
fez um som baixo sufocante e segurou os braços da cadeira quando ela levou
um pedaço à boca.

Seus parentes o observavam de seus lugares em suas mesas, seus pratos


sem tocar enquanto esperavam para segui-lo. Respirou fundo várias vezes e
seguiu o exemplo de Ildiko, massacrando a larva-batata e mastigando de forma
hesitante.

Granulado, suave e sem sabor, assentou-se em sua língua, inchando em


sua boca até que pensou ter ali uma mordaça. Uma vez mais Ildiko se
aproximou.

— Brishen, haverá uma revolta se cuspir.

Ele apertou os lábios bem forte e engoliu. Não havia vinho ou cerveja o
suficiente no mundo para acabar com o gosto repugnante em sua língua, mas
ele esvaziou seu corpo e o de Ildiko antes de pedir a um criado mais. Os Kai
continuavam olhando-o e ele olhou para cada um agora até que eles pegaram
seus talheres e desmancharam suas batatas.

Suas reações refletiam as suas. Teria que dormir com um olho aberto e sua
mão na espada pela próxima quinzena por causa da vingança de seus homens.
Um puxão em sua manga o fez voltar sua atenção para Ildiko.
— Sinto muito, Brishen. É muito ruim? — Ouviu a simpatia em sua voz
e acariciou sua mão para tranquiliza-la. Ruim era um eufemismo, mas ele negou
com a cabeça e mentiu. — Não. Já comi coisa pior.

Comeu estas palavras durante as três próximas tortuosas horas. O


ensopado era tão vil como a batata, mas nada em comparação com os seguintes
pratos de enguias perfeitamente frescas e envoltas em um gelatinoso molde
verde cheio de ervas, um frango assado e temperado com uma mistura que ele
se convenceu não ter sido feito por um cozinheiro e sim por um necromante
que triturou os ossos dos mortos e os misturou com pimenta. O queijo quase o
fez vomitar e precisou perguntar a Ildiko duas vezes se os pontos azuis
esverdeados não eram realmente pedaços de cadáver fermentados. Sua
explicação de como o queijo era feito o fez desejar que aquilo fosse verdade.

Ele perseverou e engoliu um pouco de tudo, cada pedaço seguido de um


generoso gole de vinho. Seus parentes fizeram como Anhuset prometeu e
comeram suas porções, o assassinato em seus olhos, quando o olhavam da borda
de seus copos.

Suas fervorosas orações a cada deus que pudesse ouvir foram respondidas
quando o Rei Sangur declarou terminado o banquete e fez um brinde final. Não
houve dança depois. Em qualquer outro momento, Brishen teria ficado
decepcionado. Os Kai adoravam dançar. Toda celebração tinha dança e não
eram em absoluto incomum que os casais dançassem até que ficassem cansados.

Agora agradecia ter que subir e apenas escoltar sua nova esposa até a
câmara nupcial preparada para eles. Seu estomago se revoltou, odiando tanto
como sua companheira no momento.

Ildiko apertou sua mão enquanto criadas Gauri esperavam para tirar seu
vestido. Ela acenou para elas e se virou para ele. — Não precisamos ficar mais
tempo em Pricid, Brishen. Não tenho problemas em sair esta noite.
Sua feia noiva de grande coração, obviamente podia ler seus pensamentos.
Ele segurou seu rosto nas mãos e beijou sua testa. — Tem certeza Ildiko? Não
quer dizer adeus a sua família?

Ela puxou suas mangas e sua boca se curvou para baixo. Dor. Mágoa.
Brishen estava aprendendo a ler as expressões de sua esposa da mesma forma
como ela lia seus pensamentos. — Eu me despedi de minha família quando orei
sobre os túmulos dos meus pais. Não há razão para permanecer aqui.

Com isso, ele a deixou para que os criados juntassem as coisas que ela
embalou e colocassem nos carros que os acompanhariam até Haradis. Ele
encontrou o restante dos Kai reunidos em um pequeno pátio, compartilhando
jarras de vinho.

Eles se levantaram com sua chegada e se curvaram. Anhuset se aproximou


dele. — Eu te odeio. — Disse.

Encolheu os ombros. — Viverei.

— Depois dessa refeição vil que todos comeram por você, não apostaria
nisso, primo.

Brishen escondeu um sorriso. Anhuset era mais próxima a ele como seu
irmão nunca foi. Também seu segundo no comando. Mortal em combate e
muito leal a ele, assim suas ameaças de morte eram vazias. Mas, no entanto, teria
cuidado. Ela não pensaria duas vezes em tentar derrubá-lo e fazê-lo sangrar se a
incomodasse demais.

— Minha esposa quer sair agora. — Disse.

Seus olhos se abriram quando o pátio explodiu em um frenesi e vários


brindes entusiasmados por sua nova hercegesé. Ildiko ganhou sua primeira batalha
com sua família Kai e nem sequer estava ali para presenciar.

Quando foi carregado e os cavalos selados, chegaram a estrada quando a


lua começou sua descida em direção ao amanhecer. Normalmente cavalgava na
frente de seu contingente, mas esta viagem era diferente. Com o carro cheio
com o dote de Ildiko, teriam que viajar pela estrada principal expostos aos
bandidos que poderiam aparecer. O primeiro dever de Brishen era proteger sua
esposa e assim montou ao seu lado, rodeado por dezenas de Kai armados.
Blindou a si mesmo com uma armadura e armas. Ildiko não resistiu quando
ajustou nela uma das armaduras de Anhuset.

— A estrada é perigosa? — Ela mordeu seu lábio e abaixou o olhar para


sua armadura no peito.

Brishen ajustou as correias e comprovou as costuras nos ombros para se


assegurar que estivesse cômodo. — Pode ser. É uma estrada com muito trafego
comercial, com caravanas cheias das colheitas. — Entregou-lhe a capa de viagem
que as criadas deixaram do lado de fora. — Não se preocupe, Ildiko. Pensarão
duas vezes antes de nos atacar. Não somos fazendeiros e estamos fortemente
armados. Não são apenas os Gauri que conhecem as habilidades de combate
Kai.

Ela estava desajeitada em sua armadura e tímida com seus parentes.


Evitaram olhá-la nos olhos quando se aproximava deles, mas se inclinavam e
ofereciam felicitações, junto com sua lealdade.

O barulho de uma coruja acompanhava o ranger das rodas do carro e o


ruído dos cascos dos cavalos, junto com o sussurro das criaturas da noite que
caçavam no bosque, que ficava de ambos os lados da estrada. Os olhos de Ildiko
estavam fechados e ela deslizava pela sela de montar, indo em direção a Brishen.
Ele empurrou seu cavalo contra ela.

— Ildiko, acorde.

Ela abriu os olhos, as pupilas sempre mudando, agora se ampliando para


engolir a íris azul. — É de manhã? — Perguntou arrastando as palavras.
Brishen deslizou mais atrás na sela, colocou os braços ao redor de Ildiko
e a levantou. Ele a colocou na sua frente. — Não amanheceu ainda, mas está
quase caindo do cavalo. Se não irá dormir no carro, pode montar comigo.

Ela assentiu e se acomodou em seus braços, o ruído metálico das


armaduras entre eles.

O príncipe Kai a segurou contra ele, sentindo seu calor e cheiro. A


sensação era diferente das mulheres Kai que abraçou. Ela era quente, sua pele
de cor estranha tão suave, como o cabelo. Adormecida, podia inclinar a cabeça
e olhar seu perfil sem a distração de seus olhos.

Observou os nobres da corte Gauri quando seus olhares seguiram Ildiko


durante a cerimônia de casamento. Enquanto Brishen não a achava bonita, era
óbvio para ele que os homens Gauri sim. Ainda assim, não se arrependia desta
união. Ildiko era única e inteligente, ele gostava de sua companhia. Era um
começo prometedor.

Brishen a colocou mais perto dele. Ficou rígido de repente na sela ao ouvir
um sussurro. — Escudos! — Gritou e empurrou Ildiko para perto do pescoço
de sua montaria.
Capítulo Cinco

Ildiko acordou bruscamente perto da crina do cavalo e o peso do corpo


de Brishen empurrando-a contra a sela. O ar ao redor dela estava espesso e
escuro, levou um momento para perceber que Brishen a protegia com seu
escudo. Algo golpeou como um martelo o escudo. Brishen balançou, flexionou
o braço e o ombro do seu lado para absorver o impacto do golpe.

Ildiko agarrou a sela quando o animal se assustou e jogou-a para baixo.


Outro golpe de martelo acertou o escudo. Ficou sem folego quando girou
repentinamente até o chão e com a mesma rapidez foi rodeada por soldados
Kai. As armaduras brilhavam, assim como seus olhos, sob a luz da lua que já se
apagava.

Ela gritou quando uma mão a empurrou no chão. — Fique para baixo,
Alteza! — Ordenou uma voz feminina.

Ildiko não protestou quando ouviu um barulho vindo das árvores, seguido
de uma chuva de flechas negras que faziam um arco no céu como um raio, antes
de cair sobre eles. Agachou, cobrindo a cabeça com os braços. Metal sobre
metal, era o barulho que as flechas faziam ao atingir os escudos.

Estavam sendo atacados e o pelo pouco que podia ver de sua posição atrás
da barricada protetora de Kai, revelavam que estavam presos no lugar, incapazes
de fugir ou até mesmo contra-atacar os inimigos que se abrigavam nas árvores.

Isso logo mudou. Os cascos dos cavalos fizeram eco nas profundezas do
bosque. Eles se uniram aos gritos da batalha e logo se ouviu gritos de dor.

A estrada onde estava explodiu em caos. Homens com rostos coberto


saíram de sua emboscada indo em direção a eles, perseguidos pela recém-
chegada cavalaria Kai para apoiar seus irmãos e irmãs. O círculo de escudos ao
redor de Ildiko se dissolveu. Ela ficou de pé e se encontrou cara a cara com uma
das mulheres Kai que viu no casamento. Brishen a apresentou como sua prima
Anhuset. Estes olhos rosáceos a olhavam sem piscar. — Siga-me Alteza.
Rapidamente.

Ildiko reconheceu a voz e sua autoridade, correu junto a mulher até


chegarem ao carro de mantimentos.

Anhuset puxou-a para baixo. — Fique no carro, Alteza. Mantenha-se fora


da vista e não se mova.

Ela não deu a Ildiko a oportunidade de discutir, mas empurrou-a com o


corpo para baixo do carro. Ildiko caiu sobre seu estomago. De seu ponto de
vista, viu os pés correndo. A mulher Kai manteve-se perto e logo se uniu a três
mais de seus homens.

Ildiko procurou Brishen entre a luta, já não superados em número,


enfrentando seus atacantes. Ela o viu lutando espada com espada com outro
guerreiro Kai. Enfrentavam um grupo de bandidos. O companheiro de Brishen
tinha uma espada e um escudo. Brishen, no entanto, lutava como nenhum nobre
Gauri jamais o faria.

Tinha um pequeno machado em uma mão e um faca de caça na outra. O


lado sem corte da faca estava apoiado em seu antebraço, a parte afiada para fora.
Brishen se movia como todos de sua raça, rápido e ágil como um gato. Cortava
e apunhalava com a faca, cortava pedaços com o machado, usando-o para
derrubar seus oponentes.

Ildiko rezou por sua segurança, pela segurança de todos. Ela o perdeu de
vista abruptamente quando um grupo de bandidos foi em direção a sua guarda.
Anhuset respondeu com um grito de guerra estranho. Ela e seus companheiros
pularam sobre seus atacantes. Ildiko ficou atrás de uma das rodas do carro,
olhando entre o vão.

Ela queria ajudar, mas não sabia nada sobre combate e seria um obstáculo
para aqueles que a protegiam. Com exceção de uma faca escondida em sua bolsa
na cintura, estava desarmada. O melhor que poderia fazer era seguir as
instruções de Anhuset: permanecer fora da vista e do caminho.

Seu coração pulsava contra as costelas e sentiu o sabor amargo do medo


em sua boca. Ficou sem folego quando algo agarrou seu tornozelo e puxou.
Ildiko agarrou a roda e olhou sobre o ombro. Gritou ao ver um dos bandidos,
sujo, desalinhado e salpicado de sangue, abrindo seu caminho até sua saia.

Ela o chutou, atingindo sei queixo. Ele foi para trás com um grito antes
de ir para ela uma segunda vez. Ildiko arrastou-se nos cotovelos e saiu de seu
esconderijo. Tropeçou e ficou de pé no meio da batalha. Seus protetores Kai
lutavam contra o inimigo, sem saber que o esconderijo de Ildiko foi descoberto.
Ela levantou a saia, preparada para fugir, ainda que não tivesse ideia de para
onde iria. O bandido que a atacou, tomou a decisão por ela quando deu a volta
na estrada e a encurralou, agitando uma faca com uma careta que prometia uma
morte espantosa.

Ildiko apertou os calcanhares e fugiu na direção oposta. Ela não teve uma
oportunidade. Uma corrente de ar chicoteou o lado de seu rosto e agitou as
mechas de seu cabelo. Um barulho seco ecoou atrás dela e deu a volta para ver
seu perseguidor cair de joelhos, a lamina de um machado profundamente em
sua testa. Seus olhos estavam muito abertos, fixos, como se não acreditasse que
a morte o encontrou rapidamente, antes de cair para trás e ficar imóvel no chão.

Ildiko se virou para encontrar Brishen correndo para ela. Agarrou-a pela
cintura e levantou-a do chão sem perder o passo enquanto corria para a
segurança. — Não era o presente de casamento que em mente, esposa. — Disse
com a respiração ofegante. — Irei recompensá-la mais tarde.
Capitulo Seis

Eles perderam apenas três pessoas no ataque. Brishen considerava três


muitos e a dor pelas mortes pesava em sua cabeça. O primeiro, Kroshag, era o
filho do meio do mordomo da família real e um dos primeiros voluntários sob
o comando de Brishen. Neima, a segunda a cair sob uma flecha mortal, estava
obcecada com o desafio dos preparativos do casamento de suas filhas gêmeas.
Elas se casariam sem a presença da mãe agora.

Brishen se entristeceu por Talumey. Jovem, ansioso em demonstrar seu


valor e leal, quase ficou rouco com o entusiasmo por ter sido escolhido como
parte da escolta pessoal do príncipe à capital Gauri. Brishen prometeu a si
mesmo que que precisava entregar a luz-mortem de Talumey a sua mãe.

Abandonou seus pensamentos melancólicos quando Anhuset se


aproximou dele. O início de um amanhecer brilhante iluminava sua forma e
banhava os mortos atrás dela com uma luz amarela.

A boca de Anhuset estava em uma linha apertada e o olhava com os olhos


estreitos. Brishen saltou para trás, surpreso quando ela caiu de joelhos diante
dele. A atividade na estrada cessou. Tudo estava em silencio.

Ela abaixou a cabeça e lhe ofereceu sua espada com as duas mãos. — Eu
falhei, Alteza. Minha vida está perdida, assim como minha luz-mortem. — Ela
falou olhando para o chão e a voz cheia de vergonha.

Brishen a olhou com a boca aberta. — Sobre o que está falando?

A cabeça de Anhuset permaneceu inclinada, a espada ainda sendo


oferecida. — Eu tinha a tarefa de proteger a hercegesé. Falhei. Se não fosse por
você, ela estaria morta.
Brishen franziu o cenho. Sua prima evidentemente caiu em um dos barris
de vinho no carro, caso contrário, ela não conseguia entender como chegou a
esta conclusão tão ridícula. Ele salvou Ildiko de seu atacante, mas não por culpa
de Anhuset. Ela era uma lutadora com uma destreza excepcional, respeitada
pelas fileiras militares por sua valentia e habilidade, mas não era a deusa da
guerra.

Ela os Kai que protegiam Ildiko no carro foram atacados por um número
maior de inimigos. Lutaram muito e lutaram bem, mas foram superados. Não
havia como Anhuset ter visto o homem rastejando para baixo do carro, sem dar
as costas aos seus oponentes e ter a cabeça separada de seus ombros pelo
esforço.

Ele a olhou, observando a forma como seu cabelo prateado brilhava sob
a luz do sol em lugar da lua. Deu a volta e encontrou Ildiko a uma pequena
distância, sentada em um tronco de árvore, os olhos pesados e quase caindo pela
fadiga. Um guarda Kai com rosto sombrio a vigiava, movendo a arma na mão.

— Ildiko. — Ela levantou a cabeça com cansaço. — Venha aqui, por


favor. — Disse na língua dela.

Levantou-se, sacudiu a saia e se uniu a ele de frente para Anhuset de


joelhos. Ela franziu o cenho quando a viu. — O que aconteceu?

Fez um gesto para Anhuset que ainda se negava a olhar para cima. —
Minha tenente deseja que a execute por não a proteger.

— O que?

Brishen não precisava entender todas as sutilezas de suas expressões


Gauri. A exclamação de Ildiko lhe disse o suficiente. Ela estava horrorizada ante
a ideia. Não tinha intenção de matar sua prima, especialmente por um delito não
existente e a sua palavra era a última no quesito. Ainda assim, o protocolo Kai
exigia que seu papel no destino de Anhuset fosse secundário, ainda que final.
Ildiko fez uma careta, seu peculiar olhar indo entre ele e a silenciosa
Anhuset. — Isto é rid... — Ela apertou os lábios antes de falar novamente, o
qual Brishen agradeceu. Concordava com sua esposa sobre o pedido de Anhuset
ser ridículo, mas o orgulho de sua prima era grande e viu seus homens
endurecerem ante o comentário de Ildiko não terminado.

— Anhuset acredita que falhou em seu dever comigo por não a proteger
do homem que a encontrou debaixo do carro. — Brishen manteve a voz e a
expressão suave. — No entanto, a suposta infração não foi contra mim. Você
foi a mais afetada por suas ações. O que diz? Sente-se insultada e deseja sua
punição?

As sobrancelhas de Ildiko se arquearam e ela inclinou a cabeça de tal forma


que facilmente entendia seu silencio. Estava falando sério? Ele insistiu com a
cabeça e ela rodou os olhos. Um estremecimento percorreu cada Kai
presenciando a conversa entre eles.

Ildiko fez uma pausa durante uns momentos antes de falar. — Não me
sinto ofendida. Ela cumpriu com seu dever e me protegeu de quem queria me
prejudicar. Havia muitos bandidos e apenas uma Anhuset. — Ela sorriu de lado.
— Que lutou melhor que três Gauri.

Murmúrios de aprovação e concordância se levantaram entre os Kai.


Anhuset ficou de pé e levantou o queixo. Brishen captou um brilho de respeito
nos olhos de sua prima. Ela levantou a espada para Ildiko. — Ainda lhe ofereço
minha espada, Alteza.

Ildiko balançou a mão. — Sinto-me honrada, mas seria um desperdício de


um bom aço. Claro que pode usá-la melhor que eu. Poderia com certeza cortar
os dedos das mãos e dos pés. Guarde-a para quando precisar ficar de guarda
novamente para mim.

Brishen fez um esforço para não sorrir ou puxar sua esposa para seus
braços. Suas palavras foram tão apropriadas quando as de qualquer diplomata
experiente, senão melhores do que as de um, porque ela falou com sinceridade.
Ela acabou de fazer a Anhuset o maior elogio, oferecendo sua confiança em sua
capacidade para protegê-la no futuro.

As feições sérias de Anhuset ficaram um pálido rosado antes dela olhar


para o outro lado. Guardou a sua espada em sua bainha e fez uma reverencia
para Brishen e Ildiko. — Vou coordenar os preparativos para montarmos
acampamento. Com licença, Altezas. — Ao aceno de Brishen, ela se afastou,
gritando ordens para o trabalho começar, como remover os mortos, levantar
tendas e colocar guardas pelo perímetro.

Brishen abaixou a cabeça quando Ildiko se aproximou e sussurrou. — O


quanto estraguei tudo?

Ele se virou totalmente para ela. Esgotamento aparecia ao redor de seus


olhos em um tom escuro precioso. Fosse ou não bonita para os seres humanos
e feia para os Kai, tinha uma boca mente e um espirito que estava começando a
gosta a cada minuto que passava. — Acho que está perdendo sua vocação,
esposa. Seria uma boa diplomata.

Ela piscou lentamente. — Surpreende-me que não tenha trocado as


palavras. Tenho tanto sono, quase não posso falar.

Ela protestou um pouco quando Brishen a pegou pelas costas e joelhos,


levantou-a em seus braços. — Cale-se. — Advertiu suavemente. — Você ficou
acordada por muito tempo. Como eu também. — Depositou-a de costas no
tronco de uma árvore e ordenou a um soldado perto que trouxesse uma sela e
um cobertor. Eles criaram um encosto ao instante. Ildiko se inclinou contra ele
com um suspiro grato. Ela estava dormindo antes que Brishen a cobrisse com
outro cobertor leve.

Estava cansado também. Com exceção de uns poucos minutos aqui e ali,
não dormiu em Pricid desde que chegou há três dias antes. Por sorte, a cavalaria
de Mertok chegou, não apenas para ajuda-los a vencer os inimigos, mas também
para oferecer um alivio para Brishen e sua tropa por algumas horas.
O sol o cegava e viu quando seu capitão da cavalaria se aproximou, com
o capuz o protegendo da luz do dia. Mertok se inclinou. — Sua Alteza, pensei
que os encontraria neste ponto amanhã. Não imaginei que os encontraria aqui
tão cedo.

Brishen aceitou a crítica sutil. A rota comercial era muito perigosa. Ele
tinha certeza que o tamanho de seu grupo original iria evitar qualquer bando de
ladrões com a intenção de roubar seus bens. As chances de um assalto seriam
ainda menores agora que os cavaleiros de Mertok se juntaram a eles para viajar
pelo resto do caminho, aumentando seus números e os aproximando do
tamanho de um pequeno exército.

Mas Brishen estava ansioso para deixar Pricid e com o incentivo de Ildiko,
saiu um dia antes do previsto. — Minha esposa queria ver seu novo lar assim
que possível, então saímos justo depois do banquete.

Olhou além do ombro de Mertok, vendo quando alguns Kai arrastavam


os mortos e os empilhava em um monte desajeitado. Cada um dos seus atacantes
era humano, mas Brishen suspeitava que não fossem Gauri. Voltou sua atenção
a Mertok. — Este grupo não era um bando de ladrões. Estavam muito bem
armados e organizados.

Mertok procurou em sua capa. — Começamos a segui-los da fronteira há


dois dias. Um grupo de ataque com uma mensagem. — Estendeu um objeto,
seu metal brilhando ao sol.

Brishen o pegou e grunhiu. A insígnia real de Belawat. Não se


surpreendeu, ficou furioso. Havia uma tensão entre os reinos de Gaur e Belawat
desde que Brishen era uma criança. Beladine queria os portos rentáveis de Gaur
e os Gauri não tinham a intenção de desistir deles. Uma guerra em grande escala
parecia inevitável, mas havia um obstáculo e um que fazia com que a aliança
com os Kai fossem algo valioso para ambos os lados.

A forma mais rápida de mover exércitos e evitar as perigosas montanhas


que dividiam ao Gauri de Beladine, era através de um corredor estreito no
território Kai. Ambos os reinos humanos sabiam o quão vantajoso seria ter
aquele território. Os Kai fecharam os olhos à primeira vista, aos conflitos
menores entre os dois combatentes. Não era problema deles se os humanos se
matassem, enquanto fizessem isto do seu lado da fronteira.

Mas o pai de Brishen ficou alarmado quando os exploradores informaram


sobre o acumulo de tropas Beladine e sussurravam segredos de uma grande
força preparando-se para invadir Gaur, tomar seus portos e conquistar a
passagem da fronteira de Bast-Haradis ao longo do caminho.

A aliança comercial e bélica entre os Kai e os Gauri destruíram os planos


de Belawat. Não eram fortes o suficiente para lutar contra os dois reinos aliados.
O Rei Beladine jurou vingança pela interferência Kai nos assuntos humanos.
Este grupo de ataque foi a primeira carga disparada. Matar o jovem príncipe Kai
e sua esposa Gauri. Enviar a mensagem de que a vingança seria rápida e
impiedosa.

Brishen virou a insígnia na mão antes de colocar na bolsa no cinto. Olhou


para os mortos. — Queime os corpos e tudo o que tinha. Guardem as cinzas.
Os Kai enviarão aos Belawat uma resposta.

Mertok fez uma breve reverencia. — Deseja fazer uma cerimônia está
noite para nossos mortos?

Brishen assentiu. — Descubra quem será voluntário para servir entregar a


luz-mortem de Kroshag e Neima. Entregarei a de Talumey.

Anhuset se uniu a eles e os três fizeram planos adicionais para o resto da


viagem, comprometendo-se em duplicar as guardas durante o dia e aumentar o
ritmo se possível, de forma que diminuíssem o tempo na estrada em um terço.
Quando terminaram, Brishen descobriu que a tenda reservada para ele e Ildiko
foi erguida.

Levou Ildiko, que continuava dormindo, para dentro e a deitou em uma


das camas preparadas. Ela murmurou suavemente, mas não acordou quando
tirou seus sapatos e soltou a armadura de Anhuset. Brishen não acreditava que
iria apreciar que tirasse suas roupas enquanto dormia. Estava muito cansado de
qualquer forma para puxar os diferentes cordões e nós complexos de suas
roupas.

Ela ficou do lado dele e aconchegou sob as mantas puxando-a sobre o


ombro. Diferente dela, Brishen não podia dormir com suas roupas. Tinha muito
sangue humano e Kai, coçava para sair da armadura e o couro debaixo dela.

Ildiko não se moveu quando se deitou ao seu lado. Suas pálpebras se


sentiam como se alguém tivesse colocado um peso nelas e logo adormeceu junto
a ela, acalmando-se com a respiração suave de sua esposa e seu corpo pacifico
junto a ele.

Acordou horas mais tarde na tênue bruma do crepúsculo e com o toque


das pontas de dedos em sua bochecha. Ele abriu um olho para descobrir o rosto
de Ildiko perto do seu. Traçou a ponte de seu nariz e a linha das maçãs do rosto.

— Sabe, com exceção de sua pele cinza, unhas negras e os brilhantes


olhos, quase poderia confundi-lo com um Gauri. — Ele sorriu sonolento. Ela
empalideceu e franziu o cenho. — E então você sorri. — Disse. — Pelas asas
de Bursina, isto é um espetáculo assustador ao acordar em qualquer momento
do dia.

Brishen riu entre os dedos enquanto tentava pressionar os lábios. Agarrou


sua mão e beijou os dedos. — Não é exatamente a maior beleza em toda Bast-
Haradis, esposa. — Seu cabelo vermelho parecia uma coroa em sua cabeça e
seus olhos eram ainda mais grotescos com os finos fios de sangue na parte
branca.

Sua boca se curvou para cima. — Graças a Bursina por isso. Passarei feliz
o título para outra pessoa. Agora bem, se todos quiserem me nomear a mais feia
de todo o reino Kai, não sei se me incomodaria.
Brishen tentou domesticar seu cabelo com a mão. — É considerada uma
beleza entre seu povo. Porque não se casou antes?

Ela encolheu os ombros. — Você era o mais vantajoso para uma mulher
da minha classe. Minha mãe era a irmã de Sangur. Se fosse meu pai relacionado
com ele, então seria uma princesa. Mas desde que nasci na linhagem feminina
da família real, sou simplesmente uma nobre que não pode se casar com
qualquer um, mas não importante o suficiente para conseguir um herdeiro.

— Então lhe deram as sobras. — Brishen disse sem rancor. Ele era o mais
novo dos dois filhos e seu irmão assegurou a sucessão real por seis vezes e
contando com seus herdeiros. A importância de Brishen para herdar o trono
diminuiu. Nem sequer havia nenhum requisito para ter seus próprios filhos. Sua
esposa Gauri simplesmente era um sinal de boa fé entre os reinos, uma
observação no final do texto que sacramentava a aliança.

Ildiko continuou explorando os contornos do rosto de Brishen. — Há


muito a dizer sobre as dobras. — Ela desenhou um círculo em seu queixo com
a ponta do dedo. — A cor da sua pele me lembra uma enguia morta. Uma vez
vi uma na praia.

Brishen arqueou a sobrancelha. — Favorecedor, tenho certeza. Acho a


sua parecia com um molusco que fervemos para fazer um colorante vermelho.

Parou de tocá-lo e olhou suas mãos. — Sou muito rosa em comparação


com você.

— Sim, já que não sou rosa em absoluto.

As sobrancelhas de Ildiko se ergueram. — Como moluscos?

— Não. Tem um sabor amargo e sua tinta é muito valiosa para ser
desperdiçado nas cozinhas.

Exalou aliviada, acariciando sua garganta. — É bom saber. Não tenho


certeza de que gostaria de ser comparada a algo que comeria no jantar.
Brishen abriu a boca para responder, mas mudou de opinião. Ele não foi
completamente sincero com ela quando disse que seu povo não estava
interessado em comer os Gauri. Os Kai eram uma raça antiga, os seres humanos
eram jovens. Há muito tempo, nos primórdios, quando os Kai eram mais
selvagens e os seres humanos não tanto, sua espécie caçou a dela como refeição.

Apressou-se a mudar de assunto. — Porque seus olhos tem sangue?

Ildiko se moveu e levou as mãos aos olhos. Quando seus dedos saíram
sem manchas e sangue, franziu o cenho, obviamente desconcertada. Sua
expressão se limpou. — Acho que a maioria dos seres humanos ficam assim
quando acordam. Nossos olhos secam. É temporário.

Ela inclinou a cabeça. — Você e seu povo se incomodam com os olhos


humanos, verdade? Posso ver pela forma como reagem a algumas de nossas
expressões. É tão assustador como os Gauri acham seus dentes.

Ninguém podia acusar sua esposa de não ser observadora. Brishen traçou
cuidadosamente o contorno de sua bochecha justo debaixo do olho esquerdo.
— É a parte branca que é espantosa. É como se tivessem unida por cordas
puxadas por mãos invisíveis ou algum tipo de sanguessugas estranhas que vivem
em duplas dentro de seus crânios.

A expressão de Ildiko mostrou desgosto. — Isso é horrível! Não é


estranho que os Kai não olhem em nossos olhos durante muito tempo.

— Faço isso o tempo todo. Estou olhando agora. — Respondeu Brishen.

Ela cedeu a seu ponto. — É verdade, mas aposto que faz um esforço para
não saltar cada vez que sorrio.

— Estamos nos acostumando um ao outro. Meu povo irá se acostumar


com você e você com eles.

Ildiko suspirou. — Isso espero. Um estranho feio em uma terra longínqua


com pessoas que não são do mesmo sangue ou espécie. — Ela envolveu uma
mecha de cabelo ao redor do dedo e puxou suavemente. — Precisarei de um
guia, marido.

Brishen segurou seu rosto. — Você o tem, Ildiko. Junto com minha
proteção e minha paciência. Não menti quando disse que conseguiríamos
juntos.

Ildiko apertou a bochecha contra a palma de sua mão por um momento.


Ela se afastou e seu sorriso ficou travessos. — Será difícil não brincar com seu
povo, às vezes.

Brishen não podia imaginar algo assim. Não tinha ideia se os Kai e os
Gauri sabiam as mesmas piadas ou achavam divertidas as mesmas coisas. — O
que quer dizer?

Quase saltou de sua pele quando Ildiko o olhou com seus dois olhos e
levou-os lentamente para baixo e outra vez para cima, perto do nariz.

— Amante das espinhas e santos deuses! — Ele gritou e colocou uma mão
em seus olhos para não a olhar. — Pare de fazer isso. — Ordenou.

Ildiko riu e afastou sua mão. Ela riu ainda mais forte quando viu sua
expressão. — Espera. — Ficou sem folego com as risadas. — Posso fazer
melhor. Quer me ver fazer um olho se mover e o outro ficar parado?

Brishen se inclinou para trás. — Não! — Ele fez uma careta. — Que
pesadelo. Agradeço se mantiver este talento especial para você, esposa.

Ainda estava rindo quando ele a ajudou a se levantar da cama e saiu da


tenda para dar-lhe privacidade para se trocar e arrumar.

Estava escuro e a lua estava baixa quando saiu da tenda e descobriu vários
Kai olhando-o com curiosidade de seus lugares ao redor da fogueira. Não havia
dúvida de que se perguntavam como encontrava coragem para ficar na cama
com sua esposa horrível. Não havia dúvidas que apostas corriam sobre se ele
tomou o caminho mais fácil e a tomou quando sol estava alto e ele cego pela luz
ou o mais desafiador, quando o crepúsculo se levantava.

Poderiam se perguntar até apodrecer. Brishen não tinha intenção de


revelar nada entre ele e Ildiko. O deles era um acordo baseado nos princípios de
amizade, respeito e uma compreensão intuitiva que ainda o deixava assombrado.
Negava-se a manchar este acordo convidando hipóteses vulgares.

Fez arranjos para que as refeições embaladas por uma cozinheira Gauri
fossem entregues na tenda e se reuniu com Anhuset e Mertok para discutir a
cerimonia de logo mais.

Ildiko encontrou-o meia hora depois. Ela trocou de roupa e trançou seu
cabelo. A armadura de Anhuset estava pendurada em seu braço. — Pode me
ajudar a coloca-la novamente?

Ele apegou e colocou encostada em uma árvore. — Não estamos


cavalgando no momento. Temos uma cerimônia para nossos três mortos.

Seu rosto ficou triste. — Sinto muito por sua perda, Brishen.

Brishen apertou sua mão. — Como eu. Vamos limpar o corpo durante a
cerimônia de consagração e levaremos sua luz-mortem de volta para suas
famílias para guardá-los em uma casa sagrada.

— O que é luz-mortem? E uma consagração?

Ele ficou quieto, perguntando-se qual a melhor forma de explicar os rituais


funerários Kai ou o que faziam para honrar adequadamente seus companheiros
mortos, ele e os outros dois Kai, literalmente aspiravam as lembranças dos
mortos para leva-los para casa – como hospedeiros de outros corpos.

Com este pensamento, Brishen já não via os olhos de Ildiko como antes,
como se fossem separados dela. Não eram mais que olhos humanos, estranhos,
mas apenas olhos.
Capitulo Sete

As diferenças físicas entre os homens Kai e os Gauri eram óbvias de certa


forma. Ildiko aceitou este fato antes de se casar com Brishen. Sua aceitação
ajudou a olhar além do aspecto surpreendente do próprio homem. Ela mantinha
para si a filosofia: ver além da superfície. Em seu tempo muito curto entre seu
povo, observou muitas similaridades, o amor pela família, o companheirismo, a
lealdade de um para com o outro, a dor pelos amigos perdidos. Ildiko não tinha
dúvidas de que havia muitas mais para descobrir quando assumisse seu lugar
entre os Kai como a esposa de um de seus príncipes.

Os Gauri podiam compartilhar alguns dos mesmos comportamentos Kai


quando se tratava dos vivos, mas em assuntos de mortos, os dois eram muito
diferentes.

Brishen pegou uma garrafa de vinho e uma manta em sua tenda e fez um
lugar para que sentasse na entrada. Sentou-se a seu lado e lhe passou a garrafa.
— Em cada geração, os Kai perderam um pouco de sua magia. Somos uma raça
antiga, mas estamos desaparecendo. Mantemos a magia que ainda possuímos até
sermos forçados a usá-la. Embora eu seja tão experiente como meu pai com
feitiços familiares e de proteção, seu poder é maior do que o meu e o do meu
irmão. E o do meu irmão é maior que o de seus filhos. No entanto, os Kai são
antigos e possuem antigas tradições. Os espíritos de nossos mortos deixam este
mundo, mas temos o dom de manter suas lembranças – chamamos de luz-
mortem. Nós mantemos estas lembranças vivas em um lugar chamado Emlek.
Elas são a nossa história, o que nos define além de nossa aparência ou dos
feitiços que estamos perdendo.

— É Emlek um templo? — Ela lhe passou a garrafa depois de tomar um


gole de vinho doce.
Brishen bebeu também e deixou a garrafa entre os dedos. — Realmente
não. É sagrado, mas não o adoramos. Aqueles que visitam, vem adquirir
conhecimentos de dias passados ou para encontrar comodidade em voltar a
visitar a memória daqueles que perderam.

O coração de Ildiko se contraiu no peito. Oh, o que daria para ter as


lembranças de seus pais com ela. Rejeitou uma segunda oferta de vinho. —
Gostaria que os Gauri tivessem algo assim.

Brishen envolveu o braço ao redor de seu ombro e apertou. — É um


consolo para a vida, especialmente quando a morte é repentina, como para os
que morrem na batalha ou no parto. — Ele manteve o braço ao redor dela e
Ildiko apreciou sua força. — A luz-mortem de um Kai morto é o último
presente para seus entes queridos.

Invejava este presente com um fervor que a fez desejar ter nascido Kai,
com dentes e tudo. — Como é levado para casa? A luz-mortem?

Brishen tomou outro gole da garrafa. Ildiko estava aprendendo a decifrar


sua expressão, os matizes mais sutis, pois não conseguia ler seus olhos, mas
sentiu uma estranha hesitação. Ficou tenso ao lado dela e tirou o braço de seu
ombro. Ela sentiu falta de seu peso.

Parou no tempo, Ildiko não achou que fosse responder. — Esta noite
realizaremos uma consagração – um ritual para libertar o espirito e despertar a
luz-mortem. — Ele levantou uma de suas mãos e entrelaçou os dedos com os
dela. O contraste de sua pele cinza e unhas negras contra a dela realçou suas
diferenças físicas, mas a dor era dor. A dor em sua voz era a mesma que qualquer
Gauri sentia quando se ajoelhava em uma tumba e chorava. — Posso explicar o
ritual e a forma como transportamos a luz-mortem, mas irá entender melhor
quando for testemunha dele.

— Posso participar?
A boca de Brishen se curvou para cima. Em um gesto já familiar para ela
e um que gostava, beijou seus dedos antes de ficar de pé e ajudá-la a se levantar.
— Gostaria que pudesse, mas uma consagração só pode ser realizada por um
Kai. Mas pode assistir. Seria uma honra se o fizesse.

Passaram a primeira hora da noite presidindo um tribunal improvisado em


uma clareira na floresta. Ildiko estava muito cansada ao amanhecer para
conhecer os novos membros de sua comitiva. Isso e as consequências da
sangrenta batalha entre os assaltantes Beladine e os Kai impediram qualquer
apresentação social. Manter seguro um acampamento e despejar os mortos
tomou tempo.

Brishen lhe informou que não levantariam acampamento até a noite


seguinte. Esta noite se dedicaria aos funerais dos três Kai que pereceram no
ataque.

— E os assaltantes mortos? — Ildiko tentou não olhar demais para os


cadáveres empilhados na estrada.

Seus olhos se estreitaram. — Vamos queimar antes de sair e devolver as


cinzas para Belawat. Sua mensagem foi recebida. — Sua voz era fria e plana.

Ildiko estremeceu, não por causa do repentino comportamento frio de


Brishen, mas porque ambos foram alvos de vingança. O casamento,
obviamente, tinha muitas mais armadilhas do que compartilhar uma cama e uma
casa com um estranho. Ela não enganava a si mesma ao pensar que o homem
que tentou tirá-la de debaixo do carro apenas queria assustá-la. Ele a teria
matado no ato e sorriria enquanto o fazia. Ildiko ficou feliz por estar morto e
igualmente feliz por ter sido Brishen quem o matou.

Alguns poderiam se perguntar por sua falta de temor com relação a seu
novo marido. Terrível em aparência, letal em combate, Brishen era todo
cordialidade e realeza, digno de cada interação com ela.
Quando o acampamento se instalou, ele levou seu tempo para apresentá-
la a cavalaria Kai que veio em seu resgate e seu chefe de cavalaria, Mertok. Como
esperava, os soldados Kai eram formais, educados e se negavam a olhá-la nos
olhos. Não tinham problemas em olhá-la quando pensava que ela não estava
olhando e Ildiko ficou tentada algumas vezes em mover os olhos e ver a reação.

Como se percebendo seus pensamentos, Brishen apertou sua cintura em


advertência e se inclinou para sussurrar ao ouvido. — Nem sequer pense nisso,
esposa. Percebe que metade deles estão limpando ou afiando suas armas. Tudo
o que preciso é que alguém se corte sem querer porque lhes assustou.

Ildiko sufocou uma risada por trás de sua mão. O sorriso predador de
Brishen fez os pelos de seu braço se levantarem em sinal de advertência, mas ela
deu uns tapinhas na mão em sua cintura e se manteve sem medo.

A lua brilhava diretamente sobre eles – um meio-dia Kai – quando todos


ali, exceto aqueles de guarda, reuniam-se na clareira e formavam um círculo ao
redor dos três Kai mortos. Eles não pareciam diferentes de quando estavam
vivos, exceto pela mudança do tom de pele. Em vez do cinza ardósia com seus
tons azul petróleo e lavanda, a pele tinha empalidecido a uma cor cinza clara.
Seus corpos foram colocados lado a lado, vestidos com suas armaduras. Eles
arrumaram seus braços cruzados sobre o peito, suas armas favoritas junto a eles.
Ildiko se situou fora do círculo em um tronco de árvore alto o suficiente para
poder ver acima dos ombros daqueles no círculo.

Anhuset entrou no círculo com uma pequena ânfora5. Dela ela verteu um
brilhante azeite sobre seus dedos e se agachou para desenhar um misterioso
símbolo na testa de cada um dos soldados mortos. Como a outra fêmea Kai,
que brilhava fria e elegante sob pálidos raios da lua, seu cabelo prateava brilhava.
Ela abriu a cerimônia com um canto na língua Kai, ao qual os outros Kai ao

5 Vasos antigos de origem grega de forma geralmente ovoide e com duas alças.
redor responderam. Ildiko mal conhecia algumas palavras Kai, mas reconhecia
um lamento quando o ouvia.

O canto continuou aumentando e abaixando de volume. Os Kai se


moviam em um ritmo ondulante, seus olhos brilhantes na escuridão do bosque.
De onde estava, Ildiko via claramente Brishen. Estava de pé no lado oposto a
ela, movendo os lábios enquanto cantava com seus companheiros.

Os olhos de Ildiko se abriram e ela ficou sem folego quando de repente


uma luz suave de repente banhou os Kai mortos, criando um halo de ondas se
derramando sobre seus corpos. A luz se rompeu, estendendo os fios sinuosos
até que se transformaram em três formas, vagamente humanas – ou Kai.

Os Kai vivos continuaram o canto, as vozes mais agudas do sexo feminino


misturadas com as mais graves masculinas. Uma única luz brilhante, do tamanho
de uma borboleta, se acendeu dentro de cada um dos três fantasmas que
pairavam sobre os corpos. A faísca das lembranças. A luz-mortem.

Brishen e outros dois saíram do círculo e se aproximaram dos mortos. Os


fantasmas se envolveram ao seu redor, parecendo dançar no ritmo da música.
As lágrimas encheram os olhos de Ildiko quando Brishen e seus companheiros
abriram os braços e se abraçaram aos mortos cujos espíritos giravam e
balançavam antes de envolve-los completamente, fazendo luzes saírem pela
boca e o nariz.

Ildiko lutou contra o horror e a maravilha quando os espíritos dos Kai


mortos possuíram seus anfitriões dispostos. Brishen lhe disse que era um povo
da noite. Eles evitavam o sol tanto quanto possível e rejeitavam o dia em suas
horas de atividade. No entanto, ao ver seu marido príncipe e seus dois
companheiros iluminados de dentro para fora pelos mortos resplandecentes,
não podia imaginar qualquer povo que abraçasse a luz mais do que os tenebrosos
Kai.

Brishen brilhava como uma tocha dentro do círculo, com os olhos


brilhantes e vermelho e não o rosa habitual. Os dois soldados que estavam com
ele tinham o mesmo aspecto. Um deles foi possuído por uma grande que o
deixou cambaleando, sua luz-mortem pulsava sob as roupas, acendendo-o como
uma lanterna.

A posse durou apenas um momento antes que os fantasmas


abandonassem seus corpos em uma exalação triste e desapareciam na grande
noite, deixando apenas suas luzes-mortem com seus anfitriões. Seus corpos
físicos colapsaram dentro da armadura, transformando-se em um pó fino até
que fundiram com a terra sob eles.

O canto enfraqueceu e os Kai ficaram em silencio juntos, ouvindo apenas


o vento. Ildiko saltou do tronco e correu até Brishen. Ele se inclinou levemente
para Anhuset, seu rosto tão pálido quando o corpo morto de Talumey, que lhe
presenteou com suas lembranças de vida. Seus companheiros anfitriões
pareciam muito cansados e ficavam de pé com a ajuda uns dos outros, como se
manter a luz-mortem sugasse todas suas forças. Os olhos de Brishen era sois
gêmeos em seu rosto e ele estendeu para Ildiko uma mão trêmula.

Ela apertou-a e puxou-a para ela, deixando Anhuset perto. — Anhuset


ajude-me a leva-lo para nossa tenda.

A mulher Kai acenou e fez um sinal com a mão. Dois soldados mais
aparecera. Brishen se afundou entre eles, que o levaram para sua tenda e o
colocaram com cuidados na cama. Ildiko se ajoelhou ao lado de seu marido e
segurou sua mão. Tinha os olhos fechados, mas a luz-mortem dentro dele ainda
brilhava através de suas pálpebras.

Anhuset ficou no chão ao lado de Brishen. — Ele e os outros ficarão assim


por algumas horas e logo sofrerão a febre da morte.

O estomago de Ildiko se contorceu. — Febre da morte? Não disse nada


sobre febre.
A outra mulher puxou uma manta sobre o corpo imóvel de Brishen. —
Um recipiente de luz se afoga nas lembranças dos mortos até que se acostume
a elas. É temporário, mas doloroso enquanto dura.

— Pelas asas de Bursina! Todos os Kai passam por isso? — Ildiko estava
reconsiderando rapidamente sua inveja deste dom. Acariciou o dorso da mão de
Brishen com o polegar.

Anhuset encolheu os ombros. — Apenas aqueles que são voluntários.


Brishen se ofereceu para atuar como um anfitrião para a luz de Talumey até
chegar a Haradis. Entregará a luz-mortem de Talumey para sua mãe, uma vez
que chegarmos. Ficarei aqui com você até que supere a febre. — Ela se apoiou
em uma das mantas em uma pose cheia de tensão.

Ildiko não se deixou enganar. Ela observou a interação entre Brishen e sua
prima. Anhuset estava preocupava. — Sou inofensiva, Anhuset. Não precisa
protegê-lo de mim. — Brincou suavemente.

Anhuset a olhou, sem sorrir. — A febre da morte pode deixar um Kai


louco. Não o estou protegendo de você Alteza, mas você dele.
Capitulo Oito

Havia loucura nas lembranças, especialmente quando não eram suas.


Brishen estava deitado, com os olhos fechados e observava a vida do jovem
Talumey e se misturar com a sua. Rostos queridos piscavam no olho de sua
mente, alguns dele, outros de Talumey, junto com as emoções que os
acompanhavam. Pai, mãe e duas irmãs.

Brishen levantou uma mão para tocas o rosto da mulher mais velha. —
Minha mãe. — Sussurrou.

— O que tem sua mãe, Brishen?

A voz era familiar. Anhuset, sua tenente. Brishen franziu o cenho. Não,
não era ela. Ela era sua comandante. Sua prima e segunda no comando. —
Minha mãe. — Disse. — Eu a amo. Seu nome é Tarawin.

Sua prima voltou a falar. — Não, Brishen. Sua mãe é Secmis, a Rainha das
planícies. A Rainha das sombras de Bast-Haradis.

Brishen franziu o cenho. Outra imagem substituiu a de Tarawin, está de


uma mulher de beleza altiva que capturou o interesse do rei e insinuava uma
alma frágil sob ela.

— O que está dizendo?

Uma voz diferente, desta vez falando em uma língua universal com
sotaque lírico de Gauri. A esposa feia do príncipe com olhos assustadores.

Brishen negou com a cabeça. — Ela é linda por dentro. — Argumentou


consigo mesmo. — Ri com facilidade.
Anhuset respondeu a mulher Gauri. — Está confundindo sua mãe Secmis
com a mãe de Talumey, Tarawin. Não conheço Tarawin, mas sei que Secmis
rara vez ri.

Ele queria responder seu comentário, esclarecer que falava de Ildiko e não
Tarawin, mas sua língua estava grudada no céu da boca. Estava quente, como se
alguém houvesse o colocado sob o sol e deixado para assar vivo. — Água. —
Disse com a voz áspera.

Um copo foi pressionado contra seus lábios secos e Brishen tomou tudo.
Uma mão acariciou sua testa, fresca sobre sua pele quente. Abriu os olhos e
encontrou Ildiko olhando-o com aqueles olhos humanos estranhos.
Instintivamente se afastou e tentou se levantar. — Sua Alteza. — Murmurou.
Era um solado humilde e rompeu o protocolo, deitar-se antes de um membro
da casa real.

Ildiko. Ela era Ildiko com ele em privado. Duas mãos o pressionaram
novamente contra a cama. Brishen piscou e Anhuset lhe ofereceu mais água.
Virou a cabeça e procurou Ildiko uma vez mais.

Ela acariciou seu braço e com voz suave e preocupada disse. —


Reconhece-me Brishen?

Os padrões em constante mudança das lembranças combinadas nublavam


sua visão, mesmo com os olhos abertos seu estômago se agitava em protesto.
Brishen fechou os olhos. — Minha esposa. — Disse ele. — Minha Ildiko.

— Sim, Brishen. Sua Ildiko. — Como seu toque e sua voz ficava mais
calmo. — Anhuset e eu ficaremos com você até que a febre passe.

Ele queria agradecer-lhes por sua vigilância, Ildiko, que nunca


testemunhou o que a posse de uma luz-mortem fazia ao anfitrião e Anhuset que
ainda estava irritada por ter que comer uma batata revoltante no banquete de
casamento. Uma imagem da larva fumegante em seu prato eliminou todas as
lembranças confusas que obscureciam sua mente. Bile subiu em sua garganta e
saliva inundou sua boca.

— Eu vou vomitar. — Ele murmurou.

As palavras mal passaram por seus lábios antes que ele fosse empurrado
de lado. Mãos seguraram sua cabeça e levantaram seu cabelo enquanto ele
esvaziava o estômago. Mais lembranças surgiram através de sua mente, uma
semana doente quando ele era criança e agarrou uma tigela de madeira contra
seu peito enquanto Tarawin sussurrava-lhe que bravo garoto que era. Outra
lembrança semelhante, mas nessa ele estava em uma grande cama, segurando
uma bacia de prata, enquanto uma das enfermeiras reais ficava em segurança
fora do alcance e olhava para ele com desgosto enquanto ele vomitava.

Um pano frio banhou seu rosto quente e ele capturou o pulso da pessoa
que o fazia. Sentiu os ossos frágeis em seu aperto. Ossos humanos. Facilmente
quebráveis se exercesse a menor pressão. Brishen traçou a teia de aranha de
pequenas veias logo abaixo de sua pele com o polegar. Embora fossem mais
finas que o fio de seda, podia sentir o pulso de sangue através delas em um ritmo
constante.

Ele abriu as pálpebras apenas o suficiente para encontrar Ildiko segurando


o pano. A outra mão em seu cabelo. — Batalhas e vômitos, esposa. Não é o que
você deveria testemunhar durante a sua primeira viagem para Haradis. — Nada
saiu como o planejado desde o momento em que cavalgou deixando a capital
Gauri. — Quer que eu leve você para casa? — Ele não culparia Ildiko se ela
dissesse que sim.

Ela lançou-lhe um breve sorriso com seus dentes quadrados. — Você está
me levando para casa, Brishen. Não há nada para mim em Pricid.

— E sua família?

Seu sorriso desapareceu. — Os laços de sangue nem sempre formam uma


família. Minha família repousa em uma cripta com vista para o mar. Preciso
construir uma nova família agora. — Ela traçou uma de suas sobrancelhas com
os dedos. — Você pode beber um pouco mais de água? Enxaguar a boca?

Brishen assentiu e desta vez aceitou o copo que Anhuset lhe ofereceu.
Deitou-se, inspirando e expirando lentamente, desejando que seu estômago
rebelde se acalmasse, ainda que as suas e as lembranças de Talumey turvassem
sua visão, ele sentia como se tivesse passado a noite esvaziando um barril de
vinho, apenas para ter alguém empurrando-o para dentro dele, fechando a
tampa e jogando-o em um mar tempestuoso. Ele recusou-se a pensar em batatas.

Os sons de limpeza e escovação encheram seus ouvidos. Ele queria pedir


desculpas pela confusão, mas não se atreveu a abrir a boca, porque poderia
arruinar todo o trabalho duro.

De alguma forma, conseguiu entrar em um sono agitado, atormentado por


sonhos desordenados e duas lembranças. Ele se debateu sobre o estrado e
arrancou o cobertor de cima de seu corpo. Um grito de surpresa se filtrou
através de seus sonhos, seguido por duas vozes falando na língua universal.

— Ele cortou você?

— Apenas minha manga. Pelas asas de Bursina, você é rápida!

— Não rápida o suficiente.

— É apenas minha manga, Anhuset.

— Sorte que não foi seu rosto ou sua garganta, Alteza. Você não deveria
estar aqui.

— Aqui é exatamente onde eu deveria estar.

— Então, até que ele esteja lúcido, fique fora do seu caminho. Posso não
ser tão rápida quando você precisar de mim uma segunda vez.

Brishen lutou contra as algemas do sono que o mantinham prisioneiro.


Ele mataria quem tentou ferir sua esposa, dividiria o crânio do jeito que fez com
o atacante Beladine que a atacou. Ela era feia. Ela era linda e era dele. — Minha
Ildiko. — Ele sussurrou.

Ela não ofereceu seu toque suave, mas sua voz o acalmou. — Estou aqui,
Brishen. E não vou a lugar algum.

Ele esperava que não.


Capítulo Nove

Eles chegaram ao quarto dia de sua viagem e Ildiko estava começando a


sentir falta do sol. Ela brincava com a crina de seu cavalo enquanto ele e sua
comitiva se aproximavam cada vez mais de Haradis, capital da Bast-Haradis. A
lua diminuiu para um crescente brilho prateado no céu e a noite estava tão escura
que estava praticamente cega. Os Kai em suas armaduras pretas não passavam
de formas vagas com os olhos desencarnados que pairavam como vaga-lumes.

Ela contou com o senso de direção de sua montaria, assim como seu
instinto de proteção para ficar com o restante do grupo. As rodas dos carros
rangiam atrás dela, acompanhadas pelos uivos distantes de matilhas de lobos e
as vozes dos Kai que falavam e zombavam uns dos outros.

Por um momento, Ildiko teve a estranha sensação de estar à deriva sozinha


em um vasto mar, em um pequeno barco. A marcha de seu cavalo era a maré
que a embalava. Além de seus sentidos, estava um horizonte que não podia ver
e terras que não podia alcançar, as sombras dos leviatãs que nadavam no abismo
profundo e navios engolidos inteiros espreitavam debaixo dela.

A determinação que ela mantinha em abraçar esta nova vida e chamar


essas pessoas de seu povo a consolou um pouco. Era uma forasteira com uma
aparência e hábitos estranhos. Ildiko sufocou estes pensamentos. Já seria
bastante difícil se ajustar a uma família diferente entre os seres humanos de
outras terras com seus próprios costumes peculiares. Mas isso era muito mais
do que um choque cultural. Os Kai não eram sequer humanos. Um povo antigo,
que evitava o sol e engolia os espíritos de seus mortos, eles não eram nada como
os Gauri ou quaisquer outros povos que Ildiko encontrou na corte. Ela seria
como um bebe aprendendo a andar quando entrasse no mundo dos Kai e sua
corte real. Sem dúvida, cometeria erros e envergonharia a si prória – e a Brishen
– em mais de uma ocasião. Esse pensamento a deixou desesperada.
Seu marido andava à sua frente, concentrado em uma conversa com o
comandante da cavalaria. A chegada de Mertok durante a sua batalha com os
invasores Beladine aumentou a tropa Kai a números formidáveis. Brishen
assegurou a Ildiko que seria necessário muito mais do que um bando de
assassinos para derrotá-los agora. Eles, no entanto, permaneciam em alerta e
estavam de guarda, duplicando a segurança quando paravam para acampar e
dormir.

Como se sentisse seu olhar sobre ele, Brishen olhou por cima do ombro e
parou sua montaria. Cavaleiros Kai formaram um círculo ao redor dele,
enquanto esperavam por ela alcançá-los. Ele ofereceu-lhe um sorriso cansado e
mesmo na escuridão sufocante, Ildiko viu as linhas cansadas gravadas em suas
feições. Recuperado da posse da luz-mortem, ele ainda sofria os últimos
sintomas da febre da morte,

— Esta é uma expressão de preocupação em seu rosto, esposa. Que


pensamentos obscuros afligem você?

Ela hesitou em dizer-lhe. Brishen foi ainda mais solícito depois de acordar
da febre da morte e descobriu-a sentada nas proximidades com Anhuset. Ildiko
exerceu o poder de seu posto recém-adquirido e extraiu uma promessa relutante
da mulher Kai de não dizer nada sobre sua manga cortada a menos que Brishen
perguntasse diretamente.

— Você está me pedindo para mentir para meu primo e meu comandante,
Alteza. — Os olhos de Anhuset se estreitaram em brilhante fendas.

Ildiko tirou seu vestido rasgado, ciente do olhar de desaprovação e de


curiosidade da Kai. Ela encolheu os ombros em um vestido novo,
cuidadosamente amarrando os laços. Enquanto estivesse vestida, não achava
que os soldados Kai se importariam muito com o estado de suas roupas.

— Não é isso que estou pedindo. — Ela passou as mãos sobre a saia em
uma tentativa inútil de suavizar as rugas. — Se ele perguntar o que aconteceu,
conte, mas não há nenhuma razão para correr e tagarelar sobre algo tão trivial
quanto uma manga rasgada.

Anhuset cruzou os braços, contrariada. — Poderia ter sido pior.

Ildiko não discutiu. Poderia ter sido infinitamente pior. Seu coração quase
saltou do peito quando Brishen de repente a atacou delirante, suas unhas
cortando a manga como facas. Ela não teve tempo de gritar antes que um forte
empurrão de Anhuset a mandasse voando para o outro lado da tenda.

— Anhuset, de que adiantará contar a ele a não ser para preocupá-lo ou


enchê-lo de culpa? O que está feito está feito e eu não sofri nenhum dano.

— Você não deve manter segredos dele. — Anhuset se recusava a ceder.

Ildiko soprou uma mecha de cabelo da frente dos olhos e voltou a se


sentar perto de um Brishen febril, mas fora de seu alcance. — Não é um
segredo. É apenas um fato que não oferece nenhum benefício em ser conhecido.
— Ela imitou a postura de Anhuset e cruzou os braços. — Tenho a sua
promessa? Não dirá nada, a menos que ele pergunte?

Elas ficaram em uma batalha silenciosa até Anhuset exalar um suspiro de


frustração. — Eu lhe dou minha palavras de não dizer nada sobre isso a ele, a
menos que pergunte. — Ela fez uma careta. — Você tem a habilidade de uma
cortesã Kai, Alteza. Capaz de torcer razão para se adequar ao seu propósito.

Ildiko reconheceu o insulto leve dentro do elogio, mas não se ofendeu. —


Bem, pelo menos, há algo em comum entre os nossos povos.

As duas mulheres estabeleceram uma trégua entre elas e as orações de


Ildiko foram respondidas quando Brishen recuperou a lucidez, sem qualquer
lembrança de atacar sua esposa enquanto estava no meio do delírio. Houve mais
de um momento em que Anhuset praticamente vibrou com a tentação de deixar
escapar alguma coisa, mas segurou a língua e se ocupou com a organização dos
planos de viagem à noite com Mertok.
— Ildiko? Onde você está, mulher?

Ildiko piscou, trazida de volta ao presente por Brishen acenando com a


mão na frente do rosto. — Eu sinto muito. Estava sonhando acordada. Ou o
certo seriam sonhos noturnos agora?— Ela sorriu, então se lembrou de sua
primeira pergunta. — Não pensamentos sombrios. Apenas uma curiosidade.
Quando você estava doente com a febre da morte, confundiu sua mãe com a
mãe de Talumey. Anhuset disse que a sua não sorria muitas vezes.

Ela ficou em silencio, dando-lhe uma fuga ele optasse por não responder
à observação de Anhuset. Em vez disso, ele se inclinou para trás na sela, seus
ombros largos relaxaram. — Minha prima está certa. A rainha não é de sorrir.
Se ela o fizer, então pode procurar uma faca saindo das sombras.

Ildiko ficou de boca aberta com Brishen. Ele descreveu sua mãe com uma
voz tão suave, como se as tendências assassinas por ele mencionadas não fossem
mais interessantes ou ameaçadoras do que se ela tivesse um amor obsessivo por
chinelos cor laranja. — Você está falando sério?

— Muito. — Disse ele no mesmo tom neutro. — Duvido que meu pai
tenha dormido uma noite inteira com os dois olhos fechados desde que ele se
casou com ela.

Ildiko estremeceu interiormente com a perspectiva de encontrar sua nova


sogra. Sua tia era uma força a ser reconhecida. Altiva, arrogante e tortuosa,
Fantine era uma mestre estrategista, manipulando as muitas maquinações do
tribunal Gauri com uma mão hábil. O Rei Sangur, no entanto, confiava que sua
esposa não o mataria enquanto dormia. Obviamente, o mesmo não podia ser
dito do rei Kai e sua rainha letal.

— Não estou ansiosa para conhecer sua mãe, Sua Alteza. — Alguns sons
suaves de risadas soaram dos soldados Kai a cavalo nas proximidades. Ildiko
encontrou o olhar irônico de Brishen. — Devo usar esta armadura quando
formos apresentadas?
Os dentes de Brishen eram como punhais de marfim na escuridão. — Eu
a protegerei. Além disso, ela não vai prejudicá-la. Está muito encantada com a
ideia de que fui forçado tomar um ser humano como esposa. Se há uma coisa
que Secmis ama mais do que planejar um assassinato, é ficar observando a
miséria alheia. — Ele chegou seu cavalo mais perto dela e se inclinou. —
Certifique-se de atuar sempre irritada comigo e amarga por seu destino. — Ele
disse suavemente. — Ela se certificará de que estejamos constantentemente na
companhia um do outro.

Os pensamentos de Ildiko hesitaram. Uma coisa era certa: ela não seria
intimidada. Ficar um passo a frente de sua malévola sogra iria exigir toda sua
inteligência e foco. Como uma víbora igual a que Brishen descreveu foi capaz
de criar um homem tão jovial e carinhoso confundia Ildiko.

— Você deve ter puxado o temperamento do seu pai. — Disse ela.

As risadas bem humoradas de antes se transformaram em gargalhadas. O


sorriso de Brishen se alargou. — Dificilmente. Minha mãe dorme com um olho
aberto também. — Ele pegou a mão dela e deu-lhe um aperto. — Não se
preocupe, Ildiko. Você entenderá mais sobre meus pais quando encontrá-los.
Espero que dê suas impressões honestas depois. Suspeito que elas serão
divertidas.

Ildiko não devolveu o sorriso. Ele podia achar tudo isso muito engraçado,
mas ela achava aterrador. Endureceu suas costas e segurou as rédeas em um
aperto forte. Seu novos sogros podiam ser um casal mortal, mas ela se recusaria
a ser intimidada.

— Duvido que sejamos muito diferentes de qualquer outra família real lá


fora, humana ou Kai. — Brishen guiou seu cavalo para mais perto dela. — Nos
casamos para fortalecer nossas posições, manter o poder, adquirir mais terras e
fornecer herdeiros para o trono. Um acordo de negócios em todos os sentidos.
— Suas feições eram sóbrias, o sorriso desapareceu. — Se tivermos sorte,
encontramos uma amável companhia em nossos cônjuges.
Sua descrição se aplicava perfeitamente à família real em com a qual Ildiko
cresceu. O amor de seus pais um pelo outro foi uma anomalia raramente vista
entre a aristocracia Gauri e não testemunhada na família imediata de Sangur e
Fantine. O casamento era um ato político. Afeto e companheirismo eram
geralmente reservados para amantes ou casos esporádicos.

— E quanto a amantes? — Perguntou ela. Por alguma razão, ela optou


por não insistir, uma nota interna discordante vibrava dentro dela com a ideia
de Brishen ter uma amante.

Uma sobrancelha negra se levantou. — O que tem elas?

— Você tem uma dúzia ou algo assim? — Ildiko ergueu o queixo perante
a contração da risada que ameaçou surgir da boca dele. Era uma questão
perfeitamente legítima. Os maridos de suas primas tinham cada um uma amante
e um bando de filhos bastardos. Seu tio, o rei, mantinha uma doce prima chamada
Annais, pela qual a rainha Fantine era eternamente grata.

Brishen perdeu a batalha para não sorrir. — Uma dúzia? Duvido que
poderia lidar com uma. — Ele mudou para uma posição mais confortável na
sela. — Além disso, tenho uma esposa Gauri para me confortar. Por que ter
uma amante?

Sua resposta confundiu Ildiko. — Mas esse não é o papel de uma amante.

— Não é? Acho que todos nós procuramos companhia, esposa. Às vezes


é físico, às vezes é muito mais. — Um lampejo estranho dançou em seus olhos
e como seu sorriso de antes, este desapareceu. — A solidão é um buraco vazio.
Nós procuramos por esse companheiro na luz. — Seus olhos brilhantes se
apertaram um pouco, aprofundando as linhas nos cantos de sua boca — Ou, no
caso de seres humanos, no escuro.

Brishen parou o cavalo pela segunda vez e puxou as rédeas de Ildiko para
parar sua montaria também. Ele devia ter dado um sinal invisível, porque os Kai
montando com eles alargaram o espaço ao seu redor para dar a eles mais
privacidade.

— O que foi isso? — Disse ela. — O que está errado?

Seu olhar pressionou Ildiko. Não com o peso sufocante de um cobertor


muito pesado no verão, contudo mais como um abraço que convidava à afeição.
Não pela primeira vez, ela desejou desesperadamente que pudesse ler seus olhos,
ver através da luminescência em direção a alma igualmente brilhante por trás
deles.

— Você será isso para mim, Ildiko? — Disse ele. — Essa luz no vazio?

O coração de Ildiko se partiu. A solidão era sua companheira mais


constante, a sombra silenciosa que pairou sobre ela durante anos. Se havia uma
coisa que ela entendia, era a imensidão do vazio interior. Sua resposta podia não
fazer sentido para ele agora, mas explicaria mais tarde, quando eles estivessem
sozinhos.

Ela estendeu a mão, os dedos traçando o padrão de espinha de sua manga.


— O vazio é vasto, como o mar à noite e sem terra à vista. Serei seu farol,
Brishen.

Ele capturou sua mão e beijou sua palma. Seus lábios eram frios contra
sua pele. — Meus pais vão detestá-la, esposa. — Ildiko sentiu todo o sangue
drenar de seu rosto. O sorriso de Brishen retornou. — Não tenha medo. Isso é
uma coisa boa. Eles me odeiam desde o nascimento. Eles apenas gostam
daqueles que podem esmagar.

Pareceu que ele acrescentaria algo, mas foi interrompido por gritos agudos
e ganidos excitados dos outros Kai. Ildiko tentou compreender o rápido fluxo
de palavras desconhecidas que fluiam entre os soldados, mas tudo o que pode
entender foi “Haradis” e “portão”. Ela virou-se para Brishen. — O que eles
estão dizendo? — Sua resposta fez nascer uma legião de borboletas em sua
barriga.
— Além desse declive fica Bast-Haradis, a capital. Bem-vinda ao meu
reino, Ildiko de Kai.
Capítulo Dez

Brishen escoltou Ildiko pelo longo corredor que levava à sala do trono.
Ela segurava seu braço, os dedos apertando a pele, mesmo seu antebraço. Era o
único sinal de sua ansiedade, além de sua palidez. Ela tinha uma expressão serena
e seus passos eram firmes e seguros na escuridão do corredor.

O silêncio de Ildiko aumentava conforme se aproximavam de Haradis e


se tornou completo quando chegaram ao cume e olharam para baixo para a
cidade mal iluminada aninhada em um pequeno vale rodeado por colinas
menores. Ela respondeu suas perguntas com acenos ou movimentos de sua
cabeça e de vez em quando um curto sim ou não. Ele podia sentir o cheiro do
medo saindo dela.

— Você não está sozinha, Ildiko. — Ele tranquilizou-a pela décima


segunda vez antes de sua caminhada até sala do trono e ela simplesmente
assentiu. Desta vez, ela se virou para ele, com o rosto limpo de expressão.

— Este é o reino de Bast-Haradis, Brishen. Sou humana. Aqui, estou


sozinha.

Ele parou e ela com ele. Brishen olhou para sua esposa humana,
observando o cabelo colorido e seus olhos estranhos, a pele pálida com seus
tons em constante mudança de acordo com seu humor. As reações de seus
soldados para com ela não seriam nada em comparação com as da nobreza Kai.
Isolados por tanto tempo, a maior parte dos nobres raramente viam um ser
humano. Aqueles que o fizeram, mal se lembravam. Olhariam, sussurrariam
entre si e fariam muito pior do que isso.

Brishen queria protegê-la. Protegê-la do julgamento inevitável, de


conhecer não apenas as víboras da corte, mas também aqueles que as
governavam – seus pais. Mas era incapaz de fazê-lo. Ela teria que enfrentá-los,
um ser humano entre um povo que até pouco tempo considerava sua espécie
como alimento. Mas ela não iria enfrentá-los sozinha.

Ele segurou sua mão livre. — Você também é uma princesa de sangue
através do casamento, um membro da família real. Minha esposa. Cada Kai
naquele recinto lhe deve sua lealdade e respeito. Cortarei qualquer língua que lhe
insulte, Ildiko. — Ele apertou os lábios contra a palma de sua mão.

Sua postura serena desapareceu. Sua boca se contraiu com a sugestão de


um sorriso. — Ou enterrar um machado em sua cabeça?

Sua culpa pela incapacidade de protegê-la de sua própria família aliviou


um pouco o nervosismo dela. — Sou adepto à lanças e as espadas. Apenas
nomeie quem você quer que eu espete para você.

O sorriso de Ildiko se alargou. — Acho que essa não é a melhor


abordagem para ganhar seguidores. — Ela inalou forte antes de soltar o ar
lentamente. — Posso fazer isso, mas você deve prometer que não soltará minha
mão, mesmo que tente quebrar seus dedos.

Brishen gentilmente puxou-a para seus braços. Sentia-a frágil em seus


braços – um pouco mais que uma sombra envolvida ao redor de ossos finos e
vestida em sedas Gauri. — Eu prometo.

— Eu não vou lhe envergonhar com o meu medo, Brishen. — Ela


sussurrou contra seu pescoço.

Ele suspirou em seu cabelo. — Mas poderia envergonhá-la com o meu,


esposa. — Ele acariciou suas costas e ofereceu um último conselho antes que
fizessem suas apresentações na corte. — São apenas serpentes, Ildiko. Esmague-
os sob seu calcanhar.

Ele a levou pelo resto do caminho para as portas duplas esculpidas,


guardadas por um par de soldados. Os sentinelas se inclinaram, seus rostos
fechados e sem expressão como o de Ildiko estava agora. As portas se abriram,
revelando uma câmara cavernosa, com tetos altos, paredes decoradas com
tapeçarias e armas ladeadas por estátuas de antigos reis e rainhas Kai – tudo
iluminado por tochas piscando.

Brishen mal registrou sua grandeza. Ele cresceu naquele palácio. O salão
era assim desde antes de seu avô nascer e provavelmente já muito antes disso.
Então, ele se concentrou nas figuras observando-os de tronos elevados em uma
plataforma com nove degraus.

O silêncio que cumprimentou-o e a Ildiko deu lugar a um zumbido


crescente de vozes. Um zumbido constante que aumentou de volume como a
chegada de um enxame de gafanhotos. Houve suspiros chocados, comentários
sobre os olhos terríveis da mulher Gauri e seu rosto estranho, expressões de
pena por ele.

Ildiko poderia não entender muito do que era dito, mas não demorou a
entender que a fluência do idioma Kai queria dizer que sua aparência estava
causando um rebuliço. Como ele, ela manteve o olhar treinado sobre o rei e
rainha. Seus dedos estavam firmes nos seus.

— Está tudo bem. — Ele disse em voz baixa.

Eles pararam no primeiro degrau que conduzia aos tronos. Brishen puxou
levemente a mão de Ildiko e ambos se ajoelhoaram.

Brishen dirigiu-se ao chão. — Suas Majestades, sou seu humilde servo.


Apresento minha noiva Ildiko, sobrinha do rei de Gaur, Sangur O Manco. Agora
minha hercegesé.

A sala do trono ficou em silêncio mais uma vez, pulsando com antecipação
enquanto Brishen e Ildiko estavam de joelhos.

— Vocês podem se levantar.— A voz sepulcral do Rei Djedor ecoou por


toda a câmara. Seus olhos eram quase brancos com a idade avançada e a pele
cinza estava pendurada em seus ossos faciais como roupas penduradas em um
varal. — Disseram-me que os soberanos de Belawat enviaram mercenários para
tentar matá-los e enfatizar sua não concordância com este casamento.
Brishen conhecia seu pai o suficiente para saber que, logo que fosse
concluída esta introdução, ele seria convocado à câmara do conselho para uma
descrição completa do ataque. Encolheu os ombros. — Matamos todos eles,
mas perdemos três dos nossos. Os nossos companheiros lutaram bravamente.
Carrego a luz-mortem de um.

Outro zumbido murmurado passou por entre a multidão de cortesãos que


estavam de ambos os lados da sala do trono. Brishen honrava a família do
soldado caído. A expressão do rei não se alterou com a revelação. Brishen não
esperava nada diferente. Seu pai nunca expressava aprovação ou desaprovação
pelas ações de seu filho mais novo. Elas não tinham nenhuma influência sobre
o trono ou a linha de sucessão, portanto, não tinham nenhuma importância.

Ele virou o olhar curioso para Ildiko. — Lembro-me da primeira vez que
vi um ser humano. Um homem. As mulheres são ainda mais feias.

Uma onda de risadas passou pela multidão com a mesma rapidez que
morreu quando Brishen virou para procurar quem ria. Os dedos de Ildiko se
contraíram em suas mãos.

Os lábios enrugados de Djedor se esticaram em um sorriso, revelando


dentes tão negros com a idade, contrastando com os olhos branco. Brishen
apoiou o ombro contra Ildiko para impedi-la de cambalear para trás. O rei virou-
se para sua esposa em silêncio. — O que você acha da sua nova filha, Secmis?

A rainha, bonita e tão jovem como o dia em que ela se casou com seu
marido, olhou primeiro para o filho e em seguida, para a mulher Gauri. Ao
contrário de seu marido, ela falava a língua universal, de modo que Ildiko
entenderia tudo o que dissesse. — Bem-vinda a Haradis, Hercegesé Ildiko. Espero
que possa encontrar seu lugar aqui. Meu filho sacrificou muito para se casar com
uma mulher humana e selar a aliança com os Gauri.

Seus lábios se apertavam enquanto ela falava e embora sua voz fosse
neutra, Secmis não se incomodou em esconder seu desprezo pela esposa de
Brishen.
Brishen imaginou ouvir o estalar das costas de Ildiko quando ela
endureceu ao seu lado. Ela puxou os dedos de suas mãos e avançou para a
segunda etapa, ombros para trás, o queixo erguido de forma altiva que desafiava
a própria arrogância da rainha. Um suspiro coletivo aumentou entre a nobreza
assistindo.

Brishen abaixou a mão ao punho da espada. Deuses proibissem que ele


tivesse que cortar seu caminho para fora da sala do trono para impedir que sua
mãe matasse sua esposa, mas ele faria isso se necessário. Ele se equilibrou sobre
as pontas dos pés, pronto para agarrar Ildiko e correr.

Sua própria voz estava calma, sem desdém, mas confiante e sem se deixar
rebaixar. — Que sacrifícios seriam esses, Sua Majestade? Vejo apenas um
homem que voltou para casa com uma noiva após uma viagem
reconhecidamente perigosa. Ele não tem quaisquer feridas, sem cicatrizes e
possui todos os seus membros. Ainda não tive tempo de dominá-lo até a morte.

Desta vez a risada da plateia foi disfarçada por barulhos e crises de tosse.
Brishen não sabia se gemia ou se a aplaudia. A sagacidade de Ildiko ganharia seu
respeito ou um mandado de execução.

Os olhos dourados de Secmis se estreitaram. — Você zomba de mim?

— Não, Sua Majestade. Isso seria rude.— Ildiko se inclinou em uma breve
reverencia. — Gostaria apenas de entender o sacrifício do meu marido. Ele
viverá em seu próprio povo. Não posso lhe dar filhos, mas a linha de sucessão
já foi assegurada muitas vezes. Ele não pode se casar com uma mulher Kai, mas
se a corte Kai é em algo parecido com a corte Gauri, sua união comigo não irá
impedi-lo de ter uma amante. Várias se assim desejar. Se ele não puder suportar
me olhar, podemos conversar à luz do dia, quando não vê tão bem. Então posso
dizer que o sacrifício é meu, não dele.

A pele de Secmis, da cor de aço polido, escureceu ainda mais. Seus olhos
brilhavam mais do que todas as tochas na sala do trono juntas. Ela quase se
levantou de seu assento, os dedos longos se curvando. Se Ildiko estivesse perto
dela, ela seria estripada.

Brishen puxou parcialmente sua espada da bainha quando o rei soltou uma
risada retumbante. Secmis o olhou tão duro que seria o suficiente para
transformar suas vestes em chamas. Ele a ignorou e bateu com a mão no braço
da cadeira. — Ela é feia meu rapaz, mas sem medo também. Você poderia estar
pior. — Ele apontou para as portas. — Tire-a daqui antes que sua mãe ordene
que ela seja decapitada.— Ele piscou e sorriu mostrando suas presas pretas para
Ildiko. — Você lidará com tudo muito bem, mulher Gauri. Estou ansioso por
nossa próxima reunião.

A viagem de volta para as portas parecia mil milhas e muitos anos mais
distante. Brishen estava contendo o impulso de correr para a segurança com
Ildiko em seus braços, mas precisa se manter em um passo calmo e imponente.
Uma vez que as portas se fecharam atrás deles, eles mantiveram o ritmo de até
que ficaram fora da vista e o alcance da voz dos guardas.

Brishen girou para ficar na frente de Ildiko. Mesmo a cor cinza de sua pele
desapareceu, deixando-a pálida como ossos branqueados. Seus olhos estavam
arregalados e pretos com terror. Ela deu um passo em direção a ele antes de seus
joelhos cederem. Ele a pegou nos braços e abraçou-a.

— Muito bem, Hercegesé! Você já enfrentou a minha mãe e agradou meu


pai. Não há um Kai naquela sala que cruzará com você agora.

Ela estremeceu contra ele, seu corpo tão gelado quanto seus dedos
estavam. Ele ouviu a rápido batida de seus dentes antes que ela apertasse sua
mandíbula e respirasse calmamente. Uma vez que se acalmou, ela inclinou-se
longe o suficiente para encontrar seu olhar.

— Eu fiz de sua mãe uma inimiga. — Ela disse com uma voz triste.

— Todo mundo é inimigo de Secmis, esposa. Você acabou de mostrar-se


digna diante de seus olhos.
— Eu vou morrer, não é?

Ele beijou sua testa. — Não, você irá comer. Nós ainda temos um jantar
formal para sofrer em poucas horas.

— Deuses me ajudem. — Ela murmurou.

— Você precisará disso. — Ele respondeu alegremente.


Capítulo Onze

Ignorando a aparência física, Ildiko achou os cortesões de Kai muito


parecidos aos de Gauri, todos ambiciosos, fofoqueiros e com uma grande
habilidade para sobreviver às intrigas selvagens da vida na corte.

Soube no momento em que as portas da sala do trono se abriram e ela e


Brishen cruzaram o umbral, que passavam por um corredor cheio de cães
curiosos e ávidos por sangue novo. A couraça blindada de Anhuset não oferecia
a Ildiko nenhuma proteção neste campo de batalha.

A familiaridade com a etiqueta da corte e a estratégia ofereceu certa


comodidade quando se ajoelhou no degrau mais baixo ante os pais de seu novo
marido. O Rei Djedor era um homem saído de seus pesadelos, um imortal que
teve seus ossos corroídos completamente. O corpo de Brishen contra suas
costas foi a única coisa que a impediu de sair correndo da sala do trono quando
o rei mostrou seu sorriso negro cheio de presas afiadas.

Sua fluidez no idioma Kai era boa, tanto que compreendia uma parte de
suas observações com respeito a feiura das mulheres humanas. Seus insultos
fizeram um bom trabalho para acabar com seu medo e substituí-lo por
indignação. Esta indignação borbulhava em uma raiva fervente quando Secmis
se dirigiu a ela no idioma universal.

A rainha ficou olhando fixamente com os olhos brilhando vermelhos nos


cantos e uma boca que se curvava em uma careta. Ela estava sentava no trono,
magra e vestida com um vestido ricamente bordado que caía em cascata sobre
a cadeira e se agrupava em seus pés. Seu cabelo era todo prata e estava decorado
com joias que piscavam sob a luz.

Em resposta aos comentários da rainha, Ildiko ficou tentada a perguntar


se Secmis ficaria mais cômoda se estivesse enrolada a redor do trono em lugar
de sobre ele. Os ofegos de horror dos nobres e a mão de Brishen em suas costas
enquanto desafiava o desprezo de Secmis, alertou Ildiko que já antagonizada sua
mãe malévola ao ponto de perigo e não precisava de mais insultos para inflamar
o confronto.

Apenas depois que escaparam da sala do trono, sua coragem,


impulsionada pela ira, a abandonou. Ildiko caiu nos braços de Brishen, assustada
com sua imprudência.

Ele manteve-se perto, seu elogio por sua valentia era a única coisa que a
mantinha de pé, enquanto a levava até um lance de escada e dois corredores
com uma porta decorada com gonzos fantasiosos. Ele abriu a porta, revelando
uma câmara espaçosa, ricamente decorada com uma grande cama, guarda-roupa,
caixas e uma mesa com cadeiras perto de uma lareira, onde um fogo baixo
crepitava.

Brishen a levou a uma das cadeiras. Ildiko caiu nela com agradecimento.
Ela era parte desta família agora. Como o restante, teria que dormir com um
olho aberto, sempre temendo Secmis.

— Quer uma taça de vinho? — Brishen pegou uma taça em uma mão e
uma jarra em outra.

— Tomarei duas. — Respondeu ela e lhe ofereceu um sorriso fraco. Pegou


a taça dele com as mãos trêmulas e procurou as palavras adequadas para não
falar muito mal de Secmis. Ela era a mãe de Brishen depois de tudo. — Sua mãe
é...

— Uma criatura sem alma, com uma sede de assassinato e uma inteligência
maior que qualquer outro no reino. — Brishen serviu vinho para si mesmo em
outra taça. — É ela uma mulher sem igual tanto em malicia como estratégia.
Meu pai seria uma decoração por décadas sem ela ao seu lado.

Ildiko piscou. Seu marido continuava confundindo-a com sua aceitação


sobre os poucos traços admiráveis de seus pais, assim como sua própria natureza
boa. Apenas podia supor que como os outros filhos da maioria das casas reais,
foi criado por uma tropa de babas, tutores, mentores e ao menos alguns
possuíam um caráter compassivo.

Ela queria lhe perguntar mais, mas falar sobre o rei e a rainha de Kai fazia
seu estomago azedar com o vinho. Em seu lugar, se concentrou ao seu redor.
— Onde estamos?

Sentou-se na cadeira do seu lado. — Seu quarto. Ao menos durante sua


estadia aqui no palácio. O que acha?

Distraída por sua segunda observação, Ildiko deu ao seu redor não mais
que uma olhada rápida. — É muito bonito. O que quer dizer com minha estadia
no palácio? — Um segundo nó de apreensão torceu seu ventre, ficando justo ao
lado do nó que se formou em seu encontro com Secmis.

Não era em absoluto incomum entre os nobres Gauri deixarem suas


esposas em fazendas distantes, isoladas da vida na corte, enquanto seus esposos
viviam existências separados com umas quantas visitas conjugais a cada ano para
assegurar a linhagem hereditária.

Enquanto Ildiko gostava da ideia de colocar uma maior distância entre ela
e Secmis, não conseguia saborear um futuro no qual ficava secando em algum
castelo esquecido, tendo como companhia apenas servos Kai ressentidos de seu
exilio como ela.

Brishen roçou o joelho com uma mão cinza. Uma unha negra tocou o
tecido fazendo um vinco. — Não se preocupe Ildiko. Estarei exilado com você.
Tenho uma casa nas fronteiras do extremo oeste do reino. Ficaremos aqui por
algumas semanas para que possa se familiarizar com a corte Kai e logo iremos
para casa.

Brishen disse – casa – de tal forma que soava como – santuário. Era óbvio
para Ildiko que embora tolerasse bem a corte Kai, seu coração residia em outro
lugar.
Ela lembrou-se de um mapa estendido sobre uma mesa no escritório do
Rei Sangur, os muitos reinos que compartilhavam a grade extensão de terras do
lado do Oceano Apteran. Ela franziu o cenho. — Sua casa está de frente para
as terras Beladine.

Ele concordou com a cabeça, seus olhos amarelos queimando brilhantes


por um momento. — Sim. Mas não estou indefeso e suspeito que nossos
vizinhos humanos ou bem esperarão antes de tentar outro truque como o da
rota comercial ou considerarão outra forma de frustrar esta aliança.

Ildiko esperava que os vizinhos escolhessem a segunda opção ou


simplesmente aceitassem a realidade do comércio e a aliança entre os Kai e os
Gauri. Enquanto desfrutasse de seu exilio auto imposto com Brishen a seu lado,
não queria fazê-lo do outro lado, em Beladine.

Ela terminou seu vinho e se levantou para colocar a taça na mesa. —


Anhuset nos acompanhará? — Ela sorriu com sua inclinação de cabeça. —
Bom. Eu gosto dela.

Um golpe na porta impediu qualquer outra conversa. Brishen ordenou que


seu visitante entrasse. Um homem Kai vestido com um libré, flutuou justo pela
porta, duas mulheres como sombra. Os três se inclinaram e o homem falou.

— Sua Alteza, Sua Majestade deseja que se encontre com ele na sala do
conselho. — Disse em Kai, mas a compreensão de Ildiko do idioma não era
ampla o suficiente para entender tudo.

Brishen concordou e se levantou. — Meu pai quer saber mais sobre o


ataque de Belawat na rota comercial. — Ele segurou sua mão e beijou seus
dedos, seu toque fresco e suave em sua pele.

O mensageiro do rei ficou de lado para que as mulheres entrassem no


quarto. Ildiko se levantou da cadeira e ficou de pé ao lado de Brishen. As
mulheres estavam vestidas com roupas de servos do palácio. Uma parecia mais
velha que a outra por uma década e ambas eram jovens. Enquanto a mais velha
tentava não olhar para Ildiko com a boca aberta, a serva mais jovem a ignorava,
seus olhos brilhantes exclusivamente em Brishen que devolveu o olhar com
intensidade.

— Lembro-me de você. — Disse com suavidade na língua universal. —


É parente de Talumey?

A moça franziu o cenho. Caiu de joelhos ante Brishen que também franziu
o cenho. — Sua irmã Alteza. Kirgipa. Sha-Anhuset enviou cumprimentos. Você
honra nossa família. Que um príncipe carregue o corpo de Talumey...

Brishen a interrompeu com uma mão em seu braço. — Levante-se


Kirgipa. — Ele a ajudou a se levantar. Seu rosto se aliviou, mas não a curva em
seus lábios. — Teria sido melhor que o tivesse devolvido à sua mãe com vida e
sem nenhum dano. Ele quem honrou sua família. Era um bom soldado e lutou
com valentia.

O queixo de Kirgipa estremeceu e Ildiko se perguntou se derramavam


lágrimas como o faziam os seres humanos quando ficavam tristes. A serva se
inclinou ante Brishen e logo a ela antes de voltar ao seu lugar ao lado da mulher
mais velha.

Brishen voltou-se para o mensageiro do rei esperando paciente junto a


porta. — Envie outra mensagem a mãe de Kirgipa. Levarei a luz-mortem de seu
filho logo de manhã. — Voltou-se para Ildiko. — Quer me acompanhar?
Gostaria de ir à noite, mas não tem como escapar da celebração sem soltar a ira
da rainha e todos envolvidos em nossa ausência.

Ildiko sentiu um arrepio ante a ideia da vingança de Secmis. Olhou para


Kirgipa antes de aproximar-se de Brishen para que apenas ele pudesse ouvi-la.
— Tem certeza? Sou uma estranha aqui Brishen e este é um assunto Kai em
carne e espirito.
Suas sobrancelhas negras se ergueram, surpreendendo Ildiko. — Você é a
primeira e mais importante na casa real de Khaskhem. Não há um lugar proibido
para você, a não ser pela vontade de Djedor e Secmis.

Se estivessem sozinhos, ela podia ter suavizado a linha que dividia suas
sobrancelhas. Em seu lugar Ildiko limitou seu contato a uma breve caricia em
seu braço. Não perdeu os olhares vigilantes dos servos ou os olhares que
trocaram entre eles.

— Isto não é uma questão de posição ou acesso Brishen, mas discrição.


Será que uma mulher de luto pela perda de seu filho dará as boas-vindas a uma
estranha que irá testemunhar isto, especialmente uma que chama tanta atenção
como eu?

Brishen ainda franzia o cenho e seus olhos brilharam um pouco mais. —


O que faria em meu lugar?

Ela encolheu os ombros. — Quando perdi meus pais, não encontrei


consolo na simpatia de estranhos, mas cada pessoa é diferente. E não sou de
Kai, nem uma mãe, então não tenho experiência.

Ele a olhou por um momento. — Pode ir por mim?

— Sim. — Disse sem duvidar.

Obviamente satisfeito com a resposta, Brishen se inclinou e voltou-se


novamente para o mensageiro. — Vamos terminar com isto para que possa
voltar à minha esposa. — Parou e voltou-se para Ildiko antes de entrar no
corredor. — O quarto ao lado é o meu. Pode explorá-lo. — Piscou um olho. —
Para desgosto da família, sou um homem com poucos segredos.

Desapareceu no corredor, fechando a porta atrás de si e deixando Ildiko


sozinha com as duas mulheres Kai.

O silencio fez Ildiko pensar no que dizer. — Ainda estou aprendendo seu
idioma. — Disse. Ambas as mulheres se moveram e Ildiko se felicitou por
aprender a ler melhor as expressões de seu povo adotado. Ela definitivamente
viu surpresa cruzar os rostos das servas com as palavras pronunciadas em Kai.

— Até onde posso dizer, falam melhor o idioma universal do que eu falo
Kai, então porque não começamos com a linguagem universal e vocês podem
me ensinar outras palavras enquanto conversamos?

Elas concordaram juntas e as três começaram um diálogo rebuscado entre


elas, já que ajudavam Ildiko a desempacotar suas coisas e instruíram outros
servos a providenciarem uma banheira para um banho. Ildiko já conhecia
Kirgipa e descobriu que o nome da outra mulher era Sinhue.

Durante sua viagem de Pricid a Haradis, Ildiko se acostumou com os


olhares dos Kai, às vezes curiosos, outras vezes rebeldes. Sinhue e Kirgipa não
lhe incomodavam e elas não eram nada em comparação com o que iria enfrentar
na celebração de boas-vindas mais tarde, onde provavelmente não iria ser muito
bem-recebida.

Com exceção de algumas exclamações sufocadas quando Ildiko tirou a


roupa e entrou na banheira, as duas servas foram prudentes, civilizadas e uteis.
Ildiko imaginou que inclusive ouviu uma nota de aprovação na voz de Sinhue
quando ela concordou que deveria usar um vestido Kai ao invés de Gauri para
a celebração.

Durante a preparação, ouviu movimentos e ranger do lado. Brishen deve


ter voltado da sala do conselho onde esteve com seu pai e enquanto ela estava
se arrumando a festa que se aproximava. Isto se confirmou quando ele bateu na
porta e entrou ao seu comando.

Já não estava vestido com peles e sua armadura, Brishen agora estava com
uma roupa ainda mais formal que a que usou no casamento em Pricid.

Uma túnica com mangas e até o pescoço, cobria a maior parte da camisa
justa e a calça, tudo em vários tons de negro e seda, com bordados em verde
escuro. Pedras minúsculas estavam presas em seu cabelo preto. Com exceção
das tranças, seu cabelo estava solto e caía sobre seus ombros, escuro como as
asas de um corvo.

Estar na constante companhia um do outro durante a viagem a Haradis,


mudou a forma como Ildiko o via – de austero para bem-humorado. Seu sorriso
cheio de dentes ainda a assustava tanto como seus olhos, mas começou a
entender porque as mulheres de Kai achavam seu marido atraente.

Não abandonou totalmente seu adorno de guerra. Um largo cinto de


couro grosso decorado com metal segurava a túnica em sua cintura estreita.
Qualquer pessoa interessada em passar uma faca entre suas costelas, iria
encontrar a difícil tarefa de atingir sua pele. No cinto havia um grande anel
costurado no couro, onde Brishen mantinha sua espada afiada. Estava apoiada
no quadril, além de vários punhais na parte superior de sua bota. Ildiko supunha
que provavelmente estivesse bem armado, com outras que não poderia ver.

— Vamos à guerra ou a uma festa? — Brincou.

— Está é a corte de Djedor, hercegesé. — Disse. — Com frequência são a


mesma coisa.

Enquanto Ildiko sabia que brincava com ela, sua observação fez seu
estomago girar nervoso. Ela não era muito de tomar vinho ou cerveja, mas
esperava que ambos corressem livremente durante a festa, do contrário suas
mãos iriam tremer tanto que poderia apunhalar a si mesma com sua própria faca.

Rapidamente descobriu que seu marido estava começando a ler suas


expressões, justo como estava aprendendo a ler as dele. Aproximou-se para
sussurrar em seu ouvido. — Fique tranquila Ildiko. Não será tão ruim. Irei pintar
as paredes com sangue Kai se alguém se atrever a ameaça-la

Brishen se referia a sua declaração como uma garantia, mas Ildiko


estremeceu. Ele era muito protetor com ela e por isso agradecia. Ainda assim,
esperava que pudessem passar pela celebração sem nenhuma decapitação ou
desmembramento.
Afastou-se e a olhou com um olhar brilhante. — Não esperava isto. —
Disse.

Enquanto Brishen se reunia com o rei e seu conselho, Ildiko se preparou


para a festa. Quando suas novas servas colocaram os vestidos que trouxe de sua
casa na cama, os desaprovou. — Deveria usar um vestido Kai. — Um vestido
novo ou um penteado não a faria menos Gauri ou mais Kai, mas usar um
poderia demonstrar sua vontade de aceitar a cultura Kai.

Ao seu pedido, Sinhue se inclinou e saiu do quarto, surpreendendo tanto


Ildiko como Kirgipa. A serva voltou com dois homens Kai que arrastavam um
grande baú pela porta e o empurraram contra a parede. Quando saíram, Sinhue
levantou a tampa e indicou a Ildiko que se aproximasse.

Ildiko ficou sem folego ante a visão de tecidos exuberantes um sobre os


outros – verdes, dourados e misturas de bronze e negro como o sangue de uma
serpente. Tons de amaranto e cobalto brilhavam como joias entre as cores mais
escuras.

Agachou-se junto a Sinhue e afundou as mãos no tesouro, puxando lenços


de seda e calças, túnicas bordadas com pesados fios de ouro e pedras preciosas,
cobertos com correntes de ouro delicadas como teias de aranha. — É tudo tão
lindo.

O amplo sorriso de Sinhue deixou Ildiko arrepiada. — Sua Alteza os pediu


antes de ir a sua terra natal, Hercegesé. São seus. Deram-nos instruções para deixá-
los guardados até que tenha escolhido um momento para usá-los.

Ildiko ofegou, ainda assombrada pelo conteúdo do baú. Era mais fino que
qualquer coisa, mesmo a rainha Fantine não usava algo assim nas festas
celebradas nos assuntos de Estado. Sua própria roupa no casamento se
comparada com estas, eram trapos. — Agora é um bom momento. — Disse.

Duas horas depois com os esforços entusiasmado de suas servas em vesti-


la e tentar domar seu cabelo, Ildiko estava de pé diante de Brishen como um
vestido Kai. Das muitas vezes que desejava ler facilmente as expressões dele,
nunca desejou fervorosamente como agora, por mais habilidade que tivesse.

Estava vestida deixo da túnica de forma similar a Brishen, com uma túnica
larga sobre uma camisa mais justa. Sua túnica era mais larga que a dele e mais
curta para dar a ilusão de uma saia, mas com muito mais liberdade de movimento
que uma saia permitia. Usava uma calça por baixo da túnica, dentro de botas
com cordões que chegavam às panturrilhas. O cinto que rodeava sua cintura
não era tão largo como o dele, mas com rubis não muito maiores que uma
pimenta e brilhavam como pequenos olhos de demônio na penumbra.

Apesar da sugestão educada, mas insistente de Kirgipa e Sinhue de que


outra cor poderia ser mais adequada, Ildiko escolheu se vestir de negro. Tudo o
que usava esta noite, até os pentes em seu cabelo, tinha uma mensagem
silenciosa. Usar uma roupa Kai apontava sua disposição em aceitar seu povo.
Usar uma cor que crucialmente ressaltava sua pele e cabelo, apontava que ainda
era uma humana de Gauri e sem vergonha deste fato.

— O que acha? — Perguntou a Brishen girando em um círculo. — Com


isto bastará?

Ficou de pé diante dela, em silencio durante um longo momento. As


palmas de Ildiko se umedeceram e atrás de Brishen as servas apertavam suas
saias nas mãos, fazendo pressão nos nós dos dedos.

Brishen segurou sua mão e puxou até que ficou perto o suficiente para
sentir o calor de seu corpo. Sua mão se apoiou levemente em suas costas, os
dedos traçando a linha superior do cinto. — Você é muito inteligente esposa e
tem um talento para dizer muito mesmo quando fala pouco. — As linhas nos
cantos dos olhos se aprofundaram e os cantos da boca se ergueram. — Será
muito melhor.

Algo se acendeu entre eles, um sentimento de intimidade, de pertencer.


Por um breve momento, Ildiko se sentiu como se ela e Brishen estivessem
sozinhos naquele quarto, unidos não apenas pelos votos, mas pelas semelhanças
muito maiores que suas diferenças óbvias. Brishen da casa de Khaskhem era um
homem tão fino como qualquer humano, Kai ou outra raça antiga que
povoavam estas terras e o afeto de Ildiko por ele aumentava a medida que o
conhecia melhor.

— Par uma enguia morta está muito bonito, meu marido. — Disse ela e
lhe piscou um olho. Sinhue e Kirgipa ficaram sem folego.

— Para um molusco fervido, o negro lhe cai muito bem, minha esposa.
— Brishen disparou novamente e seu sorriso ficou mais amplo.

Mais suspiros e Ildiko viu as duas servas com as bocas abertas e olhando
em choque a troca de insultos.

O repentino golpe na porta fez as mulheres pularem. Kirgipa foi a primeira


em responder e manteve a porta aberta quando uma procissão de servos
entraram carregando uma mesa pequena e bandejas. Eles colocaram na mesa
perto da lareira e as bandejas sobre ela. Pratos, garfos, guardanapos de linho
foram colocados sobre a mesa para duas pessoas de frente a lareira e um deles
serviu vinho para ela e Brishen, o mesmo que tomou mais cedo.

Os servos saíram tão rápido e silenciosamente como entraram, deixando


Ildiko olhar pela primeira vez as bandejas, das quais cheiros de temperos
flutuavam no ar e logo depois Brishen, quem despediu Sinhue e Kirgipa com
um movimento da cabeça.

Ildiko observou as diferentes bandejas. — O que é isto? Pensei que


teríamos um banquete na celebração. — Ela gostava da ideia de saltar esta prova
e comer ali com apenas Brishen de companhia, mesmo se estivessem vestidos
muito formais para um jantar tranquilo entre eles.

Brishen fez um gesto para uma das cadeiras. — Sente-se. É uma prática
jantar antes. — Estendeu um guardanapo de linho em seu colo quando se
sentou. — Terá o peso de cada olhar sobre você na festa Ildiko e será servida
coisas que nunca comeu antes. Prefiro que não se surpreenda com nenhum
prato.

Ildiko se encolheu um pouco com culpa. Brishen comeu com valentia tudo
o que foi servido no banquete em Gauri depois de seu casamento. Foi incapaz
de determinar suas expressões enquanto colocava a comida na boca e mastigava,
mas a tensão em todo seu corpo lhe contou o suficiente para saber que o jantar
foi uma tortura em particular.

— Sinto muito pela batata, Brishen. — Disse.

Seus lábios se apertaram e tomou um gole do vinho antes de se sentar ao


seu lado. — Não precisa se desculpar, ainda que nunca irei entender como os
Gauri comem voluntariamente tão mal uma comida asquerosa.

Ildiko temia que logo teria um eco deste sentimento.

Brishen deslizou a primeira bandeja sobre a mesa e retirou a tampa. O


prato era uma mistura de frutas frescas e folhas em uma salada doce. Advertiu-
a para pegar apenas um pouco para que não ficasse muito cheia para comer mais
tarde.

Ildiko gostou e reconheceu algumas frutas. Enquanto o tempero era um


pouco diferente do que estava acostumada, tinha o gosto bom e ela esperou com
interesse o próximo prato, com menos temor.

O quarto prato – frango assado e logo um ensopado de salsa picante – a


deixou completamente confusa. Pelo que podia dizer até o momento, os
cozinheiros reais de Kai eram muito bons e a comida excepcional. Ela poderia
gostar destas comidas saborosas.

A quinta e última bandeja demostrou que suas suposições estavam erradas.


Brishen levantou a tampa com broche de ouro, revelando uma torta grande o
suficiente para alimentar duas pessoas. O cheiro quando a tampa se levantou
brincou o com nariz de Ildiko, com seus aromas de ervas e pimenta. O conteúdo
completamente dourado, tinha por cima uma trança de massa e fantasiosos
recortes que revelavam que o cozinheiro era tanto um artista como um padeiro.
Sua boca se encheu de água.

E logo a torta se mexeu.

Ildiko abriu a boca e se levantou de seu assento fazendo a cadeira cair no


chão. — Meus deuses, viu isto?

A expressão estoica de Brishen não mudou e ele fez um gesto para que se
sentasse. — Deve se acostumar com este Ildiko. Serve-se no auge da festa e da
celebração. Um manjar entre os Kai. Com certeza será servido mais tarde. Casais
recém-casados compartilham como um símbolo de fortuna e prosperidade no
casamento.

Ildiko fez o ele pediu e se sentou, mas deslizou sua cadeira um pouco mais
longe da mesa. — O que há nesta torta? — Fosse o que fosse, ainda estava vivo.
Que se dane a fortuna e prosperidade. Sua garganta se fechou em protesto com
a ideia de ter que engolir algo vivo e que continuava se contorcendo.

Brishen pegou sua faca. — Olhe de perto, porque em algum momento,


terá que fazê-lo você mesma. — Ficou olhando a torta, tão concentrada como
um falcão em um galho olhando um rato no campo abaixo. Um pedaço da torta
ondulou, criando rachaduras em toda superfície lisa. Uma coluna vertebral negra
apareceu através da massa e balançou em direção a Brishen.

Ele enfiou a ponta de sua faca com força o suficiente para fazer o tampo
da mesa vivrar o vinho salpicar. Um grito perfurou o silencio. Brishen virou a
faca. Ouviu-se um ranger e a torta se rompeu bruscamente, deixando algo negro
sobre a mesa.

Desta vez, Ildiko saltou de sua cadeira para ficar atrás dele, com os olhos
abertos e horrorizada quando Brishen tirou sua faca da torta destruída. Ela saiu
livre com um som de sucção, revelando um tipo de inseto, muito parecido com
um escorpião empalado na ponta da faca em espasmos. Ildiko colocou a mão
sobre a boca e rezou para que não ficasse doente.
Brishen colocou o animal em seu prato, tomando cuidado com o ferrão
venenoso na ponta de sua cauda cheia de nós. A faca perfurou a casca dura da
criatura para segurá-la no lugar. Brishen levantou uma segunda faca e cortou a
cauda letal, em seguida, a cabeça com suas múltiplas hastes de olhos e dentes
curvos. O que restou foram as garras e o corpo dentro da carcaça.

Brishen rachou o resto da casca da mesma forma que Ildiko viu os


marinheiros fazerem com as lagostas. Ele descascou os segmentos, expondo
uma carne cinza. Cortou longe do corpo principal, deixando uma camada de
gordura espessa, amarela e uma veia preta manchada que descia do centro.
Abaixo disso, uma outra camada de carne cinza.

Ildiko lentamente se levantou e observou como Brishen colocava a


primeira camada de carne em seu prato e derramava um pouco de liquido escuro
oleoso sobre ela. Raspando a camada de gordura e a veia da carne, colocou o
restante em seu prato.

Ele iniciou e concluiu o processo sem olhar para ela. O foco de Brishen
deslocou-se para Ildiko finalmente e sua voz tinha simpatia e uma espécie de
humor negro. — Fico feliz que esteja vestida de preto, esposa. Ninguém verá as
manchas.

Ela olhou para ele, sentado calmamente entre a ruina da torta e os restos
da criatura morta e eviscerada. Sua porção da hospitalidade Kai estava em seu
prato, um pedaço cinza pálido brilhante com uma gosma preta que escorria
pelos lados. Ele se contraiu uma vez.

O estomago de Ildiko se revirou e ela correu para a bacia ao lado da cama.


Um braço forte deslizou ao redor de sua cintura, apoiando-a enquanto ela
vomitava dentro da bacia. A mão de Brishen acariciou seu cabelo. Ele ofereceu-
lhe um copo de água para enxaguar a boca.

Depois, ela olhou para Brishen com os olhos turvos, mas decididos. Ildiko
enfrentou uma mulher muito mais venenosa do que aquela criatura. Ela não
seria derrotada pelo jantar. — Pelo menos me diga que tem gosto de frango.
Capítulo Doze

Embora sua mãe estivesse planejando o assassinato de Ildiko por sua


imperdoável recusa de ser intimidada, Brishen não poderia criticar a rainha pela
festa que ela ordenou ser preparada para a chegada oficial dele e sua esposa.

A sala de jantar estava ricamente decorada. As flores dos jardins reais


estavam penduradas em guirlandas sobre as janelas e luxuosamente espalhadas
nas mesas, suas pétalas opalescentes brilhavam sobre as luzes bruxuleantes das
velas e lâmpadas penduradas. As mesas foram cobertas por toalhas de um tecido
fino de linho e seda, os bancos nos quais a nobreza se sentava, foram forrados
com almofadas de veludo.

A mesa principal estava ainda mais marcante, enfatizando a riqueza e


poder da casa real. Um exército de criados uniformizados estavam alinhados nas
paredes atrás das mesas, prontos para servir.

Tudo era grande, até majestoso – adequado para um herceges real e sua
hercegesé. Brishen desejou ferozmente que pudesse segurar a mão de Ildiko e
escapar de volta para o quarto dela – ou seu – e compartilhar uma refeição
sozinhos. Se não lá, então com os soldados sob o seu comando. Mesmo as
rações de estrada tinham um gosto delicioso quando compartilhados em uma
boa companhia. Ildiko poderia evitar outra porção de scarpatine6 e as interações
venenosas de seus pais. Como escapar não era uma opção, rezava para que a
celebração terminasse rapidamente.

Ele se aproximou da mesa principal, Ildiko a seu lado e destinatária de


inúmeros olhares curiosos dos nobres reunidos no salão. Ela aborrecia seus
exames orgulhosos. Vestida com sua elegância negra, ela era a imagem de

6 É o animal que se moveu na torta, é um cruzamento entre um escorpião e uma lagosta.


serenidade e confiança – ombros e costas retos, queixo empinado – arrogante
como qualquer membro da casa real.

Ela vestiu bem sua máscara, mas Brishen sentia o medo dela. Sua mão
repousava na dobra do cotovelo dele, os dedos enterrados em sua manga. Ao
invés de humana ele era Kai e possuía as mesmas unhas afiadas, ela poderia
cortar através do tecido e marcar seu antebraço com sangue. Felizmente seu
aperto era apenas forte o suficiente para diminuir a circulação de sangue para os
dedos dele.

Ildiko podia não retribuir o sentimento, mas Brishen se considerava com


sorte por tê-la como esposa. Ela era astuta e perspicaz. Criada em outra corte
real, ela entendia suas maquinações e manipulações, suas mensagens sutis
transmitidas em algo tão inofensivo como o corte de uma túnica ou sua cor. Ele
a protegeria o quanto fosse possível das críticas dos Kai, que se concentraria na
aparência dela e então se espalharia, mas suspeitava que ela conseguiria proteger
por si mesma, até mesmo do mais mordaz Kai. Eles testemunharam Ildiko
responder aos comentários rudes de Secmis e a ameaça implícita em suas
perguntas intencionais. Apenas alguns estúpidos Kai continuariam assumindo
que ela era uma covarde apenas por ser humana.

Os nobres se curvavam conforme ele e Ildiko passavam. Brishen ignorou


seus olhares como sempre fazia e inclinou-se para perto de Ildiko. — Como está
o seu estômago?

Ela olhava para frente, mas seus dedos estavam no braço dele. — Quase
bom. — Ela disse suavemente.

Ele abafou um sorriso pela resposta prudente dela. A ideia de apresentá-


la ao leve cozido de scarpatine antes do jantar foi estratégico. Mesmo alguns dos
Kai achavam o prato repugnante e isso se mostrava mais desafiador do que
servir uma entrada tão boa de comer como uma batata com gosto de nada.

A reação dela não o surpreendeu. Sua determinação em comer a carne


cinza ainda se contorcendo no prato o surpreendeu. Ildiko enxaguou a boca
com água e vinho enquanto ele colocava a vasilha para fora da porta dela. —
Você tem certeza que não quer manter isso aqui por enquanto? — Culpa o
percorreu com força pela lembrança dele a abraçando enquanto ela esvaziava o
conteúdo de seu estomago.

Ela balançou a cabeça. — Tenho certeza.

— E se ficar doente novamente? — Era perfeitamente possível. Cortar a


torta e massacrar o scarpatine não foi a pior parte.

O queixo de Ildiko se ergueu e ela marchou de volta para a cadeira dela.


— Não irei. — Antes de Brishen dizer algo, ela se sentou, agarrou o punhal,
cortou um pedaço de scarpatine e colocou em sua boca.

As sobrancelhas de Brishen se ergueram. Ele pairou perto da porta, pronto


para pegar a bacia de volta e correr para o lado de sua mulher. Ildiko mastigou
devagar, sua sobrancelha se franziu em concentração. Ela engoliu e bebeu o
vinho dela.

— Bem? — Ele disse.

Ela olhou para ele do canto do olho antes de cortar outro pedaço. A massa
cinza se contraiu entre os dedos dela e ela bateu contra a borda do prato para
dominá-la. — Não tem gosto de frango. — Ela mordeu e mastigou novamente.

Brishen riu, satisfeito e aliviado. — Não, não tem. — Garantido que ele
não teria que pegar a bacia, se juntou a ela na mesa. Sua porção de scarpatine
esfriou e ele suspeitava que a dela também. — Qual gosto tem para você? —
Ele perguntou entre mordidas.

Ildiko observou a pequena porção empalada na ponta de seu punhal. —


Um pouco lamacento. Um pouco salgado. Quase como se alguém pegasse um
peixe, passasse na terra e o tivesse deixado cozinhar dentro de uma bota suada.

Ele estremeceu com a vívida, embora precisa descrição. — Você iria


reduzir o cozinheiro real a crises de melancolia se ele te ouvir dizer isso.
Ela encolheu os ombros. — Ele me reduziu ao vômito com sua torta
repulsiva. Não me sinto culpada. — Ela abaixou seu punhal com o scarpatine
ainda sobre ele e empurrou o prato para longe, um gesto que arruinava sua
postura fina. — Não vou mentir, Brishen. Está além de desagradável, mas
agradeço por fazermos isso agora. Eu teria nos humilhado na festa.

Brishen empurrou sua porção, comida pela metade de lado também e


pegou a mão de Ildiko. Os dedos dela se entrelaçaram aos deles, a pele de sua
mão tão pálida que ele poderia traçar um filigrama7 de veias azuis abaixo dela com
o polegar. — Não acho que seja possível, esposa.

Suas faces coraram em um vermelho brilhante. Três dias antes sua resposta
o teria alarmado e ele pensaria que ela estivesse doente. Ele descobriu desde
então que tal coloração era semelhante ao blush escurecido dos Kai – uma
expressão de raiva, vergonha ou prazer. O aperto que ela deu na mão dele
garantia que ela gostou de suas palavras.

— Você possui um estômago mais forte do que eu acreditava, se pode


comer scarpatine sem engasgar. — Ele ainda estava surpreso. Ela ficou
violentamente enjoada depois de observá-lo dividir a criatura, quase não tinha
esperanças dela ser capaz de comer sem ficar enjoada uma segunda vez.

Ildiko soltou seus dedos dos dele e acariciou sua mão. — Duvido que a
corte Gauri seja tão diferente da Kai. Se a nobreza não está espionando uns aos
outros, eles estão se difamando. Tudo é motivo para fofocas e ridicularização.
A menos que você queira ser o tema da conversa entre os senhores e senhoras
entediados que estão esperando para afundar as suas garras em você, coma o
que lhe é servido e aja como, se fosse agradável. Aprendi em segurar a respiração
enquanto mastigava e respirar pelo nariz quando engolisse. Sempre tenho
certeza que minha taça está cheia.

7 Um trabalho ornamental feito de muitos fios, finos e pequeninas bolas de metal, soldados de forma a compor um desenho.
Ela piscou para ele e levantou o punhal para colocar no prato onde estava
o scarpatine. — Está é uma das coisas mais horrendas que já comi, porém não
é nada comparado com o prato de sopa de ervilha do Rei Sangur. Jurarei até a
minha morte que aquilo foi feito e preparado por uma matilha de demônios
podres. O cozinheiro a servia para nós uma vez por semana sem falta, embora
eu não me lembre de ninguém ter que lutar contra um ataque vicioso de ervilhas
apenas para engolir a sopa.

Com suas palavras, as preocupações persistentes que Brishen tinha sobre


a capacidade dela de resistir a uma nova rodada de comida Kai desapareceu
completamente, junto com quaisquer dúvidas que restavam sobre sua adaptação
à está nova vida. Ela ficou ao lado dele no salão de jantar, assustada, mas
decidida. Não apenas esta mulher Gauri sobreviveria no mundo Kai, como
prosperaria.

Um arauto anunciou a chegada do rei e da rainha. A conversa no salão


cessou abruptamente e como um, todos os convidados se curvaram. Ildiko se
pressionou ao lado de Brishen. — Espero que a rainha não decida me assar para
uma torta. — Diversão saiu de sua voz, mas Brishen ouviu o fio de medo
também.

Ele apertou a sua mão ao seu lado com o cotovelo. — Se ela tentar, eu a
coloco em um espeto, esposa.

Uma risada suave provocou seu ouvido. — Você não pode espetá-la. Ela
é a sua mãe, Brishen.

— E um adversário mortal que eu ainda tenho que enfrentar. — Ele


respondeu.

Eles se endireitaram quando os monarcas passaram, a pele de Brishen se


arrepiou sob o peso do olhar de Secmis quando ela nivelou um olhar estreito
sobre ele e depois Ildiko antes de tomar o seu lugar ao lado do marido na mesa
principal. Harkuf, o irmão de Brishen e sua esposa Tiye logo tomaram seus
lugares do lado direito do rei.
Brishen cutucou Ildiko após a passagem do herdeiro ao trono. — Nós nos
sentamos ao lado da rainha. — Disse ele.

Ildiko apertou com força seu braço. — Encantador. — Ela murmurou.

A festa começou como a maioria das festas – cheia de cerimonias e


artifícios. A nobreza manobrava entre si para os seus lugares escolhidos,
discutindo sobre qual posição e ligação familiar eles tinham para um lugar
próximo a mesa principal. Brishen suspirou e brincou com sua faca. Isso
acontecia em todos os jantares oficiais e celebrações e era uma das coisas que
ele não sentia falta quando saia da corte para sua casa isolada.

Ildiko sentou-se ao lado dele, rígida e silenciosa, com o olhar para a frente.
Secmis sentou-se em seu outro lado, as garras tamborilando em uma batida na
mesa enquanto todos esperavam Djedor para começar a festa com as boas-
vindas oficiais para a esposa de Brishen.

Desta vez Djedor omitiu quaisquer insultos sobre a aparência de Ildiko e


manteve sua aceitação formal dentro da família real Kai, misericordiosamente
breve. Brishen adivinhou que seu pai estava faminto e não queria perder mais
tempo em sutilezas quando existia comida quente esperando para ser servida.

Sua declaração formal de reconhecimento, embora breve, legalizou o


poder de Ildiko que ela não possuía anteriormente. Ela poderia ser uma Gauri
humana na aparência, mas acabou de se tornar Kai onde realmente importava –
na posição da corte. Ela era oficialmente uma hercegesé agora, uma verdadeira
duquesa. Brishen se encostou aliviado na cadeira. Agora eles tinham apenas que
passar o jantar interminável e toda a maldade que Secmis decidisse jogar neles.

Eles não esperaram muito. A rainha disparou o primeiro tiro assim que os
servos colocaram as tigelas de sopa na mesa. — Vocês seres humanos são
muitos pálidos. — Ela disse no idioma universal. — Apenas nossos doentes têm
esse tom.
Aqueles que se sentavam mais próximos da mesa principal e ouviram o
comentário, riram entre si e passaram o comentário para os outros que se
sentavam fora do alcance. Brishen abriu sua boca para criticar sua mãe. A mão
de Ildiko em sua perna embaixo da mesa o impediu.

Ela tomou um gole da sopa em sua colher, não oferecendo nenhuma


indicação de que o sabor da sopa ou o comentário de Secmis a incomodou. Ela
enxugou os lábios com um guardanapo antes de responder. — Você está certa,
Vossa Majestade. Nós somos bastante pálidos e os Kai são muito cinzas. Apenas
nossos mortos têm essa cor.

Os lábios de Secmis se apertaram antes dela recuar, expondo as pontas de


suas presas. Mais sussurros e alguns roncos abafados de diversão saíram das
mesas inferiores. A mão dela se enrolou ao redor do seu punhal. Brishen
deslocou-se lateralmente em sua cadeira para ela, preparado para agir como um
escudo para Ildiko em caso de Secmis decidir atacar.

O brilho em seus olhos queimava. Ela mudou de tática. — Seu idioma Kai
é muito desajeitado. — Disse ela na mesma língua.

— Falo melhor no idioma universal. — Ildiko disse em impecável Kai.

Brishen escondeu seu sorriso e começou sua própria sopa. Ele era intuitivo
o suficiente para saber que uma interferência de sua parte não seria bem recebida
por qualquer mulher. Tinha a súbita sensação desconfortável de estar sentado
entre dois grandes gatos, ambos mostrando e retraindo suas garras como se
estivessem se enfrentando.

A rainha continuou com suas observações mordazes que acertavam tudo,


desde a maneira que Ildiko usava o cabelo à maneira que ela segurava sua colher.
Ela era limitada em quais insultos poderia atirar. A linhagem de Ildiko estava
fora dos limites, desde que os pais de Brishen a consideraram aceitável o
suficiente para o seu filho mais novo, mas ela não poupou seu desprezo em
outros assuntos. Ildiko permaneceu educada e totalmente indomável sob o
desdém óbvio de Secmis.
Brishen se inclinou para frente para ter um rápido vislumbre de seu irmão
na outra extremidade da mesa. Harkuf não ouvia a troca entre a rainha e Ildiko
ou ele não se importava. Sua atenção permanecia exclusivamente na comida a
sua frente, com olhares ocasionais para sua última amante sentada em umas das
mesas inferiores. Sua esposa Tiye era uma história diferente. Muito distraída
pelas interações entre Secmis e Ildiko, ela comia, sua expressão oscilando entre
fascinação e horror enquanto ouvia a conversa.

Brishen imaginava que tudo o que ouvia a chocava. Secmis aterrorizava


Tiye, tanto quanto aterrorizava Ildiko. Ao contrário de Ildiko, Tyie nunca se
levantou contra a sogra formidável em qualquer palavra ou ação. Ele não sabia
se ela era mais fraca que Ildiko ou simplesmente possuía de autopreservação
melhor.

A troca entre a rainha Kai e sua recém adquirida nora Gauri continuou
durante a maior parte da refeição, com os convidados do jantar em seus assentos
tentando ouvir cada palavra e expressão. Seu escrutínio se intensificou quando
o último prato foi servido – torta de scarpatine, com sua crosta dourada e seus
conteúdos ainda se contorcendo.

Brishen inclinou-se para Ildiko. — Você está pronta?

Ela o surpreendeu com um exalar suave de alívio. — Sim. — Ela


sussurrou. — Se isso é o que preciso para silenciar sua mãe, comerei está torta
vil durante todo o dia.

Uma risada ameaçou escapar de sua garganta. Ildiko saltou em seu assento
quando Brishen se virou e apertou sua bochecha contra a dela, de modo que seu
rosto ficasse longe do público, seus lábios roçaram seu ouvido. Era uma
importante exibição de afeto em público e sabia que sua mãe ficaria irritada ao
longo dos dias e a corte fofocaria sobre eles por semanas.

Ele se permitiu uma leve risada depois. — Conquistarei reinos se você me


pedir, Ildiko.
Ela afastou-se o suficiente para encontrar o seu olhar sorridente, sua
própria boca se curvando. — Apenas destrua a torta sem que qualquer um de
nós fique sujo de sangue, marido. Ficarei satisfeita.

Enquanto Ildiko não participava dos inúmeros oohs e aahs sobre a iguaria
servida, ela não hesitou quando Brishen repetiu o processo de corte na torta e
massacrou o scarpatine. Ele quase podia sentir a onda de decepção dos
convidados quando ela comeu uma parte sem hesitação ou fanfarra. Apenas ele
ouvia o ritmo controlado de sua respiração – quando ela a prendeu e quando
exalou – e teve certeza que a taça permanecesse sempre cheia.

Ao lado dele, Secmis tremia de frustração. Ela recebeu uma torta e jogou
sua ira sobre o scarpatine, perfurando a casca e cortando a carne com as suas
garras em vez da faca. Sangue negro oleoso escorria da ponta de suas garras
conforme ela sorria para Ildiko que firmemente a ignorou e Brishen ficou feliz.

Quando a festa finalmente terminou, o rei e a rainha saíram do salão –


Secmis presenteou Ildiko com uma careta final – Brishen sentiu como se tivesse
acabado de se afastar do campo de batalha. Ildiko estava ao lado dele, com a
mão mais uma vez descansando na dobra do cotovelo quando os dois
enfrentaram a horda de nobres que desceram sobre eles para oferecer suas
felicitações e satisfazerem sua curiosidade.

Foi mais um interrogatório do que uma reunião social, como a festa


passada, Ildiko suportou tudo com uma serenidade estoica. Foi Brishen quem
pediu uma pausa e recusou todas as ofertas de mais comida e bebida nos vários
quartos ocupados pelos mais poderosos aristocratas.

Ele e Ildiko se curvaram e fizeram sua fuga para o corredor. — Quão


rápido você pode andar? — Ele disse.

Pela primeira vez naquela noite, ela ofereceu-lhe um largo sorriso,


mostrando seus dentes pequenos e quadrados. — Eu posso correr se você
desejar.
— Excelente. — Ele agarrou a mão dela e juntos correram pelos
corredores até um lance de escadas que dava para o lado de fora do seu quarto
e o dela.

— Como eu fui, marido? — Ildiko disse quando prendeu a respiração.

Brishen pegou a mão dela e a levou em direção a boca para um beijo, então
inclinou-se para ela. — Você foi uma magnifica hercegesé, minha esposa.

Ela arrastou a ponta dos dedos em sei queixo. — Acho que nós dois
recebemos a mensagem da rainha quando ela esviscerou o scarpatine. Sua mãe
me odeia. Sinto muito.

Ele se aproximou e envolveu um braço na cintura estreita dela. — Se


Secmis for inteligente e ela é, encontrará um jeito de superar o seu desagrado e
fazer de você uma aliada. — Ele beijou sua testa. — Eu já tive o bastante de ser
um fantoche hoje. Almejo uma boa companhia e um bom vinho. Você me
acompanha?

Ildiko assentiu e deslizou suas mãos de seu braço até os ombros. —


Podemos convidar a sua prima? Eu não vi Anhuset na festa e imagino que ela
desfrutaria de sua história sobre a festa.

Brishen assentiu. — Apesar da desaprovação de sua família, Anhuset não


gosta destes encontros e os evita a todo custo.

Ildiko tocou um fio de sua manga com os dedos. — Eu a invejo.

— Eu também. — Disse ele. — Enviarei uma mensagem para ela nos


encontrar no meu quarto. Ela ouvira minha história sobre a festa e sua releitura
do banquete de casamento em Pricid. Ela ainda está ameaçando dividir o meu
esófago por ter que comer aquelas batatas nocivas.
Capitulo Treze

Uma semana depois de chegar a Haradis, Ildiko se sentou em um dos


bancos nos jardins do palácio. Com os olhos fechados e o rosto virado para o
sol, ela se embebedou com a luz da manhã espalhada pelo jardim do palácio.
Raios solares atravessavam os espaços deixados em aberto pelas trepadeiras nas
treliças e transformava os vários tanques de peixes que pontilhavam a paisagem
em piscinas de vidro reflexivo.

Exceto pelo guarda encapuzado a uma distância discreta, ela estava


sozinha no jardim. Os habitantes do palácio ainda dormiam, incluindo seu
marido, que lhe desejou um sono tranquilo e a deixou para encontrar sua cama.

Ildiko pensou que cairia no esquecimento assim que puxasse as cobertas


sobre os ombros. Estava errada. Ela ficou acordada no escuro, ouvindo o sono
agitado de Kirgipa e os roncos suaves de Sinhue. Elas dormiam em um colchão
no chão ao pé de sua cama. Como suas servas pessoais, as duas mulheres
passavam muito tempo com ela, a ajudando a se vestir de noite, despir-se de
manhã e as trocas para os vários encontros com os monarcas, o herdeiro
legítimo ou os nobres com um status maior a cada noite. Além de Brishen e
Anhuset, elas eram a maior fonte de informações de Ildiko sobre a corte Kai e
seus muitos costumes.

Agradecia a elas e pela adaptação rápida a sua aparência – algo que ainda
provocava muitos olhares e sussurros não muito sutis a cada vez que ela fazia
uma aparição em uma das funções sociais sem fim que participava com Brishen
desde a sua chegada a Capital.

Ildiko entendeu bem o ritmo e loucura da vida na corte em geral.


Nenhuma função era realizada simplesmente para conversar ou o prazer da
companhia alheia. Não importava se era Kai ou Gauri, a nobreza usava tais
reuniões para planejar, criar estratégias, negociar e bajular. Algumas vezes havia
ameaças, outras havia subornos, todos em termo corteses. Hostilidade era
guardada para os reais nos campos de batalhas, onde a guerra era mais sangrenta,
porém mais honesta.

Ela fingia não ver os tapinhas simpáticos nas costas e o aperto nos ombros
que os homens Kai davam em Brishen ou ouvir as ofertas feitas em voz baixa
para ter uma amante Kai por uma noite. Sentir-se ofendida não fazia sentido
para ela. Em Pricid, ela era considerada uma beleza – bonita demais para os
gostos de um repulsivo, de pele cinza, príncipe Kai. Os Gauri e os Kai eram dois
povos com muito mais semelhanças do que diferenças, mas as diferenças se
destacavam muito mais e cada um encontrava o outro difícil para os olhos, quer
eles estivessem brilhando ou não.

Enquanto os homens Kai eram civis e reservados com ela, as mulheres


ficavam longe. Algumas foram amigáveis e curiosas, faziam perguntas a Ildiko
sobre sua vida em Pricid e o que ela achava do palácio Kai e sua corte. A maioria
era tão reservada quanto os homens, oferendo educadas felicitações por seu
casamento e nada mais. As últimas praticamente vibravam ressentimento e
ciúmes, Ildiko imaginava que estas mulheres foram amantes de Brishen em
algum momento.

Seu casamento era muito recente e estranho para ela sofrer as dores de
ciúme, mas estava levemente curiosa. O que nessas mulheres em particular atraiu
Brishen? Teria sido simplesmente sua beleza ou algo mais evasivo e sútil como
seu caráter? Seu marido era um homem de boa índole com um humor fácil.
Ildiko não poderia explicar o motivo de se sentir tão atraída por ele desde seu
primeiro encontro. Um sentido intuitivo de alma vibrante e grande coração que
estava por trás do exterior feio? Ela não sabia, mas estava grata por seu afeto
recíproco. Embora fosse humana e ainda incapaz de apreciar a beleza física dos
Kai, entendia o porquê uma mulher Kai a quem ele favoreceu um dia, poderia
estar com ciúmes dela por mais do que sua classe elevada como a esposa de
Brishen.
Ildiko se repreendeu repetidamente por opor-se a rainha. Até agora,
Secmis não fez nada além de insultá-la, mas Ildiko confiava nas advertências de
Brishen a respeito de sua mãe e mantinha-se cautelosa. Diante dessas mulheres
Kai, que provavelmente consideravam umas às outras rivais até sua aparição na
corte, a deixava por publicamente enfrentar a formidável Secmis. Elas podiam
olhar fixamente e fazer cara feia para ela, mas hesitavam em começar uma troca
verbal hostil com ela.

Uma semana com este tipo de combate a deixou exausta, mas ela não
conseguia dormir. Ildiko ficou deitada de costas e olhando o dossel pendurado
no teto. Sinhue e Kirgipa não acordaram quando ela saiu da cama, vestiu um
robe e saiu furtivamente de seu quarto. Um guarda Kai fez uma reverência
quando ela passou por ele no corredor. Ele não disse nada, mas saiu atrás dela
e a seguiu no seu caminho para os jardins do palácio.

Ela encontrou um banco protegido por uma meia cúpula de galhos de


árvores e agora sentava-se para observar o nascer do sol que não via desde que
deixou Pricid.

Os jardins, como os Kai, adormeciam com a chegada do dia. Brishen lhe


mostrou os jardins logo após sua entrega da luz-mortem de Talumey à sua família.
Ildiko ofegou e bateu palmas por sua beleza. Flores pálidas floresciam em
profusão luxuriante, brilhando suavemente sob a luz da lua em tons de pérola
iridescente e marfim. As folhas das árvores eram banhadas em prata e todo o
jardim cintilava na noite negra como a paisagem superficial de uma estrela
cadente.

Esta era a primeira vez que ela os via à luz do dia e era uma visão muito
sombria. As flores se fechavam por trás de cascas escuras, de proteção e as
folhas negras e espinhosas rangiam na brisa fresca. A manhã transformava o
jardim em um espaço de outro mundo, saindo de um pesadelo. Sentada sob os
galhos esqueléticos das árvores angulosas, Ildiko nunca se sentiu tão sozinha ou
fora de lugar.
Lágrimas ardiam em seus olhos. Ela as piscou fora. Eles encheram
novamente, teimosa ela se recusou a secar até mesmo quando o sol nascente a
atingiu com seus brilhantes raios. Ela respirou fundo – dentro e fora – se
recusava a sucumbir a tensão sufocante no peito ou os soluços subindo em sua
garganta.

— Estou cansada. — Ela sussurrou para si. — Apenas cansada. — Não


havia nenhuma boa razão para chorar. Seu marido nunca ganharia um concurso
de beleza Gauri, mas ele era um homem excepcional. Ildiko gostava muito dele.
Muitas esposas não tiveram tanta sorte com os companheiros escolhidos para
elas ou até mesmo aqueles que elas mesmas escolheram.

O povo dele, com exceção de sua mãe, se mostrava civilizados e a


acolheram de forma reservada como todos os Kai. Embora não pudessem vê-
la nunca como Kai ou aceitá-la por seu próprio mérito, seu respeito por Brishen
garantia que eles sempre a respeitariam por ela ser sua esposa. Ela não esperava
nada além disso.

Ainda assim, com ansiedade aguardava o anúncio de Brishen de quando


deixariam Haradis e viajariam para sua propriedade. Podia abraçar as fronteiras
com os hostis Belawar, mas eram as terras de Brishen, das quais esperava fazer
parte também.

Ela relembrou a visita deles a mãe de Talumey, Tarawin. Na noite após


aquela primeira terrível festa da corte, cavalgaram pelas ruas estreitas de Haradis
em vez de uma carruagem. Brishen lhe ofereceu a escolha.

— Nós podemos montar em uma carruagem ou você pode montar na


garupa comigo. Terá mais privacidade na carruagem se quiser, mas será capaz
de ver melhor Haradis a cavalo.

Ildiko escolheu o cavalo e ficou feliz com a escolha. A capital era


movimentada no meio da noite e precisou se lembrar que para os Kai, este era
o seu meio-dia. Exceto pela escuridão e o tráfego pesado das pessoas com pele
cinza e os olhos como vaga-lume, Haradis poderia ser como qualquer outra
cidade – viva, cheia de vendedores vendendo seus produtos nas ruas, as crianças
perseguindo cães e galinhas através das ruas estreitas, as mães gritando para elas
voltarem ou serem cuidadosas e os batedores de carteiras se esgueirando para
aliviar os incautos de suas moedas. Prostitutas vendiam seus corpos próximas
aos comerciantes que vendiam vinho e diversos alimentos assados em espetos
ou cozidos no vapor em vasos.

A multidão se separava enquanto ela andava com Brishen pelas ruas,


acompanhados por um pequeno contingente de guardas reais. Alguns
apontavam, outros acenavam e muitos esticavam o pescoço para ter um
vislumbre da nova esposa do príncipe. A capa que ela usava escondia a maior
parte dela. Brishen não a aprovou no início.

— Você não deveria ter que se cobrir. Não tenho vergonha da minha
esposa, Ildiko.

Ela bateu levemente em sua mão. — É uma questão de conveniência e


não de vergonha, Brishen. Se for lá com a cabeça descoberta, nós nunca
chegaremos a casa de Tarawin antes do amanhecer. E quando o fizermos,
teremos uma multidão atrás, todos querendo me ver. Em seu lugar, eu acharia a
nossa chegada desagradável na melhor das hipóteses.

Ele relutantemente concordou com seu raciocínio e eles chegaram a casa


de Tarawin apenas com uma pequena multidão de vizinhos curiosos olhando de
suas portas. Assim que a mulher abriu a porta e os conduziu para dentro, a
guarda do palácio fez uma fila do lado de fora, uma barreira sólida entre eles e
qualquer curioso.

Como todas as mulheres Kai que Ildiko encontrou até agora, a mãe de
Talumey era uma criatura alta, esguia e com cabelo prateado. Ela não tinha os
músculos atléticos de Anhuset e a graça altiva de Secmis, mas Ildiko achou que
ela adorava a moda Kai. Havia uma suavidade em seus traços, bem como uma
profunda tristeza na curva de sua boca.
Ela ajoelhou-se diante de Brishen. — É uma honra à minha casa a sua
presença nela, Herceges. Você e sua esposa.

Brishen ajudou-a a se levantar e segurou sua mão. — Queria trazer uma


oferta mais alegre do que está.

Tarawin levou as mãos unidas até sua testa. — Ele ainda é valorizado. Meu
filho nunca teria sonhando com tal privilégio. Fico feliz por trazê-lo para casa,
para nós. — Ela olhou em silêncio para Ildiko e as linhas nos cantos de seus
olhos se aprofundaram quando ela sorriu. — Uma benção seu casamento,
Hercegesé. Bem-vinda a Haradis. Bem-vinda a minha humilde casa.

Era uma casa humilde, impecavelmente limpa, convidando a qualquer um


que entrasse. Uma menina pairava por trás de sua mãe e Ildiko imediatamente
reconheceu a semelhança entre ela e Kirgipa. Tarawin a apresentou como sendo
a irmã mais nova de Kirgipa, Atalan.

Brishen ofereceu-se para levar Kirgipa com eles quando devolvesse a luz-
mortem de Talumey. A serva se recusou. — Ficarei com a minha mãe quando
ela levar sua luz-mortem para Emlek, eu a confortarei lá. Não acho que posso
suportar ver meu irmão se reduzir para apenas luz e lembranças.

Eles tomaram chá, mas recusaram a comida que Tarawin ofereceu, pelo
qual Ildiko agradeceu. Seu estômago estava em nós. Está era uma casa em luto
e carregava dentro de si uma espera silenciosa, como se as paredes e piso não
respirassem esperando o retorno de Talumey.

Quando terminaram seu chá, Brishen empurrou o copo de lado. — Você


está pronta, senhora Tarawin?

Ela inalou uma respiração lentamente, assentiu e se levantou da mesa para


pegar um pequeno globo de cristal que descansava em um suporte de três pinos
acima da lareira. Brishen se juntou a ela no meio da sala e fez um gesto para
Ildiko permanecer em seu lugar.
Tarawin hesitou. — Tem certeza que deseja fazer isso, Sua Alteza? Posso
convocar uma sacerdotisa que irá levar a luz e trazê-la para mim.

Brishen balançou a cabeça e caiu de joelhos na frente dela. — Isso é


público o sufiente, senhora. Seu filho lutou e morreu em meu serviço. É uma
honra para mim fazê-lo.

O globo hesitou nas mãos trêmulas de Tarawin com a resposta dele. Ela
estendeu o globo para Brishen que curvou seus dedos sobre os dela, dedos finos
e garras negras cobrindo o globo pálido.

A pele nos braços de Ildiko se arrepiou na primeira linha que os dois


recitaram em uníssimo. Ela reconheceu seu canto e ritmo – a lamentação que os
Kai cantaram quando as luzes-mortem encherem seus primeiros vasos
dispostos.

Ildiko ofegou e se levantou quando linhas pretas como videiras espinhosas


germinou sob a pele no pescoço de Brishen, passando por suas bochechas e sua
testa onde elas desapareceram em seu cabelo. Suas pálpebras fechadas se
contraíram, teias das mesmas linhas horríveis apareceram e seus lábios se
contraíram mostrando os dentes.

Ildiko nunca se envolveu com magia, mas sabia o suficiente sobre feitiços
para compreender os perigos letais de interromper. Esta era uma magia
poderosa, dolorosa e tudo que podia fazer era ficar de lado e torcer as mãos
enquanto seu marido segurava a esfera e convulsionava de joelhos, suas palavras
saiam gagas e desajeitadas.

Um ponto de luz iluminou o centro de seu peito, crescendo até que


ameaçou consumi-lo e a Tarawin por completo. Ildiko virou o rosto e protegeu
os olhos quando uma explosão de luz ofuscante encheu a sala. Quando pode
ver novamente, Brishen caiu bruscamente antes de Tarawin, como um fantoche
que teve suas cordas cortadas.
Tarawin segurou a esfera com cautela, seu interior iluminado com a luz-
mortem transferida até que se assemelhava a um pequeno sol incandescente em
suas mãos. Ela entregou a Atalan o globo, beijou-a com reverência e o envolveu
num tecido de seda antes de colocá-lo dentro de um pequeno baú sobre a mesa
onde tinham seu chá.

Com a certeza de que a transferência da luz-mortem foi concluída, Ildiko


correu para perto de Brishen. As linhas negras e irregulares em sua pele
desapareceram, mas ele ainda precisava de ajuda para ficar e de pé. Ela e Tarawin
o levaram para a cadeira que ocupou mais cedo. Após várias xícaras de chá e
garantias de estar bem para uma Tarawin e Ildiko preocupadas, Brishen
anunciou que estava pronto para partir.

Ele era uma sombra pálida de cinza quando deixaram a casa e recostou-se
em seu cavalo buscando apoio.

— Brishen? — Ildiko apertou seu cotovelo, assustada com a monotonia


em seus olhos e como seus ombros estavam caídos.

— Ildiko, estou bem. Apenas me dê um momento. Entregar uma luz-


mortem deixa um vazio no início. — Brishen passou a mão pela testa e deu a
Ildiko um sorriso fraco. — Acostumei-me com as lembranças de Talumey. Você
sabia que muitas vezes a mãe dele chamava sua atenção quando ele era pequeno
porque ele sempre cutucava o nariz?

O nariz de Ildiko se contraiu com o pensamento. Com o conjunto de


garras que os Kai ostentavam na ponta de seus dedos, era um milagre Talumey
ainda ter um nariz na fase adulta se ele se entregou a tal hábito. — Você fez uma
boa coisa trazendo sua luz-mortem de volta para ela, embora imagino que seus
pais o golpeariam por se ajoelhar diante da esposa de um comerciante.

Tão orgulhoso como qualquer príncipe humano de uma casa real, seu
novo marido também era simpático e aparentemente ignorava seu status.
Nenhum príncipe, duque ou barão que ela já conheceu, jamais se curvaria para
alguém abaixo deles, mesmo que fosse uma parte obrigatória de algum ritual
religioso.

Brishen bufou. — Quando me encontrei com meu pai na noite passada


para discutirmos sobre o ataque de Beladine, ele iniciou a conversa me
censurando por diminuir a mim mesmo e envergonhar o nome de minha casa.

Depois de ter sido a receptora de tais críticas duras feitas por sua tia, Ildiko
o compreendia. — Acho que você não perdeu o sono por seu
descontentamento?

Ele encolheu os ombros. — Não. Se um simples dobrar de joelhos por


gratidão, compromete o meu caráter e envergonha a minha casa, então somos
inferiores a sombras. Há mais na realeza do que sangue de direito e
primogenitura, esposa.

Eles cavalgaram de volta ao palácio, com Ildiko segurando a cintura de


Brishen. Ele era muito pesado para ela impedi-lo de cair de seu cavalo, mas se
ele desmaiasse, ela poderia ao menos retardar a queda. Ocasionalmente, ele batia
as mãos em seus braços, como se para tranquiliza-la. Ela desejou neste momento
ter escolhido a carruagem.

Um pequeno exército de servos o recebeu em seus quartos. Brishen


abraçou Ildiko, prometeu que a verificaria mais tarde, desabou em sua cama e
prontamente adormeceu. Ela instruiu os criados a deixa-lo vestido e que
jogassem um cobertor sobre ele. Seu servo pessoal assegurou que o observaria
e avisaria Ildiko caso alguma coisa acontecesse.

Ildiko ficou em seu quarto pelo resto da noite e ficou acordada até quase
amanhecer, seus ouvidos atentos a qualquer som vindo do quarto ao lado. Ela
adormeceu no silêncio e despertou na próxima noite para encontrar Brishen em
sua porta, não aparentando mais o desgaste e com a oferta de mostrar a ela os
jardins reais. Eles percorreram o caminho. Ele não sabia nada de flores e plantas
e ela brincou com ele que, se eles tivessem visitado o depósito de armas, ele seria
muito mais informativo.
— Isso é verdade. — Disse ele. — Mas você me agrada mais cercada por
coisas belas do que as de guerra.

Ele continuava a surpreendendo, este príncipe Kai com o seu sorriso de


lobo e uma alma radiante. Com esse pequeno elogio, ele transformou os jardins
em seu lugar preferido dela em Haradis, mesmo agora enquanto dormiam,
inseguros e sombrios sob a luz do sol.

— Eu tenho um bom marido, na verdade. — Ela disse em voz alta para


si mesma enquanto absorvia os raios da manhã.

— Eu concordo plenamente. — O tema de seus pensamentos respondeu.

Ildiko saltou quando um profundamente camuflado e encapuzado Brishen


se sentou ao lado dela. Ele virou o ombro contra o sol para que o capuz o
protegesse da luz solar direto em seu rosto.

— O que você está fazendo acordado? — Ela perguntou. Apenas os


guardas de plantão estavam acordados a essa hora e aquele que estava de
sentinela nas proximidades que a vigiava das sombras profundas pelos galhos
de uma árvore.

Os olhos de Brishen eram fendas amarelas em seu rosto escuro. — Eu


poderia te fazer a mesma pergunta.

— Eu sinto falta do sol. — Disse ela. Não se ressentia de ter mudado o


seu horário de sono para imitar os Kai, mas seu corpo ansiava pela luz solar. —
E não conseguia dormir de qualquer maneira, então pensei em vir aqui. É
pacífico.

— Sem ninguém por perto? — Seu sorriso tinha um tom de ironia.

Ildiko encolheu os ombros. — Sim. Quando a corte Gauri ficava tão cheia
e agitada, muitas vezes ficava isolada e não tão...
— Observada? — Brishen suspirou em seu aceno de cabeça. — Eles
podem ser sufocantes, se você não está acostumada a isso.

— Você está acostumado?

— Não mais.

Ildiko se perguntou o que mudou para ele. Ele respondeu à sua pergunta
não dita.

— Desde que passo a maior parte do tempo em minhas terras, o palácio


parece um ninho superlotado de vespas raivosas. — Ele traçou uma linha para
baixo em seu braço. — O que você acha de nós saímos daqui e ir para a minha
casa? Estou ansioso para te mostrar o meu santuário.

Ildiko segurou suas mãos e beijou os nós dos dedos. Ela riu quando ele se
encolheu. — Eu tenho que dizer adeus a sua mãe?

— Se quiser mais um pouco de tortura para si, certamente. Eu a evito o


máximo que posso. Quando você quer ir?

— Agora?

Ele se inclinou para pressionar um beijo em sua testa. — Vou arrumar as


coisas para hoje à noite. Você e eu precisamos dormir. E eu preciso sair desse
sol horroroso antes de ficar completamente cego.
Capitulo Quatorze

— Quão rápidos podemos ser para carregar suprimentos e montar tropas


para a viagem de volta? — Brishen olhou por cima ombro enquanto escovava
seu cavalo favorito. Anhuset encostou-se à porta da baia, os braços envoltos
casualmente sobre a barra superior. Ela se endireitou abruptamente com a
pergunta de Brishen, a linha entre suas sobrancelhas desapareceu.

— O quão rápido você desejar. Cuidarei disso. — Ela esfregou as palmas


das mãos. — Isso significa que já cansou de trotar a si mesmo e a hercegesé diante
da corte real como carne de cavalo premiada?

Brishen jogou a escova em um balde nas proximidades e bateu no ombro


da égua. — Estava cansado deles antes mesmo de chegar aqui. Ildiko tem sido
mais paciente sobre a coisa toda que eu posso ser, mas ela está indo bem.

Anhuset abriu a porta da baia para deixa-lo sair e fechou-a atrás dele. —
Ela se adapta facilmente.

— Um de seus muitos pontos fortes.

Ela o seguiu até o poço onde puxou a água em suas mãos para lavar. Os
soldados moviam-se ao redor deles. Eles se curvavam ou saudavam quando
passaram por Brishen e sua tenente de confiança em seu caminho para os
estábulos reais.

Anhuset entregou-lhe uma toalha da prateleira próxima. — Você disse a


ela que Saggara é mais como uma fortaleza do que um palácio?

Brishen fez sinal para ela o seguir quando fizeram o seu caminho de volta
para os portões do palácio, privados apenas para uso da família real. — Ela sabe
que fica perto da fronteira com Belawat. Não acho que tenha que explicar o
porquê requer de uma guarnição por perto.
— Ela é nascida e criada em um palácio, Comandante. Saggara não tem
o conforto de Haradis e pelo que vi em seu casamento, ele definitivamente não
tem as coisas finas de Pricid.

Ele encolheu os ombros e caminhou até os portões, reconhecendo os


guardas que se curvavam com um aceno rápido. — Como você disse, ela se
adapta fácil.

Era verdade que Ildiko tinha um talento especial em se ajustar rapidamente


não só a novos ambientes, mas as circunstâncias e situações também. Ela nunca
disse uma palavra, reclamou sobre dormir no chão, em uma tenda ou por passar
horas a cavalo quando eles viajaram de Pricid para Haradis. Ela mudou seus
hábitos de sono para coincidir com os dos Kai e comeu algo que até mesmo
alguns Kai achavam desafiador. Ele tinha toda fé que ela aceitaria mais uma
mudança de cenário com a mesma serenidade que ela mostrou até agora.

Ainda assim, queria que Ildiko gostasse de Saggara e não simplesmente se


ajustasse. A propriedade era sua desde que o rei lhe deu mais de uma década
antes na promessa Brishen manter-se no papel de defensor das fronteiras Kai
contra um cada vez mais hostil Belawat. Uma viagem de cinco noites de Haradis,
Saggara era seu refúgio da intriga da corte e a presença malévola da rainha.

Secmis expressou sua desaprovação pela mudança para Saggara, dizendo


que a antiga propriedade era uma imunda estrumeira não apta para mendigos e
declarou que nunca teria a graça de dar sua presença, enquanto ele residisse ali.
Foi apenas uma das três vezes que Brishen conseguia se lembrar em sua vida
onde se sentiu tentado a abraçar sua mãe.

Ele e Anhuset discutiam seus planos para mover suprimentos e tropas


adicionais para Saggara quando passaram pelo labirinto de corredores do
palácio. Chegaram ao andar, onde o quarto dele e de Ildiko estavam localizados,
quando um gritou cortou o ar e ricocheteou nas paredes de pedra. Outro se
seguiu logo após. Brishen sentiu o estômago se afundar quando reconheceu a
voz de Ildiko.
— O que em nomes dos deuses... — Anhuset disse antes que ambos
corressem pelo corredor, as espadas para fora.

Brishen deixou de lado um guarda que se juntou a perseguição frenética


para chegar a sua esposa. Ele dobrou a esquina e parou abruptamente. Anhuset
se dirigia a ele, suas maldições no ar. Ele a ignorou.

Ildiko estava no corredor, acenando freneticamente para sua empregada.


— Depressa, Sinhue. Ele vai escapar!

A empregada arrancou um pequeno machado do leque de armas que


decorava a parede perto da porta de Ildiko. Ela correu para sua senhora e
entregou-lhe a arma. Nenhuma das duas mulheres notou seus salvadores.

— Você vê?

— Ele se foi até a parede. Se for muito alto, eu não serei capaz de alcançá-
lo.

Anhuset bateu no ombro de Brishen. — O que é isso?

Ele não iria esperar para descobrir e perseguiu as duas mulheres quando
elas desapareceram em outra curva no corredor. Seu coração explodiu em sua
garganta com a visão que o cumprimentou.

Ildiko e Sinhue saltavam como se caminhassem descalças sobre brasas,


seus olhares fixos na parede de frente a elas. Ildiko segurava o machado na frente
dela, golpeando uma grande sombra agarrada as pedras.

O – ele – era uma enorme scarpatine fêmea com sacos de venenos


inchados do tamanho de ameixas sob o arco de sua cauda. O ferrão brilhava na
meia-luz, gotas amarelas de veneno espirravam através de suas costas blindadas
e escorriam para o chão, onde chiavam e fumaça negra se formavam.

Antes de Brishen gritar para Ildiko recuar, a scarpatine foi em sua direção,
suas pernas estavam flexionadas e preparadas para saltar sobre sua vítima e
afundar o veneno em sua carne. Sinhue gritou, como fez Ildiko antes de balançar
o machado. A lâmina pegou a borda do inseto e Brishen ouviu sinos como metal
batendo contra a pedra. O som de sino foi silenciado pela rachadura molhada
da casca do inseto esmagado e suas entranhas.

Brishen pegou o machado assim que escorregou pelos dedos de Ildiko.


Ele entregou a arma para Anhuset e girou Ildiko de um lado e depois outro. Seu
cabelo, meio fora de sua trança, voou para o rosto dela e ela o puxou de lado
para olhar para ele com os olhos arregalados.

— Algum veneno caiu em você Ildiko? — Ele passou as mãos sobre seu
rosto, pescoço, em frente aos ombros e seios dela, procurou qualquer fragmento
revelador de pano queimado ou uma picada reativa em sua pele. A parede era
como um mural de mortos, um machado prendendo um scarpatine negro morto
na penumbra e o salão fedia a peixe podre.

Ildiko empurrou as mãos dele. — Eu estou bem Brishen. — Ela fez uma
careta. — Não posso acreditar que os Kai comem essas criaturas repugnantes.
Não posso acreditar que eu comi um.

Anhuset falou e Brishen não esperava a diversão em sua voz. — Nós


comemos os machos. As fêmeas são muito venenosas. — Ela olhou para
Brishen e falou em um dialeto Kai que Ildiko não entenderia. — Ela é habilidosa
com uma lâmina. Quando você não a quiser como esposa mais, a dê para mim.
Com treinamento o suficiente, ela seria uma companheira escudo potente.

Brishen não via nenhuma diversão na situação. Ele olhou para os restos
do scarpatine, os pedaços escorrendo pela parede. Ele sinalizou para um dos
guardas que estava nas proximidades. — Envie alguém para limpar isso. — Ele
se virou para Sinhue que pairava por perto de Ildiko. — Eu preciso de você para
cuidar de sua senhora.

A empregada concordou e fez uma reverência. Brishen conduziu Ildiko


para seu quarto, enchendo ela e Sinhue de perguntas todo o caminho.
Ildiko foi direto para seu lavatório, desamarrou as mangas de sua túnica e
começou a esfregar as mãos e os braços. — Eu não sei como ela chegou aqui,
Brishen. Sinhue estava me ajudando a vestir para o jantar. Graças aos deuses
que ela pensou em arrumar a cama cedo. — Ela sorriu para a serva quando lhe
entregou uma toalha para secar os braços. O sorriso desapareceu. — A coisa
estava escondida debaixo das cobertas. Ela pulou em Sinhue antes de ir para a
porta para escapar.

Brishen e Anhuset inspecionaram o quarto, agitando as cortinas,


rastejando debaixo da cama e virando o colchão das cordas para verificar se
havia outra ameaça escondida.

Ciente de que o quarto estava seguro e nenhum outro scarpatine se


escondia em seu guarda-roupas ou baús, Brishen passou a mão sobre o rosto.
— Você deveria ter deixado ele ir, esposa. As fêmeas são agressivas e seu veneno
forte o suficiente para matar um cavalo.

Ildiko lançou-lhe um olhar que falava de sua dúvida a respeito de sua


inteligência. — E deixa-lo espreitar nas sombras esperando para emboscar
alguma pobre alma desavisada? Talvez você? Ou Anhuset? E se ninguém
conseguisse pegá-lo? — Ela estremeceu. — Eu nunca dormiria sabendo que
aquela coisa estava rastejando sobre algum lugar do palácio.

Ele rosnou baixo em sua garganta. — Você não é um guerreiro, Ildiko.

Ela fez uma careta para ele. — Não, mas eu certamente posso matar um
inseto.

— Tenho certeza que pode. — Disse Anhuset da porta.

Brishen mostrou os dentes para sua prima. — Nem mais uma palavra. —
Sua mente correu. Scarpatine gostavam de locais escuros e quentes, mas eles não
gostavam do cheiro dos Kai e tendiam a evitar áreas onde se reuniam como as
casas. Eram mais um perigo para os caçadores e rastreadores que poderiam
tropeçar em um deles quando teciam suas armadilhas de palha, pois os
scarpatine ficavam escondidos ali.

O scarpatine que encontrou refúgio na cama de Ildiko foi colocado lá de


propósito. Um nó frio se instalou sob as costelas de Brishen, se espalhando até
ter certeza de que a água gelada, não o sangue, fluía em suas veias. Ele estendeu
a mão para Ildiko, puxando sua mão até que ela ficou dentro do círculo de seus
braços. Ele podia sentir o cheiro do medo derramando-a em ondas. A água
gelada percorria cada vez mais o corpo.

— Eu preciso fazer uma coisa, mas voltarei em breve. — Disse ele


suavemente. — Vou deixar Anhuset aqui com você e sua serva. Ela vai te
proteger até que eu volte.

Ildiko ficou rígida em seus braços e sua boca se curvou para baixo. Seus
olhos se estreitaram. — Isso é um desperdício de tempo de sua tenente, Brishen.
Eu não preciso de uma babá. Posso caminhar por minha própria conta. — Ele
ia começar a argumentar, mas parou ao sentir um dedo pressionando seus lábios.
Ela lançou um sorriso com seus dentes quadrados. — Basta deixar o machado
antes de ir.

Brishen beijou a ponta do dedo, cedendo. — A sala é clara, mas mantenha-


se atenta.

— Não se preocupe. — Assegurou ela. Seu olhar piscou para todos os


cantos da sala antes de cair sobre ele mais uma vez. — Acho que vou me vestir
totalmente de preto hoje. — Ela disse.

Ele deu a ela uma profunda reverência. — Combina com você. — Ele
sinalizou para Anhuset que abriu a porta. — Voltarei a tempo para acompanha-
la até o salão.

A porta mal de fechou atrás dele antes de Brishen se arremessar pelo longo
corredor em direção à escada que levava para a suíte da rainha, Anhuset o
perseguia.
— Brishen, pare!

Ele a ignorou, correndo cada vez mais rápido em direção a sua presa, onde
ela estaria esperando no centro de sua teia. Ele grunhiu quando um peso bateu
em suas costas, levando-o para o chão. Ele caiu com o atacante em um
emaranhado de braços e pernas até que colidiu contra a parede. Em segundos,
eles estavam agachados com Anhuset entre seus joelhos, o antebraço
pressionado contra sua garganta até que ela não conseguia respirar.

Ele aliviou a pressão, e ela engasgou em busca de ar. — Fique feliz por
meu afeto por você, sha-Anhuset. — Ele disse cada sílaba entre as respirações
pesadas. Seu braço se abaixou e sua mão deslizou sobre sua clavícula para
descansar em seu peito. — Ou eu teria arrancado seu coração e a alimentaria
com ele.

Anhuset agarrou o pulso de Brishen. — Você é o meu comandante e meu


primo, Alteza. Eu não seria sua amiga se não tentasse impedi-lo de correr direto
para sua decapitação.

— Essa víbora merece a morte. — A raiva de Brishen ameaçava sufoca-


lo.

— Talvez, mas não de você e o poder dela é maior que o seu. Maior que
o de seu pai. — Faíscas brancas brilhavam nos olhos de Anhuset e um humor
fraco suavizou suas palavras. — Tenha fé em sua hercegesé. Ela fez um bom
trabalho com o machado. Ela pode se defender. Se for morrer para defendê-la,
não faça por algo tão mesquinho.

Ele quase quebrou o pescoço de Anhuset naquele momento. —


Mesquinho?

Suas narinas e seus olhos brilharam. O cinza de sua pele parecia um


marfim agora, mas ela se manteve firme — Sim. Mesquinho. É de Secmis que
estamos falando, Brishen. Ela provavelmente abraça scarpatine quando se sente
solitária, em seguida os come quando fica faminta. Este pequeno truque é uma
piada para ela.

As palavras de Anhuset não diminuiu o desejo de matar que rugia em


Brishen, mas a voz sensata dentro dele ficou mais alta e concordou com ela. Ele
se levantou e a ajudou a se levantar. — Faça o necessário para a viagem.
Partiremos esta noite, mesmo que isso signifique que apenas um punhado de
nós iremos e Ildiko viaje de camisola.

Anhuset concordou, mas hesitou. — Prometa-me primo que você não vai
irá até os aposentos da rainha no segundo que eu virar as costas.

Brishen balançou a cabeça. — Eu não faço promessas. — Ele riu de sua


careta, a raiva dentro dele cedendo aos poucos. — Você sempre foi mais rápida
do que todos nós. Você me pegaria novamente.

Sua careta não desapareceu. — Sim, eu o faria. — Ela não partiu até que
ele se afastou da escada e caminhou de volta para o quarto de Ildiko.

Ele a encontrou no meio de se vestir para o jantar. Ela olhou para fora da
tela no canto da sala. — Você foi rápido.

Brishen decidiu não revelar que sua prima racional frustrou seus planos de
cuspir sua mãe na ponta de sua espada como a scarpatine que ela era. Ele olhou
para a túnica de seda preta e calça colocados sobre a cama – completamente
inadequado para uma viagem.

— O que você acha. — Disse ele. — Se jantarmos na estrada?

Suas sobrancelhas se arquearam. — Brishen, você se preocupa demais.


Estou bem recuperada de meu susto com o scarpatine.

— Faça minha vontade, Ildiko. — Ela podia ser boa, ele não era e
precisava sair do palácio, da cidade e definitivamente para longe de sua família
e para a paz relativa e segurança em Saggara.
Ela olhou para ele por um momento. — Como quiser. — Disse ela. —
Pedirei para Sinhue para arrumar tudo para a montaria.

Ele concordou e instruiu a serva a embalar o máximo de coisas de Ildiko


que poderia e ter os baús entregues aos estábulos.

Desta vez, quando ele pisou pelos corredores do palácio, procurou seu pai
na sala de conselho. O rei estava sentado à cabeceira da mesa do conselho, um
conclave de ministros de cada lado dele enquanto analisavam e discutiam o mar
de documentos espalhados por toda a mesa.

Brishen ajoelhou-se. — Sua Majestade, posso ter um momento do seu


tempo?

Djedor acenou para seu filho ficar de pé e olhou para ele com um olhar
leitoso. — Faça isso rápido.

— Peço permissão para deixar Haradis e voltar para Saggara na próxima


hora.

O rei fez uma careta. — Ouviu falar alguma coisa sobre Belawat que eu
não soube?

Brishen balançou a cabeça. — Não, mas eu gostaria de retornar para a


minha propriedade o mais rápido possível. — Ele não ofereceu mais explicação.
Djedor podia ser velho, mas era esperto e sempre ficava informado sobre
acontecimentos em seu castelo. O palácio era recheado de espiões até as vigas,
que relatavam para ele cada acontecimento em detalhes.

— Você deseja se despedir de sua mãe?

Eles jogavam esse jogo a cada vez que Brishen se aproximava de seu pai.
Djedor geralmente ficava decepcionado pela falta de reação de seu filho sobre
as irritações de Secmis sobre ele. Desta vez, ainda cheio de desejo de cometer
matricídio, Brishen não se incomodou em esconder sua raiva.
— A menos que eu possa matá-la sem impunidade, não quero ficar perto
daquela puta. — Afirmou. Como um, os ministros engasgaram, mas o rei apenas
riu. — Ela tentou matar a minha esposa.

Djedor girou uma pena entre as garras. — A menina Gauri ainda está viva?

— Sim.

— Então Secmis não foi muito dura. — Ele acenou com a pena a Brishen,
seu interesse nas ações do filho rapidamente desaparecendo. — Vá se quiser.
Mandarei um mensageiro com cópias dos acordos de transportes finais. Graças
ao seu casamento, já foi garantido três navios dedicados ao transporte de
amaranto a vários reinos, sem incluir Gaur. Tente manter sua esposa feia viva
por tempo suficiente para nós obtermos o último documento selado com o
acordo. Depois disso, ela é bem-vinda a cair morta a qualquer momento.

Fervendo com a indiferença de seu pai, embora não esperasse nada mais,
Brishen fez uma reverência e saiu da sala do conselho. Com toda honestidade,
agradecia pela permissão disposta de seu pai. Poderia ter negado o pedido de
Brishen e mantê-lo e a Ildiko presos em Haradis indefinidamente por pura
perversidade. Ele não estava acima de tal comportamento.

Quando chegou a hora de partir, Anhuset garantiu cavalos, vagões e um


contingente de guardas, que a meia-noite poderia aumentar ou diminuir. Brishen
encontrou Ildiko fora dos portões dos estábulos ao lado da sela que ela montou
de Pricid para Haradis. Anhuset estava ao lado dela, Sinhue também estava ao
seu lado vestida para viajar.

Brishen curvou-se e tomou a mão de Ildiko. — Apenas uma serva?

Ela assentiu com a cabeça em direção a Sinhue. — Ela queria vir e eu só


preciso de uma. Além disso, a mãe de Kirgipa precisa mais dela do que eu,
especialmente agora que Talumey se foi.

— Você comeu?
Desta vez, ele pegou a astúcia em seu sorriso. — Sim. Uma batata. Estava
uma delícia. Não poupei nenhuma.

Sua provocação deixou seu coração um pouco mais leve. Embora ela não
fosse fácil para os olhos, era fácil para a sua alma. Ele beijou sua testa. — Você
é uma boa esposa, Ildiko.

— Sim, eu sou. — Ela concordou. Seus olhos deslizaram em direção a


seus cantos internos para um olhar vesgo.

Ele se encolheu e ouviu tanto Anhuset e Sinhue suspirarem. — Ildiko...

Ela voltou os olhos normais e piscou. — Desculpa. Eu não pude resistir.

Seu grupo estava longe da cidade antes que um mensageiro os localizasse.


Brishen reconheceu o brasão de sua mãe na libré do cavaleiro. O mensageiro
passou um pergaminho para Anhuset que entregou a Brishen.

Brishen mal olhou para ele. Estava familiarizado com a letra de sua mãe,
bem como suas exigências para voltar a Haradis imediatamente. Borrões de tinta
marcavam a escrita e havia buracos no pergaminho onde ela, obviamente,
apontou a pena através do papel quando escreveu.

Ele pegou um documento de um dos pacotes amarrados a sua sela. Seu


pai apenas murmurou sua irritação com a insistência de Brishen em ter uma
autorização por escrito de sua saída da corte, carimbada com o selo real —
antecipando ao que Secmis faria.

— Entregue a Sua Majestade. — Ele instruiu o mensageiro. — Em


seguida, saia da frente dela se quiser viver. — Ele observou o mensageiro colocar
o cavalo na direção de Haradis.

— O que dizia na mensagem?

Brishen olhou para Ildiko ao lado dele. O luar tinha uma maneira de mudá-
la. Não a deixava bonita para os padrões Kai, mas as sombras quando batiam
em suas feições tocavam suas bochechas, ressaltando o rosa de sua pele e o
vermelho de seu cabelo. Ele gostava das cores da noite nela.

— Ela ordenou que eu voltasse para casa.

Sua expressão confusa ficou ainda mais. — Mas por que? Tenho
dificuldades em acreditar que ela sentirá sua falta.

Perto deles, Anhuset bufou. Brishen se virou para olhar a figura do


cavaleiro sumir ao longe. — Dificilmente. Isso não foi uma demonstração de
carinho, mas de indignação. Eu não pedi a ela para partir de Haradis. — Ele
apontou para Anhuset. — Continue andando. Ficarmos parados no meio da
estrada não vai nos levar a Saggara mais rápido.

Eles viajaram por cinco noites depois disso sem incidentes, cavalgando em
uma ampla planície coberta por um mar de ervas sporobolus8. Altas até os flancos
de um cavalo, as hastes da grama balançavam e os tocavam quando passavam,
sussurrando carícias fantasmagóricas na escuridão. À distância, a grama se
levantava como surcos na terra, parecidos com ondas em um oceano de ervas e
Brishen apontou para uma torre coroada por perafitas9 brancas reluzente sob o
luar.

— Criado por uma raça muito Antiga — os Gullperi — ou assim diz a


lenda. O último clã desapareceu dessas terras há quinhentos anos.

— Você me disse que os Kai são uma das raças Antigas. — Os olhos azuis
de Ildiko ficaram pratas na escuridão.

— Sim, embora nossa magia seja apenas uma fração da magia dos
Gullperi. Estive no alto. Poder ainda emana de lá.

8. Gênero botânico que pertence a família Poaceae. São aquelas ervas daninhas que aparecem entre a grama quando ela está muito

alta.

9 É um monumento pré-histórico de pedra, cravado verticalmente no chão, às vezes de tamanho elevado.


Ele foi apenas uma vez e voltou para a casa com o cheiro de magia pesada
em suas narinas e ainda mais forte em sua pele. Anhuset jurava que ele brilhou
no escuro por uma quinzena depois dessa incursão.

A excitação de Brishen aumentava à medida que os quilômetros ficavam


atrás deles e se aproximavam de Saggara. Um declive suave na planície apareceu
e a propriedade ficou à vista. Na frente havia grossas árvores plantadas por
jardineiros Kai décadas antes e ladeado por pomares selvagens de laranjas
azedas, a fortaleza brilhava tão pálida sob a lua como as perafitas. Uma vez que
o palácio de verão de seu avô – Saggara – passou a Brishen por decreto de
Djedor, ele abraçou Saggara como seu.

Um par de corvos voaram em direção ao céu para fora do pomar,


grasnando seus protestos por terem sido acordados pelo som de cascos dos
cavalos.

Sua guarda fez uma pausa no ponto mais alto da baixa ascensão. Brishen
virou-se para Ildiko cujo olhar permanecia na fortaleza. — Bem-vinda a Saggara,
esposa. Minha casa. E agora sua.
Capitulo Quinze

Após dois meses de não ver um único rosto humano, exceto o seu no
espelho, Ildiko quase caiu de choque na escada ao ver um ser humano passando
pelos corredores de Saggara.

De seu lugar nos degraus, ela viu quando um homem vestido de libré, com
uma garrafa de água e um peixe, foi conduzido pela escada e corredor onde ele
desapareceu debaixo do arco talhado em curva.

Ildiko voou escada abaixo, grata por ter escolhido o vestido Kai de túnica
e calça, que permitiam um movimento rápido, sem o emaranhado de saias
longas. Um servo a reconheceu quando ela seguiu o visitante e sua escolta.

O Kai fez uma reverência. — Sua Alteza, pediram para buscá-la.

Ildiko fez um gesto para que a seguisse enquanto ela andava a passos
largos, mantendo sua presa à vista enquanto se dirigiam para o grande salão da
mansão. — Quem é o nosso visitante?

— Um mensageiro de Salure.

Ela fez uma pausa para olhar o servo. No momento que chegou com
Brishen a Saggara, Ildiko se esforçou para expandir o seu conhecimento não
somente de sua cultura, mas também de sua geografia.

A propriedade de Brishen consistia em um palácio de verão que foi


transformado em fortaleza e uma cidade para as tropas Kai e suas famílias.
Saggara ficava em uma faixa das planícies que se limitava com o território
Beladine e protegia uma população pequena de Kai que cultivavam mexilhões
de água fresca em um lago próximo e produzia o altamente valorizado corante
de amaranto tão cobiçado pelos Gauri e Beladine.
Após a emboscada na estrada por mercenários Beladine, Ildiko estremecia
com a ideia de estar tão perto e vulnerável das fronteiras de Belawat. Brishen foi
rápido em tranquiliza-la.

— Estamos seguros, esposa. Apesar da tentativa de Belawat de romper


nossa aliança, existem facções amigáveis dentro de suas fronteiras. Serovek da
Casa Pangion é um deles. Suas terras fazem fronteiras com a minha e seu povo
se beneficia ricamente de nós vendendo amaranto a eles por um preço baixo.
Eles revendem por um preço alto para os aristocratas que residem na capital.

Ildiko ainda não estava convencida e de sua segurança. — O que os


impede de apenas invadir e tomar o controle do lago?

Os olhos de Brishen brilharam como moedas de ouro na pouca luz solar.


— Porque a perda de vidas e derramamento de sangue Beladine seria muito
mais caro do que simplesmente comprar o corante de nós. Isto e nós
envenenaríamos o lago se necessário. Admiro Serovek. Ele era um Mestre da
Cavalaria de Beladine antes que herdasse as terras de seu pai. Compreende as
estratégias dos campos de batalha quanto as negociações comercias. Ele não
colocaria em risco suas propriedades, a menos que seja forçado a uma declaração
de guerra de seu rei sobre a minha.

— Sua Alteza, os herceges a aguardam.

A observação do servo interrompeu as lembranças de Ildiko da conversa


e desta vez foi ela quem o seguiu ao grande salão onde Brishen esperava com o
mensageiro de Salure.

Ela o encontrou de pé na enorme lareira, segurando um pergaminho


desenrolado. As luzes das velas davam um brilho azul ao cabelo escuro dele e
destacava sua pele cinza. Ele olhou para cima do pergaminho e sorriu quando
Ildiko se aproximou. Ildiko escondeu seu próprio sorriso ao ver o mensageiro
arregalar os olhos quando Brishen agarrou a mão dela e deu um beijo em seus
dedos.
— Estou feliz que esteja aqui, Ildiko. — Disse ele. — Recebemos um
convite do Senhor Serovek para jantar com ele amanhã à noite em Salure. Você
gostaria de ir?

Qualquer outro homem e essa pergunta seria retórica. No jogo de


diplomacia, o que este convite era, seus desejos não seriam considerados. O
protocolo exigia sua presença. Porém Brishen não era como qualquer homem
que Ildiko já conheceu — Gauri ou Kai. Sua pergunta era sincera e ele aceitaria
sua resposta, mesmo se ela declinasse ao convite.

— Eu adoraria ir. — Disse ela. Seria a primeira vez desde seu casamento
com Brishen que realmente jantaria ao invés de tomar um café da manhã ou
almoçar à noite, com outra pessoa que não fosse Kai. Ela ansiava que servissem
pratos conhecidos por ela. Acostumou-se com a maior parte da cozinha Kai que
tentava comer, mas sentia falta da comida da corte Gauri.

Brishen levou o pergaminho até uma mesa próxima, coberta de livros e


mapas. Ele assinou o pergaminho e devolveu-o ao mensageiro de Salure. —
Diga a seu senhor que o veremos logo depois do crepúsculo.

O mensageiro fez uma reverência, olhou rapidamente para Ildiko uma


segunda vez e seguiu os servos Kai para fora do salão.

— Aposto que não é só uma noite para se passar entre amigos,


considerando os últimos acontecimentos. — Ildiko juntou-se a Brishen à mesa
e aceitou a taça de vinho que ele serviu para ela.

— Eu acho que é em parte. — Brishen bateu sua taça na dela como um


brinde. — Acredite ou não, já houve um casamento entre um soldado Kai e a
filha de um comerciante Beladine, porém um casamento de um Kai com
qualquer Gauri ou Beladine na realeza nunca ocorreu até agora. Nós somos um
casal estranho. As pessoas ficarão curiosas.

— Serovek é um dos curiosos, então?


Brishen a levou até um dos sofás confortáveis perto da lareira e sentou-se
ao lado dela. — Curioso sobre o que não tem conhecimento e poder. Quanto
mais souber, menores as chances que ele seja desagradavelmente surpreendido.

— Um homem cauteloso.

— Um homem inteligente.

Ildiko inclinou a cabeça para o lado. — Você gosta dele.

Brishen assentiu. — Sim. Ele seria um valioso aliado e um inimigo


formidável. Felizmente para ambos, somos vizinhos amigáveis. Até agora.

Eles permaneceram conversando de coisas inconsequentes até Ildiko se


desculpar e levantar. — Disseram-me que dois vagões comercias chegaram de
Haradis transportando suprimentos de alimentos. Seu cozinheiro afirmou que
as escamas de um comerciante são suspeitamente imprecisas. Preciso resolver o
problema.

Brishen abandonou seu assento também e escoltou-a até a porta. —


Estarei com um guarda no perímetro sudeste. Por mais que Serovek seja
amigável comigo, outros não são. Tem havido incursões nas terras de pastagem.
Cavalos e gados roubados. Podem ser apenas ladrões, mas tenho minhas
dúvidas.

Preocupação apertou o peito de Ildiko. Ela apertou o braço de Brishen.


— Terá cuidado? — Era uma coisa boba de se dizer. Brishen era um soldado
experiente, um perito em combate como qualquer um dos Kai sob seu
comando. Ela viu suas habilidades por si quando a salvou de um assaltante
Beladine. Ainda assim, ela se preocupava com ele. Ele tornou-se precioso para
ela.

Brishen enrolou uma mecha de seu cabelo ao redor de suas garras,


deixando-a deslizar sobre os nós dos dedos. — Você viria em meu socorro se
fosse necessário?
Ela arqueou uma sobrancelha. — Eu seria uma péssima salvadora, mas
sim, eu não hesitaria em ir em seu resgate.

— Não se rebaixe, esposa. Eu vi você empunhar um machado.

Ildiko se aproximou e passou os braços sobre os ombros largos dele em


um abraço suave. Seu cabelo fez cócegas em seu nariz quando ela deitou a
cabeça contra o seu pescoço. — Estou falando sério, Brishen. Prometa-me que
não irá se matar ou ser mutilado lá fora.

Suas mãos descansaram carinhosamente na parte inferior das costas dela


e ele gentilmente respirou contra ela antes de se afastar. Ele perdeu o sorriso,
mas havia uma delicadeza em seus traços duros. — Não posso fazer essa
promessa, Ildiko, mas posso jurar fazer o meu melhor para voltar com todos os
braços e as pernas inteiros.

Ela franziu a testa. — Sua cabeça também, por favor.

Então Brishen riu. — Minha cabeça também.

— Quando retornará?

— Pouco antes do meio-dia, se eu sair agora. Teremos muito tempo para


dormir antes de termos que nos preparar para o jantar de Serovek.

Ildiko não poderia se importar menos com o jantar de algum Beladine


nobre. Ela só queria ter certeza que estaria acordada quando Brishen voltasse
para casa.

Eles se separaram do lado de fora do grande salão, ela para o pátio e ele
para o quartel e estábulos. Ela fez sua refeição sozinha, sentada na varanda de
seu quarto que tinha vista para o pomar de laranjas que se espalhava selvagem
pela parte de trás do casa principal da propriedade à beira de um campo de
amoras.
Brishen fez um curto passeio pelo bosque com ela ou pelo menos tanto
quando um passeio pela vegetação rasteira emaranhada com algumas foices
permitiam. As árvores estavam cheias de frutas prontas para colher e fervilhava
de vespas no início do crepúsculo.

Seu marido graciosamente enfrentou um espinhoso galho e pegou uma


laranja para ela. A fruta era suculenta e azeda o suficiente para fazer sua boca se
apertar e seus olhos se fecharem. Mas adorou.

Brishen a olhou com desgosto. — Os seres humanos comem as coisas


mais repulsivas.

Ildiko preferiu não apontar os muitos aspectos revoltantes do cozido de


scarpatine. Em vez disso, ela cuspiu uma semente de laranja em sua mão e deu
a Brishen um sorriso doce. — Acho que os Kai não gostam de laranjas.

— Não, de jeito nenhum.

Ildiko examinou o bosque selvagem com um olhar contido. — Nós


gostamos de laranjas, mesmos as mais azedas e as flores fazem uma bela água
de colônia cobiçada por mulheres. Embora não seja tão valiosa quanto seu
amaranto, laranjas são uma boa forma de moeda para os agricultores. Pode valer
a pena trabalhar neste bosque e vender o produto.

Ele demonstrou interesse em sua ideia, mas ainda não estava convencido.
A força de trabalho de Saggara era dividida entre a sua presença militar e os civis
que colhiam amaranto. Ele não achava que tivesse pessoas o suficiente para
trabalhar no pomar, mas consideraria.

Ildiko admirava as laranjeiras, suas silhuetas escuras ficavam douradas na


prata da luz do luar. De vez em quando um corvo se atirava para cima do dossel
de folhas, acima dos círculos das copas das árvores apenas para desaparecer mais
uma vez no santuário dos galhos. A sombra de uma coruja com suas asas
silenciosas passou voando, seus olhos tão brilhantes quanto os de Brishen,
quando ele ria de algo que ela dizia.
Esta era a primeira vez que eles se separaram um do outro, por mais de
uma ou duas horas que não fosse para dormir. Ela sentia falta de sua presença,
a cadência suave de sua voz, o movimento gracioso de suas mãos estreitas com
as garras negras letais, mesmo o cheiro de seu cabelo quando a abraçava e ela o
respirava.

Ela sentiu a raiva latente dentro dele desde o ocorrido com o scarpatine
até que chegaram em Saggara. Ele não disse nada a ela sobre o incidente ou fez
uma pergunta além de seu bem-estar, mas não era difícil assumir que Secmis
tivesse algo ver com o inseto nos lençóis de Ildiko. Orgulho a fez oferecer um
pequeno argumento contra sair para Saggara imediatamente, mas ficou mais do
que feliz em consentir a insistência de Brishen para saírem naquela noite.

Saggara era um lugar austero em comparação com Haradis e faltava muito


de seus confortos. Também faltava Secmis que, para Ildiko, fazia dele um lugar
muito melhor do que o palácio real Kai.

Quando Sinhue veio ajudá-la a se despir e se preparar para a cama, Ildiko


acenou a distância e a mandou para seu próprio quarto. Ela não estava cansada
ou sonolenta, mas sentia falta do seu marido. Seu quarto era contíguo ao dela,
ele disse mais de uma vez que era bem-vinda a entrar a qualquer momento que
desejasse. Ela o fez agora, parando na porta para admirar o espaço.

A mobília era simples, mas confortável, uma enorme cama com um


colchão e pilhas de cobertores e peles grossas. Tal como seu quarto no palácio
real, este tinha uma lareira com uma mesa e duas cadeiras. Um jogo pela metade
de estratégia estava sobre a mesa. Brishen era um estrategista muito melhor do
que Ildiko e ganhou todos os jogos até agora, exceto um. Ela suspeitava que ele
a deixava ganhar.

Ildiko retornou a seu quarto para tirar suas roupas e vestir sua camisola.
Do baú no pé de sua cama, ela pegou um dos três livros preciosos que levou
consigo de Pricid – um volume de salmos e poemas. Ela leu tantas vezes, que
acabou memorizando a maioria deles, mas não eram menos agradáveis a cada
leitura. Decidiu ficar lendo no quarto de seu marido até ele retornar das
fronteiras.

A roupa de cama de Brishen era fria e fresca, as peles macias quando


entrou nelas e os travesseiros empilhados atrás das costas para que ela pudesse
ler. Ela deixou a porta da sacada aberta. Seu quarto era para o leste e a luz do
sol da manhã se filtrava pelas das planícies até que caía sobre a sacada e o quarto.
Ildiko apagou a única vela ao lado da cama e se começou a ler sob a luz do sol.

Ela estava na metade do livro e os olhos pesados de sono, quando a porta


se abriu. Brishen parou ali vestido com sua túnica e calça, os pés descalços e o
cabelo úmido. Ele se encostou na moldura da porta e cruzou os braços. —
Mulher do dia, você esperou por mim.

Ildiko fechou o livro e deu a ele um sorriso sonolento. Alívio e alegria a


preencheram. — Príncipe da noite, você voltou para mim, com sua cabeça no
lugar.

— Eu prometi que tentaria. — Brishen atravessou o quarto, fazendo sinal


para ela parar, quando começou a sair da cama. — Pare, apenas vá para o lado.

Surpresa, ela fez o que ele disse e abriu espaço onde estava. Ele deslizou
ao lado dela e os cobriu com os cobertores. Ildiko se virou de lado e murmurou
sua aprovação quando ele a colocou em seu corpo e acariciou com o rosto onde
seu ombro e pescoço se encontravam. Eles dormiram assim durante suas
viagens para Haradis e depois para Saggara, seu corpo se sentia leve no conforto
e ela não mentiria dizendo que não prazeroso.

Ildiko estava a meio caminho de um sono profundo quando as palavras


suaves de Brishen em seu ouvido a fez ficar alerta.

— Durma aqui todos os dias, Ildiko.

Um doce calor se espalhou. Ela entrelaçou as pernas com as dele e abraçou


sua cintura. — Como quiser. Apenas não roube os cobertores.
Capitulo Dezesseis

Salure se situava em uma ravina entre as encostas íngreme de algumas


montanhas. Carvalhos Endrisi desciam pelas encostas, envolvendo os lados
como um manto verde escuro. Estas árvores eram diferentes dos carvalhos
Solaris que fronteavam Saggara. Mais curtos, com troncos grossos e folhas
pequenas em forma de pingentes, os carvalhos Endrisi cresciam baixos e largos
ao invés de altos e eram intercalados com abetos e estátuas. O crepúsculo
invadiu suas sombras por muito tempo e Brishen apontou as formas de falcões
de ombros vermelhos empoleirados em suas copas para dormir enquanto
corujas silenciosas tomavam seu lugar na caçada.

Um caminho estreito serpenteava até a encosta, com múltiplos


cruzamentos que tornavam mais fácil para os cavalos andarem sobre o campo
inclinado. Árvores se alinhavam a cada lado do caminho como um pequeno
bosque de espinheiros, mais espesso do que um tapete e garantia rasgar em
pedaços qualquer coisa maior do que uma raposa. Um cavaleiro que desejasse
chegar a Salure com os seus cavalos intactos teriam que permanecer na estrada
– que era vigiada.

O crepúsculo deu lugar a noite quando Brishen, Ildiko e sua escolta


atravessaram um pequeno riacho e passaram por uma abertura estreita para
chegar a fortaleza esculpida diretamente na montanha. As ameias e torres de
Salure subiam graciosamente acima deles, formando silhuetas escuras contra o
céu noturno. Lanternas e tochas ardiam ao longo das paredes e alinhavam o
caminho de paralelepípedos que levava ao portão principal. Brishen apertou os
olhos contra a luz e anunciou a si e Ildiko aos guardas do portão.

Uma vez dentro, eles atravessaram de um lugar a outro, por muro alto e
um portão fortemente vigiado. Brishen não teve que anunciar-se uma segunda
vez. Os portões se abriram e ele guiou seu grupo até um pátio com oficinas, um
estábulo, uma forja e um pequeno templo.
Brishen relaxou na sela. Até agora, os Kai permaneceram como vizinhos
pacíficos com o reino de Belawat. Os invasores que o atacaram e a Ildiko na
rota comercial tinham o brasão da casa real de Beladine sob sua armadura.
Qualquer que fosse a hostilidade do rei Beladine pelo casamento de Brishen
com uma Gauri real, essa hostilidade ainda não chegou a estas fronteiras nem a
este senhor Beladine. Ninguém ainda pediu que Brishen e seu guarda Kai se
desarmassem. Era uma demonstração de confiança e Brishen retribuiu trazendo
sua esposa para este jantar.

Um mordomo os cumprimentou quando as grandes portar se abriram para


o interior de Salure. Brishen desmontou e ajudou Ildiko a descer de seu cavalo.
Ele deu instruções aos soldados que os tinha acompanhado em sua viagem, a
seguirem outro servo a um edifício de pedra que se projetava da parede interna
e estava ocupado por soldados Beladine que olhavam seus visitantes Kai com
desconfiança, mas curiosos.

Por tudo isso Salure era indiscutivelmente um forte, muito como Saggara,
seu interior era luxuosamente decorado. O criado deixou Brishen e Ildiko em
uma sala de recepção adequada para a realeza. Tapeçarias pesadas, livres de
buracos de traça e camadas de poeira, alinhadas as paredes, inúmeras cadeiras e
bancos foram colocados ao redor da câmara, convidando um grande número de
pessoa a se sentar. Pequenos vasos de cerâmica descansavam em tripés de ferro.
Velas acessar perfumavam o ar com o cheiro de ervas que ultrapassavam o
cheiro de sebo das tochas iluminadas que revestiam a parede.

Brishen olhou para Ildiko. — O que você acha?

Ela puxou o capuz para trás, revelando a trança e as contas que Sinhue
colocou em seus cabelos. Seus olhos se moveram para trás e frente enquanto
olhava os arredores. — Suspeito que é bem organizada e provavelmente bem
abastecida com provisões e uma fonte de água fortemente protegida perto do
córrego.

Assustado, Brishen piscou e depois riu.


Ildiko deu-lhe um olhar que ele realmente podia interpretar agora. Estava
se acostumando com as expressões de sua esposa. — O que é tão engraçado?

— Você. — Ele traçou o bordado de sua capa com uma garra. — Você
nunca deixa de me surpreender. Achei que notaria a arquitetura ou o mobiliário.
Serovek é muito rico e ele mostra isso. Em vez disso, observou suas defesas e
conjecturas sobre a capacidade de Salure resistir a um cerco. Planos de
conquista, esposa?

Ela bufou delicadamente e ergueu o queixo. — Dificilmente. Sou uma


admiradora de um belo jardim, janelas extravagantes e um sofá fino como
qualquer mulher, mas também há beleza em um propósito. Um inimigo perderia
muitos homens tentando conquistar esse lugar.

Brishen não podia contestar aquela observação. Saggara tinha suas


próprias forças que Salure não possuía, mas o inverso poderia ser dito de Salure.
Eles estavam igualmente emparelhados em suas habilidades de lançar ataque e
se defender. Tal igualdade o mantinha e a Serovek em termos amigáveis e
Brishen esperava que permanecem assim.

As portas que separavam na sala de recepção do resto do interior foram


abertas e um homem vestido de couro marrom e seda vermelha passou por eles,
Brishen ouviu o suspiro suave de Ildiko quando Serovek, Lorde Pangio, de
Belawat agarrou o braço de Brishen e o puxou para um breve e esmagador
abraço. Se Brishen fosse humano em vez de Kai, Serovek teria quebrado
algumas de suas costelas.

Serovek sorriu, mostrando os dentes quadrados dos humanos, que muitas


vezes eram a fonte de diversão entre os Kai de Saggara. Brishen teve a percepção
instantânea de que era o próprio Serovek quem o fez pensar no sorriso de Ildiko
como um cavalo. Lorde Pangion era um grande humano – um pouco mais alto
do que Brishen – com ombros maciços e as pernas levemente arqueadas que
indicavam ter sido colocado sobre um cavalo em uma idade tão jovem que as
deixou assim.
A maior exposição de Brishen aos seres humanos era isolada, na maior
parte por Serovek e sua cavalaria, com cavalos tão fortes como os Kai. Os
humanos até rolavam os olhos daquela maneira que os cavalos faziam quando
estavam assustados. Às vezes, exibiam os dentes quadrados com um sorriso que
lembrava um gemido.

Serovek bateu uma mão entre as omoplatas de Brishen com força


suficiente para fazer um homem mais fraco cambalear. — Brishen, bem-vindo!

Brishen curvou-se brevemente. — Serovek. Agradecemos o convite. —


Ele olhou para sua esposa que estava silenciosa e de olhos arregalados. — Minha
esposa e hercegesé, Ildiko.

Serovek executou uma reverência cortês e floreada. — É um prazer, Vossa


Alteza. — Seu olhar passou rapidamente sobre Ildiko e sua voz suavizou ainda
mais. — A notícia de seu casamento chegou até nós. Seu marido é um homem
afortunado. Bem-vinda a Salure.

Brishen sentiu seu sorriso endurecer. Ele pressionou a mão contra as


costas de Ildiko. Talvez não pudesse discernir as emoções no olhar de um
humano, mas não era surdo. O interesse masculino evidente enchia a voz de
Serovek.

Ildiko curvou-se. — Lorde Pangion, Brishen falou muito bem do senhor.


Obrigada por nos convidar para sua linda casa.

Serovek fez sinal para que o acompanhasse através das portas e para um
salão iluminado, cheio de humanos e dividido por uma longa mesa de jantar. Os
outros convidados do jantar eram nobres de baixo escalão e escudeiros das
cidades de Beladine que recebiam proteção de Salure. Eles ficaram de bocas
abertas com Brishen e Ildiko. Brishen teve uma ideia do que Ildiko passou no
palácio e das circunstâncias que vivia em Saggara. Sua admiração por sua
imperturbável calma aumentou. Não era uma coisa muito agradável ser o objeto
de curiosidade de uma forma tão minuciosa, especialmente quando essa
curiosidade era misturada com desconfiança e repulsa.
Serovek fez as apresentações necessárias e logo Ildiko foi levada para outra
parte do salão por um bando de esposas e filhas ansiosas para saber como a
sobrinha do rei Gauri acabou sendo a esposa de um príncipe Kai.

Brishen se encontrou sozinho com Serovek, os outros homens relutantes


em interagir com ele além das apresentações iniciais. Eles não se importavam
com ele, além da possibilidade de serem alvos militares no futuro. Serovek
levantou duas taças de vinho de uma bandeja servida por um criado e passou
uma para Brishen. — Ganhei uma aposta considerável graças a você. — Eles
brindaram um outro na língua universal e beberam.

Brishen olhou sua taça. O vinho era excepcional. — Como assim?

Ele pegou o sorriso de Serovek. — As apostas foram feitas sobre um certo


príncipe Kai, se ele se recusaria no último minuto a aceitar uma mulher humana
como esposa.

As apostas foram feitas ao longo do reino de Kai sobre o mesmo assunto,


exceto que era se era a noiva Gauri que recusaria. — As probabilidades?

— Sessenta para um.

Brishen assobiou. — São ganhos altos.

Outro criado passou com uma bandeja. Serovek esvaziou a taça e


substituiu por outra cheia da bandeja. Todo seu corpo exalava satisfação. —
Sim. Usei os ganhos para comprar um garanhão jovem do rebanho relâmpago
Nadiza como reprodutor.

Brishen fez uma anotação mental que se outro casamento entre um Kai e
um ser humano acontecesse em breve, ele entraria na piscina de apostas de
Serovek. — Você obterá pôneis rápidos daquele reprodutor.

— Estou contando com isso. — A expressão de Serovek ficou sombria.


— Rumores dizem que você encontrou problemas em seu retorno a Haradis.
A inquietação ondulou nas costas de Brishen. Ele confiava em Serovek
tanto quanto confiava em qualquer humano, exceto Ildiko. — Os rumores estão
corretos neste caso. Você tem aqueles parentes que não aprovam o casamento
e a aliança forjada, embora eu ache que o rei de Belawat se preocupa por nada.
Nós vendemos nosso amaranto a qualquer um que esteja disposto a pagar. Gauri
ou Beladine, todos são simplesmente humanos para os Kai.

Serovek bufou. — Acho que nós dois sabemos que não tem nada a ver
com o corante. O reino de seu pai é a barreira entre Belawat e Gaur. Os Kai
eram neutros até este casamento.

Brishen pegou uma segunda taça de vinho, mas desta vez apenas tomou
um gole. — Nossas mortes seriam inúteis. O casamento é simplesmente um
gesto de boa fé. — Ele não disse em voz alta o que tanto ele quanto Serovek
sabiam – muitas guerras começaram a partir de um gesto de boa fé.

Ele observou intrigado, conforme seu anfitrião de repente colava um


sorriso falso e deslizava um olhar para os grupos de outros convidados que os
observavam. — Você e eu estamos tendo uma conversa divertida. — Brishen
pegou a dica e lançou um sorriso igualmente falso. — Qualquer advertência que
eu pudesse dar a você seria vista como traição e não me agrada ter a cabeça em
uma lança nas paredes de fora do palácio. — Disse Serovek entre os dentes. —
Mas de um amigo para outro, eu diria para proteger suas costas. Belawat
desaprova essa aliança e tentará novamente fazer com que essa desaprovação
seja reconhecida da maneira mais óbvia possível.

Os olhos de Brishen se estreitaram. Mate os membros menos importantes


primeiro e suba a hierarquia até que alguém finalmente reconheça a mensagem.
— Não vai parar em mim e Ildiko.

— Não. Suas mortes são simplesmente a trombeta de advertência. Os


Beladine e os Gauri são igualmente combinados em proezas marciais até está
última aliança comercial. O pêndulo balançou em favor de Gaur quando Bast-
Haradis concordou mais do que apenas o comércio amigável.
Removido das maquinações judiciais e das negociações políticas por
distância e desinteresse, Brishen não pensou muito no entusiasmo súbito de seu
vizinho por oferecer acesso a seus portos e transportar bens Kai, especialmente
o valioso corante de amaranto, em seus navios sem tarifas pesadas e taxas.

— Os Gauri devem ter recebido informações de que Belawat estava


planejando uma ofensiva contra eles. Meu pai teria considerado a promessa de
assistência em um comércio mais junto para mover o corante sem tarifa. Ambos
os países poderiam engordar seus cofres. Mas para os Gauri, a aliança militar é
muito mais importante do que a do comércio.

O sorriso falso de Serovek escorregou lentamente de seu rosto. — De


fato. Djedor é conhecido em todos os reinos como um rei teimoso e astuto. No
entanto, derrube o herdeiro e limpe suas economias, ele poderá quebrar.

Brishen ficou em silêncio. O que nos reinos dos humanos acreditavam era
parcialmente verdadeiro. Djedor era um bastardo teimoso e perspicaz e a
continuação de sua linha significava tudo para ele. Eles, no entanto, não
consideravam Secmis e as fraquezas do rei Kai não espelhavam as de sua
formidável rainha.

— Por que está me dizendo isso? — Perguntou a Serovek. — Poderia


matar a mim e Ildiko agora e ganhar a gratidão de seu rei.

Serovek bufou. — A gratidão do Rei Rodan não se manifesta com moedas,


terras ou favores. O máximo que eu conseguiria seria um desfile. — Desdém
curvou seu lábio superior. — Como se eu desejasse tal coisa, multidões jogando
louros em mim e assustando meus cavalos. — O lábio curvado se transformou
em um sorriso malicioso. — Você, no entanto, me faz rico com seus corantes e
sua amizade. Você é muito mais valioso para mim como amigo do que como
inimigo.

Brishen riu. A primeira vez que viu Serovek, gostou dele. Ele era tão
estranho quanto qualquer outro humano em aparência e expressão, mas era um
soldado com uma mente estrategista e uma propensão para a honestidade que
às vezes era nobre, às vezes oportunista, às vezes ambos. Essas eram as
qualidades que Brishen admirava.

Ele bateu contra a taça de Serovek. — Ao valor do lucro e da amizade. —


Ele bebeu o vinho, o medo cobrindo sua língua dando-lhe um gosto metálico.
Brishen não temia por sua segurança. Ele poderia lidar com isso em uma luta e
seria difícil de matar, mas ele não era o único alvo. Enquanto Ildiko tinha o
coração de uma guerreira, ela não era treinada e estava despreparada para se
defender de um ataque determinado de um assassino. Ele daria sua vida por ela,
a protegeria com espada e machado, dentes e garras, se fosse necessário. Ainda
assim, era apenas um mortal e havia uma fenda até mesmo na melhor armadura
já feita.

Serovek o puxou de suas sombrias reflexões. — Vamos falar de coisas


mais agradáveis. — Ele virou o olhar para Ildiko, rindo na companhia de outras
mulheres humanas. — Sua esposa é uma criatura deslumbrante. Como é que tal
mulher, com laços com a casa real Gauri, permaneceu solteira até agora?

Brishen encolheu os ombros, inseguro ao ouvir o entusiasmo de seu


anfitrião sobre a beleza de Ildiko como uma mudança mais agradável da
conversa. — Ela ocupa o mesmo papel na hierarquia que eu. Não temos
importância para a linhagem real, mas somos úteis em manobras políticas e
mantidos na reserva para o momento certo. — Ele nunca se ressentiu da ideia.
Na verdade, sua relativa insignificância havia lhe oferecido muito mais liberdade
do que qualquer uma dada ao seu irmão e lhe rendeu uma excepcional esposa.
Infelizmente, alguém agora considerava ele e Ildiko de grande importância da
pior maneira possível.

Sua conversa com Serovek permaneceu alegre até o anúncio do jantar.


Serovek sentou-se na cabeceira da mesa com Ildiko e Brishen de ambos os lados
como convidados de honra. Brishen dividiu sua atenção entre o prefeito de uma
das cidades de Beladine, que o persuadiu a conversar, apesar de seu desconforto
óbvio por estar sentado ao lado de um Kai e Ildiko, cujas risadas e respostas
animadas aos gracejos de Serovek suavizaram lentamente o vinho em sua língua.
Ela estava confortável aqui, em seu elemento entre os seres humanos
como ela. As diferenças entre eles nunca pareceram tão óbvias como agora e
elas eram muito mais profundas do que suas aparências. Brishen disse a si
mesmo que ela se acostumou com ele e seu povo, ela adotou seus costumes,
entendeu a sua cultura e lentamente se tornava mais Kai. Vendo Ildiko interagir
agora com os convidados Beladine, ele percebeu que se enganou ao pensar tal
coisa. Ela mostrava uma natural facilidade que ele nunca viu em Saggara embora
o relacionamento entre ela e sua casa fosse pacífica e respeitosa.

Sua habilidade de se adaptar rapidamente a novas pessoas e circunstâncias


o atrairam para um falso senso de contentamento. Seu próprio sentimento de
isolamento entre os convidados de Serovek fez com que ele se perguntasse se
Ildiko estava sozinha.

Estava perto da madrugada antes que o jantar acabasse e os convidados


reunissem suas coisas em preparação para partir. Ildiko escondeu um bocejo
atrás de sua mão enquanto Brishen a ajudava com sua capa.

— Você se divertiu? — Ele perguntou.

Ela apoiou a mão na dobra de seu cotovelo e a cabeça em seu braço. —


Muito. — Disse ela. — E sua se manteve. Sem batatas no jantar.

Ele acariciou sua cabeça. — Prova que existem deuses misericordiosos.


Ou pelo menos um cozinheiro misericordioso.

Serovek se aproximou deles depois de se despedir de outro casal. — Faz


muito tempo que não visito Saggara. Sua esposa teve tempo de colocar uma
marca de mulher ali?

Brishen reconhecia um elogio quando o ouvia e o de Serovek era menos


que sutil. — Um pouco. Deixe-me devolver o favor e convidá-lo a compartilhar
uma refeição conosco.
A resposta de Serovek não o surpreendeu. — Eu sinceramente aceito.
Diga o dia e a hora. Estarei lá. Estou ansioso para encontrar sua tenente
novamente. Uma mulher fascinante, aquela Anhuset.

Quando desceram a encosta da montanha e seguiram um caminho pela


grama alta, em direção a Saggara, era de madrugada e o sol cortava uma faixa
cega de luz através das planícies. Enquanto todo o grupo Kai se retirava para as
profundezas de seus capuzes e capas, Ildiko deixou cair o capuz e virou o rosto
para o sol. Com os olhos fechados, ela aceitou os raios solares com um sorriso.

Brishen a observou em silêncio por um momento antes de falar. — Você


sente falta da companhia humana, Ildiko?

Ela abriu um olho para olhar para ele. — Às vezes. Seu povo, no entanto,
tem sido muito acolhedor comigo.

— Exceto minha mãe.

— Suas palavras, não minhas. — Ela disse com um sorriso. — Mas seria
bom não se esmurrar tantas vezes ou ouvir de perto as vozes porque eu nem
sempre posso ler as expressões Kai.

— Tem sido um teste para você. — As palavras ficaram pesadas em sua


língua. Ele queria que ela negasse.

Ildiko balançou a cabeça. — Não, simplesmente um desafio. Há uma


facilidade para estar entre coisas e pessoas familiares. Você não tem que tentar
tão forte.

Embora ele concordasse com ela sobre a dificuldade em ler expressões –


ele lidava com o mesmo problema quando interagia com seres humanos – ele
ofereceu um contra-argumento. — Nós sorrimos como você. Nós fazemos
caretas como você. Brincamos e rimos como você.

Desta vez, ela abriu ambos os olhos e sentou-se mais reta na sela. — É
verdade, mas acho que muitas expressões humanas vêm dos olhos, como eles
se movem, piscam, mudam de cor de acordo com a emoção. Aprendemos a ler
esses sinais desde nosso nascimento. Torna-se uma segunda natureza. Eu tenho
dificuldade com os Kai porque seus olhos não mudam. Se eles se movem, eu
não posso dizer. Se eles mudam de cor, eu não noto. Os Kai choram quando
estão aflitos?

Era como se ela tivesse quebrado a fechadura de um baú que ele estava
tentando esconder por anos. Os olhos. A chave para entender os humanos era
aprender a ler seus terríveis olhos. O mesmo podia ser dito dos Kai.

— Você tem aquele misterioso sorriso novamente, marido. — Ela


arqueou uma sobrancelha.

— Você me fez considerar algo que nunca fiz antes. Temos muito o que
aprender um com o outro, esposa.

Ildiko olhou para ele por um momento antes de puxar o capuz sobre sua
cabeça. — Estou ansiosa para aprender.

— Eu também. — Disse ele.

No momento em que atravessaram os portões de Saggara, Ildiko já estava


dormindo na sela, mantida apenas pela memória instintiva de seu corpo de como
montar. Brishen a levou para seu quarto e a deixou com uma Sinhue igualmente
sonolenta para se preparar para a cama.

Ele não esperava que ela se juntasse a ele mais tarde, então ela o
surpreendeu aparecendo diante dele enquanto ele se sentava na beirada de sua
cama ponderando a informação que recebeu de Serovek.

Vestida com uma de suas camisolas brancas, ela afastou seus joelhos até
ficar entre suas pernas. Seu aroma – cravo-da-índia e grama – entrou em suas
narinas. Brishen inclinou a cabeça para cima. — Eu pensei que dormiria em sua
cama.
Suas mãos eram macias em suas bochechas, as pontas dos dedos
acariciando linhas delicadas e redemoinhos através das maças no rosto e
têmpora. Ele fechou os olhos quando ela passou os dedos pelo seu cabelo. —
Já não sou bem-vinda em sua cama?

Brishen suspirou de prazer enquanto suas mãos seguiam caminhos pelo


seu pescoço até os ombros e começavam uma massagem. — Não seja tola,
esposa.

— O que te incomoda, Brishen? — As mãos mágicas de Ildiko entraram


em seu couro cabeludo, massageando suavemente. Brishen gemeu. — Você tem
estado estranho, desde o jantar em Salure. O que Lorde Serovek lhe disse?

Era difícil pensar enquanto Ildiko o acariciava até um estupor. Quem sabia
que algo tão simples como uma massagem no couro cabeludo o reduziria a um
idiota pateta? Ele lutou para juntar seus pensamentos. Em algum momento ele
teria que lhe contar os planos de Belawat. Enquanto não gostava da ideia de
assustá-la, a ignorância matou mais do que uma parcela justa de pessoas e ele
queria que ela estivesse ciente do perigo.

Ainda assim, havia tempo suficiente para perturbar seu sono amanhã. Por
enquanto, ele diria outra coisa – algo que perturbaria o sono dele por muitas
noites.

— Lorde Pangion a chamou de deslumbrante.

Por um momento a massagem parou, apenas retornando quando Brishen


apertou seus pulsos e a cutucou para continuar. A fraca luz emitida pelos raios
solares que entravam pelas cortinas fechadas revelava a sombra de um rubor em
suas bochechas.

— Ele disse? Foi muito gentil da parte dele.

Sua esposa – linda, não. Impressionante para um homem cujo olhar a


acariciava da cabeça aos pés e cuja voz proclamava aprovação e interesse. — Ou
simplesmente muito verdadeiro.
Ildiko riu e se afastou, puxando algumas mechas de seu cabelo. — Ah meu
marido, que língua afiada você tem. — Seus dedos traçaram as curvas de seus
ouvidos, enviando arrepios pelas costas e pelos braços. Seus olhos se fecharam
quando ele se afundou na sensação.

Uma questão que permanecia no fundo de sua mente desde que Serovek
passou pela porta para os receber apareceu. Brishen abriu os olhos para
encontrar o olhar sorridente de Ildiko. — E Serovek, Ildiko? As mulheres
humanas o consideram bonito?

Linhas de cenho franzidas marcaram sua testa antes de desaparecer


quando ela ponderou sua pergunta. — Honestamente? Extremamente bonito.
— Um frio o percorreu e se fixou no sangue de Brishen com suas palavras. —
Ele ser rico e inteligente também não faz mal. Ele também ser solteiro o faz ter
um alvo em suas costas para cada mulher Beladine em um raio de nove metros.
— Ela deu a Brishen um sorriso alegre. Um sorriso humano. Muito parecido
com o de Serovek. — Por que você pergunta?

Ele não podia responde-la. O impulso de sua pergunta foi provocado por
uma confusão de emoções e pensamentos. Ele precisava de tempo para resolvê-
los, fazer com que tivessem sentido para ele mesmo antes de dizer a ela. A
emoção mais clara que ele sentia agora era o arrependimento – arrependimento
de ter devolvido a oferta de jantar ao senhor de Beladine e a certeza inabalável
que convidou um lobo para ficar entre eles.

— Brishen? — O sorriso de Ildiko desapareceu. Ela mordeu seu lábio


inferior. Brishen tinha a ideia errada de que se um Kai tivesse feito tal coisa, eles
iriam transformar sua boa em uma confusão sangrenta.

Ele encolheu os ombros. — Apenas curioso. Eu tinha pouco interesse nos


humanos até agora. Com uma esposa humana, isso me fará aprender bem mais
sobre eles.

Ela começou a responder, mas foi interrompida por outro bocejo que ela
escondeu atrás de sua mão. Brishen levantou-se e dobrou as cobertas. — Entre.
— Disse ele. — Você está dormindo em seus pés e minha cabeça dói depois de
toda a luz do sol.

Ildiko correu pela cama para o lado que reivindicou. Ela dormiu no
momento que se aconchegou nos travesseiros. Brishen usou essa benção para
se despir. Inseguro de como ela reagiria e não desejando a assustar para que
voltasse ao seu quarto, então ele sempre dormia meio vestido ao lado dela.
Estava quente e desconfortável, mas valia a pena para tê-la em sua cama. Desta
vez, ele dormiria como costumava fazer quando estava sozinho.

Ele deslizou debaixo das cobertas e a puxou contra ele. Sua trança deslizou
em seu braço, uma serpente colorida. Ele capturou e enrolou seu comprimento
ao redor de se antebraço antes de deixar a trança cair para se abrigar atrás das
costas esbeltas de Ildiko.

— Eu não sou humano, esposa. — Ele sussurrou na escuridão.

Choque encheu seus olhos com a resposta de Ildiko, arrastada pelo sono
e quase incoerente. — Mas você ainda é meu, marido.
Capítulo Dezessete

Se houvesse algo com cheiro mais forte do que uma tinturaria de


amaranto, Ildiko ainda não conheceu. Ela cobriu o nariz com um lenço e seguiu
o mestre tinturador nas nuvens ondulantes de vapor sufocante que saia pelos
topos das chaleiras abertas suspensas sobre os fogareiros. O cheiro de sal,
bicarbonato de sódio e mariscos combinavam-se fazendo seus olhos e sua
garganta se fechar.

Trabalhadores Kai trabalhavam em equipes, se revezando para cuidar do


fogo, limpando panos em cubas ferventes de amaranto e colocando o pano para
secar em cavaletes de madeira. O chão enlameado da casa parecia um campo de
batalha vazio antes que todo o sangue fosse lavado em uma tempestade. Poças
de água em tons de rosa pálido para rubi profundo espirrava através de suas
botas quando pisava através da lama. Ela estava muito ocupada tentando manter
o equilíbrio para prestar muita atenção aos olhares que sua presença atraía.

Anhuset murmurou baixinho enquanto seguia Ildiko. — Teria sido mais


fácil mandar alguém entregar amostras do pano na fortaleza.

Ildiko optou por não responder, preferindo manter a boca fechada e o


odor da tintura longe o maior tempo possível. Seria realmente muito mais fácil
pedir amostras trazidas para a fortaleza, mas Ildiko queria ver as casas de tintura
e aprender como os Kai produziam a mercadoria valiosa que fazia os reinos
humanos cobiçar o amaranto.

Ela ouviu atentamente como o mestre tintureiro, um Kai resistente com


as mãos permanentemente pintadas de púrpura avermelhado, descrevia o
processo de extração do corante do molusco de água doce que pescavam do
lago próximo e coloria as pilhas de linho, lã e seda armazenados Em outra sala.
Era um trabalho sujo, malcheiroso, às vezes perigoso, que envolvia a fervura
dos moluscos, queimava o lodo e as impurezas, esticando os corantes e
cozinhando-os novamente com sal e bicarbonato de sódio.

O tecido tingido na magenta em tons de jóia era esticado sobre os cavaletes


de madeira em vários estados de secagem. O mestre tintureiro explicou a ela e
Anhuset como o amaranto não desaparecia após anos na luz solar como outros
corantes faziam, mas em vez disso, tornava-se mais vibrante ao longo do tempo
com a saturação de luz. Ildiko pensou como era irônico que um povo que
evitava a luz do dia era conhecido por criar algo que ficava mais bonito com a
exposição a ela.

O limo do molusco, que se estendia do topo do corante fervente, foi


empurrado para dentro de uma pilha perto das lixeiras. A pilha congelada
brilhava à luz da lua, verde pelos milhares de moscas zumbindo que pulavam
em sua superfície. O cheiro fez o estômago de Ildiko se revirar e ela se virou
antes de perder o café da manhã.

Anhuset estava ao lado dela, apertando o nariz, a desaprovação franzindo


sua testa. — Aquele galo de Beladine com as pernas arqueadas não vale a pena.

Ildiko concordou silenciosamente, mas ela não estava ali apenas para pegar
um presente de hospitalidade para a visita de Serovek. Esta era uma das quatro
principais casas de tintura no reino Kai e sob a tutela de Brishen. Ildiko sentiu
ser seu dever como sua esposa aprender alguma coisa obre o produto que
garantiu uma aliança entre seu povo e seu casamento e este entre eles.

Ela inalou uma respiração grata pelo ar limpo quando o mestre de tintura
os conduziu para fora e para longe das lixeiras e do vapor pungente saindo das
chaleiras. Ele apontou para outro conjunto de cubas, estas plantadas no chão
sem fogos abaixo delas. Os tingidores de Kai usavam as polias para levantar e
abaixar o pano em mais tinta.

— Este é o estágio de corante frio, Vossa Alteza. A cor foi aplicada e ficará
esticado e deixado para se sentar ao sol por onze dias. Nós tingimos as sedas
neste amaranto.
Ildiko se aproximou de uma das cubas e olhou para um mar de líquido
magenta. O corante cintilava sob o brilho de lanternas penduradas amarradas
em postes empurrados no chão. Seu traje típico cotidiano refletia as cores que
ela preferia – preto e verde, cinza e âmbar, assim como marrom. Ela nunca
gostou de vermelho ou rosa, mas olhando para o lustroso tecido, sentia-se
tentada a considerar um lenço naquela cor futuramente.

Inclinou-se mais para dentro da cuba.

— Tenha cuidado para não cair, Alteza.

O aviso do tintureiro chegou tarde demais. Enquanto Ildiko não caiu de


cabeça na cuba, o colar que ela usava deslizou e caiu na tinta com um plop suave.
A corrente de ônix afundou, deixando um padrão de ondas circulares marcando
onde caiu.

— Oh, não!— Ildiko não hesitou e mergulhou seus braços completamente


dentro da cuba até que a tintura chegou em sua clavícula. Sem se preocupar com
os gritos do tintureiro e de Anhuset, ela agitou a tintura, os dedos apertando até
que ela pegou a extremidade traseira da corrente em que pendia o ônix. Ela
sacudiu-o para fora da cuba, espirrando corante em seu pescoço e na parte
inferior de sua mandíbula.

O colar pendia de seus dedos pingando e ela o levantou para mostrar


Anhuset. Entendendo-o triunfante.

O mestre tintureiro olhou para ela em silêncio, os traços apertados.


Anhuset também olhou para ela, mas com os olhos estreitos e os lábios se
contraindo e comprimindo alternadamente enquanto reprimia uma risada.

Ildiko olhou para si mesma, encharcada de tinta. Sua túnica verde ficou
um marrom enlameado e onde a cor atingiu sua pele estava pintada uma sombra
interessante de ameixa. Ela olhou novamente para Anhuset cujos dentes afiados
brilhavam em um largo sorriso. O mestre tintureiro não compartilhava sua
diversão. O olhar comprimido foi substituído por um olhar de olhos arregalados
e um rosto pálido como cinzas velhas. Até mesmo Ildiko não podia confundir
seu pavor.

Ela se apressou em lhe assegurar. — Nenhum mal feito, Mestre Soté.


Nada que um bom esfregar com sabão e água quente não conserte. — Ildiko
quase sorriu, mas mudou de ideia no último momento. Ela poderia não possuir
os dentes que os Kai tinha, mas isso não significava que eles encontraram o
sorriso dela mais tranquilizador do que ela encontrava o deles.

Anhuset bufou. — Não conte com isso, Alteza. Lembre-se do que Soté
disse antes e você já viu os tintores aqui. O amaranto se prende rapidamente.
Pano, pele, cabelo. Ficará de uma cor ainda mais incomum por vários dias.

Brishen disse uma vez que sua pele o lembrava do molho amargo que os
Kai cozinhavam para liberar o corante. Ildiko levantou um braço rosa brilhante,
girando-o de um jeito e depois o outro. Sua roupa estava arruinada, mas pelo
menos agora e podia se gabar de ter cor em sua pele. Ela encolheu os ombros e
colocou o colar quebrado no corpete. — Posso pegar um pano seco, por favor?
— Perguntou ao tintureiro.

O Mestre Soté saltou para pegá-lo como se tivesse correndo de algo


assustador. Em momentos, ela segurava duas toalhas enquanto Anhuset
observava, segurando uma sobressalente.

Seu mergulho na cuba de tintura cortou sua curta excursão. Uma vez seca,
Ildiko pediu desculpas pelo problema e prometeu a um mestre Soté terrível que
o herceges não ficaria zangado e não o procuraria apenas porque sua esposa
conseguiu se tingir de cor-de-rosa em sua tinturaria.

Soté era tanto educado como complacente enquanto ele a escoltava e


Anhuset para onde suas montarias esperavam, mas Ildiko tinha a nitida
impressão de que não poderia se livrar dela rápido o suficiente. Ela montou seu
cavalo, ignorando as sobrancelhas levantadas e olhando fixamente o resto de
sua escolta.
Anhuset entregou-lhe o manto. — Você ainda está úmida, Alteza. A capa
impedirá que fique fria. — E impedi-la de distrair os guardas de Kai que os
acompanharam de Saggara para a tinturariaria e tentavam não ser muito óbvios
ao olhar para ela.

Ildiko fungou e envolveu o casaco confortavelmente ao redor de si


mesma. Ela não lamentava suas ações. Foi impulsiva e descuidada, verdade, mas
o colar era precioso – um último presente de sua mãe antes de morrer. Ildiko
teria mergulhado de cabeça em uma cuba de urina de cavalo fervendo para
recuperá-lo. Ainda assim, não gostava da ideia de seu pescoço e braços estarem
manchados da cor de ameixa por uma quinzena.

Eles percorreram a estrada principal para a mansão, os jovens carvalhos


Solaris sentinelas silenciosos em sua passagem. As árvores deram lugar a uma
série de obras de terra e paredes de alvenaria que formaram o exterior de
Saggara. Atrás das barreiras situava-se um dos dois estábulos que abrigava os
muitos cavalos mantidos em Saggara e um conjunto de quartéis que fornecia
lareira e telhado para os soldados que escolheram não viver na margem do lago.

Gritos, assobios e vaias soaram próximo. Ildiko os ouviu antes de se


aventurou em uma das varandas para admirar a paisagem ou o padrão de estrelas
que se movimentavam acima dela. Ela olhou para Anhuset. — O que é isso?

Anhuset gritou um comando e seu cavalo girou para os sons. Ela apontou
para uma parede de terra baixa em que vários Kai ou estavam de pé ou sentados
e assistiam algo além da linha de visão de Ildiko.

Eles seguiram a curva da parede e pararam em uma entrada larga que se


abria para uma arena improvisada de treinamento. Os alvos dos arqueiros
compartilharam o espaço ao lado de uma parede com homens de palha em
vários estados de desmembramento. Armas de todo tipo, da madeira ao aço,
ocupavam outro espaço. Havia outros equipamentos também, itens que
pareciam ser usados para treinar a cavalo, mas com a fraca luz das tochas
cintilando pela arena, Ildiko só conseguia adivinhar o propósito deles.
Os aplausos e os gritos que a atraíram eram para os combatentes no meio
da arena. Nove pares de Kai enfrentaram um ao outro, cada homem ou mulher
com a intenção de lutar contra seu adversário até a submissão. Os homens
estavam vestidos com simples lençóis amarrados na cintura. As mulheres
usavam roupas semelhantes, exceto pela adição de uma blusa sem mangas
cortado acima do umbigo. Acolchoada e em camadas, protegia os seios como
um peitoral.

Sinuoso e musculoso, o lutador Kai lembrava-lhe os gatos. A luz das


tochas deixava os combatentes em alto relevo. Sua pele brilhava com suor
quando caiam juntos, dobrados, torcidos e jogava uns aos outros no chão em
várias tentativas de ganhar o jogo.

Anhuset bateu em Ildiko no ombro e apontou para um dos pares lutando.


— Olhe Brishen, Vossa Alteza. Ele luta contra Nefiritsen. Um adversário difícil
de lutar.

Ildiko guiou seu cavalo para um lugar melhor para que pudesse ver.
Brishen e Nefiritsen estavam trancados em um nó de braços e pernas, os
músculos esticados enquanto cada um tentava levar seu oponente ao chão.

Não gatos, ela pensou. Enguias, muito vivas e agressivas. Enrolavam-se


umas nas outras, ondulando e serpenteando, como se os seus ossos tivessem se
suavizado e esticado até que pudessem se dobrar, torcer num combate tão suave
que parecia mais dançar do que lutar e parecia totalmente desumano.

Como os outros Kai na arena, Brishen usava apenas a tanga de linho. Ele
prendeu seu cabelo para trás e amarrou-o na nuca. O estilo destacava a forma
de amêndoa inclinada de seus olhos e a curva alta de suas maçãs do rosto. Estava
brilhante de suor e manchado de sujeira. Um homem bonito ainda, apesar da
sujeira.

O pensamento quase derrubou Ildiko. Não era a primeira vez que ela
notava a aparência de seu marido. Ela fez isso antes de três noites passadas e
então ela o chamou de bonito.
Eles compartilhavam uma cama, embora não tivessem feito nada mais do
que dormir. Ildiko rapidamente se acostumou à presença de Brishen ao lado
dela, o calor de seu corpo sob as cobertas. Ele era um tranquilo dorminhoco,
sem sussurros, sem roncos. Às vezes ela se perguntava se ele ou qualquer um
dos Kai sonhava como os humanos.

Após seu retorno de Salure e do jantar de Serovek, ela adormeceu assim


que Brishen a ordenou entrar sob as cobertas. Ao contrário de todas as noites
antes, ela acordou antes dele e descobriu um homem sublime dormindo.

Estava deitado de lado, de frente para ela, com um braço apoiado no peito,
o outro estendido em sua direção. Algumas mechas de cabelo preto obscureciam
parcialmente suas feições, mas Ildiko ainda podia ver a linha afiada de sua
mandíbula e a ponte igualmente afiada de seu nariz. Para um homem que sorria
e ria tão facilmente, sua boca tinha um declínio distinto, uma herança da mãe
de sangue frio que tanto desprezava.

Seus olhos estavam fechados, os grossos cílios tremulando com a


ocasional contração de suas pálpebras. Uma fraca expressão franziu o silêncio
de seu rosto por um momento, abaixando a inclinação de suas sobrancelhas.
Desvaneceu-se tão rapidamente como apareceu e ele suspirou suavemente em
seu sono. Ildiko estendeu a mão para alisar sua sobrancelha. Ela se afastou, não
querendo perturbá-lo e acabar com sua chance de admirá-lo abertamente

Ele rolou nas coberturas em algum ponto. A coberta se juntou à sua


cintura e se torceu ao redor de uma perna, deixando a outra exposta ao ar fresco
da noite, que entrava em correntes finas pelo quarto atraves das frestas estreitas
na janela.

Ildiko piscou e uma onda de calor subiu de sua barriga até seu peito,
fazendo a respiração parar em sua garganta.

Estava nu sob os lençóis. Ela já o viu com o peito nu antes, mas ele
costumava se deitar parcialmente vestido com calça soltas de linho fino. Aquela
perna longa, descoberta ao ar noturno do tornozelo ao flanco, revelou que ele
optou por renunciar a tal modéstia.

Os Kai eram um povo alto e gracioso, seus físicos esbeltos enganosos.


Sabia-se entre as nações humanas que os Kai eram imensamente fortes, com
ossos como ferro e igualmente pesados. Lorde Serovek de Beladine era um
homem grande, poderosamente construído e parecia poder carregar um cavalo
de corrida em seus ombros. Brishen, ao contrário, parecia quase delicado, mas
Ildiko suspeitava que seu peso se igualava, se não ultrapassava o de Serovek,
assim como sua força.

Descansando ao seu lado, parecia para Ildiko uma estátua viva, esculpida
no granito escuro em uma forma elegante e de poder flexíveis. Ele era bonito e
a mudança em sua percepção lhe roubou o ar dos pulmões.

Ele abriu ambos os olhos de repente, fazendo-a pular. Duas brilhantes


moedas de ouro a encaravam sem piscar. — Boa noite, esposa. — Ele disse com
uma voz rouca e sonolenta. Um sorriso de lábios fechados curvou sua boca para
cima e aprofundou as linhas minúsculas nos cantos de seus olhos. — Você está
encarando. Tenho uma mosca no nariz?

Lutou contra um rubor por ser pega olhando para seu próprio marido,
Ildiko tocou levemente a ponta de seu nariz com um dedo. — Estava tentando
encontrar uma maneira de matá-lo sem dar um soco na sua cara. Sorte para você,
que ela voou para longe.

Ele apertou seu pulso e levou sua palma para a boca para um beijo.
Generoso com suas afeições, ele fez isso muitas vezes antes, mas desta vez foi
diferente. Desta vez, o roce de seus lábios através do centro sensível de sua
palma enviou arrepios em seus braços e costas. Ildiko liberou a mão de seu
aperto e sentou-se para arrumar os travesseiros atrás dela. Ela evitou seu olhar
e alisou as cobertas sobre seu colo. — Lamento ter despertado você.

Ela percebeu o leve estreitamento de seu olhar pelo canto do olho. Ela
estava agindo estranho e ele sabia disso.
Ele começou a sentar-se e reclinar ao lado dela, mas parou. Um grave
silêncio pairou entre eles antes de Brishen amaldiçoar suavemente em Kai. Ele
puxou as cobertas sobre as duas pernas e sentou-se. Seus dedos em seu queixo
eram leves quando virou a cabeça para encará-la.

A luz amarela dos olhos dele empalideceu e o sorriso que a cumprimentou


quando acordou se foi — Perdoe-me, Ildiko. Estava muito quente ontem para
dormir com roupa e eu costumo dormir sem roupa. Pretendia estar de pé e
vestido antes de você. — Ele deixou cair a mão e fez um gesto para ela se virar.
— Isso só me levará um momento.

Ele tentou se levantar, parando quando Ildiko agarrou seu braço. Ela
ouviu em sua voz decepção e embaraço. Ele a achava repugnada ao vê-lo nu ao
lado dela e mal coberto. O oposto não poderia ser mais verdadeiro.

Esse rubor persistente fez um lento rastejar até seu pescoço. Dessa vez
Ildiko ignorou. — Não seja tolo, Brishen. Eu deveria ser a pessoa envergonhada.
Você me pegou olhando para você como carne de cavalo premiado. — Ela riu
enquanto seus olhos se arredondavam. — Não fique tão chocada. Posso ser
humana, mas não sou cega. Aprendi a apreciar a beleza Kai. — Ela levantou seu
queixo. — E me recuso a pedir desculpas por admirar meu próprio marido.

O amplo sorriso de Brishen combinou com o dela, mesmo que seus dentes
estivessem longe da intimidação. Ele colocou os travesseiros atrás das costas e
levantou a mão. Ildiko não se afastou desta vez. — E aqui eu pensando que eu
tinha casado com uma moça tímida e ruborizada. — Ele brincou.

Ildiko fungou e puxou para o lado o colar de seu trilho para revelar seu
pescoço, agora febril ao toque e sem dúvida, vermelho brilhante. — Você está
parcialmente certo. Estou ruborizada agora. — Ela soltou o colarinho e lhe deu
um olhar sério. — Não sou, no entanto, uma donzela.

Para um nobre Gauri com a intenção de herdeiros do seu sangue, a


confirmação da inocência de uma noiva era primordial. As primas de Ildiko se
mantiveram guardadas como prisioneiros por um exército de governantas e
guarda-costas, como se fossem feitas de pedras preciosas em vez de carne.
Qualquer homem considerado indigno como pretendente pela família real,
arriscava a vida e os membros, até mesmo se lançasse um olhar de admiração
para uma das prisioneiras.

A própria virtude de Ildiko era muito menos apreciada e como tal, sua tia
não agia com zelo para protegê-la. Brishen nunca perguntou e ela esperava que
fosse por falta de interesse mais do que uma suposição de que ela ainda não
conhecia a intimidade física entre homens e mulheres.

Brishen ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços. — Ah, um conto do


seu passado. Você mantém seus segredos escondidos, esposa. Conte-me. Que
amantes te ensinaram os prazeres da carne?

Ela apertou seus dedos, aliviada por sua admissão incitar apenas
curiosidade. Talvez os Kai não tivessem as mesmas noções tolas como os Gauri.

— Amante. — Disse ela. — Apenas um e eu não achei tudo isso agradável.


— Brishen perdeu seu sorriso leve, mas ficou em silêncio. Ildiko encolheu os
ombros. — Foi bom, mas certamente não valeu a pena beber chá de flor de
lorus antes.— Ela estremeceu com aquela lembrança.

— Ele te forçou?— Brishen fez a pergunta em uma voz gutural. Pequenas


faíscas brancas brilharam em seus olhos.

Ildiko bateu no braço dele e afastou a mão dela antes que ele esquecesse
que poderia esmagar seus dedos com um aperto. — Claro que não. Ele era um
rapaz agradável, o mais novo dos oito filhos de um nobre menor. Nenhum de
nós sabia o que estávamos fazendo realmente. Foi confuso e desajeitado e não
valeu a pena se preocupar depois da terceira vez.

A boca de Brishen contorceu-se de forma estranha enquanto lutava para


conter a risada. — Por que você não tentou com outra pessoa? Um amante
experiente teria lhe ensinado muito. Chama-se, prazeres da carne, por uma razão
Ildiko, e vai muito além de torpezas desajeitadas sob as cobertas.
Ela acenou com uma mão indiferente. — Ainda não valeu a pena na minha
opinião. O chá da flor de Lorus impede que a semente de um homem enraize
no ventre, mas tem gosto muito ruim e mesmo a lembrança dele faz o meu
estômago revirar. Certamente, não há nada tão prazeroso para fazer com que
valha a pena beber essa gordura.

Seu comentário fez Brishen rir completamente, suas presas brilharam no


crepúsculo do quarto. Ele pegou sua trança e envolveu-a frouxamente ao redor
de seu antebraço. — Ah minha Ildiko, que alma prática você tem.

— Considero isso um atributo, não uma falha. Mais pessoas poderiam usar
uma dose de praticidade de vez em quando.

Ele puxou sua trança. — Não a menosprezo. Acho esse traço um dos seus
encantos.

A cor de seus olhos se aprofundou mais uma vez para o dourado como
mostrou quando ele acordou pela primeira vez. Enquanto Ildiko não conseguia
acompanhar o movimento de seus olhos, exceto o leve empurrão nas bordas,
ela tinha sensação de que seu olhar ia além de seus cabelos, seus ombros e
pescoço e seus braços nus.

O formigamento fino que dançava ao longo de sua pele se transformou


em um chiado. Ildiko inalou bruscamente quando Brishen inclinou-se para se
aproximar do ponto sensível da têmpora com o nariz. Sua respiração fez cócegas
em sua orelha. — Um dos muitos. — Ele sussurrou e suas palavras foram uma
carícia ao longo de suas costas.

Os lábios de Brishen flutuaram ao longo da borda de sua orelha até o


lóbulo. Presa entre a sensual sedução de seu toque leve e o medo de que ele
poderia inadvertidamente arrancar o lóbulo de sua orelha com os dentes, Ildiko
congelou, seu hálito pairando em sua boca e nariz em exalações irregulares.

Como se ele sentisse seu desconfiança mais do que seu desejo, ele se
afastou lentamente, os ombros rígidos, o rosto limpo de expressão. Ele soltou a
trança de seu braço e alisou-a sobre seu ombro, seus movimentos controlados
e cuidadosos. Ele se afastou dela em corpo e espírito.

Ildiko agarrou seu braço, não querendo que ele deixasse seu lado. —
Gosto do seu toque, Brishen.

A rigidez afrouxou-lhe os ombros. Ele lhe deu um olhar irônico e


pressionou a palma da mão na pálida extensão de pele logo abaixo do ombro.
Sua mão levantou-se e caiu rapidamente. — Acredito em você, mas também me
diz que tem medo.

Ela estremeceu. — Seus dentes são tão ... afiados.

— Eles são, mas não sou descuidado, esposa. E se, por alguma razão
insondável, eu acidentalmente mordê-la, você é bem-vinda para me morder de
volta.

Sua tentativa de humor funcionou e Ildiko riu. — Brishen... — Ela


ofereceu-lhe um sorriso de dentes quadrados. — Eles não causariam muito
dano.

Ele traçou a linha de sua clavícula com as pontas ásperas de seus dedos,
suas garras escuras um sussurro de movimento em sua carne. — Você
obviamente nunca foi mordida por um cavalo.

Por mais estranha que fosse a analogia, não tinha argumentos para refutá-
la. Em vez disso, ela se contentou em tirar os cabelos de seu ombro e deixá-los
escorregar entre os dedos. Os olhos de Brishen se fecharam diante da carícia e
ele mudou de posição para que se deitasse na cama, a cabeça em se colo, de
costas para ela.

Se ambos não tivessem uma centena de tarefas a serem cumpridas uma


vez que se levantassem, ela se contentaria em acariciar seus cabelos sedosos por
horas. Uma mecha de cabelo ficou presa entre seus dedos. — Desculpe. —
Disse ela. — Você tem alguns emaranhados aqui.
— Você pode escová-lo para mim quando nos levantarmos.

Muito inteligente, pensou. — Escovarei seu cabelo se você me falar sobre


sua primeira amante. Provavelmente seu encontro foi mais memorável do que
o meu.

Ela sentiu a tensão de sua bochecha em sua perna quando ele sorriu. Ele
ficou quieto e ela puxou um de seus emaranhados. — Eu lhe contei minha
história passada, Brishen. Sua vez.

— Você não prefere ouvir sobre como minha baba me pegou praticando
como escrever meu nome urinando nas paredes do meu quarto?

Ildiko revirou os olhos. — Não, eu não prefiro. Já me contou isso.

Uma risada silenciosa percorreu sua perna. Brishen virou-se para seu outro
lado para encará-la. Sua cabeça pressionada em seu ventre, quente e pesada. Ele
pegou sua mão e colocou de volta em sua cabeça. Ela pegou a dica e recomeçou
a acariciar o cabelo dele.

— Minha primeira amante era treze anos mais velha que eu e a cortesã
mais famosa de todo o reino Haradis. Meu pai pensava que se alguém ensinasse
a seus filhos as habilidades do quarto, deveria ser alguém bem conhecido por
eles. — Ildiko parou e Brishen bateu no dorso de sua mão para continuar. —
Você perguntou. — Disse ele.

Ildiko não ficou chocada com sua revelação e em muitos aspectos


compreendia a lógica de Djedor. Ela girou alguns fios de Brishen ao redor de
seu dedo, soltou-o e girou novamente. — Eu deveria ter contratado um
cortesão. — Ela pensou. Homens, assim como mulheres, vendiam seus favores
nos mercados de carne de Pricid. Embora como ela poderia ter furtivamente
um no palácio era outro assunto completamente.

Brishen enrijeceu sob sua mão e ele se sentou desajeitadamente, meio


enrolado como estava em cobertores e lençóis. Ele olhou para Ildiko. — Você
é uma criatura estranha. — Ele finalmente disse.
Ela desejou uma vela acesa para que pudesse vê-lo melhor no quarto
escurecendo. — Você irá se ajustar. — Ela disse em sua voz mais doce e
prontamente golpeou-o com um travesseiro.

Ele caiu para o lado apenas para surgir com um travesseiro em suas mãos.
— Isso é uma declaração de guerra, Ildiko.

— É claro que é.— Ela balançou o travesseiro apenas para ser


interrompida por uma batida na porta.

Ao invés da voz de seu servo como esperava, o mordomo de Brishen


chamou do outro lado. — Sua Alteza, o agente do município de Halmatus
chegou e o procura.

Os ombros de Brishen caíram e ele deixou cair o travesseiro com um


suspiro. — Não desperdicei minhas horas aqui com você, esposa, mas tenho
assuntos a tratar e ninguém espera o lazer de um príncipe humilde que não é o
herdeiro aparente.

Ildiko compartilhava sua decepção. Ela tinha uma lista de tarefas mais
longas do que seu braço para cuidar por si mesma, mas isso não diminuia seu
pesar por ter que terminar esses momentos com Brishen. Ela caminhou de
joelhos pela cama para ele e deslizou os braços ao redor de seu pescoço. — Eu
ainda escovarei seu cabelo. — Disse ela.

Ele fechou-a em um abraço. — Sim. Cobrarei mais tarde. Conte com isso.
— Ele beijou sua testa e abaixou seus braços. — Vamos. Com sorte, podemos
dividir o almoço.

Ela o deixou para seu quarto, dando-lhe um último olhar e aceno com a
cabeça enquanto ele a observava sair de seu lugar no meio da cama amarrotada.
Sua orelha ainda formigava onde ele a beijou e suas costas se sentiam febris com
a lembrança de seu toque.
A batida rápida de Anhuset em seu ombro trouxe Ildiko de volta ao
presente e a realidade dos cavalos e lutadores Kai tentando matar uns aos outros
no campo de treinamento empoeirado.

— Alteza, você quer alguém para chamá-lo?— Anhuset apontou para


Brishen ainda em um abraço mortal com seu adversário.

Ildiko estremeceu, mal conseguindo assistir. Alguém iria terminar acima


com um pescoço ou algo. — Não. — Disse ela. — Vamos embora. Não quero
distraí-lo e o verei logo em casa. — Ela virou seu cavalo entre os soldados que
as acompanharam até a tinturaria. Eles a seguiram, mas pararam quando ela
levantou a mão. — Fiquem se quiserem. Estamos dentro do reduto. Não preciso
de uma escolta.

Ela empurrou sua montaria em um trote, Anhuset montando ao lado dela.


Elas não estavam longe dos portões de ferro que se abriam para um pátio bem
cuidado e uma paisagem mais ordenada. Um flash de movimento provocou o
canto do olho. Ildiko virou-se a tempo de ver Anhuset puxar a espada e
pronunciar uma palavrão, logo guardá-la.

Brishen correu para elas, com as pernas longas flexionadas enquanto


cortava o caminho. Ildiko mal retardou seu cavalo quando ele a alcançou,
agarrou sua sela e desembarcou atrás dela em uma montagem lisa, correndo.

— Claro que precisa. — Brishen envolveu um braço em volta da cintura


de Ildiko e se apertou contra suas costas. — Estou tentando impressionar minha
esposa.

— Estou muito impressionada.— Ildiko lhe deu um sorriso por cima do


ombro.

As mãos de Brishen percorreram as dobras de seu manto. — Por que você


está molhada? E cheira a sal. Você caiu em uma cuba de tintura?

— Algo assim. — Anhuset disse em tom alegre.


Ildiko estreitou os olhos. — Você pode ir agora, sha-Anhuset. Tenho
certeza que Brishen pode me levar com segurança até a porta da frente nos
próximos 15 passos sozinho.

A risada impenitente de Anhuset ecoou no ar noturno enquanto ela


saudava e empurrava seu cavalo de volta para o pátio exterior.

Ildiko guiou seu cavalo para um servo em espera. Brishen desmontou


primeiro e Ildiko afastou a oferta para ajudá-la. Ela era perfeitamente capaz de
descer de seu próprio cavalo.

Esperando atrasar sua confissão e evitar exibir sua nova cor de pele para
Brishen, ela perguntou sobre sua luta livre. — Você ganhou?

— Não. Nefiritsen é meu melhor lutador. Ele permanece invicto em todos


os jogos até agora. Se algum de nós tiver que enfrentar um inimigo em combate
desarmado, queremos que ele esteja ao nosso lado.

Entraram no castelo, passaram pelo grande salão e subiram uma das duas
escadas que flanqueavam cada lado da câmara de teto alto. Luz de velas
iluminavam o caminho pelo corredor. Ildiko não tropeçava mais no escuro, mas
estava contente pelas velas e sua luminosidade fraca.

Ela parou de frente a sua porta, virou-se para enfrentar Brishen e notou o
que ela esperava ser uma expressão indiferente, especialmente quando ele estava
diante dela quase nu. Ela tentou não deixar que seu olhar ávido o percorresse.
— Você quer tomar um banho eu tenho certeza. Encontramo-nos mais tarde
para uma refeição ou vinho?

Brishen colocou uma mão sobre a dela na trava da porta. — Você não vai
se livrar de mim tão rápido, esposa. Minha prima disse que você mergulhou em
uma cuba de tinta. Estarei no meu caminho uma vez que você satisfaça a minha
curiosidade.

Era inevitável, entrou ela apontou para dentro. Sinhue estava em outro
lugar, provavelmente ouvindo de outro servo ou soldado sobre como a esposa
humana de Brishen tentou tornar-se mais agradável aos olhos se pintando de
rosa. Se os cavalos viajassem tão rápido como fofocas, eles deixariam seus
cavaleiros fora de suas costas.

Brishen riu um pouco quando Ildiko tirou a capa, tirou a túnica arruinada
e revelou os braços, o pescoço manchados em vários tons da rosa.

— Eu pareço ridícula. — Ela bufou.

— Você parece rosa. — Ele respondeu. Ele a cercou lentamente. — E


escolheu tomar banho em amaranto por quê?

Ildiko contou-lhe a história de seu colar. — Eu não queria perdê-lo. Sei


que alguém poderia tê-la tirado do tanque para mim, mas fiquei em pânico. —
Ela levantou o colar de onde estava aninhado em seu corpete e entregou a
Brishen. — Acho que vale muito pouco em moeda, mas é precioso para mim.
O fecho se quebrou quando me inclinei para olhar mais de perto a tinta fria.

Brishen levantou a corrente para olhar melhor. — É uma boa peça.


Lembra-se do condado de Halmatus? — Ildiko assentiu. — Um joalheiro reside
lá. Ele pode reparar o fecho ou criar uma nova corrente para o seu colar.

Ildiko olhou o colar ansiosa. Sua mão coçava para arrancá-lo fora do
alcance de Brishen, mas ela reprimiu o impulso. Ele merecia sua confiança,
mesmo com aquelas coisas preciosas e insubstituíveis para ela. Ela apertou as
mãos atrás das costas. — Levaria muito tempo para consertar?

Ele deve ter ouvido algo em sua voz, algo hesitante e temeroso. — Não
muito. Posso levá-lo eu mesmo, se quiser.

Ildiko bateu palmas. — Oh sim, por favor, você faria? — Sua euforia foi
substituida por mortificação. — Sinto muito, Brishen. — Disse ela. — Você
não é um mensageiro. Alguém mais pode ir.

Brishen ofereceu o colar para ela, a cabeça inclinada de uma maneira que
Ildiko reconhecia rapidamente como um sinal de sua diversão. — Você não me
entende, Ildiko. Năo vou sozinho. Irá comigo. Eu não tenho olhos para as
iguarias de uma mulher. Você pode lidar com o joalheiro. Estarei lá para te fazer
companhia e pagar o preço que ele exigir por seu trabalho.

Tirou o colar da palma da mão e segurou-o. — Essa é uma ideia


maravilhosa. Sei que você está preocupado com os perigos dos invasores de
Beladine, mas adoraria visitar mais cidades e aldeias sob a proteção de Saggara.

Ele esteve relutante em deixá-la se aventurar em Lakeside, convencido


apenas pela promessa de Anhuset de levar um pequeno exército como escolta e
o fato de que a cidade era perto da propriedade e do reduto.

Brishen levantou a mão, girando-a de um lado para o outro. — Pelo menos


não era corante de urtiga. — Ele disse e beijou seus nós dos dedos antes de
deixá-la para um banho tão necessário.

Ele estava certo. O corante da urtiga era verde. Havia cores piores do que
rosa.

Eles se encontraram novamente para o jantar no grande salão e depois em


seu quarto para outro jogo de estratégia, no qual Brishen a enganava e matava
cada homem do seu lado do tabuleiro sem perder mais do que três do seu lado.

— Você está ficando melhor. — Disse ele enquanto colocava as peças


esculpidas em uma caixa de seda forrada e fechava a tampa.

Ildiko bufou. — Isso é mentira e você sabe. Apenas quando penso que
consegui, você mata um dos meus homens.

Brishen entregou-lhe uma taça de vinho. — Você me superou em várias


ocasiões no jogo. Sua fraqueza é que pensa demais em sua estratégia e pergunta-
se até que reage. — Ele lhe entregou uma das taças juntamente com um pente.
— Contudo, você é muito melhor com um pente do que no jogo.

Ildiko pegou o pente. — Isso não me conforta. Um deles é um exercício


de estratégia, o outro é desembaraçar lã.
Deixou-se cair em uma cadeira e inclinou sua cabeça para trás para olhá-
la. — Eu não sou uma ovelha.

Ela juntou seu cabelo e deixou que caísse por suas costas e comoçou a
pentear os fios escuros. — Confie em mim, Brishen, ninguém com olhos jamais
irá confundir você ou qualquer Kai, de qualquer forma, com ovelhas. Mais como
lobos.

Brishen sentava-se passivo diante dela, seus largos ombros caídos, sua
respiração lenta enquanto Ildiko deslizava o pente pelo cabelo em longos
movimentos.

— Conte-me algo. — Disse ela.

Era sua troca. Ela desembaraçava cabelo dele e ele contava suas histórias
de infância em Haradis. Algumas eram engraçados, outras sombrias, embora
falasse como se fosse muito comum para as mães amarrarem seus filhos em um
cavalo porque eles não conseguim soletrar palavras simples que outras crianças
Kai podiam.

Ildiko sabia que Brishen era turbulento, engenhoso e inteligente. E ele


nasceu com uma compaixão e uma nobreza de caráter que nenhum de seus pais
possuía.

— O que você gostaria de ouvir?— Ele perguntou.

Ela pensou sobre isso por um momento. Seu pedido era mais uma
resposta a uma pergunta do que uma história do passado. — Por que você não
é nada como o homem que gerou você e a mulher que o odeia?

Era como se ela o tocasse com um ferro quente. Brishen moveu-se para
frente e para trás, ficando rigido como um cabo de lança. Ele fez um movimento
fluido e virou-se para Ildiko com a mão estendida. — Venha comigo. — Disse
ele.
Ela olhou para ele, depois pegou sua mão dele sem questionar. Ele levou-
a através da mansão, até o primeiro andar e para fora de uma porta que levava
para as amoreiras e os laranjais selvagens que cercavam de um lado a
propriedade.

Uma pálida lua pendia no céu e não fazia nada para iluminar a terra abaixo
dela. Ildiko tropeçou atrás de Brishen, cega como uma toupeira à luz do dia. Seu
marido se movia com firmeza na escuridão sufocante, guiando Ildiko em direção
a um destino que ela supunha responder a uma pergunta que estava começando
a se arrepender.

Eles pararam diante de um muro que cercava parte da mansão. Brishen


pronunciou uma palavra em uma língua que Ildiko tinha certeza de que não
poderia ser Kai. Uma sombra, mais pálida que seus irmãos, se separou da pedra,
expondo um conjunto de três entalhes cortados em um dos blocos de alvenaria.

Brishen colocou os três dedos de sua mão direita nas depressões e


sussurrou outra palavra misteriosa. Ildiko engasgou enquanto o bloco se
suavizava até que se derretia nas pedras de cada lado, deixando uma abertura
preta e profunda.

Ela quase bateu no braço dele quando ele chegou dentro da cavidade. Por
tudo o que ela sabia, algo com dentes mais longos e mais afiados do que um Kai
espreitava naquele espaço. Brishen não hesitou e tirou uma pequena urna. Ele
encarou Ildiko, acariciando suavemente a urna.

— O que é? — Perguntou ela.

— A resposta à sua pergunta.

Ele levantou a tampa. Por um momento nada aconteceu, então de repente


uma fraca luz não maior do que um dente-de-leão e tão delicada quanto flutuou
para cima até que pairou sobre eles.

O brilho dos olhos de Brishen fornecia a única iluminação entre eles, mas
foi suficiente para dourar a pequena luz enquanto ela tremulava e balançava
entre eles. — Minha irmã. — Ele disse suavemente. — Ou suas lembranças,
pelo menos.

Ildiko ofegou suavemente. Irmã. Ele nunca falou de outro irmão, apenas
o irmão indiferente que ela conheceu brevemente em Haradis. A revelação de
Brishen implorava por mais perguntas, a primeira era por que a luz-mortem da
sua irmã estaria aqui em Saggara, escondida por feitiços, em vez de Emlek onde
os Kai guardavam as lembranças de seus mortos?

— Ela nunca foi nomeada formalmente, mas eu a chamo de Anaknet. Eu


tinha onze anos quando ela nasceu. — A luz-mortem minúscula flutuou em sua
direção e equilibrou-se no dorso de sua mão. — Ela nasceu com um pé
defeituoso, uma criança imperfeita e inaceitável para Secmis. Eu a achava bonita.

Um pavor se afundou no peito de Ildiko. Ele lhe diria algo terrível, algo
que deixaria suas entranhas em nós. Ela ficou tentada a cobrir seus ouvidos,
dizer-lhe para parar e pedir desculpas a ele por fazer suas perguntas bobas, mas
ficou em silêncio e esperou que este conto da infância se desdobrasse.

— Secmis a assassinou quatro dias depois de seu nascimento. Ela quebrou


seu pescoço. Eu a vi fazer.

— Meus deuses. — Ildiko respirou, horrorizada com a monstruosa


crueldade de Secmis e com o conhecimento de que Brishen, uma criança,
testemunhou isso.

Brishen continuou, sua voz plana e distante. — Secmis é um mago-


sanguessuga. Ela ganha poder e longa vida a partir de feitiços proibidos, das
almas e lembranças. Ela era velha quando meu pai era criança, embora agora ela
tenha um nome diferente e reivindique a linhagem de outro clã. A luz-mortem
de Anaknet dançou sobre sua palma.

— Eu peguei a luz-mortem de Anaknet e soltei sua alma antes que minha


mãe pudesse roubar as duas. Anhuset e minha velha baba Peret me ajudaram
com o contigo e me deram as lembranças. Peret manteve a luz para mim
escondida no oco de uma árvore no jardim de sua irmã. Quando recebi Saggara,
trouxe Anaknet aqui.

Ele levou a luz-mortem de volta para a urna, fechou a tampa e devolveu o


recipiente para seu esconderijo. Diferentes feitiços reformaram o bloco de
alvenaria até que endureceu, deixando apenas uma extensão de parede em
branco.

Brishen enfrentou Ildiko completamente e mesmo através de uma visão


comprometida pela escuridão e lágrimas, ela ainda viu as faíscas de vermelho
que dançavam em seus olhos. — Eu odeio minha mãe, Ildiko. — Ele disse na
mesma voz neutra. — Até a medula dos meus ossos. Um dia a matarei. Ela sabe
disso. — Ele olhou para o lugar onde a urna descansava. — Anaknet é o motivo
de ser quem sou, esposa. Porque me recuso a tornar-me como as
monstruosidades que nos geraram.

Ildiko fungou e raspou sua manga em suas bochechas no esforço inútil de


acalmar o fluxo de lágrimas. Ela estendeu a mão para Brishen cuidadosamente,
como se ele fosse um animal ferido preso numa armadilha. Ele aceitou seu toque
e logo ela estava envolvida em seu abraço.

— Desculpe. — Ela soluçou em seu ombro. — Ela acariciou o cabelo


dele, segurando-o durante o que pareceu horas, ouvido as rápidas batidas de seu
coração e as respirações rasas que às vezes chegavam a lamentos dolorosos. Os
Kai não choraram pelos olhos, mas choraram tão profundamente quanto os
humanos.

Quando ele finalmente se afastou dela, seus olhos perderam suas faíscas
vermelhas e Ildiko secou suas lágrimas. Ela segurou uma de suas mãos em ambas
as dela. — Juro que levarei esse conhecimento ao meu leito de morte, Brishen.

Um canto da boca dele se levantou e ele entrlaçou seus dedos com os dela.
— Eu sei. Foi por isso que eu lhe disse.
Voltaram para a mansão em silêncio, enquanto uma fina linha de carmesim
se espalhava pelo horizonte distante para anunciar o amanhecer. Sinhue
cumprimentou Ildiko à porta dela. — Sua Alteza, você está doente?— Ela a
levou para dentro e a fez se sentar na cama enquanto colocava água em uma
xícara e a entregava a ela. — Isso pode ajudar. Precisa de um pano para seus
olhos? Estão inchados e vermelhos.

Ildiko procurou e encontrou uma mentira parcial para contar. — Eu


estava chorando.— Ela soluçou uma risadinha ao olhar desconcertado de
Sinhue. — Os humanos choram quando estão tristes. Eu sentia falta da minha
família. Estou bem agora, embora eu aceite esse pano.

No momento em que ela banhou seu rosto quente e trocou de roupas, o


sol tinha se levantado o suficiente para transformar as planícies em um mar
dourado. Ildiko deslizou discretamente no quarto de Brishen e o encontrou,
ainda vestido, de pé nas perto da janela aberta. Ele olhava para o leste, para o
amanhecer ofuscante e não se virou quando ela se aproximou dele.

— Não, Ildiko.

Assustada pelo comando abrupto, ela parou. — Brishen?

Um suspiro fraco soou e sua voz suave. — Será melhor se dormir na sua
cama sozinha hoje.

Uma onda gelada a golpeou no estômago. Ela cambaleou interiormente


por um momento, então se endireitou. Isso não tinha nada a ver com ela. Contar
sobre a morte de sua irmã a deixou emocionalmente exausta. Ela suspeitava que,
para ele, abriu antigas feridas que haviam cicatrizado, mas nunca se curaram. Ele
queria cuidar deles isoladamente.

A solidão, no entanto, nem sempre era o melhor conforto. Ela deu um


passo para frente. — Tem certeza de que deseja ficar sozinho com sua dor?

Sua risada seca não tinha humor. — Se fosse apenas tristeza, não. Eu
quero você aqui. — Ele ainda se recusava a enfrentá-la. — Não estou apenas
sofrendo, Ildiko. Sou amargo. Estou com raiva e estou excitado. — Sua voz se
aprofundou na última parte de sua declaração e fez o coração de Ildiko galopar.
— Essas emoções juntas não oferecem nada além de miséria e violência tanto
para humanos quanto para Kai. É perigoso para você estar aqui comigo. Vá para
o seu quarto. Falarei com você amanhã.

Ela fugiu, carregando com ela suas palavras antes de fechar e fechar a porta
entre eles.

— Obrigado, doce Ildiko.


Capítulo Dezoito

Houve momentos em que o dia durava para sempre e nunca vinha a noite.
Para Brishen, esse era um daqueles momentos. Ele olhou sem piscar para a porta
trancada entre os quartos dele e de Ildiko até que seus olhos queimaram. Ele viu
o breve lampejo de dor na pele ao redor de seus olhos antes de desaparecer e
seus traços pálidos se tornaram uma expressão de preocupação.

Brishen agradeceu aos deuses por ele e Ildiko terem começado esse
casamento com tanta honestidade entre eles. Ela aceitou seu aviso e fez
exatamente como ele esperava, fugindo e trancando sua porta. Sem bajulações
ou pedindo longas explicações do por que ele não queria ou mesmo era seguro
no momento. Podia não ser capaz de discernir a emoção em seus olhos, mas ela
o conhecia bem o suficiente agora para saber que suas palavras não eram vazias.

Mesmo através das grossas paredes e porta fechada, ele ouviu sua voz
suave e a de Sinhue enquanto as duas se preparavam para dormir. As palavras
eram indecifráveis, mas ele achou sua cadência calmante. Eles logo
desapareceram, deixando apenas um silêncio pesado para se juntar às sombras
que fugiam dos raios de sol invadindo e se juntavam aos seus pés.

Vinte e dois anos se passaram desde que ele testemunhou sua mãe
assassinar sua irmã e a lembrança permanecia tão clara como se acontecesse na
noite anterior. As mãos de Secmis segurando a cabeça de Anaknet, dedos como
pernas de aranha que se curvavam ao redor do minúsculo crânio até que suas
pontas de garra afundaram. Os punhos do bebê enrolados em sono inocente.
Parcialmente escondida atrás da porta do berçário e silenciada com horror,
Brishen observou enquanto a rainha suavemente segurava a cabeça de Anaknet
por um momento e dava uma rápida volta.

Ele balançou a cabeça para limpar a lembrança. Podia bloquear a imagem,


mas não o som grotesco, uma leve risada, apenas mais do que um sussurro que
ao longo do tempo ganhou o volume de um trovão em seus sonhos e
lembranças.

Brishen nunca imaginou que contaria a outra pessoa sobre Anaknet.


Apenas duas outras pessoas sabiam o que ele viu e fez há muitos anos. Um
morreu uma década por velhice, a outra cortaria sua própria língua antes de
contar a alguém. Ambas foram fundamentais para ajudá-lo a fugir com a luz-
mortem de Anaknet e liberar sua alma frágil antes Secmis a reivindicasse e ele
seria para sempre grato a eles. Sua velha babá e sua prima eram mais corajosas
do que dez guerreiros Kai combinados. Se Secmis tivesse descoberto seus papéis
em seu plano... ele estremeceu ao pensar.

Agora Ildiko também sabia. Brishen se afastou da porta que o separava de


sua esposa. Ela era como um fio de seda crua, forte como o aço com um brilho
tecido em seu sangue e ossos. Ela o segurou em seus braços como ele trouxe de
volta um antigo sofrimento. Como todos os Kai, ele não derramava lágrimas.
Ildiko, no entretanto, derramou-as para ele e percebeu o gosto de sal e tristeza
em seus lábios quando ela roçou sua boca com a dele em um gesto de conforto.

A necessidade de abraçá-la, apertá-la com força contra parte de seu corpo


quase o dominou. Ela era conforto envolvido em carne lisa e cabelo perfumado.
Ele mantinha as mãos sobre as costas, sabendo que, para mantê-la do jeito que
queria, poderia feri-la em seu entusiasmo. Seu corpo muito humano era muito
mais fraco do que seu caráter.

Tal conhecimento não impediu que a luxúria se elevasse dentro dele.


Enrugada pela raiva e pelo ódio queimando pela rainha, aquela luxúria
envenenou o desejo que ele sentia por sua esposa, transformando-a em algo feio.

Quando Ildiko apareceu em seu quarto, vestida com sua camisola e se


preparando para dormir com ele como fazia todos os dias, quase se lançou sobre
ela, cego pelo desespero de se afundar em seu corpo e alma. Cada parte dele
doía de necessidade. Brishen derrubou a tentação, congelando-a com imagens
de uma mulher ensanguentada e quebrada por um homem possuído.
Ele quis agradecer a ela quando fugiu do quarto e trancou a porta. A
solidão não fazia nada para esfriar sua raiva ou seu desejo. Ele andou pelo
quarto. Tomou um pouco de vinho. Ele soltou todas maldições que conhecia
sobre a rainha e finalmente, ele agarrou sua capa e saiu do quarto, onde estava
certo de que poderia cheirar o perfume florido de Ildiko em seus lençóis.

Saggara estava quieto. A maioria de seus habitantes dormia, exceto por


alguns guardas encapuzados que saudaram Brishen enquanto ele caminhava
através dos corredores e para a brutal luz do dia matinal. A curta caminhada até
o reduto e sua arena deserta pouco fez para acalmar sua inquietação. Ele ficou
apenas de calça e ansiosamente pegou uma das espadas de prática que se
alinhavam nas paredes da arena.

As espadas não eram suas armas preferidas e os homens de palha eram


oponentes risíveis, mas ele os atacou em um frenesi cego pele sol até a palha
flutuar no ar e partes do corpo ficarem espalhadas pelo chão de terra. Seus
músculos tremiam de fadiga, Brishen levantou a cabeça brevemente, assustado
ao ver o sol subir quase diretamente sobre a cabeça. Ele estava treinando em
modo de batalha completa por duas horas e o suor escorria de seus braços e
pernas em riachos. Seus pulmões queimavam e seu corpo doía, mas sua cabeça
estava clara. O combate simulado fez seu trabalho. A raiva diminuiu. A luxúria
ainda estava lá, mas se suavizou em um desejo que borbulhou em seu ventre.
Ele ainda queria Ildiko – ferozmente z mas para saborear em vez de conquistar.

— Você ficará cego para sempre se não cobrir, primo.

Brishen virou-se e olhou para Anhuset. Ela estava parada do seu lado, sua
capa sobre seu braço. Ela desamarrou o capuz da capa e jogou para ele. — Estou
espantada que ainda possa ver.

Ele pegou o capuz, mas segurou-o antes de puxá-lo sobre sua cabeça até
que ele pudesse tirar a sujeira e pedaços de palha cobrindo sua pele. O choque
da água fria do poço próximo baniu qualquer exaustão. A água escorria por seus
cabelos e pingava na calça e em seus pés. Enquanto o capuz oferecia alívio da
luz punitiva, era quente e sufocante em sua cabeça e ombros.

— Parece um imbecil meio afogado. — Disse Anhuset.

Ele franziu o cenho para ela. — Fique contente por eu não ter sacudido a
água ou você estaria tão encharcada como eu.— Ele usou seu manto para limpar
seus braços. — O que você está fazendo aqui?

Ela encolheu os ombros. — Você sabe que eu nunca fui uma boa
dorminhoca. Pensei que poderia vir para a arena e treinar por um tempo.
Imagine minha surpresa ao encontrá-lo aqui. — Seus olhos se estreitaram para
fendas brilhantes dentro das sombras de seu capuz. — Onde está a hercegesé?

Brishen olhou para sua prima. Anhuset. Afiada, intuitiva, ela o conhecia
melhor e mais do que ninguém. Alguma coisa sobre seu comportamento a
alarmou. — Dormindo em sua cama, ao contrário de nós dois. — Ele resistiu a
seu silencioso escrutínio. Ela perguntaria e seu melhor curso de ação era esperar
até que ela o fizesse.

— A menos que seu braço de espada precise melhorar, há melhores


maneiras de passar um dia sem dormir. Conheço uma dúzia de mulheres que
ficariam felizes em apagar seu fogo.

Ele pensou brevemente nisso. Ildiko sugeriu uma vez que não se
importava se ele tomasse uma amante, mas se perguntou se isso ainda era
verdade. Três dias enquanto estavam juntos na cama, ele não imaginou o
estremecimento que percorreu seu corpo enquanto ele acariciava sua têmpora e
aquele arrepio não foi de medo.

— Eu não sobreviveria aos afetos de uma dúzia de mulheres Kai, prima.


Além disso, apenas uma pode apagar o fogo.

Os lábios de Anhuset se contraíram. — E essa não é Kai. O que Ildiko se


tornou para você?
— O fogo. — Ele acenou com a cabeça uma vez e começou a sair da
arena.

Ela falou ele. — Você não quer lutar?

Brishen balançou a cabeça e continuou andando. — Não. Sinto falta da


minha mulher.

— Tem certeza de que você não está tentando evitar ser derrubado?

Ele acenou para afastar sua provocação. — Isso também.— Se ele não
demorasse, teria algumas horas para levar Ildiko de volta para sua cama onde ela
pertencia e dormir as últimas horas do dia ao seu lado.

Anhuset ainda não terminou com ele. — Vossa Alteza, quando Lorde
Pangion chegar a Saggara esta noite, deseja que o escoltemos da estrada principal
ou das portas do reduto?

Ele parou, xingando em voz baixa. Serovek. O jantar. Ele esqueceu. Ele
apertou a ponte do nariz entre o polegar e o indicador. A dor de cabeça que
sofria do sol apenas piorava. Brishen sentiu-se tentado a dizer a Anhuset que
escoltasse gentilmente o seu convidado de volta para casa no momento em que
ele chegasse. Tal ação, embora garantiria um vizinho não tão amável ou com
informações.

— Encontre-o com sua guarda na estrada principal. — Ele estava contente


pelo capuz que escondia seu sorriso. — Anhuset, você irá ao jantar e dançará
depois. — O grunhido baixo que encontrou seu comando ampliou seu sorriso.
Brishen se afastou, escutando atentamente uma espada ser desembainhada e o
ar ser cortado.

Ele retornou à mansão ileso e encontrou seus ocupantes ainda


profundamente dormindo. Seu servo pessoal dormia em um modesta quarto
perto. Brishen o deixou dormir, não querendo despertar o homem no meio do
dia apenas para lhe trazer água para um banho. Um pano de rosto e a água em
seu lavatório e jarro teria que fazer o trabalho. A calça molhada foi descartados
e jogadas em um canto. Ele esfregou a sujeira que a água do poço não conseguiu
e vestir uma calça leve de linho, que realmente estava começando a gostar e se
dirigiu para a porta entre seu quarto e de Ildiko.

Dormir nu ao lado dela uma vez foi um erro. Ildiko o pegou desprevenido
ao acordar diante dele. Felizmente, nenhum deles era propenso a aconchegar-se
em seu sono ou ela teria descoberto muito rapidamente que seu profundo afeto
por ela estava se transformando em algo muito além do platônico. Preso sob as
cobertas até que ela saiu para se trocar em seu quarto, Brishen desabou na cama
com um gemido frustrado, uma vez que ficou sozinho jurou que eles iriam
dormir separados depois disso. Seu voto durou menos de um dia. Ele a queria
ao seu lado.

Se fosse seu pai, Brishen poderia transformar a porta em pergaminho e


buscar sua esposa. Se ele fosse seu avô, ele poderia atravessar a madeira maciça,
tão etéreo quanto qualquer fantasma, mas a magia estava desaparecendo nos Kai
com cada geração nascida. Brishen conservava a magia que possuía e limitava o
uso de seu poder a algumas palavras cantadas que soltaram os parafusos do
outro lado.

Ele se aproximou da porta e descobriu uma Sinhue de olhos azuis se


erguendo de sua cama no canto do quarto. Ele segurou um dedo nos lábios para
silêncio. Ela assentiu e se deitou, de costas para ele.

Ildiko estava esparramada no meio da cama. Adormecida em seu


estômago com a metade do rosto enterrado nos travesseiros, ela lhe apresentava
um perfil que brilhava tão pálido quanto os lençóis na escuridão. Ele certa vez
a chamou de bruxa. Com exceção a cor rosa que surgia sob sua pele em pedaços
desiguais quando estava irritada ou envergonhada, achava-a feia e peculiar para
observar. Alguns meses antes ele teria pensando isso?

Olhando para ela agora, Brishen se perguntou como podia ter pensado
que ela era feia. Seus olhos ainda o faziam se assustar de vez em quando,
especialmente quando ela o provocava cruzando-os em direção ao nariz, mas
ele deixou de compará-los com parasitas. Eram apenas olhos, diferentes dos dele
e fascinantes à sua maneira, com suas íris coloridas e pupilas negras que se
encolhia ou se expandia dependendo da luz ou de suas emoções.

Seus olhos estavam escondidos dele agora, atrás das pálpebras. Serovek a
chamou de bonita e Brishen não perdeu os longos olhares lançados sobre ela
pelos nobres Gauri que assistiram ao seu casamento. Ele tentou vê-la como um
homem Gauri, mas falhou no esforço. Uma súbita realização o fez sorrir um
pouco.

Uma das maiores forças de sua esposa e uma coisa que ele mais admirava
nela, era sua capacidade de se adaptar a uma situação e ainda permanecer firme
em seu próprio senso de valor e lugar. Brishen já não a via com os olhos de um
Kai e não podia vê-la com os olhos de um macho humano, mas isso não tinha
nenhuma importancia agora. Ele a via como sempre como simplesmente Ildiko.
Para ela, era suficiente. Para ele, um presente além do preço.

Ele estendeu a mão para segurar seu cabelo através de seus dedos. Ela
murmurou em seu sono e rolou em suas costas, expondo a delicada clavícula e
o contorno de seus seios sob a camisola. Ela estava deitada diante dele, nas
sombras.

Ela não se assustou quando ele deslizou seus braços debaixo dela e
levantou-a da cama. Seus olhos se abriram lentamente e ela se aconchegou
contra seu peito. — Já é noite, Brishen?

Brishen beijou sua cabeça enquanto a levava para seu quarto e chutava a
porta fechada atrás dele. — Não. Ainda meio-dia. Ao contrário de você, já não
durmo bem sem você ao meu lado.

Ildiko deu um tapinha no peito com uma das mãos. — Sua culpa. Você
me disse para ir.
Ele apertou seu abraço. — Eu o fiz e estava certo ao fazê-lo.— Ele subiu
em sua cama ainda segurando-a. Os lençois estavam frescos em suas pernas,
Ildiko quente em seu peito.

Sua mão vagou ao longo de seu ombro e até seu pescoço, onde ela segurou
sua mandíbula. Suas pupilas escuras quase engoliam o azul em seus olhos. —
Secmis é uma mulher vil e malvada, Brishen.

Ele virou o rosto em sua palma e plantou um beijo ali. — Não se preocupe
com elogios generosos, esposa. — Disse ele. — Nunca precisa falar sobre minha
mãe repugnante.

Ildiko balançou em uma risada sonolenta. Sua diversão desapareceu e na


sombra tenebrosa do quarto seus olhos brilharam com simpatia e outra coisa
que acendeu o desejo queimando sem descanso nas veias de Brishen. — Meu
nobre príncipe. — Disse ela. — Você é... — Ela franziu o cenho, procurando
as palavras.

— Uma enguia morta?— Suas mãos seguiram seus próprios caminhos


sobre seu corpo, descorindo cada curva sob a trilha noturna.

— Não. — Disse ela. — Mais como um corvo. Escuro e elegante.

— Um inteligente destruidor.

Ildiko fez uma careta. — Um pássaro bonito.— Ela o bateu no seu braço.
— Pare de distorcer os elogios, criatura vaidosa.

Brishen rolou, levando Ildiko com ele até que ela ficou completamente
debaixo dele. Suas coxas se abriram e ele se afundou contra ela. Ambos
ofegaram e acalmaram-se, todos os traços de humor desapareceram. Se ela não
tivesse consciência da reação do corpo dele antes disso – e Ildiko, por sua
própria admissão, não era tão inocente nem tão tola – não poderia confundi-la
agora.
Com os antebraços apoiados em ambos os lados da cabeça, ele manteve a
maior parte de seu peso fora dela, com cuidado para não esmagá-la na cama. Os
olhos de Ildiko estavam bem abertos, sua respiração fina e rápida, um
acompanhamento de sua própria respiração forte.

Ele brincava com as mechas ondulantes de seu cabelo que lhe prendiam
os dedos como uma teia de aranha. — Não sou nenhum poeta com palavras
melosas. — Disse ele. — Mas sempre fui sincero com você. — Deuses, seus
músculos tremiam como se de frio em seu esforço para ficar parado e não
empurrar duro contra ela. — Eu quero você, Ildiko. Quero me afundar tão
profundamente em você que nenhum de nós saberá onde um termina e o outro
começa. — Somente a borda azul mais escura de suas íris brilhava ao redor de
suas pupilas. Sua voz ficou gutural e ele tentou suavizá-la. — Eu nunca forcei
uma mulher, Kai ou humana e nunca irei Se você me recusar, isso vai parar, sem
problemas entre nós.

Por favor, ele rezou – e não sabia se ele orava aos deuses Kai ou a mulher
como uma estátua pressionada contra ele – não me recuse.

O olhar sombrio de Ildiko era intenso e ela o olhava como se estivesse


procurando alguma coisa. O que encontrou transformou sua expressão. Suas
pálpebras abaixaram. Sua respiração ficou mais forte e seus lábios se separaram,
revelando as bordas de seus dentes superiores. Sem atrever-se a ter esperança e
quase louco de desejo, Brishen observava fascinado, quando a ponta de sua
língua lambeu o lábio inferior.

O silêncio ficou entre eles enquanto continuava olhando-o. — O que foi,


Ildiko? — Perguntou. — O que você vê?

Sua pergunta agiu como um catalisador, rompendo o feitiço sedutor e


encatador. Ela abriu-se debaixo dele, não apenas seu corpo. Toda ela. Ele sentiu
isso em cada parte dele.
Ela se colocou os braços ao redor de seu pescoço e inclinou sua cabeça
até que seus lábios roçaram o canto de sua boca. — Meu lindo marido. — Disse
ela. — Eu vejo um brilho radiante.

Ele gemeu baixo em sua garganta enquanto sua boca capturava a dele.
Ildiko enterrou as mãos em seu cabelo, pressionando-o mais perto para deslizar
sua língua através da pele sensível sob seu lábio superior e em seguida, o inferior.
Brishen devolveu a carícia, tocando seus lábios nos cantos até que ela se moveu
em seus braços, os quadris esfregando-se contra os seus em um ritmo
desajeitado, enquanto ele descobria seu gosto e ela o seu.

Ildiko não beijava como uma mulher Kai fazia. Seus beijos eram fortes –
chupando, mordendo ao longo de seus lábios, a lingua procurando a entrada
após a barreira de seus dentes firmemente apertados contra a intrusão. Era como
se ela tivesse esquecido suas presas ou simplesmente não se importasse mais.

Brishen se afastou, apesar dos protestos de Ildiko. Ele pressionou um


dedo em seus lábios, a ponta de uma garra preta quase roçando ponta de seu
nariz. O ar parecia não entrar em seus pulmões. — Eu vi humanos se beijando.
Vocês se acasalasam com a boca. — Apenas as palavras enviavam uma onda de
calor direto para sua virilha. Ele estava tão duro, que doia. — Eu não posso
fazer isso, doce esposa. Irei cortá-la.

Ele se recentiu com tal obstáculo. Por uma vez e provavelmente a única
em sua vida, desejou ter mais atributos humanos. Dentes de cavalo não pareciam
tão ruins ou tão ridículos no momento. Tomaria a boca de Ildiko do jeito que
tomaria seu corpo – profundo e lento, com horas dedicadas a nada além de
saboreá-la.

Sem se deixar intimidar por seu aviso, ela o puxou de volta para ela. —
Talvez você não possa. — Disse ela. — Mas não estou limitada por alguns
dentes afiados. — Suas pupilas brilhavam na sombra que ele lançava em seu
rosto e corpo. — Abra seus lábios. — Encantado, ele fez como ela ordenou.
Ildiko colocou sua boca levemente sobre a dele. Seus lábios faziam cócegas
enquanto falava. — Deslize a língua para fora, apenas um pouco.

Ela seria sua morte antes deles consumarem esse casamento. O corpo de
Brishen gritava para acabar com isto de uma vez e deslizar dentro dela. Sua
mente implorava paciência, encantado com essa jornada além das persianas
fechadas.

Os lábios de Ildiko se fecharam ao redor da ponta da língua de Brishen e


chupou. Ele se sacudiu em seus braços, tremendo com o novo toque agradável.
Sua língua roçou a dele, uma carícia sedutora que o persuadia a oferecer-lhe
mais. Ele o fez e foi recompensado por uma sucção mais longa. Brishen gemeu
em sua boca, dando-lhe mais até que sua língua se contorceu com a dela na
dança de acasalamento que ele invejou e cobiçou antes.

Ela respondeu ao seu gemido. Seus braços, unidos atrás de seu pescoço,
caíram para que suas mãos pudessem acariciá-lo do ombro até a cintura,
empurrando-o para se levantar para que pudessem viajar pelos duros planos de
seu abdômen.

Seus dedos traçaram os cumes de suas costelas, vagando mais e mais até
que seus polegares deslizaram através de seus mamilos. Brishen terminou seu
beijo com uma oração de uma palavra, arqueando-se, sentindo um raio
atravessar seu peito, ir para as costas e descer por sua coluna.

As pernas de Ildiko se cruzaram na parte de trás de suas coxas e o menteve


no lugar. Uma mão acariciou suas costas, pressionando-o para baixo, de modo
que ela suportasse mais do seu peso. Seus lábios seguiam suas mãos, deixando
uma trilha da cavidade de sua garganta, na linha de uma clavícula e para baixo,
em seu peito.

As garras de Brishen rasgaram os travesseiros de cada lado da cabeça dela


enquanto alternava entre lamber o seu mamilo e soprar suavemente a ponta
sensível. Seus quadris ignoraram os ditames de sua mente para ficarem quietos.
Ele empurrou contra ela, adorando a sensação lisa de suas coxas prendendo-o e
a umidade quente que umedecia sua camisola e calça de linho. As mulheres
humanas eram obviamente muito parecidas com as mulheres Kai nesse aspecto.
Ildiko o desejava tanto quanto a desejava e em algum lugar em seu cérebro
embaçado, Brishen reconheceu que era ela quem o saboreava no momento e
não o contrário como ele planejou originalmente.

Ele saiu de seu alcance, ignorou seus protestos e capturou seus pulsos em
uma mão. Seus olhos estranhos estavam vítreos, o azul de suas íris se entregou
completamente a suas pupilas. Um rubor mais escuro tingia sua pele pálida.
Brishen avistou a mancha de amaranto desigual em sua mandíbula, de sua
incursão anterior até a tinturaria. Ele se curvou e traçou seu contorno, primeiro
com a ponta do nariz e depois com os lábios. Ildiko gemeu suavemente em seu
ouvido.

Suas sobrancelhas se ergueram quando os dois deslizaram para baixo, em


direção aos pés da cama e esticava seus braços acima de sua cabeça, seus pulsos
ainda presos em seu leve aperto. — Você será minha perdição antes que eu
possa tomar outro fôlego e quero que este dia dure muito além de uma
respiração. — Disse ele.

Ela franziu o cenho e se moveu sob ele, brincando. — Mas eu só tive um


gosto.

— Isso é mais do que eu tive. — Ele respondeu. — Aproveitou até


agora?— Ela se acovardou com seu aceno de cabeça entusiasmado. — Então,
seja justa esposa e deixe-me provar você.

Ildiko esticou-se com uma fita de seda no limite, tocando-o do peito até
os joelhos. — Oh, bem então.— Ela respirou. — Não quero ser injusta.

Ela o impediu antes que ele pudesse devolver os toques que o inflamavam.
Sua mão acariciou seu cabelo. — Feche os olhos. — Disse ela.

Brishen franziu o cenho. Se Ildiko se preocupava com o fato dele a achar


uma bruxa como disse quando se conheceram nos jardins reais de Pricid, ela
não tinha nada a temer. Sua visão dela estava irrevogavelmente alterada. — Por
quê? — Ele perguntou, desconfiado de suas razões.

— Porque eu gostaria que você me visse com seu toque. — Sua boca se
curvou em um sorriso. — É como te vejo nesta escuridão cega, Brishen e é uma
coisa maravilhosa.

Ele foi alvo de elogios inebriantes, feito por amantes em luxúria tanto por
seu título como por seu corpo. Nenhuma dessas palavras melosas jamais chegou
perto dessas e seu poder sobre ele.

Ela manteve os braços acima da cabeça, mesmo depois que ele soltou os
pulsos. Brishen fechou os olhos e deixou que seus outros sentidos alcançassem
sua cegueira voluntária. Ele tomou seu tempo, explorando cada lugar, do
pescoço aos ombros de Ildiko. Cheirava a flores e a óleos perfumados
importados pelos povos das caravanas que negociavam tais coisas que
enfeitiçavam e encantavam os Kai. Ela parecia... humana.

Ele não podia pensar em nehuma comparação. Sua pele era suave com um
toque de especiarias e uma doçura que não experimentou em nenhum outro
lugar, seja em alimentos ou nas extremidades flexíveis, a forma muscular das
mulheres Kai que teve em sua cama antes de seu casamento. Suas diferenças o
intrigavam, o seduziam.

Ele não se lembrava de ter tirado sua camisola ou sua calça, mas elas de
alguma forma terminaram em uma pilha descartada no chão ao lado da cama.
Livre de qualquer barreira entre eles, Brishen colocou seu peso um pouco mais
sobre ela.

— Ooh. — Ildiko disse com um suspiro, seus olhos pesados, quase


fechados. — Você se sente tão bem. — Ela desenhava redemoinhos em suas
costas. — Nós deveríamos ter feito isso muito mais cedo.

A risada de Brishen vibrou entre eles. Sua sincera esposa. — Eu não


poderia concordar mais. — Ele sussurrou em seu ouvido.
Ele a fez se contorcer em seus braços, seus gemidos suaves uma cadência
sensual em seu ouvido, enquanto ele beijava e lambia um caminho de seus
ombros para a barriga dela, parando por longos momentos para pagar sua
tortura balançando a língua de um lado para outro nas pontas dos seios. Que ela
não se afastasse com medo de seus dentes falava de sua confiança nele e do
conhecimento seguro de que ele nunca iria machucá-la.

Uma vibração sutil de tensão atravessou seu corpo sob suas mãos
enquanto ele beijava um caminho para baixo em direção à suas coxas. Brishen
abriu os olhos. Seus sentidos aumentados alertaram-no que a vibração delicada
era uma de inquietação em vez de ânsia.

Ildiko olhou para ele com firmeza, seus traços sombrios. Abaixou os
braços para lhe passar os dedos nos cabelos. Ela não tentou se afastar. Não se
tratava de uma questão de confiança nem de falta de experiência. Brishen sabia
que, enquanto sua esposa não era completamente ignorante na cama, sua
introdução a suas muitas intimidades por seu amante anterior foram limitadas.
Sua declaração de que três vezes junto não valia o esforço, revela muita coisa.

Teria que apagar sua ânsia de explorar cada parte dela em um único dia. O
conhecimento de que ele tinha uma vida inteira para acalmar a antecipação e se
familiarizar com o corpo adorável de sua esposa acabava com qualquer decepção
inicial.

Brishen se curvou e percorreu a circunferência do umbigo antes de beijar


um caminho de retorno por seu ventre até o vale entre seus seios e finalmente
até o queixo. Ildiko lançou-lhe um olhar envergonhado. — Ainda não tentei
isso. — Disse ela.

Ele colocou o rosto em suas mãos. — Então tentaremos juntos. — Ele


alisou as linhas entre suas sobrancelhas com seus lábios. — Não é um defeito,
Ildiko.

— Eu sei, mas ... — Ela parou para devolver o beijo que ele pressionou
em sua boca.
— Considere como um presente para mim. — Disse ele, notando sua
confusão. — Eu tenho a oportunidade de ser seu professor e mostrar-lhe o
prazer desse ato particular, um dos melhores entre um homem e uma mulher.

Ela relaxou sob ele mais uma vez. Seus joelhos se apertaram dos lados. Ele
exalou um grunhido de surpresa que se transformou em um gemido quando
seus quadris se ergueram para esfregar contra a ereção que estava roubando o
sangue de todas as outras partes de seu corpo. Suas mãos deslizaram por suas
costas para cobrir suas nádegas e mantê-lo no lugar.

Sua expressão deixou suas pálpebras pesadas, uma que Brishen


reconheceu rapidamente como sua paixão por ele e uma que achava a mais
sedutora no momento. — O que eu vou te ensinar? — Ela perguntou, os quadris
empurrando, pressionando, tentando-o à loucura.

— Paciência. — Ele disse em tons guturais que ironizavam a palavra. Seu


braço deslizou sob seu traseiro, levantou-a até que seus quadris se inclinaram
para ele. — Resistência. — Seus membros tremiam com a tensão de segurá-la.
As mãos de Ildiko se moveram para seus braços, apertaram seus bíceps. O
molusco-rosa de sua pele se aprofundou, misturando-se com a mancha de
amaranto. Seu pênis cutucou a entrada de seu corpo, liso e quente. — Êxtase.
— Ele sussurrou e escorregou profundamente.

Eles ofegaram em uníssono e Ildiko se arqueou em seu abraço, suas unhas


curtas cravando-se em seus braços. Afogou-se no prazer de estar dentro de sua
esposa, sentindo os músculos escorregadios segurando-o, atraindo-o cada vez
mais fundo, Brishen lutou para respirar, para fazer uma pausa. Paciência.
Resistência. E oh deuses, o êxtase.

Ele acomodou os dois e esperou, mesmo quando a espera o matava. —


Ildiko?

Ildiko sorriu rapidamente. Suas mãos abandonaram seus braços para a


parte inferior das costas. Ela o beijou, a língua se movendo sobre seu lábio
inferior. Brishen pulsou dentro dela e seu sorriso se alargou. — Estou bem, meu
lindo príncipe. — Ela disse e beijou-o uma segunda vez. — Não pare. — Ela
apertou suas costas apertou e um suave gemido saiu dela. — É muito bom, não
pare.

Grato e aliviado, Brishen não precisava de mais tranquilidade. Ela era fogo
em seus braços, quente e doce. Seus gemidos e incentivos suavemente ditos, a
sensação de que ela o cercava enquanto empurrava dentro dela – lento e
profundo, superficial e rápido – destruiu qualquer pensamento coerente que ele
possuía.

Cada movimento de retirada a fazia arranhar suas costas, cada duro golpe
de seus quadris a faziam gemer de prazer em seu ouvido. Brishen inclinou os
quadris, uma leve mudança em sua posição. Ildiko arregalou os olhos e soltou
um som estrangulado.

Brishen congelou, horrorizado. Ele a machucou. Olhou para ela, olhos


igualmente abertos. — O que está errado?

Ela segurou seus quadris quando ele tentou sair dela. — Não! — Suas
pernas flexionaram sobre ele. — Faça isso novamente.

Ele fez uma careta para ela, perplexo. Ela não agia como se ele a
machucasse.

— Essa coisa com seus quadris. — Ela disse e girou o dela para convencê-
lo.

Ele tentou lembrar exatamente do que fez. O ângulo, um mero


deslocamento em seu corpo que forçou sua pélvis para baixo sobre a dela e
acariciava um ponto diferente com cada impulso. Brishen repetiu o movimento
e Ildiko fez o seu melhor para subir seu corpo.

Sua boca se abriu. — Assim?


Ela assentiu freneticamente, as coxas apertando seu torso, seus músculos
protestaram. — Outra vez. — Ela o comandou entre as pernas. — Faça
novamente.

— Sim, Vossa Alteza. — Ele brincou, exultante por fazer sua esposa
queimar da mesma forma como ela o fazia queimar.

Os sussurros em seus ouvidos, os beijos atordoantes e a rocha firme dos


quadris deixava Brishen no limite do alivio, lutando para ler as expressões
sempre em mudança de Ildiko enquanto ela acompanhava impulsos e gemia de
prazer.

De repente ficou rígida, com os braços tensos enquanto suas unhas


esculpiam pequenas luas crescentes em sua pele. Seus gemidos aumentaram e
seus olhos se fecharam. — Brishen. Brishen. — Ela cantou seu nome e se era
uma oração desesperada ou maldição afetuosa, não importava para ele. Ildiko se
rompeu em seus braços, seu corpo corado e quente, arquando até que ele pensou
que ouviria sua coluna rachar.

Os músculos lisos apertaram seu pênis e pulsavam com seu climax.


Brishen enterrou o rosto em seu pescoço e soltou seu controle. Seus grunhidos
combinavam com seus suspiros enquanto entrava forte dentro dela.

O clímax rolou através dele, deixando-o feliz e totalmente esgotado. Seu


coração batia forte no peito e ele puxava o ar como um homem salvo de um
afogamento. Se Ildiko fosse uma mulher Kai, ele iria desabar sobre ela,
deixando-a tomar todo seu peso. Ele se apoiou nos cotovelos em vez disso e
levantou a cabeça para observar sua esposa silenciosa.

O rubor em sua pele diminuiu um pouco, embora seu peito subisse e


decesse ainda forte. Ela olhava para ele com uma expressão em seus olhos de
assombro. Abriu a boca, fechou-a e abriu-a novamente apenas para não dizer
nada.
Brishen passou a ponta de seu nariz sobre o dela. — Respire, Ildiko. —
Ele disse entre seus próprios suspiros. — Apenas respire.

Ela exalou e um fio de cabelo afastou-se de seu rosto. Seu sorriso continha
a satisfação de um gato que pegou um rato particularmente suculento. — Isto
não foi nem estranho nem confuso.

Suas sobrancelhas subiram e ele moveu os quadris ainda mais perto dela
para ficar dentro dela. — Oh, ficará estranho, esposa, no momento em que nos
mexermos.

Um pequeno calcanhar percorreu sua perna até o joelho. Traçou os maçãs


do rosto com as pontas dos dedos. — Eu não me importo. — ela disse
suavemente.

— Eu também não. — Ele a beijou e ela o beijou de volta, sua boca


trabalhando sua magia para que seu sangue se aquecesse mais uma vez e seu
membro se endurecesse dentro dela.

Ele a tomou pela segunda vez quando o sol marchou para o oeste e depois
uma terceira, quando ambos estavam sonolentos e exaustos por causa do amor
e da falta de sono. A terceira vez foi uma fusão lenta de corpos e baixos suspiros.
Quando terminou, Brishen rolou para trás com Ildiko sobre ele. Ela estava
dormindo antes que ele pudesse cobri-los.

Ele a seguiu no sono, apenas para ser despertado, no que parecia


momentos depois por uma batida rápida à sua porta. Esses momentos devem
ter sido mais como horas. A vela que ele acendeu para Ildiko derreteu em uma
piscina de cera, a chama extinta. A escuridão completa envolvia o quarto e o ar
estava ficado mais frio. Ildiko não estava à vista e franziu o cenho.

A batida veio novamente. Brishen esfregou os olhos e se sentou. — O


que? — Ele gritou a seu irritante visitante.

— Vossa Alteza, já está além do crepusculo. Você não pode mais dormir.
— A advertência de Anhuset foi abafada pela espessa madeira da porta.
Brishen franziu o cenho e balançou-se para fora da cama andando nu pelo
quarto. Ele deslizou a tranca de lado e abriu a porta aberta para ver o sorriso de
sua prima e seu criado pessoal. — O que você está fazendo aqui? — Ele
perguntou.

Seu olhar fez uma viagem lenta do alto de sua cabeça a seus pés. — Primo
ou não, você é um belo homem. — Seu sorriso se aprofundou com seu grunhido
impaciente. — Etep foi buscar-me. Ele disse que você não respondeu às suas
chamadas ou batidas. Pensou que você poderia estar doente. — Ela olhou além
dele para a cama e seus lençóis amarrotados. — Obviamente ele se preocupou
por nada. Você só foi conquistado.

Brishen mostrou-lhe os dentes. — Você não tem algo a fazer além de me


irritar?

Ela encolheu de ombros, despreocupada com seu humor. — Não tanto


quanto você e mais tempo para fazê-lo. Lorde Beladine deve chegar logo. A
mansão está em alvoroço preparando-se para sua visita.

Ele gemeu e passou as mãos pelo cabelo. — Mal momento. — Murmurou


para si mesmo. Apontou um dedo para Anhuset. — Eu não estou procurando
sua aprovação. — Ela e Etep o seguiram até o quarto quando ele voltou para a
cama e puxou a calça fina que descartou antes. A camisola de Ildiko desapareceu,
assim como sua dona. — Onde está Ildiko?

— Ao contrário de você, sua hercegesé está acordada, vestida e


supervisionando os preparativos para seus convidados. E eu que pensei que os
seres humanos eram mais fracos do que os Kai. — Ela lançou-lhe um sorriso,
seus olhos brilhando com diversão.

Brishen rosnou. Sua prima aproveitava todas as chances de irritá-lo e


zombar dele, em vingança por ter ordenando que assistisse ao jantar desta e a
dança que se seguiria. Ele permitia-lhe a indulgência, muito cansado e saciado
para fazer mais do que afugentá-la com um movimento da mão e um azedo. —
Vá embora antes que eu bata em você. — Sua risada chegou a ele, mesmo depois
que ela e Etep deixaram seu quarto, fechando a porta atrás deles.

Ele não ficou sozinho muito tempo. Etep reapareceu, com um desfile de
criados carregando baldes de água para encher a banheira no canto. Um acendeu
o fogo na lareira. Outro se inclinou para o seu senhor. — Um banho de água
fria esta noite, Herceges. Não temos tempo para aquecer muita água.

Brishen encolheu os ombros. Ele perdeu a conta do número de vezes que


entrou nas águas geladas de um lago ou na correnteza da montanha. Ele tomaria
um banho quente em outro momento mais agradável, quando não precisasse
correr e Ildiko pudesse compartilhar com ele. As imagens de tal cenário baniram
a névoa sonolenta que envolvia sua mente. Ele despiu-se e pulou para dentro da
banheira, permitindo-se um forte arrepio antes de mergulhar na água fria para
esfregar-se.

Em menos de uma hora ele estava seco, vestido e se dirigindo para o


grande salão. Seu peito inchou com orgulho. Seus servos tinham se superado e
trouxeram o grande salão de Saggara de volta aos dias em que era o palácio de
verão de um rei Kai. Mais tochas foram acesas para o benefício de seus
convidados humanos e as mesas de cavalete drapejadas em tecidos bordados
tingidos em tons cerúleo e carmesim, verde e berinjela e o amaranto tão
cobiçado, que era a maior fonte da riqueza de seu povo. As mesas eram de
cerâmica e foram transportadas sobre as montanhas através de caravana e as
taças feitas de prata extraídas dos dentes das serpentes do extremo sul.

Nenhum grão de poeira se atrevia a se esconder nos cantos e as tapeçarias


penduradas nas paredes foram derrubadas, batidas e colocadas novamente para
contar as histórias de um passado antigo – batalhas conquistadas pelos Kai e sua
magia.

Os aromas que saíam da cozinha fizeram o estômago vazio de Brishen


grunhir e sua boca se encher de água. Ele não tinha idéia do que os cozinheiros
iriam servir. Embora fosse uma humana em uma casa Kai, sua manutenção e
organização era o domínio de Ildiko. Ela conhecia seu lugar na ordem das coisas
e nisso, sua única exigência era ficar fora do caminho, elogiar seus esforços e
aparecer a tempo de comer a comida que ela pediu que preparassem. Ele apenas
rezava que não tivesse batatas.

Seu mordomo aproximou-se dele. Mesumenes era o mordomo de Saggara


muito antes que Djedor o entregasse a Brishen. Ele conhecia tudo melhor do
que ninguém – cada pedra, cada canto, cada telha. Fiel à propriedade mais do
que a qualquer um de seus proprietários, ele pacientemente orientado Brishen
para se tornar um senhor capaz e fez o mesmo por Ildiko quando ela chegou
como sua nova esposa. Ele curvou-se. — Está de acordo com seus desejos,
Alteza?

Brishen assentiu e deu tapinhas nas costas de Mesumenes. — Sim. Você


e os servos se superaram.

— A mão da hercegesé está nisso também. Ela sabia o que agradaria e


impressionaria os humanos.

Brishen elogiou Mesumenes pela segunda vez e continuou sua visita à


mansão. Havia muitos, muitos benefícios em ter uma esposa humana ou pelo
menos sua esposa humana. Ele a agradeceria por sua percepção quando a visse.
Se ele conseguisse não levantar sua saia enquanto o fazia, seria um testemunho
de seu controle. Sua necessidade por ela corria como córregos sob sua pele. Seu
banho frio diminuiu seu ardor por um tempo. Sentia falta dela e a queria em sua
cama mais uma vez – de preferência agora.

Não era para ser e ele se distraiu, inspecionando o pátio e jardim,


ignorando os comentários sarcásticos de Anhuset quando ele se deparou com
ela selando seu cavalo para se encontrar com Beladine nos portões de entrada e
escoltá-la até a propriedade.

Ela usava couros militares cerimoniais e sob eles, uma túnica de pérolas
colorida sobre a calça de seda. Brishen se perguntou quantas vezes ela o
amaldiçoou enquanto vestia uma roupa formal reservada para o tribunal e que
ela odiava.

Ele torceu a faca. — Você está bonita.

Seus lábios se estreitaram junto com seus olhos. Brishen manteve seu olhar
em sua adaga com a qual ela brincava em sua cintura dela. — Eu não entendo
por que tenho que assistir a esta coisa. É um jantar com um senhor da guerra de
Beladine. Mais manobras de corte e conversa dupla com insinuações astutas
com significado escondido. Peça-me para encontrá-lo na batalha e aceitarei
felizmente. Isso... eu odeio.

Brishen simpatizava com o sentimento de sua prima. Ele também não


gostava de tais encontros, mas não estavam na corte. E enquanto a lealdade de
Serovek estivesse com um reino inimigo dos Kai no momento, sempre seria
amigo de Brishen. Até que eles se encontraram em um campo de batalha – e ele
rezava para que isso nunca acontecesse – eles se convidariam para jantar,
socializar e trocar informações valiosas que nenhum espião poderia recuperar
de fontes subornadas.

— Isso não é um tribunal. — Disse ele. — E você precisa estar lá porque


é meu segundo e um membro importante da minha família. Sua presença é
esperada. — Ele não mencionou que Serovek perguntou por ela quando foram
para Salure para jantar com ele. Sha-Anhuset era seu tenente de confiança e uma
mulher de habilidade marcial excepcional e habilidades de liderança. Se ela fosse
humana, Brishen não tinha dúvida que Serovek teria tentado atraí-la para que
atuasse como um de seus comandantes.

— Eu me recuso a dançar. — Ela proclamou em um show final de rebelião


e montou.

Brishen encolheu os ombros. — Essa é a sua escolha.— Seus lábios se


contraíram. — A última vez que me lembro de ter sido forçado a dançar com
você, esmagou cada um dos meus dedos. Considerarei um favor se você apenas
assistir desta vez.
Ela olhou para ele e empurrou seu cavalo em um trote veloz para o quartel
onde o resto da escolta a esperava.

Brishen voltou para a casa e foi até o quarto de Ildiko. Ele podia ouvir os
suaves picos e depressões da conversa feminina pela porta. Sua batida foi de
encontro ao silêncio antes de um conjunto de passos se aproximar e a porta se
abrir. Sinhue curvou-se e fez-lhe sinal para dentro.

Ildiko sentava-se em um banquinho diante de um espelho. Vestida como


uma nobre de Kai, ela usava a saia-túnica dividida e calça nas cores escuras que
normalmente preferia – desta vez uma combinação de marrom escuro como um
chá embebido por muito tempo em uma panela e lustroso âmbar que brilhava à
luz de velas.

Ela encontrou seu olhar no reflexo do espelho. Seu rosto estava mais
pálido do que o normal, manchado por sombras de lavanda sob seus olhos e os
respingos de amarantho ainda em sua mandíbula. Seu cabelo ardente estava
parcialmente preso em tranças com pequenas pérolas. Ela estava deslumbrante
e a calça de Brishen ficou apertada e incomoda enquanto ele a olhava.

— Eu acho que ainda temos um pouco de tempo, não é? — Ela indicou


a serva com uma inclinação de sua cabeça. — Sinhue está quase terminado com
o meu cabelo.

Sinhue ofereceu outra reverência a Brishen antes de rodeá-lo para voltar


para sua esposa. Seus dedos ágeis faziam magia com um pente e em um
momento o cabelo de Ildiko estava penteado, frisado e preso. A serva os deixou
sozinhos, com um olhar de conhecimento em seu rosto quando ela saiu do
quarto, deixando a porta aberta. Ildiko levantou-se do banquinho para enfrentar
Brishen e abriu os braços. — O que você acha? Apresentável para nossos
convidados? — Brishen diminuiu a distância entre eles até que ficaram frente a
frente. Ele se inclinou e colocou um beijo suave na ponta de seu lóbulo da
orelha. Embora não a tocasse além daquela pequena carícia, sentiu-a estremecer.
— Linda, ainda mais sem roupas. — Eles sorriram um para o outro. — Com
medo? — Perguntou ele.

Ela balançou a cabeça. — Apenas de adormecer na mesa. — Ele acariciou


os cabelos macios em sua têmpora. — Quem se importa com os convidados.
Venha para minha cama. Agora. — Ele sabia que ela diria não. Era uma
conclusão inevitável e a pior coisa que poderia fazer era dizer não. Mas se ela
dissesse sim... Ela virou a cabeça para ele até que sua bochecha se apertou contra
a dele. — Você vai arruinar meu cabelo. — Ela provocou.

— E você está arruinando a minha paz. — Ele respondeu. Ele colocou a


mão em sua cintura fina. — O que diz?

— Mais tarde. — Ela respondeu. — Nós somos os anfitriões, Brishen.


Não podemos chegar atrasados.

Ele suspirou, afastou-se da tentação e ofereceu seu braço. — Vamos


acabar logo com isso. — Ele a escoltou até o corredor e em direção a escada
que levava ao grande salão. Ildiko apertou seu braço. — Eu não sinto falta do
tribunal Haradis, mas sinto falta do seu traje de corte. Você será o homem mais
bonito do salão.

Brishen sorriu levemente. — Você quer dizer o mais bonito Kai. — Ela
se lembrou de quando ele perguntou sobre a beleza de Serovek. Em seus olhos,
ele era o mais bonito de todos. Sua boca se curvou pouco. — Não. — Disse ela.
— O homem mais bonito.

— Lorde Pangion estará lá.

Ildiko encolheu os ombros. — Sim? Minha opinião permanece inalterada.

Ele parou abruptamente e puxou Ildiko para seus braços. Ela ofegou,
então suspirou quando ele a beijou. Seus braços deslizaram sobre seus ombros
para brincar com a longa trança que ele moveu em seu pescoço. Brishen se
esqueceu do tempo, dos convidados, do jantar, do mundo que o rodeava. Ele
amaldiçoou sua incapacidade de beijá-la do jeito como ela o beijava – aquele
suave acasalamento de línguas e lábios tão sensual e sedutor, ela fazia sua cabeça
nadar. Ele gemeu quando o sinal de aviso do sino do portão tocou em toda a
propriedade, sinalizando a chegada dos visitantes. Os olhos azuis de Ildiko se
obscureceram mais uma vez e seus lábios estavam vermelhos. Seus braços
deslizaram de seus ombros e ela colocou uma distância muito necessária entre
eles. — Nós nunca vamos chegar ao corredor se continuarmos fazendo isso.

— Eu não vejo isso como um problema. — Ele lamentou. — Eu também


não, mas os outros sim. — Ela puxou seu braço. — Vamos, Alteza. Precisamos
fazer nossa grande entrada.

Brishen colocou em suas feições uma máscara educada, colocou a mão de


sua esposa sobre a dele e a escoltou até o corredor. Uma longa noite o aguardava.
Capítulo Dezenove

De pé tão perto dele, Ildiko ficou impressionada com o tamanho de


Serovek. Ele era um homem grande – um pouco mais alto do que Brishen –
com ombros maciços, pernas longas e musculosas. Parecia poder esmagar
madeiras com as próprias mãos. Perguntou-se se sua personalidade gregária
contribuía ainda mais para a sensação de poder físico que ele exalava.

Ele veio a Saggara com uma pequena comitiva de soldados de Beladine.


Seu pequeno número sinalizava um gesto de paz e confiança em Brishen de que
este jantar seria tão seguro e amigável como o que o Kai participo em Salure.

Os convidados de Beladine misturaram-se com os oficiais Kai e os


conselheiros das vilas e dos distritos de Kai sob a proteção de Saggara. Ildiko
admirou a facilidade com que os dois grupos socializavam, tão diferentes de seu
casamento onde Gauri e Kai quase empunhavam espadas um sobre o outro.
Tais ações pareciam contra-producentes para as realidades em mãos: os Kai
eram aliados dos Gauri através do comércio, enquanto as hostilidades com os
Beladine se tornavam cada dia mais quentes. Serovek e aqueles sob seu comando
eram únicos na batalha política. Ildiko se perguntou quanto tempo sua amizade
com Brishen duraria depois de uma declaração de guerra ou acusação de traição.
Ela esperava que não acontecesse.

— Você é uma excelente anfitriã, Vossa Alteza e seus cozinheiros em


perigo de serem levados para Salure. Serovek inclinou a cabeça para onde os
criados limpavam os restos do jantar das mesas. Em um canto, um quinteto de
músicos Kai tocava instrumentos, as melodias assustadoras acompanhando o
estrondo de várias conversas. — Eu gostei especialmente da torta scarpatine.

Ildiko estremeceu. Sua esperança de nunca mais ver ou comer a delicadeza


mais querida e revoltante de Kai foi em vão. Quando Brishen informou que o
prato era um dos favoritos de Serovek, ela se resignou a outra batalha culinária
com sua comida e colocou o scarpatine no cardápio. Ela pediu batatas assadas
também, muito para a aversão do cozinheiro-chefe.

Quando os criados trouxeram a comida e a puseram sobre a mesa, Brishen


se aproximou e sussurrou em seu ouvido. — Vingança, esposa?

— Dificilmente. — Ela respondeu, mantendo um olhar cauteloso sobre a


torta mais perto dela. A crosta superior dourada, com seu toque de sal brilhando,
ondulou de forma preguiçosa. — Mas estou morrendo de fome e não tenho
intenção de comer essa abominação.

Seu convidado de honra não compartilhava sua aversão de qualquer


alimento. Tão habilidoso quanto qualquer Kai, Serovek fez um rápido trabalho
com a escarpatine e sua cauda como chicote, abriu a concha com a faca e deu
uma mordida generosa na carne cinza fumegante.

O estômago de Ildiko se revoltou. Esqueceu sua náusea quando Serovek


a elogiou. — Uma excelente escolha combinar o scarpatine com a batata, Vossa
Alteza. Eles são melhores juntos do que separados.

Ao lado dela, Brishen engasgou em sua taça. Ele limpou a boca com seu
guardanapo. — Que desperdício de um bom scarpatine. — Ele murmurou em
sua respiração.

Que desperdício de batata, pensou. No entanto, quanto mais pensava na


observação de Serovek, mais sua diversão aumentaa.

— E porque está sorrindo tão brilhantemente?— Brishen olhou para ela,


seus olhos cintilantes brilhando quase branco na luz das tochas do salão.

Ela olhou para Serovek, limpando o prato com alegria e lançando um olhar
ocasional a Anhuset nas proximidades. A prima de Brishen se recusava a
encontrar seu olhar, mas Ildiko capturou a mulher olhando o Lorde de Beladine
mais do que algumas vezes durante o jantar.

— Somos nós, sabe. — Disse ela.


— O que somos nós?

— O scarpatine e a batata. Melhor juntos do que sozinhos. Pelo menos eu


penso assim.

Uma das sobrancelhas de Brishen deslizou para cima. — Eu pensei que


nós éramos bruxa e enguia morta. Acho que gosto mais dessas comparações. —
Ele empurrou sua batata quase intocada para a borda de seu prato com a ponta
da faca, o lábio superior enrolado em repulsa para revelar um dente branco
reluzente.

Ildiko riu e esfaqueou um pedaço da batata do seu prato. Ela colocou em


sua boca e mastigou com entusiasmo, ansiosa para tirar o gosto de scarpatine
ainda persistente em sua língua.

A multidão entrou em grupos após o jantar e Ildiko logo se encontrou


conversando com Serovek e no lado oposto de Brishen no salão.

As linhas nos cantos dos olhos do Lorde se abriram e aprofundaram. —


Irá me favorecer com uma dança, Sua Alteza? Os Kai acham que os humanos
são criaturas desajeitadas. Devemos provar que estão errados?

Ildiko olhou para Brishen que estava conversando com um prefeito de


uma das aldeias vizinhas de Kai. Ele não olhava diretamente para ela, mas ela
sentia o peso de seu olhar. A sociedade Gauri ditava que uma mulher pedia
permissão ao pai ou ao marido para dançar com outro homem. A sociedade Kai
não. Para os Kai, era perfeitamente aceitável que Ildiko aceitasse o convite de
Serovek sem a aprovação de Brishen. Ainda assim, ela hesitava.

A risada de Serovek voltou sua atenção para ele. Ele acenou com a cabeça
para Brishen. — Se fossemos ambos Kai, não acho que ele se importaria. Se eu
fosse Kai, ele não se importaria. Mas nós dois somos humanos, o que apresenta
algo muito diferente. Quero muito dançar com você, mas eu também gostaria
de deixar Saggara vivo.
Ildiko bateu a taça contra a dele em silêncio. Ela não fazia ideia de como
se podia ler os sinais mais sutis de ciúmes em um Kai, mas havia uma certa
rigidez na postura de Brishen que lembrava uma coruja observando presas dos
galhos de uma árvore. — Como eu ainda estou aprendendo o protocolo Kai,
acho que vou perguntar ao meu marido qual a resposta adequada a tal convite.

Seu sorriso transformou o rosto já bonito de Serovek em um rosto ainda


mais marcante. Ildiko tentou não bocejar. — Aguardo sua resposta, madame.

Ildiko o deixou para procurar Brishen. Ele não estava mais onde ela o viu
pela primeira vez e se manteve no perímetro exterior da sala, procurando por
ombros largos vestidos de seda índigo e uma longa trança preta. Ela pulou
quando sua voz soou de repente atrás dela.

— Disseram-me que Serovek é conhecido como o Garanhão no tribunal


de Beladine. — Um braço musculoso deslizou ao redor da cintura de Ildiko e
ela se recostou contra o peito de Brishen. Ele esfregou o nariz ao longo da curva
de sua orelha. — Ele é um excepcional cavaleiro, mas duvido que o título tenha
sido concedido a ele por causa de suas habilidades na sela.

Sua bochecha estava fria e lisa contra a dela. — Eu suspeito meu marido,
que foi exatamente por isso que ele recebeu o título.

Sua risada baixa ecoou em seu ouvido. Uma mão passou pela curva de sua
cintura antes de se estabelecer em seu quadril. — Você está andando pelo salão
com um propósito, Ildiko. O que você procura?

— Serovek pediu uma dança comigo. Eu sei que os Kai não seguem os
costumes de Gauri, mas ele pensou que seria melhor eu te perguntar primeiro.

Ela o sentiu então, um endurecimento em seu corpo enquanto ele se


apertava contra ela. Sumiu assim que apareceu, mas a voz de Brishen perdeu seu
calor sensual e ficou mais firme.

— Ele tem um senso finamente afiado de sobrevivência. Faz dele um bom


guerreiro. Quer dançar com ele?
Ildiko girou em seu abraço para que pudesse enfrentá-lo. Ela acariciou seu
braço e olhou em seus olhos. — Quero dançar com você, mas acho que é
hospitaleiro como um de seus anfitriões se eu dançar uma dança com ele. —
Ela piscou. — Ou você poderia dançar com ele.

Brishen bufou e suas feições se suavizaram. — Há hospitalidade e então


há o ridículo.— Ele roçou sua boca em sua testa. — Você não precisa de licença
para dançar com outra, esposa. Mas me reservo o direito de roubá-la a qualquer
momento.

Os convidados de Beladine e de Kai combinaram enquanto os músicos


começavam uma canção mais animada. Ildiko atravessou a multidão e
encontrou Serovek onde ela o deixou. Ele a observou se aproximar com um
leve sorriso.

— Vou viver outro dia? — Ele perguntou.

Ela lhe entregou sua taça para que ele pudesse colocá-lo sobre a mesa atrás.
— Depende. Se você pisar em meus pés, vou matá-lo. — Seu sorriso
correspondia a sua risada. — Irá me perdoar é claro, se eu pisar no seu. Eu não
estou familiarizada com as danças Kai. Até recentemente, eu nem sabia que
dançavam.

Serovek segurou sua mão oferecida e levou-a para o centro do salão. —


Eles são dançarinos excepcionais. Pense nisso. Forte, rápido e ágil, eles são
feitos para isso. E você pode reconhecer muitas de suas músicas. Os Gauri e os
Beladine tomaram alguns como deles ao longo dos séculos.

Eles esperaram no meio de uma multidão de outros casais que pararam


após a primeira melodia terminar e antes da próxima começar. Ildiko vislumbrou
Brishen pelo corredor, observando-os. Quando a segunda música começou, ela
bateu palmas. — Você está certo! Eu conheço essa música.

Serovek ergueu a mão, curvou-se e arrastou-a para um abraço solto. —


Sua Alteza, é uma honra.
Eles caíram em passos familiares. Serovek falou a verdade quando disse
que os Gauri – e também os Beladine – tinham coias em comum com os Kai.
Ela aprendeu a dançar esta canção em particular, quando era muito jovem. Era
uma dança popular no tribunal Gauri e uma de suas favoritas.

A familiaridade de Serovek com a dança era óbvia. Ele a guiou suavemente


pelo salão, graciosa como qualquer Kai, especialmente para um homem de sua
estatura. Seus pés não estavam em perigo de serem esmagados, seu parceiro era
um bom dançarino. Teria sido perfeito se ela dançasse com Brishen em vez de
Serovek.

A dança logo terminou e Serovek entregou-a a um oficial Kai que curvou-


se e pediu uma dança. Foi seguido por outra com um vereador da cidade de Kai
e um depois com um dos soldados Belarine de Serovek.

Ela estava corada, acalorada e mais sedenta do que um salgueiro por um


leito de lago seco quando Brishen a procurou, carregando uma taça muito bem-
vinda de vinho. Ildiko tomou-a com um sincero agradecimento, tomando tudo.

Brishen piscou e ofereceu seu vinho — Quer o meu?

Ildiko balançou a cabeça. — Não. Você me salvou. Pensei que minha


língua ficaria presa no céu da boca se eu não parasse de dançar logo e achasse
algo para beber. — Ela entregou sua taça vazia a um criado que passava.

— Você está se divertindo?— Ele tomou sua bebida e mandou a taça para
fora com a de Ildiko.

— Estou.— Ildiko estendeu a mão para brincar com um dos laços em sua
túnica. — Embora seria muito mais divertido se você parasse um momento com
todas as suas maquinações políticas e planos para dançar comigo. Só uma dança,
marido. Não é pedir muito. — Ela piscou para ele. Ele prometeu reivindicá-la
de qualquer um de seus parceiros de dança, mas até agora se absteve, escolhendo
circular pelos corredores e conversar com convidados Beladine e Kai, incluindo
Serovek quando o Lorde não estava dançando.
Brishen segurou sua mão e levou-a para a boca para um beijo suave. A
carícia enviou zumbidos da ponta dos dedos até os dedos dos pés e fez uma
onda quente de desejo girar dentro dela. Ela não escolheu este marido, nem ele
a tinha escolhido, mas o destino ou os deuses gentis os reuniu, tornado-os
amigos e depois amantes. Enquanto seus pares Gauri poderiam tremer com a
ideia de um companheiro Kai e agradecer, Ildiko considerava-se a mais
afortunada das mulheres.

Sua expressão deve ter revelado algo de seus pensamentos. Brishen


inclinou a cabeça, um sulco perplexo aparecendo entre as sobrancelhas. — O
que foi?

— Eu quero dançar com você agora. — Ela disse em voz baixa, para
apenas ele poder ouvir. — Mas eu quero muito mais fazer amor com você. —
Suas bochechas queimaram com sua própria declaração contundente e a reação
que causou.

As costas de Brishen se contraíram e seus olhos empalideceram. Seus


dedos ficaram brevemente entorpecidos pelo aperto repentino quando ele
fechou em sua mão. Seus lábios contra os dentes, as narinas se abrindo e a pele
se esticando firmemente sobre suas maçãs do rosto. Ele não disse nada, mas
Ildiko de repente se encontrou correndo para acompanhá-lo enquanto a puxava
pelo corredor para a escada que levava à ala particular de Saggara.

— Brishen, espere. — Ela sussurrou, entre pânico e risadas. O peso de


vários olhares curiosos descansava em seus ombros, sem dúvida se perguntando
por que o Herceges de Saggara de repente decidiu puxar sua esposa pelo corredor.

Ela tropeçou nele quando parou abruptamente e se virou. Ele a pegou em


seus braços e a ajudou a recuperar o equilíbrio. Seus olhos ainda brilhavam em
um branco-quente e sua respiração era superficial. Sua voz, ao contrário, era fria
e clara. — Você está tentando me matar, Ildiko?

Se eles não estivessem no meio do salão com uma multidão de pessoas


assistindo, ela colocaria seus braços ao redor de seu pescoço e o beijaria sem
sentido. Os lábios entreabertos de Brishen revelavam as pontas de suas presas.
Cuidadosamente sem sentido, ela corrigiu.

Ela se contentou em apertar sua mão oferecendo um sorriso de desculpas.


— Matar você é a coisa mais distante da minha mente e se estivéssemos
sozinhos, eu iria correndo até a escada. — Suas garras estavam escuras contra
seus nós dos dedos, letal como pontos de lança em obsidiana. — Mas nós não
estamos sozinhos e nós somos os anfitriões. Somos obrigados a ficar.

Um toque de luz se moveu em seus olhos em um padrão diferente quando


seu olhar piscou de seu rosto para a multidão atrás dela e de volta novamente.
— E quem vai nos parar se nós sairmos?

Ninguém o faria. Em Haradis, Brishen era o príncipe sobressalente. Em


Saggara, ele era o rei e sujeito a ninguém. Ainda assim, Ildiko não gostava das
fofocas que tal ato provocaria. Ela traçou a linha de seus dedos com a mão livre.

— Eu não me arrependo das minhas palavras, apenas do seu tempo. —


Disse ela. — O amanhecer não está longe. Dance comigo até lá e você pode
oferecer a seus convidados um bom alívio.

Suas pálpebras fecharam-se por um momento, cílios pretos contra suas


bochechas. Quando os abriu de novo, seus olhos ficaram mais uma vez com a
luz amarela. — Como quiser, mas será um outro dia sem dormir, esposa. —
Advertiu ele em uma voz que não era mais firme, mas sensual. Ele beijou sua
mão pela segunda vez, deixando uma linha úmida enquanto sua língua acariciava
seus dedos.

Ildiko ofegou, com os joelhos fracos pela carícia. Ela exalou um suspiro
trêmulo. — Eu vou te segurar a essa promessa, marido.

Reivindicou-a pelo resto da noite, dançando com ela ou mantendo-a ao


lado dele quando outros o arrastavam para discutir as várias edições dos
povoados e vilas sob a guarda de Saggara.
A noite deu lugar ao dia e o vinho fluía rápido e generoso. Os empregados
escoltaram alguns dos convidados mais embriagados para quartos de hospedes
preparados em uma ala, perto da cozinha. Brishen ofereceu a Serovek uma dos
quartos no segundo andar, no mesmo corredor que o quarto dele e Ildiko.

Serovek se recusou e deu um tapa nas costas de Brishen. Seus olhos


escuros estavam vidrados pela bebida, mas ele permanecia firme em seus pés e
Ildiko suspeitava que qualquer pessoa tola o suficiente para achá-lo vulnerável
ao ataque se sofreria ou morreria por cometer tal erro.

— Uma oferta generosa, meu amigo, mas vou para casa. — Ele sorriu e
Ildiko foi mais uma vez atingida pela beleza de suas feições. — E ao contrário
de você Kai, eu gosto da sensação do sol no meu rosto quando monto. — Ele
gesticulou em direção a Anhuset, que estava entre seus compatriotas, puxando
incessantemente sua roupa e franzindo o cenho. — Entretanto, aceito uma
escolta até seu portão.

Os Kai talvez não pudessem ler a expressão humana melhor do que Ildiko
podia ler a deles, mas o interesse de Serovek em Anhuset era claro para ela. Ele
pegou seu olhar de conhecimento e piscou em troca. Brishen enrijeceu ao lado
dela.

Agradecimento pela hospitalidade de Saggara, os desejos por uma viagem


segura e as promessas de ajuda mútua, se necessário, foram trocados antes que
Serovek e seu grupo saíssem, escoltados por uma Anhuset de rosto azedo
ostentando uma espalhafatosa cor em suas maçãs do rosto.

Eles os observaram partir. Brishen girou lentamente para olhar seu salão
quase vazio. O brilho do sol voltou a seus olhos quando ele fixou seu olhar em
Ildiko. Sua respiração ficou presa em sua garganta. — E agora eu posso dizer
boa viagem.

Desta vez foi ela que o puxou para a escada e correu pelo corredor. Sua
porta bateu aberta contra a parede e rapidamente bateu de volta no lugar.
Brishen deslizou a tranca e se virou a tempo para Ildiko empurrá-lo contra a
parede.

Ela estava desesperada para tocá-lo, sentir a força sólida dos músculos sob
suas mãos, a suave extensão da pele cinza. O fogo que ardeu dentro dela desde
sua tentativa abortada de seduzi-la antes de descerem para cumprimentar seus
convidados queimava como um inferno. Ela pegou sua trança em uma mão e
usou-a para puxar sua cabeça para baixo para ela.

O brilho dos dentes não a impediu de beijá-lo. Ele gemeu e ofereceu a


língua. Ela a chupou, saboreando o vinho doce e o mel colhido das colmeias
selvagens construídas no laranjal.

Brishen a ergueu nos braços, as mãos segurando seu traseiro. Seu folego
forte em seu ouvido enquanto ela mordiscava seu pescoço e pegava o lóbulo de
sua orelha entre seus dentes. Outro gemido foi sua recompensa. — Tão ansiosa,
esposa? — Perguntou entre beijos.

— O que acha? — Ela sussurrou para o espaço doce atrás de sua orelha.
Ela moveu-se contra ele, buscando a ereção que proclamava que seu desejo por
ela era tão grande quanto o dela por ele. Seus dedos se flexionaram, as garras
perfurando camadas de tecido. Ildiko ofegou com a dor e o prazer.

Ele congelou. — Desculpe...

— Não há nada a desculpar.— Ela desfez os laços em sua túnica,


afrouxando alguns e apertando os outros. Seu grunhido de frustração rendeu
uma risada.

— Isto é quando as garras são úteis, esposa.

Fez um breve trabalho da túnica, dividindo-ao no centro com um golpe


de mão para revelar um abdomen esculpido que fez Ildiko respirar um admirável
oooh. Ele não parou por ali e logo suas roupas estavam em tiras.
O peito de Brishen estava quente contra seus seios, o ar do quarto estava
gelado em suas costas. Ele levantou sua túnica longa até a cintura e empurrado
sua calça de seda abaixo de seus quadris. Suas próprias roupas estavam
igualmente retorcidas e empurradas de lado.

Ildiko arqueou as costas e engasgou o nome de Brishen quando ele se


lançou dentro dela. Cada músculo apertou, provocando um rosnado baixo dele
enquanto ele apertava seus quadris, se apoiava contra a porta e a penetrava
fundo.

— Meus deuses, Ildiko. — Ele conseguiu soltar um suspiro. — Você é


uma fogueira. Você estava assim lá embaixo?

Perguntou-se vagamente como poderia permanecer coerente. Ela foi


reduzida a grunhidos e gemidos. — Sim. — Disse ela. — Precisava de você.
Preciso de você agora.

Ela pontuou sua demanda marcando os tendões de seu pescoço com os


dentes. Os joelhos de Brishen se curvaram e ele quase a deixou cair. Se ele tivesse
feito o mesmo com ela, ele teria aberto sua jugular. Seus dentes, entretanto, não
eram perigosos para ele. Ela não era Kai e estava contente com isso.

Ele empregou o truque que descobriu quando eles se deitaram pela


primeira vez, inclinando sua pélvis de modo que cada impulso esfregasse no
lugar certo. Ela atingiu o clímax em seus braços, não importando que seus gritos
guturais provavelmente fossem ouvido nos corredores e todo o caminho para
as defesas do reduto. Mais alguns golpes profundos e Brishen se juntou a ela,
seus próprios gemidos baixos, quase animal.

Eles caíram contra a porta, Ildiko flexivel ao alcance de Brishen. Ele


apoiou a testa em seu ombro, a respiração quente enquanto soprava através de
seus seios. Ele finalmente se endireitou e cambaleou para a cama, com cuidado
para não tropeçar ou perder seu aperto sobre ela.
Suas roupas caíram no chão e foi apenas momentos depois que ela o
recebeu uma vez mais no santuário de seu corpo, assim como em seu coração.
Depois, eles se deitaram juntos, pele pressionada do ombro ao tornozelo.

Brishen pegou um fio de contas quebrado do cabelo e jogou-as no chão.


— Seu cabelo...

— Está uma bagunça. — Ela terminou por ele.

— Uma bagunça espetacular. — Disse ele. — Sua serva terá trabalho mais
tarde.

Ildiko não se ofendeu. Se ser amada assim por seu marido significava um
penteado arruinado, bem, havia algumas coisas que valia a pena sacrificar. Ela
puxou a borda de um dos lençóis em sua direção e fez uma pausa à vista dos
tecidos irregulares. Ela franziu o cenho. — Você tem que parar de destruir a
roupa de cama.

Ele encolheu os ombros, despreocupadamente sem remorso. — Só


quando você parar de me destruir.

Eles trocaram beijos lentos, enquanto a luz solar atravessava as persianas


parcialmente abertas e banhava sua cama. Brishen começou a soltar-se de Ildiko
para fechar as persianas.

Ela parou com a mão em seu quadril. — Espera. Eu gostaria de vê-lo à


luz do sol. — Ele tinha a vantagem da penumbra do crepúsculo e escuro da
noite para vê-la nua, vulnerável, inegavelmente humana. Era justo que ela o
visse. Nu, nunca vulnerável, inegavelmente Kai.

Brishen fez uma pausa para olhar para ela por um momento antes de
relaxar no colchão rolando em suas costas. Ele cobriu os olhos com o antebraço.
— Como quiser, esposa.

Ildiko tirou os lençóis de onde eles se reuniram em seus tornozelos. Ele


estava completamente nu para ela, pintado à luz dourada do dia.
Lindo, leve e poderoso, ele lembrava-lhe um pouco um gato – todo
músculo elegante sob a pele cinza e suave, como dos golfinhos que rodavam o
arco dos navios mercantes Gauri navegando para o porto.

— Eu não sou amigo do sol, Ildiko. — Sua voz era tensa, seu corpo tão
bonito quanto ele se estendeu na cama.

— Isso é lamentável. — Ela disse suavemente. — É certamente um amigo


para você. — Ela traçou uma linha de músculo de seu joelho para sua parte
interna da coxa e sentiu-o estremecer sob sua palma. A luz do sol encheu o
quarto. Ildiko teve misericórdia dele, deixando a cama tempo o suficiente para
fechar as persianas e deixar o quarto em suas sombras habituais à luz de velas.

Brishen envolveu-a em seus braços assim que ela voltou e a colocou


debaixo dele. Mesmo com a maior parte de seu peso nos cotovelos, ele a apertou
contra o colchão, pesando sobre ela. — E o que você acha de sua enguia morta
à luz do dia?

Ildiko afastou alguns fio de cabelo de seus olhos. — Agrada-me muito. A


mais bonita das enguias. — Suas maçãs do rosto altas angulavam fortemente
sob suas palmas. — Assim diz essa bruxa.

— A mais bonita na escuridão. — Brishen a beijou então, demorando-se


em sua boca por diversos momentos antes de acariciar seu cabelo e a ponte de
seu nariz. Ele murmurou algo mais contra sua bochecha.

Presa nas lânguidas sensações, Ildiko quase perdeu o que ele disse. Ela
piscou. — Como?

Brishen inclinou a cabeça para acariciar seu decote antes de responder. —


Se você estiver preparada, podemos ir para o município de Halmatus esta noite.
Lembra-se do joalheiro que lhe falei? — Ela assentiu. — Ele vai reparar seu
colar e você pode ver mais de minhas terras do que apenas Saggara e o lago.
Algumas de Serovek também. Salure é a fortaleza, mas seu território corre justo
ao lado do meu.
O entusiasmo tomou conta dela. Estava em Saggara por meses agora,
consumida por seus deveres como esposa e todos os ajustes que envolviam viver
com os Kai. A curta visita à tinturaria na margem do lago apenas estimulou sua
curiosidade em relação ao reino Kai e seu povo. Ela estava ansiosa para aprender
mais. — É longe?

— Duas horas a cavalo por um terreno montanhoso.

Não muito longe. Ela quase disse que sim, mas hesitou, lembrando-se de
tudo o que Brishen lhe contou sobre sua conversa com Serovek quando eles
voltaram de Salure. — É seguro?

Sua sobrancelha se franziu. — Você tem meu escudo e proteção, Ildiko.

Ela alisou as linhas que estragavam sua pele com seu polegar. — Eu não
estou apenas pensando em mim.

Ele virou o rosto em sua mão e beijou sua palma. — Eu sei. Você
testemunhou os Kai na batalha. Somos formidáveis o suficiente e protegemos a
nós mesmos e aos nossos.

Isso era um eufemismo. Duros, ossos pesados, presas, garras e uma


agilidade superior, os Kai eram exclusivamente adequados para a batalha.

— Você não tem que ir, se esse é o seu desejo. — Ele continuou em seu
silêncio prolongado.

Ela começou. — Não! Eu quero ir. — Ildiko deixou tudo o que lhe era
familiar para acompanhar um estranho que nem sequer era humano em um
reino estranho onde ela se tornou o estranho, a estranha. Ela aprendeu,
prosperou e encontrou amor e amizade. Nenhum grupo imundo de mercenários
fora da lei faria dela uma prisioneira em seu novo lar.

Brishen deslizou uma mão por seu braço antes de percorrer um caminho
por cima do ombro e descer para segurar um seio. Seus quadris se moveram
suavemente sobre os dela e ela abriu as coxas para que ele se acomodasse mais
firmemente no berço de seu corpo. — Ainda será uma longa viagem com a
volta. Você deveria dormir.

Ildiko rodeou seu pescoço com os braços e acariciou seu cabelo caindo
pelas costas. Ela fez a Brishen uma careta. — Dormirei quando estiver morta.
Agora me beije. Estamos desperdiçando uma boa luz do dia.

Sua risada logo mudou para suspiros e sussurros falados contra a pele
brilhando de suor. Ildiko abraçou seu amante, seu marido, seu melhor amigo e
se considerou uma esposa abençoada.
Capítulo Vinte

Brishen esperava que um dia pudesse levar Ildiko a algum lugar sem que
um quarto do seu regimento os acompanhasse. Cuidado, no entanto, ditava que
eles precisavam de uma escolta. O ataque feito à eles na rota comercial enquanto
viajavam de Pricid a Haradis combinado com avisos mais de Serovek, significava
que ele e Ildiko não iriam a nenhuma parte sozinhos fora de Saggara.

Reduziu sua escolta a vinte de seus lutadores mais experientes. Ao


contrário da viagem para Salure, eles viajaram à noite. Um tempo hostil para
qualquer grupo de invasores que pudessem pensar em atacar. Enquanto eles se
aproximavam das fronteiras de Beladine, aquelas terras pertenciam a Serovek
cujas tropas patrulhavam e protegiam vigilantemente. Um lugar hostil para
qualquer um que queria causar problemas.

Brishen olhou para sua esposa enquanto cavalgava ao lado dele. Ela
segurava um assento seguro na sela, mesmo com o desafio de percorrer os
caminhos montanhosos que levavam ao município de Halmatus no escuro. Ela
usava seu manto mais pesado para as noites frias, mas sua cabeça estava
descoberta. Os cabelos ruivos, que ele primeiro achou estranho, mas agora
bonito, brilhava em vários tons de cinza sob o luar. Tirou o capuz sob sua
insistência.

— Você não precisa disto. — Disse ele mais cedo, enquanto se


preparavam para montar e sair de Saggara. Ele empurrou para trás o capuz,
expondo seu cabelo trançado e características pálidas. Ele passou a última hora
antes do pôr-do-sol observando seu rosto enquanto dormia ao lado dele. Será
que ele realmente a achou feia?

Ildiko colocou algumas mechas de cabelo que saiam de sua trança atrás
das orelhas. — Haverá muitos olhares fixos e conversa.
Brishen tomou sua mão para traçar levemente as linhas de sua palma com
uma unha. — Deixe-os falar. Deixe-os olhar fixamente. Não importa. Além
disso, você é a hercegesé, esposa do herceges de Saggara. Não se esconde de
ninguém.

Atravessaram uma ponte em um estreito desfiladeiro. Bem abaixo, um rio


preguiçoso como uma fita preta desaparecia ao redor de uma curva na rocha. O
rugido abafado de uma cachoeira soava próximo, ressoando de fundo ao
rangido de madeira sob os cascos de cavalo.

Eles chegaram em Halmatus pouco antes da meia-noite. Construída em


um vale protegido, a cidade brilhava como um ninho de vaga-lumes sob um
dossel de árvores. Satisfeito ao descobrir que ele inadvertidamente escolheu a
noite semanal do mercado para visitar a cidade, Brishen acompanhou Ildiko
pelas ruas estreitas, repletas de barracas temporárias cheias de várias mercadorias
e comida oferecidas pelos fazendeiros e comerciantes kai.

Sua presença atraiu uma multidão curiosa e os olhares e conversas que


Ildiko preveu caiu pesado em seus ombros e grossa em seus ouvidos. Ildiko não
prestou atenção e em vez disso, conversou com vários comerciantes em uma
quase impecável Kai.

Apenas uma vez ela insinuou sua consciência do singular foco da cidade
nela. Ela afastou-se da proteção de Brishen para que ficasse à vista da multidão.
Seu sorriso de lábios fechados mostrava sua intenção.

— Ildiko. — Brishen avisou e bloqueou a vista da multidão, assim que


seus olhos se deslizaram para se encontrar em cada lado do nariz. Eles
deslizaram para trás no lugar com a mesma rapidez, fazendo Brishen contrair-
se e os soldados Kai mais próximos exclamarem sob suas respirações.

Ildiko suspirou. — Você arruinou uma oportunidade perfeitamente boa


para fornecer fofocas nos próximos anos.
— E salvou algumas pessoas de serem pisoteadas por aqueles que
tentariam fugir de você. — Ele a empurrou para a próxima barraca. — Tente
não começar um pânico, esposa.

O som baixo de sua risada provocou seus ouvidos e lembrou um


momento horas antes, quando ela riu da mesma maneira enquanto torturava-o
com beijos suaves no centro de suas costas. As narinas dele se abriram ele
empurrou a lembrança para longe antes que sua calça ficasse desconfortável e
ele começasse a procurar um lugar isolado onde pudesse tomar sua esposa. Sua
feitiçaria destroçava a capacidade de pensar com sensatez.

Eles encontraram a joalheria no final de uma das pistas. Ao contrário de


seus cidadãos, o comerciante não mostrou choque ou surpresa com a aparência
de Ildiko. Ele inspecionou o colar e o fecho quebrado que ela lhe apresentou e
disse que o reparo era bastante simples. Foi acordado um preço e uma data de
entrega. O homem astuto de negócios, ofereceu-se para mostrar a ela mais do
seu trabalho. Brishen fugiu para esperar na porta.

Quando Ildiko saiu da loja, ele colocou a mão na curva de seu braço. —
Eu sou pobre agora?

Ela olhou para ele. — Eu duvido. Comprei uma coisa.

Observou sua esposa, não notando nem ornamentos em seu pescoço nem
um pacote em sua mão. — O que foi?

Ildiko ergueu o queixo. — Você verá quando ele entregá-lo com o meu
colar.

A informação sobre a visita dos herceges viajou rápido através Halmatus, e


o prefeito da cidade foi rápido em emitir um convite para jantar. Anhuset
abandonou Brishen e Ildiko ao seu destino com uma saudação e um sorriso. —
Você encontrará o restante de nós na taberna Crooked Shank, onde a cerveja é
grossa e a companhia melhor.
Suas palavras provaram ser proféticas. A comida na casa do prefeito era
pouca; a companhia cansativa e ridícula. Brishen gostava muito do homem. A
esposa do prefeito era outra questão. Apesar dos melhores esforços de Ildiko
para deixá-la à vontade, a mulher não pode deixar de olhar fixamente para ela.
Muito ocupada para olhar o que estava fazendo, quase derramou vinho no colo
de Ildiko duas vezes.

Brishen soltou um suspiro de alívio quando terminou e eles escaparam.


Ildiko não parecia se importar. — Eles não serviram scarpatine. — Disse ela.
— Considero uma refeição bem sucedida.

— Quer visitar a taberna? Acho que Anhuset está certa sobre a comida e
a companhia.

Ildiko balançou a cabeça. — Não. Vou causar muita agitação. Deixe nossa
escolta se divertir. Você pode me dar um tour da cidade e eu terei você só para
mim.

Ele felizmente concordou com seus desejos. Halmatus era pequena,


cercada por uma espessa floresta. Em sua periferia, Brishen fez uma pausa e
aproveitou a breve privacidade que lhes oferecia. Ele inclinou o rosto de Ildiko
para ele com um polegar suave sob o queixo. Sua pele brilhava lustrosa como
uma pérola no luar.

— Beije-me. — Ele ordenou suavemente. — Desde que saímos de


Saggara, desejei o toque de sua boca.

Não lhe importava se todos os Halmatus ouvissem seus grunhidos


satisfeitos enquanto fazia amor com os lábios e a delicada carícia de suas mãos.
Eles não podiam sair deste lugar ou chegar em casa rápido o suficiente para
satisfazê-lo. Sua esposa humana tornou-se um fogo em seu sangue e espírito,
tão quente e brilhante quanto seus cabelos ruivos.

— Nós os deixamos sozinhos pelo que? Duas horas? E agora ficamos


perseguindo-os como babás atrás de crianças pequenas. — Anhuset
atrevidamente murmurou, sua voz carregada sobre a sussurrante canção de
ninar das árvores balançando na brisa.

A boca de Ildiko flutuou sobre a dele em um beijo. — Acho que estamos


em apuros. — Murmurou ela.

— Saia e encontre-o. — Ordenou Anhuset. — Bata em todas as portas,


se for necessário.

Brishen grunhiu, irritado e satisfeito com a vigilância de sua prima. Ele


afastou Ildiko dele e pegou a mão dela. — Venha. Precisamos nos mostrar antes
de colocar toda a cidade num alvoroço.

O cenho de Anhuset advertiu Brishen que ela estava prestes a atacar. Ele
parou qualquer advertência em seus lábios. — O pensamento é muitas vezes
mais sábio do que o discurso, sha-Anhuset. — Ele disse em um to, frio. — Para
não esquecer quem governa aqui e quem não.

Seus lábios se apertaram em uma linha, mas ela inclinou-se, juntamente


com o resto de sua escolta. — Está pronto para partir, Herceges?— Ela perguntou
em uma voz igualmente fria. Ele balançou a cabeça, e ela enviou os soldados
fora para recolher os cavalos e se encontrar na praça da cidade.

Quando era ficou apenas ele, Ildiko e Anhuset, sua prima se virou para
ele. — Você está tentando me levar a uma morte precoce?— Ela retrucou.

— Pare de me amolar. — Ele retrucou. — Eu tenho uma esposa para isso


e nem mesmo ela o faz.

Uma risada abafada soou ao lado dele. Ildiko olhou para os dois com olhos
lacrimejantes e uma mão sobre sua boca. Ela abaixou a mão e comprimiu os
lábios em um esforço óbvio para conter sua alegria. — Desculpe. — Ela
conseguiu dizer entre risadas.
Anhuset não compartilhava seu divertimento. Sua expressão escureceu
antes que ela se curvasse uma segunda vez. — Vou encontra-los na praça da
cidade.

Brishen permaneceu incerto se isso era uma promessa ou uma ameaça.

— Pode confiar em nós para estar lá, Anhuset. — Ildiko respondeu.

— Veremos. — Disse a outra mulher brevemente. Ela afastou-se, as


costas rígidas com indignação.

— Ela ama você, sabe. — Ildiko olhou para Brishen. — Ela faria qualquer
coisa que você pedisse a ela.

Brishen assentiu. Ildiko não lhe disse nada que já não soubesse. — Nós
estamos ligados uns aos outros por laços de sangue e segredos. Ela é a criança
da irmã de meu pai e o único verdadeiro irmão que eu já tive. — Ele encontrou
o olhar gentil de Ildiko e suspirou. — Ela também é mais velha do que eu, com
uma tendência infeliz maternal se eu permitir.

O prefeito, sua esposa de olhos arregalados e um grupo de vereadores


estavam na praça para vê-los. Brishen e Ildiko ofereceram acenos educados e
prometeram outra visita em breve. A lua começou sua jornada em direção ao
horizonte pelo tempo que eles pegaram o caminho que os levaram de volta para
Saggara.

A ravina e sua ponte entraram em campo. Sua partida começou fora de


Halmatus em espírito elevado com alguma conversa e brincadeiras. A atmosfera
mudou lentamente, seu grupo ficou mais quieto, mais tenso. O fio de
inquietação que fez o ponto entre as omoplatas de Brishen formigar,
transformando-se em um fluxo gelado que escorria por sua coluna vertebral. Ele
aproximou seu cavalo mais perto de Ildiko. Anhuset fez o mesmo do outro lado
de Ildiko.
Brishen pegou o olhar de sua prima e falou suavemente, usando um código
Kai falado pelos resisdentes do lado do lago e compreendido por muito poucos
que não eram Kai. — Você sente isso?

Anhuset assentiu com a cabeça. — Estamos sendo observados.

Todos o sentiram, um exame distinto, afiado pela malícia. Ao seu redor,


as mãos se aproximaram dos punhos de espada e deslocaram os escudos para a
posição protetora. Os cavalos sentiram o desconforto de seus cavaleiros,
roncando e empinando sua agitação enquanto cavalgavam em direção à ponte.

Os olhos de Ildiko passaram primeiro para Anhuset, depois para Brishen.


— O que há de errado?— Ela perguntou suavemente.

Brishen sinalizou atrás dela e dois de seus homens fecharam o espaço atrás
de seu cavalo, criando uma parede escudo de homem, metal e cavalo. Era tarde
demais para disfarçá-la agora. Ela se destacava entre eles como um farol, mas
era melhor tarde do nunca.

— Ildiko. — Ele disse em seu tom mais casual. — Levante seu capuz
como se você estivesse apenas mantendo o vento fora de seu cabelo e faça
exatamente como e quando eu disser.

A pouca cor fluiu sob sua pele pálidadeixando uma palidez acinzentada
pelo medo. Ela fez como ele instruiu, fazendo um show de exagero com suas
tranças antes de puxar o capuz até que suas feições ficaram escondidas.

Brishen afrouxou a proteção de couro que cobria a lâmina do machado de


mão que usava em seu quadril. O ar ao redor deles pendia espesso de tensão —
um silêncio antinatural quebrado apenas pelo constante trote dos cascos dos
cavalo.

Um grito de guerra rompeu o silêncio, seguido por um brilho de luz.


Brishen gritou uma maldição contra a súbita cegueira leve e virou o rosto para
dentro de seu capuz. Seu cavalo bateu na égua de Ildiko.
— Para baixo, Ildiko! — Ele gritou para ela, empurrando seu rosto na
crina da égua, assim que uma fina onda de ar frio disparou um fôlego longe de
seu rosto. Um ruído soou, seguido por um gemido pesado e o rangido de uma
sela.

Eles eram alvos fáceis para setas quando montados e Ildiko gritou quando
Brishen a arrastou da sela com ele para bater no chão em meio ao caos de
soldados lutando para controlar cavalos em pânico. Eles estavam parcialmente
protegidos por corpos equinos do brilho pulsante da luz que o deixava e a seus
companheiros Kai praticamente sem visão.

Anhuset bateu nele com a espada. Seus lábios mostrando as presas em


uma careta. — Beladine! — Gritou ela, quando uma rajada de flechas choveu
sobre as árvores. — As flechas são de Beladine.

Um coro de uivos soou das sombras. Brishen agarrou Ildiko, agachou-se


entre os cavalos que trotabam. Magefinders. A escória trouxe cães de magos.

Ele tirou Ildiko de cima dele e empurrou-a para Anhuset. — Leve-a e


atravesse a ponte. Agora! — As voleias de flechas foram simplesmente a
primeira fase. Se ele não a tirasse daqui agora, ela morreria.

Ildiko agarrou-o, seus olhos estranhos enormes e escuros de terror. —


Não, Brishen!

Anhuset não hesitou. Ela passou o braço ao redor de Ildiko e a colocou


sobre seu ombro. Sua própria expressão era tão assustadora quanto a de Ildiko
e cheia de raiva. — Fique vivo. — Ela ordenou antes de correr para longe com
uma Ildiko lutando.

Brishen pegou o cavalo de Anhuset, enrolou as rédeas e bateu no animal


no flanco. Ele disparou do caos em direção a sua amante. Sem cavaleiro e
aparentemente fora de controle, atirou-se em direção a Anhuset incólume pela
flecha. Sua prima mudou seu caminho para correr paralelo e ele a perdeu de
vista por apenas um momento. Cabelos prateados e vermelhos misturavam-se
nas sombras quando Anhuset saltou sobre sua montaria, colocando Ildiko
diante dela na sela e chutando o cavalo em uma corrida mortal.

Passaram pelo primeiro obstáculo, mas na ponte as flechas voavam rápido.


Mais gritos ecoaram da floresta, desta vez conduzidos pela trombeta de um
chifre. Brishen puxou com força a magia adormecida legada a ele por seu pai e
todos aqueles que vieram antes dele. Ela rolou através dele, juntando em suas
mãos. Em algum lugar um mago de batalha espreitava entre as árvores, lançando
feitiços de luz para deixar os Kai cegos.

Ele proferiu uma palavra antiga, uma falada por feiticeiros Kai que
construiam seu feitiço a partir do poder da sombra, como uma reverência por
todas as coisas nascidas da noite. Uma explosão de escuridão disparou dos dedos
de Brishen e apagou as luzes. Gritos de consternação e surpresa se misturaram
com gritos de triunfo.

Brishen forçou a onda de fraqueza que ameaçava deixá-lo de joelhos. Ele


finalmente podia ver o suficiente para lutar. Ele gritou para seus homens. —
Para as árvores! Mate seu mago! Mate seus cães!

Um atacante Beladine estourou fora da vegetação para ele, balançando


uma foice curta. Treinado para a guerra como todos os seus parentes foram,
Brishen encontrou o ataque com faca e machado. Os dois homens bateram um
no outro, o peso maior de Brishen forçando seu oponente para trás. Brishen
cortou sua garganta e correu entre as árvores antes que o jato de sangue o
tocasse.

Ao seu redor, os Kai lutavam contra os Beladine em escaramuças


sangrentas. Ele cortou o crânio de um arqueiro e deixou mancando um
espadachim antes de decapitá-lo com um balanço do machado. Ele saltou sobre
a cabeça enquanto rolava sob seus pés.

A raiva da batalha percorreu suas veias como um rio quente, mesmo


quando metodicamente cortou uma faixa sangrenta entre as fileiras dos inimigos
que pulavam para fora do bosque da floresta e caiam das árvores.
Alguém gritou e sua mensagem enviou o coração de Brishen saltando em
sua garganta. — A cadela Gauri! Ela está atravessando a ponte!

Brishen atravessou a floresta, saindo da linha de árvores a tempo de ver


um arqueiro apontar para o cavalo em fuga e seus dois cavaleiros enquanto
corria em direção ao outro lado da ravina. Cada som ao redor dele se desvaneceu
ao silêncio, cada movimento se estreitou ao ombro flexível do arqueiro
enquanto desenhava a corda.

O príncipe de Saggara não rezava aos deuses, mas ao machado sangrento


que segurava. — Seja verdade. — Ele sussurrou e arremessou a arma o mais
forte que podia.

O arqueiro bateu para a frente – a lâmina do machado enterrada entre seus


ombros – e balançou na borda do penhasco antes de cair no abismo.

Brishen correu para a ponte apenas quando uma dúzia de cavaleiros


Beladine galopava em seu vão. Oh deuses, não! Ele era rápido, mas nunca os
alcançaria. Podia escapar de um humano, mas não de um cavalo.

— Comandante, o que você precisa?— Dois de seus Kai, salpicados de


sangue, correram para seu lado. Um bando de agressores de Beladine os
perseguiu.

— Segure-os o máximo que puder. — Ordenou ele. A magia o mataria,


mas não tinha escolha. Se não a usasse, os perseguidores de Anhuset a pegariam.
Ela mataria metade antes que eles a tomassem, mas ela ainda morreria e Ildiko
também.

Ele colocou as mãos na primeira tábua da ponte. Mais palavras de poder,


essas eram uma sibilante lava de dor que ameaçava arrancar a pele de seus ossos.
Ele esperou segundos preciosos até que o cavalo de Anhuset tocou o chão do
outro lado da ravina. Ele fechou os olhos, tonto de alívio e a agonia escorrendo
por seus braços. Ele soltou a última parte do feitiço.
Uma chama rugiu através da ponte, consumindo-a com uma fome voraz
e engolfando cavalos gritando e seus cavaleiros horrorizados.

Brishen cambaleou apenas para ser jogado de lado. Ele e seu atacante
lutaram pelo chão. Enfraquecido e retardado pelos estragos do feitiço, Brishen
lutou para libertar-se das garras de uma espada Beladine duas vezes seu
tamanho. O homem bateu a mão de Brishen contra uma rocha. Seus dedos
ficaram entorpecidos e ele perdeu o aperto em sua faca. Seu inimigo grunhiu em
triunfo.

Brishen rosnou antes de se lançar para afundar suas presas no pescoço do


homem. Um grito gorgoteante soou perto de seu ouvido e o gosto azedo do
suor humano e do sangue encheu sua boca. Ele balançou a cabeça, rasgou a
carne com os dentes e quase sufocou quando o sangue quente espirrou seu rosto
e pescoço.

Ele cuspiu o pedaço de carne e empurrou o mercenário morto fora dele.


Ele estava meio cego, mais uma vez, desta vez pelo sangue em vez da luz. Os
Kai que vieram ajudá-lo lutaram arduamente, mas foram esmagados por
números absolutos. Brishen pegou a espada de seu oponente e correu em
direção a eles, não mais seguro. Um grunhido ameaçador foi seu único aviso
antes de um redemoinho de poeira marrom disparar em direção a ele.

Ele girou no último momento, a lâmina de espada cortando para cima.


Um som canino dizendo-lhe que atingiu seu alvo apenas quando um magefinder
morto pousou no chão.

A mesma voz que alertou os outros sobre a fuga de Ildiko e Anhuset gritou
novamente. Enfurecido. Desesperado.

— Derrube-o! Derrube aquele bastardo Kai!

Ele ouviu o aviso sibilar, mas seu corpo se recusava a obedecer os


comandos de sua mente gritando para sair do caminho. A primeira flecha o
atingiu no ombro direito, a segunda na coxa esquerda, a terceira na direita.
Brishen caiu de joelhos. Sua visão ficou turva e ele balançou sob o súbito peso
de uma rede. Ela se enroscou ao redor de seus membros, uma coisa viva tão
sinuosa e emocionante como as criaturas do mar com tentáculos das quais ele
ouviu falar em histórias.

O lado de uma clava foi a última coisa que ele viu antes do interior de seu
crânio explodir em uma agonia. A escuridão se seguiu e nessa escuridão ele não
podia ver.
Capítulo Vinte e Um

As árvores fizeram o seu melhor para retirar Ildiko e Anhuset da sela, os


seus membros esticados chicoteando e arranhando enquanto a montaria de
Anhuset galopava com força na floresta escura. Ildiko, encaixada entre Anhuset
e o pomo de sela olhava fixamente para a escuridão, as bordas afastadas por um
brilho distante que provocava o canto do olho.

Brishen.

Seu último vislumbre dele foi uma visão vacilante de suas costas quando
ele mergulhou no caos de cavalos, Kai cego e um granizo de flechas. Lutou no
abraço de Anhuset para libertar-se e correr de volta para seu marido, fazer outra
coisa senão fugir. O firme aperto da mulher Kai mostrou-se inquebrável. Ildiko
estava a ponto de vomitar após o arremesso violento que ela sofreu enquanto
jogada no ombro do captor. Sua visão girou quando caiu e ficou pendurada na
sela do cavalo ainda galopando.

Um brilho metálico lhe chamou a atenção. Anhuset empurrou a alça de


uma adaga em sua mão.

— Pegue isso. — Ela ordenou em uma voz sombria que a advertia contra
discussão. — Acerte qualquer coisa que se mova.

Ildiko mal tinha os dedos ao redor do cabo quando uma sombra ondulante
saiu da escuridão do lado esquerdo e correu para o cavalo. O atacante emitiu um
grito estridente, seguido por Ildiko. Mãos rasgou sua saia enquanto o cavalo
relinchava e dançava de lado.

Ela fez exatamente como Anhuset instruiu, mergulhou a adaga em direção


à figura pendurada fora da sela. Um grito agonizante ecoou quando a adaga
afundou profundamente e o sangue quente cobriu sua mão, foram suas
recompensas.
Seu atacante caiu apenas para ser substituído por outro e outro que
pulavam fora do mato como insetos. A montaria de Anhuset juntou-se a luta,
chutando e mordendo. Um atacante bateu em uma árvore próxima enrolado na
posição fetal, apertando sua barriga.

Anhuset empurrou as rédeas para as mãos de Ildiko. — Guie o cavalo!

Ildiko agarrou as rédeas, perdeu a adaga e chutou o cavalo forte dos lados.
Ele saltou para um galope, arrastando alguém ao seu lado. Atrás de Ildiko,
Anhuset torceu um caminho e depois o outro, com os braços estendidos de
ambos os lados, com as espadas na mão enquanto atingia os atacantes. Ela bateu
com força contra as costas de Ildiko duas vezes com um grunhido, mas segurou
seu assento para abrir caminho.

Eles mergulharam através da madeira, Ildiko tão cega como um Kai ao


meio-dia e rezando para que ela não os tivesse virado e montado em linha reta
para a ravina e uma descida rápida para sua morte. Escapando do último invasor,
elas rodearam um bosque e correram para uma clareira.

Abrangida pelo brilhante luar, a clareira deixou-as mais expostas. Ildiko


virou a montaria de volta para a linha de árvores. Elas não podiam voltar atrás,
mas se chegassem a fronteira que percorria o caminho oriental, os galhos baixos
de algumas das árvores as protegeriam. Ela, pelo menos, as levou para longe do
penhasco em vez de em direção a ele.

Sua companheira estava ameaçadoramente silenciosa atrás dela. Ildiko


olhou por cima do ombro— Anhuset?

A outra mulher respondeu com uma expiração lenta e prontamente


deslizou para fora da sela, levando uma Ildiko assustada com ela. Ambas
bateram no chão, a queda de Ildiko parcialmente amortecida pelo braço de
Anhuset. O cavalo sacudiu a cabeça e pulou para o lado antes de trotar uma
pequena distância, as rédeasse arrastando atrás de si.

Ildiko tropeçou em seus pés e engasgou.


Anhuset estava deitada de lado, de frente para Ildiko. Uma haste da flecha
se projetava de seu ombro esquerdo, outra um pouco acima de seu quadril
esquerdo. Ela inspirava e expirava respirações lentas e seus olhos cor de ouro
eram como moedas de prata.

Ildiko agachada à sua frente, com as mãos ensanguentadas, mas não tocava
os lugares onde as flechas estavam cravadas na armadura e carne. — Anhuset!
Por que você não disse alguma coisa?

A mulher tentou encolher os ombros, mas só conseguiu uma contração


de um ombro. — Porque não havia nada a dizer. — Acho que as flechas foram
mergulhadas em veneno maseret. — A voz dela estava tão apagada quanto os
olhos, as palavras escorrendo fora de uma língua grossa.

Ildiko fechou os olhos. Se as pontas de flechas foram mergulhadas em


marseret como Anhuset previa, ela estaria insensível dos ombros aos pés em
momentos, incapaz de se mover. Mesmo se ela não fosse um peso morto pro
causa do veneno, ela era muito pesada para Ildiko levantar e içar para o cavalo.
Elas estavam condenadas, presas ali enquanto quaisquer Beladine sobreviventes
se escondessem na floresta procurando por elas.

Uma rajada de ar quente, grossa com o cheiro verde da grama, inundou


seu pescoço e o lado de seu rosto. Ela abriu os olhos para encontrar o cavalo de
Anhuset caminhando de volta para eles, o olhar escuro treinado sobre ela como
se perguntando quanto tempo elas planejavam ficar sentadas. Ildiko poderia ter
rido se ela não quisesse tanto gritar.

A cabeça de Anhuset pendeu. — Eu não posso sentir meus braços ou


pernas.

O uivo triunfante de um cão seguiu a declaração e disparou o coração de


Ildiko em seu peito. — Oh deuses, mais magefinders.

— Corra. — Os olhos de Anhuset piscavam lentamente como uma coruja.


— Eles estão me cheirando, não você. Leve o cavalo. Corra. — Ela repetiu.
Ildiko saltou para seus pés. — Não deixarei você aqui.— O brilho de aço
ao luar chamou sua atenção e ela encontrou os dois sabres que Anhuset usou
contra os seus atacantes durante o passeio selvagem através da ponte. Eles
cairam na grama, um atrás Anhuset e o outro perto de seus dedos estendidos.
Sangue negro manchava as lâminas na luz prateada.

Ildiko recuperou o mais próximo dela, surpresa com sua leveza e a


inclinação ponderada em direção à ponta da lâmina.

— Mulher humana estúpida.— As palavras de Anhuset estavam


arrastadas. — Você morrerá se ficar.

— Silêncio. — Ildiko fez uma careta, mas manteve os olhos treinados na


linha das árvores, de onde o som canino vinha. — Obviamente, a seiva não
funciona em sua língua desrespeitosa.

Estúpida ou não, ela não tinha nenhuma intenção de abandonar Anhuset


desamparada no chão frio para ser dilacerada por uma matilha de magefinders.
A espada não parecia mais leve em sua mão e ela agarrou-a com ambas as mãos.

Seu estômago se apertou em pânico quando o primeiro magefinder


disparou para fora da linha da árvore, um raio de peles com longas pernas, presas
brilhantes e olhos amarelos, feroz como qualquer Kai, mas muito mais bestial.
Foi seguido por outro e depois por um terceiro e eles atravessaram a clareira,
rosnando enquanto diminuiam a distância entre eles e Ildiko.

— Dobre os joelhos e balance o mais forte que puder. — A voz de


Anhuset soou longe nos ouvidos de Ildiko, mas ela fez como ela mandou e se
preparou. Seus pulmões sentiam falta de ar, embora respirasse com mais força
do que um cavalo exausto. Suor escorria por seus lados sob suas roupas e
deixavam suas mãos pegajosas e escorregadias no aperto da espada. Ela se
forçou a não estremecer e fechar os olhos quando o primeiro cachorro saltou
para ela.
Ela gritou e balançou apenas quando uma linha escura borrada passou por
sua visão, seguido por um barulho sangrento. As patas do cão se juntaram no
meio do caminho antes de atingir o chão e derraparam até parar, uma flecha em
seu pescoço. Outro gemido de ar provocou sua orelha antes que o segundo cão
encontrasse um destino similar.

Ildiko girou no tempo para ver um cavalo e cavaleiro blindado passar por
ela para derrubar o terceiro cão com uma espada.

— Alteza, você está bem?

Ainda segurando a espada, Ildiko voltou-se para a voz familiar. —


Serovek?

Ele caminhou em sua direção, levemente blindado e carregando um arco.


Ele foi o único a matar dois dos cães, seu soldado o terceiro. Seu olhar avaliou-
a por ferimento, e ele deu um aceno de aprovação ao vê-la segurando uma das
espadas de Anhuset.

Uma meia dúzia de guerreiros Beladine montados emergiu das árvores do


outro lado da clareira, uma delas levando um cavalo sem cavaleiro. A própria
montaria de Anhuset deu uma saudação enquanto cercavam Ildiko e a mulher
Kai caída Kai.

Ildiko segurou a espada e se recusou a se mover do lado de Anhuset. A


parte de seu cérebro que ainda funcionava com a razão lhe assegurava que, se
Serovek tivesse ordenado esse ataque, não teria falhado. Ainda assim, seus
músculos tremiam e seu coração trovejava quando o Lorde de Beladine se
aproximou.

Ajoelhou-se diante de Anhuset, que o observava com os olhos estreitos,


passando de ouro brilhante para amarelo lamacento. Ele olhou para Ildiko. —
Tentamos chegar até vocês na ponte. Muito tarde. Nós matamos os dois
manipuladores seguindo os cães, mas esperamos mais cães, mais incursores.
Vocês atravessaram meu território. Eles se acharão seguros aqui. — Ele fez um
gesto para um de seus homens que desmontou e lhe entregou um machado de
tamanho semelhante ao que viu Brishen carregar.

— O que você está fazendo?— Ela perguntou.

Ele removeu o protetor da lâmina. — Viajaremos mais facilmente se eu


conseguir cortar as flechas que saem da senhorita aqui.

Envenenada e imobilizada, Anhuset ainda conseguiu se mover o suficiente


para enrolar os dedos e dar um golpe fraco em Serovek. Uma garra pegou uma
dobra em sua calça perto do joelho e rasgou-a. — Não me toque, porco
Beladine. — Ela murmurou.

Serovek suspirou e mais rápido do que Ildiko poderia piscar, bateu os nós
dos dedos contra o queixo de Anhuset. A cabeça dela se sacudiu antes de fechar
os olho, e ela ficou completamente apagada.

Ildiko ofegou. — Ela vai te matar por isso quando acordar.

Serovek piscou e pegou uma pedra lisa que um de seus soldados lhe
entregou, junto com um cobertor dobrado. — Não, ela não vai. Direi a ela que
você fez isso.

Ele apoiou o cobertor, com a pedra em cima, contra suas costas. A flecha
em seu ombro estava alojada entre duas das placas da armadura. Ildiko
estremeceu quando Serovek puxou o machado para baixo no eixo, encurtando-
o ao comprimento. Rápido, eficiente e firme, fez o mesmo com a flecha no seu
quadril. A inconsciente Anhuset estremeceu, mas não acordou.

Serovek acariciou seus cabelos prateados com uma mão grande. — Calma,
minha beleza. Eu terminei. — Ele olhou para Ildiko. — Você pode controlar a
montaria dela?

— Sim. — O choque de encarar a morte certa e brutal, apenas para ser


resgatada pela súbita aparição de Serovek e seus homens, deixou-a atordoada e
incapaz de proferir mais do que respostas monossilábicas.
Se o senhor Beladine notou, ele não comentou sobre isso. — Bom.
Anhuset vai montar comigo. — Ele pegou a mulher Kai em seus braços, seus
traços escurecendo quando ele lentamente levantou ela. Ele cambaleou e exalou
uma respiração áspera. — Maldita Kai.— Ele disse em uma voz tensa. — Mais
pesada que um saco de tijolos molhados.

Sua reação ao levantamento de Anhuset confirmou o que Ildiko


adivinhou. Não havia nenhuma maneira possível dela ter movido sua
companheira ferida ou colocá-la em seu cavalo.

Serovek fez seu caminho para o único cavalo sem cavaleiro. Maior que os
outros, bufou em protesto e moveu as orelhas enquanto seu mestre montava
com seu fardo. So soldado reuniu suprimentos. Um dos soldados de Beladine
recuperou a segunda espada de Anhuset que estava na grama e gentilmente
arrancou a outra dos dedos rígidos de Ildiko. — Precisa de ajuda para a
montaria, Alteza?

Ela balançou a cabeça. Ela não era muito boa com lâminas, mas podia
subir em uma sela sozinha.

Serovek olhou para ela quando se aproximou. — De quem é o sangue que


mancha suas mãos? Não é de Anhuset e não vejo nenhuma ferida em você.

— Fomos atacados na floresta. Esfaqueei um deles quando tentou me


puxar para fora do cavalo.

Um lampejo de diversão suavizou o rosto sombrio de Serovek. — Nobres


de Gauri com selvageria escondida. — Ele ajoelhou o cavalo. — Eu deveria
visitar Pricid um dia.

Livre da escuridão labiríntica da floresta, Ildiko recuperou seu senso de


direção e um pânico sufocante enegreceu as bordas de sua visão. Eles estavam
indo para Saggara!
Ela trotou até Serovek e levou o cavalo de Anhuset a frente para bloquear
seu caminho. O cavalo de Serovek bufou quando seu cavaleiro puxou as rédeas
para não trombar com o outro cavalo.

Ela ignorou o cenho de Serovek. — Temos que voltar para a ponte. Agora.
Para ajudar Brishen e os outros! Não podemos simplesmente deixá-los lá.

A expressão de Serovek se suavizou. — A batalha já terminou, Alteza.


Você precisa confiar em mim que o que estou fazendo ajudará Brishen. — Ele
apontou para um caminho invisível em algum lugar dentro das árvores. — Há
um santuário escondido não muito longe daqui, um velho templo ligado pela
magia para confundir os cães. Ficaremos lá por enquanto. Enviei mensageiros a
Saggara. Se o meu palpite for certo, teremos meus homens e mais Kai aqui pela
manhã. Ele gentilmente ajustou a inconsciente Anhuset em seus braços. —
Você viu o que aconteceu com o herceges?

Era impossível falar com as lágrimas que se alojava em sua garganta. Ildiko
engoliu várias vezes antes de responder. — Não. Ele estava no meio do combate
quando eu o vi pela última veze e isso foi apenas um vislumbre. — Por tudo o
que ela sabia, os Kai chegariam trazendo a notícia de que ele ou ela carregava a
luz-mortem de Brishen dentro deles. O pensamento sombrio tornava difícil
respirar.

— Não desista, Ildiko.— Serovek abandonou sua formalidade em um


esforço para confortá-la. — Eles não o matarão. Ainda não, pelo menos.

Suas palavras não fizeram nada para diminuir seu medo por Brishen.

As ruínas de Serovek os levaram a baterem contra uma suave encosta


rodeada de árvores. Ildiko não tinha magia própria, mas até ela sentia a presença
do poder ali. Os cavalos dos Beladine se recusaram a se aproximar. Acostumada
com o sussurro da magia que cada Kai possuía, não importa quão fraca, a
montaria de Anhuset fez seu caminho entre as pedras, despreocupada. Os
outros cavalos logo o seguiram.
Serovek fez sinal para os outros cavaleiros, sinais de mão complicados que
Ildiko não entendeu, mas que seus soldados entenderam. Três desmontaram e
sumiram nas sombras que circundavam o perímetro do templo. Os três restantes
juntaram os cavalos e os conduziram mais profundamente para o santuário da
ruínas para se abrigar atrás das paredes quebradas e os pilares. A distância, um
uivo familiar atravessou o luar. Ildiko estremeceu. Novamente não.

Ela seguiu Serovek que carregava seu fardo inconsciente através da porta
baixa de uma pequena capela dentro da ruína do templo. A escuridão interior
era tão espessa que podia ser engarrafada e o chiado de ratos perturbados
chegavam em suas orelhas. Ela saltou de lado quando um deslizou pelo chão
perto de seu pé.

— Ainda não tenho luz, Ildiko. — A voz profunda de Serovek era mais
vibração do que som. — Nós devemos esperar.

Ficaram no silêncio sufocante, ouvindo enquanto o sussurro das folhas


agitadas e pés correndo estalava perto. Cheiros longos e rosnados silenciosos se
juntaram a eles.

Ildiko apertou os dentes e tentou não respirar. Seus batimentos cardíacos


stavam tão altos em sua cabeça que tinha certeza que seus perseguidores
poderiam ouvi-la.

— Qualquer coisa? — Gritou uma voz na língua comum.

Outro respondeu. — Pegadas frescas, mas está uma bagunça e os cascos


são de cavalos Beladine, não Kai.

— Patrulhe, então. Estamos dentro do território Beladine, em Salure. Esse


bastardo Pangion pode nos pendurar em nossas próprias entranhas com uma
piscadela para nós. Suas tropas não serão muito amigáveis se nos encontrarem.
Vamos.

— Não quer procurar no templo?


Ildiko sentiu Serovek ainda mais tenso ao lado dela e suas respirações
pararam completamente.

— Porque se importar? Olhe para os magefinders. Eles estão apenas


gemendo e farejando. Provavelmente cheirando fezes de texugo ou veados. A
mulher está montando com um Kai. Se eles estivessem aqui, nós saberiamos.
Vamos continuar. Não estou muito interessado em encontrar uma patrulha de
qualquer maneira.

— Não estou interessado em encontrar essa Kai. Você viu o que ela fez
na clareira. Derrubou três cães de caça.

— Apenas significa que você precisa ter cuidado. Vamos.

Os minutos de silêncio se estenderam por uma eternidade até que a


chamada de um pássaro noturno soou fora.

— Eles foram embora. — Serovek falou baixo. Ruídos acompanharam o


comunicado. — Lá fora, Alteza, onde podemos ver as nossas mãos na frente de
nossos rostos.

O luar parecia o sol do meio-dia depois de seu tempo na escuridão


sepulcral da capela. Ildiko piscou e avistou Serovek enquanto se agachava para
colocar Anhuset suavemente no chão. A mulher Kai estava deitada, imovel, mas
seu peito subia e caia em ritmo fácil e Ildiko exalou um suspiro aliviado.

Serovek levantou-se. — Fique com ela. — Disse ele. — Preciso pegar


suprimentos do meu cavalo. — Fez uma pausa para dar instruções aos dois
soldados que estavam de guarda perto, antes de desaparecer na folhagem que
cercava os terrenos do templo.

Quando voltou, carregava uma pequena bolsa, um cobertor e uma garrafa.


Ele ficou ao lado de Ildiko que estava afastando o cabelo de Anhuset do rosto
dela. Ele pescou dentro da sacola e recuperou um utensílio de forma estranha.
No formato de diamante com um lado raso dobrado para dentro de todos os
lados, ele vagamente se assemelhava a uma colher, embora Ildiko não
conseguisse descobrir como esse objeto poderia adequadamente manter algo
nela.

— O que é isso?— Ela perguntou.

Serovek pegou a faca de seu lado e cortou os cordões da armadura de


Anhuset. — Uma colher de flecha. Se tivermos sorte, eu não terei que usá-la. —
Ele não falou mais e dividiu a costura o redor das escamas blindadas que foram
costuradas e cercou o eixo da flecha encurtado saindo do ombro de Anhuset.

Ele cortou a parte acolchoada e em seguida as roupas por baixo. Ele


colocou a faca de lado. — Irei levantá-la. Preciso que rasgue as roupas. Rápido
mas gentil. Consegue fazê-lo?

Ela concordou com a cabeçaa e os dois se puseram a trabalhar. Anhuset


estava ainda no abraço de Serovek enquanto Ildiko retirava a parte acolchoada
e puxava a camisa fora de seus ombros e longe do eixo de flecha. Serovek
colocou a mulher Kai em seu lado direito e inclinou-se para um olhar mais
atento sobre a ferida do ombro. — Acho que é uma flecha de bodkin. Não
posso confirmar até tirá-la. — Ildiko empalideceu e o sorriso de Serovek era
carente de humor. — Ela foi envenenada com marseret. Terei que trabalhar
rápido antes de retirar.

Ele cortou a calça de Anhuset enquanto Ildiko tirava as botas. Nua no ar


frio, sua pele cinzenta cheia de arrepios, ela estremeceu levemente. Ildiko cobriu
as pernas com o cobertor para calor e acrescentou seu próprio manto para
proteção.

Serovek tirou uma pequena vela de sua bolsa e acendeu uma chama do
pavio usando pederneira, aço e charcloth. Ele passou a vela para Ildiko. — Não
sou Kai para cortar feridas na escuridão, então mantenha firme e não deixe a
chama morrer.

Ele apagou a lâmina com o conteúdo da garrafa que trouxe de volta da


flecha. A fumaça subia como tentáculos na lâmina. Ele olhou para Ildiko cujos
olhos se abriram. — Fogo de Peleta. Bom para beber e mantém feridas longe
de infecção.

— Você bebe isso?— Ela ouviu falar do Fogo de Peleta. Nomeado pela
deusa dos dragões, derrubava qualquer um que ousasse provar sua cerveja.
Certamente algo que fazia fumaça no metal não era seguro para beber.

— Às vezes. Quando quero esquecer. — Serovek posicionou-se de modo


que Anhuset ficou recostada entre os joelhos, seu peito pressionado contra uma
de suas coxas enquanto ele apoiava suas costas com o outro. Ele derramou mais
da bebida sobre a ferida. Ildiko estremeceu, junto com a inconsciente Anhuset.
Enquanto a bebida pode furar metal, não queimava a pele.

As pernas de Serovek se dobraram contra a paciente, fazendo incisões com


a faca e alargando a ferida. Ildiko derramou o Fogo de Peleta sobre seus dedos
ensanguentados enquanto ele sentia a ponta da flecha. Anhuset não se moveu,
mas um gemido leve escapou de seus lábios.

Os ombros de Serovek caíram em evidente alívio. — Bodkin. — Disse


ele. — Não cabeça larga. Ruim o suficiente, mas mais fácil de remover.

O sangue escorreu em finas gotas abaixo das costas de Anhuset,


manchando a calça de Serovek enquanto trabalhava. O eixo da flecha se
destacava desde a ponta, mas ele conseguiu extrair a ponta da ferida.

Ildiko desistiu de sua capa para usar como ataduras. Serovek cobriu a
ferida com o musgo que tirou de sua bolsa e a amarrou com tiras cortadas da
saia. Eles repetiram o processo no quadril de Anhuset. Quando terminaram,
seus dedos arranhados começaram a se flexionar e relaxar contra a palma da
mão e o amanhecer dourou as bordas das árvores orientais com luz rosa.

— Ela ficará bem?— Ildiko dobrou o cobertor e manto mais perto


Anhuset. O tremor parou, mas sua respiração ficou mais errática.

Serovek levantou-se e enxugou o suor na testa com o antebraço. — Acho


que sim. Kai são difíceis de matar.
— Você os matou?

Sua boca se curvou. — Alguns. Nós temos invasores. Eles tem os deles.
Seu marido e eu lidamos com ambos porque eles cruzam cada um de nossos
territórios. É só uma questão de quem chega primeiro a eles. — Ele sentou-se
ao lado de Ildiko, agarrou a garrafa de Fogo de Peleta e inclinou-a para os lábios.
O primeiro gole o fez ofegar e tremer como um cachorro molhado, mas não o
impediu de tomar um segundo. Ele ofereceu a garrafa para Ildiko que balançou
a cabeça, preferindo não torturar seu estômago ainda trêmulo ainda mais.
Serovek lhe passou um frasco de água para que pudesse enxaguar o sangue de
suas mãos.

— Por que os cães não nos farejaram?— Ela perguntou.

Serovek colocou a garrafa entre eles e colocou os braços sobre os joelhos.


Seu olhar vagou para o rosto de Anhuset e ficou ali. — Eles o fizeram, mas sua
tarefa era caçar Kai, não seres humanos. A feitiçaria persistente aqui os
confundiu e deixou Anhuset difícil de detectar.

— Os seus manipuladores não sabiam que tal coisa poderia acontecer?

Ele encolheu os ombros. — Só se eles estivessem familiarizados com esta


terra ou fosse um Kai. Este templo está dentro de minhas fronteiras, mas é uma
construção Kai e uma vez foi adorado. Brishen me contou sobre isso há alguns
anos, enquanto compartilhávamos uma garrafa de Fogo entre nós e
reclamavamos sobre os caprichos de amantes voláteis. — Ele piscou para Ildiko.

Ildiko tentou sorrir com a ideia dos dois homens chorando sobre o ombro
um do outro sobre as mulheres, mas seus lábios se recusaram a obedecer. Ela
não conseguia tirar a imagem de sua mente dos traços de Brishen quando ele a
empurrou para Anhuset e gritou para que cavalgassem para a ponte. Ela viu a
morte naquele olhar brilhante – sua morte.

Ela piscou para lutar contra as lágrimas que de repente turvaram sua visão.
— Como você me encontrou e Anhuset?
Serovek inclinou a garrafa novamente antes de responder. — Um rumor
sobre a emboscada alcançou Salure. No momento em que eu despachei um
cavaleiro a Saggara para advertir os herceges, vocês já estavam no município de
Halmatus. Nós partimos para encontrá-lo, mas chegamos tarde demais.

Não adiantava pensar por quê, mas Ildiko não podia deixar de pensar em
como seu destino poderia ter sido diferente se tivessem esperado mais um dia
antes de deixar Saggara. — Eu me pergunto se este é o mesmo grupo que nos
atacou na rota comercial depois que Brishen e eu nos casamos.

— Provavelmente não. Essa tentativa falhou. Quem está movendo as


peças não quer falhar duas vezes. Eles celebrarão uma festa festa para qualquer
pessoa ou qualquer coisa com magia, para quem capturar um Kai. Uma arma
cara e muito longe dos meios de até mesmo os invasores mais bem sucedidos.
Eu suspeito que metade deste grupo não é Beladine, então eles estão trazendo
espadas de venda sem aliança, exceto para os sacos de moedas que lhes são
pagas.

Ildiko lembrou a breve troca entre Brishen e Anhuset quando a escuridão


da noite explodiu em clarões cegos de luz. — Eles têm um mago de batalha com
eles também.

Serovek franziu o cenho. — Isso será um problema quando recuperarmos


seu marido.

Quando eles o recuperaram, não se. Sua resposta certeira lhe deu
esperança, apesar de sua terrível previsão sobre o mago. — Você realmente acha
que Brishen ainda está vivo? — Ela esperava que ele estivesse. Seu marido era
um lutador formidável, mas quem sabia quantos invasores eles enfrentaram ou
a feitiçaria usada contra ele e os Kai pelo mago.

Serovek levantou uma das duas pontas de flecha que ele extraiu de
Anhuset. Revestida em sangue seco, sua ponta parecida com punhal e com um
brilho fraco. — Estas são pontas bodkins apenas derrubam. Se eles quisessem
matar Brishen – e você – imediatamente, eles teriam usado broadheads. Os
bodkins perfuram a armadura e derrubam cavalos, mas um homem atingido
com uma pode sobreviver por muito mais tempo do que se fosse disparado
com um broadhead. Se fosse o segundo, Anhuset teria morrido antes mesmo de
cair do cavalo.

Ele jogou a ponta da flecha para o lado. — Não tenho dúvidas de que
Brishen está vivo e prisioneiro. Sua fuga atrapalhou seus planos. Eles estavam
em melhor posição para forçar os Kai ou os Gauri a renegociar ou romper sua
aliança para salvá-lo. Eles têm apenas tem um de vocês agora, mas isso é
suficiente para começar as negociações por sua vida com a casa real Kai de
Khaskhem.

Ildiko quase começou a chorar. Sua mão tremeu quando ela pegou a
garrafa de Serovek de Fogo de Peleta. A bebida lhe queimou a língua e a
garganta, fez as lágrimas escorrerem por suas bochechas. Serovek arrancou a
garrafa de sua mão e a escondeu atrás das costas.

Ela enxugou seus olhos e deu uma risada amarga. — Então já está morto.
Nenhum de nós é de qualquer valor real para nossas famílias. O trono Kai é
garantido pelo irmão mais velho de Brishen e mais filhos do que você pode
contar com uma mão. Brishen é um sobressalente sem valor. Secmis vai virar as
costas para ele e seu marido vai segui-la.

Serovek olhou além dela para a sempre enveredada linha de árvores. —


Eu nunca a conheci e espero não conhecer, mas os boatos abundam. É difícil
acreditar que a Rainha das Sombras de Haradis deu à luz um homem como
Brishen Khaskhem.

— É difícil acreditar que qualquer coisa com uma alma saiu daquele útero.
— Naquele momento Ildiko odiava Secmis mais do que qualquer pessoa que
ela já conheceu.

— Quem em Belawat está pagando essas espadas não sabe que não há
amor perdido entre eles. Então temos tempo. Não muito. Apenas alguns dias,
mas o suficiente para encontrar seu esconderijo e resgatar seu marido.
Ildiko torceu sua túnica nas mãos. — O que eu posso fazer? Certamente,
há algo que eu possa fazer. — Ela odiava o desamparo, a falta de habilidades
marciais. O senso comum ditava que ninguém poderia ter previsto tais
circunstâncias para ela, mas o conhecimento oferecia pouco conforto.

Serovek se levantou e ajudou a levantar-se também. — Há, mas eu quero


a opinião de Anhuset primeiro. Os efeitos do marseret devem desaparecer e ela
despertará em breve.

— E as feridas dela?

Ele tinha olhos bonitos. Um castanho macio como torradas com manchas
de ouro irradiando das bordas das pupilas, eles brilhavam com um humor
constante. Ele era um bom homem, um guerreiro e sua atração por Anhuset era
palpável. — Você deve já conhecer a dureza de um Kai. Essas feridas não a
retardarão mais do que umas mordidas de pulgas. — Ele deu um tapinha no
braço de Ildiko. — Eu vou te trazer cobertores extras. Pode descansar ao lado
dela.

— Não consigo dormir. — Não havia nenhuma maneira de dormir, não


com Brishen lá fora em algum lugar, um refém de mercenários Beladine.

— Tente. — Disse Serovek. — Preciso de você alerta e aguçada mais


tarde.

Ela fez o que ele pediu e rolou para os cobertores que ele deu a ela. Ela
dormiu assim que seus olhos se fecharam. Parecia apenas um momentos antes
do som de vozes discutindo em Kai a acordar. Ildiko esfregou os olhos e olhou
para o casal se olhando, não muito longe de onde ela estava sozinha. Anhuset,
envolta em um cobertor amarrado em seu ombro bom, estava acordada e
discutindo ferozmente com Serovek.

— É uma boa idéia. — Disse ele e cruzou os braços.

Anhuset imitou suas ações, seus traços tensos. — Até que alguém a
derrube ou faça um buraco nela.
— Eu a vi lidar com seu cavalo. Ela é uma amazona. Pode fazer isso. Se
quer que isso funcione, ela precisa fazer isso.

— Brishen se sacrificou para salvá-la. Corremos o risco de fazer esse


sacrifício por nada.

Serovek soltou um suspiro frustrado. — Pare ficar tão ansiosa para matá-
lo. Ele não está morto! — Seu corpo ficou tenso quando uma Anhuset furiosa
se aproximou dele, com mostrando as presas.

Ildiko jogou de lado cobertores e saltou para seus pés. — Por favor. —
Disse ela. Os dois esqueceram a luta e se voltaram para ela. — Farei o que você
me pedir. Qualquer coisa. Desculpe, eu não sou um guerreira. Queria ser.

Serovek olhou para ela com uma expressão implacável. — Não


precisamos de outro guerreiro, Alteza. Precisamos de uma isca.

O sol evaporou a última névoa da manhã. Ildiko reclinou-se contra uma


das paredes do templo e tentou não roer as unhas com rapidez e preocupação.
Em vez disso, trabalhava para reparar os cordões na roupa de Anhuset e
observava como a mulher Kai andava de um lado para o outro lentamente, seus
lábios contra seus dentes enquanto ela olhava para Serovek.

— Isso está demorando demais. — Ela retrucou.

Sentado de pernas cruzadas perto de Ildiko, ele não se incomodou em


olhar para cima a partir de sua tarefa de afiar uma faca na pedra amoladora que
ele segurava. — Está demorando o tempo necessário. — Disse ele calmamente.
— Você pode muito bem sentar-se antes de fazer um buraco nas pedras.

Assim que terminou a frase, Anhuset ficou quieta, ouvindo. — Cavalos.


— Ela disse depois de um momento.

O raspado da lâmina na pedra parou quando Serovek se juntou a ela. —


Mas não há cães. — Disse ele. Um canto de pássaro atravessou as árvores e
Serovek respondeu com um semelhante. Ele se levantou e colocou a faca na
cintura. — Temos companhia e é amigável.

A ruína do templo logo foi preenchida com Beladines e guerreiros Kai


encapuzados e seus cavalos. Eles se dividiram em dois grupos, os Kai para se
reunir ao redor de Anhuset e Ildiko, os Beladine ao redor de Serovek. Um dos
Beladine curvou-se diante de Serovek.

— Achamos que descobrimos os invasores estão se escondendo. Algumas


cavernas não mais do que umas milhas ao norte daqui.

O lábio de Serovek curvando-se, desprezando suas palavras. — Eles estão


se movendo por meu território, pensando que é seguro.

Um dos Kai conversava com Anhuset e Ildiko. — Nós recuperamos


nossos mortos do outro lado da ravina. Dois caídos. Os invasores lutaram
apenas o suficiente para capturar o herceges e fugir.

Os ombros de Ildiko caíram. Ela olhou para Serovek. — Você estava


certo.

Ele assentiu. — Agora ele é mais valioso vivo do que morto. Apenas
precisamos descobrir quantos enfrentaremos quando o resgatarmos.

O soldado que deu o paradeiro dos invasores falou novamente. — Nós


capturamos um deles.— Ele gesticulou com um aceno de cabeça sobre seu
ombro quando as sobrancelhas de Serovek se levantaram. — Nós acabamos
com uma invasão em um campo inferior dentro de nossas fronteiras. Eles
massacraram a família que morava lá e roubaram as ovelhas e grãos. Nós
matamos todos menos um e os penduramos nas árvores como um aviso.

Ildiko fechou os olhos. Tanta matança e de duas pessoas que nunca


deveriam importar.

A multidão se separou quando um Kai empurrou um humano de joelhos


diante de Serovek. Um círculo rapidamente formou-se, enjaulando seu cativo.
Sujo, infestado de piolhos e salpicado de sangue, o homem olhou furioso para
Serovek antes de olhar para Ildiko, que recuou de seu olhar lascivo e dente
podres.

Um dos Beladine agarrou seu braço e empurrou a manga suja por cima do
cotovelo, revelando uma marca padronizada tatuada em tinta azul e verde em
seu braço. — Um dos homens do clã Dentes da Serpente. — Disse o soldado.

Serovek agachou-se diante do prisioneiro. Sua voz era suave, quase


amigável. Todos os cabelos na nuca de Ildiko subiram em advertência. — Você
percorreu um longo caminho para matar os fazendeiros por seu grão e algumas
ovelhas. Quantos de vocês estão se escondendo nas cavernas?

Os olhos do homem se afastaram. — Eu não sei sobre nenhuma caverna.


Nós só estávamos roubando porque estávamos com fome.

— Então vocês quatro partiram com um rebanho inteiro de ovelhas e um


vagão cheio de grãos? Vocês tem estômagos grandes.

— Por que você se importa? — O homem empurrou seus ombros para


trás e seu queixo para a frente. Seus olhos injetados de sangue reluziram. — Eles
eram apenas fazendeiros.

O tom suave de Serovek não mudou. — Porque eles eram agricultores sob
minha proteção e agora estão mortos. Vou perguntar novamente. Quantos de
vocês estão escondidos nas cavernas?

O homem apertou os lábios e recusou-se a dizer mais. Ele caiu de costas


com um suspiro quando Anhuset se lançou sobre ele, as garras apontadas.

— Ele vai falar comigo. — Ela rosnou em Kai.

Serovek impediu seu avanço com um braço. — Paciência. — Disse ele na


mesma língua. — Aqui, eu sou a lei e ela foi quebrada por assassinar e roubar
dentro do meu território.
Ele se virou para o invasor capturado e voltou a língua universal. — Você
está longe de casa e eu sei que não há Kai de onde você veio, então deixe-me
esclarecer. — O círculo de Kai e Beladine apertou-se ao redor deles. — Ildiko
era incapaz de sentir uma gota de simpatia pelo prisioneiro de repente pálido. O
sorriso frio de Serovek congelaria até mesma a chama de uma vela. — Há muito
tempo, os Kai caçavam humanos para comer. Se você se recusar a falar, irei
alimentá-los com eles. Pelo que sei, eles não se preocupam se sua refeição está
viva ou morta quando começam a comer.

Se Ildiko não estivesse acostumada com o sorriso Kai depois de meses de


vida juntos, ela teria fugido aterrorizada ao ver tantos sorrisos de presas que
brilharam nos rostos dos Kai depois da ameaça de Serovek.

O homem gemeu e logo perdeu o controle de sua bexiga. O odor pungente


da urina saturou o ar. As palavras caíram de sua boca, tão rápidas e gaguejantes
que Serovek teve que fazê-lo repetir várias vezes. Quando o interrogatório
terminou, todos sabiam o número de inimigos escondidos nas cavernas, quantos
magefinders permaneciam e em qual caverna estava Brishen.

Serovek se levantou e fez um gesto com uma das mãos. O assaltante foi
empurrado para seus pés. Ildiko engasgou enquanto o Lord Beladine se moveu
com uma velocidade deslumbrante. Um relâmpago de mãos quebrou o pescoço
do homem e ele caiu morto em uma pilha no chão. No tempo que levou Ildiko
a respirar, Serovek quebrou o pescoço do homem com um movimento rápido
e praticado. Ela balançou e agarrou o braço de Anhuset, atingida por tontura e
um zumbido distinto em seus ouvidos.

A mulher Kai pressionou uma mão de apoio em suas costas e se inclinou


para sussurrar em seu ouvido. — Força, Hercegesé. Brishen precisa de você.

As palavras fizeram uma magia que nenhum feiticeiro poderia imitar. A


vertigem evaporou-se e as costas de Ildiko enrijeceram-se. Ela se recusava a
olhar para o corpo imóvel aos pés de Serovek, não queria mais desmaiar.
O homem encantador e jocoso que ela conheceu pela primeira vez em
Salure e dançou em Saggara desapareceu. O implacável Lorde Beladine estava
em seu lugar, juiz e executor de qualquer um que cometia seus crimes dentro de
suas fronteiras. Ele cutucou o morto com o pé. — Leve-o de volta para a
fronteira e pendure-o nas árvores com os outros. Se eles não sujaram muito as
roupas, tire-as. Precisamos de suas roupas.

Ildiko confiava em qualquer plano que ele tivesse em mente, mas a ideia
de usar roupas de homem morto fazia sua pele se arrepiar. — O que faremos
agora?

O sorriso malicioso que ele deu a ela a deixou feliz por estar do mesmo
lado desse conflito em particular. — Brincar de bandidos. — Disse ele. — E
nem precisa cavalgar.

— Os nós estão apertados demais?— Anhuset puxou as tiras de tecido


que uniam as mãos de Ildiko.

Ildiko balançou a cabeça. — Não. Posso sair rapidamente deles se


necessário.

Eles ficaram dentro do esconderijo de um pesado arbusto e da sombra


nublada de afloramentos rochosos. Dentro do abrigo da floresta, Kai e Beladine
esperavam juntos enquanto Ildiko se preparava para agir como a isca que
Serovek precisava.

Suas roupas estavam rasgadas e imundas, os cabelos eram uma manta de


emaranhados selvagens, o rosto manchado de sujeira e traços de sangue seco.
Anhuset reforçou o olhar ao destruir pontos aleatórios da túnica de Ildiko. —
Eu ainda acho que esta não é a melhor ideia.

Ildiko encolheu os ombros. — Acho que Lorde Pangion está certo. Se


quisermos ter a certeza de entrar na caverna certa, sou a melhor forma de
conseguir.
— Brishen nunca me perdoará se você morrer durante minha vigilância.
— Anhuset amarrou um de seus punhais à faixa que cercava a cintura de Ildiko.

A pele da mulher Kai estava úmida sob as pontas dos dedos de Ildiko,
sinais de febre no rubor escuro em suas maçãs do rosto. — Acho que ele poderia
perdoá-la qualquer coisa, sha-Anhuset. — Ela disse suavemente. — Além disso,
não tenho intenção de morrer hoje.

A outra mulher olhou para ela em silêncio por vários momentos. — Uma
vez pensei que você fosse fraca. Eu estava errada. — Ela terminou de amarrar
a adaga no lugar. — Você está com medo?

Ildiko assentiu. — Aterrorizada.

— Bom. Ficará alerta assim.

Serovek se juntou a elas, acompanhado por um de seus homens vestidos


com as roupas de um dos mercenários mortos. — Pronta?

Ildiko exalou um suspiro trêmulo. — Tanto quanto posso estar.

O plano deles era simples. Eles descobriram que o invasor cativo não
mentiu sobre suas informações ao atrair alguns de seus compatriotas para fora
das cavernas. O homem de Serovek, agindo como um deles, a levaria diante
deles à vista, a mulher Gauri cativa que tanto ansiavam. Era tudo o que
precisavam dela. Todo soldado Beladine faria par com Kai, fosse na luz ou no
escuro, nenhum indefeso, enquanto o outro cobria suas costas. Eles iriam para
as cavernas, lutariam para entrar e sair novamente, esperançosamente com um
Brishen vivo.

O Crepúsculo envolveu o céu no momento em que Ildiko, que tropeçava


e chorava, seguia seu falso captor enquanto a sacudia por uma corda de chumbo
que atravessava a clareira em direção às cavernas. Seu estômago fazia
cambalhotas sob suas costelas e ela olhou através seus cabelos bagunçados a
abertura da caverna que parecia observá-los de um rosto sem olhos.
Ela bateu seu dedo do pé contra algumas pedras escondidas e caiu na
grama amarela de joelhos. O soldado que a conduzia afrouxou a linha. —
Alteza? — Ele sussurrou.

— Puxe a corda. — Ela sussurrou de volta. — Xingue-me. — Se ouvissem


sua pergunta, tudo estaria terminado.

O soldado puxou com força a corda, arrastando-a pelo chão. Ela gritou
quando cascalho raspou a pele exposta de seu lado e a corda arranhou seus
pulsos. — Levante-se, puta. — Ele gritou para ela. — Não tenho a noite toda.

Ela tropeçou em seus pés, conseguindo se levantar. Um movimento


chamou sua atenção. Duas figuras sairam de uma das aberturas menores da
caverna, cautelosas em sua aproximação, até que seu captor acenou e levantou a
corda. — Eu a peguei. — Ele gritou com uma voz triunfante. Exultantes gritos
responderam e as duas figuras tornaram-se assaltantes esfarrapados que corriam
em sua direção.

Sua celebração foi de curta duração. A emboscada que planejaram antes


sobre os Kai estava voltada para eles. Os guerreiros Beladine e Kai pulularam
da floresta e correram pela abertura da caverna. Ildiko pegou apenas vislumbres
de Serovek e Anhuset quando mergulharam na escuridão da caverna antes de
um guerreiro Kai levantá-la de seus pés e fugir com ela para dentro da floresta.

Desta vez, ela não lutou como fez com Anhuset. Esperou, livre de suas
obrigações, no meio de um círculo de guardas tensos, fortemente armados e
olhou para a caverna com olhos arregalados porque estava com muito medo de
piscar.

Estava completamente escuro e a lua iluminava a paisagem com uma


sombra prateada. Ildiko entrelaçou os dedos e rezou para os deuses que esperava
serem misericordiosos esta noite. Sua oração foi respondida quando os
guerreiros de Serovek e Anhuset sairam da caverna. Ela gritou, pés voando sobre
a grama frágil para eles.
Anhuset saiu de seu meio para pegar Ildiko sobre a cintura e girá-la ao
redor. — Nós o temos, Hercegesé. — Ela disse em uma voz apertada.

Ildiko agarrou os braços da outra mulher. — Onde ele está?

— Ildiko, ele foi torturado.

Seus joelhos cederam e ela caiu nos braços de Anhuset. O choque


rapidamente deu lugar à raiva. — Eu quero vê-lo. Agora. — Ela disse.

Anhuset assentiu e guiou-a através do fluxo de soldados até chegarem a


um pequeno grupo reunido perto da entrada da caverna. Serovek ficou de pé
quando ele a viu. Ele bloqueou seu caminho e sua visão.

— Você tem um estômago forte?— Ele perguntou. Ele parecia ainda mais
severo do que quando quebrou o pescoço do invasor. O sangue escorria da
espada que ele segurava e seus olhos escuros brilhavam como diamantes ao luar.

— Saia do meu caminho, Lorde Pangion. — Ela retrucou. Ele se afastou


e ela passou por ele para cair de joelhos ao lado da figura inclinada na grama.

Brishen estava deitado diante dela, quieto. Pelo menos ela pensava que
fosse ele. Um grito inchou em seu peito, entrou em sua garganta e penetrou em
seus dentes apertados, um grito de angústia desumano.

Anhuset não mentiu, mas também não explicou. O rosto de Brishen,


elegante, régio e sublime pelos padrões Kai, estava inchado além do
reconhecimento, manchado de contusões e cortes e lavado em sangue. Riscava
suas bochechas em tiras pretas rachadas que corriam de seu cabelo até o queixo.
Sua boca foi machucada várias vezes e a ponte alta de seu nariz estava torta e
inchada para duas vezes sua largura. Seu olho direito estava inchado fechado, e
onde seu olho esquerdo deveria ter estado; apenas uma pálpebra afundada sobre
um buraco vazio permanecia.

Ela bateu uma mão sobre a boca, mas se recusou a fechar os olhos.
Cicatrizes cobriam cada parte de seu corpo que ela podia ver e seu olhar
congelou em suas mãos. Eles não tinham parado com os olhos. Ildiko traçou
uma linha delicada sobre o dorso de sua mão esquerda. As garras letais que
podiam dividir um homem da garganta até o umbigo, mas provocavam sua pele
com o toque mais leve, foram arrancadas, deixando apenas tocos de unhas
maltratadas e sangrentas. Sua mão direita combinava com a esquerda.

Ildiko acariciou o ar logo acima de sua cabeça com uma mão trêmula, com
medo de tocá-lo, com medo de seu corpo batido e brutalizado se desintegraria
diante de seus olhos. Ela não sabia o que queria fazer mais – gritar sua angústia
ou gritar sua raiva. — Meu pobre amor. — Ela sussurrou. — Por quê?

Serovek falou atrás dela. — Achamos que o líder fugiu. Matamos todos,
menos uma meia dúzia, que dizem que podem nos dizer quem os contratou em
troca de misericórdia. O que você deseja fazer, Alteza?

Ildiko olhou fixamente para Brishen, para a subida superficial e queda de


seu peito enquanto respirava com dificuldade. Fedor de sangue e agonia. O
vento levantou uma mecha de cabelo e ela a pegou entre dois dedos. Estava
presa à sua pele, emaranhada de sangue. Ela não se importava que usassem
animais para desencadear sua selvageria.

— Mate-os. — Disse ela em voz baixa. — Mate todos.

Quando retornaram a Saggara, ela se trancou no quarto de Brishen e não


partiu por quatro dias. Ela banhou-se ali, comeu e vestiu-se. Exceto por breves
períodos de sono, ela não dormiu ali.

A pequena tropa de curandeiros que cuidava de seu marido entrava e


voltava, cada vez lhe diminuiriam as dores da terrivel experiência. Ildiko achava
irônico que a seiva venenosa usada para derrubar Anhuset servia a um propósito
mais misericordioso em afastar a dor de Brishen.

Ele dormia pacificamente, suas mãos enfaixadas descansando em seu


estômago. Mais vendagens cobriam as feridas de flechas em seu ombro e pernas.
Ildiko sentava-se durante horas em uma cadeira ao lado da cama, contente em
vê-lo. O inchaço diminuia lentamente, o sangue e a sujeira desapareceram. Sua
pálpebra direita pulsava enquanto dormia. A esquerda ela não podia ver. Um
pano branco envolvia aquele lado do rosto, escondendo o corte profundo que
corria de baixo de seus cílios inferiores até a curva superior de sua maçã do
rosto, demonstrando à brutalidade usada quando seus captores cortaram seu
olho.

O delírio não o atormentava e ele bebia os xaropes que os curandeiros lhe


davam sem acordar. Ildiko lia para ele às vezes e se aventurou com uma ou duas
canções antes que sua voz ficasse rouca demais para continuar. Anhuset
frequentemente a visitava, atualizando-o nas atividades diárias da fortaleza como
se estivesse sentado diante dela, acordado e exigindo informações.

Ela não ficava muito tempo. Ildiko sempre sabia quando Anhuset estava
prestes a sair do quarto. Suas mãos flexionadas em sua espada como se ela
quisesse nada mais do que matar os torturadores de Brishen uma segunda vez.
Ildiko sabia exatamente como se sentia.

— Você me chamará assim que ele acordar?— A mesma pergunta cada


vez antes de Anhuset sair.

— Claro. — Ildiko prometia cada vez que ela perguntava.

Não mais com medo de tocá-lo, ela acariciou o lado sem bandagens do
rosto de Brishen. Ildiko uma vez o admirou, nu e glorioso em sua cama dentro
de uma coroa de luz dourada e o considerou invulnerável. Como ela estava
terrivelmente errada.

— Isso nunca deveria ter acontecido, Brishen.— As lágrimas inevitáveis,


irritantes ameaçaram cair e ela piscou forte para forçá-los de volta. — Nós não
tínhamos importância, você e eu. Nós não deveríamos significar nada para
ninguém.

Um suspiro lento e profundo escapou de seus lábios e sua pálpebra direita


se abriu, revelando um olhar brilhante e iluminado. A voz de Brishen estava
rouca por desuso, mas ainda era clara. — Mulher do dia. — Ele disse
lentamente. — Você significa tudo para mim.

Nenhuma quantidade de piscar desta vez segurou as lágrimas de Ildiko.


Elas fluíram por suas bochechas para escorrer de seu queixo e para o ombro de
Brishen. — Príncipe da noite. — Ela disse em uma voz aquosa que ecoou outro
momento quando ela o cumprimentou com as mesmas palavras. — Você voltou
para mim.
Capítulo Vinte e Dois

Brishen era um homem que escolhia ver o bem em qualquer situação. Ele
ainda tinha descobrir sobre a perda de seu olho, mas descobriu sobre a perda de
suas garras. Enquanto a lembrança de sua tortura permanecia obscura, seus
dedos ainda pulsavam, às vezes, como se a lembrança de uma dor terrível tivesse
se incrustado em sua carne. As pontas dos dedos se curaram ao longo dos meses,
as garras crescendo lentamente em toda a pele exposta. Elas ainda estavam a
curtas – e cresciam bem devagar – mas ficavam longas e endureciam a cada dia.
Ele teria um conjunto completo de foices em ambas as mãos dentro de um ano.

Por enquanto, porém, ele se aproveitava de sua desvantagem desenhando


murais invisíveis nas costas nua e nádegas de sua mulher com as pontas dos
dedos sensíveis.

Ela estava deitada de bruços – na cama deles agora – a cabeça apoiada nos
braços dobrados, com o rosto parcialmente protegido contra o seu olhar por
mechas de cabelo vermelho. Ele estava deitado ao lado dela, fazendo desenhos
ao longo da graciosa espinha dela, até o par de covinhas que decoravam sua
parte inferior. Roçando sua pele com seu toque, o músculo se contraindo
involuntariamente enquanto seus dedos deslizavam sobre seu corpo.

Era um prazer sensual tocá-la desta forma, uma coisa boa que surgiu
inesperadamente de brutalidade. Ela não estava em perigo de ser arranhada ou
dilacerada e Brishen descobriu que os dedos com unhas curtas poderiam fazer
coisas que aqueles com garras não podiam. Coisas que fizeram Ildiko se
contorcer em seus braços e deixar marcas de unhas em seus ombros. Se ele não
dependesse da proteção que suas garras lhes davam, Brishen iria mantê-las
curtas apenas por isso.

Ildiko afastou os cabelos para olhar para ele.


— O que? — Ele perguntou. Parou de buscar repulsa em seu olhar
semanas atrás. Não havia nada para ser encontrado. Exceto os beijos simpáticos
que ela colocava em sua sobrancelha e pálpebra sem o olho, ela permanecia
imperturbável pelo seu rosto mutilado.

Ela o observava agora com uma expressão suavizada por languidez depois
do sexo. — Eu acho que me apaixonei por você durante o nosso casamento.

Seu comunicado enviou uma onda de euforia através de Brishen que o


deixou tonto. Sua mão parou em suas costas antes de deslizar acima entre suas
omoplatas para enterrar-se em seu cabelo. Cada ação sua, cada risada, cada
carícia falava de sua grande afeição por ele, mas esta era a primeira vez que ela
dizia que o amava. Uma educação na corte Kai lhe ensinou a controlar suas
emoções. Uma coisa boa ou ele iria agarrar sua esposa em um abraço de urso e
acidentalmente quebrar todos os ossos do seu corpo.

Ele se ajeitou para colocar um braço sob seu lado e arrastá-la mais perto
dele. — Demorou tanto tempo?— Ele brincou. — Você é difícil de conquistar
e eu tentei muito durante nosso primeiro encontro nos jardins.

Ildiko gaguejou. Sua perna deslizou entre os joelhos, subindo mais alto
para descansar contra sua coxa. — Chamar-me de bruxa não é o melhor jeito
de conquistar.

— Pelo que me lembro, você ameaçou bater meu crânio por causa da
minha aparência. E isso foi quando eu era magnífico de se ver. — Ele balançou
as sobrancelhas para ela.

Seu sorriso desapareceu quando ela não o devolveu. Ela traçou a crista
óssea de sua maçã do rosto, fissurado por cicatrizes infligidas por uma faca. —
Eles tiraram seu olho, Brishen. — Disse ela. — Não o seu caráter. Você ainda
é magnífico.
Seu controle não ia tão longe. Brishen gemeu e rolou para suas costas,
levando Ildiko com ele. Uma hora mais tarde, ele se afastou do abraço de sua
esposa e chutou os cobertores para longe de ambos.

Ildiko agarrou o lençol mais próximo. — O que você está fazendo?— Sua
pele brilhava corada. Brishen enrolou suas mãos sem garras em punhos para
evitar acaricia-la e perder mais uma hora.

Ele se sentou e balançou as pernas para o chão. — Minha mãe estará aqui
em breve.

Ildiko caiu para trás em seu travesseiro com um gemido. — Não me


lembre. Eu já avisei Sinhue para verificar as roupas de cama e guarda roupas em
ambos os quartos, uma vez que ela se for.

Ele não estava mais entusiasmado do que Ildiko quando um mensageiro


de Haradis chegou uma semana atrás para avisá-los da visita de Secmis. — Pelo
menos ela ficará aqui por apenas duas noites.

— Essas serão as duas noites mais longas de nossas vidas.

Ele não podia concordar mais.

Eles ajudaram um ao outro a se vestir no quarto silencioso. Os salões


abaixo deles eram um ninho de vespas de atividade frenética em preparação para
a visita da rainha. Brishen queria dizer a seus servos para deixar Saggara e visitar
a família, amigos, qualquer um por alguns dias. Secmis poderia cuidar de si
mesma. Ildiko ficou indignada com essa sugestão.

— Eu não serei conhecida como uma anfitriã rude, pouco acolhedora. —


Ela disse em uma voz que Anhuset disse a ele mais tarde que soou exatamente
como quando ela ordenou a execuções de seus captores.

Brishen escondeu o seu sorriso e rapidamente afastou longe a ideia.


Ele fez uma pausa em prender sua túnica quando Ildiko entregou-lhe o
tapa-olho que usava fora do seu quarto. — Achei que não gostasse que usasse.

A primeira vez que ele o usou, Ildiko recuou, alarmada. — Isso faz você
parecer cruel. — Disse ela com uma careta.

Ele ainda não descobriu como uma boca cheia de dentes pontudos ou
mãos com garras não a incomodavam, mas um tapa-olho inofensivo sim. Mas
ele queria agradá-la e o usava apenas se tivessem convidados ou visitando as
aldeias e vilas.

Ela encolheu os ombros. — Mas sua mãe vai aprovar.

Enquanto Brishen se concentrava nos desejos de Ildiko de destruir a


fortaleza e colocá-lo de volta novamente para a visita da rainha, ele se recusava
a planejar uma saudação de grande alarde quando ela chegasse. Se ele não
achasse que Secmis iria tentar tirar seu outro olho, ele iria fazê-la dormir no
estábulo. Em vez disso, seus soldados estavam alinhados em duas filas paralelas
e saudaram a rainha com suas espadas enquanto ela andava pelas portas com
uma pequena comitiva.

Brishen esperou no final, Ildiko ao lado dele, Anhuset do outro. Sua prima
falou em voz baixa. — Se tiver dança e me manda participar, te estripo enquanto
dorme.

A risada abafada de Ildiko aliviou o momento e Brishen sorriu para


Anhuset. — Não se preocupe. Se eu não tivesse que alimentá-la, eu não faria.
Dança seria apenas convidá-la para ficar mais tempo.

A visita foi tão insuportável como Ildiko previu, mas sua esposa
permaneceu imperturbável sob escrutínio de desprezo e observações críticas de
Secmis. Na verdade, ela ignorou a rainha, exceto quando para falar ou para
perguntar se suas acomodações eram confortáveis. Seu foco estava em Brishen
que contava os minutos para sua mãe finalmente ir embora de Saggara e os
deixar em paz.
Ele não perguntou se os Beladine tentaram negociar sua libertação com
ela, forçando a anulação do seu casamento. E Secmis permaneceu em silêncio
sobre o assunto também. Seu olhar curioso refletiu em suas características
alteradas e a forma como ele equilibrava um jarro de vinho contra o copo antes
de derramar.

A perda de seu olho não foi sem consequências. Do lado esquerdo estava
completamente cego, sem lampejos de movimento ou alteração nos tons de luz.
A primeira quinzena foi a mais frustrante e seu nariz sempre atrapalhava, a
sensação diminuiu ao longo do tempo, mas ele ainda tinha problemas com a
sensação de profundidade.

Subir escadas apresentou-se um desafio com o primeiro passo, mas o


ângulo de sua sombra o ajudava a sentir a profundidade de mudança e a altura
dos degraus. Descer a escada era outra questão, sua sombra de frente a ele e os
degraus eram nada mais do que uma descida suave, inclinando-se à sua visão
comprometida. Ele ainda mantinha uma mão na parede até que se ajustou à
regularidade da ascensão e queda dos degraus.

Ele se recusava a ser um inválido e assim que os curadores disseram que


estava bem o suficiente para sair da cama, vestiu uma armadura leve e juntou-se
Anhuset na arena de treino. Sua prima tratou sua aparência como nada fora do
comum. Sua paciência foi longa e sua simpatia inexistente com ele o ajudando a
reaprender as habilidades de combate como um lutador de um olho.

Brishen não mencionou nada disso para Secmis. Não duvidava de que ela
caiu na risada quando os Beladine apresentaram sua ameaça para ela. A morte
de seu filho mais novo era de pouca importância, sua sobrevivência e
recuperação menos ainda.

Paciência finalmente desgastada pela insistência constante de Secmis,


Ildiko se desculpou bem antes do amanhecer e fugiu para o santuário de seu
quarto. Brishen a deixou ir com um aceno educado. Se Secmis percebesse sua
afeição por Ildiko, ela tornaria as coisas difíceis para eles.
Secmis bateu uma garra na borda de sua taça e observou Ildiko desaparecer
na escada. Ela se virou para Brishen. — Então, ela ainda não é a amante do seu
vizinho Beladine?

Ele se perguntou quanto tempo ela levaria para começar as espetadas. —


Não.

Ela arqueou uma sobrancelha duvidosa. — Você tem certeza? Disseram-


me que ele é bonito para as mulheres humanas e mesmo a alguns Kai. E é claro
ele tem os dois olhos.

Segunda espetada, desta vez mergulhada em malícia. — Tenho certeza.

Secmis franziu a testa para sua falta de reação a seus insultos. — Você
ainda não me perguntou por que eu estou aqui.

Brishen encolheu os ombros. — Saggara é parte de seu reino e eu sou seu


cuidador, suponho que esteja agindo como emissária do rei. — Seja qual fosse
a razão para a visita, não é boa. Ele apenas tinha que esperar até ela revelar seu
propósito e se preparar para o impacto que teria.

Ela se esticou na cadeira, o lembrando de um grande gato ágil, faminto e


pronto para estripar qualquer coisa que se movesse. — Talvez apebas quisesse
visitar o meu filho mais novo.

Ele engoliu o vinho para evitar gargalhar.

Secmis continuou sua conversa unilateral. — Suas garras estão crescendo


novamente. Você não parece pior por sua provação, além da cicatriz e ser meio
cego. — Ela falou como se ele tivesse passeado bosques e batido o dedo do pé.
— Eu tenho filhos fortes. — Disse ela.

Quando você não está quebrando seus pescoços, ele pensou, mas
permaneceu em silêncio.
Seu sorriso de satisfação mudou, tornando-se algo que enviou um frio
rastejando para baixo em suas costas. Levou tudo dentro dele não se encolher
ou saltar do seu assento quando ela acariciou seu antebraço em uma carícia lenta.
— É uma pena que você seja meu filho. — Ela ronronou. — Você seria um
magnífico consorte.

Uma onda de bílis queimou sua garganta. Brishen agarrou o jarro, apoiou-
o contra sua taça e serviu vinho até tocar a borda. Ele esvaziou a taça em dois
goles. — Por que veio, Sua Majestade?— Nunca antes lutou tanto para não
revelar sua repugnância pela mulher que o deu à luz.

Seu olhar consciente avisou que ele poderia não ter sido tão estoico como
esperava. Ela colocou a mão no bolso de sua túnica e tirou uma pequena caixa
decorativa. Ela colocou-a sobre a mesa e deslizou em direção a ele. Ele reprimiu
o impulso de empurrá-lo de volta.

— Eu vim para trazer-lhe isto. É seu. — A rainha encolheu os ombros


indiferente. — Eu não tenho ideia do por que ele foi enviado para mim. Não é
como se eu fosse fazer alguma coisa com ele. — Ela se levantou, e ele ficou de
pé com ela e se curvou. — Você pode esperar para abri-lo quando sua esposa
estiver com você.

Ela andou ao redor da mesa e fez sinal para as duas servas que pairavam
nas proximidades, prontas para servir todos seus caprichos. — Não ficarei uma
segunda noite. — Ela anunciou. — Saggara não tem os confortos mais básicos,
camas incômodas, comida sem graça e pessoas ainda mais maçantes. Não há
necessidade de me acompanhar até os portões. Sairei mais cedo sem você e uma
tropa de soldados me acompanhando. Direi ao seu pai que você envia seus
cumprimentos.

Duas horas depois, Brishen suspirou de alívio quando Secmis e seu frupo
desapareceram no horizonte. A viagem seria dura para os condutores. A rainha
se abrigaria em um vagão protegido do sol por cortinas escuras. Sua escolta teria
que andar encapuzada e apertando os olhos por várias horas antes de
encontrarem alívio. Ele não os invejava.

Ele encontrou Ildiko ainda vestida com elegância de frente para as janelas
no quarto. Ela virou-se para cumprimentá-lo com um sorriso. — Ela optou por
não ficar? Graças aos deuses! — Ela literalmente pulou em seus braços
acolhedores. — Eu não posso acreditar que você é filho daquela mulher.

Infelizmente ele era, mas ele conseguiu em seu esforço não ser nada como
ela quando outros manifestaram a sua descrença de que eles estavam de alguma
forma relacionados. Sua pele se arrepiou novamente com a lembrança de suas
palavras. — Pena que você é meu filho. Seria um magnífico consorte.

— Eu pedi um banho. — Disse ele. — Preciso de uma boa esfregada, se


juntará a mim?

Ildiko assentiu ansiosa e viu a caixa que segurava. — O que é isso?

— Ela disse que veio aqui para me trazer isso.

Ildiko se afastou dele. — Talvez você deva colocar sua armadura antes de
abrir.

Ele tinha uma noção do que poderia estar dentro. A ideia de humor de
Secmis era geralmente a ideia de horror de oura pessoa. — Abrirei mais tarde.

Infelizmente, a curiosidade de sua esposa não poderia ser controlada. —


Você não vai me deixar ver?

Ele suspirou. — Não acho que seja agradável, Ildiko.

Ela franziu o cenho para ele. — Então você definitivamente não deve abrir
isso sozinho.

Ela esteve ao lado dele em eventos muito mais sombrio do que abrir um
presente de Secmis e aguentou a todos. Ela faria isso novamente.
Ildiko balançou quando Brishen abriu a tampa para revelar o conteúdo da
caixa e ela apertou seu braço. — Essa cadela. — Ela disse. — Essa vadia e cadela
horrível. Ela veio até aqui para afundar uma faca.

Brishen adivinhou corretamente e não hesitou quando viu o que estava


dentro da caixa de presente do Secmis. Seu olho, encolhido em um orbe ocre,
murcho, rolava para frente e para trás dentro da caixa como as pedras talhadas
de um jogo infantil. Ele colocou a tampa de volta na caixa e jogou a coisa na
lareira acessa. As chamas devoraram o recipiente, atirando faíscas famintas
contra as grades.

— Ela com certeza estava entediada em Haradis.

Ildiko fez uma careta para ele, seu tom irritado. — Como você pode não
ficar com raiva? Eu quero dar um soco naquela cara risonha. — Ela apertou a
mão esquerda e golpeou a palma da mão direita com um duro golpe.

Brishen a virou para que ela o encarasse totalmente. As mangas de seda de


sua camisa se amontoaram sob suas mãos enquanto ele acariciava os braços em
um gesto reconfortante. — Porque ela é previsível. Ela ainda tinha que fazer
alguma e eu esperava isso.

As lágrimas brilharam nos olhos de Ildiko e e ela piscou forte. — Ela teria
deixado você morrer. Sentada no trono como uma grande aranha inchada e
deixaria que o matassem!

— Lembre-se, esposa. Sou uma sobra, não tenho valor para ela.

Ela se lançou para ele e colocou os braços ao redor da cintura. Seus seios
macios pressionados contra seu peito enquanto ela o abraçava o mais forte que
podia. — Você é de grande valor para mim. — Ela disse contra sua túnica. Ela
levantou a cabeça, seus olhos ainda marejados. — Eu gostaria de poder matá-
los novamente, Brishen. Eu gostaria de poder matá-la.

Ele passou os dedos sem garras pelos seus cabelos antes de se inclinar para
beijar sua testa. — Eu te amo, minha bruxa sanguinária.
Ildiko fungou e ofereceu-lhe um sorriso fraco. — Isso é uma coisa boa,
porque terá que sofrer com um jantar mais tarde. Pensei que sua mãe estaria
aqui mais uma noite, então eu pedi que servissem batatas.

Brishen jogou a cabeça para trás e riu. Ele levantou Ildiko fora de seus pés
e girou-a.

Ela estava sem fôlego quando ele a colocou no chão e conseguiu sair de
seu abraço com um tropeço tonto. — Eu tenho algo para você também. —
Disse ela. — E não é uma parte do corpo. — Ela pegou uma bolsa de veludo
do baú no final da sua cama e entregou a ele. — O joalheiro do município de
Halmatus entregou juntamente com meu colar, enquanto você estava curando.
Eu esqueci disso até que Sinhue e eu estávamos verificando os armários por um
scarpatine escondida.

Brishen abriu o estojo e colocou o conteúdo na palma da mão. Ele


prendeu a respiração com a visão de uma pedra da metade do tamanho que a
mãe de Ildiko lhe deixou. Este foi cortada de quartzo citrino e tão brilhante
como o olhar de um Kai à meia-noite. Uma centelha laranja pulsava dentro
profundezas da pedra. Uma recolligere. Ildiko conseguiu encontrar uma joia de
lembranças. Ele olhou para ela. — Como ele conseguiu um desses?

Ildiko encolheu os ombros. — Ele disse que eram raros.

— Eles são. — Se esta pedra realizasse o que ele pensava, iria revisitar
Halmatus e a visita não seria amigável. — Ildiko, o feitiço usado para fazer estes
trabalhos é perigoso, imprevisível. Você não...— Ela assentiu com a cabeça,
confirmando seu medo. — Matarei aquele joalheiro.

Ildiko bufou. — Foi perfeitamente seguro para mim. A loucura das


lembranças afetam apenas os Kai e eu não sou Kai. Nenhum de nós pensou que
o feitiço funcionaria. Acho que ele ficou tão surpreso como eu por ter
funcionado.
Seus dedos deslizaram sobre os dele, sobre a pedra, hesitantes, inseguros.
Seus olhos estranhos imploraram para que aceitasse seu presente. — Se eu
morrer antes de você, não terei nenhuma luz- mortem para você levar para
Emlek. Esse recolligere tem uma das minhas lembranças. Você pode usá-lo como
uma alternativa, uma luz mais pálida.

Ela o fazia mais forte; ela o fazia mais fraco e neste momento, ela quase o
colocou de joelhos. Brishen a tomou em seus braços, segurando o recolligere em
uma das mãos. Ele beijou suas bochechas, têmporas, os cantos de seus olhos
molhados de lágrimas. Quando chegou a sua boca, ele fez uma pausa. — Não é
uma luz pálida. — Disse ele. — Mas uma radiante de uma mulher em cuja
presença eu nunca serei cego.

— Ame-me. — Ela sussurrou contra seus lábios.

— Sempre.
Epílogo

Em um quarto muito abaixo das salas públicas do palácio real, a rainha


Secmis arrancava do peito o coração de seu último amante e deixou cair em uma
bacia de estanho.

O sangue ainda bombeado em fluxos lentos a partir das artérias cortadas


no meio submergindo o coração em uma piscina carmesim. Secmis mergulhou
os dedos na taça e esboçou símbolos misteriosos sobre o corpo esticado na cama
encharcada. Ela falou palavras, nem proveniente dos Kai nem comuns, mas
aquelas que laceravam sua língua com cada sílaba pronunciada. Os sabores de
ferro e sal encheu sua boca e ela cuspiu entre as frases de modo a não engasgar
com seu próprio sangue.

O corpo massacrado do Kai se contorceu e tremer, enquanto os pulmões


expostos faziam o impossível e enchiam de ar.

Estava funcionando. Seu encantamento estava funcionando! Tantos anos,


falhou tantas vezes. Finalmente! Ela riu, um som alegre tão doce como uma
criança, tão louco como de um demônio.

Já não seria apenas a rainha de uma raça decrescente. Ela governaria todos
os reinos, todos os Kai e humanos. E ela faria isso por milhares de anos. Imortal,
nunca envelhecendo, a mais poderosa. A rainha da noite, em vez de uma sombra
fraca.

O poder que ela invocou estava adormecido por mais tempo do que até
mesmo as lembranças das luzes-mortem mais antigas de Emlek. O feitiço para
despertar matou muitos magos. Era necessário sangue e medo, lembranças e
inocência. Secmis pensou que tivesse o ingrediente final, quando ela deu à luz
uma filha – uma criança nascida, deformada e saída de seu ventre.
Ela rosnou, mesmo enquanto desenhava símbolos mais sangrentos no
corpo que se debatia. Secmis nunca descobriu quem levou a criança que ela
marcou para esta cerimônia, mas suspeitava.

Brishen era uma criança alegre e agradável. Sempre fazendo o que lhe era
dito, não se rebelava ou demonstrava qualquer ambição de substituir seu irmão
como herdeiro. Secmis notou seu caráter e prontamente se esqueceu dele.
Apenas quando ele ficou mais velho ela pegou indícios de uma força oculta, uma
vontade implacável e um ódio frio reptiliano que brilhava em seus olhos a
qualquer momento que ela encontrasse seu olhar.

Sua resposta a morte inesperada de sua nova irmã foi um encolher de


ombros antes dele retomar sua batalha simulada com Anhuset pelos corredores
do palácio. Ele deu a Secmis um grande e assustado olhar quando ela se
enfureceu com o desaparecimento da criança e bocejou durante todo o
memorial que realizou para ela.

Ainda assim, Secmis se perguntava. Seu filho mais novo era cheio de
camadas, muito mais complexo do que ela lhe deu crédito e muito mais
inteligente do que o herdeiro aparentemente flexível. Ele alegremente se casou
com a repulsiva mulher Gauri e resolveu levá-la Saggara sem reclamar. Ele não
confrontou Secmis sobre o scarpatine no quarto de sua esposa, preferindo fazer
as malas e sair. Ele a superou, obtendo a permissão de Djedor primeiro.

Sua rebelião tranquila de estratégica, manipulação e uma atitude serena.


Apenas o lampejo de ódio em seu olhar cada vez que olhava para Secmis o
entregava. Quando o mensageiro de Beladine transportando exigências para a
negociação de sua libertação entregou-lhe uma prova de sua captura, ela olhou
para aquele olho mutilado e viu a expressão estampada ali no fixo olhar amarelo,
monótono.

Sua tortura não o quebrou. Ela mesma viu. Cicatrizes e meio cego, Brishen
ainda governava Saggara com mão firme e impondo tanto o respeito e lealdade
feroz a seus seguidores. Secmis não mentiu quando lhe disse que ele seria um
magnífico consorte. Mas apenas se eles compartilhassem o poder e Secmis
estava cheia de dividir poder.

Ela completou a última etapa do feitiço. O Kai morto, um embaixador


menor da corte real, acalmou-se sob suas mãos. Sua boca ainda estava quente
quando ela apertou os lábios nos dele e expirou. Fumaça negra oleosa derramou-
se de sua boca antes de rodar pelas narinas. Seus pulmões se expandindo,
contraíram e repetiram o processo.

Secmis se afastou enquanto o morto se sentava. — Diga as palavras. —


Ela ordenou.

O discurso proferido era um que nunca foi falado pelos vivos e profanava
os mortos que o fizeram. Um frio úmido se instalou no quarto quando o homem
morto recitou palavras ininteligíveis que faziam feridas irregulares em sua pele e
criavam rachaduras nas paredes e teto.

Uma rachadura aumentou para uma união aberta das trevas ainda mais
espessa do que o que já existia. Saiu da fenda, grossa como o óleo da lâmpada e
cheirando a uma casa mortuária. Secmis riu e bateu palmas conforme o preto
viscoso escorria pelas paredes e pelo chão, silhuetas retorcidas com olhos
vermelhos se formando. Ela fez isso! Rasgou o véu entre os mundos e trouxe
uma legião invencível que só obedeceriam a seus comandos.

— Para mim. — Ela ordenou, estendendo os braços.

Eles foram para ela como ordenado, mas não como ela esperava. Uma
sombra escorregadia enroscou-se ao redor dela e a golpeou na garganta. Secmis
gritou, sufocando na lama espessa que a entidade forçava para baixo na sua
garganta. Ela arranhou o ar e tentou gritar. Mais das formas sinuosas se
envolveram ao redor dela, buscando lacunas na sua roupa, a cada entrada de seu
corpo até que ela não era nada mais do que uma marionete, um fantoche que se
mexia para um lado e depois o outro enquanto as sombras gritavam, riam e
saltavam.
Eles ficaram em silêncio por um momento, se soltando e se afastando para
longe da confusão grotesca de ossos e carne sangrenta que uma vez foi uma
rainha famosa por sua beleza e temida por seu poder. As formas sussurravam
entre si, acrescentando vozes sibilantes a voz do morto sem coração que ainda
proferia as palavras de uma língua envenenada.

A rachadura na parede se alargou, derramando mais dos fantasmas


demoníacos dentro do quarto. Eles rodeavam o Kai morto, ondulavam pelo
chão e rastejavam ao redor da porta, passando pelas fendas entre a parede e
moldura.

O Kai morto falou, mesmo quando os primeiros gritos dos vivos ecoaram
através das pedras.

Fim...

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