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Coleção

CLÁSSICOS DO PENSA.l\'lENTO POLÍTICO Sêneca/ Salústio


Volumes já publicados:
4. TRATADO SOBRE A CLEM~ NCIA - Sêneca
A CONJURAÇÃO DE CATILINA / A GUERRA DE JUGURTA
- Salústio
7. SOBRE O PODER ECLESIASTICO - Egídio Romano
8. SOBRE O PODER REGIO E PAPAL - João Quidort
9. BREVILóQUIO S OBRE O P RINCIPADO TIRÃNICO
Guilherme de O ckh a m
16. OS DIREITOS DO HOMEM - Thomas Paine
TRATADO SOBRE
19. ESCRITOS POLlTICOS - San Martin
24. MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA - K. Marx e
A CLEMÊNCIA
F. Engels
26. O ABOLICIONISMO - J oaquim Nabuco
40 . O SOCIALISMO HUMANISTA - "Chê" Guevara Introdução, tradução e notas d e
INGEBORG BRAREN
Próximos lançamentos: .
10. DEFENSOR MINOR - M arsílio de P á dua
TRATADO SOBRE O REGIMENTO E O GOVERNO DA
CIDADE DE FLORENÇA - G. Savonarola
A CONJURAÇÃO
12. O PRÍNCIPE - Maquiavel
13. D E CIVE - Thomas Hobbes
DE CATILlNA
14. DO CONTRATO SOCIAL/ SOBRE A ECONOMIA POLfTICA
- J . J . Rousseau A GUERRA DE JUGURTA
15. A TEORI A DO DIREITO / PAZ PERPÉTUA - I mmanuel
Kant
21. SOBRE A CAPACIDADE POLÍTICA DAS CLASSES lntrouução e ti:adução de
TRABALHADORAS - P. J. Proudhon ANTONIO DA SILVEIRA IVIBNDONÇA
22. SOBRE A LIBERDADE - Stuart Mill
23. REFLEXÕES SOBRE A VIOLJ!:NCIA - Georges S o.-el SBD-FFLCH-USP
25. FACUNDO - Sarmiento
ro
31. SOBRE O ESTADO ESTADO E A REVOLUÇÃO - Lênin
33. AS CATEGORIAS DO POLÍTICO - Carl Schmitt
35. O CONCEITO DE REVOLUÇÃO PASSIVA - A. Gramsci
1111111 ~lfll fl ~'~lllll llilllrl/1111
312967

P etrópo lis
1990
...

PRO ~MIO

I ,l. D ispus·me a escr ever a r espeito da clemência, ó Nero


César, para que eu, de certa forma, desempenhasse a função
de espelho 1 e te mostrasse a tua pessoa como a que há de. vir
para a maior de todas as satisfações. Pois, ain,da que o verda-
deiro proveito das ações esteja em tê-las realizado corretamente
e n enhuma recompensa digna das virtudes seja n ada além das
próprias virtudes, é bom inspecionar e andar às voltas com a
boa consciê ncia 2 e, depois, la nçar os olhos s obre esta imensa
multidão discordante, sediciosa e descontrolada - pronta para
se precipitar igualmente para a sua p erdição como para a alheia,
se romper o seu jugo - e falar consigo mesmo palavras deste
teor: í
2. "Será que por acaso eu, entre todos os mortais, agradei
e fui eleito 3 para desempenhar na terra o papel dos d euses?
Eu sou o árbitro de vida e de morte desta gente. Está em
minhas mãos a qualidade da sorte e da posição .que cabe a
cada pessoa. Por minha boca, a Fortuna anuncia o que desej a

1. Citar o espelho no 1mc10 d a obra já dá indicações do tipo de tema ou problema


que será. trntado. Servindo como espelllo para retra tar o soberano <um tipo de litera-
tura que os a lemães denomi nam F'iirsten.~piegell, Sêneca apresentará ou urna filosofia.
de Estado , ou uma ocorrência política ou uma personalidade política. P erderam-se
muitos escritos deste tipo de literatura JtfQt fl«crtÀStfl.ç:. Alguns escassos restos dela
deve r iam ser do conhecimento d e Séneca, cf. WICKERT , r.. "Princ .", col. 2222·2234;
ADAM, T . Clem. Prlnc. , p . 12'·19; GRIFFIN, M. T. Sen. a. phil. in pol., p. 148-149.
2 . Sêneca assimilara. o costume estoico de fazei· um exame de consciência sobre
todos os ev<'ntos que ocorriam durante o cUn. Conservou esta prática durante toda a.
sua. vida. Observava com a meticulosidade de um médico os sint.omas do estad o de
sua alma ou verificava, com satisfação, algum progresso moral. Cf. POHLENZ. M .
Die sto1L. p. :ns.
3 . Segundo observação d e J. Rwus Fears. a brevidade com que Sêneca abre o
discurso de N ero dá a entender qu e p retende evit.ar redundância->, já que no mundo
greco-romano era bastante difundido o conceitD de eleição divina do soberano. Cf . E'E.ARS,
.J . R . Nero as the vice-regent or t ho gods ln Seneca's De clementia. Hermes, Wiesbaden,
103: 486-496, 1975, p . 495.

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que se reserve a cada mortal. A partir de nossa r esposta\ p o- concedeu a príncipe nenhum, a inocência. Esta singular bon-
vos e cidades reúne m motivos de regozijo. Nenhuma r egião j a- dade não · p ôs a perder tua obra, n em encontrou avaliadores
mais floresce a não ser com minha aprovação e condescendên- ingratos ou maldosos. Adquiris te este reconhecimento : nun ca
cia. Todos estes milhares de espadas, que a minha Paz reprime, um homem foi tão caro a outro h om em quanto tu és ao povo
serão desembainhados a um simples aceno meu. Que 5 nações romano, seu único e duradouro b em.
conviria que fossem arrasadas até os alicerces, q uais as que
conviria que fossem transferidas, a quais se daria liberdade 6. Mas tu t e impus este u m enorme encargo. Ninguém fala
e de quais se arrebataria essa mesma liberdade, que reis se mais d o divino Augusto, nem d os p rimeiros tempos d e Tibério
tornariam vassalos e quais as c abeças que conviria coroar com César 8, n em, querendo imita r um m odelo, procura outro além
honras reais, q ue cidades se demoliriam e quais as q ue se cons- do teu: avalia-se o teu principado por esta prova. I sto teria
truiriam, tudo é da alçada do meu legal parecer. sido difícil, se a bondade não fosse natural em ti, mas ence-
nada de vez em quando. P ois ninguém pode sustentar uma
3. Diante de tantos poderes, nada me impeliu a suplícios máscara durante longo tempo. Muito cedo, as coisas fingidas
iníquos, nem a cólera, n em o ímpeto juvenil, nem a impru- recaem em sua própria natureza. Sob cada uma. delas existe
dência dos homens ou a obstinação que, muitas vezes, acab a alguma verdade e, como eu diria, brotam a partir desta sólida
com a paciência dos corações mais tranq üilos, n em esta arro- substância e, em seu devido tempo, desenvolvem-se em algo
gância n efasta de ostentar p oder por meio do terror, mas fre- maior e m elhor.
qüente n os grandes impérios. Embainhada, ou melhor, manie-
t ada, minha espada permanece junto de mim. Até o sangue 7. O povo romano enfrentava um grande risco, q uando lhe
mais humilde estou poupando com extrema parcimônia. J unto parecia incerto p ara onde se voltaria tua nobre índole. Agora,
a mim, todo homem, mesmo aquele a quem tudo falta, é agra- os votos públicos 9 estão em segurança, p ois não existe perigo
ciado com o nome de homem . . de que, subitamente, te esqueça s de tua natureza. Decerto, bo-
nança excessiva faz os homens vorazes, e as cobiças jamais
4. Mantenho minha severidade r esguardada, porém a cle- são tão moderadas que terminem com aquilo que aconteceu.
mência de prontidão. Assim, contenho-me como se eu tivesse Caminha-se d e grandes cobiças para maiores e os que foram
de prestar contas às Leis 6 que, do abandono e das trevas, cha- ao encalço de coisas inesp eradas se agarram às mais falsas
m ei à luz. Deixei-me comover p ela pouca idade de uns e pela esperanças. Todavia, hoje, a todos os teus cidadãos obriga-se a
muita idade de o utros. Recompensei a lguns por sua dignidade confessar que são felizes e que já nada mais se pode acres·
e outros por sua humildade. Todas as vezes que não encontrara centar às suas venturas, exceto que sejam permanentes.
n enhum motivo de compaixão, poupei por minha conta. H oj e,
se os deuses imortais me requisitarem uma prestação de contas. 8. Muitas razões levam teus cidadãos a esta confissão, ne-
estarei apto a apresentar-lhes o número total da r aça humana". nhuma outra é mais demorada entre os homens: uma segu-
rança profunda, contínua; um direito colocado acima de toda
5. César, podes anunciar galhardamente que todas as coisas injustiça; além disso, uma forma 10 de Estado que se mostra
que vieram confiadas a tua guarda e tutela são consideradas aos nossos olhos como muito satisfatória, E stado ao qual nada
seguras; que, por t eu intermédio, nada de mau se prepara falta para a liberdade 11 absolut a, exceto a licença de se d estruir.
contra o Estado, nem pela violência, nem em segredo. 7 Cobi·
çaste uma distinçã o bastante rara e que até agora não se 8. Cl. FAIDER , P. Op . clt., p. 32. "05 prim eiros tempos de 'l'i bé~io Ce»a r" seriam
uma contínuação da Tdac<e de Our o.
9. cr. GRIMAL, P . Lc d e cle=rilia ct la roytwté i.olnire do Néron . R EL, 4.9: 205-217,
4 cr. comentário de FA!Dl•,H., P . Mlnt roduction" . Tn: Sénêque, De la clém e11ce. Te-<to 1971, p. 214. O pi:esen te discmso constitui n. r.un•' Upat!o uotorum, ocorrid a n o Capit61'.o,
r evu accomp::umó d'uno ln t roduc tion, d'un commentaire ct d'un inciex omuium ucrl>orum . nas calendas d e J•melro de 56.
v. i; tre partle: t n troductlon ct texto <Gand el Paris, 1928), p. 19. Nostr o que aparooc
no texto nã o ó p lu ral maJes tâtlco. Trata-se da n ·spos t,a d a Fortuna e de .seu porta·vo:r..
10. Estas: p alavn:s parecem r ererh ·&c ctcllbcrndl!rTlcn tc ao discurso de Ner o, escrito
por &'<\eca, pr on unciado dia nte do senado , pur l1Casliio de sua po>.,~e. c:; f . Tac . Ann .
o imperador . . XIII,4; Suet. Ker_ 10,1. Con tudo, para Adurri, n p m m e>;$11 d e Nero d e respeita r a forma
5 A trndut•11o tonta r opr onuzir a construção anafórica do texto: quas qr.a$, republicana de governo serie. llnl p roJ'Lunc lam E"u to dt: acordo co m o que se esperava
qulbus . . . qulbus. quos . . quorum, qtiae . . quae . . _ . dele na et.-a.siâo. Suas p a la vras nuda ma ls erom elo que resq uícios da tradição republi-
6 C! . ADAM , T . C/cm. Prlnc .. p. 43. Esta é tL'lla predl.~pOS1ÇaO parn aplicar a justiça cana, ainda co m \1m e c orrente. mas que n~'º devem ser considerad as mais do que
mas n úo obrlgaçi'.lo de fazõ- lo. • . . . mera fórmula de ctL~curso. C!. ADAM, T. C:lcm . 7'd11c., p. 58.
7 N ec ui nec cle<m é e xpressão tecmca da hnguagem jur 1dlca, emµreg<:da mc taforl· 11 A liberdade nao ó vista come> a liberdade rep ublicana q ue permitia movimen·
comente cr. D 'ORS A . "Soneca nnle el tribunal de la jurisprndencia". l n : Estucttos sobre tar-sc em lim ltes f ixados pela politlcu . ra ll;zUlo e mornl , e participar da vid a polfücu.
Séneca. '8> Sem ana' csp:1 f'iola de filosofia. Madrid, Inst. Luis Vivés de Filosofia, 19G6, l\qui , a liberdade é u m:• condfç!ío, que te curn ctcr!za pelo interesse da segurança clD
p . 105 129, p . 117. cada um , porém só juridicamente. C!. WJO.K.ERT, L . "!'Tine.", col. 20S6.

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...

9. Entretanto, antes d e tudo, aos poderosos e aos insigni- com os quais se diferenciem. Em terceiro lugar, investigare-
ficantes, sobr evém-lhes igual admiração pela tua clemência; pois mos como a alma é levada à virtude da clemência como a
cada um sente e esper a m en ores ou maiores b ens de acordo consolida e a faz sua pelo uso. '
com a porção de sua sorte, porém da clemência t odos esperam
o mesmo quinhão . E não existe ninguém que esteja tão exaae- 1
radamente satisfeito com a sua inocência que não se ale~:e PRIMEIRA PARTE
p or estar a Clemência 12 à vista, preparada para velar sobre
os erros humanos. I. (II,1.) 1. P a ra que eu escrevesse acerca da clemência,
forçou-me, sobretudo, um único pronunciamento teu Nero
II,1. Sei, todavia, da exis tência de alguns que acreditam César. Lembro-m e, quando foi dito, de ter ou vido, não sem
ser a Clemência sustentáculo da pior classe de homens, visto admiração e, em seguida, de ter repetido a outros o pronun-
que, sem crime, é supérflua: é a única virtude que se r etrai c~amento gener oso, de grande alma, de grande brandura, que,
entr e p essoas inocentes. M as, antes de tudo, assim como o n a o tendo sido pre meditado nem proferido para ouvidos estra-
u so da m edicina é objeto de respeito entre os doentes e tam- nhos, brotou r ep entinamente e r evelou ao público a tua bon-
b ém entre os que gozam de saúde, assim a Clemência, em· dade em disputa com a tua p osição.
bora sejam os dignos de castigo que a invocam, os inocentes
também a cultuam. E depois, na p essoa 13 dos inocentes, ela 2. No momento em que ia condenar dois ladrões, Burro,
te m também o seu espaço, porque, às vezes, o acaso os faz o teu prefeito, h omem ilus tre e n ascido para servir-te como seu
tomar o lugar de um culpa do. Não é só a inocência que a c l& . 1
príncipe, exigia d e ti que escrevesses os nomes dos condenados
m ência socorre, mas, muitas vezes, a própria virtude, porquan- e por que m otivos querias a condenação. Ele insistia para que,
to, r ealmente, nas -condições de nossos tempos, ocorrem alguns finalmente, fizesses a quilo que era sempre postergado. Quando
incidentes que, embor a possam ser louváveis, são punidos. e le, constrangido, apresentara o documento e o entregava a ti,
Acrescenta a existência de uma grande p arte de homens que também constrangido exclamaste: "Gostaria de não saber es-
p ode riam ser r econduzidos à inocência, se os p erdoasse. crever!" 15
2. Contudo, não convém fazer u so trivial d o p erdão, pois, 3. Que pronunciamento digno! Que pudessem ouvi-lo todos
ao s up rimir-se a diferença en t r e o b em e o m al, a conseqüên- os povos que h abitam o Império Romano, cada um dos povos
cia é a confusão e a explosão dos vícios. Assim, deve-se acres- de duvidosa liberdade que se estendem ao longo de nossas
centar uma moderação que permita distinguir caracteres sa- fronteiras, cada um dos que se leva ntam contra o império com
dios de d oentios. E n ão é oportuno ter uma clemência pro- violência e paixão. Que pronunciamento digno de ser endereça-
m íscua e banal, nem uma clemência inacessível, pois tanto é do a todas as r euniões de mortais e em cujas palavras prín-
cruel p erdoar a todos qua nto a n enhmn. Devemos manter um cipes e reis d eve riam encontrar a fórmula de juramento! Que
padrão, mas como todo comedimento é difícil, tudo o que for pronunciamento digno da inocência uníversal do gênero huma..
além da eqüidade d ever á pender p ara o lado mais humanitário. no e ao qual seriam devolvidos os séculos primitivos!
3. P orém estas con siderações serão con1en tadas em luaar 4. Sem dúvida, agora, uma vez que se r em oveu a cobiça
mais apropriado. De momento, dividirei toda esta matéria :m do alheio, origem d e todos os m ales da alma, convinha pôr-se
três partes. A primeira tratará da gr ande humanidade de Nero. H d e acordo com a e qüid ade e o b em, fazer ressurgir a piedade
A segunda demonstrará a natureza e apresentação da clemên- e a integridade junto à lealdade e à modéstia, e fazer os males
cia, pois, como existem certos defeitos que parecem virtudes, praticados em longo período de soberania, finalmente, darem
não se pode separá-los a não ser que lhes demarques os sinais lugar a um século de felicidade e pureza.
II . (II,2.) 1. Apraz, César, esperar e confiar em que, em
12 Cf. EISEN"HUT, E . "Clementla". K ·P, 1979, v . 1., coL 1223. Por determinação
do srnodo !ol construido um templo pnra a deusa Clemênc ia e Júlio César, em que grande parte, isto venha a ocorrer. E s ta mansidão de teu espí-
nparoolom dnndo-so as mãos. N ado. restou deste monumento, sequer sa sabe sua tocali- rito se propagará e, paulatinamente, se difundirá por todo o
zuçl\o (ReCorl!ncla em Plut. C nes. 47 ).
13 Cf. CIZEIK. E . Nér., p. 361, persona, aqui, tem o sentido t.anto de papel de vasto território do teu império, e todas as partes reunidas se
ator, qunnlo de função social, como estnt.ulo de pessoa.
14 O problema de manumlsslonfs !oi lralndo às p. 23-33. 15. As mesmas po.lavrM Vellem litteras ncscirem' aparecem em Suet. Ner. 10,3.

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. ·-
configurarão à seme lha nça tua. t6 Da caib eça p r ovém a saúde conteúdo e , como eu diria, sua c onceituação se p erca. Pooe-se
que se espalha por todas as partes do corpo . Todas são vigo- dizer desta maneira: é a inclinação d o espírito para a b r an-
ros as e aprumadas, ou prostradas p ela d ebilidade, conforme dura ao executa r a punição.
vive ou fenece o es pírito delas. Haverá cida dã os e haverá alia-
d os dignos desta bondade e, em tod o o mundo, a retidão de 2. Esta outra definição encontrará objeções, emb o ra s e
costumes retornará. Por tuas mãos, poupar-se-á em toda parte. aproxime bastante da verdade, se dissermos que a clemência
é a moderação que retira alguma coisa de uma punição mere-
2. Permite que eu me delongue um pouco mais s obre este cida e devida. Reclamar-se-á que nenhuma outra virtude faz
ponto, não para b a jular teus ouvidos (pois nã o é este o meu a ninguém menos do que lhe é d evido. Mas, de qualq u er m a-
costume; eu prefe riria ofender com verdades a agradar adu- neira, todos entendem o seguinte: é a clemência que faz des-
lando). 17 Então por quê? Além de desejar que estejas o mais viar a punição pouco antes da execução que poder ia ter sido
f amiliarizado poss ível com teus bons atos e palavras, para que estabelecida por merecimento.
se torne preceito o que hoje é natural e impulsivo em ti, re-
flito comigo mesmo que se transmitiram na sociedade huma- II. (Il,4.) 1. Os inexperientes julgam a severidade como o
na muitas sentenças grandiloqüentes, consideradas verdadeiras contrário da clemência, mas jamais uma virtude é contrá ria
e vulgarmente célebres, mas abomináveis, como a famosa "Que a outra virtude. O que, pois, é o oposto da clemência? É a
me odeiem, - contanto que me temam" 18, que é semelhante ao crueldade, que nada mais é do q ue a d ureza de alma ao exe-
verso grego daquele que ordena à terra que se inflame quando cutar punições. "Mas existem alguns que não executam puni-
ele morrer, e outros ditos congêneres. ções e, contudo, são cruéis, como os que m atam p essoas des-
conhecidas com quem se encontram, sem nenJmm luc r o, so-
3 . . Não sei como, sobre um assunto tão medonho e desa- mente pelo pretexto de matar e , n ão s atisfeitos em mat á-los,
gradável, os talentos mais fecundos puderam expressar p ensa- seviciam, co1no os famosos Busíris 19 e Procru.stes 20, e os p i-
m entos veementes e vibrantes. Ao passo que, até hoje, sobre ratas que chicoteiam seus prisioneiros e os atiram vivos ao
a bondade e brandura nunca ouvi uma palavra arrebatada. fogo".
Então, o que ocorre? Mesmo em raras ocasiões, apesar de
contra tua vontade e com grande relutância, algum dia é ne- 2. Sem dúvida, isto é crueldade; mas, porque não a a com-
cessário escreveres algo que te leve a odiar as letras mas, panha a vingança (pois não foi ofendida) nem se enraivec e
como estás fazendo, com grande relutância e muitas hesitações. com o delito de outrem (pois nenhum crime a precedeu), es-
capa da nossa definição. Pois a definiçã o contL'1ha intemperança
de espírito no ato de atribuir penas. Podemos dizer que isto
não é crueldade mas ferocidade de quem tem prazer em sevi·
SE G UNDA PARTE
ciar. Podemos dar-lhe o nome de loucura, porquanto existem
vários tipos de insanidade, mas nenhuma é mais declarada do
I. (Il,3.) 1. E para que o vistoso nome de clemência por- que a que termina em massacre e dilaceramento de homens.
ventura nãcr nos venha a enganar alguma vez e nos desvie
para uma direção contrária, vejamos o que é a clemência, qual 3. Portanto, darei o nome de crue l à queles que t êm motivo
a sua natureza e quais seus limites. de punir mas n ã o têm nenhum a medida, como Fálaris 21, de
quem afirmam que seviciou homens, por cer to não in ocentes
A clemência é a temperança de espír ito de quem tem o porém numa dimen são que ultrapassa a medida do h umano e
p oder d e castigar ou, a in da , a brandura de u m su perior p e- d o adnússível. P odem os deixar de lado as cavila ções e concluir
rante um infer ior ao estabelecer a penalid ade. E mais seguro dizendo que a crueldade é uma in c linação do espírito para
propor m uita s d efinições para que uma só n ão contenha pou co
19. C!. W!DMAN . J. " Busiris". K·P. v. 1, co l. !J74. Segundo !end" grega, o r ei
16 . S<.'gUI!do observaçã o de Mo1·t ureux, esta é uma i m agem do conceito de poder e1n Bu:;i ris, q11e foi n batido po r H éxcules, sacrificava est rnngciros.
que o príncipe é r eduzido a. um papel moral. S eu comportamento serve unicamen te de 20 . Cf. G E ISAU , H . V . "Prokrus~" . . K ·P , v. 4, col. 1170. I'rocmstes e O Ultimo
exempl o e modelo para o povo. E uma concepçã o t alvez m a is otimísta, b astante m enos dos t:l tlnstros, m or to p or T esett a caminho de At~nas. Vivia. perto d e Atenas e ma.rti ri·
e:.taltada, m as seguram ente m ais afastada da dout rina estóica. Cf. MORTURE UX, 13. zava os passantes até a m orte. est;icnndo-lhcs cs 1nembros com seu martelo a té q ue
nech . S1<r clém ., p. 79. coubessem em smi imPo~u cam.'\.
. 17 Cf. T ac. Ann. XV ,61,l: "Nero e:<p ep.mentou n frnnqucza d e S êncca mais (re· 21. Cf. VOilKMANN , ll. "Phaleris". K ·P. v . 4 , c ol. 698·699. 'tirano que se tornou
q \ient em ente d o q ue seu servili~mo". fii111oso e lend ário por to rra r seus inlntigos d entro das ent!·~abas inc:;.tnrh:\.-:t"Pntcs ele um
:3. E sta ci tação do Atreu de Acio aparece em S en . De ira I ,20 ,4. t ouro de bron:ze.

44 45
coiSaS particula rmente duras. A clemência repele esta inclina- 4. A compa1xao é o sofrimento d a alma diante d o espe tá-
ção irnpondo-se conservar à distância; no enta nto, com a seve- culo das misérias alheias ou a t risteza causada pelos males
rid~e, combina-se bem com ela. alheios, que se acredita cair sobre os indivíduos que não o
merecem. Porém o sof rimento não abate um homem sábio.
4, Nesta altura, é pertinente investigar o que é compaixão, Sua mente é ser ena, n ada pode suceder -lhe que não p ossa en-
pois a maioria dos homen s louva-a como virtude e chamam frentar. E nada convém ao homem tanto como a grandeza d e
co·r npassivo ao homem bom. E ela é um d efeito de alma. Deve- alma; entretanto ela não pode s~r, ao mesmo tempo, grande
mos evitar cada uma d as a titudes que es tão colocadas nas e triste.
margens da severidade e nas margens da clemência. Pois com
a aparência de severidade incidimos na crueldade, com a apa- 5. O pesar esmaga, abate, restringe os pensamentos. É o
rência da clemência, na compaixão. Neste último caso, erra-se que não acontecerá ao sábio, mesm o n as suas desgraças pes-
corn um risco mais leve, porém é um erro igual ao dos que soais. Por outro lado, ele irá rechaçar toda a fúria do infor-
se afas tam da verdade. túnio e quebrá-la à sua frente. Conse rvará sempre a mesma
aparência calma e impassível, coisa que não poderia f azer se
1n. (11,5.) 1. Portanto, d o mesmo modo como a religião agasalhasse a tristeza.
honra os deuses, a superstição os ultraja, assim todo homem de
betn oferecerá clemência e m an sidão, e evitará a compaixão, por- IV. (II,6.) 1. Ac r escenta que o sábio prevê os acasos e tem
que é falha de um espírito pusilânime sucumbir à vista dos in- soluções prontas p ara eles. E jamais algo límpido e sincero
fortúnios alheios. Assim, esta atitude é muito comum entre os provém da p erturbação. A tristeza é inábil em discernir as
que estão nas piores condições. Existem velhas e mulherzi- coisas, refletir sobre assuntos úteis, evitar os p erigosos, avaliar
nhas 22 que se comovem com as lágrimas dos maiores crimi- p e rdas eqüitativamente. Logo, não s e d eve ter compaixão, p or-
nosos e que, caso fosse permitido, lhes arrombariam a porta que é coisa que não ocorre sem que h aja sofrimento de alma.
do cárcere. A ~ompaixão n ão observa a causa 23 do castigo mas 2. Quanto às d emais coisas que espero que os compassivos
infortúnio do criminoso. A clemência se aproxima da razão.
0 f açam, o sábio as fará com prazer e elevação de espírito. 25 •
2. Conheço a má r eputação 24 da escola estóica entre os Prestará socorro às lágrimas alheias m as não as acrescentará
inexperientes, que a têm como excessivamente dura e como in- às suas. Oferecerá sua mão ao náufrago, acolhida ao exilado,
capaz de vir a dar bons conselhos a príncipes e r eis. Reprova- esmola ao indigente, não esta esmola ultra jante, que a m aior
se-Jhe que, porque impede ao sábio ser compassivo, o impede parte destes que querem parecer compassivos arremessam, d es-
de perdoar. Estes preceitos, se colocados cada um de per si, denhando os que auxiliam e temendo ser contaminada por eles,
são odios os, pois parecem não deixar nenhuma esperança para m as como um homem dará a outro h omem a partir de b en s
os erros humanos e deduzir que todos os d elitos conduzem comuns. Concederá às lágrimas maternas a vida do filho e orde-
ao castigo. nará a sua libertação das correntes, r e tirá-lo-á da arena e sepul-
tará seu cadáver , mesmo se malfeitor; con tudo realizará estes
3. E, se assim é, o que há de verdadeiro numa doutrina atos com semblante inalterado.
que ordena desprezar o sentimento humanitário e fecha o mais
seguro refúgio, o do mútuo auxílio contra o infortúnio? Contu- 3. P ortanto, o sábio jamais se com padecerá, mas socorrerá
do nenhuma escola é mais b enévola e mais branda, nenhuma e ser á útil. Nasceu para a assistência comum e para o b em
te~ roais amor pelos h omens e maior atenção pelo bem comum público, do qual dará a cada um a s u a parte. Também aos
como a proposta de ser útil, de atender com seu auxilio aos infelizes, seja para r ep r ovar ou sej a p ara corrigir, estenderá
interesses não somente seus , mas de todos, e m geral, e de sua bondade propor cionalmente; mas aos verdadeiros aflitos e
cada um, em particular. aos esforçados trabalhadores, virá em s ocorro muito mais pra-
zerosamente. Todas as vezes que o s ábio puder, interpor-se-á
22 Cf. FAVEZ, C . Les oplnlons de SénêQuc sur la femmc . REL, 46: 335-345, 1938,
$36 Em Séneca, esta sensibil id ad e cega é atribuída à mulher porque ela se deixa aos golpes do infortúnio; pois onde empregará melhor os seu s
P ovér f.º r seu Instinto e não pela rnzão .
com:l3 C • FUIIRMANN, M . D lr All cln. u . Prob. der Gerech., p. 484. O fato de Sêneca
r ecursos ou suas for ças do que em r est a belecer aqueles que a
ligar 0 oto do clemência a umo cnusa leva à Escolástica e !los m estres do direito da
1111turCZ3
25 Em libens et altus animo faciet, tem os construção com abla t.ivo de p0nto d e
:24 sulUo , temível acusador de S(lnCCI\, ' 'ê no estoicism o do fil ósofo um meio de vista.
reunir riquezas Ver Tac. Ann XlU,42,1

46
47
desgraça abateu? De certo, não lhe fraquejará. o semblante, fórmula legal 21 porém segundo a eqüidade e o bem. E lhe é
nem o espírito, diante de uma p erna ressequida, ou diante da permitido absolver e taxar uma demanda em quanto quiser.
magreza e dos andrajos de um velho apoiado em cajado. De Destas coisas, nada faz como se fizesse menos do que é justo,
resto, será útil a todas as pessoas dignas e, segundo o costume mas como se o que estabelece fosse o mais justo. Perdoar,
dos deuses, deitará seu olhar favorável sobre todos os des- contudo, não é deixar de punir a quem se julga que deva ser
graçados. punido. O perdão é a remissão de uma pena devida. Em pri-
meiro lugar, a clemência gar~nte que, aos d ispensados, ela pro-
4. A compaixão 26 é vizinha da nnsena, pois tem e arrasta nunciará que n ada mais deviam padecer. Ela é mais completa
consigo algo d ela. Que saibas que são frágeis os olhos que se do que o perdão, mais honrosa".
derramam em lágrimas diante de uma inflamação d e olhos de
outra pessoa; que é c ertamente fraqueza e não alegria estar 4. Na minha opinão, esta é uma disputa de palavras. 2s Na
sempre a sorrir para os sorridentes e, também, a ab rir a boca verdade, concorda-se quanto ao fato em si.
diante do bocejo de todos. A compaixão é uma fraqueza dos
espíritos excessivamente apavorados com a miséria e, se alguém O sábio remitirá muitas punições, preservará inuitos d e
exigir compaixão de um sábio, estará bem próximo de exigir caracteres pouco sadios, porém curáveis. Imitará os bons la-
lamen tação e gemidos em funerais de um estranho. vradores que cultivam não somente árvores d e porte reto e
alto, mas também cuidam das que se entortaram por a lgum
V. ( Il.7.) 1. "Mas por que o sábio não perdoará a nin- motivo, aplicando escoras para endireitá-las . Podam à volta de
guém?" Estabeleçamo.s agora, também, o que é o perdão e sa- algun1as árvores para não tolher o crescimento dos galhos,
beremos que o sábio n ão deve concedê-lo. O perdão é a remis- adubam outras, raquíticas por causa do solo fraco, expõem
são de uma p ena merecida. Eu, tão r apidamente como se esti- ao céu as que sucumbem à sombra alheia..
vesse em julgamento de outra pessoa, direi o seguinte:
5. O sábio verá por qual método determinado caráter de-
"Perdoa-se a quem devia ser punido. No entanto o sábio veria ser tratado e de que modo as p erversões poderiam vol-
não faz nada do que não deve, não deixa passar nada do que tar-se para a retidão .
deve e, deste modo, não absolve ninguém de uma punição
que d eve exigir.
TERCEIRA PARTE
2. Mas aquilo que quiseres obter pelo perdão, o sábio te
concederá por um caminho mais honrado, pois poupará, re11e- I. (l.3.) 1. Em terceiro lugar, investigaremos como a alma
tirá e corrigirá. Fará o mesmo que se perdoasse mas n ão per- seria levada à virtude da clemência, como a consolida ria e a
doará, porque aquele que perdoa reconhece ter omitido algo faria sua pelo uso . w
que devia ter feito. A alguns, observando que sua idade p er-
mite recuperação, fará apenas admoestações verbais e não infli· (1 ,3.) 2. E necessano constar que, entre todas as virtudes,
girá castigos. A outro::;, que visivelmente padecem com o que nenhuma convém n1ais ver.daden·amente ao homem, já que ne-
há de repugnante em seu crime, ordenará que permaneçam in- nhuma outra virtude é mais humana, não só entre nós, que •
cólumes, porque foram ludibriados, porque cometeram o des- queremos o homem visto como um ser social, gerado para o
lize por causa do vinho. Devolverá inimigos ilesos, a lgwnas bem comum 30, mas também entre aqueles que destinam o
vezes até elogia.dos, s e for a m convocados para a guerra por homem ao prazer 3 t, dos quais todas as palavras e atos se
motivos honrados, ;orno em prol de uma fé juramentada, de volt am para seus próprios interesses. Portanto, se o homem
um tratado ou da liberdade.
27. Cf. _D'ORS, A._ "~eo. ante el trib. jur.", p. 12<1 . .E:m sub fornt1•/a temos o em-
prego da. h11guagem JUndica que se cxpre~sa. ilOr fórn1ulas.
1

3. Todas estê.ls coisas não são obras do perdão, mas da. 28. Cf. G RIFFIN , M . 'r. Sen. a ph.il. in ;>01 .. p. 147. F.sta é uma demonstração d a
impaciência de Sêneca, semelhante ao que ocorre em outras obras como, por exemplo
clemência. A clemência tem livre-arbítrio, julga não segundo De ot. 7,1. ,
2!~. Este trecho, Tertio loco . . . Jaciat, é a repetição do fim do proemio que não
consta do~ m:i-i1uscritcs e foi inserido aqui para dar conlinuidade ao ti·atactJ, segundo
26. Cf. GRlFl"IN, M. T. Sen. a phil. ín pol. , p. 156. A objeção de Sêoeca à mise r~ tese de Préchac. Ver p. 25, n . 68.
ricordia se deve ao fato d e ela ser uma forma d e aegrituclo que, sendo um ;tó.Oo;, 30 Cf. :BASORE, J. \V. "De clcmentlan. In: Sem. ten, p. :!64. Referência â respon·
o S(:~oiens não d eve sentir. sabílidade estóica do indivíduo para com a comunidade.
31. Cf. id., lbid., loc. cit- . Alusão ao epicurismo.

48 49
procure. o repouso e o lazer, alcança com essa virtu de o m á- d en t r o da terra_ n Do m esmo modo, esta imensa. multidão, r eu .
ximo d e sua natureza que ama a paz e refreia su a :mão. nida em torno d e um s ó se r viven te, governada pelo seu esp í-
3. Contudo, entre todos os homens, a clemência não con- rit o, dobrada pela sua r azão, será oprimida e d espedaçada pelas
vém a ninguém mais d o que ao r ei e ao príncipe. Assim, são suas próprias forças s e não for susten t ada pela sabed oria. 38
grandes as forças do decoro e da glória, s e o p oder for sau-
dável p ara elas, pois prevalecer-se do p oder p ara prejudicar II . (I,4.) 1. Porta nto, é a sua própria preservação qu e os
é força m aligna. J? Enfim, é fundamen tada e estável a gran- homens amam quando conduzem legiões, às dezenas, à b at a-
d eza daquele que todos sab em estar tanto a.cirna com o a favor lha a favor de u m só homem, quando acorrem às primeiras
deles; cuja preocupação, ao velar p ela salvaguarda de cada linhas de frente e apresentam o peito a os ferimentos para não
um, em particular, e de todos, em geral, se comprova diaria- d eixar retroceder as ins ígnias de seu imperador; pois ele é o
mente; quando ele se aproxima, não se dispersam todos, como vínculo, cujo poder intervém na coesão das forças públicas.
se qualquer animal daninho e nocivo tivesse saltado d e seu Ele é o sopro vital qu e arregimenta. estes t antos milha res que
covil, m as acorrem a pressura.damente, como para uma estrela por si mesmos n ada seriam a não ser ônus e presa de gue rra,
luminosa e benfazej a. Todos estão muito preparados para se se esta idéia de imp é rio lhes fosse retirada.
atirarem às pontas das espadas conspiradoras em sua defesa "Preservado o r ei, todos têm um único ideal. Perdido o
e, se o caminho .da sua salvação tiver de ser construído com rei, todos r-0mpem o compromis so de fidelidade". 39
despojos humanos , para pavimentarem -no com o próp rio corpo .
Guardam-lh e o sono com s entinelas n otu rnas, tendo obstruído 2. Tal queda será o fim da paz romana. 40 Levará à ruína
e ce rcado s eus flancos, defendem-no e inte rpõem as suas pró- o d estino de um povo tão grande, povo que se manterá afas-
prias vidas aos perigos que o a m eaçam. 33 t ado do perigo durante tanto tempo quanto souber suportar
4. Não é sem r azão que p óvos e cidades têm um consenso f reios , que, se alguma vez se romperem ou, se por algum aci-
como o de proteger e amar os seus r eis, expondo a si e a seus d ente, não se puder em susten~r os elos partidos, esta unidade
b ens tod as as vezes que a salvaguarda do governante o r equeira. e esta vasta r ede do enorme império se fragmentarão em
E n ão é menosprezo de s i mesmo ou d emência o fato de t antos muitas partes, e esta cidade ter á deixad o de dominar n o m esm o
milhares receberem golpes de espada em benefício de uma só mom ento em que 41 tiver deixado de prestar obediência. 42
p essoa e r esgatarem, com muitas mortes, uma só vida, que, às 3. Eis por que príncipes e r eis 43 , ou qualquer outro nome ""'
vezes, é a d e um ancião e de um inválido . que tenham, são os tutores 4s da ordem pública, n ão é d e
5. Da mesma forma como o corpo inteiro está a serviço d a admirar que sejam estimados muito além das relações de ca- •
alma 34 e, embora ele seja tão grande e vistoso e ela p erma- r áter particular; pois, se h omens sensatos colocam os interes-
neça sutilmente oculta e dúbia quanto ao lugar em que se ses públicos acima dos privados, s ucede que a pessoa mais
esconde, todavia as m ãos, os p és, os olhos trabalham para ela,
e a p ele a protege. Sob o com ando da a lma repousamos ou 37. e r . GUNDEL, H . F. "eurtlus". K-P, v. 1, col. 1:148. Quando no ano de 362 a .e.
corremos inquietos. Qua ndo ordena, se ela é um senhor ga- uma enorme e profunda renda se abriu no Forum, o o ráculo anunci ou que ela. se
fecharia somente se o m aior bem d e R-Orna lhe fosse ofer ecid o como sacrlf!cio. Espo·
·n an cioso, exploramos o mar por causa do lucro Js; se ela é reando seu can.lo, M:. Cúr cio a tírOu·se na fenda. S ua morte glo riosa teve rcsu!Lado o
p e rmaneceu como figura da lenda p op ular.
ambiciosa, sem perda de tempo apresentamos nossa m ão di- 3!1. Cf. MORTUREUX , '.B. Recll. sur clem., p. 79. É este u m conceito de poder
segundo a filosofia polltica estóica: a autoridade, que d omina o povo, retendo suas
reita às chamas 36 ou nos precipitamos , voluntariamente, para t'lndências anárquicas , contribuin do para ordenar o mundo, provém de sua p rópr ia gran·
deza e poder , que, por sua vez, pertencem aos deuses.
32 I déiu semelhante aparece em Sen. De ira l ,3,2: "para prejudicar, somos pO· 39 . Verso~ de Verg. Geo r. IV ,212.
dcrosos~ .
40. Cf. WALTZ. R . Vie ele Sénêque. Paris, Penin , 1909, p. 7"f·78 e n. 1. Uma revO·
33. ef. BÊR.ANGER. J. Pour une définition du prlncipuL. REL, 21·22: 1'14·154, 1943- lução republicana t raria grande perigo para Roma . pois conduziria a • guerras in tcstin:i.s
1944, p. 149. Esta idélo. é uma dívida da llngua filosófica no vocabulário militar. e à dissolução rápida da imensa unidade romana" .
34. Cf . .PITTET, A. Essat ct'un vocabuloire philosophlque ele Séntque. Paris, "Les 41 . No texto latino, temos q ui como fo rma de ablativo de quis.
Belles Lettres", 1937, p. 96. A alma, nesle passo, t em val o r de princípio de vida e 42 Ct. POEll.ENZ, M . D!e Stoa, p. 315. ESta r e!el'êncla revela que não se pen.sa
força v it al , acepção que não se encontra em Cícero. mais em liberdade como o maior bem político ou como um direito natural do hom em.
35 Com outras pulavras, o mesmo pensamento aparece em Sen. De B .V. 2,1. 43 . Cf. GRIPPIN, M. T. Sen. a phil. in p0l., p . 112·147. o emprego d o tem 10 r c:x
36 et. OR.OSS, W. H . ª M uclu.s". K ·P, v. 3, col. 1441·1445, co l. 1442. Alusão à está sondo dehõerndamente usado p ara ch3:mar a a tenção. Ver p. 53, n. 3.
lenda de M ucio Cévola. h erói da guerra do 507 a.e. contra P o r sena. Múcio havia pene· 44 . Cf. ld., ibid.• p. 146·1!57. Aqui, Griffin vê uma expressão d e impaciência e irriU.·
trado nn tenda ctruscn para mal.ar Porsenn , mas. equivocando-se. m atou o esc:rlvão do çlio para com os que atribuem demasiada importãncl.a ao sumrni f astigil uocabulum
rei. Ourante o lnterr~atórlo revelou seus propósitos e para reforçar sua coragem e (Sen. Ep. 73,1).
amor pela pátr1 a estendeu sua mão dir eita hs chnmas. Dai a expressão: et jacere et pati 45. er. id., 1bid., p 143: "'esla é a fórmula mais odmln í..-el que ocorreu ::;. S ênec:i
fortla Romanum est ( Llv . 2,12,9). parn dcscnver a necessidade de um prlncipudo em Roma".

50 51
querida é também a que personifica 46 o E stado. Com efeito, um pode matar em desacordo com a lei; salvar uma vida em
outrora César se investiu do poder estatal de tal modo que desacordo com a lei, ninguém pode exceto eu"?
n enhum poderia ser suprimido sem a destruição do outro. Por _5. Um grande destino fica b em a uma grande alma, que,
conseguinte, tanto é necessário a força para um, quanto a ca- a nao ser que se tenha elevado até ele e permanecido em nivel
beça para outro. elevado, é conduzida também a. um nível contrário, abaixo dele.
IlI. (I,5.) 1. P arece que meu discurso se afastou bastante É próprio de grande a lma ser calma e tranqüila, e olhar de
de sua proposta mas, sem dúvida, persegue seu próprio obje- cima as injúrias e ofensas. Cabe à mulher perder a cabeça de
tivo; pois se, como até agora ficou demonstrado, és a alma raiva; mas é próprio de animais ferozes, e certamente d os de
do Estado e o Estado é teu corpo, podes ver, como espero, não boa raça, morder e estraçalhar as vítimas prostradas. Ele-
quão n ecessária é a clemência; pois é a ti que poupas, quando fantes 49 e leões 50 p rosseguem seu caminho por entre os que
pareces p oupar a outro. Assim, devem-se poupar cidadãos, abateram; a obstinação é própria do animal ignóbil.
mesmo os condenáveis, n ã o diferentemente dos membros en- 6. Cólera brutal e inexorável n ão fica bem a um rei, pois
fermos e, quando for necessário sangrar, deve-se conter o gume não o eleva muito acima daquele a quem se iguala ao irritar -se.
para a incisão não ser mais profunda que o necessário. Ao contrário, se concede a vida aos que estão em perigo e se
2. Portanto, como eu -estava dizendo, a clemência existe confere dignidade aos que têm merecido perdê-la si, faz aquilo
certamente em t odos os homens de acordo com a n atureza que a ninguém mais é permitido fazer exceto ao que tem o
deles; todavia é especialmente honrosa nos imperadores; quan- poder sobre todas as coisas, pois até mesmo a um superior
to mais haja o que preservar por meio destes, tanto mais apa- arrebata-se-lhe a vida, mas jamais ela é concedida a não ser
rece em grandes materializações. Como prejudica p ouco, d e a um inferior.
fato, a crueldade de um cidadão particular! A sevícia dos prín- 7. Salvar é próprio de um destino privilegiado, que nunca
cipes é uma guerra. deve ser mais admirado quo quando lhe ocorre o mesmo que
aos d euses, por cujo favor somos todos trazidos à luz, tanto
3. E ainda que h aja harmonia entre as virtudes e uma os bons, quanto os maus. E, assim, atribuindo a si mesmo
não seja melhor ou m ais honrada que outra, sempre determi- o espírito doo deuses, que o príncipe contemple, entre os seus
nada virtude é mais adequada a certas pessoas. Grandeza de cidadãos, a alguns com prazer, porque são bons e úteis, e
alma convém a todo mortal, mesmo àquele abaixo do qual não a outros os deixe fazer número. Que se alegre com a. existên-
existe nada, pois o que é maior ou mais corajoso do que en- cia daqueles e que tolere a existência destes.
frentar a má sorte? E, contudo, esta grandeza de alma ocupa
um espaço mais amplo na prosperidade e é mais visível na IV. (1,6.) 1. Considera que nesta cidade, em que a multi-
tribuna d o que ao rés do chão .~ dão, escoando em fluxo ininterrupto pelas ruas mais amplas,
se esmaga toda vez que en contra algum obstáculo a barrar seu
4. A clemência conserva-rã feliz e tranqüila qualquer casa curso rápido como uma torrente; em que, ao mesmo tempo,
em que tiver entrado mas, no palácio real, ond e é mais rara, três platéias-de três teatros 52 aguardam a chegada do p ú blico;
mais admirável será, pois, o que é m ais ad..rnirável do que ver
o homem , cuja cólera não encontra nenhuma oposição~. cujos 49 C!. Plin. Nat. 8,7,7 § 23: •·contra os mals fracos, é tanta a clemência do elefante
que ele separa, com a tromba. os onlmals que estão à sua frente para não esmagá-los
veredictos, mesmo os mais pesados, são aprovados pelos que imprudentemcn~. Não fazem mnl, a não ser se provo-cados. E, como andam sempre
vão morrer, a quem ninguém interpelará, ao contrái-io, a quem cn: manadas, suo os menos solitários de todos oi< 1mimuis. Cercados por uma cavalaria,
reunem no centro os doentes e o~ cnfermos, e depois atacam como se fossem dirigjdos
ninguém sequer suplicará, se a violência o arrebatou, que con- por um comando ou umu rnzüo".
50. Cf .. Plin. Nat. U,l:J § 41:: "Entre o.s ter~. somente o leão demonstro. clemência
trole sua mão e empregue seu poder para melhores e mais pelos suplicantes. Poupa os prostrlldos. Quando ntacn, roma antes contra os homt.'l'lS do
p acíficos fins, pensando consigo mesmo no seguinte: "Qualquer que contra as mulheres, u não l\lnca as crianças a não ser em caso de mu.ita :r:on1e".
51: ~ m!!ntis am!ttere, temos emprego de infinitivo como complement.o nomltlal
de .adJctiyos ligados a verbo. Ct. ERNOUT, A. &. THOMAS, F. SynUJ:te lattne. 2·; ed.,
Pal"ls. KJrnc.ks1eck. 1972, p. 269·270.
46 Ncsle p1LS>iO: irt qucni .se res p. conuerti~. o verbo "personüJcnr" parece 1opro· . . 52. Cf. CONDE GUERRI, E. La socledad rcmi.ana en Séneca. Dcp. de publ Univer-
duz1r melhor o pcl'\S<lmento de Sêneca. Seu emprego aqui ~e deve a um empréstimo s·du.d de Murcia. 1979, p. 341·344. Súo o teatro de Pompeu. edilicado em 55 a.e .. prl-
da tradução de Préchac, rr. MN1:QUE. De la c!em .. p. UJ. men-o teatro estável de Roma, de pedra, e o teatro de L. Cornélio Balbo fambénl de
47 cr. D'ORS, A. •seu. ante e! trib. jur.". p. 117. fa trib1mali quam in TJlrmo t• pedra, locaJjzado perto do Tibre. e alnd1• o teutro de Murcelo, iniciado po~ J'lilio CÉSar
expres.são técnlro. de caráter Jurlcllco. e conclu.ído por Aug'U!!lo. Ol> trê.s teatros estavam localizados próximos um do outro
48 Alusão U() procell•O dr .t\gTitlinn. d. Tac. Ann. Xlll,19-21. o que! deveria facilitar o acesso do povo que all r.P concentrava. •

52 53
em que se consome o produto de toda terra arável, quanta voram. com um b arulho repentino, nem mesmo aquele q ue
solidão haveria e quão deserta seria, no f uturo, se não restasse conturba tudo.
ninguém além d os absolvidos por um juiz severo.
Aos cidadãos p articula res, q uando se vingam o bstinadamen-
2. Quão pequeno seria o número dos investigadores não te, é mais fácil perdoar, p orquanto s ã o passíveis de ser lesados
colhidos pela mesma lei pela qual fazem a investigação? Quão e seu r essentimento provém da injustiça. Além do mais, e les
pequeno seria o número de a cusadores isentos de culpa? E não, temem o desprezo, e n ã o ter retribuído aos ofensores p assa
sei s e não seria mais relutante em da r perdão aquele que, p or fraq ueza, e não por clemência. Ma.s aquele a quem é fácil
muito maís freqüentemente, precisou p edi-lo. vingar, tendo deixado de fazê-lo, obtém o sólido renome de
complacente.
3. Todos nós peca.mos, a lguns de maneira grave, outros
mais levemente, alguns deliberadamente, outros p or um im· 4. Os que estão em posição humilde têm maior desem ba-
pulso casual ou levados pela maldade alheia. Permanecemos raço em forçar a mão, pleitear, correr para as r ixas e deixar-se
pouco resolutos em n ossas boas resoluções e, entre constran- arrastar pela sua irritação . Entre pessoas iguais os golpes s ão
gidos e reticentes, perdemos a nossa inocência. Não só estamos leves. Mas, para um rei, até uma alteração de voz e falta de
cometendo erros, como também os cometemos até nosso der- c omedimento de p ala vras não são m a jestáticos.
r adeiro dia.
VI. (!;8.) 1. Consideras grave priva.r os reis do arbítrio de
4. E m esmo se a lguém purificou sua alma tão b em que falar, arbítrio que os m ais humildes tê m. " Isto'', dizes, ''é uma
.nada mais possa perturbá-la ou enganá·la, todavia não chega s ervidão e não poder imperial". E ntão? Não percebeste que
até a inocência a não ser pecand o. · isto é uma nobre servidão para ti? S4 Outra é a condição dos
V. (1,7.) 1. J á que fiz m enção aos d euses, seria ótimo que q ue se escondem n o meio da multidão de onde não sobressae n1,
e u estabelecesse um m o delo. de formação de príncipe que quí- cujos valores lutam durante muito tempo para que apareçam
sesse ter p ara com os seus súdítos as m esmas disposições que e cujos defeitos os mantêm nas trevas. A opinião pública re-
ós deuses têm para c om ele. Há proveito, pois, em ter divin- colhe t odos os vossos a tos e palavras e, por esta razão, nin-
dades implacáveis diante d e nossos pecados e erros? Há pro- guém deve preocupa r-se mais com a qualidade de sua reputa-
veito e m tê-los hostis até n ossa final destruição? E que rei ção do que aqueles que hão de tê-la g rande, qua lquer que seja
estará seguro de que a rúspices 53 não venham a recolher seus o merecimento que tenha m tido.
restos?
2. Quantas coisas não te são p ermitidas que, graças a ti,
2 . E, se os deuses, que são pacíficos e jus tos, não perse- n os são permitidas! 55 Posso caminhar sozinho, s em temor, em
guem imedia tamente os delitos dos poderosO's com seus raios, qualquer parte da cidade, embora n enhuma escolta me acom-
·quão mais j usto seria que o homem, colocado como preposto p a nhe, embora não tenha n enhuma espada em minha casa,
dos outros homens, exe rcesse o comando com espírito meigo n em em mínha ilharga. Mas, tu, na P az que criaste, deves viver
e refletisse sobre qual d os dois a spectos do mundo seria mais armado . Nào podes afastar-te de tua sorte, ela te bloqueia e
a.gradável e mais b elo a seus olhos: quando o dia é sereno e t e persegue com grande aparato em qualquer lugar que desças.
claro, ou quando é sacudido por incessantes trovoadas, e re-
lâmpagos fa íscam aqui e acolá! E a aparência de um império 3. Esta é a servidão de suprema g rande:.Ga: a que não pode
tranqüilo e bem estruturado outra coisa não é s enão a de um tornar-se menor; porém esta mesma servidão é com um a os
céu sereno e brilhante. d euses e a ti. Porquanto o c éu os mantém p1i.sioneiros e n ã o
3. Um re inado cruel é perturbado e obscurecido por trevas, lhes é dado descer m ais vezes d o que a ti, por razões de segu-
não p ermanecendo inabalado, entre os q ue tremem e se apa- rança. Estás preso à tua proeminência.

53 Cf . ERNOUT . A. & MT>; O .LET, A . Dicl. étym ., p. 58. 2R9·299 e 639. Horuspe.x:, !'>4 . C f. ADAM, T. Clcm. Princ. , p . 27. Adam inLurpreta. nol.>ilis .~eruitus como traclucãe>
·íeis. m .. é a quele q ue exumino. ;os cntr:mhas das vítimas , ao contrário de auspex, que •fa conhecida citação da llntigono GOnatas eüõoÇoc ôov/.ti(l. A cêtir.a reconiem.ta.çâ.()
tixnmina os vôos dos pá.q$uros. O primolro tem10 da palt\VTS llarus pP-x slcnifica vlsccrus, tl~ An~ígono a.o filho e&:larece que toda gl6rla dí.vi~1a o u endeusnml!nto do go vexnsnte
ao pa~s<.> que o .segundo lermo provém do verbo s pecio, ·ere. Con!orme Préchac. em notu.
I• suo. trndução ccr. p . 21 , n . 1 >. Jüpil c r castii;nva os crimes dos soberanos com ""IL~ u uve perroenece.r·lhc sfssladn e d asconhee:di..
rnlos. Os arúsplCilS recolhiam e ex:1mína\'llm os restos d as vitimas. 55 . Mesmo Upo d.e rc:>trição apuece em S<'m. Ad l ' ol. 7,2.

54 55
4. Poucas p essoas percebem os nossos movimentos; a nás ramente o flanco do cônsul Marco Antônio e já tinha sido seu
é lícito sair, entrar, mudar nossos trajes sem o conhecimento colega de proscrições. s-~
público; a ti não é dado esconder-te mais do que ao s ol. Existe
muita luz à tua volta, para ela convergem os olhos d e todos 2. Contudo, quando tinha ultra passado seu sexages1mo ano
e, se julgas poder mostrar-te, elevas-te. 56 e se demorava na Gália ;;?' foi-lhe d enunciado que Lúcio Cina t0,
'i.
indivíduo de espírito lim itado, lhe estava armando u ma cons·
5. Não podes fala r sem que as nações, estejam on de esti- piração. 61 F oi-lbe revelado on de, quando e como Cina queria
verem , acolham tua voz. Não podes enfurecer-te sem que todas agredi-lo. Um dos seus cúmplice s o denunciou . ~2
as coisas estremeçam, porque não pode.s derrubar ninguém
sem abalar tudo à tua volta. Assim como os raios caem com 3. Augusto decidiu castigá-lo e ord enou que se convocasse
perigo p ara poucos, mas com terror de todos, as condenações um conselho d e amigos. Passou uma noite agitad a, p orqu e re-
dos altos dirigentes espalham um terror mais amplo do qu e o fletia no dever de condenar um j ovem da nobreza, neto de
dano que fazem, e não sem motivo: pois a pessoa que pode Cneu Pompeu, íntegro até aq uele deslize. Agora, já não podia
fazer tudo não refle te sobre o quanto teria feito, mas no quanto matar um único h ome m, ela, a quem Marco Antônio ditara o
haveria de fazer. edital de proscrição durante um jantar.
6. Acrescenta agora que a tolerância das ofensas recebidas 4. Gemendo, d eixava. eçcapar, :s uccssiv~mente, palavras in-
torna os cidadãos particulares mais prop1c1os a receberem decisas e contraditó rias entre si: "O quê? Eu, enquanto me
outras; para os r eis é mais certa a segurança que provém da atormento, hei de tolera.r m P.u as sassino a andar seguro por
mansidão, porque punição continuada reprime o ódio de p oucas aí? Então, não se infligirão castigos a este, que pode resolver
pessoas, mas estimula o de todos. não matar-me mas imolaNnc (pojs Unha resolvido atacar-me
enquanto fazia o sacrificio) 63, a mim, uma cabeça visada em
7 . Convém que a vontade de seviciar se desfaça antes que vão, que escapou incólume de tant,as guerras civis, de tantas
sua causa. Além disso, da mesma forma que múltiplos r a m os
tornam a brotar de árvores cortadas, e muitas espécies de 58. cr. FITZLEn, K. e SEECK , O . ~Iul.", col. 293 ·295. No fim de 43 a.e. , durant•!
plantas são podadas para crescerem mais densamente, assim ns difíceis conversações cncre Otávio (alnd.a não d enominado Augusto), Antônio e Léuldo,
qt!c ocorreram na meia. ilha. for mada pelo Reno e r.avinio, perto de Bonônia., Otávio
a crueldade do rei a umenta o número dos inimigos ao supri- teve de submeter.se a certas condições que o toc:lo-p o deroso Ant<'lnio n1e impunha. Um~
delas foi a decisão d" h vra•· proscrloõet;, sc.atindo o modelo de Rita. Depois de dois
mi-los, pois os p ais e os filhos, os parentes e os amigos dos ct?as de deliberações, O t.:\vio, n n q11aliclarle d " cônsul , ;cu as resoluções d hmt.e das t ropas
dos tré.'> chefes. omitindo. na leit ura . os nOmf<!:> d o;; prO!;Crtt.os. Enviaram a R o ma um
que foram mortos tomam o lugar de cada uma das vítimas. .,m;s.<;:lrio com o rden..-. p:lrn. elim inar lor;o d e ZC:$.'ll:"6 d os m ais perigosos proscrito~; entre
estes estava Cicerc , qu e O t ih•io r1i10 pudera p rcse-rv<ir . Na n oite qUe se seguiu ao dia TI
<le novembrc, o edital rle proscrição foi i•bt! rtament~· diVUli?:ado. Jl.CT~ntaram cento e
VII. (1,9.) 1. O quanto isto é verdade, quero lembrar-te t r in ta. n o mes aos conde nndo.«. F izeram , a ioc!t1 , n umerosos acréscimos até aU n girem o
nlimero de tfi!?.P..ntoo se.n ndorcs e d o is mil cavaleiros. Otávio opôs-se às cxccuçõt~ em
com um exemplo de tua familia. O divino Augusto foi um n ul.!;.>;a; no entanto, p arece que, uma vez d ecidid as, l e ria sido mais cruel que seus
co '.e-6as; toc..'2. vez Ql!C p odia. r.erdor.•a oi; p:=rltos, e m u itas VC?.es recompensava o.'
príncipe meigo, s e a lguém começasse por avaliá-lo pelo p eríodo q u e salvava.
59. Ct. FlTZLER, K . e SEF.CK . O. " lul.", col. 370.371.Jqui, os manuscrit os infor-
do seu principado. Porém, no período de perturbação geral do mam aue Augusto (na..<;cldo em 23-9·63 a. C.l rofreu o atentado com 40 anos ( c-u.m a n mtm
quadrag.~~imum t rmuisset). OT"'-, ao adt1t11 r o ! t.'.Xt.o de P<échac, e;;tamos c.liante de
Estado ~ empunhou a espada quando tinha a idade que tu
Augus!o com 60 a~O$ ( cu m annum se:r.age~mum transis~e.t) q_ue em. nada melhora nos.~a
tens agora, tendo começado seu décimo oitavo ano d e vida . situ<içao, pois as cpo<'.as em que lluzu~to estP.ve na Gnha (in Cnillia ff'..o r aretur) foram
21 a.e .. :15·24 a.e .. l6 13 !1.C. e 10 a.e .
T endo passado seu vigésimo ano, já tinha enterrado o punhal f.t) cr . GRT.FFJN . M . T. Sem. a phfl. i11 pot .• p. 421, n. 2. Segundo eh1, existe urn
Cneu Cornélio Cina Magno, cômul cm 5 d .C. e existe um Lúcio Comélio Cina, que fo i
no p eito de seus amigos, já tinha procurado golpear tra içoei- côn~ul em. !l2 a.e. que Sêneca. rere~e om J;\en . •l .30,2. A personagem do tra.tado Da de·
méncia é o prirnei.ro Clna. Cf . t11rn\~m S PF.YER . W . Zu~ Verschwõn;ng <les Cn. C0Tn€h1s
Cinnu. R.hi.\o!, F'r,..n.'<:fnr l "m ::.1a in , 9~/3: 277.2 A·l , 1%6.
5G. CL GnIMAL, P. Le J)q Nementia ct Ia royauté solaire de Néron . Rl.!:L, 4!); 6l C'.. HOMO . L. r,.,,, 1n sL. P<l l . rom .. p . :!93. Ilo.'<d(; o comecu do go\'a!'no d e
205·217, Hl7l. Prova vclmontc o.lus5o a uma imagan egipe::~, cuja língua poss ui uum Au~1sto, o senado re>.;po:1dia. à l' proscriCÕ<."S imperü'.i>' com conso!raçóes. F-o:mm numc·
mesma paluv r!\ para d~s Jgnar o n to de o rei sair do palácio para aparecer em público rosas as conspira.cões: entre Olttras i;r;o J:amo~11s u de Murena. (22 a.c.1. n de Con:élio
Cprodire, no texto Latmo) e , ao mc:;mo tempo, a aparicão do sol subindo ao c éu J.éntulo Gtitúlico e de M. T~picto ua ~i;>oca tle Cnlír,ula <cm 3~ d.C.), t' a d~ Pi~ão
no Oriente <orirfS, no tex.to latino). Esta seria uma tent.,Ítiva de a~iar um tato dii. (65 d Ç.).
história pessoal ele Ne ro, que nasceu em Ancio, ria manhf\ de 15 de dezembro de :n. 62 Cf. GRIFFlN. !\.f. '1'. Op. cJt.., p . 4l0·4Jl . A conspiraçeo de Cína contra Au,,."Us'o
e foí banbadD pelos ralos do :sol nascente antes mesmo que estes toe.as.~m l\ t.~ tra s.i apa~ece ~m Séncr3 e l>itio C:ll.!'<~lo {cap. 55 , 14-2:,n . Portun~.o. Sl\nP.Ca é a fonte hist6·
com uma fórmula usual da etiqueta egípcia para se fürigir no soberano. ' rir.:~. miú> J>rimí1ivn <111e conhecemci>". o 11 h'(orn1açf!o de Díão Cfu;sio 1)rovém ôir<1ta ou
57 . Cf. HOMO, L. l AJ:s ln~/. vol. ram., p. 242-2H. Este período de 43 n 27 a .e. indi.rP.'amcnte dt> SPr.(~'!I. C:f.. l:\rnbé in S PEYFJl, v.;. 01>. c-.it .• p. '277.
cro i:rret,'l.llar e revolu.clonário, a começar pela entrada de Otãvio no senado ao~ li) anu~ ff3 cr. MO;n'UREUX, 13. n r.r.h. ~ ur clem.. p . 26·21. )~stc crJme caracte1iz:a-;;e ce>mu
e, depois, pela sua elelçi.o a o consulado o pelo próprio tri1mviralo, uma $OCiedudc' <:te sacri!catnn. isto é, crtmft rel1izioso , Já e<uu Au~u;;to deveria s~r assas.~in~<'lo dtl~f.r.tc1 o
três ~.hefes militares, r ctcr..,ndado e legalizado pelo senado. mtercício de guss funções d e i.::~nardot.e .

56 57
...

batalhas marítimas e terrestres, agora que a paz foi estabele- vasses todo teu p atrimônio. Hoje, és tão feliz e tão rico que
cida em terra e mar?" os vencedores invejam o v encido. Confiei-te o cargo de sacer-
dote que solicitaste, d eixando de lado vários candidatos cujos
5. De novo, d epois de um intervalo de silêncio, erúurecía-se, pais combateram. comigo. Como se eu assim o merecesse, deci-
em voz alta, mais consigo do que com Cina: "Por que vives, diste matar-me".
se a tantos interessa que tu morras? Qual será o fim dos su-
plícios? Qual, o do derramamento de sangue? Eu sou uma 9. Como diante de tais p alavras Cina exclamasse estar ele
cabeça exposta aos jovens da nobreza, alvo de suas espad as longe de tal demência, prosseguiu: "Não manténs tua palavra,
afiadas. A vida não é de tanto valor, se, para que eu não pe- Cina. Combinara-se que tu não me interromperias. Planejas, re-
reça, tantos devem . perd~la". 64 pito, matar-me". Acrescentou o local, os cúmplices, o dia, o
plano do atentado, e a pessoa a quem fora confiada a arma
6. Por fim, Lívia, esposa, interrompeu-o: "Aceitas", disse, do crime.
"um conselho d e mulher? Faze o que os médicos costumam
fazer, quando os r emédios habituais não dão resultado: tentam 10. E, como o visse ca;bisbaixo, calado, não tanto por causa
remédios contrários. 6.5 Até agora não conseguiste nada com e. da acusação, mas por causa da consciência, disse: "Com que
severidade. A Salvídieno 66 sucedeu Lépido 67 ; a Lépido, Mure- intenção fazes isso? É para que sejas o príncipe? Por Hércules,
na 6s; a Murena, Cepião 69; a Cepião, Egnácio 70, sem falar dos o povo romano vai m a l, se nada, além da minha pessoa, é
outros cuja ousadia tanto nos envergonha. Tenta, agora, corno obstáculo para governares (não és capaz de proteger tua pró-
a. clemência poderia favorecer-te. Perdoa Lúcio Cína. Ele foi pria casa. Há pouco, numa demanda particular, foste vencido
apanhado. Já não pode prejudicar-te mais, porém, para tua pela influência de um liberto e não podes encontrar nada tão
reputação, pode ser útil". mais fácil do que te empenhares contra César!). Abdico, se
somente eu for o impedimento de tuas esperanças. Acaso, daqui
7. Satisfeito, porque encontrara um advogado para sua por diante te apoiarão Paulo, Fábio Máximo, os Cossos, os Ser-
causa, Augusto agradeceu a sua esposa e, em seguida, ordenou ·'·' vílios 1 1 e esta lista tão grande de nobres, não daqueles que
imediatamente aos amigos convocados que se cancelasse o con- ostentam nomes inexpressivos, mas aqueles que trariam honra
selho e, tendo mandado todos saírem do recinto, chamou uni- às imagens dos seus antepassados?" ·
camente Cina à sua presença. Depois de ter mandado colocar
outra cadeira para Cina, disse: "A primeira coisa que te peço 11. Para que eu não empregue grande parte deste volume
é que não me interrompas enquanto eu estiver falando, nem repetindo todo seu discurso (pois consta que falou por mais
cortes minhas palavras com exclamações. Disporás de tempo de duas horas, alongando sua fala, castigo único com que se
livre para fal ar. daria por satisfeito), continuou: "Concedo-t e a vida pela segun-
da vez, Cina; da primeira vez a um inimigo, agora a um cons -
8. Embora eu te tenha encontrado, Cina, em campo adver- pirador e parricida. Que, a partir de hoje, comece de novo
sário, não como um que se fez meu inimigo, mas como m eu uma amizade entre nó.s. Disputemos qual dos dois será ma.is
inimig_o de n ascimento, preservei tua vida, permiti que conser- digno de confiança, e u que te concedi a vida ou tu que ma
deves".
64. A mesma desesperança apnrece em Sen. B. v. 4,2.
6.5 . O mesmo argumento , em Sen. Cons. ad Hei. 2 2. 12. Depois conferiu-lhe, espontaneamente, o consulado, quei-
. 66. Cf. OUNDEL, I-r. O . "Salvidienus". K-P. v. 4,' col. 1525-1526. Salvldieno era
amigo de Juventude de A11~1::.to. Acompanhou·o em suas campanhai; e ocupuu cargos xando-se de que Cina n ão ousara solicitar-lho. Tinha-o coroo o
de ccmf!ança. Suas conrerênc1as i:_om Antônio antes do t-ratad.o de B~indes toram consi-
deradas por: Au.r.i:~to co/.°o trnlçao. Por esta razão. foi obrigado a suicidar-se. mais amigo e o mais fiel; tornou-se seu Úl1ico herdeiro. Desde
G7. Cf. id., Lepldus . K -P, v. 3, col. 576·578, col. 578. Filho do triúnvíro afastou-::;e então, não foi mais alvo de quaisquer atentados.
de August.o e. dePQI$ da batalha de Ãcio, foi executado. ·
9r.
(>8 . DEISSMANN·MERTEN, M._ "Terentíus". K-P. v. 5, col. 592·597, col. 59(1.
A. T. "l;artão Murena. chegou a. ;;er consul junto com Augusto em 2:1 a.e. No mesmo
ano, foi denuncia.to como part.1c1pante de uma conspiração. sendo obrigado a morrer VIII. (I,10.) L Teu trisavô perdoou os vencidos. Pois, se
"t!m.a. _de suas iflllAs era mulher de M1~ccnas, outfa foi avó de Sejano. Apesar de suá não tivesse perdoado, sobre quem imperaria? Salústio, os Co-
hgacao com Mecenas, nada se pôde fa:i:cr paro salvá-lo.
69. Cf. J:.IANSL!K. R. "Fanníus". K·P, v. 2. col. 513. Fânio cepí.ão tornou parte
n.a consp1rnÇ>\O d e Murena . Condenado à morte, foi denunciado por um 8$Cravo e assas. 71. Cf. PRÉCRAC, F. ~xntr.'". p . LVII, n . 2. L. Emílio Paulo foi oõnsul no :mo 1
smndo cm Nápo lfl~ . ·
70. Ct; id .. ·e:icnntlu.~" . K ·I', . v. 2, c~l. 206. Em 22 a.e., Eguiício Rufo toi edil; da nossa era; Paulo Fábio Mú:x:imo, no ano J t a.e.; Cosso Cornélia Lênru1~, no ono 1
r.m. 21, foi pretor. Em 19 n.C ., J:. pretendia ser cônsul. Encontrando resistências ns sua..'! a.e.- M. Servilio Norüa.no, no ano 3 d.C. (Ct. p. 28. n. 2, de sua traduc;ao). Pré<'l:lac
asp1mçõcs, conspirou contra Augusto . Por este motivo, foi preso e morto. ínfoi-ma que estas per~cmagens perlenctam 2s camfüns mais trndiciona~ (ge11.~ A.emilia,
Fubia, Cornella, Sendlia) .

58 59
ceios, os Délios i .! e todo o grupo da primeira escolha, r ecru- ~ - Isto é perdoa.r, não som3ntc conceder a vida , mas ga-
tou-os do campo dos a dver sários. Devia jú à su a clemência os ranti-la, q uando souberes que haverá muitos q ue, em teu nom e,
Don1ícios 73 , o s Messalas, os Asínios, ·os Ciceros e todo aque le se enfurecem e te prestam :favores com san gue alheio.
que fazia parte da elite nacional. Ao próprio Lépido 14 , quanto
te mpo lhe deixou para morrer! Por muitos anos consentiu-l he IX. 0 ,11.) 1. Tais c oisas fez Augusto q uando velho, ou
conservar as insígnias do principado e, só d epois de sua mor te, quando seus anos já o i nclinavam para a velhice . Na juventu de
p ermitiu que o título de pontífice máximo 75 fosse transfe rido inflamou.se e a cólera an-u inou-o; fez muitas coisas às quais
para si; p ois prefer ia recebê·lo co m o h onr aria a tê-lo com o voltava os olh os constrangido. Ninguém ousará comparar a tua
despojo . mansidão à do d ivin o Au gusto, mesmo se fossem leva d os à
diSputa os teus anos juvenis e a velhic e dele, mais d o que
2. Esta clemência conduziu-o à salvação e à segurança. m adura. T erá sido moderado e clei:uente; por certo depois d e
Trouxe-lhe a gra tidã o e a estima, embora não t ivesse posto m ão
tíngir o m ar com sangue romano na b atalha de Ácio 77, p or
sobre as cervizes ainda não subjugadas do povo romano. E,
hoje, ela lhe conserva a fama q ue dificilmente acompanha os certo depois de destroçar frotas na Sicília 78 , não só as suas
p ríncipes m esmo q ua ndo vi vos. cOino as do inimigo; p or certo d epois dos holocaustos de P e-
rúsia 79 e das proscríçõ es.
3. Acreditamos, n ão como se nos fosse imposto, q ue Au-
gust o é um d eus. Que ele é u m bom príncipe, que lhe ficou 2. Porém, eu não dou o nome d e clemência a uma cruel-
bem o nome d e p ai reconhecemos por nenhum outro motivo d ade frouxa. A verdadeira clemência, César, é esta que tu d e-
além de que m esmo nos ins ultos pessoais, q ue para os prín · sempenhas, ~ que, não tendo arrependimento de sevícias pra-
cipes costumam ser mais ama rgos do que as injus tiças, deman- ticadas, começa sem qualquer máculaªº, sem nunca ter derra-
da va sem nenhuma crueldade; porque sorria dos motejos contra mado sangue civil. A verdadeira temperança do espírito, no
sua pessoa; porque, quando aplicava punições, aparentava so- maior poder , e o amor do gêner o hum ano (e aí ele abrange
frê-Ias; porque a tod os os q u e cond enara por adultério com sua
filha 76, além de n ão matá-los, lhes dera s alvo-c ondutos, p ara 77 . Sêneca não alinhou º"
eventos históricos em ordem cronológica . Cf. FITZLER. K.
e S EECX , O . Op. cii .. eol. :!30-332. A l'Jnta!ha de .ácio que selou o término das rivali-
que, banidos , tivessem um p ouco mais d e segurança. dades entre Marc~' Antõnio e O távio, ocorr eu em 2 'de setembro de 31 u .C. Otávio
perdeu cinco m il homens, ao pa~o que seus inimigo,,; perderam dine mil h om ens além
ctc terem feridos em n1)meru de seis míl . '
n. cr. id .. illlct., col. ;n;i. No :mo 36 a.e., 1~0 <lin. 1•1 do mês que tem o nom e
. 12: cr.. PRJf:C~~· ~· Op. cit., '?; 27, n. ~ - e. Crispo S n.lú:stlo . era o sobrinho do d? .~ivino Jú:iu, tn~s .frote.s parti ram , :10 mesmo tempo . d!.! lugares dilerenles cC>nt.r:;i a
historiador. M: 9 -;cc.o Ncr va erfi :inu.st.ral dC> imperador Ne rvn e Delio era 0 •acru buta s,c11ta. A frota prir.cip:::I. ccrnnnr:lnúu por Otãvio e Agripu, saiu de Puttiolo~ a frota
das guerras c1ns (Sen. Rhet. Suas. 1,7). 1.!mprcstaci~. por Ma rco /1nWn io. scb o com~ndo õc •r. E.5 tatílio Tauro sa iu dé T aronto
73 . cr . id ., ibid .• p . 27. n. 3 . Cn. n ,,mfclo era o b isa'!ô d11 NPro e a fro!.a eh.o r épldo. so b seu c01mu1do , :saiu d a .Afr!cn . No terccirb dia de v iagem ,
7i . Cf . GUNDE T•• H. O . " Lepid t:s". K ·P, v. 3, col. 576 578. M. E.m Üio Lépido nasceu u ma gJF,a.,tcsca tEmpe_$ tade ~t lL~O t• gcav~ prejujzos tlS tr~ í rotns. T::i~o conse<'uiu vol~aT
por v~lta do _ano 00 a.~. e morrei~ em 12 n..C. Pes.'\Oa incxpn."'!Siva, devia seu car go de para seu porto ti•~ partida. Lépido pen:leu 31guns navios U:Bl\ eon!:~uia eneoo~rar r cfú·
ti;iúnvuo a Cesar. _ç>cpo1s do assa:;..";mnt o d,11 César. <4'\0 tomou nenhuma providência dccl· lc(i<>. Po•·ém Otávio foi surpreendido entre as monlnnh:is úe Minerva e I"'alimao . onde
swa. M arco Antõmo !ê·IO eleger-se wntr/c:r. 1114.rimus, n. fim de assegurar-se de sua não l~.3.v'.a. porto, de nmdo que Eua frotn sr;f.-.:u i:to~actus avarias.
l)OOper!l<'ã.O. ·/~. Cf. id .. ibid., col. 301·30Z. A fornc grnc.se.-1a implacá.\'f>l em Perúsia, que cs!av~
75. Cf. H.OMO, L . z:.es frist. pt!l . rom .. p . 257·259. Uma úQ~ crandes bases da auto· soh u controla de Ltlclo Antônio. Tom<1ndo o partido do lrxniio Marco Antônio. L!lc!o
rld.ade i_n~perial e~a O po~er rehg1oso quo Se deCil)h~ pot"- m eio da obtenção do cari:o hostilizavfi Ot :ivfo e resolveu cntrcr,ar Perúsfa somente d epois q ue muitos cidadão~ em!.
cte po~tlhce. P!!71i1/cx m aJ.-imus. O imperador persomf1cava este poder desde a velha r ea· n,~,~1.cs o abandonaram e passaram pntii. o acampamento els Otãvio, por quem tomm
Ieza. E a uruao_ d o pacter l.etnpora~ .com <• po'!cr espiritual. O imperador exen:c umi\ um•g<we!mento receh!dos. Isto ocor= antes de rn de m;-,rço de 40 a.e., provavc lmonte
sér ie. de atr11:>u1ç~>es v.eelsas e espec1f,cas. Intervem no recrutamento <lus sacerdotes (que nos último'; d ias du fevereiro, po is 8!1 t rop:i.:s ainda c~tavam nos quartéis d e Inverno.
M epoca Tepubhcana. eram ele1t~s pe lo povo) d os qaat~o grandt'!..; colegiados: os pon·
tí!ices, o i; áugur~. ot. quiná~<:errum . sacr1s /aciundis . e os fcciais. Cf. ELLuT,, J. In:st. pol., Otávio pcr<loou Wclo Antônio o ~cu <:xérci tc. Porem º''
c!dad.-los de P erús; a for-am
executados .., ·ª c!di\üc rntrP-1;1.tc à. pilhagem e. em seguiaa, ao rogo . .lllém d isso, no dia 15
p . 273-.276. Os augures ~ram super1 o re.< aos ponti!1ccs . In terprctavsm o voo e 0 canto <.le março, G:.a da morte dP. ("",..{.~nr6 l.rez..enlns !cn~<lores e C..'lvaleiras f or an1 mas.c;ac!.·2.dos
dos pa~saros . Os pont íC.! ces eram pri m ítlvnmPnte os auxiliares: :l1rxiliavam os augures a:t.ar do novo deu~.
;:uardavam a ponte do Ttbr" " as port~~ e\" r,~so ao rccl:ito onde se dcsanrolavauÍ n:)
l\'l. e r. P R i·!CHAC, t'. " l n : c". :J. ÇXl; asl.P. elogio. af)<X; o <l$Slk<..5inah> d.: J'lci f..iinlc.:a.
os . f!YOC'.C.5s0s. Cf . l."l'fl.f .J•:lt. l<. ": SEF.cK. , o . "JuJ.» P-lõ:, C:}L 317. o carg0 cie ponti!lce nf1C> ~e.J}l s~ntido püra l'rcichac. l)ai a~ ailerd.çflr,;..::; d•.! dnh:s qut~ oTopôs.
max~1no era u m a honra e urn cltreito .sagrado de caráter ;:Hul;c;io , ~~gunrlr; as tradiçõe:>
Acc:~1tacc qi;~ .A1.1~1str> 11ust~e11 <::ru ::."\ de s€tran~b:-o de 6a A.C.; durante a ::c pro·JC?i<;óc:i;
c1_?S ••~nt~~ll7s:ido.'>. /\u~st.~ .:u:l,Htva que esto.va "'!-..~ora de voltar 11:; antil!.S-S tradições e :-tu:-: üCOl'l'P.ram em 43 a.O,, tin!1a. :.?O r·ofl:; <ie lc?<~ck•; pott.4'.nto, aos lC ano.s , n:-t 1c\ach~
e.,p~.ou . ._t.e o nr;o de l?. a.< .. ano em quo Léµic::o morreu. pnra Jnve~i·; ~·sc do carr,·o ~··..~i\~ iidc~ p e r Sê-:l.6'C'a , Augu s to n !11(.!v, núo tinf'.•a "enterracto n pttllila.l UO i>~it.!) rif: ,qe'\.;S
de ponttf1ce nu\x>mo. ' ~:n~~o~". nen1 Hr1hf4 11ptocur~do golpear tra!çaeinl1r..~!n~.e o (laft<;O do c<)n~ul ~turco .~tó·
711 . Cf. PlTZLF.U. K. " Sl1~ECK, O . Op. cit.. col. 355. Jul!n. q ue na época t<nha n o:· t?, prir:clpaJmcn::e. n3o ºUnlJa 1>ic\(• Sl~l.l co!cga de proe>criçõcs... Então.. p3IC(.~<! <;l!e
3lJ nnos, cl'tava lcv11ndo uma vllh r\ci;roirrada, laf.o em cme seu p ai não acr..rli tavl.\ cst<!m0s àiante de uma iur.omput"ibiliducte. uma vez que Noro tinha 18 s::i ci;. Regurido
No en:n~l.o, seus cxcosi:o11 fon~m hmlcs e tão públicos qm:i· Au gusto t ratou a filha nií.Ô ri te~i o do S•lnt':t~1:. " l\v.gus~o, na época desse.~ 1>·~<mt.~ci cn~ntó!':. 2() a n0<;. Por i!§.O. Próchac
co n10 ndult~ra. , m a."' • cntnn !SH<~ntcrra e t ra!<.lora. l..Titre setL'5 n ume rosos a rnnr..tes um ct~l~s r_,1·o põc u:n acrC~<:!mo no ínterio::· do pl'óprio numeral: duodeulcen(simum o n1ui1n :r.ares-
Ant.(>nlo. tt,vc d e .ser cxocutndo , porqtll• era filho do triú nvirn Mlln'u Antlmi~ . portun t(i ~u.s. Vi~~er;)b·imum. obt.ent.~o r.ssirr~ o n.~u1t<.:do rte que Nr.ro i~~essavs no se1J déc:rnr)
pa<i;l\'r l de t.}r 111tcro~~s<.s "º T?l!tc'.onamen to com a ! ill1n do i mperado,., Os outnJS, oit:wo a:10 c!f< 'lldil; tinh a. JY.x-tanto, 17 anr.s, e Jl.u!l'.usto ~;ío de seu vigésimo 11nc . .\s.<im.
~erlt'n'"·11t1<s -º" rn11 1•; ill;L~lrcs .!anullas, foram hnru_dos. Qrnmlo à próprln Júlis, decretou so
,,,11, ,·r.paraçno do marido Til!ério e o seu l>antntenlo pm-a it illln Pandatária. n. cbt~\ t<';ia si~o escr:L~ an~· d r.. morte éc t:;?itilrii.co e os cvt.'TltOS H r~.$1>eit? CE
...·.u;?,1~:0 5tnria:n :m r;ai~1. cCTta.

60
todos os recursos) são isto: não se deixar corromper por qual- 2. Mesmo que ele t enha descido de sua pos1çao ditatorial
quer cupídez nem pela temeridade do talento nem pelos exem- e retomado a toga. civil, todavia que tirano bebeu, alguma vez,
plos dos 'príncipes precedentes; não tentar, experimentando, o sangue humano tão avidamente quanto ele, que ordenou que
quanto lhe seria permitido contra os seus cidadãos, mas tirar se trucidassem sete mil romanos e que, quando sentado na.
o fio da espada do seu império. vizinhanca, perto do templo de Belona, ouvindo o lamento d e
tantos milhares de vítimas, gemendo sob os golpes de espada,
3. Preservaste, César, a Nação sem sangue, e o fato que
dizia ao atemortzado senado: " Prossiga.imos, senadores, apenas
tanto glorificou teu grande espírito é que não derramaste ne-
a lguns poucos sediciosos estão sendo executados pm· ordem
nhuma gota de sangue humano em todo o mundo 81 , e mais minha"? Isto não
é mentira. P a ra Sila pareciam poucos.
significativo e mais admirável do que isso é que, a nínguém,
jamais, uma espada foi confiada tão precocemente. 3. Mas logo daremos prosseguimento ao assunto de Sila 85 ,
4. Logo, a clemência conserva os príncipes não só mais de que maneira se enfurecia com seus inimigos, principalmente
honrados como também mais seguros e é, ao mesmo tempo, se cidadãos, rompidos com seu partido, se transferissem para
seu ornamento e o mais sólido meio de preservação dos po- a facção inimiga. Nesse meio tempo, como eu dizia. a clemência
deres imperiais. Por que é , então, que os reis envelhecidos têm prova a p1·ofunda diferença entre um rei e um tirano, embora
transmitido seus tronos a filhos e netos 32, ao passo que o rei- nenhum dos dois esteja menos equipado em armas do que o
nado dos tiranos é a:borninável e efêmero? Que düerença há outro. Porém, um dispõe de armas das quais se serve em
entre um tirano e um rei (pois a aparência da sorte e a licença defesa da paz, o outro, como reprime grandes ódios por meio
de arbitrar são iguais) a não ser pelo fato de que os tiranos de grande medo, nem às próprias mãos, às quais se confiou,
são cruéis por prazer e os reis somente por motivo e neces- olha-as com segurança .
sidade?
4. Como são opostos, agem de forma oposta. P orquanto ,
) e mbora seja odiado porque é temido, o tirano deseja ser te-
X. (I,12.) 1. "Então, quê? Os reis também não costumam l
mido porque é odiado, servindo-se daquela abominável máxima, .,
matar?" - Sim, mas somente quando o interesse público os que precipitou a perdição de muitos: "Que me odeiem, con-
persuade a fazê-lo. A sevícia está no coração dos tiranas. Con-
tudo, o tirano difere do rei 83 pelos atos, e não pelo nome. , tanto que me temam", tendo ignorado quanta fúria engendra-
( ria, quando os rancores crescessem além da medida.
Portanto Dionísio 84, o velho, por direito e mérito, pode ser
preferido e. muitos reis; e o que impede Lúcio Sila. de ser de· De fato, um temor moderado coíbe os e spíritos, mas um
nominado tirano, ele, a quem somente a escassez de inimigos temor permanente, não só agudo mas que leva a e xtremos,
fez pôr fim à matança? incita os prostrados à audácia e persuade-os a recorrer a tudo.
8l . Os estudio.so6 não aceitam mais a alteração das datas. .Parece muito sensata a
síntese de ADAM, T. C/.em. Princ .. p. 10. n . 2: exatamente porque Sêneca parece ter
..
' 5. Assim, com corda e pluma podes conter feras confina.
iniciado o tratado depois da morte do Britânico, devia proceder como .se acreditasse i das. Mas , se um cavaleiro investir sobre o dorso delas com
na versão oCiclal da inocência de N ero. por J'Wlles tátlcas e diplomáticas. cr. Tac. Ann.
XIII.16,3, a morte de Bntàniro ocorre rn. durante uma cela. Fora-lhe servida uma bebida !
J
o aguilhão, elas tentarão a fuga através do próprio obstáculo
demasiado quente para beber. Para temperá·la, acrescentaram-lhe água fresca com veneno . que as afugentou e esmagarão o objeto de s eu medo. A cora-
Imedlatamente após tê-la Ingerido, Britânico ficou paralisado. Aos convivas a.<.SUStados, !
Nero declarou q11e se tratava de ma.is um ataque de cpUepsia, versão esta que perma- gem é mais intensa quando forjada por profunda n ecessidade.
neceu oficial.
82. C!. HOMO, L. Le$ inst. pol. rom., p. 265. O princípio ~ bereditaríed.ade é de Convém que o medo deixe alguma segurança e ofereça muito
origem oriental, introduzido brutalmente sobre a opiJ•ião pública romana, mas rejeitado
pela mesma por não ser compreendido. Não o entendiam. Todavi<i Augusto soube dispor mais esperança do que perigos. De outro modo, quando peri-
da suc-.cssão. Considerou.se herdeít·o de César e contornou o p1·00Jcma de sua próp ria
suces.são por m elo do dois expedien tes: a ad~ e a a SS-Oclação parcial do pode r gos do mesmo teor provocam medo no homem sossegado, ape-
impe:rtal . tece-lhe incorrer em p erigos e ir até o fim como se sua vida
83 . Cf. ADAM, T. Clem. Princ., p. 26. F..sta díferençii entre r e i " liTano atesta a
realidade romana. Não ~ trata aqui de uma pergunta isobre o que ..; decisório: a obe-
diênela volunt1frla da<> súditoo, a insUtuição legal ou a usurpação do soberano. Nessa
fosse d e outra pessoa .
época, o principado Jli está consolidado. O poder de um só é aceito sem qualquer
discu.•são . A única quei>tão que inkrcssa é delenninar se o so~rano onip()tente usa
o seu poder para o bem.
84 . m. JCJECHLF:. :P. •rnmiy~ios" . K ·P. v . 2, col. 6'2·60. Dionísio. tirano de Siracusa, !15. Apes ar de ~neca propOl' que voltará a tratar do assuoto de Siln, não o Caa.
é o Iniciador de umu dai< muls pod,.r<J~ns dinastias de tiranos. Viveu aproximadamente Ver di~cussões de ALBER'l'INI, .U:. La ccmtp. oeuur. pltil. S <Jn.. p. 151, n. 3.
entre 430 e 367 a.e.

62 63
XI. (l,13.) 1. Um rei pacífico e tranqüilo tem colabora- mas, e apenas ríspido em relação às ilegítimas: ele é amado,
dores de sua confiança, porque os emprega para a preservação defendido e respeitado pela nação inteira.
da. comunidade, e o soldado brioso (pois vêem que ele se de-
dica à segurança pública) suporta prazeroso toda a labuta como · 5. Os homens dizem dele, em segredo, a mesma coisa quo
a de guardião do pai. Ao contrário, é necessário que seus acó· em público. Desejam procriar filhos, e a esterilidade, indício de
utos relutem com o outro rei que é feroz e sanguinário. problemas públicos, é extinta. Nillguém duvida de que mere-
2. Ninguém pode ter auxiliares de boa vontade e de fé,
cerá o agradecimento de seus filhos aos quais terá apresentado
um século de tal natureza. Tal príncipe, protegido po1· sua be·
quando nas torturas que prepara se serve deles como cavaletes
e instrumentos de matar, quando contra eles lança homens nevolência, não necessita de escoltas e tem um exército somente
por questão de ornamento.
como a animais selvagens. Ele é mais desgraçado que todos e
mais atormentado porque, temendo homens e deuses, testemu-
nhas e vingadores de seus delitos, uma ve~ conduzido a este XII. (I,14.) L Logo, qual é seu dever? O mesmo dos bons
ponto não lhe é mais possível mudar seus hábitos. Pois a cru~l­ pais, que costumam censurar os filhos algumas vezes carinho-
dade, entre outros, tem o pior de todos os defeitos: a obriga- samente, outras vezes com ameaças e. às vezes, chegam até
ção de persistir nela; e não se lhe abre um retorno para coisas a admoestá-los a chicotadas. Acaso algum pai 87, são de ospírito,
melhores, pois crimes devem ser acobertados por outros cri- deserda o filho à primeira ofensa? A não ser que grandes e
rnes. Então, quem é mais infeliz do que o homem que agora repetidos erros esgotem a sua paciência: a não ser que ãquílo
necessita ser mau? 86 que teme seja maior do que o que condena, não chega a pegar
da pena para escrever a sentença irrevogável. Tenta, antes,
3. Que criatura. miserúvel, pelo menos para si! Porquanto, muitos outros recursos pelos quais possa reconduzir uma ín·
para os demais seria ímpio compadecer-se de um homem que dole indecisa e já inclinada pela pior postura. No mesmo mo-
exerceu seu poder para matança.5 e rapinr:,gens, e se tornou mento em que se perdem as esperanças, experimentam-se os
suspeito através de todos os seus atos, tanto exteriores quanto últimos recursos. Ninguém chega a infligir suplícios, a não ser
domésticos, recorrendo às armas, enquanto teme as armas, não que tenha esgotado todos os expedientes.
crendo na fidelidade dos amigos nem na afeição dos seus filhos.
2. O que deve ser feito pelo pai, deve também sê-lo pelo
Ele, quando olha ao seu redor, vê tudo o que fez, tudo o que
príncipe, a quem demos o nome de Pai da Pátria u, sem termos
está para fazer, deixa entrever sua. consciência repleta de crí-
rnes e tormentos, temendo muitas vezes a morte, porém mais sido levados por vã adulação. Pois muitas outras denomina-
freqüentemente desejando-a, já que é mais odioso para si do ções honoríficas foram-lhe conferidas. Nós o proclamamos Gran·
que para seus escravos. de, Feliz, Augusto e o cumulamos com tudo o que pudemos
atribuir cm matéria de títulos a uma ambiciosa majestade. Mas,
4. Ao contrário, o príncipe que tem preocupações univer- na verdade, denominamo-lo Pai da Pátria para que soubesse que
sais, atendendo mais a algumas, menos a outras, presta assis- lhe foi conferido o pátrio poder graças a seu grande comedi·
tência ao Estado, como se fo.sse parte de si mesmo, inclinado mento em consultar os filhos e colocar seus próprios interesses
às mais meigas solucões, mostrando, mesmo quando censurar depois dos deles.
é ele utilidade, quão constrangido põe as mãos om ásperos cor-
3. Um pai deveria extirpar, lentamente, um de seus prüpr.ios
retivos. Em seu espírito nada é hostil, nada é selvagem. Exe1·ce
membros e, mesmo então, quando o tivesse extirpado, deveria
seu poder pacífica e saudavelmente, desejando dos cidadãos
desejar recolocá-lo e, ao fazê-lo, tendo hesitado durante muito
a aprovação de suas ordens; considerando-se suficientemente tempo, deveria gemer. Pois quem condena apressadamentf,1 está
feliz, se puder tornar a sua. boa sorte pública. Afável de con-
prestes a fazê-lo con1 pra:r.er, e quem pune excessivamente está
versa, fácil à aproximação e no acesso . com fisionomia que ca- prestes a agir com injustiça.
tiVa sobretudo as massas, amável, propeni;o às petições legíti·
ll7. Cf. ADAM, T. Clem. P~1nc., p. 28: A lli!lgllém o pater familias pTec!$ll pro~t11r
86. Ct. MORTUREGX, B. Rcci1. .qur c!em .• p. 35. As re~;Jc~ti's a esta P''rguntu "'ão c:ontas elos ai.o;; ~ue eslabeleeo. rio intf.'riOr de seu lar, sejam puniçó:?S cm sejRm !'.>c:·o:lõ<:"s.
"urna análise preci~ do esLado de ;Jlrna e rio comportr.men!o de wn tirano. Sii.o um 88. O título de Poter Patrine foi outorgado a Nc1·0 no fim do :2tlO 55 cu· comu;,(>
~-erdadciro breviério a ser usado pelo príncipe, a qm:m ela::; dihun !>-Uces~ivament., :is dt'< 56; cf. GP.lMAI,, P. Sén. 01t cons. Emµ., p. 120. Ver também HOHL, E. ~oon1::1us
aUtudes que el~ deve reje1ta~ o ns que de"e incorporar". (Nero)". R-E, Stt1ttgart, 1910, supl. 3, col. 391.

64 65
..
a inde pendência de s eu ver edicto. E d ep ois que provou ser
XIII. (l,15.) 1. A T r iconte a?, um ca valeiro romano segundo a. s ua severidade desinteressa da - fa to q ue deve sempre p r eo-
minha memória, porque m a tara o próprio filho a açoites, o povo cupar mn príncipe - d eterminou que o filho deveria s er b a-
t respassou-o a golpes de estile te, no fórum. A a utoridade de n ido para onde p a rncessc b em ao pai.
Césa r Augusto mal conseguiu arrancá-lo das mãos a gressoras,
tan to d e p ais , quanto de f ilh os. 7. Nã o o sentenciou ao castigo do saco 92, n em ao das s er-
p entes, nem ao cárcere, lem b rando-se não de quem estava jul-
2. Tário 90, que sentencio u o filho surpre endido em flagrante gando, mas para quem ele estava em cons elho. Disse que o
tramando o a ssassínio do próp rio pai, dep ois de investigada a p~ d evia se contentar com um tipo de pen a m ais suave cont r a
questão provocou a adm iração de todos, p orque se satisfez com o filho adolescente que fora impelido àque le crime trama do
0 seu exílio e um exílio agra dável: manteve o parricida em co m uma timidez próxima d a inocência ; q ue o filho deveria
Marselha 91 e concedeu-lhe uma r enda anual do m esmo valor s er afastado da cidade e dos olhos do pai.
da que costumava conced~r-lhe quando ainda iliba do. Tal libe-
ralidade demonstrou q ue, nesta cidade, on de à s p iores p essoas XIV. (1,16.) 1. Que pessoa digna, a quem os pais d everiam
nunca falta um p atrono, n inguém terá dúvida de que o r é u c onvocar para o s conselhos de familia ! Que pessoa d igna, a
fo i condenado com justiça , j á que o p ai q ue não p odia zangar-se quem deveriam inscrever como co-herde ira dos filhos inocen-
cons eguira condená -lo. t es! É esta a clemência que convém a u m p rín cipe; aonde quer
que vá t orna as coisas mais amenas. P a ra este rei ninguém é
3. Por meio "deste fato d a rei o exemp lo do bom príncipe
d e t ão pouco valor que ele nã o sinta a sua p erda; qualquer
a quem poderás comparar o bom pai. No m o mento de exami-
p essoa que seja faz parte do império.
nar o caso do filho, Tá rio convocou César Augusto p ara o con-
s elho . César ingressou na p rivacidade do s eu lar, sentou-s e a seu _ 2. A partir dos pequenos impérios, procuremos um modelo
lado, foi membro de um conseilio d e família e s tranha · e nã o p a ra os grandes. N ão existe uma forma ú nica de comanda.r.
disse: "Pelo contrário, que venham a m eu d o micilio". D e fato, O príncip e comanda seus cidadãos; o pai, seus fühos ; o p ro-
se o tivesse feito, o inqué ríto t eria sido presidido por César fessor, seus alunos; o tribuno ou o centurião, s eus soldados .
e n ão pelo pai.
3 . Acaso não parecerá o pior dos p ais a q uele que reprime
4. Ouvida a questão e investigados todos os p ormenores, os filhos com freqüente s surras, mesmo pelos motivos mais
os que o jovem dissera a seu favor e os outros, que o acus a- leves ? Qu al mestre d e estudos liberais é mais digno, aquele que
vam, Augusto p ediu q ue cada u m desse s eu vered icto por escrito, es carnece dos alunos se a memó ria lhes tiver falhado, se seus
para que a decisão de Césa r nã o se tornasse a m esma de todos. olhos p ouco ágeis t ive r em vacilado na leitu r a, ou aquele que
Em seguida , antes de a brir em as tabu inhas d e escrever, juro u prefere co rrigir e ensinar por m eio de r ecomendações e de res-
que não aceitaria herança de Tálio, homem b em aquinhoado. p eito? Apresenta-me um t rib uno ou u m c enturião brutal: ele
fará dese rtores da que les que, todavia , são perdoáveis.
5. Alguém poderá dizer: "Ele teve fra queza de espírito a o
temer que, atrav~ da c on denação d o filh o, p a r ecesse deixar 4 . Portanto, acaso é justo comandar o homem mais pesada
aberto um espaço para suas a spirnções p essoais". Eu penso o e m a is duramente do q ue se coman dam a nimais mudos? Um
contrário. Qualquer um de n ós dever ia ter b a stante confiança., mestre-domador perito n ã o a s sus ta o cavalo com excessivas chi-
em sua boa consciência p ara enfrentar interpretaç ões maldosas , cotada s; pois ele se t o rnará espantadiço e r ebelde, a n ão ser
m as os príncipes d evem dar muita atençã o a sua r eputação. que o tenhas lisonjea do com um toque carinhoso.
6. César j urou que n ão a ceitaria h eranç a. Assim , no m esmo 5 . Um caçador fa z a m esma cois a, seja treinando os filho-
dia, T á rio perdeu um segund o herdeiro, m a s César r esgatou tes d e cães a seguir uma pista, s eja usan do-os, já adestrados,
p a ra desentocar ou pers eguir f eras; n ã o os ameaça repetida-
89 Cf. CONDE GUERRI. E. La s oe. rom. cn Sen .. p . 62 ·6:1. Com seu alo. Trícont.u mente (pois isto abalar á seu espírito e t u do o que é próprio
p ro vocou repulsa geral . la uto (\e p a i ~, 11u: 111 0 de Cilhos. Tt'l<:ou tc seria um d os mu!t-OS
0

l:avalciros q ue veget.om no nn o nimul o , de: nn<tn Si'ncca o retirou para usar nesta refe-
r ência e cxempllficor a sc>hcrnni11 i:n1im111. . 92 Cf. BASOR.E. J . W. "De clemcntia". ln: Sen. ten. p. 402. N o s tempos antigos,
90 cr. CONDE OUERH I , F: . Op. dt... p. 6:1. "I"árlo Col ident tficaéto c omo _ Tário Rufo ,
côo~ul em 16 a.e.. nm tKo lnlh1\•> lto Av.rlpn " T•:s~attllo Tn.uco, um dos mais 1ervorosos 0 parricida er a. condenado n ser costurado dentro d e um saco juntamente com um
seguidores de Otávio dumut" " 1:11., rrn o:l vll. c-.1c horro. u m galo, ume cobra. e um macaco; em segui da eram a fogados.
9 1. M i\rsclh1.1. torn <>U·!<(> h1t.:1><' J>:tl'll hun lr cx llndo:; desde n ~poca de Milão, e! . Tac .
Ann . I V,43.5; l V,44 ,3; XHJ ,'17 ,:s.
6'1
66
de sua índole se despedaçará graças à ação confusa do medo> 9.i mais justo seria · e,mpregar hon1ens livres, os nascido;,; de ho-
e não lhes concede licença de vagar e andar desordenad.amimtc mens livres e os honra.dos, não co1no · se fossem tua proprie-
por aí. Pode-se acrescentar a estes exemplos o daquele que con- dade, mas como aqueles sobre os quais tens precedência pol'
duz as mulas mais indolentes, q ue, embora tenham n ascido tua posição, cuja tutela te foi confiada, mas nã.o a sua servidão.
para o abuso e para as misérias, podem ser levadas a refugar
o jugo por c.;ausa da excessiva brutalidade. 2. Mesmo aos escravos é permitido refugiarem-se junto d e
uma estãtua ?:·! Embora tudo seja lícito c ontra os escravos,
existe algo que o direito comum dos seres vivos impede d e usar
xv_
(I,17.) 1. Nenhum animal é mais fatigante, nenhum
contra um ser humano. Quem não tinha por Védio P olião r.
deve ser tratado com mais habilidade que o homem, a nenhum
ódio pio r do que seus escravos, porque engordava as suas mo-
se d eve poupar mais: pois o que é mais estúpido que corar réias com sangue humano e aos que, por qualquer motivo,
de vergonha ao ver descarregar fúrias sobre jumentos e cães, o ofenderam, mandava atirar no que não era outra coisa senã-0
e fazer com que a pior condição humana seja ser homem sob
um viveiro de serpentes? Que homem mi1 vezes digno de morte!
o jugo do homem? Quer porque lançava seus escravos para serem devorados pelas
Tratamos de m edicar doenças sem nos irritar. Não obstan- moréias que ele haveria de comer, quer porque somente as
te, este mal é uma doença de alma. Requer um tratamento criava, ali, a fim de alímentá-las desta maneira! 9~
suave e um médico menos rude para com o doente.-
3. Da mesma forma como se apontam os senhores cruéis
. . 2. ,E· próprio do mau médico desesperar de que não tenhas pela cidade inteira, e são odiados e detestados, assim a injus-
cura. 9 4 o mesmo procedimento para com as pessoas cujo espí- tiça e a infâmia também se espalham amplamente, e sua odio-
rito está afetado deverá usar aquele a quem· se . atribuiu a sal- sidade se transmite p elos séculos. Quão mais satisfatório, pois,
vação · de todosº: ·não projetar esperanças cedo demais, nem re- seria não na.Scer do que ser enumerado entre os nascidos para
velar antes os sintomas da morte. Que lute contra os males, o flagelo público?
que resista, que a alguns censure por estarem doentes, a outros
engane que com um tratamento suave e com remédios inócuos XVII. (I,19.) 1. Ninguém poderá imaginar maior ornamento
há da curá-los mais cedo e melhor. Que o príncipe trate de para o soberano do que a clemência~ não importa qual seja o
cuidar não só da saúde mas também da cicatriz honrosa. meio e qual sej a o direito que o terá colocado como preposto
3. Para o rei, Nero, não existe nenhuma glória proveniente dos demais homens. Evidentemente, reconhecemos que esta
de uma condenação brutal (pois quem duvida de seu poder?), qualidade é tanto mais formosa e mais magnificente, quanto
mas, ao contrário, s ua glória será muito grande, se contiver maior for o p oder que exercerá, que não é necessano ser no-
sua violên cia, se r esgatou muitos da cólera alheia, se não apli- civo, se for constitlúdo segundo a lei da natureza.
cou a ninguém a sua própria. 2. D ecerto foi a nat ureza que inventou o rei 99 , fato que se
pode observar a partir dos outros animais, e, entre eles, as
XVI. (I,18.) 1. É: louvável mandar nos escravos com mode- abelhas, cujo rei tem o alvéolo mais espaçoso, colocado no
ração. 95 ·E, no cativeiro, não se deve pensar até que ponto centro e no lugar mais seguro. Além disso, desobrigado de tra-
seria possível suportá-lo impunemente, mas até que ponto seria ba.Ihar, é o supervisor dos trabalhos dos demais, e, tendo-se
permitido · pela natureza da eqüidade e do bem, que ordena perdido o rei, todo o enxame se dispersa 100 ; não tolerum mais
poupar tanto os cativos, quanto os comprados a dinheiro. Quão
que um só rei e procuram o m elhor cn1 combate. Adernai~·,, a
9'.l . A m osmi• ldé!t1 upr<rece ctO s;-1~. De ira III,lU,3.
~'~. A h\.,ü• do governante como medico capa:r. de curar está também em Sen. Oe Im 96. F:sL~> nHei·e1H~Vi' ó ir:11.is (~1:>mprt;1~\'l!)Í\'Ol qu~r.do .$~ tjhse1•:a qu.:.~ cm Suet. tNer. 38,4)
os e-;cravos .se rciu~ai:ctm nos te mplo~ e nlonum~m:o!~ por oca~ião t!o incêlldio de Ron:.a.
I,6,;I.s;~" Cf. WAI.TZ. R. V!c de S. lm., p._ zn~
.'"' .."01
' . A v1'da e a sorte do clSCfavo depen!l!A. 97. cr. r,ONDE GIIBRRI. E . [.{! .~()(). rom. en Se.ri., p. :'i!l 60. Apre:sc."ltando Véctio
da Juta sur(la. entre dois partidos poht•co:;: o c'?uservetlor. ~ o i.n?•ad_or. O J>U.ClJdO Polião sob o prisma dr, rerlnM!a c:rueld<1d•:, S€lneca ilustra oo abusos que se podr-
mn.i~
conservm~or mantinha o slstemn dô castas e defendia as trn.c!19'>~S nac1otuiLq, F.m Tcle<;ão riam prntic;ar (:or.lnt º';
<.:s(:nwo:s. Vt!dio J'olillo , npo'!sa r dp, :;er filho de libertos, consf:-
"º tratnmonlo p r opo:·c!ont1do .. aos escwvos c.onservava. as ~m~Qoes conf01'!11;C as pn\tlcns guiu elc 1a.r su?.. posição ~ocial ató alcnnçar o grau de t:'.WRlciro. Acumulou grande P<lt.:-i -
0

ma.ô.s hãrbarn~:. Co1~:!-,.:hmiva. '·"º·"º"' nscra~s. ta!'tos illlf!Ug<::-> . ~o contrano. o )'.>A.rtldo


ino•·aclor, esc!aTc<;!do por princlp10:; f1losoficos, tmha ~sp1n)ÇOI'!"' l1bern:s e ~gla difcrcn·
mônio e pt1rtl(:~ que fc:>l nnig<> D~'>-'l'SO<l l do impcrnclor .
98. Cf. Snn. De Ira Irr,;n ,2. E1·a corr fque lro irrlte:r se e cc~:'>tigar os csc:ra,,.·os.
tcm,mte . o c\"'stlno ()o~ '!'l'IC'T<<Vll~ ,. dos lt?('rto~ era obJeto de sun pn•ocupaçao. e os !no· 99. A i<l<"ia de q11e é a n;lttHP.za que fornt'c;c u chcfo retorna em Sen. E;:>. !-;0,4.
v:;ctore;; procuravnm diminuir a "x:\spernçao provocada pelos atos de desumanidade . íOO. Esh.• (> o mesmo "onceit~• d <J cvpil.ulQ l!I.2,1.

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aparência do rei é extraordinál·ia, diferente dos demais. tanto
pelo tamanho, quanto pelo brilho. ç ão'? Se pequena. vacllação de sua saúde n ão desperta esperan-
ças, mas medo? QUando nada seria tão precios o que não se
3. Diferenciam-se contudo principalmente no seguinte: as gostaria d e trocá-lo pela salvação de seu protetor?
abelhas são demasiado coléricas e, em vista do tamanho do
corpo, excessivamente combativas e deixam seus aguilhões na 8. Oh, não existe um deus mais feliz do que a quele que p er·
ferroada. O re i n ão tem aguilhão. A natureza, não querendo cebe alguém vivendo p ara e le. Desde que ele provou, por meio
que ele fosse brutal ou que procurasse vingança que haveria de freqüentes evidências d e sua bon dade , que o Estado não é
de custar-lhe ca.ro, subtraiu·lhe o dardo e deixou sua fúria de- seu, mas que ele é do Estado, quem ousaria tramar-lhe qua l-
sarmada. Enorme exemplo para grandes reis é este; pois a q uer perigo? Quem não gostaria, se pudesse, de desviar tam-
n atureza tem o costume de se manifestar e traz.er no b ojo das 1:ém o infortúnio de um príncipe sob o qual florescem a jus-
tiça~ a paz, a vergonha, a, segurança, a dignidade, sob o qual a
pequeninas coisas grandes lições.
naçao opulenta transboraa todos os b ens em abundância e
4. Seria vergonhoso n ã o extrair uma lição do comporta- não contempla seu dirigente com sentimento diferente daq~ele
mento dos diminutos animais, já que a alma humana deveria com q ue contemplaríamos, reverentes e respeitos os, os deuses
ser tanto mais moderada quanto é capaz de prejudicar mais. imortais, se eles nos dessem a possibilidade ele vê-los?
Oxalá que pelo menos o homem tivesse a mesma lei e que,
junto com sua arma, sua. raiva s e despedaçasse, não pudesse 9. Mas quê? Não ocupa um lugar próxim o deles a quele
fazer mal mais do que uma só vez 101 e não empregasse forças que é gerado da natureza dos deuses, benéfico, generoso, com
• alheias para manifestar seus ódios! Ora, sua fúria rapidamente poder para fazer o bem? Convém buscar e ste ideal e imitá-lo·
se afrouxaria se, por si mesma, fizesse bastante mal, e se, em assim s e é considerado o Maior, pa.ra que se seja, ao mesm~
perigo de morte, se dispersasse sua violência. tempo, considerado o Melhor.!/).\

5. Porém, agora, o rei não' tem nem mesmo o ..curso de XVIII. (I,20.) 1. O príncipe costwna punir por duas razões:
sua vida assegurado, pois é necessário que tema tanto quanto ou castiga por si ou castiga em nome de outra p essoa. Em
quis ser temido, que observe as mãoo de cada p essoa e, du- primeiro lugar, discorrerei a respeito da parte que lhe concer-
rante o lapso de tempo em que não for apanhado, que fique n e diretamente, pois é mais difícil ser moderado quando o cas~
julgando ser objeto de procura e não tenha nenhum momento tigo se deve a um ressentimento, que quando aplicado como
isento de medo. Alguém suportaria levar uma vida assim, quan- exe mplo. f
do lhe é permitido ser inofensivo aos outros e, por essa razão,
_ 2. A ~ssa altura é supé rfluo recomendar ao príncipe que
administrar tranqüilo o salutar direito do poder para a satis·
nao a credite facilmente, que investigue a ve rdade, que oroteja
fação de todos? Engana-se, pois, quem julga que é seguro ser
a inocência e, para que ela seja evidente, prove que o ~ objeto
r ei quando n a da é assegurado para o rei. A segurança deve
da. ação não é menos importante para. o juiz do que para os
ser pactuada através da segurança recíproca. acusados e m perigo. Na verdade, isto diz respeito à jus tiça e
6. Não há necessidade de construir elevadas cidadelas nos não à clemência. Neste m omento, ~ortamos o príncipe para
.....topos, nem d e fortificar colinas e scarpadas nas encostas, n em que, embora visivelmente ofendido, tenha seus s entimentos sob
d e cortar os flancos dos montes, nem de se cercar com múl- controle e conceda o castigo se puder faze-lo com segurança;
tiplas muralhas e torres: a clemência assegurará a salvação do s~ não, que o modere e seja muito mais maleável com as afron-
., rei em campo abe rto . O único abrigo inexpugnável é o amor tas f eitas contra ele do que contra os outros .
dos cidadãos. 3. Portanto, do m esmo modo como não é digno de uma
7. O que é mais belo do que viver junto de todas as pessoas grande alma ser generos a com bens alheios, mas doar a outros
r eunidas que o escolheram e proferiram seus votos 102 sem coa- o que subtrai do seu, assim não darei o nome de clemente a o
que é suscetível dia nte da dor alheia, porém ao que, embora
101 . T alvez est:l ~cja uma alusão 3. morte de B ritânico. tenha s ido atormentado por suas farpas, não r evida, que com·
102 . F.sta é outra refe rencia às l""cce~ solenes que se !nziem ao imperador na.'
calendas de Jnnciro. Cf . Suet . Ner . •W,-1; ORIMAL, P . Le De clem. e t la royauté ,;oi.,
p. 214; vP.r p . 91. n. ~. 103. O títul o de O:;>llmus atribuído r., wn imperad01· romano foi atestado pela p 1i-
m clra """ sob Cláudio. cr . 1:'1-:WRS , J . R.. !'feru as vice. in &in. , p . 491.
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preende ser grandeza d e a lma suportar afrontas estando n o s u - nação, deve-se aproveitar a opor tunidade para usar de uma clt~­
premo poder, e que nada é mais glorioso do que p ermanecer mência bem visível.
impune, m esmo qun.ndo foi o príncipe o ofendido.
XX. (l,22.) 1. Passemos para as injustiças feitas a outr o s.
XIX. (I,21. ) 1. A vingança costuma apresen tar dois r esul- Para cast igá-los a lei seguiu t rês caminhos que o príncipe tam-
tados: ou traz consolo a.o que recebeu as a.frontas 104, ou segu - bém deve seguir: ou corrige a pessoa punida; ou, com sua pu-
ran ça p ara seu futuro. A posição do príncipe é demasiado e le- n içã.o, converte os demais em melhores ; ou, com a supressão
vada para que necessite consolo; sua força é demasiado evi- dos maus, os demais vivem m aís sc~guros. Aos próprios culpa-
dente para q ue queira para si a reputação de violento p or m eio d os corrigirás mais facilmente com uma punição menor, pois
da infelicidade alheia. Digo is to do príncipe que foi atacado e aquele a quem resta alguma integridado vive mais cautelosa-
ofendido p or infer iores , porquanto, se ele vir a seus pés os mente. Ninguém tem r espeito pela dignidade perdida. Já. é uma
que outrora fo ram seu s iguais, se sentirá suficientemente vin: espécie de impunidade não ter espaço para castigo.
gado. Um escravo, uma serpente ou Ullla flecha 1natam um rei.
Entretanto, ninguém, a não ser superior à pessoa que salvou, 2. Porém a sobriedade d os castigos corrige melhor os cos-
podia salvá-la. tumes nacionais. Ora, uma multidão de delinqüentes cria o
hábito de delinqüir, n a censura é menos pesada quando o
2. Por esta razão, o príncipe, que tem o poder tanto d.e grande número de condenações a. atenua; e a severidade, que
conceder a vida como de tirá-la, deve exercer corajosamente esta contém a força de remédio, com o emprego freqüent.e, perde
função dada p elos deuses. Sobretudo, em relação aos que e le a eficácia. .
sabe que outrora alcançaram uma proeminência seme1hante à
sua, tendo adquirido o arbítrio sobre eles, já completou sua 3. o príncipe estabelece os bons costumes da nação e lhe
vingança e r ealizou aquilo que era mais do que uma verdadeira dihli os males, se é paciente em relaç§:o a eles, não como se os
punição; pois o homGm que deve sua vida é como se a tivesse aprovasse, mas como quem chega a castigar constrangido e
perdido, e todo aquele que, tendo sido atirado de uma alta com grande tormento. A clemência mesma do soberano provoca
posição para os pés do inimigo, esperando o veredicto sobre vergonha de delinqüir, e a punição estabelecida por uma pessoa
meiga parece ser muito mais pesada.
s u a vida e seu reino, passa a viver para a glória de seu salva-
dor e sua incolumida de contribuí mais para a reputa~Ão d ele
do que se tivesse sido retirado dos olhares humanos. Pois ele . XXI. (I,23_.) 1. Além dL<>so, perceberás que são sempre pra-
é um permanente troféu do valor do outro. Num desfile de t~cados os delltos que são sempre punidos. Teu pai 10>, d u rante
triunfo, t r ataria d e passar rapidamente. cmco anos, mandou cost urar dentro de sacos muito mais con-
denados do que ouvimos m en cionar em todos os séculos. Os
3. M as, se s u a coroa pode ser·lhe deixada também em filhos ousavam muito m enos cometer sacrilégio durante o
segurança e sor recolocada no lugar d e onde caíra, eleva-se em tempo em que este crime es teve sem legislação. De fato, com
enorme apreço o elogio daquele que se contentou em colher de suprema prudência, p es soas de nível elevadíssimo e de muito
um rei vencido nada mais do que aJlória. Isto é t riunfar sobre grande conhecimento da natureza das coisas preferiram desco-
sua própria vitória e atestar que o vencedor não encontrou nhecer este crime, colocando-o como crüne inconcebível e além
junto d os v encidos nad.u que lhe fosse digno . dos_ limites da audácia, do que mos trar como ele pode ser co-
1nehdo, enquanto o punem. Ass im começurn,m os parricídios
4. Quanto aos Cidadão s, aos dcconhecidos e aos humildes,
com a lei consoante, e foi o próprio castigo que mostrou aos
o príncipe d eve agir tanto mais moderadamente, porquanto a nossos filhos esta vilania. A pied ade filia l esteve muna situação
menor ação o s aniquilaria. Que poupes alguns, prazerosamente; realmente péssima, d epois que vimos um número maior de
que sintas r epugnância c m vingar-te de outros e, não diferen· sacos do que de cruzes_
temente do que ocorre com os insetos, que sujam quem os
esmaga. tua mão também deve afastar-se deles_ Ao contrário, 2. Na na.ç,'áo em que o s hom~ms são raramente punidos
em relaç':ío à.qtwles c u.ia !!:taça ou castigo estarão na voz d a cria-se um consenso p ela inocência e predispõe-se a seu favor

1G5. cr. MOHTUREFX, IJ. R<lc:ft. $Ur clem., p . ~>€>. ,;; uma ref1:rêncin à cr•U(,Uladc
üt~ Clánctío.

72 :·73
...

se fosse um bem público. Que a nação acredÍte ser ino- para inventar instrumentos através dos quais a dor se diver-
corn.0 e 0 será; terá mais rniva dos que se afastam da sobrie-
sifica e se prolonga. Ela se deleita com os sofrimentos dos
cente geral, s e virem que são poucos. E perigoso, acredita·me ,
homens. Neste caso, esta sinistra do·ença de alma atinge o •
da.de ,,r à nação quão numerosos são os maus.
mostrCM cúmulo da demência quando a crueldade se converte em prazer
e já se deleita em matar wn ser humano.
JO{IL (1,24.) 1. Outrora, decidiu-se por um parecer do se-
que um sinal na roupa distinguiria os escravos dos ho- 3. Uma devastação natural segue o rastro d e tal tipo de
na.do livr es. Em seguida, ficou evidente quanto perigo n os homem: ódios, venenos e espadas. É assaltado por tão múlti-
raeri: a.ria se os nossos escravos c.omeçassam a nos enumerar. plos perigos quant o os muitos homens para quem ele próprio
arne.,.çque se deve t emer a mesma coisa, caso não se conceda é um perigo; algumas vezes é cerca do por conspirações p arti-
Sab;~ 0 a ninguém; logo ficará patente em quantas vezes pre- culares, porém em outras ocasiões por revolta pública. De fato,
per ª ra a parte pior da nação. Numerosas execuções não são ameaças ligeiras e individuais n ão p erturbam cidades inteiras;
pond~ vergonhosas para o príncipe do qua numerosos funerais mas aquilo que começa a espalhar seus furores amplamente e
raeno 0 médico. ataca a todos é golpeado por todos os lados.
para
Obedece-se melhor ao que comanda com mais tolerância. 4. Pequenas serpentes escapam e não são alvo da investi-
o espírito humano é rebeld? por natureza e, peleja ndo gação pública; quando alguma ultrapassa a medida habitual
2 e se desenvolve em mons tro, quando infesta as fontes com seu
t ~ 0 que lhe é contrário e árduo, acompanha mais facil-
con ~e ao que se deixa conduzir. E, como se dirigem cavalos escarro e, se exala algo, queima e destrói os locais por onde
men a e de boa estirpe melhor com um freio flexível, assim, andou, ela é atacada por projéteis. P equeninos males podem
de r~tineamente, a .inocência segue a Clemência por seu próprio dar margem a discussões e passar despercebidos, mas aos in-
~Pº~so e a nação considera-a digna de preservá-la para si. gentes a oposição pública enfrenta.
ltn~U por esta via, avança-se mais. 5. Assim, um só doente não perturba nem mesmo o seu
.A.SS1J!l,
lar. Mas, quando sucessivas mortes evídencia.- n que há uma
JQCIIL (1,25.) l. A crueldade é um defeito muito pouco epidemia, há clamor e evasão da cidade, e as mãos se esten-
;3.J10 e indigno de um espírito tão meigo. É de fera uma dem ameaçadoras contra os próprios deuses. Se aparecem cha-
b~I? tal que se regozija com sangue e ferimentos e, quando a mas sob um único telhado qualquer, a familia e os vizinhos
fu~l~ura hurnana deixa tle sê·lo, transforma·se em animal sel- . jogam·lhe água; contudo, se o incêndio é vasto e já devora
crla rn ora, que diferença há, pergunto-te, Alexandre 106, entre muitas casas, destrói-se uma parte da cidade, para extingui-lo.
v~e . · Lisírnaco a um leão ou dilacerá-lo tu mesmo com teus
st~~iOS dentes? Esta goela é tua, esta ferocidade é tua! Quant o XXIV. (I ,26.) l. A crueldade d e cidadãos particulares foi vin-
proP·arias que, de pre ferência, fossem tuas estas garras, foss~ gada por mãos escravas, m esmo sob o r isco certo de cruci-
cteseJ sta boca escancarada capaz de devorar homens! Não exi- ficação. As nações e os povos de t iranos e a queles a quem a
t:'ª es de ti que esta tua mão, a mais infalível exterminadora crueldade era um flagelo e aqueles que ela ameaçava propu-
gitn°111igos, seja favorável a alguém, que este espírito feroz, fla- seram extirpá-la. Algumas vezes, seus guardas sublevaram-se
de a insaciável de n ações, se satisfaça com menos do que sangue contra os próprios tiranos e aplicaram-lhes tudo o que apren-
gelo orte. Agora, dá-se o nome de clemência quando, para exe- deram deles: a p erfídia , a impiedade e a ferocidade. De f ato,
e trl um amigo, se escolhe o carrasco entre seres humanos. 1n7 o que alguém pode esperar daquele que ensinou a ser mau?
clltar
2 o que faz a sevícia ser abominada ao máximo é que, em
A maldade não obedece durante muito tempo, nem faz tantos
. ~jro lugar, ultrapa ssa os limites habituais, depois, os llmi- males quantos se lhe ordena.
pn!l"Íiurnanos, procura novos suplícios, recorre à imaginação
teS 2. Mas supõe que a crueldade é segura, como se ap1·esen-
'f r.i:OR'l'URElTX, Il . nocf1. .rnr clcm. p. 21. n . 12. As lnvt.'<.:tivas contru AIO·
taria o reino? Não divers o da aparência das cidades capturadas
J06 . ç:o. frequentes em &111ccn. Tui.« reclll'llOS oratórios apuecem em De ira. l ll,17,1·4: e de quadros t~rríveis d e m edo público. Tudo é pesar, alarme,
iwnclrc sa0 ,. 1>cin . t,3:1,3: vrr.2.r.: N111. C'211R1•st. v1,x1.2.:1; Fh>. 83,HI; 113,29.
l(I ,22.1: c·r · S1U:t. t:lau1l. 14, o Irupcr.:i:.,,· Cll!.111llu condcnnve criaturas human:;s i1s íeras confusão. Os próprios prazeres são temidos. Não se vai em
107 <;. · conwnclt~ cl•• q w ' 1Ii1h11m comclido tun delito inais grave. segurança nem a banquetes, em que a língua deve ser cuída·
q,tt~llÓ\) . .

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dosamente policiada até pelos ébrios, nem a espetáculos, dos
quais se investiga material para incriminar e comprometer. Em-
bora se apresentem com grandes gastos e com opulências reais,
com artistas de excelente renome, todavia a quem agradar iam os
jogos no cárcere?
3. Bons deuses, que m aldição é esta: matar, seviciar, de-
leitar-se com o ruído dos .grilhões, cortar as cabeças de cida-
dãos, derrama r muito sangue por toda parte cm que tiver pas-
sado e, com s ua apa rência, aterrorizar e afugentar? Que ou tro
tipo de vida haveria, se os leões e ursos reinassem, se a d.ire-
ção do poder fosse dada às serpentes ou a qualquer arumal
muito znais nocivo para nós? 10s
4. Tais seres, desprovidos de razão e sentenciados por nós CAIUS SALIJUSTI[JS CRISI.Jlf S
como desumanos, abstêm-se de atacar os seus; e, entre feras ,
a semelhança exterior é também uma garantia: a fúria do tira.-
no não o controla nem mesmo diante de seus familiares, mas,
considerando estr angeiros e parentes igualmente, quanto mais
persegue mais estimula do fica. Depois, a partir de uma ma-
tança após outra, arrasta povos ao extermínio e considera de-
monstração do seu poder atirar fogo aos telhados, fazer p assar'
o arado em vetustas cidades; e mandar matar ora um, ora
outro parece-lhe pouco poder imperial. A não ser que, num
mesmo instante, um bando de infelizes esteja à espera de um
golpe seu, acredita que sua crueldade tenha sido coagida a
se controlar.
5. A verdadeira felicidade consiste em proporcionar salva-
ção a muitos e, da própria. morte, fazê-los rntornar à vida, me-
recendo a coroa cívica pela clemência. Não há ornamento mais
digno da proeminência do príncipe e nada mais belo do que a
famosa coroa: "por ter s alvo a vida de cidadãos" ?{H, nem os
carros manchados d e sangue dos bárbaros, nem os despojos
obtidos na guerra. E ste é um poder divino, o de salvar multi·
dões e em massa. N a verdade, matar muitos e indistintamente
é poder do fogo e da. destruição.

10$. Gompi1ruciio St!mc lhante aparece em Sen. De ira 1(.$,;l.


tOV. Cf. PR:l!:C::Hll.C, F . "lntr.", µ . cxv.cxvr: trata-se· de umn coroa cl•1ca , qiw
ornamentava a porta do pulil~lo imp1.,rinl, rccompen~a à aual se misturava um i:entl·
ment<J de vAne raçflo. Cf. 11.0 J\M. T. Clem. Priuc., p. 12~-2~7. F.nquanto J\ugm:to Obl1we
R coroa cívica por detarmtnl\çii o e.lo !;..ngdo, porqu~ salvam cidadãos. aqui, o príncipe
obtõm sua {"01"0a i;t!m ter nializado qualqw~r ato estatal em f2.•·or d~' :;t:u~ ~1td!to!\ .
"fan1bóm não é nocen~á.rlo o!lt~· 1•:t pnr 1ner~cirn:~n~.o. já que~ nfto h;l rnnh; ·gu~rrn:::L Portanto,
se a coroa é apG.rAu l. AU\~flf.t.~ <L tn~srna , u.s <.:ondiçÕt$ para con~jcgui-la revelam d ire rf)nçus
C!U~~ ~m p:«)duzh·um ck~d'~ a. ópocn clt' Aug"\t:.to.

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