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Unidade Curricular – História da Arquitectura Portuguesa.

4º Ano / 1º Semestre, ano lectivo 2018/19


Docente: Paula André

Título: Baixa de Lisboa: condicionada e condicionante


Nome: Sara Margarida Cabral Parece
Palavras chave:
- Organização do espaço,
- Baixa Pombalina
- Pragmatismo
- Reconstrução do Chiado
- Continuidade
1.Introdução
Este trabalho tem como objeto de estudo o ensaio “Dimensões e Características
do Espaço”, de Fernando Távora. Reconhecido arquiteto portuense (1923-2005) que
procurava manter uma relação entre os valores da tradição e os valores da modernidade.
Para ele o homem evolui cultural, social e economicamente, daí a necessidade de a
Arquitetura ir ao encontro das novas circunstâncias e exigências do homem e do meio,
mas mantendo-se em equilíbrio com o passado.
No século XX, o tema central de debate era a expansão da cidade de Lisboa.
Nos anos quarenta foram definidas estratégias de transformação da cidade, donde
se destaca o Plano Diretor Municipal de 1938-48, desenvolvido pelo urbanista-
conselheiro técnico da Câmara de Lisboa, Etienne de Gröer. Este considerava que a Baixa
Pombalina deveria ser conservada, pelo seu contexto histórico e pela arquitetura de
grande importância para a cidade, com as devidas transformações para melhorar a
condições de saneamento, higiene e as necessidades de circulação modernas.
A partir dos anos 60, a cultura arquitetónica altera-se e a cidade histórica é
assumida como um ponto determinante para compreender o significado da estrutura
urbana, da sua individualidade, da arquitetura da cidade. (Rossi, 1966, pp.199-200)
Esta mudança acentua-se com a Carta de Veneza (1964), donde surge o conceito
de património histórico. Assim, as intervenções na Baixa passam pela conservação e
restauro do património histórico por forma a manter um equilíbrio entre o passado e o
presente.
Atendendo a esta nova visão da realidade arquitetónica, procura-se neste trabalho,
relacionam-se os vários aspetos e premissas que Távora interpreta e defende no ensaio
“Dimensões e Características do Espaço”, com as circunstâncias que motivaram o
renascimento do centro histórico de Lisboa - a Baixa Pombalina, a sua reconstrução
condicionada, após o terramoto de 1755, e a influência desta última enquanto fator
condicionante na reconstrução do Chiado após o incêndio de 1988, e nas posteriores
intervenções. Assim, pretende-se focar que a organização espacial e a criação de formas
dependem de fatores históricos, sociais, culturais, económicos, políticos e geográficos.
As formas criadas pelo homem depois de assumirem um papel proativo na sociedade,
tornam a organização do espaço numa condicionante de realizações futuras.
2. Percursores e circunstâncias da Reconstrução da Baixa Pombalina

“O espaço é um dos maiores dons com que a natureza dotou os homens e que, por
isso, eles têm o dever, na ordem moral, de organizar com harmonia, não esquecendo que,
mesmo na ordem prática, ele não pode ser delapidado…”1
A fixação dos primeiros povos na cidade de Lisboa foi determinada pelas
condições morfológicas do local, condições que foram “estranguladas” pela ação do
homem. À medida que a cidade foi crescendo, foram surgindo construções desordenadas
e instáveis que punham em causa a segurança dos cidadãos.
Com o terramoto de 1755 seguido de um terrível incêndio, Lisboa vê expostas as
suas fragilidades (crescimento caótico, problemas de circulação causado pelas ruas
estreitas, de higiene e segurança, construção de edifícios com fachadas desalinhadas e de
diferentes alturas, estruturas das varandas e proteções das janelas em madeira,
construções sobre arcadas, ausência de esgotos e fraco abastecimento de água), mas
encontra, a partir daqui, uma nova edificação assente num plano rígido2, onde se delineia
uma organização do espaço assente no conhecimento das circunstâncias do momento,
embora limitada pelo tempo e pelo poder económico.
Importa compreender que a reconstrução da cidade de Lisboa fez-se respeitando
o passado, respondendo à necessidade de alojar rapidamente um grande número de
habitantes e com a ousadia de implementar uma nova organização do espaço e da forma
no processo de construção arquitetónica.
A edificação da Baixa Pombalina reflete uma arquitetura que se caracteriza por
um retorno à simplicidade e elegância das proporções, características já protagonizadas
pela Arquitetura Chã, que representa os princípios frugais da arquitetura vernacular,
diferenciando-se assim do Gótico português tardio,1500-1550 e o Barroco português,
1700 1750.
Independentemente das influências ou circunstâncias subjacentes à reconstrução
da Baixa, o edifício pombalino é o resultado não de cópias simples de edifícios que já
existiam, mas de um novo conceito de edifício, adaptado à produção racional em massa,
cuidadosamente concebido para produzir um edifício económico, higiénico e seguro,

1
PEREIRA, Paulo - Arte Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates pág. 488
fundamentado na maneira simples e tradicional de construção, sem negligenciar a clareza
e ordem da antiguidade clássica.
A composição da fachada, o número de andares, a forma das pedras ao redor dos
espaços e o uso de varandas e janelas no primeiro andar dos edifícios, teve origem na
composição do Palácio Ludovice (1740) situado no Bairro Alto. Contudo, os elementos
que formam as fachadas são simplificados, com o objetivo de estandardizar a produção
dos componentes.

Imagem 1-Palácio Ludovice, Rua São Pedro de Alcântara, 1955 e 2010

Os pilares deram lugar aos blocos, a solidez das paredes de pedra do piso térreo,
as pedras que formam os pilares, os elementos de conexão, os arcos e as sólidas abóbadas
de tijolo e as escadas com os dois primeiros degraus em pedra esculpida, parecem ter
origem nas grandes mansões urbanas, como o Palácio das Galveias (1650-70) .

Imagem 2 -Palácio Távora-Galveias, Campo Pequeno ,1915 foto de José Bárcia Fonte:
http://lisboadeantigamente.blogspot.com/2016/01/palacio-taPlanta cotada de um andar-tipo vora-
galveias.html

Os frontões retos das janelas das varandas dos edifícios pombalinos nas Ruas do
Arsenal e Rossio, ocorreram muito antes, como no caso do Palácio dos Duques de Aveiro
em Azeitão (antes de 1619), e também no andar de cima das janelas do dormitório no
Mosteiro de Alcobaça (1716).
Imagem 3 -Palácio dos Duques de Aveiro em
Azeitão Imagem 4 -Mosteiro de Alcobaça
Fonte: http://ruinarte.blogspot.com/2010/05/o- Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Alcoba%C3%A7a
palacio-dos-duques-de-aveiro-azeitao.html

A modulação rigorosa e a repetição contínua das fachadas da estrutura dos


edifícios pombalinos (os espaços na fachada estavam perfeitamente alinhados vertical e
horizontalmente), são outros aspetos que parecem estar relacionados com a modulação e
simplicidade da arquitetura jesuíta. Devido à constante expansão em novos territórios,
especialmente no Brasil, os jesuítas tinham, como o Marquês de Pombal, de construir de
forma rápida e económica. Os seus edifícios tinham um caráter sóbrio com linhas rígidas
e disciplinadas.

Imagem 5 - Igreja de São Roque, planta e fotografias Fonte: http://www.lisbonne-


idee.pt/p3019-surpreenda-com-talha-dourada-igreja-sao-roque.html
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Igreja_de_S%C3%A3o_Roque_Plan.jpg

Enquanto os edifícios portugueses parecem fornecer modelos para o design da


elevação pombalina, o planeamento urbano é influenciado pela arquitetura estrangeira,
aspeto mencionado por Maia nas suas dissertações. Neste contexto, a reconstrução de
Londres após o Grande incêndio de 1666 à primeira vista parece ter pouca relação com o
bairro pombalino, no entanto, o plano do capitão Valentinr knight (que não foi executado)
inclui regras que regem os tamanhos dos componentes nas fachadas, a altura dos edifícios
e a largura das ruas e, assim, forneceram o precedente para uma estrutura reguladora
similar que controla a área pombalina. Outro exemplo, são os planos ortogonais
encontrados em várias cidades coloniais espanholas, como na Candelária, na qual o tecido
urbano existente foi destruído para dar lugar à imposição de um novo. O caso de Turim
foi possivelmente o desenvolvimento mais influente em relação à reconstrução
pombalina. A cidade original foi ampliada em 1714 com uma série de ruas e praças
ortogonais, os prédios eram semelhantes aos do bairro pombalino, por terem no piso
térreo comércio e nos andares de cima residências, a proporção dos edifícios também é
semelhante nos dois, assim como os estreitos interiores dos quarteirões.

Imagem 6 -Planta da cidade de Turim de 1890 Imagem 7 -Plano para Londres depois do incendio de Valentine
Fonte: https://www.ebay.com/itm/1890-Ca- knight. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Fire_of_London
ANTIQUE-TOWN-PLAN-TURIN-
ITALY/122680443073?hash=item1c905300c1
:g:Rk4AAOSw3ihXTIus

Imagem 8 -Projeto do novo aposento para os Imagem 9 -Plano do povoado de Candelária publicado pelo
Índios da Aldeya de S. Miguel, original de José padre José Manuel Peramás na obra De vita et moribus tredecim
Mathias de Oliveira Rego, do Arquivo Histórico virorum paraguaycorum, Faenza, 1793
Ultramarino, Lisboa, 1765

Estas circunstâncias remetem para o ensaio de Távora3, uma vez que


exemplificam que o espaço organizado é obra da participação de todos os homens,
embora em graus diferentes e distinguindo a participação horizontal que se realiza
entre homens de uma mesma época, e a participação vertical que se realiza entre homens
de épocas diferentes. Ambas têm de se transformar em colaboração para que haja
harmonia no espaço organizado. De igual modo se depreende, que na Baixa Pombalina,
o homem teve de tomar uma atitude, indo para além da circunstância, para não repetir os

3
PEREIRA, Paulo - Arte Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates pág 484
mesmos erros, uma vez que, “ao criar formas, cria circunstâncias e estas por sua vez
podem agravá-los ou melhorá-los”4.
Veja-se que, após o terramoto de 1755, a reconstituição da cidade de Lisboa, foi
possível devido à ação do governo de Marquês de Pombal, de Manuel da Maia, e dos
arquitetos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel que evitaram que Lisboa tivesse sido
reconstruída partir dos escombros por cada proprietário sem planeamento, estabelecendo-
se uma nova disciplina urbana .“renasça das próprias cinzas, mais perfeita, mais bela,
mais de acordo com as necessidades e possibilidades da época “5

3. Organização do espaço na arquitetura Pombalina


As circunstâncias foram essenciais para a decisão e para a definição das formas
urbanas e arquitetónicas na Baixa Pombalina, “e não a moda nem a corrente artística da
época”, mas sim a compreensão perfeita das realidades, das necessidades e das
possibilidades, opondo-se às composições barrocas, evitando alinhamentos curvilíneos e
apostando na simplicidade do traçado urbano, permitido a execução de edifícios simples,
de baixo custo e construção rápida.
Eugénio dos Santos compreendeu de forma pragmática, simples e racional o plano
de reconstrução da Baixa desde da escala urbanística à escala do edifício, até ao nível dos
pormenores, estabelecendo regras rígidas para as construções dos edifícios, desde o
desenho urbano e das fachadas, ao número de pisos, até às distribuições tipológicas. Não
organiza o espaço a partir de uma visão parcial, o edificado está intimamente ligado com
o espaço público, o espaço é continuo. Está concebido como um todo programático, que
recupera os aspetos fundamentais da memória, sendo contudo usada uma liberdade
competente de organização do espaço, e assim se explica a ortogonalidade, a rígida
hierarquia e a orientação dos espaços, a articulação com as malhas adjacentes que
cirurgicamente une, a manutenção do diálogo entre as duas praças, forma de integrar
fisicamente a memória de eixos importantes antes do terramoto, como a rua Nova de el
Rei ou a Rua Nova, e a modelação da malha de maneira a integrar monumentos
importantes que tinham sobrevivido à catástrofe.

4
PEREIRA, Paulo - Arte Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates pág. 486
Imagem 10 -Pormenor da Planta da Cidade em 1650 e Planta da Cidade de Lisboa
Fonte : Google Earth , Paula André pwp Barroco – Iluminismo – Séc. XVII-XVIII

Cada bolco era constituído por vários edifícios, que por sua vez podiam pertencer
a vários proprietários, com uma estrutura independente e divisória contra incêndio, o
interior dos edifícios, assim como o seu exterior, revelou-se muito simples e de
acabamento austero. O acesso aos pisos era feito através de um estreito hall de entrada no
centro do edifício, (atualmente, este espaço é frequentemente utilizado como área
comercial) as divisões estavam por norma organizadas: as áreas sociais - as salas de estar
e de jantar, próximas da rua por causa da iluminação e ventilação, enquanto as áreas de
serviço como a cozinha situavam-se do outro lado da casa junto ao saguão, e entre estas
divisões existiam uma série de quartos interiores com portas de interligação entre
compartimentos. As fachadas tinham quatro pisos, o primeiro com janelas sacadas, os
segundo e terceiro pisos com janelas «de peitoril», o quarto, de águas furtadas em
colocação irregular; um rés-do-chão de lojas acompanha o mesmo ritmo dos vãos
superiores. Estabeleceu-se 3 tipos de padrão para fachada, cujas diferenças eram sempre
ao nível dos vãos e das suas cantarias, com maior ou menor riqueza, de acordo com a
hierarquia das próprias ruas.

Piso de loja
Planta cotada de
um andar-tipo Planta esquemática piso Térreo

áreas serviços
cozinha

Imagem 11 -Nova Lisboa, alçado de uma das ruas principais e quartos interiores com
Áurea no Cartulário Pombalino Fonte : Arquivo da Câmara portas de interligação
entre compartimentos
Municipal
áreas sociais
sala de estar e
jantar

Planta esquemática do primeiro piso


Imagem 12 -Plantas esquemáticas adaptado e retirado do pwp
Paula André pwp Barroco – Iluminismo – Séc. XVII-XVIII
O belo do “estilo pombalino” está na sua pura funcionalidade na ausência de
ornamentação evitando “a criação de formas desprovidas de eficiência e beleza, de
utilidade e sentido, de formas sem raízes que nada acrescentam ao espaço organizador ou
o perturbam com a sua existência”6, os portugueses souberam interpretar e filtrar o
essencial e estritamente necessário, criando uma expressão nova na Arquitetura. Um
plano que, até ao nível dos pormenores, foi reflexo de uma disciplina onde o acessório foi
eliminado e as circunstâncias (falta de tempo e dinheiro) ganham um peso muito
importante.

4. Intervenção posterior, Reconstrução do Chiado

De acordo com o objeto de estudo deste trabalho, ensaio “Dimensões e


Características do Espaço”, de Fernando Távora a Baixa Pombalina é circunstância da
reconstrução do Chiado, após o incêndio em 1988.
O plano pombalino como já foi referido, é uma malha complexa, de
ortogonalidade perfeita, onde a linguagem e as tipologias foram definidas da forma mais
pragmática possível, caracterizado pela estandardização de elementos e pela exclusão de
ornamentos, obra dos engenheiros militares “remete a uma estética “classicizante”, unida
à tratadística militar portuguesa, e aos princípios veiculados pela tratadística maneirista”7,
sendo “o nosso iluminismo possível”, defendendo que o resultado das reformas foi uma
síntese de 250 anos de amadurecimento da “escola lusitana de arquitetura militar e do
urbanismo”8
No dia 25 de agosto de 1988, um incêndio consumiu o Chiado deixando apenas
algumas fachadas e armaduras de ferro de pé. Por consequência, segue-se um complexo
processo de análise, síntese, consolidação e reconstrução, que durou cerca de 10 anos,
revertendo-se num marco para a história da cidade de Lisboa e para a arquitetura
portuguesa contemporânea.

6
PEREIRA, Paulo - Arte Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates pág. 488
7
França José Augusto, 1987, pág. 173-217
8
França José Augusto, 1987, pág. 297-307
Álvaro Siza reconhece que o Chiado faz parte da Baixa Pombalina como um todo,
e defende a impossibilidade de caracterizar um objeto sem ter em conta a sua envolvente,
e do complexo sistema de relações que existe entre este e o lugar onde se implanta. Este
pensamento está também presente no texto de Fernando Távora que afirma que na
organização do espaço quer as formas em si, quer a relação entre elas, quer o espaço que
as limita, são igualmente importantes e isto resulta do espaço ser continuo9. A
Reconstrução do Chiado concentra-se na importância do lugar. Um lugar que é para o
arquiteto um objeto transformado e transformável, que vive essencialmente das relações
que estabelece entre si e o que o rodeia.
Essa importância do lugar deve vir apoiada num profundo conhecimento da
História e da história do lugar, sem que por isso se deixe de responder aos problemas
modernos.
O incêndio e as suas consequências não tiveram impacto nem força para se
justificar uma quebra da linguagem característica do Chiado em prol de uma imagem
nova, nem o programa era suficientemente transformador. A transformação foi
conseguida por alterações cirúrgicas no edificado - “(...) não havia nenhuma razão para
fazer edifícios que se destacassem do contexto, à exceção dos que, numa certa medida, já
se destacavam.”10, como seria o caso do Grandella. Também não se pretendeu fazer uma
cópia do existente, mas sim uma reinterpretação, um trabalho de síntese de um
“Pombalino de transição” que dependia de uma estrutura maior que é a Baixa, um
redesenhar tendo em conta as novas necessidades do sítio e da época, adaptando a
linguagem dos alçados pré-existentes, e transformando o interior dos quarteirões em
espaço público dialogante com uma série de percursos existentes e reforçando a imagem
do sítio como lugar de passagem, restabelecendo as relações entre as cotas alta e baixa da
mesma forma que reinterpreta os espaços público e privado, tendo em conta as
características programáticas das suas construções.
“(…) E, portanto, esses edifícios têm que emergir naturalmente, e não há que estar
a imitar pombalino ou o que quer que seja, porque existe uma força própria que não
é capricho do arquiteto, é a própria natureza do trabalho e o seu significado na
cidade”11(..)

9
PEREIRA, Paulo - Arte Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates pág. 483
10
SIZA, Álvaro; “Viver intensamente” (1991); Entrevista por Laurent Beaudouin; Trad. Vera Cabrita; AA.VV.; Álvaro
Siza, uma questão de medida; Caleidoscópio, 2009, Casal de Cambra; pp. 72
11
SIZA, Álvaro; entrevista a Matilde Lobo, “Estratégias de reconstrução urbana. A experiência do chiado em
discurso directo”
Isto remete para as premissas de Fernando Távora “o espaço é contínuo, porque o
tempo é uma das suas dimensões, logo o espaço é igualmente irreversível, na medida que
nunca pode vir a ser o que já foi”.

Imagem 13 - Planta das áreas a integrar no espaço Imagem 15 -Planta-tipo do


público Gabinete do Arq. Álvaro Siza 23 de Abril de Imagem 14 - Planta cotada de edifício Castro & Mello.
1990. um andar-tipo Baixa
Pombalina
O Chiado situa-se entre a Baixa Pombalina e o Bairro Alto, contudo em termos
arquitetónicos são idênticos, a diferença surge da topografia, quando o tabuleiro da baixa
encontra as encostas tende a “infletir”, procura a forma de vencer os desníveis, e segundo
Siza o traçado hesita.
“O que acho é que são mais híbridos [em relação aos da Baixa], porque são formas
de transição e daí lhes advém, o interesse; o que podemos chamar um abaixamento
de qualidade, do ponto de vista do rigor ou purismo, é compensado por esse
hibridismo que tem que ver com a complexidade que sempre aflora na transição
entre partes diferentes da cidade.”12
A questão seria então, eliminar a ideia de que a continuidade e a necessidade de
transformação são opostas, elas complementam-se, depois de se verificar que as variáveis
que existiam entre o Chiado e a Baixa, não são rutura, mas sim, também elas, continuidade
e oportunidade, sendo isto a base do conceito do projeto.

Imagem 16 - Nova Lisboa, alçado de uma das ruas.

12
Álvaro; “A propósito da Reconstrução do Chiado” (1990); entrevista de José Salgado; AA.VV.; Álvaro Siza a
reconstrução do Chiado, Lisboa; Lisboa, Figeirinhas, ICEP, 2000; pp. 72 e 74
Imagem 17 - Alçado da rua Ivens, poente Fonte:
https://www.ecoarkitekt.com/etiqueta/chiado/

Neste projeto, está sempre presente a dicotomia entre a vontade de destruir e de


inovar e as ideias de excessiva preservação do existente, tema bastante discutido pelos
arquitetos da época13, à semelhança do que aconteceu com a reconstrução da Baixa
Pombalina, onde Manuel da Maia se viu obrigado a escolher entre reconstruir a cidade
segundo o que já existia ou reconstruir segundo um novo plano, com uma linguagem
nova, mas de acordo com as necessidades da sociedade e de uma cidade moderna. Neste
caso, na reconstrução do chiado, uns acreditavam, como Tomás Taveira, que apesar da
importância histórica e da beleza dos edifícios, estes já não davam resposta as
necessidades de um grande armazém ou de um sofisticado escritório, portanto deve-se
construir algo atual e inovador, enquanto outros defendiam, como Pedro Brandão, que a
reconstrução deveria ser feita segundo a traça original pois seria a única forma de evitar
choques com os edifícios sobreviventes, e seria a única maneira de conservar a memória
dos monumentos.
Esta problemática, vai ao encontro da ideia de Távora quando este afirma que de
um excessivo individualismo dos arquitetos mais conceituados resulta numa excessiva e
perigosa individualização de formas14, ou seja, criar formas “geniais” ou diferentes que
nada tenham a ver com o envolvente ou com a essência do local, leva a uma extrema
descontinuidade das cidades.
Neste projeto da reconstrução do Chiado foi essencial a relação com o lugar, com
a geografia própria do sítio e com a sua história, a importância da natureza programática,
e sua posição perante as questões de transformação e continuidade.

13
Anexo 3 O jornal de 8 de agosto 1988
14
PEREIRA, Paulo - Arte Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates pág. 487
5. Conclusão
No processo de construção tem de se ter consciência de que a liberdade é
delimitada, ainda que não de forma determinante, por circunstâncias. A criação de formas
e a organização do espaço não se podem dissociar da realidade nem das necessidades da
sociedade, pois têm um carater pedagógico.
A partir do objeto de estudo, ensaio “Dimensões e Características do Espaço”, de
Fernando Távora, fez-se uma leitura da reconstrução da Baixa Pombalina como uma
intervenção profundamente condicionada por uma série de fatores, que depois de
realizada se tornou no espaço condicionante da reconstrução do Chiado em 1988 e de
futuras alterações.
Deste trabalho se conclui que tanto a primeira obra como a segunda foram
condicionadas porque nasceram para satisfazer uma necessidade, um programa, tiveram
de se construir num curto espaço de tempo, mediante um orçamento e técnicas e materiais
de construção vigentes, assim como se enquadravam num determinado meio/ambiente.
Assim percebemos o peso das circunstâncias para a definição de formas.
No sec. XVII, a destruição provocada pelo terramoto levou a surgimento de uma
nova arquitetura ancorada no pragmatismo, recuperando os aspetos essenciais da
memória e respondendo às necessidades de Lisboa e dos seus habitantes. Já no século XX
a circunstância (incêndio de 1988) não teve força suficiente para se justificar uma rutura
na cidade, uma arquitetura nova, mas sim uma arquitetura de continuidade, procurando
manter a sua identidade sem que isso deixe de responder aos problemas modernos.
Os projetos de arquitetura para a cidade de Lisboa têm de contemplar a cidade no
seu todo, as intervenções na periferia têm de ser feitas de forma articulada com centro
histórico para que se mantenha o equilíbrio entre o passado e o presente.
6. Bibliografia

PEREIRA, Paulo - Arte Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates


Mascaranhas, Jorge, Dissertação A Study of Building in the Pombaline Quarter
of Lisbon,1996
Mascarenhas J.Sistemas de Construção V. O edifício de rendimento da Baixa
Pombalina da Lisboa. Materiais Básicos: o Vidro. Livros Horizonte , 2005
FRANÇA, José Augusto - Lisboa Pombalina e o Iluminismo. Lisboa: Bertrand,

1987
Álvaro; “A propósito da Reconstrução do Chiado” (1990);
MONTEIRO, Pardal, Os Portugueses Percursores
Entrevista de José Salgado; AA.VV.; Álvaro Siza a reconstrução do Chiado,
Lisboa; Lisboa, Figeirinhas, ICEP, 2000
Anexo 3, O jornal de 8 de agosto 1988
SIZA, Álvaro; “Viver intensamente” (1991)
Entrevista por Laurent Beaudouin; Trad. Vera Cabrita
AA.VV.; Álvaro Siza, uma questão de medida; Caleidoscópio, 2009, Casal de
Cambra
SIZA, Álvaro; entrevista a Matilde Lobo, “Estratégias de reconstrução urbana. A
experiência do Chiado em discurso directo”
7.Anexos