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A 13ela Época do Cinema Brasileiro


Vicente Paula Araújo
i= tes
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tes
. - .
c1enc1a

Thomas S. Kuhn iniciou sua carreira universitária como físico teórico.


As circunstâncias levaram-no ao estudo da História e a preocupações de
natureza.filosófica. Trajetória incomum, que este livro de certa forma
sinteO;ia·e que explica seu caráter polivalente. Múltiplas áreas, desde as
exatas até as humanas, convergem para as agudas análises, que levam o

thomas s. l<uhn
Autor, questio -,ando dogmas consagrados, a ver o progresso da Ciência
não tanto como o acúmulo gradativo de novos dados gnosiológicos, e
sim como um processo contraditório marcado pelas revoluções do pen­
samento científico. Tais revoluções são definidas como o momento de
desintegração do tradicional numa disciplina, forçando a comunidade
de profissionais a ela ligados a reformular o conjunto de compromissos
em que. se baseia a prática dessa ciência. Um dos aspectos mais interes­
santes de A Estrutura das Revoluções Científicas é a análise do papel dos
A ESTRUTURA
~
DAS REVOLUÇOES
fatores exteríores à Ciência na erupção desses momentos de crise e
transformação do pensamento científico e da prática correspondente.

CIENTÍFICAS
9

debates
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� EDITORA PERSPECTIVA

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Coleção Debates
Dirigida por J. Guinsburg

thomas s. kuhn
A ESTRUTURA
DAS REVOLUÇOES
CIENTÍFICAS

�\'¼� EDITORA PERSPECTIVA


Equipe de realização: Tradução: Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira; �
Revisão: Alice Kyoto Miyashiro; Produção: Ricardo W. Neves e Adriana
Garcia.
�l\\ef
Título do original inglês:
The Structure of Scientijic Revolutions

Copyright© 1962, 1970 by The University of Chicago

SUMARIO
Prefácio 9
Introdução: Um Papel para a História . . . . . . . . 19

1. A Rota para a Ciência Normal . . . . . . . . . 29


2. A Natureza da Ciência Normal . . . . . . . . . 43
5• edição
3. A Ciência Normal como Resolução de Que­
bra-Cabeças . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
4. A Prioridade dos Paradigmas . . . . . . . . . . . . 67
Direitos reservados cm língua portuguesa ü
5. A Anomalia e a Emergência das Descobertas
EDITORA PERSPECTIVAS. A. Científicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
Av. Brigadeiro Luís Antônio, 302.'i 6. As Crises e a Emergência das Teorias Cientí-
01401-000-São Paulo-SP- Brasil ficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
Telefone: (011) 885-8388 7. A Resposta à Crise . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107
Fax: (011) 885-6878
1998
7
g. A Natureza e a Necessidade das Revoluções
· Científicas ........................... 125
9 As Revoluções Como Mudanças de Concep-
.
ção de Mundo ....................... 145
1O. A Invisibilidade das Revoluções .......... 173
11. A Resolução de Revoluções ............. 183
12. O Progresso através de Revoluções ...... 201
Posfácio - 1969: .................... 217
1 . Os paradigmas e a estrutura da comu-
nidade ............................ 219
2. Os paradigmas como a constelação dos
compromissos de grupo ..... . ........ 225
3. Os paradigmas como exemplos compar-
tilhados ........................... 23 2
4. Conhecimento tácito e intuição ........ 237
5. Exemplares, incomensurabilidade e revo-
luções ............................ 244
6. Revoluções e relativismo ......... . . .. 251
7. A natureza da ciência ............... 254

PREFACIO

O ensaio a seguir é o primeiro relatório completo


publicado sobre um projeto concebido originalmente
há quase quinze anos. Naquele tempo eu era um estu­
dante de pós-graduação em Física Teórica tendo já
em vista minha dissertação. Um envolvimento afortu­
nado com um curso experimental da universidade, que
apresentava a ciência física para os não-cientistas, pro­
porcionou-me a primeira exposição à História da Ciên­
cia. Para minha completa surpresa, esta exposição a
teorias e práticas científicas antiquadas minou radical­
mente algumas das minhas concepções básicas a res­
peito da natureza da ciência e das razões de seu su­
cesso. incomum.

8 9
Eu retirara essas concepções em parte do próprio mente co�? Great Chain of Being de A. O. Lovejoy,
foram decisivos na_ , �ormaç�o,_de �in�� concepção do
treino científico e em parte de um antigo interesse re­ que pode ser a h1stona das ideias cientificas. Sua impor­
creativo na Filosofia da Ciência. De alguma maneira, tância é. s�cundária_ somente quando comparada com
quaisquer que fossem sua utilidade pedagógica e sua os matenais provementes de fontes primárias.
plausibilidade abstrata, tais noções não se adaptavam
às exigências do empreendimento apresentado pelo . Contudo, muito do meu tempo durante esses anos
fo1 �as!o explor��do _ campos sem relação aparente com
estudo histórico. Todavia, essas noções foram e são .
a Historia da Cien:iªi mas nos quais a pesquisa atual
fundamentais para muitas discussões científicas. Em revela problemas similares aos que a História vinha
vista disso parecia valer a pena perseguir detalhada­ trazendo à minha atenção. Uma nota de rodapé, encon­
mente suas carências de verossimilhança. O resultado trada ao acaso, conduziu-me às experiências por meio
foi uma mudança drástica nos meus planos profissio­ das quais Jean Piaget iluminou os vários mundos da
nais, uma mudança da Física para a História da Ciên­ criança em crescimento e o processo de transição de
cia e a partir daí, gradualmente, de problemas histó­ um para outro.2 Um colega fez-me ler textos de Psi­
ricos relativamente simples às preocupações mais filo­ cologia da Percepção e em especial os psicólogos da
sóficas que inicialmente me haviam levado à História. Gestalt; outro introduziu-me às especulações de B. L.
Com exceção de alguns artigos, este ensaio é a primei­
ra de minhas publicações na qual essas preocupações �orf acerca do efeito da lin�agem sobre as concep­
çoes de mundo; W. V. O. Qume franqueou-me o aces"'
iniciais são dominantes. Em parte este ensaio é uma so �os 9uebra-cab�ças _filosóficos da distinção analíti:.
tentativa de explicar a mim mesmo e a amigos como ,
co-sm!etica. 3 Este e o tipo de exploração ao acaso que
me aconteceu ter sido lançado da ciência para a sua a Society of Fellows permite. Apenas através dela eu
história.
poderia ter encontrado a monografia quase desconheci­
Minha primeira oportunidade de aprofundar algu­ da de Ludwik Fleck, Entstehung und Entwicklung einer
mas das idéias expostas a seguir foi-me proporciona­ w,ss�nschaftlichen Tatsache, (Basiléia, 1935), um
da por três anos como Junior Fellow da Society of ensa10 que antecipa muitas de minhas próprias idéias.
Fellows da Universidade de Harvard. Sem esse perío­ O trabalho de Fleck, juntamente com uma observação
do de liberdade, a transição para um novo campo de de outro Junior Fellow, Francis X. Sutton, fez-me com­
estudos teria sido bem mais difícil e poderia não se preender que essas idéias podiam necessitar de uma
ter realizado. Parte do meu tempo durante esses anos colocação no âmbito da Sociologia da Comunidade
foi devotada à História da Ciência propriamente dita.
Continuei a estudar especialmente os escritos de Ale­ �ientífica.
_ Embora os leitores encontrem poucas refe­
xandre Koyré e. encontrei pela primeira vez os de f:mi­ rencias a qualquer desses trabalhos ou conversas, devo
le Meyerson, Hélêne Metzger e Anneliese Maier.1 Mais a eles mais do que me seria possível reconstruir ou
claramente do que muitos outros eruditos recentes, esse avaliar neste momento.
grupo mostrou o que era pensar cientificamente, numa Durante
. meu último ano como Junior Fellow' um
época em que os cânones do pensamento científico convite para fazer conferências para o Lowell Institu-
eram muito diferentes dos atualmente em voga. Embo­ te de Boston proporcionou-me a primeira oportunida-
ra eu questione cada vez mais algumas de suas inter­
2. Dois conjuntos de investigações de Piaget foram particularmente
pretações históricas particulares, seus trabalhos, junta- h!_lport�ntes, porque apr�sent�vam con_ceitos e processos que também pro­
,
vem �iretamente da H1stóna da C1encia: The Chlld's Conception of
Causallty, tradução de Marjorie Gabain (Londres, 1930) e Le� notions de
1. Exerceram influência especial: ALEXANDRE Kové, Etudes Gali­ mouvement et de vltesse chez l'enfant (Paris, 1946).
lünnes (3 v.; Paris, 1939); 1\MILE MEYERSON, ldentity and Reality, tra­ 3. Desde então os escritos de Whorf foram reunidos por JOHN B.
dução de Kate Loewenberg (Nova York 1930)· HÉLENE METZGER0 us CA�OU. em Language, Thought and Reality - Selected Writings o/
doctrines c?iimiques m France du début 'du XVÍI• à la /in du X VIII• BenJ�mm Lee Whorf (Nova York, 1956). Quine apresentou suas con­
s/ec� (Pans, 1923), e Newton, Stahl, Boerhaave et la doctrine chimique cepçoe� em " Two Dogmas of Empiricism", reimpresso na sua obra From
(Pans, 1930); ANNELIESE MAIER, Die Vorliir/er Gal/leis im 14. lahrhundert a Log1cal Pomt _ o/ Víew (Cambridge, Mass., 1953) pp. 20-46.
("Studien zur Naturphilc»ophie der Spatscholastik", Roma, 1949).

11
10
de para testar minha concepção de ciência, que ainda tistas sociais no que diz respeito à natureza dos mé­
estava em desenvolvimento. Do convite resultou uma todos e problemas científicos legítimos. Tanto a His­
série de oito conferências públicas sobre "A Busca da tória como meus conhecimentos fizeram-me duvidar
Teoria Física" (The Quest for Physical Theory), apre­ de que os �rati�antes das c�ências naturais possuam
sentadas em março de 1951. No ano seguinte comecei respostas maJS fumes ou mais permanentes para tais
a lecionar História da Ciência propriamente dita. Os questões do que seus colegas das ciências sociais. E
problemas de ensino de uma disciplina que eu nunca contudo, de algum modo, a prática da Astronomia da
estudara sistematicamente ocuparam-me por quase uma Física, da Química ou da Biologia normalmente 'não
década, deixando-me pouco tempo para uma articula­ evocam as controvérsias sobre fundamentos que atual­
ção explícita das idéias que me haviam levado a esse mente parecem endêmicas entre, por exemplo, psicó­
campo de estudos. Contudo, afortunadamente, essas logos ou sociólogos. A tentativa de descobrir a fonte
idéias demonstraram ser uma fonte de orientação implí­ dessa diferença levou-me ao reconhecimento do papel
cita e de estruturação de problemas para grande parte desempenhado na pesquisa científica por aquilo que,
de minhas aulas mais avançadas. Por isso devo agra­ desde então, chamo de "paradigmas". Considero "pa- ·
decer a meus alunos pelas lições inestimáveis, tanto radigmas" as realizações científicas universalmente re­
acerca da viabilidade das minhas concepções, como a conhecidas que, durante algum tempo, fornecem pro­
respeito das técnicas apropriadas a sua comunicação blemas e soluções modelares para uma comunidade de
eficaz. Os mesmos problemas e a mesma orientação praticantes de uma ciência. Quando esta peça do meu
dão unidade à maioria dos estudos predominantemente quebra-cabeça encaixou no seu lugar, um esboço pre-
históricos e aparentemente diversos que publiquei des­ liminar deste ensaio emergiu rapidamente. ,_
de o fim de minha bolsa de pesquisa. Vários deles tra­ Não é necessário recontar aqui a história subseqüen­
tam do papel decisivo desempenhado por uma ou outra te desse esboço, mas algumas palavras devem ser ditas
metafísica na pesquisa científica criadora. Outros exa­ a respeito da forma que ele manteve através das re­
minam a maneira pela qual as bases experimentais de visões. Antes de terminar e revisar extensamente uma
uma nova teoria são acumuladas e assimiladas por ho­ primeira versão, eu pensava que o manuscrito apare­
mens comprometidos com uma teoria mais antiga, in­ ceria exclusivamente como um volume da Encyclope­
compatível com aquela. Ao fazer isso, esses estudos dia of Unified Science. Os editores desta obra pionei­
descrevem o tipo de desenvolvimento que adiante cha­ r� primeiram�nte solicita�am-me o ensaio, depois man­
marei de "emergência" de uma teoria ou descoberta tiveram-me firmemente ligado a um compromisso e fi­
nova. Além disso são apresentados outros vínculos do n�lmente esperaram com extraordinário tato e paciên­
mesmo tipo. cia par um resultado. Estou em dívida para com eles,
O estágio final do desenvolvimento deste ensaio particularmente com Charles Morris, por ter-me dado
começou com um convite para passar o ano de 1958- o estímulo necessário e ter-me aconselhado sobre o
-1959 no Center for Advanced Studies in the Behavio­ manuscrito resultante. Contudo, as limitações de espa­
ral Sciences. Mais uma vez tive a oportunidade de di­ ço da Encyclopedia tornaram necessário apresentar mi­
rigir toda minha atenção aos problemas discutidos nhas concepções numa forma extremamente conden­
adiante. Ainda mais importante foi passar o ano numa sada e esquemática. Embora acontecimentos subse­
comunidade composta predominantemente de cientis­ qüentes tenham relaxado um tanto essas restrições, tor­
tas sociais. Esse contato confrontou-me com proble­ nando possível uma publicação independente simultâ­
mas que não antecipara, relativos às diferenças entre nea, este trabalho permanece antes um ensaio do
essas comunidades e as dos cientistas ligados às ciên­ que o livro de amplas proporções que o assunto aca­
cias naturais, entre os quais eu fora treinado. Fiquei bará exigindo.
especialmente impressionado com o número e a exten­ O caráter esquemático desta primeira apresenta­
são dos desacordos expressos existentes entre os cien- ção não precisa ser necessariamente uma desvantagem,
13
12
vencê-los. Uma tentativa dessa ordem teria exigido um
a qual fui capaz de explorar minhas idéias através de
livro bem mais extenso e de tipo muito diferente. sentenças incompletas. Esse modo de comunicação
Os fragmentos autobiográficos que abrem este atesta uma compreensão que o capacitou a indicar-me
prefácio servem para dar testemunho daquilo que re­ como ultrapassar ou contornar vários obstáculos impor­
conheço como minha dívida principal, tanto para . co� tantes que encontrei durante a preparação de meu pri­
os trabalhos especializados, como para com as msti­ meiro manuscrito.
tuições que me ajudaram a dar forma ao meu pensa­ Depois que esta versão foi esboçada, muitos outros
mento. Nas páginas seguintes procurarei desembara­ amigos auxiliaram na sua reformulação. Penso que me
çar-me do restante dessa dívida através de �itações. perdoarão se nomear apenas quatro, cujas contribui­
Contudo, nada do que foi dito acima ou abaixo_ fará
ª.
mais do que suge�ir o número'e nat1;1re� de mm�as
,
ções demonstraram ser as mais decisivas e de mais
longo alcance: Paul K. Feyerabend de Berkeley, Ernest
obrigações pessoais para com muitos. i_n�ividuos cuJas Nagel de Columbia, H. Pierre Noyes do Lawrence Ra­
sugestões ou críticas sustentaram e dmgiram meu d<:­ diation Laboratory e meu aluno, John L. Heilbron, que
senvolvimento intelectual, numa época ou noutra. Mui­ trabalhou em estreita colaboração comigo na prepara­
to tempo passou desde que as idéias deste ensaio co­ ção de uma versão final para a publicação. Todas as
meçaram a tomar forma; uma lista de todos que po­ suas sugestões ou reservas pareceram-me extremamen­
dem, justificadamente, encontrar alguns sinais de sua te úteis, mas não tenho razões para acreditar ( e tenho
influência nestas páginas seria quase _tão extensa_ quan­ algumas para duvidar) de que nem eles nem os outros
to a lista de meus amigos e conhecidos. Nas ctrcuns­ mencionados acima aprovem o manuscrito resultante
tâncias presentes tenho que me restringir àquelas pou­ na totalidade.
cas influências mais significativas, que mesmo uma me­ Meus agradecimentos finais a meus pais, esposa e
mória falha nunca suprimirá inteiramente. filhos precisam ser de um tipo bastante diferente. Cada
Foi James B. Conant, então presidente da U�i­ um deles também contribuiu com ingredientes intelec­
versidade de Harvard, quem primeiro me introdUZlU tuais para meu trabalho, através de maneiras que pro­
na História da Ciência e desse modo iniciou a trans­ vavelmente sou o último a reconhecer. Mas em graus
formação de minha concepção da natureza do progres­ variados, fizeram algo mais importante. Deixaram que
so científico. Desde que esse processo começou, el� tem minha devoção fosse levada adiante e até mesmo a
sido generoso com su�s . idéias, críticas e te�po - inclu­ encorajaram. Qualquer um que tenha lutado com um
sive o tempo necessario para ler e sugem mudan9as projeto como este reconhecerá o que isto lhes custou
importantes na primeira versão d� In:eu manusc�ito. eventualmente. Não sei como agradecer-lhes.
Leonard K. Nash, com o qual lecionei durante cmco
anos o curso historicamente orientado que o Dr. Co­
nant iniciara, foi um colaborador ainda mais ativo du­ T. S. K.
rante os anos em que minhas idéias co1!1eçaram a to­
mar forma. Sua ausência foi muito sentida durante os Berkeley, Califórnia
últimos estágios do desenvolvimento de . concepções. Fevereiro 1962
Felizmente, contudo, depois de minha paru�a de. Cam­
bridge seu lugar como caixa de ressonância cnadora
foi as�umido por Stanley Cavell, meu colega em, Ber­
keley. Para mim foi uma fonte de const�nte estimulo
e encorajamento o fato de Cave�l, um filós�f<;> preo­
cupado principalmente com a :8tica e a Estetica, ter
chegado a conclusões tão absolutamente congruentes
com as minhas. Além disso, foi a única pessoa com

16 17
INTRODUÇÃO: UM PAPEL PARA A HISTÓRIA

l
Se a História fosse vista como um repositório pa­
ra algo mais do que anedotas ou cronologias, poderia
produzir uma transformação decisiva na imagem de
ciência que atualmente nos domina. Mesmo os pró-
r prios cientistas têm haurido essa imagem principal­
mente no estudo_ das realizações científicas acabadas,
tal como estão registradas nos clássicos e, mais recen­
temente, nos manuais que cada nova geração utiliza
para aprender seu ofício. Contudo, o objetivo de tais
livros é inevitavelmente persuasivo e pedagógico; um
conceito de ciência deles haurido terá tantas probabi-
lidades de assemelhar-se ao empreendimento que os
produziu como a imagem de uma cultura nacional obti-
J9
mente e muitas vezes sem se aperceberem completa­ e da eletricidade? Dentre muitas experiências relevan­
mente de que o estavam fazendo, começaram a se co­ tes, quais ele escolhe para executar em primeiro lugar?
locar novas espécies de questões e a traçar linhas di­ Quais aspectos do fenômeno complexo que daí resulta
ferentes, freqüentemente não-cumulativas ' de desenvol- o impressionam como particularmente relevantes para
. uma elucidação da natureza das transformações quí­
v1me_ �t_? para as ciências. Em vez de procurar as con- micas ou das afinidades elétricas? Respostas a questões
tnbmçoes permanentes de uma ciência mais antiga pa­
ra nossa perspectiva privilegiada, eles procuram apre­ como essas são freqüentemente determinantes essen­
sentar a integridade histórica daquela ciência, a partir ciais para o desenvolvimento científico, pelo menos
de sua própria época. Por exemplo, perguntam não para o indivíduo e ocasionalmente para a comunidade J'
pela relação entre as concepções de Galileu e as da científica. \Por exemplo, haveremos de observar no
ciência moderna, mas antes pela relação entre as con­ Cap. 1 que os primeiros estágios do desenvolvimento
cepç?es �e Galileu e aquelas partilhadas por seu gru­ da maioria das ciências têm-se caracterizado pela con­
po, isto e, seus professores, contemporâneos e suces­ tínua competição entre diversas concepções de natu­
sores imediatos nas ciências. Além disso insistem em reza distintas; cada uma delas parcialmente derivada
estudar as opiniões desse grupa e de outr�s similares a e todas apenas aproximadamente compatíveis com os
partir da perspectiva - usualmente muito diversa da­ ditames da observação e do método científico.! O que
quela da ciência moderna - que dá a essas opiniões diferenciou essas várias escolas não foi um ou outro
o máximo de coerência interna e a maior adequação insucesso do método - todas elas eram "científicas"·
possível à nat�reza. Vista através das obras que daí - mas aquilo que chamaremos � incom�n..surabilida­
resultaram, CUJO melhor exemplo talvez sejam os escri­ .de de suas_ maneiras de ver o mundo e nele praticar
tos de Alexandre Koyré, a ciência não parece em abso­ a ciência. ('Ã observação e a experiência podem e de­
luto ser o mesmo empreendimento que foi discutido vem restringir drasticamente a extensão das crenças
pelos escritores da tradição historiográfica mais anti­ admissíveis, porque de outro modo não haveria ciên­
ga. Pelo menos implicitamente, esses estudos históri­ cia. Mas não podem, por si só, determinar um conjun­
C?s s�gerem a po_ssibilídade de uma nova imagem da to específico de semelhantes crenças.! Um elemento apa­
A
c1enc1a. _ . rentemente arbitrário, composto de acidentes pessoais
Este ensaio visa delmear essa imagem ao tor­
nar explícitas algumas das implicações da nova histo­ e históricos, é sempre um ingrediente formador das
riografia.../ crenças esposadas por uma comunidade científica espe­
cífica numa determinada época.
. Que aspectos da ciência revelar-se-ão como proe­ Contudo, esse elemento de arbitrariedade não indi-
mmentes no desenrolar desse esforço? Em primeiro 111'­
gar, ao menos na ordem de apresentação, está a insu­ ca que algum grupo possa praticar seu ofício sem um
ficiência das diretrizes metodológicas para ditarem por conjunto dado de crenças recebidas. E nem torna me­
s� só, uma única conclusão substantiva para várias �spé­ nos cheia de conseqüências a constelação particular
c1es de questões científicas. Aquele que, tendo sido com a qual o gr'!eü está realmente comprometido num .J
instruído para examinar fenômenos elétricos ou quími­ dado momento./A pesquisa eficaz raramente começa#
c0s, desconhece essas áreas, mas sabe como proceder antes que uma comunidade científica pense ter adqui­
cientificamente, pode atingir de modo legítimo qual­ rido respostas seguras para perguntas como: quais são
quer uma dentre muitas conclusões incompatíveis. as entidades fundamentais que compõem o universo?
�ntre essas possibilidades legítimas, as conclusões par­ como interagem essas entidades umas com as outras e
ticulares a que ele chegar serão provavelmente deter­ com os sentidos? que questões podem ser legitimamen-
minadas por sua experiência prévia em outras áreas, te feitas a respeito de tais entidades e que técnicas po­
por acidentes de sua investigação e por sua própria dem ser empregadas na busca de soluções?/Ao menos
fo�mação individual. Por exemplo, que crénças a res­ nas ciências plenamente desenvolvidas, refpostas ( ou
peito das estrelas ele traz para o estudo da Química substitutos integrais para as respostas) a questões co�

22 23
mo essas estão firmemente engastadas na iniciação pro­ !de outras maneiras, a ciência normal desorienta-se se-
fissional que prepara e autoriza o estudante para a prá­ , guidamente. E quando isto ocorre - isto é, quando os
tica científica. Uma vez que essa educação é ao mesmo f membros da profissão não podem mais esquivar-se das
tempo rígida e rigorosa, essas respostas chegam a exer­ ! anomalias que subvertem a tradição existente da prá­
cer uma influência profunda sobre o espírito científi­ \ tica cie�t�fi �a - �ntão começam as investigações
co. O fato de as respostas poderem ter esse papel auxi­ j extraordmanas que fmalmente conduzem a profissão a
lia-nos a dar conta tanto da eficiência peculiar da ati­ 1 um novo conjunto de compromissos, a uma nova base
vidade de pesquisa normal, como da direção na qual ( para a prática da ciência. Neste ensaio, ªão denomina
essa prossegue em qualquer momento considerado. Ao dos de revoluções científicas os episódios extraordiná­
examinar a ciência normal nos Caps. 2, 3 e 4, busca­ rios nos quais ocorre essa alteração de compromissos�
remos descrever essa forma de pesquisa como uma ten­ \ profissionais. As revoluções científicas são os comple­
ta,tiva vigorosa e devotada de forçar a natúreza a esque­ f mentos desintegradores
. da tradição à qual a atividade
mas conceituais fornecidos pela educação profissional. / �a ciência normal está ligada.
Nós perguntaremos simultaneamente se a pesquisa po­ l: Os exemplos mais óbvios de revoluções científi­
deria ter seguimento sem tais esquemas, qualquer que cas são aqueles episódios famosos do desenvolvimento
seja o elemento de arbitrariedade contido nas suas ori­ científico que, no passado, foram freqüentemente ro­
gens históricas e, ocasionalmente, no seu desenvolvi­ tulados de revoluções. Por isso, nos Caps. 8 e 9, onde
mento posterior. pela primeira vez a natureza das revoluções científicas
No entanto este elemento de arbitrariedade está é diretamente examinada, nos ocuparemos repetida-
presente e tem também um efeito importante no de­ mente com os momentos decisivos essenciais do desen­
senvolvimento científico. Esse efeito será examinado \ volvimento científico associado aos nomes de Copér-
detalhadamente nos Caps. 5, 6 e 7. A ciência normal, 1 nico, Newton, Lavoisier e Einstein. Mais claramente
atividade na qual a maioria dos cientistas emprega ine­ \ que muitos outros, esses episódios exibem aquilo que
vitavelmente quase todo seu tempo, é baseada no pres­ constitui todas as revoluções científicas, pelo menos no
suposto de que a comunidade científica sabe como é o que concerne à história das ciências físicas. Cada um
mundo. Grande parte do sucesso do empreendimento deles forçou a comunidade a rejeitar a teoria científi­
deriva da disposição da comunidade para defender esse ca anteriormente aceita em favor de uma outra incom­
pressuposto - com custos consideráveis, se necessá­ patível com aquela. Como conseqüência, cada um des­
rio. Por exemplo, a ciência normal freqüentemente su­ ses episódios produziu uma alteração nos problemas
prime novidades fundamentais, porque estas subver- à disposição do escrutínio científico e nos padrões pe­
. tem necessariamente seus compromissos básicos. Não los quais a profissão determinava o que deveria ser
obstante, na medida em que esses compromissos re- considerado como um problema ou como uma solu­
1têm um elemento de arbitrariedade, a própria nature­ ção de problema legítimo. Precisaremos descrever as
� da pesquisa normal assegura que a novidade não maneiras pelas quais cada um desses episódios trans­
1será suprimida por muito tempo. Algumas vezes um formou a imaginação científica, apresentando-os como
:problema comum, que deveria ser resolvido por meio uma transformação do mundo no interior do qual era
de regras e procedimentos conhecidos, resiste ao ata­ realizado o trabalho científico. Tais mudanças, junta­
; que violento e reiterado dos membros mais hábeis do mente com as controvérsias que quase sempre as acom­
· grupo em cuja área de competência ele ocorre. Em panham, são características definidoras das revoluções
' outras ocasiões, uma peça de equipamento, projetada científicas.
e construída para fins de pesquisa normal, não fun- Tais características aparecem com particular cla­
ciona segundo a maneira antecipada, revelando uma reza no estudo das revoluções newtoniana e química.
anomalia que não pode ser ajustada às expectativas Contudo, uma tese fundamental deste ensaio é que essas
profissionais, não obstante esforços repetidos. Desta e características podem ser igualmente recuperadas atra-

24 25
vés do estudo de muitos outros episódios que não fo­ plesmente fatual. O mundo do cientista é tanto quali­
ram tão obviamente revolucionários. lAs equações de tativamente transformado como quantitativamente enri­
Maxwell, que afetaram um grupo profissional bem mais quecido pelas novidades fundamentais de fatos ou
reduzido do que as de Einstein, foram consideradas teorias.
tão revolucionárias como estas e como tal encontra­ Esta concepção ampliada da natureza das revolu­
ram resistência. Regularmente e de maneira apropria­ ções científicas é delineada nas páginas seguintes. Não
da, a invenção de novas teorias evoca a mesma respos­ há dúvida de que esta ampliação força o sentido cos­
ta por parte de alguns especialistas que vêem sua área tumeiro da concepção. Não obstante, continuarei a
- de competência infringida por essas teorias. Para esses falar até mesmo de descobertas como sendo revolucio­
homens, a nova teoria implica uma mudança -na:t ��­ nárias. Para mim, o que faz a concepção ampliada tão
gras que _governayam a prática anterior da-ciência nor­ importante é precisamente a possibilidade de relacio­
mal... Por isso, a nova teoria repercute inevitavelmente nar a estrutura de tais descobertas com, por exemplo,
-=-sobre muitos trabalhos científicos já concluídos com aquela da revolução copernicana. A discussão preceden­
- sucesso. É por isso que uma nova teoria, por mais par- te indica como serão desenvolvidas as noções comple­
ticular que seja seu âmbito de aplicação, nunca ou qua-' mentares de ciência normal e revolução científica nos
se nunca é um mero incremento ao que já é conhecido. nove capítulos imediatamente seguintes. O resto do
Sua assimilação requer a reconstrução da teoria pre­ ensaío tenta equacionar as três questões centrais que
cedente e a reavaliação dos fatos anteriores. Esse pro­ sobram. Ao discutir a tradição do manual, o Cap. 1O
cesso intrinsecamente revolucionário raramente é com­ examina por que as revoluções científicas têm sido tão
pletado por um único homem e nunca de um dia para dificilmente reconhecidas como tais. O Cap. 11 des­
o outro. Não é de admirar que os historiadores tenham creve a competição revolucionária entre os defensores
... encontrado dificuldades para datar com precisão este da velha tradição científica normal e os partidários da
processo prolongado, ao qual, impelidos por seu voca­ nova. Desse modo o capítulo examina o processo que,
bulário, vêem como um evento isolado. numa teoria da investigação científica, deveria substi­
Invenções de novas teorias não são os únicos acon­ tuir de algum modo os procedimentos de falsificação
tecimentos científicos que têm um impacto revolucio­ ou confirmação que a nossa imagem usual de ciência
nário sobre os especialistas do setor em que ocorrem. tornou familiares. A competição entre segmento� da
Os compromissos que governam a ciência normal espe­ comunidade científica é o único processo histót.ictLQJW
cificam não apenas as espécies de entidades que o uni­ realmente resulta na rejeição de uma teoria ou na adQ­
verso contém, mas também, implicitamente, aquelas ção de outra. Finalmente, o Cap. 12 perguntará como
que não contém. Embora este ponto exija uma discus­ o desenvolvimento através de revoluções pode ser com­
são prolongada, segue-se que uma descoberta como a patível com o caráter aparentemente ímpar do progres­
do oxigênio ou do raio X não adiciona apenas mais so científico. Todavia, este ensaio não fornecerá mais
um item à população do mundo do cientista. Ess: é o do que os contornos principais de uma resposta a essa
efeito final da descoberta - mas somente depois da questão. Tal resposta depende das características da
comunidade profissional ter reavaliado os procedimen­ comunidade científica, assunto que requer muita explo­
tos experimentais tradicionais, alterado sua concepção ração e estudo adicionais.
a .espeito de entidades com as quais estava de há mui­ Sem dúvida alguns leitores já se terão perguntado
to familiarizada e, no decorrer desse processo, modifi­ se um estudo histórico poderá produz:r o tipo de trans­
cado a rede de teorias com as quais lida com o mun­ formação conceituai que é visado aqui. Um arsenal
do. Teoria e fato científicos não são categoricamente inteiro de dicotomias está disponível, sugerindo que
separáveis, exceto talvez no interior de uma única tra­ isso não pode ser adequadamente realizado dessa ma­
dição da prática científica normal. É por isso que uma neira. Dizemos muito freqüentemente que a História
descoberta inesperada não possui uma importância sim- é uma disciplina puramente descritiva. Contudo, as

26 27
teses sugeridas acima são freqüentemente interpretati­
vas e, algumas vezes, normativas. Além disso, muitas
de minhas generalizações dizem respeito à sociologia
ou à psicologia social dos cientistas. Ainda assim, pelo
menos algumas das minhas conclusões pertencem tra­
dicionalmente à Lógica ou à Epistemologia. Pode até
mesmo parecer que, no parágrafo anterior, eu tenha
violado a muito influente distinção contemporânea
entre o "contexto da descoberta" e o "contexto da jus­
tificação". Pode algo mais do que profunda confusão
estar indicado nesta mescla de diversas áreas e inte­
resses?
Tendo-me formado intelectualmente a partir des­
sas e de outras distinções semelhantes, dificilmente po­
deria estar mais consciente de sua importância e força.
Por muitos anos tomei-as como sendo a própria natu­
reza do conhecimento. Ainda suponho que, adequada­
mente reelaboradas, tenham algo importante a nos di­
zer. Todavia, muitas das minhas tentativas de aplicá­
las, mesmo grosso modo, às situações reais nas quais
o conhecimento é obtido, aceito e assimilado, fê-las
parecer extraordinariamente problemáticas. Em vez de
serem distinções lógicas ou metodológicas elementares,
que seriam anteriores à análise do conhecimento cien­
tífico, elas parecem agora ser partes de um conjunto
tradicional de respostas substantivas · às próprias ques­
tões a partir das quais elas foram elaboradas. Essa cir­
cularidade não as invalida de forma alguma. Mas tor­
na-as parte de uma teoria e, ao fazer isso, sujeita-as ao 1 . A ROTA PARA A crnNCIA NORMAL
mesmo escrutínio que é regularmente aplicado a teo­
rias em outros campos. Para que elas tenham como Neste ensaio, \"ciência normal" significa a pesqui­
cofüeúdo mais do que puras abstrações, esse conteúdo sa firmemente baseada em uma ou mais realizações '
precisa ser descoberto através da observação. Exami­ científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas
nar-se-ia então a aplicação dessas distinções aos dados durante algum tempo por alguma comunidade cientí­
que elas pretendem elucidar. Como poderia a História fica específica como proporcionando os fundamentos
da Ciência deixar de ser uma fonte de fenômenos, aos para sua prática posterior. rEmbora raramente na sua.
quais podemos exigir a aplicação das teorias sobre o forma original, hoje em dia essas realizações são re­
conhecimento? latadas pelos manuais científicos elementares e avan­
çados. Tais livros expõem o corpo da teoria aceita,
ilustram muitas ( ou todas) as suas aplicações bem su­
cedidas e comparam essas aplicações com observações
e experiências exemplares. Uma vez que tais livros se
tornaram populares no começo do século XIX ( e mes-
29
28
mo mais recentemente, como no caso das ciências ama­ normal, isto é, para a gênese e a continuação de uma
durecidas há pouco), muitos dos clássicos famosos da tradição de pesquisa determinada. .,,;,
ciência desempenham uma função similar. A Física de Será necessário acrescentar mais sobre as razões
Aristóteles, o Almagesto de Ptolomeu, os Principia e da introdução do conceito de paradigma, uma vez que
a Óptica de Newton, a Eletricidade de Franklin, a Quí­ neste ensaio ele substituirá uma variedade de noções
mica de Lavoisier e a Geologia de Lyell - esses e familiares. Por que a realização científica, como um
muitos outros trabalhos serviram, por algum tempo, lugar de comprometimento profissional, é anterior aos
para definir implicitamente os problemas e métodos vários conceitos, leis, teorias e pontos de vista que de­
legítimos de um campo de pesquisa para as gerações la podem ser abstraídos? Em que sentido o paradigma
posteriores de praticantes da ciência. Puderam fazer partilhado é uma unidade fundamental para o estudo
isso porque partilhavam duas características essenciais. do desenvolvimento científico, uma unidade que não
Suas realizações foram suficientemente sem preceden­ pode ser totalmente reduzida a componentes atômicos
tes para atrair um grupo duradouro de partidários, lógicos que poderiam funcionar em seu lugar? Quando
afastando-os de outras formas de atividade científica as encontrarmos, no Cap. 4, as respostas a estas ques­
dissimilares. Simultaneamente, suas realizações eram tões e outras similares demonstrarão ser básicas para
suficientemente abertas para deixar toda a espécie de a compreensão, tanto da ciência normal, como do con­
problemas para serem resolvidos pelo grupo redefini­ ceito associado de paradigma. Contudo, esta discussão
do de praticantes da ciência. mais abstrata vai depender da exposição prévia de
Daqui po,r diante deverei referir-me às realizações exemplos da ciência normal ou de paradigmas em ati­
que partilhám essas duas características como "para­ vidade. Mais especificamente, esses dois conceitos re­
digmas", um termo estreitamente relacionado com lacionados serão esclarecidos indicando-se a possibili­
"ciência normal". Com a escolha do termo pretendo dade de uma espécie de pesquisa científica sem para­
sugerir que alguns exemplos aceitos na prática cientí­ digmas ou pelo menos sem aqueles de tipo tão inequí­
fica real - exemplos que incluem, ao mesmo tempo, voco e obrigatório como os nomeados acima. A aqui­
lei, teoria, aplicação e instrumentação - proporcio­ sição de um paradigm a e do tipo de pesquisa mais eso­
nam modelos dos quais brotam as tradições coerentes térico que ele permite é um sinal de maturidade no
e específicas da pesquisa científica. São essas tradições desenvolvimento de qualquer campo científico que se
que o historiador descreve com rubricas como: "Astro­ queira considerar.
nomia Ptolomaica" (ou "Copernicana"); "Dinâmica Se o historiador segue, desde a origem, a pista do
Aristotélica" (ou "Newtoniana"), "óptica Corpus­ conhecimento científicp de qualquer grupo seleciona­
cular" ( ou "óptica Ondulatória"), e assim por diante. do de fenômenos int�i'ligados, provavelmente encontra­
,-....Q estudo dos paradigmas, muitos dos quais bem mais rá alguma variante menor de um padrão ilustrado aqui
· especializados do que os indicados acima, é o que pre­ a partir da História da óptica Física. Os manuais atuais
para basicamente o estudante para ser membro da co­ de Física ensinam ao estudante que a luz é composta
munidade científica determinada na qual atuará mais de fótons, isto é, entidades quântico-;mecânicas que
Jarde. Uma vez que ali o estudante reúne-se a homens exibem algumas características de ondas e outras de
que aprenderam as bases de seu campo de estudo a partículas. A pesquisa é realizada de acordo com este
partir dos mesmos modelos concretos, sua prática sub­ ensinamento, ou melhor, de acordo com as caracteriza­
seqüente raramente irá provocar desacordo declarado ções matemáticas mais elaboradas a partir das quais
¼obre pontos fundamentais. Homens cuja pesquisa está é derivada esta verbalização usual. Contudo, esta ca­
• baseada em paradigmas compartilhados estão compro­ racterização da luz mal tem meio século. Antes de ter
i metidos com as mesmas regras e padrões para a prá- sido desenvolvida por Planck, Einstein e outros no co­
' / tica científica. Esse comprometimento e o consenso meço deste século, os textos de Física ensinavam que
aparente que produz são pré-requisitos para a ciência a luz era um movimento ondulatório transversal, con-

30 31
cepção que em última análise derivava dos escritos nômenos e técnicas dos quais Newton extraiu o pri­
ópticos de Young e Fresnel, publicados no início do meiro paradigma quase uniformemente aceito na ópti­
século XIX. Além disso, a teoria ondulatória não foi ca Física. Qualquer definição do cientista, que exclua
a primeira das concepções a ser aceita pelos pratican­ os membros mais criadores dessas várias escolas, exclui­
tes _da ciência óptica. Durante o século XVIII, o pa­ rá igualmente seus sucessores modernos. Esses homens
radigma para este campo de estudos foi proporciona­ eram cientistas. Contudo, qualquer um que examine
do pela óptica de Newton, a qual ensinava que a luz uma amostra da óptica Física anterior a Newton po­
era comp?sta de corpúsculos de matéria. Naquela épo­ derá perfeitamente concluir que, embora os estudio­
ca os f1S1cos procuravam provas da pressão exercida sos dessa área fossem cientistas, o resultado líquido de
pelas partículas de luz ao colidir com os corpos sóli­ suas atividades foi algo menos que ciência. Por não
dos, algo que não foi feito pelos primeiros teóricos da ser obrigado a assumir um corpo qualquer de crenças
concepção ondulatória.1 comuns, cada autor de óptica Física sentia-se forçado
,- . Essas transformações de paradigmas da óptica a construir novamente seu campo de estudos desde os
,{ Física são revoluções científicas e .a transição sucessiva fundamentos. A escolha das observações e experiên­
de um paradigma a outro, por meio de uma revolu- cias que sustentavam tal reconstrução era relativamen­
ção, é o padrão usual de desenvolvimento da ciência te livre. Não havia qualquer conjunto-padrão de mé­
amadurecida. No entanto, este não é o padrão usual todos ou de fenômenos que todos os estudiosos da
1,_do período anterior aos trabalhos de Newton. � este óptica se sentissem forçados a empregar e explicar.
contraste que nos interessa aqui. Nenhum período entre Nestas circunstâncias o diálogo dos livros resultantes
a antiguidade remota e o fim do século XVII exibiu era freqüentemente dirigido aos membros das outras
uma única concepção da natureza da luz que fosse ge­ escolas tanto como à natureza. Hoje em dia esse pa­
ralmente aceita. Em vez disso havia um bom número drão é familiar a numerosos campos de estudos cria­
de �scolas e subescolas em competição, a maioria das dores e não é incompatível com invenções e descober­
quais esposava uma ou outra variante das teorias de tas significativas. Contudo, este não é o padrão de de­
Epicuro, Aristóteles ou Platão. Um grupo considerava senvolvimento que a óptica Física adquiriu depois de
a luz como sendo composta de partículas que emana­ Newton e nem aquele que outras ciências da natureza
vam dos corpos materiais; para outro, era a modifica­ tornaram familiar hoje em dia.
ção do meio que intervinha entre o corpo e o olho; um ,�� A história da pesquisa elétrica na primeira me­
outro ainda explicava a luz em termos de uma intera­ tade do século XVIII proporciona um exemplo mais
ção do meio com uma emanação do olho; e haviam concreto e melhor conhecido da maneira como uma
outras combinações e modificações além dessas. Cada ciência se desenvolve antes de adquirir seu primeiro
uma das escolas retirava forças de sua relação com paradigma universalmente aceito. Durante aquele pe­
alguma metafísica determinada. Cada uma delas enfa­ ríodo houve quase tantas concepções sobre a nature­
tiza�a, como observações paradigmáticas, o conjunto za da eletricidade como experimentadores importantes
particular de fenômenos ópticos que sua própria teoria nesse campo, homens como Hauksbee, Gray, Desa­
podia explicar melhor. Outras observações eram exa­ guliers, Du Fay, Nollet, Watson, Franklin e outros.
minadas através de elaboração ad hoc ou permaneciam Todos seus numerosos conceitos de eletricidade tinham
como problemas especiais para a pesquisa posterior.2 algo em comum - eram parcialmente derivados de
Em épocas diferentes, todas estas escolas fizeram uma ou outra versão da filosofia mecânico-corpuscular
contribuições significativas ao corpo de conceitos, fe- que orientava a pesquisa científica da época. Além dis­
so, eram todos componentes de teorias científicas reais,
1. PRIESTI.EY, Joseph. The History and Present State o/ D/scoveries
teorias que tinham sido parcialmente extraídas de expe­
Relatlntl to Vision Litlht and Co/ours. (Londres, 1772) pp. 385-90. riências e observações e que determinaram em parte
2. RoNCH, Vasco. Hlstoire de la lumiere. (Paris, 1956), Caps. 1 • IV,
_
lraduçao de Jean Taton.
a escolha e a interpretação de problemas adicionais

32 33
enfrentados pela pesquisa. Entretanto, embora todas as 1-•vista disso essa teoria podia e de fato realmente pro­
experiências fossem elétricas e a maioria dos experi­ porcionou um paradigma comum para a pesquisa de
mentadores lessem os trabalhos uns dos outros, suas i-uma geração subseqüente de "eletricistas" ....
teorias não tinham mais do que uma semelhança de Excluindo áreas como a Matemática e a Astrono-
família. 3 mia, nas quais os primeiros paradigmas estáveis datam
Um primeiro grupo de teorias, seguindo a prática do da pré-história, e também aquelas, como a Bioquími­
século XVII, considerava a atração e a geração por ca, que surgiu da divisão e combinação de especiali­
fricção como os fenômenos elétricos fundamentais. Esse dades já amadurecidas, as situações esboçadas acima
grupo tendia a tratar a repulsão como um efeito se­ são historicamente típicas. Sugiro que desacordos fun­
cundário devido a alguma espécie de rebote mecâni­ damentais de tipo similar caracterizaram, por exemplo,
co. Tendia igualmente a postergar por tanto tempo o estudo do movimento antes de Aristóteles e da Está­
quanto possível tanto a discussão como a pesquisa sis­ tica antes de Arquimedes, o estudo do calor antes de
temática sobre o novo efeito descoberto por Gray - a Black, da Química antes de Boyle e Boerhaave e da
condução elétrica. Outros "eletricistas" ( o termo é de­ Geologia Histórica antes de Hutton - embora isso
les mesmo) consideravam a atração e a repulsão como envolva de minha parte o emprego continuado de sim­
manifestações igualmente elementares da eletricidade e plificações infelizes que rotulam um extenso episódio
modificaram suas teorias e pesquisas de acordo com histórico com um único nome, um tanto arbitraria­
tal concepção. (Na realidade este grupo é extremamente mente escolhido (por exemplo, Newton ou Franklin).
pequeno - mesmo a teoria de Franklin nunca expli­ Em partes da Biologia - por exemplo, no estudo da
cou completamente a repulsão mútua de dois corpos hereditariedade - os primeiros paradigmas universal­
carregados negativamente.) Mas estes tiveram tanta di­ mente aceitos são ainda mais recentes. Permanece em
ficuldade como o primeiro grupo para explicar simul­ aberto a questão a respeito de que áreas da ciência
taneamente qualquer coisa que não fosse os efeitos social já adquiriram tais paradigmas. A História suge­
mais simples da condução. Contudo, esses efeitos pro­ re que a estrada para um consenso estável na pesqui­
porcionaram um ponto de partida para um terceiro sa é extraordinariamente árdua.
grupo, grupo que tendia a falar da eletricidade mais Contudo, a História sugere igualmente algumas
como um "fluido" que podia circular através de con­ razões para as dificuldades encontradas ao longo des­
dutores do que como um "eflúvio" que emanasse de se caminho. 'Na ausência de um paradigma ou de algum
não-condutores. Por seu turno, esse grupo tinha difi­ candidato a paradigma, todos os fatos que possivelmen­
culdade para reconciliar sua teoria com numerosos efei­ te são pertinentes ao desenvolvimento de determinada
tos de atração e repulsão. Somente através dos traba­ ciência têm a probabilidade de parecerem igualmente
lhos de Franklin e de seus sucessores imediatos surgiu relevantes. Como conseqüência disso, as primeiras co­
uma teoria capaz de dar conta, com quase igual faci­ letas de fatos se aproximam muito mais de uma ativi­
lidade, de aproximadamente todos esses efeitos. Em dade ao acaso do que daquelas que o desenvolvimen­
to subseqüente da ciência torna familiar. Além disso,
3 DuA.NE ROLLEII & DUANE H. D. ROLLEII, The Development o/ lhe na ausência de uma razão para procural"'alguma forma
Concept o/ Electric Charge: Electricity /rom the Greeks to Coulomb
("Harvard Case Histories in Experimental Science", Case 8, Cambridge,
de informação mais recôndita, a coleta inicial de fa­
Mass., 1954); e I. B. COHEN, Franklin and Newton: An lnquiry into tos é usualmente restrita à riqueza de dados que estão
Speculatlve Newtonlan Experimental Science and Franklin's Work in Elec­
trlclty as an Example Thereo/ (Filadélfia, 1956), Caps. VII - XII. Estou prontamente a nossa disposição. A soma de fatos re­
em dívida com um trabalho ainda não publicado de meu aluno John L.
Heilbron no que diz respeito a alguns detalhe.s analíticos do parágrafo
sultantes contém aqueles acessíveis à observação e à
seguinte. Enquanto se aguarda sua publicação, pode-se encontrar uma experimentação casuais, mais alguns dos ·dados mais
apresentação de certo modo mais extensa e mais precisa do surgimento
do paradigma de Franklin em "The Function of Dogma in Scientific esotéricos procedentes de ofícios estabelecidos, como
Research" de THOMAS S. KuHN, publicado em A. C. Crombie (ed.),
Symposlum on the History o/ Science, University of Oxford, jul. 9-15,
a Medicina, a Metalurgia e a confecção de calendários.
1961, que será pubUcado por Heinemann Educational Books. Ltd. A tecnologia desempenhou muitas vezes um papel vi-
34 35
tal no surgimento de novas ciências, já que os ofícios cidas falam com suficiente clareza para permitir o sur­
são uma fonte facilmente acessível de fatos que não gimento de um primeiro paradigma. ,
poderiam ter sido descobertos casualmente.1 Embon As escolas características dos primeiros estágios do
esta espécie de coleta de fatos tenha sido essencial para desenvolvimento de uma ciência criam essa situação.
a origem de muitas ciências significativas, qualquer Nenhuma História Natural pode ser interpretada na
pessoa que examinar, por exemplo, os escritos enciclo­ ausência de pelo menos algum corpo implícito de cren­
pédicos de Plínio ou as Histórias Naturais de Bacon, ças metodológicas e teóricas interligadas que permita
descobrirá que ela produz uma situação de perplexida­ a seleção, avaliação e a crítica. Se esse corpo de cren­
de. De certo modo hesita-se em chamar de científica ças já não está implícito na coleção de fatos - quando
a literatura resultante. As "histórias" baconianas do ca­ então temos à disposição mais do que "meros fatos"
lor, da cor, do vento, da mineração e assim por diante, - precisa ser suprido externamente, talvez por uma
estão repletas de informações, algumas das quais re­ metafísica em voga, por outra ciência ou por um aci­
cônditas. Mas justapõem fatos, que mais tarde demons­ dente pessoal e histórico. Não é de admirar que nos
trarão ser reveladores (por exemplo, o aquecimento primeiros estágios do desenvolvimento de qualquer
por mistura), com outros (o calor dos montes de ester­ ciência, homens diferentes confrontados com a mes­
co) que continuarão demasiado complexos para serem ma gama de fenômenos - mas em geral não com os
integrados na teoria.4 Além disso, visto que qualquer mesmos fenômenos particulares - os descrevam e inter­
descrição tem que ser parcial, a História Natural típi­ pretem de maneiras diversas. É surpreendente (e tal­
ca omite com freqüência de seus relatos imensamente vez também único, dada a proporção em que ocorrem)
circunstanciais exatamente aqueles detalhes que cien­ que tais divergências iniciais possam em grande parte
tistas posteriores considerarão fontes de iluminações desaparecer nas áreas que chamamos ciência.
importantes. Por exemplo, quase nenhuma das primei­ As divergências realmente desaparecem ,em grau
ras "histórias" da eletricidade mencionam que o fare­ considerável e então, aparentemente, de uma vez por
lo, atraído por um bastão de vidro coberto de borra­ todas. Além disso, em geral seu desaparecimento é cau­
cha, é repelido novamente. Esse efeito parecia mecâ­ sado pelo triunfo de uma das escolas pré-paradigmá­
ticas, a qual, devido a suas próprias crenças e precon­
nico e não elétrico. 5 Além do mais, visto que o cole­ ceitos característicos, enfatizava apenas alguma parte
tor de dados casual raramente possui o tempo ou os especial do conjunto de informações demasiado nume­
instrumentos para ser crítico, as histórias naturais jus­ roso e incoativo. Os eletricistas que consideravam a
tapõem freqüentemente descrições como as menciona­ eletricidade um fluido, e por isso davam uma ênfase
das acima como outras de, digamos, aquecimento por especial à condução, proporcionam um exemplo típico
antiperístase (ou por esfriamento), que hoje em dia excelente. Conduzidos por essa crença, que mal e mal
não temos condição alguma de confirmar. 6 Apenas podia dar conta da conhecida multiplicidade de efeitos
muito ocasionalmente, como no ca'lo da Estática, Di­ de atração e repulsão, muitos deles conceberam a idéia
nâmica e óptica Geométrica antigas, fatos coletados com de engarrafar o fluido elétrico. O fruto imediato de
tão pouca orientação por parte de teorias preestabele- seus esforços foi a Garrafa de Leyden, um artifício
que nunca poderia ter sido descoberto por alguém que
4. Compare-se o esboço de uma história natural do calor no Novum
Organum de BACON, v. VIII de The Works of Francis Bacon. ed. J.
explorasse a natureza fortuitamente ou ao acaso. En­
Spedding, R. L. Ellis e D. D. Heath (Nova York, 1869), PP 179-203). tretanto, este artifício foi desenvolvido independente­
5. ROLLER & ROLLER, OP, cit., PP, 14, 22, 28 e 43. Somente depois
t.o aparecimento do trabalho mencionado na última dessas citações é que
mente, pelo menos por dois investigadores no início da
os efeitos repulsivos foram reconhecidos como inequivocamente elétricos, década de 1740.7 Quase desde o começo de suas pes­
6. BACON, op. cit., pp. 235, 337, diz: "A á11ua ligeiramente morna
gela mais rapidamente do que a totalmente fria". Para uma apresentação
quisas elétricas, Franklin estava especialmente interes-
parcial da história inicial dessa estranha observação, ver MARSHALL Cu­
GETT, Giol'anni Mar/iani and Late Medieval Phy'1ics (Nova York, 1941),
Cap. IV. 7, ROLLER & ROLLER, Op. cit, pp, 51-54.

36 37 .
sado em explicar aquele estranho e, em conseqüência, dade surge mais facilmente do erro do que da con­
tão revelador aparelho. O sucesso na explicação pro­ fusão".1º
porcionou o argumento mais efetivo para a transfor­ No próximo capítulo examinaremos a natureza
mação de sua teoria em paradigma, apesar de este. ser dessa pesquisa precisamente orientada ou baseada em
ainda incapaz de explicar todos os casos conh�cidos paradigma, mas antes indicaremos brevemente como a
de repulsão elétrica.s Para ser aceita como paradi�a, emergência de um paradigma_ afeta a estrutura do gru­
uma teoria deve parecer melhor que suas competido­ po que atua nesse campo. )Quando, pela primeira vez
ras, mas não precisa ( e de fato isso . nunca acontece) · no desenvolvimento de uma ciência da natureza, um
explicar todos os fatos com os quais pode ser con­ indivíduo ou grupo produz uma síntese capaz de atrair
frontada. a maioria dos praticantes de ciência da geração se­
Aquilo que a teoria do fluido elétrico fez pelo sub­ guinte, as escolas mais antigas começam a desaparecer
grupo que a defendeu, o paradigma �e. Franklin fez gradualmente. Seu desaparecimento é em parte cau­
mais tarde por todo o grupo dos eletricistas. Es�e su­ sado pela conversão de seus adeptos ao novo paradigma.
geria as experiências que valeriam a pena_ . s_er feitas e Mas sempre existem alguns que se aferram a uma ou
as que não tinham interesse, por serem dmgtd�s a ma­ outra das concepções mais antiga·s; são simplesmente
nifestações de eletricidade secundárias ou muito com­ excluídos da profissão e seus tfabalhos são ignorados..:.
plexas. Entretanto, o paradigma real�zou est� tare�a .
O novo paradigma implica uIIJÂ definiçãonova e mais
bem mais eficientemente do que a teona do fluido ele­ rígida do campo de estudos. Aqueles que não desejam
trico, em parte porque o fim do debate entre as esco­ · ou não são capazes de acomodar seu trabalho a ele têm
las deu um fim à reiteração constante de fundamentos que proceder isoladamente ou unir-se a algum grupo.11
e em parte porque a confiança de estar no caminho Historicamente, tais pessoas têm freqüentemente per­
certo encorajou os cientistas a empreender trabal�os manecido em departamentos de Filosofia, dos quais têm
de um tipo mais preciso, esotérico e extenu�nte.9 Liv�e brotado tantas ciências especiais. Como sugerem essas
da preocupação com todo e qualquer fenomeno ele­ indicações, algumas vezes é simplesmente a recepção
trico o grupo unificado dos eletricistas pôde ocupar-se de um paradigma que transforma numa profissão ou
bem' mais detalhadamente de fenômenos selecionados, pelo menos numa disciplina um grupo que anterior­
projetando equipamentos especiais p_ara a tarefa e em­ mente interessava-se pelo estudo da natureza. Nas ciên­
pregando-os mais sistemática e obstmadam<:_0te do que cias ( embora não em campos como a Medicina, a Tec­
jamais fora feito antes. Tant_o a acumulaçao �e. fatos nologia e o Direito, que têm a sua raison d'être numa
como a articulação da teoria tornaram-se atividades necessidade social exterior) a criação de jornais espe­
altamente orientadas. O rendimento e a eficiência da cializados, a fundação de sociedades de especialistas e
pesquisa elétrica aumentaram corre!ponde_nt�°!"ente, a reivindicação de um lugar especial nos currículos de
v rsao s<X:ie!ana do
proporcionando provas , _ para uma � ,
agudo dito metodologico de Francis Bacon. A ver- 10, BACON, Op, cit. p. 210.
11 . A história da eletricidade proporciona um excelente exemplo que
poderia ser duplicado a partir das carreiras de Priestley, Kelvin e outros.
8. o caso mais problemático era a mútua repulsão . de corpos carre­ Franklin assinala que Nollet, que era o mais influente dos eletricistas
gados negativamente. A esse respeito ver COHEN, op. c1t., PP, 491-494 e europeus n a metade do século, "viveu o bastante para chegar a ser o
531-543. último membro de sua seita, com a exceção do Sr. B. - seu discfpulo e
alun o mais imediato" (MAX FARRAND (ed.), Benjamin Franklin's Memoirs
9 . Deve-se notar que a aceitação da teoria de Franklin não !erminou [Berkeley, Califórnia, 1949], pp. 384-86). Mais interessante é o fato de
com todo o debate. Em 1759• Robert Symmer . propôs um� versao_ dessa escolas inteiras terem sobrevivido isoladas da ciência profission al. Con­
teoria que envolvia dois fluidos e por mmtos anos os e1et nc · 1stas estiveram
sideremos, por exemplo, o caso da Astrologia, que fora uma parte inte­
divididos a respeito da questão de se a eletricidade compunh_a•se d e um ou gral da Astronomia. Ou pensemos na contin uação, durante. o fim do
dois fluidos. Mas os d_ebates sobre_ este assu n to ape s c� nfi
�i:;i����l�e��: século XVIII e comeÇO do XIX, de uma tradição anteriormente respeitada
'!j-
foi dito acima a respeito da maneira como uma re ,_zaçao ª de Qufmica '.'romântica". Essa tradição é discutida por CHARLES C. G1L­
aceita une a pro fissão . Os eletricistas, embora contmuassem d' . ,vi'd'dos

: po­ L1SPIE em "The Encyclopédie an d the Jacobin Philosophy of Science: A
esse respeito concluíram rapidamente que nenhum teste expenmen 1alen­ Study in ldeas and Consequenccs", em Criticai Problems in the History oi
deria disting�ir as duas versões da teoria e porta to elas eram e v
n
�os os Science, ed. Marshall Clagctt (Madison, Wisconsin, 1959), pp. 255-89; e
tes Depois disso ambas escolas puderam realmente explorar ), "The Formation of Lamarck's Evolutionary Theory", em Archl-ves /ntemo­
be�efíciOIS oferecidos pela teoria de Franklin (lbid., pp. 543 -546, 548-554 tlonales d'hlstoire des sc/ences, XXXVII (1956), pp. 3Z3-338,

38 39
estudo, têm geralmente estado associadas com o mo­ comunicação das pesquisas que as linhas de profissio­
mento em que um grupo aceita pela primeira vez um nalização permanecem ainda muito tenuemente traça­
paradigma único. Pelo menos foi isso que ocorreu, há das. Somente nesses .casos pode o leigo esperar manter­
século e meio atrás, durante o período que vai desde se a par dos progressos realizados fazendo a leitura
o desenvolvimento de um padrão institucional de es­ dos relatórios originais dos especialistas. Tanto na Ma­
pecialização científica até a época mais recente, quan­ temática como na Astronomia, já na Antiguidade os
do a parafernália de especializações adquiriu prestígio relatórios de pesquisas deixaram de ser inteligíveis para
próprio. ,,,. um auditório dotado de cultura geral. Na Dinâmica, a
A definição mais estrita de grupo científico tem pesquisa tornou-se igualmente esotérica nos fins da
outras conseqüências. (Quando um cientista pode con­ Idade Média, recapturando sua inteligibilidade mais ge­
siderar um paradigma como certo, não tem mais neces­ neralizada apenas por um breve período, durante o iní­
sidade nos seus trabalhos mais importantes, de tentar cio do século XVII, quando um novo paradigma subs­
constr�ir · seu campo de estudos começando pelos pri­ tituiu o que havia guiado a pesquis a medieval. rA pes­
meiros princípios e justificando o uso de cada conceito quisa elétrica começou a exigir uma tradução para lei­
introduzido. Isso pode ser deixado para os autores de gos no fim do século XVIII. Muitos outros campos da
manuais./Mas, dado o manual, o cientista criador pode ciência física deixaram de ser acessíveis no século XIX.
começar: suas pesquisa onde o •manual a interrompe e Durante esses mesmos dois séculos transições simila­
desse modo concentrar-se exclusivamente nos aspectos res podem ser identificadas nas diferentes áreas das
mais sutis e esotéricos dos fenômenos naturais que ciências biológicas. Podem muito bem estar ocorrendo
preocupam o grupo.. Na medida _em que fizer isso, �eus hoje, em determinados setores das ciências sociais. Em­
relatórios de pesquisa começarao a mudar, segumdo bora se tenha tornado costumeiro (e certamente apro­
tipos de evolução que têm sido muito pouco estudados, priado) lamentar o hiato cada vez maior que separa o
mas cujos resultados finais modernos são óbvios para cientista profissional de seus colegas de outras disci­
todos e opressivos para muitos. Suas pesquisas já não plinas, pouca atenção tem sido prestada à relação es­
serão habitualmente incorporadas a livros como Expe­ sencial entre aquele hiato e os mecanismos intrínsecos
riências. . . sobre a Eletricidade de Franklin ou a Ori­ ao progresso científico...
gem das Espécies de Darwin, que eram dirigidos a to­ Desde a Antiguidade um campo de estudos após
dos os possíveis interessados no objeto de estudo do o outro tem cruzado a divisa entre o que o historiador
campo examinado. Em vez disso, aparecerão sob a for­ poderia chamar de sua pré-história como ciência e sua
ma de artigos breves, dirigidos aper.as aos colegas de história propriamente dita. Essas transições à maturi­
profissão, homens que certamente conhecem o para­ dade raramente têm sido tão repentinas ou tão ine­
digma partilhado e que demonstram ser os únicos ca­ quívocas como minha discussão necessariamente es­
pazes de ler os escritos a eles endereçados. quemática pode ter dado a entender. Mas tampouco
Hoje em dia os livros científicos são geralmente ou foram historicamente graduais, isto é, coextensivas com
manuais ou reflexões retrospectivas sobre um ou outro o desenvolvimento total dos campos de estudo em que
aspecto da vida científica. O cientista que escreve u!ll ocorreram. Os que escreveram sobre a eletricidade du­
livro tem mais probabilidades de ver sua reputaça rante as primeiras décadas do século XVIII possuíam
comprometida do que aumentada. De uma maneira re­ muito mais informações sobre os fenômenos elétricos
gular, somente nos primeiros estágios d� desenv<?lvi­ que seus predecessores do século XVI. Poucos fenô­
mento das ciências, anteriores ao paradigma, o bvro menos elétricos foram acrescentados a seus conheci­
possuía a mesma relação com a realização pr_?fis�io?�l mentos durante o meio século posterior a 1740. Apesar
que ainda conserva em outras áreas abertas � cnativ1- disso, em pontos importantes, a distância parece maior
dade. :e somente naquelas áreas em que o hvro, com , entre os trabalhos sobre a eletricidade de Cavendish,
ou sem o artigo, mantém-se como um veículo para a Coulomb e Volta (produzidos nas três últimas décadas
40 41
do século XVIII) e os de Gray, Du Fay e mesmo Fran­
klin ( início do mesmo século) , do que entre esses últi­
mos e os do século XVI.12 Em algum momento entre
1740 e 1780, os eletricistas tornaram-se capazes de,
pela primeira vez, dar por estabelecidos os fundamen­
tos de seu campo de estudo. Daí para a frente orien­
taram-se para problemas mais recônditos e concretos e
passaram cada vez mais a relatar os resultados de seus
trabalhos em artigos endereçados a outros eletricistas,
ao invés de em livros endereçados ao mundo instruído
em geral. Alcançaram, como grupo, o que fora obtido
pelos astrônomos na Antiguidade, Pflos estudantes do
movimento na Idade Média, pela óptica Física no sé­
culo XVII e pela Geologia Histórica nos princípios do
século XIX. Elaboraram um paradigrga capaz de orien­
tar as pesquisas de todo o grupo. Se não se tem o
poder de considerar os eventos retrospectivamente, tor­
na-se difícil encontrar outro critério que revele tão cla­
ramente que um campo de estudos tornou-se uma
ciênciaJ

2. A NATUREZA DA CJ:eNCIA NORMAL

Qual é então a natureza dessa pesquisa mais es­


pecializada e esotérica permitida pela aceitação de um.
paradigma único por parte de um grupo? _Se o para-
digma representa um trabalho que . foi. completado de ]
uma vez por todas, que outros problemas deixa para
serem resolvidos pelo grupo por ele unificado? Essas
questões parecerão ainda mais urgentes se observarmos
12. Os desenvolvimentos posteriores a Franklin incluem um aumento um aspecto no qual os termos utilizados até aqui .p.od.em�
enorme na sensibilidade dos detectores de carga, as primeiras técnicas
dignas de confiança e largamente difundidas para medir as cargas, a evo­ ser enganadores. No seu uso estabelecido, um para­ }
lução do conceito de capacidade e sua relação com a noção de tensão
elétrica, que fora recentemente refinada e ainda a quantificação da força
digma é um modelo ou padrão aceitos. Esté · aspecto
eletrostática. Com respeito a todos esses pontos, consulte-se ROLLER & de seu significado permitiu-me, na falta de termo me­
ROLLER, op. cit., pp. 66-81;w. e. WALKER, "Toe Detection and Estima­
lhor, servir-me dele aqui. Mas dentro em pouco ficará
tion of Electric Charges in the Eighteenth Century", em A.nnals of
Science, I (1936), pp. 66-100; e EDMUND HOPPE, Geschichte der E/etrlzitãt
(Leipzig, 1884), Parte I, Caps. III-IV,
claro que o sentido de "modelo" ou "padrão" não é

42 43
o mesmo que o habitualmente empregado na definição ratório contemporâneo, esse empreendimento parece
de "paradigma". Por exemplo, na Gramática, "amo, ser uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se
amas, amat" é um paradigma porque apresenta um dentro dos limites preestabelecidos e relativamente in­
padrão a ser usado na conjugação de um grande nú­ flexíveis fornecidos pelo paradigma. A ciência normal
mero de outros verbos latinos - para produzir, entre não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de
outros, "laudo, laudas, laudat". Nesta aplicação costu­ fenômeno; na verdade, aqueles que não se ajustam aos
meira, o paradigma funciona ao permitir a reprodução limites do pa,radigma freqüentemente nem são vistos.
de exemplos, cada um dos quais poderia, em princípio, Os cientistas também não estão constantemente pro- ·
substituir aquele. Por outro lado, na ciência, um para­ curando inventar novas teorias; freqüentemente mos­
digma raramente é suscetível de reprodução. Tal. como tram-se intolerantes com aquelas inventadas por ou­
uma decisão judicial aceita no direito costumeiro, o tros.1 Em vez disso, a pesquisa científica normal está
paradigma é um objeto a ser melhor articulado e pre­ dirigida para a articulação daqueles fenômenos e teo­
cisado em condições novas ou mais rigorosa�. rias já fornecidos pelo paradigma.
Para que se compreenda como isso é possível, deve­ Talvez essas características sejam defeitos. As
mos reconhecer que um paradigma pode ser muito limi­ áreas investigadas pela ciência normal são certamente
tado, tanto no âmbito como na precisão, quando de - minúsculas; ela restringe drasticamente a visão do cien­
sua primeira aparição. Os paradigmas adquirem seu tista. Mas essas restrições, nascidas da confiança no
status porque são mais bem sucedidos que seus com­ paradigma, revelaram-se essenciais para o desenvolvi­
petidores na resolução de alguns problemas que o gru­ mento da ciência. Ao concentrar a atenção numa faixa
po de cientistas reconhece como graves. Contudo, ser de problemas relativamente esotéricos, o paradigma
bem sucedido não significa nem ser totalmente bem suJ força os cientistas a investigar alguma parcela da na­
cedido com um único problema, nem notavelmente tureza com uma profundidade e de uma maneira tão
bem sucedido com um grande número. De início, o su­ detalhada que de outro modo seriam inimagináveis. E a
cesso de um paradigma - seja a análise aristotélica ciência normal possui um mecanismo interno que asse­
do movimento, os cálculos ptolomaicos das posições gura o relaxamento das restrições que limitam a pes­
planetárias, o emprego da balança por Lavoisier ou a quisa, toda vez que o paradigma do qual derivam deixa
matematização do campo eletromagnético por Maxwell de funcionar efetivamente. Nessa altura os cientistas co­
- é, em grande parte, uma promessa de sucesso que meçam a comportar-se de maneira diferente e a natu­
pode ser descoberta em exemplos selecionados e ainda reza dos problemas de pesquisa muda. No intervalo, en­
incompletos. A ciência normal consiste na atualização tretanto, durante o qual o paradigma foi bem sucedido,
dessa promessa, atualização que se obtém ampliando-se os membros da profissão terão resolvido problemas que
o conhecimento daqueles fatos que o paradigma apre­ mal poderiam ter imaginado e cuja solução nunca teriam
senta como particularmente relevantes, aumentando-se empreendido sem o comprometimento com o paradigma.
a correlação entre esses fatos e as predições do para­ E pelo menos parte dessas realizações sempre demons­
cigma e articulando-se ainda mais o próprio paradigma. tra ser permanente.
Poucos dos que não trabalham realmente com uma Para mostrar mais claramente o que entendemos',
ciência amadurecida · dão-se conta de quanto trabalho por pesquisa normal ou baseada em paradigma, tentarei
de limpeza desse tipo resta por fazer depois do esta­ agora classificar e ilustrar os problemas que constituem
belecimento do paradigma ou de quão fascinante é a essencialmente a ciência normal. Por conveniência, adio
execução desse trabalho. Esses pontos precisam ser o estudo da atividade teórica e começo com a coleta de �
bem compreendidos. A maioria dos cientistas , durante
toda a sua carreira, ocupa-se com operações de lim­ fatos, isto é, com as experiências e observações descri-
peza. Elas constituem o que chamo de ciência normal.
1. BADER, Bernard, Resistance by Scientists to Scientific Discovery,
Examinado de perto, seja historicamente, seja no labo- Sclence, CXXXIV, pp. 596-602 {1961).

44 45
tas nas revístas técnicas, através das quais os cientistas nos que, embora freqüentemente sem muito interesse in­
informam seus colegas dos resultados de suas pesquisas trínseco, podem ser diretamente comparados com as
em curso. De que aspectos da natureza tratam geral­ predições da teoria do paradigma. Como veremos em
mente esses relatórios? O que determina suas escolhas? breve, quando passamos dos problemas experimentais
E, dado que a maioria das observações científicas con• aos problemas teóricos da ciência normal, raramente en­
somem muito tempo, equipamento e dinheiro, o que mo­ contramos áreas nas quais uma teoria científica pode ser
tiva o cientista a perseguir essa �scolha até uma con­ diretamente comparada com a natureza, especialmente
clusão?. se é expressa numa forma predominantemente matemá­
!5enso •que e:tistem apenas três focos normais para tica. Até agora não mais do que três dessas áreas são
a investigação científica dos fatos e eles não são nem acessíveis à Teoria Geral da Relatividade de Einstein.2
sempre nem permanentemente distintos. Em primeiro Além disso, mesmo nas áreas onde a aplicação é possí­
lugar, temos aquela classe de fatos que o paradigma vel, freqüentemente requer aproximações teóricas e ins­
mostrou ser particularmente reveladora da natureza das trumentais que limitam severamente a concordância a
coisas. Ao empregá-los na resolução de problemas, o ser esperada. Aperfeiçoar ou encontrar novas áreas nas
paradigma tornou-os merecedores de uma determinação quais a concordância possa ser demonstrada coloca um
mais precisa, numa variedade maior de situações. Numa desafio constante à habilidade e à imaginação do ob­
época ou noutra, essas determinações significativas de servador e experimentador. Telescópios especiais para
fatos incluíram: na Astronomia - a posição e magni­ demonstrar a paralaxe anual predita por Copérnico; a
tude das estrelas, os períodos das eclipses das estrelas máquina de Atwood, inventada pela primeira vez quase
duplas e dos planetas; na Física - as gravidades e as um século depois dos Principia, para fornecer a pri­
compressibilidades específicas dos materiais, comprimen­ meira demonstração inequívoca da segunda lei de New­
tos de onda e intensidades espectrais, condutividades ton; o aparelho de Foucault para mostrar que a velo­
elétricas e potenciais de contato; na Química - os pe­ cidade da luz é maior no ar do que na água; ou o gi­
sos de composição e combinação, pontos de ebulição e gantesco medidor de cintilações, projetado para a exis­
a acidez das soluções, as fórmulas estruturais e as ativi­ tência do neutrino - esses aparelhos especiais e muitos
dades ópticas. As tentativas de aumentar a acuidade e outros semelhantes ilustram o esforço e a engenhosi­
extensão de nosso conhecimento sobre esses fatos dade imensos que foram necessários para estabelecer
ocupam uma fração significativa de literatura da ciên­ um acordo cada vez mais estreito entre a natureza e a
cia experimental e da observação. Muitas vezes, comple­ teoria.3 Esta tentativa de demonstrar esse acordo re-
xos aparelhos especiais têm sido projetados para tais
fins. A invenção, a construção e o aperfeiçoamento des­ 2. O único índice de verificação conhecido de há muito e ainda geral­
mente aceito é a precessão do periélio de Mercúrio. A mudança para o
ses aparelhos exigiram talentos de primeira ordem, além vermelho no espectro de luz das estrelas distantes pode ser derivada de
considerações mais elementares do que a relatividade geral, e o mesmo
de muito tempo e um respaldo financeiro considerável. parece possível para a curvatura da luz em tomo do Sol, um ponto atual­
Os síncrotrons e os radiotelescópios são apenas os exem­ mente em discussão. De qualquer modo, medições desse último fenômeno
permanecem equivocas. Foi possível, mais recentemente, estabelecer um
plos mais recentes de até onde os investigadores estão índice de verificação adicional: o deslocamento gravitacional da radiação
de Mossbauer. Talvez em breve tenhamos outros índices neste campo
dispostos a ir, se um paradigma os assegurar da impor­ atualmente ativo, mas adormecido de há muito. Para uma apresentação
tância dos fatos que pesquisam. De Tycho Brahe até resumida e atualizada do problema, ver L. I. SCHIFF, A Report on the
NASA Conference on Experimental Tests of Theories of Relativity, Physic•
E. O. Lawrence, alguns cientistas adquiriram grandes Today, XIV, pp. 42-48 (1961).
3 .. No que toca aos telescópios de paralaxe, ver ABRAHAM WOLF, A
reputações, não por causa da novidade de suas desco­ History of Science, Technology, and Philorophy ln the Eighteenth Century
bertas, mas pela precisão, segurança e alcance dos mé­ (2. ed.; Londres, 1952), pp. 103-105. Para a máquina de Atwood, ver
N. R. HANSON, Patterns of Discovery (Cambridge, 1958), pp. 100-102,
todos que desenvolveram visando à redeterminação de 207-208. Quanto aos dois últimos tipos de aparelhos especiais, ver M. L.
FoUCAULT, Méthode ,générale pour mesurer la vitesse de la lumiêre dans
categoria de fatos anteriormente conhecida. l'air et les milieux transparents. Vitesses relatives de la lumiêre dans l'air
Uma segunda classe usual, porém mais restrita, de et dans l'eau ... , em Comptes rendus ... de l'Académie des sciences, XXX
(1850), pp. 551-560; e C. L. COWAN, Jr. et ai., Detection of the Free Neu­
fatos a serem determinados diz respeito àqueles fenôme- trino: A Confirmation, Science, CXXIV, pp. 103-104 (1956).

46 47
presenta um segundo tipo de trabalho experimental nor­ sido realizado sem uma teoria do paradigma para definir
mal que depende do paradigma de uma maneira ain?a o problema e garantir a existência de uma solução
mais óbvia do que o primeiro tipo mencionado. J\. exis­ estável.
tência de um paradigma coloca o problema a ser resol- Contudo, os esforços para articular um paradigma
. vido. Freqüentemente a teoria do paradigma está dire­ não estão restritos à determinação de constantes univer­
tamente implicada no trabalho de concepção da apa­ sais. Podem, por exemplo, visar a leis quantitativas: a
relhagem capaz de resolver o problema. Sem os Prin­ Lei de Boyle, que relaciona a pressão do gás ao volume,
cipia, por exemplo, as medições feitas com a máquina a Lei de Coulomb sobre a atração elétrica, e a fórmula
de Atwood não teriam qualquer significado. de_ Joule, que relaciona o calor produzido à resistência e
Creio que uma terceira classe de experiências e ob­ à corrente elétrica - todas estão nessa categoria. Tal­
servações esgota as atividades de coleta de fatos na ciên­ vez não seja evidente que um paradigma é um pré-requi­
cia. normal. Consiste no trabalho empírico empreendido sito para a descoberta de leis como essas. Ouvimos fre­
para articular a teoria do paradigma, resolvendo algu­ qüentemente dizer que elas são encontradas por meio do
exame de medições empreendidas sem outro objetivo
mas de suas ambigüidades residuais e permitindo a so­ que a própria medida e sem compromissos teóricos. Mas
lução de problemas para os quais ela anteriormente só a história não oferece nenhum respaldo para um método
tinha chamado a atenção. Essa classe revela-se a mais tão excessivamente baconiano. As experiências de Boyle
importante de todas e para descrevê-la é necessário sub­ não eram concebíveis (e se concebíveis teriam recebido
dividi-la. Nas ciências mais matemáticas, algumas das uma outra interpretação ou mesmo nenhuma) até o mo­
experiências que visam à articulação são orientadas para mento em que o ar foi reconhecido como um fluido elé­
a determinação de constantes físicas. Por exemplo, a trico ao qual poderiam ser aplicados todos os elaborados
obra de Newton indicava que a força entre duas unida­ conceitos de Hidrostática. 5 O sucesso de Coulomb de­
des de massa a uma unidade de distância seria a mes­ pendeu do fato de ter construído um aparelho especial
ma para todos os tipos de matéria, em todas as posições para medir a força entre cargas extremas. (Aqueles que
do universo. Mas os problemas que Newton examinava anteriormente tinham medido forças elétricas com ba­
podiam ser resolvidos sem nem mesmo estimar o tama­ lanças de pratos comuns, etc. . . não encontraram ne­
nho dessa atração, a constante da gravitação universal. nhuma regularidade simples ou coerente.) Mas essa con­
E durante o século que se seguiu ao aparecimento dos cepção do aparelho dependeu do reconhecimento prévio
Principia, ninguém imaginou um aparelho capaz de de­ de que cada partícula do fluido elétrico atua a distância
terminar essa constante. A famosa determinação de Ca­ sobre todas as outras. Era a força entre tais partículas
vendish, na última década do século XVIII, tampouco - a única força que podia, com segurança, ser consi­
foi a última. Desde então, em vista de sua posição cen­ derada uma simples função da distância - que Cou­
tral na teoria física, a busca de valores mais precisos lomb estava buscando. 6 As experiências de Joule tam­
para a constante gravitacional tem sido objeto de repe­ bém poderiam ser usadas para ilustrar como leis quan­
tidos esforços de numerosos experimentadores de pri­ titativas surgem da articulação do paradigma. De fato:
meira qualidade. 4 Outros exemplos de trabalhos do mes­ a relação entre paradigma qualitativo e lei quantitativa
mo tipo incluiriam determinações da unidade astronô­
mica, do número de Avogadro, do coeficiente de Joule, 5. Para a transplantação dos conceitos de Hidrostática para a Pneu­
mática, ver The Physlcal Treatises of Pascal, traduzido por I. H. B. Spiers
de carga elétrica, e assim por diante.- Poucos desses com­ e A. G. H. Spiers, com introdução e notas por F. Barry (Nova York,
1937). Na p. 164 encontramos a introdução original de Torricelli ao
plexos esforços teriam sido concebidos e nenhum teria paralelismo ("Nós vivemos submergidos no fundo de um oceano do ele­
mento ar"). Seu rápido desenvolvimento é apresentado nos dois tratados
principais.
4. J. H. P[OYNTING] examina umas duas dúzias de !"e�idas da cons­ 6. ROLLER, Duane & ROLLER, Duane H. D. The Deve/opment oi the
tante gravitacional efetuadas entre 1741 e 1901 em "Grav1tat1onal Constant Concept oi Electrlc Charge: Electrlcity from the Greeks to Coulomb
and Mean Density of the Earth", Encyclopedia Britannica (11. ed. Cam­ ("Harvard Case Histories in Experimental Science", Case 8; Cambridge,
bridge, 1910-11), XII, pp. 385-389. Mass., 1954), pp. 66-80.

48 49
é tão geral e tão estreita que, desde Galileu, essas leis Voltemos agora aos problemas teóricos da ciência
com freqüência têm sido corretamente adivinhadas com normal, que pertencem aproximadamente à mesma clas­
o auxílio de um paradigma, anos antes que um se que os da experimentação e da observação. Uma
aparelho possa ser projetado para sua determinação ex­ parte (embora pequena) do trabalho teórico normal
perimental.7 consiste simplesmente em usar a teoria existente para
Finalmente, existe uma terceira espécie de expe­ prever informações fatuais dotadas de valor intrínseco.
riência que visa à articulação de um paradigma. Esta, O estabelecimento de calendários astronômicos, a com­
mais do que as anteriores, pode assemelhar-se à explo­ putação das características das lentes e a produção de
ração e predomina especialmente naqueles períodos e curvas de propagação das ondas de rádio são exemplos
ciências que tratam mais dos aspectos qualitativos das de problemas desse tipo. Contudo, em geral os cien­
regularidades da natureza do que dos quantitativos.T:Fre­ tistas os consideram um trabalho enfadonho, que deve
qüentemente um paradigma que foi desenvolvido para ser relegado a engenheiros ou técnicos. Muitos desses
um determinado conjunto de problemas é ambíguo na problemas nunca aparecem em periódicos científicos im­
sua aplicação a outros fenômenos estreitamente relacio­ portantes. Mas esses periódicos contêm numerosas dis­
nados. Nesse caso expenências são necessárias para per­ cussões teóricas de problemas que, para o não-cientista,
m1t1I uma escolha entre modos alternativos de aplicação devem parecer quase idênticas: são manipulações da
do paradigma à nova área de interesse:, Por exemplo, teoria, empreendidas não porque as predições que delas
as aplicações do paradigma da teoria cal�ífica referiam­ resultam sejam intrinsecamente valiosas, mas porque po­
se ao aquecimento e resfriamento por meio de misturas dem ser verificadas diretamente através de experiências.
e mudança de estado. Mas o calor podia ser liberado ou Seu objetivo é apresentar uma nova aplicação do para­
absorvido de muitas outras maneiras - por exemplo, digma ou aumentar a precisão de uma aplicação já feita.
por combinação química, por fricção e por compressão A necessidade de trabalho dessa espécie brota das
ou absorção de um gás - e a cada um desses fenô­ dificuldades imensas que com freqüência são encontra­
menos a teoria podia ser aplicada de diversas maneiras. das no estabelecimento de pontos de contato entre uma
Por exemplo, se o vácuo tivesse uma capacidade tér­ teoria e a natureza. Tais dificuldades podem ser sucin­
mica, o aquecimento por compressão poderia ser expli­ tamente ilustradas pela história da Dinâmica depois de
Newton. No início do século XVIII, aqueles cientistas
cado como sendo o resultado da mistura do gás com o que tomavam os Principia por paradigma aceitaram
vazio. Ou poderia ser devido a uma mudança no calor como válida a totalidade de suas conclusões. Possuíam
específico de gases sob uma pressão variável. E existem todas as razões possíveis para fazê-lo. Nenhum outro
várias outras explicações além dessas. Muitas experiên­ trabalho conhecido na História da Ciência permitiu si­
cias foram realizadas para elaborar essas várias possi­ multaneamente uma ampliação tão grande do âmbito e
bilidades e distinguir entre elas; todas essas experiências da precisão da pesquisa. Com relação aos céus, Newton
brotaram da teoria calórica enquanto paradigma e todas derivara as leis do movimento planetário de Kepler e ex­
a exploraram no planejamento de experiências e na in­ plicara também alguns dos aspectos, já observados, nos
terpretação dos resultados. 8 Uma vez estabelecido o fe- quais a Lua não obedecia a essas leis. Com relação à
. nômeno do aquecimeno por compressão, todas as expe­ terra, derivara os resultados de algumas observações es­
riências ulteriores nessa área foram determinadas pelo parsas sobre os pêndulos e as marés. Çom auxílio de
paradigma. Dado o fenômeno, de que outra maneira se pressupostos adicionais, embora . ad hoc� fora capaz de
poderia ter escolhido uma experiência para elucidá-lo? derivar a Lei de Boyle e uma fórmula importante para
a velocidade do som no ar. Dado o estado da ciência
7. Para exemplos, ver T. S. KUHN, The Function of Measurement in na época, o sucesso das demonstrações foi sumamente
Modem Physical Science, lsis, LII, pp. 161-193 (1961). impressionante. Contudo, dada a universalidade presu­
8. KUHN, T. S. The Caloric Theory of Adiabatic Compression. lsis,
XLIX, pp. 132-140 . .(1958). mível das Leis de Newton, o número dessas aplicações

50 51
não era grande. Newton quase não desenvolveu outras. Newton. Simples observações telescópicas quantitativas
Além disso, se comparadas com o que hoje em dia qual­ indicam que os planetas não obedecem cqmpletamente
quer estudante graduado de Física pode obter com as às Leis de Kepler e de acordo com a teoria de Newton
mesmas leis, as poucas aplicações de Newton não foram não deveriam obedecer. Para derivar essas leis, Newton
nem mesmo desenvolvidas com precisão. Finalmente, os foi forçado a negligenciar toda a atração gravitacional,
Principia tinham sido planejados para serem aplicados exceção feita daquela entre os planetas individuais e o
sobretudo a problemas de Mecânica Celeste. Não era de Sol. Uma vez que os planetas também se atraem reci­
modo algum claro como se deveria adaptá-lo para apli­ procamente, somente se poderia esperar um acordo apro­
cações terrestres e em especial aos problemas do movi­ ximado entre a teoria aplicada e a observação teles­
mento violento. De qualquer modo, os problemas ter­ cópica.10
restres já estavam sendo atacados com grande sucesso O acordo obtido foi, evidentemente, mais do que
com auxílio de um conjunto de técnicas bem diferentes, satisfatório para aqueles que o alcançaram. Com exce­
desenvolvidas originalmente por Galileu e Huyghens e ção feita de alguns problemas relativos à Terra, nenhu­
ampliadas no Continente europeu durante o século ma teoria podia apresentar resultados comparáveis. Ne­
XVIII por Bernoulli, d'Alembert e muitos outros. Pre­ nhum dos que questionaram a validez da obra de New­
sumivelmente essas técnicas e as dos Principia poderiam ton o fizeram por causa do acordo limitado entre a
ser apresentadas como casos especiais de uma formula­ experiência e a observação. Não obstante isso, essas
ção mais geral, mas durante algum tempo ninguém limitações do acordo deixaram muitos problemas teóri­
percebeu como fazê-lo.9 ( cos fascinantes para os sucessores de Newton. Por exe'Il­
Limitemos nossa atenção ao problema da precisão plo, técnicas teóricas eram necessárias para tratar dos
por um momento. Já ilustramos seu aspecto empírico. movimentos simultâneos de mais de dois corpos que se
Equipamentos especializados - como o aparelho de atraem mutuamente e para investigar a estabilidade das
Cavendish, a máquina de Atwood ou telescópios aper­ órbitas perturbadas. Problemas dessa natureza preo­
feiçoados - foram necessários para obter os dados es­ cuparam muitos dos melhores matemáticos europeus du­
peciais exigidos pelas aplicações concretas do paradigma rante o século XVIII e o começo do XIX. Euler, La­
de Newton. Do lado da teoria existiam dificuldades se­ grange, Laplace e Gauss, todos consagraram alguns de
melhantes para a obtenção de um acordo. Por exem­ seus trabalhos mais brilhantes a problemas que visavam
plo, ao aplicar suas leis aos pêndulos, por exemplo, aperfeiçoar a adequação entre o paradigma de Newton
Newton foi forçado a tratar a bola do pêndulo como e a observação celeste. Muitas dessas figuras trabalha­
uma massa pontual, a fim de dar uma definição única ram simultaneamente para desenvolver a Matemática
do comprimento do pêndulo. A maioria de seus teore­ necessária a aplicações que nem mesmo Newton ou a
mas também ignoraram o efeito da resistência do ar, Escola de Mecânica européia, sua contemporânea,
afora poucas exceções hipotéticas e preliminares. Essas haviam considerado. Produziram, por exemplo, uma
eram aproximações físicas fundamentadas. Não obstante imensa literatura e algumas técnicas matemáticas muito
isso, enquanto aproximações elas limitavam que se po­ poderosas para a Hidrodinâmica e para as cordas vibra­
deria esperar entre as predições de Newton e as expe­ tórias. Esses problemas de aplicação são responsáveis
riências reais. As mesmas dificuldades aparecem ainda por aquilo que provavelmente é o trabalho científico
mais claramente na aplicação astronômica da teoria de mais brilhante e esgotante do século XVIII. Outros
exemplos poderiam ser descobertos através de um exa­
9. C. TRUESDELL, A Program toward Rediscovering the Rational Me­ me do período pQs-paradigmáJico no desenvolvimento
chanics of the Age of Reason, em Archive for Hlstory o/ the Exact
Sciences, I (1960), pp. 3-36 e Reactions of the Late �aroq!)e Mechanics da Termodinâmica, na teoria ondulatória da luz, na teo-
to Success Conjecture Erroc and Failure ln Newton s Principia, Tuas
Quarterly, ·x. pp. 28Í-297 (Í967). T. L. HANKINS, The Reception of
Newton's Second Law of Motion in the Eighteenth Century, em Archlves
lntematlonales d'histolre des sciences, XX (1967), pp. 42-65
10. WOLF, op. cit., pp. 75-81, 96-101; e WILLIAM WHEWELL, History
o/ the lnductive Sciences (ed. rev., Londres, 1847), II, pp. 213-71.

52 53
ria eletromagnética ou em qualquer outro ramo da ciên­ multaneamente teóricos e experimentais; os exemplos
cia cujas leis fundamentais são totalmente quantitativas. apresentados anteriormente servirão igualmente bem
Pelo menos nas ciências mais matemáticas, a maior neste caso. Coulomb, antes de poder construir seu equi­
parte do trabalho teórico pertence a esse tipo. ,. pamento e utilizá-lo em medições, teve que empregar a
Mas nem sempre é assim. Mesmo nas ciências ma­ teoria elétrica para determinar como seu equipamento
temáticas existem problemas teóricos relacionados com deveria ser construído. Suas medições tiveram como con­
a articulação do paradigma. Durante aqueles períodos seqüência um refinamento daquela teoria. Dito de outra
em que o desenvolvimento científico é sobretudo quali­ maneira: os homens que conceberam as experiências
tativo, esses problemas são dominantes. Alguns dos pro­ para distinguir entre as várias teorias do aquecimento
blemas, tanto nas ciências mais quantitativas como nas por compressão foram geralmente os mesmos que ha­
mais qualitativas, visam simplesmente à clarificação do viam elaborado as versões a serem comparadas. Esta­
paradigma por meio de sua reformulação. Os Principia, vam trabalhando tanto com fatos como com teorias e
por exemplo, nem sempre se revelaram uma obra de seus trabalhos produziram não apenas novas informa­
fácil aplicação, em parte porque retinha algo do desa­ ções, mas um paradigma mais preciso, obtido com a
jeitamento inevitável de uma primeira aventura, em par­ eliminação das amóígü.idades que- haviam:.·siôo-:retidas
te porque uma fração considerável de seu significado na versão original que utilizavam. Em muitas ciências,
estava apenas implícito nas suas aplicações. Seja como a m�ior parte do trabalho normal é desse tipo.
for, um conjunto de técnicas da Europa, aparente­ Essas três classes de problemas - determinação
mente sem relação entre si, parecia muito mais pode­ do fato significativo, harmonização dos fatos com a teo­
roso para muitas aplicações terrestres. Por isso, desde ria e articulação da teoria - esgotam, creio, a literatura
Euler e Lagrange no século XVIII até Hamilton, Jacobi da ciência normal, tanto teórica como empírica.. Certa­
e Hertz no século XIX, muitos dos mais brilhantes físi­ mente não esgotam toda a literatura da ciência:-Existem
cos-matemáticos da Europa esforçaram-se repetidamente também problemas extraordinários e bem pode ser que
para reformular a teoria mecânica sob uma forma equi­ sua resolução seja o que torna o empreendimento cien­
valente, mas lógica e esteticamente mais satisfatória. Ou tífico como um todo tão particularmente valioso. Mas
seja: desejavam exibir as lições explícitas e implícitas os problemas extraordinários não surgem gratuitamente.
dos Principia e da Mecânica européia numa versão Emergem apenas em ocasiões especiais, geradas pelo
logicamente mais coerente, versão que seria ao mesmo avanço da ciência normal. Por isso, inevitavelmente a
tempo mais uniforme e menos equívoca nas suas apli­ maioria esmagadora dos problemas que ocupam os �e­
cações aos problemas recentemente elaborados pela lhores cientistas coincidem com uma das três categorias
Mecânica. 11 delineadas acima. O trabalho orientado por um paradig­
Reformulações similares de um paradigma ocorre­ ma só pode ser conduzido dessa maneira. Abandonar
ram repetidamente em todas as ciências, mas a maioria o paradigma é deixar de praticar a ciência quê éste de­
delas produziu mais mudanças substanciais no paradig­ fine. Descobriremos em breve que tais deserções reaY:
ma do que as reformulações dos Principia citadas aci­ mente ocorrem. São os pontos de apoio em torno dos
ma. Tais transformações resultaram do trabalho empí­ quais giram as revoluções científicas. Mas antes de co­
rico previamente descrito como dirigido à articulação do meçar o estudo de tais revoluções, necessitamos de uma
paradigma. Na verdade, é arbitrário classificar essa es­ visão mais panorâmica das atividades da ciência normal
pécie de trabalho como sendo empírico. Mais do que que lhes preparam o caminho.
qualquer outra espécie de pesquisa normal, os proble­
mas apresentados pela articulação do paradigma são si-
11. OUGAS, René. Histoire de la mécanique. (Neuchâtel, 1950), Li­
vros IV-V.)

54 55
3. A CI:eNCIA NORMAL COMO
RESOLUÇÃO DE QUEBRA-CABEÇAS

Talvez a característica mais impressionante dos


problemas normais da pesquisa que acabamos de exa­
minar seja seu reduzido interesse em produzir grandes
novidades, seja no domínio d9s conceitos, seja no dos
fenômenos. Algumas vezes, como no caso da medição
de um comprimento de onda, tudo é conhecido de ante­
mão, exceto o detalhe mais esotérico. Por sua vez, o
quadro típico de expectativas {'â�rafum pouco menos
determinado. Talvez as medições de Coulomb não pre­
cisassem ter sido ajustadas à Lei do Quadrado Inverso;
com freqüência, aqueles que trabalhavam no problema
do aquecimento por compressão não ignoravam que

57
muitos outros resultados diferentes eram possíveis. Con­ produção de uma solução mais elaborada para o pro­
tudo, mesmo em casos desse tipo, a gama de resultados blema das cordas vibratórias, simplesmente pela impor­
esperados ( e portanto assimiláveis) é sempre pequena tância da informação a ser obtida. Os dados que podem
se comparada com as alternativas que a imaginação ser alcançados por meio do cálculo de calendários ou
por meio de medições suplementares realizadas com um
po�e _conceber. E!fl geral, o projeto cujo resultado não i�str�mento já existe�te são, com freqüê�cia, tão signi­
_ comc1de com essa margem estreita de alternativas é con­ ficativos como os obtidos nos casos mencionados acima
si�erado apenas uma pesquisa fracassada, fracasso que - mas essas atividades são habitualmente menospreza­
nao se reflete sobre a natureza, mas sobre o cientista. das pelos cientistas, pois não são nada além da repeti­
No século XVIII, por exemplo, prestava-se pouca ção de procedimentos empregados anteriormente. Essa
atenção a experiências que medissem a atração elétrica
utilizando instrumentos como a balança de pratos. Tais rejeição proporciona uma pista para entendermos o fas­
cínio exercido pelos problemas da pesquisa normal. Em­
experiências não podiam ser empregadas para articular bora seu resultado possa, em geral, ser antecipado de
o paradigma do qual derivavam, pois produziam resul­ maneira tão detalhada que o que fica por conhecer perde
!ados que_ não eram nem coerentes, nem simples. Por todo o interesse, a maneira de alcançar tal resultado per­
isso, contmuavam sendo simples fatos, desprovidos de
relação e sem conexão possível com o progresso contí­ manece muito problemática. Resolver um problema da
nuo da pesquisa elétrica. Apenas retrospectivamente, já pesquisa normal é alcançar o antecipado de uma nova
na posse de um paradigma p<;>!l_terlo.r, é que podemos ver maneira� Isso requer a solução de todo o tipo de com-
as ��ra�terísticas dos fenômenos elétricos que essas ex­ plexos quebra-cabeças instrumentais, conceituais e ma­\
penenc1as nos apr��111ª!!!/Sem dúvida alguma Coulomb temáticos. O indivíduo que é bem sucedido nessa tarefa
prova que é um perito na resolução de quebra-cabeças.
e seus contemporâneos possuíam esse último paradigma O desafio apresentado pelo quebra-cabeça constitui uma ,,.,
ou u1!1. outro, o qual, aplicado ao problema da atração,
permitia esperar os mesmos resultados. f: por isso que parte importante da motivação do cientista para o
Co�lomb foi capaz _de_ �onceber trabalho.
_ u!11 aparelho que pro­
duziu resultados ass1milave1s atraves de uma articulação Os termos "quebra-cabeça" e "solucionador de
_ quebra-cabeças" colocam em evidência vários dos temas
do paradigma. :É por isso também que esse resultado não
surpreendeu a ninguém e vários contemporâneos de Cou­ que adquirira� uma importância crescente nas páginas
lomb foram capazes de predizê--lo de antemão. Até mes­ pre�edentes. J Quebra-cabeça indica, no sentido corri-·
que1ro em que empregamos o termo, aquela categoria
�o o pr�jeto_ cujo objetivo é a articulação de um para­ particular de problemas que servem para testar nossa
digma nao v1sa__produzir uma n_ovidade inesperada.
Mas me"Slllo se o objetivo da ciência normal não
c.?ns!ste e1!1 descobrir novidades substantivas de impor­
engenhosidade ou habilidade na resolução de problemas.:
Os dicionários dão como exemplo de quebra-cabeças
expressões "jogo de quebra-cabeça"* e "palavras cru­
as ,,..
tanc1a capital e se o fracasso em aproximar-se do resul­
tado antecipado é geralmente considerado como um fra­ zadas". Precisamos agora isolar as características que
casso pessoal do cientista - então por que dedicar tanto esses exemplos partilham com os problemas da ciência
4rabalho a esses problemas? Parte da resposta já foi apre­ normal. Acabamos de mencionar um desses traços co­
sen!ada. }>elo menos para os cientistas, os resultados muns. O critério que estabelece a qualidade de um bom
obtJd?s pela pesquisa _ normal são significativos porqu� quebra-cabeça nada tem a ver com o fato de seu resul­
_c�:mtn�uem par� aumentar o alcance e a precisão com tado ser intrinsecamente interessante ou importante. Ao
os quais o paradigma pode ser aplicado. Entretanto essa contrário, os problemas realmente importantes em geral
resposta não basta para explicar o entÜsiasmo e a devo­
ção que os cientistas demonstram pelos problemas da • Em inglês, ilgsaw puzzle. A palavra refere-se aos quebra-cabeças
compostos por peças, com as quais o jogador deve formar uma figurn
pesquisa non_nal. Ninguém consagra anos, por exemplo, qualquer. Cada uma das peças é parte da figura desejada, possuindo
ao desenvolvimento de espectrômetro mais preciso ou à uma e somente uma 'p-OSição adequada no todo a ser formado (N. do T.).

59
58
não são quebra-cabeças ( veja-se o exemplo da cura do essas estão o desejo de ser útil, a excitação advinda da
<;âncer ou o estabelecimento de uma paz duradoura), em exploração de um novo território, a esperança de encon­
�rande parte porque talvez não tenham nenhuma solu­ trar ordem e o impulso para testar o conhecimento esta­
ção possível. Consideremos um jogo de quebra-cabeças belecido. Esses motivos e muitos outros também auxi­
liam a determinação dos problemas particulares com os
cujas peças são selecionadas ao acaso em duas caixas
contendo peças de jogos diferentes. Tal problema prova­ quais o cientista se envolverá posteriormente. Além
velmente colocará em xeque (embora isso possa não disso, existem boas razões para que motivos dessa na­
acontecer) o mais engenhoso dos homens e por isso não tureza o atraiam e passem a guiá-lo, embora ocasional­
pode servir como teste para determinar a habilidade de mente possam levá-lo a uma frustração.' O empreendi­
resolver problemas. Este não é de forma alguma um mento científico.. no seu coniu.o1Q,.._ Jevela sua utilidade
quebra-cabeças no sentido usual do termo. O valor in­ de tempos em tempog..;-ahr�-mwos.,teJ:ritório� instaura
trínseco não é critério para um quebra-cabeça. Já a cer­ ordem e testa crenças estabelecidas há muito tempo.
teza de que este possui uma solução pode ser conside­ Não obstante_ isso, o indivíduo empenhado num proble­
rado como tal. I ma de pesqmsa normal quase nunca está fazendo quak
Já vimos que uma comunidade científica, ao adqui-
quer dessas -coisas. Uma vez engajado em seu trabalho\
s?a mottvaçao pa_ssa a se� bastante diversa. -o que o in-
. - '\
rir um paradigma, adquire igualmente um critério para etta-ao trabalho e a convICção de que, se for suficiente-
a escolha de problemas que, enquanto o paradigma for mente habilidoso, conseguirá solucionar um quebra-ca-
aceito, poderemos considerar como dotados de uma so­ b�ça que ninguém até então resolveu ou, pelo menos,
lução possível. Numa larga medida, esses são os únicos
problemas que a comunidade admitirá como científicos °,ª? resolv�u...tão bem. Muitos dos grandes espíritos cien- !.

t1f1cos dedicaram toda sua atenção profissional a comJ


ou encorajará seus membros a resolver. Outros proble­ plex?s problemas dessa natureza. Em muitas situações,
mas, mesmo muitos dos que eram anteriormente aceitos, cs diferentes campos de especialização nada mais ofe­
passam a ser rejeitados como metafísicos ou como sendo r�cem do que esse tipo c;le dificuldades{ Nem por isso
parte de outra disciplina. Podem ainda ser rejeitados esses quebra-cabeças passam a ser menos fascinantes
como demasiado problemáticos para merecerem o dis-_ para os indivíduos que a eles se dedicam com aplicação.
pêndio de tempo. Assim, um paradigma pode até mes­
mo afastar uma comunidade daqueles problemas sociais Consideremos agora um outro aspecto, mais difícil
relevantes que não são redutíveis à forma de quebra-ca­ t: revelador, do paralelismo entre os quebra-cabeças e os
beça, pois não podem ser enunciados nos termos compa­ problemas da ciência normal. Para ser classificado como -i,
tíveis com os instrumentos e conceitos proporcionados quebra-cabeça, não basta a um problema possuir uma
i:,elo paradigma. Tais problemas podem constituir-se nu­ solução assegurada. Deve obedecer a regras que limitam
ma distração para os cientistas, fato que é brilhante­ tanto a natureza das soluções aceitáveis como os passos
mente ilustrado por diversas facetas do baconismo do necessários para obtê-las. Solucionar um jogo de que­
século XVIII e por algumas das ciências sociais contem­ bra-cabeça não é, por exemplo, simplesmente "montar
porâneas. Uma das razões pelas quais a ciência normal um quadro". Qualquer criança ou artista contemporâneo .1
parece progredir tão rapidamente é a de que seus pra­ poderia fazer isso, espalhando peças selecionadas sobre
ticantes concentram-se em problemas que somente a sua um fundo neutro, como se fossem formas abstratas. O
falta de engenho pode impedir de resolver. quadro assim produzido pode ser bem melhor (e cer­
Entretanto, se os problemas da ciência normal são tamente seria mais original) que aquele construído a
quebra-cabeças no sentido acima mencionado, não pre­
. . ! . Contudo, as_ frustrações induzidas pelo conflito entre o papel do
cisamos mais perguntar por que os cientistas os enfren­ md1v1duo e o padrao global do desenvolvimento científico podem ocasio­
nalmente tomar-se sérias. Sobre esse assunto, ver LAWRENCE S. Kue1E,
tam com tal paixão ou devoção. Um homem pode sentir­ Some Unsolved Problems of the Scientific Career, American Scientist, XLI,
se atraído pela ciência por todo o tipo de razões. Entre PP, 596-613 (1953); e XLII, pp. 104-112 (1954).

61
60
partir �o quebra-ca�eça. Não ob�tante isso, tal quadro , Restrições semelhantes ligam as soluções admissí­
não sena uma soluçao. Para que isso aconteça todas as veis aos problemas teóricos. Durante todo o · século
peças devem ser utilizadas ( o lado liso deve ficar para XVIII, os cientistas que tentaram deduzir o movimento
baixo) e entrelaçadas de tal modo que não fiquem espa­ 1 observado da Lua partindo das leis do movimento de
ços vazios entre elas. Essas são algumas das regras qu� / Newton fracassaram sistematicamente. Em vista disso,
j'
governam a solução de jogos de quebra-cabeça. Restn- 1 alguns deles sugeriram a substituição da Lei do Qua­
ções similares concernentes às soluções admissíveis para drado das Distâncias por uma lei que se afastasse dessa
palavras cruzadas, charadas, problemas de xadrez, etc ... quando se tratasse de pequenas distâncias. Contudo, fa­
podem ser descobertas facilmente. ,. zer isso seria modificar o paradigma, definir um novo
Se aceitarmos uma utilização consideravelmente quebra-cabeça e deixar sem solução o antigo. Nessa
mais ampla do termo "regra" - identificando-o even­ situação, os cientistas preferiram manter as regras até
tualmente com "ponto de vista estabelecido" ou "con­ que, em 1750, um deles descobriu como se poderia uti­
cepção prévia" - então os problemas acessíveis a uma lizá-las com sucesso.3 -�()II!�llte uma mQ<iifiçaçã.<L nas
determinada tradição de pesquisa apresentam caracte­
rísticas muito similares às dos quebra-cabeças. O indiví­
-regrasopodeda ter oferecido uma outra alternativa.
estudo das trndiç&s .dá. ciência normal revela
duo que constrói um instrumento para determinar o muitas outras regras adicionais. Tais regras proporcio­
comprimento de ondas ópticas não se deve contentar nam uma quantidade de informações adicionais a res­
com um equipamento que não faça mais do que atribuir peito dos compromissos que os cientistas derivam de
números a determinadas linhas espectrais. Ele não é ape­ seus paradigmas, Quais são as principjl,j§,}i�eg9;ias sob
nas um explorador ou medidor, mas, ao contrário, al­ .
as quais podem ser 1!Ubsumidas. essâsfeJt'a's'/1'-':A mais
guém que deve mostrar ( utilizando a teoria óptica para evidente e provavelmérítea· mais coercitiva pode ser
analisar seu equipamento) que os números obtidos coin­ exemplificada pelas generalizações que acabamos de
cidem com aqueles que a teoria prescreve para os com­ mencionar, isto é, os enunciados explícitos das leis, con­
primentos de onda. Se alguma indeterminação residual ceitos e teorias científicos. Enquanto são reconhecidos,
da teoria ou algum componente não-analisado de seu tais enunciados auxiliam na formulação de quebra-ca­
equipamento impedi-lo de completar sua demonstração, beças e na limitação das soluções aceitáveis. Por exem­
seus colegas poderão perfeitamente concluir que ele não plo, as Leis de Newton desempenharam tais funções du­
mediu absolutamente nada. Por exemplo, os índices má­ rante os séculos XVIII e XIX. Enquanto essa situação
ximos de dispersão de elétrons que mais tarde s�riam perdurou, a quantidade de matéria foi uma categoria
vistos como índices do comprimento de onda dos elé­ antológica fundamental para os físicos e as forças que
trons não possuíam · nenhuma · significação apàrente atuam entre pedaços de matéria constituíram-se num
qm:mdo foram observados e registrados pela primeira dos tópicos dominantes para a pesquisa.5 Na Química,
vez.· Antelf de se tornarem medida-de alguma coisa, foi as leis das proporções fixas e definidas tiveram, durante
necessário relacioná�lOs ã. ·uriui teorfa ·que· predissesse· o muito tempo, uma importância equivalente - para es­
cóiripórfamento ondulatório da matérnr·em movimento. tabelecer o problema dos pesos atômicos, fixar os re­
E mesmo depois de essa relação for sido esta�lécida, o sultados admissíveis das análises químicas e informar
equipamento teve que ser reorganizado para que os re­ aos químicos o que eram os átomos e as moléculas, os
sultados experimentais pudessem ser correlacionados
sem equívocos com a teoria.2 Enquanto essas condições 3. WHEWELL, W. History o/ the lnductive Sciences. (ed. rev.; Lon­
dres, 1847), II, pp. 101-05, 220-22.
não foram satisfeitas, nenhum problema foi resolvido. 4 .. Essa questão foi-me sugerida por W. O. Ha,gstrom, cujos trabalhos
sobre a Sociologia da Ciência coincidem algumas vezes com os meus.
S. Com relação a esses aspectos do newtonismo, ver I. B. COHEN,
2. Para um breve relato da evolução dessas e-xperiências, ver a p. 4 Franklin and Newton; An lnquiry into Specu/ative Newtonian Experimen­
da conferência de C. J. DAVISSON em Les prix Nobel en 1937 (Estocolmo, tal Science and Frank/in's Work in Electricily as an Example ThereoJ
1938). (Filadélfia, 1956), Cap. VII, especialmente pp. 255-51, 275-77.

62 63
compostos e as misturas.6 As equações de Maxwell e metafísico, indicava aos cientistas que espécies de enti­
as leis da Termodinâmica Estatística possuem atualmen­ dades o Universo continha ou não continha - não havia
te a mesma influência e desempenham idêntica função./ nada além de matéria dotada de forma e em movimento.
Contudo, regras dessa natureza não são as únicas No plano metodológico, indicava como deveriam ser as
e nem mesmo a variedade mais interessante dentre as leis definitivas e as explicações fundamentais: leis devem
reveladas pelo estudo histórico Num nível inferior (ou especificar o movimento e a interação corpusculares; a
explicação deve reduzir qualquer fenômeno natural a
mais concreto) que o das leis e teorias existe, por exem­ uma ação corpuscular regida por essas leis. O que é
plo, uma multidão de compromisso� relativos a tipos de ainda mais importante, a concepção corpuscular do Uni­
instrumentos preferidos e a maneiras adequadas para verso indicou aos cientistas um grande número de pro­
utilizá-los. Mudanças de atitudes com relaç�o ao �a�l blemas que deveriam ser pesquisados. Por exemplo, um
do fogo nas análises químicas tiveram uma importancia
capital no desenvolvimento da Química do século X_V�l.7 químico que, como Boyle, abraçou a nova filosofia,
prestava atenção especial àquelas reações que podiam
Helmholtz, no século XIX, encontrou grande resisten­ ser interpretadas como transmutações. Isto porque, mais
cia por parte dos fisiologistas no tocante à idéia . de que claramente do que quaisquer outras, tais reações apre­
a experimentação física pudesse trazer esclarecimentos sentavam o processo de reorganização corpuscular que
para seu campo de estudos. 8 Dur_ante o mesmo século, deve estar na base de toda transformação química.1°
a curiosa história da cromatografia apresenta um outro Outros efeitos similares da teoria corpuscular podem
exemplo da persistência dos compr?missos dos cientist�s ser observados no estudo da Mecânica, da óptica e do
com tipos de instrumentos, os quais, !anto como as _leis calor.
e teorias, proporcionam as regras do Jogo para o� cien­
tistas.9 Quando analisamos a descoberta dos raios X, - Finalmente, num nível mais elevado, existe um ou­
encontramos razões para compromissos dessa natureza. tro conjunto de compromissos ou adesões �em _os �s
nenhum homem pode ser chamado de cienhsta,f Por
Os compromissos de nível mais elevado (de cará­ exemplo, o cientista deve preocupar-se em compreen­
ter quase metafísico) que o estudo h!stórico revel� �om der o mundo e ampliar a precisão e o alcance da
tanta regularidade, embora não se1am caractenshcas ordem que lhe foi imposta. Esse compromisso, por
imutáveis da ciência são menos dependentes de fatores sua vez, deve levá-lo a perscrutar com grande· minúcia
locais e temporários'que os anteriormen_te menciona�os. empírica (por si mesmo ou através de colegas) algum
Por exemplo, depois de 1630 e especial�ente apos o aspecto da natureza. Se esse escrutínio revela bolsõe-s de
aparecimento dos trabalhos imensamente mfluent�s de aparente desordem, esses devem desafiá-lo a um novo
Descartes, a maioria dos físicos começou a partir do refinamento de suas técnicas de observação ou a uma
pressuposto de que o Universo era com�sto por cor­ maior articulação de suas teorias. Sem dúvida alguma
púsculos microscópicos e que todos os fenomenos natu­ existem ainda outras regras desse gênero, aceitas pelos
rais poderiam ser explicados em termos da forma, do cientistas em todas as époc�
tamanho do movimento e da interação corpu�culares. A existência dessa sólida rede de compromissos ou
Esse conjunto de compromissos revelou possmr tanto
adesões - conceituais, teóricas, metodológicas e ins­
dimensões metafísicas como metodológicas. No plano
trumentais - é uma das fontes principais da metáfora
6. Esse exemplo i discutido detalhadamente no fim do Cap. 9.
que relaciona à ciência normal à resol�ção de quebr�­
7 H MEnGER Les doctrines chimlques en France du début du XVII.• -cabeças. Esses compromissos proporcionam ao prah-
siecle · d /� /ln du XVIII.• slecle (Paris, 1923), pp. 359�1; MARIE BoAs,
Robert Boyle and Seventeenth.Century Chemlstry (Cambmjge, 1958), PP,
112-15. 10. Para as teorias COfPusculares em geral, ver MARIE BOAS, The
8 . KõNIGSBERGEll, Leo. Hermann von He/mholtz. (Oxford, 1906), PP, Establishment of lhe Mechanical Philosophy, Osiris, X, pp. 412-541 (1952).
65-66, trad. de Francis A. Welby. No que diz respeito a seus efeitos sobre a química de Boyle, ver T. S.
9. MEINHA■D, James E. Chromatography: A Perspective. Sclence, CX, KUHN, Robert Boyle and Structural Chemistry in the Seventeenth Century,
pp. 387-92 (i949). Isis, XLIII, pp. 12-36 (1952).

64 65
cante de uma especialidade amadurecida regras que lhe
revelam a natureza do mundo e de sua ciência, permi­
tindo-lhe assim concentrar-se com segurança nos pro­
blemas esotéricos definidos por tais regras e pelos conhe­
cimentos existentes. Nessa situação, encontrar a solução
de um quebra-cabeça residual constitui um desafio pes­
soal para o cientista. Nesse e noutros aspectos, uma dis­
cussão a respeito dos quebra-cabeças e regras permite
esclarecer a natureza da prática científica normal. Con­
tudo, de um outro ponto de vista, esse esclarecimento
pode ser significativamente enganador. Embora obvia­
mente existam regras às quais todos os praticantes de
uma especialidade científica aderem em um determinado
momento, essas regras não podem por si mesmas espe­
cificar tudo _aquilo que a prática desses especialistas tem
em comum. 'A ciência normal é uma atividade altamente
determinada, mas não precisa ser inteiramente determi­
nada por regras. É por isso que, no início deste ensaio,
introduzi a noção de paradigmas compartilhados, ao
invés das noções de regras, pressupostos e pontos de
vistas compartilhados como sendo a fonte da coerência
para as tradições da pesquisa normal. As regras, segun­
do minha sugestão, derivam de paradigmas, mas os pa­
radigmas podem dirigir a pesquisa mesmo na ausência
de regras.

4. A PRIOR1DADE DOS PARADIGMAS

Para descobrir a relação existente entre regras,


paradigmas e a ciência normal começaremos conside­
rando a maneira pela qual o historiador isola os pontos
específicos de co_mproII1_i_SJOS �ue acabamos de descre­
ver como sendo tegras aceitas.! A investigação histórica
cuidadosa de uma determinada especialidade num de­
terminado momento revela um conjunto de ilustrações
recorrentes e quase padronizadas de diferentes teorias
nas suas aplicações conceituais, instrumentais e na ob­
servação. Essas são os paradigmas da comunidade, reve­
lados nos seus manuais, conferências e exercícios de
laboratório. Ao estudá-los e utilizá-los na prática, os
membros da comunidade considerada aprendem seu ofí-
66 67
1

cio. Não há dúvida de que além disso o historiador des­ importantes e mesmo assim discordar, algumas vezes
cobrirá uma área de penumbra ocupada por realizações sem estarem conscientes disso, a respeito das caracterís­
cujo status ainda está em dúvida, mas habitualmente o ticas abstratas específicas que tornam essas soluções
núcleo dos problemas resolvidos e das técnicas será permanentes. Isto é, podem concordar na identificação
claro. Apesar das ambigüidades ocasionais, os paradig­ de um paradigma, sem entretanto entrar num acordo
mas de uma comunidade científica amadurecida podem ( ou mesmo tentar obtê-lo) quanto a uma interp_�ação
ser determinados com relativa facilidade, ou racionalização completa a respeito daquele. {A falta
- · de uma interpretação padronizada ou de uma redução
;Contudo, a determinação de paradigmas compar­
tilhados não coincide com a determinação das regras a regras que goze de unanimidade não impede que um
comuns ao grupo. Isto exige uma segunda etapa, de paradigma oriente a pesquisa. A ciência normal pode·
· natureza um tanto diferente.· Ao empreendê-la, o histo­ ser parcialmente determinada através da inspeção direta
riador deve comparar entre si os paradigmas da comu­ dos paradigmas. Esse processo é freqüentemente auxi­
nidade e em seguida compará-los com os relatórios de liado pela formulação de regras e suposições, mas não
pesquisa habituais do grupo. Com isso o historiador visa depende dela. Na verdade, a existência de um paradig­
descobrir que elementos isoláveis, explícitos ou implí­ ma nem mesmo precisa implicar a existência de qual-
citos, os membros dessa comunidade podem ter abstraí.­ quer conjunto completo de regras}� -�___;
do de seus paradigmas mais globais, empregando-os de­ O primeiro resultado dess�- afirmações é inevita­
pois em suas pesquisas. Quem quer que tenha tentado velmente o de levantar problemas. Na ausência de um
descrever ou analisar a evolução de uma tradição cien­ corpo adequado de regras, o que limita o cientista a
tífica particular terá necessariamente procurado esse uma tradição específica da ciência normal? O que pode
, gênero de princípios e regras aceitos. Quase certamente, significar a expressão "inspeção direta dos paradigmas"?
como mostra o capítulo anterior, terá tido um sucesso Respostas parciais a questões desse tipo foram desen­
pelo menos parcial. Mas, se sua experiência se asseme­ volvidas por Ludwig Wittgenstein, embora num contexto
lha com a minha, a busca de regras revelar-se-á ao mes­ bastante diverso. Já que esse contexto é ao mesmo tem­
mo tempo mais difícil e menos satisfatória do que a po mais elementar e mais familiar, será conveniente exa­
busca de paradigmas. Algumas das generalizações que minar primeiramente a forµia em que a argumentação é
ele empregar para descrever as crenças comuns da comu­ apresentada. Que precisamos saber, perguntava Witt­
nidade não apresentarão problemas. Outras, contudo, in­ genstein, para utilizar termos como "cadeira", "folha"
clusive algumas das utilizadas acima como ilustrações, ou "jogo" de uma maneira inequívoca e sem provocar
parecerão um pouco forçadas. Enunciad:.s dessa ma­ discussões?2
neira ( ou em qualquer outra que o historiador possa Tal questão é muito antiga. Geralmente a respon­
imaginar), teriam sido rejeitadas quase certamente por demos afirmando que sabemos, intuitiva ou consciente­
_alguns membros do grupo que ele estuda. Não obstante, mente, o que é uma cadeira, uma folha ou um jogo.
se a coerência da tradição de pesquisa deve ser enten­ Isto é, precisamos captar um determinado conjunto de
. dida em termos de regras, é necessário determinar um atributos comuns a todos os jogos ( e somente aos jo­
terrenc comum na área correspondente. Em vista disso, gos). Contudo, Wittgenstein concluiu que, dada a ma-
a busca de um corpo de regras capaz de constituir uma
tradição determinada da ciência normal torna-se uma 1. MICHAEL POLANYI desenvolveu brilhantemente um tema muito si­
{onte de frustração profunda e contínua. milar, argumentando que muito do sucesso do cientista depende do "co­
nhecimento tácito", isto é, do conhecimento adquirido através da prática
Contudo, o reconhecimento dessa frustração torna e que não pode ser articulado explicitamente. Ver seu Personal Knowledge
(Chicago, 1958), e.�pecialmentc os Caps. V e VI.
possível diagnosticar sua origem. Cientistas podem con­ 2. WrrroENSTEJN, Ludwig. Philosophica/ lnvestigations. (Nova York,
cordar que um Newton, um Lavoisier, um Maxwell ou 1953), pp. 31-36, trad. de G. E. M. Anscombe. Contudo, Wittgenstein não
diz quase nada a respeito do mundo que é necessário para sustentar o
um Einstein produziram uma solução aparentemente procedimento de denominação (naming) que ele delineia. Parte da argu­
duradoura para um grupo de problemas especialmente mentação que se segue não pode ser atribuída a ele.

68 69
neira pela qual usamos a linguagem e o tipo de mundc deria ser revelado por investigações históricas ou filo­
ao qual a aplicamos, tal conjunto de características_ não sóficas adicionais. O fato de os cientistas usualmente
é necessário. Embora a discussão de alguns atnbutos não perguntarem ou debaterem a respeito do que faz
, _ comuns a um certo número de jogos, cadeiras ou folhas com que um problema ou uma solução particular sejam
freqüentemente nos auxilie a aprender a empregar o ter­ considerados legítimos nos leva a supor que, pelo menos
mo correspondente, não existe nenhum conjunto de ca­ intuitivamente, eles conhecem a resposta. Mas esse fato
racterísticas que seja simultaneamente aplicável a todos pode indicar tão-somente que, nem a questão, nem a
os membros da classe e somente a eles. Em vez disso, resposta são consideradas relevantes para suas pesqui­
' quando confrontados com uma atividade previamente sas. Os paradigmas podem ser anteriores, mais· cogentes
desconhecida, aplicamos o termo "jogo" porque o que e mais completos que qualquer conjunto de regras para
estamos vendo possui uma grande "semelhança de famí­ a pesquisa que deles possa ser claramente abstraído.
lia" com uma série de atividades que aprendemos ante­ Até aqui nossa análise tem sido puramente teórica:
riormente a chamar por esse nome. Em suma, para Witt­ os paradigmas poderiam determinar a ciência normal
genstein, jogos, cadeiras e folhas são famílias naturais, sem a intervenção de regras que podem ser descobertas.
cada uma delas constituída por uma rede de semelhan­ Tentarei agora aumentar tanto a sua clareza como a sua
ças que se superpõem e se entrecruzam. A existênc!a de importância, indicando algumas das razões que temos
tal rede explica suficientemente o nosso sucesso na iden­ para acreditar que os paradigmas realmente operam
tificação da atividade ou objeto correspondente. Somente dessa maneira. A primeira delas, que já foi · amplamente
se as famílias que nomeamos se superpusessem ou se discutida, refere-se à grande dificuldade que encontra­
mesclassem gradualmente umas com as outras - isto é, mos para descobrir as regras que guiaram tradições es­
somente se não houvessem famílias naturais - o nosso pecíficas da ciência normal. Essa dificuldade é aproxi­
sucesso em identificar e nomear provaria que existe um madamente idêntica à encontrada pelo filósofo que tenta
conjunto de características comuns correspondendo a determinar o que é comum a todos os jogos. A segunda,
cada um dos nomes das classes que empregamos...
Algo semelhante pode valer para os vários prob_ �­
da qual a primeira não pa �sa ?� um corolário, baseia-�e
na natureza da educação cientifica. A esta altura devena
mas e técnicas de pesquisa que surgem numa tradiçao estar claro que os cientistas nunca aprendem conceitos,
específica da ciência normal._ Ç q?e têm em comu� não leis e teorias de uma forma abstrata e isoladamente.
é o fato de satisfazer as exigencias de algum con1unto Em lugar disso, esses instrumentos intelectuais são,
de regras, explícito ou passível de uma descoberta com­ desde o início encontrados numa unidade histórica e
pleta - conjunto que dá à tradição o seu caráter e a pedagogicame�te anterior, onde são apresentados jun­
, sua autoridade sobre o espírito científico. Em lugar tamente com suas aplicações e através delas. Uma nova
disso podem relacionar-se por semelhança ou modelan­ teoria é sempre anunciada juntamente com suas aplica­
do-s; numa ou noutra parte do corpus científico que a ções a uma determinada gama concreta de fenômenos
comunidade em questão já reconhece como uma de suas _
naturais; sem elas não poderia nem mesmo cand1data�­
realizações confirmadas. Os cientistas trabalham a par­ se à aceitação científica. Depois de aceita, essas apli­
tir de modelos adquiridos através da educação ou da cações (ou mesmo outras) acompanharão a teoria nos
litt!ratura a que são expostos posteriormente, muitas ve­ manuais onde os futuros cientistas aprenderão seu ofí­
zes sem conhecer ou precisar conhecer quais as caracte­ cio. As aplicações não estão lá simplesmente como um
rísticas que proporcionaram o status de pa�adigma .co­ adorno ou mesmo como documentação. Ao contrário, o
munitário a esses modelos. ��-cien­ processo de aprendizado de uma teoria de�nde do es­
tistas não necessitam de um conjunto completo de re­ tudo das aplicações, incluindo-se aí a prática na reso­
gr_as! A-cõêrência dâlrãdição de_ -pes9uisa 1ta _qtt}tl �arti­ lução de problemas, seja com lápis e papel, seja com
cipam não precisa nem mesmo 1mphcar a existenc1a de instrumentos num laboratório. Se, por exemplo, o es­
um corpo subjacente de regras e pressupostos, que po- tudioso da dinâmica newtoniana descobrir o significado
70 71
de termos como "força", "massa", "espaço" e "tempo", respeito de métodos, problemas e padrões de solução
será menos porque utilizou as definições incompletas legítimos - embora esses debates sirvam mais para de­
( embora algumas vezes úteis) do seu manual, do que finir escolas do que para produzir um acordo. Já apre­
por ter observado e participado da aplicação desses con­ sentamos algumas dessas discussões na óptica e na Ele-
ceitos à resolução de problemas. tricidade e mostramos como desempenharam um papel
Esse processo de aprendizagem através de exercí­ ainda mais importante no desenvolvimento da Química
cios com papel e lápis ou através da prática continua do século XVII e na Geologia do século XIX.3 Além
durante todo o processo de iniciação profissional. Na disso, debates dessa natureza não desaparecem de uma
medida em que o estudante progride de seu primeiro vez por todas com o surgimento do paradigma. Embora
ano de estudos em direção à sua tese de doutoramento, eles quase não existam durante os períodos de ciência
os problemas a enfrentar tornam-se mais complexos, ao normal, ocorrem periodicamente pouco antes e durante
mesmo tempo em que diminui o número dos preceden­ as revoluções científicas - os períodos durante os quais
tes que poderiam orientar seu estudo. Mas, mesmo os paradigmas são primeiramente atacados e então mo­
assim, esses problemas continuam a moldar-se rigoro­ dificados. A transição da mecânica newtoniana para a
samente de acordo com as realizações científicas ante­ quântica evocou muitos debates a respeito da natureza
riores, o mesmo acontecendo com os problemas que e dos padrões da Física, alguns dos quais continuam
normalmente o ocuparão durante sua carreira científica até hoje.4 Ainda hoje existem cientistas que podem re­
posterior, levada a cabo independentemente. Pode-se cordar discussões semelhantes, engendradas pela teoria
supor que em algum momento de sua formação, o cien­ eletromagnética de Maxwell e pela Mecânica Estatís­
tista abstraiu intuitivamente as regras do jogo para seu tica. 5 E, bem antes disso, a assimilação das Mecânicas
próprio uso - mas temos poucas razões para crer nisso. de Galileu e Newton originou uma série de debates par­
Embora muitos cientistas falem com facilidade e brilho ticularmente famosos entre os aristotélicos, cartesianos
a respeito das hipóteses individuais que subjazem numa e leibnizianos acerca das normas legítimas para a ciên­
determinada pesquisa em andamento, não estão em me­ cia. 6 Quando os cientistas não estão de acordo sobre a
lhor situação que o leigo quando se trata de caracterizar existência ou não de soluções para os problemas fun­
as bases estabelecidas do seu campo de estudos, seus damentais de sua área de estudos, então a busca de
problemas e métodos legítimos, Se os cientistas chegam regras adquire uma função que não possui normalmente.
a aprender tais abstrações, demonstram-no através de Contudo, enquanto os paradigmas permanecem seguros,
sua habilidade para realizar pesquisas bem sucedidas.
Contudo, essa habilidade pode ser entendida sem recur­ 3. No tocante à Química, ver H. METZGER, Les doctrines chimiques
so às regras hipotéticas do jogo. en France du début du XVII.• à la fin du XVlll.• siecle (Paris, 19'23),
PP. 24-27, 146-49; e MARIE BOAS, Robert Boyle and Se,·enteenth-Century
Essas conseqüências da educação científica pos­ Chemistry, (Cambridge, 1958), Cap. II. Para a Geologia, ver WALTER F.
suem uma recíproca que nos proporciona uma terceira CANNON, The Uniformitarian-Catastrophist Debate, lsis, LI pp. 38 -55
(1960); e C. C. GILLISPIE, Genesis and Geo/ogy (Cambridge, Mass. 1951),
razão para supormos que os paradigmas orientam as Caps. IV-V.
pesquisas, seja modelando�ãs· dir�la!ll�Qtç.,_ seja através 4. No que diz respeito à Mecânica Quântica, ver JEAN ULLMO, La
crise de la physique quantique (Paris, 1950), Cap. II.
� regras abstratas. A ciência normal pode avançar sem
de 5 . Sobre a Mecânica Estatística, ver RENÉ DUGAS, La théorie physl­
regras somente enquanto a comunidade científica rele­ que au sens de Boltzmann e/ ses prolongements modernes (Neuchâtel,
1959), pp. 158-84, 206-19. No tocante à recepção obtida pelos trabalhos de
vante aceitar sem questões as soluções de problemas es­ Maxwell, ver MAX PLANCK, "Maxwell's lnfluence in Germany", em James
C/erck Maxwell: A Commemoratwn Volume, 1831-1931 (Cambridge, 1931),
pecíficas já obtidas. Por conseguinte, as regras deveriam pp. 45-65 e especialmente pp. 5 8-63; SILVANUS P. THOMPSON, The Li/e of
assumir importância e a falta de interesse que as cerca William Thomson Baron Kelvin of Largs (Londres, 19 10), II, pp. 1021-27.
6 . Para uma amostra da luta contra os aristotélicos, ver A. KovRÉ,
deveria desvanecer-s e sempre que os paradigmas ou mo­ A Documentary History of the Problem of Fali from Kepler to Newton,
delos pareçam inseguros. É exatamente isso que ocorre. Transactions of the American Phi/osophica/ Society, XLV ( 1955). pp.
329-95. Para os dehates com os cartesianos e leibnizianos, ver PIERRE
O períod o pré-paradigmático, em particular, é regular­ BllUNET, L'lntroduction des théorie., de Newton en France au XVIII.•
siec/e (Paris, 1931); A. KOYRÉ, From the Closed World to the lnfinile
mente marcado por debates freqüentes e profundos a Universe (Baltimore, 1957), Cap. XI.

72 73
eles podem funcionar sem que haja necessidade de um . Ex��inemos, P?r ,exemplo, a comunidade ampla
acordo sobre as razões de seu emprego ou mesmo se.m e d1vers1f1cada constitmda por todos os físicos. Atual­
qualquer tentativa de racionalização. mente . cada membro desse grupo aprende determina­
Podemos concluir este capítulo apresentando uma das l �1s (por exemplo, as da Mecânica Quântica), e
quarta razão que nos permite atribuir uma prioridade a maior parte. deles as empregam em algum momento
aos paradigmas, quando comparados com as regras e de suas pesqmsas ou tarefas didáticas. Mas nem todos
pressupostos partilhados por um grupo científico. A in­ apren�em as mesmas aplicações dessas leis e por isso
trodução deste ensaio sugere a existência de revoluções nao sao afetados da mesma maneira pelas mudanças
grandes e pequenas, algumas afetando apenas os estu­ na prática da Mecânica Quântica. No curso de sua
diosos de uma subdivisão de um campo de estudos. Para especialização profissional, apenas alguns físicos entram
tais grupos, até mesmo a descoberta de um fenômeno em contato com os princípios básicos da Mecânica
novo e inesperado pode ser revolucionária. O próximo Quântica. Outros estudam detalhadamente as aplica­
capítulo examinará alguns exemplos desse tipo de revo­ ções paradigmáticas desses princípios à Química ainda
lução - mas ainda não sabemos como se produzem. outros à Física dos Estados Sólidos e assim por 'diante.
Se a ciência normal é tão rígida e as comunidades cien­ O significado que a Mecânica Quântica possui para
tíficas tão estreitamente entrelaçadas como a exposi­ cada um deles depende dos cursos freqüentados, dos
ção precedente dá a entender, como pode uma mu­ textos lidos e dos periódicos estudados. Conclui-se daí
dança de paradigma afetar apenas um pequeno sub­ que, embora uma modificação nas leis mecânico-quân­
grupo? O que foi dito até aqui parece implicar que a ticas_ �eja _revolucionária para todos esses grupos, uma
ciência normal é um empreendimento único, monolí­ mod1f1caçao que reflete apenas uma ou outra aplica­
tico e unificado que deve persistir ou desaparecer, seja ção do paradigma será revolucionária somente para os
com algum de seus paradigmas, seja com o conjunto �embros de uma subespecialidade profissional especí­
deles. Mas é óbvio que a ciência raramente ( ou nun­ fica. Para o restante dos especialistas e praticantes de
ca) procede dessa maneira. Freqüentemente, se con­ outras_ ciências físicas esta modificação não precisa ne­
siderarmos todos seus campos, assemelha-se a uma cessanamente ser revolucionária. Em suma, embora a
estrutura bastante instável, sem coerência entre suas Mecânica Quântica ( ou a Dinâmica newtoniana ou a
partes. Entretanto, nada do que foi afirmado até ago­ teoria eletromagnética) seja um paradigma para muitos
ra opõe-se necessariamente a esta observação tão fa­ grupos científicos, não é o mesmo paradigma em todos
miliar. Ao contrário, a substituição de paradigmas por esses casos. Por isso pode dar origem simultaneamente
regras deveria facilitar a compreensão da diversidade a diyersas tradições da ciência normal que coincidem
de campos e especializações científicas. As regras explí­ parcialmente, sem serem coexistentes. Uma revolução
citas, quando existem, em geral são comuns a um gru­ produzida no interior de uma dessas tradições não se
po científico bastante amplo - algo que não precisa estenderá necessariamente às outras.
ocorrer com os paradigmas. Aqueles que trabalham em Uma breve ilustração dos efeitos da especializa­
campos de estudo muito afastados, como, por exem­ ção reforçará essa série de argumentos. Um investiga- '--­
ple>, a Astronomia e a Botânica Taxionômica, rece­ d?r, _que esper�va aprender algo a respeito do que os
bem sua educação no contato com realizações cientí­ cientistas consideram ser a teoria atômica , perguntou
ficas bastante diversas, descritas em livros de nature­ a um físico e a um químico eminentes se um único
za muito distinta. Mesmo os que, trabalhando no mes­ átomo de hélio era ou não uma molécula. Ambos res­
mo campo de estudos ou em campos estreitamente re­ P?�deram sem hesitação, mas suas respostas não coin­
lacionados, começam seus estudos por livros e realiza­ c1d1ram. Para o químico, o átomo de hélio era uma
ções científicas idênticos, podem adquirir p__aradigmas molécula porque se comportava como tal desde o pon-
bastante diferentes no curso de sua especialização pro� to �e. vis�a da teoria ciné,tica dos gases. Para o físico,;'
fissional. o heho nao era uma molecula porque não apresentava,

75
74
um espectro molecular.7 Podemos supor que ambos fa­
lavam da mesma partícula, mas a encaravam a partir
de suas respectivas formações e práticas de pesquisa.
Suas experiências na resolução de problemas indica­
ram-lhes o que uma molécula deve ser. Sem dúvida
alguma suas experiências tinham muito em comum,
mas neste caso não indicaram o mesmo resultado aos
dois especialistas. Na medida em que avançarmos na
nossa análise, veremos quão cheias de conseqüências
�em ser as diferenças de paradigma dessa natureza.

5. A ANOMALIA E A EMERGÊNCIA DAS


DESCOBERTAS CIENTIFICAS

A c1encia normal, atividade que consiste em so­


lucionar quebra-cabeças, é um empreendimento alta­
mente cumulativo, extremamente bem sucedido no que
toca ao seu objetivo, a ampliação contínua do alcance
e da precisão do conhecimento científico.' Em todos
esses aspectos, ela se adequa com grande' precisão à
imagem habitual do trabalho científico. Contudo, falta
aqui um produto comum do empreendimento científi­
co. A ciência normal não se propõe descobrir novida--
7. O investigador era JAMES K. SENIOR, com quem estou em dívida
por um relatório verbal. Alguns temas relacionados são examinados no
des no terreno dos fatos ou da teoria; quando é bem
seu trabalho, The Vemacular of the Laboratory, Phi/osophy o/ Science, sucedida, não as encontra. Entretanto, fenômenos no­
XXV, pp. 163-168 {1958),
vos e insuspeitados são periodicamente descobertos pe--
76 77
la pesquisa científica; cientistas têm constantem�n!e Para vermos a que ponto as novidades fatuais e
inventado teorias radicalmente novas. O exame htsto­ teóricas estão entrelaçadas na descoberta científica,
rico nos sugere que o empreendimento científico de­ examinaremos um exemplo particularmente famoso: a
senvolveu uma técnica particularmente eficiente na descoberta do oxigênio. Pelo menos três sábios têm
produção de surpresas dessa natureza. Se queremos _ direito a reivindicá-la e além disso, por volta de 1770,
conciliar essa característica da ciência normal com o vários outros químicos devem ter produzido ar enri­
que afirmamos anteriorment�, é pre�iso que ª. pesqu�­ quecido num recipiente de laboratório, sem o sabe­
sa orientada por um paradigma seJa um me10 parti­ rem.1 Nesse exemplo tirado da Química Pneumática,
cularmente eficaz de induzir a mudanças nesses mes­ o progresso da ciência normal preparou o caminho para
mos paradigmas que a orientam. Esse é o p�pel das uma ruptura radical. O farmacêutico sueco C. W.
novidades fundamentais relativas a fatos e teorias. Pro­ Scheele é o primeiro cientista a quem podemos atri­
duzidas inadvertidamente por um jogo realizado se­ buir a preparação de uma amostra relativamente pura
gundo um conjunto de regras, sua assimilação requer do gás. Contudo, podemos ignorar o seu trabalho, visto
a elaboração de um novo conjunto. Depois que elas que só foi publicado depois de a descoberta do oxi­
se incorporaram à ciência, o empreendimento científico gênio ter sido anunciada repetidamente em outros lu­
nunca mais é o mesmo - ao menos para os especialis­ gares. Não teve portanto qualquer influência sobre o
tas cujo campo de estudo é afetado por essas novidades. modelo histórico que mais nos preocupa aqui.2 O se­
' gundo pretendente à descoberta foi o cientista e clé­
Devemos agora perguntar como podem surgir tais rigo britânico Joseph Priestley, que recolheu o gás li­
mudanças, examinando em primeiro lugar descobertas berado pelo óxido de mercúrio vermelho aquecido.
(ou novidades relativas a fatos), para então estudar Esse trabalho representava um dos itens de uma pro­
as invenções (ou novidades concernentes à teoria). longada investigação normal acerca dos "ares" libe­
Essa distinção entre descoberta e invenção ou entre rados por um grande número de substâncias sólidas.
fato e teoria revelar-se-á em seguida excessivamente Em 1774, Priestley identificou o gás assim produzi­
artificial. Sua artificialidade é uma pista importante do como óxido nitroso. Em 1775, depois de novos tes­
para várias das principais teses deste ensaio. No res!2n­ tes, identificou-o como ar comum dotado de uma quan­
te deste capítulo examinaremos descobertas escolhidas tidade de flogisto menor do que a usual. Lavoisier, o
e descobriremos rapidamente que elas não são even­ terceiro pretendente, iniciou as pesquisas que o leva­
tos isolados, mas episódios prolongados, dotados de riam ao oxigênio após os experimentos de 1774 de
· uma estrutura que reaparece regularmente. A desco­ Priestley, possivelmente devido a uma sugestão desse
berta começa com a consciência da anomalia, isto é, último. No início de 1775, Lavoisier escreveu que o
com o reconhecimento de que, de alguma maneira, a gás obtido com o aquecimento do óxido vermelho de
natureza violou as expectativas paradigmáticas que go­ mercúrio era "o próprio ar, inteiro, sem alteração
vernam a ciência normal. Segue-se então uma explo­ (exceto que) ... surge mais puro, mais respirável".3
ração mais ou menos ampla da área onde ocorreu a
anomalia. Esse trabalho somente se encerra quando a 1. Sobre a discussão ainda clássica a respeito da descoberta do oxi•
gênio, ver A. N. MELDRUM, The Eighteenth-Century Revo/ution in Sc_ien�e
teoria do paradigma for ajust_ad}!_, de tal forma que o - the First Phase (Calcutá, 1930), Cap. V. Um trabalho re�en!e e md1s•
pensável que inclui uma exoosição da controvérsia sobre a pnon�ade, é o
anômalo se tenha convertido no esperado. A assimila­ de MAURICE DAUMAS, Lavoisier, théoricien e t expérimentateu� (�ans, 1955),
Caps. II e III. Para um relato mais completo e um� b1.b)1ogr�fia, ver
ção de um novo tipo de fato exige mais d? que um também T. S. KUHN, The HistoricaJ Structure of Sc1en11f1c D1scovery,
ajustamento aditivo da teoria. �té que ta! aJ�stamento Science, CXXXVI, pp. 760-764 (junho, 1, 1962).
2 Ver entretanto UNO BOCKLUND, A Lost Letter from Scheele to
tenha sido completado - ate que o cientista tenha Lavosier, Lychnos, pp,' 39-62, 1957-1958, para uma avaliação diferente do
papel de Scheele.
aprendido a ver a natureza de um modo diferente_ - 3. J. B. CONANT, The Overthr�w oi lhe Ph/ogiston _ _ Thm
�ory: The_
Chemical Revo/ution oi 1775-1789 (' Harvard Case Histories Expen­
o novo fato não será considerado completamente cien­ mental Science", Case 2, Cambridge, Mass., 1950), p. 23. Esse folheto,
tífico. muito útil, reproduz muitos documentos importantes.
--...
78 79
Por volta de 1777, provavelmente com a ajuda de uma mente o que o gás era. No entanto, mesmo esse reco­
segunda sugestão de Priestley, Lavoisier concluiu que nhecimento _IJ?de�ia. s�r contestad �, já que, a partir de
esse gás constituía uma categoria especial, sendo um 1J?7, Lav �ISle�, ms!sti:u que o ox1genio era "um prin­
dos dois principais componentes da atmosfera - con­ c1p10 de acidez atom1co e que o gás oxigênio se for­
clusão que Priestley nunca foi capaz de aceitar.," mava somente quando o "princípio" se unia ao caló­
Esse modelo de descoberta levanta uma questão rico, a substância do calor.4 Podemos então dizer que
que pode ser colocada com relação a todos os novos o oxigênio ainda não fora descoberto em 1777? Alguns
fenômenos que chegam à consciência dos cientistas. poderão sentir-se tentados a fazer essa afirmação. Entre­
Priestley ou Lavoisier, quem, (se algum deles), �es­ tanto, o princípio de acidez só foi banido da Química
cobriu primeiro o oxigênio? De qualquer manelfa, depois de 1810, enquanto o calórico sobreviveu até
quando foi descoberto o oxigênio? Apresentada desse 1860. Antes de qualquer uma dessas datas o oxigênio
modo, a questão poderia ser colocada mesmo no �aso tornara-se uma substância química padrão.
de um único pretendente à descoberta. Não nos mte­ Obviamente necessitamos de novos conceitos e
ressa absolutamente chegar a uma decisão acerca de novo vocabulário para analisar eventos como a desco­
prioridades e datas. Não obstante, uma tentativa de berta do oxigênio. A-propo.siçãQ,___','._Q Q_�jgfü1i,9 f.oLdes,.
resposta esclarecerá a natureza das descobertas, já que cpberto", embor<! i11i:h:1biJªy�hnente . correta, é engana­
não existem as respostas desejadas para tais perguntas.
A descoberta não é o tipo de process.Q a respeito do
dora, pois sugere que descobrir alguma coisa é um
ato
simples e único, assimilável ao nosso conceito habitual
qual seja apropriado colocar tais questões. O fato de (e igualmente questionável) de visão. Por isso supo­
que elas sejam feitas - a prioridade da descoberta mos tão facilmente que descobrir, como ver ou tocar,
do oxigênio foi muitas vezes contestada desde 1780 - deva ser inequivocamente atribuído a um indivíduo e
é um sintoma de que existe algo de errado na imagem a um momento determinado no tempo. Mas este últi­
da ciência que concede à de--scoberta um pªpel tão mo dado nunca pode ser fixado e o primeiro freqüen­
fundamental. Exãminemos nosso exemplo mais uma temente também não. Ignorando Scheele, podemos di­
vez. A pretensão de Priestley à descoberta do oxigê­ zer com segurança que o oxigênio não foi descoberto
nio baseia-se no fato de ele ter sido o primeiro a isolar antes de 1774 e provavelmente também diríamos que
um gás que mais tarde foi reconhecido como um ele­ foi descoberto por volta de 1777 ou pouco depois. Mas
mento distinto. Mas a amostra de Priestley não era dentro desses limites ou outros semelhantes, qualquer
pura e se segurar oxigênio impuro nas mãos é des­ tentativa de datár a descoberta será· inevitavelmente
cobri-lo, isso fora feito por todos aqueles que alguma arbitrária, pois a descoberta de um novo tipo de fe­
vez engarrafaram o ar atmosférico. Além do majs, se nômeno é necessariamente !}ni- acóiúecimento comp!e­
Priestley foi o descobridor, quando ocorreu a desco­ xo, que envolve o reconhecimento tanto da existência
berta? Em 1774 ele pensou ter obtido óxido nitroso, de algo, como de suá natureza. Note-se, por exemplo,
uma substância que já conhecia; em 1775 identificou que se considerássemos o oxigênio como sendo ar des­
o gás com o ar desflogistizado - o que ainda não é flogistizado, insistiríamos sem hesitação que Priestley
oxigênio e nem mesmo uma espécie de gás muito ines­ fora seu descobridor, embora ainda não soubéssemos
perada para os químicos ligados à teoria do flogisto. exatamente quando. Mas se tanto a observação como
A alegação de Lavoisier pode ser mais consistente, mas a conceitualização, o fato e a assimilação à teoria,
apresenta os mesmos problemas. Se recusarmos a pal­ estão inesperadamente ligados à descoberta, então esta
ma a Priestley, não podemos concedê-la a Lavoisier é um processo que exige tempo. Somente quando to­
por seu trabalho de 1775, que o levou a identificar o das essas categorias conceituais relevantes estão pre-
gás como sendo "o próprio ar, inteiro". É preciso tal­
vez esperar pelos trabalhos de 1776 e 1777, que le­ 4. H. METZGER, La phi/osophie de la matiere chez Lavoisier. (Paris,
varam Lavoisier não somente a ver o gás, mas igual- 1935) e DAUMAS, op. cit., Cap. VII.

80 81
paradas de antemão ( e nesse caso não se trata de um daquilo que permiti� a Lavoisier ver nas experiências
novo tipo de fenômeno), pode-se descobrir ao mes­ semelhantes. as_de Pnestley 11II1. gás.que .o próprio Pries­
mo tempo, rápida e facilmente, a existência e a natu­ � . de perceber.
tley fora incapaz . .Inversament
. e' o fato de
que era necessano uma rev1sao importante no paradig-
-.

reza do que ocorre.


-::.; '

Admitamos agora que a descoberta envolve um ma para que se pudesse ver o que Lavoisier vira deve
processo de assimilação conceituai amplo, embora não ter sido a razão principal para Priestley ter perm'aneci- ---.
necessariamente prolongado. Poderemos igualmente do, até o fim de sua vida, incapaz de vê-lo. ·
afirmar que envolve uma modificação no paradigma? Dois outros exemplos bem mais breves reforçarão ..
Ainda não é possível dar uma resposta geral a essa o _qu� acabamos de dizer. P.o mesmo tempo, nos per­
questão, mas, pelo menos nesse caso, a resposta deve m1trrao passar de uma elucidação da natureza das des­
ser afirmativa. O que Lavoisier anunciou em seus tra­ cobertas a uma compreensão das circunstâncias sob as
balhos posteriores a 1777 não foi tanto a descoberta quais elas surgem na ciência. Num esforço para apre­
do oxigênio, como a teoria da combustão pelo oxigê­ sentar as principais formas pelas quais as descobertas
nio. Essa teoria foi a pedra angular de uma reformu­ podem ocorrer, escolhemos exemplos que são diferen-
lação tão ampla da Química que veio a ser chamada tes entre si e simultaneamente diversos da descoberta
de Revolução Química. De fato, se a descoberta do d� �xigênio. O primeiro, o dos raios X, . é um caso
oxigênio não tivesse estado intimamente relacionada class1co de descoberta por acidente. Esse tipo de des­
com a emergência de um novo paradigma para a Quí­ coberta ocorre mais freqüentemente do que os padrões
mica, o problema da prioridade ( do qual partimos), impessoais do� �elatórios
_ científicos nos permitem per-
nunca teria parecido tão importante. Nesse caso, co­ ceber. Sua h1stona começa no dia em que o físico
mo em outros, o valor atribuído a um novo fenômeno Roentgen interrompeu uma investigação normal sobre
( e portanto sobre seu descobridor) varia com nossa os raios catódicos, ao notar que uma tela de cianeto de
estimativa da dimensão da violação das previsões do platina e bário, colocada a certa distância de sua apa­
paradigma perpetrada por este. Observe-se, entretan­ relhagem protetora, brilhava quando se produzia uma
to - pois isto terá importância mais tarde - que a descarga. Investigações posteriores - que exigiram
descoberta do oxigênio não foi em si mesma a causa sete semanas febris, durante as quais Roentgen rara­
da mudança na teoria química. Muito antes de de­ mente deixou o laboratório - indicaram que a causa
sempenhar qualquer papel na descoberta de um novo do _bripio pr?vinha do tubo de raios catódicos, que a
gás, Lavoisier convenceu-se de que havia algo errado radiaçao projetava sombras e que não podia ser des­
com a teoria flogística. Mais: convenceu-se de que viada por um ímã, além de muitas outras coisas. Antes
corpos em combustão absorvem uma parte da atmos­ de anunciar sua descoberta, Roentgen convencera a
fera. Registrara essas convicções numa nota lacrada si próprio que esse efeito não se devia aos raios cató­
depositada junto ao secretário da Academia Francesa dicos, mas a um agente dotado de alguma semelhança
em 1772.5 O trabalho sobre o oxigênio deu forma e com a luz.6
estrutura mais precisas à impressão anterior de La­ Mesmo um resumo tão sucinto revela semelhan­
voisier de que havia algo errado na teoria química ças impressionantes com a descoberta do oxigênio:
corrente. Indicou-lhe algo que ele já estava preparado antes das experiências com o óxido vermelho de roer-
para descobrir: a natureza da substância que a com­ .-" cúrio, Lavoisier fizera experiências que não produzi­
bustão subtrai da atmosfera. Essa consciência prévia ram os resultados previstos pelo paradigma flogístico;
a descoberta de Roentgen começou com o reconheci­
das dificuldades deve ter sido uma parte significativa mento de que sua tela brilhava quando não devia fa-
S. O relato mais autorizado sobre a origem do descontentamento de
Lavoisier é o de HENRY GUERLAC, Lavoisier - the Crucial Year: The 6. L. W. TAYLOR, Physics, the Pioneer Science (Boston, 1941), pp.
Background and Origin of His First Experiments on Combustion in 1772 790-794 e T. W. CHALMERS, Historie Researches (Londres' 1949) ' PP·
(ltbaca, NY, 1961). 218-219.

82 83
zê-lo. Em ambos os casos a percepção da anomalia peito do gás de Priestley. Ao contrário: a prática e
- isto é, de um fenômeno para o qual o paradigma a teoria científicas aceitas em 1895 admitiam diversas
não preparara o investigador - desempenhou um pa­ formas de radiação - visível, infravermelha e ultra­
pel essencial na preparação do caminho que permiti_u violeta. Por que os raios X não puderam ser aceitos
a percepção da novidade. Mas, também nesses d01s como uma nova forma de manifestação de uma classe
casos, a percepção de que algo saíra errado foi ape­ bem conhecida de fenômenos naturais? Por que não
nas o prelúdio da descoberta. Nem o oxigênio, nem foram recebidos da mesma maneira que, por exemplo,
os raios X surgiram sem um processo ulterior de expe­ a descoberta de um elemento químico adicional? Na
rimentação e assimilação. Por exemplo, em que mo­ época de Roentgen, ainda estavam sendo buscados e
mento da investigação de Roentgen podemos dizer que encontrados novos elementos para preencher os luga­
os raios X foram realmente descobertos? De qualquer res vazios na tabela periódica. Esse empreendimento
modo, não no primeiro momento, quando não se per­ era um projeto habitual na ciência J:!ormal da época;
cebeu senão uma tela emitindo sinais luminosos. Pelo o sucesso de uma investigação era motivo para con­
menos um outro observador já vira esse brilho e, para gratulações, mas não para surpresas.
sua posterior tristeza, não descobriu absolutamente Contudo, os raios X foram recebidos não só com
nada.7 É igualmente ó_bviQ q_\JJ! não podemos deslocar surpresa, mas também com choque. ,'\ princípio Lorde
o momento da descoberta para um determinado pon­ Kelvin considerou-os um embuste mmto bem elabora­
to da última semana de investigações - quando Roent­ do.8 Outros, embora não pudessem duvidar das pro­
gen estava explorando as propriedades da nova radia­ vas apresentadas, sentiram-se confundidos por ela.
ção que ele já descobrira. Podemos somente dizer que Embora a existência dos raios X não estivesse inter­
os raios X surgiram em Würsburg entre 8 de novem­ ditada pela teoria estabelecida, ela violava expectati­
bro e 28 de dezembro de 1895.; vas profundamente arraigadas. Creio que essas e�pec-,,.
Entretanto, num terceiro aspecto, a existência de tativas estavam implícitas no planejamento e na mter­
paralelismos significativos entre as descobertas do oxi­ pretação dos procedimentos de laboratório admitid��
gênio e dos raios X é bem menos aparente. Ao con­ na época. Na última década do século XIX, o eqm­
trário da descoberta do oxigênio, a dos raios X não pamento de raios catódicos era amplamente empr:ga-·
esteve, durante uma década, implicada em qualquec do em numerosos laboratórios europeus. Se o eqmpa­
transtorno mais óbvio da teoria científica. Em que sen­ mento de Roentgen produzira os raios X, então m?i7
tido pode-se então afirm�r que a assimilação dess� des­ tos outros experimentadores deviam estar P!oduzm­
coberta tornou necessária uma mudança de paradigma? do-os sem consciência disso. Talvez esses raios, que
Existem boas razões para recusar essa mudança. Não poderiam muito bem ter outras origens não�conheci­
há dúvida, entreJa_ntQ,_cle _que os pan1digmas aceitos das estivessem implícitos em fenômenos anteriormente
por Roentgen e seus contemporâneos não pod:riam ter
sido usados para predizer os raios X. (A teoria eletro­ explicados sem referência a eles. Na pior �as hip�t�ses,
magnética de Maxwell ainda não fora aceita por todos no futuro diversos tipos de aparelhos mmto fam1hares
e a teoria das· partículas de raios catódicos era uma teriam que ser protegidos por �ma capa _de chumbo.
1,;ntre muitas especulações existentes.) Mas nenhum de�­ Trabalhos anteriormente conclmdos, relativos a pro­
ses paradigmas proibia (pelo menos em algum sen�1- jetos da ciência normal, teriam que ser refeitos, pois
do óbvio) a existência de raios X, tal como a teona os cientistas não haviam reconhecido, nem controla­
do flogisto proibira a interpretação de Lavoisier a res- do uma variável relevante. Sem dúvida, os raios X
ab;iram um novo campo de estudo, ampliando assim
7. E. T. WHITIAKER, A History of the Theories of Aether and Elec­
!ricity, I, (2. ed. Londres, 1951), p. 358, nota 1. Sir George _Th�p�on
os domínios potenciais da ciência normal. Mas tam-
nformou-me a respeito de µma segunda quase-descoberta. S:r Wilham
:rookes, alertado por placas fotográficas inexplicavelmC'llte opacas, estava 8. THOMPSON, Silvanus P. The Life oi Sir William Thomsvm Baroll
gualmente no caminh_o da descoberta. Kelvin of Largs. (Londres, 1910), II, p. 1125.

84 85
b�m modificaram (e esse é o ponto mais importante) · perior da tabela periódica.10 Levando-se em conta a
campos já existe�tes. No decorrer desse processo, ne­ freqüência com que tais compromissos instrumentais
gara� a determinados tipos de instrumentação, que revelam-se enganadores, deveria a ciência abandonar
anteriormente eram considerados paradigmáticos' o di- os testes e instrumentos propostos pelo paradigma?
reito a esse título. Não. Disso resultaria um método de pesquisa inconce-
Em resumo, conscientemente ou não, a decisão '• �- bível. Os procedimentos e aplicações do paradigma são ·
de empregar um determinado aparelho e empregá-lo tão necessários à ciência como as leis e teorias para­
de um modo específico baseia-se no pressuposto de digmáticas ....::.. e têm os mesinos efeitos. Restringem '·
que somente certos tipos de circunstâncias ocorrerão. inevitavelmente o campo fenomenológico acessível em
Existem tanto expectativas instrumentais como teóri­ qualquer momento da investigação científica. Isto pos­
cas,_ 9-ue freqüentemente têm desempenhado um papel to, estamos em condições de perceber um sentido fun­
dec1s1vo no desenvolvimento científico. Uma dessas damental no qual uma descoberta como a dos raios X
'expectativas, por exemplo, faz parte da história da exige uma mudança de paradigma - e portanto uma
de_s�oberta tardia do oxigênio. Priestley e Lavoisier, mudança nos procedimentos e expectativas - para
utthzando um teste-padrão para determinar "a boa qua­ uma fração especial da comunidade científica. Conse­
lidade do ar", misturam dois volumes do seu gás com qüentemente, poderemos igualmente entender como a ,
um volume de óxido nítrico, sacudiram a mistura so­ descoberta dos raios X pode ter aparecido como um
bre a água e então mediram o volume de resíduo ga­ estranho mundo novo para muitos cientistas e assim
soso. A experiência prévia a partir da qual fora engen­ participar tão efetivamente da crise que gerou a Físi­
drado esse procedimento assegurava-lhes que o resí­ ca do século XX. ,. � ·
d_uo, juntamente com o ar atmosférico, corresponde­ Nosso último exemplo de descoberta científica, a
na a um volume. No caso de qualquer outro gás (ou Garrafa de Leyden, pertence a uma classe que pode
ar poluído), o volume seria maior. Nas experiências ser descrita como sendo induzida pela teoria. À pri­
com o oxigênio, ambos encontraram um resíduo que meira vista o termo pode parecer paradoxal. Grande
se aproximava de um volume e a partir desse dado parte do que foi dito até agora sugere que asdesco­
identificaram o gás. Somente muito mais tarde (e em bertas preditas pela teoria fazem parte da ciência nor­
parte devido a um acidente), Priestley renunciou ao mal e não produzem novos tipos de fatos. Por exem­
procedimento habitual e tentou misturar óxido nítrico plo, referi-me anteriormente às desco6ertas de novos
em outras proporções. Seu compromisso aos procedi­ elementos químicos durante a segunda metade do sé­
culo XIX como sendo resultado da ciência normal - .
mentos do teste original - procedimentos sancionados obtido da maneira acima mencionada. Mas nem todas
por muitas experiências anteriores - fora simultanea­ as teorias são teorias paradigmáticas. Tanto os perío-
mente um compromisso com a não-existência de gases
que pudessem se comportar como fizera o oxigênio.9 10. K. K. DARROW, Nuclear Fission, Bel! System Technical Journal,
Poderíamos multiplicar as ilustrações desse tipo XIX, pp. 267-89 (1940). O criptônio, um dos dois principais produtos da
fissão parece não ter sido identificado por meios qufmicos senão depois
fazendo referência , por exemplo, à identificação tardia da reação ter sido bem compreendida. O bário, o outro produto, quase
foi identificado quimicamente na etapa final da investgação, l)Orque esse
da fissão do urânio. Uma das razões pelas quais essa elemento teve que ser aditado à solução radioativa para precipitar o ele­
mento pesado que os químicos nucleares estavam buscando. O fracasso
reação nuclear revelou-se especialmente difícil de re­ em separar esse bário do produto radioativo conduziu, depois de a reação
ter sido bem investigada por quase cinco anos, ao seguinte relatório:
conhecer liga-se ao fato de que os pesquisadores cons­ "Como químicos, esta investigação deveria conduzir-nos . . . a modificar
cientes do que se podia esperar do bombardeio do urâ­ todos os nomes do esquema (da reação) precedente e a escrever Ba, La,
Ce em vez de Ra, Ac, Th. Mas, como "químicos nuclares", estreitamente
nio escolheram testes químicos que visavam descobrir relacionados à Ffaica, não podemos dar esse salto que contradiria todas as
experiências prévias da Física Nuclear. Pode ser que uma série de estra­
principalmente quais eram os elementos do extremo su- nhos acidentes tome nossos resultados enganadores" (HAHN, Otto, e
STRASSMAN, Fritz. "Über den Nachweis und das Verhalten der bei Bes­
trahlung des Uran mittels Neutronen entstehended ErdalkalimetalJe''. Die
9. tONANT. Op. Cit. pp, 18-20. Naturwissenschaften, XXVII (1939), 15).

86 87
dos pré-paradigmáticos, como durante as crises que rios outros efeitos anômalos. Além disso, as experiên­
conduzem a mudanças em grande escala do paradigma, cias que propiciaram o surgimento desse aparelho
os cientistas costumam desenvolver muitas teorias espe­ (muitas das quais realizadas por Franklin) eram exa­
culativas e desarticuladas, capazes de indicar o cami­ tamente aquelas que tornaram necessária a revisão drás­
nho para novas descobertas. Muitas vezes, entretanto, tica da teoria do fluido, proporcionando assim o pri­
essa descoberta não é exatamente a antecipada pela meiro paradigma completo para os fenômenos ligados
hipótese especulativa e experimental. Somente depois à eletricidade. 11
de articularmos estreitamente a experiência e a teoria Em maior ou menor grau (oscilando num contí­
experimental, pode surgir a descoberta e a teoria con­ nuo entre o resultado chocante e o resultado anteci­
v�rter-se em paradigma. ,, pado), as características comuns aos três exemplos aci­
A descoberta âá Garrafa de Leyden revela todos ma são traços de todas as descobertas das quais emer­
esses traços, além dos que examinamos anteriormente. gem novos tipos de fenômenos. Essas características.
Quando o processo de descobrimento teve início, não incluem: a consciência prévia da anomalia, a emer­
existia um paradigma único para a pesquisa elétrica. gência gradual e simultânea de um reconhecimento
Em lugar disso, diversas teorias, todas derivadas de fe­ tanto no plano conceituai como nó plano da observa­
nômenos relativamente acessíveis, competiam entre si. ção e a conseqüente_ mudança. das categorias e-proce­
' Nenhuma delas conseguiu organizar muito bem toda a dimentos paradigmáticos _ - mudança· muitas vezes
C variedade dos fenômenos elétricos. Esse fracasso foi acompanhada por resistência. Existem inclusive pro­
· â fonte de diversas das anomalias que forneceram o vas de que· essas mesmas características fazem parte
pano de fundo para a descoberta da Garrafa de Ley- da natureza do próprio processo perceptivo. Numa
. den. Uma das escolas de eletricistas que competiam experiência psicológica que merece ser melhor conhe­
entre si concebeu a eletricidade como um fluido. Essa cida fora de seu campo original, Bruner e Postman
concepção levou vários cientistas a tentarem engarra­ pediram a sujeitos experimentais para que identificas­
far tal fluido. Essa operação consistia em segurar nas sem uma série de cartas de baralho, após serem expos-'
mãos um recipiente de vidro cheio de água, colocan­ tos a elas durante períodos curtos e experimentalmen­
do-se essa última em contato com um condutor pro­ te controlados. Muitas das cartas eram normais, mas
veniente de um gerador eletrostático em atividade. Ao algumas tinham sido modificadas, como, por exemplo,
retirar a garrafa da máquina e tocar a água (ou um um seis de espadas vermelho e um quatro de copas
condutor a ela ligado) com sua mão livre, todos esses preto. Cada seqüência experimental consistia em mos­
experimentadores receberam um forte choque elétrico. trar uma única carta a uma única pessoa, numa série
Entretanto, essas primeiras experiências não conduzi­ de apresentações cuja duração crescia gradualmente.
ram os eletricistas à descoberta da Garrafa de Leyden. Depois de cada apresentação, perguntava-se a cada
Esse instrumento emergiu mais lentamente. Também participante o que ele vira. A seqüência terminava após
nesse caso é impossível precisar o momento da desco­ duas identificações corretas sucessivas. 1 2
berta. As primeiras tentativas de armazenar o fluido Mesmo nas exposições mais breves muitos indi­
elétrico somente funcionaram porque os investigado­ víduos identificavam a maioria das cartas. Depois de
res seguraram o recipiente nas mãos, ao mesmo tem­ um pequeno acréscimo no tempo de exposição, todos
po em que permaneciam com os pés no solo. Os ele­ os entrevistados identificaram todas as cartas. No caso
tricistas ainda precisavam aprender que a garrafa exi­
gia uma capa condutora (tanto interna como externa) 1 t. A respeito das várias etapas da evolução da Garrafa de Leyden,
e que o fluido não fica armazenado no recipiente. O ver I. B. COHEN Franklin and Newton: An Inquiry into Specu/ative
Newtonian Experi/nental Science and Franklin's Work in Electricity as an
instrumento que chamamos Garrafa de Leyden surgiu Example Thereof (Filadélfia, 1956), pp. 385-386, 400-406, 452-467 e 506-
·507. o último estágio é descrito por WHITIAKER, op. cit., pp. 50-52.
em algum momento das investigações em que os ele­ 12. BRUNER, J. s. & POSTMAN, Leo. On the Perception of Incongruity:
tricistas constataram esse fato, descobrindo ainda vá- A Paradigma. lournal o/ Personality, XVIII, pp. 206-223 (1949).

88 89
das cartas normais, essas identificações eram geralmen­ dade que se manifesta através de uma resistência) con­
te corretas, mas as cartas anômalas eram quase sem­ tr� _um pano de . fundo fornecido pelas exp!!ctativas.
pre identificadas como normais, sem hesitação ou per­ Imcialmente experimentamos somente o que é habitual
plexidade aparentes. Por exemplo, o quatro de copas e previsto, rnes �o em circuns_tâncias nas quais mais
preto era tomado pelo quatro de espadas ou de copas. tarde se observara urna anomalia. Contudo, uma maior
Sem qualquer consciência da anomalia, ele era ime­ familiaridade dá origem à consciência de urna anoma­
diatamente adaptado a uma das categorias conceituais lia ou permite relacionar o fato a algo que anterior­
preparadas pela experiência prévia. Não gostaríamos mente não ocorreu conforme o previsto. Essa consciên­
nem mesmo de dizer que os entrevistados viam algo cia da anomalia inaugura um período no qual as ca­
diferente daquilo que identificavam. Com uma expo­ tegorias conceituais são adaptadas até que o que ini­
sição maior das cartas anômalas, os entrevistados co­ c�alrnente era considerado anômalo se converta no pre­
meçaram então a hesitar e a demonstrar consciência visto. Nesse momento completa-se a descóberta. Já
da anomalia. Por exemplo, frente ao seis de espadas insisti anteriormente sobre o fato de que esse proces­
vermelho, alguns disseram: isto é um seis de espadas, so (ou um muito semelhante) intervém na emergên­
mas há algo de errado com ele - o preto tem um cia de todas as novidades científicas fundamentais. Gos­
. contorno vermelho. Uma exposição um pouco maior taria agora de assinalar que, reconhecendo esse pro­
deu margem a hesitações e confusões ainda maiores, cesso, podemos facilmente começar a perceber por que
até que, finalmente, algumas vezes de modo repenti­ a ciência normal - um empreendimento não dirigido
no, a maioria dos entrevistados passou a fazer a iden­ para as novidades e que a princípio tende a suprimi­
tificação correta sem hesitação. Além disso, depois de las - pode, não obstante, ser tão eficaz para provo­
'repetir a exposição com duas ou três cartas anômalas, cá-las.
já não tinham dificuldade com as restantes. Contudo, No desenvolvimento de qualquer ciência, admi­
alguns entrevistados não foram capazes de realizar a te-se habitualmente que o primeiro paradigma explica
'--adaptação de suas categorias que era necessária. Mes­ com bastante sucesso a maior parte das observações
mo com um tempo médio de exposição quarenta vezes e experiências facilmente acessíveis aos praticantes da­
superior ao que era necessário para reconhecer as car­ quela ciência. Em conseqüência, um desenvolvimento
tas normais com exatidão, mais de dez por cento das posterior comurnente requer a construção de um equi­
cartas anômalas não foram identificadas corretamente. pamento elaborado, o desenvolvimento de um vocabu­
Os entrevistados que fracassaram nessas condições lário e técnicas esotéricas, além de um refinamento de
experimentavam muitas vezes uma grande aflição. Um conceitos que se assemelham cada vez menos com os
deles exclamou: "não posso fazer a distinção, seja lá protótipos habituais do senso comum. Por um lado,
qual for. Desta vez nem parecia ser uma carta. Já não essa profissionalização leva a uma imensa restrição da
sei sua cor, nem se é de espadas ou copas. Não estou visão do cientista e a uma resistência considerável à
seguro nem mesmo a respeito do que é uma carta de mudança de paradigma. A ciência torna-se sempre
copas. Meu Deus!" 13 mais rígida. Por outro lado, dentro das áreas para as
Seja como metáfora, seja porque reflita a natu­ quais o paradigma chama a atenção do grupo, a ciên­
reza da mente, essa experiência psicológica proporcio­ cia normal conduz a urna informação detalhada e a
na um esquema maravilhosamente simples e convin­ uma precisão da integração entre. a observação e a teo­
cente do processo de descoberta científica. Na ciência, ria que não poderia ser atingida de outra maneira.
assim como na Pxperiência com as cartas do baralho, Além disso, esse detalhamento e precisão da integra­
' a novidade somente emerge com dificuldade (dificul- ção possuem um valor que transcende seu interesse
intrínseco, nem sempre muito grande. Sem os instru­
13. Idem, p. 218. Meu colega Postman me afirma que, embora co­ mentos especiais, construídos sobretudo para fins pre­
nhecendo de antemão todo o aparelhamento e a apresentação, sentiu, não
obstante, profundo desconforto ao olhar as cartas anômalas. viamente estabelecidos, os resultados que conduzem às

90 91
novidades poderiam não ocorrer. Mesmo quando os
instrumentos especializados existem, a novidade nor­
malmente emerge apenas para aquele que, sabendo
com precisão o que deveria esperar, é capaz de reco-
\ nhecer que algo saiu errado. A anomalia aparece so­
mente contra o pano de fundo proporcionado pelo pa­
radigma. Quanto maiores forem a precisão e o alcan­
ce de um par.aºigma, tanto mais sensível este será co­
mo indicador de anomalias · é, conseqüentemente de
uma ocasião para a mudança de paradigma. No pro­
c�sso normal de descoberta, até mesmo a mudança tem
1:1ma utilidade que será mais amplamente explorada no
próximo capítulo. Ao assegurar que o paradigma não
será facilmente abandonado, a resistência garante que
.
\ os cientistas não serão perturbados sem razão. Garan­
te ainda que as anomalias que conduzem a uma mu-
dança de paradigma afetarão profundamente os conhe­
cimentos existentes. O próprio fato de que, freqüente­
mente, uma novidade científica significativa emerge si­
multaneamente em vários laboratórios é um índice da
natureza fortemente tradicional da ciência nornal, bem
como da forma completa com a qual essa atividade tra­
dicional prepara o caminho para sua própria mudança.

6. AS CRISES E A EMERGÊNCIA DAS


TEORIAS CIENT1FICAS

Todas as descobertas examinadas no Cap. 5 cau­


saram mudanças de paradigmas ou contribuíram para
tanto. Além disso, as mudanças nas quais essas des­
cobertas estiveram implicadas foram, todas elas, tanto .
construtivas como destrutivas. Depois da assimilação
da descoberta, os cientistas encontravam-se em condi­
ções de dar conta de um número maior de fenômenos
ou explicar mais precisamente alguns dos fenômenos
previamente conhecidos. Tal avanço somente foi pos­
sível porque algumas crenças ou procedimentos ante­
riormente aceitos foram descartados e, simultaneamen­
te, substituídos por outros. Procurei mostrar que alte-
93
92
rações desse tipo estão associadas com todas as des­ estudo do movimento estão estreitamente relacionadas
cobertas realizadas pela ciência normal - exceção com as dificuldades descobertas na teoria aristotélica
feita àquelas não surpreendentes, totalmente antecipa­ pelos críticos escolásticos.2 A nova teoria de Newton
das a não ser em seus detalhes. Contudo, as desco­ sobre a luz e a cor originou-se da descoberta de que
bertas não são as únicas fontes dessas mudanças cons­ nenhuma das teorias pré-paradigmáticas existentes
trutivas-destrutivas de paradigmas. Neste capítulo co­ explicava o comprimento do espectro. A teoria ondu­
meçaremos a examinar mudanças similares, mas usual­ latória que substituiu a newtoniana foi anunciada em
mente bem mais amplas, que resultam da invenção de meio a uma preocupação cada vez maior com as ano­
novas teorias. malias presentes na relação entre a teoria de Newton
Após termos argumentado que nas ciências o fato e os efeitos de polarização e refração.3 A Termodinâ­
e a teoria, a descoberta e a invenção não são categó­ mica nasceu da colisão de duas teorias físicas existen­
rica e permanentemente distintas, podemos antecipar tes no século XIX e a Mecânica Quântica de diversas
uma coincidência entre este capítulo e o anterior. (A dificuldades que rodeavam os calores específicos, o
sugestão inviável, segundo a qual Priestley foi o pri­ efeito fotoelétrico e a radiação de um corpo negro.4
meiro a descobrir o oxigênio, que Lavoisier inventaria Além disso, em todos esses casos, exceto no de New­
mais tarde, tem seus atrativos. Já havíamos encontra­ ton, a consciência da anomalia persistira por tanto
do o oxigênio como uma descoberta; em breve o encon­ tempo e penetrara tão profundamente na comunidade
traremos como uma invenção.) Ao nos ocuparmos da científica que é possível descrever os campos por ela .
emergência de novas teorias, inevitavelmente amplia­ afetados como em estado de crise crescente. A emer­
remos nossa compreensão da natureza das descobertas. gência de novas teorias é geralmente precedida por um
"Ainda assim, coincidência não é identidade. Os tipos pe�íodo de ins�gurança profissional pronunciada, pois
de descobertas examinados no último capítulo não fo­ eX1ge a destrmção em larga escala de paradigmas e
ram responsáveis - pelo menos não o foram isolada­ grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência
mente - pelas alterações de paradigma que se veri­ normal. Como seria de esperar, essa insegurança é ge­
ficaram em revoluções como a copernicana, a newto­ rada pelo fracasso constante dos quebra-cabeças da
niana, a química e a einsteiniana. Tampouco foram res­ ciência normal em produzir os resultados esperados.
ponsáveis pelas mudanças de paradigma mais limita­ O fracasso das regras existentes é o prelúdio para uma
das (já que mais exclusivamente profissionais), produ­ busca de novas regras.
zidas pela teoria ondulatória da luz, pela teoria dinâ­ Comecemos examinando um caso particularmen­
mica do calor ou pela teoria eletromagnética de Max­ te famoso de mudança de paradigma: o surgimento da
well. Como podem tais teorias brotar da ciência nor­ astronomia copernicana. Quando de sua elaboração,
mal, uma atividade que não visa realizar descobertas durante o período de 200 a.e. a 200 d.C., o sistema
e menos ainda produzir teorias? precedente, o ptolomaico, foi admiravelmente bem su­
�-
Se a consciência da anomalia desempenha um pa- cedido na predição da mudança de posição das estre-
pel na emergência de novos tipos de fenômenos, nin­
guém deveria surpreender-se com o fato de que uma 2. MARSHALL CLAGETf, The Science o/ Mechanics in the Middle Ages
(Madison, Wisc., 1959), Partes II e IH. A. KOYRÉ revela numerosos ele­
consciência semelhante, embora mais profunda, seja mentos medievais presentes no pensamento de Galileu em seus :ttudes
um pré-requisito para todas as mudanças de teoria Gali/éenne� (Paris, 1939), especialmente no v. I.
3. A respeito ,de Newton, ver T. S. KuHN, "Newton's Optical Papers",
,aceitáveis. Penso que a esse respeito a evidência his­ em Isaac Newton s Papers and Letters in Natural Phllosophy, ed. I. B.
tórica é totalmente inequívoca. A astronomia ptolo­ Cohen (Cambridge, Mass., 1958), pp. 27-45. Para o prelúdio da teoria
ondulatória, ver E. T. WlllTiilER, A History oi the Theories oi Aether
maica estava numa situação escandalosa, antes dos tra­ and Electriclty, I (2. ed. Londres, 1951), pp. 94-109; e W. WHEWELL,
HiNory o/ lhe Inductive Sciences (ed. rev.; Londrf6, 1847), II, pp. 396-466.
balhos de Copérnico. 1 As contribuições de Galileu ao 4. Sobre a Termodinâmica. ver SILVANUS P. THOMPSON Li/e o/
William Thomson Baron Kelvin o/ Largs (Londres, 1910), I, pp. 266-281.
1. HALL, A. R. The Scienti/ic Revolution, 1500-1800. (Londres, 1954), Sobre a teoria dos quanta, ver, FRITZ REICHE, The Quantum Theory
p. 16. (Londres, 1922), Caps. I e II, trad. de H. S. Hatfield e H. L. Brose.

94 95
Ias e dos planetas. Nenhum outro sistema antigo saí­ complicado e impreciso como se tornara o ptolomaico
ra-se tão bem: a astronomia ptolomaica é ainda hoje poderia ser realmente a expressão da natureza. O pró­
amplamente usada para cálculos aproximados; no que prio Copérnico escreveu no prefácio do De Revolutio­
concerne aos planetas, as predições de Ptolomeu eram nibus que a tradição astronômica que herdara acaba­
tão boas como as de Copérnico. Porém, quando se tra­ ra criando tão-somente um monstro. No início do sé-­
ta de uma teoria científica, ser admiravelmente bem culo XVI, um número crescente dentre os melhores
sucedicfa não é a mesma coisa que ser totalmente bem astrônomos europeus reconhecia que o paradigma astro­
sucedida. Tanto com respeito às posições planetárias, nômico estava fracassando nas aplicações a seus pró­
como com relação aos equinócios, as predições feitas prios problemas tradicionais. Esse reconhecimento foi
pelo sistema de Ptolomeu nunca se ajustaram perfeita­ um pré-requisito para a rejeição do paradigma ptolo­
mente às melhores observações disponíveis. Para nu­ maico por parte de Copérnico e para sua busca de um
merosos sucessores de Ptolomeu, uma redução dessas substituto. Seu famoso prefácio fornece ainda hoje uma
pequenas discrepâncias constituiu-se num dos princi­ das descrições clássicas de um estado de crise. 6
pi.is problemas da pesquisa astronômica normal, do Certamente o fracasso da atividade técnica normal
mesmo modo que uma tentativa semelhante para ajus­ de resolução de quebra-cabeças não foi o único ingre­
tar a observação do céu à teoria de Newton, forneceu diente da crise astronômica com a qual Copérnico se
problemas para a pesquisa normal de seus sucessores confrontou. Um estudo amplo discutiria igualmente a
do século XVIII. Durante algum tempo, os astrônomos pressão social para a reforma do calendário, pressão
dispunham de todos os motivos para supor que tais que tornou particularmente premente o problema da
tentativas de aperfeiçoamento da teoria seriam tão bem precessão dos equinócios. A par disso, uma explica­
sucedidas como as que haviam conduzido ao sistema ção mais completa levaria em consideração a crítica
de Ptolomeu. Dada uma determinada discrepância, os medieval a Aristóteles, a ascensão do neoplatonismo
astrônomos conseguiam invariavelmente eliminá-la, re­ da Renascença, bem como outros elementos históricos
correndo a alguma adaptação especial do sistema pto­ significativos. Mas ainda assim o fracasso técnico per­
lomaico de círculos compostos. Mas, com o decorrer maneceria com o o cerne da crise. Numa ciência ama­
do tempo, alguém que examinasse o resultado acaba­ durecida - a Astronomia alcançara esse estágio já na
do do esforço de pesquisa normal de muitos astrôno­ Antiguidade - fatores externos como os acima cita­
mos, poderia observar que a complexidade da Astro­ dos possuem importância especial na determinação do
nomia estava aumentando mais rapidamente que sua momento do fracasso do paradigma, da facilidade com
precisão e que as discrepâncias corrigidas em um pon- que pode ser reconhecido e da área onde, devido a
. to provavelmente reapareceriam em outro. 5 uma concentração da atenção, ocorre pela primeira vez
Tais dificuldades só foram reconhecidas muito o fracasso. Embora sejam imensamente importantes,
lentamente, pois a tradição astronômica sofreu repeti­ questões dessa natureza estão além dos limites deste
das intervenções externas e porque, dada a ausência ensaio.
da imprensa, a comunicação entre os astrônomos era Esclarecido esse aspecto no tocante à revolução
restrita. Mas, ao fim e a� cabo, produziu-se uma cons­ copernié':ana, passemos a um segundo exemplo bastan­
ciência das dificuldades. Por volta do século XIII, te diferente: a crise que precedeu a emergência da
Àfonso X pôde declarar que, se Deus o houvesse con­ teoria de Lavoisier sobre a combustão do oxigênio.
sultado ao criar o universo, teria recebido bons con­ Nos anos que se seguiram a 1770 muitos fatores se
selhos. No século XVI, Domenico da Novara, colabo­ combinaram para gerar uma crise na Química. Os his­
rador de Copérnico, sustentou que nenhum sistema tão toriadores não estão inteiramente de acordo, nem so-
5. DREYER, J. L. E. A History of Astronomy from Tha/es to Kepler. 6. KUHN, T. S. The Copernican Revolution. (Cambridge, Mass.,
(2. ed. Nova York, 1953), Caps. XI e XII. 1957), pp. 135-143.

96 97
bre a natureza, nem sobre a sua importância relativa. ção de versões de uma teoria é um sintoma muito usual
Mas dois fatores são aceitos como sendo de primeira de crise. Em seu prefácio, Copérnico queixou-se disso.
magnitude: o nascimento da Química Pneumática e a Contudo, a crescente indeterminação e a utilida­
questão das relações de peso. A história do primeiro de decrescente da teoria flogística não foram as únicas
inicia no século XVII com o desenvolvimento da bom­ causas da crise com a qual Lavoisier se defrontou. Ele
ba de ar e sua utilização nas experiências químicas. estava igualmente muito preocupado em encontrar uma
Durante o século seguinte, utilizando aquela bomba e explicação para o aumento de pes o que muitos corpos
numerosos artefatos pneumáticos, os químicos come­ experimentam quando queimados ou aquecidos. Esse
çaram a compreender que o ar devia ser um ingredien­ é um outro problema com uma longa pré-história. Pelo
te ativo nas reações químicas. Mas, com algumas exce­ menos alguns químicos do Islã sabiam que determina­
ções tão equívocas que não podem ser consideradas dos metais ganham peso quando aquecidos. No século
como exceções - os químicos continuaram a acredi­ XVII, diversos investigadores haviam concluído, a par­
tar que o ar era a única espécie de gás existente. Até tir desse mesmo fato, que um metal aquecido incor­
1756, quando Joseph Black demonstrou que o ar fixo pora alguns ingredientes da atmosfera. Mas para mui­
(C02 ) podia ser distinguido com precisão do ar nor­ tos outros cientistas da época essa conclusão pareceu
mal, pensava-se que duas amostras de gás eram dife­ desnecessária. Se as reações químicas podiam alterar
rentes apenas no tocante a suas impurezas.7 o volume, a cor e a textura dos ingredientes, por que
Após os trabalhos de Black, a investigação sobre não poderiam alterar o peso? O peso nem sempre foi
os gases prosseguiu de forma rápida, especialmente considerado como a medida da quantidade de matéria.
através de Cavendish, Priestley e Scheele, que juntos Além disso, o aumento de peso, obtido mediante o
desenvolveram diversas novas técnicas capazes de dis­ aquecimento, continuou sendo um fenômeno isolado.
tinguir diferentes amostras de gases. Todos eles, de A maior parte dos corpos naturais (por exemplo, a
Black a Scheele, acreditavam na teoria flogística e madeira) perdem peso ao serem aquecidos, tal como
empregavam-na muitas vezes no planejamento e na haveria de predizer mais tarde a teoria do flogisto.
interpretação de suas experiências. Scheele na verda­ Durante o século XVIII, porém, tais respostas,
que inicialment e pareciam adequadas ao problema do
de produziu o oxigênio, pela primeira vez, através de aumento de peso, tornaram-se cada vez mais difíceis
uma cadeia complexa de experiências destinadas a des­ de serem sustentadas. Os químicos descobriram um
flogistizar o calor. Contudo, o resultado de suas expe­ número sempre maior de casos nos quais o aumento
riências foi uma variedade de amostras e propriedades de peso acompanhava o aquecimento. Isso deveu-se
de gases tão complexas que a teoria do flogisto reve­ em parte ao emprego cada vez maior da balança como
lou-se cada vez menos capaz de ser utilizada em expe­ instrumento-padrão da Química e em parte ao desen­
riências de laboratório. Embora nenhum desses quí­ volvimento da Química Pneumática, que tornou pos­
micos tenha sugerido que a teoria devia ser substituí­ sível e desejável a retenção dos produtos gasosos das
da, foram incapazes de aplicá-la de maneira coerente. reações. Ao mesmo tempo, a assimilação gradual da
Quando, a partir de 1770, Lavoisier iniciou suas expe­ teoria gravitacional de Newton levou os químicos a
nencias com o ar, havia tantas versões da teoria do insistirem em que o aumento de peso deveria signifi­
flogisto como químicos pneumáticos. 8 -�ssa prolifera- car um aumento na quantidade de matéria. Essas con­
clusões não conduziram à rejeição da teoria flogística,
7. PARTINOTON, J. R. A Short History of Chemistry. (2. ed. Londres,
que podia ser ajustada de muitas maneiras. Talvez o
1951), pp. 48-51, 73-85 e 90-120. flogisto tivess e peso negativo, ou talvez partículas de
8. Embora seu interesse principal se volte para um período um pouco
posterior, existe muito material relevante disperso na obra de J. R. PAR­ fogo ou de alguma outra coisa entrassem no corpo
TINGTON e Douaus McKrn, Historical Studies on the Phlogiston Theory, aquecido ao mesmo tempo em que o flogisto o aban­
Annals of Science, II (193 7), pp. 361-404; III (1938), pp. 1-58, 337-371;
e IV (1939), pp. 337-71. donava. Havia ainda outras explicações. Mas se o pro-

98 99
blema do aumento de peso não conduziu à re1e1çao ticaram as provas apresentadas por Aristóteles no to­
da teoria do flogisto, estimulou um número cada vez cant� à estabilidade da Terra, não sonhavam que a
maior de estudos especiais nos quais esse problema ti­ transição para um sistema relativista pudesse ter conse­
nha grande importância. Um deles, "Sobre o Flogisto qüências do ponto de vista da observação. Em nenhum
considerado como uma Substância Pesada e ( analisa­ momento relacionaram suas concepções com os pro­
da) em termos das Mudanças de Peso que provoca blemas que se apresentavam quando da aplicação da
nos Corpos aos quais se une", foi lido na Academia teoria d: Newton à natureza. Conseqüentemente, suas
Francesa no início de 1772. No fim daquele ano, La­ concepçocs desapareceram com eles, durante as pri­
voisier entregou a sua famosa nota selada ao secretá­ meiras décadas do século XVIII, ressuscitando somen­
rio da Academia. Antes de a nota ter sido escrita, um te no final do século XIX já então dispondo de uma
problema, que por muitos anos estivera no limiar da relação muito diversa com a prática da Física.
consciência dos químicos, convertera-se num quebra­ Os problemas técnicos com os quais uma teoria
-cabeça extraordinário e sem solução.9 Muitas versões relativista do espaço teria de haver-se começaram a
diferentes da teoria flogística foram elaboradas para aparecer na ciência normal com a aceitação da teoria
responder ao problema. Tal como os problemas da ondulatória por volta de 1815, embora não tenham
Química Pneumática, os relativos ao aumento de peso produzido nenhuma crise antes da última década do
dificultaram ainda mais a compreensão do que seria século. Se a luz é um movimento ondulatório que se
a teoria flogística. Embora ainda fosse considerado e propaga num éter mecânico governado pelas leis de
aceito como um instrumento de trabalho útil, o pa­ Newton, então tanto a observação celeste como as
radigma da Química do século XVIII está perdendo experiências terrestres tornam-se potencialmente capa­
gradualmente seu status ímpar. Cada vez mais as inves­ zes de detectar o deslocamento através do éter. Den­
tigações por ele orientadas assemelhavam-se às levadas a tre as observações celestes, apenas as aberrantes pro­
cabo sob a direção de escolas competidoras do perío­ metiam apresentar suficiente exatidão, de molde a pro­
do pré-paradigmático - outro efeito típico da crise. porcionar informações relevantes. Devido a isso, a de­
Examinemos agora um terceiro e último exemplo tecção de deslocamentos no éter através da medição
- a crise na Física do fim do século XIX - que abriu das aberrações foi reconhecida como problema para
caminho para a emergência da teoria da relatividade. a pesquisa normal. Muito equipamento especial foi
Uma das raízes dessa crise data do fim do século XVIII, construído para resolvê-lo. Contudo, tal equipamento
quando diversos estudiosos da Filosofia da Natureza t não detectou nenhum deslocamento observável e em
e especialmente Leibniz, criticaram Newton por ter vista disso o problema foi transferido dos experimen­
mantido uma versão atualizada da concepção clássica tadores e observadores para os teóricos. Durante dé­
do espaço absoluto. 10 Esses filósofos, embora nunca cadas, no século XIX, Fresnel, Stokes e outros con­
tenham sido completamente bem sucedidos, quase con­ ceberam numerosas articulações da teoria do éter, des­
seguiram demonstrar que movimentos e posições abso­ tinadas a explicar o fracasso na observação do deslo­
lutos não tinham nenhuma função no sistema de New­ camento. Todas essas articulações pressupunham que
ton. Além disso, foram bem sucedidos ao sugerir o um corpo em movimento arrasta consigo algumas fra­
atrativo estético considerável que uma concepção ple­ ções de éter. Cada uma dessas articulações obteve su­
namente relativista de espaço ou movimento teria no cesso no esforço de explicar não só os resultados ne­
futuro. Tal como os primeiros copernicanos que cri- gativos da observação celeste, mas também os das
experiências terrestres, incluindo-se aí a famosa expe­
9. H. GUERLAC, Lavoisier - the Crucial Year (lthaca, N. Y., 1961). riência de Michelson e Morley. 11 Ainda não havia con-
O livro todo documenta a evolução e o primeiro reconhecimento de uma
crise. Para uma apresentação clara da situação com relação a Lavoisier,
ver p. 35. 11. LARMOR, Joseph. Aether and Matter ... Jncluding a Discussion
to. JAMMER, Max. Concepts o/ Space: The History o/ the Theories o/ the Influence oi the Earth's Motion on Optical Phenomena. (Cam•
bridge, 1900), pp. 6-20 e 320-322.
o/ Space in Physics. · (Cambridge, 1954), pp. 114-124.

101
100
flito exceto entre as vanas articulações. Na ausência zir este último na teoria de Maxwell. Em geral, as pri­
de técnicas experimentais relevantes, esse conflito nun­ meiras tentativas foram mal sucedidas, embora alguns
ca chegou a aprofundar-se. analistas considerassem seus resultados equívocos. Os
A situação modificou-se somente com a aceitação esforços teóricos produziram uma série de pontos de
gradual da teoria eletromagnética de Maxwell, nas partida promissores, sobretudo os de Lorentz e Fitz­
duas últimas décadas do século XIX. O próprio Max­ gerald, mas também estes trouxeram à tona novos que-
well era um newtoniano que acreditava que a luz e o bra-cabeças. O resultado final foi precisamente aquela
eletromagnetismo em geral eram devidos a desloca­ proliferação de teorias que mostramos se
mentos variáveis das partículas de um éter mecânico. _ � �oncomitan-
te com as crises.14 Foi neste contexto h1stonco que, em /
Suas primeiras versões de uma teoria da eletricida�e 1905, emergiu a teoria especial da relatividade de
e do magnetismo utilizaram expressamente as_ propne­ Einstein.
dades hipotéticas que ele .atribuía a esse meio. Essas Esses três exemplos são (quase) inteiramente tí­
propriedades foram retiradas da versão final, mas picos. Em cada um desses casos uma n�>Va teoria su_ �­
Maxwell continuou acreditando que sua teoria eletro­ giu somente após um fracasso caractenzado _na a�1v1-
magnética era compatível com alguma articulação da
concepção mecânica de Newton.12 Des�nvolver uma dade normal de resolução de problemas. Alem disso,
articulação adequada tornou-se um desafio para Max­ com exceção de Copérnico, em cujo caso fatores alheios
à ciência desempenharam papel particularmente impor­
well e seus sucessores. Contudo, na prática, como acon­ tante o fracasso e a proliferação de teorias que os tor­
tecera muitas vezes no curso do desenvolvimento cien­ nam 'manifestos ocorreram uma ou duas décadas antes
tífico, a articulação necessária revelou-se imensamente
difícil de ser produzida. Do mesmo modo que a pro­ do enunciado da nova teoria. Esta última parece ser
posta astronômica de Copérnico (apesar do otimismo uma resposta direta à crise. Note-se também que,
de seu autor) gerou uma crise cada vez maior nas teo­ embora isso possa não ser igualmente típico, os pro­
rias existentes sobre o movimento, a teoria de Maxwell, blemas com os quais está relacionado o fracasso eram
apesar de sua origem newtoniana, aca?ou pr°<!uzin�o todos de um�ipo há muito identificado. A prática ante­
uma crise no paradigma do qual emergira. 13 Alem dis­ rior da ciência normal proporcionara toda sorte de ra­
so, a crise tornou-se mais aguda no tocante aos proble­ zões para considerá-los resolvidos ou quase resolvidos,
mas que acabamos de considerar, isto é, aqueles rela­ 0 que ajuda a explicar por que o sentido de fracasso,
tivos ao movimento no éter. quando aparece, pode ser tão intenso. q fracass? com
A discussão de Maxwell relacionada com o com­ um novo tipo de problema é muitas vezes decepcionan­
portamento eletromagnético dos corpos em movimen­ te, mas nunca surpreendente. Em geral, nem _ ?s pro­
to não fez referência à resistência do éter e tornou blemas, nem os quebra-cabeças cede1!1 ao pnmeiro ata- .
muito difícil a introdução de tal noção na sua teoria. que. Finalmente esses exempl�s part�ha� outra carac­
Como resultado toda uma série de observações ante­ terística que pode reforçar a 1mportancia . do pa�l da
riores destinada� a detectar o deslocamento através do crise: a solução para cada um deles foi antecipada,
éter tornaram-se anômalas. Em conseqüência, os anos pelo menos parcialmente, em um perío?o no . qual a
post�riores a 1890 testemunharam uma longa série de ciência correspondente não estava em cnse. T�1s ante­
tentativas, tanto experimentais como teó�icas, ]?ara de­ cipações
. foram ignoradas, precisamente por nao haver
cnse. ,.,,,,
tectar o movimento relacionado com o eter e mtrodu-
A única antecipação completa é igualmente a mais
12. R. T. GLAZEBROOK, James Clerk Maxwell and Modern Physics famosa: a de Copérnico por Aristarco, no século III
(Londres, 1896), Cap, IX. Para a posição final de_ MAWXELL, ver seu
próprio livro, A Treatise on Electricity and Magnet1sm (3. ed. Oxford,
,, a.C. Afirma-se freqüentemente que se a ciência grega
1892), p. 470.
13. A respeito do papel da Astronomia no desenvolvimento da 14. WHITIAKEII. Op. cit. J, pp. 386--410 e II (Londres, 1953), pp.
Mecânica, ver KuUN, op. cit., Cap. VII. 27-40.

102 103
tivesse sido menos dedutiva e menos dominada por ca pode ser aplicada a um conjunto de dados deter­
dogmas, a astronomia heliocêntrica poderia ter inicia­ minado, qualquer que seja o caso considerado . A His­
do seu desenvolvimento dezoito séculos antes. 15 Mas tór�a da Ciência indi�a que, sobretudo nos primeiros
1 isso equivale a ignorar todo o contexto histórico. e�tag.�os de_ de��nvo
. lv1mento
_ �e um novo paradigma,
Quando a sugestão de Aristarco foi feita, o sistema nao e muito d1f1cll mventar tais alternativas. Mas essa
\ geocêntrico, que era muito mais razoável do que o he­ invenção de alternativas é precisamente o que os cien­
, liocêntrico, não apresentava qualquer problema que tistas raro empreendem, exceto durante o período pré­
LJ>Udesse ser solucionado por este último. Todo o de- ·paradigmático do desenvolvimento de sua ciência e ett
senvolvimento da astronomia ptolomaica, tanto seus ocasiões muito especiais de sua evolução subseqüente.
triunfos, como seus fracassos, ocorrem nos séculos pos­ Enquanto os instrumentos proporcionados por um pa­
teriores à proposta de Aristarco. Além disso, não ha­ radigma continuam capazes de resolver os problemas
via razões óbvias para levar as propostas de Aristar­ que este define, a ciência move-se com maior rapide2
co a sério. Mesmo a versão mais elaborada de Copér­ e aprofunda-se ainda mais através da utilização con­
nico não era nem mais simples nem mais acurada do fiante desses instrumentos. A razão é clara. Na manu­
que o sistema de Ptolomeu. As observações disponí­ fatura, como na ciência - a produção de novos instru­
veis, que serviam de testes, não forneciam, como vere­ mentos é uma extravagância reservada para as ocasiões
mos adiante, base suficiente para uma escolha entre que o exigem. O significado das crises consiste exata:
essas teorias. Em tais circunstâncias, um dos fatores mente no fato de que indicam que é chegada a oca­
que levou os astrônomos a Copérnico (e que não po­ sião para renovar os instrumentos.
deria tê-los conduzido a Aristarco) foi a crise carac­
terizada que fora responsável pela inovação. A astro­
nomia ptolomaica fracassara na resolução de seus pro­
blemas; chegara o momento de dar uma oportunidade
a um competidor. Nossos outros dois exemplos não
proporcionam antecipações tão completas. Entretanto,
seguramente uma das razões pelas quais as teorias da
combustão por absorção da atmosfera - desenvolvi­
das no século XVII por Rey, Hooke e Mayow - não
conseguiram uma audiência satisfatória, foi por não
disporem de contato com qualquer problema reconhe­
cido pela prática científica normal. 16 O prolongado de­
sinteresse demonstrado pelos cientistas dos séculos
XVIII e XIX para com os críticos relativistas de New­
ton tem sido, em grande parte, devido a um fracasso
semelhante na confrontação com a prática da ciência
normal.
Os estudiosos da Filosofia da Ciência demonstra­
ram repetidamente que mais de uma construção teóri-
15. Quanto à obra de Aristarco, ver T. L. HER1H, Aristarchus oi
Samos: The Ancient Copemicus (Oxford, 1913), Parte II. Para uma
apresentação extremada da atitude tradicional com respeito ao desdém
pela realização de Aristarco, ver ARTHUR K0ESTLER, The S/eepwa/kers:
A Hi5tory of Man's Changing Vision o/ lhe Unlverse (Londres, 1959),
p. 50.
16. PARTINGTON. Op. cit. pp. 78-85.

104 105
7. A RESPOSTA A CRISE

�!}ponhamos que as crises são uma pré-condição


.necessária para a emergência de novas teorias e per­
guntemos então como os cientistas respondem à sua
existência. Parte da resposta, tão óbvio como impor­
tante, pode ser descoberta observando-se primeiramen­
te o que os cientistas jamais fazem, mesmo quando se
defrontam com anomalias prolongadas e graves. Embo-'
ra possam começar a . perder sua fé e a considerar
outras alternativas, não renunciam ao paradigma que
os conduziu à crise. Por outra·: não tratam as anoma- ·
lias comº çonti;a-.exemplos do pàradigma, embora, se:­
gundo · o vocabulário da Filosofia da Ciência, estas se­
jam precisamente isso. Em parte, essa nossa genera-

107
Iização é um fato históric�, baseada em exemplo� co­ interior da qual já não são uma fonte de problemas.
mo os mencionados antenormente e os que md1care- Além disso, se é püSsível aplicar aqui um padrão típi­
- mos mais adiante. Isso já sugere o que o nosso exame co ( que será observado mais adiante nas revoluções
da rejeição de um para1igma rev�lar� de, 1;1ma m�neira científicas), tais anomalias não mais parecerão ser
mais clara e completa:; uma teona cientifica, ap<>s ter simples fatos. Ao invés disso, no interior de uma nova
atingido o status de paradigma, so�ente _é considerada teoria do conhecimento científico, poderão assemelhar­
inválida quando existe uma alternativa disponível para se a tautologias, enunciados de situações que de outro
substituí-la. Nenhum processo descoberto até agora modo não seriam concebíveis.
� pelo estudo histórico do desenvol�i�ento cien!í�co Por exemplo, tem-se observado com freqüência
assemelha-se ao�tereótipo metodologico da fals1f1ca­ que a Segunda Lei do Movimento de Newton, embo­
ção por meio da comparação direta com a natureza. ' ra tenha consumido séculos de difíceis pesquisas teó­
Essa observação não significa que os cientistas não re­ . ricas e fatuais até ser alcançada, desempenha para os
jeitem teorias científicas ou qu� � experiência e a expe­ , l partidários da teoria newtoniana um papel muito se-
rimentação não sejam essenciais ao processo de re­
jeição, mas que - e es�e será u�. ponto central - .º \ melhante a um enunciado puramente lógico, que não
pode ser refutado por observações, por amplas que
juízo que leva os cientistas a re1e1tarem uma t�ona estas sejam.1 N o Cap. 9 veremos que a lei química
previamente aceita, baseia-se sempre em algo mais . d_o relativa às proporções constantes, que antes de Dalton
que essa comparação da teoria com o mundo. Decidir era uma descoberta experimental ocasional, dotada de
rejeitar um paradigma é sempre decidir simultanea0;1e,?­ uma generalidade muito duvidosa, tornou-se após seus
te aceitar outro e o juízo que conduz a essa dec1sao trabalhos num ingrediente de uma definição de com­
envolve a comparação de ambos os paradigmas com posto químico que nenhuma investigação experimental
a natureza, bem como sua comparação mútul!.J, - poderia, por si só, abalar. Algo muito semelhante acon­
A par disso, existe uma segunda razão para du­ tecerá com a generalização segundo a qual os cientis­
vidar de que os cientistas rejeitem paradigmas simples­ tas não rejeitam paradigmas quando confrontados com
mente porque se defrontam com anomalias ou contra­ anomalias ou contra-exemplos. Não poderiam fazer
-exemplos. Ao apresentar essa segunda r�zão, delin:a­ isso e ainda assim permanecerem cientistas.
rei outra das principais teses deste ensaio. As razoes
para a dúvida esboçadas acima eram puramente fa­ Embora seja improvável que a história registre
tuais · isto é eram, elas mesmas, contra-exemplos de seus nomes, indubitavelmente alguns homens foram le­
uma 'teoria �pistemológica atualmente admitida. Como vados a abandonar a ciência devido a sua inabilidade
tal, se meu argumento é correto, tais razões pooem, para tolerar crises. Tal como os artistas, os cientistas
quando muito, ajudar a formação. ,de 1;1ma cnse ou: criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser ca­
mais exatamente, reforçar alguma Jª existente. Por s1 pazes de viver em um mundo desordenado - descrevi
mesmas não podem e não irão falsificar essa teoria fi­ em outro trabalho essa necessidade como "a tensão
losófica, pois os defensores desta farão o mesmo que essencial" implícita na pesquisa científica.2 Mas creio
os cientistas fazem quando confrontados com anoma­ que essa rejeição da ciência em favor de outra ocupa­
lias: conceberão numerosas articulações e modifica­ ção é a única espécie de rejeição de paradigma a que,
ções ad hoc de sua t�oria, a fim d�. elh�inar qualq1;1�r por si mesmos, podem conduzir os contra-exemplos.
__conflito aparente. Muitas das mod1flcaç�es e especÜI­
c:ações relevantes já estão presentes na hteratura. Por­ 1. Ver especialmente a discussão contida em N. R. HANSON, Pat-
terns oi Discovery (Cambridge, 1958), pp. 99-105.
tanto se esses contra-exemplos epistemológicos cons­ 2. T. S. KUHN, "The Essential Tension: Tradition and Innovation
titue� algo mais do que uma fonte de irrita9�0 de me­ ln Scientific Research", em The Third (1959) University o/ Utah Researc_h
Conference on the Identi/ication of Creative Scientific Talent, ed. Çalvm
nor importância, será porque ajuda� � admiti_r a �mer­ W. Taylor (Salt Lake City, 1959), pp. 162-177. Para um fenomen�
gência de uma nova e diferente analise da c1ênc1a, no comparável entre artistas, ver FRANK BARRON, The Psychology of Imag1-
nation, Sclenti/ic Americon, CXCIX, pp. 151-166, esp. p. 160 (set. 1958).

108 109
Uma vez encontrado um primeiro paradigma com o defrontam com um contra-exemplo, ou bem essas teo­
qual conceber a natureza, já não se pode mais falar rias se defrontam co�stante�ente com contra-exemplos.
em pesquisa sem qualquer paradigma. Rejeitar um pa­ Como se podena considerar essa situação diferen­
radigma sem simultaneamente substituí-lo por outro- é temente? Essa questão leva necessariamente à elucida­
rejeitar a própria ciência. Esse ato se reflete, não no ção crítica e histórica da Filosofia e tais tópicos não
paradigma, mas no homem. Inevitavelmente ele será têm lugar neste ensaio. Mas podemos, ao menos indi­
visto por seus colegas como o "carpinteiro que culpa car duas razões pelas quais a ciência parece ter 'forne­
suas ferramentas pelo seu fracasso". cido um exemplo tão adequado da generalização segun­
Pode-se, de maneira pelo menos igualmente efi­ do a qual a verdade e a falsidade são determinadas de
caz, demonstrar o mesmo ponto de vista ao contrá­ modo inequívoco pela confrontação do enunciado com
rio: não existe algo como a pesquisa sem contra-exem­ os fatos. A ciência normal esforça-se (e deve fazê-Iíf\
plos. O que diferencia a ciência normal da ciência em constantemente) para aproximar sempre mais a teoria
estado de crise? Certamente não o fato de que a pri­ e os fatos. Essa atividade pode ser vista como um teste
meira não se defronta com contra-exemplos. Ao invés ou uma busca de confirmação ou falsificação. Em lu­
disso, o que chamamos acima de quebra-cabeças da gar disso, �eu ?bjeto co�si�te em resolver um quebra.:.
ciência normal, existe somente porque nenhum para­ cabeç�, cuJa simples ex1stencia supõe a validade do
digma aceito como base para a pesquisa científica re­ paradigma. O fracasso em alcançar uma solução de­
solve todos os seus problemas. Os raros paradigmas sacredita somente o cientista e não a teoria. A este -
que pareciam capazes disso (por exemplo, a óptica c�so: ai��a mais do que ao anterior, aplica-se o pro­
Geométrica), em pouco tempo deixaram de produzir v�rb�?: 9uem_ culpa suas �erramentas é mau carpin­
quaisquer problemas relevantes para a pesquisa. Em teiro .: �em d1ss?, a m�ne1ra _ pela qual a pedagogia
vez disso, tornaram-se instrumentos para tarefas téc­ da c1encia complica a d1scussao de uma teoria com
nicas. Excetuando-se os que são exclusivamente instru­ 01?se�vações sobre suas aplicações exemplares tem con­
mentais, cada problema que a ciência normal conside­ tnbmdo para reforçar uma teoria da confirmação
ra um quebra-cabeça pode ser visto de outro ângulo: extraída predominantemente de outI1as fontes. Dada
como contra-exemplos e portanto como uma fonte de uma razão para fazê-lo, por superficial que seja, aque­
crise. Copérnico considerou contra-exemplos o que a le que lê um texto científico facilmente poderá consi­
maioria dos demais seguidores de Ptolomeu vira como derar as aplicações como provas em favor da teoria
quebra-cabeças relativos à adequação entre a obser­ razões pelas quais devemos acreditar nela. Mas o�
vação e a teoria. Lavoisier considerou contra-exemplo estud�ntes de ciência aceitam as teorias por causa da
'o que Priestley vira como um quebra-cabeça resolvido autondade do professor e dos textos e não devido às
com êxito na articulação da teoria flogística. Einstein provas. Que alternativas, que competência possuem
viu como contra-exemplos o que Lorentz, Fitzgerald eles? As aplicações mencionadas nos textos não são
e outros haviam considerado como quebra-cabeças re­ apresentadas como provas, mas porque aprendê-las é
lativos à articulação das teorias de Newton e Maxwell. parte do aprendizado do paradigma que serve de base
Além disso, nem mesmo a existência de uma crise para a prática científica em vigor. Se as aplicações fos­
transforma por si mesma um quebra-cabeça em um sem apresentadas como provas, o próprio fracasso dos
contra-exemplo. Não existe uma linha divisória pre­ textos em sugerir interpretações alternativas ou discutir
cisa. Em vez disso, a crise, ao provocar uma prolife­ problemas para os quais os cientistas não conseguiram
ração de versões do paradigma, enfraquece as regras produzir soluções paradigmáticas, condenariam seus
de resolução dos quebra-cabeças da ciência normal, autores como sendo extremamente parciais. Não existe
de tal modo que acaba permitindo a emergência de a menor razão para semelhante acusação.
,um novo paradigma. Creio que existem apenas duas Como, então, - retornando à questão inicial -
alternativas: ou bem as teorias científicas jamais se os cientistas respondem à consciência da existência de
111
JJO
/uma anomalia na adequação entre a teoria e a natu­
reza? O que acaba de ser dito indica que mesmo uma_ te nenhuma das discrepâncias pareceu suficientemente
discrepância inexplicavelmente maior 9ue _a expen­ fundamental para evocar o mal-estar que acompanha
_ uma crise. Puderam ser consideradas como contra­
mentada em outras aplicações da teona nao precisa
provocar nenhuma resposta muito profunda.. Sempr� -exemplos e mesmo assim serem deixadas de lado para
existem algumas discrepâncias. Mesmo as mais obsti­ um exame posterior.j
nadas acabam cedendo aos esforços da prática normal. Segue-se daí que para uma anomalia originar uma
Muito freqüentemente, os cientist�s estão _ dispostos a crise, deve ser algo mais do que uma simples anoma­
esperar, especialmente quando existem muitos proble­ lia. Sempre existem dificuldades em qualquer parte da
mas disponíveis em outros setores do campo de estu­ adequação entre o paradigma e a natureza; a maioria,
dos. Por exemplo, já indicamo� que du�a?te. os sessen­ cedo ou tarde, acaba sendo resolvida, freqüentemente
ta anos que se seguira� aos calculos ?ngmais de New­ através de processos que não poderiam ter sido pre­
ton o movimento predito para o pengeu da Lua per­ vistos. O cientista que se detém para examinar cada ,.,
ma�eceu equivalente à met��e do movir_n�nto observa­ uma das anomalias que constata, raramente realizará
do. Enquanto os melhores fis1cos matemaucos da Eu�o­ algum trabalho importante. Devemos, portanto, pergun­
pa continuavam a lutar sem êxito com �ssa _co�ec1da tar o que é que torna uma anomalia digna de um escru­
discrepância, apareceram pr?postas o�as1ona�s visando tínio coordenado. Provavelmente não existe uma res­
à modificação da lei newtomana relativa ao mve_rso do posta verdadeiramente geral para essa pergunta. Os ca­
quadrado das distâncias. Mas ,n_inguém levo� ta_is pro­ sos que já examinamos são característicos, mas muito
postas muito a sério e ?ª pratica essa pac1�nc�� com pouco descritivos. Algumas vezes uma anomalia colo­
uma importante anomaha demonstrou ser 1ustif1cada. cará claramente em questão as generalizações explíci­
Em 1750, Clairaut conseguiu mostrar que somente a tas e fundamentais do paradigma - tal como o pro­
Matemática utilizada na aplicação estava errada e que blema da resistência do éter com relação aos que acei­
a teoria newtoniana poderia ser mantida inalterada.3 tavam a teoria de Maxwell. Ou, como no caso da re­
Mesmo nos casos em que nem mesmo erros simples volução copernicana, uma anomalia sem importância
parecem possíveis, ( talvez porque � Mate��tica envol­ fundamental aparente pode provocar uma crise, caso
vida seja mais simples ou de um tipo fam1har, empre­ as aplicações que ela inibe possuam uma importância
, prática especial - neste exemplo para a elaboração
gado com bons resultados em outras areas), uma ano­
malia reconhecida e persistente nem sempre leva a uma do calendário e para a Astrologia. Ou, como no caso
crise. · Ninguém questionou seriamente a teori� newto­ da Química do século XVIII, o desenvolvimento da
niana por causa das discrepâncias de h� mmto rec�­ ciência normal pode transformar em uma fonte de cri­
nhecidas entre as predições daquela teoria e as veloci­ se uma anomalia que anteriormente não passava de
dades do som e do movimento de Mercúrio. A primei­ um incômodo: o problema das relações de peso adqui­
riu um status muito diferente após a evolução das téc­
ra dessas discrepâncias acabou sendo resolvida de ma­ nicas químico-pneumáticas. :e de se presumir que ainda
neira inesperada pelas experiências sobre o calor, existam outras circunstâncias capazes de tornar uma
empreendidas com um objetivo bem diverso; ª. �egun­ anomalia algo particularmente premente. Em geral, di­
da desapareceu com a 1:eoria Ger�l da. Relatividade, versas dessas circunstâncias parecerão combinadas. Já
após uma crise que não aJudara a cnar .4 Aparentemen- indicamos, por exemplo, que uma das fontes da crise
com a qual se defrontou Copérnico foi simplesmente o
3. WHEWELL, W. History of the Jnductive Sciences. (ed. rev. Londres,
1847), II, pp. 220-221.
espaço de tempo durante o qual os astrônomos lutaram
4 No tocante à velocidade do som, ver T. S. KuHN, The Calonc sem sucesso para reduzir as discrepâncias residuais
Theory of Adiabatic Compression, lsis, XLIV, PP, 136-137 (1958). A
respeito da mudança secular no periélio de Mercúrio, _v�r E. T. WHIT•
existentes no sistema de Ptolomeu.
TAKER, A History of the Theories of Aether and Electrrc,ty, 11 (Londres, Quando, por essas razões ou outras similares, uma
1953), pp, 151, 179.
anomalia parece ser algo mais do que um novo que-
112
113
bra-cabeça da ciência normal, é sinal de que se iniciou re_sult �do �eria antes um monstro que um homem. "5
Emstem, _
hmitado pelo emprego corrente de uma lin­
a transição para a crise e para a ciência extraordiná­
ria. A própria anomalia passa a ser mais comumente guagem menos rebuscada, escreveu apenas que: "Foi
como se o solo debaixo _ de nossos pés tivesse sido re­
'l-econhecida como tal pelos cientistas. Um número ca­ _tirado, sem que nenhum fundamento firme sobre 0
da vez maior de cientistas eminentes do setor passa a
dedicar-lhe uma atenção sempre maior. Se a anomalia qual_ se pudesse construir, estivesse à vista".6 'Wolfgang
continua resistindo à análise (o que geralmente não Pauh, nos meses que precederam o artigo de Heisen­
acontéce), muitos cientistas podem passar a conside­ berg que indicaria o caminho para uma nova Teoria
rar sua resolução como o objeto de estudo específico dos Quanta, escreveu a um amigo: "No momento a
de sua disciplina. Para esses investigadores a discipli­ Física está mais uma vez em terrível confusão. De
na não parecerá mais a mesma de antes. Parte dessa qualquer modo, para mim é muito difícil. Gostaria de
Japarência resulta pura e simplesmente da nova pers­ t«:_r-me tornado um comediante de cinema ou algo do
genero e nunca ter ouvido _ falar de Física". Esse tes­
pectiva de enfoque adotada pelo escrutínio científico.
Uma fonte de mudanças ainda mais importante é a temunho é particularmente impressionante se contras­
natureza divergente das numerosas soluções parciais tado com as palavras que Pauli pronunciou cinco me­
que a atenção concentrada tornou disponível. Os pri­ ses depois: "O tipo de Mecânica proposta por Heisen­
meiros ataques contra o problema não-resolvido se­ b:r� devolveu-me a esperança e a alegria de viver. Sem
guem bem de perto as regras do paradigma, mas, com duvida alguma, ela não proporciona a solução para a
a contínua resistência, a solução, os ataques envolve­ charada, mas acredito que agora é possível avançar
rão mais e mais algumas articulações menores do pa­ novamente". 1
radigma (ou mesmo algumas não tão inexpressivas). Tais reconhecimentos explícitos de fracasso são
Nenhuma dessas articulações será igual; cada uma de­ extraordinariamente raros, mas · os efeitos da crise não
las será bem sucedida, mas nenhuma tão bem sucedi- dependem inteiramente de sua aceitação consciente.
.,,,da que possa ser aceita como paradigma pelo grupo. Quais . são �sses efeitos? Apenas dois deles parecem_
Através dessa proliferação de articulações divergentes s�r umversais. '.fodas as crises iniciam com o obscure­
(que serão cada vez mais freqüentemente descritas co­ Cimento de um paradigma e o conseqüente relaxamen­
mo adaptações ad hoc), as regras da ciência normal to das regras que orientam a pesquisa · normal. A esse
tornam-se sempre mais indistintas. A esta altura, embo­ respeito, a pesquisa dos períodos de crise assemelha-se -
ra ainda exista um paradigma, constata-se que poucos muito à pesquisa pré-paradigmática, com a diferença
de que no primeiro caso o ponto de divergência é me­
cientistas estarão de acordo sobre qual seja ele. Mes­
n�r e menos claram7nte definido. {As crises podem ter- ;
mo soluções-padrão de problemas que anteriormente mmar de tres . mane1ras. Algumas vezes a ciência nor- /
,�ram aceitas passam a ser questionadas:.__ mal acaba reve!ando-se capaz de tratar do problema i
Tal situação, quando aguda, é algumas vezes re­ que provoca cnse, apesar de_:, desespero daqueles que )
conhecida pelos cientistas envolvidos. Copérnico quei­ o viam_ _ do paradigma existente. Em outras /
como o fim
xou-se de que no seu tempo os astrônomos eram tão ocasiões o problema resiste até mesmo a novas abor­
"incoerentes nessas investigações (astronômicas) ... dagens aparentemente radicais. Nesse caso' os cientis- ,
que não conseguiam explicar nem mesmo a duração )
constante das estações do ano". "Com eles", conti­ 5. Citado em T. S. KUHN, fhe Copernican Revolution (Cambr;dge
Mass., 1957), p. 138.
nua, "é como se um artista reunisse as mãos, os pés, 0 ! Note". ln: Albert Einstein:
. 6. EINSTEIN, Albert, "Autobiographir (Evanston,
Ph1/osopher-Scientist, ed. P. A. Sch1 1
a cabeça e outros membros de imagens de diversos Ili., 1949), p. 45.
7, RALPH ICRONIG, "The Turning f'oint", em Theoretlca/ Physic:r in
modelos, cada parte muitíssimo bem desenhada, mas lhe Tweentleth Century: A Memorta/ Volume to Wolfang Pauli, ed. M.
sem relação com um mesmo corpo. Uma vez que elas F1erz e V. F: Weisskopf (Nova York, 1960), pp. 22, 25-26. Grande
parte desse arltgo descreve a crise que teve lugar na Mecânica Quântica
não se adaptam umas às outras de forma alguma, o nos anos anteriores a 1925.

115
114
tas podem concluir que nenhuma solução para o pro­ ce-versa.9 Tal paralelo pode ser enganoso. Os cientis­
blema poderá surgir no estado atual da área de estudo. tas não vêem uma coisa como se fosse outra diferen­
O problema recebe então um rótulo e é posto de lado te - eles simplesmente a vêem. Já examinamos alguns
para ser resolvido por uma futura geração que dispo­ dos problemas criados com a afirmação de que Pries­
nha de instrumentos mais elaborados. Ou, finalmente, tley via o oxigênio como ar desflogistizado. Além dis­
o caso que mais nos interessa: uma crise pode termi­ so, o cientista não retém, como o sujeito da Gestalt,
nar com a emergência de um novo candidato a para- a liberdade de passar repetidamente de uma maneira
. digma e com uma subseqüente batalha por sua aceita­ de ver a outra. Não obstante, a mudança de forma per­
çi&J Este último modo de resolução será extensamen- ceptiva (Gestalt), sobretudo por ser atualmente tão fa­
, te examinado nos últimos capítulos, mas antecipare­ miliar, é um protótipo elementar útil para o exame do
mos algo do que será dito, a fim de completar estas que ocorre durante uma mudança total de paradigma.
observações sobre a evolução e a anatomia do estado As antecipações feitas acima poderão auxiliar-nos_.
de crise. a reconhecer a crise como um prelúdio apropriado à
A transição de um paradigma em crise para um emergência de novas teorias, especialmente após ter­
novo, do qual pode surgir uma nova tradição de ciên­ mos examinado uma versão em pequena escala do mes­
cia normal, está longe de ser um processo cumulativo mo processo, ao discutirmos a emergência de desco-e•
obtido através de uma articulação do velho paradigma. bertas. É exatamente porque a emergência de uma no­
Ê antes uma reconstrução da área de estudos a partir va teoria rompe com uma tradição da prática cientí- '
de novos princípios, reconstrução que altera algumas fica e introduz uma nova dirigida por regras diferen­
das generalizações teóricas mais elementares do pa­ tes, situada no interior de um universo de discurso ,
radigma, bem como muitos de seus métodos e aplica­ também diferente, que tal emergência só tem probabi- 1

ções. Durante o período de transição haverá uma gran­ !idades de ocorrer quando se percebe que a tradição
de coincidência (embora nunca completa) entre os anterior equivocou-se gravemente. Contudo, essa obser­
problemas que podem ser resolvidos pelo antigo pa­ vação não é mais que um prelúdio à investigação do
radigma e os que podem ser resolvidos pelo novo. Ha­ estado de crise e, infelizmente, as perguntas às quais
verá igualmente uma diferença decisiva no tocante aos ela conduz requerem a competência do psicólogo, ainda
modos de solucionar os problemas. Completada a tran­ mais do que a do historiador. Como é a pesquisa
sição, os cientistas terão modificado a sua concepção extraordinária? Como fazemos para que uma anomalia
da área de estudos, de seus métodos e de seus objeti­ se ajuste à lei? Com o procedem os cientistas quando
vos. Um historiador perspicaz, observando um caso se conscientizam de que há algo fundamentalmente
clássico de reorientação da ciência por mudança de errado no paradigma, em um nível para o qual não
paradigma, descreveu-o recentemente como "tomar o estão capacitados a trabalhar, devido às limitações de
reverso da medalha", processo que envolve "manipu­ seu treinamento? Essas questões exigem investigações
lar o mesmo conjunto dt dados que anteriormente, bem mais amplas, não necessariamente históricas. O
mas estabelecendo entre eles um novo sistema de re­ que dizemos a seguir será necessariamente mais hipo­
lações, orgaaizado a partir de um quadro de referên­ tético e incompleto do que o afirmado anteriormente.
cià diferente". 8 Outros que atentaram para esse aspec­ !Freqüentemente, um novo paradigma emerge -
to do avanço científico enfatizaram sua semelhança ao menos embrionariamente - antes que uma crise
com uma mudança na forma (Gestalt) visual: as mar­ esteja bem desenvolvida ou tenha sido explicitamente
cas no papel, que primeiramente foram vistas como reconhecida.i (\trabalho de Lavoisier fornece um e�em­
um pássaro, são agora vistas como um antílope ou vi- plo característico. A sua nota lacrada foi depo�1tada
' na Academia Francesa menos de um ano depms do
8. BUTI'ERFIELD, Herbert. The Origins o/ Modern Science, 1300-18()().
(Londres, 1949), pp, 1-7. 9. ªANSON. Op. cit. Cap. l.

]16 ]17
primeiro estudo minucioso das relações de peso na teo­ natureza não pode imaginar com precisão. · Ao mesmo
ria flogística e antes das publicações de Priestley te­ tempo, dado que_ nenhuma experiência pode ser con­
rem revelado toda a extensão da crise existente na Quí­ cebida
. sem o. ap010 de ,alguma espécie de teoria' o cien-
mica Pneumática. Os primeiros informes de Thomas tista em. cnse tentara constant�mente gerar teorias
Young sobre a teoria ondulatória da luz apareceram especulativas que, se bem sucedidas, possam abrir 0
num estágio bem inicial de uma crise que se desenvol­ caminho para um nov o paradigma e, se mal sucedi­
v�a na óptica. Tal crise teria passado quase desperce­ das, possam ser abandonadas com relativa facilidade.\
bida se, na década que se seguiu aos primeiros traba­ O relatório de Kepler sobre sua luta prolongada
lhos de Young, não se tivesse transformado em um com o movimento de Marte e a descrição de Priestley
escândalo científico internacional, sem qualquer assis­ sobre sua resposta à proliferação de novos gases for­
tência d�quele autor. Em casos como esse, pode-se necem exemplos clássicos de um tipo de pesquisa mais
apenas dizer que um fracasso menor do paradigma e aleatório gerado pela consciência da anomalia. 10 Mas
º. primeiro obscurecimento de suas regras para a ciên­ provavelmente as melhores ilustrações encontram-se nas
cia normal foram suficientes para induzir em alguém pesquisas contemporâneas sobre a teoria de campo e so­
um novo modo de encarar seu campo de estudos. O bre as partículas fundamentais. Não fosse a crise que
que ocorreu entre a primeira percepção do problema tornou necessário determinar até onde poderiam ir as
e o reconhecimento de uma alternativa disponível de­ regras da ciência normal, teria parecido justificado o
ve ter sido em grande parte inconsciente. ,, esforço exigido para detectar o neutrino? Do mesmo
Contudo, em outros casos - como por exemplo modo, se as regras não tivessem falhado de maneira evi­
os de Copérnico, Einstein e da teoria nuclear contem­ dente em algum ponto não revelado, a hipótese radical
porânea - decorre um tempo considerável entre a de não-conservação da paridade teria sido sugerida ou
primeira consciência do fracasso do paradigma e a testada? Como tantas outras pesquisas físicas realizadas
emergência de um novo. Quando as coisas se proces­ na década passada, essas experiências foram, em parte,
sam dessa maneira, o historiador pode, pelo menos, tentativas de localizar e definir a origem de um conjunto
captar algumas pistas sobre o que é a ciência extraor­ ainda difuso de anomalias.
dinária. Confrontado com uma anomalia reconhecida­ Esse tipo de pesquisa extraordinária é, com fre­
mente fundamental, o primeiro esforço teórico do cien­ qüência ( embora de nenhum modo geralmente), acom­
tista será, com freqüência, isolá-la com maior preci­ panhado por outro. Creio que é 'Sobretudo nos períodos
são e dar-lhe uma estrutura. Embora consciente de que de crises reconhecidas que os cientistas se voltam para
as regras da ciência normal não podem estar total­ a análise filosófica como um meio para resolver as cha­
mente certas, procurará aplicá-las mais vigorosamente radas de sua área de estudos. Em geral os cientistas não
do que nunca, buscando descobrir precisamente onde precisaram ou mesmo desejaram ser filósofos. Na ver­
e até que ponto elas podem ser empregadas eficazmen- dade, a ciência normal usualmente mantém a filosofia
Je na área de dificuldades. Simultaneamente o cientis­ criadora ao alcance da mão e provavelmente faz isso
ta buscará modos de realçar a dificuldade, de torná-la por boas razões. Na medida em que o trabalho de pes­
mais nítida e talvez mais sugestiva do que era ao ser quisa normal pode ser conduzido utilizando-se do para­
apresentada em experiências cujo resultado pensava-se digma como modelo, as regras e pressupostos não pre­
conhecer de antemão. Nesse esforço, mais do que em cisam ser explicados. No Cap. 4, observamos que· o
qualquer outro momento do desenvolvimento pré-pa­ conjunto completo das regras, buscado pela análise filo-
radigmático da ciência, parecerá quase idêntico à nos­
10. Para um relato do trabalho de Kepler sobre Marte. ver J. L. E.
sa imagem corrente do cientista. Em primeiro lugar, DREYER, A Histo,r,,f Astronomy from Thales to Kepler (2. ed.; Nova
será freqüentemente visto como um homem que pro­ York, 1953), pp. 380-393. Inexatidões acidentais não impedem que a
apresentação de Dreyer nos forneça o material de que necessitamos.
cura ao acaso, realizando experiências simplesmente Quanto a Priestley, ver suas próprias obras, especialmente Experimen/3
and Observations on Dif/erent Kinds o/ Air (Londres, 1774-1775) .
para ver o que acontecerá, procurando um efeito cuja
]19
118
sófica, não precisa nem mesmo existir. Isso não quer Academia para trabalhos sobre esse tema. Sabia-se per­
dizer que a busca de pressupostos (mesmo os não-exis­ feitamente que essa questão apresentava um desenvol­
tentes) não possa eventualmente ser uma maneira eficaz vimento insatisfatório até aquele momento.) Outras des­
de enfraquecer o domínio de uma tradição sobre a men­ cobertas, como a do ponto luminoso no centro da som­
!e e sugerir as bases para uma nova. Não é por acaso bra de um disco circular, foram resultado de predições
que a emergência da física newtoniana no século XVII realizadas a partir de uma nova hipótese, cujo sucesso
e da Relatividade e da Mecânica Quântica no século XX ajudou a transformá-la em paradigma para os trabalhos
foram precedidas e acompanhadas por análises filosófi­ posteriores. Outras ainda, como as cores de ranhuras e
cas fundamentais da tradição de pesquisa contemporâ­ de placas grossas eram efeitos que já haviam sido cons­
nea.11 Nem é acidental o fato de em ambos os perícxlos tatados muitas vezes e ocasionalmente mencionados,
a chamada experiência de pensamento ter desempenha­ mas tal como o oxigênio de Priestley, haviam sido assi­
do um papel tão crítico no progresso da pesquisa. Como milados a efeitos bem conhecidos, de tal mcxlo que não
mostrei em outros lugares, a experiência de pensamento podiam ser vistos na sua natureza real. 13 Um relato si­
analítica que é tão importante nos escritos de Galileu, milar poderia ser feito sobre as múltiplas descobertas
Einstein, Bohr e outros é perfeitamente calculada para que, a partir de 1895, acompanharam a emergência da
expor o antigo paradigma ao conhecimento existente, Mecânica Quântica.
de tal forma que a raiz da crise seja isolada com uma A pesquisa extraordinária deve ainda possuir ou­
clareza impossível de obter-se no laboratório.12 tros efeitos e manifestações, mas nessa área mal come­
Com o desenvolvimento - isolado ou conjunto - çamos a descobrir as questões que precisam ser coloca­
das. A esta altura, isso talvez seja o suficiente. As ob- -
desses procedimentos extraordinários, uma outra coisa servações anteriores devem bastar como indicação da
pode ocorrer.(Ao concentrar a atenção científica sobre maneira pela qual as crises debilitam a rigidez dos este­
uma área problemática bem delimitada e ao preparar reótipos e ao mesmo tempo fornecem os dados adicio­
a mente científica para o reconhecimento das anomalias nais necessários para urna alteração fundamental de pa­
experimentais pelo que realmente são, as crises fazem radigma. Algumas vezes a forma do novo paradigma -
freqüentemente proliferar novas descoberta!.J Já indica­ prefigura-se na estrutura que a pesquisa extraordinária
mos como a consciência de crise distingue entre o traba­ deu à anomalia. Einstein escreveu que antes mesmo de -
lho de Lavoisier sobre o oxigênio e o de Priestley; e o dispor de qualquer substituto para a Mecânica Clássica,
oxigênio não foi o único gás que os químicos conscien­ podia perceber a inter-relação existente entre as conhe­
tes da anomalia descobriram nos trabalhos de Priestley. cidas anomalias da radiação de um corpo negro, do
As novas descobertas ópticas acumularam-se rapidamen­ efeito fotoelétrico e dos calores específicos.14 No entan­
te pouco antes e durante o surgimento da teoria ondu­ to, mais freqüentemente tal estrutura não é percebida
latória da luz. Algumas dessas descobertas, como a da conscientemente de antemão. Ao invés disso, o novo
polarização por reflexão, resultaram de acidentes que se paradigma, ou uma indicação suficiente para permitir
tornam prováveis quando existe um trabalho concen­ uma posterior articulação, emerge repentinamente, algu­
trado na áre a problemática. (Malus, autor da desco­ mas vezes no meio da noite, na mente de um homem
berta, estava apenas iniciando seu ensaio sobre a dupla profundamente imerso na crise. Qual seja a natureza
refração, com o qual pensava conquistar o prêmio da desse estágio final - como o indivíduo inventa (ou
descobre que inventou) uma nova maneira de ordenar
11. Para o contraponto filosófico que acompanhou a Mecânica do
século XVII, ver RENÉ OUGAS, La mécanique au XVII.• siecle (Neu­
châtel, 1954), especialmente Cap. XI. Com referência a um episódio 13. A respeito das novas descobertas ópticas em geral, ver V.
semelhante no século XIX, ver um livro anterior do mesmo autor, Histoire RoNcm, Histoire de la lumiere (Paris, 19S6), Cap. VII. Para uma ex­
de la mécanique (Neuchâtel, 1950), pp, 419-443. plicação anterior de um desses efeitos, ver J. PRIESTLEY, The Hlstory
\2. KuHN, T. S. "A Function for Thought Experiments". ln: Mé­ and Present State o/ Discoveries Relating to Vision, Llght and Colours
langes Alexandre Koyré, ed. R. Taton e I. B. Cohen, publicado por (Londres, 1772), pp. 498-S20.
Hermano, Paris. 14. EINSTEIN. Loc. c/1.

120 121
os dados, já agora coletados na sua totalidade - per­ existentes. Com isso, a natureza de suas pesquisas trans­
manecerá inescrutável aqui e é possível que assim seja for�a-se_ de forma correspondente. A proliferação de
permanentemente. Indiquemos apenas uma coisa a esse arttcula�oes concorre�tes, a disposição de tentar qual­
respeito. Quase sempre, os homens que fazem essas in­ quer c01sa, a expressao de descontentamento explícito
venções fundamentais são muito jovens ou estão há pou­ o recurso à Filosofia e ao debate sobre os fundamentos'
co tempo na área de estudos cujo paradigma modifi­ são sintomas de uma transição da pesquisa normal par�
cam.15 Talvez não fosse necessário fazer essa observa­ a �xtraordi�á�ia.. A noção de ciência normal depende
ção, visto que tais homens, sendo pouco comprometi­ mais da ex1stencia desses fatores do que da existência
dos com as regras tradicionais da ciência normal em de revoluçõe� ';
razão de sua limitada prática científica anterior, têm '•

grandes probabilidades de perceber que tais regras não


mais definem alternativas viáveis e de conceber um ou-
\.tro conjunto que possa substituí-las.
,· ..- _A t_ransição para um novo paradigma é uma revo-
lução científica, tema que estamos finalmente prepara­
dos para abordar diretamente. Observe-se, entretanto,
um aspecto final e aparentemente equívoco do caminho
aberto pelo material apresentado nos três últimos capí­
tulos. Até o Cap. 5, quando pela primeira vez introdu­
ziu-se o conceito de anomalia, os termos "revolução" e
"ciência extraordinária" podem ter parecido equivalen­
tes. Mais importante ainda, nenhum desses termos po­
deria ter significado outra coisa além de "ciência não­
-normal". Tal circularidade pode ter incomodado pelo
menos alguns leitores. Na prática, isso não precisava ter
ocorrido. Estamos a ponto de descobrir que uma circu­
laridade semelhante é característica das teorias cientí­
ficas. Contudo, incômoda ou não, essa circularidade já
- não está mais sem caracterização. Neste capítulo do en­
saio e nos dois precedentes, enunciamos numerosos cri­
térios relativos ao fracasso na atividade da ciência nor­
mal, critérios que não dependem de forma alguma do
fato de uma revolução seguir-se ou não a esse fracasso.
Thnfrontados com anomalias ou crises, os cientistas to-
1
mam uma atitude diferente com relação aos paradigmas

15. Essa generalização do papel da juventude nas pesquisas científicas


fundamentais é tão comum que chega a ser um clichê. Além disso, um
olhar rápido em quase todas as listas de contribuições fundamentais à
teoria científica proporcionarão uma confirmação impressionista. Não
obstante, a generalização está a requerer uma investigação sistemática.
Harvey C. Lehman (Age and A.chievement. [Princeton, 1953)) fornece
muitos dados úteis, mas seus estudos não procuram distinguir aquelas
contribuições que envolvem uma reconceptualização de natureza funda­
mental. Não se interrogam, igualmente, sobre as circustâncias especiais
- se existem - que podem acompanhar a produtividade relativamente
tardia na ciências.

122 123
8. A NATUREZA E A NECESSIDADE
DAS REVOLUÇÕES CIENTlFICAS

Essas observações permitem-nos finalmente exami­


nar os problemas que dão o nome a este ensaio. O que
são revoluções científicas e qual a sua função no desen­
volvimento científico? Grande parte da resposta a essas
questões foi antecipada nos capítulos anteriores. De
modo especial, a discussão precedente indicou que con­
sideramos _revoluções �i�n_tífic_as aqueles episódios de
desenvolvimento não-cumulativo, nos quais um paradig­
ma mais antigo é total ou parcialmente substituído por
um novo, incompatível com o anterior. Contudo, há
muito mais a ser dito e uma parte essencial pode ser
introduzida através de mais uma pergunta. _Kor_� cha-
J 25
mar de revolução uma mudança de paradigma? Face às maiores dúvidas. Contudo, o paralelo possui um segun­
grandes e essenciais diferenças que separam o desenvol­ do aspecto, mais profundo, do qual depende o signifi­
vimento político do científico, que paralelismo poderá cado do primeiro. As revoluções políticas visam realizar
justificar a metáfora que encontra revoluções em ambos? mudanças nas instituições políticas, mudanças essas proi­
A esta altura um dos aspectos do paralelismo já bidas por essas mesmas instituições que se quer mudar.
deve ser visível. fÃs revoluções políticas iniciam-se com Conseqüentemente, seu êxito requer o abandono parcial
um sentimento crescente, com freqüência restrito a um de um conjunto de instituições em favor de outro. E,
segmento da comunidade política, de que as instituições nesse ínterim, a sociedade não é integralmente gover­
existentes deixaram de responder adequadamente aos nada por nenhuma instituição. De início, é somente a
problemas postos por um meio que ajudaram em parte crise que atenua o papel das instituições políticas, do
a criar. De forma muito semelhante, as revoluções cien­ mesmo modo que atenua o papel dos paradigmas. Em
tíficas iniciam-se com um sentimento crescente, também números crescentes os indivíduos alheiam-se cada vez
seguidamente restrito a uma pequena subdivisão da co­ mais da vida política e comportam-se sempre mais ex­
munidade científica, de que o paradigma existente dei­ centricamente no interior dela. Então, na medida em
xou de funcionar adequadamente na exploração de um que a crise se aprofunda, muitos desses indivíduos com­
aspecto da natureza, cuja exploração fora anteriormente prometem-se com algum projeto concreto para a recons­
dirigida pelo paradigma. Tanto no desenvolvimento po­ trução da sociedade de acordo com uma nova estrutura
lítico como no científico, o sentimento de funcionamento institucional. A esta altura, a sociedade está dividida em
defeituoso, que P?de, leva� à crise, é um pré-req�isito campos ou partidos em competição, um deles procuran­
para a revoluçãg,J Alem disso, embora esse paralehsmo do defender a velha constelação institucional, o outro
evidentemente force a metáfora, é válido não apenas tentando estabelecer uma nova. Quando ocorre essa po­
para as mudanças importantes de paradigma, tais como larização, os recursos de natureza política fracassam.
as que podemos atribuir a Copérnico e Lavoisier, mas Por discordarem quanto à matriz institucional a partir
também para as bem menos importantes, associadas da qual a mudança política deverá ser atingida e ava­
com a assimilação de um novo tipo de fenômeno, como liada, por não reconhecerem nenhuma estrutura supra­
o oxigênio ou os raios X. Como indicamos no final do -institucional competente para julgar diferenças revolu�
Cap. 4, as revoluções científicas prectsam parecer re­ cionárias, os partidos envolvidos em um conflito revolu­
volucionárias somente para aqueles cujos paradigmas cionário devem recorrer finalmente às técnicas de per­
sejam afetados por elas. Para observadores externos, suasão de massa, que seguidamente incluem a força.
podem parecer etapas normais de um processo de desen­ Embora as revoluções tenham tido um papel vital na
volvimento, tal como as revoluções balcânicas no co­ evolução das instituições políticas, esse papel depende
meço do século XX. Os astrônomos, por exemplo, po­ do fato de aquelas serem parcialmente eventos extra­
diam aceitar os raios X como uma simples adição ao políticos e extra-institucionais.
conhecimento, pois seus paradigmas não foram afeta­ O restante deste ensaio visa demonstrar que o estudo
dos pela existência de uma nova radiação. Mas para ho­ histórico da mudança de paradigmas revela característi­
mens como Kelvin, Crookes e Roentgen, cujas pesquisas cas muito semelhantes a essas, ao longo da evolução da
tratavam da teoria da radiação ou dos tubos de raios ciência. Tal como a escolha entre duas instituições polí­
catódicos, o surgimento dos raios X violou inevitavel­ ticas em competição, a escolha entre paradigmas em
mente um paradigma ao criar outro. :e por isso que tais competição demonstra ser uma escolha entre modos in­
raios somente poderiam ter sido descobertos através da compatíveis de vida comunitária. Por ter esse caráter,
percepção de que algo não andava bem na pesquisa ela não é e não pode ser determinada simplesmente pelos
normal. procedimentos de avaliação característicos da ciência
Esse aspecto genético do paralelo entre o desen­ normal, pois esses dependem parcialmente de um para:
volvimento científico e o político não deveria deixar digma determinado e esse paradigma, por sua vez, esta

126 127
em questão. Quando os paradigmas participam - e ª.
q�e cr�ulidade e a confusão humanas? Existem ra­
devem fazê-lo - de um debate sobre a escolha de um zoes 1�tnnsecas �elas quai� a assimilação, seja de um
paradigma, seu papel é necessariamente circular. Cada n�vo bPo de fenomeno, S()Ja de uma nova teoria cien­
grupo utiliza seu próprio paradigma para argumentar tífi�a, devam exigir a rejeição de um paradigmil mais
em favor desse mesmo paradigma. antigo?
Naturalmente a circularidade resultante não torna Observe-se primeiramente que, se existem tais ra­
esses argumentos errados ou mesmo ineficazes. Colocar zões, elas não derivam da estrutura lógica do conheci­
um paradigma como premissa numa discussão destinada me�to científico. Em princípio, um novo fenômeno po­
a defendê-lo pode, não obstante, fornecer uma mostra deria emergir sem refletir-se destrutivamente sobre algum
de como será a prática científica para todos aqueles que aspecto da prática científica passada. Embora a desco­
adotarem a nova concepção da natureza. Essa mostra berta de vida na Lua possa ter atualmente um efeito
pode ser imensamente persuasiva, chegando muitas ve­ destrutiv? sob:e os paradigmas existentes ( aqueles que
zes a compelir à sua aceitação. Contudo, seja qual for fa�em afirma�o<:_s s�bre a. Lua que parecem incompatí­
a sua força, o status, do argumento circular equivale tão­ veis com � existencia de vida naquele satélite), a desco­
-somente ao da persuasão. Para os que recusam entrar b�rta �e vid� em alguma parte menos conhecida da galá­
no círculo, esse argumento não pode tornar-se imposi­ xia nao tena esse efeito. Do mesmo modo uma nova
tivo, seja lógica, seja probabilisticamente. As premissas teoria não precisa entrar necessariamente �m conflito
e os valores partilhados pelas duas partes envolvidas em com qualquer de suas predecessoras. Pode tratar exclu­
um debate sobre paradigmas não são suficientemente sivamente de fenômenos antes desconhecidos como a
teona quantica, que examina fenômenos subatómicos
'
• A •

amplos para permitir isso. Na escolha de um paradigma,


- como nas revoluções políticas - não existe critério des�onhe�idos até_ o século XX - mas, e isso é signifi­
superior ao consentimento da comunidade relevante. cativo, nao examma apenas esses fenômenos. Ainda a
Par� descobrir como as revoluções científicas são pro­ nova teoria poderia ser simplesmente de um nível m'ais
�uzidas, teremos, portanto, que examinar não apenas o �levado do que as anteriormente conhecidas, capaz de
i�p�cto da natureza e da Lógica, mas igualmente as mtegrar todo um grupo de teorias de nível inferior sem
modifi_car substancialmente nenhuma delas. Atual�ente,
!ecm�as de argumentação persuasiva que são eficazes no a teona da conservação da energia proporciona exata­
mtenor dos grupos muito especiais que constituem a
mente esse tipo de vínculo entre a Dinâmica a Química
éomunidade dos cientistas.
Para descobrinnos-por que esse problema de esco­ a. Eletricidade, a �ptica, a teoria térmica � assim po;
lha de paradigma não pode jamais ser resolvido de forma �ia�te. Podemos_ amda conceber outras relações compa­
inequ!voca empreg_ando-se tão-somente a Lógica e os uveis entre teorias velhas e novas e cada uma dessas
experunentos, precisaremos examinar brevemente a na­ pode ser exemplificada pelo processo histórico através
turez� das difei:e�ças que separam os proponentes de um do qual a ciência desenvolveu-se. Se fosse assim o de­
paradigma tradicional de seus sucessores revolucionários. senvolvimento científico seria genuinamente cum�lativo.
Novos tipos de fenômenos simplesmente revelariam a
Tal exame é o objeto principal deste capítulo e do se­ ordem existente em algum aspecto da natureza onde
guinte. Já indicamos, contudo, numerosos exemplos de esta ainda não fora descoberta. Na evolução da ciência
tais diferenças e ninguém duvidará de que a história da os novos conhecimentos substituiriam a ignorância e�
ciência pode fornecer muitos mais. Mais do que a exis­ vez de substituir outros conhecimentos de tipo distinto
tência de tais diferenças, é provável que ponhamos em
d�vida a capacidade de tais exemplos para nos propor­ e incompatível.
cionarem informações essenciais sobre a natureza da Certamente a ciência ( ou algum outro empreendi­
ci�nci� - e portan�� examinaremos essa questão em mento talvez menos eficaz) poderia ter-se desenvolvido
pnmetro lugar. Adm1tmdo que a rejeição de paradigmas dessa maneira totalmente cumulativa. Muitos acredita­
é um fato histórico, tal rejeição ilumina algo mais do ram que realmente ocorreu assim e· a maioria ainda pa-
J29
128
rece supor que a acumulação é, pelo menos, o ideal que sobre a natureza e os instrumentos do cientista demons­
o desenvolvimento histórico exibiria, caso não tivesse trem estar equivocados. Fre9üentemente, a importância
sido tão comumente distorci<Jo pela idiossincrasia hu­ da des�ober,ta resu�tante sera ela mesma proporcional à
mana. Existem importantes razões para tal crença. No extensao e a tenaci�ade da anomalia que a prenunciou.
Cap. 9, descobriremos quão estreitamente entrelaçadas Nesse caso, deve evidentemente haver um conflito entre
estão a concepção de ciência como acumulação e a epis­ o paradigma que revela uma anomalia e aquele que mais
temologia qqe .• considera o conhecimento como uma tarde, a submete a uma lei. Os exemplos de descobertas
construção colocada diretamente_ pelo espírito sobre os através da destruição de paradigmas examinados no
dados brutos elos sentidos. No Cap. 10 examinaremos o Cap. 5 não são simples acidentes históricos. Não existe
sólido apoio fornecido a esse mesmo esquema historio­ nenhuma outra maneira eficaz de gerar descobertas.
gráfico pelas técnicas da eficaz pedagogia das ciências. O mesmo argumento aplica-se ainda mais clara­
Não obstante, apesar da imensa plausibilidade dessa �e�te à invençã� d� novas teorias. Existem, em .prin­
mesma imagem ideal, existem crescentes razões para cipi?, somente tres tipos �e fenômenos a propósito dos
perguntarmos se é possível que esta seja uma imagem quais pode ser desenvolvida uma nova teoria. .Q._Qri­
de ciência. Após o período pré-paradigmático, a assimi­ meiro tipo �ompreende os fenônienos já bem expliêaaõs
_
pelos paradigmas existentes.
lação de todas as novas teorias e qe quase todos os Tais fenômenos raramente
novos tipos de fenômenos exigiram a destruição de um fornecem motivos ou um ponto de partida para a cons­
paradigma anterior e um conseqüente conflito entre es­ trução de uma teoria. Quando o fazem como no caso
colas rivais de pensamento científico. A aquisição cumu­ das três antecipações famosas discutidas ao final do
lativa de novidades, não antecipadas demonstra ser uma Cap.
. 6, as teorias resultantes raramente são aceitas'
exceção quase inexistente à regra do desenvolvimento visto que a natureza não proporciona nenhuma base
científico. Aquele que leva a sério o fato histórico deve para uma discriminação entre as alternativas. Uma se­
suspeitar de que a ciência não tende ao ideal -sugerido gunda classe de fenômenos compreende aqueles cuja
pela imagem que temos de seu caráter cumulativ<;>. Tal­ natureza é indicada pelos paradigmas existentes mas
vez ela seja uma outra espécie de empreendimento. cuj?5 det�hes somente podem ser entendido.s apó� uma
Contudo, se a resistência de determinados fatos nos maior articulação da teoria. Os cientistas dirigem a maior
leva tão longe, então uma segunda inspeção no terreno parte de sua pesquisa a esses fenômenos, mas tal pes­
já percorrido pode sugerir-nos que a aquisição cumula­ quisa visa antes à articulação dos paradigmas existentes
tiva de novidades é de fato não apenas rara, mas em do que à invenção de novos. Somente quando esses es­
princípio improvável. A pesquisa normal, que é cumu­ forços de articulação fracassam é que os cientistas en­
lativa, deve seu sucesso à habilidade dos cientistas para contram o terceiro tipa de fenômeno: as anomalias reco­
selecionar regularmente fenômenos que podem ser solu­ nhecidas, cujo traço característico é a sua recusa obsti­
cionados através de técnicas conceituais e instrumentais nada a serem assimiladas aos paradigmas existentes.
semelhantes às já existentes.ce por isso que uma preo­ Apenas esse último tipo de fenômeno faz surgir novas
teorias. Os paradigmas fornecem a todos os fenômenos
cupação excessiva com problemas úteis, sem levar em
consideração sua relação com os conhecimentos e as téc­ ( exceção feita às anomalias), um lugar ·n:o campo visual
nicas existentes, pode facilmente inibir o desenvolvimen­ do cientista, lugar esse determinado pela teoria.
to científico.) Contudo, o homem que luta para resolver Mas se novas teorias são chamadas para resolver
um problema definido pelo conhecimento e pela técnica as anomalias presentes na relação entre uma teoria exis­
existentes não se limita simplesmente a olhar à sua volta. tente e a natureza, então a nova teoria bem sucedida
Sabe o que quer alcançar; concebe seus instrumentos e deve, em algum ponto, permitir predições diferentes da­
dirige seus pensamentos de acordo com seus objetivos. A quelas derivadas de sua predecessora. Essa diferença não
novidade não antecipada, isto é, a nova descoberta, so­ poderia ocorrer se as duas teorias fossem logicamente
mente pode emergir na medida em que as antecipações compatíveis. No processo de sua assimilação, a nova

130 131
teoria deve ocupar o lugar da anterior. Mesmo uma teo­ tein somente pode ser aceita caso se reconheça que New­
ria como a da conservação da energia ( que atualmente ton est�va _ err�do. At1�almente essa concepção perma­
parece ser uma superestrutura lógica relacionada com a nece mmontána.2 Precisamos portanto examinar as ob­
natureza apenas através de teorias independentemente jeções mais comuns que lhe são dirigidas.
estabelecidas), não se desenvolveu historicamente sem A idéia central �e�sa� objeçõe_ � pode ser apresen­
a destruição de um paradigma. Ao invés disso, ela emer­ tada como segue: a dmamica relativista não poderia ter
giu de uma crise na. qual um ingredi�al foi a d�mo�trado o erro da dinâmica newtoniana, pois esta
incompatibilidade entre a dinâmica newtoniana e algu­ amda e empregada com grande sucesso pela maioria dos
mas conseqüências da teoria calórica formuladas recen­ engenheiros e, em certas aplicações selecionadas por
temente. Unicamente após a rejeição da teoria calórica mui!os fís!cos. �ém disso, a justeza do emprego dessa
é que a c0nservação da energia pôde tornar-se parte da teor!ª mais antiga . i><?<1e ser demonstrada pela própria
ciência. 1 Somente após ter feito parte da ciência por teona que a substitum em outras aplicações. A teoria
algum tempo é que pôde adquirir a aparência de uma d� �instei°: pode ser utilizada para mostrar que as pre­
teoria de um nível logicamente mais elevado sem con­ diçoes derivadas das equações de Newton serão tão
flito com suas predecessoras. É difícil ver c�mo novas boas como nossos instrumentos de medida, em todas
teorias poderiam surgir sem essas mudanças destrutivas aquelas equações que satisfaçam um pequeno número
nas crenças sobre a natureza. Embora a inclusão lógica de condições restritivas. Por exemplo, para que a teoria
continue sendo uma concepção admissível da relação de N�wton nos f?rneça uma boa solução aproximada, as
existente entre teorias científicas sucessivas, não é plau­ velocidades relativas dos corpos considerados devem ser
sível do ponto de vista histórico. pequenas em comparação com a velocidade da luz. Sa­
Creio que um século atrás teria sido possível inter­ ti�feita essa condição e algumas· outras, a teoria newto­
romper neste ponto o argumento em favor da necessi­ mana parece ser derivável da einsteiniana, da qual é
dade de revoluções, mas hoje em dia infelizmente não portanto um caso especial.
podemos fazer isso, pois a concepção acima desenvol­ Mas, continua a mesma objeção, teoria nenhuma
vida sobre o assunto não pode ser mantida, caso a in­ pode e!!_tra! em co!lflit� com um dos seus casos especiais.
terpretação contemporânea predominante sobre a natu­ Se a c1encia de Emstem parece tornar falsa a dinâmica
reza e a função da teoria científica seja aceita. Essa in­ de Newton, isso se deve somente ao fato de alguns new­
terpretação, estreitamente associada com as etapas ini­ tonianos terem sido incautos a ponto de alegar que a
ciais do positivismo lógico e não rejeitada categorica­ t�oria de Newton P!?duzia resultad_os absolutamente pre­
mente pelos estágios posteriores da doutrina, restringiria cisos ou que era vahda para velocidades relativas muito
o alcance e o sentido de uma teoria admitida, de tal el�vadas. Uma vez que não dispunham de prova para
modo que ela não poderia de modo algum conflitar com tais alegações, ao expressá-las traíram os padrões do
qualquer teoria posterior que realizasse predições sobre procedimento científico. A teoria newtoniana continua
alguns dos mesmos fenômenos naturais por ela conside­ a ser uma teoria verdadeiramente científica naqueles as­
pectos em que, apoiada por provas válidas, foi em
rados. O argumento mais sólido e mais conhecido em algum momento considerada como tal. Einstein somente
favor dessa concepção restrita de teoria científica emerge pode ter demonstrado o erro daquelas alegações extra­
em discussões sobre a relação entre a dinâmica einstei­ vagantes atribuídas à teoria de Newton - alegações
niana atual e as equações dinâmicas mais antigas que que_ �e resto nunca foram propriamente parte da ciência.
derivam dos Principia de Newton. Do ponto de vista Ehmmando-se essas extravagâncias meramente huma­
deste ensaio, essas duas teorias são fundamentalmente nas, a teoria newtoniana nunca foi desafiada e nem
incompatíveis, no mesmo sentido que a astronomia de pode sê-lo.
Copérnico com relação à de Ptolomeu: a teoria de Eins-
2 .. Ver, por eitemplo, as considerações de P. P. WIENER em Philosophy
1. THOMPSON Silvanus P. Li/e of William Thomson Baron Kelvin I
o $ c,ence, XXV (19S8), p. 298.
of Largs. (Londres,· 1910), I, pp. 266-281.
133
132
Uma variante desse argumento é suficiente para mas aceitá-las seria o fim da pesquisa que permite à
tornar imune ao ataque qualquer teoria jamais empre­ ciência continuar a se desenvolver.
gada por um grupo significativo de cientistas compe­ A esta altura, esse ponto já é virtualmente tautoló­
tentes. Por exemplo, a tão difamada teoria do flogisto gico. Sem o compromisso com um paradigma não pode­
ordenava grande número de fenômenos físicos e quími­ ria haver ciência normal. Além disso, esse compromisso
cos. Explicava por que os corpos queimam - porque deve estender-se a áreas e graus de precisão para os
são ricos em flogisto - e por que os metais possuem quais não existe nenhum precedente satisfatório. Não
muito mais propriedades em comum do que seus mine­ fosse assim, o paradigma não poderia fornecer quebra­
rais. Segundo essa teoria, os metais são todos compostos -cabeças que já não tivessem sido resolvidos. Além do
por diferentes terras elementares combinadas com o flo­ mais, não é apenas a ciência normal que depende do
gisto e esse último, comum a todos os metais, gera pro­ comprometimento com uma paradigma. Se as teorias
priedades comuns. A par disso, a teoria flogística expli­ existentes obrigam o cientista somente com relação às
cava diversas reações nas quais ácidos eram formados aplicações existentes, então não pode haver surpresas,
pela combustão de substâncias como o carbono e o en­ anomalias ou crises. Mas esses são apenas sinais que
xofre. Explicava igualmente a diminuição de volume apontam o caminho para a ciência extraordinária. Se
quando a combustão ocorre num volume limitado de ar tomarmos literalmente as restrições positivistas sobre a
- o flogisto liberado pela combustão "estragava" a esfera de aplicabilidade de uma teoria legítima, o meca­
elasticidade do ar que o absorvia, do mesmo modo que nismo que indica à comunidade científica que problemas
o fogo "estraga" a elasticidade de uma mola de aço.3 podem levar a mudanças fundamentais deve cessar seu
Se esses fossem os únicos fenômenos que os teóricos do funcionamento. Quando isso ocorre, a comunidade retor­
flogisto pretendessem explicar mediante sua teoria, esta nará a algo muito similar a seu estado pré-paradigmá­
nunca poderia ter sido contestada. Um argumento seme­ tico, situação na qual todos os membros praticam ciên­
lhante será suficiente para defender qualquer teoria que, cia, mas o produto bruto de suas atividades assemelha-se
em algum momento, tenha tido êxito na aplicação a muito pouco à ciência. Será realmente surpreendente
qualquer conjunto de fenômenos. que o preço de um avanço científico significativo seja.
Mas para que possamos salvar teorias dessa ma­ um compromisso que corre o risco de estar errado? . ....,,
neira, suas gamas de aplicação deverão restringir-se Ainda mais importante é a existência de uma lacu­
àqueles fenômenos e à precisão de observação de que na lógica reveladora no argumento positivista, que nos
tratam as provas experimentais já disponíveis.4 Se tal reintroduzirá imediatamente na natureza da mudança
limitação for levada um passo adiante (e isso dificilmen­ revolucionária. A dinâmica newtoniana pode realmente
te pode ser evitado uma vez dado o primeiro passo), ser derivada da dinâmica relativista? A que se asseme­
o cientista fica proibido de alegar que está falando lharia essa derivação? Imaginemos um conjunto de pro­
"cientificamente" a respeito de qualquer fenômeno ainda posições E,, E,, . . . E.., que juntas abarcam as leis da
não observado. Mesmo na sua forma atual, esta restri­ teoria da relatividade. Essas proposições contêm variá­
ção prníbe que o cientista baseie sua própria pesquisa veis e parâmetros representando posição espacial, tem­
em uma teoria, toda vez que tal pesquisa entre em uma po, massa em repouso, etc . . . A partir deles, junta­
área ou busque um grau de precisão para os quais a mente com o aparato da Lógica e da Matemática, é
prática anterior da teoria não ofereça precedentes. Tais possível deduzir todo um conjunto de novas proposi­
proibições não são excepcionais do ponto de vista lógico, ções , inclusive algumas que podem ser verificadas atra­
3. JAMES B. CoNANT, Overthrow o/ the Phlogiston Theory (Cambridge, vés da observação. Para demonstrar a adequação da
1950), pp, 13-16; e J. R. PARTINGTON, A Short History o/ Chemistry (2.
ed.; Londres, 1951), pp. 8 5-88. O relato mais completo e simpático das dinâmica newtoniana como um caso especial, devemos
realizações da teoria do flogisto aparecem no livro de H. METZGER, New­
ton, Stahl, Boerhaave et la doctrine chimique (Paris, 1930), Parte 11. adicionar aos E, proposições adicionais, tais como
4. Compare-se as conclusões alcançadas através de um tipo de an�lise (v/c)2<<1, restringindo o âmbito dos parâmetros e
muito diverso por R. B. BlilTHWAITE, Scientl/ic Explanation (Cambridge,
195 3), pp. 50-87, especialmente p. 76. variáveis. Esse conjunto ampliado de proposições é en-

134 \ 135
tão manipulado de molde a produzir um novo conjunto ondas, a transformação resultante não é menos decidida­
N1, N2, • • • Nm, que na sua forma é idêntico às leis de mente destruidora para um paradigma previamente esta­
Newton relativas ao movimento, à gravidade e assim por belecido. Podemos mesmo vir a considerá-la como um
diante. Desse modo, sujeita a algumas condições que a protótipo para as reorientações revolucionárias nas ciên­
limitam, a dinâmica newtoniana foi aparentemente deri­ cias. Precisamente por não envolver a introdução de ob­
vada da einsteiniana. jetos ou conceitos adicionais, a transição da mecânica
Todavia tal derivação é espúria, ao menos em um newtoniana para a einsteiniana ilustra com particular cla­
ponto. Embora os N, sejam um caso especial de mecâ­ reza a revolução científica como sendo um deslocamento
nica relativista, eles não são as leis de Newton. Se o da rede conceituai através da qual os cientistas vêem o
são, estão reinterpretadas de uma maneira que seria in­ mundo.
concebível antes dos trabalhos de Einstein. As variáveis Essas observações deveriam ser suficientes para in­
e os parâmetros que nos E, einsteinianos representavam dicar aquilo que, em outra atmosfera filosófica, poderia
posição espacial, tempo, massa, etc . . . ainda ocorrem ser dado como pressuposto. A maioria das diferenças
nos N, e continuam representando o espaço, o tempo e aparentes entre uma teoria científica descartada e sua
a massa einsteiniana. Mas os referentes físicos desses sucessora são reais, pelo menos para os cientistas. Em­
conceitos einsteinianos não são de modo algum idênti­ bora uma teoria obsoleta sempre possa ser vista como
cos àqueles conceitos newtonianos que levam o mesmo um caso especial de sua sucessora mais atualizada, deve
nome. (A massa newtoniana é conservada; a einsteinia­ ser transformada para que isso possa ocorrer. Essa trans­
na é conversível com a energia. Apenas em baixas velo­ formação só pode Se!f empreendida dispondo-se das
cidades relativas podemos medi-las do mesmo modo e vantagens da visão retrospectiva, sob a direção explícita
mesmo então não podem ser consideradas idênticas.) da teoria mais recente. Além disso, mesmo que essa
A menos que modifiquemos as definições das variáveis transformação fosse um artifício legítimo, empregado
dos M, as proposições que derivamos não são newtonia­ para interpretar a teoria mais antiga, o resultado de sua
nas. Se as mudamos, não podemos realmente afirmar aplicação seria uma teoria tão restrita que seria capaz
que derivamos as leis de Newton, pelo menos não no apenas de reafirmar o já conhecido. Devido a sua
sentido atualmente aceito para a expressão "derivar". economia, essa reapresentação seria útil, mas não su­
Evidentemente o nosso argumento explicou por que as ficiente para orientar a pesquisa.
leis de Newton pareciam aplicáveis. Ao fazê-lo, justifi­ Aceitemos portanto como pressupost_o que as dife­
cou, por exemplo, o motorista que age como se vivesse renças entre paradigmaúticessivos são ao mesmo tempo
em um universo newtoniano. Um argumento da mesma necessárias e irreconciliáveis. Poderemos precisar mais
espécie é utilizado para justificar o ensino de uma astro­ explicitamente que espécies de diferenças são essas? O
nomia centrada na Terra aos agrimensores. Mas o argu­ tipo mais evidente já foi repetidamente ilustrado. .Para­
mento ainda não alcançou os objetivos a que se propu­ digmas sucessivos nos ensinam coisas diferentes acerca
nha, ou seja, não demonstrou que as leis de Newton são da população do universo e sobre o comportamento
uma caso limite das de Einstein, pois na derivação não dessa população. Isto é, diferem quanto a questões como
foram apenas as formas das leis que mudaram. Tivemos a existência de partículas subatômicas, a materialidade
que alterar simultaneamente os elementos estruturais da luz e a conservação do calor ou da energia. Essas
fundamentais que compõem o universo ao qual se são diferenças subst_antivas entre P,�digmas suce�ivos
aplicam. e não requerem maiores exemplos.( Mas os paradigmas
Essa necessidade de modificar o sentido de concei­ não diferem somente por sna substância, pois visam não
tos estabelecidos e familiares é crucial para o impacto apenas à natureza, mas também à ciência que os pro­
revolucionário da teoria de Einstein. Embora mais sutil duziu. Eles são fonte de métodos, áreas problemáticas
que as mudanças do geocentrismo para o heliocentrismo, e padrões de solução aceitos por qualquer comunidad_e
do flogisto para. o oxigênio ou dos corpúsculos para as científica amadurecida1 em qualquer época que consi-
137
136
der�1qJ Çonseqüentement:!A a _recepção de _ur_n novo do trabalho científico produtivo. Não obstante, o novo
paradigma requer com frequenc1a uma redefm1ção da compromi�sc do século XVII com a explicação mecâ­
ciência correspondente. Alguns problemas antigos po­ nico-corpuscular revelou-se imensamente frutífero para
dem ser transferidos para outra ciência ou declar:.dos diversas ciências, desembaraçando-as de problemas que
absolutamente "não-científicos". Outros problemas ante­ haviam desafiado as soluções comumente aceitas e suge­
riormente tidos como triviais ou não-existentes podem rindo outras para substituí-los. Em Dinâmica, por exem­
converter-se, com um novo paradigma, nos arquétipos plo, as três leis do movimento de Newton são menos um
das realizações científicas importantes. À medida que os produto de novas experiências que da tentativa de rein­
problemas mudam, mudam também, seguidamente, os terpretar observações bem conhecidas em termos de
padrões que distinguem uma verdadeira solução cientí­ movimentos e interações de corpúsculos neutros primá­
fica de uma simples especulação metafísica, de um jogo rios. Examinemos apenas um exemplo concreto. Dado
de palavras ou de uma brincadeira matemática. A tra­ que os corpúsculos podiam agir uns sobre os outros ape­
dição científica normal que emerge de uma revolução nas por contato, a concepção mecânico-corpuscular da
científica é não somente incompatível, mas muitas ve­ natureza dirigiu a atenção científica para um objeto de
zes verdadeiramente incomensurável com aquela que a estudo absolutamente novo: a alteração do movimento
precedeu. de partículas por meio de colisões. Descartes anunciou
O impacto da obra de Newton sobre a tradição de o problema e forneceu sua primeira solução putativa.
prática científica normal do século XVII proporciona Huyghens, Wren e Wallis foram mais adiante ainda, em
um exemplo notável desses efeitos sutis provocados pela parte por meio de experiências com pêndulos que coli­
alteração de paradigma. Antes do nascimento de New­ diam, mas principalmente através das bem conhecidas
ton, a "ciência nova" do século conseguira finalmente características do movimento ao novo problema. New­
rejeitar as explicações aristotélicas e escolásticas expres­ ton integrou esses resultados em suas leis do movimento.
sas em termos das essências dos corpos materiais. Afir­ As "ações" e "reações" iguais da terceira lei são as mu­
mar que uma pedra cai porque sua "natureza" a· impul­ danças em quantidade de movimento experimentadas
siona na direção do centro do universo convertera-se pelos dois corpos que entram em colisão. A mesma mu­
em um simples jogo de palavras tautológico - algo dança de movimento fornece a definição de força dinâ­
que não fora anteriormente. A partir daí todo o fluxo mica implícita na segunda lei. Nesse caso, como em
de percepções sensoriais, incluindo cor, gosto e mesmo muitos outros durante o século XVII, o paradigma
peso, seria explicado em termos de tamanho, forma e corpuscular engendrou ao mesmo tempo um novo pro­
movimento dos corpúsculos elementares da matéria fun­ blema e grande parte de sua solução.6
damental. A atribuição de outras qualidades aos átomos Todavia, embora grande parte da obra de Newton
elementares era um recurso ao culto e portanto fora dos fosse dirigida a problemas e incorporasse padrões deri­
limites da ciência. Moliere captou com precisão esse vados da concepção de mundo mecânico-corpuscular, o
novo espírito ao ridicularizar o médico que explicava paradigma que resultou de sua obra teve como efêito
a eficácia do ópio como soporífero atribuindo-lhe uma uma nova mudança, parcialmente destrutiva, nos pro­
potência dormitiva. Durante a última metade do século blemas e padrões considerados legítimos para a ciência.
XVIII muitos cientistas preferiam dizer que a forma A gravidade, interpretada como uma atração inata entre
arredondada das partículas de ópio permitia-lhes acal­ cada par de partículas de matéria, era uma qualidade
mar os nervos sobre os quais se movimentavam.5 oculta no mesmo sentido em que a antiga "tendência a
Em um período anterior, as explicações em termos cair" dos escolásticos. Por isso, enquanto os padrões de
de qualidades ocultas haviam sido uma parte integrante concepção corpuscular permaneceram em vigor, a busca
5. No tocante ao Corpuscularismo em geral, ver MARIE BOAS, The
Je uma explicação mecânica da gravidade foi um dos
Esfablishment of lhe Mechanical Pbilosopby, Osiris, X, pp. 412-541
(1952). Sobre o efeito da forma das partfculas sobre o gosto, ver ibld... 6. DuoAs, R. La mécanique au XVII• -siecle. (Neucbâtel, 1954), pp.
p. 483. 177-185, 284-298, 345-356,

138 139

I
problemas mais difíceis para os que aceitavam os Prin­ afinidades químicas e séries de reposição deriva igual­
cipia como um paradigma. Newton devotou muita aten­
,
ção a ele e muitos de seus sucessores do seculo ��III mente desse aspecto supramecânico do newtonismo. Quí­
micos que acreditavam na existência dessas atrações
fizeram o mesmo. A única opção aparente era reJettar diferenciais entre as diversas espécies químicas prepa­
a teoria newtoniana por seu fracasso em explicar a gra­ raram experiências ainda não imaginadas e buscaram no­
vidade e essa alternativa foi amplamente adotada. Con­ vas espécies de reações. Sem os dados e conceitos quí­
tudo nenhuma dessas concepções acabou triunfando. Os micos desenvolvidos ao longo desse processo, a obra
cientistas, incapazes, tanto de praticar a ciência s_em os posterior de Lavoisier e mais particularmente a de Dal­
Principia, como de acomodar essa obra aos padr�s do
ton seriam incompreensíveis. 8 As mudanças nos padrões
século XVII aceitaram gradualmente a concepçao se­ científicos que governam os problemas, conceitos_ ,e �x­
gundo a quai a gravidade era realme�te inata. Pela m:­ plicações admissíveis, podem transformar u�a c1encia.
tade do século XVIII tal interpretaçao fora quase uru­ No próximo capítulo, chegarei mesmo a sugenr um sen­
versalmente aceita, disso resultando uma autêntica rever­ tido no qual podem transformar o mundo.
são, ( o que não é a mesma coisa que um re�rocesso),
Outros exemplos dessas diferenças não-substantivas
a um padrão escolástico. Atrações e repulsões matas tor­ entre paradigmas sucessivos podem ser obtidos na his­
naram-se tal como a forma, o tamanho, a posição e o
movimento, propriedades primárias da matéria, fisica­ tória de qualquer ciência, praticamente em quase todos
mente irredutíveis.7 os períodos de seu desenvolvimento. Contentemo-nos
A mudança resultante nos padrões e áreas proble­ por enquanto com dois outros exemplos mais breve�.
máticas da Física teve, mais uma vez, amplas conse­ Antes da revolução química, uma das tarefas reconheci­
qüências. Por volta de 1740, por �xemplo,. _os eletri;is­ das da Química consistia em explicar as qualidades das
tas podiam falar da "virtude" atrativa do flmdo elétnco, substâncias químicas e as mudanças experimentadas por
sem com isso expor-se ao ridículo que saudara o doutor essas substâncias durante as reações. Com auxílio de um
de Moliere um século antes. Os fenômenos elétricos pas­ pequeno número de "princípios" elementares - entre
saram a exibir cada vez mais uma ordem diversa daquela os quais o flogisto - o químico devia explic�r por que
que haviam apresentado quando considerados como efei­ algumas substâncias são ácidas, outras metabnas, com­
tos de um eflúvio mecânico que podia atuar apenas por bustíveis e assim por diante. Obteve-se algum sucesso
nesse sentido. Já observamos que o flogisto explicava
contato. Em particular, quando uma ação elétrica� �is­ por que os mêtais eram tão semelhantes e poderí�mos
tância tornou-se um objeto de estudo de pleno d1re1to,
o fenômeno que atualmente chamamos de carga po� in­ ter desenvolvido um argumento similar para os ácidos.
dução pode ser reconhecido como um de seus efeitos. Contudo a reforma de Lavoisier acabou eliminando os
Anteriormente, quando se chegava a observá-lo, era · "princípios" químicos, privando desse modo a Química
atribuído à ação direta de "atmosferas" ou a vazamentos de parte de seu poder real e de muito de seu poder po­
inevitáveis em qualquer laboratório elétrico. A nova con­ tencial de explicação. Tornava-se necessária uma mu­
cepção de efeitos indutivos foi, por sua vez, a chave da dança nos padrões científicos para compensar ess_a pe�­
análise de Franklin sobre a Garrafa de Leyden e desse da. Durante grande parte do seculo XIX uma teona q_u1-
modo para a emergência d: u_m paradigm� �ewtoniano mica não era posta em questão por fracassar na tentatJ.Va
de explicação das qualidades dos compostos. 9
para a eletricidade. A Dinam1ca e a Eletnc1dade tam­ Um outro exemplo: no século XIX, Clerk Maxwell
pouco foram os únicos campos cie?tíficos afetad�s. pela
legitimação da procura de forças matas da matena. O _ ondulat�ria
partilhava com outros proponentes da teoria
da luz a convicção de que as ondas lummosas deviam
importante corpo de literatura do século XVIII sobre propagar-se através de um éter material. Conceber um
7. COHEN, I. B. Franklin and Newton: An lnquiry into Spe��/ative 8. Sobre a Eletricidade, ver ibid., Caps. VIII-IX. Quanto à Química,
Newtonian Experimental Science and Franklin's Work ln E/ectrlCll)I U ver METZGER, op. clt., Parte I.
an Examp/e Thereof, (Filadélfia, 1956), Caps, VI-VII.
9. MEYERSON, E. ldentity and Reality. (Nova York, 1930), Cap. X.

140 141
meio mecânico capaz de sustentar tais ondas foi um pro­ objeções às forças inatas não eram nem inerentemente
blema-padrão para muitos de seus contemporâneos mais acientíficas, nem metafísicas em algum sentido pejora­
competentes. Entretanto, sua própria teoria eletromagné­ tivo. Não existem padrões exteriores que permitam um
tica da luz não dava absolutamente nenhuma explicação julgamento científico dessa espécie. 9. que ocorreu não
sobre um meio capaz de sustentar ondas luminosas e foi nem uma queda, nem uma elevação de padrões, mas
certamente tornou ainda mais difícil explicá-lo do que simplesmente uma mudança exigida pela adoção de um
já parecia. No início, a teoria de Maxwell foi ampla­ novo paradigma. Além disso, tal mudança foi desde en­
mente rejeitada por essas razões. Mas, tal como a de tão invertida e poderia sê-lo novamente. No século XX,
Newton, a teoria de Maxwell mostrou que dificilmente Einstein foi bem sucedido na explicação das atrações
poderia ser deixada de lado e quando alcançou o status gravitacionais e essa explicação fez com que a ciência
de paradigma, a atiude da comunidade científica com voltasse a um conjunto de cânones e problemas que,
relação a ela mudou. Nas primeiras décadas do século neste aspecto específico, são mais parecidos com os dos
XX, a insistência de Maxwell em defender a existência predecessores de Newton do que com os de seus suces­
de um éter material foi considerada mais e mais um sores. Por sua vez, o desenvolvimento da Mecânica
gesto pro forma, sem maior convicção - o que certa­ Quântica inverteu a proibição metodológica que teve
mente não fora - e as tentativas de conceber tal meio sua origem na revolução química. Atualmente os quí­
etéreo foram abandonadas. Os cientistas já não conside­ micos tentam, com grande sucesso, explicar a cor, o es­
ravam acientífico falar de um "deslocamento" elétrico, tado de agregação e outras qualidades das substâncias
sem especificar o que estava sendo deslocado. O resul­ utilizadas e produzidas nos seus laboratórios. Uma in­
tado, mais uma vez, foi um novo conjunto de problemas versão similar pode estar ocorrendo na teoria eletro­
e padrões científicos, um dos quais, no caso, teve muito magnética. O espaço, na física contemporânea, não é
a ver com a emergência da teoria da relatividade.1º o substrato inerte e homogêneo empregado tanto na
Essas alterações características na concepção que teoria de Newton como na de Maxwell; algumas de suas
a comunidade científica possui a respeito de seus pro­ novas propriedades não são muito diferentes das outrora
blemas e padrões legítimos seriam menos significativas atribuídas ao éter. É provável que algum dia chegue­
para as teses deste ensaio se pudéssemos supor que mos a saber o que é um deslocamento elétrico.
representam sempre uma passagem de um tipo metodo­ , · Ós exemplos precedentes, ao deslocarem a ênfase
lógico inferior a um superior. Nesse caso, mesmo seus das funções cognitivas para as funções normativas dos
efeitos pareceriam cumulativos. Não é de surpreender paradigmas, ampliam nossa compreensão dos modos pe­
que alguns historiadores tenham argumentado que a his­ los quais os paradigmas dão forma à vida . científica.
tória da ciência registra um crescimento constante da Antes disso, havíamos examinado especialmente o papel
maturidade e do refinamento da concepçã9 que o ho­ do paradigma como veículo para a teoria científica.
mem possui a respeito da natureza da ciência. 11 Todavia Nesse papel, ele informa ao cientista que entidades a
é ainda mais difícil defender o desenvolvimento cumu­ natureza contém ou não contém, bem como as maneiras
lativo dos problemas e padrões científicos do que a segundo as quais essas entidades se comportam. Essa
acumulação de teorias. A tentativa de explicar a gravi­ informação fornece um mapa cujos detalhes são eluci­
dade, embora proveitosamente abandonada pela maioria dados pela pesquisa científica amadurecida. Uma vez
dos cientistas do século XVIII, não estava orientada que a natureza é muito complexa e variada para ser ex­
para um problema intrinsecamente ilegítimo; as plorada ao acaso, esse mapa é tão essencial para o de­
senvolvimento contínuo da ciência como a observação e
10. WHI1TAKEII, E. T. A Hlstory of the Theories o/ Aether and Elec­ a experiência. Por meio das teorias que encarnam, os
trlclty.(Londres, 19S3), II, pp. 28-30.
11. Para uma tentativa brilhante e totalmente atualizada de adaptar
paradigmas demonstram ser constitutivos da ati".ida�e
o desenvolvimento científico a esse leito de Procusto, ver C. O. Gll.LISPIE, científica. Contudo, são também constitutivos da c1ênc1a
The Edge o/ Ob/ectlvlty: An Essay ln the Hlstory oi Scientl/lc ldeas
(Princeton, 1960).
em outros aspectos que nos interessam nesse momento.
143
142
Mais particularmente, nossos exemplos mais recentes
fornecem aos cientistas não apenas um mapa, mas tam­
bém algumas das indicações essenciais para a elaboração
de mapas. Ao aprender um paradigma, o cientista ad­
quire ao mesmo tempo uma teoria, métodos e padrões
científicos, que usualmente compõem uma mistura inex­
tricável. Por isso, quando os paradigmas mudam, ocor­
rem alterações significativas nos critérios que determi­
nam a legitimidade, tant o os problemas, como das so­
luções propostas.
Essa observação nos faz retornar ao ponto de par­
tida deste capítulo, pois fornece nossa primeira indica­
ç�o explícita d� razão pela qual a escolha entre para­
digmas competidores coloca comumente questões que
\ não podem ser resolvidas pelos critérios da ciência nor­
/ mal. A tal ponto - e isto é significativo, embora seja
apenas parte da questão - que quando duas escolas
científicas discordam sobre o que é um problema e o
que é uma solução, elas inevitavelmente travarão um
diálogo de surdos ao debaterem os méritos relativos dos
respectivos paradigmas. Nos argumentos parcialmente
circulares que habitualmente resultam desses debates
cada paradigma revelar-se-á capaz de satisfazer mais o�
me�os os critérios que dita para si mesmo e incapaz de
sat!sfazer _alguns daqueles ditados por seu oponente.
Existem amda outras razões para o caráter incompleto
do contato lógico que sistematicamente carateriza o de­
bate entre paradigmas. Por exemplo, visto que nenhum
par�digma consegue resolver todos os problemas que 9. AS REVOLUÇÕES COMO MUDANÇAS
defme e posto que não existem dois paradigmas que dei­ DE CONCEPÇÃO DE MUNDO
xem sem solução exatamente os mesmos problemas os
debat�s entre_ paEadigmas sempre envolvem a segu°inte
O historiador da ciência que examinar as pesquisas
�uestao: quai� sao os problemas que é mais significa­ do passado a partir da perspectiva da historiografia con­
tivo ter resolvido? Tal como a questão dos padrões em
competição, essa questão de valores somente pode ser temporânea pode sentir-se tentado a proclamar que,
respond:da em termos de critérios totalmente exteriores quando mudam os paradigmas, muda com eles o pró­
à c_iência . e é esse recurso a critérios externos que - prio mundo. Guiados por um novo paradigma, os. cien­
maIS obviamente que qualquer outra coisa - torna tistas adotam novos instrumentos e orientam . seu olhar
revolucionários os debates entre paradigmas. Entretan­ em novas direções. E o que é ainda mais importante:
to, está em jogo algo mais fundamental que padrões e durante as revoluções, os cientistas vêem coisas novas
valores. Até aqui argumentei tão-somente no sentido de e diferentes quando, empregando instrumentos familia­
que !ls paradigmas são parte constitutiva da ciência. res, olham para os mesmos pontos já examinados ante­
DeseJ� agora �pr�sentar uma dimensão na qual eles são riormente. É como se a comunidade profissional tivesse
tambem const1tut1vos da natureza. sido subitamente transportada para um novo planeta,
145
144
onde objetos familiares são vistos sob uma luz diferente Certamente, n� sua_ forma mais usual, as experiên­
. s com a forma visual Ilustram tão-somente a natureza
e a eles se apregam objetos desconhecidos. Certamente cia
�ão ocorre nada semelhante: não há transplante geográ­ das transformações perceptivas. Nada nos dizem sobre
fico; fora do laboratório os afazeres cotidianos em geral o l?ª�l dos paradigmas ou da experiência previamente
continuam como antes. Não obstante, as mudanças de as�imtlada ao . processo
_ de per�epção. Sobre este ponto
paradigma realmente levam os cientistas a ver o mundo existe uma �ica hteratura p�icol?gica, a maior parte
de!inid� por seus compromissos de pesquisa de uma ma­ da qual provem do trabalho pioneiro do Instituto Hano­
neira diferente. Na medida em que seu único acesso a ver. Se o sujeito de uma experiência coloca óculos de
esse mundo dá-se através do que vêem e fazem, pode­ pr��eção munidos de lentes que invertem as imagens, vê
r�mos_ ser tentados a dizer que, após uma revolução, os 1mc1almente o mundo todo de cabeça para baixo. No
cientistas reagem a um mundo diferente. começo, seu aparato perceptivo funciona tal como fora
As bem conhecidas demonstrações relativas a uma treinado para funcionar na ausenta de óculos e o resul­
alteração na forma ( Gestalt) visual demonstram ser tado é uma desorientação extrema, uma intensa crise
muito sugestivas, como protótipos elementares para essas J?CSsoal. Mas logo que o sujeito começa a aprender a
transformações. Aquilo que antes da revolução aparece hdar com seu novo mundo, todo o seu campo visual se
co�o um pato no mundo do cientista transforma-se pos­ altera, em geral após um período intermediário durante
tenormente num coelho. Aquele que antes via o exterior o q�al a visão s� enco�tra simplesmente confundida. A
_ os objetos sao novamente vistos como antes
partir_ ?ai,
da caixa desde cima passa a ver seu interior desde
baixo. Transformações dessa natureza, embora usual­ da utihza�_ao das lentes. A assimilação de um campo vi­
mente sejam mais graduais e quase sempre irreversíveis, sual anter�ormente
. anômalo reagiu sobre o próprio cam­
po e modiflcou-o.1 Tanto literal como metaforicamente
acompanham comumente o treinamento científico. Ao o homem acostumado às lentes invertidas experimento�
olhar uma carta topográfica, o estudante vê linhas sobre
uma transformação revolucionária da visão.
o papel; o cartográfico vê a representação de um ter­ Os sujeitos da experiência com cartas anômalas
reno. Ao olhar uma fotografia da câmara de Wilson o discutida no Cap. 5, experimentaram uma transforma�
estudante vê linhas interrompidas e confusas; o físico ção b�s!ante similar. Até aprenderem, através de uma
um registro de eventos subnucleares que lhe são fami­ exposiçao prolongada, que o universo continha cartas
liares. Somente após várias dessas transformações de anô!Ilalas, viam tão-somente os tipos de cartas para as
visão é que o estudante se torna um habitante do mundo quais �uas experiências anteriores os haviam equipado.
do cientista, vendo o que o cientista vê e respondendo Todavia, depois que a experiência em curso forneceu
como o cientista responde. Contudo, este mundo no as categorias adicionais indispensáveis, foram capazes de
qual o es!udante penetra não está fixado de uma vez por per�:ber todas as cartas anômalas na primeira inspeção
t?,?as! seja pela natureza do meio ambiente, seja pela s�ficientemente prolongada para permitir alguma identi­
ciencia. Em vez disso, ele é determinado conjuntamente ficação. TÕutras experiências demonstram que o tama­
pelo meio ambiente e pela tradição específica de ciência n�o, a cor, etc., percebidos de objetos apresentados expe­
normal na qual o estudante foi treinado . Conseqüente­ rimentalmente também varia com a experiência e o trei­
�ent�� em períodos de revolução, quando a tradição no prévios do participante2JAo examinar a rica litera-
cientifica normal muda, a percepção que o cientista tem
de seu meio ambiente deve ser reeducada - deve apren­ 1. ,A_s exp_eriências ori11inais foram realizadas por GEOllGE M. STRAT•
d�r a ver uma nova forma ( Gestalt) em algumas situa­ TON, V1S1on w1thout Invers1on of the Retina! Image, Pzychological Revlew,
IV, Pp, 341-360, 463-481 (1897). Uma apresentação mais atualizada é
çoes com as quais já está familiarizado. Depois de fazê­ fornecida por HARVEY A. CARR, An Jntroduction to Space Perception
(Nova York, 1935), pp. 18-57.
-lo, o mundo de suas pesquisas parecerá, aqui e ali, in­ 2. Para exemplos, ver ALB1!11T H. HASTOllF, The Influence of Suggestion
comensurável com o que habitava anteriormente. Esta _
on the Relationsh1p between Stlmulus Size and Perceived Distance Joumal
o/ Psychology, XXIX, pp. 195-217 (1950); e JEROME S. BRUNER, LEO
é. uma outra razão pela qual escolas guiadas por para­ Pos TMAN e JOHN RODRIGUES, Expectations and the Perception of Colour,
digmas diferentes estão sempre em ligeiro desacordo. Amerlcan Joumal oi Psychology, LXIV, pp. 216-227 (1951).

146 147
tura da qual esses exemplos foram :xtraídos, somos
levados a suspeitar de que alguma cmsa semelhante a que o que realmente vê são essas linhas, mas que as
um paradigma é um pré-re9uisito para a própria_ per­ vê alternadamente conw pato ou como coelho. Do mes­
cepção. fÕ que um homem ve depende ��nt? daq_ uilo que mo modo, o sujeito da experiência das cartas anômalas
ele olha como daquilo que sua expenencia visual-con­ sabe ( ou, mais precisamente, pode ser persuadido) que
ceitual prévia o ensinou a ver. Na ausência de tal treino, sua percepção deve ter-se alterado, porque uma autori­
somente pode haver o que William James chamou de dade externa, o experimentador, assegura-lhe que, não
"confusão atordoante e intensa'.:J _'. •,· · · obstante o que tenha visto, estava olhando durante todo
Nos últimos anos muitos dos interessados na histó­ o tempo para um cinco de copas. Em ambos os casos,
ria da ciência consideraram muito sugestivos os tipos de tal como em todas as experiências psicológicas simila­
experiências acima descritos. N. �- Hanson, especial­ res, a eficácia da demonstração depende da possibilida­
mente utilizou demonstrações relacionadas com a forma de de podermos analisá-la desse modo. A menos que
'

visual para elaborar algumas das mesmas consequenci� ••A • exista um padrão exterior com relação ao qual uma alte­
da crença científica com as qu_ais me preocupo _aq�_.3 ração da visão possa ser demonstrada, não poderemos
Outros colegas indicaram repetidamente que a historia extrair nenhuma conclusão com relação a possibilida­
da ciência teria um sentido mais claro e coerente se pu­ des perceptivas alternadas.
déssemos supor que os cientistas experimentam ocasio­ Contudo, com a observação científica, a situação
nalmente alterações de percepção do tipo das acima des­ inverte-se. O cientista não pode apelar para algo que
critas. Todavia embora experiências psicológicas sejam esteja aquém ou além do que ele vê com seus olhos e
sugestivas, nãd podem, no caso em qu:st�o, ir além instrumentos. Se houvesse alguma autoridade superior,
disso. Elas realmente apresentam caractensticas de per­ recorrendo à qual se pudesse mostrar que sua visão se
cepção que poderiam ser centrais para o desenvolvime_?­ alterara' tal autoridade tornar-se-ia a fonte de
. - seus da-
to científico mas não demonstram que a observaçao dos e nesse caso o comportamento de sua visao tornar-
cuidadosa e 'controlada realizada pelo pesquisador cien­ se-ia uma fonte de problemas (tal como o sujeito da
tífico partilhe de algum modo dessas c�:,act�rísticas. experiência para o psicólogo). A mesma espécie de pro­
Além disso, a própria natureza dessas expenencias torna blemas surgiria caso o cientista pudesse alterar seu com­
impossível qualquer demonstração direta desse ponto. portamento do mesmo modo que o sujeito das experiên­
Para que um exemplo histórico possa fazer com que cias com a forma visual. O período durante o qual a
essas experiências psicológicas pareçam . relevantes, é luz era considerada "algumas vezes como uma onda e
preciso primeiro que atentemos para os tipos _ de, �rovas outras como uma partícula" foi um período de crise -
que podemos ou não podemos esperar que a historia nos um período durante o qual algo n�o vai bem - � �o­
forneça. mente terminou com o desenvolvimento da Mecamca
Ondulatória e com a compreensão de que a luz era enti­
O sujeito de uma demonstração da Psicologia da dade autônoma' diferente tanto das ondas como das par-
Forma sabe que sua percepção se modificou, visto que tículas. Por isso nas ciências, se as alterações percepti-
.
ele pode alterá-la repetidamente, enquanto se�ra nas vas acompanha� as mudanças de paradigma, não po
mãos o mesmo livro ou pedaço de papel. Consciente de demos esperar que os cientistas confirmem ess�s mu­
que nada mudou em seu meio ambiente, ele dirige sem­ danças diretamente. Ao olhar a Lua, o convertido ao
pre mais a sua atenção não à figura (pato ou coelho), copernicismo não diz "costumava ver um planeta, mas
mas às linhas contidas no papel que está olhando. Pode agora vejo um satélite". Tal locução implicaria afirmar
até mesmo acabar aprendendo a ver ess�s li�as �em que em um sentido determinado o sistema de Ptolomeu
ver qualquer uma dessas fi�ras. P�era entao dizer fora em certo momento, correto. Em lugar disso, um
(algo que não poderia ter feito legitimamente antes) con;ertido à nova astronomia diz: "antes eu acreditava
que a Lua fosse um planeta (ou via a Lua c�mo U_?I
3. HANSON, N. R. Patterns o/ Discovery. (Cambrid11e, 1958), Cac,. 1.
planeta), mas estava enganado". Esse tipo de afumaçao
148 149
repete-se no período posterior às revoluções científicas categorias perceptivas (estrela ou cometa) fornecidas
pois, se em geral disfarça uma alteração da visão cien: pelo, paradigma anteriormente em vigor.
tífica ou alguma outra transformação mental que tenha Contudo, a alteração de visão que permitiu aos
o mesmo efeito, não podemos esperar um testemunho A'
astronomos ver o planeta Urano não parece ter afetado
direto sobre essa alteração.: Devemos antes buscar pro­ somente a percepção daquele objeto já observado ante­
vas indiretas e comportamentais de que um cientista com riormente. Suas conseqüências tiveram um alcance bem
um novo paradigma vê de maneira diferente do que via mais amplo. Embora as evidências sejam equívocas a
anteriormente. pequena mudança de paradigma forçada por Herschel
Retornemos então aos dados e perguntemos que provavelmente ajudou a preparar astrônomos para a des­
tipos de transformações no mundo do cientista podem coberta rápida de numerosos planetas e asteróides após
ser descobertos pelo historiador que acredita em tais mu­ 1801:}Devido a seu tamanho pequeno, não apresentavam
danças. O descobrimento de Urano por Sir William o aumento anômalo que alertara Herschel. Não obstante '

os astronomos que estavam preparados para encontrar


A

Herschel fornece um primeiro exemplo que se aproxima


muito da experiência das cartas anômalas. Em pelo me­ planetas adicionais foram capazes de identificar vinte
nos dezessete ocasiões diferentes, entre 1690 e 1781, di­ deles durante os primeiros cinqüenta anos do século
versos astrônomos, inclusive vários dos mais eminentes XIX, empregando instrumentos-padrão.5 A história da
observadores europeus, tinham visto uma estrela em po­ Astronomia fornece muitos outros exemplos de mudan­
sições que, hoje supomos, devem ter sido ocupadas por ças na percepção científica que foram induzidas por pa­
Urano nessa época. Em 1769, um dos melhores obser­ radigmas, algumas das quais ainda menos equívocas que
vadores desse grupo viu a estrela por quatro noites su­ a anterior. Por exemplo, será possível conceber como
cessivas, sem contudo perceber o movimento que pode­ acidental o fato de que os astrônomos somente tenham
ria ter s�gerido uma outra identificação. Quando, doze começado a ver mudanças nos céus - que anterior­
anos mais tarde, Herschel observou pela primeira vez mente eram imutáveis - durante o meio século que se
o mesmo objeto, empregou um telescópio aperfeiçoado, seguiu à apresentação do novo paradigma de Copér­
de sua própria fabricação. Por causa disso, foi capaz nico? Os chineses, cujas crenças cosmológicas não
de, �otar .um tamanho aparente de disco que era, no excluíam mudanças celestes, haviam registrado o apa­
m1mmo, mcomum para estrelas. Algo estava errado e recimento de muitas novas estrelas nos céus numa épo­
em vista disso ele postergou a identificação até realizar ca muito anterior. Igualmente, mesmo sem contar com
um exame mais elaborado. Esse exame revelou o movi­ a ajuda do telescópio, os chineses registraram de ma­
mento de Urano entre as estrelas e por essa razão Hers­ neira sistemática o aparecimento de manchas solares
chel anunciou que vira um novo cometa! Somente vários séculos antes de terem sido vistas por Galileu e seus
contemporâneos.6 As manchas solares e uma nova estre­
�eses depois, após várias tentativas infrutíferas para la não foram os únicos exemplos de mudança a surgir
ajustar o movimento observado a uma órbita de come­ nos céus da astronomia ocidental imediatamente após
ta, é que Lexell sugeriu que provavelmente se tratava
Copérnico. Utilizando instrumentos tradicionais, alguns
de _uma órbita planetária.4 Quando essa sugestão foi tão simples como um pedaço de fio de linha, os astrô­
aceita, o mundo dos astrônomos profissionais passou a nomos do fim do século XVI descobriram, um após o
contar com um planeta a mais e várias estrelas a me­ outro, que os cometas se movimentavam livremente
nos. Um corpo celeste, cuja aparição fora observada de através do espaço anteriormente reservado às estrelas e
quando_ em quando durante quase um século, passou
a ser visto de forma diferente depois de 1781, porque, 5. RUDOLPH WOLP, Geschichte der Astronomle (Munique, 1877), pp.
tal como uma carta anômala, não mais se adaptava às 513-515, 683-693. Note-se especialmente corno os relatos de Wolf dificultam
a explicação dessas descobertas corno sendo urna conseqüência da Lei de
Bode.
4. Dom, Peter. A Cone/se History oi Astronomy. (Londres, 1950), 6. NEEDHAM, Joseph, Science and Civlllz;ati!on ln China. (Cambridge,
pp. 115-116. 1959), III, pp. 423-429, 434-436.

150 151
planetas imutáveis.7 A própria facilidade e rapidez com novos efeitos de repulsão que Hauksbee vira. Por meio
que os astrônomos viam novas coisas ao olhar para obje­ de suas pesquisas ( e não através de uma alteração da
tos a� tigos com velhos instrumentos pode fazer com 4ue forma visual), a repulsão tornou-se repentinamente a
nos sintamos tentados a afirmar que, após Copérnico, manifestação fundamental da eletrificação e foi então
os astrônomos passaram a viver em um mundo diferen­ que a atração precisou ser explicada.s Os fenômenos
te. De qualquer modo, suas pesquisas desenvolveram-se elétricos visíveis no início do século XVIII eram mais
como se isso tivesse ocorrido. sutis, e mais variados que os vistos pelos observadores
Os exemplos anteriores foram selecionados na do se�ulo XVII. Ou�ro exemplo: após a assimilação do
Astronomia, porque os relatórios referentes a observa­ paradigma de Franklin, o eletricista que olhava uma Gar­
ções celestes são freqüentemente apresentados em um rafa de Leyden via algo diferente do que vira anterior­
vocabulário composto por termos de observação relati­ mente. O instrumento tornara-se um condensador, para
vamente puros. Somente em tais relatórios podemos ter o qual nem a forma, nem o vidro da garrafa eram indis­
pensáveis. Em lugar disso, as duas capas condutoras -
� esperança de encontrar algo semelhante a um parale­ uma das quais não fizera parte do instrumento original
lismo completo entre as observações dos cientistas e as
dos sujeitos experimentais dos psicólogos. Não precisa­ - tornaram-se proeminentes. As duas placas de metal
mos contudo insistir em um paralelismo integral e te­ com um não-condutor entre elas haviam gradativamen­
remos muito a ganhar caso relaxemos nossos padrões. te se tomado o protótipo para toda essa classe de apa­
Se nos contentarmos com o emprego cotidiano do verbo relhos, como atestam progressivamente tanto as discus­
"ver", poderemos rapidamente reconhecer que já encon­ sões escritas como as representações pictóricas.9 Simul­
tramos muitos outros exemplos das alterações na per­ taneamente, outros efeitos indutivos receberam novas
cepção científica que acompanham a mudança de pa­ descrições, enquanto outros mais foram observados pe­
radigma. O emprego mais amplo dos termos "percep­ la primeira vez.
ção" e "visão" requererá em breve uma defesa explí­ Alterações dessa espécie não estão restritas à Astro­
cita, mas iniciarei ilustrando sua aplicação na prática. nomia e à Eletricidade. Já indicamos algumas das trans­
Voltemos a examinar por um instante ou dois nos­ formações de visão similares qu e podem ser extraídas
sos exemplos anteriores da história da eletricidade. Du­ da história da Química. Como dissemos, Lavoisier viu
rante o século XVII, quando sua pesquisa era orienta­ oxigênio onde Priestley vira ar desflogistizado e outros
da por uma ou outra teoria dos eflúvios, os eletricistas não viram absolutamente nada. Contudo, ao aprender a
viam seguidamente partículas de palha serem repelidas ver o oxigênio, Lavoisier teve também que modificar sua
ou caíram dos corpos elétricos que as haviam atraído. concepção a respeito de muitas outras substâncias fami­
Pelo menos foi isso que os observadores do século XVII liares. Por exemplo, teve que ver um mineral composto
afirmaram ter visto e não temos razões para duvidar onde Priestley e seus contemporâneos haviam visto uma
mais de seus relatórios de percepção do que dos nos­ terra elementar. Além dessas, houve ainda outras mu­
sos. Colocado diante do mesmo aparelho, um observa­ danças. Na pior das hipóteses, devido à descoberta do
dor moderno veria uma repulsão eletrostática ( e não oxigênio, Lavoisier passou a ver a natureza de maneira
uma repulsão mecânica ou gravitacional). Historica­ diferente. Na impossibilidade de recorrermos a essa na­
mente entretanto, com uma única exceção universalmen­ tureza fixa e hipotética que ele "viu de maneira diferen­
te igno: ada, a repulsão não foi vista como tal até que te", o princípio de economia nos instará a dizer que,
o aparelho em larga escala de Hauksbee ampliasse gran­ após ter descoberto o oxigênio, Lavoisier passou a tra­
demente seus efeitos. Contudo, a repulsão devida à ele­ balhar em um mundo diferente.
trificação por contato era tão-somente um dos muitos
8. ROLI.ER, Duane & ROLLER, Duane H. D. The Deve/opment o/ the
Concept o/ E/ectric Charge. (Cambrid,g e, Mass., 1954), pp. 21-29.
7. KuttN, T. S. The Copemican Revolution. (Cambridge, Mass., 1957), . 9. Veja-se
.indicado a discussão no Cap. 6 e a literatura sugerida pelo texto
na nota 9 daquele ca(l)ítulo.
pp. 206-209.

153
152
Dentro em breve perguntarei sobre a possibilidade parte de um gênio das possibilidades abertas por uma
de evitar essa estranha locução, mas antes disso neces­ alteração do paradigma medieval. Galileu não recebeu
sitamos de mais um exemplo de seu uso - neste caso uma formação totalmente aristotélica. Ao contrário, foi
derivado de uma das partes mais conhecidas da obra treinado para analisar o movimento em termos da teoria
de Galileu. Desde a Antiguidade remota muitas pessoas do impetus, um paradigma do final da Idade Média que
haviam visto um ou outro objeto pesado oscilando de afirmava que o movimento contínuo de um corpo pe­
um lado para outro em uma corda ou corrente até che­ sado é devido a um poder interno, implantado no corpo
gar ao estado de repouso. Pard os aristotélicos - que pelo propulsor que iniciou seu movimento. João de Bu­
acreditavam que um corpo pesado é movido pela sua ridan e Nicolau Oresme, escolásticos do século XIV, que
própria natureza de uma posição mais elevada para uma deram à teoria do impetus as suas formulações mais per­
mais baixa, onde alcança um estado de repouso natu­ feitas, foram, ao que se sabe, os primeiros a ver nos
ral - o corpo oscilante estava simplesmente caindo com movimentos oscilatórios algo do que Galileu veria mais
dificuldade. Preso pela corrente, somente poderia alcan­ tarde nesses fenômenos. Buridan descreve o movimento
çar o repouso no ponto mais baixo de sua oscilação após de uma corda que vibra como um movimento no qual
um movimento tortuoso e um tempo considerável. Gali­ o impetus é implantado pela primeira vez quando a cor­
leu, por outro lado, ao olhar o corpo oscilante viu um da é golpeada; a seguir o impetus é consumido ao des­
pêndulo, um corpo que por pouco não conseguia repe­ locar a corda contra a resistência de sua tensão; a ten­
tir indefinidamente o mesmo movimento. Tendo visto são traz então a corda para a posição original, implan­
este tanto, Galileu observou ao mesmo tempo outras tando um impetus crescente até o ponto intermediário
propriedades do pêndulo e construiu muitas das partes do movimento; depois disso o impetus desloca a corda
mais significativas e originais de sua nova dinâmica a na direção oposta, novamente contra a tensão da corda.
partir delas. Por exemplo, derivou das propriedades do O movimento continua num processo simétrico, que po­
pêndulo seus únicos argu mentos sólidos e completos a de prolongar-se indefinidamente. Mais tarde, no mesmo
favor da independência do peso com relação à veloci­ século, Oresme esboçou uma análise similar da pedra
dade da queda, bem como a favor da relação entre o oscilante, análise que atualmente parece ter sido a pri­
peso vertical e a velocidade final dos movimentos des­ meira discussão do pêndulo. 12 Sua concepção é certa­
cendentes nos planos inclinados. 10 Galileu viu todos mente muito próxima daquela utilizada por Galileu na
esses fenômenos naturais de uma maneira diferente da­ sua abordagem do pêndulo. Pelo menos no caso de Ores­
quela pela qual tinham sido vistos anteriormente. me (e quase certamente no de Galileu), tratava-se de
Por que ocorreu essa alteração de visão? Por causa uma concepção que se tornou possível graças à transi­
do gênio individual de Galileu, sem dúvida alguma. Mas ção do paradigma aristotélico original relativo ao mo­
note-se que neste caso o gênio não se manifesta através vimento para o paradigma escolástico do impetus. Até
de uma observação mais acurada ou objetiva do corpo a invenção desse paradigma escolástico não havia pên­
oscilante. Do ponto de vista descritivo, a percepção dulos para serem vistos pelos cientistas, mas tão-so­
aristotélica é tão acurada como a de Galileu. Quando mente pedras oscilantes. Os pêndulos nasceram graças
este último informou que o período do pêndulo era inde­ a algo muito similar a uma alteração da forma visual
pendente da amplitude da oscilação (no caso das ampli­ induzida por paradigma.
tudes superiores a 90°), sua concepção do pêndulo le­
vou-o a ver muito mais regularidade d o que podemos Contudo, precisamos realmente descrever como
atualmente descobrir no mesmo fenômeno. 11 Em vez dis­ uma transformação da visão aquilo que separa Galileu
so, o que parece estar envolvido aqui é a exploração por de Aristóteles, ou Lavoisier de Priestley? Esses homens
realmente viram coisas diferentes ao olhar para o mes-
10. GALILEI, Galileo. Dialogues concernlng Two New Sclences. (Evans­
ton, Ili., 1946), pP. 80-81, 162-166, trad. H. Crew e A. de Salvio. 12. CLAGETT, M. The Science oi Mechanics in the Middle Ages.
11. Ibid., pp. 91-94, 244. (Madison, Wisc., 1959), pp. 537-538, 570.

154 155
mo tipo de objetos? Haverá algum sentido válido . no primeir.9 viu uma queda violenta e o segundo um pên­
qual possamos dizer que eles realizaram suas pesquis�s dulo. · As mesmas dificuldades estão presentes de uma
forma ainda mais fundamental nas frases iniciais deste
em mundos diferentes? Essas questões não podem mais capítulo: embora o mundo não mude com uma mudan­
ser postergadas, pois evidentemente existe uma outra ça de paradigma, depois dela o cientista trabalha em
maneira bem mais usual de descr.ever todos os exem­ um mundo diferente. Não obstante, estou convencido de
plos históricos esboçados acima.fMuitos leitores c�rta­ que devemos aprender a compreender o sentido de pro­
mente desejarão dizer que o que muda com o paradigma posições semelhantes a essa. O que ocorre durante uma
é apenas a interpretação que os �ientistas dão às obser­ revolução científica não é totalmente redutível a uma
vações que estão elas mesmas, fixadas de uma vez por reinterpretação de dados estáveis e individuais. Em pri­
todas pela natur�za do meio ambi�nte e pelo �parato meiro lugar, os dados não são inequivocamente está­
perceptivo. Dentro dess� p�rspecttv�, tanto Pnestley, veis. Um pêndulo não é uma pedra que cai e nem o
como Lavoisier viram oxigemo, mas mterpretaram suas oxigênio é ar desflogistizado. Conseqüentemente, os da­
observações de maneira diversa; tanto Aristóteles como dos que os cientistas coletam a partir desses diversos
Galileu viram pêndulos, mas diferiram nas interpreta- objetos são, como veremos em breve, diferentes em si
ções daquilo que tinham vistq. J mesmos. Ainda mais importante, o processo pelo qual
. Direi desde logo que esta concepção muito corren­ o indivíduo ou a comunidade levam a cabo a transi­
te do que ocorre quando os cientistas mudam su� m�­
neira de pensar a respeito de assuntos fundamentais nao ção da queda violenta para o pêndulo ou do ar des­
flogistizado para o oxigênio não se assemelha à inter­
pode ser nem totalmente errônea, nem ser um si�ples pretação. De fato, como poderia ser assim, dada a ausên­
engano. É antes uma parte essenci_al de um para�igma cia de dados fixos para o cientista interpretar? Em vez
iniciado por Descartes e desenvolvido �a mesma. epoca de ser um intérprete, o cientista que abraça um novo
que a dinâmica newto�iana._ Esse parad1gm� servm tan­ paradigma é como o homem que usa lentes inversoras.
to à Ciência como à Filosofia. Sua exploraçao, tal como Defrontado com a mesma constelação de objetos que
a da própria Dinâmica, produziu uma compreensão fun­ antes e tendo consciência disso, ele os encontra, não
damental que talvez não pudesse ser �lc_:1n�ada de ou!ra obstante totalmente transformados em muitos de seus
maneira. Mas como o exemplo da dmamica newtoma­ detalhç_§,/,o
na também indica, até mesmo o mais impressionante su­ Nenhuma dessas observações pretende indicar que
cesso no passado não garante que :1 crise J>?SSa ser pos­ os cientistas não se caracterizam por interpretar obser­
tergada indefinidamente. As pesqmsas atuais que se de­ vações e dados. Pelo contrário: Galileu interpretou as
senvolvem em setores da Filosofia, da Psicologia, da observações sobre o pêndulo. Aristóteles a sobre as
Lingüística e mesmo da História da Arte, con�e�gem pedras que caem, Musschenbroek aquelas relativas a
todas para a mesma sugestão: o paradigma trad1c1onal uma garrafa eletricamente carregada e Franklin as so­
está, de algum modo, equivocado. Além disso, essa bre um condensador. Mas cada uma dessas interpreta­
incapacidade para ajust�r-se aos dad� !�rna-se c_�a ções pressupôs um paradigma. Essas eram partes da
vez mais aparente atraves do estudo hi�tonco da ci�n­ ciência normal, um empreendimento que, como já vi­
cia, assunto ao qual dedicamos nec�ssanamente a maior mos visa refinar, ampliar e articular um paradigma que
parte de nossa atenção neste ensaio. já e�iste. O Cap. 2 forneceu muitos exemplos nos quais
Nenhum desses temas promotores de crises pr_odu­ a interpretação desempenhou um papel central. Esses
ziu até agora uma alternativa viável para o paradigm_a exegiplos tipificam a maioria esmagadora das pesqui­
epistemológico tradicional, mas já _começaram a s�genr sas.'. Em cada um deles, devido a um paradigma aceito,
quais serão algumas das características desse paradigma. o cientista sabia o que era um dado, que instrumentos
Estou, por exemplo, profundamente consciente das �i­ podiam ser usados para estabelecê-lo e que conceitos
ficuldades criadas pela afirmação de que, qua�do Aris­ eram relevantes para sua interpretação. t Dado um para-
tóteles e Galileu olharam para as pedras oscilantes, o
J 57
156
digma, a interpretação dos dados é essencial para o - e mais a resistência do meio - eram as categorias
empreendimento que o explora.
conceituais empreg�das pela ciência aristotélica quando
Esse empreendimento interpretativo - e mostrar se tratava de exammar a queda dos corpos.t4 A pesqui­
isso foi o encargo do penúltimo parágrafo - pode so­ sa normal por elas orientada não poderia ter produzido
mente articular um paradigma, mas não corrigi-lo. J>a-: as leis que Galileu descobriu. Poderia apenas - e foi o
radigmas não podem, de modo algum, ser corrigidos que fez, por outro caminho - levar à série de crises
pela ciência normal. Em lugar disso, como já vimos, _a das quais emergiu a concepção galileiana da pedra osci­
ciência normal leva, ao fim e ao cabo, apenas aore­ lante. Devido a essas crises e outras mudanças intelec­
conhecimento de anomalias e crises. Essas terminam, tuais, Galileu viu a pedra oscilante de forma absoluta­
não através da deliberação ou interpretação, mas por mente diversa. Os trabalhos de Arquimedes sobre os
meio de um evento relativamente abrupto e não-estru­ corpos flutuantes tornaram o meio algo inessencial; a
turado semelhante a uma alteração da forma visual. teoria do impetus tornou o movimento simétrico e du­
Nesse caso, os cientistas falam freqüentemente de "ven­ radouro; o neoplatonismo dirigiu a atenção de Galileu
das que caem dos olhos" ou de uma "iluminação re­ para a forma circular do movimento. 15 Por isso, ele me­
pentina" que "inunda" um quebra-cabeça que antes era dia apenas o peso, o raio, o deslocamento angular e o
obscuro, possibilitando que seus componentes sejam vis­ tempo por oscilação - precisamente os dados que po­
tos de uma nova ma · a - a qual, pela primeira vez, deriam ser interpretados de molde a produzir as leis de
permite sua solução. � Em outras ocasiões, a iluminação Galileu sobre o pêndulo. Neste caso, a interpretação de­
relevante vem duran e o sonho. 13 Nenhum dos sentidos monstrou ser quase desnecessária. Dados os paradigmas
habituais do termo "interpretação" ajusta-se a essas ilu­ de Galileu, as regularidades semelhantes ao pêndulo
minações da intuição através das quais nasce um novo eram quase totalmente acessíveis à primeira vista. Senão,
paradigma. Embora tais intuições dependam das expe­ como poderíamos explicar a descoberta de Galileu, se­
riências, tanto autônomas como congruentes, obtidas gundo a qual o período da bola do pêndulo é inteira­
através do antigo paradigma, não estão ligadas, nem ló­ mente independente da amplitude da oscilação, quando
gica, nem fragmentariamente a itens específicos dessas se sabe que a ciência normal proveniente de Galileu teve
experiências, como seria o caso de uma interpretação. que erradicar essa descoberta e que atualmente somos
Em lugar disso, as intuições reúnem grandes porções totalmente incapazes de documentá-la? Regularidades
dessas experiências e as transformam em um bloco de que não poderiam ter existido para um aristotélico ( e
experiências que, a partir daí, será gradativamente liga­ que, de fato, não são precisamente exemplificadas pela
do ao novo paradigma e não ao velho� natureza em nenhum lugar) eram, para um homem que
Para aprendermos mais a resp€tto do q_ue podem via a pedra oscilante do mesmo modo que Galileu, uma
ser essas diferenças, retornemos por um momento a conseqüência da experiência imediata.
Aristóteles, Galileu e o pêndulo. Que dados foram co­ Talvez o exemplo seja demasiadamente fantasista,
locados ao alcance de cada um deles pela interação de uma vez que os aristotélicos não deixaram qualquer· dis­
seus diferentes paradigmas e seu meio ambiente comum? cussão sobre as pedras oscilantes, fenômeno que no pa­
Ao ver uma queda forçada, o aristotélico mediria ( ou radigma destes era extraordinariamente complexo. Mas
pelo menos discutiria - o aristotélico raramente media) os aristotélicos discutiram um caso mais simples, o das
o peso da pedra, a altura vertical à qual ela fora eleva­ pedras que caem sem entraves incomuns. Nesse caso, as
da e o tempo necessário para alcançar o repouso. Essas mesmas diferenças de visão são evidentes. Ao contem­
plar a queda de uma pedra, Aristóteles via uma mudan-
13. [JACQUES] HADAMARD, Subconscient inluilion et loglque dans la
recherche scientl/lque (Con/érence /aile au P alais de la Dlcouverte le 14. KUHN, T. S. A Function for Thought Experi�e11ts. ln: Milange�
8 Dlumbre 1945 [Alençon, s.d.)), pp. 7-8. Um relato bem mais completo, Alexandre Koyré, ed. R. Taton e I. B. Cohen, publicado por Herman
embora restrito a inovações matemáticas, encontra-se no livro do mesmo (Paris) em 1963. .
autor, The Psychology oi lnvenlion in lhe Ma1hematical Field (Princeton, 15. A. Konl!, Eludes Galiléennes (Paris, 1939), I, 4��J Gallileo
3
1949). and Plato, lournal o/ lhe History o/ ldeas, IV, PP, 094 ).

158 159
ça de estado, mais do que um processo. Por conseguinte , riência de Galileu com a queda de pedras não foi o
para ele as medidas relevantes de um movimento eram mesmo da experiência realizada por Aristóteles.
a distância total percorrida e o tempo total transcorri­ Por certo não está de modo algum claro que pre­
do, parâmetros esses que produzem o que atualmente cisemos preocupar-nos tanto com a "experiência ime­
chamaríamos não de velocidade, mas de velocidade mé­ diata" - isto é, com os traços perceptivos que um pa­
dia.16 De maneira similar, por ser a pedra impulsionada radigma destaca de maneira tão notável que eles reve­
por sua natureza a alcançar seu ponto final de repouso, lam suas regularidades quase à primeira vista. Tais tra­
Aristóteles via, como parâmetro de distância relevante ços devem obviamente mudar com os compromissos do
para qualquer instante no decorrer do movimento, a cientista a paradigmas, mas estão longe do que temos
distância até o ponto final, mais do que aquela a partir em mente quando falamos dos dados não-elaborados ou
do ponto de origem do movimento.17 Esses parâmetros da experiência bruta, dos quais se acredita proceda a
conceituais servem de base e dão um sentido à maior pesquisa científica. Talvez devêssemos deixar de lado a
parte de suas bem conhecidas "leis do movimento". experiência imediata e, em vez disso, discutir as opera­
Entretanto, em parte devido ao paradigma do impetus ções e medições concretas que os cientistas realizam em
e em parte devido a uma doutrina conhecida como a seus laboratórios. Ou talvez a análise deva distanciar-se
latitude das formas, a crítica escolástica modificou essa ainda mais do imediatamente dado. Por exemplo, po­
maneira de ver o movimento. Uma pedra movida pelo deria ser levada a cabo em termos de alguma linguagem
impetus recebe mais e mais impetus ao afastar-se de de observação neutra, talvez uma linguagem ajustada
seu ponto de partida; por isso, o parâmetro relevante às impressões de retina que servem de intermediário
passou a ser a distância a partir do, em lugar da distân­ para aquilo que o cientista vê. Somente procedendo de
cia até o. Além disso, os escolásticos bifurcaram a no­ uma dessas maneiras é que podemos ter a esperança de
ção aristotélica de velocidade em conceitos que, pouco reaver uma região na qual a experiência seja novamen­
depois de Galileu, se tornaram as nossas velocidades te estável, de uma vez para sempre - na qual o pên­
média e velocidade instantânea. Mas, quando examina­ dulo e a queda violenta não são percepções diferentes,
dos a partir do paradigma do qual essas concepções fa­ mas interpretações diferentes de dados inequívocos, pro­
ziam parte, tanto a pedra que cai, como o pêndulo, exi­ porcionados pela observação de uma pedra que oscila.
bíam as leis que os regem quase à primeira vista. Ga­ Mas a experiência dos sentidos é fixa e neutra?
lileu não foi o primeiro a sugerir que as pedras caem Serão as teorias simples interpretações humanas de de­
em movimento uniformemente acelerado.18 Além disso, terminados dados? A perspectiva epistemológica que
ele desenvolvera seu teorema sobre este assunto, junta­ mais freqüentemente guiou a filosofia ocidental durante
mente com muitas de suas conseqüências, antes de rea­ três séculos impõe um "sim!" imediato e inequívoco.
lizar suas experiências com o plano inclinado. Esse teo­ Na ausência de uma alternativa já desdobrada, conside­
rema foi mais um elemento na rede de novas regulari­ ro impossível abandonar inteiramente essa perspectiva.
Todavia ela já não funciona efetivamente e as tentativas
dades, acessíveis ao gênio, em um mundo conjunta­ para fazê-la funcionar por meio da introdução de uma
mente determinado pela natureza e pelos paradigmas linguagem de observação neutra parecem-me agora sem
com os quais Galileu e seus contemporâneos haviam sido esperança.
educados. Vivendo em tal mundo, Galileu ainda pode­ As operações e medições que um cientista empreen­
ria, quando quisesse, explicar por que Aristóteles vira de em um laboratório não são "o dado" da experiência,
o que viu. Não obstante, o conteúdo imediato da expe- mas "o coletado com dificuldade". Não são o que o
cientista vê - pelo menos até que sua pesquisa se encon­
16. KuHN. A Function for Thought EXJ)C'l'iments. ln: Mé/anges Ale­ tre bem adiantada e sua atenção esteja focalizada -;
xandre Koyré (ver nota 14 para uma citação completa).
17. Konli. Etudel Ga/i/éennes. II, pp. 7-11. são índices concretos para os conteúdos das percepçõe s
18. CLAOE'IT. Op. cll. Caps. IV, VI e IX. mais elementares. Como tais, são selecionadas para 0

160 161
exame mais detido da pesquisa normal, tão-somente por­ tivos. Em alguns campos do discurso esse esforço foi
que parecem oferecer uma oportunidade para a elabo­ levado bem longe, com resultados bastante fascinantes.
ração frutífera de um paradigma aceito. As operações Está fora de dúvida que esforços desse tipo merecem
e medições, de maneira muito mais clara do que a expe­ ser levados adiante. Mas seu resultado é uma linguagem
riência imediata da qual em parte derivam, são deter­ que - tal como aquelas empregadas nas ciências -
minadas por um paradigma. A ciência não se ocupa com expressam inúmeras expectativas sobre a natureza e dei­
todas as manifestações possíveis no laboratório. Ao invés xam de funcionar no momento em que essas expectati­
disso, seleciona aquelas que são relevantes para a jus­ vas são violadas. Nelson Goodman insiste precisamente
taposição de um paradigma com a experiência imediata , sobre esse ponto ao descrever os objetivos do seu Struc­
a qual, por sua vez, foi parcialmente determinada por ture of Appearance: "É afortunado que nada mais (do
esse mesmo paradigma. Disso resulta que cientistas com que os fenômenos conhecidos) esteja em questão; já
paradigmas diferentes empenham-se em manipulações a noção de casos "possíveis", casos que não existem,
concretas de laboratório diferentes. As medições que de­ mas poderiam ter existido, está longe de ser clara".19
vem ser realizadas no caso de um pêndulo não são re­ Nenhuma linguagem limitada desse modo a relatar um
levantes no caso da queda forçada. Tampouco as ope­ mundo plenamente conhecido de antemão pode produ­
rações relevantes para a elucidação das propriedades do zir meras informações neutras e objetivas sobre "o da­
oxigênio são precisamente as mesmas que as requeri­ do". A investigação filosófica ainda não forneceu nem
das na investigação das características do ar desflogisti­ sequer uma pista do que poderia ser uma linguagem ca­
zado. paz de realizar tal tarefa.
Quanto a uma linguagem de observação pura, tal­ Nessas circunstâncias, podemos pelo menos suspei­
vez ainda se chegue a elaborar uma. Mas, três séculos tar de que os cientistas têm razão, tanto em termos de
após Descartes, nossa esperança que isso ocorra ainda princípio como na prática, quando tratam o oxigênio e
depende exclusivamente de uma teoria da percepção e os pêndulos (e talvez também os átomos e elétrons) co­
do espírito. Por sua vez, a experimentação psicológica mo i!}_gredientes fundamentais de sua experiência ime­
moderna está fazendo com que proliferem rapidamente diata.\O mundo do cientista, devido à experiência da
fenômenos que essa teoria tem grande dificuldade em raça, da cultura e, finalmente, da profissão, contida no
tratar. O pato-coelho mostra que dois homens com as paradigma, veio a ser habitado por planetas e pêndulos,
mesmas impressões na retina podem ver coisas diferen­ condensadores e minerais compostos e outros corpos do
tes; as lentes inversoras mostram que dois homens com mesmo tipo. Comparadas com esses objetos da percep­
impressões de retina diferentes podem ver a mesma coi­ ção, tanto as leituras de um medidor como as impressões
sa. A Psicologia fornece uma grande quantidade de evi­
dência no mesmo sentido e as dúvidas que dela derivam de retina são construções elaboradas às quais a experiên­
aumentam ainda mais quando se considera a história das cia somente tem acesso direto quando o cientista, tendo
tentativas para apresentar uma linguagem de observa­ em vista os objetivos especiais de sua investigação, pro­
ção efetiva. Nenhuma das tentativas atuais conseguiu videncia para que isso ocorra.}�Não queremos com isso
até agora aproximar-se de uma linguagem de objetos de sugerir que os pêndulos, por exemplo, sejam a única
percepção puros, aplicável de maneira geral. E as ten­
19. N. GOODMAN, The Structure of Appearance (Cambridge, Mass.,
tativas que mais se aproximaram desse objetivo com­ 1951), pp. 4-5. A passagem merece uma citação extensa: "Se todos os
partilham uma característica que reforça vigorosamente indivíduos (e somente esses) residentes de Wilmington em 1947 que pesam
entre 175 e 180 libras têm cabelos ruivos, então "o residente de Wihnington
diversas das teses principais deste ensaio. Elas pressu­ em 1947 que tem cabelos ruivos" e "o residente de Wilmington em 1947
que pesa entre 175 e 180 libras" podem ser reunidos numa definição
põem, desde o início, um paradigma, seja na forma de construída (constructional definition) ... A questão de saber se "pode
uma teoria científica em vigor, seja na forma de algu­ ter havido" alguém a quem se aplica um desses predicados, mas não
o outro, não tem sentido . . . uma vez que tenhamos determinado que
ma fração do discurso cotidiano; tentam então depurá­ tal indivíduo não existe . . . � uma sorte de que nada mais_ esteja em
Questão; pois a noção de casos "'possíveis", de casos que nao eX15lem,
lo de todos os seus termos não-lógicos ou não-percep- mas poderiam ter existido, está longe de ser clara"'.

162 ]63
coisa que um cientista poderá ver ao olhar uma pedra Os paradigm�A de_terminam ao mesmo tempo grandes
oscilante. (Já observamos que membros de outra co­ áreas da expenencia.
munidade científica poderiam ver uma queda forçada). Contudo, é somente após a experiência ter sido de­
Queremos sugerir que o cientista que olha para a osci­ terminada dessa maneira que pode começar a busca de
lação de uma pedra não pode ter nenhuma experiência uma definição operacional ou de uma linguagem de
que seja, em princípio, mais elementar que a visão de observação pura. O cientista ou filósofo, que pergunta
um pêndulo. A alternativa não é uma hipotética visão que medições ou impressões da retina fazem do pêndulo
"fixa", mas a visão através de um paradigma que trans­ o que ele é, já deve ser capaz de reconhecer um pêndulo
forme a pedra oscilante em alguma outra coisa. quando o vê. Se, em lugar do pêndulo ele visse uma
Tudo isso parecerá mais razoável se recordarmos queda forçada, sua questão nem mesmo poderia ter sido
mais uma vez que, nem o cientista, nem o leigo apren­ feita. E se ele visse um pêndulo, mas o visse da mesma
dem a ver o mundo gradualmente ou item por item. maneira com Que vê um diapasão ou uma balança de
A não ser quando todas as categorias conceituais e de vibração, sua questão não poderia ter sido respondida.
manipulação estão preparadas de antemão - por exem­ Pelo menos não poderia ter sido respondida da mesma
plo, para a descoberta de um elemento transurânico maneira, porque já não se trataria da mesma questão.
adicional ou para captar a imagem de uma nova casa - Por isso, embora elas sejam sempre legítimas e em de­
tanto os cientistas como os leigos deixam de lado áreas terminadas ocasiões extraordinariamente frutíferas, as
inteiras do fluxo da experiência. A criança que trans­ questões a respeito das impressões da retina ou sobre
fere a aplicação da palavra "mamãe" de todos os seres as conseqüências de determinadas manipulações de la­
humanos para todas as mulheres e então para a sua mãe boratório pressupõem um mundo já subdividido percep­
não está apenas aprendendo o que "mamãe" significa tual e conceitualmente de acordo com uma certa manei­
ou quem é a sua mãe. Simultaneamente, está aprenden­ ra. Num certo sentido, tais questões são partes da ciên­
do algumas das diferenças entre homens e mulheres, cia normal, pois dependem da existência de um para­
bem como algo sobre a maneira na qual todas as mu­ digma e recebem respostas diferentes quando ocorre uma
lheres, exceto uma, comportam-se em relação a ela. mudança de paradigma.
Suas reações, expectativas e crenças - na verdade, Para concluir este capítulo, vamos daqui para dian­
grande parte de seu mundo percebido - mudam de te negligenciar as impressões da retina e restringir no­
acordo com esse aprendizado. Pelo mesmo motivo, os vamente nossa atenção às operações de laboratório que
copernicanos que negaram ao Sol seu título tradicional fornecem ao cientista índices concretos, embora frag­
de "planeta" não estavam apenas aprendendo o que mentários, para o que ele já viu. Uma das maneiras
"planeta" significa ou o que era o Sol. Em lugar disso, pelas quais tais operações de laboratório mudam junta­
estavam mudando o significado de "planeta", a fim de mente com os paradigmas já foi observada repetidas ve­
que essa expressão continuasse sendo c�paz de estabe­ zes. Após uma revolução científica, muitas manipulações
e medições antigas tornam-se irrdevantes e são substi­
lecer distinções úteis num mundo no qual todos os cor­ tuídas por outras. Não se aplicam exatamente os mes­
pos celestes e não apenas o Sol estavam sendo vistos de mos testes para o oxigênio e para o ar desflogisti�o.
uma maneira diversa daquela na qual haviam sido vis­ Mas mudanças dessa espécie nunca são totais. 1Não
tos anteriormente. A mesma coisa poderia ser dita a importa o que o cientista possa então ver, após a revo­
respeito de qualquer um dos nossos exemplos anterio­ lução o cientista ainda está olhando para o mesmo mun­
res. Ver o oxigênio em vez do ar desflogistizado, o con­ do. Além disso, grande parte de sua linguagem e a maior
densador em vez da Garrafa de Leyden ou o pêndulo parte de seus instrumentos de laboratório continuam
em vez da queda forçada, foi somente uma parte de sendo os mesmos de antes, embora anteriormente ele os
uma alteração integrada na visão que o cientista possuía possa ter empregado de maneira diferent;J Em conse­
de muitos fenômenos químicos, elétricos ou dinâmicos. qüência disso, a ciência pós-revolucionária invariavel-

164 165
mente mcluí mmtas das mesmas manipulações, realiza­ Dalton, deixou de ser familiar. Os químicos do século
das com os mesmos instrumentos e descritas nos mes­ XVIII reconheciam duas espécies de processos. Quando
mos termos empregados por sua predecessora pré-revo­ a mistura produzia calor, luz, efervescência ou alguma
lucionária. Se alguma mudança ocorreu com essas ma­ coisa da mesma espécie, considerava-se que havia ocor­
nipulações duradouras, esta deve estar nas suas rela­ rido a união química. Se, por outro lado, as partículas
ções com o paradigma ou nos seus resultados concretos. da mistura pudessem ser distinguidas a olho nu ou se­
Sugiro agora, com a introdução de um último exemplo, paradas mecanicamente, havia apenas mistura física.
que todas essas duas espécies de mudança ocorrem. Exa­ Mas, para o grande número de casos intermediários -
minando a obra de Dalton e seus contemporâneos, des­ o sal na água, a fusão de metais, o vidro, o oxigênio
cobriremos que uma e a mesma operação, quando vin­ na atmosfera e assim por diante - esses critérios gros­
culada à natureza por meio de um paradigma diferen­ seiros tinham pouca utilidade. Guiados por seu para­
te, pode tornar-se um índice para um aspecto bastante digma, a maioria dos químicos concebia essa faixa inter­
diferente de uma regularidade da natureza. Além disso, mediária como sendo química, porque os processos que
veremos que ocasionalmente a antiga manipulação, no a compunham eram todos governados por forças da mes­
seu novo papel, produzirá resultados concretos dife­ ma espécie. Sal na água ou oxigênio no nitrogênio eram
rentes. exemplos de combinação química tão apropriados co­
Durante grande parte do século XVIII e mesmo mo a combinação produzida pela oxidação do cobre.
no XIX, os químicos europeus acreditavam quase uni­ Os argumentos para que se concebesse as soluções co­
versalmente que os átomos elementares, com os quais mo compostos eram muito fortes. A própria teoria da
eram constituídas todas as espécies químicas, se manti­ afinidade fora bem confirmada. Além disso, a forma­
nham unidos por forças de afinidade mútuas. Assim, ção de um composto explicava a homogeneidade obser­
uma massa iniforme de prata mantinha-se unida devido vada numa solução. Se, por exemplo, o oxigênio e o
às forças de afinidade entre os corpúsculos de prata nitrogênio fossem somente misturados e não combina­
(mesmo depois de Lavoisier esses corpúsculos eram pen­ dos na atmosfera, então o gás mais pesado, o oxigênio,
sados como sendo compostos de partículas ainda mais deveria depositar-se no fundo. Dalton, que considerava
elementares). Dentro dessa mesma teoria, a prata dis­ a atmosfera uma mistura, nunca foi capaz de explicar
solvia-se no ácido (ou o sal na água) porque as partí­ satisfatoriamente por que o oxigênio não se comportava
culas de ácido atraíam as da prata (ou · as partículas dessa maneira. A assimilação de sua teoria atômica aca­
de água atraíam as de sal) mais fortemente do que as bou criando uma anomalia onde anteriormente não ha­
partículas desses solutos atraíam-se mutuamente. Ou via nenhuma.21
ainda: o cobre dissolver-se-ia numa solução de prata Somos tentados a afirmar que os químicos que con­
e precipitado de prata porque a afinidade cobre-ácido cebiam as soluções como compostos diferiam de seus
era maior que a afinidade entre o ácido e a prata. Um antecessores somente quanto a uma questão de defini­
grande número de outros fenômenos era explicado da ção. Em um certo sentido, pode ter sido assim. Mas
mesma maneira. No século XVIII, a teoria da afinida­ esse sentido não é aquele que faz das definições meras
de eletiva era um paradigma químico admirável, larga comodidades convencionais. No século XVIII, as mis­
e algumas vezes frutíferamente utilizado na concepção turas não eram plenamente distinguíveis dos compostos
e análise da experimentação química. 20 através de testes operacionais e talvez não pudessem
Entretanto, a teoria da afinidade traçou os limites sê-lo. Mesmo se os químicos tivessem procurado desco­
separando as misturas físicas dos compostos químicos, brir tais testes, teriam buscado critérios que fizessem
de uma maneira que, desde a assimilação da obra de da solução um composto. A distinção mistura-composto
21. lbid., pp. 124-129, 139-148. No tocante a Dalton? ve_r LEONARD
20. METZGER, H. NewMn, Stahl, Boerhaave e/ la doctrine chimique. NASH, The Atomlc-Molecular Theory ("Harvard Case H1stone:4-� Ex-
(Paris, 1930), pp. 34-68. perimental Science", Case 4; Cambridge, Mass., 19SO), PP·

166 167
fazia parte de seu paradigma - parte da maneira como vando à sua famosa teoria atômica para a Química.
os químicos concebiam todo seu campo de pesquisas Mas até os últi l}lo� estágios dessas investigações, Dalton
- e como tal ela era anterior a qualquer teste de la­ não era um qmm1co e nem estava interessado em Quí­
boratório, embora não fosse anterior à experiência acu­ mica. Era um meteorologista investigando o que para
mulada da . Química como um todo. ele eram os problemas físicos da absorção de gases pela
Mas enquanto a Química era concebida dessa ma­ água e da água pela atmosfera. Em parte porque fora
neira, os 'fenômenos químicos exemplificavam leis dife­ treinado numa especialidade diferente e em parte devi­
rentes daquelas que emergiram após a assimilação do do a seu próprio trabalho nessa especialidade, Dalton
novo paradigma de Dalton. Mais especificamente, abordou esses problemas com um paradigma diferente
enquanto as soluções permaneceram como compostos, daquele empregado pelos químicos seus contemporâneos.
nenhuma quantidade de experiências químicas poderia Mais particularmente, concebeu a mistura de gases ou
ter produzido por si mesma a lei das proporções fixas. a absorção de um gás pela água como um processo fí­
Ao final do século XVIII era amplamente sabido que sico, no qual as forças de afinidade não desempenhavam
a/,guns compostos continham comumente proporções fi­ nenhum papel. Por isso, para ele, a homogeneidade que
xas, correspondentes ao peso de seus componentes. O fora observada nas soluções era um problema, mas um
químico alemão Richter chegou mesmo a notar, para problema que ele pensava poder resolver caso pudesse
algumas categorias de reações, as regularidades adicio­ determinar os tamanhos e os pesos relativos das várias
nais atualmente abarcadas pela lei dos equivalentes quí­ partículas atômicas nas suas misturas experimentais. Foi
micos.22 No entanto nenhum químico fez uso dessas re­ para determinar esses tamanhos e pesos que Dalton se
gularidades, exceto em receitas e, quase até o fim do voltou finalmente para a Química, supondo desde o iní­
século, nenhum deles pensou em generalizá-las. Dados cio que, no âmbito restrito das reações que considera­
os contra-exemplos óbvios, como o vidro e o sal na água, va químicas, os átomos somente poderiam combinar-se
nenhuma generalização era possível sem o abandono da numa proporção de um para um ou em alguma outra
teoria da afinidade e uma reconceptualização dos limi­ proporção de simples números inteiros.24 Esse pressu­
tes dos domínios da Química. Essa conclusão tornou-se posto inicial permitiu-lhe determinar os tamanhos e os
explícita ao final do século, num famoso debate entre pesos das partículas elementares, mas também fez da lei
os químicos franceses Proust e Berthollet. O primeiro das proporções constantes uma tautologia. Para Dalton,
sustentava que todas as reações químicas ocorriam se­ qualquer reação na qual os ingredientes não entrassem
gundo proporções fixas; o segundo negava que isso em proporções fixas não era, ipso facto, um processo
ocorresse. Ambos reuniram evidências experimentais puramente químico. Uma lei que as experiências não
impressionantes em favor de sua concepção. Não obstan­ poderiam ter estabelecido antes dos trabalhos de Dalton,
te, os dois mantiveram um diálogo de surdos e o deba­ tornou-se, após a aceitação destes, num princípio consti­
te foi totalmente inconclusivo. Onde Berthollet via um tutivo que nenhum conjunto isolado de medições quí­
composto que podia variar segundo proporções, Proust micas poderia ter perturbado. Em conseqüência daquilo
via apenas uma mistura física.23 Nem experiências, nem que talvez seja o nosso exemplo mais completo de uma
uma mudança nas convenções de definição poderiam ser revolução científica, as mesmas manipulações químicas
relevantes para essa questão. Os dois cientistas divergiam assumiram uma relação com a generalização química
tão fundamentalmente como Galileu e Aristóteles. muito diversa daquela que anteriormente tinham.
Essa era a situação que prevalecia quando John
Dahon empreendeu as investigações que acabaram le-
:e desnecessário dizer que as conclusões de Dalton
foram amplamente atacadas ao serem anunciadas pela
22. PARTINOTON, J. R. A Short History of Chemistry. (2. ed.; Londre5, primeira vez. Berthollet, sobretudo, nunca foi conven-
1951), pp. 161-163.
23. MELDRUM, A. N. The Development of the Atomic Theory: (1)
Berthollet's Doctrine of Variable Proportions. ln: Manchester Memoirs, 24. NAsH L. K. The Origin of Dalton's Chemical Atomic Theory.
LIV (1910), pp. 1-16. lsi!, XLVII, pp. 101-116 (1956).

168 169
cido. Considerando-se a natureza da questão, não era se ajustavam a ela, mas dificilmente poderia ter deixado
preciso convencê-lo. Mas para a maior parte dos quími­ de enc�n:,rar outra� q�e não se ajustavam. Por exemplo,
cos, o novo paradigma de Dalton demonstrou ser con­ as med1çoes do propno Proust sobre os dois óxidos de
v�cente. onde o de Proust não o fora, visto ter implica­ cobre indicaram uma proporção de peso de oxigênio de
çoes muito mais amplas e mais importantes do que um 1,47: 1, em lugar dos 2: 1 exigidos pela teoria atômica;
critério para distinguir uma mistura de um composto. e Proust é precisamente o homem do qual poderíamos
Se, por exemplo, os átomos somente podiam combinar-se esperar que chegasse à proporção de Dalton.26 Ele era
quimicamente segundo proporções simples de números um excelente experimentador e sua concepção da rela­
inteiros, então um reexame dos dados químicos existen­ ção entre misturas e compostos era muito próxima da
tes deveria revelar tanto exemplos de proporções múl­ de Dalton. Mas é difícil fazer com que a natureza se
tiplas como de proporções fixas. Os químicos deixaram ajuste a um paradigma. É por isso que os quebra-cabe­
de escrever que os dois óxidos de, por exemplo, carbo­ ças da ciência normal constituem tamanho desafio e as
no, continham 56 por cento e 72 por cento de oxigênio medições realizadas sem a orientação de um paradigma
por peso; em lugar disso, passaram a escrever que um raramente levam a alguma conclusão. Por isso, os quí­
peso de carbono combinar-se-ia ou com 1,3 ou com 2 6 micos não poderiam simplesmente aceitar a teoria de
pesos de oxigênio. Quando os resultados das antigas m;­ Dalton com base nas evidências existentes, já que uma
nípulações foram computados dessa maneira, saltou à grande parte destas ainda era negativa. Em lugar disso,
vista uma proporção de 2: 1. Isso ocorreu na análise de mesmo após a aceitação da teoria, eles ainda tinham qué
muitas reações bem conhecidas, bem como na de algu­ forçar a natureza e conformar-se a ela, processo que no
mas reações novas. Além disso, o paradigma de Dalton caso envolveu quase toda uma outra geração. Quando
tornou possível a assimilação da obra de Richter e a isto foi feito, até mesmo a percentagem de composição
percepção de sua ampla generalidade. Sugeriu também de compostos bem conhecidos passou a ser diferente.
novas experiências, especialmente as de Gay-Lussac so­ 0:, próprios dados haviam mudado. Este é o último dos
bre a combinação de volumes, as quais tiveram como sentidos no qual desejamos dizer que, após uma revo­
resultado novas regularidades, com as quais os cien­ mção, os cientistas trabalham em um mundo diferente.
tistas nunca haviam sonhado antes. O que os químicos
tomaram de Dalton não foram novas leis experimentais,
m�s uma nova maneira de praticar a Química ( ele pró­
prio chamou-a de "novo sistema de filosofia química"),
que se !evelou tão frutífera que somente alguns quími­
cos mais velhos, na França e na Grã-Bretanha, foram
capazes
, .
de opor-se a ela.
. Em conseqüência disso' os
25
qmm1cos passaram a viver em um mundo no qual as
reações químicas se comportavam de maneira bem diver-
sa do que tinham feito anteriormente.
Enquanto tudo isso se passava, ocorria uma outra
mudança típica e muito importante. Aqui e ali, os pró­
prios dados numéricos da Química começaram a mudar.
Quando Dalton consultou pela primeira vez a literatu­
ra química em busca de dados que corroborassem sua
teoria física, encontrou alguns registros de reações que 26. Quanto a Proust, ve·r MELDRUM, llerthollet's Doctrine oi Variable
Proportions, Manchester Memoirs, LIV (1910), p. 8. A história detalhada
25: MELDRUM, A. N. The Development of the Atomic Theory: (6) das mudanças graduais nas medições da composição química e dos pesos
Recept_1on Accorded to the Theory Advocated by Dalton. ln: Manchester atômicos ainda está por ser escrita' mas PARTINGTON, op cit., fornece
muitas indicações úteis.
Memom, LV, (1911), pp. 1-10.

171
170
10. A INVISIBILIDADE DAS REVOLUÇÕES

Ainda nos resta perguntar como terminam as re­


voluções científicas. No entanto, antes de fazê-lo, pare­
ce necessário realizar uma última tentativa no sentido
de reforçar a convicção do leitor quanto à sua existên­
cia e natureza. Tentei até aqui descrever as revoluções
através de ilustrações: tais exemplos podem multiplicar­
se ad nauseam. Mas é claro que a maior parte das ilus­
trações, que foram selecionadas por sua familiaridade,
são habitualmente consideradas, não como revoluções,
mas como adições ao conhecimento científico. Poder­
se-ia considerar qualquer ilustração suplementar a par­
tir dessa perspectiva e é provável que o exemplo resul­
tasse ineficaz. Creio que existem excelentes razões para
173
que as revoluções sejam quase totalmente invisíveis. No Cap. 1 observamos que uma confiança crescen­
Grande parte da imagem que cientistas e leigos têm da te nos manuais ou seus equivalentes era invariavelmente
atividade científica criadora provém de uma fonte auto­ concomitante com a emergência do primeiro paradigma
ritária que disfarça sistematicamente - em parte devi­ em qualquer domínio da ciência. No capítulo final deste
do a razões funcionais importantes - a existência e o ensaio, argumentaremos que a dominação de uma ciên­
significado das revoluções científicas. Somente após o cia amadurecida por tais textos estabelece uma diferen­
reconhecimento e a análise dessa autoridade é que po­ ça significativa entre o seu padrão de desenvolvimento
deremos esperar que os exemplos históricos passem a e aquele de outras disciplinas. No momento, vamos sim­
ser plenamente efetivos. Além disso, embora este ponto plesmente assumir que, numa extensão sem precedentes
só possa ser completamente desenvolvido na conclusão em outras áreas, os conhecimentos científicos dos pro­
deste ensaio, a análise aqui exigida começará a indicar fissionais, bem como os dos leigos, estão baseados nos
um dos aspectos que mais claramente distingue o tra­ manuais e em alguns outros tipos de literatura deles de­
balho científico de qualquer outro empreendimento cria­ rivada. Entretanto, sendo os manuais veículos pedagógi­
dor, com exceção, talvez, da Teologia. cos destinados a perpetuar a ciência normal, devem ser
Quando falo de fonte de autoridade, penso sobre­ parcial ou totalmente reescritos toda vez que a lingua­
tudo nos principais manuais científicos, juntamente com gem, a estrutura dos problemas ou as normas da ciên­
os textos de divulgação e obras filosóficas moldadas na­ cia normal se modifiquem. Em suma, precisam ser rees­
queles. Essas três categorias - até recentemente não critos imediatamente após cada revolução científica e,
dispúnhamos de outras fontes importantes de informa­ uma vez reescritos, dissimulam inevitavelmente não só
ção sobre a ciência, além da prática da pesquisa - o papel desempenhado, mas também a própria existên­
possuem uma coisa em comum. Referem-se a um corpo cia das revoluções que os produziram. A menos que te­
já articulado de problemas, dados e teorias e muito fre­ nha experimentado pessoalmente uma revolução duran­
qüentemente ao conjunto particular de paradigmas acei­ te sua vida, o sentido histórico do cientista ativo ou do
tos p ela comunidade científica na época em que esses leitor não-especializado em literatura de manual englo­
textos foram escritos. Os próprios manuais pretendem bará somente os resultados mais recentes das revoluções
comunicar o vocabulário e a sintaxe de uma linguagem ocorridas em seu campo de interesse.
científica contemporânea. As obras de divulgação ten­ , Deste modo, os manuais começam truncando a
tam descrever essas mesmas aplicações numa linguagem compreensão do cientista a respeito da história de sua
mais próxima da utilizada na vida cotidiana. E a Filo­ própria disciplina e em seguida fornecem um substitu­
sofia da Ciência, sobretudo aquela do mundo de língua to para aquilo que eliminaram. É característica dos ma­
inglesa, analisa a estrutura lógica desse corpo completo nuais científicos conterem apenas um pouco de história,
de conhecimentos científicos. Embora um tratamento seja um capítulo introdutório, seja, como acontece mais
mais completo devesse necessariamente lidar com as dis­ freqüentemente, em referências dispersas aos grandes he­
tinções muito reais entre esses três gêneros, suas seme­ róis de uma época anterior. Através dessas referências,
lhanças são o que mais nos interessam aqui. Todas elas tanto os estudantes como os profissionais sentem-se par­
registram o resultado estável das revoluções passadas e ticipando de uma longa tradição histórica. Contudo, a
desse modo põem em evidência as bases da tradição cor­ tradição derivada dos manuais, da qual os cientistas sen­
rente da ciência normal. Para preencher sua função não tem-se participantes, jamais existiu. Por razões ao mes­
é necessário que proporcionem informações autênticas mo tempo óbvias e muito funcionais, os manuais cien­
a re5peito do modo pelo qual essas bases foram inicial­ tíficos (e muitas das antigas histórias da ciência) refe­
mente reconhecidas e posteriormente adotadas pela pro­ rem-se somente àquelas partes do trabalho de antigos
fissão. Pelo menos no caso dos manuais, existem até cientistas que podem facilmente ser consideradas como
mesmo boas razões para que sejam sistematicamente contribuições ao enunciado e à solução dos problemas
enganadores nesses assuntos. apresentados pelo paradigma dos manuais. Em parte por
175
174
;eleção e em parte por distorção, os cientistas de épocas examinam retrospectivamente suas próprias pesquisas.
anteriores são implicitamente representados como se ti­ Por exemplo, os três informes incompatíveis de Dalton
o1essem trabalhado sobre o mesmo conjunto de problemas sobre o desenvolvimento do seu atomismo químico dão
fixos e utilizado o mesmo conjunto de cânones estáveis a impressão de que ele estava interessado desde muito
que a revolução mais recente em teoria e metodologia cedo, precisamente naqueles problemas químicos refe­
científica fez parecer científicos. Não é de admirar que rentes às proporções de combinação, cuja posterior so­
os manuais e as tradições históricas neles implícitas te­ lução o tornaria famoso. Na realidade, esses problemas
nham que ser reescritas após cada revolução científica. parecem ter-lhe ocorrido juntamente com suas soluções
Do mesmo modo, não é de admirar que, ao ser reescri­ e, mesmo assim, não antes que seu próprio trabalho
ta, a ciência apareça, mais uma vez, como sendo basica­ criador estivesse quase totalmente completado. 1 O que
mente cumulativa. todos os relatos de Dalton omitem são os efeitos revo­
Por certo os cientistas não são o único grupo que lucionários resultantes da aplicação da Química a um
tende a ver o passado de sua disciplina como um de­ conjunto de questões e conceitos anteriormente restritos
senvolvimento linear em direção ao ponto de vista pri­ à Física e à Meteorologia. Foi isto que Dalton fez; o
vilegiado do presente. A tentação de escrever a histó­ resultado foi uma reorientação no modo de conceber a
ria passada a partir do presente é generalizada e pere­ Química, reorientação que ensinou aos químicos como
ne. Mas os cientistas são mais afetados pela tentação colocar novas questões e retirar conclusões novas de da­
de reescrever a história, em parte porque os resultados dos antigos.
da pesquisa científica não revelam nenhuma dependên­ Um outro exemplo: Newton escreveu que Gallieu
cia óbvia com relação ao contexto histórico da pesqui­ descobrira que a força constante da gravidade produz
sa e em parte porque, exceto durante as crises e as re­ um movimento proporcional ao quadrado do tempo. De
voluções, a posição contemporânea do cientista parece fato, o teorema cinemático de Galileu realmente toma
muito segura. Multiplicar os detalhes históricos sobre o essa forma quando inserido na matriz dos próprios con­
presente ou o passado da ciência, ou aumentar a impor­ ceitos dinâmicos de Newton. Mas Galileu não afirmou
tância dos detalhes históricos apresentados, não conse­ nada desse gênero. Sua discussão a respeito da queda
guiria mais do que conceder um status artificial à idios­ dos corpos raramente alude a forças e muito menos a
sincrasia, ao erro e à confusão humanos. Por que hon­ uma força gravitacional uniforme que causasse a queda
rar o que os melhores e mais persistentes esforços da dos corpos.2 Ao atribuir a Galileu a resposta a uma
ciência tornaram possível descartar? A depreciação dos questão que os paradigmas de Galileu não permitiam
fatos históricos está profunda e provavelmente funcio­ colocar, o relato de Newton esconde o efeito de uma
nalmente enraizada na ideologia da profissão cientüi­ pequena mas revolucionária reformulação nas questões
ca, a mesma profissão que atribui o mais alto valor pos­ que os cientistas colocavam a respeito do movimento,
sível a detalhes fatuais de outras espécies. Whitehead bem como nas respostas que estavam dispostos a admi­
captou o espírito a-histórico da comunidade científica tir. Mas é justamente essa mudança na formulação de
ao escrever: "A ciência que hesita em esquecer seus fun­ perguntas e respostas que dá conta, bem mais do que
dadores está perdida". Contudo, Whitehead não estava as novas descobertas empíricas, da transição da Dinâmi­
absolutamente correto, visto que as ciências, como outros ca aristotélica para a de Galileu e da de Galileu para
empreendimentos profissionais, necessitam de seus heróis a de Newton. Ao disfarçar essas mudanças, a tendência
e 1everenciam suas memórias. Felizmente, em vez de
esquecer esses heróis, os cientistas têm esquecido ou re­ 1. NASH, L. K. Toe, Origins of Dalton's Chemical Atomio Theory.
lsi,, XLVII, pp. 101-16 (1956).
visado somente seus trabalhos. . 2. Sobre essa observação de Newton, ver FLORIAN CAJORI (ed.),
Disso resulta uma tendência persistente a fazer com s.,. Isaac Newton'• Mathematical Principies aj Natural Philosophy and
Hi• System oj the World (Berkeley, Califórnia, 1946), p. 21. Essa pas­
que a História da Ciência pareça linear e cumulativa, sagem deve ser comparada com a discussão de GALILEU nos seus Dia­
lag,,e, concerning Two New SclenceJ, trad. H. Crew e A. de Salvio
tendência que chega a afetar mesmo os cientistas que (Evanston, Illinois, 1946), pp. 154-76.

176 177
dos manuais a tornarem linear o desenvolvimento da ctaram, mas wua a reue ac rntus e teunas yue o p,ua­
ciência acaba escondendo o processo que está na raiz digma dos manuais adapta à natureza. Por exemplo: a
dos episódios mais significativos do desenvolvimento constância da composiçã o é um simples fato da expe­
científico. riência, que os químicos püderiam ter descoberto atra­
Os exemplos precedentes colocam em evidência, vés de experiências realizadas em qualquer um dos mun­
cada um no contexto de uma revolução determinada, dos em que realizaram suas pesquisas? Ou é antes um
os começos de uma reconstrução histórica que é regu­ elemento - e como tal indubitável - de um novo te­
larmente completada por textos científicos pós-revolu­ cido de fatos e teoria que Dalton adaptou a experiên­
cio�ários. Mas nessa reconstrução está envolvido algo cia química anterior, transformando-a no curso do pro­
mais do que a multiplicação de distorções históricas se­ cesso? A aceleração consta nte produzida por uma força
melhantes às ilustradas acima. Essas distorções tornam constante é um fato que os estudantes de Dinâmica pes­
as revoluções invisíveis; a disposição do material que quisam desde o início da disciplina? Ou é a resposta a
ainda permanece visível nos textos científicos implica uma questão que apareceu pela primeira vez no interior
um processo que, se realmente existisse, negaria toda e d� _teoria de Newton e que esta teoria pode responder
qualquer função às revoluções. Os manuais, por visa­ utilizando-se do corpç de informações disponíveis antes
rem familiarizar rapidamente o estudante com o que a da formulação da questão?
comunidade científica contemporânea julga conhecer, Colocamos essas questões a propósito de fatos que,
examinam as várias experiências, conceitos, leis e teo­ segundo os manuais, foraill gradualmente descobertos.
rias da ciência normal em vigor tão isolada e sucessi­ Mas, obviamente, esses problemas têm também relação
vamente quanto possível. Enquanto pedagogia, essa téc­ com aquilo que tais textos apresentam como teorias.
nica de apresentação está acima de qualquer crítica. Não há dúvida de que essas teorias "ajustam-se aos fa­
Mas, quando combinada com a atmosfera geralmente tos", mas somente transformando a informação previa­
a-histórica dos escritos científicos e com as distorções mente acessível em fatos que absolutamente não exis­
ocasionais ou sistemáticas examinadas acima, existem tiam para o paradigma precedente. Isso significa que as
grandes possibilidades de que essa técnica cause a se­ teorias também não evolueill gradualmente, ajustando-se
guinte impressão: a ciência alcançou seu estado atual a fatos que sempre estiveram à nossa disposição. Em
através de uma série de descobertas e invenções indivi­ vez disso, surgem ao mesmo tempo que os fatos aos
duais, as quais, uma vez reunidas, constituem a coleção quais se ajustam, resultando de uma reformulação re­
moderna dos conhecimentos técnicos. O manual sugere volucionária da tradição científica anterior - uma tra­
que os ci�ntistas procuram realizar, desde os primeiros dição na qual a relação entre o cientista e a natureza,
empreendimentos científicos, os objetivos particulares mediada pelo conhecimento, não era exatamente a
presentes nos paradigmas atuais. Num processo freqüen­ mesma.
temente comparado à adição de tijolos a uma constru­ Um último exemplo poderá esclarecer esta expli­
ção, os cientistas juntaram um a um os fatos, conceitos cação sobre o impacto da apresentação do manual so­
leis ou teorias ao caudal de informações proporcionad� bre nossa imagem do desenvolvimento científico. Todos
pelo manual científico contemporâneo. os textos elementares de Química devem discutir o con­
ceito de elemento químico. Quase sempre, quando essa
Mas não é assim que uma ciência se desenvolve. noção é introduzida, sua origem é atribuída a Robert
Muitos dos quebra-cabeças da ciência normal contem­
porânea passaram a existir somente depois da revolução Boyle, químico do século "VII, em cujo Sceptical Chy­
científica mais recente. Poucos deles remontam ao início mist o leitor atento encontrará uma definição de ''ele­
histórico da disciplina na qual aparecem atualmente. As mento" bastante próxima da utilizada atualmente. A re­
gerações anteriores ocuparam-se com seus próprios pro­ ferência a B oyle auxilia o neófito a perceber que a Quí­
blemas, com seus próprios instrumentos e cânones de mica iniciou com as !!)J.fanimidas; além disso, diz-lhe
resolução. E não foram apenas os problemas que mu- que uma das tarefas tra dicionais do cientista é inven-

178 179
tar conceitos desse tipo. Não obstante, ilustra uma vez Boyle foi o líder de uma revolução científica que, ao
mais o exemplo lle erro histórico que faz com que espe­ modificar a relação do "elemento" com a teoria e a ma­
cialista e leigos se iludam a respeito da natureza do nipulação químicas, transformou essa noção num instru­
empreendimento científico. mento bastante diverso do que fora até ali. Nesse pro­
Segundo Boyle (que estava absolutamente certo), cesso modificou tanto a Química como o mundo do quí­
sua "definição" de um elemento não passava de uma mico.4 Outras revoluções, incluindo a que teve seu cen­
paráfrase de um conceito químico tradicional; Boyle tro em Lavoisier, foram necessárias para dar a esse con­
apresentou-o com o fim único de argumentar que não ceito sua forma e função mcx.lernas. Mas Boyle propor­
existia tal coisa chamada elemento químico; enquanto ciona um exemplo típico tanto do processo envolvido
história, a versão que o manual apresenta da contribui­ em cada um desses estágios como do que ocorre com
ção de Boyle está totalmente equivocada.3 Sem dúvida esse processo quando o conhecimento existente é incor­
esse erro é trivial, tão trivial como qualquer outra inter­ porado a um manual científico. Mais do que qualquer
pretação errônea de dados. O que não é trivial é a ima­ outro aspecto da ciência, esta forma pedagógica deter­
gem de ciência fomentada quando esse tipo de erro é minou nossa imagem a respeito da natureza da ciência
articulado e então integrado na estrutura técnica do e do papel desempenhado pela descoberta e pela inven­
texto. A definição de Boyle remonta pelo menos a Aris­ ção no seu progresso.
tóteles e se projeta, através de Lavoisier, até os textos
modernos. Contudo, isso não significa que ·a ciência te­
nha possuído o conceito de elemento desde a Antigui­
dade. Definições verbais como a de Boyle têm pouco
conteúdo científico quando consideradas em si mesmas.
Não são especificações lógicas e completas de sentido,
mas mais precisamente instrumentos pedagógicos. Os
conceitos científicos que expressam só obtêm um signi­
ficado pleno quando relacionados, dentro de um texto
ou apresentação sistemática, a outros conceitos cientí­
ficos, a procedimentos de manipulação e a aplicações do
paradigma. Segue-se daí que conceitos como o de ele­
mento dificilmente podem ser inventados independente­
mente de um contexto. Além disso, dado o contexto, ra­
r�men�e_ precisam ser inventados, posto que já estão à
d1spos1çao. Tanto Boyle como Lavoisier modificaram
em aspectos importantes o significado químico da noção
de "elemento". Mas não inventaram a noção e nem mo­
dificaram a fórmula verbal que serve como sua defini­
ção. Como vimos, nem Einstein teve que inventar ou
mesmo redefinir explicitamente "espaço" e "tempo", a
fim de dar a esses conceitos novos significados no con­
texto de sua obra.
Qual foi então o papel histórico de Boyle naquela
parte de seu trabalho que contém a famosa "definição"?
4. MAIIIE BOAS, em seu Robert Boyle and Seventeenth-Century _c_he•
stry (Cambridge. 1958), ocupa__,e, em várias passagens, com as pos1t1vas
3. KuHN, T. S. Robert Boyle and Structural Chemistry in the Seven• ntribuições de Boyle para a evolução do conceito de um elemento
teenth Century. lsls, XLIII, pp. 26-29 (1952). ímico.

180 181
11. A RESOLUÇÃO DE REVOLUÇÕES

Os manuais que estivemos discutindo são produ­


zidos somente a partir dos resultados de uma revolu­
ção científica. Eles servem de base para uma nova tra­
dição de ciência normal. Ao examinarmos a questão
de sua estrutura omitimos obviamente um problema.
Qual é o processo pelo qual um novo candidato a pa­
radigma substitui seu antecessor? Qualquer nova inter­
pretação da natureza, seja ela uma descoberta ou uma
teoria, aparece inicialmente a mente de um ou mais
indivíduos. São eles os primeiros a aprender a ver a
ciência e o mundo de uma nova maneira. Sua habili­
dade para fazer essa transição é facilitada por duas cir­
cunstâncias estranhas à maioria dos membros de sua
183
profissão. Invariavelmente, tiveram sua atenção concen­ absolutos para a verificação de teorias científicas. Per­
trada sobre problemas que provocam crises. Além dis­ cebendo que nenhuma teoria pode ser submetida a to­
so, são habitualmente tão jovens ou tão novos na área dos os testes relevantes possíveis, perguntam, não se a
em crise que a prática científica comprometeu-os me­ teoria foi verificada, mas pela sua probabilidade, dada a
nos profundamente que seus contemporâneos à concep­ evidência existente. Para responder a essa questão, uma
ção de IJ11:1.ndo e às regras estabelecidas pelo velho pa­ escola importante é levada a comparar a habilidade das
radigma. Como conseguem e o que devem fazer para diferentes teorias para explicar a evidência disponível.
converter todos os membros de sua profissão à sua ma­ Essa insistência em comparar teorias caracteriza igual­
neira de ver a ciência e o mundo? O que leva um grupo mente a situação histórica na qual uma nova teoria é
a abandonar uma tradição de pesquisa normal por outra?' aceita. Muito provavelmente, ela indica uma das dire­
Para perceber a premência dessas questões, lerii-­ ções pelas quais deverão avançar as futuras discussões
bremo-nos de que essas são as únicas reconstruções que sobre o problema da verificação.
o historiador pode fornecer às investigações do filósofo Entretanto, nas suas formas mais usuais, todas as
a respeito dos testes, verificações e falsificações de teo­ teorias de verificação probabilísticas recorrem a uma ou
rias científicas estabelecidas. Na medida em que se de­ outra das linguagens de. observação puras ou neutras dis­
dica à ciência normal, o pesquisador é um solucionador cutidas no Cap. 9. 'uma teoria probabilística requer
de quebra-cabeças e não alguém que testa paradigmas. que comparemos a teoria científica em exame com to­
Embora ele possa, durante a busca da solução para um das as outras teorias imagináveis que se adaptem ao
quebra-cabeça determinado, testar diversas abordagens mesmo conjunto de dados observados. Uma outra exi­
alternativas, rejeitando as que não produzem o resul­ ge a construção imaginária de todos os testes que pos­
tado desejado, ao fazer isso ele não está testando o sam ser concebidos para testar determinada teori.tt Apa­
paradigma. Assemelha-se mais ao enxadrista que, con­ rentemente, tal construção é necessária para a compu­
frontado com um problema estabelecido e tendo a sua tação de probabilidades específicas, absolutas ou rela­
frente ( física ou mentalmente) o tabuleiro, tenta vários tivas, mas é difícil perceber como possa ser obtida. Se,
movimentos alternativos na busca de uma solução. Essas como já argumentamos, não pode haver nenhum siste­
tentativas de acerto, feitas pelo enxadrista ou pelo cien­ ma de linguagem ou de conceitos que seja científica ou
tista, testam a si mesmas e não as regras do jogo. São empiricamente neutro, então a construção de testes e
possíveis somente e�guanto o próprio paradigma é dado teorias alternativas deverá derivar-se de alguma tradição
como pressuposto. ·Por isso, o teste de um paradigma baseada em um paradigma. Com tal limitação, ela não
ocorre somente depois que o fracasso persistente na re­ terá acesso a todas as experiências ou teorias possíveis.
solução de um quebra-cabeça importante dá origem a Conseqüentemente, as teorias probabilísticas dissimulam
uma crise. E, mesmo então, ocorre somente depois que a situação de verificação tanto quanto a iluminam.
o sentimento de crise evocar um candidato alternativo Embora essa situação dependa efetivamente, conforme
a paradigma. Na ciência, a situação de teste não consis­ insistem, da comparação entre teorias e evidências mui­
te nunca - como é o caso da resolução de quebra-ca­ to difundidas, as teorias e observações em questão estão
beças - em simplesmente comparar um único paradig­ sempre estreitamente relacionadas a outras já existentes.
ma com a natureza. Ao invés disso, o teste representa A verificação é como a seleção natural: escolhe a mais
parte da competição entre dois paradigmas rivais que viável entre as alternativas existentes em uma situação
lutam pela adesão da comunidade científica..., , histórica determinada. Essa escolha é a melhor possí­
Examinada de forma mais detalhada, essa formu­ vel, quando existem outras alternativas ou dados de
lação apresenta paralelos inesperados e provavelmente
significativos com duas das mais populares teorias filo­ 1. Para um breve esboço das principais maneiras de abordar as
sóficas contemporâneas sobre a verificação. Não exis­ teorias de verificação probabilísticas, ver EllNEST NAGEL, Principie_• 011
the Theory o/ Probabl/ity, v. I, n. 6 da International Encyc/oped1a 0
tem muitos filósofos da ciência que busquem critérios Uni/ied Sclence, pp. 60-7S.

185
184
outra espécie? Tal questão não pode ser colocada de ra, não aparece com, ou simplesmente devido a emer­
maneira prodútiva, pois não dispomos de instrumentos gên�ia d� uma anomalia ou de um exemplo que leve à
que possam ser empregados na procura de respostas. falsif1c_ �çao.
_ Trata-se, ao contrário, de um processo
Uma abordagem muito diferente de todo esse con­ subsequente e separado, que bem poderia ser chamado
junto de problemas foi desenvolvida por Karl Popper, de verificação, visto consistir no triunfo de um novo
que nega a existência de qualquer procedimento de ve­ paradigm� sobre um ��teri�r. Alé� ?isso, é nesse pro­
rificação.2 Ao invés disso, enfatiza a importância da fal­ cesso conJunto de venficaçao e fals1f1cação que a com­
sificação, isto é, do teste que, em vista de seu resultado paração probab(lística das teorias desempenha um pa­
negativo, torna inevitável a rejeição de uma teoria esta­ pel central. Creio que essa formulação em dois níveis
belecida. O papel que Popper atribui à falsificação asse­ tem a virtude de possuir uma grande verossimilhança
melha-se muito ao que este ensaio confere às experiên­ podendo igualmente capacitar-nos a começar a explica;
cias anômalas, isto é, experiências que, ao evocarem o papel do acordo ( ou desacordo) entre o fato e a teo­
crises, preparam caminho para uma nova teoria. Não r�a no processo de verificação. Ao menos para o histo­
obstante, as experiências anômalas não podem ser iden­ r�ador, tem pouco sentido sugerir que a verificação con­
tificadas com as experiências de falsificação. Na ver­ siste em estabelecer o acordo do fato com a teoria. To­
dade, duvido muito de que essas últimas existam. Como das as teorias historicamente significativas concordaram
já enfatizamos repetidas vezes, nenhuma teoria resolve com os fatos; mas somente de uma forma relativa. Não
todos os quebra-cabeças com os quais se defronta em P_?demos dar uma resposta mais precisa que essa à ques­
um dado momento. Por sua vez, as soluções encontra­ tao que pergunta se e em que medida uma teoria indi­
das nem sempre são perfeitas. Ao contrário: é precisa­ vidual se adequa aos fatos. Mas questões semelhantes
!fiente a adequação incompleta e imperfeita entre a teo­ podem ser feitas quando teorias são tomadas em con­
ria e os dados que define, em qualquer momento, mui­ junto ou mesmo aos pares. Faz muito sentido perguntar
tos dos quebra-cabeças que caracterizam a ciência nor­ qual das duas teorias existentes que estão em compe­
mal. Se todo e qualquer fracasso na tentativa de adap­ tição adequ�-se melhor aos fatos. Por exemplo, embora,
tar teoria e dados fosse motivo para a rejeição de teo­ nem a teona de Priestley, nem a de Lavoisier concor­
rias, todas as teorias deveriam ser sempre rejeitadas. dassem precisamente com as observações existentes, pou­
Por outro lado, se somente um grave fracasso da ten­ cos contemporâneos hesitaram por mais de uma década
tativa de adequação justifica a rejeição de uma teoria, para concluir que a teoria de Lavoisier era, das duas,
então os seguidores de Popper necessitam de algum cri­ a que melhor se adequava aos fatos.
tério de "improbabilidade" ou de "grau de falsificação". Essa formulação, entretanto, faz com que a tarefa
Ao elaborar tal critério, é quase certo que encontrarão de escolher entre paradigmas pareça mais fácil e mais
a mesma cadeia de dificuldades que perseguiu os advo­ familiar do que realmente é. Se houvesse apenas um con­
gados das diversas teorias de verificação probabilísticas. junto de problemas científicos, um único mundo no qual
ocupar-se deles e um único conjunto de padrões cien­
Muitas das dificuldades precedentes podem ser evi­ tíficos para sua solução, a competição entre paradigmas
tadas através do reconhecimento do fato de que essas poderia ser resolvida de uma forma mais ou menos ro­
duas concepções vigentes ( e opostas) a respeito da ló­ tineira, empregando-se algum processo como o de con­
gica subjacente à investigação científica tentaram com­ tar o número de problemas resolvidos por cada um de­
primir em um só dois processos muito separados. A les. Mas, na realidade, tais condições nunca são com­
experiência anômala de Popper é importante para a pletamente satisfeitas. Aqueles que propõem os para­
ciência porque gera competidores para um paradigma digmas em competição estão sempre em desentendimen­
existente. Mas a falsificação, embora certamente ocor- to, mesmo que em pequena escala. Nenhuma das partes
2. POPPER, K. R. The Lo11ic of Scitntific Discovery. (Nova York,
aceitará todos os pressupostos não-empíricos de que o
1959), especialmente Caps. 1-IV. adversário necessita para defender sua posição. Tal co-

186 ]87
que os novos paradigmas nascem dos antigos, incorpo­
mo Proust e Berthollet, quando de sua discussão sobre ram comumente grande parte do vocabulário e dos apa­
a composição dos compostos químicos serão, até certo ratos, tanto conceituais como de manipulação, que o
ponto, forçados a um diálogo de surdos. Embora ca�a paradigma tradicional já empregara. Mas raramente uti­
um deles possa ter a esperança de converter o adversa­ lizam esses elementos emprestados de uma maneira tra­
rio à sua maneira de ver a ciência e a seus problemas, dicional. Dentro do novo paradigma, termos, conceitos
nenhum dos dois pode ter a esperança de demonstrar e experiências antigos estabelecem novas relações entre
sua posição. A compe tição entre paradigmas não é o si. O resultado inevitável é o que devemos chamar,
tipo de batalha que possa ser resolvido por meio de embora o termo não seja bem preciso, de um mal-enten­
provas! . dido entre as duas escolas competidoras. Os leigos que
Já vimos várias razões pelas quais os proponentes zombavam da Teoria Geral da Relatividade de Einstein
de paradigmas competidores fracassam necessariamente porque o espaço não poderia ser "curvo" - pois não
na tentativa de estabelecer um contato completo entre era esse tipo de coisa - não estavam simplesmente erra­
seus pontos de vista divergent�s. Coletivam�?te, essas dos ou enganados. Tampouco estavam errados os ma­
razões foram descritas como a mcomensurabihdade das temáticos, físicos e filósofos que tentaram desenvolver
tradições científicas normais, pré e �ós-�evolucionárias; uma versão euclidiana da teoria de Einstein.3 O que
neste. ponto precisamos apenas recapitula-las brev7men­ anteriormente se entendia por espaço era algo necessa­
te. !Em primeiro lugar, os proponentes de Pª!"ª�igmas riamente plano, homogêneo, isotrópico e não afetado
competidores discordam seguidamente quanto a hsta de pela presença da matéria. Não fosse assim, a física new­
problemas que qualquer ca��idato a paradigm_a . d:ve re­ toniana não teria produzido resultados. Para levar a ca­
solver. Seus padrões cientiflcos ou s�as defmiç?es de bo a transição ao universo de Einstein, toda a teia con­
ciência não são os mesmos. Uma teona do movimento ceituai cujos fios são o espaço, o tempo, a matéria, a
deve explicar a causa dás-forças de at�ação ent_re Apa�­ força, etc . . . teve que ser alterada e novamente rearti­
tículas de matéria ou simplesmente indicar a ex1stenc1a culada em termos do conjunto da natureza. Somente os
de tais forças? A dinâmica de Newton foi amplamente que haviam experimentado juntos ( ou deixado de expe­
rejeitada porque, ao contrário das teorias de Aristót7les rimentar) essa transformação seriam capazes de desco­
e Descartes, implicava a escolha da segunda alt�rnati�a. brir precisamente quais seus pontos de acordo ou de­
Por conseguinte, quando a teoria de Newton foi aceita, sacordo. A comunicação através da linha divisória re­
a primeira alternativa foi banida d� �iência. Ent_retanto, volucionária é inevitavelmente parcial. Consideremos,
mais tarde a Teoria Geral da Relatividade podena orgu­ por exemplo, aqueles que chamaram Copérnico de lou­
lhosament� afirmar ter resolvido essa questão. Do mes­ co porque este proclamou que a Terra se movia. Não
mo modo, a teoria química de Lavoisier, tal como dis­ estavam, nem pouco, nem completamente errados. Parte
seminada no século XIX, impedia os químicos de per­ do que entendiam pela expressão "Terra" referia-se a
guntarem por que os metais, er_am tão se�elhantes entre uma posição fixa. Pelo menos, tal terra não podia mo­
si, questão essa que a Qmm1ca Fl�g1st1ca ,
pergu�t�ra ver-se. Do mesmo modo, a inovação de Copérnico não
e respondera. A transição ao parad1�m_a _ de La_yo1s1er, consistiu simplesmente em movimentar a Terra. Era
tal como a transição ao de Newton, s1gmf1cara nao ape­ antes uma maneira completamente nova de encarar os
nas a perda de uma pergunta permissível, mas també!11
a de uma soluçã o já obtida. Contudo, essa perda nao problemas da Física e da Astronomia, que necessaria­
foi permanente. No século XX, questões relativas às mente modificava o sentido das expressões "Terra" e
qualidades das substâncias químicas foram novamente 3. A propósito das reações de leigos ao conceito _de espa�o curvo,
incorporadas à ciência, juntamente com algumas de suas ver PHILIPP FUNI: Einstein, hl• Life and Times, traduzido e editado por
respostas. ..
G. Rosen e s. K�saka (Nova York, 1947), PP: 142-146. A_ �espeito de
algumas tentativas feitas para preservar as conqwstas da rela11v1dade 11er"J
Entretanto, algo mais do que a incomensui:ab1hda­ no contexto de um espaço euclidiano, ver C. NORDMANN, Einste/tt ""
the Un/verse, trad. J, McCabe (Nova York, 1922), Cap. IX.
de dos padrões científicos está envolvido aqui. Dado
]89
188
"movimento".4 Sem tais modificações, o conceito de copernicismo fez poucos adeptos durante quase um sé­
Terra em movimento era uma loucura. Por outro lado, culo, após a morte de Copérnico. A obra de Newton
feitas e entendidas essas modificações, tanto Descartes não alcançou aceitação geral, especialmente no Conti­
como Huyghens puderam compreender que a questão nente europeu, senão mais de meio século depois do
do movimento da Terra não possuía conteúdo cientí­ aparecimento dos Principia. 6 Priestley nunca aceitou a
fico.5 teoria do oxigênio, Lorde Kelvin a teoria eletromagné­
Esses exemplos apontam para o terceiro e mais fun­ tica e assim por diante. As dificuldades da conversão
damental aspecto da incomensurabilidade dos paradig­ foram freqüentemente indicadas pelos próprios cientis­
mas em competição. Em um sentido que sou incapaz de tas. Darwin, numa passagem particularmente perspicaz,
explicar melhor, os proponentes dos paradigmas com­ escreveu: "Embora esteja plenamente convencido da
petidores praticam seus ofícios em mundos diferentes. verdade das concepções apresentadas neste volume ...
Um contém corpos que caem lentamente; o outro pên­ não espero, de forma alguma, convencer naturalistas
dulos que repetem seus movimentos sem cessar. Em um experimentados cujas mentes estão ocupadas por uma
caso, as soluções são compostos; no outro, misturas. multidão de fatos, concebidos através dos anos, desde
Um encontra-se inserido numa n:u1triz de espaço plana; um ponto de vista diametralmente oposto ao meu ...
o outro, em uma matriz curva,TPor exercerem sua pro­ (Mas) encaro com confiança o futuro - os natura­
fissão em mundos diferentes, os dois grupos de cientis­ listas jovens que estão surgindo, que serão capazes de
tas vêem coisas diferentes quando olham de um mes­ examinar ambos os lados da questão com imparciali­
mo ponto para a mesma direção. Isso não significa que dade".7 Max Planck, ao passar em revista a sua carrei­
possam ver o que lhes aprouver. Ambos olham para o ra no seu Scientific Autobiography, observou tristemen­
mundo e o que olham não mudou. Mas em algumas te que "uma nova verdade científica não triunfa con­
áreas vêem coisas diferentes, que são visualizadas man­ vencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a
tendo relações diferentes entre si. É por isso que uma luz, mas porque seus oponentes finalmente morrem e
lei, que para um grupo não pode nem mesmo ser de­ uma nova geração cresce familiarizada com ela".8
monstrada, pode, ocasionalmente, parecer intuitivamen­ Esses e outros fatos do mesmo gênero são dema­
te óbvia a outrcd É por isso, igualmente, que antes de siadamente conhecidos para necessitarem de maior ênfa­
poder esperar o estabelecimento de uma comunicação se. Mas necessitam de reavaliação. No passado foram
plena entre si, um dos grupos deve experimentar a con­ seguidamente considerados como indicadores de que os
versão que estivemos ·chamando de alteração de para­ cientistas, sendo apenas humanos, nem sempre podem
digma. Precisamente por tratar-se de uma transição entre admitir seus erros, mesmo quando defrontados com pro­
incomensuráveis, a transição entre paradigmas em com­ vas rigorosas. Ao invés disso, eu argumentaria que em
petição não pode ser feita passo a passo, por imposição tais assuntos, nem prova, nem erro estão em questão.
da Lógica e de experiências neutras. Tal como a mu­ · À transferência de adesão de um paradigma a outro é
dança da forma (Gestalt) visual, a transição deve ocor­ uma experiência de conversão que não pode ser for­
rer subitamente ( embora não necessariamente num çada. A resistência de toda uma vida, especialmente por
instante i ou então não ocorre jamais. parte daqueles cujas carreiras produtivas comprome­
Como, então, são os cientistas levados a realizar teu-os com uma tradição mais antiga da ciência nor­
essa transposição? Parte da resposta é que freqüente­ mal, não é uma violação dos padrões científicos, mas
mente não são levados a realizá-la de modo algum. O
6. COHEN, I. B. Franklin and Newton: An lnquiry into Speculatlve
4. T. S. KUHN, The Copernican Revolution (Cambrid'ge, Mass., 1957), Newtonlan Experimental Science and Franklin's Work ln Electricity as
Caps. III, IV e VII. Um dos temas centrais do livro tem a ver com an Examplf Thereof. (Filadélfia, 1956), pp. 93-94.
a extensão em que o heliocentrismo era mais do que urna questão pura­ 7. DARWIN, Charles. On the Orlgin o/ Species ... (ed. autorizada,
mente astronômica. conforme a 6. ed. inglesa; Nova York, 1889), II, pp. 295-296.
5. JAMMER, Max. Concepts o/ Space. (Cambridge, Mass., 1954), pp. 8. PLANCK, Max. Scienti/ic Autobiography and Other Papers. (Nova
118-124. York, 1949), pp. 33-34, trad. F. Gaynor.

190 191
um índice da própria natureza da pesquisa científica. não a prova - não pode ter uma resposta única ou
A fonte dessa resistência é a certeza de que o paradigma uniforme. Cientistas individuais abraçam um novo pa­
antigo acabará resolvendo todos os seus problemas e radigma por toda uma sorte de razões e normalmente
que a natureza pode ser enquadrada na estrutura pro­ por várias delas ao mesmo tempo. Algumas dessas ra­
porcionada pelo modelo paradigmático{ Inevitavelmen­ zões - por exemplo, a adoração do Sol que ajudou a
te, em períodos de revolução, tal ce'rteza parece ser fazer de Kepler um copernicano - encontram-se intei­
obstinação e teimosia e em alguns casos chega real­ ramente fora da esfera aparente da ciência.9 Outros cien­
mente a sê-lo. Mas é também algo mais. :8 essa mesma tistas dependem de idiossincrasias de natureza autobio­
certeza que torna possível a ciência normal ou solucio­ gráfica ou relativas a sua personalidade. Mesmo a na­
nadora de quebra-cabeças. !É somente através da ciên­ cionalidade ou a reputação prévia do inovador e seus
cia normal que a comunidade profissional de cientistas mestres podem desempenhar algumas vezes um papel
obtém sucesso; primeiro, explorando o alcance poten­ significativo. 10 Em última instância, portanto, precisa­
cial e a precisão do velho paradigma e então isolando mos aprender a colocar essa questão de maneira dife­
a dificuldade cu ·o estudo permite a emergência de um rente. Nossa preocupação não será com os argumentos
novo paradigma.� que realmente convertem um ou outro indivíduo, mas
Contudo, à irmar que a resistência é inevitável e com o tipo de comunidade que cedo ou tarde se re-for­
legítima e que a mudança de paradigma não pode ser ma como um único grupo. Adio contudo esse proble­
ju�tificada através de provas não é afirmar que não ma até o capítulo final e enquanto isso examinarei alguns
existem argumentos relevantes ou que os cientistas não dos tipos de argumentos que se revelam particularmente
podem ser persuadidos a mudar de idéia. Embora algu­ eficazes nas batalhas relacionadas com mudanças de pa­
mas vezes seja necessário uma geração para que a mu­ radigmas.
dança se realize, as comunidades científicas seguida­ Provavelmente a alegação isolada mais comumente
mente têm sido convertidas a novos paradigmas. Além apresentada pelos defensores de um novo paradigma é
d.isso, essas conversões não ocorrem apesar de os cien­ a de que são capazes de resolver os problemas que con­
tistas serem humanos, mas exatamente porque eles o duziram o antigo paradigma a uma crise. Quando pode
são. Embora alguns cientistas, especialmente os mais ser feita legitimamente, essa alegação é, seguidamente,
velhos e mais experientes, possam resistir indefinida­ a mais eficaz de todas. Sabe-se que o paradigma enfren­
mente, a maioria deles pode ser atingida de uma manei­ ta problemas no setor no qual tal alegação é feita. Tais
ra ou outra. Ocorrerão algumas conversões de cada vez, problemas, nesses casos, foram explorados repetidamen­
até que, morrendo os últimos opositores, todos os mem­ te e as tentativas para removê-los revelaram-se com fre­
bros da profissão passarão a orientar-se por um único qüência inúteis. "Experiências cruciais'' - aquelas ca­
- mas já agora diferente - paradigma. Precisamos pazes de discriminar de forma particularmente nítida
portanto perguntar como se produz a conversão e co­ entre dois paradigmas - foram reconhecidas e atesta­
mo se resiste a ela. das antes mesmo da invenção do novo paradigma. Co­
Que espécie de resposta podemos esperar? Nossa pérnico, por exemplo, alegava ter resolvido o proble-
questão é nova, precisamente porque se refere a técni­
cas de persuasão ou a argumentos e contra-argumentos 9. Sobre o papel da adoração do Sol no pensamento de Kepler, ver
em �ma situação ?nde não pod; haver provas, exigindo E. A. BURTI, The Metaphysical Foundations of Modern Physical Science
(ed. rev.; Nova York, 1932), pp. 44-49.
precisamente por isso uma especie de estudo que ainda 10. A respeito do papel da reputação, consideremos o seguinte: Lorde
não foi empreendido. Teremos que nos contentar com Rayleigh, já com a reputação estabelecida, apresentou um trabalho à
British Association tratando de alguns paradoxos da Eletrodinâmica. Seu
um exame muito parcial e impressionista. Além disso nome foi omitido inadvertidamente quando o artigo foi enviado pela
primeira vez e o trabalho foi rejeitado como sendo obra de um "amante
o que já foi dito combina-se com o resultado desse exa� de paradoxos" (paradoxer). Pouco depois, já com o nome do autor, o
me para sugerir que a pergunta acerca da natureza do trabalho foi aceito com muitas desculpas. R. J. STRUTT, 4th Baron
Rayleigh, John William Strutl, Third Baron Rayleigh (Nova York, 1924),
argumento científico - quando envolve a persuasão e p, 228.

192 193
ma, de há muito irritante, relativo à extensão do ano zado com freqüência, haja ou não contribuição. Nes­
d(1 calendário, Newton ter reconciliado a Mecânica Ter­
re�t.-e com a Celeste, Lavoisier ter resolvido os proble­ ses outros setores, argumentos particularmente persua­
sivos podem ser desenvolvidos, caso o novo paradigma
m,as da identidade dos gases e das relações de peso e permita a predição de fenômenos totalmente insuspeita­
Einstein ter tornado a Eletrodinâmica compatível com
dos pela prática orientada pelo paradigma anterior.
Ulha ciência reelaborada do movimento. A teoria de Copérnico, por exemplo, sugeria que
. Alegações dessa natureza têm grande probabilida- os planetas deveriam ser como a Terra, que Vênus de­
d-� de êxito, caso o novo paradigma apresente uma pre­ veria apresentar fases e que o Universo necessariamen­
Cltião quantitativa notavelmente superior à de seu com­ te seria muito maior do que até então se supunha. Em
P�tidor mais antigo. A superioridade quantitativa das conseqüência disso, quando, sessenta anos após a sua
T�b ulae rudolphinoe de Kepler sobre todas as compu­ morte, o telescópio exibiu repentinamente as montanhas
t¾a:s com base na teoria ptolomaica foi um fator impor­ da Lua, as fases de Vênus e um número imenso de estre­
ta nte na conversão de astrônomos ao copernicismo. O las de cuja existência não se suspeitava, numerosos adep­
s�cesso de Newton na predição de observações astro­ tos, especialmente entre os não-astrônomos, foram con­
�;1micas quantitativas foi provavelmente a razão isola- quistados para a nova teoria por tais observações. 12 No
'\ mais importante para o triunfo de sua teoria sobre caso da teoria ondulatória, uma das principais fontes de
s�as competidoras, que, embora razoáveis, eram inva­ conversão profissional teve um caráter ainda mais dra­
�1'tvelmente qualitativas. Neste século, o impressionante mático. A resistência opost a pelos cientistas franceses
eJ\ito quantitativo tanto da Lei da Radiação de Planck, ruiu subitamente e de maneira quase completa quando
CQmo do átomo de Bohr, persuadiram rapidamente mui­ Fresnel conseguiu demonstrar a existência de um ponto
tos cientistas a adotar essas teorias, embora, tomando-se branco no centro da sombra projetada por um disco cir­
a ciência física como um todo, ambas contribuições cular. Tratava-se de um efeito que nem mesmo Fresnel
criassem muito mais problemas do que soluções.11 antecipara, mas que Poisson, de início um de seus opo­
Contudo, a alegação de ter resolvido os problemas nentes, demonstrara ser uma conseqüência necessária,
q\te provocam crises raras vezes é suficiente por si mes­ ainda que absurda, da teoria do orimeiro. 13 Argumen­
ma. Além disso, nem sempre pode ser legitimamente tos dessa natureza revelam-se particularmente persuasi­
ªflresentada. Na verdade, a teoria de Copérnico não vos, devido a seu impacto e porque, evidentemente, não
e� a mais precisa que a de Ptolomeu e não conduziu ime­ estavam "incluídos" na teoria desde o início. Algumas
d1titamente a nenhum aperfeiçoamento do calendário. A vezes essa força extra pode ser explorada, mesmo que
te l:lria ondulatória da luz, no período imediato a sua pri­ o fenômeno em questão tenha sido observado muito
ml!ira aparição, não foi tão bem sucedida como sua ri­ antes da teoria que o explica. Einstein, por exemplo,
v 1 corpuscular na resolução do problem a relativo aos parece não ter antecipado que a Teoria Geral da Rela­
e;�itos de polarização, que era uma das principais cau­ tividade haveria de explicar com precisão a bem conhe­
s_as da crise existente na óptica. Algumas vezes, a prá­ cida anomalia no movimento do periélio de Mercúrio,
tH�a mais livre que caracteriza a pesquisa extraordinária trndo experimentado uma sensação de triunfo quando
pr oduzirá um candidato a paradigma que, inicialmente, isso ocorreu. 14
n�o contribuirá absoluta ente para a resolução dos pro­ Todos os argumentos em favor de um novo pa­
bl1emas que provocarammcrise. Quando isso ocorre, tor­ radigma discutidos até agora estão baseados na com-
nii_se necessário buscar evidências em outros setores da
12. KUHN. Op. cit. pp. 219-225.
área de estudos - o que, de qualquer forma, é reali- 13. WHITTAKER, E. T. A History of the Theories o/ Aether and Elec­
tricity (2. ed.; Londres, 1951), 1, p. 108.
14. Ver ibid., II ( 1953) , p p. 151-180, com relação ao desenvolvimento
Th 11. Sobre os problemas criados pela Teoria dos Quanta, ver F. REICHE, da relatividade geral. No tocante à reação de Einstein ao constatar o
dos�· Quantum Theory (Londres, 1922), Caps. li, VI-IX. A propósito acordo perfeito entre as predições da teoria e o movimento observado
desi outro! exemplos citados neste parágrafo, ver as referências anteriores do periélio de Mercúrio, ver a carta citada em P. A. ScHILPP (ed.),
e cap!lulo. Albert Einstein, Philosapher-Scientist (Evanston, 111., 1949) , p. 101.

194 195
paração entre a habilidade dos competidores para re­ mente muito mais tarde, após o desenvolvimento, a
solver problemas. Para os cientistas, tais argumentos aceitação e a exploração do novo paradigma, que os
são comumente os mais significativos e persuasivos. Os argumentos aparentemente decisivos - o pêndulo de
exemplos precedentes não deveriam deixar dúvidas Foucault para demonstrar a rotação da Terra ou a
quanto à origem de sua imensa atração. Mas, por ra­ experiência de Fizeau para mostrar que a luz se mo­
zões que examinaremos dentro em breve, eles não são vimenta mais rapidamente no ar do que na água -
argumentos que forcem adesões individuais ou coleti­ são desenvolvidos. Produzi-los é parte da tarefa da
vas. 'Felizmente existe ainda uma outra espécie de con­ ciência normal. Tais argumentos desempenham seu pa­
sideração que pode levar os cientistas à rejeição de pel não na ciência normal, mas nos textos revolucio­
um velho paradigma em favor de um novo. Refiro-me nários.
aos argumentos, raras vezes completamente explicita­ Durante o desenvolvimento do debate, quando
dos, que apelam, no indivíduo, ao sentimento do que tais textos ainda não foram escritos, a situação é bem
é apropriado ou estético - a nova teoria é "mais cla­ diversa. Habitualmente os opositores de um novo pa­
ra", "mais adequada" ou "mais simples" que a ante­ radigma podem alegar legitimamente que mesmo na
rior.\ Provavelmente tais argumentos são menos efica­ área em crise ele é pouco superior a seu rival tradi­
zes· nas ciências do que na Matemática. As primeiras cional. Não há dúvidas de que trata de alguns proble­
versões da maioria dos paradigmas são grosseiras. Até mas e revela algumas novas regularidades. Mas pro­
que sua atração estética possa ser plenamente desen­ vavelmente o paradigma mais antigo pode ser rearti­
volvida, a maior parte da comunidade científica já terá culado para enfrentar esses desafios da mesma forma
sido persuadida por outros meios. Não obstante, a que já enfrentou outros anteriormente. Tanto o siste­
importância das considerações estéticas pode algumas ma astronômico geocêntrico de Tycho Brahe, como
vezes ser decisiva. Embora seguidamente atraiam ape­ as últimas versões da teoria flogística foram respostas
nas alguns cientistas para a nova teoria, o triunfo final aos desafios apresentados por um novo candidato a
desta pode depender desses poucos. Se esses cientistas paradigma e ambas foram bastante bem sucedidas. 15
nunca tivessem aceito rapidamente o novo paradigma Além disso, os defensores da teoria e dos procedimen­
por razões individuais, este nunca teria se desenvolvi­ tos tradicionais podem quase sempre apontar proble­
do suficientemente para atrair a adesão da comunida­ mas que seu novo rival não resolveu, embora não se­
de científica como um todo. jam absolutamente problemas na concepção desse últi­
Para que se perceba a razão da importância des­ mo. Até a descoberta da composição da água, a com­
sas considerações de natureza mais estética e subjeti­ bustão do hidrogênio representava um forte argumen­
va, recordemos o que está envolvido em um debate to em favor da teoria flogística e contra a teoria de
entre paradigmas. Quand-9 um novo candidato a pa­ Lavoisier. Após seu triunfo, a teoria do oxigênio ainda
radigma é proposto pela primeira vez, muito dificil­ não era capaz de explicar a preparação de um gás com­
mente resolve mais do que alguns dos problemas com bustível a partir do carbono, fenômeno que os defen­
os quais se defronta e a maioria dessas soluções está sores da teoria flogística apontavam como um apoio
longe de ser perfeita. Até Kepler, a teoria copernicana importante para sua concepção. 16 Mesmo na área da
praticamente não aperfeiçoou as predições sobre as po­
sições planetárias feitas por Ptolomeu. Quando Lavoi­ 15. Sobre o sistema de Brahe, que era inteiramente equivalente ao
sier concebeu o oxigênio como "o próprio ar, inteiro", de Copérnico no plano geométrico, ver J. L. E. DREYER, A History oi
Astronomy from Thales lo Kepler (2. ed.; Nova York, 1953), pp. 359-371.
sua teoria de forma alguma podia fazer frente aos pro­ A respeito das últimas versões da Teoria do Flogisto e seu sucesso, ver
blemas apresentados pela proliferação de novos gases, J. R. PARTINGTON e D. McKIE, Historical Studies of the Phlogiston
Theory, em Annals of Science, (1939), IV, pp. 113-149.
ponto este que Priestley utilizou com grande sucesso 16. No que diz respeito ao problema apresentado pelo hidrogênio,
no seu contra-ataque. Casos como o do ponto branco ver J. R. PARTINGTON, A Short History o/ Chemislry (2. ed.; Londres,
1951), p. 134. Quanto ao monóxido de carbono, ver H. KOPP, Geschichte
de Fresnel são extremamente raros. Em geral é so- der Chemie, (Braunschweig, 1845), III, pp. 294-296.

196 197
crise, o equilíbrio entre argumento e contra-argumento ra não precise ser, nem racional, nem correta. Deve
pode algumas vezes ser bastante grande. E fora do se­ haver algo que pelo menos faça alguns cientistas sen­
tor problemático, com freqüência a �alança �nderá tirem que a nova proposta está no caminho certo e cm
decisivamente para a tradição. Copér�1co �estr�m uma alguns casos somente considerações estéticas pessoais
explicação do movimento terrestre aceita ha muito, sem e inarticuladas podem realizar isso. Homens foram
contudo substituí-la por outra, Newton fez o mesmo convertidos por essas considerações em épocas nas
com uma explicação mais antiga da gravida?e, Lav?i­ quais a maioria dos argumentos técnicos apontava nou­
sier com as propriedades comuns dos m�ta1s e assim tra direção. Nem a teoria astronômica de Copérnico,
por diante. Em suma: se um novo can?1?�to a para­ nem a teoria da matéria de De Broglie possuíam mui­
digma tivesse que ser julgado desde o 1mc10 por pe�­ tos outros atrativos significativos quando foram apre­
soas práticas, que examinassem tão-somente sua. �ha?1- sentadas. Mesmo hoje a teoria geral de Einstein atrai
lidade relativa para resolver problemas, as c!encias adeptos principalmente por razões estéticas, atração
experimentariam muito poucas revoluções de impor­ essa que poucas pessoas estranhas à Matemática fo­
tância. Junte-se a isso os contra-argumentos gerados ram capazes de sentir.
por aquilo que acima chamamos de incomensurabili­ Não queremos com isso sugerir que, no fim das
dade dos paradigmas e as ciências poderiam não expe­ contas, os novos paradigmas triunfem por meio de
rimentar revoluções de espécie alguma. alguma estética mística. Ao contrário, muito poucos
Mas os debates entre paradigmas não tratam real­ desertam uma tradição somente por essas razões. Os
mente da habilidade relativa para resolver problemas, que assim procedem foram, com freqüência, engana­
embora sejam, por boas razões, expressos nesses. ter­ dos. Mas para que o paradigma possa triunfar é ne­
mos. Ao invés disso, a questão é saber que paradigma cessário que ele conquiste alguns adeptos iniciais, que
deverá orientar no futuro as pesquisas sobre proble­ o desenvolverão até o ponto em que argumentos obje­
mas. Com relação a muitos desses problemas, nenhum tivos possam ser produzidos e multiplicados. Mesmo
dos competidores pode alegar condições para resolvê­ esses argumentos, quando surgem, não são individual­
los completamente. Requer-se aqui uma decisão entre mente decisivos. Visto que os cientistas são homens
maneiras alternativas de praticar a ciência e nessas cir­ razoáveis, um ou outro argumento acabará persuadin­
cunstâncias a decisão deve basear-se mais nas promes­ do muitos deles. Mas não existe um único argumento
sas futuras do que nas realizações passadas. O homem que possa ou deva persuadi-los todos. Mais que uma
que adota um novo paradigma nos estágios iniciais de conversão de um único grupo, o que ocorre é uma
seu desenvolvimento freqüentemente adota-o despre­ crescente alteração na distribuição de adesões profis­
zando a evidência fornecida pela resolução de proble­ sionais.
mas. Dito de outra forma, precisa ter fé na capacida­ TNo início o novo candidato a paradigma poderá
de do novo paradigma para resolver os grandes pro­ ter poucos adeptos e em determinadas ocasiões os mo­
blemas com que se defronta, sabendo apenas que o tivos destes poderão ser considerados suspeitos. Não
paradigma anterior fracassou ell?- alguns deles. Um� de­ obstante, se eles são competentes, aperfeiçoarão o pa­
cisão desse tipo só pode ser feita com base na fe. radigma, explorando suas possibilidades e mostrando
�Essa é üma das razões pelas quais uma crise ante­ o que seria pertencer a uma comunidade guiada por
rior demonstra ser tão importante. Cientistas que não ele. Na medida em que esse processo avança, se o
a experimentaram raramente renunciarão às �ólidas paradigma estiver destinado a vencer sua luta, o nú­
evidências da resolução de problemas para segmr algo mero e a força de seus argumentos persuasivos aumen­
que facilmente se revela um engodo e vir a ser _ampl�­ tará. Muitos cientistas serão convertidos e a explora­
mente considerado como taI.,Mas somente a cnse nao ção do novo paradigma prosseguirá. O número de
é -mficiente. É igualmente necessário que exista uma experiências, instrumentos, artigos e livros baseados no
base para a fé. no candidato específico escolhido, embo- paradigma multiplicar-se-á gradualment�� Mais cien-
198 199
tistas, convencidos da fecundidade da nova concepção,
adotarão a nova maneira de praticar a ciência normal,
até que restem apenas alguns poucos opositores mais
velhos. E mesmo estes não podemos dizer que estejam
errados. Embora o historiador sempre possa encon­
trar homens - Priestley, por exemplo - que não
foram razoáveis ao resistirem por tanto tempo, não
encontrará um ponto onde a resistência torna-se ilógi­
ca ou acientífica. Quando muito ele poderá querer di­
zer que o homem que continua a resistir após a con­
versão de toda a sua profissão deixou ipso facto de
ser um cientista.

12. O PROGRESSO ATRAV)j,S DE REVOLUÇÕES

Nas páginas precedentes apresentei uma descrição


esquemática do desenvolvimento científico, de manei­
ra tão elaborada quanto era possível neste ensaio.
Entretanto, essas páginas não podem proporcionar uma
conclusão. Se essa descrição captou a estrutura essen­
cial da evolução contínua da ciência, colocou ao mes­
mo tempo um problema especial: por que o empreen­
dimento científico progride regularmente utilizando
meios que a Arte, a Teoria Política ou a Filosofia não
podem empregar? Por que será o progresso um pré-re­
quisito reservado quase exclusivamente para a ativi­
dade que chamamos ciência,? As respostas mai usuais
para essa questão foram recusadas no corpo deste

200 201
ensaio. Temos que concluí-lo perguntando se é poss.i­ Essa afirmação possui uma recíproca que, embi­
vel encontrar respostas substitutivas. ra já não seja simplesmente semântica, pode auxiiiar
a exposição das conexões inextricáveis entre nossas
. . Percebe-se imediatamente que parte da questão é noções de ciência e progresso. Por muitos séculos, tan­
mtetramente semântica. O termo ciência está reserva­
do, em grande medida, para aquelas áreas que progri­ to na Antiguidade como nos primeiros tempos da Euro­
dem de uma maneira óbvia. Mais do que em qualquer pa Moderna, a Pintura foi considerada como a disci­
outro lugar, nota-se isso claramente nos debates re­ plina cumulativa por excelência. Supunha-se então que
correntes sobre a científicidade de uma ou outra ciên­ o objetivo do artista era a representação. Críticos e
cia social contemporânea. Tais debates apresentam pa­ historiadores, como Plínio e Vasari, registravam com
ralelos com os períodos pré-paradigmáticos em áreas veneração a série de invenções que, do escorço ao cla­
que atualmente são rotuladas de científicas sem hesi­ ro-escuro, haviam tornado possível representações sem­
tação. O objeto ostensivo dessas discussões consiste pre mais perfeitas da natureza.1 Mas nesse período e
numa definição desse termo vexatório. Por exemplo, especialmente durante a Renascença, não se estabe­
alguns argumentam que a Psicologia é uma ciência lecia uma clivagem muito grande entre as ciências e
porque possui tais e tais características. Outros, ao as artes. Leonardo, entre muitos outros, passava livre­
contrário, argumentam que tais características são des­ mente de um campo para outro. Uma separação ca­
necessárias ou não são suficientes para converter esse tegórica entre a ciência e a arte surgiu somente mais
campo de estudos numa ciência. Muitas vezes inves­ tarde.2 Além disso, mesmo após a interrupção desse
te-se grande quantidade de energia numa discussão intercâmbio contínuo, o termo "arte" continuou a ser
desse gênero, despertam-se grandes paixões, sem que aplicado tanto à tecnologia como ao artesanato, que
o observador externo saiba por quê. Uma definição também eram considerados como passíveis de aper­
de ciência possui tal importância? Pode uma defini­ feiçoamento, tal como a pintura e a escultura. Foi so­
ção indicar-nos se um homem é ou não um cientista? mente quando essas duas últimas disciplinas renuncia­
Se é assim, por que os artistas e os cientistas das ciên­ ram de modo inequívoco fazer da representação seu
cias da natureza não se preocupam com a definição objetivo último e começaram novamente a aprender
do termo? Somos inevitavelmente levados a suspeitar com modelos primitivos que a separação atual adqui­
de que está em jogo algo mais fundamental. Prova­ riu toda sua profundidade. Mesmo hoje em dia, parte
velmente estão sendo colocadas outras perguntas, co­ das nossas dificuldades para perceber as diferenças pro­
mo as seguintes: por que minha área de estudos não fundas que separam a ciência e a tecnologia, devem
progride do mesmo modo que a Física? Que mudan­ estar relacionadas com o fato de o progresso ser um
ças de _técnica, método ou ideologia fariam com que atributo óbvio dos dois campos. Contudo, reconhecer
progredisse? Entretanto, essas não são perguntas que que tendemos a considerar como científica qualquer
possam ser respondidas através de um acordo sobre área de estudos que apresente um progresso marcante,
definições. Se vale o precedente das ciências naturais, ajuda-nos apenas a esclarecer, mas não a resolver nos­
tais questões não deixariam de ser uma fonte de preo­ sa dificuldade atual. Permanece ainda o problema de
cupações caso fosse encontrada uma definição, mas compreender por que o progresso é uma característi­
somente quando os grupos que atualmente duvidam ca notável em um empreendimento conduzido com as
de seu status chegassem a um consenso sobre suas rea­ técnicas e os objetivos que descrevemos neste ensaio.
l�za��s :passadas e presentes. Por exemplo, talvez seja Tal pergunta possui diversos aspectos e teremos que
s1gmf1cativo que os economistas discutam menos so­
bre a cientificidade de seu campo de estudo do que 1. 00MBllICHE, E. H. Art and lllusion: A Study in the Psychology o/
profissionais de outras áreas da ciência social. Deve-se Pictorial Representation. (Nova York, 1960), pp. 11-12.
2. Ibid., p. 97; e GIOllGIO DE SANTILLANA, "The Role of Art ln the
issp ao fato de os economistas saberem o que é ciência? Scientific Renaissance", em Criticai Problems ln the History o/ Sclence,
Ou será que estão de acordo a respeito da Economia'? ed. M. Clagett (Madison, Wisconsin, 1959), pp. 33-65,

203
202
examinar cada um deles separadamente. Em todos esses totélicos e não que o aristotelismo tenha estagnado.
aspectos, com exceção do último, a solução dependerá Contudo, tais dúvidas a respeito do progresso também
da inversão de nossa concepção normal das relações surgem nas ciências./ Durante o período pré-paradig­
entre a atividade científica e a comunidade que a pra­ mático, quando temos uma multiplicidade de escolas
tica. Precisamos aprender a reconhecer como causas em competição, torna-se muito difícil encontrar pro­
o que em geral temos considerado como efeitos. Se vas de progresso, a não ser no interior das escolas. O
pudermos fazer isso, as expressões "progresso cientí­ Cap. 1 descreveu esse período como sendo aquele no
fico" e mesmo "objetividade científica" poderão pare­ qual os indivíduos praticam a ciência, mas os resulta­
cer redundantes. Na realidade, acabamos de ilustrar dos de seu empreendimento não se acrescentam à ciên­
um aspecto dessa redundância. Um campo de estudos cia, tal como a conhecemos. Durante os períodos re­
progride porque é uma ciência 01Lé uma ciência�por­ volucionários, quando mais uma vez os princípios fun­
-que progride? damentais de uma disciplina são questionados, repe­
Perguntemos agora por que um empreendimento tem-se as dúvidas sobre a própria possibilidade de pro­
como a ciência normal deve progredir, começando por gresso contínuo, caso um ou outro dos paradigmas
recordar algumas de suas características mais salientes. alheios sejam adotados. Os que rejeitavam as teorias
Normalmente, os membros de uma comunidade cien­ de Newton declaravam que sua confiança nas forças
tífica amadurecida trabalham a partir de um único pa­ inatas faria a ciência voltar à Idade das Trevas. Os
radigma ou conjunto de paradigmas estreitamente re­ que se opunham à Química de Lavoisier sustentavam
lacionados. Raramente comunidades científicas diferen­ que a rejeição dos "princípios" químicos em favor dos
tes investigam os mesmos problemas. Em tais casos elementos estudados no laboratório equivalia à rejeição
excepcionais, os grupos partilham vários dos princi­ das explicações químicas estabelecidas por parte da­
pais paradigmas. Entretanto, examinando-se a questão queles que se refugiariam numa simples nomenclatura.
a partir de uma única comunidade, de cientistas ou Um sentimento semelhante, ainda que expresso de ma­
não-cientistas, o resultado do trabalho criador bem su­ neira mais moderada, parece estar na base da oposi­
cedido é o progresso. Como poderia ser de outra for­ ção de Einstein, Bohr e outros contra a demonstração
ma? Por exemplo, acabamos de observar que enquanto probabilística dominante na Mecânica Quântica. Em
os artistas tiveram como objetivo a representação, tan­ suma, o progresso parece óbvio e assegurado somente
to os críticos como os historiadores registraram o pro­ durante aqueles períodos em que predomina a ciência
gresso do grupo, que aparentemente era unido. Outras normal. Contudo, durante tais períodos, a comunidade
áreas de criatividade apresentam progressos do mesmo científica está impossibilitada de conceber os frutos de
gênero. O teólogo que articula o dogma ou o filósofo seu trabalho de outra maneira.
que aperfeiçoa os imperativos kantianos contribuem Assim, no que diz respeito à ciência normal, par­
para o progresso, ainda que apenas para o do grupo te da resposta para o problema do progresso está no
que compartilha de suas premissas. Nenhuma escola olho do espectador. '.O progresso científico não difere
criadora reconhece uma categoria de trabalho que, de daquele obtido em outras áreas, mas a ausência, na
um lado, é um êxito criador, mas que, de outro, não é maior parte dos casos, de escolas competidoras que
uma adição às realizações coletivas do grupo. Se, co­ questionem mutuamente seus objetivos e critérios, tor­
mo fazem muitos, duvidamos de que áreas não-cientí­ na bem mais fácil perceber o progresso de uma co­
ficas realizem progressos, isso não se deve ao fato de munidade científica normal. 1Entretanto, isto é somente
que escolas individuais não progridam. Deve-se antes parte da resposta e de modó algum a parte mais impor­
à existência de escolas competidoras, cada uma das tante. Por exemplo, já observamos que a comunidade
quais questiona constantemente os fundamentos alheios. científica, uma vez liberada da necessidade de reexa­
Quem, por exemplo, argumenta que a Filosofia não minar constantemente seus fundamentos em vista da
progrediu, sublinha o fato de que ainda existam aris- aceitação de um paradigma comum, permite a seus

204 205
membros concentrarem-se exclusivamente nos fenôme­ te em termos da importância social de uma solução.
nos mais esotéricos e sutis que lhes interessam. Ine­ Em vista disso, qual dos dois grupos nos permite espe­
vitavelmente, isso aumenta tanto a competência como rar uma solução mais rápida dos problemas?
a eficácia com as quais o grupo como um todo resol­ Os efeitos da insulação frente à sociedade global
ve novos problemas. Outros aspectos da vida profis­ são largamente intensificados por uma outra caracte­
sional científica aumentam ainda mais essa eficácia rística da comunidade científica profissional - a na­
muito especial. . tureza de seu aprendizado. Na Música, nas Artes Grá­
Alguns defses aspectos são conseqüência de um ficas e na Literatura, o profissional adquire sua edu­
isolamento sem paralelo das comunidades científicas cação ao ser exposto aos trabalhos de outros artistas,
amadurecidas, frente às exigências dos não-especialis­ especialmente àqueles de épocas anteriores. Manuais,
tas e da vida cotidiana. Tal isolamento nunca foi com­ com exceção dos compêndios ou manuais introdutórios
pleto - estamos discutindo questões de grau. Não obs­ às obras originais, desempenham um papel apenas se­
tante, em nenhuma outra comunidade profissional o tra­ cundário. /Em História, Filosofia e nas Ciências Sociais,
balho criador individual é endereçado a outros mem­ a literatura dos manuais adquire uma significação mais
bros da profissão ( e por eles avaliado) de uma ma­ importante. Mas, mesmo nessas áreas, os cursos uni­
neira tão exclusiva. O mais esotérico dos poetas e o versitários introdutórios utilizam leituras paralelas das
mais abstrato dos teólogos estão muito mais preocupa­ fontes originais, algumas sobre os "clássicos" da dis­
dos do que o cientista com a aprovação de seus tra­ ciplina, outras relacionadas com os relatórios de pes­
balhos criadores por parte dos leigos, embora possam quisas mais recentes que os profissionais do setor escre­
estar menos preocupados com a aprovação como tal. veram para seus colegas. Resulta assim que o estu­
Essa diferença gera uma série de conseqüências. Uma dante de cada uma dessas disciplinas é constantemen­
vez que o cientista trabalha apenas para uma audiên­ te posto a par da imensa variedade de problemas que
cia de colegas, audiência que partilha de sew valores os membros de seu futuro grupo tentarão resolver com
e crenças, ele pode pressupor um conjunto específico o correr do tempo. Mais importante ainda, ele tem
de critérios. O cientista não necessita preocupar-se com constantemente frente a si numerosas soluções para
o que pensará outro grupo ou escola. Poderá portanto tais problemas, conflitantes e incomensuráveis - so­
resolver um problema e passar ao seguinte mais rapi­ luções que, em última instância, ele terá que avaliar
damente do que os que trabalham para um grupo mais por si mesmo.
heterodoxo. Mais importante ainda, a insulação da co­ Comparemos essa situação com a das ciências da
munidade científica frente à sociedade permite a cada natureza contemporâneas. Nessas áreas o estudante
cientista concentrar sua atenção sobre os problemas fia-se principalmente nos manuais, até iniciar sua pró­
que ele se julga competente para resolver. Ao contrá­ pria pesquisa, no terceiro ou quarto ano de trabalho
rio do engenheiro, de muitos médicos e da maioria dos graduado. Muitos currículos científicos nem sequer
teólogos, o cientista não está obrigado a escolher um exigem que os alunos de pós-graduação leiam livros
problema somente porque este necessita de uma solu­ que não foram escritos especialmente para estudantes.
ção urgente. Mais: não está obrigado a escolher um Os poucos que exigem leituras suplementares de mo­
problema sem levar em consideração os instrumentos nografias e artigos de pesquisa, restringem tais tarefas
disponíveis para resolvê-lo. Desse ponto de vista, o aos cursos mais avançados, e as leituras que desenvol­
contraste entre os cientistas ligados às ciências da na­ vem os assuntos tratados nos manuais. Até os últimos
tureza e muitos cientistas sociais é instrutivo. Os últi­ estágios da educação de um cientista, os manuais subs­
mos tendem freqüentemente - e os primeiros quase tituem sistematicamente a literatura científica da qual
nunca - a defender sua escolha de um objeto de pes­ derivam. Dada a confiança em seus paradigmas, que
quisa - por exemplo, os efeitos da discriminação ra­ torna essa técnica educacional possível, poucos cien­
cial ou as causas do ciclo econômico - principalmen- tistas gostariam de modificá-la. Por que deveria o estu-

206 207
dante de Física ler, por exemplo, as obras de Newton, Ainda uma vez poderíamos aprender muito perguntan­
Faraday, Einstein ou Schrõdinger, se tudo que ele ne­ do que outro resultado uma revolução poderia ter. As
cessita saber acerca desses trabalhos está recapitulado revoluções terminam com a vitória total de um dos
de uma forma mais breve, mais precisa e mais siste­ dois campos rivais. Alguma vez o grupo vencedor afir­
mática em diversos manuais atualizados? ,,,,,- mará que o resultado de sua vitória não corresponde
Sem querer def�nder os excessos a que levou esse a um progresso autêntico? Isso equivaleria a admitir
tipo de educação eín determinadas ocasiões, não se que o grupo vencedor estava errado e seus oponentes
pode deixar de reconhecer que, em geral, ele foi· imen­ certos. Pelo menos para a facção vitoriosa, o resulta­
samente eficaz. Trata-se certamente de uma educação do de uma revolução deve ser o progresso. Além dis­
rígida e estreita, mais do que qualquer outra, provavel­ so, esta dispõe de uma posição excelente para assegu­
mente - com a possível exceção da teologia ortodoxa. rar que certos membros de sua futura comunidade jul­
Mas para o trabalho científico normal, para a resolu­ guem a história passada desde o mesmo ponto de vista.
ção de quebra-cabeças a partir de uma tradição defi­ O Cap. 1 O descreveu detalhadamente as técnicas que
nida pelos manuais, o cientista está equipado de for­ asseguram a consecução desse objetivo. Ainda há pou­
ma quase perfeita. Além disso, está bem equipado para co examinamos um aspecto da vida científica profis­
uma outra tarefa - a produção de crises significati­ sional estreitamente relacionado com esse ponto./Quan­
vas por intermédio da ciência normal. Quando tais do a comunidade científica repudia um antigo para­
crises surgem, o cientista não está, bem entendido, tão digma, renuncia simultaneamente à maioria dos livros
bem preparado. Embora as crises prolongadas prova­ e artigos que o corporificam, deixando de considerá-los
velmente dêem margem a práticas educacionais menos como objeto adequado ao escrutínio científico./A edu­
rígidas, o treino científico não é planejado para pro­ cação científica não possui algo equivalente ao museu
duzir alguém capaz de descobrir facilmente uma nova de arte ou a biblioteca de clássicos. Daí decorre, em
abordagem para os problemas existentes. Mas enquan­ alguns casos, uma distorção drástica da percepção que
to houver alguém com um novo candidato a paradig­ o cientista possui do passado de sua disciplina. Mais
ma - em geral proposta de um jovem ou de um no­ do que os estudiosos de outras áreas criadoras, o cien­
vato no campo - os inconvenientes da rigidez atin­ tista vê esse passado como algo que se encaminha, em
girão somente o indivíduo isolado. Quando se dispõe linha reta, para a perspectiva atual da disciplina. Em
de uma geração para realizar a modificação, a rigidez suma, vê o passado . da disciplina como orientado para
individual pode ser compatível com uma comunidade o progresso. Não terá outra alternativa enquanto per­
capaz de trocar de paradigma quando a situação o manecer ligado à atividade científica.
exigir. Mais especificamente, pode ser compatível se Tais considerações sugerirão, inevitavelmente, que
essa mesma rigidez for capaz de fornecer à comunida­ o membro de uma comunidade científica amadurecida
de up:1 indicador sensível de que algo vai mal. é, como o personagem típico do livro 1984 de Orwell,
•Desse modo, no seu estado normal, a comunida­ a vítima de uma história reescrita pelos poderes consti­
de científica é um instrumento imensamente eficiente tuídos - sugestão aliás não totalmente inadequada.
para resolver problemas ou quebra-cabeças definidos Um balanço das revoluções científicas revela a exis­
por seu paradigma. Além do mais, a resolução desses, tência tanto de perdas como de ganhos e os cientistas
problemas deve levar inevitavelmente ao progresso./ tendem a ser particularmente cegos para as primeiras.3
Esse ponto não é problemático. Contudo, isso servé'
apenas para ressaltar o segundo aspecto da questão 3. Os historiadores da ciência encontram seguidamente esse gênero
do progresso nas ciências. Examinemo-lo, perguntando de cegueira sob uma forma particularmente surpreendente. Entre os
pelo progresso alcançado através da ciência extraordi­ div«sos grupos de estudantes, o composto por aqueles dotados de for­
mação científica 6 o que mais gratifica o professor. Mas é também o
nária. Aparentemente o progresso acompanha, na to­ mais frustrante no início do trabalho. Já que os estudantes de ciência
"sabem quais são as respostas certas", toma-se particularmente difícil
talidade dos casos, as revoluções científicas. Por quê? faze.los analisar uma c1encia mais antiga a partir dos pressupostos desta.

208 209
Por outro lado, nenhuma explicação do progresso ge­ n:iuni?ade be_m �efinida formada pelos colegas profis­
rado por revoluções pode ser interrompida neste pon­ sionais do cientista. Uma das leis mais fortes, ainda
to. Isso seria subentender que nas ciências o poder que não escrita, da vida científica é a proibição de
cria o direito - formulação que não seria inteiramen­ apelar,ª che�es de Estado ou ao povo em geral, quan­
te equivocada se não suprimisse a natureza do progres­ do esta em Jogo um assunto relativo à ciência. O re­
so e da autoridade por meio dos quais se escolhe entre conhecimento da existência de um grupo profissional
paradigmas. Se somente a autoridade (e especialmen­ competente e sua aceitação como árbitro exclusivo das
te a autoridade não-profissional) fosse o árbitro dos realizações profissionais possui outras implicações. Os
debates sobre paradigmas, daí ainda poderia resultar membros do grupo, enquanto indivíduos e em virtude
uma revolução, mas não uma revolução científica. A de seu treino e experiência comuns, devem ser vistos
própria existência da ciência depende da delegação do como os únicos conhecedores das regras do jogo ou
poder de escolha entre paradigmas a membros de um de algum critério equivalente para julgamentos inequí­
tipo especial de comunidade. Quão especial essa co­ vocos. Duvidar da existência de tais critérios comuns
munidade precisa ser para que a ciência possa sobre­ de avaliação seria admitir a existência de padrões
viver e crescer verifica-se pela fragilidade do contro­ incompatíveis entre si para a avaliação das realizações
le que a Humanidade possui sobre o empreendimento científicas. Tal admissão traria inevitavelmente à baila
científico. Cada uma das civilizações a respeito das a questão de se a verdade alcançada pelas ciências pode
quais temos informações possuía uma tecnologia, uma ser una.
arte, uma religião, um sistema político, leis e assim Essa pequena lista de características comuns às
por diante. Em muitos casos, essas facetas da civili­ comunidades científicas foi inteiramente retirada da
zação eram tão desenvolvidas como as nossas. Mas prática da ciência normal, tal como era requerido. O
apenas as civilizações que descendem da Grécia he­ cientista é originalmente treinado para realizar seme­
lênica possuíram algo mais do que uma ciência rudi­ lhante atividade. Observe-se, entretanto, que a despei­
mentar. A massa dos conhecimentos científicos exis­ to de sua concisão, a lista permite distinguir tais co­
tentes é um produto europeu, gerado nos últimos qua­ munidades de todos os outros grupos profissionais.
tro séculos. Nenhuma outra civilização ou época man­ Note-se ainda que a despeito de sua origem na ciência
teve essas comunidades muito especiais das quais pro­ normal, a lista explica muitas das características espe­
vêm a produtividade científica. ciais das respostas da comunidade científica durante
Quais são as características essenciais de tais co­ revoluções (e especialmente durante debates sobre o
munidades? Obviamente, elas requerem muito mais paradigma). Já observamos que um grupo dessa na­
estudo do que o existente. Nesse terreno, somente são tureza deve necessariamente considerar a mudança de
possíveis as generalizações exploratórias. Não obstan­ paradigma como um progresso. Em aspectos impor­
te, diversos requisitos necessários para tornar-se mem­ tantes, a maneira de perceber contém em si - pode­
bro de um grupo científico profissional devem estar mos agora admitir - sua autoconfirmação. A comu­
perfeitamente claros a esta altura. Por exemplo, o cien­ nidade científica é um instrumento extremamente efi­
tista precisa estar preocupado com a resolução de pro­ caz para maximizar o número e a precisão dos pro­
blemas relativos ao comportamento da natureza. Além plemas resolvidos por intermédio da mudança de pa­
disso, embora essa sua preocupação possa ter uma · radigma.
amplitude global, os problemas nos quais trabalha de­ Uma vez que o problema da unidade do empreen-
vem ser problemas de detalhe. Mais importante ainda, dimento ci�ntífico está solucionado e visto que o grupo
as soluções que o satisfazem nã o podem ser meramen­ sabe perfeitamente quais os problemas já esclarecidos,
te pessoais, mas devem ser aceitas por muitos. Contu­ poucos cientistas poderão ser facilmente persuadidos
do, o grupo que as partilha não pode ser extraído ao a adotar um ponto de vista que reabra muitos proble­
acaso da sociedade global. Ele é, ao contrário, a cer mas já resolvidos. Antes de mais nada é preciso que

2/0 211
a natureza solape a segurança profissional, fazend,o das experimentadas pelas comunidades individuais, a
com que as explicações anteriores pareçam problema­ natureza de tais grupos fornece uma garantia virtual
ticas. Além disso, mesmo nos casos em que isso ocor­ de que tanto a relação dos problemas resolvidos pela
re e um novo candidato a paradigma aparece, os cien­ ciência, como a precisão das soluções individuais de
tistas relutarão em adotá-lo a menos que sejam con­ problemas aumentarão cada vez mais. Se existe pos­
vencidos gue duas condições primordiais_ foram preen­ sibilidade de fornecer tal garantia, ela será proporcio­
chidas. (Em primeiro lugar, o novo candidato deve p�­ nada pela natureza da comunidade. Poderia haver me­
recer capaz de solucionar algum problema extraordi­ lhor critério do que a decisão de um grupo científico?
nário' reconhecido como tal pela comunidade e que . Os últimos parágrafos indicam em que direções
não possa ser analisado de nenhuma outra maneira. creio se deva buscar uma solução mais refinada para
Em segundo, o novo paradigma deve garantir a pre­ o problema do progresso nas ciências. Talvez indiquem
servação de uma parte relativamente grande da ca­ que o progresso científico não é exatamente o que
pacidade objetiva de resolver problemas, conquistada acreditávamos que fosse. Mas, ao mesmo tempo, mos­
pela ciência com o auxílio dos paradigmas anteriores. tram que algum tipo de progresso inevitavelmente ca­
A novidade em si mesma não é um desiderato das racterizará o empreendimento científico enquanto tal
ciências, tal como em outras áreas da criatividade hu­ atividade sobreviver. Nas ciências, não é necessário ha­
mana. Como resultado, embora novos paradigmas ra­ ver progresso de outra espécie. Para ser mais preciso,
ramente ( ou mesmo nunca) possuam todas as poten­ talvez tenhamos que abandonar a noção, explícita ou
cialidades de seus predecessores , preservam geralmen­ implícita, segundo a qual as mudanças de paradigma
te, em larga medida, o que as realizações científicas levam os cientistas e os que com eles aprendem a uma
passadas possuem de mais concreto. Além disso, se�­ proximidade sempre maior da verdade.
ciona-1t/'
pre
. permitem
. a solução concreta de problemas adi- Já é tempo de indicar que até. as últimas páginas
deste ensaio, o termo "verdade" só havia aparecido
Nao queremos com isso sugerir que a habilidade numa citação de Francis Bacon. Mesmo nesse caso,
para resolver problemas constitua a única base ou uma apareceu tão-somente como uma fonte de convicção
base inequívoca para a escolha de paradigmas. Já apon­ do cientista que afirma a impossibilidade da coexistên­
tamos muitas razões que_)mpossibilitam a existência cia entre regras incompatíveis para o exercício da ciên­
de um critério desse tipo. fContudo, sugerimos que uma cia - exceto durante as revoluções. Nessas ocasiões,
comunidade de especialist�s científicos fará todo o pos­ a tarefa principal da profissão consiste em eliminar to­
sível para assegurar o crescimento contínuo dos da­ dos os conjuntos de regras, salvo um único. O proces­
dos coletados que está em condições de examinar de so de desenvolvimento descrito neste ensaio é um pro­
maneira precisa e detalhada. No decorrer desse pro­ cesso de evolução a partir de um início primitivo -
cesso, a comunidade sofrerá perdas. Com freqüência processo cujos estágios sucessivos caracterizam-se por
alguns problemas antigos precisarão ser abandonados. uma compreensão sempre mais refinada e detalhada
Além disso, comumente a revolução diminui o âmbito da natureza. Mas nada do que foi ou será dito trans­
dos interesses profissionais da comunidade, aumenta forma-o num processo de evolução em direção a algo.
seu grau de especialização e atenua sua comunicação Inevitavelmente, tal lacuna terá perturbado muitos lei­
com outros grupos, tanto científicos como leigos-' Embo­ tores. Estamos muito acostumados a ver a ciência co­
ra certamente a ciência se desenvolva em termos de mo um empreendimento que se aproxima cada vez
profundidade, pode não desenvolver-se em termos de mais de um objetivo estabelecido de antemão pela na­
amplitude. Quando o faz, essa amplitude manifesta-se tureza.
principalmente através da proliferação de especialida­ Mas tal objetivo é necessário? Não poderemos
des científicas e não através do âmbito de uma única explicar tanto a existência da ciência como seu suces­
especialidade. Todavia, apesar dessas e de outras per- so a partir da evolução do estado dos conhecimentos
212 213
da comunidade em um dado momento? Será realmen­ Para muitos, a abolição dessa espec1e de evolu­
te útil conceber a existência de uma explicação com­ ção teleológica foi a mais significativa e a menos acei­
pleta, objetiva e verdadeira da natureza, julgando as tável das sugestões de Darwin. 5 A Origem das Espécies
realizações científicas de acordo com sua capacidade não reconheceu nenhum objetivo posto de antemão por
para nos aproximar daquele objetivo último? Se pu­ Deus ou pela natureza. Ao invés disso, a seleção na­
dermos aprender a substituir a evolução-a-partir-do­ tural, operando em um meio ambiente dado e com os
que-sabemos pela evolução-em-direção-ao-que-quere­ organismos reais disponíveis, era a responsável pelo
mos-saber, diversos problemas aflitivos poderão desa­ surgimento gradual, mas regular, de organismos mais
parecer nesse processo. Por exemplo, o problema da elaborados, mais articulados e muito mais especializa­
indução deve estar situado em alguII_l ponto desse la­ dos. Mesmo órgãos tão maravilhosamente adaptados
birinto. como a mão e o olho humanos - órgãos cuja estru­
Ainda não posso especificar detalhadamente as tura fornecera no passado argumentos poderosos em
conseqüências dessa concepção alternativa do progres­ favor da existência de um artífice supremo e de um
so científico. A questão se esclarece melhor se reco­ plano prévio - eram produtos de um processo que
nhecemos que a transposição conceituai aqui recomen­ avançava com regularidade desde um início primitivo,
dada aproxima-se muito daquela empreendida pelo sem contudo dirigir-se a nenhum objetivo. A crença
Ocidente há apenas um século. Isto porque, em ambos de que a seleção natural, resultando de simples com­
os casos, o principal obstáculo para a transposição era petição entre organismos que lutam pela sobrevivência,
o mesmo. Em 1859, quando Darwin publicou pela pri­ teria produzido homem com animais e plantas supe­
meira vez sua teoria da evolução pela seleção natural, riores era o aspecto mais difícil e mais perturbador da
a maior preocupação de muitos profissionais não era teoria de Darwin. O que poderiam significar "evolu­
nem a noção de mudança das espécies, nem a possí­ ção", "desenvolvimento" e "progresso" na ausência de
vel descendência do homem a partir do macaco. As um objetivo especificado? Para muitas pessoas, tais ter­
provas apontando para a evolução do homem haviam mos adquiriram subitamente um caráter contraditório.
sido acumuladas por décadas e a idéia de evolução já A analogia que relaciona a evolução dos organis­
fora amplamente disseminada. Embora a evolução, co­ mos com a evolução das idéias científicas pode facil­
mo tal, tenha encontrado resistência, especialmente por mente ser levada longe demais. Mas com referência
parte de muitos grupos religiosos, essa não foi, de for­ aos assuntos tratados neste capítulo final ela é quase
ma alguma, a maior das dificuldades encontradas pelos perfeita. O processo que o Cap. 11 descreve como a
darwinistas. Tal dificuldade brotava de uma idéia mui­
to chegada às do próprio Darwin. Todas as bem co­ resolução das revoluções corresponde à seleção pelo
nhecidas teorias evolucionistas pré-darwinianas - as conflito da maneira mais adequada de praticar a ciên­
de Lamarck, Chambern, Spencer e dos Naturphiloso­ cia - seleção realizada no interior da comunidade
phen alemães - consideravam a evolução um proces­ científica. O resultado final de uma seqüência de tais
so orientado para um objetivo. A "idéia" de homem, seleções revolucionárias, separadas por períodos de
bem como as da flora e fauna contemporâneas, eram pesquisa normal, é o conjunto de instrumentos nota­
pensadas como existentes desde a primeira criação da velmente ajustados que chamamoo de conhecimento
vida, presentes talvez na mente divina. Essa idéia ou científico moderno. Estágios sucessivos desse proces­
plano fornecera a direção e o impulso para todo o so de desenvolvimento são marcados por um aumento
processo de evolução. Cada novo estágio do desenvol­ de articulação e especialização do saber científico. To­
vimento da evolução era uma realização mais perfeita do esse processo pode ter ocorrido, como no caso da
de um plano presente desde o início.4
S. Para um relato particularmente penetrante da luta de um eminen e
4. EisELEY, Loren. Darwin's Century: Evolution and the Men Who darwinista com esse problema, ver A. HUNTER OUPREE, Asa Gray, 181 i -
Discovered li. (Nova York, 1958), Caps. II, IV-V. 1888 (Cambridge, Mass., 1959), pp. 295-306, 355-383.

215
214
evolução biológica, sem o benefício de um objetivo
preestabelecido, sem uma verdade científica permanen­
temente fixada, da qual cada estágio do desenvolvi­
mento científico seria um exemplar mais aprimorado.
Quem quer que tenha seguido a discussão até
aqui, sentirá, não obstante, a necessidade de pergun­
tar por que o processo evolucionário haveria de ser
bem sucedido. Como deve ser a natureza, incluindo-se
nela o homem, para que a ciência seja possível? Por
que a comunidade científica haveria de ser capaz de
alcançar um consenso estável, inatingível em outros
domínios? Por que tal consenso há de resistir a uma
mudança de paradigma após outra? E por que uma
mudança de paradigma haveria de produzir invaria­
velmente um instrumento mais perfeito do que aque­
les anteriormente conhecidos? Tais questões, com exce­
ção da primeira, já foram respondidas - de um ponto
de vista determinado. Mas, vistas de outra perspecti­
va, estão tão em aberto como no início deste ensaio.
Não é apenas a comunidade científica que deve ser
algo especial. O mundo do qual essa comunidade faz
parte também possui características especiais. Que ca­
racterísticas devem ser essas? Nesse ponto do ensaio
não estamos mais próximos da resposta do que quan­
do o iniciamos. Esse problema - O que deve ser o
mundo para que o homem possa conhecê-lo? - não
foi, entretanto, criado por este ensaio. Ao contrário,
é tão antigo como a própria ciência e permanece sem
resposta. Mas não precisamos respondê-lo aqui. Qual­ POSFÁCIO - 1969
quer concepção da natureza compatível com o cresci­
mento da ciência é compatível com a noção evolucio­
nária de ciência desenvolvida neste ensaio. Uma vez Este livro foi publicado pela primeira vez há qua­
que essa noção é igualmente compatível com a obser­ se sete anos. 1 Nesse intervalo, graças às reações dos
vação rigorosa da vida científica, existem fortes argu­ críticos e ao meu trabalho adicional, passei a com­
mentos para empregá-la nas tentativas de resolver a preender melhor numerosas questões que ele coloca.
multidão de problemas que ainda perduram. Quanto ao fundamental, meu ponto de vista perma­
nece quase sem modificações, mas agora reconheço
aspectos de minha formulação inicial que criaram di­
ficuldades e mal-entendidos gratuitos. Já que sou o
responsável por alguns desses mal-entendidos, sua eli-
1. Este posfácio foi originalmente preparado por sugestão do Dr.
Shigeru Nakayama da Universidade de Tóquio, m eu antigo aluno e amigo,
para ser incluído na sua tradução japonesa deste livro. Sou grato a ele
pela idéia, pela paciência com que esperou sua realização e pela per­
missão para incluir o resultado na edição em língua inglesa.

217
216
minação me possibilita conquistar um terreno que ser­ vindicações que fiz em seu nome são a principal fonte
virá de base para uma nova versão do livro.2 Nesse das controvérsias e mal-entendidos que o livro evocou,
meio tempo acolho com agrado a possibilidade de especialmente a acusação de que transformo,_ _a ciência
esboçar as revisões necessárias, tecer comentários a num empreendimento subjetivo e irracional. Tais temas
respeito de algumas críticas mais freqüentes e sugerir serão considerados nos itens 4 e 5. O primeiro deles
as direções nas quais meu próprio pensamento se de­ argumenta que termos como "subjetivo" e "intuitivo"
senvolve atualmente.3 não podem ser adequadamente aplicados aos compo­
Muitas das dificuldades-chave do meu texto ori­ nentes do conhecimento que descrevi como tacitamen­
ginal agrupam-se ém torno do conceito de paradigma. te inseridos em exemplos partilhados. Embora tal co­
Começarei minha discussão por aí.4 No primeiro item nhecimento não possa, sem modificação essencial, ser
que segue, pro_pore_i a COJ!veniência_de desligar esse c�!l: parafraseado em termos de regras e critérios, não
ceita da noção de comunidade científica, indicarei co­ obstante, é sistemático, testado pelo tempo e em algum
mo isso pode ser feito e discutirei algumas conseqüên­ sentido, passível de correção. Q.:.. item 5 é!pJi.ca esse
cias significativas da separação analítica resultante. Em argumento aQ _problema da escolha entre duas teoríàs
· seguida considerarei o que ocorre quando se busca pa­ incompatíveis. Numa-breve ~conclusão, insfamosa_ que' �
. radigmas examinando o comportamento dos membros os homens que defendem pontos de vista não compa­
da comunidade científica previamente determinada. ráveis sejam pensados como membros de diferentes co­
,,..Percebe-se rapidamente qt1e_n_a, maior parte do livro <> munidades de linguagem e que analisemos seus proble­
termo "paradigma" é usado em 1iois sentidos diferen­ mas de comunicações como problemas de tradução. Três
tes. De ""um lado, indica toda a .constelação_de crenÇJJs, assuntos residuais são discutidos nos itens finais 6 e
vatóres'; técnicâs, ..etc .:...: . ' pl!_rµlhada,s pelos membt:OS 7. O primeiro examina a acusação de que a concepção
de umà·comunidade determinada.· De out_�d�nota um de ciência desenvolvida neste livro é totalmente rela­
ti�y-�lemento dessa, ç_9pste�� - ��oe(.� tivista. O segundo começa perguntando se minha argu­
cr�.de... quebra-caÕ:Ççãs· g.úe; empregadas -como mo­ mentação realmente sofre, como tem sido dito, de uma
delos ou exemplos, podem substituir regras explícitas confusão entre o descritivo e o normativo; conclui com
\ como base para a solução dos restantes quebra-cabeças observações sumárias a respeito de um tópico merece­
1 da ciência normal. O . primeiro sentido do termo, que
dor de um ensaio em separado: a extensão na qual as
.i chamaremos de sociológico, é o objeto do item 2; o teses principais do livro podem ser legitimamente apli­
it� 3 � �e_votad9 aos_para��� enqu_�I!!º réíilizações cadas a outros campos além da ciência. ,,,
passadas dotadas de naturez1! exemplar.
Pelo menos filosoficamente, este segundo sentido 1. Os paradigmas e a estrutura da comunidade '
de "paradigma" é o mais profundo dos dois. As rei-
2. Não procurei, para esta edição, reescrever sistematicamente o O termo "paradigma" aparece nas primeiras pá­
livro. Restringi-me a corrigir alguns erros tipográficos, além de duas
pass�ens que continham erros isoláveis. Um desses erros é a descrição
ginas do livro e a sua forma de aparecimento ç intrin­
do papel dos Principia de Newton no desenvolvimento da Mecânica do
século XVIII que aparece nas pp. 51-54. O outro refere-se à resposta às
secamente _circular. Um.�g�a...é aq�i�Q que os
crises, na p. 115. membros �e�1!1ª ÇQtm!!lipade__pfil'!P.llª.lll.!J._ i11y�liª'me_p­
3. Outras indicações podem ser encontradas em dois ensaios recentes ·1e uma comunidade científica consiste em liomç,ns _gue
de minha autoria: "Reflection on My Critics". em IMRE LAKATOS e ALAN
MuSGRAVE (eds.), Crlticlsm and the Growth of Knuwledge (Cambridge,
1'.·70): e "Second Thoughts on Paradigms", em PATRICK SUPPl!S (ed.),
p�rti!§_� ..u�. p����.a�em t�s. as -circulari�ades
The Structure o/ Scientific Theorles (Urbana, Illinois, 1970 ou 1971). são viciadas (ao ftnaf deste posfac10 defenderei um
Da_qui para frente citarei o primeiro desses ensaios como "Reflections"
e o volume no qual aparece como o Growth of Knowledge; o segundo argumento de estrutura similar), mas esta circularida­
ensaio aparecerá como "Second Thoughts". de é uma fonte de dificuldades reais. As comunidades
4. Para uma crítica particularmente cogente da minha apresentação
inicial dos paradigmas, ver: Mil.GARET MAsTERMAN, "The Nature of a podem e devem ser isoladas sem recurso prévio aos pa­
Paradigm", em Growth o/ Know/edge; e DULEV SHAPERE, The Structure
of Scientific Revolutions, Philosophical Revlew, LXXIII, pp. 383-94 (1964). radigmas; em seguida esses podem ser descobertos atra-

218 219
vés do,escrutín{o)do comportamento dos membros de
uma comunidade dada. Se este livro estivesse sendo ·ª
pri o. Há escolas nas ci�ncias ! is!� é, ç�D!!lll!�-9.ue
ã6Õrdam o m.esmo ,_!>Pl�to çien_!!fü:g J>;trhr .de pon­
tos de vist� . in�s>.1P.PMiYçi.§._ Mas são bem mais raras
reescrito, iniciaria com uma discussão da estrutura co­
munitária da ciência, um tópico que recentemente se aqui do que em outras áreas; estão sempre em compe­
tição e na maioria das vezes essas competições termi­
tornou um assunto importante para a pesquisa socioló­
nam rapidamente. O resultado disso é que os mem-,.
gica e que os historiadores da ciência também estão bros de uma comunidade científica vêem a si próprios
começando a levar a sério. Os resultados preliminares, e são vistos pelos outros como os únicos responsáveis
muitos dos quais ainda não publicados, sugerem que pela perseguição de um conjunto de objetivos comuns,
as técnicas empíricas exigidas para a exploração desse que incluem o treino de seus sucessores. No inte[iQLde
tópico não são comuns, mas algumas delas se encon­ tais grupos acQ!llunicação é r,elativamente a�pl�.QS.
tram à nossa disposição e outras certamente serão de­ julga.m,SJ}tos profissioiiaís' �e!ativ��nt� .u�âftJ.mt:s, _tima
senvolvidas. 5 A maioria dos cientistas em atividade res­ vez que a atenção de diferentes comunidades cienti­,
ponde imediatamente a perguntas sobre suas filiações ficas está focalizada sobre assuntos distintos, a comu­
comunitárias, certos de que a responsabilidade pelas nicação profissional entre grupos é algumas vezes árdua.
várias especialidades atuais está distribuída entre gru­ Freqüentemente resulta em mal-entendidos e pode, se
pos com um número de membros pelo menos aproxi­ nela persistirmos, evocar desacordos significativos e
madamente determinado. Portanto, pressuporei aqui '· previamente insuspeitados.
que serão encontradas formas mais sistemáticas para Nesse sentido as comunidades podem certamente
a sua identificação. Em lugar de apresentar os resul­ existir em muitos níveis. A comunidade m�is_�t,l!_l é
tados da investigação preliminar, permitam-me arti­ composta por todos os cientistas ligadQs às ciências da
cular sucintamente a noção intuitiva de comunidade nãtürezâ� Em um nível imediatamente inferior, os prin­
que subjaz em grande parte dos primeiros capítulos cípáís grupos científicos profissionais são comunida 1e�:
deste livro. Atualmente essa noção é amplamente par­ físicos, químicos, astrônomos, zoólogos e outros s1m1-
tilhada por cientistas, sociólogos e um certo número de iares. Para esses agrupamentos maiores, o pertencente
historiadores da ciência. <! uma comunidade é rapidamente estabelecido, exceto
r De acordo com essa concepção, Ullla. comunidade
)científic�_ é -J�gnada _pelos pratican�s de u��spif.ç!â­
nos casos limites. Possuir a mais alta titulação, parti­
cipar de sociedades profission �is, ler �riódicos esP:­
cializados são geralmente condições mais do que sufi­
/lídãcíe cientifica_.. E'�es !Q'fª1iLSüõnietid� a um�__1n,1c1a­ cientes. Técnicas similares nos permitirão isolar tam­
lç[o profissional e a um�- ec;}J,lcaçâuimilaies, numa bém os principais subgrupos: químicos orgânicos (e,
extensão -sem paralelos na maioria das outras discipli­ talvez entre esses, os químicos especializados em pro­
nas. Neste processo absorveram a mesma literatura teínas), físicos de estados sólidos e de energia de alta
técnica e dela retiraram muitas das mesmas lições. Nor­ intensidade radioastrônomos e assim por diante. Os
malmente as fronteiras dessa literatura-padrão marcam problemas 'empíricos emergem apenas no nível ime­
os limites de um objeto de estudo científico e em ge­ diatamente inferior. Para tomar um exemplo contem­
ral cada comunidade possui um objeto de estudo ifro- -- porâneo: como se isolari� � grupo ba�teriófago antes
.. =--"Vi:11 aac ------•::!"·- -�-,-�- -�"" _
de seu reconhecimento publico? Para isso devenamos
--�..

s.W. O. HAosnOM,
The Scienti/ic Communlty (Nova York, 1965),
valer-nos da assistência a conferências especiais, da
Cal)'l.-lV e V; D. J.
PRICE e D. de B. BEAVH, Collaboration in an ln­
visíble College, Amerlcan P.rychologist, XXI, pp. 1011-18(1966); DIANA
distribuição de esboços de manuscritos e de pr?vas
CJIANB, Social Structure in a Grou,p of Scientists: A Test of the "lnvisible
College" Hypothesis, American Soclologlcal Revlew, XXXIV, pp. 335-52
(1969); N. C. MULLINS, Social Networks among Blologlcal Sclentl.rt.r
para a publicação e sobretudo das redes formais e
(Dissertação de doutorado, Universidade de Harvard, 1966) e "Toe informais de comunicação, inclusive daquelas desco­
Micro-Structure of an Invisible College: Toe Phage Group" (comunicação
apresentada na reunião anual da American Sociological Association, Boston, bertas na correspondência dos cientistas e nas liga-
1968).

221
220
ções entre citações.6 Tenho para mim que esta tarefa livro, especialmente por parte daqueles interessados no
pode ser e será feita, pelo menos no tocante ao perío­ desenvolvimento das ciências sociais contemporâneas.
do contemporâneo e épocas históricas mais recentes. Indicar que a transição não precisa ( atualmente penso
De um ponto de vista típico, poderemos produzir co­ que não deveria) estar associada com a primeira aqui­
munidades de talvez cem membros e, ocasionalmente, sição de um paradigma pode ser útil a essa discussão.
de um número significativamente menor. Em geral os Os membros de todas as comunidades científicas
cientistas individuais, especialmente os mais capazes, incluind? as escol�s do período "pré-paradigmático":
pertencerão a diversos desses grupos, simultaneamente compartilham os tipos de elementos que rotulei coleti­
ou em sucessão. vamente de "um paradigma". O que muda com a tran­
As unidades que este livro apresentou como pro­ sição_ à, 1!,¼aturi<!,_ade �� é a p�7s�iiçã\fo-uni'pãradigma,
dutoras e legitimadoras do conhecimento científico são �as __a�t�s �- ��� ºJlJ!YÇz;�. _ Sºnf��--d�I?:'_is o_�:t�a�­
comunidades desse tipo. Os paradigmas �ão algo ce>m­ e poss1vef a_ pesqm�l!:..normal_ onen� para a resolu­
partilhado pelos membros de tais comunidades. Sem _ de queora-cabeças. lfrii vista· disso, atualmente eu
çao
uma referência à natureza desses elementos compar­ consideraria muitos d os atributos de uma ciência de­
tilhados, muitos dos aspectos da ciência descritos nas senvolvida ( que acima associei à obtenção de um pa­
páginas precedentes dificilmente podem ser entendidos. radigma) como conseqüências da aquisição de um tipo
Mas outros aspectos podem ser compreendidos, embo­ de paradigma que i dentifica os quebra-cabeças desafia­
ra não sejam apresentados de forma independente no dores, proporciona pistas para sua solução e garante o
meu texto original. Por isso, antes q� passarmos aQs sucesso do praticante realmente inteligente. Somente
para<!ig_n.ta_s_, _ vale a penã J!!�tÍfiQº-ª!:. uma· s ·éríe -de te­ aqueles que retiram encorajamento da constatação de
mãs- q_ue_ exigem-- rêierên�fa apenas à estrutur�__ comq­ que seu campo de estudo ( ou escola) possui paradig­
nitãria. . · ma estão aptos a perceber que algo importante é sa­
O_mais surl?r.een,d�Jl�e d��s_�s J��L é prov�vel­ crific�do nessa mudança. .,,,..
menJuquil,Q.....'1ue..c4.WP�1-�. t n�ao. d�r.!9.!!_o ,..J.!_f!!�iegundo � :�ais im.R9f1ª.Qte (pelo menos
prwa�é!ticq_para- o pos-paraJigmático durante o para os historiadores), diz res,2eito.,�. identificação__biu­
d esenvolvimento deÜm calflpo ciert'fifiêõ. Esta transi­ nívoca i1!!E!Jcita nçste" furro .,entr��d�-cieut,í­
ção está esboçada no Cap. 1. Antes de ela ocorrer, di­ fiêãs�bjet�Jj.e ,, estudo cien� Procedi repetida­
versas escolas competem pelo domínio de um campo mente como se, digamos, "óptica Física", "Eletrici­
de estudos d eterminado. Mais tarde, no rasto de algu­ dade" e "Calor" devessem indicar comunidades cien­
ma realização científica notável, o número de escolas tíficas porque nomeiam objetos de estudos para a pes­
é grandemente reduzido - em geral para uma única. quisa. A única interpretação alternativa que meu texto
Começa então um tipo mais eficiente de prática cien­ parece permitir é a de que todos esses objetos tenham
tífica. �ssa JZEática é geralment7., es�téri�a e orientada pertencido à comunidade da Física. Contudo, como
para a soiuçao� qncbt a-cabeças. _ d mesmo ocorre tem sido repetidamente apontado por meus colegas de
com o trabalho de um grupo, que somente inicia quan­ História da Ciência, identificações desse tipo não re­
d o seus membros estão seguros a respeito dos funda­ sistem a um exame. Não havia, por exemplo, nenhuma
mentos de seu campo de estudos. comunidade de cientistas ligados à Física antes da me­
A natureza dessa transição à maturidade merece tade d o século XIX, tendo então sido formada pela
uma discussão mais ampla do que a recebida neste fusão de partes de duas comunidades anteriormente
separadas: a da Matemática e da Filosofia da Natu­
6. EUGENE GARFIELD, The Uae of Citation Data ln Writlng lhe reza (physique expérimentale). O que hoje é objeto
History of Science (Filadélfia: lnstitute of Scientific lnformation, 1964);
M. M. KEssLER, · Comparison of the Results of Bibliographic Coupling de estudo de uma única e ampla comunidade, no pas­
and Analytic Subject lndexing, American Documentatlon, XVI, pp. 223-33 sado era distribuído entre diversas comunidades. Para
(1965); D. 1. PRICE, Networks of Scientific Papers, Sclence, CIL, pp.
510-15 (1965). descobri-las e analisá-las é preciso primeiro deslindar

222 223
a estrutura mutável das comunidades científicas atra­ munidades relevantes. Contudo, um delineamento mais
v��<!QSJfrnpõs. Um paradigma gôv.erna, em pri�él!o claro da es�rutura comunitária deveria fortalecer a
lugar, não !11!1 ob'E1o de estud�, mas um gru,.po]Te pra­ impressão bastante diferente que procurei criar. ]>ara
ticantes, iib�cia. Qualquer estudo de pesquisas mim, uma revolução é uma espécie de mudança envol­
'orientadas põr pâradigma ou que levam à destruição de vendo um certo tipo de reconstrução dos compromissos
paradigma, deve começar pela localização do grupo ou de grupo. Mas não necessita ser uma grande mudança,
grupos responsáveis. nem precisa parecer revolucionária para os pesquisa­
Quando a análise do desenvolvimento científico dores que não participam da comunidade - comuni­
é examinada a partir dessa perspectiva, várias dificul­ dade composta talvez de menos d e vinte e cinco pes­
dades que foram alvo de críticas podem desaparecer. soas. É precisamente porque este tipo de mudança,
Por exemplo, um certo número de comentadores usou muito pouco reconhecida ou discutida na literatura da
a teoria da matéria para sugerir que exagero drastica­ Filosofia da Ciência, ocorre tão regularmente nessa
mente a unanimidade dos cientistas no que toca à sua escala reduzida, que a mudança revolucionária preci­
fidelidade a um paradigma. Fazem notar que até bem sa tanto ser entendida, enquanto oposta às mudanças
pouco, essas teorias eram tópicos de debate e desacor­ cumulativas.
do contínuos. Concordo com a descrição, mas não pen­ Uma última alteração, estreitamente relacionada
so que seja um exemplo em contrário. Pelo menos até com a precedente, pode facilitar a compreensão dessa
por volta de 1920, teorias da matéria não eram ter­ mudança. Diversos críticos puseram em dúvida se as
ritório específico ou objeto de estudo de qualquer co­ crises ( consciência comum de que algo saiu errado)
munidade científica. Em lugar disso, eram wt-rumentos precedem as revoluções tão invariavelmente como dei./
para um grande número de esp@_?iistas. Algumas a entender no meu texto original. Contudo, nenhumaJV
vezes membros de- diferentes comunidades escolhem parte importante da minha argumentação depende da
instrumentos diferentes e criticam as escolhas feitas por existência de crises como um pré-requisito essencial
outros. E o que é mais importante: a teoria da maté­ para as revoluções; precisam apenas ser o prelúdio cos­
ria não é o tipo de tópico sob de qual devem concordar tumeiro, proporcionando um mecanismo de autocorre­
necessariamente os membros de uma comunidade dada. ção, capaz de assegurar que a rigidez da ciência nor­
A necessidade do acordo depende do que faz essa co­ mal não permanecerá para sempre sem desafio. É igual­
munidade. A Química, na primeira metade do século mente possível que as revoluções sejam induzidas atra­
XIX, proporciona um exemplo adequado. Embora mui­ vés de outras maneiras, embora pense que isso rara­
tos dos instrumentos fundamentais da comunidade - mente ocorre. Finalmente, gostaria de assinalar um pon­
proporção constante, proporção múltipla e pesos de to obscurecido pela ausência de uma discussão ade­
combinação - tenham se tornado propriedade comum quada da estrutura comunitária: as crises não são ne­
em razão da teoria atômica de Dalton, foi perfeitamen­ cessariamente geradas pelo trabalho da comunidade
te possível aos químicos, depois desse acontecimento, que as experimenta e, algumas vezes, sofre em conse­
basear seu trabalho nesses instrumentos e discordar, qüência disso uma revolução. Novos instrumentos co­
algumas vezes veemente, da existência dos átomos. mo o microscópio eletrônico ou novas leis como as de
Acredito que outras dificuldades e mal-entendi­ Maxwell podem ser desenvolvidas numa especialidade,
dos serão dissolvidos da mesma maneira. Alguns lei­ enquanto a sua assimilação provoca uma crise em outra.
tores deste livro concluíram que minha preocupação se
orienta principal ou exclusivamente para as grandes 2. Os paradigmas como a constelação dos compro-
revoluções, como as associadas aos nomes de Copér­ missos de grupo
nico, Newton, Darwin ou Einstein. Isso se deve em -
parte aos exemplos que escolhi e em parte à minha Voltemos agora aos paradiglllas e perguntemos o
imprecisão a respeito da natureza e tamanho das co- que podem ser. Este - é o . poiitõ"' mais
. ·•
obscuro. . e -•-·
mais . .. ,

224 225
importante de meu texto original. Uma leitora simpa­ cos, c.Q!!Wlllem..essa, ..Jl;liúriz_gjsclJilip..e!--e..como tais for­
tizante, que partilha da minha convicção de que o "pa_: rna{!l . up todo,_ funcionando em conjunlg. "êontudo,
radi&.tna" nomeia os eleme�Jos filosóficos centrais des­ esses eiemehtos não' serão discutidos como se consti­
te !ivro, prepaioE ·�m !1!��ce. Aííáiítico J?aréiaCe .::éi>n­ tuíssem uma única peça. Não procurarei apresentar
clum que <! term� e utibiado ,em pelo m.eno�.Yil\!�. e aq?i �ma lista exaustiva, mas a indicação dos princi­
du�s �&lÇ!tM .Ji!�eutes7• , Atu�mente J�J!SO -$!.� a pais tipos de Componentes de uma matriz disciplinar
mai<>_na . esclarecerá a natureza da minha presente abordagem
__ dessas diferenças e devida a:, mcongruencuij)
'-�tníst1��. exemplo: algumas vezes ·as Leis de e preparará a próxima questão.
Newton são., am pàfa&gffia, em ou{ras, t1f{ffcs ae um · Rotularei de "generalizações simbólicas" um tipo
par�digma, o�; em ainõíi-Outra�:· �d!�a.s)
.
epo: importante de componente do paradigma. Tenho em
dem ser elimmadas com l'mfflva acilídaãê'. Feito esse mente aquelas expressões, empregadas sem discussão
trabalho editorial, permaneceriam dois usos muito dis­ ou dissensão pelos membros do grupo, que podem ser
tin�os do termo, que devem ser distinguidos.. Q ewn{ego facilmente expressas numa forma lógica como
ma�s ._�ç>bal é o��� _des.!_e_ it�mi o outro sentido (x)(y) (z) <f, (x,y,z).
sera consícferado no proximo. Falo dos componentes formais ou facilmente for­
Após isolar uma comunidade particular de espe­ malizáveis da matriz disciplinar. Algumas vezes são
cialistas através de técnicas semelhantes às que acaba­ encontradas ainda sob a forma simbólica: f = ma
mos de discutir, valeria a pena perguntar: dentre o ou I = V/R. Outras vezes são ex,pressas em pa­
que é partilhado por seus membros, o que .explica a lavras: "os elementos combinam-se numa proporção
relativa abundância de comunicação P!Qfis.sioIJ.al e a constante aos seus pesos" ou "a uma ação correspon­
reJaftva ��imiããcl(�gf j�eíft�pro� de uma reação igual e contrária". Se não fossem expres­
tei(ffi'" ongmal permite responder a essa pergunta:� sões geralmente aceitas como essas, os membros do
eradjgma QU u�j&l!!�_l,fas, nesse gr'll,P0_,!1!2,...��-9$ . apoio_paiãaapÍicÍÍção
sentig9, ao contránõ daquele a ser discutiaomais adian­ õaspooerosas tecmcas deman1pÜiação lógica e mate­
t:, o. Jerm9..J>!fªdigmil:A, ÍQà�l Os . próprios mática no seu trabalho de resolução de enigmas. Embo­
cientistas amam que partilham de uma teona ou dei/ ra o exemplo da taxonomia sugira que a ciência nor­
um conjunto de teorias. Eu ficaria satisfeito se est� mal pode avançar com poucas dessas expressões, em
�ltimo termo pudes�e ser. novamente utilizado no se · geral o poder de uma ciência parece aumentar como
tido que estamos d1scutmdo. Contudo, o termo "te lnlmero de gênerali§õ!.ssÍm6ónc!S que.,QLPr.a�an­
ria", tal como é empregado presentemente na Filosofi' � tes tem ao seu dispor.
da Ciência, conota uma estrutura bem mais limitad Tais generalizações assemelham-se a leis da na­
em natureza e alcance do que a exigida aqui. Até qu tureza, mas muitas vezes não possuem apenas essa
o !ermo possa ser liberado de suas implicações atuais, função para os membros do grupo. Por certo iss o pode
evitaremos confusão adotando um outro. Para os nos­ ocorrer, como no caso da Lei de Joule-Lenz, H = R/2.
sos propósitos atuais, sugiro "matriz disciplinar": "dis­ Quando essa lei foi descoberta, os membros da comu­
ciplinar" porque se refere a uma posse comum aos nidade já sabiam o que significavam H, R e I; essas
praticantes de uma disciplina particular; "matriz" por­ generalizações lhes disseram alguma coisa a respeito
que é composta de elementos ordenados de várias espé­ do comportamento do calor, da corrente e da resistên­
cies, cada um deles exigindo uma determinação mais cia que anteriormente ignoravam. Porém, mais freqüen­
pormenorizada. '[�os ou quase todos os ob os de temente, como indicam as discussões anteriores deste
r
c�mpromiss<;> grupallltffi ·mel! fexto<f�naf cféi•imi._ livro, as generalizações simbólicas prestam-se simulta­
cq­
mo _earad�eas, pa��:J--�paradi�a ��- !'��!t� neamente a uma segunda função, em geral rigorosa­
mente distinguida da primeira nas análises dos filóso­
7. MASTE&MAN. Op. clt, fos da ciência. Da mesma maneira que f = ma ou

226 227
I = V/R, as generalizações simbólicas funcionam em de um gás comportam-se como pequeninas bolas de
parte como leis e em partes como definições de alguns bilhar elásticas movendo-se ao acaso. Embora a inten­
dos símbolos que elas empregam. Além disso, o equi­ sidade do compromisso do grupo com determinados
líbrio entre suas forças legislativas e definitórias - princípios varie - acarretando conseqüências impor­
que são inseparáveis - muda com o tempo. Em outro tantes - ao l ongo de um espectro que abrange desde
contexto esses pontos mereciam uma análise detalha­ modelos heurísticos até ontológicos, todos os modelos
da, já que a natureza de um compromisso com uma possuem funções similares. Entre outras coisas, forne­
lei é muito diferente do compromisso com uma defi­ cem ao grupo as anal�as ou metáforas preferidasÕu
nição. C(?lll freqüência as leis pod�I}l s�_r_,,,gra���l.e:n� permjs�jvei�. Desse méxfo -âux1Iíãma determfiiaro que
co�ri�idas, mas não as. def!_nÍçq�s.��� são tautol_��.3:s: será ·~aceito como uma explicação ou como uma solu­
· Poi exêinpró,-itàceitãção da Lei de Ohm exigiu, entre ção de quebra-cabeça e, inversamente, aiu.dam a esta:­
outras coisas, uma redefinição dos termos "corrente" �lecer a lista d�bra-cabe�as .não-solucio�a_d3 e
e "resistência". Se esses dois termos continuassem a
ter o mesmo sentido que antes, a Lei de Ohm não po­
a avaliar a · pnrtªncia aê .J;:ií a ym déles_. ote-se,
entretanto, que os membros de comunidades científi­
deria estar certa. Foi exatamente por isso que provo­ cas não precisam partilhar nem mesmo modelos heu­
cou uma ooosição tão violenta, ao contrário, por exem­ rísticos, embora usualmente o façam. Já indiquei ante­
plo, da Lei de Joule-Lenz.8 Provavelmente essa situação riormente que a condição de membro numa comuni­
é típica. No momento suspeito de que, entre outrai; coi­ dade de cientistas durante a primeira metade do século
sas, todas as revoluções envolvem o abandono de ge­ XIX não pressupunha a crença nos átomos.
neralizações cuja força era parcialmente tautológica. O
que fez Einstein: mostrou que a simultaneidade era re­ O terceiro grupo de elementos da matriz disci­
lativa ou alterou a própria noção de simultaneidade? plinar que descreverei é constituído por valores. Em
Estavam pura e simplesmente errados aqueles que viam geral �ãq mais amelament5...Q.a,i;qlhado§._�or . 9iferen!:s
um paradoxo na expressão "relatividade na simultanei­ comumdaaes do que as generabzações s1mbolicas ou
dade"? mooefõS:•Tontribuem bastante para prop9rcionar aos
Consideremos um seg.undo com2onente da matríà es��ta�--�m �iên2�s da natureza um sentimen!o
disciplinar, a respeito 'éfo qu.áfmuifa êÕÍsa"foCêiTtãno\' d�nç_e,r�çm.-� c��m�ade global. Embora
meu texto original sob rubricas com9 "paradi&m;as meta- \_l nunca deixem de ter eficácia, a importância particular
fí�içgs'� ou_ :•E�,t;.tes__�físicas _dos paradi&mas". Yêíili_� /; dos valores aparece quando os membros de uma co­
em menfe compromissos coletivos com crenças com� munidade determinada precisam identificar uma crise
o calor é a energia cinética das partes constituintes dos ou, mais tarde, escolher entre maneiras incompatíveis
corpos; todos os fenômenos perceptivos são devidos de praticar sua disciplina. Provavelmente os valores
à interação de átomos qualitativamente neutros no va­ aos quais os cientistas aderem com mais intensidade
zio ou, alternativamente, à matéria e à força ou aos são aqueles que dizem respeito a predições: devem ser
campos. Se agora reescrevesse este livro, eu descreve­ acuradas; predições quantitativas são preferíveis às qua­
ria tais compromissos como crenças em determinados litativas; qualquer que seja a margem de erro permis­
mo-:lelos e expandiria a categoria "modelos" de modo sível deve ser respeitada regularmente numa área da­
a incluir também a variedade relativamente heurística: da; � assim por diante. Contudo, existem também va­
o circuito elétric o pode ser encarado como um sistema lores que de_ve�__ser u:'1dos par� f�lgar t�o�j�s_ .�m.­
,
hidrodinâmico em estado de equilíbrio; as moléculas pfetas: estes precisam, antes de mais nada, permitir a
formulação de quebra-cabeças e de soluções; q_uan9..q_
8. Uma apresentação de partes significativas desse episódio encontra-se
em: T. M. BROWN, The Electric Current in Early Nineteenth-Century
possível, devem ser simples, dotadas de coerência lnter­
French Physics, em Historical Studies in the Physical Sciences, 1 (1969), na �=-�Y§iy�s. vale ·dizer; compatíveis com· ·outras
pp. 61-103 e MOR_TON ScHAGRIN, Resistance to Ohm's Law, Amerlcan
Journal oj Physics, XXI, pp. 536-47 (1963). teorias disseminadas no momento. ( Atualmente penso

228
que uma fraqueza do meu texto original está na pouca malia comum e uma provocadora de crise.9 Mas essa
atenção prestada a valores como a coerência interna e reação ignora duas características apresentadas pelos
externa ao considerar fontes de crises e fatores que julgamentos de valor em todos os campos de estudo.
determinam a escolha de uma teoria.) E�iste.P:! ainda Primeiro, os valores compartilhados podem ser deter­
QUtras esrgcies de valores -:-.� exewplo, .a. .c�nçiã minantes centrais do comportamento de grupo, mes­
deve ou naà<ffive ter uma utilidade social? - mas as mo quando seus membros não os empregam da mes­
com1i8ernções aptdsenfáaàs . acima 'devem ser suficien­ ma maneira. ( Se não fosse assim, não haveria pro­
tes para tornar compreensível o que tenho em mente. blemas filosóficos especiais a respeito da Teoria dos
Entretanto, um aspecto dos valores partilhados re­ Valores ou da Estética.) Nem todos pintaram da mes­
quer uma menção especial. Os valores, num grau maior ma maneira durante os períodos nos quais a represen­
do que os outros elementos da matriz disciplinar, po­ tação era o valor primário, mas o padrão de desenvol­
dem ser compartilhados por homens que divergem vimento das artes plásticas mudou drasticamente quan­
quanto à sua aplicação. Julgamento quanto à acuidade do esse valor foi abandonado.10 Imaginemos o que
são relativamente, embora não inteiramente, estáveis aconteceria nas ciências se a coerência interna deixas­
de uma época a outra e de um membro a outro em um se de ser um valor fundamental. Segundo, a variabi­
grupo determinado. Mas, julgamentos de simplicida­ lidade individual no emprego de valores compartilha­
de, coerência interna, plausibilidade e assim por dian­ dos pode ter funções essenciais para a ciência. Os pon�
te, .variam enormemente de indivíduo para indivíduo. tos aos quais os vàlores devem ser aplicados são tam­
Aquilo que para Einstein era uma incongruência insu­ �m invariavelmente aqueles nos quais um risco deve
portável na velha Teoria dos Quanta, a ponto de tornar sei: enfrentado. A maior parte das anomàlias é solu­
impossível a prática da teoria normal, para Bohr e outros cionada por meios normais; grande parte das novas
não passava de uma dificuldade passível de resolução teorias propostas demonstram efetivamente ser fàlsas.
através dos meios normais. Ainda mais importante é Se todos os membros de uma comunidade respondes­
notar que nas situações onde valores devem ser apli­ sem a cada anomalia como se esta fosse uma fonte de
cados, valores diferentes, considerados isoladamente, di­ crise ou abraçassem cada nova teoria apresentada por
tariam com freqüência escolhas diferentes. Uma teoria um colega, a ciência deixaria de existir. Se, por outro
pode ser mais acurada, mas menos coerente ou plausível lado, ninguém reagisse às anomàlias ou teorias novas,
que outra; aqui, uma vez mais, a velha Teoria dos Quan­ aceitando riscos elevados, haveria poucas ou nenhuma
ta nos proporciona um exemplo. Em suma, embora os revolução. Em assuntos dessa natureza, o controle da
valores sejam amplamente compartilhados pelos cien­ escolha individual pode ser feito antes pelos valores
tistas e este compromisso seja ao mesmo tempo pro­ partilhados do que pelas regras partilhadas. Esta é tàl­
fundo e constitutivo da ciência, alguma.s ve?:�l> a apli­ vez a maneira que a comunidade encontra para dis­
cação .J;los . valores é con�i?exavelmenté �füra pelos tribuir os riscos e assegurar o sucesso do seu empreen­
traços_d�rsõn�lidade-Índi�idu:11. ej:,Iã 6í��Ji�. que dimento a longo prazo.
difefei)�iã • Q� -�ern.lJLõs �_<!-�f.lÍP<?· Voltemos agora a um quarto tipo de elemento pre­
sente na matriz disciplinar ( existem outros que não
· Pará riiiiítós leitores, essa característica do empre- discutirei aqui). Neste caso o termo "paradigma" seria
. go dos valores partilhados apareceu como a maior fra- i,. totalmente apropriado, tanto filológica como autobio-/
queza da minha posição. Sou ocasionalmente acusado graficamente. Foi este componente dos compromissQS'
de glorificar a subjetividade e mesmo a irracionalidade,
porque insisto sobre o fato de que aquilo que os cien­ 9. Ver e5pecialmente: Duou:v SHAPERE, "Meaning and Scientific
Change", em Mind and Cosmos: Essays ln Contemporary Science and
tistas partilham não é suficiente para impor um acor­ Phi/osophy, Toe University of Pittsburgh Series in Philosophy of Science,
III (Pittsburgh, 1966), pp. 41-85; ISRAEL SCHEFFLER, Science and Subfectl­
do uniforme no caso de assuntos como a escolha de vity (Nova York, 1967) e os ensaios de Sir KARL POPPEll e IMRE LAUTOS
duas teorias concorrentes ou a distinção entre uma ano- em Growth of Knowledge.
10. Ver a discussão no início do Cap. 7, acima.

230 231
comuns do grupo que primeiro me levaram à escolha cidos para que se alcance destreza· daquelas. Todavia,
dessa palavra. Contudo, já que o termo assumiu uma tentei argumentar que esta localização do conteúdo
vida própria, substituí-lo-e_�-- a9.ui Kur "exemplares".. cognitivo da ciência está errada. O estudante que re­
Com essa expressão quero indicar; ân es de mais nada, solveu muitos problemas pode apenas ter ampliado sua
�ol� _concretas de prol:>lemas que os estudantes facilidade para resolver outros mais. Mas, no início
encontram <lesdé�-o início de - sua educação científica, e por algum tempo, resolver problemas é aprender
seja nos laboratórios, exames ou no fim dos capítulos coisas relevantes a respeito da natureza. Na ausência
dos manuais científicos. Contudo, devem ser somados de tais exemplares, as leis e teorias anteriormente
a esses exemplos partilhados pelo menos algumas das aprendidas feriam pouco conteúdo empírico.
soluções técnicas de problemas encontráveis nas pu­ Para tornar compreensível o que tenho em mente,
blicações periódicas que os cientistas encontram du­ reverto brevemente às generalizações simbólicas. A Se­
rante suas carreiras como investigadores. Tl!is Jgluções gunda Lei de Newton é um exemplo amplamente par­
inq.icam>.&1;,1;ª!�'� exeroplo_�tpo de�em r�aj��.�eu tilhado, geralmente expresso sob a forma: f = ma.
trabalho. Mais do que os outros tipos de componenfes - O sociólogo ou o lingüista que descobre que a expres­
da mãtriz disciplinar, as diferenças entre conjuntos de são correspondente é expressa e recebida sem proble­
exemplares apresentam a estrutura comunitária da mas pelos membros de uma dada comunidade, não
ciência. PQr . .exe�pl�, . todos os físj_ç-os . coqieçam a_pr�n­ terá, sem muita investigação adicional, aprendido gran­
dend(?_��õis �t�pjp}a,re� :___m:ol>l��i!LÇQlllQ..JL�-9 de coisa a respeito do que significam tanto a expres­
· · . pêndülõ ...cônico, das órbitas de
plano_ inci.inª9.Qi--:Oo são como seus termos ou como os cientistas relacio­
Kepler; e o uso dê instrumentos como o vernier, o ca­ nam essa expressão à natureza. Na verdade, o fato de
lorímetro e a ponte de Wheatstone. Contudo, na me­ que eles a aceitem sem perguntas e a utilizem como
dida em que seu treino se desenvolve, as generaliza­ um ponto de partida para a introdução de manipula­
ções simbólicas são cada vez mais exemplificadas atra­ ções lógicas e matemáticas não significa que eles con­
vés de diferentes exemplares. Embora os físicos de cordem quanto ao seu sentido ou sua aplicação. Não
estados sólidos e os da teoria dos campos comparti­ há dúvida de que estão de acordo em larga medida,
lhem a Equação de Schrõdinger, somente suas apli­ pois de outro modo o desacordo apareceria rapida­
cações mais elementares são comuns aos dois grupos. mente nas suas conversações subseqüentes. Mas po­
de-se perguntar em que momento e com que meios
3. Os paradigmas como exemplos compartilhados chegaram a isto. Como aprenderam, confrontados com
uma determinada situação experimental, a selecionar
O paradigma enquanto exemplo compartilhado é forças, massas e acelerações relevantes?
o elemento central daquilo que atualmente me parece Na prática, embora esse aspecto da situação nun­
ser o aspecto �aisJJ�� �os çomp_reendido .deste ca ou quase nunca seja notado, os estudantes devem
livro._ Em vista disso os exemplos exigirão mais aten­ aprender algo que é ainda mais complicado que isso.
Não é exato afirmar que as manipulações lógicas e
ção do que os outros componentes da matriz discipli­
nar. Até agora os filósofos da ciência não têm, em matemáticas aplicam-se diretamente à fórmula f =
ma.
geral, discutido os problemas encontrados por um estu­ Quando examinada, essa expressão demonstra ser um
dante nos textos científicos ou nos seus trabalhos de esboço ou esquema de lei. À medida que o estudante
laboratório, porque se pensa que servem apenas para e O cientista praticante passam de uma situação pro­
pôr em prática o que o estudante já sabe. Afirma-se blemática a outra, modifica-se a generalização simbó­
que ele não pode resolver nenhum problema antes de lica à qual se aplicam essas manipulações. No caso
ter aprendido a teoria e algumas regras que indicam á2s
como aplicá-la. O conhecimento científico está fun­ da queda livre, f = ma torna-se mg = m_,./--; no
dado na teoria e nas regras; os problemas são forne- dt2

232 233
caso do pêndulo simples, transforma-se em dante �d9uire, ao reso�ver problemas exemplares, seja
<fl,(J �om lap1s � papel, seJa num laboratório bem plane­
mg senfJ = - ml --- Jado. D�po1s de resolver um certo número de proble­
dt2 mas (numero que pode variar grandemente de indiví­
para um par de oscilações harmônicas em ação recí­ �uo para_ que indivíduo), o estudante passa a conceber as
proca transmuta-se em duas equações, a primeira das s1tuaçoes o confrontam como um cientista enca­
quais pode ser formulada como rando-as a partir do mesmo contexto (Gestali) que
o� ou�ros m_embros do seu grupo de especialistas. Já
<Psi nao sao mais as mesmas situações que encontrou no
. início de seu treinamento como cientista. Nesse meio
dt2 tempa, assimilou uma maneira de ver testada pelo tem­
e para situações mais complexas, como o giroscópio,
toma ainda outras formas, cujo parentesco com f = ma po e aceita pelo grupo.)'
O papel das relações de similaridade adquiridas
é ainda mais difícil de descobrir. Contudo, enquanto revela-se claramente também na história da ciência . .OS
aprende a identificar forças, massas e acelerações numa
variedade de situações físicas jamais encontradas ante­ �ie11!istl!S.. resolvem quebra:;!Q- eças IllQ(lelª.ndo-os de
riormente, o estudante aprende ao mesmo tempo a ela­ acordq coro.�?@es anfenor�si...!reqüentemente coni
?orar a v_ersão apropriada de f = ma, que permitirá ffltiiiê[mmipo a eneraTI�Ttmbô�g· Uafi­
leu escobnu que uma gola qü 1!'1'õt'ãncfo um pla­
mter-relac1oná-las. Muito freqüentemente será uma ver­
são para a qual anteriormente ele não encontrou um �o inclinado adquire_ velocidade suficiente para voltar
a mesma altura vertical num segundo plano inclinado
equivalente literal. Como aprendeu a fazer isso? .,,, com qualquer aclive. Aprendeu também a ver esta si­
Um fenômeno familiar, tanto aos estudantes, co­ tuação experimental como se fosse similar à do pêndu­
mo aos historiadores da ciência, pode nos fornecer lo com massa pontual para uma bola do pêndulo. A
uma pista. Os primeiros relatam sistematicamente que partir daí Huyghens resolveu o problema do centro
leram do início ao fim um capítulo de seu manual,
compreenderam-no perfeitamente, mas não obstante de oscilação de um pêndulo físico, imaginando que o
encontram dificuldades para resolver muitos dos pro­ . desse último, considerado na sua extensão' nada
corpo
blemas que encontram no fim do capítulo. Comumen­ mais era do que um conjunto de pêndulos pontuais
te essas dificuldades se dissipam da mesma maneira. galileanos e que as ligações entre esses poderiam ser
O estudante descobre, com ou sem assistência de seu instantaneamente desfeitas em qualquer momento da
instrutor, uma maneira de encarar seu problema como oscilação. Desfeitas as ligações, os pêndulos pontuais
se fosse um problema que já encontrou antes. Uma individuais poderiam oscilar livremente, mas seu cen­
vez perc�bida a semelhança e apreendida a analogia tro de gravidade coletivo elevar-se-ia quando cada um
entre dois ou mais problemas distintos, o estudante desses pontos alcançassem sua altura máxima. Mas,
tal como no pêndulo de Galileu, o centro de gravida­
pode estabelecer relações entre os símbolos e aplicá-los de coletivo não ultrapassaria a altura a partir da qual
a natureza segundo maneiras que já tenham demons­
trado sua eficácia anteriormente. O esboço de lei di­ o centro de gravidade do pêndulo real começara a cair.
gamos, f = ma funcionou como um instrumento, ilrlor­ Finalmente, Daniel Bernoulli conseguiu aproximar o
mando ao estudante que similaridades procurar sina­ fluxo de água através de um orifício e o pêndulo de
lizando o contexto (Gestalt) dentro do qual a' situa­ Huyghens. Determina-se o abaixamento do centro de
ç�? deve ser examinada. Dessa aplicação resulta a ha­ gravidade da água no tanque e no jato durante um
b1lldade para ver a semelhança entre uma variedade intervalo de tempo infinitésimo. Em seguida imagine­
de situações, todas elas submetidas à fórmula f = ma mos que cada partícula de água se move separadamen­
ou qualquer outr a generalização simbólica. Tal habi­ te para cima até a altitude máxima que lhe é possível
lidade me parece ser o que de mais essencial um estu- alcançar com a velocidade adquirida durante aquele
235
234
intervalo. A elevação do centro de gravidade das par­ pios concretos de como funcionam na prática; a na­
:ículas individuais deve então igualar o abaixamento tureza e as palavras são aprendidas simultaneamente.
:lo centro de gravidade da água no tanque e no jato. Pedindo emprestada mais uma vez a útil expressão de
Â. partir dessa concepção do problema, descobriu-se Michael Polanyi: desse processo resulta um "conhe­
rapidamente a velocidade do fluxo, que vinha sendo cimento tácito", conhecimento que se aprende fazendo
procurada há muito tempo. 11 ciência e não simplesmente adquirindo regras para
Esse exemplo deveria começar a tornar claro o fazê-la.
que quero dizer quando falo em aprender por meio /

de problemas a ver situações como semelhantes, isto é, 4. Conhecimento tácito e intuição


como objetos para a aplicação do mesmo esboço de
lei ou lei científica. Ao mesmo tempo mostra por que Essa referência ao conhecimento tácito e a re1e1-
me refiro ao relevante conhecimento da natureza que ção concomitante de regras circunscreve um outro pro­
se adquire ao compreender a relação de semelhança, blema que tem preocupado muitos de meus críticos e
conhecimento que se encarna numa maneira de ver que parece motivar as acusações de subjetivismo e irra­
as situações físicas e não em leis ou regras. Os três cionalidade. Alguns leitores tiveram a impressão de
problemas do exemplo (todos eles exemplares para os que eu tentava assentar a ciência em intuições indivi­
mecânicos do século XVIII) empregam apenas uma duais não-analisáveis e não sobre a Lógica e as leis.
lei da natureza. Conhecida como o Princípio da vis Mas esta interpretação perde-se em dois pontos essen- .J(
viva (força viva), foi comumente expressa da seguin­ ciais. Primeiro, essas intuições não são individuais -
te forma: "A descida real iguala a subida potencial". se é que estou falando de intuições. São antes posses­
A aplicação que Bernoulli fez dessa lei deveria sugerir sões testadas e compartilhadas pelos membros de um
quão plena de conseqüências ela era. E, contudo, o grupo bem sucedido. O novato adquire-as através do
enunciado verbal da lei, tomado em si mesmo, é vir­ treinamento, como parte de sua preparação para tor­
tualmente impotente. Apresentemo-lo a um estudante nar-se membro do grupo. Segundo, elas não são, em
contemporâneo de Física, que conhece as palavras e princípio, impossíveis de analisar. Ao contrário, estou
é capaz de resolver todos esses problemas que atual­ presentemente trabalhando com um programa de com­
mente emprega meios diferentes. Imaginemos em se­ putador planejado para investigar suas propriedades
guida o que essas palavras, embora todas bem conhe­ em um nível elementar.
cidas, podem ter dito a um homem que não conhecia Nada direi a respeito desse programa aqui,12 mas
nem mesmo esses problemas. Para ele a generalização o simples fato de o mencionar deveria esclarecer meu
somente poderia começar a funcionar quando fosse ca­ argumento central. Quando falo de conhecimento ba­
paz de reconhecer "descidas reais" e "subidas poten­ seado em exemplares partilhados, não estou me refe­
ciais" como ingredientes da natureza. Isto corresponde rindo a uma forma de conhecimento menos sistemáti­
a aprender, antes da lei, alguma coisa a respeito das ca ou menos analisável que o conhecimento baseado em
situações que se apresentam ou nã.:, na natureza. Esse regras, leis ou critérios de identificação. Em vez disso,
gênero de aprendizado não se adquire exclusivamente tenho em mente uma forma de conhecimento que pode
através de meios verbais. Ocorre, ao contrário, quando ser interpretada erroneamente, se a reconstruirmos em
alguém aprende as palavras, juntamente com exem- termos de regras que primeiramente são abstraídas de
11. A propósito do exemplo, ver RENÉ OUGAS, A History o/ Mechanics, exemplares e que a partir daí passam a substituí-los.
rad. J. R. Maddox (Neuchâtel, 1955), pp. 135-36, 186-193 e DANIEL
�ERNOULLI, Hydrodynamica, sive de veribus et motibw /luldorum, com­ Dito de outro modo: quando falo em adquirir a par­
t1entaril opus academicum (Estrasburgo, 1738), Seção III. Para com-
1reender o grau de desenvolvimento a!cançado pela Mecânica durante tir de exemplares a capacidade de reconhecer que uma
, primeira metade do século XVIII, obtido modelando-se uma solução
le problema sobre outra, ver CLIFFORD TRUESDELL, Reactions of Late
laroque Mechanics to Success, Conjecture, Errar and Failure in Newton's 12. Alguma informação sobre esse assunto pode ser encontrada no
'rincipia, Texas QuàTterly, X, pp. 238-58 (1967). meu ensaio "Second Thoughts".

236 237
situação dada se assemelha ( ou não se assemelha) a Note-se que dois grupos cujos membros têm siste­
situações anteriormente encontradas, não estou apelan­ maticamente sensações diferentes ao captar os mesmos
do para um processo que não pode ser totalmente expli­ estímulos, vivem, em certo sentido, em mundos dife­
cado em termos de mecanismos neurocerebrais. Sus­ rentes. Postulamos a existência de estímulos para ex­
tento, ao contrário, que tal explicação, dada a sua na­ plicar nossas percepções do mundo e postulamos sua
tureza, não será capaz de responder à pergunta: "Se­ imutabilidade para evitar tanto o solipsismo individual
melhante em relação a quê?" Essa questão pede uma como o social. Não tenho a menor reserva quanto a
regra - nesse caso, os critérios através do� quais si­ qualquer desses postulados. Mas nosso mundo é po­
tuações particulares são agrupadas em con1untos se­ voado, em primeiro lugar, não pelos estímulos, mas
melhantes. Reivindico que neste caso é necessário re­ pelos objetos de nossas sensações e esses não precisam
sistir à tentação de procurar os critérios ( ou pelo me­ ser os mesmos de indivíduo para indivíduo, de grupo
nos um conjunto de critérios). Contudo, não me opo­ para grupo. Evidentemente, na medida em que os indi­
nho a sistemas, mas apenas a algumas de suas formas víduos pertencem ao mesmo grupo e portanto comparti­
particulares. lham a educação, a língua, a experiência e a cultura,
Para dar peso à minha afirmação, farei uma bre­ temos boas razões para supor que suas sensações são
ve digressão. Atualmente parece-me óbvio o que digo as mesmas. Se não fosse assim, como poderíamos com­
a seguir, mas o recurso constante em meu texto origi­ preender a plenitude de sua comunicação e o caráter co­
nal a frases como "o mundo transforma-se" sugere letivo de suas respostas comportamentais ao meio am­
que nem sempre foi assim. Se duas pessoas estão no biente? É preciso que vejam as coisas e processem os
mesmo lugar e olham fixamente na mesma direção, de­ estímulos de uma maneira quase igual. Mas onde existe
vemos concluir, sob pena de solipsismo, que recebem a diferenciação e a especialização de grupos, não dis­
estímulos muito semelhantes. (Se ambas pudessem fi­ pomos de nenhuma prova semelhante com relação à
xar seus olhos no mesmo local, os estímulos seriam imutabilidade das sensações. Suspeito de que um mero
idênticos.) Mas as pessoas não vêem os estímulos; nos­ paroquialismo nos faz supor que o trajeto dos estímulos
so conhecimento a respeito deles é altamente teórico às sensações é o mesmo para os membros de todos os
e abstrato. Em lugar de estímulos, temos sensações e grupos.
nada nos obriga a supor que as sensações dos nossos Voltando aos exemplares e às regras, eis o que
dois espectadores são uma e a mesma. ( Os céticos po­ tenho tentado sugerir, se bem que de uma forma preli­
deriam relembrar que a cegueira com relação a cores minar: uma das técnicas fundamentais pelas quais os
nunca fora percebida até sua descrição por John Dal­ membros de um grupo ( trata-se de toda cultura ou de
ton em 1794.) Pelo contrário: muitos processos ner­ um subgrupo de especialistas que atua no seu interior)
vosos têm lugar entre o recebimento de um estímulo e aprendem a ver as mesmas coisas quando confrontados
a consciência de uma sensação. Entre as poucas coi­ com os mesmos estímulos consiste na apresentação de
sas que sabemos a esse respeito estão: estímulos mui­ exemplos de situações que seus predecessores no grupo
to diferentes podem produzir a mesma sensação; o já aprenderam a ver como sem_elha�tes entre si ?u d�e­
mesmo estímulo pode produzir sensações muito dife­ rentes de outros gêneros de s1tuaçoes. Essas s1tuaçoes
rentes; e, finalmente, o caminho que leva do estímulo semelhantes podem ser apresentações sensoriais suces­
à sensação é parcialmente determinado pela educação. sivas do mesmo indivíduo - por exemplo, da mãe, que
Indivíduos criados em sociedades diferentes compor­ é finalmente reconhecida à primeira vista como ela mes­
tam-se, em algumas ocasiões, como se vissem coisas ma e como diferente do pai ou da irmã. Podem ser
diferentes. Se não fôssemos tentados a estabelecer uma apresentações de membros de famílias naturais, digamos,
relação biunívoca entre estímulo e sensação, poderíamos cisnes de um lado e gansos de outro. Ou podem ser, no
admitir que tais indivíduos realmente vêem coisas dife­ caso dos membros de grupos mais especializados, exem­
rentes. plos de situações de tipo newtoniano, isto é, situações
238 239
que têm em comum o fato de estarem submetidas a uma mos tomá-la por nossa mãe. Ou então vemos as penas
versão da forma simbólica f =
ma e que são diferen­ da cauda de uma ave aquática alimentando-se de algu­
tes daquelas situações às quais se aplicam, por exemplo, ma coisa no leito de uma piscina rasa. É um cisne ou
os esboços de leis da óptica. um ganso? Examinamos nossa visão, comparando essas
Admitamos por enquanto que alguma coisa desse penas de cauda com as dos cisnes e gansos que já vimos
tipo realmente ocorre. Devemos dizer que o que se anteriormente. Ou talvez, sendo cientistas primitivos,
obtém a partir de exemplares são regras e a habilidade queiramos simplesmente conhecer alguma característica
para aplicá-las? Essa descrição é tentadora, porque o geral (por exemplo, a brancura dos cisnes) dos mem­
ato de ver uma situação a partir de sua semelhança com bros de uma família natural que já conseguimos reco­
outras anteriormente encontradas deve ser o resultado nhecer com facilidade./Aqui, refletimos mais uma vez
de um processo neurológico, totalmente governado por sobre o que percebemos previamente, buscando o que
leis físicas e químicas. Nesse sentido, o reconhecimento os membros de uma determinada família têm em
da semelhança deve, uma vez que aprendamos a fazê-lo, comum.
ser tão absolutamente sistemático quanto as batidas de Todos esses processos são deliberados e neles pro­
nosso coração. Mas este mesmo paralelo sugere que o curamos e desenvolvemos regras e critérios. Isto é, ten­
reconhecimento pode ser involuntário, envolvendo um tamos interpretar as sensações que estão à nossa dispo­
processo sobre o qual não temos controle. Neste caso, sição para podermos analisar o que o dado é para nós./
não é adequado concebê-lo como algo que podemos ma­ Não obstante façamos isso, os processos envolvidos
nejar através da aplicação de regras e critérios. Falar devem, em última instância, ser neurológicos. São por
nesses termos implica ter acesso a outras alternativas - isso governados pelas mesmas leis físico-químicas que
poderíamos, por exemplo, ter desobedecido a uma regra dirigem tanto a mão como nossos batimentos cardía­
ou aplicado mal um critério, ou ainda experimentado cos. Mas o fato de que o sistema obedeça às mesmas
uma nova maneira de ver13 • Essas parecem-me ser pre­ leis nos três casos não nos permite supor que nosso apa­
cisamente o gênero de coisas que não podemos fazer. relho neurológico está programado para operar da mes­
Ou, mais precisamente, essas são as coisas que não ma maneira na interpretação e na percepção ou mesmo
podemos fazer antes de termos tido uma sensação, per­ nos nossos batimentos cardíacos. Neste livro venho me
cebido algo. Então o que fazemos freqüentemente é opondo à tentativa, tradicional desde Descartes, mas não
buscar critérios e utilizá-los. Podemos em seguida empe­ antes dele, de analisar a percepção como um processo
nhar-nos na interpretação, um processo deliberativo atra­ interpretativo, como uma versão inconsciente do que
vés do qual escolhemos entre alternativas - algo que fazemos depois de termos percebido.
não podemos fazer quando se trata da própria percep­ O que torna a integridade da percepção digna de
ção. Por exemplo, talvez exista algo estranho no que ênfase é, certamente, o fato de que tanta experiência
vimos (recorde-se as cartas de baralho anômalas). Ao passada esteja encarnada no aparelho neurológico que
dobrar uma esquina, vemos nossa mãe entrando numa transforma os estímulos em sensações. Um mecanismo
loja do centro da cidade, num horário em y_ue a supú­ perceptivo adequadamente programado possui uma valor
nhamos em casa. Refletindo sobre o que vimos, excla­ de sobrevivência. Dizer que os membros de diferentes
mamos repentinamente: "Não era minha mãe, pois ela grupos podem ter percepções diferentes quando confron­
tem cabelo ruivo". Ao entrar na loja, vemos novamente tados com os mesmos estímulos não implica afirmar que
a mulher e não conseguimos compreender como pude- podem ter quaisquer percepções. Em muitos meio am­
bientes, um grupo incapaz de distinguir lobos de cachor­
13. Nf:, haveria necessiidade de insistir nesse ponto se todas as leis ros não poderia sobreviver. Atualmente um grupo de
fossem como as de Newton e todas as regras como as dos Dez Manda­
mentos. Nesse caso. a expressão "desobedecer uma lei" não teria sentido físicos nucleares seria incapaz de sobreviver como grupo
e a rejeição de regras não daria a imore�são de implicar um p rocesso
não-governado por uma lei. Infelizmente, leis de tráfego e produtos
científico caso fosse incapaz de reconhecer os traços de
similares da legislação podem ser desobedecidos, o que facilita a confusão. partículas alfa e elétrons. É exatamente porque tão pou-
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pelo tema dos critérios e da interpretação. A metáfora
cas maneiras de ver nos permitirão fazer isso que as que permite transferir "visão" para contextos desse tipo
que resistem aos testes do emprego grupal são dignas dificilmente pode servir de base para tais reivindicações.
de serem transmitidas de geração a geração. Do �esmo A longo prazo precisará ser eliminada em favor de uma
modo, devemos falar da experiência e do conhecimento
forma mais literal de discurso.
baseados no trajeto estímulo-resposta, exatamente por­ O programa de computador acima referido começa
que essas maneiras de ver foram selecio�adas po� �eu a sugerir maneiras pelas quais isso pode ser feito, mas
sucesso ao longo de um determinado penodo h1stonco. nem o espaço disponível, nem a extensão de minha com­
Talvez "conhecimento" seja uma palavra inade­ preensão atual do tema permitem que eu elimine aqui
quada, mas há muitas razões para empregá-la. Aquilo essa metáfora. 14 Em lugar disso tentarei brevemente re­
que constitui o processo neurológico que transfor?1� es­ forçá-la. A visão de pequenas gotas d'água ou de uma
tímulos em sensações possui as seguintes caractensticas: agulha contra uma escala numérica é uma experiência
foi transmitido pela educação; demonstrou ser, atra':és perceptiva primitiva para qualquer um que não esteja fa­
de tentativas mais efetivo que seus competidores his­ miliarizado com as câmaras barométricas e amperíme­
tóricos num �eio ambiente de um grupo; e finalmente, tros. Sendo assim, a observação cuidadosa, a análise e a
está sujeito a modificações tanto através da educação interpretação ( ou ainda a intervenção de uma autoridade
posterior como pela descoberta de desajustamentos co1?1 externa) são exigidas, antes que se possa chegar a con­
a natureza. Essas são as características do conheci­ clusões sobre os elétrons e as correntes. Mas a posição
mento e explicam por que uso o termo. Mas é um uso daquele que conhece esses instrument?s e teve in:uitas
estranho, porque está faltando uma outra característica. experiências de seu uso é bastante diferente. Existem
Não temos acesso direto ao que conhecemos, nem regras diferenças correspondentes na maneira com que ele pro­
ou generalizações com as quais expressar esse conheci­ cessa os estímulos que lhe c�egam dos instrum:nto�.
mento. As regras que poderiam nos fornecer esse acesso Ao olhar o vapor de sua respiração numa manha fna
deveriam referir-se aos estímulos e não às sensações e de inverno, sua sensação talvez seja a mesma do leigo;
só podemos conhecer os estímulos utilizando uma teoria mas ao olhar uma câmara barométrica ele não vê ( aqui
elaborada. Na ausência dessa última, o conhecimento literalmente) gotas d'água, mas as trajetórias dos elé­
baseado no trajeto estímulo-resposta permanece tácito. trons, das partículas alfa e assim por diante. Essas tra­
Embora tudo · isso não tenha senão um valor pre­ jetórias são, se quiserem, critérios que ele interpreta
liminar e não necessite ser corrigido em todos os seus como índices da presença das partículas corresponden­
detalhes, o que acabamos de dizer a respeito da sensação tes, mas esse trajeto não só é mais cu�to, como é dife­
deve ser tomado em seu sentido literal. :e, no mínimo, rente daquele feito pelo homem que mterpreta as pe­
uma hipótese a respeito da visão que deveria ser subme­ quenas gotas d'água.
tida a investigação experimental, embora provavelmente
não a uma verificação direta. Mas falar aqui da sensa­ 14. Para os leitores de "Second Thoughts''., . l!s seguintes observações
pouco explícitas podem servir de guia. A poss1b_1lidade de um rf?l'}he�1-
ção e da visão também serve a funções metafóricas, tal mento imediato dos membros de famílias naturais depende da e':'istenc,a.
depois do processamento neurológico, de espaços perceptivos vazios entre
como no corpo do livro. Não vemos elétrons, mas sim as famílias a serem discriminadas. Se, por exemplo, houvesse um
suas trajetórias ou bolhas de vapor numa câmara baro­ continuum perceptivo das classes de aves aquátic�s que fo_sse� de ga_n�os
até cisnes poderíamos ser compelidos a introduzir um cnténo espec1f1_9)
métrica (câmara de Wilson). Não vemos as correntes para dísti�gui-los. Uma observação semel�ant� _ pode_ ser fe1!a com �el_:1ça_o
a entidades não-observáveis. Se uma teoria f1s1ca nao a,dm1te a ex1stenc1a
elétricas, mas a agulha de um amperímetro ou galvanô­ de nada além da corrente elétrica, então um J;leQueno numero de cn_t�nos,
metro. Contudo, nas páginas precedentes e especial­ que pode variar consideravelmente de caso Pª!ª caso, será suf1c_1ente
para identificar as correntes, me�"!.º quando, _nao hou�e_r um coniunto
mente no Cap. 9, procedi repetidamente como se real­ de regras que especifique as cond1çoes necessanas e su!1�1entes P_ara sua
m�nte percebêssemos entidades teóricas como correntes, identificação. Essa última observação sugere um corolar:o plaus1v�l. que
pode ser mais importante. Dado um conjunt<? de con�i�oes necessar_ias e
elétrons e campos, como se aprendêssemos a fazer isso suficientes para a identificação_ de uma ent1d_ade teo�1ca, essa e_nt,_d�de
pode ser eliminada da ontologia de uma teona atrav�s dJ su?st_>tu1ç�o
através do exame de exemplares e como se também nes­ Contudo, na ausência de tais regras, essas entidades nao sao e1inunáve1s,:
ses casos fosse equivocado substituir o tema da visão a teoria exige sua existência.

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242
Consideremos ainda o cientista que inspeciona um riamente sobre a intenção dessa parte de minha argu­
amperímí!tro para determinar o número que a agulha mentação. Alguns deles, entretanto, a firmaram que acre­
está indicando. Sua sensação é provavelmente a mesma dito no seguinte: 16 os defensores de teorias incomensu­
de uma leigo, especialmente se esse último já_ leu outros ráveis não podem absolutamente comunicar-se entre si;
tipos de medidores anteriormente. Mas ele vm o ampe­ conseqüentemente, num debate sobre a escolha de teo­
rímetro (ainda aqui com freqüência de forma literal) rias não cabe recorrer a boas razões; a teoria deve ser
no contexto do circuito total e sabe alguma coisa a res­ escolhid a por razões que são, em última instância, pes­
peito de sua estrutura interna. Para ele a posição da soais e subjetivas; alguma espécie de apercepção mística
agulha é um critério, mas apenas do valor da corrente. é responsável pela decisão a que se chega. Mais do que
Para interpretá-la, necessita apenas detenninar
_ em que qualquer outra parte do livro, as passagens em que se
escala o medidor deve ser lido. Para o leigo, por outro baseiam essas interpretações equivocadas estão na ori­
lado, a posição da agulha não é critério de coisa algu­ gem das acusações de irracionalidade.
ma, exceto de si mesmo. Para interpretá-la, ele deve exa­ Consideremos primeiramente minhas observações a
minar toda a disposição dos fios internos e externos, respeito da prova. O que estou tentando demonstrar é
experimentá-los com baterias e ímãs e assim por diante. algo muito simples, de há muito familiar à Filosofia da
Tanto no sentido metafórico como no sentido literal do Ciência. Os debates sobre a escolha de teorias não
termo "visão", a interpretação começa onde a percep­ podem ser expressos numa forma que se assemelhe total­
ção termina. Os dois processos não são o mesmo e o mente a provas matemáticas ou lógicas. Nessas últimas,
que a percepção deixa para a interpretação completar as premissas e regras de inferência estão estipuladas
depende drasticamente da natureza e da extensão da desde o início. Se há um desacordo sobre as conclusões,
formação e da experiência prévias. as partes comprometidas no debate podem refazer seus
passos um a um e conferi-los com as estipulações pré­
j..5. Exemplares, incomensurabilidade e revoluções vias. Ao final desse processo, um ou outro deve reco­
nhecer que cometeu um erro, violando uma regra pre­
O que acabamos de dizer fornece uma base para o viamente aceita. Após esse reconhecimento não são acei­
esclarecimento de mais um aspecto deste livro: minhas tos recursos e a prova d o oponente deve ser aceita. So­
observações sobre a incomensurabilidade e suas conse­ mente se ambos descobrem que diferem quanto ao sen­
qüências para os cientistas que debatem sobre a escolha tido ou aplicação das regras estipuladas e que seu acor­
entre teorias sucessivas. 15 Argumentei nos Caps. 9 e 11 do prévio não fornece base suficiente para uma prova,
que as partes que intervêm em tais debates inevitavel­ somente então é que o debate continua segundo a forma
mente vêem de maneira distinta certas situações experi­ que toma inevitavelmente durante as revoluções científi­
mentais ou de observação a que ambas têm acesso. Já cas. Esse debate é sobre premissas e recorre à persuasão
que os vocabulários com os quais discutem tais situa­ como um prelúdio à possibilidade de prova.
ções consistem predominantemente dos mesmos termos, Nada nessa tese relativamente familiar implica afir­
as partes devem estar vinculando estes termos de modo mar que não existam boas razões para deixar-se persua­
diferente à natureza - o que torna sua comunicação dir ou que essas razões não sejam decisivas para o gru­
inevitalmente parcial. Conseqüentemente, a superiori­ po. E nem mesmo implica afirmar que as razões para a
escolha sejam diferentes daquelas comumente enumera­
dade de uma teoria sobre outra não pode ser demons­ das pelos filósofos da ciência: exatidão simplicidade, fe­
trada através de uma discussão. Insisti, em vez disso, cundidade e outros semelhantes. Contudo, queremos
na necessidade de cada partido tentar convencer através sugerir que tais razões funcionam como valores e por­
da prrsuasão. Somente os filósofos se equivocaram se- tanto podem ser aplicados de maneiras diversas, indivi-
1 5. Os pontos seguintes são tratados com mais detalhe nos Caps. V 1 6 . Ver os trabalhos citados na nota 9, acima, e igualmente o ensaio
e VI das "Reflections". de STEPHAN TOUUN em Growth o/ Know/edge.

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dual e coletivamente, por aqueles que es!ão de acor?o de similaridade mudam. Objetos que antes estavam
quanto à sua validade. Por ex_emplo, se �ois homens dis­ agrupados no mesmo conjunto passam a agrupar-se em
cordam a respeito da fecundidade �elati�a de suas teo­
rias ou concordando a esse respeito, discordam sobre conjuntos diferentes e vice-versa. Pensemos no Sol, na
a �po;tância relativa da fecundidade e, digam�s, da Lua, em Marte e na Terra antes e depois de Copérnico;
na queda livre e no!> movimento planetários a pendula­
importância de se chegar a uma escolha - entao ne­ res antes e depois de Galileu; ou nos sais, nas fusões de
nhum deles pode ser acusado de _ err?: E ne�lrnm �eles metais e na mistura de enxofre e limalha de ferro antes
está procedendo de maneira acienufica. Nao � x1stem e depois de Dalton. Visto que a maior parte dos objetos
algoritmos neutros para a e�c?lha de um� _ teona. Ne­ continua a ser agrupada, mesmo quando em conjuntos
nhum procedimento sistemahco de decisao, . mesmo alte.rados, os nomes dos grupos são em geral con­
quando aplicado adequadamente, deve necessariamente servados. Não obstante, a transferência de um subcon­
conduzir cada membro de um grupo a uma mesma de­ junto é, de ordinário, parte de uma modificação funda­
cisão. Nesse sentido, pode-se dizer que quem t ?�ª a mental na rede de inter-relações que os une. A transfe­
decisão efetiva é antes a comunidade dos especiahstas
do que seus membros individuais. Para .�o�pre:,nder a rência de metais de um conjunto de compostos para um
_
especificidade do desenvolvime�to conjunto de elementos desempenhou um papel essencial
�li: ciencia, nao pre­ no surgimento de uma nova teoria da combustão, da aci­
cisamos deslindar os detalhes b10graficos e de persona­
lidade que levam cada indivíduo a uma escolha parti­ dez e da combinação física e química. Em pouco tempo
cular, embora esse tópico seja fascinante. Entret�nto, essas modificações tinham se espalhado por toda a Quí­
precisamos entender a maneira pela qual um co?Junto mica. Por isso não é surpreendente que, quando essas
_
determinado de valores compartilhados entra em mtera­ redistribuições ocorrem, dois homens que até ali pare­
ção com as experiências particulares comuns a uma �o­ ciam compreender-se perfeitamente durante suas conver­
sações, podem descobrir-se repentinamente reagindo ao
munidade de especialistas, de tal modo que a ma10r mesmo estímulo através de generalizações e descrições
parte do grupo acabe por considerar que um conjunto
de argumentos é mais decisivo que outro. incompatíveis. Essas dificuldades não serão sentidas nem
Esse processo é persuasivo, mas apresenta um pro­ mesmo em todas as áreas de seus discursos científicos,
blema mais profundo. Dois homens que percebem a mas surgido e agrupar-se-ão mais densamente em tor­
mesma situação de maneira diversa e que, não obstante no dos fenômenos dos quais depende basicamente a
escolha da teoria.
isso utilizam o mesmo vocabulário para discuti-la, Tais problemas embora apareçam incialmente na
dev�m estar empregando as palavras de modo diferente. comunicação, não ;ão meramente lingüísticos e não
Eles falam a partir daquilo que chamei de pontos. de podem ser resolvidos simplesmente através da estipula­
vista incomensuráveis. Se não podem nem se comunicar ção das definições dos termos problemáticos. Uma vez
como poderão persuadir um ao outro? Até mesmo ��a
que as palavras em to!ºº das quais s� cristaliza1;11 as
resposta preliminar a essa questão r_e9uer uma precisao dificuldades foram parcialmente apreendidas � J?arhr da
maior a respeito da natureza da d1f1culdade. Suponho aplicação direta de exemplares, os que parhc1pan:i de
que, pelo menos em parte, tal precisão tome a forma uma interrupção da comunicação não podem dizer:
que passo a descrever. .. "utilizei a palavra 'elemento' (ou 'mistura',. ou 'planeta',
A prática da ciência normal depende da habi�idade, ou 'movimento livre') na forma estabelecida pelos se­
adquirida através de exemplares, para arupar obJetos_e guintes critérios". Não podem recorrer a uma linguagem
situações em conjuntos semelhantes. Tais con!_ untos sao neutra, utilizada por todos da mesm� maneira e ade­
primitivos no sentido de que o agrupamento e efetuado quada para o enunciado de suas teonas ou mesmo das
sem que se responda à pergunta: "Similares com rela­ conseqüências empíricas dessas teorias. Parte das dife­
ção a quê?" Assim, um aspecto central de qualq1=er renças é anterior à utilização das linguagens, mas, não
revolução reside no fato de que algumas das relaçoes obstante, reflete-se nelas.
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Todavia, aqueles que experimentam tais dificulda­ o qual sua própria resposta verbal seria diferente. Se
des de comunicação devem possuir algum recurso alter­ conseguirem refrear suficientemente suas tendências para
nativo. Os estímulos que encontram são os mesmos. O explicar o comportamento anômalo como a conseqüên­
mesmo se dá com seus aparelhos neurológicos, não im­ cia de simples erro ou loucura, poderão, com o tempo,
porta quão diferentemente programados. Além disso, começar a prever bastante bem o comportamento recí­
com exceção de um setor da experiência reduzido, mas proco. Cada um terá aprendido a traduzir para sua pró­
da mais alta importância, até mesmo suas programações pria linguagem a teoria do outro, bem como suas conse­
neurológicas devem ser aproximadamente as mesmas, qüências e, simultaneamente, a descrever na sua lingua­
já que partilham uma história comum, salvo no pas­ gem o mundo ao qual essa teoria se aplica. É isto que
sado imediato. Em conseqüência, compartilham tanto o historiador da ciência faz regularmente ( ou deveria
seu cotidiano como a maior parte de sua linguagem e fazer) quando examina teorias científicas antiquadas.
mundo científicos. Dado que possuem tanto em comum, A tradução, quando levada adiante, é um instru­
deveriam ser capazes de descobrir muita coisa a respeito mento potente de persuasão e conversão, pois permite
da maneira como diferem. Mas as técnicas (;'Xigidas para aos participantes de uma comunicação interrompida ex­
isso não são nem simples, nem confortáveis, e nem mes­ perimentarem vicariamente alguma coisa dos méritos e
mo parte do arsenal habitual do cientista. Os cientistas defeitos recíprocos. Mas mesmo a persuasão não neces­
raramente as reconhecem exatamente pelo que são e sita ser bem sucedida e, se ela o é, não necessita ser
raramente as utilizam por mais tempo do que o neces­ acompanhada ou seguida pela conversão. Essas duas ex­
sário para realizar uma conversão ou convencerem-se periências não são a mesma coisa. Apenas recentemente
a si mesmos de que ela não será obtida. reconheci essa distinção importante em toda sua ex­
Em suma, o que resta aos interlocutores que não tensão.
se compreendem mutuamente é reconhecerem-se uns Penso que persuadir alguém é convencê-lo de que
aos outros como membros de diferentes comunidades de nosso ponto de vista é superior e por isso deve suplantar
linguagem e a partir daí tornarem-se tradutores. 17 To­ o seu. Ocasionalmente chega-se a esse resultado sem
mando como objeto de estudo as diferenças encontradas recorrer a nada semelhante à suma tradução. Na ausên­
nos discursos no interior dos grupos ou entre esses, os cia dessa última, muitas explicações e enunciados de
interlocutores podem tentar primeiramente descobrir os problemas endossados pelos membros de um grupo cien­
termos e as locuções que, usadas sem problemas no in­ tífico serão opacos para os membros de outro grupo.
terior de cada comunidade, são, não obstante, focos de Mas cada comunidade de linguagem pode produzir habi­
problemas para as discussões intergrupais. (Locuções tualmente, desde o início, alguns resultados de pesquisa
que não apresentam tais dificuldades podem ser traduzi­ concretos que, embora possam ser descritos em frases
das homofonamente.) Depois de isolar tais áreas de difi­ compreendidas da mesma maneira pelos dois grupos,
culdade na comunicação científica, podem em seguida ainda não podem ser explicados pela outra comunidade
recorrer aos vocabulários cotidianos que lhes são co­ em seus próprios termos. Se o novo ponto de vista
muns, num esforço para elucidar ainda mais seus pro­ perdura por algum tempo e continua a dar frutos, os
blemas. Cada um pode tentar descobrir o que o outro resultados das pesquisas que podem ser verbalizados
veria e diria quando confrontado com um estímulo para dessa forma crescem provavelmente em número. Para
alguns, tais resultados já serão decisivos. Eles poderão
17. A fonte já clássica para a maioria dos aspectos relevantes da
dizer: não sei como os adeptos do novo ponto de vista
tradução é Word and Object, de W. V. O. QUINE (Cambridge, Mass., tiveram êxito, mas preciso aprender; o que quer que
e Nova York, 1960), Caps. I e II. Mas Quine parece supor que dois
homens que recebem o mesmo estímulo devem ter a mesma sensação e estejam fazendo, é evidentemente correto. Essa reação
portaoto tem pouco a dizer a respeito do grau em que o tradutor deve
ser capaz de descrever o mundo ao qual se aplica a linguagem que está
ocorre mais facilmente entre os que acabam de ingressar
traduzida. Sobre esse último ponto, ver E. A. NmA, "Linguistics and na profissão, porque ainda não adquiriram o vocabulá­
Ethnology in Translation Problems", em DEL HYMES (ed.), Langr,age and
Cu/ture in Society (Nova York, 1964), pp. 90-97. rio e os compromissos especiais de qualquer um dos

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grupos. êontudo, os argumentos enunciáveis no vocabu­ somente na metade de suas carreiras, descobre-se total­
lário utilizado da mesma maneira por ambos os grupos mente persuadido pelo novo ponto de vista e no entanto
habitualmente não são decisivos, pelo menos até o últi­ é incapaz de internalizá-lo e de sentir-se à vontade no
mo estágio da evolução dos pontos de vista opostos. mundo que este ajuda a constituir. Intelectualmente tal
Entre os indivíduos admitidos na profissão, poucos serão homem fez sua escolha, mas a conversão que esta esco­
persuadidos sem que se recorra às comparações mais lha requer para ser eficaz lhe escapa. Não obstante, ele
amplas permitidas pela tradução. Embora o preço desse pode utilizar a nova teoria, mas o fará como um foras­
tipo de tradução seja freqüentemente sentenças muito teiro num lugar estranho: a alternativa lhe será acessível
longas e complexas (recorde-se a controvérsia Proust­ apenas porque já é utilizada pelos naturais do lugar.
-Berthollet, conduzida sem recorrer ao termo "elemen­ Seu trabalho será parasitário com relação ao desses últi­
to"), muitos resultados adicionais da pesquisa podem mos, pois lhe falta a constelação de disposições mentais
ser traduzidos da linguagem de uma comunidade para a que os futuros membros da comunidade irão adquirir
de outra. Além disso, à medida que a tradução avança, através da educação.
alguns membros de cada comunidade podem começar a A experiência de conversão que comparei a uma
compreender, colocando-se no lugar do opositor, de que mudança de perspectiva (Gestalt) permanece, portanto,
modo um enunciado, que anteriormente lhes parecia no cerne do processo revolucionário. Boas razões em
opaco, podia parecer uma explicação para os membros favor da escolha proporcionam motivos para a conver­
do prupo oposto. Por certo a disponibilidade de tais téc­ são e o clima no qual ela tem maiores probabilidades de
nicas não garante a persuasão. Para a maioria das pes­ ocorrer. Além disso, a tradução pode fornecer pontos
soas a tradução é um processo ameaçador e completa­ de partida para a reprogramação neurológica que, em­
mente estranho à ciência normal. De qualquer modo, bora seja inescrutável a esta altura, deve estar subjacente
existem sempre contra-argumentos disponíveis e não à conversão. Mas, nem as boas razões, nem a tradução
existe� regras que prescrevam como se deve estabelecer constituem a conversão e é este processo que devemos
o equilíbrio entre as partes. Não obstante, na medida explicar para que se possa entender um tipo fundamen­
em que os argumentos se acumulam e desafio após de­ tal de mudança científica.
safio é enfrentado com êxito, torna-se necessária uma
obstinação cega para continuar resistindo. 6. Revoluções e relativismo
Nesse caso um segundo aspecto da tradução, de
longa data familiar a lingüistas e histbriadores, assume Uma conseqüência de pos1çao recém-delineada
uma importância crucial. Traduzir uma teoria ou visão irritou especialmente muitos de meus críticos. 18 Eles
de mundo na sua própria linguagem não é fazê..la sua. consideram relativista minha perspectiva, particular­
Para isso é necessário utilizar essa língua como se fosse mente na forma em que está desenvolvida no último capi­
nossa língua materna, descobrir que se está pensando e tulo deste livro. Minhas observações sobre a tradução
trabalhando - e não simplesmente traduzindo - uma iluminam as razões que levam à acusação. Os defenso­
língua que antes era estranha. Contudo, essa transição res de teorias diferentes são como membros de comu­
não é daquelas que possam ser feitas ou não através de nidades de cultura e linguagem diferentes. Reconhecer
deliberações e escolhas, por melhores razões que se esse paralelismo sugere, em certo sentido, que ambos os
tenha para desejar proceder desse modo. Em lugar grupos podem estar certos. Essa posição é relativista,
d!sso, num determinado momento do processo de apren­ quando aplicada à cultura e seu desenvolvimento.
dizagem da tradução, o indivíduo descobre que ocorreu a Mas, quando aplicada à ciência, ela pode não sê-lo
transição, que ele deslizou para a nova linguagem sem e, de qualquer modo, está longe de um simples relativis-
ter tomado qualquer decisão a esse respeito. Ou ainda:
o indivíduo, tal co mo muitos que, por exemplo, encon­ 18. SHAPEIIB, "Stl'\lcture of Scientific Revolutions", e POPPEK em
tram a Teoria da Relatividade ou a Mecânica Quântica Growth o/ Knowledge.

250 251
mo - num aspecto que meus críticos não foram capa­ gas, no que toca à resolução de quebra-cabeças nos con­
zes de perceber. Argumen tei que, tomados como um textos freqüentemente diferentes aos quais são aplica­
grupo ou em grupos, os pratican�es _d�s ciências desen­ das. Essa não é uma posição relativista e revela em que
volvidas •são fundamentalmente md1v1duos capazes de sentido sou um crente convicto do progresso científico_{
resolver quebra-cabeças. Embora os valores_ aos 9uais Contudo, se comparada com a concepção de pro­
se apeguem em períodos de escolha de teoria denv�� gresso dominante, tanto entre filósofos da ciência como
igualmente de outros aspectos de seu trabalho, a habih­ leigos, esta posição revela-se desprovida de um ele­
dade demonstrada para formular e resolver quebra-ca­ mento essencial. Em geral uma teoria científica é consi­
beças apresentados pela natureza é, no caso d� um con­ derada superior a suas predecessoras não apenas porque
flito de valores, o critério dominante para mmtos mem­ é um instrumento mais adequado para descobrir e re­
bros de um grupo científico. Como qualquer valor, :'­ solver quebra-cabeças, mas também porque, de algum
habilidade para resolver quebra-cabeças revela-se equi­ _lllodo, apresenta um visão mais exata do que é realmen­
voca na aplicação. Dois indivíduos que a possuam t� a nl!!_ureza. Ouvimos freqüentemente dizer que teorias
podem, apesar disso, diferir quanto aos julgamentos que sucessivas se desenvolvem sempre mais perto da verdade
extraem de seu emprego. Mas o comportamento de uma ou se aproximam mais e mais desta. Aparentemente ge­
comunidade que torna tal valor preeminente será mu�to neralizações desse tipo referem-se não às soluções de
diverso daquela que não procede dessa forma. Acredito quebra-cabeças, ou predições concretas derivadas de
que o alto valor outorgado nas _ ciências à h�?}lid_ade de uma teoria, mas antes à sua ontologia, isto é, ao ajuste
resolver quebra-cabeças possui as consequencias se- entre as entidades com as quais a teoria povoa a natu­
guintes. _ reza e o que "está realmente aí".
Imaginemos uma árvore representando a evoluçao Talvez exista alguma outra maneira de salvar a no­
e o desenvolvimento das especialidades científicas mo­ ção de "verdade" para a aplicação a teorias completas,
dernas a partir de suas origens comuns digamos, na Fi­ mas esta não será capaz de realizar isso. Parece-me que
losofia da Natureza primitiva e no artesanato. Uma úni­ não existe maneira de reconstruir expressões como "real­
ca linha, traçada desde o tronco até a ponta de algum ga­ mente aí" sem auxílio de uma teoria; a noção de um
lho no alto, demarcaria uma sucessão de teorias relacio­ ajuste entre a ontologia de uma teoria e sua contrapar­
nadas por sua descendência. Se tomássemos quaisquer tida "real" na natureza parece-me ilusória por princípio.
dessas duas teorias, escolhendo-as em pontos não muito Além disso, como um historiador, estou impressionado
próximos de sua origem, deveria ser fácil organizar. uma com a falta de plausibilidade dessa concepção. í Não
lista de critérios que permitiriam a um observador inde­ tenho dúvidas, por exemplo, de que a Mecânica de
pendente disti�guir, _ em todos os casos, a _ t�o�ia ma!s Newton aperfeiçoou a de Aristóteles e de que a Mecâ­
antiga da teona mais recente. Entre os cntenos mais nica de Einstein aperfeiçoou a de Newton enquanto ins­
úteis encontraríamos: a exatidão nas predições, especial­ trumento para a resolução de quebra-cabeças. Mas não
mente no caso das predições quantitativas; o equilíbrio percebo, nessa sucessão, uma direção coerente de desen­
entre o objeto de estudo cotidiano e o esotérico; o nú­ volvimento ontológico. Ao contrário: em alguns aspectos
mero de diferentes problemas resolvidos. Valores como importantes, embora de maneira alguma em todos, a
a simplicidade, alcance e compatibilidade seriam menos Teoria Geral da Relatividade de Einstein está mais pró­
úteis para tal propósito, embora também sejam determi­ xima da teoria de Aristóteles do que qualquer uma das
nantes importantes da vida científica. Essas ainda não duas está da de Newton. Embora a tentação de descre­
são as listas exigidas, mas não tenho dúvidas de que ver essa posição como relativista seja compreensível, a
podem ser completadas. Se isso pode ser realizado, en­ descrição parece-me equivocada. Inversamente, se esta
tão o desenvolvimento científico, tal como º�-biológico, posição é relativista, não vejo por que falte ao rela­
é um processo unidirecional e irreversível. As _teori�s tivista qualquer coisa necessária para a explicação da
científicas mais recentes são melhores que as mais anti- - natureza e do desenvolvimento das ciências.
252 253
7. A natureza da Ciência tivas são provas da teoria precisamente porque foram
derivadas dela, enquanto em outras concepções da natu­
Concluo com uma breve discussão das duas reações reza elas constituem um comportamento anômalo.
freqüentes ao meu texto original, a primeira crítica, a Não penso que a circularidade desse argumento
segunda favorável, e nenhuma, no meu entender, total­ seja viciosa. As conseqüências do ponto de vista estu­
mente correta. Embora não haja nenhuma relação dado não são esgotadas pelas observações sobre as quais
entre essas reações ou com o que foi dito até aqui, am­ repousava no início. Mesmo antes da primeira publica­
bas têm sido suficientemente freqüentes para exigir pelo ção deste livro, constatei que partes da teoria que ele
menos alguma resposta. apresenta são um instrumento útil para a exploração do
Alguns leitores de meu texto original observaram comportamento e desenvolvimento científico. Uma com­
que eu passo repetidamente do descritivo ao normativo paração deste posfácio com o texto original pode suge­
e vice-versa; esta transição é particularmente clara em rir que a teoria continuou a desempenhar esse papel.
passagens que começam com "Mas não é isto que os Nenhum ponto de vista estritamente circular proporcio­
cientistas fazem" e terminam afirmando que os cientis­ na tal orientação.
tas não devem proceder assim. Alguns críticos alegam Minha resposta a um último tipo de reação a este
que estou confundindo descrição com prescrição, vio­ livro deve ser de natureza diversa. Vários daqueles que
lando dessa forma o teorema filosófico tradicionalmente retiraram algum prazer da leitura do livro reagiram
respeitado: O "é" não implica o "deve". 19 assim não porque ele ilumina a natureza da ciência, mas
Esse teorema tornou-se uma etiqueta na prática e porque consideraram suas teses principais aplicáveis a
já não é mais respeitado por toda a parte. Diversos muitos outros campos. Percebo o que querem dizer e
filósofos contemporâneos descobriram contextos impor­ não gostaria de desencorajar suas tentativas de ampliar
tantes nos quais o normativo e o descritivo estão inextri­ esta perspectiva, mas apesar disso fiquei surpreendido
cavelmente misturados.20 O "é" e o "deve" não estão com suas reações. Na medida em que o livro retrata o
sempre tão completamente separados como pareciam. desenvolvimento científico como uma sucessão de pe­
Mas não é necessário recorrer às sutilezas da Filosofia ríodos ligados à tradição e pontuados por rupturas não­
da Linguagem contemporânea para precisar o que me -cumulativas, suas teses possuem indubitavelmente uma
pareceu confuso a respeito desse aspecto da minha po­ larga aplicação. E deveria ser assim, pois essas teses
sição. As páginas precedentes apresentam um ponto de foram tomadas de empréstimo a outras áreas. Historia­
vista ou uma teoria sobre a natureza da ciência e, como dores da Literatura, da Música, das Artes, do Desen­
outras filosofias da ciência, a teoria tem conseqüências volvimento Político e de muitas outras atividades huma­
no que toca à maneira pela qual os cientistas devem nas descrevem seus objetos de estudo dessa maneira
comportar-se para que seu empreendimento seja bem desde muito tempo. A periodização em termos de rup­
sucedido. Embora essa teoria não necessite ser mais turas revolucionárias em estilo, gosto e na estrutura ins­
correta que qualquer outra, ela proporciona uma base titucional têm estado entre seus instrumentos habituais.
legítima para o uso dos "o que poderia ser" (should) e Se tive uma atitude original frente a esses conceitos, isso
"o que deve ser" ( ought). Inversamente, uma das ra­ se deve sobretudo ao fato de tê-los aplicado às ciências,
zões para que se tome a teoria a sério é a de que os áreas que geralmente foram consideradas como dotadas
cientistas, cujos métodos foram desenvolvidos e selecio­ de um desenvolvimento peculiar. Pode-se conceber a
nados em vista de seu sucesso, realmente comportam-se noção de paradigma como uma realização concreta,
como prescreve a teoria. Minhas generalizações descri- como um exemplar, a segunda contribuição deste livro.
Suspeito, por exemplo, de que algumas das dificuldades
19. Para um entre muitos exemplos possíveis, ver o ensaio de P. K. notórias envolvendo a noção de estilo nas Artes pode­
FEYERABEND em Growth of Knowledge.
20. CAVELL, Stanley. M11st We Mean What We Say? (Nova York,
riam desvanecer-se se as pinturas pudessem ser vistas
1969), Cap. I. como modeladas umas nas outras, em lugar de produ-

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