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26/05/2019 A águia, o urso e o dragão

A águia, o urso e o dragão


– "Europa: Uma terra de cegos que guia outros cegos"

por Pepe Escobar [*]

Antigamente, pela noite adentro, à volta de fogueiras em desertos


do sudeste asiático, eu costumava contar uma fábula sobre a
águia, o urso e o dragão – para grande satisfação dos meus
interlocutores árabes e persas.

Contava como a águia, o urso e o dragão, no início do século XXI,


tinham tirado as suas luvas (de pele) e se envolveram no que
acabou por ser a Guerra Fria 2.0.

Quando nos aproximamos do fim da segunda década deste século


já incandescente, talvez seja proveitoso atualizar aquela fábula.
Com o devido respeito a Jean de la Fontaine , desculpem-me
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enquanto volto a beijar o céu [1] (deserto).

Longe vão os dias em que um urso frustrado se ofereceu várias


vezes para cooperar com a águia e os seus lacaios numa questão
escaldante: os mísseis nucleares.

O urso argumentou reiteradas vezes que a colocação de mísseis


de interceção e de radares naquela terra de cegos que guiavam
cegos – a Europa – era uma ameaça. A águia contra-argumentou
repetidas vezes que aquilo era para nos proteger daqueles patifes
persas.

Agora, a águia – afirmando que o dragão está a ter uma vida fácil –
rasgou todos os tratados em vigor e está apostada em colocar
mísseis nucleares em zonas orientais selecionadas na terra dos
cegos que guiam os cegos, essencialmente para visar o urso.

Tudo o que brilha é seda

Menos de 20 anos depois


daquilo a que o urso-mor
Putin definiu como "a maior
catástrofe geopolítica do
século XX", este propôs uma
forma de URSS light ; um
órgão político-económico
chamado a União
Económica Eurasiática
(UEE).

A ideia era ter a UEE a


interagir com a União
Europeia – a instituição de
topo da equipa heterogénea
conjunta dos cegos que
guiam os cegos.

A águia não se limitou a rejeitar uma possível integração; saiu-se


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com um cenário de revolução colorida modificada a fim de desligar


a Ucrânia da UEE.

Ainda antes disso, a águia havia querido estabelecer uma Nova


Rota da Seda sob o seu total controlo. A águia havia-se esquecido
convenientemente de que a original, a Antiga Rota da Seda, ligara
o dragão ao império romano durante séculos – sem intrusos do
exterior da Eurásia.

Assim, podemos imaginar o assombro da águia quando o dragão


irrompeu no palco global com as suas Novas Rotas da Seda super
carregadas – melhorando a ideia original do urso de uma área de
comércio livre "de Lisboa a Vladivostok" e transformando-a num
corredor de múltiplas interligações, terrestres e marítimas, da China
oriental à Europa ocidental, incluindo tudo entre esses dois
extremos, abrangendo toda a Eurásia.

Perante este novo paradigma, os cegos, claro, mantiveram-se


cegos durante tanto tempo quanto nos podemos lembrar; e, pura e
simplesmente, não conseguiram agir em conjunto.

Entretanto, a águia ia aumentando a parada. Lançou o que, para


todos os efeitos práticos, era um cerco ao dragão,
progressivamente cheio de armas.

A águia fez uma série de movimentos que equivaliam a incitar os


países fronteiriços do Mar do Sul da China a antagonizar o dragão,
enquanto alterava a disposição duma série de brinquedos –
submarinos nucleares, porta-aviões, caças a jato – cada vez mais
próximos do território do dragão.

Durante este tempo todo, o que o dragão via – e continua a ver – é


uma águia estropiada, tentando abrir caminho à força para sair
dum declínio irreversível, tentando intimidar, isolar e sabotar a
ascensão imparável do dragão para o lugar que sempre ocupara,
durante 18 dos últimos 20 séculos: a sua entronização como rei
da selva.

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Um vetor fundamental é que os atores de toda a Eurásia sabem


que, à luz das novas leis da selva, o dragão não pode – e não irá –
ser reduzido, pura e simplesmente, à situação de ator secundário.
E os atores de toda a Eurásia são demasiado espertos para
embarcar numa Guerra Fria 2.0 que daria cabo da própria Eurásia.

A reação da águia à estratégia da Nova Rota da Seda do dragão


levou algum tempo a passar da inação à demonização aberta –
complementando com a descrição conjunta do dragão e do urso
como ameaças existenciais.

Contudo, apesar de todo este fogo cruzado, os atores de toda a


Eurásia já não se sentem propriamente impressionados com o
império da águia armada até aos dentes. Especialmente depois de
a crista da águia ter sido gravemente ferida por fracassos sobre
fracassos, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria. Os porta-
aviões da águia que patrulham a parte oriental do Mare Nostrum
não estão propriamente a assustar o urso, os persas e os sírios.

Um acordo entre a águia e o urso sempre foi um mito. Demorou


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algum tempo – e muita perturbação financeira – até o urso


perceber que não iria haver nenhum acordo, enquanto o dragão só
via acordo para um confronto aberto.

Depois de se estabelecer, lentamente, mas com segurança, como


a potência militar mais avançada do planeta, com conhecimentos
hipersónicos, o urso chegou a uma conclusão espantosa: já não
nos preocupamos com o que a águia diz – ou faz.

Sob o vulcão em erupção

Entretanto, o dragão continua a expandir-se, inexoravelmente, por


todas as latitudes asiáticas, assim como pela África, pela América
Latina e até pelas pastagens infestadas pelo desemprego dos
cegos que guiam os cegos, atingidos pela austeridade.

O dragão está firmemente convencido de que, se for encurralado


ao ponto de ter de recorrer a uma opção nuclear, detém o poder de
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fazer explodir o estarrecedor défice da águia [2] , reduzir a zero a


sua avaliação de crédito e criar o caos no sistema financeiro
mundial.

Não é de admirar que a águia, sob uma nuvem paranoica que tudo
envolve, de dissonância cognitiva, alimentando ininterruptamente a
propaganda do estado aos seus súbditos e lacaios, continue a
cuspir lava como um vulcão em erupção – impondo sanções a uma
grande parte do planeta, entretendo sonhos eróticos (wet dreams)
de mudança de regime, lançando um embargo total contra os
persas, ressuscitando a "guerra contra o terrorismo" e tentando
punir quaisquer jornalistas, editores ou denunciantes que revelem
as suas maquinações internas.

Dói imenso reconhecer que o centro político-económico de um


novo mundo multipolar vai ser a Ásia – ou seja a Eurásia.

À medida que a águia se torna cada vez mais ameaçadora, o urso


e o dragão aproximam-se cada vez mais na sua parceria
estratégica. Agora, tanto o urso como o dragão têm demasiados
laços estratégicos por todo o planeta para serem intimidados pelo
enorme Império de Bases [militares] da águia ou por aquelas
coligações periódicas dos que a isso se dispõem (um tanto
relutantes).

Para corresponder à integração abrangente em curso da Eurásia,


de que as Novas Rotas da Seda são o símbolo gráfico, a fúria da
águia, sem freios, nada tem a oferecer – exceto requentar guerra
contra o Islão, em conjunto com o cerco bélico ao urso e ao
dragão.

Depois, há a Pérsia – esses mestres jogadores de xadrez. A águia


tem vindo a perseguir os persas desde que eles se viram livres do
procônsul da águia, o Xá, em 1979 – isso depois de a águia e a
pérfida Albion terem esmagado a democracia em 1953 e colocado
o Xá no poder, o qual fazia com que Saddam se parecesse a um
Gandhi.

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A águia quer todo o petróleo e o gás natural de volta – para não


falar de um novo Xá no papel de novo polícia do Golfo Pérsico. A
diferença é que, agora, o urso e o dragão estão a dizer Nem
Pensem. O que é que a águia irá fazer? Hastear a bandeira falsa
para acabar com todas as bandeiras falsas?

É onde estamos agora. E mais uma vez, chegámos ao fim –


embora não seja o fim do jogo. Ainda não há nenhuma moral para
esta fábula modernizada. Continuamos a sofrer os ataques e as
frechadas de um lamentável destino. A nossa única e débil
esperança é que um grupo de Homens vazios [3] obcecados pelo
Segundo Advento [do Messias] não transforme a Guerra Fria 2.0
num Armagedão .

06/Maio/2019
[1] Beijar o céu: Realizar aspirações, frase de canção de Jimi Hendrix.
[2] Here's What Happens if China DUMPS Its $1 Trillion in US Debt Amid Trade War
[3] Homens vazios: Refere-se à poesia The Hollow Men , de T. S. Elliot: "[...] Este é
o modo como o mundo acaba. Não com um bang mas com uma lamúria".

[*] Jornalista, brasileiro, correspondente do Asia Times . O seu


último livro é 2030 .

O original encontra-se em
consortiumnews.com/2019/05/06/pepe-escobar-the-eagle-the-
bear-and-the-dragon/ . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


13/Mai/19

https://www.resistir.info/eua/escobar_06mai19_p.html 7/7

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