Você está na página 1de 4

Resenha da aula pública em diálogo com o texto: O que é direito?

Entre os dias 24 de abril à 11 de maio de 2019 aconteceu a VI Jornada


Universitária em Defensa da Reforma Agrária no Rio de Janeiro, com o tema ‘O que
você sustenta quando se alimenta?’. No dia 6 de maio na Universidade Federal do Rio
de Janeiro no campus da Praia Vermelha foi realizada uma aula pública com a
presença de alunos, docentes e representantes do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST) para debater a questão da reforma agrária no Brasil. A
atividade foi desenvolvida por meio de um cine debate no qual foi exibido o
documentário produzido pelo Coletivo de Sementes da América Latina, chamado
‘Semillas, ¿bien común o propiedad corporativa?’, que aborda a privatização das
sementes na América Latina.
Com depoimentos de agricultores de oito países latino americanos como
Brasil, Equador, México, Argentina, Honduras, Guatemala, Costa Rica e Colômbia, o
documentário mostra como os povos originários desenvolveram a agricultura por meio
da coleta e seleção de sementes silvestres, criando assim uma tradição de cultivo que
é passada de geração em geração, considerando as sementes sagradas, pois
sustentaram e sustentam muitas famílias camponesas até os dias atuais.
No século XX com a chegada dos ‘Direitos de Propriedade Intelectual’ sobre
as sementes e a agricultura industrial, o controle da agricultura é dado a alguns grupos
de corporações por meio de leis, a partir de então os agricultores começam a sentir
os impactos da chamada ‘Revolução Verde’, baseada na monocultura, utilização de
maquinaria pesada, aplicação de agroquímicos e concentração de terra. No texto ‘O
que é Direito?’ de Roberto Lyra Filho, ele chama atenção para a diferenciação de
direito e lei, a lei emana do Estado e é um mecanismo utilizado pelas classes
dominantes da sociedade, é necessário que não sejam confundidos esses dois
termos, pois a medida que as pessoas tomam consciência de seus direitos é possível
que a legislação se transforme, mantendo assim uma constante inovação das leis.
Nesse caso a luta dos trabalhadores rurais pela não privatização, monopolização e
usurpação das sementes é uma forma de saber os seus direitos e modificar as leis
impostas a eles.
A luta pela preservação das sementes crioulas e nativas, patrimônio cultual e
agrícola é o foco do documentário. Essas sementes foram monopolizadas e
modificadas quimicamente por corporações alegando que os grãos originalmente
eram desqualificados e pouco produtivos, sendo assim com essas modificações cerca
de 3/4 da diversidade das sementes foi perdida. Por meio das leis de patente e dos
direitos de obtentor essas sementes foram retiradas das mãos dos camponeses e
passaram a ser dominadas por grandes empresas. Assim começa a luta contra as leis
e tratados de sementes.
A UPOV 91, que confere direitos de obtentor sobre a variedade de plantas
através do sistema da Propriedade Intelectual, retiram dos camponeses o seu direito
histórico de semear, melhorar, trocar e comercializar suas sementes. Com esse
sistema foram perdidos milhares de grãos tradicionais de suas regiões. Além disso as
grandes corporações também impõem certos requisitos para que os agricultores
continuem trabalhando no campo.
No Brasil durante a processo de discussão da lei de sementes de 2003
ocorreram mobilizações em prol da luta para alcançar uma exceção que permitisse
que agricultores familiares cultivassem e comercializassem suas próprias sementes
entre si, tal reivindicação foi atendida, no entanto as sementes locais são
marginalizadas pelas grandes corporações que não aceitam a variabilidade genética
natural das mesmas, obrigando os pequenos produtores agrários a utilizarem as
sementes certificadas e “melhoradas” pelas empresas. Com base na alegação de que
os grãos precisam manter uma uniformidade no seu aspecto e o processo de
plantação e colheita necessita ser mais rápido, fato que não ocorre no método natural
de cultivo. Outro problema são as sementes vindas da política das sementes, muitas
delas causam intoxicação nos indivíduos e morte de animais devido as alterações
químicas causadas pelos agrotóxicos.
Em um trecho do documentário Gabriel Ariznabarreta membro da ONG
argentina Ecos de Seladillo utiliza a seguinte frase: "Quem for dono das sementes,
será também o dono dos alimentos", para resumir o motivo pelo qual as multinacionais
tiram a autonomia de cultivo dos povos agrários para conseguirem obter o controle e
os lucros da alimentação nacional e internacional. Não somente os produtores
agrários estão perdendo a soberania alimentar, mas também o próprio Estado que
começa a depender das empresas de sementes, assim as grandes corporações
buscam a apropriação de toda a cadeia de alimentos em nível global. Hoje são três
corporações que controlam mais de 50% das sementes agrícolas comerciais do
mundo, são elas: Syngenta, Bayer-Monsanto e Dupont.
Para diminuir os impactos negativos causados pela privatização das
sementes os agricultores familiares tentam dar visibilidade a sua produção através de
feiras fazendo com que os centros urbanos também tenham conhecimento do trabalho
dos camponeses, da importância das sementes crioulas e nativas e dos danos
causados pelos produtos transgênicos.
O documentário apresenta uma realidade ainda presente nos países Latinos
Americanos, a luta entre dois modelos de produção agrícola uma impulsionada com
recursos e a política do Estado baseado no modelo extrativista, na agroexportação e
no lucro e por outro lado a agricultura camponesa que têm seu foco na
sustentabilidade familiar e soberania alimentar.
Depois da exibição do documentário teve início um debate com uma
representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a senhora
Iranilde, que debateu acerca das políticas agrárias, movimentos de reivindicação dos
agricultores, reforma agrária no Brasil, e como MST é organizado.
No debate foram levantadas questões de extrema relevância como por
exemplo “o que está por trás do nosso alimento?”; “Como o alimento chega até a
nossa mesa?”. Já possuímos um paladar tão acostumado com produtos
industrializados que não conseguimos mais distinguir o real sabor dos alimentos.
Foi também nós apresentado o trabalho que as escolas agrícolas
desenvolvem com os estudantes, são formas de modernização do cultivo sem a
utilização de agrotóxicos e sem a perda da genética original das sementes e grãos.
Por fim como já foi apresentado no documentário a conscientização do valor,
divulgação e comercialização dos produtos da agricultura familiar é feita através de
feiras, Jornadas Universitárias em Defesa da Reforma Agrária (JURA) e movimentos
sociais em defesa do uso comum da terra e pelo fim do agronegócio que só visa o
lucro e não a saúde quem consome alimentos contaminados por substancias toxicas.
Agro é privatização, agro é agricultor sem ter o que cultivar, agro é toxico.
Referencias:

Colectivo de Semillas de América Latina. Semillas ¿Bien común o propiedad


corporativa? Radio Mundo Real, 2017. Disponível em:
<https://youtu.be/iUc45DS9eLU>. Acesso em 12 de maio de 2019.

LYRA FILHO, Roberto. O que é Direito?. São Paulo: Editora Brasiliense. 11ª edição,
2016.