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Robert Venturi, Denise Scott Brown e Steven Izenour, 2003 [1972; 1977]:

"A primeira parte deste livro é uma descrição de nosso estudo sobre a arquitetura do corredor [strip] comercial. A
segunda é uma generalização sobre o simbolismo na arquitetura e a iconografia do esparrame urbano [urban
sprawl] com base em nossas descobertas feitas na parte I.

Las Vegas é atravessada pela Rota 91, o arquétipo do corredor comercial, o fenômeno em seu estado mais puro e
intenso. Acreditamos que a documentação e a análise cuidadosa de sua forma física é tão importante para os
arquitetos e urbanistas de hoje quanto foram os estudos da Europa medieval e da Grécia e Roma antigas para
gerações anteriores. Um estudo desse tipo ajudará a definir um novo tipo de forma urbana que surge nos Estados
Unidos e na Europa, radicalmente diferente de tudo o que conhecemos, o qual não estamos bem equipados para
entender e que, por ignorância, definimos hoje como espalhamento urbano. Um dos objetivos deste estudo será,
por meio de uma investigação aberta e sem preconceitos, chegar a compreender essa nova forma urbana e
começar a desenvolver técnicas para seu tratamento."

[parte 1]
Uma significação para os estacionamentos da A&P, ou aprendendo com Las Vegas

"Aprender com a paisagem existente é, para o arquiteto, uma maneira de ser revolucionário. Não do modo óbvio,
que é derrubar Paris e começar tudo de novo, como Le Corbusier sugeriu na década de 1920, mas de outro, mais
tolerante, isto é, questionar o modo como vemos as coisas."

"Las Vegas é analisada aqui somente como um fenômeno de comunicação. Assim como uma análise da estrutura de
uma catedral gótica não precisa incluir um debate sobre a moralidade da religião medieval, os valores de Las
Vegas não são questionados aqui. A moralidade da propaganda comercial, dos interesses do jogo e do instinto
competitivo não está em questão aqui, embora acreditemos que deveria fazer parte das tarefas mais
amplas, sintéticas, do arquiteto, das quais uma tal análise seria apenas um aspecto. Nesse contexto, o exame de
uma igreja drive-in se equipararia ao de um restaurante drive-in, pois se trata de um estudo de método, não de
conteúdo. [...]"

[parte 2]
Arquitetura feia e banal, ou o galpão decorado

"Enfatizaremos a imagem - a imagem acima do processo ou da forma - ao sustentar que a arquitetura depende,
para sua percepção e criação, de experiências passadas e associações emocionais e que esses elementos simbólicos
e representacionais podem, com freqüência, contradizer-se à forma, à estrutura e ao programa com os quais estão
associados no mesmo edifício. Examinaremos essa contradição em suas duas manifestações principais:

1. Quando os sistemas arquitetônicos de espaço, estrutura e programa são submersos e distorcidos por uma forma
simbólica global, chamamos esse tipo de edifício, que se converte em escultura, de pato, em homenagem ao
‘Patinho de Long Island', avícola em forma de pato, ilustrado por Peter Blake em seu livro God's Own
Junkyard [...].
2. E damos o nome de galpão decorado ao tipo de edifício cujos sistemas de espaço e estrutura estão diretamente
a serviço do programa, e o ornamento se aplica sobre estes com independência [...].

O pato é a edificação especial que é um símbolo; o galpão decorado é o abrigo convencional a que
se aplicam símbolos [...]. Sustentamos que ambos os tipos de arquitetura são válidos - Chartres é um pato (embora
seja um galpão decorado também), e o palácio Farnese é um galpão decorado - mas achamos que o pato é
raramente relevante hoje, embora permeie toda a arquitetura moderna."

Fonte(s):

VENTURI, Robert; SCOTT BROWN, Denise; IZENOUR, Steven. Aprendendo com Las Vegas: o simbolismo (esquecido)
da forma arquitetônica. São Paulo: Cosac Naify, 2003, grifos dos autores.
A cidade dos prazeres

Luis Espallargas Gimenez

Estátuas e luminosos do Caesars Palace

Estátuas e luminosos do Caesars Palace

No pós-guerra começou a crescer a desconfiança face à atitude moderna na arquitetura e no urbanismo que
favoreceria o surgimento de teorias alternativas para novas disposições empenhadas em restaurar a credibilidade
dos projetos e planos. Robert Venturi foi um desses teóricos que ofereceu elixires e formulou conceitos para
encorajar arquitetos.

Para superar a crise, escreveu o tratado Complexidade e contradição na arquitetura, de 1966, e este manual de
urbanismo Aprendendo com Las Vegas, de 1972. Ambos livros lidam com idéias incomuns mas correlatas. O
primeiro, defende uma sensibilidade favorável às decisões complicadas, contraditórias e equívocas, apoiada num
historicismo erudito. O segundo, amparado no conceito britânico da townscape – paisagem urbana – e estimulado
pela pop art, insistiu em assimilar materiais insuspeitos: letreiros e outdoors.

Certos acontecimentos dessa época são sintomáticos. Em 1951, Heidegger leu Construir, habitar, pensar em
encontro para discutir a cidade devastada e a sua reconstrução. Surpreenderia o argumento de que o mal-estar
urbano resultava do ceticismo embutido na idéia contemporânea de habitar. O déficit das cidades não seria
suprido com a fabricação de moradias standard, mas com a recuperação do sentido primordial que anima construí-
las e habitá-las, com a retomada do vínculo original entre construir e habitar e com o conseqüente acordo entre
homem e habitat: entre homem e meio.

Também em 1951, o 8º Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, em Hoddesdon, atacou a arquitetura


racional responsável pelos ásperos e cinzentos conjuntos habitacionais que constituiriam a experiência moderna,
para propor, em seu lugar, um desenho comum conduzido pela atenção aos valores históricos e culturais
condensados nos centros urbanos tradicionais. Defendia-se que a construção da cidade acrescentasse significados e
emblemas aos novos espaços públicos e a integração da arquitetura ao existente. A partir daí a paisagem urbana
tornaria-se decisiva para o projeto e a cidade deixaria de ser apenas um assunto técnico e quantitativo, reduzido a
categorias funcionais isoladas. Encolhiam-se a utopia e a visão progressista da cidade para acatar valores
essenciais ativados por esse existencialismo de raiz. O elogio à ágora – piazza – e à cabana primitiva, feitos
primordiais da sociabilidade e abrigo humanos, ecoava.

Mas estes autores iriam mais longe, já que supuseram que, reconhecido o vernáculo primitivo, se admitiria o
vernáculo comercial: o prestígio da arquitetura comercial mais ordinária.

Em 1960, Kelvin Lynch publicou A imagem da cidade, em 1961 Gordon Cullen reuniu seus diversos artigos da
revista “Arquitectural Review” em capítulos do livro A paisagem urbana. Nesses livros a cidade, mais palpável do
que nunca, tornou-se uma sucessão de imagens selecionadas por uma atenção fugaz, avessa ao juízo e cada vez
mais ocupada com o trivial: calçadas, lugares de encontro, arquitetura sem arquitetos e manifestações artísticas
populares ou medíocres.

Urbanistas conformados trocariam a análise pelo realismo rasteiro: a paisagem colonizada pelo carro e pela
comodidade drive in. A descrição da cidade e da paisagem segundo o movimento do automóvel fora publicada em
1964 com o sugestivo título The view from the road (A paisagem vista da estrada), de D. Appleyard, K. Lynch e J.
R. Myer. A nova apreensão da cidade já existia: uma paisagem percebida desde o pára-brisa do automóvel em
movimento, um ponto de vista oportuno e privilegiado para entender a estrutura de Las Vegas: suas “strips” –
corredores comerciais – construídas de acordo com essas “ordens complexas” e pouco evidentes tão gratas a
Venturi.

Paisagens urbanas associadas ao lugar espontâneo, cotidiano, informal e – por que não? – ao “espalhamento”
urbano e às “strips” de luzes publicitárias e acostamentos conquistavam espaço como assunto urbanístico na
cultura americana.

Composto de duas partes, Aprendendo com Las Vegas tem na primeira o estudo de caso: a cidade dos prazeres,
onde além de casamentos relâmpago e jogos de azar haveria o que aprender com alusões, “improvisações
baratas”, “oásis em desertos de asfalto” e tótens informativos. Na segunda, se constrói a teoria das imagens
referidas à arquitetura e absolve-se o ornamento do crime.

Como a imagem contradiz a forma pura, pelo mesmo motivo que o símbolo, a mensagem e o significado sufocam
na forma moderna, os autores foram levados a inventar a dupla “duck” e “decorated shed”. Dois conceitos
negligentes que corrigiriam o lapso representacional da arquitetura: o “pato” encarnaria o símbolo e o “galpão
decorado” corresponderia ao edifício enfeitado. Comparam-se obras e períodos para explicar a preferência pela
comunicação dos elementos decorativos, igualam-se o heróico e original ao feio e banal. Prefere-se a
ambivalência: coisas familiares e não familiares unidas a elementos convencionais empregados de maneira não
convencional: pop.

O livro também confirma como é difícil esquecer Roma e como é vantajoso o aval da história, por isso equipara o
supermercado ao bazar, o shopping center ao comércio medieval e o estacionamento dos clientes à “evolução do
espaço amplo desde Versailles”. O melhor é que homem e cidade persistam: Las Vegas evoca Roma, seus cassinos
as igrejas e a Rota 66 a via Appia.

Os autores lembram pioneiros que desafiam o leste aristocrático, refinado como eles, a aceitar o deserto e a
periferia dispersa da mesma maneira que o artista pop aceitaria a sucata. Mas agem como subversivos ou
irresponsáveis ao não prever que suas teses, quando generalizadas, legalizam patéticas realidades urbanas sem
conferir-lhes atributos: a pior arquitetura.

A máxima “aprende-se com tudo” que providenciou o título deste diário de viagem poderia ter os seguintes
corolários: aprende-se mais com algumas coisas do que com outras e tudo pode encerrar algum dote artístico. A
pertinência da arte não depende de disposição que confira atenção a tudo. O oportuno da lata de sopa de tomate
Campbell’s, seu desconcerto estético, dependeram menos da atenção ao prosaico e mais de singular intuição e
perspicácia. A façanha multiplicadora das massas é diminuir a proporção de Warhols ao exacerbar o número de
urbanistas inexpressivos. Se o homem comum é limitado por sua estreita compreensão: em suas mãos tudo será
vulgar. De nada adianta um urbanismo popular e tolerante referido a um mundo feio e banal que reproduza
bizarrias e de nada serve sua interpretação mais ilustrada, se obscura para a maioria.

[texto originalmente publicado com o nome A cidade dos desejos, in Jornal de Resenhas nº 101, Folha São Paulo.
São Paulo, 8 de novembro de 2003, p. 6.]