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SOBRE A
DEPENDÊNCIA
PSICOLÓGICA
J. KRISHNAMURTI

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[...] TENHAM CUIDADO com o homem que lhes descreve
o desconhecido, a verdade, ou Deus. Tal descrição do desconheci-
do oferece-lhes um meio de fuga, e, além disso, a verdade desafia
qualquer descrição. Nessa fuga não há compreensão, não há reali-
zação. Na fuga só existe rotina e decadência. A verdade não pode
ser explicada nem descrita. Ela é. Afirmo que existe uma beleza
que não pode ser posta em palavras; se o fosse, seria destruída;
então já não seria a verdade. Mas vocês não podem conhecer essa
beleza, essa verdade, perguntando sobre ela; só podem conhecê-
la quando tiverem compreendido o conhecido, quando tiverem
alcançado o significado total disso que está perante vocês. Portan-
to, estão constantemente procurando fugas, e dignificam essas
tentativas de fuga com variados nomes espirituais, com palavras
altamente e imponentemente sonantes; essas fugas satisfazem-
nos temporariamente, isto é, até que a próxima tempestade de
sofrimento chegue e arrase o seu refúgio.
Vamos, por agora, pôr de lado esse desconhecido, e preo-
cupar-nos com o conhecido. Ponham de lado, por agora, as suas
crenças, a sua escravidão das tradições, a sua dependência no seu
Bhagavad Gita, nas suas escrituras, nos seus Mestres. Não estou
atacando as suas crenças favoritas, as suas sociedades favoritas;
estou dizendo-lhes que, se quiserem compreender a verdade do
que digo, têm que tentar escutar sem ideias preconcebidas. Atra-
vés dos nossos variados sistemas de educação – que podem ser a
formação universitária, ou o seguimento de um guru, ou a depen-
dência do passado na forma de tradição e de hábito, que cria a
incompletude do presente – através desses sistemas de educação
temos sido encorajados a obter, a adorar o sucesso. Todo o nosso
sistema de pensamento, bem como toda a nossa estrutura social,
está baseada na ideia de obtenção. Olhamos para o passado por-
que não podemos compreender o presente. Para compreender o
presente, que é experiência, a mente tem que estar aliviada das
tradições e dos hábitos passados. Enquanto o peso do passado
nos dominar, não podemos compreender, não podemos colher
integralmente o perfume de uma experiência. Portanto, tem que
haver incompletude enquanto houver a procura de obtenção. Que
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todo o nosso sistema de pensamento está baseado na obtenção
não é uma mera suposição hipotética da minha parte; é um fato. E
a ideia central da nossa estrutura social é também uma de obten-
ção, de consecução, de sucesso. Mas porque eu disse que a sua
procura dessa ideia de obtenção não resultará no viver completo,
não pensem por isso em termos de oposto. Não digam “Não de-
vemos procurar? Não devemos obter? Não devemos ter sucesso?”
Isto demonstra pensamento limitado. O que quero que façam é
questionar a ideia de obtenção.
Conforme disse, toda a estrutura social, econômica e
pseudo-espiritual do nosso mundo está baseada nessa ideia cen-
tral de lucro: lucro da experiência, lucro da vida, lucro dos profes-
sores. E dessa ideia de lucro gradualmente cultivam em si próprios
a ideia de medo, porque na sua procura de lucro estão sempre
com medo da perda. Portanto, tendo esse medo da perda, esse
medo de perder uma oportunidade, criam o explorador, seja ele o
homem que os guia moralmente, espiritualmente, ou uma ideia à
qual se apegam. Têm medo e querem coragem; por isso a cora-
gem se torna no seu explorador. Uma ideia torna-se o seu explo-
rador. A sua tentativa de consecução, de lucro, é apenas uma
fuga, uma fuga da insegurança. Quando falam de ganho estão
pensando em segurança; e, após estabelecerem a ideia de segu-
rança, querem encontrar um método de obter e manter essa se-
gurança. Não é assim? Se tiverem em consideração a sua vida, se
a examinarem criticamente, descobrirão que ela se baseia no me-
do. Estão sempre cuidando de ganhar; e, depois de procurarem e
encontrarem as suas seguranças, após constituí-las como os vos-
sos ideais, voltam-se para alguém que lhes oferece um método,
um plano, para alcançar e proteger os vossos ideais. Por isso di-
zem: “Para alcançar essa segurança, tenho que me comportar de
certa maneira; tenho de procurar a virtude, tenho que servir e
obedecer, tenho que seguir gurus, professores e sistemas; tenho
que estudar e praticar para obter o que quero”. Por outras pala-
vras, uma vez que o seu desejo é segurança, encontram explora-
dores que os ajudarão a obter o que querem.

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Portanto, vocês, como indivíduos, constituem religiões pa-
ra servir de seguranças, para servir de padrões para a conduta
convencional; devido ao medo da perda, o medo de perder algo
que querem, aceitam guias ou ideias como os que as religiões
oferecem. Ora, tendo constituído os seus ideais religiosos, que são
na verdade as suas seguranças, têm que ter modos de conduta,
práticas, cerimoniais e crenças específicas, para alcançar esses
ideais. Ao tentar levá-los a cabo, aí surge a divisão no pensamento
religioso, resultando em cisões, seitas, credos. Vocês têm as suas
crenças, e outros têm as deles; vocês mantêm-se fiéis à sua forma
específica de religião e outros à deles; vocês são Cristãos, outros
são Muçulmanos, e outros ainda Hindus. Têm essas dissensões e
distinções religiosas, mas contudo falam de amor fraternal, tole-
rância e unidade – não que tenha que haver uniformidade de pen-
samento e ideias. A tolerância de que falam é apenas uma inven-
ção engenhosa da mente; essa tolerância apenas indica o desejo
de se apegarem às suas próprias idiossincrasias, às suas próprias
ideias limitadas e preconceitos, e de permitirem que os outros
procurem as deles. Nessa tolerância não há diversidade inteligen-
te, mas somente uma espécie de indiferença superior. Existe ab-
soluta falsidade nessa tolerância. Dizem: “Vocês continuem no seu
caminho, e eu continuarei no meu; mas sejamos tolerantes, fra-
ternais”. Quando houver verdadeira fraternidade, amizade, quan-
do houver amor no seu coração, então não falarão de tolerância.
Somente quando se sentem superiores na sua certeza, na sua
posição, no seu conhecimento, somente então falam de tolerân-
cia. São tolerantes somente quando há distinção. Com o cessar da
distinção, não se falará de tolerância. Nessa altura não falarão de
fraternidade, porque então nos seus corações serão irmãos. Sen-
do assim, vocês, como indivíduos, constituem várias religiões que
atuam como a sua segurança. Nenhum professor constituiu essas
religiões organizadas, exploradoras. Vocês próprios, a partir da
sua insegurança, a partir da sua confusão, a partir da sua falta de
compreensão, criaram as religiões como seus guias. Depois, após
terem constituído religiões, procuram gurus, professores; procu-
ram Mestres que os ajudem.
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[...] Para despertar o pensamento claro, tenho que saber
primeiro que não estou pensando abertamente. Por outras pala-
vras, tenho que me tornar consciente do que estou pensando e
sentindo. Somente então posso saber se estou pensando verda-
deiramente ou falsamente. Não é assim? Quando dizem que são
críticos, estão apenas opondo-se através do preconceito, através
do gosto e antipatia pessoais, através de reações emocionais.
Nesse estado, dizem que estão pensando claramente, que são
críticos. Mas afirmo que para serem inteligentemente críticos têm
que estar livres desse preconceito pessoal, dessa oposição pesso-
al. E para serem inteligentemente críticos, têm que compreender
primeiro que o seu pensamento é influenciado, limitado, fanático,
pessoal, mesmo que não tenham estado conscientes dessa de-
pendência. Portanto primeiro têm que se tornar conscientes dis-
so.

[...] Pergunta: Na sua autobiografia, a Dra. Besant disse


que tinha passado da tormenta à paz pela primeira vez na sua vida
quando conheceu o seu grande Mestre. A sua magnífica vida daí
para a frente teve a sua força motriz na sua ilimitada e interminá-
vel devoção ao seu Mestre, expressa através da alegria de servi-lo.
O senhor mesmo, nas suas poéticas palavras, declarou a sua inex-
primível alegria na união com o Amado e na visão da sua face para
onde quer que se voltasse. Não poderia a influência de um Mes-
tre, tal como foi evidente na notável vida da Dra. Besant e na sua,
ser igualmente significativa em outras vidas?

Krishnamurti: Está perguntando-me, por outras palavras,


se os Mestres são necessários, se eu acredito em Mestres, se a
sua influência é benéfica, e se eles existem. É essa toda a questão,
não é? Muito bem, senhores. Ora, acreditem ou não em Mestres
(e alguns de vocês acreditam neles), por favor não fechem as suas
mentes ao que vou dizer. Sejam abertos, críticos. Vamos examinar
a questão exaustivamente, em vez de discutir se vocês ou eu
acreditamos em Mestres.

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Em primeiro lugar, para compreender a verdade têm que
permanecer sozinhos, inteiramente e integralmente sozinhos.
Nenhum Mestre, nenhum guru, nenhum sistema, nenhuma auto-
disciplina jamais levantará para vocês o véu que oculta a sabedo-
ria. A sabedoria é a compreensão dos valores duradouros e o viver
desses valores. Ninguém os pode conduzir à sabedoria. Isso é ób-
vio, não é? Nem precisamos discuti-lo. Ninguém os pode forçar,
nenhum sistema os pode instar a libertarem-se do instinto de
possessividade, até que vocês próprios voluntariamente compre-
endam, e nessa compreensão há sabedoria. Nenhum Mestre,
nenhum guru, nenhum professor, nenhum sistema os pode forçar
a essa compreensão. Somente o sofrimento que vocês próprios
experimentam pode fazê-los ver o absurdo da posse da qual surge
o conflito; e desse sofrimento chega a compreensão. Mas, quando
procuram uma fuga desse sofrimento, quando procuram refúgio,
conforto, então têm que ter Mestres, têm que ter filosofia e cren-
ça; então voltam-se para os tais refúgios de segurança como a
religião. Assim, com essa compreensão, vou responder à sua
questão. Esqueçamos de momento o que a Dra. Besant disse e
fez, ou o que eu disse e fiz. Deixemos isso de lado. Não tragam a
Dra. Besant para a discussão; se o fizerem, reagirão emocional-
mente, aqueles de vocês que têm simpatia pelas suas ideias, e
aqueles de vocês que a não têm. Dirão que ela me criou, que sou
desleal, e palavras semelhantes que utilizam para mostrar a sua
desaprovação. Coloquemos de lado tudo isso de momento e
olhemos para a questão com toda a franqueza e simplicidade.
Em primeiro lugar, querem saber se os Mestres existem.
Eu digo que, quer eles existam ou não, isso é de muito pouca im-
portância. Agora, por favor, não pensem que estou atacando as
suas crenças. Compreendo que estou falando para membros da
Sociedade Teosófica, e que aqui sou o seu convidado. Mas fize-
ram-se uma pergunta, e estou simplesmente respondendo-a. As-
sim, vamos considerar o porquê de quererem saber se os Mestres
existem ou não. “Porque”, dizem para vocês próprios, “os Mestres
podem guiar-nos através da confusão, tal como um sinal luminoso
do farol guia o marinheiro”. Mas o fato de dizerem isso mostra
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que estão apenas à procura de um porto de abrigo, que têm medo
do mar alto da vida. Ou, mais uma vez, podem fazer a pergunta
por que querem fortalecer a sua crença; querem fundamentação,
corroboração da sua crença.
Senhores, uma coisa que é um brinquedo, embora torna-
do belo pela corroboração de milhares de pessoas, permanece um
brinquedo. Vocês dizem-me “Os nossos professores deram-nos fé,
mas agora vem lançar a dúvida nessa fé. Por isso queremos saber
se os Mestres existem ou não. Por favor, fortaleça-nos na nossa
crença de que eles existem; diga-nos se o senhor mesmo foi ou
não guiado por eles”. Se apenas desejam ser fortalecidos na sua
fé, então eu não posso responder a essa pergunta, porque não me
limito com a fé. A fé é mera autoridade, cegueira, esperança, an-
seio; é um meio de exploração, seja aqui ou na Igreja Católica
Romana, ou em qualquer outra religião. É um meio de forçar o
homem à ação, à ação correta ou incorreta. O fortalecimento da
fé não produz compreensão; mais exatamente, o próprio duvidar
dessa fé e a descoberta do seu significado, trazem compreensão.
Que diferença faria se pudessem ver os Mestres fisicamente todos
os dias? Todavia, continuariam a agarrar-se aos seus preconceitos,
às suas tradições, aos seus hábitos; seriam todavia escravos das
suas crueldades, das suas crenças fanáticas, tacanhas, da sua falta
de amor, do seu orgulho na nacionalidade, mas esses vocês con-
servariam secretamente fechados a sete chaves.
Depois da primeira questão surge a segunda: “Duvida dos
mensageiros dos Mestres?” Eu duvido de tudo, porque só através
da dúvida se pode descobrir, não através de colocarmos a nossa
fé em algo. Mas vocês evitaram cuidadosamente, perseverante-
mente, a dúvida; desfizeram-se dela como de uma grilheta. Então,
de novo dirão “Se eu entrar em contato com os Mestres, posso
descobrir o seu plano para a humanidade”. Referem-se a um pla-
no social, um plano para o bem-estar físico do homem? Ou refe-
rem-se ao bem-estar espiritual do homem? Se responderem “Am-
bos”, então eu digo que o homem não pode alcançar o bem-estar
espiritual através da atuação de outra pessoa. Isso está inteira-
mente nas suas mãos. Ninguém pode planejar isso para outro.
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Cada homem tem que descobrir por si mesmo, tem que compre-
ender; há plenitude na realização, não no progresso. Mas se disse-
rem “Procuramos um plano para o bem-estar físico do homem”,
então têm que estudar economia e sociologia. Então porque não
fazer de Harold Laski o seu mestre, ou de Keynes, ou de Marx ou
de Lenin? Cada um destes oferece um plano para o bem-estar do
homem. Mas vocês não querem isso. O que vocês querem, quan-
do procuram um Mestre, é abrigo, um refúgio de segurança; que-
rem proteger-se do sofrimento, esconder-se da confusão e do
conflito.
Afirmo que não existe tal coisa como um refúgio, como
conforto. Podem apenas fazer um refúgio artificial, criado intelec-
tualmente. Porque o fizeram durante gerações, perderam a sua
inteligência criativa. Tornaram-se limitados pela autoridade, es-
tropiados com crenças, com falsas tradições e hábitos. Os seus
corações estão secos, duros. Eis porque apoiam todas as formas
de sistemas de pensamento cruéis, que conduzem à exploração.
Eis porque encorajam o nacionalismo, porque lhes falta fraterni-
dade. Falam de fraternidade, mas as suas palavras são desprovi-
das de sentido enquanto os seus corações estiverem limitados
pela distinção de classes. Vocês, que acreditam tão profundamen-
te em todas essas ideias, o que é que vocês têm, o que são vocês?
Conchas vazias retumbando palavras, palavras, palavras. Perde-
ram todo o sentido de sentimento pela beleza, pelo amor; apoiam
instituições falsas, ideias falsas.
Aqueles de vocês que acreditam nesses Mestres, no seu
plano, nos seus mensageiros, o que são vocês? Na sua exploração,
no seu nacionalismo, nos seus maus-tratos das mulheres e das
crianças, na sua aquisitividade, são tão cruéis como o homem que
não acredita em Mestres, no seu plano, nos seus mensageiros.
Apenas estabeleceram novas instituições para as antigas, novas
crenças para as antigas; o seu nacionalismo é tão cruel como o
antigo, só que vocês têm argumentos mais sutis para as suas cru-
eldades e exploração. Enquanto a mente estiver aprisionada na
crença, não há compreensão, não há liberdade. Assim, para mim,
se os Mestres existem ou não é totalmente irrelevante à ação, à
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realização, com o que nos deveríamos preocupar. Mesmo que a
sua existência seja um fato, não tem qualquer importância, por-
que para compreender têm que ser independentes, têm que estar
entregues a si próprios, completamente nus, despojados de toda a
segurança. Foi isto o que eu disse na minha palestra introdutória.
Têm que descobrir se estão à procura de segurança, conforto, ou
se estão à procura de compreensão. Se realmente examinarem os
seus próprios corações, a maior parte de vocês descobrirá que
procura segurança, conforto, locais de proteção, e que nessa pro-
cura se munem de filosofias, gurus, sistemas de autodisciplina;
estão assim frustrando, restringindo continuamente o pensamen-
to. Nos seus esforços para fugir do medo, entrincheiram-se nas
crenças, e, aumentando desse modo a sua própria autoconsciên-
cia, o seu próprio egoísmo, apenas se tornaram mais sutis, mais
astutos.
Sei que disse todas essas coisas anteriormente, de uma
forma diferente, mas aparentemente as minhas palavras não tive-
ram qualquer efeito. Ou querem compreender o que digo, ou
estão satisfeitos com as suas próprias crenças e sofrimentos. Se
estão satisfeitos com eles, por que me convidaram para vir aqui
falar? Por que me ouvem? Não, fundamentalmente não estão
satisfeitos. Podem preconizar que estão satisfeitos; podem asso-
ciar-se a instituições, efetuar novas cerimônias, mas interiormente
sentem uma incerteza, uma dor interminável que nunca se atre-
vem a enfrentar. Em vez disso, procuram substitutos; querem
saber se lhes posso dar novos refúgios, e é por isso que me fize-
ram esta pergunta. Querem que eu os apoie nessas crenças das
quais não têm a certeza. Querem estabilidade interior, mas eu
lhes digo que não existe tal estabilidade. Querem que eu lhes dê
certezas, garantias. Eu digo-lhes que têm tais certezas, tais garan-
tias às centenas nos seus livros, nas suas filosofias, mas elas não
têm qualquer valor para vocês; são pó e cinzas, porque no seu
próprio íntimo não há compreensão. Só podem ter compreensão,
garanto-lhes, quando começarem a duvidar, quando começarem a
questionar precisamente os refúgios em que se confortam, em
que se refugiam. Mas isso significa que têm que entrar em conflito
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com as tradições e com os hábitos que estabeleceram. Talvez
tenham posto de parte as velhas tradições, os velhos gurus, as
velhas cerimônias, e tenham aceito novos. Qual é a diferença? As
novas tradições, os novos gurus, as novas cerimônias são exata-
mente o mesmo que os velhos, exceto que são mais exclusivos.
Pelo questionamento constante descobrirão o real, o valor ineren-
te das tradições, dos gurus, das cerimônias. Não lhes estou pedin-
do que abandonem as cerimônias, que deixem de seguir os Mes-
tres. Esse é um assunto de menor importância e pouco inteligen-
te; se efetuam cerimônias ou contam com os Mestres para sua
orientação, não é importante. Mas enquanto houver falta de
compreensão há medo, há sofrimento, e a mera tentativa de en-
cobrir esse medo, esse sofrimento, através de cerimônias, através
da orientação dos Mestres, não os libertará.
Já me tinham feito esta pergunta antes; fizeram-me a
mesma pergunta no ano passado. E de cada vez que a fazem, fa-
zem-na porque querem refugiar-se por trás da minha resposta;
querem sentir-se protegidos, pôr um fim à dúvida. Ora, eu posso
contradizer a sua crença; posso dizer que não existem Mestres.
Depois chega outro para lhes dizer que os Mestres existem. Eu
digo: duvidem de ambas as respostas, questionem ambas; não se
limitem a aceitá-las. Vocês não são crianças, macacos imitando a
ação de alguém; são seres humanos, não para serem condiciona-
dos pelo medo. Pressupõe-se que sejam criativamente inteligen-
tes; mas como podem ser criativamente inteligentes se seguem
um professor, uma filosofia, uma prática, um sistema de autodis-
ciplina? A vida é rica somente para o homem que se encontra no
movimento constante do pensamento, para o homem cujas ações
são harmoniosas. Nele há afeto, há consideração. Esse cujas ações
são harmoniosas usará um sistema inteligente para curar as feri-
das supurantes do mundo. Sei que o que estou dizendo hoje já o
disse inúmeras vezes; disse-o muitas vezes. Mas vocês não sen-
tem essas coisas porque lhes deram explicações satisfatórias, e
nessas explicações, nessas crenças, tomam refúgio, conforto. Só
estão preocupados consigo próprios, com a sua própria seguran-
ça, com o seu próprio conforto, como os homens que lutam por
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títulos governamentais. Fazem o mesmo de maneiras diferentes, e
as suas palavras de fraternidade, de verdade, nada significam; são
apenas conversa oca.

Palestras em Adyar, Índia - 1933


[...] INTERROGANTE: Quais são as características do naci-


onalismo que você chama estupidez? Todas as formas de naciona-
lismo são más, ou apenas algumas? Não é maravilhoso que seu
país esteja lutando para se libertar do jugo da Inglaterra? Por que
você não luta pela independência de seu país?

Krishnamurti: Amar alguma coisa bela num país é normal


e natural, mas, quando esse amor é usado por exploradores em
seu próprio interesse, isto é chamado nacionalismo. O naciona-
lismo se desdobra em imperialismo, e então o povo mais forte
divide e explora o mais fraco, com a Bíblia numa mão e uma baio-
neta na outra. O mundo está dominado pelo espírito da explora-
ção astuta e cruel, da qual resulta a guerra. Este espírito de nacio-
nalismo é a maior estupidez.
Todo indivíduo deveria ser livre para viver plenamente,
completamente. Enquanto se tenta libertar seu próprio país parti-
cular e não o homem, deve haver ódios raciais, as divisões entre
pessoas e classes. O problema do homem deve ser resolvido como
um todo, não confinado a países ou povos.

[...] Pergunta: Você está tentando libertar o indivíduo, ou


despertar nele o desejo de liberdade?
Krishnamurti: Se você não está sofrendo, se não está em
conflito, se não há problema nem crise em sua vida, então há
muito pouco a ser dito. Ou seja, se você está adormecido, então a
ação da vida tem que primeiro acordá-lo. Mas o que acontece,
geralmente, quando você começa a sofrer? Imediatamente você
começa a procurar um remédio que alivie seu sofrimento. Então,

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gradualmente, em sua busca por conforto, você novamente se
põe a dormir por seu próprio esforço; e o que o outro pode fazer
é simplesmente mostrar como você está fazendo isto. Você se põe
a dormir buscando conforto, o que você chama de busca de Deus,
da verdade.
Quando a mente é despertada por um choque, que você
chama sofrimento, esse é o verdadeiro momento para investigar a
causa do sofrimento sem buscar conforto. Se você observar, verá
que quando existe sofrimento agudo seu pensamento busca um
remédio, um conforto. E você encontra um remédio que não faz
mais que embrutecer a mente e a afasta da causa do sofrimento,
criando ilusão. Mostrando diferentemente, quando a mente se
detém numa rotina costumeira de pensamento, então não há
conflito, então não há sofrimento, nem interesse despertado na
vida. Mas quando você tem uma experiência de algum tipo que
lhe dá um choque, que é chamado sofrimento e que desperta
você do hábito, então sua reação imediata é buscar outro confor-
to ao qual o pensamento pode novamente se acostumar. A mente
está constantemente buscando por certezas, de modo que fique
segura e não seja perturbada, e, assim, a vida fica cheia de lágri-
mas e reações defensivas. Mas a experiência está continuamente
destruindo nossas certezas, e sutilmente buscamos criar outras.
Assim, a vida se torna um processo contínuo de disputa e sofri-
mento, criação e destruição. Mas se a mente não procurasse fina-
lidades, conclusões e seguranças, ela, então, descobriria que exis-
te um constante ajustamento, uma compreensão da significação
do movimento da vida; e só nisso está a realidade duradoura, só
nisso está a felicidade.

K no Uruguai e na Argentina, 1935

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[...] Pergunta: Desejaria saber se necessitamos de oração
e como devemos orar?

Krishnamurti: Senhor, não será a ideia fundamental da


prece a de buscar auxílio, entendimento, para além de nós mes-
mos? Se assim é, estaremos dependendo de algo que nos apouca
em nossa própria inteligência.

[...] Pergunta: Não são necessários os sacerdotes para


conduzir os ignorantes à retidão?
Krishnamurti: Por certo que não. Quem são os ignoran-
tes? Esta pergunta só pode ser feita a cada um de vós e não a uma
massa vaga denominada ignorante. A massa sóis vós. Necessitais
vós de sacerdotes? Quem pode dizer quais os ignorantes? Nin-
guém. Portanto, sendo ignorantes, necessitais de sacerdote, e
pode um sacerdote conduzir-vos da ignorância à retidão? Se me-
ramente imaginardes que um indivíduo ignorante, vagamente
existindo em certo lugar, e a quem não conheceis, necessita de
um sacerdote, então perpetuareis a exploração e todas as mano-
bras da religião.
Ninguém vos pode conduzir à retidão, exceto vós pró-
prios, por meio de vosso próprio entendimento, por meio de vos-
so próprio sofrimento.

[...] Pergunta: É possível atingir a perfeição entre os im-


perfeitos?
Krishnamurti: Em que outro lugar podereis alcançar a per-
feição, em que outra parte podereis compreender a perfeição a
não ser entre os imperfeitos? Entretanto, toda esta ideia de alcan-
çar a perfeição é fundamentalmente errônea. Por favor, tendes
que refletir cuidadosamente acerca disto. Quando falais de perfei-
ção, tendes em vista alcançar um fim, uma certeza, um poder que
vos possa dar segurança, da qual jamais possa surgir conflito e
tristeza. A perfeição não é um fim, um ponto fixo, absoluto, po-
rém um contínuo vir a ser. Quando a mente está liberta dos opos-
tos, então há um contínuo movimento, um contínuo fluxo da rea-
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lidade. A perfeição é a ação do fluxo contínuo da realidade, não
um objetivo absoluto em direção ao qual estejais progredindo por
meio de inúmeras experiências, de lembranças, de lições e de
sofrimento. Para compreender este fluxo da vida, a mente deve
estar inteiramente livre de finalidades, de certezas, que nada mais
são do que o resultado do desejo de autoproteção.
Se refletirdes sobre o que vos tenho dito esta noite, dis-
cernireis a clausura que criamos através de múltiplos séculos, da
qual nos tornamos prisioneiros, destruindo nossa inteligência
criadora. Se a mente puder principiar a derrubar as paredes dessa
prisão, por meio da compreensão, então haverá ação sem tristeza,
ação normal e verdadeira.

[...] Pergunta: Não poderemos ser guiados na vida diária


pelos sábios conselhos que nos são dados por vozes e pelos espíri-
tos dos mortos?
Krishnamurti: Vejo que alguns, dentre vós, não concor-
dam com esta pergunta, por julgarem que é estulto procurar os
conselhos dos espíritos. Para tornar esta pergunta também apli-
cável aos outros, simplifiquemo-la: É possível que alguns dentre
vós não assistam às sessões, nem se dediquem à escrita automáti-
ca. Não têm, porém, escrúpulos de procurar os Mestres que, pos-
sivelmente, vivam em algum país distante, e aceitar as suas men-
sagens, vindas por intermédio de seus mensageiros. Fundamen-
talmente, qual é a diferença? Nenhuma, absolutamente. Em am-
bos os casos, procura-se a orientação de outrem. Umas pessoas
esforçam-se para se porem em contato com os mortos, por meio
dos médiuns, mediante a escrita automática, e todas as demais
coisas infantis e absurdas que com tal se relacionam; ao passo que
outras buscam a orientação daqueles a quem chamam os Mes-
tres, através de seus representantes, coisa essa igualmente infan-
til e absurda.
Assim, pois, eu vos peço que não condeneis aqueles que
procuram os médiuns e assistem às sessões, quando vós próprios,
diligentemente, seguis as regras e sistemas estabelecidos pelos
Mestres, por intermédio de seus representantes. Há outras pes-
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soas que dependem dos sacerdotes e das cerimônias, de tradições
e de convencionalismos, para sua orientação. Todos estão no
mesmo caso.
Ora, nesta pergunta - se devemos ou não buscar o conse-
lho e a orientação dos espíritos, dos Mestres, por intermédio de
seus representantes, dos salvadores, por intermédio de seus sa-
cerdotes - nesta pergunta está implícito o desejo de buscar abrigo
sob a capa da autoridade. O que nos ocupa não é, pelo momento,
averiguar se os Mestres ou os pretensos espíritos existem ou não.
Por que é que buscais orientação e conselho? Por que é que dese-
jais orientação? Esta é que é a questão. É porque dais maior valor
aos mortos, ao oculto e ao passado, do que aos vivos e ao presen-
te. Porque, por meio dos mortos, do oculto e do passado, vossa
mente pode esculpir suas ilusões e imagens agradáveis, e viver
com elas completamente satisfeita; o presente, porém, e os vivos,
não vos deixam dormir tranquilamente. Assim, para fugir a esse
conflito, que se resume em vencer o presente, buscais orientação
e conselho. O indivíduo que busca orientação, o homem que cria
ídolos para adorar, viverá no temor; será explorado e sua inteli-
gência será lentamente destruída, coisa que está acontecendo por
todo o mundo. O desejo de obter orientação dos espíritos e dos
Mestres, através de seus representantes, surge do temor da tris-
teza.
Pode alguém, seja quem for, salvar-vos da tristeza? Se pu-
derdes ser salvos por outrem, então o problema da autoridade
cessa de existir. Nada mais tendes a fazer do que buscar a autori-
dade mais adequada, mais conveniente e adorá-la. Eu, porém,
digo-vos que ninguém vos pode salvar da tristeza, exceto vós pró-
prios e por meio do vosso próprio entendimento. Só mediante o
vosso pessoal discernimento sobre a causa do sofrimento, e não
pelas explanações de outrem, é que podem ser abertos os portais
da máxima beatitude que conduzem ao êxtase do entendimento.
Enquanto buscardes conselhos e orientação, coisas que nada mais
são que vias de fuga ao conflito, e não discernirdes, por vós pró-
prios, a causa do sofrimento, confusos como estais, pelas explica-
ções, ninguém, nenhum sacerdote, nenhum livro, nenhuma teo-
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ria, nenhum sistema, nenhum espírito ou Mestre vos pode salvar
da tristeza; porque essa realidade, essa libertação da tristeza,
reside em vós próprios e só por vós mesmos a ela podereis che-
gar.
Pergunta: Têm os ensinamentos atribuídos a Grandes
Mestres - Cristo, Buda, Hermes e outros mais - valor para o atin-
gimento do direto caminho para a Verdade?
Krishnamurti: Se me não entendêsseis mal eu diria que os
ensinos dados perdem o seu valor, por ser a mente humana tão
cheia de sutilezas, tão ardilosa em seus desejos de autoproteção,
que torce esses ensinos para adaptá-los aos seus propósitos pes-
soais, criando sistemas e ideais que são meios de escapula, dos
quais surgem igrejas petrificadas e sacerdotes exploradores. To-
das as religiões do mundo, despojadas das trapaças de suas explo-
rações organizadas, fundamentalmente ensinam o homem a
amar, a pensar e a viver salutar e inteligentemente.
Como poderia haver um sistema que vos ensinasse a amar
e a pensar desinteressadamente? Como não desejais fazer isto,
como não quereis viver completa, integralmente, com a mente e o
coração vulneráveis, haveis criado um sistema que se tornou vos-
so mestre, um sistema que é contrário e destruidor do pensamen-
to e do amor. Portanto, é completamente inútil multiplicar os
sistemas. Se a mente se libertar da ilusão de suas exigências e
desejos de autoproteção, então haverá amor, inteligência, então
não mais existirá esta divisão de religiões e crenças, o homem não
mais se levantará contra o homem.

Palestras no Brasil, 1935

18
[...] PERGUNTA: A concepção Teosófica dos Mestres de
Sabedoria e da evolução da alma, não será tão sã quanto a con-
cepção cientifica do crescimento biológico da vida na matéria
orgânica?
Krishnamurti: Aquilo que é capaz de crescimento não é
eterno. A concepção teosófica ou religiosa é a do crescimento
individual, — o processo do “eu” tornando-se cada vez maior por
adquirir mais virtude e compreensão. Isto é, o “eu” é capaz de
crescimento indefinido, alcançando cada vez maiores alturas de
perfeição, e, para o ajudar a avançar, são necessários Mestres,
disciplinas e organizações religiosas.
Enquanto o indivíduo não compreende o que é o “eu”, os
Mestres, de uma espécie ou de outra, tornam-se uma necessidade
ilusória. Pode não ser um Mestre no sentido Teosófico, mas um
santo da igreja ou a autoridade espiritual de uma organização. O
que nós temos de compreender não é se os Mestres existem ou
não, se eles são necessários ou não, porém se o “eu”, em seu
crescimento, em sua expansão pode tornar-se eterno ou conduzir
à compreensão da verdade. O problema não é se o Mestrado é
um processo perfeitamente natural, mas sim se o discernimento
da verdade pode vir à mente que esteja aprisionada no processo
do “eu”. Se considerais o “eu” como eterno, então ele não pode
crescer, tem que estar fora do tempo e do espaço. Portanto, a
ideia de que o “eu” se torna o Mestre por meio do crescimento e
da experiência, é uma ilusão. Ou então, o processo do “eu” é tran-
sitório. Para terminar este processo, nenhum agente externo, por
maior que seja, jamais pode servir de auxílio, pois o processo do
“eu” é auto-ativo, mantendo-se a si mesmo por meio de suas ati-
vidades volitivas. Vós tendes que considerar se o “eu” é eterno ou
transitório. Não é, porém, uma questão de escolha, pois toda a
escolha se baseia na ignorância, no preconceito e na carência.
Talvez alguns de vós não se preocupem com a crença nos
Mestres dos teosofistas, contudo, quando a tristeza vos bate à
porta, talvez procureis alguma outra autoridade ou guia espiritual,
e essa dependência de outrem é que perpetua o processo do “eu”
com sua sutil exploração e tristeza.
19
[...] Pergunta: Minha tristeza fez-me compreender que
nâo mais devo procurar conforto de qualquer espécie. Estou con-
vencido de que outrem não pode curar a dor que está em mim. E
no entanto, uma vez que a minha tristeza continua, haverá algo
de errado no modo pelo qual tomei meu sofrimento?
Krishnamurti: Dizeis que não mais buscais conforto, mas,
por acaso, não desteis fim, deliberadamente, a esta busca por
meio de uma decisão, de uma resolução? Ela não é o resultado
espontâneo da compreensão. Ela é simplesmente a resultante de
uma decisão de não buscar conforto, porque a busca do conforto
vos trouxe decepção. Portanto dizeis a vós próprios: não devo
mais procurar conforto. Quando, profundamente ferido por causa
do apego, o homem começa a cultivar o desapego, louvando-o
como sendo uma nobre qualidade, o que ele realmente está fa-
zendo é proteger-se a si próprio contra uma nova ferida, e a este
processo ele chama desapego. Assim, pela mesma razão, o medo
de sofrer vos fez verificar que o conforto, a dependência, implica
ulterior sofrimento, e por isso dizeis a vós mesmos: não devo bus-
car conforto, devo ser auto-confiante. Apesar disto, a carência,
com as suas múltiplas e sutis formas de temor, continua.
A carência cria dualidade no pensamento e quando uma
carência cria sofrimento, a mente busca o oposto a essa carência.
Tanto a ânsia pelo conforto como a abstenção do conforto são a
mesma coisa, ainda são carência. Portanto, a mente mantém o
conflito dos opostos. Quando começardes a sofrer não digais:
devo libertar-me desta ou daquela carência ou causa, mas obser-
vai, silenciosamente, sem negação nem aceitação, e desse aper-
cebimento isento de escolha, a carência sem seus temeres e ilu-
sões começa a ceder lugar à inteligência. Esta inteligência é a pró-
pria vida e não está condicionada pela compulsão da carência.
[...] Pergunta: Dizeis que nos podemos tornar plenamente
apercebidos desse processo do “eu” que está focalizado em cada
um de nós individualmente. Significa isto que nenhuma experiên-
cia pode ter valor senão para a pessoa que a realiza?

20
Krishnamurti: Se estais condicionando o pensamento pela
vossa própria experiência, como poderá a experiência de outrem
libertá-lo? Se condicionastes a vossa mente pelas vossas próprias
atividades volitivas, como pode a compreensão de outrem liber-
tar-vos? Pode-vos estimular superficialmente, porém, semelhante
auxilio não é perdurável. Se compreenderdes isto, então todo o
sistema daquilo que é chamado auxilio espiritual através da ado-
ração, da disciplina ou de mensagens vindas do além, tem muito
pouco significado. Se discernirdes que o processo do “eu” se sus-
tenta a si mesmo pelas suas próprias atividades volitivas nascidas
da ignorância, da carência, do temor, então a experiência de ou-
trem muito pouco significado pode ter. Grandes instrutores religi-
osos declararam o que é moral e verdadeiro. Seus seguidores
apenas os imitaram e por isso não realizaram o preenchimento. Se
disserdes que necessitamos de ideais para viver de acordo com
eles, isto indica simplesmente que há medo em vossa mente-
coração. Os ideais criam dualidade na consciência e assim apenas
continuam o processo do conflito. Se perceberdes que o despertar
da inteligência é o fim do processo d “eu”, então haverá espontâ-
neo ajustamento à vida, relações harmoniosas com o ambiente,
em lugar da compulsão do temor, ou da imitação de um exemplo,
coisa que apenas aumenta o processo do “eu” que é ignorância,
carência e temor.
Agora, se cada um de vós realmente percebesse isto, as-
seguro-vos que haveria uma vital mudança em vossa vontade e
atitude para com a vida. Perguntam-me frequentemente: Não
deveríamos ter autoridade? Não deveríamos seguir os Mestres?
Não deveríamos ter disciplina? Outros há que dizem: “Não nos
faleis em autoridade porque já a ultrapassamos”. Enquanto o pro-
cesso do “eu” continuar, tem que haver as muitas formas sutis de
autoridade, de carência, com seus temores, ilusões e compulsão.
A autoridade do exemplo indica que ha medo, e enquanto não
compreendermos o processo do “eu”, os meros exemplos tornar-
se-ão apenas obstáculos.
Palestras em Ommen, Holanda - 1935

21
[...] HÁ MUITO descontentamento, e pensa-se que uma
ideologia, a comunista ou outra, vai resolver tudo, até mesmo
banir o descontentamento, o que seguramente uma ideologia
nunca poderá fazer. O comunismo, ou qualquer outro condicio-
namento religioso organizado, nunca pode afastar o desconten-
tamento; mas as pessoas tentam de todas as maneiras abafá-lo,
moldá-lo, alegrá-lo; mas o descontentamento está sempre lá.
Pensamos que o descontentamento está errado, que não é cor-
reto, mas não conseguimos livrarmos dele; temos de compreen-
dê-lo. Compreender não é condenar. Entra nele, observa-o sem
qualquer intenção de o alterar, de o canalizar. Está atenta a ele à
medida que vai atuando ao longo da vida, compreende as suas
formas, está a sós com ele.
A liberdade surge quando a mente está só. Pela graça que
isso tem, tenta manter a mente quieta, liberta de qualquer pen-
samento. Brinca com isso, não o transformes num assunto muito
sério; sem qualquer esforço, está atenta e deixa que a mente se
aquiete.
Existe frustração enquanto houver a busca de realização
pessoal. O prazer da realização é um desejo constante e nós que-
remos a continuidade desse prazer. O acabar desse desejo dá
frustração, o que é doloroso. Logo de seguida a mente busca pre-
enchimento em diferentes direções e, de novo, vai encontrar frus-
tração. Essa frustração é o movimento do sentir egocêntrico, que
é isolamento, separação, solidão. A mente quer fugir disso e, mais
uma vez, vai mergulhar em qualquer forma de preenchimento
pessoal. O esforço no sentido da realização traz o conflito da dua-
lidade. Só quando a mente vê a futilidade ou a verdade da realiza-
ção pessoal, na qual há sempre frustração, é que pode estar nesse
estado de solitude, de onde não há qualquer fuga. Quando a men-
te está nesse estado de solitude, sem fugir, é que nos libertamos
do desejo de realização. A separação existe porque há o desejo de
preenchimento; frustração é separação.
Por agora, não podes passar por mais choques, nem
mesmo pelos mais ligeiros. As reações psicológicas afetam o corpo
com os seus efeitos adversos. Sê muito forte interiormente. Sê
22
firme e lúcida. Sê completa; não tentes ser completa, sê completa.
Não dependas de ninguém, de nada, nem de qualquer experiência
ou memória; depender do passado, mesmo sendo este agradável,
impede a plenitude do presente. Está atenta e deixa que essa
atenção permaneça intacta e inteira, nem que seja por um só
minuto.
O sono é essencial; durante o sono parece que tocamos
profundidades desconhecidas, profundidades que a mente cons-
ciente nunca pode atingir ou experienciar. Embora não possamos
lembrar-nos da extraordinária experiência de um mundo que está
para além do consciente e do inconsciente, ele tem os seus efeitos
na consciência total da mente. É provável que isto não seja muito
claro; faz apenas uma simples leitura e brinca com isso. Sinto que
há certas coisas que nunca poderão ficar claras. Não há palavras
adequadas para elas; contudo, essas coisas existem.
Especialmente contigo, e isto é importante, o teu corpo
não pode estar sujeito a qualquer doença. Deves, facilmente e de
forma voluntária, pôr de lado todas as memórias e imagens que te
dão prazer, para que a tua mente fique liberta, descontaminada
para a verdade. Por favor, toma bem atenção ao que está escrito.
Cada experiência, cada pensamento, deve cessar em cada dia, em
cada minuto, logo que aparece, para que a mente não se enraíze
no futuro. Isto é realmente importante porque é a verdadeira
liberdade. Assim, não há qualquer dependência; esta gera dor,
afeta o corpo e alimenta a resistência psicológica. E, como tu dis-
seste, a resistência cria problemas - alcançar, tornar-se perfeito,
etc. Na busca há luta, empenho; este empenho, esta luta, invaria-
velmente acaba em frustração – “quero aquilo” ou “quero ser
alguém”; no próprio processo de alcançar existe a ambição por
“mais”, e o “mais’ nunca está à vista e, assim, há sempre a sensa-
ção de falhanço. Consequentemente, há dor. E, mais uma vez,
voltamo-nos para uma outra qualquer forma de preenchimento,
com as suas inevitáveis consequências. As consequências da luta,
do esforço, são vastas. Por que buscamos nós? Por que está a
mente constantemente à procura, e o que a faz procurar? Será
que sabes ou tens consciência de que procuras? Se tens consciên-
23
cia disso, verás que o objeto da tua procura varia de tempos a
tempos. Vês o significado da busca, com a sua frustração e dor?
Vês que no encontrar algo que é muito gratificante há estagnação,
com as suas alegrias e medos, com o seu desenvolvimento e o seu
“vir a ser”? Se te dás conta de que estás em busca, será possível à
mente não buscar? E se a mente não busca, qual é a sua reação
real e imediata?
Brinca com isso, descobre; não pressiones nada, não dei-
xes que a mente se force na direção de uma qualquer experiência
porque, desse modo, ela iria alimentar-se de ilusão.
Estive com alguém que está a morrer. Temos muito medo
da morte; temos medo de viver; não sabemos viver; conhecemos
a dor psicológica, e a morte é a derradeira dor. Dividimos a vida
em viver e morrer. Assim, acontece a dor da morte, com a sua
separação, solidão e isolamento. A vida e a morte são um só mo-
vimento, e não estados isolados. Viver é morrer, morrer para cada
coisa, renascer em cada dia. Isto não é uma afirmação teórica,
mas algo para ser vivido e experienciado. É o querer, esse cons-
tante desejo de ser que destrói por completo a simplicidade do
ser. O ser simples é totalmente diferente do sono que vem da
satisfação, do preenchimento ou das conclusões da razão. Esse ser
é alheio ao “eu”. Uma droga, um interesse, uma entrega, uma
completa identificação pode gerar um estado de desejo, que é
ainda o sentir do “eu”. O verdadeiro ser é a cessação do querer.
Brinca com estes pensamentos e vai fazendo tentativas, alegre-
mente.

[...] O sol tenta passar através das nuvens, provavelmente


vai consegui-lo ao longo do dia. Num dia é Primavera, e no seguin-
te parece Inverno. O tempo é como os estados de espírito do ho-
mem, em cima e em baixo, escuridão e luz temporárias. Sabes, é
estranho como desejamos a liberdade, mas fazendo tudo para
ficarmos escravos. Perdemos toda a nossa iniciativa. Esperamos
que os outros nos guiem, nos ajudem, sejam generosos e pacífi-
cos; voltamo-nos para gurus, mestres, sábios, salvadores, medita-
dores. Alguém escreve grande música, outra pessoa toca-a, inter-
24
preta-a à sua maneira e nós ouvimo-la, apreciamo-la ou criticamo-
la. Somos a audiência que olha para os atores, para os jogadores,
para a tela de cinema. Outros escrevem poemas, e nós lemo-los;
outros pintam, e nós ficamos pasmados em frente das pinturas.
Não temos nada, e voltamo-nos para os outros, para que eles nos
entretenham, nos inspirem, nos guiem ou nos salvem. Cada vez
mais a civilização moderna nos destrói, nos esvazia de toda a cria-
tividade. Por dentro estamos vazios e esperamos que outros nos
enriqueçam, para, desse modo, o nosso vizinho se aproveitar dis-
so para explorar ou sermos nós a tirar proveito disso.
Quando se tem consciência das muitas implicações respei-
tantes à nossa dependência dos outros, essa mesma liberdade é o
início da criatividade. Essa liberdade é uma autêntica revolução, e
não uma falsa revolução relativa a ajustamentos sociais ou
econômicos, sendo estes uma outra forma de escravização.
As nossas mentes constroem pequenos castelos de segu-
rança. Queremos ter a certeza acerca de tudo, dos nossos relacio-
namentos, realizações, esperanças, futuro. Erguemos estas pri-
sões interiores e amaldiçoamos qualquer um que tente perturbar-
nos. É estranho como a mente está sempre à procura de uma
zona onde não haja conflito, perturbação. A nossa existência é
uma constante destruição e subsequente reconstrução, de várias
formas, dessas zonas de segurança. A nossa mente torna-se assim
uma coisa embotada e deprimida. A liberdade consiste em não se
ter segurança de qualquer espécie.
É realmente surpreendente ter uma mente serena e muito
calma, sem uma única onda de pensamento. Claro que a quietude
de uma mente morta não tem nada a ver com uma mente natu-
ralmente tranquila. A mente é forçada a aquietar-se pela ação da
vontade. Mas será que ela pode estar profundamente, totalmen-
te, silenciosa? É de fato extremamente surpreendente o que
acontece quando a mente está em silêncio.
Nesse estado, toda a consciência, que tem a ver com co-
nhecimento e reconhecimento, cessa; acaba a busca instintiva da
mente, que é memória. E é muito interessante ver como a mente
faz tudo para capturar esse estado indizível através do pensamen-
25
to, da verbalização, do aperfeiçoamento dos símbolos. Mas para
que esse processo termine, natural e espontaneamente, temos de
morrer para tudo. Não queremos morrer e, assim, há sempre um
esforço inconsciente em marcha, a que chamamos vida. É estra-
nho como a maioria das pessoas quer impressionar todas as ou-
tras, através das suas realizações pessoais, da astúcia, dos seus
livros - utilizando qualquer meio para se afirmar.

Cartas à uma jovem amiga, 1948

[...] PERGUNTA: Um homem que abomina a violência po-


de tomar parte no governo de um país?

Krishnamurti: Ora, que é governo? Afinal de contas, um


governo é, um governo representa o que nós somos. Na chamada
democracia, seja qual for a sua, significação, nós elegemos, para
nos representar, aqueles que são iguais a nós, aqueles de quem
gostamos; que têm a voz mais forte, a mente mais inteligente, ou
o que quer que seja. Assim, evidentemente, o governo é o que
nós somos, não achais? E que somos nós? Somos uma massa de
reações condicionadas – violência, avidez, aquisicionismo, inveja,
volúpia de poder, etc. Naturalmente o governo é, o que nós so-
mos, isto é, a violência sob diferentes formas; e como pode um
homem em cujo ser realmente não existe a violência, pertencer,
quer em nome, quer de fato, a uma estrutura que é violenta?
Pode a realidade coexistir com a violência, que é o que chamamos
governo? Pode um homem que busca ou que experimenta a rea-
lidade ter qualquer coisa em comum com os governos soberanos,
com o nacionalismo, com uma ideologia, com a política de parti-
dos, com um sistema de poder? O homem pacífico pensa que,
aderindo a um governo, estará habilitado a prestar algum serviço
útil. Que acontece, quando ingressa no governo? A estrutura é tão
poderosa que o absorve, e ele muito pouco pode fazer. Senhor,

26
isso é um fato, a que assistimos hoje no mundo. Quando uma
pessoa ingressa num partido, ou se candidata a uma eleição para
o parlamento, ou que quer que seja, tem de aceitar o programa
do partido. Por conseguinte, deixa de pensar. E como pode um
homem que se entregou a um outro – a um partido, a um gover-
no, ou a um guru - achar a realidade? E como pode aquele que
busca a verdade ter qualquer relação com a política das potên-
cias?
Vede, Senhores, fazemos tais perguntas, porque nos agra-
da depender da autoridade exterior, do ambiente, para a trans-
formação de nós mesmos. Esperamos que os chefes; os governos,
os partidos, os sistemas; os padrões de ação, de alguma maneira
nos transformarão, de alguma maneira implantarão a ordem e a
paz em nossas vidas. Esta é por certo a base de todas as perguntas
deste gênero, não é verdade? Pode um outro, seja um governo,
um guru, ou um demônio, dar-vos a paz e a ordem? Pode alguém
trazer-vos felicidade e amor? De certo que não. A paz só pode
nascer depois de perfeitamente compreendida a confusão que
nós mesmos criamos, compreendida não só nível verbal, mas inte-
riormente; depois de afastadas as causas da confusão e da luta,
teremos sem dúvida a paz e a liberdade. Entretanto, sem cuidar-
mos de eliminar as causas, preferimos recorrer à autoridade ex-
terna, para que nos dê paz; e o exterior é sempre submergido
pelo interior. Enquanto existir o conflito psicológico, a ânsia de
poder, de posição, etc., qualquer que seja a estrutura exterior, por
melhor que tenha sido edificada, por mais benéfica e ordeira que
seja, sempre será dominada pela confusão interior. Por conse-
guinte, é óbvio que devemos dar toda a importância ao interior e
não ficar na mera dependência do exterior.

[...] Pergunta: Parece que não pensais que ganhamos a


nossa independência. Segundo vós, qual seria o verdadeiro estado
de liberdade?
Krishnamurti: A liberdade se torna isolamento, quando é
nacionalista; e o isolamento conduz inevitavelmente ao conflito,
porquanto, nada pode existir no isolamento. Ser é estar em rela-
27
ção; e o isolar-nos dentro de uma fronteira nacional gera a confu-
são, a tristeza, a fome, o conflito, a guerra – o que já se tem pro-
vado inúmeras vezes. Assim, a independência como Estado sepa-
rado, leva ao conflito e à guerra, porque independência, para a
maioria de nós, implica isolamento. Fostes libertados da explora-
ção, das lutas de classe, da fome, dos conflitos religiosos, dos sa-
cerdotes, das lutas comunais, da influencia dos guias. Não fostes,
por certo. Apenas expulsastes o explorador branco, e o explorador
de tez, escura tomou o seu lugar – provavelmente com um pouco
menos de crueldade. Temos o mesmo que tínhamos antes, a
mesma exploração, os mesmos sacerdotes, a mesma religião or-
ganizada, as mesmas superstições e as mesmas guerras de classes.
E isso nos deu a liberdade? Senhor, não queremos ser livres. Não
nos iludamos. Porque liberdade implica inteligência, amor; a li-
berdade subentende que não deve haver exploração, que não
deve haver submissão à autoridade; a liberdade implica virtude
extraordinária. Como eu já disse, a retidão é sempre um processo
de isolamento, porque o isolamento e a retidão andam de mãos
dadas; ao passo que a virtude e a liberdade são coexistentes. Uma
nação soberana é sempre isolada e portanto nunca pode ser livre;
logo, é constante causa de atrito, suspeição, antagonismo e guer-
ra.
Positivamente, a liberdade deve começar no indivíduo,
que é um processo total, não antagônico à massa. O indivíduo é o
processo total do mundo, e se ele se isola no nacionalismo, na
retidão, torna-se então uma causa de desastres e misérias. Mas se
o indivíduo, que é um processo total; não oposto à massa, embora
um resultado da massa; do todo – se o indivíduo se transforma a
si mesmo, se transforma a sua vida, para ele haverá então liber-
dade; e, sendo resultado de um processo total, logo que se liberta
do nacionalismo, da avidez, da exploração, pode exercer ação
direta sobre o todo. A regeneração do indivíduo não para o futu-
ro, mas para agora; e se adiais para amanhã, a vossa regeneração,
atraíreis a confusão, sereis colhido pela onda de escuridão. A re-
generação é para agora e não para amanhã, porque a compreen-
são só existe no presente. Não compreendeis agora, porque não
28
aplicais o vosso coração e a vossa mente, toda a vossa atenção,
àquilo que desejais compreender. Se aplicardes a mente e o cora-
ção para compreender, tereis a compreensão. Senhor, se aplicar-
des a vossa mente e o vosso coração a descobrir; a causa da vio-
lência, e se ficardes inteiramente cônscio dela, sereis não violento
agora mesmo. Mas, infelizmente, já de tal maneira condicionastes
a vossa mente com o adiamento, por princípios religiosos e de
ética social, que estais incapacitados para encarar diretamente a
causa da violência – e aí é que está a nossa dificuldade.
Como vemos, a compreensão está sempre no presente, e
nunca no futuro. A compreensão existe agora, e não em dias futu-
ros. E a liberdade, que não é isolamento, só pode surgir quando
cada um de nós compreender a sua responsabilidade perante o
todo. O indivíduo é o produto do todo. Afinal de contas, vós sois o
resultado de toda a Índia, de toda a humanidade. Podeis chamar-
vos pelo nome que quiserdes, mas sois sempre o resultado de um
processo total, que é o homem. E se vós – o “vós” psicológico –
não fordes livre, como podeis ter liberdade no exterior? Podeis ter
diferentes governantes, mas – santo Deus! – isso é liberdade?
Podeis ter uma multiplicidade de províncias, porque cada um quer
um emprego; mas isso é liberdade? Senhor, nós nos nutrimos de
palavras sem substância; obscurecemos as assembleias legislati-
vas com palavras destituídas de significação; fomos alimentados
de propaganda, que é mentira. Não pensamos verdadeiramente
nestes problemas, por nós mesmos, porque a maioria de nós quer
ser dirigida. Não queremos pensar e descobrir, porque pensar é
muito penoso e traz grandes desilusões. Ou nós pensamos e nos
tornamos desiludidos e céticos – ou pensamos e passamos além.
Quando passamos além, isto é, quando transcendemos o proces-
so do pensamento, encontramos então a liberdade. E nessa liber-
dade existe alegria; nessa liberdade há o viver criador, que o ho-
mem reto, o homem isolado nunca será capaz de compreender.

[...] Pergunta: Que influência pode ter a educação na atual


crise mundial?

29
Krishnamurti: Antes de tudo, para se compreender a in-
fluência que a educação pode ter na atual crise mundial, precisa-
mos compreender como a crise se originou. Se, sem compreen-
dermos isso, nos limitamos a, edificar sobre os mesmos valores,
no mesmo terreno, sobre os mesmos alicerces, provocaremos
novas guerras e novos desastres. Cabe-nos, portanto, em primeiro
lugar, investigar como se originou a presente crise, e ao compre-
endermos as causas, compreenderemos, inevitavelmente, a espé-
cie de educação de que necessitamos.
É bem evidente que a crise atual é o resultado de valores
falsos – valores falsos nas relações do homem com a propriedade,
com as pessoas e com as ideias. A expansão e o predomínio dos
valores dos sentidos produzem necessariamente o veneno do
nacionalismo, das fronteiras econômicas e do espírito patriótico,
que excluem a cooperação de homem com homem para beneficio
do homem, e corrompem as suas relações com as pessoas, que
constituem a sociedade. E se as relações de um indivíduo com
outro são erradas; a estrutura da sociedade há de ruir, necessari-
amente. Do mesmo modo, nas suas relações com as ideias, o ho-
mem justifica uma ideologia – quer da direita, quer da esquerda,
sejam corretos ou errados os meios empregados – a fim de alcan-
çar um resultado. Assim, a desconfiança mútua, a falta de boa
vontade, a crença de que um fim justo pode ser alcançado por
meios injustos, o sacrifício do presente a um ideal futuro – tudo
isso são obviamente causas do desastre atual. Não há tempo para
entrarmos em todos os pormenores, mas é fácil ver, num relance,
como surgiu este caos e esta degradação. É fora de dúvida que
tudo isso provém dos valores errôneos e da dependência da auto-
ridade, dos chefes, quer na vida diária, quer na escola secundária,
quer na grande universidade. Os chefes e a autoridade são fatores
de decomposição em qualquer sociedade. Desde que dependeis
de outro, não tendes mais confiança em vós mesmos, e quando
falta ao indivíduo essa confiança em si mesmo, tem de haver ne-
cessariamente o conformismo, que conduz, afinal, à ditadura dos
estados totalitários.

30
Ora, quando estamos realmente cônscios das causas da
guerra, da catástrofe atual, da presente crise moral e social, per-
cebendo ao mesmo tempo as causas e os efeitos, começamos
naturalmente a compreender que a função da educação é criar
novos valores, e não meramente implantar no espírito do discípu-
lo valores que só podem condicioná-lo, em vez de despertar-lhe a
inteligência. Quando, porém, o próprio educador não percebeu as
causas do caos atual, como pode ele criar valores novos; como
pode despertar a inteligência, como pode evitar que a geração
vindoura enverede pelas mesmas trilhas que o conduzirão a ou-
tros desastres? Não há dúvida, pois, que muito importa ao educa-
dor não cuidar apenas de implantar certos ideais e transmitir sim-
ples conhecimentos, mas compreender que deve aplicar todo o
seu pensamento, todo o seu zelo, todo o seu afeto à criação do
ambiente adequado, da atmosfera adequada, de sorte que o dis-
cípulo fique capacitado para, depois de atingir a maturidade,
atender a todos os problemas humanos que se lhe depararem. A
educação, portanto, está em íntima relação, com a atual crise
mundial; e todos os educadores, pelo menos na Europa e na Amé-
rica, começam a compreender que a crise é o resultado de uma
educação errada. A educação só, pode ser reformada se se tratar
de educar o educador, e não com a simples criação de um novo
padrão, um novo sistema de ação.

[...] Pergunta: A educação pelo estado não é uma calami-


dade? Se o é, de que maneira levantar fundos para escolas não
controladas pelo Governo?
Krishnamurti: Obviamente, a educação pelo estado é uma
calamidade – e com isso sem dúvida os governos não estarão de
acordo. Não querem que o povo pense, querem que as pessoas
sejam meros autômatos; porque então lhes podem dizer o que
fazer. Nessas condições, o ensino, sobretudo se está nas mãos do
governo, está se tornando cada vez mais um meio de ensinar o
que pensar e não a pensar; porque se um indivíduo pensar inde-
pendentemente do sistema, se torna um perigo. Por isso, uma das
funções do Governo é a de não deixar o indivíduo pensar, mas,
31
sim, a de fazê-lo aceitar o que se lhe diz. Eis porque, como se ob-
serva no mundo inteiro, todos os governos se estão ingerindo na
educação. A educação e a alimentação converteram-se em meio
de controlar o homem. E que importa o homem aos governos, da
esquerda ou da direita, se o que eles querem são máquinas per-
feitas para produzir mercadorias e balas de fuzil? Há umas poucas
escolas particulares na Inglaterra e noutros lugares: mas todas
elas são rigorosamente fiscalizadas, inspecionadas, controladas,
porque o Governo não deseja instituições livres, capazes de for-
mar pacifistas, homens que pensem de modo contrário ao regime,
ao sistema. Sendo a educação correta, sem dúvida, um perigo
para o governo, uma de suas funções é cuidar de que não seja
ministrada a educação correta. Há na Inglaterra cerca de 80.000
pacifistas. Se aumentar o seu numero, não achais que se trans-
formarão num perigo para o Governo? Por conseguinte, é preciso
controlar os indivíduos, desde a infância. Não lhes permitamos
pensar em termos que não admitam guerra, pátria, sistemas, ou
ter uma ideologia diferente. Isso significa fiscalização por parte do
governo, controle do ensino pelo Ministro da Educação. Senhores,
é isso que está acontecendo no mundo, quer vos agrade, quer
não; e significa que vós, os cidadãos responsáveis pelo Governo,
não desejais a liberdade. Não desejais um novo modo de existên-
cia, uma nova civilização, uma nova estrutura social. Se tendes
alguma coisa nova, ela pode ser revolucionária, destruidora do
que é; e como desejais que as coisas continuem como estão, di-
zeis: “Ora, que haja um governo que controle a educação”. Dese-
jais uma ligeira modificação aqui e ali, mas não desejais revolução
no pensamento; e no instante em que desejais uma revolução no
pensamento, o governo intervém, joga-vos na prisão, vos liquida
logo, a portas fechas, e caís no esquecimento. Senhores, um país
se torna cada vez mais organizado, existe cada vez mais autorida-
des e compulsão externa, quando o próprio homem não tem visão
interior, luz interior, compreensão. Ele se torna então um mero
instrumento das autoridades, quer num Estado totalitário, quer
numa das chamadas democracias. Porque, nos momentos de cri-
se, os chamados estados democráticos se tornam iguais aos totali-
32
tários, esquecendo a democracia e obrigando os homens a se,
conformarem a um padrão de ação.
Agora, a segunda parte da pergunta é: “Como levantar
fundos para escolas não controladas pelo governo?” Senhor, não
é este o problema. No momento em que temos dinheiro, vem a
corrupção. Considerai todas as escolas fundadas no estilo mais
idealista possível. Observai os seus dirigentes. Com engordam! No
entanto, podeis fundar uma escolinha na esquina da vossa rua. Sei
de várias escolas que começaram assim e que estão ainda funcio-
nando, graças ao preparo, ao entusiasmo, ao sentimento dos seus
fundadores. Uma das nossas dificuldades é querermos transfor-
mar toda a humanidade da noite para o dia – ou influenciar as
massas, como costumais dizer. Quem são as massas, a pobre hu-
manidade? Sois vós e sou eu. E se sentirdes a fundo, se pensardes
de fato, em todos esses problemas – não apenas superficialmen-
te, no espaço de uma tarde, para matar o tempo – fareis então o
que for necessário para a criação de uma nova escola, em qual-
quer parte, na esquina da rua ou em vossa própria casa; porque,
em tal caso, estareis interessados em vossos filhos e nas crianças
do vosso círculo. Então aparecerá o dinheiro necessário, Senhor.
Não vos preocupeis com o dinheiro. Dinheiro é de última impor-
tância. Deixai o dinheiro, aos idealistas desejosos de fundar uma
escola ideal. Se vós e eu estamos bem conscientes do problema
da existência humana, do que ela significa, se sabemos porque
vivemos, porque sofremos, porque passamos por tantas torturas,
se desejamos realmente compreender esse problema e ajudar a
criança a compreendê-lo, iniciaremos uma escola, sem fundos,
sem toque de caixa, e sem coletas de vultosas contribuições. Por-
que, quando temos dinheiro que acontece? Não sabeis o que
acontece, Senhor? Tendes os vossos recursos particulares, preci-
sais preservá-los, saber quem os gasta – se vós, se o vosso secre-
tário, ou a comissão – e começam as preocupações com futilida-
des. Se tendes pouco dinheiro e verdadeira clareza de pensamen-
to e sentimento, criareis uma escola. E, ao criar a escola; tereis
naturalmente de enfrentar a oposição ou a ingerência do governo.
Se ensinais os vossos alunos a não serem nacionalistas, a não fa-
33
zerem continência à bandeira, porque o nacionalismo é um fator
de guerras, se os ensinais a não serem comunalistas, se, os ajudais
a compreenderem todo o problema da existência, julgais que os
governos vos apoiarão? Se produzirdes verdadeiros revolucioná-
rios, não no sentido de matar; mas verdadeiros revolucionários no
pensamento e no sentimento, pensais que a sociedade o tolerará
por um minuto?
Assim, como pais e preceptores vós sois responsáveis,
tendes de verificar se estais meramente aquiescendo aos ditames
do governo, se aprendestes meramente uma técnica que vos dá
uma certa capacidade para ganhar dinheiro, e se vos contentais
com manter a atual estrutura social, tal como está; ou se tendes
verdadeiro interesse pelo viver correto e pela maneira correta de
ganhar a vida. Se percebeis que os governos se baseiam na violên-
cia e são o produto da violência, e compreendeis que por meios
errôneos nunca será possível alcançar um fim justo; e se estais
interessados em educar verdadeiramente os vossos filhos sem
duvida criareis uma escola, seja onde for na esquina, em vosso
quintal, ou em vosso próprio quarto. Porque, Senhores, não creio
que sejam muitos os que percebem o abismo, a degradação a que
chegamos. Se houver uma terceira guerra mundial, será o fim de
tudo. Podeis escapar; mas o vosso problema será então a quarta
guerra, uma vez que não ficou resolvido o problema do antago-
nismo entre os homens. E ele só pode ser resolvido por meios
corretos, isto é, pela educação correta – não por um ideal contrá-
rio à guerra, mas, sim, pela compreensão das causas da guerra, as
quais residem na nossa atitude perante a vida, na nossa atitude
perante os nossos semelhantes. Sem uma transformação do cora-
ção, sem boa vontade, as meras organizações não implantarão a
paz – como se vê pelo exemplo da Liga das Nações e da ONU.
Contar com os governos, contar com as organizações exteriores
para a transformação que deve começar no interior de cada um
de nós, é esperar em vão. O que nos cabe fazer é transformar a
nós mesmos, o que significa ficarmos cônscios das nossas ações,
nossos pensamentos e sentimentos, na vida de cada dia.

34
Não vos preocupeis, pois, sobre a questão de levantar
fundos. Ela pode não vos preocupar agora, e por alguns minutos,
enquanto estais comprimido num canto, nesta reunião, podeis
perceber a significação de tudo isso. Mas, depois caireis de novo
na vossa rotina diária, voltareis ao vosso magistério e às vossas
profissões, porque tendes de ganhar dinheiro. Assim sendo, serão
muito poucos os que estão seriamente interessados. Todavia, são
aqueles dentre vós que se sentirem seriamente interessados que
promoverão uma revolução no pensamento. Senhor, à revolução
deve começar no pensamento, e não com sangue; e se houver a
verdadeira revolução no pensamento não haverá sangue. Mas se
não houver correto pensar, verdadeiro pensar, haverá sangue; e
mais sangue. Os meios justos nunca produzirão um fim justo; por-
quanto o fim está contido no meio.

[...] Pergunta: O apego é a matéria-prima de que somos


feitos. Como podemos ficar livres do apego?
Krishnamurti: De certo, o problema não é a capacidade de
apegar-nos. Porque vos apegais e porque desejais vos desapegar?
Porque esta luta constante ente apego e desapego? Vós sabeis o
que significa apego: o desejo de possuir uma pessoa, o desejo de
possuir coisas. Senhor, porque tendes apego? Que aconteceria se
não tivésseis apego? O apego, sem dúvida, se torna um problema
quando há o desejo de desapego, quando o que está apegado não
é compreendido. Consideremos um exemplo: Se examinardes a
vós mesmo, qual a razão do vosso apego por vossa esposa, vosso
marido, vosso dinheiro, vossa casa, vossa propriedade, vossas
ideias? Qual a razão? A razão é que, sem essa pessoa, estais per-
dido, ficais vazio; sem propriedade, sem nome, nada sois; e que
sois vós, sem vosso depósito no banco, sem as vossas ideias? Uma
concha vazia, não é assim? Então, como tendes medo de ser nada,
apegai-vos a alguma coisa; e tendo esse apego – com todos os
seus problemas, seus temores, suas crueldades, suas ansiedades e
frustrações – procurais desapegar-vos; tentais renunciar à propri-
edade, renunciar à família, renunciar às vossas ideias. Mas não
resolveis realmente o problema, que é o medo de ser nada – pois
35
é por isso que vos apegais. Afinal, vós sois nada. Despojai-vos de
vossos títulos, de vossos diplomas, de vossas profissões e das vos-
sas pequenas qualidades, de vossas casas e propriedades, de vos-
sas poucas joias, e tudo o mais – o que resta de vós? Sabendo,
interiormente, da existência de um extraordinário vazio, um vá-
cuo, um nada, e temendo-o, vós vos apegais, vós possuís; e nessa
posse há uma crueldade medonha. Não vos interessa o bem do
outro, só vosso próprio bem interessa, etc. – e isso chamais amor.
Porque tendes medo, porque existe o temor àquele vazio, estais
pronto a matar o semelhante, a destruir a humanidade. Então,
porque não reconhecer o fato óbvio; que não sois nada? – o que
não quer dizer que deveis ser nada, mas sim, que realmente nada
sois. Senhor, quando reconheceis esse fato, não há renuncia, nem
apego, nem desapego. Vós não possuis, simplesmente – e há en-
tão beleza, riqueza, uma bênção, que de modo nenhum podeis
compreender enquanto temerdes o vazio. A vida é então cheia de
significação, a vida se torna então um verdadeiro milagre. O ho-
mem que teme o vazio, que teme o ser nada, é um homem ape-
gado; e com apego surge o conflito do desapego, o conflito da
renúncia e todo o medonho sofrimento e crueldade inerentes ao
apego e à dependência. O homem que é nada conhece o amor,
porque o amor é o nada.

Da insatisfação à felicidade, 1948

36
[...] PERGUNTA: Porque condenais a religião, a qual obvi-
amente contém grãos da verdade? Porque lançar fora a criança
juntamente com a água do banho? Não deve a verdade ser reco-
nhecida, onde quer que se encontre?

Krishnamurti: Senhores, que entendeis por religião? O


dogma organizado, a crença, os rituais, a adoração de qualquer
pessoa, por maior que seja ou tenha sido, a recitação de orações,
a repetição de Shastras, a citação de palavras da Bíblia — isso é
religião? Ou religião é a busca da verdade ou Deus? Pode-se en-
contrar Deus por intermédio da crença organizada? Se vos dizeis
hinduísta e observais os ritos do hinduísmo, ou de outro ismo
qualquer, pensais que com isso achareis Deus ou a verdade? Ora,
o que eu condeno não é a religião, não é a busca da realidade,
mas, sim, a crença organizada, com os seus dogmas e suas in-
fluências e forças separativas. Não buscamos a realidade, estamos
presos na rede das crenças organizadas, de rituais que se repetem
— vós sabeis como é a coisa — que considero absurdos, porque
entorpecem, porque desviam a mente da busca; são vias de fuga,
e por isso insensibilizam a mente, inutilizam-na.
Visto que nossas mentes estão enleadas na rede das cren-
ças organizadas, com todo o seu sistema de autoridades, sacerdo-
tes e gurus, todos engendrados pelo temor e pelo desejo cie cer-
teza, visto que estamos presos nessa rede, é evidente que não
elevemos limitar-nos a aceitar o que se nos oferece; precisamos
investigar, olhar diretamente, experimentar diretamente, e ver o
que é isso em que estamos presos, e porque estamos presos. Por-
que meu bisavô praticava um determinado rito, ou porque minha
mãe choraria se eu não o praticasse, devo, por isso, praticá-lo
também. Positivamente, o homem que se acha em tais condições,
que está psicologicamente na dependência de outros e por isso é
timorato, o homem em tais condições é incapaz de descobrir o
que é a verdade. Pode falar sobre a verdade, pode repetir o nome
de Deus dezenas de vezes, mas não está em parte alguma, não
tem realidade. A realidade não o procurará, porque está enclausu-
rado em seus próprios preconceitos e temores. E vós sois respon-
37
sáveis por essa religião organizada, seja ela do Oriente ou do Oci-
dente, seja da esquerda ou da direita, a qual, baseada que está na
autoridade, sempre dividiu os homens. Porque precisais de auto-
ridade, seja do passado, seja do presente? Vós precisais da auto-
ridade porque estais confusos, em dificuldades, angustiados, ro-
deados de solidão, sofrendo. Eis porque necessitais de ajuda de
fora; criais então a autoridade, política ou religiosa, e tendo-a
criado, seguis suas instruções, esperando dessa maneira afastar a
confusão, a angústia, a dor de coração. Pode outra pessoa afastar
as vossas penas, os vossos pesares? Outros poderão ajudar-vos a
fugir do sofrimento, mas ele continua a existir.
Sois vós, pois, que criais a autoridade; e tendo criado a au-
toridade, vos tornais seus escravos. A crença é um produto da
autoridade; e porque desejais fugir da confusão, ficais presos à
crença, e continuais por isso em confusão. Vossos guias ou chefes
são o produto de vossa confusão, e por conseguinte eles devem
estar confusos. Não seguiríeis outra pessoa se fôsseis lúcidos,
livres de confusão, e capazes de experimentar diretamente. É
porque estais confusos, que não há experiência direta. Em virtude
da vossa confusão, criais o guia ou chefe, a religião organizada, os
cultos separados, que estão gerando tanta luta no mundo de hoje.
Na Índia isso está assumindo a feição de conflitos comunais entre
muçulmanos e hinduístas, — na Europa são os comunistas contra
os direitistas, e assim por toda a parte. Se examinardes com muito
cuidado, se analisardes, vereis que tudo isso está baseado na au-
toridade — uma pessoa diz isso e outra pessoa diz aquilo; e a au-
toridade é criada por vós e por mim, porque estamos confusos.
Isso poderá parecer uma simplificação exagerada, no nível verbal,
mas se o examinardes, vereis que não é nada simples, que é ex-
tremamente complexo. Porque estais confusos, desejais ser leva-
dos para fora da confusão — o que significa que não estais com-
preendendo o problema da confusão, e estais apenas procurando
uma via de fuga. Para compreenderdes a confusão, precisais com-
preender a pessoa que está criando a confusão, que é a vossa
própria pessoa; e sem compreenderdes a vós mesmos, que valor
tem seguir outro qualquer? Confusos como estais, por acaso en-
38
contrareis a verdade praticando qualquer coisa ou seguindo qual-
quer religião organizada? Podeis estudar o Upanishads, o Gita, a
Bíblia, ou outro livro qualquer; pensais que sois capazes de ler a
verdade, se estais cheios de confusão? Vós interpretareis o que
derdes de acordo com a vossa confusão, com vossas simpatias e
antipatias, vossos preconceitos, vosso condicionamento. O vosso
caminho, portanto, não conduz à realidade. Descobrir a verdade,
senhor, significa compreender a si mesmo. Pois, aí, a verdade vem
a nós, e não temos de sair à sua procura — e nisso consiste a sua
beleza. Se ides procurar a verdade, o que encontrais é uma proje-
ção de vós mesmos, e por conseguinte não é a verdade. Ela se
torna então mero processo de auto-hipnose, que é a religião or-
ganizada. Para acharmos a verdade, para que a verdade venha ao
nosso encontro, precisamos perceber claramente os nossos pró-
prios preconceitos, opiniões, ideias e conclusões; e essa lucidez
nasce da liberdade, que é virtude. Para a mente virtuosa, a verda-
de se encontra em toda parte. Não pertencemos então a nenhu-
ma religião organizada, somos então livres.

[...] PENSO QUE, compreendendo a vida de relação, che-


garemos a compreender o que significa independência. A vida é
um processo de constante movimento de relações, e sem se com-
preender a vida de relação, produziremos confusão, e luta, e es-
forços inúteis. Assim sendo, releva compreender o que significa
vida de relação; porque são as relações que constituem a socieda-
de, e não é possível o isolamento. O que se isola, logo perece.
Nosso problema, pois, não é o de sabermos o que é a in-
dependência, mas, sim, o que significa a vida de relação. Com a
compreensão da vida de relação, que é a conduta entre seres
humanos, quer íntimos, quer estranhos, quer próximos, quer dis-
tanciados, começaremos a compreender todo o processo da exis-
tência e do conflito entre o cativeiro e a independência. Cumpre-
nos, pois, examinar com muito cuidado o que significa vida de
relação.
A vida de relação não é no presente um processo de iso-
lamento e, portanto, de conflito constante? As relações entre vós
39
e outra pessoa, entre vós e vossa esposa, entre vós e a sociedade,
são produto desse isolamento. Por isolamento queremos dizer
que vivemos a todas as horas em busca de segurança, de satisfa-
ção e de poder. Afinal de contas, cada um de nós, em suas rela-
ções com alguém, busca a satisfação; e onde existe a busca de
conforto, de segurança, quer se trate de uma nação, ou de um
indivíduo, tem de haver isolamento, e o que está no isolamento
provoca sempre conflito. Tudo o que resiste produz necessaria-
mente conflito entre si e aquilo a que está resistindo; e, visto que,
na maioria dos casos, as nossas relações constituem uma forma
de resistência, criamos uma sociedade que gera, necessariamente,
o isolamento e, portanto, conflito, dentro e fora desse isolamen-
to. Precisamos, pois, examinar as relações e sua função em nossas
vidas. Afinal de contas, o que eu sou — minhas ações, meus pen-
samentos, meus sentimentos, meus impulsos, minhas intenções
— produz aquela relação entre mim e outra pessoa, o que chamo
sociedade. Não existe sociedade sem essa relação entre duas pes-
soas; e antes de podermos falar de independência, de agitar ban-
deiras, e tudo o mais, cumpre-nos compreender a vida de relação,
o que significa que devemos examinar a nós mesmos em nossas
relações com os outros.
Ora, se examinamos a nossa vida, as nossas relações com
os outros, veremos que são um processo de isolamento. Na reali-
dade não nos importamos com os outros. Embora falemos muito
a tal respeito, o fato é que não nos importamos. Vivemos em rela-
ção com alguém só enquanto essa relação nos satisfaz, enquanto
nos proporciona um refúgio, enquanto nos apraz. Mas, no mo-
mento em que ocorre em nossas relações uma perturbação que
gera desconforto em nós, abandonamos essas relações. Por ou-
tras palavras, só existem relações, enquanto nos dão prazer. Pode
parecer severo isso, mas se realmente examinardes, com muita
atenção a vossa vida, vereis que é um fato; e evitar um fato é vi-
ver na ignorância, e isso nunca produzirá relações adequadas.
Assim, se examinamos as nossas vidas e observamos as nossas
relações, vemos que elas constituem um processo em que levan-
tamos resistência uns contra os outros, em que erguemos uma
40
muralha, por cima da qual olhamos e observamos os outros; mas
conservamos sempre a muralha e permanecemos atrás dela, quer
seja uma muralha psicológica, quer seja uma muralha material,
uma muralha econômica, uma muralha nacional. Enquanto vive-
mos no isolamento, não há relações com outra pessoa; e vivemos
fechados, porque isso nos dá muito mais satisfação, porque pen-
samos que é muito mais seguro. O mundo está tão cheio de divi-
são, há tanta aflição, tanta dor, tanta guerra, destruição, miséria,
que desejamos fugir e viver dentro das seguras muralhas do nosso
ser psicológico. Nessas condições, a vida de relação, para a maio-
ria de nós, é deveras um processo de isolamento e é bem claro
que tais relações hão de constituir uma sociedade também ten-
dente ao isolamento. É isso mesmo que está acontecendo no
mundo inteiro: permaneceis em vosso isolamento e estendeis a
mão por cima da muralha, chamando a isso nacionalidade, frater-
nidade, ou o que quiserdes; mas o fato é que continuam a existir
os governos soberanos e os exércitos. Isto é, apegados às vossas
próprias limitações, pensais criar a unidade mundial, a paz mundi-
al — o que é impossível. Enquanto tiverdes uma fronteira nacio-
nal, econômica, religiosa, ou social, é óbvio que não haverá paz no
mundo.

[...] PERGUNTA: Como pretendeis justificar a vossa pro-


clamação de que sois o Instrutor do Mundo?

Krishnamurti: Não tenho interesse algum em justificá-la.


Não é o rótulo que importa, Senhores. O grau, o título não tem
importância alguma: o que tem importância é aquilo que sois.
Rasgai o título, pois — jogai-o na cesta de papeis, queimai-o, des-
truí-o, livrai-vos dele. Vivemos sob a influência de palavras, não
vivemos na realidade do que é. Que importa o que eu chame ou
não chame a mim mesmo? O que importa é se o que digo é ver-
dade; se é verdade, tratai então de descobrir a verdade, por vós
mesmos e vivei dela.
Senhores, os títulos, sejam títulos espirituais, sejam títulos
mundanos, são meios de explorar os outros. E nós gostamos de
41
ser explorados. Tanto o explorador como o explorado gostam de
exploração. (Risos) Vós rides! É só isso que fazeis; não percebeis
que sois, vós mesmos, explorados e que portanto criais o explora-
dor — seja o explorador capitalista, seja o explorador comunista.
Vivemos sob a influência de títulos, de palavras, de frases, destitu-
ídos de significação; eis porque interiormente estamos vazios, e
sofremos. Senhores, examinai o que se está dizendo, ou o que eu
digo, e não vivais apenas no nível verbal, porque nesse nível não
pode haver experiência alguma. Podeis ler todos os livros do
mundo, todos os livros sagrados e de psicologia, mas o viver, me-
ramente, naquele nível não vos satisfará; e quer-me parecer que é
isso que está acontecendo.
Somos vazios, em nós mesmos, e é por isso que nos regu-
lamos pelas ideias alheias, pelas experiências, pelas disposições,
pelos lemas de outras pessoas, e nos tornamos por esse motivo
estagnados; e é isso o que está acontecendo no mundo inteiro.
Damos atenção à autoridade, ao guru, ao instrutor, e tudo isso
fica no nível verbal. Para experimentardes, por vós mesmos, a
verdade, para terdes compreensão, em vez de vos servirdes da
compreensão alheia, deveis abandonar o nível verbal. Para com-
preenderdes a verdade por vós mesmos, deveis estar livres de
toda autoridade, da adoração por alguém, por maior que ele seja;
porque a autoridade é o veneno mais pernicioso que impede a
experiência direta. Sem a experiência direta, sem a compreensão,
não é possível viver a verdade.
Logo, não estou introduzindo ideias novas, as ideias não
podem transformar radicalmente a humanidade. Podem produzir
revoluções superficiais, mas o que tentamos realizar é algo intei-
ramente diverso. Em todas estas palestras e discussões, se vos
apraz assistir às mesmas, procuramos compreender o que é ver as
coisas como realmente são; e no compreender as coisas como
realmente são, há transformação. Saber que sou ávido, sem pro-
curar escusá-lo ou condená-lo, sem idealizar o seu oposto e dizer:
“Não devo ser ávido” — saber, simplesmente, que sou ávido, já é
o começo da transformação. Mas não desejais saber o que vós
sois, mas o que o guru é, o que o instrutor é. Rendeis culto a ou-
42
tras pessoas, porque isso vos dá satisfação. É muito mais fácil fu-
girmos, estudando outra pessoa, do que nos vermos assim como
somos. Senhores, Deus ou a verdade está no interior, e não em
ilusões. Mas compreender aquilo que é, é dificílimo; porque aqui-
lo que é não é estático, está a variar constantemente, em contí-
nua modificação. Para compreenderdes o que é necessitais de
uma mente ágil, uma mente que não esteja ancorada numa cren-
ça, numa conclusão, ou num partido. E para seguirdes o que é,
tendes de compreender o papel da autoridade, o porquê do vosso
apego à autoridade, e não simplesmente repudiá-la. Não podeis
repudiar a autoridade se não compreenderdes todas as suas ten-
dências, porque, assim, criareis uma nova autoridade para liber-
tar-vos da velha. Esta questão, portanto, não tem significação
alguma, se só quereis ver os rótulos, porque a mim não interes-
sam rótulos. Se vos aprouver, porém, podemos empreender jun-
tos uma jornada, para descobrirmos o que é, e quando conhecer-
mos a nós mesmos, poderemos criar um mundo novo, um mundo
feliz.

Novo acesso à vida, 1948

[...] PERGUNTA: Em que consiste a vida simples e como


posso viver uma vida simples, no mundo moderno?

Krishnamurti: A vida simples tem de ser descoberta, não


achais? Não há padrão algum de vida simples. Possuir poucas rou-
pas, usar uma tanga, e andar com um pires na mão, esmolando,
não é indício de uma vida simples. A vida simples tem de ser des-
coberta. Sem dúvida, o simples fato de se estabelecer um padrão
de vida simples não gera a simplicidade; pelo contrário, cria com-
plexidade. Que entendemos por uma vida simples? Ter poucas
roupas, andar semi-nú, ter poucas posses... Isso indica vida sim-
ples? A vida não é muito mais complexa do que isso? Por certo,

43
ninguém deve ter mais do que umas poucas coisas, pois é absur-
do, insensato, possuir muitas coisas e depender delas. O homem
possui muitas coisas e vive apegado a elas — propriedades, títu-
los, etc. Mas será vida simples a de um homem que tem inúmeras
crenças, ou mesmo uma só crença? A dependência de sistemas,
de autoridades, o impulso de “vir a ser”, de alcançar, adquirir,
imitar, conformar-se, disciplinar-se de acordo com um determina-
do padrão... Será isso vida simples? Indicará simplicidade? Sem
dúvida, a simplicidade deve começar não na expressão de coisas
exteriores, mas muito mais profundamente. O homem que é sim-
ples não tem conflito. O conflito denota uma fuga para o “mais”
ou para o “ menos”. Isto é, o conflito indica o interesse de aquisi-
ção, o desejo de nos tornarmos algo “mais” ou algo “menos”; e
será o homem que deseja tornar-se alguma coisa uma entidade
simples? Desprezais o homem que luta para adquirir riquezas,
posses, e apreciais aquele que, supostamente, não se interessa
pelas coisas mundanas, mas luta por se tornar virtuoso ou por
igualar ao Buda, ao Cristo, ou por observar um determinado pa-
drão: dizeis que esse homem é um ser maravilhoso. Indubitavel-
mente, o homem que luta para se tornar alguma coisa no mundo
é igual ao outro que deseja ser espiritual. Estão ambos unidos por
um mesmo desejo: o de vir a ser alguém ou alguma coisa, o de se
tornar respeitável ou, como se costuma dizer, espiritual. A vida
simples, por certo, não é uma coisa espetacular. Pode ser desco-
berta na vida cotidiana; neste mundo corrupto que, depois de
duas guerras medonhas, já está, talvez, preparando a terceira, é
possível viver com simplicidade, não apenas exteriormente mas
também interiormente. Porque atribuímos tamanha importância
às manifestações exteriores da simplicidade? Porque começamos
sempre, invariavelmente, do lado errado? Porque não começamos
pelo lado certo, que é o psicológico? Sem dúvida, precisamos co-
meçar pelo lado psicológico para descobrir o que é vida simples,
pois é o interior que cria o exterior. É a insuficiência interior que
faz as pessoas se apegarem a seus haveres, a suas crenças; é esse
sentimento de insuficiência interior que nos força a acumular
bens, roupas, saber, virtude. Evidentemente, por esse caminho só
44
havemos de criar muito mais malefícios e muito mais dano. É ex-
traordinariamente difícil ter uma mente simples — não a chamada
mente intelectual dos eruditos, mas a simplicidade que nasce
quando compreendemos uma coisa, aquela simplicidade que per-
cebe o problema do que é. Positivamente, não podemos compre-
ender coisa alguma quando nossa mente é complexa. Não sei se já
notastes que quando estais preocupado com um problema, preo-
cupado com qualquer coisa, não percebeis coisa alguma com cla-
reza, tudo fica fora de foco. Só quando a mente é simples e vulne-
rável é possível ver as coisas claramente, em suas exatas propor-
ções. Assim, a simplicidade da mente é essencial à simplicidade da
vida. O mosteiro não constitui solução. Surge a simplicidade
quando a mente não tem apego, quando a mente não está adqui-
rindo, quando a mente aceita o que é. Isso significa, realmente,
estar livre do fundo (background), do conhecido, da experiência
adquirida. Só então é a mente simples, e só então é possível ser
livre. Não pode haver simplicidade enquanto o indivíduo pertence
a uma religião, a uma certa classe ou sociedade, a um dogma, da
esquerda ou da direita. Ser simples interiormente, estar esclareci-
do, ser vulnerável, é ser como uma chama sem fumo; e por isso
não se pode ser simples sem amor. O amor não é uma ideia, o
amor não é pensamento. É só no cessar do pensar que existe a
possibilidade de se conhecer aquela simplicidade que é vulnerá-
vel.

[...] OS PROBLEMAS com que se defronta cada um de nós,


e portanto o mundo, não podem ser resolvidos por políticos ou
por especialistas. Não são esses problemas o resultado de causas
superficiais, que como tais pudessem ser considerados. Nenhum
problema, muito menos um problema humano, pode ser resolvi-
do num dado nível especial. Nossos problemas são complexos; só
podem ser resolvidos como um processo total da reação do ho-
mem diante da vida. Podem os especialistas oferecer planos de
ação, mas não é a ação planejada que irá salvar-nos, mas, sim, a
compreensão do processo total do homem, que sois vós. Os espe-

45
cialistas só são capazes de tratar de problemas num âmbito único,
aumentando assim os nossos conflitos e a nossa confusão.
É desastroso considerar o nosso complexo problema hu-
mano como situado num nível único, e permitir que os especialis-
tas dominem as nossas vidas. Nossa vida é um processo complexo,
que requer profunda compreensão de nós mesmos, como pensa-
mento e como sentimento. Sem compreendermos a nós mesmos,
nenhum problema, por mais superficial ou por mais complexo que
seja, pode ser compreendido. Sem compreendermos a nós mes-
mos, as nossas relações, inevitavelmente, hão de levar-nos ao
conflito e à confusão. Sem compreendermos a nós mesmos não
pode haver uma ordem social nova. Uma revolução sem autoco-
nhecimento é simples continuação modificada do nosso estado
atual.
Autoconhecimento não é coisa adquirível nos livros, nem
tampouco produto de longos e penosos exercícios e disciplina; ele
é percebimento, instante por instante, de cada pensamento e
cada sentimento que surge, na vida de relação. A vida de relação
não se situa num nível abstrato, ideológico, mas é uma coisa real
— são as nossas relações com a propriedade, com as pessoas,
com as ideias. O estado de relação supõe existência; e como nada
pode viver no isolamento, ser é estar em relação. Nosso conflito
está nas relações, em todos os níveis da nossa existência; e a
compreensão dessas relações, completa e extensamente, consti-
tui o único problema real de cada um de nós. Esse problema não
pode ser adiado nem evitado. O evitá-lo só pode criar mais confli-
to e mais sofrimentos. A fuga tem como consequência a privação
de pensamento, a qual é explorada pelos astutos e ambiciosos.
Religião, consequentemente, não é crença, nem dogma; é
a compreensão da verdade, que se deve descobrir na vida de rela-
ção, momento por momento. Religião que é crença e dogma não
passa de uma fuga da realidade das relações. O homem que pro-
cura a Deus, ou o que quiserdes, pela crença, a que chama reli-
gião, apenas cria oposição, que gera a separação, isto é, desinte-
gração. Qualquer espécie de ideologia, da direita ou da esquerda,

46
desta ou daquela religião, lança o homem contra o homem, como
está acontecendo no mundo.
A substituição de uma ideologia por outra não constitui a
solução para os nossos problemas. O problema não consiste em
saber qual seja a melhor ideologia, mas sim no compreendermos
a nós mesmos como um processo total. Podeis dizer que a com-
preensão de nós mesmos exige um tempo infinito e que, nesse
interim, o mundo se fará em pedaços. Pensais que, com uma ação
planejada de acordo com uma ideologia haverá possibilidade de
se operar, em breve tempo, uma transformação no mundo. Se se
der um pouco mais de atenção ao assunto, ver-se-á que as ideolo-
gias não unem os homens. Uma ideia pode servir para formar um
grupo, mas esse grupo fica contra outro grupo, que tem uma ideia
diferente, e assim por diante, acabando por se tornarem as ideias
mais importantes do que a ação. As ideologias, as crenças, as reli-
giões organizadas, separam os homens.
A humanidade não pode ser integrada por uma ideia, por
mais nobre e ampla que essa ideia seja. Porque ideia é simples
reação condicionada; e uma reação condicionada, ante o desafio
da vida, é necessariamente inadequada, trazendo consigo conflito
e confusão. A religião baseada em ideia não pode unir os homens.
A religião como experiência de uma autoridade qualquer pode
ligar vários indivíduos entre si, mas, inevitavelmente, há de gerar
antagonismo; a experiência alheia não é verdadeira, mesmo que o
“experimentador” seja um grande homem. A verdade nunca pode
ser o produto de autoridade. A experiência de um guru, um ins-
trutor, um santo, um salvador, não é a verdade que vos cumpre
descobrir. A verdade alheia não é a verdade. Podeis repetir para
outra pessoa a expressão verbal da verdade; mas esta se trans-
forma em mentira no processo de repetição.
A experiência alheia não é válida para a compreensão da
realidade. Entretanto, as religiões organizadas, no mundo inteiro,
baseiam-se na experiência alheia e, por essa razão, não estão
libertando o homem mas, unicamente, prendendo-o a um deter-
minado padrão que lança o homem contra o homem. Cada um de
nós tem de começar de novo; porque o que somos o mundo é. O
47
mundo não é diferente de vós nem de mim. O pequeno mundo
dos nossos problemas, ampliado, transforma-se no mundo e nos
problemas mundiais.
Desesperamos de nossa compreensão, em face dos vastos
problemas mundiais. Não percebemos que não se trata de um
problema que requer ação em massa, mas sim o despertar do
indivíduo para o mundo em que vive, a fim de que resolva os pro-
blemas do seu mundo, por mais limitado que seja ele. A massa é
uma abstração explorada pelo político, pelo homem que tem uma
ideologia. A massa, na realidade, sois vós e eu e mais outro.
Quando vós e eu e outro estamos hipnotizados por uma palavra,
tornamo-nos, então, “a massa” , isto é, uma abstração, porquanto
a palavra é abstração. A ação em massa é uma ilusão. Essa ação,
na realidade, é a ideia que uns poucos têm sobre a ação a qual
adotamos em nossa confusão e desespero. Em nossa confusão e
desespero escolhemos o nosso guia político ou religioso; e estes,
inevitavelmente, em razão de nossa escolha, hão de estar tam-
bém confusos e desesperados. Podem eles assumir ares de segu-
rança e onisciência mas, em verdade, visto que são os guias dos
confusos, têm de estar igualmente confusos; pois, do contrário,
não quereriam ser guias. Neste mundo em que tanto o chefe
(guia) como o chefiado (guiado) estão confusos, seguir qualquer
padrão ou ideologia, consciente ou inconscientemente, é criar
mais conflito e mais sofrimento.
O indivíduo, por conseguinte, é que é importante, e não a
sua ideia ou aquele a quem segue, ou a sua pátria, ou a sua cren-
ça. Vós é que tendes importância e não a ideologia ou a nação, a
bandeira ou o credo a que pertenceis; a ideologia é apenas uma
projeção de nosso próprio condicionamento. Esses fatores de
condicionamento podem, num dado nível, ser úteis como conhe-
cimento; mas, noutro nível, nos níveis mais profundos da existên-
cia, tornam-se eles daninhos e destrutivos em extremo. Como
essas coisas — religiões e ideologias, nacionalismo e padrões —
são vossas próprias projeções, qualquer ação nelas baseada seme-
lha a atividade do cão que persegue a própria cauda. Porque to-

48
dos os ideais são produtos de vossa própria fabricação. São o re-
sultado de vossa própria projeção e não revelam a verdade.
Só quando cada um de nós perceber claramente a atual
estrutura da existência, a estrutura dos ideais e conclusões, só
então teremos a possibilidade de nos libertar e de olhar o pro-
blema de maneira nova. A crise, os desastres iminentes não po-
dem ser dissolvidos por uma nova coleção de ideologias, mas só
quando vós, como indivíduo, perceberdes a verdade aí contida e
começardes, assim, a compreender o processo total de vosso pen-
samento e vosso sentimento. O indivíduo só é importante nesse
sentido e não na reação isolada e cruel ao problema.
Afinal de contas, o problema, em todo o mundo, é a ina-
dequada reação ao desafio, sempre novo e variável, da vida. Essa
inadequacidade gera o conflito, o qual dá origem ao problema.
Enquanto não for adequada a reação, teremos sempre uma mul-
tiplicidade de problemas. A reação adequada não exige um novo
condicionamento, mas sim completa isenção de condicionamento.
Isto é, enquanto fordes budista, cristão, muçulmano, hinduísta, ou
pertencerdes à esquerda ou à direita, não podeis corresponder de
maneira adequada aos problemas que são vossas próprias cria-
ções e, portanto, do mundo. Não será o fortalecimento do condi-
cionamento religioso ou social, que há de trazer a paz, para vós e
para o mundo.
O mundo é vosso problema; e para o compreenderdes,
precisais compreender a vós mesmo. Essa compreensão de vós
mesmo não depende do tempo. Vós só existis em relação, de ou-
tro modo não existis. Vossas relações são o problema — vossa
relação com a propriedade, as pessoas, as ideias ou as crenças.
Essas relações, atualmente, são de atrito, de conflito; e enquanto
não compreenderdes as vossas relações, não importa o que fizer-
des, podeis deixar-vos hipnotizar por qualquer ideologia ou dog-
ma, não pode haver descanso para vós. Essa compreensão de vós
mesmo é a ação nas relações. Descobris a vós mesmo, tal como
sois, diretamente, nas relações. As relações são o espelho no qual
podeis ver-vos assim como sois. Não podeis ver-vos com fidelida-

49
de, nesse espelho, se vos chegais a ele com uma conclusão e uma
explicação, ou com condenação, ou com justificação.
A percepção mesma do que sois, de como sois, no mo-
mento da ação da relação, traz liberdade do que ê. Só na liberda-
de pode haver descobrimento. A mente condicionada não pode
descobrir a verdade. Liberdade não é uma abstração, mas vem à
existência com a virtude. Porque é da própria natureza da virtude
trazer a libertação das causas da confusão. Afinal de contas, a
“não- virtude” é desordem, conflito. Mas a virtude é liberdade, é a
clareza de percepção que a compreensão nos traz. Não podeis
tornar-vos virtuoso. Tornar-se, “vir a ser”, é ilusão gerada pela
avidez, pela ânsia de aquisição. Virtude é a percepção imediata do
que é. O auto- conhecimento, pois, é o começo da sabedoria; e é a
sabedoria que resolverá os vossos problemas e consequentemen-
te os problemas do mundo.

[...] PERGUNTA: Dizeis que não quereis fazer o papel de


guru para ninguém. Não pode uma pessoa que compreendeu a
verdade, transmitir a outra a sua compreensão, a fim de ajudá-la a
também compreender?
Krishnamurti: Ora, se o guru é necessário ou desnecessá-
rio, isso nada importa: o problema é o porquê necessitamos de
um guru, porque procuramos um guru. Este é o problema, não
achais? Se pudermos compreendê-lo, veremos então se a verdade
pode ser transmitida a outro. Porque necessitais de um guru, um
chefe, um guia? — Naturalmente, respondereis: “Preciso dele
porque estou confuso, porque não sei o que fazer, e porque busco
a verdade” . Não nos iludamos a esse respeito. Não sabeis o que é
a verdade, e por essa razão procurais um instrutor, para pedir-lhe
que vos ensine o que é a verdade. Quereis alguém que vos ajude,
que vos tire da confusão; sois infeliz e quereis ser feliz; estais insa-
tisfeito e desejais estar satisfeito. Nessas condições, escolheis o
guru, segundo a satisfação que desejais (risos). Posso fazer uma
advertência? Quando uma pessoa ri de coisas sérias, revela um
estado mental muito superficial. Quando rides, fugis da ideia que
vos perturba. Assim, permiti-me sugerir que mantenhamos um
50
pouco mais de seriedade. Porque os nossos problemas são muito
sérios e não podemos chegar-nos a eles como colegiais estouva-
dos... como estamos fazendo, aqui, embora tenhamos, alguns de
nós, barbas já grisalhas.
A questão, pois, não é se o guru é necessário, mas, sim:
porque precisamos dele? Precisamos de alguém que nos dê uma
ajuda confortante. É isso o que queremos. Não queremos a ver-
dade, porque a verdade pode ser extraordinariamente perturba-
dora. Não queremos, realmente, compreender o que é a verdade,
por isso buscamos o guru, a fim de que ele nos dê a satisfação que
almejamos; e visto que estamos confusos, escolhemos, natural-
mente, um guru ou um guia também confuso. Quando escolhe-
mos um guru porque estamos em confusão, esse guru também há
de estar confuso, do contrário não o escolheríamos. O compreen-
der a si mesmo é essencial, e um guru digno deste nome terá que
dizer-vos a mesma coisa. Mas para a maioria de nós, isso dá muito
trabalho; queremos pronto alívio, uma panaceia, e recorremos a
um guru, para que nos dê uma pílula a nosso gosto. O que busca-
mos não é a verdade, mas, sim o conforto; e o homem que nos dá
conforto, escraviza-nos.
Pode a verdade ser transmitida a outrem? Posso fazer-vos
a descrição de uma coisa já acabada, já passada e que, por conse-
guinte, já não é real; posso falar-vos a respeito do passado e po-
demos comunicar-nos uns com os outros, no nível verbal, sobre o
que já nos é conhecido; mas não podemos comunicar-nos uns
com os outros a respeito de uma coisa que não estamos experi-
mentando. Toda descrição pertence ao passado, e não ao presen-
te; o presente, por conseguinte, não pode ser descrito; e a reali-
dade existe somente no presente. Assim, quando ides à presença
de uma outra pessoa, para que ela vos diga o que é a verdade, ela
só pode falar-vos de experiência já passada; e a experiência já
passada não é a verdade, é mero conhecimento. Conhecimento
não é sabedoria. Pode-se descrever, no nível verbal, conhecimen-
to de fatos, mas é impossível descrever algo que está em constan-
te movimento. O que pode ser descrito não é a verdade. A verda-
de tem de ser “experimentada”, momento por momento; e se
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fordes ao encontro do dia de hoje com a medida de ontem, não
compreendereis a verdade.
Um guru, portanto, não é essencial. Muito ao contrário, o
guru é um empecilho. O autoconhecimento é o começo da sabe-
doria. Nenhum guru pode dar-vos o autoconhecimento; e sem
autoconhecimento, podeis fazer o que quiserdes, agir da maneira
que desejardes, seguir qualquer guia, qualquer padrão social ou
religioso — e estareis sempre criando mais sofrimentos. Mas
quando a mente, graças ao autoconhecimento, está livre de todos
os empecilhos e limitações, então a verdade se manifesta.

[...] FALAVAMOS sobre quanto é importante, antes de


perguntarmos o que devemos fazer ou como devemos agir, des-
cobrir o que é o pensar correto; porque, sem pensar correto não
pode, evidentemente, haver ação correta. A ação em conformida-
de com um padrão, uma crença, sempre pôs o homem contra o
homem, como estivemos apreciando no domingo passado. Não
pode haver pensar correto enquanto não há autoconhecimento.
Porque, sem autoconhecimento, como pode uma pessoa saber o
que está realmente pensando? Pensamos muito e andamos tam-
bém muito ativos; mas o pensar e o agir em tais condições produ-
zem conflito e antagonismo, como vemos suceder, não apenas em
nós mesmos, mas também ao redor de nós, no mundo. Conse-
quentemente, o nosso problema é o de como pensar corretamen-
te, que é o meio de produzir a ação correta e de eliminar o confli-
to e a confusão que existem não somente em nós mesmos, mas
também no mundo que nos circunda.
Pois bem, para se descobrir o que é pensar correto, preci-
samos averiguar o que é autoconhecimento; porque, se não sa-
bemos o que pensamos, ou se o nosso pensamento está baseado
naquele fundo que constitui o nosso condicionamento, tudo o que
pensamos, obviamente, é mera reação que leva, por conseguinte,
a outro conflito. Assim, antes de podermos saber o que é pensar
correto, precisamos saber o que é autoconhecimento. Autoco-
nhecimento, por certo não significa aprender um determinado
padrão de pensamento. O autoconhecimento não se baseia em
52
ideias, crenças, ou conclusões. Deve ser uma coisa viva, porque,
do contrário, não é autoconhecimento, e sim, mero conjunto de
conhecimentos. Há diferença entre o conhecimento de fatos, que
é saber, e a sabedoria, que é o conhecimento dos processos dos
nossos pensamentos e sentimentos. Mas estamos, a maioria de
nós, muito entretidos com os fatos, com o conhecimento superfi-
cial, razão por que somos incapazes de entrar mais a fundo no
problema. Para descobrirmos o processo total do autoconheci-
mento temos de estar muito vigilantes nas relações com outros.
As relações são o único espelho que temos, um espelho que não
desfigura, um espelho no qual podemos ver, com toda a fidelida-
de, o nosso pensamento desdobrar-se. O isolamento, que tantos
buscam, é uma forma sub-reptícia de opor resistência às relações.
O isolamento, sem dúvida, impede a compreensão das relações:
relações com as pessoas, com as ideias, com as coisas. Enquanto
desconhecermos o que é, em nossas relações com a propriedade,
com outras pessoas, com as ideias, haverá, evidentemente, confu-
são e conflito.
Assim, só nas relações podemos descobrir o que é pensar
correto. Isto é, nas relações podemos descobrir como pensamos,
momento por momento, quais são as nossas reações, e proceder
assim, passo a passo, ao desenvolvimento do pensar correto. Isso
não é uma coisa abstrata ou difícil, i.e. o observar com exatidão o
que está ocorrendo em nossas relações, quais são as nossas rea-
ções, e assim descobrir a verdade contida em cada pensamento,
em cada sentimento. Mas se levamos conosco uma ideia ou um
preconceito, sobre o que as relações deveriam ser, isso, eviden-
temente, impede a revelação do que é. Aí está nossa dificuldade:
já temos opinião formada sobre o que devem ser as relações. Para
a maioria de nós, “relações” é um termo que significa conforto,
satisfação, segurança; e nessas relações servimo-nos da proprie-
dade, das ideias e das pessoas para nossa própria satisfação. Ser-
vimo-nos da crença como um meio de segurança. As relações
corretas não constituem um simples ajustamento mecânico.
Quando nos servimos de outras pessoas, exigimos a posse, física
ou psicológica; e ao possuir alguém criamos todos os problemas
53
do ciúme, da inveja, da solidão e do conflito. Porque, se exami-
narmos com um pouco mais de atenção e profundeza, veremos
que a utilização de uma pessoa ou da propriedade como meio de
satisfação é um processo de isolamento. Esse processo de isola-
mento não constitui, em absoluto, o verdadeiro estado de rela-
ção. Assim, nossa dificuldade e nosso crescente problema decor-
rem da falta de compreensão das nossas relações, compreensão,
que essencialmente, é autoconhecimento. Se não conhecermos a
maneira como estarmos relacionados a outras pessoas, às ideias,
então todas as nossas relações produzirão conflito. É só este, atu-
almente, o nosso problema: relações não apenas entre pessoas,
mas também entre grupos de pessoas, entre nações, entre ideo-
logias da esquerda ou da direita, religiosas ou seculares. Por con-
sequência, é importante que compreendais fundamentalmente as
vossas relações com vossa esposa, vosso marido, vosso vizinho;
porque as relações são uma porta através da qual podemos des-
cobrir a nós mesmos, e, com esse descobrimento, compreender o
que é pensar correto.
O pensar correto, sem dúvida, é inteiramente diferente do
pensamento correto. O pensamento correto é estático. Podeis
receber instrução sobre o pensamento correto, mas ninguém
pode instruir-vos sobre o pensar correto; porque o pensar correto
é movimento, não é estático. O pensamento correto pode ser
aprendido de um livro, de um instrutor, podemos reunir dados ao
seu respeito; mas não podeis adquirir o pensar correto mediante
ajustamento a um padrão ou molde. Pensar correto é a compre-
ensão das relações, momento por momento, a qual revela, intei-
ramente, o processo do “eu”.
Qualquer que seja o nível em que vivais, há conflito, não
só conflito individual, mas também conflito mundial. O mundo
sois vós, não está separado de vós. O que sois, o mundo é. Impõe-
se uma revolução fundamental em vossas relações com as pesso-
as, com as ideias; impõe-se uma modificação fundamental, e essa
transformação deve começar, não fora de vós, mas em vossas
relações. Consequentemente, é essencial, para o homem que ama
a paz, para o homem sensato, a compreensão de si mesmo. Por-
54
que, faltando-lhe o autoconhecimento, os seus esforços só hão de
criar mais confusão e mais sofrimentos. Tomai conhecimento de
todo o processo de vós mesmos. Não necessitais de guru, não
necessitais de livro algum, para compreender, momento por mo-
mento, vossas relações com todas as coisas.

[...] PERGUNTA: Sou professor, e, depois de estudar o que


dizeis, vejo que a educação atual, pela maior parte, é nociva ou
fútil. Que posso eu fazer, com relação a isso?
Krishnamurti: A questão, sem dúvida, é esta: Que é edu-
cação, e por que educamos? Vemos que, no mundo inteiro, a
educação falhou, uma vez que só está produzindo, cada vez mais,
destruição e guerras. A educação até agora tem servido para ali-
mentar o industrialismo e a guerra; é isso o que vem ocorrendo
desde há um século, mais ou menos. O que se vê, realmente, é
guerra, conflito, um incessante desperdício de esforços, por parte
de cada um, levando tudo isso a mais conflitos, maior confusão e
antagonismo. É esse o objetivo da educação? Nessas condições,
para se saber a maneira correta de educar, é necessário não so-
mente que se eduque o educador, mas que se saiba, também,
para que vivemos, qual a finalidade da vida. Quando procuramos
a finalidade da vida, só podemos achá-la como uma projeção de
nós mesmos. A finalidade da vida, evidentemente, é viver. Mas
viver não é um objetivo, a felicidade não é um alvo. Só quando
nos sentimos infelizes, buscamos o alvo da felicidade. Analoga-
mente, quando a vida é confusa, buscamos uma finalidade, um
objetivo. Cabe-nos, pois, apurar o que significa viver. Será apenas
uma técnica, uma capacidade de ganhar dinheiro mecanicamente,
ou é um processo de compreensão da função total da nossa exis-
tência? Que é felicidade? É ser educado, conquistar um diploma
de bacharel ou de doutor, ou sabe Deus de quê? Abstraindo de
vossa profissão, que sois? Qual é o vosso “estado de ser”, inde-
pendentemente de vossa condição social, dos vossos honorários:
tirando isso, que sois? Pouco mais do que nada; nunca algo muito
grande, e, sim, superficial e vazio.

55
Adquirir conhecimentos, eis o que chamamos educação. É
fácil adquirir conhecimentos, bastando que se saiba ler. A educa-
ção, até agora, com efeito, tem constituído um meio de fugirmos
de nós mesmos; e, como acontece com todas as fugas, engendra
necessariamente, mais confusão e mais sofrimentos. Sem com-
preenderdes o processo total de vós mesmos, que é a compreen-
são das vossas relações, o simples acumular de conhecimentos, o
mero decorar de livros, para passar nos exames, é inteiramente
fútil. Não estou exagerando. Educação é compreender, e ajudar os
outros a compreenderem o inteiro significado, o processo total de
nossa existência. Cabe ao professor o dever de compreender o
inteiro significado da sua ação, em relação com a sociedade, com
o mundo; é por isso essencial educar-se o educador. Para se pro-
duzir uma revolução no mundo é necessário que haja uma trans-
formação em vossas ações; mas, evitamos a revolução radical em
nós mesmos, queremos revolucionar o Estado, o mundo econômi-
co! A educação, por conseguinte, tem de começar em vós mesmo,
no guru. Se transmitis à criança os vossos preconceitos e tradições
(background), a mente da criança reagirá de acordo com esse
condicionamento; e só quando estivermos livres de condiciona-
mento será possível a verdadeira salvação do mundo.

Nosso único problema, 1949

[...] ACHO IMPORTANTE ter em mente que há dificuldade


em compreendermos uns aos outros. Pelo comum, nós escutamos
de maneira casual, ouvindo apenas o que desejamos ouvir; não
damos atenção ao que é penetrante ou perturbador e prestamos
ouvido unicamente às coisas que nos são agradáveis, que nos
satisfazem. Por certo, não pode haver compreensão de coisa al-
guma, se nos limitamos a escutar somente aquilo que nos agrada
e acalma. É uma verdadeira arte o escutar sempre sem preconcei-
to, sem o levantamento de defesas, e permita-me sugerir que

56
procuremos pôr de parte todos os nossos conhecimentos adquiri-
dos, nossas peculiares idiossincrasias e pontos de vista, para escu-
tarmos com o intuito de descobrir a verdade contida em cada
questão. É só a verdade que nos liberta, real e fundamentalmente
— não as especulações, as conclusões, porém tão somente a per-
cepção do que é verdadeiro. O verdadeiro é o real, e somos inca-
pazes de observar a realidade se dela nos abeiramos com nossas
conclusões, preconceitos e experiências pessoais. Assim sendo, se
posso sugeri-lo, devemos tentar, no correr destas palestras, escu-
tar não apenas o que se enuncia verbalmente, mas também o
conteúdo de cada enunciado; cumpre-nos descobrir por nós
mesmos a verdade contida em cada questão.
Ora, a verdade só pode ser descoberta quando não nos
entretemos com distrações de espécie alguma; e a maioria de nós
quer estar distraída. A vida, com todas as suas lutas, problemas,
guerras, crises comerciais e disputas familiares, oferece-nos algo
excessivo para as nossas forças e por isso desejamos distrair-nos;
provavelmente viemos assistir a esta reunião em busca de distra-
ção. Mas a distração, quer externa, quer interna, não nos ajudará
a compreender a nós mesmos. A distração — seja a distração que
se busca na política, na religião, na ciência, nos entretenimentos,
seja a distração que encontramos na procura daquilo a que cha-
mamos verdade — a distração, por mais estimulante que seja a
princípio, no fim embrutece a mente, enclausura-a, circunscreve-a
e limita-a. As distrações são tanto externas como internas. As
externas, nós as conhecemos mais ou menos bem. Ao ficarmos
mais velhos, começamos a reconhecê-las, se meditamos, por pou-
co que seja. Entretanto, ainda que nos livremos das distrações
exteriores, muito mais difícil é compreendermos as interiores; e
se fazemos destas reuniões apenas uma nova forma de distração,
acho que elas terão muito pouco valor para a compreensão de
nós mesmos, a qual é de vital importância.
Consequentemente, é necessário compreender, na ínte-
gra, o processo da distração; porque, enquanto a mente está dis-
traída, a buscar um resultado, a querer fugir através de excitações
ou da chamada inspiração, é ela incapaz de compreender o seu
57
próprio processo. E, se desejamos compreender qualquer dos
inumeráveis problemas que se apresentam a cada um de nós, é
essencial conhecer perfeitamente o processo de nosso próprio
pensar, não o achais? O autoconhecimento é, sem dúvida, o único
meio de resolvermos nossos incontáveis problemas; e o autoco-
nhecimento não pode, de modo algum, ser um resultado, um
produto de excitação ou distração. Ao contrário, a distração, a
excitação, a chamada inspiração só têm o efeito de nos afastar do
problema central. Com efeito, sem o indivíduo conhecer a si
mesmo, fundamental, radical e profundamente, sem conhecer
todas as camadas da sua consciência, tanto as superficiais como
as profundas, não existe base alguma para o pensar, existe? Se
não conheço a mim mesmo, tanto nas camadas superficiais como
nas mais profundas, de minha mente, que base tenho eu para
qualquer atividade pensante? E para chegar ao conhecimento de
si mesmo, nenhuma forma de distração é útil. Todavia, do co-
mum, vivemos interessados em distrações. Nossas atividades reli-
giosas, sociais e econômicas, nosso empenho em seguirmos mes-
tres diversos, com suas peculiares idiossincrasias, nossos clamores
por aquilo que denominamos saber — tudo isso são fugas, são
inegavelmente distrações que nos desviam do problema central
— o conhecimento de nós mesmos. Embora já se tenha dito mui-
tas vezes que é essencial conhecermos a nós mesmos, em ver-
dade concedemos muito pouco tempo ou reflexão ao assunto; e
sem conhecermos a nós, mesmos tudo o que pensemos ou faça-
mos levar-nos-á, inevitavelmente, a confusão, a aflição, maiores
ainda.
Nessas condições, é essencial, em todas as coisas, que
compreendamos o processo de nós mesmos; porque, sem conhe-
cermos a nós mesmos, nenhum problema humano pode ser re-
solvido. Qualquer solução de um problema, sem autoconhecimen-
to, é pura distração, que nos leva ao sofrimento, à confusão, e à
luta, em maior escala. Isso, se refletimos a tal respeito, é uma
coisa bem óbvia. Percebida a verdade desse fato, resta saber co-
mo é possível conhecer o conteúdo integral, a estrutura completa
de nós mesmos. Essa é uma questão fundamental, acho eu, a que
58
cada um de nós tem de fazer frente; e, ao considerarmo-la, con-
juntamente, não estais só a escutar-me enquanto vos transmito
uma série de ideias, nem eu estou só a expor-vos um determinado
sistema ou método. Pelo contrário, vós e eu estamos tentando
descobrir, juntos, como é possível o indivíduo conhecer a si mes-
mo — conhecer esse "eu" pessoal, que é o agente, o observador,
o pensante, o vigia. Se não conheço o processo integral de mim
mesmo, as simples conclusões, teorias, especulações, são, eviden-
temente, de mui pouca importância.
Ora, para conhecer a mim mesmo, preciso conhecer as
minhas ações, meus pensamentos, meus sentimentos; porque só
posso conhecer a mim mesmo em ação, e não separadamente da
ação. Não posso conhecer a mim mesmo independente de minhas
atividades na vida de relação. Minhas atividades, minhas qualida-
des, são eu mesmo. Só posso conhecer todo o processo do meu
pensar, tanto o consciente como o inconsciente, na vida de rela-
ção — minhas relações com as ideias, com as pessoas, e com as
coisas, a propriedade, e o dinheiro; e o estudar a mim mesmo
separadamente das minhas relações, tem muito pouca significa-
ção, É só na minha relação com essas coisas que posso conhecer a
mim mesmo. O dividir a mim mesmo em “"o superior” e o “infe-
rior” é coisa absurda. O pensar que sou o "eu superior" a dirigir ou
a controlar o meu "eu inferior", é uma teoria da mente; e, sem
compreender a estrutura da mente, o mero inventar de cômodas
teorias é um processo de fuga de mim mesmo.
Assim, o importante é descobrir quais são as minhas rela-
ções com as pessoas, com a propriedade e as ideias, pois a vida é
um processo de relações. Nada pode viver em isolamento, salvo
teoricamente; e, para compreender a mim mesmo, preciso com-
preender todo o processo da vida de relação. Mas a compreensão
da vida de relação se torna extremamente difícil e quase impossí-
vel, quando me ponho a olhar o espelho da vida de relação com a
tendência de condenar, justificar, ou comparar. Como posso com-
preender uma relação, se a condeno, justifico ou comparo com
alguma coisa? Só posso compreendê-la quando a ela me aplico
por maneira nova, com uma mente nova, uma mente que não
59
esteja aprisionada nos seus princípios tradicionais de condenação
e aceitação.
O compreender a mim mesmo é essencial, porquanto,
quaisquer que sejam os problemas, eles são projetados, de mim.
Eu sou o mundo, não sou independente do mundo, e os proble-
mas do mundo são os meus problemas. Para compreender os
problemas que me cercam, e que são a projeção de mim mesmo,
cumpre-me compreender a mim mesmo em relação com todas as
coisas; mas não pode haver compreensão se me ponha a compa-
rar, a condenar ou a justificar. Ora, é da natureza da mente o con-
denar, o justificar, o comparar; e ao vermos, no espelho da vida
de relação, as nossas próprias idiossincrasias, nossa reação instin-
tiva é condená-las ou justifica-las. A compreensão desse processo
de condenação e justificação é o começo do autoconhecimento —
e sem autoconhecimento não podemos ir muito longe. Podemos
inventar um grande número de teorias e especulações, podemos
ingressar em vários grupos, seguir Mestres, praticar rituais, formar
pequenas confrarias e sentir-nos superiores aos outros — mas
tudo isso não conduz a parte alguma, não passa de ação imatura
de pessoas que não pensam. Para descobrirmos o que é real, para
descobrirmos se há ou não a realidade, Deus, precisamos, em
primeiro lugar, compreender a nós mesmos; porque qualquer que
seja a ideia que tenhamos da realidade ou de Deus, ela é mera
projeção de nós mesmos, e isso, evidentemente, nunca pode ser
real. Só quando a mente está de todo em todo tranquila — sem
ser forçada à tranquilidade, sem ser compelida nem disciplinada
— é que é possível descobrir o que é real; e a mente só pode estar
tranquila na compreensão de sua própria estrutura. Só o real,
aquilo que não é uma projeção da mente, pode libertá-la de todas
as tribulações, de todos os problemas que cada um de nós enfren-
ta.
Devemos, pois, em primeiro lugar, perceber a importân-
cia, a necessidade de compreendermos a nós mesmos; porque,
sem a compreensão de nós mesmos, problema algum pode ser
resolvido, e continuarão as guerras, os antagonismos, a inveja e a
luta. Um homem que realmente deseja compreender a verdade,
60
necessita de uma mente tranquila; e essa quietude só lhe pode vir
pela compreensão de si mesmo, A tranquilidade da mente não se
consegue a poder de disciplina, de controle, de subjugação, mas
tão somente quando os problemas, que são projeções de nós
mesmos, são de todos compreendidos. E só quando a mente está
tranquila, sem projetar-se, a si mesma, é possível existir o real.
Isto é, para que a realidade se apresente na existência, é necessá-
rio que a mente esteja tranquila — sem que a tenhamos posto
tranquila, sem que ela tenha sido controlada, subjugada ou repri-
mida, mas, sim, que esteja espontaneamente silenciosa em virtu-
de de sua compreensão da estrutura integral do "eu", com todas
as suas lembranças, limitações e conflitos. Uma vez compreendido
tudo isso por maneira completa e exata, a mente está quieta; e só
então há possibilidade de conhecer-se aquilo que é real.
Fizeram-me algumas perguntas, e responderei a umas
poucas nesta manhã; mas, antes de o fazer, deixai-me dizer que é
muito fácil fazer uma pergunta, esperando uma resposta, como
"sim" ou "não". Cumpre-nos descobrir a verdadeira resposta por
nós mesmos; e para descobrir a resposta verdadeira precisamos
examinar o problema. Examinar um problema, principalmente um
problema que profundamente nos interessa, é dificílimo; porque a
maioria de nós se aplica ao mesmo com preconceito, com o dese-
jo de encontrar um resultado, uma solução satisfatória. Nessas
condições, ao atendermos estas perguntas, vamos investigar o
problema juntamente, não se devendo esperar que eu vos diga a
resposta, porque a verdade precisa ser descoberta em cada minu-
to, não é suscetível de explicar-se. A verdade não é conhecimento;
conhecimento é mero cultivo da memória, e a memória é uma
continuidade de experiências; e aquilo que é contínuo nunca pode
ser a verdade. Vamos, pois, investigar juntos essas questões. Não
o digo apenas para efeito de retórica: essa é minha verdadeira
intenção. Vós e eu vamos descobrir a verdade de cada questão. Se
a descobris por vos mesmos, ela vos pertence; mas se esperais
que eu vos dê a resposta, terá esta muito pouco valor, porquanto
nesse caso ficareis no nível verbal, ouvindo somente palavras, e as
palavras não nos levarão muito longe.
61
[...] ACHO QUE É importante perceber a necessidade de
auto conhecimento; porque, o que nós somos, projetamos. Se
estamos confusos, incertos, preocupados, se somos ambiciosos,
cruéis ou timoratos, é justamente isso que produzimos no mundo.
Não parecemos compreender quanto é essencial ao pensamento
e à ação que haja uma compreensão fundamental de nós mesmos
— não só das camadas superficiais da consciência, mas também
das camadas mais profundas do inconsciente, compreensão da
totalidade do processo do nosso pensar e sentir. Parecemos con-
siderar essa compreensão de nós mesmos como uma tarefa tão
difícil que preferimos fugir para todas as espécies de infantilida-
des, atividades imaturas, tais como cerimônias, as chamadas or-
ganizações espirituais, grupos políticos, etc. — tudo menos estu-
dar e compreender" a nós mesmos integral e completamente.
A compreensão fundamental de nós mesmos não nos vem
através do conhecimento ou da acumulação de experiências, pois
isso é apenas cultivo da memória. A compreensão de nós mesmos
dá-se de momento a momento; e se nos limitamos a aumentar o
conhecimento do "eu", êsse mesmo conhecimento nos impedirá
de nos compreendermos mais profundamente, porque os conhe-
cimentos e experiências acumulados se tornam o centro focal do
pensamento e o próprio fator de sua existência. O mundo não é
diferente de nós e de nossas atividades, pois o que somos é que
cria os problemas do mundo; e a dificuldade, da maioria de nós
está em que não conhecemos a nós mesmos diretamente, prefe-
rindo procurar um sistema, um método pelo qual sejam resolvidos
os múltiplos problemas humanos.
Ora, existe um meio, um sistema, de conhecer a si mes-
mo? Qualquer pessoa inteligente, qualquer filósofo pode inventar
um sistema, um método; mas, sem dúvida, o seguir um sistema só
produzirá um resultado criado por êsse sistema, não é verdade?
Se eu sigo um determinado método de conhecer a mim mesmo,
terei então o resultado que êsse sistema necessariamente produz;
62
mas êsse resultado por certo não será a compreensão de mim
mesmo. Isto é, quando sigo um método, um sistema, um meio de
conhecer a mim mesmo, eu moldo o meu pensar, as minhas ativi-
dades, de acordo, com um padrão; mas a observância de um pa-
drão não é a compreensão de si mesmo.
Não existe, portanto, método algum de auto conheci-
mento. A procura de método implica invariavelmente o desejo de
alcançar um certo resultado — e é isso o que todos nós queremos.
Seguimos a autoridade, se não a de uma pessoa, pelos menos a de
um sistema, de uma ideologia, porque desejamos um resultado
que seja satisfatório, que nos proporcione segurança. Não dese-
jamos realmente compreender a nós mesmos, os nossos impulsos
e reações, o processo integral do nosso pensar, tanto o consciente
como o inconsciente; preferimos seguir um sistema que nos ga-
ranta um resultado. Mas o interesse por um sistema é sempre
produto de nosso desejo de segurança, de certeza, e o resultado
disso, sem dúvida, não é a compreensão de nós mesmos. Quando
seguimos um método, precisamos de autoridades — o mentor, o
guru, o salvador, o Mestre — que nos garantam aquilo que dese-
jamos; e esse, por certo, não é o caminho do autoconhecimento.
A autoridade impede a compreensão de nós mesmos, não
é verdade? Sob a égide de uma autoridade, de um guia, podeis ter
temporariamente um sentimento de segurança, um sentimento
de bem- estar; mas tal não é a compreensão do processo total de
si mesmo. A autoridade, pela sua própria natureza, impede o co-
nhecimento pleno de nós mesmos e destrói, por fim, a liberdade;
e só na liberdade pode haver ação criadora. Só pode haver ação
criadora em virtude do autoconhecimento. Os mais de nós não
somos criadores, somos meros relógios de repetição, meros dis-
cos de gramofone a tocar sempre as mesmas cantigas de experi-
ências, de conclusões e lembranças, nossas ou de outrem. Tal
repetição não é criação — mas é o que desejamos. Desejando a
segurança, interiormente, vivemos numa incessante busca de
métodos e meios de alcançá-la, e por essa maneira criamos a au-
toridade, a veneração por outro indivíduo, a qual destrói a com-

63
preensão, aquela espontânea tranquilidade da mente, imprescin-
dível à criação.
A nossa dificuldade, por certo, está em que a maioria de
nós perdeu o senso da criação. O ser criador não significa pintar
quadros ou escrever poemas, para nos tornarmos famosos. Isso
não é criação — é apenas a capacidade de expressar uma ideia,
que o público aplaude ou menospreza. Não se devem confundir
capacidade e potência criadora. Capacidade não é potência cria-
dora. A atividade criadora é um modo de ser inteiramente dife-
rente, não é verdade? É um estado no qual está ausente o "eu",
no qual a mente já não é um foco de nossas experiências, nossas
ambições, nossos empenhos, nossos desejos. A atividade criadora
não é um estado contínuo; é nova de momento a momento, é um
movimento no qual não existe "eu" e "meu", no qual o pensamen-
to não está concentrado em torno de determinada experiência,
ambição, realização, propósito ou motivo. É só quando não existe
o "eu", que existe ação criadora — esse estado que é o único onde
se pode encontrar a realidade, a criadora de tôdas as coisas. Mas
esse estado não pode ser concebido ou imaginado, não pode ser
formulado ou copiado, não pode ser alcançado por meio de sis-
tema algum, por nenhum método, nenhuma filosofia, nenhuma
disciplina; ao contrário, ele só pode manifestar-se pela compreen-
são do processo total do "eu".
A compreensão do "eu" não é um resultado, uma culmi-
nação; é o vermos o nosso "eu", momento por momento, no es-
pelho da vida de relação — em nossas relações com a proprieda-
de, com as coisas, as pessoas e as ideias. Mas achamos difícil estar
atento, estar vigilante, e preferimos embotar as nossas mentes,
seguindo um método, aceitando autoridades, superstições e teo-
rias aprazíveis; por essa maneira, a mente se fatiga, fica exausta e
insensível. Uma mente em tais condições não pode conhecer o
estado de criação. Esse estado de criação só se manifesta quando
o "eu", que é o processo de reconhecimento e acumulação, deixa
de existir; porque, afinal de contas, a consciência, como "eu", é o
centro do reconhecimento, e o reconhecimento é simples proces-
so de acumulação da experiência. Mas temos mêdo de ser nada,
64
porque todos desejamos ser alguma coisa. O homem pequeno
quer ser um grande homem, o não virtuoso quer ser virtuoso, o
fraco e obscuro aspira ao poder, à posição, à autoridade. Tal é a
atividade incessante da mente. Uma mente assim não pode estar
serena e, por consequência, nunca poderá compreender o estado
criador.
Nessas condições, para se transformar o mundo que nos
circunda, com suas misérias, suas guerras, desemprego, fome,
divisões de classes e confusão extrema, urge uma transformação
em nós mesmos.
A revolução deve começar dentro de nós mesmos, mas
não de acordo com qualquer crença ou ideologia; porque a revo-
lução baseada numa ideia ou conforme com determinado padrão,
não é, obviamente, revolução alguma. Para se operar uma revo-
lução fundamental dentro em nós, precisamos compreender, in-
tegralmente, o processo de nossos pensamentos e sentimentos,
na vida de relação. É a única solução para todos os nossos pro-
blemas — e não o termos mais disciplinas, mais crenças, mais
ideologias e mais instrutores. Se pudermos compreender a nós
mesmos, tais como somos, momento por momento, sem o pro-
cesso da acumulação, veremos então como surge uma tranquili-
dade que não é produto da mente, uma tranquilidade não imagi-
nada nem cultivada; e só nesse estado de tranquilidade pode ha-
ver criação.
Tenho várias perguntas para responder e, ao examiná-las
em conjunto, vamos, como indivíduos, experimentar, juntos, des-
cobrir a verdade contida em cada questão, Não é a minha
explicação que irá resolver o problema, nem a vossa ardente
busca de solução; mas o que dissolve qualquer problema é o
esclarecê-lo, passo a passo, e chegar-se assim a perceber a
verdade nele contida. É o perceber a verdade contida em nossas
dificuldades, que as dissolve; mas não é fácil perceber as coisas
como realmente são. Escutar é uma arte; se, quando escutamos,
somos capazes de seguir, experimentalmente, ativamente, o que
se diz, temos então a possibilidade de enxergar a verdade e, por

65
essa maneira, dissolver o problema que porventura se depara a
cada um de nós.

[...] SE PUDÉSSEMOS encontrar um meio para sair de nos-


so conflito, não precisaríamos recorrer à autoridade; mas, visto
que não encontramos esse meio de resolver os nossos inumerá-
veis e sempre crescentes conflitos, voltamo-nos para a autoridade
interior ou para a autoridade exterior, em busca de orientação e
conforto. Torna-se, assim, a autoridade importantíssima em nos-
sas vidas. Incapazes que somos de compreender e resolver o con-
fli, servimo-nos, da autoridade como um meio de evitar o conflito;
e torna-se então o meio sumamente importante, e não o sondar,
o explorar do processo do conflito.
Assim, temos autoridades de todas as espécies, tanto in-
ternas como externas. A autoridade externa assume a forma de
conhecimento, exemplos, instrutores, etc., e, interiormente, é ela
constituída por nossas próprias experiências e lembranças, para as
quais apelamos, quando queremos orientação, em momentos de
conflito e ansiedade. Vemos, pois, que a autoridade, tanto a ex-
terna como a interna, oferece-nos a esperança de libertar-nos de
nossas aflições.
Mas pode a autoridade, de qualquer espécie que seja, in-
terior ou exterior, resolver nossos problemas? Quanto mais bus-
camos autoridades, ideais, conclusões, esperanças, tanto mais
dependemos delas; e a dependência da autoridade se torna muito
mais significativa para nós do que a compreensão do conflito em
si. Quanto mais dependemos da autoridade, tanto mais indispen-
sável ela se torna, porquanto a dependência destrói, por fim, a
confiança em nossa capacidade para descobrir, para explorar os
nossos múltiplos problemas; e, quando dependemos da au-
toridade, essa confiança, obviamente, é negada.
Confiança não é arrogância. Tanto mais arrogante e obsti-
nado um homem se torna, quanto mais experimentou e quanto
mais certo está interiormente. Uma tal confiança é pura auto-
reclusão e, portanto, um processo de-resistência. Mas existe, pen-
so eu, uma diferente espécie de confiança, não cumulativa. Se
66
desejamos explorar a natureza do conflito, não devemos utilizar
aquilo que acumulamos, pois se vamos munidos de conhecimen-
tos anteriormente adquiridos, isso já não é exploração: é um mero
mover-se do conhecido para o conhecido, de certeza em certeza,
do que já experimentamos para o que esperamos experimentar.
Isso não é exploração nem experimentação. É tão somente o pro-
cesso cumulativo do conhecimento, da experiência, e a confiança
que daí resulta é arrogância.
Mas creio que existe uma confiança muito mais sutil, mui-
to mais valiosa, a qual se manifesta quando já não há tendência
para a acumulação, porém constante exploração e descobrimen-
to. É êsse estado de descobrimento constante, essa capacidade de
constante exploração, que nos traz uma confiança perdurável, a
qual não é arrogância. E essa confiança, tão essencial, é negada
quando há qualquer espécie de autoridade, quando dependemos
de outra pessoa ou a ela recorremos para guiar-nos a conduta.
Quando somos dependentes, sentimo-nos seguros de nós mes-
mos, ainda que isso implique temor; mas essa segurança que nos
dá o seguirmos alguém, o pertencermos a um grupo, o crermos
numa ideia ou em certos dogmas, é sem dúvida nenhuma um
processo de auto- reclusão, não acihais? A mente que vive a iso-
lar-se tem, por força, de despertar o temor, e daí o vaguearmos
de uma autoridade para outra, de uma exaustão emocional para
outra; e nesse processo os nossos problemas nunca ficam resolvi-
dos; pelo contrário, multiplicam-se.
Ora, será possível olharmos para os nossos conflitos sem
nos valermos de autoridade alguma, quer externa, quer interna?
Por certo, pode-se ficar passivamente cônscio do conflito, sem
escolha nem condenação; isto é, uma pessoa pode estar cônscia,
não como um observador a observar a própria experiência, ou
analisar a coisa que quer destruir em si, porém cônscio com aque-
la passividade na qual o observador e a coisa observada. Nesse
estado mental veremos que os problemas são compreendidos e
resolvidos, ao passo que, se optamos pelo método ativo, com
relação a um problema, ou se o comparamos ou condenamos, só
aumentamos a resistência, e, por essa maneira, multiplicamos os
67
problemas. Esse processo de escolha está sempre operando em
todos os níveis do nosso ser, e é por isso que, em vez de diminuir-
mos os problemas, nós os aumentamos. A multiplicação dos pro-
blemas resulta do buscarmos uma solução, uma conclusão, e,
para isso, dependemos de uma autoridade, externa ou interna. A
dependência da autoridade impede-nos, com efeito, a compreen-
são de qualquer problema, que é sempre novo. Não há problema
velho; enquanto um problema é uma problema, é um desafio e,
consequentemente, novo. Os problemas são invariavelmente
projetados de nós mesmos e por conseguinte importa compreen-
dermos todo o processo de nós mesmos, prescindindo da auto-
ridade, abstendo-nos de seguir um padrão ou de pôr a mira num
exemplo, num ideal, ou num guia.
O autoconhecimento é o começo do fim de todos os con-
flitos, e é só quando cessa o conflito que pode haver criação. A
criação não pode ser verbalizada; é um estado que surge quando
cessa o processo do pensamento; só então virá a nós o incognos-
cível.
Ao considerarmos as nossas questões, façamos juntos a
viagem de exploração; procure cada um compreender a verdade
de cada problema, por si mesmo. De nada adianta esperar pela
resposta que nos agradaria ouvir, ou apegar-se a uma determina-
da opinião. Para descobrir o que é verdadeiro requer-se, sem dú-
vida, aquela vigilância passiva da mente, na qual encontramos a
capacidade de explorar cada problema profundamente.

[...] PERGUNTA: tenho muitos amigos, mas vivo num


constante temor de ser repelido por eles. Que devo fazer?
Krishnamurti: Em que consiste o problema? O problema
se refere à questão da repulsa e do temor, ou à questão da de-
pendência? Porque desejais ter amigos? Isso não significa que não
devamos ter amigos; mas, quando sentimos a necessidade de ter
amigos, quando existe essa dependência de outros, que indica
isso? Não indica insuficiência interior? A solidão não denota po-
breza interior? E como nos vemos sozinhos, interiormente pobres,
68
insuficientes, recorremos aos amigos, ao amor, à atividade, às
ideias, às posses, ao conhecimento, e à técnica. Isto é, porque
somos pobres, interiormente, dependemos das coisas exteriores;
e por esse motivo as coisas exteriores crescem de importância
para nós. Quando nos servimos de alguma coisa como meio de
fuga de nós mesmos, essa coisa se torna, evidentemente, impor-
tantíssima. Apegamo-nos às coisas, às ideias, e às pessoas, por-
que, psicologicamente, dependemos delas; e quando elas nos são
retiradas, quando, por exemplo, os nossos amigos nos repelem, fi-
camos cheios de temor. Assim, pois, a dependência denota incer-
teza interior, pobreza interior; e enquanto nos servimos ou de-
pendemos de outros, tem de haver o temor de perda.
Ora bem, pode essa solidão, essa interior pobreza ou va-
zio, ser preenchido por alguma ação da mente? Se me permitis
sugeri-lo, escutai as minhas palavras observando ao mesmo tem-
po a vossa mente, e encontrareis a resposta por vós mesmos. Eu
vou apenas descrevendo a experiência, enquanto vamos andando
juntos; mas, para também poderdes experimentar, precisais de
estar passivamente vigilante e não apenas acompanhando as mi-
nhas palavras.
Pois bem; como somos interiormente pobres, procuramos
fugir dessa pobreza, recorrendo ao trabalho, ao conhecimento, ao
amor, a muitas formas de atividade. Escutamos o rádio, lemos o
livro mais recente, cultivamos uma ideia ou uma virtude, adota-
mos uma crença — tudo fazemos para fugir de nós mesmos. Nos-
so pensar é um processo de fuga do que é; e esse vazio interior
pode, em algum tempos ser dissimulado ou preenchido? A verda-
de a esse respeito só pode ser conhecida se não fugimos — o que
é extremamente difícil. Precisamos perceber que estamos fugindo
e compreender que todas as fugas são semelhantes e que não há
fuga "nobre". Todas as fugas, desde a fuga pela embriaguez até à
fuga para Deus, são iguais, porque estamos fugindo do que é, que
somos nós mesmos, que é nossa pobreza interior. É só quando
realmente deixamos de fugir, só quando ficamos frente a frente
com o problema da solidão, da insuficiência interior, que nenhum
conhecimento, nenhuma experiência pode encobrir, só então
69
temos a possibilidade de compreendê-lo e, portanto, de dissolvê-
lo. Essa solidão, essa insuficiência interior, não é problema exclu-
sivo das pessoas que têm lazeres para observar a si mesmas; é
problema de todo o mundo, do rico e do pobre, do inteligente e
do bronco.
Ora, pode o vazio interior ser encoberto? Se já tentastes
encobri-lo e o não conseguistes, por meio de uma fuga, sabeis
então que todas as fugas são inúteis, não é verdade? Não preci-
sais trocar de método de fuga para ver que aquela insuficiência
psicológica nunca pode ser preenchida, dissimulada ou enriqueci-
da. Pela compreensão cabal de um meio de fuga, compreende-se
todo o processo da fuga, não é verdade? E que acontece então?
Fica-se no vazio, na solidão; e surge, aí, o problema sobre se essa
solidão é diferente da entidade que se sente só. De certo não é. A
verdade é que não é a entidade que se sente vazia, mas, sim, que
ela própria é o vazio. E a separação entre a entidade que se sente
vazia e o estado que ela chama "vazio", só se dá porque atri-
buímos a esse estado um nome, um termo, um rótulo. Quando
não se dá nome a esse estado, pode-se ver que não há separação
entre o observador e a coisa observada, que o observador é a
coisa observada: a insuficiência. Por outras palavras, quando não
se dá nome nem designação, ocorre a integração do expe-
rimentador com a coisa experimentada. E podemos daí continuar,
para descobrirmos se esse estado que temos querido evitar, por
ser de solidão, de insuficiência, o é realmente ou se se trata me-
ramente de uma reação à palavra "só", que suscita o temor.
É a palavra ou é o fato que desperta o temor? Um fato
qualquer é temível, ou é uma ideia a respeito do fato o que infun-
de o temor? Se observardes todo esse processo, vereis que quan-
do não há desejo de fuga ao que é, não existe temor; e há então
uma transformação do que é, porque a mente já não tem medo
de ser o que é. Nesse estado não existe o sentimento de estar só,
de ser insuficiente: é o que é. Se continuardes a aprofundar-vos,
vereis que a mente não mais rejeita ou aceita aquele estado, e
está, por conseguinte, tranquila; e só então é possível estar-se
livre daquilo que qualificamos de estar só ou ser insuficiente. Mas,
70
para chegar a esse ponto, precisais compreender todo o processo
da insuficiência interior, da fuga e da dependência. Precisais ver
como a fuga e o meio de fuga se tornam muito mais importantes
do que a coisa de que estais fugindo; precisais descobrir essa divi-
são entre o ser o pensante e a condição que ele chama estar só, e
descobrir por vós mesmos se é meramente um estado verbal ou
se é um estado real. Se é verbal, então persistirá a separação.
Mas, se lhe não dais nome, fica só aquele estado que não mais
chamais estar só; e só então tem a mente a possibilidade de supe-
rá-lo, para fazer novos descobrimentos.
Por que não te satisfaz a vida, 1950


[...] PERGUNTA: Todos temos tido a experiência do isola-
mento, conhecemos suas tristezas e percebemos suas causas,
suas raízes. Mas que é “estar só”? É diferente do isolamento?

Krishnamurti: Isolamento é a dor, a agonia da solidão, o


estado em que vós e eu, como entidades, não nos ajustamos a
coisa alguma, — seja o grupo, a nação, a esposa, os filhos, o mari-
do, vemo-nos segregados de todos os demais. Vós conheceis esse
estado. Mas conheceis o “estar só”? Presumis que estais sós, mas
estais realmente sós?
O “estar só” é diferente do isolamento, mas não podeis
compreendê-lo, se não compreenderdes o isolamento. Conheceis
o estado de isolamento? Vós o tendes observado sub-
repticiamente, o tendes olhado com aversão. Para o conhecerdes
bem, precisais entrar na sua intimidade, sem barreira alguma de
permeio, sem conclusão, sem preconceito ou especulação; deveis
chegar-vos com liberdade e não com temor. Para compreender o
isolamento precisamos ir ao seu encontro sem nenhum sentimen-
to de temor. Se nos chegamos, dizendo que já lhe conhecemos as
causas, as raízes, não podemos compreendê-lo. Conheceis as raí-
zes do isolamento? Só as conheceis teoricamente, do exterior.

71
Conheceis a essência íntima do isolamento? Fazeis, apenas, uma
descrição dela, mas a palavra não é a coisa, não é o real. Para o
compreenderdes, tendes de chegar-vos sem nenhuma intenção
de fuga. A simples ideia de fugir ao isolamento é em si uma forma
de insuficiência interior. A maioria de nossas atividades não são
evasões? Quando vos sentis só, ligais o rádio, executais pujas, saís
em busca de gurus, conversais com amigos, ides ao cinema, às
corridas, etc. Vossa vida de cada dia é um fugir de vós mesmos, e
por isso todos os meios de fuga se tornam importantíssimos e
competis uns com os outros por causa deles — quer se trate da
bebida ou de Deus. A fuga é que constitui o problema, embora
tenhamos diferentes maneiras de fugir. Podeis causar malefícios
imensos, psicologicamente, com as vossas fugas respeitáveis, e eu
sociologicamente, com minhas fugas mundanas; mas, para se
compreender a solidão, todas as fugas devem cessar — não por
meio de coerção, de compulsão, mas com o perceber a falsidade
da fuga. Estais então em confronto direto com o que é, e aí come-
ça o verdadeiro problema.
Que é o isolamento? Para o compreenderdes, não lhe de-
veis dar nome. O simples dar nome, a simples associação do pen-
samento com outras lembranças dele, acentuam mais ainda o
isolamento. Experimentai-o, e vereis. Quando tiverdes desistido
de fugir, vereis que, enquanto não compreenderdes o que é o
isolamento, tudo o que fizerdes por sua causa é sempre um modo
de fugir a ele. Só compreendendo o isolamento sois capaz de o
transcender.
A questão do “estar só” é inteiramente diferente. Nunca
estamos sós; estamos sempre em companhia de outras pessoas, a
não ser, talvez, quando damos passeios solitários. Somos o resul-
tado de um “processo” total, constituído de influências econômi-
cas, sociais, climáticas, e outras; e enquanto vivermos sujeitos a
tais influências, não estaremos sós. Enquanto houver o “processo”
da acumulação e da experiência, nunca será possível “estarmos
sós”. Podeis imaginar que estais só, quando vos isolais por meio
de estreitas atividades individuais e pessoais; mas isso não é “es-
tar só”. Só é possível “estar só”, quando não existe influência al-
72
guma. “Estar só” é ação que não é o resultado de uma reação, que
não é resposta a desafio ou estímulo. O isolamento é um processo
de exclusão, e nós procuramos o isolamento em todas as nossas
relações, sendo esta a verdadeira essência do “eu” — meu traba-
lho, minha natureza, meu dever, minha propriedade, minhas rela-
ções. O próprio processo do pensamento, que é o resultado de
todos os pensamentos e influências do homem, conduz ao isola-
mento. Compreender o isolamento não é um ato burguês; não
podeis compreendê-lo enquanto houver em vós a dor daquela
insuficiência não revelada que acompanha o sentimento de vazio
e frustração. “Estar só” não é isolamento, e não é, tampouco, o
seu oposto; é um “estado de ser” em que há completa ausência
da experiência e do conhecimento.

[...] PERGUNTA: Tendes falado das relações baseadas na


utilização de outra pessoa, para satisfação própria, e tendes alu-
dido frequentemente a um estado que se denomina amor. Que
entendeis por amor?

Krishnamurti: Sabemos o que são as nossas relações —


satisfação e utilização mútuas, ainda que as disfarcemos com o
nome de amor. Na utilização de uma coisa há ternura para com
ela e o cuidado de protegê-la. Protegemos nossas fronteiras, nos-
sos livros, nossa propriedade; de modo idêntico, temos o cuidado
de proteger nossas esposas, nossos filhos, nossa sociedade, por-
que, sem eles, ver-nos-íamos sós, perdidos. Privados do filho,
ficam os pais desolados; o que não sois, vosso filho será, e vosso
filho se torna, assim, um instrumento de vossa vaidade. Conhe-
cemos as relações de necessidade e de utilização. Necessitamos
do estafeta dos correios, e ele necessita de nós, — mas não dize-
mos que amamos o estafeta dos correios. Mas dizemos que ama-
mos nossas esposas e nossos filhos, embora nos sirvamos deles
para nossa satisfação pessoal e estejamos prontos a sacrificá-los à
vaidade de sermos chamados patriotas. Conhecemos muito bem
esse “processo” — e, evidentemente, isso não pode ser amor. O

73
amor que utiliza, que explora, e depois se lamenta, não pode ser
amor, porque o amor não é uma coisa da mente.
Vamos, pois, “experimentar” e descobrir o que é o amor;
descobrir, não apenas verbalmente, mas “experimentando” real-
mente aquele estado. Quando vos servis de mim como vosso gu-
ru, e eu me sirvo de vós como meus discípulos, há exploração de
parte a parte. De modo idêntico, quando vos utilizais de vossa
esposa e vossos filhos, para conveniência própria, há exploração.
Isso, sem dúvida, não é amor. Quando há utilização, há posse; a
posse, invariavelmente, gera o temor, e com o temor vem o ciú-
me, a inveja, a suspeição. Quando há utilização, não pode haver
amor, porque o amor não é coisa da mente. Pensar numa pessoa
não significa amar essa pessoa. Pensais numa pessoa só quando
ela não está presente, quando morreu, quando fugiu do vosso
lado, ou quando não vos dá o que dela desejais. É aí que a vossa
insuficiência interior põe em operação o “processo” da mente.
Quando aquela pessoa está perto de vós, não pensais nela; pensar
nela, quando presente, significa estar perturbado; e, por isso,
consideramos a sua presença como coisa muito natural. O hábito
é um meio de esquecer, de se estar em paz, a salvo de perturba-
ções. A utilização, pois, conduz invariavelmente à invulnerabilida-
de, e isso não é amor.
Que estado é aquele em que a utilização — que é “pro-
cesso” de pensamento, como meio de encobrir a insuficiência
interior, positiva ou negativamente — não existe? Que estado é
aquele em que não existe o intuito de satisfação? A busca de sa-
tisfação é a própria natureza da mente. O sexo é sensação, criada,
pintada, pela mente; e então a mente age ou se abstém de agir. A
sensação é um processo de pensamento, que não é amor. Quando
a mente predomina e tão importante é o processo do pensamen-
to, não existe amor. Esse “processo” de utilização, de pensar,
imaginar, prender, fechar, rejeitar, é só fumo; e quando não existe
o fumo, está viva a chama do amor. Às vezes temos essa chama,
rica, cheia, completa; mas a fumaça volta, porque não podemos
viver muito tempo com a chama, que não nos dá nenhum senti-
mento de proximidade, seja de um só, seja de muitos, pessoal, ou
74
impessoal. Quase todos nós temos conhecido ocasionalmente o
perfume do amor e a sua vulnerabilidade; mas a fumaça do uso,
do hábito, do ciúme, da posse, do contrato e da quebra do contra-
to — se tornou importante para nós, e por isso não existe a chama
do amor. Quando existe a fumaça, não existe a chama; mas quan-
do compreendemos a verdade sobre a utilização, a chama existe.
Servimo-nos de um outro, porque, interiormente, somos pobres,
insuficientes, mesquinhos, pequenos, solitários; e esperamos,
com a utilização de outra pessoa ter uma possibilidade de fuga.
Do mesmo modo, servimo-nos de Deus como meio de fuga. O
amor de Deus não é o amor da verdade; amar a verdade é um
simples meio de nos servirmos dela para alcançarmos alguma
outra coisa que conhecemos, e por conseguinte há sempre o re-
ceio pessoal de perdermos algo que conhecemos.
Conhecereis o amor quando vossa mente estiver muito
tranquila e livre da busca de satisfação e das fugas. Em primeiro
lugar, a mente precisa acabar de todo. A mente é resultado do
pensamento, e o pensamento é simples passagem, meio que con-
duz a um fim. Quando a vida é mera passagem para alguma coisa,
como pode existir o amor? Nasce o amor quando a mente está
quieta, naturalmente, e não quando a fizemos quieta, — quando
percebe o falso como falso e o verdadeiro como verdadeiro.
Quando a mente está tranquila, então, tudo o que sucede é ação
do amor, não é ação do conhecimento. Conhecimento é mera
experiência, e experiência não é amor. A experiência não pode
conhecer o amor. Vem o amor à existência, quando compreen-
demos o processo total de nós mesmos, e a compreensão de nós
mesmos é o começo da sabedoria.

[...] PERGUNTA: Nossas vidas são vazias de todo impulso


genuíno de bondade, e procuramos preencher esse vazio com a
caridade organizada e a justiça compulsória. O sexo é a nossa vida.
Podeis lançar alguma luz nesta questão desagradável?

Krishnamurti: Traduzindo a pergunta: Nosso problema é


que nossas vidas são vazias e não conhecemos o amor; conhece-
75
mos sensações, conhecemos propaganda, conhecemos exigências
sexuais, mas amor não existe. E como há de ser transformado
esse vazio, como havemos de encontrar aquela chama sem fuma-
ça? A questão é esta, de certo — não achais? Vamos, pois, ver se
descobrimos juntos a verdade nela contida.
Por que são vazias as nossas vidas? Embora vivamos mui-
to ativos, embora escrevamos livros e visitemos os cinemas, em-
bora joguemos, e amemos, e frequentemos o escritório, são vazi-
as as nossas vidas, enfadonhas, pura rotina. Por que são tão sem
valor, tão vazias e pouco significativas as nossas relações? Conhe-
cemos suficientemente as nossas vidas, para saber que nossa exis-
tência tem muito pouca significação; citamos frases e ideias
aprendidas — o que fulano disse, o que disse o mahatma, o que
disseram os santos mais modernos, o que disseram os antigos
santos. Se não é um guia religioso, é um guia político ou intelectu-
al que seguimos, — Marx, Adler, ou o Cristo. Somos discos de
gramofone, repetindo sempre, e essa repetição chamamos “sa-
ber”. Aprendemos, repetimos, e nossas vidas continuam as mes-
mas: desvaliosas, enfadonhas, sem beleza. Por quê? Por que é
assim? Se vós e eu fizermos realmente esta pergunta a nós mes-
mos, não encontraremos a resposta? Por que temos atribuído
tanto valor às coisas da mente? Por que se tornou a mente tão
importante em nossas vidas — a mente, isto é, as ideias, o pen-
samento, a capacidade de racionalizar, de pesar, equilibrar, calcu-
lar? Por que temos atribuído tanta importância à mente? — o que
não significa que nos tornemos emotivos, sentimentais e lacrimo-
sos. Conhecemos esse vazio, conhecemos esse extraordinário
sentimento de frustração; e por que existe em nossas vidas essa
falta de profundidade, esse sentimento de negação? Isso, de cer-
to, só podemos compreender pela vigilância, nas relações.
Que está sucedendo realmente em nossas relações? Nos-
sas relações não são auto-isolamento? Toda atividade da mente
não é um processo de proteger, de buscar segurança, de isola-
mento? Aquele mesmo pensar que chamamos coletivo não é
também um processo de isolamento? Toda ação, em nossa vida,
não é um processo de auto-enclausuramento? Podeis observá-lo
76
pessoalmente, em vossa vida diária, não podeis? A família se tor-
nou um processo de isolamento; e, estando isolada, só pode exis-
tir em oposição. Assim, todas as nossas ações conduzem ao auto-
isolamento, o qual gera o sentimento de vazio; e, vazios que es-
tamos, tratamos de preencher o vácuo com programas de rádio,
com barulho, tagarelice, mexericos, com leituras, estudos, com a
respeitabilidade, o dinheiro, a posição social, etc. etc. Mas tudo
isso faz parte do processo de isolamento, e por essa razão só tor-
na mais forte o isolamento. Assim, para a maioria de nós, a vida é
um processo de isolamento, de negação, resistência, conformida-
de a um padrão; e, naturalmente, nesse processo não há vida, e
daí o sentimento de vazio, o sentimento de frustração. Ora, amar
uma pessoa é estar em comunhão com ela, não num determinado
nível, mas de maneira completa, integral, profusa; mas nós não
conhecemos tal amor. Só conhecemos o amor como sensação —
meus filhos, minha esposa, minha propriedade, meu saber, minha
realização; e isso, mais uma vez, é um processo de isolamento,
não achais? Nossa vida conduz à exclusão, em todos os sentidos, é
um movimento de auto-envolvimento, do pensamento e do sen-
timento, e só esporadicamente estamos em comunhão com ou-
tro. Eis porque existe esse enorme problema.
Bem, é esta a condição atual de nossas vidas — respeita-
bilidade, posses, e vazio — e a questão é de como transcender
esse estado. Como havemos de transcender essa solidão, esse
vazio, essa insuficiência, essa pobreza interior? Não me parece
que desejamos isso, os mais de nós. Estamos satisfeitos com o que
somos; dá muito trabalho procurar uma coisa nova, e por isso
preferimos ficar como estamos — e aí é que está a verdadeira
dificuldade. Temos tantas garantias, levantamos muralhas em
torno de nós, com as quais estamos satisfeitos; e ocasionalmente
ouve-se um murmúrio do lado de fora da muralha, ocasionalmen-
te sobrevêm um terremoto, uma revolução, uma perturbação que
logo abafamos. Nessas condições, não desejamos, os mais de nós,
sair do “processo” de auto-enclausuramento; o que procuramos é
só substituição, a mesma coisa sob forma diferente. Nossa insatis-
fação é tão superficial; queremos uma coisa nova que nos traga
77
satisfação, uma nova garantia, uma nova maneira de proteger-nos
— o que, mais uma vez, é o “processo” do isolamento. Estamos,
com efeito, procurando não sair do isolamento, mas fortalecer o
isolamento, torná-lo permanente e à prova de perturbações. Só
muito poucos indivíduos se dispõem a romper e a ver o que existe
fora dessa coisa que chamamos vazio, solidão. Os que buscam um
substituto para o seu velho abrigo ficarão satisfeitos com a desco-
berta de algo que lhes ofereça uma nova segurança; mas há de
haver alguns que desejarão sair desse estado, prossigamos, pois,
em sua companhia.
Ora, para se sair do estado de solidão, de vazio, precisa-
mos compreender todo o processo da mente, não achais? Que é
isso que chamamos solidão, vazio? Como sabemos que é vazio
esse estado, como sabemos que é solitário? Qual a medida pela
qual verificamos que ele é “isto” e não “ aquilo”? Compreendeis o
problema? Quando dizeis que ele é solitário, que ele é vazio, qual
a vossa medida? Como sabeis que é vazio? Só o podeis saber pela
medida do velho. Dizeis que ele é vazio, dais-lhe nome, e pensais
tê-lo compreendido. O dar nome a uma coisa não é justamente
um obstáculo à sua compreensão? Ora, senhores, os mais de nós
sabemos o que é essa solidão, não é verdade? — essa solidão da
qual estamos sempre procurando um meio de fugir. Os mais de
nós estamos cônscios dessa pobreza interior, dessa insuficiência
interior. Ela não é urna reação incompleta, é um fato, e com lhe
darmos um nome qualquer, não podemos dissolvê-la — ela conti-
nua a existir. Pois bem, como conhecer o seu conteúdo, como
conhecer a sua natureza? Conheceis alguma coisa com lhe dar um
nome? Vós me conheceis, chamando-me por um nome? Só podeis
conhecer-me, observando-me, estando em comunhão comigo;
mas o chamar-me por um nome, o dizer que eu sou isto ou aquilo,
isso, evidentemente, põe fim à comunhão comigo. De modo idên-
tico, para se conhecer a natureza daquela coisa chamada solidão,
é preciso haver comunhão com ela; e a comunhão não é possível
se lhe dais nome. Para se compreender algo, a primeira coisa de
que devemos desistir é o dar nome. Se desejais compreender o
vosso filho verdadeiramente — do que duvido — que fazeis? Vós
78
o olhais, o vigiais, quando brinca, o observais, o estudais, não é
verdade? Por outras palavras, vós amais aquilo que desejais com-
preender. Quando amais uma coisa qualquer, naturalmente há
comunhão com ela; mas o amor não é uma palavra, um nome, um
pensamento. Não podeis amar aquilo que chamais solidão porque
não estais plenamente cônscio dela, vós vos aproximais com me-
do — não dela, mas de outra coisa. Ainda não pensastes a respei-
to da solidão, porque não desejais saber realmente o que ela é.
Senhores, não sorriais, isto não é um argumento sutil. Experimen-
tai a coisa, enquanto falamos, e vereis a sua significação.
Assim, aquilo a que chamamos o vazio é um processo de
isolamento, o qual é o produto das relações de cada dia; porque,
nas relações, estamos sempre, consciente ou inconscientemente,
buscando a exclusividade. Desejais ser o dono exclusivo de vossa
propriedade, de vossa esposa ou marido, de vossos filhos, desejais
dar à coisa ou à pessoa o nome de “meu” , o que obviamente
significa aquisição exclusiva. Esse processo de exclusão deve inevi-
tavelmente conduzir a um sentimento de isolamento, e uma vez
que nada pode viver no isolamento, existe conflito; e desse confli-
to tentamos fugir. Todas as formas concebíveis de fugir — ativida-
des sociais, o beber, a busca de Deus, o puja, a execução de ceri-
mônias, a dança e outros divertimentos — estão no mesmo nível;
e se percebemos, na vida diária, esse processo total da fuga do
conflito, e desejamos sair dele, precisamos compreender as nos-
sas relações. Só quando a mente não está fugindo, de alguma
maneira, é possível estar em comunhão direta com aquela coisa a
que chamamos solidão; e para entrarmos em comunhão com ela,
há necessidade de afeição, há necessidade de amor.
Por outras palavras: precisamos amar a coisa, para a com-
preendermos. O amor é a única revolução; e o amor não é uma
teoria, não é uma ideia, ele não segue nenhum livro nem nenhum
padrão de conduta social. Nestas condições, a solução do proble-
ma não pode ser encontrada em teorias, que só servem para criar
mais isolamento; ela só pode ser encontrada quando a mente,
que é pensamento, não está procurando uma fuga da solidão. A
fuga é um processo de isolamento, e a verdade contida na ques-
79
tão é que só pode haver comunhão quando existe o amor; e só
então é que o problema da solidão está resolvido.

[...] A FELICIDADE não é uma coisa que se conquiste, pela


posição, pelo prestígio, não é acessível por nenhum meio. Dize-
mo-nos felizes quando temos dinheiro, posição, ou quaisquer
meios de proporcionar-nos sensações; mas isso, positivamente,
não é felicidade. A felicidade é um “estado de ser” no qual não
existe dependência; porque sempre que há dependência há te-
mor, e o homem que tem medo nunca pode ser feliz, por melhor
que disfarce o seu temor. Só há felicidade na liberdade, e há ne-
cessidade de virtude, para a liberdade. Um homem não virtuoso
nunca pode ser livre, porque sua mente é confusa. Vemos, pois,
que a compreensão do fato significa estar livre desse fato, e o
estar livre do fato é virtude. Só quando há liberdade pode haver
descobrimento, e a liberdade não está no fim, porém no começo.
A verdade não é algo que está distante: ela tem de ser descoberta
imediatamente, logo no primeiro passo. Para se descobrir a ver-
dade imediatamente necessita-se liberdade, que significa a com-
preensão do fato, a qual é virtude.

[...] VERIFIQUEMOS qual é a situação do indivíduo na so-


ciedade, se o indivíduo pode contribuir para uma transformação
radical da sociedade; se a entidade transformada, o ser humano
inteligente que logrou transformar-se fundamentalmente, tem
alguma influência, se pode atuar de alguma maneira na corrente
dos acontecimentos; ou se o indivíduo de que falo, a entidade
transformada, nada pode fazer, ele próprio, mas pode, pela mera
circunstância de sua existência, injetar alguma espécie de ordem
na sociedade, na corrente do caos e da confusão. Vemos como no
mundo inteiro a ação em massa obviamente produz resultados.
Percebendo isso, vem-nos o sentimento de que a ação individual é
muito insignificante, que vós e eu, ainda que transformemos a nós
mesmos, muito pouca influência podemos ter; e, assim, pergun-
tamo-nos o que valemos nós, uma vez que somos impotentes
para influir na corrente.
80
Ora, por que pensamos com referência à massa? As revo-
luções fundamentais são produzidas pela massa, ou são elas inici-
adas por uns poucos indivíduos de visão que, pelo seu verbo e sua
energia, influenciam grande número de pessoas? É assim que
nascem as revoluções. Não é um erro julgar que nós, como indiví-
duos, nada podemos fazer? Não é um engano supor que todas as
revoluções fundamentais são produzidas pela massa? Por que
pensamos que os indivíduos não têm importância como indiví-
duos? Como tal atitude mental, nunca pensaremos por nós mes-
mos, e reagiremos sempre automaticamente. A ação é sempre da
massa? Ela não brota, essencialmente do indivíduo, comunicando-
se, depois, de indivíduo a indivíduo? Não existe realmente essa
coisa chamada massa. Afinal de contas, a massa é uma entidade
constituída de pessoas que estão enredadas, hipnotizadas por
palavras, por certas ideias. Quando não estamos hipnotizados por
palavras, estamos à margem da corrente — coisa de que nenhum
político haveria de gostar. Não deveríamos mantermos à margem
da corrente e tirar dela outros indivíduos, em número crescente,
para, dessa maneira, influir na corrente! Não importaria muito
que se realizasse uma transformação fundamental no indivíduo,
em primeiro lugar, que antes de tudo vós e eu nos transformemos
radicalmente, em vez de esperarmos que todo o mundo se trans-
forme? Não é um ponto de vista “escapista” , uma forma de indo-
lência, uma maneira de fugir ao problema, pensar que vós e eu
somos incapazes de influir, por pouco que seja, na sociedade co-
mo um todo?
Quando vemos tanto sofrimento, não apenas em nossas
vidas, mas também na sociedade que nos cerca, que é que nos
impede de nos transformarmos, de nos modificarmos fundamen-
talmente? Será simples hábito, letargia, qualidade da mente, que
está satisfeita com o padrão em que se acha encerrada e não de-
seja quebrá-lo? De certo, não é apenas isso, porque circunstâncias
econômicas quebram aquele padrão; entretanto, persiste o pa-
drão interior, o padrão psicológico. Por que persiste ele? Para nos
transformarmos fundamentalmente, radicalmente, teremos ne-
cessidade de alguma influência ou força exterior — como o sofri-
81
mento, a revolução econômica ou social, ou um guru — isto é,
teremos necessidade de compulsão? Uma força exterior implica
conformismo, dependência, compulsão, temor. Modificamo-nos
fundamentalmente pela dependência? Não é um estorvo o de-
pendermos, para nossa transformação, de forças exteriores, co-
moções econômicas, etc.? Essa dependência de uma força exteri-
or impede a revolução radical, porque a revolução radical só pode
vir quando compreendermos o processo total de nós mesmos. Se,
para a transformação, dependemos de uma força exterior de
qualquer espécie, introduzimos o temor e outros fatores que im-
pedem a transformação. Um homem que deseja deveras a trans-
formação, não depende de nenhuma força exterior, não há luta
em seu interior; ele percebe a necessidade e se transforma.

[...] PERGUNTA: Dizeis que os gurus são desnecessários,


mas como posso eu encontrar a verdade, sem a sábia ajuda e ori-
entação que só um guru pode dar ?

Krishnamurti: A questão é se um guru é necessário ou


não. Pode a verdade ser encontrada por intermédio de outra pes-
soa? Dizem alguns que pode, outros dizem que não. Tratando-se
de uma questão importante, espero que presteis bastante aten-
ção. Queremos conhecer a verdade a esse respeito, e não a minha
opinião, em oposição à opinião de outra pessoa. Não tenho opini-
ão nesta matéria. Ou é, ou não é. Se é essencial que tenhais ou
que não tenhais um guru, isso não é uma questão de opinião. A
verdade, neste caso, não depende de opinião alguma, por mais
profunda, erudita, popular, universal, que seja. A verdade contida
nesta questão precisa ser descoberta na sua realidade.
Em primeiro lugar, porque desejamos um guru? Dizemos
que necessitamos um guru porque estamos confusos, e o guru
ajuda: ele indicará o que é a verdade, ajudar-nos-á a compreen-
der, conhece a vida muito melhor do que nós, procederá como
um pai, como um preceptor que nos instruirá na vida; tem uma
vasta experiência, e nós muito pouca; ele nos ajudará em virtude
de sua maior experiência, etc. etc. Isto é, basicamente, procura-
82
mos um instrutor porque estamos confusos. Se tivéssemos clareza
não nos aproximaríamos de um guru. É claro que, se fôsseis pro-
fundamente felizes, se não houvesse problemas, se compreendes-
seis a vida completamente, não iríeis a nenhum guru. Espero que
percebais a importância que isso tem. Porque estais confuso, vós
buscais um instrutor. Ides a ele, para que vos dê um método de
viver, para que dissipe a vossa confusão, vos faça achar a verdade.
Escolheis um guru porque estais confuso, e esperais que ele vos
dê o que lhe pedis. Isto é, escolheis um guru que satisfaça o vosso
desejo; escolheis de acordo com a satisfação que dele esperais, e
vossa escolha depende da satisfação que desejais. Não escolheis
um guru que diga: “dependei de vós mesmo”; vós o escolheis em
conformidade com vossos preconceitos. Assim, uma vez que esco-
lheis um guru de acordo com a satisfação que ele vos dá, não es-
tais em procura da verdade, mas de um caminho para sairdes da
confusão; e esse caminho é chamado erroneamente a verdade.
Examinemos primeiro essa ideia de que um guru pode
dissipar a nossa confusão. Pode alguém dissipar a nossa confusão
— essa confusão que é o produto de nossas próprias reações? Nós
a criamos. Pensais que outra pessoa a criou — criou esta miséria,
esta batalha que se trava em todos os níveis da existência, interior
e exteriormente? Ela é o resultado de nossa própria falta de co-
nhecimento de nós mesmos. Porque não compreendemos a nós
mesmos, nossos conflitos, nossas reações, nossas misérias, dirigi-
mo-nos a um guru que, segundo pensamos, nos ajudará a livrar-
nos daquela confusão. Só podemos compreender a nós mesmos
em relação com o presente; e essa relação é o próprio guru, e não
alguém de fora. Se não compreendo essa relação, tudo o que um
guru diga é fútil; porque, se não compreendo as relações, minhas
relações com a propriedade, com pessoas, com ideias, como pos-
so resolver o conflito que há no meu íntimo? Para resolver esse
conflito, eu próprio preciso compreendê-lo, o que significa que
preciso estar cônscio de mim mesmo, nas minhas relações. Para
estarmos cônscios, não temos necessidade de nenhum guru. Se
não conheço a mim mesmo, que utilidade tem um guru? Assim
como um guia político é escolhido pelos que estão em confusão e
83
que, portanto, escolhem confusamente, assim também escolho
um guru. Só posso escolhê-lo de acordo com minha confusão; por
consequência, ele, tal como o guia político, é confuso.
O que importa, pois, não é quem tem razão — se eu te-
nho razão ou se têm razão os que dizem que o guru é necessário;
mas descobrir porque necessitamos de um guru, isso é que é im-
portante. Os gurus existem para a exploração, sob várias formas
— mas não estamos tratando disso agora. Agrada-vos ter alguém
que fale do progresso que estais fazendo. Mas descobrir por que
necessitamos um guru, aí é que está a solução. Outros podem
indicar o caminho; mas vós tendes de fazer o esforço sozinho,
ainda que tenhais um guru. Porque não desejais enfrentar esse
trabalho, passais a responsabilidade ao guru. O guru se torna su-
pérfluo quando há uma parcela de autoconhecimento. Nenhum
guru, nenhum livro, nenhuma escritura pode dar-vos o autoco-
nhecimento: ele vem quando estais cônscios de vós mesmo em
vossas relações. Ser é estar em relação; a falta de compreensão
das nossas relações significa miséria, luta. O desconhecimento de
nossa relação com a propriedade é uma das causas de confusão.
Se não conheceis vossa verdadeira relação com a propriedade, é
inevitável o conflito, e, daí, maior conflito na sociedade. Se não
compreendeis as relações entre vós e vossa esposa, entre vós e
vosso filho, como pode uma outra pessoa resolver o conflito resul-
tante dessas relações? A mesma coisa acontece com respeito às
ideias, às crenças, etc. Como estais confuso em vossas relações
com os outros, com a propriedade, com as ideias, procurais um
guru. Se ele for um verdadeiro guru, dir-vos-á que deveis com-
preender a vós mesmo. Sois a fonte de todo desentendimento e
confusão; e só podeis resolver esse conflito quando compreendeis
a vós mesmo em vossas relações.
Não podeis achar a verdade por intermédio de ninguém.
Como o podeis? A verdade, de certo, não é uma coisa estática;
não tem morada fixa; não é um fim, um alvo. Pelo contrário, é
viva, dinâmica, ativa, cheia de vitalidade. Como pode ser um fim?
Se a verdade fosse um ponto fixo, não seria a verdade; seria mera
opinião. Senhor, a verdade é o desconhecido, e a mente que pro-
84
cura a verdade nunca a achará. Porque a mente está constituída
do conhecido, é resultado do passado, produto do tempo — e isso
podeis observar por vós mesmo. A mente é o instrumento do
conhecido e, por consequência, não pode achar o desconhecido;
só pode mover-se do conhecido para o conhecido. Quando a men-
te procura a verdade, a verdade de que leu nos livros, essa “ver-
dade” é uma auto-projeção; porque em tal caso, a mente está
apenas em busca do conhecido, um conhecido mais agradável do
que o anterior. Quando a mente procura a verdade, está em pro-
cura de sua própria projeção, e não da verdade. Afinal de contas,
todo ideal é auto-projeção; é fictício, irreal. O que existe realmen-
te é o que é, e o oposto não existe. Mas uma mente que busca a
realidade, que busca a Deus, está em busca do conhecido. Quan-
do pensais em Deus, vosso Deus é “projeção” do vosso próprio
pensamento, resultado de influências sociais. Só se pode pensar
no conhecido; não podeis pensar no desconhecido; não podeis
concentrar-vos na verdade. No momento em que pensais no des-
conhecido, ele não é mais que o conhecido, de vós mesmo proje-
tado. Assim, Deus, ou a verdade, não podem ser pensados. Se
pensais nela, não é a verdade. A verdade não pode ser procurada;
ela vem a nós. Só podemos procurar o que é conhecido. Quando a
mente não é torturada pelo conhecido, pelos efeitos do conheci-
do, só então pode a verdade revelar-se. A verdade se encontra em
cada folha, em cada lágrima; ela tem de ser conhecida momento
por momento. Ninguém vos pode levar à verdade; e se alguém
vos guia, só pode levar-vos ao conhecido.
A verdade só pode manifestar-se na mente que está livre
do conhecido. Ela surge num estado em que o conhecido está
ausente, não funciona. A mente é o depósito do conhecido, o
resíduo do conhecido; e para que a mente esteja naquele estado
no qual o desconhecido se manifesta, tem de estar cônscia de si
mesma, de suas experiências anteriores, tanto conscientes como
inconscientes, das suas respostas, reações, da sua estrutura.
Quando há autoconhecimento completo, o conhecido termina, e a
mente fica completamente vazia do conhecido. Só então a verda-
de pode vir a vós, sem ter sido chamada. A verdade não vos per-
85
tence, nem a mim. Não podemos adorá-la. No momento em que a
conhecemos, ela é irreal. O símbolo não é real, a imagem não é
real; mas quando há compreensão do “eu” , desaparecimento do
“eu” , desponta então a eternidade.

[...] O INTERROGANTE deseja saber como é que eu posso


compreender e ajudar os que têm de ganhar dinheiro para sus-
tentar suas famílias. Em outras palavras, o interrogante diz: “Vós
não tendes família. Não tendes de suportar a rotina diária da es-
cola e ser desrespeitado pelos alunos. Não tendes de sujeitar-vos
às impertinências de uma esposa. Portanto, como podeis compre-
ender-me, a mim, que tenho de enfrentar todos esses horrores
diariamente?”
Compreendo, talvez porque seja muito simples, e bem
pode ser que vós não compreendais. Pode ser que não estejais
vendo a coisa na sua verdadeira fisionomia. Quando passais por
essa agitação, que são os vossos deveres diários, de que maneira
o fazeis? Por que vos sujeitais à rotina do escritório? Vós o cha-
mais uma responsabilidade, um dever. Por que vos sujeitais a
coisas detestáveis, na vida? Por que suportais vossa esposa e fi-
lhos ou por que os amais — se é que os amais? Senhor, pensai
bem nisso, sozinho. Não me respondais. Não riais. Esta é uma das
maneiras mais fáceis de afastarmos uma coisa — pilheriando a
respeito dela. Aparentemente, vossa esposa e vossos filhos não
passam para vós, de um dever, uma responsabilidade, e por isso
achais a vida enfadonha e vazia. E eu vos pergunto: por que vos
sujeitais a tudo isso? Dizeis: “Não posso evitá-lo. É impossível fugir
a essa situação. Eu gostaria de livrar-me dela, mas a sociedade
condenaria esse ato. Que seria dos meus filhos, da minha esposa,
do meu marido?”. Assim, dizeis que é o vosso karma, o vosso
dever, a vossa responsabilidade, e adiais a solução do problema.
Não desejais ver a coisa tal como é. Só pensando nela a fundo,
sem receio, só enfrentando-a diretamente, podereis ver que há
uma relação diferente com vossa esposa, com vosso filho. Senhor,
é porque não amais vossa esposa e vossos filhos, que a vida em
família se vos tornou horrível. Fizestes do sexo um problema for-
86
midável, porque em vós não há nenhuma outra relação, mental,
emocional, moral. Estais tolhido pela vossa religião, pela socieda-
de e a única outra possibilidade de alívio é o bom êxito; e, vendo-
vos preso, atado, e amarrado, vós vos rebelais; desejais ser livre,
mas não o sois. Essa é a contradição, e por isso lutais, o que é de
todo inútil. E, afinal, por que temos de viver na rotina de um escri-
tório, para ganhar dinheiro, para termos uma ocupação? Senhor,
já procurastes alguma vez não fazer coisa alguma, renunciar de
fato, não calcular? Vereis, então, que a vida vos nutrirá. Mas a
renúncia com cálculo não é renúncia. A renúncia com um fim em
vista, o renunciar com o fim de encontrar Deus, é mero desejo de
domínio. Não é renúncia. Ao renunciar, não devemos dar atenção
ao dia de amanhã. Mas, como sabeis, não ousamos pensar assim.
Somos personalidades respeitáveis. Somos espíritos cultos. Faze-
mos um jogo duplo. Não sendo sinceros com nós mesmos, não o
somos para com nossas famílias, nossos filhos, a sociedade. Inte-
riormente incertos, inseguros, agarramo-nos às coisas exteriores,
ao emprego, à esposa, ao marido, aos filhos, que se tornam meios
de satisfação. Preciso de alguém ao meu lado, para me animar, —
em geral a esposa ou o marido. Utilizamos, pois, outra pessoa
para nossa própria satisfação. Tudo isso, por certo, não é muito
difícil de compreender. Só é difícil quando só examinais o lado
superficial. A maioria de nós não deseja investigar a fundo essas
questões, e por isso procura delas fugir. Senhor, a pessoa que
foge, que evita olhar o que é, nunca encontrará a realidade. A
pessoa religiosa é aquela que vê diretamente o que é, que não
procura a realidade fora do que é. A realidade está em vossas
relações com esposa e filhos, na maneira como ganhais o vosso
dinheiro, ela não se encontra noutra parte. Não podeis ganhar
dinheiro por meios incorretos; deveis ter um meio de vida correto.
A verdade não está longe dessas coisas, e precisamos descobri-la
na atividade de cada dia; mas porque evitamos todas essas coisas,
nossa vida é cheia de aflições. Nossa vida é vazia, não tem signifi-
cação, a não ser para criar filhos, ganhar a subsistência, aprender
umas palavras sânscritas, praticar um pouco de puja. A isso cha-
mamos existência. A isso chamamos viver — uma coisa vazia, sem
87
muita significação. Por certo, o apontar-vos essas coisas não é
fugir da questão. Para a compreendermos, é claro que vós e eu
temos de a examinar. Eu não sou vosso guru; porque, se me esco-
lheis como guru, fareis de mim um novo meio de escape, e o que
escolheis na vossa confusão é também necessariamente confuso.
A verdade, pois, é uma coisa que cumpre ser descoberta instante
por instante, em cada movimento da vida. E para compreender-
mos isso, vós e eu podemos conversar a esse respeito, pensar de
maneira completa a esse respeito. Não vos estou impondo uma
coisa a que não quereis dar atenção. Estamos conversando com o
propósito de ver claramente o nosso problema, com a dignidade
de seres humanos, e não com o desejo de render adoração um ao
outro.
Assim, o que tem importância, nesta questão, é se real-
mente posso ajudar-vos a compreender a vós mesmos. Só posso
ajudar-vos, se quereis compreender a vós mesmo; se não quereis,
o problema é muito simples: não posso ajudar-vos. Isso não é nem
injusto, nem justo. É simplesmente uma coisa impossível. Mas, se
nós dois queremos compreender e, por conseguinte, temos uma
relação em que não existe temor, nem subserviência, nesse caso
tendes a possibilidade de descobrir a vós mesmo, como sois. O
que a vida de relação pode fazer é só isto: apresentar um espelho,
no qual podemos descobrir a nós mesmos; e quanto mais com-
preendemos, tanto mais tranquilidade e paz existem no espírito. E
nessa tranquilidade, nesse silêncio, manifesta-se a realidade.

[...] PERGUNTA: Paro, que serve a oração?

Krishnamurti: Para responder a esta pergunta, temos de


examiná-la de maneira completa, visto que se trata de um pro-
blema complexo. Vejamos o que se entende por oração, e desco-
briremos então para que ela serve. Que se entende por oração?
Quando é que orais? Não quando sois feliz, não quando estais
contente, não quando há alegria ou prazer em vós. Só orais quan-
do estais em confusão, quando estais em dificuldade, e então a
vossa prece é um pedido. Um homem atribulado reza, o que signi-
88
fica que está pedindo, está necessitado de ajuda. Está suplicando,
pedindo que se lhe dê conforto (risos). Não há motivo para risos.
Assim, o homem que está contente, que está feliz, o homem que
percebe a realidade com toda a clareza, e a compreende, nas ati-
vidades de cada dia — esse homem não necessita da prece. Não
rezais quando estais alegre; não rezais quando há deleite em vos-
so coração. Só rezais quando há confusão, e a vossa prece é mera
súplica, um pedido de ajuda, de conforto, de alívio. Não é assim?
Em outras palavras, estais confuso e por isso desejais que alguma
força exterior vos tire da confusão. Precisais de alguém que vos
socorra; e quanto maior a soma do elemento psicológico, no vos-
so problema, tanto mais urgente a vossa necessidade de socorro
exterior. E, assim, orais a Deus, ou, se tendes ideias modernas,
procurais um psicólogo; ou procurando libertar-vos dessa confu-
são, repetis uma infinidade de palavras.
Tomais parte em sessões de preces, onde sois pastorea-
dos como um rebanho, onde sois hipnotizados e postos num de-
terminado estado, pensando com isso ter obtido a resposta dese-
jada. Tudo isso são fatos reais. Não estou inventando nada, estou
apenas mostrando o que se contém nisso que chamais oração.
Assim como procuramos um médico, quando sofremos fisicamen-
te, assim também quando nos vemos numa confusão psicológica,
escapamo-nos para o hipnotismo coletivo, ou pedimos socorro a
alguma força exterior. Não é isso o que fazemos? Estou pensando
alto, no vosso lugar, e só isso: não vos estou impondo coisa algu-
ma. Assim, a nossa prece é dirigida, não à verdade, mas a uma
força externa, que chamamos nosso guia, guru, ou Deus. Isto é,
quando sofremos, quando nos achamos em conflito psicológico,
recorremos a alguém. É o mesmo instinto natural da criança que
corre para junto do pai, em busca de socorro. Quando não com-
preendo as minhas relações com os outros, quando estou em
confusão, chamo alguém, para socorrer-me — o que é um instinto
natural, não é verdade?
Ora, pode alguma força exterior socorrer-me? Não quero
dizer que não exista nenhuma força exterior — disso trataremos
noutra ocasião; mas, pode uma força exterior ajudar-me quando
89
tenho um problema, quando me acho em conflito, em confusão
criada por mim mesmo? Criei o conflito, em minhas relações com
a sociedade. Fiz alguma coisa que gerou o conflito. Então, natu-
ralmente, sou eu o responsável por esse conflito, e ninguém mais;
e enquanto eu não o compreender, de que vale recorrer a uma
força exterior? A força exterior pode ajudar-me a sair do conflito,
pode ajudar-me a fugir dele; mas enquanto eu não compreender
a minha confusão, criarei nova confusão. É o que estamos fazen-
do: criamos uma confusão, achamos um meio de nos livrarmos
dela, e logo mergulhamos noutra confusão. Assim, enquanto eu
não compreender o produtor da confusão, que sou eu mesmo,
enquanto eu não lançar luz nessa confusão, por mim mesmo, o
simples recorrer a uma força exterior é de muito pouca valia. Sei
que isso não vos agradará, que resistireis ao que digo, porquanto
não tendes vontade de ver as coisas tais como são; mas, eviden-
temente é necessário que eu me veja com clareza, para compre-
ender a causa da confusão. Este é um dos fatos.
Conhecemos, também, o modo simples de fugir do que é,
negando-o. Costumamos encobri-lo mediante uma recitação de
palavras, ou fugir, dirigindo-nos a uma reunião de oração coletiva.
Conhecemos bem esses vários métodos. Entrais num templo e
recitais uma infinidade de palavras; continuais recitando, e pen-
sais que vos transformais. Tendes uma resposta, achastes uma
conclusão. Isso é apenas uma maneira de fugir do problema. Não
olhastes o problema. Que acontece quando orais? Que fazeis,
quando orais? Recitais certas palavras, certas frases. Que aconte-
ce à mente quando repetis sem cessar certas orações? Pela repe-
tição de frases fazemos a mente ficar tranquila. Ela não está tran-
quila: foi posta tranquila. Há uma diferença entre a mente tran-
quila, e a mente que fazemos ficar tranquila. A mente posta tran-
quila, a poder de repetição, é compelida, hipnotizada para o silên-
cio. Ora, que acontece quando a mente é artificialmente posta
tranquila? Já pensastes nisso a fundo? Fazei-o, e vereis aonde vos
conduz. Tendes de prestar um pouco de atenção, experimentai
em vós mesmos, sem deixar-vos distrair pelos que entram e saem.
Os que se interessam queiram chegar mais para perto.
90
Ora bem, que acontece a uma mente que fazemos ficar
quieta? Isto é, tendes um problema, e desejais encontrar uma
solução. Por conseguinte, orais, o que significa repetir certas fra-
ses, e por esse meio a mente é posta tranquila. Qual a relação que
existe entre essa mente hipnotizada e o problema? Por favor,
prestai mais um pouco de atenção. Desejais uma solução para o
problema, e por conseguinte empregais, recitais monotonamente
certas palavras, com o fim de pôr a mente tranquila; isto é, dese-
jais uma solução satisfatória para o problema, uma solução que
vos agrade, e não uma solução que vos contradiga. Assim, quando
orais e fazeis a mente ficar quieta, por meio de palavras, estais em
busca de uma solução que vos proporcione satisfação. Já conce-
bestes a solução de antemão, a qual tem de ser satisfatória; por
conseguinte, encontrareis uma solução satisfatória. Vede, senhor,
a importância disso. Vós criais aquilo que desejais, amortecendo a
mente e pondo-a tranquila; forçando a mente a rezar, já determi-
nastes o que desejais: uma solução que proporcione satisfação,
tranquilidade, plena compensação. Por conseguinte, quando a
mente procura uma solução para o problema por meio da prece,
encontrará sempre uma solução satisfatória! O problema está
liquidado, portanto, e dizeis que á solução veio de Deus. Eis por-
que os chefes políticos costumam proclamar que representam
Deus, ou que Deus lhes falou diretamente: tendo-se identificado
com a nação, obtêm uma resposta satisfatória.
Assim, que acontece quando uma mente se recusa a
compreender o problema e busca a solução numa força exterior?
Consciente ou inconscientemente obtém uma solução satisfatória
— pois se o não fosse, a mente a rejeitaria. Isto é, os que oram,
estão em busca de satisfação e, por conseguinte, são incapazes de
compreender o próprio problema. Quando fazemos a mente ficar
quieta, por meio de prece, o inconsciente, que é o resíduo de nos-
sas próprias conclusões satisfatórias, se projeta em nossa mente
consciente, sendo assim atendida, a nossa prece. Vemos, pois,
que, quando oramos, estamos à procura de um meio de fuga,
estamos em busca de felicidade; e a força exterior que nos dá a

91
resposta é a nossa satisfação, nossa consciente ou inconsciente
identificação com o desejo que queremos satisfazer.
Tenho, pois, um problema. Não quero evitá-lo, não quero
uma solução, não quero uma conclusão. Quero compreendê-lo;
porque, logo que compreendo alguma coisa, estou livre dela. Ne-
cessito, então, de passar por um processo de auto-hipnose, a fim
de compreender, ou de me deixar hipnotizar por palavras, forçan-
do a mente a pôr-se tranquila? Não, de certo. Quando tenho um
problema, quero compreendê-lo. A compreensão só pode vir
quando a mente não mais está julgando o problema, isto é, quan-
do a mente pode olhar o problema sem condenação nem justifi-
cação. Nesse caso, a mente está tranquila, não foi posta tranquila;
e quando a mente está tranquila, pode-se ver como o problema se
desdobra. Se não condenais, se não tentais encontrar uma solu-
ção, a mente está tranquila; nessa tranquilidade, o problema reve-
la a sua própria solução, e não uma solução que vos satisfaça. Por
conseguinte, a verdade do problema sai do próprio problema;
mas não podeis perceber a verdade do problema, se a ele vos
chegais com uma conclusão, uma prece, uma súplica, que se in-
terpõe entre vós e o problema.
Assim, o homem que deseja compreender qualquer pro-
blema, só o pode compreender com a mente quieta, imparcial.
Quando desejais compreender o problema do desemprego, do
sofrimento humano, não podeis ter parcialidade. Se quereis com-
preender o problema, não podeis tomar partido, porque o pro-
blema não é uma questão de opinião, não exige ideologia alguma.
O que ele requer é que o vejais claramente, a fim de compreen-
derdes o seu conteúdo; e não podeis compreender o conteúdo de
um problema, se há uma cortina de ideologia entre vós e o pro-
blema. De modo idêntico, a prece, sem autoconhecimento, con-
duz à ignorância, à ilusão. Autoconhecimento é meditação, e sem
autoconhecimento não há meditação. Meditação não é o fixar da
mente num determinado objeto: meditação é compreensão do
que ê, em relação. A mente não precisa, então, ser forçada à quie-
tude: ela está extremamente sensível e, portanto, altamente re-

92
ceptiva. Mas o disciplinar a mente para estar quieta, destrói a
receptividade.
[...] Para se compreender um problema, precisamos com-
preender o criador do problema, que somos nós mesmos. O pro-
blema não está separado de nós. Assim, a compreensão de nós
mesmos é de suma importância; e para compreendermos a nós
mesmos não podemos afastar-nos da vida de relação, porque a
vida de relação é um espelho no qual nos vemos. Relação é ação,
não ação abstrata, mas a ação de todos os dias: nossas disputas,
nossas cóleras e pesares; e ao compreendermos tudo isso em
relação com nós mesmos, sobrevêm a serenidade mental, a tran-
quilidade. Nessa tranquilidade, há liberdade. Só com essa liberda-
de, é possível o percebimento da verdade.

[...] OS MAIS DE NÓS estamos em busca de alguma coisa,


em vários níveis da existência — conforto físico ou bem estar psi-
cológico; e dizemos que estamos à procura da verdade ou da sa-
bedoria. Ora, que significa isso, de fato? Que estamos procuran-
do? Só podemos procurar uma coisa que conhecemos; não po-
demos procurar uma coisa que desconhecemos. Não podemos
procurar uma coisa que não sabemos se existe; só podemos pro-
curar algo que tivemos e perdemos. A busca é o desejo de satisfa-
ção.
Em geral vivemos insatisfeitos, exterior e interiormente; e
se nos observamos com toda a atenção, vemos que o desconten-
tamento é apenas a busca de uma satisfação permanente, em
diferentes níveis da existência, à qual chamamos verdade, felici-
dade, compreensão, ou por outro nome qualquer. Basicamente,
esse impulso consiste em encontrar satisfação permanente; e,
estando descontentes com tudo quanto fazemos, não encontran-
do satisfação em nenhuma das coisas que tentamos, apelamos
para um instrutor, uma religião, um caminho, outra pessoa, na
esperança de achar satisfação definitiva. Assim, essencialmente, a
nossa busca não visa à verdade, mas à satisfação. Os mais de nós
estamos descontentes, insatisfeitos, com as coisas como são; e a
nossa luta psicológica, nossa luta interior visa encontrar um refú-
93
gio permanente; quer seja um refúgio de ideias, quer de relações
imediatas, o impulso básico é um desejo de alcançar satisfação
completa. Esse impulso é o que chamamos buscar.
Experimentamos várias satisfações, vários “ismos”, inclu-
sive o comunismo; e quando eles não satisfazem, apelamos para a
religião e seguimos gurus, um depois do outro, ou nos tornamos
cínicos. O cinismo também proporciona grande satisfação. Nossa
busca é sempre no sentido de um estado mental isento de toda e
qualquer perturbação, de toda luta, no qual haja satisfação com-
pleta. Existirá possibilidade de completa satisfação em qualquer
coisa que a mente busque? A mente anda em busca de suas pró-
prias “projeções”, que são proporcionadoras de satisfação, de
aprazimento; e no momento em que acha inconveniente uma
dessas projeções, larga-a e passa a outra. Isto é, estamos em bus-
ca de um estado psicológico tão tranquilizador, tão conciliatório,
que elimine todos os conflitos. Se examinarmos profundamente,
veremos que tal estado é uma impossibilidade, a não ser que vi-
vamos na ilusão ou ligados a uma forma qualquer de asserção
psicológica.
Pode o descontentamento encontrar satisfação perma-
nente? E com o que é que estamos descontentes? Queremos um
emprego melhor, mais dinheiro, uma esposa melhor, ou uma
fórmula religiosa melhor? Se examinarmos com atenção, veremos
que todo o nosso descontentamento é uma busca de satisfação
permanente — e que a satisfação permanente é impossível. A
própria segurança física é impossível. Quanto mais desejamos
estar em segurança, tanto mais ficamos fechados, tanto mais nos
tornamos nacionalistas, e o resultado final é a guerra. Nessas con-
dições, enquanto andarmos em busca de satisfação, haverá confli-
to cada vez maior.
Que estamos buscando? 1950

94
[...] ONTEM FALÁVAMOS a respeito do temor. É o temor
que impede a iniciativa, porque em regra, quando temos medo,
nos apegamos às coisas como ostra ao rochedo. Apegamo-nos aos
nossos pais, nossos maridos, nossos filhos, nossas filhas, nossas
esposas. Tal é o aspecto externo do temor. E porque interiormen-
te sentimos medo, faz-nos horror a solidão. Podemos ter muitos
vestidos, ou roupas, ou haveres; mas, no íntimo, psicologicamen-
te, somos muito pobres. Quanto mais pobres somos interiormen-
te, tanto mais intrigamos exteriormente, tanto mais nos apega-
mos aos nossos pais, às coisas, aos haveres, às roupas. Ao temer-
mos, apegamo-nos às coisas exteriores, bem como a coisas interi-
ores, tais como a tradição. Já observastes os velhos e as pessoas
que em si são insuficientes, que estão vazias interiormente? Para
todos eles a tradição tem enorme importância. Já o observastes
nos vossos amigos, nos vossos pais e mestres? Já o observastes
em vós mesmos? No momento em que há temor, temor interior,
procurais encobri-lo com a respeitabilidade, com o seguir uma
tradição; e perde-se assim a iniciativa. Se apenas seguis a tradição,
ela se torna muito importante — tradição do que os outros dizem,
tradição que foi transmitida do passado, tradição sem nenhuma
vitalidade, que não torna a vida mais deleitável, tradição que é
mera repetição e nada significa.
Quando temos medo, há sempre a inclinação, a tendência
para imitar. Já o notastes? Sabeis o que é imitação? Por causa do
medo, estais apegados à tradição, aos vossos pais, esposas, ir-
mãos, maridos. Por causa dele, há sempre o desejo de imitar. A
imitação destrói a iniciativa. Deveis saber que pintar uma árvore
não significa simplesmente “imitar” a árvore, copiá-la exatamen-
te, pois isso seria, apenas, fotografá-la. Mas, para podermos pin-
tar com liberdade, precisamos sentir o que a árvore, a flor ou o
pôr do sol significam para nós; não se trata apenas de copiar, nas
suas cores exatas, o sol poente, mas, principalmente, de sentir a
sua significação. É sumamente importante revelar o significado
das coisas, e não apenas copiá-las; pois então começamos a des-
pertar o processo criador. E, para despertá-lo, requer-se uma
mente livre, uma mente que não esteja sujeita à tradição, à imita-
95
ção. Observai vossas próprias vidas, as vidas dos que vos cercam
— vede como tudo é vazio!
Em certos níveis da vida somos forçados a imitar, não é
verdade? Infelizmente, temos de ser imitadores com relação às
roupas que vestimos, aos livros que lemos. Tudo isso são formas
de imitação; mas é necessário ir além; isto é, deveis sentir-vos
livres, para que possais pensar profundamente nas coisas, por vós
mesmos, sem meramente aceitardes o que os outros dizem, se-
jam eles quem forem — vossos mestres, vossos pais, ou grandes
instrutores. Pensar verdadeiramente a fundo nas coisas, sem se-
guir alguém, é coisa muito importante, porque, no momento em
que seguis alguém, esse mesmo seguir é um indício de temor, não
é verdade? Alguém vos oferece algo que desejais — o paraíso, o
céu, ou um emprego melhor. Enquanto desejardes alguma coisa,
há de haver temor; e o temor destrói a mente livre. Sabeis o que é
uma mente livre? Já observastes a vossa mente? Será ela livre?
Não, não é livre, porque estais sempre atentos ao que dizem os
vossos amigos. Vossa mente é como uma casa vedada por um
portão ou cercada de arame farpado. Nesse estado, nada pode
acontecer. Só pode verificar-se algo novo quando não existe me-
do. E é difícil em extremo a mente estar livre do medo — quer
dizer, verdadeiramente livre da imitação, do desejo de imitar, do
desejo de acumular riquezas ou de seguir uma tradição — o que
não significa que devais dar escândalos.
A liberdade só pode germinar na mente isenta do temor,
naquela que não intriga para alcançar posição, prestígio, para
salientar-se; porque nessa mente não existe nenhuma tendência
para a imitação. Muito importa sejamos verdadeiramente livres,
livres da tradição, que é o mecanismo da formação de hábitos na
mente. Tal é excessivo para a vossa compreensão, difícil demais?
Ora, isso não é tão difícil como a vossa Geografia ou as vossas
Matemáticas. É bem mais fácil, mas acontece que nunca pensas-
tes nestas coisas. Passais a maior parte da vida escolar entregues
à aquisição de conhecimentos. Passais dez ou quinze anos na es-
cola, e, no entanto, nunca tendes tempo para pensar nisso; nem
uma semana, nem um dia, sequer, dedicado a pensar profunda-
96
mente, de maneira completa, em todas essas coisas. É por isso
que elas parecem difíceis. Mas não são difíceis, absolutamente.
Ao contrário, se lhes dedicardes algum tempo, podereis ver como
a vossa mente trabalha, opera, funciona. Deveis perceber, en-
quanto sois muito jovens — como o é a maioria dos que aqui es-
tão — deveis perceber quanto é importante compreendê-las,
porque, se não o fizerdes, crescereis seguindo alguma tradição
sem qualquer significação; vossa vida será um contínuo imitar, um
contínuo cultivar do temor, e consequentemente, nunca sereis
livres.
Já notastes como estais escravizados à tradição, aqui na
Índia? Tendes de casar-vos de uma certa maneira; vossos pais
escolhem o marido ou a esposa. Tendes de observar certos ritos;
podem eles nada significar, mas sois obrigados a observá-los.
Tendes guias, que deveis seguir. Tudo o que vos cerca, se já o
observastes bem, representa uma conduta de vida em que a auto-
ridade se acha muito bem firmada. Existe a autoridade do guru, a
autoridade do grupo político, a autoridade dos pais, a autoridade
da opinião pública. Quanto mais velha a civilização, como aconte-
ce na Índia, tanto maior o peso da tradição, o peso da série de
imitações. Por isso, vossa mente jamais é livre. Podeis falar de
liberdade, liberdade política ou de outra espécie; mas vós, como
indivíduos, nunca sois livres para investigar as coisas diretamente,
estais sempre a seguir alguém, a seguir um ideal ou algum guru,
ou mestre, ou tradição.
Vossa vida, pois, está circunscrita, limitada, restrita a idei-
as; e, profundamente, dentro em vós, lá está o temor. Como pen-
sar livremente, se há medo? O importante, pois, é que estejais
cônscios de todas estas coisas. Se vedes uma serpente que sabeis
venenosa, fugis dela ou a afastais de vós. Mas ignorais as numero-
sas imitações que impedem a iniciativa; estais inconscientemente
aprisionados nelas. Mas se vos mantiverdes advertidos, se vos
achais conscientes delas, se averiguastes porque elas vos pren-
dem; se percebeis a maneira como surge em vós o desejo de imi-
tar, como resultado de vosso temor ao que os outros digam, do
medo aos vossos pais ou vossos mestres; se estais cientes dessas
97
séries de imitações, vós as poreis de parte. Assim conscientizados,
podereis olhá-las bem, examiná-las, estudá-las, exatamente como
estudais Matemática ou outra matéria qualquer. Sabeis porque
usais kum-kum? Porque o fazeis? Não pergunto se se deve ou não
fazê-lo. Porque tratais as mulheres diferentemente dos homens?
Porque as tratais desdenhosamente? Pelo menos os homens o
fazem. Por quê? Porque ides a um templo, porque praticais ritos,
porque seguis um guru?
Se, pois, estais conscientes de todas essas coisas, podeis
examiná-las, podeis contestá-las, estudá-las; mas se tudo aceitais
cegamente, porque assim se tem feito nos últimos trinta séculos,
isso não tem sentido algum, não achais? Portanto, o que se neces-
sita, no mundo não são meros imitadores, nem meros guias, com
seguidores cada vez mais numerosos. A necessidade atual é de
indivíduos, como vós e eu, dispostos a pensar continuamente em
todos esses problemas, não de maneira superficial ou fortuita,
porém profundamente, a fim de que a mente seja livre, para criar,
para pensar, para amar.
A educação é o modo de se descobrir a nossa relação
com todas essas coisas, a nossa relação com os entes humanos e
com a natureza. Mas a mente cria ideias, e as ideias se tornam
tão poderosas, tão essenciais, que nos impedem de ver além.
Enquanto existe amor, existe tradição; enquanto existe temor,
existe imitação. A mente que só imita é mecânica, não é verdade?
Funciona tal qual uma máquina — sem criar, sem pensar a fundo
nos problemas. Poderá produzir certas ações, certos resultados;
mas não é criadora. Assim, pois, aqui nesta escola, o que deseja-
mos fazer — vós e eu, bem como os mestres e os membros e diri-
gentes do “Trust” — o que todos devemos fazer é considerar a
fundo todos esses problemas, para que, ao deixardes a escola,
sejais um ente humano amadurecido, capaz de pensar nos pro-
blemas por si mesmo e não de acordo com alguma estupidez tra-
dicional; de maneira que sejais um ente humano possuidor de
dignidade, um ente humano realmente livre. Tal é a verdadeira
finalidade da educação, e não o fazer exames e ficar depois esta-
cionado, efetuando uma determinada coisa para o resto da vida,
98
como escriturários, donas de casa, ou máquinas de procriar. De-
veis exigir dos vossos mestres, deveis insistir em que a educação
seja um meio de ajudar-vos a ser livres, a pensar livremente e sem
temor a compreender, a indagar. Do contrário, a vida é inteira-
mente inútil, não achais? Sois educados, vos formais, obtendes
um emprego de que não gostais, um trabalho que não vos agrada,
casais, cabe-vos ganhar dinheiro, gerais filhos, e aí ficais atolados
para o resto da vida. Sois um ente lastimável, infeliz, irascível; não
tendes outra perspectiva senão ter filhos, curtir mais misérias e
mais sofrimentos. Isso não é educação. A verdadeira educação
deve ter por fim ajudar-vos a ser tão inteligentes que com essa
inteligência possais escolher uma ocupação a vosso gosto... ou
passar fome, mas nunca fazer uma coisa estúpida, que vos fará
infeliz em toda a existência.
Enquanto sois jovens, deveis acender a chama do descon-
tentamento. Enquanto sois jovens, deveis achar-vos num estado
de revolução. Agora é que é o tempo próprio para investigar, de-
senvolver, moldar. Insisti, pois, em que vossos mestres e pais vos
eduquem adequadamente. Não vos contenteis apenas com estar
sentados numa sala de aulas, recebendo informações a respeito
de um certo rei ou uma certa guerra. Sede descontentes, investi-
gai, interrogai os vossos mestres — se eles são insensatos, fá-los-
eis inteligentes, interrogando-os — de maneira que, ao deixardes
esta escola, esta atmosfera, estejais progredindo em madureza,
em inteligência; e continueis aprendendo, toda a vida, até mor-
rerdes, tornando-vos, assim, entes humanos inteligentes.
Novos roteiros em educação - 1952

[...] PERGUNTA: Embora eu reconheça sentir-me lisonjea-


do pela admiração e susceptível à crítica, a minha mente continua
a ser governada por essas influencias; ela é atraída ou repelida,

99
como a agulha da bússola em presença do magneto. Qual é o pri-
meiro passo para sermos realmente livres?

Krishnamurti: A dificuldade está em que quereis ser livre:


não quereis, porém, compreender o problema. Sois infenso tanto
à lisonja como à crítica. Desgosta-vos o ser criticado; mas, ao
mesmo tempo, se bem que desejais ser insinuante, ser admirado,
sentis desprezo por vós mesmo, por serdes tão infantil; desejais,
por isso, livrar-vos das duas coisas. E o resultado é que ficais com
três problemas, não é verdade? É o que todos nós fazemos: quan-
do temos um problema que não sabemos resolver, acrescenta-
mos-lhe outros e ficamos multiplicando problemas, sucessivamen-
te.
Nessas condições, qual é a nossa questão? A questão não
é a de acharmos a maneira de não sermos influenciados pela ad-
miração nem pela crítica, mas, sim: porque desejamos ser admi-
rados, porque nos importamos tanto quando somos criticados? —
Este é que é o problema, não achais? Porque desejais admiração?
Porque o ser admirado vos faz feliz, dá-vos estímulo, faz-vos tra-
balhar melhor. Desejais que vos estimulem por não vos sentir
seguro em vós mesmo, e necessitais, por isso, do amparo de ou-
tros; e sois suscetível à crítica porque ela vos revela o que sois. Tal
é a razão por que estais sempre fugindo à crítica e desejoso de
admiração, de estímulo, de lisonja; assim, mais uma vez, vos ve-
des envolvido na batalha do querer e do não querer. Tudo isso
indica, sem dúvida, uma pobreza interior do vosso ser, não é ver-
dade? Não há um sentimento profundo de confiança. Não me
refiro à arrogante confiança da experiência, que é apenas um
meio de fortalecer o “eu” e, portanto, sem muita significação.
Refiro-me à confiança que resulta do compreenderdes a vós
mesmo, do perceberdes todo o significado da admiração, do estí-
mulo, da crítica. A compreensão de vós mesmo não depende de
ninguém; ela se apresentará se estiverdes muito vigilante, atento,
encontrando-vos com o que é em cada momento que passa e
abstendo-vos de julgá-lo. O autoconhecimento proporciona uma
confiança em que o “eu” não se torna importante. Não é a confi-
100
ança do “eu” que acumulou considerável experiência, ou do “eu”
que possui um grande depósito no banco, ou do “eu” que tem um
vasto cabedal de conhecimentos. Nisso não existe confiança e,
sim, só e sempre, temor. Entretanto, quando a mente começa a
tornar-se cônscia de si mesma e das suas reações, quando perce-
be todas as suas atividades, momento por momento, sem inclina-
ção para a comparação ou o julgamento, então, desse conheci-
mento, resulta uma confiança inteiramente livre do “eu”. Essa
mente não busca a admiração nem evita a crítica; já lhe não im-
porta nem uma nem outra coisa, pois a cada momento encontra
libertação na compreensão do que é.
O que é é a reação, a réplica, o impulso, o desejo da men-
te, em qualquer momento dado; e se observardes realmente o
que é, se vos tornardes cônscio de todo o seu conteúdo, sentireis
a presença de uma liberdade extraordinária, manifestando-se sem
que a mente a tenha procurado. Quando a mente busca a liber-
dade, o que está querendo é livrar-se de alguma coisa, e isso não
é liberdade nenhuma, senão, unicamente, uma reação semelhan-
te à revolução política, que é uma reação contra o regime vigente.
A liberdade surgida com a compreensão do que é, não representa
reação contra alguma coisa; é uma libertação criadora e, por con-
seguinte, completa em si mesma. Mas a compreensão do que é
exige muito discernimento, muita tranquilidade mental. A liber-
dade não resulta de nenhuma espécie de compulsão, de nenhuma
atração, de nenhum desejo; pode manifestar-se, apenas, quando
a mente percebe sem julgamento, sem escolha, de modo que a
cada momento se vê a si mesma tal como é. A mente que busca
liberdade nunca a encontrará, pois procurar liberdade significa
barrar, afastar o que é; mas, quando a mente começa a compre-
ender o que é, sem escolha, essa própria compreensão produz
uma descarga criadora, que é liberdade. A liberdade é ímpar, ela é
a verdadeira individualidade, e nela se encontra bem-
aventurança.

[...] REPUTO especialmente importante compreender-se a


questão do conhecimento, do saber. Nós, em geral, parecemos
101
tão sequiosos de saber; estamos sempre a adquirir não só posses,
coisas, mas também ideias. Andamos sempre de um instrutor
para outro, de um livro, de uma religião, de um dogma, para ou-
tro. Passamos a vida adquirindo ideias, acreditando ser, essa aqui-
sição, importante para a compreensão da existência. Desejo, pois
— se me é permitido — examinar esse problema, para ver se essa
atividade de acrescentamento, por parte da mente, produz liber-
dade, e se o saber pode resolver algum problema humano. O sa-
ber poderá resolver problemas superficiais, mecânicos; pode ele,
porém, libertar a mente, tornando-a capaz de perceber de modo
direto o que é verdadeiro? É sem dúvida importantíssimo com-
preender-se esta questão, porquanto sua compreensão nos levará
à revolta contra a mera metodologia, que constitui um obstáculo,
salvo quando se trata de alcançar algum resultado mecânico. Es-
tou falando a respeito do processo psicológico da mente e consi-
derando se é possível despertar a capacidade criadora individual
— que naturalmente é da máxima importância, não achais? A
aquisição de saber, tal como o entendemos, gera capacidade cria-
dora? Ou, para tornar-se capaz de conhecer esse estado criador, a
mente deve estar livre de toda atividade acumuladora?
Quase todos nós lemos livros ou assistimos a conferên-
cias, com o fim de compreender; quando temos um problema,
estudamo-lo, ou procuramos alguém para conversar sobre ele,
esperando que assim o problema seja resolvido ou possamos des-
cobrir algo novo. Estamos sempre recorrendo a outros ou à nossa
própria experiência — que é na essência conhecimento — na es-
perança de resolvermos os numerosos problemas que se nos an-
tepõem. Recorremos aos intérpretes — os que dizem compreen-
der algo mais — os intérpretes não só destas palestras, mas tam-
bém dos livros sagrados. Parecemos incapazes de ocupar-nos com
um problema diretamente, sozinhos, sem contar com a ajuda de
ninguém. E não é importante averiguar se a mente, na sua ativi-
dade acumuladora, é capaz, em algum tempo, de resolver algum
problema psicológico, espiritual? Não deve a mente achar-se de
todo desocupada, para que possa perceber a verdade existente
em qualquer conflito humano?
102
[...] Para a maioria de nós, o problema é este, não é? So-
mos muito superficiais, não sabemos examinar profundamente os
nossos conflitos e os nossos problemas; e quanto mais recorre-
mos a livros, a métodos, a exercícios, à aquisição de saber, tanto
mais superficiais nos tornamos. Este é um fato óbvio. Pode uma
pessoa ler livros incontáveis, assistir a conferências altamente
intelectuais, acumular vastos cabedais de ilustração; mas se não
souber penetrar em si mesma, para descobrir a verdade, para
compreender o processo total da mente, os seus esforços, por
certo, só haverão de torná-la mais superficial ainda.
Nessas condições, ser-vos-á possível não permanecer me-
ramente no nível superficial, verbal, mas descobrir o processo do
vosso próprio pensar e transcender a mente? O que estou dizendo
não é muito complicado. Estou apenas descrevendo o que se está
passando dentro de cada um de nós; mas, se viveis no nível ver-
bal, se a descrição vos satisfaz e achais desnecessário experimen-
tar diretamente, então, estas palestras serão de todo inúteis. Re-
correreis, nesse caso, aos intérpretes, aos que se propõem expli-
car-vos o que estou dizendo — coisa absolutamente absurda. É
muito melhor “escutar” uma coisa diretamente, do que pedir a
outro que explique a sua significação. Não podemos chegar-nos à
fonte sem necessitarmos de interpretação, sem que nos guiem
para descobrirmos como é a fonte? Se somos guiados para desco-
brir, isso não é descobrimento, não achais?
Por favor, compreendei bem este ponto. Para se descobrir
o que é verdadeiro, o que é real, não se precisa de nenhuma indi-
cação. Quando vos guiam para descobrir, isso não é descobrimen-
to: apenas vedes o que alguém vos mostrou. Se descobris sozinho,
porém, a experiência é então de todo diferente; é uma experiên-
cia original, aliviada do passado, do tempo, da memória, inteira-
mente livre da tradição, do dogma, da crença. Esse descobrimen-
to, que é criador, é totalmente novo; mas, para chegar a esse des-
cobrimento, deve a mente ser capaz de penetrar e ultrapassar
todas as camadas superficiais. Podemos fazê-lo? Visto serem to-
dos os nossos problemas — políticos, sociais, econômicos, pesso-
ais — essencialmente problemas religiosos; visto serem reflexos
103
do problema interior, do problema moral, — a menos que resol-
vamos este problema central, todos os demais se multiplicarão.
Esse problema não pode ser resolvido pelo expediente de seguir-
mos alguém, pela leitura de um livro, pela prática de uma técnica.
No descobrimento da realidade, são inteiramente inúteis todos os
métodos, uma vez, que tendes de descobrir por vós mesmos. O
descobrimento implica completa independência, e a mente não
pode ser independente se está vivendo de explicações, de pala-
vras, praticando algum método ou dependendo da tradução do
problema feita por outro.
Nessas condições, compreendendo que, desde a infância,
nossa educação, nosso ensino religioso, nosso ambiente social,
concorreram todos para tornar-nos extremamente superficiais,
pode a mente pôr de parte a sua superficialidade, esse constante
“processo” de aquisição, negativa ou positiva, — pode ela pôr de
parte tudo isso e ser, não como uma folha em branco, mas deso-
cupada, criadoramente vazia, de modo que não esteja mais a fa-
bricar seus próprios problemas e buscando solucioná-los? Por
certo, é por sermos superficiais que não sabemos penetrar pro-
fundamente, descer às profundezas de nós mesmos; e imagina-
mos poder alcançar essas profundezas aprendendo coisas ou ou-
vindo conferências.
Ora, que é que faz a mente superficial? Por favor, não me
escuteis simplesmente; antes, observai, sede cônscios de vosso
próprio pensar, quando se vos coloca tal questão: que faz a mente
superficial? Porque não pode a mente experimentar algo que é
verdadeiro, existente além de suas próprias “projeções”? Não é
principalmente a satisfação, que cada um de nós está buscando,
que torna a mente superficial? Desejamos a todo custo ser lison-
jeados, encontrar satisfação; por essa razão procuramos métodos
de alcançar esse objetivo. E existe de fato, em algum tempo, uma
coisa tal, como seja a satisfação? Embora possamos satisfazer-nos
temporariamente e modificar o objeto de nossa satisfação con-
forme a nossa idade, existe satisfação em algum tempo? O desejo
busca constantemente satisfazer-se e, por isso, estamos sempre a
passar de uma satisfação para outra, e quando nos vemos emba-
104
raçados nas complicações de cada satisfação nova, mais uma vez
nos tornamos insatisfeitos e procuramos desvencilhar-nos. Ape-
gamo-nos a pessoas, seguimos instrutores, aderimos a grupos,
lemos livros, adotamos sucessivamente várias filosofias; mas o
desejo central permanece o mesmo: queremos satisfazer-nos,
estar em segurança, tornar-nos alguém, alcançar um resultado,
conseguir um fim. Esse processo não é, todo ele, uma das causas
primárias da superficialidade da mente?
Percepção criadora - 1953

[...] PERGUNTA: Por que sentimos tristeza, quando morre


alguém que conhecíamos e amávamos?

Krishnamurti: Por que ficamos tristes quando morre um


parente próximo? Sentis tristeza quando morre um amigo ou um
parente próximo. Sentis pesar pela pessoa que morreu ou por vós
mesmo? A outra pessoa partiu, e vós ficastes sozinho, para en-
frentar a vida. Com aquela pessoa, vós vos sentíeis, de alguma
forma, tranquilos e felizes. Sentíeis uma companhia, uma amiza-
de. Aquela pessoa partiu e ficastes com vossa insegurança, não é
verdade? Estais cônscio, constantemente, da vossa solidão. Estais
cônscio de que foste privado de uma companhia. Havia uma pes-
soa com quem podíeis falar e externar os vossos sentimentos e
mostrar-vos como sois. Mas essa pessoa morreu e sentis muita
tristeza; por causa de vossa solidão, do sentimento de que não
tendes mais com quem vos pegardes, vos sentis muito triste; mas
não sentis essa tristeza por causa da pessoa.
Não achais muito importante compreender esse “proces-
so” da dependência? Por que é que dependemos de outra pes-
soa? Para certos serviços, eu dependo do leiteiro, do estafeta dos
correios, do maquinista, do banco, ou do policial; mas a minha
dependência dessas pessoas é completamente diferente da de-

105
pendência que se baseia no temor e na exigência interior de con-
forto. Como não sei viver sinto-me confuso, e sozinho, preciso da
ajuda de alguém; preciso de alguém para me guiar, me amparar
— um mestre, um livro, uma ideia. E assim, se se me tira esse
arrimo, vejo-me perdido. Esse sentimento de perda cria sofrimen-
to.
Não é importante que, enquanto estamos na escola,
compreendamos esse problema da dependência, para que cres-
çamos sem depender de pessoa alguma, interiormente? Tal coisa
requer muita inteligência e muita investigação. É por certo função
da educação ajudar a libertar a mente de todo sentimento de
temor, que contribui para a dependência. Nessa situação de de-
pendência, perguntamos: “como posso ficar livre da dependên-
cia?”. Mas se se compreendesse o processo, o verdadeiro caráter
da dependência, não haveria então o problema de como se ficar
livre da dependência. A compreensão, ela própria, liberta a mente
da dependência.

[...] PERGUNTA: Pode a natureza no homem libertar-se da


dependência da natureza? Se dependência é o equivalente de
temor, podemos em algum tempo ficar livres da dependência da
natureza?

Krishnamurti: Quando somos muito novos, criancinhas,


dependemos de nossa mamãe, para ganharmos o nosso leite.
Precisamos de proteção, vigilância, carinhos. À mesma lei estão
sujeitas as aves e todos os animais. É uma coisa natural. Mas se,
depois de crescermos, continuamos dependendo de alguém, para
nossa felicidade, nosso conforto, orientação, segurança, então,
como resultado dessa dependência, surge o temor. A dependên-
cia nos faz embotados, insensíveis, medrosos. Todos nós depen-
demos da estrada de ferro, dos correios, mas isso não é propria-
mente dependência e, sim, uma função de que todos nos servi-
mos. A dependência a que me refiro é a dependência psicológica,
a busca psicológica de proteção. Esta dependência é que cria o

106
medo, que nos obscurece a mente, embotando-a, insensibilizan-
do-a.
Dependemos, porque, em nós mesmos, estamos tão vazi-
os, em nós mesmos não existe nada, nem uma semente, sequer,
capaz de florescer. Visto nada sabermos a respeito dessas coisas,
não achais que a função da educação deve ser a de nos mostrar
tudo o que a existência humana implica, exterior e interiormente?
Nosso viver não é só o que aparece exteriormente, que é muito
superficial. Somos muito mais profundos; há muitas coisas ocultas
em nós mesmos. Descobrir e compreender todas elas, e passar
além, eis a função da educação.

[...] PERGUNTA: É correto copiar uma coisa?

Krishnamurti: Vamos andando passo a passo. Quando uso


a língua inglesa, estou “copiando” o inglês, não estou? Quando
falais hindustani, estais copiando as palavras, aprendendo as pa-
lavras, repetindo as palavras do hindustani e, por conseguinte,
praticando uma espécie de imitação. Quando visto esta kurta ou
um pijama isto é uma forma de copiar. Quando escrevo, quando
repito uma canção, quando leio, quando estudo matemática, isso
é uma certa imitação. Num certo nível, pois, tem de haver cópia,
imitação. Noutro nível da vida, o nosso viver não é só imitação. Há
aqui problemas e questões de toda ordem. Examinemo-los com
vagar.
Copiamos a tradição; seguir a tradição é copiá-la. Quando
executais o puja, quando pondes vestes sagradas, quando fazeis
isto ou aquilo, isso também é imitação. Quando praticais puja ou
coisa parecida, perguntais a vós mesmo: “por que estou fazendo
isto?” Nunca pondes a coisa em dúvida. Vós a aceitais meramen-
te, porque vossos pais a praticam, vossa sociedade a pratica; e
dessa maneira vos tornais simplesmente uma máquina de imita-
ção. Jamais perguntais: “por que devo praticar puja; qual a signifi-
cação que isso tem? Tem alguma significação?”. Se alguma signifi-
cação tem, cabe-vos descobri-la, pois não necessitais que outra
pessoa vos diga isso tem tal e tal significação. Tendes de descobrir
107
essa significação, e para a descobrirdes não deveis ter preconcei-
to, não deveis ser contra o puja nem a favor dele. Isso requer
muita inteligência, requer destemor.
A maioria das pessoas de mais idade seguem tal ou tal gu-
ru — uma certa qualidade de guru que se encontra ao dobrar da
esquina. Deveis seguir um guru, só porque os mais velhos o fa-
zem? Deveis averiguar por que razão eles o seguem. Seguem-no
porque têm medo, porque desejam alcançar com segurança o
reino dos céus. Nem eles nem vós, sabeis se existe céu. O céu
deles é tal como eles o imaginam ser. Necessitais, por conseguin-
te, de uma forte dose de ceticismo — não de incerteza — para
descobrirdes a significação das coisas e não vos deixardes sufocar
pelos mais velhos e por suas ideias sobre o que é verdadeiro, o
que é ideal, o que é certo ou errado.
Tem de haver inevitavelmente uma certa parcela de imi-
tação — como no cantar qualquer canção, no estudar matemáti-
cas, etc. Quando, porém, a imitação se estende ao sentimento
psicológico, ela se torna destrutiva. Sabeis o que significa esta
palavra — “psicológico”? Significa o “eu”, o “ego”, os sentimentos
mais sutis, a natureza interior. Quando começa a haver imitação
aí, não há mais capacidade criadora. Este é um problema muito
complexo, desde que o imitar implica numa ação de conformida-
de com um modelo. O imitar, o copiar significa a aceitação da
ação ditada pela memória. A experiência é forçosamente imita-
ção, pois toda experiência é ditada pelo passado, e o passado é
imitação.
A dificuldade está em perceber se a imitação é inevitável,
e em ser livre interiormente de toda imitação. Isso requer muita
atividade do pensamento, ou seja a meditação real. Se a mente
puder libertar-se de todas as imagens e pensamentos “projeta-
dos”, que são imitativos, só então haverá a possibilidade de existir
aquela realidade, a Verdade, ou Deus. A mente que imita nunca
achará o que é real.

[...] PERGUNTA: Como se pode eliminar para sempre os


nossos defeitos?
108
Krishnamurti: Vede como a mente deseja estar em segu-
rança! Ela não quer ser perturbada. Quer estar em completa segu-
rança, para todo o sempre; e a mente que deseja estar comple-
tamente em segurança, vencer para sempre todas as dificuldades,
irá procurar um meio de o conseguir. Começará a seguir um guru,
terá uma crença, alguma coisa em que arrimar-se, a que apegar-
se. E a mente se torna assim embotada, cansada, morta. Quando
dizeis “quero ficar livre de todas as minhas dificuldades, para todo
o sempre” — ficareis livre delas, mas o vosso ser integral, a vossa
mente estará morta.
Não queremos ter dificuldades, não queremos pensar,
não queremos investigar, descobrir. Espero que alguém venha
dizer-me o que devo fazer, pois não desejo ser perturbado; procu-
ro alguém que julgo ser um grande homem ou uma grande mu-
lher ou um santo, e faço o que se me manda fazer, imitando, re-
petindo, como um macaco, como um gramofone. Assim proce-
dendo, posso não ter dificuldades superficialmente, porque estou
mesmerizado. Tenho, porém, dificuldades no inconsciente, nas
profundezas de mim mesmo, e estas hão de explodir eventual-
mente, embora eu espere que não venham a explodir. Como ve-
des, a mente quer um abrigo, um refúgio, algo a que possa recor-
rer, a que possa apegar-se — uma crença, um Mestre, um guru,
um filósofo, uma conclusão, uma atividade, um dogma político,
uma doutrina religiosa. A essa coisa quer recorrer, a ela apegar-se,
quando se vê perturbada. Mas a mente precisa ser perturbada. É
só pela perturbação, pela vigilância, pela investigação que a men-
te compreende os problemas.
Uma senhora pergunta: “Pode uma mente perturbada
compreender?” Um homem que está perturbado e busca um
meio de fugir à perturbação, jamais compreenderá. Entretanto, a
mente que está perturbada e sabe que está perturbada, e começa
a investigar pacientemente a causa da perturbação, sem condenar
nem traduzir as causas, essa mente compreenderá. Mas a mente
que diz: “estou perturbada e não quero ser perturbada; por isso

109
vou meditar sobre a ausência de perturbação” — essa é a mente
falsa, estúpida.

[...] JÁ NÃO NOTASTES em vós mesmos, como desejais


obedecer aos vossos mestres, aos vossos pais, aos vossos tutores,
seguir um ideal, seguir um guru? O espírito de obediência, o se-
guir alguém, o deixar que se diga o que devemos fazer — esse
espírito cria uma autoridade, não é exato? Sabeis o que é “autori-
dade?” — Alguém que acatais e a quem desejais obedecer, seguir.
Porque vós mesmo sentis medo, porque vós mesmo estais na
incerteza, criais uma autoridade; e com a criação da autoridade,
não só vós mesmo a seguis, mas desejais outros também a sigam;
achais prazer em segui-la e em obrigar os outros a segui-la.
Não sei se ainda não notastes em vós mesmos que, atrás
desse desejo de obedecer, de seguir, de imitar, de satisfazer a
vontade de alguém, está o temor — o medo de não fazer o que é
correto, o medo de errar. A autoridade, pois, mata gradualmente
a iniciativa — que é saber fazer alguma coisa com naturalidade,
espontaneidade, livremente, por impulso próprio. À maioria de
nós falta iniciativa, porque foi destruído em nós o espírito de cria-
ção.
Esse espírito de fazer uma coisa por vós mesmo, sem que
vo-lo peçam, sem que vos digam que a façais, esse espírito de
iniciativa perdeu-se, pois estais sempre rodeados pela autoridade,
pela velha geração, que parecem pensar que sabem o que estão
fazendo, mas não sabem, e vos controlam. E, assim, gradualmen-
te, o espírito de fazer as coisas pelo gosto de fazê-las se extingue
em vós, se destrói. Já alguma vez, passeando pela estrada tirastes
uma pedra do caminho, apanhastes um pedaço de jornal ou um
trapo; já plantastes uma árvore e cuidastes dela? Quando não vos
dizem que façais estas coisas e vós as fazeis, espontaneamente,
naturalmente, isso é o começo da iniciativa. Quando vedes uma
coisa que precisa ser consertada, vós a consertais; quando vedes
uma coisa que precisa ser feita — na cozinha, no jardim, em casa,
na estrada — vós a fazeis, sem que vos mandem fazê-la. A mente
se vos torna a pouco e pouco livre do temor, e começais a fazer as
110
coisas espontaneamente. Parece-me muito importante proceder
assim na vida, porque, do contrário, vos tornareis meros gramo-
fones, tocando sempre e sempre o mesmo disco — perdendo-se
assim, completamente, o espírito de liberdade.
A velha geração, porém, com seus desejos nervosos, seus
temores, suas apreensões de insegurança, deseja proteger-vos,
deseja guiar-vos, manter-vos seguros, no temor e pelo temor des-
trói gradualmente em vós a liberdade para fazer as coisas, a liber-
dade de errar, de descobrir as coisas por vós mesmo; e perde-se,
assim, aquela coisa extraordinária que se chama “iniciativa”. Pedi
explicações aos vossos mestres a este respeito. Sabeis como so-
mos poucos os que temos aquela liberdade — liberdade não só
para fazer as coisas, mas a liberdade que nos inspira a fazê-las.
Quando vedes alguém a transportar um pesado fardo, desejais
ajudá-lo, não? Quando vedes alguém lavando pratos, desejais
também, às vezes, fazer a mesma coisa. Desejais lavar a vossa
roupa, fazer coisas, por livre iniciativa. Sabeis o que isso significa?
Se o examinardes muito profundamente, vereis ir nascendo uma
extraordinária capacidade de criar.
A liberdade não é uma coisa que se acha muito distante
de nós, uma coisa que se precisa procurar e lutar por ela. Se ten-
des liberdade desde o começo, desde a meninice, vereis, à medida
que fordes crescendo e amadurecendo, vereis que, nesse amadu-
recer, há iniciativa para fazer as coisas espontaneamente, facil-
mente, com naturalidade, sem que ninguém vos diga o que deveis
fazer. É ação criadora escrever um poema, ser sem medo, con-
templar as estrelas, deixar a mente vaguear, contemplar a beleza
da terra e as coisas maravilhosas que a terra contém. Sentir tudo
isso é de fato uma atividade extraordinária; e não podeis senti-lo
sem aquela liberdade, sem aquele espírito de iniciativa em que
estais livre de qualquer autoridade, em que não obedeceis só
porque vos dizem o que deveis fazer, mas fazeis as coisas natu-
ralmente, livremente, com facilidade e prazer. Se derdes contínua
atenção a isso, começareis a tomar um interesse extraordinário
por todas as coisas, pela vossa maneira de andar, pela vossa ma-
neira de falar, pela vossa maneira de olhar as pessoas, pelos sen-
111
timentos que tendes — porque todas essas coisas são de muita
importância. Se cultivardes a inteligência, se cultivardes o espírito
de liberdade, durante todo o tempo que estiverdes na escola,
então, uns poucos meses de estudo intenso serão suficientes para
passardes nos vossos exames. Entretanto, atualmente não fazeis
outra coisa senão preocupar-vos, durante todo o tempo, com
vossos estudos, e não sabeis o que se passa ao redor de vós.
Vistes aquelas aldeãs levando pesadas cargas à cabeça —
esterco, lenha, ou molhos de feno? Quanta beleza no seu andar!
Já observastes as pessoas chamadas “abastadas”? Notais como se
tornam elas lerdas e insensíveis, por não saberem olhar para as
coisas? Interessam-lhes tão-somente, suas pequeninas preocupa-
ções e desejos, e de que maneira controlarem os seus temores e
apetites. Essas pessoas, por conseguinte, vivem no temor; e vi-
vendo no temor, têm de seguir alguém, obedecer a alguém. E cria-
se assim a autoridade — a autoridade do policial, a autoridade do
advogado; a autoridade do governo; e, noutro nível, a autoridade
espiritual — autoridade dos livros, dos guias políticos, dos gurus. E
perde-se, destarte, a beleza do viver, do sofrer, do compreender.
[...] Ser livre exige muita inteligência. Não podeis ser livre
se sois um indivíduo estúpido. Por conseguinte, é importantíssimo
desperteis a vossa inteligência, enquanto estais tão jovens; e essa
inteligência não pode existir quando sentis medo, quando seguis,
quando desejais que alguém vos obedeça ou quando vós mesmo
obedeceis a alguém. Tudo isso requer muita reflexão, e esta é que
é a verdadeira educação. A educação que quase todos recebemos
atualmente é apenas superficial.

[...] PERGUNTA: Qual é a finalidade da nossa vida?

Krishnamurti: Qual é o significado da nossa vida? Qual a


finalidade da vida?
Por que fazeis uma pergunta dessas? Só a fazeis quando
existe caos em vós, e ao redor de vós confusão, incerteza. Porque
estais incerto, desejais algo para terdes uma certeza. Desejais um
certo objetivo na vida, uma finalidade clara, porque, em vós mes-
112
mo, estais incerto. Sentis-vos infeliz e confuso; não sabeis o que
fazer. Em virtude dessa confusão, dessa desdita, dessa luta, dos
vossos temores, perguntais: “qual é a finalidade da vida?” Desejais
uma coisa permanente, para lutardes pela sua consecução, e a
própria luta para a consecução de um objetivo, produz sua clari-
dade própria; mas essa certeza, essa claridade é apenas uma ou-
tra forma de confusão.
O importante não é sabermos qual a finalidade da vida,
mas, sim, compreendermos a confusão em que nos achamos, os
sofrimentos, as lágrimas e outros transtornos da vida. Não com-
preendemos a confusão e queremos ficar livres dela! A “coisa
real” está aqui e não “ali”. Um homem que tem muito interesse
em compreender toda esta confusão, não pergunta qual é a fina-
lidade da vida. O que lhe interessa é dissipar a confusão, dissipar o
sofrimento em que está aprisionado. Quando tudo isso se dissi-
pou, não se faz uma pergunta como esta.
Ninguém pergunta “qual é a finalidade da luz do sol?”,
“qual é a finalidade da beleza?”, “qual é a finalidade do viver?”. É
só quando a vida se torna uma tribulação, uma batalha constante
e se deseja fugir dessa aflição, dessa batalha, que se pede: “dizei-
me qual é o alvo da vida”. Então, saímos a seguir várias pessoas,
andamos de um instrutor para outro, no desejo de descobrir a
finalidade da vida. E eles no-lo dirão, embora sejam tão insensatos
como nós mesmos. Só podemos escolher um guru igual a nós
mesmos, igualmente confuso; e dele obtemos o que desejamos.
Se pudermos compreender a confusão, as lutas, as tribu-
lações, as nossas ânsias profundas, então, nessa compreensão
mesma, encontra-se algo que não se precisa pedir a outrem.

[...] NOSSA MENTE é moldada desde que nascemos até


morrermos; e por esta razão atendemos aos problemas da vida
como hinduístas, como cristãos ou comunistas ou o que mais seja.
A vida é cheia de complicações, e está continuamente em movi-
mento, e, no entanto, a conduta do nosso viver é ditada por nossa
mente condicionada; mas a mente condicionada traduz os pro-
blemas da vida de acordo com suas limitações. Por conseguinte,
113
não achais importante, se desejamos resolver este problema, que
encontremos o meio de “descondicionar” a mente, de modo que
a maneira como consideramos os problemas se torne muito mais
importante do que a mera solução deles?
Nós, em maioria, buscamos a solução de um problema.
Muito mais importante, porém, é saber considerar o problema. Se
sei considerar um problema, não posso então procurar a solução.
É porque não sei considerar o problema que se me apresenta —
problema político, sexual, religioso, social — que a minha mente
logo quer uma solução, um modo de resolvê-lo. Mas se sei, se sou
capaz de considerar o problema, não procuro então a sua solução;
enfrentá-lo-ei e o resolverei, ou saberei o que fazer com ele. Mas,
já que não sei, já que não tenho a capacidade de investigar, pro-
curo outro, procuro um guru, um sistema, uma filosofia. Todos os
gurus, todos os sistemas de filosofia já falharam completamente,
pois só nos podem transformar em autônomos, dizendo-nos o
que devemos fazer. No próprio processo de segui-los, nas coisas
que fazemos, criamos mais problemas.
Não vos parece, portanto, muito importante aprender a
pensar — e não, aprender o que fazer — e libertar a mente de
todo e qualquer condicionamento? A mente condicionada traduzi-
rá os problemas, atribuir-lhes-á importância segundo o seu condi-
cionamento, e os problemas, quando queremos resolvê-los com a
mente limitada, só podem aumentar. Por conseguinte, não é mui-
to importante investigar se é possível libertar a mente das limita-
ções por ela mesma criadas, e habilitá-la a resolver as complica-
ções, os problemas da vida? Acho que a coisa principal não é que
se seja comunista, socialista ou não sei o que mais, mas que se
seja capaz de enfrentar os problemas complexíssimos do viver de
maneira completamente nova, com uma mente nova, livre de
cargas, livre das conclusões com que faz frente aos problemas.
É possível ter a mente nova, a mente fresca, clara, não po-
luída e, portanto, capaz de atender a este problema da nossa exis-
tência, que é um problema muito vivo? Eu digo que é possível.
Debates sobre educação com alunos e professores em Banares - 1954

114

[...] A VIDA É um “processo” total, não é verdade? É para


ser vivida em todos os níveis, completamente, e a mente que se
satisfaz com viver só num dado nível da existência, está atraindo o
sofrimento. Em sua estrutura, por sua própria natureza, a mente é
sempre curiosa, sequiosa de saber, de descobrir se existe algo
além dessa coisa que chamamos o viver, além das nossas lutas,
nossos esforços, nossas tribulações, nossas alegrias e sensações
passageiras. Posso descobrir, porém, o que está além, mercê da
minha curiosidade, da leitura do que alguém disse, alguém que
teve a experiência de algo que está além? Ou só pode a mente
experimentar o que existe além, quando não está contaminada,
quando totalmente só, livre de influências e, portanto, não mais
empenhada em nenhuma busca? Se estais escutando, não ao que
estou dizendo, mas ao “processo” da vossa própria mente, não
surge inevitavelmente esta pergunta: tem alguma significação
esta luta para descobrir a Realidade, para descobrir algo além do
transitório? Quando não encontramos satisfação numa dada dire-
ção, não nos voltamos logo para outra coisa? No Oriente está- se
morrendo de fome, e por conseguinte eles se estão voltando para
Deus. Este é o processo da existência, tanto no Oriente, como no
Ocidente, pois não se restringe unicamente ao Oriente.
É possível a cessação de toda a busca e por conseguinte a
não-dependência de qualquer espécie de compulsão, autoridade,
tanto a autoridade criada pelas religiões, como a autoridade que
cada um cria, na sua busca, nas suas exigências, na sua esperan-
ça? Todos queremos encontrar um estado onde não haja pertur-
bação alguma, uma paz não “construída” pela mente, porque
qualquer coisa construída pela mente pode ser desfeita. E a mim
me parece que, enquanto a mente estiver buscando, terá de criar
115
autoridades; e quando está ela toda entregue ao temor, à imita-
ção, nunca mais encontrará o que é verdadeiro. Contudo, é isso o
que está acontecendo no mundo inteiro. Em virtude da tirania dos
governos e da tirania das religiões, está-se condicionando cada
criança, cada ente humano, num determinado molde de pensar,
amplo ou estreito, e, é bem evidente, esse condicionamento, seja
aqui, seja na Rússia, impedirá o descobrimento do que é verdadei-
ro. E é possível a cada um de nós descobrir o que é verdadeiro,
sem o buscarmos? Porque a busca implica o tempo, consecução
de um objetivo, a busca implica o desejo de satisfação, que é o
verdadeiro motor da nossa busca — o desejo de satisfação ou
felicidade. Tudo isso implica o tempo, o amanhã, não só cronolo-
gicamente, mas também psicologicamente, interiormente.
E é possível experimentar, não pela dependência do tem-
po, mas imediatamente, aquele estado em que a mente não mais
está buscando? A instantaneidade é importante, e não o como
alcançar o estado em que a mente não esteja mais a buscar, por-
quanto aí se introduzem todos os fatores da luta, do tempo. E
parece-me importante, não só ouvirdes esta pergunta, mas tam-
bém a fazerdes a vós mesmos e a deixardes ficar, sem que tenteis
achar uma resposta para ela. Conforme a maneira como a fizerdes
e o empenho que tiverdes, encontrareis a resposta. Porque aquilo
que é imensurável não pode ser apanhado por uma mente que
está buscando, que está cheia de conhecimentos; só pode ele
manifestar-se quando a mente já não está buscando ou tentando
tornar-se algo. Quando a mente está vazia, intrinsecamente vazia,
e não desejando alguma coisa, só então, há a percepção instantâ-
nea do que é verdadeiro.

[...] PERGUNTA: Por que negais o valor e a integridade dos


Santos, de todas as épocas, inclusive o Cristo e o Buda?

Krishnamurti: Esta pergunta suscita uma questão muito


interessante. Por que precisais de santos? Por que precisais de
heróis? Por que precisais de exemplos? Por que uma igreja cano-
niza uma certa pessoa, essa pessoa fica sendo santo? E qual é a
116
vossa medida de um santo? Vossa medida será de acordo com os
vossos desejos, esperanças e condicionamentos. Entretanto, co-
mo sabeis, a mente quer estar apegada a alguém, a algo que a
exceda. Precisais de líderes, de santos, de exemplos, para seguir-
des, para imitardes, porque em vós mesmos sois pobres, insufici-
entes. Portanto, dizeis: “se eu puder seguir alguém, isso me enri-
quecerá”. Jamais sereis enriquecidos; ao contrário, ficareis mais
pobres; porque é só quando a mente, quando todo o vosso ser
está vazio, e nada buscando, só então surge a Realidade criadora.
Não sois obrigados a crer o que estou dizendo. Vossos
santos e vossos guias não vos levaram a parte alguma. Só tendes
guerras, tribulações, lutas, uma batalha contínua, dentro e fora de
vós. Mas, se puderdes ver aquilo que sois — que sois interiormen-
te pobres, que estais numa rede de lutas e tribulações — se pu-
derdes perceber isso, sem tentardes transformá-lo em coisa dife-
rente, o que é apenas modificá-lo; se puderdes conservar-vos na
presença do que é, sem nenhum desejo de transformá-lo — há,
então, transformação. Todavia, enquanto a mente estiver tentan-
do imitar, ajustar, medir com suas ideias, preconcebidas quem é
santo e quem não o é, então está ela interessada apenas no seu
próprio preenchimento, que é uma coisa vã.
Viver sem temor - 1954

[...] CADA UM DE NÓS tem o desejo de segurança — nas


relações, no amor, nas crenças, nas nossas experiências; quere-
mos estar seguros, certos, livres de toda dúvida. E, uma vez que

117
este é o nosso mais íntimo desejo, psicologicamente falando, é
bem óbvio que temos de estribar-nos na autoridade. Eis a verda-
deira anatomia da autoridade, a sua verdadeira estrutura; aqui
temos a razão por que a mente cria a autoridade. Podeis rejeitar a
autoridade de uma certa sociedade, de um certo líder, ou de uma
certa religião; mas, nesse caso, vós mesmos criareis outra autori-
dade. E então será vossa própria experiência, vosso próprio saber
que se tornará vosso guia. Porque a mente quer sempre estar
certa; não pode viver num estado de incerteza. Por estar sempre
interessada na certeza, ela tem de criar autoridades.
E esta é a base em que está assentada a nossa sociedade,
com sua cultura, seu saber, suas religiões. Ela se baseia essencial-
mente na autoridade, a autoridade da tradição, do sacerdote, da
Igreja, ou a autoridade do especialista. Como a nossa intenção é
viver em segurança, tornamo-nos escravos dos especialistas. Mas,
sem dúvida, se queremos achar algo que seja real, e não apenas
ficar a repetir as palavras “Deus”, “Verdade”, que nenhuma signi-
ficação tem, quando repetidas; se queremos fazer algum desco-
brimento, a mente tem de achar-se numa insegurança absoluta,
num estado de não dependência de qualquer autoridade. Isto é
dificílimo para a maioria de nós, que fomos educados, desde pe-
quenos, para crer, para viver sempre em alguma espécie de de-
pendência; e, na falta do líder, do guia, do instrutor, do sacerdote,
criamos nossa imagem própria do que pensamos ser verdadeiro e
que nada mais é do que a reação de nosso próprio condiciona-
mento.
Assim sendo, parece-me que, enquanto a mente estiver
sendo moldada e controlada pela sociedade — não só o ambiente
social, educativo e cultural, mas o conceito geral de autoridade,
crença e conformismo — é bem óbvio que ela, a mente, não pode
encontrar o que é verdadeiro, e, portanto, não poderá ser criado-
ra; só saberá imitar, repetir. O problema, por conseguinte, não é
— “Como ser criador?” — e sim, — “se podemos compreender de
modo completo o “processo” do medo” — o medo da opinião dos
outros, o medo à solidão, o medo de perdermos dinheiro, o medo
de não alcançarmos a meta, de não sermos bem-sucedidos neste
118
mundo ou noutro mundo qualquer. Enquanto houver alguma
forma de temor, este temor criará a autoridade, da qual a mente
ficará dependendo; e, em tais condições, é bem de ver que a men-
te não será capaz, de avançar, de investigar, de afastar todos os
obstáculos, a fim de descobrir o que é “ser verdadeiramente cria-
dor”.
Não achais, pois, que é importante perguntemos a nós
mesmos, cada um de nós, se realmente somos indivíduos, e não
fiquemos meramente a dizer que o somos? Na realidade, não
somos indivíduos. Podeis ter um corpo separado, um rosto dife-
rente, nome e família diferentes; mas a vossa estrutura mental
interna está essencialmente condicionada pela sociedade; por
conseguinte, não sois indivíduos. Por certo, só a mente não acor-
rentada pelas imposições da sociedade, e todas as respectivas
complicações, só essa mente pode ser livre para investigar o que é
a Verdade e o que é Deus. Do contrário, nada mais fazemos senão
provocar repetidas catástrofes e nunca haverá possibilidade de
realizar-se aquela revolução que fará nascer um mundo totalmen-
te diferente. Esta me parece a única coisa verdadeiramente im-
portante — não a que sociedade, a que grupo, a que religião de-
vemos ou não devemos pertencer (pois tudo isso já se tornou
muito infantil), porém sim que cada um investigue, por si mesmo,
se a mente pode libertar-se de todas as imposições do uso, da
tradição, da crença, para investigar livremente o que é verdadeiro.
Só então poderão existir entes humanos criadores.

[...] PERGUNTA: Sempre vivi, para minha felicidade, na-


dependência de outras pessoas. Como posso desenvolver a capa-
cidade de só depender de mim mesmo?

Krishnamurti: Porque dependemos de outro para nossa


felicidade? Será porque estamos interiormente vazios que recor-
remos a outro para preencher esse vazio? E esse vazio, essa soli-
dão, esse sentimento opressivo de limitação, pode ser superado
pelo exercício de alguma capacidade? Se esse vazio tem de ser
superado por qualquer sistema ou capacidade ou ideia, nesse caso
119
ficareis na dependência dessa ideia ou desse sistema. Agora, por-
ventura, estou dependendo de uma pessoa...
Sinto-me vazio, só, num isolamento completo, dependo
de alguém. E, se crio ou tenho um método que me ajudará a supe-
rar essa dependência, ficarei então dependendo de tal método.
Apenas terei substituído a pessoa por um método. O que é impor-
tante, pois, neste caso, é descobrirmos o que significa “estar va-
zio”. Em última análise, dependemos de alguém, para nossa felici-
dade, porque em nós mesmos não somos felizes. Não sei o que é
amar, e por isso dependo de outra pessoa, de seu amor. Ora, pos-
so sondar esse vazio em mim existente, esse sentimento de com-
pleto isolamento, completa solidão? Já nos pusemos alguma vez
frente a frente com ele? Ou ele nos infunde terror e faz-nos fugir?
Mas esse “processo” de fuga ao vazio, é precisamente, o fator da
dependência. Assim sendo, pode a minha mente perceber a ver-
dade de que qualquer espécie de fuga ao que é cria dependência,
da qual resultam desventuras e aflições? Posso compreender,
exatamente, isto: que dependo de outrem para minha felicidade,
porque em mim mesmo estou vazio? Este é que é o fato: estou
vazio, e por isso dependo. Esta dependência causa-me sofrimento.
A fuga, sob qualquer forma, ao vazio, não é solução — não impor-
ta se como meio de fuga nos servimos de uma pessoa, de uma
ideia, de uma crença, de Deus, da meditação, etc. Nada adianta
fugirmos ao fato de o que é. Em nós mesmos há insuficiência,
pobreza do ser. No perceber, simplesmente, este fato e no “per-
manecer com ele” — sabendo- se que todo movimento da mente
para alterar o fato é outra forma de dependência — nesse perce-
bimento há liberdade.
Afinal de contas, por mais experiência que tenhamos, por
mais conhecimentos, crenças, ideias, se observamos bem, vemos
que a mente, em si, é vazia. Podemos manter-nos numa atividade
incessante, encher-nos de ideias, de distrações, de hábitos; mas
no momento em que cessa tal atividade, tornamo-nos cônscios de
que nossa mente está totalmente vazia. Ora, podemos permane-
cer “em companhia desse vazio?” Pode a mente encarar de frente
esse fato e “permanecer com ele”? Isto é muito difícil, porquanto
120
a mente está muito habituada à distração, foi muito bem treinada
para fugir ao que é — ligar o rádio, abrir um livro, conversar, ir à
igreja, comparecer a uma reunião, enfim qualquer coisa que a
habilite a fugir do fato central: a mente, em si, está vazia. Por mais
que lute para dissimular esse fato, a mente, em si, continua vazia.
Uma vez perceba esse fato, esse estado, pode a mente permane-
cer nele, sem fazer movimento algum?
Creio que a maioria de nós está cônscia — talvez rara-
mente, apenas, visto que quase todos andamos terrivelmente
ocupados e ativos — creio que a maioria de nós está cônscia, às
vezes, de que a mente está vazia, E quando estamos cônscios,
tememos o vazio. Nunca investigamos esse estado de vazio, nunca
o examinamos a fundo; temos-lhe medo e fugimos dele. Damos
um nome a esse estado, dizemos que é “vazio”, que é “terrível”,
que é “doloroso”; e esse próprio fato de lhe dar nome já criou
uma reação na mente, um temor, um impulso para evitar, fugir.
Pode a mente desistir de fugir desse estado e não lhe dar nome,
não lhe atribuir a significação de uma palavra, tal como “vazio”,
que nos desperta lembranças de prazer e de dor? Podemos enca-
rar o vazio, pode a mente estar cônscia dele, sem lhe dar nome,
sem fugi-lo, sem julgá-lo, e “ficar com ele”? Porque, então, o vazio
é a mente. Não há então um observador a observá-lo; não há
censor a condená-lo; há só o estado de vazio, com que todos es-
tamos muito bem familiarizados, mas que todos evitamos, ten-
tando preencher com atividades, devoções e rezas, com o saber e
toda espécie de ilusão e excitamento. Mas, ao cessar a ilusão, a
excitação, o medo, a fuga, e quando não mais estamos dando
nome à coisa (e portanto condenando-a) é o observador então
diferente da coisa observada? Sem dúvida, pelo dar nome, pelo
condenar, a mente cria um censor, um observador, fora dela pró-
pria. Mas quando a mente não dá nome, não condena, não julga,
então não há mais observador e, sim, só um estado a que cha-
mamos “vazio”.
Isso talvez pareça abstrato. Mas, se penetrardes o que
acabo de dizer, estou bem certo de que encontrareis um estado
que se pode chamar “vazio”, mas que não provoca temores, fugas
121
ou a tentativa de encobri-lo. Tudo isso cessa, se nos dispomos
verdadeiramente a investigar. Então, se a mente já não lhe dá
nome, já não o condena, existe “vazio”? Tornamo-nos então côns-
cios de que somos pobres e portanto dependentes, de que somos
infelizes e por isso estamos exigindo alguma coisa ou apegados a
alguém? Se já não estamos pondo um rótulo, um nome, e portan-
to condenando o estado percebido, é ele então, ainda, “vazio”, ou
coisa totalmente diferente?
Se vos aprofundardes nisso muito seriamente, encontra-
reis um estado em que não há mais dependência — nem de pes-
soa, nem de crença, nem de experiência, ou tradição. E então o
que se encontra além do vazio é a ação criadora da Realidade; não
atividade criadora de um talento ou capacidade, mas a ação cria-
dora daquilo que está além de todos os temores, todas as exigên-
cias, todos os artifícios da mente.

[...] PERGUNTA: Há um dito famoso: "Fique tranquilo e


conhecereis Deus”.

Krishnamurti: Vede, senhor, esta é uma das coisas estra-


nhas da vida: temos lido tanto, que andamos cheios do saber
alheio. Alguém disse: “Ficai tranquilo e conhecereis Deus”, e logo
surge o problema de “Como ficar tranquilo?” — e eis-nos de novo
empenhados no velho jogo. Ficai tranquilo — ponto final! E podeis
ter uma tranquilidade real, e não verbal, uma tranquilidade com-
pleta, total, mas só quando compreenderdes todo o processo de
“vir a ser”, quando perceberdes como ilusão o que agora é para
vós realidade, porque fostes criado nesta ilusão, porque a adotas-
tes e todos os vossos esforços a têm por alvo. Quando perceber-
des como ilusão este processo de vir a ser, manifestar-se-á “a
outra coisa”, mas não como “oposto”. Manifestar-se-á algo total-
mente diferente.
É claro que não vos estou oferecendo isto para aceitação.
Não deveis aceitar, de modo nenhum, o que estou dizendo. Se o
fizerdes, nenhuma significação terá o que digo. Requer-se uma
percepção direta, independente de qualquer outra pessoa, uma
122
ruptura completa de toda a linha de tradições, gurus, instrutores,
sistemas de ioga, de todas as complicações inerentes à luta para
ser, vir a ser algo. Só então achareis liberdade, não para ser ou vir
a ser — que é só satisfação do “eu”, e implica sofrimento — mas
uma Liberdade onde está presente o Amor, a Realidade, algo que
a mente não pode medir.
K na Austrália a Holanda - 1955

[...] QUE É QUE me impede de ter a clareza necessária pa-


ra compreender o todo, a totalidade do meu ser? No próprio
"processo" da compreensão de que o meu ser é resultado da tra-
dição, do tempo, da cultura, do medo, da experiência, não pode-
rei lançar à margem tudo isso, para que a mente esteja fresca,
lúcida, e apta a descobrir, a perceber diretamente? Estou certo de
que a maioria de nós já fez tal pergunta. Pode a mente ser livre,
independente de qualquer outro, seja quem for esse outro, inde-
pendente de qualquer sistema ou roteiro? Se sigo um sistema, um
roteiro, terei naturalmente os resultados a que o sistema ou o
roteiro conduz, mas já não serei um indivíduo, um verdadeiro
descobridor. O verdadeiro descobridor tem de ser um indivíduo
livre. Assim, pois, que nos está impedindo de ter essa extraordiná-
ria capacidade de investigar profundamente, sem nos satisfazer-
mos com explicações superficiais e crenças? Uma das razões é que
agimos, pensamos, de acumulação em acumulação, não é verda-
de? Onde há acumulação tem de haver imitação. Toda experiência
deixa um resíduo, uma lembrança, e em virtude dessa lembrança
agimos, acumulamos, e tornamos mais forte o "eu". Não há um só
momento em que nosso espírito esteja verdadeiramente livre,
sem os resíduos das experiências de ontem. Essa memória, resul-
tado de anos de acumulação, essa memória é que nos priva da
capacidade de percebimento claro, direto. Como vemos, a nossa
mente nunca é livre.

123
Não sei se já notastes como toda experiência deixa um re-
síduo, um resultado, ao redor do qual as experiências ulteriores
vão sendo traduzidas, colhidas, acumuladas e conservadas. A
memória, pois, como experiência, como tradição, como saber,
constitui uma carga que nos impede a capacidade de ser livres,
completamente individuais, e capazes de descobrir as coisas por
nós mesmos. Se um homem nasceu hinduísta ou cristão, o seu
espírito naturalmente foi condicionado segundo uma determinada
simbologia, segundo várias ideias relativas à realidade, à medita-
ção; e através desse condicionamento a mente experimenta, e
fortalece, assim, cada vez mais tal condicionamento. O cristão, em
matéria espiritual, estará sempre apegado à imagem do Cristo ou
da Virgem Maria, e o hinduísta faz a mesma coisa, à sua maneira.
Quando se é livre, totalmente, e não apenas à superfície - o que
significa: quando não há imitação em circunstância alguma, quan-
do não há tendência para o conformismo, psicologicamente, inte-
riormente -, só então, por certo, tem o indivíduo a capacidade de
investigar, de descobrir.
Se prestastes atenção até aqui, ocorrer-vos-á naturalmen-
te esta pergunta: "Como posso libertar-me de toda acumulação
do passado, de todo o meu condicionamento?" Não há "como"; só
há o descobrimento da Verdade, sem se perguntar "como ser
livre?" Porque se toda nossa atenção está aplicada ao descobri-
mento do que é verdadeiro, então este próprio percebimento,
este próprio escutar do que é verdadeiro, liberta. Enquanto esta-
mos pensando em termos de crença, ilusão, coisas que desejamos
ser, somos incapazes de escutar, de dar toda a nossa atenção.
Nossas crenças, nossas tradições, nossos símbolos, nos impedem
o efetivo escutar de qualquer verdade. A mim me parece que a
única coisa importante é a atenção; a atenção completa é o bem
completo. A atenção que tem em mira um objetivo já não é aten-
ção, é exclusão.
Por conseguinte, se formos capazes de escutar, não com o
fim de ganharmos alguma coisa - porque tal atenção se torna ex-
clusivista, estreita, limitada - e, sim, com o nosso ser inteiro, escu-
tar totalmente, sem objetivo algum, ver-se-á que nunca mais pe-
124
diremos o "como", o método, o sistema, a filosofia, a disciplina.
Nesse estado de atenção completa não há contradição dentro de
nós mesmos, não há batalha entre o consciente e o inconsciente -
é a atenção total. Por conseguinte, não há necessidade de se per-
correr todo o "processo" psicanalítico, exumando, uma por uma,
as lembranças, para nos tornarmos livres delas.
Podemos, então, vós e eu, que estamos escutando, expe-
rimentar de fato, sem que cada experiência deixe resíduo algum?
Compreendeis o problema. Se experimento algo, essa experiência
deixa uma lembrança, esta lembrança condicionará as experiên-
cias futuras; e, nessas condições, não será possível experimentar
aquilo que é imensurável. O que é está fora do tempo; e a memó-
ria é do tempo. Quer se trate da lembrança superficial de um da-
do incidente, quer da lembrança de uma experiência que tivemos
em raras ocasiões, em que sentimos, em que conhecemos talvez
algo que excede todas as medidas da mente, algo eterno, como
quer que seja, estamos perenemente apegados a tal experiência,
com o que a mente fica impedida de experimentar mais além,
mais profundamente. Enquanto a experiência deixar vestígio de
memória, que é tempo, nunca será possível experimentar o que é
eterno. A mente, portanto, deve deixar-se morrer, momento por
momento, para cada experiência. Efetivamente, só nesse estado
ela é criadora. E pode-se adquirir a capacidade de profunda pene-
tração? Acho que sim, mas isso só é possível quando não nos sa-
tisfazemos com explicações, quando não nos deixamos nutrir com
palavras; quando já não dependemos da experiência de outros;
quando não recorremos a ninguém e empreendemos a viagem
completamente sós, depois de nos desvencilharmos de todas as
tradições, toda a cultura, toda crença, e, sobretudo, todo o saber.
Porque, se a mente está abarrotada de sabença, só poderá expe-
rimentar aquilo que sabe.
Assim sendo, é possível pormos de parte, vós e eu - não
teoricamente, não apenas por agora, porque estamos escutando
uma palestra, mas realmente, diretamente -, é possível pormos de
parte toda a acumulação racial, hereditária, deixarmos de ser
ingleses, ou hindus, deixarmos de ter religião, no sentido de orto-
125
doxia, dogmas, símbolos? Se ficamos apegados a todas estas coi-
sas já não somos verdadeiros descobridores.
Estamos, então, meramente em busca de uma satisfação,
do prazer de uma experiência exigida pelo nosso condicionamen-
to. E eu penso que aquela capacidade não é coisa do tempo. Se
levamos em conta o tempo, cairemos de novo na sujeição ao mé-
todo. Mas se vemos, se sentimos a importância de perceber cla-
ramente a necessidade de completa liberdade interior, se vemos a
verdade a esse respeito, então esse próprio percebimento, esse
próprio escutar com plena atenção, traz a capacidade.

[...] UM DOS NOSSOS numerosos problemas parece ser o


da dependência, esta nossa dependência de pessoas para nossa
felicidade, dependência de capacidade, a dependência que nos
obriga a ficar apegados a alguma coisa. E a questão é: pode a
mente, em algum tempo, estar totalmente livre de toda depen-
dência? Considero esta uma das perguntas fundamentais que
deveríamos fazer a nós mesmos constantemente. Naturalmente,
não estamos falando da dependência superficial, mas, no nível
mais profundo, encontra-se aquela dependência psicológica, de
certa segurança, de certo método que garanta à mente um estado
de permanência; há a busca de uma ideia, de uma relação que
seja duradoura. E sendo este um dos nossos principais problemas,
parece-me muito importante que o examinemos com certa pro-
fundeza, pois não devemos "responder" superficialmente com
uma reação imediata. Porque é que dependemos? Psicologica-
mente, interiormente, dependemos de uma crença, um sistema,
uma filosofia; pedimos a outro uma norma de conduta; procura-
mos instrutores, em busca de uma maneira de vida que nos propi-
cie certa esperança, certa felicidade. Assim, estamos sempre - não
é verdade? - procurando alguma espécie de dependência, de se-
gurança. Tem a mente possibilidade de libertar-se dessa ideia de
dependência? Com isso não quero dizer que a mente deva con-
quistar a independência, o que só seria uma reação à dependên-
cia. Não estamos falando de independência, libertação de certo
estado. Se pudermos investigar, sem a reação de buscar libertar-
126
nos de certo estado de dependência, poderemos penetrar muito
mais profundamente na questão da dependência. Mas se, na nos-
sa investigação, saímos por uma tangente, buscando a indepen-
dência, nunca compreenderemos integralmente esta questão da
dependência psicológica. Sabemos que dependemos: das nossas
relações com pessoas, de certa ideia, ou de um sistema de pen-
samento. Por quê? Aceitamos a necessidade de dependência.
Dizemo-la inevitável. Nunca pusemos em questão este ponto,
nunca indagamos porque cada um de nós anda em busca de al-
guma espécie de dependência.
A causa não é que, na realidade, e muito profundamente,
sentimos necessidade de segurança, permanência? Vendo-nos
num estado de confusão, desejamos que algo nos salve dessa
confusão. Estamos, pois, sempre interessados em fugir ou evitar o
estado em que nos achamos. No processo de evitar esse estado,
temos de criar, forçosamente, alguma espécie de dependência, a
qual se torna nossa autoridade. Se dependemos de outrem para
nossa segurança, nosso bem estar interior, dessa dependência
resultam inumeráveis problemas; e tentamos então resolver esses
problemas, que são problemas criados pelo apego. Mas nunca
inquirimos, nunca examinamos o próprio problema da dependên-
cia. Talvez, se pudermos examinar este problema de maneira ver-
dadeiramente inteligente, com plena atenção, talvez então pos-
samos descobrir que não é, em absoluto, a dependência que cons-
titui o problema, que ela é apenas um modo de fugirmos a um
fato mais profundo.
Peço licença para sugerir, àqueles que estão tomando no-
tas, que se abstenham disso. Porque estas reuniões não serão
proveitosas se o que queremos é meramente lembrar-nos, depois,
do que se esteve dizendo. Mas, se pudermos experimentar dire-
tamente o que se está dizendo, agora, e não depois, isso terá um
significado positivo, será uma experiência direta, e não uma expe-
riência recolhida, mais tarde, das vossas notas, e pensada de me-
mória. Além disso, se posso observá-lo, o tomar notas perturba os
que estão perto de vós.

127
Como dizia, porque dependemos e fazemos da dependên-
cia um problema? Na verdade, penso, o problema não é a depen-
dência; a meu ver, há outro fator mais profundo, que nos faz de-
pender.
E, se pudermos descobrir esse fator, então a dependência
e a luta pela libertação se tornam muito pouco significativas; en-
tão, todos os problemas que surgirem em razão da dependência
reduzir-se-ão a nada.
Qual é, pois, esse fator mais profundo? É a mente detes-
tar e temer a ideia de estar só? E conhece a mente esse estado
que está evitando? Dependo de alguém, psicologicamente, interi-
ormente, por causa de um estado que estou tentando evitar, mas
que nunca investiguei, nunca examinei. Por isso, a minha depen-
dência de uma pessoa - de quem desejo amor, estímulo, orienta-
ção - se torna imensamente importante, como todos os proble-
mas dela decorrentes. Mas, se sou capaz de perceber o fator que
é o meu depender de uma pessoa, de Deus, da oração, de certa
capacidade, certa fórmula ou conclusão que chamo "crença", tal-
vez então eu possa descobrir que tal dependência resulta de uma
exigência interior a que, em verdade, nunca prestei atenção, nem
levei em conta.
Podemos, nesta tarde, dar atenção a este fator, o fator
que a mente evita o sentimento de completa solidão, que só co-
nhecemos superficialmente? Que é "estar solitário"? Podemos
examinar isso agora, sem o perdermos de vista um só instante,
sem introduzirmos nenhum outro problema? Considero, com
efeito, esta questão sumamente importante, porque, enquanto
aquela solidão não for realmente compreendida, sentida, pene-
trada, dissolvida - ou qualquer outra palavra que preferirdes -,
enquanto persistir este sentimento de solidão, será inevitável a
dependência, nunca seremos livres, nunca poderemos descobrir
por nós mesmos o que é verdadeiro, o que é religião. Enquanto
estou dependendo tem de haver alguma autoridade, tem de ha-
ver imitação, tem de haver compulsão sob diferentes formas, tem
de haver disciplinamento segundo certo padrão. Pode, pois, a
mente descobrir o que é "estar na solidão", e passar além, de
128
modo que seja posta em liberdade e não dependa mais das cren-
ças, dos deuses, dos sistemas, das orações, nem de coisa alguma?
Não há dúvida de que, enquanto estamos buscando um
resultado, um fim, um ideal, essa própria ânsia de achar cria de-
pendência, de que resultam os problemas da inveja, da "exclu-
são", do isolamento, e tudo o mais. Nessas condições, pode a
minha mente conhecer a solidão em que de fato se encontra,
embora eu a esteja encobrindo com o saber, relações, e várias
outras formas de distração? Posso compreender efetivamente
essa solidão? Porque não é este um dos nossos maiores proble-
mas, este apego e a luta para nos desapegarmos? Podemos exa-
minar juntos este problema, ou isto é completamente impossível?
Enquanto há apego, dependência, tem de haver "exclusão" (sepa-
ração). A dependência da nacionalidade, a identificação com de-
terminado grupo, determinada raça, determinada pessoa ou cren-
ça, é evidentemente um fator de separação. Assim, é provável
que a mente esteja sempre, como entidade separada, buscando
isolamento e evitando um fator mais profundo, que realmente é
separativo: o processo egocêntrico de seu próprio pensar, gerador
de solidão.
Vós conheceis o sentimento de que devemos identificar-
nos como hinduístas, cristãos, como pertencentes a certa casta,
grupo, raça, tudo isso é bem sabido de vós. Se pudermos, cada um
de nós, compreender o problema mais profundo, o problema
implícito, talvez então termine toda influência geradora de de-
pendência, e a mente fique de todo livre. Este problema é talvez
tão difícil que não possa ser discutido num tão grande grupo.

Ouvinte: Podeis definir a palavra "só", em contraste com


"solidão"?

Krishnamurti: Por favor, nós não estamos, com certeza,


buscando definições, estamos? Estamos perguntando se cada um
de nós está cônscio de sua solidão - não agora, talvez -, mas nós
conhecemos esse estado e sabemos que estamos fugindo dele por
129
vários meios, e, consequentemente, multiplicando os nossos pro-
blemas. Ora, posso eu, pelo percebimento, "queimar" a raiz do
problema, de modo que ele nunca mais torne a surgir ou, se tor-
nar, eu saiba resolvê-lo sem criar novos problemas?

Ouvinte: Significa isso que devemos quebrar os laços que


são insatisfatórios?

Krishnamurti: Ora, não é isto que estamos discutindo, é?


Parece que não nos estamos entendendo bem. É por isso que
estou incerto quanto à possibilidade de discutirmos este proble-
ma num grupo tão grande. Nós sabemos - não é verdade? - que
estamos apegados. Dependemos de pessoas, de ideias. Faz parte
da natureza do nosso ser o depender de alguém. E a essa depen-
dência chamamos amor. Agora, pergunto a mim próprio, e talvez
pergunteis também a vós mesmos, se é possível libertar a mente,
psicologicamente, interiormente, de toda dependência, pois per-
cebo que, por causa da dependência, surgem problemas e mais
problemas, um nunca acabar de problemas. Por essa razão, per-
gunto a mim mesmo se é possível ficarmos num estado de perce-
bimento tal que esse próprio percebimento faça consumir-se o
sentimento de dependência, de outrem ou de uma ideia, de modo
que a mente, com o total desaparecimento da dependência, não
mais se veja isolada.
Por exemplo: eu dependo da identificação com um dado
grupo; satisfaz-me intitular-me hinduísta ou cristão; pertencer a
uma dada nacionalidade é muito satisfatório. Eu mesmo, interi-
ormente, sinto-me muito insignificante. Não sou ninguém, e, as-
sim, se posso chamar-me "alguém", sinto satisfação. Esta é uma
forma de dependência, num nível muito superficial, talvez, mas
que gera o veneno do nacionalismo. E há muitas outras formas,
mais profundas. Pois bem, posso transcender tudo isso, de modo
que minha mente nunca mais dependa, psicologicamente, não
tenha dependência de espécie alguma e não busque nenhuma
forma de segurança? Ela não buscará a segurança se compreendo
esse senso de "exclusão", de que estou cônscio, e a que chamo
130
"solidão" - esse processo egocêntrico de pensar, que gera o isola-
mento.
O problema, pois, não é de como nos tornarmos desape-
gados, de como libertar-nos de pessoas ou ideias, mas, sim: pode
a mente deter esse processo em que ela se fecha a si mesma por
meio de suas próprias atividades, suas próprias exigências, seus
anseios? Enquanto houver a ideia de "mim", "eu", tem de haver
solidão. Atingimos a própria essência do processo de autoenclau-
suramento quando descobrimos esse extraordinário sentimento
de solidão. Posso "queimar" tal processo, de modo que a mente
nunca mais busque nenhuma forma de segurança, e não tenha
mais exigências? Isso não pode ser respondido por mim, mas por
cada um de vós. O que posso fazer é só descrever; mas a descri-
ção se torna simplesmente um obstáculo se não for realmente
experimentada. Mas, se esta descrição vos revela o processo do
vosso pensar, então ela própria é um percebimento de vosso pró-
prio estado. E, nesse caso, posso permanecer nesse estado? Posso
deixar de movimentar-me para longe do fato da solidão, e perma-
necer "lá", sem fugir de maneira nenhuma, sem evitá-la nunca?
Ao perceber, compreender que o problema não é a dependência,
mas a solidão, pode a minha mente permanecer imóvel nesse
estado a que chama "solidão"? Isto é dificílimo, porque a mente
nunca pode "ficar" com um fato; ela sempre o traduz, ou o inter-
preta, ou faz alguma coisa com relação ao fato; nunca "fica" com o
fato.
Se a mente puder permanecer com o fato, sem dar ne-
nhuma opinião a respeito dele, sem traduzi-lo, sem condená-lo,
sem evitá-lo, é o fato então diferente da mente? Existe separação
entre o fato e a mente, ou a própria mente é o fato? Por exemplo,
eu estou solitário. Estou cônscio disso, sei o que significa: é um
dos problemas de nossa existência diária, de toda a nossa existên-
cia. E quero estudar, por mim mesmo, esta questão da dependên-
cia, para ver se a mente pode ficar livre, não apenas especulativa,
teórica, ou filosoficamente, mas livre, efetivamente, da depen-
dência. Porque, se meu amor depende de outra pessoa, não te-
nho amor. E desejo descobrir que estado é esse a que chamamos
131
"amor". Ao tentar descobri-lo, é possível que desapareça comple-
tamente a disposição para a dependência, para a segurança, nas
relações, que desapareça toda exigência, todo desejo de perma-
nência; e posso então ver-me em presença de um fato completa-
mente diferente. E, assim, pelo investigar, pelo examinar a mim
mesmo, posso chegar àquela coisa a que chamo "solidão". Agora,
posso "ficar" com ela? Com "ficar", quero dizer: não interpretá-la,
não avaliá-la, não condená-la, mas só observar o estado de soli-
dão, sem nenhum movimento de recuo. E se minha mente é capaz
de "ficar" com esse estado, esse estado é então diferente da mi-
nha mente? É possível que a minha mente esteja, ela própria,
solitária, vazia, e que não haja um estado de vazio, que a mente
observa. Minha mente observa a solidão, e a evita, foge dela.
Mas, se não fujo à solidão, há então divisão, há separação, há um
observador que observa a solidão? Ou só há um estado de solidão
- a minha mente vazia, solitária, e não um observador que sabe
que há solidão? Acho importante compreender isso, rapidamente,
sem muita "verbalização". Digo, agora: "Sou invejoso e quero li-
vrar-me da inveja" - temos assim um observador e uma coisa ob-
servada; o observador quer livrar-se daquilo a que observa. Mas o
observador não é a mesma coisa que aquilo que está sendo ob-
servado? Foi a própria mente que criou a inveja, e portanto a
mente nada pode fazer com relação a inveja. A minha mente,
pois, observa a solidão; o pensador está cônscio de achar-se soli-
tário. Mas, se ele "ficar com isso", em pleno contato com "isso" -
quer dizer, não fugir da coisa, não a traduzir, etc. -, há então al-
guma diferença entre o observador e aquilo que está sendo ob-
servado? Ou só há um estado único, que é: a própria mente está
solitária, vazia? Isto não quer dizer que a mente se observa como
estando vazia, mas, sim, que ela própria é vazia.
Pode então a mente, percebendo que ela própria é vazia e
que toda tentativa, todo movimento para afastar-se desse vazio, é
meramente uma fuga, uma dependência, pode a mente apartar
de si toda dependência, e ser o que ela é - vazia, solitária, comple-
tamente? E nesse estado, não está a mente livre de toda depen-
dência, todo apego? Notai, por favor, que isto é uma coisa que
132
tem de ser investigada, e não aceita só porque eu o estou dizen-
do. Nenhuma significação tem ela se meramente a aceitais. Mas,
se estais experimentando a coisa enquanto vamos caminhando,
vereis que todo movimento por parte da mente - sendo movimen-
to: avaliação, condenação, tradução, etc. -, que todo movimento é
uma distração que nos afasta do fato de o que é e cria conflito
entre a mente e a coisa observada.
Isto, para irmos mais longe, é realmente uma questão de
saber se a mente pode existir sem esforço, sem dualidade, sem
conflito, e ser, portanto, livre. No momento em que a mente se vê
envolvida em conflito, ela não é livre. Quando não há esforço para
ser livre, há liberdade. Pode, pois, a mente existir sem esforço e,
por conseguinte, ser livre?

Pergunta: Sou capaz, agora, de aceitar os problemas que


me dizem respeito. Mas como posso deixar de sofrer por meus
filhos, quando são atingidos pelos mesmos problemas?

Krishnamurti: Porque dependemos de nossos filhos? E,


além disso, amamos os nossos filhos? Se há amor, como pode
haver dependência, como pode haver sofrimento? Nossa ideia de
amor é que devemos sofrer por outros. É amor, sofrer? Ou o fato
é que eu dependo de meus filhos, que busco através deles a imor-
talidade, o preenchimento, etc.? Por isso, desejo que meus filhos
sejam algo; e, se não o são, sofro. Bem pode ser que o problema
não sejam os filhos, absolutamente, mas eu próprio. E repetimos:
talvez não saibamos o que é amar. Se amássemos os nossos filhos
impediríamos todas as guerras futuras, é claro. Não condicionarí-
amos os nossos filhos. Eles não seriam nem ingleses, nem hindus,
nem brâmanes, nem não brâmanes; seriam crianças. Mas, como
não amamos, dependemos dos nossos filhos; através deles espe-
ramos preencher a nós mesmos. E, assim, quando nosso filho, por
meio de quem queremos preencher-nos, faz algo que não é aquilo
que queremos, sentimos pesar, e há conflito. Fazer simplesmente
uma pergunta e esperar a resposta tem pouca significação. Mas se
pudermos observar por nós mesmos o "processo" desse apego, o
133
"processo" dessa busca de preenchimento por meio de outro, o
que é dependência e deve, inevitavelmente, criar sofrimentos, se
pudermos percebê-lo por nós mesmos, como um fato, poderá
surgir uma coisa diferente, quiçá amor. E tal relação produzirá
então uma sociedade diferente, um mundo muito diferente.

[...] OUVINTE: Desejo perguntar-vos se reconheceis o en-


sino do Buda de que a compreensão correta ajudará a resolver os
problemas interiores do homem, e que a paz interior do espírito
depende inteiramente da autodisciplina. Concordais com os ensi-
namentos de Buda?

Krishnamurti: Quando estamos investigando a verdade a


respeito de qualquer coisa, toda autoridade tem de ser posta à
margem, positivamente! Se alguém almeja descobrir a verdade,
não deve haver Buda nem Cristo. E isso significa, com efeito, que a
mente deve ser capaz de estar completamente só, e não depen-
dente. Buda pode estar enganado, Cristo pode estar enganado, e
qualquer de nós pode também estar enganado. Temos, por certo,
de chegar ao estado em que não se aceita autoridade de espécie
alguma. Esta é a primeira coisa: desmantelar a estrutura da auto-
ridade. No desmantelar da imensa estrutura da tradição, esse
mesmo processo produz uma compreensão. Mas o mero aceitar
de uma coisa, porque está dita num livro sagrado, tem muito pou-
ca significação.
Ora, para descobrir o que se acha além do tempo, o pro-
cesso do tempo tem de cessar, não achais? O processo de busca
tem de terminar. Porque, se estou buscando, então estou depen-
dendo - não só de outrem, mas também de minha própria experi-
ência, pois, se aprendi alguma coisa, procuro fazer uso dela para
guiar-me. Para achar o verdadeiro, não deve haver busca de espé-
cie alguma, e tal estado é a real tranquilidade da mente. É muito
difícil a uma pessoa que foi criada numa determinada cultura,
numa dada crença, com certos símbolos de tremenda autoridade,
lançar fora tudo isso e pensar de maneira simples, por si mesma, e
descobrir. Ela não poderá pensar de maneira simples se não co-
134
nhecer a si mesma, se não tiver autoconhecimento. E ninguém
pode dar-nos o conhecimento de nós mesmos - nenhum instrutor,
nenhum livro, nenhuma filosofia, nenhuma disciplina. O "eu" está
num movimento constante; enquanto ele vive, precisa ser com-
preendido. E só pelo autoconhecimento, só pela compreensão do
processo de meu próprio pensar, observado no espelho de cada
reação, posso descobrir que, enquanto há qualquer movimento
do "eu", da mente, em direção a um objetivo - Deus, a verdade a
paz - essa mente não é uma mente quieta, pois está querendo
realizar, apanhar, alcançar certo estado. Se há qualquer espécie
de autoridade, de compulsão, de imitação, a mente não pode
compreender. E para saber que a mente está imitando, que está
sendo embargada pela tradição, para se estar cônscio de que ela
está perseguindo suas próprias experiências, suas próprias proje-
ções, para tanto requer-se muita penetração, muito percebimento
e autoconhecimento.
Só então, com todo o conteúdo da mente, toda a consci-
ência, posto a descoberto e compreendido, haverá a possibilidade
de um estado a que se pode chamar "tranquilidade", um estado
sem experimentador e sem reconhecimento.

[...] KRISHNAMURTI: Em nossa vida de cada dia existe a


ânsia de preenchimento. E a esta ânsia se associam a frustração, o
pesar, o sofrimento, a inveja, e muitas outras coisas que conhe-
cemos muito bem. Há sempre o sentimento de que nos falta algo,
um sentimento de insuficiência, não é verdade? Posso preencher-
me num sentido, e sentir-me completamente infeliz noutro senti-
do. Tal estado perdurará indefinidamente; a frustração é um pro-
cesso contínuo. Meu problema, por conseguinte, é descobrir a
verdade, isto é, se há preenchimento. E por que desejamos pre-
encher-nos?
Ouvinte: Porque tememos o estado em que nos sentimos
não preenchidos; temos medo de permanecer não preenchidos.
Krishnamurti: Investiguemos, examinemos a nós mesmos.
O preenchimento é um estado transitório, o interesse varia cons-

135
tantemente. Não há estado permanente de preenchimento, há?
Portanto, por que existe o desejo de preenchimento?
Ouvinte: Porque ansiamos pela permanência.
Krishnamurti: Logo, visto que, em nós mesmos, não so-
mos permanentes, que nenhuma riqueza existe em nós, que so-
mos interiormente pobres, e sofremos, buscamos o preenchimen-
to, procuramos adquirir, ser algo. Esta é a raiz do problema, não
achais? Estais percebendo?
Auditório: Sim.
Krishnamurti: Continuemos, então. Estamos confusos,
sentimo-nos sós, insuficientes interiormente. Tal é o fato. Toda
ação que nos distancia deste fato é uma fuga, não? E esta é uma
das coisas mais difíceis: não fugir. Porque o observar, o considerar
o fato, estar cônscio dele, exige não condenação do fato, não
comparação, não avaliação. Assim sendo, podemos, não teorica-
mente, mas de maneira real, "experimentar" esta coisa de que
estamos falando? Porque, então, veremos que é possível ficar
totalmente livre desse sentimento de insuficiência, dessa causa
fundamental dos nossos sofrimentos.
Ouvinte: Quereis dizer que devemos estar satisfeitos as-
sim como somos?
Krishnamurti: Não, senhor - porque isso só leva à estag-
nação, à imobilidade, à morte. Eu estou mostrando que qualquer
interpretação de um fato ou se baseia na satisfação ou na insatis-
fação. Assim, posso observar aquele fato, que é a insuficiência
interior, sem comparar, sem julgar? Posso observá-lo sem medo?
Não é o meu medo ao fato que me obriga a fazer todas essas coi-
sas, que me faz perseguir o ideal? Compreendemos agora que é o
medo que nos leva a comparar, o medo de algo que não conhe-
cemos? Demos-lhe o nome de "insuficiência", "solidão", "desdita",
"confusão"; e, tendo dado um nome ao fato, condenamo-lo e
fugimos dele. Quando não condenamos, quando não julgamos,
quando não avaliamos e comparamos, resta-nos então só o medo.
Está tudo claro até aqui?
Auditório: Sim. Sim.

136
Krishnamurti: Medo de quê? Entendeis esta pergunta?
Tenho medo de um estado a que chamo "insuficiência". Eu não
conheço esse estado, nunca o observei verdadeiramente, mas
tenho-lhe medo. Porque lhe tenho medo, fujo dele. Mas, agora,
não estou fugindo, por meio da comparação ou do ideal, porquan-
to já percebo a falsidade da fuga. Resta-me, pois, só o medo de
uma coisa, a respeito da qual nada sei. Não é exato isso?
Auditório: Sim.
Krishnamurti: Se estais seguindo realmente o que estou
dizendo - não verbalmente, intelectualmente, "descritivamente" -
podereis ver claramente o "processo" revelando-se, e as profun-
dezas a que se pode descer. Já não tenho ideais, que perderam
toda significação. Não estou mais lutando por um alvo. O fato é:
tenho medo de uma coisa que não conheço; mas, se deixo de
fugir dessa coisa, fico então em companhia do fato e do medo. Se
me ocupo com o medo, se pergunto "como me livrarei do medo",
isto será outra fuga do fato, não achais? Agora, estou interessado
na compreensão de o que é; e vejo que, porque dei a uma coisa o
nome de "vazio", "solidão", "insuficiência", criou-se o medo. O por
um rótulo na coisa fez surgir a reação de medo a tal rótulo.
Em vista disso, pode a mente tornar-se cônscia da coisa,
sem a condenar, nem julgar, nem fugir, nem lhe dar nome? É difi-
cílimo, porque quase todos estamos tão condicionados para o
cultivo do ideal que isso nos impede de encarar o fato real. Não
somos capazes de observar o fato, por causa da comparação, por-
que a mente lhe põe um rótulo, lhe dá um nome. Mas, quando
não se dá nome ao fato, quando não fugimos dele por meio dos
ideais, da comparação, do julgamento, que resta então? Fica al-
guma coisa que possa ser chamada "insuficiência"? Existe ainda
aquele desejo de preenchimento, que gera a frustração? Estamos
começando a descobrir como nossa mente foi até agora incapaz
de observar qualquer coisa, livre desse processo confuso e con-
traditório. Só quando a mente é capaz de abandoná-lo de todo -
não à custa de esforço, mas porque percebe a verdade a seu res-
peito -, só então a inveja cessa, cessa de todo. Já não está essa
mente sob a influência de nenhuma sociedade ou cultura, porque
137
toda a nossa cultura se baseia na inveja. E ver-se-á, então, que a
mente não mais estará buscando, porque nada mais há que bus-
car. Essa mente estará então deveras tranquila. O mero repetir do
que acabo de dizer não terá significação nenhuma. Mas o "expe-
rimentar", de fato, pelo autoconhecimento, sem acumular o que
se "experimentou" - uma vez que a acumulação desfigura toda
experiência ulterior -, o estar cônscio de tudo isso, dá-nos a ver-
dade, dá-nos aquela extraordinária liberdade que vem quando
estamos completamente sós. A mente que está completamente
só, não contaminada, que não foge - essa mente é capaz de rece-
ber o que é verdadeiro.
Transformação fundamental - 1955

[...] PERGUNTA: Não admitis a necessidade da orientação


dada por um guia? Se, como dizeis, não deve mais haver nem
tradição nem autoridade, nesse caso todos terão de lançar novas
bases para a sua existência. Assim como o corpo físico teve um
começo, não deve haver também um começo para o nosso corpo
espiritual e mental e não deve este ascender de cada degrau para
o degrau superior, imediato? Assim como nosso pensamento se
inflama, quando vos ouvimos, não é necessário despertá-lo, pelo
contato com os grandes espíritos do passado?

Krishnamurti: Senhor, este é um problema velho como o


mundo. Pensamos que necessitamos de um guru, um instrutor,
para nos despertar a mente. Pois bem. Que implica isso? Implica,
de um lado, o homem que sabe, de outro lado, o homem que não
sabe. Continuemos devagar, sem nos deixarmos influir por pre-
conceitos. "O homem que sabe" se torna a autoridade, e "o ho-

138
mem que não sabe" se torna seu discípulo. E o discípulo vai sem-
pre seguindo o mestre, na esperança de alcançá-lo, de se colocar
no mesmo nível que ele. Agora, prestai atenção! Quando o guru
diz que sabe, já não, é guru. Porque o homem que diz que sabe,
não sabe. E vede porque não sabe: porque a Verdade, a Realida-
de, ou "o outro estado", não se acha num ponto fixo, não se pode
alcançar por um certo caminho, e temos de descobri-la momento
por momento. Se está num ponto fixo, nesse caso esse ponto se
acha dentro dos limites do tempo. Para um ponto fixo pode haver
caminho, como há um caminho para vossa casa; mas para uma
coisa viva que não tem pouso fixo, que não tem começo nem fim,
não pode haver caminho algum.
Ora, um guru que se oferece para ajudar-vos a conhecer a
Realidade só poderá ajudar-vos a reconhecer o que já conheceis;
porque o que se pode reconhecer, experimentar, tem de ser re-
conhecível, não achais? Quando o reconheceis, dizeis: "Experi-
mentei" - mas o que é reconhecível, não pode ser aquele outro
estado. O outro estado não é reconhecível, pois nunca foi conhe-
cido; não é uma coisa que já experimentastes e que sois capazes
de reconhecer. O "outro estado" é uma coisa que tem de ser des-
coberta momento por momento; e para descobri-la, a mente tem
de ser livre. Senhor, a mente tem de estar livre para descobrir
qualquer coisa; e a mente agrilhoada pela tradição, antiga ou mo-
derna, a mente que leva a carga da crença, dos dogmas, dos ritos,
não é livre, evidentemente. Para mim, a ideia de que um outro
pode despertar-vos, não tem validade alguma. Isto não é uma
opinião; é um fato. Se um outro vos desperta, ficais sob sua in-
fluência, dependente dele; por conseguinte não sois livre; e só a
mente livre pode descobrir.
É este, portanto, o problema, não achais?
Aspiramos àquele outro estado, e uma vez que não sabe-
mos como alcançá-lo, passamos invariavelmente a depender de
alguém, a quem chamamos instrutor, guru, ou a depender de um
livro, ou de nossa própria experiência. E está criada, assim, a de-
pendência, e onde há dependência há também autoridade. A
mente se torna, por conseguinte, escrava da autoridade, escrava
139
da tradição, e essa mente, de toda evidência, não é livre. Só a
mente que é livre, pode descobrir; e contar com a ajuda de outro
para o despertar da mente, é o mesmo que recorrer a uma droga
que vos fará ver as coisas com muita nitidez, muita clareza. Há
drogas que podem fazer a vida parecer, momentaneamente, mui-
to mais "vital", de modo que todas as coisas assumem um relevo,
um brilho extraordinário - as cores que vedes todos os dias, sem
lhes dar atenção, se tornam extraordinariamente belas, etc. Tal
poderá ser o vosso "despertar" da mente, mas estareis então na
dependência da droga, como dependeis agora de vosso guru ou
de um certo livro sagrado. E quando se torna dependente, a men-
te se embota. Da dependência provém o temor - o temor de não
realizar o que se quer, o temor de não ganhar. Quando depende-
mos de outro, seja o Salvador, seja outro qualquer, isso significa
que a mente está em busca de um resultado feliz, um fim satisfa-
tório. Podeis chamá-lo Deus, a Verdade, ou como quiserdes - mas
é sempre uma coisa que se quer ganhar. E, assim, a mente fica
aprisionada, se torna escrava e, não importa o que faça - sacrifi-
car-se, disciplinar-se, torturar-se - essa mente nunca descobrirá o
outro estado.
O problema, pois, não é quem seja o instrutor correto,
mas sim descobrir se a mente pode manter-se desperta. E isso só
se pode descobrir quando todas as relações se tornam um espe-
lho, em que ela se vê exatamente como é. Mas a mente não pode
ver-se como é, quando há condenação ou justificação daquilo que
vê, ou se há qualquer forma de identificação. Todas essas coisas
tornam a mente embotada e, embotados que estamos, desejamos
ser despertados. Por essa razão amparamo-nos em outro, para
que nos desperte. Mas, em virtude do próprio desejo de ser des-
pertada, a mente embotada se torna mais embotada ainda, por-
quanto não percebe a causa do seu embotamento. É só quando a
mente percebe e compreende todo esse processo, e não depende
de explicações de ninguém, é só então que ela é capaz de libertar-
se.
Mas, como é fácil nos satisfazermos com palavras, com
explicações! São muitos poucos os que rompem a barreira das
140
explicações, ultrapassando as palavras e descobrindo por si mes-
mos o que é verdadeiro. A capacidade é produto da aplicação, não
é? Mas nós não, nos aplicamos, porque nos satisfazemos com
palavras, com especulações, com as tradicionais respostas e expli-
cações com que fomos criados.

[...] TEÓRICA ou verbalmente, pode-se convir em que é


muito importante que o indivíduo se desprenda do coletivo, mas
parece-me que não se dispensa atenção suficiente a este proble-
ma; porque, só quando ocorre a criadora libertação do indivíduo
existe a possibilidade de descobrir e viver uma vida totalmente
diferente da que atualmente vivemos. Na atualidade, nossa vida,
nosso pensar é coletivo; fazemos parte do coletivo; e se se deseja
criar uma sociedade de ordem diferente, com valores diferentes,
acho que é necessário o indivíduo começar a compreender todas
as impressões coletivas que a mente acumulou através dos sécu-
los. E, como disse, só quando existe liberdade exatamente no
começo, pode o indivíduo libertar-se. Não se pode negar que qua-
se todos nós somos resultado do ambiente; nossos pensamentos,
atividades, crenças, nossos vários interesses, tudo está condicio-
nado pelas numerosas influências existentes ao redor de nós; e
para descobrir o que é a verdade, o indivíduo tem de libertar a
mente desse conglomerado de influências, empresa essa extre-
mamente árdua e difícil. Não me parece que estamos dando,
atenção suficiente a este assunto. Mas é só quando a mente se
liberta dessas muitas influências, que se torna incorrupta, e só
então existe a possibilidade de descobrir algo inteiramente novo -
algo que não foi premeditado, que não é uma autoprojeção, nem
resultado de qualquer meio cultural, sociedade ou religião.
Propaganda é cultivo de preconceitos; e todos nós somos
dominados por preconceitos, porque fomos educados para aceitar
ou rejeitar, porém nunca para investigar o problema da influência.
Dizemos estar em busca da verdade; mas que é que está a buscar
a maioria de nós? Se ficardes um pouco vigilante, a auto-
observação revelará que estais a buscar um certo resultado; dese-
jais uma certa satisfação, uma estabilidade ou permanência inte-
141
rior, que chamais por diferentes nomes, conforme o ambiente em
que fostes criado. E não estais também buscando sucesso? Dese-
jais sucesso, não apenas neste mundo mas também no outro.
Quer-me parecer que esse desejo de sucesso, de chegar a alguma
parte, de tornar-se algo, é resultado de uma educação errônea. E
pode a mente libertar-se totalmente desse desejo?
Não me parece que costumamos fazer esta pergunta a
nós mesmos, porquanto o que nos interessa é, tão-só, seguir um
método, um sistema ou um ideal, que esperamos produzirá um
resultado, nos conduzirá à certeza, ao sucesso, à final e perma-
nente felicidade, bem-aventurança, ou seja o que for. Nossa men-
te, por conseguinte, está sempre empenhada no esforço para
alcançar algo; e enquanto a mente estiver a visar um alvo, um fim,
um resultado que lhe dê satisfação completa, será inevitável a
criação da autoridade e a obediência a ela. Não é exato isso? En-
quanto penso que a bem-aventurança, a felicidade, Deus, a Ver-
dade, ou o que quiserdes, é um fim que se deve alcançar, haverá o
desejo de alcançá-lo; portanto, preciso de um guru, uma autori-
dade que me ajude a conseguir o que ambiciono. Por conseguinte,
me torno um seguidor, dependente de outra pessoa; e enquanto
houver dependência, não se pode pensar na possibilidade de o
indivíduo desligar-se do coletivo e encontrar por si mesmo a Ver-
dade, ou descobrir qual é a coisa correta que cumpre fazer.
Assim, se observardes, vereis que estamos sempre procu-
rando alguém que nos indique o que devemos fazer. Vendo-nos
confusos, dirigimo-nos a outro, em busca de conselho. O resulta-
do é que estamos sempre a seguir e, portanto, psicologicamente,
instaurando a autoridade, a qual, invariavelmente, cega-nos o
pensar, impedindo-nos a tão essencial ação criadora.
Exteriormente, nesta nossa sociedade de competição,
aquisição, temos de ser ambiciosos, cruéis, para não sermos ex-
pulsos ou exterminados. Interiormente, isto é, psicologicamente,
somos também ambiciosos; aí também está o desejo de atingir-
mos uma certa culminância e, assim, vivemos a perseguir um ob-
jetivo, de nós mesmos "projetado" ou criado por outro. Percebido
esse fato, que se deve fazer? Como descobrir a ação correta?
142
Positivamente, este problema concerne a todos nós. Ve-
mos que há confusão dentro em nós e ao redor de nós; os velhos
valores e crença e dogmas, os guias que temo seguido, não mais
nos satisfazem, perderam toda a sua força; e se percebemos esse
caos em que nos encontramos, que devemos fazer? Como desco-
brir qual é a ação correta? Para penetrarmos este problema, te-
mos de perguntar a nós mesmos o que entendemos por "busca",
não achais? Todos dizemos que estamos a buscar - pelo menos o
dizem os que sentem verdadeiro interesse e empenho; mas antes
de prosseguirmos em nossa busca, por certo devemos descobrir o
que entendemos por essa palavra e o que é que cada um de nós
está a buscar.
Senhores, pode-se encontrar alguma coisa nova, me dian-
te busca? Ou só se pode achar, nessa busca, o que já se conheceu
antes e, que foi "projetado" no futuro? Acho muito importante
esta questão. Que é que estamos buscando? E pode a mente que
está a buscar, encontrar uma coisa que transcende o tempo, que
transcende suas próprias projeções? Isto é, digo que estou a bus-
car a verdade, Deus, a felicidade; mas para achar isso, preciso ser
capaz de reconhece-lo, não é verdade? E para ser capaz de reco-
nhecê-lo, preciso tê-lo experimentado antes. A experiência ante-
rior é indispensável ao reconhecimento e, portanto, se sou capaz
de reconhecer uma coisa, ela já existia em minha mente e, por
conseguinte, não pode ser a Verdade; é apenas uma "projeção",
uma coisa saída de mim mesmo. Todavia, é isso o que está fazen-
do a maioria de nós. Quando buscamos, estamos a demandar uma
coisa já experimentada pela mente e que ela quer de novo agar-
rar; por conseguinte, o que verdadeiramente nos interessa é a
permanência de uma experiência que nos deu prazer, que nos
deleitou. Enquanto a mente estiver buscando, é bem evidente
que não poderá descobrir o que é a Verdade. Só quando já não
está a buscar - e isso não significa tornar-se embotada, distraída -
e compreende o total "processo" da busca, é só então que se en-
contra a possibilidade de descobrir algo que não foi "projetado",
avaliado pela mente.

143
Por exemplo, ledes no Gita ou no Upanishads a descrição
de uma certa coisa que é permanente, de uma perene bem-
aventurança, ou o que quer que seja; e porque esta nossa vida é
transitória, porque o vosso pensar, as vossas atividades, as vossas
relações se acham num estado de confusão, transtornando-vos,
tornando-vos infelizes, começais a aspirar àquele outro estado, a
cujo respeito lestes. É isso o que estais buscando. Na busca desse
estado, estais cultivando a aceitação da autoridade, pondo-vos na
dependência de alguém que promete levar-vos àquilo que ambi-
cionais. Por conseguinte, vos tornastes um seguidor; e enquanto
um homem está seguindo, é parte integrante do coletivo, da mas-
sa. Já reconhecestes, já fixastes na mente uma imagem daquele
outro estado e agora o estais buscando, apoiado num guru, na
meditação, na prática de várias disciplinas, etc. O que estais real-
mente buscando é uma coisa que já conheceis, ou que vos ensina-
ram, um estado a cujo respeito lestes alguma coisa ou que vaga-
mente experimentastes; a vossa busca, pois, visa à continuação de
uma experiência aprazível ou ao descobrimento de um estado
deleitável que, esperançosamente, supondes existir. Não é exato
isso? Eu vos digo que esta busca nunca vos revelará o desconheci-
do; ela, portanto, tem de cessar.
[...] INTERPELANTE: Andamos de guru em guru, até en-
contrarmos a satisfação. Mas, mesmo quando isso acontece, não
sabemos o que irá acontecer no futuro. A insatisfação é nossa
força propulsora, o estado em que passamos a nossa vida.
Krishnamurti: E à medida que ides envelhecendo, vos ides
tornando cada vez mais sério nessa busca; mas nunca investigas-
tes se existe realmente uma coisa tal, como seja a satisfação.
Interpelante: O homem está sempre sedento e deseja de-
salterar-se.
Krishnamurti: Senhor, se continuásseis sedento depois de
beber, não procuraríeis saber se é possível satisfazer a sede? E se
a satisfação é apenas momentânea, porque então atribuir tanta
importância aos gurus, aos sacrifícios, disciplinas, sandhanas, e
tudo o mais? Porque vos fragmentais em seitas, criando conflito
com vosso próximo e com a sociedade, só por causa de um efê-
144
mero conforto? Porque vos entregais ao hinduísmo, ao cristianis-
mo, se isso só vos dá um alívio temporário? Podeis dizer: "Sei que
tudo isso só dá alívio temporário, e não lhe atribuo muita impor-
tância". Mas, é verdade que, ao irdes ao vosso guru, lhe dizeis que
só estais buscando um alívio temporário? Não deveis investigar a
este respeito? E pode haver investigação quando o coração é obs-
tinado? A obstinação do coração impede a investigação, não é
verdade?
Comecemos daí. Se for obstinado em minha maneira de
pensar - o que significa "ser positivo" - se minha mente está en-
tregue a alguma forma de conclusão, opinião ou julgamento, es-
tou realmente em condições de investigar? Dizeis que não. Todos
concordamos, mas não está a nossa mente dominada por uma
certa conclusão, uma certa experiência? A investigação, nessas
condições, não só é tendenciosa mas também impossível.
Senhores, podemos conversar um pouquinho precisamen-
te a respeito disso, devassando a nossa mente, rebuscando-lhe as
profundezas, despertando, assim o autoconhecimento. Podemos
averiguar se estamos dominados por alguma fórmula, conclusão
ou experiência, a que nossa mente está apegada?
Interpelante: Há sempre a esperança de acharmos a satis-
fação final.
Krishnamurti: Vejamos, antes de tudo o mais, se nossa
mente está entregue a uma dada experiência, uma dada conclu-
são ou crença, que nos está tornando obstinados, inflexíveis, no
sentido profundo. Só quero começar daí, porque, como pode ha-
ver investigação, quando a mente é incapaz de ceder? Lemos o
Gita, a Bíblia, o Upanishads, tal ou tal livro, o qual deu uma certa
tendência à nossa mente, uma certa conclusão a que ela ficou
amarrada. Uma mente em tais condições é capaz de investigar?
Não é isso que acontece com a maioria de nós, e não deve nossa
mente ficar livre de todos os compromissos decorrentes de ser-
mos hinduístas, teosofistas, católicos, ou o que mais seja, antes de
podermos investigar? E porque não estamos livres dessas coisas?
Quando temos compromissos e queremos investigar, não pode
haver verdadeira investigação, mas tão somente uma repetição de
145
opiniões, juízos, conclusões. Assim, nesta nossa palestra desta
tarde, podemos largar todas essas conclusões?
Certamente, até os maiores cientistas têm de abandonar
todo o seu saber, antes de poderem descobrir qualquer coisa no-
va; e se vós sois sérios, esse abandono do conhecimento, da cren-
ça, da experiência tem de efetuar-se realmente. Os mais de nós
somos um tanto "sérios", quando se trata de nossas próprias con-
clusões, mas eu acho que isso de modo nenhum é seriedade. Não
tem valor nenhum. O homem sério, sem dúvida, é aquele que é
capaz de abandonar as suas conclusões porque percebe que só
assim está capacitado para investigar.

[...] O AJUSTAMENTO, evidentemente, é uma maldição.


Mediante ajustamento, pode a mente ser livre? A mente precisa
escravizar-se para se tornar livre ou a liberdade deve existir desde
o começo? A liberdade não é uma coisa que se vai ganhar, como
recompensa, no fim da vida; não é a finalidade da vida, porque a
mente que é incapaz de ser livre agora, nunca descobrirá o que é
verdadeiro.
A sociedade não pode ser transformada pelo exemplo. A
sociedade poderá reformar-se, operar certas mudanças pela revo-
lução política ou econômica, mas só o homem religioso pode ope-
rar uma transformação fundamental na sociedade; e o homem
religioso não é aquele que se submete à fome como um exemplo
para transformar a sociedade. O homem religioso não está inte-
ressado, em absoluto, na sociedade, porque a sociedade está ba-
seada na aquisição, na inveja, na ganância, na ambição, no medo.
Isto é, uma mera reforma do padrão da sociedade só pode alterar
a superfície, produzir uma forma mais respeitável de ambição.
Mas o homem verdadeiramente religioso está totalmente fora da
sociedade, porque não é ambicioso, não tem inveja, não está se-
guindo nenhum ritual, dogma ou crença; só esse homem pode
transformar fundamentalmente a sociedade, e não o reformador.
O homem que quer arvorar-se em exemplo cria conflitos, torna
mais forte o medo e faz nascer várias formas de tirania.

146
É muito estranha esta nossa adoração dos exemplos, mo-
delos, dos ídolos. Não queremos o que é puro, verdadeiro em si
mesmo; queremos intérpretes, exemplos, mestres, gurus, para,
por seu intermédio, alcançarmos alguma coisa - e tudo isso é puro
absurdo, um meio de explorar a outros. Se cada um de nós fosse
capaz de pensar claramente desde o começo, ou de reeducar-se
para pensar claramente, todos esses exemplos, mestres, gurus,
sistemas, se tornariam completamente desnecessários, como
realmente são.
Da solidão à plenitude humana - 1956

[...] A DEPENDÊNCIA, em qualquer forma que seja, gera


sofrimento, não é verdade? No depender de preenchimento en-
contra-se a frustração. Quer um homem busque preencher-se
como governador, poeta, escritor, orador, quer procure preen-
cher-se em Deus, tudo isso é essencialmente a mesma coisa, por-
que na sombra do preenchimento está a dor, a frustração. E como
podemos, vós e eu, resolver este problema? Compreendeis, se-
nhores? Eu posso ser livre, mas isso tem para vós algum valor? Se
nenhum valor tem, que direito tenho eu a existir? E se tem valor,
como deveis aproximar-vos desse homem? Não como deverá ele
aproximar-se de vós, mas, sim, como vós deveis aproximar-vos
dele? Ele poderá desejar aproximar-se de vós para caminhar junto
convosco, não uma milha apenas, mas uma centena de milhas;
mas de que maneira vos aproximareis dele? E é possível vos modi-
ficardes tão fundamentalmente, tão radical e profundamente, que

147
todo o vosso processo de pensar sofra uma “explosão”, se torne
“inocente”, fresco, novo?
Senhores, não há resposta a esta pergunta. Eu a estou
apenas indicando. Vós é que tendes de esclarecê-la, “cravar-lhe os
dentes”, torturar-vos com ela. Vós é que tendes de trabalhar nela,
vigorosamente, porque, se o não fizerdes, vossa vida estará liqui-
dada, acabada, e vossos filhos, a geração vindoura, estarão tam-
bém liquidados. Dizeis sempre que a geração vindoura irá criar o
novo mundo, o que é um contra-senso, porquanto já estais condi-
cionando essa geração com vossos livros e jornais, com vossos
líderes, vossos políticos e religiões organizadas; tudo isso está
forçando os jovens a seguir em determinada direção, enquanto
vós ficais a “verbalizar”, incessantemente, a respeito de nada.
Eis, pois, o vosso problema, e não me parece que o este-
jais levando a sério. Isso não vos importa tanto como “fazer di-
nheiro”, ou exercer vosso emprego e deixar-vos prender nessa
medonha e fastidiosa rotina a que chamais “vossa vida”. Quer
sejais advogado, juiz, governador, quer sejais o mais eminente
político, vossa vida, em sua maior parte, é uma rotina terrível,
estafante e destrutiva, e nessa rotina estais presos; e vossos filhos
nela também ficarão cativos, se não vos transformardes funda-
mentalmente. Isto não é retórica, meus senhores, porém algo
sobre que deveis refletir, trabalhar, cooperar, e achar a solução.
Porque o mundo necessita de entes humanos capazes de pensar
de maneira nova, e não pelo mesmo e velho “canal”, e que não se
revoltem contra o velho padrão só para criar um novo padrão.
Encontraremos a solução nas relações corretas ao saber o
que é amar. É extraordinário como o amor tem sua ação própria;
não, provavelmente, num nível reconhecível, mas quem é real-
mente compassivo tem uma ação, uma certa coisa que falta aos
outros homens.
Os que são sérios, que escutam, que pensam, que traba-
lham — são esses os que farão nascer uma ação diferente no
mundo, não no fim, mas agora mesmo. E o problema me parece
ser: Como poderá um ente humano transformar tão a fundo sua
maneira de pensar, que sua mente se torne de todo descondicio-
148
nada? — Se dedicardes vossos pensamentos a isso tanto quanto
os dedicais ao vosso trabalho, ao vosso ritual, descobrireis a solu-
ção.

[...] PERGUNTA: Li hoje no jornal vossa declaração de que


para se resolverem os problemas humanos, necessita-se, não de
revolução econômica ou social, porém de uma revolução religiosa.
Que entendeis por revolução religiosa?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, averiguemos o que se


entende por religião. Que é religião para a maioria de nós — não a
teoria sobre o que deve ser religião, porém o fato real? Em regra,
consideramos como religião uma série de dogmas, tradições, o
que diz o Upanishads, ou o Gita, ou a Bíblia; ou, também, é cons-
tituída das experiências, visões, esperanças, ideias, brotadas da
mente condicionada, da mente ajustada de acordo com o padrão
hinduísta, cristão ou comunista. Começamos com um certo condi-
cionamento e temos experiências nele baseadas. O que chama-
mos religião é oração, ritual, dogma, desejo de encontrar Deus,
aceitação da autoridade e de um vasto número de superstições,
não é exato? Mas isso é religião? Indubitavelmente, quem deseja
descobrir o que é verdadeiro deve abandonar tudo isso, não
achais? Deve rejeitar totalmente a autoridade do guru, dos livros
sagrados, e a autoridade de suas próprias experiências, de modo
que, depurada de toda influência, a mente seja capaz de desco-
brimento. Isso significa que deveis deixar de ser hinduísta, cristão,
budista, que cumpre perceber quanto tudo isso é absurdo, e vos
libertardes. E desejais faze-lo? Porque, se o desejais, estais contra
a atual sociedade e arriscado a perder vosso emprego. E assim é
que o medo nos domina a mente e continuamos a aceitar a auto-
ridade.
O que chamamos religião, por conseguinte, não é religião
em absoluto. Se cremos em Deus ou se não cremos em Deus, isso
depende de nosso condicionamento. Vós credes em Deus e o co-
muna não crê em Deus. Qual a diferença? Nenhuma, absoluta-
mente; porque vós fostes educado para crer e ele foi educado
149
para não crer. Assim sendo, o homem que está seriamente inves-
tigando rejeitará esse “processo”, não achais? Rejeitá-lo-á por
compreender seu inteiro significado.
Vendo-nos, inseguros, assustados, com insuficiência inte-
rior, identificamo-nos com um país, uma ideologia ou uma crença
em Deus; e podemos ver o que está sucedendo no mundo. Toda
religião — embora cada uma delas professe o amor, a fraternida-
de, etc. — está de fato separando o homem do homem. Vós sois
sikhi e eu hinduísta, aquele muçulmano e aquele outro budista.
Vendo-se toda esta confusão e separação, percebe-se também a
necessidade de um diferente modo de pensar; mas, é óbvio, esse
diferente modo de pensar não pode tornar-se existente enquanto
permanecermos hinduístas, cristãos ou seja o que for. Para vos
libertardes de tudo isso, precisais conhecer-vos — conhecer toda
a estrutura de vosso ser; cumpre perceber por que aceitais, por
que seguis a autoridade; isso é evidente. Desejais bom êxito, de-
sejais a garantia de que existe um Deus no qual possais confiar
nos momentos de tribulação. O homem que realmente sente ale-
gria, que é feliz, nunca pensa em Deus. Pensamos em Deus quan-
do nos achamos em aflição, em conflito; mas nós mesmos criamos
a aflição e o conflito, e, se não compreendermos inteiramente o
processo respectivo, o mero investigar acerca de Deus conduzirá à
total desilusão.
Assim, a revolução religiosa a que me refiro não é o res-
surgimento ou a reforma de uma dada religião, porém a completa
libertação de todas as religiões — o que, em verdade, significa
libertação da sociedade que as criou. Por certo, o homem ambici-
oso não pode ser religioso. O homem ambicioso não conhece o
amor, ainda que fale a respeito dele. No sentido mundano, pode
alguém não ser ambicioso, mas se deseja tornar-se um santo, uma
personalidade espiritual, ou alcançar um certo resultado no outro
mundo, então essa pessoa é realmente ambiciosa. Assim, a mente
precisa não só despojar-se de todas as cerimônias, crenças e
dogmas, mas também estar livre da inveja. A liberdade total do
homem está na revolução religiosa, porque só então será ele ca-

150
paz de considerar a vida de maneira inteiramente diferente e dei-
xar de criar problemas e mais problemas.
Provavelmente estivestes escutando tudo isso verbal ou
intelectualmente apenas, porque para vós mesmo dizeis: “Que
faria eu na vida, se não tivesse ambição?” Talvez fôsseis destruído
pela sociedade. No momento em que compreendeis a sociedade e
rejeitais toda a estrutura em que está baseada — ambição, inveja,
ânsia de êxito, dogmas religiosos, crenças e superstições — , es-
tais fora da sociedade e, por conseguinte, sois capaz de pensar no
problema de maneira nova; talvez não exista então problema
algum. Mas provavelmente só escutastes no nível verbal e conti-
nuareis, amanhã, do mesmo modo: lendo a Bíblia, frequentando o
guru ou o sacerdote, etc. Podeis escutar tudo isso e aceitá-lo inte-
lectualmente, verbalmente, mas vossa vida continua na direção
oposta e, desse modo, apenas criastes mais um conflito; por con-
seguinte, é muito melhor não escutar nada, pois já tendes sufici-
entes conflitos e problemas e não precisais acrescentar-lhes um
novo. É muito interessante estar aqui sentado a ouvir o que se
está dizendo, mas se isso nenhuma relação tem com vossa vida, é
preferível tapardes os ouvidos; porque, se escutais a Verdade mas
não a viveis, vossa vida se torna uma medonha confusão, a lamen-
tável trapalhada que realmente é.
Pergunta: Pareceis contrário à própria essência da autori-
dade. A aceitação da autoridade não é inevitável em nossa vida
individual?
Krishnamurti: Vejamos o que se entende por autoridade e
por que a aceitamos — em vez de especularmos sobre se, se não
houvesse autoridade, a sociedade se desintegraria. A sociedade se
está desintegrando, quer gosteis, quer não; ela se está despeda-
çando porque temos seguido a autoridade. Portanto, investigue-
mos isso.
Por que seguimos a outrem? Este é um problema muito
complexo e, por conseguinte, devemos abeirar-nos dele cautelo-
sa, judiciosa e pacientemente. Ele compreende o problema do
conhecimento, isto é, o problema da aceitação da autoridade de
um que possui conhecimento, na suposição de que vós não sabeis
151
e ele sabe. Admitimos a autoridade do médico e a autoridade civil
que nos manda “conservar a direita”, na estrada. Se não tiverdes
o bom senso de obedecer à regra geral de trafegar pelo lado direi-
to da estrada, acabareis num posto policial. Assim, em certas coi-
sas, importa obedecer à autoridade normal. Se desejo construir
uma ponte, não posso rejeitar os conhecimentos acumulados
através de séculos; isso seria absurdo. Não nos referimos a essa
espécie de autoridade. Referimo-nos à autoridade existente num
nível completamente diferente: a autoridade do instrutor, do gu-
ru, que diz que sabe e é seguido pela pessoa que não sabe e dese-
ja ser conduzida à Realidade. Fique, pois, bem claro que é sobre
essa autoridade que estamos falando, não a autoridade do conhe-
cimento positivo, acumulado durante séculos, na medicina ou
qualquer outro ramo científico. Rejeitar tudo isso seria muita in-
sensatez. Estamos falando da autoridade que vós criastes na pes-
soa que afirma conhecer Deus, a Verdade, e poder conduzir-vos a
essa realidade. O problema está, portanto, claro, não? Aludimos à
autoridade espiritual, se posso empregar o termo “espiritual” sem
ser mal entendido; a autoridade do guru que sabe, em sua relação
com o discípulo que não sabe.
Quando o guru diz que sabe, que significa isso? Significa
que ele “experimentou” Deus, a Verdade, a paz perfeita, etc.; ele
“sabe” e vós “não sabeis” e por isso o seguis, esperando que vos
leve àquela realidade. Eis como criamos a chamada autoridade
espiritual.
Agora, por favor, prestai atenção. Que entendemos por
“saber”? Quando eu digo “sei”, que significa isso? Só posso co-
nhecer uma coisa já acabada. Entendeis? Só posso saber o que já
se passou; e quando um guru diz que sabe, ele só conhece o pas-
sado, o que experimentou; e o que ele experimentou é sempre
estático, coisa morta, sem vida. A Verdade, Deus, não pode ser
conhecida; não a podeis conhecer ou experimentar, porque no
momento em que dizeis: “Sei, experimentei”, não sabeis. Só po-
deis conhecer o que passou, e o que passou não tem validade, já
não é a verdade. Quando o instrutor vos diz que vos ajudará a
alcançar a Verdade, a Realidade, só poderá ajudar-vos a alcançar
152
algo que está fixado na esfera do tempo e que, portanto, não é
verdadeiro.
Senhores, escutai. Não aceiteis o que estou dizendo. Vede
a verdade respectiva, e o percebimento dessa verdade vos liberta-
rá.
Pensamos que a Verdade, Deus, é um ponto fixo no tem-
po; ela está “ali”, e para a alcançarmos, para percorrermos a dis-
tância intermediária, dizemos que necessitamos de tempo. O que
chamamos “realidade” está fixado num ponto e, portanto, pode-
mos seguir um caminho para lá — ou, melhor, muitos caminhos,
os caminhos das várias religiões, seitas, crenças. Mas a realidade
não pode situar-se num ponto fixo; ela é imensurável, viva, atem-
poral; não tem existência nos termos que conhecemos. Dela só é
possível nos aproximarmos quando a mente já não está aprisio-
nada na esfera do tempo; assim sendo, nenhum guru, nenhum
livro, nenhum sistema de meditação vos pode levar a ela. A mente
deve estar de todo livre das pretéritas compulsões, deve achar-se
imóvel, completamente silenciosa, não mais investigando com o
fim de pôr-se em segurança, de ser feliz, de realizar algo. Eis por
que o homem verdadeiramente religioso não segue nenhuma
autoridade, dogma, tradição ou crença. Tradição, crença, dogma,
autoridade, tudo isso se encontra na esfera do tempo, e a mente
aprisionada nessa esfera nunca descobrirá o que é atemporal.
Libertar a mente do tempo é um problema imenso, porque a
mente é resultado do tempo, resultado de inumeráveis influên-
cias, memórias; e essa mente pode estar livre do passado? En-
quanto a mente não se libertar do passado, não poderá descobrir
o que é verdadeiro.
Os entes humanos, porque sofrem, porque se veem per-
didos em meio à sua confusão, recorrem a outrem e esperam
encontrar uma resposta, um sentimento de conforto, um abrigo
seguro; e encontram esse abrigo, porque assim desejam, mas esse
abrigo seguro não é Deus, não é a Verdade. É coisa feita pela
mente, construída pelo homem, e o que foi feito pode ser desfei-
to. Eis por que tanto importa compreenderdes a vós mesmos. O
autoconhecimento é o começo da sabedoria. Mas o “eu” é uma
153
entidade muito complexa, e o conhecimento próprio não é sim-
ples questão de lerdes um livro, de praticardes um insensato mé-
todo de introspecção, e depois dizerdes: “Aprendi tudo a meu
respeito.” Isso não traz autoconhecimento. Os movimentos do
“eu” devem ser descobertos momento por momento, e não me-
diante acumulação. Observai como vossa mente opera, o que
pensais, vossos impulsos, vossas compulsões, vossos motivos
ocultos — ficai cônscio de tudo isso, de instante a instante, e, em
seguida, libertai vossa mente dessa maldição que é a autoridade,
de todos os livros, de todos os guias, políticos ou outros, porque
todos eles são tão ambiciosos como vós. Os ambiciosos, os que
têm êxito, nunca criarão o novo mundo. O novo mundo só pode
ser criado pelo homem já livre da ambição, do desejo de êxito,
livre de todos os dogmas e crenças — e isso significa: livre de si
próprio, de seu “ego”, seu “eu”. Só com esta revolução religiosa, e
nunca com a revolução econômica, poderá vir à existência o Novo
Mundo.
O homem livre - 1956


[...] AO DESPERTARMOS, no meio da noite, experimen-
tamos um estado de espírito de incalculável expansão; a própria
mente era este estado. A “sensação” desse estado era despojada
de todo sentimento, de qualquer emoção, porém muito concreta
e real. Perdurou longo tempo; a pressão e a dor, em toda a ma-
nhã, foram intensas.
A destruição é essencial. Não de edifícios e coisas, mas de
todos os mecanismos de defesa psicológica adotados pelo ho-
mem, dos seus deuses, das suas crenças, da dependência de cu-
nho religioso, das experiências, do conhecimento, etc. A criação
só é possível quando tudo isto deixar de existir. Ela surge do esta-
do de liberdade. Ninguém pode ajudar-nos a destruir essas defe-
sas; isto só é possível através do autoconhecimento.

154
Reformas sociais ou econômicas acarretam mudanças su-
perficiais de maior ou menor alcance, mas sempre dentro do limi-
tado campo do pensamento. Para que ocorra a revolução total, o
cérebro tem de renunciar à sua íntima e secreta estrutura de au-
toridade, de inveja, do medo, e assim por diante.
A força e a beleza de uma folha tenra de planta está em
sua extrema vulnerabilidade. Como o capim que brota do calça-
mento, ela tem a virtude de suportar o aniquilamento.

[...] ESTIVEMOS REUNIDOS com algumas pessoas, e, ao se


retirarem, sentimo-nos como que no limiar entre dois mundos. E,
logo após, ressurgiu o mundo do processo e daquela infinita in-
tensidade. Por que esta divisão? As pessoas com quem falamos
não eram sérias, ainda que pensassem sê-lo, sua seriedade era
apenas superficial. Na impossibilidade de haver uma comunhão
com elas, voltamos a sentir-nos constrangidos. De qualquer ma-
neira, fora uma estranha experiência.
Enquanto conversávamos, um pequeno trecho do regato
sobressaía por entre as árvores. Nada tinha de extraordinário,
cena habitual do cotidiano, mas, enquanto olhávamos, várias coi-
sas aconteciam, não apenas exteriormente, porém havia uma
percepção global. Para haver madureza, é indispensável existir:
1. Total simplicidade, que surge com a humildade, não em
relação a coisas ou posses, mas na própria essência do ser.
2. Paixão intensa, não apenas física.
3. Beleza, sensibilidade tanto ao inundo exterior quanto
àquela beleza que transcende o pensamento e o sentimento.
4. Amor, a totalidade do amor, não aquilo que contém o
ciúme, o apego, a dependência, ou o que se divide em carnal e
divino. Referimo-nos à sua imensidão.
5. Uma mente que, sem qualquer objetivo, penetre em
suas próprias e imensuráveis profundezas sem barreiras, livre para
vagar sem o limite do tempo-espaço.
O percebimento destas coisas e de todas as suas implica-
ções surgiu de repente - apenas à simples visão de um riacho,
entre galhos e folhas mortas, num dia chuvoso e sombrio.
155
Enquanto conversávamos, sem nenhum motivo especial
— pois o assunto não era importante — vindo de enormes pro-
fundezas, subitamente, sentimos a poderosa e destruidora chama
da criação. Seu poder se antecede à própria origem do universo,
inatingível, por sua mesma força, que tornava impossível dele
aproximar-nos. Só existia aquela poderosa força, aquela assom-
brosa imensidão.
Parte desta experiência deve ter “continuado” durante o
sono, porque, ao acordarmos hoje bem cedo, a intensidade do
processo nos despertou. Nem pensamentos, nem palavras podem
descrever a singularidade, o amor e a beleza contidos naquele
acontecimento. Imaginação alguma o conceberia, nem tampouco
se tratava de uma ilusão. Sua força e pureza são inacessíveis a um
cérebro, à mente sagaz. Estão fora do alcance das capacidades
humanas.

[...] FORA UM DIA ensolarado e de intenso calor, mesmo


num local tão alto como este; os cumes de neve faiscavam à luz
do sol. Fazia calor havia muitos dias e os riachos de águas claras
deslizavam sob o pálido céu azul, cujo colorido parecia conter o
vigor da montanha. As flores ao longo do caminho exibiam seu
colorido extraordinariamente alegre e luminoso, e fazia frio nos
prados; inúmeras sombras escureciam a paisagem. Há ali uma
trilha que atravessa os campos, e envereda pelos montes, contor-
nando as fazendas; o caminho estaria deserto, não fora a velha
senhora carregando uma vasilha de leite e uma cestinha com ver-
duras; ela deve ter passado a vida toda indo e vindo por aquela
vereda - quando jovem, subia ágil pelas encostas dos morros e,
agora, idosa e alquebrada, subia vagarosamente, com esforço,
mal desviando os olhos do chão. Ela deve morrer, mas não as
montanhas. Mais adiante, notavam-se duas cabras brancas com
olhos bem expressivos; elas vieram em busca de afago, manten-
do-se distantes da cerca elétrica, que as impedia de fugir. Um
gatinho malhado de branco e preto brincava; um outro gato, mais
adiante, mantinha-se imóvel no meio do gramado, pronto para
saltar em cima de um rato.
156
Ali, no alto, imperava o frescor e a beleza dos montes e
das colinas, dos vales e das sombras. Em alguns trechos, a terra
era pantanosa e abrigava um bambuzal dourado e de baixa esta-
tura, com flores de pétalas brancas. Mas, não era só isso. Apesar
de termos caminhado sem parar durante uma hora e meia, aquela
abençoada força não se ausentou. Tinha a qualidade da absoluta e
impenetrável solidez; nem mesmo a matéria poderia ser tão sóli-
da. A matéria é permeável, pode ser fragmentada, diluída, pulve-
rizada; o pensamento e o sentimento têm certo peso; podem ser
medidos, alterados, destruídos e até mesmo desaparecer. Mas
não era uma projeção do pensamento e muito menos matéria
aquela força inviolável. Não se tratava de uma ilusão nem de uma
fantasia projetada por um cérebro ávido de poder. Nenhum cére-
bro seria capaz de conceber tal força, tamanha solidez e vibração,
que simplesmente existiam. Há paixão quando não há nenhuma
exigência interior. Roupa, abrigo e alimento são necessidades
básicas de sobrevivência, não exigências psicológicas. Estas se
traduzem nos secretos desejos e anseios que conduzem ao apego.
0 sexo, a bebida, a fama, a idolatria, com toda sua complexidade;
o desejo de autopreenchimento, seguido da inevitável ambição e
frustração; a busca de deus, da imortalidade. Todas estas formas
de íntimas exigências geram o apego, que é a origem do medo, do
sofrimento e da dor da solidão. A necessidade de auto-expressão
através da música, da literatura, da pintura ou de um outro meio
qualquer conduz ao desesperado apego ao meio. O músico que
utiliza seu instrumento para alcançar a fama, a glória, deixa de ser
um músico; ele não ama a música em si, mas sim o lucro que ela
lhe proporciona. Utilizamos uns aos outros de acordo com as nos-
sas necessidades e enfeitamos esta mútua exploração com pala-
vras melodiosas; e disso emana desespero e interminável sofri-
mento. Apelamos para Deus como refúgio, proteção ou um remé-
dio qualquer, e assim, a igreja, o templo, com seus sacerdotes,
adquirem enorme significado, quando na realidade não têm ne-
nhum. A fim de satisfazer as nossas íntimas necessidades psicoló-
gicas, fazemos uso de tudo, das máquinas, das técnicas, sem que
tenhamos amor a elas.
157
Só existe amor quando não há nenhuma forma de utiliza-
ção e dependência. As exigências psicológicas, com sua inconstân-
cia e eterna busca, que levam à substituição de uma dependência
por outra, de uma crença por outra, de um compromisso por ou-
tro, é a própria essência do “eu”. Adotar uma ideia, um método,
ou um dogma, ou pertencer a alguma seita, é a origem e a essên-
cia do eu, que assume a forma de altruísmo. É isto um disfarce,
uma máscara. Ao libertar-se das exigências psicológicas, atinge o
homem a maturidade. Dessa liberdade nasce uma paixão livre de
motivo ou busca de recompensa.

[...] AO REFLETIR-SE NO RIO, o sol do entardecer incendi-


ava, no outono, as folhas avermelhadas das árvores ao longo da
avenida; o fulgor da superfície do rio em chamas fazia vibrar o seu
inteiro colorido, numa gama infinita de tons. Uma enorme fila se
formara ao longo do cais, à espera do barco de excursão turística,
e o barulho dos carros era ensurdecedor. Aquela imensa cidade
tornava-se insuportável em dia de intenso calor; o céu estava
claro e o sol queimava impiedosamente. De madrugada, - as Três
Marias (constelação de Órion) achavam-se bem visíveis no céu, e
um ou dois carros trafegavam ao longo do rio, — havia paz naque-
le terraço, e a meditação raiava na morte. É na total abertura, na
mais completa vulnerabilidade que a morte se manifesta. Sempre
à espreita, à sombra dos íntimos recessos do pensamento e do
desejo, a face oculta da morte é desnudada por força da medita-
ção. Mas, a morte é a eterna companheira do coração que fenece
no medo e na esperança. Ela jamais abandona o pensamento cau-
teloso e hesitante. No parque, uma coruja piava, emitindo um
som claro e agradável, àquela hora matinal; ia e vinha, a intervalos
irregulares, dando a impressão de deleitar-se com sua própria voz,
pois não se ouvia nenhuma réplica.
Os limites da consciência são anulados pela meditação;
ela destrói o processo do pensar e sentir, urdido pelo pensamen-
to. O método, a recompensa e as promessas deformam e debili-
tam aquela força misteriosa. Abundante energia é liberada pela
meditação, mas ela é deformada e destruída mediante o controle,
158
a disciplina e a repressão. A meditação é a chama que arde sem
formar cinzas. As palavras, o sentimento, o pensamento, sempre
deixam resíduos e o mundo vive das cinzas do passado. Meditar é
viver em perigo, pois nada escapa àquela destruição, nem mesmo
o mais leve frêmito do desejo; e é da amplidão insondável desse
vazio que surgem o amor e a criação.
A mutação da consciência não vem através da análise. É
impossível transformá-la através do esforço, que gera o conflito, e
que, portanto, fortalece o núcleo da consciência. Por mais lógico e
equilibrado que seja, o raciocínio não conduz à libertação da
consciência, pois é uma ideia formada pela influência, experiência
e conhecimento, todos produtos da própria consciência. Constatar
a falsidade dessas ideias e conceitos com a consequente rejeição
do falso torna a consciência vazia. A verdade não tem oposto,
tampouco o amor; a verdade surge da rejeição dos opostos. A
autêntica rejeição não nasce da esperança ou da ânsia de realiza-
ção. Livre do desejo de reconhecimento, a renúncia não admite
recompensa ou barganha. Libertar-se da tradição é negar o falso
conceito dos opostos, a falsa autoridade do ajustamento, do con-
formismo, da imitação, da experiência e do conhecimento.
Negar é estar só, livre de influência, da tradição, da carên-
cia psicológica, do apego, da dependência. Estar só é negar o con-
dicionamento e o passado conteúdo da consciência. Observar sem
discriminar e a renúncia ao condicionamento conduzem à solidão,
que não é isolamento ou atividade egocêntrica. Tampouco signifi-
ca a fuga da existência. Pelo contrário, é a libertação total do so-
frimento e do conflito, do medo e da morte. Esta solidão é a pró-
pria mutação da consciência, a completa transformação daquilo
que foi. Ela é o vazio e a ausência do ser e do não-ser. A mente se
renova, a cada instante, na chama desse vazio. Apenas à mente
vulnerável é acessível o infinito, em que da destruição surge o
novo, a criação e o amor.
Para além da gigantesca cidade, espraiavam-se os cam-
pos, os bosques e os montes.

159
[...] À DISTÂNCIA, vinha o ruído incessante das ondas do
mar; quanta fúria, perigo e ameaça naquele contínuo movimento!
0 mar parecia calmo e sonhador, mas o tamanho das ondas reve-
lava impaciência e terror. As pessoas eram arrastadas pela forte
correnteza e ali morriam afogadas. As ondas nada tinham de deli-
cado; de longe, o magnífico desenho de suas curvas deleitava-nos,
mas elas continham cruel e brutal vigor. As pequenas e frágeis
jangadas, conduzidas por homens morenos e esquálidos, corta-
vam as ondas com indiferença e destemor; iam afastar-se muito
da praia, na direção do horizonte, e voltariam ao entardecer, com
sua pesada carga. Mas, àquela noite, era inusitada a violência das
ondas e ensurdecedor o ruído que faziam ao arrebentarem sobre
a areia da praia; a beira-mar se estendia para o norte e para o sul,
com extensa faixa de areia limpa, amarelada, ligeiramente doura-
da pelo sol. E o sol tampouco era delicado; ele ardia intensamente
e só bem cedo, pela manhã, logo ao nascer do fundo do mar, ou
ao morrer entre as nuvens do entardecer, é que ele se mostrava
suave e generoso. O mar furioso e o sol ardente fustigavam aque-
la terra árida onde havia fome e pobreza; a miséria era uma pre-
sença constante e, por ser ali muito mais fácil morrer do que nas-
cer, as pessoas estavam entregues à indiferença e à decadência.
Os ricos também eram indiferentes, embotados e só saíam do seu
estado de apatia quando se tratava de ganhar mais dinheiro, de
buscar o poder ou de construir uma ponte; nisso, exibiam extrema
habilidade, querendo sempre mais — mais saber, mais eficiência
— mas saíam sempre perdendo, pois tudo termina na morte. E
isto é tão definitivo que nada pode desviar-nos dela, pois a morte
é inevitável. É impossível escapar da morte, mas da vida, sim; po-
demos ludibriá-la, podemos dela fugir, frequentar igrejas, seguir
gurus, projetar uma viagem à lua; na vida, tudo é possível, mas a
dor e a morte estão sempre presentes. Podemos evitar o sofri-
mento, mas jamais escaparemos da morte. Mesmo àquela distân-
cia podia-se ouvir o estrondo das ondas do mar; e as palmeiras
recortavam-se contra o rubro céu do entardecer. A superfície das
águas dos charcos e do canal refletia a luz do poente.

160
Qualquer motivo nos impele a agir e não há ação sem mo-
tivo; daí sermos destituídos de amor. Tampouco existe amor na-
quilo que fazemos. Pensamos ser impossível agir, viver, existir
sem um motivo e com isto nossa vida passa a ser uma atividade
enfadonha e sem sentido. A função é, para nós, um meio de al-
cançar o status, ou outra coisa qualquer. O amor em si não existe
e eis por que é tudo tão falso, tão insignificante, e daí serem terrí-
veis as nossas relações. O apego serve apenas para encobrir nosso
próprio vazio, nossa solidão e insuficiência interior; da inveja nas-
ce o ódio. O amor é sem motivo e, quando o amor está ausente,
toda sorte de motivos se instalam. É tão simples viver sem moti-
vos; basta ser íntegro, sem jamais se conformar com ideias ou
crenças. Ser íntegro é ter autocrítica, é estar consciente de si pró-
prio de momento a momento.
Diário de Krishnamurti - 1961

[...] Naturalmente, temos necessidade de certas coisas ex-


teriores, superficiais, tais sejam roupas, teto e alimentos. Estas
coisas são essenciais para todos nós. Mas, necessitamos realmen-
te de mais alguma coisa? Psicologicamente, existe uma necessi-
dade real de sexo, de fama, do imperioso impulso da ambição, do
perpétuo ansiar por mais e mais? De que necessitamos, psicologi-
camente? Pensamos que necessitamos de muitas coisas, e daí é
que resulta todo o sofrimento da dependência. Mas, se exami-
narmos realmente, se investigarmos profundamente a questão,
existe alguma necessidade essencial, psicologicamente, interior-
mente? Acho que valeria a pena fazermos seriamente esta per-
gunta a nós mesmos. A dependência psicológica de outra pessoa
161
nas relações, a necessidade de estar em comunhão com outro, a
necessidade de aderir a um dado padrão de pensamento e de
atividade, a necessidade de preenchimento, de nos tornarmos
famosos — todos conhecemos essas necessidades e constante-
mente estamos cedendo a elas. E penso que seria significativo se
pudéssemos, cada um de nós, tentar descobrir quais são realmen-
te as nossas necessidades e até que ponto delas dependemos.
Porque, se não compreendermos a necessidade, não seremos
capazes de compreender o desejo, não seremos capazes de com-
preender a paixão e, por conseguinte, o amor. Seja rico, seja po-
bre, um homem necessita evidentemente de comida, de roupa e
de teto, embora, mesmo aí, a necessidade possa ser limitada,
pequena, ou expansível. Mas, além dessa, existe realmente algu-
ma necessidade? Por que se tornaram tão importantes as nossas
necessidades psicológicas, por que se tornaram uma força tão
imperiosa e compulsiva? São elas, meramente, uma fuga de algo
muito mais profundo?
Em nossa investigação não estamos procedendo analiti-
camente. Estamos tentando encarar o fato, ver exatamente o que
é; e isso não requer nenhuma espécie de análise, de psicologia, de
engenhosas e digressivas explicações. O que estamos tentando é
ver por nós mesmos quais são as nossas necessidades psicológi-
cas, e não explicá-las, não racionalizá-las, e sem perguntar: “Que
faremos sem elas? Eu tenho de tê-las”. Isso fecha a porta à ulteri-
or investigação. E, evidentemente, a porta está também hermeti-
camente fechada quando a investigação é puramente verbal, inte-
lectual ou emocional. A porta está aberta quando desejamos re-
almente enfrentar o fato, e isso não requer um intelecto extraor-
dinário. Para se compreender um problema muito complexo, ne-
cessita-se de uma mente clara, simples; mas nega-se a simplicida-
de e a clareza quando temos uma quantidade de teorias e esta-
mos tentando evitar o problema.
A questão, pois, é: Por que temos essa imperiosa necessi-
dade de preencher-nos, por que somos tão cruelmente ambicio-
sos, por que tem o sexo tão extraordinária importância em nossa
vida? Não importa a qualidade ou a quantidade de nossas neces-
162
sidades, ou se alguém tem “o máximo” ou “o mínimo”; mas, por
que existe esse tremendo impulso para nos preenchermos, na
família, num nome, numa posição, etc., com todas as respectivas
ansiedades, frustrações e sofrimentos — impulso que a sociedade
estimula e a igreja abençoa?
Ora, se examinardes isso, pondo de parte a reação de di-
zer: “Que me aconteceria se eu não tivesse êxito na vida?” —
descobríreis, sem dúvida, algo muito mais profundo, ou seja o
medo de “não ser”, do isolamento completo, do vazio e da soli-
dão. Ele lá está, profundamente oculto, esse anseio tremendo,
esse medo de se ver isolado de tudo. Eis a razão por que nos ape-
gamos a todas as formas de relação. Eis por que existe a necessi-
dade de pertencer a alguma coisa, a um culto, uma sociedade, de
entregar-se a certas atividades, de ater-se a determinada crença;
porque, dessa maneira, podemos fugir da realidade interior, pro-
funda. É esse medo, por certo, que força a mente, o intelecto,
nosso ser inteiro, a aderir a uma dada forma de crença ou de rela-
ção, a qual se torna, então, necessidade.
Não sei se alcançastes este ponto, nesta investigação, —
não verbalmente, porém realmente. Isso significa descobrir dire-
tamente e enfrentar o fato de se ser nada, de se estar interior-
mente vazio como uma concha e coberto das joias do saber e da
experiência que, na realidade, nada mais são do que palavras e
explicações. Ora, para enfrentar esse fato sem desespero, sem
sentir quanto ele é terrível, porém, simplesmente, “ficar com ele”,
é necessário em primeiro lugar compreender a necessidade. Se
compreendermos o significado da necessidade, ela não terá mais
tanta preponderância, em nossa mente e coração.
[...] Podemos ser talentosos, ilustrados, e capazes de re-
petir tudo o que aprendemos; mas as máquinas eletrônicas fazem
a mesma coisa e já, em certos setores, as máquinas se tornaram
mais capazes do que o homem, mais exatas e rápidas em seus
cálculos. E assim estamos sempre voltando a este mesmo tópico,
ou seja, que a vida que vivemos atualmente é bem superficial,
estreita, limitada, e isso porque, profundamente, estamos vazios,
sós, e sempre tentando encobrir, preencher esse vazio; por isso, a
163
necessidade, o desejo se torna uma coisa terrível. Nada pode pre-
encher esse profundo vazio interior — nem deuses, nem salvado-
res, nem o saber, nem as relações, nem os filhos, nem o marido,
nem a esposa — nada. Mas se a mente, o intelecto, a totalidade
de vosso ser, é capaz de encará-lo, de “viver com ele”, vereis en-
tão que, psicológica, interiormente, não há necessidade de coisa
alguma. Esta é a verdadeira liberdade.
Isso, porém, requer profundo discernimento, profunda in-
vestigação, incessante vigilância; e desse modo talvez venhamos a
saber o que é o amor. Como pode haver amor quando há apego,
ciúme, inveja, ambição e todas as hipocrisias que acompanham
esta palavra? Mas, se tivermos passado por aquele vazio — que é
uma realidade e não um mito nem uma ideia — veremos que o
amor e o desejo e a paixão são uma mesma coisa. Se se destrói
uma, destrói-se a outra; se se corrompe uma, corrompe-se a bele-
za. Para se penetrar tudo isso requer-se, não uma mente desape-
gada, dedicada ou uma mente religiosa, mas uma mente disposta
a investigar, uma mente nunca satisfeita, que está sempre a olhar,
a vigiar, a observar a si própria — a conhecer a si mesma. Sem o
amor, nunca será possível descobrir o que é a verdade.
Diário de Krishnamurti - 1961


[...] O HOMEM QUE deseja compreender a liberdade de-
ve, sem remorsos, livrar-se da sociedade — psicologicamente, não
fisicamente. Não podeis estar livre da sociedade fisicamente, por-
que, para tudo, dependeis da sociedade — para a roupa que ves-
tis, o dinheiro de que necessitais, etc. Exteriormente, não, psico-
logicamente, dependeis da sociedade. Mas o estar livre da socie-
dade implica liberdade psicológica — isto é, estar totalmente livre
da ambição, da inveja, da avidez, da vontade de poder, de posi-
ção, de prestígio. Mas, infelizmente, temos interpretado da ma-
neira mais absurda o estar livre da sociedade. Pensamos que o
libertar-se significa “trocar de roupas” — pondes as vestes do
sannyasi, e pensais que ficastes livre do mundo; ou vos tornais

164
monge e pensais que, de certo modo, destruístes o mundo e a
sociedade. Muito ao contrário; podeis vestir uma tanga, mas, inte-
riormente, estais psicologicamente ligado à sociedade, porque
continuais a ser ambicioso, invejoso, desejoso de poder. Assim, a
mente que está investigando o que é a liberdade deve estar de
todo livre da sociedade, psicologicamente, e livre, também, da
dependência da família.
A família é a forma mais conveniente de resistência, por-
que essa resistência é considerada altamente respeitável pela
sociedade; e, se observardes, podereis ver quanto a mente se
vinculou à família. A família se tornou o meio de vosso preenchi-
mento; a família se tornou o meio de vossa imortalidade, pelo
nome, pela ideia, pela tradição. Não estou dizendo que se destrua
a família; toda revolução tem tentado fazê-lo; a família é indestru-
tível. Mas, o indivíduo precisa ficar psicologicamente livre da famí-
lia, não depender da família, interiormente. Por que depende uma
pessoa?
Já alguma vez examinastes a questão da dependência psi-
cológica? Se a tiverdes examinado a fundo, deveis saber que a
maioria de nós está terrivelmente só. Em regra temos a mente tão
superficial, tão vazia! De ordinário, não sabemos o que significa o
amor. E, assim, por causa dessa solidão, dessa insuficiência, dessa
privação de vida, estamos ligados a alguma coisa, estamos apega-
dos à família; dela dependemos. E quando o marido ou a esposa
vos volta às costas, tornamo-nos ciumentos. Ciúme não é amor;
mas o amor que a sociedade reconhece, na família, é considerado
respeitável. Essa é uma outra forma de defesa, uma outra forma
de fuga a nós mesmos. Como vemos, toda forma de resistência
cria dependência. A mente dependente nunca pode ser livre.
A mutação interior - 1962

165
[...] LIBERDADE significa esvaziar a mente do conhecido.
Não sei se já alguma vez o tentastes, vós mesmo. O relevante é
libertarmos a mente do conhecido, ou, melhor, que a mente se
liberte do conhecido. Isso não significa que a mente deva libertar-
se do conhecimento “factual”, pois em certo grau necessitamos
desse conhecimento. É claro que não deveis libertar-vos do co-
nhecimento do lugar onde residis, etc. Mas a mente pode libertar-
se do seu fundo de tradição, de experiências acumuladas, e dos
vários impulsos conscientes e inconscientes que representam
reações daquele fundo; e ficar completamente livre desse fundo
significa rejeitar, pôr de lado, morrer para o conhecido. Se assim
fizerdes, descobrireis por vós mesmo quanto é realmente signifi-
cativa a liberdade.
Falo de uma total liberdade interior em que não há de-
pendência psicológica, nem apego de espécie alguma. Enquanto
há apego, não há liberdade, porque o apego implica sentimento
de íntima solidão, vazio interior, o qual exige um estado de rela-
ção exterior em que amparar-se. A mente livre não é apegada,
embora possa ter relações. Mas não pode nascer a liberdade, se
não há aquele “estado de aprender” que traz consigo uma pro-
funda disciplina interior, não baseada em ideias nem em nenhum
padrão “conceitual”. Quando a mente se liberta constantemente
pelo morrer de instante em instante para o conhecido, daí pro-
vém uma disciplina espontânea, uma austeridade nascida da
compreensão. A verdadeira austeridade é uma coisa maravilhosa;
não é a seca disciplina, e sem nenhum valor, da renúncia destruti-
va, que em geral imaginamos.
Não sei se já alguma vez experimentastes esse extraordi-
nário sentimento de “ser completamente austero” — coisa que
nada tem em comum com a disciplina de controle, ajustamento,
submissão. E essa austeridade deve existir, porque, nela, há gran-
de beleza e intenso amor. Nessa austeridade há paixão; ela só se
apresenta ao existir solidão interior.
O homem e seus desejos em conflito - 1962

166

[...] PERGUNTA: Poderíeis dizer mais alguma coisa a res-


peito da energia?

Krishnamurti: Qualquer coisa que se faça, até a mais in-


significante, requer energia, não é verdade? O levantar-se e sair
deste pavilhão, o pensar, o comer, o conduzir um carro — toda
espécie de ação exige energia. E, ordinariamente, ao fazermos
alguma coisa, há, em nós uma forma de resistência que dissipa
energia — a não ser que a ação nos proporcione prazer, caso em
que não há conflito, nem resistência na continuidade da energia.
Como já disse, precisamos de energia para estarmos com-
pletamente atentos, e nessa energia não há resistência, porquan-
to não há distração. Mas, se ocorrer distração — no momento em
que desejais concentrar-vos numa coisa e ao mesmo tempo olhar
pela janela — há uma resistência, um conflito. Ora, o olhar pela
janela é tão importante como o olhar para outra coisa qualquer —
e, com a percepção dessa verdade, não haverá então distração,
nem conflito.
Para terdes energia física, deveis naturalmente tomar ali-
mentos adequados, ter a justa proporção de repouso, etc. Isto vós
mesmos podeis experimentar e não há necessidade de o discutir-
mos. Mas existe também a energia psicológica, a qual se dissipa
de várias maneiras. Para ter essa energia, a mente busca estímu-
los. Frequentar a igreja, assistir a partidas de futebol, entregar-se
à literatura, ouvir música, etc., — todas essas coisas vos estimu-
lam; e se o que desejais é ser estimulado, isso significa que, psico-
logicamente, sois dependente. A busca de estímulo implica de-
pendência de alguma coisa — de uma bebida, uma droga, um
orador, ou de entrar numa igreja; e, por certo, o depender de
estímulo não apenas embota a mente, mas também ocasiona
dissipação da energia. Assim, para conservarmos nossa energia,
deve desaparecer toda espécie de dependência ou de estímulo; e,

167
para desaparecer a dependência, precisamos conscientizar-nos
dela. Se, para ter estímulo, a pessoa depende de sua mulher ou de
seu marido, de um livro, de seu cargo, de ir aos cinemas — qual-
quer que seja o incentivo — deve, em primeiro lugar, perceber
isso. O aceitar simplesmente os estímulos, e com eles viver, dissi-
pa energia e deteriora a mente. Mas, cientificando-nos dos estí-
mulos e do significado que têm em nossa vida, poderemos livrar-
nos deles. Pelo autopercebimento — que não é autocondenação,
etc., porém estar simplesmente cônscio, sem escolha, de si pró-
prio — pode o homem conhecer todas as formas de influência,
todas as formas de dependência, todas as formas de estímulo; e
esse próprio movimento da ação de aprender dá-lhe a energia
necessária para libertar-se de todas as dependências e de todos
os estímulos.
A mente sem medo - 1964

[...] ESTIVEMOS FALANDO sobre a importância de nos li-


bertarmos totalmente da estrutura psicológica da sociedade, isto
é, de ficarmos completamente fora da sociedade. Para compreen-
dermos os problemas da estrutura social de que fazemos parte e
também para deles nos livrarmos, necessitamos de considerável
energia, vigor e vitalidade.
Quanto melhor percebemos quão complexa é a socieda-
de, tanto mais óbvia se torna a complexidade do indivíduo que
nela vive. O indivíduo é parte integrante da sociedade que ele
próprio criou, sua estrutura psicológica é essencialmente a dessa

168
sociedade. Compreender os problemas de cada um de nós é com-
preender os problemas das relações dentro da sociedade. Pois só
temos um único problema: o problema das relações dentro dessa
estrutura social, psicológica. Para a compreensão e libertação do
problema das relações, necessita-se de abundante energia, não só
energia física e intelectual, mas também uma energia não “moti-
vada” ou dependente de estímulos psicológicos ou de drogas de
qualquer espécie. Para se ter essa energia, é necessário compre-
ender primeiramente a maneira como dissipamos energia. Entra-
remos neste assunto passo a passo, e peço-vos compreender que
o orador é apenas um espelho: está a expressar o que supõe ser o
problema de cada um de nós; assim sendo, o ouvinte não fica
apenas a ouvir uma série de palavras e ideias, porém está real-
mente escutando e observando a si próprio, não segundo o que o
orador em outra pessoa formula, porém, antes, observando o seu
verdadeiro estado de confusão, de falta de energia, de aflição, de
total desesperança, etc.
Se se depende de algum estímulo para a obtenção da
energia necessária, esse mesmo estímulo embota a mente, torna-
a insensível, sem penetração. Uma pessoa pode tomar a droga
chamada LSD ou outras e, temporariamente, achar energia sufici-
ente para ver as coisas com muita clareza, mas terá de reverter ao
estado anterior e tornar-se cada vez mais dependente dessa dro-
ga. Todo estímulo, quer por parte da igreja, quer da bebida ou
droga, quer do orador, criará inevitavelmente uma dependência
que impede o indivíduo de ter a energia vital necessária para ver
claramente e por si próprio. Toda espécie de dependência de al-
gum estímulo reduz a agilidade e a vitalidade da mente. Por infeli-
cidade, todos nós dependemos de alguma coisa: de uma relação,
da leitura de um livro intelectual, ou de certas ideias e ideologias
por nós formuladas; ou dependemos da solidão, do isolamento,
da rejeição, da resistência. Tudo isso, obviamente, perverte e dis-
sipa a energia.
Temos de perceber de que é que estamos dependendo.
Cumpre descobrir por que razão dependemos de alguma coisa,
psicologicamente; não aludo à dependência tecnológica ou à de-
169
pendência em que estamos do entregador do leite... Mas, psicolo-
gicamente, porque é que dependemos, o que supõe a dependên-
cia? Esta é uma pergunta essencial, quando se quer investigar a
dissipação, a deterioração e a perversão da energia — dessa ener-
gia de que temos vital necessidade para compreendermos nossos
inúmeros problemas.
De que é que tanto dependemos: de uma pessoa, um li-
vro, uma igreja, um sacerdote, uma ideologia, uma bebida ou
droga? Quais são os esteios que sustentam cada um de nós, su-
tilmente ou de maneira muito óbvia? Porque dependemos, e o
descobrimento da causa da dependência liberta a mente dessa
dependência? Entendeis essa pergunta? Estamos viajando juntos;
não estais à espera de que eu vos mostre as causas de vossa de-
pendência, porém, investigando-as juntos, as descobriremos; ha-
verá um descobrimento feito por vós e que, como tal, vos dará
vitalidade. Descobrimos por nós mesmos que dependemos de
alguma coisa, por exemplo, de um auditório, para nos estimular e
dele, portanto, necessitamos. Quando se dirige a palavra a um
grande grupo de pessoas, pode-se adquirir uma certa espécie de
energia e fica-se, portanto, na dependência desses ouvintes, de
sua concordância ou discordância, para se obter aquela energia.
Quanto maior a discordância, tanto maior se toma a batalha e
tanto mais vitalidade se adquire; mas, se o auditório concorda,
não se obtém a mesma energia. Dependemos — por quê? E per-
guntamos a nós mesmos se, descobrindo a causa de nossa depen-
dência, nos libertaremos dessa dependência. Acompanhai-me,
por favor, com vagar. Uma pessoa descobre que necessita de ou-
vintes parque é muito estimulante falar a outras pessoas; porque
necessita desse estímulo? Porque, interiormente, essa pessoa é
superficial, interiormente nada tem, não há nenhuma fonte de
energia, sempre cheia, abundante, vital, em movimento, viva.
Interiormente é paupérrima e descobriu que essa é a causa de sua
dependência.
Pode o descobrimento da causa nos livrar de continuar
dependentes, ou esse descobrimento é meramente intelectual,
mero descobrimento de uma fórmula? Se se trata de uma investi-
170
gação intelectual e se foi o intelecto que descobriu a causa da
dependência da mente, por meio de racionalização, de análise,
pode esse descobrimento libertar a mente da dependência? Não
pode, evidentemente. O mero descobrimento intelectual da causa
não liberta a mente de sua dependência daquilo que lhe dá estí-
mulo, assim como a mera aceitação intelectual de uma ideia ou a
aquiescência emocional a uma ideologia não pode libertá-la.
A mente se liberta da dependência quando vê, em seu to-
do, essa estrutura de estímulo e dependência e vê que o mero
descobrimento intelectual da causa da dependência não liberta a
mente da dependência. O ver a inteira estrutura e natureza do
estímulo e da dependência e perceber como essa dependência
torna a mente estúpida, embotada, inerte — só esse percebimen-
to liberta a mente.
Vemos o quadro inteiro, ou apenas uma parte dele, um
detalhe? Essa é uma pergunta muito importante que nos devemos
fazer, porque nós vemos as coisas em fragmentos e pensamos em
fragmentos; todo o nosso pensar é fragmentário. Temos, pois, de
investigar o que significa ver totalmente. Perguntamos se nossa
mente pode ver o todo, apesar de ter sempre funcionado frag-
mentariamente, como nacionalista, individualista, como coletivi-
dade, como católico, alemão, russo, francês, ou como indivíduo
aprisionado numa sociedade tecnológica, funcionando numa es-
pecialidade, etc. — tudo dividido em fragmentos, com o bem
oposto ao mal, o ódio ao amor, a ansiedade à liberdade. Nossa
mente pensa sempre num estado de dualidade, de comparação,
de competição, e essa mente, que funciona em fragmentos, não
pode ver o todo. Se uma pessoa é hinduísta e olha o mundo por
essa estreita janela, crendo em certos dogmas, ritos, tradições,
educada que foi numa certa cultura, etc., evidentemente não
pode perceber o todo da humanidade.
Assim, para se ver alguma coisa totalmente, seja uma ár-
vore, seja uma relação ou atividade que temos, a mente deve
estar livre de toda fragmentação, porquanto a origem da frag-
mentação é justamente aquele centro de onde estamos olhando.
O fundo, a cultura, na qual o indivíduo é católico, protestante,
171
comunista, socialista, chefe de família, é o centro de onde se está
olhando. Assim, enquanto estamos a olhar a vida de um certo
ponto de vista, ou de uma dada experiência a que estamos ape-
gados, que constitui nosso fundo, nosso EU, não podemos ver a
totalidade. A questão, pois, não é de como nos libertarmos da
fragmentação. Invariavelmente, uma pessoa perguntaria: “Como
posso eu, que funciono em fragmentos, deixar de funcionar em
fragmentos?” Mas, essa é uma pergunta - errônea. Percebe essa
pessoa que depende psicologicamente de muitas coisas e desco-
briu intelectualmente, verbalmente e por meio de análise, a causa
dessa dependência; esse mesmo descobrimento é fragmentário,
por ser um processo intelectual, verbal, analítico; e isso significa
que tudo o que o pensamento descobre é inevitavelmente frag-
mentário. Só se pode ver a totalidade de uma coisa quando o
pensamento não interfere, porque então não se vê verbalmente
nem intelectualmente, porém realmente, como eu vejo o fato que
é este microfone — sem agrado nem desagrado; ele existe. Ve-
mos então a realidade, i. e., que somos dependentes e não dese-
jamos libertar-nos dessa dependência ou de sua causa. Observa-
mos, e fazemo-lo sem termos um centro, sem termos nenhuma
estrutura de pensamento. Quando há observação dessa espécie,
vê-se o quadro inteiro e não um simples fragmento dele; e quan-
do a mente vê o quadro inteiro, há liberdade.
Acabamos de descobrir duas coisas. A primeira, que há
dissipação de energia quando há fragmentação. Pelo observar,
pelo “escutar” a estrutura total da dependência, descobriu-se que
toda atividade da mente que trabalha e funciona em fragmentos
— como hinduísta, comunista, católico, ou como analista que
analisa — é essencialmente a atividade de uma mente dissipada,
de uma mente que desperdiça energia. A segunda coisa foi que
esse descobrimento dá-nos energia para enfrentar todos os frag-
mentos que forem surgindo e, consequentemente, observando-os
à medida que surgem, eles vão sendo dissolvidos.
Descobriu-se a própria origem da dissipação de energia e
que toda fragmentação, divisão, conflito (pois divisão significa
conflito) é desperdício de energia. Todavia, pode-se pensar que
172
não há desperdício de energia no imitar e aceitar a autoridade, no
depender do sacerdote, dos rituais, do dogma, do partido, de uma
ideologia — porque então a pessoa aceita e segue. Mas o seguir e
o aceitar uma ideologia, seja boa, seja má, sagrada ou não sagra-
da, representa uma atividade fragmentária e, por conseguinte,
causa conflito. O conflito surgirá, inevitavelmente, porque haverá
separação entre o que é e o que deveria ser, e esse conflito é uma
dissipação de energia. Pode-se ver a verdade aí contida? Mais
uma vez, não se trata de “como libertar-me do conflito?” — Se
fazemos a nós mesmos a pergunta “Como posso libertar-me do
conflito?”, criamos outro problema e, por conseguinte, aumenta-
mos o conflito. Mas se, ao contrário, vemos — tal como vemos o
microfone — clara e diretamente, pode-se então compreender a
verdade essencial de uma vida inteiramente sem conflito.
Mas, senhores, digamo-lo de maneira diferente. Estamos
sempre a comparar o que somos com o que deveríamos ser. Esse
“deveria ser” é uma projeção do que pensamos deveria ser. Com-
paramo-nos com nosso vizinho, com a riqueza que ele tem e nós
não temos. Comparamo-nos com os que são mais brilhantes, mais
intelectuais, mais afetuosos, mais bondosos, mais famosos, mais
isto e mais aquilo. O mais tem um importantíssimo papel em nos-
sas vidas, e essa medição que em cada um de nós se verifica, a
medição de nós mesmos com alguma coisa, é uma das principais
causas do conflito. Nela, há competição, comparação com isso e
aquilo, e ficamos envolvidos nesse conflito. Ora, porque existe
comparação? Fazei a vós mesmo essa pergunta. Porque vos com-
parais com outrem? Naturalmente, um dos ardis da propaganda
comercial é fazer-vos crer que não sois o que deveríeis ser, etc.
Isso começa desde os mais verdes anos de nossa vida —ser tão
arguto como outrem, nos exames, etc. Porque nos comparamos,
psicologicamente? Verificai-o. Se não comparo, que sou eu? Eu
ficaria embotado, vazio, estúpido — ficaria sendo o que sou. Se
não me comparo com outrem, fico sendo o que sou. Mas, pela
comparação, espero evolver, desenvolver-me, tornar-me mais
inteligente, mais belo, mais isto e mais aquilo. Isso acontecerá? O
fato é que eu sou o que sou e, pela comparação, estou fragmen-
173
tando esse fato, a realidade, e isso é um desperdício de energia;
mas, ao contrário, o não comparar, porém ser o que realmente
sou, é ter a extraordinária energia de que necessito para olhar.
Quando sois capaz de olhar sem comparação, estais fora de toda
comparação, o que não indica uma mente estagnada, contentada;
pelo contrário!
Estamos vendo, pois, em essência, como a mente desper-
diça energia e como essa energia é necessária para compreen-
dermos a totalidade da vida e não apenas os seus fragmentos. Ela
é como um vasto campo todo florido. Se aqui estivestes antes,
notastes como, antes de ser ceifado o feno, havia milhares de
variegadas flores? Mas, em geral, escolhemos só um dado canto
do campo e nesse canto ficamos a olhar uma só flor; não olhamos
o campo inteiro. Damos importância a uma só flor e, com dar im-
portância a essa única flor, rejeitamos o resto. É o que fazemos
quando atribuímos importância à imagem que temos de nós
mesmos; rejeitamos então todas as outras imagens e, por conse-
guinte, ficamos em conflito com cada uma delas.
Assim, como dissemos, é necessária a energia, energia
sem “motivo”, sem direção. Para tê-la, devemos ser interiormente
pobres, não ser ricos das coisas que a sociedade, que nós forma-
mos. Como, em maioria, somos ricos das coisas da sociedade, não
existe pobreza em nós. O que a sociedade formou em nós, o que
em nós mesmos formamos, é avidez, inveja, cólera, ódio, ciúme,
ansiedade — disso somos riquíssimos. Para compreender tudo
isso, precisamos de uma extraordinária vitalidade, tanto física
como psicológica. A pobreza é uma das coisas mais estranhas da
vida; as várias religiões de todo o mundo têm pregado a pobreza
— pobreza, castidade, etc. A pobreza do monge que veste um
hábito, muda de nome, recolhe-se a uma cela, abre a Bíblia e fica
a lê-la interminavelmente; esse homem é reputado pobre. O
mesmo se faz, de diferentes maneiras, no Oriente, e isso é consi-
derado pobreza. O voto de castidade, o possuir só uma tanga, só
uma túnica, só tomar uma refeição por dia — todos nós respeita-
mos essa espécie de pobreza. Mas, aqueles que tomaram o manto
da pobreza continuam ricos das coisas da sociedade, interiormen-
174
te, psicologicamente, uma vez que estão ainda em busca de posi-
ção, de prestígio; pertencem à categoria do “religioso”, e esse tipo
é uma das divisões da cultura social. Isso não é pobreza; pobreza é
estar-se completamente livre da sociedade, embora se possuam
algumas roupas e se tomem algumas refeições diárias. Torna-se a
pobreza uma coisa maravilhosa e bela, quando a mente está livre
da estrutura psicológica da sociedade, porque então já não há
conflito, não há buscar, indagar, desejar — não há nada. Só essa
pobreza interior pode ver a verdade existente numa vida inteira-
mente livre de conflito. Essa vida é uma bênção que não se encon-
tra em nenhuma igreja ou templo.
Como viver neste mundo - 1967

[...] O AMOR - que já quase se tornou sinônimo de sexo - e


a respectiva expressão; o amor, quando dele o pensamento ob-
tém um intenso prazer, é amor? Esse amor, quando contrariado,
se converte em ciúme, raiva, ódio. O prazer acarreta necessaria-
mente o desejo de domínio, de posse, a dependência e, por con-
seguinte, medo. Deste modo, perguntamos a nós mesmos: o amor
é prazer? O amor é desejo, em todas as suas formas sutis - sexua-
lidade, companheirismo, ternura, auto-esquecimento? Essas coi-
sas são amor e, se não são, que é então o amor?
Se observastes vossa própria mente em funcionamento,
cônscio das atividades do próprio cérebro, podeis ver que, desde a
antiguidade, desde o começo, o homem sempre buscou o prazer.
Observando o animal, podeis notar quanto é importante o prazer,
a busca do prazer e a agressividade que se manifesta quando há
obstáculo a esse prazer, quando frustrado o desejo de prazer. Nós
somos formados nessa base; nossas conclusões, nossos valores,
nossas exigências sociais, nossas relações, etc., tudo se baseia
nesse princípio essencial do prazer. Quando esse prazer é contra-

175
riado, quando controlado, transtornado, impedido, há então raiva,
agressão, que se torna mais uma forma de prazer.
Que relação tem o prazer com o amor? Ou o prazer não
está em nenhuma relação com o amor? É o amor uma coisa to-
talmente diferente, uma coisa não fragmentada pela sociedade,
pela religião, em "amor profano" e "amor divino"? Como ireis
verificar isso? Como ireis verificá-lo por vós mesmos, quer dizer,
sem serdes informado por outrem? - porque, se outra pessoa vos
diz o que ele é, e vós dizeis "Sim, está certo", não se trata de uma
coisa vossa, de uma coisa que vós mesmos descobrisses e profun-
damente sentistes.
Que relação tem o prazer da "expressão pessoal" com a
beleza e o amor? - É a verdade uma coisa estática? Ou ela é algo
que se vai descobrindo pelo caminho, nunca estacionária, nunca
permanente, mas sempre em movimento? A verdade não é um
fenômeno intelectual, não é nada de emocional ou sentimental, e
nós temos de descobrir a verdade acerca do prazer, acerca da
beleza e do amor.
Conhecemos as torturas do amor, nossa dependência de-
le, o medo que ele gera, a solidão resultante de não ser amado, e
nossa perene busca do amor sem nunca o termos achado à nossa
inteira satisfação. Assim, pergunta-se: O amor é satisfação e ao
mesmo tempo tortura, dentro de um círculo de ciúme, inveja,
ódio, raiva, dependência?
Quando não há beleza em nosso coração, frequentamos
os museus, os concertos, maravilhamo-nos com a beleza de um
antigo templo grego, suas majestosas colunas, suas proporções.
Falamos interminavelmente sobre a beleza, mas estamos perden-
do o contato com a natureza - como o está perdendo o homem
moderno, vivendo cada vez mais nas cidades. Fundam-se clubes
com o objetivo de fazer excursões ao campo, para ver os pássaros,
as árvores, os rios - como se por essa maneira fosse possível en-
trar em contato com a natureza e a beleza sem limites! Por ter-
mos perdido o contato com a natureza, os modernos quadros
"objetivos", os museus e os concertos se tornaram sobremodo
importantes.
176
Há um vazio, uma vacuidade interior que está sempre a
buscar expressão, para dela obter prazer, criando-se, em conse-
quência, o medo de não obtê-lo completamente e, portanto, a
resistência, a agressividade, etc. Tratamos de preencher esse vá-
cuo, esse vazio interior (que decerto já conhecestes) com livros,
conhecimentos, relações, artifícios de toda ordem, mas, no final
de tudo, continua existente essa vacuidade impreenchível e, en-
tão, apelamos para Deus - a última instância... Quando existe esse
vazio, esse vácuo profundo, insondável, é possível o amor, a bele-
za? Se desse vazio nos tornamos cônscios, sem fugir - que deve-
mos fazer? Temos tentado preenchê-lo com deuses, com o saber,
com experiências, com a música, os quadros, com fantásticos co-
nhecimentos técnicos; - nesse preenchimento nos mantemos
ocupados da manhã à noite. Sabemos que a vacuidade não pode
ser preenchida por outrem. Se a preencheis com isso que se cha-
ma "relação com outra pessoa", ou uma imagem, daí resulta a
dependência, o "medo de perder" e, consequentemente, a "posse
agressiva", o ciúme e tudo mais. Assim, perguntamos a nós mes-
mos: Pode esse vazio ser preenchido por alguma coisa, por ativi-
dades sociais, pela prática de "boas obras", pelo recolhimento à
um mosteiro, para meditar, exercitar-se em "estar cônscio"? (o
que, decerto, é outro absurdo). Se não é possível preenchê-lo, que
se pode fazer então? Percebeis a importância desta pergunta? Já
se tentou preenchê-lo com o que se chama "prazer", por meio da
"expressão pessoal", da busca da verdade, de Deus, e vimos que
nada pode preenchê-lo - nem a imagem que criamos a respeito de
nós mesmos, nem a imagem ou a ideologia que criamos a respeito
do mundo; nada pode preenchê-lo. Estivemos, pois, a servir-nos
da beleza, do amor e do prazer, para cobrir o vazio e, se não con-
tinuarmos a fugir dele, porém "ficarmos com ele", que nos cabe
fazer? Está clara a questão - mais ou menos clara?
Que é essa solidão, esse profundo vácuo interior - que é
isso, e como se torna existente? Existe ele porque estamos ten-
tando preenchê-lo ou porque estamos a fugir dele? Trata-se ape-
nas de uma ideia de vazio e, por conseguinte, a mente nunca en-

177
trou em contato com o que realmente há, nunca entrou em rela-
ção direta com o vazio?
Descubro em mim mesmo esse vazio, e deixo de fugir
porque tal atividade é obviamente imatura; percebo que ele exis-
te e que nada pode preenchê-lo. Assim, pergunto: Como se tor-
nou ele existente? Foi o meu modo de viver, foram minhas ativi-
dades de cada dia que o produziram? Será que o "eu", o "ego, (ou
a palavra que preferirdes) está a isolar-se com sua própria ativi-
dade? A natureza mesma do "eu", do "ego", é o isolamento; ele é
separativo. Suas atividades produziram esse estado isolado, esse
profundo vazio em mim existente; trata-se, portanto, de um resul-
tado, uma consequência, e não de uma coisa imanente. Vejo que,
enquanto minha atividade for egocêntrica, enquanto consistir em
expressar meu próprio "eu", esse vazio necessariamente existirá.
Vejo que, para preenchê-lo, faço todos os esforços possíveis. Tais
esforços são igualmente egocêntricos, de modo que o vazio se
torna cada vez mais vasto e profundo.
É possível transcender esse estado - sem dele fugir, sem
dizer "Não quero ser egocêntrico"? Quando um homem diz "Não
quero ser egocêntrico", já é egocêntrico. Ao exercer a vontade
para negar a atividade do "eu", essa mesma vontade se torna o
fator de isolamento.
A mente, com sua necessidade de proteção e segurança,
foi condicionada através de muitos séculos e constituiu, tanto
fisiológica como psicologicamente, esse padrão de atividade ego-
cêntrica. Essa atividade predomina na vida diária e produz aquele
vazio e isolamento. Como pode ela ter fim?
Estais seguindo o que estou dizendo? Vejo esse vazio e ve-
jo como se tornou existente; percebo que a vontade, ou outra
qualquer atividade que eu exerça, é apenas atividade egocêntrica
sob outra forma; vejo-o muito clara e objetivamente e, de repen-
te, percebo que nada posso fazer. Compreendeis? Antes, eu fazia
alguma coisa, fugia ou tentava preencher o vazio, tentava sondá-
lo, compreendê-lo, mas percebi que tudo isso era apenas outra
forma de isolamento. Compreendi assim, subitamente, que nada
posso fazer e que quanto mais tento fazer alguma coisa, mais
178
muralhas de isolamento estou construindo, criando. A própria
mente percebe que nada pode fazer em relação ao vazio e que o
pensamento não pode entrar em contato com ele porque, no
mesmo instante em que o toca, cria mais vazio. Assim, mediante
observação atenta e objetiva, vejo esse processo todo inteiro, e
esse simples ver é suficiente. Vede o que sucedeu. Antes, eu me
servia da energia para preencher o vazio, andava numa lufa-lufa, e
percebo agora quanto isso era absurdo, minha mente o percebe
muito claramente, e, por conseguinte, já não estou dissipando
energia. O pensamento se aquietou, a mente se tornou comple-
tamente silenciosa; nesse silêncio não há solidão. Quando existe
na mente esse silêncio completo, há beleza e amor, que podem
expressar-se ou não.
Seguistes tudo o que estivemos dizendo? Fizemos juntos a
jornada? Minha senhora, não digais "sim". A matéria de que es-
tamos tratando é das mais difíceis e perigosas. O problema é
complexo em extremo, mas, se o olharmos bem, ele se tornará
muitíssimo simples, e essa própria simplicidade faz-nos pensar
que o compreendemos.
Portanto, só há felicidade suprema fora da esfera do pra-
zer; e há a beleza que não é a expressão de uma mente engenho-
sa, mas aquela beleza que conhecemos quando a mente está to-
talmente quieta, em silêncio.
Está chovendo e ouve-se o tamborilar das gotas de chuva.
Podeis ouvi-lo com vossos ouvidos ou podeis ouvi-lo em virtude
daquele silêncio profundo. Se o ouvis com o silêncio total da men-
te, então, tamanha é a sua beleza, que não pode ser expressa em
palavras nem numa tela, porque essa beleza excede a expressão.
O amor, obviamente, é uma bênção, que não é prazer.[...]

[...] PERGUNTAMOS: É possível sermos livres? Podemos


nós, na situação em que nos encontramos, condicionados, molda-
dos por tantas influências, pela propaganda, pelos livros que le-
mos, pelo cinema, o rádio, as revistas - tudo isso a martelar-nos e
a moldar-nos a mente - podemos nós viver, neste mundo, comple-
tamente livres, não só conscientemente, mas nas raízes mesmas
179
de nosso ser? É este - assim me parece o desafio, o problema úni-
co. Porque, se não somos livres, não há amor: há ciúme, ansieda-
de, medo, domínio, cultivo do prazer - sexual ou outro. Se não
somos livres, não podemos ver claramente e não há sensibilidade
à beleza. Isto não são simples argumentos em prol da "teoria" de
que o homem deve ser livre; uma tal teoria se torna, por sua vez,
uma ideologia, e esta, a seu turno, separa as pessoas. Assim, se,
para vós, é este o problema central, o desafio máximo da vida,
não há então nenhuma questão de serdes felizes ou infelizes (isso
se torna uma coisa secundária), de poderdes ou não conviver em
paz com outros, ou de serem vossas crenças e opiniões mais im-
portantes que as de outrem. Tudo isso são problemas secundá-
rios, que serão resolvidos se o problema central for plena e pro-
fundamente compreendido e solucionado. Se, observando os
fatos reais que vos cercam e os fatos reais existentes dentro de
vós mesmos, sentis realmente que é este o desafio único da vida;
se percebeis que a dependência das ideias, opiniões e juízos de
outrem, a veneração da opinião pública, dos heróis, dos exem-
plos, geram a fragmentação e a desordem; se vedes claramente
todo o mapa da existência humana, com suas nacionalidades e
guerras, a separação entre seus deuses, sacerdotes e ideologias, o
conflito, a angústia, o sofrimento; se vós mesmos vedes tudo isso,
não como coisa ensinada por outrem, nem como ideia ou aspira-
ção - surge então um estado de completa liberdade interior, não
há medo da morte, e vós e o orador estais em comunhão, em
comunicação um com o outro.
Mas se, para vós, não é este o principal interesse, o prin-
cipal desafio e perguntais se é possível a um ente humano achar
Deus, a Verdade, o Amor, etc. - então não sois livre e, nesse esta-
do, como podeis achar alguma coisa? Como podeis explorar, via-
jar, com toda essa carga, todo esse medo que acumulastes através
de sucessivas gerações? É este o único problema: É possível aos
entes humanos serem realmente livres?[...]
A libertação dos condicionamentos - 1968

180

[...] PARA COMPREENDERMOS e nos libertarmos de um
problema, necessitamos de abundante energia, apaixonada, per-
sistente, não só energia física e intelectual, mas também uma
energia independente de qualquer motivo, de qualquer estímulo
psicológico ou droga. Se dependemos de algum estímulo, esse
próprio estímulo tornará a mente embotada e insensível. Toman-
do uma certa droga, podemos encontrar, temporariamente, ener-
gia suficiente para vermos as coisas muito mais claramente, mas
temos de voltar ao estado anterior e, por conseguinte, nos tor-
narmos cada vez mais dependentes dessa droga. Assim, todo es-
tímulo, seja da igreja, seja do álcool ou das drogas, da palavra
escrita ou falada, acarretará inevitavelmente a dependência — e
essa dependência nos impede de ver claramente, por nós mes-
mos, e, por conseguinte, de ter a energia vital.
Infelizmente, todos nós dependemos de alguma coisa. Por
que dependemos? Por que existe esse impulso a depender? Es-
tamos viajando juntos; não estais à espera de que eu vos mostre
as causas de vossa dependência. Se investigarmos juntos, nós as
descobriremos, e tal descobrimento será então vosso e, por con-
seguinte, sendo vosso, vos dará vitalidade.
Descubro por mim mesmo que dependo de uma certa coi-
sa, de um auditório, por exemplo, para ser estimulado. Desse au-
ditório, do falar a uma grande reunião de pessoas, me vem uma
certa espécie de energia. Consequentemente, dependo desses
ouvintes, dessas pessoas, quer concordem, quer não concordem
comigo. Quanto mais discordarem de mim, tanto mais vitalidade
me darão. Se concordam, o que lhes digo se torna uma coisa mui-
to superficial, vazia. Assim, descubro que necessito de ouvintes,
porque é uma coisa muito estimulante dirigir a palavra a muitas
pessoas. Ora, por quê? Por que tenho essa dependência? Porque
interiormente nada tenho, interiormente não existe em mim uma
fonte sempre cheia, abundante de vida e de movimento. Por isso,
eu dependo. Descobri a causa.

181
Mas o descobrimento da causa me livrará de ser depen-
dente? O descobrimento da causa é puramente intelectual e, por-
tanto, evidentemente, não pode libertar a mente de sua depen-
dência. A mera aceitação intelectual de uma ideia ou a aquiescên-
cia emocional a uma ideologia, não pode libertar a mente da de-
pendência daquilo que lhe dá estímulo. O que liberta a mente da
dependência é o percebimento da inteira estrutura e natureza do
estímulo e da dependência e de como essa dependência torna a
mente estúpida, embotada e inerte. Só o percebimento dessa
totalidade liberta a mente.
Cumpre, pois, investigar o que significa ver totalmente.
Enquanto eu estiver vendo a vida de um certo ponto de vista, de
uma dada experiência ou conhecimento que acumulei e que cons-
titui o meu fundo, meu "eu", não posso ver totalmente.
Descobri intelectualmente, verbalmente, pela análise, a
causa de minha dependência, mas tudo o que o pensamento in-
vestiga só pode ser fragmentário e, portanto, só posso ver a tota-
lidade de uma coisa quando o pensamento não interfere.
Percebo então o fato — minha dependência. Percebo re-
almente o que é. Vejo-o sem agrado nem desagrado, e não desejo
libertar-me dessa dependência ou de sua causa. Observo-a e com
essa qualidade de observação percebo o quadro inteiro; e quando
a mente percebe o quadro inteiro, dá-se a libertação. Ora, desco-
bri que há uma dissipação de energia quando há fragmentação.
Descobri a própria fonte da dissipação da energia.
Podeis pensar que não há desperdício de energia se imi-
tais, se aceitais a autoridade, se dependeis do sacerdote, do ritual,
do dogma, do partido, ou de uma certa ideologia, mas o aceitar e
seguir uma ideologia, boa ou má, sagrada ou profana, é uma ativi-
dade fragmentária e, portanto, uma causa de conflito; e o conflito
surge inevitavelmente quando há separação entre o que "deveria
ser" e "o que é", e todo conflito é dissipação de energia.

[...] Se dizeis que estais livre de uma certa coisa, trata-se


de uma reação, que depois se tornará outra reação que produzirá
uma outra maneira de ajustamento, uma outra forma de domínio.
182
Dessa maneira, podeis ter uma cadeia de reações e aceitar cada
reação como uma libertação. Mas isso não é libertação, porém,
apenas, a continuidade modificada de um passado a que a mente
está apegada.
A juventude de hoje, como a juventude de sempre, está
em revolta contra a sociedade, e isso, em si, é uma coisa boa, mas
revolta não é libertação, porquanto o revoltar-se constitui uma
reação, reação que estabelece o seu peculiar padrão, no qual fi-
cais enredado. Pensais que se trata de uma coisa nova. Mas não é;
é o velho, posto num diferente molde. Qualquer espécie de revol-
ta social ou política reverterá inevitavelmente à boa e velha men-
talidade burguesa.
A liberdade só existe quando vedes e agis, e nunca medi-
ante a revolta. Ver é agir, e essa ação é tão importante como a
ação que se modifica ao verdes um perigo. Não há então atividade
mental, não há discussão nem hesitação; o próprio perigo compe-
le ao ato e, por conseguinte, ver é agir e ser livre.
A liberdade é um estado mental; não é estar livre de al-
guma coisa, porém um estado de liberdade — liberdade para du-
vidar e questionar todas as coisas e, portanto, uma liberdade tão
intensa, ativa e vigorosa, que expulsa toda espécie de dependên-
cia, de escravidão, de ajustamento e aceitação. Essa liberdade
implica o estar completamente só. Mas, pode a mente que foi
criada numa dada cultura e que tanto depende do ambiente e das
próprias tendências descobrir aquela liberdade que é solidão total
e na qual não há líderes, nem tradição, e nenhuma autoridade?
A solidão é um estado mental interno, independente de
qualquer estímulo ou conhecimento, e não o resultado de alguma
experiência ou conclusão. A maioria de nós nunca está só, interi-
ormente. Há diferença entre o isolar-se, o segregar-se, e o estar
só, a solidão. Todos sabemos o que significa estar isolado — o
levantar uma barreira ao redor de nós para que nunca sejamos
molestados, nunca sejamos vulneráveis; ou o cultivar o desapego,
que é uma outra espécie de agonia; ou o viver na fantástica torre
de marfim de uma ideologia. A solidão é completamente diferente
disso.
183
Nunca estais só porque estais cheio de todas as memórias,
todas as murmurações de ontem; vossa mente nunca está livre
desses trastes imprestáveis que acumulou. Para ficardes só, ten-
des de morrer para o passado. Quando estais só, totalmente só,
sem pertencer a qualquer família, a nenhuma nação, a qualquer
continente em particular, tendes a sensação de ser um estranho.
O homem que, dessa maneira, está completamente só, é inocen-
te, e essa inocência é que liberta a mente do sofrimento.
Levamos conosco a carga de tudo o que disseram milhares
de pessoas, e das lembranças de todos os nossos infortúnios.
Abandonar tudo isso, totalmente, é estar só, e a mente que está
só não apenas é inocente, mas também jovem — não no tempo
ou na idade, porém juvenil, purificada, viva, qualquer que seja a
idade; só essa mente pode ver o que é a verdade, e aquilo que as
palavras não podem medir.
Nessa solidão, compreendereis a necessidade de viverdes
com vós mesmo tal como sois e não como pensais deveríeis ser ou
como fostes. Vede se podeis olhar-vos sem nenhum estremeci-
mento, sem falsa modéstia, medo, justificação ou condenação;
vivei com vós mesmo, tal como realmente sois.
[...] Assim, será possível, vós e eu, vivermos com o que re-
almente somos, sabendo que somos estúpidos, invejosos, medro-
sos, crentes de que possuímos uma enorme capacidade de afei-
ção, quando não a possuímos, facilmente ofendidos, facilmente
lisonjeados e entediados; poderemos viver com tudo isso, sem o
aceitar nem rejeitar, porém, tão-só, observando-o, sem nos tor-
narmos mórbidos, deprimidos ou orgulhosos?
Agora, façamos a nós mesmos mais uma pergunta: Pode
essa liberdade, essa solidão, essa entrada em contato com a intei-
ra estrutura daquilo que somos em nós mesmos, ser alcançada
mediante o tempo? Isto é, pode a liberdade ser alcançada por
meio de um processo gradual? Não pode, evidentemente, porque,
tão logo se introduz o tempo, ficais a escravizar-vos cada vez mais.
Ninguém pode libertar-se gradualmente. Não é uma questão de
tempo.

184
A pergunta subsequente é esta: Podeis tornar-vos consci-
ente dessa liberdade? Se dizeis "Sou livre", nesse caso não estais
livre. É o mesmo que um homem dizer "Sou feliz". No momento
em que diz: "Sou feliz", está vivendo na lembrança de uma coisa
passada. A liberdade só pode vir naturalmente, e não pelo crer,
desejar, ansiar por ela. Também, não pode ser encontrada medi-
ante a criação de uma imagem do que pensais ser ela. Para encon-
trar-se com ela, a mente tem de aprender a olhar a vida, esse
vasto movimento não sujeito ao tempo, porque a liberdade reside
além do campo da consciência.
Liberte-se do passado - 1969

[...] A MENOS QUE a mente humana esteja de tudo livre


interna, psicologicamente, não é possível ver o que é verdadeiro,
ver se existir uma realidade que não seja inventada pelo temor,
que não seja moldada pela sociedade ou pela cultura em que vi-
vemos, e que não seja um escapamento da rotina diária, com seu
tédio, solidão, inquietação e desespero. Para descobrir se real-
mente existe tal liberdade, a gente tem que dar-se conta de seu
próprio condicionamento, dos problemas, da monótona superfici-
alidade, do vazio e insuficiência de sua vida cotidiana e, sobre
tudo, tem que dar-se conta do temor. A gente tem que ser consci-
ente de si mesmo não de maneira introspectiva ou analítica, a não
ser dando-se conta de como um é em realidade, e ver também se
for possível estar inteiramente livre de todos esses problemas que
parecem nublar e confundir a mente.

[...] ENQUANTO EXISTA esta separação na nacionalidade,


a família, entre religiões com suas dependências possessivas sepa-
radas haverá indevidamente divisões na vida. Haverá o viver coti-
diano com seu tédio e rotina e isso que chamamos amor, cercado
pelo ciúme, a possessividade, a dependência, e a dominação; ha-

185
verá temor e a inevitabilidade da morte. Podemos penetrar nesta
questão seriamente não só em forma verbal, teórica, mas tam-
bém investigá-la olhando-a realmente dentro de nós mesmos e
nos perguntando por que existe esta divisão que engendra tanta
desdita, confusão e conflito?

[...] INTERLOCUTOR: Senhor, dentro de nós tem lugar uma


mudança psicológica parcial.

Krishnamurti: Certamente! A gente esteve zangado, ou a


gente está zangado e diz: “não devo estar zangado”, e a gente
trabalha sobre isso gradualmente e produz um estado parcial no
qual alguém está um pouco menos zangado, menos irritável e
mais controlado.
Interlocutor: Não quero dizer isso.
Krishnamurti: Então, o que é o que você quer dizer, se-
nhora?
Interlocutor: Refiro a algo que alguém tem e que abando-
nou. Pode que volte a haver confusão, mas não é o mesmo.
Krishnamurti: Sim, mas não se trata sempre da mesma
confusão, que só foi modificada um pouco? Há uma continuidade
modificada. A gente pode deixar de depender de alguém, passan-
do pela dor da dependência e a pena da solidão enquanto diz:
“não seguirei dependendo”. E possivelmente seja capaz de renun-
ciar a essa dependência. Então a gente diz que ocorreu certa mu-
dança. A seguinte dependência não será exatamente igual a ante-
rior. E volta a repetir o mesmo e a abandoná-lo outra vez, etc.
Agora perguntamos se for possível ver a natureza total da depen-
dência e ficar instantaneamente livre dela não gradualmente, na
mesma forma em que alguém atua imediatamente frente ao peri-
go. Esta é uma questão seriamente importante em que devemos
penetrar não só de maneira verbal, mas também profundamente,
internamente.
O voo da águia - 1969

186

[...] KRISHNAMURTI: A maioria das pessoas sensíveis têm


necessidade de um refúgio tranquilo, de uma atmosfera cordial,
amigável. Ou eles a criam para si próprios ou ficam dependendo
de outros que lha podem dar - da família, da esposa, do marido,
do amigo. Tendes algum amigo desses?

Interrogante: Não. Tenho medo de ter um amigo desses.


Tenho medo de ficar dependendo dele.
Krishnamurti: Eis, pois, a questão: Uma pessoa é sensível,
necessita de um certo abrigo, e depende de outros para o obter.
Sensibilidade e dependência são duas coisas que, muitas vezes,
andam juntas. E depender de outra pessoa é ter medo de a per-
der. Fica-se, assim, dependendo mais e mais, e o medo cresce
proporcionalmente à dependência. Um círculo vicioso. Já investi-
gastes porque dependeis? Nós dependemos do carteiro, do con-
forto físico, etc.; isto é bem simples. Dependemos de pessoas e
coisas para nosso bem estar físico e nossa sobrevivência, isto é
perfeitamente natural e normal. Temos de depender disso que se
pode chamar "o lado orgânico da sociedade". Mas, dependemos
também psicologicamente e essa dependência, embora confor-
tante, gera medo. Porque dependemos psicologicamente?
Interrogante: Estais agora a falar-me de dependência,
mas eu vim para conversarmos sobre o medo.
Krishnamurti: Examinemos ambas as coisas, porque, co-
mo veremos, elas estão relacionadas uma com a outra. Objetais a
que tratemos de ambas? Estávamos falando de dependência - que
é dependência? Porque dependemos psicologicamente de outra
pessoa? A dependência não é a negação da liberdade? Tirem-se-
lhe a casa, o marido, os filhos, as posses - que é um ente humano,
se tudo isso lhe é retirado? Em si próprio, ele é insuficiente, vazio,
sem rumo. Assim, por causa desse vazio, de que tem medo, ele
depende de posses, pessoas e crenças. Podeis sentir-vos tão segu-

187
ro das coisas de que dependeis que não possais imaginar a possi-
bilidade de perdê-las - o amor de vossos filhos, e o conforto que
ele proporciona. Todavia, o medo continua existente. Portanto,
deve ficar-nos bem claro que qualquer forma de dependência
psicológica gera inevitavelmente medo, ainda que as coisas de
que dependemos possam parecer-nos quase indestrutíveis. O
medo se origina dessa insuficiência interior, dessa pobreza e vazio
interiores. Assim, estais vendo que temos agora três questões: a
sensibilidade, a dependência e o medo? Três coisas relacionadas
entre si. Consideremos a sensibilidade: Quanto mais sensível a
pessoa (a menos que saiba ser sensível sem dependência, saiba
ser vulnerável, sem angústia), tanto mais depende. Agora, a de-
pendência: Quanto mais a pessoa depende, tanto maior o seu
desprazer e a necessidade de libertar-se. Essa necessidade de
liberdade dá mais força ao medo, porque é uma reação, e não
libertação da dependência.
Interrogante: E vós - dependeis de alguma coisa?
Krishnamurti: Decerto, fisicamente dependo de alimenta-
ção, roupas e morada, mas, psicologicamente, interiormente, não
dependo de coisa alguma - nem de deuses, nem da moralidade
social, nem de crenças, nem de pessoas. Mas, não é relevante
saber se eu sou ou não sou dependente. Portanto, continuemos.
O medo é o percebimento de nosso vazio, de nossa solidão e po-
breza interiores, e de não haver possibilidade de fazermos alguma
coisa a tal respeito. O que nos interessa aqui é só esse medo que
gera a dependência e, por sua vez, é aumentado pela dependên-
cia. Se compreendemos o medo, compreendemos também a de-
pendência. Portanto, para compreendermos o medo, é indispen-
sável a sensibilidade, para descobrirmos, percebermos como ele
se origina. Se o indivíduo é suficientemente sensível, torna-se
cônscio de sua medonha vacuidade - desse abismo sem fundo que
não se pode encher com o vulgar entretenimento das drogas, nem
com o entretenimento das igrejas ou das diversões sociais; nada o
preencherá. Sabendo-se disso, cresce o medo. Este nos impele à
dependência, a esta dependência torna-nos cada vez mais insen-
síveis. E, vendo que assim é realmente, sentimos medo. A ques-
188
tão, pois, agora, é de ultrapassarmos esse vazio, essa solidão, e
não de aprendermos a depender de nós mesmos, ou de disfar-
çarmos permanentemente o nosso vazio.
Interrogante: Porque dizeis que a questão não é de de-
pendermos de nós mesmos?
Krishnamurti: Porque, dependendo de vós mesmo, per-
deis a sensibilidade; vos tornais endurecido, indiferente e "fecha-
do". Viver sem dependência, ultrapassar a dependência, não signi-
fica tornar-se dependente de si próprio. Pode a mente enfrentar
aquele vazio e com ele viver, sem fugir em direção alguma?
Interrogante: Eu enlouqueceria, só de pensar em viver
com ele para sempre.
Krishnamurti: Todo movimento para nos afastarmos des-
se vazio é uma fuga. E essa fuga de uma coisa, essa fuga de "o que
é" é medo. O medo é a fuga a alguma coisa. "O que é" não é o
medo, a fuga é que é o medo, e esta fuga é que poderá enlouque-
cer-vos, e não o próprio vazio. Que é, pois, esse vazio, essa soli-
dão? Como surge ele? Ele surge, decerto, por causa da medição e
comparação. Comparo-me com o santo, o Mestre, o grande músi-
co, o erudito, o homem que se "realizou". Nessa comparação,
vejo-me incompleto, insuficiente; não tenho talento, sou inferior,
não me "realizei"; eu não sou, e aquele homem é. Assim, em con-
sequência do medir e comparar, vem-nos o horrível sentimento
de vacuidade, de sermos "nada". E a fuga a esse vácuo é medo. E
o medo nos impede de compreender esse abismo sem fundo. E
uma neurose que de si própria se nutre. E, também, a medida, a
comparação, é a essência mesma da dependência. Eis-nos, pois,
de volta à dependência; um círculo vicioso.
Interrogante: Percorremos uma longa distância nesta
nossa palestra, e as coisas se tornaram mais claras. Há dependên-
cia; é possível não dependermos? Sim, acho que é possível. Em
seguida o medo; é possível não fugirmos de maneira nenhuma ao
vazio, isto é, não fugirmos por medo? Sim, creio-o possível. Isso
significa que ficamos com o vazio. E, então, possível enfrentar
esse vazio, já que deixamos de fugir dele por medo? Sim, creio-o
possível. E, por último, é possível não medir, não comparar? Por-
189
que, se chegamos até este ponto - e acho que chegamos - resta-
nos então, unicamente, o vazio, e vemos que ele é o resultado de
comparação. E vemos, também, que a dependência e o medo
provêm desse vazio. Temos, pois, a comparação, o vazio, o medo,
a dependência. Posso realmente viver uma vida isenta de compa-
ração, de medida?
Krishnamurti: Naturalmente, tendes de tirar medidas para
colocar um tapete no soalho!
Interrogante: Sim. Quero dizer: Posso viver sem compara-
ção psicológica?
Krishnamurti: Sabeis o que significa viver sem compara-
ção psicológica, quando em toda a vossa vida fostes condicionado
para comparar - na escola, nos jogos, na universidade, no escritó-
rio? Tudo é comparação. Viver sem comparação! Sabeis o que isso
significa? Significa que não há dependermos de outros nem de
nós mesmos, não há buscar nem indagar; por conseguinte, signifi-
ca - amar. O amor desconhece a comparação e, portanto, o amor
desconhece o medo. O amor não tem consciência de si próprio
como "amor"; porque a palavra não é a coisa.

[...] INTERROGANTE: Eu gostaria de compreender a natu-


reza da dependência. Vejo-me na dependência de tantas coisas -
mulheres, diversões, bons vinhos, minha esposa e filhos, meus
amigos, o que dizem os outros. Felizmente, já não dependo do
"entretenimento" religioso, mas dependo dos livros que leio para
me estimular e da boa conversação. Vejo que os jovens são tam-
bém dependentes, talvez não tanto quanto eu, mas têm igual-
mente suas próprias formas de dependência. Estive no Oriente e
lá vi como as pessoas dependem do guru e da família. Lá a tradi-
ção tem maior importância e raízes mais profundas do que aqui
na Europa e, naturalmente, muito mais profundas ainda do que na
América. Mas, parece que todos nós dependemos de alguma coi-
sa, para nos amparar, não apenas fisicamente, porém, muito mais
ainda, interiormente. Assim, eu desejava saber se há alguma pos-
sibilidade de nos livrarmos, realmente, da dependência, e se de-
vemos livrar-nos dela.
190
Krishnamurti: Suponho que o que vos interessa são os
apegos psicológicos, interiores. Quanto mais apego, tanto maior a
dependência. Não há só apego a pessoas, mas também a ideias e
a coisas. Somos apegados a um certo ambiente, um certo país,
etc. Daí se origina a dependência e, por conseguinte, a resistência.
Interrogante: Por que "resistência"?
Krishnamurti: O objeto de meu apego é meu domínio, ter-
ritorial ou sexual. Esse domínio eu protejo, resistindo a qualquer
espécie de intrusão por parte de outros. Limito, também, a liber-
dade da pessoa a quem estou apegado, e limito minha própria
liberdade. Apego, portanto, é resistência. Tenho apego a alguma
coisa ou a alguma pessoa. Esse apego é sentimento de posse; o
sentimento de posse é resistência e, consequentemente, apego é
resistência.
Interrogante: Sim, percebo.
Krishnamurti: Qualquer forma de invasão de meus domí-
nios leva à violência, legal ou psicologicamente. Portanto, apego é
violência, resistência, aprisionamento nosso e do objeto de nosso
apego. Apego significa "Isto é meu, e não teu; não o toques!". Por
conseguinte, essa relação é resistência a outros. O mundo inteiro
está dividido em "meu" e "vosso"; minha opinião, meu julgamen-
to, meu alvitre, meu Deus, minha pátria - uma infinidade de ab-
surdos tais. Vendo-se tudo isso ocorrer em nossa vida diária, não
abstratamente, porém realmente, é lícito perguntar porque existe
esse apego a pessoas, coisas e ideias. Porque depende uma pes-
soa? Existir é estar em relação, e todas as relações estão nessa
dependência, com sua violência, resistência e domínio. Eis o que
fizemos do mundo. Quando há posse, há necessariamente domí-
nio. Encontramo-nos com a beleza e nasce o amor; imediatamen-
te ele se converte em apego, e começa a nossa aflição. O amor
"fugiu-nos pela janela". Perguntamos, então: "Que foi feito de
nosso grande amor?" É isso, com efeito, o que está acontecendo
em nossa vida diária. E, assim, podemos agora perguntar: Porque
é que o homem invariavelmente tem apego, não só ao que é belo,
mas também a tudo quanto é ilusão e a tantas fantasias absurdas?
191
A liberdade não é um estado de não dependência; é um
estado positivo em que não há dependência nenhuma. Mas, a
liberdade não é um resultado, a liberdade não tem causa. Isso
precisa ser compreendido bem claramente, antes de se poder
examinar esta questão do porque o homem depende ou se deixa
cair na armadilha do apego, com todas as suas aflições. Porque
temos apego, tentamos cultivar um estado de independência - e
isso é mais uma forma de resistência.
Interrogante: Então, que é liberdade? Dizeis que ela não é
a negação ou cessação da dependência; dizeis que não é estar
livre de alguma coisa, porém, simplesmente, liberdade. Que é ela,
pois? Uma abstração ou uma realidade?
Krishnamurti: Não é uma abstração. É um estado mental
em que não existe nenhuma espécie de resistência. Ela não é co-
mo o rio que se acomoda às rochas que encontra em seu curso,
contornando-as ou sobre elas passando. Nessa liberdade não há
rochas, porém apenas o movimento da água.
Interrogante: Mas a rocha do apego existe, neste rio da
vida. Não se pode simplesmente falar de outro rio em que não
existem rochas.
Krishnamurti: Não estamos evitando a rocha ou dizendo
que ela não existe. Temos, primeiramente, de compreender a
liberdade. Ela não é o mesmo rio que aquele onde existem, ro-
chas.
Interrogante: Eu tenho ainda o meu rio, com suas rochas,
e foi sobre ele que vim consultar-vos, e não sobre algum outro rio
livre de rochas. Este não tem nenhuma utilidade para mim.
Krishnamurti: Está certo. Mas, deveis saber o que é liber-
dade, para poderdes compreender as vossas rochas. Deixemos,
porém, de parte este símile. Consideremos tanto a liberdade co-
mo o apego.
Interrogante: O meu apego tem alguma coisa que ver com
a liberdade, ou a liberdade com meu apego?
Krishnamurti: No vosso apego há dor. Quereis ficar livre
dessa dor e tratais de cultivar o desapego, sendo isso mais uma
forma de resistência. No oposto não se encontra nenhuma liber-
192
dade. Estes dois opostos (o apego e o desapego) são idênticos e
mutuamente se reforçam. O que vos interessa é saber como ter
os prazeres do apego, sem as suas aflições. Isso não é possível. Eis
porque importa compreender que liberdade não significa desape-
go. No processo da compreensão do apego, nasce a liberdade, e
não na fuga do apego. Assim, nossa questão agora é esta: Porque
são os entes humanos apegados, dependentes?
Vendo que somos "nada", que em nós mesmos somos um
deserto, esperamos com a ajuda de outrem encontrar água Ven-
do-nos vazios, pobres, desgraçados, incompletos, sem nada de
interessante ou de importante, esperamos, com a ajuda de outro,
enriquecer-nos. Com a ajuda do amor de outrem, esperamos es-
quecer a nós mesmos. Com a ajuda da beleza de outrem, espera-
mos alcançar a beleza. Com a ajuda da família, da nação, do
amante, de alguma crença fantástica, esperamos cobrir de flores o
deserto. E Deus é o supremo amante. Em todas essas coisas pro-
curamos amparar-nos. Nisso há dor e incerteza, e o deserto se
torna mais árido do que nunca. Naturalmente, ele não se torna
nem mais árido nem menos árido; continua a ser o que sempre
foi; nós é que o estivemos evitando, enquanto fugíamos para uma
dada forma de apego, com suas dores, e destas dores fugindo
para o desapego. Mas, continuamos áridos e vazios como dantes.
Assim, em vez de tentarmos a fuga para o apego ou o desapego,
não será melhor tornar-nos cônscios do fato, dessa profunda po-
breza e insuficiência interior, desse sombrio e vazio isolamento?
Essa é a única coisa importante, e não o apego ou o desapego.
Podeis olhar o fato sem nenhuma ideia de condenação ou avalia-
ção? Quando o fazeis, estais a olhá-lo como o observador a olhar a
coisa observada, ou sem o observador?
Interrogante: "O observador" - que quereis dizer com is-
so?
Krishnamurti: Estais a olhá-lo de um centro, com todas as
suas conclusões de agrado e desagrado, de opinião, juízo, desejo
de vos libertardes desse vazio, etc. - estais a olhar a vossa aridez
com os olhos da conclusão, ou a estais olhando com olhos com-
pletamente límpidos? Quando a olhais com olhos límpidos, não
193
existe observador. E, se não existe observador, existe então a
coisa que é observada como solidão, vazio, aflição?
Interrogante: Quereis dizer que aquela árvore não existe,
se a olho sem conclusões, sem um centro que é o observador?
Krishnamurti: A árvore existe, naturalmente.
Interrogante: Por que é que a solidão desaparece e a ár-
vore não desaparece, quando a olho sem o observador?
Krishnamurti: Porque a árvore não foi criada pelo centro,
pela "mente do eu”. Com sua atividade egocêntrica, a mente do
eu criou esse vazio, esse isolamento. Mas, quando aquela mente
em que não há centro olha, termina a atividade egocêntrica. Já
não existe solidão. A mente funciona então em liberdade. Obser-
vando a estrutura do apego e do desapego, e o movimento da dor
e do prazer, vemos como a mente do "eu" cria seu próprio deser-
to e suas próprias fugas. Quando a mente do "eu" está quieta, não
há mais deserto, e não há fuga.
A luz que não se apaga -1970

[...] TODA DEPENDÊNCIA cria em nós o desejo de posse, e


depois nos tornamos a coisa que possuímos. Se possuo esta casa,
eu sou esta casa. Aquele cavaleiro que ali vai é seu próprio orgu-
lho de proprietário, embora a beleza e a dignidade do cavalo se-
jam mais significativas do que o homem. Assim, a dependência da
beleza de uma linha, da formosura de um rosto, reduz necessari-
amente a importância do observador. Isso não significa que de-
vamos desprezar a beleza de uma linha ou a formosura de um
rosto; significa, sim, que quando as coisas exteriores assumem
desmedida importância, interiormente ficamos empobrecidos.
Interrogante: Estais dizendo que, se "reajo" ante um rosto
formoso, fico interiormente pobre. Entretanto, se não "reajo"
ante aquele rosto ou a elegância de um edifício, acho-me num
estado de isolamento e insensibilidade.
194
Krishnamurti: É justamente no estado de isolamento que
existe a dependência e, por conseguinte, o medo. Se não há rea-
ção de espécie alguma, nesse caso existe paralisia, indiferença, ou
um estado de desespero, resultante da inanidade da satisfação
contínua. Vemo-nos, pois, eternamente aprisionados nessa arma-
dilha do desespero e da esperança, do medo e do prazer, do amor
e do ódio. Quando há pobreza interior, há o impulso a preenchê-
la. Tal é o abismo sem fundo dos opostos que nos enchem a vida e
criam a batalha nela existente. Todos esses opostos são idênticos,
já que são ramos procedentes da mesma raiz. O amor não é pro-
duto da dependência, o amor não tem oposto.
Interrogante: Não existe a fealdade no mundo? E fealda-
de não é o oposto de beleza?
Krishnamurti: Decerto, existe fealdade no mundo, na
forma de ódio, violência, etc. Porque a comparais com a beleza, a
não-violência? Comparamo-la porque temos uma escala de valo-
res, no alto da qual colocamos o que chamamos beleza, e no seu
pé a fealdade. Não podeis olhar a violência não comparativamen-
te? E, se o fizerdes, que sucederá? Vereis que só tendes de ocu-
par-vos com fatos, e não com opiniões, com o que "deveria ser",
com medições. Se nos ocupamos com o que é e atuamos imedia-
tamente, o que "deveria ser" se torna uma ideologia, portanto um
produto da fantasia e, por conseguinte, inútil. A beleza não é
comparável, o amor tampouco, e quando dizemos: "Amo esta
pessoa mais do que aquela" - desaparece o amor.
Interrogante: Voltando ao que estava dizendo, se somos
sensíveis "reagimos" prontamente e sem complicações ante o
belo rosto, o belo vaso. Essa reação não pensada desliza imper-
ceptivelmente para a dependência, o prazer e todas as complica-
ções que estivestes descrevendo. A dependência, por conseguin-
te, me parece inevitável.
Krishnamurti: Existe alguma coisa inevitável, a não ser,
talvez, a morte?
Interrogante: Se a dependência não é inevitável, isso sig-
nifica então que posso regular minha conduta, que, consequen-
temente, se torna mecânica.
195
Krishnamurti: O ver do processo inevitável é um estado
não mecânico. A mente que se recusa a ver o que é , essa é que se
torna mecânica.
Interrogante: Se vejo o inevitável, contínuo sem saber
onde e como traçar a linha (o limite).
Krishnamurti: Não tendes de traçar essa linha, pois o ver
traz sua ação própria. Dizendo: "Onde traçar a linha?" - isso repre-
senta interferência do pensamento, que teme cair na rede e dese-
ja ser livre. Ver não é esse processo de pensamento; o ver é sem-
pre novo, puro, ativo. E o pensar é sempre velho, nunca puro. O
ver e o pensar pertencem a duas ordens inteiramente diferentes,
e jamais poderão encontrar-se. Assim, o amor e a beleza não têm
opostos e não podem nascer da pobreza interior. Portanto, o
amor existe no começo e não no fim.

[...] AMANHECER cheio de paz e deleite. A pobreza, a do-


ença e a dor ainda não tinham começado a percorrer a estrada.
Uma ponte vacilante atravessava o riacho; e o ponto onde esse
riacho de águas sujas, barrentas, se juntava ao grande rio, era
considerado sacratíssimo e, nos dias de festa, ali vinha banhar-se
muita gente - homens, mulheres, crianças. Fazia frio, mas nin-
guém parecia importar-se com isso. E o sacerdote do templo exis-
tente do outro lado da estrada fazia um dinheirão. Começava a
fealdade.
Era um homem de longas barbas e turbante na cabeça. Ti-
nha um negócio qualquer e, pelas aparências, prosperava. Bem
nutrido, e lento no andar e no pensar. Suas reações mais lentas
ainda. Precisava de vários minutos para compreender uma sim-
ples frase. Disse que tinha seu guru particular e, ao passar, sentira
um impulso a aproximar-se, para conversar a respeito de coisas
que lhe pareciam importantes.
"Porque", perguntou, "sois contra os gurus? Isso parece
absurdo. Eles sabem e nós não sabemos. Podem guiar-me, ajudar-
me, dizer-me o que devo fazer, e livrar-me de muitas penas e tri-
bulações. São como uma luz no meio da escuridão, e precisamos
ser guiados por eles, para não nos perdermos, não vivermos con-
196
fusos e aflitos. Eles me aconselharam a não procurar-vos, mos-
trando-me o perigo de ouvir os que não aceitam o conhecimento
tradicional. Disseram-me que, ouvindo-vos, eu iria demolir o edifí-
cio que com tanto desvelo tinham construído. Mas, não pude re-
sistir à tentação de ver-vos, e eis-me aqui!"
Parecia um tanto satisfeito por ter cedido à tentação.
Que necessidade há de um guru? Ele sabe mais do que
vós? E, que sabe ele? Se diz que sabe, não sabe realmente, e, de
mais a mais, a palavra não é o estado real. Pode alguém ensinar-
vos aquele extraordinário estado da mente? Poderá descrevê-lo
para vós, despertar o vosso interesse, vosso desejo de possuí-lo,
de experimentá-lo - mas, não vo-lo pode dar. Vós tendes de cami-
nhar sozinho, tendes de viajar desacompanhado e, nessa jornada,
ser vosso próprio mestre e discípulo.
"Mas isso é dificílimo, não?" retrucou, "e nossos passos
podem ser facilitados pelos que experimentaram aquela realida-
de."
Eles se tornam a autoridade e, de acordo com eles, o que
tendes de fazer é apenas seguir, imitar, obedecer, aceitar a ima-
gem, o sistema que oferecem. Desse modo, perdeis toda a inicia-
tiva, toda percepção direta. Estais meramente seguindo o que eles
pensam ser o caminho da verdade. Mas, infelizmente, não há
nenhuma via de acesso à Verdade.
"Que estais dizendo?" - exclamou, muito chocado.
Os entes humanos são condicionados pela propaganda,
pela sociedade em cujo meio foram criados - garantindo cada
religião que o caminho que oferece é o melhor de todos. E há um
milhar de gurus a sustentar, cada um deles, que seu método, seu
sistema, seu modo de meditação é o único caminho conducente à
verdade. E é interessante observar que todo discípulo tolera, con-
descendentemente, os discípulos de outros gurus. A tolerância é a
maneira civilizada de aceitar a separação entre os homens - políti-
ca, religiosa e socialmente. O homem inventou uma grande quan-
tidade de caminhos, para dar conforto a cada crente, e por isso o
mundo está todo fracionado.

197
"Estais dizendo que devo largar o meu guru? Abandonar
tudo o que ele me ensinou? Eu me perderia."
Mas, não tendes de perder-vos, para descobrir? Nós te-
mos medo de perder-nos, de ficarmos na incerteza, e por isso
vivemos a correr atrás dos que prometem o céu, no campo religi-
oso, político ou social. Por conseguinte, eles estão em verdade
incentivando o medo e nos conservando prisioneiros desse medo.
"Mas eu posso andar só?" - perguntou com voz incrédula.
Têm aparecido tantos salvadores, mestres, gurus, líderes
políticos e filósofos, e nem um só deles vos salvou de vossa aflição
e conflito. Porque os seguis? Talvez haja uma maneira completa-
mente diferente de considerarmos os nossos problemas.
"Mas eu tenho a seriedade necessária para empenhar-me,
desajudado, nesse trabalho?"
Essa seriedade só a temos quando começamos a compre-
ender - sem a ajuda de ninguém - os prazeres que ora buscamos.
Estais vivendo no nível do prazer. Não digo que não deva haver
prazer, mas se essa busca de prazer é para vós tudo na vida, do
começo ao fim, então, obviamente, não podeis ser um homem
sério.
"Estais-me fazendo sentir desamparado e sem esperança".
Se vos sentis desesperançado, é porque desejais as duas
coisas. Desejais ser sério e desejais também todos os prazeres que
o mundo pode dar-vos. Esses prazeres, afinal, são tão insignifican-
tes que desejais acrescentar-lhes o prazer que chamais "Deus".
Quando virdes tudo isso, por vós mesmo e não de acordo com
outrem, então esse ver vos fará discípulo e mestre. Este é que é o
ponto mais importante. Sois então o mestre, o discípulo e o ensi-
no.
"Mas", alegou, "vós sois um guru. Nesta manhã me ensi-
nastes uma coisa, e aceito-vos como meu guru."
Nada foi ensinado; vós é que olhastes. O olhar vos mos-
trou. O olhar é vosso guru, se gostais da palavra. Mas a vós é que
compete olhar ou não olhar. Ninguém pode forçar-vos. Entretan-
to, se olhais porque desejais uma recompensa ou porque temeis
um castigo, esse motivo impede o olhar. Para ver, deveis estar
198
livre de toda autoridade, tradição, medo, e do pensamento, com
suas sutilezas. A verdade não se encontra em alguma paragem
remota; ela se encontra no olhar o que é. Vermos a nós mesmos
tais como somos - com aquele percebimento em que não entra a
escolha - é o começo e o fim de toda busca.

[...] ELE ERA UM SANNYASI, um monge, de rosto simpáti-


co e mãos delicadas. Asseado, trajava vestes recém-lavadas, em-
bora não estivessem passadas a ferro. Disse que viera de Rishi-
kesh, onde passara muitos anos sob a orientação de um guru que
se retirara para as altas montanhas e ficara só. Acrescentou que
estivera em muitos ashrams. Deixara o lar havia muito tempo,
talvez aos vinte anos de idade. Não se lembrava ao certo com que
idade partira. Tinha pais e irmãs e irmãos, mas perdera comple-
tamente o contato com eles. Fizera aquela longa viagem porque
ouvira de vários gurus que devia vir ver-nos e também porque
fizera umas poucas leituras, aqui e ali. Ultimamente conversara
com um confrade sannyasi, e por isso aqui estava. Não se podia
adivinhar a sua idade; já passara da meia idade, mas a voz e os
olhos eram ainda juvenis.
"Tem sido minha sina percorrer a Índia, visitando os vários
centros, com seus gurus, alguns muito eruditos, outros ignorantes,
embora com qualidades que indicam haver alguma coisa dentro
deles; outros, porém, são meros exploradores, recitadores de man-
tras; muitos destes últimos haviam estado no estrangeiro e se
tinham tornado populares. Mui poucos deles se têm mostrado
superiores a essas coisas, mas entre esses poucos se achava o meu
recente guta. Agora ele se retirou para uma parte isolada e remo-
ta do Himalaia. Um grupo dos nossos vai vê-lo uma vez por ano
para receber sua bênção."
É necessário o isolamento do mundo?
"É óbvio que temos de renunciar ao mundo, porque o
mundo não é real, e temos necessidade de um guru para ensinar-
mos, porque o guru "experimentou" a realidade e pode ajudar os
que a seguem a alcançar essa realidade. Ele sabe e nós não sabe-
mos. Surpreende-nos o dizerdes que nenhum guru é necessário,
199
porque estais indo de encontro à tradição. Vós mesmo vos tornas-
tes para muitos um guru, e a verdade não pode ser encontrada
por um homem só. Precisamos de ajuda - dos rituais, da orienta-
ção dos que sabem. Talvez no fim tenhamos de ficar sós, mas ago-
ra não. Somos crianças e temos necessidade dos que se adianta-
ram no caminho. Só sentados aos pés do homem que sabe pode-
mos aprender. Mas, pareceis negar tudo isso, e vim com o sério
intento de descobrir porquê."
Olhai aquele rio - a luz da manhã nele refletida e aqueles
luxuriantes trigais, verdes, rutilantes, e as árvores lá longe! Uma
grande beleza, e os olhos que a veem devem estar cheios de amor
para a compreenderem. E ouvir o estrépito que faz aquele trem,
atravessando a ponte, é tão importante como ouvir o canto do
pássaro. Portanto, olhai - e escutai o arrulhar daqueles pombos. E
olhai o tamarindeiro, com aqueles dois verdes papagaios. Para
que os olhos os vejam deve haver comunhão com eles - com o rio,
com o barco que passa cheio de aldeões, cantando e remando.
Isso faz parte do mundo. Renunciando-o, renunciais à beleza e ao
amor - à própria terra. Fora do mundo, estais renunciando à com-
panhia dos homens, mas não às coisas que o homem criou. Não
estais renunciando à cultura, à tradição, ao saber; tudo isso vai
convosco quando vos retirais do mundo. Renunciais à beleza e ao
amor porque tendes medo destas duas palavras e do que atrás
delas se esconde. A beleza está associada à realidade sensual,
com seu conteúdo sexual e o amor nele subentendido. Essa re-
núncia tornou egocêntricas as pessoas chamadas religiosas - tal-
vez num nível mais elevado que o do homem mundano, mas sem-
pre egocentrismo. Quando não temos a beleza e o amor, não há
possibilidade de alcançarmos aquela imensidão. Se observardes
bem a esfera de atividades dos sannyasis e dos santos, vereis que
aquela beleza e aquele amor estão muito longe deles. Poderão
falar a seu respeito, mas são rígidos disciplinadores, violentos em
suas regras e exigências. Assim, essencialmente, ainda que enver-
guem a túnica cor de açafrão ou a negra sotaina ou a púrpura
cardinalícia, são todos muito mundanos. Trata-se de uma profis-
são como outra qualquer; isso, decerto, não se pode chamar espi-
200
ritual. Alguns deles estão mais talhados para negociantes do que
para ostentar ares de espiritualidade.
"Mas, senhor, estais sendo um tanto severo, não achais?"
Estamos apenas mostrando um fato, e um fato não é nem
severo, nem agradável, nem desagradável; é um fato. Em geral
nos repugna encarar as coisas como são. Mas tudo isso é bastante
claro e patente. O isolamento é norma da vida, norma do mundo.
Cada ente humano, com suas atividades egocêntricas, está a iso-
lar-se, quer seja casado, quer não, quer fale de cooperação ou de
nacionalidade, de realizações, de êxito. Só que, quando o isola-
mento se torna agudo, sobrevém uma neurose que às vezes pro-
duz - se o indivíduo tem talento - obras de arte, boa literatura etc.
Esse retraimento do mundo, com seus barulhos e brutalidades,
seus ódios e prazeres, faz parte do processo de isolamento, não
achais? Só que o sannyasi o pratica em nome da religião ou de
Deus, enquanto o homem dado à competição o aceita como parte
da estrutura social.
Nesse isolamento alcançam-se certos poderes, uma certa
espécie de austeridade e sobriedade, que conferem determinado
senso de poder. E o poder, seja o do campeão olímpico, seja o do
Primeiro Ministro, seja o do chefe de todas as igrejas e templos é
sempre o mesmo. Qualquer forma de poder é má - se se pode
usar esta palavra - e o homem poderoso jamais abrirá a porta da
realidade. O isolamento, por conseguinte, não é o caminho certo.
A cooperação é necessária ao viver; e não há cooperação
no seguidor ou no guru. O guru destrói o discípulo, e o discípulo
destrói o guru. Nessa relação de mestra e discípulo, como pode
haver cooperação - trabalho em comum, investigação em comum,
o viajar conjuntamente? Essa divisão hierárquica, que faz parte da
estrutura social, quer no terreno religioso, quer no mundo militar,
quer no dos negócios, é essencialmente mundana. E, quando um
homem renuncia ao mundo, continua enredado na mundanidade.
Espiritualidade não é usar tanga, ou tomar uma só refei-
ção por dia, ou repetir um certo mantra ou frase fútil, ainda que
estimulante. É mundanidade renunciar ao mundo e, interiormen-
te, continuar a fazer parte desse mundo de inveja, avidez, medo,
201
de aceitação da autoridade, de separação entre o homem que
sabe e o que não sabe. E também é mundanidade buscar preen-
chimento, seja na fama, seja nisso que se pode chamar o ideal ou
Deus ou outro nome que preferirdes. A tradição cultural geral-
mente aceita é essencialmente mundana, e a retirada para uma
montanha, para longe do homem, não liberta da mundanidade. A
realidade não se encontra, em circunstância alguma, nessa dire-
ção.
O homem deve ser só, mas esse "ser só" não é isolamen-
to. Significa estar libertado do mundo da avidez, do ódio e da vio-
lência, e de seus métodos sutis, e da dolorosa solidão e desespero
humanos. Estar só é estar "de fora", não pertencer a nenhuma
religião ou nação, a nenhuma crença ou dogma. É essa solidão
que alcança uma inocência completamente imune à maldade do
homem. Só a inocência pode viver no mundo, com toda a desor-
dem nele existente, e ao mesmo tempo não pertencer a ele. Ela
não se reveste de galas especiais. A flor da bondade não se encon-
tra ao longo de nenhum caminho, porque não há caminho para a
Verdade.

[...] ERA UM MOÇO asseado, de rosto vivo, olhos brilhan-


tes e sorriso fácil. Estávamos sentados no chão de um pequeno
aposento que dava para um pequeno jardim. Esse jardim era
cheio de rosas, das brancas às quase negras. Pendurado num ra-
mo, um papagaio de cabeça para baixo, com os olhos brilhantes e
o bico vermelho. Olhava para um outro pássaro muito menor.
O moço falava regularmente o inglês, mas hesitava um
pouco no emprego das palavras, e naquele momento mostrava-se
sério. Perguntou: "Que é vida religiosa?". Já fiz esta pergunta a
vários gurus e todos deram a resposta-padrão, e, se permitis, de-
sejo perguntar-vos a mesma coisa. Eu tinha um bom emprego,
mas, como não era casado, abandonei-o, porque, intimamente,
me sinto atraído pela religião e desejo descobrir o que significa
viver religiosamente, num mundo tão irreligioso."
Não seria preferível, em vez de perguntar o que é vida re-
ligiosa, indagar o que é viver? Talvez então compreendamos o que
202
é a verdadeira vida religiosa. Isso que se chama "vida religiosa"
varia de clima para clima, de seita para seita; e o homem sofre por
causa da propaganda das religiões organizadas, em defesa de seus
próprios interesses. Se pudéssemos pôr de parte tudo isso - não
só crenças, dogmas e rituais, mas também a respeitabilidade cria-
da pelo cultivo da religião, talvez então descobríssemos o que é
uma vida religiosa, incontaminada pelo pensamento do homem.
Mas, antes disso, tratemos, como dissemos, de averiguar
o que é viver. A realidade do viver é a fadiga diária, a rotina, com
as respectivas lutas e conflitos; é a dor da solidão, a aflição e es-
qualor da pobreza e da riqueza, a ambição, a busca de preenchi-
mento, o êxito e a tristeza - que abarcam toda a esfera de nossa
vida. Eis o que chamamos viver - ganhar e perder batalhas, e a
interminável busca de prazer.
Contrastando com isso ou como seu oposto há o que se
chama "viver religioso" ou "vida espiritual". Mas todo oposto con-
tém decerto a semente de seu próprio oposto e, por conseguinte,
ainda que pareça diferente, na realidade não o é. Podem-se mu-
dar as roupagens externas, mas a essência íntima do que foi e do
que deverá ser é a mesma. Essa dualidade é produto do pensa-
mento e, portanto, gera mais conflito; esse conflito é uma galeria
interminável. Sabemos de tudo isso; outros no-lo têm dito ou nós
mesmos o temos experimentado. Isso é o que se chama viver.
A vida religiosa não está na outra margem do rio; está
neste lado - onde se acham todas as agonias do homem. É este
lado que temos de compreender, e a ação da compreensão é o
ato religioso - e não o cobrir-se de cinzas, cingir os quadris com
uma tanga ou a cabeça com uma mitra, o ocupar o trono dos po-
derosos ou ser transportado no dorso de um elefante.
Ver inteiramente a condição do homem, seus prazeres e
aflições, é de primária importância, e não o especular sobre o que
deveria ser uma vida religiosa. "O que deveria ser" é um mito; é a
moralidade criada pelo pensamento e a fantasia, moralidade que
devemos rejeitar - social, religiosa, profissionalmente. Essa rejei-
ção não vem do intelecto, mas é, com efeito, um sereno abando-
no do padrão dessa imoral moralidade.
203
Portanto, a questão é realmente esta: Temos possibilida-
de de sair desse padrão? Foi o pensamento quem criou essa me-
donha desordem e angústia, e ele é que está impedindo tanto a
religião como a vida religiosa. O pensamento se julga capaz de sair
do padrão, mas, se o faz, isso será ainda um ato de pensamento,
porque o pensamento não tem realidade e, por conseguinte, só
pode criar outra ilusão.
Ultrapassar tal padrão não é um ato do pensamento. Isso
precisa ser compreendido claramente porque, de contrário, vos
vereis novamente encerrado na prisão do pensamento. O "vós",
afinal de contas, é um feixe de memórias, de tradição e do conhe-
cimento acumulado em milhares de dias passados. Assim, só com
a terminação do sofrimento - pois o sofrimento é resultado do
pensamento - pode-se sair do mundo da guerra, do ódio e da vio-
lência. Esse ato de sair é a vida religiosa. Essa vida religiosa não
tem crença nenhuma, porque não tem amanhã.
"Não estais exigindo o impossível, senhor? Não estais que-
rendo um milagre? Como posso sair de tudo isso sem o pensamen-
to? O pensamento é meu próprio ser!"
Exatamente! Esse "vosso próprio ser", que é pensamento,
tem de acabar. Esse egocentrismo com todas as suas atividades
tem de morrer, sem esforço, naturalmente. Só nessa morte se
encontra o começo da vida religiosa.
[...] ELE ERA um velho monge, venerado por muitos milha-
res. Cuidara bem de seu corpo, tinha a cabeça rapada e usava o
indefectível manto cor de açafrão do sannyasi. Levava um longo
cajado que já vira muitas estações, e calçava um par de sandálias
já um tanto gastas.[...]
"Porque", perguntou, com voz um tanto autoritária, "por
que sois contra a moralidade estabelecida, contra as escrituras
que mais sagradas nos são? Talvez o Ocidente vos tenha estraga-
do, onde liberdade é licenciosidade e onde não se sabe sequer,
salvo raras exceções, o que significa a verdadeira disciplina. Evi-
dentemente não lestes nenhum dos nossos livros sagrados. Estive
aqui, uma destas manhãs, ouvindo-vos falar, e fiquei aterrado com
o que dissestes a respeito dos deuses, dos sacerdotes, dos santos e
204
gurus. Como pode um homem viver sem eles? Se o faz, se torna
materialista, mundano, brutal. Pareceis rejeitar toda a ciência que
consideramos mais sagrada. Por quê? Sei que sois sincero. Tenho-
vos seguido, de longe, há muitos anos. Víamos em vós um irmão. E
vos considerávamos como um dos nossos. Mas, como repudiastes
tudo isso, tornamo-nos estranhos, e é mil vezes lamentável este-
jamos percorrendo diferentes caminhos."
Que é que é sagrado? A imagem do templo, o símbolo, a
palavra? Onde está o sagrado? Naquela árvore, naquela campo-
nesa que vai levando um pesado fardo? Atribuímos o caráter de
sagrado às coisas que consideramos veneráveis, preciosas, signifi-
cativas, não? Mas, que valor tem a imagem esculpida pela mão ou
pela mente? Aquela mulher, aquele pássaro, aquela árvore, os
seres vivos, só parecem ter para vós uma importância passageira.
Dividis a vida em sagrado e não sagrado, o que é imoral e o que é
moral. Essa divisão gera aflição e violência. Ou tudo é sagrado, ou
nada é sagrado. Ou o que dizeis, as vossas palavras, os vossos
pensamentos, os vossos cânticos são coisas significativas, ou só
existem para embalar a mente numa espécie de encantamento,
que se torna uma ilusão e, por conseguinte, não tem valor algum.
O sagrado existe, mas não está na palavra, não está na estátua ou
na imagem que o pensamento criou.
Ele se mostrava um tanto perplexo e sem ver com certeza
aonde estava sendo levado. Assim, interrompeu: "Não estamos
propriamente considerando o que é e o que não é sagrado, porém
desejamos saber por que condenais a disciplina."
Disciplina, como em geral se entende, é ajustamento a um
absurdo padrão de sanções políticas, sociais ou religiosas. Esse
ajustamento implica imitação, repressão ou uma certa maneira de
se transcender o atual estado, não é isso? Nessa disciplina existe,
obviamente, uma luta contínua, um conflito que deforma a capa-
cidade da mente. O homem se ajusta por causa de alguma recom-
pensa, prometida ou esperada; ele se disciplina visando obter
alguma coisa. A fim de alcançar uma certa coisa, a pessoa obede-
ce e se sujeita, e o padrão - comunista, religioso ou o padrão pes-
soal - se torna a autoridade. Nisso não há nenhuma liberdade.
205
Disciplina significa aprender; e o aprender nega toda autoridade e
obediência. Ver tudo isso não é um processo analítico. Ver tudo o
que está implicado nessa estrutura da disciplina é em si disciplina
- que significa aprender tudo o que diz respeito a essa estrutura. E
aprender não é questão de acumular dados, mas, sim, ver direta-
mente a estrutura e sua natureza. Eis a verdadeira disciplina, por-
que com ela estamos a aprender, e não a ajustar-nos. Para apren-
der, necessita-se de liberdade.
"Quer isso dizer", indagou, "que podemos fazer o que de-
sejarmos, que podemos desprezar a autoridade do Estado?"
Claro que não, senhor. Naturalmente temos de aceitar a
lei do Estado ou a lei representada pelo policial - enquanto estiver
em vigor. Temos de guiar nosso carro a um lado da estrada, e não
no meio da estrada, pois há também outros carros e temos de
obedecer às regras do tráfego. Se cada um pudesse fazer exata-
mente o que deseja - como, aliás, sub-repticiamente fazemos -
haveria o mais completo caos - como de fato há. O negociante, o
político, quase todo ser humano está promovendo, sob a capa da
respeitabilidade, seus próprios e secretos desejos e apetites, e
isso produz caos no mundo. E procuramos ocultá-lo, promulgando
leis, sanções, etc. Isso não é liberdade. Em todo o mundo há pes-
soas que leem livros sagrados. Repetem o que neles está escrito,
põem-no em cânticos, citam-no incessantemente, mas em seus
corações são violentas, ávidas, ambiciosas de poder. Tem mesmo
algum valor esses chamados livros sagrados? Não tem valor real.
O que importa é o extremo egoísmo do homem, sua constante
violência, ódio e inimizade - e não os livros, os templos, as igrejas
e as mesquitas.
Debaixo de seu manto, o monge está apavorado. Ele tem
seus apetites, está ardendo em desejos, e o manto representa
apenas uma fuga a esse fato.
Procurando transcender essas agonias do homem, con-
sumimos o nosso tempo disputando sobre quais livros são mais
sagrados do que outros - e isso denota a mais completa falta de
maturidade.

206
"Nesse caso, tem-se também de rejeitar a tradição... Vós a
rejeitais?"
Transportar o passado para o presente, traduzir o movi-
mento do presente em conformidade com o passado, destrói a
beleza viva do presente. Este país, como quase todos os outros
países, está carregado de tradição, aninhada em palácios e na
choupana da aldeia. Não há nada de sagrado na tradição, por mais
antiga ou moderna que seja. O cérebro contêm a memória de
ontem, que é tradição, e teme largá-la por não ser capaz de en-
frentar qualquer coisa nova. A tradição se torna nossa proteção, e,
quando em segurança, a mente está a decompor-se. Temos de
empreender a viagem sem levar cargas, folgadamente, descansa-
damente, sem nunca nos determos diante de um santuário, de
nenhum monumento, de nenhum herói, social ou religioso - na só
companhia da beleza e do amor.
"Mas nós, os monges, estamos sempre sós, não é verda-
de?" perguntou. "Renunciei ao mundo e fiz voto de pobreza e cas-
tidade."
Vós não estais só, senhor, porque o próprio voto vos está
inibindo, tal como inibe o homem que faz igual voto ao casar-se.
Deixai-me assinalar que não estais só, porque sois hinduísta, assim
como não estaríeis só se fôsseis budista, ou maometano, ou cris-
tão, ou comunista. Assumistes um compromisso, e como pode
estar só um homem que se comprometeu, que se entregou intei-
ramente a uma certa ideia, a qual produz sua atividade própria? A
própria palavra "só" significa o que está dizendo: livre de influên-
cia, inocente, livre e integral - não fracionado. Quando um homem
está só, pode viver neste mundo, mas será sempre um forasteiro.
Apenas nessa solitude pode haver ação completa e cooperação;
porque o amor é sempre integral.
A outra margem do caminho -1970

207
[...] “A DEPENDÊNCIA de qualquer forma de imaginação
subjetiva, fantasia ou conhecimento, gera o medo e destrói a li-
berdade.”
Temos muitos assuntos para considerar, mas, em primeiro
lugar, cumpre-nos examinar a fundo o que é liberdade. Se não
compreenderdes a liberdade, não apenas externamente, mas
sobretudo interiormente; se não a compreenderdes profunda e
seriamente, não apenas com o intelecto, porém sentindo-a deve-
ras, o que vamos dizer pouco significará.
Já estivemos considerando a natureza da mente. É a men-
te séria que vive verdadeiramente, que conhece a alegria de viver
— e não aquela que anda meramente em busca de entretenimen-
tos, de satisfação e preenchimento próprio. A liberdade requer o
repúdio total, a total negação de toda autoridade interna, psicoló-
gica. A geração mais jovem pensa que liberdade é cuspir no rosto
do policial, cada um fazer o que quer. Mas, a rejeição da autorida-
de externa não significa necessariamente que se está completa-
mente livre de toda autoridade interior, psicológica. Quando
compreendemos a autoridade interior, a mente e o coração ficam
total e inteiramente livres; estamos então habilitados a compre-
ender a ação externa da liberdade. A liberdade de ação no exteri-
or depende por inteiro de uma mente livre da autoridade interna.
Esta questão exige uma grande soma de paciente investigação e
reflexão. É uma questão de primacial importância; compreendida
ela, estaremos aptos a considerar outras coisas da vida e do viver
diário com uma mente de todo nova. Conforme o dicionário, a
palavra “autoridade” deriva de “autor”: “aquele que lança uma
ideia original, que cria alguma coisa inteiramente nova”. Esse ho-
mem estabelece um padrão, um sistema baseado em suas ideias;
outros seguem tal sistema, nele encontrando uma certa satisfa-
ção. Ou inicia um novo modo de vida religiosa, que outros seguem
cegamente, ou intelectualmente. Eis como se estabelecem os
padrões ou maneiras de vida e de conduta política, psicológica —
externamente e interiormente. A mente, em geral muito pregui-
çosa e indolente, acha mais fácil seguir o que um outro disse. O
seguidor aceita a “autoridade”, a fim de alcançar o que promete o
208
seu sistema de filosofia ou de ideias; a esse sistema se apega, dele
fica dependendo e, dessa maneira, confirma a autoridade. O se-
guidor, pois, é um ente humano sem originalidade; assim é a mai-
oria das pessoas. Poderão pensar que têm ideias originais, na pin-
tura, na literatura, etc., mas, essencialmente, já que estão condi-
cionados para seguir, imitar, ajustar-se, tornaram-se entes huma-
nos “de segunda mão”, entes humanos absurdos. Este é um dos
aspectos da natureza destrutiva da autoridade.
Como ente humano, estais seguindo alguém, psicologica-
mente? Não nos referimos à obediência externa, à observância da
lei; mas, interiormente, psicologicamente, estais seguindo al-
guém? Se estais, nesse caso sois essencialmente um ente sem
originalidade; podeis praticar boas obras, viver de maneira muito
útil, mas essa vida pouco significa.
Há também a autoridade da tradição. Tradição significa:
“transportar do passado para o presente” — tradição religiosa,
tradição familiar, tradição racial. E há a tradição da memória. Vê-
se que seguir a tradição em certos níveis tem valor; noutros níveis
não tem valor algum. As boas maneiras, a cortesia, a considera-
ção, nascidas do estado de vigilância da mente, podem converter-
se gradualmente em tradição; uma vez fixado o padrão, a mente o
repete: abrir a porta a outrem, ser pontual às refeições, etc. Mas,
tendo-se tornado tradição, esses atos já não procedem do estado
de vigilância, de penetrante percepção, de lucidez. A mente que
cultivou a memória funciona com base na tradição; qual um com-
putador, repete sem cessar as mesmas coisas. Jamais pode perce-
ber uma coisa nova, ouvir uma coisa de maneira totalmente dife-
rente. Nossos cérebros são como gravadores de fitas: certas me-
mórias vêm sendo cultivadas há séculos e não fazemos outra coisa
senão repeti-las. Em meio ao barulho dessa repetição, não pode-
mos escutar nada novo. Assim, perguntamos “Que devo fazer?”,
“Como posso libertar-me do velho mecanismo, da fita velha?”. O
novo só pode ser ouvido quando a fita velha silencia de todo, sem
nenhum esforço de nossa parte; quando somos sérios e, por con-
seguinte, temos interesse em descobrir, prestar atenção.

209
Temos, pois, a autoridade de outrem, de quem depende-
mos, a autoridade da tradição, e a autoridade da experiência pas-
sada, como memória, como conhecimento. Há também a autori-
dade da experiência presente, que reconhecemos com base nos
conhecimentos acumulados no passado; e tal experiência, visto
que pode ser reconhecida, não é coisa nova. Como pode uma
mente, um cérebro que foi tão condicionado pela autoridade, pela
imitação, pelo ajustamento, escutar uma coisa inteiramente no-
va? Como se pode ver a beleza do dia, com a mente, o coração e o
cérebro obscurecidos pelo passado, como autoridade? Se puder-
mos perceber realmente o fato de que a mente está transportan-
do a carga do passado e foi condicionada pela autoridade, sob
várias formas; de que ela não é livre, sendo portanto incapaz de
ver totalmente — deixaremos, então, de lado o passado, sem
nenhum esforço.
A liberdade requer a total cessação de toda autoridade in-
terna. Desse estado mental resulta uma liberdade externa toda
diferente da reação de oposição ou de resistência. O que estamos
dizendo é, em verdade, muito simples e, justamente por causa
dessa simplicidade, pode escapar à vossa apreensão. A mente, o
cérebro está condicionado por causa da autoridade, da imitação,
da obediência; eis um fato. O homem realmente livre não reco-
nhece nenhuma autoridade interior; esse homem sabe o que é
amar e meditar.
Compreendendo-se a liberdade, compreende-se também
o que é disciplina. Esta poderá parecer uma asserção contraditó-
ria, porque em geral pensamos que liberdade significa estar livre
de toda disciplina. Qual a natureza da mente bem disciplinada?
Não pode existir liberdade sem disciplina; mas isso não significa
que devemos primeiro disciplinar-nos para, depois, termos liber-
dade. A liberdade e a disciplina se acompanham sempre, não são
coisas separadas. Assim, que significa “disciplina”? Conforme o
dicionário, a palavra “disciplina” significa aprender — e não, for-
çarmos a mente a ajustar-se a um certo padrão de ação baseado
em alguma ideologia ou crença. A mente capaz de aprender é
toda diferente daquela que só é capaz de ajustar-se. A mente que
210
está aprendendo, observando, vendo realmente o que é, não está
interpretando o que é em conformidade com seus desejos, seu
condicionamento, seus particulares prazeres.
Disciplina não significa reprimir e controlar, nem tampou-
co ajustamento a um padrão ou a uma ideologia; significa que a
mente vê o que é e aprende de o que é. A mente é então sobre-
modo desperta, vigilante. “Disciplinar-se”, no sentido comum,
implica uma entidade que se está disciplinando em conformidade
com alguma coisa. Esse é um processo dualista. Digo entre mim:
“Preciso erguer-me cedo, todas as manhãs, e deixar de ser pregui-
çoso” ou “Não devo deixar-me encolerizar”; um processo dualista:
aquele que, por meio da vontade, procura determinar o que lhe
cumpre fazer, em oposição ao que realmente faz. Nesse estado há
conflito.
A disciplina imposta pelos pais, pela sociedade, pelas or-
ganizações religiosas, é ajustamento. Contra esse ajustamento
vem a revolta —o pai quer obrigar o filho a fazer certas coisas,
este se rebela, etc. — Tal é a vida baseada na obediência e no
ajustamento; e há o contrário: rejeitar o ajustamento, para fazer o
que se entende. Tratemos, pois, de descobrir qual a natureza da
mente que não se ajusta, que não imita, não segue, não obedece
e, contudo, é altamente disciplinada — “disciplinada”, no sentido
de que está constantemente aprendendo.
Disciplina é aprender, e não, ajustar-se. Ajustamento im-
plica que me comparo com outrem, medindo o que sou ou penso
que devia ser, em comparação com o herói, o santo, etc. Onde há
ajustamento, há necessariamente comparação — vede isso, por
favor. Descobri se sois capaz de viver sem comparação, quer dizer,
sem ajustamento. Desde a infância, somos condicionados para
comparar — “Seja como seu irmão, como sua tia-avó”, “Seja igual
ao santo”, “Siga Mao”. Na educação, comparamos: nas escolas
damos notas aos alunos e submetemo-los a exames. Não sabemos
o que significa viver sem comparar e sem competir e, portanto,
não agressivamente, não violentamente. Comparar-se com outro
é uma forma de agressão e uma forma de violência. Violência não
é só matar ou espancar alguém; é também espírito comparativo:
211
“Preciso ser igual a fulano”, ou “Preciso aperfeiçoar-me”. O aper-
feiçoamento próprio é a verdadeira antítese da liberdade e do
aprender. Descobri por vós mesmo uma maneira de viverdes sem
comparação, e vereis acontecer uma coisa maravilhosa. Se real-
mente vos tornardes vigilante, sem nenhuma escolha, vereis o
que significa viver sem comparação e nunca mais pronunciareis as
palavras “Eu serei”.
Somos escravos do verbo “ser”, que implica: “Serei no fu-
turo uma pessoa importante.” A comparação e o ajustamento
andam sempre juntos; nada criam senão repressão, conflito, in-
terminável sofrer. Importa, pois, descobrir uma maneira de viver,
em cada dia, sem nenhuma comparação. Fazei-o, e vereis como
isso é maravilhoso, como vos liberta de tantas das vossas cargas.
Desse percebimento nasce uma mente sobremodo sensível e,
portanto, disciplinada — que está constantemente aprendendo,
não o que deseja aprender ou o que lhe dá gosto e satisfação
aprender: aprendendo. Tornar-vos-eis, assim, cônscios do condi-
cionamento interior causado pela autoridade, pelo ajustamento a
um padrão, pela tradição e a propaganda, pelos ditos de outras
pessoas, e pela experiência acumulada, vossa própria e da raça e
da família. Tudo isso se tornou autoridade. Onde há autoridade, a
mente não será jamais livre para descobrir o que cumpre desco-
brir: uma realidade eterna, inteiramente nova.
A mente sensível não está limitada por nenhum padrão fi-
xo; acha-se em constante movimento, a fluir como um rio, e nesse
movimento constante não há repressão, não há obediência, não
há desejo de preenchimento. Muito importa compreender clara-
mente, com seriedade e profundeza, a natureza da mente que é
livre e, portanto, verdadeiramente religiosa. A mente livre vê que
qualquer espécie de dependência — de pessoas, de amigos, do
marido ou da esposa, das ideias, da autoridade, etc. — gera me-
do: esta é a origem do medo. Se de vós dependo para ter confor-
to, ou como meio de fuga à minha solidão e fealdade, minha su-
perficialidade e insignificância, essa dependência causa medo. A
dependência de qualquer forma de imaginação subjetiva, fantasia
ou conhecimento, gera medo e destrói a liberdade.
212
Ao perceberdes todas as implicações, isto é, que não há
liberdade quando há dependência interior e, por conseguinte,
medo; e que só uma mente confusa e sem luz é dependente, per-
guntais: “De que maneira posso livrar-me da dependência?” E aí
está mais uma causa de conflito. Já se observardes que a pessoa
dependente está necessariamente confusa; se conhecerdes esta
verdade, que a pessoa que interiormente depende de qualquer
autoridade só pode criar confusão; se perceberdes isso e não per-
guntardes de que maneira podeis livrar-vos da confusão, então
deixareis de depender. Vossa mente se tornará sobremodo sensí-
vel e, portanto, capaz de aprender e de disciplinar a si própria sem
nenhuma espécie de compulsão ou de ajustamento.
Está mais ou menos claro tudo isso — não verbalmente,
porém de fato? Posso imaginar ou pensar que estou vendo clara-
mente, mas essa claridade é de breve duração. A verdadeira e
clara percepção só se torna possível quando não há dependência
e, por conseguinte, não há a confusão oriunda do medo. Podeis,
honesta e seriamente, aplicar-vos a descobrir se estais livre de
qualquer autoridade? Isso requer muita investigação de vós mes-
mo, atenta vigilância. Daquela percepção clara provém uma ação
de espécie totalmente diversa, ação não fragmentária, não dividi-
da, política ou religiosamente; eis a ação total.

[...] KRISHNAMURTI: Que significa essa palavra — apego?


Eu dependo de alguma coisa. Dependo de vosso comparecimento,
para ter a quem falar. Dependo de vós e, por conseguinte, tenho-
vos apego, porque esse apego me dá uma certa energia, um certo
ímpeto, — e outras baboseirais tais! Estou, pois, apegado — e isso
significa o quê? Dependo de vós, dependo de meus móveis. Ape-
gado como estou, apegado à mobília, a uma crença, a um livro, a
minha família, a minha esposa, de tudo isso dependo para ter
conforto, para ter prestígio, posição social. A dependência, pois, é
uma forma de apego. Ora, porque dependo? Não respondais.
Observai isso em vós mesmo. Vós dependeis de alguma coisa,
não? De vossa pátria, de vossos deuses, de vossas crenças, das
drogas que tomais, das bebidas que bebeis!
213
Interrogante: Isso faz parte do condicionamento social.
Krishnamurti: É o condicionamento social que vos faz de-
pender? Isso significa que sois uma parte da sociedade. A socie-
dade não é independente de vós; vós a criastes e corrompestes, e
ficastes preso nessa mesma gaiola que construístes, fazeis parte
dela. Portanto, não lanceis a culpa à sociedade. Estais percebendo
as “implicações” da dependência? Que é que ela implica? Porque
sois dependente?
Interrogante: Para não me sentir só.
Krishnamurti: Um momento; escutai em silêncio: Depen-
do de uma certa coisa, porque ela preenche meu vazio. Dependo
de meu saber, de meus conhecimentos, de meus livros, porque
encobrem o meu vazio, minha superficialidade, minha estupidez;
o saber, portanto, se tornou sobremodo importante. Falo acerca
da beleza de certos quadros porque, em mim mesmo, deles de-
pendo. Assim, a dependência denuncia o meu vazio, minha soli-
dão, minha insuficiência; é isso que me faz depender de vós. Eis
um fato — não? Não precisais aduzir teorias ou argumentos a
respeito dele. Se eu não estivesse vazio, se não fosse insuficiente,
não me importaria com o que dissésseis ou fizésseis. Não depen-
deria de nada. Porque me vejo vazio e só, não sei o que faça com
minha vida. Escrevo um livro estulto, e ele satisfaz minha vaidade.
Consequentemente, dependo; e isso significa que tenho medo de
estar só, tenho medo de meu vazio e, por isso, o preencho com
coisas materiais, com ideias, com pessoas.
Não tendes medo de desvendar vossa solidão, vosso va-
zio, vossa insuficiência? Vós o estais fazendo agora, não? Por isso,
sentis medo, agora, desse vazio. Que ides fazer? Que está ocor-
rendo? Antes, tínheis apego a pessoas, a ideias, a coisas de toda
ordem; e agora percebeis que essa dependência esconde o vosso
vazio, a vossa superficialidade. Percebendo-o, estais livre, não?
Ora, qual a reação? Esse medo é reação da memória? Ou ele é
real, e o estais vendo?
Estou tendo um trabalhão por vossa causa, não? Ontem,
de manhã, vi uma caricatura: um menino diz para outro menino:
“Quando eu crescer, vou ser um grande profeta, vou falar de ver-
214
dades profundas, mas ninguém quererá escutar-me.” E o outro
menino diz: “Porque então quereis falar, sem ninguém para escu-
tar?” “Ah! — retrucou ele — nós, os profetas, somos muito teimo-
sos”.
Desvelastes agora o vosso medo resultante do apego, que
é dependência. Examinando-o, vedes o vosso vazio, a vossa super-
ficialidade, a vossa insignificância, e sentis medo. Que sucede?
Vede-o, senhores!
Interrogante: Trato de fugir.
Krishnamurti: Tentais fugir por meio de outro apego, ou-
tra dependência. Por conseguinte, voltais ao velho padrão. Mas,
se estais vendo a verdade de que o apego e a dependência estão
escondendo o vosso vazio, não tendes vontade de fugir, tendes?
Se não vedes esse fato, não podeis deixar de fugir. Tratareis de
preencher aquele vazio de outras maneiras. Antes, o preenchíeis
com drogas, agora, o preencheis com o sexo ou outra coisa. As-
sim, quando vedes o fato, que acontece? Continuai, senhores, ide
para diante! Estive apegado a minha casa, minha mulher, meus
livros, meus escritos, meu desejo de ser famoso; vejo que o medo
surge porque não sei o que faça com o meu vazio e, por conse-
guinte, dependo, tenho apego. Que faço quando me vem esse
sentimento de um grande vazio dentro em mim?
Interrogante: Tenho um forte sentimento...
Krishnamurti:... que é medo. Descubro que sinto medo e,
por conseguinte, tenho apego. Esse medo é a reação da memória
ou é um descobrimento real? — descobrimento inteiramente
diferente da reação do passado. Ora, qual é o vosso caso? Trata-se
de real descobrimento? Ou da reação do passado? Não respon-
dais. Descobri-o, senhor, penetrai em vós mesmo.
Interrogante: Senhor, nesse vazio estamos, decerto, aber-
tos para o mundo, não?
Krishnamurti: Não; estou perguntando uma coisa bem di-
ferente. O sentimento de vazio, de solidão e insuficiência — que
não compreendestes bastantemente, para dar cabo dele — criou
medo. Vós o descobristes agora, aqui, neste pavilhão? Ou trata-se
do reconhecimento de uma coisa vinda do passado? Descobristes
215
que tendes apego porque dependeis, e que dependeis porque
tendes medo do vazio? Estais cônscio de vosso vazio e do “proces-
so” que ele implica? Ao vos tornardes cônscio do vazio, há, nessa
percepção, medo, ou estais simplesmente vazio? Estais vendo,
simplesmente, o fato de estardes só?
Interrogante: Se se pode ver esse fato, não há mais soli-
dão.
Krishnamurti: Vamos devagar, passo a passo, se não vos
desagrada. Estais vendo esse fato? Ou quereis voltar à antiga de-
pendência, ao velho apego, à interminável repetição do costuma-
do padrão? Que ides fazer?
Interrogante: Tudo isso não é a nossa condição humana?
Não me vejo em melhor situação do que um cachorrinho, que não
tem nenhum desses problemas.
Krishnamurti: Infelizmente, nós não somos cachorros. Es-
tou fazendo uma pergunta, a que não estais respondendo. Desco-
bristes por vós mesmo o medo que vem de verdes o vosso vazio,
vossa superficialidade, vosso isolamento? Ou, após descobri-lo,
quereis fugir, apegar-vos a alguma coisa? Se não fugis por meio da
dependência e do apego, que sucede, então, ao verdes o vazio.
Interrogante: Liberdade.
Krishnamurti: Olhai bem isso, trata-se de um problema
muito complexo; não digais “liberdade”. Antes, eu tinha apego
para esconder o meu medo; agora, fazendo aquela pergunta, des-
cubro que o apego era uma fuga ao medo que vinha quando, por
uma fração de segundo, eu percebia o meu vazio. Agora não fujo
mais. E, então, que sucede?
Interrogante: Eu diria que, após essa fração de segundo,
dá-se outra fuga.
Krishnamurti: Isso significa que não estais vendo a inutili-
dade das fugas. Consequentemente, persistis em fugir. Mas, se
vedes, se percebeis o vosso vazio, que sucede? Se estamos de fato
atentos, o que em geral sucede é perguntarmos: Quem é que está
cônscio do vazio?
Interrogante: É a mente.

216
Krishnamurti: Por favor, não vos precipiteis. Ides seguindo
passo a passo. Quem é que está cônscio do vazio? A mente? Uma
parte da mente cônscia de outra parte que está só? Compreendeis
esta pergunta? Torno-me subitamente cônscio de que estou só. É
um fragmento de minha mente que diz “Estou só”? Então, há divi-
são. E, enquanto houver divisão, haverá fuga. Não percebeis isso?
Interrogante: Que sucede quando se experimenta o va-
zio? Ao experimentar-se a solidão, já não se está cônscio dela.
Krishnamurti: Tende a bondade de escutar, senhor. O que
se requer aqui é a observação persistente, e não uma conclusão
ou alguma coisa que achais que “devia ser”. Isto é, estou cônscio
de meu vazio; antes eu o escondia, agora ele foi desnudado e dele
estou cônscio. Quem está cônscio dele? Um segmento separado,
de minha mente? Se é, há então divisão entre o vazio e a entidade
que está percebendo o seu vazio. Que sucede, então, nesse vazio,
nessa divisão? A esse respeito nada posso fazer. Mas, como quero
fazer alguma coisa, digo: “Preciso desfazer a divisão”, “preciso
experimentar o vazio”, “Preciso agir”. Enquanto houver divisão
entre o observador e a coisa observada, haverá contradição e, por
conseguinte, conflito. É isso que estais fazendo? Um segmento
separado, da mente, a observar um vazio que não faz parte de si
próprio? Qual é o caso? Senhores, vós tendes de responder a esta
pergunta. Se é uma parte que está observando, então, que parte é
essa?
Interrogante: A inteligência nascida da energia?
Krishnamurti: Não compliqueis a questão, já suficiente-
mente complexa. Não aduzais novas palavras. Minha pergunta é
muito simples. Perguntei: Ao vos tornardes cônscio desse vazio,
do qual estáveis fugindo por meio do apego, e dele não estais
fugindo agora, quem é que está cônscio? Cabe-vos descobri-lo.
Interrogante: Esse percebimento de estarmos vazios é
uma outra forma de fuga, e vemos que nada mais somos do que
todas essas coisas juntas.
Krishnamurti: Quando dizeis “Estou cônscio de meu va-
zio”, isso é outra forma de fuga e ficais emaranhado numa rede de
fugas. Assim é nossa vida. Se percebeis que apego é fuga, aban-
217
donais o apego. Quereis continuar andando de um meio de fuga
para outro? Ou, vendo um só fator da fuga, compreendestes to-
dos os demais fatores?

[...] KRISHNAMURTI: Ontem estivemos falando sobre a


dependência e os apegos e temores que ela determina. Essa me
parece uma questão importante de nossa vida, que merece pro-
fundo exame. Bem consideradas as coisas, pode-se ver que não há
possibilidade de liberdade quando há qualquer forma de depen-
dência. Há a dependência física e a dependência psicológica. A
dependência biológica de alimentos, roupas e morada é uma de-
pendência natural; mas existe um apego oriundo da necessidade
biológica — como, por exemplo, possuir uma casa e a ela estar
apegado psicologicamente; ou estar apegado a uma certa espécie
de alimento, ou alimentos que nos forçamos a comer, em virtude
de outros fatores de medo ainda não descobertos — e assim por
diante.
Há dependências físicas de que podemos tornar-nos côns-
cios com relativa facilidade, como a dependência do fumo, das
drogas, da bebida e outros estimulantes físicos de que depende-
mos psicologicamente. Em seguida, as diversas formas de depen-
dência psicológica. Estas têm de ser observadas mui atentamente,
já que se interpenetram, estão mutuamente relacionadas: a de-
pendência de uma pessoa, de uma crença, de uma relação, de um
hábito psicológico de pensamento. Acho que se pode estar côns-
cio delas com relativa facilidade. E, uma vez que existe dependên-
cia e apego, físico ou psicológico, o pensarmos na possibilidade de
perdermos aquilo a que estamos apegados cria medo.
Podemos depender de uma crença, de uma experiência
ou de uma conclusão, ligada a determinado preconceito; até que
profundidade vai esse apego? Não sei se já o observastes em vós
mesmo. Estivemos vigilante um dia inteiro, para ver se existe al-
guma forma de apego — vir aqui pontualmente, viver num certo
chalé, andar de terra em terra, falando a diferentes públicos, a ser
olhado como pessoa importante, a ser criticado, refutado. Quan-
do se esteve observando o dia inteiro, descobre-se naturalmente
218
o quanto se está apegado a alguma coisa ou pessoa, ou se não há
apego algum. Se existe qualquer forma de apego — não importa
de que natureza — a um livro, a determinado regime alimentar,
determinado padrão de pensamento, determinada responsabili-
dade social — tal apego, invariavelmente, gera medo. E a mente
que tem medo, embora ignore que esse medo provém do apego a
alguma coisa, essa mente, decerto, não é livre e, por conseguinte,
está condenada a viver num constante estado de conflito.
Pode uma pessoa ser dotada de um certo talento, tal um
músico ou cantor, fortemente apegado a seu instrumento, à sua
voz — se essa pessoa se vê incapacitada de manejar o instrumen-
to ou de cantar, fica inteiramente desnorteada, estão terminados
os seus dias de glória. Poderá ter as mãos ou o violino no seguro
(e receber a respectiva indenização) ou tornar-se regente de or-
questra; mas, em virtude do apego, não poderá escapar à inevitá-
vel escuridão do medo.
Não sei se cada um de nós aqui presentes — se somos
verdadeiramente sérios — já examinou esta questão, porque li-
berdade significa estar livre de todo e qualquer apego e, por con-
seguinte, de toda e qualquer dependência. A mente que está ape-
gada não é objetiva, não é clara, não pode pensar sãmente e ob-
servar diretamente.
Há os apegos psicológicos superficiais, e há as camadas
profundas, onde pode encontrar-se alguma forma de apego. Co-
mo descobri-los? Como poderá a mente — que conscientemente
talvez seja capaz de observar seus diferentes apegos e compreen-
der-lhes a natureza — discernir a verdade e tudo o que ela impli-
ca? Posso ter outras formas ocultas de apego. Como desvendar
esses apegos ocultos, secretos? A mente apegada a alguma coisa
não pode escapar ao conflito, ao compreender que deve abando-
nar esse apego, pois, de contrário, ele lhe causará sofrimento e
ela tratará de apegar-se a outra coisa. Assim é nossa vida. Vejo
que tenho apego a minha mulher e posso perceber todas as con-
sequências desse apego. Estando-lhe apegado, percebo que isso,
inevitavelmente, implica medo. Por consequência, vem o conflito
do desapegar-me dela, e o sofrimento, o conflito na minha relação
219
com ela. Isso é bem fácil de observar e de expor à luz, para nós
mesmos.
A questão, pois, é de vermos o quanto estamos apegados
a alguma forma de tradição, nos recessos profundos e ocultos de
nossa mente. Prestai atenção, por favor, para verdes que a liber-
dade implica que se esteja completamente livre de todos os ape-
gos, pois, do contrário, haverá necessariamente medo. E a mente
que leva uma carga de medo é incapaz de compreender, de ver as
coisas como são, e de transcendê-las.
Como observar os apegos ocultos? Posso ser uma pessoa
obstinada e pensar que não tenho apego a nada; posso ter chega-
do à conclusão de que não dependo de coisa alguma. Tal conclu-
são leva à obstinação. Mas, se estamos aprendendo, buscando,
observando, então, nesse ato de aprender, não há conclusão al-
guma. Em geral, estamos apegados a uma dada forma de conclu-
são e de acordo com ela funcionamos. Pode a mente livrar-se de
formar conclusões? — estar livre de conclusões a todas as horas, e
não apenas ocasionalmente?
“Gosto de cabelos compridos, não gosto de cabelos com-
pridos”, “Gosto disto, não gosto daquilo”. Intelectualmente, ou
em virtude de uma dada experiência, adquiristes uma certa ma-
neira de pensar, não importa qual. Pode a mente agir sem ne-
nhuma conclusão? Este é um dos pontos essenciais. Em segundo
lugar, pode a mente revelar a si própria os ocultos apegos, pa-
drões e dependências? E, por último, considerando-se a natureza
e a estrutura do apego, pode a mente atuar numa maneira de vida
que não produza isolamento, mas seja sobremodo dinâmica, em-
bora não fixada em ponto algum? Examinemos isso.
Antes de mais nada, estamos cônscios de que, biologica-
mente, fisicamente e psicologicamente, estamos apegados? Estais
cônscio de vos achardes fisicamente apegado a coisas? E estais
igualmente cônscio das consequências desses apegos? Se estais
apegado ao uso do fumo, vede quanto é difícil abandoná-lo. Para
os que fumam — para quem o fumar se tornou um hábito — isso
é incrivelmente difícil; o fumar não só atua como estimulante e
hábito social, mas há também o apego a ele. Se uma pessoa se
220
torna cônscia de estar apegada à bebida, às drogas, a várias espé-
cies de estimulantes, pode essa pessoa abandonar instantanea-
mente esse apego?
Suponhamos que eu sou apegado ao uísque e estou côns-
cio desse apego. Ele se tornou um hábito tremendo, meu corpo o
exige, porque a ele se acostumou, não pode passar sem ele. E
cheguei à conclusão de que não devo beber, porque é um hábito
nocivo e os médicos me recomendaram abandoná-lo. Mas, o cor-
po e a mente contraíram o hábito. Pode a mente, observando
esse hábito, abandoná-lo de todo, imediatamente? Vede o que aí
está implicado. O corpo exige a bebida, porque a ela se habituou,
e a mente diz: “Tenho de abandoná-la”. Há, pois, uma batalha
entre as exigências do corpo e a decisão da mente. Que fareis? Em
vez do uísque, considerai vossos próprios hábitos; se não bebeis
uísque, podeis ter outros hábitos fisiológicos, como franzir o so-
brolho, olhar de boca aberta, tamborilar com os dedos. Examine-
mos isso, senhor, se vos apraz. O corpo está apegado à bebida e a
mente diz “Preciso livrar-me dela” —e percebeis também que,
quando há conflito entre o corpo e a mente, esse conflito se torna
um problema, uma luta. Que fareis? Por favor, senhores, começai!
Deveis estar verdadeiramente livre de todos os hábitos, se não
desejais esclarecer esta questão.
Interrogante: Ou a gente deixa de beber ou continua a
beber.
Krishnamurti: Que fazeis vós, realmente? Por favor, não
brinqueis com esta questão, porquanto, uma vez a tenhais com-
preendido, vereis sua enorme importância, vereis quanto é impor-
tante agir e viver sem nenhuma espécie de esforço, vale dizer,
nenhuma deformação.
Interrogante: Vejo que eu sou o meu hábito.
Krishnamurti: Sim. Então, que ireis fazer? Vejo que sou
meu hábito, meu hábito é o meu próprio “eu”.
Interrogante (1): Não devemos penetrar até às raízes des-
ses hábitos?
Interrogante (2): Devemos começar por fazer cessar a re-
sistência ao hábito.
221
Krishnamurti: Senhor, posso dizer uma coisa? Deixemo-
nos de teorias, de especulações. Não me digais o que se deve
fazer, mas tratemos de investigar, de aprender não só a olhar,
mas também que desse próprio ato de olhar vem a ação. Tenho
um certo hábito de coçar a cabeça, de tamborilar com os dedos,
de olhar as coisas de boca aberta — coisas muito físicas. Ora, co-
mo acabar com ele sem o mínimo de esforço? Estamos conside-
rando hábitos a que estamos apegados, consciente ou inconscien-
temente. Estou tomando para exemplo hábitos muito triviais,
como coçar a cabeça, puxar minhas próprias orelhas, ou tambori-
lar com os dedos. Como pode a mente fazer cessar qualquer des-
ses hábitos sem nenhum esforço, sabendo que todo esforço im-
plica dualidade, implica resistência, condenação do hábito, desejo
de transcendê-lo — reprimindo-o ou dele fugindo, verbalmente
ou não verbalmente? Assim, tendo tudo isso em mente, compre-
endendo esses fatos, como posso acabar com um hábito físico
sem esforço?
Interrogante: Observando-o em sua totalidade.
Krishnamurti: Um momento, senhor, essa asserção pode
constituir a resposta a todas as nossas perguntas. “Observar o
hábito em sua totalidade” — que significa isso? Não apenas um
dado hábito, como o de coçar a cabeça ou de tamborilar com os
dedos, mas todo o mecanismo dos hábitos: a totalidade do hábito
e não apenas um fragmento. Ora, como pode a mente observar a
totalidade de seus hábitos?
Interrogante: Pelo percebimento passivo ou pela passiva
observação.
Krishnamurti: Estais citando este orador. Acho que isso de
nada vos valerá. Não citeis ninguém, senhor!
Interrogante: É a mente a formadora do hábito?
Krishnamurti: Vede, senhor, que esta é uma questão im-
portantíssima, quando realmente a penetramos. Pode a mente
observar, não apenas um certo hábito insignificante, mas estar
cônscia de todo o mecanismo formador dos hábitos? Não digais
“sim”, não chegueis a nenhuma conclusão. Vede o que esta ques-
tão implica. Temos, não só hábitos insignificantes, como o de
222
tamborilar com os dedos, mas também hábitos sexuais, hábitos
constituídos por padrões de pensamentos, por atividades várias.
Penso isto, concluo isto — e está formado um hábito. Vivo “imer-
so” em hábitos, toda a minha vida é uma estrutura de hábitos.
Como pode a mente tornar-se cônscia do inteiro mecanismo do
hábito?
Temos mil-e-um hábitos — nossa maneira de escovar os
dentes, de pentear os cabelos, de ler, de andar. Um desses hábi-
tos é o desejo de tornar-nos famosos, de nos tornarmos impor-
tantes. Como pode a mente fazer-se cônscia de todos esses hábi-
tos? Pode tornar-se cônscia deles, um por um? Sabeis quanto
tempo isso levaria? Eu poderia passar todo o resto de minha vida
a observar cada um dos meus hábitos e, contudo, não dissolver
nenhum deles. Quero aprender a esse respeito. Quero descobrir
isso, sem esmorecimento. Estou perguntando: É possível à mente
ver toda a rede dos hábitos? Como poderá fazê-lo? Não façais
conjecturas, não chegueis a alguma conclusão, não deis nenhuma
explicação — isso não me interessa; não tem nenhuma significa-
ção dizer-se “Tratai de fazer alguma coisa”. Eu quero aprender a
esse respeito, agora. Que faço?
Interrogante: Podemos tornar-nos cônscios do desperdí-
cio de energia que há em seguirmos um determinado padrão de
hábito — ou vários padrões — e desse modo nos libertarmos de-
le?
Krishnamurti: Venho ter convosco e digo: “Por favor, aju-
dai-me a descobrir isso. Estou com fome, não me deis um menu,
dai-me comida! Estou perguntando: “Que ides fazer”?
Interrogante: Compreendendo totalmente um dado hábi-
to, talvez me seja possível libertar-me de todos os hábitos.
Krishnamurti: Como posso observar um hábito, como o de
fazer girar os polegares, e ver todos os demais hábitos? É possível
isso, quando se trata de um hábito tão insignificante? Sei que o
faço devido a uma certa tensão. Não suporto minha mulher e,
assim, criei esse hábito peculiar; ou faço-o porque sou nervoso,
tímido, etc. Mas, eu quero aprender sobre toda a trama dos hábi-

223
tos. Devo fazê-lo pouco a pouco, ou há uma maneira de ver toda a
trama instantaneamente? Respondei-me, por favor.
Interrogante: A estrutura dos hábitos se compõe de duas
partes...
Krishnamurti: Duas partes: os hábitos e o observador
ocupado com esses hábitos. E o observador é também um hábito.
São, portanto, dois hábitos. Estou tamborilando com os dedos e a
observação desse hábito vem de uma entidade que é também o
resultado de hábitos. Tudo hábito! Assim, senhores, como ireis
ajudar-me, ensinar-me, fazer-me aprender a esse respeito?
Interrogante: Minha vida é toda de hábito; minha mente
é um hábito; é o estado de minha mente que tenho de mudar.
Krishnamurti: Quem é o “eu” que vai mudá-lo? O “eu” é
também um hábito, o “eu” é uma série de palavras, memórias e
conhecimentos, vindos do passado, também um hábito.
Interrogante: Já que estamos completamente enredados
em hábitos, é óbvio que não sabemos.
Krishnamurti: Então, porque não dizeis logo: “Não sei” —
em vez de ficardes jogando com palavras? Se não sabeis, vamos
então aprender juntos. Mas, primeiro, tende certeza de que “não
sabeis”; e não citeis ninguém. Estamos preparados para dizer “Re-
almente, não sei”?
Interrogante: Mas, porque é que temos esses hábitos?
Krishnamurti: Isso é bastante simples. Se tenho uma dúzia
de hábitos — levantar-me todas as manhãs às oito horas, ir para o
escritório, voltar a casa às seis, tomar um “gole”, etc. — não tenho
necessidade de pensar muito, de estar muito desperto. A mente
gosta de funcionar dentro de canais, de hábitos, porque, assim, se
sente abrigada, em segurança. Isto não requer muita explicação.
Ora, como pode a mente observar toda a rede dos hábitos?
Interrogante: Talvez prestando atenção em todos os mo-
mentos, enquanto nossas energias o permitirem.
Krishnamurti: Estais vendo? — isso é uma pura ideia. Não
me interessam ideias. Senhor, dissestes uma coisa: Se a mente for
capaz de ver toda a estrutura e a natureza do mecanismo do hábi-

224
to, poderá haver uma ação de espécie diferente. É isso que esta-
mos investigando; posso examiná-lo? Façamos juntos esse exame.
Como pode a mente, que inclui o cérebro, ver uma coisa
totalmente? — não apenas o hábito: qualquer coisa? Nós vemos
as coisas fragmentariamente, não é verdade? Trabalho, família,
comunidade, indivíduos, minha opinião, vossa opinião, meu Deus,
vosso Deus — tudo vemos em fragmentos. Não é um fato isto?
Estais cônscio dele? Se só se vê fragmentariamente, não há possi-
bilidade de ver-se a totalidade. Se vejo a vida em fragmentos,
porque minha mente está condicionada, é claro que não posso ver
a totalidade do ente humano. Se me separo, por causa de minha
ambição, de meus preconceitos pessoais, não posso ver o todo.
Estou bem cônscio de estar olhando a vida parcialmente — “eu” e
“não eu”, “nós” e “eles”? É assim que olho a vida? Se é, então,
naturalmente, não posso ver coisa alguma totalmente. Apresenta-
se, assim, a questão: Como pode a mente, tão enredada que está
nesse hábito de ver e agir fragmentariamente, ver o todo? Claro
que não pode. Se estou todo interessado em meu próprio preen-
chimento, na realização de minha ambição, no competir e no meu
desejo de sucesso, não posso ver a humanidade no seu todo. As-
sim, que me cumpre fazer? O desejo de me preencher, de ser uma
notabilidade, de realizar alguma coisa importante, é um hábito —
um hábito social e bem assim um hábito que me dá prazer. Se
ando pela rua, e todos me olham e apontam: “Lá vai ele!” — isso
me dá um enorme prazer. Enquanto a mente continuar a operar
nesse campo da fragmentação, é óbvio, não poderá ver o todo.
Agora, o que pergunto é isto: “Que pode fazer a mente que está
funcionando em fragmentos e percebe que não tem nenhuma
possibilidade de ver o todo? Terá de analisar e compreender cada
fragmento? Isso levará uma eternidade. Estais aguardando uma
resposta deste orador?
Interrogante: Há necessidade de silêncio total.
Krishnamurti: Lá está ele citando alguém!(*)
Interrogante: Se pudéssemos ver, agora mesmo, todos os
nossos hábitos, tais como realmente são, e ver o processo que nos
está impedindo de vê-los realmente, neste instante...
225
Krishnamurti: Não é isso o que estamos fazendo? Não es-
tais indo para diante, mas voltando para trás repetidamente. Nes-
te momento, estou a tamborilar com os dedos, a escutar de boca
aberta o que se diz, e vejo que isso é um hábito. E o que pergunto
é isto: Posso compreender, agora mesmo, todo o mecanismo do
hábito? Não estais prestando atenção. Ora, senhor, a mente que
está em fragmentos não pode de modo nenhum ver o todo. As-
sim, pego um determinado hábito e, aprendendo a respeito desse
hábito, percebo o inteiro mecanismo de todos os hábitos. Que
hábito podemos considerar?
Interrogante: Fumar...
Krishnamurti: Está bem. Eu não estou analisando; com-
preendeis a diferença entre análise e observação? Análise implica
a entidade que analisa, e as coisas que vão ser analisadas. A coisa
a analisar é o hábito de fumar e, para analisá-la, há necessidade
de um analista. A diferença entre análise e observação é esta:
observar é ver diretamente, sem análise, ver sem o observador,
ver o vestido vermelho, cor-de-rosa ou preto, tal qual é, sem dizer
“não gosto”. Só há observação. Entendeis? No ver, não há obser-
vador. Vejo a cor vermelha e não há “gostar” nem “não gostar”. A
análise implica: “Não gosto do vermelho porque minha mãe, que
brigava muito com o meu pai. . A análise levou o que estou anali-
sando para os dias de minha infância. A análise, portanto, requer
um analista. Por favor, procurai perceber a divisão entre o analista
e a coisa analisada. Na observação, não há separação: há observa-
ção sem o “censor’’, sem se dizer “gosto”, “não gosto”, “isto é
belo”, “aquilo não é belo”, “isto é meu”, “aquilo não é meu”. Eis o
que vos cabe fazer, em vez de vos limitardes a tecer teorias a res-
peito do assunto. Então, descobrireis!
Como disse, não estamos analisando, porém simplesmen-
te observando o hábito de fumar. Observando-o, que é que se
revela? — não peço vossa interpretação do que se revela. Perce-
beis a diferença? Não há interpretação, não há tradução, não há
justificação, não há condenação. Que revela o hábito de fumar?
Interrogante: Revela que estamos enchendo os pulmões
de fumaça.
226
Krishnamurti: Sim, isso é um fato. Em segundo lugar, que
vos diz esse fato? Ele vos “contará a história” do hábito de fumar,
se vos abstiverdes de interpretar. Se puderdes “escutar”, se pu-
derdes observar o hábito de fumar, o quadro que observardes vos
dirá tudo. Ora, que vos revela esse hábito? — que estais enchen-
do de fumaça os pulmões. Que mais?
Interrogante: Que dependemos dele.
Krishnamurti: Revela-vos que estais na dependência de
uma erva.
Interrogante: E que, interiormente, estamos vazios.
Krishnamurti: Essa é vossa tradução. Que é que o hábito
vos revela — a vós?
Interrogante: Vejo que é apenas uma ação mecânica, que
pratico automaticamente, sem pensar.
Krishnamurti: Revela-vos que estais fazendo maquinal-
mente uma certa coisa. Revela-vos que, a primeira vez que fumas-
tes, vos sentistes mal; achastes desagradável fumar, mas, vendo
outras pessoas fumarem, continuastes a fazê-lo. Agora, isso se
tornou um hábito.
Interrogante: Não nos revela também que, de certo mo-
do, ele nos tranquiliza?
Krishnamurti: Revela-vos que ele vos faz dormir, ajuda-
vos a narcotizar-vos, acalma-vos os nervos, tira-vos o apetite, não
vos deixando engordar demais.
Interrogante: Revela-nos que estamos aborrecidos da vi-
da.
Krishnamurti: Demonstra-vos que ele vos põe à vontade,
quando travais conhecimento com certas pessoas, se vos sentis
nervoso. Muita coisa pode ele revelar.
Interrogante: Mostra-me que estou desatento.
Krishnamurti: Essa é vossa tradução; ele não vos está di-
zendo que sois desatento.
Interrogante: Proporciona-me uma certa satisfação, prin-
cipalmente depois do jantar.
Krishnamurti: Sim, ele vos ajuda, vos está dizendo tudo is-
so. E, porque fazeis essa coisa? Escutai, senhor, não me respon-
227
dais tão apressadamente, por favor. Porque é que estais aceitan-
do tudo o que ele vos revelou? A televisão vos diz o que deveis
saber, que marca de sabonete usar, etc. etc. Conheceis bem esses
anúncios. A todas as horas vos estão dizendo alguma coisa — por-
que a aceitais? Os livros sagrados vos dizem o que deveis e o que
não deveis fazer. Porque aceitais a propaganda das igrejas ou dos
políticos?
Interrogante: Porque é mais fácil seguir um sistema.
Krishnamurti: Porque o seguis? Porque necessitais de se-
gurança; da companhia de outros; porque desejais ser igual aos
demais? Isso significa que tendes medo de não ser igual aos ou-
tros. Quereis ser igual a todos os demais porque nisso achais per-
feita segurança. Se não sois católico num país católico, encontrais
muitas dificuldades. Se estais num país comunista, e não seguis a
linha do partido, encontrareis também dificuldades. Vejo, agora, o
que revelou o quadro desse hábito (o fumo) e porque nele estou
enredado: a relação entre mim e o cigarro. Assim é o hábito, tal é
a maneira como está funcionando minha mente inteira. Faço uma
certa coisa porque ela me dá segurança. Contraio um hábito —
trivial ou importante — porque ele me dispensa de pensar no que
estou fazendo. Assim, a mente considera seguro funcionar na
rede dos hábitos. Estou vendo todo o mecanismo da formação
dos hábitos. Por meio do hábito de fumar, descobri todo o pa-
drão, descobri o mecanismo que está produzindo os hábitos.
Interrogante: Não compreendo bem como, “escutando”
um só hábito, posso ver todo o mecanismo do hábito.
Krishnamurti: Eu vo-lo mostrei. O hábito implica estarmos
funcionando mecanicamente e, pela observação do hábito mecâ-
nico de fumar, percebo como a mente funciona numa rede de
hábitos.
Interrogante: Mas, são mecânicos todos os hábitos?
Krishnamurti: Têm de ser; se usamos a palavra “hábito”,
ela indica necessariamente uma coisa mecânica.
Interrogante: Não há formas de dependência mais pro-
fundas do que os meros hábitos mecânicos?

228
Krishnamurti: Se se usa a palavra “hábito”, ela implica re-
petição mecânica; formar um hábito significa fazer a mesma coisa
vezes sobre vezes. Assim, não há “bom hábito” nem “mau hábi-
to”: estamos interessados unicamente no hábito.
Interrogante: Se, por exemplo, tenho o hábito do poder,
ou o hábito do conforto, ou o hábito da propriedade, isso não é
uma coisa mais profunda do que o mero hábito mecânico?
Krishnamurti: O “hábito do poder”, a necessidade de po-
der, posição, domínio, agressão, violência — tudo isso está impli-
cado no desejo de poder. Fazer o que se quer, como uma criança,
ou um adulto — isso se tornou um hábito.
Interrogante: Ou, necessitando de segurança...
Krishnamurti: Eu já disse que o hábito proporciona segu-
rança, etc. Examinando aquele hábito (fumar), vi que todos os
hábitos se baseiam na necessidade de segurança. Uma vez que os
hábitos são mecânicos, “repetitivos”, quando digo “Desejo ser um
grande homem”, caí na rede, porque nesse hábito encontro segu-
rança, e é isto que estou buscando. No fundo (não estamos consi-
derando os hábitos bons ou maus, mas, tão-só, o hábito), no fun-
do todos os hábitos são mecânicos. Tudo o que faço repetidamen-
te, o que significa fazer a mesma coisa de ontem para hoje, de
hoje para amanha, é necessariamente mecânico. Certas ações
mecânicas podem ter um pouco mais de “polimento”, não sofrer
atritos, mas são sempre hábitos, coisas repetidas, como é bem
óbvio.
Interrogante: Diríeis que certas atividades criadoras são
hábitos?
Krishnamurti: Respondamos a esta pergunta: Pode-se di-
zer que a atividade criadora é um hábito?
Interrogante: A ação criadora implica vigor; não se faz es-
forço para ser criador.
Krishnamurti: Estais dizendo isso porque sois “criador”, ou
estais apenas conjecturando? Temos de perguntar o que enten-
deis por “atividade criadora”. Esta pergunta é importantíssima, e
vós a desconsiderais. Pintais um quadro: ou o fazeis porque amais
a arte, ou porque ela vos dá dinheiro, ou porque desejais desco-
229
brir uma maneira original de pintar, etc. Que significa “ser cria-
dor”? Um homem que escreve um poema porque não pode su-
portar sua mulher ou a sociedade, é criador esse homem? O ho-
mem que está apegado ao seu violino, porque com ele ganha rios
de dinheiro, é criador? E aquele que, vendo-se num estado de
grande tensão interior, escreve dramas que o mundo aplaude —
chamaríeis a esse homem “criador”? O homem que bebe e, no
estado de embriaguez, escreve uma maravilhosa poesia, cheia de
ritmo — é criador?
Interrogante: Como podeis julgar?
Krishnamurti: Eu não julgo.
Interrogante: Mas vós suscitastes esta questão. Se digo
que alguém é ou não é criador, estou julgando.
Krishnamurti: Eu não estou julgando, senhor; estou per-
guntando, estou aprendendo. Observo as pessoas que escrevem
livros, que compõem poemas ou dramas, que tocam violino. Vejo
o fato à minha frente, não digo “isto é bom” ou “isto é mau”; per-
gunto: Que é atividade criadora? No momento em que digo “Isto
é bom”, acabou-se, não posso aprender. E eu quero aprender,
quero descobrir o que significa “ser criador”.
Interrogante: Talvez signifique ser dotado de uma certa e
“inocente” capacidade de apreender o todo...
Krishnamurti: Não sei; talvez. Eu quero descobrir, quero
aprender.
Interrogante: Significa estar desperto, vivo.
Krishnamurti: Vou ao museu, vejo todos os quadros, ad-
miro-os, comparo-os entre si e digo: “Que gênios criadores!” Por
isso, quero averiguar o que significa “ser criador”. Preciso compor
uma poesia, pintar um quadro, escrever um drama, para ser cria-
dor? Isto é, a potência de criar exige expressão? Tende a bondade
de escutar atentamente. A mulher que coze pão, numa cozinha
sufocante, é criadora?
Interrogante: Em geral chamamos “criadoras” a tais ativi-
dades.
Krishnamurti: Estou interrogando. Não digo que não se-
jam; não sei; quero aprender.
230
Interrogante: Se faço pão, sem nunca o ter feito na minha
vida, sou criador.
Krishnamurti: Eu vos estou perguntando, senhor, o que é
atividade criadora.
Interrogante: Nós somos “criadores” neste momento.
Krishnamurti: Não, não. Observando as atividades que o
homem costuma chamar “criadoras”, pergunto a mim mesmo:
Que é potência criadora? Ela necessita de expressão? — tal como
assar pão, pintar quadros, escrever dramas, ganhar dinheiro. Ela
exige expressão?
Interrogante: Sim, penso que somos criadores agora.
Krishnamurti: Não é esse o ponto essencial. O ponto é es-
te: Sois criador ou estais meramente a ouvir alguém que vos está
chamando a atenção para isso?
Interrogante: Penso que uma pessoa cria quando observa
não criticamente.
Krishnamurti: Não digais “penso'’. Vede, senhor, estou
apaixonadamente empenhado em descobrir.
Interrogante: No momento em que uma pessoa vê que
está apegada a certas coisas, nesse mesmo momento de ver ela
atua. Esse é o momento da criação.
Krishnamurti: Por conseguinte, estais dizendo “ver é agir,
e nesse momento há criação”. — Isso é uma definição.
Interrogante: Criação não é estar em harmonia com a Na-
tureza?
Krishnamurti: Vós estais em harmonia com a Natureza?
Não estais percebendo aonde quero chegar. Eu quero descobrir,
senhor, tenho fome; observei os grandes pintores, assisti a todos
os dramas célebres, etc., e pergunto: Que é criação? Que é ser
criador? Não deis uma definição. Eu quero aprender.
Interrogante: Fazer uma coisa nova é ser criador.
Krishnamurti: Que significa isso? Fazer uma coisa total-
mente nova e original, sem nenhuma decisão? Isso significa que o
passado deve terminar. Em vós, ele terminou? Ou estais mera-
mente a falar acerca de criação assim como falais acerca de um
livro? Se é isso, estou fora desse jogo. Quero aprender, estou
231
apaixonado, quero verter lágrimas nesse trabalho, nessa busca!
Um homem pode viver criadoramente, sem fazer nenhuma dessas
coisas, sem assar pão, sem pintar quadros, sem escrever um poe-
ma. Só podeis viver criadoramente quando vossa mente não está
fragmentada, quando não há medo, quando a mente está livre de
tudo o que vem do passado, livre do conhecido.
Interrogante: Para mim a criação não é uma coisa, é um
movimento.
Krishnamurti: Não “para vós”, senhor, nem “para mim” —
estais, todos vós, tornando a coisa pessoal. Criação não é uma
opinião. Estou com fome, e me estais enchendo de palavras. Isso
significa que vós não tendes fome. Ontem, depois de falar sobre o
apego, estive observando esse fato; a mente esteve vigilante o dia
todo, para ver se eu tinha apego a alguma coisa — a sentar-me
num estrado para discursar, falar a pessoas, a escrever; apego a
alguém, a ideias, a uma cadeira. Cumpre investigar, pois, investi-
gando, descobrem-se coisas extraordinárias, a beleza da liberda-
de, e do amor que nasce dessa liberdade. Quando se fala em cria-
ção isso significa uma mente que desconhece a agressão. Assim,
para compreendermos o mecanismo, a trama dos hábitos, temos
de estar vigilantes, penetrar o fato, fazê-lo circular em nossas
veias, fluir como aquele rio em movimento. Deixai que essa inves-
tigação vos conduza, através do dia, a maravilhosos descobrimen-
tos!
A questão do impossível - 1970

[...] NA COTIDIANA vida de relação, observa-se conflito,


dor e sofrimento, uma constante dependência em que sobressai a
auto- compaixão e a comparação; eis a coisa que chamamos viver.
Permiti-me repetir: Não estamos interessados em teorias, em
propagar alguma ideologia, porque as ideologias não têm, eviden-
temente, nenhum valor; pelo contrário, só servem para aumentar
232
a confusão e o conflito. Não nos interessa nenhuma opinião ou
avaliação, nenhuma espécie de condenação. O que nos interessa
é, tão-só, a observação do que realmente está sucedendo e ver se
isso pode ser transformado.
Pode-se ver muito claramente quanto é contraditória e
confusa a nossa vida diária; a vida que atualmente estamos viven-
do é absolutamente insignificante. Podem-se inventar significados
para ela; os intelectuais inventam uma significação e nós outros
nos pomos a segui-la; pode ser até uma filosofia muito engenho-
sa, porém saída do nada. Mas, se só nos interessa “o que é”, e,
não, inventar significados ou fugas ou acalentar teorias ou ideolo-
gias; se estamos sobremodo vigilantes — nossa mente é então
capaz de enfrentar “o que é”. Teorias e crenças não alteram a
nossa vida; o homem sempre as teve, através de milhares de
anos, e não mudou; deram-lhe elas, talvez, um polimento superfi-
cial; tornaram-no talvez menos selvagem, mas o homem continua
brutal, violento, caprichoso, incapaz de manter seriedade. Vive-
mos uma vida em que há muito sofrimento, do nascimento à mor-
te. Eis um fato; não há quantidade de teorias e especulações que
possam alterá-lo. O que realmente altera “o que é” é a capacida-
de, a energia, a intensidade, a paixão com que o olhamos. E não
podemos ter essa paixão e intensidade se nossa mente está a
correr atrás de alguma ilusão, de alguma ideologia especulativa.
Vamos examinar uma questão muito complexa, que exige
toda a vossa energia e toda a vossa atenção — não só enquanto
estiverdes neste salão, mas em todo o curso de vossa vida — se
sois sérios. O que profundamente nos interessa é a transformação
de “o que é” — o sofrimento, o conflito, a violência, nossa depen-
dência de outrem — não a do médico, do merceeiro, do carteiro,
mas a dependência tanto psicológica como psicossomática exis-
tente em nossas relações com outrem. Essa espécie de dependên-
cia gera invariavelmente medo. Enquanto dependo de vós, para
me amparardes emocional, psicológica ou espiritualmente, sou
vosso escravo e, por conseguinte, há medo. Isso é um fato. A mai-
oria dos entes humanos depende de outros e, nessa dependência,
existe a autocompaixão nascida da comparação. Assim, onde há
233
dependência psicológica de outrem — da esposa, do marido, etc.
— há necessariamente não só medo e prazer, mas também há a
dor que os acompanha. Espero estejais observando tudo isso em
vós mesmo, em vez de estardes meramente ouvindo as palavras
do orador.
Há duas maneiras de ouvir: ouvir superficialmente uma
série de ideias, concordando ou discordando, e ouvir, escutar, não
só as palavras e os respectivos significados, mas ainda o que se
está passando em nosso interior. Se escutais dessa maneira, então
o que o orador está dizendo se relaciona com o que estais escu-
tando dentro de vós mesmo. Não estais, então, meramente escu-
tando o que diz o orador — que é irrelevante — mas, sim, estais
“escutando” todo o conteúdo de vosso ser. E, se dessa maneira
estais escutando, com “intensidade”, ao mesmo tempo e no
mesmo nível, então ambos estamos participando, compartilhando
no que realmente está sucedendo. Tendes, então, a paixão que
transformará “o que é”. Mas, se não escutardes assim, com vossa
mente inteira e vosso coração inteiro, então, uma reunião como
esta se tornará totalmente insignificativa.
Compreendendo “o que é”, a vida real e terrível que es-
tamos levando, percebemos que estamos vivendo num estado de
isolamento. Ainda que um homem tenha esposa e filhos, dentro
dele está sempre funcionando um processo de isolamento. A es-
posa, a amiga ou amigo, cada um está vivendo isolado: embora
vivendo juntos, sob o mesmo teto, cada um está isolado em suas
próprias ambições, temores e tristezas. Essa espécie de vida é
chamada “vida de relação”. Outro fato: Vós tendes a imagem de
vossa esposa, e ela tem a vossa imagem; e tendes também vossa
imagem de vós mesmo. A relação é entre essas imagens; não é
uma relação real. Destarte, em primeiro lugar cumpre descobrir
como se formam essas imagens, como se tornam existentes, por
que razão existem e o que significa viver sem elas. Não sei se já
considerastes se pode haver uma vida em que não haja nenhuma
imagem, nenhuma fórmula, e a significação que terá uma vida
sem imagens. Examinemos isto.

234
Estamos, a todas as horas, tendo experiências, das quais
estamos conscientes ou inconscientes. Cada experiência deixa
uma marca; dia após dia, essas marcas vão tomando forma e se
tornam a imagem. Alguém vos insulta, e neste momento está
formada a vossa imagem dessa pessoa. Ou alguém vos lisonjeia e,
mais uma vez, está formada a imagem. Assim, inevitavelmente,
cada reação produz uma imagem. E, tendo criado a imagem, po-
deis acabar com ela?
Para se pôr fim a uma imagem, deve-se primeiramente
descobrir como se torna ela existente: e sabemos que, se não
reagimos adequadamente a um desafio, ele deixa inevitavelmente
uma imagem. Se me chamais “idiota”, vos tornais imediatamente
meu inimigo, não gosto de vós. Quando me chamais idiota, devo,
nesse momento, estar intensamente cônscio, sem nenhuma esco-
lha, nenhuma condenação; escutar, apenas, o que dizeis. Se não
há nenhuma reação emocional ao que dizeis, nenhuma imagem se
forma.
Devemos, pois, estar cônscios da reação e não lhe dar
tempo para enraizar-se; porque, no momento em que a reação
lança raízes, forma-se a imagem. Sois capaz disso? O que se re-
quer é atenção. Não podeis passar pela vida a sonhar; ao ocorrer
um desafio, deveis prestar-lhe atenção com todo o vosso ser, es-
cutar com todo o coração e toda a mente, de modo que vejais
com clareza o que se está dizendo — seja um insulto, seja uma
lisonja, seja uma opinião, a vosso respeito. Vereis, então, que
nenhuma imagem se forma. A imagem é sempre do que sucedeu
no passado. Se é agradável, a ela nos apegamos. Se dolorosa, dela
queremos livrar-nos. Assim nasce o desejo: uma coisa desejamos
conservar, outra coisa queremos rejeitar; e o desejo produz confli-
to. Se vos tornardes bem cônscio disso, prestando-lhe atenção
sem nenhuma escolha, simplesmente observando, sereis então
capaz de descobrir por vós mesmo; não estareis, então, vivendo
de acordo com algum psicólogo, sacerdote ou doutor. Para des-
cobrirdes a verdade, deveis estar completamente livre, só. E “es-
tar só” é voltar às costas à sociedade.

235
Se vos observastes atentamente, tereis visto que uma par-
te de vosso cérebro, evolvida através de muitos milhares de anos,
é o passado; e o passado é experiência, memória. Nele se encon-
tra segurança. Espero estejais observando tudo isso em vós mes-
mo. O passado reage sempre imediatamente, e, retardar a reação
do passado, ao apresentar-se um desafio, de modo que haja um
intervalo entre o “desafio” e a “resposta”, é pôr fim à imagem. Se
isso não se fizer, ficaremos vivendo sempre no passado. Nós so-
mos o passado, e no passado não há liberdade. Eis, pois, a nossa
vida — uma constante batalha, o passado, modificado pelo pre-
sente, em marcha para o futuro, que é ainda o movimento do
passado, embora modificado. Enquanto existir esse movimento, o
homem não será livre, achar-se-á sempre num estado de conflito,
de sofrimento, confusão, aflição. Pode a reação do passado ser
retardada, de modo que não haja a imediata formação de uma
imagem?
Temos de olhar a vida tal como é, ver esta interminável
confusão e aflição, e a fuga desse estado para alguma superstição
religiosa ou o culto do Estado, ou para divertimentos de várias
espécies. Impende ver como fugimos para as neuroses — pois
uma neurose oferece uma extraordinária impressão de segurança.
O homem que crê é neurótico, e neurótico é também o que adora
uma imagem. Nestas neuroses encontra-se muita segurança. E a
segurança não faz operar-se uma radical revolução em nós mes-
mos. Para realizá-la, cumpre observar sem escolha, sem nenhuma
deformação causada pelo desejo, pelo prazer ou pelo medo. Te-
mos de observar o que realmente somos, sem nenhuma espécie
de fuga. E não deis nome ao que vedes: observai-o, apenas! Tereis
então a paixão, a energia necessária ao observar, e nesse observar
verifica-se uma extraordinária transformação.
Que é o amor? A seu respeito muito se fala: amor a Deus,
amor à humanidade, amor à Pátria, amor à família; todavia, o
estranho é que esse amor anda acompanhado do ódio. Amais ao
vosso Deus e odiais o deus de outrem, amais vossa pátria, vossa
família, mas estais contra a família de outrem, a pátria de outrem.
E, cada vez mais, em todas as partes do mundo, o amor está sen-
236
do associado ao sexo. Não estamos condenando, nem avaliando,
nem tampouco julgando: estamos apenas observando o que de
fato está sucedendo, e, se souberdes observá-lo, essa observação
vos dará uma energia extraordinária.
Que é amor? Que é compaixão? A palavra “compaixão”
significa paixão por todos, afeição para com todos os seres —
inclusive os animais que matais para comer. Olhemos primeira-
mente o que realmente é — não “o que deveria ser”, mas o que
realmente existe em nossa vida diária. Sabemos o que significa
amar, ou só conhecemos o prazer e o desejo, chamando-os
“amor”? É certo que o prazer e o desejo se acompanham também
de ternura, desvelo, afeição, etc., mas o amor é prazer, desejo?
Para a maioria de nós, é, evidentemente. Um homem depende de
sua esposa, ama sua esposa, mas se ela olha para outro homem,
fica enraivecido, sente-se frustrado, infeliz — e o epílogo é o tri-
bunal de divórcios. É isso que chamais “amor”; e se vossa esposa
morre, tomais outra esposa, tamanha é a dependência! Um ho-
mem nunca indaga por que razão depende psicologicamente de
outrem. Se examinardes bem isso, vereis quanto, bem no fundo
de vós mesmo, estais só, frustrado, quanto sois infeliz. Não sabeis
o que fazer com essa solidão, esse isolamento, que é uma forma
de suicídio. E, assim, não sabendo o que fazer, dependeis. Essa
dependência proporciona consolação, uma relação de compa-
nheirismo, mas, se esse companheirismo se altera ligeiramente,
ficais enciumado, furioso.
Mandaríeis vossos filhos à guerra, se os amásseis? Dar-
lhes-íeis a espécie de educação que agora estão recebendo, con-
sistente em prepará-los tecnicamente para obterem empregos,
passarem em exames, desprezando-se o todo desta vida maravi-
lhosa? Até os cinco anos de idade, tendes muitos desvelos para
com eles; depois, os jogais às feras. Eis o que chamais “amor”.
Existe amor, se há violência, ódio, antagonismos?
Assim, que fareis? Nessa violência e ódio está contida vos-
sa vida e vossa moralidade; quando os rejeitardes, sereis virtuoso.
Isso significa compreender o inteiro significado do amor; estais,
então, só, e sois capaz de amar. Escutai isto, porque é a verdade.
237
Se não viveis essa verdade, ela se torna um veneno; se ouvis uma
coisa verdadeira e dela fazeis pouco caso, ela produzirá mais uma
contradição na vida e, por conseguinte, mais aflição. Portanto, ou
escutai com o coração, com vossa mente inteira, ou tapai os ouvi-
dos. Mas, como aqui vos achais, estais escutando — espero-o!
O amor não é o oposto de coisa alguma. Não é o oposto
do ódio ou da violência. Mesmo quando não dependeis de nin-
guém e viveis uma vida muito virtuosa — tomando parte em
obras sociais, desfilando em manifestações — se não tendes
amor, nada disso tem valor. Se amais, podeis fazer o que quiser-
des. Para o homem que ama não há erro; ou, se há, sabe corrigi-lo
imediatamente. O homem que ama não tem ciúme, não tem re-
morsos. Para ele não existe o perdão, porque nunca surge uma
ocasião em que haja algo para perdoar. Tudo isso exige profunda
investigação, muito zelo e atenção. Mas, vós estais aprisionado na
armadilha da moderna sociedade; vós mesmo criastes a armadi-
lha, e se alguém vos chama a atenção para ela, não fazeis caso
disso. E, assim, continua a haver guerras e ódio.
Eu gostaria de saber como considerais a morte; não teori-
camente, mas o que ela, de fato, significa para vós — não como
uma coisa que inevitavelmente se verificará, por acidente, doença
ou velhice. Esta vem para todos — a velhice, e o que se faz para
disfarçá-la, para parecer jovem. Todas as teorias e toda espécie de
esperança significam que vos achais em desespero; por causa
desse desespero, buscais algo que vos dê esperança. Já olhastes o
vosso desespero, para ver por que ele existe? Ele existe porque
vos estais comparando com outra pessoa, porque desejais preen-
cher-vos, “vir a ser”, realizar coisas.
Um dos fatos estranhos da vida é estarmos condicionados
pelo verbo “ser” — porque nele está contido o passado, o presen-
te e o futuro. Todo condicionamento religioso baseia-se no verbo
“ser”; nele se baseiam o céu, o inferno, todas as crenças, todos os
salvadores, todos os excessos. Pode um ente humano viver sem
esse verbo — quer dizer, viver e não ter passado nem futuro. Isso
significa “viver no presente” — pois não sabeis viver no presente.
Para viverdes completamente no presente, deveis conhecer a
238
natureza e estrutura do passado — ou seja, conhecer a vós mes-
mo. Deveis conhecer-vos tão completamente que não haja ne-
nhum canto oculto; o “vós” é o passado e se nutre daquele verbo
“ser”: “vir a ser”, realizar, lembrar. Descobri o que significa viver,
psicologicamente, interiormente, sem esse verbo.
Que é a morte? Por que nos inspira ela tanto terror? Em
toda a Ásia crê-se na reencarnação; essa crença proporciona uma
grande esperança — não sei por quê; sobre ela se fala e se escre-
ve incessantemente. Ao considerardes a coisa que vai encarnar,
que é ela? — vosso passado, vossa aflição, vossa confusão, tudo o
que sois agora? E pensais que o “vós” (aqui se usa a palavra “al-
ma”) é uma entidade permanente. Existe alguma coisa, nesta vida,
que seja permanente? Gostaríeis de ter algo de permanente, e,
por isso, afastais a morte para longe, para bem longe de vós; nun-
ca a encarais, porque a temeis. Tendes, então, o “tempo” — o
tempo que pondes entre “o que é” e o que inevitavelmente acon-
tecerá.
Ou “projetais” a vossa vida para o amanhã e continuais a
ser o que agora sois, na esperança de uma certa espécie de res-
surreição, de encarnação; ou morreis cada dia para vós mesmo,
para vossa aflição e vosso sofrer; lançais fora essa carga, em cada
dia, para que vossa mente seja nova, juvenil, “inocente”. A palavra
“inocente” significa “incapaz de sofrer dano” (sic). Ter uma mente
incapaz de sofrer dano não significa ter construído um baluarte de
resistência; pelo contrário, essa mente está morrendo para tudo o
que tem conhecido e lhe tem trazido conflito, prazer e dor. Só
então a mente é inocente e, por conseguinte, capaz de amar. Não
podeis amar com a memória; o amor não depende de lembrança,
não depende do tempo.
Assim, o amor, a morte e o viver não existem separados;
são um todo e, em consequência, uma coisa sã. Não se pode ser
são se há ódio, cólera, ciúme; se há a dependência, geradora de
medo. Havendo sanidade, a vida se torna sagrada; há nela supre-
ma alegria, e podeis fazer o que quiserdes e tudo o que fazeis é
virtuoso, verdadeiro.

239
Tudo isso desconhecemos; só conhecemos nossa aflição.
E, desconhecendo-o, apelamos para a fuga. Que bom seria se não
fugíssemos de “o que é”, e tratássemos de observá-lo, de nunca
nos afastarmos dele, nem por uma fração de segundo, dando-lhe
um nome, condenando-o ou julgando-o; se pudéssemos apenas
observá-lo. Para observardes uma coisa, necessitais de zelo; zelo
significa compaixão. Numa vida tão esplêndida e completa, po-
demos entrar num estado de que falaremos amanhã e que se
chama “meditação”. Sem essa base, meditação é auto-sugestão.
Lançar essa base significa ter compreendido esta vida maravilho-
sa; tendes então uma mente livre de conflito e podeis viver uma
vida em que existe a compaixão, a beleza, e, por conseguinte, a
ordem — não a ordem planejada, mas a ordem que vem quando
compreendeis a desordem — a vossa vida. Vossa vida está em
desordem. Desordem é contradição e conflito entre opostos. Ao
compreenderdes a desordem em vós existente, dessa compreen-
são vem a ordem — uma ordem precisa, matemática, em que não
há deformação alguma. Tudo isso requer uma mente meditativa,
uma mente capaz de olhar em silêncio.

[...] INTERROGANTE: Ao observar-me, vejo um rapidíssimo


movimento de pensamentos e sentimentos, e não tenho possibi-
lidade de observar, do começo ao fim, um dado pensamento.
Krishnamurti: Está sempre a desfilar uma cadeia de fatos.
Que cumpre fazer? Ao observardes e tentardes acompanhar, até
sua conclusão, um determinado pensamento, outro pensamento
surge; isso se está passando continuamente. Eis o vosso proble-
ma: ao observardes, vós sois aquela multiplicidade de pensamen-
tos e não tendes possibilidade de acompanhar um pensamento
até sua conclusão. Que deveis fazer? Formulemos a pergunta de
outra maneira: Por que tagarela sem cessar a nossa mente? Por
que há esse interminável monólogo? Que sucede se ele não pros-
segue? Essa tagarelice não resulta do desejo de estar ocupado
com alguma coisa? Que sucede, se não nos mantemos ocupados?
Uma dona de casa mantém-se ocupada com os assuntos domésti-
cos, um negociante com seus negócios; a ocupação tornou-se uma
240
espécie de mania. Por que exige a mente essa ocupação, esse
tagarelar? Que sucede se não há tagarelar, se não se mantém
ocupada? Atrás disso estará o medo? Medo de quê?
Interrogante: De ser “nada”?
Krishnamurti: Medo de ver-se vazia, de ver-se só, medo
de tornar-se consciente de sua própria agitação; por isso, ela pre-
cisa ocupar-se com alguma coisa, como o monge se ocupa com
seu salvador, suas orações; se ele para, torna-se igual a qualquer
outro homem; tem medo. Se desejais manter-vos ocupado, isso
implica que temeis descobrir o que sois. Enquanto não resolver-
des o problema do medo, continuareis a “tagarelar”.
Interrogante: Quando me observo, o medo aumenta.
Krishnamurti: Naturalmente. Portanto, a questão não é
tanto descobrir se podemos deter o aumento do medo, como
descobrir se ele pode cessar.
Que é o medo? Podeis não sentir medo enquanto estais aí
sentado e, portanto, talvez não possais tomá-lo agora para exame
e dele aprender. Mas, podeis perceber imediatamente que de-
pendeis, não? Dependeis de vosso amigo, de vosso livro, de vos-
sas ideias, de vosso marido; a dependência psicológica existe
constantemente. Por que dependeis? É porque a dependência vos
proporciona conforto, um sentimento de segurança e bem-estar,
de companhia? Se falha essa dependência, vos tornais ciumento,
enraivecido, etc. Ou tentais cultivar um meio de vos livrardes des-
sa dependência, de vos tornardes independente. Por que cultiva a
mente a dependência? É porque se sente vazia, embotada, estú-
pida, superficial, e pela dependência espera tornar-se “maior”?
A mente “tagarela” porque precisa manter-se ocupada
com alguma coisa; essa ocupação varia, podendo ser a ocupação
superior do homem “religioso” ou a ocupação inferior do soldado,
etc. É óbvio que a mente precisa manter-se ocupada porque, se
não o faz, poderá descobrir algo que lhe faça medo ou que ela não
seja capaz de resolver.
Que é o medo? Não estará ele em relação com alguma
coisa que fiz no passado, ou imagino possa acontecer no futuro?
— o incidente passado e o incidente futuro; a doença passada e a
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futura reaparição das dores que ela causa. Ora, é o pensamento
quem cria esse medo; o pensamento gera medo, tal como susten-
ta e nutre o prazer. Pode então o pensamento cessar, chegar a um
fim e não mais dar continuidade ao medo ou ao prazer? Nós dese-
jamos prazer, e desejamos que ele continue; mas o medo, afas-
temo-lo de nós. Nunca percebemos que os dois são inseparáveis.
É o mecanismo do pensar o responsável pela continuidade
do prazer e do medo. Pode esse mecanismo deter-se? Ante a ex-
traordinária beleza do pôr-do-Sol, olhai-o; mas não o qualifiqueis
com o pensamento, dizendo “quero guardá-lo na memória, ou
repeti-lo”. Vê-lo e, assim, pôr-lhe fim, é ação. Em geral vivemos na
inação; por isso, existe aquele incessante tagarelar.
Interrogante: Mas, quando o tagarelar continua, só é ne-
cessário observá-lo?
Krishnamurti: Sim; tornai-vos cônscio dele, sem escolha.
Quer dizer: não tenteis reprimi-lo, não digais “certo” ou “errado”,
não digais “preciso transcendê-lo”. Observando o tagarelar, des-
cobris por que ele continua. Aprender a respeito do tagarelar é
acabá-lo, porque não há resistência a ele. Por meio da negação
alcançou-se a ação positiva.
Fora da violência - 1970

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