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CENTRO UNIVERSITÁRIO JORGE AMADO – UNIJORGE

LICENCIATURA EM LETRAS – LÍNGUA PORTUGUESA E


RESPECTIVAS LITERATURAS

AS MÚLTIPLAS FACES DA LÍRICA MODERNA: ANÁLISE LITERÁRIA SOBRE O


DESDOBRAMENTO DA POESIA DRUMMONDIANA NA MODERNIDADE E NA
CONTEMPORANEIDADE

MIRIAM SILVA DA PAIXÃO

Salvador
2017
MIRIAM SILVA DA PAIXÃO

AS MÚLTIPLAS FACES DA LÍRICA MODERNA: ANÁLISE LITERÁRIA SOBRE O


DESDOBRAMENTO DA POESIA DRUMMONDIANA NA MODERNIDADE E NA
CONTEMPORANEIDADE.

Análise literária apresentada a Profª


Luciana Sobral como requisito parcial
para obtenção de nota da A2 na
disciplina Teoria Literária, componente
curricular do curso de Letras – Língua
Portuguesa e respectivas Literaturas –
do Centro Universitário Jorge Amado –
Unijorge.

Salvador
2017
SUMÁRIO

RESUMO 3

1 A POESIA MODERNA: O LIRISMO


DE DRUMMOND 3

2 “POEMA DE SETE FACES” VERSUS


“COM LICENÇA POÉTICA” 5

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS 8

REFERÊNCIAS 9
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RESUMO

A análise literária a seguir tem como objetivo conduzir uma


reflexão sobre a lírica drummondiana, tomando-se como objeto de
análise o “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade.

Para tal, faz-se necessário apresentar as linhas gerais de


estudos da lírica moderna e uma leitura comparativa dos poemas
“Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado na
obra Alguma Poesia (1930) e “Com licença poética”, de Adélia Prado,
publicado na obra Bagagem (1993). Para esse fim, buscaremos
subsídios teóricos em apontamentos de Candido, Perrone-Moisés,
dentre outros estudiosos, possibilitando que se estabeleça um diálogo
entre si.

PALAVRAS-CHAVE: Poesia lírica. Modernidade. Carlos Drummond de Andrade.

1- A poesia moderna: o lirismo de Drummond

Os anos inicias do século XX foi marcado por movimentos literários e


artísticos que objetivava quebrar os moldes tradicionais e estéticos dos movimentos
literários dos anos antecessores. Essa nova tendência estilística que acompanhava
todas as transformações que a sociedade brasileira estava vivenciando foi intitulada
de Modernismo.

Para Cândido (1968), o

“[...] Modernismo abrange, em nossa literatura, três fatos intimamente ligados:


um movimento, uma estética e um período. O movimento surgiu em São
Paulo com a famosa Semana de Arte Moderna, 1922, e se ramificou depois
pelo País, tendo como finalidade principal superar a literatura vigente,
formada pelos restos do Naturalismo, Parnasianismo e do Simbolismo.
Correspondeu ele a uma teoria estética, nem sempre claramente delineada,
e muito menos unificada, mas que visava sobre tudo a orientar e definir uma
renovação, formulando em novos termos o seu momento mais dinâmico e
agressivo até mais ou menos 1930, abrindo-se a partir daí uma nova etapa
de maturação, cujo término se tem localizado cada vez mais no ano de 1945.”
(CANDIDO, 1968. p.7)
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Os poetas que fizeram parte desse movimento tiveram que adotar uma
postura mais crítica diante das antigas convenções artísticas como se fosse um
exercício motivacional para dificultar a espontaneidade e ingenuidade ante a poesia.

Segundo a autora Perrone-Moisés,

“Cada vez mais livres, através do século XIX e sobretudo do XX, os escritores
sentiram a necessidade de buscar individualmente suas razões de escrever,
e as razões de fazê-lo de determinada maneira. Decidiram estabelecer eles
mesmos seus princípios e valores, e passaram a desenvolver, paralelamente
às suas obras de criação, extensas obras de tipo teórico e crítico.”
(PERRONE-MOISÉS, 1998, p.11)

As considerações da autora nos levam a crê que seria possível propor


uma estética para a recepção da lírica moderna. Porem essa recepção, por sua vez,
demanda uma leitura auto reflexiva com várias idas ao texto poético.

Baseado nos expostos acima, pode-se dizer que Drummond empenhou-


se em trazer um diferencial em sua lírica, a liberdade de estética que muito marcou a
poesia drummondiana. Sua lírica é muito presente a metapoética, a leitura é feita em
camada para produzir os lugares do autor e do leitor.

Na obra Alguma Poesia, de Drummond, é possível encontrar referencias


dos estilos do Modernismo, ultrapassando a distração e ludicidade sem
fundamentação, trazendo a liberdade já adotada por outros poetas da época, mas que
delimitou particularmente a lírica drummondiana.

De acordo com Antônio Candido, a obra de Drummond é marcada pela


“subjetividade tirânica” (Candido, 1997, p.113) que causa inquietude “que o faz oscilar
entre o eu, o mundo e a arte, sempre descontente e contrafeito” (CANDIDO, 1997,
p.113).

E sobre esse viés que será apresentado a seguir uma breve análise do
“Poema de sete faces”, de Drummond, dialogado com a obra de Adélia Prado, “Com
licença poética”.
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2- “Poema de sete faces” versus “Com licença poética”

A obra Alguma Poesia (1930), de Drummond, reúne


poemas escritos em meados dos anos 20, um marco para a segunda
fase do Modernismo.

Seus poemas são marcados pelo pessimismo e ironia face


a vida e pelos assuntos cotidianos. As temáticas frequentes de suas
obras são a monotonia e os obstáculos da vida, as preocupações sociais
e políticas, a angustia da morte, a falta de perspectivas e o
desajustamento do homem. Dentre suas obras poéticas mais
importantes destacamos o “Poema de sete faces”, objeto de dialogismo
com o poema “Com licença poética”, de Adélia Prado, que foi escrito em
seu primeiro livro intitulado de Bagagem (1976).

Escritora contemporânea, Adélia compôs o seu estilo


poético caracterizado pelo vocabulário simples e pela linguagem
coloquial, adotando um lirismo de traços leve e suavemente marcante.

Assim como Drummond, Adélia também retratou o


cotidiano, porém distinguido pela fé cristã e pelo olhar feminino. Seu
poema “Com licença poética” tem como recurso intertextual o “Poema
de sete faces” do poeta modernista Drummond, que facilmente é
percebido pelo leitor que conhece o texto anterior. Esse recurso para
Koch

“[...] será explícita quando, no próprio texto, é feita menção à fonte de


intertexto, isto é, quando um texto ou um fragmento é citado, é atribuído ao
outro enunciado, ou seja, quando é reportado como tendo sido dito por outros
generalizadores.” (KOCH, 2008, p.28)

Mas Perrone Moisés entende por

“[...] intertextualidade este trabalho constante de cada texto com relação aos
outros textos, esse imenso e incessante diálogo entre obras que constitui a
literatura. Cada obra surge como uma voz (ou um novo conjunto de vozes)
que fará soar diferentemente as vozes anteriores, arrancando-lhes novas
entonações.” (PERRONE-MOISÉS, 2005, p.68)
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Ou seja, constantemente os textos dialogam com outros


possíveis textos.

Baseado nos poemas já mencionados nesse trabalho, é


possível estabelecer os aspectos intertextual e suas relações de sentido.
O poema de Drummond é estruturado em sete estrofes dando a ideia de
sete fragmentos do eu lírico, já em contrapartida o de Adélia apresenta-
se estruturado em apenas uma única estrofe. Porém, em ambos é
possível notar o sentimento de insatisfação com a realidade. Vejamos a
seguir os poemas:
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A partir da leitura do poema de Drummond, é possível


estabelecer que na primeira estrofe há uma insatisfação com a vida no
trecho “Vai, Carlos! Ser gauche na vida. ” Na segunda estrofe, é aflorado
os seus desejos sexuais, na quarta, ele demostra sentimento de solidão
no trecho: “O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não
conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do
bigode. ” Na quinta estrofe o eu lírico mostra a sua fraqueza, sentimento
de abandono e faz questionamentos a Deus acerca de sua existência:
“Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus, se
sabias que eu era fraco. ” E por fim, na sexta estrofe ele procura uma
solução para o seu mundo pessimista baseada em uma possível
mudança de nome, mas tudo que ele encontra é apenas uma rima:
“Mundo, mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma
rima, não seria uma solução. Mundo, mundo vasto mundo, mais vasto é
meu coração. ”
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Já no poema de Adélia, o eu lírico aceita o seu papel e


cumpre a sua sina. A mulher símbolo do sexo frágil na verdade é uma
figura forte, corajosa e aceita os desafios da vida. Aceita a exerce cargos
ocupados por homens e não se curva diante dos obstáculos. A mulher é
vista como a figura que se renova, se desdobra e não vive a lamentar.

A partir da leitura dos dois poemas, é possível percebe que


ambos estão pautados na crítica social, possibilitando uma reflexão das
atitudes que deverão ser tomadas para mudar essa realidade
vivenciada.

É válido lembrar que, no poema de Adélia é perceptível a


desconstrução do poema de Drummond, ambos estão dialogando em
sentido contrário.

3- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, é possível concluir que a obra


drummondiana brinca e joga com as palavras e representa uma
(re)leitura do fazer poético com a linguagem.

A leitura dialogada entre o “Poema de sete faces” e “Com


licença poética” nos leva uma aproximação ao texto anterior com o intuito
de desconstruí-lo baseado em sua estrutura. Apesar de muito próximos,
são poemas de aspectos distintos, porém de caráter bastante relevante.
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REFERENCIAS

1- ANDRADE C, Drummond. Algumas Poesias. Rio de Janeiro, Record, 2003.

2- CANDIDO, Antonio; CASTELO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira. 3


modernismo. São Paulo: Difel, 1968.

3- CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira parcista e a


transformação dos seus meios de vida. São Paulo, 8ª ed. Ed.34, 1997.

4- KOCH, Ingedore G. Vilaca; BENTO, Anna Christina; CAVALCANTE, Mônica


Magalhães. Intertextualidade: dialogo possíveis. 2ª ed. Ed. Cortez. São Paulo, 2008.

5- PRADO, A. Bagagem. São Paulo: Siciliana, 1993.

6- PERRONE-MOISÉS, Leyla. Atlas Literaturas. São Paulo: Companhia das Letras,


1998.

7- PERRONE-MOISÉS, Leyla. Texto, crítica, escrita. 3ª ed. Editora: Martins Fontes,


São Paulo, 2005.