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Recursos Materiais

e Patrimoniais
Autor: Prof. Herbert Gonçalves Espuny
Colaboradores: Profa. Solimar Garcia
Prof. André Galhardo Fernandes
Professor conteudista: Herbert Gonçalves Espuny

Administrador registrado no Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA‑SP), é graduado em Direito e foi
aprovado no XXV Exame de Ordem Unificado da OAB. É doutor na área de Engenharia de Produção, área de concentração
em Gestão de Sistemas de Operação e Linha de Pesquisa centrada nas Redes de Empresas e Planejamento da Produção, com
pesquisa específica na área de Produção de Conhecimento Estratégico (Inteligência) pela Universidade Paulista – UNIP. É
também mestre no Programa Interdisciplinar Adolescentes em Conflito com a Lei pela Universidade Bandeirante de São Paulo
e especialista nas áreas de Segurança Empresarial (Universidade Anhembi‑Morumbi), Segurança Pública (Fundação Escola
de Sociologia e Política de São Paulo), Inteligência de Segurança Pública (Universidade Sul de Santa Catarina), Educação a
Distância (Universidade Federal Fluminense) e História das Culturas Afro‑Brasileiras (FTC). Está se especializando em Direito
Constitucional e Administrativo e em Direito Corporativo e Compliance pela Escola Paulista de Direito (EPD).

É membro da Associação Brasileira dos Analistas de Inteligência Competitiva (Abraic) e da Associação Brasileira de
Profissionais de Segurança (ABSEG).

Também é coordenador do curso de pós‑graduação lato sensu em Engenharia de Produção da UNIP campus Paraíso
e do curso de Logística EaD, professor titular no curso de bacharelado em Administração (campus Alphaville) e professor
profissionalizante IV em cursos de graduação tecnológica (campus Alphaville) na Universidade Paulista (UNIP).

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

E77r Espuny, Herbert Gonçalves

Recursos Materiais e Patrimoniais. / Hebert Gonçalves Espuny. -


São Paulo: Editora Sol, 2019.
108 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXV, n. 2-059/19, ISSN 1517-9230.

1. Gestão de estoques. 2. Gestão de compras. 3. Gestão de


Patrimônio. I. Título

CDU 658.7

U501.53 – 19

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem
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Vice-Reitora de Graduação

Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Lucas Ricardi
Vitor Andrade
Sumário
Recursos Materiais e Patrimoniais

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................7

Unidade I
1 A ÁREA DA ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAIS E PATRIMÔNIO...........................................................9
1.1 Conceitos iniciais......................................................................................................................................9
1.2 Noções históricas da administração de materiais................................................................... 13
1.3 Visão sistêmica das organizações................................................................................................... 16
1.3.1 Definições e conceitos........................................................................................................................... 17
1.3.2 Recursos materiais e patrimoniais.................................................................................................... 17
1.3.3 Outros recursos: humano, capital e tecnológico........................................................................ 18
2 ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAIS............................................................................................................... 21
2.1 Conceitos gerais..................................................................................................................................... 21
2.2 Aspectos importantes.......................................................................................................................... 23
2.2.1 Responsabilidades éticas e sociais.................................................................................................... 23
2.2.2 Qualidade.................................................................................................................................................... 25

Unidade II
3 GESTÃO DE ESTOQUES................................................................................................................................... 29
3.1 Estoque de segurança ou estoque mínimo................................................................................ 29
3.2 Tipos de estoques.................................................................................................................................. 32
3.3 Aspectos importantes no gerenciamento de estoques......................................................... 34
3.4 Previsão de demanda........................................................................................................................... 38
4 CUSTOS DE ESTOQUES................................................................................................................................... 46
4.1 Custos de capital................................................................................................................................... 46
4.2 Outros custos.......................................................................................................................................... 48
4.2.1 Custo de armazenagem........................................................................................................................ 48
4.2.2 Custos com pessoal................................................................................................................................. 50
4.2.3 Custos com edificação........................................................................................................................... 51
4.2.4 Custos de manutenção.......................................................................................................................... 51
4.3 Ferramentas de otimização............................................................................................................... 51
4.3.1 Just in Time – JIT...................................................................................................................................... 51
4.3.2 Kanban......................................................................................................................................................... 56
Unidade III
5 GESTÃO DE COMPRAS.................................................................................................................................... 62
5.1 Pontos principais da atividade de compras................................................................................ 62
5.2 Objetivos da atividade de compras................................................................................................ 66
5.3 Dicas para uma boa gestão de compras...................................................................................... 68
6 COMPRAS NA ÁREA PÚBLICA..................................................................................................................... 70
6.1 Tipos de licitação................................................................................................................................... 72
6.2 Modalidades de licitação.................................................................................................................... 72

Unidade IV
7 PONTOS COMPLEMENTARES DA GESTÃO DE PATRIMÔNIO............................................................ 78
7.1 Inventário................................................................................................................................................. 79
7.2 Propriedade intelectual....................................................................................................................... 80
7.2.1 Proteção sui generis............................................................................................................................... 85
8 BOAS PRÁTICAS E ÉTICA NOS NEGÓCIOS.............................................................................................. 86
8.1 Governança corporativa..................................................................................................................... 86
8.2 Compliance.............................................................................................................................................. 88
8.3 Ombudsman e outros.......................................................................................................................... 90
APRESENTAÇÃO

O mercado e as organizações passam por transformações profundas: novas técnicas, novas formas
de desenvolvimento das diversas formas de gestão e a busca constante pela qualidade e excelência.

O gestor de materiais e patrimônio trabalha particularmente numa área multidisciplinar. Princípios


de contabilidade, de direito e de administração estão na base de quem cuida dessa área.

O presente material permite que o aluno aprenda os princípios básicos de cada um desses temas,
além de permitir que se aprofunde – através das diversas referências – na área que desejar e/ou
necessitar. O material traz também uma série de conceitos importantes, que fazem parte da construção
da imagem da organização no mercado, como o respeito estrito à legislação do consumidor e aos
princípios da governança corporativa e do compliance. O aluno fará uma imersão nos temas relevantes
desta disciplina, que vão capacitá‑lo a enfrentar um mercado competitivo e dinâmico.

INTRODUÇÃO

De uma forma geral, todas as áreas de gestão estão vinculadas a algumas atividades básicas. Tais
atividades são documentadas e estudadas pela ciência da administração.

Há várias nomenclaturas, mas a ideia central está baseada nos três passos que todo gestor
precisa dominar:

• Planejar: o planejamento está baseado naquilo que se espera da atividade, no ponto em que se
pretende chegar. O bom planejamento permite chegar ao objetivo de forma mais rápida e efetiva.

• Executar: é o próximo passo. Após planejar, seguindo os caminhos previamente traçados, o gestor
deve dar andamento ao que previamente foi definido.

• Controlar: o controle está relacionado às fases anteriores. O planejamento foi bem


realizado? Há pontos em que pode ser corrigido? Após analisar o planejamento, deve‑se
analisar também a execução. Os passos foram executados conforme o planejado? Algo
deve ser tirado ou acrescentado?

Enfim, o gestor deve levar em conta que todas as atividades estão relacionadas aos três pilares
mencionados. Neste livro‑texto, o gestor obterá subsídios importantes para planejar, executar e controlar
a importante área de materiais e patrimônio.

Detalhes essenciais: o conhecimento não se esgota. Além das informações obtidas neste material,
lembre‑se de consultar os links! Outro detalhe importante: as coisas mudam! Atualize‑se constantemente!

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RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

Unidade I
1 A ÁREA DA ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAIS E PATRIMÔNIO

É importante saber que a área da Administração de Materiais e Patrimônio tem relação com alguns
conceitos importantes. A primeira ideia que o nome sugere é a de planejar, executar e controlar a área
de materiais e patrimônio. Substituir a palavra administração pelos verbos planejar, executar e controlar
caracteriza bem esta atividade. Observe estes conceitos:

• Planejar para que o dia a dia da empresa não se ressinta com a falta de materiais, por exemplo,
para a fabricação de seus produtos.

• Executar é colocar em prática o que foi estabelecido no planejamento.

• Controlar é verificar se o planejamento está correto e se a execução também transcorreu sem


qualquer problema. Se houve qualquer erro no planejamento ou na execução, o controle entra em
cena, no sentido de corrigir o que for pertinente.

É necessário, também, compreender que a vida da organização depende, em boa parte, de providências
adequadas por parte do gestor nessa área: providências mal tomadas, como estoques desorganizados,
compras fora de prazos adequados e seleção deficiente de fornecedores podem, efetivamente, causar a
perda de clientes e transformar qualquer empreendimento num grande fracasso.

Para evitar isso, esta disciplina proporcionará os conceitos e as ferramentas adequadas para uma
excelente gestão de materiais e patrimônio! Mãos à obra!

1.1 Conceitos iniciais

A área abordada neste material está vinculada à atividade na “elaboração de um pedido de compras, ou
ainda à determinação assertiva das quantidades adquiridas, evitando‑se perdas por aquisições excessivas ou
por desperdício de oportunidades devido a reposições insuficientes” (HARA, 2012, p. 13). Isso quer dizer que o
gestor precisa saber quantificar adequadamente o que comprar, para usar e estocar de forma racional.

Administrar patrimônio e materiais é entender a importância desta área para a organização e,


consequentemente, desenvolver uma rotina que propicie um funcionamento harmonizado e que atenda às
necessidades. Um dos pontos mais importantes da administração de estoques é controlar seus níveis (POZO, 2010,
p. 25). Esse processo influencia razoavelmente no desempenho e no resultado financeiro de toda a organização.

O controle de estoque recebe informações dos diversos setores da organização e, a partir de tais informações,
consegue fazer o planejamento da área. Por exemplo, se a organização for uma indústria, o planejamento da
9
Unidade I

produção é fundamental, pois envolve a compra de insumos, a programação do que será produzido e a própria
comercialização dos produtos.

A área de Planejamento e Controle da Produção (PCP) deve estar constantemente monitorada pelo
gestor de patrimônio e materiais, pois “um planejamento feito sem os devidos cuidados impossibilita a
adequada coordenação das atividades afins” (POZO, 2010, p. 99). Em outras palavras, imagine um gestor
que resolve adquirir um lote maior de insumos para um determinado produto que está sendo fabricado,
apenas porque há uma promoção no preço desse insumo, sem pensar em outros fatores, como:

• local para o estoque adequado desse insumo;

• seu prazo de validade;

• possível substituição do item em função de atualização ou modernização do produto final.

Analisando apenas esses aspectos, entre outros possíveis, será que foi um bom negócio? Será que a
economia feita no desconto do insumo não seria “perdida” com possíveis problemas ocasionados pelos
outros itens analisados?

Como podemos perceber, a área de Administração de Materiais e Patrimônio exige que o gestor tenha
visão sistêmica, ou seja, que não se concentre apenas em itens isolados. Essa visão sistêmica, ou visão do
todo, permite evitar erros que podem ocasionar perda de faturamento ou gastos excessivos e desnecessários.

Pontos importantes a serem sempre observados:

• Administrar materiais e patrimônio é uma atividade contínua, que exige conhecimentos específicos.

• O gestor deve utilizar o planejamento como instrumento para minimizar problemas nas áreas que
sustentam a organização, como a de suprimentos e fabricação.

• O planejamento, a execução e o controle devem ser utilizados harmonicamente, um


complementando o outro.

Saiba mais

Planejar é uma das mais importantes atividades da administração. Muito


do sucesso de cada área da organização depende de um bom planejamento.
Sobre o tema, leia o texto a seguir:

SOARES, D. Qual a importância do planejamento? Por que


planejar? Administradores, 11 dez. 2016. Disponível em: <http://www.
administradores.com.br/artigos/empreendedorismo/qual‑a‑importancia‑
do‑planejamento‑por‑que‑planejar/100730/>. Acesso em: 12 dez. 2018.

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RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

Observe a figura a seguir:

Figura 1 – Exemplo de supermercado

Observe que se trata de um supermercado. Veja a distribuição das mercadorias, por setores e a
quantidade disponível de cada um dos itens. Essa distribuição e o estoque ali demonstrado não são
aleatórios. O gestor responsável deve estar atento para uma série de detalhes: a quantidade média de
vendas (para que o estoque seja adequado), o prazo de validade de cada mercadoria, a devida exposição
no cenário de vendas, entre outras preocupações. O exemplo dado é apenas para caracterizar o que
ocorre no campo do varejo.

Com as devidas variações e especificidades de cada área, os estudos também são importantes tanto
na indústria como na prestação de serviços.

Na indústria, por exemplo, há estoques de diversas naturezas: há estoques de insumos, há estoques


de produtos semiacabados (quando falta, por exemplo, uma peça específica para serem completados),
há estoques de produtos acabados (prontos para serem entregues aos clientes), entre outros tipos de
estoques específicos.

Na área de serviços, de acordo com as características da organização, pode haver estoques de


máquinas e equipamentos utilizados num determinado serviço, além de insumos para eles e materiais
necessários à prestação de determinado serviço (por exemplo, materiais de limpeza).

Agora, observe a figura seguir:


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Unidade I

Figura 2 – Exemplo de indústria

A figura mostra um exemplo de indústria, no caso, de produtos de alta tecnologia. Observe que, nesse
caso, as preocupações do gestor serão tanto com os estoques dos insumos utilizados na fabricação de
cada produto como com o estoque de cada produto fabricado que será comercializado.

E, a propósito, insumo é todo o produto necessário para a fabricação do produto final. Por exemplo,
determinada fábrica produz refresco de laranja. Quais são os insumos? Provavelmente, laranjas + água
+ açúcar. Pode haver conservantes, também.

De forma geral, no mercado, insumo muitas vezes é o nome que se dá para a matéria‑prima. Há,
entretanto, aqueles que preferem distinguir um do outro: “matéria‑prima é o material base de um
produto. Insumo é o conjunto de todos os ‘fatores’ necessários para a fabricação de um produto” (PAULA,
2013). Em outras palavras, matéria‑prima faz parte do produto: por exemplo, o algodão, em relação ao
tecido, ou a laranja, para o exemplo anterior do suco de laranja. Já o insumo é um componente, como a
água para o refresco de laranja.

Observe aqui as diferenças: para o refresco de laranja (por exemplo, feito de água, laranjas e açúcar),
a água e o açúcar são certamente os insumos. E a laranja? Há autores que entendem tratar‑se de
matéria‑prima. Outros tratam por insumo, também. Portanto, o aluno precisa tomar o cuidado de
identificar o que o autor quer dizer.

Na língua portuguesa, insumo e matéria‑prima também têm definições parecidas. Observe as


definições a seguir:

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RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

Quadro 1 – Definições

Insumo Matéria‑prima
1 Substância bruta principal, insumo básico
Todo tipo de elemento que entra no a partir do qual se fabrica determinado
processo de produção de mercadorias e/ou produto ou bem.
serviços, matérias‑primas, equipamentos, 2 FIG Aquilo a partir do qual se inicia
capital, trabalho humano etc.; input. alguma coisa que ainda se encontra em
estado bruto; base, fundamento.

Fonte: Michaelis (1998).

Esses são apenas alguns conceitos básicos. No transcorrer das unidades que compõem esta disciplina,
o aluno encontrará os principais conceitos de gestão que parametrizam a administração de materiais
e patrimônio, além de ferramentas que possam auxiliar nesse processo, como fórmulas e cálculos que
auxiliam na gestão de estoques, por exemplo.

Lembrete

Gerir materiais é monitorar para nunca faltar o necessário, mas também


evitar qualquer desperdício. A sazonalidade é um dos maiores desafios para
a gestão de materiais. Um exemplo é a venda de sorvetes nas diferenças no
verão e no inverno.

1.2 Noções históricas da administração de materiais

Administrar materiais e patrimônio não é exatamente uma atividade nova. Desde os tempos mais
antigos há notícias de obras, grandes construções e atividades que necessitavam de princípios logísticos
para serem viabilizadas. Note‑se que para cada ramo de atividade, a administração sempre foi necessária.

A história da Administração iniciou‑se num tempo muito remoto, mais


precisamente no ano 5.000 a.C, na Suméria, quando os antigos sumerianos
procuravam melhorar a maneira de resolver seus problemas práticos,
exercitando assim a arte de administrar.

Depois no Egito, Ptolomeu dimensionou um sistema econômico planejado


que não poderia ter‑se operacionalizado sem uma administração pública
sistemática e organizada.

Em seguida, na China de 500 a.C, a necessidade de adotar um sistema


organizado de governo para o império, a Constituição de Chow, com
seus oito regulamentos e as Regras de Administração Pública de
Confúcio exemplificam a tentativa chinesa de definir regras e princípios
de administração.

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Unidade I

Apontam‑se, ainda, outras raízes históricas. As instituições otomanas, pela


forma como eram administrados seus grandes feudos. Os prelados católicos, já
na Idade Média, destacando‑se como administradores natos. A Alemanha e a
Áustria, de 1550 a 1700, através do aparecimento de um grupo de professores
e administradores públicos chamados os fiscalistas ou cameralistas. Os
mercantilistas ou fisiocratas franceses, que valorizavam a riqueza física e o
Estado, pois ao lado das reformas fiscais preconizavam uma administração
sistemática, especialmente no setor público (GOMES, 2005).

Os sumérios foram pioneiros por desenvolverem “barragens para impedir o avanço da água dos
rios durante o período de cheia e por construírem reservatórios para armazenamento de água e canais
de irrigação para utilização na agricultura e para o consumo em suas cidades” (SILVA, 2018). Essas
atividades envolviam a administração adequada dos materiais utilizados nesses empreendimentos.

No Antigo Egito, os sacerdotes exerciam a função de administradores das riquezas dos faraós: “Os
sacerdotes tinham enorme prestígio e poder, tanto espiritual como material, pois administravam as
riquezas e os bens dos grandes e ricos templos. Eram também os sábios do Egito” (SILVA, 2009).

A China possui inúmeros exemplos em que a administração em geral e a administração de materiais


e patrimônio, em particular, foram extremamente significativas, muito especialmente na construção de
algumas obras, como a Muralha da China: “A gigantesca muralha da China foi construída no século III a.C.,
na dinastia Tsing, para defender o império chinês das invasões dos hunos. Ela mede aproximadamente
2.400 km de comprimento e atualmente se tornou uma grande atração turística” (SILVA, 2009).

Assim, a administração de materiais passou por várias fases na história da humanidade. Três dessas
fases merecem ainda destaque:

A Revolução Industrial, meados dos séc. XVIII e XIX, acirrou a concorrência de


mercado e sofisticou as operações de comercialização dos produtos, fazendo
com que “compras” e “estoques” ganhassem maior importância. Este período
foi marcado por modificações profundas nos métodos do sistema de fabricação
e estocagem em maior escala. O trabalho, até então, totalmente artesanal foi
em parte substituído pelas máquinas, fazendo com a produção evoluísse para
[que] um estágio tecnologicamente mais avançado e os estoques passassem a
ser vistos sob outro prisma pelas administrações. A constante evolução fabril,
o consumo, as exigências dos consumidores, o mercado concorrente e novas
tecnologias deram novo impulso à Administração de Materiais, fazendo com
que a mesma fosse vista como uma arte e uma ciência das mais importantes
para o alcance dos objetivos de uma organização seja ela qualquer que fosse
(FRANCISCHINI; GURGEL, 2002).

Além da Revolução Industrial, as fases da Primeira e Segunda Guerras Mundiais foram particularmente
importantes no tocante aos aspectos logísticos em geral e nos aspectos de administração de materiais
em particular, sejam materiais bélicos, sejam materiais de apoio para as tropas.
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RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

Mais recentemente, Francischini e Gurgel (2002) estabeleceram algumas etapas importantes


para a administração profissional de materiais nas organizações. Resgatando alguns conceitos
mais modernos, observe‑se que as fases especificadas a seguir não são necessariamente históricas,
pois expressam situações que podem ser vividas por qualquer empresa atual, dependendo da
sua estrutura:

• Fase da atividade exercida pelo proprietário: essa fase representa aquele que por conta
própria fazia praticamente tudo; logo, a parte de administração de materiais também era exercida
somente pelo dono. Comprar era a essência do negócio.

• Fase das compras integradas à produção: essa fase representa um período em que as compras
estavam tão somente ligadas à área produtiva.

• Coordenação dos serviços envolvendo materiais: essa fase representa um avanço, pois a área
de compras passa a ter uma visão sistêmica da organização. Ela começa com o planejamento
das matérias‑primas e a entrega dos produtos acabados, em uma organização independente da
área produtiva.

• Fase da agregação à área logística: a área de compras passa a fazer parte das atividades
logísticas, inclusive dando suporte também ao Marketing.

• Fase da administração de materiais: representa a fase atual. A administração de materiais está


cada vez mais especializada.

O gestor deve observar em que fase a organização se encontra e se é possível promover


melhorias pertinentes. Por exemplo, se uma determinada empresa está numa fase de crescimento
e ainda se as compras de materiais estão nas mãos de uma única pessoa, tal situação pode
representar um gargalo que prejudica a administração do setor e, consequentemente, de toda
a organização.

Saiba mais

Você sabe o que é um gargalo? Nas empresas, é algo que atrapalha a


administração. Leia o artigo:

BUZZI, E. M.; RIBEIRO, M. E. O. R.; CARLESSO, R. E. C. A Teoria


das Restrições na identificação de gargalos no setor produtivo : a
indústria Uniformes 1000 Cores. [s.d.]. Disponível em: <http://faflor.
com.br/revistas/refaf/index.php/refaf/article/viewFile/107/pdf>.
Acesso em: 28 out. 2018.

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Unidade I

1.3 Visão sistêmica das organizações

Visão sistêmica tem a ver com a visão geral, a visão do todo. É muito importante que o gestor
aprenda a analisar qualquer problema dentro desse conceito, senão, corre o risco de não adotar a
solução correta. Por exemplo: houve um determinado fato dentro da empresa com a participação de
quatro funcionários. É importante o gestor analisar os relatos dos quatro envolvidos, principalmente
se houver diferentes interesses envolvidos, como uns acusando outros de irregularidades. Se o
gestor ouvir apenas um funcionário, ou uma das partes, pode deixar de tomar as providências
adequadas que o problema requer.

Karl Ludwig von Bertalanffy (1901‑1972) foi o primeiro autor na área da Administração a conceituar
a visão sistêmica, baseado na Teoria dos Sistemas. Bertalanffy foi biólogo e desenvolveu a Teoria Geral
dos Sistemas, que

[...] constitui‑se na busca da melhor compreensão e unificação dos


conhecimentos de uma ampla variedade de áreas altamente especializadas.
Para ele, não somente os pontos de vistas e os aspectos gerais são iguais
em diferentes ciências, mas frequentemente encontramos leis formalmente
idênticas em campos diferentes, que se aplicam a qualquer sistema,
independentemente de suas propriedades específicas (COLOSSI; BAADE,
2015, p. 11).

Derivada das concepções de Bertalanffy, a visão sistêmica busca entender a organização como um
todo. Oderich, Avelino e Queiroz (2015, p. 32) comentam:

Sistema é um “todo”, conjunto de elementos inter‑relacionados. Existem


sistemas orgânicos, a exemplo do corpo humano, e sistemas inorgânicos,
como um avião. Existem sistemas sociais, por exemplo, bairros, cidades,
estados, países. Elementos agrupados por quaisquer afinidades formam
subsistemas dentro de sistemas maiores, que, por sua vez, integram
subsistemas de outros sistemas. O organismo vivo é a metáfora para a visão
sistêmica, não mecanicista.

O gestor da área de materiais e patrimônio precisa trabalhar com visão sistêmica, pois suas decisões
envolvem uma série de vertentes da organização, que interagem constantemente.

Essa visão sistêmica busca integrar os recursos de várias áreas, tais como os recursos materiais, os
recursos patrimoniais, os recursos humanos e os recursos tecnológicos, entre outros.

A visão sistêmica é importante porque não adiantaria, por exemplo, ter equipamentos com alta
tecnologia e de última geração (recursos materiais) se não houvesse pessoas qualificadas (recursos
humanos) para operá‑los, nem a organização contratar recursos humanos supercompetentes em operar
recursos tecnológicos modernos se a organização não dispõe e não pretender adquirir tais recursos.

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RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

1.3.1 Definições e conceitos

Os bens de uma forma geral podem ser divididos em bens tangíveis e bens intangíveis, como pode ser
observado no quadro a seguir. Os bens tangíveis são aqueles que podem ser tocados, ou seja, possuem
materialidade. Já os bens intangíveis são incorpóreos.

Os recursos materiais da organização podem ser definidos como os bens tangíveis que ela possui e
com os quais trabalha para desenvolver a sua produção.

Aqui cabe uma observação: normalmente, o gestor de materiais e patrimônio pode gerir tanto
os bens materiais como imateriais. Isso depende muito do nível em que esteja inserido o gestor no
contexto da organização. Por exemplo, uma editora trabalha com os direitos autorais, tanto dos autores
que fomentam as obras como das edições patrocinadas pela editora. Esses são itens incorpóreos dos
quais, muitas vezes, o gestor de patrimônio é o responsável pela administração. O mesmo ocorre com
indústrias que trabalhem com produtos patenteados ou licenciados.

Mais adiante, serão abordadas essas formas de patrimônio, inclusive a legislação específica com a
qual o gestor deve estar sempre atualizado, pois as leis e os regramentos mudam constantemente.

Quadro 2 – Bens tangíveis e intangíveis

Bens tangíveis Bens intangíveis


Também conhecidos como bens materiais, corpóreos.
Também conhecidos como bens imateriais, incorpóreos.
Características: podem ser tocados. Possuem concretude
física. Exemplos: objetos, automóveis, prédios etc. Características: não podem ser tocados. Não possuem
concretude física. Exemplos: direitos autorais, softwares etc.
Os bens tangíveis podem ser móveis ou imóveis.

Os exemplos demonstrados no quadro explicam a divisão entre aqueles tangíveis e intangíveis.


Observe, ainda, que os bens tangíveis podem fazer parte tanto dos aspectos materiais como dos aspectos
patrimoniais da organização. Por exemplo, o prédio próprio em que está instalada a empresa é um
recurso patrimonial. Já o estoque de matéria‑prima é um recurso material. Isso será mais bem explicado
logo a seguir.

1.3.2 Recursos materiais e patrimoniais

Ainda a respeito de conceitos iniciais, é importante que o aluno saiba que alguns autores podem
não diferenciar recursos materiais daqueles considerados patrimoniais. Alguns tendem a utilizar o termo
materiais para classificar todos os bens tangíveis de uma organização.

Por exemplo, Brandão (2010) classifica os recursos materiais da seguinte maneira: “são os recursos
físicos, como edifícios, prédios, máquinas, equipamentos, instalações, ferramentas, matérias‑primas etc.”.
Ou seja, é o conjunto do que se possui como propriedade e do que se possui como instrumentos para a
produção (matéria‑prima, equipamentos e máquinas). Assim, para essa autora não há diferença entre o
que se pode classificar como material ou patrimonial.
17
Unidade I

Apesar disso, outros autores preferem a distinção entre materiais e patrimoniais, que permite uma
análise mais diferenciada. Observe o quadro a seguir:

Quadro 3 – Recursos

Definição: sempre escassos. Precisam ser administrados.


Tipos: materiais, patrimoniais, humanos, tecnológicos e de capital.
Exemplos de recursos materiais Exemplos de recursos patrimoniais

• Matérias‑primas • Prédios
— Materiais de uso cotidiano • Galpões
— Produtos acabados • Máquinas e equipamentos
— Produtos semiacabados • Veículos
— Materiais auxiliares — Terrenos

Adaptado de: Felini (2013, p. 10).

Para completar o raciocínio, pode‑se considerar, ainda, que alguns bens que fazem parte do
patrimônio da organização podem não ser exatamente tangíveis (ou materiais), por exemplo,
a marca ou uma patente. Nesse caso, tais bens são intangíveis, mas fazem parte dos recursos
patrimoniais da empresa. Por causa desse exemplo, a utilização da divisão de bens materiais e
patrimoniais pode evitar confusões.

Além daqueles já citados, há os recursos humanos, tecnológicos e de capital.

Observação

O gestor de materiais e patrimônio precisa conhecer aplicações de


Administração e Contabilidade. Dependendo do tipo da organização, o
gestor pode ter que administrar níveis variados de estoques de materiais.

1.3.3 Outros recursos: humano, capital e tecnológico

Além da gestão dos recursos materiais e patrimoniais, há outros recursos que a organização precisa
gerir. Tais recursos estão vinculados a outras gestões e/ou diretorias da organização. São eles:

Recursos Humanos

Área tradicional nas organizações, Recursos Humanos é a que trata de pessoas. Especialistas na área
costumam enfatizar que as pessoas podem ser meramente tratadas como parte da organização ou de
forma mais abrangente, como parceiros:

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RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

Os empregados podem ser tratados como recursos produtivos das


organizações: os chamados recursos humanos. Como recursos, eles precisam
ser administrados, o que envolve planejamento, organização, direção e
controle de suas atividades, já que são considerados sujeitos passivos da
ação organizacional. Daí a necessidade de administrar os recursos humanos
para obter deles o máximo rendimento possível [...].

Mas as pessoas podem ser visualizadas como parceiros das organizações.


Como tais, elas são fornecedoras de conhecimentos, habilidades, capacidades
e, sobretudo, o mais importante aporte para as organizações – a inteligência,
que proporciona decisões racionais e imprime o significado e rumo aos
objetivos globais. Desse modo, as pessoas constituem o capital intelectual
da organização (CHIAVENATO, 1999, p. 7).

Observe que apesar do nome “recursos”, quando se trata da área humana, os gestores modernos tendem
a considerar os funcionários como colaboradores que, envolvidos na empresa, conseguem alcançar mais
facilmente os objetivos. Várias são as funções do Departamento de Recursos Humanos (RH) das organizações.
Os mais comuns são: seleção, recrutamento, treinamento e reciclagem, além de tratar da parte documental
dos funcionários (registros e baixas nas carteiras de trabalho, documentos comprobatórios de estado civil,
formação etc.).

Capital

Sinônimo de dinheiro. O recurso de capital é o dinheiro que a organização dispõe para investimentos
e/ou manutenção. Contabilmente, ou seja, pelos princípios utilizados pela Contabilidade, o item que
reúne o capital das empresas é o do ativo circulante (RIBEIRO, 2011, p. 34). O capital pode ser representado
pelo dinheiro físico (o que está em caixa na própria empresa), o que está disponível em contas bancárias
ou o que está em investimentos (aplicações financeiras) com liquidez imediata.

Normalmente, os recursos de capital são gerenciados pelo departamento financeiro da


organização. O gestor de finanças (que pode ser o diretor, o gerente ou o encarregado, conforme
o organograma e/ou porte da empresa) é a quem compete planejar os recursos financeiros.
Muitos dos projetos do gestor de materiais, como a aquisição de estoques e/ou equipamentos,
devem ser planejados e executados com o setor financeiro da empresa para terem viabilidade
(conseguirem alcançar os objetivos).

Tecnológico

Os recursos tecnológicos são aqueles com os quais as organizações conseguem desenvolver tanto as
suas atividades‑fim como as atividades‑meio de forma mais eficaz e eficiente.

Em outras palavras, a tecnologia pode dinamizar os processos produtivos e, também, a parte


administrativa, por exemplo.

19
Unidade I

Atualmente as empresas vêm investindo na tecnologia, sendo a mesma uma


ferramenta importante para facilitar e agilizar nos processos administrativos
dentro das organizações reduzindo custos em longo prazo. Na tecnologia,
quanto mais conhecimento produzido, mais rápido é sua evolução. Com a
inovação tecnológica é possível oferecer um produto/serviço de qualidade.

O crescimento dos negócios vem acontecendo por causa desta ferramenta


que é utilizada para planejar, organizar e controlar os funcionamentos, se
utilizados adequadamente. Com isto pode‑se minimizar as possíveis falhas
que podem ocorrer na empresa (FRANÇA, 2013).

O gestor de materiais e patrimônio deve trabalhar, também, em consonância com o gestor


de tecnologia. Normalmente, a Tecnologia da Informação (TI) é um setor que se envolve com toda
a organização, pois desenvolve controles de entrada e saída de materiais e também cadastro de
fornecedores e clientes, entre outras importantes funcionalidades.

Leia as definições de eficiência e eficácia (MARQUES, 2018):

Entenda o que é eficiência

A eficiência é o processo de executar aquilo que foi planejado, ou seja, é


colocar a “mão na massa”. Considere, por exemplo, o processo de construção
de uma casa: o tempo que demorou para a obra ser concluída, a quantia
gasta, e equação entre recursos planejados e os usados, entre outros pontos.
Caso você tenha conseguido fazer tudo a tempo, gastando menos tempo e
recursos, então você foi eficiente.

Um líder eficiente é capaz de coordenar, planejar e organizar o trabalho


de seus subordinados da melhor maneira, respeitando a competência
de cada um. A capacidade de conduzir pessoas com eficiência é um dos
grandes diferenciais competitivos do mercado, pois garante o aumento da
produtividade, redução dos conflitos e aceleração dos resultados.

Entenda o que é eficácia

Ser eficaz é conseguir atingir seu objetivo. Utilizando o mesmo exemplo


da construção, se você conseguiu construir a sua casa e finalizar a obra da
maneira como foi planejada, então você foi eficaz. A eficácia está relacionada
diretamente ao resultado.

Quando um líder é eficaz, ele impulsiona sua equipe a alcançar os objetivos


da organização. Desse modo, certamente ele irá tornar a equipe mais eficaz
e melhor preparada para enfrentar os desafios.

20
RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

Observação

Todas as tarefas e atividades precisam ser empreendidas com foco na


eficiência e na eficácia.

2 ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAIS

Vários são os tipos de materiais que o gestor vai administrar na organização. Um dos mais importantes
é o relacionado à gestão de estoques. O estoque exerce uma importância fundamental na organização,
na medida em que propicia uma segurança no desenvolvimento das atividades.

2.1 Conceitos gerais

Um estoque mal dimensionado e mal administrado pode trazer vários prejuízos:

• Prejuízo por estocar quantidade desnecessária de mercadorias: nesse caso, o excesso de mercadorias
no estoque é capital imobilizado que poderia ser aplicado em outras áreas. Além disso, estoque
envolve despesas, com armazenamento, limpeza e segurança, por exemplo.

• Prejuízo por estocar quantidade que não supra a demanda. Nesse caso, em vez do excesso, o
estoque poderá dar prejuízo pela falta de mercadorias: a organização deixa de vender porque
não dispõe do produto. Isso pode gerar perda definitiva de clientes. Além disso, há questões
relacionadas às demandas sazonais. São aquelas demandas que ocorrem somente em períodos
específicos ao longo do ano. Se o gestor não se preparar para elas, certamente perderá clientes e
poderá perder mercado.

• Além do que já foi citado, em relação ao estoque de produtos a serem comercializados, o gestor
de materiais precisa se preocupar, também, com os estoques de insumos, ou seja, os componentes
que são utilizados para a confecção de seus produtos. Há organizações com um número grande
de insumos. Imagine uma indústria automobilística: quantos insumos, isto é, quantas partes de
um veículo são necessárias para que ele tome a forma final? Milhares de itens.

• Outros itens também podem fazer parte da rotina do gestor de materiais: itens necessários à
manutenção cotidiana da organização, como materiais de limpeza, produtos utilizados para a
manutenção de máquinas e equipamentos, uniformes de determinados funcionários, produtos
alimentícios para os setores de alimentação da empresa, produtos farmacêuticos ou médicos, para
eventuais setores de emergência ou enfermagem, entre outros.

De uma forma geral, as preocupações na área de administração de materiais podem ser resumidas
em quatro itens fundamentais, que estão expressos a seguir:

21
Unidade I

Quadro 4 – Atividades primárias relacionadas com a gestão de estoques

C Compras P Pedidos
Registro do pedido/ordem de compra ou prestação de
Especificação correta dos pedidos de compra. serviço.
Avaliação, seleção e monitoramento dos fornecedores. Verificação da disponibilidade dos produtos requeridos
Definição das condições de compras: momento (quando), no estoque.
quantidade (quanto) e local de entrega (onde). Conferência do produto separado com ordem do
Definição das formas de pagamento. pedido solicitado antes de seu processo de expedição/
distribuição.
Acompanhamento do comportamento da demanda
juntamente com o estoque. Rastreamento e acompanhamento do pedido até o
momento da entrega ao cliente.
M Manutenção estoques D Distribuição
Cálculo dos níveis ideais de estoque.
Definição do modal de transportes em função das
Definição dos parâmetros de ressuprimento do estoque. disponibilidades e custos.
Monitoramento e controle dos níveis de estoques, bem Estudos de viabilidade de transporte intermodal.
como inventário físico‑financeiro.
Definição das melhores rotas e trajetos a partir de
Classificação dos materiais (curva ABC). cálculos de minimização de distância, tempo e custos.
Monitoramento da saída e da entrada de materiais. Cálculo dos custos de frete e tempo de transporte.
Definição de indicadores gerenciais.

Fonte: Tadeu e Rocha (2017, p. 23).

A área de Compras é a que alimenta a organização. Os fornecedores devem ser selecionados por
alguns critérios específicos (por exemplo, pelas certificações de qualidade que possui). Além disso, o
gestor de materiais pode fazer visitas técnicas aos fornecedores habituais, com o objetivo de verificar
se eles produzem de forma condizente. Os fornecedores devem ser avaliados constantemente, no
que se refere à qualidade dos produtos que entregam, na pontualidade do atendimento e, também
um item muito importante, nas situações em que há uma necessidade urgente, como uma situação
de demanda inesperada.

Por outro lado, outros aspectos também devem ser avaliados com o devido cuidado: a especificação
correta dos pedidos de compra. O fornecedor deve receber a informação correta, para atender
corretamente o pedido. Outras definições, como as formas de pagamento e os prazos, devem ser
previamente acertados.

Outro aspecto a ser acompanhado pelo gestor de materiais é em relação aos pedidos que a empresa
recebe. Todo e qualquer pedido deve ser devidamente registrado. Antes de aceitar o pedido, a empresa
deve verificar se há disponibilidade do produto solicitado; se não houver disponibilidade imediata,
quando haverá, para que a entrega possa ser marcada com segurança. Além disso, todo pedido deve ser
expedido sob a fiscalização – direta ou indireta – do gestor e rastreado até a entrega ao cliente.

A manutenção dos estoques é fundamental. Há cálculos específicos para que isso possa ser realizado
com segurança, além de outros indicadores que serão abordados mais adiante.

22
RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

Outros conceitos importantes, como o Just in Time (JIT), o Kanban, entre outros, também
serão abordados na seção de Controle de Estoques, que complementarão alguns dos temas
abordados até aqui.

Completando os quatro itens, a distribuição deve e precisa ser acompanhada. A entrega adequada
do pedido ao cliente muitas vezes está relacionada à utilização correta de um determinado modal.
Via de regra há o transporte rodoviário para cumprir essa missão. Contudo, há regiões nas quais a
utilização de outro modal é necessária, como no interior do estado do Amazonas. Nesses casos, o estudo
antecipado de gastos extras com as entregas precisa ser desenvolvido para que a organização não arque
com eventuais prejuízos.

2.2 Aspectos importantes

A seguir serão abordados alguns tópicos que o gestor de materiais e patrimônio deve ficar atento.
A administração moderna trouxe novos enfoques que poderão auxiliar na imagem da empresa no
mercado, além de produzir relações de confiança entre os colaboradores e clientes da empresa.

2.2.1 Responsabilidades éticas e sociais

Um aspecto importante do qual nenhum gestor pode abrir mão é o respeito às responsabilidades
éticas e sociais. Sobre uma organização moderna, Marques (2017) afirma:

No mundo dos negócios cada vez mais está se falando sobre a questão
da ética. As empresas que querem ser bem-sucedidas e ter uma marca
reconhecida como confiável e honesta, estão orientando sua cultura
organizacional para um modelo ético que respeite os padrões morais
da sociedade.

Além das questões éticas, que envolvem negócios corretos, sem negociatas ou corrupção, o gestor
deve se comprometer com as questões da responsabilidade pessoal. Bortotto (2015) lembra:

A responsabilidade social é um conceito que deve perpassar toda a empresa,


desde a criação de produtos que valorizem os quatro “érres” (reduzir,
reutilizar, reciclar e respeitar a biodiversidade), passando pela fabricação
dos produtos de uma forma alinhada com conceitos verdes, até o ponto de
venda e a relação ética e transparente com clientes e consumidores. Todas
as áreas e os níveis devem ser envolvidos.

Observe que a questão do respeito ao meio ambiente, que está embutido nas ideias de reutilizar e
reciclar produtos, ocupa uma área central nas responsabilidades das organizações com a sociedade.

Uma empresa que não se preocupa com esses fatores pode cair no descrédito e sofrer consequências,
como a desvalorização de suas ações no mercado (no caso de empresas com capital aberto).

23
Unidade I

A empresa ambientalmente responsável pode, por exemplo, obter a certificação pela norma
ISO 14000.

Um dos maiores problemas certamente é o da poluição, que exige ações corretivas e preventivas.
Barros (2013, p. 90) observa:

Do ponto de vista ambiental, as soluções voltadas exclusivamente para o


controle da poluição são fundamentais, mas insuficientes. Sem esse controle, a
humanidade e a maioria dos outros seres vivos já teriam desaparecido,
a quantidade e a toxidade dos poluentes ultrapassariam, em muito, a
capacidade de assimilação da Terra.

Em outras palavras, as ações precisam ter o viés da prevenção, mas também da correção, quando
necessário. Um gestor que trate de materiais e patrimônio em qualquer organização deve ter em
mente, sempre, que as responsabilidades éticas e sociais são relevantes e determinantes. E, numa ação
conjunta – se for o caso – com os gestores de finanças e da área produtiva, deve estimular as ações de
desenvolvimento sustentável, além daquelas que possam prevenir e, até mesmo, corrigir eventuais danos
ambientais, antes mesmo de provocados por qualquer órgão governamental. Tais ações certamente
valorizam a organização.

Lembrete

O meio ambiente é direito de todos. Preservá‑lo é obrigação de todas


as organizações.

Saiba mais

Conheça mais a respeito da Ilha do Lixo em meio ao paraíso das Ilhas


Maldivas, através dessas duas reportagens:

PALETTA, G. Ilha de lixo no meio das Ilhas Maldivas mede o


equivalente a 70 campos de futebol. Globo, 4 jun. 2017. Disponível em:
<https://gq.globo.com/Prazeres/Poder/noticia/2017/06/ilha‑de‑lixo‑no
‑meio‑das‑ilhas‑maldivas‑mede‑o‑equivalente‑70‑campos‑de‑futebol.
html>. Acesso em: 9 jul. 2018.

ITO, M. O luxo e o lixo nas Ilhas Maldivas. Brasileiras pelo Mundo,


11 nov. 2016. Disponível em: <https://www.brasileiraspelomundo.com/o‑
luxo‑e‑o‑lixo‑nas‑ilhas‑maldivas‑361343120>. Acesso em: 5 out. 2018.

24
RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

2.2.2 Qualidade

Outro aspecto importante ao qual o gestor de materiais e patrimônio deve estar sempre atento
é a qualidade. A qualidade deve ser observada em todos os aspectos da organização. Há programas
específicos de qualidade, conforme o tipo de organização.

• Indústrias alimentícias: as indústrias no ramo da alimentação podem ter a certificação pela norma
ISO 22000, que trata da gestão da segurança alimentar.

• Indústrias automobilísticas: baseada na norma ISO 9000 há a norma IATF 16949, que foi criada
por fabricantes mundiais de automóveis.

Pode haver, ainda, normas específicas para inúmeros setores. Contudo, há uma norma que trata da
gestão da qualidade como um todo, a ISO 9000, que pode ser desenvolvida em qualquer organização.
Uma das características é a ênfase no processo:

Cabem aqui algumas observações. Se perguntarmos a várias pessoas


leigas, “O que é Qualidade?”, provavelmente receberemos várias respostas
diferentes. A Qualidade está ligada a sentimentos subjetivos que refletem
as necessidades internas de cada um. Muitas pessoas avaliam a Qualidade
pela aparência; outras se voltam à qualidade do material com que é feito
o produto. Outras, ainda, avaliam a Qualidade de alguma coisa pelo preço.
Existem várias dimensões da Qualidade.

O aspecto objetivo, mensurável da Qualidade, é o processo. É através dele


que se pode implantar sistemas como o da ISO 9000, por exemplo. Isto pode
ser aplicado desde a fabricação de um automóvel até a confecção de um
sanduíche. Utilizemo‑nos de dois exemplos de Qualidade nas atividades
citadas: o veículo Rolls‑Royce e os sanduíches McDonald’s. Tanto um quanto
o outro têm todas as suas etapas de desenvolvimento bem estabelecidas. É a
valorização dos processos. A tinta na coloração exata, as máquinas da linha
de produção perfeitamente reguladas, os parafusos nos lugares corretos,
o tempo de fabricação perfeitamente controlado, um veículo exatamente
igual ao outro. Da mesma forma, os componentes do sanduíche sempre
do mesmo fornecedor, a chapa de fritura aquecida na mesma temperatura,
a forma do manuseio do sanduíche sempre com higiene resultando num
produto final bastante parecido, independentemente da lanchonete que se
utilize. É o chamado padrão de Qualidade (ESPUNY, 2008).

Portanto, a organização da empresa em processos que possam ser rastreados, além de fornecerem
subsídios para treinamento e avaliação de desempenho de pessoal, possibilita que a organização possa
racionalizar as suas atividades, através de um planejamento e de um controle mais eficazes, permitindo
uma certificação pela norma de qualidade ISO 9001.

25
Unidade I

De uma forma geral, e claro, sempre de acordo com as características da organização, o gestor pode
pensar em implantar normas de qualidade e normas ambientais que, em tese, podem ser adequadas a
qualquer tipo de atividade. Já as normas específicas dependem do segmento.

Resumo

Esta unidade teve como objetivo apresentar os conceitos iniciais da


área de gestão de materiais e patrimônio.

Há alguns temas que o gestor precisa conhecer: conceitos de controle


e estoques, controle da produção, compras e princípios relacionados à
produção (como questões relacionadas à demanda e à sazonalidade,
entre outros), a diferenciação entre os bens que uma organização possui,
tangíveis e intangíveis, e outros conceitos em relação aos recursos materiais
e patrimoniais.

Foram abordados outros diferentes tipos de recursos, tais como os


recursos humanos e tecnológicos e o capital. Foi abordada, também, a visão
sistêmica que toda organização precisa ter, especialmente nessa área de
materiais e patrimônio.

Foram abordados conceitos relativos à história do tema, bem como


a posição atual das organizações, na qual apenas uma pessoa pode ser
responsável pela área, ou toda uma organização adequada, sempre levando
em consideração o tamanho e a complexidade da empresa.

Outros aspectos importantes, como a qualidade e a responsabilidade


ética e social, também foram citados.

Exercícios

Questão 1. O analista de demanda, também chamado de Demand Planning, toma suas decisões a
partir de feedbacks apresentados pelo time comercial de uma empresa. Diretores, gerentes, supervisores
e vendedores montam suas projeções de vendas baseando‑se na expectativa dos números de cada
um dos clientes individualmente, a partir dos quais se permite estimar os insumos, matérias‑primas
e produtos que serão necessários ao atendimento dessa demanda agregada. Além disso, o analista
de demanda também conta com feedbacks dos integrantes da área financeira e logística da empresa.
Os primeiros falarão sobre a capacidade que a empresa tem de adquirir materiais no curto, médio e
longo prazos, enquanto os demais apontarão as próximas chegadas e despachos de materiais. As pessoas
envolvidas no processo de demanda de uma empresa acabam por integrar‑se com muitas outras áreas
da companhia, seja de forma direta indireta. Essa integração também é conhecida por:
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RECURSOS MATERIAIS E PATRIMONIAIS

A) Visão sistêmica.

B) Visão holística.

C) Visão geral.

D) Visão localizada.

E) Visão generalista.

Resposta correta: alternativa A.

Análise das alternativas

A) Alternativa correta.

Justificativa: a visão sistêmica permite que diversas áreas possam criar conexões e integrações,
permitindo que, além de eficaz, a gestão de materiais e patrimônio seja eficiente.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa: apesar de guardar alguma semelhança no sentido da palavra – holístico representa o


todo –, não há menção de visão holísticas nos trabalhos de gestão de materiais e patrimônio.

C) Alternativa incorreta.

Justificativa: a visão geral permite que se observe tudo o que se necessita, no entanto, o nome
correto do conceito nem se assemelha à visão geral.

D) Alternativa incorreta.

Justificativa: a visão localizada não está correta, primeiro pelo uso da palavra, o que nos permite
intuir que a questão está errada. Uma visão localizada, sem integração, certamente não seria ideal em
um processo que envolve diversas áreas da companhia.

E) Alternativa incorreta.

Justificativa: o termo “visão generalista” não aparece em nenhum momento dos estudos de gestão
de materiais e patrimônio.

Questão 2. A sexta edição do Manual de Balanço de Pagamentos e Posição Internacional de


Investimentos (BPM6), do Fundo Monetário Internacional (FMI), foi adotada pelo Brasil a partir do ano
de 2015. A estrutura macro do Balanço de Pagamentos segue praticamente inalterada, ficando atribuídas
as maiores mudanças às subcontas do instrumento contábil nacional. Na estrutura macro existem três
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Unidade I

grandes contas, a saber: Conta de Transições Correntes, Conta Capital e Conta Financeira. A Conta de
Transações Correntes é onde é contabilizada, por exemplo, a balança comercial de bens, enquanto a
Conta Capital e a Conta Financeira é onde são alocados, por exemplo, a venda internacional de direitos
autorais e a venda de ações e títulos públicos, respectivamente. Segundo a definição de bens tangíveis
e intangíveis, é correto que se atribua às contas de Transações Correntes (balança comercial), Capital e
Financeira a contabilidade dos seguintes bens:

A) Tangíveis, incorpóreos e tangíveis, respectivamente.

B) Tangíveis, incorpóreos e intangíveis, respectivamente.

C) Intangíveis, intangíveis e tangíveis, respectivamente.

D) Incorpóreos, intangíveis e tangíveis, respectivamente.

E) Incorpóreos, tangíveis e incorpóreos, respectivamente.

Resolução desta questão na plataforma.

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