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Comunicação na Engenharia

Comunicar bem significa conhecer os sujeitos envolvidos no ato comunicativo, saber


quais são suas expectativas, valores, crenças, faixa etária, e seu grau de escolaridade. Não há
como comunicar sem planejar adequadamente o que dizer e como dizer para se atingir a ação
desejada, sem saber encenar cada ato. A linguagem é também um ato de
encenação(COTA,2017).

A comunicação escrita é essencial ao trabalho do engenheiro. Expedir


pedidos ou ordens aos funcionários da empresa, preparar memorandos, elaborar
relatórios técnicos para clientes ou diretores, redigir cartas comerciais ou propostas e
escrever artigos em revistas técnicas são alguns exemplos. (BATMAN JUNIOR,
2010. p.32)

A linguagem técnica deve ser clara e objetiva, a fim de que não existam interpretações
e comentários contrários ao que foi proposto pelo profissional, por isso o mesmo deve possuir
um vocabulário enriquecido, para dar credibilidade e mostrar domínio sobre o assunto
abordado. Sendo assim, no dicionário da Construção Civil, do autor Filipe Miguel Tavares
(1998), menciona um vocabulário de termos técnicos, usado por engenheiros. Alguns exemplos
serão citados abaixo:

 Alçar: levantar a parede, construir;


 Alambrado: a cerca feita com fios de arame que delimita um terreno;
 Barrado: lambris, revestimento colocado nas partes inferiores das paredes;
 Calafate: chamada assim a limpeza grossa final de obra para entrega;
 Costela: régua de madeira colocada a cutelo para sustentação;
 Croquis: primeiro esboço de um projeto arquitetônico;
 Desvão: espaço entre as telhas e o forro dos ambientes;
 Ilharga: denomina-se assim as peças verticais em pedra para divisórias ou laterais
de bancadas;
 Ladrão: Cano ou orifício de escoamento, situado na parte superior de pias ou
reservatórios de água, que evita o transbordamento de excesso (Tavares, 1998).
“Não basta ter uma equipe de grandes talentos altamente motivados. Se ela não estiver
bem informada, se seus integrantes não se comunicarem adequadamente, não será possível
potencializar a força humana da empresa” (RUGGIERO, 2002).
A relação entre o engenheiro e seus subordinados deve ser amistosa e amigável, sendo
rígido quando necessário e auxiliando-os no que for preciso, pois grande parte dos resultados
que mostram que seu trabalho está sendo bem feito depende dos seus subordinados, cumprindo
metas e atingindo os resultados necessários. “A porta para o sucesso de uma organização é a
confiança e o respeito mútuo entre líderes e liderados, e a base é uma comunicação de liderança
eficaz” (LOVIZZARO, 2003).
Linguagem na Engenharia
Encenar a linguagem é colocar em cena sujeitos capazes de criar diferentes estratégias
de dizer. Por isso a linguagem na engenharia se faz como cálculo, o cálculo do dizer, de escolher
cuidadosamente cada palavra e de planejar os efeitos de sentido gerados em cada situação de
comunicação. Não basta dizer, é preciso saber como dizer... Assim como se escolhem materiais
para compor a estrutura da obra e a fachada da edificação também se processa a escolha lexical
em um projeto de dizer (COTA,2017).

Pensar a Engenharia sob essa perspectiva é apreendê-la como discurso em que os


sujeitos interactantes, em constante interação, buscam o acordo. Não o acordo da exatidão do
cálculo, do cálculo diferencial, da álgebra linear ou da geometria analítica, sob a luz de
infindáveis fórmulas, mas o acordo inexato da busca de compreensão entre as partes. Mas como
conseguir tal intento? Aí surge outro empreendimento: investir na competência comunicativa
dos sujeitos. Ser competente aqui significa saber adequar a linguagem aos diversos níveis
sociais e aos diversos tipos de situações comunicativas, é saber talhar a língua de forma a atingir
com eficácia o pedreiro, o operário, o marceneiro, o serralheiro, o encanador, o vendedor, o
arquiteto, os engenheiros de outras áreas, a comunidade, o advogado que redige o contrato, as
instâncias governamentais e órgãos licitadores (COTA,2017)...

O engenheiro vive da palavra, por meio dela instaura os processos comunicativos que
lhe permitem agir sobre o outro. Para tanto, faz-se necessário conhecer bem as margens de
manobra ou de restrição que constituem cada situação comunicativa de forma a identificar o
que pode ou não ser dito (COTA,2017).

A prática do trabalho naturalmente impõe a necessidade de saber dialogar sobre ele,


bem como compreender o nome das ferramentas e das tarefas a serem executadas. No tocante
aos desafios que a linguagem impõe à interação profissional de sujeitos com percursos
formativos de ordens distintas, Neto (2009) esclarece que até mesmo o falante com pouca
escolaridade ou o analfabeto será capaz de formular seus enunciados de forma compreensível.
Isso se confirma na pesquisa, pois todos conseguem estabelecer uma comunicação, com
recursos e estratégias variadas, conforme sua posição hierárquica. Todavia, é de acordo com o
papel ocupado na escala posicional que se “cobra”, que se espera uma modalidade de expressão
(oral e/ou escrita) com maior ou menor rigor. Contudo, ainda que haja todo um esforço para se
usar a habilidade comunicativa apropriada, o perfil e os recursos empregados na comunicação
encontram-se sempre emoldurados por suas condições sociais.
Neto (2009), apoiando-se em referenciais como Bakhtin e Bourdieu, diz que a realização
da comunicação, da transposição de conhecimentos e/ou informações só acontece
completamente se a mensagem (a comunicação/diálogo) for decifrada, ou seja, bem
compreendida pelo interlocutor. Isto é, o próprio falante não almeja apenas uma transposição
passiva; seu objetivo é uma objeção, uma concordância, uma participação. Também nessa linha,
Faita (2002) afirma que o diálogo não se faz sozinho, nunca será monológico. Isso implica e
requisita o envolvimento do outro e de si no momento da orientação, e ainda no momento de
executar a tarefa, quando mentalmente se recorre e se retoma a orientação e a informação que
foi passada. Sobretudo porque entre os profissionais que executam a atividade, como já
analisado, poucos ou nenhum fazem uso do registro escrito. Não há uma exigência, uma
regulamentação nesse sentido e os próprios operários não julgam necessário. A esse respeito é
oportuno dizer, entretanto, que muitos queixam-se de estar com a cabeça já bastante cansada e
confusa, o que começa a preocupá-los já na faixa dos 35 anos de idade. A preocupação de não
mais armazenar grande quantidade de detalhes na cabeça justifica-se porque, se assim for,
tornam-se “inaptos” à atividade.
A habilidade de interação comunicativa entre sujeitos de ordens sociais, culturais,
econômica e formativa distintas é denominada por Batkthin de grau de alteridade
constitutivo do discurso. Esse exercício de alteridade faz, por exemplo, com que o
engenheiro transite na linguagem particular do pedreiro e vice-versa. É um processo
de assimilação da palavra do outro.
Afinal a obra é uma imensa torre de babel em que se falam muitas línguas. Não há,
pois, como se sentir estrangeiro na própria língua, é necessário aprender a transitar por suas
diversas formas. Ora ela flui espontânea, repleta de gírias, regionalismos e de inúmeras
variedades linguísticas; ora se faz padrão e nos prende a suas normas específicas e a jargões
adotados por profissionais engajados em uma equipe multidisciplinar para a efetivação de um
projeto maior (COTA,2017).
Cota (2017) afirma que o engenheiro gera conversas espontâneas, trava diálogos,
escreve e-mails, ofícios, requerimentos, emite laudos, pareceres, relatórios técnicos, negocia,
compra, participa de conferências, reuniões, apresenta projetos, mas, sobretudo, vende a própria
imagem de credibilidade e responsabilidade em pacto feito de palavras. Assim a engenharia
passa a ser vista também como ciência da comunicação que se firma por meio de um contrato
de prestação de serviços, palavra por palavra.
Engenheiro e seus desafios na linguagem
o engenheiro precisa aprender a se projetar como ser de palavras, como sujeito crítico
que constitui umethos de profissional competente, que se completa numa relação de alteridade
com o meio social que o constitui. Todo o alicerce da comunicação está no ato de saber
interpretar criticamente a realidade social e os sujeitos que a constituem, suas fragilidades,
sonhos, medos, ideais de morar bem, de conquistar a acessibilidade a fluidez no trânsito, de
viver com segurança, praticidade e conforto. Mas isso só não basta... há também que se
qqq’interpretarem os impactos ambientais e os princípios de sustentabilidade, os testes de
resistência de novos materiais e tantos outros infindáveis conceitos. Daí surge o rigor e a
perfeição do profissional, antes de tudo, leitor e intérprete contumaz na busca da concretude e
da solidez numa constante empreitada (COTA,2017).
Um dos desafios vivenciados nestas situações de trabalho, como sugere Magalhães
(1986), deve-se ao extraordinário esforço pessoal, como uma condição necessária para que a
experiência cotidiana do trabalho seja um motor para desenvolver habilidades. Habilidades
estas que, entre outras contribuições, tornam estes profissionais “desqualificados”, aptos a uma
interação e diálogo (“técnico”) com engenheiro ou outro profissional envolvido no processo.
Mais, do que habilidades é preciso nomear tais práticas, como saberes profissionais. Ainda
sobre este aspecto, é importante mencionar e valorizar a capacidade desenvolvida, sobretudo
pelos encarregados e mestre de obras, que possuem a responsabilidade de gerir e mediar a
execução das tarefas necessárias. Isto é, responsabilizam-se em tornar possível, claro, eficiente
e objetivo o diálogo do planejamento (constituídos pelos empresários, arquitetos e engenheiros)
com a distribuição e execução das atividades entre as equipes (pedreiros e serventes).
Apesar da evidência atribuída, até então, aos saberes operários conquistados no trabalho, ou
seja, a tentativa de vir entender como sujeitos “semi-analfabetos”3 avaliam ter se apropriado dos
saberes e da linguagem requisitada, para interagir profissionalmente, não será desconsiderado o
pertinente e imprescindível papel do engenheiro empenhando-se para conquistar a habilidade e
linguagem apropriada para interagir e orientar, de modo eficaz, sua equipe de trabalho.
O desejo de debater sobre o entendimento dos operários explica-se pela particular
distância de ordem social, cultural e econômica entre os agentes deste campo. Afinal, aos
engenheiros, já é concedido socialmente um poder e reconhecimento legitimados por sua
trajetória escolar (diploma de ensino superior). Neste sentido, é oportuno acrescentar uma
observação apresentada por Santos (1997):
A capitalização dos benefícios proporcionados pelo saber do trabalhador à
produção é uma estratégia já colocada em marcha pelos empresários. Fica a tarefa de
construir uma alternativa que, deixando de ser resistência passiva e não caindo na
cogestão do saber no trabalho, resgate o valor epistemológico, social, político e
cultural do saber do trabalhador (SANTOS, 1997, p.26)

Por fim, é fundamental compreender que todas as formas de expressão, apesar de não
equivalentes socialmente, são equivalentes linguisticamente, já que sua articulação se dá de
modo tal, que torna acessível seu entendimento/interpretação . De acordo com Faita (2010), é
nesse processo que indivíduo vai construir suas aprendizagens, vai evoluir em suas relações
com o coletivo e vai ainda intervir para modificar essas relações.

Para se evitarem maiores riscos, que se lance já a pedra fundamental desse novo
edifício comunicacional na formação do engenheiro e que a palavra se estabeleça sempre
como “pá-lavra”: como pá que lavra esse solo tão árido do cálculo puro como instrumento de
sustentação do engenheiro (COTA,2017).

REFERÊNCIAS

BATMAN JR, E. UNIVERSIDADE DE SANTO AMARO, Educação à Distância. Introdução


à Engenharia,2010. 53p, il. Apostila do curso.

RUGGIERO, A.P. Qualidade da Comunicação Interna. 2002. Disponível


em:<http://www.rh.com.br/Portal/Comunicacao/Artigo/3388/qualidade-da-comunicacao-
interna.html>.

MONT’ALVERNE NETO, Rosane de. Correspondências do cárcere: um estudo sobre


linguagem de prisioneiros. 2009. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de
Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009.
LOVIZZARO.M.A.ComunicaçãodeLiderança.2003.Disponívelem:<http://www.rh.com.br/Po
rtal/Comunicacao/Artigo/3467/comunicacao-de-lideranca.html>.

SOUZA-e-SILVA, M. C. P & FAITA, DANIEL. Linguagem e Trabalho: construção de objetos


de análise no Brasil e na França. São Paulo: Cortez, 2002, p. 240.
SANTOS, Eloisa Helena. Trabalho prescrito e real no atual mundo do trabalho. Revista
Trabalho e Educação. Belo Horizonte: Nete/FAE - UFMG n. 1, p. 21-34, jan./jun. – 1997.

MARIA APARECIDA LEITE MENDES COTAO :admirável mundo da engenharia civil:


palavra por palavra, tijolo por tijolo