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O Poeta tece, ao longo de Os Lusíadas, diversas considerações.

As suas reflexões têm características didáticas, morais e severamente críticas. Nelas


encontramos não só louvores, mas também o lamento e o queixume de quem sente
amargamente a ingratidão ou os desconcertos do mundo.

Canto I (est. 103 – 106)


Acontecimento motivador das reflexões – chegada a Mombaça, cujo rei fora avisado
por Baco para receber os portugueses e os destruir.
Reflexões do poeta
Depois de ter contado as traições e os perigos a que os navegadores estiveram
sujeitos – ciladas, hostilidade disfarçada que reduz as defesas e cria esperanças –
o poeta interrompe a Narração para expor as suas reflexões sobre a insegurança da
vida e a impotência do homem, «um bicho da terra tão pequeno», exposto a todos
os perigos e incertezas e vítima indefesa do «Céu sereno». São palavras-chave:
veneno, engano, gravíssimos perigos, nunca certo, pouca segurança, mar,
tormenta, dano, morte, guerra, engano.
Não será por acaso que esta reflexão surge no final do Canto I, quando o herói ainda
tem um longo e penoso percurso a percorrer. Ver-se-á, no Canto X, até onde a
ousadia, a coragem e o desejo de ir sempre mais além pode levar o “bicho da terra
tão pequeno”, tão dependente da fragilidade da sua condição humana.
Os perigos que espreitam o ser humano (o herói), tão pequeno diante das forças
poderosas da natureza (tempestades, o mar, o vento…), do poder da guerra e dos
traiçoeiros enganos dos inimigos.

Canto VII (est. 78 – 87)


Acontecimento motivador das reflexões – Após o desembarque de Vasco da
Gama o Catual visita a nau capitaina, onde é recebido por Paulo da Gama, a quem
pergunta o significado das figuras presentes nas bandeiras de seda.
Reflexões do poeta
Nesta reflexão Camões queixa-se da ingratidão de que é vítima. Ele que sonhava com
a coroa de louros dos poetas, vê-se votado ao esquecimento e à sorte mais
mesquinha, não lhe reconhecendo, os que detêm o poder, o serviço que presta à
Pátria.
Usando um texto de tom marcadamente autobiográfico Camões faz referência a várias
etapas da sua vida. O poeta exprime um estado de espírito bem diferente do que
caracterizava, no Canto I, a Invocação às Tágides – «cego, … insano e temerário»,
percorre um caminho «árduo, longo e vário», e precisa de auxílio porque, segundo
diz, teme que o barco da sua vida e da sua obra não chegue a bom porto. Uma vida
que tem sido cheio de adversidades, que enumera: a pobreza, a desilusão, perigos
do mar e da guerra, «Nua mão sempre a espada e noutra a pena», Como não ver
neste retrato a intenção de espelhar o modelo de virtude enunciado em momentos
anteriores?
Em retribuição, recebe novas contrariedades – de novo a critica aos contemporâneos,
e o alerta, para a inevitável inibição do surgimento de outros poetas, em
consequência de tais exemplos.
Mas a crítica aumenta de tom na parte final, quando são enumerados aqueles que
nunca cantará e que, implicitamente, denuncia abundarem na sociedade do seu
tempo: os ambiciosos, que sobrepõem os seus interesses aos do«bem comum e do
seu Rei», os dissimulados, os exploradores do povo, que não defendam “que se
pague o suor da servil gente”.
No final, retoma a definição do seu herói – o que arrisca a vida «por seu Deus, por seu
Rei».
Canto VIII (est. 96 – 99)
Acontecimento motivador das reflexões – Traição e suborno do Catual. Regresso de
Gama às naus.

Reflexões do poeta
Nesta reflexão o poeta retoma a função pedagógica do seu canto e apontando para
um dos males da sociedade sua contemporânea, orientada por valores materialistas
e faz uma severa crítica: o alvo é o poder corruptor do dinheiro e do «ouro».
A propósito da narração do suborno do Catual e das suas exigências aos navegadores,
são agora enumerados os efeitos perniciosos do ouro – provoca derrotas, faz dos
amigos traidores, mancha o que há de mais puro, deturpa o conhecimento e a
consciência; os textos e as leis são por ele condicionados; está na origem de
difamações, da tirania de Reis, corrompe até os sacerdotes, sob a aparência da
virtude.