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IberografIas
NOVAS FRONTEIRAS, OUTROS DIÁLOGOS:
PaIsageNs, PaTrIMÓNIos, CULTUra

Coordenação de
Rui Jacinto

IberografIas

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Colecção Iberografias
Volume 35

Título: Novas Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Coordenação: Rui Jacinto


Autores: Ana Rosa Marques; Antonio Cordeiro Feitosa; Cleder Fontana; Cristiano Quaresma de Paula; Daniela
Maria Vaz Daniel; Dirce Maria Antunes Suertegaray; Fernando A. Baptista Pereira; Helena Santana; Jose
Geraldo Silva; Lorrana Jhulian Alves Batista; Luisa Fernanda Durán Montes; Luma Damon de Oliveira
Melo; Maíra Suertegaray Rossato; Márcia Manir Miguel Feitosa; Maria Amelia Reis; Maria do Rosário
Pinheiro; Messias Modesto dos Passos; Pedro C. Carvalho; Pedro Javier Cruz Sánchez; Pedro Manuel
Pereira da Silva Tavares; Rogério Batista dos Santos; Rosário Santana; Sofia Salema Guilherme; Tallita
Rayanne Santos Arouche; Thiago Romeu de Souza; Vera Lúcia de Almeida.

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa: Sofia Travassos | Âncora Editora

Impressão e acabamento: LOCAPE - Artes Gráficas, Lda.

1.ª edição: abril 2019


Depósito legal n.º 423100/17

ISBN: 978 972 780 683 6


ISBN: 978-989-8676-19-1

Edição n.º 41035

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
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www.cei.pt

Âncora Editora
Avenida Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
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Apoios:
Novas fronteiras, outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura 7
Rui Jacinto
PaIsageNs: (bIo)DIversIDaDe e IDeNTIDaDe

biodiversidade: o paradigma da complexidade 11


Messias Modesto dos Passos
Paisagem cafeeira e identidade cultural: práticas de territorialização a partir 23
da produção dos cafés especiais no eje Cafetero - Colômbia
Luisa Fernanda Durán Montes
Trilhando pela paisagem cultural de alcântara / brasil 35
Ana Rosa Marques; Tallita Rayanne Santos Arouche
Potiguaras da Paraíba: paisagem e gênero de vida 49
Thiago Romeu de Souza
educação no contexto da gestão da fLoNa de Tefé, amazonas, brasil 65
Maíra Suertegaray Rossato; Cristiano Quaresma de Paula; Cleder Fontana
o uso de embalagens Tetra Pak como alternativa sustentável no isolamento 89
térmico de residências de famílias de baixa renda em Porto velho – rondônia
Vera Lúcia de Almeida; Lorrana Jhulian Alves Batista; Rogério Batista dos Santos;
Luma Damon de Oliveira Melo; Jose Geraldo Silva
Desertificação e Arenização no Brasil 99
Dirce Maria Antunes Suertegaray

PaTrIMÓNIo e CULTUra: MúLTIPLos oLhares

Leituras históricas das paisagens do Império romano na área fronteiriça 127


entre Portugal (beira Interior) e espanha (extremadura/Castilla y León)
(valorização patrimonial e desenvolvimento territorial)
Pedro C. Carvalho
a família Turriano, arquitectura e branding na Casa de habsburgo 141
e na Casa de bragança
Pedro Manuel Pereira da Silva Tavares; Sofia Salema Guilherme;
Fernando A. Baptista Pereira
a dimensão simbólica do lugar e do patrimônio nos açores de Joel Neto: 157
uma leitura interdisciplinar entre literatura e geografia cultural
Márcia Manir Miguel Feitosa
viagens de Camilo Castelo branco 165
Daniela Maria Vaz Daniel
Do território e da paisagem – a máscara elemento de exteriorização 185
de um imaginário real
Helena Santana; Rosário Santana
espacios de devoción de la raya hispano-portuguesa. análisis 199
antropológico y turismo religioso de los paisajes sagrados de frontera
Pedro Javier Cruz Sánchez
Patrimônio Cultural, resistências e territorialidade quilombola: 217
desafios e avanços
Maria Amelia Reis; Maria do Rosário Pinheiro
o patrimônio cultural como fator de desenvolvimento territorial 231
no vale do rio Munim, estado do Maranhão-brasil
Antonio Cordeiro Feitosa
Novas Fronteiras, Outros Diálogos:
Paisagens, Patrimónios, Cultura

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

A XVIIIª edição do Curso de Verão, promovida pelo Centro de Estudos Ibéricos


(CEI), entre 9 e 13 de julho de 2018, sob o lema “Novas fronteiras, outros diálogos: pa-
trimónio cultural, cooperação e desenvolvimento territorial”, ao honrar os compromissos
do CEI com os espaços fronteiriços, (re)afirmou o Centro como uma plataforma com
especial vocação para o diálogo com instituições e investigadores dos Países de Língua
Portuguesa. Quando atingiu a sua maioridade, o Curso de Verão granjeou um reconheci-
mento que é atestado pelo número crescente de participantes e pela adesão expressiva de
investigadores brasileiros.
A coincidência de se celebrar o VIIIº Centenário da Universidade de Salamanca e
ter sido proclamado Ano Europeu do Património Cultural motivou uma programação

// Novas Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


inovadora em termos organizativos e temáticos. O Curso foi concebido para ser itine-
rante, tendo acontecido a sua abertura na Universidade de Coimbra e o encerramento na
Universidade de Salamanca. O eixo científico e cultural que une as cidades de Coimbra,
Guarda e Salamanca, onde os debates tiveram lugar, estruturou a Rota Eduardo Lourenço
– Miguel de Unamuno, patronos cujas obras inspiraram o trabalho de campo e o respe-
tivo livro guia, então publicado, Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de
Unamuno – Eduardo Lourenço (Valentín Cabero, Rui Jacinto). A obra, que reúne reflexões
inspiradoras destes autores sobre os lugares visitados, dum lado e doutro da fronteira,
revela-se importante nas visitas às cidades (Coimbra, Viseu, Guarda e Salamanca), vilas
(Tondela, Penalva do Castelo, Vilar Formoso, Almeida) ou pequenas aldeias (Jarmelo,
S. Pedro do Rio Seco) da região.
7
Além das visitas de estudo, onde se apresentaram e debateram temas relacionados com
as diferentes formas que as paisagens e os patrimónios assumem na área fronteiriça entre
Portugal e Espanha (Beira Interior), tiveram lugar conferências, comunicações e mesas
redondas, que se organizaram nos seguintes temas gerais: (i) patrimónios, paisagens e de-
senvolvimento local; (ii) dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais;
(iii) cooperação e desenvolvimento: novas fronteiras, outros diálogos.
A edição que se dá à estampa, que reúne um primeiro conjunto de trabalhos apresen-
tados no Curso de Verão, ajuda-nos a compreender a profunda diversidade do território
e a importância dos recursos, naturais e humanos, materiais e intangíveis, como fatores
críticos que importa considerar em qualquer estratégia de desenvolvimento territorial.
O precioso contributo dos autores, a quem é devido um merecido agradecimento por tão
generosa colaboração, enriquece o património da região e do Centro de Estudos Ibéricos.
// Novas Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
8
Paisagens:
(bio)diversidade e identidade
Biodiversidade:
o paradigma da complexidade

Messias Modesto dos Passos1


Programa de Pós-Graduação em Geografia
da FCT-UNESP – campus de Presidente Prudente/SP – Brasil

Nesse artigo, nós vamos enfatizar o papel da geodiversidade e das mudanças climá-
ticas do Quaternário na explicação do paradigma da complexidade da biodiversidade.
A biodiversidade varia com as diferentes regiões ecológicas, sendo maior nas regiões tropicais
do que nos climas temperados. Um dos problemas centrais da Biologia é o da diferença
em diversidade entre os ecossistemas tropicais e temperados. Os estudos biogeográficos,
aliados à paleogeografia, paleoclimatologia, palinologia, pedologia etc., no que se refere ao
continente sul-americano, demonstram que os mecanismos básicos que deram origem à
complexa flora atual, não só são relativamente simples como recentes. Ao longo de todo o
Quaternário, até nossa época, um período de drásticas mudanças climáticas, alternando-se,
seguidamente, fases úmidas e fases secas com intensa atuação na distribuição da cobertura
vegetal, ou seja, retração das florestas nas fases secas, cedendo lugar para o crescimento de Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

formações vegetais abertas xerofíticas, e reexpansão das florestas nas fases úmidas. Durante
as fases secas, pequenas “ilhas de ambiente tropical” teriam subexistido onde condições
climáticas e topográficas eram favoráveis servindo de abrigo ou de “refúgio” para animais
de florestas. No estudo dos solos e na geomorfologia, são encontradas as evidências mais
confiáveis e incontrovertidas sobre as variações paleoclimáticas. A presença de linhas de
pedra (“stone lines”) interceptando horizontes de paleo-solos, principalmente em áreas de
interflúvio, terraços fluviais, pedimentos, crostas ferruginosos etc., indica períodos áridos
sob cobertura vegetal rala. Por outro lado, o espaço geográfico ocupado pelas formações
1
mmpassos86@gmail.com
11 // Novas
vegetais abertas, por ocasião do avanço das correntes frias e secas da última glaciação, pode
ser melhor compreendido, pelo menos no momento, pelos estudos da compartimentação
topográfica e pelos enclaves florísticos residuais.

A biodiversidade

Pode ser definida como a variedade e a variabilidade existente entre os organismos


vivos e as complexidades ecológicas nas quais elas ocorrem. Ela pode ser entendida como
uma associação de vários componentes hierárquicos: ecossistema, comunidade, espécies,
populações e genes em uma área definida. A biodiversidade varia com as diferentes regiões
ecológicas, sendo maior nas regiões tropicais do que nos climas temperados.
A Biodiversidade é uma das propriedades fundamentais da natureza, responsável pelo
equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas, e fonte de imenso potencial de uso econômico.
A biodiversidade é a base das atividades agrícolas, pecuárias, pesqueiras e florestais e, tam-
bém, a base para a estratégica indústria da biotecnologia. As funções ecológicas desempe-
nhadas pela biodiversidade são ainda pouco compreendidas, muito embora considere-se
que ela seja responsável pelos processos naturais e produtos fornecidos pelos ecossistemas
e espécies que sustentam outras formas de vida e modificam a biosfera, tornando-a apro-
priada e segura para a vida. A diversidade biológica possui, além de seu valor intrínseco,
valor ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e
estético. Com tamanha importância, é preciso evitar a perda da biodiversidade.
Três razões principais justificam a preocupação com a conservação da diversidade biológica:
Primeiro porque se acredita que a diversidade biológica seja uma das proprie-
dades fundamentais da natureza, responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos
ecossistemas.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Segundo porque se acredita que a diversidade biológica representa um imenso


potencial de uso econômico, em especial pela biotecnologia.
Terceiro porque se acredita que a diversidade biológica esteja se deteriorando, inclu-
sive com aumento da taxa de extinção de espécies, devido ao impacto das atividades
antrópicas.

A diversidade tropical
Um dos problemas centrais da Biologia, problema já claramente formulado no come-
ço do século xix e hoje ainda nem perto de solução, é o da diferença em diversidade entre
os ecossistemas tropicais e temperados. Os números variam de grupo para grupo, mas os
ecossistemas tropicais são, em todos os grupos, mais diversificados que os temperados,
12 // Novas
embora a biomassa de alguns destes (por exemplo, a floresta de sequoia, ou as florestas de
coníferas) seja comparável ou até maior que a das florestas equatoriais.
A mais antiga das explicações propostas para esse fato é que as comunidades tropicais
são velhas e estáveis, e assim tiveram mais tempo para evoluir. Essa hipótese já está descartada
pela paleoclimatologia.
A pesquisa de sistemática evolutiva nas regiões tropicais é dificultada exatamente pela
natureza do seu problema central: a biodiversidade.
No Brasil, temos ao alcance das mãos um dos processos mais importantes e ainda não
totalmente explicado da teoria evolutiva: a origem das faunas tropicais complexas.
A fauna e a flora das regiões tropicais, e especialmente das grandes florestas equatoriais,
são muito mais diversificadas que as das regiões temperadas, isto é, abrigam um maior nú-
mero de espécies, cada qual representada, via de regra, por um menor número de indivíduos.
Nas regiões temperadas há um número distintamente menor de espécies, mas as densidades
de população são muito maiores (DARLINGTON, 1957; IN: VANZOLINI, 1970).

Quadro 1. Comparação entre Floresta Intertropical Climácica


e Bosque Temperado Climático

Floresta Intertropical Climácica Bosque Temperado Oceânico Climático


Caracterização Heterogeneidade da formação (muitas espécies). Homogeneidade da formação (poucas espécies).
da vegetação Semicaducifolia. Caducifolia.
Crescimento rápido (Idade: + / - 100 anos). Crescimento lento (Idade: > 200 anos).
Condições Clima quente e úmido. T > 18 ºC. Clima frio/sub-úmido. T<15 ºC. P < 1.500 mm;
Climáticas P > 1.800 mm. Estacionalidade: definida pelas pre- Estacionalidade definida pelas temperaturas; Inter-
cipitações. Atividade vegetal durante todo o ano. rupção da atividade vegetal no Inverno.
Decomposição Muito rápida Lenta
orgânica
Ação Antrópica Recente/Rápida/Ativa/Extensiva Antiga/Lenta/Ativa/Intensiva
Dinâmica atual Regressiva e com alto risco Estabilizada ou em lenta progressão

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


Organizado por Passos & Luengo

Teoria sintética da evolução


A teoria, dita “sintética”, da evolução, baseia-se em dois mecanismos básicos:
1. Variabilidade genética: (a) os indivíduos da mesma espécie diferem entre si quanto
ao seu patrimônio genético; (b) às diferenças genéticas correspondem diferenças
morfológicas, fisiológicas e de comportamento.
2. Seleção Natural: (a) os indivíduos portadores de certos caracteres, geneticamente
determinados, têm maior probabilidade de deixar descendentes; (b) isto tende, com
o correr do tempo, a aumentar a incidência desses caracteres da população.
13 // Novas
Especiação geográfica

A especiação geográfica é praticamente o único processo de especiação nos animais, e é


provável que seja o modo prevalecente nos vegetais. Apesar dessa tese ter atualmente uma
aceitação quase universal, a menos de 40 anos era contestada, e biólogos de renome, nunca
a aceitaram. A teoria da especiação geográfica é uma das teorias-chaves da biologia evolutiva.
A teoria da especiação geográfica, resultante do trabalho de numerosos taxonomistas,
afirma que, em animais com reprodução sexuada, uma espécie nova aparece, quando, du-
rante o período de isolamento, uma população, geograficamente isolada de outras populações de
sua espécie, adquire caracteres que promovem ou garantem o isolamento reprodutivo, depois de
eliminadas as barreiras externas (MAYR, 1977).
A especiação geográfica parte de três pressupostos básicos: (a) especialização ecológica
das espécies; (b) fragmentação do território de uma espécie; e (c) evolução de um mecanismo
de isolamento genético (VANZOLINI, 1970).

Especialização Ecológica
De modo geral (excetuados os casos de adaptação a ambientes muito especiais),
a distribuição dos animais terrestres nos continentes é correlacionada com as grandes
formações vegetais, ou com a temperatura, ou com uma combinação de ambos os fatores.
Cada espécie explora, de uma maneira que lhe é própria, os recursos ambientais de sua
área de distribuição: espaço para viver, alimento, energia solar, locais de reprodução etc.
Esse conjunto de especializações constitui o nicho ecológico da espécie. Toda vez que duas
ou mais espécies exploram da mesma maneira um mesmo recurso ambiental que não exis-
ta em quantidade suficiente para todas, diz-se que estão em concorrência ou competição.
O resultado da concorrência continuada pode ser a sobrevivência de uma única espécie,
com a extinção das demais concorrentes (princípio da “exclusão competitiva”).
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fragmentação do Território
A área ecologicamente favorável a uma espécie não permanece imutável no tempo. Ela
pode aumentar ou diminuir como um todo, ou ainda, fragmentar-se. A fragmentação é
causada por mudanças climáticas (glaciações pleistocênicas), eventos geológicos (orogenia,
subsidência etc.), ação antrópica (desmatamentos, lagos artificiais etc.)..., que determinam
o aparecimento de faixas de território, onde a vida da espécie é impossível, separando áreas
ainda favoráveis, onde ela sobrevive.
À uma faixa desfavorável, separando duas áreas onde a espécie se mantém, chama-se
uma barreira ecológica. Quando as barreiras são muito amplas e, paralelamente, as áreas
de sobrevivência relativamente muito pequenas, estas se dizem refúgios.
14 // Novas
Vejamos o raciocínio e a ilustração gráfica (Figura 1) que se presta para explicar a
especiação geográfica:

Figura 1. Representação diagramática das possíveis sequências de eventos no modelo de especiação geográfica.
(Extraído de VANZOLINI, 1970, p.8)

Especiação Geográfica
A importância das barreiras ecológicas reside em que interrompem o fluxo gênico entre

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


as populações por elas separadas. Se considerarmos que cada indivíduo da espécie tem a
possibilidade de cruzar-se com qualquer outro dentro do seu raio de ação, fica claro que
todos os indivíduos da espécie participam potencialmente de todo o patrimônio genético.
Uma novidade genética surgida em um ponto do território pode propagar-se por ele todo.
Ao contrário, com o aparecimento de uma barreira ecológica, as novidades surgidas
de um lado não se propagam para o outro. Dado que essas novidades têm caráter in-
teiramente fortuito, e dado também que as condições ambientais com certeza diferirão
dos dois lados da barreira, ocasionando diferentes pressões da seleção natural, é fatal
que populações assim separadas venham a evoluir de forma divergente, acumulando
diferenças e atingindo eventualmente o estado de isolamento reprodutivo e portanto de
espécies distintas.
15 // Novas
Graus de isolamento reprodutivo
Até este ponto o modelo explica a multiplicação de espécies em áreas separadas, mas
não ainda a multiplicação de espécies aparentadas dentro de uma mesma área. Este fenô-
meno, porém, pode ser compreendido considerando-se que as barreiras ecológicas não são
necessariamente permanentes: seu eventual desaparecimento coloca de novo em contacto
as populações antes separadas.
O resultado do novo contacto vai depender do grau de diferenciação atingido duran-
te a fase de isolamento. Com efeito, o processo de divergência é gradual, cumulativo, e
pode ser surpreendido a qualquer momento pelo desaparecimento da barreira ecológica.
Na prática, as seguintes alternativas são as mais importantes:
1. A divergência entre as populações segregadas atingiu tal ponto que elas se tornaram inca-
pazes de se cruzarem normalmente em natureza, constituindo-se em espécies distintas.
1.1. se a divergência resultou em métodos diferentes de exploração do ambiente,
de maneira que as novas espécies não entram em concorrência ruinosa, elas
podem coexistir lado a lado (espécies simpátricas2);
1.2. se houver concorrência, pode haver extinção de uma ou mais espécies.
Frequentemente, as diferenças morfológicas se acentuam na área de simpatria
(deslocamento de caracteres).
1.3. ainda em caso de concorrência, cada espécie pode ser a vencedora dentro de
uma determinada área: resultam então espécies parapátricas, ocupando territó-
rios separados mas limítrofes; a parapatria é um caso particular de alopatria3
2. O grau de divergência alcançado durante a fase de isolamento não foi suficiente
para impedir que as populações se cruzem normalmente em natureza.
2.1. as espécies podem fundir-se amplamente, resultando de novo uma espécie
monotípica;
2.2. pode acontecer que as espécies segregadas atingiram um elevado grau de isola-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

mento genético e que, a competição entre elas levem ao fenômeno da parapatria:


cada população mantém sua individualidade na área em que se diferenciou; na
região de contacto, porém, estabelece-se uma faixa de franca hibridação (zona de
intergradação). Tem-se então uma espécie politípica, dividida em subespécies.
A título de exemplificação e, sobretudo, de demonstração do processo de especia-
ção geográfica, vejamos a análise que PASSOS (2003, p. 147-149) apresenta para a
Amazônia Brasileira. É bom lembrar, que a partir do mapeamento de fragmentos da
vegetação nativa, que ainda permanece em nível regional, é possível realizar interessantes

2
Do grego “syn” = junto; “patra”= pátria. Vivem juntas, tendo, portanto, a oportunidade de intercruzamento.
3
Do grego: “allos”= outro; “patra” = pátria. Espécies separadas geograficamaente.
16 // Novas
estudos com o objetivo de verificar as implicações do “isolamento geográfico” sobre
populações de determinada espécie subexistentes nessas “ilhas”.
É muito conhecido, de longa data, que a Amazônia comporta uma das biotas mais
diversificadas e mais complexas do mundo, porém, até o fim dos anos 1960, nada, ou
quase nada, se sabia sobre como se originou e de como é mantida essa complexidade.
Era considerado, até essa época, um paradoxo ecológico de difícil solução o fato de uma
imensa floresta, praticamente contínua e, aparentemente, homogênea e estável, comportar
espécies politípicas (ou seja, espécie subdividida em populações com peculiaridades taxo-
nômicas, habitando áreas geográficas distintas e exclusivas, mas que apresentam, entre si,
zonas de intergradação), espécies endêmicas, muitas espécies afins vivendo lado a lado etc.
Os estudos biogeográficos, aliados à paleogeografia, paleoclimatologia, palinologia,
pedologia etc., no que se refere ao continente sul-americano, que começaram a cristalizar-
-se há pouco mais de 40 anos, mostraram, por outro lado, que os mecanismos básicos que
deram origem à complexa fauna atual, não só são relativamente simples como recentes.
O geólogo e ornitologista J. HAFFER, em 1969, trabalhando com distribuição de
aves e lagartos, respectivamente, teceram um modelo geográfico para explicar essa diver-
sidade a nível de espécie (espécies politípicas, superespécies etc.), ou seja, o modelo de
refúgios climáticos durante o Quaternário, que nada mais é que o ortodoxo modelo de es-
peciação geográfica, usualmente aceito para explicar a maior parte dos casos de especiação,
ou multiplicação de espécies, em faunas terrestres.
Para entender o modelo, entretanto, é preciso conhecer um pouco da sua história e do
processo de sua elaboração.
HAFFER, em seus trabalhos de 1969, sugere que ao final do Terciário e início do
Quaternário (1-2 milhões de anos atrás), quando se deu a elevação final dos Andes e o
preenchimento da bacia sedimentar Amazônica, criaram-se condições úmidas propícias
para o crescimento da floresta, outrora, possivelmente restrita ao longo dos rios e às terras

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


marginas do escudo Norte (Craton Guianês) e do escudo Sul (Craton do Guaporé), que
confinam o atual vale Amazônico.
A fauna de florestas emergente do Terciário, consequentemente, teve seu habitat vigoro-
samente ampliado devido ao vasto crescimento da floresta. Instala-se, também, a partir daí, ao
longo de todo o Quaternário, até nossa época, um período de drásticas mudanças climáticas,
alternando-se, seguidamente, fases úmidas e fases secas com intensa atuação na distribuição
da cobertura vegetal, ou seja, retração das florestas nas fases secas, cedendo lugar para o cres-
cimento de formações vegetais abertas xerofíticas, e reexpansão das florestas nas fases úmidas.
Durante as fases secas, pequenas “ilhas de ambiente tropical” teriam subexistido onde condi-
ções climáticas e topográficas fossem favoráveis servindo de abrigo ou de “refúgio” para animais
de florestas (animais adaptados a alta umidade, pouca luz e temperatura relativamente estável).
17 // Novas
A fragmentação da área de distribuição dessas espécies animais, nas fases secas, levaria,
fatalmente, não só à extinção de muitas delas, como a evolução diferencial das populações
sobreviventes nesses refúgios. O retorno das condições úmidas e o crescimento e coalescên-
cia dos refúgios colocariam, novamente, as populações em contato. Esse contato, a nível de
espécie, dependendo do grau de diferenciação alcançado pelas populações sobreviventes
durante o período de isolamento geográfico, poderia resultar em uma multiplicidade de
situações, como formação de espécies politípicas (as populações mantém a identidade geo-
gráfica, porém estabelecem zonas de intergradação entre si), fusão entre todas ou algumas
das populações, formação de espécies novas, competição entre espécies, extinção, exclusão,
etc. Enfim, uma verdadeira revolução evolutiva.
Com isso em mente, restava agora o passo científico mais importante, ou seja, a com-
provação, a localização das possíveis áreas que abrigaram esses refúgios no decorrer do
Quaternário. Admitindo que o padrão básico de distribuição de chuvas (não índice plu-
viométrico), durante os vários ciclos climáticos, não tenha sofrido grandes alterações, uma
vez que as condições orográficas que determinam esse padrão estiveram presentes durante
a maior parte do Quaternário, HAFFER sugeriu que a localização dos refúgios de floresta,
durante os períodos áridos, deveriam coincidir com os atuais centros de alta pluviosidade.
Esse postulado, de grande impacto rejuvenesceu o interesse pelas ciências biogeográ-
ficas, de modo que muitos pesquisadores, especialmente os brasileiros (entre eles, alguns ocu-
pando posição de vanguarda como A. N. AB’SÁBER, J.J. BIGARELLA, K.S. BROWN
JR, P. E. VANZOLINI etc.), engajaram-se neste campo, acrescentando informações em
número já considerável que não só confirmaram como também permitiram um rápido
aprimoramento do postulado.
Já se sabe, com relativa certeza, que o último grande período seco (houve outros lo-
calizados e de pouca intensidade), cuja extensão pode ser inferida a partir da distribuição
da flora e fauna contemporâneas, ocorreu entre 13.000 e 18.000 anos atrás, correspon-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

dendo a etapa final da última grande era glacial, que começou há cerca de 100.000 anos
AP. Assim, ao contrário do que alguns autores supunham, os períodos de expansão da
aridez estão associados a condições glaciais e níveis de mares baixos, portanto frios e secos.
O rebaixamento do nível marinho condicionado pelos movimentos glácio-estáticos expôs
grande parte da plataforma continental (por exemplo, colocou as ilhas do litoral paulista
em contato com o continente). Os rios Amazônicos poderiam ser imaginados, em períodos
de extensa regressão marinha, como um grande “canyon”. Por outro lado, os períodos úmidos
correspondem aos períodos interglaciais com elevação do nível dos mares. As transgressões
marinhas interglaciais são particularmente importantes na calha do vale amazônico, cujo
leito (talvegue), em grande extensão, está abaixo do espelho marinho. O pico da última
transgressão marinha, que corresponde ao otimum climaticum da atual fase interglacial,
18 // Novas
ocorreu por volta de 4.000 - 6.000 anos atrás e atingiu entre 5 e 12 m, causando o afoga-
mento da foz de numerosas afluentes do rio Amazonas, como se vê ainda hoje (isso pode
ser muito bem estudado nos relatórios e mapas do projeto Radam).
No estudo dos solos e na geomorfologia, são encontradas as evidências mais confiáveis
e incontrovertidas sobre as variações paleoclimáticas. A presença de linhas de pedra (“stone
lines”) interceptando horizontes de páleo-solos, principalmente em áreas de interflúvio,
terraços fluviais, pedimentos, crostas ferruginosos etc., indica períodos áridos sob cober-
tura vegetal rala. Evidências dessa ordem foram encontradas em muitos lugares do espaço
geográfico sul-americano, desde a Amazônia central até os altiplanos do sul e na região
andina. Em vários trechos da rodovia Manaus-Itacoatiara encontram-se as “stone lines”.
Com a abertura de muitas estradas como a Transamazônica e a Perimetral Norte, entre
outras, estas evidências já se tornaram comuns.
Por outro lado, o espaço geográfico ocupado pelas formações vegetais abertas, por
ocasião do avanço das correntes frias e secas da última glaciação, pode ser melhor compre-
endido, pelo menos no momento, pelos estudos da compartimentação topográfica, pelos
enclaves florísticos residuais (p. ex., enclaves de cactáceas no Sul do Brasil, enclaves de
cerrados no interior da floresta amazônica, que indicam uma passada continuidade com
os cerrados do Brasil Central e os de Roraima e Venezuela etc.) e, de forma indireta, pelos
estudos biogeográficos.
Em 1977, AB’ SÁBER apresentou um mapa, como primeira tentativa, dos Domínios
Naturais da América do Sul há 13.000 - 18.000 anos, que foi, nesse mesmo ano, comple-
mentado, no que se refere às “ilhas de mata”, pelo trabalho de K. S. BROWN, JR.(Figura 2)
Tudo indica, de acordo com Ab’Sáber, que por ocasião dos períodos glaciais, especialmen-
te o último, a vegetação aberta xerofítica e não xerofítica predominava no vale amazônico.
As florestas úmidas mantiveram-se apenas nas galerias dos rios e em algumas encostas de
morros e pequenas serras e, em alguns lugares na periferia das terras altas que circundam o

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


vale (nas encostas andinas e ao longo da fachada do escudo das Guianas e do Brasil central).
As caatingas, com cactáceas, teriam tido uma enorme expansão, chegando aos maciços sulinos
e invadindo extensas áreas dos domínios dos cerrados no Brasil central até os Andes meridio-
nais. As florestas atlânticas ficaram restritas às fachadas de serras mais expostas à umidade, e as
araucárias teriam chegado bem mais ao norte, como se vê ainda hoje pelas formações residuais
no sul de Minas Gerais, Campos do Jordão etc. Examinando um mapa fitogeográfico atual,
pode-se ver, ainda, vestígios claros dessa complexa paisagem quaternária.
A presença de fauna amazônica nas ilhas de mata ou “brejos”, que ocorrem na serra
do Baturité e Ibiapaba no estado do Ceará e na mata Atlântica, indica uma passada con-
tinuidade entre estas formações vegetais e a amazônica, que pode ter ocorrido no otimum
climaticum do atual período interglacial ou nos anteriores”..
19 // Novas
Figura 2. Domínios Naturais da América do Sul há 13.000 - 18.000 anos. Segundo AZIZ AB’SÁBER, 1977.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Considerações Finais

Como se vê, embora já se conheçam os mecanismos básicos responsáveis pela grande


diversificação da biota amazônica, essa temática ainda carece de conhecimentos mais pro-
fundos. O que está claro, até então, é que, a floresta é muito biodiversificada, apresenta
áreas “enclaves” que evoluíram a partir de condições biogeográficas específicas e, ainda, é
mais recente do que se imaginava há alguns anos atrás.
Se de um lado a diversificada e, por isso mesmo, frágil biota amazônica, requer cuida-
dos muito especiais na sua ocupação, por outro, o mito de que “terra de mata é sinônimo
20 // Novas
de terra fértil” precisa ser revisto, pois, em muitas áreas a ocorrência de floresta se explica
pelo processo de coalescência da biota amazônica, a partir das “ilhas de ambiente tropical
úmido”, por ocasião do último otimum climático. Ou seja, em extensas áreas da Amazônia
Legal, a floresta está assentada sobre solos arenosos, permeáveis, quimicamente pobres...,
isto é, de pedogênese ainda incompleta – como pode-se observar, por exemplo, nas “dunas
continentais quartzíticas” das proximidades de Vilhena-RO. Ao lado de outras variáveis,
esta avaliação equivocada da potencialidade agrícola das áreas de floresta amazônica con-
tribuiu significativamente para o fracasso do programa POLONOROESTE, voltado para
uma ocupação da Amazônia Meridional a partir de pequenos proprietários e, mesmo, de
colonos sem terra, o que equivale dizer, sem recursos técnicos e financeiros para fazer frente
ao difícil processo de ocupação dessa parcela do território brasileiro.

Referências

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por ocasião dos períodos glaciais quaternários. Paleoclimas (3).São Paulo. 1977.
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IGEOG/USP, 1970.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


21 // Novas
Paisagem Cafeeira e Identidade Cultural:
práticas de territorialização a partir da produção
dos cafés especiais no Eje Cafetero – Colômbia

Luisa Fernanda Durán Montes


Universidade Estadual Paulista, Campus Presidente Prudente/ Brasil

Introdução

O texto tem o intuito de apresentar as características principais da paisagem do


Eje Cafetero na Colômbia, sendo um dos recortes de análise da tese1 em andamento.
Atualmente, esta região conserva, em menor proporção, o plantio, a colheita e a exporta-
ção de café que no passado foi o setor mais relevante da economia no país, região que ainda
apresenta uma importância cafeeira, essencialmente pela incorporação de novos valores na
produção, ademais de atender uma demanda mais especializada, sendo uma alternativa a
participação no mercado dos cafés especiais.
A cafeicultura como polo agrícola de desenvolvimento econômico adotado em diferen-
tes países tropicais tem deixado importantes transformações na paisagem. Assim, estas trans-
formações não devem ser medidas somente pelas mudanças físicas, senão que é necessário Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

acrescentar, também, as mudanças culturais das sociedades que se assentaram nesses lugares.
Desta forma, o Eje Cafetero apresenta uma identificação cultural própria, que se man-
tem com a lavoura cafeeira, mesmo com as suas transformações e novas representações, a
partir de uma tradição familiar que se esperança de que a cada ano as condições possam
melhorar apesar das dificuldades no momento (DURÁN, 2017).

1
Transformações da paisagem e processos de territorialização no Norte Pioneiro Paranaense e no Eje Cafetero
Colombiano: o papel das organizações de pequenos cafeicultores na produção-comercialização de cafés
especiais e sua relação interescalar. Doutorado em Geografia, Unesp -Presidente Prudente, Brasil. Bolsa
FAPESP (Processo: 2017/ 03517-5).
23 // Novas
Destaca-se que a maior parte dos municípios da área em estudo conservam como ativi-
dade a produção cafeeira; assim, o habitat criado historicamente através de processos endó-
genos relacionados à construção social e cultural do território, o converteram pela UNESCO
em Paisagem Cultural Cafeeira. Assim, a declaratória da UNESCO permite estimular pro-
cessos de identidade coletiva e incluir novas funcionalidades nos espaços rurais, porém, isto
não deveria implicar uma visão idealizada da situação, sabendo que desde o começo esta
declaratória se alicerça sobre uma série de exigências difíceis de ser mantidas no tempo.
É importante lembrar que na década de 1990 começaram processos de produção de
cafés especiais na Colômbia, formação de organizações sociais e o fortalecimento do turismo
rural, porém, só na década de 2000 essas iniciativas apresentaram progressos significativos
por meio da consolidação das organizações e associações de cafeicultores.

Breves apontamentos teóricos: Paisagem e Território

Conforme Machado (2009) a paisagem exibe as mudanças e permanências definidas


em um território a longo do tempo, conformando um arranjo de objetos e formas concre-
tas (passadas e presentes). Adicionalmente, Luchiari (2001) define a paisagem como um
processo de construção a partir do imaginário social, pois não é somente um espaço onde
são desenvolvidas as práticas sociais, senão que estas mesmas práticas sociais dão um novo
conteúdo e, ao mesmo tempo, o transformam. Desta forma, a referida autora afirma que “as
representações de mundo são construídas na produção desses objetos culturais que, reuni-
dos no tempo e no espaço, transformam a paisagem em lugar” (LUCHIARI, 2001, p. 22).
Para Passos (2013) a paisagem é polissêmica, reúne características como qualidade de
vida, aspectos estéticos, dimensão patrimonial, valor no ordenamento territorial, além do
desenvolvimento das identidades no local de vida. Assim sendo,
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

uma realidade mutante e dinâmica, inscrita no tempo e no espaço. Ela porta


traços da combinação momentânea de heranças produzidas por processos físicos e
humanos. Mesmo que pareça instável, a paisagem é sempre trabalhada por dinâmi-
cas de evolução que não entram forçosamente em ação todos ao mesmo tempo e
segundo igual duração. Nesse sentido é importante as identificar como sendo marcas
suplementares da interação natureza/sociedade capazes de melhorar a compreensão
do jogo de forças com a origem de sua construção e de sua evolução. A consideração
dessas dinâmicas se efetua de muitas maneiras. Alguns componentes informam dire-
tamente sobre as dinâmicas temporais enquanto que as dinâmicas espaciais se devem
pela colocação em evidência de suas interrelações (PASSOS, 2011, p.45).
24 // Novas
Em suma, o conceito de paisagem é entendido como: “uma tradução do conteúdo
visível que se expressa na forma (padrões na configuração, estruturas na corporização), é
materialidade mediada pelas práticas sócio-espaciais” (ALZATE; DURÁN, 2015, p. 212).
Estas práticas que são influenciadas pela dimensão simbólica, manifestadas no trabalho
e operacionalizadas por meio da técnica, demonstram elementos da materialidade que
constrói o território e transforma a paisagem; estas transformações são influenciadas pelas
relações de poder, relação evidente entre os conceitos de paisagem e território.
Por outro lado, Zambrano (2010) explicita que no território confluem distintos es-
paços culturais, sociais e políticos, que geram formas específicas de identidade territorial.
Nessa mesma esteira, Ardila (2003) caracteriza o território como produto das relações cul-
turais e que é desvelado nas formas das paisagens, pois representa as relações ideológicas e
de poder concebidas em cada tempo, formando uma parte da cotidianidade.
Com relação ao anterior e segundo Raffestin (1993), o território é o espaço político
e o campo de ação, por isso é considerado multidimensional, já que sua atuação se en-
contra com outras dimensões do poder, incluindo as práticas e relações cotidianas sociais
(GALVÃO; FRANÇA; BRAGA, 2009, p. 34).
Os processos de apropriação e transformação da natureza, pelos quais se configura um
habitat, têm, desta forma, caráter produtivo. Por tanto, um processo produtivo do habitat
se materializa no conjunto de ações e retroações, materiais e simbólicas, realizadas numa
paisagem específica entre vários atores (sociais, empresarias, institucionais e até mesmo
individuais) na procura do desenvolvimento e utilização, quer dizer, apropriação de recur-
sos para a gestão, planejamento, produção, e transformação ou adequação da plataforma
natural (FIQUE, 2008).
Neste caso, a compreensão da tríade território-paisagem-habitat implica um olhar com-
plexo, o qual requer da caracterização contínua e permanente das mudanças, que são feitas
pela cultura sob o controle dos recursos e que, ao interagir com a natureza gera suas próprias

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


dinâmicas territoriais refletidas, sobretudo, na apropriação social, a geração de identidade e
significados, as ações espaciais e processos históricos. No contexto cafeeiro, a materialidade
apresenta um cenário com uma longa história, mais de 150 anos e diversos atores, que com
base nas suas relações econômicas, políticas e culturais produzem territorialidades que, um
modelo de desenvolvimento atrelado às mudanças globais, tem sabido usufruir, criando
assim novos mercados que procuram cafés diferenciados, pagando mais por uma melhor
qualidade do grão, tornando-se numa oportunidade para que os pequenos cafeicultores,
ainda marginalizados na cadeia de valor global, possam acreditar de novo em seu potencial,
valorem suas tradições, conformem organizações de base solidária, capacitem-se e assim
consigam vender por seus próprios meios, evitando os intermediários para obter maiores
lucros, mesmo que isto ainda seja a realidade de algumas poucas organizações.
25 // Novas
Principais características do Eje Cafetero Colombiano

O Eje Cafetero na Colômbia (Figura 1) tem se caracterizado por desenvolver uma intensa
produção cafeeira, porém tem passado por diferentes fases e processos de colonização e/ou as-
sentamentos. Primeiro, passou por um processo mais espontâneo, principalmente, a partir de
deslocamentos de pequenos produtores que procuravam novos lugares para morar. O nome
de Eje Cafetero foi dado a esta região pela forte presença dos cultivos de café, configurando
um processo cultural e histórico, especificamente, nos departamentos2 de Caldas, Quindío e
Risaralda3, localizados no centro-ocidente na cordilheira central e ocidental dos Andes que
antes de 19664, conformaram o departamento de El Gran Caldas, o qual se caracterizou pelos
sucessos obtidos na exportação do grão de café. A área que integra o Eje Cafetero compreende
12.906 km2, 48 municípios e, aproximadamente, 2.700.000 habitantes (DANE, 2010).

Figura 1. Mapa da região Eje Cafetero conformada pelos municípios de Caldas,


Risaralda e Quindío na Colômbia
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fonte: ShadowxFox, 2014.


2
A Colômbia é uma república unitária de acordo com a Constituição Nacional de 1991. Não obstante, o país tem uma
descentralização administrativa, como parte das políticas de desenvolvimento levadas a cabo pelo governo nacional, através
da qual grande parte da administração do Estado é dividido entre as entidades administrativas-territoriais de nível inferior.
Essas entidades, do mais para o menos importante, são os departamentos, municípios e territórios indígenas que conformam
diferentes níveis de organização territorial da República (Departamento Administrativo Nacional de Estadística, 2000).
3
Os departamentos de Caldas, Quindío e Risaralda estão localizados numa zona designada como “Triángulo de Oro de
Colombia”, pois é ponto da passagem entre as três cidades principais do país, Bogotá, Medellín e Cali, que para o ano
2005 reunia o 49% da população total do país.
4
Em 1966, consolida-se a produção cafeeira e devido a gestas cívicas iniciadas em Armenia e Pereira (cidades do Grande Caldas a
existência de uma região no imaginário de seus habitantes (ROBLEDO, 2008, p.26, tradução nossa).
26 // Novas
Segundo Palacios (2009), a comercialização do grão foi iniciada no final do século xix, apro-
ximadamente, 150 anos na composição do ecossistema de acordo com as condições climáticas,
geológicas, ecológicas, culturais, políticas e econômicas que configuraram um habitat particular,
identificado como paisagem cafeeira.
A configuração desse habitat começa com o reconhecimento das práticas produtivas
do café, as quais foram classificadas por Guhl (2006) como cafeicultura tradicional e cafei-
cultura intensiva ou tecnificada (Quadro 1). A transformação da paisagem cafeeira, dada
na Cordilheira dos Andes, apresenta duas etapas, a primeira está relacionada à formação
e consolidação da economia cafeeira (1850-1970), e a segunda está relacionada com a
intensificação da produção do grão (1970-atualidade).
Porém, é importante ressalta que, nos dois sistemas produtivos acima mencionados, as
culturas de café têm permanecido rodeadas de outras culturas alimentares para o consumo
familiar, como milho, mandioca, feijão, legumes, frutas, pastagens e áreas de bambu ou
florestas de galeria, conformando culturas consorciadas. Destarte, a maior parte da paisa-
gem cafeeira (Foto 1) exibe uma mistura de culturas que é chamada de “colcha de retazos”,
e só é possível encontrar grandes extensões de hectares de café nos locais que mostram um
processo de intensificação na produção (GUHL, 2006).

Foto 1. Cultivos que conformam a Paisagem cafeeira

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fonte: Autora, 2016.


27 // Novas
Quadro 1. Características dos sistemas produtivos cafeeiros na Colômbia

Fonte: Guhl, 2006, p. 194.

A expansão das plantações de café foi por meio da criação de Policultivos de la


Caficultura Tradicional, que levaram essas diversas associações agroflorestais a se tornarem
um processo cultural de várias gerações, as quais foram construindo uma herança “natural”
que transformou não só a estrutura da paisagem.
No ano de 2011, Risaralda, junto com os departamentos de Caldas e Quindío,
(Eje Cafetero), e o departamento do Valle Del Cauca foram declarados pela UNESCO
– Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Paisagem
Cultural Cafeeira (Figura 2) e foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial.

Figura 2. Área da Paisagem Cultural Cafeeira (inclui os departamentos de Caldas,


Risaralda, Quindío e Valle del Cauca)
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fonte: Red Alma Mater, 2012.


28 // Novas
Destaca-se nesta paisagem a tradição da cafeicultura, refletida nas parcelas dos cultivos
que cobrem as montanhas, também no desenho urbano e na arquitetura das cidades. Como
consequência da adaptação dos primeiros migrantes que há mais de 150 anos plantam café
nas encostas e montanhas correspondente às condições topográficas da região. A expansão
das plantações de café ocorreu a partir da criação de Policultivos de la Caficultura Tradicional,
quer dizer, desenho de agroecossistemas que se tornaram patrimônio material e imaterial
da humanidade, que representam a relação da sociedade - natureza como adaptação do
homem às encostas do terreno montanhoso, levando essas associações agroflorestais a se
tornarem um processo cultural e, ao mesmo tempo, geracional. Construindo uma herança
“natural”, que modificou não só a estrutura da paisagem, senão a função dos policultivos
de acordo com as mudanças dos contextos econômicos, sociais e políticos tanto nacional
quanto internacional (DURÁN, 2017).
Por isso, é importante manter a cafeicultura tradicional para a preservação da paisagem
e a declaratória da UNESCO:

(...) A conservação da cafeicultura tradicional, entendida como a melhor opção


para conservar os recursos genéticos e a diversidade alimentar, assim como talvez a
única possibilidade de conservar aos agricultores tradicionais, os que fazem parte do
patrimônio natural, quer dizer, do patrimônio cultural (RODRÍGUEZ; DUQUE,
2009, p. 123, tradução nossa).

O elemento cultural neste tipo de agroecossistemas é visto por meio das expressões
locais de cada região, pois o café é produzido em várias partes do país, só que a sua confi-
guração está condicionada à estrutura de cada território e o grupo de pessoas que confor-
mam (produzem) o mesmo. E, como frisam os autores, Rodríguez e Duque (2009, p. 124,
tradução nossa): “[...] A cafeicultura de policultivo é uma expressão de formas engenhosas

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


tradicionais que configuram uma paisagem cultural”.
O setor turístico apresenta avanços relevantes e tem preparado estratégias para di-
vulgar a Paisagem Cultural Cafeeira no exterior, porém, esta figura é mostrada como um
produto turístico em relação ao agroturismo, que é desenvolvido a partir de atrativos, por
exemplo, avistamento de aves, feiras e festas tradicionais, patrimônio arquitetônico, per-
corridos em transportes locais como o yipao (Jeep) ou cavalo e hospedagem em fazendas
cafeeiras. Também, está sendo executando um projeto “Rutas del Paisaje Cultural Cafetero”
que soma a ideia anterior dos atrativos, turismo de luxo, aventura e atividades esportivas.
A complexidade desse aspecto turístico da Paisagem Cultural Cafeeira está centrada
na pouca abrangência do contexto dos camponeses, porque a maioria deles não tem como
participar deste setor, pois não existe uma contribuição direta para o melhoramento das
29 // Novas
suas condições de vida no campo. Aliás, este setor está integrado, principalmente por
empresas privadas e, em alguns casos, estrangeiras.
Em síntese, é pertinente e importante divulgar o patrimônio cultural e natural da
região com ajuda do turismo; de outra forma, pode significar um atraso torná-lo um
produto paisagístico “estático”, pois não possibilita enxergar a interrelação dos habitantes,
que neste caso são os cafeicultores com a sua paisagem, que tem sido modificada principal
e permanentemente por eles. Dessa forma, estas condições limitam as possibilidades da
declaração e podem levar a perder credibilidade e confiança no processo institucional.

Dinâmica entre produção e comercialização de cafés especiais

Na década de 1990 a partir da ruptura do Acordo Internacional do Café, o preço do grão


perdeu a estabilidade adquirida com os países compradores, e começou a variar de acordo
com a oferta do produto no mercado mundial. Esta crise cafeeira possibilitou outro tipo de
consumo do café, focado na elaboração de produtos baseados no café, ademais levou aos
consumidores pagarem mais pelos atributos simbólicos e os serviços personalizados.
No país, a política agrária é atribuída à Federación Nacional de Cafeteros5 , que depois
da crise estabeleceu o preço de compra do café pergaminho aos cafeicultores por meio das
cooperativas da mesma instituição. Ao principio esta política funcionou a través dos au-
xílios representados no pago a mais pela produção, porém o mercado internacional estava
passando por uma crise e o preço do grão na bolsa de Nova Iorque apresentou uma queda
brusca, pois ao ingressar o café na bolsa, obrigatoriamente, o torno uma commodity e au-
mentou o conflito de interesses sobre este produto, marcando aos cafeicultores só como
produtores de uma matéria-prima, que comercializam principalmente grão verde, já que
o café no setor primário tem poucas inovações tecnológicas após ser entregue às grandes
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

corporações e tradings6 (DAVIRON; PONTE, 2005).


Em consequência, os pequenos cafeicultores passaram por momentos de constantes cri-
ses, e que acompanhadas das mudanças nas políticas da Federación Nacional de Cafeteros,
focadas no aumento da produção de café, foi gerando um deterioração na terra e um déficit
na produção de alimentos de subsistência nas propriedades. Esta situação provocou que
alguns camponeses não aguantaram os baixos preços do grão, tendo que trocar o sistema de
5
A Federación Nacional de Cafeteros é uma organização semi-privada (fundada em 1927), tem sofrido menos
os impactos frente às reformas neoliberais e que depois do rompimento do Acordo Internacional do Café, man-
tem a compra direta dos produtores para proteger o mercado interno das oscilações do mercado internacional.
6
As tradings atuam na troca comercial das matérias-primas de pouco valor agregado (energia, metais, gado
e carnes e produtos agrícolas, através de transações em mercados de ações especializados e bolsas de valores
(DESTINO NEGÓCIO, 2018).
30 // Novas
cultivo por um mais rentável ou vender a propriedade para donos de fazendas ou empresas
de mineração. Outros camponeses migraram para as cidades principais, procurando melho-
res condições e estabilidade. Na década do ano 2000, novos mercados permitiram a venda
de um café diferenciado, pagando por uma melhor qualidade do grão. Segundo, Pendergrast
(2010), surgem movimentos de comércio justo e a “terceira onda” introduz um segmento
de consumidores com maior grau de conhecimento sobre a produção e qualidade do café.
Este tipo de comercialização e consumo permitiu que os pequenos cafeicultores (Foto 2)
formaram organizações, estudaram ou formaram-se e venderam a produção, principalmente
café pergaminho diretamente a um cliente estrangeiro. Sem embargo, as organizações que-
rem ir além, procurando novos canais de comercialização para vender também o café pronto
para consumo, já que sabem que nesta parte da cadeia global os ganhos são maiores.

Foto 2. Etapas da produção de café

Fonte: Autora, 2015/2018.

Conforme Reina, Silva e Samper (2007), a Colômbia conseguiu aproveitar a não


mecanização da colheita do café pela difíceis condições topográficas em uma vantagem
comparativa, que agrega qualidade ao produto no mercado mundial. Assim os dados de
2004-2005 mostram que os cafés especiais representam 5,1% da produção total de café no
país e 5,6% nas exportações (DNP, 2009).
Por último, Daviron e Ponte (2005, p. 120) consideram que o negócio do café no mundo

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


“[...] tem estado mais a disposição das grandes fazendas que dos pequenos produtores ca-
feicultores”, porém, na Colômbia, pelo menos no Eje Cafetero a cafeicultura tem estado nas
pequenas propriedades, e continua tendo maior participação neste mercado diferenciado.

Considerações

No contexto da Paisagem Cafeeira, podem ser evidenciadas as relações de poder entre


diferentes agentes e atores nacionais, assim como processos históricos de ocupação, que
permitiram o estabelecimento de uma cultura agrícola que transformou por mais de
100 anos aspectos físicos e sociais da região, construindo uma identidade territorial.
31 // Novas
As práticas sócio-espaciais no Eje Cafetero produziram uma identidade que através dos
seus imaginários, colocaram a cafeicultura como centro da sua existência, o que determinou
tanto as características naturais quanto os costumes, os quais são modificados constante-
mente através das gerações. Não obstante, são conservadas certas particularidades relaciona-
das com as técnicas na agricultura, o sistema de propriedade, a construção das moradias,
o trabalho familiar na lavoura e a forma de estruturar a institucionalidade cafeeira.
A despeito das transições do mercado internacional e os ganhos que possam ter os
cafeicultores neste novo espaço que está condicionado pelos selos e certificados, Talbot
(2004) argumenta que a comercialização dos cafés especiais, só pelo fato de serem especiais
ou diferenciados, não vão diminuir a instabilidade dos cafeicultores frente as oscilações
do mercado mundial, a pouca abrangência das políticas públicas e nem as condições de
desigualdade entre os produtores. Podemos acrescentar nesse aspecto, que a subordinação
Norte - Sul Global continua sendo uma constante difícil de ser superada, sobretudo, en-
quanto a divisão internacional do trabalho, seja em nosso hemisfério, ainda a de produção
de matérias primas, nesta esteira, os lucros na cadeia de valor global podem ser levemente
alterados, mas sua desproporção seguirá sendo uma estratégia de submetimento e apro-
priação de discursos que pensávamos brilhavam por próprios, diferenciados e alternativos.

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); ao programa


de Pós-graduação em Geografia da UNESP – Campus de Presidente Prudente e aos
cafeicultores que participaram da pesquisa.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

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33 // Novas
Trilhando pela paisagem cultural
de Alcântara/Brasil

Ana Rosa Marques


PPGEO / Universidade Estadual do Maranhão / FAPEMA1
Tallita Rayanne Santos Arouche
Graduanda Geografia / Universidade Estadual do Maranhão

“Alcântara resplandecia na claridade crespular. Por toda parte, a algazarra


de pássaros. O pesado arfar das ondas esboroando-se na nesga da praia. E uma
viração constante a correr as ruas, as praças, os caminhos, com uma poeira leve e
translúcida dançando no ar”.
Josué Montello
“Noite sobre Alcântara”,1978, p.307.

Um primeiro olhar

A primeira impressão sempre é que nos influencia a “gostar’ ou “não gostar”. Mas
quando nos lançamos à experiências novas, como é o caso de trilhar por um patrimônio
cultural, essas impressões ganham uma potencialidade ainda maior.
O momento inicial dessa nossa “viagem” pelo universo cultural de Alcântara ocorre
com o embarque no barco tradicional à vela, o mesmo que há muito tempo tem seu uso

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


para enfrentar a travessia da Baía de São Marcos, 22 km, que separa o continente: muni-
cípio de Alcântara da Ilha do Maranhão: composto pelos municípios de São Luís, Paço do
Lumiar, Raposa e São José de Ribamar, uma pequena distância em linha reta, porém por
via marítima se torna um pouco mais desafiador, com diversas singularidades.
Voltamos para o embarque, que em dias de chuvas torrenciais torna-se um pouco
complicado, este período de janeiro a junho é de seis meses de muitas águas aqui no
Maranhão. A embarcação tem uma parte para a acomodação dos passageiros sempre com
muito movimento de pessoas, possui as aberturas laterais que precisam ser cobertas por
uma lona impermeável, prejudicando assim a ventilação na área interna destinada aos
passageiros. Esse fato aqui descrito é considerado uma fragilidade em análises sobre o
1
anclaros@yahoo.com.br
35 // Novas
desenvolvimento do turismo para o município de Alcântara, e essas condições de deslo-
camento é um fator de diminuição de turistas, principalmente neste tempo das chuvas
muito intensas, segundo diversas conversas com gestores de pousadas e observações diretas
que tem ocorrido durante o tempo desta pesquisa em tela.
É destaque esse período de chuvas pois
[...]são marcadas por dois períodos bem distintos: um chuvoso, que se caracteri-
za por apresentar moderados a grandes excedentes hídricos, enchentes dos rios, baixa
evaporação, elevada umidade relativa do ar, solos úmidos e temperaturas baixas, que
se estende de janeiro a junho; e outro, seco, caracterizado por déficits de precipitações,
altas taxas de evapotranspiração, baixa umidade relativa do ar, solos secos, tempe-
raturas mais elevadas e vazantes dos rios, que vai de julho a dezembro. Os valores
médios anuais de precipitação, variam de 2.182mm em São Luís, 1.812mm em São
José de Ribamar, e 2.036mm em Rosário ( MARANHÃO, 1998, p.12)

O outro período, época seca, temos uma melhoria nessas condições de ventilação,
que também tem uma outra singularidade: os ventos alísios que sopram com muita força,
nos meses de agosto a novembro, justamente no tempo seco, que provoca intensas ondas,
conhecidas como “maresias” pela população local.
Essa paisagem do verão, período seco, e do inverno, período chuvoso, traz alterações
consideráveis para a frequência de turismo para o município de Alcântara e também in-
fluencia o cotidiano das pessoas do lugar. Outra questão que dificulta a travessia é que
o Cais da Praia Grande, local do transporte, quando a maré está baixa se torna inviável
acontecer o embarque no mesmo, sendo transferido para a Ponta de Areia, que provoca
muitos transtornos devido a deficiência da infraestrutura no local.
A travessia aqui relatada é a do período seco, onde o embarque segue sempre o horário
da maré, que também rege o tempo em Alcântara, pois tudo está interconectado com esse
movimento natural do oceano, neste caso, o Atlântico. Dependendo do vento e das condições
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

marítimas, após uma hora e meia começamos a vislumbrar Alcântara.


A paisagem cultural de Alcântara começa a se descortinar por entre a linha do horizonte, acima
do mar, pelos balanços que ainda insistem em nos “marear”, começamos a perceber o núcleo his-
tórico representado por um conjunto arquitetônico colonial, que faz um desenho delimitando o
tabuleiro costeiro, que decliva para a área do nível do mar, onde temos o ecossistema de manguezal,
com suas raízes aéreas e verde intenso preenchendo como uma moldura dessa paisagem.
Nosso olhar nos traduz a beleza dos casarões, com destaque para a Igreja do Carmo,
que majestosamente sinaliza que voltaremos no tempo, tempo este que traduz sutilmente
a consolidação do imaginário poético, potencializado por suas ruínas acenando para o pas-
sado com a materialidade do presente. Uma memória viva que está sempre em interação
formando um exuberante conjunto paisagístico.
36 // Novas
Começamos a avistar os pequenos barcos de pesca, pescadores passando a rede de ar-
rasto de camarão, os pulsás de espera, e outras formas de pescaria, um modo de vida que
ocorre no cotidiano desta área que abastece de peixes e mariscos uma grande parte da po-
pulação alcantarense com a pescaria tradicional (Foto 1). Essa forma de pescar possibilita
a segurança alimentar de muitas famílias e é praticada em sistema coletivo.

Foto 1. Sistema coletivo de pesca Foto 2. Embarcação tradicional ancorada


tradicional na Beirada de Alcântara no Porto do Jacaré/Alcântara/MA

Fonte: Arquivo pesquisa, 2018.

Navegamos pela desembocadura do Igarapé do Jacaré, e atracamos no Porto com o


mesmo nome: Jacaré ( Foto 2) devido a sua localização no referido Igarapé. “Há referências
sobre a existência de dois portos em Alcântara: o atual, denominado Porto do Jacaré,
localizado no Igarapé do Jacaré; e o antigo porto, denominado Porto da Laje, situado na
Praia dos Barcos” (PFLUEGER, 2002, p.94).
Ouvimos o apito do Barco indicando que chegou ao final a nossa travessia e assim
essa primeira impressão de nossa viagem, após uma hora e vinte minutos. Agora sigamos.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


A imersão

Ao descer do barco avançamos passo a passo, vivenciando sensações de estar em um


lugar que tem a magnitude do tempo, a presença de muitas memórias, caminhando sobre
as pedras lapidadas à mão pelos negros escravizados, que uma a uma foram assentadas for-
mando um mosaico de desenhos como uma escultura em formatos de losangos, compondo
assim a subida da Ladeira do Jacaré, paulatinamente vamos nos integrando à paisagem
cultural e tudo que ela nos revela.
Uma simbiose entre o patrimônio material expresso pelo conjunto arquitetônico,
pelo desenho que cada uma dessas moradias expõe e o patrimônio imaterial que sentimos
37 // Novas
pairando no ar, diversos significados para os que ali passam e o sentem, pois a paisagem
como complementa Guimarães (2002, p.4),
[...]como o legado de um jogo de forças, testemunhando não somente a ação dos
elementos e processos naturais, mas também as interferências da presença humana. Esta,
de acordo com as circunstâncias experienciadas, atribui valores e significados às suas
paisagens, que passam então, a inserir a sua própria história de vida, uma territorialidade
marcada, determinada pela afeição, originando o espírito de um povo e de um lugar.

Ressaltamos assim a importância do conhecimento mais aprofundado sobre esta área


pois com esses estudos ampliamos a compreensão da paisagem alcantarense. Bertrand:
Bertrand (2007) nos auxilia nesta compreensão quando afirma que “todo estudo da pai-
sagem coloca, então, a priori, o problema da análise das defasagens no espaço e no tempo
entre os principais componentes do processo”.
Como em busca de um consenso conceitual onde o tempo influencia diretamente
nos processos paisagísticos, que é percebido na observação dos testemunhos deste tempo,
em formas de conjuntos de casarões coloniais, ruínas (Foto 3), objetos antigos, entre ou-
tros significados que se estabelecem como um dueto histórico-social e cultural dessas
transformações da sociedade, produzindo a paisagem cultural deste lugar.
Nessa convivência entre o passado e o presente percebemos que essas transformações
convivem cotidianamente no imaginário alcantarense, e se fortalecem nos momentos em
que suas manifestações religiosas acontecem e na forma de viver de acordo com o tempo
das marés, em consonância com o tempo do lugar.

Foto 3. Testemunho do tempo em forma de ruínas da Ladeira do Jacaré


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fonte: Arquivo pesquisa, 2018.


38 // Novas
Para uma melhor compreensão destas questões, buscamos agora uma contextualização
histórica cultural do município, que teve a sua fundação em 22 de dezembro de 1648,
tendo como primeiros habitantes os indígenas Tupinambás, com destaque para a Aldeia
de Tapuitapera, que significa terra ou residência de tapuios ou cabelos compridos, con-
siderada a mais importante aldeia desse povo indígena. Neste ano ocorreu a elevação da
Aldeia à categoria de Vila de Santo Antônio de Alcântara, elegeram como padroeiro da
cidade: São Matias.
A Vila se desenvolveu devido à produção significativa de algodão, arroz, milho, farinha
de mandioca, cana de açúcar e criação de gado (FÓRUM DLIS, 2003).
No ano de 1650, já contava com 300 moradores, surgiram assim os primeiros enge-
nhos de cana de açúcar que possibilitaram uma boa produção de açúcar e aguardente, com
geração de excedentes, havendo registro de venda e transporte por meio de embarcações
para São Luís. Alcântara experimentou tempos áureos dos anos de 1653 a 1860, com a
construção do Convento de Nossa Senhora dos Remédios, posteriormente Nossa Senhora
das Mercês. Em seguida os jesuítas construíram o Convento de Nossa Senhora do Carmo
da ordem Carmelitana e posteriormente criaram uma residência onde lecionavam latim e
leitura. Houve a intensificação do processo de ocupação territorial com aumento de fazendas
e infraestrutura (vias de acesso, núcleos de moradia).
A produção de Alcântara se baseava na mão de obra escrava voltada para atender o
mercado externo, com destaque para os seguintes produtos: sal e açúcar, além da produção
de cachaça, couro, carne, algodão, farinha, milho, tapioca e peixe seco. Com a criação da
Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, Alcântara tornou-se referência de
centro produtivo de arroz e algodão. E prosperou ainda mais, com a implantação da cultura
algodoeira para atender o mercado da Inglaterra. (FÓRUM DLIS, 2003).
Mas, com o fim da exportação de algodão, a abolição dos escravos em 1988 ocorreu a
estagnação do desenvolvimento econômico e social alcantarense. Esta decadência esvaziou

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


a sede da cidade de Alcântara, os senhores de engenho deixaram a cidade e seus ex-escravos
ficaram sujeitos a sua própria sorte. Instalou-se um longo período de esquecimento. Todo o
processo de degradação da ruínas da cidade segundo (PLFLUEGER, 2011), foi provocado
pelo desmonte do sistema, resultando na transferência dos negócios dos senhores das fazendas
para São Luís, assim, o desgaste das edificações foram bem mais aceleradas.
O tempo passou, e devido a necessidade de preservar o patrimônio construído durante
a época do apogeu, e 1948, para proteger o conjunto de casarios coloniais, ocorreu o reco-
nhecimento como Monumento Nacional. No entanto, só em 1990 houve a delimitação
do perímetro tombado, com a lei de número 244 de 10 de outubro de 1997 – elaborada
pelo IPHAN que foi estabelecido a proteção do conjunto arquitetônico e paisagístico de
Alcântara, definiu seus limites e regulamentou a ocupação.
39 // Novas
Um outro fator a ser destacado foi a implantação do CLA – Centro de Lançamento de
Alcântara e que provocou uma grande transformação sócio espacial no município, com o
deslocamento compulsório, onde:
Os oito mil e setecentos hectares já desocupados para instalação da primeira
fase do Programa Nacional de Atividades Espaciais, onde está o CLA, correspon-
dem a parte significativa das terras tradicionais das comunidades quilombolas do
município de Alcântara. Dali foram retiradas 32 comunidades, realocadas em sete
agrovilas, num formato que tem comprometido a lógica tradicional a partir da qual
estruturam suas relações sociais, produtivas e ambientais e, por conseqüência, as
relações entre as comunidades realocadas e as demais, com as quais mantêm laços de
parentesco e forte relação de interdependência. (ALMEIDA, 2006, p.07)

Uma parcela dessa população foi atraída para a sede municipal, ocuparam áreas sem ne-
nhuma infraestrutura, áreas de vales e fazendo construções com o quê tinham a disposição,
muitas áreas de declividades altas e formando assim uma espécie de favelização. Almeida
(2006) escreve que devido a essa movimentação populacional começou a ocorrer a retirada
de pedras das ruínas antigas como matérias primas para construir as novas moradias.
Havendo assim a necessidade da intervenção do IPHAN para reverter a situação e
proteger a área tombada, em 2004, que passou a considerar o patrimônio de Alcântara
como de valor cultural, histórico, artístico, paisagístico, urbano e arqueológico.
A importância desse patrimônio está entrelaçada aos seus traços culturais marcantes e di-
versos, graças a sua gente e sua história. Para facilitar a compreensão de cultura, recorre-se a
definição de Santos (2006), que retrata duas concepções de cultura:
A primeira diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo
ou nação ou então de grupos no interior de uma sociedade. A segunda refere-se mais
especificamente ao conhecimento, às ideias e crenças, assim como às maneiras como
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

eles existem na vida social. A maneira de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza
e a realização individual são enfatizadas, e que tem por temas principais a ecologia, a
alimentação, o corpo, as relações pessoais e a espiritualidade. (SANTOS, 2006, p.24-25).

Nesta perspectiva do modo de vida, da tradição de suas festas, da crença e do movimen-


to do povo Alcantarense, Pflueger (2002) registra algumas de suas potencialidades culturais.
As mais expressivas manifestações culturais são as duas festas religiosas do
Divino Espírito Santo e a de São Benedito. Na “Festa do Divino”, aspectos da for-
mação histórica são evidenciados, pois, ocorre a reprodução simbólica da visita da
corte portuguesa ao Brasil com todo o ritual que inclui o mastro, os cortejos percor-
rendo as ruas da cidade histórica, os personagens do Império vestidos à caráter nas
40 // Novas
visitas e formalidades religiosas das missas e ladainhas. Na festa de “São Benedito”
ocorre uma referência aos negros e sua cultura, evidenciando o sincretismo religioso
afro-brasileiro através do ritual profano e religioso da festa que resgata os elementos da
dança e do tambor de crioula juntamente com o ritual católico da missa e distribuição
de comida aos pobres (PFLUEGER 2002, p. 39).

As festividades de Alcântara caracterizam-se em momentos fortes da comunidade,


desde a organização até os atos celebrativos, são desenvolvidas atividades que movimentam
toda a cidade, com os cantos, vestimentas, interação uns com os outros; o que permite o
fortalecimento da religiosidade e da cultura local. E possibilita também, a geração de renda
com turistas das mais diversas localidades bem próximas ou distantes que se encantam com
as festividades alcantarenses e que corroboram com os traços socioeconômicos da cidade.
O Núcleo Histórico ou como também é conhecido por sede municipal, é o local onde estão
presentes as ruínas, os casarões, a igreja e o pelourinho, que era local de castigo dos escravos. Essa
utilização conhecida era o símbolo de poder instituído, tinha outras serventias sociais, como a
fixação de éditos reais, decisões das autoridades comunais a pleitos dos cidadãos ou informações
de interesse da comunidade, simbolizava um elemento de ligação entre o poder constituído e o
povo, e está localizado sempre em frente ao edifício da câmara ou na praça principal. (Foto 4).

Foto 4. Ruína da Igreja de São Matias e o conjunto arquitetônico tombado


e reconhecido como Monumento Nacional, em destaque o Pelourinho
a direita à frente e o mastro da festa do Divino à Esquerda.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fonte: Arquivo da pesquisa, 2018.


41 // Novas
É importante caracterizar as ruínas como marcos significativos na composição de uma
paisagem, de acordo com Amarante (2013, p.26):
As ruínas transformadas em monumentos sustentam signos e mitos de origem,
uma simbologia formulada e transmitida aos atuais observadores como maneira
de manutenção de uma memória social reconhecida pelo Estado. Analisando estes
exemplos de representações de ruínas e paisagens ruinosas ao longo do tempo artís-
tico, histórico e patrimonial como balizamento investigativo da imagética do objeto,
gostaria de ponderar outras relações, abrindo agora um caminho de observação e
compreensão da estética da ruína também como poética temporal. A ruína, inserida
ou não como patrimônio, manterá um diálogo íntimo com o tempo. Seja como tes-
temunha de um tempo passado, seja na compreensão do presente, ou na constatação
do devir, do futuro.

Atualmente, é possível notar determinadas características que foram alteradas pela


necessidade antrópica, como a criação de comércios, bancos, restaurantes e pousadas
principalmente por Alcântara estar no calendário turístico do estado do Maranhão, ter
momentos de um grande fluxo de turismo.
Todo o processo de mudança é resultado da adaptação de um determinado povo,
para Santos (1997, p.37) escreve:[...] “a cada vez que a sociedade passa por um processo
de mudança, a economia, as relações sociais e a política também mudam, em ritmos e
intensidades variados. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e à paisagem”.
Observamos assim, que o potencial de Alcântara para o desenvolvimento sustentável
aliada a valorização de sua paisagem cultural, seguindo a perspectiva do desenvolvimento
com todos os agentes envolvidos: o social, ambiental, econômico, e cultural, traz uma
qualidade de vida para as pessoas e com o respeito à sua cultura e história, porém esse
patrimônio está passando por problemas de conservação, em toda a sua infraestrutura,
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

com vários casarios em estado de degradação (Foto 5), ruínas em acelerado processo de
desmoronamento, principalmente as que estão localizadas na rua da Amargura. Além
da presença de muitos resíduos sólidos em diversos pontos do roteiro histórico, e áreas
de erosão nas encostas que protegem o sítio histórico como um todo.
Destacamos que Alcântara possui inúmeros poços antigos no seu Núcleo Histórico,
com destaque para o Poço dos Frades que se encontra na área da Beirada. Além das Fontes
de Mirititiua e das Pedras. Esse potencial hídrico está sendo impactado por resíduos sólidos
e existe a necessidade de uma melhor atenção para esse recurso natural.
42 // Novas
Foto 5. Processo de degradação de casario do Núcleo Histórico

Fonte: Arquivo da pesquisa, 2018.

Trilhando pela Paisagem cultural sob a abordagem da percepção

Vivenciando a problemática dos impactos ambientais e sociais que a área em estudo


tem enfrentado, nos apoiamos na percepção ambiental, onde por meio da sensibilização
para a conservação da paisagem cultural almejamos ampliar o nível de discernimento para
as necessidades urgentes que este patrimônio apresenta.
Partimos para o buscar o conhecimento de como a população de Alcântara percebe o po-
tencial paisagístico de seu lugar. Em um primeiro momento foram entrevistados 20 usuários

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


da área de pesca coletiva que fica na área da Beirada de Alcântara. Tivemos sempre o cuidado
em respeitar o tempo dos moradores para podermos “compreender” melhor os reais signifi-
cados e como serão as possibilidades de fazer uma pesquisa aplicada e com resultados efetivos
para contribuir com a conservação efetiva da paisagem cultural alcantarense.
A percepção nos auxiliou pois o entusiasmo de cada um são condições necessárias
para a participação e a desenvoltura de qualquer ação, e como se trata de um projeto que
propõe a participação efetiva dos moradores a sua percepção é valiosa para o desempenho
das atividades, como complementa Bassani (2001):
O contexto dos problemas ambientais implica o estudo das relações homem e
ambiente e qualquer análise que se faça sobre soluções possíveis deve considerar os
comportamentos do homem perante seu ambiente. (BASSANI, 2001, p.47).
43 // Novas
Esta percepção, concepção e motivação que fará o sujeito ativo ou passivo diante de
sua realidade, a partir do conhecimento que possui de si e do mundo, da compreensão das
fragilidades e potencialidades para garantir sua sobrevivência. Enxergar e valorizar os meios
existentes que corroboram para a edificação da qualidade de vida individual e coletiva no
aspecto socioambiental são imprescindíveis para a prática do cuidar. Sendo que o homem
percebe o mundo principalmente através da visão, com a imagem assumindo posição
especial (MANSANO, 2006).
A percepção são traços internos de cada pessoa, conforme sinaliza Faggionato (2007),
cada indivíduo percebe e responde diferentemente frente às ações sobre o meio, assim,
o estudo da percepção ambiental é de suma importância pra que se possa compreender as
inter-relações homem/ambiente, pois sabendo como os indivíduos percebem o ambiente
em que vivem, sua fonte de satisfação e insatisfação, será possível a realização de um
trabalho partindo da realidade do público alvo.
A carga subjetiva nos remete às peculiaridades individuais e sociais do ser humano na sua
complexidade integral, o que aponta Moser (1998), as dimensões culturais e sociais presentes,
mediadoras da percepção e avaliação das atitudes do indivíduo frente o ambiente.
A percepção ambiental foi definida por Faggionato (2007), como sendo uma tomada
de consciência do ambiente pelo homem, o que implica a maneira particular de cada ser
de se comunicar com o ambiente mediante suas dimensões biológicas, sociais, e culturais;
o modo de ver e se relacionar são traços intrínsecos e complexos de serem retratados de
forma simplificada no que tange resultados expressivos de atividades a serem alcançados
no projeto, mas, são instigantes e animadores ao mesmo tempo, pois corresponde a de-
finição feita por Amorim Filho (2007), a percepção ambiental como a última e decisiva
fronteira no processo de uma gestão mais eficiente e harmoniosa do meio, é a partir do
fator interno/motivação do sujeito que há possibilidade de atitude em favor do ambiente.
Neste processo de gestão equilibrada, conhecer a Percepção Ambiental dos moradores
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

de Alcântara foi parte fundamental para a compreensão dos passos necessários para se
alcançar a conservação do Patrimônio Cultural Alcantarense mediante o diagnóstico das
fragilidades e potencialidades a serem consideradas para o envolvimento da comunidade.
Foram discutidas a importância da paisagem com a comunidade local, por meio de en-
trevistas e rodas de conversas, buscando dialogar sobre os problemas relacionados à fragilida-
de do patrimônio histórico representado pelo conjunto arquitetônico e paisagístico tombado
e também sobre a biodiversidade existente nas áreas adjacentes deste conjunto, suas potencia-
lidades como entender essa relação de modo a sensibilizá-los da necessidade de conservação.
As potencialidades paisagísticas são imensas, com diversos atrativos, com destaque para
a área da Beirada de Alcântara, onde existe a predominância do ecossistema de Manguezal.
Onde ao trilhar conhecemos diversos pescadores artesanais que nos disseram:
44 // Novas
“Pra mim significa vida. Porque se esse mangue for tirado, aonde é que o camarão
vive, da lama, tudo isso vai se acabar. Se cortarem o mangue, se tirarem o mangue, ehh,
tirar ele todo, e ficar só o lago, onde o caranguejo vai ficar”. (Sr.Mariano, 22/01/2016).

“O que mais nós fazemos é preservar porque ninguém corta, se você olhar
a gente não deixa cortar, em todo caso nós estamos dando uma grande força
para que não destruam, vejam que só tem um caminho que a gente passa, vocês já
viram? É mangue desde lado é mangue do outro”. (Sr.Cildinho 29/05/2016)

A percepção de seu Cildinho está relacionada à trilha utilizada pelos pescadores no coti-
diano para ir ao lugar da pesca, um caminho estreito entre o manguezal, acessos espontâneos
no meio do manguezal, como ele frisa bem “sem destruir, primando pela conservação”. Para
ele, a paisagem de Alcântara é um lugar único e é um grande defensor da sua conservação.
É importante também destacar que as formas tradicionais de pesca como o Curral, de-
finida pelo CEPENE (2003) como “armadilha fixa construída em geral por estaqueamen-
to, com objetivo de reter peixes no seu interior, vulgarmente conhecida como armadilha
fixa, curral de pesca, zangaria, camboa, tapagem”. Os pescadores criam cerco de varas do
próprio mangue com uma rede em volta para apreender os peixes, nas últimas atividades
de campo verificou-se a desativação do curral onde é possível encontrar somente resquícios
da estrutura, sendo substituído pela puçá de escora em que varas de mangues são fincadas
e rede (puçá) é prendida na estaca com a finalidade de apreender peixe e camarão.
Em relação a puçá de escora, na Beirada de Alcântara funciona em sistema comuni-
tário, com um filão de estacas fincadas e as puçás prendidas nas estacas, de várias pessoas
(filhos e compadres), e quando um não pode ir naquela maré avisa aos demais e assim se
ajudam mutuamente. Conforme relata o senhor Moacildes Pereira Pinheiro conhecido
popularmente como senhor Cildinho.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


“Não, cada qual tem uma parte, tem dos filhos, tem dois compadres meus aqui
da rua, não é exclusivo só de uma pessoa não, eu dividir com diversas pessoas”.
(Sr. Cildinho, 29/05/2016).

Os usuários desta área da Beirada de Alcântara possuem uma forma coletiva de pescar
para sua subsistência, para seu lazer, e esta questão é parte fundamental da elaboração de ações
voltadas para o turismo na área em questão, pois a população local precisa ter o seu modo
de vida respeitado e valorizado, é parte integrante desta paisagem cultural e a diferencia de
outros lugares. Reflete a singularidade do mesmo.
Esses são os mecanismos do sentir uma paisagem nem sempre estão postos à primeira visão,
ao olhar, e sim como destacam os autores, com um caráter subjetivo, invisível aos olhos, porém
45 // Novas
perceptíveis por meio de outros sentidos. Trata-se de compreender a paisagem que detém o
significado, tanto da abordagem física como humana, e que traz a percepção sobre as transfor-
mações que foram impressas neste ambiente, no decorrer dos tempos, e, ao serem analisadas,
pôde-se compreender os processos históricos culturais que se processaram em Alcântara.
O tempo vivenciado por essas pessoas, os passos que são repetidos por inúmeras gerações
(Foto 6), representam o sentir a força inerente a esse lugar, que antes de mais nada é o lugar
de suas relações, de suas memórias vivas. E em consideração à essas questões que estão além
do que se pode se ver, será proposto um roteiro ecocultural para a Beirada de Alcântara, sob
a ótica da paisagem cultural que envolve essa cidade Monumento em questão.

Foto 6. Caminho trilhado na área de pesca coletiva

Fonte: Arquivo da pesquisa, 2018.


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Um breve encerramento

Apresentamos neste trabalho uma parcela das atividades desenvolvidas com a comu-
nidade alcantarense, que tem participado de diversas ações e reflexões conjuntas com a
equipe da pesquisa relatada. Se passaram três anos de envolvimento, com alguns resultados
já alcançados.
Foram realizados dois cursos de extensão em parceira com o Instituto Federal de
Educação (IFMA) campus Alcântara, e Sítio da Praia do Barco, que resultou na consolidação
do roteiro ecocultural da Trilha da Beirada de Alcântara a ser implantado no próximo ano.
46 // Novas
No decurso do trabalho foram sinalizadas algumas leis vigentes que servem para a pro-
teção desta paisagem cultural em sua integridade, mas se faz urgente e necessário a mobi-
lização da sociedade civil para assegurar o cumprimento da proteção ambiental interligado
com o desenvolvimento sustentável não somente da economia, mas de toda a conjuntura
existente em equilíbrio. Em busca de qualidade de vida dos moradores em sintonia com a
natureza, como já se verifica com a prática dos comunitários através da pesca artesanal de
subsistência, o caminho trilhado, o lazer vivenciado na Beirada de Alcântara.
Mas há fragilidades, pela falta de infraestrutura devido às descontinuidades do proces-
so de gestão pública local e do próprio distanciamento articulatório da comunidade em
se organizarem coletivamente para ampliar e consolidar as políticas públicas de melhorias
sociais, ambientais e culturais de outra esfera de gestão como apoio do CLA, Centro de
Lançamentos de Foguetes da Aeronáutica, e também da Secretaria Estadual de Turismo.
Neste trilhar, conhecer a percepção ambiental dos moradores e usuários da Beirada nos
ajudou a perceber as motivações existentes e interagir com as pessoas do lugar, em uma
proposição para a conservação do manguezal utilizando a Trilha Educativa como instru-
mento de sensibilização, valorizando as práticas cotidianas existentes no local e fomentando
novas formas de apropriação do meio ambiente e da paisagem cultural.
Uma grande parte desta trilha ocorre no Manguezal da Beirada de Alcântara, e essa
área toda encontra-se situado na APA das Reentrâncias Maranhenses, o que implica a
existência de mecanismos legais de proteção desse ecossistema, porém os instrumentos de
gestão ambiental no estado do Maranhão ainda são pouco efetivos e essas áreas naturais
necessitam de uma atenção maior tanto em nível de governo estadual como por parte do
municípios onde elas ocorrem.
Com a efetivação deste roteiro ecocultural, e a ampliação da gestão compartilhada
entre os poderes públicos, instituições privadas em parceria com as forças vivas da comu-
nidade, esperamos ampliar o cuidado e a conservação desse potencial paisagístico, cultural

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


e ambiental do estado do Maranhão e do Brasil como um todo.
As discussões aqui expostas vêm no sentido de ampliar os conhecimentos sobre o
Patrimônio Cultural, reconhecido como Monumento Nacional (IPHAN 1948) e sensibi-
lizar sobre a sua condição de conservação neste momento presente. Esta paisagem cultural
possui elementos ligados aos processos naturais: a área de manguezal, praias, lageiros, res-
tingas, apicuns, falésias aliadas ao patrimônio construído, uma parcela dele em processo
de arruinamento e outra grande parte preserva um importante conjunto arquitetônico do
período colonial, além de existir na área registros fósseis de pegadas de dinossauros.
Muito ainda a se pesquisar e a conservar, e esse trilhar iniciado significa mais um passo
no sentido de estimular outros para que juntos e em uma grande caminhada possamos
contribuir para a consolidação e valorização deste imenso patrimônio que é Alcântara.
47 // Novas
Referências

ALMEIDA, A. W. B. de. Os quilombolas e a base de lançamento de foguetes de Alcântara:


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48 // Novas
Potiguaras da Paraíba:
paisagem e gênero de vida

Thiago Romeu1
Universidade Federal de Campina Grande

Introdução

A proposta de ensaio que ora se desenrola é o resultado da observação e vivência gerada


por uma parceria, a que se estabeleceu entre mim e o povo indígena Potiguara, que habita
o litoral norte do estado da Paraíba, Brasil. Um povo que guarda as marcas de uma história
em construção há séculos. Uma história de resistência, de perdas enormes e recentes con-
quistas que trazem um pouco de restituição e justiça, além de servir de defesa de uma terra
que é cobiçada por muitos e dos seus modos de vida ancestrais. Outrora invadido e explorado
por colonizadores, fazendeiros, industriais e grileiros, foi somente nos anos 1980 que o
território original foi parcialmente restituído, mas ainda hoje é alvo permanente de ações
de distintas potestades que visam lograr as terras férteis, o acesso ao mar e, mais recente-

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


mente, suas paisagens para fins turísticos. Estas últimas são, portanto, patrimônio deste
povo cujos primeiros contatos com europeus remontam o início do século xvi.
Mais que um trabalho de caráter eminentemente acadêmico, o texto se desenrola tam-
bém com a intenção de fundamentar a necessidade de se constatar o valor que suas paisa-
gens têm enquanto características singulares e unívocas para este povo. Este pequeno ensaio
reivindica, portanto, o valor não só das paisagens para os Potiguara, mas a riqueza com a
qual estes indígenas as construíram, retratando-se nelas ao forjá-las com seu modo singular.
Para além de se buscar aqui o reforço à lógica da patrimonialização, enfatizar o valor destas
paisagens é suscitar a necessidade de se pensar a qualidade de vida indígena e, na medida
do possível, encontrar um nexo que aproxime os logros das percepções e cuidados com as
1
thiago_romeu2000@yahoo.com.br
49 // Novas
paisagens segundo critérios ocidentais, e a realidade potiguara que ensejou seu gênero de
vida e que, ao fim e ao cabo, é o que dá o caráter de patrimônio às suas paisagens.
Primeiramente apresentarei de maneira breve a questão indígena no Nordeste do Brasil,
inserindo nela este povo. Em seguida, trataremos criticamente da questão da paisagem e a
noção de patrimonilização, compreendendo, por fim, que sua paisagem é resultante da cons-
trução de um gênero de vida (noção emprestada de Vidal de Lablache), que requer proteção,
visto que é condicionante de cidadania e qualidade de vida do povo com ele identificado.
Tal perspectiva engendra a reflexão em torno de novas possibilidades de se pensar o escopo
no qual se insere a lógica de patrimonialização das paisagens, o que me sugere a necessidade
de uma nova abordagem, impossível para os fins desta rápida aproximação, por isso, a noção
de bem-viver proposta pelos indígenas andinos me pareceu bastante apropriada. Portanto,
proporei, ao fim, uma conexão do gênero de vida potiguara e a noção de bem-viver.

Paisagem e patrimônio: construindo resistências

É comum nas discussões que envolvem a noção de paisagem que sua apreensão seja
reduzida exclusivamente ao papel do olhar. Mesmo em abordagens mais complexas como
a clássica definição de Carl Sauer (2010) da paisagem enquanto morfologia, em que o
papel das formas espaciais é ressaltado, a dimensão do olhar ainda é predominante. Por seu
turno, Cosgrove (1993 apud CORREIA, 2014) enfatiza a importância do passado para
entendê-la, mas outra vez, o olhar é o caminho metodológico. Besse (2014, p. 240 - 241),
explicando conceitualmente a categoria, mostra que o olhar pode se dar por ângulos varia-
dos e diferentes pontos de vista. Também afirma que numa abordagem mais tradicional,
a paisagem é sempre uma “realidade territorial”, o que dá ao aspecto visual da paisagem
sua principal característica, induzindo-nos à crença que é inexorável o papel do olhar
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

como forma predominante para se acessar a paisagem. Todavia, o autor afirma que esta
abordagem da categoria ultrapassa a dimensão física do visível, assumindo sim, conotações
políticas. A percepção da paisagem envolveu, na verdade, desde sempre uma “naturaliza-
ção” sobre a dimensão desigual das relações sociais, ocultando os processos históricos e
conflituosos de sua formação(p. 243). A presença cada vez mais cidadã de cegos ocupando
papeis sociais relevantes e a valorização de sujeitos outrora invisibilizados, cujas matrizes de
construção das paisagens são de natureza distinta das europeias, como o caso dos indígenas
latino-americanos, confrontam a perspectiva mais tradicional e fazem necessário encontrar
novas formas de reconhecimento das paisagens.
É fato, porém, que as paisagens tem contribuído, enquanto parte integrante dos
modos de vida e da constituição dos sujeitos no mundo, para forjar os modos de vida e
50 // Novas
o “ser-no-mundo” dos sujeitos. Portanto, é um desdobramento desta relação com a pai-
sagem um certo desejo de perenizá-las e mantê-las imutáveis, ignorando sua realidade
dinâmica e conflituosa.
[...] a paisagem teria sido desenhada e construída como uma relação imaginá-
ria com a natureza, uma relação graças à qual a aristocracia e a burguesia puderam
representar-se elas mesmas e o seu papel na sociedade. Esta percepção da paisagem
do mundo, com efeito, acompanhou o aparecimento e o desenvolvimento do capi-
talismo europeu, ou seja, a transformação do território simultaneamente em mer-
cadoria e em espetáculo para contemplar visualmente do exterior. A paisagem, mais
precisamente, teria servido ideologicamente para “naturalizar” a dimensão desigual
das relações sociais, e para ocultar a realidade dos processos históricos e conflituosos.
As ciências sociais contemporâneas acrescentaram várias características suplementa-
res a esta instituição burguesa que seria a cultura paisagística europeia. Sintetizo-as
esquematicamente: (1) é uma cultura que põe o olho e a visão no centro do processo
de percepção da paisagem, em detrimento dos outros sentidos, (2) é uma cultura
principalmente europeia, ocidental, branca, em detrimento dos outros modelos cul-
turais de relação com a paisagem, (3) é uma cultura essencialmente masculina, (4) a
representação da paisagem corresponde à implementação de um espaço de controle
de tipo militar, (5) as imagens de paisagem desempenharam um papel fundamental
na constituição dos imaginários nacionais, ou mesmo, nacionalistas, (6) por último,
a imagerie paisagística, sob todas as formas, sejam artísticas ou midiáticas, desempe-
nhou um papel decisivo na “naturalização” das empresas coloniais (BESSE, 2014,
p. 243, grifo meu).

Mas é desta noção excludente em grande medida que se desenrola a ideia de que as
paisagens são patrimônio e, por isso, devem ser preservadas. Na concepção adotada por

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


Rita de Cássia Ariza da Cruz, o patrimônio está intimamente relacionado ao entendimen-
to do que seja cultura, que na visão da autora é “uma condição de produção e reprodução
da sociedade” (MENEZES, 1996 apud CRUZ, 2012, p. 95). Neste sentido, patrimônio
é então entendido necessariamente como “patrimônio cultural” e “‘patrimonialização do
patrimônio’ é a institucionalização de mecanismos de proteção do chamado patrimônio
cultural, material ou imaterial” (Ibid., p. 95).
A patrimonialização é um processo que vem se impondo à manutenção de modos de
vida e seus desdobramentos, entre os quais as paisagens culturais, há algum tempo. Forjada
no bojo da elaboração dos discurso nacionais, este processo é um dos resultados da cons-
trução das “comunidades imaginadas” (ANDERSON, 2008) que passa a fundamentar as
relações entre os territórios e os povos, no seio do processo de industrialização.
51 // Novas
A construção do discurso do patrimônio histórico, cultural ou natural, ocorrida
nos séculos xix e xx, estava associada ao discurso nacional. Em países como o Brasil,
ele esteve fortemente ligado a um projeto de construção do Estado nacional que, no
início do século xx, produziu algumas imagens sobre a nacionalidade que são fortes
ainda hoje [...] Embora seja organizada por uma instituição internacional, sua es-
trutura (a da lista do patrimônio) se baseia nos Estados nacionais, desde a indicação
para a candidatura até sua apresentação, dividida por países, reafirmando a lógica
nacionalista do discurso patrimonial e de construção da nação. O patrimônio tam-
bém se define em relação ao outro como aquilo que nos diferencia, nos representa e
nos identifica, merecendo, portanto, ser preservado [...] trata-se de um processo de
construção de imagens, do modo como cada país deseja ser visto por meio de uma
possível contribuição a um processo civilizador mundial [...] Nesse sentido, a atri-
buição de valor a patrimônio mundial se justifica pelo reconhecimento internacional
de um bem e pelas vantagens diretas e indiretas que disso advém, tais como apoio
financeiro e incremento do turismo, mas a inclusão na Lista do Patrimônio Mundial
também representa a produção de imagens do nacional para consumo interno e
externo [...] (RIBEIRO, 2017, p. 31-32).

É evidente, portanto, que a lógica da patrimonialização logra realçar as virtudes de um


sítio ou de uma elemento imaterial que contribua para construir o imaginário nacional.
Mas como esta lógica se coloca para a construção do imaginário local? À guisa de uma
resposta, notamos que a transformação de um dado sítio em patrimônio tende a torná-lo
inacessível aos que dele dependem. Diversos casos de patrimonialização no Brasil e no
mundo afora demonstram de maneira inconteste que este processo mais prejudica que
beneficia a dinâmica local dos que dependem dos usos tradicionais/dinâmicos cotidianos.
Neste sentido, porém, depreende-se que há um problema que até agora permanece insolú-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

vel: como manter a paisagem como um patrimônio garantindo a manutenção de gêneros


de vida que a construíram enquanto patrimônio?
A paisagem para os potiguara é a dimensão de sua prática cotidiana, em cuja vivência é
impossível realizar o processo de patrimonialização de suas paisagens tal como é concebido,
simplesmente porque trata-se de algo que em grande medida serviu a estruturação da colonia-
lidade (QUIJANO, 2003). Neste sentido, a manutenção das paisagens potiguara enquanto
um “não-patrimônio”, não é um gesto inconsequente e irreflexivo, mas sim uma resistência.
As práticas dos Potiguara parecem se inserir desde o início do período de colonização
numa constelação de práticas consideradas pré-modernas, arcaicas ou subdesenvolvidas
que os coloca no rol de grupos incapazes de lidar com o patrimônio constituinte de seus
territórios, tampouco com suas paisagens patrimoniais. Tal como com todos os povos
52 // Novas
indígenas, seus sítios sagrados e de práticas culturais foram sempre vilipendiados, quando
não saqueados, a pretexto de não saberem lidar com seu “patrimônio”. Entre os Potiguara,
o exemplo mais evidente é o próprio sítio da cidade da Baía da Traição, cujo topônimo
está também relacionado a relação sempre de desconfiança entre os colonizadores por-
tugueses e indígenas potiguara e hoje se tornou uma espécie de enclave não indígena na
terra indígena, que é contígua, sendo este o único trecho que está fora do seu território2
(CARDOSO et al., 2012), justamente o local em que se relatam os primeiros contatos
entre colonizadores e indígenas.
É neste contexto de construção da noção de paisagem que de um modo geral se insere
a questão indígena brasileira e a do povo Potiguara em particular. A noção de paisagem
parece ser estranha aos indígenas, posto que trata-se de uma construção moderna, euro-
peia, como apontou acima Jean-Marc Besse, consoante à lógica colonizadora. Logo, parece
difícil harmonizar uma noção tão distinta ao comportamento dos indígenas brasileiros.
Mas esta aparência é falsa, e para desfazer esta imagem é mister que se apresente quem são
os Potiguara e o como construíram um gênero de vida. Creio que o entendimento acerca
da relação deste povo com seu espaço pode construir uma perspectiva particular de paisa-
gem condizente aos povos tradicionais, o que pode ser relevante para a construção de uma
lógica cidadã, descolonizadora e tributária de um projeto de bem-viver.

Foto 1. Canhões do Forte

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Perspectiva do topo da falésia, na Aldeia do Forte, onde se encontram os remanescentes do antigo forte portu-
guês, que dá nome à aldeia. Este ângulo constitui a imagem símbolo da cidade da Baía da Traição, mas só pode
ser captada a partir do aldeamento indígena (foto do autor, agosto de 2016).

2
O mapa 2 (no apêndice), mostra a delimitação da área urbana do município da Baía da Traição fora das
Terras Indígenas.
53 // Novas
Quem são os Potiguara e como constróem suas paisagens

Não há consenso sobre o significado da palavra “potiguara”, porém o mais aceito é


que signifique “Comedores de Camarão”. É certo que este povo falava, desde seu primeiro
contato com europeus, a língua tupi. Possivelmente, é o único povo que habitam o mesmo
lugar desde a invasão portuguesa3 nos primórdios do século xvi, e um dos poucos que
possuem praias oceânicas entre seus domínios territoriais. Vivem em sua maioria em três
terras indígenas distribuídas continuamente entre três municípios do litoral norte paraibano:
Baía da Traição, Marcação e Rio Tinto4.
Um dos aspectos particulares dos Potiguara é a histórica defesa de seus modos de ser/
estar no mundo. Constam em registros antigos do século xvi que os Potiguara defendiam
suas terras de maneira bravia e assustavam adversários com os ritos de antropofagia, sendo
classificados como “gentios bravos” contra quem portugueses, franceses e holandeses, en-
frentaram muita resistência5. A pecha de bravos, dada ainda no período colonial, provavel-
mente foi o que lhes assegurou certo isolamento até o início do século xx, ocasião marcada
pela chegada de Friederick Lundgren, sueco que fez fortuna no ramo da tecelagem no
litoral dos estados de Pernambuco e Paraíba. Neste último estado, os Potiguara o acusam
de escravidão e grilagem de suas terras ancestrais. Desde então, este povo tem lutado para
assegurar a posse de seus territórios e a autonomia na manutenção de seus modos de vida. A
luta dos Potiguara se insere, portanto, no quadro geral de luta dos indígenas brasileiros por
reconhecimento de seus territórios e territorialidades, tendo sido importantes articuladores
das conquistas de direitos indígenas presentes na constituição federal do Brasil de 1988.
A cosmologia e as práticas Potiguara são intrínsecas às suas paisagens. O rito do Toré, que
abre e fecha todas as cerimônias e encontros do povo, simboliza e sintetiza a importância dos
elementos naturais como mediadores de sua existência. Por isso, as paisagens constituintes do
seu território, que fazem com que os Potiguara transitem por diversos domínios ambientais
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

litorâneos, são parte fundante do universo cosmológico e existencial destes indígenas. Estes
ambientes têm no elemento água especial importância. As suas terras, banhadas por rios e
pelo oceano, abrangem áreas de tabuleiros costeiros cobertos por mata atlântica, chegando
até a restinga e o manguezal, nas praias e estuários, construindo verdadeiros gêneros de vida.
Além disso, há Potiguaras que se reúnem em aldeamentos fora da Paraíba, especialmente no
Rio Grande do Norte e Ceará. Neste último, os indígenas habitam caatingas e adotam um
modo de vida sertanejo. Todavia, a ênfase aqui será dada aos Potiguara da Paraíba.
3
Maura Campanili. No mesmo lugar, desde o descobrimento. Disponível em: <http://www.socioambiental.
org/ website/parabolicas/edicoes/edicao58/potiguara.html>. Acessado em 27/01/2017.
4
Mapa 1, no apêndice.
5
José Glebson Vieira. Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil: Potiguara. Disponível em: <https://pib.
socioambiental.org/pt/povo/potiguara/print>. Acessado em: 28/01/2018. 
54 // Novas
Até hoje a resistência parece um traço significativo, pois, a despeito de toda sorte de
dificuldades, entre as quais a miscigenação dos seus hábitos, valores e ritos às do sujeito
ocidental, mantiveram-se existindo e têm assegurado cotidianamente suas terras, suas prá-
ticas econômicas e suas tradições. Tudo isto torna ainda mais necessário o reconhecimento
do valor de suas paisagens culturais. A miscigenação dos hábitos ancestrais às da cultura
dos invasores foi uma estratégia necessária para se manterem existindo, o que lhes exigiu
muita resiliência frente aos poderes instituídos e impostos pelo Estado. No caso da religio-
sidade isto é bastante evidente. Muito de ritos ancestrais ainda são praticados e os(as) pajés
gozam de prestígio na sociedade potiguara, mas a prática do ritual do Toré é perceptível
a relevância de signos católicos nos cânticos, além do fato de muitos indígenas terem
um vínculo direto com comunidades eclesiásticas, tanto católicas quanto protestantes
(sobretudo pentecostais) que disputam influência religiosa nas aldeias.
Em meu entender, a isto se deve a força significativa dos valores ocidentais entre os
indígenas. No entanto, hoje há grande número de jovens líderes escolarizados e com sólida
base acadêmica (mestres e doutores) que têm valorizado sobremaneira os relatos dos idosos
(“troncos velhos”), têm formado associações e coletivos, retomado práticas e ritos ances-
trais, além da prática da língua tupi, valores que tem sido difundidos nas escolas indígenas.
Constato, no entanto, que o reconhecimento de suas paisagens parece não ter sido ainda
despertado de maneira ampla, embora hajam movimentos nesta direção.
Por isso, parece necessário, uma vez mais, enfatizar que paisagens não são apenas a
dimensão visual e ampla da espacialidade. O extenso e já antigo debate acerca do sentido
do termo nos legou um acúmulo que permite dizer que chama-se paisagem a percepção
espacial do resultado do trabalho humano (SANTOS, 1988), mas também o reflexo dos
sentidos captados espacialmente e vividos espiritualmente (BESSE, 2006). A paisagem,
portanto, também é resultado dos processos culturais que resultam de uma morfologia
particular (CORRÊA & ROSENDAHL, 1998) e este entendimento levou ao reconheci-

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


mento, mais recentemente, de que as paisagens possuem um valor, de modo que passou
a ser interpretada também como um patrimônio (SILVA et al., 2007; RIBEIRO, 2017).
Neste sentido, as paisagens potiguara são mais que importantes testemunhos do processo
histórico de ocupação colonial e da resistência dos Potiguara. Suas paisagens são também
elementos agregadores e demarcadores simbólicos da territorialidade potiguara.
Para o mundo europeu, a percepção das paisagens (que se dá no Renascimento), bem
como sua representação por meio da cartografia e da pintura, sempre esteve fundada na
construção de quadros visuais de harmonia entre os acidentes geográficos, sistemas flores-
tais, construções humanas e cenários atmosféricos, uma espécie de “paisagem de mundo”
(Weltlandschaft). Marcada por uma perspectiva cristianizada da realidade, a imagem do
espaço deve transparecer a “verdade”, expressando-se numa dimensão de integralidade,
55 // Novas
completude e totalidade reveladas e a espera de sua compreensão, e é esse atributo inato ao
sujeito que a observa que se espera, a contemplação.
De fato, no século xvi, a cartografia e a pintura de paisagem não se comunicam
apenas pela escala da corografia. Um dos eventos mais significativos desta história
é justamente a aparição e o desenvolvimento concomitante da noção de uma “pai-
sagem de mundo” e de uma nova representação cartográfica do ecúmeno [...] Na
paisagem de mundo [...] encontra-se a mesma tendência à enciclopédia e a mesma
preocupação de fazer desta enciclopédia uma experiência visual. Trata-se, na carto-
grafia e na pintura, de reunir, num pequeno espaço, nos limites de uma superfície
de inscrição, a totalidade dos caracteres do mundo terrestre [...] Subjacente ao olhar
cartográfico e paisagístico, e dando-lhe talvez alcance verdadeiro, encontra-se o pen-
samento dos Salmos (os de número 24, 33, 46, 104 são os mais frequentemente cita-
dos pelos cartógrafos [...]): “Ide e contemplai os grandes feitos de Deus, que encheu
a Terra de maravilhas” [...] (BESSE, 2006, p. 23 e 25).

Foi a sobreposição deste pensamento bíblico totalizante aos ensinos dos gregos clás-
sicos sobre tempo e História que levou ao sentido de multiplicidade dos lugares numa
lógica de espaço universal (ibid. p. 26). Um real ganho de percepção para certo avanço
na dimensão da espacialidade, porém, um modo de conceber a realidade sensível do
mundo bastante unilateral que assentou-se numa postura autocentrada (e eurocentra-
da) de percepção das experiências sensoriais que o espaço proporciona. A paisagem,
portanto, nas concepções vigentes, nem sempre dialoga com modos não hegemônicos
e tradicionais de perceber a realidade sensível. Entendemos que os modos indígenas de
conceber diversas dimensões da realidade guardam muitas diferenças em relação aos
modos fundados em lógicas eurocêntricas, entre estes modos diferenciados, creio que a
paisagem é um deles.
Isto significa que mais que meros reprodutores de uma paisagem natural, ou de uma
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

humanização inscipiente, os Potiguara devem ser vistos como autores de suas paisagens,
fundadores, juntamente com os demais povos indígenas latinoamericanos, de uma manei-
ra muito particular de perceberem suas paisagens, tomando por fundamento a ideia de que
as paisagens constituem uma noção fundantes de nosso ser-estar no mundo.

A paisagem Potiguara e seus gêneros de vida

A fisionomia das áreas pode ser um importantíssimo indicador do modo como as pai-
sagens são construídas, que derivam dos gêneros de vida que são desenvolvidos na constân-
cia da relação humanidade/natureza (LABLACHE, 2005, p. 114). Não seria estranho, mas
56 // Novas
consoante com nossa crítica de fundo à uma visão estritamente eurocentrada, enfatizar que
a noção de “gênero de vida” é demasiadamente fundada numa perspectiva pautada ainda
na ultrapassada geografia colonial, cujas análises se concentravam nas sociedades e regiões
“exóticas”, ainda a serem reveladas ao “mundo civilizado”, ou a serem niveladas segundo
a medida das “civilizações avançadas”, tendo na Europa sua mais elevado nível. Todavia,
genre de vie não pode ser uma elaboração descartada (mesmo porque os argumentos de
Lablache não foram superados), ao contrário, pode ser ainda muito útil ao se considerar as
espacialidades vivenciadas pelas populações tradicionais.
É assim, ao sabor dos acontecimentos sazonais ou dos movimentos que se
produzem no mundo animal, eles próprios condicionados pelas estações, que o
homem contrai hábitos de existência em vista dos quais ele se organiza, fabrica
instrumentos, cria estabelecimentos temporários ou fixos (Ibid., p. 117).

Lablache erige uma argumentação em que afirma haver grande interdependência


entre os fatores bióticos, abióticos dos ecossistemas (incluindo aí a presença dos animais)
e a presença das comunidades humanas em consonância com tais fatores. Ele propõe
que para que se constituam gêneros de vida, os homens tiveram que destruir certas as-
sociações de seres vivos, em benefício de outras. Tiveram que agrupar animais e plantas
de diversas proveniências, tornando-se assim destruidores e criadores ao mesmo tempo
(Ibid., p. 119).
Inegavelmente, os Potiguara da Paraíba constituíram gêneros de vida em seus lugares
de vivência. A Baía da Traição é, sem dúvida, um local marcado pela presença indígena
desde os relatos mais antigos, como dito anteriormente. No entanto, é importante ressaltar
que a marca na paisagem deste gênero de vida pode ser constatado em toda parte. Mas no
que consiste este gênero de vida?
É nítido a força que os rios e o mar tem no cotidiano dos Potiguara. Povo que detém

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


há muito as técnicas da pesca em águas marinhas. Todavia, esta atividade – que não se
restringe aos Potiguara – depende grande dedicação e atualmente de certo grau de inves-
timento financeiro. É preciso equipamentos específicos (barco, redes, combustível, gelo),
domínio técnico (savoir faire do pescador, preparação da equipe), confiança e coragem, além
de espírito aventureiro. Embora alguns pesquem em barcos individuais, nem todos domi-
nam este expertise. Contudo, há outras atividades que despertam o olhar para a importância
das águas em toda a sua diversidade no universo potiguara.
A região em que se situaram as aldeias potiguara e onde se estabeleceu o território
indígena é parte do litoral oriental nordestino que é marcado pela rede hídrica que corre
do planalto da Borborema, no sentido oeste-leste, para o Oceano Atlântico, a 7º ao sul da
linha do Equador. Todo este compartimento litorâneo é marcado por rios caudalosos em
57 // Novas
sua foz, prenhes de manguezais, em cujas nascentes, nos cimos do planalto ou dos tabulei-
ros costeiros, pouco se parecem com a abundância da foz, quase sempre em estuário, local
ideal reservado pela evolução ao habitat dos peixes-boi, mamíferos em risco avançado de
extinção. Devido a formação suave dos tabuleiros costeiros, a planície reúne rios que se
juntam antes da foz, ou, no caso específico do Mamanguape, os rios se encontram na foz,
abundando em vida marinha. Neste ambiente de marés, ao sabor das cheias e vazantes,
onde vicejam manguezais, os potiguara estabelecem seu ritmo de criação de camarões,
coleta de mariscos e grande variedade de crustáceos.
Além disso, a presença das atividades agrícolas no alto das falésias, denuncia o modo de
vida rural, marcado pela sazonalidade das estações chuvosa e seca. Aqui se notabiliza a “resiliên-
cia” em relação à presença colonial. O plantio de lavouras de mandioca se mistura às de milho
e feijão, bem como a de outros gêneros que enriquecem a mesa potiguara: inhame, quiabo,
beterraba entre outros. Segue-se a criação de animais de pequeno porte em pequenos rebanhos
de caprinos, mas há a presença de algum gado bovino, de porcos, perus, galinhas e patos.
É preciso considerar que o assédio das usinas de açúcar é muito sedutor à muitos po-
tiguara que vivem sobre os tabuleiros, num contexto de escassa renda financeira, cedendo
suas terras para a invasão das canas-de-açúcar e, mais recentemente, do eucalipto. Culturas
que fornecem um rendimento rápido, tornando a recusa praticamente impossível.

Foto 2. Coleta do Marisco


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Indígenas coletando o marisco no maré vazante. Atividade que ocupa grande parte das famílias que residem nas
aldeias à beira do estuário (foto do autor, setembro de 2017).
58 // Novas
Apesar disso, a paisagem potiguara é marcada pela presença destes elementos que
conjugados na cotidianidade das 32 aldeias, acaba moldando um gênero de vida muito
específico e de relevância para a compreensão da dinâmica paisagística do litoral norte
paraibano. Em que pese o olhar do pesquisador de matriz científica eurocentrada, é pre-
ciso considerar que há sim uma singularidade na formação das paisagens com base neste
cotidiano específico. Tal cotidiano que molda o que, ao resgatar Lablache, evoco ser um
gênero de vida, serve de esteio da memória imaterial deste povo. Técnicas, hábitos, gostos
e pontos de vista passados oralmente de geração para geração, marcados pela sazonalidade
das marés, moldaram uma maneira única de viver, tal como a envergadura dos coqueiros
e das retorcidas árvores da restinga sobre as falésias foram moldadas segundo a direção dos
ventos raramente impetuosos.

Patrimonialização da paisagem e exotixação de gêneros de vida


(ou paisagem para o bem-viver?)

A patrimonialização no caso dos Potiguara é, antes de tudo, uma imposição de deter-


minada modernização à um povo que é historicamente subalternizado a quem se impõe
a visão eurocêntrica para o uso e consumo da paisagem. Para quem a paisagem do povo
Potiguara é um patrimônio? O questionamento permite refletir sobre a ideia de que a lógi-
ca posta não está associada à luta dos povos indígenas para a autonomia do seu território,
mas sim a uma lógica hegemônica presente nas práticas que favorecem a degradação das
suas próprias paisagens.
O discurso da patrimonialização parece se chocar com a degradação que a cana-de-
-açúcar e os grandes viveiros de camarão têm provocado em seus territórios. Mas este
discurso esconde dois problemas aos potiguara. O primeiro é que o uso da terra Potiguara

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


carrega a histórica degradação imposta pelos colonizadores que se mantém ainda hoje na
orientação velada das usinas de açúcar e álcool e da indústria carcinicultora, consumindo
a natureza e a paisagem de maneira utilitária e degradante, reforçando, assim, as repre-
sentações sobre o território indígena que sempre prevaleceram ao longo do tempo, qual
seja: a de que os indígenas não cuidam de seu território. O segundo é que a lógica da
patrimonialização desta paisagem impõe um consumo da paisagem por sujeitos estranhos
ao processo de produção delas. Isto é, a patrimonialização, nos termos que a regulamenta,
obriga aos lugares patrimonializados a busca pelo consumo turístico de suas paisagens,
retirando delas o conteúdo vivido e a autonomia do povo na sua produção nos dias atuais.
A realidade dos lugares patrimonializados, em cujas paisagens seus povos autóctones
perderam autonomia, permite refletir a partir de outra perspectiva. A ética que privilegia
59 // Novas
o desenvolvimento, que permeia o discurso da patrimonialização, não privilegia outros
significados espaciais que estejam mais ancorados à formas alternativas e não uniformes de
leituras e vivências da paisagem. Há, portanto, uma necessidade imperativa que é a desco-
lonização, inclusive do imaginário (CÂMARA, 2017) que molda a paisagem. Só reconhe-
cendo a colonialidade da produção da paisagem indígena é que seus sujeitos produtores
podem descolonizá-la, e isto significa imaginá-la num propósito voltado ao “Bem Viver”.
O Bem Viver, enquanto soma de práticas de resistências ao colonialismo e
às suas sequelas, é ainda um modo de vida de várias comunidades indígenas que
não foram totalmente absorvidas pela Modernidade capitalista ou que resolveram
manter-se à margem dela [...] A influência colonial e capitalista está presente no
mundo indígena de múltiplas formas, o que impede visões românticas de sua reali-
dade. Crescentes segmentos da população indígena foram absorvidos pela lógica da
monetarização própria do mercado capitalista [...] (ACOSTA, 2016, p. 70).

Mais que um estado de comodidade, o “bem-viver” é um processo assumido como


uma categoria em permanente mudança, construindo-se e reproduzindo-se dinamica-
mente. Conhecimento, códigos de conduta ética, valores espirituais, valores humanos,
perspectiva de futuro, entre outras dimensões devem ser consideradas quando se pensa
uma paisagem não com o propósito desenvolvimentista, herdeira do saber colonial, mas
sim como uma proposta autônoma (no caso potiguara estou propondo uma paisagem
para o bem-viver dos próprios indígenas). Logo, uma proposta de abordagem da paisagem
que pressupõe em algum nível, uma utopia6, mas que vai além. Mais que um topos a ser
atingido, o bem-viver pressupõe uma atividade viva, em transformação porque é antes um
diálogo entre existências práticas e não uma escatologia espacial.
Como o lócus de produção do saber é importante na compreensão dos projetos de
mundo que se pretende construir, parece necessário enfatizar que a noção de “bem viver”
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

não tem origem entre os Potiguara, tampouco entre os indígenas brasileiros. A questão do
bem viver tem sido defendida e proclamada há bastante tempo pelos indígenas andinos
Quéchuas e Aymaras, “tendo, apenas, clareza de que o ‘bem viver’ não se propõe a ser um
substituto do ‘desenvolvimento’ em sentido estrito. Não há nele a noção de progresso, de
etapas a serem vencidas, de parâmetros claros definidos” (CÂMARA, 2017, p. 256). É a
possibilidade de outros mundos que orienta esta noção, que atualmente

6
Utopia, segundo o dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa, é “qualquer descrição imaginativa de uma socie-
dade ideal, fundamentada em leis justas e [...] comprometida com o bem-estar da coletividade [...]” (HOUAISS,
p. 2817). O fato é que trata-se de um conceito historicamente resultante de um constructo intelectual europeu,
cuja episteme encontra fundamentos geográficos muito diferentes daqueles onde vem sendo aplicado.
60 // Novas
[...] sublinha que as fontes para identificar modos de vida alternativos vêm dos
povos indígenas originários: culturas nascidas com base na relação ancestral com os
ciclos da Natureza, por meio de práticas agropecuárias ou de coleta, de alguma ma-
neira agrocêntricas. Da vida rural desses povos são extraídas as fontes principais para
pensar concretamente o Bem Viver (IBAÑEZ, 2016, p. 322).

Diante desta posição, assumir o Bem Viver como um devir é algo que não parece
estranho aos modos de vida potiguara, convergindo para a hipótese aqui em realce que
é a de que atualmente suas paisagens requerem valorização não para as finalidades de des-
-envolvimento econômico, mas para o reconhecimento do pleno envolvimento do povo
com suas paisagens, assumindo autonomia sobre o próprio futuro.
Uma perspectiva de leitura da paisagem desta maneira, pressupõe a superação da cos-
movisão ocidental, que é, antes, capitalista, em benefício de uma visão comunitária. Esta
abordagem se contrapõe à lógica do desenvolvimento que, nas leituras da paisagem são
evidenciadas a partir dos pressupostos de sua patrimonialização, que, em última análise,
guardam as intenções de consumo da paisagem como artifício de manutenção da lógica
espacializada do mercado. Uma paisagem para o bem-viver valoriza o diálogo com senti-
dos de mundo dos Potiguara na espera da construção de uma realidade na qual a paisagem
sirva a autonomia e emancipação deste povo.

Referências

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Tadeu Breda. São Paulo: Autonomia Literária, Elefante, 2016.
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


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Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
62 // Novas
MAPA 1
APÊNDICE

63 // Novas Fonte: CARDOSO et al. (2012, p. 109).


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
64 // Novas Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

MAPA 2

Fonte: CARDOSO et al. (2012, p. 111).


Educação no contexto da gestão
da FLONA de Tefé, Amazonas, Brasil1

Maíra Suertegaray Rossato


Departamento de Humanidades do Colégio de Aplicação
Cristiano Quaresma de Paula
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Cleder Fontana
Instituto Federal de Santa Catarina

Introdução

Este texto apresenta o processo de elaboração de material pedagógico, para o ensino de


Geografia nas comunidades ribeirinhas inseridas na Floresta Nacional de Tefé – Amazonas
(FLONA de Tefé). Expõe o processo de construção de três livros, os quais fazem a trans-
posição didática dos resultados de pesquisas realizadas pelo Núcleo de Estudo Geografia
& Ambiente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NEGA/UFRGS) – para o
ensino de Geografia. Logo, contém parte de um processo maior que se iniciou na elabo-

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


ração de mapas participativos, em ocasião da elaboração do Plano de Manejo da referida
unidade de conservação (UC) – em 2012 (ROSSATO et al., 2017).
O locus desta ação foi a Floresta Nacional de Tefé – FLONA de Tefé-AM (Figura 1).
A denominação FLONA resulta da sistematização de Unidades de Conservação (UCs)
presentes na Lei No 9.985, de 18 de julho de 2000. Trata-se do SNUC - Sistema Nacional
de Unidades de Conservação –, elaborado pelo Estado brasileiro para fins de gestão das
unidades de conservação em território nacional.

1
Este trabalho é fruto do projeto intitulado “Saberes e Fazeres Geográficos da FLONA de Tefé/AM: condi-
cionantes para o fortalecimento territorial” em desenvolvimento pelo NEGA/UFRGS.
65 // Novas
Figura 1: Localização da Floresta Nacional de Tefé, Amazonas.

No SNUC – artigo 17 – uma Floresta Nacional é definida como: “uma área com cober-
tura florestal de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo
sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração
sustentável de florestas nativas”. (BRASIL. Lei no 9.985, 18 de julho de 2000).
As FLONAS são estabelecidas com o objetivo de promover um manejo múltiplo e sus-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

tentável dos recursos florestais, principalmente por meio do extrativismo. Na FLONA, é


possível desenvolver a pesquisa científica, ações de educação ambiental e atividades de lazer.
O manejo, além de prover a subsistência das famílias, deve ajudar a recuperar áreas degradadas
e a preservar a diversidade biológica, garantindo o controle ambiental (PIRES et al., 2016).
A Floresta Nacional de Tefé que foi criada em 10 de abril de 1989 através de um
Decreto da Presidência da República, localiza-se na região do Médio Solimões, área central
do estado do Amazonas. É uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável, portanto é
permitido moradores em seu interior.
Segundo Moraes (2016, p. 6),
de sua criação até o início dos anos 2000, poucas ações foram desenvolvidas na
Flona; somente a partir de 2001 que a equipe de gestão da Flona, sob a responsabilidade
66 // Novas
da Coordenação Geral de Florestas Nacionais iniciou-se um dos trabalhos mais importan-
tes: o Levantamento Sócio Econômico, que teve o objetivo de conhecer melhor a realidade
dos moradores e a situação da área como um todo.

Residem na FLONA, os povos da floresta ou “povos das águas”.


Os povos da Amazônia − “Povos das Águas” − integram em suas vidas a floresta e
os rios. Estabelecem trocas entre comunidades vizinhas e com centros urbanos próximos.
Sustentam a condição de um modo de viver designado como comunidades tradicionais,
mas que, na relação social, econômica, tecnológica, política e ambiental vivida pelo país,
não podem ser consideradas paradas no tempo. Muitas práticas associadas aos saberes
e fazeres dos povos da Amazônia estão sendo integradas em novas políticas territoriais.
Contudo, quando as políticas não reconhecem os saberes tradicionais, não são aceitas
pelas comunidades (FONTANA et al, 2017, p. 189).

Moraes (2016), em relação aos problemas levantados pelos ribeirinhos, destaca as con-
dições precárias de moradia, a elevada incidência de malária, as condições precárias em re-
lação à educação, à saúde e ao saneamento. Evidencia-se, também, uma baixa organização
social e comunitária com presença de conflitos entre pescadores e ribeirinhos por questões
relativas a pesca e áreas de pesqueiro.
Foi com o prosseguimento da gestão pelo ICMBio e devido à necessidade de elabora-
ção de um Plano de Manejo que foi desenvolvido, como um dos requisitos, o mapeamento
do uso da Terra, elaborado de forma participativa. É deste processo que deriva esta ativi-
dade, direcionada à educação e à produção de material didático, solicitação esta advinda
dos professores e ribeirinhos durante as oficinas de mapeamento e de elaboração do plano
de manejo iniciado em 2012.
Este texto, portanto, consiste numa sistematização do material produzido e se apoia em

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


publicações anteriores, em particular o texto denominado Produção de material pedagógico
em Geografia para comunidades ribeirinhas da FLONA de Tefé, Amazonas, encaminhado
ao EGAL - Encontro de Geógrafos da América Latina em 2017, com sede em La Paz, Bolívia
(ROSSATO et al., 2017).

O processo de construção da ação

Esta ação é resultado, inicialmente, do trabalho de mapeamento participativo


construído juntamente com a equipe do ICMBio-Tefé, durante a elaboração do plano de
manejo da Floresta Nacional de Tefé - FLONA de Tefé -, AM.
67 // Novas
A ação realizada pode ser sintetizada nas seguintes etapas:
1) Mapeamento do uso do solo da FLONA. O objetivo desta ação é apreender
sobre o lugar de vivência dos ribeirinhos em relação às suas atividades, convivência
comunitária e demandas para a melhoria de suas condições de vida.
2) Produção de material didático destinado ao ensino básico. Demanda esta obser-
vável ao longo do mapeamento, quando da necessidade de melhoria da educação,
uma de suas prioridades, das mais importantes.

A metodologia de ação

A metodologia de elaboração do material didático está associada à cartografia social e ao


diálogo de saberes. O resultado desta produção consistiu na organização de três textos com
características distintas, porém complementares. O primeiro volume é denominado O Lugar
Onde Moro – FLONA de Tefé contém quatro textos que serão detalhados mais adiante.
O segundo volume é um livro de literatura infantil que trabalha com a temática ambiental:
o desmatamento e a necessidade de preservação da floresta. O objetivo de incluir um livro de
literatura infantil neste projeto é estimular a leitura e apoiar o letramento das crianças da fase
inicial do Ensino Fundamental a partir de temas locais. O terceiro volume O Lugar Onde
Moro – FLONA de Tefé: práticas pedagógicas traz sugestões de atividades para serem desen-
volvidas pelo professor do Ensino Fundamental. Essas atividades estão centradas no conteúdo
relativo à FLONA de Tefé apresentados no Volume I e no livro infantil, acrescido de outras
que buscam explorar conteúdos como observação, orientação, escalas e representações.
Os textos foram avaliados em subgrupos cujos participantes foram ribeirinhos, técni-
cos do ICMBio e pesquisadores da UFRGS. Procedeu-se, em reuniões, a leitura integral
dos textos visando à compreensão da linguagem escrita, à correção das informações, à es-
trutura e à sequência a ser adotada nos textos, bem como à avaliação e à complementação
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

de imagens do lugar. O entendimento expresso pelos participantes ao realizar as atividades


de leitura e avaliação do material permite conceber a adequação da linguagem e a perti-
nência dos conteúdos e habilidades propostas. O resultado deste projeto foi a elaboração, a
editoração, a impressão, a divulgação e a doação de 250 exemplares de cada um dos mate-
riais produzidos para o acervo das bibliotecas das comunidades que compõem a FLONA.
Foi escolhido construir um conhecimento sobre Geografia da FLONA de Tefé, interesse
demonstrado pelos professores, tendo em vista a necessidade de uma compreensão mais efeti-
va da singularidade do lugar onde atuam profissionalmente. Diante disto, a ideia construída
de forma coletiva teve como
finalidade analisar o espaço geográfico da FLONA de Tefé com o intuito de compre-
ender os aspectos territoriais nas suas dimensões econômicas, políticas, culturais a partir
68 // Novas
de seus modos de vida. (...) O pressuposto foi de que o material trabalharia Geografia a
partir de conceitos operacionais do espaço geográfico (SUERTEGARAY, 2001) e com
conteúdo que expressasse o lugar em que os educandos moram. Decidiu-se, ainda, que o
ensino deveria ocorrer de forma que desenvolvesse a alfabetização cartográfica (PASSINI,
1994), para que aquele conjunto de mapas, os quais subsidiaram o Plano de Manejo,
fosse apreendido pelos educandos favorecendo a aprendizagem sobre o lugar onde moram.
(ROSSATO et al., 2017, p. 2-3)

O caminho percorrido para elaboração do material pedagógico está fundamentado em


Thiollent e Silva (2007) e trata-se de uma pesquisa participativa.
Para este autor ocorre a pesquisa participativa quando a mesma abrange técnicas de
ensino, pesquisa, extensão, avaliação, gestão, planejamento etc. que sejam sensíveis à par-
ticipação de todos os atores envolvidos no problema que se pretende solucionar. O proble-
ma da falta de materiais didáticos que dialoguem com a vida dos educandos foi assumido
pela equipe de pesquisadores que, inseridos no ambiente universitário, interviram por
meio de ensino, pesquisa e extensão, e priorizaram os comunitários como protagonistas do
processo. (ROSSATO et al., 2017, p. 3)

Esta ação está também referendada em Denzin et. al. (2006, p.102) para ele, “a pesquisa-
-ação concentra-se no contexto, seu objetivo é resolver problemas da vida real em seu contexto”.
O contexto no qual se trabalhou corresponde aos anseios da própria comunidade, ribeiri-
nhos e professores que solicitaram aos pesquisadores materiais didáticos para que melhor
pudessem exercer suas atividades uma vez que muitos deles são professores originários de
outros lugares, por vezes de áreas urbanas.

Os produtos didáticos pedagógicos.


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Como já mencionado, ao longo desta atividade, foram produzidos três livros – sobre
a Geografia da Floresta Nacional, um caderno de atividades dirigidas aos professores e um
livro de literatura infantil. O conteúdo destes materiais será apresentado na sequência.

O LUGAR ONDE MORO: Geografia da FLONA de Tefé

Este livro texto sobre a geografia da FLONA foi produzido através de várias etapas.
Incialmente foi feita a organização do material e informações obtidos durante a fase de
mapeamento do uso da terra: mapas, entrevistas, imagens, depoimentos e vídeos.
69 // Novas
A partir disso, fez-se a avaliação do material, elencando-se quais seriam os temas para
compor os textos: a história, a natureza, o trabalho e a cultura dos ribeirinhos. A equipe
foi subdividida em grupos para proceder a escritura dos textos.
Num momento seguinte, após a elaboração dos textos, foi feita a apresentação e dis-
cussão coletiva dos mesmos. Esta produção tinha como seu objetivo central a construção
de um texto que permitisse ao professor e aos ribeirinhos ter acesso ao conhecimento sobre
a FLONA por meio de uma linguagem com a qual reconheciam seu mundo de vida.
Em reuniões com os comunitários, professores desta comunidade e de outras pró-
ximas, bem como gestores e pesquisadores foram feitas oficinas para avaliação, revisão e
complementação dos textos previamente elaborados.
Os textos foram avaliados em subgrupos, e depois se fez a leitura integral dos mesmos,
visando a possibilidade de compreensão da linguagem escrita por toda a comunidade en-
volvida, a correção das informações, a definição da estrutura e da sequência a ser adotada
no texto, bem como a avaliação e a complementação de imagens do lugar. (ROSSATO
et al., 2017, p. 4)

As sugestões de reformulação relativas à ordem dos textos e ao uso dos termos foram
fundamentais nessa etapa.
É costumeiro nos trabalhos de Geografia começar pelos aspectos da natureza, contudo
os ribeirinhos entendem que tudo começa com a história da ocupação da área pelas co-
munidades. Na sequência, deve ser apresentada a natureza que encontraram, a expressão
do trabalho como forma de relação e aprendizado das comunidades com a natureza e,
por fim, a manifestação do seu modo de viver, destacando aqueles momentos de encontro
e celebração. (ROSSATO et al., 2017, p. 5).

Com relação à escrita, contrário ao que o grupo estava pensando – ser feita em pri-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

meira pessoa dando voz aos ribeirinhos –, os comunitários, entendiam que, como foram
os pesquisadores que elaboraram os textos, isso deveria ser evidenciado na escrita e, por-
tanto, o texto seria escrito na terceira pessoa. Segundo eles, o fato de o livro ser escrito por
pessoas que se interessaram pela FLONA valoriza as comunidades, dá visibilidade à UC
e aos seus moradores.
Após as oficinas, os textos foram reformulados e, por meio de sucessivas leituras cole-
tivas, foram finalizados de maneira que refletissem a realidade local e respondessem pelo
objetivo de produção de conhecimento em diálogo com os ribeirinhos. Assim, o livro é
composto por quatro capítulos: I. Meu Lugar e Minhas Histórias; II. A Natureza que nos
Envolve; III. Os Ribeirinhos e suas Atividades; e IV. A Floresta é a Tua Casa. A figura 2
apresenta a capa do livro O lugar onde Moro – Geografia da FLONA de Tefé.
70 // Novas
Figura 2: Capa do Livro O lugar onde Moro – Geografia da FLONA de Tefé.

Meu Lugar e Minhas Histórias


No primeiro capítulo, é trabalhada a história das comunidades da FLONA de Tefé. É
abordada a origem dos primeiros moradores e a constituição das primeiras comunidades
a partir do Movimento de Educação de Base (MEB), cujo suporte se desencadeou através
da rádio local e da difusão através do rádio transistor (Figura 3). Em outro momento,
destaca a relação das comunidades com o processo de institucionalização da Unidade de
Conservação, destacando o papel do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(INCRA). No presente aborda o processo de construção do Plano de Manejo.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Figura 3: Rádio de Educação Rural de Tefé. Fonte: Arquivos da Radio Rural, 2014.
Fonte: SUERTEGARAY et al, 2016, p. 30.
71 // Novas
A Natureza que nos Envolve
Este capítulo traz elementos que compõem os estudos da natureza nas aulas de
Geografia, contudo respeitando as toponímias e as lógicas de como os ribeirinhos enten-
dem os processos da dinâmica da natureza. Destaca a relação entre hidrografia e clima,
uma vez que a dinâmica hidrográfica é um importante elemento de influência na vida dos
comunitários. Apresenta as principais compartimentações de relevo, correlacionando-as
com flora e fauna. A título de exemplo, são trazidos aqui dois dos mapas elaborados: o
de cobertura vegetal e o mapa de relevo, que juntamente com a rede fluvial compõem os
elementos mais significativos da vida na floresta (Figuras 4 e 5).

Figura 4: mapa da Cobertura


Vegetal da FLONA de Tefé e
Entorno – AM.
Fonte: SUERTEGARAY et al,
2016, p. 68.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Figura 5: mapa das Unidades


do Relevo FLONA de Tefé e
Entorno.
Fonte: SUERTEGARAY et al,
2016, p. 69.
72 // Novas
Os Ribeirinhos e suas Atividades
O capítulo apresenta as atividades laborais dos ribeirinhos, por meio dos ciclos anual
da produção e de atividades diárias, com ênfase nas principais atividades desenvolvidas:
pesca, extrativismo e agricultura (roçado). Nestes gráficos é observável a diversidade dos
recursos que utilizam para sua sobrevivência, e os meses do ano em que esse recurso está
disponível ou é cultivado.

A Floresta é a Tua Casa


Neste último capítulo buscou-se enfatizar os modos de viver peculiares às comunidades
ribeirinhas – os povos da floresta e das águas. Desta vez, as atividades diárias extrativistas,
pesqueiras e agrícolas, são abordadas dentro daquilo que se compreende como práticas
tradicionais de uso. Também se destaca todo o processo artesanal de produção da farinha
de mandioca, realizado por muitas comunidades da FLONA. Por fim, são apresentadas as
principais atividades cotidianas que envolvem lazer e convívio social. E as práticas culturais
e festividades que ocorrem ao longo do ano.
As figuras 6 e 7 destacam a produção da farinha e a pesca. Peixe e farinha são a base
alimentar dos ribeirinhos.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Figura 6: Produção da farinha: torra, Comunidade Deus é Pai.


Fonte: SUERTEGARAY et al, 2016, p. 80.
73 // Novas
Figura 7: pesca comercial com rede no Lago Tefé.
Fonte: SUERTEGARAY et al, 2016, p. 81.

Boyrá e o Menino

O segundo material é um livro de literatura infantil que trabalha com a temática


ambiental; aborda o desmatamento e a necessidade de preservação da floresta (Figura 8).
A narrativa apresentada no livro é ficcional, mas fruto de pesquisa e conhecimento
a respeito da realidade amazônica e de suas UCs. Foi pensado para compor o conjunto
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

de três produções planejadas para estimular o interesse e o conhecimento sobre a região.


Por isso, o material foi apresentado e discutido com os gestores da FLONA, que avalia-
ram o conteúdo em relação à UC, observando se estava adequado à realidade local e se
trazia questões pertinentes. Boyrá e o Menino parte da curiosidade sobre o peixe-boi,
animal importante no ambiente da floresta; do encantamento pelas escolas dentro das
comunidades ribeirinhas; e do desafio de viver na floresta sem degradá-la. O menino
representa todos os meninos e meninas que constroem a história destas comunidades,
preocupados com o futuro da floresta. Tanto o texto como as ilustrações passaram por
leitores críticos que fizeram contribuições de forma a torná-los mais próximos da reali-
dade dos ribeirinhos, fundamental para que os leitores se reconheçam se orgulhem dos
caminhos por eles construídos.
74 // Novas
Como já destacado, a inclusão de um livro de literatura infantil neste projeto é impor-
tante para formação de leitores, mas também como apoio ao letramento. Considerando que
o público das escolas da FLONA é constituído de crianças desde a educação infantil até os
anos finais do Ensino Fundamental, é importante que não apenas os adolescentes e adultos
desfrutem de material sobre o espaço onde vivem, mas também os leitores mais jovens.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


Figura 8: livro Boyrá e o Menino, ed. Compasso Lugar-Cultura, 2016.

O Lugar Onde Moro – FLONA de Tefé: Práticas Pedagógicas em


Geografia
Após a elaboração dos livros “O Lugar onde Moro: Geografia da FLONA de Tefé” e
“Boyrá e o Menino”, iniciou-se a construção de propostas pedagógicas para serem desen-
volvidas pelos professores nas escolas da UC ou em outros espaços de educação popular.
Essas compuseram o terceiro volume “O Lugar onde Moro – FLONA de Tefé: práticas
pedagógicas em Geografia” (Figura 9).
75 // Novas
Figura 9: livro “O Lugar onde Moro – FLONA de Tefé:
práticas pedagógicas em Geografia”.

A cartografia como habilidade de representação do espaço geográfico


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

No processo de mapeamento participativo elaborado em conjunto com os ribeirinhos


foram construídos diversos mapas representativos dos mais variados aspectos da FLONA
de Tefé, desde os constituintes naturais, aos de uso da terra. Considerando a importância
desse material e a necessidade de divulgação entre os ribeirinhos, o grupo definiu que as
habilidades de leitura do espaço e de mapas, de localização e de orientação eram impor-
tantes no contexto dos comunitários e, portanto, um dos conteúdos geográficos a serem
estimulados no livro seriam aqueles ligados à alfabetização cartográfica.
Como destaca Passini (1994), a alfabetização cartográfica pressupõe o domínio e apren-
dizagem da linguagem gráfica que se constitui de símbolos e significados. Contudo, a ênfase
não deve ser dada às convenções cartográficas, mas em criar condições para que o educando
76 // Novas
seja um leitor crítico de mapas e seja consciente ao mapear. Desta forma, a cartografia
torna-se um meio de tornar o educando um “mapeador ativo” e consciente das escolhas
subjetivas que foram tomadas no processo cartográfico (CASTROGIOVANNI, 2000).
Considerando a alfabetização cartográfica como um meio de construção da linguagem
cartográfica, a metodologia de ensino presente neste material didático segue a proposta de
Simielli (1996) apresentada na figura 10.

Figura 10: Proposta de Alfabetização Cartográfica adotada no material didático.


Fonte: Adaptado de Simielli, 1996.

Segundo Simielli (1994), no ensino de cartografia nas escolas pode-se trabalhar em dois
eixos, embora ocorram alguns procedimentos em paralelo. Um eixo se refere ao trabalho com

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


o produto cartográfico já elaborado, sendo o resultado do processo um “leitor crítico”, um
estudante que não usa o mapa simplesmente para localizar fenômenos. Já no segundo eixo, o
educando é um participante efetivo do processo, logo o resultado é o “mapeador consciente”.
Destaca-se que na proposta de Simielli (1996) essa constituição do “leitor crítico” e do
“mapeador consciente” por meio da alfabetização cartográfica decorre de um processo em
etapas que vai dos 6 aos 12 anos. Contudo, no contexto da FLONA de Tefé, onde a maioria
das escolas funciona com turmas multisseriadas, as atividades foram construídas em diferen-
tes graus de complexidade, e cabe ao professor decidir quais são mais adequadas aos alunos,
de acordo com sua faixa etária e nível de ensino. O livro se estrutura em uma sequência que
parte do mais simples e avança para o mais complexo, sendo que na mesma sala é possível
tanto trabalhar com símbolos elementares, quanto fazer leituras críticas dos mapas.
77 // Novas
Os conceitos geográficos como constituintes da análise geográfica

Sendo um material de Geografia, decidiu-se também que as unidades deveriam pro-


porcionar o estudo e a compreensão de conceitos que contemplam abordagens do espaço
geográfico, neste caso entendido como uno e múltiplo (SUERTEGARAY, 2001).
Para Suertegaray (2001), espaço geográfico constitui o conceito balizador da Geografia.
Este conceito apresenta ainda hoje variadas concepções. Na perspectiva do ensino de
Geografia, pode-se conceber que o espaço geográfico é o espaço construído pelas atividades
de homens e de mulheres ao longo da história. O trabalho humano imprime na superfície
natural do planeta Terra modificações importantíssimas, trabalho esse que sempre se utilizou
da natureza, daquilo que ela oferece para a existência humana e dos usos que a sociedade faz.
Para entender a análise geográfica, é importante compreender que os professores e
alunos, podem analisar o espaço geográfico através de diferentes conceitos, chamados ope-
racionais. Tais conceitos permitem focar o espaço geográfico sob diferentes perspectivas,
são eles: lugar, paisagem, natureza, ambiente, região e território.
O conceito de lugar é abordado na primeira unidade do livro “O lugar em que
vivemos”. Este expõe a construção de vínculos dos comunitários com o seu espaço
geográfico de vivência. Logo, o lugar é espaço de coexistência e expressa os significados
que os ribeirinhos atribuem a ele. Cabe complementar que na primeira unidade há o
trabalho com as primeiras noções de alfabetização cartográfica. Retoma-se a história de
ocupação do espaço da FLONA para, então, compreender os significados atribuídos
ao lugar de vida dos ribeirinhos e de suas comunidades. A título de exemplo de como
foi trabalhado, neste caso o conceito de lugar transcrevemos parte do sumário do livro
sobre as atividades pedagógicas.

Unidade I: O LUGAR EM QUE MORAMOS


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

1. Eu e minha família
2. A nossa história
3. Todo mundo tem uma história
4. Objetos que representam a nossa história
5. Imagens e representações de objetos
6. A organização da nossa sala de aula
7. Orientando-se na sala de aula
8. Localização relativa e absoluta
9. Sistema de coordenadas geográficas
78 // Novas
O conceito de paisagem é central na segunda unidade de estudo “A paisagem que
construímos”. Este conceito permite compreender o conjunto de elementos que a compõe
– naturais ou sociais – e como esse conjunto se expressa na paisagem da floresta e das comu-
nidades. Como destaca Santos (1997), o mundo é um conjunto de possibilidades e a paisa-
gem, enquanto materialidade do espaço geográfico, é uma acumulação desigual de tempos.
Nesta unidade, se estudam os elementos que compõem a paisagem, bem como
os diversos tempos presentes na paisagem. Há um avanço no sentido de entender os
diversos elementos que estão presentes na paisagem das comunidades, enfatizando os
naturais e os construídos. A alfabetização cartográfica avança no sentido de compre-
ender as representações da paisagem através de imagens, mapas e maquetes, o que, na
perspectiva de Simielli (1996), é uma habilidade necessária para a constituição de um
“mapeador consciente”.
Como exemplo de atividades para o estudo da paisagem tem-se a seguinte proposição
(DE PAULA et al, 2016, p. 41-42):
Escolha uma fotografia da comunidade para trabalhar com a turma ou utilize as
imagens e desenhos produzidos pelos alunos nas atividades anteriores. A foto é uma re-
presentação da paisagem em um dado instante. As paisagens podem mudar com o tempo,
como vimos nas fotografias antigas ou do passado. Estas também, nos permitem entender
a comunidade no presente.
Conversa em roda
Solicite aos alunos, que apresentem para o grupo as fotos tiradas nas ultimas aulas, expli-
cando aos colegas oque quiseram representar. Mostre a fotografia escolhida por você e explore
os elementos ali presentes. Oriente este debate, fazendo aos estudantes as seguintes questões:
a) Quais são os elementos que aparecem nas fotografias?
b) Na análise de fotografias, podemos distinguir os elementos que estão na frente (pri-
meiro plano) daqueles que estão atrás (segundo plano). Quais estão no primeiro e no segundo

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


plano das suas fotografias?
Registro
Solicite aos alunos que escolham uma das fotografias trabalhadas anteriormente e realizem
as questões a seguir:
a) Faça uma descrição detalhada da paisagem da foto escolhida;
b) Informe os objetos que você observa nesta foto;
c) Classifique os elementos observados como naturais e construídos, de uso individual e
de uso coletivo;
d) Crie outras categorias para distinguir os objetos, como os usos que os comunitários
fazem, ou seja, para produzir alimentos, para abrigo, para deslocamento/transporte, para
lazer, etc;
79 // Novas
e) Você descreveu e analisou uma paisagem na fotografia. O que seria uma paisagem
na sua opinião?
f ) A sua casa e a sua escola fazem parte da paisagem da sua comunidade?
g) Como você explica a origem dessa paisagem?

Na unidade três “A natureza que nos envolve”, os elementos da natureza são estudados
com detalhe, uma vez que alguns já haviam sido identificados na análise da paisagem. São
enfatizados processos que independem da intencionalidade humana, como a dinâmica do
clima, do relevo, da hidrografia e da vegetação. Nesse momento, aprofundam-se as habi-
lidades da alfabetização cartográfica, pois as propostas vão além da construção de mapas,
incluem agora análises sobre mapas produzidos durante a elaboração do Plano de Manejo
da UC. A Figura 11 trazida como exemplo das atividades desta unidade corresponde a um
bloco diagrama elaborado para desenvolver a atividade indicada na sequência.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Figura 11: Bloco diagrama mostrando a vegetação da FLONA de Tefé. Fonte: De Paula et al, 2016, p. 69.

Possibilidades de Trabalho
Retomando
Retornar as atividades anteriores de clima, relevo, hidrografia e vegetação, para estabe-
lecer relações entre.
Desenho
Solicite um desenho da paisagem da FLONA em período de cheia. Para desenvolver essa
atividade, você precisará utilizar o bloco diagrama (Figura 12). Peça aos alunos que comparem
80 // Novas
esse desenho com o feito com o bloco diagrama e indiquem as diferenças consideradas impor-
tantes. Oriente-os, indagando: você observou que, num mesmo lugar, a paisagem muda de um
período para outro? Indique algumas diferenças entre o período de seca e o de cheia na FLONA
de Tefé. Antes de iniciar a descrição do bloco diagrama, retome os elementos da natureza que
compõem a paisagem da FLONA de Tefé, dialogando com os alunos de forma coletiva.
Registro
Após a descrição e comparação entre o bloco diagrama e o desenho elaborado pelos
estudantes, solicite que respondam no caderno:
a) Por que, durante o ano, existem dois períodos: um de cheia e outro de seca? Que
fenômeno produz essa diferença?
b) Os dias de cheia, e os dias de seca, na FLONA de Tefé, são diferentes para você?
Quais são essas diferenças?
c) Agora, com base na observação do bloco diagrama e de seu desenho, escreva um
texto sobre a FLONA de Tefé e sua paisagem.
d) Para concluir, escreva o que e uma paisagem.
Conversa em roda
Retome a discussão com os alunos ao final da atividade.
Faça uma síntese do conteúdo aprendido, complementando com as informações que
considerar relevante (DE PAULA et al., 2016, p. 67-68).

Na quarta unidade “O ambiente em que vivemos”, a ênfase está nas relações que os
ribeirinhos estabelecem com a natureza. Estas relações se expressam tanto no trabalho e em
atividades diárias (extrativismo, pesca, roçado, etc.), como nas normas a que estão sujeitos
por serem residentes de uma UC. Nesta unidade, também se faz uso do ciclo anual da
produção e do ciclo de atividades diárias para expressar os diversos usos que os comunitá-
rios fazem da natureza no espaço-tempo. Continua-se o processo de aprofundamento da

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


análise e da interpretação de mapas. A seguir, o registro de uma das atividades propostas
na unidade (DE PAULA et al, 2016, p. 78):
Registro
Solicite aos alunos a produção de uma narrativa ou de um poema sobre a produção
da farinha. Peça que leiam o texto para os colegas. Proponha a confecção de um varal
de poemas na sala de aula. Para isso, amarre uma corda, unindo dois cantos da sala e,
com fitas coloridas ou prendedores de roupa, prenda os textos na corda. Para o varal, as
folhas de papel podem ser recortadas em formas que se relacionem ao tema da poesia.

Na quinta unidade “A região norte e outros lugares”, o conceito de região é abordado


como espaço onde há uma certa homogeneidade de atividades econômicas, indicadores
81 // Novas
sociais, etc. Esta é uma abordagem que não está totalmente presente no primeiro livro,
mas a proposta dos pesquisadores é de que, com os conhecimentos acumulados sobre a
FLONA, os educandos ribeirinhos possam estabelecer relações da região onde estão inseri-
dos com outras regiões brasileiras. A compreensão das principais atividades da região norte
e a expressão destas na FLONA serve de tema problematizador sobre possíveis impactos
da vinda dessas atividades para a UC ou seu entorno. Dá-se seguimento à análise de mapas
que foram construídos durante a elaboração do Plano de Manejo, destacando, inclusive, o
zoneamento da unidade como uma concepção de regionalização interna. Como exemplo
de atividade tem-se um roteiro de entrevista (DE PAULA et al, 2016, p. 100):
Entrevista
Com o objetivo de conhecer a origem dos atuais moradores da FLONA, elabore, de ma-
neira coletiva, um roteiro de entrevista. Ele deverá ser dirigido, preferencialmente, as pessoas
mais idosas das comunidades e deve questionar as origens dos seus familiares (de onde vieram
e quando vieram), seus hábitos e trajetórias de vida até se estabelecerem na
FLONA. Todas as questões devem ser devidamente registradas no caderno. A reali-
zação da entrevista será indicada como tarefa de casa e retomada para a elaboração da
próxima atividade.

Na sexta unidade “Vivemos em um território”, analisa-se a constituição de espaços


onde prevalecem as relações de poder em diversas escalas. Destaca-se o território brasi-
leiro e sua forma de organização através de estados e de municípios. Aborda-se a noção
de limite como fundamental para designar territórios. Por fim, tratam-se de territórios e
territorialidades tradicionais, espaços de apropriação e uso pelos moradores locais. Esta
unidade, assim como a anterior, traz informações que vão além do livro “O Lugar onde
Moro: geografia da FLONA de Tefé”, mas parte dos conhecimentos da unidade para a
compreensão de conceitos mais amplos. Neste momento, os educandos já têm condições
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

de compreender mapas em diferentes escalas – do Brasil e da América Latina. Na sequên-


cia, apresenta-se uma das atividades propostas (DE PAULA et al, 2016, p. 135-136):
Entrevista
Convide um líder da comunidade para que os estudantes possam entrevistá-lo. Organize
previamente esta visita, fazendo o convite com antecedência e compondo, de forma coletiva,
o roteiro da entrevista. A seguir estão listadas algumas sugestões que podem orientar o roteiro.
a) Você, que vive na FLONA, poderia citar algumas normas ou sugestões de uso que
resultaram da criação da FLONA?
b) Quem criou essas normas?
c) Por que foram criadas?
d) Como funciona a gestão da FLONA? Qual o papel do Conselho?
82 // Novas
e) O Plano de Manejo e o documento que delimita e expõe as regras de uso do
território da FLONA. Como ele foi construído?
f ) Quais as principais regras do Plano de Manejo da FLONA de Tefé?
Registro
Retome as respostas das entrevistas e convide os estudantes a fazerem uma síntese
das respostas, através de frases, desenhos, colagens, etc. Esta produção poderá ser feita em
grupos de até 4 alunos.

Na sétima unidade “Boyrá e o Menino: leituras possíveis”, há proposições de atividades


para abordar o livro infantil. São apresentadas propostas de leitura e de interpretação do texto
e das imagens do livro para os educadores utilizarem em sala de aula. Destacam-se essas ativida-
des como fundamentais para a valorização dos modos de viver dos ribeirinhos pelos educandos
mais jovens. Como já mencionado, o menino de que trata o livro, poderia ser qualquer um
deles, e é o protagonista da história. A relação peculiar como a criança ribeirinha se relaciona
com a natureza é seu grande potencial para resolver a problemática apresentada no conto.
Para exemplificar esta sugestão, selecione uma imagem do livro, como a da página 7
(Figura 12).

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Figura 12: Boyrá e o Menino de autoria de Maíra Suertegaray, ilustração de Carla Pilla,
editado pela Editora Compasso Lugar Cultura em 2015.

Auxilie os estudantes na observação, encaminhando algumas perguntas:


– O que e quem aparece nesta ilustração?
– Como vocês acham que ela foi feita?
– Que materiais foram utilizados para fazer esta ilustração?
83 // Novas
– Vocês perceberam que não aparecem os rostos das pessoas? Por quê?
Esses são apenas alguns exemplos de questões que podem ser formuladas para
explorar a observação da imagem. São perguntas que propiciam que sejam formuladas
inferências, permitindo uma leitura mais atenta e consciente, que possibilita o desenvol-
vimento de hipóteses explicativas. (DE PAULA et al, 2016, p. 141)

Por fim, a oitava unidade apresenta uma discussão sobre a avaliação das propostas con-
tidas no livro, destacando o conteúdo e as habilidades necessárias para o bom desempenho
na aprendizagem de Geografia.
Em cada unidade há uma série de temáticas que serão abordadas. Essas propostas de
“encontros” apresentam a temática específica a ser estudada e o objetivo desta. Na sequência
da proposta são expostas algumas questões norteadoras ou noções básicas.
O resultado deste projeto foi a elaboração, a editoração, a impressão, a divulgação e a
doação de 250 exemplares de cada um dos materiais produzidos para o acervo das biblio-
tecas das comunidades que compõem a FLONA. Os livros estão disponíveis para cópia no
endereço https://www.ufrgs.br/nega/producao/.

Algumas considerações sobre geografia o ensino e material didático

A produção desse conjunto de livros destinados ao ensino de Geografia na FLONA


de Tefé, permite uma reflexão sobre o que se propõe hoje no ensino da Geografia, em
particular no Brasil.
A Geografia como disciplina escolar oferece sua contribuição para que os alunos e
professores enriqueçam, na dimensão das espacialidades, suas representações sociais e seu
conhecimento sobre as múltiplas dimensões da realidade social, natural e histórica, enten-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

dendo melhor o mundo em seu processo ininterrupto de transformação (PONTUSCHKA


et al., 2009). Além disso, a valorização dos saberes dos estudantes e sua autoria são elementos
fundamentais nas prática pedagógicas mais atuais.
Antes, porém, cabe destacar que, no contexto das escolas da FLONA de Tefé, a maio-
ria das salas de aula são multisseriadas, o que dificulta a desenvolvimento de uma lógica
linear de conteúdo. As propostas apresentadas permitem ao professor selecionar e adaptar
os materiais e as práticas conforme as características da sua turma, incentivando a troca e
a colaboração entre estudantes em níveis cognitivos diferentes.
O material produzido abre espaço para a inserção de visões de mundo dos povos da flo-
resta, que até então não se reconheciam nos materiais didáticos de Geografia. Os educandos
ribeirinhos e suas comunidades verão no ensino de Geografia a expressão do lugar em que
84 // Novas
vivem, das suas vivências e das linguagens em diálogo com os conhecimentos geográficos
que são básicos e comuns em propostas elaboradas em território nacional.
Entre os conceitos abordados nos livros, há uma referência direta ao lugar, “O Lugar onde
Moro”. O livro de práticas pedagógicas de Geografia, expressa esta visão mais contemporâ-
nea da construção dos saberes geográficos, na medida em que enfatiza o contexto familiar,
comunitário, da escola e do trabalho como ponto de partida para as aprendizagens. Consiste
na valorização dos diferentes espaços geográficos vinculados às diferenças étnicas e sociais ao
propor uma análise a partir do conceito de lugar e do modo de viver dos povos da floresta. Isto
implica em reconhecer suas territorialidades e, assim, produzir conhecimentos e representa-
ções do espaço que servem como instrumento de lutas para a permanência em tais territórios.
Nos materiais produzidos, é revelado que as comunidades da FLONA, apesar de pare-
cerem isoladas, também estão sujeitas a grandes projetos econômicos e orientações interna-
cionais sob determinadas políticas, como as de proteção da natureza. Assim, reconhecendo
seu modo de viver e valorizando a cultura dos povos da floresta, os educandos ribeirinhos
se posicionam a partir do seu lugar no mundo. Valoriza-se nesse caso, uma das proposições
de ensino de Geografia que propõe a análise do espaço geográfico em diferentes escalas.
Estão presentes as escalas geográficas (local-regional-nacional-global), mas não há uma
hierarquização entre elas. As diversas escalas se manifestam na medida em que o lugar de
vida dos educandos é abordado. Assim, se compreende o município, o estado, a região e
o país, sempre em relação com a própria UC, onde estão as comunidades e suas diversas
territorialidades. A governança também é abordada em diversas escalas, havendo destaque
para os espaços de gestão comunitária e compartilhada no âmbito das comunidades.
Fotografias, mapas, esquemas, desenhos, imagens de satélites, gráficos ganham desta-
que, de modo que os educandos tenham contato com diversas formas de representação do
lugar onde moram. Esta forma de abordagem valoriza o uso de recursos didáticos diversos,
valorizando diferentes linguagens e gêneros textuais.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


A cartografia é tomada como centro na análise das representações espaciais. Assim, no
material de práticas pedagógicas, as três primeiras unidades estão enfocadas no processo de
alfabetização cartográfica. Tendo desenvolvido essa habilidade, propõe-se a leitura crítica
de mapas e a produção consciente de mapas, maquetes, croquis etc.
Por fim, frisa-se o potencial desse material para uso em atividades interdisciplinares.
Os três volumes podem ser utilizados em conjunto com educadores de outras discipli-
nas. No caso do material de práticas pedagógicas em Geografia, cada encontro apresen-
ta, inclusive, a proposta de disciplinas que podem atuar conjuntamente na condução
das atividades.
85 // Novas
Conclusões

No caso desse projeto, percebe-se um importante passo do ponto de vista metodo-


lógico, com o desenvolvimento efetivo de uma pesquisa-ação. Houve uma demanda das
próprias comunidades da FLONA de Tefé, houve a coprodução dos materiais com os
comunitários, os resultados expressam uma Geografia científica feita com criatividade, e a
materialidade dos livros expressa a ação proposta.
Quanto aos materiais, cabe destacar o movimento em que os mesmos foram concebidos
e produzidos. Para refutar o convencional que não expressa os modos de viver dos ribeirinhos,
os pesquisadores tiveram que estar a todo o tempo abertos à possibilidade do novo. As ideias se
adequavam na medida em que o problema a ser enfrentado ficava mais claro. Inicialmente, a
ideia foi de produzir um atlas, mas os próprios professores expuseram a falta de conhecimento
e formação sobre a FLONA, então, o caminho se voltou para a produção do livro texto “O
lugar onde moro: Geografia da FLONA de Tefé”. Entendeu-se que esse livro texto atendia as
expectativas da Geografia do Ensino Fundamental II, então decidiu-se a produção do livro
conto “Boyrá e o Menino” para começar o trabalho de valorização do modo de viver ribeirinho
já com as crianças. Por fim, os próprios professores demandam sugestões de atividades que os
auxiliem na preparação das aulas, então, com base nos livros citados, foi produzido o livro de
atividades “O lugar onde moro – FLONA de Tefé: práticas pedagógicas em Geografia”.
Quanto ao ensino de Geografia, utilizando como base esses materiais, destaca-se a
consonância com debate atual no ensino de Geografia. A centralidade do estudo está no
lugar, valorizando as relações com a natureza, vivências e sociabilidades dos educandos
em suas comunidades. A proposta de análise é multiescalar, sempre correlacionando com
os conhecimentos construídos a partir do lugar de vida dos educandos. A proposta de
cartografia no ensino de Geografia dialoga com a proposição de alfabetização cartográfica,
presente nos materiais, para formar leitores críticos de mapas e mapeadores conscientes.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

No presente o NEGA produz outro material que servirá de apoio às aulas, um atlas escolar.
Além disso, a pedido dos professores e gestores da FLONA, entre agosto e setembro
de 2017 foi realizado um curso de extensão para formação de professores que desenvolvem
suas atividades nas escolas da FLONA de Tefé e do seu entorno, nos municípios de Tefé
e de Alvarães. O curso, desenvolvido para propiciar a reflexão e a apropriação do material
produzido, foi ministrado por integrantes do NEGA-UFRGS e contou com apoio da
Secretaria de Educação dos municípios de Tefé e de Alvarães e do ICMBio. Foram mo-
mentos muito ricos, com troca de experiências, uma vez que vislumbrando os possíveis usos do
material, os docentes compartilhavam experiências práticas de sala de aula. Sobretudo, pode-
-se ver a dinâmica de abrir um horizonte para desenvolver atividades mais práticas e lúdicas.
(FONTANA et al., 2018, p. 173).
86 // Novas
A elaboração coletiva destes materiais e sua aplicação nos cursos de formação de pro-
fessores propiciam o que entendemos ser algo essencial no campo da educação: a criação
de espaços para valorização das comunidades, dando-lhes protagonismo e gerando espaços
críticos de reflexão sobre sua a realidade.

Referências

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Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
88 // Novas
O uso de embalagens Tetra Pak como
alternativa sustentável no isolamento
térmico de residências de famílias de
baixa renda em Porto Velho – Rondônia

Vera Lúcia de Almeida


Lorrana Jhulian Alves Batista
Rogério Batista dos Santos
Luma Damon de Oliveira Melo
Jose Geraldo Silva

Na cidade de Porto Velho-RO, demonstrando que é possível o reaproveitamento das


embalagens tetra pak para melhorar a qualidade da moradia em comunidade carente que
não dispõem de recursos financeiros para a aquisição de isolantes disponíveis comercial-
mente. As embalagens descartadas para algumas pessoas são apenas lixo, porém para outras
podem ser uma alternativa sustentável. No Brasil, foram 6 bilhões de embalagens distribuídas
em todo o território nacional (TETRA PAK, 2001). Em Rondônia essa realidade se tornou
um grande problema, quantidades imensas são descartadas diariamente no aterro muni-
cipal, onde a coleta seletiva se restringe a poucos itens. Diante do exposto, que melhorias

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


podem ser apresentadas com a reutilização dessas embalagens, nas comunidades carentes
de Porto Velho? Os principais passos metodológicos para a realização do projeto correspon-
deram à revisão literária de artigos, livros e revistas eletrônicas, trabalho de campo, com
aplicação de questionários estruturados, para diagnóstico da realidade local e identificação
da comunidade a ser beneficiada e seleção da família a ser beneficiada. A selecionada era
composta por 8 pessoas, 4 adultos e 4 crianças; a idade dos adultos variava de 24 a 54 anos,
as crianças de 6 meses a 12 anos; esta habitava uma moradia autoconstrução de aproxima-
damente 25m2. A renda total da família era de R$ 200,00 (duzentos reais) que recebiam do
trabalho de coleta seletiva de lixo. Após a seleção da família, a segunda etapa consistiu em
reunir a quantidade de 1600 unidades de embalagens tetra pak, que foram utilizadas para o
revestimento das paredes e forro.
89 // Novas
Introdução

O acumulo de resíduos nas cidades tem se tornado uma preocupação mundial, não há
o que se fazer com tanto resíduo. O consumo desenfreado da população e a pouca reciclagem
de muitos materiais contribuíram muito para isso.
Segundo a APRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos
Especiais), a humanidade produz aproximadamente trinta bilhões de toneladas de lixo ao ano e dá
uma destinação a todo esse lixo não é trabalho fácil. Devido a esse imenso problema, alternativas
sustentáveis foram se tornando fundamentais, em todos os lugares do planeta, o lixo acumulado
nos aterros, tem se tornado um grande desafio logístico, não há o que se fazer com tanto resíduos.
Para Abraham Moles (1973), vivemos numa sociedade que produz para consumir e cria para pro-
duzir, num ciclo em que a noção fundamental é a velocidade e a descartabilidade dos materiais.
A globalização mundial e o capitalismo estimulam o consumo desenfreado e a descartabili-
dade de produtos e bens na mesma proporção. Quando Irina Bokova (2016), chefe da UNESCO
diz que a ignorância é nossa inimiga ela esta se referindo também ao fato do ser humano aceitar,
sem refletir e se posicionar, quanto as questões ambientais futuras, o consumo desenfreado esti-
mulado pelas grandes mídias, tem levado o planeta ao extremo. O lixo tem se tornado cada vez
mais um problema para a engenharia, tanto na forma de reduzir, quanto reaproveitar.
No países mais desenvolvidos, a exemplo de Portugal, a geração de energia em sua
grande maioria, já é sustentável, a fonte dessa produção é o vento, alimentando as usinas
eólicas. Em outros países, o resíduo alimenta biodigestores, levando gás e energia de forma
sustentável. No Brasil, essa realidade sustentável esta distante, por isso, alternativas tornam
se necessárias para que se inicie essa mudança.
Segundo Araia (2011), algo está profundamente errado nisso, relacionado ao processo
socioeconômico de geração de lixo e agravado pela falta de política pública no setor e de
uma educação mais abrangente que seja trabalhada na base educacional.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Assim como nos grandes centros, em Porto Velho, Rondônia essa realidade não é dife-
rente, toneladas de lixo são acumuladas em formato de montanha, já que a cidade ainda não
dispõe de um aterro municipal. Entre todo tipo de resíduo, esta a embalagem tetra pak, que
foi desenvolvida na cidade de Lund na Suécia no ano de 1943, com a finalidade de acomodar
com maior durabilidade e segurança alimentos. Com o passar do tempo, essa embalagem
tem se tornado um grande acumulo nos aterros e lixões, por ser uma embalagem de difícil
decomposição, ultrapassando mais de cem anos para se decompor e que contribui com o au-
mento de doenças, devido ao resíduo do leite, achocolatado e suco que ficam na embalagem.
Segundo a Tetra Pak (2001), no Brasil somente em 2001 foram seis bilhões de emba-
lagens distribuídas em todo o território nacional. Sendo que menos de 2% desse material
foi reaproveitado.
90 // Novas
Em algumas cidades, essa embalagem esta sendo reutilizada para artesanato, em Porto
Velho, Rondônia, além da finalidade de resguardar o alimento, essa embalagem tem se
tornado uma importante ferramenta sustentável no combate ao calor rigoroso da região
amazônica. O aproveitamento destas embalagens contribui para o desenvolvimento sus-
tentável, o qual visa atender as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade
das gerações futuras atenderem as suas próprias.
Próximo ao lixão municipal de Porto Velho formou se a princípio uma pequena comu-
nidade, onde grande parte dos moradores vive da coleta de materiais recicláveis. Suas casas
na grande maioria são construídas de madeira, onde as falhas dessas construções provocam
grande incômodo, principalmente quando chove ou a alta temperatura está em evidência,
o que acontece em boa parte do ano na região norte do Brasil.
Diante do exposto, que melhorias podem ser apresentadas com a reutilização dessas
embalagens, nas comunidades carentes de Porto Velho?

Referencial teórico

De acordo com a UNESCO (2016), foram necessários bilhões de anos para que se
criasse a biosfera de que nós desfrutamos, com sua incrivelmente rica diversidade de plan-
tas e animais, é nosso dever e responsabilidade agir agora para preservá-la para as gerações
futuras e cuidar do planeta verde.
Não há mais espaço para depositar resíduos e a questão de onde colocá-los virou um
enorme problema logístico. Grandes metrópoles descartam o seu lixo muitas vezes a qui-
lômetros de distância. Nova York é uma dessas cidades, a 500 km de distância descarta o
seu lixo. O Brasil não fica atrás. Segundo o relatório de 2010 da Abrelpe a média de lixo
domiciliar de cada brasileiro que é de cerca de um quilo, é semelhante à de um europeu.

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Porém, nossas classes afluentes geram muito lixo, enquanto as classes humildes geram
pouquíssimo. É assim que se chega a uma média europeia.
Segundo Araia (2011), algo está profundamente errado nisso, relacionado ao processo
socioeconômico de geração de lixo e agravado pela falta de política pública no setor e de
uma educação mais abrangente que seja trabalhada na base educacional.
A ecologia constitui-se num novo território de saber, marcado pela interseção de vários
campos de saberes, como estes já citados, além de muitos outros. Podemos chamar os pro-
blemas ecológicos de problemas híbridos (GALLO, 2000, p. 6). Considerando o cenário,
uma alternativa é a reciclagem. Sendo assim, um processo de extrema importância para o
sucesso da reciclagem é a coleta seletiva de lixo, que compreende a separação e coleta de
materiais recicláveis na fonte geradora (Vilhena & D’Almeida, 2000).
91 // Novas
O grande volume de embalagens, descartadas, segundo o Ministério do Meio Ambiente,
após usadas apenas uma vez, torna-se um problema ambiental. O não reaproveitamento pode
causar riscos aos recursos naturais e até à saúde humana. Para Neiva (2001), o principal proble-
ma enfrentado para o crescimento da reciclagem dos diversos tipos de materiais é a inexistência
ou a ineficiência de programas de coleta seletiva, que deveriam serem inseridos na base educa-
cional e perpetuado nas demais series seguintes. Esse programa deve propiciar a separação do
lixo em papel, plástico, vidro, metal e matéria orgânica, assegurando melhor qualidade desses
materiais e facilitando a sua reciclagem. Para o seu sucesso, a separação do lixo em cada cate-
goria deve continuar nas próprias residências com cada um exercendo seu papel de cidadão.
A embalagem longa-vida, também chamada de cartonada ou multicamadas, é com-
posta de camadas de papel, polietileno de baixa densidade e alumínio. Esses materiais
em camadas criam uma barreira que impede a entrada de luz, ar, água, microorganismos
e odores externos, CEMPRE (Compromisso Empresarial Para a Reciclagem), (2018).
Tornando se uma barreira sustentável contra o calor.
Ainda de acordo com o Cempre (2016), o Brasil ostenta o título de maior reciclador
das latas de alumínio, chegando a de 98,4%, já em nível mundial aproximadamente 75%
das embalagens são reutilizadas. As latas são campeãs de reciclagem porque o alumínio
tem uma capacidade infinita de se transformar e manter a mesma qualidade do material
primário. Isso não acontece, por exemplo, com o papel e plástico que, quando reciclados,
na maior parte das vezes, não mantêm a qualidade dos produtos de origem. Sem contar
o valor comercial que a latinha de alumínio tem, em comparação a caixinha de leite, seu
valor comercial é 17 vezes maior, impulsionando assim a sua maior coleta.
As tecnologias sustentáveis além de estarem em alta agregam valor e conhecimento
aos alunos nas academias. Poder e querer sair da “caixinha” e levar à teoria a prática apren-
dendo de forma incomparável e ainda ajudando pessoas é algo extraordinário. Além de
acondicionar alimento, essa embalagem está restaurando valores, dignidade e aprendizado.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Metodologia

Para realização deste estudo, inicialmente foi realizada revisão literária de artigos, livros e
revistas eletrônicas. Em seguida, foi realizado trabalho de campo, com aplicação de questioná-
rios, para diagnóstico da realidade local. O estudo realizou levantamentos na pesquisa através
de questionários semi estruturado. Os questionários incluíam informações quanto à idade, sexo,
número de filhos, naturalidade, nível de escolaridade, dificuldades encontradas e a falta de apoio
por parte do poder publico. Para que a eficácia do questionário seja aumentada, Marconi e
Lakatos (2012, p. 100) afirmam que a elaboração deve seguir algumas recomendações: (1) os
temas escolhidos devem estar de acordo com os objetivos da pesquisa, (2) o questionário deve ser
limitado em sua extensão e em sua finalidade, pois um questionário muito longo causa cansaço
92 // Novas
e desinteresse e um questionário muito curto pode não oferecer informações suficientes, (3) as
questões devem ser codificadas, a fim de facilitar a posterior tabulação, (4) deve estar acompa-
nhado de orientações sobre como respondê-lo, (5) o aspecto e a estética devem ser observados.
A preparação da entrevista é uma das etapas mais importantes da pesquisa que requer tempo
e exige alguns cuidados, entre eles destacam-se: o planejamento da entrevista, que deve ter em
vista o objetivo a ser alcançado; a escolha do entrevistado, que deve ser alguém que tenha fami-
liaridade com o tema pesquisado; a oportunidade da entrevista, ou seja, a disponibilidade do
entrevistado em fornecer a entrevista que deverá ser marcada com antecedência para que o pes-
quisador se assegure de que será recebido; as condições favoráveis que possam garantir ao entre-
vistado o segredo de suas confidências e de sua identidade e, por fim, a preparação específica que
consiste em organizar o roteiro ou formulário com as questões importantes (LAKATOS, 1996).
O objetivo da entrevista visava apurar as condições da família, melhorar a estrutura
física do imóvel, diminuir o calor e proporcionar o resgate de valores que visivelmente,
estava esquecido pelos entrevistados.
Após essa etapa, a família foi selecionada, levou se em conta, o maior numero de
crianças na residência, pessoas idosas, famílias que realmente necessitavam. A família se-
lecionada era composta por oito pessoas, que viviam em um espaço físico de aproxima-
damente 25m2 sendo quatro adultos e quatro crianças, a idade dos adultos de 24 anos a
54, as crianças tinham idade de 6 meses a 12 anos. A renda total da família era em torno
de R$ 200,00 (DUZENTOS REAIS), que recebiam da coleta seletiva de lixo. As crianças
dormiam juntas em uma cama de casal, dois adultos em outra cama e os outros dois em
uma colchão de casal no chão, pela manhã, o colchão do chão virava cadeira.

Figura 1. Casa selecionada na Vila Princesa

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fonte: Autores.
93 // Novas
No dia em que as medições foram iniciadas, houve a necessidade de retirada da cama
onde as crianças dormiam, para facilitar o trabalho e melhorar o espaço. Quando a cama
foi puxada, uma cobra aparentemente venenosa, estava embaixo da cama, causando muita
tensão, porém, para as crianças aquela situação parecia comum, chegaram a comentar que
era comum encontrar esse tipo de réptil (Figura 2).

Figura 2. Local onde as crianças dormiam

Fonte: Autores.

Resultados e Discussões

Durante a pesquisa, foi constatado que 77% dos moradores eram do sexo feminino
com idade média de 42 anos. Apesar disso, foi possível observar jovens e idosos, com idade
entre 6 meses e 55 anos. A naturalidade dos moradores era bastante diversificada, conforme
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

observado na Tabela I:

Tabela 1: Naturalidade dos moradores.

Cidade de Origem Estado Quantidade


Belém Pará 1
Guajará-Mirim Rondônia 1
Porto Velho Rondônia 6
Cerejeiras Rondônia 2
Rio Branco Acre 3
Total 13
Fonte: Autores
94 // Novas
Observa-se que de um total de 13 famílias entrevistadas, 38% eram imigrantes que, de
acordo com as informações disponibilizadas, vieram de diferentes estados brasileiros e do
interior de Rondônia em busca de melhores oportunidades de trabalho.
Tanto na Vila Princesa quanto nos outros bairros da cidade, foi constatado que o
problema maior das famílias era a falta de estrutura mínima dos imóveis e o intenso calor
da região, que mais causavam problemas. Também foi muito exaltada à dificuldade em se
conseguir comprar um isolante térmico industrial pelo seu alto valor, uma vez que a renda
dessas famílias não chega a 1 salário mínimo o que dificulta muito a aquisição de produtos
melhores, a estrutura física interna das casas também é um agravante ( Figura 3).

Figura 3. Casa família atendida antes e depois do projeto iniciar

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fonte: Autores.

Os alunos que participam do projeto são de várias cursos, sendo: Nutrição 4,


Engenharia civil 3, Engenharia elétrica 1, Administração 1, Psicologia 1, Engenharia de
Produção 8 e Direito 2, totalizando 20 alunos em 7 cursos.
95 // Novas
Figura 4. Cursos que integram o projeto

Fonte: Autores.

Quando questionados sobre as principais dificuldades e obstáculos da região, os en-


trevistados em unanimidade destacaram a falta de apoio do Governo (Federal/Estadual/
Municipal) e o calor. Em seguida, 80% relataram a precariedade do local onde residem
(falta de água, banheiro, estrutura física, etc.). Apesar disso, ainda passam a ter um pouco
de esperança quando estudantes chegam com projetos como esse.
Para medir a temperatura da casa, foram instalados em pontos diversos da residência
sensores, que eram monitorados por um sistema, o computador ficou na residência por
um período de uma semana antes e outra após, medindo a temperatura antes e após a
instalação da manta, para que a temperatura média fosse calculada, mostrando se houve
ou não redução com a instalação da manta.

Discussão
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

De acordo com os entrevistados, as principais dificuldades encontradas são a falta de


apoio do poder público, seguido pela falta de estrutura adequada e unanimemente o in-
tenso calor. Os moradores dessas regiões carentes precisam de mais projetos sustentáveis,
os estudantes precisam sair das academias e irem de encontro a essa real necessidade.
Segundo Freire (1993), a educação em todos os seus âmbitos, é a alavanca da transforma-
ção social e ambiental. Nenhuma nação se afirma fora dessa louca paixão pelo conhecimento,
sem que se aventure, plena de emoção, na reinvenção constante de si mesma. Nenhuma
sociedade se afirma sem o aprimoramento de sua cultura, da ciência, da pesquisa, da tec-
nologia, do ensino e isso tudo inicia no desenvolvimento de projetos, onde diversos cursos
interagem e trocam conhecimento.
96 // Novas
O trabalho voluntário voltado a questões socioambientais agrega mais que satisfação
a uma pessoa, agrega valores e isso na vida profissional tem muito respaldo e pode ser de
ordem social ou profissional e sempre existe o ganho para todas as partes envolvidas.
Após a instalação da manta, os dados do sistema foram tratados e verificou se a di-
minuição da temperatura em todos os períodos, sendo maior a noite, ultrapassando 5°C
(Figura 5).

Figura 5. Resultado dos Sensores em Graus Celsius

Fonte: Autores.

Segundo os moradores da residência, a noite foi necessário desligarem o ventilador,


uma vez que a temperatura da casa estava muito agradável para os adultos e frios para as
crianças. Além do conforto térmico ajudou a reduzir também o consumo de energia.

Conclusões

Além de ter sido dada uma destinação sustentável as caixinhas de leite, também

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


houve melhoria na vida da família, inclusive na autoestima de todos. O objetivo inicial
do projeto na primeira unidade foi alcançado, ultrapassando a expectativa, tanto em
relação à redução da temperatura, quanto na retirada de mais de mil e seiscentas emba-
lagens tetra pak do lixo, a motivação para realização de novas unidades ficou evidente
para todos, principalmente quando nos despedíamos e uma das crianças veio nos abra-
çar, agradecendo por não mais acordar molhada devido ao calor excessivo, foi nítida a
expressão de surpresa e felicidade no rosto de todos os envolvidos no projeto, como a
dedicação e comprometimento de todos resultou em algo tão maravilhoso que nos invadiu
e contagiou completamente.
Chegamos à conclusão que outras unidades serão construídas e que fazer o bem a
alguém, ainda de forma sustentável é melhor que receber.
97 // Novas
Referências

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Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

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98 // Novas
Desertificação e Arenização no Brasil

Dirce Maria Antunes Suertegaray


POSGEA / Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

O presente texto trata do tema Desertificação e Arenização no Brasil, e tem por obje-
tivo traçar um comparativo entre esses dois conceitos através da descrição de paisagens em
que há ocorrência desses processos em território nacional (BR), associando esses estudos a
questões de ordem ambiental e de ordenação territorial.
Foram selecionadas áreas representativas, no território brasileiro, com presença de feições
decorrentes de processos de arenização e desertificação, tornando o objetivo central deste ca-
pítulo a elaboração de uma análise comparativa entre três áreas em território nacional sujeitas
a esses processos, com o foco de análise em localização, distribuição e dinâmica socioespacial.
A primeira das áreas a serem analisadas é o sudoeste do Rio Grande do Sul (SW), área
com ocorrência de arenização, ou seja, processos de erosão do solo associados às dinâmicas
hídrica e eólica atuais e sob condições de clima subtropical que, através de precipitações
relativamente bem distribuídas e presença de chuvas torrenciais, promovem mobilização

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


de sedimentos. Resulta dessa dinâmica a constituição de depósitos arenosos em áreas mais
rebaixadas topograficamente, denominados areais – que correspondem a áreas com solos are-
nosos expostos, ou seja, sem a presença de cobertura vegetal (campo), sujeitas aos processos
de erosão hídricos e eólicos.
É importante destacar que essa dinâmica de arenização (SUERTEGARAY 2017) está
vinculada a causas naturais em sua origem; no entanto, ela também pode ser intensificada
pelas formas de uso da terra. Um exemplo de uso que está na origem da intensificação do
processo de arenização naquela região é a agricultura comercial, decorrente da expansão da
lavoura de soja desde os anos 1970. As políticas de reconversão da matriz econômica da região
levaram à substituição da pecuária (atividade econômica tradicional) pela já referida expansão
da lavoura de soja, à introdução da silvicultura e, prioritariamente, ao plantio de eucalipto.
99 // Novas
A segunda região selecionada para esta análise corresponde às áreas de desertificação na
região dos Cariris paraibano, com características climáticas semiáridas, substrato geológico
constituído de rochas de embasamento (ígneas) e cobertura vegetal de caatinga, com uso
do solo historicamente pastoril, mas presença de usos diferenciados ao longo do tempo,
constituindo área de solos expostos fortemente erodidos.
O conceito de desertificação será detalhado no próximo item deste artigo. Cabe antecipar
que a desertificação nesta região apresenta distintos graus de susceptibilidade a processos de
degradação e está associada ao uso do solo, sobretudo ao pastoreio (caprinos) e ao desmata-
mento. Esses processos ocorreram ao longo da história de ocupação, que originalmente se deu
pela expansão da ocupação do Nordeste do litoral em direção ao interior (sertão).
A terceira análise corresponde à região de Gilbués, no estado do Piauí, identificada
também com presença de desertificação, aqui associada a um clima tropical subúmido,
onde os fluxos hídricos originam sulcos de erosão no solo, denominados regionalmente
grotas (ravinas), e em conjunto, malhadas. Esse processo promove a erosividade do solo e
seu consequente empobrecimento para uso agrícola. A origem desse processo está associada
à atividade pastoril e à mineração no município de Gilbués.
O comparativo tem como objetivo expressar diferenças e semelhanças observáveis
entre essas três áreas, considerando substrato geológico, solos, cobertura vegetal, uso do
solo e processos geomorfológicos associados, expressando paisagens diferenciadas, com
semelhanças e ou diferenças em seus elementos e constituição.
Incialmente, serão expostas as áreas de ocorrência desses processos em escala nacional,
identificando suas feições e processos erosivos associados.

Arenização e Desertificação
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Os processos de arenização e desertificação serão aqui abordados em escala nacional,


considerando sua distribuição espacial. Importa, então conceituar esses processos.
Por arenização entende-se “o retrabalhamento de depósitos areníticos (pouco conso-
lidados) ou arenosos (não consolidados) que promove nessas áreas, dificuldade de fixar a
vegetação, devido à constante mobilidade dos sedimentos” (Suertegaray, 1987). Constitui,
de forma mais detalhada, o
(...) retrabalhamento (...) de formações superficiais, provavelmente quaternárias,
decorrente de uma dinâmica morfogenética onde os processos hídricos superficiais,
particularmente o escoamento concentrado do tipo ravina ou voçoroca, associados
a chuvas torrenciais expõe, transporta e deposita areia, dando origem a formação de
areais que, em contato com o vento, tendem a uma constante remoção. Suertegaray
(1987) e Suertegaray e Verdum (2012)
100 // Novas
Desertificação é um conceito originário de Aubreville (1949). Foi resgatado na
Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação (1977), realizada em Nairóbi,
no Quênia, e reformulado em 1992, na Conferência das Nações Unidas para o Meio
Ambiente – Rio de Janeiro (Rio 92) – Agenda 21, capítulo 12.
O conceito derivado da agenda 21 é o conceito mais difundido no Brasil, seja no
âmbito da pesquisa, seja no âmbito das políticas oficiais relativas ao combate à seca e à
desertificação no estado brasileiro (VERDUM 2002).
Desertificação, portanto, “consiste na degradação da terra nas regiões áridas, semi-
-áridas e sub-úmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e
as atividades humanas” (Matallo Junior, 2001 p.24). Para esse mesmo autor,
a ideia de “degradação da terra” é ela mesma uma ideia complexa, com diferentes
componentes. Esses componentes são: a) degradação de solos, b) degradação da vegeta-
ção, c) degradação de recursos hídricos, e d) redução da qualidade de vida da população.

Paisagens arenosas e desertificadas

As paisagens aqui referidas demonstram a interação de processos que ao longo do


tempo configuram feições, naturais e ou antropogênicas, com características singulares.
Elas são exemplificadas através de imagens representativas dos espaços em análise (Figs.1,
2 e 3). Notam-se características diferentes em relação às condições climáticas, cobertura
vegetal, formação geológica e uso da terra; entretanto; há semelhanças em relação aos solos
e aos processos naturais que lhes dão origem.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig.1: Paisagens com ocorrência de areais. Município de Quaraí, RS, BR. Foto: Dirce Suertegaray, 2017.
101 // Novas
Fig. 2: Feições erosivas. Grotas e Malhadas. Gilbués PI. Foto: Dirce Suertegaray, 2018
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 3: Área desertificada. Região dos Cariris. PB. Foto: Dirce Suertegaray, 2007.
102 // Novas
As paisagens em processo de arenização no sudoeste do RS (Fig. 1), constituem en-
claves no bioma Pampa, cuja cobertura vegetal dominante é o campo. Segundo Rossato
(2012), o clima é do tipo subtropical Ib, ou seja, pouco úmido com inverno frio e verão
quente. Em relação à precipitação, a autora destaca uma média de precipitação anual entre
1400-1700 mm, concentrada em 70-90 dias de chuva que ocorrem em poucos dias ao
mês – entre 6 e 9 – e, particularmente, no outono e na primavera.
Os areais ocorrem em áreas cujo substratos são a Formação Botucatu e a Formação
Guará, ambas constituídas de arenitos. Sob essas formações tem-se formações superfi-
ciais arenosas, de deposição recente, agronomicamente denominadas de Neo Solos
Quartzarênicos Órticos (NQo). Scopel (2012), ao estudar, com maior detalhe, os solos da
região sudoeste do RS com ocorrência de areais, descreve-os como solos que:
apresentam cores avermelhadas ou amarelo-avermelhadas, muito salientes no
P1RS (perfil 1) e no P2RS (perfil 2). Geralmente, a cor mais avermelhada deve-se
ao óxido de ferro, na forma oxidada. A literatura informa, entretanto, que pequenas
concentrações de óxidos de ferro no solo podem resultar em cores avermelhadas ou
amareladas. Assim, apenas com análises específicas do ferro presente nesses solos,
poder-se-ia quantificar o seu teor e evidenciar sua importância quantitativa para a
diferenciação desses solos. Os solos estudados foram classificados como de textura
“areia”, contendo ao redor de 90% de areia essencialmente,” sendo esses solos na
região classificados como NQo (Scopel et al. 2012, p.511). V. Fig. 4.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 4: Solos NQo. Areal do Morro da Panela. Quaraí. RS. Foto: Dirce Suertegaray. 2015.
103 // Novas
Como área tipicamente desertificada podemos referir as paisagens dos Cariris Velhos
(Fig. 5), no estado da Paraíba.

Fig. 5: Paisagem com ocorrência de solos expostos e reduzida cobertura vegetal (Caatinga). Solos argilo-arenosos,
sujeitos a processos de erosão hídrica. Cariris Velhos. PB.BR.2010. Foto: Dirce Suertegaray, 2007.

Essas áreas se caracterizam pela localização em bioma de Caatinga, sob clima semiárido.
O embasamento é constituído de rochas ígneas e metamórficas, e as formações superfi-
ciais, predominantemente argilo-arenosas, são classificadas, agronomicamente, em dois
tipos de solos: Luvissolo Crômico e Neossolo Litólico.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 6: Paisagens denominadas Malhadas e Grotas, com ocorrência de solos argilo-arenosos sem cobertura vegetal
e sujeitos a processos de erosão hídrica e eólica. Morrete. PI.BR. Foto: Dirce Suertegaray, 2018.
104 // Novas
As áreas em Gilbués e entorno, onde é notável a presença de malhadas, assentam-
-se sobre formação geológica arenosa e solos areno-argilosos. Silva (2014) destaca
as condições climáticas na região de Gilbués, indicando-a como região associada a
processos de arenização, e não à desertificação: ao analisar a dinâmica pluviométrica
e sua influência no processo de arenização, indica que o clima e subúmido, carac-
terizado por duas estações (uma úmida e outra seca). Em seus estudos, revela que
as condições climáticas na área são bem dinâmicas, apresentando alta variabilidade
pluviométrica e episódios excepcionais de precipitações, e destaca ainda que o regime
e ritmo das chuvas são condicionantes, na dinâmica e potencialização dos processos
erosivos na área.
Como se pode ver, há controvérsia sobre a definição dessa área: ainda que ela seja
reconhecida tecnicamente como área desertificada, interpretações mais atuais não che-
gam a um acordo quanto à identificação dos processos erosivos na região como sendo
desertificação ou arenização.

Arenização

Os estudos sobre a gênese da formação de areais – áreas com areia exposta, sem
cobertura vegetal e sujeitas a processos erosivos hídricos e eólicos – têm sua origem
com a tese de Suertegaray (1987) sobre áreas de ocorrência de areais à SW do estado
do Rio Grande do Sul/BR. Esse conceito foi se difundindo entre os pesquisadores em
território brasileiro e, hoje, a dinâmica de áreas arenosas expostas a processos hídricos
e eólicos, em diferentes regiões do país, é explicada considerando como referência o
conceito de arenização. O mapa (Fig. 7) apresenta a distribuição dos estudos sobre
arenização no Brasil. A partir de sua leitura é possível observar que os processos de

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


arenização estão presentes em diferentes estados brasileiros, sob diferentes condições
de clima e cobertura vegetal.
Os processos de desertificação, por sua vez, ocorrem predominantemente no semi-
árido nordestino, e tem relação, em muitos dos casos, com os geótopos áridos mapeados
para a região Nordeste Brasileira em 1977. Comparando o mapa de AB`Saber (1977)
com o mapa atual de localização dos núcleos de desertificação no NE, observa-se que
muitas das áreas reconhecidas à época como geótopos áridos foram incluídas no mapa
relativo à desertificação elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA/Brasil,
2004). São exemplos os geótopos presentes em estados como Paraíba e Rio Grande do
Norte (Fig 8).
105 // Novas
Fig. 7: Mapa de distribuição dos estudos sobre arenização no Brasil. Fonte: Silva e Suertegaray, 2018.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 8: Mapa de localização de geótopos áridos. Fonte: Ab’Saber, 1977.


106 // Novas
Do ponto de vista oficial, é tomando como referência o conceito de desertificação que
se tem para o Brasil a delimitação da área de ocorrência de processos de desertificação e
os núcleos de desertificação oficialmente reconhecidos, que por sua vez são incluídos nas
políticas nacionais de combate à seca e à desertificação.
A região sujeita a desertificação é mapeada considerando, então, as diferenciações cli-
máticas, de acordo com o estabelecido no conceito de desertificação, em associação
aos núcleos de desertificação. Os núcleos oficialmente reconhecidos são: Seridó (RN),
Irauçuba (CE) e Cabrobó (PE), todas em áreas de clima semiárido; além disso, temos
Gilbués, única a se localizar em área de clima subúmido seco (Fig. 9).

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 9: Áreas susceptíveis aos processos de desertificação no Brasil.


107 // Novas
Os areais do Sudoeste do Rio Grande do Sul

Os areais constituem, conforme já indicado, feições associadas a depósitos are-


nosos expostos*. Localizam-se a sudoeste do estado (Fig. 10) e estão distribuídas
por 10 municípios: Quaraí, Alegrete, São Francisco de Assis, Manoel Viana, Rosário
do Sul, São Borja, Itaqui, Maçambara, Unistalda e Cacequi. As áreas de areais
são de extensão reduzida, de maneira geral: as maiores estão em torno de 200 ha.
Considerando extensão territorial, não ultrapassam 1% da área total do município.

*O entendimento sobre a ocorrência dessas feições e a compreensão de sua gênese como processo de
arenização decorrem da tese de doutorado de Suertegaray (1987)
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 10: Área de ocorrência de areais e processos de arenização. Sudoeste do Rio Grande do Sul, Brasil.
Fonte: Suertegaray et al, 2012.

A origem dessas áreas está associada a processos naturais que, ao longo de tempo,
promoveram retrabalhamento desses depósitos arenosos (holocênicos). A fig.11 representa
uma imagem dos areais localizados no município de Quaraí – RS, cuja origem é natural
Em outras áreas foi com a introdução da lavoura de soja em áreas de solos frágeis (na
década de 1960) que se intensificou o processo de arenização.
108 // Novas
Fig. 11: Areal no município de Quaraí-RS. Foto: Dirce Suertegaray, 2017.

Para exemplificar a base deposicional de área com ocorrência de areais, toma-se como
exemplo, neste caso, o modelo construído a partir dos estudos feitos em Quaraí-RS. A
Fig. 12 está representando genericamente 4 fases da evolução da estrutura basal da paisagem.

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A fase A corresponde a um período no qual o substrato se caracterizava pela presença
do arenito (Formação Botucatu) recoberto pelas lavas vulcânicas (Formação Serra Geral).
A fase B indica uma fase de erosão fluvial com presença de processos erosivos que promo-
vem o entalhamento fluvial e a formação de depósitos fluviais em áreas de antigas planícies
(Unidade A- Cati). A fase C expressa uma fase posterior, período de ressecamento (médio
Holoceno) em que ocorre um processo de deposição de sedimentos de constituição domi-
nantemente arenosa, configurando dunas – sobrepostas, por vezes, aos depósitos fluviais
ou ao arenito da Formação Botucatu. A fase D corresponderia ao substrato atual, com
presença significativa de formação arenosa sobrepondo-se aos estratos inferiores (formação
Botucatu e Unidade A). É sob esses depósitos (unidade B) mais susceptíveis à erosão que
se desencadeiam os processos de arenização.
109 // Novas
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 12: Característica do embasamento em áreas com ocorrência de areais. Quarai-RS.


Fonte: Bellanca, 2002.

O processo de arenização

Este processo (ou, de forma mais ampla, a dinâmica da arenização) resulta da disposi-
ção do relevo e dos processos de escoamento vinculados. Nas áreas de ocorrência de areais
(SW do RS) são observáveis de forma mais evidente duas feições.
Uma delas é indicada na Fig. 13 (A) e 14 (A) e constitui-se no que é denominado areal
em rampa. Neste caso, os areais estão associados à dinâmica hídrica concentrada, do tipo
110 // Novas
ravinas e voçorocas, que promovem erosão e transporte de material arenoso e depositando-
-os à jusante, em forma de leque deposicional. A coalescência desses leques, vinculados
com a erosão lateral e remontantes de ravinas e voçorocas, promove a formação do areal.
Sua dinâmica se associa, portanto, à presença de água e a dinâmica dos ventos (deflação).
Uma segunda feição é observável na fig. 13 (B) e Fig. 14 (B). Neste caso a arenização
ocorre em áreas de médias vertentes em presença de cabeceiras fluviais. O escoamento
concentrado a partir dos canais de montante promovem a erosão dos depósitos arenosos
de base e os transportam para áreas de menor declividade. A constituição de areais está
associada aos mesmos processos que dão origem aos areais em rampa. A Fig. 13 C indica
um areal consolidado em expansão, promovendo assoreamento fluvial de pequenos canais.

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Fig. 13 (A) Superior: Croqui de areal em Rampa. Fig (B): Croqui de Areal em cabeceiras fluviais
em médias vertentes. Desenho Eri Bellanca. Fonte: Suertegaray et al, 2001.
111 // Novas
A

C
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Fig. 14: Exemplos de formação de areais em rampa – São Francisco de Assis (A) e em cabeceiras fluviais
em médias vertentes – São Francisco de Assis (B). Areal consolidado promovendo assoreamento
de canais de pequeno porte – Maçambará, RS(C). Fonte: Suertegaray et al.2001.
112 // Novas
Durante a construção da tese, Suertegaray (1987) observou que os processos hí-
dricos e eólicos poderiam promover uma mobilidade de areias em relação à jusante,
assoreando áreas mais úmidas das várzeas adjacentes e à retaguarda, ou seja, no interior
do próprio areal o processo poderia promover o afloramento do substrato arenítico.
Passados exatos 30 anos, retornou-se aos areais e observou-se a ampliação da exposição
do substrato arenítico. A Fig. 15 permite observar as significativas áreas do substrato que
anteriormente eram recobertas de areais e hoje afloram em superfície. Essa dinâmica
demonstra a irreversibilidade do processo ao atingir esse estágio.

Fig. 15: Afloramento de arenitos – Formação Botucatu. Areal do Cerro da Panela. Quaraí-RS.

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Foto Dirce Suertegaray, 2017.

Desertificação nos Cariris Velhos-PB

Os estudos de desertificação na região denominada Cariris Velhos, na PB, aqui trazi-


dos como exemplo, são de autoria de Souza (2008). A fig. 16 apresenta a localização dessa
região, na porção central do estado da Paraíba.
A pesquisa (tese) elaborada buscou avaliar o processo de desertificação a partir do
levantamento temporal relativo à cobertura vegetal, com base na avaliação a partir da
comparação de mapas de diferentes anos. O autor considerou parâmetros de degeneração
e desmatamento e categorizou níveis de desertificação: moderado, grave e muito grave.
113 // Novas
Fig. 16: Região dos CARIRIS VELHOS-PB. Fonte: Souza, 2008

A Fig. 17 expressa o resultado desse mapeamento, deixando evidente que, na área, a


desertificação se caracteriza, na sua maior extensão, pelos níveis grave e muito grave.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 17: Desertificação nos Cariris Velhos. Paraíba-BR. Fonte: Souza, 2008.

O mapeamento de 2005/2006 (SOUZA, 2008), indica que 77,4% da região apresen-


ta algum nível desertificação e deste percentual 50,0% da área estudada classifica-se entre
aos níveis mais elevados dessa degradação. As áreas caracterizadas por desertificação grave
114 // Novas
são aquelas onde os solos apresentam uma cobertura vegetal mínima ou inexistente. Os
impactos desse processo no uso do solo estão associados ao desmatamento, diminuição da
biodiversidade, erosão do solo e salinização.
A Fig. 18 (A e B) exemplifica as categorias a partir das causas indicadas por Souza
(2008) como relacionadas à desertificação: o uso histórico dos solos, associado à ativi-
dade pastoril (bovinos e caprinos) e/ou agrícola (plantio do algodão), o desmatamento e
as queimadas.
A

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Fig. 18: A) Causas e categorias de desertificação a) queimadas e pastoreio B) área categorizada como desertificação
grave, com presença de caprinos. Fotos: Pedro Vianna e Dirce Suertegaray, 2007/2008.
115 // Novas
A Fig. 19 (A e B) da mesma forma, expressa o que é compreendido como desertifica-
ção no semiárido brasileiro, em particular, nos Cariris na Paraíba. Souza (2008), como já
foi referido, atribuiu diferentes níveis de desertificação, associados à perda da diversidade
da caatinga, da cobertura vegetal original da região, e até à ocorrência de solos expostos,
em parte recobertos por um pavimento detrítico que indica, após a retirada da cobertura
vegetal, a ação do escoamento superficial difuso e ou em lençol.

B
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 19: Desertificação nos Cariris Velhos. Categoria muito grave. A) Área totalmente desmatada com presença de pavi-
mento detrítico. B) Área com presença parcial de cobertura vegetal de caatinga. Foto: Dirce Suertegaray, 2007/2017.
116 // Novas
Desertificação em Gibués-PI

O Sudoeste do Piauí - Gilbués (Fig. 20), apresenta uma topografia de solos expostos
e erodidos reconhecida, regionalmente, como malhadas, sendo denominados os canais de
escoamento concentrado constituintes dessa superfície de grotas. Os materiais que dão ori-
gem ao solo, oriundos da alteração de rochas sedimentares, são espessos, friáveis, arenosos
e pobres em matéria orgânica.
Conforme a classificação agronômica, são solos dos tipos Latossolo Amarelo,
Argissolo Vermelho Amarelo, Neossolo Quartzarênico e Neossolo litólico. Essas áreas,
correspondentes a feições de malhadas e grotas, estão incluídas entre os principais núcleos
de desertificação do Nordeste.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig.20: Localização de Gilbués-PI. Fonte: Ivamauro Souza, 2014.

Os processos que dão origem a essas formas estão vinculados a erosão e transporte de
material sedimentar através de fluxos concentrados em canais, dando origem a ravinas e/
ou voçorocas. Ocorrem geralmente nas altas e médias vertentes e os sedimentos trans-
portados durante o período de chuvas (a região apresenta duas estações – uma chuvosa e
outra seca) são careados à jusante e depositados ao longo dos canais de leitos largos e de
fundo plano. A Fig.21 (A) e (B) constitui registro do que se denomina malhada (já referida
117 // Novas
denominação regional para a superfície erodida a descoberto) e as ravinas (canais de escoa-
mento localmente denominados grotas).

B
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig. 21: A) Malhadas e grotas na região de Gilbués/Morete, B) Grota, canal de escoamento e deposição do material
erodido. Fotos: Dirce Suertegaray, 2018.
118 // Novas
Os sedimentos transportados são depositados ao longo das grotas e, em maior quan-
tidade, à jusante, onde os canais fluviais se ampliam. Essas áreas à jusante são as maiores
receptoras dos sedimentos provenientes de áreas à montante. O escoamento em época de
chuva poderá seguir seu fluxo através de um canal raso, serpenteando sobre os sedimentos
depositados, ou na forma de escoamento anastomosado. Fig. 22 (A) e (B).

A B

Fig. 22: (A) Canais Rasos com presença de depósitos sedimentares recentes. Gilbués-PI. (B) Canais preenchidos de
sedimentos e escoamento anastomosado. Gilbués-PI. Foto: Dirce Suertegaray, 2018.

As causas da origem desse processo ainda são controversas, seja na explicação de sua origem

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


seja na denominação do processo – desertificação ou arenização. Silva (2014) informa que:
Contudo, onde o processo de desertificação/arenização é mais intenso (centro-
-sul) as atividades antrópicas desenvolvidas próximas às áreas degradadas referem-se
à mineração de diamantes, explorada de forma rudimentar, ao desmatamento indis-
criminado, as queimadas e a pecuária extensiva que implica na disponibilidade de
vastas extensões de terra introduzindo impactos como: o pisoteio do solo, que oca-
siona a compactação, impedindo a infiltração e facilitando o escoamento superficial
e consequente a gênese de processos erosivos.

Não obstante, esse mesmo autor questiona, mais recentemente, a explicação da gênese
desses processos vinculados ao uso, em especial à exploração de diamante que ocorreu em
119 // Novas
áreas pontuais nos municípios de Gilbués e Monte Alegre, mais especificamente na comu-
nidade de Boqueirão, entre os anos de 1940 e 1950. Fica demonstrado em suas pesquisas
mais atuais que, devido à extensão da área de ocorrência de malhadas e o significado do
termo malhada (terra fraca, desde a ocupação indígena de cujo idioma provém o termo),
a origem desses processos seria natural, não sendo correto atribuir a improdutividade da
terra ao impacto das atividades econômicas.

Um comparativo entre as três áreas

O quadro 1 expressa um comparativo entre as três áreas abordadas neste texto. Ele
foi elaborado considerando parâmetros relativos à natureza e ao uso da terra e expõe o
resultado da pesquisa divulgada por Suertegaray (1987, 1992, 1998, 2001, 2012), Souza
(2008) e Silva (2014).

CARACTERÍSTICAS DESERTIFICAÇÃO NO ARENIZAÇÃO SW DESERTIFICAÇÃO/


CARIRI PARAIBANO I do RS ARENIZAÇÃO NO SW
PARAIBANO DO SW do PI

Clima
Tropical semiárido Subtropical úmido Tropical subúmido
1400 mm/ano, em média 1100/1600, em média
500 mm/ano, em média

Embasamento e solos Rochas sedimentares. For- Rochas sedimentares


Rochas ígneas. mação Botucatu e Guará. Formação Areado.

Formações superficiais
Formações superficiais profundidade média/alta. Formações superficiais de
rasas. profundidade média/alta.
Solos arenosos: Neossolos
Quartzarênicos Órticos.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Solos argilo-arenosos Solos do tipo arenosos


e argilosos: Argissolo
Luvissolo Crômico e Vermelho-Amarelo

Neossolo Litólico.

Feições
Geomorfológicas
Morros constituídos de Colinas, Morros em geral
rochas cristalinas, planícies de topo plano, morros Relevos tabuliformes
de inundação e depressões testemunhos com presença (chapadas e chapadão),
de escarpas acidentadas e Serras, morrotes com
rampas de menor decli- topos planos. Encostas es-
vidade carpadas, morros testemu-
nhos, ruiniforme, rampas
onduladas, depressões e
compartimentos disseca-
dos (malhadas e grotas).
120 // Novas
Cobertura vegetal original Caatinga (florestal) Campos Cerrado (campo sujo
(Herbáceas) e campo limpo) com
domínio de gramíneas
e presença de arbustos e
árvores anãs.

Processos erosivos domi- Hídricos; escoamento Hídricos e eólicos presen- Hídricos, eólicos,
nantes superficial, presença de ça de ravinas, voçorocas presença de sulcos,
ravinas. e areais ravinas, voçorocas e

Atividade econômica Pecuária Extensiva Pecuária Extensiva Pecuária Extensiva


(caprinos) (bovinos) (bovinos)

Situação Econômica e Marginal/Marginal Central/ Marginal/ Marginal/marginal


Política no Passado e
atualmente

Estrutura Fundiária Do- Pequenas e Médias pro- Grandes e médias Pequenas e médias
minante priedades propriedades propriedades

Atividade Econômica em Caprinocultura Cultivo da soja Agricultura (produção de


Expansão e Silvicultura (eucalipto) grãos: soja e milho)

Sinais Acentuados de Presente Ausente Ausente


Superpastagem

Qualidade das Águas Presença de salinidade Boa Boa

Impactos e problemas
ambientais Processo de erosão do Expansão da atividade Improdutividade das terras
solo, salinização, desma- agrícola. Lavoura comer- Mineração de diamantes
tamento e diminuição da cial de soja e silvicultura/ em áreas pontuais Gilbués
biodiversidade eucalipto e Monte Alegre. Comu-
nidade de Boqueirão.
(passado).
Desmatamento
e queimadas

Recursos hídricos
Nascentes do rio Paraíba Zona de fronteira in-
(2ª maior bacia hidrográfi- ternacional (Uruguai e
ca da Paraíba); Argentina). Disponibilidade e abun-

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


dância hídrica (Aquífero
Localização da barragem Ponto de recarga do Poti-Piauí e Rios Perenes:
Epitácio Pessoa (principal Aquífero Guarani. Bacias Gurguéia,
abastecedora de água para do Ibicuí e do Rio Quaraí. Urucuí-Vermelho).
Campina Grande – 2ª
maior cidade da Paraíba); Interesse geopolítico água Área de interesse para
do aquífero. projetos de expansão de
Rota de passagem de um uma fronteira agrícola nos
dos canais da transposição cerrados (MATOPIBA).
do rio São Francisco

Quadro 1. Comparativo entre as três áreas de estudo: Carirris Velhos PB, Sudoeste do RS, Gilbués PI.
121 // Novas
Comparando essas três áreas, podemos verificar que elas se diferenciam em relação às
condições climáticas – clima subtropical úmido, tropical subúmido e tropical semiárido –
e em relação à cobertura vegetal – campos, cerrado e caatinga.
Da mesma forma, também se diferenciam em relação ao substrato geológico, com
destaque para o Cariris, onde o substrato é constituído de rochas ígneas e formações
superficiais rasas, diferentemente das outras duas regiões – Sudoeste do Rio Grande do
Sul e Gilbués, no Piauí –, onde o embasamento é sedimentar e as formações superficiais
apresentam profundidades médias ou altas.
Os processos de erosão ocorrem em rampas e ou médias vertentes de colinas no sudoeste
do RS e em Gilbués-PI. No Cariris esse processo ocorre nas médias e altas vertentes e/ou
topo de morros.
Esses processos associam-se à dinâmica hídrica superficial, sendo observável nas três áreas
a presença de escoamento superficial na forma de escoamento laminar, difuso ou concen-
trado. Também nas três áreas as feições erosivas tomam a forma de ravinas e voçorocas (no
Piauí, denominadas grotas).
Para duas dessas áreas atribui-se este o processo de mobilização de solos aos
processos de desertificação (Cariris e Gilbués e entorno). A arenização, por sua vez, é o
conceito que explicita a dinâmica de formação de areais para o SW do Rio Grande do
Sul (nessa conceituação, a distinção considera as características climáticas subtropicais
do estado do RS).
As causas desses processos – desertificação ou arenização – foram associadas ao uso
da terra: no caso de Gilbués (PI) ao sobrepastoreio e à mineração; no Cariris, a pecuária
extensiva de caprinos, a cultura do algodão e ao desmatamento; no SW do RS, a expansão
da lavoura /monocultora do soja e, por vezes, o sobrepastoreio.
As pesquisas sobre os areais presentes no SW do Rio Grande do Sul, relativas à tese de
Suertegaray (iniciadas em 1983 e concluídas em 1987), revelam que a origem dos areais é
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

natural, podendo ser intensificada pela forma de manejo do solo.


Nas outras duas regiões, Cariris e Gilbués, o processo de erosão dos solos é identificado
como desertificação considerando as condições climáticas, indicam como causa o uso da
terra, em particular o pastoreio, seja bovino (Gilbués) ou caprino (Cariris).
Considerando os estudos feitos a partir do conceito de arenização no Brasil, o que
podemos concluir é que processos erosivos sobre rochas arenosas são comuns em diferentes
regiões brasileiras, sob condições climáticas e de cobertura vegetal diferenciadas; entretan-
to, um dos elementos fundamentais para o entendimento desses processos são os solos
arenosos ou areno-argilosos.
Do ponto de vista dos impactos ambientais, sem dúvida essas áreas, sob uma perspec-
tiva econômica, apresentam restrições de uso. Essas restrições têm promovido significativo
122 // Novas
debate em relação às propostas de uso da terra para cada uma das áreas em foco. De qual-
quer maneira, o que se observa do ponto de vista da preservação e do ambiente é que as
alternativas de florestamento com espécies exóticas, seja nos Cariris, seja no Sudoeste do
RS, não reverteram a questão econômica associada a esses processos. Da mesma forma, a
questão ambiental não foi revertida, promovendo, contraditoriamente, outros impactos à
região, tais como a perda da biodiversidade e a contaminação dos recursos hídricos.

Considerações finais

O comparativo aqui elaborado expressa as diferenças e semelhanças entre as três áreas


em análise. Elas se localizam em diferentes locais do Brasil, se constituem sob clima e cober-
tura vegetal diferenciada, e com substratos diferentes. As áreas desertificadas na região dos
Cariris têm características diversas das outras – duas Gilbués e Quaraí; no entanto, as se-
melhanças entre Gilbués e Quaraí não as tornam tão semelhantes assim no panorama geral,
muito embora o embasamento de ambas seja constituído de rochas sedimentares.
Dos estudos feitos no Sudoeste do RS, bem como em outras áreas em território brasilei-
ro, é observável uma associação entre arenização e Neossolos Quartzarênicos Órticos. Muito
embora essa relação não seja a única, há uma forte – e, portanto, relevante – correlação entre
arenização e solos arenosos do tipo NQo.
Há necessidade de avançar as pesquisas a partir dessas evidências. Áreas arenosas expostas
(areais) aparecem distribuídas em diferentes estados brasileiros, sob diferentes característi-
cas da natureza local – desde áreas subtropicais com cobertura de campo a áreas em terri-
tórios tropicais recoberto de floresta (Amazônia) e, da mesma forma em áreas de Cerrado.
Fica a pergunta, então: qual dos constituintes naturais estaria condicionando o uso do solo
e, em decorrência dessa fragilidade, promovendo arenização? Em síntese, o que se deseja

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


destacar é que é comum nos estudos relativos à desertificação observar os impactos do uso
da terra, desconhecendo, em muito dos casos, aspectos naturais que possam se constituir
em fatores decisivos, tais como os solos – fatores que acabam restringindo as atividades a
usos específicos, como a lavoura temporária, por exemplo.
Sob a perspectiva da desertificação, sendo o semiárido diferenciado sob muitos aspec-
tos (embasamento, solos, cobertura vegetal e clima), a análise desses processos de dete-
rioração da paisagem e esgotamento dos solos exige outros parâmetros de caracterização,
uma vez que arenização e desertificação constituem conceitos distintos. A consolidação de
estudos e pesquisas que levem em conta essa diferença deve auxiliar no desenvolvimento
de ações – inclusive governamentais – sobre as áreas atingidas.
123 // Novas
Referências

AB’SÁBER, A. N. Problemática da desertificação e da savanização no Brasil intertropical.


Geomorfologia, 53. São Paulo: Instituto de Geografia. 1977.
BELLANCA, E.2002 Uma contribuição a explicação da Gênese dos Areias do Sudoeste do Rio
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Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

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124 // Novas
património e cultura:
múltiplos olhares
Leituras históricas das paisagens do Império
Romano na área fronteiriça entre Portugal
(Beira Interior) e Espanha
(Extremadura /Castilla y León)
(valorização patrimonial e desenvolvimento territorial)

Pedro C. Carvalho1
Faculdade de Letras
Ceaacp / Universidade de Coimbra

Com base em trabalho de campo desenvolvido na Beira Interior nas últimas duas dé-
cadas, e na consequente identificação, caracterização e avaliação do principal património
de época romana, propõe-se que se definam percursos em rede pelos territórios do interior
raiano e leituras históricas dessas paisagens, tendo como polos museus renovados ou novos
centros interpretativos, numa perspetiva de valorização dos recursos patrimoniais e de coope-
ração e desenvolvimento territorial de regiões interiores numa dimensão transfronteiriça.
Apresenta-se ainda, como exemplo, o potencial patrimonial que encerra a Aldeia Histórica
de Idanha-a-Velha, a antiga cidade romana de Igaedis, a Egitânia da época suevo-visigótica,
enquanto um dos principais palcos da História e no quadro de uma rede de cidades do

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


Império localizadas em ambos os lados da atual fronteira entre Portugal e Espanha.

Rotas, centros interpretativos e criação de redes: notas enquadradoras

Quase todo o interior português integra o que atualmente já se designam por terri-
tórios interiores de muito baixa densidade. Aqui, a quebra demográfica e a taxa de enve-
lhecimento da população é significativa e muito preocupante (chega a ser a mais alta de
toda a União Europeia em certas regiões). As fragilidades do seu tecido socioeconómico
não cessam de se acentuar. O diagnóstico, em grande medida, está feito e tudo o que
1
pedrooak@gmail.com
127 // Novas
poderia ter sido dito, sobretudo no que concerne a declarações de intenções, já terá sido
dito. Contudo, verdadeiramente, falta ainda atuar, mudando o paradigma de desenvol-
vimento local e regional, passando este a estar doravante centrado em políticas assentes
fundamentalmente no conhecimento.
Nesse âmbito, torna-se imprescindível apostar numa efetiva valorização do território,
enveredando por novas estratégias de desenvolvimento sustentável de médio e longo prazo
que saibam potenciar as valências mais ricas e genuínas desses territórios. Essas valências
encontramo-las, em grande medida, nos recursos endógenos, isto é, no conjunto de traços
identitários, de caracteres distintivos, que dão corpo ao património histórico e cultural (e
também paisagístico e natural) de cada região. É muito nesse legado histórico e nessa
herança cultural que poderá residir a vantagem comparativa, ou melhor, o tal “fator
diferenciação” que permite a uma cidade ou região aumentar a sua competitividade (e
atratividade), tanto no campo da educação/capacitação como na esfera socioeconómica.
Todavia, não basta que, enquanto fatores diferenciadores, esses recursos endógenos
existam, é preciso saber potenciar ou induzir o seu valor socioeconómico e educativo,
recorrendo a intervenções altamente qualificadas, concertadas e abrangentes, que intro-
duzam, para além do fator diferenciação, a inovação e a criatividade (BERNARDES et
al., 2013 e MATEUS et al., 2013) — inovação e criatividade que as novas Tecnologias de
Informação e Comunicação possibilitam e estimulam, mesmo no quadro da preservação e
valorização do património cultural. É necessário, portanto, que a valorização económi-
ca do território, mediante a promoção dos seus recursos culturais e naturais endógenos,
constitua uma aposta perspetivada numa lógica de desenvolvimento, sustentabilidade e
coesão, por forma a contribuir para a dinamização da base económica local, para a diver-
sificação da economia regional e para a fixação da população, combatendo-se assim tanto
as acentuadas assimetrias de desenvolvimento intrarregionais como as baixas densidades
demográficas concelhias.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

A este nível, apostando-se na qualidade dos projetos, na qualificação dos recursos hu-
manos, nos projetos com escala, continuados e nas parcerias, muito ainda pode e deve ser
feito. Há um campo largo para projetos que se centrem num dado território e nas marcas
da herança cultural que o distinguem: para projetos que assentem na memória e na identi-
dade e que tornem consequente uma definição habitual de património cultural, enquanto
conjunto de práticas e costumes partilhado por um determinado grupo e que se materiali-
zam de diferentes formas materiais e imateriais, contribuindo assim quer para estabelecer
a identidade distintiva do grupo quer para reforçar a sua própria identidade e a coesão
social; para projetos que tornem operativa essa definição, mas sem subvalorizar (antes pelo
contrário) o valor socioeconómico que o património ou essas marcas culturais distintivas
também encerram, mediante o incremento das indústrias culturais e dos fluxos turísticos;
128 // Novas
para projetos, em suma, que procurem captar as relações entre o homem e o território ao
longo dos tempos e os sinais daí resultantes que dão corpo à identidade e memória desses
territórios (CARVALHO, 2014 e 2016).
Projetos que poderão traduzir-se na criação de um Museu ou de um Centro
Interpretativo. De espaços expositivos que reúnam algumas pecas únicas com um singular
valor arqueológico, histórico e etnológico (coleção museológica), recorrendo à criatividade
e à inovação que as novas Tecnologias de Informação e Comunicação (e as novas tecnologias
imersivas) também permitem, e assente numa sólida base documental e em conteúdos
devidamente fundamentados. Museus ou Centros de Interpretação que constituam um
equipamento cultural de excelência, altamente pedagógico, comunicativo e formativo,
capaz de atrair diferentes públicos, desde a comunidade escolar e local, aos turistas que
demandam um dado território.
Referimo-nos também a espaços em que a imagem assuma um lugar de relevo (história
narrada por imagens), ainda que esta não substitua a força da palavra e das ideias que estas
transmitem, resultantes da investigação desenvolvida e do contributo de uma equipa mul-
tidisciplinar e altamente qualificada. Em que o espaço se programe para diferentes públicos
e distintas faixas etárias. Em que se procure e saiba explorar o fascínio que poderá produzir
o passado perdido ou o evocar de um tempo desaparecido. Em que se aposte num número
não muito numeroso de peças expostas (concentrando assim a atenção do visitante no que
for considerado essencial), evitando assim um excesso de informação. Em que às imagens
se associem outros estímulos visuais que despertam os sentidos, recriando ambientes. Em
que se criem paisagens sonoras que reforcem ou confiram profundidade ao conteúdo da
exposição, também enquanto espaço cénico. Em que se aposte em alguma interatividade
(o conhecimento e a aprendizagem através da experiência, ultrapassando-se assim a sim-
ples observação do exposto). Em que se procure que os conteúdos não reproduzam neces-
sariamente uma versão única da história, possibilitando diferentes narrativas sempre que

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


se justifique ou questionando até o que se sabe, mostrando assim a importância de uma
investigação continuada — nesse último âmbito, importa ainda referir que nem sempre se
procura (e nem sempre será a melhor opção trabalhar) uma versão monolítica da história e
da herança cultural de um lugar; em determinados contextos e problemáticas, um projeto
poderá distinguir- se, valorizando-se, se conseguir cruzar diferentes narrativas, mesmo que
estas sejam potencialmente conflituantes, indo também ao encontro dos vários públicos
que demandam os museus, das suas motivações e distintos interesses (CARVALHO, 2016).
Em que se dê devido destaque ao património material (quer seja histórico e arqueo-
lógico, arquitetónico ou etnológico), mas também ao património imaterial, àquele que
dá corpo às narrativas e ao imaginário das gentes, onde se funda também o saber fazer e a
tradição. Em suma, espaços em que as virtualidades de um uso intencional e diversificado
129 // Novas
de linguagens expositivas/tecnologias museográficas são mais bem servidas por um edifí-
cio (mesmo quando se instalam em edifícios pré-existentes) com espaços interiores não
intrusivos e adaptáveis a várias estratégias discursivas, contemplando também um desejável
espaço de exposições temporárias.
Espaços esses que, em termos conceptuais, devem ser projetados no quadro da “Nova
Museologia” e do “Novo Património Cultural” — enfoques atuais que englobam múltiplas
temáticas, pluralidade de leituras, diferentes escalas de intervenção (abarcando também os ter-
ritórios) e novos tipos de museus (VEGO, 1989; GOB e DROUGUET, 2003). Espaços que,
em termos de soluções tecnológicas e linguagens expositivas (no âmbito da eficácia comunica-
cional das exposições), saibam estimular e aproximar os públicos (a começar pela comunidade
local, enquanto utente e portadora de memórias) dos espaços museológicos, promovendo o
seu contacto com os elementos materiais e/ou imateriais de sociedades de outrora (da pré-
-história à contemporaneidade), compreendendo-os e problematizando-os, promovendo-se e
divulgando-se também, dessa forma, a cultura e a ciência. Espaços que podem revelar, de igual
modo, os traços mais marcantes da identidade e memória local, selecionando, necessaria-
mente, temáticas e conteúdos, com base na investigação prévia, num conhecimento histórico
detalhado, sem automatismos e importações de narrativas de outras paragens.
Como vimos, esse conhecimento nem sempre deverá ser perspetivado como objetivo e
definitivo, isento de dúvida e complexidade, acomodando-se assim, também por essa via,
à pluralidade de interpretações/reconstituições, assumidamente parcelares e socialmente
condicionadas. Com efeito, um texto ou discurso expositivo implica sempre seleção, des-
taque e valorização, mas tal não significa, nessa perspetiva, assente numa sólida base docu-
mental, que o que resulta da sua leitura (e das possíveis leituras múltiplas) seja, no limite,
entendido como a imposição de uma narrativa meramente instrumental (ou instrumenta-
lizada) que procura dar corpo a uma identidade cultural ficcionada — a investigação, nesse
quadro, é a pedra angular que suporta e orienta a linguagem adotada (NUNES, 2016).
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Referimo-nos ainda a espaços ou projetos que se direcionem para o turismo, mas que
ao mesmo tempo deverão ser pensados para quem vive nesses territórios interiores, pro-
curando, em ambos os enfoques, fazer parte da solução no quadro de uma estratégia local
e regional de desenvolvimento sustentável. E tal significa que este património deverá ser
também entendido como potencial realidade económica, capaz de gerar fluxos turísticos,
estimulando mesmo outro conjunto de produtos e serviços, nomeadamente de natureza
comercial, ou criando mesmo oportunidades de negócio e empreendedorismo, relacioná-
veis com o turismo cultural e com as indústrias culturais e criativas. A cultura, nesse sen-
tido, enquanto produção e consumo de bens e serviços culturais (adentro de um quadro
ou lógica industrial e/ou comercial), deve aqui ser claramente entendida também no seu
sentido funcional, isto é, enquanto realidade económica (VILAR, 2007).
130 // Novas
A essa perspetiva deverá necessariamente juntar-se outra: um equipamento cultural
desse tipo deve igualmente funcionar como centro educativo. Na verdade, este deverá
ser pensado para constituir uma peça fundamental da política local de educação, de um
projeto educativo local, desenhado por atividades de efetivo enriquecimento curricular,
que complemente e reforce o sistema escolar formal e que ligue a escola à comunidade
em que esta se inscreve. Os municípios ao avançarem para a concretização deste tipo de
projetos estão a criar espaços que permitirão dinamizar essa educação não formal. Aliás,
consideramos que um equipamento cultural só será de excelência se for ao mesmo tempo
pensada uma estratégia que confira a possibilidade às crianças e jovens de um concelho
um contacto privilegiado com a história da sua terra, com tudo o que caracteriza a sua
identidade, começando assim, desde muito cedo, a reconhecer e a avaliar devidamente a
importância desses recursos. Tal contribuirá para que estas interiorizem que não só temos
o dever de salvaguardar essa memória e identidade, legando-a as gerações vindouras, como
a memória e identidade, pelo enorme valor (também socioeconómico) que encerra, deve
ser devidamente valorizada e divulgada, por ser também precisamente nessas marcas dis-
tintivas (algumas verdadeiras imagens de marca) que deveria assentar um desenvolvimento
territorial sustentado.
Num projeto educativo local de base comunitária, a educação patrimonial desempe-
nhará um papel central, na medida em que contribuirá para que as novas gerações come-
cem a encarar os territórios (a identidade e memória que encerram) como ativos, passíveis
de criar valor. Projetos desse tipo, portanto, ao envolver a população local e as diferentes
gerações e também por essa via da educação patrimonial (e cívica), constituirão uma solução
educativa que contribuirá, a seu modo, não só para estimular o exercício de uma cidadania
ativa e plena, como poderá constituir a prazo uma resposta objetiva às necessidades de
desenvolvimento sustentável desses territórios.
No percurso de investigação arqueológica que temos feito por estas regiões interiores

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


e rurais portuguesas, cada vez se tem tornado mais claro que certos lugares e territórios,
para além do seu valor científico e patrimonial, encerram um potencial formativo/in-
formativo e turístico que frequentemente não é reconhecido. Com efeito, a avaliação
patrimonial que no terreno é efetuada aponta com frequência para a sua relevância sob
esta perspetiva, ainda que muitos destes lugares e territórios continuem perfeitamente
à margem de qualquer iniciativa que vise integrá-los adentro deste âmbito formativo e
turístico. Há certos territórios e, particularmente, certos lugares nesses territórios, que,
perante a forte carga histórica e simbólica que encerram, deveriam ser objeto de projetos
integrados que explorassem devidamente esse valor. Lugares de memória que evocam
tempos passados, os quais, por sua vez, permitem e constituem o acesso privilegiado à
leitura de um território.
131 // Novas
Na verdade, todos os territórios encerram possibilidades de leitura histórica. Esta fre-
quentemente consegue ser feita com clareza a partir de determinados lugares proeminentes,
muitas vezes antigos povoados (há muito tempo abandonados) que se destacam na paisa-
gem, a partir dos quais se disfrutam amplos campos de visão. Estes também constituem
em si mesmo lugares com memória, o que acaba por potenciar (olhando ao mesmo tempo
a paisagem em redor) toda uma narrativa que pode ser contada a partir deles.
O impacto visual proporcionado por uma paisagem redobra-se quando esta é suscetí-
vel de leitura, enquanto paisagem cultural, sucessivamente ocupada e transformada pelo
homem ao longo de milénios. É precisamente esta leitura histórica (que só se consegue
mediante um bom conhecimento do território) que frequentemente não é feita, não sendo
assim narrada, apreendida e socialmente potenciada. E no quadro tanto das comunidades
educadoras como das ofertas turísticas, a história local (de um concelho ou de uma região)
pode perfeitamente ser contada a partir destes pontos de ancoragem na paisagem. A his-
tória local, aliás, encontra quase sempre nestes lugares — que se assumem frequentemente
como marcadores territoriais — um palco privilegiado para que estas narrativas se
construam de forma sustentada e muito apelativa (CARVALHO, 2016).

O património de época romana

O notável património de época romana desta região é suscetível de valorização numa


perspetiva educativa/formativa e turística. A investigação continuada levada a cabo sobretu-
do nas últimas duas décadas tem vindo a reunir um conjunto de informações que contribui
decisivamente para instruir esses processos de valorização patrimonial. Hoje, com base nesse
conhecimento adquirido e mediante um trabalho de cooperação institucional e em equipa,
torna-se perfeitamente possível definir percursos em rede pelos territórios do interior raiano,
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

promovendo leituras históricas dessas paisagens e contribuindo assim, também deste modo,
para o desenvolvimento territorial destas regiões numa dimensão transfronteiriça.
Alguns dos lugares conhecidos e estudados distinguem-se sob esta perspetiva e marcam a
diferença. Sobressai, desde logo, o que resta das outrora cidades do Império Romano. A nossa
primeira referência, a este propósito, vai para Idanha-a-Velha (classificada como Monumento
Nacional), um dos mais relevantes sítios arqueológicos portugueses. É inegável a Herança
Cultural que encerra e distingue Idanha-a-Velha, palco de encontro entre Culturas. Como já
era referido no anterior Programa Operacional Regional do Centro do anterior QREN (2007-
2013), a Aldeia Histórica de Idanha-a-Velha constitui, na Região Centro do País, um dos
mais eloquentes e relevantes testemunhos de um legado histórico que é necessário estudar,
salvaguardar, divulgar e valorizar, deixando-o bem vivo e atuante para as gerações vindouras.
132 // Novas
FOTO 1: Idanha-a-Velha (Idanha-a-Nova) (© P. C. Carvalho).

Idanha conheceu grande desenvolvimento em época romana e suevo-visigoda (ci-


dade capital de civitas romana e sede de bispado suevo-visigodo), estabelecendo uma
relação privilegiada com Mérida, sede da Lusitânia romana e sede diocesana visigoda.
Séculos volvidos foi importante centro Templário, a partir da doação de D. Afonso
Henriques à Ordem dos Templários, em 1165. O protagonismo de Idanha-a-Velha
durante a Época Romana e a Alta Idade Média é inegável. Será mesmo o lugar mais
importante da atual Beira Interior, entre o Tejo e o Douro, ao longo de quase 1200
anos (pelo menos durante o 1.º milénio, entre o período romano e o período da
Reconquista e da formação do reino, até à transferência da sede episcopal egitaniense
para a cidade da Guarda, em 1199). O fórum romano, a torre templária, a Sé/Paço
episcopal, a muralha e a ponte, ou ainda o notável conjunto epigráfico de época ro-
mana, constituem sinais relevantes da importância da Igaedis romana e da Egitânia

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


suevo-visigótica.
Neste momento encontra-se em curso um Projeto de Investigação2 que procura estu-
dar de forma integrada a cidade antiga e o seu território na longa duração. É um projeto
assente na investigação científica, na produção de conhecimento novo, mediante, designada-
mente, a realização de escavações arqueológicas e de levantamentos 2D y 3D do edificado
histórico, assim como, se possível, de outras abordagens metodológicas e tecnológicas
inovadoras, como sejam o recurso à teledeteção (LiDAR) e ao Georradar3D. Mas é um
projeto que desejavelmente também visa a valorização patrimonial de alguns espaços da

2
Projeto enquadrado por um protocolo celebrado em junho de 2017 entre o Município de Idanha-a-
-Nova, a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa – Projeto coordenado por Pedro C. Carvalho e Catarina Tente.
133 // Novas
atual aldeia / cidade antiga, como seja quer o espaço público central da cidade romana (o
fórum, onde mais tarde, sobre o podium do templo romano, se ergueu a Torre Templária),
quer a notável muralha que envolvia a cidade antiga e que continua a rodear a aldeia atual.

FOTO 2: Idanha-a-Velha (Idanha-a-Nova) (© P. C. Carvalho).

Mas este Projeto também aposta na divulgação social do conhecimento, procu-


rando envolver a população local e as diferentes gerações em torno de um património
que lhes pertence, contribuindo para reforçar a sua própria identidade e coesão social.
Divulgação social do conhecimento sobre a cidade antiga, mas também sobre o seu
vasto território (o território político antigo de Idanha abrangia muitos concelhos da
atual Beira Baixa – genericamente entre o Tejo e a Gardunha/Malcata – e estendendo-
-se à parte mais ocidental da Extremadura espanhola). Um Projeto que pretende ainda
contribuir para valorizar um espaço de fronteira (com ligação preferencial à região de
Cáceres e a lugares na Extremadura que foram cidades na Antiguidade), procuran-
do desta forma promover no terreno a dimensão transfronteiriça de um Património
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Cultural excecional, comum a Portugal e a Espanha, reforçando-se deste modo a coe-


são territorial. Neste quadro, territórios atualmente considerados periféricos assumirão
uma certa centralidade.
Com efeito, do outro lado da atual fronteira, cidades com características semelhan-
tes foram fundadas há cerca de 2.000 anos, dando corpo a uma nova geografia política
cujos limites administrativos tocavam então com os de Idanha: são os casos de Caurium
(Cória) e Norba Caesarina (Cáceres), aos quais se junta, um pouco mais afastada, Caparra
(Plasencia), todas localizadas na Extremadura espanhola (não muito distantes das atuais
terras de Idanha) e com notáveis vestígios de época romana. Lugares, na atualidade em
territórios português e espanhol, cujas narrativas se entrelaçam naturalmente por terem
partilhado durante alguns séculos um espaço, uma cultura e uma história comum.
134 // Novas
FOTO 3: Cáparra (Plasencia) (© Marcos Osório).

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

FOTO 4: Coria (© Marcos Osório)


135 // Novas
De igual forma, esta abordagem em rede deveria englobar outras cidades do Império
conhecidas na Beira Interior: lugares como Marialva, na Mêda, capital da civitas Aravorum,
ou Torre de Almofala, em Figueira de Castelo Rodrigo, capital a civitas Cobelcorum, reve-
lam desse tempo significativas estruturas das respetivas cidades capitais; ou ainda Orjais,
na Covilhã, possível sede de uma outra civitas, com restos de um notável templo em plena
serra; assim como a Póvoa de Mileu, cujos vestígios arqueológicos serão reveladores da
ancestralidade da capitalidade da Guarda. Do outro lado da fronteira, lugares como Irueña
(Fuenteguinaldo, Castilla y León), integram esta geografia das paisagens do Império.
Esta rota entre as cidades do Império pode ainda estender-se ao outro lado da Serra da
Estrela, a lugares como o da atual aldeia de Bobadela, no concelho de Oliveira do Hospital,
onde os Romanos fundaram uma cidade – a “splendidissima civitas”, a esplêndida cidade, como
alguém a apelidou há quase 2.000 anos. Aqui, tal como em muitas outras capitais de então,
se construíram vários edifícios característicos de uma cidade romana: entre eles o fórum, o
principal espaço público, onde os deuses e os homens se cruzavam no governo da cidade e do seu
território; e o anfiteatro, lugar de espetáculos e divertimento das gentes de então, palco das afa-
madas lutas entre gladiadores. Espaços públicos monumentalizados, reveladores da importância
desta cidade e onde se representava o poder de Roma e do seu vasto Império.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

FOTO 5: Bobadela (Oliveira do Hospital) (© P. C. Carvalho).

Em Bobadela foi recentemente construído um Centro Interpretativo que procura re-


velar a História dessa antiga cidade, através de um discurso expositivo dirigido a todos
os públicos (em diferentes idiomas) que articula textos, fotografias e ilustrações, com
136 // Novas
equipamentos multimédia interativos (suportes informativos e digitais) e um filme do-
cumental (expondo-se ainda algumas peças arqueológicas recolhidas nas escavações de
Bobadela). O mesmo poderia ocorrer noutros lugares semelhantes, criando-se espaços
culturais onde a História desta região assumiria um lugar de destaque, apostando clara-
mente na qualidade dos conteúdos. Novos espaços que se juntariam a outros de excelência
já existentes (como os Museus Municipais de Pinhel, do Sabugal ou do Fundão) e que,
desejavelmente, deveriam funcionar em rede, inscritos em rotas supramunicipais.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


FOTO 6: Bobadela (Oliveira do Hospital) (© Rui Miguel Silva).

Para além das cidades, as paisagens do Império nestes territórios da Lusitânia romana
eram compostas por pontes e estradas (assinaladas por miliários e ligando as principais
cidades), casas de quintas mais ou menos abastadas (dispersas entre novos cultivos, como
o da vinha e da oliveira), e outros lugares que remetem quer para a esfera do sagrado (de
culto aos deuses antigos e às novas divindades que vêm de Roma), como para a explora-
ção intensiva dos recursos naturais, como sejam as explorações de ouro. De todos estes
traços que desenham as paisagens rurais subsistem importantes testemunhos, alguns de
características únicas (como Centum Celas, em Belmonte, e o Cabeço das Fráguas, entre
a Guarda e o Sabugal) e vários encerrando potencial patrimonial significativo (desde as
137 // Novas
pontes de Segura e de Alcántara, em ambos os lados da atual fronteira, às villae da Fórnea,
em Belmonte, e de Vale Mouro/Coriscada, na Mêda, entre outros). Alguns carecem ainda
de intervenção (das escavações às ações de conservação e restauro) por forma a tornarem-
-se visitáveis e entendíveis. Outros, como a Quinta da Fórnea (Belmonte) ou a Raposeira
(Mangualde), já foram recentemente intervencionados neste sentido.

FOTO 7: Centum Celas (Belmonte) (© P. C. Carvalho).

Em suma, todos estes lugares constituem expressivos exemplos de um tempo novo,


onde há 2.000 anos surgiu um conjunto significativo de novidades que estão na origem
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

de muito do que marca o nosso tempo. Com efeito, a integração destes territórios no es-
paço comum do Império Romano acarretou então um conjunto de profundas transfor-
mações: uma mesma língua, uma moeda única, produtos que se comercializam a grandes
distâncias, territórios que se delimitam, cidades que surgem e modos de construir que
se generalizam, leis e formas de governo que se replicam, deuses e práticas religiosas
que se partilham – são estas algumas das novidades que deram corpo a esse novo mundo
conhecido e globalizado de então. E seria em torno precisamente das principais marcas
desse tempo longínquo, mas absolutamente decisivo para o delinear da nossa matriz cul-
tural, que a leitura história destes territórios deveria ser feita, numa lógica intermunicipal
e transfronteiriça.
138 // Novas
Valorização patrimonial: apontamentos finais

Estes territórios interiores encerram um capital que importa valorizar. Museus e


Centros Interpretativos, antes de mais, poderão constituir-se como polos promotores
das marcas identitárias destes territórios. Poderão afirmar-se como espaços de eleição
para divulgar e potenciar as singularidades dos recursos culturais e naturais conce-
lhios, afirmando estes territórios para o exterior, sob o ponto de vista turístico, mas
afirmando-os também internamente, como espaços educativos por excelência. Poderão
contribuir, a seu modo, para gerar uma nova dinâmica de desenvolvimento, assente nos
ativos patrimoniais de natureza arqueológica (e também histórica, etnológica e simbó-
lica) destes territórios, apoiada no conhecimento e mediante o recurso à inovação e à
digitalização de conteúdos produzidos. O seu funcionamento em redes de oferta e a
conceção de rotas turísticas a partir deles, irá ao encontro dos objetivos a atingir pela
Estratégia de Turismo 2027, assim como das diretrizes do recente Programa Nacional
para a Coesão Territorial (Unidade de Missão para a Valorização do Interior, 2016),
pensado para as regiões do interior do país e onde também se preconiza a cooperação
com as regiões fronteiriças espanholas.
Em suma, nestes territórios rurais de baixa densidade importa trabalhar em rede
toda uma região, aproveitando o lastro ou o enquadramento que as Comunidades
Intermunicipais proporcionam. Promover sinergias, incrementando as parcerias entre
Municípios, Associações de Desenvolvimento local, Universidades e Politécnicos.
Apostar efetivamente na investigação prévia e continuada, no conhecimento académico
e de proximidade, partindo depois para a execução de ações no terreno de âmbito e com
impacto supramunicipal. Mas também promover novos produtos e serviços turísticos
que contribuam para a valorização económica destes territórios. Promover novos negó-
cios que se liguem ao território ou aproveitem as suas potencialidades, em diversos domí-

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


nios, mediante apoios concretos e acompanhamento especializado aos empreendedores,
aos seus projetos e ideias (plano de negócio, sustentabilidade e fontes de financiamento).
Continuar a aproximar a investigação científica e tecnológica das empresas, encetar novos
diálogos com os municípios e, num quadro descentralizado, aproximar mais os decisores
políticos dos territórios.
139 // Novas
Bibliografia

BERNARDES, J. et al. (2013): Património e Território - Relatório final, Secretaria de Estado da


Cultura.
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Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
140 // Novas
A família Turriano, arquitectura
e branding na Casa de Habsburgo
e na Casa de Bragança

Pedro M. Tavares
Sofia Salema Guilherme
Fernando A. Baptista Pereira

A Família Turriano, de origem Italiana (Cremona), faz parte da história do avanço


da ciência e da tecnologia nos séculos xvi e xvii. Participaram no xadrez político/social
das instituições de poder que patrocinaram e difundiram os seus conhecimentos, em
especial a Casa da Áustria. Esta monarquia, composta por partes e Estados separados
institucionalmente, articulava-se numa ampla rede de influências.
Juanelo Turriano (Cremona 1500- Toledo 1585) era um artesão de relojoaria plane-
tária, que aos 50 anos se torna uma lenda ao serviço de Carlos V. Ele faz parte do mito da
geração espontânea do artesão superior ou génio do renascimento, que na realidade dependia
de um sistema de relações pessoais na elite cultural e social, as quais permitiram o seu
acesso à Corte mais prestigiada da época. Perante a necessidade de manter a sua posição,

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


promoveu a imagem de génio, como novo Arquimedes do Sacro-Império.
A partir da posição social e económica singular de Juanelo que, a pedido do seu so-
brinho Bernardino Turriano, conseguiu recomendar na Corte do Imperador Rodolfo II
o seu sobrinho-neto Leonardo Torriani, futuro Engenheiro-Mor do Reino de Portugal.
Leonardo Torriani (1560 Milão - 1629 Lisboa), após adquirir fama sob as ordens de Filipe II
de Espanha, dedica-se à defesa militar do Reino, sobretudo na Barra do Tejo. Viúvo, com
um filho, casa-se com uma portuguesa tornando Lisboa a sua residência oficial.
João Turriano (1610 – 1679 Lisboa), o segundo filho de Leonardo, professa na Ordem
de São Bento em 1629. Durante a Restauração, apesar do seu regime de observância, é
nomeado por D. João IV, Engenheiro-Mor de Portugal. Devido à fama do seu pai, as-
sume a obra e dá pareceres no Escudo do Reino e noutras fortalezas militares. Apesar do
141 // Novas
seu conhecimento e experiência de engenharia militar, são mais conhecidas suas obras de
arquitectura religiosa. Após treze anos ao serviço da coroa, troca a arquitectura pelo ensino
das matemáticas na Universidade de Coimbra. Em vida não verá terminada a sua última
obra, o Real Mosteiro de Santa Clara-a-Nova de Coimbra, um grande Palácio da Fé, onde
as suas irmãs eram professas.

A formação inicial de Juanelo como Artesão Superior

Juanelo Turriano, segundo documentos emitidos em Cremona e Milão, era filho de


Gherardo Torresani e neto de Ianelli Torresani. A variação do sobrenome é parte de uma
prática familiar para autopromoção. Segundo escrituras notariais, (Ariberti Giovanni
Maria | Archivio di Stato di Cremona», sem data) Gherardo foi um pequeno empresário
que investia em terrenos, na agricultura e em imóveis. Após a sua morte, num documento
emitido pelo seu filho, é descrito como maestro e dominus. O mesmo sucede com a apro-
priação do apelido Torriani, que pertencia a uma das mais nobres linhagens de Milão. Esta
prática de enobrecimento alterou o apelido Torresani, para Torriani e, mais tarde, dos seus
descendentes portugueses, Turriano e Torreano.
Na infância Turriano sofreu as consequências financeiras das Guerras Italianas (1494
- 1559), apesar de Cremona não ser saqueada como Brescia, Ravena, Novara, Pavia,
Pordenone e Roma. Foi apresentada uma denúncia, pelo “grande cavaleiro senhor Cornelio
Meli”, reclamando que o pai de Turriano não lhe pagava a renda do moinho. Gherardo
alegou que não lhe dera uso, pois o rio que o servia fora desviado, em razão dos confron-
tos entre as Tropas Imperiais e as Tropas Francesas. Podemos supor que foi este engenho
hidráulico, que suscitou o interesse de Juanelo pela engenharia mecânica (Zanetti 2015).
Na época, tradicionalmente competia ao pai assegurar a educação primária numa es-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

cola e eleger a carreira dos filhos, o que correspondia ao pagamento de uma aprendizagem
prática em uma oficina. Apesar das diversas descrições póstumas dos seus conterrâneos
sublinharem que Juanelo não teria habilitações literárias, ele aprendeu gramática vernácula
e matemáticas, num ensino público ou privado, promovido pelo seu pai (Zanetti 2015).
As operações militares na Lombardia, provocaram o encerramento das Universidades
durante longos períodos, inclusive a de Pavia, onde o médico Giorgio Fondulo de
Cremona, com um interesse particular pelas matemáticas, leccionava. Ele conhece Juanelo
após retornar à sua cidade natal e, apercebendo-se da sua inteligência, toma-o sobre a sua
protecção ensinando-lhe: astronomia, astrologia, geometria e aritmética.
Segundo a descrição de Antonio Campi (pintor, escultor, cartógrafo e historiador) na
sua obra Cremona fedelissima città, et nobilíssima colonia dei Romani, dedicada a Filipe II
142 // Novas
de Espanha: “De quantos artesãos há tido a nossa cidade, nenhum a há engrandecido mais
que Lionello Turriano, homem de humilde procedência, no entanto dotado por Deus de um
engenho tão sublime que há maravilhado o mundo e há sido considerado por todos um milagre
da Natureza, por sem nunca ter aprendido nada de letras, falava de Astrologia e das outras
artes matemáticas com tanta profundidade e tanto fundamento que parecia no haver estudado
nunca nada mais, tinha aprendido Astrologia antes mesmo de ter aprendido a ler, ensinando-
-o Giorgio Fondulo doutor em medicina e filósofo e matemático famosíssimo que lhe queria
muitíssimo, estimando-o de uma sagacidade sobrenatural.”
Giorgio Fondulo é uma figura incontornável na educação de Turriano enquanto relojoeiro
planetário. No séc. xiv os eminentes construtores de relógios mecânicos eram sobretudo
médicos, pelo seu conhecimento dos corpos celestes (a prática da medicina fundia-se à
astrologia) e pela criação de instrumentos metálicos cirúrgicos. Para tratar os pacientes
consideravam a hora planetária e o horóscopo, utilizando ferramentas específicas para os
cálculos astronómicos, tais como: astrolábios, esferas armilares e relógios planetários. Na
época de Fondulo, o curriculum matemático nas universidades italianas era baseado no De
Arithmetica de Boécio, na geometria euclidiana, na astronomia ptolemaica e no conheci-
mento dos tratados árabes do séc. xiii. A prática baseava-se na Theoria Planetarum, o que
proporcionava informações sobre o uso de instrumentos astronómicos como o astrolábio.
O De Quadrante e o Legatur liber de urina non vista, eram utilizados para traçar a relação
entre os movimentos celestes e a urina humana. Aos professores de medicina eram também
pedidas previsões para o ano escolar, às quais eram entregues ao zelador e ficavam disponí-
veis para que as pessoas pudessem consultar durante o ano. Eles eram ainda responsáveis
pela criação de um almanaque, com calendário e a posição dos planetas.
A Universidade de Pavia, em 1361 obteve os estatutos do Imperador Carlos IV, tornando-
-se rapidamente um importante studium gerale. Era praticamente uma instituição estatal,
onde o Duque de Milão tinha a última palavra na nomeação de professores. Conforme uma

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


lista do séc. xix, baseada nos registos da Universidade de Pavia, Giorgio Fondulo estava ins-
crito na Faculdade de Artes como professor “ad lecturam Philosophiae moralis, in festis”, em
1497 (Cop.2: Cavagna Sangiuliani di Gualdana e Corradi 1877). Segundo Campi, escreveu
quatro livros de medicina (os quais desapareceram): De Podagra lib. 3; De Modo componendi
Theriacam; De Morbo Gallico; e o De Arborum e Herbarum natura. O único registo pessoal que
restou até aos nossos dias, foi um intercâmbio epistolar de cartas entre si e Paolo da Terzo, o
di Trizio, também professor na mesma Universidade. Tratados astronómicos de Michael Scot,
Abraham Avenemre, do Hispalense e Leonardo Cremonense, fazem parte da lista de livros
que Giorgio conhecia e lhe aconselhou. Esta correspondência confirma o profundo interesse
de ambos por astronomia, e, além disso, a infelicidade de Fondulo ao não se poder aplicar à
astronomia e às matemáticas, pois todo o seu tempo era dedicado à medicina (Zanetti 2015).
143 // Novas
Apesar de a Universidade funcionar até 1512, Fondulo já exercia medicina em
Cremona no ano de 1506. Terá sido nessa altura que lhe foi recomendado Juanelo, que
teria por volta de 7 anos (tendo em conta a descrição de Campi). Com Fondulo, para além
de passar a ter acesso a tratados de astronomia com criações mecânicas, aprendeu igual-
mente a interpretar textos especializados em latim, a única língua académica utilizada até
a segunda metade do séc. xvi (Zanetti 2015).

Mestre Turriano

O primeiro documento conhecido de Juanelo Turriano (6 de Julho de 1529), com


o título de mestre, é referente a que lhe deviam pagar 15 libras ao “magíster Ianellus de
Torresanis (…) adaptandi seu reformandi horolia existentia super Toratio” (Archivio Storico
Diocesano di Cremona 6 de Julho 1529). No séc. xvi as designações magíster, maestro ou
mestre, referiam-se a oficiais de instituições laicas, eclesiásticas ou militares. Poderiam igual-
mente referir-se a um professor, um estudante licenciado ou a um artesão com conhecimen-
tos específicos. Segundo o Dicionário de Covarrubias (1611): “El que es docto em qualquiera
facultad de ciência, disciplina o arte, y la enseña a otros dando razón de ella, se llama maestro;
porque si en esto falta, há usurpado el nombre de maestro”. Juanelo pertencia à última catego-
ria, ou seja, era artesão e tinha a sua própria oficina, constituída por ajudantes e um ou dois
aprendizes (durante o período mínimo de dois anos cada, segundo os documentos relativos
ao seu estabelecimento). Proporcionava a eles roupa, comida, alojamento e sobretudo acesso
aos segredos do ofício, convertendo-se em tutor legal (Zanetti 2015).
Podemos supor que Turriano, para se tornar aprendiz e mais tarde mestre, teve o suporte
financeiro do seu pai, o qual para além da inscrição na lista de uma guilda, terá compra-
do um espaço para ele montar a oficina. Após ele receber o respectivo título, começou a
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

produzir objectos com o seu nome, marca e símbolo da cidade de Milão (Zanetti 2015).
As guildas eram estruturas corporativas que se organizavam em certas categorias de
trabalho, em torno do calendário religioso. Eram promotores privilegiados do monopólio
económico, através da política de preços (salários baixos para empregados) e da estandar-
dização do sistema de aprendizagem. As obras eram submetidas ao controle das famílias
tradicionalmente relacionadas com a produção e comércio. Estas estruturas corporativas
tinham diversas funções: desde o controlo da qualidade, da quantidade e dos métodos
de produção; até à protecção dos afiliados, à ajuda mútua (caridade), à prática de ritos
religiosos e à colecta de impostos. Em Cremona competia aos oficiais das guildas colectar
o dinheiro dos seus membros e entregá-lo ao Estado. O reconhecimento e transferência
de autoridade, do Rei para estas universitates, institucionalizou um sistema de autoridade,
144 // Novas
criando a confiança na classe profissional, sem ser necessário conhecerem pessoalmente os
artesões.(Zanetti 2015)
No Ducado de Milão, na altura em que Torriano abre a sua oficina (por volta dos
28 anos), não existia qualquer guilda de relojoeiros, as primeiras foram criadas em Paris
(1544), Augsburg (1564) e Nuremberga (1565). Apesar de não existirem, na Itália seten-
trional não faltavam importantes oficinas de relojoaria que pertenciam a outras, vincula-
das ao tratamento de metais, como a dos Ourives e a dos Ferreiros (Fig.1). O Paraticum
Ferrariorum (guilda dos ferreiros de Milão), segundo o estatuto manuscrito válido de 1474
e 1592, enfatizava que todas as pessoas que trabalhassem na forja de ferro, aço, latão, bron-
ze e estanho, comercializado na cidade ou em seus terrenos, eram obrigados a ingressa-la,
não restando a Juanelo outra hipótese. De facto um documento de Cremona atesta que a
2 de Janeiro de 1550, Leonello Torriani q. Gerardo é eleito prior da Paraticum Ferrariorum.
Essa mesma documentação menciona o seu contracto como serralheiro das portas de
bronze dourado da pia do baptistério, possivelmente com um cadeado especial que inven-
tou (De Subtilitate libri XXI, Cardano). Durante a sua vida irá continuar a trabalhar com
a forja, tendo inclusive sido chamado em 1578 para definir as tipologias dos 12 sinos do
carrilhão do Mosteiro do Escorial.(Zanetti 2015)

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig.1: Horologia ferrea, Jan van der Straet, gravura da Nova Reperta, 1580.
145 // Novas
De artesão a cortesão

No séc. xiv em Cremona já se produziam relógios, tendo Antonio de Cremona trazido


alguma notoriedade à profissão quando em 1335, com embaixada Veneziana, ofereceu um
dos seus mecanismos em Delhi. Antes do ano de 1462 a prefeitura de Cremona já dispunha
de um encarregado pelo relógio, sendo este um cargo público de prestígio. Petro del Pena foi
o responsável pelo seu funcionamento até esse ano, seguido por Antonio Tezano e, aproxima-
damente 70 anos mais tarde, por Juanelo (que desenha e funde novos sinos). (Zanetti 2015)
Na hierarquia de classes, o conhecimento de latim era restrito aos nobres e aos bur-
gueses que exerciam profissões religiosas, notariais, educativas, médicas e jurídicas. Um
rei devia proteger a honra dos seus nobres, a qual era proporcional à graça que neles
depositava, confirmando-a com a atribuição de benefícios. A distribuição dos recursos da
coroa entre os vassalos convertera-se num direito de sangue. (Zanetti 2015)”publisher-
place”:”Madrid”,”event-place”:”Madrid”,”ISBN”:”978-84-942695-5-4”,”author”:[{“fa
mily”:”Zanetti”,”given”:”Cristiano”}],”issued”:{“date-parts”:[[“2015”]]}}}],”schema”:”htt
ps://github.com/citation-style-language/schema/raw/master/csl-citation.json”}
Com o Renascimento e o interesse por autores clássicos, como Arquimedes e Vitrúvio,
as artes mecânicas deixaram de ser consideradas uma actividade vergonhosa para um nobre,
no entanto quem não pertencia à classe não podia aspirar a cargos políticos. A condição
social era um factor importante na distribuição de riqueza. Excepções como Jan Van Eyck,
diplomata do Duque da Borgonha, vão criar a necessidade de hierarquizar a classe dos
artesãos e seleccionar aqueles cuja prática correspondia à categoria aristotélica da scientia
intermedia (tais como a astronomia, a óptica e a harmonia),entre a filosofia natural e as
matemáticas.(Zanetti 2015)
Na época de Turriano, o mercado das patentes e o mecenato Real permitiram “nobi-
litar” os inventores e engenheiros. Com Carlos V e Filipe II as artes mecânicas, com base
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

nas matemáticas aplicadas, foram enaltecidas da mesma forma que a pintura, escultura,
arquitectura e anatomia haviam sido nos reinados anteriores. Temos o exemplo de nobres
como Sofonisba Anguissola e Francesco Sitoni, artistas conterrâneos e contemporâneos
de Turriano, que para ganhar mais do que as suas pensões anuais começaram a criar obras
mecânicas, aumentando o seu prestígio na Corte. À Rainha Isabel de Valois, a qual se terá
interessado igualmente pelas artes mecânicas, foi-lhe aconselhada Sofonisba, através do
Duque de Alba (que fora governador de Milão de 1555 a 1556), como maestra e boa com-
panhia. O próprio Imperador era um aficionado na construção e planeamento de relógios
astronómicos, actividade que não diminuía a sua nobreza.(Zanetti 2015)
A partir de 1550 observamos uma transformação na imagem pública de Juanelo, pro-
cesso que inicia quando ao mudar-se para Milão e alterar o patronímico Torresani pelo
146 // Novas
milanês antigo Torriani, promovendo através da associação homonímia essa nobre linha-
gem. Os Médici di Marignano (que fizeram parte da rede de suporte familiar de Juanelo)
usaram estratégia similar, ao revindicarem um antepassado comum ao seus familiares tos-
canos, os quais deixaram de negar este laço quando um membro da família milanesa se
converteu em Papa.(Zanetti 2015)
A ascensão económica e social de Turriano está directamente relacionada com a eleição
de Ferrante Gonzaga como Governado de Milão, encarregando-o do relógio planetário para
o Imperador. O mecenato do governador e a maravilha tecnológica que cria surpreende os
grandes escritores da época, descreve-o o influente Cardano, no De Subtilitate, como “um
homem de intelecto agudo em qualquer coisa que concerne máquinas”. Juanelo é citado em deze-
nas de tratados e obras literárias impressas com o marco cultural ligado ao Ducado de Milão,
tornando-se conhecido nos meios intelectuais como o novo Arquimedes.(Zanetti 2015)
Em 1552 o Imperador atribui-lhe uma pensão perpétua de 100 ducados por ano,
declarando no documento de privilégio: “Nós, Carlos V, pela graça da divina misericórdia,
Augusto Imperador do Romanos (…) nós reconhecemos e pelo teor das cartas presentes, nós ma-
nifestamos para aqueles que podem-lhe interessar que, sobre o trabalho artístico digno de louvor,
o que para nós, para o Nosso Império e para os vassalos do mesmo Império, foi executado pelo
Nosso querido Janellus Turrianis, um matemático de Cremona e, sem duvida o Príncipe dos ar-
quitectos de relógios, em construção para nós, com admirável técnica e talento, um excepcional
relógio, e – a menos que seja conhecido- nunca visto em nenhum outro sítio.”(Zanetti 2015)
Turriano foi investido com o título de Príncipe dos Arquitectos de Relógios conferindo-
-lhe, o prestígio e a pensão, uma posição social mais elevada. A natureza hereditária desta
pensão pertencia a um sistema que possuía como fonte o poder pessoal do Imperador. Ao
serviço de Filipe II esse valor duplica, sendo que em 1581 Juanelo vai transferi-la para a sua
neta e mais tarde, reduzida a metade por Filipe IV, à sua bisneta. (Vera 1996)
Em vida Juanelo foi retratado no relógio que construiu, acrescentando à sua efígie a frase

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


em Latim: “Entenderás quem eu sou, se puderes acabar obra como a minha.” Na sua última cria-
ção para Carlos V, o Cristallinum, escreveu: “VT.ME.FIGIENTEM.AGNOSCAN.” (para que
me reconheças enquanto vou passando). Era comum os relógios apresentarem motto sobre a
morte e a temperança, sendo o seu carácter simbólico utilizado pela nobreza desde a época me-
dieval. No séc. xvi a utilização de um mote era obrigatório para personalidades de alto ranking
na Corte, Carlos V escolheu para si a expressão hercúlea PLUS ULTRA, (Zanetti 2015)
Outras obras de arte que se conservaram até hoje, como um busto de mármore, três
ou mais pinturas e sobretudo medalhas, atestam a fama de Turriano. Na cultura humanis-
ta a oferta de medalhas tinha a função de prestigiar e promover a memória do retratado,
para as gerações futuras. Não se sabe quem mandou cunhá-las, poderá ter sido Carlos V,
os seus sucessores, ou até mesmo o Governador de Milão, pois o seu uso era uma tradição
147 // Novas
estabelecida na Corte dos Gonzaga, mecenas de Pisanello (quem popularizou, desde os
Romanos, a medalha-retracto). A medalha de bronze, cunhada pelo seu amigo Jacopo da
Terzzo, acompanha o lema “A virtude nunca te abandonou”.
Carlos V, após a construção do relógio planetário, recompensou-o com 100 escudos,
denominando-o na corte e nos documentos administrativos como Juanelo. O facto de não
ser necessário descriminar a actividade profissional, é indicador da singularidade da sua
posição na corte, confirmando-se no teor da correspondência que trocava com as mais
importantes personalidades do Sacro-Império, Carlos V, Papa Gregório XIII e Filipe II.
O motivo era quase sempre o mesmo, requerer (até mesmo exigir) o pagamento de dívidas
à Coroa e à Fábrica da Igreja. Não obstante ao seu carácter impetuoso, Juanelo era um
servo honrado do Rei. A liberdade na sua relação com a autoridade, deve-se à admiração
e confiança que depositavam na forma como executava tarefas, definida por Juan Herrera
(1530-1563) como maestria. (Zanetti 2015)
Juanelo e seus ajudantes serão os únicos artesões de luxo a pertencer à corte em Yuste,
até à morte do Imperador. Carlos V entretinha-se muitas vezes a montar, desmontar, ajus-
tar e manter a sua colecção de relógios, criando uma estreita amizade com o mestre que
frequentemente era requerido nos aposentos reais, no despertar da manhã. Filipe II e sua
meia-irmã Margarida de Áustria, Duquesa de Florença e Parma, possuíam igualmente
relógios de Leonardo. (Garcia 2008) Certamente privou com a família imperial, inclusive
com a Princesa Joana de Áustria, possivelmente durante a regência em Valladolid.
Toda a documentação conhecida sobre Juanelo, situa os seus clientes italianos no
eixo dos Gonzaga - Médici di Marignano - Borromeo. Se analisarmos as relações entre
este grupo de patronos poderosos, verificamos que tinham fortes vínculos familiares.
Os Gonzaga, desde a Batalha de Pavia, eram os mais fiéis vassalos de Carlos V no norte de
Itália. Ferrante Gonzaga, durante os anos da sua juventude que passou em Madrid, era um
dos mais estimados amigos do Imperador e, entre os anos de 1546 e 1555, foi por ele nomeado
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Governador de Milão. A família do Papa Pio IV era também milanesa, seu irmão Gian
Giacomo Médici, marquês de Marignano, era um implacável General Imperial. Foi o veto
de Filipe II à candidatura de Ercole Gonzaga que facilitou a eleição de Giovanni a Papa
em 1559. A família Médici di Marigniano era muito próxima dos Gonzaga de Guastalla
(linhagem de Ferrante). A irmã do Papa era esposa do Conde Gilberto II Borromeo e a
sua filha Camilla Borrommeo de Cesare Gonzaga, filho de Ferrante. O sobrinho do Papa
Frederico Borromeo casou-se também com uma descendente dos Gonzaga, a filha do
Duque de Urbino, cuja mãe era a Princesa Isabella Gonzaga de Mântua, irmã de Ferrante
e do primeiro Duque de Mântua.(Zanetti 2015)
Estas três famílias exerceram influência em Itália, através do papado e da Casa de
Áustria. A consolidação dos territórios de Milão, Mântua, Parma, Ferrara, Florença e
148 // Novas
Turim, foi feita a partir da política matrimonial da Casa da Áustria, todos tinham Mulheres
Habsburgo no seu trono. É nesta rede de influências, sustentada por cortes femininas, que se
auto promoveram. É a partir do circuito familiar dos Gonzaga e dos Áustria que, os Papas
Pio IV, Pio V e Gregório XIII, encomendam e atribuem patentes a Juanelo. Gregório XIII,
através de Filipe II, solicita a sua participação na reforma do calendário, atribuindo-lhe
uma pensão e um privilégio de invenção (associado à publicação de um livro que trataria
de instrumentos matemáticos utilizado na sua concepção).(Zanetti 2015)
Após a morte do Imperador (1558), Juanelo permanece ao serviço do Rei de Espanha. Aos
65 anos, depois de trabalhar na Torre Dourada do Alcázar de Madrid, é convidado por Filipe II
a participar nas obras do Escorial. É por volta desta altura que, por iniciativa própria, começa a
delinear o Artifício de Toledo. O antigo aqueduto romano estava em ruínas e a cidade dependia
dos aguadores, para transportar água do Rio Tejo. Diversos engenheiros alemães e flamengos
tinham fracassado, até à altura, em conseguir bombear água do Rio até ao Alcázar de Toledo,
um desnível de 90 metros. Em 1565 ratifica-se o contracto entre a cidade, o Rei e Juanelo. A
autoria e construção do Artifício de Toledo cimentou o seu prestígio como engenheiro, o que
era invulgar não tendo ele feito parte de quaisquer campanhas militares. Os engenheiros seus
conterrâneos eram sobretudo militares, cujos conhecimentos práticos de matemática eram
essenciais para o sucesso das batalhas. “Dava-lhes oportunidade de enobrecerem-se e à sua
disciplina ao pertencer ao alto status social dos milites”.(Biagioli 1989)

Bernardo Cremonese e a empresa Turriano

No séc. xvi artistas italianos ao serviço da coroa moviam-se entre as cidades do Império
Habsburgo, onde formavam as suas oficinas e famílias. Na época moderna não existiam
quaisquer garantias de cuidados sociais, indigentes dependiam da caridade que era um con-

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


ceito diferente do direito social actual. Os laços familiares eram a base sólida para negócios
eficazes, os quais se apoiavam na confiança e no bem da comunidade. (Zanetti 2015)
Na maior parte dos contractos verifica-se de facto que as responsabilidades legais e
dívidas de determinado artesão ou mestre, eram também imputadas aos seus herdeiros,
sendo muitas vezes estes também assinados por suas esposas. Por sua vez o ingresso de fa-
miliares em cargos na Corte era uma garantia da execução de dívidas que o Rei tivesse para
com estes. A prática do nepotismo era portanto usual, sendo considerada estabilizadora
neste contexto político/social. Este é também o caso da família Turriano.
O cargo de Relojoeiro Real obrigava Juanelo a trabalhar continuamente para o Rei,
porém podia angariar e executar trabalhos para outros clientes, tendo patenteado durante
esse período diversas invenções para as cidades de Veneza, Mântua, Florença e Roma.
149 // Novas
Como mestre da sua oficina dependeu de um conjunto de oficiais e aprendizes, de forma a
poder dar resposta às encomendas dos nobres e do monarca. Estes teriam que dar assistên-
cia aos relógios, à construção e administração dos equipamentos hidráulicos e inspecções
técnicas (fundição, engenharia hidráulica, topografia, astronomia, entre outras compe-
tências). Entre eles figuram diversos familiares, sendo um deles o seu sobrinho, Bernardo
Turriano de Cremona (futuro Capitão Cremonese, 1533/38), cujo filho será anos mais
tarde Engenheiro Maior do Reino de Portugal.(Zanetti 2015)
Bernardo Turriano mudou-se para Toledo, a seguir ao nascimento de Leonardo
Turriano (Cremona 1558 - Lisboa 1628), para aprender os segredos do ofício do seu tio,
os quais desejava praticar com igual sucesso. É bastante provável que tenha procurado
também desta forma ser apresentado na Corte, tal como ocorreu a outros membros da
família. Efectivamente, depois de deixar a oficina do tio, tentou as cortes de Emanuele
Filiberto (Duque de Sabóia) e Ottavio Farnésio (Duque de Parma e Placência). (Vigano
2010) Em 1572 o Duque de Parma concedeu-lhe patentes de máquinas de escavar e
elevar água. Passados alguns anos, depois da morte de Zelotti (1526-1578) o Duque
de Mântua procurava um novo arquitecto e ele ter-lhe-á sido aconselhado, apesar de
posto imediatamente de parte por Tintoretto e Palladio, sugerindo outros candidatos.
(Zanetti 2015)
Em Cremona o Conde Broccardo Persico (íntimo de Anguissola e Trecchi) tinha-lhe
comissionado, sem sucesso, uma catapulta semelhante à de Juanelo. Foi também contra-
tado para construir uma fonte na cidade que pretendia celebrar os Artificios, não tendo
conseguido executá-la. O mesmo sucedeu em Turim, Parma e Placência, não adquirindo
qualquer notoriedade equiparável à de Juanelo. Aos 45 anos de idade era visto como um
excelente orador, com escasso e inconstante talento, orgulhoso e pobre. É porventura a
falta de sucesso que o fez regressar a Toledo para visitar o tio. Durante a estadia executou-
-lhe um retrato e entregou uma pintura religiosa, na esperança que o promovesse, ou ao
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

filho, na Corte Castelhana. (Vigano 2010)


Sugerimos que a introdução de Leonardo na corte do Imperador Rodolfo II foi pro-
movida pela fracção portuguesa dos Áustria (Ebolista), representada em Espanha pela
Princesa Joana de Áustria e em Itália por Margarida de Parma e Alexandro Farnésio (ma-
rido de Maria d’Avis de Portugal). (Simerka 2010) A esposa do Imperador, Maria da
Áustria, era a irmã mais velha de joana de Áustria, mais tarde, segunda a tradição das
mulheres viúvas da casa de Áustria, irá residir com as suas familiares no Mosteiro que a sua
irmã fundou, as Descalças Reais.
Pouco se sabe sobre o percurso profissional de Bernardo após as notícias de Cremona.
Não podemos deixar de salientar que conseguiu introduzir o filho na rede familiar da Casa
da Áustria. Leonardo beneficiou também do status militar da sua família para construir
150 // Novas
uma carreira militar, permitindo promover o seu talento além-continentes. Segundo o
Conselho de Guerra, o seu pai, avós e dois tios, serviram o Rei de Espanha na Flandres,
Alemanha e Itália.(Vigano 2010)

Leonardo Turriano, descendente do Novo Arquimedes do Império

Juanelo morreu na miséria, devido às dívidas contraídas na construção do Artifício.


Apenas conseguiu garantir às suas descendentes uma pensão e, a seu pedido, os genros exer-
ceram funções de manutenção no Artifício. Esta foi uma importante lição para Leonardo,
pois exigiu sempre os pagamentos condicentes com a sua condição, o único herdeiro das
capacidades extraordinárias do seu tio-avô. Ao serviço do Imperador Rodolfo II tinha ad-
quirido uma fama internacional, de tal forma que fez parte do séquito da Imperatriz Maria
na entrada em Lisboa em 1582, antes de ir para as Canárias. Terá sido ela e Juan de Borja
que cimentaram a relação entre Leonardo e o Rei, com quem se correspondia da mesma
forma que o tio-avô. (Vigano 2010)
Em 1584 é nomeado por Filipe I de Portugal Engenheiro do Rei na Ilha de La
Palma, com instruções de construir um molhe e um torreão. Passados três anos, foi
encarregado de visitar todas as fortificações do Arquipélago das Canárias, para ava-
liar e desenvolver o sistema defensivo, no entanto a maioria dos seus projectos não
foram edificados, tendo porém publicado a Descripción e Historia del reino de las Islas
Canarias. Em 1590 efectua os primeiros apontamentos de carácter meteorológicos
sobre o Pico de Teide, um feito extraordinário à época, sendo este o ponto mais alto
conhecido desde a antiguidade.
Das Canárias Turriano é trasladado para Orán, Cartagena, Berbería e finalmente
Portugal. Em 1596 começa a dirigir as obras da Fortaleza de Viana do Castelo. Com a

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


morte de Frei Giovanni Vicenzo Casale, é encarregado de dirigir as obras do Forte de São
Lourenço do Bugio e do Forte de São Julião, na Barra do Tejo. (Boiça e Barros 2004)
Sabe-se através de uma carta ao Rei que frequentou a Corte de Urbino, conhecen-
do de perto o trabalho de Filipe Terzi. Quando chega a lisboa para substituí-lo, como
Engenheiro-mor do Reino, exige um pagamento superior, pois o seu trabalho e fama eram
maiores, apenas comparável à obra de Spanocchi. Os dois tinham sido responsáveis pelo
avanço da engenharia militar no Império, a partir da Sicília e de Praga.(Vigano 2010)
Após a morte de Filipe Terzi (1598), passa a dirigir também as obras da Fortaleza de
São Filipe de Setúbal. É-lhe também atribuído o modelo original do Forte de São Marcelo
na Capitania Real da Bahia (Brasil, 1612-1623), o qual ainda apresenta semelhanças ao
Forte do Bugio. (Moreau 2011) Planeou igualmente a dragagem do estuário do Tejo,
151 // Novas
chegando a desenhar máquinas. Para além de diversas obras de arquitectura que participou,
entre elas a da Igreja de São Vicente de Fora, elaborou diversos estudos para o abastecimento
de água em Lisboa, tal como o seu tio-avô em Toledo.
A ascensão social de Leonardo na península, compreende igualmente os costumes
matrimoniais da época. Á imagem de Juanelo, que se casou com a filha de um Dominus,
casa-se duas vezes com figuras relevantes da sociedade espanhola e portuguesa. Em 1600
casou-se com Dona Juana de Herrera, da família do famoso arquitecto do Escorial (o
qual privou, mediu e avaliou a obra de Juanelo). No ano seguinte a esposa morre de parto
em Madrid, deixando um herdeiro, Diogo. Passado apenas um ano volta a casar-se em
Portugal. Apesar de se deslocar continuamente ao serviço do Império é em Lisboa, a cidade
mais importante do eixo atlântico, que decide estabelecer-se. Em 1602 casa-se com uma
rica proprietária lisboeta, Dona Maria Manuel, filha do almoxarife de Oeiras e neta de um
cavaleiro fidalgo da Casa Real. Era proprietária de diversos terrenos e imóveis, na região
herdada pelos seus tetra-avós, que eram todos almoxarifes de D João III. A sua tetra-avó
era inclusive dama de companhia da Rainha Leonor de Aragão, esposa de D. Duarte I.
(Vigano 2010)
Com Dona Maria teve 6 filhos que sobreviveram à infância. Segundo a documentação
paroquial, verifica-se que Leonardo e a família relacionavam-se com cortesãos, funcioná-
rios de topo e colegas de profissão. Os padrinhos de seus filhos incluíam, entre diversas
figuras proeminentes, D. Manuel Ponce e Leon, capitão da guarnição castelhana do Escudo
do Reino. São sobretudo próximos da família Mendoza, nobres castelhanos e Condes de
Val-de-Reis. Leonardo foi padrinho de um dos filhos, Simão (que será um dos nobres
aclamadores de D. João IV), e Dona Mendoza foi madrinha de Diogo. (Vigano 2010)
Leonardo frequentava também ambientes culturais e artísticos, relacionados à colónia
italiana instalada em Lisboa. Um processo da Inquisição, movido pelo Juiz da Casa do
Porto, atesta que o Arquitecto do Rei informou que conversava em muitas ocasiões com
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

um médico cristão-novo, seu conterrâneo, que não acreditava na imortalidade da alma.


A queixa confirma as boas relações que Leonardo mantinha com a Santa Inquisição, apesar
do seu interesse por misticismo e filosofia natural. A esposa por sua vez era uma verdadeira
devota, transmitindo aos filhos uma formação religiosa fortíssima. (Vigano 2010)
Diogo Turriano teve uma formação esmerada para suceder o pai no cargo. Leonardo
escreveu diversas cartas ao Conselho de Guerra, sobre a situação dos seus filhos mais velhos
e a designação para Engenheiros-mor. Segundo a tradição, teriam que ocupar um posto
na Guerra na Flandres durante 6 anos. Diogo recebeu o soldo e supostamente teria que
enviar um certificado após 6 meses, a confirmar serviço. Desapareceu durante 10 anos sem
deixar de receber soldo da Coroa, consequentemente perdeu o direito a candidatar-se ao
cargo.(Vigano 2010)
152 // Novas
Frei João Turriano, arquitecto da Restauração

João Turriano era o oposto do irmão, um modelo de virtudes, dedicação e dever.


Em 1620, com 10 anos, mostrava grandes capacidades, tendo o pai solicitado ao Rei um
soldo para a sua educação. Em 1626 Leonardo é chamado pelo Valido Olivares à corte
em Madrid para dirigir as fortificações de Espanha, Portugal, Itália e índias. Era o último
engenheiro militar italiano, desde o reinado de Filipe II, ainda ao serviço da Coroa. Ao
subir de cargo, para além de aumentar a pensão, solicitou mercês para os filhos e filhas
maiores, 50 ducados para cada rapariga e para João uma pensão de 100, pois estudava fi-
losofia no mosteiro beneditino de Rendufe, perto de Braga. Filipe IV tratava pessoalmente
do pagamento das dívidas de Leonardo, o seu prestígio e fama era tão importantes que
foram concedidas todas as petições, e eram muitas. No auge da sua fama, em 1628, volta
para Lisboa onde falece passado um ano, deixando a responsabilidade de gerir as dívidas e
a pensão à esposa. (Vigano 2010)
Não tendo as irmãs conseguido dotes ou para si uma consignação de um bispado, João
Turriano professa na Ordem de São Bento em 1629, renunciando a sua herança e respec-
tiva pensão. O irmão mais novo Carlos, seguindo o seu exemplo, no mesmo ano professa
nos Franciscanos Arrábidos. A razão para prescindirem de uma pensão de Filipe IV é-nos
revelada anos mais tarde por um agente diplomático do Cardeal Richelieu, na Corte dos
Bragança. Diz na sua missiva que Dona Maria Manuel lhe contara que o marido não os
queria habituar a corte centralizadora de Castela, devido à miséria de costumes, tendo
previsto mudanças e por essa razão voltara ao domicílio antes de morrer. Devemos recordar
que Leonardo, à semelhança dos seus antepassados, era um excelente astrólogo e por con-
sequência as suas previsões eram relevantes. Noutra carta relata que D João IV lhe mostra-
ra grande contentamento por receber papéis (provavelmente relativos ao Escudo do Reino)
do filho do gentil-homem Turriano, religioso na Ordem de São Bento. A ligação da família

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


Turriano com os Mendoza salienta o facto de em Portugal estarem já estabelecidas fracções
polícias, sugerindo que João, orientado pelo pai, tinha optado pela fracção Restauradora,
dez anos antes do Golpe de estado de 1 de Dezembro de 1640. (Vigano 2010)
Segundo alguns historiadores Frei Turriano teve formação como arquitecto, tendo inicia-
do os seus estudos continuados na Aula da Ribeira das Naus, onde o pai leccionou Engenharia
e Fortificação. Não obstante ao seu regime de observância e seguindo a longa tradição de
herança de cargos públicos, D João IV nomeia-o para o cargo de Engenheiro-mor do Reino.
Durante o serviço à coroa traça diversas fortificações e obras de arquitectura religiosa, onde
a estética resultante de um aprendizado de pai para filho, se encontra presente. Segundo
Fr. Francisco de S. Luiz, Turriano estava “ (…) sempre ocupado nos estudos do desenho, de obras
de arquitectura, a que se inclinavam os papéis de seu pai.”. (Abreu 2003)
153 // Novas
Na Guerra da Restauração D. António Luís de Meneses, Conde de Cantanhede, im-
pulsiona e superintende a continuação das obras de defesa da Barra do Tejo, tendo con-
tando com o contributo inicial do Engenheiro das Fortificações da Barra, Mateus do Couto
(o velho). Em 1643 na sequência da administração danosa de Mateus Couto (o qual mais
tarde será ilibado de traição), D. João IV pede a nomeação de um engenheiro acima de
qualquer suspeita e de nacionalidade portuguesa. Terá sido por conhecer em pormenor
o trabalho do pai que Frei Turriano assume a direcção das obras de São Julião da Barra
(Escudo do Reino), desenhando o Forte do Bugio (Fig.2) e o Forte de São Bruno de Caxias.
Para além das obras no Tejo acompanhou e deu pareceres nas obras da Praça Forte de
Peniche, do Forte de São Francisco Xavier no Porto e projectou igualmente o Forte de
Nossa Senhora das Neves, em Matosinhos.(Boiça e Barros 2004)
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Fig.2: Projecto para o Forte da Cabeça Seca (alçado e planta), Frei João Turriano, 1646.
IANTT, Conselho de Guerra, Decretos, M. 6, DOC. 204.

Apesar do conhecimento e experiência de Frei Turriano em Engenharia Militar, o


maior número de projectos da sua autoria são sobretudo de arquitectura religiosa, incluin-
do diversos dormitórios: o do Mosteiro de Santa Maria em Alcobaça, o das Inglesinhas e
da Estrela em Lisboa, o de Odivelas, o Travanca e o de Semide. (Abreu 2003) Terá sido
154 // Novas
porventura a necessidade urgente de construir um dormitório, para albergar as freiras do
Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, que é emitido o alvará de 1647 de sua Majestade
para a construção no Monte da Esperança, nomeando o Conde de Cantanhede para a ges-
tão financeira da obra, declarando “…do meu Conselho de guerra e vedor da minha fazenda
(…) que terá particular cuidado e vigilância de ver e examinar como e de que maneira (…)
se despende o dinheiro (…) ”. (Silva 2000) É sobre a sua autoridade que, no ano seguinte,
delega ao Padre Frei João Turriano a traça do Mosteiro. A monumentalidade que empre-
ga nos Mosteiros de Tibães, de Santo Tirso, de Santa Clara-a-Nova e no dormitório de
Alcobaça, reflecte a arquitectura dos Palácios da Fé dos Habsburgo, cujos seus antepassados
construíram, promovendo a imagética dos Áustria.
A Vida e morte do Padre Mestre Frei Turrriano, lente de Mathemática nesta Universidade
de Coimbra («Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Necrológico dos frades» 1117), des-
creve minuciosamente o percurso profissional e pessoal deste Frei arquitecto. Após tomar
o hábito Beneditino, foi para Coimbra estudar teologia. Viveu no Colégio de São Bento
(Rua da Sofia) onde estudou arquitectura e matemáticas, através das “lições de livros” que
eram do seu pai. Devido à natural inclinação para a arte da engenharia, em 1641 foi
chamado ao serviço do Rei D. João IV para dirigir as obras de fortificação no reino, em
particular na Cabeça Seca. (Vigano 2010)
De 1654 a 1677, Turriano foi professor de matemáticas na Universidade de Coimbra.
Quando se retirou foi residir numa quinta, com os filhos do seu irmão Luís (comissário
da Ordem Terceira de São Francisco). Faleceu em 10 de Fevereiro de 1679, no Mosteiro
de São Bento da Saúde em Lisboa, tendo sido sepultado na capela maior. Na altura já
residiam no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova as suas irmãs e duas sobrinhas, o que levou
a extinção do ramo varonil da família Torriano. Posteriormente nasceram sobrinhas
netas, as quais, tal como os seus antepassados, alteraram o sobrenome para Torreano.
(Vigano 2010)

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Bibliografia

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2018. http://www.archiviodistatocremona.beniculturali.it/ariberti-giovanni-maria-6.
Biagioli, Mario. 1989. «The Social Status of Italian Mathematicians, 1450-1600». History of Science
27 (1): 41–95.
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https://catalog.hathitrust.org/Record/100641423.
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Toledo (s.xvi) Modelo con escaleras de Valturio. 1a. Lleida: Editorial Milenio.
Moreau, Filipe Eduardo. 2011. «Arquitectura Militar emSalvador da Bahia séculos xvi a xviii».
Tese de Doutoramento apresentada ao programa de Pós-Graduação da FAU-USP, São Paulo:
FAU-USP.
«Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Necrológico dos frades». 1117. Lisboa. ANTT. https://digitarq.
arquivos.pt/details?id=6052502.
Silva, Luisa. 2000. «A construção do Novo Mosteiro de Santa Clara de Coimbra : 1647 a 1769 : da
decisão à conclusão : obras e arquitectos [vol.II]». Dissertação de mestrado, Porto: Faculdade
de Letras da Universidade do Porto.
Simerka, Barbara. 2010. Discourses of Empire: Counter-Epic Literature in Early Modern Spain. Penn
State Press.
Vera, Luis Cervera. 1996. Documentos biográficos de Juanelo Turriano. https://dialnet.unirioja.es/
servlet/libro?codigo=73027.
Vigano, Marino. 2010. Leonardo Turriano ingeniero del rey. Alicia Cámara, Rafael Moreira and
Marino Vigano. Madrid: Fundación Juanelo Turriano.
Zanetti, Cristiano. 2015. Juanelo Turriano,de Cremona a la Corte. Madrid: Fundación Juanelo
Turriano.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

PROGRAMA DOUTORAL HERITAS – ESTUDOS DE PATRIMÓNIO


[REF.ª: PD/00297/2013] [Programas de Doutoramento Nacionais e Internacionais – 2013]
156 // Novas
A dimensão simbólica do lugar
e do patrimônio nos Açores de Joel Neto:
uma leitura interdisciplinar entre literatura
e geografia cultural

Márcia Manir Miguel Feitosa


Geplit / Universidade Federal do Maranhão

MUNDO NOMEADO OU DESCOBERTO DAS ILHAS


Iam de cabo em cabo nomeando
Baías promontórios enseadas:
Encostas e praias surgiam
Como sendo chamadas

E as coisas mergulhadas no sem-nome


Da sua própria ausência regressadas
Uma por uma ao seu nome respondiam
Como sendo criadas
(Sophia de Mello Breyner Andresen – Geografia)

Introdução

A literatura de viagem em Portugal, com a publicação, em 1924, de As ilhas desconhecidas –

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


notas e paisagens, de Raul Brandão, adquiriu novo ímpeto dadas as imagens impressionistas
e poéticas dos Açores. O conhecido código impresso na obra, configurando em cores as
ilhas mais conhecidas do arquipélago açoriano, ganhou grande repercussão ao simbolizar
de verde a ilha de S. Miguel, de lilás a ilha Terceira, de negro a ilha do Pico.
Considerando em particular a ilha Terceira, destaca-se, com notoriedade, o escritor
Vitorino Nemésio, autor de Mau tempo no canal (1944), responsável pela criação do
termo “açorianidade” que remete, com propriedade, à essência diretamente associada ao
espaço e às pessoas que nele habitam, a exemplo da melancolia, da solidão e do isolamento,
vivenciados em meio ao vazio do imenso oceano.
Sobre essa mesma ilha açoriana escreveu Joel Neto, natural da capital Angra do
Heroísmo para onde retornou em 2012, após quase duas décadas a viver em Lisboa como
157 // Novas
repórter, editor e chefe de redação de grandes jornais e revistas portugueses. Seus roman-
ces O terceiro servo (2000), Sítios sem resposta (2012), Arquipélago (2015) têm integrado o
Plano Regional de Leitura dos Açores, cabendo a Arquipélago a condição de finalista do
Prémio Fernando Namora. O entrecho narrativo do romance consiste, em tese, na deci-
fração do mistério do desaparecimento de uma menina de seis anos logo após o terremoto
que abalou os Açores em 1980, mas, em seu cerne, revela-se a intenção por narrar a histó-
ria da ilha Terceira, com suas lendas, suas tradições, sua cultura e seu heroísmo. O que está
em jogo em Arquipélago é a própria condição insular, a sua representação no conjunto de
ilhas que formam os Açores.
O propósito deste estudo é suscitar uma leitura interdisciplinar entre o romance de Joel
Neto e a Geografia Cultural, no que concerne às manifestações culturais e religiosas que
ganham relevo ao longo da saga existencial de José Artur Drumonde e de sua readaptação
à terra de origem, vista e retratada sob novo ângulo.

Os Açores e sua Dimensão Simbólica e Representativa

Arquipélago é composto de cinco partes (“A terra tremendo-nos debaixo dos pés”,
“As cinco partes de um homem”, “A conspiração”, “Luísa” e “Vingança”, além do “Epílogo”)
em que flui a epopeia, haja vista a primazia de um herói que se submete a vários contra-
tempos e obstáculos com o intuito de não apenas decifrar o mistério do desaparecimento
de Elisabete, a menina de seis anos, mas, e sobretudo, de apreender a frustração que tomou
conta de suas relações amorosas e cujo fruto, o filho André, permanece envolto em bruma
e pouco entendimento. José Artur, o protagonista dessa saga, anseia pela felicidade ao lado
da viúva Luísa, além de persistir na preservação da memória do avô, duramente maculada
durante a descoberta dos ossos de Elisabete quando da reforma da casa de sua infância.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Sob a pena de uma tinta levemente fantasiosa, o percurso épico do protagonista enreda-se
com as lendas e tradições da ilha Terceira, em que subsiste a especulação em torno da sua
origem atlante, inspirada no diário do personagem real Gordon Mason. Semelhante ob-
jeto reflexivo impulsiona José Artur à investigação, nos moldes clássicos de uma pesquisa
científica, com vistas ao Doutoramento em História, em Lisboa.
Curiosamente, José Artur não sente a terra tremer sob seus pés, o que muito o inco-
moda a ponto de não se considerar um filho da ilha Terceira. Tamanha sensação de não-
-pertencimento irá se desfazer no decorrer da história, quando da consagração do herói
com a conquista definitiva de Luísa e do amor incondicional do filho André. Um dos
momentos mais emblemáticos se verifica no momento em que adentra a casa da infância
para lá reviver a memória individual porque também coletiva:
158 // Novas
Era uma sexta-feira de Julho quando, pela primeira vez, José Artur meteu a
chave à porta da casa da infância na qualidade de seu proprietário. [...] Ansiava por
aquele momento e temia-o ao mesmo tempo. [...] Um vento frio assobiou através da
fechadura, lambendo-lhe os dedos, e a maçaneta rodou com dificuldade, esforçando-
-se por vencer a ferrugem. José Artur hesitou por instantes, mas depois empurrou
a porta com decisão. [...] apesar das teias de aranha, do desalinho do mobiliário so-
brante e do cheiro a humidade e a caruncho, não parecia terem passado quase vinte
anos desde que alguém habitara aquele lugar. Pendia ali um resto a gente, como se
algo dos avós o esperasse ainda para poder descansar em paz, e a sua dúvida era se
seria homem o suficiente para o libertar. (NETO, 2015, p. 243-244).

Não somente pelo arquivo da memória envereda José Artur em seu retorno à ilha
natal, tendo em vista a riqueza das tradições e manifestações culturais que apresenta ao
leitor, acompanhada dos mistérios e superstições que compartilham espaço com as desco-
bertas arqueológicas que o estimulam à pesquisa e à delimitação de seu objeto de estudo.
Na sequência 028 (o romance se distribui em sequências), o narrador situa a freguesia do
Posto Santo, mais precisamente no Outeiro das Pedras onde está a Grota do Medo, lugar
de culto e de práticas religiosas secretas:
Desceu de um salto, percorreu-a de uma ponta à outra e descortinou nova gran-
de rocha, em cuja superfície havia sido esculpido um canal para a condução de água.
Seguiu o rasto do canal e encontrou, por fim, aquilo que já esperava: um pequeno
tanque para recolha de água, com uma bancada em semicírculo ao lado.
“O ônfalo...”, murmurou, estupefacto.
Repetiu em voz alta, como se precisasse de o ouvir:
– O umbigo! Meu Deus, é o ônfalo!
E sentiu uma súbita vontade de chorar, porque nada do que viesse a encontrar

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


a seguir poderia superar aquilo, aquele extraordinário lugar de culto que tanto podia
remontar ao Neolítico como a tempo nenhum – aquela mata e aquele âmago que
se insinuavam como um cenário em suspenso, aguardando uma revelação. (NETO,
2015, p. 125-126).

Inspirado no trabalho Axis Mundi – Complexo Megalítico da Grota do Medo, da inves-


tigadora Maria Antonieta Costa, publicado em Portugal, em 2013, Joel Neto trará à baila,
durante vários momentos do romance, vários achados terceirenses, inserindo os personagens
ficcionais em cenas de grande ação, mistério e suspense.
Denis Cosgrove, no texto “A Geografia está em toda parte: cultura e simbolismo nas
paisagens humanas”, destaca que “todas as paisagens possuem significados simbólicos
159 // Novas
porque são o produto da apropriação e transformação do meio ambiente pelo homem”.
(COSGROVE, 2004, p. 108). É o que se constata no tocante ao ambiente “Grota do
Medo”, palco extremamente simbólico onde se verificará o culto de uma tradição mítica
da ilha Terceira, conhecido como o ritual macabro da “Abnegação”. Lugar onde Elisabete
vem a falecer, em decorrência da fuga da pantomima criada para simular o ritual.
A cena do suposto martírio de Elizabete é deflagrada, como todo bom romance de
suspense, nas páginas finais de Arquipélago através do depoimento emocionado do Ti Elias
ou Elias Mão-de-Ferro, amigo íntimo de José Artur e personagem que compactuou com
aqueles que deveriam responder pelo ritual:
Mas a criança não se deixou demover. Atentou em volta, desesperada, à procura
de um modo de escapar. E, sentindo-se cercada pelos nove conselheiros, e pelo sa-
cerdote, e por aquele homem que erguia um cutelo, e pela própria multidão que se
ia aproximando do altar e bramia de indignações, saltou para o bordo da balaustrada
que circunscrevia a varanda.
Quando os acólitos se acercaram dela, como mortos-vivos, já não encontrou
mais nenhum lugar por onde fugir. Olhou para baixo, a medir a altura que a se-
parava das grandes pedras sobre que assentavam as paliçadas. O sacerdote gritou:
“Elisabete, não! Elisabete!” Mas ao aperceber-se de que um dos assistentes se esguei-
rava já para junto dela, tentando agarrá-la de surpresa, a miúda saltou na direção das
rochas que se distribuíam em baixo, e das quais já não foi possível tirá-la com vida.
(NETO, 2015, p. 387).

José Artur anseia por encontrar um tema para seu doutoramento que justifique sua
estada nos Açores. Várias são as motivações, extraídas ora das tradições e lendas, ora das
marcas, inscrições e artefatos descobertos bem antes de 1400 nos Açores. Na página 85
da 3ª edição de 2015, o personagem descortina essa riqueza cultural e patrimonial da
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

ilha Terceira:
Havia, desde logo, as touradas à corda, em nenhum outro lugar do mundo exis-
tentes senão na ilha Terceira, e que evocavam os toiros deixados à solta no templo
dedicado ao grande senhor dos mares. Aí mesmo os desafiavam os dez reis atlantes,
em jeito de prova de valentia, com recurso apenas a varas de madeira e a cordas.
Mas não só. Havia a tradição de sangrar o bezerro, ainda praticada nos Açores,
com lógicas curativas que evocavam os poderes mágicos atribuídos, nas sociedades
antigas, ao sacrifício dos bois. Havia a circunstância de o açor, que um dia dera nome
ao arquipélago, ser muito semelhante a um falcão, sendo que o deus Hórus, o da
cabeça de falcão, azul, a cor que a pele dos atlantes assumia, ser a cor da chamada
terceira função, produtora e artesanal, o que também constituía nova hipótese para a
160 // Novas
origem do nome da Terceira, a que os descobridores tinham chamado, sem sucesso,
Ilha de Jesus Cristo. Havia as marcas, inscrições e artefactos que permitiam defen-
der a existência de povos nos Açores muito antes de mil e quatrocentos. E havia a
evidência de as ilhas açorianas, não sendo dez, serem nove e mais uma décima ilha
submarina, à qual se tinha dado o nome de Banco D. João de Castro, baixio de pesca
grossa e mistérios vários. (NETO, 2015, p. 85).

Levando em consideração o conceito de patrimônio de Françoise Choay, para quem


o conceito foi ressignificado, pois “fizeram dele um conceito ‘nômade’, seguindo hoje
uma trajetória diferente e retumbante”. (CHOAY, 2006, p. 11), temos o patrimônio cul-
tural imaterial da ilha Terceira, reconhecido internacionalmente. Segundo a Convenção
para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, publicada pela UNESCO em 2003,
incluem-se, dentre tais patrimônios, as práticas, representações, expressões, conhecimentos
e técnicas, ao lado de instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais a eles associados,
devidamente reconhecidos como patrimônio cultural pelas comunidades ou indivíduos
que nelas vivem, a exemplo do relato intencional de José Artur, ávido por encontrar um
objeto de pesquisa à altura de uma tese de Doutoramento, mas ainda interessado em pro-
pagar mundo afora a riqueza patrimonial de sua ilha de nascimento, mergulhada em pleno
oceano e distante milhares de quilômetros do continente europeu.
Na esteira do que argumenta Françoise Choay, Kláutenys Cutrim e Conceição Belfort
reafirmam que o patrimônio cultural “inclui bens tangíveis e intangíveis, oriundos de toda
a vivência humana que pode materializar-se ou não, para representar as diversas culturas
formadoras do complexo sociocultural”. (CUTRIM; CARVALHO, 2017, p. 152). Em
Arquipélago, a memória coletiva transformada em patrimônio é evidenciada a tal ponto
que provoca singular interesse não só do protagonista, mas, e sobretudo, do leitor; daí,
possivelmente, um dos motivos que justificam o boom de vendas do romance em 2015,

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


aliado ao enredo tecido nas entranhas do mistério e do suspense, em que se enovela a busca
existencial do protagonista.
Pierre Bourdieu (1989), em O poder simbólico, destaca que o valor patrimonial dos lu-
gares de memória expressa-se sob o signo da realidade concreta, representada pelos objetos
ou atos físicos enquanto existência factual que independe relativamente das significações a
eles atribuídas. Constituem, assim, instrumentos de conhecimento e de integração social,
como se verifica no que tange à ilha Terceira, considerada um lugar de memória onde se
imortalizam a cultura e a história.
A saga de José Artur no sentido de situar no tempo e no espaço o seu lugar de me-
mória consagra José Neto no bojo dos escritores que retornam às suas origens e delas se
valem como porta-vozes de uma consciência pátria, em que impera um largo sentimento
161 // Novas
de identidade. Para além de um romance de suspense e de mistério, Arquipélago reflete a
condição autobiográfica de seu autor que transita de Lisboa para a ilha Terceira e acaba por
eleger essa última como a sua morada do ser. Em situação idêntica se verifica a trajetória de
José Artur que acaba por se fixar na casa da infância após uma longa jornada de decepções
e desilusões vividas na Lisboa de seus contemporâneos.
Essa relação íntima e intensa entre José Artur e a ilha Terceira é “mediatizada por uma
rede simbólica cuja materialidade traz também o imaterial, algo visível que mostra o invi-
sível, um gesto que significa um valor”. (COSTA, 2008, p. 151). Por carregar um valor, o
patrimônio revela uma autenticidade que constituirá o vernáculo da paisagem. (COSTA,
2008). Enquanto memória do lugar, a paisagem material e imaterial da ilha Terceira im-
pregna as práticas sociais e insurge no território um alto valor simbólico, pleno de sentido
fenomenológico.
Será na ilha Terceira que José Artur conseguirá atingir a essência do ser-no-mundo,
expressão cunhada por Heidegger em Ser e Tempo (1927). Para além da instrumentalidade e
da serventia compreendidas nessa relação, existe a interioridade do lugar, a sua fenomenolo-
gia. Lígia Saramago, uma das comentadoras de Heidegger, destaca que a significativa impor-
tância do lugar no pensamento de Heidegger “se justifica por sua relação direta, ainda que
nem sempre explícita, com a questão do ser, pedra angular de toda sua filosofia. Ser implica,
inescapavelmente, estar em ou pertencer a algum lugar”. (SARAMAGO, 2012, p. 204, grifos
da autora). É justamente neste ponto que se esculpe a personalidade de José Artur, para
quem a condição da existência passa, inevitavelmente, pela afirmação do pertencimento.

Considerações Finais

Indiscutivelmente, o título do romance de José Neto sugere a intrínseca relação do


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

autor com a insularidade. O evidente apego a esse lugar de refúgio que a ilha Terceira
representa já aparece demonstrado na dedicatória (“À paisagem dos Açores,/ com o seu
maravilhoso cheiro/ a erva húmida, leite morno/ e bosta de vaca”); em sequência, nas
epígrafes que descortinam o livro, uma de Charles Darwin e outra da Odisseia; um peque-
no trecho de Rumo ao farol, de Virginia Woolf a abrir o primeiro capítulo e, por fim, no
“Epílogo”, com o poema “Azores”, de John Updike. Tamanho é o envolvimento do autor
com o ambiente e o cenário construído que o leitor torna-se partícipe das aventuras e des-
cobertas do protagonista e, o que se configura mais interessante, do amor que José Artur
nutre pelas ilhas açorianas, mergulhadas no mar azul do Oceano Atlântico.
Ainda que o foco do olhar de José Neto seja a ilha Terceira, ela sozinha não constitui o
arquipélago retratado no romance, juntando-se a ela as ilhas Graciosa, Pico, São Miguel e
162 // Novas
São Jorge. Embora suscitadas em ocasiões especiais, como no que diz respeito à família de
Elisabete, detêm singular importância no conjunto que compõe os Açores, dado a conhecer
pela pena apaixonada de um de seus conterrâneos.
A ênfase na descrição do patrimônio cultural constitui um espetáculo à parte em
Arquipélago. O seu poder simbólico extrapola os limites do romance e ganha as asas da
imaginação, a envolver com insuperável surpresa os que se entranham em suas histórias
e lendas. Os Açores estimulam a vontade do viajante; neles “exercitamos o conhecido e o
desconhecido, o velho e o novo, a ousadia e o medo”. (BORRALHO, 2010, p. 90).

Referências

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Geografia. Porto: Assírio & Alvim, 2014.
BORRALHO, Maria Luisa Malato. “As ilhas”, de Jean Grenier e o mapa das utopias possíveis.
In: Atlântida: Revista de Cultura. V. LV, Instituto Açoriano de Cultura, 2010.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. 5ed. Trad. Luciano Vieira Machado. São Paulo:
Estação Liberdade; UNESP, 2006.
COSGROVE, Denis. A geografia está em toda parte: cultura e simbolismo nas paisagens humanas.
In: CORRÊA, Roberto Lobato e ROSENDAHL, Zeny (orgs.). Paisagem, tempo e cultura. 2ed.
Rio de Janeiro: EDUERJ, 2004.
COSTA, Otávio. Memória e paisagem: em busca do simbólico dos lugares. In: Espaço e cultura –
edição comemorativa (1993-2008). Rio de Janeiro: UERJ, NEPEC, 2008.
CUTRIM, Kláutenys Dellene Guedes; CARVALHO, Conceição de Maria Belfort. Museus co-
munitários e as possibilidades de preservação do patrimônio cultural imaterial. In: CUTRIM,
K.D.G; CARVALHO, C. M. B; CÂMARA, R. B. (orgs). Espaço, turismo e cultura. São Luís,
EDUFMA, 2017.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo – Parte II. Trad. Marcia de Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis:

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


Vozes, 2000.
NETO, Joel. Arquipélago. 3ed. Lisboa: Marcador Editora, 2015.
SARAMAGO, Lígia. Como ponta de lança: o pensamento do lugar em Heidegger. In:
MARANDOLA JR., Eduardo; HOLZER, Werther; OLIVEIRA, Lívia de (orgs.). Qual o espaço
do lugar? Geografia, epistemologia, fenomenologia. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 193-225.
UNESCO. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris, 17 de outubro
de 2003.
163 // Novas
Viagens de Camilo Castelo Branco

Daniela Maria Vaz Daniel1

“A viagem, como o ópio ou as paixões, acalma a ânsia de experiências únicas,


de encontros com comparsas de excepção” (Correia, 1997: Prefácio).

Introdução

Camilo Castelo Branco, figura basilar do ultrarromantismo e o primeiro escritor pro-


fissional português, proporciona-nos cruzadas apaixonantes e inesquecíveis no encalço de
amores intensos e funestos, envoltos num espírito de arrebatamento e mistério.
Com ele descobrimos não só Trás-os-Montes ou o Minho, os seus territórios de eleição,
mas todo o país, assim como o estrangeiro.
De que vivências partiu Camilo para descrever com mestria locais ou ambiências,
transformando-nos em seus companheiros de viagem?
Que itinerários percorreu ao sabor do trote do cavalo, do balancear da liteira, do fremir

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


do comboio ou dos humores do mar?
Em pleno século xix, numa época em que os meios de transporte eram rudimentares
tornando as jornadas morosas e desconfortáveis, o mestre levou-nos através de trajetos
aprazíveis e empolgantes.
No presente artigo analisaremos os percursos efetuados por Camilo, não só em termos
territoriais, como através da Literatura. Dos autores clássicos aos seus contemporâneos, o
romancista realizou inúmeras travessias mesmo sem sair da cela da Cadeia da Relação do
Porto ou da casa amarela de S. Miguel de Seide.
Para onde nos remetem os seus livros? Que escritores frequentou? Que expedições
concretizou apenas através da imaginação, tornando-nos seus cúmplices?
A todas estas questões responderemos, levando-vos a viajar através das pegadas de Camilo.
1
danieladaniel.23@outlook.com
165 // Novas
Vivências e Produção Literária

«“As andanças e visões” de Camilo são sempre portuguesas, porque, ao contrário


de Unamuno, não teve o nosso autor a curiosidade de conhecer outras terras e ou-
tras gentes. Se desembarcou um dia em Vigo, foi casualmente, quando, na infância,
o barco em que seguia, batido pela tempestade, teve de aportar àquela cidade da
Galiza» (Chorão, 1993: 132).

Compreender a obra de Camilo Castelo Branco obriga ao conhecimento, ainda que


fugaz, das suas experiências. Este homem genial teve uma vida tipicamente romântica,
vindo os acontecimentos trágicos da primeira infância a refletir-se inexoravelmente na sua
personalidade. Faltou-lhe, desde muito cedo, o regaço materno, uma família protetora,
uma casa a que pudesse chamar Lar, pelo que se transformou num ser amargurado, mal-
-amado, e por vezes perverso - num monstro a retalho, segundo Agustina.
“Toda a obra de Camilo está enraizada num trauma de juventude que ultrapas-
sou toda a anterior experiência sensual. (…) Em A Enjeitada aparecem nitidamente
as fundas perversões da razão que lançam Camilo na carreira de romancista” (Bessa-
-Luís, 2008: 17).

Agustina Bessa-Luís, admiradora confessa e herdeira do mestre, analisou-o minuciosa-


mente, sendo magistral a caracterização que dele fez, designadamente no romance Camilo:
Génio e Figura no qual demonstra de forma mais evidente o seu saber, provando-nos a
impossibilidade de dissociar o autor do homem..
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu a dezasseis de março de 1825, em
Lisboa, tendo ficado órfão de mãe aos dois anos. Em 1835, com apenas dez, também
perdeu o pai. Nessa data, o escritor e a irmã, Carolina, foram de Lisboa ao Porto de barco,
para se juntarem à tia paterna, Rita Emília da Veiga Castelo Branco, residente em Vila
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Real. Contudo, e devido ao mau tempo, os órfãos efetuaram uma viagem penosa tendo
mesmo sido necessário alterar a rota do navio para Vigo.
Na casa onde se refugiavam da falta dos progenitores, facilmente perceberam que ali
não encontrariam nem o amor nem o apoio de que tanto precisavam, tendo Carolina sen-
tido a necessidade de constituir família muito cedo. O enlace deu-se, em 1839, com um
estudante de medicina, Francisco José de Azevedo, irmão de padre António de Azevedo,
figura crucial na vida e na obra de Camilo.
Após o casamento, o casal e o rapaz foram viver para Vilarinho de Samardã, no dis-
trito de Vila Real, onde o padre se encarregou da instrução do jovem, tendo os anos aí
passados sido determinantes para a formação do escritor. Foi nessas terras do Norte que
viveu as primeiras paixões e, fruto do seu espírito inquieto, se casou aos dezasseis anos com
166 // Novas
Joaquina Pereira de França, foi pai de Rosa Pereira de França aos dezoito e se apaixonou
por Patrícia Emília do Carmo de Barros, aos vinte e um anos, abandonando nessa altura a
jovem mulher e a filha de ambos para fugir para o Porto com o novo amor.
Na capital do Norte, em 1843, o mestre participava nos certames poéticos denomina-
dos abadessados ou outeiros de abadessados e neles terá seduzido a freira beneditina Isabel
Cândida Vaz Mourão. Em 1845, estreou-se na Literatura com os poemas Os Pundonores
Desagravados, O Juízo Final e O Sonho do Inferno. De doze a vinte e três de outubro de
1846, esteve preso na Cadeia da Relação do Porto devido à acusação de roubo por parte do
tio de Patrícia Emília, tendo Camilo passado a colaborar nas gazetas O Nacional e Periódico
dos Pobres por forma a poderem subsistir.
Dado como inocente, o romancista e a amada regressaram a Vila Real onde o mestre
exerceu as funções de amanuense no Governo Civil. Em 1847, publicou a sua primeira
obra dramática, Agostinho de Ceuta, tendo, a vinte e cinco de junho de 1848, sido pai
de mais uma menina, Bernardina Amélia Castelo Branco. Sem recursos para a criarem,
a criança foi inicialmente colocada na Roda dos Expostos e mais tarde entregue a Isabel
Cândida que a educou no Mosteiro de S. Bento da Avé-Maria, no Porto.
Cansado da vida conjugal, abandonou Patrícia Emília e regressou ao Porto, ainda em
1848, tendo-se dedicado ao jornalismo e à literatura de cordel. Dividindo o tempo entre
os salões ilustres e o café Guichard, conviveu com a burguesia e os intelectuais portuenses,
tendo-se tornado amigo íntimo de José Augusto Pinto de Magalhães, morgado da Quinta
do Lodeiro, que o viria a salvar de uma tentativa de suicídio.
Em 1849, trouxe a lume O Marquês de Torres Novas, texto dramático, mas foi em
1850 que o mestre se assumiu como verdadeiro escritor após a publicação do seu primeiro
grande romance, Anátema. Crê-se que a crise mística vivida então, levando-o a matricular-
-se no Seminário Episcopal do Porto, terá estado diretamente relacionada com o facto de
Ana Augusta Plácido, a mulher que ele conhecera e amava em segredo, se ter casado com

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


o brasileiro2 Manuel Pinheiro Alves.
Em 1852 e 1853 fundou, respetivamente, os jornais religiosos O Cristianismo e Cruz,
tendo-se também tornado redator do periódico Porto e Carta. O romance Mistérios de
Lisboa, no qual o realizador chileno Raúl Ruiz se viria a basear para criar o filme homóni-
mo, foi escrito e publicado em 1853, em folhetins, n’ O Nacional. Data de 1855 a criação
do Livro Negro do Padre Dinis, obra que inspirou a realizadora chilena Valeria Sarmiento
para o filme O Caderno Negro, uma produção luso-francesa estreada nas salas de cinema
portuguesas a onze de outubro de 2018.

2
Na obra de Camilo o vocábulo brasileiro não designa alguém natural do Brasil mas sim o emigrante português
que foi para esse país, tendo por lá enriquecido (muitas vezes de forma ilícita), regressando gordo, velho e in-
culto mas abastado, condição que o tornava num ótimo pretendente para as mais belas donzelas da burguesia.
167 // Novas
A participação jornalística foi uma constante na carreira do génio, tendo o mesmo atin-
gido a maturidade literária, em 1856, com o romance intitulado Onde Está a Felicidade?.
Um ano mais tarde, mudou-se temporariamente para Viana do Castelo desempenhando
aí a função de editor do periódico A Aurora do Lima, fundado em 1855, no qual publicou
a narrativa Impressão Indelével.
Camilo foi exímio na criação de romances passionais de grande intensidade dramática nos
quais as donzelas eram seduzidas ou encarceradas em conventos, os boémios se regeneravam,
os perversos se convertiam, os sacrificados se vingavam e os amantes contrariados se perdiam.
Em 1857, o jornalista e Ana Plácido viviam uma relação íntima que escandalizava a
sociedade portuense, tendo o marido desta feito inumeráveis tentativas infrutíferas para
afastar os amantes. Assim, moveu-lhes um processo judicial no qual a esposa era indiciada
pelo crime de adultério e Camilo acusado de copular com mulher casada. D. Ana foi presa
na Cadeia da Relação do Porto, a seis de junho de 1860, ficando a residir no Pavilhão das
Mulheres, com o filho, Manuel Plácido. O escritor andou foragido, entregando-se às autori-
dades a um de outubro do mesmo ano, tendo ficado alojado no piso superior, destinado aos
reclusos ilustres e abastados, nos designados quartos da malta. Foi numa dessas celas que o
escritor redigiu Amor de Perdição e Memórias do Cárcere, duas das suas obras mais enaltecidas.
Na cadeia, após a visita de D. Pedro V, a vinte e três de novembro de 1860, e uma autoriza-
ção do Ministro da Justiça, em abril de 1861, passou a ter direito a saídas diárias dado o seu frágil
estado de saúde. Este privilégio era muitas vezes aproveitado pelo autor para descer ao primeiro
piso e visitar os prisioneiros que viviam nas condições mais miseráveis, nas designadas enxovias.
A dezasseis de outubro de 1861, foi lida a sentença que absolvia o escritor e a sua
amada. Este ano de clausura marcou Camilo de forma permanente, estando bem patente
na obra então composta o considerável amadurecimento do mestre das paixões. Após a
absolvição, partiram para Lisboa, mantendo o escritor uma atividade literária notável, não
só pela urgência catártica mas principalmente por questões económicas.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Não cabe neste artigo citar todas as obras redigidas, prefaciadas e traduzidas por
Camilo, nem evocar as polémicas em que se envolveu ou as contribuições em inúmeros
jornais, mas importa salientar que foi o autor com mais obras publicadas no país, assim
como o pioneiro da escrita profissional em Portugal.
Para além de Doze Casamentos Felizes, foi também em 1861 que levou ao prelo a sua
obra favorita, O Romance de Um Homem Rico. Em 1862, publicou Amor de Perdição,
Coisas Espantosas, Estrelas Funestas, Memórias do Cárcere, As Três Irmãs, e ainda a narrativa
Coração, Cabeça e Estômago na qual se adivinha o humor sarcástico de outras que se lhe
seguiriam, nomeadamente A Queda dum Anjo, Eusébio Macário e A Corja. Em 1863, trou-
xe a lume mais oito publicações, das quais destacamos O Bem e o Mal, Noites de Lamego e
Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado.
168 // Novas
A vinte e oito de junho de 1863, nasceu Jorge, o primeiro filho (legítimo) do casal.
Quanto ao segundo, Nuno, dado à luz a quinze de setembro de 1864, o nascimento já
ocorreu na quinta herdada por Manuel Plácido, após a morte de Manuel Pinheiro Alves,
seu progenitor. A partir de então, esta propriedade, situada em S. Miguel de Seide, no
concelho de Vila Nova de Famalicão, passou a ser a residência oficial da família.
A dois de março de 1872, o Imperador D. Pedro II concedeu-lhe a Ordem da Rosa.
Porém, a dezassete de setembro de 1877, a tragédia abateu-se de novo sobre a família com
a morte precoce, aos dezanove anos, de Manuel Plácido, na Póvoa de Varzim.
Quando a nova estética literária do Realismo-Naturalismo surgiu em Portugal, por
oposição ao Romantismo, vindo desenvolver olhares postos no futuro, no progresso e
na ciência, o romancista criticou-a sem, no entanto, deixar de escrever obras de pendor
realista. Como exemplos de transição poderemos citar Novelas do Minho e A Brasileira de
Prazins, datando, respetivamente, de 1875/1877 e de 1882.
Por forma a enaltecer o seu mérito enquanto escritor, o Rei D. Luís agraciou-o com
o título de Visconde de Correia Botelho, a dezoito de junho de 1885. Agradado por ter
obtido a insígnia sem ter sido necessário ceder às pressões de legalizar o relacionamento
com a mulher da sua vida, mas preocupado com o futuro desta e dos filhos de ambos,
desposou-a a nove de março de 1888.
Na data do seu 64º aniversário, a saúde do escritor inspirava grandes cuidados. Estava
muito frágil em termos físicos e profundamente deprimido pelo que João de Deus lhe
organizou, em Lisboa, uma homenagem na qual estiveram presentes figuras proeminentes
do país, dado que era enfim reconhecido o notável papel de Camilo Castelo Branco na cul-
tura portuguesa. De facto, o autor fora por duas vezes visitado, na prisão, por D. Pedro V;
recebera a visita, na sua residência sita na Rua de S. Lázaro, no Porto, de D. Pedro II,
Imperador do Brasil; fora nobilitado por D. Luís; e mantivera, ao longo da sua existên-
cia, relações próximas e de amizade com alguns dos maiores intelectuais de então, entre

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


os quais salientamos Alberto Pimentel, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, António
Feijó, Coelho Lousada, Elias Garcia, Feliciano de Castilho, Fernando Palha, Francisco
Gomes de Amorim, Freitas Fortuna, Fialho de Almeida, Gomes de Amorim, Guerra
Junqueiro, João de Deus, Martins Sarmento, Ricardo Jorge, Senna Freitas, Teófilo Braga,
Tomás Ribeiro e Vieira de Castro.
Apesar da satisfação que lhe provocara ter visto o seu mérito consagrado, a saúde do
mestre agravava-se. A diplopia aumentava, os fantasmas da loucura familiar assombravam-
-no, e apavorava-o perder ao mesmo tempo o ofício e as duas paixões onde sempre fora
buscar coragem para conseguir sobreviver a todas as agruras da sua triste existência:
escrever e ler. Procurou ajuda junto dos médicos mais afamados de então mas os diag-
nósticos não lhe davam alento. A vinte e um de maio de 1890, quase cego e em total
169 // Novas
desespero, ditou, a Ana Plácido, uma carta dirigida ao ilustre oftalmologista Edmundo
de Magalhães Machado a quem implorava auxílio. No dia um de junho de 1890, o es-
pecialista deslocou-se a Seide, observou Camilo atentamente, tendo-lhe recomendado
termas. Consciente do veredito, solicitou à sua mulher fatal3 que acompanhasse o doutor
à saída e, sentado na cadeira de baloiço que tanto apreciava, desferiu um tiro de revólver
na têmpora direita.
O mestre do ultrarromantismo pereceu como havia vivido, de forma trágica e arrebatada.

Viagens de Camilo

“Camilo foi toda a vida um viajante. E nunca se afastou para muito longe: não
procurava nada, senão a velha esperança da procura” (Correia, 1997: Prefácio).

Camilo Castelo Branco, o escritor português mais odiado e venerado de que há memória,
foi um turbulento viandante, atraído mas fatigado pelo progresso e consequentes revoluções.
Para falarmos dos itinerários por ele percorridos não poderemos ignorar quão rudi-
mentares eram os meios de transporte no século xix, nem deixar de salientar a realidade
em que se movia. À época, as vias marítimas e fluviais detinham a primazia, sendo as
deslocações por terra morosas e arriscadas. Os salteadores eram verdadeiramente um
perigo para os viajantes que faziam os trajetos a pé, de burro, a cavalo, em caleche ou
de liteira.
Em 1856, surgiu o primeiro comboio em Portugal, tendo a viagem inaugural sido efe-
tuada entre Lisboa e o Carregado. Graças ao empenho de Fontes Pereira de Melo, Ministro
das Obras Públicas, a rede ferroviária expandiu-se rapidamente e, em 1862, já era possível
fazer o percurso entre Lisboa e o Porto. No entanto, havia poucas linhas e o nosso escritor
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

não demonstrava apreço pelo uso deste meio, tendo mesmo relatado um acidente em que
se lesionara no ombro num descarrilamento entre S. Romão e Ermesinde, no ano de 1878.
De acordo com a opinião dos críticos mais eruditos, mas sobretudo partindo dos de-
sabafos do escritor, poderemos afirmar que para o romancista as viagens eram um convívio
social imprescindível, um cotejar a vida com a dos seus congéneres, um estremecer ao
conhecer outros mundos e novas realidades. As jornadas eram mágicas e imprescindíveis,
qual intervalo entre dois atos de uma tragédia grega, a que recorria na demanda de um
colírio para os olhos, da esperança no Senhor da Pedra, da cura de ares no Bom Jesus do
Monte ou da paz ao pôr-do-sol da Foz.

3
Alusão à obra homónima do mestre.
170 // Novas
Viagens através dos Livros

“Camilo viajava principalmente pelos livros, leitor omnívoro como Unamuno,


mas com uma propensão erudita a que era alheio o mestre de Salamanca. Quando a
casa se lhe fazia insuportável como uma “sucursal de Rilhafoles” – isto é, como uma
dependência de hospital psiquiátrico –, Camilo evadia-se dela. Mas voltava logo, no
pavor de morrer abandonado, em qualquer estalagem ou no caminho-de-ferro. Por
isso, as suas viagens eram breves e não muito longe da porta, mais fugas do que outra
coisa” (Chorão, 1993: 132).

Camilo era um viajante, percorria novos caminhos sem cessar, sendo as suas expedi-
ções mais longas e audaciosas realizadas através das páginas que compunha ou lera, já que
o seu génio privilegiava a ação intelectual em detrimento da física, e um convívio mais
próximo com as personagens que habitavam as imediações ou os enredos das suas obras do
que com os moradores de alguma localidade distante.
É do conhecimento geral quão ávido leitor Camilo foi, peregrinando sobretudo pelos
livros, quer por puro prazer, quer por obrigação. Não obstante, e após ter encontrado o seu
Lar na propriedade de S. Miguel de Seide, visitava outros locais com alguma frequência na
procura de novas experiências inspiradoras, por necessidade de se afastar transitoriamente
dos temporais que por vezes assolavam a casa ou, apenas, pela simples obrigação de tratar
de assuntos análogos aos que acometem os comuns mortais.
Efetivamente, a urgência de se afastar, como muitas vezes o confessou por missiva,
nomeadamente a Feliciano de Castilho ou a Bernardina Amélia, era angustiante, mas
diversos fatores o prendiam a casa. Por um lado, a difícil situação económica que o acom-
panhou a vida toda4, assim como os condicionalismos das viagens, não lhe permitiam
deambular muito longe de casa nem concretizar jornadas longas. Por outro lado, tendo

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


vivido tão-somente da escrita, não dispunha de muito tempo para conhecer novas terras
ou outros países. Para além dos motivos apontados, talvez a causa principal tenha sido a
personalidade neurasténica que o fazia ver gigantes onde apenas havia moinhos, obrigando-o
a regressar depressa ao Lar antes de ser acometido por alguma catástrofe.
Deste modo, as viagens mais aventurosas e extensas foram as concretizadas através da
leitura ou da imaginação, sendo notável a cultura livresca de Camilo, não só pelas obras
que lera e analisara pela mão de padre António de Azevedo, como pelo contacto com
autores de diferentes eras, correntes literárias, géneros e estilos, já que a mente turbulenta
do mestre o levava a ocupar grande parte do tempo cultivando-se com o saber por outros
ministrado, quer fossem dos mais notáveis didatas, quer dos mais singelos.
4
Agustina Bessa-Luís põe em causa a teoria largamente difundida de Camilo ser um escravo das letras devido
às dificuldades económicas por que passava, defendendo que o mestre escrevia sobretudo por prazer.
171 // Novas
Aquando da segunda estada na Cadeia da Relação do Porto, a sua erudição era de tal
modo extraordinária que Jacinto do Prado Coelho a salienta numa das mais importantes
obras da crítica camiliana.
“Não podemos, com efeito, deixar de sentir uma empolgante admiração perante
o cabedal de leituras que estas páginas revelam num homem de 35 anos, cuja vida, até
então como depois, correra sujeita a tantos e tão dispersos acidentes. Homero, Ovídio,
Santo Agostinho, Dante, Petrarca, Molière, Lope de Vega, Tirso de Molina, Caldéron,
Bernardin de Saint-Pierre, Méry, Humboldt, Charles Nodier, Gessner, Florian, Byron,
Werner, Goethe, Rousseau, Musset, Espronceda, Eugène Sue, Balzac, Michelet,
Malefille, surgem-lhe a cada passo ao bico da pena, ao lado dos portugueses Bernardim
Ribeiro, Fr. Pantaleão de Aveiro, da Imagem da Vida Cristã, de Fr. Heitor Pinto,
d’ Oriente Conquistado a Jesus Cristo, do Padre Francisco de Sousa, de Fr. António
das Chagas, do Padre Manuel Bernardes, Garrett e Herculano, das Crónicas publicadas
pela Academia Real das Ciências, entre muitos outros” (Prado Coelho, 2001: 19).

Camilo tinha um gosto eclético, sendo possível encontrar na sua biblioteca, lado a
lado, A Comédia Humana, Itinerário da Terra Santa e suas particularidades, ou a genealogia
do Visconde de Azevedo. Uma das características da sua prosa é o uso de citações, como
epígrafes de capítulos ou intercaladas no texto, por conhecimento profundo dos clássicos
latinos, da Bíblia e de autores cristãos, assim como dos escritores cujas obras traduziu e
prefaciou. No escritório do Torturado de Seide5 , local onde passou muitas noites de insó-
nia6 , teve a companhia de Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Balzac, Feliciano de
Castilho, Pascal, Racine e Vítor Hugo representados em retratos e bustos..
Ao impressionante saber livresco o mestre associava o contacto direto com os seus con-
temporâneos, fundamentalmente os mais desfavorecidos, tendo sido graças à comunhão
com os habitantes do Minho, de Trás-os-Montes e das Beiras que o autor conheceu o pul-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

sar do povo, adquirindo o respetivo léxico colorido e a linguagem vernácula, tornando-se


assim no criador de uma oratória vocabular excecional.
“Quem quiser ler Camilo em esplendor e glória, leia a Maria da Fonte, um dos maio-
res livros de língua e fígados e coração portugueses. Camilo é isso: génio truculento, estilo
maduro de risadas entre aventuras truanescas e sentimento sufocado de algumas lágrimas.
Homem da nossa lei, nem bom nem fingido; capaz de matar com os olhos fechados e de
renegar até a honra, se ela é negócio de ferir os outros” (Bessa-Luís, 2008: 26).

5
Obra de Alberto Pimentel, datada de 1921, na qual o autor analisa a vida e a obra de Camilo evidenciando
a grande admiração que nutria pelo mestre.
6
Título de textos publicados mensalmente, em fascículos, por Camilo, em 1874, e levados ao prelo, em dois
volumes, em 1929.
172 // Novas
Durante a sua permanência na Cadeia da Relação do Porto pela segunda vez, e apesar do
privilégio de poder sair do edifício diariamente, muitas vezes preferia descer às gélidas e imun-
das enxovias onde ouvia as histórias e provações dos outros prisioneiros, apiedando-se deles.
A cumplicidade entre o romancista e os companheiros do cárcere era tão forte que se tornou
amigo de alguns, entre os quais destacamos o Zé do Telhado. Posteriormente, contou as suas
narrativas solidarizando-se com os desvalidos pois as prisões eram fétidos depósitos de suspei-
tos, alguns inocentes, amontoados em celas com condições desumanas, muitas vezes esqueci-
dos até morrerem. Memórias do Cárcere, onde o escritor tão bem retrata os calabouços e o tipo
de pessoas que os habita, é uma das mais aclamadas produções literárias baseadas na realidade.
Fazia parte da rotina diária de Ana Plácido sentar-se no seu mirante, aberto no muro
da propriedade de S. Miguel de Seide, a fumar um charuto, analisando tudo o que se pas-
sava em redor. Consta que as conversas havidas com os empregados da casa de lavoura e
com os habitantes locais que passavam nas imediações eram partilhadas com o romancista
ao serão, servindo-lhe muitas vezes de inspiração.

Figura 1: Cadeia da Relação do Porto. Figura 2: Mirante de Ana Plácido.


Fonte: adaptado de https://www.google.com Fonte: adaptado de https://www.google.com

Poderíamos questionar-nos sobre os conhecimentos do génio quanto a outros países e

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


cidades estrangeiras onde concebeu a ação de diversos títulos, mas basta recordarmos todas
as obras que estudou e analisou pormenorizadamente, crivando-as com anotações críticas
profundas, para compreendermos de onde lhe vinha tamanho saber.

Viagens pelo Território

“Desde o inverno de 1863, e durante duas décadas e meia, a constante e doentia


instabilidade, agravada por um infindável rosário de sofrimentos físicos e morais,
converte aquela casa amarela numa espécie de cativeiro, onde se enclausura e se mor-
tifica, salvo quando, preso da angústia e do desânimo, de lá se arranca para calcorrear
em dolorosas deambulações as cidades e vilas mais próximas, na busca de uma paz
interior que jamais alcançará” (Castro, 2012: 30).
173 // Novas
Tal como já afirmámos, Camilo empreendeu as viagens mais fulgurantes sem sair da
casa rural de S. Miguel de Seide. Daí percorreu estradas de macadame ao trote de um
veloz cavalo ou viajou por mar, enfrentando ventos e tempestades, para atravessar oceanos.
Contudo, todas estas criações partiram mormente da sua imaginação, tendo os enredos
que ainda hoje acalentam ou inflamam os leitores sido por vezes criados na sua alcova,
semiadormecido entre as gatas que tanto amava. As razões para tal, como temos vindo a
expor, devem-se à sua débil saúde, às questões económicas, às preocupações respeitantes
aos filhos varões, à falta de tempo para escrever e ainda aos desconfortáveis e perigosos
meios de transporte. O génio dedicou verdadeiramente a vida à escrita, e fê-lo como um
sacerdócio, havendo semanas em que apenas interrompia a produção literária por escassos
momentos, caminhando pela quinta ou afoitando-se pelos campos com os cães.
Contudo, há a mencionar as breves viagens pelo território. Efetivamente, e após apurada aná-
lise da biografia e da crítica à sua obra poderemos afirmar que Braga, Bragança, Cascais, Coimbra,
Esposende, Fafe, Gouveia, Guimarães, Lamego, Leça da Palmeira, Lisboa, Matosinhos, Miranda
do Douro, Penafiel, Pinhel, Porto, Póvoa de Varzim, Santo Tirso, Sintra, Viana do Castelo, Vila
do Conde, Vila Nova de Famalicão, Vila Nova de Gaia, Vila Real, Viseu e Vizela foram cidades,
vilas e localidades piscatórias que o escritor conheceu e onde conviveu, observando e assimilando
o linguajar, a indumentária e o próprio modo de interagir dos residentes.
Sabe-se que entre 1873 e 1890 se deslocava com regularidade à Póvoa de Varzim,
onde o atraiam o Casino, uma bailarina espanhola e o relacionamento com personalidades
de notoriedade intelectual e social. Na Póvoa manteve relações de amizade com o magis-
trado José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, Par do Reino que o livrara da cadeia,
assim como com Almeida Garrett, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho,
Francisco Gomes de Amorim e até com o Visconde de Azevedo.
Também é certo que o escritor palmilhou os caminhos de pequenas localidades, entre as
quais realçamos Aldeia de Bragadas, Bom Jesus do Monte, Boticas, Bouça Cova, Briteiros,
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Cabeceiras de Basto, Caçarelhos, Caldas das Taipas, Caldas de Vizela, Candal, Cavez,
Covas do Barroso, Foz, Friúme, Granja Velha, Landim, Miranda do Douro, Montalegre,
Penajóia, Ribeira de Pena, Santo Aleixo d’Além Tâmega, São João d’Arga, São Julião da
Serra, São Miguel de Seide e Vilarinho da Samardã.
Apesar de termos asseverado que o autor viajava mormente pelos livros, não nos pode-
mos esquecer de que Camilo conhecia bem grande parte do país, especialmente os locais
onde vivera ou a que estava ligado por laços afetivos.
O jovem Camilo iniciou os estudos primários em Lisboa, em 1830, mas em breve se
deslocou para Vila Real, onde o pai fora colocado como responsável pelos correios. No
entanto, e dada a demissão de Manuel Joaquim por acusação de fraude, em 1831, a família
regressou à capital.
174 // Novas
Foi logo após a morte do progenitor, a vinte e dois de dezembro de 1835, que o rapaz realizou
a única viagem marítima e pisou território estrangeiro. Como já referimos, os órfãos fizeram a
travessia de Lisboa ao Porto por mar e, dadas as más condições atmosféricas, houve necessidade
de mudar a rota para Vigo. Por curioso que possa parecer, esta jornada por mar foi irrepetível,
tendo também sido a única vez em que o romancista esteve no estrangeiro. Na realidade, e apesar
de nas suas obras haver frequentemente referência a outros países, designadamente Alemanha,
Áustria, Brasil, França, Inglaterra e Itália, assim como a África e ao Oriente, a verdade é que o
escritor nunca saiu de Portugal Continental exceto quando aportou em Espanha.
Seguidamente analisaremos as viagens empreendidas pelo génio em termos ter-
ritoriais, sendo um facto que a nível nacional Camilo repetiu na sua obra percursos
palmilhados na vida real.

Viagens pelo Norte

“A Samardã é o primeiro marco importante da vida atribulada de Camilo. Ele é


definitivamente um homem do Norte, para quem o lugar de nascimento foi apenas
um acidente. A Samardã, Friúme, Ribeira de Pena, Vila Real, Porto, Foz, Póvoa,
Braga, Viana do Castelo, Lamego, Famalicão, S. Miguel de Ceide, são os lugares que
contam na vida de Camilo” (Chorão, 1979: 18).

Como poderemos verificar


pela representação gráfica que
se segue, a literatura camiliana
centra a sua ação frequentemen-
te no norte de Portugal, nome-
adamente nos locais aos quais o
mestre está ligado por laços de

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


sangue ou por questões afetivas.
É dentro dessa lógica que enu-
meraremos os mais importantes,
quase numa sequência temporal.
Vila Real é o berço dos
Brocas7 , antepassados de Camilo.
Aí nasceu toda a estirpe do lado
paterno, temível gente de têmpe-
ra. Neste local vive com o pai e Figura 3: Viagens pelo Norte.
Fonte: adaptado de https://www.viamichelin.pt
com a irmã enquanto o primeiro
7
Vide CLÁUDIO, Mário. Camilo Broca. 3ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006.
175 // Novas
trabalha nos correios. A ele volta aquando da morte do progenitor, procurando refúgio nos
braços da tia. A esta cidade regressará constantemente, na vida real e na ficção.
Vilarinho da Samardã, distrito de Vila Real, é a pequena aldeia onde o jovem
Camilo foi feliz. Aí encontrou, na casa partilhada com padre António de Azevedo, com
a irmã Carolina e o marido desta, amor, carinho, companheirismo, apoio e entrega. Foi
neste espaço que fez as primeiras leituras e se apaixonou pela Literatura graças à edu-
cação ministrada pelo generoso padre. Para além do prazer que encontrou nos livros,
deleitou-se na união com a natureza e na confraternização com a gente genuína que
habitava o povoado.
“O legado clássico acompanha Camilo toda a vida como uma referência natu-
ral. O rapaz que lera a Eneida nos penhascos da Samardã era ainda o mesmo que
(…) entre os muitos livros que tinha consigo na cadeia – a ponto de causarem a
admiração de D. Pedro V, quando da sua visita – guardava um volume de Plutarco”
(Pereira, 1991: 130).

Friúme, concelho de Ribeira de Pena: Foi nesta povoação, a dezoito de agosto de


1941, quando contava apenas dezasseis anos, que Camilo se casou com Joaquina Pereira
de França, de quinze anos.
Ribeira de Pena: Após o casamento, o jovem casal passou a residir em Ribeira de Pena
tendo aí nascido, a vinte e cinco de Agosto de 1843, a filha de ambos, Rosa Pereira de
França, que viria a falecer em 1848.
Granja Velha, concelho de Ribeira de Pena, distrito de Vila Real: Lugar onde Camilo,
em 1842, estudou Latim com o padre Manuel Rodrigues, conhecido como Manuel
da Lixa.
Porto: Capital do Norte, mas Capital de Portugal para Camilo que aí ama, estuda, escre-
ve, digladia, convive com a nata da sociedade, se perde de amores, é punido, ilibado, exaltado
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

e enobrecido.
Bom Jesus do Monte, Braga: Lugar ao qual se deslocava com frequência, tendo-se
aí encontrado com Ana Plácido, assim como com o morgado da Quinta do Lodeiro e a
esposa deste, Fanny Owen.
Viana do Castelo: Camilo residiu em S. João d’Arga, na encosta do Monte de Santa
Luzia, durante cerca de dois meses, no ano de 1857, onde terá composto os romances
Cenas da Foz e Carlota Ângela.
Caçarelhos, concelho de Miranda do Douro, distrito de Bragança: Calisto Elói, fidal-
go austero e conservador, protagonista do romance satírico A Queda dum Anjo, era natural
de Caçarelhos, no termo de Miranda do Douro, local que Camilo visitara.
Vila do Conde, distrito do Porto: O mestre viveu nesta vila, em 1870, tendo aí redigido
O Condenado, peça levada a cena em 1871.
176 // Novas
Póvoa de Varzim, distrito do Porto: uma das praias de eleição do génio onde convivia
com os literatos, chegando a ser regularmente recebido no Solar dos Carneiros, pertença
do Visconde de Azevedo.
A Norte, muitos outros caminhos foram calcorreados pelo génio, mas seria fastidioso
enumerá-los a todos, sendo preferível afirmar que palmilhou inúmeros percursos nos
distritos de Braga, Bragança, Porto, Viana do Castelo e Vila Real.

Viagens pelo Centro

“ (…) Camilo é ainda todo um capítulo de geografia literária. Trás-os-Montes,


o Alto Douro, o Minho, algum trecho da Beira Interior, lugares, topónimos, que
conhecemos só dos seus livros, os podemos percorrer numas como que viagens na
nossa terra” (Chorão, 1991: 167).

Apesar da paixão que nutria


pelo Norte e seus habitantes, o
autor não foi indiferente às gentes
do Centro provavelmente por a elas
relacionar as vivências do seu pai,
do tio Simão e do avô Domingos.
Convém recordar que
Camilo Ferreira Botelho Castelo
Branco descendia de uma famí-
lia da aristocracia rural de Trás-
-os-Montes, tendo o avô paterno,
Domingos José Correia Botelho,

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


formado na Universidade de
Coimbra em Leis e em Cânones,
Figura 4: Viagens pelo Centro.
exercido funções como juiz de Fonte: adaptado de https://www.viamichelin.pt
fora em Cascais, no Porto, em
Vila Real e em Viseu. Deste modo, o escritor conhecia o centro do país e ouvira con-
tar, desde menino, as façanhas perpetradas pelos seus familiares na região quando o
Dr. Brocas desempenhara o cargo de juiz de fora na comarca de Viseu.
O vínculo com a Beira e respetiva população é um facto, tendo o autor vivido em
Coimbra ainda jovem, em 1846, com o intuito de cursar Direito, havendo voltado quase
trinta anos depois para que os seus filhos aí estudassem, mas nem Camilo nem a sua prole
obtiveram sucesso na cidade dos doutores.
177 // Novas
Para além de ter percorrido as ruas de Viseu e de Lamego, também se terá encoraja-
do a palmilhar difíceis caminhos entre serras, chegando a locais tão ermos ou inóspitos
como Penajóia, concelho de Lamego, distrito de Viseu; S. Julião da Serra, freguesia de
Gouveia, distrito da Guarda; e Bouça Cova, freguesia de Pinhel, distrito da Guarda, tendo
mais tarde utilizado estes territórios como cenas das suas obras, designadamente Amor de
Perdição (1862), Noites de Lamego (1863) e O Bem e o Mal (1863).

Viagens a Sul

“ (…) Há um Portugal integrativo do imaginário camiliano que, sob o ponto de


vista geográfico, irradia sobretudo do Porto e do Baixo Minho para áreas de Trás-os-
-Montes, Beiras, particularmente Coimbra, e Lisboa, e também um ultramar brasileiro,
africano, oriental, mais impreciso mas ainda importante (…) ” (Lopes, 1991: 7).

Se comparadas com as rea-


lizadas a Norte, são parcas as
viagens levadas a cabo pelo sul
de Portugal. Apesar de ter nas-
cido na capital, local onde dera
os primeiros passos, vivera com
seus pais e sua irmã, e inicia-
ra a instrução, Lisboa nunca
foi a cidade do seu coração,
aquela onde se sentia em casa.
Contudo, a ela retornou com re-
lativa frequência, para tratar de
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

questões burocráticas, fugir das


complicações em que frequen-
temente se metia, ser homena-
geado, ou leiloar a tão estimada
Figura 5: Viagens a Sul. biblioteca particular longe de
Fonte: adaptado de https://www.viamichelin.pt
olhares conhecidos.
O escritor também viveu na
capital com Ana Plácido e o pequeno Manuel Plácido, logo após a reabilitação do casal e
antes da morte de Pinheiro Alves. Foi ainda em Lisboa que nasceu Jorge, o filho demente,
mas, a partir do momento em que a família formou o Lar na casa amarela, desligou-se
afetivamente da terra que o vira nascer.
178 // Novas
Para além das avenidas, ruas e vielas da capital, o mestre terá calcorreado os trilhos
de Cascais, onde o seu avô havia exercido funções, e as veredas de Sintra, vila romântica
por excelência.
Lisboa foi inumeráveis vezes escolhida como cenário das suas obras, das quais realçamos
Mistérios de Lisboa e Livro Negro do Padre Dinis.

Viagens pela Península Ibérica

«Pero quizás sea Camilo, si no el más desespe-


rado, sí el más amplio y más fidedigno representan-
te de todo un pueblo, porque encierra, además del
pesimismo y la desesperación portugueses, todas
las características de un pueblo: “el portuguesí-
simo novelista Camilo Castelo Branco”, escribe
Unamuno. Camilo, tan portugués como español,
es el mejor intérprete del alma lusa, de su pasión y
su sentimiento de su desesperación y de su elegía:
“Leer a Camilo es viajar por Portugal, pero por el
Portugal de las almas” y Camilo es “el que nos ha
dado en sus novelas toda el alma trágica, fatídica,
patética de Portugal» (Dios, 1992: 679).

Sendo reduzidas as viagens territoriais se


comparadas com as efetuadas através das obras
literárias, em Portugal conheceu profundamen-
te toda a zona norte do país, parte do Centro
e muito pouco do Sul, não tendo palmilhado
nenhuma área a sul de Lisboa.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


Dos autores nacionais, leu e analisou in-
contáveis produções, sendo de destacar nomes
como Alexandre Herculano, Almeida Garrett,
António Feliciano de Castilho, Barbosa e Silva,
Bernardim Ribeiro, Bulhão Pato, Coelho
Lousada, D. João de Azevedo, Eça de Queirós,
Ernesto Biester, Faustino Xavier de Novais,
Francisco Morais Sarmento, Guerra Junqueiro, Figura 6: Viagens pela Península Ibérica.
José Gomes Monteiro, Júlio César Machado, Fonte: adaptado de https://www.viamichelin.pt

Luís António Verney, Pinto Ribeiro, Rebelo da


Silva, Soares de Paços e Tomás Ribeiro.
179 // Novas
Quanto ao país irmão, conheceu-o fortuitamente, na meninice, e mal terá tido tempo de
apreciar terras de Espanha. Não obstante, pela leitura cursou muitos dos caminhos de Antolínez,
António Pérez, Balmes y Urpiá, Caldéron, Frei Ciríaco Pérez, Espronceda, Francisco de Las
Cuebas, Francisco Santos, Gôngora, S. João da Cruz, Lope de Vega, Marquês de Santillana, Mira
de Amescua, Moratin, Tirso de Molina, Zorrilla, mas sobretudo dos trilhados por Cervantes.
«Não chegou, pois, Camilo a participar na “edição monumental” da tradução
de Dom Quixote de 1876-1878. (…) Porém, se o não traduziu, dialogou Camilo
longamente com ele, desde muito cedo e, segundo cremos, até a alguns dos últimos
gestos da sua carreira literária: então, em 1845 (tinha Camilo vinte anos), parodian-
do duelos; no fim, já por volta de 1880, propondo-se, através de romances “facetos”,
parodiar “certos romances realistas”. Tal como no Dom Quixote o seu autor tinha
parodiado os livros de cavalarias» (Abreu, 1992: 409-410).

O mestre foi exímio a descrever, não apenas as localidades e as paisagens, mas essencial-
mente o modo de ser e de sentir dos povos, concebendo enredos e criando personagens que
refletem exemplarmente a paixão, a desgraça, a amargura e o desespero das almas lusitanas.
Citando Agustina Bessa-Luís, “Português, não há outro tão grande nas letras”.

Considerações Finais

“Eu estou morando às Abas da Serra de Córdova, entre um Souto e uma


Carvalheira. Sei todos os dias o preço do milho e do feijão fradinho. Tenho horas
muito tristes e outras muito resignadas. A felicidade é que eu não achei aqui, nem
em parte alguma” (Castelo Branco, 1924: 31).
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Camilo foi um génio, uma força sobranceira, apesar de todas as agruras que conheceu
desde a mais tenra idade.
Lutando contra uma personalidade instável e depressiva, mas graças a um carácter
inconformado e à vã esperança da felicidade, conseguiu utilizar os seus traumas para dar
voz àqueles que a não tinham, moralizar e aconselhar ou, simplesmente, engalhar o sono
rebelde, como ironicamente afirmava.
Sobranceiro a escolas, tornou-se na figura central do Ultrarromantismo português,
tendo sido o primeiro romancista profissional luso e o mais profícuo da Península Ibérica,
devendo-se a si a criação da típica novela passional.
Territorialmente, viajou pouco e fundamentalmente a norte do Rio Douro, sempre
perto do Lar, tendo chegado a Vigo por acidente e a Lisboa por nascimento.
180 // Novas
As viagens físicas foram curtas e fugazes, muitas vezes meras evasões na desesperada
procura da alegria de viver, sendo sempre rápido o retorno a casa, sem ter encontrado paz
ou felicidade duradouras.
Em termos geográficos, o nosso peculiar viajante não palmilhou estradas a sul de
Lisboa, desconhecendo assim o Alentejo e o Algarve, mas conheceu países distantes e aí
encontrou amor e salvação através da Literatura.
As jornadas prediletas, em que verdadeiramente se divertiu e cultivou, foram as em-
preendidas pelos livros, redigindo uma bela intriga ou deliciando-se com a análise da obra
de um escritor que admirasse.
Considerado o mais fecundo autor luso, o génio decidiu retirar-se do palco da vida
quando a cegueira o afastava do mundo das letras.

Referências

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Do território e da paisagem – a máscara
elemento de exteriorização de um
imaginário real

Helena Maria da Silva Santana


Universidade de Aveiro
Maria do Rosário da Silva Santana
Instituto Politécnico da Guarda

O relevar de um património, de uma maneira de ser e estar, bem como a sua valo-
rização, permitem a aquisição de uma outra consciência vivencial e, em alguns casos, a
concretização de novos espaços de som e arte. Neste sentido, referimo-nos aos diferentes
projetos de fusão artística que têm sido propostos nos mais diversos domínios, mas tam-
bém, aqueles que exteriorizam o que de mais autêntico um território encerra, surgindo
como veículos de manifestação e exteriorização de um imaginário, em si, real. Tendo como
objetivo principal a identificação e valorização dos recursos do território, percebemos que o
património, tanto material como imaterial, reflete a maneira como um povo, uma região,
um país, se mostra e diz, num espaço vivencial que se oferece, a cada vez, mais plural e
multicultural. Pondera-se assim, sobre a efemeridade ou permanência de um ser e ter que

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


se faz outro. Neste contexto, pretendemos efetuar uma reflexão sobre a forma como a más-
cara se expressa enquanto recurso material e imaterial de um território, mas também como
elemento de uma narrativa multicultural. Concomitante, salientaremos a especificidade das
construções propostas pelos Caretos de Podence, Lazarim e Salsas da região norte do país,
ou dos Cardadores de Vale-de-Ílhavo na região centro de Portugal. Além-fronteiras, salien-
tamos o uso da máscara, e das narrativas a ela associadas, em países como o Brasil, através da
análise das poéticas gestuais, visuais e sonoras do Boi-Bumbá, ou do Peru, Chile e Bolívia,
naquilo que se mostra como poética e poiética em a Diablada. Será nossa intenção demons-
trar ainda a forma como este recurso se projeta no imaginário das gentes e se define em
tempos, práticas e lugares específicos, como são as festas e festividades em honra de santos
padroeiros ou alusivas e épocas particulares do calendário judaico-cristão. Questionando
185 // Novas
estas narrativas, pretendemos expor como a máscara, bem como as paisagens sonoras
que releva, se especificam não só em Portugal, como nestes países, analisando a forma
como se exterioriza a presença de uma simbologia que define imaginários e manifestações
civilizacionais próprias, neste caso o Carnaval, o Entrudo, as Festas Joaninas, aos Santos
Padroeiros, ou em honra da Virgem Mãe conforme os casos explanados, mas também as
festividades, festas e romarias, os rituais e ritos onde esta se inclui.

Introdução

Num mundo que se edifica global e globalizante, um mundo que se mostra a cada tempo
e lugar cada vez mais competitivo e fugaz, e onde os interesses económicos superam, quando
não aniquilam, todos os outros, vimos surgirem novas formas de ver e olhar o mundo, novas
formas de conduta interna e externa que indicam um fazer, ser e ter, mais coeso com aquilo
que de mais genuíno o homem tem. Este novo fazer, anulando progressivamente o anterior,
revela e releva aquilo que o global compulsou numa ação perversa e aviltante dos povos e das
gentes, dos tempos e dos lugares. Esses tempos e lugares, assim como o esgotamento físico,
intelectual e moral que ao ser humano constrange, tem-no levado aos poucos a questionar
uma forma de ser e estar no mundo, formando-o outro. Num olhar para dentro, o homem
percebe a necessidade de fazer emergir, nos tempos e espaços que quantas vezes negligenciou,
modos de ser, fazer e ter mais simples, genuínos e consentâneos com os tempos e os lugares
que habita, bem como com as tradições. Buscando e implementando modos de vida mais
puros, trazendo à luz modos de ser, ter e fazer mais tradicionais e compatíveis com formas de
consciência que intentam o respeito da vida nas suas diversas formas, representam, os “novos
rurais”. Na procura desse equilíbrio com a natureza e no respeito que o homem se deve a si
e aos outros, buscam as tradições. Neste fazer, os modos de vida, os rituais e os ritos, saem
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

progressivamente do anonimato e do silêncio que os aniquilava, para serem agora identificados,


compreendidos, classificados, estudados e valorizados.
Tendo como objetivo principal de investigação, a identificação e valorização dos recur-
sos do território, sejam eles materiais ou imateriais, enquanto fatores críticos e estratégicos
de desenvolvimento, ponderámos realizar uma reflexão sobre a forma como um objeto tão
particular como a máscara, bem como os contextos materiais e imateriais em que se insere,
se manifestam num conjunto de rituais e ritos que se concretizam em diversos tempos e
lugares de Portugal continental, mas igualmente além-fronteiras. No sentido de melhor
definir e concretizar a nossa investigação, procedemos ao delimitar de um campo de pes-
quisa, especificando a nossa ação num conjunto de elementos associados a um tempo
e lugar em particular, o tempo e o lugar de o ritual e o rito das festividades de Inverno,
186 // Novas
nomeadamente o Entrudo e o Carnaval, mas também as festividades Joaninas, aos Santos
Padroeiros e em honra da Virgem Mãe.

Singularidades na identificação e caracterização de territórios


As festividades de Inverno, os rituais e os ritos associados ao Entrudo e ao Carnaval,
acontecem num tempo próprio, um tempo que antecede e prepara a Quaresma e a Páscoa,
um tempo associado à eclosão e libertação de diversas energias, tanto humanas como ma-
teriais. Se nuns casos elas se mostram de natureza benfazeja, como aquelas que se exibem
no eclodir dos ciclos da Primavera e de todos os processos regenerativos a ela associados,
outras contêm um teor maléfico, despoletando uma dimensão demoníaca de dominância
e constrangimento geral1. Estas festividades impõem ainda um adeus a tudo o que possa
impedir a reflexão e o equilíbrio buscado, um equilíbrio que surge na prática da meditação
e da contenção que, nas sociedades cristãs, deve anteceder a Quaresma e a Páscoa2. Neste
fazer, todos os excessos são permitidos. Associados ao consumo do álcool e das carnes, em
especial da carne de porco, mas também a todos os excessos associados às práticas de de-
terminados rituais e ritos de cariz iniciático e sexual. Estes excessos fazem-se num período
“propício às manifestações do limbo, aproveitando o hiato temporal em que impera a de-
sordem e o caos. E, seguindo as pisadas saturnais romanas, tudo é permitido, existindo um
caos consentido que inverte a ordem natural das coisas. É um período de passagem, [...] em
que tudo pode ser colocado em causa e se vive em silenciosas liberdades” (Ferreira 2016:
8). Todos os meios são possíveis e, assim, “As máscaras e mascarados, de origens culturais
remotas e incertas estão, por certo, ligadas a estas passagens” (Ferreira 2016: 9). Na sua
presença denotam a metamorfose necessária a uma prática própria, mas também àquela que
os torna diferentes, no dizer de alguns, com dons “superiores, com predicados de qualquer
Deus do Olimpo” (Ferreira 2016: 10). Neste sentido, os mascarados tornam-se um meio
singular de fazer acontecer e renascer todas as práticas ligadas às festividades de Inverno,
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
aos rituais e ritos de fertilidade e de passagem à idade adulta, elementos que se mostram
ainda como recursos materiais e imateriais de um território, de uma região, de um país e de
um povo. São estes elementos que os “novos” anseiam. São eles que se mostram na prática
do ritual e do rito que se quer formado, mas também informado; um ritual e um rito que
se quer representado e concretizado como agente de unificação, transformação e mudança,
um meio de identificação e caracterização de modos de ser, ter e viver, diferenciados.

1
As Festas Joaninas, em honra dos Santos Padroeiros e em louvor da Virgem Mãe adquirem, por outro lado,
uma outra forma de se fazer representar. Nota-se continuamente uma luta entre o bem o e mal, entre as
forças angelicais e demoníacas, forças essas que se encontram presentes em toda a atividade humana.
2
O Carnaval é uma denominação que compreende na sua raiz etimológica um “adeus à carne” (Ferreira 2016).
187 // Novas
Por outro lado, sabemos que o que se designa como recurso de um território, pode
ser delimitado e estudado de diversas maneiras. Não se resumindo a aspetos de ordem
material, geográfica, geológica ou ambiental, esta ação engloba tudo aquilo que respeita ao
conjunto dos recursos imateriais de uma região, de um país, de um povo. Neste contexto,
surgem atividades de divulgação e dinamização de territórios cujas dinâmicas dependem
das atividades sociais e culturais aí desenvolvidas, bem como de fatores extrínsecos de rea-
lização, e também, difusão. Em lugares onde a desertificação se confirma, o estudo desses
locais com vista à sua promoção é urgente. As tradições podem aí ser percebidas como
meios de promoção e difusão, privilegiando a comunicação interpessoal, a criatividade
e expressividade, o equilíbrio, o refazimento, a partilha, o respeito e o desenvolvimento
integrado e integrante de todos3.
Ao estudarmos uma manifestação cultural onde a máscara, mas também o fogo, o es-
cárnio e o maldizer são usados como formas de renovação e expurgação de todos os males,
permitimo-nos olhar a cultura e as tradições nas suas variadas manifestações, buscando o
genuíno e o autêntico. Ao perceber de que forma o património material e imaterial das
diferentes regiões se diz, e de que forma pode contribuir para a preservação da cultura e
das tradições conduzindo ao seu desenvolvimento cultural, social e económico, poderemos
traçar uma perspetiva de desenvolvimento alargado dessa mesma região. A realização e
divulgação de toda uma prática cultural e recreativa que visa não só a promoção territorial,
como o seu desenvolvimento económico, social e cultural, traduz, no nosso entender, uma
preocupação das autoridades na revitalização das diferentes manifestações que agora se
dizem tradições, contribuindo para uma leitura renovada dos lugares, um incitamento à
sua vivência, e sobretudo, experienciação e prática. Neste sentido, podemos afirmar que,
estando presentes em todos os domínios da manifestação humana, seja de caráter religioso
ou profano, estes eventos podem atuar na superação de desigualdades sociais. Ao motivar
e estimular associações e coletividades, encetam processos de desenvolvimento social e
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

cultural, organizando, coordenando ou desenvolvendo, atividades de animação de carác-


ter cultural, educativo, social, lúdico e recreativo. Estas ações, revitalizando os territórios,
mostram-se um desafio. Há que harmonizar o choque de valores individuais e coletivos,
culturais e económicos, os interesses diversificados de uma sociedade em contínua evolução,
para que a tradição se mostre genuína, mas também, potenciadora de mudança.

3
Ações de emancipação, dinamização ou desenvolvimento de comunidades e grupos, encontram-se presen-
tes quando se fala em gestos de promoção e preservação de territórios e tradições, mormente os que aqui
apresentamos. O modo como a preservação da tradição em territórios se faz, contribui, certamente, para a
manutenção de uma identidade local, permitindo traçar perfis exclusivos em regiões caracterizadas, quantas
vezes, pela interioridade, fator determinante para a conservação de uma autenticidade cultural.
188 // Novas
A máscara na definição de paisagens sonoras e na exteriorização de
um imaginário, em si, real
Espalhados pelo território, os eventos culturais que aqui apresentamos, as festividades
de Inverno e início da Primavera, as Festas Joaninas, aos Santos Padroeiros, ou em honra da
Virgem Mãe, os rituais e ritos com máscara, são importantes para a divulgação da cultura
e a dinamização dos territórios. Pela observação da sua presença em diferentes regiões de
Portugal continental, nomeadamente a raiana, apuramos que as atividades e dinâmicas
culturais deles resultantes, tornam estes territórios mais férteis e empreendedores. Neste
sentido, as populações vertem neles a sua cultura e saber, bebendo em seguida das suas
realizações. Neste fazer, queremos crer, pela observação das dinâmicas produzidas, que os
locais onde estão inseridos, bem como as suas populações, gozam da riqueza que produzem
e adquirem. Dependendo do local onde se inserem, e do território que abrangem, divul-
gam a região que, as mais das vezes, se encontra votada ao abandono. Todas as atividades,
sejam elas de carácter social, cultural ou outro, atraem público, não só um público local,
como aquele forasteiro, cuja presença promove o desenvolvimento da economia, no fluxo
e afluxo de pessoas e bens, saberes e seres. Essa dinamização apela à realização de eventos
de natureza diversa. As festividades de Inverno e início de Primavera, as festas e romarias, a
máscara, o ritual e o rito, contidos nas diferentes manifestações do Entrudo e do Carnaval,
nas Festas Joaninas, dos Santos Padroeiros, mas também da Virgem Mãe, bem como nos
rituais e ritos de iniciação e fertilidade de final de Inverno e início de Primavera, surgem re-
veladores de uma genuinidade, podendo, no nosso entender, constituir-se fatores de desen-
volvimento económico, social e cultural importantes, mas também um meio de identificação
e caracterização de territórios. A necessidade de revitalizar territórios e tradições aporta
aspetos importantes que urge destapar. Neste sentido, salientamos a concretização de rituais
e ritos com máscara, bem como a execução de práticas que se encontram, em alguns casos,
desvalorizadas e esquecidas, promovendo o cumprimento de costumes que contribuem

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


para o desenvolvimento cultural, social e económico de um lugar. Neste proferir, somos a
referir que “um mascarado desassossega ruas e terreiros nos quais todos os anos se faz eco
de antigos rituais em tempos de solstício de Inverno” (Ferreira 2015: 25), concretizando-se
enquanto fator de coesão, mas também fator de desenvolvimento social e cultural.
Tentando conciliar as especificidades e características destas práticas, apontamos a nossa
investigação para as festividades que, decorrendo no final de Inverno início de Primavera,
englobam diversos rituais de passagem à idade adulta, mas também de renascimento e li-
bertação. A todos estes rituais subjaz uma fase iniciática à qual todos se devem submeter,
e que, quando bem ultrapassada, outorga elementos outros, que os fazem diferentes, mais
capazes para enfrentar o mundo e a vida. Implicam sempre um morrer, para nascer de novo,
tocando o oculto e o sobrenatural. No dizer de Morin, “Com efeito, a iniciação é a passagem
189 // Novas
para uma nova vida: entrada na sociedade dos adultos, na sociedade secreta, arcaica ou con-
temporânea, ou na sociedade religiosa dos mistérios. Quer tenham lugar na África Negra,
na Austrália, na América dos Índios, tanto nos Canacas como nos Ashintis, tanto na Europa
moderna como na antiguidade [...], os ritos de iniciação […] verdadeiros mimos simbólicos
da morte e do nascimento, que traduzem o grande tema analógico: “chegar à vida nova pas-
sando pela morte”” (1970: 111). Em outro, “a sobrevivência de costumes antigos à margem
de uma explicação lógica para causas e origens que permanece no mais insondável dos segre-
dos fá-los pertença do domínio do misterioso. Por isso, atraem a curiosidade daqueles que
ouvem contar factos da memória coletiva de uma população, confundindo-se com lendas e
tornando-se mitos fruto do parco conhecimento que deles se tem” (Ferreira 2016: 9). Como
meios de sociabilização e integração social, surgem da máxima importância nos territórios
onde se inserem, contribuindo para o seu desenvolvimento e coesão.
Como todas as práticas que contêm uma praxis, um cerimonial, regras e códigos de con-
duta, encontram-se a elas associadas o uso de indumentárias compostas, quantas vezes, por
fatos e máscaras que, ao cobrir todo o corpo e rosto, visam o anonimato e a transfiguração.
Nesta prática, adquire o seu usuário dotes superiores, senão sobrenaturais. São esses que lhe
outorgam, quando não autorizam, no momento da prática do ritual e do rito, o contacto com
os seres superiores da criação, e a impetração de energias benéficas e benfazejas. Praticados
em diversos lugares do nosso território, e também do mundo, estes rituais e ritos mostram,
nesses lugares, uma importância fundamental para a boa continuação da vida. Nas máscaras
e nas indumentárias usadas, os que delas se fazem portadores, almejam de uma condição que
se transmite nos elementos que as materializam. Esses elementos, tais que “os chocalhos, os
trajes franjados, o protagonismo dos jovens, os atos licenciosos” (Costa 2017: 16), revelam o
misterioso e sobrenatural que pretendem transmitir, de forma a se tornarem deuses.
Identificando-se na prática profana, mas igualmente no culto religioso, a festividade
constitui um lugar privilegiado de descoberta do ser humano nas suas mais diversas for-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

mas, facetas e expressões. Marcando um ritmo, definindo labores cíclicos nos tempos e
lugares, as festas, os rituais e os ritos, estruturam, apoiados num tempo que se define nas
estações do ano e nos calendários religiosos, um fazer e ser social, que se diz autonoma-
mente enquanto forma de tradição e arte. Para que estas práticas se realizem, organizam-se
grupos e associações culturais, que contribuem para a coesão comunitária, promovendo,
pela festa, o nascimento de um sentimento de pertença, de grupo, de região, confirmando
o valor das relações em sociedade e em grupo. Neste sentido, e segundo Serra, “a solidarie-
dade, a coesão grupal, o sincronismo perfeito e o agonismo acentuado de certos episódios
destas ocupações campestres contrastavam nitidamente com a alegria ruidosa, a surriada, o
chiste, a piada satírica e burlesca, os ditos maliciosos (até obscenos!) e as cenas eróticas de
outros, que lhes sucediam ou com eles se misturavam” (2001: 156). As festas e as romarias
190 // Novas
constituem-se em momentos singulares da vida do homem, um homem que se apoia neles
para reviver emoções, emoções que, as mais das vezes, se encontram traduzidas nas paisagens
e narrativas desses mesmos rituais e ritos.
Além-mar, fruto de uma influência europeia, mas não só, surgem no continente sul-
-americano os rituais do Diablada no Peru, Chile e Bolívia, ou do Boi-Bumbá ou Bumba-
-meu-boi, no Brasil. Nestes casos particulares, as narrativas, poéticas e poiéticas que constroem
mostram-se mais profundas. Associadas a danças representativas de uma luta entre as forças
do bem e do mal, da vida e da morte, neles, as personagens, os trajes, as indumentárias,
surgem ligadas a símbolos, lendas e mitos próprios. A simbologia assoma naturalmente
vinculada à presença do bem e do mal, dos anjos e dos demónios, do homem e do animal.
Reunindo elementos da religião católica introduzidos durante a presença portuguesa e
espanhola no Sul do Continente Americano, mas também aqueles presentes em rituais de
tradição andina e indígena, a dança, sempre presente, particulariza o dizer. Na sua deter-
minação sobressai o ritual e o rito, mas também toda uma indumentária, uma coreografia,
um sonoro e um visual, que convém relevar.

O ritual e o rito
Questionando as narrativas poéticas e musicais onde a máscara se insere, é nosso objetivo
averiguar como a máscara, e as manifestações culturais onde se insere, nomeadamente os
rituais e os ritos, se revelam espaços de exteriorização e libertação de um imaginário em si,
real. Seja em espaço Europeu, seja no Continente Sul-Americano, a máscara e os rituais a ela
associados possuem características que nos permitem identificar, delinear e caracterizar a sua
disseminação. Da sua observação, vemos que existem características que se mostram comuns, e
outras, que se expõem diferenciadoras. No que concerne as características comuns, percebe-
mos que a organização e dinamização dos eventos ao seu uso associados, é feita pelos jovens
solteiros da terra. Esta ação incide tanto nas práticas realizadas no nordeste de Portugal, no

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que concerne as realizações de os Caretos de Salsas, Lazarim e Podence, como no que concer-
ne as práticas de os Cardadores de Vale-de-Ílhavo no concelho de Ílhavo, distrito de Aveiro,
no centro de Portugal. Em a Diablada ou no Boi-bumbá no continente Sul-Americano, deno-
tamos o mesmo uso, bem como o empenho de toda a família e comunidade para a concretização
de toda a ação, narrativa, adereços e indumentárias.

A prática
A prática do ritual e do rito por parte dos jovens solteiros da terra, para além de con-
sentir como resultante, um maior vigor e pujança nas danças, nos saltos, grunhidos e urros,
permite, na componente marcadamente sexual e libidinosa que se mostra coreografada, a
concretização dos rituais e ritos de iniciação e fertilidade próprios aos ciclos de libertação e
191 // Novas
regeneração. A força e a juventude encontram-se presentes igualmente nas praxes e rituais
iniciáticos de passagem à idade adulta, promovendo a integração social no grupo e na co-
munidade. No que concerne a Diablada, os elementos simbólicos e mágicos, de distintos
significados, são materializados em objetos iconográficos e gestos rituais de variado tipo,
nomeadamente as danças, os saltos e os gritos dos seus intervenientes, de forma a captar
a atenção daqueles a quem se dirigem4. Deste facto, surgem nas máscaras, e nos aspectos
zoomórficos que expõem, elementos de uma selvática que pretende o contacto não só com
o bem, como com o mal, com o humano e o animal, os deuses e os demónios, de forma a
concretizar o apaziguamento de todas as forças vitais da natureza. Os líderes grupais osten-
tam distintos elementos que, quando analisados, vertem a sua importância, a saber: varas,
roupas, bastões, coroas, ceptros ou chapéus. Estes elementos afirmam o seu poder dentro do
grupo e perante a comunidade. Devemos ainda referir o carácter disciplinar imposto pela
tradição e pelos códigos de conduta sempre presentes, códigos sempre aplicados pelos líderes
aos jovens participantes de forma a regular e disciplinar as práticas, bem como a práxis e sim-
bologia dos rituais e ritos de passagem e iniciação à idade adulta5. Toda esta prática se faz para a
comunidade6. No que concerne os rituais com máscara no Planalto Mirandês, temos a referir
as rondas em grupo pelas localidades e as visitas aos locais nas arruadas e alvoradas7. Nestas
ações, as refeições, comunitárias, permitem o convívio e a integração dos novos membros
fazendo-se sempre no seio da comunidade. Estas refeições não se limitam à ingestão de viveres
e ao convívio, permitem ainda a iniciação dos jovens em práticas vulgarmente associadas à

4
Sobressaiem a festividade em honra da Virgem Mãe, embora com narrativas visuais e sonoras onde
proliferam elementos pagãos.
5
Neste sentido, lembramos as praxes e os códigos de conduta que devem ser respeitados por todos e não só pelos
“novos”, as multas descritas e aplicadas quando a quebra da boa prática e da conduta assim o exige. A natureza e a
prática de algumas tarefas, bem como a presença, ou não, em determinados espaços dos locais de encontro e ativi-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

dade, nomeadamente a Caserna no caso dos Cardadores de Vale-de-Ílhavo, também determinam uma hierarquia
grupal que se deve respeitar. Neste caso, podemos ainda referir, a limpeza do espaço ou o puxar das carroças pelos
aspirantes a Cardadores (Ferreira 2016). Noutros casos são as lutas entre os jovens, o suplantar de castigos e de
provas de destreza e resistência física várias, a demonstração que os jovens devem prestar para pertencer ao grupo
e passar, assim, à chamada fase da idade adulta, vislumbrando-se “um morrer para nascer de novo” (Morin 1970).
6
Neste sentido, ela se mostra em espaços e tempos próprios.
7
No que concerne esta ação devemos mencionar ainda a presença dos instrumentos tradicionais comuns a
outras áreas de influência geográfica, nomeadamente a do Planalto Mirandês na zona de Miranda do Douro,
na Raia Alentejana em Vila Verde de Ficalho, e na Zona de Castilha Leon na localidade de Ciudad Rodrigo,
na zona fronteiriça com Vilar Formoso em Portugal, onde tanto a Gaita de Foles como o Tamboril, são ins-
trumentos comummente usados nas Festas e Romarias, e nos rituais aqui apresentados. Simultaneamente,
as Rondas e as Alvoradas são momentos importantes nas Festas Patronais juntando o povo e os festeiros em
comunhão. Desta ação resulta ainda o Peditório que é importante para a recolha de fundos que permite a
continuidade desta tradição. Estes peditórios fazem-se ao som da gaita de foles e do tambor e com recurso
à dança. Os peditórios são efetuados porta a porta em homenagem aos Santos Patronais e à fertilidade da
terra. De referir ainda que na Festa do Menino ou Festa da Velha que se celebra em Vila Chã da Braciosa são
realizadas pinturas faciais e são usados disfarces durante os peditórios (Costa 2017; Ferreira 2105).
192 // Novas
maioridade8. A música, presente em algumas destas manifestações, nomeadamente na re-
gião da raia, realizada por instrumentos tradicionais entre eles a Gaita-de-Foles, a Flauta e
o Tamboril, resulta imprescindível e diferenciadora, conferindo grandiosidade aos atos mais
solenes de cariz religioso, mas também, aqueles de cariz profano (Costa 2017; Ferreira 2105).

A purificação
A queima de elementos fantásticos que serão os meios pelos quais se expurgam todos
os males, acontece em diversas localidades do país (Costa 2017). Nestes rituais e ritos, en-
contramos muitas vezes associada a prática do escárnio e do maldizer como forma de purga
social, usando não só a sátira como o fogo. A crítica, como ritual profano e, simultanea-
mente, a presença do lado purificador e sagrado da confissão pública de todos os males, é
realizada pela altura de final de Inverno e início da Primavera, na prática dos Casamentos e
Testamentos, bem como nos Julgamentos e nas Queimas, formas de purificação das gentes
e das comunidades. Estes elementos estão presentes principalmente nos rituais com másca-
ra realizados em Portugal, rituais esses que exigem a leitura de Testamentos, nomeadamen-
te aqueles que ocorrem na Festa da “Belha, Bailador e Bailadeira” em Vila Chã da Braciosa,
na Festa de Ano Novo e do “Belho” e Galdrapa, Bailador e Bailadeira de São Pedro da Silva
e, na Festa de Santa Luzia, também denominada de Festa da “Belha”. Nesta ação, todos
os males da sociedade são eliminados, conduzindo à purificação de todos e da sociedade
onde se inserem9. Da mesma forma encontramos o Enterro do Galo na Guarda, a Queima
do “Santo” ou dos Judas em Vale-de-Ílhavo, ou a Queima da Comadre e Compadre em
Lazarim. Diversas figuras empalhadas de Caretos são também queimadas em Podence e
Bragança, em rituais de purificação e renovação, com vista à entrada na Quaresma. As
funções dos mascarados passam ainda pela purificação que advém da prática de uma crítica
social dos atos de cariz reprovável por parte de alguns membros ou grupos da comunidade.
Assumindo o papel de profetas, levantam a voz perante todo o povo e apontam o dedo

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


aos prevaricadores (Costa 2017). Esta ação dos mascarados faz, no seu elemento satírico,
uma ponte com a comédia aristofânica que surgiu para purificar a comunidade de todos os
males sendo o tempo do Solstício de Inverno, o momento mais oportuno para se efetuar10.
Nestas festas assistimos à luta entre dois opostos: o bem e o mal. Presentes nas personagens
dos mascarados, mas também na luta e nos confrontos entre eles, visam a que o bem se

8
O consumo de álcool, e no caso de os Cardadores de Vale-de-Ílhavo, unicamente o vinho tinto e o bagaço,
são uma constante (Ferreira 2016).
9
Neste contexto, podemos referir ainda todas as Festas que concernem o Dia da Morte ou a Quarta-feira de
Cinzas; a Morte e Diabos que se celebra em Vinhais e a Morte Diabo e Censura, em Bragança.
10
Estas ações são também visíveis em localidades da comarca de Aliste (Zamora) nomeadamente com a presença
do Zangarrón de Montamarta em Espanha.
193 // Novas
sobreponha ao mal, purificando toda a comunidade, contribuindo para que um novo ciclo
de vida e de colheitas se faça, e venha próspero em alento e regeneração11.

A fertilidade
No que concerne os ritos de fertilidade, podemos referir em exemplo o ritual do Carocho
e da “Belha”, um casal, em Constantim. Acompanhados pelo grupo de Pauliteiros, reali-
zam um peditório por todas as casas da aldeia onde são distribuídos tremoços, de modo a
concretizar a fartura e a fertilidade. Também designado de convite, esta prática visa reforçar
esta simbologia da fertilidade, assim como os jogos amorosos que são notoriamente apela-
tivos do ponto de vista sexual (e que chegam a simular mesmo o ato sexual). Sabemos que
os adereços são muitos. No que concerne o Chocalheiro da localidade de Bemposta, e a
prática de um ritual de peditório, notamos, para além do uso da máscara, o uso de chifres,
duas laranjas espetadas nas suas pontas, barbicha de bode no queixo, uma bexiga de porco
cheia de ar pendendo na nuca, uma laranja de baixo relevo na testa. Em outro, num dos
lados da face encontramos uma serpente e no outro uma salamandra (Ferreira 2015)12.
Devemos referir que todos estes elementos remetem para a simbologia da Terra-Mãe e para
as funções do Chocalheiro. Estes rituais e ritos podem ser inscritos nas funções propiciatórias
dos mascarados; a generosidade do povo manifestando-se nos peditórios. Simbolicamente
e dentro do espírito da religiosidade popular e do paganismo funcional, as dádivas con-
têm um ato propiciatório: dar para que a divindade retribua a oferta. O ato de chocalhar,
numa alusão clara ao ato sexual e ao rito de fertilização das raparigas, encontra-se também
associado à prática dos Caretos de Salsas, Lazarim ou Podence, bem como ao realizado,
utilizando as cardas, pelos Cardadores da região de Vale de Ílhavo.

Paisagens sonoras de além-mar


Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

De acordo com Andreotti (2012) o olhar da paisagem cultural é o olhar do homem


culto que tenta decifrar as suas mensagens, mensagens que se mostram sonoramente per-
suasivas para os que dela conseguem tirar sons e sentidos. Dos seus estudos sobressai que
a erudição é fundamental para a apreensão da totalidade da paisagem cultural; esta tota-
lidade, resultando da apreensão integral dessa paisagem. A paisagem encerra em si então
uma riqueza que movimenta o espaço, confidenciando ao homem distintos registos, regis-
tos não só sonoros, como visuais. São, portanto, percebidas diversas paisagens sonoras e

11
Esta luta, para além de acontecer nas práticas e eventos propostos em Portugal, encontra-se patente, e
delineada, nos cortejos do Boi-Bumbá e da Diablada além-mar (Furlanetto 2017).
12
Recorrendo ainda a uma grande serpente que lhe envolvia todo o corpo e a uma tenaz com a qual seviciavam os
presentes, os rapazes atemorizam a todos com as suas práticas, práticas essas que visam a fertilidade (Ferreira 2015).
194 // Novas
sonoridades, sonoridades essas que descerram imagens exclusivas, sendo que as paisagens
encelam uma fisionomia, um olhar, uma escuta, uma expectativa, uma lembrança particu-
lares. Para efetuar essa escuta, acedendo ao mundo geográfico que esta detém, a interpreta-
ção se dá numa perspetiva geográfica emocional, a partir da escuta atenta dos interlocutores
e dos elementos sonoros da festa. Esta interpretação, explora as faces delineadas na intimidade
das relações dos sujeitos entre si e com o lugar. A busca do potencial expressivo das pai-
sagens é realizada pelo testemunho poético e literário, filosófico ou ritualista, artístico ou
figurativo que dispõem, meios através dos quais o contexto geográfico se mostra. Neste
sentido, e segundo Furlanetto, “a interpretação da paisagem é atravessada pela arte, pois
as emoções e os sentimentos impulsionam nossa liberdade espiritual, enriquecem nossa
consciência e nos transmitem o profundo significado do mundo que nos circunda. Nesta
direção, a paisagem pode ser vislumbrada de uma maneira envolvente e solidária, capaz de
revelar a criatividade de cada ser humano, promovendo o reconhecimento do outro em
sua alteridade e dignidade. Portanto, uma geografia emocional, que, legitimando a liber-
dade de criarmos nossos próprios mundos, contempla todos os homens e suas paisagens”
(2017: 95). A paisagem cultural aparece, assim, interligada ao espaço vivido, ao sentido de
lugar e enraizamento, e às questões identitárias, revelando-se essencial na identificação e
preservação dos territórios. Ora, não serão todas estas paisagens e manifestações culturais
semelhantes nos seus atributos e nas suas intenções? Não está o homem intimamente liga-
do ao oculto e ao fantástico através das suas paisagens, máscaras e rituais? Não serão estes
elementos os fios condutores de diferentes histórias, histórias que se tocam e vislumbram
desde tempos idos? Se os elementos zoomórficos são a ligação do homem ao culto das
divindades desde sempre, são também os elementos que nos remetem para os feiticeiros,
os xamãs e agentes de cura e purificação. Todos se tocam, e no nosso entender, não só nos
motivos que as determinam, nos elementos que as compõem, mas também nas narrativas
poéticas, visuais e sonoras que executam, nas intenções e nos atos, mas ainda nos resultados,

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


nas graças e bênçãos que detém.

A Diablada
Nas celebrações que aqui analisamos existe um forte cunho de autenticidade, pois que
preservam o seu significado e finalidade originais. A criatividade na construção de perso-
nagens com uma rusticidade únicas mostra uma necessidade de revitalização de saberes,
de tempos, espaços e tradições13. No caso de a Diablada presente em terras do Continente
Sul Americano, somos a destacar a natureza dos desfiles e dos elementos que o compõem.
Sendo um caso que deriva do culto à Virgem da Candelária e do agradecimento à Virgem
13
A revitalização destes personagens traz a revitalização dos lugares e o desenvolvimento das regiões pela
movimentação de pessoas e bens e a dinamização do comércio e turismo locais.
195 // Novas
pelo milagre produzido na mina, os constituintes que a formam usam a máscara como ele-
mento que outorga poderes sobrenaturais, permitindo-lhes todas as licenciosidades. Neste
caso, os elementos zoomórficos referem-se ao Diabo, e aos atributos que lhe são próprios;
os outros, às imagens que nos são dadas pelo culto católico e a vitória do bem (Anjos e
Deuses) sobre o mal (Diabo e Caporales). Os desfiles e os corsos, mostram a luta do bem
contra o mal, ilustrando a história que lhe deu origem, a Lenda da Mina de Lakaikota e
da Virgem de Candelária.

O Boi-Bumbá
No caso do Boi-Bumbá estamos perante uma encenação de rua que nos remete para
uma lenda, uma história fantástica onde os intervenientes buscam o contacto e as benesses
de seres transcendentais. De uma forma ou de outra, somos levados a refletir sobre a vida
e a morte, os cultos ao fantástico. Nesta manifestação cultural, a ligação com as divindades
realiza-se na crença de que a ligação ao animal, ao boi, decorrida da necessidade de satisfa-
zer os desejos de uma grávida, permite o rejuvenescimento do vigor e da força necessários à
conceção de uma vida, ao trabalho e à saúde de todos. Todos estes elementos nos remetem,
não só para a vida, como para a morte, o pecado e a virtude, a vingança e o perdão, o sa-
grado e o profano, a purificação e o afastamento de todos os males, de todos os prejuízos.
Concomitante com os nossos objectivos, diversos autores e estudos corroboram o olhar
que se nos apraz realizar sobre estas manifestações culturais onde a máscara se mostra de
diferentes modos em face dos lugares onde é criada, resultado dos materiais, mas também
das intenções, das capacidades e constrangimentos dos artesãos, do seu modo de fazer, de
viver e dizer arte (Costa 2017; Furlanetto 2017; Ferreira 2016; Ferreira 2105).
Tornando-se vivência dos lugares e dos meios de que o homem dispõe, os materiais
dão-nos as formas, os guarda-roupas e as indumentárias diferenciadas, os instrumentos e a
música utilizada. No caso do Boi-Bumbá, também conhecido como Bumba-meu-boi ou
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Boi de mamão14, o som e a narrativa são o fio condutor do espetáculo. A música, o texto
falado e o canto são a base das suas diferentes representações (Furlanetto 2017). A narrati-
va sobre o mito da morte e ressurreição, anuncia os personagens que comunicam os valores
e as histórias do espaço vivido. Ao expressar as particularidades de cada grupo, de cada
local, o som se apresenta delineador de uma paisagem geográfica e cultural que delimita
lugares, emoções. Este leque de emoções, caracterizando o ser humano, é o mesmo que se
anuncia premissa da geografia poética dos espaços íntimos, a mesma que nos permite criar
textos musicais que traduzem essa mesma paisagem.

14
Designação que adquire conforme a região que o sustenta.
196 // Novas
Conclusão

Ao longo deste trabalho percebemos que não só a paisagem sonora, como o uso da
máscara, das indumentárias, bem como a natureza das coreografias que se executam, se
tornam próprias dos lugares. Se em Portugal se encontram ligadas aos rituais de finais de
Inverno e início de Primavera, aos ritos de iniciação e fertilidade, além-mar, encontram-
-se vinculadas às Festas em honra da Virgem da Candelária e às Festividades Joaninas.
Notamos ainda que surge idêntico o ensejo de fomentar e produzir o anonimato dos par-
ticipantes, de os tornar possuidores de forças e energias ditas sobrenaturais, de os tornar,
de alguma forma, superiores, de maneira a lutarem contra o mal. Se os materiais, as formas
e os carateres são similares em todas elas, a exuberância torna-se maior além-mar. A asso-
ciação de uma narrativa confere-lhe uma componente que, em Portugal, não está patente.
A forma como se define e constrói o musical, também.
Em Portugal não existe uma narrativa musical. Quando existe é rudimentar. No en-
tanto, num e outro lado do mundo, surgem como recursos do território de inegável valor,
não só cultural, como social, económico e territorial. A componente musical surge sempre
como construção sonora onde, para além do som ambiente do espaço físico, arquitectó-
nico e urbano escolhido, se sobrepõe aquele executado. Encontramos, muitas vezes, um
sonoro que nos provoca de maneira quase instantânea e que alude sempre a um sentimen-
to, uma emoção, uma vivência. Sabemos que se constrói num espaço de som próprio ao
lugar e território onde se manifesta, constituindo-se dos sons e verbalizações que surgem
no espaço da performance. Num e noutro caso o sonoro surge como suporte a uma ação
física, emocional, conceptual, social e vivencial.
O património imaterial, presente nos saberes, fazeres e tradições, torna-se nas ma-
nifestações ora estudadas, uma riqueza que não se pode menosprezar. Urge atuar no
sentido da promoção da cultura e do património, sendo que todos podemos, e devemos,

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operar no sentido de o identificar, estudar, integrar e valorizar, para que, as diferentes
festividades, festas e romarias, rituais e ritos, se possam concretizar num meio de identi-
ficação e caracterização de territórios, mas também em novos espaços de exteriorização
de um imaginário, em si, real.
197 // Novas
Referências Bibliográficas

Andreotti, G. (2012). O senso ético e estético da paisagem, Ra’e ga. Curitiba, nº 24, p.5- 17.
Costa, L. F. (2017). Caretos de Podence. História, Património e Turismo. Óbidos: Poética Edições.
Ferreira, H. (2015). Rituais com Máscara – Rota das Máscaras em Portugal. Miranda do Douro:
Projestur.net.
Ferreira, H. (2016). Rituais com Máscara – Rota das Máscaras em Portugal. Ílhavo: Projestur.net.
Furlanetto, B. H. (2017). Paisagem Sonora do Boi Mamão Paranaense, Uma Geografia Emocional.
Curitiba: UFPR Editora.
Morin, E. (1970). O homem e a Morte. Lisboa: Publicações Europa América.
Serra, M. (2001). O jogo e o trabalho. Lisboa: Edições Colibri.
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
198 // Novas
Espacios de devoción de la raya
Hispano-Portuguesa.
Análisis antropológico y turismo religioso
de los paisajes sagrados de frontera

Pedro Javier Cruz Sánchez1


Universidade de Tras-os-Montes e Alto Douro (UTAD)
Miembro de CETRAD (Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento)

Introducción

Dentro del territorio fronterizo que comprende la Raya hispano-portuguesa, a la altura


de las provincias de Zamora y Salamanca, se levantan una serie de santuarios y ermitas ma-
rianas, en las que se celebran de forma anual importantes romerías de carácter internacional,
cuyas imágenes son, además, “hermanas”: Nuestra Señora de la Encarnación en Villalcampo;
Nossa Senhora de la Luz en Costantim; Nuestra Señora de la Soledad de Alcañices; Nuestra
Señora de la Tuiza en Lubián; romería de la Petisqueira entre Petisqueira y Villarino de
Manzanas; romería de los Viriatos en Fariza; antigua romería de la ermita de Nossa Senhora
da Consolaçao en Forcalhos o Nossa Senhora de Nasso en Miranda do Douro, entre otras
muchas. Todas ellas son lugar de confluencia de un importante número de romeros portu-

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gueses y españoles en las que se reivindica una devoción “internacional” de sus imágenes,
algunas de las cuales “emigran” temporalmente de sus lugares de culto para hermanarse en
unos espacios neutros en los que se efectúan interesantes rituales colectivos, concitadores de
un importante número de personas. Al mismo tiempo vienen a afianzar, de manera simbó-
lica, los límites territoriales de dichas advocaciones. Tratamos de aproximarnos, desde una
óptica antropológica pero también desde un punto de vista del turismo religioso a dichas
celebraciones, los paisajes, las motivaciones y la generación de caminos sagrados o “vías sa-
cras” que son rutas sobre las que se deben plantear el establecimiento de posibles itinerarios
culturales de santuarios rayanos hispano-portugueses, en virtud del interés turístico que las
manifestaciones religiosas que se documentan en este territorio de frontera.
1
Investigador post-doctoral
199 // Novas
La frontera como espacio simbólico

Por fortuna, la literatura científica sobre las fronteras, como espacios de contacto y
como lugares de conflicto, es notablemente extensa; la frontera, la raya, el confín, el limes,
lo liminal, en definitiva, cuenta con un enorme interés desde el punto de vista geoestratégi-
co para los Estados para quienes tiene una gran importancia política, cultural, económica,
además de simbólica “tanto en la reproducción de los modelos de identificación interna-
cional, como en la justificación de la existencia de los mecanismos de defensa/protección/
represión” (CAIRO, 2018: 17) que suponen, además, una estrategia de la población para
la territorialización de su entorno y la diferenciación respecto al otro. La creación de la
frontera, frente al concepto de confín (ZANINI, 2000) establece un espacio intermedio
que supone una separación, “un límite mutable a partir del que nos reconocemos y re-
conocemos a unos otros siempre cambiantes” (VALCUENDE, CAIRO, GODINHO,
KAWANAGH y LOIS, 2000: 19). En este sentido, las fronteras, para ciertos autores del
ámbito anglosajón, son espacios paradójicos, enclaves en constante negociación (ibidem, 26).
Una vez que en la actualidad se ha superado el concepto de frontera natural, muy del
gusto de los estudios geográficos clásicos, su análisis se centra tanto en las relaciones inter-
estatales como la óptica antropológica, aspecto ya tratado por Carmelo Lisón (1994) donde
destaca su valor como espacio simbólico (RIVAS, 1994). Dentro de un territorio determi-
nado, la frontera es un ámbito espacial inestable que se encuentra en “continuo proceso de
restablecimiento mediante prácticas constructoras y portadoras de significados” (WILSON
y DONNAN, 2005: 4), lugares donde ocurren ciertos acontecimientos que no se dan en
otros territorios. Constituyen espacios culturales en los que se definen localizaciones muy
propicias para la aproximación y el encuentro transcultural, en especial el religioso. En
estos espacios se genera lo que Paula Godinho denomina una cultura de orla (GODINHO,
2011) o cultura de frontera (URIARTE, 1994), tal y como la encontramos en algunas co-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

marcas de la Raya hispano-portuguesa, especialmente la extremeña (VALHONDO, 2010),


si bien se repite en otros ámbitos peninsulares como en el Pirineo hispano-francés donde
se documentan estos tipos de contactos intracomunitarios tales como el Tributo de las tres
Vacas2 y la fórmula Pax en avant que lo acompaña y que confirma una secular disposición
a firmar pactos entre comunidades vecinas al margen de los Estados (MAIRAL, 2010: 34).
La frontera es, por definición, un espacio de trasgresión política, económica, lingüís-
tica, demográfica o cultural que puede desarrollarse de manera física –como puede ser el
contrabando- o de forma simbólica, a través de determinados mecanismos de permeabili-
dad sociocultural que estructuran cierta interdependencia simétrica asentada en relaciones
2
Cada 13 de julio los representantes de los valles de Roncal (Navarra) y Baretous (Bearn) rememoran bajo
esta fórmula un acuerdo fronterizo de paz que ya se documenta en 1375.
200 // Novas
de complementariedad (MEDINA, 2018: 137) entre dos comunidades vecinas. Estos me-
canismos de contacto entre poblaciones permiten transgredir las fronteras en momentos
determinados del año a través de ciertas prácticas colectivas –caso de las romerías y otras
manifestaciones de similar signo- que propician espacios de encuentro, de intercambio
y de hibridación (BERNAL, 1998). Así es como en la raya hispano-lusa convive junto a
la frontera política que separa ambos países una frontera “osmótica”, permeable a las in-
fluencias de unos frente a los otros (CAIRO, 2018: 35). A través de los contactos creados a
través de los mecanismos rituales de las romerías se generan temporalmente, además, una
suerte de “territorio de gracia” (CHRISTIAN, 1978: 65), donde las fronteras pueden ser
transgredidas y donde se favorece el encuentro transcultural con el “otro”. La especificidad
de la frontera genera unos espacios rituales y de convivencia que no encontramos en otros
ámbitos territoriales donde el concepto de “otros” aparece matizado por la vecindad cer-
cana. Como apunta Anderson: “las fronteras constituyen los límites del comportamiento
permitido, pero dichos límites son necesariamente percibidos de formas muy diferentes
por los distintos autores” (ANDERSON, 1996: 7)3. En algunas narraciones la frontera
aparece como un espacio en el límite más allá de la normalidad; es el espacio de los relatos
épicos, lugar solo para personajes extraordinarios, hechos o situaciones límite, para el mal
y casi siempre para el misterio (MAIRAL, 2010: 43).
La raya hispano-portuguesa se configura como un territorio fronterizo con una marca-
da personalidad cuya identidad equivale a tradición; tal y como apunta Eusebio Medina, la
memoria colectiva de los pueblos rayanos configura todo un repertorio de símbolos, pro-
cedimientos, escenificaciones, etc. en los que se condensa la identidad de un territorio que
se puede contraponer a otras identidades vecinas. Esta tradición que se percibe en la raya
luso-española sirve para legitimar las posibles tensiones o conflictos existentes y su ulterior
fortalecimiento a través de una identidad compartida en lo simbólico (MEDINA, 2008:
126), a través de rituales colectivos que sirven de “válvulas de escape” a esos conflictos

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


nacidos de la convivencia cotidiana. Los soportes de la identidad los podemos encontrar
en multitud de ámbitos, especialmente en espacios de representación colectiva, donde se
suele mantener viva la memoria común y la tradición. Como apunta Medina, las fiestas
y las celebraciones de esta colectividad, tanto locales, como comarcales, regionales o su-
pranacionales son acontecimientos, habituales o excepcionales, en los que se acumulan
y escenifican los símbolos y las representaciones de la identidad social de los grupos
poblacionales que viven en un territorio más o menos extenso (ibidem, 126).
En este sentido, la existencia de rituales como elementos tradicionales y tradiciona-
lizadores, son en sí mismos mecanismos identitarios de una comunidad; “la fiesta, en

3
Citado por VALCUENDE et alii, 2018: 30.
201 // Novas
tanto que ruptura con lo cotidiano, adquiere en la frontera un aspecto de transgresión
que no es solamente simbólico: refuerza las relaciones de parentesco y amistad, mantie-
ne y recrea los intercambios comerciales, potencia la colaboración de las instituciones
locales, y en definitiva, rompe la definición de barrera que desde el estado se le había
dado a este límite” (VV.AA., 1999: 172-173). Uriarte, en este sentido, apunta que
“(…) la transgresión sistemática de La Raya constituye un paradigma central en la di-
námica social de la cultura de frontera en el Área Rayana” (URIARTE, 1994: 198), que
siempre se acompaña de un riesgo pero también de una recompensa que se encuentra
al otro lado (MAIRAL, 2010: 40).
Estas reflexiones, traídas a vuelapluma, nos sirven de preámbulo a una realidad
que constatamos en la raya de las provincias de Zamora y Salamanca con Portugal
relativa a la existencia de un particular escenario conformado por una serie de ermitas,
romerías y advocaciones que podemos catalogar como “de frontera”, que dan pie a la
existencia de un complejo paisaje sagrado generado en la misma frontera de ambos
países o en sus inmediaciones que conforman una barrera espiritual, continuamente
transgredida en el tiempo festivo de cada santuario y ermita, que se levanta a lo largo
de esta frontera simbólica.

Un difuso territorio sagrado de frontera: ermitas, santuarios y romerías


en la raya Hispano-Portuguesa

Recogía Bill Kawanagh, en una de sus incursiones de investigación por las tierras de
frontera entre Galicia y Portugal, la afluencia de gallegos a las romerías de algunos san-
tuarios del otro lado de la raya y al contrario, de romeros portugueses a las principales
romerías de la comarca. Parece que las respuestas que halló Kawanagh a la pregunta de por
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

qué tal devoción a los santos y vírgenes del país vecino coincidía en todos los casos; sus
respuestas apuntaban a la creencia de que estos santos y vírgenes de frontera eran especial-
mente poderosos, hasta tal punto que no los consideraban “extranjeros” y eran tan suyos
como de los portugueses (KAWANAGH, 2018: 251). En este sentido, la asimetría reli-
giosa que existe entre los pueblos que se encuentran a ambos lados de la raya se equilibra
por medio de este flujo de peregrinos en el que las fuerzas y choques sociales y culturales
se contrarrestan a través de la celebración de romerías internacionales. La frontera rígida
torna así en momentos determinados del año en frontera laxa que atenúa los conflictos
trans-regionales, una frontera abierta en la que se crean espacios intermedios de límites
mutables que forman parte de una especial geografía sagrada.
202 // Novas
Vigías de la frontera: ermitas y santuarios en la raya hispano-portuguesa
A ambos lados de la frontera hispano-portuguesa, a la altura de las provincias de
Salamanca y Zamora, se documentan un elevado número de ermitas y santuarios que fla-
quean, como si de vigías se tratase, el Duero-Douro y la denominada Raya seca. Trazando
una línea norte-sur que discurre desde las comarca de Alba, Tábara y Aliste, en Zamora, la
Terra Fria Transmontana perteneciente al concelho de Bragança y las comarcas del oeste
salmantino y las fregresias pertenecientes al concelho de Sabugal, se levantan algunas er-
mitas de marcada orientación rayana4; destacan por localizarse en puntos elevados, una ca-
racterística que comparten buena parte de las construcciones sagradas portuguesas a través
de lo que Nuno Resende ha dado en llamar acertadamente “hagiotopografía” (RESENDE,
2015: 354-357), esto es, ermitas y capelas en puntos destacados del terreno, habitualmen-
te en cabezos elevados bien visibles incluso a cierta distancia que permiten ser no solo
referencias espirituales sino también referencias visuales para los pobladores de la comarca.
Al otro lado de la raya también encontramos una larga lista nómina de ermitas y santua-
rios5, si bien las características de su localización topográfica resultan más plurales ya que las
hay que se localizan en espacios indiferenciados en lo topográfico y otras –las que se levantan
en los ribazos de Las Arribes-, suelen estar es puntos destacados del terreno, lo que permite,
como sus homónimas portuguesas, que se vean desde distancias ciertamente extensas.
Ermitas, santuarios y capelas de uno y otro lado de la raya forman, en conjunto, un
gran escenario sagrado, un territorio de confluencia de construcciones, romeros, peregrinos
y prácticas que, en cierto modo, hitan la frontera y la protegen y delimitan de manera sim-
bólica. Nos encontramos ante un ámbito que en sí mismo y a través de sus marcas –mar-
ches- (CARERI, 2013 y 2017: 11) forma un paisaje en el que las ermitas vendrían a marcar
la frontera o borderlans (BRADLEY, 2000: 74) de un espacio simbólico que traspasa las
propias fronteras físicas políticas. El valor como hito demarcador y referencia visible (pero

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


4
Capela de São João das Arribas (Aldeia Nova); capela de Santa Caterina (Miranda do Douro); ermida de
San Amaro (Mazouco); mirador de Penedo Durão (Poiares); capela de Santo André (Almofala); capela de
Santo Cristo o do Senhor do Pé da Cruz (Escarigo); capela de Nossa Senhora de Póvoa (Vale de Coelha);
capela Nossa Senhora do Bom Sucesso (São Pedro do Rio Seco); ermida da Nossa Senhora do Consolação
(Aldeia da Ponte) y ermida de Nossa Senhora da Consolação (Forcalhos). En el interior de la Terra Fria
Trnasmontana, encontramos el Santuario de Nossa Senhora da Hera (Cova de Lua); santuario de Santa Ana
(Meixedo); santuario de Nossa Senhora dos Remedios (Tuizelo); Santuario de São Tiago (Edral); santuarios
de Nossa Senhora da Saúde (Vale de Janeiro); santuario de São Bartolomeu (Argozelo); santuario de Nossa
Senhora de Nasso (Póvoa) y capela da Santisima Trindade (Fonte de Aldeia).
5
Santuario de Nuestra Señora de la Tuiza (Las Nieves) (Chanos); oratorio de las Ánimas (Rihonor de Castilla);
restos de la Ermita de San Esteban (Pino del Oro); restos de la Ermita de San Mamed (Villardiegua de la
Ribera); ermita de Nuestra Señora del Castillo (Fariza); ermita de San Miguel (Pinilla de Fermoselle); san-
tuario de la Virgen de la Bandera (Fermoselle); ermita de Cristo del Pino (Vera Cruz) (Fermoselle); ermita
de San Cristóbal (Villarino de los Aires); ermita de Santa Marina (Aldeadávila de la Ribera); capilla de la
Virgen de la Code (Mieza); ermita de Ntra. Sra. del Castillo (Vilvestre); ermita de la Anunciada (Valicobo,
La Fregeneda); “La Sacristía” (Villar de Ciervo); ermita del Nazareno (Aldea del Obispo); ermita del Cristo
de la Salud (Alameda de Gardón) y ermita del Cristo (Fuentes de Oñoro).
203 // Novas
también presente en el mapa mental) de las poblaciones rayanas se encuentra presente en
la región Duero-Douro, especialmente en el Alto Douro vinhateiro donde los ribazos del
tramo río que discurre entre Freixo de Espada a Cinta y Oporto aparece flanqueado en
ambas orillas por un buen número de pequeñas capelas y hornacinas, situadas estratégica-
mente en los puntos más peligrosos del río, que servían de protección a los ocupantes de
las embarcaciones o rabelos cargados con los toneles de vino camino de las bodegas de Peso
de Regua y Oporto. Un documental de los años 40 del pasado siglo6 muestra el arriesgado
viaje que los rabelos llevaban a cabo por el curso de un río Duero aún sin domesticar y la
práctica de descubrirse y rezar una salve, por parte de los tripulantes de estos barquichuelos
de madera, a la altura de las capelas y hornacinas que se levantaron por sus orillas. Tal era
la importancia de estas referencias visuales y espirituales7 que la planimetría8 de mediados
del siglo xix recogía la localización de todas estas ermitas desigualmente distribuidas a lo
largo del curso del Duero. Algunas de estas ermitas9 aún se conservan en las partes altas de
la región, coronando los imponentes cantiles que flanquean las quintas vinhateiras.
La mayor parte de las devociones de estas pequeñas ermitas y capelas tuvieron un al-
cance local o, a lo sumo, comarcal, como ha venido siendo habitual en la mayor parte de
las construcciones de este signo en otras regiones peninsulares. No obstante, en la raya his-
pano-portuguesa se erigen un conjunto de ermitas, algunas de ellas localizadas en puntos
algo distantes de la frontera, que trascienden la devoción local para alzarse en devociones
transnacionales o devociones de frontera. Existen algunos ejemplos de ermitas cuya devo-
ción traspasa los límites administrativos (e incluso diocesanos), alcanzando a los romeros de
ambos países. Es el caso de la vieja romería que se celebraba en la ermida de Nossa Senhora
da Consolação, en Forcalhos (concelho de Sabugal), la cual situada muy cerca de la raya
con la provincia de Salamanca, acogía romeros de ambos países (GONÇALVES, 1997). En
la provincia de Zamora, destaca la romería denominada de los Viriatos, que terminaba en
la ermita de Nuestra Señora del Castillo de Fariza, lugar donde confluían no solo los pere-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

grinos de los pueblos de la comarca de Sayago (Cozcurrita, Mámoles, Palazuelo, Badilla y


Argañín), quienes acudían con sus pendones (los Viriatos), sino romeros peregrinos del país
vecino en virtud del “hermanamiento” de la imagen con otras vírgenes –Nuestra Señora de
la Encarnación o Valverde, Virgen del Naso, Nuestra Señora de la Luz y Nuestra Señora de
Gracia- (RODRIGUEZ PASCUAL y RODRÍGUEZ IGLESIAS, 2011: 262-263).

6
Documental que se expone en el Museu do Douro de Peso de Regua.
7
Las capelas son bien visibles desde la orilla, pero las hornacinas –un simple hueco en la roca en la que se
pintaba la imagen de una virgen-, no se podían ver desde el curso del río, circunstancia que nos lleva a pensar
que sus localizaciones eran “sabidas” por los habilidosos tripulantes de los rabelos.
8
Mapa do Paíz Vinhateiro do Douro, obra de Joseph James Forrester (1852) (MARTINS PEREIRA, 2003: 113).
9
Ermida de São Salvador do Mundo; ermida de São Leonardo de Galafura; ermida de São Gabriel…
204 // Novas
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Lam. 1. Ermitas y santuarios españolas en la frontera: 1.- Santuario de Nuestra Señora de la Tuiza (Las Nieves),
Chanos; 2.- Oratorio de las Ánimas (Capilla caminera), Rihonor de Castilla; 3.- Restos de la Ermita de San
Esteban, Pino del Oro; 4.- Restos de la Ermita de San Mamed, Villardiegua de la Ribera; 5.- Ermita de Nuestra
Señora del Castillo, Fariza; 6.- Ermita de San Miguel, Pinilla de Fermoselle; 7.- Santuario de la Virgen de la
Bandera, Fermoselle; 8.- Ermita de Cristo del Pino (Vera Cruz), Fermoselle; 9.- Ermita de San Cristóbal, Villarino
de los Aires; 10.- Ermita de Santa Marina, Aldeadávila de la Ribera; 11.- Capilla de la Virgen de la Code, Mieza;
12.- Ermita de Ntra. Sra. del Castillo, Vilvestre; 13.- Ermita de la Anunciada, Valicobo (La Fregeneda); 14.- “La
sacristía” Villar de Ciervo; 15.- Ermita del Nazareno, Aldea del Obispo; 16.- Ermita del Cristo de la Salud,
Alameda de Gardón; 17.- Ermita del Cristo, Fuentes de Oñoro.
205 // Novas
Lam 2. Algunas ermitas y santuarios portugueses de frontera: 1.- Ermida de São João das Arribas, Aldeia Nova;
2.- Capela de Santa Caterina, Miranda do Douro; 3.- Ermida de San Amaro, Mazuoco; 4.- Mirador de Penedo
Durão (con Virgen), Poiares; 5.- Capela de Santo André, Almofala; 6.- Capela de Santo Cristo o do Sr. do Pé da
Cruz, Escarigo; 7.- Capela de Nossa Sra. da Póvoa, Vale de Coelha; 8.- Capela Nossa Senhora do Bom Sucesso,
São Pedro do Rio Seco; 9.- Ermida da Nossa Senhora do Consolação, Aldeia da Ponte.
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Un thopos: el tema de las siete vírgenes hermanas


Sin duda alguna, las devociones de frontera compartidas por España y Portugal es
un tema de estudio de enorme importancia para entender la configuración simbólica del
territorio fronterizo de esta parte de la Península. Especialmente interesante es el conjunto
de ermitas que se levantan en la Terra Fria Transmontana y la comarca de El Aliste, en el
concelho de Bragança y la provincia de Zamora respectivamente, las cuales ha generado,
además, una ruta de las romerías de la raya hispano-portuguesa.
Ya en su día Antonio Cea trató el tema del parentesco entre vírgenes, especialmente si
existe relación de vecindad entre ellas. Apuntaba las razones por las cuales existía esta pa-
rentela entre imágenes; la primera de ellas podía ser por el préstamo del espacio sagrado en
206 // Novas
el que una advocación se hospedaba en tanto se construía su morada, caso de lo que ocurre
con las vírgenes zamoranas de La Concha y La Hiniesta. En otras ocasiones por causa de un
milagro acaecido; las más comunes, sin embargo, por convención pactada de carácter polí-
tico y jurídico y, sobre todo, por vecindad que suele ser el caso más habitual (CEA, 1992:
18). Se establece así una jerarquía de imágenes reflejado en las procesiones donde se sigue
un protocolo estrictamente estipulado en virtud de la antigüedad, los títulos que ostenta la
imagen, la importancia del santuario, los poderes taumatúrgicos que cuenta, etc. Es habitual
que las vírgenes cambien temporalmente de espacio de culto, mientras duran los traslados de
un templo a la iglesia parroquial, durante las novenas y rogativas, durante las “visitas” a otras
vírgenes hermanas, etc. (ibidem, 18). Como apunta Cea el thopos de las vírgenes parientes,
según las áreas geográficas, suelen variar en número desde tres10 a siete u ocho, si bien siete es
el número más habitual, como ocurre en Asturias11 y Salamanca12 (ibidem, 19), en El Bierzo13
(León) (ALONSO y DIÉGUEZ AYERBE, 1984: 213-215), en Coimbra14 o en Bragança15.
Entre Zamora y Portugal aparece este fenómeno de las siete vírgenes hermanas16; a
diferencia del resto de los ejemplos que hemos citado donde la parentela se desarrolla a
nivel comarcal, abarcando la devoción un territorio más o menos concreto -habitualmente
un valle-, las siete vírgenes hermanas zamorano-portuguesas desarrollan sus romerías en
ambos países, teniendo un alcance auténticamente transnacional en el que la frontera es
transgredida de manera continuada.

10
En Zamora la Virgen de la Concha, de la Hiniesta y del Viso, las cuales se hermanaban en los momentos de
adversidad para sus devotos.
11
Covadonga, La Guía de Llanes, Las Nieves de Póo, El Carmen en Celorriu, La Salud en Carreña y El
Rosario en Parres.
12
La Peña de Francia, Virgen del Robledo en Sequeros, La Cuesta en Miranda, La Asunción y Majadas Viejas en La
Alberca, el Socorro de San Martín del Castañar, Virgen de las Nieves en Mogarraz y el Carmen en La Herguijuela.
13
La Virgen de la Encina, la Virgen de la Peña, Virgen de las Nieves, Virgen de Fombasallá, Virgen de las

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Angustias, Virgen de los Escallos y Virgen de la Guiana.
14
Agradezco esta información al profesor Lúcio Cunha de la Universidade de Coimbra.
15
Que también denominan las Siete Damas Hermanas. Según información que recogió en su día el padre
Mourinho, una pertenece al municipio de Bragança, Senhora da Serra (Serra de Nogueira); dos pertenecen
al municipio de Miranda do Douro: Nossa Sehnora a Luz (Constantim), y la Señora del Naso, una al muni-
cipio de Vinhais, Señora de la Salud de Vale de Janeiro; una al municipio de Vila Flor, Senhora da Assunção
(Vilas Boas); una más en el municipio de Aduana de la Fe (Señora de las Nieves). En este caso, algunas de
las Siete Hermanas portuguesas comparten parentela con las Siete Hermanas portuguesas.
16
Altar de la Petisqueira (Virgen de Fátima) (Villarino de Manzanas/Petisqueira) ES/PT; La Soledad (Trabazos) ES;
La Riberinha (Quintanilha) PT; Virgen de la Salud (Alcañices) ES; Virgen de la Luz (Constantim) PT; Virgen
del Nasso de Povoa (Povoa) PT; La Encarnación (Villalcampo) ES. Hay quien incluye en esta lista de vírgenes
hermanas hispano-portuguesas a Nuestra Señora del Castillo (Pereña de la Ribera) ES. Para algunos autores, las
vírgenes hermanas se reducen a cinco: Nuestra Señora de la Encarnación o de Valverde, Nuestra Señora de la Luz,
Virgen del Nasso, Nuestra Señora de Gracia (Villamor de Cadozos) y Nuestra Señora del Castillo (Fariza). Incluso
existe otra versión más, de Rodríguez Pascual, que hermana a Nuestra Señora de la Riberinha, con Nuestra Señora
de la Salud, la Virgen de Naso, Nuestra señora de la Luz y con Nuestra Señora de la Encarnación.
207 // Novas
Lam. 3. Las Vírgenes Hermanas: 1.- Altar de la Petisqueira (Virgen de Fátima), Villarino de Manzanas/Petisqueira;
2.- La Soledad de Trabazos (ES) 3.- La Riberinha de Quintanilha (PT); 4.- Virgen de la Salud de Alcañices (ES);
5.- La Luz de Constantim (PT; 6.- Virgen del Nazzo de Povoa, Povoa (PT); 7.- La Encarnación de Villalcampo
(ES); 8.- Nuestra Señora del Castillo, Pereña de la Ribera (ES).
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

La propia ubicación de las ermitas y santuarios permite agrupar en el aspecto simbó-


lico y ritual las tierras de Aliste zamoranas y Tras-os-Montes portuguesas, al generar unos
caminos sagrados –espacios intermedios- que unen ambas regiones, viales por donde los
romeros portugueses y españoles realizan sus peregrinaciones anuales a unos puntos de
destino –las ermitas- que, en momentos determinados del año, se erigen en espacios neu-
tros donde la pertenencia a una nación u otra desaparece o, al menos, se mitiga, al amparo
del poder taumatúrgico de la imagen venerada. En este sentido, algunas ermitas y altares se
levantan en la misma raya (altar de La Petisqueira) o en sus inmediaciones (Nossa Senhora
da Luz en Constantim/Moveros), poniendo de manifiesto el carácter liminal de las romerías
y el deseo de que en el momento festivo de la celebración religiosa, la frontera se diluya o,
208 // Novas
directamente, desaparezca. La propia localización de estas ermitas rayanas nace de una leyen-
da que justifica la erección en la misma frontera; es el caso de la ermida de Nossa Senhora da
Luz, levantada en término de Constamtim, pero cuyo ambitus sagrado comparte terreno
con el término de Moveros17. Una leyenda portuguesa menciona que antes de ser ermita,
fue mezquita porque allí vivieron los moros. La leyenda confirma que la imagen apareció
en la raya que separa los dos países, si bien la imagen quiso que su morada estuviera en
tierras de Constamtim, no de Moveros ni en la misma raya.
Las romerías de la Virgen de la Luz de Constantim y la Riberinha de Quintanilha,
así como el resto de las romerías de la comarca de El Aliste se celebran en territorio de
uno y otro país, donde el protagonismo de los actores rituales, según donde se celebre, es
portugués o español. Existe, no obstante, una romería, que se celebra desde 1985, cuyo
ritual se desarrolla en uno de estos territorios neutros –concretamente en el cauce del río
Manzanas-, en la misma frontera, en un espacio que sensu stricto no es ni de Portugal ni
de España. Nos referimos a la Festiña o romería de la Virgen de Fátima, entre Petisqueira
y Villarino de Manzanas. En este caso los actores rituales son de ambas nacionalidades y se
reparten el protagonismo. Las dos comitivas parten de sus respectivos templos parroquiales
hasta el mismo cauce del río portando sendas imágenes de Fátima18. Sobre el pontón de ma-
dera que salva el paso del río, que hace de frontera entre los dos países, se celebra una misa
de campaña con las dos imágenes engalanadas, misa que se celebra en dos idiomas, tras lo
cual se desarrolla la parte festiva de la romería, con la comida campestre y la instalación de
puestos de venta de productos típicos. La creación de esta “romería internacional” de La
Festiña o de La Pestisqueira19 vendría a amortiguar, en cierta manera, las posibles tensiones
sociales de las poblaciones fronterizas que se generan en el resto de las romerías por razón de
protagonismo en la celebración religiosa y festiva. La celebración de una romería en un es-
pacio neutro que, sobre el papel, no es de nadie, supone para las comunidades de esta parte
de la frontera hispano-portuguesa un punto de encuentro en el que todos son iguales, desde

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


el punto de vista social y económico, pero sobre todo desde el punto de vista espiritual,
ya que el manto protector de la Virgen de Fátima, en su versión española o en su versión
portuguesa, ampara a todos por igual. Se erigen así las aguas santas20 del río Manzanas en
un espacio de contacto, una zona franca, en la que las tensiones intercomunitarias van a
estar mitigadas por la celebración colectiva de la romería en un espacio que no es de nadie.
17
Apunta Antonio Maria Mourinho al respecto que “todas ou quase todas as ermidas de origem medieval ou
próximas da Idade Média têm origem numa lenda (…) uma imagem aparecida em local agreste de um ermo
ou de um bosque – o povo desvia a imagem para lugar mais nobre, e ela foge para onde apareceu e ali o povo
lhe constrói o templo (…)” (MOURINHO, 1991).
18
Sobre la iconografía de la Virgen de Fátima consúltese el libro colectivo coordinado por Ricardo Aniceto (2007).
19
Se trata, en toda regla, de una “invención” política reciente que pronto se ha tradicionalizado, por meros meca-
nismos emulativos con las romerías vecinas “de toda la vida” (cfr. HOBSBAWM y RANGER, 2002: 16-21).
20
Acerca de este particular consultar el trabajo de Valencia García (2009: 2011-236).
209 // Novas
Turismo religioso en un espacio sagrado de frontera

El interés de estas romerías como fenómeno turístico no ha pasado desapercibido a las


administraciones locales que, desde hace unos años, se han embarcado en un programa
de patrimonialización de las romerías de frontera a través de varios proyectos de coopera-
ción transnacional21 (HORTELANO, 2015: 257), que se sitúa en la línea del denominado
“turismo de interior” (CALLIZO, 1997). En estas tierras fronterizas el patrimonio mate-
rial e inmaterial se erige en un recurso patrimonial (PLAZA, 2002: 97; HORTELANO
y MARTÍN, 2017: 177-179) explotado dentro de una, a veces, idílica imagen del mundo
rural del occidente castellano y leonés, si bien se ha ido intentando primar en algunos puntos
de la raya el paisaje como recurso patrimonial de primer nivel (ZULUAGA, 2006: 77-79).
En la raya hispano-portuguesa el turismo “transfronterizo”, tal y como lo denominaba
Zimmermann (2001) ha estado íntimamente relacionado con el fenómeno del excur-
sionismo, en concreto con la dinámica de los viajes (PEREIRO, 2018: 224-225) que en
virtud de las nuevas dinámicas de los movimientos entre los países vecinos (comercio,
turismo cultural o residencia) ha ido resignificando el hecho de pasar la frontera. Aunque
las fronteras se mantienen (en cierto modo) se han ido reconstruyendo en lo simbólico,
lo mental y en lo económico (ibidem, 233). Existe una paradoja antropológica -mantiene
Xerardo Pereiro-, asentada en el hecho de que si bien el Estado y el mercado quieren acabar
con las fronteras, los agentes sociales de la frontera la reinventan afirmando “su identidad
diferencial con intereses de reproducción social” (PEREIRO, 2018: 235), como forma
de explotación de la identidad frente al vecino del otro lado de la Raya. En este orden
de cosas, el análisis que desde el turismo religioso22 podemos hacer de la raya hispano-
-portuguesa, a través de sus santuarios y romerías de frontera, parece gravitar en la misma
línea que apunta Pereiro de identidad diferencial de las romerías portuguesas frente a las
españolas aún cuando el público asistente a unas y otras viene a ser muy similar, tanto
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

en número como en lugar de origen de los participantes, de los cuales no hemos sido
capaces de obtener unos datos numéricos lo suficientemente fiables para llevar un análisis
cuantitativo y cualitativo. No podemos dejar de lado, en este sentido, el importante flujo
de romeros que asisten a la mayor parte de las romerías rayanas, especialmente las que
forman parte del “circuito” de las siete vírgenes hermanas de la frontera ya que generan
un importante movimiento de turistas religiosos que no se ha analizado hasta la fecha.

21
Un bien ejemplo es el Atlas de la raya hispano-lusa. Beira interior, Alto Douro, promovido por la Diputación
de Salamanca en 2008. Un buen trabajo de conjunto es el Análisis territorial e inventario de recursos de la
raya hispano-portuguesa: comarca de Ciudad Rodrigo y Tierras de Riba-Cõa, editado por el Organismo
Autónomo de Empleo y Desarrollo Local (OAEDR), publicado en 2008.
22
Cfr. el trabajo de R. Esteve Secall (2002).
210 // Novas
Lam 4. Ermitas y santuarios de las Siete Hermanas: altar de la Petisqueira
en Villarino del Río Manzanas (Zamora), ermita de la Soledad de
Trabazos (Zamora), capela de Nossa Senhora da Ribeira en Quintanilha
(Portugal), santuario de Nuestra Señora de la Salud, Alcañices (Zamora),
capela de Nossa Senhora da Luz, Constantim (Portugal), ermita de la
Encarnación de Villalcampo (Zamora). Recogemos también la ermita de
Nuestra Señora del Castillo en Pereña de la Ribera (Salamanca), recogida
en algunas versiones. (Fotografías Pedro J. Cruz y Beatriz S. Valdelvira).

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Lam 5. Algunas ermitas de la frontera. De izquierda a derecha y de arriba abajo, mirador de Penedo Durão, Poiares
(PT). Oratorio de las Ánimas. Rihonor de Castilla (ES). Ermita de Nuestra Señora del Castillo, Pereña (ES). Capela
de Santa Caterina, Miranda do Douro (PT). Ermita del Cristo de la Salud, Alameda de Gardón (ES). Ermita de la
Anunciada, Valicobo (La Fregeneda) (ES). Capela en Covas do Douro (PT). Ermita de la Vera Cruz o de Cristo del
Pino, Fermoselle (ES). Capilla de la Code, Mieza (ES). (Fotografías Pedro J. Cruz y Beatriz S. Valdelvira).
211 // Novas
El turismo religioso conforma un nicho de mercado que va en aumento y que ha ge-
nerado, a su vez, interesantes líneas de investigación entre las que destaca la denominada
turiperegrinación (PEREIRO, 2017). Tal y como se viene definiendo, el turismo religioso
define “las actividades turísticas vinculadas a las prácticas religiosas en lugares determinados
con un significado religioso” (AULET y HAKOBYAN, 2011: 64), si bien las motivaciones
por las que se viaja a los distintos centros devocionales no tienen porqué ser solo religiosas,
sino que responden a diferentes expectativas y experiencias personales de cada uno. Aunque
los lugares sagrados son centros de peregrinación o espacios de celebración romera, la socie-
dad moderna y las nuevas alternativas de los viajes las convierten en espacios turísticos. Si
bien hay investigadores que comparan el fenómeno de las peregrinaciones o de las romerías
al turismo religioso (COHEN, 1998) -cada vez es más complejo diferenciar entre peregri-
nación y turismo, existen notables diferencias que se basan, sobre todo, en las motivaciones
del viaje, del comportamiento y la intensidad de uso de los elementos religioso durante
el viaje (AULET y HAKOBYAN, 2011: 67). Afirma Parellada, en este sentido, que las
peregrinaciones, las experiencias religiosas y el turismo tienen su propia identidad y no se
pueden confundir entre ellos (PARELLADA, 2009); otros autores sostienen que la dife-
rencia entre peregrinación y turismo religioso estriba en la intensidad de la motiva religiosa
que lleva a acudir a los lugares de culto. Inciden en que el motivo de la peregrinación es,
sobre todo, “(…) religioso: la llegada al lugar sagrado, acto de culto unido a la oración, la
penitencia y otras formas de culto. En cambio, en el turismo religioso, el lugar sagrado se
visita durante el viaje, pero no es el destino final” (AULET y HAKOBYAN, 2011: 69).
Como apuntábamos líneas atrás, aún no se ha llevado a cabo un análisis en profundidad
de las motivaciones por la que llevan cada año a los asistentes a las romerías de frontera his-
pano-portuguesa. Es obvio que existe una peregrinación por motivos devocionales en buena
parte de las personas que acuden, de manera continuada, siguiendo una práctica transgene-
racional especialmente importante en el caso de las poblaciones vecinas, tanto portuguesas
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

como españolas, común en la mayor parte de las romerías de la Península Ibérica, siguiendo
un “principio de congregación” a través del cual en todo ritual implica la reunión de un
conjunto de individuos en calidad de actores rituales (VV.AA., 1991: 263). Con todo, las
romerías de frontera han generado otros intereses, aparte de los puramente devocionales, que
son los que las mantienen anualmente e incluso aumentan la afluencia de romeros. No hay
que olvidar que el tiempo de la romería conlleva un “tiempo celebrativo” y genera un espa-
cio de reunión colectiva propicio al intercambio de mercancías, la reunión de viejos amigos
separados por la frontera y, en definitiva, el hermanamiento entre vecinos. La importancia de
los flujos de personas que acuden, con sus diferentes motivaciones, a las romerías de la raya
ha llevado al establecimiento de un itinerario promovido por las administraciones locales
a través de diferentes planes provinciales y transnacionales. Aunque los logros son, en este
212 // Novas
sentido, importantes al establecer un calendario fijo de romerías23 y al contar con el apoyo
institucional para su pervivencia, lo cierto es que carece de un análisis desde la óptica del
turismo religioso que permita sentar las bases para la creación de una ruta que ampare tanto
las necesidades devocionales como turísticas y genere, como ocurre con otros elementos pa-
trimoniales de este espacio rayano, unos retornos económicos y culturales en ambos países.

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23
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Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


215 // Novas
Patrimônio Cultural, resistências
e territorialidade quilombola:
desafios e avanços

Maria Amelia Reis1


Maria do Rosário Pinheiro2

A intensificação dos processos de desterritorialização e a exacerbação xenofóbi-


ca desafia-nos a refletir sobre a relação território, patrimônio cultural e comunidades
tradicionais no Brasil. Populações quilombolas com rico patrimônio cultural e pessoal,
ainda se embatem entre o desenvolvimento social/educacional e a conquista da terra de
seus ancestrais. Terras firmadas após séculos de lutas (desde 1559), por leis estabelecidas
pela Constituição Federativa do Brasil, promulgada em 1988, mas somente em 1999, no
Art. 68 das Disposições Constitucionais Transitórias, é reconhecida como terras pertencentes
aos remanescentes da diáspora africana, não obstante a Lei não tenha atingido a poucos com
eficácia. Em pesquisa articulada às ações de pesquisa/extensão desenvolvidas por 10 anos no
Quilombo de Sant ‘Anna - Rio de Janeiro, sob o título Programa Etnoconhecimento para
um EtnoReconhecimento, cujo problema/objetivo era compreender os mecanismos sutis de

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


opressão que silenciavam todo tipo de crenças religiosas em sua pluralidade e manifestações
culturais ancestrais transformadas pelas condições locais plenas em submissão e discrimi-
nações destinadas ao povo negro e mestiço em nosso país, desafiou-nos. O estudo de caso
utilizou como metodologia a análise de dados a partir da história oral com base na análise do
discurso crítico proposto por Norman Fairclough (2001). Diálogos conquistados ao longos
dos anos pelo grupo de alunos e professores em uma ação interdisciplinar proporciona-
ram intensa transformação na comunidade, indicando, principalmente, ao governo local

1
Professora Doutora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO- Programa de Pós-
-Graduação em Museologia e Patrimônio – Rio de Janeiro/BR. Pesquisadora do Centro Interdisciplinar do
Século XX – CEIS 20, Universidade de Coimbra – Pt; Líder de Pesquisa- CNPQ
2
Professora Doutora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação –FPCE/Universidade de Coimbra
217 // Novas
as capacidades criativas de sobrevivência da população aos embates separatistas e de trabalho,
proporcionando maior atuação governamental e diminuição das resistências da população do
entorno quanto às capacidades laborais e bom exercício da política local da comunidade em
questão. Enfim, o enfrentamento dos desafios em conjunto com a população proporcionaram-
-lhes avanços da autonomia necessária para manter o território conquistado bem como
enfrentar de cabeça erguida nas discriminações frequentes, principalmente oriundas dos
fazendeiros locais, ainda, inconformados com a abolição da escravatura no Brasil (1888).

Introdução

Em meio à intensificação dos processos de globalização, desterritorialização e a exacerbação


xenofóbica toma forma a importância das discussões científico-acadêmicas, nas diversas
áreas do conhecimento, a refletir sobre a relação território – conquistas e resistências,
diferenças culturais e patrimônio cultural construído, historicamente, pelas comunidades
quilombolas no Brasil ao longo de suas experiências plurais de vida e trabalho, por muito
tempo silenciadas em sua diversidade.
Compreender “quem eu sou?”, “quem tu és?”, “quem somos nós?” tem sido ao longo
da história humana preocupação da filosofia e de crenças religiosas que se ocupam da
verdade e da transcendência do homem em sua humanidade. Não obstante a alteridade
se mostre viva como problematização intrínseca nestes questionamentos há que se desta-
car a estreita relação entre o Eu (Nós) e o Lugar aqui entendido como território e poder,
portanto entre identidade, espaço-tempo e natureza. Como lugares entende-se espaços
ordenados pelo agenciamento humano caracterizados por vivências, experiências e subli-
nhados microfisicamente pelo poder e por saberes disciplinados (FOUCAULT,1979)3 em sua
pluralidade em que vicejam a diversidade cultural estruturante do tecido social e geradora
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

de contatos, transformações ou permanências.


O presente artigo resulta de reflexões e pesquisas participativas junto à comunidade
quilombola de Sant´Ana, situada no município de Quatis (Rio de Janeiro - BR) e o trabalho
extensionista realizado a partir do encontro de alunos das graduações de várias disciplinas
e da pós-graduação em Museologia e Patrimônio em situação de práticas educativas. Assim

3
Para Michel Foucault, em Microfísica do Saber (1976, 1ª ed) o poder não é um objeto natural, é uma
prática social construída historicamente. Para ele, o poder através de técnicas de dominação, intervém
materialmente sobre os corpos individuais, situando-se no próprio corpo social como mecanismo de poder
que se expande sobre toda sociedade de forma micropulverizada. O que denomina microfísica do poder está
intimamente associado aos procedimentos técnicos do poder que age no controle minucioso e detalhado
do corpo a partir de gestos, atitudes, comportamentos, hábitos e discursos. Microfísica do Poder, Rio de
Janeiro: Graal, 1979. Org e revisão de Roberto Machado.
218 // Novas
buscamos, inicialmente, compreender a intensidade dos processos de construção das ima-
gens tomadas na relação discursos do(s) outro(s) do entorno social, político e cultural sobre
os quilombolas. Ao admitir-se que a diferenciação discursiva presente vem esbater-se no
jogo das identidades e das negociações que se constroem, envolvendo as percepções de si e
do(s) outro(s) em sua complexidade. Entende-se que esta diferenciação é derivativa tanto
dos intercâmbios socioculturais com os não-quilombolas em suas representações escravistas
quanto das imagens destes a partir das imagens produzidas por sua ancestralidade, neste
artigo compreendida como patrimônio cultural em suas (re)construções e traduções margi-
nalizadas por séculos de opressão e associadas às suas vivências e convivências nas culturas
rurais e urbanas contemporâneas. Esta última como produto da tecnocultura e das tecno-
logias da comunicação que ao homogeneizarem comportamentos que silenciam conflitos
e contradições reorganizam outras imagens, novas formas de pensar e conhecer a realidade
implicando um novo modo de encontro do eu (nós) com os outros. Nossa esperança?!!
Trazer à tona o rico patrimônio cultural e a história esquecida desta população rema-
nescente da diáspora africana em terras brasileiras tem sido nosso desafio para, escapando
das ciladas das superfícies, penetrar mais fundo no recorte da realidade aqui situada a
partir: (a) dos recursos territoriais, naturais e humanos, materiais tangíveis e intangíveis
presentes nos patrimônios culturais em sua diversidade, nas paisagens e culturas plurais;
(b) analisar as dinâmicas econômico-sociais, culturais e históricas, visando contribuir para
o enriquecimento das condições de aprendizagens, criando competências interculturais in-
dispensáveis ao futuro dos estudantes em sua profissão; (c) trazer à cena a importância do
trabalho de campo (extensionista) como metodologia educativa capaz de contribuir para
o encontro do “EU“ e do “Nós“ a influir politicamente para a coesão econômica, social e
territorial em nosso país, tão diverso e tão desigual.
Trata-se a relação patrimônio cultural, territorialidade quilombola, educação e seus desafios
e avanços como metáfora em que se permite, entre outros aspectos, refletir sobre a correlação

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


histórica entre o corpo do outro, o património cultural de si e do diverso, a colonização, a he-
gemonia (poder) e as perspectivas interculturais de convivência respeitosa e igualitária desejada
no mundo atual. Fatores que implicam de saída identificar este “eu-intercultural” mergulhado
que está, como na modernidade sólida, entre “o poder de viver e de fazer morrer”4, agora em
sua face contemporânea. Ou seja, a partir da análise das relações vida\morte, poder\saber e

4
Michel Foucault refere-se aos deslocamentos do discurso da guerra após a ascensão da burguesia ao poder. Entende
que, a partir daí, o discurso histórico sobre a guerra muda de sentido surgindo como luta interna travada
em defesa da sociedade, contra os perigos que nascem em seu próprio corpo. Adverte que todas as batalhas
dão lugar a uma única, aquela que nasce em seu próprio seio (Estado) em nome da sociedade, a “guerra
das raças” que fixa o racismo como ponto nuclear daquilo que denomina biopolítica compreendido como
política dos corpos em submissão. Não mais, pois, o “fazer morrer e deixar viver” como ordem do soberano,
mas o “fazer viver e deixar morrer” como dispositivo que se coloca com a ascensão da burguesia ao poder.
219 // Novas
submissão\dominação como contingente na trajetória histórica dos quilombolas percebe-se
que estes permanecem prisioneiros de uma discursividade que entende a guerra como luta
interna travada em defesa da sociedade contra os perigos que nascem do imaginário dos não-
-negros em relação aos seus corpos, suas diferenças culturais e crenças – como “guerra das raças”
que cede lugar ao racismo contemporâneo e historicamente construído (FOUCAULT, 1999).
Daí, darmos inicialmente importância à uma breve história dos rumos da escravização no
Brasil como ponto de partida as reflexões que partem de uma breve história da escravidão em
Portugal e que nos promete identificar ... o que somos, quem somos, de onde viemos.
O Programa Etnoconhecimento para um EtnoReconhecimento (PROETNO), em de-
senvolvimento, ponte de partida para este diálogo, ao associar ações de pesquisa/extensão
desenvolvidas por 10 anos no Quilombo de Santana - Rio de Janeiro, traz como problema/
objetivo compreender os mecanismos sutis de opressão que silenciam a diversidade do Eu/
Nós como patrimônio sociocultural, as resistências em sua pluralidade bem como as mani-
festações culturais ancestrais transformadas pelas condições locais destinadas ao povo negro e
mestiço a partir da escravização desde o Brasil Colônia. Eis o desafio presente para esta pro-
posta investigativa. O estudo de caso utiliza como metodologia a análise de dados a partir dos
discursos-narrativas presentes na história oral desta população como naquilo que falam os
patrimônios em sua intangibilidade. Para este trabalho ainda inconcluso toma-se como base
de análise a ADC (Análise do Discurso Crítico) proposto por Norman Fairclough (2001).
Esta pesquisa que articula à imersão dos alunos no campo pesquisado aos diálogos inter-
culturais, já conquistados ao longos dos anos em uma ação interdisciplinar, proporcionaram
intensa transformação na comunidade, visíveis na transformação das políticas locais realizada
pelo governo local, sendo melhor interpretadas as competências criativas de sobrevivência
da população aos embates separatistas e de trabalho, proporcionando maior atuação gover-
namental em relação ao território e à educação, histórica e singular dos quilombolas, assim
como a diminuição das resistências da população do entorno quanto as capacidades laborais
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

e bom exercício da política local da comunidade em questão.

Escravidão, mercantilização em território português : uma breve história

A escravidão é um instituto não acabado. O Relatório Global 2014 sobre Tráfico de


Pessoas do UNODC5, refere que, em cada três vítimas conhecidas de tráfico de pessoas,
uma é criança, fato que tem aumentado extensivamente no mundo contemporâneo. Em

5
UNODC - United Nations Office on Drugs and Crime -  Escritório das Nações Unidas sobre Drogas
e Crime  ou  Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime é uma das agências especializadas
da ONU criada em 1997.
220 // Novas
cada três meninas escravizadas pelo tráfico regional e internacional, duas dessas crianças
em conjunto com as mulheres representam 70% das vítimas do tráfico total no mundo
inteiro, grande parte escravizada e drogada. “Infelizmente, o documento mostra que não há
lugar no mundo onde crianças, mulheres e homens estão a salvo do tráfico de seres humanos”,
insiste o UNODC. Evidencia-se, desse modo, que a escalada do tráfico de pessoas e escra-
vidão contemporânea se faz com maior e disfarçada intensidade, atingindo seres humanos
reduzidos à coisas e levados à sujeição total em trabalhos forçados e exploração sexual, des-
tituídos de sua humanidade e, atingindo com intensidade a população de afrodescendentes
negra, mais carente e com menor escolarização.
No Brasil, desembargadores e juízes ligados à Procuradoria Geral do Trabalho – PGE,
preocupados com o combate ao trabalho infantil, proibido até os 14 anos, lança em todo
território brasileiro a campanha “Lugar de criança é na Escola – Criança não trabalha “com
grande sucesso vem em defesa das crianças contra os abusos do mercado, principalmente
da economia no campo e nas comunidades urbanas onde a pobreza é característica prin-
cipal. Para Caldeira (2017) a diferença entre a escravidão contemporânea e a escravidão
clássica não está na relação escravizador e escravizado, mas no fato da segunda ser legal e a
primeira ser crime na maioria dos países no mundo.
Em Portugal a abolição oficial da escravatura e das condições análogas à escravidão fez
parte do Código Penal de 1886, entretanto, historicamente, foi um instituto de aceitação
global que desde a necessidade mercantil de se preencher as lavouras nos campos de pessoal
preparado para as atividades agrícolas e outras afim, provocada pelo exôdo rural, as pestes
e pelo ritmo dos descobrimentos, entre outras vertentes economicistas, os primeiros negros
e negras começaram a ser trazidos da África para Portugal, por volta de 1441 (Marques,
2018). Segue-se grande implementação deste comércio regular e oficial provenientes de
mercadores mulçumanos e negros comerciantes de escravos na própria África. A maioria
dos cativos vendia-se com bons lucros para Castela, Aragão e outras nações europeias,

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


permanecendo em Portugal apenas em serviços na agricultura ou domésticos na Madeira
e em Portugal (Idem, 2018). Ressalte-se que muito antes de Portugal existir como país a
escravidão já fazia parte do território português avançando-se no passado aos romanos que
por cinco séculos dominaram a península ibérica e, segundo Caldeira (2018) provavelmente
já existiam escravos ou homens não livres sob a posse de alguém desde os lusitanos do tempo de
Viriato. O senhor tinha o direito de vida e morte do cativo embora inexistisse conotação
racista, como se pode entender pelas afirmações de Sêneca, citadas por Caldeira: <São es-
cravos> Não, são homens. <São escravos> Não, são companheiros de servidão se pensares que
todos estamos sujeitos ao mesmos golpes da fortuna (Caldeira, 2018).
A escravidão comercial africana se inicia com o desenvolvimento ultramarinho e a
necessidade de custeio das mesmas bem como do enriquecimento das Coroas Ibéricas.
221 // Novas
Inicia-se com o capitão Antão Gonçalves o comércio humano com fins escravistas ao
capturar um casal de africanos para depois encontrar mais 10 em aldeias próximas
– primeiros escravos que iriam compor a nova categoria de coisas a serem vendidas e
renderem impostos à Coroa do Infante Dom Henrique que em seu desejo científico-
-religioso incumbe aos navegadores a incumbência de filhar gente da maneira que
pudessem (Caldeira, 2018).
A imagem do trabalho escravo em Portugal, muitas vezes institucionalizada, não era a
violência que definiam os escravos mas sua condição de servilidade e opressão em termos
laborais. Às mulheres, por exemplo, o fato de ser preta-africana era erotizada no imaginá-
rio dos senhores formalizando-se como norma o assédio sexual que se acrescia ao cortejo
das violações por homens brancos e seus senhores, contraditoriamente ao fato de Portugal
ser uma sociedade puritana, temente a Deus e monogâmica.
Ressaltam-se, ainda, que várias formas de resistências se faziam acontecer como forma
de responder à escravidão e seus atributos hostis na medida em que não faltavam aos escravos
os instrumentos de fazer calar a violência - facas e outros instrumentos de agressão como
o medo à magia africana.

Escravidão, mercantilização em território brasileiro: síntese histórica

A escravidão no Brasil se inicia com o escravismo indígena, sendo abolida oficialmente


pelo Marquês de Pombal, no final do século xviii. As guerras frequentes entre as tribos
brasileiras foram utilizadas pelos colonizadores portugueses na medida em que interessavam
aos colonos como aos próprios indígenas em suas lutas intertribais e àqueles interessados
com a formação de um exército aliado contra invasões estrangeiras. Importante ressaltar
que os portugueses se estabeleceram no Brasil com a contribuição dos indígenas e não
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

contra eles isoladamente.


Os portugueses dividiam os indígenas em aldeados - seus aliados e, os inimigos - aliados
dos estrangeiros. Desse modo estes poderiam ser escravizados e os demais recebiam benefí-
cios e honrarias da Coroa Portuguesa, constituindo-se uma elite indígena - os índios não só
guardavam as fronteiras como controlavam os escravos africanos em suas fugas por liberta-
ção. Entretanto, a Igreja católica (jesuítas) com o processo de catequização vem dificulta a
escravização dos indígenas, fato que desagrada tanto os colonizadores quanto aos indígenas
aliados que precisavam de gente para suas lavouras. Ressalte-se que a própria igreja possuía
escravos africanos, origem principal da maioria população atual do Quilombo de Sant’Anna.
Como solução para a carência de força de trabalho nas lavouras de cana de açúcar,
já que os indígenas principalmente os não-aliados eram considerados indisciplinados
222 // Novas
e protegidos pelos jesuítas, a Colônia recorre às trágicas viagens entre África e Brasil,
transportando tribos inteiras de negros escravizados. Os escravos africanos se torna-
ram mercadoria de alto preço (podiam valer o preço de muitas terras). Chegam ao
nosso território entre 1539 e 1542, sendo levados à capitania de Pernambuco onde
a lavoura de açúcar mais prosperava. Os primeiros portos de desembarque entre os
séculos xvi e xvii, foram os de Recife e Salvador e entre os séculos xviii e xix, chegam
principalmente ao Rio de Janeiro requeridos pelas lavouras de café do Vale do Paraíba
e, de lá partiam para as Minas Gerais onde a mineração tomava corpo econômico-
-financeiro para a Corte Portuguesa. É de se destacar que de início possuíam maior
valor os negros provenientes da costa sul da África, considerados bons para a agricultura,
especialmente oriundos de Angola e Moçambique, já os negros Mina eram considera-
dos melhores para a mineração por sua experiência em mineração e transportados para
as Minas Gerais.
Os cativos tinham seu preço de acordo com suas características físicas – dentes bons,
canelas finas, quadril estreito, calcanhares altos, entre outros. Deste modo a morte de um
escravo ou sua fuga para os quilombos era uma grande perda econômica para os senhores
de escravos.

O quilombo de Sant’Anna, territorialidade, patrimônios e resistências

Segundo a Wikipédia a palavra “quilombo” tem origem nos termos “kilombo”


(Quimbundo) e “ochilombo” (Umbundo), estando presentes também em outras línguas
faladas atualmente por diversos povos Bantos que habitam a região de Angola, na África
Ocidental. No Brasil quilombos representam as comunidades autônomas de escravos que
resistiam/resistem às opressões escravistas e racistas, muitas vezes constituídas por negros

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


livres, brancos pobres, escravos alforriados, e minorias indígenas. Cabe ressaltar que a his-
toriografia tem indicado que a violência do sistema escravista também produzia seu outro
- a resistência e não passividade. Entre as reivindicações dos escravizados sempre estiveram
presentes a defesa de seu patrimônio cultural e singular, socioeconômico, religioso e cole-
tivo, origem primeira da necessidade de se reunirem coletivamente nos quilombos como
refúgios adequados a este intento.
A Associação Brasileira de Antropologia, em 1989, designa quilombo como toda
comunidade negra rural que agrupe descendentes de escravos, vivendo da cultura de
subsistência e de manifestações culturais com forte vínculo com o passado. Em al-
guns deles ocorreram tentativas, muitas abortadas, reproduzirem a organização social
e política africana com seus reis tribais. Atualmente denominamos “Quilombolas” os
223 // Novas
habitantes dos quilombos, hoje lutando com muita garra para o direito às terras onde
viveram por gerações e o reconhecimento legal de sua existência cidadã por parte do
governo brasileiro6.
O quilombo de Sant’Anna, situado no município de Quatis, no Baixo-Paraíba, Rio
de Janeiro se encaixa em antiga região cafeeira escravista, tendo uma história comum aos
demais, mas que se diferencia em alguns aspectos de outros quilombos: a maioria da popu-
lação não se considerava quilombola, antes do trabalho do grupo de alunos em relação aos
seus direitos e a interpretação das leis vigentes, na medida em que as terras que lhes cabiam
foram doadas pelo dono da fazenda como recompensa por milagre divino – a cura de sua
filha (desapareceram estes documentos no cartório local); com a falência da fazenda cafeeira
grande parte dos quilombolas juntam-se àqueles que pertenciam à Igreja Católica próxima
à fazenda integrando-se no total de 45 famílias de remanescentes de escravos africanos.
Para encerrarmos esta síntese conceitual sobre o quilombo estudado, lembramos Paulo
Freire ao trazer por eixo de articulação em suas teses a existência humana e o poder do-
minante em seus modos de desumanização e a relação opressores-oprimidos ao sublinhar
uma outra perspectiva alteritária superadora do projeto de construção do conhecimento
da modernidade em nossa contemporaneidade, ao afirmar:

6
A Lei da Terra promulgada pelo Império em 1850 proibia que os descendentes de quilombolas as-
sumissem a posse das áreas onde viviam. Só em 1988 a Constituição revogou a proibição, tornando
responsabilidade da União assegurar a posse da terra aos remanescentes de quilombolas. Porém, só
em 1999 o dispositivo constitucional foi regulamentado. O artigo 215 parágrafo 1 da Constituição
Federal coloca: “O Estado deverá proteger as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-
-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” e no seu parágrafo
5° inciso “V” afirma, “Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências
históricas dos antigos quilombos”. O Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias,
pode-se ler: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras
é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Decreto
n° 4887 de 20/11/2003: “Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimi-
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

tação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades do quilombo
de que trata o Art.68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias”. Decreto 5051/2004 “O
Brasil se compromete a executar e cumprir a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho-
OIT sobre povos indígenas e tribais”. A Portaria n°6 de 01 de março de 2004 da Fundação Cultural
Palmares que institui o cadastro geral de remanescentes das comunidades de quilombos, nomeando-as
de: “Terra de Preto”, “Mocambos”, “ Comunidades Negras” e “ Quilombos”. Atendendo apelo dos
movimentos sociais o Brasil ratificou em junho de 2002 através do Decreto Legislativo n°143 assinado
pelo presidente do senado a Convenção 169 da OIT de junho de 1989, que reconhece como critério
fundamental os elementos de auto-identificação étnica, além disso o Artigo 14 assevera o seguinte:
“Dever-se-á reconhecer aos povos interessados os direitos de propriedade e de posse sobre as terras que
tradicionalmente ocupam”. Esse direito de retorno se estende sobre um sem número de situações de
comunidades quilombolas no Maranhão, Mato Grosso, Bahia, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas
Gerais, que foram compulsoriamente deslocadas de suas terras por projetos agro-pecuários, projetos de
plantio de florestas homogêneas(Pinus, Eucalipto Etc…) projetos de mineração, projetos de constru-
ção de hidrelétricas e de bases militares e, agora, numa trajetória de recuperação de terras que foram
usurpadas e tidas como perdidas.
224 // Novas
um dos elementos básicos na mediação opressores-oprimidos é a prescrição. Toda pres-
crição é a imposição da opção de uma consciência a outra. Daí, seu sentido alienado (…)
Por isso, o comportamento dos oprimidos é um comportamento prescritivo. Faz-se à base
de pautas estranhas a eles – as pautas dos opressores (Paulo Freire, 2011)7.

Certezas, essas possíveis de serem descritas em seu amplo sentido pela narrativa da
quilombola octagenária Vó Nair, ao afirmar: “acabaram com o jongo porque não era coisa de
cristão, quando eu era jovem aqui no quilombo eu dançava o jongo”- E, exibia em seus oitenta
anos já vividos os passos da dança de sua juventude. Jongo patrimônio cultural silenciado e
justificado pelo receio do outro em trazer ao presente as bases políticas da ocultação.

A pesquisa em questão

O caminho que se impõe a percorrer, nesta pesquisa, encontra-se na abertura ao outro


em uma postura revolucionária superadora de ideologias opressoras. O que representa em
si mesmo uma contradição pois se impõe por um lado insatisfação e medo como produ-
to de interpelações e desafios possíveis de serem feitos pelo outro na relação e, de outro
lado evidencia-se o pluralismo a reivindicar a instabilidade de valores e o incremento do
diálogo intercultural.
Reconhece-se que a interculturalidade reivindica um projeto educativo-antropológico
que dê conta do não-conhecido, do não compreendido. Seu sentido de objeto de fronteira
vem indicar, ainda, como lembra Abdallah-Pretceille (1986, 2001)8 que para conhecer os
sistemas e a cultura não basta para dar conta de se escapar do circulo egológico que encerra
os sujeitos enquanto prisioneiro do eu (nós) que se é. Importa reconhecer a diversidade e sua
multiplicidade o que significa compreender e conhecer o outro em suas diferenças culturais,

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura


em suas singularidades que colocam o olhar distante da ideia de que diferença é deficiência e
anormalidade fatalmente contraídas a partir de contextos históricos perigosos e ameaçadores
à ordem vigente em cada época, como referem-se aos quilombolas em Sant ‘Anna.
Reconhecida a dimensão dialógica do homem, nesta pesquisa, como assevera Paulo
Freire, o diálogo intercultural mais se mostra em importância pela superação da frag-
mentação que reforça a exclusão social e passa a integrar-se em uma perspectiva dinâ-
mica e plural da existência humana carregando em si a alteridade como experiência da
descentração e dos sentidos.

7
PAULO FREIRE, Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 50ª ed.
8
ABADALLAH-PRETCEILLE, M., PORCHER, L. Éducation et CommunicationInterculturelle. Paris: PUF
(2001) e, do mesmo autor Vers une Pédagogie Interculturelle. Paris: Sorbonne (1986).
225 // Novas
O corpo étnico-racial como produto cultural se investe como valor simbólico, no todo
ou em partes. No que se refere aos seus elementos de grande carga simbólica destacam-se,
entre outros, o sexo e a sexualidade, teorizado por Michel Foucault em meio ao conjun-
to dos dispositivos do poder. Para ele, a sexualidade se elabora como noção a partir do
século xix apontando para a proliferação de discursos relacionados ao sexo e aos corpos,
especialmente aos corpos das mulheres negras usadas e abusadas por seus senhores.
O imaginário do sexo, do gozo, do proibido e do obsceno não escapa à história do
corpo da cultura em suas diferenças raciais. Tomando-se os discursos em relação ao corpo
das mulheres negras, historicamente ainda se observa a onipresença da carne, o corpo na
abundância de suas manifestações. A ideia da mucamba para o “serviço” do homem (senhor,
amo, marido, amante) em seu prazer sexual é frequentemente presentificado neste corpo
imaginado – muitas mulheres do serviço doméstico relatam assédio sexual sofrido por seus
patrões ainda no século xxi. Os corpos de homens negros são também alvo deste mesmo
tipo de assédio em que vicejam as imagens dos reprodutores dos tempos da escravidão.
Nesta mesma direção, calcados por imagens históricas fixadas no passado, os corpos do
trabalhador quilombola é tido como indolente, cachaceiro e sem projetos de vida futuro
(narrativas colhidas entre Junho/Setembro de 2012), fator que legitima a ocupação de suas
terras e desqualificação de sua gente.
Entender o outro por si mesmo é fenômeno prevalente nas relações humanas. A descri-
ção histórica dos corpos e de suas vestimentas sempre provocaram a construção de imagens
sobre eles. Desde muito tempo os corpos de africanos e indígenas passaram por explicações/
definições e especulações dos europeus colonizadores. A cor da pele e seus costumes estra-
nhos suscitaram admiração, desprezo e cobiça, provocada, quem sabe pela associação declarada
no Velho Testamento entre escravos negros africanos e Can, filho de Noé, que ao ver o
corpo nu do pai embriagado foi amaldiçoado e a toda sua geração (PAIVA, 2011, p.69)9.
Tais discursos reforçam imagens pejorativas e desqualificatórias sobre os africanos, ao
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

longo da história, discursos que percorreram séculos associados à vida costumes dos africanos
e práticas, especialmente, as imagens de lascívia, desregramentos sexuais e imorais que
perduram em nossos dias, tornando-se marcas nos corpos negros.
Pelo visto, a sensualidade dos negros africanos e os usos de seus corpos formatavam
ideias que degeneravam o conjunto. Como ideologia que percorre o mundo através das
narrativas de viajantes que analisavam os comportamentos, costumes e conhecimentos com
o olhar do outro, do estrangeiro em seu estranhamento. Ideário que passa a se constituir em

9
Paiva, Eduardo França. Corpos pretos e mestiços no mundo moderno – deslocamentos de gente, trânsito de
imagens (in) História do Corpo no Brasil. Del Priore, Mary & Amantino Marcia (orgs). São Paulo: Editora
UNESP (FEU), 2011. O artigo focaliza os corpos de negros e mestiços escravos que historicamente circulam
entre imagens e comportamentos fixados por estas ao longo da história mundial.
226 // Novas
teses de renomados cientistas fornecendo, inclusive legitimidade, nos séculos xix-xx, aos
supostos da teoria da degenerescência pela mestiçagem biológica, sobretudo nas Américas.
Discursos persistentes sobre os negros e sua nudez desavergonhada, a cor da pele em
variações de tonalidades, seu tipo de cabelos ora lisos ora encarapinhados; ritmos e batuques,
crenças religiosas bizarras, entre os diversos patrimônios culturais não-relativizados contribuí-
ram para compor uma imagem idealizada e a-histórica dos africanos bem como incorporar
tais elementos como indicativos de barbárie, ausência de fé, de moral e de lei entre estes
povos. Valores que se instauram a partir da oposição céu e inferno que admite o negro como
versão sublimada do demônio - daí encontrarmos ao inicio de nossas atividades os conceitos
dedicados pelas população do entorno aos quilombolas locais – preguiçosos, vagabundos,
beberrões e desavergonhados. Imagens construídas historicamente e refletida na indagação
que nos fez um comerciante face ao nosso empenho no trabalho universitário com eles: Que
importância tem esses negros para uma universidade federal? Por que com eles? Cabe lembrar que
a grande custo conseguimos introduzir no restaurante nosso acompanhante, presidente da
associação dos quilombolas, para almoçar conosco, percebendo logo de início que eram proi-
bidos de entrar em restaurantes e/ou outros locais públicos. Ou seja, o apartheid era presente.
Povos selvagens e primitivos habitantes dos confins das florestas de um mundo pouco
conhecido (África e Américas) tiveram pseudo marcas identitárias impostas ao mundo por
cronistas a partir de seu olhar oblíquo. Caminha em 1500, descreve os nativos que encontra
em solo brasileiro a partir de sugestões imagéticas produzidas a partir do conhecimento dos
negros africanos “a feição deles é serem pardos, maneira d´avermelhados, de bons rostos e bons
narizes, bem feitos…” 10. Mais tarde, Gilberto Freyre11 registra “ branca pra casar, mulata para
f.., negra pra trabalhar” como ditado recorrente na Colônia que reforça o forte componente
histórico sexual e sensual discursivo que por séculos se ocupou dos corpos nus de indígenas,
negras e mulatas fertilizando antigos discursos imagéticos e criando novos como o elogio des-
pudorado do resultado biológico da mestiçagem que toma por referência o corpo da mulher.

Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura

Resultados preliminares

Diante da reflexão acima postada, trazemos como síntese da pesquisa inicial resul-
tados que nos indicaram o pensamento da população do entorno em relação ao imagi-
nário construído sobre os quilombolas, suas vidas, suas culturas e seus patrimônios. Os
resultados preliminares daquilo que denominamos Inventário das Imagens Construídas
10
Pero Vaz Caminha, Carta a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil, citado por Paiva (2011), p.21.
11
Freyre Gilberto. Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal,
Rio de Janeiro: Ed. José Olympo,17ª edição, 1975. p.10.
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Historicamente (ICH) pela comunidade quilombola a partir da visão do outro, ou seja,
descreve-se aquilo que se fala acerca dos habitantes do quilombo. Foram ouvidas oitenta
e sete pessoas (87) entre moradores dos três distritos que compõem o município (São
Joaquim do Ribeirão, Falcão e Centro de Quatis), contemplando questões norteado-
ras que possibilitaram a criação de um instrumento mais amplo – um Inventário de
Preocupações Interculturais a ser adotado futuramente adotado na mesma população
do entorno e os profissionais das escolas do município. Assim, distinguimos a partir do
mapa de dados as seguintes unidades de registro percentualizadas: indiferença/silencia-
mento; positividade; negatividade; crítica social. Lembramos que, por cinco anos, através
dos contatos frequentes com os moradores externos ao quilombo, ouviu-se discursos fre-
quentemente negativos em relação aos quilombolas. Tratava-se de uma discursividade
espontânea e, por vezes raivosa, frequentemente proveniente de pessoas importantes no
município e agentes de construção da opinião pública local (comerciantes, diretores de
escola, fazendeiros e seus empregados, entre outros).
Assinala-se a importância do lugar de poder ocupado pelos sujeitos em meio à rede dis-
cursiva, (a) os pesquisadores (alunos e professores) em sua ação (investidos do simbolismo
das camisas e transporte com a sigla da universidade federal), (b) as pessoas da comuni-
dade externa habitantes de espaços melhor dotados de condições de via e trabalho e (c) os
quilombolas nomeados em sua histórica escravidão, vivendo, no entanto, momentos de
opressão de grupo interno mais forte.
Assim, tendo como fonte de análise tanto as narrativas explicitadas para além das
questões indicadas e a performance corporal dos inqueridos ao responder, considerou-se o
entrecruzamento das respostas indiferença/silenciamento (nada a responder; não conheço) e
crítica social (abandonados pelo governo; sem assistência…) correspondentes a 45%, como
demonstrativa da invisibilidade dos habitantes de Sant`Anna. Outros 45% indicam posi-
tividade (trabalhadores, honestos..) – fato a ser analisado em maior profundidade na medida
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em que a presença institucional do grupo influenciou a resposta (cf afirmações de alguns


entrevistados). Os 16% restantes expressaram conceitos negativos sobre os moradores do
quilombo, o que indica um corpo escravo historicamente imaginado, inventado e traduzido
em meio a discursividades e sentidos crescentes.
Certamente, os acontecimentos aqui suscitados não são suficientes para explicar a
construção de um imaginário depreciativo sobre os ex-escravos até porque como obser-
vado, discursos positivos se incorporam aos negativos e a outros que evidenciam formas
de violência simbólica coletiva materializadas em falas ocultadoras de desprezo e vergo-
nha por terem esta vizinhança por perto. O outro, o estranho visto como inimigo, muito
se fixou imageticamente na população deste entorno, lugar onde a escravidão é algo a
esquecer com o apagar de reminiscências que tragam de volta as origens e os discursos
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discriminatórios que muitos sofreram historicamente a partir das marcas que depreciaram
os pretos e os escravos física, moral, intelectual, cultural, religiosa e humana.
Halbwachs (2004) nos ensina que a memória individual tem sua existência em uma
memória coletiva, pois todas as lembranças se constituem no interior de um mesmo grupo
sociocultural como fonte plural de ideias, reflexões, sentimentos, paixões atribuídas ao Eu
e ao Nós. Entendemos que a questão da diversidade cultural passou, nas últimas duas dé-
cadas, de uma realidade conhecida, descrita e explicada, para uma realidade reconhecida,
valorizada, respeitada e até defendida. Esta passagem, como refere Reis (2011) correspon-
de a uma mudança de perspectiva social e educativa em que ao conceito de multiculturalis-
mo, movimento que defende a valorização e o reconhecimento das diferentes identidades
étnicas, bem como a inter-relação entre os indivíduos de diversos grupos culturais em sua
diferença, vem sendo sucedido pelo conceito de interculturalidade, que se pauta pela ação
efetiva em direção à qualidade dessas inter-relações visando articular com mais intensidade
o local e o global a partir do conhecimento mútuo e comunitário.
No âmbito deste trabalho, em início, a linguagem em todas as suas dimensões, o corpo
como representante da linguagem social e a memória entranhada na tradição entendidos
a partir do patrimônio cultural (pessoal e coletivo),torna indispensável o componente
histórico que nos permite nomear, presentificar e fazer imergir do imaginário cultural das
comunidades em estudo as marcas de uma história sociocultural capaz de provocar o diálogo
intercultural inclusivo e comprometido com os direitos humanos a se sobrepor aos monólogos
culturais unicistas, dominantes e excludente.
Não se deseja tomar o outro da cultura descontextualizado mas mergulhar com eles
nos conhecimentos ali construídos, o que seria procurar o comum em locais onde existem
formas: (a) não-usuais, como os modos específicos dos quilombolas viverem em luta pela
terra e, ao mesmo tempo, em busca por uma identidade quilombola, livre e mais autóno-
ma em relação à vida da cidade, (b) múltiplas e diferenciadas, como suas formas singulares

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de experiências culturais em sua pluralidade e multiplicidade étnica e escrava, além de des-
tacar desse comum um significado variável de acordo com o contexto de poder existente
nos diferentes campos socioculturais do entorno da comunidade em estudo.

Referências

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de France.
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FAIRCLOUGH, N. (1998). Discurso, Mudança e Hegemonia In E. R. Pedro (Ed.), Análise Critica
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sito de imagens (in) História do corpo no Brasil (Priori & Amantino orgs) São Paulo:Editora Unesp,
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura
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O patrimônio cultural como fator
de desenvolvimento territorial no vale
do rio Munim, estado do Maranhão-Brasil

Antonio Cordeiro Feitosa


Degeo-NEPA
Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Introdução

O desenvolvimento do território tem por princípio a identificação de potencialidades den-


tre seus componentes que controlam sua dinâmica e evolução ao longo da história geológica,
seja dos agentes e processos naturais e sociais modeladores da paisagem até o estágio atual.
No universo das conquistas portuguesas de além-mar, o território brasileiro sempre se
destacou por sua extensão e potencialidades naturais. Embora inserido no panorama das
conquistas portuguesas por uma demanda não planejada, sua identificação por empresa de-
senvolvida com ou fim alimenta reflexões sobre ter sido descoberto ou achado (FEITOSA,
2014), o território brasileiro logo se destacou pela possibilidade de apoio às viagens para as
Índias e outros destinos em cuja rota figurasse as cercanias do Atlântico equatorial.

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Após identificado o Brasil e devidamente localizado, a Coroa portuguesa constatou
que não dispunha de meios para a conquista, ocupação, colonização e exploração dos re-
cursos que sondava existirem nas novas terras. Para equacionar os problemas confrontados,
foi implantado o sistema de Capitanias cujos donatários recebiam as terras mediante a
obrigação de promover o desenvolvimento do território.
No sistema de capitanias, o Maranhão integrou as capitanias do Norte, território negli-
genciado pelos portugueses devido a contingências naturais em face das secas que atingiam
o Nordeste Oriental, das dificuldades de navegação da Costa Leste-Oeste (MORENO,
1968; STUDART FILHO, 1959), que resultaram nos naufrágios das primeiras expedi-
ções dos donatários; da intervenção dos índios contra as expedições terrestres e marítimas
para a conquista a e ocupação do território maranhense (MORENO, 2011).
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Mesmo ciente da grande potencialidade dos recursos naturais do Maranhão e de sua
posição estratégica para a conquista da Amazônia já sob o domínio da União das Coroas
Ibéricas, a conquista do Maranhão só foi objeto de interesse das duas coroas decorridos
dois anos da ocupação francesa, em 1612, quando foi organizada a Jornada do Maranhão
que resultou na rendição dos invasores e posse de Jerônimo de Albuquerque como pri-
meiro Governador Geral do Maranhão e início da conquista do Norte do Brasil e da
Amazônia com a fundação da cidade de Belém, no Pará (MOURA, 1905).
Segundo Feitosa (2018), dentre as primeiras ações da coroa portuguesa relacionadas
com a administração do território maranhense figura a sua divisão em capitanias subsidiá-
rias, ato que constituiu a capitania de Icatu, então correspondente ao território do Munim,
com administração direta da Coroa e protegida por algumas particularidades da legislação
que resultaram em vantagens significativas, como a isenção de algumas proibições impostas
pela Companhia Geral de Comércio do Maranhão, que operava no território da capitania.
O vale do rio Munim constituiu um dos primeiros espaços de interesse dos portugue-
ses para a colonização da capitania do Maranhão, pela posição estratégi