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RESENHA CRÍTICA

O SENHOR das Moscas. Direção: Harry Hook. Produção: Ross Milloy. Intérpretes: Balthazar
Getty; Chris Furrh; Danuel Pipoly; Badgett Dale; Andrew Taft; Edward Taft; Michael Greene
e outros. Roteiro: Sara Schiff. Música: Philippe Sarde. Los Angeles: Castle Rock
Entertainment, 1990. 1 DVD (90 min), widescreen, color. Baseado no livro “Lord of the
Flies” de William Golding.

QUESTÕES ÉTICAS SUSCITADAS PELO FILME “O SENHOR DAS MOSCAS”


(1990), DE HARRY HOOK

Bartira Magalhães Rodrigues

O filme “O Senhor das Moscas” (Lord of the Flies, no título original), dirigido por
Harry Hook e lançado no ano de 1990, é uma adaptação cinematográfica estadunidense da
obra literária homônima de 1954 de autoria do escritor inglês e vencedor do Prêmio Nobel de
Literatura de 1983, William Golding.
No filme, um grupo de garotos em idade escolar acaba em uma ilha deserta no
Pacífico após a queda do avião que os transportava. O único adulto sobrevivente, o piloto
Capitão Benson, fica gravemente ferido e delirante em decorrência do acidente, restando
praticamente apenas os garotos, sem mais adultos por perto.
Alguns dos meninos encontram uma concha na areia da praia da ilha na qual foram
parar. Um deles, Ralph, convoca uma assembleia, reunindo todos os garotos, a fim de que se
organizem e decidam o que fazer diante da situação. Estabelece-se a regra de que aquele que
detém a concha tem a palavra. Os meninos decidem votar para escolher um líder e Ralph é
escolhido por unanimidade. Ele parece um líder nato. Outro garoto, Jack, por sua vez, assume
o papel de líder dos caçadores.
Ralph decide que os garotos devem acender uma fogueira na ilha para chamar a
atenção de embarcações ou aeronaves que eventualmente por ali passassem, de modo a
possibilitar o resgate dos garotos. Os meninos fazem uso das lentes dos óculos de Piggy a fim
de acender a fogueira.
Certa noite, o Capitão Benson, em meio ao seu delírio, acaba se distanciando do
acampamento dos garotos e vai parar dentro de uma caverna escura da ilha.
Jack consegue capturar e matar um porco, mas enquanto caçavam, ele e seu grupo de
caçadores acabam deixando a fogueira apagar. Ralph e Piggy avistam um helicóptero, mas
quando chegam ao topo da colina onde a fogueira deveria estar acesa, descobrem que o fogo
havia apagado e então já era tarde demais para que tentassem acender o fogo novamente.
Ralph confronta Jack em razão do ocorrido, mas Jack tem o apoio de vários dos
garotos, uma vez que ele conseguira carne para alimentar a todos. Há uma cisão no grupo. A
maior parte dos garotos passa a seguir e ser liderados por Jack, enquanto os demais
permanecem junto a Ralph.
Um dos garotos acaba por encontrar o Capitão Benson na caverna, mas a escuridão da
caverna não permite que o garoto perceba que se trata dele. Ele conta para os demais que
encontrou um monstro na caverna, de modo que todos os meninos ficam atemorizados.
Embora atemorizado pela ideia do monstro, Jack acaba por se aproveitar do temor que
dominava os garotos para garantir a coesão do grupo liderado por ele e a fim de se manter no
poder.
Um dos porcos capturados e mortos por Jack tem a sua cabeça arrancada e fincada em
uma lança, que é, por sua vez, fincada no chão, como uma espécie de oferenda ao monstro. A
cabeça de porco passa a atrair muitas moscas.
Simon vai até a caverna com um tubo fluorescente a fim de desvendar o mistério do
monstro e se depara com o cadáver do Capitão Benson, descobrindo que tinha sido ele que
havia assustado os garotos em outra ocasião e que não havia monstro algum.
Enquanto isso, Ralph e Piggy comparecem ao banquete de Jack e de sua tribo, para o
qual haviam sido convidados. Jack oferece carne ao dois e diz que eles podem se aliar à tribo.
Ralph recusa a oferta de Jack. Jack faz os garoto de seu clã se envolverem em uma espécie de
dança em que um deles finge ser o porco ou o monstro e os demais garotos fingem atacá-lo.
Nesse momento, Simon sai do meio da floresta a fim de avisar ao resto dos garotos
sobre o que havia encontrado na caverna e Jack e os caçadores, pensando se tratar do monstro,
perseguem-no e atacam-no, acabando por matá-lo.
No dia seguinte, quando questionados por Ralph acerca do ocorrido na noite anterior,
os gêmeos Sam e Eric tentam fingir que não fizeram parte do que acontecera com Simon.
Certa noite, Jack e os caçadores roubam os óculos de Piggy para fazer fogo.
Ralph e Piggy vão até o acampamento de Jack e dos caçadores na tentativa de
recuperá-los, mas os garotos não lhes dão passagem. Jack e Ralph lutam, enquanto Piggy se
ergue ostentando a concha em suas mãos e exige a palavra. Ele questiona se os garotos
achavam preferível se ater às regras e ao que fosse acordado entre eles, o que poderia
propiciar o resgate deles ou caçar e agir conforme seus próprios interesses, o que levaria à
ruína do grupo como um todo.
Enquanto Piggy fala, um dos garotos desloca uma enorme rocha, que cai sobre Piggy,
o matando. Jack e os demais garotos passam a perseguir Ralph usando das mesmas estratégias
de que se utilizavam para caçar porcos para tentar capturá-lo. Ateiam fogo na mata a fim de
que a fumaça asfixiante fizesse com que Ralph deixasse seu esconderijo, ficando vulnerável
aos ataques dos garotos. Os gêmeos Sam e Eric protegem Ralph e não revelam a Jack o seu
esconderijo nos arbustos, dando ao garoto a chance de escapar.
Ralph consegue chegar até a praia, caindo aos pés de um dos oficiais da Marinha
britânica que haviam acabado de chegar a ilha. Jack e os outros garotos, que estavam em seu
encalço, chegam à praia logo em seguida e ficam perplexos, atônitos ao avistar o resgate.
Ralph começa a chorar aos pés do oficial, que indaga que diabos os garotos pensavam que
estavam fazendo, ao que não obtém resposta alguma. Estão todos estarrecidos, sem fala.
William Golding, autor do livro “O Senhor das Moscas” foi professor e diretor de uma
escola, o que serviu de inspiração e teve grande influência na sua escrita. Ele também se
alistou e serviu à Marinha britânica durante a Segunda Guerra Mundial, tendo passado seis
anos a bordo de uma embarcação. A guerra o afetou profundamente.
Golding escreveu “O Senhor das Moscas” enquanto se recuperava de suas
experiências na Segunda Guerra Mundial, muitas das quais tiveram grande influência em sua
visão de mundo sombria a respeito da natureza humana. Ele teria chegado a afirmar que antes
da Segunda Guerra Mundial, ele acreditava na perfectibilidade do homem social, que a correta
estrutura da sociedade produziria a benevolência e que, portanto, se poderia solucionar todos
os males sociais através da reorganização da sociedade. Mas depois da guerra, ele teria
passado a não mais acreditar nisso, porque já não era mais capaz. Ele havia descoberto do que
o homem era capaz, o que o ser humano era capaz de fazer aos outros. Ele passou a acreditar
que qualquer um que tenha passado por aquele período sem entender que o homem produz o
mal tal qual a abelha produz o mel deveria ser cego ou louco.
William Golding ficou chocado com a grande capacidade humana para provocar dor e
destruição, que era justificada em nome da moralidade, de modo que comportamentos
desumanos se tornavam aceitáveis e até normalizados. Essas ideia são exploradas ao longo de
todo o livro “O Senhor das Moscas”, em que todos os seres humanos são retratados como
capazes de cometer o mal.
“O Senhor das Moscas” pode ser interpretado como uma alegoria da Guerra Fria. O
livro foi escrito durante a Guerra Fria, o que reflete em certos elementos da narrativa, como a
cisão, a divisão dos garotos, que passam a se alinhar em dois grupos adversários, opostos,
com distintas visões a respeito de como a sociedade deveria ser regida, clãs rivais regidos pelo
medo e pela violência.
Os óculos de Piggy representam a racionalidade. O roubo dos óculos por Jack e os
caçadores representa o fim da racionalidade na ilha.
A concha representa a civilidade e a ordem. É o instrumento cuja posse lhe garante a
palavra, o direito à fala e é o que estrutura as assembleias promovidas por Ralph.
Outro importante símbolo é a cabeça de porco, o Senhor das Moscas, que é uma das
traduções de Belzebu, como também é chamado o Diabo. Transmite a ideia do autor da
humanidade. Para ele, toda pessoa tem um mal dentro dela e ninguém pode escapar disso. A
única chance que tem a humanidade é não agir com base em impulsos malignos, maléficos,
pois quando as pessoas o fazem, coisas terríveis tendem a ocorrer.
Ao final do livro, Jack e os caçadores se deixaram levar por inteiro, estão
completamente dominados pelo mal interior e passam a ser meros escravos do Senhor das
Moscas.
O próprio sangue que os garotos usam como pintura de guerra tem seu significado.
Funciona como uma espécie de máscara que os meninos vestem, deixando de lado a eles
próprios e aos princípios que costumavam seguir quando em ambiente distinto, junto à
civilização. Eles passam a usar a pintura o tempo todo, mesmo quando não estão caçando,
deixando-se levar completamente pela violência.
O fogo descontrolado, que aparece duas vezes no filme, também traz uma simbologia
importante, representando o mal e o caos que consomem os garotos e que eles não são
capazes de conter. Aparece quando os garotos acendem a fogueira pela primeira vez logo que
chegam à ilha, sendo uma forma de presságio para o que os aguardava mais adiante e aparece
novamente ao final do filme, quando todos os garotos estão fora de si, perseguindo Ralph a
fim de matá-lo.
Ironicamente, o fogo descontrolado que foi utilizado por Jack e os caçadores a fim de
capturar e matar Ralph acaba atraindo a atenção da Marinha britânica que, por fim, os regata.
Se eles não tivessem sido resgatados, provavelmente todos morreriam por causa do incêndio
que se alastrou por toda a ilha. Isso demonstra como o caos pode levar todos à ruína.
Um dos principais temas abordados pelo filme é a oposição entre civilidade e
selvageria. Há um foco nessa batalha interna entre a necessidade de civilização e o impulso
pela selvageria. De um lado, a ordem, a vida guiada por regras, o respeito por outros seres
humanos. Do outro lado, a satisfação individual, as necessidades básicas, a disposição para
alcançá-las custe o que custar, lançando mão até mesmo da violência.
Os garotos que chegam à ilha são meninos britânicos civilizados, em idade escolar,
acostumados com regras escolares, uniformes e respeito pela autoridade. Eles vivem em um
aparente mundo civilizado em realidade em meio a uma brutal guerra.
Ralph e sua tribo representam a civilização. Eles instituem regras e vivem de acordo
com elas. A meta deles é sair da ilha e voltar ao mundo civilizado.
Jack e os caçadores, por outro lado, representam a selvageria. Eles apenas estão
interessados em satisfazer seus desejos e suas necessidades básicas. Sua ações são guiadas
pelo medo.
Outro tema suscitado é a perda da inocência. Quando os garotos chegam à ilha, eles
são inocentes. Ao longo do filme, os garotos cometem atos terríveis. Ao final do filme, eles
não são mais meninos inocentes. A inocência foi perdida e não há como recuperá-la, não há
como voltar atrás, pois os garotos já descobriram do que são capazes, já tomaram
conhecimento do potencial mal que carregam dentro de si mesmos.
O autor do livro parecia acreditar na capacidade de todos os seres humanos de cometer
crueldades e que o mal faz parte da natureza humana. Ele expressa uma visão profundamente
pessimista da natureza humana. Os seres humanos seriam, em essência, bárbaros, se não
maus.
Na alegoria trazida por “O Senhor das Moscas”, a ilha seria um microcosmos. Ralph e
Jack simbolizam diferentes tipos de liderança.
Ralph é um líder civilizado, democrático, responsável e inteligente. Ele representa a
ordem e a civilidade. Inicialmente, sua liderança é rapidamente reconhecida pelos demais
garotos. Ao final, ele passa a ser alvo dos mesmos.
Jack também demonstra habilidade de liderança, porém ele é mais autoritário e
dominante. Ele rivaliza e compete com Ralph pelo poder e acaba corrompido por ele.
Sem adultos para impor regras, há uma tentativa por parte dos garotos de estabelecer
um governo e manter/sustentar certo grau de ordem e civilidade, mas não logram êxito,
acabando por se renderem à violência e à brutalidade.
Uma questão central é o medo como motivação para as ações dos garotos e a oposição
de duas visões de como lidar como o medo: derrotar o medo através da razão, da
racionalidade, afirmando não haver monstro algum, como defende Ralph ou afirmar-se parte
de uma tribo de guerreiros, a dos caçadores, asseverando que juntos seriam fortes o suficiente
para caçar e matar o monstro, como fez Jack.
O monstro, em verdade, estaria dentro dos garotos. Não era algo que eles pudessem
caçar e matar.
Piggy é um garoto acima do peso, com problemas de visão, fisicamente vulnerável,
tornando-se alvo de provocações e perseguição por parte dos demais meninos. Contudo, é um
garoto inteligente, representa a civilidade e simboliza a força interior.
Sam e Eric, os gêmeos, representam os seguidores, as pessoas comuns, que se deixam
levar pelo medo e que acabam se juntando à tribo de Jack quando se sentem ameaçados, mas
que têm autonomia o suficiente para defender Ralph contra os caçadores ao final do filme.
Por fim, há o monstro, que inicialmente surge como um fruto da imaginação dos
garotos em decorrência do medo. O temor dos garotos com relação ao monstro é tamanho que
não se dispõem sequer a enfrentá-lo. A verdadeira natureza do monstro é o mal que espreita
dentro dos corações de cada um dos garotos e de todas as pessoas.
As ideias de William Golding contrariam o pensamento de Jean-Jacques Rousseau,
que acreditava que a humanidade se encontraria no seu melhor estado e de maior inocência na
natureza e que a ordem social era responsável por corromper os seres humanos. Ele afirmava
que se estivessem livres das amarras sociais, os seres humanos iriam se comportar de maneira
benevolente.
O pensamento de Golding se aproxima mais do que defendia Thomas Hobbes, que
descreveu a vida em seu estado natural como sórdida, brutal e curta. Hobbes acreditava que,
sem as amarras sociais, nós imediatamente acabaríamos lançando mão da violência e da
agressão, razão pela qual se fazem necessários a sociedade e o governo para manter a
população em ordem.
Ironicamente, os oficiais da Marinha que resgatam os garotos trazem consigo a noção
de uma versão adulta e socialmente aprovada da violência praticada pelos meninos na ilha.
Afinal de contas, eles estariam perseguindo seus inimigos na guerra do mesmo modo que os
garotos perseguiram o Ralph. Tragicamente, não há ninguém que possa salvar a humanidade
civilizada de sua natureza violenta assim como os oficiais teriam supostamente salvo os
garotos de sua própria selvageria. A experiência vivida pelos garotos demonstra a fragilidade
da civilização e a selvageria da natureza humana.