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UFF – UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

ICHF – INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA


NITERÓI, 30 DE ABRIL DE 2019.
ALUNO: MAURICIO CARDOSO BARBOZA
DISCIPLINA: POLÍTICA III
PROFESSOR: CARLOS SÁVIO

RESENHA SOBRE O LIVRO “DA LIBERDADE” DE JOHN STUART MILL


O texto “Da Liberdade”1, de John Stuart Mill, quer apresentar, em forma de
ensaio, o conceito do termo Liberdade sobre a perspectiva utilitarista, como será proposto
logo no início do texto: “O assunto dêste ensaio não consiste na ‘liberdade da vontade’
(...); mas sim na liberdade social ou civil: natureza e limites do poder que a sociedade
pode exercer legìtimamente sôbre o indivíduo.”2. É bem verdade que a ideia utilitarista
não se apresenta de modo explícito, porém é possível encontra-la durante sua leitura.
Desse modo, pode-se levantar uma coluna central com a seguinte afirmação: como
a liberdade pode ser possível, considerando suas diferentes formas, e como implementá-
la socialmente visando, sempre, o aumento do prazer e a diminuição da dor dos homens.
Essa dualidade é o a priori da ação humana, em todos os sentidos, no pensamento
utilitarista. Colocá-la sempre em mente, ajudará a compreender a teleologia de seu
raciocínio. Sendo assim, o caminho traçado nessa obra levará em conta as diferentes
formas de liberdade ao longo de seus capítulos e termina por apresentar sua aplicação.
Esse “poder que a sociedade pode exercer legitimamente sobre o indivíduo” será
tratado inicialmente no texto sobre as discussões de como ele é usado em algumas
diferentes formas de governo e instituições. A ideia principal é a de que “o poder dos
governantes nada mais seria do que o poder da própria nação, concentrado e sob forma
conveniente para o exercício.”3. Seria possível pensar em alguma forma de exercer esse
poder sobre as pessoas sem que isso as tirasse a liberdade? As operações coercitivas
garantem ou diminuem esse princípio? Qual a relação delas com o direito de um terceiro?
Essas e outras perguntas são colocadas em evidências no início do texto.

1
Pode-se encontrar, também, com o título “Sobre a Liberdade”. Em, inglês, o título se apresenta como: On
Liberty. Utilou-se aquele para ser fiel ao da obra utilizada, conforme será especificado na bibliografia. As
citações foram, do mesmo modo, fielmente transportadas, conservando a grafia contida na obra. Desse
modo, elas podem apresentar diferenças de acentuação ou escrita, conforme diferenças nas normas cultas,
se tratando do ano em que foi escrita, ou erros de digitação.5
2
MILL, J. Stuart. 1963. Pág. 3
3
Ibdem. Pág 5.
Dentre as diferentes formas de liberdade está a de pensamento e de discussão, que
será amplamente debatida no segundo capítulo do livro.
“Mal tinha sido escritas estas palavras quando, como se fôsse
para contradizê-las enfàticamente, ocorreram as perseguições do
govêrno à imprensa, em 1858. Essa intempestiva interferência com a
liberdade da discussão pública não me induziu, entretanto, a alterar uma
única expressão do texto, nem me abalou a convicção de que,
excetuados os momentos de pânico, a era dos castigos e penalidades por
motivo de discussão política terminou na Inglaterra.”4.
O primeiro uso do poder, de que aborda o autor, debate sobre a importância da
liberdade de pensamento e do debate das opiniões em suas diversas frentes, mas
principalmente na ampliação do conhecimento e da ética. Esses princípios são
fundamentais e ele discursa sobre essa necessidade.
“Não se torna indispensável a liberdade de pensamento tão-só ou
principalmente para formar grandes pensadores. Ao contrário, é tanto
ou mais indispensável para possibilitar aos sêres humanos médios
atingirem a estatura mental de que são capazes.”5
O debate das opiniões se refere principalmente à discussões de idéias e da sua
necessidade para o desenvolvimento daquela. Por que as opiniões são importantes? Por
que são necessárias as discussões? Pode-se sintetizar o caminho do autor nesse trecho:
“Consideramos até agora tão-sòmente duas possibilidades: ser falsa a
opinião aceita e, em conseqüência, alguma outra verdadeira; ou, sendo
verdadeira a opinião aceita, ser essencial um conflito com o êrro oposto
para a compreensão clara e profundo sentimento da verdade que
encerra. Existe, porém, caso mais comum do qualquer um dêstes:
quando as doutrinas em conflito, em lugar de serem uma verdadeira e
outra falsa, dividem entre si a verdade, sendo necessária a opinião
discordante para suprir o resto da verdade da qual a doutrina aceita
inclui tão-só parte.”.6
Nesse momento, o leitor pode começar a se questionar sobre a relação entre a
individualidade e sua possibilidade, com as esferas detentoras de poder e que tem papel
regulador na sociedade. Como é possível garantir a individualidade, que possui papel
altamente relevante na questão da liberdade, sem que primeiro, diminua a de terceiros e,

4
Ibdem. Pág. 19 – nota de rodapé
5
Ibdem. Pág. 39
6
Ibdem. Pág. 52
segundo, retire a da pessoa? É possível garantir liberdade e individualidade a todos? Mill
irá desenvolver essas ideias ao longo do seu livro com bastante destreza e especificidade,
com riqueza de detalhes, prendendo a atenção do leitor não somente no que diz respeito
a esses conceitos, mas no repensar das concepções próprias dos mesmos. Dando a ele um
arcabouço de novos detalhes significativos.
“Qual, então, o justo limite da soberania do indivíduo sôbre si
mesmo? Onde começa a autoridade da sociedade? Qual a parte da vida
humana que se deve atribuir à individualidade e qual à sociedade?
Cada um receberá a parte que lhe convém se cada um tiver aquilo
que mais particularmente lhe diz respeito. À individualidade deve
pertencer a parte da vida na qual está principalmente interessado o
indivíduo; à sociedade, a parte que interessa principalmente à
sociedade.”.7
Um recurso muito bem utilizado pelo autor, de modo especial na última parte do
livro que trata sobre as aplicações, é o da exemplificação. Mill traz exemplos,
frequentemente, ao longo da leitura, o que facilita o desenvolvimento dos conceitos que
ele está trabalhando nela. Essa forma de escrita dá um pouco mais de concretude ao tema
e as tipificações auxiliam no esclarecimento de dúvidas.
Sendo assim, ao final do texto, ele está mostrando formas de aplicação daquilo que
está sendo tratado ao longo do texto. É interessante pensar que a quantidade expressiva
de exemplos usados e suas diferentes particularidades abordadas, mostram a preocupação
do autor em evitar dúvidas sobre a aplicação dessa temática abordada em todas as esferas
possíveis que ela atinge. É evidente que um trabalho desse não caberia em um livro tão
pequeno e mesmo com um número razoável de exemplos, estes são os considerados mais
importantes, por isso não escapam de deixar algumas dúvidas ao leitor.
Desse modo, ao término da leitura, uma última questão se levanta: se a liberdade
está sobre os princípios morais e a escolha racional, de um modo bem generalizado, e
esses princípios variam quanto ao tempo e localidade, bem como a cultura e costumes, o
que é a liberdade? Essa pergunta pode dialogar com o ideal platônico, dependendo da
forma que o leitor se coloca e explica-la por suas aplicabilidades deixa dúvidas quanto à
sua definição. Certo é que, após a leitura desse ensaio, se torna impossível olhar o mundo
ao redor do mesmo modo, pois não é possível consideram mais as ações humanas sem
levar em consideração os aspectos tão bem trabalhados por Mill ao longo de sua obra.

7
Ibdem. Pág. 85.
BIBLIOGRAFIA
MILL, J. Stuart. DA LIBERDADE. Tradução de E. Jacy Monteiro. São Paulo: IBRASA
– Instituição Brasileira de difusão cultural S.A, 1963.