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Nível de atividade física, IMC e índices de força...

A fala dos idosos: modificações


associadas ao envelhecimento do
sistema estomatognático
Elderly speech: modifications related to aging of
stomatognathic system

Simone Augusta Finard de Nisa e Castro*


Antonio Cardoso dos Santos**
Lucia Hisako Takase Gonçalves***

Resumo
Este estudo analisou as modifica- que, de maneira geral, nesta amostra
ções sofridas pelo sistema estomatog- de idosos, não houve limitação na fala
nático (SEG) no processo de envelhe- mesmo na presença de algum distúr-
cimento e suas implicações na fala de bio do SEG ou da motricidade oral.
idosos. Foram incluídos no estudo
idosos independentes de ambos os se- Palavras-chave: fala do idoso, sistema
xos, com 65 anos de idade ou mais, estomatognático, fonoaudiologia.
usuários do Sistema Único de Saúde.
Os idosos foram submetidos à avalia-
ção fonoaudiológica, realizada com a
aplicação de um protocolo de ava-
liação miofuncional orofacial, que
examinou o SEG e as funções orofa-
ciais. Os dados da avaliação miofun-
cional orofacial sofreram tratamento
estatístico, não paramétrico, caracteri-
zando-se o aparecimento das modifi- * Fonoaudióloga do Serviço de Fisiatria do Hospital de
cações do SEG e suas funções, assim Clínicas de Porto Alegre; Doutora em Gerontologia Bio-
médica pela PUCRS.
como as associações entre as mesmas. ** Professor da Faculdade de Medicina da Ufrgs, chefe
Encontrou-se que a maior parte dos do Serviço de Fisiatria do Hospital de Clínicas de Porto
idosos apresentou adaptações parecen- Alegre.
***Professora do Programa de Pós-Graduação em Geronto-
do criar mecanismos compensatórios logia Biomédica da Pontifícia Universidade Católica
ao problema funcional. Verificou-se do Rio Grande do Sul.

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Introdução seado em queixas de comunicação, apre-
senta um leve predomínio de queixas
O envelhecimento de um organismo auditivas afetando a vida social dos in-
ocorre pelo efeito de eventos associados divíduos, conforme Neiva, Zackiewick,
ao tempo durante seu período de vida. Cattoni et al. (2000). O envelhecimento
Durante esse período, as mudanças que social acarreta a limitação de interlo-
ocorrem nos processos fisiológicos po- cuções significativas que podem levar à
dem ser benéficas, neutras ou degene- perda de algumas habilidades, o que se
rativas em sua natureza. O padrão de agrava ainda mais se o próprio idoso, de
envelhecimento é considerado variável forma estereotipada, acreditar que a ve-
mesmo nas modificações determinadas lhice está mais associada a perdas do
pelo envelhecimento normal (MASO- que a ganhos (VARELA, 1992).
RO, 1998). A relação com outros pode ser fonte
Conforme Hoit, Watson, Hixon, de profunda satisfação. A interação so-
McMahon et al. (1994), as estruturas e cial humana consiste, principalmente,
as funções no mecanismo periférico da na participação em conversas. O resulta-
fala sofrem muitas modificações com o do disso pode ser considerado um mis-
envelhecimento, ainda não adequada- to de solução de problemas e transmis-
mente esclarecidas. A maioria dos ido- são de informações, por um lado, e ma-
sos demonstra uma comunicação rela- nutenção de relações sociais, por outro
tivamente normal, e a deterioração nes- (QUANDT, ARCURY e BELL, 2001).
ta função seria, principalmente, desen- As interações sociais, como descrito por
cadeada pela ausência completa dos Tubero, Nunn, Souza et al. (1996), vin-
dentes (BOONE, 1982). Autores como culam o idoso em seu ambiente, promo-
Rastatter, McGuire e Bushong (1987) vidas essencialmente pela comunicação
estudaram a análise eletromiográfica do efetiva, que encoraja intercâmbios, re-
músculo orbicular dos lábios e mús- força socialmente as situações de comu-
culos masseter em mulheres idosas sau- nicação e minimiza sua privação. Além
dáveis, verificando uma equivalência na disso, a manifestação de intenções e de-
fala entre idosos e crianças. Vale lem- sejos é essencial para a independência
brar que a comunicação oral descrita do idoso, o que torna fundamental man-
está relacionada à condição motora da ter uma adequada comunicação no en-
fala, não às características relacionadas velhecimento (LUBINSKI e WELLAND,
à cognição ou sensoriais. E, mesmo para 1997).
esses processos, há controvérsias quan- Considerando a carência ainda de es-
to às modificações no envelhecimento, tudos fonoaudiológicos com relação à
especialmente devido ao enfoque descon- comunicação de idosos, objetivou-se
textualizado das avaliações utilizadas identificar a presença das modificações
(ROBBINS, HAMILTON e LOF, 1992). do SEG e da função da fala num grupo
De maneira geral, o perfil das altera- de idosos clientes do SUS, num serviço
ções fonoaudiológicas encontrado em de fisiatria. Não foi interesse desta pes-
um grupo de idosos em nosso meio, ba- quisa caracterizar a fisiopatologia ou as

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transformações deste sistema, delimi- tos, dos quais sete apresentavam alguma
tando graus de normalidade ou associa- alteração na avaliação miofuncional.
ções com possíveis patologias. Preten- Dos seis sujeitos que não apresentaram
deu-se tão-somente identificar as possí- a queixa, cinco não tinham o problema.
veis modificações associadas ao proces- Dessa forma, o tamanho da amostra foi
so de envelhecimento. calculado baseado nesses valores ado-
Este artigo é parte de uma pesquisa tando-se o nível de significância de 0,05
que serviu para a elaboração da tese de e poder estatístico de 80%, o que resul-
doutorado intitulada Análise das modifi- tou no número mínimo de 41 sujeitos.
cações nas interações sociais de idosos sub- A avaliação fonoaudiológica foi rea-
seqüentes a alterações da motricidade oral lizada junto a cada um dos sujeitos se-
(NISA-CASTRO, 2003) e tem por fim lecionados da amostra pela própria pes-
apresentar alguns dados relativos à fala quisadora e constituiu-se do levanta-
de idosos associada ao envelhecimento mento de dados com a avaliação mio-
normal. funcional orofacial (instrumento em
anexo). Esse exame consistiu na avaliação
Método do sistema estomatognático e das fun-
ções estomatognáticas. A articulação e
A população definida nesta pesquisa a fonação foram examinadas na avalia-
foi representada por pacientes idosos de ção global da fala. A avaliação dessas
65 anos e acima, do Ambulatório Geral funções foi adaptada de outras avalia-
do Serviço de Fisiatria do Hospital de ções já utilizadas na clínica fonoaudio-
Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Tal lógica de rotina do Ambulatório de Fo-
estrato etário foi definido em razão de noaudiologia do Serviço de Fisiatria do
já poder se verificar alterações na coor- HCPA. A avaliação observacional dos
denação muscular e diminuição da for- órgãos do SEG foi associada à avaliação
ça física em alguns segmentos do corpo. de cada função, à análise de movimen-
Para a seleção da amostra, os critérios de tos isolados, do tônus, da morfologia e
exclusão envolveram a presença de sensibilidade das estruturas.
doenças respiratórias, cardíacas, neuro- A fala foi avaliada com questões in-
lógicas, genéticas, progressivas, crônicas, formais que eram respondidas pelos
ou qualquer condição clínica sistêmica sujeitos ao longo do exame. A expressão
mais importante. Também foram ex- oral espontânea de cada idoso foi clas-
cluídos indivíduos com desordens psi- sificada como normal, com presença de
quiátricas, perdas auditivas e história de substituições, omissões ou distorções de
abuso de drogas ou álcool. O tamanho fonemas, com acúmulo de saliva nas
da amostra foi estimado com base em comissuras, escape de saliva durante a
análise de teste-piloto feito com 16 pa- fala ou presença de ceceio. O registro foi
cientes. A declaração mais freqüente feito em vídeo com filmadora Panasonic
descrita pelos idosos foi de problema de Omni Movie VHS HQ, em plano fron-
mastigação, que apareceu em dez sujei- tal, com o idoso em posição sentada.

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Os dados encontrados na avaliação em eversão; duas apresentavam a língua
miofuncional foram submetidos ao tra- fissurada; 17 idosos apresentavam sime-
tamento por procedimentos de estatís- tria das bochechas; 13, queda bilateral
tica descritiva não paramétrica, a fim de das mesmas; sete, queda unilateral direi-
estimar a freqüência das referidas mo- ta e seis, queda unilateral esquerda. Fo-
dificações. Foram consideradas signifi- ram verificadas lesões levemente aver-
cativas as ocorrências que apresentaram melhadas nas mucosas das bochechas de
correlação igual a p≤0,05. Os indivíduos uma idosa.
avaliados foram agrupados em razão das Na dentição, verificaram-se dois ido-
similaridades entre as modificações en- sos com dentição total, 26 com dentição
contradas no SEG. parcial e 15 eram edentados. Dos sujei-
tos com dentes naturais, completa ou
Resultados parcialmente, 19 apresentavam os den-
tes em bom estado de conservação e
Os dados foram colhidos no período nove, em mau estado.
entre maio e dezembro de 2002 e a Quanto à prótese dentária, quatro não
amostra compôs-se de 36 idosas e sete utilizavam nenhum tipo de protetisa-
idosos, dos quais, com idade que variava ção, 11 utilizavam prótese total e 28,
entre 65 e 85 anos e idade média de 72 protetisação parcial. Dos usuários de
anos. Eram idosos independentes e resi- prótese, 28 mantinham as próteses em
dentes em seus lares, com a família ou bom estado de conservação, e 11, não. As
sozinhos, usuários do Sistema Único de próteses estavam com boa adaptação
Saúde. Quanto à situação laboral, 25 já para todos os sujeitos, mesmo para as
estavam aposentados, 11 sempre foram duas idosas que usavam unicamente a
e continuam sendo donas de casa e qua- prótese superior.
tro ainda exerciam atividades ocupacio- Quanto à oclusão, 14 sujeitos apre-
nais. Em relação à escolaridade, uma sentavam oclusão adequada e 29, algum
idosa concluiu a formação superior (pe- tipo de má oclusão, anomalia de mordi-
dagogia); sete, o ensino médio; cinco, o da, mordida cruzada, sobremordida ou
ensino fundamental; 21, o ensino funda- estreitamento das arcadas.
mental incompleto; oito não eram alfa- Quanto à morfologia do palato, veri-
betizados e uma estava sendo alfabetiza- ficaram-se três idosas com palato duro
da. estreito, porém o palato mole apresen-
Os idosos, de um modo geral, não tava morfologia normal para todos os
apresentaram alteração quanto à sensi- idosos da amostra.
bilidade tátil das estruturas do SEG ava- Quanto à tonicidade, verificaram-se
liadas e quanto à morfologia e mobili- 22 sujeitos com tônus labial adequado
dade do palato mole. Ao exame dos as- e vinte apresentavam flacidez dos lábi-
pectos morfológicos, verificou-se que os. Uma idosa apresentou o lábio infe-
quatro idosos não apresentavam vedação rior mais rígido. A língua apresentava
labial e uma apresentou lábio inferior tônus normal na maioria dos idosos,

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exceto para uma idosa, na qual a língua chas. Para os 12 sujeitos com fala nor-
estava levemente flácida. As bochechas mal, encontrou-se tônus normal em bo-
apresentavam tônus normal em 12 ido- chechas; entre os 29 sujeitos que apre-
sos, e 29 apresentaram ambas as boche- sentaram flacidez bilateral em boche-
chas flácidas; um idoso apresentou a bo- chas, 25 apresentaram fala sem altera-
checha direita mais flácida e uma ido- ções e quatro, alguma alteração de fala;
sa, a bochecha flácida à esquerda. O um sujeito apresentou fala normal e fla-
tônus do músculo mentual estava ade- cidez em bochecha esquerda; um, alte-
quado para a maior parte dos idosos, ração e flacidez na bochecha direita.
exceto para uma idosa, na qual se encon- Houve também associação significa-
trava levemente rígido. tiva (χ 2 = 21,23; p < 0,000) entre o
A mobilidade dos lábios, para 39 ido- acúmulo de saliva nas comissuras dos
sos, encontrava-se normal, e dois apre- lábios durante a fala e o tônus nas bo-
sentavam tremor ao movimento; duas chechas. Nos dois idosos com acúmulo
apresentavam incoordenação leve ao de saliva durante a fala, um apresentou
movimento dos lábios. Com relação à bochecha flácida à direita e o outro, em
língua, 25 idosos apresentavam mobili- ambas. Dos 41 idosos sem a presença de
dade adequada; dez, tremor ao movi- acúmulo de saliva, 28 apresentavam
mento e oito, incoordenação. Quanto à flacidez bilateral em bochechas e um, à
mandíbula, 39 idosos apresentaram mo- esquerda. Verificaram-se 12 idosos apre-
bilidade normal; três, tremor ao movi- sentando fala sem presença de saliva
mento e uma, incoordenação à abertu- acumulada em comissuras e tônus nor-
ra. mal entre as bochechas.
Quanto ao modo de respiração, ob- A associação foi significativa (χ2 =
servaram-se 41 idosos com respiração 8,06; p ≤ 0,018) entre a mobilidade de
nasal e duas idosas com respiração oro- mandíbula e presença de fala normal.
nasal. Quando à saída de ar nasal, 39 Em 39 idosos com mobilidade normal
apresentaram saída de ar nasal bilateral; de mandíbula, 35 apresentaram também
duas, saída de ar maior por uma das fala normal; em cinco idosos com algu-
narinas e duas, escape nasal diminuído. ma alteração na fala, quatro apresenta-
Na avaliação miofuncional, encon- ram mobilidade normal, e um, incoorde-
traram-se cinco idosos com alterações nação ao movimento; três apresentaram
na articulação da fala ou durante a fala; tremor ao movimento e fala normal.
duas com sibilância e uma apresentava Também foi significativa a associação
leve distorção em fonema /r/ na fala. (χ2 = 13,76; p ≤ 0,001) entre a mobilida-
Como alterações durante a fala, dois ido- de de mandíbula e a fala com alteração.
sos apresentaram acúmulo de saliva em Entre os 39 sujeitos com mobilidade
comissuras. normal de mandíbula, 37 também apre-
Encontrou-se associação significati- sentaram fala normal. Houve três ido-
va (χ2 = 9,44; p ≤ 0,020) entre a presen- sos com fala normal e com tremor à mo-
ça de fala normal e o tônus das boche- bilidade da mandíbula. Entre os três ido-

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sos com distorção na fala, dois apresen- Os dados dos idosos deste estudo
taram mobilidade normal e um, incoor- mostraram uma associação significati-
denação. va entre sexo e mobilidade da língua,
com um maior número de idosas apre-
Discussão sentando normalidade para essa variável,
assim como um número bem menor
Em alguns setores sociais, a velhice apresentando tremor ao movimento.
ainda pode ser confundida com doença; Não foram encontrados sinais de nasa-
por isso, sua chegada não é comemora- lidade na fala dos idosos avaliados, cor-
da como a chegada da adolescência ou roborando com a literatura vigente, ou
da idade adulta (SUZUKI, DUPRAT e seja, a função velofaríngea não se mo-
LEDERMANET, 1998). No envelheci- difica com a idade (HOIT, WATSON e
mento, os sistemas e órgãos ficam geral- HIXON, 1994). Houve apenas três ido-
mente mais lentos e podem exibir dimi- sas que apresentaram fala sibilante, as-
nuição de força, estabilidade, coordena- sociada à presença de prótese superior
ção e resistência sem associação a algum e ausência da inferior, e uma idosa com
processo patológico. Como um todo, o uma sutil distorção que apresentava den-
envelhecimento implica interação entre tição parcial, porém com próteses bem
os processos sociais, as predisposições adaptadas. Dois idosos apresentavam
genéticas, as mudanças no sistema imu- acúmulo de saliva em comissuras du-
nológico, endocrinológico, neurológico rante a fala. Nenhuma outra alteração
e fisiológico, além das alterações não pa- na fala foi detectada na avaliação clíni-
tológicas no processo perceptual, cogni- ca dos idosos. A partir desses resultados
tivo, emocional e psicológico (GLES- confirma-se, como em outros estudos,
SON, 1999; DOOSE e FEREYENSEN, que os idosos freqüentemente comuni-
2001). Com relação ao envelhecimento cam-se bem com seu meio, pois as leves
da função motora oral, Smith, Waso- modificações que ocorrem na voz ou na
wicz e Preston (1987) concluíram que as articulação têm impacto moderado nas
alterações sistemáticas nas respostas re- habilidades de comunicação. Contudo,
flexas ocorreriam desde a idade adulta conforme Boone, Bayles e Koopman
até a sétima década de vida, o que indi- (1981), os indivíduos edentados e os
caria uma modificação contínua do sis- com prótese mal daptada podem apre-
tema sensoriomotor oral ao longo do sentar uma deterioração da articulação.
tempo. As perdas de fibras musculares, As queixas podem aparecer tanto na fala
de neurônios motores, unidades moto- quanto na mastigação, quando não são
ras, massa muscular, disparo da força considerados a estabilidade e o confor-
muscular ou aceleração podem ter iní- to durante a confecção e adaptação da
cio entre os cinqüenta e os sessenta anos prótese (FELICIO, 1998). Sabe-se que
de idade, chegando à metade de seu nú- alguns problemas percebidos em eden-
mero ou nível em torno dos oitenta anos tados podem estar associados a outros
(BOOTH, WEEDEN e TSENG, 1994). fatores coexistentes, desconhecidos dos

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sujeitos, e que são atribuídos à falta dos fissionais. As atitudes de aceitação da ve-
dentes. Nesses casos, mesmo com ade- lhice dependem, em grande parte, da
quada protetisação, o problema pode personalidade. Ocorrem conforme as
não ser solucionado ou, ainda, ser agra- circunstâncias que aparecem e são in-
vado. Além disso, o uso contínuo das fluenciadas pelos conhecimentos, cren-
próteses provoca mudanças na função ças e valores gerados em seu processo de
muscular; as novas relações horizontais crescimento e desenvolvimento, permi-
e verticais que vão sendo adquiridas com tindo responder ou adotar um determi-
o uso contribuem para uma modificação nado comportamento na velhice (MON-
do tônus. São estabelecidos novos engra- CAYO et al., 1991). A adaptabilidade à
mas durante os movimentos das estru- disfunção pode estar associada à pouca
turas do SEG para que os fonemas sejam necessidade de responder às exigências
adequadamente emitidos (FELICIO, do meio.
1998; FELICIO, 1999). Geralmente, para Godino, Canestrari
Encontraram-se em estudos modifi- e Cipolli (2001), os indivíduos idosos
cações associadas à idade com relação à podem apresentar uma freqüência
competência fonológica, à freqüência maior com experiências de perdas, o que
fundamental e aos aspectos temporais da os predispõe ao isolamento social e ao
fala (BENJAMIN, 1984; OYER e DEAL, desenvolvimento de déficits cognitivos
1985; MORRIS e BROWN, 1994). Con- e sensoriais. Esse isolamento não só con-
siderando a geração de força obtida em tribui para estabelecer problemas de
lábios, língua e mandíbula, McHenry, saúde, como também reduz a capacida-
Minton e Hartley (1999) também veri- de do idosos de ganhar acesso à infor-
ficaram algum declínio, principalmen- mação e à assistência. Por isso, as inter-
te após os oitenta anos, que, contudo venções sociais e pessoais podem ser
não chegou a afetar a comunicação fun- decisivas na evolução positiva do enve-
cional. lhecimento e, ao contrário, a fragilida-
Com relação aos resultados da avalia- de pode precipitar situações constrange-
ção miofuncional dos idosos deste estu- doras (BOTH, 2000; OPAN, 2002).
do, encontraram-se modificações bas- Neri (1993) afirma que o idoso envol-
tante sutis na fala, como a sibilância as- ve-se num menor número de interações,
sociada ao uso de prótese dentária, ou que são mais íntimas, oferecendo expe-
durante a fala, como o acúmulo de sali- riências emocionais mais positivas. Em
va nas comissuras dos lábios. Mesmo na situações de intimidade, o idoso apre-
presença dessas modificações, apresen- sentaria menos reações de vergonha ou
taram comportamentos adaptativos. Não constrangimento; mesmo na presença
houve limitação da funcionalidade, pos- de alguma limitação, seria mais fácil
sivelmente em razão das modificações ignorá-la ou compensá-la através de
serem leves ou, ainda, devido aos idosos mecanismos adaptativos. Essa capacida-
pertencerem a uma classe menos favore- de garantiria motivação para envelhecer
cida e com menores cobranças sociopro- bem, um conceito que traduz satisfação

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com a vida atual e manutenção de expec- damental a participação e a interação
tativas positivas para o futuro. entre especialistas das mais diversas
A compreensão dos fatores que têm áreas para discussão desses aspectos (FAS-
impacto na qualidade de vida no enve- SINO, LEOMBRUNI e DAGA, 2002).
lhecimento é fundamental para identi- Da Cruz e Schwanke (2001) relatam que
ficar os idosos que podem apresentar essa interação busca um planejamento
algum risco de não manter uma quali- mais objetivo e específico para a promo-
dade de vida adequada. Para manter a ção de saúde e bem-estar desse estrato da
auto-estima e uma forma de interagir população, o que é preconizado pela pes-
com o contexto imediato, o indivíduo quisa em biogerontologia. O presente
deveria adaptar-se à velhice, à conotação estudo de investigação fonoaudiológica
sociocultural de ser velho e às mudan- pretende contribuir para a manutenção
ças ocupacionais (AGOSTINI e KIGUEL, de um padrão de funcionalidade, funda-
1998; KEISTER e BLIXEN, 1998). As mental para um viver saudável e com
adaptações às condições de velhice con- qualidade.
siderariam que a perda da plasticidade O papel do fonoaudiólogo pode ofe-
estaria associada ao desenvolvimento de recer incremento à qualidade de vida,
capacidades compensatórias que garanti- orientando o cuidado do idoso quanto
riam domínio e sucessão (NERI, 1993). aos processos da motricidade oral, o que
Os estudos do envelhecimento ainda inclui a mastigação, a sucção, a degluti-
mantêm certa falta de informação quan- ção e a fala; da voz; da linguagem e da
to à influência na qualidade de vida de audição. O objetivo principal deste tra-
determinadas perdas sensoriais. Encon- balho, também da equipe, é manter um
trou-se que os idosos podem manter es- nível funcional, ou a reabilitação, quan-
tabilidade quanto à performance fun- do houver um comprometimento dessas
cional, demonstrando sua adaptação às funções junto ao cliente idoso, seus fa-
modificações. Em condições ótimas de miliares e cuidadores.
saúde e ambiente, as pessoas mais velhas Os idosos investigados nesta pesquisa
podem manter altos níveis de desempe- pertencem essencialmente a uma clas-
nho; podem também adquirir novos co- se menos favorecida em escolaridade e
nhecimentos e manter interações sociais em recursos financeiros, usuários do
significativas (NERI, 1993; HUPPERT, Sistema Único de Saúde; desta forma, os
BRAYNE e JAGGER, 2000; LEINO- resultados encontrados apresentam as-
NEN, HEIJJINEN e JYLHA, 2002). sociação com essas características. Além
O que já foi confirmado através de de todos os aspectos discutidos previa-
estudos longitudinais direcionou a mente, é fundamental ter em mente a
abordagem no envelhecimento também variabilidade do envelhecer. O envelhe-
para garantir uma vida com qualidade. cimento biológico, para Da Cruz e
Para isso, são considerados, além dos Schwanke (2001), é variável num mes-
aspectos funcionais, os aspectos psico- mo organismo, entre os indivíduos de
lógicos e ambientais, tornando-se fun- uma mesma raça e, especialmente, en-

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tre etnias diferentes. As várias condições do pelo fonoaudiólogo, é fundamental


de velhice são associadas a diferentes para a manutenção das interações so-
condições de qualidade de vida indivi- ciais do idoso, garantindo um padrão de
dual e social e, no Brasil, são principal- adaptação às condições do envelheci-
mente as diferenças socioeconômicas mento e, em especial, de satisfação com
que determinam a heterogeneidade, a vida.
podendo-se dizer que um idoso bra-
sileiro único não existe (NERI, 1993). Abstract
Várias teorias refletem uma multipli-
cidade de características que devem ser This study analyzed the effects of the
compreendidas para atingir-se este ob- modifications suffered by the Estoma-
jetivo. Ter saúde ou estar doente seria tognathic System (SEG) in the aging
uma condição originada também a par- process, and its implications in the el-
tir das interações estabelecidas no coti- derly speech. The persons included in
diano familiar ou comunitário e seriam this study are independent elderly peo-
consideradas como adaptações bem-su- ple, of both sexes, with 65 years of age
cedidas no envelhecimento (RYFF, or more, users of the Sistema Único de
1982; ALMEIDA e SILVA, 1998). Cabe Saúde (SUS), state health system. The
lembrar que muitos idosos podem apre- older persons were submitted to a speech
sentar como indicador de saúde uma and language evaluation performed with
vida independente sobre a qual possu- the application of a protocol for the mio-
am controle e, acima de tudo, sem a ne- functional orofacial evaluation, that
cessidade dos cuidados de outrem. examined the SEG and the orofacial
functions. The data collected through
the Miofunctional Orofacial Evaluation
Considerações finais
underwent non-parametric, statistical
Esta pesquisa encontrou uma varia- treatment, characterized by the appea-
bilidade de modificações sofridas pelo rance of the modifications of the SEG
SEG não necessariamente associadas ao and its functions, and the associations
processo de envelhecimento, mas tão- among them alike. Most of the elderly
somente relacionadas aos sujeitos des- persons presented to some type of adap-
te estudo. Os idosos apresentavam carac- tation, seeming to create compensatory
terísticas específicas, o que incluiu um mechanisms to the functional problems.
nível socioeconômico e de alfabetização We could verify that, in a general sense,
limitados, embora fossem essencial- in this sample of older persons, there
mente saudáveis. Embora não tenham were no referal to limitations in the
sido encontradas limitações na fala dos speech even in the presence of some
idosos deste estudo, sabe-se que podem SEG or oral motility disturbance.
ocorrer modificações no SEG, podendo
interferir na referida função oral. O cui- Key words: elder speech, stomatognathic
dado com essa função, também orienta- system, speech-language therapy.

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