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Clóvis Rossi

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GOVERNO BOLSONARO (HTTPS://WWW1.FOLHA.UOL.COM.BR/ESPECIAL/2018/GOVERNO-BOLSONARO)

Cenas explícitas de
absurdos em exibição em
um país perto de você
A crise mais esdrúxula de todas as já vistas

20.mai.2019 às 11h36

Iniciei minha vida profissional, em 1963, cobrindo momentos da


conspiração que desaguaria no golpe de 1964. Tenho, portanto, 56
anos de estrada no acompanhamento de crises neste país tropical
que parece viciado nelas.

Com tanta experiência, confesso que jamais vi uma crise como a


que se desenrola (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/05/bolsonaro-tenta-estancar-crise-
em-semana-de-pressao-por-votos-e-apoio-nas-ruas.shtml) nestes meses. Não sei dizer se é
mais ou menos grave que alguma outra ou que todas as outras. Não
há um metro exato para medir cada crise.

O presidente Jair Bolsonaro, durante coletiva de imprensa no Rio de Janeiro - Mauro


Pimentel - 11.out.2018/AFP

Mas posso assegurar tranquilamente que é a crise mais esdrúxula


que me tocou viver. É um teatro do absurdo levado às últimas
consequências, um non sense total e absoluto.

Começa pelo fato de que Jair (https://www1.folha.uol.com.br/especial/2018/governo-


bolsonaro)Bolsonaro (https://www1.folha.uol.com.br/especial/2018/governo-bolsonaro)

confessou publicamente que não nasceu para ser presidente, mas


para ser militar. É natural, portanto, que o leitor Lucas Monteiro
(São Paulo) escreva para o Painel do Leitor desta segunda (20) que
Bolsonaro “ainda não entendeu o que é ser presidente
(https://www1.folha.uol.com.br/paineldoleitor/2019/05/leitor-diz-que-bolsonaro-ainda-nao-entendeu-o-que-

e-ser-presidente.shtml)".
Claro que ele não entendeu, Lucas, não nasceu para o ofício.

Caberia perguntar por que, diabos, então se candidatou a


presidente se não é a praia dele? E, uma vez eleito, o que está
fazendo no cargo, se não nasceu para ele?

Talvez o problema esteja no fato de que a carreira para a qual se


julga feito tampouco o aceita. Foi expelido do Exército, para a
reserva, porque seus companheiros de arma devem tem achado que
ele não nascera para ser militar.

Aliás, é um baita non sense um cidadão que se diz talhado para ser
militar mas que tem como guru um pilantra que dia sim, outro
também, esculhamba os militares em geral. Esculhamba, em
particular, os militares que Bolsonaro escolheu para acompanhá-lo
no governo. Em seguida às esculhambações, condecora o
escatológico astrólogo.

É ou não é um teatro do absurdo?

Mas não fica por aí: o presidente-que-não-nasceu-para-ser-


presidente diz que não lhe apetece fazer uma reforma da
Previdência (https://www1.folha.uol.com.br/mercado/previdencia/). Não obstante, seu
guru na Economia (tema ele confessa também não ter nascido para
entender) toca como samba de uma nota só “reforma da
Previdência/reforma da Previdência".

Aí, em dado dia, o cidadão que nasceu para ser militar mas foi
expelido da carreira divulga texto de um ex-candidato a vereador
obscuro (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/05/bolsonaro-distribui-texto-que-fala-em-brasil-
ingovernavel-fora-de-conchavos.shtml) de um partido nanico que diz que o país é
ingovernável sem que se façam conchavos que Bolsonaro afirma
não estar disposto a fazer.
Por isso, segundo o texto, Bolsonaro até agora não fez nada,
absolutamente nada. O presidente-que-não-nasceu-para-ser-
presidente concorda que não fez nada, posto que divulgou o texto
(ninguém em seu juízo perfeito espalha um texto com o qual
discorda, a não ser para apresentar a crítica do papel em referência,
coisa que Bolsonaro não fez).

A tese de que o Brasil é ingovernável sem conchavos com as


corporações (não especificadas no texto, como se fossem
alienígenas) é outro non sense. Governar é gerir pressões,
demandas e necessidades. A vida, aliás, é também assim. Quem não
sabe administrar tais situações não vive bem e, se presidente, não
governa bem.

Tudo somado, vem inexoravelmente à memória o filme de 1979


“Being There", de Hal Ashby (em português, “Muito Além do
Jardim"). É a história de um jardineiro, magistralmente interpretado
por Peter Sellers, de poucas letras (para dizer o mínimo), que perde
o emprego da vida toda e, pelo acaso, vai se aproximando de
círculos cada vez mais poderosos até chegar à Presidência dos
Estados Unidos.

No cinema, me diverti muito. Na vida real, é assustador.

Clóvis Rossi
Repórter especial, membro do Conselho Editorial da Folha e vencedor do prêmio Maria
Moors Cabot.

ENDEREÇO DA PÁGINA

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2019/05/cenas-
explicitas-de-absurdos-em-exibicao-em-um-pais-perto-de-
voce.shtml