Você está na página 1de 12

A comunicação democrática, uma

utopia real1
João Alexandre Peschanski
Docente da Faculdade Cásper Líbero. Mestre em ciência política pela USP. E-mail: japeschanski@casperlibero.edu.br

Renato Moraes
Docente da Universidade Federal de São Carlos. Doutor em ciência política

O presente trabalho apresenta o diagnóstico normativo-institucional da comunicação profissional e


indica limitações do atual modelo de comunicação, tanto no que diz respeito à capacidade de atuar
como jornalista quanto de potencializar o caráter democratizador inerente a essa atuação. Propõe-
-se, no plano teórico, um conjunto de reformas empoderadoras, em linha com a teoria em voga das
utopias reais, proposta pelo sociólogo Erik Olin Wright.
Palavras-chave: Mídia; jornalismo; democracia; utopia.

The democratic communication, a La comunicación democrática, una


realistic utopia This piece presents a normative- utopia real En este trabajo se presenta una evaluación
institutional assessment of professional communication, normativo-institucional de la comunicación profesional,
highlighting the limiting nature of the current institutional destacando el carácter limitativo de la configuración insti-
setting with regard to the ability to act as a journalist and to tucional actual en relación con la capacidad de actuar como
leverage the inherent democratizing character of this acting. periodista y aprovechar el carácter democratizador inheren-
Then, it makes a theoretical case for a set of empowering te a esta actuación. Entonces propone, en teoría, un conjunto
reforms, in line with the current theory of real utopias as de reformas de empoderamiento, en línea con la teoría en
proposed by sociologist Erik Olin Wright, with the goal of boga de las utopías reales propuesta por el sociólogo Erik
transforming the limiting nature of the institutional setting Olin Wright, con el objetivo de transformar el carácter limi-
of communication. tativo de la configuración institucional de la comunicación.
Key-words: Media; journalism; democracy; utopia Palabras-clave: Medios de comunicación; periodismo; de-
mocracia; utopía.

1. Agradecemos a Erik Olin Wright e Robert W. McChesney o estímulo inicial à elaboração do argumento aqui proposto,
no quadro da 107a Conferência Anual da Associação dos Sociólogos Americanos (ASA), realizada em Denver, em 2012,
com o tema: “Utopias reais: projetos emancipadores, desenhos institucionais e futuros possíveis”. Agradecemos ao Havens
Center, da University of Wisconsin-Madison, em especial a seus integrantes David Calnitsky, Matías Cociña e Tatiana
Alfonso Sierra. Agradecemos ao parecerista anônimo os comentários e sugestões críticas que, além de pertinentes,
contribuíram para aprofundar ainda mais o argumento aqui desenvolvido. Toda a responsabilidade pelo argumento
apresentado neste ensaio recai apenas e unicamente em seus autores.
A comunicação democrática, uma utopia real

É comum definir a mídia como um poder, identificando nela uma razão polí-
tica. Essa definição é de senso comum, mas também está presente em teorias po-
líticas basilares desde a modernidade, de correntes ideológicas ecléticas. Estava
presente na formulação inicial da imprensa como quarto poder, no início do século
XIX (Ianoni, 2005). A razão política deve-se à importância da mídia em sustentar
o funcionamento das instituições, especialmente da democracia. São variados os
mecanismos midiáticos que potencialmente contribuem para a política: prestação
de contas e cobrança dos gestores políticos, informação e educação dos cidadãos,
fortalecimento de cultura cívica, para citar apenas alguns. A importância da mídia
para a política influenciou o surgimento de códigos e parâmetros profissionais para
a atividade jornalística.
O principal paradigma da atuação na mídia desde o início do século XX se fun-
damentou na ideia do jornalismo profissional. Trata-se de uma ideia revolucionária:
surgiu com a modernização do jornalismo, que preconizou separar os interesses
dos proprietários dos meios de comunicação e anunciantes da equipe jornalística,
potencializando o caráter idealmente fiscalizador do quarto poder. Expressão dessa
forma de pensar foi, nos Estados Unidos, a Comissão Hutchins, de 1947, que redi-
giu um dos primeiros códigos de ética da profissão. O documento estabeleceu uma
visão transformadora para a época. O jornalismo teria de ser exercido de maneira
responsável, sem abusos, até mesmo porque o mau jornalismo poderia ter consequ-
ências deploráveis para o bem-estar da sociedade, o princípio norteador máximo da
atuação jornalística. O exercício do jornalismo tinha de ser neutro, independente
dos pontos de vista de indivíduos e organizações poderosas.
Os códigos e parâmetros tais quais formulados na ideia do jornalismo pro-
fissional não são eficazes e efetivos para garantir o funcionamento da democracia,
argumentamos. O paradigma ruiu sob a pressão das configurações de mercado e
poder que estruturam a profissão (Chomsky & Herman, 1988; Arbex, 2001) e pela
tendência racional ao desinteresse (Downs, 1999; Martinelli, 2006). Há iniciativas
em várias partes do mundo (Viana, 2013), especialmente a América Latina (Ma-
ringoni, 2012), para estabelecer novas formas de produção midiática, que levem
a sério o controle democrático do poder da comunicação, chegando-se a sugerir
normativamente a criação de um quinto poder para fiscalizar o quarto poder, atre-
lado demais aos interesses do mercado por conta de sua modalidade empresarial de
organização, o que gera perversões na realização de suas funções social e política
(Ianoni, 2005). Apresentamos elementos para um novo paradigma de comunicação,
pautado na proposta de “utopias reais” (Wright, 2011, 2012), que se fundamenta na
ideia de democracia igualitária radical e profunda, e indicações ainda preliminares
para uma nova configuração institucional.

54 Revista Communicare
João Alexandre Peschanski e Renato Moraes

Ascensão e crise do jornalismo profissional

A ideia do jornalismo profissional, sintetizada no código da Comissão Hu-


tchins, mas de fato em expansão antes dele, foi acompanhada por várias transfor-
mações no fazer jornalismo e na formação dos profissionais. Difundiram-se escolas
de jornalismo: nos Estados Unidos (e, ao que consta, no mundo), não havia nenhum
centro de formação profissional de jornalistas até 1900; algumas décadas depois, to-
das as grandes universidades desse país tinham escolas de jornalismo. O editor Joseph
Pulitzer, que inspirou o principal prêmio de jornalismo estadunidense, que tem seu
nome, foi um dos precursores, idealizando a construção e o currículo da Escola de
Jornalismo da Universidade Columbia, em Nova York, de 1912.
No Brasil, a ideia do jornalismo profissional chegou mais tarde. Durante a pri-
meira metade do século XX, os principais meios de comunicação, com raras exceções,
veiculavam explicitamente os interesses de seus donos ou aliados. Foi o período de
ouro do conglomerado Diários Associados, de Assis Chateaubriand, e do jornal Últi-
ma Hora, de Samuel Wainer. Sob influência direta da experiência estadunidense, hou-
ve na década de 1950 algumas tentativas de implementar o jornalismo profissional,
mas não tiveram sucesso.
Curiosamente, foi durante a ditadura, quando parte da mídia foi sistematica-
mente censurada, que se impuseram reformas para supostamente modernizar o jor-
nalismo brasileiro, interrompendo, segundo os militares na época, o irresponsável
populismo midiático pré-1964. O Decreto-Lei 972/1969 limitou, entre outros pontos,
o exercício da profissão de jornalista aos portadores de diploma de curso superior de
jornalismo. Esse decreto serviu para justificar violências contra a mídia de oposição,
especialmente a imprensa alternativa. A maioria dos jornalistas não tinha diploma, ou
seja, podia ser eventualmente proibida de exercer a profissão, se incomodasse o regi-
me militar (Kushnir, 2004). Apesar de a primeira faculdade de jornalismo, a Faculdade
Cásper Líbero, ter sido criada em 1947, muitas escolas de jornalismo só foram abertas
na década de 1960, influenciadas, aliás, pela exigência do decreto. Houve reflexões
sérias sobre o jornalismo profissional e sua prática no Brasil, em especial as experiên-
cias do jornalista Cláudio Abramo (1988), que tentou criar uma linha profissional de
jornalismo na virada das décadas de 1970 e 1980.
A promessa de que, sob exclusividade do jornalista profissional, a notícia seria
objetiva, não partidária e precisa não se realizou plenamente. Nem nos Estados Uni-
dos, nem no Brasil, nem alhures. As reformas profissionalizantes deram-se num con-
texto de redução sistemática dos custos de reportagem. A prática jornalística tornou-
-se, no geral, a veiculação das opiniões de fontes oficiais; isso é evidentemente menos
custoso do que apurar e verificar essas opiniões. O repórter Chris Hedges (2009), por

Volume 13 – Nº 2 – 2º Semestre de 2013 55


A comunicação democrática, uma utopia real

sinal vencedor do Pulitzer, revela uma das consequências dessa prática: “A mídia tem
acesso à elite, apenas se esta relata de maneira fiel o que a elite quer que seja relatado.
No momento em que esse pacto se rompe, os repórteres, os repórteres de verdade,
são marginalizados e não têm mais acesso às fontes”. Outra consequência é que, quan-
do as fontes oficiais se calam, não há pauta, e o repórter que questionar os silêncios
convenientes da elite é tachado de antiprofissional. Além disso, como salienta José
Arbex Jr. (2001), o exercício do jornalismo dito profissional depende em grande parte
de notas que recebem de assessores de imprensa e agências noticiosas, reduzindo
simultaneamente os custos de produção e a credibilidade do que é publicado. Num
contexto de enxugamento das redações, novamente na lógica de economizar custos,
a habilidade dos jornalistas de investigar é ainda menor.
Não há evidência de que, no sistema de mídia que existe hoje, cada vez mais
concentrado, haja uma tendência de reversão do cenário avesso ao jornalismo pro-
fissional. No Brasil, a situação é ainda pior, na medida em que a concentração dos
veículos de comunicação em poucas mãos é intensa, os passos para uma transfor-
mação do modelo de comunicação são tímidos e a política vigente é de apoio aos
grandes conglomerados (Brant, 2013). A concentração da comunicação brasileira é
sustentada por subsídios públicos, ou seja, é política de governo. Dados da Secretaria
de Comunicação Social (Secom), divulgados em 13 de setembro de 2013 pela revista
Carta Capital, atestam a dependência da mídia brasileira em relação a esses subsídios.
Diz a matéria:
De um total de 161 milhões de reais repassados a emissoras de tevê, rádios, jornais,
revistas e sites desde o início do governo Dilma Rousseff, 50 milhões foram direcionados
apenas à tevê Globo. Ainda entre as emissoras, a Globo Comunicação e Participações
LTDA recebeu 833,8 mil reais e a Globosat Programadora, 810,3 mil. Isso soma cerca de
um terço de toda a verba publicitária do governo federal. A família Marinho recebe ainda
por: Rádio Globo (730 mil), Infoglobo, que edita O Globo e o Extra, 927,4 mil, Globo
Participações, que cuida das operações na internet, 952,9 mil. O jornal Valor Econômico,
do qual o grupo detém 50%, embolsou 164 mil. E a Editora Globo, responsável pela
revista Época, 479 mil.

Nota a reportagem que esses dados levam apenas em consideração os repasses


do governo federal – matérias subsequentes mostram que o mesmo desequilíbrio se
dá nos repasses das administrações estaduais, incluindo São Paulo – e que não en-
tram os investimentos em propaganda de empresas públicas, como Petrobras e Caixa
Econômica Federal. Com a divulgação dos dados, reportagens denunciaram o repasse
fraudulento de verbas públicas a veículos de comunicação inexistentes. O desequilí-
brio e a ineficiência mostram que, em pelo menos alguns casos, o repasse de verbas
se dá com base em critérios que respondem provavelmente mais a pressões de grupos
políticos, inclusive de lobby dos próprios donos dos meios de comunicação, do que do

56 Revista Communicare
João Alexandre Peschanski e Renato Moraes

interesse público. Vale notar que não argumentamos contra o investimento público
em comunicação, que, bem administrado e de acordo com princípios profundamente
democráticos, é positivo. A mídia, na medida em que solidifica a democracia, é um
bem público fundamental e que, em muitos casos, por mais que seja útil para a so-
ciedade democrática eficiente, não se sustenta apenas com os fundos coletados por
propaganda privada, assinaturas e vendas. A inviabilidade mercadológica é notória na
mídia na internet.

O desinteresse racional

A crise da mídia profissional, na sua relação com a configuração organizacional


da imprensa, atrela-se diretamente à tendência geral pelo desinteresse por jornalismo
de qualidade. Há várias explicações para esse desinteresse. Há, em geral, ênfase na
noção de que, com as tecnologias de espetacularização, o entretenimento sobrepôs-
-se ao jornalismo. O argumento que desenvolvemos aqui - o desinteresse racional - é
relativamente complementar a essa ênfase na espetacularização.
As regras do jogo democrático tais quais existem no mundo hoje, inclusive no
Brasil, estimulam de maneira generalizada a apatia, a falta de participação dos cida-
dãos e da vontade de participar da política. São desdobramentos da linha racionalista
de pensar a atividade social de Downs (1999). E são desdobramentos surpreendentes,
pois a ideia de democracia é extraordinária - o governo do povo, pelo povo, para o
povo - com a promessa de que o povo é nela empoderado. A realidade, entretanto, é
que o povo, chamado a ter poder, tem incentivos racionais a desinteressar-se e even-
tualmente delegá-lo. É esse um dos principais enigmas da teoria democrática (Dahl,
2012), com repercussão imediata nas razões da imprensa.
A questão sobre os incentivos à apatia e ao desinteresse é multidimensional, isto
é, pode ser tomada por vários ângulos. Uma forma de responder, habitual, é colocar o
foco na cultura. No caso brasileiro, o povo não quer participar da democracia porque
a indolência seria um traço comportamental de origem, que remontaria a nossa ori-
gem colonial. Temos assim um componente macunaímico inescapável, nessa forma
de pensar. Outra forma de responder é que as instituições políticas seriam falhas, ine-
ficientes, tomadas por corruptos, e a democracia seria apenas uma fantasia, um fingi-
mento compactuado, da qual não faria mesmo sentido participar. As ditas respostas
culturalista e conjuntural têm bastante ressonância e são até intuitivas. Aliás, essas
respostas informam importantes cientistas sociais e, principalmente, formadores de
opinião. Apresentamos aqui uma forma diferente de pensar o problema.
Imaginemos que, de repente, de um dia para a noite, no estalar dos dedos, este-
jamos em uma sociedade contemporânea, capitalista, em que as pessoas não tenham
uma cultura da indolência e o sistema político seja eficiente. Haverá participação?

Volume 13 – Nº 2 – 2º Semestre de 2013 57


A comunicação democrática, uma utopia real

Mesmo nessa sociedade melhorada, o comportamento social esperado é a apatia. Vale


notar que não estamos dizendo que todos seremos apáticos. Há sempre pessoas que,
por um motivo ou outro, se revoltam, se mobilizam, levam a sério as eleições, mesmo
quando não são candidatos, se filiam a partidos, se preocupam com o devir social,
buscam informar-se, mas a regra geral, para o grosso da população, é a não mobiliza-
ção e o desinteresse.
A chave da resposta está precisamente no modo como entendemos o fato de a
democracia ser o governo do povo, pelo povo, para o povo. A democracia faz parte de
um grupo específico de fenômenos que podemos chamar de “bens públicos”, algo que,
se produzido, beneficia todas as pessoas, mesmo aquelas que não se envolvem na pro-
dução ou não contribuem para manter sua produção. Outra forma de pensar sobre
isso é que bens públicos são coisas e processos cujo custo é independente do número
de pessoas que os consomem (Olson, 1999). Quando a democracia está instituída,
isso beneficia potencialmente todo mundo, aqueles que se mobilizam para sustentá-la
e aqueles que se mantêm apáticos. Ou seja, mesmo apáticas as pessoas beneficiam-se
da ação coletiva dos outros. Ficar apático faz com que se “economizem” os custos de
participar: por exemplo, discutir e informar-se. Racionalmente, há um interesse em
não participar, se existe a possibilidade de “pegar carona” na participação dos outros.
A ideia de carona política em democracias agrava-se na constatação de que o impacto
de um voto, de uma unidade de mobilização, de um corpo a mais na rua, é quase nulo.
O fato de se votar em tal ou tal candidato tem um impacto quase nulo na chance de
eleição desse candidato preferido. No caso das pessoas e dos grupos ricos, a questão
do impacto é diferente, pois, pelos limites intrínsecos que o capitalismo coloca na
democracia, eles têm mais capacidade de influenciar o resultado final da decisão polí-
tica. Por exemplo, uma indústria farmacêutica de ponta tem interesse em se mobilizar
para impedir a votação de uma medida que vá contra seus lucros, até porque tem
acesso a meios para influenciar essa votação.
A apatia racional tem uma implicação fundamental para o jornalismo, aliás para
o consumo de informação: o incentivo à ignorância racional. Sabemos que, assim
como a participação, a informação é necessária para a democracia. Mas, assim como
a participação, também informar-se é custoso. É preciso comprar um jornal, manter-
-se atualizado, decodificar informações complexas. Aliás, para que fazer todo esse
esforço de adquirir informação de qualidade? Ter acesso individual a informação de
qualidade tem um impacto praticamente nulo no resultado da decisão política. Se há
apenas uma pessoa que, para decidir sobre uma norma social, estuda, lê os clássicos,
enquanto todo o resto está apenas no universo do entretenimento, o impacto da pes-
soa informada é praticamente nulo na arena política. Por isso, há um incentivo para
as pessoas adquirirem informações a custo zero, ou seja, aquele que não exige esforço,
que está lá, facilmente disponível, que não exige estudo: a TV ligada nos piores canais,

58 Revista Communicare
João Alexandre Peschanski e Renato Moraes

o boletim da igreja etc. Não a publicação acadêmica, o debate de ideias. A informa-


ção que geralmente se tem por meios a custo zero - basicamente os meios em que o
emissor “paga” para que o destinatário veja o que ele quer emitir, como a propaganda
- é de má qualidade. E evidentemente isso tem impacto no tipo de jornalismo que é
esperado, um jornalismo de má qualidade, a custo zero.

Elementos para uma mídia profundamente democrática

De modo estrutural, não é do interesse do capitalismo, incluindo os donos dos


meios de comunicação, e dos governos que lhe são funcionais, alimentar o acesso
democrático à informação. A falta de transparência — por exemplo, sobre as razões
ou os impactos de uma decisão empresarial — é um elemento central do sistema em
que vivemos.
De modo estrutural também, há incentivos racionais para que as pessoas não se
interessem em consumir jornalismo de boa qualidade. A tendência racional é ir em
busca de um produto de pior qualidade, na medida em que o custo da informação é
elevado demais em relação ao impacto médio na arena social.
Pelas razões estruturais, é preciso repensar fundamentalmente o sistema de mí-
dia. E, afirmamos aqui, isso se faz com uma superação do paradigma do jornalismo
profissional – não queremos dizer que a figura do jornalista, formado e competente,
tenha de desaparecer, mas que o modelo como um todo deve ser fundamentalmente
participativo.
Para superar um padrão e um modelo institucional vigente, é importante ter
uma alternativa desejável que seja racional e eficaz. De que adianta derrubar um sis-
tema imperfeito se não existe uma alternativa melhor? Tal questionamento vale para
toda e qualquer instituição, incluindo a comunicação. Essas alternativas viáveis, que
se podem visualizar e que, quando postas em prática, não se pervertem imediata-
mente, são identificadas como “utopias reais”, arranjos institucionais que realizam um
potencial democrático igualitário radical e profundo. Um verdadeiro problema a toda
configuração alternativa é que a realidade, tal qual existe, parece enraizada demais,
quase imutável, e a apresentação de alternativas institucionais testáveis contribui para
desmistificar essa percepção da imutabilidade.
Um princípio-chave de uma comunicação efetivamente democrática é a partici-
pação social na produção jornalística. Por um lado, a participação fortalece o caráter
empoderador do exercício da comunicação, fazendo com que aquele que atualmente
é receptor estático se torne engajado na própria compreensão de sua realidade a partir
da produção de códigos significáveis a outros. Por outro lado, a participação torna
mais eficiente a apropriação da democracia por aqueles que nela têm interesse, isto é,

Volume 13 – Nº 2 – 2º Semestre de 2013 59


A comunicação democrática, uma utopia real

aqueles que são afetados pelas decisões tomadas em instituições políticas. Há experi-
mentos variados nesse sentido, que vão da imprensa alternativa com base comunitá-
ria às práticas de financiamento coletivo de iniciativas de comunicação.
Apresentamos aqui alguns elementos que podem levar à criação e à continuidade
de um modelo midiático utópico real. Para isso, o modelo de subsídios públicos, tal qual
se manifesta no Brasil, mas não exclusivamente, precisa ser transformado. Não se trata
de impedir o investimento da sociedade na comunicação que sirva à sociedade, mas de-
mocratizar substancialmente as decisões sobre o investimento. O aspecto “bem públi-
co” da comunicação, definidor do caráter democrático de uma sociedade (Peschanski,
2007), precisa ser aprofundado e generalizado, defendemos, no sentido de reverter os
desequilíbrios e ineficiências do modelo atual de subsídios à comunicação.
Sob influência das propostas de Bruce Ackerman (2013), Bruce Ackerman e Ian
Ayres (2002), Archon Fung e Erik Olin Wright (2003) e Robert McChesney (2012)
para revigorar a democracia nos Estados Unidos, listamos aqui elementos que nos
parecem fundamentais para um modelo democrático de subsídios públicos à comu-
nicação, especialmente para o Brasil. Não se trata de apresentar um modelo acabado,
mas ideias mais ou menos vagas, provocações utópicas, mas com base realista, que
ecoam, em parte, posições das organizações que lutam em prol da democratização da
mídia. Vale notar, mais uma vez, que o princípio básico desses elementos é que os sub-
sídios públicos à comunicação são imperativos para o funcionamento democrático, e
não devem ser cortados ou rejeitados, mas aprofundados e generalizados de maneira
democrática.
1. Os subsídios públicos deveriam ou apenas ser destinados a veículos de
comunicação não comerciais sem fins lucrativos ou ser destinados a um fundo públi-
co, o qual definiria a alocação de recursos e seria gerida por uma estrutura triparti-
te, paritária, de poder composta por representantes dos meios de comunicação, por
representantes dos profissionais de comunicação e por representantes da sociedade
civil organizada. Trata-se de uma exigência forte, mas que parece ser fundamental
para que a comunicação de interesse público prevaleça em relação a estratégias de
maximização de lucros empresariais nos veículos que recebem subsídios públicos.
Isso também faz com que os repasses públicos sejam suficientes para manter os meios
de comunicação. Faz sentido para uma democracia investir maciçamente na comuni-
cação, na medida em que esta é um bem público. É possível imaginar uma sociedade
em que coexistam veículos de comunicação exclusivamente subsidiados pelo público
e outros que sejam totalmente mantidos por investimento privado.
2. O destino dos subsídios públicos deveria estar sob o controle da socie-
dade civil organizada, não do Estado. O controle estatal, como os dados da Secom
ilustram, pode levar, até mesmo sem maldade intencional, a fraudes, ineficiências,
desequilíbrios, pelo simples fato de o Estado ter uma lógica interna que o põe per-
manentemente sob tensão e pressão. Os subsídios públicos à comunicação deveriam

60 Revista Communicare
João Alexandre Peschanski e Renato Moraes

estar blindados contra isso. Pode-se imaginar um modelo em que a quantia total des-
tinada aos subsídios públicos da comunicação seja partilhada igualmente por todos
os cidadãos e que estes pudessem escolher, entre todos os veículos de comunicação
não comerciais e sem fins lucrativos, aqueles nos quais querem investir. O poder real
de investimento na comunicação, nesse cenário imaginado, torna-se profundamente
democrático, já que o controle sobre os repasses é de cada cidadão, como se votasse
com a quantia que lhe cabe nos veículos de comunicação que prefere. No governo
Dilma, a administração federal – sem contar as empresas públicas – destinou 161
milhões de reais a repasses a veículos de comunicação, ou seja, no cenário imaginado
menos de um real per capita. É pouco para de fato empoderar o cidadão como toma-
dor de decisão: em virtude da importância da comunicação para a democracia e uma
sociedade funcional, é preciso aumentar essa quantia. No caso dos Estados Unidos,
estima-se que seriam necessários entre 400 e 500 reais por pessoa; não há cálculo feito
ou dado consolidado para o caso brasileiro, mas é possível estimar um valor per capita
que fosse suficiente para manter um sistema comunicacional democrático e vigoroso.
3. Todo repasse de verbas públicas deveria ser feito, almejando o máximo de
informação possível para a tomada de decisões, uma estratégia de informação per-
feita. Por exemplo, poderia existir um mecanismo, com atualização automática, que
controlasse os níveis de investimento em cada veículo. Se o poder de subsidiar veí-
culos for democratizado e estiver sob controle dos cidadãos, isso é fundamental para
que os controladores dos subsídios públicos democraticamente distribuídos possam
tomar decisões de investimento mais bem pensadas, levando em conta veículos que
já têm fundos suficientes.
4. Para que um modelo de distribuição democrática dos subsídios funcio-
nasse seria preciso controle social. Para evitar fraudes, é fundamental que também o
controle social seja o mais democrático possível, blindado contra os interesses pró-
prios da lógica mercadológica e estatal. Há vasta literatura sobre a formação de ins-
tituições decisórias participativas e democráticas; no caso da mídia, vale conferir o
livro Sistemas públicos de comunicação no mundo: experiências de doze países e o
caso brasileiro (2009), do coletivo Intervozes, que analisa, entre outros pontos, vários
modelos de gestão e participação de mídia no mundo. A publicação revela o dramá-
tico déficit democrático da gestão da comunicação pública no Brasil, em que esferas
participativas e decisões permanecem sobre o controle simples do Estado; o livro traz
casos em que há mecanismos participativos e plurais de controle da comunicação – o
que chama de modelos complexos de participação – que podem servir de base para
transformações institucionais do modelo brasileiro.
Esses quatro pontos que propomos aqui são evidentemente controversos, mas
podem ser elaborados e simulados para avaliar suas consequências e méritos tanto
em relação à eficiência da distribuição de subsídios públicos à comunicação quanto ao
funcionamento democrático. Tais propostas tendem a concentrar a produção midiá-

Volume 13 – Nº 2 – 2º Semestre de 2013 61


A comunicação democrática, uma utopia real

tica ou torná-la mais plural no médio e longo prazos? Em que medida a coexistência
de meios subsidiados comercial ou publicamente cria problemas básicos ao modelo?
Em que pontos a preocupação em evitar as pressões do mercado e do Estado realmen-
te é factível? Como se dará a competição dos diferentes meios de comunicação qua-
lificados para receber os subsídios? Como se dará a distribuição dos fundos públicos
para os investimentos sociais na comunicação? De maneira geral, em que medida tal
proposta é desejável numa perspectiva de justiça social?

Considerações finais

Apresentamos uma proposta de democratização da comunicação, fundamenta-


da numa distribuição igualitária e participativa de subsídios públicos. No modelo do
jornalismo tal qual existe hoje, esses subsídios são condição imprescindível da conti-
nuidade dos veículos de comunicação que, em virtude de suas condições estruturais,
não desenvolvem de maneira ótima a prestação da comunicação no sentido de forta-
lecer e aprofundar a democracia. Sugerimos que a comunicação deve ser pensada a
partir de outro paradigma, em que é defendida e exercida como bem público, funda-
mentalmente democratizada.
Parte de uma alternativa democrática ao mundo como ele é, a democratização efetiva
da mídia tem de ser vista como um rearranjo institucional, cujos mecanismos podem ser
pensados, simulados e discutidos ao mesmo tempo em que se luta, no princípio, por sua
realização. Os quatro elementos que apresentamos – sobre o tipo de veículos que pode-
riam receber subsídios públicos, o mecanismo de distribuição dos subsídios, a tecnologia
de controle e alocação das verbas e o modo de controle social – são eventuais componentes
institucionais de uma alternativa à comunicação tal qual existe hoje.
A comunicação entendida como utopia real é necessariamente um ponto futuro
em relação ao mundo como o vivemos hoje. A concretização imediata desses elemen-
tos que apresentamos e outros é dificilmente viável, por mais que fosse desejável, já
que o contexto não é favorável. No entanto, à medida que se apresenta uma fórmula
convincente de alternativa a distância entre o que é e o que gostaríamos que fosse se
torna menor. Também em espaços de contestação mais amplos, como o movimento
global Occupy (Peschanski, 2012) e os “protestos de junho” (Sakamoto, 2013), efeti-
vam-se, mesmo que efemeramente, potenciais alternativos.

Referências

ABRAMO, C. A regra do jogo. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.


ACKERMAN, B. Reviving Democratic Citizenship? Politics & Society, v. 41, n. 2,

62 Revista Communicare
João Alexandre Peschanski e Renato Moraes

2013.
______; AYRES, I. Voting with dollars: a new paradigm for campaign finance.
Yale University Press, 2002.
ARBEX JR., J. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amare-
la, 2001.
BRANT, J. Muita reticência e pouca vontade política, Margem Esquerda, n. 20,
São Paulo: Boitempo, 2013.
CHOMSKY, N.; HERMAN, E. S. Manufacturing consent: The political economy
of the mass media. Nova York: Random House, 1988.
DAHL, R. A democracia e seus críticos. Martins Fontes, 2012.
DOWNS, A. Uma teoria econômica da democracia. Trad. de Sandra Guardini
Vasconcelos. São Paulo: Edusp, 1999.
FUNG, A.; WRIGHT, E. O. Deepening democracy: Institutional innovations in
empowered participatory governance. Verso, 2003.
HEDGES, C. Empire of illusion: The end of literacy and the triumph of specta-
cle. Random House Digital, 2009.
IANONI, M. Sobre o quarto e o quinto poderes, Communicare, v. 3.2, 2005.
INTERVOZES. Sistemas públicos de comunicação no mundo: experiências de
doze países e o caso brasileiro. São Paulo: Paulus, 2009.
KUSHNIR, B. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de
1988. São Paulo: Boitempo, 2004.
MARINGONI, G. Comunicação e desenvolvimento: parâmetros para uma regu-
lamentação democrática da mídia. Communicare, v. 12, n. 1, 2012.
MARTINELLI, C. Would rational voters acquire costly information?. Journal of
Economic Theory. v. 129, n. 1, p. 225-251, 2006.
McCHESNEY, R. Farewell to Journalism? Time for a Rethinking. Journalism
Studies, 2012.
OLSON. M. A lógica da ação coletiva. São Paulo: Edusp, 1999.
PESCHANSKI, J.A. Os “ocupas” e a desigualdade econômica, Occupy. Carta
Maior, 2012.
______. Communication of the oppressed: alternative media and their political
impact in contemporary Latin America, The Alternative Media Handbook.
Routledge, 2007.
SAKAMOTO, L. Em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas, Cidades
Rebeldes. São Paulo: Boitempo/Carta Maior, 2013.
VIANA, N. A crise do jornalismo industrial e os novos modelos de produção,
Margem Esquerda, n. 20, Boitempo, 2013.
WRIGHT, E.O. Alternativas dentro e além do capitalismo: rumo a um socialis-
mo social, Teoria & Pesquisa, n. 21(1), 2012.
______. Utopias reais para uma sociologia global, Diálogo Global, v. 1, n. 5, 2011.

Volume 13 – Nº 2 – 2º Semestre de 2013 63