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Gestão da Fraude Transacional e a A gestão eficiente da fraude pode evitar vendas pro-
Contribuição dos Dados de Bureau blemáticas e contribuir para a satisfação do cliente. As
técnicas comuns de gestão da fraude utilizam dados
Thaine Clemente de Souza históricos das transações para predizer se o compor-
Guilherme Barreto Fernandes tamento da compra é típico de um fraudador ou não.
Este trabalho apresenta o ganho obtido quando se in-
serem nas análises as informações de um bureau.

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Tendências do Cadastro Positivo no Brasil: Projeções O estudo atendeu a seu objetivo de mensurar a expe-
das Principais Variáveis Impactadas e Cenários riência dos principais países que adotaram o Cadastro
Positivo e, por analogia, conforme Armstrong (2001),
Carlos Augusto Passos foram projetadas as tendências das variáveis spread
Renata Giovinazzo Spers bancário, crédito oferecido pelo setor bancário, crédi-
James T. C. Wright to ao setor privado, inadimplência, taxa real de juros,
crescimento do PIB e taxa de juros de empréstimos
para o Brasil.

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Análise da Insolvência de Empresas Este artigo analisa a probabilidade de insolvência de


Combinando Variáveis Macroeconômicas empresas brasileiras de capital aberto, combinando 12
e Informações Contábil-Financeiras variáveis macroeconômicas e 19 contábil-financeiras.
Utilizaram-se dados de 63 empresas listadas na Bo-
Alceu Souza vespa e pertencentes a 17 setores, no período de de-
Liliane Gomes zembro de 2000 a setembro de 2009. A previsão de in-
Luiz Carlos Duclós solvência foi calculada a partir da metodologia KMV
Wesley Vieira da Silva adaptada do Modelo de Merton e definida por Löffler
e Posch (2007).

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Responsabilidade Socioambiental Considerando que as instituições financeiras são es-


nas Instituições Financeiras senciais para acelerar a efetivação do desenvolvimen-
to sustentável, o Banco Central do Brasil - BCB deter-
Franklin Mendes Thame minou que a implementação da Politica de Respon-
sabilidade Socioambiental seja adequada ao porte,
natureza do negócio, complexidade dos produtos e
serviços dessas instituições.
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Palavra do Editor
A importância de informações de a inadimplência, menor e taxas de juros, re-
bureau tanto de pessoas físicas, como ju- duzidas. Os autores argumentam que o ca-
rídicas foi demonstrada nos artigos sobre dastro positivo, que reúne informações so-
“Tendências do Cadastro Positivo no Brasil” bre hábitos de pagamento dos consumido-
de Carlos Augusto Passos, Renata Giovina- res, tornou-se hoje uma ferramenta impor-
zzo Spers e James T.C. Wright e sobre “Ges- tante e ágil para a tomada de decisões de
tão de Fraude Transacional e a Contribuição oferta de crédito. A aprovação da lei do Ca-
dos Dados de Bureau” de Thaine Clemente dastro Positivo no Brasil levantou questões
de Souza e Guilherme Barreto Fernandes. importantes especialmente referentes aos
No artigo sobre fraude transacional foi en- principais impactos dessa ferramenta nos
fatizado que hoje ela constitui um dos prin- indicadores financeiros nacionais e aos ce-
cipais motivos para os fechamentos das lo- nários estruturais que poderiam ser cons-
jas virtuais, e, portanto, a sua gestão é uma truídos. O trabalho propõe lançar um olhar
ferramenta da máxima importância. Os au- prospectivo para o Brasil até 2018, a partir
tores, Thaine de Souza e Guilherme Fernan- da experiência do Cadastro Positivo utiliza-
des esclarecem que nas compras não pre- do em países considerados culturalmente
senciais o banco não se responsabiliza pe- similares ao Brasil, e estabelece um compa-
las perdas e o prejuízo gerado é todo do lo- rativo com uma amostra de países distantes
jista. Citam como compras não presenciais culturalmente do Brasil. Utilizou-se como
aquelas em que não há a verificação de se- abordagem de projeção de cenários, a ana-
nha, assinatura, ou de algum método de se- logia e como principais variáveis compara-
gurança tradicional do banco e os princi- tivas, os indicadores financeiros do Banco
pais tipos são aquelas efetuadas via internet Mundial e do Fórum Econômico Mundial. O
e televendas. Os autores apresentam no es- estudo atingiu seu objetivo de mensurar a
tudo o ganho ao inserir informações de um experiência dos principais países que ado-
bureau na análise afirmando que elas agre- taram o Cadastro Positivo e, por analogia
gam valor significativo e consistente aos re- conforme Armstrong (2001) foram projeta-
sultados. Ilustram a tese com dois cases: o das as tendências das variáveis spread ban-
primeiro de uma empresa de telecom e o cário, crédito oferecido pelo setor bancário,
segundo de uma empresa varejista, que ti- crédito oferecido ao setor privado, inadim-
veram incremento em torno de 8 p.p. e 4 p.p. plência, taxa real de juros, crescimento do
na taxa de detecção de fraude nas faixas de PIB e taxa de juros de empréstimos para o
escore de maior risco, após o uso da infor- Brasil, nos próximos anos.
mação de bureau. O artigo dos professores Alceu
No artigo sobre Tendências do Ca- Souza, Liliane Gomes, Luiz Carlos Duclós e
dastro Positivo, os autores Carlos Augusto Wesley Vieira da Silva , aborda o emprego
Passos, Renata Giovinazzo Spers e James da combinação de variáveis macroeconô-
T.C. Wright referem-se às pesquisas que micas e informações contábil-financeiras
comprovam que os países, onde há simetria para analisar a insolvência de empresas de
da informação, a oferta de crédito é maior, capital aberto. Eles apresentam uma análi-
5

se do comportamento de empresas de se- des Thame, colabora com esta edição


tores diversificados, listadas na BOVESPA, com mais um artigo sobre responsabili-
no período de dezembro de 2000 a setem- dade socioambiental nas instituições fi-
bro de 2009. Segundo os autores a utiliza- nanceiras. O autor comenta em seu ar-
ção isolada de variáveis contábil-financei- tigo duas minutas do Banco Central do
ras não é suficiente para a tomada de de- Brasil que dispõem sobre a implementa-
cisões. Eles reconhecem que é preciso ção da responsabilidade socioambiental
estabelecer uma relação entre ciclos eco- nas instituições financeiras e sobre a ela-
nômicos e a insolvência e isso só é possí- boração e divulgação do Relatório de Res-
vel quanto se empregam modelos que en- ponsabilidade Socioambiental. O BC pre-
globam variáveis macroeconômicas e in- tende com essas Resoluções, que as ins-
formações contábil-financeiras. tituições financeiras estabeleçam um pa-
A combinação de dados das em- drão mínimo de gestão para os diversos
presas de capital aberto examinadas no aspectos que constituem, de forma trans-
estudo permitiu tirar conclusões sobre as versal, a responsabilidade socioambiental
probabilidades de insolvência. A análise nas suas decisões dos negócios. De acor-
empírica focou 63 empresas pertencen- do com o BC a responsabilidade socio-
tes a 17 setores segundo a classificação da ambiental das organizações é tema dis-
base de dados Economática, para o perío- seminado nos últimos anos no Brasil e no
do. A previsão de insolvência foi calculada mundo, constituindo uma preocupação
a partir da metodologia KMV adaptada do exteriorizada pela sociedade civil e pelos
Modelo de Merton e definida por Löffler e agentes econômicos que postulam alcan-
Posch (2007). çar um desenvolvimento sustentável, eco-
O Engenheiro Agrônomo e Ad- nomicamente viável, ambientalmente sus-
ministrador de Empresas, Franklin Men- tentável e socialmente justo.

TECNOLOGIA DE CRÉDITO ANO XIII Nº 84

Publicação trimestral da Serasa Experian ISSN 2177-6032


Presidente da Serasa Experian e da Experian América Latina Ilustração
Ricardo Loureiro Eric Miranda
Presidentes de Unidades de Negócios Tradução
Igor Ramos Rocha, Laércio Pinto e Marcelo Kekligian Allan Hastings
Diretores Correspondência
Amador Rodriguez, Guilherme Cavalieri, Lisias Lauretti, Paulo Melo, Serasa Experian - Comunicação & Branding
Silvânio Covas e Valdemir Bertolo Al. dos Quinimuras, 187
Editora Responsável CEP 04068-900 - São Paulo - SP
Rosina I. M. D’Angina (MTb 8251) Tel. (11) 2847-9515
Assistente de Edição Fax (11) 2847-9791
Nancy Galvão www.serasaexperian.com.br
Projeto Gráfico rdangina@gmail.com
Luis Barbuda nancy.galvao@br.experian.com
Capa Os conceitos emitidos em artigos assinados são de responsa-
Eric Miranda bilidade de seus autores, não expressando, necessariamente, o
Editoração Eletrônica ponto de vista da Serasa Experian, nem do Conselho Editorial.
Eric Miranda e Letícia Ikeda É proibida a reprodução total ou parcial dos artigos desta
publicação.
6

Gestão da Fraude
Transacional e a
Contribuição dos
Dados de Bureau

Thaine Clemente de Souza


Guilherme Barreto Fernandes
7

Introdução
Nas últimas décadas, a evolução das tecnologias de in-
formação e de transmissão de dados e a criação da internet
marcaram uma nova fase do processo de globalização da eco-
nomia. Nesse novo cenário surge, como grande inovação no
mundo econômico, o comércio eletrônico, possibilitando a rea-
lização de operações comerciais sem a definição exata do local
de origem e destino.

Palavras-chave: Comércio Eletrônico, Gestão da Fraude,


Informações de Bureau.

O e-commerce no Brasil está são aquelas efetuadas via internet e tele-


crescendo e os números divulgados for- vendas.
talecem essa afirmação: o faturamento Uma das formas da fraude nas
de 2011 foi 26% maior que o valor nomi- compras do e-commerce acontece quan-
nal de 2010 - 11 bilhões de dólares (Grá- do há uso mal intencionado do cartão de
fico 1). Em 2012, o crescimento superou crédito de outra pessoa ou próprio titu-
os US$12 bilhões. Dado o atual cenário, lar. A segunda, chamada de auto-fraude,
uma das maiores preocupações dos lo- é significativamente mais rara que a pri-
jistas é que as compras sejam entregues meira e mais difícil de detectar. Por esses
aos bons clientes e que os fraudadores motivos, não é o foco principal dos lojistas
sejam desmascarados. Atualmente, a em combate à fraude.
fraude é um dos principais motivos para Geralmente, os fraudadores con-
os fechamentos das lojas virtuais (Valle, seguem os dados de pessoas idôneas por
2012). De acordo com Kou, Lu e Sinvon- diversos meios: perda ou roubo de cartei-
gwattana (2004), as fraudes estão cres- ras, roubo das informações por empre-
cendo de forma acentuada com a expan- gados de lojas, informações de amigos,
são da tecnologia moderna e comunica- empregados, roubos de cartas ou trocas
ção global, resultando em perdas subs- fraudulentas de endereços, entre outros.
tanciais dos negócios. Com os dados em mãos, o pró-
Mas por que a gestão da fraude é ximo passo é a realização da compra. O
tão importante no e-commerce? Em com- fraudador realiza a compra em um e-com-
pras não presenciais o banco não se res- merce, a loja aprova, o banco também e o
ponsabiliza pelas perdas e o prejuízo ge- fraudador tem o produto ou serviço entre-
rado é todo do lojista. Por compras não gue. Quando o verdadeiro titular do car-
presenciais entende-se todo tipo de com- tão se dá conta da transação, que não foi
pra em que não há a verificação de se- realizada por ele, contesta ao emissor e
nha, assinatura, ou de algum método de esse estorna o valor creditado. Tal contes-
segurança tradicional do banco. Os prin- tação recebe o nome de chargeback, me-
cipais tipos de compras não presenciais lhor explicado na figura 1.
8

■ Figura 1 Fluxo fraude

■ Gráfico 1 Faturamento e-commerce (bilhões).

Fonte: www.e-commerce.org.br
Projeção: Serasa Experian

Contudo, deve-se ficar atento, pois gras de negócio associadas às ferramentas


nem todo chargeback é uma fraude. A con- estatísticas que detectam a probabilidade da
testação também pode ser gerada por um transação ser fraudulenta ou não. Dentre as
descontentamento do produto, como defei- técnicas mais utilizadas estão a regressão
tos, trocas, cores diferentes, produto/serviço logística e as redes neurais, que combinam
não entregue, compra cancelada e credita- uma gama de variáveis com informações do
da, entre outros. E essa distinção deve ser le- perfil da transação, do histórico do cliente,
vada em conta para a gestão da fraude. do IP de acesso, entre outras, com o propósi-
Geralmente tal gestão é feita com re- to de identificar operações fraudulentas.
9

Lojas Virtuais no Brasil pontocom, criada para gerenciar as opera-


No Brasil, o comércio eletrônico ções do e-commerce da fusão entre Gru-
B2C surgiu em 1995, logo após o apareci- po Pão de Açúcar, Globex e Casas Bahia,
mento da internet comercial, com empre- ganha espaço no setor. Estima-se que ain-
sas pioneiras como Livraria Cultura, Grupo da em 2013 a Novapontocom ultrapasse a
Pão de Açúcar, Lojas Americanas, Magazi- B2W em vendas pela internet (UOL, 2012).
ne Luiza e Submarino. Em 2002, a Netsho- A recente tendência dos sites de
es abria a primeira loja com um novo con- compras coletivas no Brasil também con-
ceito de loja virtual: a venda de produtos tribui para o crescimento do setor, lojas
esportivos. Rapidamente ela se tornava um como Peixe Urbano e Grupon movimentam
sucesso de vendas e lucratividade, fechan- milhões de transações na internet. Outros
do todas as lojas físicas em 2007. players importantes no e-commerce são a
Em 2006 surge a B2W, resultado da Dafiti, o Walmart e o Mercado Livre.
fusão entre Submarino e as Lojas Ameri- Segundo dados divulgados pelo e-
canas, que um ano antes haviam adquirido -commerce.org, as 10 maiores lojas brasi-
o Shoptime. O primeiro gigante do e-com- leiras em 2010 eram: Americanas, Subma-
merce chegou a possuir aproximadamente rino, Netshoes, Ponto Frio, Magazine Lui-
50% do market share do mercado. Contudo, za, Extra, Casas Bahia, Compra Fácil, Wal-
as pequenas e médias empresas começa- mart e Livraria Saraiva, conforme mostra o
ram a ganhar espaço e, em 2009, a Nova- Gráfico 2.

■ Gráfico 2 Visualizações 10 Maiores e-commerces Brasil 2010 (milhões).

Fonte: http://www.e-commercebrasil.org/numeros/top10-maiores-lojas-online/
10

O acentuado crescimento das ven- Além disso, o enriquecedor dessa


das, responsável pela constante evolução gestão são as informações disponíveis, como
do setor, exige uma gestão abrangente da por exemplo, informações de compras ante-
fraude, pois a ascensão das vendas atrai riores, do cartão de crédito e cadastrais e do
criminosos que desenvolvem técnicas para CPF. Quanto maior o volume de informações
fraudar tanto os comerciantes quanto os relevantes utilizadas pela estratégia de gestão
clientes (Ward,2010). da fraude, maior será sua eficácia. Portanto,
a interação entre informações do lojista (refe-
Características da Fraude rentes às compras realizadas) com informa-
em Lojas Virtuais ções de um bureau gera um ganho significa-
Como mostrado acima, as transa- tivo no processo. A Figura 2 ilustra o conjun-
ções fraudulentas nas lojas virtuais causam to de informações utilizado na gestão da frau-
prejuízos e devem ser geridas de maneira efi- de: de um lado têm-se os dados da transação
ciente para que haja receita financeira sus- e, do outro, os dados do bureau. O matching é
tentável para os lojistas. Os fraudadores são o processo de validação dos dados da transa-
dinâmicos e rápidos, e assim, essa gestão exi- ção com os dados do bureau, e os três juntos
ge constantes inovações e criatividade como podem alavancar o desempenho das estraté-
chaves para o bom desempenho. gias de gestão da fraude.

■ Figura 2 Conjunto de dados utilizados gestão fraude

As compras fraudulentas possuem dos, como CPF e cartão, sejam fraudados.


informações tanto do fraudador como da As transações que não têm produto de en-
pessoa fraudada, quando há entrega de um trega (por exemplo: companhias aéreas, do-
produto/serviço, por exemplo, pode-se infe- wnloads musicais, jogos de internet), o en-
rir que o endereço é do fraudador ou de al- dereço deixa de ser um vínculo forte com o
guma pessoa próxima a ele, e os outros da- fraudador e nesse caso ganham importân-
11

cia dados como e-mail, telefone e IP (Proto- Os pontos citados ilustram análises
colo da Internet – identificação do computa- realizadas a partir dos dados da transação.
dor em uma rede). As validações cadastrais, como por exem-
Exemplos significativos de caracte- plo, a verificação se a data de nascimen-
rísticas das transações que podem ser ob- to declarada pelo comprador no momen-
servadas ao gerir a fraude são: perfil de e- to da compra é igual à data de nascimento
-mail (e-mail tem nome do comprador, e- do CPF cadastrada no bureau, ou se o ende-
-mail tem palavras estranhas, como por reço do CPF no bureau é o mesmo ende-
exemplo: fraudador@provedor.com), prove- reço da transação, aumentam a eficiência
dor do e-mail, data e hora da compra, ca- dessa gestão expressivamente. Portanto,
tegoria do produto comprado e geolocali- o matching de informações cadastrais com
zação do IP. Provedores de e-mail gratuitos um bureau adiciona consistência à preven-
tendem ser mais arriscados que os pagos, e ção da fraude. O Gráfico 4, ilustra o exem-
ainda, compras durante a madrugada e de plo da variável desenvolvida através do ma-
produtos de fácil revenda são característi- tch de endereço com o bureau, que verifica
cas comuns às operações fraudulentas. Por se o CPF atrelado ao endereço no bureau é o
fim, se a região de entrega do produto/ser- mesmo CPF da transação. O resultado mos-
viço for a mesma do IP, a chance de fraude tra que quando os CPFs são iguais o risco
diminui. O Gráfico 3 mostra a diferença da de fraude diminui.
odds das transações quando pelo menos Além da validação dos dados (ma-
um item comprado é eletrônico. Note que tch), outras informações do bureau podem
as transações que contêm itens eletrônicos ser utilizadas. Saber se algum dado (ende-
são mais arriscadas que as demais. reço, telefone, CPF, etc.) já foi comprometi-

■ Gráfico 3 Odds ((Fraude na Catego- ■ Gráfico 4 Odds ((Fraude na Categoria/Frau-


ria/Fraude Total)/(Bons na Categoria/ de Total)/(Bons na Categoria/Bons Totais))
Bons Totais)) Variável Categoria Eletrô- Variável Match CPF Endereço com o bureau.
nico
12

do com fraude no mundo físico ou se o CPF liar os lojistas nas vendas e na prevenção
foi furtado em uma data próxima à data da das fraudes.
transação são exemplos de informações en- Em termos de técnicas de ajus-
riquecedoras para a análise. O case apre- te dos modelos, foram utilizadas as técni-
sentado adiante evidencia que aproxima- cas de regressão logística (Hosmer e Le-
damente uma a cada três transações rea- meshow , 2000) ou redes neurais (Bernar-
lizadas com CPF inexistente é fraudulenta. da, 2007). Contudo, mais importante que a
Além disso, outra informação relevante é técnica aplicada, são as informações que
verificar se o telefone informado na compra buscam capturar o perfil do fraudador.
é um telefone público, quando isso aconte- Os cases apresentados a seguir
ce o risco de fraude aumenta, como visuali- utilizam variáveis da transação e variá-
zado no Gráfico 5 abaixo. veis do bureau da Serasa Experian. Den-
tre as informações da transação estão
categoria do item comprado, valor da
compra, BIN do cartão utilizado, dentre
■ Gráfico 5 Odds ((Fraude na Categoria/ outras. Alguns exemplos de variáveis de
Fraude Total)/(Bons na Categoria/Bons match com o bureau são: o endereço do
Totais)) Variável Telefone Público CPF no bureau é o mesmo endereço de
entrega da transação, o nome atrelado
ao CPF no bureau é o mesmo nome da
transação, a data de nascimento é a mes-
ma. As informações puras do bureau da
Serasa Experian foram as de que o CPF
já teve documentos roubados e a quanti-
dade de telefones instalados atrelados ao
mesmo CPF, dentre outras.

Case 1: Empresa de telecom


Ferramenta construída que visa
prevenir fraudes nas transações de re-
cargas de celulares. Os resultados se
mostram consistentes e assertivos, as
Cases de Sucesso transações entre as 3% mais arriscadas
Dado o cenário de crescimento (scores mais baixos) representam cerca de
das lojas virtuais e das transações verifi- 60% das operações fraudulentas.
ca-se a necessidade de uma gestão com No Gráfico 6 observa-se o percen-
foco em vendas assertivas, de forma que tual de fraude encontrado para as com-
as lojas penalizem os fraudadores e reco- pras mais arriscadas com base em duas
nheçam os bons e fiéis clientes. Abaixo análises: uma que utiliza informações das
são apresentados os resultados de dois transações e outra que além dessas, em-
bem sucedidos cases, em diferentes se- prega informações do bureau da Sera-
tores (telefonia e varejo) que visam auxi- sa Experian. Observa-se que as variáveis
13

provenientes do bureau proporcionam um formações das transações. E ainda, esse


ganho considerável na gestão da fraude ganho permanece elevado até a quinta
para os 10 grupos mais arriscados Na fai- faixa de risco, quando começa a decres-
xa mais arriscada, a inserção de informa- cer. Ou seja, o retorno financeiro é sig-
ções do bureau faz com que o percentu- nificativamente maior quando informa-
al do valor da fraude encontrado seja 9% ções do bureau são inseridas na análise
maior que uma análise apenas com as in- da fraude.

■ Gráfico 6 Percentual do Valor da Fraude Acumulado nos 10 grupos mais arriscados.

Fonte: Case TELECOM Serasa Experian

Case 2: Empresa varejista ou aqueles que só compram mesa e ba-


Solução antifraude transacional nho (mulheres casadas, por exemplo). Na-
para uma grande loja virtual de varejo. turalmente, os produtos com alto valor de
Dentre os produtos disponíveis em seu site revenda são os itens mais comuns às ope-
estão móveis, eletrônicos, eletrodomésti- rações que geram chargeback: computado-
cos, cama, mesa, banho e brinquedos de res, aparelhos de som, televisões, GPS, en-
crianças. Essa grande variedade traz de- tre outros eletrônicos.
safios para a gestão de fraude, pois o ris- Os resultados desse case também
co varia de acordo com o produto e o seu são significativos, entre as 4% mais arris-
preço. Além disso, a loja tende a ter vários cadas transações (scores mais baixos), são
perfis de compradores, aqueles que só capturadas mais de 40% das fraudes. As-
compram eletrônicos, jovens e descolados sim como o gráfico anterior, o Gráfico 7 traz
14

ganho ao utilizar as informações do bure- vez as informações do bureau contribuíram


au da Serasa Experian na análise da frau- para encontrar padrões dos fraudadores
de. Observa-se que nas três primeiras fai- que apenas os dados das transações não
xas encontra-se, em média, 4% a mais do capturaram, reforçando assim a importân-
valor da fraude nas análises que utilizam cia dessas informações para a predição da
o bureau da Serasa Experian. Mais uma fraude no e-commerce.

■ Gráfico 7 Percentual do Valor da Fraude Acumulada nos 10 grupos mais arriscados

Fonte: Case VAREJO Serasa Experian

Conclusões to da compra é típico de um fraudador ou


O surgimento do e-commerce no não. O trabalho apresenta o ganho ao inse-
Brasil é recente e o crescimento do núme- rir informações de um bureau nessa análi-
ro de lojas é exponencial. Contudo, para se. Como visto, tais informações agregam
que essas lojas tenham um bom desempe- valor significativo e consistente aos resul-
nho nas vendas e nos lucros é necessária tados. Os dois cases apresentados aqui, o
uma gestão eficiente da fraude, a fim de se primeiro de uma empresa de telecom e o
evitar compras indevidas e satisfação dos segundo de uma empresa varejista, tive-
bons clientes. ram incremente em torno de 8 p.p. e 4 p.p.
As técnicas comuns de gestão da na taxa de detecção de fraude nas faixas
fraude utilizam dados históricos das tran- de escore de maior risco, após o uso da in-
sações para predizer se o comportamen- formação de bureau.
15
Autores

Thaine Clemente de Souza


Bacharel em Estatística pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e mestranda em Administração de Empre-
sas pelo Insper, atua como Especialista em modelagem e Analytics na Serasa Experian participando especial-
mente de projetos que envolvam fraude no mundo físico e virtual. Antes da Serasa Experian, trabalhou por 3 anos
no atual líder do mercado em fraude transacional no Brasil. Thaine pode ser contatada através do e-mail thaine.
souza@br.experian.com.

Guilherme Fernandes
Bacharel em estatística pela Universidade Federal de São Carlos e mestre em economia pelo Insper-SP. Atual-
mente é responsável pela área de Inovação em Analytics na Serasa Experian, onde está desde 2010. Sua experi-
ência se concentra em modelagem de risco de crédito e fraude. Anteriormente trabalhou na área de modelagem
de risco de crédito PJ por 4 anos num dos maiores bancos brasileiros. Guilherme pode ser contatado por guilher-
me.fernandes@br.experian.com.
Referencial Teórico

BERNARDA, T. Redes Neurais Artificiais - Teoria e Prática, LTC Editora, 2ª Ed., 2007

GEROMEL, R. Forbes. Disponível em Forbes: http://www.forbes.com e acessado em 15 do 9 de 2012, 2012.

HOSMER, D.W.; LEMESHOW, S. Applied Logistic Regression, Nova Iorque, Wiley, 2000.

KOU, Y.; LU, C.; Sinvongwattana, S. Survey of Fraud Detection Techniques. p. 749-754, 2004.

UOL Notícias. O Titanic do e-commerce brasileiro encontrou seu iceberg. E agora?. Disponível em http://bjc.

uol.com.br/2012/03/11/o-titanic-do-e-commerce-brasileiro-encontrou-seu-iceberg-e-agora-b2w/ e acessado em

09/01/2013.

WARD, Theresa. Strategies for Reducing the Risk of eCommerce Fraud. A First Data White Paper. p. 1-11,

2010.

VALLE, A. Blog E-commerce. Disponível em http://www.blogdoecommerce.com.br/ fraudes-cartoes-de-credi-

to-lojas-virtuais/ e acessado em 09 de Janeiro de 2012, 2012.


16

Tendências do
Cadastro Positivo no
Brasil: Projeções das
Principais Variáveis
Impactadas e
+
++++++
Cenários +
+
++
Carlos Augusto Passos
+
++
Renata Giovinazzo Spers
James T. C. Wright +
17

Resumo
Pesquisas comprovam que nos países onde a assime-
tria da informação é reduzida há maior oferta de crédito, menor
inadimplência e taxas de juros reduzidas. Dessa forma, o ca-
dastro positivo, que reúne informações sobre hábitos de paga-
mento dos consumidores, tornou-se uma ferramenta relevante
para a tomada de decisões de oferta de crédito em curto pra-
zo. O advento da aprovação da lei do Cadastro Positivo no Bra-
sil levantou questões importantes sobre quais seriam os prin-
cipais impactos dessa ferramenta nos indicadores financeiros
nacionais e os cenários estruturais que poderiam ser constru-
ídos a partir da experiência que o Cadastro Positivo teria no
País. O presente trabalho busca lançar um olhar prospectivo
para o Brasil até 2018, a partir da experiência de Cadastro Po-
sitivo de países culturalmente similares ao Brasil, comparativa-
mente a uma amostra de países distantes culturalmente, utili-
zando como abordagem de projeção de cenários a analogia e,
como principais variáveis comparativas, os indicadores finan-
ceiros do Banco Mundial e do Fórum Econômico Mundial. O es-
tudo identificou que os melhores resultados no futuro estão re-
lacionados às variáveis de inadimplência, de taxa real de juros
e de crescimento do PIB brasileiro. Além disso, haveria melho-
rias significativas nas variáveis infraestrutura e ambiente eco-
nômico, ligeira melhora na saúde e educação/ ensino superior;
e fracos avanços em relação ao potencial do mercado de tra-
balho, tamanho de mercado e, principalmente, inovação, entre
outros aspectos projetados.

Palavras-chave: Cadastro Positivo; Cenários; Indicadores.

Introdução nanceiros e os agentes do comércio, fo-


Em anos recentes, muito se tem mentaram essas discussões pelos aspec-
falado a respeito do Cadastro Positivo no tos positivos que foram observados em ou-
Brasil e de suas possíveis implicações nos tros países após a adoção dessa medida,
indicadores econômico-financeiros, so- bem como, pelos interesses de suas par-
ciais, político-legais, a exemplo dos paí- tes. Essas discussões tomaram maior vulto
ses que o adotam. Os principais agentes a partir de maio de 2010, quando o Plená-
interessados, dos quais se destacam os rio do Senado aprovou a Medida Provisória
bureaux de informações de crédito, a im- (MP) 518/10, que criou um Cadastro Positi-
prensa, os consumidores, os agentes fi- vo com informações e dados de pessoas fí-
18

sicas e jurídicas no Brasil, em dia com seus Conforme Gitman (2009), o nível da
compromissos financeiros. taxa de juros age como um dispositivo re-
Cabe salientar que no Brasil já vi- gulador que controla o fluxo de fundos no
goravam os cadastros com informações ne- mercado. Dessa forma, o Governo Federal,
gativas, disciplinada por meio da Lei 8.078, representado na autoridade monetária do
de 11/09/1990 do Código de Defesa do Con- Banco Central, avalia as condições da eco-
sumidor, em seu artigo 43. Esses cadas- nomia, para tomar medidas que aumentem
tros, em sua maioria, utilizam apenas infor- ou reduzam as taxas de juros e, assim, con-
mações básicas de seus clientes, tais como trolar a inflação e o crescimento econômi-
dados cadastrais: nome, endereço, dívidas co. De forma geral, quanto menor a taxa
ativas, relacionamentos comerciais, ren- de juros, maior o fluxo de fundos e, portan-
da atual e estimada, profissão, ocupação to, maior o crescimento econômico; quanto
e cônjuge. Todavia, essa forma de análise mais alta a taxa de juros, menores o fluxo de
omite questões importantes como o volume fundos e o crescimento econômico.
de compromissos financeiros adquiridos Jappelli e Pagano (1999) provaram
pelo pretendente ao crédito, o valor e o pra- que a oferta de crédito ao setor privado é
zo de pagamento desses compromissos e maior e a inadimplência é menor onde o
qual foi a pontualidade desse pretenso con- compartilhamento de informações é com-
sumidor em situações anteriores, relaciona- pleto. Além disso, em relação ao PIB, o cré-
do à informação positiva. dito ao setor privado tem maior volume de
Assim, entre os principais objetivos recursos nos países onde o compartilha-
da criação do Cadastro Positivo no Brasil, se- mento das informações é maior, em relação
gundo os próprios líderes do Congresso Na- ao verificado nos países de menor fluxo de
cional (Agência Senado, 2011) estão o de me- informações. Baron e Staten (2000) postu-
lhorar a qualidade e diminuir o custo do cré- lam que nos países onde não há Cadastro
dito oferecido pelo credor. Ainda, adjacentes Positivo, é cobrada uma taxa média de juros
a esse objetivo, do ponto de vista legal, disci- que reflete a experiência coletiva do merca-
plinar o uso do serviço é relevante; do ponto do, o que, de certa forma, é injusto, pois o
de vista econômico, reduzir os spreads ban- consumidor que tem bons hábitos de pa-
cários, as taxas de juros e o nível de inadim- gamento acaba pagando pelo consumidor
plência e do ponto de vista social, mudar a que não tem.
conduta e os hábitos de pagamento dos bra- Os empréstimos bancários são tam-
sileiros, valorizando-se a adimplência. bém influenciados pelo maior volume de in-
Os objetivos acima mencionados formações de crédito, pois afetam principal-
são complementares, pois aprimorar a qua- mente as políticas dos bancos (Levine apud
lidade do crédito significa oferecer ao toma- Jappelli e Pagano, 1999).
dor melhores condições de acesso ao cré- Diante dos aspectos anteriores, a
dito, e consequentemente, o aumento do questão que surge para a pesquisa é: sob
consumo. Esse aumento tende a beneficiar o ponto de vista de indicadores financeiros
o crescimento do PIB, com reflexos positi- relevantes de países que já têm histórico de
vos na inadimplência, nas taxas de juros e Cadastro Positivo, qual seria a tendência
nos spreads bancários. desses indicadores para o Brasil? Quais ce-
19

nários estruturais poderiam ser factíveis em de julho de 2011, converteu a medida provi-
longo prazo? sória 518/10 na Lei n°. 12.414 (2011), que regu-
Dessa forma, o principal objetivo lamentou o Cadastro Positivo no Brasil.
desse estudo é o de mensurar a experiên- Dessa forma, conforme a referi-
cia dos principais países que adotaram o da lei entende-se que o Cadastro Positivo
Cadastro Positivo e, por analogia, confor- pode oferecer o histórico de crédito de pes-
me Armstrong (2001), projetar a tendência soa jurídica ou física para fins de crediário.
das variáveis spread bancário, crédito ofe- Por histórico de crédito a lei determina que
recido pelo setor bancário, crédito ofereci- o Cadastro Positivo seja um conjunto de da-
do ao setor privado, inadimplência, taxa real dos financeiros e de pagamentos relativos
de juros, crescimento do PIB e taxa de ju- às operações de crédito e obrigações de pa-
ros de empréstimos para o Brasil, nos próxi- gamento adimplidas ou em andamento por
mos anos. Além disso, quais seriam os pos- pessoa natural ou jurídica.
síveis cenários estruturais para o país nos Crédito diz respeito à troca de bens
próximos oito anos levando em considera- e serviços no momento presente por uma
ção uma amostra de países culturalmente promessa de pagamento futuro (SILVA,
semelhantes ao Brasil e uma amostra geral 2006). Crédito “é a transação comercial em
extraídos do estudo do Fórum Econômico que um comprador recebe imediatamente
Mundial (SCHWAB, 2011). um bem ou serviço adquirido, mas só fará o
A pesquisa busca oferecer uma vi- pagamento depois de um tempo determina-
são tendencial sobre as principais variáveis do” (Sandroni,1999 p.140). Todas as empre-
de impacto no fluxo de capitais no País, de sas, que também não possuem em sua es-
forma a contribuir para a tomada de deci- trutura os serviços de crediário, têm a pre-
são ou posicionamento dos principais agen- ferência em receber seus pagamentos por
tes interessados no assunto. seus produtos ou serviços à vista. Todavia,
O estudo não tem a pretensão de o importante crescimento do consumo das
explorar relações de causalidade e impacto classes de renda mais baixas e a pressão
entre as variáveis e o Cadastro Positivo, mas dos concorrentes obrigam a maioria das lo-
apenas de informar qual foi o desempenho jas de varejo, em especial as que negociam
dos países após sua implantação, além de bens de consumo duráveis, a vender a cré-
cruzar variáveis sociais e políticas para ela- dito. Assim, vender a crédito envolve con-
boração dos cenários. fiança em que o devedor irá cumprir suas
obrigações de pagamento junto ao credor
Referencial Teórico: no prazo estabelecido.
Cadastro Positivo e Na etapa de aquisição e concessão
Elementos Relacionados de crédito uma organização precisa agili-
zar seu processo de aprovação, mensurar o
1. O Cadastro Positivo risco de cada cliente, ajustar o meio de pa-
e Conceitos Fundamentais gamento ideal ao cliente, maximizar o valor
Após as reflexões dos principais de crédito e juros, de acordo com o perfil
agentes e os legisladores sobre o Cadastro do cliente, e determinar o seu potencial de
Positivo, a Presidente Dilma Rousseff, em 9 consumo, aumentando assim a eficiência
20

da organização. Na Argentina, o consentimento do


Risco, segundo Gitman (2009) é a titular é exigido como requisito para o ca-
chance de perda financeira. Portanto, risco dastramento das informações, exceto in-
de crédito é a possibilidade de um cliente formações relacionadas a operações rea-
não saldar sua dívida, ficando inadimplente. lizadas pelas instituições financeiras e aos
A inadimplência ocorre quando um devedor dados recebidos de seus clientes (Sacco,
não quer ou não pode cumprir suas obriga- p.78). Na Colômbia e na Guatemala é neces-
ções contratuais com o credor (CROUHY, sária a autorização voluntária para a entra-
M.; et. al., 2004). da no cadastro e divulgação dos dados. No
Como o crédito é de grande impor- Chile, a autorização deve ser por escrito, po-
tância social, pois favorece o aumento do ní- rém, quando se referirem a dados que pro-
vel de atividade, estimula o consumo e faci- venham de registros de acesso ao público
lita a execução de projetos para os quais as ou quando são de caráter econômico, finan-
organizações não dispõem de recursos (Sil- ceiro, bancário e comercial, não é necessá-
va, 2006) o volume de informações, a qua- ria a autorização. No México, a autorização
lidade da informação, a disponibilidade e é requerida, todavia, se o crédito concedi-
o custo dessa informação tornam-se mui- do for de valor elevado, não é necessária a
to importantes no processo de concessão autorização pelo prazo de um ano, podendo
de crédito. Derivou dessas necessidades a ser prorrogado em caso de consulta ao ca-
criação das empresas gestoras de informa- dastrado, porém, apenas enquanto durar a
ções, que, até a assinatura da Lei n°. 12.414, relação entre as partes. Em compensação,
disponibilizavam apenas informações nega- tanto no Peru, quanto no Uruguai, não é ne-
tivas. A partir da referida Lei, um dos requi- cessária nenhuma autorização do cadastra-
sitos fundamentais é o consentimento do do para que os gestores de bancos de da-
cadastrado. “O interesse social das coleti- dos possam acessar manter e disponibilizar
vidades não se sobrepõe, em regra, como é seus dados (Centro de Estudos Monetários
o caso do cadastro negativo, porque se pri- Latino-americanos, 2005, 2006, 2007, 2011).
vilegia o direito do consumidor cadastrando
e cadastrado de optar ou não por ter esse 2. Dimensões Culturais que
registro publicado” Sacco (2009, p.77). Essa Influenciam a Implementação
premissa acima pode levar ao entendimen- do Cadastro Positivo
to de que pode haver certa morosidade no Os países anteriormente citados
processo de adesão ao serviço no Brasil, são componentes de um cluster cultural do
uma vez que é necessária a autorização do qual faz parte o Brasil, e serão objeto de es-
cadastrado, o que traria reflexos nas variá- tudo das principais variáveis impactadas
veis citadas anteriormente apenas em lon- pelo Cadastro Positivo, que serão analisa-
go prazo. A legislação dos principais paí- das conforme a metodologia de cenários
ses, alguns culturalmente parecidos com o por analogia. O método de previsões por
Brasil e que já adotaram o Cadastro Positivo analogia, segundo Armstrong (2001), extra-
são muito parecidas nesse quesito, ou seja, pola resultados de situações análogas para
para alguns países houve maior demora no predizer uma situação de interesse.
processo, e para outros, não. Em relação aos clusters culturais,
21

as Dimensões Culturais de Hofstede (Ho- rem tornar os acontecimentos claramente


fstede, 1991) são criticadas por poucos e interpretáveis e previsíveis. Portanto, a in-
aceitas em muitas áreas do conhecimen- certeza é percebida como ameaça e sem-
to, e continuam a nortear muitos trabalhos pre combatida, além disso, há forte resis-
científicos, que confirmaram sua pesquisa tência à inovação. As leis nos países de ele-
como real e ainda atual (Sondergaard, 1994 vada aversão à incerteza são numerosas e
e Motta, 1996). precisas.
De acordo com Hofstede (1991) as O Brasil é similar a uma grande
sociedades se dividem em quatro dimen- parte de países Latino-Americanos e, por
sões culturais principais, a Distância do Po- esses índices comentados anteriormente,
der; o Individualismo; a Masculinidade e a situa-se em posição intermediária na maio-
Aversão à Incerteza: ria dos indicadores. A dimensão de aversão
Distância do Poder (PDI): defini- à incerteza é o indicador mais elevado apre-
da como a medida do grau de aceitação, sentado pelo Brasil, conforme a Figura 1.
por aquele que tem menos poder nas insti- Essa forte pontuação de aversão
tuições e organizações de um país, de uma à incerteza revela um país que adota posi-
repartição desigual de poder. Países com ções bastantes conservadoras e grande de-
alto índice de distância do poder têm maior pendência às decisões do governo, aceitan-
desigualdade social, maiores diferenças de do-as como algo comum e que não deve ser
renda e elevado privilégio aos poderosos; mudado, todavia, há um forte sentimento de
Individualismo (IDV): caracteriza as falta de confiança nas instituições públicas.
sociedades nas quais os laços entre os in- Os protestos são reprimidos com violência e
divíduos são pouco firmes; cada um deve há grande necessidade de regras e regula-
ocupar-se de si mesmo e da sua família mentos, além da formalização dos mesmos
mais próxima. Nos países com alto índice (HOFSTEDE, 1991).
de individualismo, os interesses individuais Os países que se enquadram na dis-
prevalecem sobre os interesses coletivos. O tancia do poder são, em sua maioria, cons-
papel do Estado é restrito ao sistema econô- tituídos por governos autocráticos e oligár-
mico e o país costuma ter elevado PIB per quicos. As diferenças entre rendimentos na
capita. sociedade são fortalecidas pelo sistema fis-
Masculinidade (MAS): as socieda- cal vigente (Hofstede, 1991).
des de grau de masculinidade elevada são O Brasil é qualificado como uma
caraterizadas pela orientação ao sucesso e sociedade de maior distância do poder. Na
desempenho, onde a demonstração de for- dimensão individualismo, o Brasil é visto
ça é sempre valorizada, além dos valores como de baixo índice, o que equivale afir-
materiais. São sociedades cuja cultura não mar que é um país coletivista. Países cole-
admite a permissividade e as leis são mais tivistas não se regem pela teoria de que a
rigorosas. economia pode servir a interesses individu-
Aversão à Incerteza (UAI): carac- ais, mas sim coletivos, de grupo. Há forte
teriza as sociedades que tendem a evitar si- interesse na defesa dos interesses do gru-
tuações de ambiguidade, ou seja, as orga- po. Há total domínio do Estado no sistema
nizações, instituições e indivíduos prefe- econômico para que a defesa dos interes-
22

■ Figura 1 Índices das Dimensões Culturais de Hofstede – Brasil

Fonte: Konuma, Claudia M. Cultura nacional e cultura organizacional. Artigo. Junho/2001. Disponí-
vel em <http://www.ead.fea.usp.br/tcc/trabalhos/Artigo_ClaudiaKon.pdf> Acesso em: 25 nov. 2011.

ses dos grupos seja respeitada e prevaleça no Brasil, mais recentemente, como: a des-
(Hofstede, 1991). tinação de uma pequena proporção do PIB
Dentre as Dimensões de Hofstede, para ajuda aos países pobres, investimen-
a mais equilibrada é a do índice de mascu- tos em armamento e nas forças armadas
linidade, pois não é possível definir o país e prioridade à sustentação do crescimento
como masculino ou feminino, embora haja econômico (Hofstede, 1991).
uma ligeira tendência à feminilidade. Essa
tendência torna o país voltado para uma so- 3. Indicadores Financeiros
ciedade de bem estar, mais solidária, con- e de Competitividade
tudo, permissiva, ou seja, as leis não cos- Os principais indicadores financei-
tumam ser respeitadas. Outro aspecto im- ros selecionados para serem analisados
portante é que nas culturas mais femininas, nos países do cluster do Brasil e demais pa-
há um número importante de mulheres elei- íses estudados, segundo critérios e concei-
tas em cargos políticos e há complementa- tos do The World Bank (2011), foram: Spre-
riedade entre homens e mulheres nas tare- ad Bancário, que é a taxa de juros cobrada
fas, nesse país. Alguns rompantes de mas- pelos bancos em empréstimos aos clientes
culinidade também podem ser observados principais menos a taxa de juros paga pe-
23

los bancos comerciais ou similares; Crédi- truturais e fatores problemáticos para a


to Interno oferecido ao setor bancário, que competitividade que complementaram os
inclui todo o crédito para diversos setores cenários traçados para o futuro do Brasil.
em uma base bruta, com exceção do cré- Entre os principais pilares da competitivi-
dito ao governo central, que é líquido; Cré- dade dos países do estudo para ilustrar os
dito Interno oferecido ao setor privado, que cenários futuros do Brasil estão os concei-
se refere a recursos financeiros previstos tos de: infraestrutura, relacionado ao trans-
para o setor privado, por meio de emprés- porte, energia e tecnologia da informação;
timos, compra de títulos, créditos comer- ambiente econômico, que procura ilustrar
ciais e outras contas a receber. Alguns paí- a equalização da qualidade dos gastos go-
ses incluem crédito para empresas públicas; vernamentais e déficits fiscais; saúde e
Empréstimos Bancários Inadimplentes educação básica do trabalhador; educa-
para o total de empréstimos brutos, que ção superior e formação profissional; efici-
são os valores de empréstimos inadimplen- ência do mercado de trabalho, que ilustra
tes divididos pelo valor total da carteira de que a eficiência do mercado de trabalho
crédito (incluindo créditos de liquidação está relacionada aos incentivos concedi-
duvidosa antes da dedução de determina- dos aos trabalhadores e os seus esforços,
das provisões para perdas). O montante do bem como, a equidade no ambiente de ne-
empréstimo registrado como inadimplen- gócios entre homens e mulheres; tamanho
tes deve ser o valor bruto do empréstimo de mercado que busca relacionar o tama-
constante no balanço, não apenas a quan- nho do mercado interno somado à capaci-
tidade que está atrasada; Taxa Real de Ju- dade de exportar; e, finalmente, inovação
ros que é a tarifa de juros de empréstimos tecnológica, que mede a projeção e desen-
ajustada pela inflação medida pelo defla- volvimento de produtos de vanguarda. In-
tor do PIB; Taxa de crescimento anual em vestimentos em pesquisa e desenvolvimen-
relação ao PIB, a preços de mercado, com to do setor privado, a presença de institui-
base em moeda local constante. Agrega- ções de investigação científica de elevada
dos são baseados em constantes de 2 mil qualidade; extensa colaboração em pes-
dólares americanos. PIB é a soma do va- quisa entre universidades e indústria, e a
lor adicionado bruto de todos os produto- proteção da propriedade intelectual. Além
res existentes na economia mais os impos- desses indicadores colocados em ranking
tos de produtos e menos quaisquer subsí- pelo estudo do WEF (Schwab, 2001), a enti-
dios não incluídos no valor dos produtos. dade também elencou os fatores mais pro-
Calcula-se sem fazer deduções de depre- blemáticos para fazer negócios nos países
ciação de bens fabricados ou a exaustão e amostrados. A informação foi extraída a
degradação dos recursos naturais e; final- partir da edição 2010 da Comissão Execu-
mente, Taxa de Juros de Empréstimo, que tiva do Fórum Econômico Mundial de Pes-
é a taxa cobrada pelos bancos em emprés- quisa de Opinião, onde, de uma lista de 15
timos aos principais clientes. fatores, os entrevistados foram convidados
Do estudo da competitividade por a escolher os cinco maiores problemas de
países do World Economic Forum - WEF cada país e classifica-los de 1 (mais proble-
(Schwab, 2011) foram extraídos índices es- mático) a 5 (menos problemático). Os resul-
24

tados foram então tabulados e ponderados tes - Bank nonperforming loans to total gross
de acordo com a classificação atribuída loans (%); Taxa Real de Juros - Real interest
pelos entrevistados. rate (%); Crescimento Anual do PIB - GDP
A amostra de países que fez par- growth (annual %); e Taxa de Juros dos Em-
te deste estudo representa cerca de 35% préstimos - Lending interest rate (%).
do PIB mundial, 35% da população mun- Foi realizado levantamento jun-
dial, 27% do PIB per capita e 33% da par- to a Miller, M.(2000); Luna e Austin (2002);
ticipação do PIB mundial pela paridade do Chakravarti e Beng (2005) e Banisar (2006)
poder de compra (PPP), segundo dados do sobre o ano de aprovação da lei do Cadas-
WEF (SCHWAB, 2011). tro Positivo nos países selecionados e ape-
Os elementos apresentados nos nas os dados dos países que tiveram legis-
três itens do referencial teórico servem lações favoráveis ao Cadastro Positivo fo-
como base para aplicação da pesquisa, ram considerados, conforme descrito na
conforme detalhado a seguir nos itens de Tabela 1.
metodologia e análise dos resultados. Os países foram classificados no
aplicativo Excel com os dados do ano de
Abordagem aprovação da lei do Cadastro Positivo como
Metodológica sendo o ano zero e os dados relativos ao ano
A pesquisa teve o caráter descriti- seguinte como ano 1, ano 2, ano 3, respecti-
vo que, segundo Acevedo e Nohara (2006), vamente, fazendo que todos os anos de en-
narra as características de um grupo e es- trada dos diversos países ficassem alinha-
tima a proporção dos elementos de deter- dos no ano zero e os demais nos anos res-
minada população que apresente caracte- pectivos, exclusive para os dados do Brasil.
rísticas comportamentais de interesse da A quantidade de anos posteriores ao ano
pesquisa. A pesquisa descritiva não objeti- zero indica o tempo de experiência do país
va explicar o fenômeno investigado, apenas com o Cadastro Positivo. Após o nivelamen-
descrevê-lo. to de todos os países, procedeu-se a con-
A pesquisa se iniciou com a busca versão de todos os dados para uma base de
por dados financeiros de países seleciona- nível 100, partindo do ano zero. Dessa forma
dos pelo seu histórico com o Cadastro Posi- o ano zero ficou igual a 100 e os anos poste-
tivo, padronizados junto ao The World Bank riores seguiram a relação. Foram extraídas
(2011), relacionados às principais variáveis as medianas de cada ano, a partir do ano 1,
que sofrem impacto do cadastro positivo: de forma a compor todos os indicadores fi-
Spread Bancário (Taxa de empréstimo me- nanceiros de cada ano extraídos pela me-
nos a taxa de deposito - Interest rate spread diana dos dados dos países naquele ano es-
/ lending rate minus deposit rate, %); Crédi- pecífico. Foi adotado para corte de tempo
to Interno Oferecido pelo Setor Bancário % de experiência o período de oito anos, dada
do PIB - Domestic credit provided by banking a quantidade de países com tal experiência
sector (% of GDP); Crédito Interno para o Se- para validar o critério de mediana. Após os
tor Privado % do PIB - Domestic credit to pri- oito anos de história dos indicadores, par-
vate sector (% of GDP); Inadimplência (To- tiu-se para a pesquisa de quais países fa-
tal de Empréstimos Bancários Inadimplen- riam parte do cluster do Brasil e quais paí-
25

■ Tabela 1 Países, Anos de Aprovação e Legislações sobre o Cadastro Positivo

Ano de Apro- Legislação


vação da Lei
África do Sul 2001 Promotion of Access to Information Act (PAIA)
Alemanha 2002 German Data Protection Act
Argentina 2000/2001 Lei 25.326 de Proteção de Dados Pessoais e Decreto 1558/2001
Áustria 2000 Austrian Data Protection Act
Bolívia 2002 Lei 2410 agosto 2002
Brasil 2010/2011 Medida Provisória (MP) 518/10 e Lei n°. 12.414
Bulgária 2001 Data Protection Law
Privacy Act, The Personal Information Pro-
Canadá 1983/2000 tection and Eletronic Documents Act
Chile 1999 Supremo Decreto no. 950 e Leis Privadas no. 19.628 & 19.812
Colômbia 2008 Lei 1.266
Act Relating to Use & Protection of Credit Information e The Act on
Coréia do Sul 1995/2005 Promotion of Information and Communications Network Utilization and
Data Protection
Equador 2005 Lei dos Bureaus de Crédito
Eslovênia 1999 Personal Data Protection Act
Espanha 1999 Lei Orgânica 15/99 de Proteção aos Dados Pessoais
Estônia 2005 Data Protection Law
Guatemala 2008 Decreto 57
Holanda 2000 Personal Data Protection Act
Índia 2004 Credit Information Companies (Regulation)
Israel 2002 Law on Credit Data Service
Japão 2005 Personal Information Protection Law
Macedônia 2006 Law on Personal Data Protection
Malásia 2002 Credit Bureau Act 1958
México 2002 Lei dos Bureaus de Crédito
Noruega 2000 Personal Data Act
Lei 24 que Regulamenta as Informações de Crédito dos
Panamá 2002 Consumidores ou Clientes
Paraguai 2002 Lei 1969
Peru 2001 Lei 27.489 e Emenda 2.7863 de 2003.
República Checa 2000 Personal Data Protection Law
República Credit Bureau Ato de Regulamentação e Pro-
2005
Dominicana teção à Informação do Indivíduo
Tailândia 2002 Credit Information Business Act, B.E. 2545
Uruguai 2004 Lei 17.838 de Proteção dos Dados Pessoais

Fontes: Banisar, D. (2006); Chakravarti, R. e Beng, H. C.(2005); Luna, S. A. Austin, J.B. (2002); Mil-
ler, M.(2000).
26

■ Tabela 2 Índices de Dimensões Culturais de Hofstede e Escala de Problemas de Competitivida-


de do World Economic Forum por Países
Dimensões Escala de Principais Problemas de
Culturais de Hofstede Competitividade World Economic Forum
Cluster Brasil PDI IDV MAS UAI 1a.Ordem 2a.Ordem 3a.Ordem
Argentina 49 46 56 86 Inflação Corrupção Instabilidade Política
Brasil 69 38 49 76 Taxas de Juros Regulamentos fiscais Fraca Infraestrutura
Bulgária 70 30 40 85 Corrupção Burocracia Inflação
Regulamentos
Chile 63 23 28 86 Fiscais Burocracia Educação Força de trabalho
Colômbia 67 13 64 80 Corrupção Fraca Infraestrutura Burocracia
Coréia do Sul 60 18 39 85 Burocracia Instabilidade Política Acesso a Financiamento
Equador 78 8 63 67 Corrupção Leis trabalhistas Instabilidade Política
Acesso a
Espanha 57 51 42 86 Financiamento Leis trabalhistas Burocracia
Guatemala 95 6 37 101 Crime Corrupção Burocracia
México 81 30 69 82 Crime Corrupção Burocracia
Panamá 95 11 44 86 Corrupção Burocracia Educação Força de trabalho
Peru 64 16 42 87 Corrupção Burocracia Regulamentos fiscais
Rep. Checa 57 58 57 74 Corrupção Burocracia Regulamentos fiscais
Tailândia 64 20 34 64 Instabilidade Corrupção Instabilidade Política
do Governo
Uruguai 61 36 38 100 Leis trabalhistas Burocracia Taxa de Juros
Demais PDI IDV MAS UAI 1a.Ordem 2a.Ordem 3a.Ordem
Países
Educação força
África do Sul 49 65 63 49 Burocracia Leis trabalhistas
de trabalho
Alemanha 35 67 66 65 Leis trabalhistas Regulamentos fiscais Burocracia
Áustria 11 55 79 70 Leis trabalhistas Taxa de Juros Burocracia
Acesso a
Bolívia n.d. n.d. n.d. n.d. Financiamento Leis trabalhistas Reg. Monet. a Estrangeiros
Acesso a
Canadá 39 80 52 48 Burocracia Taxa de Juros
Financiamento
n.d. n.d. n.d. n.d. Acesso a
Eslovênia Burocracia Leis trabalhistas
Financiamento
Educação Acesso a
Estônia 40 60 30 60 Força de trabalho Financiamento Taxa de Juros
Holanda 38 80 14 53 Leis trabalhistas Burocracia Acesso a Financiamento
Índia 77 48 56 40 Fraca Infraestrutura Corrupção Burocracia
Israel 13 54 47 81 Burocracia Taxa de Juros Fraca Infraestrutura
Instabilidade
Japão 54 46 95 92 Política Taxa de Juros Instabilidade do Governo

n.d. n.d. n.d. n.d. Acesso a


Macedônia Burocracia Educação Força de trabalho
Financiamento
Acesso a
Malásia 104 26 50 36 Burocracia Leis trabalhistas
Financiamento
Noruega 31 69 8 50 Leis trabalhistas Taxa de Juros Burocracia
Educação
Paraguai n.d. n.d. n.d. n.d. Corrupção Burocracia
força de trabalho
Rep.
Dominicana n.d. n.d. n.d. n.d. Corrupção Taxa de Juros Burocracia

Notas: PDI – Power Distance Index, IDV – Individualism, MAS – Masculinity, UAI – Uncertainty Avoidance Index.
n.d. – não disponível. Fontes: Hofstede, Geert. Dimensions of national Cultures. Schwab, Klaus. The Global
Competitiveness Report 2011–2012.
27

ses fariam parte da amostra geral de com- te, entraram no cômputo de projeção geral,
paração (Tabela 2). sem influência da divisão de cluster cultural
Foram pesquisados os clusters ba- de Hofstede. As duas divisões podem ser vis-
seados em Hosfstede (1991), pela técnica de tas na Tabela 2.
análise de conglomerados (Cluster Analysis), Os dados apresentados e suas varia-
conhecida também como análise de agrupa- ções anuais, a partir do ano zero, dos países
mentos, que é uma técnica estatística de in- do cluster do Brasil e do cômputo geral deram
terdependência que permite agrupar casos origem a dois cenários projetados para Brasil
ou variáveis em grupos homogêneos em fun- em cada uma das variáveis financeiras de im-
ção do grau de similaridades entre indivíduos, pacto do Cadastro Positivo.
a partir de variáveis predeterminadas (Fáve- Assim, a variação ponderada média
ro, Luiz P.; Belfiori, Patrícia; Silva, Fabiana L., linear entre o ano zero e o último ano, chama-
2009). do ano oito, por analogia, gerou as variações
Para Pohlmann (2009) esta é uma médias anuais de possível impacto do Cadas-
das técnicas de análise multivariada cujo pro- tro Positivo nas variáveis utilizadas.
pósito primário é reunir objetos, baseando-se Ainda, pelo estudo do WEF (Schwab,
nas características destes objetos analisados. 2011), informações como os três principais
Conforme Fávero et al. (2009), o obje- problemas registrados no país, escores de
tivo da técnica de análise de conglomerados infraestrutura, ambiente macroeconômico,
é segmentar as observações em grupos ho- saúde e educação primária, ensino superior
mogêneos internamente, heterogêneos entre e treinamento, eficiência do mercado de tra-
si e mutuamente exclusivos. Assim, elemen- balho, tamanho de mercado e inovação foram
tos semelhantes, com base em suas caracte- levantadas deste estudo, para fundamentar
rísticas, serão identificados. possíveis cenários benchmarking para o futuro
Ainda de acordo com Fávero et al. do Brasil. Das duas amostras possíveis, clus-
(2009), na análise de conglomerados, as ob- ter do Brasil e amostra geral, foram extraídos
servações são agrupadas segundo algum os dados dos países que ficaram acima do 3º.
tipo de métrica de distância, e as variáveis são Quartil da amostra nas duas bases, de forma
agrupadas conforme medidas de correlação que os indicadores atuais do Brasil pudessem
ou associação. Para realização das análises, o ser confrontados com os melhores indicado-
pacote estatístico SPSS fornece ampla gama res de cada grupo de países, o que, por ana-
de possibilidades. Foi utilizado o software logia, poderiam representar o futuro do Brasil
SPSS 18 para a divisão do cluster ao qual o após oito anos de Cadastro Positivo.
Brasil faz parte sob o ponto de vista das qua- A técnica de projeção e cenário
tro dimensões culturais de Hofstede. A quin- utilizada foi a de analogia, de acordo com
ta dimensão de Hofstede, chamada de Índice o referencial metodológico de Armstrong
de orientação de longo prazo não foi utilizada (2001). Dessa forma, o procedimento para
neste estudo em razão da amostra de países análise preditiva por analogia envolve eta-
dessa dimensão ser muito baixa. pas adaptadas dos princípios de previsão
Os demais países que tiveram histó- de demanda apresentados por Armstrong
rico com o Cadastro Positivo, mas não se en- (2001); são elas:
quadraram no cluster do qual o Brasil faz par- • Estruturação do problema, onde
28

se já se definiu ser a projeção das princi- 0,72 p. p. ao ano;


pais variáveis impactadas de acordo com os • Para o percentual de inadimplência
resultados dessas variáveis observadas em dos empréstimos bancários, houve retração
outros países; de 0,26 p.p.ao ano para o cluster do Brasil e
• Obtenção de informações, onde in- para a amostra com todos os países. Convém
dicadores e variáveis de diversos países que salientar que em comparação aos demais in-
aprovaram por legislação o cadastro positivo dicadores, o indicador de inadimplência foi o
foram analisados; que mais registrou queda, quando compara-
• Implementação dos métodos de do ao mesmo período de tempo imediatamen-
previsão, onde os dados de todos os países te anterior a 2010, pois a redução da inadim-
foram trabalhados em clusters com similarida- plência entre 2002 e 2010 registrou queda de
de cultural à do Brasil; e apenas 0,7p.p.
• Avaliação do método de previsão, • A taxa real de juros na amostra com
onde por analogia foram geradas as proje- todos os países registrou queda de 2,20 pon-
ções e cenários. tos percentuais ao ano e foi similar à queda
Georgoff e Murdick (1993) conside- ocorrida para o cluster do Brasil (-2,21 p. p. ao
ram como válidas as previsões por analogia ano). Este é outro indicador que registra me-
em seu manual de gerenciamento. Ainda, ex- lhor desempenho que no período imediata-
plicaram que fazer previsão por analogia é mente anterior a 2010;
perceber que dados entre um fator de avalia- • A taxa de juros dos empréstimos
ção e outro são similares. registrou ligeira queda média anual com to-
dos os países da amostra (-1,15 ponto percen-
Resultados da Pesquisa tual) em relação ao cluster do Brasil (1,10 p. p.
Após a aplicação da pesquisa, con- ao ano);
forme detalhado no item anterior, foi possível • Finalmente, o PIB dos países do
obter resultados com relação às principais va- cluster do Brasil cresceu em média 4,22% ao
riáveis financeiras dos dois grupos amostrais, ano, enquanto a amostra total foi ligeiramen-
com destaque para os seguintes pontos: te inferior (4,19% ao ano). Cabe ressaltar que
• Houve redução de 1,14 ponto per- este foi outro indicador que encontrou melhor
centual ao ano no Spread para os países do resultado na comparação com o período ime-
cluster do Brasil e diminuição de 0,97 p. p. ao diatamente anterior a 2010.
ano para todos os países da amostra; Diante dos resultados apurados an-
• Houve crescimento de 2,03 pontos teriormente, a projeção dos indicadores bra-
percentuais ao ano na oferta de crédito pelos sileiros para as variáveis acima teriam as se-
bancos em relação ao PIB na amostra do clus- guintes características:
ter do Brasil e elevação de 1,34 p. p. ao ano Nos spreads bancários (Figura 2)1, a
para a amostra total; taxa estaria próxima de 20% em 2018, levan-
• Da mesma forma, o crédito interno do-se em consideração o cluster do Brasil e fi-
para o setor privado em relação ao PIB gerou caria pouco acima ao spread peruano (18,2%),
aumento de 0,98 pontos percentuais ao ano com 6 anos de cadastro positivo. Para a amos-
para o cluster do Brasil e para a amostra ge- tra com todos os países haveria queda acu-
ral o crescimento foi ligeiramente inferior, de mulada de 7,8 pontos percentuais na taxa do
29

■ Figura 2 Projeção das Principais Variáveis Financeiras do Brasil pelas Duas Amostras

Fonte: The World Bank (2011).


30

spread bancário em 8 anos, ficando em cerca Para a amostra geral a elevação seria ligei-
de 22%. ramente inferior, 62,8%.
Quanto ao crédito interno oferecido No cluster do Brasil e na amostra
pelos bancos em relação ao PIB (Figura 2), com todos os países a inadimplência cai-
haveria crescimento de 16 pontos percentu- ria significativamente, partindo de 3,8%
ais até 2018, ou seja, o percentual de crédito em 2010 para 1,6% em 2018 e ficaria simi-
em relação ao PIB passaria dos atuais 97,8% lar à taxa atual de países como Coréia do
para 114,1% em 2018, no cluster do Brasil e Sul, Israel, Noruega, Panamá e Paraguai
108,5% na amostra total de países. (Figura 2).
Para o crédito fornecido ao setor A taxa real de juros deverá cair
privado em relação ao PIB (Figura 2), have- cerca de 17,7 pontos percentuais nos
ria um aumento de 7,8 pontos percentuais clusters do Brasil e na amostra com to-
no acumulado de 8 anos para os clusters do dos os países, nos próximos 8 anos, des-
Brasil, ou seja, a taxa parte dos atuais 57%, sa forma, passaria de 30,4% (Figura 2),
segundo dados do Banco Mundial, para segundo dados do Banco Mundial, para
64,8% do PIB brasileiro em 2018, ainda mui- 12,7%, próxima à taxa real de juros peru-
to abaixo da taxa chilena que é de 90,2%. ana (13,8%) e ainda distante das taxas de

■ Figura 3 Projeção do Crescimento Anual do PIB em %

Fonte: The World Bank (2011)


31

juros da República Checa (7%) e da Gua- educação e mercado de trabalho (Figura 4).
temala (7,7%). • O Tamanho de mercado registraria
Em relação à taxa de juros dos em- pequeno crescimento, o que, possivelmente,
préstimos (Figura 1), a tendência é de maior impediria o Brasil de resolver o problema de
redução na amostra de todos os países, onde forte regulamentação fiscal.
haverá queda de 9,2 pontos percentuais em • Como principais problemas: o Bra-
relação à taxa de 2010. A atual taxa de 40% sil passaria a ter o excesso de burocracia go-
deverá ser reduzida para 30,7%, nesta pers- vernamental, dificuldades com a legislação
pectiva, ficaria ainda muito acima da taxa do trabalhista e acesso a financiamento. Es-
Paraguai em 2010. Na perspectiva do cluster ses são típicos problemas dos países do gru-
do Brasil essa taxa seria de 31,2%. Dessa for- po citado acima, conforme levantamento do
ma, não encontrando ainda países próximos World Economic Forum (Schwab, 2011).
a ela por estar muito alta. • Em relação aos índices de Hofste-
Por fim, no PIB brasileiro (Figura 3), de, com a melhoria na saúde e educação, e
espera-se crescimento médio de 4,2% e 4,1% ampliação do mercado de trabalho como re-
ao ano para o cluster do Brasil e para a amos- sultado do desenvolvimento econômico, a
tra geral, essas taxas de crescimento médio sociedade brasileira diminuiria a distância
seriam similares hoje à taxa de países como em relação ao poder com o passar dos anos
Bolívia (4,2% ao ano), Bulgária (4,1% a.a.) e Is- e aumentaria o grau de participação das mu-
rael (4% a.a.). lheres no ambiente. Em contrapartida, a ten-
dência ao individualismo aumentaria, junta-
1. Cenários Estruturais mente com a aversão à incerteza, típicas das
do Brasil em 2018 sociedades mais modernizadas.
Levando em consideração os princi- • Já no cluster do Brasil, haveria avan-
pais países benchmarking hoje, de acordo com ços significativos nas variáveis infraestrutu-
o WEF (Schwab, 2011), relacionados pelos cri- ra e ambiente econômico, ligeira melhora na
térios de clusters do Brasil e de amostra ge- saúde e educação / ensino superior; e fracos
ral de todos os países, os possíveis cenários avanços em relação ao potencial do merca-
foram levantados para os escores estruturais: do de trabalho, tamanho de mercado e, prin-
• Haveria melhores resultados para a cipalmente, inovação (Figura 4). A burocracia
amostra geral em todas as variáveis, uma vez e a corrupção tenderiam a registrar aumento
que países como Holanda, Alemanha, Cana- considerável, passando a ser um dos proble-
dá, Noruega, Japão e Coreia do Sul fariam mas principais do país, uma vez que haveria
parte desse grupo de países benchmarking. poucos avanços na educação e ensino supe-
• O Brasil teria importante salto em rior. Forte regulamentação fiscal se manteria
infraestrutura, hoje considerado na pesquisa como problema registrado hoje. Os principais
como um dos principais problemas do País. países benchmarking deste cluster são em boa
• Avanços significativos em inova- parte países da América Latina da amostra,
ção e ambiente econômico, poderiam tam- acrescentando a República Checa, Bulgária,
bém resolver o problema das elevadas taxas Espanha, Tailândia e Coréia do Sul.
de juros apresentadas hoje. • Em relação aos índices de Hofste-
• Fortes avanços na área da saúde, de, pouco mudaria em relação ao ambiente
32

■ Figura 4 Cenários Estruturais para o Brasil nas Duas Amostras

Fonte: Schwab, Klaus. The Global Competitiveness Report 2011–2012. World Economic Forum 2011.
Geneva, Switzerland 2011. Disponível em: <http://www.weforum.org/reports/global-competitive-
ness-report-2011-2012> Acesso em: 02 dez. 2011.

cultural atual, já que o Brasil já faz parte des- tra sugestão seria a replicação deste es-
te cluster. tudo utilizando os critérios do Banco Cen-
tral do Brasil para as principais variáveis,
Considerações Finais uma vez que diferem dos critérios utiliza-
Conforme pôde ser observado, as dos pelo Banco Mundial.
principais variáveis relacionadas ao Cadas- Os indicadores de Hosftede guar-
tro Positivo registraram, em algum grau, dam uma relação interessante com os da-
melhoria para os países que o adotaram, dos do Fórum Econômico Mundial, pelas
independente do tempo em que foi ado- características de escores apresentadas e
tado, de maneira alinhada às pesquisas pelos problemas apontados nas duas pes-
apresentadas no referencial teórico. Have- quisas.
ria a necessidade de um estudo mais apro- Melhores resultados nas variáveis
fundado para identificar se essas melho- econômicas da amostra do cluster do Brasil,
rias foram, de fato, atribuídas ao Cadastro com maior redução dos spreads bancários,
Positivo, podendo haver uma comparação aumento da oferta de crédito bancário, de
com países que ainda não o adotaram. Ou- crédito ao setor privado, da taxa real de ju-
33

ros e do crescimento do PIB em relação ao do PIB e taxa de juros de empréstimos para o


grupo de todos os países da amostra. Brasil, nos próximos anos. Também foram indi-
Os melhores resultados em relação cados os possíveis cenários estruturais para o
ao período anterior a 2010 estiveram nas vari- país nos próximos oito anos, levando em consi-
áveis de inadimplência, da taxa real de juros deração uma amostra de países culturalmente
e do crescimento do PIB brasileiro. semelhantes ao Brasil e uma amostra geral ex-
O cluster do Brasil é bastante factí- traídas do estudo do Fórum Econômico Mun-
vel para os próximos oito anos, uma vez que dial (SCHWAB, 2011).
o Cadastro Positivo nessa amostra de paí- Embora exponha limitações, confor-
ses elevou a participação do credito bancá- me anteriormente apresentado, a pesquisa
rio ao setor privado em relação ao PIB e dimi- oferece uma visão tendencial sobre as princi-
nuiu significativamente a inadimplência após pais variáveis de impacto no fluxo de capitais
a adoção do Cadastro Positivo nesses países. no país, contribuindo para pesquisas acadê-
Essa maior oferta de crédito, condicionada micas que poderão ser ainda mais aprofun-
pelos aspectos citados no referencial teórico dadas, e cooperando também para a tomada
levaria a uma melhoria do ambiente econômi- de decisão ou posicionamento dos principais
co e possível crescimento da infraestrutura. agentes interessados no assunto.
Elevar os investimentos na educação básica
e saúde, bem como, no ensino superior e trei- Os conceitos emitidos neste arti-
namento técnico podem fazer o cenário evo- go são de inteira responsabilidade de seus
luir para o registrado na amostra geral. autores, não expressando necessariamen-
Dessa forma, o estudo atendeu seu te o ponto de vista da Serasa Experian.
objetivo de mensurar a experiência dos prin-
cipais países que adotaram o Cadastro Positi- Notas
vo e, por analogia, conforme Armstrong (2001), 1. Ressalta-se que os dados do Bra-
foram projetadas as tendências das variáveis sil foram atualizados em 2010, pois as infor-
spread bancário, crédito oferecido pelo setor mações de spread do Banco Mundial no
bancário, crédito oferecido ao setor privado, momento da pesquisa estavam com um
inadimplência, taxa real de juros, crescimento ano de defasagem.
Autores

Carlos Augusto Passos


Graduado em Administração de Empresas pela Universidade São Marcos (1995), especialização em Econo-
mia de Empresas pela Fecap (1997) e MBA em Marketing pela FGV/RJ (2005). Foi professor universitário por
6 anos na Uninove nas disciplinas de Estratégia e Cenários. Atualmente é mestrando em administração na
USP com projeto de pesquisa voltado às organizações que atuam na Base da Pirâmide. Atua como Espe-
cialista na área de Indicadores de Mercado da Serasa Experian, na produção de indicadores econômico-fi-
nanceiros, projeções, e indicadores de inadimplência PJ e PF.
34
Autores

Renata Giovinazzo Spers


Graduado em Ciências Econômicas pela USP (1997), Mestrado e Doutorado em Administração pela mes-
ma Universidade em 2003 e 2007, respectivamente. Fez estágio de doutorado na Universidade de Cambrid-
ge (2006) e na Universidade Howard (2007). Realizou pesquisa de pós-doutorado na Universidade Vander-
bilt (EUA). É professora do Departamento de Administração da FEA-USP. É líder do grupo de pesquisas
Programa de Estudos do Futuro - PROFUTURO e Editora Adjunta da Revista Científica Future Studies Re-
search Journal. Coordenadora de Projetos da FIA, Vice-Coordenadora do International e Americas MBA.
Coordena projeto de pesquisa sobre a Base da Pirâmide, com apoio da FAPESP. Atua em Estratégia e Es-
tudos do Futuro.

James T. C. Wright
Engenheiro Civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1975), Mestre em Engineering Management
- Vanderbilt University (1977), e Doutor em Administração pela Universidade de São Paulo (1990). Atual-
mente é Professor Doutor da Universidade de São Paulo e Coordenador de Projetos da Fundação Instituto
de Administração, incluindo os cursos MBA Executivo Internacional, International MBA e Americas MBA .
Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração de Empresas, atuando principal-
mente nos seguintes temas: cenários, logística, e-commerce, bens populares e telecomunicações.
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37

Análise da Insolvência
de Empresas
Combinando Variáveis
Macroeconômicas e
Informações
Contábil-Financeiras

Alceu Souza
Liliane Gomes
Luiz Carlos Duclós
Wesley Vieira da Silva
38

Resumo
Este artigo analisa a probabilidade de insolvência de
empresas brasileiras de capital aberto, combinando 12 variá-
veis macroeconômicas e 19 contábil-financeiras. A análise em-
pírica usou dados de 63 empresas listadas na Bovespa e per-
tencentes a 17 setores segundo a classificação da base de da-
dos Economática, para o período de dezembro de 2000 a se-
tembro de 2009. A previsão de insolvência foi calculada a partir
da metodologia KMV adaptada do Modelo de Merton e defini-
da por Löffler e Posch (2007). A análise foi feita, primeiramen-
te, dividindo-se a amostra em dois grupos, por meio do méto-
do de Hierarchical Cluster, sendo o primeiro grupo formado por
empresas com maior probabilidade de insolvência e o segundo
com menor probabilidade. Em seguida, foi aplicada a regres-
são logística para a geração de seis modelos distintos a fim de
identificar as variáveis mais relevantes. Constatou-se que os
fatores contábil-financeiros foram mais relevantes do que os
fatores macroeconômicos para explicar a probabilidade de in-
solvência. Não se obtiveram evidências de que a presença do
Índice de Governança Corporativa pode influenciar ou melho-
rar a situação financeira das empresas. Espera-se que este es-
tudo contribua para o aprofundamento do conhecimento na
área de gestão de riscos, principalmente por meio da preocu-
pação em transmitir de forma clara e precisa os passos meto-
dológicos adotados, bem como as análises efetuadas.

Palavras-chave: Insolvência; Regressão Logística; Em-


presas Brasileiras; Bovespa.

Introdução oscilam positivamente em momentos


A inadimplência encontrada no de relativa estabilidade e negativamen-
mercado, não deve ser encarada como te quando a economia encontra-se em
algo inesperado, pois há muitos indí- crise ou é instável.
cios de uma possível ocorrência em de- Os estudos sobre o risco evidente
monstrações contábeis e relatórios fi- experimentaram uma expansão e aprofun-
nanceiros dessas organizações. Outros damento, graças ao aumento de oferta de
elementos que denunciam esse dese- crédito, após a implantação do Plano Real.
quilíbrio podem estar presentes nas Em decorrência das exigências legais, o
análises de comportamento de preço entendimento dos fatores que levam aos
das ações de empresas e na evolução riscos, principalmente aos riscos de cré-
das taxas de insolvência setoriais, que dito, tornaram-se mais imperiosos. Conse-
39

quentemente, foram criados mais modelos das empresas de capital aberto com ações
para a análise de dados, que ampliaram as negociadas na BOVESPA, explicam a pro-
opções para a análise da situação financei- babilidade de insolvência, baseando-se na
ra das empresas. aplicação de um modelo de mensuração
O Brasil passou recentemente por de risco, para o período entre dezembro de
um período de estabilidade financeira, fato 2000 e setembro de 2009?
que vem auxiliando o desenvolvimento da Para responder a essa questão foi
economia e o aprofundamento do estudo formulado o objetivo geral de avaliar a pro-
das relações mercadológicas para o en- babilidade de insolvência de empresas bra-
tendimento dos riscos existentes. Barbosa sileiras de capital utilizando-se uma combi-
(2006) ressalta que o uso das variáveis ma- nação de variáveis macroeconômicas e in-
croeconômicas para mensuração dos ris- formações contábil-financeiras.
cos de insolvência, remete às premissas da O trabalho foi estruturado em cinco
análise de riscos, com os chamados “C’s” seções que podem ser resumidas da seguin-
do crédito, que servem de base às políti- te forma: a primeira refere-se à introdução; a
cas de crédito vigentes na maioria das em- segunda apresenta referencial teórico-empí-
presas. Essa técnica implica uma análise rico; a terceira trata da metodologia; a quar-
profunda do tomador do crédito, que inclui ta diz respeito à apresentação e análise dos
a situação do setor de atuação do mesmo. dados e a quinta refere-se às considerações
Isto é, para liberação do empréstimo, atre- finais.
la-se indiretamente a capacidade do toma-
dor às variações macroeconômicas. Referencial
Os modelos de análise de risco ba- Teórico-Empírico
seados em informações contábil-financei- Existem diversas técnicas empre-
ras, fornecem um aprimoramento do en- gadas para identificar e calcular os riscos
tendimento financeiro de empresas ou de crédito possíveis dentro de uma empre-
setores industriais e auxiliam no geren- sa ou instituição. Algumas dessas técni-
ciamento dos riscos quando favorecem a cas usam um conjunto de análises qualitati-
avaliação dos controles e das políticas de vas com uma pequena parcela de técnicas
crédito. Por outro lado, somente a utiliza- quantitativas que são consideradas como
ção de variáveis contábil-financeiras não técnicas qualitativas. Outras técnicas usam
é suficiente, pois se estará desprezando uma menor escala de análises qualitativas
a relação existente entre ciclos econômi- em detrimento das quantitativas, conside-
cos e insolvência (WILSON apud BARBO- rando-as como técnicas quantitativas.
SA, 2006). Com base no exposto anterior-
mente, o presente trabalho visa responder, 1. Técnicas Qualitativas
a partir da utilização de um modelo que en- de Análise de Risco de Crédito
globa variáveis macroeconômicas e infor- Os modelos qualitativos de análi-
mações contábil-financeiras, ao seguinte se de riscos envolvem alto grau de julga-
problema de pesquisa: mento dos analistas de uma empresa ou
A combinação de dados macro- instituição. Em geral, são modelos que
econômicos e dados contábil-financeiros podem auxiliar na identificação de ca-
40

racterísticas ou indícios de possíveis ris- ricos existentes. No Quadro 1 tem-se um


cos creditícios, já que indicam tendências resumo das principais técnicas de análi-
de comportamentos baseados nos histó- se qualitativas.

■ Quadro 1 Sumário das Técnicas Qualitativas de Análise de Risco de Crédito

Técnicas Descrição
C’s do Crédito Esta técnica é empregada para identificação de características similares
aos tomadores de créditos. O objetivo principal é reduzir o risco a
partir do entendimento dos fatores e das características comuns que
o influenciam. O chamado C’s do crédito abrange 5 características
principais, a saber: caráter, capacidade, capital, colateral e condições.
Análise Cadastral Para Securato (2002, p. 60) a análise cadastral começa pela confecção
da ficha cadastral. Essa análise visa buscar indícios de possíveis
problemas e a identificação de situações que impeçam a concessão
do crédito. As principais observações devem ser: a) qualificação da
empresa; b) histórico ou tradição da empresa no setor; c) controle
de capital; d) capacidade administrativa ou gerencial; e) capacidade
instalada; f) fornecedores; g) mercado de atuação; h) análise da
composição da carteira de clientes e i) referências bancárias.
Análise por Rating Basicamente, as análises de rating classificam os créditos em faixas de
risco. Estas faixas auxiliam na formação das Provisões para Perdas, para
a concessão de novos créditos, renegociação de créditos em atraso, etc.
Por outro lado, a incorreta classificação dos créditos pode prejudicar
as empresas envolvidas. Com isso, é necessário a implementação de
controles eficientes e o atendimento a critérios definidos e consagrados.
Essas análises demandam alto grau de julgamento dos analistas
envolvidos, contudo, não é descartado o uso de técnicas estatísticas
para auxílio da adequada classificação dos créditos (SILVA, 2006).

Fonte: Elaboração Própria

2. As Técnicas Quantitativas cas apresentam.


de Análise de Risco de Crédito Segundo Dillon e Gostein (1984) e
Este estudo dá ênfase à utilização Hair Jr. et al. (1998), a popularização dos
de técnicas quantitativas para mensuração sistemas computacionais e dos softwares
dos riscos de insolvência e de crédito, isto estatísticos, auxiliaram grandemente a di-
em decorrência do alto grau de confiabili- fusão dos métodos quantitativos de análi-
dade e de assertividade que essas técni- se de dados. Uma vez que, no emprego
41

dos modelos quantitativos há extenso uso po de modelos denominados híbridos (SO-


de técnicas estatísticas, a existência de BERHART; KEENAN; STEIN, 2000). Esses
sistemas mais ágeis para o processamento modelos visam estimar mais apuradamen-
das informações é de fundamental impor- te os riscos de insolvência visto que podem
tância para o desenvolvimento de modelos captar variações mais amplas.
mais dinâmicos e precisos. Chianamea (2004) classifica os
Para Caouette, Altman e Naraya- modelos de análise de risco de crédito em
nan (apud BARBOSA, 2006), os mode- dois grupos distintos: os Modelos de Preci-
los quantitativos podem ser classificados ficação de Crédito e Modelos de Valor de
em função de três fatores distintos: téc- Crédito em Risco.
nicas, aplicação e produto final. Já para Os modelos estruturais distin-
Ramaswamy (2004) os modelos quantitati- guem-se quanto ao tratamento da taxa de
vos são classificados em função dos tipos recuperação dos créditos (podendo ser
de riscos a serem mensurados. Com isso, considerada uma variável endógena ou
existe distinção entre os modelos de análi- exógena) e são classificados como mode-
se de riscos de mercado, de crédito opera- los de precificação dos créditos.
cionais, etc. O modelo estrutural, por definição,
Especificamente para a modela- faz uso de informações de mercado para
gem dos riscos de crédito, Ramaswamy a estimação da insolvência visto que a uti-
(2004) menciona três fatores principais: lização dessas variáveis fornece uma pre-
probabilidade de insolvência, taxa de re- visão de insolvências futuras mais eficien-
cuperação dos créditos e análise da migra- tes que as baseadas em modelos não-es-
ção dos créditos entre as faixas de riscos. truturais. Contudo, os modelos estruturais
Além dos fatores ressaltados por apresentam maior complexidade na sua
Ramaswamy, para Jorion (2001) a volatili- apuração.
dade das obrigações financeiras e, o con-
sequente aumento de sua complexidade 3. O Modelo Estrutural
também contribuem para o surgimento de de Merton e o KMV
instrumentos de controle de riscos mais O modelo estrutural mais famo-
eficientes. so foi desenvolvido por Merton e adapta-
Segundo Dionne et al. (2006) os do pela KMV Corporation, tornando-se
modelos de análise de riscos podem ser mundialmente conhecido como modelo
ainda classificados primordialmente em KMV, cujo nome comercial oficial é Credit
dois grupos: modelos não-estruturais que Monitor Model (STUCHI, 2003). Segundo
fazem uso de informações internas às em- Hermanny (2000), Securato (2002), Stuchi
presas e modelos estruturais, que mensu- (2003) e Bharath e Shumway (2004), o mo-
ram a insolvência a partir da utilização de delo de Merton foi baseado no trabalho de-
informações mercadológicas. Contudo, senvolvido por Black e Scholes (1973) para
partindo-se do estudo das interações ma- o mercado de capitais, mais especifica-
croeconômicas com informações contá- mente o mercado de opções, tendo em vis-
bil-financeiras e mercadológicas das em- ta que ele foi o primeiro a considerar que
presas, foi desenvolvido um terceiro gru- as empresas (independente da complexi-
42

dade da estrutura) podem ser considera- (2002) ressalta que o titular da opção, ou com-
das como opções. prador, ao pagar o prêmio fixado pelo seu ven-
Para Black e Scholes (1973) opções dedor, adquire um direito e não uma obrigação
são instrumentos que dão o direito de comprar de compra de um ativo ao contrário do vende-
ou vender um ativo, dada certas condições e dor, que contrai uma obrigação de venda do
em determinado período de tempo. Securato ativo pelo preço determinado e no prazo fixado.

■ Quadro 2 Comparação dos Modelos Black & Scholes, Merton e KMV

Modelo Black & Scholes Modelo de Merton Modelo KMV


(sem dividendos)
Et=AtФ(d1)–Le -r (T-t)Ф(d2)

In(At /L)+(r+σ2/2)(T–t)
C=A0.N(d1)–E.e -i.t.N(d2) E=VN(d1)–Fe -rTN(d2) d1=
σ√T-t

In(A0/E)+(r+0,5σ2)T In(V/F)+(r+0,5σ2v)T
d1= d1=
d2=d1–σ√T-t
σ√T σ v√T

InAt+(μ–0,5σ2)(T–t)–InL
d2=d1–σ√T d2=d1–σ v√T DD=
σ√T-t

PD=Ф[–DD]

Modelo Black & Scholes: C representa o valor do prêmio da opção de compra europeia; A0 é
o preço corrente da ação; E representa o preço de exercício da opção de compra; i é a taxa li-
vre de risco; σ2 variância da taxa contínua de retorno da opção; T é o tempo até a data do ven-
cimento. Modelo Merton: E representa o valor de mercado do patrimônio da empresa; V é o va-
lor total da firma; F é o total das dívidas da empresa; r é a taxa livre de risco; N é a função da dis-
tribuição normal cumulativa padrão; T representa o tempo até a maturidade da dívida; σ v é a vo-
latilidade do valor da empresa. Modelo KMV: L é o total das dívidas representado pelo total do
passivo; T-t é o tempo até a maturidade das dívidas; Ф denota a distribuição normal cumulati-
va; µ-0,5σ2 representa a taxa logarítmica da mudança no valor dos ativos (volatilidade); At o va-
lor de mercado dos ativos; r representa a taxa livre de risco; DD representa a distância para a
perda ou default; PD representa a probabilidade de perda ou default; ln é a variação logarítmica.

Fonte: Modelo Black & Scholes (SECURATO, 2002, p. 301-302); Modelo de Merton
(BHARATH; SHUMWAY, 2004, p. 5) e Modelo KMV (LÖFFLER; POSCH, 2007, p. 29-30)
43

O modelo de Merton e o mode- da não for paga, os credores assumem


lo KMV estabelecem a seguinte relação a empresa, nada restando aos acionis-
(LÖFFLER; POSCH, 2007): quando o va- tas. O Quadro 2 evidencia uma compa-
lor dos ativos é menor que o valor do ração entre os modelos Black & Scho-
passivo das empresas, o valor teórico les, Merton e o KMV.
das ações da empresa diminui, tornan- Outra característica importan-
do-se igual a zero, uma vez que todos te dos Modelos Merton e KMV é a as-
os ativos passam a pertencer aos cre- sunção de que não existem custos de
dores. No entanto, quanto mais o valor transação nem de falência, impostos
dos ativos sobe acima do valor dos pas- não são considerados, não há restri-
sivos, mais os acionistas ganham, em ção para a concessão de empréstimos
uma relação linear com o aumento dos a taxas livres de riscos, os ativos as-
ativos. sumem uma distribuição log-normal e
No modelo proposto por Mer- não há incerteza quanto aos passivos
ton, conforme Löffler e Posch (2007) o (LÖFFLER; POSCH, 2007). Outra carac-
valor do passivo das empresas L é tra- terística é que o modelo pode incluir ou
tado como um cupom de valor zero e não o pagamento de dividendos. Para
prazo de vencimento fixo T. Para esse este trabalho, somente será focado o
modelo, não há pagamento antecipado, modelo estrutural que não inclui os di-
e os acionistas irão esperar até o venci- videndos.
mento para decidir se pagarão ou não Conforme observado por inter-
a dívida. No caso de insolvência ante- médio do Quadro 2 a diferença entre
cipada (antes do vencimento da dívida), os modelos Black & Scholes, Merton e
os acionistas perdem a possível valori- KMV reside no cálculo da probabilida-
zação dos ativos da empresa At. Em to- de de insolvência ou probabilidade de
dos os casos, a probabilidade de insol- default das empresas instituída pelo
vência PD decorre da possibilidade de modelo KMV. Para Securato (2002, p.
que no vencimento da dívida T o valor 309; 2003, p. 3) uma forma alternativa
dos ativos da empresa At estará menos de cálculo da DD (Distância para a Per-
valorizado que os passivos da empresa da ou Default) e da PD (Probabilidade
L. Securato (2003) ressalta que o mode- de Perda) pode ser vista a partir das ex-
lo parte da suposição de que se a dívi- pressões (1) e (1.1), respectivamente.

E[At] – (DC + DL2)


DD = (1)
σA
44

número de firmas em default em um ano com valores


de ativos de K σ distância de default no início do ano
PD(empírica): (1.1)
total de firmas com valores de ativos de K σ de distância de default

Onde: dências e eventos ao longo do tempo


E[At] refere-se ao valor espera- (HAIR Jr. et al., 2005).
do dos ativos; DC representa as dívidas Em relação aos procedimentos
de curto prazo; DL representa as dívi- técnicos utilizados, o trabalho empre-
das de longo prazo e σA representa a gou pesquisa com delineamento ex-post
taxa de variação do ativo e Kσ repre- facto, cuja estratégia utilizou técnicas
senta a distância de default das empre- computacionais para análise de regis-
sas analisadas. tros históricos obtidos pela base de da-
Contudo, estes cálculos foram dos disponibilizada pelo Economática®,
desenhados para serem usados em uma BOVESPA e por órgãos públicos como o
grande base de dados, com diversas Banco Central do Brasil (BACEN), Insti-
empresas representativas do mesmo se- tuto Brasileiro de Geografia e Economia
tor e com grande probabilidade de dis- (IBGE) e Instituto de Pesquisa Econômi-
tâncias de default Kσ similares (SECU- ca Aplicada (IPEA).
RATO, 2003), o que nem sempre repre-
senta a realidade dos analistas. 2. Descrição das Variáveis
Nesta seção são apresentadas
Metodologia da Pesquisa as variáveis contábil-financeiras e ma-
croeconômicas selecionadas. No Qua-
1. Caracterização da Pesquisa dro 3 tem-se as variáveis contábil-finan-
Este trabalho pode ser caracte- ceiras que foram extraídas das demons-
rizado como uma pesquisa de nature- trações financeiras das empresas anali-
za aplicada, pois utiliza conhecimentos sadas.
provenientes de pesquisas básicas bem Os estudos de Barbosa (2007) in-
como as tecnológicas existentes, visan- dicam a classificação proposta por Boss
do promover a geração de novos produ- (2002) e por Kalirai e Schneider (2002)
tos e processos. No que diz respeito à para a categorização das variáveis ma-
pesquisa, ela pode ser descritiva, pois croeconômicas em 6 grupos: indicado-
segundo Gil (2002), desse modo esta- res de ciclo, indicadores de estabilidade
belece relações entre variáveis por meio de preços, indicadores de economia in-
da descrição das características de de- terna, indicadores corporativos, indica-
terminado fenômeno ou população. dores de mercado financeiro e indicado-
A pesquisa pode ainda ser ca- res de economia externa.
racterizada em função do tempo de co- O Quadro 4 apresenta um sumá-
leta e aplicação (dimensão do tempo). rio das variáveis macroeconômicas utili-
Nesse caso, o trabalho pode ser visto zadas neste estudo, bem como suas res-
como um estudo longitudinal uma vez pectivas fontes de consulta e os códigos
que os dados coletados descrevem ten- originais para efeito de análise.
45

■ Quadro 3 Sumário das Variáveis Contábil-Financeiras Utilizadas

No. Código Nome Fórmula Categoria


1 CapGiro Capital de Giro líquido (AC-PC)/AT Liquidez
Retorno Gerado pelos
2 RetAT (EBIT-Desp Finan)/AT Rentabilidade
Investimentos
Endividamento
3 EndCP PC/AT Estrutura
de curto prazo
4 ExigAT Endividamento Total Exigível Total/AT Estrutura
Patrimônio Líquido
5 PLAT PL/AT Estrutura
sobre Ativo
6 GiroAT Giro do Ativo RecBruta/AT Atividade
Capac. de Geração
7 CapaciAT (PL-Cap Social)/AT Rentabilidade
de Rec. sobre Ativo
8 EstqAT Estoques sobre Ativo E/AT Estrutura
Duplicatas a Receber
9 DRAT Duplicatas a Receber/AT Risco
sobre Ativo
Duplicatas a
10 DRPL Duplicatas a Receber/PL Risco
Receber sobre PL
Fornecedores
11 FornAT F/AT Estrutura
sobre Ativo
12 LnAT Tamanho da Empresa Log AT Estrutura
13 LiqCorr Liquidez corrente AC/PC Liquidez
14 LiqGer Liquidez geral (AC+RLP)/(PC+ELP) Liquidez
15 LiqIme Liquidez imediata Disponível/PC Liquidez
16 DispAT Disponível sobre Ativo Disponível/AT Liquidez
17 LiqSec Liquidez Seca (AC-E)/PC Liquidez
18 LucE Lucro por Estoque E/RecBruta-LB Rentabilidade
19 EBITLB Margem Operacional LO/LB Rentabilidade
20 LLRB Margem Líquida LL/RecBruta Rentabilidade
Fornecedores
21 FonecV F/RecBruta Atividade
sobre Vendas
Disponível sobre
22 DispAP D/AP Estrutura
Ativo Permanente
23 Beta Beta da Ação Beta Risco
Legenda: AC – Ativo Circulante; PC – Passivo Circulante; EBIT – Lucro Antes do Imposto
de Renda e Contribuição Social; AT – Total do Ativo; PL – Patrimônio Líquido; E – Estoques;
F – Fornecedores; RLP – Ativo Realizável a Longo Prazo; ELP – Passivo Exigível a Longo
Prazo; LB – Lucro Bruto; LO– Lucro Operacional; LL – Lucro Líquido; D – Ativo Disponível.

Fonte: Elaboração Própria


46

■ Quadro 4 Variáveis Macroeconômicas Utilizadas na Pesquisa

No. Código Nome Período Fonte


Var. do Logaritmo da
1 MLnRecTot Mensal Bacen
Receita Total da União
Var. do Logaritmo da Receita
2 MlnRecTrib Mensal Bacen
com Tributos Federais
Var. do Logaritmo do Total das
3 MLnX Trim. Bacen
Exportações Brasileiras no Período
Var. do Logaritmo do Total das
4 MLnM Trim. Bacen
Importações Brasileiras no Período
Var. do Logaritmo do
5 MPIB Trim. Bacen
Produto Interno Bruto
6 MTxUS$ Var. do Logaritmo da Taxa de Câmbio Mensal Ipeadata
Var. do Logaritmo das
7 MRI Mensal Bacen
Reservas Internacionais
Var. do Logaritmo do Índice de
8 MIPCA Mensal Ipeadata
Preços ao Consumidor Amplo
9 MSELIC Var. do Logaritmo da Taxa de Juros Mensal Bacen
Var. do Logaritmo da Taxa
10 MTxDes Mensal Bacen
de Desemprego
11 MIBOVESPA Var. do Logaritmo do Índice BOVESPA Mensal Bovespa
Var. do Logaritmo do Índice de
12 MIGC Mensal Bovespa
Governança Corporativa

Fonte: Elaboração Própria

3. Cálculo da Provisão insolvência, baseado no modelo estrutura


de Insolvência (Variável de Merton que não pressupõe o pagamen-
Dependente) – Modelo KMV to de dividendos, pode ser vista em (2) a
Para apuração da provisão de in- (2.4), respectivamente.
solvência envolvendo as empresas objeto Para resolução deste conjunto
deste trabalho, utilizou-se a metodologia de equações é utilizado o modelo iterativo
conhecida como KMV adaptado do Mo- descrito por Löffler e Posch (2007), com o
delo de Merton e definida pelos autores auxílio da planilha eletrônica Excel ® 2007
Löffler e Posch (2007). por meio de macros também descritas pe-
A equação que descreve o mode- los autores. A geração deste modelo em
lo KMV para cálculo da probabilidade de uma planilha eletrônica inferior ao Excel®
47

2007 não apresentou resultados discrepan- indicado para uma grande quantidade de
tes, contudo, mostra-se ineficiente e não dados.

Et = AtФ (d1)–Le-r (T-t)Ф (d2) (2)

d1 = In (At/L)+(r+σ /2) (T–t)


2
(2.1)
σ√T–t

d2 = d1 – σ√T–t (2.2)

DD = InAt + (μ–0,5σ ) (T–t) – InL


2
(2.3)
σ√T–t

PD = Ф[–DD] (2.4)

4. Tratamento dos analisa a mutação da variável dependente ao


Dados Coletados longo de um período de tempo, se esta se
Os dados coletados para esta análise mantiver constante.
caracterizam-se como uma combinação de
dados de corte transversal com séries tem- Apresentação
porais, denominado de dados em painel con- e Análise dos Dados
forme definição proposta por Nakamura et
al. (2004). Segundo Wooldridge (2003), Hsiao 1. Análise Exploratória
(2003) e Pindyck e Rubinfeld (2004) em uma dos Dados
análise de dados em painel é possível estu- Os dados coletados originalmen-
dar o efeito das chamadas variáveis omitidas te junto à base de dados Economática
(representadas pelo intercepto) mesmo sem Softwares para Investimentos LTDA re-
a necessidade de incluí-las de fato na amos- ferem-se ao total de 626 empresas lista-
tra analisada. Isto é possível uma vez que se das como participantes da BOVESPA,
48

classificadas entre 21 setores diferen- BOVESPA para nenhum dos 36 períodos


tes. Após a segregação das informações em análise.
para identificação das empresas que Na base de dados compostos por
possuíam dados suficientes para os tes- 168 empresas, calculou-se o tamanho
tes, a base de dados ficou composta por amostral pautando-se em um nível de sig-
168 empresas. nificância de 5%, margem de erro de 10% e
Cabe salientar que por dados su- valores da probabilidade de ocorrência de
ficientes entendem-se as empresas que um evento aleatório igual a 0,5, que gerou
possuíam pelo menos 30 trimestre de uma amostra de 63 empresas. Para a se-
dados completos por variável seleciona- leção das empresas, foi utilizado o Suple-
da nesta pesquisa. Além disso, também mento Estatístico do Excel ® 2007. A Figura
foram excluídas da seleção as empresas 1 apresenta o total de empresas seleciona-
que não possuíam ações negociadas na das por setor em relação à base de dados.

■ Figura 1 Empresas Selecionadas por Setores da Economia

Base

1 1 Selecionadas
3 10 18
7 6 2 11 25
9 6 14
4 20 25
6

1 1
2 6 10
3 3 1 5
3 2 10 5
1 4 6
0 0 0 0 0
Textil
Papel e celulose
Comércio
Alimentos e bebidas

Construção

Eletroeletrônicos

Máquinas industriais
Mineração

Outros

Petróleo e gás

Telecomunicações

Transporte e serviços
Veículos e peças
Finanças e seguros

Fundos
Minerias não metais
Software e dados
Agro e pesca

Energia elétrica

Química
Siderurgia e metalurgia

Fonte: Elaboração Própria


49

Após a identificação da amostra dos menor probabilidade de insolvência, que foi


dados, verificou-se que das 23 variáveis con- identificado com o código “0”.
tábil-financeiras selecionadas, as variáveis Adotou-se a opção Hierarchical
DispAT – Disponível sobre o Ativo Total, Dis- Cluster do pacote estatístico SPSS® para a
pAP – Disponível sobre Ativo Permanente, Li- análise de conglomerados, conforme suge-
qImed – Liquidez Imediata e Beta não são re- rido por Hair Jr. et al. (2005). O método se-
presentativas em nenhum setor, não forne- lecionado foi o de Ward em conjunto com
cendo dados suficientes para análises. As- a medida de distância Euclidiana. Na Tabe-
sim, resolveu-se desconsiderá-las da base de la 1 temos a estatística básica das variáveis.
dados final. Portanto, a base de dados dessa Os testes de hipóteses para a com-
pesquisa passou a ser composta por 63 em- paração entre médias populacionais apon-
presas distribuídas entre 17 setores, conten- tam que os dois grupos formados por meio
do 19 variáveis contábil-financeiras e 11 variá- da análise de conglomerados são estatis-
veis macroeconômicas (12 após a inclusão do ticamente diferentes, servindo como uma
IGC – Índice de Governança Corporativa). boa base para a análise de regressão. Esta
proporção entre as empresas com maior
2. Distinção entre Empresas probabilidade de serem insolventes em re-
com Maior Probabilidade lação às empresas com maior probabilida-
de Insolvência e as Solventes de de não o serem, não invalida a análise
A partir do cálculo da provisão de In- com a amostra e pode ser comparada com
solvência efetuado pela aplicação do Mode- a análise efetuada por Dionne et al. (2006),
lo KMV, foi empregada a análise de Conglo- cuja amostra total contava com 57 institui-
merados ou Cluster’s Analysis para a identifi- ções insolventes num universo de 4.889 ob-
cação de dois grupos distintos: a) empresas servações, o que gera uma proporção de
com maior probabilidade de insolvência, que menos de 2% de empresas insolventes, ou
foi identificado com o código “1” e b) com seja, 1,13%.

■ Tabela 1 Estatística Básica dos Grupos Encontrados

Grupos Média Desvio Padrão N % Total


0 0,0977 0,01853 53 84%
1 0,8750 0,05202 10 16%
Total 0,2211 0,4008 63 100%

A partir dos resultados auferidos duas médias populacionais é possível ob-


no teste de hipótese de diferenças entre servar que não há evidências estatísticas
50

de diferenças entre as médias dos grupos A classificação dos dados pelos


de variáveis formadas pelos dados macro- modelos, conforme Tabela 2, mostra que
econômicos, tanto entre as empresas sol- o Modelo 1 (que considera somente as va-
ventes quanto com as empresas caracteri- riáveis contábil-financeiras) é o que me-
zadas como não solventes. Já para o grupo lhor distinguiu os dados entre aqueles com
de empresas formado pelas variáveis con- maior probabilidade de insolvência (repre-
tábil-financeiras há alguma distinção entre sentado pelo valor “1”) e os com menor
os dados. probabilidade de solvência (representado
Para verificação da existência ou pelo valor “0”).
não de multicolinearidade entre as variá- Ainda conforme a Tabela 2, o Mo-
veis, estimou-se a matriz da correlação pa- delo 2 (que considera somente as variáveis
ramétrica de Pearson. Ao menos dez vari- macroeconômicas) foi o segundo modelo
áveis apresentaram algum grau de correla- com melhor poder de distinção dos dados.
ção estatisticamente significativa entre si e Contudo, os modelos que melhor classifi-
que podiam influenciar negativamente as cam os dados, de uma forma geral, foram
análises efetuadas. Optou-se por descon- os modelos 4, 6 e 3. Destes, os modelos 3
siderar do modelo as variáveis indepen- e 6 são aqueles que combinam as variáveis
dentes EndCP, MLnRecTot, PLAt, LiqCor e contábil-financeiras com as macroeconô-
ExgAt por apresentarem alto grau de cor- micas e o Modelo 4 somente considera as
relação com outras variáveis independen- variáveis contábil-financeiras.
tes, o que pode ser caracterizado como Dionne et al. (2006) quando da aná-
multicolinearidade. lise do impacto dos diversos modelos na
insolvência de instituições financeiras,
3. Resultados do Teste atestou que os modelos considerados hí-
de Regressão Logística bridos (por que mesclam os dados contá-
O processo de análise da regres- bil-financeiros com os dados macroeconô-
são logística foi efetuado com o auxílio do micos) foram o que melhor classificavam
Pacote Estatístico SPSS® e contou com a os dados.
variável binária dependente “Grupo” com Algumas observações são neces-
valor igual a “0” para as empresas solven- sárias no tocante aos modelos: no Mode-
tes e “1” para as empresas caracterizadas lo 1, devido a utilização da ponderação es-
como não solventes. O objetivo principal tatística da amostra em relação a variá-
da regressão logística é o de identificar as vel “Prob KMV” há uma diferenciação na
variáveis que mais impactam na probabi- quantidade de empresas consideradas na
lidade de insolvência, calculada com base análise, dando-se maior ênfase às empre-
no modelo KMV para cada empresa. Para sas não solventes. Nos Modelos 4, 5 e 6,
tanto, foram calculados 6 modelos distin- respectivamente, devido à redução no nú-
tos e suas descrições demonstradas no mero de períodos abrangendo a análise,
Quadro 5. houve uma sensível redução na quantida-
A classificação inicial efetuado de de empresas observadas, que passa-
pela análise de regressão pode ser vista ram do total de 2.268 observações para o
por meio da Tabela 2. total de 1.575.
51

■ Quadro 5 Descrição dos Modelos Distintos

Modelo Descrição
O método utilizado para seleção do modelo com base nas
Somente com variáveis
variáveis contábil-financeiras foi o forward stepwise, pelo critério
contábil-financeiras
de máxima verossimilhança (ou melhor, Likelihood Ratio – LR).
O método utilizado foi o forward stepwise, pelo critério de máxima
verossimilhança (ou melhor, Likelihood Ratio – LR). Utilizou-se um nível de
Somente com as variáveis
significância de 5% para a entrada das variáveis e 10% para sua exclusão
macroeconômicas
sem a presença da constante no modelo. A variável dependente foi
considerada a variável dicotômica “Grupo” sem ponderação estatística.
Como método de estimação considerou-se o backward stepwise (que
retira as variáveis de acordo com seu poder preditivo), pelo critério
Com a combinação
de máxima verossimilhança (ou melhor, Likelihood Ratio – LR). Os
das variáveis contábil-
parâmetros de estimação dos modelos foram 5% de significância para
financeiras e
a inclusão das variáveis e 10% para sua exclusão com a presença da
macroeconômicas
constante no modelo. A variável dependente considerada refere-
se a variável dicotômica “Grupo” sem ponderação estatística.
Modelo somente com variáveis contábil-financeiras para um período
mais curto compreendido entre o terceiro trimestre de 2001 e o terceiro
trimestre de 2007. Como método de estimação considerou-se o forward
Com variáveis contábil-
stepwise, pelo critério de máxima verossimilhança (ou melhor, Likelihood
financeiras e a redução
Ratio – LR). Os parâmetros de estimação dos modelos foram 5% de
do período de análise
significância para a inclusão das variáveis e 10% para sua exclusão. A
variável dependente considerada refere-se a variável dicotômica “Grupo”
sem ponderação estatística e sem a presença da constante no modelo.
Modelo somente com as variáveis macroeconômicas incluindo o Índice
de Governança Corporativa para um período mais curto compreendido
entre o terceiro trimestre de 2001 e o terceiro trimestre de 2007.
Somente com as variáveis Como método de estimação considerou-se o backward stepwise (que
macroeconômicas e a retira as variáveis de acordo com seu poder preditivo), pelo critério
inclusão do Índice de de máxima verossimilhança (ou melhor, Likelihood Ratio – LR). Os
Governança Corporativa parâmetros de estimação dos modelos foram 5% de significância
para a inclusão das variáveis e 10% para sua exclusão. A variável
dependente considerada refere-se a variável dicotômica “Grupo” sem
ponderação estatística e sem a presença da constante no modelo.
Após a identificação das variáveis mais significativas na análise a
regressão, estas variáveis foram combinadas para geração de um terceiro
Com a combinação
modelo visando identificar quais variáveis seriam mais relevantes se
das variáveis
consideradas em conjunto. Como método de estimação considerou-se
contábil-financeiras,
o forward stepwise, pelo critério de máxima verossimilhança (ou melhor,
macroeconômicas e o
Likelihood Ratio – LR). Os parâmetros de estimação dos modelos foram 5%
Índice de Governança
de significância para a inclusão das variáveis e 10% para sua exclusão com
Corporativa
a presença da constante no modelo. A variável dependente considerada
refere-se a variável dicotômica “Grupo” sem ponderação estatística.
52

■ Tabela 2 Classificação dos Modelos Estimados

Observados Grupo
Modelo % Corretos Total %
Grupo 0 1
0 76,88 109,47 41,26
1 70,25
1 39,68 275,33 87,40
0 1484 424 77,78
2 68,96
1 280 80 22,22
0 1904 4 99,79
3 84,74
1 342 18 5
0 1321 4 99,70
4 85,33
1 227 23 9,20
0 1272 53 96,00
5 81,40
1 240 10 4,00
0 1318 7 99,47
6 85,08
1 228 22 8,80

Os coeficientes estimados da re- (2006), onde constatou-se que estas variáveis


gressão para todos os modelos estão apre- apresentavam uma influência positiva sobre
sentados na Tabela 3. Para os Modelos 1, 3, 4 insolvência das empresas.
e 6, ou seja, todos os modelos que contaram A variável macroeconômica MRI – Va-
com a inclusão das variáveis contábil-finan- riação do Logaritmo das Reservas Internacio-
ceiras, as variáveis EstqAT – Estoques sobre nais foi considerada relevante para os Mode-
Ativo, FornecV – Fornecedores sobre Vendas, los 2, 3 e 5, respectivamente, onde apresentou
LLRB – Margem Líquida e CapGir – Capital coeficientes negativos. Dessa forma, confor-
de Giro Líquido foram selecionadas para ex- me destacado no Capítulo destinado à descri-
plicar a não solvência das empresas. As va- ção das variáveis selecionadas para os testes,
riáveis foram selecionadas nos modelos, por o aumento das reservas internacionais não se
que influenciam negativamente na provisão traduz em aumentos da probabilidade de in-
de insolvência das empresas. Com isso, é solvência, e sim auxilia em sua redução. A va-
possível deduzir-se que quanto maior os va- riável financeiro-contábil LnAT – Tamanho
lores registrados nestes indicadores, menor da Empresa e as variáveis macroeconômicas
é a probabilidade das empresas se tornarem MTxDes – Variação do Logaritmo da Taxa de
não solventes. Para as variáveis, EstAT e For- Desemprego e MIBOVESPA – Variação do Lo-
necV esta relação inversa apresentada pelos garitmo do Índice IBOVESPA, aparecem em
modelos, é contrária às anteriormente verifi- dois modelos distintos e apresentando coefi-
cadas pelos estudos de Martins (2003) e Silva cientes de regressão com sinais opostos.
53

■ Tabela 3 Análise dos Coeficientes da Regressão e do Teste Wald

Variáveis Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Modelo 4 Modelo 5 Modelo 6


-8,81 -10,31 -9,54 -8,49
EstqAT
(27,28) (126,34) (66,15) (45,18)
-1,04 -0,92 -1,59 -1,81
FornecV
(5,63) (9,44) (17,23) (19,49)
-0,42 -0,11 -0,59 -0,66
LLRB
(11,37) (9,36) (22,43) (23,91)
0,00 0,00 0,00 0,00
CapGir
(6,29) (4,68) (3,78) (4,18)
-3,49 -0,66 -0,35
Constant
(16,64) (44,97) (7,13)
-42,44 7,36 -29,46
MRI
(114,64) (2,92) (25,46)
0,28 -0,03
LnAT
(21,29) (10,11)
-4,59 2,97
MTxDes
(10,95) (5,28)
MIBO- -28,42 168,71
VESPA (87,66) (106,11)
-31,67 -68,93
MLnX
(25,76) (35,75)
-29,38 -76,09
MPIB
(6,63) (17,18)
-1,89 -1,67
MTxUS$
(41,33) (3,41)
-0,10 -0,11
CapacAT
(8,21) (7,73)
-0,56 -0,81
LUCE
(3,26) (5,30)
-183,52
MIGC
(189,84)
50,71
MLnM
(16,47)
0,07
MIPCA
(11,70)
-7,63
MLnRecTrib
(20,18)
-4,80
Mselic
(19,25)
1,31
LiqGer
(28,27)
54

A variável LnAT apresenta ainda in- presas, enquanto que em um período mais re-
fluência positiva no Modelo 1 (que somente cente, o aumento significativo do índice é que
conta com a inclusão de variáveis contábil-fi- se refletiu em um aumento da probabilidade
nanceiras) corroborando com o trabalho efe- de insolvência das empresas.
tuado por Dionne et al. (2006) e descrito no As variáveis macroeconômicas
Capítulo destinado a descrição das variáveis MLnX – Variação do Logaritmo do Total das
designadas a testes. Contudo, quando o pe- Exportações Brasileiras no Período, MPIB -
ríodo de análises sofreu uma redução, como Variação do Logaritmo do Produto Interno
é o caso das análises do Modelo 4, seu co- Bruto e MTxUS$ - Variação do Logaritmo da
eficiente foi negativo. Com isso, pode-se in- Taxa de Câmbio foram consideradas relevan-
terpretar que, devido à diferença no período tes nos Modelos 2 e 5 (os que contém unica-
de análise, o tamanho da empresa passa a mente variáveis macroeconômicas) e apresen-
ser um fator que influencia as empresas a se taram coeficiente negativo na regressão.
manterem solventes. Das variáveis apresentadas somen-
A variável macroeconômica MTx- te a MTxUS$ proporcionou um comporta-
Des – Variação do Logaritmo da Taxa de De- mento fora do esperado, conforme descrito na
semprego apresenta um coeficiente negati- apresentação das variáveis selecionadas para
vos no Modelo 5 (que foi calculado somente este estudo. Com isso, foi possível observar
com a inclusão de variáveis macroeconômi- que, quando a economia brasileira encontra-
cas) mas, quando consideradas em conjunto -se aquecida (representada pelas Exportações
com as variáveis contábil-financeiras, apre- e pelo volume de riqueza produzida na forma
senta um coeficiente positivo. Em relação à do PIB), verifica-se uma menor probabilidade
sua interpretação nos modelos, esperou-se de insolvência das empresas. Contudo, a in-
que esta variável possuísse correlação posi- versão do coeficiente da variável MTxUS$
tiva com a probabilidade de insolvência, uma que apresentou um efeito negativo na proba-
vez que ela representa uma espécie de ter- bilidade de insolvência, pode ser justificada
mômetro da economia. Um coeficiente ne- pelas políticas econômicas brasileiras que fa-
gativo indica que a maior quantidade de de- zem uso da manipulação das taxas de câmbio
sempregados reflete uma menor probabilida- e juros (visando o maior controle da economia
de de insolvência das empresas. com consequente redução da inflação e au-
Já a variável MIBOVESPA foi con- mento do PIB). A variável Mselic – Variação
siderada relevante nos Modelos 2 e 5 ( nos do Logaritmo da Taxa Selic que representa os
quais só foram consideradas as variáveis ma- juros na economia, também foi selecionada no
croeconômicas). Sendo que, para o Modelo 2, Modelo 2 com coeficiente negativo. As variá-
seu coeficiente estimado foi negativo indican- veis MIGC – Variação do Logaritmo do Índi-
do haver uma relação inversa entre o aumento ce de Governança Corporativa e MlnM – Va-
do índice IBOVESPA e a probabilidade de in- riação do Logaritmo do Total de Importações
solvência das empresas, e no Modelo 5, o coe- Brasileiras no Período foram consideradas re-
ficiente mostrou-se positivo. Com isso, é pos- levantes no Modelo 5. Com isso, é possível ve-
sível verificar que em um período maior de rificar que a presença do MIGC gera corre-
análise, as reduções no índice é que influen- lação negativa com a probabilidade de insol-
ciaram a probabilidade de insolvência das em- vência das empresas. Esta relação justifica-se
55

mesmo que indiretamente, devido à necessi- melhor desempenho são os Modelos 5 (para
dade surgida no período (final de 2001) do au- um período mais curto e somente com variá-
mento do volume e da qualidade dos contro- veis macroeconômicas) e o Modelo 1 (somente
les das empresas. A presença da MlnM apre- com as variáveis contábil-financeiras). Segun-
senta influência positiva na probabilidade de do o trabalho desenvolvido por Dionne et al.
insolvência, ou seja, o maior volume de impor- (2006) o modelo que melhor se adequa aos da-
tações pode ser traduzido como uma maior dos é aquele com a combinação de variáveis
probabilidade de insolvência. macroeconômicas e contábil-financeiras, por
As variáveis MIPCA – Variação do considerar em sua análise uma riqueza maior
Logaritmo do Índice de Preços ao Consumi- de dados. Esta constatação não foi encontra-
dor Amplo e MLnRecTrib – Variação do Lo- da nas análises efetuadas.
garitmo da Receita Total da União foram con- O teste de hipóteses utilizado para
sideraras relevantes no Modelo 2 (que consi- medir a acuracidade do poder preditivo do
dera somente as variáveis macroeconômicas). modelo foi o Teste de Hosmer-Lemeshow. Os
Segundo o modelo, o coeficiente positivo do resultados do teste, conforme apresentado
MIPCA indica que quando há maior inflação na Tabela 3, valendo-se de um nível de signi-
aumenta a probabilidade de insolvência das ficância de 5%, demonstra que não é possí-
empresas. Já as variações negativas na recei- vel rejeitar a hipótese nula de que os modelos
ta tributária representada pela variável MLn- não possuem boa acuracidade. Para analisar
RecTrib influenciam no aumento da probabi- o desempenho dos Modelos, foi efetuada a
lidade de insolvência. análise por meio da Curva ROC. Os valores
Outra variável considerada relevante das Curvas ROC calculados estão represen-
a este estudo foi a variável financeiro-contábil tadas na Figura 2.
LiqGer – Liquidez Geral, incluída no Modelo 1, Dos modelos calculados pode-se
apresentando coeficiente positivo. Com isso, verificar que os Modelos 2 e 5, que somen-
é possível verificar que quanto maior o valor te incluem variáveis macroeconômicas em
desse indicador maior é a probabilidade de as sua análise, apresentam um coeficiente de
empresas se tornarem insolventes. Ou seja, a 0,5 na apuração da curva ROC. Isso indica
falta de geração de recursos financeiros no que a presença ou a ausência deste modelo
curto prazo influencia na capacidade das em- para o conjunto de dados analisados não in-
presas de honrar as dívidas. fluência na qualidade discriminante dos da-
A Estatística Wald verifica se os co- dos ou não gera melhores resultados que a
eficientes estimados para as variáveis inde- sua não aplicação.
pendentes são estatisticamente diferentes de Os demais modelos (Modelo 1, 3, 4
zero. Os dados da Estatística Wald analisa- e 6) apresentaram coeficientes entre 0,7 e
dos foram considerados significantes, indica- 0,8 com um aceitável poder discriminante.
do a rejeição da hipótese nula de que os coefi- Isso significa que a utilização de qualquer
cientes da equação são iguais a zero e de que um desses modelos melhora a qualidade
as variáveis independentes selecionadas não discriminante das probabilidades de ocor-
produzem efeito sobre a variável dependente. rência ou não da insolvência, e são capazes
Segundo os testes de adequação de- de identificar um grande número de dados
monstrada pela Tabela 3, os modelos com de forma adequada.
56

■ Figura 2 Apresentação do Valor das Curvas ROC

0,80

0,70

0,60

0,50

0,40
0,73 0,76 0,76
0,71
0,30
0,50 0,50
0,20

0,10

0
Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Modelo 4 Modelo 5 Modelo 6
Financeiro- Macroeconômicas Combinado Financeiro- Macroeconômico Combinado
contábil contábil Menor período Menor período
Menor período

Dionne et al. (2006) destaca que as na Bolsa de Valores de São Paulo, a partir da
análises efetuadas pelos valores da Curva seleção de fatores (variáveis) contábil-finan-
ROC auxiliam na redução dos erros Tipo I e ceiras e macroeconômicos.
Tipo II. Para os modelos analisados, é possí- Para descrever os resultados obtidos
vel verificar que há equilíbrio entre a capaci- e a forma como foram atingidos, é necessá-
dade de identificar os casos que possuem as rio começar pelo terceiro objetivo proposto ini-
características analisadas (especificidade) cialmente: o de estimar a probabilidade de in-
e os que não possuem (sensibilidade). Sen- solvência das empresas. Para se atingir a esse
do que esta capacidade é melhor identifica- objetivo foi efetuado o cálculo da probabilida-
da nos Modelos 4 e 6, cuja análise reflete-se de de insolvência das empresas aplicando-se
em um período menor, bem como, no Mode- o modelo KMV que representa uma evolução
lo 3 do que nos demais modelos. do Modelo Estrutural de Merton.
Após o cálculo da probabilidade de
Conclusão insolvência, as empresas foram segregadas
O objetivo maior desta pesquisa foi o por meio da Análise de Conglomerados (ou
de identificar os fatores que melhor explicas- Cluster Analysis) formando dois grupos distin-
sem a probabilidade de insolvência das em- tos com 10 empresas identificadas com maior
presas de capital aberto que negociam ações probabilidade de insolvência contra 53 em-
57

presas com menor probabilidade de insolvên- babilidade de insolvência das empresas para
cia. Este procedimento foi necessário devido à a amostra selecionada. Com isso, foram gera-
aplicação da metodologia de regressão logísti- dos três modelos distintos: Modelo 1, somen-
ca que parte de uma variável binária para a ex- te com variáveis contábil-financeiras; Modelo
plicação de um fenômeno. 2, somente com variáveis macroeconômicas
Foram identificados primeiramente e Modelo 3, com a combinação das variáveis
23 indicadores. Destes, as variáveis DispAT – contábil-financeiro identificadas no Modelo 1
Disponível sobre o Ativo Total, DispAP – Dis- mais as variáveis macroeconômicas identifi-
ponível sobre Ativo Permanente, LiqImed – Li- cadas no Modelo 2.
quidez Imediata e Beta não eram representati- Assim foi possível verificar que o Mo-
vas em nenhum setor, não fornecendo dados delo 3 (que faz uso combinado das variáveis
suficientes para análises, com isso resolveu-se contábil-financeiro e macroeconômicas) apre-
por desconsiderá-las da base de dados final. sentou um melhor poder discriminante (anali-
As variáveis independentes EndCP sado por meio da Curva ROC, cujo coeficiente
– Endividamento de Curto Prazo, PLAt – Pa- foi de 0,73) que os dois outro modelos (Modelo
trimônio Líquido obre Ativo, LiqCor – Liqui- 1 apresentou o coeficiente de 0,71 e o Modelo
dez Corrente e ExgAt - Endividamento Total 2 , o coeficiente de 0,50). O Modelo 2 não apre-
por apresentarem alta correlação com outras sentou estatisticamente poder discriminante,
variáveis independentes que pode ser carac- ou seja, sua aplicação não tem qualquer influ-
terizado como multicolinearidade, também ência na melhoria da qualidade discriminan-
foram desconsideradas da análise. Com isso, te dos dados ou não gera melhores resultados
a análise contou com um total de 15 variáveis que a sua não aplicação. Na prática, significa
contábil-financeiras identificadas na literatu- dizer que adivinhar os resultados sem auxilio
ra como relevantes no estudo da insolvência de uma análise estatística, gera o mesmo efei-
das empresas. to que fazer uso deste modelo.
Foi efetuada a revisão de literatura so- As variáveis que foram selecionadas
bre o uso de variáveis macroeconômicas para no Modelo 3 com seus respectivos coeficien-
explicação das relações financeiras, uma vez tes foram: EstAT (-10,31), FornecV (-0,92), LLRB
que, seu uso na explicação da insolvência não (-0,11), CapGir (0,00), Constante (-0,66) e MRI
é comum no Brasil. Com base na revisão efe- (7,36). Esse resultado aponta que para essa
tuada, identificaram-se primeiramente 12 va- amostra, as variáveis contábil-finaneiras foram
riáveis macroeconômicas, destas, a variável mais relevantes para explicar a probabilidade
MlnRecTot – Variação do Logaritmo da Recei- de insolvência das empresas do que as variá-
ta Total da União foi desconsiderada da amos- veis macroeconômicas.
tra por apresentar alta correlação com outras Procurou-se atender ao quarto ob-
variáveis independentes o que pode ser carac- jetivo deste trabalho por meio de aplicação
terizado como multicolinearidade. Com isso, da regressão logística para um período in-
foram selecionadas para análise 11 variáveis ferior de análises, que compreendeu o ter-
macroeconômicas. ceiro trimestre de 2001 (Setembro de 2001)
Também foram gerados os mode- até o terceiro trimestre de 2007 (Setembro
los de regressão logística visando identificar de 2007). Esse período foi intencionalmente
quais as variáveis que influenciaram na pro- escolhido pois representa o período em que
58

o IGC passou a ser divulgado. Foram ge- qualidade discriminante do modelo, a exem-
rados três modelos distintos, a exemplo das plo do Modelo 2 calculado anteriormente.
análises anteriores: Modelo 4, somente com Não foi possível obter evidências sa-
variáveis contábil-financeiras; Modelo 5, so- tisfatórias de que a presença do IGC influen-
mente com variáveis macroeconômicas e ciou ou não a melhora da situação das em-
Modelo 6, com a combinação das variáveis presas, uma vez que nos dois Modelos com
contábil-financeiro identificadas no Modelo melhor desempenho esta variável não foi
4 mais as variáveis macroeconômicas iden- considerada relevante.
tificadas no Modelo 5. Espera-se que este estudo contri-
Os Modelos 4 e 6 apresentaram me- bua para o aprofundamento do conhecimen-
lhor poder discriminante (apurado com base to na área de gestão de riscos, principalmente
na Curva ROC para os modelos que foi de pela preocupação em transmitir de forma cla-
0,76) em relação ao Modelo 5 (cujo coeficien- ra e precisa os passos metodológicos adotados,
te foi de 0,50). Com isso, foi possível obser- bem como as análises efetuadas. Esta pesqui-
var que o modelo apurado com base somen- sa teve por meta apresentar os resultados rele-
te em variáveis macroeconômicas não afeta a vantes sem, contudo, esgotar o tema abordado.
Autores

Alceu Souza
Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUCPR. E-mail: alceu.souza@pucpr.br

Liliane Gomes
Mestre em Administração Estratégica pela PUCPR. E-mail gomesliliane@yahoo.com.br

Luiz Carlos Duclós


Professor Ph.D. do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUCPR. E-mail luiz.duclos@pucpr.br

Wesley Vieira da Silva


Professor, Doutor, Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUCPR e Bolsista em
Produtividade do CNPq. E-mail: wesley.vieira@pucpr.br
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59
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60

Responsabilidade
Socioambiental
nas Instituições
Financeiras

Franklin Mendes Thame


61

Resumo
O Banco Central do Brasil na abertura do encontro “Rio
+20”, em junho de 2012, colocou em audiência pública duas minu-
tas de Resoluções que dispõem sobre a implementação da res-
ponsabilidade socioambiental nas instituições financeiras e sobre
a elaboração e divulgação do Relatório de Responsabilidade Socio-
ambiental.
O Banco Central do Brasil pretende com essas duas Reso-
luções, que os bancos estabeleçam um padrão mínimo de gestão
para os diversos aspectos que constituem, de forma transversal, a
responsabilidade socioambiental nas suas decisões dos negócios.

Palavras-chave: Responsabilidade Sócioambiental, Sus-


tentabilidade, Gestão Integrada de Risco.

O Banco Central (BC) determina que gias e incentivar a substituição de práticas cau-
o estabelecimento e a implementação da Po- sadoras de impactos socioambientais negati-
litica de Responsabilidade Socioambiental se- vos por novas maneiras de produzir, respeitan-
jam adequados ao porte, natureza do negócio, do o meio ambiente e a dignidade humana.
complexidade dos produtos e serviços das ins- A conscientização sobre os desafios
tituições financeiras, tendo em vista que essas ambientais e sociais precisa ser iniciada nas ins-
empresas são essenciais à aceleração da efeti- tituições financeiras na alta administração não
vação do desenvolvimento sustentável. “A res- ficando adstrita a um departamento isolado, po-
ponsabilidade socioambiental das organizações dendo, assim, perpassar por todos os níveis hie-
é tema disseminado nos últimos anos no Brasil rárquicos, permear todas as ações das institui-
e no mundo, constituindo uma preocupação ex- ções financeiras, e, em consequência, esten-
teriorizada pela sociedade civil e pelos agentes der-se para todos os seus clientes.
econômicos que postulam alcançar um desen- Portanto os bancos passam a incen-
volvimento sustentável, economicamente viável, tivar seus clientes para que se espelhem ne-
ambientalmente sustentável e socialmente jus- les, no que se refere às práticas de responsa-
to”, justifica o BC. O banco afirma, ainda, que o bilidade socioambiental e de governança cor-
sistema financeiro está passando por um pro- porativa.
cesso de incorporação de ações ligadas à res- Essa atitude dos bancos se multipli-
ponsabilidade socioambiental, preparando-se cará e promoverá mudanças culturais em re-
para a aplicação de estratégias que permitirão lação à sustentabilidade corporativa, passan-
implementar medidas consistentes. Como os do a influenciar toda a sociedade.
bancos alavancam as atividades econômicas,
por meio de suas linhas de crédito podem fo- Riscos Ambientais x Riscos
mentar as boas práticas socioambientais, con- Financeiros
tribuir para o desenvolvimentos de serviços e O BancoCentral do Brasil define
produtos sustentáveis, promover novas tecnolo- risco socioambiental como a possibilida-
62

de de ocorrência de perdas em função de Gerenciamento do Risco


questões socioambientais. Isto é, os riscos É importante ressaltar que as ações
ambientais e sociais têm correlação com relacionadas ao gerenciamento do risco so-
os riscos econômicos e financeiros, isto é, cioambiental no crédito devem estar subor-
eles interagem entre si. dinadas à área de gerenciamento de risco da
A exposição dos bancos aos ris- instituição.
cos de crédito, operacionais e de reputa- O normativos internos dos bancos
ção pode-se acentuar quando forem ig- devem refletir a legislação ambiental e social.
norados os riscos ambientais e sociais de A área de gerenciamento de risco, respon-
seus clientes. Desta forma, a análise de ris- sável pelas aprovações de crédito, ao cum-
co socioambiental com consequente clas- prir estes normativos internos passa a consi-
sificação dos clientes é o instrumento que derar os fatores socioambientais, em conjun-
as instituições financeiras devem utilizar to com os econômicos financeiros. Compete
para mitigar seus riscos e simultaneamen- a essa área programar as salvaguardas, mas
te estimular a responsabilidade socioam- também, ao detectar vulnerabilidades das
biental dos clientes. empresas, indicar os caminhos para corrigi-
A Resolução do BC estabelece -las. Assim, surgem oportunidades de negó-
que a instituição financeira deva integrar cios ao disponibilizar linhas de crédito especí-
a política de riscos socioambientais à sua ficas para a adoção pelos clientes, das boas
estratégica de negócios e manter estrutu- práticas.
ra que possa prover: Em outras palavras, ao incorporar à
- sistemas, rotinas, procedimen- área de gerenciamento de risco as exigências
tos e registros que possibilitem identifi- da legislação social ambiental, está-se condi-
car, avaliar, monitorar e mitigar o risco so- cionando que o dinheiro que financia a pro-
cioambiental presente nas atividades e nas dução fique atrelado à moralidade e à legali-
operações financeiras da instituição; dade.
- procedimentos específicos para Em resumo, a Gestão Integrada de
atividades econômicas de maior impac- Riscos protege as instituições financeiras
to ambiental, a exemplo de atividades re- contra riscos operacionais, de reputação e de
lacionadas a florestas, mineração, petró- inadimplências entre outros.
leo e gás;
- avaliações do cliente em relação a Os Riscos
eventuais restrições e ao cumprimento de Dentro de uma visão integrada de ris-
requisitos legais e regulamentares concer- cos pode-se mencionar os principais:
nentes aos aspectos socioambientais; 1. Risco de Crédito – O cliente pode
- analises da qualidade das garan- se tornar inadimplente ante a ocorrência de
tias das operações em relação aos aspec- problemas sociais e ambientais. Como resul-
tos socioambientais; tado dar-se-á a inviabilização do negócio pelo
- critérios de qualidade da gestão ônus financeiro e pela perda da reputação. In-
socioambiental do cliente; e frações e crimes ambientais podem resultar
- consultas às informações públi- em sanções administrativas e judiciais tanto
cas. no âmbito civil quanto no criminal, como can-
63

celamento de licenciamentos; multas; repara- Nesse sentido, dispõe a Lei nº


ção/indenizações às pessoas afetadas; gastos 6.938/81, que trata da Política Nacional de
com recuperação de áreas e águas contami- Meio Ambiente, com destaque aos seguintes
nadas; e despesas com advogados. artigos:
Ações trabalhistas decorrentes das • artigo 3º: define o poluidor:
condições de trabalho e do desrespeito aos “Art 3º - Para os fins previstos nesta
direitos humanos ocasionarão o afastamen- Lei, entende-se por:
to dos melhores funcionários, e até mesmo in- (...)
viabilizarão o negócio. IV - poluidor, a pessoa física ou jurídi-
Garantias podem ficar totalmente de- ca, de direito público ou privado, responsável,
preciadas, em decorrência de passivos puniti- direta ou indiretamente, por atividade causa-
vos e/ou ocultos da empresa. dora de degradação ambiental;”
2. Risco da Reputação – A reputa- • artigo 12º: exige a observância da
ção é mais importante que uma transação fi- regularidade ambiental por parte das insti-
nanceira, por isso, o banco não pode estar as- tuições financeiras, quando da concessão de
sociado a financiamentos de projetos incor- crédito às empresas causadoras de impactos
retos sob o ponto de vista ambiental e social, ambientais:
pois o custo de recuperação da imagem cor- “- As entidades e órgãos” de finan-
porativa é elevadíssimo. ciamento e incentivos governamentais condi-
3. Risco de Financiamento de De- cionarão a aprovação de projetos habilitados
terminados Setores – Os bancos que ado- a esses benefícios ao licenciamento, na forma
tam políticas de salvaguardas, não financiam desta Lei, e ao cumprimento das normas, dos
setores cujas atividades e/ou produtos acarre- critérios e dos padrões expedidos pelo CO-
tam danos efetivos à saúde e à segurança das NAMA.
pessoas ou que causem danos significativos Depreende-se, pois, que cabe às ins-
ao meio ambiente. tituições financeiras cumprirem a sua obriga-
4. Risco de Corresponsabilida- ção legal de não incentivar, ainda que indire-
de/Responsabilidade Solidária – Cabe aos tamente, os causadores de impactos negati-
bancos públicos e privados conhecer a legis- vos no meio ambiente.
lação ambiental e, quando da aprovação de fi- 5. Riscos Operacionais
nanciamentos, averiguar se o financiado está Ressalte-se a necessidade dos ban-
cumprindo a legislação ambiental. Os bancos cos na gestão do capital atender a RESOLU-
devem conhecer o rol de empreendimentos ÇÃO 3.988 e a CIRCULAR Nº 3.547, DE 7 DE
e atividades para as quais se exija o licencia- JULHO DE 2011.
mento ambiental. No §2, art.1º dessa Circular, que esta-
É importante salientar a obrigatorie- belece procedimentos e parâmetros relativos
dade legal das instituições financeiras oficiais ao “Processo Interno de Avaliação da Ade-
e das demais instituições quando do repas- quação de Capital”, foi inserida a necessida-
se de recursos públicos (recursos do BNDES, de de avaliação do risco decorrente da expo-
do BID- Banco Interamericano de Desenvolvi- sição a danos socioambientais.
mento) em observar a regularidade ambiental “A instituição deve demonstrar no
daqueles com quem contrata. processo de avaliação e de cálculo da neces-
64

sidade de capital para os riscos de que trata - Autodiagnóstico utilizando a ferra-


este artigo, como considera o risco decorren- menta e indicadores do Instituto Ethos de Em-
te da exposição a danos socioambientais ge- presas e Responsabilidade Social, que indi-
rados por suas atividades. cam como a instituição financeira está em re-
Referência: lação ao seu setor de atuação;
http://www.bcb.gov.br/pre/normati- - Relatórios Anuais de Responsabi-
vos/busca/normativo.asp?tipo=Circ&ano=201 lidade Socioambiental, comunicação com o
1&numero=3547 público interno e externo, baseada nos princí-
pios da transparência e da prestação de con-
Conclusões tas, relatando os aspectos positivos e negati-
Estas Resoluções vêm ao encontro vos de suas operações, sob a ótica econômi-
do que já está sendo adotado, de forma volun- ca, ambiental e social, utilizando, de preferên-
tária, pelos bancos públicos e privados, ca- cia, os critérios definidos pelo Global Reporting
bendo mencionar a adesão a tratados, princí- Initiative (GRI);
pios, protocolos, declarações, acordos e con- - ISE- BM&F BOVESPA -participação
venções internacionais, como, por exemplo: dos bancos no ISE- Índíce de Sustentabilida-
- Princípios do Equador, aplicáveis às de Empresarial, importante indicador de sus-
operações de project finance classificando os tentabilidade corporativa.
projetos financiáveis conforme os riscos so- A Serasa Experian, ao disponibilizar
cioambientais, a probabilidade e a magnitude os produtos que analisam as empresas, quais
dos impactos; sejam, o Relatório de Responsabilidade Am-
- Protocolo Verde da - United Nations biental, o Relatório de Responsabilidade So-
Environment Programme , Finance Initiative cial e o produto Conformidade Ambiental, em
(UNEP-FI)- Organização das Nações Unidas conjunto com os tradicionais Relatórios Eco-
(ONU), que representa o compromisso das nômico-financeiros, oferece consubstancial
instituições financeiras em verificar os aspec- contribuição para que o setor produtivo brasi-
tos socioambientais em suas operações; leiro avance no rumo da sustentabilidade.
- Global Compact; A Serasa Experiam, com vistas a um
- Principles for Responsible Invest- futuro mais promissor, compartilha essa res-
ments (PRI), da ONU, a ser adotado pelos ponsabilidade com o Governo, com a socieda-
investidores institucionais e pelos fundos de civil, com as instituições financeiras e com
de pensão; as melhores empresas.
Autor

Franklin Mendes Thame


Engenheiro Agrônomo e Administrador de Empresas com especialização em Agronegócios, Gestão Ambiental e Sus-

tentabilidade. Trabalhou 33 anos no Banco Noroeste e Banco Santander. Foi Diretor de Crédito Rural. Foi Diretor da FE-

BRABAN . Atualmente é Gerente de Produtos de Riscos Socioambientais, na SERASA, aonde vem desenvolvendo cri-

térios de análise de Sustentabilidade.


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