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TÉCNICAS CONSTRUTIVAS PARA APLICAÇÃO DE REVESTIMENTO

CERÂMICO SOBRE SUPERFÍCIE DE PAREDE EM MADEIRA

Gustavo Lacerda Dias e Carolina Palermo Szücs

RESUMO: Na região sul do Brasil as habitações em madeira constituem uma opção


concreta de moradia para uma parcela significativa da população. A opção pela madeira
se deve preponderantemente à influência cultural dos imigrantes europeus de diversas
etnias que vieram viver em nosso país a partir da segunda metade do século passado.
Porém a tecnologia empregada precisa ser aprimorada, pois verifica-se um profundo
desconhecimento das técnicas mais modernas de se construir em madeira. Um dos
pontos de maior carência está na solução das ditas “áreas úmidas” das edificações, ou
seja, banheiros, cozinhas, etc. Este trabalho pretende contribuir para o aprimoramento
das soluções construtivas direcionadas para a madeira, apresentando algumas técnicas
específicas – adotadas em outros países – para a aplicação de revestimento cerâmico em
paredes com estrutura em madeira.
Palavras-chave: cerâmica; compensado; drywall; placa cimentícia.

CONSTRCUTIVE TECHNIQUES FOR APPLYING CERAMIC TILES OVER


WALLS OF WOODEN HOUSES

ABSTRACT: In the south of Brasil, the wooden houses provide a home for a
significant portion of the population. The choice of wood is strongly related to the
cultural influence of Europeans immigrants from different nations that came to live in
the country since the middle of last century. But the technology broadly used nowadays
needs to be improved, because it is possible to notice a deep unknowledgement of the
modern ways of timber framing. One of the main lacks is the technical solution used for
the wet areas, as bathrooms, kitchens, etc. This paper intends to contribute for the
improvement of technical solutions related to timber constructions, showing some
specific techniques – broadly used in other countries – for applying ceramic tiles over
timber walls.
Key-words: tiles; plywood; drywall; cementitious backer board.
1 INTRODUÇÃO

O déficit habitacional brasileiro priva uma parcela significativa da população do direito


a viver com dignidade. A carência por moradias estimula o aparecimento de novos
sistemas construtivos como alternativa aos processos e materiais tradicionalmente
utilizados na prática da construção civil brasileira. Estas novas tecnologias
desempenham um papel de grande importância na medida em que certas soluções, ainda
que possam porventura ter caráter estritamente regional, estarão contribuindo para a
reversão do quadro atual de inércia do setor habitacional.

A madeira vem sendo utilizada sistematicamente nas edificações ao longo de nossa


história. Isto pode ser percebido desde elementos de acabamento, como assoalhos para
pisos, até como elemento principal para compor sistemas construtivos ou de
fechamento e paramento, como é o caso das casas de madeira ofertadas no mercado.
Embora constitua uma fatia menos expressiva do setor habitacional brasileiro - se
comparada à das edificações em alvenaria - a participação das edificações em madeira
está consolidada em determinadas regiões brasileiras, como é o caso da região
amazônica e também do Sul do país, onde existe tradição em se construir com este
material.

Além da viabilidade técnica que apresenta para a construção de edificações, a madeira


constitui uma matéria-prima que se insere num modelo de sustentabilidade do meio
ambiente. Desde que proveniente de florestas manejadas racionalmente, consegue se
colocar em sintonia com as exigências de preservação ambiental, ao tratar-se de um
insumo natural e renovável. Destacam-se as florestas plantadas, principalmente de
espécies exóticas como Pinus e Eucalyptus, que além de sustentáveis, aliam alta
produtividade e homogeneidade de matéria-prima, ao contrário da madeira proveniente
de matas nativas.

Embora seja um material com grande potencial, a falta de tecnologia apropriada ao


processo construtivo tem gerado o uso inadequado da madeira. Há carência de
qualidade, modernização e inovação tecnológica. Como constata BITTENCOURT
(1995), isto decorre da ausência de domínio das técnicas, dos métodos e dos processos
da tecnologia da madeira; além disso, temos ainda a inexistência de elementos
normativos capazes de apoiar o profissional no projeto e execução, a falta de uma
indústria madeireira forte e em sintonia com a produção florestal de modo a alavancar o
setor.

2 NECESSIDADE DE ADAPTAÇÃO DOS SISTEMAS CONSTRUTIVOS


ATUALMENTE UTILIZADOS

Há no mercado brasileiro de edificações em madeira inúmeras empresas vendendo seus


produtos. Basicamente encontramos três tipos diferentes de sistemas construtivos:

1 – Tábuas verticais com mata-juntas;


2 – Pranchas horizontais com junção do tipo macho-fêmea;
3 – Ossatura em painéis (modulares ou não).
As áreas úmidas destas moradias carecem de tecnologia apropriada. Na maioria das
vezes, as empresas recorrem à execução de paredes em alvenaria para servir de
substrato para o assentamento de cerâmica em banheiros, cozinhas, áreas de serviço, etc.
Em muitas situações, a única solução técnica disponível é deixar as superfícies de
determinados ambientes em madeira aparente. Seja como for, a falta de soluções
específicas implica em alguns inconvenientes, tais como:

- limitação da flexibilidade da planta arquitetônica, havendo dependência sistemática


das áreas úmidas de um pavimento superior em relação ao inferior;
- insatisfação de clientes, fruto da impossibilidade técnica de se revestir determinadas
superfícies;
- necessidade de alocação de materiais e mão-de-obra específica para realizar os
serviços de alvenaria;
- perdas de produtividade nas obras.

Fazendo uma avaliação destes sistemas construtivos utilizados no Brasil, verificamos ä


primeira vista que o de tábuas verticais com mata-juntas é extremamente precário e
destinado a famílias de baixíssima renda. A rigor não há razão para se pensar em adotar
uma técnica para aplicação de cerâmica, pois seria necessário modificar tão
profundamente a estrutura deste sistema que seria inviável.

Por sua vez, o sistema de pranchas horizontais com junção do tipo macho-fêmea é
bastante difundido em todo o país, abrangendo desde moradias simples até as de padrão
mais elevado. São detectadas diferenças – que podem a princípio parecer singelas –
entre alguns detalhes construtivos de uma empresa para outra; porém estas diferenças
costumam ser muito significativas e determinantes para a adequação do sistema às
técnicas de aplicação de cerâmica que serão apresentadas neste trabalho. A questão
crucial está na movimentação das pranchas que formam a parede, que é causada pela
retração transversal da madeira – geralmente empregada ainda verde – até atingir
equilíbrio higroscópico com o ambiente. Isto pode acarretar, dependendo das
peculiaridades da solução, desde diminuição do pé-direito, até rebaixamento da cota das
janelas, quando estas se encontram simplesmente apoiadas sobre as pranchas livres nos
pilaretes que servem de guia. Isto prejudica o desempenho do conjunto, e seria preciso
que a empresa procedesse a uma revisão de suas soluções construtivas de modo a
permitir adequada compatibilização com as técnicas específicas.

Finalmente, o sistema de ossatura em painéis ainda é pouco divulgado no Brasil. Pode


ser considerado o mais apto a receber revestimentos cerâmicos através de uma das
técnicas específicas, as quais foram originariamente concebidas para este tipo de
sistema construtivo. O esquema estrutural da ossatura possibilita reduzir a níveis
plenamente aceitáveis os problemas decorrentes de movimentações higroscópicas da
madeira.

3 APRESENTAÇÃO DAS TÉCNICAS CONSTRUTIVAS

As soluções construtivas para aplicação de cerâmica sobre paredes de casas de madeira


consistem basicamente na fixação de um substrato sobre a estrutura em madeira da
parede; sobre este substrato as peças cerâmicas são assentadas com material adesivo
apropriado. A seguir são apresentadas quatro técnicas bastante comuns em países como
Estados Unidos, Canadá e países escandinavos:

3.1 Stucco

Até o início deste século, significativa parcela das superfícies internas de teto ou parede
de edificações em madeira na América do Norte era executada através deste sistema, no
qual uma tela é fixada à estrutura de madeira e recebe argamassa de emboço em duas ou
três camadas, formando uma superfície rígida e plana, que pode admitir qualquer
acabamento, como por exemplo pintura, cerâmica, pedras naturais, etc.

Inicialmente não se dispunha de uma tela propriamente dita, tendo sido usado durante
muito tempo uma trama de sarrafos de madeira para servir de base para a argamassa de
emboço. Atualmente são empregadas telas expandidas específicas, fabricadas em metal
e que são galvanizadas ou recobertas com pintura anti-corrosiva. A tela deve ser capaz
de resistir à pressão de aplicação da primeira camada de argamassa, suportá-la ainda
enquanto fresca, e formar uma superfície integral com a argamassa após a sua cura
(THALLON, 1996).

A tela é empregada na posição horizontal, com superposição nas emendas, podendo ser
fixada diretamente à ossatura da parede ou sobre uma sub-base formada por chapas de
madeira reconstituída (compensado, OSB, etc). A união é feita com pregos ou grampos,
aplicados manualmente ou através de pistolas. É recomendável deixar uma membrana
impermeabilizante entre a tela e a estrutura da parede para isolar a madeira do possível
contato com a umidade.

A argamassa de emboço é formada por camadas, normalmente aplicadas com colher de


pedreiro. A primeira camada tem função de propiciar aderência mecânica entre
argamassa e tela. Seu traço não deve ser muito fino para permitir melhor aderência com
a segunda camada, que tem o mesmo traço e deve ser aplicada após a cura da primeira.
Esta camada deve ser sarrafeada, formando uma superfície plana porém não
demasiadamente lisa. A partir daí, caso se queira a superfície final com pintura, aplica-
se antes uma terceira camada, com traço fino, para dar acabamento. Caso o objetivo seja
o de revestir a superfície da parede com peças cerâmicas, o assentamento é efetuado da
maneira tradicionalmente conhecida no Brasil, com argamassa de assentamento ou
argamassa-colante.

A técnica do Stucco não é mais usada de forma intensiva por ser muito artesanal (baixa
produtividade) e cara (tanto no custo dos materiais como no de mão-de-obra).
Entretanto, é muito apropriada e deve ser especificada em locais onde outros substratos
não consigam ter desempenho satisfatório, como em cantos arredondados com curvatura
acentuada, ou em locais com alta umidade, como boxes de banheiro, saunas a vapor,
etc.

3.2 Placa Cimentícia

Trata-se de uma placa delgada pré-fabricada feita de concreto de baixa densidade, que
vem reforçada com tela de fibra de vidro, resistente ao ataque químico do cimento, em
ambas as faces.
Permite alta produtividade na medida em que minimiza os serviços em obra. As placas
pré-fabricadas – vendidas normalmente em chapas de 1,20m x 2,40m e espessura de
12,5mm – são fixadas à estrutura de madeira da parede através de pregos ou parafusos,
tomando-se o cuidado de deixar uma junta de aproximadamente 3mm entre as placas
para permitir certa movimentação térmica e/ou higroscópica. As juntas são tratadas
aplicando-se uma fita de fibra de vidro com 5cm de largura envolta em argamassa
flexível. Para evitar problemas de condensação de água na parte interna e de infiltração
de umidade através das placas é conveniente levar em conta a utilização de barreira de
umidade, colocada entre a placa e a estrutura em madeira da parede.

A superfície completamente plana formada serve como base para praticamente qualquer
tipo de revestimento em fechamentos e vedações internas e externas, sendo
especialmente apropriado para aplicação de revestimento cerâmico. O assentamento das
peças é feito com argamassa colante flexível (ou argamassa de assentamento adequada)
seguindo a prática convencional já amplamente difundida em todo o país.

A placa cimentícia pode ser considerada uma modernização da técnica do Stucco,


aliando a facilidade de instalação com menores custos. Outro ponto altamente positivo
que herda da técnica do Stucco é sua característica de ser completamente inerte à ação
da água.

3.3 Gesso Acartonado

As placas de gesso acartonado já são bastante utilizadas no mercado brasileiro de


construção, seguindo uma tendência verificada em diversos países. Seu uso está muito
difundido principalmente para revestimento de paredes internas de edifícios comerciais
e residenciais, basicamente para acabamento em pintura.

Embora menos divulgado, o gesso acartonado também permite a aplicação de


revestimento cerâmico. Para esta finalidade, existem chapas hidrófugas, impregnadas de
silicone e diferenciadas pela cor verde.

As placas podem ser dispostas tanto na horizontal bem como na vertical. Devem ser
fixadas à estrutura de madeira da parede preferencialmente através de parafusos; pregos
também podem ser utilizados, embora normalmente propiciem menor resistência.

Após instaladas as placas, efetua-se o tratamento das juntas, feito com fita e massa, que
assegura a continuidade mecânica entre as placas. Estando a superfície de base
concluída, pode-se assentar as peças cerâmicas na parede pelo método tradicional, com
o uso de argamassa colante flexível aplicada por desempenadeira dentada.

Apesar de indicado para ambientes úmidos, como banheiros, cozinhas, lavanderias e


áreas de serviço, o gesso acartonado não é muito recomendável, segundo THALLON
(1996), para locais com presença constante de umidade, tais como boxes de banheiro,
piscinas, etc, pois se alguma umidade passar pela camada de proteção das chapas,
ocorrerá sua desintegração.
3.4 Compensado de Madeira

As chapas de compensado de madeira podem ser usadas como substrato para receber
revestimento cerâmico. São recomendadas as de compensado naval, confeccionadas
com cola inerte à ação da água. Facilmente encontradas no mercado, geralmente com
dimensões de cerca de 2,20m x 1,60m, são vendidas em diferentes espessuras, sendo
usuais as de 10mm e 12,5mm.

As chapas devem ser fixadas à estrutura de madeira da parede através de pregos ou


parafusos, deixando-se uma folga de 3mm entre chapas. O tamanho da cabeça do
elemento de fixação e um adequado espaçamento tem um efeito considerável sobre a
rigidez do entramado. Em geral, o maior diâmetro e um menor espaçamento melhoram
os resultados mecânicos.

Para assentamento das peças cerâmicas, é recomendável o uso de adesivos orgânicos à


base de epóxi. Estes adesivos são caros e sua viabilidade econômica deve ser avaliada
para cada caso específico. As argamassas colantes normalmente não aderem bem à
superfície da madeira, embora em alguns países são vendidas argamassas colantes com
formulação especial para aplicação diretamente sobre a lâmina do compensado.

Os compensados de madeira não são muito estáveis dimensionalmente, se comparados


com outros substratos, além de não propiciarem boa aderência. Devem ser evitados em
locais com alta umidade, pois a madeira é um material higroscópico e susceptível a
mudanças dimensionais de retração e inchamento, que podem prejudicar a performance
do revestimento.

montante de madeira

substrato (gesso acartonado, placa


cimentícia ou compensado)
membrana impermeabilizante

tela metálica

argamassa de emboço

argamassa colante

cerâmica
rejunte

igura 1 – Esquema da técnica de Stucco


montante de madeira

membrana impermeabilizante

substrato (gesso acartonado, placa


cimentícia ou compensado)

argamassa colante (ou adesivo epóxi)

cerâmica

rejunte

Figura 2 – Esquema que ilustra as técnicas cujo substrato pode ser gesso
acartonado, compensado de madeira ou placa cimentícia.

4 CONCLUSÃO

Existe um longo caminho a ser percorrido para que as construções em madeira no Brasil
possam se tornar efetivamente produtos de alta qualidade e satisfazerem potencialmente
os consumidores da mesma forma como o fazem em diversos outros países com maior
tradição em construir com este material.
O uso de técnicas construtivas específicas para assentamento de peças cerâmicas em
paredes de edificações em madeira pode contribuir em muito para o desenvolvimento
tecnológico do setor, trazendo melhorias na qualidade dos produtos oferecidos e ganhos
de produtividade.

É fundamental que o processo de adoção de uma nova tecnologia seja feito com
bastante rigor. Há que se proceder a uma criteriosa avaliação dos sistemas utilizados, de
modo a detectar pontos conflitantes e assim providenciar possíveis alterações que
permitam sua conformidade com a técnica escolhida para assentamento de cerâmica.

É também de suma importância que novas soluções sejam comprovadas através de


metodologias de análise de desempenho. Apesar de pouco comum em nosso país,
existem critérios e normas que servem de parâmetro para a aceitação ou não de
elementos, componentes ou sistemas construtivos como um todo.

O processo de análise de desempenho deve prever a adoção de diferentes variáveis pois,


deste modo, além de alcançar uma performance satisfatória, é possível otimizar a
utilização dos produtos que compõem o elemento ou componente, obtendo economia e
eficiência da solução. As empresas deveriam buscar parcerias com laboratórios, centros
de pesquisa e universidades para concretizarem da melhor forma possível o
aprimoramento de seus sistemas construtivos através de metodologias de análise de
desempenho.

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BITTENCOURT, Rosa Maria (1995). Aprendendo a projetar a edificação em madeira.


In: ENCONTRO BRASILEIRO DE MADEIRAS E ESTRUTURAS DE
MADEIRA, 5., Belo Horizonte, 1995. Anais.
BRIDGE, John P (1192). Ceramic tile setting. TAB Books.
BYRNE, Michael (1995). Setting tile. Newtown: The Taunton Press.
OLIVEIRA, Fabiana Lopes (1996). Avaliação do desempenho estrutural de sistemas
construtivos inovadores: estudo de caso. Dissertação (Mestrado) - EESC-USP,
Universidade de São Paulo.
SOUZA, Roberto de; MITIDIERI FILHO, Cláudio V. (1988). Avaliação de
desempenho de sistemas construtivos destinados à habitação popular. Conceituação
e metodologia. In: Tecnologia de edificações. São Paulo: PINI: Instituto de
Pesquisas Tecnológicas, Divisão de Edificações do IPT. Art. 59, p. 139-142.
THALLON, Rob (1966). Graphic guide to interior details: for builders and designers.
Newtown: The Taunton Press.