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PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA PRIMEIRA REGIÃO
SEÇÃO JUDICIÁRIA DO DISTRITO FEDERAL

Processo N° 0026628-21.2015.4.01.3400 - 22ª VARA - BRASÍLIA


Nº de registro e-CVD 00457.2017.00223400.1.00274/00128

PROCESSO Nº : 26628-21.2015.4.01.3400

CLASSE : 7100 – AÇÃO CIVIL PÚBLICA

AUTOR : MINISTERIO PÚBLICO FEDERAL

RÉ : JOCUM BRASIL – JOVENS COM UMA MISSÃO e OUTRO

SENTENÇA

Classificada como Tipo A, para fins da Resolução n. 535/2006 do CJF

Cuida-se de Ação Civil Pública, com pedido de antecipação de tutela, na qual se


pleiteia a retirada do filme denominado “HAKANI – A história de uma sobrevivente’ dos
sítios eletrônicos e de todos os endereços eletrônicos de responsabilidade da ATINI e da
JOCUM – Brasil, assim como todas as imagens das crianças e adolescentes indígenas, bem
como que seja determinado que as organizações religiosas rés se abstenham de divulgar ou
expor, por seminários, palestras, exposições ou congêneres, ou distribuir por qualquer meio,
o conteúdo que consta do referido vídeo.

Requer, ainda, que as organizações religiosas requeridas se abstenham de


produzir, divulgar e publicar material publicitário, informativo ou simular, com conteúdo
idêntico ou análogo aos apontados nesta peça, bem como se abstenham de utilizar imagens
de crianças e adolescentes indígenas no seu sítio eletrônico ou em campanhas publicitárias e
congêneres.

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Documento assinado digitalmente pelo(a) JUÍZA FEDERAL IOLETE MARIA FIALHO DE OLIVEIRA em 10/10/2017, com base na Lei 11.419 de
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A autenticidade deste poderá ser verificada em http://www.trf1.jus.br/autenticidade, mediante código 73104213400232.

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Por fim, pleiteia que as requeridas sejam condenadas ao pagamento de


indenização no valor de um milhão de reais, em virtude do dano moral coletivo decorrente
de suas manifestações de caráter discriminatório à comunidade indígena, a ser recolhida ao
Fundo de Reparação de Interesses Difusos Lesados, previsto no art. 13 da Lei nº 7.347/85.

O Autor afirma que as requeridas produziram o vídeo “HAKANI – A História


de uma sobrevivente” com o propósito de chamar atenção acerca do tema “infanticídio
indígena”.

Relata que no citado filme uma pequena índia da tribo Suruwahá chamada
Hakani, que foi adotada por missionários evangélicos, teria sofrido uma tentativa de
infanticídio por parte de seus pais, uma vez que não havia se desenvolvido de forma normal
até os dois anos de idade, tendo sido enterrada viva, contudo, seu irmão mais velho teria lhe
desenterrado e entregue aos missionários, que então a adotaram.

Narra que o vídeo utilizou atores indígenas, passando a sensação de


verossimilhança nas imagens, capazes de levar o telespectador a acreditar que se trata de um
documentário.

O MPF assevera que o vídeo produzido pelas requeridas incita o ódio e aumenta
o preconceito em relação às comunidades indígenas, uma vez que se revela como uma
campanha difamatória em face dos índios brasileiros.

Requerimento antecipatório deferido às fls. 85/89.

As requeridas ATINI e JOCUM informam a interposição de Agravo de


Instrumento (fls. 145 e 209).

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Contestações apresentadas pela JOCUM às fls. 436/452 e ATINI às fls. 567/626.

Foi pleiteada a produção de prova testemunhal.

Relatei. Decido.

Inicialmente, reformo a decisão que deferiu a oitiva das testemunhas elencadas,


uma vez que a controvérsia posta à apreciação comporta resolução estritamente com a
análise das provas já existentes nos autos.

Por oportuno, defiro os benefícios da gratuidade judiciária às requeridas, porque


se tratam de entidades sociais voltadas para atividades assistenciais e sem fins lucrativos.

No mérito, o constituinte originário foi atento ao dispor acerca das prerrogativas


indígenas, conforme se extrai do art. 231 da Lei Maior, vejamos:

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização


social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos
originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam,
competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos
os seus bens.

Infere-se, portanto, que há proteção constitucional ao índio, no intuito de


conservar sua cultura de forma generalizada, o que é concretizado especialmente pela Funai,
instituição criada para preservar e promover o bem estar da população indígena.

Feitas essas considerações, extrai-se da exordial que o vídeo “HAKANI – A


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História de uma sobrevivente” teria ofendido a cultura indígena, uma vez que abordou o
tema infanticídio através de cenas de simulação de enterro de crianças indígenasde maneira
bastante realista, levando, assim, a entender que se trata de um documentário e não de uma
obra fictícia.

Se é certo que a liberdade de expressão é um direito fundamental, não menos


certo é que esse direito não é absoluto, por não poder suprimir outros direitos também
erigidos como fundamentais pela Constituição da República. Entendo que a matéria
“infanticídio” vem sendo objeto de preocupação pelo nosso Legislativo e também pela
comunidade internacional. Com efeito, em uma rápida pesquisa pela internet verifico que há
diversas matérias tratando o assunto, inclusive artigos jurídicos
(https://jus.com.br/artigos/31048/relativismo-universalismo-e-direitofundamental-a-vida),
os quais relatam de forma pormenorizada o tema infanticídio indígena em suas diversas
vertentes.

Nessa conformidade, tenho que o tema em questão é tratado em diversas esferas


da sociedade, tendo inclusive chegado ao Congresso Nacional através do Projeto de Lei nº
1057/07, o qual trata do combate a práticas indígenas de infanticídio.

Entendo que o tema deve ser amplamente discutido no âmbito da sociedade,


podendo ser veiculado em vídeo, cinema ou objetivado em projeto de lei, com vistas à
proteção da comunidade indígena, à defesa da dignidade da pessoa humana, com foco na
promoção do bem estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação.

Condenável é a forma como foi produzido o vídeo intitulado “HAKANI – A


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História de uma Sobrevivente”, de onde ressai a exposição de crianças indígenas sendo


enterradas vivas, ainda que de forma simulada, olvidando-se a parte ré dos direitos
garantidos constitucionalmente à comunidade indígena e às crianças e adolescente.

Extrapolam os réus de um direito constitucionalmente garantido, conformado na


liberdade de expressão, para atacar outros direitos igualmente protegidos pelo direito de
constitucional, ao disponibilizer em vídeo cenas grotescas, camufladas sob o rótulo de
documentário, que acabaram por atentar contra a dignidade da comunidade indígena
brasileira.

Não se depreende da fundamentação acima, que a mácula está em vir à tona a


matéria infanticídio relacionada à comunidade indígena, mas a forma desrespeitosa com
que foi manipulado o tema pelos réus, ao produzirem cenas que simulavam violencias
equiparadas às usuais de filmes de terror.

A matéria deve ser tratada com seriedade e não com simulações vexatórias e que
malferem toda a comunidade indígena. Tanto é assim, que merece destaque o interesse do
Legislativo sobre a matéria, com assento no projeto de lei cuja justificativa para sua
tramitação colaciono:

Ementa
Dispõe sobre o combate a práticas tradicionais nocivas e à proteção
dos direitos fundamentais de crianças indígenas, bem como
pertencentes a outras sociedades ditas não tradicionais.
Explicação da Ementa
Projeto de Lei conhecido como "Lei Muwaji", em homenagem a uma
mãe da tribo dos suruwahas, que se rebelou contra a tradição de sua
tribo e salvou a vida da filha, que seria morta por ter nascido
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deficiente.

No caso em exame, o Legislativo almeja por em prática o princípio fundamental


insculpido no art. 1ª da Constituição Federal, que, ao estabelecer os fundamentos da
República Federativa do Brasil, elege no inciso III a defesa da dignidade da pessoa humana.

Induvidoso que a discussão, travada no bojo do projeto de lei posto no


Legislativo, ou nos meios de comunicação, ou, ainda, em outros seguimentos da sociedade, e
que evidencie práticas que malferem os comandos elencados na Constituição Cidadã, não
pode sofrer cerceamento injustificável, com maior razão quando a motivação do estudo ou
discussão vise à prática do comando constitucional que inaugura o capítulo intitulado “Dos
Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”, conforme dicção que se colhe do art. 5º, III,da
CF:

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,
à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento


desumano ou degradante;

(…)

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Nesses termos, o combate de práticas tradicionais nocivas que viole a proteção


dos direitos fundamentais da criança indígena não merece reprovação, ao revés, toda prática
que ameace essa proteção deve vir à tona através de amplos debates, estudos e soluções
efetivas que visem à condução consentânea com os primados constitucionais erigidos para a
defesa dos povos indíginas.

Percebe-se, assim, que o vídeo produzido pelas requeridas se revela contra a


proteção constitucional pensada e estabelecida para a comunidade indígena, por malferir o
Estatuto da Criança e do Adolescente, por atentar contra a dignidade da pessoa humana e e
por expor de forma vexatória o povo indígena.

Com relação aos pedidos consistentes em proibir divulgações com imagens de


crianças e adolescentes indígenas, e, ainda, determinar às organizações religiosas rés que se
abstenham de divulgar ou expor, por seminários, palestras, exposições ou congêneres, ou
distribuir por qualquer meio o conteúdo que consta no referido vídeo, mediante imposição
de multa, entendo que são pedidos apoiados em eventos futuros e incertos, não apoiados
em fatos determinados e fundamentados, razão para indeferir tais pedidos.

Por todo o exposto, vislumbro no ato perpetrado pelas requeridas que o bem
jurídico tutelado constitucionalmente restou violado e merece correção por parte deste
juízo, razão pela qual o pleito autoral deve ser julgado procedente em parte.

Diante do exposto, resolvo o mérito da presente demanda, extinguindo o feito


nos termos do art. 487, I, do CPC, JULGANDO PROCEDENTE em parte o
requerimento inicial, com determinação às Rés para a imediata retirada do filme
denominado “HAKANI – A história de uma sobrevivente” de todos os sítios eletrônicos
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em que foram inseridos, como também do sítio eletrônico das requeridas ou de campanhas
publicitárias e congêneres, sob pena de imposição de multa pelo descumprimento.

Deixo de acolher o pleito de indenização, com fulcro no deferimento do benefício da


gratuidade judiciária às requeridas, porque se tratam de entidades sociais voltadas para
atividades assistenciais e sem fins lucrativos. Sem custas e honorários advocatícios sucumbências
às requeridas, com o mesmo fundamento. Sem custas e honorários advocatícios sucumbências, ao
autor, tendo em vista que se trata de demanda proposta pelo MPF, além de não vislumbrar hipótese
de atuação de má fé, nos termos do disposto no art. 18 da Lei 7.347/85.

Intimem-se. Publique-se.

(assinado eletronicamente)

IOLETE MARIA FIALHO DE OLIVEIRA


Juíza Federal Titular da 22ª Vara/SJDF

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