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Calmeiro Matias - O Pai-Nosso como Síntese do Evangelho

Sumário
1 - O Pai-Nosso e Nova Aliança.......................................................................................................................2

2 - Pai-Nosso que Estais no Céu.......................................................................................................................4

3 - Santificado Seja o Vosso Nome...................................................................................................................5

4 - Venha a Nós o Vosso Reino.........................................................................................................................6

5 - Que a Vossa Vontade se Faça.......................................................................................................................9

6 - O Pão Nosso de Cada Dia nos Dai Hoje....................................................................................................11

7 - Perdoai-nos as Nossas Ofensas.................................................................................................................12

8 - Não nos Deixeis Cair em Tentação............................................................................................................13

9 - Mas Livrai-nos do Mal..............................................................................................................................14

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1 - O Pai-Nosso e Nova Aliança

Jesus não ensinou o Pai Nosso aos discípulos como uma fórmula para estes
repetirem de cor e de modo completo. Ao ensinar o Pai-Nosso aos discípulos, Jesus
apenas quis transmitir-lhes um conjunto de ensinamentos, a fim de eles aprenderem a
falar com Deus com critérios de Nova Aliança.

Se Jesus quisesse ensinar uma fórmula para os discípulos repetirem de cor e de


modo literal, estes tê-la-iam conservado tal qual Jesus a ensinou. Mas não foi isto que
aconteceu, pois o Pai-Nosso de Lucas e o de Mateus, têm fórmulas diferentes,
embora os seus conteúdos teológicos sejam idênticos (Lc 11, 2-4; Mt 6, 9, 13).

Ao apresentar o Pai-Nosso como critério para orar ao jeito da Nova Aliança,


Jesus distanciou-se profundamente dos outros grupos judaicos. O termo “Abba”, Pai
ou papá, é original de Jesus. Nenhum judeu seu contemporâneo ousava utilizar este
termo nas suas orações. Para a mentalidade judaica do tempo de Jesus, dirigir-se a
Deus chamando-o de meu Pai era um comportamento sacrílego, pois não mantinha a
distância que deve existir entre o Homem e Deus.

Ao ensinar os discípulos a orar ao seu jeito, Jesus quis demarcar-se dos


diversos grupos religiosos existentes, os quais afirmavam a sua identidade cultivando
um jeito próprio de orar, a fim de se diferenciarem dos outros grupos. Tanto os
fariseus como os saduceus, os essénios ou os discípulos de João Baptista, os mestres
ensinavam aos discípulos um modo de orar que fosse diferente, a fim de afirmarem a
sua identidade.

O evangelho de São Mateus diz que Jesus, ao ensinar o Pai-Nosso aos


discípulos, esta a marcar a diferença dele e dos seus discípulos face aos diferentes
grupos existentes, bem como face aos pagãos (Mt 6, 5-8). Ao ensinar o Pai-Nosso aos
discípulos, Jesus apenas quis ensinar os discípulos falarem com Deus Pai como um
filho fala com um Pai muito querido. Mais tarde, o Espírito Santo ensinará os
discípulos a dialogar com Jesus ressuscitado, falando com ele como um irmão dialoga
com outro irmão: “O que pedirdes em meu nome eu o farei de modo que, no Filho, se
revele a glória do Pai. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome eu a farei” (Jo 14,
13-14).

Com a apresentação do Pai-Nosso, Jesus está a ensinar aos discípulos a


dialogar com Deus ao jeito de um diálogo familiar. No Pai-Nosso, Jesus ensina aos
discípulos que o conteúdo da sua oração deve ser tudo aquilo que possa interessar a
Deus e ao Homem. Estão presentes a vinda do Reino, o amor de Deus por nós, a
nossa fragilidade e a necessidade de sermos ajudados para não cairmos na tentação.

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Ao ensinar o Pai-Nosso aos discípulos, Jesus quis ensiná-los a falar com Deus
tal como ele falava com o seu Pai querido. Por outras palavras, o Pai-Nosso reúne um
conjunto de critérios capazes de fazer que a oração dos discípulos se processe em
forma de uma oração com sabor a Nova Aliança.

São Paulo diz que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são
filhos e herdeiros em relação a Deus Pai e co-herdeiros em relação ao Filho de Deus
(Rm 8, 14-17; cf. Gal 4, 4-7). Por outras palavras, ao ensinar o Pai-Nosso aos
discípulos, Jesus quis que eles se sentissem membros da Família de Deus.

É como membros da Família que nós devemos dialogar com Deus. É o próprio
Espírito Santo que nos convida a orar, introduzindo-nos no próprio diálogo de Deus
com seu Filho. Eis alguns aspectos teológicos importantes que a oração do Pai-Nosso
nos transmite:

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2 - Pai-Nosso que Estais no Céu.

O Céu não é um lugar. As coordenadas de Deus são a interioridade máxima do


Universo, a universalidade e a omnipresença. Por outras palavras, Deus é mais
interior a nós que nós mesmos. Nunca comunica connosco a partir do exterior. Na
verdade, o ponto de encontro com Deus é o coração, isto é, o ponto mais nobre da
nossa interioridade espiritual. A Divindade é uma comunhão orgânica de três pessoas
infinitamente perfeitas.

O Céu, portanto, não é um lugar, mas uma comunhão amorosa. O Céu é a


único ponto de encontro que existe desde sempre. Na verdade, ainda o Cosmos não
era e já existia o Céu: A reciprocidade amorosa de três pessoas infinitamente
perfeitas. Podemos dizer que Deus é uma emergência permanente de três pessoas de
perfeição infinita em total convergência de comunhão amorosa.

A bíblia diz que Deus é amor (1 Jo 4, 7). Por outras palavras, Deus pode tudo o
que o amor pode realizar, pois Deus é amor omnipotente. No entanto, Deus não pode
negar-se a si mesmo e, portanto, não pode nada contra o amor.

Por ser amor, Deus está a exprimir-se sempre de maneira nova. Nunca se
repete. Além disso, o amor é essencialmente inventivo e criador. Eis a razão pela qual
Deus, ainda antes de ter iniciado a génese criadora do Universo, já era um Deus
Criador. O Amor, de facto é criador e inesgotável, pois tem a capacidade de se auto
alimentar e, portanto, de nunca se esgotar. Por outras palavras, o amor é sempre novo,
pois manifesta-se em atitudes que não se repetem.

Antes do início da marcha criadora, o Céu era uma comunhão amorosa de Três
pessoas. Actualmente é uma comunhão de três pessoas divinas, milhões de pessoas
humanas e outras que possam existir.

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3 - Santificado Seja o Vosso Nome

O nome, na cultura bíblica, significa a pessoa e sua missão. O nome de Deus,


portanto, significa a própria realidade divina e o seu modo de agir. Não podemos
saber o nome de Deus, pois o Homem não pode esgotar a compreensão do seu ser e
agir. Por seu lado, a pessoa humana também tem um nome, pois é um ser chamado.

Na verdade, a pessoa humana encontra-se na vida com um conjunto de


talentos, os quais constituem o leque das suas possibilidades de realização. Por outras
palavras, a pessoa humana nasce como um ser inacabado, mas vocacionado para se
realizar e atingir a sua meta em Deus.

A vocação fundamental da pessoa humana é um apelo a realizar-se de acordo


com os talentos que recebe dos outros. Cada pessoa deve responder a este
chamamento, procurando ser fiel aos dons que recebeu. As pessoas divinas, pelo
contrário, não resultam de um processo histórico como as pessoas humanas.

Eis a razão pela qual não podemos nomear Deus, pois não nos é possível
abarcar a sua plenitude. Eis as palavras os Livro do Êxodo: “Deus disse a Moisés: Eu
sou aquele que sou” (Ex 3, 14). Moisés entendeu estas palavras como sendo o modo
de Deus dizer que o seu jeito de ser é estar sempre a ser sem nunca se repetir.

Portanto, santificar o nome de Deus é reconhecer a sua presença salvadora na


marcha da Criação. Deus faz história connosco e acompanha-nos para todo o lado,
vamos nós para onde formos. Santificar o nome de Deus é saber que ele não é uma
realidade que eu possa manipular através de palavras misteriosas.

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4 - Venha a Nós o Vosso Reino

Esta foi a grande aspiração do povo Hebreu durante cerca de mil anos. Tudo
começou quando o profeta Natã anunciou a David que o Senhor Deus lhe ia suscitar
um filho, o qual construiria um templo para Deus e reinaria com grande poder e
majestade. Deus prometeu a David adoptar este seu filho como filho de Deus,
fazendo que o seu reino permaneça para sempre (2 Sam 7, 12-16).

Durante séculos o povo bíblico suspirou pela vinda do filho de David


aguardando a restauração do Reino de David com todo o seu esplendor. Segundo o
sonho do profeta Isaías, os povos da terra viriam a Jerusalém procurando a Sabedoria
de Deus, trazendo as suas riquezas, fazendo de Jerusalém a capital mais rica do
mundo (Is 60, 1-11).

Esta expectativa permaneceu até à vinda de Jesus. Eis as palavras que o anjo
comunica a Maria no momento em que lhe comunica que ela vai ser a mãe do
Messias: “Disse-lhe o anjo: “Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus.
Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele
será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de
seu Pai David. Reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá
fim” (Lc 1, 30-33).

Era assim que os Apóstolos imaginavam a missão messiânica de Jesus. Jesus


não via as coisas deste modo. O Espírito Santo tinha-o feito compreender que a sua
missão se orientava num outro sentido bem diferente: Eis o modo como o evangelho
de Lucas descreve a descoberta de Jesus:

“Jesus veio a Nazaré onde se tinha criado. Segundo o seu costume entrou em
dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta
Isaías e, desenrolando-o deparou com a passagem em que está escrito: “O Espírito do
Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres.
Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista.
Enviou-me para libertar os oprimidos e a proclamar um ano favorável do Senhor
(…). Começou, então, a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que
acabais de ouvir” (Lc 4, 18-21).

Ao contrário de Jesus, os Apóstolos esperavam que ele viesse restaurar o reino


de David e fazer de Jerusalém a capital mais rica do mundo. Eis a razão pela qual
Jesus chama Satanás a Pedro, pois este não entende as coisas segundo Deus, mas sim
segundo os critérios dos homens (Mt 16, 23).

Era normal que, perante uma compreensão destas eles aspirassem aos lugares
mais importantes na corte messiânica. E foi assim que Tiago e João seu irmão se
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dirigiram a Jesus pedindo-lhe que lhes cedesse os dois lugares mais importante na
corte. Os outros dez, ao verem este comportamento começaram a protestar.

Jesus aproveitou a oportunidade para lhes explicar a sua missão não se


encaixava na visão messiânica tradicional, segundo a qual a o Messias seria um rei
poderoso. Pelo contrário, diz-lhes Jesus, ele veio para servir e dar a vida pela
salvação do mundo (cf. Mc 10, 35-45).

O evangelho de São Lucas tem um texto muito sugestivo sobre o lugar de


destaque que os Apóstolos terão no banquete do Reino de Deus. Mas é evidente que
estas palavras, na boca de Jesus, não se referiam a um poder de domínio terreno:
“Vós permanecestes sempre a meu lado nas minhas provações. Por isso disponho do
Reino em vosso favor, como meu Pai dispõe dele em meu favor, a fim de que comais
e bebais à minha mesa no meu reino. E haveis de sentar-vos em doze tronos para
julgardes as doze tribos de Israel (Lc 22, 28-30).

Após a Ressurreição de Jesus, o Espírito Santo foi conduzindo os discípulos no


sentido de estes compreenderem o alcance da missão messiânica de Jesus. Nos finais
do século primeiro, o Evangelho de São João já tem uma visão totalmente distinta:
“Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazer rei, retirou-se de novo sozinho
para o monte” (Jo 6, 15). Mais à frente acrescenta: “ Pilatos perguntou a Jesus:’ tu és
rei dos judeus?’ (...). Jesus respondeu, o meu reino não é deste mundo. Se o meu reino
fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue às
autoridades judaicas. Portanto, o meu reino não é de aqui. Disse-lhes Pilatos: ’logo, tu
és rei? Respondeu-lhe Jesus: ‘é como dizes: eu sou rei’ Para isto nasci e vim ao
mundo: dar testemunho da verdade” (Jo 18, 33-37).

Estas palavras do evangelho de São João já não têm qualquer conotação de


poder terreno. As primeiras gerações cristãs, no entanto, esperavam uma segunda
vinda de Jesus para julgar os vivos e os mortos e restaurar o Reino de David (Act 3,
19-21; Lc 22, 28-30). Está nesta mesma linha a visão milenarista do Apocalipse (Apc
20, 4-6). Estamos no terceiro milénio. Isto significa que temos muitos séculos de
reflexão sobre o mistério do Reino e o projecto salvador de Deus.

Para os cristãos do terceiro milénio, o Reino de Deus é a comunhão humano-


divina da Família de Deus. Por outras palavras, o Reino de Deus, para nós, significa a
assunção e incorporação da Humanidade na comunhão orgânica da Santíssima
Trindade. Esta assunção e incorporação acontece pelo facto de estarmos
organicamente unidos a Jesus ressuscitado.

No evangelho de São João, Jesus afirma que ele e o Pai fazem um (Jo 10, 30).
Por outro lado, Jesus faz com a Humanidade uma união orgânica, pois ele é a cepa da
videira da qual nós somos os ramos (Jo15, 1-7). A união orgânica que nos une a Jesus
Cristo é idêntica, diz o evangelho de São João, à união que existe entre Cristo e o Pai.

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“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele.
Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo quem me
come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).

A carne e o sangue de Cristo ressuscitado é o Espírito Santo, o princípio vital


que alimenta a união orgânica que une o Filho Eterno de Deus e Jesus de Nazaré, o
Filho de Maria. É a Água viva que Jesus nos dá, a qual faz jorrar uma nascente de
vida eterna nos nosso coração, comunicando-nos a vida humano-divina de Jesus
Cristo (Jo 7, 37-39; 4, 14; 6, 62-63).

O Espírito Santo é o princípio animador da comunhão universal do Reino que


faz de Cristo um com o Pai e de nós um com Cristo, consumando assim a união
humano-divina do Reino de Deus (Jo 17, 21-23). Todos os que são animados pelo
Espírito Santo, diz São Paulo, são filho e herdeiros de Deus Pai e irmãos e co-
herdeiros do Filho de Deus (Rm 8, 14-17).

Podemos dizer que o Reino de Deus é a plenitude da Vida Eterna com o nosso
Deus, como diz o Apocalipse: “Vi, então, um novo céu e uma nova terra. O primeiro
céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. Vi descer do céu, de
junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, preparada, qual noiva adornada
para o seu esposo. E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: “Esta é a
morada de Deus entre os homens. Ele habitará com os homens, e estes serão o seu
povo. Deus será o seu Deus e estará com eles enxugando todas as lágrimas dos seus
olhos. Então não haverá mais morte, nem luto, nem pranto nem dor, pois as primeiras
coisas passaram. O que estava sentado no trono disse: eu renovo todas as coisas” (Jo
21, 1-5).

O Reino de Deus é a Festa da comunhão universal. Todos dançam o ritmo do


amor, mas cada qual com o jeito com que tenha treinado enquanto viveu na História.
Todos reinam e comungam com Deus formando um povo de reis, sacerdotes e
profetas, como diz a Primeira Carta de São Pedro: “Vós porém, sois povo eleito,
sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, a fim de proclamardes as maravilhas
daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável” (1 Pd 2, 9).

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5 - Que a Vossa Vontade se Faça

A vontade de Deus a nosso respeito é a nossa salvação, diz a Carta aos Hebreus
(Heb 10, 9-10). O universo não é uma pessoa, mas o Homem emergiu nesta terra
pequenina como um ser que faz parte da cúpula personalizada do Universo. Isto
torna-se mais fácil de entender se tivermos presente que a génese do Universo é obra
de Deus.

Deus é três pessoas em comunhão amorosa. Podemos dizer que o Universo traz
consigo as impressões digitais do seu Criador. Na verdade, ainda antes de existir o
Universo já existia o Amor, dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e
como meta a comunhão familiar de três pessoas.

Por outras palavras, Deus imprimiu na marcha da Criação possíveis de vida


pessoal e espiritual que se concretizaram na terra e, possivelmente, em muitos outros
quadrantes do Universo. O Cosmos físico é como que a casca deste ovo imenso,
destinado a terminar num montão de matéria esmagada depois de ter feito germinar
os possíveis de vida pessoal espiritual que leva no seu ventre.

O fim do Universo por esmagamento da matéria é uma afirmação ligada a


muitos cientistas. Para a nossa fé este aspecto é secundário. O importante é sabermos
que está a emergir vida pessoal-espiritual no Universo, a qual está a caminhar para a
comunhão com o seu Criador.

Na verdade, a nossa fé garante-nos de que não estamos a caminhar para o vazio


do nada, pois já fazemos parte da cúpula personalizada do Universo cujo coração é a
Santíssima Trindade. A Divindade é comunhão de pessoas. A Humanidade está a
construir-se para ser, também, uma comunhão de pessoas.

No coração do Universo está o Céu. De facto, Deus é a interioridade máxima


de toda a realidade. Graças ao mistério da Encarnação, o divino enxertou-se no
humano, a fim de a Humanidade ser assumida na comunhão com a Divindade. É este
o plano de Deus para nós. É esta a vontade divina a respeito da Humanidade. Jesus
anunciou esta realidade chamando-lhe o Reino de Deus no qual todos nós
dançaremos o ritmo do amor com o jeito que tivermos treinado enquanto estamos em
realização histórica.

A vontade de Deus, portanto, é que aconteça o seu Reino, essa comunhão


humano-divina da qual Jesus ressuscitado é o medianeiro. Por ser um dom, o projecto
salvador de Deus implica a oferta gratuita da salvação, a qual deve ser aceite por nós
com gratidão. Para nos motivar a aceitar e a viver já este plano de amor, diz a Carta
aos Efésios, Deus tomou a iniciativa de nos revelar o seu plano de Salvação. (Ef 3, 3-
13).
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Fazer a vontade de Deus é, pois, acolher o dom da salvação e viver em
dinâmica de amor eucarístico, isto é, em atitude de acção graças pelas maravilhas que
realizou em nosso favor. A vontade de Deus a nosso respeito é, como acabamos de
ver, a salvação da Humanidade.

Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João: “Eu desci do céu, não para
fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. A sua vontade é esta:
que eu não perca nenhum daqueles que me deu, mas o ressuscite no último dia.
Portanto, a vontade do meu Pai é esta: que todo aquele que vê o filho e crê nele tenha
a vida eterna. E eu ressuscitá-lo-ei no último dia” (Jo 6, 38-40).

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6 - O Pão Nosso de Cada Dia nos Dai Hoje

O Novo Testamento insiste muitas vezes em que a finalidade da vida não é


amontoar riquezas. Não é bom para o ser humano andar obcecado com o que
devemos comer ou vestir (Mt 6, 31; Lc 12, 29). Quando isto acontece, é sinal que a
justiça, a solidariedade e a fraternidade estão doentes.

Jesus não defende a carência como ideal ou como caminho de felicidade. A


proposta de Jesus, pelo contrário, vai no sentido de que aconteça a abundância para
todos. Segundo os ensinamentos de Jesus, a solidariedade e a partilha é o caminho
certo para se chegar à meta da solidariedade para todos. Por outras palavras, Jesus
ensinou que a dinâmica da partilha é o caminho da abundância para todos.

A pessoa não precisa apenas do pão material. Necessita também, dizia Jesus, da
Palavra de Deus, a qual é a fonte de sabedoria que conduz à comunhão e à
fraternidade universal (Mt 4, 3-4; Lc 4, 4). O milagre da multiplicação dos pães
ensina-nos que, no gesto da partilha, o pão chega para todos e ainda sobra (Mt 14, 15-
20; Mc 6, 31-34; Lc 9, 10-17; Jo 6, 1-13). Eis a razão pela qual Jesus se recusou a
transformar as pedras em pão. Fazer isto seria negar a verdade da providência de
Deus e da abundância que brota da partilha.

A Terra é um excelente sinal da generosidade e providência divinas: dá frutos


suficientes para todos. Mas para isso é preciso que o Homem aprenda a partilhar e a
viver a fraternidade. No entanto, para atingir esta meta o Homem precisa de viver
segundo a Palavra de Deus (Mt 4, 3-4; Lc 4, 4).

É verdade que o Pai-Nosso é um ensinamento teológico e não um manual de


política social ou económica. Mas não há dúvida de na medida em que as pessoas
abram o coração para Deus, a Humanidade começará a entrar na dinâmica da
fraternidade e comunhão.

Na leitura teológica que São João faz da multiplicação dos pães, a partilha
conduz os seres humanos ao essencial que é a abundância, a comunhão fraterna, a
qual culmina na comunhão com Deus: “Vós procurais-me, não por teres entendido os
sinais de Deus, mas porque comestes dos pães e vos saciastes. Ponde o vosso
empenho, não no alimento que perece, mas no que perdura para a vida eterna. É este
o alimento que o Filho do Homem vos dará (...). Não foi Moisés que vos deu o pão
do céu. O meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do céu, aquele que desce do céu e
dá a vida ao mundo (...). Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome.
Quem crê em mim jamais terá sede (Jo 6, 26-35). A plenitude da pessoa não está em
si, mas na comunhão. Reduzida a si, a pessoa está em estado de malogro ou perdição.

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7 - Perdoai-nos as Nossas Ofensas

Esta afirmação não significa que Deus só nos perdoa na medida em que
perdoamos. Se assim fosse nunca estaríamos plenamente perdoados. Esta afirmação
do Pai-Nosso significa é algo de muito profundo, isto é, o mistério da reciprocidade.
Deus é amor e, portanto, perdão incondicional. Mas o Homem só é capaz de se
apropriar deste dom incondicional na medida em que ele mesmo caminha no sentido
da reconciliação e do perdão.

Por outras palavras, ninguém chega de modo isolado à comunhão com Deus. É
na medida em que fazemos uma comunhão orgânica com Cristo que damos fruto e
atingimos a meta da comunhão com o Pai: “Porque se perdoardes aos vossos irmãos
as suas ofensas, também o vosso pai celeste vos perdoará. Se, porém, não perdoardes
aos vossos irmãos as suas ofensas, também o vosso Pai do Céu vos não perdoará as
vossas ofensas” (Mt 6, 14-15).

Isto quer dizer que o nosso coração é capaz de comungar com Deus na medida
em que comunga com os irmãos. Na medida em que procurarmos viver a dinâmica da
reconciliação com os irmãos, o perdão de Deus é pleno e incondicional: Eis as
palavras da Segunda Carta aos Coríntios: “Se alguém está em Cristo é uma nova
criação, pois o que era velho passou. E tudo isto nos vem de Deus que nos
reconciliou consigo em Cristo, não levando mais em conta os pecados dos homens”
(2 Cor 5, 17-19). Quando estávamos mortos pelos nossos pecados, diz São Paulo,
Deus vivificou-nos em Cristo, perdoando-nos e reconciliando-nos consigo (Col 2,
13).

Quando os cristãos celebram o dom do perdão de Deus no sacramento da


reconciliação, o Espírito Santo vai-os modelando interiormente, ao ponto de lhes dar
um jeito de actuar semelhante ao de Jesus. Com este jeito novo de actuar, os cristãos
tornam-se agentes e mediadores de reconciliação dos seres humanos entre si e destes
com Deus (2 Cor 5, 21).

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8 - Não nos Deixeis Cair em Tentação.

A tentação é uma insinuação subtil que acontece na nossa mente, querendo-nos


fazer crer que o mal é bem e o bem é mal. A tentação não é pecado, mas a
possibilidade de pecar. Jesus foi tentado e, no entanto, não pecou. A tentação insinua-
se, pretendendo-nos fazer enveredar por caminhos opostos aos do amor. A pessoa
humana é um ser frágil. A tentação pode facilmente conseguir a vitória. Eis a razão
pela qual Jesus, na oração do Pai-nosso, nos ensinou a pedir a Deus que não nos
deixe cair na tentação.

Pedir a Deus que não nos deixe cair na tentação é o mesmo que pedir ao
Espírito Santo que não nos deixe ficar enredados nos meandros subtis da tentação. Na
verdade, a vitória sobre a tentação foi-nos oferecida por Jesus Cristo ressuscitado,
mediante o dom do Espírito Santo. No entanto, o Espírito Santo não se nos impõe.
Por outras palavras, o Espírito Santo não nos substitui: interpela, ilumina, chama e
convida no íntimo da nossa consciência.

A tentação é, no fundo, uma solicitação do homem velho que oferece


resistência ao amor, pois o pecado é sempre uma resistência ao amor. Podíamos dizer
que a tentação não é pecado, mas a possibilidade do pecado em acção. Se não
estivéssemos enfraquecidos pelas forças negativas que herdámos dos outros, a
tentação era apenas uma possibilidade remota de o pecado acontecer. Mas os
condicionamentos que herdámos devido às recusas de amor dos outros para
connosco, condicionaram as nossas possibilidades de fazer o bem. Na verdade, os
outros não só nos possibilitaram, mas também nos condicionam.

Devido a esta nossa situação de seres fragilizados precisamos de recorrer a


Deus. Não se trata de pedir ao Senhor para nos substituir. De facto, a oração não é
nunca uma maneira mágica de manipular Deus. Pedindo a Deus que não nos deixe
cair na tentação estamos a abrir o nosso coração à presença do Espírito Santo que nos
fortalece e configura com Cristo.

São Paulo deu provas de entender muito bem a dinâmica do Espírito Santo em
nós quando disse que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos
corações (Rm 5, 5). Como sabemos, é o Espírito Santo quem faz ecoar no nosso
coração a Palavra de Deus. Isto quer dizer que é ele quem nos capacita para
valorizarmos as coisas e os acontecimentos segundo os critérios de Deus e não
segundo as insinuações da tentação.

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9 - Mas Livrai-nos do Mal.

Mal é tudo o que impede O Homem de emergir na sua riqueza de pessoa livre,
consciente, responsável e capaz de comunhão amorosa. Por outras palavras, mal é
tudo o que impede ou bloqueia a humanização do Homem. A lei da humanização é a
seguinte: “Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a
comunhão universal.” Por emergência pessoal devemos entender crescimento da
pessoa na sua densidade pessoal-espiritual e na sua capacidade e interagir
amorosamente.

Como sabemos, o divino enxertou-se no humano através do mistério da


Encarnação. Este enxerto deu-nos a possibilidade de sermos organicamente
incorporados na comunhão familiar de Deus: filhos em relação a Deus Pai e irmãos
em relação ao Filho Eterno de Deus. Isto quer dizer que será eternamente mais divino
quem mais se humanizar agora.

Eis a razão pela qual o mal é tudo o que impede a humanização do Homem,
bloqueando ou condicionando as suas possibilidades de comungar eternamente na
Família de Deus. O mal moral, isto é, o pecado, é a recusa da pessoa a ser mais
humana através do amor. Recusar a sua humanização é recusar-se a ser mais pessoa e,
portanto, empobrecer as suas possibilidades de comunhão com as demais pessoas
humanas e as divinas. O mal moral ou o pecado tem consequências eternas, pois
limita a nossa participação na festa do Reino de Deus.

Isto faz-nos compreender a importância da vivermos o tempo que nos é dado


na vida presente para edificarmos a vida eterna. Por outras palavras, é agora o tempo
de nos humanizarmos, pois seremos incorporados para sempre na família de Deus na
medida em que fomos capazes de construir família com os demais seres humanos.
Pedir a Deus que nos livre do mal é predispor-se a acolher e a escutar a presença do
Espírito Santo em nós, a fim de realizarmos o melhor das nossas possibilidades de
humanização.

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