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RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
Av. Prof. Almeida Prado, 532 – IPT (Prédio 11) 05508-901 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3767-4361 - Telefax: (11) 3719-0661 - E-mail:abge@ipt.br - Home Page: http://www.abge.com.br

DIRETORIA - GESTÃO 2009/2011


Presidente: Fernando Facciolla Kertzman
Vice-Presidente: Gerson Salviano de Almeida Filho
Diretora Secretária: Kátia Canil
Diretor Financeiro: Luiz Fernando D`Agostino
Diretor de Eventos: Elisabete Nascimento Rocha
Diretor de Comunicação: Marcelo Fischer Gramani

CONSELHO DELIBERATIVO
Elaine Cristina de Castro, Elisabete Nascimento Rocha, Fabio Canzian da Silva, Fabrício Araújo Mirandola, Fer-
nando Facciolla Kertzman, Fernando Ximenes T. Salomão, Gerson Almeida Salviano Filho, Ivan José Delatim,
Kátia Canil, Leonardo Andrade de Souza, Luiz Antonio P. de Souza, Luiz Fernando D’Agostino, Marcelo Fis-
cher Gramani, Newton Moreira de Souza, Selma Simões de Castro.

NÚCLEO RIO DE JANEIRO


Presidente: Nelson Meirim Coutinho - Vice-Presidente: Antonio Queiroz
Diretor Secretário: Eusébio José Gil - Diretor Financeiro: Cláudio P. Amaral
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NÚCLEO MINAS GERAIS


Presidente: Maria Giovana Parizzi - Secretário: Frederico Garcia Sobreira
Tesoureiro: Luís de Almeida P. Bacellar - Diretor de Eventos: Leonardo A. Souza
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Fone: (31) 3559.1600 r 237 Fax: (31) 3559.1606 –

REPRESENTANTES REGIONAIS UF

ROBERTO FERES AC
HELIENE FERREIRA DA SILVA AL
JOSÉ DUARTE ALECRIM AM
CARLOS HENRIQUE DE A.C. MEDEIROS BA
FRANCISCO SAID GONÇALVES CE
NORIS COSTA DINIZ DF
JOÃO LUIZ ARMELIN GO
MOACYR ADRIANO AUGUSTO JUNIOR MA
ARNALDO YOSO SAKAMOTO MS
KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
Boçorocas*

ERNESTO PICHLER (In memorian)


Secção de Solos e Fundações do I. P. T. — São Paulo.

RESUMO ABSTRACT
O presente trabalho visa apresentar um pequeno It is the purpose of this paper to present some results
estudo sobre a forma de erosão denominada “boço- of studies made about a certain form of erosion called
roca”. Baseia-se o autor tanto em observações feitas “boçoroca’’. The author, taking in account observations
por outros quanto nas próprias e procura analisar os made on the subject by others as well as his own, tries to
describe some aspects of the occurrence and formation
diversos aspectos da sua ocorrência, formação, assim
of “boçorocas”. Some means to circumscribe or stabilize
como alguns meios suscetíveis de circunscrever a es- that form of erosion are presented. A number of pho-
tabilizar o fenômeno - o trabalho acompanhado por tographs showing characteristic aspects of “boçorocas”
documentário fotográfico que permitirá melhor apre- will permit a better understanding of the character and
ciação do mesmo. extension of this form of erosion.

1 INTRODUÇÃO

Constituem as “Boçorocas” fenômeno de ero- de preferência em solos tipo “catanduva”, are-


são dos mais impressionantes, tanto para o ob- nosos, secos e ácidos de cores claras e vegetação
servador comum que com estas se defronta pela natural pobre caracterizada pela barba de bode, o
primeira vez, como para o agricultor cujas terras indaiá e o pau torto.
invadem, e o engenheiro rodoviário e ferroviário Foi o fenômeno amplamente discutido nas
que vê a sua obra ameaçada. palestras do Prof. Milton Vargas, proferidas na
Segundo Teodoro Sampaio, o significado Associação de Engenheiros de Campinas, em
etimológico de “Boçoroca’’ proveniente do tupi- 1947, abordando-se na ocasião as diversas hipóte-
guarani “ibi-çoroc”, corresponde à terra rasgada ses genéticas referentes às mesmas.
ou rasgão no solo. Menção é feita ainda recentemente das boçoro-
No Dicionário Enciclopédico Brasileiro, en- cas em um trabalho sobre escorregamento do Prof.
contramos: “Bossoroca” - desmoronamento de- Karl Terzaghi, sendo consideradas neste trabalho
terminado pela ação erosiva das águas em cama- particularmente as boçorocas de Casa Branca.
das permeáveis, escavação profunda em terreno O autor deste trabalho teve oportunidade
arenoso. de estudar particularmente as boçorocas de Casa
O Dicionário contemporâneo de Caldas Aule- Branca e as dos arredores de Mococa, onde foi
te escreve “Vossoroca” - grande desmoronamento possível observar ao lado de uma boçoroca “mor-
na origem dos riachos “Causado pela escavação ta”, uma outra recentíssima em franco progresso.
das águas subterrâneas; desmoronamento causa- Reunir as observações feitas por outros às
do pela invasão das águas fluviais. do autor, com o intuito de estudar a gênese deste
Setzer, (referindo-se ao assunto) diz que as bo- fenômeno e os meios possíveis para combatê-lo,
çorocas são vales de erosão recente que se formam constitui o objetivo deste trabalho.

*Editado: Boletim da Sociedade Brasileira de Geologia – Volume 2 – maio de 1953 – nº 1

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Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

2 OCORRÊNCIA vale estreito e profundo em V com flancos muito


íngremes, sendo a parte superior geralmente de
A ocorrência das boçorocas restringe-se, coloração vermelha intensa e a parte inferior de
coma já indica a própria definição, aos terrenos uma cor muito clara rósea que a destaca nitida-
essencialmente arenosos. Assim sendo, são en- mente da camada vermelha superior. Pode esta
contradas desde o Paraná até o Triângulo Mineiro variação da cor ser brusca, como no caso apresen-
em formações geológicas diversas subordinadas tado na figura nº 1, onde a camada superior, de
tanto ao período glacial da Série Itararé-Tubarão, cor vermelha intensa, e separada da camada in-
como a outras mais recentes. Nota-se que ocorrem ferior que se caracteriza por essa coloração clara,
geralmente em terrenos pouco acidentados com quase branca, por uma camada de argila de cor
uma topografia bastante suave, o que faz com que roxa, ou ainda, quando esta camada de argila é
sejam avistadas muitas vezes somente quando se ausente, passar lentamente de vermelho a roxo e
chega próximo dos bordos das barrancas que as branco. O esquema apresentado na figura nº 1 re-
encerram. Apresenta-se então ao observador um presenta entretanto o tipo mais comum.

Figura 1 – Secção mediana de uma boçoroca.

A profundidade vai de 15 a mais de 30 me- das referidas regiões pelos primeiros coloniza-
tros e em comprimento podem alcançar várias dores. Não resta a menor dúvida, como se pro-
centenas de metros. Por vezes observam-se rami- curará, demonstrar mais adiante, que em grande
ficações em todos os sentidos, podendo estender- número de casos o elemento humano pode ser
se por áreas superiores a 1 km² como na proximi- responsabilizado, ou que pelo menos contribuiu
dade do Aeroporto de Mococa. Durante o período para a formação das boçorocas. Distinguem-se,
da estiagem o fundo do vale apresenta-se seco, de acordo com o estado de evolução que atraves-
pelo menos numa certa distância da sua raiz, po- sam as boçorocas vivas e as boçorocas mortas. As
dendo-se passar por al. Mas em época de chuva, primeiras apresentam erosão intensiva durante e
ou a uma certa distância da cabeceira, o fundo do logo após a época da chuva e nenhuma ou pou-
vale e geralmente tão mole que não permite pas- quíssima vegetação nos barrancos que formam o
sagem por ai sem perigo de afundar-se. vale. Quando, por um motivo qualquer, diminui
Quanto ao crescimento ou propagação das a erosão e os barrancos começam a cobrir-se de
boçorocas os dados que se obtêm são bastante plantas, a boçoroca entra em estado de senilidade,
confusos e pouco dignos de crédito. No caso das morrendo dentro de pouco tempo; isto é, a erosão
boçorocas da Casa Branca afirma-se serem re- cessa pouco a pouco e os taludes e fundo do vale
centes, tendo aparecido depois de instalada par passam a cobrir-se com a vegetação característica
D. João VI, naquela localidade, então fundada, a da região. As fotografias das figs. 2, 3, 4, 5, 6 e 7
primeira colônia de ilhéus. Outras, como a obser- apresentam diversos aspectos de boçorocas.
vada par Setzer, não tinha, segundo aquele autor,
mais do que dez anos, podendo ser considerada
coma recentíssima. De um modo geral, entretanto 3 FORMAÇÃO
é difícil estabelecer com certo rigor o seu início. To-
das as observações feitas indicam, contudo que o A formação das boçorocas pode ser atribuída
seu aparecimento coincide com o desbravamento ou, simplesmente, a erosão superficial, ou ainda,

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Boçorocas

o que parece ser mais comum, à ação conjunta da ‘‘A energia que mantém a água do subsolo em
erosão superficial e erosão subterrânea. As duas movimento, necessária para vencer o atrito inter-
no e que resulta da própria viscosidade, é forne-
modalidades adquirem aspecto semelhante e são, cida pela diferença de carga entre o local da to-
como se observa nas figs. 2 a 7 de difícil diferen- mada e o da descarga. De um modo geral, toda
ciação. Não se observa, no caso das boçorocas pro- partícula de água da zona de saturação move-se
venientes essencialmente da erosão superficial, de um ponto qualquer da zona de tomada, onde
o lençol freático, para um ponto onde a água e
a separação em camadas arenosas distintas pela descarregada por uma nascente, por evaporação,
interposição de uma camada argilosa. Quando par absorção pelas raízes das plantas ou ainda par
essa camada existe, a erosão subterrânea adqui- intermédio de um poço do qual é retirada. O ca-
re importância predominante podendo mesmo minho que esta partícula de água percorre, pode
ser simples e curto, nunca indo muito abaixo da
ser responsabilizada pela maioria das boçorocas
superfície do lençol freático, mas pode também
existentes. Levando-se em consideração a ação percorrer muitas e mesmo centenas de quilôme-
isolada de cada uma das formas de erosão e a sua tros por caminhos tortuosos indo à profundidade
ação em conjunto, tentar-se-á estudar as mesmas de centenas de metros de acordo com o relevo do
sob suas diversas formas de manifestação. A ero- terreno, a estratigrafia e estrutura das rochas e ou-
tras condições”.
são superficial efetua-se ou ao longo de uma linha
topograficamente favorável, ou então, o que pare-
ce ser aqui geral, ao longo de cortes artificiais no
terreno, sob forma de valas de divisa do terreno
ou estradas de carro de boi não estabilizadas. A
intensidade com que a erosão neste caso progride
depende essencialmente de três fatores:
1º) da resistência que a formação geológica opõe
ao seu desagregamento e transporte.
2º) da força viva da água dependente da vazão e
do gradiente hidráulico.
3º) das condições topográficas e do nível de base
local.
O primeiro fator é evidentemente função da
Figura 2 – Boçoroca perto de Cajuru, em formação subordi-
estrutura e mais ainda da textura do solo. Um nada a Série de S. Bento – erosão superficial predominante.
terreno siltoso ou arenoso como o que constitui
a camada superior das formações geológicas em
questão, onde é reduzido o poder aglutinante da
argila presente, oferece pequena resistência à ero-
são. Desta maneira os sulcos, vales ou cortes, se
aprofundam com relativa rapidez formando vales
de forma triangular. Caso a resistência do fundo
do canal seja grande à erosão tende a progredir la-
teralmente, mas quando alcança a camada de ar-
gila, que neste caso oferece esta resistência maior,
a força viva da água já adquiriu um poder sufi-
ciente para vencê-la. Quando o terreno apresenta
em toda a profundidade uma resistência unifor-
me condicionada essencialmente à textura do sub-
solo, progride a erosão superficial, ou até atingir
o nível de base da erosão, ou então, até cortar o
nível do lençol freático do terreno.
Moinzer, estudando a descarga das águas
do lençol freático em seu recente trabalho sobre
“Production and Control of Ground Water, diz a Figura 3 – Boçoroca perto de Mococa, em formação subordinada
respeito o seguinte: a Série Itararé – Tubarão – erosão subterrânea predominante.

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Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

a diferença entre o fundo do vale escavado e o nível


normal do lençol freático. Uma vez iniciada a erosão
subterrânea esta concorre de um modo decisivo
ao aumento e aprofundamento do vale da erosão.
Constitui esta forma de erosão verdadeiramente
tenebrosa, pois os seus efeitos são na maioria dos
casos surpreendentes e imprevisíveis. Quando as
veias experimentam em consequência de um au-
mento do fluxo um aumento correspondente de
pressão, cresce também a velocidade com que a
água passa por estas veias e encontrando possi-
bilidade de escoamento no fundo do vale esca-
vado pela erosão superficial, a arrastar as par-
tículas mais ou menos soltas que se encontram
Figura 4 – Boçoroca perto de Casa Branca. O lado esquerdo
acha-se em franco desenvolvimento e o lado direito tende à em seu caminho. Sucedem-se rupturas internas
estabilização, notando-se vegetação incipiente. com formação de galerias que aumentam pouco
a pouco em diâmetro e extensão, até que a cama-
da superior, que desta maneira perdeu o seu su-
porte, tomba fragorosamente enchendo a galeria
com for o material que se deslocou. Segue-se um
represamento da água do subsolo até que alcan-
ça força suficiente para romper o novo obstáculo,
o que às vezes sucede com grande violência. O
material no lugar torna-se movediço e escoa com
relativa facilidade reiniciando-se ao mesmo tem-
po a formação da nova galeria subterrânea. As
Figs. 8, 9 a 10 apresentam diversos aspectos rela-
tivos à formação das galerias subterrâneas numa
boçoroca Casa Branca.

Figura 5 – Aspecto de uma boçoroca com a cidade de Casa


Branca ao fundo.

Têm sido feitos esforços para distinguir entre


as descargas rápidas da água do subsolo que po-
derá promover ou prolongar enchentes e o escoa-
mento controlado que permite aos rios uma vazão
contínua durante as secas. A primeira é geralmen-
te chamada escoamento subterrâneo e o segundo
fluxo da base. Trata-se, no caso das boçorocas em
geral, evidentemente, de um escoamento subterrâ-
neo que se acentuará no local onde a erosão super-
ficial cortou o lençol freático. Neste ponto, a água
do subsolo encontrando menor resistência ao seu
escoamento, a erosão subterrânea terá o seu inicio.
Esta erosão será tanto mais intensiva quando maior Figura 6 – Boçoroca ‘‘morta’’ perto do aeroporto de Mocóca.

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Boçorocas

Figura 7 – Boçoroca perto do Aeroporto de Mocóca em fran- Figura 9 – Aspecto do fundo da cabeceira de uma boçoroca.
co desenvolvimento.
Considerando um terreno regular, com um
rio por base da erosão, procurou-se reproduzir,
numa série de quadros representados na figura
12 a sequência dos fenômenos que dão origem as
boçorocas, sob sua forma mais completa, isto é,
quando tanto a erosão superficial como a erosão
subterrânea concorrem para a sua formação. Veri-
fica-se aí que a mesma é limitada em profundida-
de pelo nível da base da erosão, no caso, o nível do
rio. De início desenvolveu-se a boçoroca ao longo
do vale ou sulco principal quase sempre na direção
de uma dessas valas de divisa de início menciona-
das. À medida que evolui podem surgir desvios da
direção inicial e ramos de irradiação que por sua
vez evoluem e que às vezes podem adquirir um as-
pecto mais impressionante que o sulco principal.
Com o progresso dos diversos ramos a água do
subsolo começa a perder a sua força principal e a
boçoroca começa a ficar estacionaria. Os barrancos
começam a cobrir-se lentamente de vegetação, si-
nal que a boçoroca está envelhecendo. Quando o
sulco estiver coberto de vegetação a boçoroca esta-
rá morta. Pode ainda acontecer que durante certa
fase de evolução da boçoroca uma outra venha a
Figura 8 – Aspecto da cabeceira de uma boçoroca, notando-
formar-se a certa distância e a um nível mais baixo.
se a separação das camadas arenosas por uma camada de Neste caso as águas tendem a correr de preferência
argila siltosa (varvítica) para esse nível mais baixo e a primeira boçoroca

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Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

começa a extinguir-se. É o caso que se observa, por


exemplo, perto do Aeroporto de Mococa, onde se
encontram duas boçorocas ligadas por uma das
valas de divisa já mencionadas e distantes uma da
outra de aproximadamente 200 metros. A primei-
ra apresentada na fig. 6 é completamente extinta
e inteiramente coberta de vegetação. A segunda,
figura n. 3. Acha-se em franca evolução.

4 MEIOS DE COMBATE

Conquanto apenas de caráter local, as boço-


rocas não somente inutilizam áreas apreciáveis de
terrenos, mas dificultam e ameaçam também as
obras de engenharia, como estradas de rodagens e
Figura 11 – Aspecto da cabeceira de uma boçoroca com
de ferro que por ventura passem por seu raio de
duas galerias de erosão subterrânea
ação. Nesse combate a esta modalidade de ero-
são não se afigura de menor importância do que
o combate a erosão do solo arável de cultura. Os Quando em seu estado inicial, poderá ser es-
remédios encontram-se em parte, e em cada caso, tacionado o seu desenvolvimento mediante uma
na própria análise do fenômeno. A primeira coisa a drenagem adequada das águas da superfície. Ha-
fazer será, portanto determinar a fase de evolução verá de qualquer forma conveniência de aterrar-se
em que a boçoroca se encontra. Quando já em es-
as valas de divisa e outras por ventura existentes,
tado estacionário, pouco ou nada há a fazer, visto
a fim de evitar a formação de enxurradas com o
que não apresenta neste estágio perigo major do
consequente perigo de erosão. Além disso, haverá
que aquele do momento e pouco ou nada se lucrará
com os diversos meios de combate. Restringir-se-á conveniência de construir-se um sistema de drena-
neste caso o trabalho, eventualmente, em assegurar gem destinado a captar as veias subterrâneas, des-
a necessária drenagem superficial a fim de evitar de que existam, de modo a controlar o escoamento
um reinício de erosão em um ou outro ponto. rápido da água pelas camadas de areia. Um dreno
francês, de fácil execução e coberto com material
do próprio barranco, resolverá, no caso, provavel-
mente, o problema. Nos dois casos considerados a
solução do problema é relativamente simples, efi-
ciente e pouco onerosa. Quando se trata, todavia do
caso intermediário correspondente a uma boçoroca
em plena evolução, a solução do problema já é mais
difícil. A drenagem dos diversos filetes de água
do subsolo é, nesta fase, já bastante cara, pelo que
devem ser levados em consideração outros meios.
Um consistiria em construir barreiras artificiais ao
longo do vale de erosão por meio de muros de pe-
dra ou então cortinas de estacas pranchas capazes
de cortar o caminho do solo e água em movimento.
Estes trabalhos poderão, e devem em certos casos,
ser acompanhados por uma redução do ângulo do
talude dos barrancos, podendo o material ser usado
para encher os espaços entre as barreiras levanta-
Figura 10 – Aspecto da boca da galeria de erosão subterrâ- das. Haverá naturalmente conveniência de cuidar-
neas de uma boçoroca. se em qualquer caso da drenagem superficial. Desta

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Boçorocas

maneira reduzir-se-á grandemente, senão por com- de erosão o que corresponderá, considerando o ní-
pleto, a ação da água subterrânea e a da superfície; vel do fundo da cabeceira da boçoroca, a aproxima-
a boçoroca extinguir-se-á. Um outro meio, levando damente 4 a 5 metros.
em consideração particularmente a ação perniciosa Haveria a considerar ainda, para o efeito do
da água do subsolo, seria a construção de um ou abaixamento do lençol freático o emprego do siste-
vários poços na cabeceira da boçoroca. Fazendo-se ma de ‘‘Wellpoints’’ que, conquanto mais caro, seria
escoar, por meio de uma bomba, a água que aflui de mais fácil instalação e permitiria melhor controle
nesses poços esta poderia perfeitamente utilizada do nível da água do subsolo em qualquer fase.
para fins de irrigação ou mesmo de abastecimento. Quando se trata de uma boçoroca de erosão su-
Desta maneira o lençol freático poderá ser abaixa- perficial com reduzida ação da água do subsolo, con-
do na zona interessada até o nível da base da ero- seguir-se-á estacioná-la o controle das águas que pos-
são, e a água do subsoIo cessará de ser prejudicial; sam acumular-se na superfície. Em todos esses casos
pois não havendo mais erosão subterrânea apenas de estabilização de taludes e vales de erosão há ainda
a erosão superficial, no caso de menor importância, a considerar o emprego de plantas de raízes profun-
precisa ser combatida e a boçoroca extinguir-se-á das tais como o bambu, sendo a plantação desses fi-
por si. Deveriam estes poços atingir uma profundi- xadores de terreno particularmente indicada quando
dade correspondente pelo menos ao nível da base uma boçoroca se acha em sua fase inicial.

PICHLER - BOÇOROCAS

Figura 12 – Formação de uma boçoroca.

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Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

BIBLIOGRAFIA pio de Campinas — Revista Brasileira de Geogra-


fia, Março 1942.
BENDEL, L. — Ingenieur Geologia, Verlag. Springer
- 1944. TERZAGHI, Karl - Mechanics of Landalides - Apli-
cation of Geology to Engineering Practice - The
MEINZER, O. E. — Production and Control of Geological Society of America 1950.
Ground Water - Aplication of Geology to Engi-
neering Practico — Geological Society of Ameri- TERZAGHI, Karl - Theoretical Soil Mechanics -
ca, 1950. Wiley and Sons 1943.

PICHLER, Ernesto - Elementos básicos do Geologia VARGAS, Milton — Palestras sobre a aplicação da
Aplicada – Separata do Bolet’m do D.E.R. (Bols. Geologia e Mecânica dos Solos à Construção de Estra-
46-52) — São Paulo — 1949. das de Ferro, promovidas pela Comissão de Obras
Novas da Cia. Mogiana de Estradas de Ferro em
SETZER, Jose - O Estado atual dos Solos do Municí- 1949.

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RBGEA
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GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
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Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
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APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA
DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO
DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA*

LORENZ DOBEREINER (In memorian)

FERNANDO PIRES DE CAMARGO


Geólogos ENGE-RIO Engenharia e Consultoria S.A.

ALARICO A.C. JÁCOMO


Geólogo Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A. - ELETRONORTE

RESUMO
A caracterização geomecânica preliminar do maciço granítico de fundação das estruturas de concreto, para o Projeto
de Viabilidade da UHE de Cachoeira Porteira, foi executada a partir de uma metodologia específica. Além das in-
vestigações convencionais, foram realizadas descrições quantitativas de descontinuidades em afloramentos e ainda
foram executados ensaios-índice para uma caracterização quantitativa e expedita do maciço. Com dados de campo
foram efetuadas análises estatísticas dos resultados que permitiram uma maior confiabilidade na atribuição dos
parâmetros a serem utilizados na elaboração do modelo geomecânico da fundação.

1 INTRODUÇÃO

Para uma adequada caracterização geome- A área de implantação da UHE de Cacho-


cânica de maciços rochosos, é importante que se eira Porteira localiza-se a aproximadamente 400
obtenham informações quantitativas das proprie- km NE de Manaus, no rio Trombetas. O Projeto
dades do maciço, tanto de suas descontinuidades, de Viabilidade, em execução pela ENGE-RIC,sob
como também da massa rochosa, sendo necessário contrato da ELETRONORTE, encontra-se pratica-
para tal uma descrição quantitativa das desconti- mente concluído.
nuidades, consubstanciada com ensaios expeditos A geologia do local de implantação do pro-
que forneçam resultados-índice a baixos custos. jeto foi descrita por PUPO et alii (1986). A área
A metodologia utilizada para caracterização encontra-se no contato norte das rochas sedimen-
geomecânica do maciço rochoso no Projeto de tares da Bacia Amazônica com a sequência vul-
Viabilidade da UHE de Cachoeira Porteira tem cânica pré-cambriana do grupo Iricoumé e com
como orientação a utilização deste procedimento granitóides Mapuera.
para obtenção dos dados de campo, de maneira O presente trabalho enfoca apenas as ro-
rápida e eficiente. chas granitóides Mapuera, as quais constituem
Considerou-se que estes estudos realizados as fundações das estruturas de concreto da 1ª
já na Fase de Viabilidade auxiliaram na definição etapa do Projeto da UHE de Cachoeira Porteira.
do melhor eixo de barragem, assim como forne- As estruturas de concreto serão todas fundadas
ceram os parâmetros necessários para estudos sobre o maciço granítico, que de maneira geral
preliminares de estabilidade das estruturas e dos apresenta características favoráveis à implanta-
eventuais tratamentos necessários. ção das obras.

* Editado: Anais do 5º Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia – Volume 1 – outubro de 1987.

17
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Na caracterização deste maciço de fundação derão constantemente ser verificadas as premissas


merecem destaque duas feições, consideradas adotadas nas fases anteriores.
desfavoráveis, quais sejam: a falha de direção N-S, As principais etapas desta metodologia são
subvertical, que condicionou a erosão do canal descritas a seguir, enfatizando-se apenas os levan-
profundo do rio, no eixo do barramento, e as pos- tamentos de campo não-convencionais execute
síveis descontinuidades suborizontais originadas dados para a caracterização geomecânica.
pelos processos de alívio de tensão que sofreu o
maciço rochoso.
3 DESCRIÇÃO QUANTITATIVA DE
DESCONTINUIDADES
2 SEQUÊNCIA DE DESENVOLVIMENTO
DAS ATIVIDADES
3.1 Afloramentos
A caracterização geomecânica do maciço gra-
nítico de fundação das estruturas de concreto foi Os parâmetros das descontinuidades descritos,
realizada segundo uma sequência lógica de exe- bem como as graduações nas diferentes classifica-
cução dos trabalhos, conforme fluxograma ilus- ções, são aqueles recomendados pela Sociedade In-
trado na figura 1. ternacional de Mecânica das Rochas (ISRM, 1978).
O mapeamento geológico de superfície, efe- O levantamento nos afloramentos foi realiza-
tuado na forma convencional, a partir de dados do a partir de observações ao longo de uma linha
da bibliografia e métodos de sensoriamento remo- de no mínimo 3 m, posicionada em local represen-
to, foi detalhado com o reconhecimento de super- tativo do afloramento. Para cada afloramento fo-
fície. Durante este trabalho no campo, iniciou-se ram realizadas no mínimo duas linhas perpendi-
uma descrição quantitativa de descontinuidades culares entre si. Este procedimento permitiu uma
preliminar que juntamente com o mapeamento e amostragem estatística do maciço, já que foram
os levantamentos geofísicos forneceram subsídios realizadas descrições detalhadas das descontinui-
para programação das sondagens rotativas. dades em vários pontos. Os parâmetros conside-
As sondagens rotativas com orientação de rados para cada descontinuidade foram:
testemunhos foram executadas simultaneamen- ■■ direção do mergulho;
te à descrição quantitativa de descontinuidades, ■■ ângulo de mergulho;
efetuada nos afloramentos existentes. Os testemu- ■■ distância na linha;
nhos orientados foram descritos com o auxílio de ■■ persistência;
resultados de ensaios- índice de resistência com- ■■ rugosidade;
pressão puntiforme e resistência ao cisalhamento ■■ resistência das paredes;
direto em descontinuidades. Esses parâmetros em ■■ abertura;
conjunto foram os subsídios necessários para a ■■ preenchimento (mineralogia, granulometria
atribuição preliminar dos parâmetros de resistên- e resistência);
cia e deformabilidade do maciço rochoso e conse- ■■ condições de percolação.
quente elaboração do modelo geomecânico.
Os dados das descontinuidades levantados fo- Foram registrados ainda dados gerais de cada
ram sucessivamente armazenados em um banco de afloramento:
dados em computador, possibilitando que as for- ■■ grau de alteração do maciço rochoso;
mações fossem complementadas e detalhadas com ■■ número de famílias de descontinuidades;
o progresso dos trabalhos. A criação de um banco de ■■ espaçamento das fraturas;
dados na fase inicial é de grande utilidade, pois as ■■ resistência do material rochoso.
características quantitativas das descontinuidades e
da rocha intacta são obtidas esparsamente, permi-
É importante enfatizar que as escalas das ob-
tindo assim, desde o princípio o aproveitamento de
servações de campo em afloramentos, bem como
todas as informações, com o acúmulo de um maior
número de dados, e consequentemente uma análi- a qualidade e representatividade das descrições,
se estatística mais representativa do maciço rocho- são funções das limitações de tamanho das expo-
so. Com a evolução do projeto em outras fases, po- sições do maciço rochoso amostrado.

18
Caracterização geomecânica do maciço rochoso de fundação da uhe cachoeira porteira

Figura 1 – Metodologia para caracterização de maciços rochosos.

19
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

3.2 Testemunhos de sondagens A figura 2 apresenta todos os dados obtidos


nos afloramentos de granito na zona de fundação
Com base nos testemunhos de sondagens ro- das estruturas de concreto.
tativas orientadas, foi efetuada uma descrição do
maciço rochoso em subsuperfície, também segun-
do norma da Sociedade Internacional de Mecânica 4 PARÂMETROS DETERMINADOS POR
das Rochas (ISRM, 1978). Os Parâmetros descritos ENSAIOS-ÍNDICE
das descontinuidades foram:
■■ orientação;
4.1 Resistência à compressão puntiforme ( Is )
■■ rugosidade;
■■ resistência das paredes; Os ensaios de resistência à compressão punti-
■■ espaçamento. forme foram executados no laboratório de campo
e seguiram as recomendações da Sociedade Inter-
Tem-se como grande limitação a dificuldade nacional de Mecânica das Rochas (ISRM, 1985).
de se determinar a persistência e a abertura destas Estes ensaios permitiram uma caracterização
descontinuidades. No âmbito do maciço rochoso expedita e econômica do material rochoso, não
foram determinados: envolvendo maiores requintes na preparação das
■■ estado de alteração, amostras a serem ensaiadas.
■■ resistência do material rochoso. Em virtude da quase totalidade das funda-
ções e das estruturas de concreto projetadas es-
tarem sobre o granito, nele foram executados 132
3.3 Análise e interpretação de dados ensaios nesta fase do projeto. Utilizou-se o carre-
gamento diametral, sendo rejeitados os resultados
Com a utilização de um banco de dados e um
atribuídos aos planos de fratura pré-existente; in-
programa de computador específico para análi- cipientes ou semi-selados.
se de descontinuidades, é possível se traçar, em A figura 3 mostra a distribuição em frequên-
“plotter”, estereogramas, permitindo uma analise cia dos valores determinados. Os valores de re-
rápida da geometria das descontinuidades. sistência não apresentaram aumento significa-
Inicialmente, as atitudes (direção e mergulho) tivo com a profundidade, estando à média dos
das descontinuidades foram plotadas em estereo- resultados entre 10 e 11MPa. Correlacionando-se
gramas representando todos os pontos individu- a média dos valores obtidos com os dados da
ais de amostragem (afloramentos e sondagens). compressão uniaxial (σC ), obteve-se a relação σC =
Em uma segunda etapa são plotados os estereo- 22,4 Is, que fica dentro da faixa média menciona-
gramas representando áreas ou profundidades da acima, aceita pela Sociedade Internacional de
selecionadas de acordo com dada estrutura ou Mecânica das Rochas.
escavação proposta. Finalmente, foi plotado um Particularmente, para as amostras de granito
estereograma com todas as descontinuidades dos ensaiadas, constatou se uma menor dispersão nos
afloramentos a medidas obtidas em sondagens resultados quando comparados aos valores dos
orientadas, subdivididas por tipo litológico, ou ensaios de compressão uniaxial.
em limites de profundidade, de maneira a carac-
terizar as diferentes famílias de descontinuidades
presentes em todo maciço rochoso. 4.2 Resistência ao cisalhamento das
Uma vez determinadas as famílias de descon-
descontinuidades
tinuidade presentes em uma determinada área ou Os ensaios de cisalhamento direto foram exe-
entre limites de profundidade pré-selecionados, fo- cutados de acordo com a metodologia proposta
ram estudadas as propriedades de cada família. por ROSS-BROWN e WALTON (1974) e que se
Para cada família de descontinuidade foram aplica na avaliação da resistência ao cisalhamento
feitos histogramas de frequência “versus’’ abertu- em descontinuidades de testemunhos de sonda-
ra, espaçamento, persistência, rugosidade, resis- gem. . Na preparação dos corpos de prova, utiliza-
tência das paredes e percolação, permitindo ca- ram-se testemunhos de sondagens com diâmetros
racterizar estatística mente as propriedades mais Hx (7,62 cm) e Nx (5,47 cm) que foram moldados
representativas e/ou críticas. em argamassa sem saturação previa.

20
Caracterização geomecânica do maciço rochoso de fundação da uhe cachoeira porteira

A metodologia de ensaio escolhida foi a de As tensões normais aplicadas foram da or-


múltiplos estágios, na qual houve três incremen- dem de 0,2; 0,4; 0,6 e 0,8 MPa, sendo escolhidas
tos de tensão normal, que foram incorporados a em função das solicitações a que o maciço rochoso
inicial. Não houve, entretanto, descarregamento será submetido. A metodologia básica utilizada
da amostra ao final de cada estagio. na execução dos ensaios e descrita a seguir:

Figura 2 – Características das Descontinuidades.

21
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Figura 3 – Granito – Ensaios de compressão puntiforme – Histograma de freqüência.

Figura 4 – Granitos – Resultados dos ensaios de cizalhamen- Figura 5 – Granitos – Ensaio de cizalhamento direto em
to direto em descontinuiades com paredes sãs. descontinuiades com paredes alteradas.

Figura 6 – Granitos – Resultados dos ensaios de cizalhamento


direto em descontinuiades com paredes portadoras de clorita.

22
Caracterização geomecânica do maciço rochoso de fundação da uhe cachoeira porteira

■■ após a colocação da amostra (embutida no 5 DETERMINAÇÃO EMPÍRICA DE


respectivo molde) no equipamento de cisalha- PARÂMETROS GEOMECÂNICOS
mento direto, a tensão normal é incrementada
até chegar a aproximadamente 0,2 MPa. Jun-
tamente com o aumento da tensão cisalhante 5.1 Parâmetros atribuídos para maciços sem
são observados os deslocamentos nesta dire- a presença de descontinuidades dominantes
ção até chegar a um nível de tensão de pico
em que os deslocamentos são grandes (apro- Nos casos em que a resistência do maciço ro-
ximadamente 2 a 3 mm). Concluindo-se o choso foi determinada para potenciais superfícies
primeiro estágio tensão normal é novamente de ruptura aleatórias no maciço rochoso e não por
aumentada para o nível subsequente e reinicia uma zona ou descontinuidade principal menos
se o processo de carregamento da tensão cisa- resistente, foi utilizado o critério de ruptura em-
lhante com a observação dos deslocamentos. pírico proposto por HOEK e BROWN (1980). Este
São executados estágios sucessivos até seja critério base ia-se na expressão do tipo:
constatado um deslocamento da ordem de
1,0 cm, no qual já existe uma mudança muito
grande na área da superfície ensaiada.

Dentre as fatores que podem resultado deste onde m e s são constantes das características do
ensaio estão tanto as que dizem respeito ao mate- maciço rochoso, que podem ser obtidas a partir da
rial rochoso (granulometria, mineralogia, teor de classificação de maciços rochosos proposta por
umidade, etc.) como os característicos da própria BIENIAWSKI (1976) e pela classificação do tipo
descontinuidade (material de preenchimento, ru- litológico (HOEK e BROWN, 1980) a resistência à
gosidade das paredes, etc.) A rugosidade das pare- compressão uniaxial.
des e, normalmente, o parâmetro que causa maior Pelas características do litotipo presente nas
dispersão nos resultados. BARTON E CHOUBEY fundações, o maciço granítico foi classificado
(1977) associaram perfis de rugosidade de juntas como sendo uma rocha ígnea de granulação mé-
às faixas de coeficientes de rugosidade (JRC), sen- dia a grossa, segundo HOEK e BROWN (1980).
do essa classificação utilizada para caracterizar in- A determinação das características do maciço
dividualmente as descontinuidades ensaiadas. de fundação para as estruturas, obtidas co, a utili-
Nas figuras 4, 5 e 6 são apresentadas as envol- zação da classificação de BIENIAWSKI (1976), bem
tórias de resistências máximas, médias e mínimas como sua classificação final e dos respectivos valo-
de descontinuidades em granito. As superfícies res de m e s, são apresentados nos quadros 1 e 2.
das descontinuidades foram subdivididas em: sãs, Face à curvatura pronunciada das envoltórias
alteradas e com película de clorita. Nos resultados de resistência, os parâmetros de coesão foram de-
obtidos, constatou-se uma tendência no aumento terminados para tensão normal entre 0,1 e 0,6 MPa,
dos valores Ø e C, associados ao crescimento dos o que corresponde aproximadamente a faixa de
índices de JRC, sendo este fator por vezes mais re- tensão a que será submetido o maciço rochoso.
levante até mesmo que o estado de alteração das
paredes. As figuras 4 e 5 demonstram a conclusão
anteriormente citada. O fato das descontinuidades 5.2 Parâmetros atribuídos para descontinui-
com paredes sãs terem mostrado, em média, resis- dades dominantes de maior persistência
tências ligeiramente inferiores as descontinuidades
Nos casos em que o comportamento geome-
com paredes alteradas, se dá claramente pelo fato
cânico gerado por uma descontinuidade princi-
da maior parte das descontinuidades de paredes
pal de maior persistência, foi utilizado o critério
sãs apresentarem rugosidade menor.
empírico de BARTON e CHOUBEY (1977), que se
Constatou-se também que as descontinuida-
baseia na seguinte equação:
des com menor resistência são aquelas que apre-
sentam uma película de clorita que diminui o atri-
to entre as paredes sãs.

23
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

onde JRC é o coeficiente de rugosidade da junta, e Ø = 40), além de se considerar que estas feições
JCS é a resistência à compressão da parede da jun- são persistentes ao longo de todo o bloco,
ta e Øb o ângulo de atrito básico.
Nas possíveis descontinuidades suborizon-
5.3 Módulo de deformabilidade
tais persistentes na fundação do muro de tran-
sição direito e vertedouro, foi estimado por este Os módulos de deformabilidade do maciço
critério um ângulo de atrito de pico de aproxima- rochoso foram estimados tendo como base a corre-
damente 50º e uma coesão aparente de 0,04 MPa, lação empírica com a classe de maciço rochoso de-
considerando-se o coeficiente de rugosidade da finido pela classificação BIENIAWSKI (1976), con-
junta (JRC) igual a 8, a resistência da parede da forme proposto por SERAFIM e PEREIRA (1983).
descontinuidade 2.00 MPa e Øb de 32°. No quadro 2 são apresentados os valores
Entretanto, os resultados obtidos nos ensaios adotados para módulos de deformabilidade dos
maciços de fundação de cada uma das estruturas
de cisalhamento direto, nos testemunhos de son-
de concreto.
dagens, foram inferiores, tendo-se finalmente atri-
Dadas as características geomecânicas favo-
buído, no modelo geomecânico, os valores de Ø =
ráveis do maciço rochoso, pode-se prever que não
45º e c= 0,1 MPa para estas descontinuidades. haverá problemas quanto à deformabilidade da
Nas possíveis descontinuidades persistentes fundação das estruturas de concreto, Mesmo na
de paredes alteradas, que ocorrem na fundação zona do canal profundo, onde o maciço se apre-
do muro de transição esquerdo, dada a dificulda- senta muito fraturado, pode-se estimar valores da
de de se estimar a resistência das paredes, foram ordem de 10 GPa para o seu módulo de deforma-
adotados os valores considerados representativos bilidade, que é satisfatório, em função dos níveis
obtidos nos ensaios de laboratório (c = 0,25 MPa de tensão que atuarão na fundação.

Quadro 1 - Classificação geomecânica do maciço rochoso parâmetros na classificação de Bieniawski.

ESPAÇAMEN- CONDIÇÃO CARACTE- AJUSTE


RESISTÊNCIA
TO DAS DES- DAS DES- RÍS-TICAS PARA
À COMPRESSÃO RDQ TOTAL
CONTINUIDA- CON-TINUI- HIDRO-GE- ORIEN-
ESTRUTURA SIMPLES PARA
DES DADES OTÉCNICAS TAÇÃO
PONTOS
PON- PON- PON-
c (MPa) (%) (CM) PONTOS PONTOS PONTOS
TOS TOS TOS
Muro de transição
esquerdo e tomada
d`água (blocos 1 75 30
a 4) > 200 15 a 17 a 20 20 7 -25 54
90 100

Granitos são
Muro de transição
esquerdo e tomada
d água (blocos 1
e 4) 100 50 30
a 12 a 13 a 12 12 7 -25 31
Granito com fra- 200 75 100
turas de paredes
alteradas - super-
ficiais
Tomada d´ádua
(blocos 2 e 3) 5
> 200 15 < 25 3 a 10 20 7 -25 30
Zona de falha em 30
granito são
Vertedouro e muro
de transição direito 50 5
> 200 15 a 13 a 10 20 7 -15 60
75 30
Granitos são

24
Caracterização geomecânica do maciço rochoso de fundação da uhe cachoeira porteira

Quadro 2 - Atribuição de parâmetros geomecânicos ao maciço rochoso.

PARÂMETRO Ø E
DA EQUAÇÃO
PONTUAÇÃO Oc (2)
Estrutura Característica C (O) (GPa)
(1) (MPa)
(m) (s) (3) (4)

Muro de transição esquerdo e Perturbado por esca-


230 0,93 0,0005 0,6 57 30
tomada d’água (blocos 1 e 4) vações a fogo
54

Granito são Não perturbado 230 1,0 0,0007 1,0 57 35

Muro de transição esquerdo e Perturbado por esca-


180 0,18 0,00001 0,3 45 8
tomada d´água (blocos 1 e 4) vações a fogo
31
Granito com fraturas de paredes Não perturbado 180 0,20 0,0001 0,5 45 10
alteradas - superficial

Perturbado por esca-


Tomada d´água (blocos 2 e 3) 230 0,17 0,00001 0,2 45 8
vações a fogo
30
Zona de falha Não perturbado 230 0,19 0,00005 0,4 45 10

Vertedouro e muro de transição Perturbado por esca-


230 0,60 0,0002 0,3 56 30
direito vações a fogo
50

Granito são Não perturbado 230 0,75 0,0002 0,7 56 35

(1) Segundo classificação de maciços rochosos apresentada na quadro 1.


(2) Constantes de equação do critério empírico de HOEK e BROWN.
(3) C e Ø determinados a partir de pares de valores de o1 e o3
(4) Modelo de elasticidade do maciço rochoso estimada com base no critério de SERAFIM e PEREIRA.

6 MODELO GEOMECÂNICO DO MACIÇO de maciços rochosos, permite um melhor abali-


ROCHOSO zamento das definições dos parâmetros geome-
cânicos de maciços rochosos. Estes parâmetros,
A figura 7 apresenta os modelos geomecâ- assim obtidos, podem ser reavaliados de modo
nicos preliminares das fundações das principais coerente, durante o prosseguimento dos estudos
estruturas de concreto, concebidas conforme me- e investigações, com sensível redução do subjeti-
todologia descrita nos itens anteriores. vismo inerente ao processo. Podem, também, ser
Esta metodologia, calcada em resultados-índi- comparados com os de outras obras, onde o mé-
ce obtidos de ensaios expeditos e na aplicação de todo venha a se aplicar, facilitando o intercâmbio
critérios empíricos de resistência e deformabilidade de experiências.

25
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Figura 7 – Modelos geomecânicos

26
Caracterização geomecânica do maciço rochoso de fundação da uhe cachoeira porteira

Agradecimentos uniaxial compressive strength and deformability


of rock materials. In: BROWN, E.T. Rock Charac-
Os autores agradecem as Centrais Elétricas do Nor- terization Testing EMonitoring. Oxford, Perga-
te do Brasil S.A. (ELETRONORTE) a permissão da mon Press, 1981. p. 113-16:
publicação deste trabalho e a todos os técnicos que, de
uma forma ou de outra, participaram da elaboração e ISRM - International Society for Rock Mechanics
construção deste estudo. (1985). Suggested Method for determining point
load strength. In: J.Rocks Mech.Min. Sci e Geo-
mech. Abstr., Vol. 22 (2); P. 51-60.
BIBLIOGRAFIA
PUPO, G; SCARMINIO, M.; RIBEIRO,
BARTON, N. e CHOUBEY, V. (1977) The Shear
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Rock Mechanics. Vol. 10/1-2.
Cachoeira Porteira Dam”. Anais do 5º Congresso
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ROSS-BROWN, D.M.C. WALTON G.,- (1975) A
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SERAFIM, S.L. e PEREIRA, J.P. (1983) Considera-
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Eng. Div. ASCE, Vol. 106 NGT 9, P. 1013-1035.
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ISRM - International Society of Rock Mechanics and undergroud construction, Lisboa, Vol. 1, II
(1978). Suggested. methods for determining the 33 a.42.

27
1
2
RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
Av. Prof. Almeida Prado, 532 – IPT (Prédio 11) 05508-901 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3767-4361 - Telefax: (11) 3719-0661 - E-mail:abge@ipt.br - Home Page: http://www.abge.com.br

DIRETORIA - GESTÃO 2009/2011


Presidente: Fernando Facciolla Kertzman
Vice-Presidente: Gerson Salviano de Almeida Filho
Diretora Secretária: Kátia Canil
Diretor Financeiro: Luiz Fernando D`Agostino
Diretor de Eventos: Elisabete Nascimento Rocha
Diretor de Comunicação: Marcelo Fischer Gramani

CONSELHO DELIBERATIVO
Elaine Cristina de Castro, Elisabete Nascimento Rocha, Fabio Canzian da Silva, Fabrício Araújo Mirandola, Fer-
nando Facciolla Kertzman, Fernando Ximenes T. Salomão, Gerson Almeida Salviano Filho, Ivan José Delatim,
Kátia Canil, Leonardo Andrade de Souza, Luiz Antonio P. de Souza, Luiz Fernando D’Agostino, Marcelo Fis-
cher Gramani, Newton Moreira de Souza, Selma Simões de Castro.

NÚCLEO RIO DE JANEIRO


Presidente: Nelson Meirim Coutinho - Vice-Presidente: Antonio Queiroz
Diretor Secretário: Eusébio José Gil - Diretor Financeiro: Cláudio P. Amaral
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NÚCLEO MINAS GERAIS


Presidente: Maria Giovana Parizzi - Secretário: Frederico Garcia Sobreira
Tesoureiro: Luís de Almeida P. Bacellar - Diretor de Eventos: Leonardo A. Souza
End.: Univ. Fed. de Ouro Preto - Depto. Geologia - 35400-000 – Ouro Preto/MG
Fone: (31) 3559.1600 r 237 Fax: (31) 3559.1606 –

REPRESENTANTES REGIONAIS UF

ROBERTO FERES AC
HELIENE FERREIRA DA SILVA AL
JOSÉ DUARTE ALECRIM AM
CARLOS HENRIQUE DE A.C. MEDEIROS BA
FRANCISCO SAID GONÇALVES CE
NORIS COSTA DINIZ DF
JOÃO LUIZ ARMELIN GO
MOACYR ADRIANO AUGUSTO JUNIOR MA
ARNALDO YOSO SAKAMOTO MS
KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
O BRASIL E A GEOLOGIA NO
PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO*

FERNANDO LUIZ PRANDINI (In memorian)


Geólogo da Divisão de Minas e Geologia Aplicada do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas do Estado de São Paulo S/A - IPT.

A economia mundial impõe aos países, em aos recursos não renováveis e aproveitamento cri-
desenvolvimento, notadamente os situados na fai- terioso dos recursos renováveis.
xa tropical e intertropical, uma escala de produção
acelerada, onde mais e maiores áreas são solicita-
1 USO DAS TERRAS TROPICAIS, UMA
das. A tecnologia utilizada nesta verdadeira gin-
COLONIZACAO INADEQUADA
cana econômica, e proveniente em grande escala
de países desenvolvidos, cujas condições diferem As condições ambientais herdadas do pro-
em muito das apresentadas pelos países em desen- cesso inicial de colonização são hoje críticas, tor-
volvimento. Mesmo quando os resultados, a cur- nando onerosas diversas atividades de ocupação
to prazo, se revelam satisfatórios, a médio e longo territorial, que no início da implantação se mostra-
prazo, os saldos são no mínimo preocupantes. vam lucrativas e florescentes. O advento de recur-
Ao contrário do que aparenta, os problemas sos tecnológicos que permitem empreendimentos
de degradação ambiental não são exclusivos de cada vez mais arrojados, envolvendo a utilização
países de ocupação antiga. O Brasil, apesar de sua de áreas e recursos financeiros sucessivamente
juventude, já apresenta extensas áreas onde a de- maiores, com a solicitação de benefícios cada vez
gradação já se instalou. O pouco alarde que tais mais premente, não permite as margens de erro
fatos ainda suscitam, deve-se à baixa densidade e tradicionalmente aceitas.
alta mobilidade das populações de tais áreas. O preço do erro, além da perda do capital
Para bem cumprir o papel histórico reserva- investido, pode ser o aniquilamento dos recursos
do ao Brasil, urge a elaboração de um arsenal tec- naturais (depauperação dos solos, esgotamento
nológico, no qual as técnicas para o melhor uso das águas, modificações climáticas). Isso provoca a
territorial têm, sem sombra de dúvida, uma posi- ruína de populações inteiras que, com o abandono
ção de destaque. das atividades produtores e consequentes proble-
Um novo ramo da Geologia, a Geologia de mas sociais, causam pesados ônus à administração
Planejamento, com algum retardo, se introduz hoje do país. A repetição dos insucessos do passado no
no Brasil. A participação da geologia em planeja- uso territorial seria, atualmente, catastrófica.
mentos territoriais e urbanos requer para sua im- A erosão elimina, ano após ano, grandes par-
plantação o uso de tecnologia adequada ao nosso celas de solo arável, dificultando, ou mesmo im-
meio físico e nossas condições de país em proces- pedindo, atividades agrícolas, ocupação urbana
so de desenvolvimento. obras de transporte. O consequente assoreamento
Os obstáculos para a implantação deste novo dos cursos d’água e reservatórios prejudica a pes-
ramo da geologia de engenharia devem ser venci- ca e navegação continentais e compromete hidre-
dos a curto prazo, para permitir o uso responsável létricas e sistemas de abastecimento d’água. Mo-
dos recursos naturais, garantindo vida longa e útil vimentos de terra em grandes extensões, ou mais

* Editado: Anais do 1º Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia – Volume 3 – maio de 1976

29
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

localizados (erosões, escorregamentos), apresen- Em nosso país já se fazem sentir os efeitos de


tam saldos catastróficos, quando atingem aglome- intensa degradação, envolvendo grandes porções
rações urbanas e outras obras civis. O esgotamento de território, paralelamente a uma somatória res-
e malbarato dos recursos hídricos vêm estagnando peitável de acidentes e problemas localizados.
a urbanização e industrialização, mesmo em regi- Dois fatores principais se integram para a ocor-
ões onde a água é tida como abundante. rência deste paradoxo aparente, que é a degrada-
No mundo todo, o uso inadequado de gran- ção ambiental de um país em processo de ocupa-
des áreas, seguido ou não de degradação, já afeta ção: de um lado, o próprio histórico da ocupação;
mortalmente populações inteiras. Para tais popu- e de outro, as reações desconhecidas de certos am-
lações o uso predatório de recursos naturais como bientes tropicais. Mesmo quando não guiada pelo
o solo arável e a aqui subterrânea, pode represen- espírito predatório, ocupação utilizou e ainda uti-
tar a sua condenação à morte. A maior parte des- liza métodos muitas vezes incompatíveis com as
tes países, além da população crescente, enfrenta terras tropicais.
graves desequilíbrios nas suas forças de produção. A conservação dos conceitos introduzidos
Automatiza-se a extração mineral, mecaniza-se e pelo colonizador, reforçada pela influência cons-
se sofistica a lavoura e se latifundiariza a proprie- tante de civilizações de regiões frias ou tempe-
dade rural. Novas atividades agrícolas tomam os radas, resultou numa atuação mecânica, onde as
campos de cultura. Tais fatos, tendo como conse- pesquisas e recomendações inovadoras não en-
contram apoio nem eco. Colaborando com a ma-
quência a extinção da propriedade familiar e do
nutenção de tais preceitos tradicionais, a nossa
extrativismo primitivo, resultam num grande ex-
grande extensão territorial tem permitido a trans-
cedente de mão de obra. Paralelamente ora como
lação de atividades rurais ou extrativistas para
causa, ora como consequência, crescem a urbani-
“terras virgens’, mascarando os fracassos, man-
zação e a industrialização.
tendo, quando muito, empreendimentos extensi-
Desse modo, expõem-se hoje áreas cada dia
vos, que seriam considerados inviáveis frente a
maiores a intensa solicitação, proveniente tanto
outras realidades econômicas.
da exploração agrícola, quanto da implantação de
Inúmeros casos nacionais podem ser citados,
obras civis; entretanto, o grau de conhecimento
exemplificando a falta de critério no aproveita-
quase nunca acompanha a intensificação do uso
mento dos recursos naturais. Um dos casos mais
do meio físico. Há ainda que se ressaltar o fato
próximos no espaço e no tempo é o que ocorreu
de que normalmente não há, por parte das forças
nas últimas décadas em grandes áreas do Noro-
produtoras, maior interesse em se aprofundar o este do Estado do Paraná, onde não se fez distin-
conhecimento, além do necessário para garantir o ção entre a “terra roxa”, proveniente de rochas
retorno, a curto prazo, do investimento e proven- basálticas, e os solos arenosos que cobrem o are-
tos almejados. nito Caiuá, de cor semelhante. Este último solo,
A maior parte dos países, onde este quadro de grande fertilidade inicial, teve um rápido
se mostra com poucas variações, são países situa- exaurimento e, posteriormente, de suas caracte-
dos na faixa tropical ou intertropical; tais regiões rísticas, manifestou fenômenos de erosão e asso-
são hoje tomadas de assalto pelo desenvolvimento; reamento, de tal forma crescentes, que hoje são
tecnologia moderna e exótica largamente aplicada considerados como problemática de difícil solu-
para acelerar e otimizar a curto prazo, a produção. ção e localmente como verdadeiras tragédias. A
A maior parte das respostas a estas solicitações são região mais afetada perfaz uma área de aproxi-
desconhecidas. Algumas reações altamente desfa- madamente 30.000 km2, somente no Estado do
voráveis do meio físico encontram convenientes Paraná. Nesta mesma região e em vastas áreas
explicações nos fenômenos climáticos ou geológi- do Sul e Sudeste a erosão urbana afeta o cresci-
cos de larga escala. A parcela de culpa que cabe à mento de centenas de municípios.
forma de uso territorial, quando suscitada, e redu- A locação tradicional de cidades em altos to-
zida quase sempre a dimensões inexpressivas. pográficos faz com que as águas pluviais e servidas

30
O Brasil e a geologia no planejamento territorial e urbano

sejam lançadas em drenagens temporárias ou per- gressivo do núcleo habitacional de Laguna - SC,
manentes, cujos leitos se constituem em material que até 1975 já tinha 7 de suas residências total-
inconsolidado. O incremento de vazão inicia um mente cobertas pelas dunas. As disponibilidades
processo erosivo, em geral remontante, que se de- de água, tanto para uso urbano como industrial,
senvolve rumo ao núcleo urbano, colocando em são via de regra consideradas do ponto de vista
risco ou destruindo toda sua infraestrutura. de uso imediato, sem uma previsão realista de
A ocupação indiscriminada de encostas, ala- uma maior demanda futura, nem tampouco na
gadiços e outros terrenos problemáticos e outra manutenção dos recursos existentes. Exemplo
fonte de acidentes e problemas “insolúveis” da claro e atual de tal situação é encontrado na
urbanização. As causas que levam a população região do ABC-SP, (municípios industriais da
ocupar tais áreas são de ordem econômica e fora Grande São Paulo), onde a carência de recursos
do campo tecnológico; porém a geotecnia tem hídricos representa uma invencível barreira para
elementos que permitem a previsão e prevenção a continuidade do crescimento industrial; sendo
de acidentes e problemas futuros. A partir da um dos fatores principais para a mudança de in-
incorporação destas áreas a administração pu- dústrias para outras áreas. O mais grave é que
blica, esta assume a problemática de crescimen- a transferência dos pólos industriais também se
to e manutenção dos noves bairros. Podem ser efetua sem estudos prévios adequados, o que faz
lembrados casos como Mont-Serrat em Santos antever, dentro em breve, o surgimento dos mes-
(1956),Caraguatatuba (1967), Vila Albertina em mos problemas, tanto de poluição como de carên-
Campos de Jordão (1972), figuras 1 e 2, aciden- cia de recursos, nas novas áreas assim eleitas. No
tes que se repetem nos morros do Rio de Janei- Brasil, torna-se imperioso, como embasamento
ro, assim como inúmeras áreas urbanizadas com do esforço desenvolvimentista, o conhecimento
problemas permanentes de implantação e manu- do meio físico de superfície e subsuperfície, cujas
tenção de melhoramentos urbanos (saneamento, potencialidades e limitações deverão direcionar
arruamento e as próprias habitações). Enfrentan- os empreendimentos de uso do território, rumo
do problemas permanentes, temos junto a núcle- a um sucesso sólido e duradouro.
os urbanos, novos conjuntos residenciais e até
mesmo bairros inteiros recém-construídos que
2 O MEIO FÍSICO E O PLANEJAMENTO
apresentam graves problemas de implantação e
manutenção da infraestrutura urbana. A necessidade de planejar o uso humano
Nosso território extenso e variado impõe a do território é uma imposição administrativa do
urbanização, problemas que se caracterizam in- desenvolvimento. Porém, é fato inegável que o
felizmente como tristes novidades. Tais fenôme- meio físico não tem sido considerado dentro da
nos vão desde os comuníssimos processos erosi- importância que representa. O crescimento de-
vos que afetam as cidades do sudeste brasileiro sordenado que afeta nossas metrópoles e, fruto
(estereotipadas naquelas do Noroeste do Para- basicamente de ausência de planejamento, ou,
ná), passando por não menos comuns movimen- mais lamentavelmente, resulta de planejamentos,
tos de encostas que afetam núcleos habitacionais muito discutíveis. Neste último caso o saldo é ne-
“do morro”, ate problemas “especiais”, como gativo sob três aspectos principais. Em primeiro
por exemplo: a corrida de terra, que destruiu ses- plano, destaca-se o caráter parcial de tais plane-
senta casas em Vila Albertina em 1972; a corrida jamentos, o que as torna dificilmente exequíveis
de areia que provocou o afundamento de treze e, assim, plenamente cumpridos ou não, redun-
edifícios em Guaratuba - PR, em 1968; o decan- dam em fracasso. Em segundo plano, próprio
tado caso do Vale Grande, cujo alargamento por ônus com tais serviços resulta num reprovável
erosão vem desde o século passado vencendo a desperdício do erário publico. Em terceiro plano,
cidade de Iguape, terminando por sufocá-la pelo como consequência dos dois primeiros, resulta o
assoreamento de seu porto; o soterramento pro- descrédito crescente no termo “planejamento”.

31
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Figura 1 – Vista aérea


parcial dos escorregamen-
tos, regionais na Serra de
Caraguatatuba, SP –
Março de 1967.

Figura 2 – Vista aérea par-


cial do escorregamento de
Vila Albertina – Campos
do Jordão, SP – Agosto
de 1972 (Foto ‘‘Agência
Estado’’).

Mesmo em cidades menores e menos comple- Os poucos trabalhos encontrados dentro de


xas, diagnósticos, planos diretores têm sido elabo- planejamentos regionais ou urbanos que encaram o
rados expeditamente, encarados como burocracia meio físico com seriedade, resumem-se a considera-
“pre-forma”, já que exigida por lei, para desejadas ções parciais no sentido do aproveitamento de dis-
dotações orçamentárias municipais. ponibilidades locais. De modo geral, os elementos

32
O Brasil e a geologia no planejamento territorial e urbano

considerados prendem-se a aspectos topográficos, o desenvolvimento de “know-how” nacional, obti-


ocorrência de materiais de construção e facilidades do através de estudos globais com experimentos de
de uso de água. Entretanto, o meio físico fornece, a campo, e paralelamente, o abandono da mentalida-
vários níveis de investigação, um aspecto mais am- de imediatista na administração dos bens naturais
plo das suas potencialidades e limitações de uso: As duas premissas acham-se interrelacionadas em
bem conhecer a natureza dos terrenos ë premissa muitos pontos, num círculo vicioso de interdepen-
básica para um planejamento bem sucedido. dência. De um lado, o insucesso de planejamentos
e medidas parciais de correção, e ainda os altos
custos de conservação de certas obras, desencora-
3 O CONHECIMENTO DO MEIO, A
jam as ações da administração publica. De outro
GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO
lado, a intermitência das dotações de verba, aliada
Cabe à Geologia o conhecimento de grande a fatores de ordem profissional, impedem a efici-
parte dos fatores condicionantes de uso. Assim, ência dos estudos. Como todo desenvolvimento de
suscetibilidades à erosão e a movimentos, dispo- “know-how”, tais trabalhos se revelam produtivos
nibilidade de águas subterrâneas, atitudes e carac- quando contínuos e profundos.
terísticas de maciços terrosos e rochosos, dinâmica Alguns fatores externos ao citado ciclo vicio-
da crosta e um grande número de características so vêm concorrendo para a solução do impasse.
do ambiente e dos materiais, relacionam-se aos es- Os resultados de muitas obras civis de grande
tudos geológicos. porte, o interesse de órgão governamentais e in-
Informações isoladas podem ter um significa- ternacionais, os efeitos da campanha conservacio-
do restrito, porém, conjunto de informações, rela- nista amparada pela imprensa, entre outros fato-
tivas a uma área ou várias áreas, analisadas sob o res, podem tornar viável a implantação de uma
prisma de seu interrelacionamento, pode determi- mentalidade de planejamento.
nar inúmeras limitações e potencialidades do meio
ambiente, frente aos possíveis usos humanos.
A Geologia Ambiental, termo há pouco in-
troduzido no Brasil, pode ser conceituada como
a parte da Geologia que congrega os elementos
básicos para o bom uso da terra. Parece-nos, en-
tretanto, que tal termo não define claramente a
participação da geologia em anteprojetos, ou pla-
nos de uso territorial. O termo Geologia de Plane-
jamento parece estar mais intimamente ligado ao
aproveitamento racional da superfície terrestre. A
atuação do geólogo no Planejamento deveria ser
entendida como um trabalho de equipe, em que
constassem especialistas em todas as áreas de co-
nhecimento exigidas pelo trabalho. A filiação da
Geologia de Planejamento a Geologia de Enge-
nharia se deve à tecnologia já implantada e de-
senvolvida por este ramo da Geologia, tecnologia
essa que vai de encontro às necessidades iniciais
da Geologia de Planejamento. Alem de subsidiar
o planejamento do uso territorial e urbano, este
ramo da Geologia pode participar de programas
de recuperação e controle de degradação ambien-
tal. Para tal, dispõe-se dos recursos da geotecnia
para a escolha dos meios a áreas propicias.
Figura 3 – Vista parcial de um dos escorregamentos que afe-
Para a implantação da Geologia de Planeja-
taram em março/maio de 1974 a Serra de Maranguape, Ceará
mento duas premissas nos parecem indispensáveis: – Março de 1975.

33
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

O planejamento desejado permitiria à admi- de contenção são suas características mais conhe-
nistração pública satisfazer o interesse da livre cidas. Entretanto são raros os estudos a respeito
empresa, apresentando opc6es e orientando os de seus mecanismos de progresso e, consequente-
empreendimentos no sentido de bem comum, a mente, dos meios de contenção.
curto, médio e longo prazo. Aparentemente dissociada das característi-
Integradas às outras áreas do conhecimento, cas litológicas indicadas nos mapas geológicos
as condicionantes geológicas e geotécnicas se mos- brasileiros, a boçoroca afeta indistintamente tan-
tram indispensáveis tanto na previsão da susceti- to solos que capeiam rochas cristalinas, quanta
bilidade à degradação dos meios físicos, quanto aqueles que capeiam as sedimentares. Atacando
na concepção dos modos de prevenção e correção preferencialmente áreas deflorestadas, sua ocor-
das degradações ambientais. rência parece estar ligada a uma associação favo-
rável de fatores imperantes em extensas áreas no
4 A GEOLOGIA E BOM USO DO TERRITÓRIO Brasil. Entre tais fatores, merecem destaque deter-
BRASILEIRO minada dos perfis pedológicos, comuns aos solos
tropicais, de condições topográficas e geomorfo-
No Brasil, os problemas mais conhecidos, lógicas de regiões onduladas, onde predominam
que mostram a ligação entre os sucessos dos usos as formas côncavas e suaves. Comportamentos
territoriais e a natureza geológica, agrupam-se em particulares da água no subsolo, bem como va-
três categorias principais: - problemas ligados à riáveis de ordem climática, parecem ser também
erodibilidade, problemas ligados a movimentos determinantes no surgimento de boçorocas. Dos
de massas e - problemas ligados ao abastecimento casos que se tem notícia pode-se depreender que
d’água. A disponibilidade de materiais naturais as regiões sul e sudeste apresentam extensas áre-
de construção perfaz um tópico particular de con- as profundamente afetadas pela erosão e, conse-
dicionantes do sucesso da implantação de obras quentemente, pelos problemas de assoreamento,
civis, como barragens, vias de transporte e urba- de rios e reservatórios. Nota-se ainda que as for-
nização. A interinfluência entre os materiais uti- mas de erosão tropical estão associadas inequivo-
lizados nas obras e entre estas e o meio físico, é camente aos extensos depósitos cenozóicos que
determinante na apreciação da viabilidade de uso constituem os solos superficiais de grandes áreas
de determinada porção do território. do sudeste brasileiro.
Notícias de ocorrências de boçorocas ou de
grandes ravinas, em outros pontos do território
4.1 Problemas ligados à erodibilidade
nacional, relatados por técnicos que operam nessa
As características de erodibilidade, estando área, podem, entretanto, indicar que as boçorocas
ligadas aos aspectos topográficos e granulomé- se desenvolvem com major frequência no sul e su-
tricos da distribuição dos solos superficiais, entre deste, também por serem estas regiões brasileiras as
outros aspectos, determinam as conhecidas for- que apresentam uso mais intensivo e generalizado.
mas de erosão laminar e de ravinamento. Porém, A erosão fluvial se reveste de maior importân-
em nosso meio ambiente, outra forma de erosão, cia nas porções de território onde os cursos d’água
localmente mais danosa, pode coexistir com as atravessam formações sedimentares inconsolida-
formas citadas. Tal forma de erosão recebe entre das. Principalmente quando o regime hídrico tenha
nós o nome de boçoroca, a qual, mais que grande sofrido interferências, alterando o seu equilíbrio
ravina, revela-se especialmente perigosa quando erosão/sedimentação. Formações arenosas inco-
se desenvolve junto a cidades obras viárias ou ou- erentes são comuns em extensas porções da faixa
tras obras civis. A grande velocidade de desenvol- litorânea, assim como nas bacias dos grandes rios
vimento, as dimensões atingidas e as dificuldades de planície, como os da bacia amazônica.

34
O Brasil e a geologia no planejamento territorial e urbano

Figura 4 – Boçoroca se desenvolvendo na zona


rural de Joborandi, Bahia, sobre colúvio do arenito
Urucuia.

Figura 5 – Vista aérea parcial de uma das boçorocas


que afetaram a cidade de Cianorte, PR, Sobre solos
que capeiam o arenito Caiuá.

Figura 6 – Detalhe da foto anterior (Fig. 5).

35
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

4.2 Problemas ligados a movimentos de de suporte, com espessas camadas argilosas


massas orgânicas de elevado índice de vazios. A ocu-
pação urbana, industrial ou a transposição de
Quanto aos movimentos de massas, podem tais áreas por vias de transporte se apresentam
ser assim considerados: diversos tipos de escor- como problemas constantes. Neste quadro, a
regamento e fenômenos de adensamento, ou de Baixada Santista já tem recebido por partes
subsidência. dos técnicos brasileiros uma atenção mereci-
a) Os escorregamentos se acham intimamente li- da, já tendo se desenvolvido muitas técnicas
gados à configuração topográfica, à geologia construtivas para sua utilização como terre-
(estruturas, espessuras de solo), à cobertura no de fundação. Também em outros pontos
vegetal, à pluviosidade local. Desse modo, do litoral brasileiro, a faixa costeira apresenta
quase toda a extensão da Serra do Mar e ou- diversas áreas de interesse imediato, do pon-
tros padrões geográficos que marcam a as- to de vista de ocupação, sem contudo ter-se
censão para o Planalto Atlântico, apresentam um conhecimento global da constituição de
áreas propícias a ocorrência de escorregamen- seus subsolos.
tos. Os condicionamentos geológicos e climá-
ticos, aliados às atividades antrópicas, como
sua travessia por vias de transporte, desma- 4.3 Os problemas ligados ao abastecimento
tamento e outras formas de ocupação desor- d’água
denada, fazem destas unidades geográficas
o palco de deploráveis acidentes. Os escor- O abastecimento d’água, tanto para uso em
regamentos, tidos como mecanismo normal núcleos urbano/industriais, como para uso agrí-
da evolução das encostas, têm na ocupação cola, tem se revelado como um problema crôni-
indiscriminada destas, um fator de cataliza- co, sendo a imprevidência e o malbarato, a tônica
gio e aceleragio. Assim como as serras, de um imperante, tanto nas regiões do Nordeste, onde o
modo genérico, são condicionantes regionais clima torna a água escassa, como no Sul e Sudeste,
de áreas sujeitas a escorregamentos, mais lo- onde os recursos hídricos são tidos enganosamen-
calmente, vertentes de colinas e morros isola- te como inesgotáveis.
dos, quando sujeitas ocupação desordenada, No polígono das secas, a grande quantidade
podem gerar escorregamentos não menos ca- de agudes, frutos da ação tradicional das “frentes
tastróficos. As características dos maciços ter- de trabalho”, que se desenvolvem há um século
rosos tropicais com suas grandes espessuras salvo honrosas exceções, apresentam, infelizmen-
e, naqueles de origem residual, a manuten- te, como saldo imediato, a ocupação das raras ter-
ção das feições estruturais da rocha matriz, ras agricultáveis por lagos de discutível utilidade.
fazem, destes maciços um caso particular nos Tais lagos, sem obras subsequentes para distribui-
estudos tradicionais de estabilidade. Deste ção e irrigação e, na maior parte, sem vertedores de
modo, cabe aos técnicos brasileiros formular fundo ou outros mecanismos reguladores de va-
soluções próprias, a partir das observações zão, podem assumir três aspectos negativos, ma-
de campo e estudos laboratoriais, que permi- nifestados isolada ou conjuntamente. O primeiro
tam uma melhor previsão de estabilidade de destes aspectos se relaciona com salinização das
taludes naturais e de corte. águas, sendo inúmeros os açudes que acumulam
b) Outras categorias de fenômenos relacionados água imprópria para os usos de abastecimento. O
aos problemas de movimentos são os fenô- segundo aspecto resulta do impedimento da cir-
menos de solos suscetíveis a adensamento culação das águas para as terras aráveis a jusan-
ou mobilização vertical de outras naturezas. te, retendo a contribuição das primeiras chuvas,
Nesta categoria, o território brasileiro apre- para enchimento do lago cujo volume se encontra
senta, além de várzeas com depósitos argilo- reduzido pela estação seca. O terceiro aspecto se
sos, extensas formações costeiras, nas quais a prende ainda próprio regime hídrico, sendo mui-
deposição de sedimentos marinho-continen- tos açudes verdadeiros “espadas de Damocles”
tais resulta em terrenos de baixa capacidade pairando a montante de vilas e povoados, durante

36
O Brasil e a geologia no planejamento territorial e urbano

o período de chuvas. Desde que ausentes outros desconhecidos, representados em boa parte pela
mecanismos reguladores, resta às frentes de cheia, Amazônia Legal. Nessa considerável porção do
após cheio o lago, verter por sobre as barragens. território ocorrem extensas formações sedimen-
Mesmo nas regiões chuvosas do Sul e Sudeste tares de idade terciária e quaternária; seu relevo,
ocupadas pela agricultura, muitos núcleos urbanos de modo geral, é suave, mesmo em regiões tidas
apresentam graves problemas de abastecimento como de embasamento cristalino a cobertura flo-
de água potável. A maior parte dos problemas se restal e a localização geográfica impõem um clima
acham ligados aos sistemas de obtenção de água, de umidade e temperatura elevadas. A ocupação
que é o de captação superficial, e se substanciam incipiente de algumas destas áreas tem se revela-
em dois aspectos mais importantes. O primeiro é do problemática, sendo comuns os casos de esgo-
o rápido assoreamento dos reservatórios, graças tamento prematuro da fertilidade, assim coma fe-
à acelerada erosão a que estão sujeitas extensas nômenos erosivos profundos muitos similares às
áreas sob exploração agrícola. O segundo aspecto, boçorocas descritas no sul do país. As evidências
muitas vezes associado ao primeiro, é a poluição serem muito vastas as ocorrências de solos areno-
dos mananciais por defensivos agrícolas, de uso sos e incoerentes, assim como a lixiviação e late-
crescente e irrestrito durante a última década. rização profundas e generalizadas. Tais perspec-
Nas regiões industrializadas, o grande cres- tivas, aliadas à escassez de dados cientificamente
cimento urbano-industrial tem gerado problemas obtidos, pedem um detalhamento de estudos, a
desmedidos para o abastecimento de água. Soma- fim de que não se imponham solicitações contrá-
se ao esgotamento dos recursos disponíveis, a po- rias aptidões do meio físico, do qual o solo, “lato
luição dos mananciais restantes. Tal poluição se sensu”, é parte vital.
efetua tanto pelo lançamento de detritos sem tra-
tamento prévio em pontos inadequados dos rios
ou lagoas, como infiltração, quando o terreno apre- 4.5 Os problemas da utilização do
senta características favoráveis. Em muitos casos a conhecimento
captação de águas subterrâneas, por meio de poços
Em nosso país, a participação da geologia em
profundos, resolve parcialmente os problemas de
projetos de utilização de territórios se acha ainda
abastecimento. Entretanto, a superexploração dos
restrita a estudos locais de Geologia de Engenha-
aquíferos, aliando-se à pavimentação, e às áreas
ria, normalmente para o caso de barragens, estra-
construídas que acabam por reduzir as zonas de in-
das e fundações de grandes estruturas. Entretanto,
filtração, acarretam rebaixamento permanente dos
há alguns anos vêm se desenvolvendo trabalhos
níveis freáticos. A carência de recursos hídricos já
efetivos no sentido de introduzir a geologia no
se apresenta crônica em diversas regiões sujeitas à
campo do planejamento. São poucos os trabalhos
intensa industrialização e/ou urbanização. O esgo-
que representam um enorme esforço de profissio-
tamento dos recursos superficiais e subsuperficiais,
nais isolados, engajados na divulgação constante
seguido da solicitação de áreas cada vez mais dis-
deste novo ramo da Geologia de Engenharia.
tantes, bem como a destruição e mau uso de ma-
Similarmente aos outros países, as falhas de
nanciais e reservas, se apresenta como uma carac-
comunicação entre Geologia e Engenharia se fa-
terística marcante da exploração urbano-industrial
zem sentir, com as dificuldades de se obter forma-
das três últimas décadas.
ções objetivas de cartas geológicas tradicionais. Se
as dificuldades de comunicação entre áreas pró-
4.4 Os problemas do desconhecimento ximas como Engenharia Civil e Geologia de En-
genharia são grandes, as dificuldades serão tanto
Reações desfavoráveis do meio, aliadas ao co- maiores entre a Geologia e os outros setores liga-
nhecimento relativamente mais detalhado de algu- dos ao planejamento. Assim, a Cartografia Geo-
mas regiões brasileiras, permitem observar meros técnica, instrumento já consagrado em diversos
casos de uso inadequado do território. Deve-se ter países desenvolvidos se substancia como notável
em mente, por outro lado, que mais de 60% do terri- forma de comunicação entre meio físico e o plane-
tório nacional constituído por terrenos praticamente jador ou projetista.

37
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Grande parte da bibliografia estrangeira a res- se consusbstancia um mapa geológico com suas
peito deixa no interessado uma forte imagem de tec- unidades rochosas convenientemente destacadas,
nologia avançada. Assim, muitos autores veiculam acompanha de uma tabulação que contém suas
a ideia de cartografia geotécnica (como da própria principais características, tanto as puramente ge-
Geologia de Planejamento) associando-a com “ge- ológicas (acamamento, fraturamento, grau de in-
omatemática”, “supermapping”, “cartografia auto- temperismo, topografia), quanto as geotécnicas
mática”, obtenção de imagens por superposição de (porosidade, água subterrânea, estabilidade,de
transparências, e outras técnicas sofisticadas. Entre- taludes em corte, estabilidade de fundação, mate-
tanto, alguns autores estrangeiros já levantam, por riais de construção). Estas e outras características
um lado, a discutível utilidade de tais elaborações, e propriedades importantes são apresentadas em
e por outro, sua inexequibilidade econômica, quan- termos acessíveis ao público interessado.
do em caráter extensivo. As criticas, levantadas se Com as considerações expostas nos parágra-
prendem ao rumo imprimido a esse novo ramo da fos anteriores, pretende se aqui, chamar a atenção
geologia, por muitos institutos e organismos oficiais para dois aspectos importantes a implantação da
(normalmente os ligados ao ensino), sob a denomi- Geologia de Planejamento no Brasil. O primei-
nação de geologia ambiental. Entre estes organis- ro aspecto é ligado à sofisticação de tratamento
mos se encontram aqueles que são os responsáveis e representação, tendência esta, que segundo os
pela sofisticação da cartografia geotécnica. Tais enti- críticos, não encontram condições para sua vul-
dades se permitem atingir tal grau de refinamento, garização, nem em países desenvolvidos e econo-
micamente poderosos. O outro aspecto, de caráter
graças às características que lhe são próprias, como
aparentemente universal, a utilização indevida de
por exemplo: dotação orçamentária governamental,
uma linguagem incompatível como os fins a que
abundância de mão de obra de nível universitário a
se propõe a Cartografia Geotécnica. Intimamente
baixo custo (estagiários), e entre outros privilégios,
ligado a este aspecto, apresenta-se pouca objetivi-
facilidade de uso de computadores.
dade com que são encetados os trabalhos execu-
Em entidades que possuem orientação mar-
tados por pessoal não suficientemente ligado aos
cantemente acadêmica, soma-se à sofisticação ci-
problemas e solicitações impostos por obras civis
tada, uma abordagem tal, que torna a Cartografia
e outras formas de uso territorial.
Geotécnica de difícil utilização pelos interessados
Como toda tecnologia, a Cartografia Geotécnica
(engenheiros civis, economistas, arquitetos, admi-
depende de metodologia produzida de acordo com
nistradores, construtores, planejadores e o públi- a realidade de cada país. Assim, as necessidades ge-
co em geral). A abordagem acima referida mani- radas pelo desenvolvimento brasileiro podem ser
festa seu erro através de dois fatores principais, supridas com a criação de métodos nacionais conju-
que atuam isolada ou conjuntamente. O primeiro gados com”know-how” absorvido seletivamente de
destes fatores se prende ao uso de linguagem res- outros países, adaptados às nossas condições.
trita aos meios profissionais em Geologia. O outro Não será demais lembrar que a tecnologia
fator se atém ao enfoque dos problemas impostos elaborada em países desenvolvidos constitui im-
e gerados pela ocupação humana, revelando falta portante tópico em suas pautas de exportação. Por
de vivência e conhecimento geotécnico por parte outro lado, os países em desenvolvimento, e entre
destes profissionais. eles o Brasil, se constituem em um mercado pro-
Em contraposição às considerações acima ali- missor para tal produção tecnológica.
nhadas, os mesmos autores apontam como exem- No momento em que o governo de nosso país
plo de uma cartografia realmente útil e exequível volta seus esforços para a consubstanciação de uma
trabalhos que primam pela simplicidade tanto grá- ocupação territorial efetiva, ele chama a si mesmo a
fica como de linguagem, conseguindo, assim um responsabilidade pelo sucesso de suas determina-
enfoque objetivo do meio físico. Nesta linha, um ções. Tal diretriz faz do governo, o principal inte-
trabalho “Engineering characteristics of the rock ressado no emprego de técnicas adequadas para o
of Pensilvania -MacClade e outros 1972) aponta- conhecimento de uma de suas principais matérias
do como exemplo de uma cartografia geotécnica primas, que é o meio físico, para a utilização racio-
de execução garantida e uso pleno. Tal trabalho nal e responsável de seus recursos.

38
O Brasil e a geologia no planejamento territorial e urbano

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dans le’ Nord-Est semiaride du Brésil- Evaluation 871-880.

40
1
2
RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
Av. Prof. Almeida Prado, 532 – IPT (Prédio 11) 05508-901 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3767-4361 - Telefax: (11) 3719-0661 - E-mail:abge@ipt.br - Home Page: http://www.abge.com.br

DIRETORIA - GESTÃO 2009/2011


Presidente: Fernando Facciolla Kertzman
Vice-Presidente: Gerson Salviano de Almeida Filho
Diretora Secretária: Kátia Canil
Diretor Financeiro: Luiz Fernando D`Agostino
Diretor de Eventos: Elisabete Nascimento Rocha
Diretor de Comunicação: Marcelo Fischer Gramani

CONSELHO DELIBERATIVO
Elaine Cristina de Castro, Elisabete Nascimento Rocha, Fabio Canzian da Silva, Fabrício Araújo Mirandola, Fer-
nando Facciolla Kertzman, Fernando Ximenes T. Salomão, Gerson Almeida Salviano Filho, Ivan José Delatim,
Kátia Canil, Leonardo Andrade de Souza, Luiz Antonio P. de Souza, Luiz Fernando D’Agostino, Marcelo Fis-
cher Gramani, Newton Moreira de Souza, Selma Simões de Castro.

NÚCLEO RIO DE JANEIRO


Presidente: Nelson Meirim Coutinho - Vice-Presidente: Antonio Queiroz
Diretor Secretário: Eusébio José Gil - Diretor Financeiro: Cláudio P. Amaral
End.: Av. Rio Branco, 124 / 16o andar – Centro - 20040-916 - Rio de Janeiro - RJ
Tel : (21) 3878-7878 Presidente - Tel.: (21) 2587-7598 Diretor Financeiro

NÚCLEO MINAS GERAIS


Presidente: Maria Giovana Parizzi - Secretário: Frederico Garcia Sobreira
Tesoureiro: Luís de Almeida P. Bacellar - Diretor de Eventos: Leonardo A. Souza
End.: Univ. Fed. de Ouro Preto - Depto. Geologia - 35400-000 – Ouro Preto/MG
Fone: (31) 3559.1600 r 237 Fax: (31) 3559.1606 –

REPRESENTANTES REGIONAIS UF

ROBERTO FERES AC
HELIENE FERREIRA DA SILVA AL
JOSÉ DUARTE ALECRIM AM
CARLOS HENRIQUE DE A.C. MEDEIROS BA
FRANCISCO SAID GONÇALVES CE
NORIS COSTA DINIZ DF
JOÃO LUIZ ARMELIN GO
MOACYR ADRIANO AUGUSTO JUNIOR MA
ARNALDO YOSO SAKAMOTO MS
KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
UM BREVE RELATO SOBRE
A GEOLOGIA DE ENGENHARIA

Lazaro Valentin Zuquette

A diferença principal entre um Geólogo que somente fornece os dados a outro profissional e o Geólogo de
Engenharia, é que o primeiro somente gera informações sobre o meio e não realiza a devida interpretação
dos mesmos (rochas, solos, descontinuidades, variabilidade, etc.) em termos qualitativos e quantitativos,
para o fim em questão, seja uma obra de engenharia ou um problema ambiental.

RESUMO ABSTRACT
Este texto tem por objetivo relatar alguns eventos que fo- This paper aims to report some important international
ram marcantes em termos internacionais e nacionais no and Brazilian scientific and technical events for Engi-
desenvolvimento da Geologia de Engenharia ao longo
dos últimos 150 anos, sem a presunção de considerar to- neering Geology during the last 150 years. The central
dos que foram marcantes. A idéia central é que este texto idea of this text is to encourage others professionals to
motive outros profissionais a elaborarem estudos sobre a elaborate more complete texts about the history and
história e a evolução da Geologia de Engenharia, seja em developing of the Engineering Geology, in terms of te-
termos de aspectos técnico-científicos, profissionais ou de chnical-scientific, professional or application. Attached
aplicação. Associado encontra-se um conjunto dos prin-
is a series of major international journals, as well as a
cipais periódicos internacionais, assim como um grupo
de livros clássicos e lista das referências bibliográficas group of classic books and list of references on the facts
sobre os fatos considerados no texto. cited in the text.

1 INTRODUÇÃO

A denominação Geologia de Engenharia ori- com Müeller-Salzburg (1976), a Geologia de En-


ginou-se a partir da metade do século XIX em di- genharia surgiu como uma ciência independente
versos países europeus, e o termo em português (IDENTIDADE), tendo como principio gerar infor-
surgiu da tradução geral dos termos: Engineering mações quantitativas de fatos geológicos necessá-
Geology (Inglês), Ingeneria Geológica (Espanhol), rias aos projetos de engenharia e de mineração,
Inzhenernaya Geologiya (Russo), Géologie de no sentido de evitar problemas durante a execu-
l’ingénieur (Francês) e Ingenieurgeologie (Ale- ção e vida útil. No entanto, termos que são usa-
mão). Na primeira metade do século XX, difundiu- dos atualmente para caracterizações dos materiais
se mais intensamente na América do Norte e Eu- geológicos nos aspectos relacionados à Geologia
ropa, porém com características especiais em cada de Engenharia podem ser encontrados desde a
país ou região em função das necessidades, como o civilização Micênica (Mycenaean Civilization),
tipo de obra ou problema específico. Atualmente, conforme descrito em diversos textos, entre eles o
a Geologia de Engenharia, junto da Mecânica dos de Kekkos et al. (2006), que apresenta citações de
Solos e das Rocha, constituem a base do campo aspectos de Geologia de Engenharia nos poemas
de conhecimento denominado Geotecnia. Contu- de Homero (HOMERIC POEMS). Acrescenta-se a
do, as relações entre as três áreas de conhecimento isso que o termo Risco apareceu também pela pri-
sofrem variações dependendo do país. De acordo meira vez nesses mesmos poemas.

41
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

O surgimento do termo Geologia de Engenha- It is worthwhile recalling that engineering geology has
ria tem como referência inicial o trabalho desenvol- had a very long history, even
vido por William Smith (1800 a 1815) em porções
though in the last decade it has acquired a degree of
da Inglaterra visando a projetos de canalizações. sophistication and may now stand,
Este trabalho resultou em um mapa considera-
do como o primeiro Mapa Geotécnico e uma das as has MINING GEOLOGY for a much longer time,
bases da Geologia moderna por um grupo signi- as an independent subject”.
ficativo de profissionais. Durante os últimos 150
Recentemente, Baynes (2004) publicou um tex-
anos, a Geologia de Engenharia difundiu-se para
to muito interessante sobre a visão de diversos pro-
os diferentes países e algumas definições aparece-
fissionais sobre as responsabilidades de um geólogo
ram com alterações para adaptá-las às mudanças
de engenharia, intitulado “Generic responsibilities
no conhecimento técnico-científico, envolvendo a
of engineering geologists in general practice”.
Geologia, Engenharia Civil e de Minas, e as áre-
as de conhecimento interrelacionadas. Após 1990,
adaptações ocorreram em relação aos problemas 2 AEG (1970)
de ordem ambiental, quando do surgimento da
Engenharia Ambiental. As definições apresenta- É definida como a disciplina de aplicação das
das a seguir são consideradas as mais citadas e informações geológicas, técnicas e princípios para
orientaram as associações e escolas dos diferentes o estudo de materiais geológicos (rochas, solos),
países na formação dos profissionais. fluidos em superfície e subsuperficie, a relação
Uma das mais antigas é a de Popov (1959), de materiais externos e os processos inseridos no
fundador da Soviet Engineering Geology, que di- ambiente geológico. Como também os fatores geo-
finiu como a ciência que envolve todos os aspectos lógicos que afetam o planejamento, projeto, cons-
da geologia, em sentido amplo, tem importância trução, operação e manutenção de estruturas de
no planejamento, projeto, construção e manuten- engenharia e o desenvolvimento, proteção e re-
ção de estruturas de engenharia. Komarov (1996) mediação de águas subterrâneas.
Recentemente, o geólogo de engenharia pas-
modificou-a considerando algumas condições do
sou a desenvolver suas atividades não somente
meio natural, enquanto Sergeev (1978) acrescen-
em projetos relacionados à Engenharia Civil e à
tou o ponto de vista de alguns aspectos das ativi-
Mineração, mas também junto de planejadores
dades humanas.
territoriais e ambientais, arquitetos e outros pro-
Dearman (1970) considera a Geologia de En-
fissionais envolvidos com o meio ambiente.
genharia como um braço da Geologia Aplicada
De acordo com a AEG, as principais atividades
particularmente à Engenharia Civil, relacionado-a
do Geólogo de Engenharia estão relacionadas com:
ao projeto e construção e aos aspectos de compor-
1. A investigação das condições de fundações
tamento de estruturas de engenharia quando ins-
para as grandes obras, como as barragens,
taladas no interior da Terra, assim como para a in-
pontes, aeroportos, grandes edificios, torres e
dústria extrativa incluindo abertura de pedreiras
estações de bombeamento e energia.
e de minas profundas. Apresenta relações com a
2. Avaliação das condições geológicas ao longo
Mecânica dos Solos e das Rochas, como também
de túneis, dutos, canais e estradas.
com as Ciências dos Materiais, entre outras. O au-
3. A exploração e implantação de áreas fontes
tor também conceituou o profisssional, a saber:
de rochas, solos e sedimentos como materiais
“An Engineering Geologist is, by this definition, an de construção.
applied geologist. He must have two attributes, and 4. Investigação e desenvolvimento de fontes de
these should be taken care of in his training; firstly a águas superficiais e subterrâneas, gestão de
clear understanding of the science of geology, in that he bacias, proteção e remediação de áreas com
must think like a geologist, and secondly he must halve
águas subterrâneas contaminadas, assim
an appreciation of the requirements of the engineer and
must be prepared to educate himself in the practice and como de outros tipos de degradação.
principles of civil engineering. 5. Avaliação de eventos perigosos (hazards).

42
Um breve relato sobre a geologia de engenharia

6. Avaliação das condições geológico-geotécni- to guarantee the results. It is not always economically
cas que afetam o uso e implantação de obras practicable to eliminate the element of uncertainty and
not infrequently his advice has to be based on few and
residenciais, comerciais e industriais.
scattered evidences in the field.”
7. Avaliação para fins de estabilidade de talu-
des, drenagens, melhoria dos materiais geo- 4) The fourth requirement relates to the temperamental
lógicos e escavabilidade. make-up or personal qualities of the
8. Avaliação de áreas adequadas para disposi-
engineering geologist. “He should not be an alarmist.
ção de resíduos, e proposição de formas de
Neither faults, nor earthquakes, nor
monitoramento, mitigação e tratamento de
locais onde ocorreu disposição de maneira cavernous limestones, nor pervious basalts, nor low
inadequada. water tables should deter him from
9. Atuação no planejamento territorial, avalia-
rationalizing the field evidences and proceeding to logi-
ção de impactos ambientais, descomissiona-
cal conclusions based on due consideration of both facts
mento e recuperação de minas, planejamento and influences.”
de áreas de reflorestamento, seguros e inves-
tigações criminais. Seguindo os pressupostos anteriores, outra
definição do profissional de Geologia de Enge-
Em 1970 a IAEG elaborou um conceito básico nharia foi proposta pelo Executive Committee of
que não envolvia o aspecto ambiental e a IAEGE the Division on Engineering Geology of the Geo-
(1997) definiu como a ciência voltada à investiga- logical Society of America, em 1951:
ção, estudo e solução de problemas de engenharia
e ambientais, os quais originaram da interação de “A professional engineering geologist is a person
aspectos da Geologia com obras e outras ativida- who, by reason of his special knowledge of the geolo-
des humanas, como também a previsão e desen- gical sciences and the principles and methods of engi-
volvimento de medidas de prevenção ou remedia- neering analysis and design acquired by professional
education or practical experience, is qualified to apply
ção de eventos perigosos de natureza geológica. such special knowledge for the purpose of rendering
Durante alguns anos anteriores a 1950, as dis- professional services or accomplishing creative work
cussões sobre o profissional de Geologia de Enge- such as consultation, investigation, planning, design
nharia eram comuns e principalmente motivadas or supervision of construction for the purpose of as-
por C. Berkey nos USA, e em 1950, Burwell e Ro- suring that the geologic elements affecting the struc-
berts elaboraram texto com alguns pressupostos tures, works or projects are adequately treated by the
responsible engineer”.
para o profissional, citados na integra, a seguir:

1) “Obviously, the first requirement of the engineering Existem dezenas de trabalhos que podem ser
geologist is that he shall be a competent consultados sobre as responsabilidades de um pro-
fissional da Geologia de Engenharia, tais como:
geologist. ……Against this background of knowledge, Berkey (1929), Burwell & Roberts (1950), Moye
he will discover the major geologic factors in advance (1966), Arnould (1970), Dearman (1971), Rawlings
of construction and recognize the more obscure minor
(1972) Stapledon (1982, 1983), AEG (1993), Fookes
details that so often exert a major influence on location,
design and construction problems.” (1997), IAEG (1998), Baynes (1999), Morgenstern,
(2000), Hungr (2001), AEG (2002), Knill (2002, 2003),
2) “The second requirement is that he shall be able to Culshaw (2005), Hatheway et al. (2005) e GEOTE-
translate his discoveries and deductions into terms of CHNICAL ENGINEERING OFFICE (2007).
practical application. This qualification is not obtained
as a result of better knowledge of geology, but of better
No Brasil a Geologia de Engenharia teve seu
knowledge of engineering.” início (com atividades esporádicas) antes de 1950
em obras de engenharia especificas, mas o conhe-
3) “The third requirement is dual in character. It is cimento foi mais fortemente aplicado e associado
the ability to render sound judgements and make im- à expansão do número de profissionais a partir de
portant decisions. …..Sound judgment is a priceless
faculty of the geologist who is frequently called on to 1960 com grandes obras de engenharia, principal-
make decisions without all the factual data necessary mente as barragens.

43
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

3 SÉCULO XVIII/ XIX O ponto mais importante nesse período foi o


lançamento do primeiro livro de Geologia de Enge-
Neste período, ocorreram algumas atividades nharia em 1880 por W. H. Penning (Engineering Geo-
que demonstravam o uso dos conhecimentos da logy), com um conjunto de capítulos que retratavam
Geologia de Engenharia, como o trabalho de John os diferentes conhecimentos e etapas envolvidas em
Strachey em 1725, que desenvolveu trabalhos na uma investigação de Geologia de Engenharia e um
mina de Somerset (Inglaterra) e elaborou um con- conjunto de aplicações. Esse livro teve seu início no
junto de secções verticais para auxiliar no planeja- ano de 1879 com a publicação de alguns artigos, que
mento da abertura e escavação. E John Whitehurst depois sofreram modificações e acréscimos, e o con-
apresentou trabalho semelhante para as minas de junto foi publicado na forma do livro.
Derbyshire em 1778. James Hutton (Escócia) pu- Em 1890, um conjunto de trabalhos consi-
blicou, em 1795, o livro “Theory of the Earth”, no derados pioneiros foi publicado por William O.
qual fez a distinção dos 3 tipos rochosos conheci- Crosbi (MIT), considerado o pai da Geologia de
dos até os dias atuais, tornando-se um marco para Engenharia nos USA, e James F. Kemp (Colum-
a Geologia e, consequentemente, para a Geologia bia) sobre a importância da relação entre aspectos
de Engenharia. Entre 1799 e 1815 William Smi- de Geologia e os procedimentos construtivos de
th desenvolveu diversos trabalhos na Inglaterra e grandes obras de engenharia.
elaborou um mapa geológico com o objetivo de No Brasil, pode-se verificar em muitas das
orientar a implantação de canais (http://eartho- cidades históricas o uso do conhecimento da Ge-
bservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=8733) ologia de Engenharia para o posicionamento dos
considerado o primeiro Mapa Geotécnico e o sur- principais edifícios, ruas e estradas. Esses aspectos
gimento do termo e da ciência Geologia de Enge- podem ser visualizados de maneira mais concreta
nharia. Em 1830 e 1833 surgiram dois trabalhos na cidade de Ouro Preto (MG), onde as ferrovias
paralelos que reforçam a Geologia de Engenharia, construídas estão posicionadas a uma distância
sendo um a publicação de “Principles of Geolo- segura das encostas, para evitar que os escorre-
gy”, por Charles Lyell e outro o livro “Treatise on gamentos afetassem o seu funcionamento. Assim
road”, por H.B. Parnell, o qual apresenta um grupo como as principais edificações (prédios públicos,
de condições dos materiais geológicos que devem igrejas, etc...) estão posicionados em lugares segu-
ser consideradas para construção dos taludes em ros até os dias atuais, mesmo com a intensificação
estradas. Ressalta-se que a maior coleção de textos da ocupação urbana implantada predominante-
técnicos sobre Geologia de Engenharia encontra- mente de forma inadequada, se considerarmos
se nos arquivos da “Lyell collection”, na British os aspectos geológicos e geotécnicos. Situações
Library, Inglaterra. Dois trabalhos publicados nos semelhantes são observadas também em São João
USA são importantes: William W. Mather, em Del Rei, Tiradentes, Mariana, Angra dos Reis e
1838, publicou trabalho sobre os escorregamentos Rio de janeiro, entre outras. Por outro lado, depois
rotacionais em lago na região de Cleveland e, em de 1850, há registros de atividades envolvendo os
1839, James Hall propôs uma Classificação para conhecimentos de Geologia de Engenharia em
Escavação de Rochas, que foi aplicada na constru- obras de diversas ferrovias e túneis, assim como
ção do Eire Canal. F. A. Fallou (Saxony) e, prova- em obras de edificações.
velmente entre 1870 e 1880, V.V. Dokuchaiev and
N.M. Sibertsev (Russia) publicaram textos sobre
Pedologia, trazendo idéias sobre o conceito de 4 SÉCULO XX
solo envolvendo aspectos de dinâmica e morfolo-
gia, entre outros, que perduram até a atualidade. No decorrer desse século ocorreu a difusão
Nesse mesmo período foram propostos os con- mais ampla da Geologia de Engenharia, sendo
ceitos de erosão, assim como dos principais mo- possível definir alguns períodos temporais, tais
vimentos de massa gravitacionais, válidos até os como entre 1900 e 1950, quando ocorreu predomi-
dias atuais, e classificações foram propostas com nantemente nos países da América do Norte e na
bases, que são seguidas até a atualidade por no- Europa, e após 1950 difundiu-se para os países da
vas proposições de classificações. América Latina, África, Ásia e Oceania.

44
Um breve relato sobre a geologia de engenharia

1900 – 1925 entre o Mar Branco e o Mar Báltico e ao Projeto de


irrigação na Margem direita do Volga.
A avaliação posterior à ruptura da barragem No Brasil, nesse período, ocorreu a constru-
de Austin (Texas – USA) em 1900 mostrou que a ção de diversas obras de engenharia como túneis,
mesma ocorreu pela não consideração de infor- ferrovias e barragens. Segundo Vargas (1985), os
mações de natureza geológica. A partir do final do primeiros documentos sobre Geologia de Enge-
século XIX, de 1897 até por volta de 1906, foram nharia no Brasil datam de 1907, sobre a Estrada
apresentadas por Woodward diversas versões do de Ferro Noroeste do Brasil.
mapa do Subsolo de Londres, destinado a orien-
tar o planejamento das obras de saneamento. Em
1906, D.W. Johnson (USA) publicou um texto so- 1925 – 1950
bre a aplicação da Geologia em diversas atividades
Em 1925, K. Terzaghi publicou o livro de
humanas e estruturas de engenharia, e foi seguido
Mecânica dos Solos – “Erdbaumechanik auf bo-
em 1908 por trabalho de Charles Lapworth com
denphysikalischer Grundlage”. No ano de 1926, é
os Princípios da Geologia de Engenharia na forma
publicado na Ex-Checoslováquia um conjunto de
de duas Palestras no Institution of Civil Engineers
cartas geotécnicas para apoio ao desenvolvimento
(Imperial College), em Londres. O ensino de Geo-
da cidade de Praga, e em 1928 teve início o primei-
logia de Engenharia iniciou, em 1910, no Imperial
ro curso de Geologia de Engenharia na Columbia
College (Inglaterra) como disciplina regular. Em
University, e nesta época Charles Berkey trabalha
1911, Charles Lapworth publicou textos sobre a Ge- como o primeiro geólogo de engenharia na USBR.
ologia Aplicada às barragens e R. F. Sorsbie publi- Em 1928, ocorreu a ruptura da barragem de
cou o livro “Geology for engineers”, que apresenta St. Francis, na Califórnia (USA), que matou mais
um conteúdo de Geologia de Engenharia bastante de 450 pessoas e provocou prejuízos superiores
avançado para a época. Nesta mesma época, entre a 9 milhões de dólares. Esse desastre acelorou a
1907 e 1915, Albert Einstein esta desenvolvendo a implantação da Geologia de Engenharia nos USA,
Teoria Geral da Relatividade! tendo como expoente Charles Berkey. No mesmo
Durante o ano de 1913 ocorreu o lançamento período, Quido Zaruba, na ex-Tchecoslovakia, e
do texto “Mineral Deposits (Engineering geolo- Popov, na Rússia, desenvolviam a Geologia de
gy practice)” e em Langen (Alemanha), em uma Engenharia no leste europeu. No decorrer do ano
Exposição Técnica de Construção, foi apresenta- de 1929 é lançado outro livro de Geologia de En-
do um conjunto de mapas e textos considerados genharia por Redlich, Terzaghi e Kampe e K. Ter-
iniciais do Mapeamento Geotécnico. Os textos zaghi publica o texto “Effect of minor geological
trouxeram pontos de vistas que afetaram os atu- details on the safety of dams”, considerado por
ais quanto ao conteúdo e representação espacial, muitos profissionais como um trabalho clássico.
denominados de cartas para apoio ao desenvolvi- M. Lugeon, em 1933, publicou “Barrages et Gé-
mento das cidades de Erfurt, Frankfurt, Danzig. ologi”. Em 1934, é apresentado o primeiro mapa
O ano de 1914 foi um marco significativo, já geotécnico para uma grande região da Rússia que
que foi publicado o segundo livro de Geologia de trouxe uma nova visão sobre a técnica e propiciou
Engenharia (Engineering Geology) por Ries e Wat- a orientação de outros trabalhos semelhantes em
son, ganhando uma nova versão em 1921, deno- diversos países. C.S. Fox, em 1935, publica o livro
minada “Elements of Engineering Geology”. Em “A Comprehensive Treatise on Engineering Geol-
1919, L.V. Pirsson lançou um documento intitulado ogy”, e em 1936 ocorre o First International Con-
“Rock Classification for Engineering” e Josef Stini ference on Soil Mechanics and Foundation Engi-
(Áustria) publicou “Technische Geologie” (Geolo- neering. Entre 1939 e 1943 foram publicados dois
gia de Engenharia) em 1922. Ambos são trabalhos livros: “Geology and Engineering” por Legget e
de referência para a época e tem importância na Boswell e “Geology for Engineer”, por Blyth.
história da geologia de Engenharia. No período Em 1947, ocorreu a publicação do livro de
entre 1920 e 1930 foi publicado na Rússia um con- Hans Cloos, intitulado “Conversation with the
junto de cartas para apoio à construção do canal Earth”, com a tradução para o inglês em 1953, o

45
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

qual aborda aspectos sobre o comportamento dos por R.F. Legget o livro “Geology and Enginee-
materiais geológicos que constituem a Terra, e o uso ring”. No Brasil está em construção a barragem de
de modelos em escala para o entendimento de falha- Barra Bonita, e é publicado o Decreto da Profissão
mentos, e também no mesmo ano K. Zebera propôs de Geólogo. Em 1963, dois pioneiros publicam o
o Método das Bandas para representação em 3D, e livro “Engineering Geology”, e em 1964 surge o
ainda George A. Kiersch criou a Engineering Geo- embrião da International Association of Engine-
logy Division as the first operating division of the ering Geology (IAEG) tendo como objetivos bá-
Geological Society of America, e também K. Terza- sicos agregar profissionais de diferentes países e
ghi publicou o livro Engineering Geology. Em 1950, tentar homogeinizar os procedimentos técnicos,
dois eventos marcantes foram o lançamento do livro assim como o grupo de Geologia de Engenharia
“Técnicas para a elaboração de Cartas Geotécnicas” da Geological Society. Um texto sobre a tragédia
por Popov (Russia), e o Berkey Volume intitulado de Vaiont foi publicado por G.A. Kiersch (1965),
Application of Geology to Engineering Practices intitulado “The Vaiont Tragedy: geologic causes
(Geological Society), em homenagem a Charles and engineering implications”. Em 1967, ocorreu
Berkey, por S. Paige, sendo este um dos mais signi- o First Congress of the International Society of
ficativos compêndios sobre a atividade do profissio- Rock Mechanics, e entre 1968 e 1969 foram publi-
nal de Geologia de Engenharia. cados pelo CSIRO (Austrália) diversos trabalhos
relacionados à Geologia de Engenharia. Milan
Matula publicou o texto intitulado “Regional En-
1950 – 1970
gineering Geology of Czechoslovak Carpathians”,
No ano de 1951 surge a primeira conceitua- que trouxe uma nova visão de trabalhos de Geo-
lização do profissional de Geologia de Engenha- logia de Engenharia para grandes extensões terri-
ria pelo Executive Committe of the Division on toriais. Em 1968 também ocorreu o 23rd Interna-
Engineering Geology of the Geological Society of tional Geological Congress na cidade de Praga e
America. Em 1955 John Russell Schultz publicou a primeira assembléia geral da IAEG. Nesee con-
o livro “Geology in Engineering”, que teve muitas gresso, foi apresentado um número significativo
edições até o final da década de 1980, e até a atu- de trabalhos relativos à Geologia de Engenharia,
alidade é uma referência bibliográfica importante principalmente de mapeamento geotécnico.
na formação profissional. Em 1957 surge o primei- No Brasil, entre 1950 e 1970 diversos núcleos
ro curso de pós-graduação em Geologia de Enge- de Geologia de Engenharia são iniciados princi-
nharia no Imperial College (Londres-Inglaterra) palmente nos estados de São Paulo, Rio de Janei-
liderado por John Knill, aberto para geólogos e ro e Minas Gerais com a implantação de grandes
engenheiros, e no Brasil surgem os primeiros cur- obras de engenharia e mineração. Haberlenner foi
sos de Geologia nas UFRGS, USP, UFRJ, UFPE contratado em 1956 para trabalhar com hidrelétri-
e UFOP. A base da Association of Engineering cas. Em continuidade, foi trabalhar como profes-
Geologists (AEG) foi criada nos USA, e também sor da UFRJ e publicou, em 1966, o trabalho de-
ocorreu o lançamento do livro “Principles of En- nominado Princípios de Mapeamento Geotécnico
gineering Geology and Geotecnics” por Krynine (primeiro trabalho de Mapeamento Geotécnico no
e Judd, abordando a relação entre a Geologia de Brasil), assim como um relatório para o CNPQ so-
Engenharia e a Geotecnia. bre as encostas da cidade do Rio de Janeiro (jun-
No ano de 1967, ocorreu a fundação da As- to com um grupo de profissionais). Heine (1966)
sociation of Engineering Geology (AEG) com o publicou o texto Levantamento Geotécnico do Es-
objetivo de atingir todos os estados americanos e tado da Guanabara. O ensino de Geologia de En-
traçar as diretrizes técnicas e éticas do profissio- genharia na UFRJ foi iniciado em 1967 como uma
nal de Geologia de Engenharia. Nos anos 1960 tem subárea de Pós-Graduação em 1968. Nesse perí-
a atuação, na Europa leste, do profissional Milan odo, a Geologia de Engenharia era desenvolvida
Matula, um dos dez mais importantes geólogos de no IPT, São Paulo, na Seção de Geologia Aplicada
engenharia, pois atuou em quase todas as frentes fundada em 1955, onde trabalhava Ernesto Pi-
da Geologia de Engenharia. Em 1962, é lançado chler. Em 1968, surgiu a Associação Paulista de

46
Um breve relato sobre a geologia de engenharia

Geologia Aplicada que, junto com outros grupos, de São Paulo, o 2nd International Congress of En-
dá as bases da Associação Brasileira de Geologia gineering Geology, organizado pela ABGE e IAEG;
de Engenharia e a 1ª Semana de Geologia Apli- e ao se consultar os anais verifica-se o quanto foi
cada foi realizada em 1969. R. Glossop fez uma intenso o desenvolvimento da profissão e a expan-
apresentação, em 1969, sobre o tema “Engineering são do conhecimento no Brasil entre 1960 e 1974.
geology and soil mechanics”, que é um texto inte- No período entre 1974 e 1976, foi criada a primeira
ressante para o entendimento da relação das duas Comissão da IAEG (Engineering Geological Map-
áreas de conhecimento. ping Commission – IAEGE), e ocorreu a publicação
Nesse período, vale a lembrança de alguns do texto “The logic of engineering geological and
profissionais que desenvolviam atividades pro- related maps: A discussion of the definition and
fissionais, como homenagem a todos os geólogos classification of map units, with special references
de engenharia, tais como: Murilo Dondici Ruiz, to problems presented by maps intended for uses
Milton Kanji, Fernando Pires de Camargo, Guido in civil engineering” por Varnes. Esse texto trouxe
Guidicini, Fernão Paes de Barros, Luiz Ferreira novos aspectos que vieram a ser incorporados nos
Vaz, Alfredo José Simon Bjorberg, Nivaldo Chios- trabalhos de mapeamento geotécnico. Em 1975 foi
si, Ronaldo Simões Lopes de Azambuja, Josué realizado o 1º Congresso Brasileiro de Geologia de
Alves Barroso, Sergio Brito, Antonio Manuel de Engenharia e iniciaram-se as obras da Barragem de
Oliveira e outros. Itaipu. Em 1976, foi criado o curso de pós-gradua-
ção em Geotecnia na Escola de Engenharia de São
Carlos (USP), que reuniu os esforços dos membros
1970 - 1980
do Departamento de Geotecnia e o Setor de Geolo-
Nessa década, a Geologia de Engenharia so- gia de Engenharia do IPT. Durante o ano de 1978 foi
freu uma grande expansão, atingindo praticamente realizado, em Madrid, o 3rd International Congress
todos os países. No ano de 1970, houve a realização, of Engineering Geology com temática central com
em Paris, do 1st International Congress of Engine- um número significativo de trabalhos e seguindo a
ering Geology, que tem uma grande importância, mesma distribuição do ocorrido em São Paulo. No
pois foram apresentados trabalhos de centenas de mesmo ano, o 2º Congresso Brasileiro de Geologia
países, e até os dias atuais muitos são consultados de Engenharia ocorreu na cidade de São Paulo,
para a orientação de atividades profissionais e de com um conjunto de trabalhos predominantemen-
pesquisa. Em 1970, também foi lançado o Bulletin te relacionados a obras de engenharia e também o
of the International Association of Engineering Ge- trabalho de Prandini e outros autores relativo aos
ology, e o primeiro número trouxe texto de M. Ar- Morros de Santos e São Vicente que tornou-se um
nould sobre a “International Association of Engine- referencial no Brasil em termos de Geologia Apli-
ering Geology, History-Activity”, com os estatutos cada às áreas urbanas.
e outras informações, assim como trabalhos sobre Em 1970, a Geological Society of London
o estágio da Geologia de Engenharia em alguns pa- publicou um texto intitulado “The logging of
íses. Entre 1971 e 1972 foram realizadas as 2ª, 3ª e rock cores for engineering purposes” (elabora-
4ª Semana de Geologia Aplicada Associação Pau- do por J. L. Knill, C. R. Cratchley, K. R. Early,
lista de Geologia Aplicada. Fred O. Jones publicou, R. W. Gallois, J. D. Humphreys, J. Newbery, D.
em 1973, um estudo feito sobre os escorregamen- G. Price e R. G. Thurrell) que passou por uma re-
tos do Rio de Janeiro e da Serra das Araras (asso- visão em 1977, caracterizado como um texto fun-
ciação entre o DNPM e a Agency for International damental para Geologia de Engenharia.
development – USA), abordando um histórico dos Em 1979, ocorreram duas reuniões coorde-
processos; assim como uma análise geral dos con- nadas pela IAEG o “Engineering Geological Ma-
dicionantes e de outros aspectos antrópicos envol- pping Symposium, Newcastle upon Tyne” que
vidos (Landslides of Rio de Janeiro and the Serra pode ser considerado um dos dez melhores con-
das Araras Escarpment, Brazil). O ano de 1974 foi juntos de trabalhos sobre mapeamento geotécni-
um dos anos mais importante para a Geologia de co, e uma proposta da Commission Engineering
Engenharia no Brasil, pois foi realizado, na cidade Geological Mapping (IAEG) sobre classificação de

47
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

rochas e solos (Classification of Rocks and Soils de Solos e Fundações na cidade de Salvador (BA).
for Engineering Geological Mapping. Part 1: Rock O 1o Simpósio Latino-Americano sobre Riscos Ge-
and Soil Materials). ológicos Urbanos ocorreu em São Paulo (SP) em-
balado principalmente pela declaração pela ONU
da Década Internacional de Redução de Riscos.
1980 – 1990
Nesse período, surgem os recursos compu-
No início da década, a ABGE realizou o 3º tacionais que propiciam o tratamento das infor-
Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia mações de maneira mais consistentes, assim como
na cidade de Itapema (SC), com intensa apresen- o uso de modelos matemáticos e possibilitam a
tação de trabalho relacionados às obras realizadas maior eficiência de técnicas, como as geofísicas e
entre 1960 e 1970, assim como em realização e em de monitoramento.
projeto. Em 1982, a IAEG realizou o 4th Internatio-
nal Congress of Engineering Geology, na cidade 1990 – 2000
de New Delhi, e a Geological Society of London
publica o texto “Land Surface Evaluation for En- No ano de 1991 ocorreu um evento e a publi-
gineering Practice (Report by a Working Party)” cação do texto “The heritage of Engineering Geo-
com orientações e procedimentos que auxiliaram logy: The First hundred years” por G.A.Kiersch,
o desenvolvimento do mapeamento geotécnico que constitui um dos mais completos textos sobre
em muitos países. O 4º Congresso Brasileiro de a evolução da Geologia de Engenharia, no caso
Geologia de Engenharia ocorreu na cidade de para o USA. No mesmo ano, a publicação do li-
Belo Horizonte (MG) com temática e trabalhos na vro “Engineering Geological Mapping”, por De-
mesma direção que o anterior, e o 5th Internatio- arman, sintetizou um conjunto de conhecimentos
nal Congress of Engineering Geology (IAEG) foi sobre o mapeamento geotécnico, principalmente
em Buenos Ayres, sempre mantendo o objetivo da da Inglaterra, e alguns trabalhos clássicos.
IAEG da difusão da Geologia de Engenharia nos Em 1993, ocorreu em São Paulo, o 1º Simpósio
diferentes países. Brasileiro de Cartografia Geotécnica e na cidade
Em 1981, a AEG (USA) publicou a primeira de Poços de Caldas (MG) ocorreu o 7º Congresso
edição do Professional Practice Handbook (http:// Brasileiro de Geologia de Engenharia, onde houve
www.aegweb.org/files/public/aegpph.pdf), que diversas mesas redondas e debates sobre temática
se caracteriza como um texto fundamental não so- variada dentro da Geologia de Engenharia e áreas
mente para os geólogos de engenharia americanos, afins. Maciel Filho publicou a primeira versão do
mas para brasileiros e de outros países. Esse texto livro Geologia de Engenharia em 1994, e ocorreu
ainda é pouco conhecido no meio técnico brasilei- em Lisboa o 7th International Congress of Enginee-
ro. Esse congresso encerrou uma fase da Geologia ring Geology, com a maior participação de brasilei-
de Engenharia no Brasil e deu início a outra, com ros, sem contar o realizado em São Paulo, em 1974.
uma diversidade maior de trabalhos. Em 1996, ocorre o 8º Congresso Brasileiro de Geo-
Em 1987, no 5º Congresso Brasileiro de Ge- logia de Engenharia, na cidade do Rio de Janeiro, e
ologia de Engenharia, em São Paulo, foi apresen- confirma-se o processo de mudanças iniciado em
tado um grupo de trabalhos sobre a Geologia de 1990, com predomínio de trabalhos com enfoque
Engenharia em termos de evolução, perspectivas ambiental. No ano de 1996, a ABGE desenvolveu
e as necessidades de desenvolvimento. um projeto junto com o CNPQ/PADCT sobre o
Em 1990, a IAEG realiza o seu 6th Internatio- diagnóstico da sub-área de Geologia de Engenha-
nal Congress of Engineering Geology, em Ams- ria envolvendo as escolas e os profissionais.
terdan, e foi o evento com a menor participação Ainda no ano de 1996 ocorreu uma reunião
de brasileiros entre todos os congressos da IAEG. técnico-científica sobre incertezas nos ambientes
Por outro lado, a ABGE e a ABMS buscaram a re- geológicos (Uncertainty in the Geologic Environ-
alização conjunta de eventos e realizaram, em Sal- ment: From Theory to Practice), que discutiu com
vador, o 6º Congresso Brasileiro de Geologia de profundidade a importância da avaliação das in-
Engenharia e o Congresso Brasileiro de Mecânica certezas nos projetos ambientais e geotécnicos.

48
Um breve relato sobre a geologia de engenharia

Em 1997, Maciel Filho lança uma nova versão respectivas instituições, incluindo a contra-
do livro com o título Geologia de Engenharia e Pe- tação de profissionais e/ou treinamento de
ter Fookes proferiu a palestra como First Glossop técnicos,
Lecture, com o título “Geology for engineers: the 2. Diversos grupos (SP, RJ, PR, SC, RS, PE, MG)
geological model, prediction and performance”, passaram a atuar no âmbito dos Desastres
que trata das relações entre as informações geoló- Naturais, principalmente movimentos de
gicas e as obras de engenharia, e discutiu diversos massa gravitacionais e inundações,
aspectos conceituais sobre os diferentes temas que 3. Houve um aumento do oferecimento de dis-
são considerados dentro do campo da Geologia e ciplinas com conteúdo de Geologia de Enge-
Geotecnia. A Geologia de Engenharia completa- nharia nos cursos de graduação de Geologia,
va 30 anos na UFRJ e um relato muito especial foi Engenharia Civil, de Minas e Ambiental,
elaborado por Barroso e Cabral sobre a área de 4. Os Sistemas Geográficos de Informações (SIG)
conhecimento, relatando os aspectos de implanta- tornam-se comuns e permitem a disposição
ção e das atividades até então desenvolvidas. Em de dados espaciais de forma mais dinâmica.
1998, realizou-se em Vancouver (Canada) o 8th In- Consequentemente, trazem ganhos positivos
ternational Congress of Engineering Geology, e aos profissionais, pois permitem uma análise
partir de então a IAEG passou a ser denominada e interpretação mais efetiva dos dados, por
International Association of Engineering Geology outro lado, há os negativos, como a preocu-
and the Environment (IAEGE) e o Engineering pação somente estética dos trabalhos, o que
Geology Group (US Department of the Interior tem levado a trabalhos (científicos e profis-
– Bureaux of Reclamation) lança em edição limita- sionais) sem conteúdo técnico, o que passa
da o Engineering Geology Field Manual (http:// aos novos profissionais a idéia de que a Ge-
www.usbr.gov/pmts/geology/geoman.html), ologia de Engenharia é somente um aspecto
que é um texto pouco conhecido pelo meio técni- de estética dos documentos cartográficos, e
co brasileiro, de excelente qualidade. No final da 5. Os programas de pós-graduação com linhas
década, a ABGE realizou o 9º Congresso Brasilei- temáticas de Geologia de Engenharia tem
ro de Geologia de Engenharia na cidade de São um crescimento acentuado em programas
Pedro (SP), onde a maioria dos trabalhos foi com relacionados às Geociências, Engenharia Ci-
temáticas ambientais. vil e de Minas. No final da década existiam
No ano de 2000, ocorreu na Austrália um no Brasil cerca de 20 programas em institui-
evento técnico-científico envolvendo a IAEGE ções federais, estaduais e privadas, principal-
International Association of Rock Mechanics mente nos estados de SP, RJ, MG, RS, PR, PE,
(ISRM) e International Soil Mechanics and Foun- BRASILIA e BA.
dation Engineering (ISMEF), que discutiram a
reunião das três áreas básicas da Geotecnia em A partir do inicio desta década há uma par-
função do termo “Common Ground”. Neste, foi ticipação de um numero significativo de profis-
proferida uma palestra por Morgenstern sob o tí- sionais nos trabalhos envolvendo aspectos am-
tulo de “Common Ground” e também outra por bientais, chegando a atingir mais da metade dos
Fookes, Baynes e Hutchinson sobre o tema “Total profissionais em muitos paises, e consequente-
Geological History: A model approach to the an- mente ocorreu a adoção do termo Ambiente nas
ticipation, observation and understanding of site denominações da IAEG e de grande parte das as-
conditions”. Ambas são muito interessantes para sociações nacionais.
os profissionais de Geologia de Engenharia e da
Geotecnia de maneira geral. 2000 – 2011
Para a Geologia de Engenharia no Brasil, nes-
sa década, ocorreram alguns fatos marcantes e Nessa década, a ABGE implementou as co-
importantes: missões de cartografia geotécnica, riscos, erosão,
1. A CPRM, o Instituto Geológico (SP) e a Mi- geofísica, recursos hídricos, temas gerais e resídu-
neropar (PR) fortaleceram a área dentro das os, e o Banco de Dados de Cartografia Geotécnica

49
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

e Geoambiental, que conta atualmente cerca de a Geologia de Engenharia como parte da solução
1000 trabalhos cadastrados. dos problemas ambientais.
A IAEGE realizou, em 2002, o 9th Internatio- Proske, Vlcko, Rosenbaum, Dorn, Culshaw,
nal Congress of Engineering Geology, em Durban Marker (Report of IAEG Commission 1 Enginee-
(África do Sul), com a temática central Geologia ring Geology Mapping) publicaram o texto “Spe-
de Engenharia para os países em desenvolvimen- cial purpose mapping for waste disposal sistem”,
to. Knill (2002) realizou a palestra The First Hans- que trata de tema frequente nas publicações e ativi-
Cloos Lecture - Core Values for Engineering Geo- dades profissionais envolvendo a seleção e caracte-
logy, que levou a IAEGE a realizar debates sobre o rização de áreas para disposição de resíduos. M.G.
tema e, em 2004, publicou no IAEG News (Vol 32, Culshaw publicou o texto “From concept towards
No 1, 2004), um conjunto de tópicos considerados reality: developing the attributed 3D geological
como Core Values: model of the shallow subsurface”, que aborda tema
fundamental para o entendimento da variabilida-
1. Site specific engineering geological descriptions de espacial dos materiais geológicos e estruturas
(local or project related) of stratigraphy, structure,
groundwater, processes, and the related engineering or
geológicas, e que ganhou nova força, nessa déca-
environmental performance. da, devido aos avanços das técnicas computacio-
nais. No Brasil, ocorreu o 11º Congresso Brasileiro
2 . Universal engineering geological syntheses (ap- de Geologia de Engenharia e Ambiental, na cidade
plicable throughout the world) of properties, parame- de Florianópolis (SC), e foi mantida a tendência de
ters, engineering performance of geological materials
trabalhos com enfoques ambientais,
or processes, soil/rock/water systems, environmental
systems, especially inhomogeneous and/or fractured Em 2006, foi realizado em Newcastle (Ingla-
materials and/or active processes. terra) o 10th International Congress of Enginee-
ring Geology and the Environment, com o tema
3. Investigation and characterization methods, central Geologia de Engenharia para as cidades do
surface and subsurface field techniques especially to futuro, e algumas publicações trouxeram novas
investigate and describe spatial variability, capabilities
idéias e debates. A publicação de H. Bock denomi-
and limitations of investigation techniques.
nada “Common ground in engineering geology,
4. Engineering geological models as representations soil mechanics and rock mechanics: past, present
of site specific and anticipated engineering geological and future” aponta caminhos futuros que po-
conditions, preparation protocols, metadata require- dem ser seguidos pelas três disciplinas básicas da
ments, descriptions of geological uncertainty, visuali- Geotecnia. Chacón, Irigaray, Fernández e El Ha-
zation of models, methods of transforming into ground
engineering models, use of models for risk management
mdouni, também em 2006, publicam artigo com o
and geohazard engineering título “Engineering geology maps: landslide and
geographical information systems (Report to the
5. Management and communication of enginee- Commission 1 on Engineering Geology Maps, IA-
ring geological information, reporting, engineering EGE)” caracterizando-se como uma síntese bem
geological terminology, defensible reporting standards,
completa do tema. Em 2008, a ABGE realizou o
codes of practice, communication with endusers, edu-
cation and training. 12º Congresso Brasileiro de Geologia de Enge-
nharia e Ambiental, em Pernambuco, na cidade
A ABGE realizou o 10º Congresso Brasileiro de Porto de Galinhas, e houve um predomínio de
de Geologia de Engenharia em 2002 na cidade de trabalhos com enfoques ambientais e, por outro
Ouro Preto (MG), com a apresentação de um nú- lado, os aspectos de Geologia de Engenharia em
mero significativo de trabalhos associados às ati- boa parte deles não foram considerados como é
vidades de mineração. esperado para trabalhos dessa natureza. Em 2009,
Em 2005, a AEG passa a ser denominada ofi- a Geological Society of London publica um livro
cialmente Association of Environmental & Engi- especial (Editado por M G Culshaw, H J Reeves,
neering Geologists, incorporando em suas orien- I Jefferson and T Spink) que tem por título “En-
tações aspectos da Geologia Ambiental e, assim, gineering Geology for Tomorrow´s Cities”, com
as duas maiores associações passam a considerar textos elaborados por diversos autores sobre as

50
Um breve relato sobre a geologia de engenharia

bases e o futuro da Geologia de Engenharia, com sileiros de Geologia de Engenharia, simpósios de


visões para diferentes países. O 11th International erosão, resíduos, riscos, cartografia geotécnica e geo-
Congress of Engineering Geology and the Envi- ambiental. Assim como alguns eventos de ordem
ronment (IAEGE) realizou-se em Auckland (Nova internacional, como o congresso da IAEG, Simpósio
Zelândia), abordando predominantemente temas Latino-Americano de Riscos, entre outros.
ralativos aos eventos perigosos (hazard), riscos e As disciplinas de Geologia de Engenharia ofe-
sobre o futuro da Geologia de Engenharia como recidas em cursos de Geologia ainda são secundá-
uma ciência de aplicação. A ABGE realiza, em rias em muitos cursos, oferecidas como optativas,
2011, o 13º Congresso Brasileiro de Geologia de em um único semestre e, às vezes, com conteúdo
Engenharia, na cidade de São Paulo, com o lança- fora do contexto necessário ao desenvolvimento
mento da Revista REGEA (Revista de Geologia de profissional. Por outro lado, existem disciplinas
Engenharia e Ambiental) e um conjunto de sim- oferecidas para cursos de Engenharia Civil, de
pósios concomitantes. Minas e Ambiental com conteúdo adequado e por
Dentre todos os aspectos que a Geologia de profissionais muito competentes, levando a uma
Engenharia debateu nestes últimos 10 anos dois situação onde em curto espaço de tempo, em se
predominaram, sendo as avaliações de INCER- mantendo as condições atuais, deve modificar o
TEZAS (Uncertainty) na previsão de eventos pe- perfil do profissional no mercado.
rigosos e riscos associados, sejam relacionados às Atualmente, em mais de 100 países existem
obras de engenharia, recuperação e prognósticos periódicos específicos para publicação de arti-
de problemas ambientais ou processos naturais e gos sobre a evolução do conhecimento técnico-
as análises em 3D/4D models. científico no país, como também por avanços nas
técnicas de investigação e no desenvolvimento
de novos equipamentos e procedimentos. Em
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
termos internacionais, vale destacar os periódi-
É fundamental a Geologia de Engenharia cos: Engineering Geology (publicado pela El-
manter a IDENTIDADE que a caracteriza como sevier), Quarterly Journal of Engineering Geology
uma área de conhecimento fim e não meio!!! and Hydrogeology (publicado pelo Engineering
O desenvolvimento da Geologia de Engenha- Group da Geological Society of London, Bulletin
ria depende da qualidade da formação profissional of Engineering Geology and Environment (publi-
(graduação e pós-graduaçao) e da ética dos profis- cado pela Springer), Geotechnical and Geological
sionais no desenvolvimento das suas atividades!! Engineering (publicado pela Springer), Rewier in
Em trabalho desenvolvido por Hatheway et Engineering Geology (publicado pela (Geological
al. (2005), a demanda na Europa e Estados Unidos Society of America), Italian Journal of Engineer-
para geólogos de engenharia bem qualificados é ing Geology and Environment (publicado pela
muito grande, porém, as escolas que são respon- “La Sapienza” Publishing House da University of
sáveis pela formação desses profissionais estão em Rome “La Sapienza”), Journal of the Japan Soci-
declínio por diversos fatores, dentre eles a falta de ety of Engineering Geology (publicado pela Japan
financiamento das pesquisas. Essa situação tam- Society of Engineering Geology), Hydrogeology
bém é válida para o caso do Brasil, e principalmen- and Engineering Geology (Founded in 1957, is in
te junto aos cursos de graduação em Geologia. charge of Land and Resources, China Geological
De acordo com Knill (2002), a Geologia de Environmental Monitoring Institute), Journal of
Engenharia, para ser bem sucedida deve demons- Engineering Geology (AD of Publication: China),
trar um equilíbrio entre um entendimento de alta Australian Geomechanics (Published for the Aus-
qualidade da geologia e a adequada apreciação tralian Geomechanics Society by the Institution of
para fins de engenharia e ambientais de tal manei- Engineers, Australia), Australian Journal of Earth
ra que a informação relevante seja considerada. Sciences (An International Geoscience Journal of
Desde o início 1968/1970 a ABGE já realizou the Geological Society of Australia),
mais de uma centena de eventos técnico- científi- Em termos de livros, é possível encontrá-los
cos de caráter nacional, como os Congressos Bra- na maioria dos países mantendo características

51
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

regionais quanto à língua e/ou conteúdo. Entre- Price D. G. (2009) Engineering Geology Principles
tanto, há um grupo que pode ser considerado de and Practice. Freitas, Michael de (Ed.) 450 p. 182
caráter internacional e que deve fazer parte da illus. Springer.
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55
1
2
RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
Av. Prof. Almeida Prado, 532 – IPT (Prédio 11) 05508-901 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3767-4361 - Telefax: (11) 3719-0661 - E-mail:abge@ipt.br - Home Page: http://www.abge.com.br

DIRETORIA - GESTÃO 2009/2011


Presidente: Fernando Facciolla Kertzman
Vice-Presidente: Gerson Salviano de Almeida Filho
Diretora Secretária: Kátia Canil
Diretor Financeiro: Luiz Fernando D`Agostino
Diretor de Eventos: Elisabete Nascimento Rocha
Diretor de Comunicação: Marcelo Fischer Gramani

CONSELHO DELIBERATIVO
Elaine Cristina de Castro, Elisabete Nascimento Rocha, Fabio Canzian da Silva, Fabrício Araújo Mirandola, Fer-
nando Facciolla Kertzman, Fernando Ximenes T. Salomão, Gerson Almeida Salviano Filho, Ivan José Delatim,
Kátia Canil, Leonardo Andrade de Souza, Luiz Antonio P. de Souza, Luiz Fernando D’Agostino, Marcelo Fis-
cher Gramani, Newton Moreira de Souza, Selma Simões de Castro.

NÚCLEO RIO DE JANEIRO


Presidente: Nelson Meirim Coutinho - Vice-Presidente: Antonio Queiroz
Diretor Secretário: Eusébio José Gil - Diretor Financeiro: Cláudio P. Amaral
End.: Av. Rio Branco, 124 / 16o andar – Centro - 20040-916 - Rio de Janeiro - RJ
Tel : (21) 3878-7878 Presidente - Tel.: (21) 2587-7598 Diretor Financeiro

NÚCLEO MINAS GERAIS


Presidente: Maria Giovana Parizzi - Secretário: Frederico Garcia Sobreira
Tesoureiro: Luís de Almeida P. Bacellar - Diretor de Eventos: Leonardo A. Souza
End.: Univ. Fed. de Ouro Preto - Depto. Geologia - 35400-000 – Ouro Preto/MG
Fone: (31) 3559.1600 r 237 Fax: (31) 3559.1606 –

REPRESENTANTES REGIONAIS UF

ROBERTO FERES AC
HELIENE FERREIRA DA SILVA AL
JOSÉ DUARTE ALECRIM AM
CARLOS HENRIQUE DE A.C. MEDEIROS BA
FRANCISCO SAID GONÇALVES CE
NORIS COSTA DINIZ DF
JOÃO LUIZ ARMELIN GO
MOACYR ADRIANO AUGUSTO JUNIOR MA
ARNALDO YOSO SAKAMOTO MS
KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-
GEOTÉCNICOS APLICADOS A PROJETOS
DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS
AMBIENTAIS: ESTAMOS AVANÇANDO?

Omar Yazbek Bitar omar@ipt.br*


Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo – amacafi@ipt.br*
Sofia Julia Alves Macedo Campos – scampos@ipt.br*
Tânia de Oliveira Braga – taniabrg@ipt.br*
Caio Pompeu Cavalhieri – caiopc@ipt.br*

RESUMO Abstract
Discute-se a integração dos estudos geológico-ge- INTEGRATION OF THE GEOLOGICAL AND GE-
otécnicos realizados para fins de projetos de enge- OTECHNICAL STUDIES APPLIED TO ENGINE-
nharia e de avaliação de impactos ambientais de ERING PROJECTS AND ENVIRONMENTAL IM-
empreendimentos propostos, com destaque a obras PACT ASSESSMENT: ARE WE MOVING?
de infraestrutura e indústrias de base. Inicialmente,
apresenta-se a correspondência entre os principais This paper discusses the integration of the geological
tipos de projetos de engenharia realizados nas di- and geotechnical studies applied to engineering pro-
ferentes fases de um empreendimento e os estudos jects and environmental impact assessment for new
ambientais requeridos no processo de Avaliação de developments, especially engineering works of infras-
Impacto Ambiental. Analisam-se as relações entre tructure and basic industries. Initially, the correspon-
os estudos geológico-geotécnicos envolvidos nas dence between the main types of previous engineering
duas frentes de aplicação. Dentre vários enfoques projects developed in the phases of a proposed develo-
possíveis, enfatiza-se o grau de integração dos estu- pment, and the environmental studies required by En-
dos geológico-geotécnicos adquiridos e gerados nas vironmental Impact Assessment process is presented.
diferentes fases de um empreendimento, tendo em The relations among the geological and geotechnical
conta a perspectiva de propiciar, ao mesmo tempo studies involved in these two contexts are examined,
e com igual relevância, a construção de obras ade- that means both due to the engineering projects and
quadas e sustentáveis. Busca-se contribuir para uma the environmental impact studies. Amongst several
compreensão sobre se, de fato, está se avançado nes- possible approaches, the analysis of integration grade
sa integração ou se ainda há um longo caminho a between the acquired and generated knowledge in the-
percorrer para um aproveitamento mais efetivo do se two areas is emphasized in order to provide at the
conhecimento geológico-geotécnico. Toma-se como same time and with equal importance the construction
referência observações efetuadas em casos de rodo- of appropriate and sustainable engineering works. The
vias, ferrovias, dutovias, minas, loteamentos e ater- aim is to encourage to the perception of whether this
ros sanitários, realizados nos últimos anos no estado combination is advancing or there is still a long way to
de São Paulo e submetidos ao processo de Avalia- achieve an integrated the geological and geotechnical
ção de Impacto Ambiental, instrumento por meio do knowledge. Observations from cases of roads, railways,
qual a integração dos estudos geológico-geotécnicos pipelines, mines, housing developments and landfills
nas duas frentes de aplicação tem sido potencializada. in recent years and submitted to the Environmental
Os resultados obtidos indicam que há sinais de inte- Impact Assessment process at the state of São Paulo are
gração, mas predomina ainda certo distanciamento. used to develop this paper. The Environmental Impact
Apontam-se alguns desafios tecnológicos e gerenciais Assessment process has been increasingly enhancing

* Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), São Paulo, SP, Brasil, labgeo@ipt.br
57
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

a enfrentar em prol de um aproveitamento mais inte- the synergy between these two approaches. The results
grado do conhecimento geológico-geotécnico em no- indicate that there are signs of rapprochement althou-
vos emprendimentos. gh remains still some distance. Some technological and
management challenges facing towards integrated use
Palavras-chave: geologia de engenharia; meio ambien- of geological and geotechnical knowledge applied to
te; conhecimento geológico-geotécnico; obras de infra- the engineering and environmental studies related to
estrutura; indústrias de base. the new developments are brought forward.

Keywords: engineering geology; environment; geologi-


cal and geotechnical knowledge; infrastructure works
and basic industries.

1 INTRODUÇÃO

As primeiras experiências relacionadas à a obra já em andamento (MONOSOWSKI, 1994,


aplicação de dados e informações de caráter ge- apud SÁNCHEZ, 2006).
ológico-geotécnico em projetos de engenharia no Não obstante, as aplicações do conhecimento
País remontam ao início do século passado. Muito geológico-geotécnico a problemas ambientais de-
avanço se obteve desde então, constatando-se hoje correntes de obras de engenharia ganhariam im-
a importância do conhecimento geológico-geotéc- pulso no País com a edição de políticas públicas
nico na construção de obras, desde as de pequeno ambientais, instituídas a partir da década de 1960,
porte até as de maior complexidade. Exemplos do tanto em nível federal quanto no âmbito dos es-
papel relevante desempenhado por esse tipo de tados relativamente mais industrializados, como
conhecimento em obras de infraestrutura podem MG, RJ, RS e SP. Marco relevante desse processo
ser encontrados em empreendimentos instalados está na Política Nacional do Meio Ambiente, cria-
em diferentes regiões do País, sobretudo entre da e regulamentada no início da década de 1980,
1930 e 1980, como usinas hidrelétricas, linhas de que incluiu o processo de Avaliação de Impacto
transmissão, rodovias, ferrovias, dentre outros Ambiental (AIA) como um de seus instrumen-
nos quais a aplicação do conhecimento geológico- tos fundamentais. Com a edição dessa Política
geotécnico se mostrou essencial na viabilização de e da subsequente Resolução 01/86 do Conselho
projetos de engenharia. Nacional do Meio Ambiente, que estabeleceu as
Com o surgimento de demandas relaciona- primeiras orientações para a realização da AIA e
das ao meio ambiente, em sintonia com tendên- do correspondente Estudo de Impacto Ambien-
cias internacionais, deflagradas especialmente tal/Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima),
a partir do final da Segunda Grande Guerra, o explicitou-se literalmente o meio físico entre os
conhecimento geológico-geotécnico começa a se subsistemas que devem ser estudados previa-
desenvolver também em relação aos desafios am- mente. Dessa forma, com a inclusão do meio fí-
bientais inerentes à implantação de grandes obras sico entre os fatores de decisão para a aprovação
de engenharia. Datam da década de 1970 as pri- de empreendimentos que podem gerar mudan-
meiras manifestações da comunidade científica, ças significativas no ambiente, a contribuição do
grupos ecologistas e populações locais, bem como conhecimento geológico-geotécnico passou a ser
diretrizes de organismos internacionais de fomen- progressivamente considerada nos estudos am-
to, no sentido de exigir a apresentação de estudos bientais de empreendimentos novos.
prévios sobre o meio ambiente, como requisito Assim, para uma mesma obra de engenharia,
para a obtenção de financiamentos em grandes desde então se distingue claramente a demanda
obras de infraestrutura. A Usina Hidrelétrica de por estudos geológico-geotécnicos em duas fren-
Tucuruí/PA teria sido a primeira grande obra no tes básicas de aplicação: uma visando atestar a
País para a qual se condiciou o aporte de recursos viabilidade técnica dos projetos de engenharia e
financeiros à realização de um estudo de impac- subsidiar a construção e operação dos empreendi-
to ambiental, que acabou realizado em 1977, com mentos; e outra de modo a equacionar os impactos

58
Integração de estudos geológico-geotécnicos aplicados a projetos de engenharia e à avaliação de impactos ambientais

ambientais decorrentes e demonstrar a viabilida- das de diferentes empresas e instituições. Essas


de ambiental do empreendimento. Em relação aos equipes, por sua vez, relacionam-se também com
projetos de engenharia (que incluem anteprojeto equipes de unidades organizacionais distintas no
ou projeto conceitual, projeto básico, projeto exe- âmbito do empreendedor, havendo apenas even-
cutivo e outros), os estudos geológico-geotécnicos tuais contatos entre elas, para a discussão de um
requeridos se relacionam principalmente com ou outro assunto considerado de maior relevân-
o desafio de prever o comportamento da intera- cia e salientado por parte do empreendedor. Em
ção obra-meio  físico, com a finalidade de garan- decorrência, dificulta-se a integração dos estudos
tir a execução de uma obra segura, operacional e geológico-geotécnicos produzidos em cada frente.
tecnicamente adequada. Sob o ponto de vista da Por outro lado, a constatação de casos em que hou-
viabilidade ambiental, procurando também pre- ve maior cooperação entre as equipes e integração
ver a interação obra-meio  físico, a preocupação dos estudos geológico-geotécnicos, com notáveis
maior reside em avaliar as consequências futuras resultados benéficos ao conjunto da obra, sugere
adversas em relação ao meio ambiente. Portanto, que situações melhores podem ser alcançadas em
embora com enfoques, abordagens e ferramentas outros empreendimentos.
distintos, os estudos geológico-geotécnicos re- A acepção do termo interação considerada no
queridos nas duas frentes de aplicação contem- presente artigo diz respeito ao fenômeno em que
plam essencialmente o mesmo objeto de análise certos agentes, ao constituir um conjunto (no caso,
(a interação obra-meio físico), fato que ressalta a o conjunto obra-meio físico), acabam por exercer
importância da integração dos estudos geológico- influência mútua e o comportamento de cada par-
geotécnicos realizados nas duas frentes. te se torna estímulo para a outra. Por sua vez, coo-
Dentre os muitos aspectos que se poderia peração se relaciona a atividades que, embora com
analisar em relação a esses estudos geológico-ge- origens e finalidades distintas, visam à obtenção
otécnicos, destacam-se a cooperação técnica entre de resultados que sejam relevantes e beneficiem
as equipes envolvidas na sua elaboração em cada igualmente as partes envolvidas. Difere, portanto,
frente e a integração efetiva do conhecimento do significado de colaboração, termo este mais asso-
geológico-geotécnico desenvolvido nas duas apli- ciado à ideia de auxílio ou apoio de uma parte em
cações. Isso não apenas em prol de uma maior ra- relação à outra, sem necessariamente haver reci-
cionalização de equipes e recursos, mas também procidade. O termo integração, por seu lado, é aqui
no sentido de propiciar uma compreensão apri- entendido no sentido da confluência organizada
morada e mais abrangente acerca da interação de partes para a constituição de um todo, com a
obra-meio físico. Ou seja, de modo a propiciar a finalidade de bem cumprir um objetivo comum.
aquisição e geração de conhecimentos geológico- De acordo com o entendimento desses termos e
geotécnicos em favor da realização de obras ade- do pressuposto de que tanto os projetos de enge-
quadas sob o ponto de vista dos projetos de enge- nharia quanto os estudos ambientais devem visar
nharia e, ao mesmo tempo e com igual relevância, à sustentabilidade econômica, social e ambiental
essenciais também à perspectiva de sustentabili- do empreendimento, considera-se que a coopera-
dade ambiental do empreendimento. ção efetiva entre equipes técnicas de geologia e/
No entanto, observações preliminares efetu- ou geotecnia envolvidas nas duas frentes de apli-
adas em casos de empreendimentos submetidos cação tende a propiciar maior grau de integração
ao processo de AIA nos últimos anos indicam que dos estudos geológico-geotécnicos realizados.
a cooperação entre as equipes e a integração dos
estudos geológico-geotécnicos desenvolvidos nas 1.1 Objetivos
duas frentes de aplicação ocorrem ainda de ma-
neira incipiente na maior parte dos casos, sendo Este artigo objetiva analisar as relações esta-
até mesmo ausente em certas situações. Indícios belecidas entre os estudos geológico-geotécnicos
nesse sentido estão na prática usual de se consti- elaborados para fins de projetos de engenharia e os
tuir equipes de geologia e/ou geotecnia distintas estudos geológico-geotécnicos elaborados para fins
para uma e outra aplicação, geralmente oriun- de avaliação e gestão de impactos ambientais, a

59
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

partir do contexto de AIA e relativos a um mesmo de um empreendimento, e os estudos ambientais


empreendimento. Busca-se destacar evidências de requeridos no correspondente processo de AIA.
cooperação entre as equipes técnicas envolvidas e Para isso, priorizam-se os procedimentos forma-
de integração dos estudos geológico-geotécnicos lizados por órgãos ambientais encarregados do
desenvolvidos nas duas frentes de aplicação, ou licenciamento ambiental, em nível federal e esta-
seja, tanto aqueles gerados para fins de projetos dual. Admite-se que a correspondência entre os
de engenharia quanto os que constituem parte projetos de engenharia e os estudos ambientais,
dos requisitos ambientais em AIA, incluindo o li- conforme propugnadas pelos órgãos ambientais,
cenciamento ambiental correlato. configura os vários contextos e momentos em que
Pretende-se contribuir para uma reflexão se pode esperar uma integração entre os estudos
acerca de tendências em relação ao tema, deline- geológico-geotécnicos realizados nas duas frentes
ando se a cooperação entre as equipes técnicas e a de aplicação.
integração dos estudos aplicados às duas frentes Em seguida, efetuaram-se observações sobre
ocorrem e se mostram efetivas ou se, de fato, pe- estudos geológico-geotécnicos realizados para
rante eventuais dificuldades encontradas, desen- projetos de engenharia e estudos ambientais re-
volvem-se de modo incipiente, havendo um lon- lativos a casos nos quais os autores do presente
go caminho a percorrer em prol de uma condição trabalho tiveram alguma participação, em apoio
mais favorável. ao órgão ambiental ou ao empreendedor, em di-
Em termos específicos, visa-se distinguir os versas fases da evolução dos empreendimentos.
principais contextos formais e institucionais que Para tal, selecionaram-se casos de obras de in-
favorecem uma integração maior entre os estudos fraestrutura e de indústrias de base (mineração,
geológico-geotécnicos realizados nas duas frentes cimento) submetidas aos procedimentos de AIA
de aplicação. Obter um panorama da evolução dos e de licenciamento ambiental no estado de SP. O
estudos geológico-geotécnicos aplicados a aspec- universo inicialmente considerado abrange al-
tos e impactos ambientais em obras de engenharia gumas centenas de empreendimentos, conforme
no País, considerando a possibilidade de que po- acervo documentado em relatórios e pareceres
dem auxliar no entendimento das relações estabe- técnicos elaborados pelo Instituto de Pesquisas
lecidas nas duas frentes de aplicação ao longo do Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) desde
tempo, no âmbito nacional, encontra-se também 1988. No entanto, tendo em conta as finalidades
entre os objetivos específicos do trabalho. do presente trabalho, toma-se como referência ob-
servações efetuadas apenas em casos de empreen-
1.2 Materiais e Métodos dimentos de grande porte e de diferentes setores,
bem como relativamente mais recentes, em torno
Para atingir os objetivos previstos, efetuou-se dos últimos dez anos.
inicialmente uma revisão bibliográfica sobre o as- Entre outros, consideraram-se os seguintes
sunto, considerando trabalhos que abordam espe- casos: a) rodovias, como a duplicação de trecho
cificamente conhecimentos geológico-geotécnicos da rodovia dos Imigrantes em região do Planalto,
produzidos nas duas frentes de aplicação, em um Serra do Mar e Baixada Santista, o prolongamento
mesmo empreendimento. Foram também con- da rodovia dos Bandeirantes entre Campinas e Li-
sultados os resumos de trabalhos publicados nos meira, a construção do rodoanel metropolitano de
principais eventos nacionais correlatos, tendo em São Paulo em seus trechos oeste, sul e norte, a ade-
conta o pressuposto de que a relação entre proje- quação de trecho da rodovia Presidente Dutra en-
tos de engenharia e estudos ambientais estabelece tre Jacareí e São José dos Campos e a duplicação de
o campo no qual a aproximação entre geologia de trechos das rodovias Raposo Tavares na região de
engenharia e meio ambiente melhor se configura. Cotia e Sorocaba, Fernão Dias, Régis Bittencourt,
Examinou-se a correspondência processual Tamoios, Marechal Rondon e Caraguatatuba-São
entre os principais tipos de projetos de engenha- Sebastião; b) ferrovias, como na Linha 4 do Metrô
ria (projeto conceitual, projeto básico e projeto de São Paulo e o trecho norte do ferroanel de São
executivo), conforme elaborados nas fases iniciais Paulo; c) transporte de cargas, como a estrutura

60
Integração de estudos geológico-geotécnicos aplicados a projetos de engenharia e à avaliação de impactos ambientais

de correias transportadora entre o Planalto e a Bai- correspondência entre as etapas frequentes na


xada Santista; d) setor de petróleo e gás natural, elaboração e execução dos projetos de engenharia
como a troca de dutos em trecho do oleoduto São e em AIA é essencial. Uma terceira característica
Sebastião-Cubatão, a construção do gasoduto Ca- está nas formas por meio das quais se propicia a
raguatatuba-Taubaté e a implantação de unidade cooperação e/ou colaboração entre as equipes téc-
de tratamento de gás natural em Caraguatatuba; e) nicas e uma possível integração entre os estudos
mineração, como areia em Itaquaquecetuba e São geológico-geotécnicos aplicados nas duas frentes.
Carlos, brita em São Paulo e caulim em Embu-Gua- Considerando essas características, analisou-
çu, calcário em Nova Campina e Ribeirão Grande se o grau de integração obtido entre os estudos
e areia quartzosa em Analândia e Corumbataí; f) geológico-geotécnicos para fins de projetos de en-
dragagem de canais, como o canal do Piaçaguera, genharia e os para fins de avaliação e gestão de im-
na região do Porto de Santos; g) projetos urbanísti- pactos ambientais, conforme observados nos casos
cos, como loteamentos em Itu, Bertioga e São José considerados. Cabe registrar que a grande maioria
dos Campos; e h) aterros sanitários, aterros indus- dos empreendimentos analisados já se encontra em
triais e estações de tratamento de resíduos, como fase de operação, mas há alguns que ainda não ti-
em São Paulo, Jacareí, Mogi Mirim, Salto, Olímpia, veram sua construção iniciada. Para a análise e ob-
Sorocaba, Santo André, São José dos Campos, Pau- tenção do grau, efetuou-se a análise de cada caso
línia, Itaquaquecetuba e Iperó. Ao todo, somam-se individualmente, em que os empreendimentos fo-
41 empreendimentos. ram classificados em um dentre três graus relativos
Para realizar a análise, baseando-se nas ob- adotados (alto, médio e baixo). Os resultados obti-
servações efetuadas à época de cada empreen- dos foram agregados em uma síntese geral elabo-
dimento e, ainda, por meio de revisão de dados rada a partir de análise de predominância.
e informações face ao presente trabalho, consi- Ao final, tendo em conta as observações efetu-
derou-se, em cada caso, especialmente o EIA/ adas nos casos considerados, procura-se discutir os
Rima (ou outro documento técnico equivalente, resultados obtidos e sintetizar as principais conclu-
conforme o caso) e o Plano - ou Projeto - Básico sões do trabalho, esperando que possam contribuir
Ambiental (PBA), bem como o denominado Pla- para uma primeira reflexão acerca do tema.
no Ambiental da Construção (PAC), este último
formalizado apenas em alguns empreendimentos.
2 BREVE PANORAMA SOBRE A INTEGRAÇÃO
Em relação aos projetos de engenharia, variáveis
DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS
de acordo com o caso, destacam-se eventuais con-
EM EMPREENDIMENTOS
sultas ao anteprojeto ou projeto conceitual, projeto
básico e projeto executivo, analisados em relação Em realidade, pouco se tem documentado
a aspectos específicos disponíveis. Vale registrar sobre práticas na integração dos estudos geológi-
que a análise dos casos foi efetuada sob um ponto co-geotécnicos desenvolvidos nas duas frentes de
de vista tomado a partir de uma inserção relati- aplicação. A bibliografia específica sobre o tema
vamente maior no processo de AIA, mas sempre é extremamente escassa. A integração entre os
tendo em conta observações referentes aos proje- estudos geológico-geotécnicos aplicados às duas
tos de engenharia. frentes é um assunto que, embora permeie vários
Busca-se identificar alguns elementos que estudos de caso relatados na bibliografia nacio-
caracterizem a integração dos estudos geológico- nal e internacional, raramente consiste em foco
geotécnicos realizados nas duas frentes de apli- principal de abordagem, sobretudo quando se
cação. Uma primeira característica a prospectar considera a análise de casos de um mesmo em-
diz respeito ao contexto em que a integração se preendimento no processo de AIA. Há uma vasta
evidencia, ou seja, as diferentes fases do empre- literatura técnico-científica sobre questões diver-
endimento. Outra característica se relaciona com sas relativas às fases de um empreendimento de
os vários momentos em que a integração entre os engenharia e os estudos ambientais correlatos.
conhecimentos gerados nas duas frentes de apli- Porém, raramente se discute sobre a integração
cação tende a ocorrer. Nesse aspecto, verificar a dos estudos geológico-geotécnicos envolvidos.

61
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Alguns trabalhos se aproximam do tema, nos como no caso de barragens e outras grandes obras
quais se podem distinguir, além da abordagem de infraestrutura. Visando contribuir para efeti-
do meio físico nos projetos de engenharia e nos vidade da cooperação na concepção de grandes
estudos ambientais, ambos comumente tratados projetos, Grebici (2007) desenvolveu um modelo
de modo separado, algumas características refe- que integra as diferentes formas de cooperação, os
rentes a estudos geológico-geotécnicos realizados diferentes modos de organização do processo de
para as duas aplicações. concepção de um projeto e os produtos intermedi-
Salientam-se esforços conjuntos de geólogos ários e sua adequação às finalidades do empreen-
de engenharia e da área ambiental do serviço geo- dimento, destacando a importância de desenvol-
lógico e da universidade, ambos do estado norte- ver formas apropriadas de cooperação. De fato,
americano da Dakota do Norte, na realização de nos casos em que há cooperação efetiva entre os
mapeamentos geológicos detalhados e integrados, projetistas e a equipe ambiental, muitos impactos
buscando realçar a percepção das condições geo- ambientais negativos podem ser prevenidos ou,
lógico-geotécnicas existentes na região de Fargo ao menos, ter sua magnitude reduzida de maneira
e suas implicações ambientais (Anderson, 2006). significativa (Sánchez, 2006).
Esse autor destaca que muitos dos produtos pro- Sánchez & Hacking (2002) também alertam
venientes das investigações geológicas têm servi- para a importância entre vincular a AIA ao Sis-
do como base de dados primária para o planeja- tema de Gestão Ambiental (SGA) de um empre-
mento ambiental futuro dessa região. Cita, ainda, endimento, aproveitando os estudos realizados
que várias condições geológicas desfavoráveis para a confecção do EIA/Rima para a gestão da
encontradas, como deformação de solos argilosos construção, operação e desativação de empreen-
de origem lacustre, capacidade de suporte inade- dimentos, o que geralmente não ocorre na prática.
quada e presença de movimentos de massa, têm Um caso hipotético de uma mineração ilustra as
sido a causa de problemas geológico-geotécnicos interações possíveis e necessárias para que isso
e ambientais, exemplificando com as dificuldades seja viabilizado e promova, dentre outras melho-
na definição do greide da estrada de ferro (Nor- rias, a adequada implantação e monitoramento de
thern Pacific) e a ocorrência de recentes e repetidas impactos ambientais após a aprovação da viabili-
inundações sazonais em áreas urbanas. dade ambiental do empreendimento.
A importância vital entre a geologia ambien- No país, o movimento de aproximação entre
tal e os processos geológicos no entendimento do projetos de engenharia e estudos ambientais trou-
meio físico, bem como a influência fundamental xe evidentes repercussões ao campo da geologia
da geologia de engenharia no mundo moderno, de engenharia e ambiental, o que se observa em
em particular para as obras de infraestrutura, são eventos e publicações correlatas a esses ramos
destacadas como campos que devem atuar con- das geociências aplicadas. Em meio a outras fon-
juntamente (Bell, 2008). O panorama da relação tes e bases de dados passíveis de análise, breve
intrínseca entre geologia de engenharia e meio consulta aos anais dos últimos quatro congressos
ambiente é ilustrado por esse autor com base em nacionais da Associação Brasileira de Geologia de
exemplos práticos. O mesmo autor examina a in- Engenharia e Ambiental (ABGE) possibilita detec-
fluência de aspectos de riscos geológicos, a sig- tar alguns sinais nessa aproximação. Consideran-
nificância dos recursos hídricos e do solo, os im- do os trabalhos que enfatizam a contribuição do
pactos ambientais da mineração, a disposição de conhecimento referente ao meio físico na solução
resíduos e a poluição sobre o meio ambiente, as- de problemas de engenharia e que, conjuntamen-
sim como vários outros aspectos que envolvem o te, abordam também questões ambientais, nota-
desenvolvimento de obras de infraestrutura e que se que a quantidade aumentou no início da dé-
acarretam problemas ambientais. cada de 2000, mantendo-se relativamente estável
Quanto a formas de integração praticadas, desde então. Esses valores se referem a trabalhos
tem-se que a elaboração de projetos complexos completos que tratam de aspectos e impactos am-
implica necessariamente a participação de diver- bientais relacionados a empreendimentos (obras
sos atores, com formações e pontos de vista di- de infraestrutura e indústrias de base), indepen-
ferentes. Contudo, o relacionamento entre esses dentemente do porte e do fato de haver alguma
atores pode se tornar problemático na prática, relação com o processo formal de AIA (Tabela 1).

62
Integração de estudos geológico-geotécnicos aplicados a projetos de engenharia e à avaliação de impactos ambientais

Tabela 1 – Relação entre a quantidade de artigos publicados que abordam conjuntamente aspectos
geológico-geotécnicos para fins de projetos de engenharia e de estudos ambientais de
empreendimentos e a quantidade total de artigos publicados nos últimos quatro congressos
da ABGE.

Quantidade de artigos
Quantidade de arti-
completos publicados Proporção y/x
Congresso/Local - Ano gos completos publi-
sobre o meio físico em (%)
cados (x)
empreendimentos (y)
9º CBGE/São Pedro - 1999 90 14 16
10º CBGE/Ouro Preto - 2002 155 40 26
11º CBGE/Florianópolis - 2005 184 59 32
12º CBGE/Porto de Galinhas - 2008 192 60 31
Total 875 259 30

As proporções obtidas sugerem que já há cenário com centenas e talvez até alguns milha-
uma quantidade relevante de experiências acu- res de novas obras de infraestrutura a serem sub-
muladas na área de geologia de engenharia e metidas ao processo de AIA nos próximos anos.
meio ambiente, relacionadas a empreendimentos. Exemplo da expressiva dimensão desse cenário,
Essas experiências certamente ensejariam análises conforme demonstrado em Marreco (2010), en-
detalhadas no sentido de aferir o grau específico contra-se na listagem de projetos de âmbito fede-
de integração entre os diversos estudos geológi- ral em andamento, relacionados a abastecimento
co-geotécnicos elaborados e sua aplicação plena de água (canais, adutoras, irrigação, barramen-
às distintas fases de um empreendimento especí- tos), transporte (rodovias, ferrovias, aeroportos,
fico. Contudo, em análise preliminar, nota-se que portos, hidrovias), energia (usinas hidrelétricas,
a discussão sobre a integração desses estudos é usinas termelétricas, parques eólicos, linhas de
praticamente ausente. transmissão de energia elétrica, unidades de ex-
A relevância e o potencial de integração entre ploração e produção de petróleo e gás natural),
os estudos geológico-geotécnicos realizados nas dutovias (gasodutos, oleodutos, polidutos), uni-
duas frentes de aplicação, em alguns casos de em- dades de refino, petroquímica e fertilizantes, uni-
preendimentos de rodovias, ferrovias, dutovias, dades da indústria naval (estaleiros, petroleiros e
minerações, loteamentos e aterros sanitários cons- plataformas), entre outros. Ao se somar também
truídos nos últimos anos e submetidos ao proces- os projetos empreendidos em âmbito estadual e
so de AIA, são exemplificados e discutidos nos municipal, essa dimensão tende a revelar um ce-
trabalhos de Gallardo & Sánchez (2005), Gallardo nário com uma quantidade de empreendimentos
et al. (2008a, 2008b), Campos et al. (2008, 2010) e ainda maior.
Bitar et al. (2010). Nesses trabalhos, apontam-se Simultaneamente, surge a possibilidade de se
os estudos geológico-geotécnicos que têm sido incrementar a implantação no País do instrumento
salientados no processo de AIA nos casos abor- da Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), com o
dados. Parte dos casos considerados por esses au- objetivo de antecipar-se às consequências ambien-
tores é incluída no conjunto de empreendimentos tais negativas devido à criação e implantação de
analisados no presente trabalho. políticas, planos e programas de desenvolvimento,
as quais resultam posteriormente na definição de
3 RELAÇÕES ENTRE PROJETOS DE projetos específicos. Com a AAE, busca-se interfe-
ENGENHARIA E ESTUDOS DE AVALIAÇÃO rir na reformulação e adaptação dessas iniciativas
E GESTÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS (políticas, planos e programas), em tempo hábil,
DE EMPREENDIMENTOS ou seja, antes que decisões importantes sejam to-
madas e venham a dificultar ou impedir eventu-
As perspectivas de empreendimentos futu- ais necessidades de mudanças na concepção dos
ros no País, ligados a programas continuados de projetos decorrentes. Com a implantação da AAE
investimentos públicos e privados, desenham um no País, espera-se facilitar e tornar mais eficiente

63
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

a AIA de projetos específicos e, consequentemen- de licenciamento ambiental, por parte de alguns


te, adequar os esforços na elaboração e na análise setores da sociedade, deixando com isso de utili-
dos EIA/Rimas correspondentes, antecipando e zar plenamente, entre outras decorrências impor-
ampliando o potencial de contribuição dos conhe- tantes, os conhecimentos geológico-geotécnicos
cimentos geológico-geotécnicos no planejamento obtidos.
de um empreendimento. Com o tempo, em vista das práticas desen-
Não obstante, enquanto a integração entre volvidas no País, estabeleceu-se e vem se conso-
AAE e AIA não se estabelece plenamente, deve- lidando certo padrão de correspondência tempo-
se refletir sobre a efetividade da integração entre ral e de conteúdo na realização dos projetos de
os estudos geológico-geotécnicos nos moldes em engenharia e dos estudos ambientais necessários
que ocorre hoje, a partir das etapas iniciais de ao desenvolvimento de um empreendimento de
projeto e dos procedimentos de AIA, analisando infraestrutura. Essa correspondência tem sido
a contribuição em relação ao objetivo maior de influenciada em razão da vinculação da AIA ao
compatibilizar as ações humanas com a conserva- licenciamento ambiental, este definido por lei
ção do ambiente. Cabe verificar se há avanços na como procedimento administrativo por meio do
incorporação do tratamento de aspectos e impac- qual o órgão ambiental competente aprova (com
tos ambientais aos vários projetos de engenharia base em estudos ambientais) inicialmente a via-
efetuados ao longo das fases do empreendimento, bilidade e a localização de uma obra que utilizará
tanto no projeto conceitual quanto nos projetos recursos ambientais e que pode poluir ou causar
básico e executivo, incluindo a utilização plena do degradação ambiental, bem como autoriza, na se-
conhecimento geológico-geotécnico desenvolvi- quência, sua instalação (ou eventual ampliação) e
do. Ou se, ao contrário, aborda-se limitadamente operação. Tal correspondência pode ser visuali-
a AIA (e o EIA/Rima correspondente) como mera zada na Figura 1, conforme modelo desenvolvido
burocracia a transpor, entendimento este materia- pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
lizado com frequência na maneira pela qual por Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), mais
vezes se considera a inserção nos procedimentos apropriado a obras de infraestrutura.

Figura 1 – Relação geral entre as diferentes fases ou etapas de um projeto de engenharia, estudos ambientais e licenciamento
ambiental, considerando especialmente o caso de obras de infraestrutura. Obs.: LP- Licença Prévia; LI- Licença de Instalação;
LO- Licença de Operação; PGR- Plano de Gerenciamento de Riscos; PAE- Plano de Ação de Emergência. Fonte: IBAMA, 2009.

64
Integração de estudos geológico-geotécnicos aplicados a projetos de engenharia e à avaliação de impactos ambientais

O projeto conceitual, bem como os denomi- te em projeto executivo atualizado) encontram


nados estudos de viabilidade (em geral efetuado normalmente correspondência apenas em relação
com caráter predominantemente técnico-econô- ao Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR) e ao
mico), encontram correspondência, no campo dos PAE (Plano de Ação de Emergência), visando-se a
estudos ambientais, especialmente com o EIA/ Licença de Operação (LO) e suas renovações peri-
Rima (ou equivalente, no caso de licenciamentos ódicas. Há distinções de acordo com o tipo espe-
estaduais, a depender da sistemática adotada em cífico de empreendimento, mas os procedimentos
cada unidade da federação). Mediante a análise gerais, com algumas variações e oscilações em seu
do EIA/Rima e dos aspectos do projeto concei- fluxo, seguem caminhos aproximadamente cor-
tual nele embutidos, incluindo eventuais estudos respondentes. Ambos, PGR e PAE, têm por vezes
de análise de riscos requeridos conforme o tipo de sua elaboração iniciada concomitantemente ao
empreendimento, é que se decidirá pela expedi- EIA/Rima, na forma de Estudo de Análise de Ris-
cos (EAR). No entanto, não raro, em sua aplicação
ção ou não da Licença Prévia (LP).
à fase de instalação, esses dois instrumentos (PGR
Na sequência, o projeto básico e o executivo
e PAE) acabam permanecendo, durante a vigên-
configuram a fase denominada de “desenvolvi-
cia de LI, muito próximos ao formato com que fo-
mento do projeto” e geralmente se realizam ao
ram elaborados para fins de LP, ou seja, enquanto
mesmo tempo em que se elabora o Projeto Bási-
EAR, o que reduz o potencial de gestão adequada
co Ambiental (PBA) da construção. A elaboração
dos riscos durante a instalação e sua inclusão den-
do projeto básico, do projeto executivo e do PBA tre os aspectos ambientais mais relevantes.
confluem para a Licença de Instalação (LI). Nes- Os procedimentos gerais aplicáveis ao caso
sa fase, detalham-se e complementam-se também da indústria, conforme fluxograma desenvolvido
alguns aspectos do EIA/Rima, esperando-se que pela Federação das Indústrias do Estado de São
estes novos elementos, uma vez aceitos e aprova- Paulo (FIESP) e Companhia Ambiental do Estado
dos pelo órgão ambiental competente e inclusos de São Paulo (CETESB), aparentemente elabora-
no PBA, sejam considerados e incorporados tam- do a partir do modelo do IBAMA (op. cit.), tendo
bém no projeto executivo e nas subsequentes fases em conta situações como a da Região Metropoli-
de instalação e de operação do empreendimento. tana de São Paulo (RMSP) e ilustrado na Figura 2,
Durante a instalação, ajustes e reformulações mostram similaridade em relação ao que tem sido
em relação ao projeto executivo (que se conver- adotado em obras de infraestrutura.

Figura 2 – Relação geral entre os estudos das diferentes fases e etapas na implantação de uma indústria, os estudos ambien-
tais correspondentes e o licenciamento ambiental, aplicável especialmente a casos na Região Metropolitana de São Paulo
(RMSP). Obs.: MCE- Memorial de Caracterização do Empreendimento; LP- Licença Prévia; LI- Licença de Instalação; LO- Li-
cença de Operação; e LOr- Renovação de Licença de Operação. Fonte: FIESP & CETESB (2011).

65
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Com alguma variação terminológica em rela- se criar um instrumento de destaque, como um


ção às fases e estudos requeridos, especificam-se, eventual PEA, pode-se afastar ainda mais as pos-
no caso da indústria, alguns instrumentos pró- sibilidades de integração, já tão limitadas durante
prios, com destaque ao Memorial de Caracteri- a construção.
zação do Empreendimento (MCE), que pode ser Na operação de um empreendimento, reali-
requerido para fins de LP e/ou LI e no qual se zada com base em plano de ação operacional ou
descrevem as etapas do processo produtivo, as equivalente, as relações mais frequentes ocorrem
fontes de poluição e o tratamento dos poluentes com as atividades de meio ambiente contidas em
correspondentes, entre outros tópicos. Plano de Gestão Ambiental (PGA) ou Sistema de
Nas duas situações, obras de infraestrutura e Gestão Ambiental (SGA), este último em alguns
indústrias, salvo alguns poucos casos, nos quais casos apoiado em normalização técnica nacional
se encontra um novo tipo de estudo, denominado e internacional. Há casos em que se adota o PBA
Plano Ambiental da Construção (PAC) ou similar, da operação. Nesses instrumentos, contemplam-
ressalta-se a ausência de uma ferramenta consoli- se basicamente as atividades de controle e geren-
dada na forma de um possível projeto executivo ciamento ambiental e as ações relativas a riscos e
ambiental (como de um eventual PEA- Projeto emergências, conectadas a processos produtivos
Executivo Ambiental), para a fase de instalação. inerentes ao funcionamento do empreendimento.
Ou seja, um instrumento correspondente ao pro- Portanto, embora ainda com alguns problemas
jeto executivo de engenharia, mediante o qual, de sincronicidade, torna-se cada vez mais clara a as-
com detalhamento equivalente, conduzir-se-ia sociação entre os estudos e projetos de engenharia e
de maneira integrada o conjunto de medidas am- os instrumentos de avaliação e gestão de impactos
bientais a executar durante a construção de em-
ambientais. Isso não apenas em termos temporais
preendimentos.
em face do licenciamento ambiental, mas também
Essa é uma demanda já aventada por muitos
no que se refere ao conteúdo tecnológico e gerencial
profissionais atuantes na área ambiental hoje no
desenvolvido em cada um dos dois conjuntos.
País, notada tanto no caso de obras de infraestru-
tura quanto em indústrias. Isso não significa que o
grau de integração hoje atingido nas relações en- 4 INTEGRAÇÃO DOS ESTUDOS GEOLÓGICO-
tre EIA/Rima e projeto conceitual ou anteproje- GEOTÉCNICOS NOS CASOS ANALISADOS
to e, da mesma forma, entre PBA e projeto básico
de engenharia estejam num nível elevado e não Os levantamentos e análises de caráter geo-
exijam cuidados. Ao contrário, constata-se que lógico-geotécnico aplicados a empreendimentos,
frequentemente não se dá a mesma importância a considerando especialmente obras de infraestrutu-
ambos (projetos de engenharia e estudos ambien- ra e de indústrias de base, podem ser agrupados
tais), reflexo de uma maior atenção ainda hoje atri- de acordo com suas finalidades básicas. Resumi-
buída aos projetos de engenharia dirigidos para a damente, distinguem-se os estudos geológico-geo-
construção. A consecução em algum instrumento técnicos para fins de projetos de engenharia e para
equivalente seria uma forma de aglutinar uma sé- fins de avaliação e gestão de impactos ambientais.
rie de estudos que têm sido requeridos e que ge-
ralmente se encontram dispersos. Exemplos disso 4.1 Estudos geológico-geotécnicos para fins
estão no PGR e PAE, entre outros instrumentos, de projetos de engenharia
os quais geralmente compreendem ações que vi-
sam reduzir a magnitude de alguns dos impactos De uma maneira geral, os estudos geológico-
ambientais identificados, previstos e avaliados geotécnicos para fins de projetos de engenharia, en-
no processo de AIA, para fins de obtenção de LP. volvem a caracterização e o conhecimento dos ma-
Formulados e executados isoladamente, por ve- ciços rochosos e terrosos em que serão instaladas
zes tendem a dificultar as possibilidades de inte- as obras. Subsidiando especialmente a execução de
gração às demais medidas ambientais executadas escavações e fundações, visam contribuir para que
durante a fase de instalação. Por outro lado, ao aqueles projetos sejam elaborados e executados

66
Integração de estudos geológico-geotécnicos aplicados a projetos de engenharia e à avaliação de impactos ambientais

dentro de soluções técnicas e práticas que garan- AIA, englobados então nos estudos do meio físi-
tam a segurança das obras e contribuam para que co ou estudos geoambientais, também se norteiam
não ocorram aspectos inesperados do meio físico, pela caracterização e conhecimento da composição
os quais possam acarretar maiores custos e ame- e dinâmica dos maciços rochosos e terrosos em que
açar ou afetar as condições ambientais internas e serão instaladas as obras. Isso geralmente se efetua
externas aos empreendimentos. em escala territorial mais ampla e visando contri-
Identificar os componentes e a distribuição buir especialmente na identificação, previsão, ava-
espacial dos distintos materiais existentes no solo e liação e mitigação de efeitos negativos de ordem
no subsolo, caracterizando-os quanto a suas cons- física, biótica e sociocultural, devido a aspectos am-
tituições, propriedades e comportamentos prová- bientais dos empreendimentos que interagem com
veis, incluindo a análise do estado de tensões nos o meio físico, como aqueles que decorrem de méto-
maciços, os fluxos hidráulicos presentes e outros dos construtivos adotados, antes que decisões im-
aspectos geodinâmicos, constitui fundamento portantes sejam tomadas. Não obstante haver essa
para que os empreendimentos sejam executados predominância, por vezes, em razão de peculiari-
de modo adequado. A elaboração de modelos
dades na combinação entre o tipo de empreendi-
geológico-geotécnicos digitais e georreferencia-
mento e o ambiente em que se localiza, os estudos
dos, crescentemente efetuados com emprego de
geológico-geotécnicos têm sido frequentemente re-
ferramentas que propiciem a compreensão geral e
queridos e ganham relevância também em escala
uma visualização tridimensional da variabilidade
de semi-detalhe e de detalhe, quando comumente
espacial existente nos maciços naturais, também
são denominados de investigações geológico-geo-
se mostra fundamental aos projetos de engenha-
técnicas ou geoambientais.
ria, tornando-se cada vez mais importante na fa-
cilitação da comunicação entre empreendedores e No caso de obras de infraestrutura lineares,
projetistas, subsidiando as discussões e a tomada por exemplo, como rodovias, ferrovias e dutovias
de decisão em prol de obras seguras, econômicas (gasodutos, oleodutos, alcooldutos, polidutos),
e tecnicamente adequadas e, ainda, ao mesmo estas costumam interceptar uma série de cursos
tempo, ambientalmente viáveis. d’água ao longo do traçado, potencializando a
Não obstante tal potencialidade, na maior amplificação de impactos ambientais negativos
parte dos casos analisados, esses estudos têm sido em razão de efeitos a ecossistemas e a alterações
conduzidos de modo pouco relacionado aos de adversas na qualidade dos recursos hídricos em
meio ambiente. A caracterização dos maciços, in- grandes extensões territoriais. Entre outros aspec-
dependemente de sua qualidade e suficiência para tos, as movimentações de terra, associadas aos
fins de projeto básico e projeto executivo, pouco métodos construtivos comumente empregados na
é utilizada nos estudos ambientais. Tem sido co- instalação dessas obras, induzem a deflagração ou
mum, inclusive, a realização destes estudos por aceleração de processos do meio físico. Entre esses
equipes projetistas que, após a fase de licencia- processos, salientam-se os erosivos e deposicio-
mento ambiental prévio, ou seja, após a obtenção nais, que envolvem a remoção e o carreamento de
da LP praticamente não mais se relacionam com sedimentos por meio das águas pluviais e os con-
as equipes responsáveis pelos estudos ambientais sequentes assoreamento e alteração nos níveis de
subsequentes. Denota-se evidente lacuna entre o cor e turbidez das águas situadas a jusante, com
uso do conhecimento geológico-geotécnico pro- impactos a ecossistemas e ao uso dos recursos hí-
duzido neste contexto em relação ao que se de- dricos em áreas que muitas vezes extrapolam as
senvolve no âmbito dos levantamentos e análises próprias áreas de influência direta ou indireta de-
do meio físico para fins ambientais. finidas em EIA/Rima.
Com isso, em vista de múltiplos requisitos
4.2 Estudos geológico-geotécnicos para fins ambientais (legais, normativos e sociais), incre-
de avaliação e gestão de impactos ambientais mentam-se progressivamente as demandas por
um bom conhecimento prévio das suscetibilidades
Por sua vez, os estudos geológico-geotécnicos associadas ao meio físico em grandes regiões, bem
efetuados no âmbito dos estudos ambientais em como cuidados especiais durante a construção e

67
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

operação de obras, visando evitar que os impac- contexto dos projetos de engenharia se mostram
tos negativos ocorram ou que, ao menos, quando relevantes também para fins de avaliação e gestão
inevitáveis, consiga-se mitigá-los de modo eficaz. de impactos ambientais e vice-versa. Contudo, tem
Os grandes volumes de terraplenagem geralmen- sido possível observar que os estudos do meio físi-
te previstos na construção de empreendimentos co realizados nas duas frentes de aplicação se de-
lineares e o ambiente a ser percorrido pela obra senvolvem predominantemente de forma distan-
têm requerido programas específicos para o meio ciada, na maior parte das vezes com profissionais
físico, como o de controle de erosão e assoreamen- e equipes técnicas distintas. Algumas peculiarida-
to. Constata-se que as consequências da erosão des e demandas específicas geralmente colaboram
compõem, desde os estudos ambientais prévios, o para esse distanciamento, mas há situações em que
rol dos principais impactos ambientais negativos a simples presença de profissionais de geologia de
esperados em empreendimentos de infraestrutu- engenharia pertencentes às equipes de meio am-
ra. Contudo, esses estudos acabam também sendo biente, em contato com as equipes de projeto de
efetuados de modo distante em relação aos proje- engenharia, contribui para melhorar um pouco a
tos de engenharia, o que se observa, por exemplo, integração e a consequente utilização plena dos co-
na formulação de sistemas e dispositivos de dre- nhecimentos obtidos. E o mesmo se poderia conse-
nagem e em outros temas correlatos. guir no sentido inverso, ou seja, com profissionais
Há outros aspectos, associados aos demais pro- de projetos de engenharia presentes nas equipes
cessos do meio físico e referentes a tipos distintos de responsáveis pelos estudos ambientais.
obras, os quais também têm sido destacados. Exem- De certo modo, as demandas associadas
plo de outro processo está na questão da sismicida- a requisitos próprios de cada contexto, como a
de induzida e nas vibrações no solo, em decorrência questão do objeto e da escala dos produtos car-
de escavações em maciços por meio de perfuração e tográficos gerados, contribui um pouco para esse
uso de explosivos. Em obras com abrangência mais distanciamento. Enquanto os estudos de projeto
localizada ou pontual, como minas e loteamentos de engenharia tendem a se voltar mais para o co-
habitacionais e industriais, ocorre, da mesma forma, nhecimento do meio físico no subsolo e em escala
a terraplenagem e a geração de material excedente, de obra, os estudos geológico-geotécnicos para
sendo, também, a erosão um dos principais proble- fins de viabilidade ambiental se direcionam geral-
mas tratados, mas em uma escala mais restrita. No mente para o entendimento mais abrangente da
caso específico de minas, que constituem empre- geodinâmica de superfície, onde, em princípio,
endimentos onde há constante movimentação de eventuais consequências negativas de um dado
solo e rocha durante toda sua vida útil, o controle empreendimento tendem a ser evidenciadas espe-
principal consiste na instalação de estruturas que cialmente sob o ponto de vista socioambiental e de
evitam o aporte de sedimentos para cursos d’água, uso e ocupação do solo. Vale salientar que isso se
além da área do empreendimento, muitas vezes configura apenas como aspecto comumente verifi-
sendo necessária apenas uma barragem e, ainda, a cado, não se constituindo como regra. Há casos em
estabilidade de taludes em relação à segurança do que os estudos realizados mostram exatamente o
ambiente interno e externo à obra. No caso de ater- contrário, fruto de demandas específicas. Em relação
ros sanitários e industriais, ressalta-se a poluição e à escala, por exemplo, esta se apresenta como um di-
a contaminação de aquíferos entre as situações em ferencial apenas em alguns casos, havendo situações
que se constata que os estudos ambientais se mos- em que os impactos se distinguem mais significati-
tram potencialmente importantes também aos pro- vamente em nível de detalhe, requerendo investiga-
jetos de engenharia. ções específicas adicionais, como ocorre em relação
a interferências nas águas subterrâneas em casos de
mineração, aterros sanitários e loteamentos.
4.3 A necessária, mas ainda incipiente
A situação onde se nota maior aproximação
integração
entre os estudos geológico-geotécnicos realiza-
Portanto, denota-se que os conhecimentos dos nas duas frentes de aplicação está nos casos
geológico-geotécnicos adquiridos ou gerados no que envolvem escavações ou obras subterrâneas,

68
Integração de estudos geológico-geotécnicos aplicados a projetos de engenharia e à avaliação de impactos ambientais

como túneis rodoviários ou ferroviários, para os quanto a um dos três graus relativos adotados
quais o conhecimento desenvolvido em cada fren- (alto, médio e baixo), em relação à integração dos
te de aplicação acaba sendo frequentemente útil estudos geológico-geotécnicos realizados para
também à outra. Depreende-se que, nos empreen- fins de projetos de engenharia e para fins de ava-
dimentos com intervenções relevantes no solo e liação e gestão de impactos ambientais, obteve-se
nas águas subterrâneas, o conhecimento em sub- a síntese apresentada na Tabela 2. Na compara-
superfície se mostra tão importante quanto o que ção com as Figuras 1 e 2, as fases do empreendi-
se refere à superfície, mostrando-se relevante nas mento, bem como os projetos e estudos correlatos,
duas frentes de aplicação consideradas. reúnem as denominações contidas nessas duas
A partir dos casos considerados e da análise figuras, abrangendo assim tanto obras de infraes-
de cada um deles em termos de uma classificação trutura quanto indústrias em geral.

Tabela 2 – Grau relativo de integração dos estudos geológico-geotécnicos realizados para fins de
projetos de engenharia e de avaliação e gestão de impactos ambientais, conforme
predominância geral observada em relação ao conjunto dos casos analisados, de acordo
com as fases de um empreendimento propostas em IBAMA (2009) e FIESP & CETESB (2011).

Estudos para fins de


avaliação e gestão de Instrumentos de
Instrumentos de
impactos ambientais planejamento
gestão ambiental
Estudos para fins de ambiental
projetos de engenharia

Fase do empreendimento, PGA, SGA


PBA da PAC ou
conforme IBAMA (2009) e Projetos e estudos de engenharia EIA/Rima ou PBA da
Construção PEA
FIESP & CETESB (2011) Operação

Anteprojeto ou projeto conceitual e estudos


Viabilidade ou pré-projeto Alto Médio NO NO
de viabilidade

Projeto básico Médio Médio Baixo Baixo


Desenvolvimento do pro-
jeto
Projeto executivo Baixo Baixo Médio Baixo

Instalação, construção e/ou


Projeto executivo atualizado Baixo Baixo Médio Baixo
montagem
Operação Plano funcional ou projeto operacional Baixo NO NO Médio

Obs.: EIA/Rima- Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental; PBA- Plano Básico Ambiental; PAC- Pla-
no Ambiental da Construção; PEA- Projeto Executivo Ambiental; PGA- Plano de Gestão Ambiental; SGA- Sistema de Gestão
Ambiental; e NO- Não Observado.

Essas observações sugerem apontar que, em geológico-geotécnicos. A contramão disso é exa-


face do grau relativo de integração observado nos tamente o caso da realização do EIA/Rima após
casos analisados, a integração entre os conheci- o projeto estar praticamente concebido em suas
mentos do meio físico aplicados à engenharia diretrizes técnicas essenciais. Procedimento este
e ao meio ambiente se mostra maior na fase de ainda frequente e cujos resultados se mostram
viabilidade ou pré-projeto do empreendimento, flagrantemente prejudiciais tanto para a demons-
especialmente na interface entre projeto concei- tração da viabilidade ambiental do projeto quanto
tual e EIA/Rima. Decorre esperar que as chances para a condução do licenciamento ambiental, afe-
de sucesso do projeto, em termos de viabilidade tando a celeridade na análise por parte dos órgãos
ambiental, tende a ser maior quando o processo ambientais, a aceitação pública da obra e a obten-
de concepção técnica do projeto engloba as variá- ção da LP. No restante, envolvendo as fases de de-
veis ambientais, estendendo-se a todo o espectro senvolvimento do projeto, instalação e operação,
da avaliação ambiental relacionada aos aspectos incluindo as transições entre estas, evidencia-se

69
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

uma aproximação variando entre média e baixa, o desnecessariamente e por período muito longo,
que denota uma integração relativamente menor. extensas áreas de solo exposto.
No geral, pode-se considerar que se carece de Esses e outros aspectos chamam a atenção
uma cultura ou práxis desenvolvida no sentido de para a necessidade de uma crescente cooperação
uma maior cooperação entre as equipes responsá- entre as atividades de construção e as de gestão
veis pelos estudos geológico-geotécnicos realiza- ambiental. Em algumas situações, evidencia-se a
dos nas duas frentes de aplicação, bem como de defasagem temporal entre ambas, com a primeira
profissionais que facilitem esse processo e utlizem por vezes se distanciando muito à frente da segun-
linguagem adequada e favorável à percepção das da, o que resulta em baixa aplicação dos conheci-
relações existentes e dos benefícios advindos de mentos acerca do meio físico. Fundamentando-se
uma integração efetiva. Nas situações em que tal nos princípios do desenvolvimento sustentável,
cooperação se mostra mais presente, notam-se hoje mundialmente propugnados, considera-se
maior economia de recursos e expressiva redução que ambas têm a mesma importância e, se assim
de tempo com a análise ambiental dos dados e in- abordado, devem evoluir de maneira mais sincro-
formações geológico-geotécnicos, elementos estes
nizada e integrada. Esse talvez seja um dos maio-
comumente presentes entre os focos do empreen-
res desafios a equacionar em obras. Muitos ges-
dedor e da equipe projetista.
tores aparentemente ainda não consideram que a
A participação de profissionais com trânsito
internalização dos aspectos ambientais se mostra
nas duas frentes de aplicação e o uso do conhe-
cada vez mais coincidente com os aspectos de en-
cimento do meio físico na fase mais avançada de
genharia. Essa abordagem se expressa também na
viabilidade, como se vê em relação ao projeto bá-
acepção usual do termo “geologia de engenharia”,
sico, também se mostra aquém de sua potenciali-
muitas vezes entendido como passível de aplica-
dade. Quanto à fase de instalação propriamente
dita, deve-se ressaltar o exemplo da prevalência ção exclusiva ao desenvolvimento do projeto de
de alguns procedimentos adotados de modo ge- construção da obra em si, e seus aspectos de inte-
neralizado durante a construção, muitas vezes resse mais imediato, como custos e prazos, como
desconsiderando distintas suscetibilidades do am- se fosse possível executá-la sem interagir com o
biente físico, evidenciando baixa integração com ambiente geológico-geotécnico.
os estudos geoambientais realizados. Dentre esses
procedimentos, cita-se, apenas como exemplo, em 5 CONCLUSÕES
relação a processos erosivos e depocionais, a exe-
cução extensiva de terraplenagem e a consequen- Em face das considerações efetuadas e dos
te exposição prolongada e simultânea de amplas estudos de caso analisados, os resultados obtidos
áreas de solos, em cortes e aterros, possivelmente com a realização do presente trabalho sugerem
em obediência única a diretrizes de produção e concluir que:
com pouca sintonia em relação à gestão ambiental a) Em empreendimentos de infraestrutura e da
e ao controle de processos do meio físico a ela as- indústria de base, distinguem-se duas fren-
sociado. Situações como essa ilustram o distancia- tes principais de aplicação do conhecimento
mento entre engenharia e meio ambiente na fase geológico-geotécnico: os estudos geológico-
de instalação. A generalização de procedimentos geotécnicos para fins de projetos de engenha-
parece estar sempre influenciada por cronogra- ria; e os estudos geológico-geotécnicos para
mas e custos, mas deve-se também à ausência de fins de avaliação e gestão dos impactos am-
uma cooperação entre as equipes em grau mais bientais. Estes últimos, por vezes encontram-
elevado. Na prática, é como dizer que a equipe de se simplificados sob a denominação de estu-
engenharia “faz a obra” e a equipe de meio am- dos do meio físico ou estudos geoambientais,
biente “corre atrás”. Haveria que se buscar, nessa sobretudo nas etapas iniciais do processo de
relação, maior equilíbrio e sincronia entre as ativi- AIA, mas invariavelmente encerram aspectos
dades de construção e as de gestão ambiental, em de natureza predominantemente geológico-
um regime no qual não se possibilitasse acarretar, geotécnica;

70
Integração de estudos geológico-geotécnicos aplicados a projetos de engenharia e à avaliação de impactos ambientais

b) Embora com enfoques, abordagens e ferra- plenamente aproveitados durante as fases de


mentas distintos, tanto os estudos geológico- instalação e operação de empreendimentos,
geotécnicos em projetos de engenharia quan- fato salientado pela frequência de grau de
to os estudos geoambientais contemplam integração considerado baixo e médio nessas
essencialmente o mesmo objeto de análise, fases, o que atenta contra a efetividade das
ou seja, a interação obra-meio físico. Essa sistemáticas de planejamento de obras e de
constatação sugere a importância de que haja avaliação de impactos ambientais.
uma integração entre estudos geológico-ge-
otécnicos desenvolvidos nas duas frentes de Ressente-se, enfim, não apenas de uma maior
aplicação; sincronia entre as atividades atinentes a cada con-
c) Os estudos geológico-geotécnicos realizados texto, mas também de ações e atitudes que favo-
para fins de projetos de engenharia, quando resçam incrementar a aproximação entre conte-
utilizados também em AIA, tendem a pro- údos tecnológicos. Frequentemente, isso parece
piciar a identificação de aspectos e impactos depender mais da percepção de profissionais que
ambientais importantes. Da mesma forma, conduzem os projetos de engenharia, no sentido
conhecimentos geológico-geotécnicos adqui- de fomentar a efetiva integração com as equipes
ridos ou gerados durante o processo de AIA, de meio ambiente.
incluindo a gestão ambiental a ser realizada Estimular a cooperação entre diferentes
nas fases de instalação e operação de empre- perspectivas acerca do mesmo objeto (ou seja, a
endimentos, têm se mostrado úteis também interação obra-meio físico), o que se pode fazer
aos projetos de engenharia. Todavia, em vis- aproximando mais os profissionais de geologia
ta do potencial de integração identificado, e/ou geotecnia envolvidos nas duas frentes de
observa-se que, ante as práticas atuais, muito aplicação, bem como aumentar o intercâmbio de
ainda se pode avançar. Há sinais de coopera- conhecimentos adquiridos e gerados nas fases de
ção entre as equipes técnicas, bem como de viabilidade, desenvolvimento, instalação e opera-
integração entre os estudos geológico-geo- ção de um empreendimento, constituem desafios
técnicos aplicados a projetos de engenharia e atuais a enfrentar.
à avaliação e gestão de impactos ambientais,
mas predomina ainda certo distanciamento,
Agradecimentos
situação esta possivelmente influenciada por
demandas específicas requeridas de maneira Registram-se os agradecimentos: às empresas e agên-
isolada pelo empreendedor em cada uma das cias governamentais envolvidas nos estudos de caso
frentes de aplicação; analisados, pelas oportunidades oferecidas nas ativi-
d) A integração propiciada pela correspondên- dades de avaliação e de acompanhamento geoambien-
cia temporal e de conteúdo na realização dos tal da instalação e operação de empreendimentos;
projetos de engenharia e dos estudos geoam- aos profissionais que atuaram na construção dessas
bientais necessários a um empreendimento, obras e que, de uma maneira ou outra, interagiram e
em razão da vinculação da AIA ao licencia- contribuíram nos trabalhos realizados; e aos colegas
mento ambiental, tem sido observada, porém Nivaldo Paulon, André Luiz Ferreira e Wellington
ainda em grau muito aquém do potencial. Gomes dos Santos, pelo apoio na pesquisa e na pre-
A constatação de alguns empreendimentos paração das ilustrações.
em que o grau de integração se mostra rela-
tivamente mais elevado indica que situações
melhores podem ser obtidas em um número Referências
maior de casos; e
e) Os conhecimentos geológico-geotécnicos de- Anderson, F.J. 2006. A highlight of environmen-
senvolvidos na fase de viabilidade e de desen- tal and engineering geology in Fargo, North
volvimento de projeto de uma grande obra Dakota, USA. Environmental Geology, 49:1034-
de engenharia deixam muitas vezes de ser 1042.

71
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

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de impacto ambiental: considerações a partir de

72
1
2
RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
Av. Prof. Almeida Prado, 532 – IPT (Prédio 11) 05508-901 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3767-4361 - Telefax: (11) 3719-0661 - E-mail:abge@ipt.br - Home Page: http://www.abge.com.br

DIRETORIA - GESTÃO 2009/2011


Presidente: Fernando Facciolla Kertzman
Vice-Presidente: Gerson Salviano de Almeida Filho
Diretora Secretária: Kátia Canil
Diretor Financeiro: Luiz Fernando D`Agostino
Diretor de Eventos: Elisabete Nascimento Rocha
Diretor de Comunicação: Marcelo Fischer Gramani

CONSELHO DELIBERATIVO
Elaine Cristina de Castro, Elisabete Nascimento Rocha, Fabio Canzian da Silva, Fabrício Araújo Mirandola, Fer-
nando Facciolla Kertzman, Fernando Ximenes T. Salomão, Gerson Almeida Salviano Filho, Ivan José Delatim,
Kátia Canil, Leonardo Andrade de Souza, Luiz Antonio P. de Souza, Luiz Fernando D’Agostino, Marcelo Fis-
cher Gramani, Newton Moreira de Souza, Selma Simões de Castro.

NÚCLEO RIO DE JANEIRO


Presidente: Nelson Meirim Coutinho - Vice-Presidente: Antonio Queiroz
Diretor Secretário: Eusébio José Gil - Diretor Financeiro: Cláudio P. Amaral
End.: Av. Rio Branco, 124 / 16o andar – Centro - 20040-916 - Rio de Janeiro - RJ
Tel : (21) 3878-7878 Presidente - Tel.: (21) 2587-7598 Diretor Financeiro

NÚCLEO MINAS GERAIS


Presidente: Maria Giovana Parizzi - Secretário: Frederico Garcia Sobreira
Tesoureiro: Luís de Almeida P. Bacellar - Diretor de Eventos: Leonardo A. Souza
End.: Univ. Fed. de Ouro Preto - Depto. Geologia - 35400-000 – Ouro Preto/MG
Fone: (31) 3559.1600 r 237 Fax: (31) 3559.1606 –

REPRESENTANTES REGIONAIS UF

ROBERTO FERES AC
HELIENE FERREIRA DA SILVA AL
JOSÉ DUARTE ALECRIM AM
CARLOS HENRIQUE DE A.C. MEDEIROS BA
FRANCISCO SAID GONÇALVES CE
NORIS COSTA DINIZ DF
JOÃO LUIZ ARMELIN GO
MOACYR ADRIANO AUGUSTO JUNIOR MA
ARNALDO YOSO SAKAMOTO MS
KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS:
UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS

Luiz Ferreira Vaz


THEMAG Engenharia – São Paulo/SP - Brasil
Professor visitante – IG/UNICAMP – Campinas/SP - Brasil
vaz@themag.com.br

Magali Dubas Gurgueira


THEMAG Engenharia – São Paulo/SP - Brasil
magali@themag.com.br

Talita de Oliveira Muzzi


THEMAG Engenharia – São Paulo/SP - Brasil
talita@themag.com.br

RESUMO ABSTRACT
A alteração do marco regulatório das concessões para GEOLOGY APPLIED TO DAMS: A REVIEW OF
aproveitamentos hidroelétricos, depois de 1995, levou ao PROCEDURES
encurtamento dos prazos para o projeto e a construção
de barragens para usinas hidroelétricas, afetando a apli- The change in the regulatory framework of concessions
cação da Geologia nesses empreendimentos. Simultanea- for hydroelectric developments in Brazil, after 1995,
mente, a maior parte da exploração do potencial hidroe- led to the shortening of deadlines for the design and
létrico deslocou-se para a região amazônica, enfrentando construction of dams for hydroelectric plants, affecting
the application of geology in these projects. Simulta-
condições geológicas inéditas ou pouco conhecidas. Por
neously, most of the exploitation of hydropower po-
outro lado, novos métodos de investigação e a evolução
tential has shifted to the Amazon region, facing unpu-
dos existentes, forneceram ferramentas atualizadas para blished or little known geological conditions. On the
o estudo e avaliação das condições geológicas. Este arti- other hand, new investigation methods and further de-
go oferece uma revisão de procedimentos da Geologia de velopment of the existing ones, provide updated tools
Engenharia utilizados nos estudos de aproveitamentos for the study and evaluation of geological conditions.
hidroelétricos face aos novos paradigmas. São comen- This paper offers a review of procedures used in engi-
tadas as implicações do modelo atual de concessão nos neering geology studies of hydroelectric developments
trabalhos de investigação geológico-geotécnica e a utili- in relation to new paradigms. The implications of the
zação de novos métodos de prospecção, como a per- current model of concessions on geological and geote-
filagem ótica, incluindo critérios para a interpretação chnical investigations and the use of new exploration
dos resultados. A seleção de eixos de barramento nos methods such as optical profiling, including criteria for
estudos de inventário e outros é discutida, enfatizando the interpretation of results are discussed. The selec-
a interação entre as condições geológicas e o arranjo tion of dam axis at inventory stage and other studies is
geral da obra na escolha do sítio. É também discutida discussed, highlighting the interaction between geolo-
a elaboração de planos de investigação para o estudo gical conditions and the layout on the selection of the
dam axis. The development of investigation plans for
de aproveitamentos hidroelétricos, fornecendo crité-
the study of hydroelectric developments is also discus-
rios para a quantificação de sondagens. São ainda co-
sed, providing criteria for quantifying the drilling. The
mentadas, para o entendimento dos riscos geológicos, understanding of geological risks, uncertainty and the
a incerteza e os imprevistos. Um exemplo de avaliação unpredicted features are also commented. An example
de riscos geológicos é apresentado, discutindo-se os of geological risk assessment is presented, discussing
principais condicionantes e os critérios básicos para a the main constraints and the basic criteria for the pre-
elaboração da avaliação. paration of the assessment.

Palavras-chave: barragem, investigação e risco geológico Keywords: dam, investigation and geological risk

73
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

1 INTRODUÇÃO também sondagens sísmicas de refração, além de


estudos sobre a disponibilidade de materiais natu-
No Brasil, os conhecimentos geológicos pas- rais de construção. Mais importante do que isso, os
saram a ser aplicados à construção de barragens eixos dos aproveitamentos eram escolhidos a par-
em princípios da década de 50 do século passado. tir de suas características geológicas e topográficas,
Entretanto, sua utilização sistemática nos projetos tendo em vista o atendimento do arranjo das obras.
de barragens somente veio a se tornar corriqueira Pela primeira vez, os conhecimentos geológicos fo-
depois de meados da década de 60, com os traba- ram utilizados na escolha dos eixos, até então feita
lhos do Comitê de Estudos Energéticos da Região somente com base nos dados topográficos.
Centro Sul – CORESP. L O Comitê, por sua vez, contava com técnicos
O Comitê, como ficou conhecido, foi à con- cedidos pelas empresas estatais de energia elétri-
trapartida brasileira a um financiamento da ONU cas então existentes. No Estado de São Paulo essas
para o levantamento do potencial hidroelétrico da estatais dividiam os rios principais, a CHERP (rios
região centro-sul. Para orientar e conduzir o estudo Pardo e Tietê), a CELUSA (rio Paraná) e a USEL-
foi contratado um consórcio de empresas america- PA (rio Paranapanema). Essa participação dos
nas e canadenses, denominado CANAMBRA. Este técnicos das estatais propiciou a rápida absorção
consórcio contava com a participação das princi- da tecnologia de projeto de usinas hidroelétricas,
pais empresas daqueles países no projeto de usinas levando à contratação de geólogos por todas elas.
hidroelétricas e, portanto, introduziu a tecnologia Em 1967, as empresas de cada bacia hidrográfica
de ponta então disponível, não só em geologia, mas foram unificadas na Companhia Energética do
também em hidrologia e hidráulica, cartografia, es- Estado de São Paulo – CESP, a qual contratou o
tudos energéticos e outras áreas (Vaz, 1998). Instituto de Pesquisa Tecnológicas – IPT para con-
No tocante aos estudos geológicos para os duzir os estudos geológicos de suas barragens (Fi-
estudos de viabilidade, além do mapeamento ge- gura 1). Processo semelhante ocorreu em Minas
ológico detalhado, eram feitas sondagens ao longo Gerais, porém, centralizado nas Centrais Elétricas
do eixo, não somente a percussão e rotativas, mas de Minas Gerais – CEMIG.

Figura 1 – Barragem
de Ilha Solteira,
concluída pela CESP
em 1978. Fonte: Exa-
me.com (2011).

74
Geologia aplicada a barragens

Em 1968, o IPT estava presente, com equipes Toda esta tecnologia estava disponível para
de campo, em todas as barragens da CESP em aplicação nas grandes hidroelétricas na década de
construção (Ilha Solteira, Promissão e Capivara) 70 (Itaipu, Tucuruí e Paulo Afonso IV), nas quais
além de prestar assistência a outras barragens foi aperfeiçoada e testada com sucesso. Porém, nas
em fase final de construção (Paraitinga, Jupiá e décadas de 80 e 90 e nos primeiros anos deste sé-
outras). Essas equipes necessitavam de critérios culo, um período de 20 a 25 anos, houve violenta
para seus trabalhos tendo em vista homogeneizar redução nos investimentos em projeto e constru-
suas atividades, já que trabalhavam para o mes- ção de usinas hidroelétricas, com a desagregação
mo cliente. Foram então elaboradas, numa reu- das equipes, das empresas do setor e dos centros
nião em meados de 1968, na Usina de Promissão, de pesquisa.
com a participação dos geólogos Fernando Pires Nos últimos dez anos o mercado de projeto e
de Camargo, Luiz Ferreira Vaz e João Alberto construção de usinas hidroelétricas voltou a ficar
Nery de Oliveira, as especificações técnicas para a aquecido, porém, com usinas de médio porte e só
execução de sondagens e os procedimentos para a recentemente, com as usinas do rio Madeira vol-
classificação de sondagens, definindo-se os graus taram as grandes barragens. Essa retomada acom-
de alteração e de fraturamento dos testemunhos panhou as modificações no sistema de concessão
de sondagem. Esses procedimentos vinham sen- estabelecidas pela Lei 8987 de 1995. O novo mo-
do utilizados pelo IPT nos estudos para a Barra- delo permitiu a entrada de empreendedores pri-
gem de Ponte Nova, desde 1966, porém foram vados, isoladamente ou associados com empresas
unificados e aprovados para uso geral pelo IPT na estatais e introduziu modificações nas fases de
reunião de Promissão. projetos básico e executivo.
Dessa forma, ao final da década de 60, uma A principal alteração ocorreu com a dura-
tecnologia de investigação geológica, adaptada às ção dos serviços de projeto e construção. Esses
condições brasileiras, estava ficando disponível. prazos foram consideravelmente reduzidos, de
Daí para frente, diversos outros métodos e pro- tal sorte que empreendimentos similares, erigi-
cedimentos, tanto de campo como de laboratório dos na década de 70, ocupavam mais de duas
foram desenvolvidos, principalmente pelo IPT e vezes o prazo dos empreendimentos atuais. Em
aplicados ao projeto e construção de barragens, consequência, muitos estudos têm sido poster-
criando uma tecnologia brasileira de grandes bar- gados para a fase de projeto executivo, o que in-
ragens em regiões tropicais. crementa os riscos geológicos e pode conduzir
Dentre esses diversos passos alguns foram a acidentes, além de elevar o custo de constru-
particularmente importantes. O primeiro foi o de- ção. Aparentemente, esses custos não superam
senvolvimento, pelo IPT, da tecnologia pioneira os resultados da geração antecipada dentro da
de estudos de alterabilidade de basaltos, depois engenharia financeira do empreendimento, o
estendida para outras rochas, incluindo os estu- que pode tornar os prazos insuficientes para a
dos sobre a reação álcali-agregado, com a proposi- adequada investigação geológica.
ção de métodos de análise e parâmetros de utiliza- Em segundo lugar, as condições geológicas
ção (Ruiz, 1963). O segundo foi a introdução, pelo dos locais de implantação das novas hidroelétri-
consultor Klaus John, do sistema de classificação cas tornaram-se muito mais desfavoráveis do que
de maciços rochosos para aplicação na liberação e aquelas investigadas na década de 70. Atualmen-
tratamento de fundações da UHE Ilha Solteira. Até te, os empreendimentos concentram-se na região
então, esses serviços baseavam-se na experiência centro-norte, a maioria na Amazônia. Nessas re-
dos profissionais envolvidos, porém, passaram a giões predominam os maciços pré-cambrianos,
ser definidos em função da classificação geológica com extrema variação nas condições litológicas,
do maciço de fundação. Este passo foi de funda- de resistência, de alteração e estruturais. Maciços
mental importância, pois, até então, a geologia era de comportamento geomecânico desconhecido
entendida como necessária apenas durante a fase (Figura 2), constituídos por rochas ígneas, sedi-
de projeto participando apenas eventualmente da mentares, metassedimentares, entre outros, têm
construção (Vaz, 1998). que ser enfrentados.

75
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Figura 2 – Exemplos da complexidade geológica a) metassedimentos com intercalações de solo e rocha; b) brecha
vulcânica e c) extensas descontinuidades sub-horizontais alteradas até solo de ocorrência aleatória.

Além disso, ocorrem espessas e extensas co- que podem preencher canalões profundos, como
berturas recentes, mascarando as condições de mostrado na Figura 3. A mudança nas condições
sub-superfície e exigindo novos critérios de clas- geológicas faz com que a tecnologia desenvolvi-
sificação, seja para fundações ou para materiais da para o estudo das barragens sobre basalto, por
de empréstimo. Essas coberturas são de tal monta exemplo, somente seja parcialmente utilizada.

Figura 3 – Modelo esquemático com canalões antigos preenchidos por materiais de cobertura.

76
Geologia aplicada a barragens

2 MODELO DE CONCESSÃO E PRAZOS gia Elétrica – ANEEL para empresas privadas


e estatais, inclusive para a Empresa de Planeja-
As etapas de projeto e construção de aprovei- mento Energético – EPE, empresa estatal encar-
tamentos hidroelétricos continuam sendo a fase regada de estudos e do planejamento energético.
de inventário, a viabilidade dos aproveitamentos É possível que, para uma dada bacia hidrográ-
mais atrativos e as fases de projeto básico e proje- fica, duas ou mais concessões sejam concedi-
to executivo. Essas fases e os respectivos estudos das. Essas concessões são válidas apenas para
são definidos no Manual de inventário hidroelétrico os estudos de inventários e seus resultados são
de bacias hidrográficas (Eletrobras, 2007) conforme encaminhados à ANEEL, tornando-se públicos.
mostrado na Figura 4. Os prazos disponíveis para estes estudos não
As concessões para estudos de inventário sofreram muita alteração.
são outorgadas pela Agência Nacional de Ener-

Figura 4 – Etapas
de implantação de
aproveitamentos
hidroelétricos. Fon-
te: Modificado de
Eletrobras (2007).

Porém, para passar à fase seguinte, haverá Entretanto, depois de definido o vencedor da
uma licitação conduzida pela ANEEL. Essa licita- licitação, começa uma corrida contra o relógio, o
ção é feita com base no preço ofertado pelo em- que engloba o prazo para o projeto básico consoli-
preendedor para a venda da energia a ser produ- dado, para o projeto executivo e para a construção.
zida pelo aproveitamento, vencendo aquele que Dessa forma, os prazos têm sido progressivamen-
ofertar o menor preço. Para essa oferta o empreen- te reduzidos, em alguns casos chegando à metade
dedor precisa do planejamento financeiro de toda daqueles que vinham sendo utilizados. Em conse-
a operação, desde o projeto básico até o final da quência dessa redução, várias modificações foram
concessão. Obviamente, a redução no prazo entre necessárias, começando pela ampliação das equi-
a licitação e o início da geração de energia é fa- pes envolvidas no projeto.
tor determinante do custo da energia produzida. Além de implicar maiores esforços de coor-
Dessa forma, prazos de 3 a 4 anos entre o início da denação, a redução dos prazos acarretou mudan-
construção e da geração tornaram-se regra geral. ças na concepção e no desenvolvimento das in-
Para participar dessa licitação, cada uma das vestigações geológicas. Assim, anteriormente, na
empresas interessadas desenvolve suas próprias fase de projeto básico, métodos como os geofísicos
avaliações elaborando estudos de viabilidade avan- eram usualmente aplicados depois de algum co-
çados ou projetos básicos simplificados. Esses traba- nhecimento do sítio por meio de sondagens dire-
lhos podem ou não dispor de prazo satisfatório já tas. Atualmente, já devem ser aplicados de início,
que a data de licitação depende do planejamen- concomitantemente com as sondagens diretas,
to da ANEEL para atendimento da demanda de pois, geralmente, não haverá tempo de executá-
energia elétrica. los mais tarde.

77
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Em outras palavras, todas as necessidades Amazônia, cujas limitações de dados cartográficos


de investigação devem ser antecipadas uma vez é bem conhecida, sendo raros os trechos com ma-
que as informações geológicas para ajustes no ar- pas topográficos de escala 1:100.000. Além disso,
ranjo geral das obras e o adequado conhecimento a densa floresta tropical, que domina na região,
do risco geológico devem estar disponíveis antes dificulta a interpretação de fotografias aéreas. Em
da licitação pela ANEEL. Por outro lado não há fases mais avançadas dos estudos de inventário
como exagerar no volume de investigações uma ficam disponíveis levantamentos cartográficos de
vez que os custos da investigação devem ser escala 1: 10.000, em geral utilizando laser. Esses
mantidos dentro de limites aceitáveis e da dispo- levantamentos aerotransportados são feitos com a
nibilidade de prazo. emissão de um feixe de raios laser, considerando
Informações sobre o tipo e as quantidades de que a maior parte deles serão refletidos pela copa
investigações e estudos geológicos são encontra- das árvores, mas, outra parte alcança a superfície
das no Manual de inventário hidroelétrico de bacias do terreno, sendo utilizados. Esses levantamentos,
hidrográficas (Eletrobras, 2007), nas Instruções para apesar de apresentarem suas restrições, permitem
estudos de viabilidade (Eletrobras/DNAEE, 1997) e desconsiderar a cobertura da floresta, a qual con-
nas Diretrizes para o projeto básico de usinas hidroelé- tribuiu para insucessos em barragens na Amazô-
tricas (Eletrobras/Aneel, 1999). nia, como ocorreu com a UHE Balbina (Wittman
Cabe registrar que há empreendedores cons- & Bonilla, 2009).
cientes da importância das investigações geológi- A exatidão dos dados cartográficos deve ser
cas e outros que relutam em alocar recursos para verificada no início dos trabalhos efetuando-se
esses trabalhos. Em geral, os primeiros já tiveram trabalhos de validação dos dados incluindo levan-
alguma experiência desagradável com as condi- tamentos de campo e, principalmente, a verifica-
ções geológicas e com o impacto financeiro da re- ção dos marcos de referência a serem utilizados. A
mediação. Os que não se importam desconhecem experiência de estudos anteriores mostra que são
os riscos associados às condições geológicas, ou frequentes as divergências entre esses marcos na
seja, não sabem que não sabem. região amazônica.
São muitas as condições que controlam a
locação de um eixo de barragem, porém, a mais
3 SELEÇÃO DE EIXOS DE BARRAGENS
importante é a existência de ombreiras favoráveis,
A seleção de eixos de barragens para apro- isso é, que permitam acomodar a altura prevista
veitamentos hidroelétricos é geralmente feita na para a barragem. Ombreiras desfavoráveis são
fase de inventário. A ELETROBRAS editou um aquelas que apresentam fugas no reservatório,
manual, conhecido como Manual de Inventário, exigindo a construção de diques. Maciços rocho-
com os procedimentos para esta fase dos estudos sos com vazios e feições que permitam elevada
(Eletrobras, 2007). A escolha dos sítios é feita, pri- percolação de água devem ser evitados por com-
meiramente, pelos estudos hidráulicos de divisão prometerem a estanqueidade do eixo.
de queda, os quais procuram determinar a melhor Em segundo lugar, estão as condições geoló-
posição dos possíveis eixos de barragem de forma gicas e geomecânicas do maciço rochoso. As bar-
a aproveitar toda ou a maior parte do desnível do ragens sempre necessitam de rochas duras para
rio. Como existe a possibilidade de variar a altura as fundações das estruturas de concreto, nome-
do barramento, dentro de certos limites, é possí- adamente a casa de força e o vertedouro, além
vel reduzir a extensão do reservatório ou aprovei- de, em alguns casos, da eclusa e outras obras.
tar uma queda natural (corredeiras ou cachoeiras) Assim, o eixo deve, se possível, apresentar ro-
para a locação dos eixos. Assim, a locação final do chas duras, usualmente reconhecidas por provo-
eixo pode ser feita em um determinado trecho do carem corredeiras e cachoeiras, numa extensão
rio em função das condições locais o que, usual- apropriada para as estruturas de concreto pre-
mente, é tarefa dos estudos geológicos. vistas. Obviamente, existem barragens com es-
É preciso lembrar que, atualmente, a grande truturas de concreto acomodadas sobre rochas
maioria dos estudos de inventário é realizada na brandas, sendo a mais conhecida delas a UHE

78
Geologia aplicada a barragens

Curuá-Una, no Estado do Pará. Porém, o custo obras. Também pode ser mais conveniente, de-
de construção é mais elevado e pode inviabilizar pendendo do comportamento do topo de rocha,
o aproveitamento. substituir parte da barragem de terra por barra-
Em seguida, aparecem outros fatores que gem de concreto compactado a rolo (CCR). Note-
afetam o custo das obras, tais como a extensão do se que o CCR é mais caro do que a barragem de
eixo. Quanto mais curto, desde que seja possível terra e exige fundação em rocha, porém, é mais
acomodar as estruturas de concreto, mais interes- rápido para ser construído e depende menos das
sante é o local. É também necessário que a região condições climáticas.
do eixo disponha de volumes adequados de mate- Atualmente estão sendo utilizadas barragens
riais naturais de construção (solo, areia/cascalho de enrocamento com núcleo asfáltico, principal-
e rocha) aproveitáveis. É possível britar a rocha mente devido ao custo inferior. Da mesma forma
para obter areia artificial, porém, além do custo que os plintos de concreto, é necessário fundação
mais elevado, podem ocorrer dificuldades com a em rocha para o núcleo asfáltico,
trabalhabilidade do concreto, resultando em pra- De forma geral, devem ser preferidos os ei-
zos mais longos. Já a disponibilidade de solo ou xos com baixa cobertura de solo, ou seja, com topo
rocha, a distâncias superiores a 10 km do eixo, de rocha dura na superfície ou próximo (Figura
pode inviabilizar um aproveitamento, dependen- 5). Essa característica vai exigir maior escavação
do dos volumes requeridos. em rocha na casa de força, porém o material será
O local deve ainda permitir acomodar o ar- utilizado como brita ou enrocamento, restringin-
ranjo geral das obras, ou seja, a disposição das do a abertura de pedreiras. Em contrapartida, o
estruturas de concreto e demais obras da barra- vertedouro e a área de montagem, que usualmen-
gem. Atualmente, prefere-se que as estruturas de te têm fundações rasas, não vão requerer concre-
concreto fiquem dispostas na mesma margem, de to de enchimento e a barragem de terra pode ser
forma a evitar a instalação de dois canteiros de substituída por CCR.

Figura 5 – Usina Hidrelétrica


de Furnas com rocha aflorante,
localizada no rio Grande,
Minas Gerais.

Em rios com meandros encaixados, em for- construída na perna jusante da ferradura (Figura
mato de ferradura, como é comum no Sul, as es- 6). Além de facilitar a construção, pela separação
truturas da barragem podem ser construídas se- das obras, há um ganho de desnível entre a barra-
paradamente. Assim, a barragem é construída na gem e a descarga da casa de força, em função do
perna montante da ferradura e a casa de força é percurso do rio.

79
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Figura 6 – Usina Hidrelé-


trica de Itá, localizada na
divisa dos Estados do Rio
Grande do Sul e Santa Ca-
tarina aproveitando mean-
dro em forma de ferradura.
Fonte: Site da Secretaria de
Turismo do Rio Grande do
Sul - Setur (2011).

Nem todos esses fatores podem ser devida- O planejamento do sobrevôo é fundamental
mente considerados, por ausência de informações, para seu sucesso. Além de ajustar a rota e altitude
nas fases de inventário e viabilidade. Entretanto, a ser mantida, em conjunto com o piloto no início
cabe à Geologia de Engenharia participar ativa- do sobrevôo, é necessário orientar o vôo. Um dos
mente da análise dos dados e propor os ajustes no geólogos, mais familiarizados com navegação,
arranjo geral das obras e na locação dos eixos. deve orientar o posicionamento da aeronave. Para
Um programa de seleção de eixos para estu- o bom andamento dos trabalhos a equipe deve
dos de inventário inicia-se com a avaliação deta- contar com equipamentos (câmera fotográfica,
lhada dos aspectos fisiográficos e geológicos, utili- gravadores e GPS´s) em duplicata.
zando imagens (principalmente do Google Earth), Como resultado desse trabalho é indicado
mapas, fotografias aéreas e dados bibliográficos. um local preliminar para o desenvolvimento dos
Essas informações devem ser exaustivamente estudos de campo. Para esses estudos é necessário
analisadas, elaborando-se, para cada local, uma um planejamento detalhado, cuja complexidade
ficha e croquis com todas as informações. depende, principalmente, de aspectos logísticos.
A seguir deve ser efetuado um reconheci- Assim, na Amazônia as condições de acesso, co-
mento por via aérea, utilizando avião leve de asa municação e alojamento são determinantes da
alta ou helicóptero, este com a desvantagem do velocidade dos trabalhos. Em outras regiões, com
abastecimento mais frequente. Em geral, nesse acesso mais fácil, o planejamento é menos com-
reconhecimento, além do geólogo, deve ir um plexo, já que alojamento, alimentação e meios de
engenheiro especializado em arranjo, geralmen- transporte estão disponíveis.
te em duplas, para permitir que um observe e o Os trabalhos de campo destinam-se a ajustar
outro registre. A principal função do sobrevôo é o posicionamento do eixo às condições locais efe-
identificar os trechos do rio mais favoráveis para a tivamente encontradas e a definir a disponibilida-
implantação dos aproveitamentos. Além disso, o de de materiais naturais de construção. Para isso,
reconhecimento aéreo é fundamental para a esco- um mapeamento geológico detalhado, apoiado
lha de eixos, principalmente na região amazônica, por sondagens a trado, poços de inspeção e son-
sendo tarefa de rotina nos estudos de inventário. dagens sísmicas de refração fornece os elementos
Neste sobrevôo são identificadas as feições topo- preliminares sobre a posição do topo de rocha e
gráficas e geológicas regionais e, se possível, defi- do nível d´água, a distribuição das unidades e
nidos os eixos. feições geológicas, tanto em superfície como em

80
Geologia aplicada a barragens

subsuperfície e a disponibilidade de materiais na- os ensaios 3D que permitem avaliar a continui-


turais de construção. dade e intercomunicação das estruturas, o tensor
Não raramente, um eixo com condições mais de permeabilidade e a anisotropia da percolação
favoráveis pode ser encontrado com os trabalhos (Tressoldi, 1991).
de campo dada à maior aderência à realidade fi- Nas sondagens diretas foi introduzida a perfu-
sográfica e geológica obtida com esses trabalhos. ração mecanizada nas sondagens a percussão, com
Essas adaptações ou alterações fazem parte do o emprego de trado oco (hollow stem auger) monta-
processo de seleção do eixo, sempre em busca da do sobre caminhão (Figura 7). O sistema inclui um
solução mais favorável. martelo com queda automática para a realização
O eixo do inventário pode ou não permanecer do ensaio SPT, reduzindo sensivelmente o tempo
nas fases seguintes de estudos. Em geral, na fase de execução da sondagem e do ensaio. Equipamen-
pré-licitação, o empreendedor faz uma revisão da tos de sondagens rotativas de alta produtividade,
posição do eixo, considerando os mesmos fatores montados sobre esteiras também já existem. Esses
elencados e utilizando os mesmos procedimentos, equipamentos montados sobre plataformas móveis
isto é, sobrevôo e estudos de campo, porém con- (caminhões, carretas de esteiras, etc) têm aplicação
tando com mais recursos de investigação e ensaios limitada à disponibilidade de acessos nem sempre
de campo, além de levantamentos topográficos e podem ser utilizados nas fases iniciais dos estudos
batimétricos. de barragens quando, em geral, os caminhos limi-
Em síntese, o processo de estabelecimento de tam-se às picadas estreitas.
um eixo de barragem e seu respectivo arranjo é
um processo de aproximações sucessivas, intera-
tivo e multidisciplinar no qual a Geologia de En-
genharia tem papel fundamental.

4 INVESTIGAÇÕES

A redução do prazo para as investigações


geológicas tornou ainda mais importante o ma-
peamento geológico-estrutural de detalhe da área
do empreendimento. O mapeamento deve ser
conduzido após um reconhecimento feito por um
geólogo experiente e a elaboração de um manual
Figura 7 – Equipamento de trado oco com martelo automá-
de mapeamento contendo os critérios e a defini- tico para ensaio SPT.
ção das unidades geológicas. O mapa geológico
deve ser progressivamente atualizado à medida
que novas informações fiquem disponíveis. Mais recentemente tornaram-se disponíveis
De forma geral, os métodos de investigação equipamentos digitais de televisamento de furos
pouco evoluíram nessas últimas décadas. Alguns de sondagens em rocha, conhecidos como perfi-
métodos, como os geofísicos (Souza, 2006) foram lagem ótica (Figura 8). Esses equipamentos traba-
bastante aperfeiçoados pela utilização de instru- lham em furos abertos por sondagens rotativas ou
mentos digitais, o que, por sua vez, permitiu me- por rotopercussão, com perfuração pneumática.
lhorar o processamento dos dados e a interpreta- A perfuração com sondagens rotativas destina-se,
ção de sondagens sísmicas em terra e subaquáticas, principalmente, à aferição das imagens por com-
elétricas e outras. Alguns métodos de ensaio de paração com os testemunhos (Figura 9). Para o te-
campo, como o cone de penetração contínua (deep levisamento, o furo deve ser previamente lavado
sounding) e o ensaio de cisalhamento in situ (vane para a limpeza das paredes.
test) também foram automatizados, facilitando a As imagens são digitalizadas o que permite
interpretação. As informações hidrogeológicas sua exibição em computador, apresentando um
para maciços fissurados foram aperfeiçoadas com testemunho virtual ou desdobrado numa vista de

81
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

360º (Figura 10). Como são imagens digitais, as des- que, não havendo restrições, a operação completa
continuidades e outras feições podem ser identifi- de um furo de 30 a 50m (perfuração, lavagem e
cadas e obtido o estereograma das diversas famí- televisamento) pode ser concluída em dois dias,
lias de fraturas. A perfuração com rotopercussão é permitindo sua aplicação em investigações para a
muito rápida e o televisamento também, de forma liberação de fundação na fase construtiva.

Figura 8 – Câmera para perfilagem


ótica.
Fonte: Fundsolo – Mesa Redonda
ABGE/ABMS (2011).

Figura 9 – Comparação entre testemu-


nho virtual (a); imagem das paredes
desdobrada em 360º (b) e testemunho
convencional (c)
Fonte: Fundsolo – Mesa Redonda
ABGE/ABMS (2011).

82
Geologia aplicada a barragens

Figura 10 – Interpretação estrutural com o uso de softwares.


Fonte: Fundsolo – Mesa Redonda ABGE/ABMS (2011).

Para a interpretação dos resultados devem A interpretação bem sucedida de imagens de


ser definidos critérios específicos para a identifi- televisamento digital requer a prévia identificação
cação das feições de interesse. As fraturas, falhas das feições usuais no maciço rochoso com auxílio
e contatos são claramente visíveis nas imagens e de testemunhos obtidos em sondagens rotativas e
não apresentam dificuldades para a identificação, dados dos mapeamentos da fundação. Para cada
bastando sua atribuição a um dos sistemas ou fa- feição deverá ser definida uma sigla ou número para
mílias previamente identificados. Feições como facilitar a identificação. Posteriormente, no escritó-
vazios ao longo das fraturas podem ser atribuídas rio, a interpretação pode ser revista e preparado um
a preenchimentos de solo ou de rocha muito frag- relatório individual de sondagem. Segundo Baillot
mentada, ambos capazes de ser removidos pela et al. (2004), as imagens podem ser utilizadas para
lavagem do furo com jato d’ água sob pressão. a classificação do maciço rochoso.
Com o recurso de aproximação da imagem (zoom) Uma das principais limitações do televisa-
é possível visualizar a textura da rocha e, em al- mento digital é a limpeza do furo já que a água
guns casos, atribuir graus de alteração em função não pode estar afetada por turbidez. Caso as pare-
do descolorimento dos minerais. des do furo não sejam estáveis, o risco de prender

83
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

a câmera pode impedir a execução dos serviços de 5 PLANOS DE INVESTIGAÇÃO GEOLÓGICA


televisamento. O método também não se aplica a
furos inclinados. A metragem de investigações por sondagens
A grande vantagem do televisamento é a (a percussão e rotativas) aumentou consideravel-
rapidez na obtenção das informações. Sua utili- mente nas últimas décadas. Contribuíram para
zação no detalhamento de informações obtidas isso, a maior conscientização dos empreendedores
com sondagens rotativas convencionais torna-se sobre os benefícios da investigação geológica (prin-
muito útil, principalmente na fase de construção. cipalmente na redução do risco geológico), a maior
Assim, por exemplo, se estiver previsto no plano abrangência dos planos de sondagem em função
de sondagens de uma casa de força, com 500m dos prazos mais reduzidos e a maior complexidade
de extensão total, uma sondagem a cada 50m, as geológica dos sítios dos empreendimentos.
rotativas podem ser feitas a cada 100m e as ro- Para a elaboração de um plano de investiga-
topercussões, com televisamento, nos intervalos. ções, também conhecido como plano de sonda-
Trabalhando com três equipamentos de sonda- gem, para uma usina hidroelétrica diversos fato-
gens rotativas e considerando 40m de profundi- res são considerados, dos quais o mais importante
dade em cada sondagem, teríamos 440m o que é a complexidade geológica da fundação. Um ma-
demandaria cerca de 50 dias para conclusão dos ciço de rocha dura, cristalina, constituído por um
trabalhos utilizando apenas sondagens rotativas. gnaisse com foliação incipiente, pode ser investi-
Com cinco sondagens, a rotopercussão com tele- gado com uma metragem menor de sondagens do
visamento, restariam apenas 240m de sondagens que um maciço de metassedimentos, com foliação
rotativas, o que seria feito em cerca de 30 dias. desenvolvida e várias famílias de fraturas. Se in-
De forma geral, até 30% da metragem total de troduzirmos contatos e falhas, mais sondagens se-
sondagens tem sido executada com rotopercus- rão necessárias, principalmente se os afloramen-
são e televisamento, concentradas nas estruturas tos forem escassos.
de concreto emersas. Em segundo lugar, o plano de sondagens de-
O IPT dispõe de equipamento de perfilagem pende do arranjo do aproveitamento. As estrutu-
acústica que produz imagens digitais da parede ras de concreto, mesmo de baixa altura, requerem
do furo utilizando pulsos sônicos (Birelli et al., sondagens mistas ou rotativas para sua adequada
2004). O instrumento exige a presença de fluido investigação. As barragens de terra e de enroca-
na perfuração, que pode ser água turva ou lama mento com núcleo argiloso, por sua vez, são usu-
bentonítica, porém a resolução é menor do que almente investigadas com sondagens a percussão
a da perfilagem ótica. Perfilagens com cáliper e e algumas sondagens mistas. Barragens de enro-
raios gama podem ser conduzidas simultanea- camento com face de concreto ou núcleo asfáltico
mente com a perfilagem acústica. Instrumentos necessitam de sondagens rotativas e mistas. Para
similares estão sendo importados por outras a investigação de um eixo de barramento, essas
empresas. sondagens devem ser distribuídas ao longo do
Porém, apesar dos avanços nos métodos de eixo e em seções transversais de forma a abranger
investigação, continua sendo necessário apre- todas as estruturas do aproveitamento.
sentar os dados obtidos de forma acessível para A metragem de sondagens para a investiga-
engenheiros e outros profissionais. Shaffner ção de uma barragem para geração de energia elé-
(2011) aponta, em seminário sobre o Projeto de trica depende de vários fatores. Admitindo-se um
Barragens para o Século 21, a necessidade de um aproveitamento com estruturas de concreto e bar-
conjunto de relatórios e desenhos, combinando ragens de terra em região de baixa complexidade
dados geológicos e geotécnicos para a avaliação geológica e na fase de estudo de viabilidade avan-
da segurança de barragens, apresentando vários çada ou projeto básico simplificado, a metragem
exemplos de mapas e seções geológicas. de sondagens está indicada na Tabela 1.

84
Geologia aplicada a barragens

Tabela 1 – Metragem de sondagens para estudos de viabilidade avançada.

ESTRUTURAS DE CONCRETO BARRAGENS DE TERRA


VARIÁVEL
(sondagens rotativas) (sondagens a percussão)

comprimento (m) 400 800

altura máxima (m) 50 55

espaçamento sondagens (m) 100 100

número de sondagens (un) 5 9

profundidade de sondagens (m) *1 40 30

metragem parcial 200 270

Acréscimos:

seções transversais (m) *2 240 240

sondagens rotativas barragem de terra (m) *3 80 -

sondagens de reserva - 2 furos (m) 80 60

sondagem estratigráfica (m) *4 80  

metragem total 680 570


Notas:

*1 – As sondagens devem penetrar no mínimo 10m abaixo da cota de fundação, se não existirem feições subhorizontais

*2 – Três seções transversais nas estruturas de concreto e quatro nas barragens de terra, cada uma com duas sondagens

*3 – Duas sondagens com 40m cada

*4 – Uma sondagem com o dobro da profundidade das demais

Além do tipo e características da barragem, são necessárias apenas sondagens para detalha-
diversos outros fatores devem ser considerados mento de feições localizadas, para a investiga-
na formulação de um plano de investigações, ção de condições geológicas anteriormente não
entre os quais os maciços de fundação, o com- detectadas e para a liberação de fundações. Neste
portamento do topo de rocha, as condições hi- caso deve-se admitir uma metragem de 20% do
drogeológicas e outras específicas do sítio e do total despendido nas fases anteriores de projeto.
arranjo geral. Atualmente, com o desenvolvimento de de-
Para uma região com alta complexidade ge- senhos de projetos com recursos tridimensionais
ológica, a metragem de sondagens poderá ser (3D), um mapa com curvas de contorno do topo
acrescida de 50 a 70%. Nas Instruções para estudos de rocha é essencial para a elaboração desses de-
de viabilidade (Eletrobras/DNAEE, 1997), reco- senhos, o que pode exigir sondagens fora da área
menda-se um espaçamento entre sondagens de da barragem.
50 a 100m ao longo do eixo. Essa variação con- Para a elaboração desse mapa é necessário
templa a complexidade geológica e os requisitos definir o topo de rocha dura (Figura 11), esca-
dos arranjos, sendo compatível com os dados da vável somente com explosivo e, eventualmen-
Tabela 1, baseada em eixos investigados. te, dependendo das características do maciço, o
Para a fase de projeto básico consolidado topo de rocha de escavação comum, sem uso de
será necessário, aproximadamente, a mesma me- explosivos (equivalente à base do solo), resultan-
tragem utilizada na fase de viabilidade avançada, do em dois mapas de contorno. Outros mapas de
desde que o eixo permaneça no mesmo local. contorno podem ser necessários, por exemplo,
Sendo a metragem de sondagens adequada para mostrar as condições geológicas na cota de
nas fases anteriores, durante o projeto executivo fundação das estruturas de concreto.

85
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Figura 11 – Mapa de contorno do topo rochoso.

As condições de alteração e fraturamento solos residuais e da rocha subjacente, da associa-


usuais nos maciços rochosos, bem como os mate- ção entre o tipo do material e seu respectivo hori-
riais de cobertura (solos residuais, aluviões, terra- zonte de alteração. Para isso é necessário utilizar
ços e coluviões), obrigam à definição de tipos de um perfil de intemperismo associado aos proces-
materiais, usualmente conhecidas como unidades sos de escavação, conforme aquele indicado na
geológicas. Essas unidades resultam, no caso de Figura 12.

Figura 12 – Perfil de intemperismo para regiões


tropicais. Fonte: Vaz (1996).

86
Geologia aplicada a barragens

Tratando-se de um maciço granítico, por bilidade das estruturas da barragem e a de-


exemplo, as unidades geológicas seriam: formabilidade da fundação;
■■ S1Gr - solo eluvial de granito; vii) estudos e projetos de tratamentos de funda-
■■ S2Gr - solo de alteração de granito; ção das estruturas da barragem e instrumen-
■■ R3Gr - granito alterado mole; tação; e
■■ R2Gr - granito alterado dura e viii) disponibilidade e características dos materiais
■■ R1Gr - granito são. naturais de construção.

Os solos transportados são definidos por si- Essas informações devem atender não somen-
glas, como nos exemplos abaixo: te às necessidades do projeto das estruturas da bar-
■■ ALar - aluvião arenoso; ragem, mas também da determinação de volumes
■■ ALag - aluvião argiloso; e quantitativos de serviços de construção.
■■ COag - coluvião argiloso. Finalmente, a apresentação dos dados decor-
rentes dos estudos geológicos deve considerar
Maiores informações sobre a definição de uni- sua utilização por diversos outros profissionais,
dades geológicas podem ser encontradas no artigo os quais podem ou não estar familiarizados com
Classificação genética dos solos e dos horizontes de alte- os conhecimentos geológicos.
ração de rochas em regiões tropicais (Vaz, 1996).
Os critérios de classificação de sondagens de-
6 RISCO GEOLÓGICO
vem ser definidos e registrados em relatório es-
pecífico no início dos serviços. Se necessário, um Antes de discutir os riscos geológicos é con-
treinamento em classificação deve ser oferecido veniente esclarecer a distinção entre imprevisto
aos geólogos responsáveis. Norbury (2010) dis- geológico e imprevisível. Diz-se como imprevis-
cute detalhadamente a descrição de exposições to uma feição conhecida, por exemplo, uma falha
e amostras de solo e rocha para fins de Geologia de empurrão, não detectada por deficiência da
de Engenharia. Apesar de utilizar normas britâni- investigação ou da interpretação dos dados ou
cas e européias, são apresentados procedimentos qualquer outra limitação. Imprevisível aplica-se
para a sistematização e codificação das descrições a feições desconhecidas do meio técnico, situadas
de materiais, alteração, descontinuidades e vários além do estado da arte. São situações muito mais
outros parâmetros geológico-geotécnicos. raras, que podem ser exemplificadas pelo basalto
De forma geral, o plano de investigações deve de baixa densidade (“basalto leve”) encontrado,
responder ou fornecer dados para as seguintes pela primeira vez, na casa de força da UHE Porto
questões: Primavera (Tressoldi et al., 1986). Os imprevistos,
i) posição do topo de rocha na área das estrutu- entretanto, são muito mais comuns, em geral de-
ras de concreto considerando o topo de rocha correntes de investigação insuficiente.
dura (escavável a fogo) e o topo de rocha ade- É também conveniente esclarecer a distin-
quado para fundação; ção entre incerteza geológica e risco geológico.
ii) distribuição em superfície das unidades e fei- A incerteza geológica é a parcela das condições
ções geológicas; geológicas que pode ficar oculta, mesmo após a
iii) distribuição em subsuperfície das unidades aplicação de todos os recursos de investigação.
geológicas, com suas espessuras definidas; Exemplificando, uma falha no maciço rochoso,
iv) caracterização das estruturas com a identifica- coberta por coluviões, poderá não ser detectada,
ção das famílias de fraturas e macro-estrutras; pois, caso a falha seja vertical, dificilmente será
v) caracterização hidrogeológica das unidades e atravessada pelas sondagens, em geral também
estruturas condicionantes da percolação; verticais. Neste caso, a falha somente será revela-
vi) caracterização geomecânica das unidades geo- da quando a cobertura for removida, podendo ou
lógicas e estruturas que condicionam a esta- não vir a se constituir em risco geológico.

87
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

O risco geológico está associado a condições maiores ou mais indefinidos forem esses riscos,
geológicas conhecidas que podem afetar o suces- mais cara será a apólice.
so (custo, prazo e segurança) da obra. Abrange, As construtoras, por sua vez, majoram seus
também, condições geológicas suspeitas ou não serviços e custos por fatores de contingência toda
completamente avaliadas por insuficiência de vez que uma determinada atividade não possa ser
dados. Exemplificando, um sistema de fraturas adequadamente prevista, seja em termos de quan-
transversais ao rio, desde que paralelo às paredes tidades ou de dificuldade de execução. Exempli-
de escavação da casa de força, dependendo do ficando, um desmonte subaquático pode ser con-
mergulho, pode afetar a estabilidade das paredes, venientemente previsto e seu custo é conhecido,
requerendo tratamentos adicionais. Um exemplo porém, a dificuldade para remover o material des-
de feição suspeita é a possibilidade de ocorrer montado, em um “canalão” profundo, constitui-se
uma camada de areia e blocos de rocha no fundo em um risco geológico, pois dificilmente pode ser
de “canalões”, dificultando a vedação de enseca- calculada. Dessa forma, é aplicado um acréscimo
deiras. Dificilmente a camada será detectada com no preço de desmonte subaquático toda vez que
sondagens devido às dificuldades de execução, estiver envolvida a escavação de um “canalão”.
mas há uma elevada probabilidade de sua ocor- As condições geológicas que mais frequente-
rência por tratar-se de rocha dura e existirem blo- mente constituem riscos geológicos são:
cos de rocha na superfície. ■■ variação na posição do topo de rocha dura,
No modelo anterior de construção de aprovei- alterando os volumes de escavação, princi-
tamentos hidroelétricos os eventos então conheci-
palmente aqueles que requerem explosivos;
dos como surpresas geológicas eram suportados pelo
■■ sistemas de fraturas capazes de afetar a esta-
proprietário da obra, o qual arcava com os custos
bilidade das paredes de escavação, requeren-
decorrentes. Na época, as obras eram remuneradas
do tratamentos adicionais;
por preços unitários aplicados às quantidades me-
■■ fraturas abertas requerendo esforço adicional
didas, o que facilitava os ajustes de custos.
de tratamento com injeções;
Com a mudança do setor elétrico e a neces-
■■ canalões e paleocanais preenchidos total ou
sidade de conhecer antecipadamente o custo da
parcialmente;
obra, os contratos com as empreiteiras passaram a
■■ feições geológicas capazes de afetar a estabi-
ser por preço global, sendo as parcelas pagas por
evento, conforme definido no cronograma de cons- lidade das estruturas e a deformabilidade da
trução ou por medição, porém, respeitando o custo fundação;
global ofertado. Essa mudança acarretou a entrada ■■ feições geológicas favoráveis ao desenvolvi-
de novo personagem na construção dos aproveita- mento de processos de piping e
mentos hidroelétricos, o risco geológico, ou mais ■■ insuficiência da investigação geológica.
especificamente, quem responde pelo custo de se-
rem encontradas condições geológicas desfavorá- A avaliação do risco geológico pode ser feita
veis não reveladas no projeto básico utilizado pelo com distintos graus de detalhamento. O exemplo
empreiteiro para a composição de seu preço. apresentado na Tabela 2 constitui um procedi-
Em geral as construtoras são obrigadas, por mento qualitativo baseado no conhecimento das
dispositivo contratual, a contratar apólices de se- condições geológicas e na experiência anterior.
guro para cobrir diversos riscos, entre os quais Contém, entretanto, todos os elementos necessá-
os chamados riscos de engenharia, nos quais se rios para aferir o risco geológico e adotar as medi-
incluem os riscos geológicos. Entretanto, quanto das de contingência apropriadas.

88
Geologia aplicada a barragens

Tabela 2 – Tabela simplificada de riscos geológico-geotécnicos.

Estruturas
Refe- Descrição Processos e Risco
da barragem Intervenções
rên- do Condi- efeitos es- Qualita- Mitigação
possivelmen- necessárias
cia cionante perados tivo
te afetadas
Aumento nos volumes de
Profundidade Aumento do volume
Profundidade concreto na área dos cana-
G1 maior do que a Barragem de CCR Alto de concreto utilizado
dos canalões lões e acréscimo do prazo de
prevista na barragem e prazos
construção
Camadas de
areia com blocos Erosão interna Médio Aumento do volume
de rocha e eleva- Aumento nos volumes das
G2 Ensecadeiras de material utilizado
da condutivida- ensecadeiras
(piping) na ensecadeira
de hidráulica em
canalões
Substituição por areia Considerar uso de areia
G3 Jazidas de areia Não encontradas Concreto e filtros Médio
artificial. artificial.
Adequada para Execução de investi-
Suficiência das Estruturas do
G4 estudos de Baixo gações adicionais nas Programas de investigações
investigações arranjo
viabilidade próximas fases
Sobreescavação Rocha muito Taludes provisó- Plano de fogo ajusta- Acréscimo do volume de
G5 Baixo
em rocha fraturada rios e finais do e fogo cuidadoso concreto
G6 Uso de cimento pozolânico
Reatividade do Reação álcali- Estruturas de Estudos de dosagem
Baixo com custo de transporte
granito agregado concreto do concreto
mais alto.
Barragem de CCR, Tratamento das fra-
Subpressões, Baixo
Fraturas de vertedouro, muros turas com injeções e
recalques e ins- Aumento no volume de
G7 alívio subhori- e outras estruturas drenagem; sobrees-
tabilidade das concreto de enchimento
zontais com fundações cavação ou chavetea-
estruturas
rasas mento da fundação
G8 Barragens e ense- Execução de inves- Ensaios e sondagens con-
Áreas de em- Ensaios insufi-
cadeiras construí- Baixo tigações, estudos e forme programa de inves-
préstimo de solo cientes
das com solo ensaios tigação

Ensecadeiras, Definição do coefi-


Aceleração hori- Dimensionamento das es-
G9 Sismicidade barragem, taludes Baixo ciente de aceleração
zontal elevada truturas
de escavação sísmica

Conforme exemplificado pela Tabela 2,a ava- do impacto no prazo, custo e segurança da obra.
liação do risco geológico compreende as seguintes Essa avaliação é qualitativa atribuindo-se à quali-
etapas, indicadas pelas diversas colunas da tabela: ficação de riscos baixo, médio ou alto. Devem ser
■■ sigla de referência do risco; ainda consideradas as características específicas
■■ descrição do condicionante geológico respon- da obra e das medidas mitigadoras, sendo man-
sável pelo risco; datório o impacto na obra.
■■ processos associados e efeitos esperados de- Assim, uma feição frequente, porém de baixo
correntes do risco; impacto, por exemplo, um sistema de fraturas com
■■ estrutura da obra afetada pelo risco;
atitude desfavorável para a estabilidade das pare-
■■ avaliação qualitativa do risco (baixo, médio
des de escavação pode ser considerado de baixo
e alto);
■■ intervenções necessárias; e risco se o talude for de baixa altura. Esse mesmo
■■ medidas mitigadoras dos efeitos do risco. sistema, num talude elevado, pode tornar-se de ris-
co médio, caso a dificuldade com os trabalhos de
Dos itens acima requerem comentários espe- contenção possa afetar o prazo previsto para tais
cíficos a avaliação do risco e a recomendação de serviços. Finalmente, se a condição da obra permi-
medidas mitigadoras. Os demais itens são auto- tir que o sistema possa afetar a estabilidade de uma
explicativos pela leitura da Tabela 2. estrutura de concreto, o risco pode tornar-se alto.
A qualificação do risco depende da probabili- Para a qualificação do risco e a recomendação
dade de sua ocorrência e dos seus efeitos, ou seja, de medidas mitigadoras, destinadas a reduzir ou

89
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

eliminar os efeitos das feições geológicas desfavo- Eletrobras 2007. Manual de inventário hidroelé-
ráveis, é necessária uma abordagem multidiscipli- trico de bacias hidrográficas. Eletrobras, Brasília.
nar com a participação de especialistas. Em outros
casos, as medidas mitigadoras podem exigir con- Fundsolo 2011. Perfilagem ótica. In: Mesa Re-
sultas a empresas especializadas em métodos de donda: Sondagens – Método, Procedimentos e
tratamento. Qualidade – Associação Brasileira de Geologia
de Engenharia e Ambiental (ABGE) e Associação
Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia
7 CONCLUSÕES Geotécnica (ABMS). São Paulo, março 2011. Ca-
derno, p.7.
A Geologia de Engenharia (GE) é uma ativi-
dade consolidada no estudo e construção de bar- Lei Nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995. Dis-
ragens. Contribuíram para essa consolidação os ponível em http://www.aneel.gov.br/cedoc/
trabalhos de liberação de fundações, de seleção de blei19958987.pdf. Acessado em 24 jun 2011.
eixos e da avaliação do risco geológico.
A evolução dessas áreas é distinta. A liberação Norbury, D. 2010. Soil and Rock Description in
de fundações é tarefa exclusiva da GE e sua evo- Engineering Practice. Whittles Publishing. Sco-
lução depende essencialmente da própria GE. A tland, UK. 288pp.
seleção de eixos depende da habilidade da GE em
identificar a aderência dos arranjos às condições Revista Exame 2011. Disponível em: http://exa-
locais. Finalmente, a avaliação do risco geológico me.abril.com.br/negocios/ empresas/noticias.
ainda tem muito a evoluir, não só na identificação Acessado em 17 jun 2011.
dos riscos, mas também na busca de métodos de
quantificação. Ruiz, M.D. 1963. Mecanismo de desagregação de
rochas basálticas semi alteradas. In: II Congresso
Panamericano de Mecânica dos Solos e Enge-
Agradecimentos nharia de Fundações. Anais. vol 1, p.533-541.

Agradecemos à geóloga, Dra. Marilda Tressoldi, pela SETUR - Secretaria de Turismo do Rio Grande do
revisão e comentários; e aos colegas, que forneceram Sul 2011. Disponível em: http://www.turismo.
dados sobre os equipamentos. rs.gov.br/portal. Acessado em 13 jun 2011.

Shaffner, P.T. 2011. Geologic data and risk assess-


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Geologia aplicada a barragens

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tropicais. Solos e Rochas. ABMS-ABGE, 19:117-136.

91
1
2
RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
Av. Prof. Almeida Prado, 532 – IPT (Prédio 11) 05508-901 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3767-4361 - Telefax: (11) 3719-0661 - E-mail:abge@ipt.br - Home Page: http://www.abge.com.br

DIRETORIA - GESTÃO 2009/2011


Presidente: Fernando Facciolla Kertzman
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Diretor Financeiro: Luiz Fernando D`Agostino
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CONSELHO DELIBERATIVO
Elaine Cristina de Castro, Elisabete Nascimento Rocha, Fabio Canzian da Silva, Fabrício Araújo Mirandola, Fer-
nando Facciolla Kertzman, Fernando Ximenes T. Salomão, Gerson Almeida Salviano Filho, Ivan José Delatim,
Kátia Canil, Leonardo Andrade de Souza, Luiz Antonio P. de Souza, Luiz Fernando D’Agostino, Marcelo Fis-
cher Gramani, Newton Moreira de Souza, Selma Simões de Castro.

NÚCLEO RIO DE JANEIRO


Presidente: Nelson Meirim Coutinho - Vice-Presidente: Antonio Queiroz
Diretor Secretário: Eusébio José Gil - Diretor Financeiro: Cláudio P. Amaral
End.: Av. Rio Branco, 124 / 16o andar – Centro - 20040-916 - Rio de Janeiro - RJ
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NÚCLEO MINAS GERAIS


Presidente: Maria Giovana Parizzi - Secretário: Frederico Garcia Sobreira
Tesoureiro: Luís de Almeida P. Bacellar - Diretor de Eventos: Leonardo A. Souza
End.: Univ. Fed. de Ouro Preto - Depto. Geologia - 35400-000 – Ouro Preto/MG
Fone: (31) 3559.1600 r 237 Fax: (31) 3559.1606 –

REPRESENTANTES REGIONAIS UF

ROBERTO FERES AC
HELIENE FERREIRA DA SILVA AL
JOSÉ DUARTE ALECRIM AM
CARLOS HENRIQUE DE A.C. MEDEIROS BA
FRANCISCO SAID GONÇALVES CE
NORIS COSTA DINIZ DF
JOÃO LUIZ ARMELIN GO
MOACYR ADRIANO AUGUSTO JUNIOR MA
ARNALDO YOSO SAKAMOTO MS
KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE
ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES. EXPERIÊNCIA
DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG

Edézio Teixeira de Carvalho


GEOLURB* - edeziotc@gmail.com

RESUMO ABSTRACT

Constitui pretensão do autor neste trabalho pontuar Contribution to the Engineering Geolo-
características distintivas do objeto da Geologia de En- gy applied to the cities. Long time expe-
genharia aplicada aos meios urbanos das quais partes rience in Belo Horizonte – MG
da humanidade parecem ter-se esquecido, como a de The author’s intention in this work is to point out the dis-
sua perenialidade em face de componentes seus natu- tinguishing characteristics of the object of engineering ge-
ralmente transitórios, e do itinerante, a água, tão mal- ology applied to urban areas of which parts of humanity
tratada pela lei e pela rejeição. Tem também, com um seem to have forgotten, like its perenniality in the face of
exemplo de análise cartográfica, a pretensão de apro- its components naturally transient and itinerant water so
ximar trabalhos cartográficos simplificados da capaci- mistreated by law and rejection. It has also, with an exam-
dade de recepção dos setores profissionais usuários, e ple of cartographic analysis, the intention of bringing sim-
plified cartographic works to the reception capacity of the
a de divulgar o método geológico aplicado a soluções professional sectors users, and to disclose the geological
compartilhadas centradas nos aterros de resíduos iner- method as applied to shared solutions focused on lan-
tes que as cidades continuarão a produzir. dfills of inert waste that cities will continue to produce.

Palavras-Chave: geologia de engenharia, geologia ur- Keywords: engineering geology, urban geology, cities,
bana, cidades, análise cartográfica, resíduos sólidos. waste disposal, cartographic analysis.

1 INTRODUÇÃO

A geologia de engenharia aplicada às cida- da criatividade, em países como o Brasil, desde o


des é domínio técnico-científico de campo aberto. nível constitucional até a cadeira do agente local
De um lado, isto ocorre porque tem suas técnicas interpretando a Lei, veem-se florescer alhures a
e métodos, lastreados na geologia, desafiados a criação. As cidades não se constroem apenas so-
acompanhar a dinâmica de seus pilares concei- bre as plataformas que a natureza oferece. Estas
tuais situados nos domínios da física, química e vão sendo criadas até no meio do mar de acordo
biologia. De outro, ela deve acompanhar também com o projeto do edificado.
a expansão previsível de seu objeto material — a Este é artigo de cunho conceitual, filosófico, ló-
Cidade. Este, ao longo da história das civilizações, gico, epistemológico. Reconhece o autor a elástica
experimentou todos os ambientes geológicos, com extensão dos conceitos aqui tratados de plataforma
soluções de crescente complexidade e dinâmica geológica das cidades e do próprio conceito de cida-
criatividade. Desfazendo o temor de que o expe- de, e opta por jogar um facho de luz sobre conceitos
rimento urbanístico terá conhecido o “fim da his- da ferramenta e de seu objeto. Procedimentos me-
tória” por causa de regulamentações coercitivas todológicos típicos do ferramental da geologia de

* GEOLURB – Geologia Urbana e de Reabilitação, Belo Horizonte, MG, Brasil. geolurb@gmail.com. Edézio Teixeira de Carva-
lho, Eng. Geólogo, Mestre em Geologia de Engenharia pela Universidade Nova de Lisboa.

93
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

engenharia aplicada aos meios urbanos, compa- intercambiabilidade entre Fato e Processo pode
recem com finalidade mais propriamente ilustra- ser sumariada na assertiva abaixo:
tiva. Destacam-se dois tipos de trabalho de cunho
metodológico: A caracterização de unidades de
terrenos nos trabalhos de diagnóstico, inspirada Fato Geológico condiciona Processo Geológico e
em Grant (1974) e o projeto de intervenção de ob- Processo Geológico gera Fato Geológico.
jetivos tipicamente múltiplos (soluções comparti-
lhadas) aqui chamado Método Geológico aplicado
à implantação de aterros de resíduos inertes, da A assertiva tem concisão propositada, como
qual deu o autor em Santos (2002) notícia publica- a do enunciado de lei cara aos geólogos — o pre-
da. Nesta segunda atividade passa o geólogo do sente é a chave do passado — embora deva ser lida
papel de gerador de dados a um papel de maior em sua abrangência mais ampla. É evidente para
participação executiva. o geólogo atento que o fato geológico, ao colocar
condicionamentos ao processo geológico, oferece-
lhe materiais que dele vão participar, como areias
2 CONCEITOS BÁSICOS, DEFINIÇÕES transportadas em torrentes, que arranharão as
GERAIS, CONSIDERAÇÕES LÓGICAS bordas dos leitos de escoamento e integrarão o
produto final na forma de um depósito aluvial.
A balizar o campo conceitual desta exposição
A Geologia Urbana é o domínio da abran-
há dois elementos extremos: O Objeto Cidade e
gência conceitual das aplicações da geologia aos
a Ferramenta Geologia de Engenharia Aplicada
meios urbanos, com capacidade de concepção
às Cidades. Invertendo a ordem, conceitua-se ini-
para oferecimento de alternativas não substituti-
cialmente a ferramenta e a seguir seu objeto.
vas, mas complementares, ao urbanismo, arquite-
tura, engenharia construtiva e sanitária. Embora
2.1 Geologia de engenharia aplicada às não englobando a geologia urbana toda a geolo-
cidades. Conceitos básicos gia ambiental, fenômenos ambientais passados
nos meios urbanos e os neles urdidos devem ser
A ferramenta tem três níveis de conceituação considerados da alçada da geologia urbana.
bem caracterizados: A Geologia de Engenharia é o braço operati-
a) a geologia como ciência; vo da Geologia Urbana. Na formulação mais co-
b) a geologia urbana como domínio do campo mum, integra com a mecânica dos solos e a das
da lógica da geologia aplicada aos meios ur- rochas a geotecnia, base teórica da engenharia
banos; geotécnica. A geologia de engenharia responde
c) a geologia de engenharia como domínio do nesse tripé pela posição, geração, evolução dos
campo tecnológico. materiais naturais, quer enquanto fixados nos
substratos rochosos, quer transitantes pela super-
A geologia não é ciência de campo exclusivo, fície levados por água, gelo, ventos ou ao sabor da
circunscrito, mas uma superestrutura apoiada em lei da gravidade.
três pilares conceituais: as ciências naturais Quími-
É oportuno assinalar que, dada a mobilização
ca, Física e Biologia. Portanto, algumas ferramen-
de massas geológicas consequente à implantação das
tas da geologia são típicas desses campos. Outras
cidades e a sua exposição a escoamentos de vazão
ferramentas da geologia são dela exclusivas por
crescente e concentrada, pode o processo geológico
não caberem nos campos parcelares daquelas ci-
assumir aí relevância superior à do fato geológico.
ências, que, para os fins de compreensão da Terra
e de operação sobre ela, devem ser consideradas
ciências parcelares, não obstante essenciais e sem 2.2 Componentes do sistema geológico
as quais a geologia não viveria.
A prática da geologia trata de dois objetos ir- No âmbito da geologia aplicada aos meios ur-
restritamente intercambiáveis no tempo e no espa- banos, parece conveniente o uso do designativo pla-
ço: o Fato Geológico e o Processo Geológico. Essa taforma geológica, que transmite a idéia de interação

94
Contribuição para a geologia de engenharia aplicada às cidades

entre suporte do edificado e o edificado na forma- c) enchimento de cavidades naturais ou de gran-


ção da Cidade. Nos estudos urbanos e ambientais, des cavidades de erosão ou cavas de minera-
o campo da geologia tem sido designado por meio ção com resíduos inertes.
físico, estabelecendo compartimentação formal
com os demais, meio biótico e meio antrópico. A elevação do piso é recurso usado frequen-
Evidentemente o meio biótico é componente real temente de modo artesanal para afastar ou re-
do sistema geológico. Ainda mais longe se deve ir duzir a frequência de inundações. Aqui é listado
nestas observações porque o meio antrópico tem como atividade planejada para ocupação pioneira
aspectos naturalmente incluídos no sistema geo- de vales ou para reurbanização de áreas extensas
lógico, no que diz respeito ao papel de agente geo- de favelas, com objetivos múltiplos (disposição de
lógico racional no sentido dado por Ter-Stepanian inertes, controle de risco geológico, controle de
(1988), da espécie humana. Consequência natural inundações, conservação da água) configurando
dessa compartimentação é a restrição de abran- o princípio das soluções compartilhadas proposto
gência do campo da geologia, a rigor amputação, por Carvalho e Prandini (1998). Já aqui é oportuno
forma nada sutil de sacrifício dell’intelletto a recla-
chamar atenção para um fato muito importante:
mar atenção dos geólogos e de suas associações.
as elevações de pisos em altos vales de cabecei-
Expõe-se a concepção aqui adotada de com-
ras, por aterros marginais ou confinados nos eixos
posição da plataforma geológica, omitidos com-
desses vales oferecem às águas pluviais reservató-
ponentes menores:
rio adicional em comparação com o pré-existente,
■■ Componente permanente: o arcabouço mine-
desta forma reduzindo as vazões de pico para
ral, incluídas aí as formações superficiais mó-
jusante. Essas elevações, em faixas marginais de
veis e as de origem ou contribuição antrópica;
■■ Componente transitório: flora e fauna; baixos vales, contrariamente ao acréscimo de re-
■■ Componente itinerante: fluidos intersticiais, servatório geológico, ocupam o espaço que a água
especialmente a água circulante. ocuparia no leito maior dos cursos d’água. Suma-
riamente: um aterro de resíduos em alto vale, com
1000 m3 de volume, oferece (ordem de grandeza)
2.2.1 componente permanente 200 m3 de reservatório adicional à água, e, descon-
tada a umidade higroscópica, cerca de 100 m3 de
Responde pelo suporte físico do edificado. O capacidade de regularização. Colocado na planí-
termo permanente pretende estabelecer diferen- cie aluvial de um rio, em seu leito maior, portanto,
ciação com o caráter típico dos demais, necessaria-
leito das cheias excepcionais, esse mesmo aterro,
mente variantes com o tempo. Não obstante pode
toma a esse leito maior 900 m3 de capacidade de
ser modificado por processos naturais ou por in-
armazenamento. Funciona ele aí, portanto, exata-
tervenções projetadas. Em regiões sujeitas a gran-
mente como o assoreamento indesejável.
des modificações da configuração superficial em
As regularizações superficiais do item b) aci-
processos endógenos ou exógenos, o componente
ma, em áreas bem drenadas, podem ser neutras
permanente tem este caráter pontualmente sus-
em termos de alteração do volume de armazena-
penso, mas retomado a seguir após as adaptações
que acompanham os eventos causadores. Nas ci- mento total disponível, por exemplo, nos casos de
dades planejadas ou em reurbanizações drásticas solos espessos. Entretanto, as condições de entra-
são comuns operações de terraplenagem de grande da da água podem ser melhoradas com a operação
envergadura. Exemplos dessas operações destina- e o controle hidrológico tornar-se-á mais eficaz.
das a melhorar, com êxito ou não, as configurações Naturalmente as urbanizações espontâneas ten-
superficiais das plataformas geológicas são: dem a ocupar as cristas e os vales, deixando as en-
a) elevação do piso de áreas inundáveis por meio costas de perfil sigmoidal desocupadas, gerando
de resíduos inertes ou bota-fora geológico; riscos para uns e outros. A situação é muito pene-
b) regularização superficial por meio de ope- trativa em vales da Mantiqueira de Minas Gerais,
rações de corte e aterro de terrenos natural- onde declividades naturais suaves são restritas a
mente muito ondulados, ou densamente ras- margens fluviais e a topos de espigões. É também
gados por ravinas; muito frequente ainda em Belo Horizonte.

95
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

O enchimento de cavidades do item c) é obje- mobiliário urbano1. A transitoriedade do compo-


to do Método Geológico, matéria destacada neste nente é variável e deve ser considerada em face da
artigo. permanência da cidade.

2.2.2 Componente transitório 2.2.3 Componente itinerante

O componente transitório, compartilhado Para efeitos práticos é a água gravítica do


com a biologia, tem nos aspectos geológicos mas- espaço poroso do solo. O ar atmosférico e vapor
sa e forma de agregação ao arcabouço mineral, d’água que ocupam os poros dos solos não satu-
grande relevância no metabolismo urbano por rados é também componente itinerante, mas sua
sua típica transitoriedade e variações sazonais. Da importância relativa é pequena. A água da plata-
transitoriedade resulta não poderem acompanhar forma geológica compreende a parcela circulante
a vida das cidades. Já deste ponto se pode estrutu- sobre o arcabouço mineral (Figura 1) ou no seu
rar consequências práticas de grande relevância. interior e uma parcela fixa nos poros de solos e
rochas (umidade higroscópica). Seguindo os fenô-
Uma delas: inexiste sentido prático em preservar
menos climáticos, o componente itinerante é alvo
árvore comum isolada, se ela não cumprir função
de variações sazonais, que provocam alterações
especial ou se comprometer funções essenciais da
sazonais do componente transitório.
cidade porque chegará naturalmente ao termo de
sua vida enquanto a cidade continuará. Por outro
lado, o agrupamento em praça ampla ou o bos-
que em parque poderão ser objeto de preservação,

sem prejuízo das substituições regulares requeri-
das pelo estado das árvores que o integram.
Funções urbanas do componente transitório, Figura 1 – Esquemas básicos da Cidade com placa tecnogê-
nica impermeável e contínua e da cidade com placa tecnogê-
para só ficar na cobertura vegetal, são: nica mantida permeável pela adoção de técnicas e procedi-
■■ função auxiliar de proteção e imobilização de mentos dos assentamentos geossuportados.
massas geológicas do componente permanente;
■■ proteção e nutrição da fauna admitida no meio A condição de componente itinerante do siste-
urbano; ma geológico impõe que a água enfrente condições
■■ função auxiliar do processo de infiltração das de entrada distantes do ideal. Na Figura 1, lado es-
águas pluviais; querdo, as águas pluviais incidentes sobre o Edifi-
■■ proteção do componente permanente em face cado não atravessam a fronteira deste com a plata-
de insolação excessiva e do escoamento tor- forma geológica, porque essa fronteira não é sempre
rencial; uma membrana permeável, mas uma placa quase
■■ controle de ruídos; contínua, impermeável — o antropostroma de Passe-
■■ atenuação do processo de formação de ilhas rini, citado por Rohde (1996). Ainda nesse lado es-
de calor; querdo, a imagem muito comum de amplos alaga-
■■ controle de poluição do ar; mentos em avenidas e praças pode não ser causada
■■ participação na configuração estética dos meios só por bloqueio, mas por outro fato muito comum, o
urbanos. de tais vias públicas terem sido implantadas em ní-
vel muito baixo, inexistindo, portanto, reservatório
Vegetais e animais conviventes no meio ur- geológico não saturado disponível.
bano são afetados pela sazonalidade. Entre os Pode-se, numa formulação simplificada, es-
vegetais árvores caducifólias ou frutíferas e her- quematizar a organização de campos da gestão das
báceos; entre os animais aves de arribação. Cada águas como se mostra no Quadro 1. O quadro revela
cidade deve ter forma adequada de manejo e
controle de excessos. Considerando a decanta- 1 No corrente ano a cidade de Belo Horizonte, em conseqü-
da sustentabilidade dos tempos atuais, a cidade ência de uma queda de árvore no parque Municipal sobre
atenta poderá estabelecer para o transitório um pro- uma caminhante, que teve morte instantânea, resolveu re-
cesso regular de substituição de árvores com apro- mover algumas centenas de árvores indicadas por especia-
listas em inspeção sistemática, e aproveitou a madeira para
veitamento local da madeira, como combustível ou a confecção de bancos para o próprio parque.

96
Contribuição para a geologia de engenharia aplicada às cidades

12 campos de gestão da água. Considerando as ações Quadro estão mensagens associando a origem da
mais comumente destacadas na área do saneamento, água com a dimensão de gestão. Sem preocupação
veem-se que apenas 2 campos são sistematicamente especial com aspectos quantitativos, por exemplo,
contemplados de forma objetiva, mediante projetos no campo 13, se as águas pluviais fossem incluídas
e obras. Frequentemente são postos sob a responsa- no Suprimento, esse aproveitamento retiraria águas
bilidade de agentes diversos, portanto sem garantia de circulação e atenuaria as inundações; no campo
de cooperação mútua — o suprimento baseado em 12 os aquíferos superficiais de rochas gnáissicas po-
mananciais superficiais (situação dominante no Bra- deriam, por exemplo, em Belo Horizonte, contribuir
sil) e o escoamento pluvial, não inibido, atenuado, para a atenuação de inundações em vários pontos
mas ampliado com sistemas de drenagem eficazes. da cidade. Reflexões como estas estão frequente-
Os demais campos são negligenciados ou tratados mente associadas com ingenuidade, em geral supor-
de forma ampla através de legislação. A solução tadas por alegações quantitativas. Em verdade cada
ideal, sem dúvida complexa do ponto de vista ge- telhado, cada quadra desportiva, individualmente,
rencial, requer a consideração de todos os campos e são contribuintes infinitesimais para os caudais tec-
atuar com prioridade naqueles onde o contexto lo- nogênicos que a urbanização gera. No entanto, aos
cal prometa os maiores benefícios. Nos campos do milhares geraram grandes vazões.

Quadro 1 – Matriz de gestão de água

Dimensões de Fontes de suprimento


gestão Superficial Subterrânea Pluvial Servida
11 Básico ou Complemen- 12 Complementar ou básico, 13 Complementar, uso 14 Complementar,
Suprimento tar, com tratamento, cobrin- e em geral sem tratamento, conforme o coletor (te- uso sequêncial este
do todos os usos cobrindo todos os usos lhado, pátio, rua) com tratamento
24 Infiltração ou
22 Aquíferos superficiais não 23 Erosão, inundações,
21 Erosão, inundações, reuso reduz ação
Agente geodinâmico explotados são pouco recepti- assoreamento altos cus-
assoreamento geodinâmica e outros
vos a infiltrações tos de prevenção
custos
33 Poluição do ar (Chu- 34 Com cargas Biode-
31 Potencial antes da capta- 32 Potencial Gravidade dada
Veículo de poluentes vas ácidas); inclusão de gradáveis ou inertes
ção e tratamento. Acidental pela natureza do aquífero e
e contaminantes resíduos conforme o a infiltração não polui
depois qualidade da proteção
coletor o solo

Modificado de Carvalho, 1999.

Examinando o Quadro 1, ficam claras as pos- ■■ Desse exame fica ainda claro que a adminis-
sibilidades: tração formal de apenas dois dos 12 campos
■■ Matriz suprimento que lance mão de todas as da gestão das águas torna o êxito econômico,
fontes possíveis protege a regularidade das ambiental e social uma impossibilidade ma-
águas superficiais, reduzindo a pilhagem que terial concreta.
hoje se faz ao campo circundante das cidades,
onde as águas são buscadas. No campo 22,
haverá um aquífero superficial mais receptivo 2.3 Conceitos operativos de cidade
à infiltração, perna ambientalmente mais sau-
Num ponto as civilizações concordaram ao
dável do ciclo hidrológico; no campo 23, menos
água escoando para promover os processos longo da história: embora muitas cidades tenham
geodinâmicos indesejáveis. No campo 24, dois perecido, em geral por perda de função, a Cidade é
benefícios adicionais tornam-se possíveis. obra feita para a eternidade. Considerando assim a
■■ Nos campos 31 a 34, nota-se que uso sistemá- questão, ela pode escolher os elementos da primei-
tico das demais fontes torna as populações ra natureza com que admita conviver. Nenhuma
mais convencidas da necessidade de proteger cidade admitiu conviver com leões à solta. Por ou-
todas as fontes de água e não só os manan- tro lado, a suposta preservação permanente deter-
ciais superficiais. Nessa proteção o uso dos minada por lei inexiste em cidade que não consiga
resíduos urbanos inertes pode desempenhar imobilizar as massas geológicas eficazmente, sur-
papel relevante; gindo aí a primeira grande contradição. Rios em

97
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

seus trânsitos urbanos não podem ter suas mar- bom resultado estético, como ocorre no mundo in-
gens implantadas ao sabor do acaso. Nascentes teiro em cidades de qualidade referencial. No vaso
nem sempre podem ser intocáveis, sem que daí fechado que é a terra, podemos escolher os lugares
resultem problemas geotécnicos, ambientais, sa- mais indicados para certos componentes. Cidades
nitários, de insalubridade. Ao longo da história, que elegem ciclovias como modais de transporte
cidades tiveram nascentes soterradas, que ficaram pessoal prioritários removem justificadamente ár-
invisíveis permanentemente, mas a água que des- vores de onde devem transitar as bicicletas, assim
carregavam precocemente foi beneficiada e com também por onde transitam cadeirantes, mas não
ela o patrimônio hídrico da Terra. Cidades op- abrem mão das árvores porque elas podem viver,
taram por esgotamento objetivando saneamento abrigar, sombrear nos parques e largas avenidas.
por meio de drenagem, de impacto a rigor nega- É oportuno promover uma reapreciação de
tivo, porque antecipa o retorno da água ao mar, conceitos emitidos anteriormente (Carvalho, 1999a)
em grande perda para a humanidade. Nascentes para evitar fragmentação indesejável. Na ocasião
verdadeiras, falsas, antrópicas, podem ser reposi- apresentaram-se duas visualizações esquemáticas
cionadas para garantia do bom funcionamento da de estrutura da cidade convencional e da cidade
cidade, da segurança sanitária e geotécnica, ou de geossuportada, reproduzidas nas Figuras 2 e 3.

Figura 3. Estru-
Figura 2. Estru- tura da cidade
tura da cidade geossuportada.
convencional.

Na cidade convencional (Figura 2), tacitamen- qual está edificada a cidade é matéria escura do
te a Cidade identifica-se com o Edificado, porque planejamento urbano nas cidades convencionais.
nela refere-se à infraestrutura, como sendo o con- Essas cidades olham para suas bases físicas com
junto das estruturas que são de fato de interme- um olhar mais intuitivo que científico.
diação, porque, além de ruas, compõem a infraes- Na cidade geossuportada (Figura 3) separam-se
trutura as linhas de abastecimento de água, gás, claramente as funções de uma mesoestrutura idêntica
os cabos de energia e telefônicos, os trilhos. Essas à infra-estrutura da cidade convencional, da verda-
estruturas têm funções diferentes das que se po- deira infraestrutura, que, agora, pode ser substituída
dem dizer finalísticas, como as moradias, teatros, por seu designativo próprio plataforma geológica.
educandários, prédios industriais e comerciais. As diferenças de concepção são claras e reper-
Imaginando que uma estrutura do tipo finalístico, cutem diretamente no metabolismo urbano. Com
como um prédio de apartamentos, tenha ficado efeito, a explicitação da camada estrutural plata-
obsoleto, demole-se esse prédio e constroi-se ou- forma geológica com função de infra-estrutura é,
tro (em Londres demoliu-se um famoso estádio, na prática, a explicitação de que, simbolicamente,
que completara 100 anos), que foi demolido, por 50% da cidade estão prontos antes de ser assenta-
ter ficado obsoleto, e construiu-se outro. O mes- do o primeiro tijolo. A totalidade desses 50% quer
mo não é tão fácil de fazer com uma rua ou praça, em componentes materiais, quer em participação
cheia de prédios. Fixe-se, portanto, que a má con- no metabolismo urbano, é de natureza geológica,
cepção ou execução de uma rua implica uma difi- compreendendo fatos e processos.
culdade de solução, dir-se-ia uma rigidez de grau No Quadro 2, alguns critérios foram escolhi-
superior ao de uma casa mal feita ou obsoleta. Fi- dos para fins de comparação do desempenho dos
que também claro que a verdadeira base sobre a aparelhos urbanos da cidade convencional e da

98
Contribuição para a geologia de engenharia aplicada às cidades

cidade geossuportada. A comparação é hipotética incêndios e da violência, onde não houver senão o
porque a cidade convencional da experiência bra- descanso do fogão para a criança apoiar o caderno
sileira pode ser uma cidade de relativo êxito, quer dos deveres escolares, é apenas um dos sintomas
por ter plataforma muito favorável, quer por ter de que a moradia não cumpre de forma minima-
sido cuidadosa em aspectos visíveis do seu pla- mente ideal o papel de infraestrutura para a vida
nejamento e implantação. Pode também ser uma humana como preconiza Van-Rooy (1996). Do ou-
dessas centenas de cidades das serras do Mar e da tro lado da comparação, a cidade geossuportada
Mantiqueira, dos deslizamentos e das inundações. sem restrições é, naturalmente, uma idealização,
Pode ser um desses grandes aglomerados dos halos uma utopia, um desses limites que a humanidade
suburbanos de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, dos deve sempre ter por meta.

Quadro 2 – Comparação entre a Cidade Convencional e a Cidade Geossuportada

Critério Cidade convencional Cidade geossuportada

Bom nível de conhecimento; prevenção sis-


Conhecimento variável: prevenção assistemática: temática; contenção sistemática de massas
sem contenção sistemática de massas geológicas geológicas superficiais.
Estabilidade do terreno
superficiais. Contenções preventivas pontuais ou
não executadas pelo custo proibitivo Contenções preventivas gerais com eficácia
mais abrangente e custos médios diluídos

Suprimento baseado na água superficial do Usa complementarmente a subterrânea e a


Água de suprimento
campo pluvial
Drenagem pluvial com base em vazão ad-
Drenagem pluvial baseada na vazão prevista
missível.
Escoamento pluvial com altos coeficientes de escoamento. Vias em
fundos de vales com greides baixos
Elevação previa de pisos em fundos de vales
Usa resíduos inertes para promover a corre-
Exporta ou tolera lançamento clandestino. Expor-
Resíduos inertes ção de terreno mal conformado ou erodido e
ta bota-fora geológico e o reservatório de água
para absorver águas pluviais

Exporta para aterros sanitários ou lixões na zona Recicla metodicamente reduzindo o volume
Lixo
rural final

Solução padrão: coleta e tratamento esta parte


Solução padrão: Coleta e tratamento. Há
Esgotos raramente implantada substituída por descarga
disposição para procedimentos inovadores
em bruto nos rios

Neutralizados ou absorvidos na própria


Impactos ou efeitos colaterais de
Deixados para solução do poder público obra. Exemplo: Coletas as águas desviadas
obras particulares
dos telhados

Metabolismo humano previsível e contro-


Metabolismo urbano insubmisso e exigente de lado: eventos geodinâmicos previsíveis
verbas crescentes para seu controle tardio assore- previstos e de efeitos atenuados. Reduzida
amento de baixos vales ou transito direto de solo perda de solo em terras altas; reduzido tran-
Resultado geral
erodido. Ressecamento de topos e afloramento sito de solo erodidos em ruas e sistemas de
de lençol freático em baixos vales. Instalação da drenagem. Economias na limpeza publica.
insalubridade Condições de salubridade mantidas mesmo
em terras baixas.

Nas cidades convencionais, o metabolismo inundações frequentes. São essas situações de grau
urbano pode tornar-se insubmisso porque tem- de rigidez elevado que inviabilizam as soluções
nas, muitas vezes, mesoestruturas viárias mal ideais. Todavia, a existência de extensos setores
concebidas ou apenas improvisadas, às margens urbanos degradados de regiões montanhosas com
das quais se instalaram as edificações finalísticas. moradias precárias e sob alto risco geológico, às
Muitas delas estão posicionadas em greide baixo o vezes, ocupando fundo e paredes de voçorocas, re-
piso térreo das edificações, expostas igualmente a presentam possibilidades de reurbanizações, cujas

99
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

futuras moradias poderão atender de fato a todas com base nesses dois critérios pode ser chamado
as características desejáveis de infraestrutura da litomorfológico. Quando o substrato é homogê-
vida humana, apontadas por Van-Rooy (op. cit.). neo, salvo pelas condições de estado, variações
Nesses casos, não há qualquer rigidez estrutural, comportamentais principais ficam por conta des-
técnica, ou econômica impeditiva, senão apenas o sas condições e da morfologia. Num dos casos,
apego ao ócio intelectual. cobrindo parte do território de Belo Horizonte, a
proximidade (não identidade) dos aspectos litoló-
gicos de ocorrência mais comum tornou possível
3 MÉTODOS
trabalhar exclusivamente com o fator morfológi-
co. As unidades de terrenos adotadas, em número
3.1 Unidades de terrenos baseadas em de três, são de visualização imediata e de simples
cartas topográficas compreensão como se pode ver no fragmento de
análise cartográfica simples elaborada em uma
das últimas áreas sob processo de urbanização na
3.1.1 Características cidade (Figura 5). Seguem as definições:
A cartografia geológica pura não atende
diretamente às necessidades da Gestão; igual-
mente não atendem a essas necessidades isolada-
mente mapas de simples declividades com limites
relacionados à legislação. A elaboração de unida-
des de terrenos inspiradas nas formulações origi-
nais de Grant (1974) é um caminho. Na solução de
problemas cartográficos, práticos na Região Me-
tropolitana de Belo Horizonte e em outras cidades
do interior mineiro, este autor teve oportunidade
de trabalhar com escalas intraurbanas e regionais
(1:2.000 a 1:50.000).
A legibilidade de cartas geotécnicas, de fácil
compreensão para geólogos, não o é para outros
profissionais. Em geral o geólogo não integra os
quadros municipais2. O autor tem trabalhado com
opção simples que permite definir unidades de
terrenos com as virtudes de serem reconhecíveis e Figura 5 – Unidades de Terreno resultantes de análise car-
delimitáveis em cartas hipsométricas de escala tográfica simples e expedita. Os designativos representam
superfícies de Topo e Transição de diferentes categorias.
adequada, e a que se podem associar expectativas CA é a Calha Aluvial.
de comportamento perante solicitações inerentes
à urbanização. Afinal, a essas unidades de terre-
nos correspondem comportamentos dominantes, Superfície de Topo é a superfície topográfi-
um significado físico, portanto. ca cimeira, em termos locais, convexa, correspon-
Essa cartografia pode ser baseada em dois dente aos resíduos remanescentes da paleotopo-
critérios de apropriação independente, o geológi- grafia da área, tendo sido a parte mais alta dela
co e o fisiográfico (geodependente, mas indepen- uma superfície ondulada sobre a qual o processo
dentemente apropriável). Um mapa elaborado erosivo promoveu entalhamento de novas linhas
de drenagem, deixando fragmentos da superfície
anterior interconectados por topos remanescen-
2 Não obstante a lei federal 6766/79, que trata do parcela- tes. O caso ilustrado, na Figura 5, distingue uma
mento do solo urbano, estabeleça a proibição do parce- superfície de topo especial, porque localmente é o
lamento onde as condições geológicas o desaconselhem,
são muito poucas as cidades de Minas Gerais com geólo- principal divisor (ST1); as demais (ST2) são espi-
gos em seus quadros permanentes. gões secundários.

100
Contribuição para a geologia de engenharia aplicada às cidades

Superfície de Transição é a superfície escul- fície de Topo não há deslizamentos, não há erosão
pida pelo entalhamento erosivo em curso. É for- ou esta é facilmente contida; não há inundações,
mada por vertentes dos novos vales abertos. O não há assoreamento e dificilmente haverá ascen-
designativo objetiva caracterizar bem o fato de são capilar. Trata-se de área salubre, ensolarada,
essa superfície oferecer leito de trânsito aos mate- bem arejada. Se contar com bom e firme acesso,
riais erodidos da superfície anterior. Na ilustração tudo o mais para ela se resolve bem: água, esgo-
STr1 é uma superfície complexa, com comporta- tos, disposição de resíduos inertes e lixo. Ela nun-
mento predominante de superfície de transição, ca estará a jusante de outras áreas ou, na forma
mas fragmentado em numerosas feições menores; popular, debaixo de.
STr2 são superfícies de transição bem definidas.
A Calha Aluvial compreende aluviões flu-
viais e leques aluviais e rampas de colúvio, po- 3.1.2 Identificação
dendo incluir corpos de talus com blocos expostos
ou encobertos. Superfície de Topo: nos maciços cristalinos
Já aqui se tiram conclusões úteis embora não de Minas Gerais e grande parte do Brasil, oriental,
necessariamente muito precisas: a Calha Aluvial é seus restos representam a extensão residual da pa-
caracteristicamente a superfície triunfante a longo leotopografia da área. Exibe feições convexas e até
prazo, porque cresce sobre a Superfície de Tran- planas inclinadas em pequenos trechos, aí acomo-
sição, enquanto esta, cedendo sob a Calha Alu- dadas a estruturas planares e raramente côncavas,
vial, avança sobre a Superfície de Topo, que é a estas admitidas apenas como inclusões. Do ponto
superfície sem futuro (no tempo geológico). Não de vista geotécnico, a mais marcante característica
obstante esse destino aparentemente obscuro da é a estabilidade, exceto nas bordas, que vem sen-
Superfície de Topo, é ela, nas porções nucleares, do desgastada em benefício da Superfície de Tran-
afastada do rebordo erosivo, a mais estável e se- sição (limite marcado por ruptura de declive), ou
gura para o tempo de duração da vida humana e localmente, onde o escoamento concentrado arti-
mesmo de uma civilização. Com efeito, na Super- ficialmente gerou profundo ravinamento.

Figura 6. Seção local do mapa de unidades de terreno da Figura 5, mostrando a relação predominante entre as unidades de
terreno obtidas por análise cartográfica. ST2, STr1 e CA já conhecidos.

Superfície de Transição: é formada pelas mé- corpos coluviais de materiais granulares finos es-
dias e altas vertentes dos vales entalhados na su- tão incluídos na Unidade de Terreno Calha Alu-
perfície anterior. Quanto à forma, é em regra côn- vial. Por esta razão, eventualmente, em seções
cava, mas pode ser plana inclinada, às vezes com transversais, a Calha Aluvial aparecerá “subindo”
pequenas inclusões convexas. os vales até a parte mais alta dos cones aluviais
Calha Aluvial: compreende baixas aluviais ou leques. Na seção da Figura 6, apresentam-se
marginais a cursos d’água. Nos vales formações formas de contato comuns entre as unidades de
coluviais interdigitam-se com os aluviões. Assim terrenos.

101
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

3.1.3 Exemplos de expectativas Gerais natureza dos constituintes. As expectativas que


de comportamento das Unidades mais diretamente interessam à gestão estão resu-
de Terrenos midas no Quadro 3:

O comportamento das Unidades de Terrenos


depende da posição, conformação morfológica e

Quadro 3 – Comportamento geral das Unidades de Terreno.

Comportamento Superfície de Topo Superfície de transição Calha aluvial

Escoamento Divergente Convergente Indiferente ou axial


Nível freático Profundo Variável Raso a aflorente
Uniforme lateralmente e variável Variável lateralmente e em pro-
Capacidade de carga Em geral baixa
em profundidade fundidade
Eficaz nas áreas com manto de
Retenção de poluentes Eficácia variável Baixa eficácia
intemperismo espesso

3.2 O método geológico como propostas por Carvalho & Prandini (1998)
dos problemas em verdade conexos que interli-
gam esses componentes de praticamente todas as
3.2.1 Descrição geral
cidades. Essa participação é tão mais crucialmente
Na elaboração das cartas geotécnicas, o geó- necessária, quanto se sabe da escassez de resulta-
logo desempenha papel típico de suas origens de dos alcançados pela geologia geradora de dados,
investigador da terra, mas não pode ficar limitado não por sua desimportância, mas pela dificuldade
a isto porque precisa desenvolver contatos com o de transformação da proposta em ação quando
aspecto executivo de certas intervenções urbanas. essa transformação não é feita com a participação
Uma das mais dinâmicas atividades huma- do gerador da proposta.
nas, integrante do metabolismo urbano, é a que
envolve a manipulação de materiais geológicos
para a construção das cidades e dos resíduos a
eles associados, seja sob a forma de sobras, seja
sob a forma de escombros gerados nas demoli-
ções. Os volumes envolvidos, consideradas todas
as modalidades, são muito grandes. A existência,
nas áreas urbanas e proximidades, de cavidades
de mineração, ou formadas por erosão, e de anfi-
teatros de cabeceiras naturais nas regiões monta-
nhosas, oferece possibilidades de recepção benefi-
ciadas pelas pequenas distâncias de transporte e
às vezes por boas condições de confinamento.
Consultando outras ordens de problemas ur-
banos aparentemente independentes, quais sejam
o do risco geológico em geral e o do descontrole
das águas pluviais em particular, a geologia, ci-
ência básica da gestão territorial, tem a responsa-
bilidade compartilhável mas especialmente con- Figura 7 – Primeiro desenho ilustrativo do Método Geológi-
centrada sobre ela de analisar, conceber, propor, co, para ilustrar a reabilitação de uma voçoroca; as setas da
seção central foram usadas para simbolizarem a interação
acompanhar, implantar soluções compartilhadas
entre o material colocado e o maciço hospedeiro.

102
Contribuição para a geologia de engenharia aplicada às cidades

O Método Geológico surgiu em 1989 no cam- proporciona a seleção por tamanho que dispõe blo-
pus da UFMG, Belo Horizonte, em experimento cos, seixos e finos em segregação granulométrica,
aplicado à estabilização de voçoroca nascente, de modo que o contato com a superfície do maciço
ainda sem atingir o lençol freático, mas em inten- receptor será feito pelo material mais grosseiro no
sa atividade, descarregando sua carga sob a forma fundo e parte baixa das paredes, ou das vertentes.
de lama no estacionamento a jusante. Quando a frente de lançamento avança para jusan-
Embora nascido para a reabilitação de áreas te, o depósito avança sobre material permeável e de
degradadas sem resíduos inertes, estendendo-se a alta resistência. As consequências hidrogeotécnicas
seguir para a disposição destes em cavidades de benéficas que esta forma de lançamento determina
erosão, em Betim e Contagem (Garcia et al. 2002), são evidentes quanto à drenagem, pois substitui
a universalidade do método, quanto ao que diz com vantagens técnicas e econômicas a drenagem
respeito à estabilidade física, recomenda sua apli- de fundo baseada em drenos tubulares ou em cor-
cação, com adaptações contextuais justificadas, dões de brita envolta em geotêxtil, mas ela impõe
a todos os tipos de resíduos gerados nas áreas um gradualismo seguido de montante para jusante
urbanas e industriais com muito proveito para a na compressão do terreno de fundação e paredes.
melhoria da qualificação da plataforma geológica Assim não se formam bolsões de subpressões, que
das áreas receptoras, inclusive pedreiras e cavas poderiam deflagrar deslizamentos frontais porque
fechadas de mineração, sem taludes frontais. O a fronteira drenante fica sempre para jusante.
objetivo passa rapidamente da unicidade — re- Consequências operacionais do ponto de vis-
abilitação de áreas degradadas ou disposição de ta geológico são:
resíduos — para a duplicidade e finalmente para ■■ criação de reservatório de controle posto à
a multiplicidade, com a inclusão do controle da disposição de águas pluviais em condições
de captação eficiente e segura;
água, do risco geológico e da salubridade urbana.
■■ recuperação de nascentes esgotadas;
■■ regularização de vazões;
3.2.2 Princípios físico e geológico do ■■ retardamento do retorno da água ao mar;
método geológico ■■ purificação da água por filtração;
■■ geração de áreas planas em regiões montanho-
Os argumentos da física aplicáveis ao Método sas a custos inferiores aos de terraplenagem.
Geológico são os vinculados à estabilidade. A primei-
ra condição apresentada é a seguinte: quando um cor- Ao término deste bloco, resulta a conclusão
po (o depósito) é colocado sobre dada base de apoio, seguinte: as cidades promoveram classificação
a ele associam-se três hipóteses de equilíbrio — instá- temática de “problemas”, separando-os; assim se-
pararam também suas soluções. No presente caso,
vel, indiferente, estável. Entre os equilíbrios estáveis,
o Método Geológico é ferramenta a serviço da so-
o que se associa a uma energia potencial mínima é o
lução compartilhada de problemas aparentemen-
mais estável. Imaginando uma disposição que evite
te autônomos proposta e descrita em linhas gerais
o fundo de vale, em benefício de meia-encosta, ainda
por Carvalho & Prandini (op. cit.).
que estável, o equilíbrio resultante será mais precário
que o proposto pelo Método Geológico. A segunda
condição é que o aterro feito no interior de voçoroca 3.2.3 Procedimentos para a implan-
antiga estará naturalmente confinado porque o esta- tação
do de tensão antigo pode ser tratado como condição
de contorno e constitui garantia de que um estado de É aqui dispensada a exposição dos critérios de
tensão sem precedentes não será criado pelo enchi- eleição das áreas de recepção. Escolhida e caracteri-
mento, sendo esta a forma prática de tratar a questão zada a área, elabora-se o respectivo projeto e, uma
da estabilidade sem a necessidade de entrar em análi- vez aprovado nas instâncias competentes, começa
ses quantitativas especiais. a implantação pela seguinte ordem preferencial:
Durante a execução deve ser aplicada rigoro-
samente a recomendação do lançamento por bas- 3.2.3.1 Dique retentor
culamento direto ou empurrão por trator a partir
da plataforma de recepção. Esse lançamento, quan- Execução do dique retentor de gabião (ou equi-
do se tratar de materiais de granulometria extensa, valente) frontal. A execução da obra de contenção

103
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

frontal antes do início do enchimento objetiva espalhamento do material por trator e regulariza-
evitar que cheguem a cursos d’água situados a ju- ção do acréscimo da plataforma. Esta operação en-
sante materiais detríticos diversos incorporados a cerra a principal garantia, do ponto de vista hidro-
enxurradas geradas por chuvas que ocorram antes geotécnico, do bom comportamento esperado para
da conclusão dos taludes frontais com os seus res- o conjunto aterro-maciço hospedeiro. Com efeito, o
pectivos controles de escoamento. Conforme reco- lançamento da forma descrita de material de gra-
mendado com base na exploração local, a execução nulometria extensa, de silte-argila a calhaus, resul-
deve ser precedida do necessário saneamento da ta numa seleção de tamanhos por rolamento dos
faixa de implantação do dique devendo o material calhaus e blocos à frente dos finos. No lançamento
movimentado ser encostado a montante do futuro podem-se alternar materiais, como no caso da Fi-
dique. As condições de encaixe no terreno do piso gura 9. Quando a frente de lançamento avança, sei-
e ombreiras devem ser verificadas pelo autor do xos, blocos e calhaus estarão forrando o fundo da
projeto ou pelo responsável técnico pela execução. feição e suas baixas vertentes, de modo a introduzir
Em nenhuma hipótese se deve abrir mão de engas- naturalmente amplo contato permeável altamente
tamento adequado de pelo menos 0,5 metro em ter- atrítico, com o terreno natural do fundo e paredes.
reno firme. O uso de filtro de geotêxtil deverá ser A drenagem de fundo estará naturalmente implan-
adotado em casos especiais. tada e funcionará eficazmente. As numerosas pas-
sadas dos caminhões carregados e da máquina de
espalhamento garantem compactação natural. Ao
final do processo de enchimento, a compacidade
resultante não será devida exclusivamente a esse
fato, mas também ao acréscimo do peso próprio es-
tático e das forças de percolação descendentes pela
infiltração de águas pluviais, medidos à razão de (
γsub + i γw ) por unidade de peso de solo sob perco-
Figura 8 – Aterro de 1 bancada com talude suavizado. lação descendente.
Alcançada a extensão prevista para cada es-
3.2.3.2 Lançamento planada, o talude que a separa da seguinte deve
ter seu ângulo reduzido de cerca de 38º a 42o (ân-
Descarga de entulho de caçamba ou bota-fora gulo de repouso natural), para cerca de 33° (ângu-
geológico, tendo início na extremidade superior lo final dos taludes das bancadas). Na Figura 8, em
da cavidade ou anfiteatro, onde se formará a pla- aterro de uma só bancada, o talude resultante do
taforma de lançamento. Nesta o material a dispor lançamento é suavizado como acima referido. No
deve ser diretamente basculado pelos caminhões. caso de aterro com talude frontal de várias banca-
No caso de haver necessidade (ou interesse espe- das, os taludes são suavizados a partir da banca-
cial do empreendedor) de promover descontami- da superior e é nessa ocasião que são implantadas
nação com fins de reciclagem, o material deve ser esplanadas e bermas que separam as bancadas do
descarregado na plataforma para que seja objeto de talude frontal. Pode o projeto manter os taludes
triagem por catadores, antes do lançamento final, no ângulo de repouso, com bermas mais largas
que pode ser feito mediante empurrão por trator; para manter a inclinação média.

Figura 9 – Seção de aterro de resíduos zonado, em que resíduos de demolição foram previstos para introduzirem elementos
filtrantes (tensor permeabilidade representado por elipsóides alongados) em bota-fora siltoso-micáceo de xisto (permeabili-
dade baixa, invariante, representada por círculos). A implantação criaria esplanadas horizontais de grande utilidade em ter-
reno montanhoso, regularizaria a vazão e estabilizaria as baixas vertentes, além de reduzir a distância de transporte em mais
de 20 quilômetros sentido ida. O projeto não foi implantado por haver nascente de vazão insignificante no meio do talvegue.

104
Contribuição para a geologia de engenharia aplicada às cidades

3.2.3.3 Cobertura executados, iniciados e projetos entre executivos e


básicos. As cidades em que foram feitos projetos
Havendo disponível material do grupo RCC são Belo Horizonte, Contagem, Betim, Itabirito,
caracterizado como bota-fora geológico, constitu- Conselheiro Lafaiete.
ído de solo argilo-siltoso, ele deve ser lançado so-
bre bota-fora rochoso ou sobre entulho de alvena-
ria para melhorar a receptividade à implantação 3.2.5 discussão
da vegetação.
Cidades foram criadas para substituírem a
primeira natureza. Embora seja o homem atual
3.2.3.4 Drenagem acusado de inúmeras ações de desrespeito com o
ambiente em particular e a terra em geral, é ainda
A drenagem em obras de terra é recurso ge- ele o melhor dos componentes do sistema geológi-
otécnico e ambiental importante, para casos de co senso lato. Impedir que com seu engenho e boa
indicação fundamentada, em cuja ausência cai-se disposição possa introduzir modificações que me-
numa espécie de ritual dispendioso e dissipador. lhorem o comportamento da terra em geral e de
Sob condições de execução, a drenagem necessá- suas cidades em particular é marca de insensatez
ria é exclusivamente para evitar erosão por escoa- da sociedade atual. Este aspecto, essencialmente
mento concentrado onde inevitável. vinculado à legislação de ordenamento territorial,
O aterro deve ser utilizado em condições de e aspectos técnicos foram tratados recentemente
estímulo à infiltração, que pode ser feito por meio em Congresso da ABGE (Carvalho, 2005 e 2005a).
de inclinação para montante das bermas durante Cabe aos geólogos, todavia, convencer a so-
a execução, substituída por vertimento espalhado ciedade de que a vegetação arbórea de fundos de
a partir das bordas das bermas através de soleiras
vales, removida ou soterrada pelo aterro, pode-
de descargas horizontais para reduzir a potência
rá ser substituída com imensas vantagens, como
erosiva; valetas de infiltração paralelas às cristas
foi pontuado no caso da voçoroca do campus da
também podem ser usadas.
UFMG, em que, com escassos 6 anos, a vegetação
já assumia localmente porte arbóreo.
3.2.3.5 Conclusão Quanto à água, não obstante a presença fre-
quente de contaminantes nos materiais de aterro,
A rigor termina acima a responsabilidade do restou evidente no caso da voçoroca do bairro
geólogo. Poderá ele, sem vinculação obrigatória Piraquara, em Contagem, a perenização de uma
com o uso final da área, dar recomendações ge- nascente tecnogênica indecisa e a purificação gra-
rais de recobrimento vegetal, de manutenção e dual de suas águas, depois do verdadeiro proces-
de eventuais reparos, e também ficar à disposição so de diálise a que tem sido submetido o depósito,
para o esclarecimento de questões a respeito dos sem acréscimo de poluentes novos, desde então.
aspectos geotécnicos e ambientais associados. As Figuras 10, 11 e 12, fotos dos pequenos ater-
ros das ruas, Flor do Campo e Sebastião Mene-
3.2.4 resultados zes, ilustram o resultado positivo no controle das
águas pluviais e na viabilização de edificações em
Não se justifica descrição pormenorizada dos condições desejáveis de segurança.
casos executados, embora pouco numerosos. En- Outras formas de oposição ao aterro de re-
tre eles encontram-se um apresentado por Santos síduos prendem-se à questão da estabilidade do
(2002, op. cit.), e outro, executado recentemente, talude frontal e à suposta insuficiência dos reser-
mantidas características originais, apresentado vatórios criados para o controle de inundações. A
como projeto ao 5o Simpósio Nacional de Controle questão respeitante à capacidade de controle do
de Erosão em Bauru (Carvalho et al. 1995). Alguns escoamento pluvial em perspectiva de prevenir
estão em execução, outros em perspectiva de iní- inundações deve ser posta em medida intermedi-
cio. A listagem chega a cerca de 20 casos, contando ária a extremos pessimistas e otimistas.

105
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

4 CONCLUSÃO para receber o edificado, essa plataforma não se


imobiliza de todo, porque tem vida geológica que
Toda atividade científica ou técnica requer a continua, às vezes reclamando controles dos quais
adoção de métodos de trabalho, na científica, fre- as cidades não podem abrir mão. Mudanças de
quentemente são abaladas por novas descober- configuração das plataformas geológicas por ope-
tas; e, na técnica, por novas configurações que se rações, como as acima listadas em geral, buscam
apresentam ao profissional. Todos então precisam e proporcionam melhoria das condições de edifi-
de métodos, mas a própria dinâmica do conheci- cação, redução de riscos, melhoria da salubridade
mento humano e das realidades que chegam como natural, ampliação do reservatório geológico, ate-
novidades recomendam que cientistas e profissio- nuando a torrencialidade.
nais não se escravizem excessivamente ao método, Operações de correção de deficiências na-
que, de meio, pode passar a fim. Afinal, as mentes turais da plataforma geológica nos empreendi-
devem estar preparadas para as quedas das maçãs. mentos imobiliários são espontaneamente feitas,
No caso da geologia urbana, a leitura do domínio quando o produto a ser vendido é a unidade habi-
conexo promete muitas revelações. Apenas a títu- tacional, porque aí a operação remunera o investi-
lo de exemplo, o Group Raindrops (1995), Rohde dor com economias na implantação das moradias;
(1996), Capra (2000), Diamond (2005) exemplificam nos loteamentos, o produto é o lote e o empreen-
bem fontes importantes de conexões da geologia dedor só se dispõe a promover antecipadamente
urbana com outras áreas do conhecimento. a operação na perspectiva de ganho pelo aumento
Considerando que a Cidade é a união inte- do preço do lote ou sob determinação do poder
rativa da Plataforma Geológica com o Edificado, público por seu órgão responsável. O geólogo atu-
pode-se dizer, simbolicamente, é claro, que antes ante no meio urbano deve estar atento para essas
de chegar o Edificado, 50% da Cidade estavam distintas finalidades porque, no primeiro caso, há
prontos à sua espera. Não vá a humanidade es- concentração de responsabilidades; e, no segun-
quecer-se, entretanto, de que, feitas as adaptações do, uma dispersão muito grande.

Figura 10. Foto do aterro de


resíduos em execução em
2009, na rua Flor do Campo,
em Belo Horizonte.

106
Contribuição para a geologia de engenharia aplicada às cidades

A migração do geólogo para uma presença Trata-se de domínio típico de aplicação de con-
maior no cotidiano executivo das cidades amplia- ceitos e métodos aqui expostos e recomendados,
rá suas possibilidades de contribuição para o de- mas a geração de tais serviços em algumas dessas
senvolvimento delas; entraves legais precisam ser áreas, nas cidades de menor poder e visibilidade
atenuados urgentemente. no noticiário, ainda depende muito de universi-
O geólogo acostumou-se a trabalhar com o dades próximas e muitas delas podem ter ficado
conceito de vaso fechado e suas formas de refletir em trabalhos apenas conceituais e preliminares
sobre os objetos de gestão induzem-no a usar o re- de apoio ao Plano Diretor.
curso naturalmente, fazendo mentalmente trans-
posições temporais e espaciais com desenvoltura
menos comum a outros domínios profissionais: O
tempo lhe diz que a Cidade é mais importante que
seus componentes; e o espaço lhe diz que a Cida-
de, ocupando em média menos de 1% do territó-
rio mundial, não tem de assumir compromissos
que não mudam a cena, mas que podem violar
prerrogativas essenciais dela.
Tem-se notado em muitas cidades uma
migração relativamente recente para topos de
morros. Essa migração fez-se muitas vezes de
forma improvisada, estimulada pelo acesso por
automóvel, e por uma crescente regularidade do
abastecimento de água; a exiguidade de áreas de
Figura 11. Aterro de resíduos da rua Flor do Campo, em
declividades viáveis na meia encosta é visível Belo Horizonte, em janeiro de 2010, descarregando água
nas faixas cristalinas de centro-leste brasileiro. cristalina, das chuvas de fim de ano.

Figura 12. (Sentido horário


a partir do topo): Erosão
ravinosa com fundo seco,
sensivelmente estabilizada
na rua Sebastião Meneses,
em Belo Horizonte. A ope-
ração iniciada pelo dique
retentor seguida de enchi-
mento com resíduos inertes
e areia de desassoreamento
da Lagoa da Pampulha
proporcionou em menos de
um ano a implantação da
rua, que hoje já recebe edi-
ficações que aguardaram a
possibilidade por mais de
30 anos.

107
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Agradecimentos Diamond J. 2005. Collapse. Trad. de Alexandre


Raposo, Distribuidora de Serviços de Imprensa
O autor agradece ao geólogo, Fábio Henrique Dias Leite, S.A., Rio de Janeiro Brasil, 685 pp.
pelo auxílio na preparação de ilustrações e formatação e,
especialmente à ABGE, ao corpo editorial da revista a Garcia, J.B., Lima, C.C.Z. & Carvalho, E.T. (2002).
oportunidade concedida. Experiência recente de Contagem, MG na dispo-
sição de resíduos sólidos inertes e reabilitação
de áreas urbanas degradadas. In: Congresso Bra-
BIBLIOGRAFIA sileiro de Geologia de Engenharia e Ambiental,
10o. Associação Brasileira de Geol. de Eng. e Am-
Capra,F. 2000. A teia da vida (orig. The web of life).
biental – ABGE Anais.... CD-ROM e Resumos.
Trad. Newton Roberval Eichemberg, Cultrix, São
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393-395 ways to use rainwater” Sumida City, Tokyo, Japan;
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Carvalho, E.T.; Prandini, F.L. (1998). Áreas urbanas.
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Brasileira de Geol. de Eng. e Ambiental – ABGE,
Anais, CD-ROM e Resumos, Florianópolis.

108
1
2
RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

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Novembro/2011
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KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
GESTÃO DE RISCOS
GEOLÓGICOS NO BRASIL

Margareth Mascarenhas Alheiros


Universidade Federal de Pernambuco, Recife,
Pernambuco, Brasil, alheiros@ufpe.br

RESUMO ABSTRACT
O grande número de desastres naturais registrados nos GEOLOGICAL RISK MANAGEMENT IN BRAZIL
últimos anos no Brasil, especialmente entre 2009 e 2011
está exigindo uma nova postura quanto à gestão de ris- The large number of recorded natural disasters in re-
cos e desastres, embora os anos 2000 tenham sido marca- cent years in Brazil, especially between 2009 and 2011
dos por avanços importantes em ações preventivas jun- demand a new approach regarding the management of
to aos municípios, através de capacitação técnica e dos risks and disasters, although the ‘2000s was marked by
mapeamentos de risco, inseridos no Plano Municipal de important advances in preventive actions in the cities
Redução de Risco. Com base na experiência adquirida through technical training and risk mapping, inserted
no país e no trabalho desenvolvido pela Estratégia In- in the Municipal Plan for Risk Reduction. Based on ex-
ternacional para redução de desastres naturais, através perience produced in the country and the work of the
da ONU é possível promover uma profunda mudança International Strategy for Natural Disaster Reduction,
baseada num modelo consistente de gestão de riscos e
from UN it’s possible to promote a profound change in
desastres no Brasil. Para isso é indispensável o fortaleci-
a consistent model-based risk management and disas-
mento dos órgãos responsáveis e a sua efetiva integra-
ter in Brazil. For it is essential to strengthening of the
ção na divisão dos esforços para atender aos resultados
organisms responsible for its effective integration into
esperados; a participação das instituições de pesquisa
na revisão das metodologias de análise e mapeamento the division of efforts to meet the expected results; the
de risco e, das novas tecnologias aplicáveis à redução contribution of research institutions in the review of
e minimização dos desastres; o incremento nos investi- the methodologies of analysis and risk mapping, and
mentos, especialmente aqueles destinados à previsão e use of new technologies to reduce and mitigate disas-
prevenção do risco; e um modelo de abordagem para as ters; the increase of the investments, especially focused
ações de defesa civil, que melhore as ações de prepara- in risk prediction and prevention; and the adoption of
ção para os desastres, através da operação e difusão de a model approach to civil defense actions, to improve
sistemas de alerta e da comunicação com a comunidade disaster preparedness, through of early warning, evol-
em risco. ving the community at risk.

Palavras-chave: Riscos Naturais; Gestão de Riscos; Ris- Key-words: Natural Risks; Risk Management; Geolo-
cos no Brasil gical Risks in Brazil

1 INTRODUÇÃO

A partir da nomenclatura internacionalmen- aos riscos e aos desastres naturais. Muitas vezes
te aceita, são discutidos alguns dos conceitos bási- abrange a função do próprio planejamento, como
cos adotados neste trabalho, já que envolvem di- forma de antever e prover insumos para coorde-
ferenças de tratamento em função da área técnica nar ações no território desejado.
predominante. O “planejamento” deve prever processos fu-
O termo “gestão” vem sendo usado com mui- turos, identificando a evolução dos fenômenos na-
ta freqüência nos tempos atuais, no que se refere turais e humanos, para buscar implementos que

109
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

evitem, controlem ou enfrentem tais fenômenos e ambiente, da ação para reduzir a exposição a riscos
suas consequências. A gestão, por sua vez, é res- diminuindo a vulnerabilidade  de pessoas e bens,
ponsável pela implantação das ações e de seus ob- e  de uma melhor preparação dos procedimen-
jetivos e metas. tos para responder aos eventos adversos.
Embora o termo “gerenciamento” seja utilizado A classificação internacional (UN-ISDR)1 bas-
como sinônimo de gestão, esta é considerada mais tante difundida e aplicada na gestão de riscos é
abrangente que o gerenciamento, o qual compreen- apresentada no Quadro 1.
de as ações de monitoramento de risco nas áreas pe-
rigosas e resposta a desastres, entre outras.
Quanto aos termos “risco” e “desastre” o uso 2 QUESTÕES INSTITUCIONAIS
popularizado pela mídia cria algumas distorções
na compreensão dos seus efeitos e dos resultados No Brasil, criou-se uma dicotomia no exercí-
imediatos esperados, a partir das ações emergen- cio das ações preventivas para redução de riscos e
ciais empreendidas. mitigação de desastres, com a prevenção dos ris-
Enquanto o risco é a possibilidade de ocorrên- cos associada aos problemas urbanos no âmbito
cia futura de um desastre (daí a necessidade da sua do Ministério das Cidades e a resposta aos desas-
previsão), o desastre é o fato já ocorrido, trazendo tres executada pelo Ministério da Integração, atra-
perdas materiais e de vidas e danos psicossociais. vés da Secretaria Nacional de Defesa Civil, sem
O risco resulta da combinação de dois fato- o indispensável esforço de integração de ações,
res: uma condição propícia para a ocorrência do troca de informações, entre outras fragilidades in-
processo (suscetibilidade) e uma condição de fra- terinstitucionais.
gilidade das pessoas, de suas moradias e da infra- Os órgãos formais do Sistema de Defesa Civil
estrutura no local a ser afetada (vulnerabilidade). nas três esferas de governo, em decorrência da falta
Não há desastres sem risco, embora este úl- de respaldo político e das deficiências técnicas em
timo nem sempre se anuncie de forma explícita e termos quantitativos e qualitativos, adotaram uma
compreensível, especialmente para a população cultura de ação emergencial focada na resposta aos
em geral. Isso traz uma falsa noção de segurança desastres, sem o necessário planejamento prévio,
que aumenta a vulnerabilidade da população e re- com perda de sinergias e de eficiência no uso dos
duz a sua capacidade de reagir aos desastres. Por recursos emergencialmente disponibilizados, como
isso, a comunicação do risco é atualmente um tema as dotações financeiras, as doações da sociedade, a
da maior relevância na redução da vulnerabilidade ação voluntária, entre outros, ampliando com isso
das comunidades que ocupam áreas perigosas. o sofrimento das comunidades vitimadas.
O termo “prevenção de riscos” abrange o As ações de redução de risco, que vinham
conjunto das ações (análise – avaliação – mapea- sendo desenvolvidas pela Secretaria de Progra-
mento) exigidas para o conhecimento prévio dos mas Urbanos do Ministério das Cidades, desde
riscos, sendo o passo inicial para uma política de 2003, tentavam compensar essa situação, viabili-
redução de desastres. zando programas de prevenção de risco de des-
O termo “redução de desastres” parte do co- lizamentos, através da capacitação técnica das
nhecimento prévio dos riscos (porque, como e onde defesas civis das cidades mais críticas, para a aná-
ocorrem e qual a perda presumida) e consiste na lise e o mapeamento de risco em áreas de assen-
preparação para as emergências, que deve estar de- tamentos precários, além de estimular e financiar
lineada num “plano de contingência” do qual cons- os municípios para elaborarem Planos Municipais
tem ações preliminares para redução dos desastres de Redução de Risco (análise e mapeamento, pro-
esperados, como remoção preventiva de famílias, postas de intervenção e estimativa dos recursos
obras emergenciais e a logística para as ações e in- necessários), projetos básicos para contenção de
sumos necessários à resposta ao desastre. encostas nos setores de maior risco e obras foca-
O termo “redução do risco de desastres”, mais das na redução de risco de deslizamentos. Lamen-
abrangente e adotado internacionalmente, expres- tavelmente, esses programas nunca incluíram o
sa a aplicação de esforços sistemáticos e integra- risco das inundações.
dos para analisar e reduzir os fatores causais dos
desastres, através da gestão sábia da terra e do meio 1 International Strategy for Disaster Reduction - ONU

110
Gestão de riscos geológicos no Brasil

Quadro 1 – Classificação e conceitos de riscos.

Fonte: ISDR (2004) (www.unisdr.org).

111
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Os Planos Diretores das cidades, instrumen- (1,4 milhão) e está concentrado nas regiões Norte e
to da maior importância para orientar o uso e Nordeste. Essa situação responde por grande parte
ocupação do solo, como também para o controle dos desastres que ocorrem no Brasil.
urbano, em sua quase totalidade não consideram Por outro lado, os investimentos em preven-
parâmetros técnicos que contemplem os assenta- ção são insignificantes, se comparados àqueles
mentos informais precários. Os desastres, embora destinados às respostas a desastres, ressaltando-se
causem forte comoção em toda a sociedade e per- que estes também ficam muito aquém das necessi-
das materiais e de vidas para os que ocupam áreas dades reais de recuperação e reconstrução. Estudo
perigosas, vêm sendo tratado com tema “anexo” da Confederação Nacional de Municípios (CNM),
e não, determinante das políticas de ocupação das realizado em 2010, sobre a emissão de portarias
áreas urbanas. de reconhecimento de Situação de Emergência e
Em verdade, a causa primordial para a gran- Estado de Calamidade Pública pela Secretaria Na-
de ocorrência de desastres no Brasil deve-se ao cional de Defesa Civil mostrou que entre 2006 e
déficit de moradias para a população carente e à 2010, os recursos destinados à prevenção e à res-
falta de controle urbano sobre a ocupação. Os ge- posta foram de respectivamente R$462.266.060 e
ólogos, Álvaro Santos e Moacyr Schwab, em um R$ 3.167.442.780.
memorial resultante de ampla discussão pela in-
ternet com a contribuição de vários profissionais
3 A GESTÃO DE RISCO NO CONTEXTO
que atuam na área de gestão de risco, afirmam:
INTERNACIONAL
“A produção técnica e científica da comunidade ge-
ológica, geotécnica e urbanística brasileira é de altíssimo
nível, reconhecido internacionalmente, estando já total- 3.1 A ação da ONU
mente disponibilizada para os mais diversos agentes so-
ciais, públicos e privados responsáveis pelo ordenamen- O aumento da recorrência dos desastres na-
to urbano. O principal entrave a uma melhor gestão do turais em quase todo o planeta, com intensidades
problema, dentro da qual se evitariam, ou seriam dras- e frequências acentuadas, vem levando gestores
ticamente reduzidos os problemas urbanos associados públicos e organizações não governamentais, a
a riscos geológicos (...), está na resistência da adminis- buscarem soluções sustentáveis para o problema.
tração pública, em seus diversos níveis, em exercer, com No final da década de 80, a Organização das Na-
eficiência, competência e firmeza, seu papel de regulação ções Unidas instituiu a década de 90 como a Dé-
técnica do crescimento urbano, especificamente no que se cada Internacional para a Redução dos Desastres
refere ao uso e ocupação do território”. Naturais (IDNDR)2, que contou com a adesão de
O Plano Nacional de Habitação do Ministério cerca de 180 países ao protocolo formulado.
das Cidades (Brasil, 2010) destaca a grande desi- Um grande esforço internacional de troca
gualdade social e econômica e a herança resultan- de experiências gerenciais e técnicas produziu ao
te do processo de urbanização intensificado a par- longo desse decênio, uma abundante bibliografia3
tir dos anos 1940, como principais responsáveis contendo análises, novas ferramentas de avalia-
pelos 3,2 milhões de domicílios em assentamentos ção, guias e procedimentos para a implementação
precários. Esses assentamentos caracterizam-se de modelos de avaliação e gestão de risco.
pela informalidade na posse da terra, ausência ou Um modelo de abordagem preventiva para a
insuficiência de infraestrutura, irregularidade no gestão do risco foi difundido pelo UNDRO (Office
processo de ordenamento urbano, falta de acesso of the United Nations Disasters Relief Co-Ordina-
a serviços e moradias com graves problemas de tor) contendo as etapas:
habitabilidade, construídas pelos próprios mora- 1) Identificação dos riscos;
dores sem apoio técnico e institucional. 2) Análise e cartografia dos riscos;
O déficit habitacional em áreas urbanas no Bra-
sil, estimado pela Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílio em 2009, é de 5,8 milhões de unidades 2 International Decade for Natural Disaster Reduction
3 Disponível em www.unisdr.org e em links sugeridos a
habitacionais. O déficit rural também é expressivo partir desse sítio.

112
Gestão de riscos geológicos no Brasil

3) Medidas estruturais e não estruturais de pre- Internacional para a Redução de Desastres - ISDR4
venção de desastres; , redesenhada e redirecionada para aprofundar
4) Planejamento para situações de emergência; questões relacionadas a maiores níveis de segu-
5) Informações públicas e treinamento. rança na convivência com os riscos e desastres,
A recorrência de grandes desastres naturais com destaque para as análises de vulnerabilidade
envolvendo expressivo número de mortes (Figura e resiliência social, já que a década de 90 foi forte-
1) e elevadas perdas econômicas levaram à conti- mente marcada pelo estudo dos processos destru-
nuidade pela ONU desse mecanismo internacio- tivos, das metodologias para a avaliação e mapea-
nal, agora como uma ação contínua, sem prazo mento das suscetibilidades e das tecnologias para
pré-estabelecido, sob a denominação de Estratégia a minimização dos desastres.

Figura 1 – Mortes x Desastres: impacto dos desastres naturais no mundo.


Fonte: Guha-Sapir et al. (2011)

Dada a diversidade dos temas abordados uma Conferência Mundial em Yokohama (Japão),
pela IDNDR (terremotos, deslizamentos, inunda- onde foi aprovado por unanimidade o documen-
ções, furacões, ciclones, secas, geadas, incêndios to “Estratégia de Yokohama para um Mundo
florestais, pragas de gafanhotos) áreas de conhe- mais Seguro: Diretrizes para Prevenção, Respos-
cimento como: climatologia, sismologia, geologia, ta e Mitigação de Desastres Naturais”, contendo
geomorfologia, engenharia hidráulica, engenha- um Plano de Ação 1994-2004, cuja implementa-
ria geotécnica e saúde pública, ganharam impul- ção continuou após a década, sob a coordenação
sos na análise de riscos, razão pela qual um tempo da ISDR, criada no ano 2000. Inúmeros eventos
significativo foi destinado à redefinição de concei- ao longo desse período foram realizados para
tos e terminologias, que permitissem a adequada a discussão de idéias, formulação de políticas e
interface entre os diferentes técnicos, gestores e produção de informação como guias, relatórios,
pesquisadores envolvidos. livros, etc, material quase todo disponível na In-
Em maio de 1994, com o objetivo de realizar ternet (www.unisdr.org).
uma avaliação parcial da IDNDR, foi realizada
4 International Strategy for Disaster Reduction

113
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

A segunda Conferência Mundial para a Re- Cada Plataforma Nacional de Redução de


dução de Desastres - WCDR5 realizada em janei- Risco de Desastres (PN-RRD) é um fórum consti-
ro de 2005, em Kobe (Japão), se deu logo após a tuído por um grupo nacional multi-setorial com
grande catástrofe ocorrida na Ásia, em decorrên- o fim de promover a redução de desastres de for-
cia de um terremoto com 9.3 graus na escala Ri- ma integrada. A criação de Plataformas Nacio-
chter, próximo a Sumatra, em 26/12/2004, que nais tem se ampliado pelos vários continentes,
provocou um maremoto (tsunami) de grandes incluindo países de diferentes graus de desen-
dimensões, deixando um saldo de cerca de 180 volvimento, chegando atualmente a cerca de 50
mil mortes, cinquenta mil desaparecidos e 500 mil Plataformas criadas ou em processo de criação.
desabrigados, em 11 países, com uma perda eco- Infelizmente o Brasil ainda não conseguiu ama-
nômica incalculável. durecer sua articulação política interna, para
Embora a própria Conferência Mundial já ti- constituir a Plataforma Brasileira de Redução de
vesse premonitoriamente escolhido importantes Risco de Desastres, mas as perspectivas para isso
temas centrais relacionados a catástrofes, a ocor- são bastante favoráveis, no atual contexto políti-
rência desse desastre estarreceu a comunidade co e social brasileiro.
científica, técnica e política reunida em Kobe, le-
vando a um conjunto de diretrizes objetivas para
a busca de resultados mais eficientes de preven- 3.2 A política brasileira para a redução do
ção e resposta a esses grandes desastres. risco de desastres
A Conferência aprovou o “Marco de Ação de
Hyogo para 2005-2015: construindo a resiliência O Brasil foi signatário da IDNDR após os
das nações e das comunidades aos desastres”6, es- primeiros anos de sua criação, mostrando-se ini-
timulando a formação de “Plataformas Nacionais cialmente relutante quanto a se reconhecer como
para Redução de Riscos de Desastres PN-RDD”, país com desastres significativos, comparado
contando com o suporte da Secretaria Internacio- àqueles submetidos a grandes tragédias mun-
nal da ISDR e do órgão representativo da Nações diais. Mesmo assim, compreendeu a importância
Unidas no país que aderir ao protocolo. de sua participação no processo, mas a contribui-
Com as sucessivas catástrofes ocorridas em ção oficial que se deu pela via de representação
vários países entre 2006 e 2011, o esforço interna- diplomática foi tímida e limitada à participação
cional tem se ampliado e buscado apoiar de forma em alguns eventos.
concreta os países mais vulneráveis, especialmen- Em contraponto, a comunidade técnico-cien-
te nos continentes africano e asiático. A Terceira tífica teve durante a década uma ação importante
Sessão da Plataforma Global para a Redução do e de impacto para o cenário brasileiro, com a rea-
Risco de Desastres, realizada juntamente com a lização de pelo menos um evento anual incluindo
Conferencia Mundial sobre Reconstrução, ocor- a temática do risco, ora em Simpósios Nacionais
reu em maio de 2011, em Genebra, Suíça, reunin- associados a Congressos nas áreas de Geologia,
do mais de 2.600 delegados, representando 168 Geologia de Engenharia e Engenharia Geotécnica,
países, 25 organizações intergovernamentais, 65 ora em eventos específicos, de caráter local, regio-
ONGs e representantes da sociedade organizada. nal, nacional e internacional.
Estes eventos tiveram como meta principal Diante dos registros de desastres de des-
adaptar mecanismos inovadores de proteção so- lizamento, que provocavam maior número de
cial e gestão de ecossistemas sobre a base de co- vítimas no país, foi essa a área que teve maior
nhecimento atual, a dinâmica da vulnerabilidade, impulso e permitiu a formação de importantes
para reduzir os efeitos dos desastres nas comuni- grupos de pesquisa, tendo como pioneiro o IPT/
dades e grupos sociais mais vulneráveis. DIGEO (São Paulo), produzindo e irradiando
conhecimentos técnicos de avaliação e gestão de
risco, seguido por grupos no Rio de janeiro (Ge-
5 World Conference for Disaster Reduction
6 Hyogo Framework for Action 2005-2015: Building the Resi- oRio), Recife (UFPE), Rio Claro (UNESP), entre
lience of Nations and Communities to Disasters” (HFA) outros.

114
Gestão de riscos geológicos no Brasil

3.2.1 Ações para redução de riscos além de “Prevenção de Riscos de Deslizamentos


em Encostas: Guia para Elaboração de Políticas
Com a criação do Ministério das Cidades, Municipais” entre outros materiais para os cursos
em janeiro de 2003, e quase simultaneamente, da a distância e acesso a financiamentos estão dispo-
Coordenação de Prevenção de Riscos vinculada à níveis no sítio do ministério7.
Secretaria Nacional de Programas Urbanos, a aná- O Plano Municipal de Redução de Risco, já
lise de risco deixou de ser exclusividade dos redu- elaborado em cerca de 60 cidades, tem por base
tos acadêmicos ou de ações isoladas de algumas o mapeamento de risco, em escala de detalhe
poucas cidades no Brasil e passou a se constituir (1:2.500) de todos os assentamentos precários
numa estratégia política, embasada em uma ação em áreas de encostas, hierarquizando os setores
nacional de redução de riscos, até então não efeti- de risco em quatro níveis – baixo – médio – alto
vamente consolidada como uma política pública. – muito alto. Define quais as intervenções de en-
Essa ação teve como ponto de partida um genharia e medidas de segurança em cada caso,
diagnóstico preliminar das cidades com ocorrên- indicando as principais fontes de recursos finan-
cia de desastres com vítimas fatais, sendo identifi- ceiros, as prioridades e os prazos necessários para
cadas cerca de 150 cidades nessa situação. Foi re- a redução das situações de alto risco relacionadas
alizado um Seminário Nacional, em Recife, ainda a deslizamentos de encostas e margens de cursos
em 2003, para delinear o programa e as metodolo- d’água que atingem os assentamentos precários
gias a serem adotadas para uniformizar a análise críticos do município. Essas intervenções devem
e o mapeamento de risco. ser compatibilizadas com medidas já propostas
O programa considerou três eixos de ação nos programas de saneamento, habitação de inte-
principais: resse social e urbanização e regularização fundi-
i) capacitação dos técnicos municipais ligados à ária de assentamentos precários, possibilitando a
defesa civil, obras e controle urbano; articulação das ações de redução de risco a cargo
ii) realização do Plano Municipal de Redução dos três níveis de governo. A elaboração de pro-
de Risco – PMRR, contendo a análise e mape- jetos básicos de estabilização de encostas tem por
amento de risco em assentamentos precários, objetivo apoiar financeiramente os municípios na
propostas de intervenções estruturais e me- implantação das intervenções já definidas como
didas não estruturais para a redução de ris- prioritárias nos PMRRs elaborados.
co, com disponibilização de recursos para a Esse processo deve contar com ampla partici-
elaboração de projetos básicos em setores de pação das comunidades das áreas perigosas e ser
risco alto e muito alto; encerrada com uma Audiência Pública, envolven-
iii) difusão de informações e troca de experiên- do executivo, legislativo e demais lideranças po-
cias através de eventos nacionais. líticas e sociais do município. Foram abertos Edi-
tais para financiar Projetos Básicos de Engenharia
O eixo capacitação de equipes municipais para Estabilização de Encostas nos municípios
apóia financeira e tecnicamente as administrações que já possuíssem o PMRR.
estaduais (atualmente PE, SP, MG, SC e RJ em No eixo da difusão e troca de experiências
parceria com governos estaduais e o Serviço Geo- foram organizados dois seminários de âmbito na-
lógico do Brasil – CPRM) a realizarem treinamen- cional envolvendo mais de 900 participantes de di-
to de técnicos municipais para o gerenciamento versos estados do Brasil. O 1º Seminário Nacional,
de riscos nas cidades. Baseia-se em material e es- realizado em 2003, em Recife-PE, teve como objetivo
tratégias didático-pedagógicas aplicadas há mais montar as bases do programa nacional de apoio à
de uma década, o que possibilitou a formulação gestão municipal de riscos em encostas urbanas, en-
e implementação de cursos presenciais em diver- quanto o 2º, realizado em 2006, em Belo Horizonte-
sos estados e a sua adaptação para a modalidade
de educação à distância, atingindo todo o territó-
rio nacional. O material de treinamento “Mapea- 7 (http://www.cidades.gov.br/index.php?option=com_c
mento de Riscos em Encostas e Margem de Rios”, ontent&view=category&id=135:prevencao-erradicacao-
de-riscos&layout=blog&Itemid=163)

115
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

MG, promoveu o intercâmbio de experiências mu- De acordo com dados mais recentes do Mi-
nicipais e estaduais na temática de gerenciamento nistério das Cidades, são estimados em cerca de
de áreas de risco e ampliou a atuação nacional do 200, os municípios críticos no Brasil, localizados
programa. Encontra-se em fase de organização o principalmente nos estados de SP, RJ, MG, PE,
3º Seminário Nacional a ser realizado em Salvador, BA, ES, AL e SC (Figura 2), nos quais já ocorreram
possivelmente no mês de outubro próximo. 3.109 mortes por deslizamentos (IPT, 2011).

Figura 2 – Mortes por deslizamentos no Brasil.


Fonte: IPT (2011)

Encontra-se em fase de conclusão um atlas por representantes dos Ministérios e das Secreta-
de risco do Brasil, onde consta um levantamento rias da Presidência da República.
detalhado das situações de risco em todo o país, A SEDEC coordena as ações da defesa civil
encomendado pela SEDEC à UFSC. nacional e tem sua ação direcionada de forma
mais efetiva para as emergências, como as secas
no nordeste e as inundações que afetam vários
3.2.2 Ações de resposta a desastres estados brasileiros. De acordo com a legislação
vigente, o SINDEC tem como objetivo planejar,
O órgão que naturalmente assumiu esse papel
articular e coordenar as ações de defesa civil em
foi a Secretaria Nacional de Defesa Civil (SEDEC),
todo o território nacional. 
do Ministério da Integração Nacional, criado pre-
Entretanto, apesar dos esforços empreendi-
liminarmente em 1942 durante a Segunda Guerra dos, o sistema nacional de defesa civil nunca dis-
Mundial, com o papel de proteger a população ci- pôs de respaldo técnico e político suficiente para
vil dos efeitos da guerra, sofrendo reformulações assumir todas essas atribuições, fragilizado pela
ao longo do tempo, chegando à formatação atual equipe insuficiente e pela falta de recursos orça-
de coordenação de um sistema (SINDEC), consti- mentários que fizessem jus ao tamanho do proble-
tuído por órgãos públicos nas três esferas de go- ma que precisa ser resolvido.
verno, tendo como instância superior o Conselho Um grande esforço tem sido feito pelos gesto-
Nacional de Defesa Civil (CONDEC), formado res sucessivos, no sentido de aperfeiçoar o sistema

116
Gestão de riscos geológicos no Brasil

de respostas aos desastres, com ações preventivas do centro de monitoramento, prevista para setem-
para a preparação do núcleo técnico nacional e das bro. De 2012 a 2014, serão concluídos os módulos 1
defesas civis dos municípios, especialmente no que e 2 e implementados os módulos 3 e 4.
se refere à mobilização dos municípios para a cria- Será feito o levantamento e padronização de
ção de Coordenadorias Municipais de Defesa Civil e mapas de riscos dos municípios brasileiros críti-
de Núcleos Comunitários de Defesa Civil (NUDEC). cos e as instituições responsáveis por esse trabalho
Para isso tem investido em programas de capacita- serão: Secretaria Nacional de Programas Urbanos
ção para sensibilização e preparação das equipes (SNPU) do Ministério das Cidades, Secretaria Na-
municipais, pautados nas doutrinas da defesa civil e cional de Defesa Civil (SEDEC) do Ministério da
nos instrumentos que embasam sua ação. Integração Nacional, Companhia de Pesquisa dos
No final de 2010 a Lei 12.340/2010 atualizou Recursos Minerais (CPRM), Agência Nacional de
o modelo de defesa civil já definido no Decreto Águas (ANA) e Secretaria de Relações Institucio-
7.257/2005, com ênfase na agilização das trans- nais da Presidência da República (SRI). A integra-
ferências de recursos em ações de socorro, assis- ção de informações hidrometeorológicas com os
tência às vítimas, restabelecimento de serviços mapas de risco será feita ainda este ano, sob a res-
essenciais e reconstrução nas áreas atingidas por ponsabilidade do INPE. 
desastre, e ainda, sobre o Fundo Especial para Ca-
lamidades Públicas. 
4 CONSIDERAÇÕES E RECOMENDAÇÕES
Atualmente, esse sistema vem recebendo do
governo federal um tratamento diferenciado, com O caráter de urgência que é colocado no mo-
mais respaldo político e orçamentário, que dá su- mento atual para tratar de um assunto que exige
porte ao processo de fortalecimento institucional muita reflexão, cautela, apropriação das boas ex-
e à busca incansável de efetiva intersetorialidade periências e uma boa fundamentação técnica, não
entre os órgãos públicos que assumem mais di- deve ser incentivado.
retamente responsabilidades para com a defesa Para a formulação de um planejamento de âm-
civil no país, como o Ministério da Integração Na- bito nacional, que envolva a reformulação de pro-
cional - MIN (SEDEC) e o Ministério das Cidades cedimentos do órgão central, ampliação da equipe
(SNPU), entre outros. técnica, um arranjo institucional assumido de fato
O Seminário Internacional sobre Gestão Inte- pelos demais órgãos públicos e pela sociedade civil
grada de Riscos  e  Desastres, realizado em Brasí- organizada, e que conte com o apoio de técnicos es-
lia (março/2011), foi uma iniciativa do MIN, que pecializados e pesquisadores, é necessário um perí-
contou com o apoio do Banco Mundial e da ISDR. odo de pelo menos um ano. Até a consolidação do
Esse evento teve um importante papel no con- Sistema, que exigirá um tempo maior, devem ser
vencimento do governo brasileiro e trouxe uma considerados os desdobramentos de curto e médio
excelente oportunidade de compartilhamento de prazos a serem sucessivamente empreendidos pe-
experiências exitosas em redução de risco de de- los gestores federais, estaduais e municipais.
sastres da América Latina e da Europa. Como se pôde observar há vários gargalos
Nos primeiros meses de 2011, foi criado pelo para um bom desempenho da Gestão de Riscos
MCT o Sistema Nacional de Monitoramento e e Desastres no Brasil. Faltam habitações para a
Alerta de Desastres Naturais, ligado ao Instituto população de baixa renda, capacidade técnica
Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, formado instituída na ação dos municípios, instrumentos
por quatro módulos principais: técnicos disponibilizados e apropriados pelos
1) Conhecimento dos Riscos; municípios, controle urbano, recursos financeiros
2) Sistema de Monitoramento e Alerta; compatíveis com as demandas, mas essencialmen-
3) Difusão e Comunicação; e te, falta planejamento e integração. E embora exis-
4) Capacidade de Resposta. ta competência técnica por parte de especialistas
  e pesquisadores, esta ainda não conseguiu chegar
A implementação dos módulos 1 e 2 se dará ain- à forma adequada para apropriação direta pelos
da em 2011, com a instalação de uma sala de situação gestores públicos.

117
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Considerando que a gestão de riscos e desas- 4.1 Propostas para a melhoria da gestão de
tres não pode ser apenas um “anexo” de outras risco no Brasil
Políticas de Estado, precisam ser construídos ins-
trumentos de regulação focados na ação nacional As propostas que se seguem refletem o esfor-
e municipal (local), com atribuição de responsabi- ço coletivo de um número significativo de pesqui-
lidades e definição de fontes orçamentárias para sadores e técnicos das áreas de geologia, geotecnia
atender ao Sistema, de forma permanente. e geologia de engenharia, que vêm discutindo de
Nesse sentido, um grande avanço proveio do modo informal pela internet as dificuldades encon-
Ministério do Planejamento que reduziu de 360 para tradas, a necessidade de valorização das experiên-
60, o número de programas orçamentários da União cias e estudos produzidos nessas áreas de conheci-
para o PPA 2012-2015, entre os quais foi incluído o mento e a necessidade de estruturar um modelo de
programa Gestão de Riscos e Resposta a Desastres, gestão de riscos e desastres para o país.
reconhecendo o tema definitivamente como uma Essas propostas também foram discutidas
questão de Estado. Os recursos desse programa fo- com o Confea, para que fossem levadas a um Gru-
ram destinados aos ministérios que têm interseção po de Trabalho criado pelo MIN, para propor me-
na defesa civil do país, especialmente os ministérios lhorias no sistema nacional de defesa civil.
da Integração Nacional e das Cidades. Qualquer modelo que se pretenda eficaz
Os objetivos desse Programa orçamentário para a gestão de risco no Brasil, deverá considerar
incluem os seguintes temas: como premissas as seguintes questões:
■■ Mapeamento da suscetibilidade a processos ■■ Desenvolvimento e fortalecimento da ação
destrutivos nos municípios considerados crí- pública integrada com visão intersetorial, no
ticos para desastres naturais (responsável: âmbito nas três esferas de governo e constru-
CPRM – Serviço Geológico do Brasil/MME); ção de alianças no plano internacional;
■■ Mapeamento de risco em áreas ocupadas ■■ Ampliação de investimentos em ações pre-
(responsável: Secretaria Nacional de Defesa ventivas, para induzir um círculo virtuoso na
Civil/MIN); gestão de risco;
■■ Melhoria do Sistema Nacional de Defesa Ci- ■■ Adoção de um modelo de abordagem para
vil (responsável: Secretaria Nacional de Defe- as ações de defesa civil, que melhore as ações
sa Civil/MIN); de prevenção e preparação para os desastres,
■■ Obras emergenciais para redução do risco a operação e difusão de sistemas de alerta e a
(responsável: Secretaria Nacional de Defesa comunicação com a comunidade em risco;
Civil/MIN); ■■ Atualização de metodologias para análise e
■■ Intervenções estruturais para prevenção de cartografia de risco e adoção de novas tecno-
risco em encostas (responsável: Secretaria Na- logias para a redução dos riscos e minimiza-
cional de Programas Urbanos/MCidades); ção dos desastres, apoiadas em recursos de fo-
■■ Intervenções urbanas em margens de rios e mento à pesquisa, direcionados para o tema.
canais (responsável: Secretaria Nacional de
Saneamento Ambiental / MCidades);
■■ Sistema Nacional de Monitoramento e Alerta 4.1.1 Desenvolvimento e fortaleci-
de Desastres Naturais (responsável: Instituto mento da ação pública
Nacional de Pesquisas Espaciais/MCT); integrada
■■ Implantação de parques urbanos e melhorias
ambientais (responsável: Secretaria de Meio A integração interinstitucional é um das gra-
Ambiente Urbano/MMA). ves dificuldades que o país enfrenta atualmente
no que se refere à gestão dos riscos e desastres. A
No programa orçamentário Planejamento experiência da Estratégia Internacional apontou
Urbano, também consta um objetivo de grande como saída para romper inércias tanto dos seto-
relevância para a redução do risco direcionado a res públicos, quanto da sociedade organizada, a
um instrumento indispensável para o controle do criação das Plataformas Nacionais de Redução
uso do solo urbano: de Risco de Desastres, respaldadas num modelo,
■■ Elaboração de Cartas Geotécnicas nos muni- que vem sendo internacionalmente amadurecido
cípios críticos (responsável: Secretaria Nacio- e consolidado ao longo dos últimos anos, que se
nal de Programas Urbanos/MCidades). reafirmou no sucesso da terceira reunião mundial

118
Gestão de riscos geológicos no Brasil

sobre a Plataforma Global, realizada em Genebra, os danos sociais e evita mortes desnecessárias.
em maio deste ano. Embora repetido como um mantra por todos que
A redução do risco de desastres é um tema atuam direta ou indiretamente na área de riscos e
complexo, transversal e de impacto no desenvolvi- desastres naturais, isso não é observado na prática
mento, razão pela qual requer uma sabedoria coleti- da gestão pública de riscos no Brasil. Conforme
va e a soma dos esforços das instâncias decisórias na mostrado anteriormente neste trabalho, nos últi-
formulação de políticas nacionais (NU-EIRD, 2009). mos cinco anos, a Defesa Civil nacional aplicou
A Plataforma Nacional para Redução de Ris- cerca de sete vezes mais recursos em resposta aos
cos de Desastres é um Fórum de grande impor- desastres do que em prevenção.
tância política e parte de uma ampla campanha As perdas consideradas por ocasião dos desas-
de articulação dos órgãos e setores mais afetos às tres restringem-se quase sempre aos equipamentos
questões da segurança social, para a montagem públicos urbanos destruídos ou danificados, vias
de um arranjo institucional com respaldo político públicas, pontes e moradias das comunidades
do Estado, envolvendo as três esferas de Governo vulneráveis; não são consideradas as perdas pri-
e a sociedade civil. A Plataforma Brasileira é, por-
vadas, subentendendo-se que as mesmas são de
tanto, uma prioridade da maior relevância para o
responsabilidade de seus proprietários e, portan-
contexto atual de desastres no país, demonstrada
to deveriam estar seguradas. Como em nosso país
pelas dificuldades de articulação institucional du-
não se consolidou uma cultura securitária (essen-
rante as catástrofes recentemente ocorridas, po-
cialmente veículos são segurados), as perdas de
dendo contribuir para o estabelecimento de alian-
moradias com todos os bens pessoais ali contidos,
ças de trabalho, reunindo os formuladores das
os estoques comerciais, os equipamentos do setor
políticas públicas nacionais.
A Plataforma Nacional deverá ser o meca- de serviços e de pequenas indústrias, a produção
nismo de coordenação para associar a redução de agrícola, entre outros, deixam essas pessoas atin-
risco de desastres às políticas públicas, ao plane- gidas, pobres e desamparadas, nivelando por bai-
jamento e aos programas de desenvolvimento do xo o sofrimento de todos.
país, atendendo às recomendações do Marco de Fruto da carência de habitações seguras para
Ação de Hyogo. Deverá ainda oferecer oportuni- um grande contingente da população brasilei-
dades à sociedade civil, especialmente às ONGs e ra, o círculo vicioso que resulta na ocorrência de
às organizações comunitárias, para dialogar com desastres é formado pela ocupação de áreas ina-
o poder público acerca da redução de riscos e de- dequadas e autoconstrução cortando encostas
sastres e facilitar o estabelecimento de alianças no ou avançando sobre as margens de rios e canais,
contexto internacional. sem orientação técnica; segue-se uma conivência
Para que essa ação se concretize é indispen- danosa entre o poder público e as comunidades
sável investir de forma permanente no fortaleci- carentes, deixando a questão da cidade informal
mento institucional dos órgãos e setores respon- para ser resolvida depois (quando?), sem ações
sáveis pela defesa civil do país, no que se refere efetivas de controle urbano no uso e ocupação do
ao reconhecimento da necessidade de ampliação solo; como essas áreas são em sua maioria, bolsões
e qualificação de um quadro técnico permanente, de pobreza, ficam à margem de investimentos
de infraestrutura para garantir a modernização significativos para saneamento básico, especial-
da aplicação de novas metodologias e tecnologias mente esgotamento sanitário e drenagem pluvial;
e nas relações com a sociedade civil organizada, o clima tropical ou temperado, dominantemente
especialmente com as comunidades vulneráveis e úmido, implica em estações chuvosas com grande
em condição de risco. volume pluviométrico, que satura solos cortados
e expostos em condições de prévia instabilidade,
causando deslizamentos ou causa o transborda-
4.1.2 Ampliação de investimentos
em ações preventivas mento de leitos fluviais assoreados e ilegalmente
ocupados, levando às inundações; famílias deslo-
A aplicação de recursos na prevenção de ris- cadas dessas áreas afetadas retornam aos mesmos
cos reduz consideravelmente as perdas financeiras, lugares de onde saíram ou ocupam posteriormente

119
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

novas áreas inadequadas, fechando esse abominá- de novas áreas e o plano de reurbanização defi-
vel círculo. nidos no seu Plano Diretor e consubstanciados
Por outro lado, o círculo virtuoso inicia-se na Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS), para
com a inclusão da cidade informal no planeja- corrigir os problemas existentes e evitar novos
mento do município; passando por um diagnós- desastres; a construção de novas unidades ha-
tico preciso de todo o território municipal obtido bitacionais para realocar a população atingida
pelo Mapa de Suscetibilidades a determinados por desastres ou em situação de risco; os investi-
processos destrutivos (deslizamento, erosão, mentos de maior porte em saneamento básico e a
inundação), determinação das áreas disponíveis construção de moradias em áreas seguras (o que
e adequadas para o crescimento urbano com reduz os riscos sanitários e de desastres, evitan-
base na Carta Geotécnica municipal e da análise do consequentemente os altos custos envolvidos
e Mapa de Risco nas áreas ocupadas, geralmente na resposta aos desastres, para a recuperação e
com histórico de desastres; segue-se o estabele- reconstrução de áreas atingidas), fechando assim
cimento de parâmetros técnicos para a ocupação o desejado círculo (Figura 3).

Figura 3 – Representação esquemática de círculos vicioso e virtuoso em gestão de risco.

4.1.3 Modelo de abordagem para as que trabalham com a redução do risco de desas-
ações da defesa civil tres. Essa condição começa com a sua percepção
do risco, o conhecimento das causas e consequên-
O modelo de abordagem proposto para o cias e o seu papel na redução e controle desses
uso da defesa civil no Brasil, mostrado no início processos destrutivos. Isso implica um importan-
deste trabalho, já vem sendo adotado em vários te programa de comunicação de risco, que já vem
municípios e faz parte dos programas de capaci- sendo parcialmente desenvolvido pelos progra-
tação desenvolvidos nos estados brasileiros mais mas de saúde da família, com a participação dos
críticos em termos de desastres, com a coordena- agentes comunitários de saúde, em alguns esta-
ção da SNPU do Ministério das Cidades. O que se dos do Brasil, mas que precisa ser instituído de
propõe é a universalização do seu uso pelas defe- forma permanente, para produzir resultados fu-
sas civis, especialmente pelos técnicos, gestores e turos significativos.
pelos programas de capacitação da SEDEC. A comunicação do risco (contribuição do ar-
A redução da vulnerabilidade das comunida- quiteto Ney Dantas, do Departamento de arquite-
des ameaçadas por desastres naturais é atualmen- tura e Urbanismo da UFPE) abrange a orientação
te uma das maiores preocupações dos organismos preventiva para a segurança da população, seja na

120
Gestão de riscos geológicos no Brasil

difusão de alertas para a evacuação das áreas mais metodologias e definir aplicações oportunas para
perigosas, seja na preparação e capacitação da os municípios críticos. Essa discussão foi realiza-
gestão pública para uma atuação mais qualifica- da por um grupo de especialistas junto aos mi-
da das equipes técnicas. Deve se constituir em um nistérios das Cidades e das Minas e Energia e na
programa de gestão do conhecimento, que apro- CPRM – Serviço Geológico do Brasil, abrangendo
xime a governança das comunidades sujeitas ao os seguintes instrumentos:
risco, garantindo a confiança indispensável para a a) Mapa de suscetibilidade na escala de plane-
aceitação das orientações emanadas do sistema de jamento municipal (1:25.000), que permita
defesa civil. O processo de adaptação humana aos identificar as áreas propícias à ocorrência de
fatores e condicionantes do ambiente em que vi- processos do meio físico associados a desas-
vem está diretamente relacionado à compreensão tres naturais;
do papel de cada um na construção, prevenção, b) Carta geotécnica de aptidão à urbanização, na
mitigação e redução do risco e o desenvolvimento escala 1:25.000, para a definição de diretrizes
de uma convivência mais segura com estes fatores técnicas para novos parcelamentos do solo e
e condicionantes.
para planos de expansão urbana, de manei-
Esta convivência exige mecanismos e ferra-
ra a definir padrões de ocupação adequados
mentas eficientes de gestão do conhecimento e
face às situações de perigo relacionadas aos
tecnologia da informação que permitam a difusão
desastres naturais.
de conteúdos, e promovam comunicação e co-
c) Mapa de risco nas áreas ocupadas, na escala
nectividade entre governo e a sociedade gerando
de intervenção (1:2.000), para o planejamento
ambientes colaborativos que favoreçam o surgi-
das intervenções estruturais de redução de
mento de soluções inovadoras, eficientes e locali-
riscos (implantação de obras de segurança ou
zadas. O uso de redes sociais e ferramentas digi-
remoção de moradias) e para a operação de
tais colaborativas na mitigação de catástrofes têm
demonstrado seu potencial em desastres recentes planos de contingência de defesa civil.
na África, Austrália e Japão. Desse modo, a forma-
ção de uma rede de conhecimentos e saberes pode Cabe ressaltar ainda que o atual estágio de
atenuar significativamente o tempo de resposta às percepção dos problemas aponta para a neces-
situações de calamidade. sidade de revisão dos Planos Diretores munici-
pais, especialmente nos municípios mais críticos,
apropriando os novos conhecimentos e definindo
4.1.4 Atualização de metodologias parâmetros técnicos adequados para a segurança
e adoção de novas tecnologias nas áreas mais suscetíveis e a requalificação urba-
nística das áreas de risco das cidades.
Após os grandes desastres ocorridos no Rio
de Janeiro, em Angra dos Reis, em janeiro de 2010,
e na região serrana, em janeiro de 2011, fortaleceu- Agradecimentos
se a convicção de que as metodologias adotadas
para mapeamento de risco precisam ser revistas À ABGE e ao Prof. Lázaro Zuquette pelo convite da
e adequadas aos diferentes contextos fisiográficos Revista RBGEA; a todos os colegas que participam
encontrados em nosso território. informalmente do fórum pela internet, oportunamen-
Isso demandará esforços e investimentos em te provocado pelo geólogo Álvaro Santos; aos amigos
pesquisa e desenvolvimento pelos órgãos de fo- Celso Carvalho, Fernando Nogueira e Eduardo Ma-
mento à pesquisa do Brasil, sob a forma de linhas cedo, pelas lições aprendidas ao longo dos últimos 15
de financiamento através de Editais específicos, o anos; ao arquiteto Ney Dantas, pela cessão de seus
que já vem sendo discutido pelo menos há dois conhecimentos em gestão do conhecimento; à UFPE
anos no MCT/FINEP. pelas oportunidades acadêmicas oferecidas e acolhi-
Na área da cartografia urbanística e de riscos, mento dessa linha de pesquisa.
observa-se a importância de revisar e difundir

121
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

bibliografia Guha-Sapir, D.; Vos, F.; Ponserre, S. Annual Di-


saster Statistical Review 2010: The numbers and
Alheiros, M.M.; Souza, L.A.; Dantas, N.; Otoni, trends. 2011. CRED - Université catholique de
A.B. 2011. Propostas para modernização do Sis- Louvain, Belgium, 50p. Disponível em http://
tema Nacional de Defesa Civil: Contribuição do www.cred.be/sites/default/files/ADSR_2010.
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dência de Decretos de Calamidade Pública ou Oliveira, E. L. 2009. Demanda futura por mora-
Situação de Emergência e o fluxo de recursos da dias no Brasil 2003-2023: uma abordagem demo-
Política Nacional de Defesa Civil. Confederação gráfica. Brasília. Ministério das Cidades, 144 p. +
Nacional de Municípios, Estudo Técnico. Brasília, CD-ROM.
21 p. Disponível em www.cnm.org.br. Acessado
em 01/07/2011.

122
1
2
RBGEA
REVISTA BRASILEIRA DE
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
E AMBIENTAL
REVISTA BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL
Publicação Científica da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Editor
Lázaro Valentim Zuquette – USP

Co Editor
Fernando F. Kertzman – GEOTEC

Revisores
Antonio Cendrero – Univ. da Cantabria (Espanha)
Alberto Pio Fiori - UFPR
Candido Bordeaux Rego Neto - IPUF
Clovis Gonzatti - CIENTEC
Eduardo Goulart Collares – UEMG
Emilio Velloso Barroso – UFRJ
Fabio Soares Magalhães – BVP
Fabio Taioli - USP
Frederico Garcia Sobreira - UFOP
Guido Guidicini - Geoenergia
Helena Polivanov – UFRJ
Jose Alcino Rodrigues de Carvalho – Univ. Nova de Lisboa (Portugal)
José Augusto de Lollo - UNESP
Luis de Almeida Prado Bacellar – UFOP
Luiz Nishiyama - UFU
Marcilene Dantas Ferreira - UFSCar
Marta Luzia de Souza – UEM
Newton Moreira de Souza – UnB
Oswaldo Augusto Filho – USP
Reinaldo Lorandi – UFSCar
Ricardo Vedovello – IG/SMA

Projeto Gráfico e Diagramação


Rita Motta - Editora Tribo da Ilha

Foto da Capa
Obras do Rodoanel trecho sul, nas proximidades da represa Billings.,
tirada em 08 de julho de 2008 . Fabrício Araujo Mirandola - IPT

Edição Especial

Circulação: Novembro de 2011

Tiragem: 2.500

ISSN 2237-4590

São Paulo/SP

Novembro/2011
Av. Prof. Almeida Prado, 532 – IPT (Prédio 11) 05508-901 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3767-4361 - Telefax: (11) 3719-0661 - E-mail:abge@ipt.br - Home Page: http://www.abge.com.br

DIRETORIA - GESTÃO 2009/2011


Presidente: Fernando Facciolla Kertzman
Vice-Presidente: Gerson Salviano de Almeida Filho
Diretora Secretária: Kátia Canil
Diretor Financeiro: Luiz Fernando D`Agostino
Diretor de Eventos: Elisabete Nascimento Rocha
Diretor de Comunicação: Marcelo Fischer Gramani

CONSELHO DELIBERATIVO
Elaine Cristina de Castro, Elisabete Nascimento Rocha, Fabio Canzian da Silva, Fabrício Araújo Mirandola, Fer-
nando Facciolla Kertzman, Fernando Ximenes T. Salomão, Gerson Almeida Salviano Filho, Ivan José Delatim,
Kátia Canil, Leonardo Andrade de Souza, Luiz Antonio P. de Souza, Luiz Fernando D’Agostino, Marcelo Fis-
cher Gramani, Newton Moreira de Souza, Selma Simões de Castro.

NÚCLEO RIO DE JANEIRO


Presidente: Nelson Meirim Coutinho - Vice-Presidente: Antonio Queiroz
Diretor Secretário: Eusébio José Gil - Diretor Financeiro: Cláudio P. Amaral
End.: Av. Rio Branco, 124 / 16o andar – Centro - 20040-916 - Rio de Janeiro - RJ
Tel : (21) 3878-7878 Presidente - Tel.: (21) 2587-7598 Diretor Financeiro

NÚCLEO MINAS GERAIS


Presidente: Maria Giovana Parizzi - Secretário: Frederico Garcia Sobreira
Tesoureiro: Luís de Almeida P. Bacellar - Diretor de Eventos: Leonardo A. Souza
End.: Univ. Fed. de Ouro Preto - Depto. Geologia - 35400-000 – Ouro Preto/MG
Fone: (31) 3559.1600 r 237 Fax: (31) 3559.1606 –

REPRESENTANTES REGIONAIS UF

ROBERTO FERES AC
HELIENE FERREIRA DA SILVA AL
JOSÉ DUARTE ALECRIM AM
CARLOS HENRIQUE DE A.C. MEDEIROS BA
FRANCISCO SAID GONÇALVES CE
NORIS COSTA DINIZ DF
JOÃO LUIZ ARMELIN GO
MOACYR ADRIANO AUGUSTO JUNIOR MA
ARNALDO YOSO SAKAMOTO MS
KURT JOÃO ALBRECHT MT
CLAUDIO FABIAN SZLAFSZTEIN PA
MARTA LUZIA DE SOUZA PR
LUIZ GILBERTO DALL’IGNA RO
CEZAR AUGUSTO BURKERT BASTOS RS
CANDIDO BORDEAUX REGO NETO SC
JOCÉLIO CABRAL MENDONÇA TO
APRESENTAÇÃO

A Revista Brasileira de Geologia de Enge- de investigações, estudos e soluções de problemas


nharia e Ambiental (RBGEA) é uma proposta da de engenharia e ambientais decorrentes da inte-
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia ração entre a Geologia e as atividades humanas
e Ambiental (ABGE) no sentido de suprir uma la- - (incluindo aspectos relevantes da Geologia rela-
cuna nacional para publicação de trabalhos cien- cionados à Engenharia Civil, Mineração e Recur-
tíficos técnicos e de exemplos de aplicação da Ge- sos Hídricos, assim como relacionados à previsão
ologia de Engenharia e Ambiental, que venham de eventos perigosos, às áreas contaminadas, aos
agregar conhecimentos aos profissionais, pesqui- processos geológicos, à prevenção e remediação
sadores e comunidade em geral, tanto em nível de áreas degradadas) -, Planejamento Territorial
nacional como internacional. e Ambiental, Banco de Dados e Casos Históricos;
 A frequência será de três números regulares além destes estudos serão também contempla-
por ano, e números especiais, no caso de seleção dos os processos modernos, as novas técnicas de
de trabalhos relacionados a um tema especifico. campo e laboratório e temas científicos de interes-
A RBGEA terá o primeiro número na forma se amplo e caráter original, sempre relacionados
impressa, e, logo que tiver uma sequência defini- com a Geologia de Engenharia e Ambiental e com
da, será uma publicação eletrônica, impressa anu- as ciências da terra de uma forma geral, seja do
almente. Com este periódico espera-se que haja Brasil seja de outros países, publicados na língua
um avanço nas relações entre os profissionais que portuguesa e espanhola.
atuam na formação e pesquisa e aqueles que atuam O primeiro número apresenta artigos his-
nas outras esferas da profissão. Assim, será refor- tóricos de três profissionais que dão nome aos
çada a relação que tornou a atividade de Geólogo Prêmios da ABGE para os destaques de nossa
de Engenharia e Ambiental relevante em diversos categoria: Ernesto Pichler, Lorenz Dobereiner e
países, fazendo com que a profissão ocupe uma Fernando Luiz Prandini, bem como uma série ini-
posição de destaque na sociedade, com questões cial de artigos encomendados pelos Editores. A
relevantes relacionadas ao Planejamento Urbano segunda edição continuará com autores convida-
e as Obras de Infraestrutura e tantos outros. dos pelos Editores; e a terceira edição será um dos
Espera-se que esta publicação atinja seus obje- melhores trabalhos escolhidos no 13º CBGE. Na
tivos e venha subsidiar estudantes e profissionais sequência, haverá publicações digitais reunindo
da Geologia de Engenharia nas suas atividades, os artigos submetidos por diversos autores.
seja nas universidades, nos institutos, nas empre-
sas de economia mista, públicas ou privadas. Boa leitura à todos.
A Revista Brasileira de Geologia de Engenha-
ria e Ambiental (RBGEA) destina-se à divulgação
Lazaro V.Zuquette e
Fernando F. Kertzman
Sumário

9 BOÇOROCAS
Ernesto Pichler (In memorian)

17 CARACTERIZAÇÃO GEOMECÂNICA DO MACIÇO ROCHOSO DE FUNDAÇÃO


DA UHE CACHOEIRA PORTEIRA
Lorenz Dobereiner (In memorian)
Fernando Pires de Camargo
Alarico A. C. Jácomo

29 O BRASIL E A GEOLOGIA NO PLANEJAMENTO TERRITORIAL E URBANO


Fernando Luiz Prandini (In memorian)

41 UM BREVE RELATO SOBRE A GEOLOGIA DE ENGENHARIA


Lazaro Valentin Zuquette

57 INTEGRAÇÃO DE ESTUDOS GEOLÓGICO-GEOTÉCNICOS APLICADOS A


PROJETOS DE ENGENHARIA E À AVALIAÇÃO DE IMPACTOS AMBIENTAIS:
ESTAMOS AVANÇANDO?
Omar Yazbek Bitar
Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo
Sofia Julia Alves Macedo Campos
Tânia de Oliveira Braga
Caio Pompeu Cavalhieri

73 GEOLOGIA APLICADA A BARRAGENS: UMA REVISÃO DE PROCEDIMENTOS


Luiz Ferreira Vaz
Magali Dubas Gurgueira
Talita de Oliveira Muzzi

93 CONTRIBUIÇÃO PARA A GEOLOGIA DE ENGENHARIA APLICADA ÀS CIDADES.


EXPERIÊNCIA DE LONGA DURAÇÃO EM BELO HORIZONTE – MG
Edézio Teixeira de Carvalho - GEOLURB

109 GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS NO BRASIL


Margareth Mascarenhas Alheiros

123 IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA E GEOMECÂNICA NA


MINERAÇÃO
Sérgio N. A. de Brito
Paulo R. C. Cella
Rodrigo P. Figueiredo
Importância da Geologia de Engenharia
e Geomecânica na Mineração

Sérgio N. A. de Brito
BVP Engenharia

Paulo R. C. Cella
BVP Engenharia

Rodrigo P. Figueiredo
UFOP, MG

Resumo Abstract

Discutem-se os requisitos mais importantes das vá- THE IMPORTANCE OF ENGINEERING GEOLOGY
rias etapas de estudo e projeto de empreendimentos AND GEOMECHANICS IN MINING DESIGN
em mineração. Em seguida, à luz de alguns compor-
tamentos singulares de maciços de rocha branda ou In the first part of this paper, the most important requi-
competente evidenciados durante a lavra, examinam- rements to develop a sound mining project are shortly
se aspectos teóricos e práticos no campo da geologia discussed accordingly to distinct phases of studies and
de engenharia e projeto geomecânico que explicam design. In the second part, singular mechanical beha-
tais comportamentos. Fica demonstrado que o envol- vior of either weak or competent rock masses as esta-
vimento do projetista no acompanhamento da lavra, blished in real mines are closely analyzed upon theore-
por vezes durante anos, apoiado no mapeamento ge- tical and practical aspects of engineering geology and
otécnico de detalhe e nos dados do monitoramento geotechnical design. It is shown that the mining pro-
de maciços intemperizados ou sãos acarretam adap- cess usually allows the designer to be closely involved
tações importantes no projeto inicial. O fruto disso in supervision of excavation over years in some cases,
é que soluções práticas e mais confiáveis podem ser so that detailed geotechnical mapping of large volumes
alcançadas em casos de grande complexidade ou na of weathered or fresh rock masses along with monito-
ocorrência de feições geológicas adversas, não ante- ring entail important adjustments to the initial design.
cipadas. As a result more reliable and practical solutions can be
achieved as well the designer is allowed to tackle with
Palavras-chaves: mineração, geomecânica, projeto, com- unforeseen adverse conditions or complex behavior of
plexidade geológica. geological materials.

Keywords: mining, geotechnical design, geological com-


plexity.

No início do desenvolvimento da Geologia indústria mineral brasileira, puxada pela grande


de Engenharia no Brasil, alavancado nas décadas demanda de nossos minérios, principalmente o mi-
de 60 a 80 pelo grande crescimento dos projetos nério de ferro, exigiu das empresas de engenharia a
hidrelétricos, a mineração ocupou lugar de pouco formação de equipes especializadas para suprirem
destaque em nossos congressos e na nossa própria a grande demanda de trabalhos solicitados. Pode-
atividade profissional. mos dizer hoje que a mineração não só utiliza o que
Nos últimos anos temos assistido a um mo- existe de mais avançado nas tecnologias disponí-
vimento inverso. O enorme desenvolvimento da veis dentro de geologia de engenharia e geotecnia

123
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

como precisou desenvolver tecnologias próprias. Mineração a céu aberto


Isto se deve a algumas diferenças importantes que
existem entre projetos de obras civis e de minera- ■■ Dimensionamento de taludes.
ção, sendo características próprias dos projetos de ■■ Controle da água superficial e subterrânea.
mineração: ■■ Escavabilidade e controle de detonações.
■■ Grande duração da lavra, que em geral se es- ■■ Trafegabilidade.
tende por dezenas de anos. ■■ Durabilidade dos materiais.
. Permite maior detalhamento dos estu- ■■ Monitoramento.
dos ao longo do tempo.
Mineração subterrânea
. Possibilidade de adaptação com o tempo.
. Possuem rigorosa avaliação de riscos ■■ Dimensionamento de cavidades da lavra e
(Sistema FEL/FMEA). do desenvolvimento.
. Exigem considerações quanto ao aban- ■■ Dimensionamento de pilares.
dono, em geral ocorrendo após décadas ■■ Dimensionamento de suportes.
de seu início. ■■ Controle de detonação.
■■ Pode-se conviver com acidentes que não im- ■■ Previsão de efeitos na superfície.
pliquem em perda de vidas, equipamento e ■■ Monitoramento.
reservas.
■■ Vários maciços podem e devem, devido às Estruturas auxiliares
condições in situ, trabalhar no limite da fun-
■■ Barragens de rejeito.
cionalidade, o que pode significar o ‘pós-
■■ Barragens de água.
ruptura´
■■ Pilhas de estoque, estéril e de lixiviação.
■■ Grande impacto ambiental o que demanda
projetos de conceitos integrados para redu- ■■ Fundação das usinas de processamento mi-
ção de custos de restauração, com freqüente neral.
presença de contaminantes. ■■ Vias de acesso e contenções de cortes e
aterros.
Como todo projeto de engenharia, várias ■■ Monitoramento.
áreas especializadas da engenharia participam
Impacto ambiental
dos estudos. Em mineração, esta associação tem
que existir de maneira integrada desde o começo ■■ Recuperação de áreas escavadas e aterradas.
dos estudos. As principais áreas técnicas envol- ■■ Controle de contaminação.
vidas são: ■■ Previsão de comportamento no abandono.
■■ Geologia mineral. ■■ Monitoramento.
■■ Geologia de engenharia.
■■ Geotecnia/Geomecânica. Todas essas atividades são desenvolvidas
■■ Hidrologia/Hidráulica. em várias fases de estudos da mineração: projeto,
■■ Hidrogeologia. implantação, operação e abandono. Os Quadros
■■ Geoquímica. 1, 2 e 3 sintetizam as demandas de projeto. A ca-
■■ Engenharia de minas. racterística principal dessas fases é: grande rigor
■■ Engenharia estrutural. no controle de qualidade das fases de projeto e a
■■ Engenharia ambiental. grande extensão da fase operacional. Nesta fase,
surge então a necessidade de prever comporta-
As atividades da geologia de engenharia/ge- mentos adversos e estabelecer os procedimentos
otecnia em mineração podem ser agrupadas em que permitam minimizá-los ou remediá-los. Esta
quatro grandes áreas, sendo que em cada uma de- fase é extremamente dinâmica e exige uma par-
las, os interesses principais são os seguintes: ticipação permanente da geologia/geotecnia. A

124
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

única maneira de prevenir os problemas geome- ■■ Propor e supervisionar investigações com-


cânicos em uma mina é manter sempre uma equi- plementares necessárias.
pe de geologia de engenharia e geotecnia na mina ■■ Classificar os maciços rochosos encontrados.
encarregada de: ■■ Setorizar as escavações em função do com-
■■ Mapear toda superfície escavada, mesmo pro- portamento dos maciços.
visória. ■■ Antecipar o comportamento dos maciços na
■■ Rever e atualizar permanentemente o mode- fase seguinte da lavra.
lo geomecânico da mina. ■■ Monitorar o comportamento das escavações.

Quadro 1 – Demanda de um projeto de mineração típico – Fase conceitual.

Estudos e Investigações Geotécnicas


Estrutura Demanda Básica
Requeridos

Unidades regionais; Mapas regionais e Reconhecimento descontinuidades em afloramentos

Gênese dos solos e


Contexto geológico no entorno da Perfil de intemperismo,
lavra; Modelo geológico-estrutural preliminar
Lavra a Céu Unidades hidrogeológicas e nível de água
Aberto
e Subterrânea
Litotipos, Anisotropias
Sondagem geológica orientada
e Atitude de camadas

Descrição geotécnica dos testemunhos


Método de lavra Inclinação global da cava
Geometria geral da lavra, vãos máximos de realces por métodos empíricos

Reconhecimento superficial
Estudo de volume de contenção
do local da disposição

Pilha de Estéril Feições gerais da dinâmica da encosta


Arranjo Geométrico
e da várzea

Distância de transporte Tipo dos solos de cobertura

Vale de fechamento em
Distância em relação à Pilha
solo ou rocha,

Diques de Dimensão da bacia de finos Estabilidade de encostas


Sedimentação
Seção tipo da barragem, Plano do desvio construtivo, Posição preliminar do
Arranjo preliminar extravasor e canais,
Materiais naturais de construção

Litotipos e estanqueidade no eixo e no perímetro


da bacia, Diques de sela
Alternativas de fechamento e Di- Vale de fechamento em
mensão da bacia de rejeito solo ou rocha
Estabilidade de encostas
Barragem de
Materiais naturais de construção
Rejeitos
Posição do eixo no entorno da
Reconhecimento da rota da tubulação e Método de disposição
Usina
Granulometria e densidades, Necessidade de revestimento da bacia; Canal de
Físico-Química básica dos rejeitos
captura do ingresso de águas pluviais

125
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Quadro 2 – Demanda de um projeto de mineração típico – Fase viabilidade/básico.

Estudos e Investigações Geotécnicas


Estrutura Demanda Básica
Requeridos
Mapeamento e descrição sistemática de descontinuidades
Minério e
em afloramentos, Galerias de investigação e Sondagens com
Encaixantes;
testemunhos orientados, Seções geológicas verticais e hori-
zontais; Modelo geológico 3D

Ensaios geotécnicos dos solos e rochas, Seções geotécnicas


Contexto geológico no entorno da
com caracterização genética, textural e espessuras, Modelo
Lavra a Céu Aberto lavra;
hidrogeológico, Tensões gravitacionais
e Subterrânea
Setorização geomecânica, Definição de bancadas, taludes
interrampas e globais
Método de Definição de realces por métodos empíricos e numéricos,
lavra pilares de realce e barreiras, Subsidência admissível, Medi-
da de tensões naturais (eventual) Rebaixamento do lençol,
Despressurização de taludes

Definição da geometria de bancada e inclinação global,


Refinamento do arranjo geométrico
Drenagem periférica e de bancada

Ensaios geotécnicos dos solos e Seções geotécnicas com


caracterização genética, textural e espessuras, Modelo de
Estabilidade geotécnica
Pilha de Estéril percolação, Capacidade de carga e recalques admissíveis,
Definição da remoção de solos inadequados

Modelo de fluxo da encosta, zona de recarga e desagua-


Sistema de drenagem interna e
mento. Modelos de infiltração na pilha, Ensaios tecnológi-
Jazidas de materiais do drenantes
cos de materiais pétreos e transições

Definição do reservatório de contenção, Modelo de sedi-


mentação e taxas de erosão, Sondagens geotécnicas, Defini-
Arranjo geométrico ção da seção típica
Definição do extravasor e canais,
Definição do desvio construtivo
Amostragem, Ensaios de caracterização, compactação e
Jazidas de materiais de construção
Diques de Sedimentação Cubagem

Estabilidade geotécnica Ensaios geotécnicos dos solos e Seções geotécnicas com


caracterização genética, textural e espessuras, Modelo de
percolação

Definição de área de descarte dos sedimentos,Vias de aces-


Medidas auxiliares
so para descarte, Contenção e estabilidade dos sedimentos

Definição do eixo, Método de construção, Diques de sela,


Definição do dique de partida e da seção típica, Posição do
Arranjo geométrico detalhado
extravasor e emissários de etapa de operação, Projeto de
escavação e aterros

Plano de disposição de rejeitos Método de disposição Projeto da rota da tubulação princi-


pal, Ângulo de praia, Fases de enchimento da bacia, Cálcu-
lo do volume, Etapas construtivas da barragem

Ensaios geotécnicos básicos e especiais e de decantação,


Caracterização geotécnica, física e quí- Método construtivo, Projeto do revestimento da bacia1;
mica dos rejeitos Dimensionamento de cortes e aterros de canais de captura
Barragem de Rejeitos
do escoamento

Ensaios geotécnicos dos solos e Seções geotécnicas com


caracterização genética, textural e espessuras, Modelo de
percolação, Sistema de drenagem interna, Definição da
Estabilidade geotécnica
remoção de solos inadequados, Tratamentos de fundação,
Potencial de liquefação estática, Plano de monitoramento
da estrutura e da praia

Direções principais de lançamento, Ramais auxiliares, Dis-


Manejo de rejeitos e controle da praia tância entre pontos de descarga, Capacidade de suporte de
tráfego e travessias,

126
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

Quadro 3 – Demanda de um projeto de mineração típico – Fase de operação.

Estudos e Investigações Geotécnicas


Estrutura Demanda Básica
Requeridos

Mapeamento de detalhe dos taludes, Refinamento do modelo e ge-


Cava; ometria das unidades litológicas, Monitoramento hidrogeológico de
detalhe e de deslocamentos em taludes importantes

Mapeamento de detalhe dos realces e desenvolvimentos, Refinamen-


Lavra subterrânea; to do Modelo lito-estrutural, Medida do ingresso de água, Monitora-
Lavra a Céu Aberto mento de pilares, tetos, etc
e Subterrânea
Calibração dos modelos de análise (equilíbrio-limite, numérico, per-
colação), Revisão das dimensões de realces e pilares, Medida de ten-
Cavas e Lavra subterrânea sões induzidas, Revisão dos setores geomecânicos da cava, definição
de bermas de contenção e taludes interrampas e globais, Controle de
detonações e danos aceitáveis

Rebatimento de taludes,
Controle de escoamento e erosões no topo e nos taludes, Recupera-
Controle do arranjo geométrico
ção dos ‘greides’ e revegetação, Integridade da drenagem periférica e
encontro nas encostas

Pilha de Estéril Inspeção visual de bancadas, Monitoramento hidrogeotécnico na pi-


lha e fundação, Revisão do modelo de percolação e pressões internas
Estabilidade geotécnica
e na fundação, Calibração da análise de estabilidade, Monitoramento
de deslocamentos superficiais e eventuais profundos
Medidas de vazão no dreno de fundo, Controle de da velocidade do
Sistema de drenagem interna
fluxo na saída e da turbidez
Controle de Verificação de taxa de assoreamento, Medidas de turbidez no extra-
vasor, Limpeza periódica do lago, Controle da área de descarte e do
desempenho sistema de contenção dos sedimentos removidos
Diques de Sedimentação
Estabilidade geotécnica Inspeção visual, Monitoramento hidrogeotécnico e de deslocamentos

Medidas Auxiliares Controle de desmatamento e erosões no entorno do lago


Controle do método construtivo da estrutura de contenção, Controle
da inclinação da praia e do escoamento do rejeito, dos pontos de
Controle do arranjo geométrico da lançamento e da distância de descargas adjacentes, Controle da dre-
estrutura de contenção e do manejo nagem e erosões dos taludes do maciço, Monitoramento dos cortes
do rejeito e do fluxo nos canais do extravasor, Controle do nível operacional e
máximo do lago
(borda livre)
Barragem de Rejeitos Verificação da segregação no perfil da praia, Amostragem para
Caracterização geotécnica do rejeito
ensaios laboratoriais convencionais e de resistência, Ensaios SPT e
na praia
Piezocone
Inspeção visual, Perfilagem piezométrica do maciço frontal de rejei-
tos, Monitoramento piezométrico e de deslocamentos da estrutura
Estabilidade geotécnica
de contenção, Controle dos fluxos de saída do sistema de drenagem
interna, Controles de risco de liquefação estática

Isto coloca a operação de mina em uma situa- de detalhe e das especificações técnicas finais. No
ção completamente diferente das outras atividades descomissionamento, a carga de estudo é bastante
da engenharia, onde os proprietários têm desman- variável dependendo muito das condições no final
telado suas equipes e hoje dependem quase que da lavra, do risco de contaminantes e no estado
integralmente de equipes terceirizadas. As empre- de conservação das estruturas auxiliares. Todas as
sas de mineração têm cada vez mais ampliado suas intervenções na área deverão ser restauradas para
equipes de geologia de engenharia e geotecnia tan- a condição permanente com os respectivos planos
to para acompanhar seus projetos como para dar de monitoramento. Não é intenção neste trabalho
assistência permanente a suas operações. discorrer sobre todas estas atividades. Preferimos
A fase de engenharia detalhada consiste no selecionar alguns casos históricos que ilustram de
refinamento das soluções da etapa de engenha- que maneira a geologia de engenharia e a geotec-
ria básica, na elaboração do projeto geométrico nia vêm sendo usadas em nossos projetos.

127
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

1.1 Caso 1 - ruptura de cunhas volumosas analítico de relaxação proposto por J. W. Bray
numa lavra subterrânea (apud. Brady e Brown, 1985, 2004) que leva em
conta a contribuição da tensão lateral na equação
A queda de grandes cunhas rochosas do teto de equilíbrio.
de um nível de desenvolvimento em uma lavra O procedimento determina a força vertical
subterrânea quando da escavação dos realces la- Pl necessária para o equilíbrio-limite, a partir de
terais, era algo inusitado. As cunhas eram altas e uma condição inicial elástica, na qual a tensão la-
estreitas, e haviam sido ancoradas com cabos de teral σHo atuante impõe um esforço horizontal Ho
aço. Até a abertura dos realces nenhuma instabi- idêntico nos dois planos da cunha. Para simpli-
lidade foi registrada. Na retroanálise das ruptu- ficação do problema, foi admitido apenas o caso
ras procurou-se avaliar a magnitude da redução mais provável em que a rigidez normal nos pla-
das tensões laterais que atuavam nos planos das nos da cunha é consideravelmente mais elevada
cunhas devido à abertura dos realces. que a rigidez tangencial - equação (1). A expres-
A mina já havia ultrapassado a profundidade são reduz-se a:
de 500 m e o fenômeno ocorreu quase no fundo
da lavra na El. -300 m, onde a tensão gravitacional
podia atingir magnitudes acima de 15 MPa.
Essa mina sempre teve a conotação de ser uma (1)
lavra em maciço com elevado estado de tensões
naturais. Ensaios de medida de tensões (domi-
nantemente induzidas), retroanálises e deduções A Figura 2 ilustra a geometria da cunha típica
de geologia estrutural, feitos entre 1990 e 1995, em de análise.
diversos estudos, apontaram coeficientes K (σh/
σv) entre 2 e 4 e um estudo sugeriu uma tensão
armazenada (‘locked in’) superior a 50 MPa. Ape-
nas como referência, o menor coeficiente sugerido
levaria facilmente a tensão horizontal para cerca
de 30 MPa, o que tornaria a queda de cunhas com
alturas de até 5-6 metros (Figura 1) uma grande
surpresa. A Figura 1 mostra uma cunha rompida.

Fig. 2 – Cunha simétrica no teto de uma abertura subterrânea


com vão B, parâmetros geométricos e forças atuantes (N, S)
nos planos das descontinuidades que formam a cunha.

As combinações geométricas mais comuns


das cunhas que desabaram do teto da galeria na
El. –300 m foram determinadas com levantamen-
to de detalhe a laser da “capela”. Os parâmetros
eram os seguintes:
■■ α: na faixa de 34o a 41o, predominante nas
Figura 1 – Vazio deixado pela queda de uma cunha pirami- diversas seções levantadas, exceto junto das
dal em desenvolvimento profundo da mina. Notar restos de
cabos rompidos.
interseções com outra galeria;
■■ φ mais provável entre 35o e 42o, de acordo
Para avaliação da tensão lateral atuante no com o levantamento das descontinuidades
teto da galeria na ruptura recorreu-se a um método efetuado em grande parte da mina

128
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

Figura 3 - Levantamento geométrico de detalhe das


geometrias das cunhas de grandes dimensões colap-
sadas no El. -300 m.

A Tabela 4 mostra as combinações mais pro- as paredes da galeria chegaram a ceder por com-
váveis dos parâmetros geométricos e geomecâni- pressão e flambagem na queda de cunhas pouco
cos em jogo mais largas que o vão (Figura 3).
O Coeficiente de Equilíbrio (CE) é expresso pela
diferença entre a força virtual Pl e o peso da cunha.
Quando Pl iguala o peso do bloco, tem-se o equilí- 1.1.1 Avaliação da Perda da Capaci-
brio-limite e CE tende ao valor unitário. Valores de dade de Ancoragem dos Cabos
CE negativos ou muito baixos exigem a aplicação de
O desempenho dos cabos é afetado pela varia-
suporte. A razão Pl/W pode ser adotada como pró-
ção da tensão de confinamento no maciço. A Figura
xima do conceito de Fator de Segurança (FS), sendo
4 mostra a variação da tensão horizontal induzida
aceitáveis valores acima de FS=1,3. Na retroanálise,
na galeria da El. -240 m pela escavação dos realces
valores da razão Pl/W muito baixos (em módulo)
laterais, calculada por elementos finitos. Para um
indicam quais são as combinações mais prováveis
dos ângulos de atrito mobilizados com os ângulos campo gravitacional hidrostático a tensão horizon-
apicais e alturas medidos. A compatibilidade foi en- tal in situ seria da ordem de 18 MPa. Assumindo
contrada com adoção do σHo de 0,4 MPa. uma concentração de tensões mínima no entorno
Cerca de quatro anos depois deste estudo, fo- da galeria de duas vezes, chega-se a tensões da or-
ram feitas determinações das tensões próximas aos dem de 36 MPa previamente à abertura do realce
realces a 700 m de profundidade e o resultado en- vizinho. Observando a Figura 4, verifica-se um va-
contrado, conforme relatório interno da mina, foi lor médio para as tensões atuantes no teto da refe-
de 0,8 MPa para a menor tensão principal. A tensão rida galeria de -8,5 MPa (faixa em azul claro), o que
vertical era tão mais elevada que a horizontal que indica um desconfinamento total de 44,5 MPa.

Tabela 4 – Combinações de φ, α e altura das cunhas e valores da razão de Pl/Peso da cunha (W)
expressos como Coeficiente de Equilíbrio (CE).
Retroanálise
CE = Pl/W

α – Ângulo apical φ - Ângulo de atrito (graus)


Altura da cunha (m)
(graus) 20 25 30 35 40 42 45
3,75 45 -17,6 -11,5 -7,4 -4,3 -1,9 -1,1 0
4,4 41 -10,7 -6,6 -3,8 -1,8 -0,2 0,4 1,1
5,4 35 -5,3 -2,9 -1,2 0 0,9 1,3 1,7
7,5 27 -1,2 -0,2 0,4 0,9 1,3 1,4 1,6

129
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Figura 4 – Detalhe da relaxação de


tensões horizontais nas galerias da El.
-240 m após abertura do realce lateral.

Para avaliação da resistência ao cisalhamento consequência de diferentes intensidades de rela-


disponível no cabo após a relaxação, foi realizado xação das tensões no teto das galerias, para diver-
um estudo paramétrico com o programa compu- sas condições (módulos) do maciço rochoso.
tacional Cablebond–GRC, do Canadá, que permi- Nota-se que, para o maciço com módulo de
te análises de sensibilidade com variação do mó- deformabilidade médio de 30 GPa, a relaxação
dulo de deformabilidade do maciço. O programa alcançada em certas regiões nas galerias adjacen-
estima o efeito da variação das tensões normais tes aos realces provoca a redução da resistência
atuantes na ancoragem após a instalação do ele- ao cisalhamento na interface de mais de 4 MPa
mento de suporte. para 1,6 MPa, em um cabo com embutimento de
A faixa de variação do módulo do maciço foi 2,5 m na cunha e injetado com calda com relação
de 20 GPa a 40 GPa e a amplitude do decréscimo Água:Cimento de 0,4:1. Isto levou a estreitar a
da tensão lateral foi de 40 MPa (descompressão), malha inicial do sistema de ancoragem para 1,5m
após a abertura do realce vizinho. x 1,5m, compatível com a demanda de aderência
A Figura 5 apresenta os resultados da análise máxima de 1,8 MPa requerida para estabilização
paramétrica mostrando a redução da resistência das cunhas de maior dimensão que haviam sofri-
ao cisalhamento (MPa) ao longo do cabo como do ruptura.

Figura 5 - Perda da capa-


cidade do cabo em função
da relaxação das tensões
no teto das galerias, para
diversas condições do ma-
ciço rochoso. Foram lança-
das faixas da demanda de
aderência nas malhas de
2 x 2 m, 1,5 x 1,5 m e 1 x 1
m, para várias cunhas com
altura maior que 4 m.

130
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

A tensão de aderência requerida é atingida arbitrariamente nos estereogramas das des-


mediante a instalação de um comprimento sufi- continuidades.
ciente do cabo no interior do bloco instável (em- ■■ Calcular os volumes dos blocos potencial-
butimento). mente instáveis no corte, o volume aproxi-
Este caso coloca em evidência uma caracte- mado do material rompido e a distância de
rística peculiar da lavra subterrânea em que dife- alcance na bancada, com base nos ângulos de
rentes trajetórias de carregamento levam maciços repouso das massas maiores.
similares a exibir comportamentos muito diferen- ■■ Dimensionar o ponto ótimo de conjugação ge-
ciados, dependendo do posicionamento em zonas omecânica e operacional para largura de berma
de concentração ou relaxação de tensões induzi- de contenção e ângulo de face de bancada.
das pelas aberturas. Em geral, tais condições co-
existem numa lavra em função da geometria dos O ponto ótimo deve ser encontrado entre a
realces e da sequência da escavação. geometria da bancada que praticamente elimina
os riscos de deslizamentos estruturalmente con-
trolados e a configuração com a qual se associa
1.2 Caso 2 - metodologia de dimensiona-
um número reduzido de instabilidades que pos-
mento de bancadas e taludes interrampas
sam ser contidas nas bermas, evitando que os blo-
em cavas rochosas
cos desprendidos atinjam o fundo da cava.
A sequência de dimensionamento dos talu- O fluxograma da Figura 6 sintetiza os passos
des em rocha deve sempre ser iniciada pelo di- principais do método (Cella et all, 2008).
mensionamento das bancadas, seguindo para o O ponto central da metodologia é estimar
dimensionamento inter-rampa e finalmente a de- qual será a perda sistemática da crista da ban-
finição do talude global. Na escala das bancadas é cada, isto é o ‘backbreak’ típico a ser adicionado
onde ocorre a maior influência das descontinuida- à largura requerida para contenção dos blocos
des rochosas. Os dois problemas envolvidos são: potencialmente instáveis da berma superior. Por
a definição da inclinação da face do talude e da sua vez, a largura da contenção é definida com
largura da bancada de modo a acomodar eventu- base no volume dos blocos críticos mais freqüen-
ais rupturas localizadas. tes, determinados de acordo com uma função de
O método mencionado em seguida busca, distribuição de freqüência das persistências das
além de definir a setorização da cava em função descontinuidades mapeadas no setor. Se a berma
do padrão estrutural e dos modos de rupturas resultante da adição do ‘backbreak’ à largura da
similares, que já é prática consagrada, os seguin- contenção for inferior à berma operacional, adota-
tes alvos: se a berma operacional para definição do talude
■■ Definir as cunhas e as rupturas planares
interrampa, caso contrário avalia-se qual o pon-
críticas, diferindo de outros programas por
to ótimo entre o aumento requerido da largura
operar, vetorialmente, grande número de
de contenção e a inclinação da face da bancada,
planos e blocos, podendo-se combinar entre
segundo critérios operacionais e econômicos.
si todos os planos medidos no mapeamento
Importante ressaltar que não se adota valores
ou optar por combinações de planos dentro
de margens de dispersão em torno do ve- médios nem de orientação espacial, nem de per-
tor médio. O resultado é a determinação dos sistência das descontinuidades, o que permite a
blocos potencialmente instáveis de maior fre- aproximação de uma condição de operar a cava
qüência definidos sem adoção de orientações com percentual aceitável de rupturas factíveis de
médias de famílias ou de planos selecionados serem contidas na própria bancada.

131
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

A Figura 8 ilustra o passo seguinte onde se


avalia a correlação entre o ângulo inter-rampa
(pé-pé) e a inclinação do talude de face da ban-
cada. Nesse caso, indica que 65º corresponde ao
ponto ótimo.

Figura 8 - Ponto ótimo na correlação dos ângulos de face de


bancada (o) versus inter-rampa (o).

A adoção de um ângulo de face mais íngre-


me que 65º na bancada conduziria à necessidade
de aumentar a largura da berma de contenção, que
Figura 6 – Fluxograma da metodologia de dimensionamen- eventualmente pode superar a largura operacional,
to de cavas rochosas (Cella et al., 2008) e levar ao abatimento desnecessário do talude in-
terrampa. Se adotada uma inclinação da face infe-
A Figura 7 apresenta exemplo da planilha de rior a 65º, o talude interrampa acaba suavizado sem
cálculo do volume no corte e na bancada, após a qualquer benefício pois a berma de contenção tem
ruptura, de uma cunha crítica com tamanho signi- largura menor que a requerida operacionalmente.
ficativo em relação á altura da bancada. As cunhas O produto final é o mapa de setorização da
nessa condição são definidas a partir de um critério cava com a definição dos níveis de risco associa-
de corte na distribuição de freqüências das persis- dos à freqüência dos blocos críticos.
tências dos planos que formam a cunha o mesmo A Figura 9 mostra um mapa de risco gerado
valendo para as superfícies planares potenciais. nos diversos setores de uma cava rochosa.

Figura 7 – Exemplo de cálculo para definição da largura mínima da berma necessária para conter na bancada o alcan-
ce (d) da cunha instável, de alta freqüencia, e o ‘backbreak’ na berma superior (L).

132
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

O risco indicado em três categorias cromáticas ou também com uso de técnica de desmonte ajus-
corresponde às faixas de probabilidade estimadas tada ao padrão de compartimentação estrutural
de que rupturas potenciais possam gerar escombros do setor específico.
que excedem a largura da berma praticada na cava. No segundo caso, o risco deverá ser identi-
Esse nível de risco é mais importante porque os es- ficado no mapeamento depois do desmonte e da
combros cuja distância de lançamento ultrapassa a remoção dos blocos soltos. A solução ideal deverá
largura da berma de contenção podem atingir níveis ser definida caso a caso.
inferiores da cava com grande impacto destrutivo, É importante discutir qual faixa de probabi-
mesmo de blocos de dimensões reduzidas. lidade pode ser considerada satisfatória para a
Em um segundo nível, considerando o universo condição de operação. Em tese, qualquer ruptu-
complementar de rupturas que seriam contidas nas ra cujo lançamento excede a largura da berma é
bermas existirá blocos potencialmente instáveis no indesejável e deveria ser evitada. Porém, como
talude cuja ruptura mesmo que contida inteiramen- se sabe, se o talude for dimensionado para ‘ris-
te na largura da berma representa risco operacional co zero’, adotando-se largura de berma capaz
para o tráfego local de pessoas e equipamentos. de conter o espalhamento de qualquer ruptura
No primeiro caso, o risco pode ser reduzido potencial, a lavra certamente se tornaria inviável
com o aumento da largura da berma de contenção economicamente.

Figura 9 – Mapa de risco potencial de uma ruptura de alta


freqüência em um setor ultrapassar o limite da berma da
bancada típica adotada.

O que resta então é reconhecer nos setores de ■■ Minimizar a penetração da onda de choque
maior risco quais são os tipos de ruptura poten- no maciço da bancada, já que as instabilida-
cial que estão associados com os maiores volumes des de grande volume são mais profundas e,
de instabilidade e adotar condições operacionais por isso, mais confinadas, com maior chance
mais adequadas à situação local. As medidas pos- de preservarem o encaixe original das pare-
síveis são: des das descontinuidades e o coeficiente de
■■ Ajustar a geometria do plano de fogo de modo atrito natural. Com isso apenas os blocos mais
a reduzir o dano para uma compartimentação superficiais, de menor volume, sofrem maior
específica do maciço; abalo;

133
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

■■ Reduzir a dimensão de um bloco de grande do talude, e cortando a foliação na base da cava.


dimensão em situação comprovadamente de Foram construídas 5 trincheiras profundas no alto
risco definida no mapeamento e por análise de do talude para verificar a continuidade da trinca,
estabilidade da geometria específica do bloco; indicada com profundidade de 25 m no modelo
■■ Isolamento temporário de áreas abaixo do de elementos finitos elaborado para avaliação da
local em situação crítica; hipótese de desconfinamento lateral do talude. En-
■■ Operar com maior nível de risco em áreas
tretanto, observou-se que a fenda de tração morria
selecionadas;
a pequena profundidade numa zona de fraqueza
paralela à foliação, com mergulho de 40-50º, que
A aplicação de reforço do maciço é rara em
mostrava que o movimento no topo do talude era
taludes de mineração e só se mostra aceitável em
condicionado pela foliação. Pares de pinos de lei-
casos específicos para estabilizações localizadas.
tura foram instalados no interior da trincheira para
Este caso demonstra como taludes rochosos
se acompanhar os deslocamentos tangenciais num
de mais de 500 m de altura podem operar com
plano em que o deslocamento era evidente.
segurança e razão estéril-minério aceitáveis maxi-
Análises de verificação de uma possível rup-
mizando as probabilidades de retenção de blocos
tura bi-planar reforçaram inicialmente essa hipó-
instáveis na bancada. A metodologia foi desenvol-
tese e executaram-se 5 sondagens na porção mais
vida para projeto em conjunto com a dissertação
alta do talude oeste na tentativa de interceptar a
de mestrado (UFOP, em fase final) de Felipe N.
zona de fraqueza em maior profundidade, entre-
dos Santos e inclui um programa de automatiza-
tanto de difícil identificação nos testemunhos de
ção das planilhas.
filito muito intemperizado.
Durante todo o restante do ano de 2001 a
1.3 Caso 3 - mina de ferro a céu aberto trinca continuou se abrindo na superfície do terre-
no quadrilátero ferrífero, MG no e a zona de fraqueza coincidente com a foliação
acumulava deslocamentos tangenciais de alguns
A apresentação deste caso privilegia o registro milímetros.
histórico de mais de 10 anos de acompanhamento Em janeiro de 2002, aconteceram instabilida-
do talude. Expõe toda a evolução do conhecimento des de pequena monta, uma delas causada por
geológico à medida que o comportamento observa- flambagem (“buckling”) da foliação que localmente
do do talude impunha a reinterpretação do modelo tinha a direção e o mergulho da face da bancada,
inicial, baseado em sondagens geológicas com pene- onde a coluna de rocha, numa altura de 15m, rom-
tração de apenas poucos metros no filito do talude peu-se sob peso próprio no pé da bancada. Apesar
da lapa e no mapeamento das bancadas iniciais da do pequeno alcance, essa ruptura levou à descon-
cava, portanto, em informações muito superficiais. fiança de um fenômeno similar na grande escala
Em julho de 2001 identificou-se uma trinca na base do talude. Em abril de 2002, suspeitou-se
com mais de 400m de extensão e uma dezena de que o modelo poderia envolver então movimentos
centímetros de abertura no alto do talude oeste, de cisalhamento ao longo de planos da foliação no
quase todo escavado em filito alterado (A4), à épo- topo do talude transferindo carga para as regiões
ca com cerca de 160 m de altura e inclinação média inferiores do filito, que se deformava mais acentua-
de 35º. Iniciou-se o monitoramento através de ré- damente levando a rupturas localizadas.
guas em superfície e de marcos superficiais. Duas Em junho de 2002, foi observada uma movi-
hipóteses foram levantadas para a origem da trin- mentação importante da trinca. Em nova inspeção
ca. A primeira, na época considerada a mais pro- do talude, verificou-se, dentro de uma das trinchei-
vável, seria um processo de alívio de tensões no ras, um deslocamento de 20 mm em 13 dias, ao lon-
filito cuja foliação mergulha em direção da cava, go da foliação, denotando aceleração do movimento.
levando à formação da trinca de tração na crista Percebeu-se também que a trinca agora se estendia
do talude. A outra hipótese seria um processo de para bancadas inferiores na porção mais a sul, o que
ruptura bi-planar ao longo de uma zona de fra- indicava encurvamento na direção da face do talude.
queza paralela à xistosidade, na porção superior Nessa época, decidiu-se pelo retaludamento parcial

134
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

de cerca de 30 m no topo do talude, com volume em torno de 25-26º e reforçou a suspeita da existên-
aproximado de 360.000 m³ a serem removidos no cia de uma superfície de fraqueza pré-existente mais
prazo aproximado de 3 meses, com o objetivo de profunda, afetando a porção superior do talude e já
desacelerar o movimento, o que surtiu efeito. submetida a movimentações prévias.
As análises de estabilidade realizadas desde A deformação global do talude foi, portanto,
1996, incluindo as de suporte ao retaludamento, explicada por cisalhamento conjugado em planos
examinaram diversas configurações possíveis do de foliação com mergulho de 40-50º no topo da
talude bem como vários parâmetros de resistência cava e transferência de carga para o bloco inferior
para o filito decomposto (A4), que incorporavam do filito alterado, que se deformava ou sofria rup-
resultados de ensaios de 1998 e resultados de vá- tura localizada. Inúmeras retroanálises de rupturas
rias retroanálises de rupturas de bancadas. Ocor- na escala de duas e até três bancadas levaram à
reu sistematicamente uma tendência ao abatimento adoção de valores de resistência para a superfície
do ângulo médio de inclinação do talude global de global paralela à foliação, com c=15 kPa e φ=26,5º.
38º, com FS mais baixo, até 31º, desde 1996 até 2002. O talude de filito foi sempre considerado seco
Durante a fase operacional, FS=1,2 foram aceitos e devido ao efeito drenante que o rebaixamento da
se mostraram adequados, pois as rupturas pude- cava exercia sobre ele. A partir de certa profundi-
ram ser controladas antes de se tornarem graves. dade começou a surgir água na face do talude. Fu-
Essa tendência está associada à evolução do ros horizontais profundos foram feitos e pôde-se
Modelo Geológico, calcado inicialmente em algu- rever o modelo hidrogeológico com a descoberta
mas sondagens e depois em observações do com- de camadas permeáveis de metachert dentro do
portamento real do talude. As feições que indu- filito e que podiam reter a água. Este modelo foi
ziram a avaliação inicial da resistência mais alta então incorporado nas análises.
foram intercalações de filito moderadamente alte- Nessa etapa da lavra, a parede inferior da
rado e ferruginizações nos planos de foliação por cava já avançava praticamente em filito com fo-
percolação. As primeiras não se mostraram contí- liação subvertical. A interpretação do processo
nuas exceto por dois corpos e as ferruginizações global de deformação envolveu cisalhamento na
não penetravam mais que 30-40 m no maciço. foliação com mergulho médio na zona superior
Neste período a trinca aumentou de 400 para do talude e flexão da foliação na zona inferior de
500 m de extensão, mas adquiriu-se um conhe- altos ângulos de mergulho. O cisalhamento na
cimento bem mais abalizado sobre a origem dos foliação parecia empurrar o maciço na zona de
movimenros e o modelo geológico foi substancial- inflexão do ângulo médio para o ângulo mais ín-
mente alterado. greme de mergulho. Por ser esta zona de inflexão
O aparecimento de deslizamentos afetando conformada em filito brando, ela não se rompeu
duas bancadas (h=30 m) condicionados por superfí- subitamente e evoluiu por ruptura progressiva da
cies espelhadas assinala pela primeira vez a possibi- massa na zona inferior do talude.
lidade de resistências bem mais baixas na escala das A Figura 10 mostra as principais característi-
dezenas de metros, com o ângulo de atrito avaliado cas geológicas da cava.

Figura 10 – Síntese da geologia da cava


atual e final com a presença no talude
oeste de filito dolomítico (FD) e sericítico
(FS), consistências dominantes C4 e C3, e
formação ferrífera (HFA) no talude leste.

135
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

O modelo final idealizado da deformação do talude no filito alterado é sintetizado na Figura 11.

Figura 11 – Modelo idealiza-


do da deformação do talude
em filito da cava.

Este modelo foi adaptado de Baczynski (2000), O talude foi então objeto de um novo di-
que considera apenas o caso de corpo rígido, não mensionamento, usando o modelo que se esta-
sujeito as grandes deformações. No caso do fili- beleceu e vem sendo retaludado para as suas
to, alterado, o comportamento é mais plástico e a dimensões finais. Como esta escavação é feita
zona de plastificação penetra paulatinamente até de cima para baixo, a parte inferior do talude
níveis mais internos na base do talude. não pôde ser conformada ainda segundo a in-
A Figura 12 ilustra o cisalhamento reverso clinação global prevista de 28º. Mas como a es-
dos planos externos da foliação em relação aos cavação tem que prosseguir, para liberação do
planos internos causado pela expansão na zona de minério, taludes provisórios localmente instá-
inflexão da foliação, na porção basal do talude. veis são adotados. Novas rupturas localizadas
A evolução do mecanismo decorre inicial- são observadas que têm permitido a confirma-
mente da transferência de carga para o pé do ta- ção do modelo.
lude em virtude do cisalhamento pela foliação na Este caso coloca em relevo um aspecto mui-
zona superior. Com aprofundamento da cava, a to peculiar da mineração: de como a evolução
concentração de tensões no pé do talude leva a gradual do conhecimento do modelo geológi-
rupturas localizadas, o que causa a transferência co e do mecanismo de deformação mediante o
gradual do excesso de tensão para zonas mais e acompanhamento sistemático da lavra ao longo
mais internas, caracterizando uma região de fra- de anos foi decisivo na busca de condições de
queza na base do talude. Pelo fato do filito se apre- segurança no momento mais crítico, quando a
sentar com consistência branda C4 e C3, a ruptura cava se aproxima de sua altura máxima. A razão
ocorre de modo progressivo. O alívio no plano de estéril-minério pôde ser bastante otimizada até
cisalhamento na foliação em razão da remoção de praticamente mais da metade do tempo de lavra
uma massa no topo com altura de apenas 20% da com a prática de talude mais íngreme, com gran-
altura total na época do aparecimento da trinca de deformação, mas mantendo a funcionalidade
explica porque ocorreu forte redução na acelera- do talude, apenas requerendo a antecipação de
ção do movimento, uma vez que a transferência uma parcela menor do ‘push back’ que fatalmen-
de carga excessiva cessou. te ocorreria mais adiante.

136
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

O minério está desenvolvido em uma grande


zona de cisalhamento sub-vertical. A qualidade
geomecânica do minério e da rocha encaixante é
muito ruim. O programa ROCLAB (www.rocs-
cience.com) foi usado para avaliar os parâmetros
geomecânicos do maciço. Três materiais foram
identificados:
■■ Tufos – Dominam ao longo do talude e são
constituídos principalmente de rocha dura
acamadada com mergulho em geral em torno
de 20º para dentro da encosta.
■■ Zona fraturada no entorno do minério – É
Figura 12 – Cisalhamento reverso na zona inferior do talude
uma rocha muito fraturada e cisalhada e lo-
com foliação com alto ângulo devido a mecanismo de cisa- calmente intemperizada com cerca de 20m de
lhamento superior e deformação horizontal na base. espessura de cada lado do minério.
■■ Minério – Altamente fraturado e cisalhado e
muito intemperizado.
1.4 Caso 4 – mina subterrânea no Peru
O mecanismo ligando o método de lavra por
A mina R, poli-metálica, foi lavrada inicial-
abatimento à reativação da instabilidade do talude
mente a céu aberto, até os anos sessenta, nos An-
é muito claro e não despertava dúvidas. A gran-
des peruanos. O fundo da cava final variava entre
de dúvida que surgiu era se seria possível que o
as El. 4200 e 4250 m. A encosta original acima da
escorregamento viesse a se estender em profundi-
cava prossegue até a El. 5000 m, com uma incli-
nação média de 32º, localmente variando de 34º dade e fechar a mina subterrânea.
a 37º. Um grande escorregamento se formou na A primeira análise realizada envolveu o pa-
encosta durante a lavra a céu aberto atingindo a drão da subsidência que seria causada pela la-
El. 4400 m aproximadamente (Figura 13 em 2007, vra. Para isso usou-se os estudos desenvolvidos
já afetada pela mina subterrânea). por Evert Hoek e que constam de Brady e Brown
A mina foi retomada em 2002 como uma la- (2004). Pôde-se perceber que as trincas formadas
vra subterrânea, usando o método de abatimento na encosta não se encaixavam no padrão que se-
por sub-nível. O material abatido imediatamente ria de se esperar para uma subsidência típica. Elas
atingiu o fundo da cava formando buracos arre- não se desenvolviam paralelas ao corpo mineral.
dondados e quando a lavra atingiu a El. 4190 m al- A superfície de ruptura se desenvolvia quase que
guma instabilização foi notada no talude. Quando paralelamente à superfície do talude e era muito
a lavra alcançou a El. 4150 m, uma grande cicatriz suave quando comparada com a que seria previ-
foi observada contornando o antigo escorrega- sível para este tipo de abatimento.
mento e se estendendo até a El. 4600 m. A primeira conclusão foi que o mecanismo
de subsidência não era convencional neste caso e
que atuava da seguinte maneira:
■■ Devido à má qualidade do maciço na lavra
subterrânea, o abatimento ocorria muito ra-
pidamente, “sugando” o material do fundo
da cava.
■■ A retirada de material do fundo da cava des-
calçava o antigo escorregamento reativando
seu movimento.
■■ Por outro lado, o material escorregado da
encosta voltava a encher o fundo da cava e
alimentava automaticamente o enchimento
impedindo que um mecanismo clássico de
abatimento com ruptura do “hanging wall”
Figura 13 – Vista frontal do talude da cava. se estabelecesse.

137
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

Tabela 5 – Parâmetros geomecânicos dos maciços da mina.

c
Rc
MATERIAL LITOLOGIA RMR Q GSI mi φ E (MPa)
(MPa)
(MPa)
HW afastado Tufo 30-40 0,21-0,64 55 60 16 0,6 49º 3.540
HW imediato Andesito 20-30 0,07-0,21 30 30 25 0,32 39,6º 528
Minério Andesito Sulfetado <20 <0,07 15 30 25 0,19 31º 315

Análises numéricas usando o programa de altura máxima e a lavra subterrânea em 8 estágios


elementos finitos elasto-plástico PHASE 2 (www. (subníveis), o que permitiu comprovar o mecanis-
rocscience.com) modelaram toda a encosta até sua mo interpretado (Figura 14).

Figura 14 – Cone de deslocamentos (m) no entorno da cavidade.

■■ Os deslocamentos ocorrem muito perto da


zona de minério e estão claramente relacio-
nados ao abatimento.
■■ Instabilizações localizadas são observadas ao
longo do talude devido ao abatimento, mas
não causam grandes deslocamentos.

O maciço no entorno da lavra apresenta um


comportamento pastoso (“squeezing”) que é res-
ponsável pelas grandes deformações no entorno
das escavações. Se isto apresenta vantagens por
minimizar o efeito do abatimento clássico, criou
deformações excessivas no suporte selecionado,
que era constituído de cambotas rígidas soldadas
com perfil “I” de 4” e 6” (Figura 15). Figura 15 – Cambotas rígidas deformadas.

138
Importância da geologia de engenharia e geomecânica na mineração

Isto levou à utilização de suportes cedentes As análises que permitiram dimensionar este su-
(“yielding”). Foram selecionadas as cambotas com porte foram também feitas usando o PHASE 2
perfil TH com três elementos e duas juntas de (www.rocscience.com).
deslizamento, que permitem absorver deforma- O modelo computacional foi desenvolvi-
ções tanto verticais como horizontais, com um fe- do em 4 estágios: (1) aplicação da carga devi-
chamento de até 0,5m, aliviando desta maneira as da ao estado de tensão natural (gravitacional
cargas atuantes (Figura 16). e hidrostático); (2) simulação de uma condição
equivalente à escavação da frente; (3) simulação
da condição do momento de instalação das cam-
botas cedentes, 1m atrás da frente; (4) situação
final depois de uma convergência total da seção
escavada e mobilização da reação completa do
suporte.
Para representar os estágios (3) e (4), pres-
sões internas foram aplicadas à superfície de
escavação, com valores equivalentes a uma res-
trição existente à convergência do túnel, impos-
ta pela proximidade da frente de escavação. Os
valores aproximados dessas pressões foram obti-
das pelo método de convergência-rocha-suporte
implementado no programa RocSupport (versão
Figura 16 – Seção típica com cambota cedente.
3.0 (www.rocscience.com).
A Figura 17 mostra os resultados da análise,
A seção de escavação foi aumentada de modo de uma galeria de 3,3m, que com um desloca-
a permitir manter o vão necessário, após as defor- mento radial de ~15cm levou a uma seção final
mações de cedência. As análises consideraram a de ~3m, como desejado, sem ruptura das cambo-
seção sem “invert” e com ele, rígido ou cedente. tas (cor azul).

Figura 17 – Convergência de 9% no entorno da escavação com cambotas cedentes.

139
Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental

O caso da mina no Peru, com a intensa defor- seção de alteamento de uma barragem de rejeitos
mação induzida pela lavra subterrânea no maciço possa ser modificada ou não, a depender do com-
de baixa qualidade sobreposto aos realces, ilustra portamento observado da estrutura inicial.
o desencadeamento do fenômeno de “squeezing”
em nível pouco profundo, uma situação oposta ao
maciço competente e elástico em ambiente de re-
Agradecimentos
laxação de tensões apresentado no Caso 1.
Aos colaboradores da BVP Engenharia, geól. Maria
Teresa Pazzini, eng. Laura Ferrari e aos ex-colabora-
2 Comentário Final dores eng. Felipe N. dos Santos, geól. Fábio Maga-
lhães, geól. João E. Tosetti e geól. Dominique Daman,
Os casos apresentados realçam uma carac- que tiveram importante participação no desenvolvi-
terística peculiar dos projetos de mineração: a de mento desses projetos.
possibilitar o envolvimento contínuo do projetista
com a gama de fenômenos que rege o comporta-
mento dos maciços durante a lavra. O acompa-
BIBLIOGRAFIA
nhamento sistemático e criterioso das escavações
Baczynski, N.R.P., 2000. STEPSIM4 Step-path meth-
propicia ganho gradual de informações que vão
od for slope risks, Geo Eng, Proc. Intern. Conference
sendo incorporadas no Modelo Geológico e Geo-
on Geotech. & Geol. Engin., Melbourne, 6.
técnico durante a operação das minas. Isso permi-
te que se façam adaptações do projeto e, quando Brady, B.H.G. & E.T. Brown, 1985 e 2004. Rock
necessário, correções de rota. Essas particularida- mechanics for underground mining, Dordrecht: Klu-
des da mineração a diferem substancialmente dos wer Academic Publishers, 628 p.
projetos de obras civis, que devem ser completa-
mente definidos na fase de engenharia detalhada, Cella, P.R.C. et al., 2008. Dimensionamento de ban-
e explicam a maior flexibilidade em trabalhar com cadas em rocha na mina de cobre do Sossego, Vale, no
margens de segurança aparentemente mais estrei- Estado do Pará, 12 Congr. Bras. Geol. Eng., ABGE,
tas nas lavras. Porto de Galinhas, 13p..
Nas obras auxiliares como barragens de re-
jeitos ou de água e diques de contenção de finos Santos, F. Neiva dos – Dissertação de Mestrado,
a semelhança com obras civis é maior, embora a em preparação, UFOP, 2011

140
Diretrizes para Autores

PREPARAÇÃO PARA SUBMISSÃO Agradecimentos – Negrito e itálico (apenas


o subtítulo). Referências – Negritas e minúsculas
Tipo e Tamanho de Arquivo: O texto do (apenas o subtítulo).
manuscrito deverá ser enviado em arquivo Word Manter um espaço simples entre itens e su-
(.doc), em separado, com os locais de inserção bitens do texto. Utilizar fonte Times New Roman,
das figuras assinalados, seguido das respectivas tamanho 11.
legendas. As ilustrações deverão ser enviadas em A indicação da inserção das ilustrações (figu-
arquivo .tif, também em separado (uma ilustra- ras, tabelas, etc) no texto deverá ser em posição o
ção por arquivo). O mesmo procedimento deverá mais próximo possível de sua primeira citação.
ser adotado para as tabelas, em arquivo. doc. Formato do Resumo, Resumen e o Abstract:
O artigo não poderá ultrapassar a 10.000 pala- Não poderão exceder 300 palavras cada, em pará-
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espaço simples (1,0) e serem seguidos de palavras-
tuições e e-mail, resumo e palavras-chave, abstract
chaves, palabras claves e keywords (no mínimo
e keywords, texto, figuras, tabelas, mapas, referen-
3 e máximo 5), respectivamente. Artigos em por-
cias e legendas.
tuguês, espanhol ou francês deverão ter o título
Nenhum arquivo poderá ultrapassar a 10Mb vertido para o idioma inglês, em MAIÚSCULO E
de tamanho. ITÁLICO, colocado após a palavra Abstract.
Forma de envio: O texto deverá ser enviado jun- Formato do texto: Editar o texto em Word,
to com as ilustrações (inclusive tabelas) no Sistema fonte Times New Roman, corpo 11, espaço sim-
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ao mínimo. Se usadas, devem ser definidas na pri-
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cialmente: introdução, materiais e métodos, resulta- micrográficas serão numeradas seqüencialmente,
dos, discussão, conclusões e agradecimentos. na ordem de sua citação no texto e consideradas,
Hierarquização dos títulos e subtítulos: Deve mesmo pranchas, indiscriminadamente como Fi-
seguir o padrão: guras. Deverão ser separadas do texto por uma
Nível 1 – EM NEGRITO, TODAS AS LE- linha. Não serão aceitos encartes. Fotografias de
TRAS MAIÚSCULAS. afloramentos deverão apresentar barra de escala
Nível 2 – Em negrito; a primeira letra da pri- e indicação do norte.
meira palavra em maiúscula e as demais mi- Letreiros e símbolos das ilustrações devem
núsculas. ter dimensões adequadas para permitir legibili-
Nível 3 - ITÁLICO, NÃO NEGRITO, TODAS dade. As ilustrações deverão ter larguras míni-
AS LETRAS MAIÚSCULAS. mas de 9 ou 18 centímetros (permitir diagrama-
Nível 4 – Itálico, não negrito; a primeira letra ção em uma ou duas colunas). Explicar todos os
da primeira palavra em maiúscula e as de- símbolos. Escalas gráficas, se necessárias, devem
mais minúsculas. ser colocadas dentro da área das ilustrações.
As Tabelas devem ser auto-explicativas, com Sabóia L. A. 1979. Os greenstone belts de Crixás
as laterais abertas, concisas e numeradas seqüencial- e Goiás, Go. In: SBG, Núcleo Centro-Oeste, Bole-
mente. Devem ser elaboradas em Times New Ro- tim Informativo, 9:44-72.
man, corpo 9. As legendas das ilustrações deverão
ser redigidas com a mesma fonte do texto e corpo. Artigos em Publicações Seriadas:
Formato das Figuras: Só serão aceitas figu- Barbosa O., Braun O.P.G., Dyer R.C., Cunha
ras .tif, devendo ter resolução mínima de 300dpi, C.A.B.R. 1970. Geologia da região do Triângulo
com tamanhos largura de 8,7 cm ou de 17,7, com Mineiro. Rio de Janeiro, DNPM/DFPM, Boletim
comprimento máximo de 21 cm. 136, 140 p.
Fórmulas e Equações: Numerar as fórmulas
e equações seqüencialmente à direita, com nú- Teses e Dissertações:
meros arábicos entre parênteses e, no texto, refe-
rir como “equação (1)”, etc. Resende L. 1995. Estratigrafia, petrografia e geo-
Citações no corpo do texto: Deve-se seguir os química da seqüência sedimentar do greenstone
formatos do seguinte exemplo: ...”Cunha (1985) Belt de Pilar de Goiás, GO. Dissertação de Mes-
trado, Instituto de Geociências, Universidade de
interpreta a feição como uma estrutura de res-
Brasília, 124 p.
friamento magmático precoce, mas outros (Lima
1986, Fonseca et al. 1989, Ferreira & Araújo 1994) Artigos publicados em eventos:
como uma feição tardia”.
Referências: Relatórios internos são serão Tassinari C.C.G., Siga Jr. O, Teixeira W. 1981.
aceitos nas referências, com excessão daqueles que Panorama geocronológico do centro-oeste brasi-
são amplamente difundidos na comunidade cienti- leiro: solução, problemática e sugestões. In: SBG,
fica e autorizados pelos consultores ad hoc. As re- Simp. Geol. Centro-Oeste,1, Atas, p. 175.
ferências deverão ser feitas em Times New Roman,
corpo 10. Ao final do texto, ordenar as referências
Artigos em jornal:
em ordem alfabética do sobrenome do primeiro Coutinho W.O. 1985. O Paço da cidade retorna ao
autor, empregando os seguintes formatos: seu brilho barroco. Jornal do Brasil, Rio de Janei-
ro, 6 mar. Caderno B, p.6.
Livros:
Artigos ainda não publicados:
Arndt N.T. & Nisbet E.G. (Eds.) 1982. Komati-
ites. George Allen & Unwin, London, 526 pp. Silva R.C. (em preparação). Tectônica na região
do Alto Iguaçu-PR.Pereira E.W. (submetido).
Evolução geológica da faixa de dobramentos
Capítulos de Livros: Açungui. Revista Brasileira de Geociências.Silva
R.C. (no prelo). Tectônica na região do Alto Igua-
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